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O Corpo Não Esquece

Ellie Winslow

O Corpo Não Esquece Ellie Winslow Nadine Barnett, coordenadora de uma galeria em Nova Iorque, esperava

Nadine Barnett, coordenadora de uma galeria em Nova Iorque, esperava angustiada a ligação para a Itália. Sem querer, voltava ao passado O famoso pintor Lawrence Stebbing, do outro da lado da linha, ficou surpreso ao ouvir a voz que um dia amara: " Nadine é você mesmo? " Quatro anos tinham se passado. O destino traçara estranhos caminhos para os dois - o mágico encontro, a separação impulsiva, e agora aquele reencontro inesperado. Entre eles, havia muito mais que a lembrança de noites de prazer e loucas explosões de ciúmes: havia Jamie, um garotinho de 4 anos completos. Mas Lawrence não sabia de nada

de prazer e loucas explosões de ciúmes: havia Jamie, um garotinho de 4 anos completos. Mas
Ellie Winslow O CORPO NÃO ESQUECE

Ellie Winslow

O CORPO NÃO ESQUECE

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O CORPO NÃO ESQUECE •••••••••••••••••••••••••••••••••
O CORPO NÃO ESQUECE •••••••••••••••••••••••••••••••••

Digitalização: Andrea Leoncio Formatação e Revisão: Elisa Henrich

Titulo original: Painted Secrets

e Revisão: Elisa Henrich Titulo original: Painted Secrets © Copyright 1983 by Winslow Eliot © Copyright

© Copyright 1983 by Winslow Eliot

© Copyright desta edição, Editora Rio Gráfica Ltda. Rio de Janeiro, 1986.

Publicado no Brasil sob licença de New American Library (Signet), Nova lorque, Estados Unidos.

O uso da marca Sedução por esta editora tem autorização expressa de Fernando Chinaglia Distribuidora S.A., titular do certificado de registro n.º 1231/0689156, expedido em 25-03-79 pelo I.N.P.I.

Tradução: Regina Amarante

Foto da capa: Arquivo Rio Gráfica

Composição: Editora Rio Gráfica Ltda. e AM Produções Gráficas Ltda.

Distribuidor exclusivo para todo o Brasil:

Gráficas Ltda. Distribuidor exclusivo para todo o Brasil: Fernando Chinaglia Distribuidora S.A. Rua Teodoro da Silva,

Fernando Chinaglia Distribuidora S.A. Rua Teodoro da Silva, 907, CEP 20563, Rio de Janeiro.

Editora Rio Gráfica Ltda. Rua Itapiru, 1209, CEP 20251, Rio de Janeiro. Rua Frei Caneca, 1140, CEP 01307, São Paulo.

Impressão e acabamento nas oficinas gráficas da Editora Brasil-América (EBAL) Rua General Almério de Moura, 302 CEP 20921 - Rio de Janeiro

nas oficinas gráficas da Editora Brasil-América (EBAL) Rua General Almério de Moura, 302 CEP 20921 -

Capítulo Um

— Aqui é a telefonista. Que número quer chamar?

— Por favor, eu quero fazer um interurbano para Florença, na Itália.

— Um momento, por favor. Vou ligar para a telefonista internacional.

Enquanto esperava a ligação ser completada, Nadine fitava com os olhos vidrados as pilhas de papéis e catálogos sobre sua mesa. Seu coração batia forte. Ao ouvir o ruído da chamada, do outro lado da linha, sentiu-se transportada para a antiga sala da mansão florentina, onde ficava o velho telefone preto. Será que a sala ainda estava do mesmo jeito? Será que Lily tinha mudado o telefone de lugar?

— Alô?

A voz baixa e ressonante atravessou os milhares de quilômetros de fios telefônicos e penetrou diretamente no frágil coração de Nadine. Parecia que ela o

tinha visto no dia anterior. Por que, meu Deus, era forçada pelas circunstâncias a falar novamente com ele? Apesar de tudo, não havia o menor vestígio daquela angústia interior na sua voz fria e direta.

— Lawrence Stebbing, por favor.

Durante o curto silêncio que se seguiu, Nadine ficou imaginando se ele

tinha reconhecido sua voz.

— É ele mesmo que está falando.

Ela engoliu o bocado de emoção que ameaçava aparecer em sua voz, e disse apressadamente:

— Aqui é Nadine Barnet. Everett Mills deve ter-lhe informado de que eu sou a coordenadora da exposição na Galeria Mills e responsável pela organização de sua mostra.

Mills e responsável pela organização de sua mostra. — Nadine? — Lawrence mostrava-se surpreso. — É

— Nadine? — Lawrence mostrava-se surpreso. — É você mesma?

— Nadine Barnet — repetiu — Eu trabalho na Galeria Mills.

— Nadine Barnet — repetiu — Eu trabalho na Galeria Mills. — Everett não me disse

— Everett não me disse nada. Como vai você, Nadine?

Ela ficou chateada por ele ter feito aquele tipo de pergunta. Mas ficou mais aborrecida ao perceber que ainda não tinha superado sua amargura. Só de ouvir a voz dele, sentia no peito uma pesada sensação de hostilidade.

— O senhor Mills pediu que eu lhe fizesse uma visita para que

pudéssemos escolher os quadros a serem incluídos na exposição, e estou ligando para saber quando lhe seria conveniente que eu fosse.

— Nadine! — exclamou Lawrence, e ela sentiu que estava irritado por ela

estar fingindo que não se conheciam. No entanto, controlou-se. — Você vem a

Florença? Everett disse que ia mandar alguém, mas não disse quem. Por mim, pode ser o dia que você quiser. Quando pode vir?

— Pode ser na segunda? Quanto mais cedo eu resolver essa parte, mais cedo poderei tratar de outros assuntos.

— Segunda está ótimo. — Ele parecia desapontado com a falta de

entusiasmo dela diante da perspectiva de revê-lo, o que deixou Nadine satisfeita.

— Como é que você está, Nadine? É uma ótima surpresa falar com você novamente.

— O senhor Mills acha essa viagem necessária — disse ela friamente —,

e eu não pude convencê-lo do contrário. — Ela sentiu um certo júbilo por ver

como agora conseguia controlar suas emoções. Lawrence iria ver como ela tinha mudado! Nunca mais despertaria nela sentimentos de ciúme passional, fúria ou desejo, como se ela fosse uma de suas telas, pronta para receber suas pinceladas. Nadine agora estava sob controle e sua voz continuava fria. — Ele não sabe que nós nos conhecemos. Eu recebi essa missão por uma simples coincidência, e espero que ambos tenhamos esquecido nosso hmmm relacionamento no passado. O silêncio que se seguiu foi longo e desconfortável. Finalmente, Lawrence disse:

— Telefone-me assim que chegar a Florença. Eu a encontrarei em

seguida. Já sabe onde vai ficar? Com ele é que não seria, ele podia ter certeza disso!

Com ele é que não seria, ele podia ter certeza disso! — No Hotel Continental. Eu

No Hotel Continental. Eu telefonarei de lá para você na segunda-feira.

E mais uma vez ficaram em silêncio. Será que ele podia ouvir seu

coração batendo forte no peito?

— Estou ansioso para revê-la.

Lawrence iria ver como ela pouco estava ligando para ele! Apertou o fone

e respondeu num tom neutro:

— Eu também estou ansiosa para ver você e sua mulher.

Nadine fechou os olhos e sentiu-se envolvida pela segurança da escuridão. Teria ele ficado irritado ou magoado com sua indiferença? Mais uma

vez se entusiasmou por sentir que podia controlar suas emoções. Nunca mais ele teria a chance de magoá-la. No seu próximo encontro estaria armada, e a arma seria sua experiência. Porém, ficou desconcertada quando ele não deu uma resposta direta.

— Até logo, então, Nadine. Conversaremos na semana que vem.

Ela levou cinco minutos lutando contra sentimentos de hostilidade, alegria

e culpa, antes de se certificar que estava suficientemente controlada para ir até o

escritório de Everett Mills e relatar-lhe o resultado da conversa. Tirou o cabelo da

testa, num gesto de cansaço, e bateu na porta.

— Entre.

Everett estava sentado atrás de sua escrivaninha, com os pés sobre uma pilha de catálogos, falando em altos brados no telefone. Enquanto seus olhos azuis, contornados por pálpebras amareladas e olheiras arroxeadas examinavam Nadine com curiosidade, fez um gesto com a mão para que ela se sentasse numa poltrona, sem parar de falar no telefone. Nadine se sentou e se perdeu em suas lembranças. Florença! Já fazia mais de quatro anos que ela havia estado lá, e dentro de alguns dias voltaria àquela bela cidade, caminhando pelas ruas conhecidas, banhada pela luz dourada, sentindo as fragrâncias do café fresco, feito na hora, do vinho e do azeite de oliva caseiros, ouvindo aquele idioma que conhecia tão bem. Seu desejo de rever a cidade era tão intenso quanto sua aversão por rever Lawrence, mas, além de uma ou duas visitas ao estúdio dele, para escolher as pinturas da exposição, e uma reunião para discutir certos detalhes, não teria

ao estúdio dele, para escolher as pinturas da exposição, e uma reunião para discutir certos detalhes,

necessidade de passar mais tempo com ele. Gostaria de poder levar Jamie com ela. Tinha certeza de que seu filho adoraria Florença, mesmo tendo apenas quatro anos de idade.

— Você está um tanto quanto atordoada, não está? — A voz áspera de

Everett a assustou, fazendo-a perceber que estava falando com ela já há algum. tempo.

Nadine se esforçou para prestar atenção no que seu patrão estava falando. Era um homem pesadão, meio calvo, com mais ou menos cinqüenta anos de idade, temido e detestado pela maioria dos funcionários pela sua arrogância e temperamento explosivo. Mas sempre gostou de Nadine. Até pagava suas aulas na Universidade de Colúmbia. Para ela seria praticamente impossível fazer o curso de mestrado e sustentar-se ao mesmo tempo, e, ainda

que o dinheiro para pagar a universidade não tivesse resolvido todos os seus problemas, tinha ajudado bastante. Em troca de sua generosidade, Everett queria que Nadine saísse com ele, o que ela sempre recusou com firmeza.

— Eu já combinei com o senhor Stebbing que irei para a Itália na

segunda-feira, como o senhor pediu. Everett acendeu um cigarro e soprou o fósforo, enrugando os lábios carnudos. Em seguida, deu uma risada.

— Nosso amigo ficou contente por ter notícias suas?

Ela levantou uma sobrancelha, com ar de total frieza.

— Eu não sei que diferença isso poderia fazer para ele. A exposição já foi

programada, e nós só temos de decidir quais as obras que serão expostas e os preços. Ele sabe disso.

— Naturalmente, meu bem. Mas Stebbing não, demonstrou nenhum

prazer por falar com você? Eu esperava, no mínimo, que ficasse surpreso.

O rosto inexpressivo de Nadine empalideceu um pouco, mas ela

encolheu os ombros, com ar de indiferença. O que Everett sabia? Levantou-se, pois já passava das cinco e tinha de pegar Jamie na casa de sua irmã Charlotte.

O que Everett sabia? Levantou-se, pois já passava das cinco e tinha de pegar Jamie na

Everett abanou a mão que estava segurando o cigarro, e seu anel de brilhante cintilou em meio à fumaça que enchia o ambiente. O escritório estava insuportavelmente abafado.

— Fico muito satisfeito por já conhecer Stebbing — continuou ele. — Vai

facilitar muito nosso projeto. Eu confio em você para não deixá-lo fazer nada impunemente. Você sabe, ele tem a fama de ser uma pessoa muito difícil de se trabalhar. Nadine voltou a sentar-se.

— Você está enganado. — A voz dela estava mais fria que gelo. — Eu não o conheço.

Everett soltou outra risada e deu uma tragada no cigarro antes de responder.

— Não precisa mentir para mim, querida. Acontece que eu sei que você conhece Stebbing, e com muita intimidade.

Nadine já tinha experiência em ouvir perguntas desagradáveis e indiscretas e, assim sendo, conseguiu continuar impassível, levantando uma sobrancelha com desdém. Mas, por dentro, ela estava sentindo medo. Como Everett ficou sabendo do seu relacionamento com Lawrence? E se soubesse mais do que aquilo? E se ele soubesse que — Eu não consigo imaginar por que você prefere negar seu relacionamento com alguém tão famoso como Stebbing. Everett encolheu os ombros. — Se você tivesse me contado isso quando a entrevistei para este emprego, eu não teria pedido para ver seu currículo.

— Foi o senhor Stebbing que lhe informou que nós já nos conhecíamos?

— Nadine escolheu suas palavras com todo o cuidado.

— Não. Claro que não. Você acha que ele ia se vangloriar de ter dormido

com uma ilustre desconhecida, vinda não-sei-de-onde? É o seu silêncio que me espanta, meu bem. Num esforço supremo, Nadine conseguiu controlar seu

humor, como aprendera a fazer no decorrer dos dos anos que trabalhava para Everett.

Nadine conseguiu controlar seu humor, como aprendera a fazer no decorrer dos dos anos que trabalhava

— Eu lhe perguntei como ficou sabendo que eu já conhecia o senhor

Stebbing.

— Você logo saberá, Eu só queria ver sua cara quando isso acontecer. —

Deu mais uma tragada no cigarro e amassou-o no cinzeiro como se estivesse esmagando um inseto. — Nós temos um ou dois problemas que eu quero que resolva antes de Stebbing assinar os contratos para a exposição. Levará os contratos, e eu deixarei a escolha das obras a seu critério, naturalmente, e dele. Você tem um gosto extraordinário nessas questões, e eu confio totalmente em você.

Ela inclinou levemente a cabeça, agradecendo o cumprimento.

— Mas tem uma coisa, Nadine. — Everett não dava nada de graça a

ninguém. — Tem uma pintura de Stebbing que é tão superior a qualquer outra

obra dele, que alguém com a sua inexperiência pode não ser capaz de perceber a grandiosidade. Portanto, eu tenho de insistir que seja incluída na exposição, seja qual for a sua reação a ela. Seria alegria aquilo que ela estava ouvindo na voz ás pera de Everett?

— E que pintura é essa?

— Chama-se Madrugada Toscana.

— Eu me lembrarei — disse ela, levantando-se novamente.

Everett estava desapontado com a indiferença dela.

— Essa pintura você não viu quando estava envolvida com ele, não é

mesmo? — Eu acho que está enganado no que diz respeito ao meu relacionamento com Stebbing. Nós nos encontramos uma vez, mas não deu em nada, e eu até duvido que ele se lembre de mim agora. Já se passaram muitos anos.

— É mesmo? — O tom de ironia daquela voz deixou-a apreensiva.

Rapidamente, ela pegou a bolsa e levantou-se. — Está livre para jantar hoje? -- A

voz dele fez com que ela parasse.

Não, não estou. — Abriu a porta. — Boa noite. Everett soltou um suspiro exagerado.

dele fez com que ela parasse. Não, não estou. — Abriu a porta. — Boa noite.

— O que é que Lawrence tinha que eu não tenho? Não consigo entender.

— Até amanhã — disse Nadine, saindo pela porta. Por mais que ela

tentasse, não conseguia reagir com bom humor à paquera de seu chefe. Saindo do prédio, Nadine virou na direção da Madison Avenue, entrando no fluxo da corrente de pedestres que enchiam as calçadas na hora do rush. Como já estava atrasada, tomou um ônibus para o centro, onde morava sua irmã e onde Jamie a estava esperando. Ao pensar no filho, seus olhos cinzentos amendoados se enterneceram. Ela o amava com a mesma paixão com que outrora amara o pai dele. O que aconteceria se um dia Lawrence ficasse sabendo da existência de Jamie? Ao pensar nas possibilidades, ficou arrepiada, apesar do

calor. E se ele reivindicasse a custódia do filho dela? Nadine não teria meios para enfrentar o famoso e rico artista nos tribunais. A idéia de separar-se do filho era horripilante. Lawrence não podia jamais saber que aquele filho existia. O ônibus estava lotado, e, quando Nadine desceu na rua 86, estava cansada e sentindo muito calor. Gotas de suor escorriam-lhe pela testa, e só de pensar que em poucos dias estaria de volta a Florença, sentindo sua brisa suave e seu ar fresco do campo, ficou mais animada, Aquela seria realmente uma viagem perfeita se ela não tivesse de ver Lawrence. Charlotte abriu a porta e cumprimentou a irmã com um beijo afetuoso. Elas tinham apenas dois anos de diferença, e só eram parecidas no cabelo castanho e nos olhos cinzentos. A semelhança terminava aí. Casada, com dois filhos, Charlotte tinha um ar de contentamento que beirava a complacência, o que ao mesmo tempo divertia e exasperava sua irmã mais nova, que era inquieta e um tanto cínica. Enquanto Nadine era magra, até demais, Charlotte era gordinha. Às vezes, Nadine até custava a se lembrar daquela imã adolescente que vivia preocupada com a balança.

— Oi, querida. Jamie está na cozinha. — Charlotte fechou a porta e levou

a irmã através da sala luxuosa até a cozinha moderna e impecável. Um cheirinho

gostoso de frango assado espalhava-se pelo ar. Jamie estava sentado junto à mesa cor de laranja, desenhando com lápis de cor. Olhou para Nadine com seus grandes olhos verdes, iguais aos do pai.

à mesa cor de laranja, desenhando com lápis de cor. Olhou para Nadine com seus grandes

Seu rostinho iluminou-se de alegria, e entregou-se ao abraço da mãe com um raro sorriso meigo naquele rosto sempre sério.

— Querido! Como foi seu dia na escola? Foi tudo bem?

— Não. A senhora Smith foi má.

— O que foi que ela fez? — Nadine beijou-o no alto da cabeça e desejou pela milésima vez que ele não tivesse ido para a escola tão cedo.

— Deixou minha amiga Ginny de castigo em pé numa cadeira porque ela

estava conversando na classe.

— Ah, mas isso não é um castigo tão horrível assim!

— Mas ela não estava conversando. — Jamie já tinha um forte senso de

justiça. — Eu é que estava. Mas a senhora Smith não me deixou ficar em pé na cadeira.

Nadine consolou-o carinhosamente e depois se voltou para sua paciente

irmã.

— Está atrasada hoje — disse Charlotte. — Muito trabalho?

— Demais. Estou exausta.

— Deixe-me preparar-lhe uma bebida. Aconteceu alguma coisa, não aconteceu?

— Alguma coisa está por acontecer, isso sim. Eu adoraria tomar alguma

coisa, obrigada. Cadê suas crianças?

— Estão assistindo televisão, é claro. Eu só consigo tirá-las de lá na hora

de comer. Jamie não quis ficar com elas, e está me fazendo companhia. — Charlotte entregou um copo com uísque para a irmã. — Jamie, quer vir para a sala conosco?

— Vou ficar aqui — respondeu Jamie, compenetrado em seu desenho.

Nadine seguiu a irmã até a sala e tirou o blazer. Suspirando, esticou-se no sofá. A decoração da sala, com cortinas em adamascado dourado, lustres trabalhados e sofá com poltronas em veludo azul-claro, lembrava-lhe Florença.

— Conte-me o que aconteceu no serviço — disse Charlotte, encolhendo

as pernas confortavelmente numa poltrona macia, de frente para Nadine. — Espero que não sejam más notícias, mas pela sua cara

confortavelmente numa poltrona macia, de frente para Nadine. — Espero que não sejam más notícias, mas

— De uma certa maneira, são mesmo. — Nadine suspirou mais uma vez.

— Everett mandou-me ir a Florença na semana que vem.

Charlotte endireitou-se na poltrona, arregalando os olhos.

— Nadine! Que maravilha!

— Você acha? Eu vou lá para conversar com Lawrence Stebbing sobre a

exposição que ele vai fazer na Galeria Mills. Charlotte afundou-se na poltrona,

como se tivesse levado um soco.

— Oh, não!

— Eu não lhe contei que nós estávamos planejando fazer uma exposição

das obras dele, porque eu tinha esperança de que não desse certo. Lawrence tem o dom de transformar as vidas das pessoas que fazem as exposições dele num verdadeiro inferno. Eu tinha certeza de que Everett perderia a paciência e

desistiria da idéia, mas parece que Lawrence tem sido bastante sensato até agora. Eu devo ir lá, para resolver quais as pinturas que iremos expor, os preços e coisas assim.

— Mas Everett não pode forçá-la a ir, querida. Diga-lhe que você pode resolver todos esses detalhes pelo telefone.

— Pode estar certa de que eu já fiz de tudo para convencê-lo a não me

mandar. A minha única opção é pedir demissão, e isso eu não posso fazer sem ter arranjado outro emprego. Fez-se um silêncio e as duas irmãs se entreolharam.

— Quer dizer que ele vem a Nova Iorque para a exposição? — perguntou Caarlotte, referindo-se a Lawrence. Nadine concordou com um aceno de cabeça.

— Então você terá de contar-lhe sobre Jamie.

— Não! — respondeu Nadine, com veemência. — Ele não pode saber de

nada. Nunca! Charlotte permaneceu em silêncio diante da reação ner-vosa da irmã.

— Eu posso deixar Jamie com você enquanto estiver viajando, não posso? Eu não devo ficar mais de três ou quatro dias fora.

posso deixar Jamie com você enquanto estiver viajando, não posso? Eu não devo ficar mais de

— É claro que Jamie pode ficar comigo. — Charlotte hesitou antes de

continuar. — Tem certeza de que já esgotou todos os argumentos para não ter de

fazer essa viagem? Você deve estar odiando a idéia de vê-lo novamente.

— Eu estou realmente odiando a idéia. Vai ser um inferno para mim, mas no tenho escolha. Você sabe que eu não posso perder meu emprego.

— É, isso você não pode mesmo.

— Não se preocupe comigo. — Nadine conseguiu dar um sorrisinho. —

Eu era apenas uma menina quando nós nos separamos. Agora, sou uma mulher

feita, e ele não conseguirá me atingir.

— Mas você disse que seria um inferno.

Nadine terminou o uísque de um gole.

— O inferno é um estado mental, e as portas da minha mente serão

fechadas assim que eu descer daquele avião. Eu estarei bem, Char, pode ficar tranqüila. Ele não me interessa mais, pode acreditar.

— Eu não consigo. Ele a magoou tanto! Ele a enganou, mentiu para você e deixou-a com um filho. E eu sei que você o amava. Nadine apertou as mãos.

— Você disse bem: amava. Mas não o amo mais. Ele não significa mais

nada para mim, e nunca mais significará. Além do mais — ela baixou os olhos para que a irmã não visse sua mágoa —, agora está casado. — Casado!

— Não precisa ficar tão chocada. Você também é casada.

— Quando ficou sabendo disso?

— Já faz algum tempo. Acho que foi um ano depois que eu voltei aos

Estados Unidos. — Ela continuava com os olhos baixos. Jamais esqueceria a angústia que havia sentido quando soube que Lawrence tinha se casado com Lily. — Um artista amigo dele, que encontrei numa exposição, me contou. — E você nunca me disse nada! Nadine tentou sorrir ao ver a preocupação da irmã.

— Eu me senti muito humilhada na ocasião. Mas, sinceramente, agora

senti muito humilhada na ocasião. Mas, sinceramente, agora tudo já passou. Eu vou passar apenas alguns

tudo já passou. Eu vou passar apenas alguns dias lá, e nada pode acontecer em

tão pouco tempo. Colocando o copo sobre a mesinha, levantou-se e aproximou-se da irmã, dando-lhe um tapinha no ombro.

— Vou levar Jamie para casa — continuou Nadine —, pois já está quase

na hora de jantar. Obrigada por tomar conta dele. — Em seguida, foi para a

cozinha. Charlotte acompanhou a irmã e o sobrinho até a porta.

— Eu não vou nem conseguir dormir esta noite tentando imaginar uma forma de tirá-la dessa viagem. Everett não pode obrigá-la a ir!

— Você não conhece Everett. Mas, avise-me se encontrar alguma

solução. E, levando Jamie pela mão, atravessou o hall para pegar o elevador.

Everett. Mas, avise-me se encontrar alguma solução. E, levando Jamie pela mão, atravessou o hall para

Capítulo Dois

Nadine o conheceu há cinco anos. Terminada a faculdade, seus pais ofereceram-lhe uma viagem para a Itália como presente de formatura. Durante dois meses, ela viajou de cidade em cidade, com urna mochila nas costas, ficando em albergues para estudantes e em hospedarias, tentando esticar a mesada que os pais lhe haviam dado, para que a permanência nesse pais durasse o maior tempo possível. Apaixonou-se pela Itália assim que chegou. Ficou impressionada com a abundância de obras de arte e encantada com a simpatia das pessoas. Também adorou o idioma, que não tardou em aprender. Já havia estado em Florença logo que chegara, mas antes de voltar aos Estados Unidos resolveu visitar mais uma vez a cidade de que mais gostara. Ficou hospedada num grande albergue, perto de Fiesole, e passou a última semana visitando museus e igrejas, ou simplesmente caminhando pelas ruas e sentando-se nas praças e nos cafés que tinham mesinhas nas calçadas, sonhando em poder um dia voltar àquela cidade para lá morar. Seu vôo para Nova Iorque sairia de Roma no dia seguinte. O albergue onde se hospedara estava com as reservas esgotadas para o fim de semana. Assim, mesmo que ela tivesse dinheiro para passar mais uma noite, o que não ti nha, não haveria lugar para ela. Seu dinheiro só dava para pagar a passagem de trem para Roma. Com um pouco de sorte, comeria no avião, pensou pesarosamente, olhando com certa inveja para alguns jovens que saiam de urna confeitaria tornando sorvete de casquinha. Não tinha importância. Quando voltasse para casa, sua mãe se encarregaria de compensar esses dois meses de relativa fome que passara. Nadine estava a caminho da estação, já atrasada, despedindo-se, com melancolia, da cidade. O céu começava a ficar carregado de nuvens negras, e o calor abafado fazia prever uma tempestade. Havia uma estranha eletricidade no ar que a deixava inquieta e excitada, apesar da iminente partida.

uma tempestade. Havia uma estranha eletricidade no ar que a deixava inquieta e excitada, apesar da
Grossos pingos de chuva começaram a cair, e as ruas ficaram subitamente escuras. Num instante,

Grossos pingos de chuva começaram a cair, e as ruas ficaram subitamente escuras. Num instante, tudo ficou deserto. As pessoas se abrigavam nos umbrais das portas e entravam nas lojas para esperar a chuva passar. O barulho dos trovões ressoava no ar. Em condições normais, Nadine também teria procurado abrigo, mas naquele dia estava a ponto de perder o trem para Roma. Assim, correu pela chuva torrencial, que se tornava cada vez mais forte. Em poucos minutos, formou-se uma enxurrada de água lamacenta, e Nadine teve de pular várias poças para passar de uma calçada para outra, Chegando à estação, viu que tinha menos de um minuto para comprar a passagem e pegar o trem. Abrindo passagem por entre a multidão, dirigiu-se ao guichê. O bilheteiro sacudiu a cabeça negativamente quando ela lhe disse que estava tentando pegar o trem para Roma. Deu-lhe a passagem com a informação de que teria de tomar o trem do dia seguinte, que partiria às seis da manhã.

Sabendo que os trens italianos dificilmente saíam no horário, Nadine agradeceu e correu, abrindo caminho por entre a multidão, em direção, à plataforma de embarque, mas acabou trombando em cheio com um homem que estava correndo em direção ao guichê de passagens. A mochila dela caiu e suas coisas se espalharam pelo chão sujo e

molhado da estação. Nadine também caiu, e uma pequena multidão juntou-se em torno dela, para ver se tinha se machucado. Procurando levantar-se, assegurou que estava bem, mas não pôde conter um grito de dor quando o homem com quem havia trombado segurou-a pelo cotovelo para ajudá-la. Seus olhos encheram-se de lágrimas.

para ajudá-la. Seus olhos encheram-se de lágrimas. — Você se machucou — disse ele em inglês.

— Você se machucou — disse ele em inglês. Olhava para ela com

preocupação e impaciência.

Nadine sacudiu a cabeça.

Foi só o cotovelo, mas eu estou bem. — E assim dizendo, levantou-se sem fazer careta de dor.

sacudiu a cabeça. Foi só o cotovelo, mas eu estou bem. — E assim dizendo, levantou-se

O homem deu uma olhada no relógio, encolheu os ombros quase que

imperceptivelmente, e voltou sua atenção para o cotovelo dela.

— Parece uma luxação, E melhor procurarmos um médico,

— Parece uma luxação, E melhor procurarmos um médico, Oh, não! exclamou Nadine. Onde ela iria

Oh, não! exclamou Nadine. Onde ela iria arranjar dinheiro para pagar um médico? Eu vou ficar boa. Eu não posso é perder o trem,

O homem recolheu rapidamente as coisas que estavam espalhadas pelo chão e enfiou-as novamente na mochilas

espalhadas pelo chão e enfiou-as novamente na mochilas — — Que trem é esse? perguntou —
espalhadas pelo chão e enfiou-as novamente na mochilas — — Que trem é esse? perguntou —

Que trem é esse? perguntou — Deixe que eu carrego isso para você.

Para Roma. Espero que ele esteja atrasado.

O

estranho sorriu para ela e seu sorriso era encantador, o que fez com

que Nadine respondesse também com um sorriso,

— Era o trem que eu também estava tentando pegar. Acho que nós dois o perdemos. E a culpa foi minha, que trombei com você daquele jeito. Desculpe-me. O próximo trem só sai amanhã de manhã. Ela não pôde esconder seu desânimo — Oh, não!

— E tão grave assim? O que vai acontecer se você não chegar a Roma esta noite? Nadine tentou recuperar-se.

— Meu avião para Nova Iorque sai amanhã ao meio-dia. Se eu tomar o

trem das seis amanhã de manhã, acho que chegarei a tempo. Lembrou-se de que não teria onde passar a noite. — Onde você vai passar a noite? O homem parecia estar lendo o pensamento dela. Meu carro está no estacionamento. Posso dar-lhe uma carona até o hotel? Nadine sacudiu a cabeça. Ela não poderia dar-se o luxo de ir para um hotel, e o albergue estava lotado. Achou que poderia dormir na sala de espera da estação. A idéia era desanimadora, mas do jeito que estava chovendo, era a única coisa que poderia fazer. — Não, obrigada. Não foi sua culpa, e afinal você também perdeu o trem, Sinto muito.

única coisa que poderia fazer. — Não, obrigada. Não foi sua culpa, e afinal você também
única coisa que poderia fazer. — Não, obrigada. Não foi sua culpa, e afinal você também
— Mas o que você vai fazer? Tem certeza de que não quer ir a

— Mas o que você vai fazer? Tem certeza de que não quer ir a um

o que você vai fazer? Tem certeza de que não quer ir a um médico para

médico para que ele examine seu braço? — Absolutamente. Não se preocupe comigo. Acho que vou ficar por aqui mesmo.

— Vai passar a noite aqui? — perguntou ele, franzindo a testa. — Acho que não é uma boa idéia. Nadine encolheu os ombros e fez mais uma careta de dor enquanto tentava colocar a mochila nas costas.

— Eu ficarei bem disse ela em tom leve, procurando não se perturbar

com o olhar penetrante do estranho. O homem tinha alguma coisa em mente. Não estava disposto a deixá-la passar a noite na sala de espera da estação.

a deixá-la passar a noite na sala de espera da estação. — Escute — disse ele,
a deixá-la passar a noite na sala de espera da estação. — Escute — disse ele,

— Escute — disse ele, repentinamente. — Como eu também perdi o trem,

vou voltar para minha casa, para tomar o outro trem amanhã de manhã. Por que não vem comigo? Eu gostaria de, pelo menos, enfaixar seu braço e tentar compensá-la por ter sido tão desastrado com você. Garanto que nós dois estaremos no trem das seis para Roma. Nadine hesitou. Até agora, não tinha aceitado nenhum convite de pessoas que havia conhecido e queriam hospedá-la. Mas este caso era diferente, O homem era um americano e decididamente não estava tentando paquerá-la. Parecia realmente preocupado com o bem-estar dela. Além do mais, a idéia de dormir bancos duros de madeira era deprimente. — Você perdeu o trem por minha causa disse ele sorrindo. O mínimo que pode fazer é deixar que eu conserte as coisas na medida do possível. Nadine custou para responder.

— Bem, na verdade, não tenho muita escolha. Em outras circunstâncias, eu nem pensaria em me aproveitar de sua oferta tão gentil, mas mesmo assim agradeço. Eu

Ótimo. — O estranho interrompeu-a com impaciência. — Deixe-me carregar sua mochila. Meu carro está deste lado.

Ótimo. — O estranho interrompeu-a com impaciência. — Deixe-me carregar sua mochila. Meu carro está deste

Ótimo. — O estranho interrompeu-a com impaciência. — Deixe-me carregar sua mochila. Meu carro está deste

Debaixo de uma chuva torrencial, eles atravessaram o estacionamento, correndo na direção do Fiat que estava estacionado junto a um muro. Sob

relâmpagos e trovões, Nadine sentiu-se invadida por uma estranha euforia. Era como se ela estivesse embarcando numa aventura maravilhosa que estivera esperando há anos e anos. Sentando-se no banco da frente, ao lado de seu salvador, ofereceu-lhe mais um sorriso.

— Meu nome é Nadine.

— O meu é Lawrence, Sua porta está fechada? Então, vamos embora.

Conversaram muito pouco durante o trajeto. Enquanto Lawrence esforçava-se para enxergar o caminho sob a chuva forte, Nadine olhava furtivamente para seu companheiro. Era mais jovem do que ela supunha — devia ter pouco mais de trinta anos. O nariz dele era bem feito e sua testa ficava coberta pelo cabelo encaracolado. Seu rosto estava bem barbeado e tinha duas rugas que iam da base do nariz até o maxilar. Ao perceber que ela o observava, olhou para Nadine, que sustentou o olhar por alguns segundos; em seguida, ela olhou para a estrada, sentindo uma estranha excitação. Uma estreita faixa de luz amarela surgiu no horizonte, iluminando a região encharcada com um brilho estranho. As nuvens estavam se dissipando e os trovões ressoavam a distância, em direção ao norte. Mas Nadine achou que a tempestade havia deixado uma eletricidade no ar, pois tinha a impressão de que sua pele soltaria faíscas caso aquele homem a tocasse. Ela então observou as mãos que seguravam a direção. Os dedos eram longos e achatados nas pontas, e havia chumaços de pêlos entre as juntas e nas costas da mão, entrando pelos punhos do paletó. O que viu naquelas mãos que provocou um tremor de excitação em seu corpo? Nadine não sabia. Eram mãos estranhas, másculas, bem diferentes das suas, finas e macias, e no entanto lhe pareciam familiares. De fato, mais que familiares: Nadine chegou a ter uma vaga sensação de possessividade em relação a elas. E, mais uma vez, olhou para fora da janela.

Nadine chegou a ter uma vaga sensação de possessividade em relação a elas. E, mais uma

Estavam numa estrada estreita, que subia uma montanha, margeada por tufos de capim. A uma certa altura, ele subiu numa parte gramada do acostamento e desligou o carro. Nadine olhou para os lados, sem saber onde estava.

— É do outro lado da rua — disse o homem, lendo mais uma vez os

pensamentos dela. — Teremos de dar uma corrida. Ela concordou com um aceno de cabeça e abriu a porta do carro, A chuva estava mais fraca, mas ainda não tinha passado. Lawrence levantou a gola do paletó, pegou a mochila de Nadine e foi o primeiro a sair do carro. Atravessou a rua correndo e parou junto a um pequeno portão escondido no meio de uma cerca viva. Nadine seguiu-o. O caminho calçado de pedras, que atravessava o jardim era cercado de roseiras amarelas mal cuidadas e dava num gramado que também precisava ser tratado. Certamente, jardinagem não era o forte de Lawrence, pensou Nadine. No entanto, havia uma certa magia no brilho molhado das folhas e da grama, e até na lama que se espalhava por entre as pedras do caminho. Nadine o seguiu, contornando o gramado, até chegar à casa de campo, subitamente iluminada por um raio de sol que havia atravessado as nuvens. Ao ver a casa de Lawrence, Nadine parou, como se estivesse encantada. Nem mesmo a chuva fina caindo nas suas costas e atravessando a blusa já encharcada e as calças jeans conseguiu quebrar o encanto.

— Entre — chamou Lawrence, parado junto à porta de carvalho. Só

então Nadine aproximou-se dele. Todo o andar térreo era constituído por um único saIão, com um piso reluzente de lajotas cor de tijolo. À direita, havia uma pequena cozinha compacta, com armários de madeira, que dava para a frente da casa. No outro lado da sala,

havia alguns móveis simples espalhados em volta de uma lareira: um sofá baixo, duas poltronas em verde-oliva e uma mesa de centro com algumas revistas e poucos enfeites. Havia grandes janelas em todas as paredes, mas não se via nenhuma casa nas vizinhanças. Na outra extremidade da sala havia uma grande porta de vidro que dava para um pátio, de onde se descortinava uma campina e

outra extremidade da sala havia uma grande porta de vidro que dava para um pátio, de

as montanhas distantes. Nadine nunca tinha visto uma casa como aquela, e não podia imaginar uma pessoa morando num lugar como aquele. Lawrence pareceu nem perceber a admiração dela. Jogando a mochila por cima do ombro, dirigiu-se para a escada de mármore que passava por cima da cozinha.

— Primeiro, você vai tomar um banho quente — disse ele sem cerimônia.

Não quero ser responsável por você pegar uma pneumonia, além de machucar seu cotovelo. Venha comigo.

O segundo andar também era um grande quarto quadrado, tendo ao lado de uma das janelas a cama de Lawrence. O assoalho era em madeira de lei clara

e,

além de uma escrivaninha escura envernizada, não havia mais nenhum móvel.

O

banheiro ficava em um dos cantos era luxuosamente decorado e tinha uma das

maiores banheiras que Nadine já vira. Lawrence abriu a torneira da água quente

e voltou sua atenção para a mochila,

— Está tudo molhado aqui dentro. Vamos colocar suas coisas para secar.

Enquanto isso, você pode pegar meu roupão; vou deixá-lo aqui em cima da cama.

E não esvazie a banheira quando terminar, pois a água quente só dá para um

banho e eu também quero tornar um.

Nadine concordou com um aceno de cabeça e esperou que ele fechasse

a porta do banheiro; então, respirou fundo. Que aventura! Despiu-se rapidamente, percebendo como estava gelada, e entrou na banheira, com um suspiro de êxtase. Quem era aquele homem que tinha a banheira mais maravilhosa do mundo e que morava naquele lugar austero, porém adorável, no fim do mundo? Lembrando-se do que ele havia dito sobre a água quente, não demorou no banho,

e em poucos minutos saiu da água, enxugou-se e espiou pela porta entreaberta para dentro do quarto pouco iluminado. O roupão estava sobre a cama, como Lawrence havia prometido. Tirando

a toalha em que estava enrolada, vestiu-o e enxugou vigorosamente a cabeça.

Em seguida olhou-se no espelho da parede, perto do banheiro. Ela parecia menor

do

que o normal dentro daquele enorme roupão amarrado na cintura. Lawrence estava cortando tomates na cozinha quando ela desceu.

o normal dentro daquele enorme roupão amarrado na cintura. Lawrence estava cortando tomates na cozinha quando

Tomou banho rápido! Agora é a minha vez. Fique à vontade, a casa é sua. Eu servi um conhaque para você. E bom para esquentar. Você não apanhou um resfriado, não é? — Essas últimas palavras foram ditas com preocupação.

Não — disse ela, sacudindo a cabeça. — Eu estou ótima.

Mas mesmo assim quero enfaixar seu cotovelo.

Primeiro, tome seu banho — disse ela sorrindo. — Meu cotovelo não vai piorar em nada nesta meia hora.

Eu não vou demorar tanto assim. Tome, aqui está seu conhaque. — Entregando-lhe o copo, subiu a escada de dois em dois degraus. Ficando sozinha, Nadine começou a andar pela sala. Tomando pequenos goles da bebida, tentou formar uma imagem mais clara de seu anfitrião. Para sua surpresa, a maioria dos livros na estante eram os seus favoritos: diversos livros de arte e algumas biografias de artistas que ela havia lido e relido quando passou a se dedicar à história da arte. Entre os discos, encontrou seus compositores e cantores prediletos também. Levantando a cabeça, seu olhar se fixou num quadro que estava pendurado logo acima da coleção de discos. Era uma paisagem muito bonita, apesar de suas linhas escuras e irregulares. Nadine apertou os olhos, pensativamente. Ela sabia que nunca tinha visto aquele quadro, mas de alguma forma parecia reconhecê-lo. Examinou a assinatura: Stebbing, um de seus pintores modernos prediletos. Que coincidência que aquele homem também o apreciasse! Voltou sua atenção para os outros quadros da sala e notou que eram todos do mesmo artista, cada um mais familiar e mais bonito que o anterior.

O que acha deles? — Lawrence aproximou-se dela, enxugando o cabelo. Usava calças jeans e um suéter cinza. Estava descalço.

São maravilhosos — respondeu Nadine, com sinceridade. — Eu nunca vi estes quadros nem em reproduções. Você tem muita sorte em possuí-los. Ele é um dos meus pintores prediletos. — Quem? — Ele parou de enxugar a cabeça e olhou para ela com curiosidade. — Lawrence Stebbing.

prediletos. — Quem? — Ele parou de enxugar a cabeça e olhou para ela com curiosidade.

— Já ouviu falar dele?

— Claro! — respondeu indignada, estranhando a incredulidade dele. Então,

franziu a testa. O nome dele também era Lawrence. Não era possível que ele

fosse Sentiu que ficava vermelha. Lawrence

?

— Eu mesmo. Agora vamos tratar do seu braço e do jantar.

— Você é Lawrence Stebbing? — A voz dela estava baixa e cheia de admiração.

— Sou. Mas se eu não comer alguma coisa logo, não serei por muito tempo.

Venha comigo até a cozinha e conte-me alguma coisa sobre você. Como foi que ouviu falar de mim? Passaram a noite inteira conversando, falando sobre suas vidas e idéias. Pela primeira vez na vida, Nadine encontrou alguém que entendia e acompanhava seu raciocínio, expandindo-o além dos limites de sua própria consciência. A arte e os artistas tornaram-se vivos e pessoais ao invés de meramente fascinantes. Os conceitos de arte que ela havia formulado através dos anos entrelaçaram-se com a história, a filosofia e o desenvolvimento da alma humana. Era mais que interessante, era elucidante. Um pouco antes do dia amanhecer, eles ficaram em silêncio, ouvindo o canto melodioso de um rouxinol que cantava no bosque. Lawrence estava sentado na mureta de pedra e Nadine no sofá, no pátio. A chuva havia parado, e as nuvens se abriam para mostrar estrelas ocasionais. Lawrence deu uma tragada no cigarro, e a luz alaranjada da brasa iluminou seu rosto. Ela percebeu uma expressão estranha naqueles olhos, o que a deixou emocionada e inquieta. A brasa do cigarro diminuiu e ele o apagou no cinzeiro, levantando-se em seguida. A única coisa que se via era sua silhueta esguia contra o céu manchado. De repente, Nadine sentiu medo. Algo de muito importante estava acontecendo, algo que nao tinha palavras para descrever. Ele se aproximou lentamente e lhe estendeu as mãos. Compelida por um sentimento profundo, segurou as mãos de Lawrence, que a puxou, colocando-a de pé. Olhou longamente para ela, mas desta vez estava muito escuro para que ela visse sua expressão.

puxou, colocando-a de pé. Olhou longamente para ela, mas desta vez estava muito escuro para que

Lawrence a abraçou, e então suas bocas se encontraram. Elc a beijou de maneira delicada, porem insistente. Nadine tentou responder como se soubesse o que estava fazendo, mas o medo a deixou paralisada, e seu corpo ficou rigido.

Voce está assustada — disse ele, subitamente. — Por que? Ela baixou a cabeca, sentindo-se terrivelmente jovem perto daquele homem mais velho, famoso e talentoso. Não era tão ingênua que não soubesse que, com a experiência que devia ter com mulheres, Lawrence estava certo de que ela iria para a cama corn ele em retribuição por deixá-la passar a noite em sua casa. Nadine fechou os olhos. Sera que teria coragem? Fazer amor com Lawrence Stebbing não seria um clímax glorioso para a noite mais maravilhosa da sua vida? Guardaria aquela lembrança com carinho para sempre, nao é mesmo?

Ei. — Com dois dedos ele levantou o queixo de Nadine, que pode detectar perplexidade na voz baixa dele e mais alguma coisa que não conseguia identificar. —

A chuva parou. Vamos dar uma volta lá fora e ver por que esse passarinho está

cantando?

Ficou aliviada e confusa ao mesmo tempo. Teria se enganado, achando que ele

a desejava? Ou sera que ele tinha percebido que ela era muito jovem e muito inexperiente? Nadine não conseguia parar de tremer.

— Quero sim. Até ela mesma ficou espantada com a tranqüilidade de sua

voz. Será que Lawrence sabia das emoções que estava provocando nela, fazendo-a

ate suar? Ele a soltou e Nadine inconscientemente apertou o roupão em torno do corpo.

— Eu vou vestir minhas calças disse ela, virando-se em direção à casa.

E melhor vestir um agasalho tambem disse ele, seguindo-a. — Você pole usar um dos meus. Quer que eu acenda as luzes?

Não, eu estou enxergando bem. E era verdade. A luz das estrelas se refletia na escadaria, e ela podia ver os degraus debaixo de seus pés descalcos. Seus jeans, pendurados no banheiro, ainda estavam úmidos, e a roupa de baixo também. No entanto, tinha uma saia branca que estava seca. Lawrence entregou-lhe uma malha de lã, grande e bem macia.

No entanto, tinha uma saia branca que estava seca. Lawrence entregou-lhe uma malha de lã, grande

— E os seus sapatos?

— Ainda estão molhados. — Será que ele ia ficar lá parado enquanto se

trocasse? Bem, na verdade, estava escuro, mas — Eu tenho uma sandália de borracha.

— Você vai molhar os pés. A grama deve estar encharcada e cheia de barro.

Lawrence parecia determinado a ficar corn ela e Nadine não queria parecer puritana.

Enfiou a saia pelos pés, tirou o roupão e vestiu rapidamente a malha de lã.

— Você sempre se veste assim, apenas com o essencial? — perguntou Lawrence.

Às vezes. De fato, Nadine raramente usava sutia, e, naquela noite, sentindo que estava sem a roupa de baixo, tremeu de excitação. Calçando as sandálias de borracha, dirigiu-se para a escada. Lado a lado, atravessararn o campo prateado que ficava atrás da casa, pisando na relva encharcada e sentindo as flores silvestres roçarem em seus joelhos. Nadine enrolava os dedos dos pés com prazer na lama fria.

O canto do rouxinol ficou mais alto à medida que des se aproximavarn do

arvoredo. A cada nota, Nadine sentia-se como se estivesse subindo em direção ao céu

florentino, roçando os seios nas estrelas, vivendo uma paixão que jamais pensou que pudesse existir na terra.

— Aqui esta o corrego disse Lawrence ao se aproximarem do corrego que serpenteava o caminho do bosque.

Reflexos azuis prateados dançavam sobre as pedras. — Venha por aqui.

A mão quente e forte dele encontrou a de Nadine, e o toque pareceu

desmanchar o chão frio sob seus pés. O que estava acontecendo com ela?

— É aqui — disse ele, parando margem do corrego, num ponto em que era muito estreito. Nadine quase atravessou direto.

— Não, espere — disse Lawrence, segurando-a. — Ponha um pé aqui e outro do

outro lado. Assim. — E enlaçou-a pela cintura. Os dois ficaram parados, com um pé

de cada lado do corrego, de frente para o bosque. — Agora, escute.

pela cintura. Os dois ficaram parados, com um pé de cada lado do corrego, de frente

E ela ficou escutando. O rouxinol, talvez cansado, havia parado de cantar, e urn cachorro que estivera latindo ao longe também havia se calado. Ela ficou escutando. O único som que ouvia era o das batidas do coração de Lawrence, batendo com força nas . suas costas, misturando-se ao som do riacho que, qual urea sinfonia prateada, penetrava no bosque.

O corrego? — sussurrou ela.

Sim. Você consegue ouvir como ele entra por um ouvido e sai pelo outro?

É como uma meditação. Fechou os olhos para ouvir melhor. E era verdade: a água entrava borbulhando por um ouvido, atravessava os pensamentos, refrescando-os, esfriando-os, e então saia pelo outro ouvido, flutuando pela noite adentro.

— É mesmo. — Ela não conseguiu achar outra coisa para dizer.

— Você está com frio

— Não, não estou.

— Mas esta toda. Arrepiada.

— Só um pouco.

Mas não era frio. A água corrente havia clareado seus pensamentos e ela tinha entendido o que havia acontecido — tinha se apaixonado por Lawrence Stebbing. Num acidente casual, ela havia encontrado o homem de sua vida. E esse entendimento foi tão grande, tão impressionante, que Nadine se sentiu fraca. Escorregando por entre as braços de Lawrence, sentou-se na margem do corrego e colocou os pés na água fria, lavando a lama dos anos anteriores, das encarnações

anteriores, das eternidades que ela sabia que havia compartilhado com aquele homem. Será que ele sentia a mesma coisa? Será que tambeém tinha aquela consciência de que a vida dela lhe pertencia, e a dele a ela?

Nadine — murmurou Lawrence, ajoelhando-se ao lado dela e colocando as mãos em seus ombros. — Você sabe o que está fazendo comigo? Ela esperou, sem se mexer, enquanto ele lhe beijava o pescoço. As mãos dele desceram pela sua malha, até o ventre, e então entraram por dentro da roupa, subindo delirantemente até seus seios. Nadine apenas gemeu. — Vamos voltar — murmurou ele, depois de alguns segundos.

delirantemente até seus seios. Nadine apenas gemeu. — Vamos voltar — murmurou ele, depois de alguns

Inesperadamente, o rouxinol começou novamente a cantar. Eles nem chegaram a entrar na casa. Na entrada do pátio, Nadine tirou as sandálias e se deixou envolver pelos braços de Lawrence, que a puxou para o sofá. Havia em torno dele um delicioso aroma de barro fresco e capim molhado. Seus lábios, enganadoramente doces e suaves, apossaram-se dos dela, e ele passou a mão pelas coxas de Nadine, chegando aos seus quadris. As mãos do artista, que ela tanto admirava, usavam-na agora como tela para fazer suas criações. Acariciando-a primeiramente com leveza e, em seguida, com paixão, ele desenhou linhas de fogo sobre seu corpo. Longos e deliciosos momentos depois, estava deitada no sofa, com Lawrence olhando para ela a luz pálida da manhã. Você é uma mulher extraordinária — murmurou, riscando suas pernas expostas com os dedos, suspendendo-lhe a malha acima da cabeça e beijando-lhe os seios Em seguida, com relutância, como se não agüentasse interromper o contato entre eles, Lawrence se levantou e tirou a roupa. A princípio, satisfez-se só em beijá-la, mas sua paixão logo aumentou e ele buscou a intimidade total. Mesmo querendo-o, desejando-o, Nadine não pode conter um pequeno grito de dor. Lawrence recuou, olhando para ela. — Por que não me contou? perguntou, calmamente. — Eu, não fazia idéia. Os olhos dela encheram-se de lágrimas, temendo que ele agora não a quisesse mais, mas Lawrence beijou seus olhos marejados. — Tentarei não machucá-a; mas, você tem certeza de que quer fazer isso? Corajosamente, ela acenou com a cabeça e enxugou os olhos. Lawrence deitou-se ao seu lado, acariciando-a com delicadeza, como se ela fosse uma flor em botão. Voce é tão macia e tem um cheiro tão gostoso murmurou, com o rosto enterrado no cabelo de Nadine. — Esta gostando? Ela concordou com apenas um movimento de cabeça, admirada diante das sensações que os carinhos dele produziam em seu corpo. Mas ele não tinha ficado satisfeito com o aceno de cabeça e, segurando-lhe o queixo, olhou em seus olhos. Nadine não pode desviar o olhar.

ficado satisfeito com o aceno de cabeça e, segurando-lhe o queixo, olhou em seus olhos. Nadine

— Está achando bom? — Insistiu. Então fechou a boca sobre os lábios dela,

sem esperar pela resposta. Ela passou os braços pelo pescoço de Lawrence, e enfiou as mãos em seu cabelo. Os lábios dele passaram a beijá- la na orelha e no pescoço.

— Isso é tão bom — sussurrou Nadine. Ela o queria, todo, como jamais quisera nenhum outro homem. Suas mãos deslizaram para os quadris dele e Lawrence gemeu de prazer.

— Você esta me deixando louco — exclamou, com a voz rouca.

Mas Nadine queria mais que os carinhos dele, e murmurou seu nome em tom suplicante. O hálito daquele homem estava quente em seu pescoço, e então ele soergueu o corpo, separou as pernas dela com o joelho, e Nadine ergueu os quadris para encontrá-lo. A grandiosidade daquele momento fez com que ela se esquecesse da dor. Agarrou os ombros de Lawrence, esquecida da ansiedade pela sua inexperiência, já não mais preocupada em agradá-lo, mas sentindo-se perdida na onda de extremo prazer que atravessava seu corpo.

Oh, meu bem! — Lawrence estava tentando conter-se com dificuldade. Sua boca estava enterrada nos seios dela. As ondas ficaram maiores e mais fracas, passando pela corrente sangüinea de Nadine, levando-a para o mundo do prazer. Aproximou-se do limite, sem saber o que viria a seguir. Lawrence a trouxe de volta. Havia alguma coisa iminente, com a qual ela nem sonhava. Aproximou-se novamente do limite, sentindo-se dominada pela força do desejo que se apossara dela.

Devagar, meu bem, devagar disse Lawrence, acariciando-a, Por um momento, ela esteve a ponto de atravessar aquela barreira e cair no precipício do prazer infinito, mas, mais uma vez, Lawrence trouxe-a de volta para o lado seguro.

Por favor — gemeu Nadine. — Por favor, Lawrence O auto-controle dele também estava cedendo. Sua respiração ficou mais acelerada e ele a apertou com mais força.

O auto-controle dele também estava cedendo. Sua respiração ficou mais acelerada e ele a apertou com

Nadine soltou mais um grito. Estava sendo empurrada para o precipício, e sentiu-se como se sua alma estivesse explodindo e ela estivesse atravessando uma luz dourada, ao mesmo tempo em que estremecia. Depois de algum tempo, parou de cair e sentiu-se flutuar numa atmosfera celestial, respirando profundamente, envolvida pelos braços fortes de Lawrence. O sol surgiu sobre as montanhas distantes, arroxeadas. Nadine abriu os olhos e viu as gotas de chuva espalhadas pelo campo, mais parecendo diamantes. Eles tinham conversado muito, e agora estavam ambos em silêncio. Os olhos de Lawrence estavam encantados diante do arrebatamento dela, e não era preciso , palavras para compartilhar a maravilha daquele momento.

encantados diante do arrebatamento dela, e não era preciso , palavras para compartilhar a maravilha daquele

Capítulo Três

Os dias transformaram-se em semanas, e as semanas em meses. Quando o outono chegou, Nadine continuava vivendo com Lawrence. Conversavam incansavelmente, buscando sempre a compreensão para suas idéias até então particulares e mal-entendidas. Continuavam profundamente apaixonados. Nadine passou a ser o modelo de Lawrence, sua musa, sua inspiraçao. Ele se deliciava com o entusiasmo dela, sua afeição por ele e seu desejo passional. Ela tinha sido uma promessa em botão, e agora era uma for totalmente aberta, uma mulher mergulhada em sonhos, planos e emoções. O amor que Nadine sentia por Lawrence beirava a adoração. Tudo o que ele dizia, fazia, gostava, para ela representava a perfeicão. O fato de ser famoso, rico, talentoso e bonito era apenas um subproduto de sua natureza, objeto da paixão dela. Gostava da risada dele, que the iluminava os olhos com um brilho verde, gostava do poder de suas mãos, que criavam maravilhas nas telas e no corpo dela. Adorava aquelas mãos, adorava a mente que as guiava, adorava a alma que as inspirava. Quando Lawrence sugeriu que ela entrasse para a universidade no outono, para fazer seu mestrado em historia da Atte, Nadine concordou de boa vontade com o plano. Quando marcou para ela uma consulta com um ginecologista, para que lhe dense um diafragma, ela foi sem discutir. E quando ele lhe disse, no inicio do seu relacionamento, que não tinha interesse num compromisso formal, ela concordou sinceramente que as coisas deveriam continuar como estavam, pois seu relacionamento seria mais autêntico. No entanto, ela não analisou as diversas implicações desta idéia que, numa base hipotética, parecia verdadeira. Lawrence dizia que sua independência lhe era muito valiosa para perdê-la num relacionamento. Nadine admirava essa independência e não previa que um dia essas asserções entrariam em conflito direto com o grande amor que sentia por ele. Nadine não se importava com a independência de Lawrence, nem com a dela própria. Estavam

amor que sentia por ele. Nadine não se importava com a independência de Lawrence, nem com

juntos, terrivelmente felizes juntos, profundamente apaixonados. Ele nunca parou para pensar no papel que a independência desempenhava num amor como o deles. Viver com Lawrence passou a ser tão natural e necessário como respirar. Os pais dela protestavam do outro lado do Atlântico, aborrecidos e magoados diante de sua decisão de viver com um estranho num pais também estranho. Lawrence animou-a a tentar fazê-los compreender as razões de sua atitude. O resultado dessas conversas e cartas foi que seus pais concordaram em continuar a mandar-lhe a mesada e pagar seus cursos, mas com tanta má vontade que Nadine sentiu-se revoltada. Passou a falar com desprezo sobre a casa de subúrbio em que havia crescido, em Connecticut, e mostrar tanta rejeição pelo seu passado que Lawrence chegou a acreditar que a havia salvo de um mundo estagnado, com o qual ela não tinha a menor ligação. Assim sendo, quando Nadine começou a sentir saudades de casa e do carinho dos pais, Lawrence ignorou essa reviravolta, que passava do desprezo para a nostalgia, achando que ela também superaria aquela fase. Mas sua indiferença diante dos sentimentos dela, apenas serviu para reforçá-los. Com a aproximação do Natal, a saudade aumentou. Este sempre foi um dia muito importante para sua família. Nadine tinha lembranças doces e profundamente agradáveis das festas natalinas, em que se reunia com amigos e parentes, em meio ao alvoroço e excitação naturais da ocasião. Quando tentou contar isso a Lawrence, ele se mostrou desdenhoso. Na opinião dele, o Natal como festa religiosa era apenas um pouco menos ridículo que o Natal como feriado materialista, e ele não tinha a menor intenção de tomar parte de nenhum deles. Foi a primeira briga séria que tiveram. À medida que os dias de dezembro foram passando, Nadine foi ficando mais irritada, e Lawrence procurou ignorá-la. Ele sugeriu que ela fosse passar o Natal com os pais, como eles tanto queriam, mas ela não conseguia ficar longe dele nem por duas semanas. Queria passar o Natal com Lawrence, mas ele se recusava terminantemente a comemorar a data. As discussões aumentaram, e um não conseguia convencer o outro. A cada discussão, ficavam mais distantes.

a data. As discussões aumentaram, e um não conseguia convencer o outro. A cada discussão, ficavam

Passaram a brigar por coisas sem importância. Nadine se ofendia com as menores coisas e, em resposta, Lawrence a deixava sozinha cada vez com maior freqüência. As discussões transformaram-se em brigas, que terminavam com Lawrence saindo de casa batendo a porta, e, quando voltava, recusava-se a dizer onde estivera.

Depois de uma dessas brigas, em que Lawrence saiu furioso de casa, Nadine também resolveu sair para dar uma volta e acalmar-se um pouco. Ela estava caminhando por uma rua larga, quando viu Lawrence sentado num, café, com mesinhas na calçada, com outra mulher. Naquele momento entendeu que todas as vezes que Lawrence se ausentava de casa, provavelmente ficava com aquela bela loura, ou outra mulher qualquer, enquanto ela ficava sentada, triste, esperando por ele.

Nadine olhou atentamente para a moça: era alegre, expansiva, e estava encostada em Lawrence, roçando seu seio de maneira provocante na mão dele. Os olhos dela brilhavam, suas faces estavam rosadas de felicidade e seus lábios carnudos e sensuais estavam pintados de vermelho. Cheia de ciúme, Nadine continuou a olhar para a moça, compreendendo que ela representava tudo que Nadine não estava sendo nos últimos tempos. Finalmente, quando o casal se levantou, Lawrence passou o braço pelos ombros da moça, que passou o braço pela cintura dele. Ela era alta, deslumbrante, madura. Mesmo estando do outro lado da rua, Nadine sentiu-se impressionada pela presença dela. Eles foram para o lado do rio Arno, na direção oposta da casa de Lawrence, e Nadine não os seguiu. Voltou para casa, atordoada, solitária, sabendo que deveria abandoná-lo mas a simples idéia a fazia estremecer. Ela tinha esquecido como viver sem Lawrence. Passou horas sentada na beirada da cama, com os braços cruzados sobre o peito frio, esperando. Muito depois de ter escurecido, ouviu a porta bater. Lawrence a encontrou no quarto, imóvel.

Você está bem? — perguntou. Ela não ia agüentar aquela falsidade. Sufocada pelas lágrimas que se recusavam a correr, respondeu com tom acusador:

não ia agüentar aquela falsidade. Sufocada pelas lágrimas que se recusavam a correr, respondeu com tom

Onde você esteve? Ele foi pego de surpresa pelo tom rude dela.

Eu não sou obrigado a lhe dizer.

Não, não é. Mas eu vi você. Ele levantou uma sobrancelha, com ar de indiferença.

Quem era ela? — insistiu Nadine.

O nome dela é Lily — respondeu com frieza, tirando o paletó com irritação. — Eu me encontro com ela de vez em quando, já faz cinco anos. Ao contrário de você, eu não abandono todos os meus objetivos a um simples sinal.

Você está querendo dizer que Lily é um objetivo e o nosso amor é um simples sinal? — Ela agora estava furiosa. Sua nuca e seus ombros estavam duros.

Ela é uma amiga.

Uma amiga! Ela não me pareceu uma amiga! Ele se aproximou. — Nadine — ele falou com delicadeza, mas firmemente, — nós já discutimos isso. Nós não estamos presos um ao outro, e já concordamos sobre isso, lembra-se? Eu não quero ter uma cena como esta todas as vezes que eu sair sozinho.

Você não estava sozinho hoje!

Você está se comportando como uma criança mimada. É por isso que eu não quero me prender a ninguém. Não existem restrições em nosso relacionamento, lembra-se? Você é livre para sair com quem bem entender, assim como eu. Nadine estava obstinada.

Ter a liberdade de ir para a cama com quem eu bem entender não é a mesma coisa que fazê-lo. Eu quero viver com a idéia de que ambos somos livres, mas eu não posso aceitar o fato de que você venha a se aproveitar dessa liberdade.

Então você está sendo hipócrita.

Eu não estou sendo hipócrita. — Havia desespero em sua voz. — Quando a gente ama alguém, não quer mais ninguém.

não estou sendo hipócrita. — Havia desespero em sua voz. — Quando a gente ama alguém,

Lawrence cruzou os braços e olhou para ela.

Às vezes, fica difícil amar você. Ela sentiu uma súbita contração no peito, o que tornou sua respiração difícil. Levantou-se lentamente, incapaz de suportar as implicações do que ele acabara de dizer.

Eu não estou dizendo que não a amo, droga! — exclamou. — Eu a amo, e você sabe disso. Estou apenas dizendo que às vezes você fica impossível de se lidar, assim como eu também. Ela sacudiu a cabeça, dizendo:

Quando se ama alguém de verdade, não se sai com outra pessoa assim que as coisas ficam difíceis. O amor implica em lealdade, compreensão e na responsabilidade de tentar resolver os problemas. Você não quer assumir a responsabilidade. Recusa-se a aceitar o fato de que o amor é mais do que apenas sexo e diversão.

Muito profundo. — Debruçou-se na mureta baixa, com as pernas esticadas e os braços cruzados. — Eu diria que o amor também implica em confiança, o que inclui não tirar conclusões precipitadas sobre as amizades do outro. Ela sentiu-se terrivelmente longe dele; ele não entendia aquele ciúme horrível que a impedia totalmente de raciocinar com lógica. Sua voz estava trêmula.

Você pode ser sarcástico, se quiser, mas fique sabendo que há algumas coisas que eu sei melhor que você. Pode ser talentoso, rico e famoso, mas não entende nada de amor se abandona com tanta facilidade a mulher que você diz amar tanto.

Melodrama não lhe fica bem, querida. Você me condenou sem me ouvir, está sofrendo sem razão, e culmina dizendo que eu não sei o que é o amor.

E não sabe mesmo. Ele se levantou bruscamente, mostrando-se aborrecido.

Eu vou lhe mostrar o que é o amor, sua pirralha que pensa ser dona da verdade. — E começou a desabotoar a camisa.

— Eu vou lhe mostrar o que é o amor, sua pirralha que pensa ser dona

Quando viu surgir os pêlos escuros no peito dele, Nadine sentiu um enjôo de estômago, pensando nas unhas vermelhas de Lily passando por eles, brincando com eles, provocando Lawrence. Ela queria que suas pernas a levassem até a escada. Ele a segurou com uma das mãos, e com a outra continuou a desabotoar a camisa.

Onde vai? Usando toda sua força, soltou-se dele e segurou o pulso machucado.

Eu queria fazer com que você entendesse, mas não consigo. — "Por que está sendo tão difícil respirar?", pensou Nadine. — Você não quer entender. — Olhou para os lábios que Lily tinha beijado e baixou o olhar. — Só de pensar em dormir com você hoje me dá enjôo. Então virou-se e desceu a escada correndo, indo refugiar-se junto ao riacho, onde ele só a encontrou horas depois, trazendo-a de volta para o quarto e acariciando-a até que pegasse no sono. Depois daquela noite, as coisas entre eles pioraram bastante, sendo que a última gota ocorreu na noite de Natal. Nadine resolveu fazer uma ceia de Natal, achando que Lawrence iria ficar emocionado com a surpresa, e saiu para comprar o champanhe e tudo mais que fosse necessário. Quando voltou, ele tinha saído, mas seu otimismo a convenceu de que ele provavelmente também estaria lhe preparando uma surpresa. Depois que tudo estava pronto, ela arrumou a mesa, acendeu a lareira e as velas. Sentou-se para esperar por Lawreme. Estava usando uma malha vermelha de cachemira, calças pretas e um colar de coral que ele lhe havia dado de presente há um mês.

As horas foram se passando, e nada de ele aparecer. O peru passou do ponto, as velas se extinguiram, e Nadine continuava esperando. Sua impaciência transformou-se em irritação, a irritação em ciúme, e o ciúme em fúria cega. Ela estava uma fera quando Lawrence finalmente chegou, bem depois da meia-noite — e acompanhado de Lily. Ambos estavam embriagados e riam histericamente, tentando fazer com que Nadine participasse das brincadeiras. Mas ela apenas respondeu com

e riam histericamente, tentando fazer com que Nadine participasse das brincadeiras. Mas ela apenas respondeu com

frieza e se refugiou, pela última vez, junto ao riacho, voltando para casa só depois de ouvir o carro sair. Quando voltou, ele tentou falar com ela no pátio, mas Nadine não lhe deu a menor atenção, subindo diretamente para o quarto, onde começou a fazer as malas. Lawrence a seguiu.

Você vai embora? Ela nem se deu o trabalho de responder, enchendo sua mochila com seus parcos pertences, deixando tudo que havia comprado em Florença e o que ele havia lhe dado. Só esqueceu de tirar o colar de coral do pescoço.

Nadine. — Ele se aproximou dela, mas não ousou tocá-la ao ver sua expressão. — Nunca mais vou fazer isso. Amanhã, comemoraremos o Natal à nossa maneira. Só nós dois. Ela colocou a mochila nos ombros e passou por ele, em direção à porta. O que ela sentia era uma mistura de fúria e tristeza.

Desculpe-me — repetiu ele. — Não pensei que iria magoá-la tanto. — Colocou-se diante da porta e estendeu os braços. Ela olhou diretamente nos olhos dele.

Jamais o perdoarei. — E passou por ele. Quando entrou no carro, ele também entrou pela outra porta.

Nadine, são duas horas da madrugada do Natal. Pelo amor de Deus, vamos conversar. A esta hora não há nenhum trem para Roma. Vamos fazer uma reserva para próximo vôo e agir como adultos.

Eu já lhe dei todas as chances do mundo para resolver isso conversando, e agora é tarde demais. — Ela deu a partida e engatou a marcha, colocando o carro em movimento. Fizeram a viagem em absoluto silêncio, e, ao chegarem à estação, Nadine desceu com sua mochila e dirigiu-se ao guichê de passagens, sem se preocupar se Lawrence a seguia. Mas quando ela foi falar com o bilheteiro, ele já estava ao seu lado.

— Sinto muito, mas só às seis da manhã — informou homem, com ar cansado.

o bilheteiro, ele já estava ao seu lado. — Sinto muito, mas só às seis da

Ignorando Lawrence, sentou-se numa cadeira de plástico na sala de espera enfumaçada.

Você não pode ir embora assim, Nadine. Depois de tudo o que houve

entre nós Ela cerrou os punhos, nervosamente.

Você saiu assim todas as vezes em que tivemos uma discussão. Sem explicações e sem desculpas; batia a porta e ia embora. Agora é a minha vez.

Mas eu voltava.

Aí é que está a diferença. Ela segurou o estômago, sentindo um forte enjôo. Como podia deixá-lo daquela maneira? Para ela, Lawrence era mais importante que o ar que respirava. Não podia viver sem ele.

Por favor, vá embora, Lawrence — disse, sem pensar. Sentiu a vista escurecer e apertou com mais força o estômago, fechando os olhos. — Eu não agüento se você ficar.

Venha comigo.

Não. — Achou que ia vomitar. Lutou contra o enjôo e levantou-se lentamente. — Onde é o banheiro? — sussurrou. Ele a acompanhou, amparando-a, assustado por vê-la passando mal. Permaneceu por muito tempo dentro do banheiro, e, quando saiu, Lawrence já estava pedindo a uma moça que fosse vê-la. — Você não está nada bem. O que você tem? Ela continuava segurando o estômago e tremendo.

Por favor, vá embora. Eu não vou agüentar passar mais três horas aqui com você.

Eu só vou embora quando você estiver naquele trem ou no meu carro.

Por favor, Lawrence. Voltaram para as cadeiras cinzentas da sala de espera.

Você vomitou? — Ele estava preocupado.

Por favor, Lawrence. Voltaram para as cadeiras cinzentas da sala de espera. — Você vomitou? —

Sim. — Ela começou a chorar, escondendo o rosto nas mãos. — É você que me deixa assim! Vá embora, eu quero ficar sozinha. Mas durante três horas Lawrence ficou sentado ao lado dela, em silêncio,

fumando. Nadine tirou as mãos do rosto e continuou a segurar o estômago. Ela sentia um enjôo violento. Só quando o trem foi anunciado é que ele falou:

— Nós não podemos terminar assim, Nadine. Não podemos! Olhe para mim.

Só um pouquinho. Mas ela não podia olhar para ele. Alguma coisa crescia em seu peito, apertando-o, tirando-lhe o ar dos pulmões e o amor do coração. Com passos trôpegos, dirigiu-se para o trem, e, quando já ia subir, ele a segurou, abraçando-a carinhosamente. O corpo de Nadine estremeceu com soluços convulsivos. A partida do trem foi anunciada mais urna vez e ela desvencilhou-se dos braços de Lawrence, enxugando os olhos com as costas da mão. E pela última vez antes de entrar no trem, olhou nos olhos dele. Lawrence olhava para Nadine, sem vê-la. Percebendo que estava escapando dele, voltou-se transtornado e saiu da estação. Sentindo os olhos arderem, Nadine acabou de subir os degraus e entrou no

trem.

voltou-se transtornado e saiu da estação. Sentindo os olhos arderem, Nadine acabou de subir os degraus

Capítulo Quatro

Buona sera, signorina. Chegou uma visita. É o senhor Stebbing.

Obrigada. Descerei em seguida. Depois de colocar o telefone de volta no gancho, Nadine olhou com relutância

e apreensão para sua imagem no espelho atrás da porta. Ele é apenas um homem

que eu conheci, disse a si mesma. Não é o único homem que amei na vida; não

é o pai do meu filho. É rico, famoso, talentoso, casado, e eu vou me encontrar com ele para tratar de negócios. Para que ficar tão nervosa?

Seu rosto oval estava muito sério e pálido e as mãos apertadas sobre o peito. Ela estava usando uma blusa cinza prateada, aberta na gola, uma saia de linha branca e sandálias. Só faltava o colar de coral vermelho escuro que Lawrence havia lhe comprado quatro anos atrás. Ele daria o toque de cor necessário para aquela roupa, mas ela não o trouxera de propósito, e assim colocou um outro colar de contas rosadas. O cabelo castanho, repartido do lado, caia numa onda sobre o rosto, encobrindo parcialmente seus olhos apreensivos. Puxou-o para trás, tentando prendê-lo num rabo-de-cavalo. "Não, estou apenas procurando ganhar tempo", disse a si mesma. "Desça e aja como se vocês jamais tivessem se conhecido. Você consegue." Quando as portas do elevador se abriram e ela entrou no saguão, passou os olhos pela multidão que lá se encontrava, procurando-o. Por um momento, receou não poder mais reconhecê-lo depois de quatro anos, mas, quando colocou os olhos nele, não teve a menor dúvida. Lawrence estava de costas, com os braços cruzados, olhando pela janela, na direção do rio Arno. Para Nadine, a figura dele era inconfundível. Naquele instante, percebeu que poderia identificá-lo numa multidão de milhares de pessoas a um quilômetro de distância. Era como se a aura dele atravessasse o saguão ate o ponto em que Nadine estava.

pessoas a um quilômetro de distância. Era como se a aura dele atravessasse o saguão ate

Como se sentisse estar sendo observado, Lawrence voltou-se na direção dela. Seus olhos se encontraram e nenhum dos dois se mexeu. Durante um longo momento, Nadine ficou como que hipnotizada por aquele olhar que conhecia tão bem, e então seus joelhos começaram a tremer. O que aconteceu com todas as advertências que tinha feito a si mesma? Ele era apenas um velho amigo, e casado, além de tudo. Respirando fundo, encaminhou-se em sua direção. Como que atraido por um ímã, Lawrence veio na direção dela ao mesmo tempo, e, quando estavam a meio metro de distância, pararam. O ar estava carregado de eletricidade, e Nadine sentiu um arrepio percorrer-lhe o corpo.

Oi, Lawrence. Assim dizendo, estendeu a mão, que Lawrence apertou.

Oi, Nadine. Agora, que estava mais perto, viu como ele tinha mudado. Não eram apenas as rugas em torno dos olhos e da boca, mas uma expressão de pesar e tristeza. Mas seus olhos verdes continuavam meigos, embora um pouco inseguros, e foi isso que deu a Nadine coragem para falar. — Vamos indo. Isso aqui esta ficando coda vez mais cheio, nao é mesmo? Acho que deve ser um congresso. Encaminhando-se para a porta giratória, ela não sabia se estava aliviada ou irritada por descobrir que Lawrence não tinha perdido nern um pouco do seu charme. Mas logo deixou a questão de lado: quem tinha de se preocupar com aquele charme era a mulher dele.

Meu carro esta ali — disse ele, atravessando a rua estreita, dirigindo-se para o Fiat branco estacionado do outro lado da rua.

Ainda é o mesmo? — A voz dela parecia normal.

Claro. Entraram no carro, e Nadine percebeu que ate o cheiro continuava o rnesmo uma mistura de gasolina com a loção após barba de Lawrence —, trazendo-lhe lembranças do amor intenso que tinharn vivido. Colocando a chave na ignição, ele a olhou nos olhos, dizendo:

Temos muito que conversar.

que tinharn vivido. Colocando a chave na ignição, ele a olhou nos olhos, dizendo: — —

Pela expressão dele, Nadine sabia que não estava se referindo a exposição, e segurou a bolsa com as duas mãos, sentindo-se confusa.

Não, por favor. Como eu já lhe disse no telefone, o fato de nós nos conhecermos não passa de uma simples coincidência. Vamos falar apenas da exposição. Uma expressão de irritação e mágoa passou pelo rosto de Lawrence, que então respondeu com a mesma frieza:

— Como quiser. O carro saiu e Nadine ficou olhando pela janela, sentindo-se indecisa. Ele tinha razão, é claro. Como é que podiam falar diretamente de negócios se aquela era a primeira vez que se viam depois daquela fatídica noite de Natal? Lawrence tinha tentado se desculpar por carta, e agora era sua vez. Ela engoliu seco.

Mas preciso lhe dizer uma coisa — disse Nadine, rapidamente. — Aquela carta que escrevi em resposta à sua foi horrivel. Eu lhe agradeço pela que me escreveu. Ajudou muito, embora eu não reconhecesse na ocasião.

Realmente, você não reconheceu. Fizeram o resto do trajeto em silêncio. Nadine ia pensando em Lily, a mulher de Lawrence, tentando imaginar como seria recebida por ela e como reagiria. Tentou convencer a si mesma de que faria o possivel para ser simpática, pois já era tarde demais para mostrar ressentimentos. Ele estacionou o carro diante de sua casa, e Nadine seguiu através do jardim, que tanto conhecia. Chegando à porta da frente, Lawrence a abriu para que Nadine passasse. Ela esperava encontrar algumas modificações na casa provocadas pela presença de Lily, e foi grande o seu espanto ao ver que a sala continuava exatamente igual a última vez em que a viu. O piso era a mesmo, os móveis eram os mesmos, apenas alguns quadros haviam sido substituidos por outros mais recentes.

Toma alguma coisa? — ofereceu Lawrence, enquanto ela colocava a balsa numa cadeira perto da porta.

Aceito, obrigada.

alguma coisa? — ofereceu Lawrence, enquanto ela colocava a balsa numa cadeira perto da porta. —

Uisque? Vinho? Cerveja?

Uisque com gelo. Ele foi para a cozinha e Nadine foi até o pátio. O sol tinha acabado de se pôr e o céu estava arroxeado, com uma faixa amarela no horizonte. Uma fina nevoa se espalhava sabre o campo à sua frente. Os ouvidos sensíveis de Nadine captavam o som do capim sendo agitado pela brisa. Todos os seus sentidos estavam aguçados naquele fim de tarde, e ela se sentia como um animal selvagem sempre alerta, procurando um sinal de perigo. Por um momento, achou que não conseguiria agüentar passar por aquilo, jantar naquela casa que ela outrora considerava seu lar, conversar com o homem a quem entregara seu coração e tentar ser educada com a mulher que ele escolhera para

casar. Engoliu seco, determinada a ser forte e prosseguir com o que tinha de ser feito. Ele não saberia de nada, ele não podia saber de nada

— Aqui está. — Lawrence the entregou o copo corn uisque. — Sente-se.

— Obrigada — respondeu automaticamente, sentando-se na poltrona mais próxima. — A sua Lily está em casa? Lawrence sentou-se na outra poltrona, esticou suas longas pernas e ficou girando o gelo dentro do seu copo.

— Lily?

— Sim.

— Nos nos divorciamos há dois anos atrás, Nadine. O que a levou a pensar

que eu ainda estivesse casado? Sentindo-se confusa, ela corou e hesitou antes de responder:

— Acho que a notícia de seu divórcio nunca chegou a Nova Iorque. — E então

mudou rapidamente de assunto. — Já voltou para lá alguma vez?

— Não. Conte-me como estão as coisas por lá.

A mesma coisa de sempre. Nada muda. — E só então percebeu o segundo sentido do que acabara de dizer; não queria que ele pensasse que os sentimentos dela não tivessem mudado. Eles mudaram, e de maneira irreversível. Levantou-se abruptamente e desceu os três degraus que davam para o jardim, sentando-se no último e abraçando os joelhos. Por que a notícia do divórcio de

degraus que davam para o jardim, sentando-se no último e abraçando os joelhos. Por que a

Lawrence afetara-a daquela forma? Bem, casado ou não, ele continuava o mesmo bruto egoísta. Ele se aproximou, sem a menor brutalidade, e suas palavras demonstravam compreensão:

Você deve estar achando estranho voltar aqui.

Estou, sim.

O que acha de eu preparar alguma coisa para comermos? Estou morrendo de forme. Assim, você poderá ficar sozinha por algum tempo, se quiser. Se não quiser, venha para a cozinha me distrair — disse sorrindo. Quando Nadine levantou os olhos, ficou mais uma vez espantada, mas desta vez com a simpatia dele. Tinha até se esquecido dessa faceta de Lawrence. Ele foi para a cozinha e ela ficou olhando para o campo. Se, pelo menos, aquele homem não fosse tão atraente e gentil Lawrence sabia ser muito charmoso quando queria, mas, quando não queria, era cruel e egoísta. Ela não podia esquecer desta outra faceta também. Decidiu ir até a cozinha, para que ele não pensasse que o encontro a estivesse deixando perturbada. — Precisa de ajuda — Eu só quero que você se sente e converse comigo. Fale-me das galerias de arte de Nova Iorque. São interessantes? Enquanto ele preparava um delicioso peixe e uma salada colorida, Nadine ficou falando sobre o cenário de artes plasticas em Nova Iorque, que Lawrence tinha abandonado há muitos anos atrás. Ocasionalmente, surgiam perguntas sobre sua vida pessoal, mas ela logo voltava para temas impessoais, achando que ele não tinha o direito de meter-se em sua vida particular. Quando a comida ficou pronta, levaram tudo para o pátio, onde Lawrence abriu uma garrafa de vinho, e jantaram a luz de velas. O anoitecer estava lindo, a comida deliciosa, e Nadine estava feliz não tanto por estar novamente em Fiesole, mas sim por estar com Lawrence. Ele estava com ótimo humor, e conversou sobre diversos assuntos, demorando-se naqueles que mais agradavarn a Nadine. Elogiou-a, dizendo-lhe que

e conversou sobre diversos assuntos, demorando-se naqueles que mais agradavarn a Nadine. Elogiou-a, dizendo-lhe que —

ainda gostava dela, ainda que fosse como amiga. Ela não pode deixar de ficar emocionada, e no final do jantar estava tão à vontade que tirou as sandálias e sentou-se na poltrona, levando consigo sua taça de vinho. Virou mais uma vez a conversa para a Galeria Mills.

Everett Mills me contou que vocês se conheceram. Disse que assistiu a uma exposição sua no ano passado em Florenca. O que achou dele?

Para dizer a verdade, não me lembro muito bem dele. Só me lembro que me

fez uma rápida visita no meu estúdio, mas nos não conversamos muito. Disse que voltaria a entrar em contato comigo para expor as minhas obras.

— Ele sabe que nos já nos conheciamos. Foi voce quem lhe contou?

— Eu não tinha a menor idéia de que você tivesse qualquer ligação com ele — disse Lawrence, mostrando-se surpreso. — Tenho certeza de que não falei sobre você. — Entao, não sei como foi que descobriu. Ele é muito astucioso para descobrir informações deste tipo. Lawrence voltou-se rapidamente, com um olhar muito sério.

— Ele é uma pessoa difícil de se trabalhar?

Nadine corou. Não era uma atitude profissional ficar discutindo sobre seu

patrão com o artista cujas obras ele iria expor.

Oh, não! Eu quis dizer que Mills é muito esperto, essa palavra é melhor. Lawrence não pareceu ficar convencido, e ela emendou rapidamente:

— Ele me falou de um quadro seu que fazia questão que fosse incluído na mostra. Disse que era sua melhor obra e que você também achava isso. Espero poder vê-la.

Lawrence tomou uma atitude de cautela.

Qual é o nome do quadro?

Madrugada toscana. Espero que você ainda não o tenha vendido. Everett faz questão absoluta que ele seja incluído na mostra.

Não, eu ainda não o vendi.

Posso vê-lo? — Ela estava estranhando o tom tenso de Lawrence.

na mostra. — Não, eu ainda não o vendi. — Posso vê-lo? — Ela estava estranhando

Se quiser Subiram até o estúdio, em cima do quarto de Lawrence, e ele acendeu a luminária que ficava sobre a mesa, enchendo o ambiente com uma luz amarelada. Nadine começou a examinar os quadros encostados na parede do fundo, e constatou que ele tinha aprimorado mais ainda sua arte.

Ah, aqui está — disse Lawrence, encontrando o quadro e levando-o para perto de Nadine. Mas só o mostrou quando chegou bem perto da luz. Parecia preocupado. Nadine ficou boquiaberta Estava olhando para si mesma — nua, deitada na cama larga de Lawrence, uma réstia de luz do sol incidindo sobre seus seios e ventre, um lençol branco meio enrolado em torno das pernas, e seus olhos voltados para fora da tela, com uma inconfundível expressão sensual de desejo saciado. Durante um longo momento, o estúdio ficou em profundo silêncio. Nadine não conseguia tirar os olhos do quadro. E então, inconscientemente, começou a soluçar. Lawrence largou o quadro e aproximou-se dela.

Nadine. Ela recuou, escondendo o rosto nas mãos e apoiando-se no peitoril da janela. Como tinha amado aquele homem! Não estava pensando nas vezes em que ele a deixou, nas vezes em que a traiu; ela só conseguia se lembrar de quando lhe acariciava o corpo, murmurando palavras de carinho, das horas em que fizeram amor, ou apenas ficavam juntos. Por algum tempo, esqueceu-se de onde estava e apenas lamentou o amor perdido. Depois de algum tempo, percebeu que ele a havia deixado sozinha no estúdio, e ficou imaginando se sua reação o havia irritado. Mas, mesmo assim, não conseguia parar de soluçar. Por causa dele, teve de assumir sozinha o nascimento e a criação de Jamie; por causa dele, brigou com seus pais; e Lawrence se casou com outra mulher depois de dizer que não queria assumir nenhum compromisso. Em resumo, ele partiu seu coração.

Através das lágrimas, viu que Lawrence tinha voltado e estava colocando um copo em sua mão, impedindo-a de fugir. Ele a abraçou, tentando acalmá-la.

Lawrence tinha voltado e estava colocando um copo em sua mão, impedindo-a de fugir. Ele a

Está tudo bem. Está tudo bem.

Eu preciso ir embora. Por favor, deixe-me ir. Mas ele não deixou. Com muita ternura, massageou-lhe a nuca e as costas, até os soluços e o tremor pararem. Então abraçou-a, e seus corpos ficaram colados. A sensação, que a principio era de conforto, passou a ser de desejo. Segurando-lhe o queixo, Lawrence levantou-lhe o rosto. — Nadine. Tão linda Então seus lábios tocaram os dela levemente, como se temesse que ela pudesse fugir de seus braços. Mas Nadine os agarrou e soltou um gemido. Uma chama se acendeu nos olhos de Lawrence, que segurou o rosto dela entre as mãos e a beijou novamente. Suas línguas se encontraram, a princípio apreensivamente, numa ansiedade quase infantil de que algo pudesse ter mudado desde sua separação. Mas a única coisa de diferente foi o gosto daquele primeiro beijo: estava salgado pelas lágrimas. As mãos de Nadine subiram para os ombros dele e em seguida para a nuca, puxando-o para mais perto. Toda a amargura que sentia dissipou-se. Sentiu-se invadida pelo desejo. Sim, apesar de tudo, depois de todo aquele tempo, ela o desejava. Como o desejava!

Querida, que saudade eu senti de você — A voz, dele estava rouca. Ela desabotoou a camisa de Lawrence e encostou o rosto naquele peito bronzeado, ouvindo seu coração bater acelerado. Então, procurou abrir seu cinto; ele gemeu e procurou mais uma vez os lábios dela. Enquanto sua língua penetrava na boca de Nadine, ele lhe tirou a blusa de seda, deixando-a apenas de sutiã e saia.

Em seguida, Lawrence a levou até o sofá, deitando-a e se ajoelhando ao seu lado. Então, tirou-lhe a saia e ficou olhando embevecido as curvas de seu corpo. Nadine fechou os olhos e sentiu que ele lhe tirava a roupa de baixo e subia com a mão pelas suas pernas, murmurando:

Querida, que saudade Ela nem queria pensar no que estava acontecendo. Há quatro anos que não sentia essas carícias, e estava ansiosa por elas. Envolveu-o em seus braços.

acontecendo. Há quatro anos que não sentia essas carícias, e estava ansiosa por elas. Envolveu-o em

— Meu bem, olhe para mim — pediu ele, beijando-lhe as pálpebras. Mas Nadine não conseguia.

Você é uma mulher maravilhosa — disse ele, com a voz rouca, descendo seu corpo sobre o dela. Nadine o agarrou pelos ombros.

— Já faz tanto tempo! — Ela estava ofegante. — Eu preciso tanto de você

— Eu sei, amor. Eu sei.

O ritmo do amor deles foi aumentando e Nadine enterrou as unhas nas costas

de Lawrence. "Que poder tem este homem, que me afeta tanto?", pensou, por um breve momento, antes de ser levada ao auge do arrebatamento.

— Por favor

— Querida

Ambos explodiram ao mesmo tempo, num estremecimento crescente. Nadine agarrou-se a ele e gritou seu nome em voz alta. Ainda ofegante, abriu os olhos e olhou para Lawrence, que estava com os olhos fechados, acariciando-lhe os cabelos. Então, ele abriu os olhos e os dois ficaram se olhando em silêncio por um longo tempo, até que ele decidiu sair de cima dela.

Nós adiamos isso por muito tempo — disse Lawrence, levantando-a um pouco para que ela pudesse reclinar a cabeça em seu ombro.

Não diga isso. Esta noite nós eu perdi o controle, foi só isso. Não foi nada sério. O corpo dele enrijeceu e ela percebeu que o momento sagrado da comunhão tinha se desintegrado com suas palavras. — Este é um ponto a discutir — respondeu ele. Nadine percebeu que ele estava se esforçando para controlar suas emoções. — Mas não quero fazer isso agora. Vamos descer, está bem? Nós ainda não terminamos o vinho e ainda temos muita coisa para conversar. Assim dizendo, levantou-se e ajudou Nadine a se vestir, fazendo o mesmo em seguida. Nadine ficou surpresa ao ver como o corpo dele não tinha se modificado naqueles quatro anos. Teria Lawrence notado as modificações em seu corpo? Teria notado como o ventre dela tinha ficado mais arredondado e os seios mais maduros e suaves? O importante era que ele não soubesse do motivo daquelas transformações.

e os seios mais maduros e suaves? O importante era que ele não soubesse do motivo

De volta ao pátio, Lawrence encheu novamente as taças de vinho e puxou sua poltrona para mais perto de Nadine.

— Conte-me tudo o que aconteceu depois que você partiu — pediu

Lawrence, chegando mais perto dela, mas sem tocá-la.

— Eu voltei para Nova Iorque. Você sabe disso.

— Eu sei, mas eu quero saber o que aconteceu com você. Foi difícil arranjar emprego? O emprego era bom? Foi bom rever seus pais? Apaixonou-se por alguém? Ela deu um meio sorriso.

Vou responder pela ordem. Sim, foi difícil arranjar emprego, mas arranjei, — Difícil mesmo, uma vez que estava grávida na ocasião. — Sim, era bom. — Aí, hesitou. — Sim, foi bom rever meus pais. — Afinal, não chegava a ser uma mentira, pois quando ela chegou, eles ficaram, radiantes de alegria. Só quando souberam que estava grávida é que não quiseram mais vê-la. — E, não, eu não me apaixonei por ninguém, não estou amando ninguém. Nadine notou que uma sombra passou pelo rosto de Lawrence. Não era possível que ele pudesse ser tão egoísta a ponto de imaginar que ela o continuasse amando depois de tudo o que tinha feito, Sentindo-se irritada, levantou-se e apoiou os braços no muro, dando-lhe as costas. De repente, sentiu uma grande saudade de Jamie.

Nadine.

O que é? — Ela não se virou.

Até agora, só eu fiz perguntas. Você não vai me perguntar nada? Ela engoliu seco.

Não há nada que eu queira saber.

Mas há uma coisa que eu quero que você saiba. Lily. Ele ia falar de Lily. Ela se virou bruscamente.

Por favor, não me conte nada.

que eu quero que você saiba. Lily. Ele ia falar de Lily. Ela se virou bruscamente.

Continuou sentado na poltrona, com as pernas esticadas e os olhos inquisidores pregados nos dela, iguais aos de Jamie quando queria contar-lhe alguma coisa e ter a certeza de sua total atenção. Mas ela se recusava a dar-lhe essa atenção, e ficou com os olhos abaixados, olhando para o copo sem sequer vê-lo.

Lawrence aproximou-se dela.

Precisamos conversar sobre isso — disse calmamente. — Você tem de saber porque eu me casei com Lily apesar de sempre dizer que não queria prender-me a nenhum compromisso. Nadine levantou os olhos, ouvindo o que ele dizia. Por que queria enterrar mais ainda aquele espinho em seu coração? Ou será que o removeria milagrosamente? Ele continuou:

Lily disse-me que estava grávida. Você sabe, ela é italiana, de família católica, e assim sendo não poderia fazer um aborto e nem ter um filho solteira sem cair nas desgraças da sociedade. Sua única saída era que eu me casasse com ela. Foi uma decisão muito difícil para mim, pois eu prezo minha liberdade e independência tanto quanto minha honra e meu senso de responsabilidade. A honra e a responsabilidade venceram, e você sabe por quê, Nadine? Por sua causa. De tanto você falar, alguma coisa acabou ficando, e foi com você que eu aprendi a assumir as minhas responsabilidades. Foi por isso que eu casei com Lily.

Por favor, não diga mais nada. Eu não quero saber dos seus motivos para se casar com Lily. Lawrence ficou nervoso com a resposta de Nadine e entrou em casa. O espinho não tinha sido arrancado, mas também não tinha sido enterrado mais fundo, pensou ela. Nada havia mudado. Mas Jamie tinha um meio-irmão ou meia-irmã em algum lugar do planeta. A idéia deixou-a ainda mais triste, pois provavelmente Lawrence ficaria indiferente à existência de Jamie já que tinha um filho legitimo. Isso deveria deixá-la aliviada, mas ficou arrasada. Sentiu-se totalmente só no universo. Na verdade, tinha Jamie, mas ele estava tão longe!

Ao ouvir Lawrence voltar, sentiu-se mais aliviada. Era preferível ouvir falar de Lily do que ficar sozinha. Sorriu para ele, e os dois falaram ao mesmo tempo:

aliviada. Era preferível ouvir falar de Lily do que ficar sozinha. Sorriu para ele, e os

Desculpe-me

Desculpe-me E então riram nervosamente.

— Quer um conhaque? — ofereceu Lawrence, colocando dois cálices e a garrafa de conhaque sobre a mesinha.

Ela deu uma olhada no relógio. Ao ver seu gesto, Lawrence comentou sorrindo:

— Eu não vou falar de nada que você não queira ouvir. Não vá embora ainda. Não é nem meia-noite. Nadine voltou para a poltrona e riu, dizendo:

Meia-noite! Em Nova Iorque, às dez eu já estou na cama. Eu tinha me esquecido de como você dormia tarde. Tomando um gole do conhaque que ele lhe ofereceu, Nadine sentiu uma onda de calor invadir seu corpo, evaporando a tristeza que sentira momentos atrás.

Você dorme cedo mesmo? — perguntou ele.

Não há razão para não dormir. Afinal, eu tenho de me levantar às seis e

meia

Seis e meia! Que loucura! Eu nunca consegui sair da cama antes do

meio-dia.

Eu sei. — É claro que ela se lembrava, pois naqueles tempos, ficavam até a madrugada fazendo amor, conversando e fazendo amor de novo.

Mas por que você tem de se levantar tão cedo? Você só começa a trabalhar na galeria às dez, não é?

É, mas é que — Ela ficou atrapalhada, percebendo que quase tinha revelado o fato de que tinha de deixar Jamie na escola às oito e vinte. — Eu tenho muita coisa para fazer de manhã — explicou, evitando o olhar dele.

Você mora sozinha? Ela o olhou, assustada.

Como assim?

Você mora com alguma amiga?

Não. — Seu filho não era bem uma amiga.

o olhou, assustada. — Como assim? — Você mora com alguma amiga? — Não. — Seu

Um namorado?

Não.

Por que não? — perguntou, franzindo a testa.

Isso o surpreende?

Muito. Você é uma pessoa que nasceu para se dar, e eu não consigo imaginá-la sem alguém para receber. Era uma bobagem ficar emocionada com aquelas palavras casuais, mas ela ficou. Tomou mais um gole de conhaque.

Eu me dou ao meu trabalho e aos meus amigos. E realmente não estou interessada em ter um relacionamento mais sério com ninguém.

Anda ocupada demais?

O motivo não é bem este. É que eu não quero me envolver num — Hesitou por um momento. — Num caso incerto mais uma vez. Eu iria querer um compromisso total, pois preciso de segurança.

Como você mudou!

É. Aliás, talvez eu nem tenha mudado; talvez eu sempre tivesse sido assim e não soubesse. Você foi tão eloqüente nos seus argumentos de amor livre que eu me deixei convencer por algum tempo. Mas depois percebi que não acreditava numa relação sem compromisso.

E se você se apaixonasse de novo? Será que o amor lhe daria segurança?

Oh, não. — Ela olhou rapidamente para ele e baixou os olhos para o cálice novamente. — Acho que é exatamente o contrário, a julgar pela minha experiência.

Você quer dizer que se um homem a pedisse em casamento e você não o amasse, ainda assim se casaria?

Se eu simpatizasse com ele

E se você amasse um sujeito que não quisesse-se casar com você, concordaria em ter um caso com ele? Ela concordou com um aceno de cabeça, dizendo:

É por isso que esta noite foi um — Ela hesitou.

um caso com ele? Ela concordou com um aceno de cabeça, dizendo: — É por isso

— Sim, eu entendo. — E, então, sua voz ficou gentil. — Bem, afinal, todos nós aprendemos com nossos erros, não é verdade? Meu casamento com Lily foi tão

desastroso e o divórcio tão agradável, que eu jurei nunca mais me casar. Cheguei à conclusão de que meus instintos iniciais estavam certos. Amor livre e casos passionais são bem mais gratificantes.

— Perfeito — disse ela, sorrindo. — Cada um de nós está bem protegido do

outro. Sentindo-se meio alta, Nadine serviu mais uma dose de conhaque para os dois. Ela sabia que já estava na hora de ir embora, mas não queria. Ainda não.

Onde está seu filho? — perguntou, enrolando as pernas embaixo do corpo. Ele olhou para ela, espantado.

— O quê?

Você disse que se casou com Lily porque ela estava grávida.

Ah! Você não me deixou terminar. Não havia filho nenhum. Lily não estava grávida. Mentiu para forçar-me a casar com ela.

Oh, não! — Nadine sentiu pena dele. Não era à toa que ele era tão cínico no que dizia respeito ao casamento.

Essa história toda mudou meu conceito de casamento e família. Chega a ser engraçado, porque, quando Lily me disse que estava grávida, eu fiquei feliz com a idéia de ser pai, mas agora detesto. Nadine ficou chocada. Que coisa horrível de se dizer, pensou, lembrando-se de seu filho, sem pai, em Nova Iorque. Colocou o cálice na mesa.

Eu disse algo de errado?

— Nada que você já não tivesse dito antes. — Ela se levantou e entrou em

casa. Já havia sentido tantas emoções diferentes naquela noite, que essa raiva final por causa de Jamie foi apenas a gota d'água nas suas emoções.

Tudo bem. Estou pronto. — Lawrence apareceu ao lado dela, com as chaves do carro na mão.

nas suas emoções. — Tudo bem. Estou pronto. — Lawrence apareceu ao lado dela, com as

Desceram pelo jardim e entraram no carro em silêncio, continuando assim até chegarem ao hotel. No caminho, Nadine ia pensando em Jamie: "Pobre criança. O que tinha feito para merecer um pai daqueles?" Quando ele encostou o carro diante do hotel, Nadine desceu, bateu a porta e começou a subir a escadaria. Então, Lawrence desceu rapidamente do carro e, antes que ela chegasse ao alto da escada, segurou-a pelo pulso com tanta força que chegou a machucá-la. Estava com tanta raiva quanto ela.

Por que você bateu a porta daquele jeito?

Solte-me. — Ela estava furiosa.

Responda.

Solte-me. Nadine lutou para livrar-se do beijo dele, mas foi em vão. Sentiu sua boca esmagada pela dele e estava presa em seus braços. "Desgraçado, desgraçado, desgraçado." Fazia tempo que ela não o xingava assim, mas não podia deixar de responder, mesmo em pensamento, àquele beijo brutal. De repente, ele a soltou. — Eu lhe telefonarei amanhã. Temos negócios a tratar. Ela não conseguiu responder. Será que ele não via o quanto ela o odiava? Empurrou a porta giratória com tanta força, que antes que pudesse dar dois passos, já havia dado a volta completa. Bateu a porta do quarto com toda a força, sem se importar com os outros hóspedes. Arrancando as roupas, tomou um banho, pretendendo lavar tudo o que havia sido sujo pelo toque de Lawrence. Sim, amanhã eles iam tratar de negócios, e só de negócios! Se pudesse, nunca mais o veria. Nunca mais. Ao engolir acidentalmente um pouco de água, estranhou que estivesse salgada; e só quando saiu do chuveiro e se olhou no espelho, é que percebeu que estava chorando de novo. — Eu estou cansada — disse, saindo do banheiro sem terminar de se enxugar. — Eu só estou cansada. Caiu na cama limpa e enterrou o rosto no travesseiro.

do banheiro sem terminar de se enxugar. — Eu só estou cansada. Caiu na cama limpa

Capítulo Cinco

No dia seguinte, Nadine acordou com uma leve ressaca. Com os olhos semicerrados, viu que a roupa que usara no dia anterior estava toda espalhada pelo chão. Como tinha dormido com o cabelo molhado, o travesseiro estava úmido e achatado. Sentando-se na cama, tentou rememorar o que tinha acontecido na casa de Lawrence. A doce lembrança de ter feito amor com ele no estúdio fez com que ela fechasse os olhos por um breve instante. Quando já ia se levantando da cama, o telefone tocou.

— Alô?

— Oi, Nadine. Dormiu bem? — Era Lawrence, bem acordado, alerta, confiante.

— Sim, obrigada.

— Já tomou seu café?

— Ainda não. — "Onde ele arruma tanta energia?", pensou.

— Então, você vai sair comigo, está bem? Apanho-a daqui a meia hora.

Nadine lembrou-se de que eles ainda precisavam combinar tudo a respeito da exposição, pois quase nem tinham tocado no assunto na noite anterior. Quanto antes tratasse disso, mais cedo voltaria para Jamie.

— Está bem.

— Encontro você no saguão.

— Combinado. Então, até já.

Se Lawrence pretendia tratá-la cordialmente, ela teria de corresponder a isso. A noite anterior havia sido tumultuada demais para ser revivida, ainda que fosse em pensamento, principalmente aquela parte em que tinha ficado furiosa quando ele disse que detestava a idéia de ser pai. Todos os seus instintos maternais haviam se revoltado ao pensar em Jamie. Mas agora achava que sua reação tinha sido absurda. Primeiro, porque seria ridículo esperar que Lawrence dissesse que estava ansioso para descobrir que tinha um filho em algum lugar no mundo; e, segundo, ela deveria estar

dissesse que estava ansioso para descobrir que tinha um filho em algum lugar no mundo; e,

aliviada por saber que, caso ele soubesse da existência de Jamie, não iria querer a custódia dele. Quando Nadine chegou ao saguão, ele ainda não havia chegado. Sentou-se para esperá-lo, forçando um ar de indiferença.

Bom dia. — Lawrence ia beijá-la no rosto, mas foi impedido pela mão que ela lhe estendeu num cumprimento formal.

Bom dia, Lawrence. Onde vamos tomar café? Estou esfomeada. Ele soltou sua mão e continuou a olhá-la nos olhos, enquanto ela se levantava, encaminhando-se para a porta. Lawrence não comentou a discussão da noite anterior, mas insistiu que os negócios poderiam esperar até que Nadine tivesse a chance de rever os pontos pitorescos de Florença. Depois de passarem algumas horas passeando pelos lugares que Nadine mais gostava, foram almoçar num restaurante. Lawrence pediu uma garrafa de vinho para acompanhar o peixe que haviam pedido. Passaram horas conversando, trocando idéias sobre a exposição, aparentemente em total descontração. Depois da segunda rodada de café, continuaram conversando, sem nem mesmo perceberem que eram as únicas pessoas dentro do restaurante. "Será que ele não vê", pensou Nadine quando se levantaram para sair, "como é difícil, para mim, manter esta farsa de amizade? Será que ele não entende?" Mas Lawrence continuava conversando como se fosse a coisa mais natural do mundo, como se eles se vissem todos os dias. Nadine, por uma questão de orgulho, continuou a manter as aparências, e foi só no fim da tarde que, acidentalmente, deixou que ele percebesse a profundidade de seu sofrimento. Ele fizera questão de levá-la ao campanário, de onde se descortinava uma vista maravilhosa da cidade e das montanhas que a cercavam. Nadine sabia que não deveria correr aquele risco, pois recentemente havia adquirido fobia de altura. Como não queria que ele soubesse, encheu-se de coragem e subiu no elevador da torre. Mas, ao chegar ao alto, sua coragem acabou, e ficou agarrada à parede junto à porta do elevador. Quando Lawrence deu por falta dela, voltou imediatamente.

e ficou agarrada à parede junto à porta do elevador. Quando Lawrence deu por falta dela,

O que aconteceu? Ela estava tremendo. Com os olhos fechados, não conseguia parar de se imaginar caindo lá para baixo, uma vez atrás da outra. Sem perceber, segurou com força a mão de Lawrence.

Nadine, o que foi? Ela não tinha coragem de falar, com medo de começar a gritar histericamente. O elevador voltou e Lawrence a levou para baixo. Nadine saiu da torre agarrada a Lawrence, com os joelhos trêmulos. Ele a levou até um banco de jardim, onde se sentaram. Ela recostou a cabeça no ombro dele.

Conte-me o que aconteceu.

Agora, que ela estava em terra firme, já se sentia capaz de responder.

— Não é nada grave. Eu é que, de vez em quando, tenho vertigem. Pensei que já tivesse superado este problema, mas pelo jeito me enganei.

— Vertigem!? — Ele não escondeu sua surpresa. — Você nunca teve medo de altura. Nós já viemos tantas vezes ao campanário!

— Eu sei. Tudo começou depois que eu voltei para Nova Iorque.

— Mas, afinal, o que aconteceu em Nova Iorque que a fez mudar tanto? Não vai me contar? Ela o olhou com nervosismo, mas respondeu calmamente;

Não acha que a causa de toda essa mudança pode ter sido você mesmo? Você foi cruel comigo. Pior ainda, foi indiferente. Deveria imaginar que esse tratamento acabaria me afetando de alguma maneira.

Eu nunca fui indiferente a você.

Indiferente a ponto de me trocar por outra.

Eu não a troquei por ninguém. — A voz dele continuava calma. — Você apenas exagerou o que fiz. Eu fui honesto desde o principio: queria minha liberdade e independência, e também queria você. Como me aceitou nesses termos, foi você quem me abandonou. Mas não guardei rancor por quatro anos devido a sua

você. Como me aceitou nesses termos, foi você quem me abandonou. Mas não guardei rancor por

possessividade e seu ciúme. Terá de abandonar a ilusão de que era uma companheira e amante perfeita e que eu era um bastardo. Nadine apoiou o queixo nas mãos e ficou olhando para os tufos de capim à beira do passeio.

— Talvez você tenha razão — disse ela finalmente. — Mas isso não é uma

questão de certo ou errado. Você era mais velho e mais experiente do que eu, e

podia ver melhor as coisas. Devia entender o fato de eu sentir saudades dos meus pais, por mais que falasse mal deles para você. E também devia entender o meu ciúme, ao invés de brigar e sair de casa. Lawrence enfiou as mãos nos bolsos e ficou olhando para o pé dela, que roçava as pedras do calçamento num movimento para frente e para trás.

— Eu esperei demais de você, tem razão. Principalmente, considerando

sua idade e posição social.

— E eu esperei demais de você, considerando sua falta de sensibilidade e seu egoísmo.

— Meu único erro foi o de fazer o que eu sempre disse que faria.

Arrasada diante do argumento dele, Nadine sentiu um aperto na garganta. Aquele homem não tinha mais nenhum poder sobre as emoções dela; então, por que ela sentia toda aquela tristeza diante do desprezo dele, diante da idéia de sua iminente separação, diante da idéia de que Jamie jamais viria a conhecer seu pai?

E o meu único erro foi o de me apaixonar por você. E também de ser cega a ponto de não ver que você não me amava, e que em pouco tempo se cansaria de mim. Simplesmente, jamais me ocorreu que você um dia poderia deixar de me amar, de me querer. — Levantou-se bruscamente, num esforço para que ele não visse a agonia estampada em seu olhar. — Provavelmente, foi por isso que eu fiquei com medo de altura: eu me apaixonei e não havia ninguém para me segurar quando caí de uma das nuvens. Lawrence não respondeu e eles começaram a caminhar. Em contraste com a descontração de algum tempo atrás, havia agora um silêncio incômodo entre eles. Mas Nadine não se arrependeu do que tinha dito. Se ele pretendia passar a vida magoando mulheres, era melhor que soubesse o dano que lhes causava.

do que tinha dito. Se ele pretendia passar a vida magoando mulheres, era melhor que soubesse

Eu não pretendia que nossa conversa se voltasse para um nível, tão pessoal —

É melhor falarmos apenas de negócios.

Como é que nós podemos deixar de ser íntimos depois do que aconteceu na

noite de ontem? — Lawrence parecia nervoso. — Você não sentiu nada quando fizemos amor? Ela continuou a caminhar em silêncio.

— Responda — insistiu. — Não sentiu nada?

Aquilo foi apenas um lapso; uma combinação de cansaço de viagem com um hábito antigo. Eu não estou interessada em ter um caso amoroso com ninguém, muito menos com você. Eu só quero segurança, apoio financeiro, compromisso, fidelidade Ele a interrompeu bruscamente:.

Você não respondeu minha pergunta. Os olhos dela se apertaram.

Não, Lawrence. Eu não senti nada quando fizemos amor. Certamente, nada

a ponto de querer repetir a dose. — Então, ela colocou uma pitada de sarcasmo na voz: — Mas não se preocupe, pensando que não terá ninguém em Nova Iorque. Tenho certeza de que acharemos alguém para você. Eu colocarei um anúncio, e você selecionará as candidatas quando chegar.

O olhar de Lawrence ficou sombrio, e, por um momento, Nadine temeu que

tivesse passado dos limites. Mas ele conseguiu controlar-se.

Vou levá-la de volta para o hotel. Amanhã de manhã resolveremos tudo o que falta ser decidido para a exposição.

Seria bom. Estou pensando em reservar minha passagem para amanhã à

tarde.

Lawrence não respondeu, e fizeram o resto do caminho em silêncio. Na despedida, ele foi totalmente frio:

— Até amanhã. — E girou sobre os calcanhares, voltando para o carro.

Nadine ficou olhando para ele, e então dirigiu-se rapidamente para o elevador. Mais do que nunca, queria estar a salvo com Jamie em seu pequeno apartamento,

dirigiu-se rapidamente para o elevador. Mais do que nunca, queria estar a salvo com Jamie em

cozinhando, lendo, dormindo sozinha e em segurança. O ritmo e o tédio de uma semana de trabalho pareciam o paraíso se comparados com o tumulto emocional pelo qual passara nos dois últimos dias. Abriu a porta do quarto e bateu-a com força, como se quisesse fechar também suas emoções em conflito. Mas, assim que ficou sozinha, Nadine sentiu remorsos por ter sido rude com Lawrence, e apertou o estômago com força. Havia nele tanta ternura e compaixão, tanta compreensão, inteligência e humor, que sua vontade era a de esquecer o passado, esquecer suas: mágoas e obedecer apenas ao desejo de simplesmente ficar com ele. Não era verdade que ela não tinha sentido nada quando fizeram amor: até agora estava com medo do que havia sentido. A paixão ardente que havia se acalmado em seu peito retinha um calor que se incendiava ao contato das mãos e dos lábios dele. Nadine tentara sufocar o desejo causado pelo seu jeito viril de fazer amor, mas, em apenas algumas horas na companhia dele, seu corpo tinha sucumbido. Se ela deixasse, seu coração também viria a sucumbir? Será que seu coração esqueceria, assim como na noite anterior seu corpo traidor tinha esquecido, a mágoa que Lawrence um dia lhe causara e poderia causar novamente? "O melhor é esquecer tudo", pensou, tirando as sandálias e esticando-se na cama macia. Esquecer, esquecer, esquecer. As palavras ecoaram em seu cérebro. Esquecer o passado, esquecer o amor por Lawrence, esquecer a amargura. Se ela conseguisse fazer isso, poderiam ser amigos. Era estranho, mas agora queria ser amiga de Lawrence. Já que não podiam ser amantes, ela pelo menos queria ocupar um lugar especial no coração dele, como amiga. Virou-se de bruços e enterrou o rosto no travesseiro. Como podiam ser amigos? Como era possível ignorar as batidas frenéticas de seu coração ao vê-lo, ao tocar nele? Numa amizade não havia lugar para tanta sensibilidade e tanta carga emocional. Amigos não podiam agir como pólos opostos de um ímã, atraídos de maneira irresistível um pelo outro, pela força da atração física. Tentando superar aquele sentimento de desolação, Nadine pegou o telefone para fazer sua reserva no vôo do dia seguinte, à tarde.

aquele sentimento de desolação, Nadine pegou o telefone para fazer sua reserva no vôo do dia

Capítulo Seis

Não, ele não mudou muito — disse Nadine, evitando o olhar de curiosidade

da irmã.

Você encontrou a mulher dele?

Eles se divorciaram há dois anos. — Embora estivesse esperando essas perguntas, Nadine não tinha vontade de descrever em detalhes sua visita a Florença. Charlotte continuava hostil a Lawrence, como sempre. A conversa se tornou difícil, pois os sentimentos de Nadine haviam mudado há algumas semanas. O fato de rever as razões da separação teve peso, embora ela não o admitisse na ocasião, pois pôde compreender que a culpa não era única e exclusivamente dele. Ela tentou sugerir isso a Charlotte, mas sem êxito.

Ele a enganou e a abandonou com um filho! A culpa é toda dele! Diante disso, Nadine mudou de assunto. Estava preocupada com Jamie. Desde que viajara, ele havia se tornado uma criança mais difícil. Agora, que ela estava cuidando dos preparativos da exposição, ele ficava, quase o tempo todo em que não estava na escola, sob os cuidados complacentes de Charlotte. Nadine já havia recebido mais, de uma queixa da professora, que reclamava da desobediência de

Jamie. Não via a hora de a exposição terminar, para que pudesse dedicar mais tempo

ao filho, que se mostrava cada vez mais ressentido das longas ausências dela. Setembro transcorreu num torvelinho de atividades e dificuldades. Satisfeito com

a organização da mostra, Everett cercava Nadine de atenções e mostrava-se

aborrecido por ela insistir em recusar seus convites para sair. Ele fazia perguntas íntimas e constantes a respeito da estada de Nadine em Florença, e ela só

conseguiu colocar um ponto final no assunto quando respondeu com uma firmeza que beirava a grosseria.

Florença, e ela só conseguiu colocar um ponto final no assunto quando respondeu com uma firmeza

Você me mandou para Florença para tratar dos detalhes administrativos da mostra. E foi o que fiz. Não há nada mais que eu tenha de prestar contas. — E, procurando controlar-se, saiu da saia dele, fechando a porta com força.

Alguns dias antes de Lawrence chegar, Everett chamou Nadine à sua sala e deu-lhe ordens estritas no que dizia respeito à estada do artista em Nova Iorque. Queria que ela passasse o maior tempo possível com Lawrence.

Enquanto os quadros de Stebbing estiverem em nossa galeria, ele será nosso cliente, e eu quero que seja tratado com o respeito que nossos clientes merecem. Isso inclui esperá-lo no aeroporto, acompanhá-lo em visitas a museus, galerias, teatros. A única coisa que eu quero é que você me avise de antemão quais os lugares em que ele irá. Use a verba de representação para almoços, drinques e jantares.

Mas há ainda muita coisa para ser resolvida aqui na galeria, e ele chegará na quinta-feira!

Faça uma lista de tudo o que precisa ser feito. Donna cuidará disso. — Ele acendeu um cigarro e soprou a fumaça. Nadine ficou olhando desconfiada para Everett, tentando adivinhar o que estava preparando. — Stebbing sabe da existência do seu filho?

Não. — A voz dela era calma. Será que Everett sabia que Jamie era filho de Lawrence?

Vou fazer um trato com você, benzinho. Se fizer exatamente o que eu disser, Stebbing não ficará sabendo por meu intermédio que tem um filho. Ela empalideceu ao perceber que ele sabia. — Não fique tão espantada. Meus poderes de dedução não são tão maus assim. A Madrugada toscana foi pintada vários meses antes do nascimento de seu filho. Eu a conheço e sei que você não é uma moça promíscua; a dedução lógica é que Lawrence é o pai de seu filho. — Deu mais uma tragada no cigarro. — Quer dizer que ele não sabe, não é? Nadine mostrava nos olhos toda a raiva que estava sentindo.

Não quero que ele saiba.

que ele não sabe, não é? Nadine mostrava nos olhos toda a raiva que estava sentindo.

Eu já lhe disse que ele não ficará sabendo, a não ser que você não cumpra a sua parte do trato. Confie em mim. — Tirou uma pasta da gaveta. — Aqui está o seu roteiro. Quero que o siga.

Ela abriu a pasta e viu que continha uma relação detalhada de entrevistas coletivas, excursões, restaurantes e festas a que eles deveriam comparecer, juntamente com comprovantes de reservas, passes e convites formais, num envelope do lado. Nadine procurou esconder seu desespero.

Eu não posso abandonar meu filho dessa maneira. Não sou obrigada a trabalhar à noite. Farei todo o resto, mas tenho de passar as noites com Jamie.

Sinto muito, benzinho. Você fará tudo o que está na lista. Caso contrário, Stebbing ficará sabendo da existência de Jamie, e você não terá mais nenhuma noite com seu filho. Você sabe o que acontecerá se ele descobrir, é claro. Não conseguiria convencer nenhum júri de que pode cuidar sozinha de uma criança, com o seu salário.

Parece que você se esqueceu de uma coisa. — A garganta dela estava

seca.

E o que é?

O próprio Lawrence Stebbing. Ele não vai querer fazer a metade dessas coisas. E se ele se recusar?

Eu conto com você para fazer com que ele não recuse nada. Nadine cruzou os braços, lutando para não perder o controle.

Por que está fazendo isso? Não havia qualquer expressão nos olhos de Everett.

A única coisa que me interessa é o sucesso da minha galeria, e isso depende dessa exposição. Não tenho qualquer outro motivo. Eu quero que a mostra seja um sucesso, e, com a sua colaboração, será. Durante um longo momento, eles se olharam com desconfiança mútua, e então Nadine saiu da sala. Sentiu um arrepio só de pensar nas dificuldades que encontraria. Não sabia o que se passava na cabeça de Lawrence. E se ele não quisesse passar doze

nas dificuldades que encontraria. Não sabia o que se passava na cabeça de Lawrence. E se

horas por dia com ela? E se quisesse arranjar uma mulher para passar a noite? Ela certamente não seria essa mulher! Desta vez, não!

Entrou em sua sala e fechou a porta. Havia uma maneira de resolver esse problema, é claro. Era só contar a Lawrence sobre Jamie. Mas, e se Lawrence mudasse de idéia e resolvesse levar Jamie para Florença? Ela não poderia expor Jamie a uma disputa pela custódia no tribunal, mesmo porque nem teria dinheiro para isso. Everett tinha razão:

até ela ter absoluta certeza de que poderia confiar em Lawrence, ele não poderia saber sobre Jamie.

Alguns dias mais tarde, Nadine acordou curiosamente feliz, do jeito que costumava acordar no dia de seu aniversário quando era pequena. Por um momento, ficou sem saber por que seu coração estava batendo tão depressa, e então lembrou-se: Lawrence iria chegar naquele dia.

Procurou abafar seu entusiasmo. Já fazia um mês que não via Lawrence, e, apesar de terem conversado pelo telefone diversas vezes, as conversas tinham sido sempre curtas e impessoais. "Talvez ele esteja feliz por ter se livrado de mim", pensou, lembrando-se com remorsos de seu comportamento vingativo, imaturo e mal-humorado.

Lawrence não se mostrou surpreso por ser recebido por Nadine no aeroporto Kennedy. Enquanto eles se cumprimentavam com um demorado aperto de mão, Nadine ficou espantada por sentir-se iluminada pelos flashes de diversas máquinas fotográficas.

Bem-vindo a Nova Iorque, senhor Stebbing. — Um homem aproximou-se deles, com um bloco na mão. — Está feliz por voltar a esta cidade? Lawrence olhou para Nadine e franziu a testa. Ela estava perplexa.

Muito contente — respondeu secamente, tentando passar pelo homem, que insistia em barrar-lhe a passagem.

Pretende demorar-se aqui? Lawrence conseguiu livrar-se dele, levando Nadine pelo braço e carregando uma mala na outra mão. Enquanto esperavam pelo táxi, as luzes dos flashes faziam com

Nadine pelo braço e carregando uma mala na outra mão. Enquanto esperavam pelo táxi, as luzes

que diversas pessoas olhassem para eles. Uma mulher gorda, muito maquilada, surgiu não se sabe de onde e abordou Nadine.

Senhorita Barnet, esta é a primeira vez que encontra o senhor Stebbing após quatro anos? Nadine ficou irritada, desejando profundamente que a fila do táxi andasse.

Não vejo em que isso possa ser de sua conta — respondeu, dando-lhe as

costas. A fila andou mais rápido, e em pouco tempo estavam dentro de um táxi.

Hotel Pierre, por favor. 5. a Avenida, esquina com a rua 60.

Esses sujeitos ficam o tempo todo no aeroporto fotografando todos os que chegam, na esperança de fotografar alguém famoso? — perguntou Lawrence, voltando-se para Nadine. Ela fez um comentário brincalhão, mas uma suspeita surgiu em sua mente. Teria Everett providenciado que a imprensa fosse ao aeroporto? Será que ele achava que Lawrence aceitaria bem aquele tipo de publicidade, ainda que fosse pelo bem de sua exposição? Será que ele queria que ela estivesse sempre junto de Lawrence para chamar a atenção do público e, assim, ganhar notoriedade? Lembrando-se do péssimo relacionamento que Lawrence tinha com os fotógrafos na Itália, Nadine torceu para que Everett não tivesse feito a besteira que ela receava. Quando chegaram ao hotel, o porteiro apressou-se em abrir a porta do carro. Nadine pagou pela corrida, pegando uma nota fiscal para acertar com Everett, e acompanhou Lawrence ao balcão de recepção, onde ele se registrou. Em seguida, foram levados ao quarto, que dava para o Central Park. Nadine ficou espantada com a prodigalidade de Everett. Era um quarto grande e luxuoso, com uma cama larga, televisão, carpete macio, duas poltronas e um balcão, do qual ela não teve coragem de se aproximar.

Gostou do quarto? — perguntou. Ele ficou surpreso pelo tom de ansiedade dela.

Será que seu patrão acha que eu vou cancelar a exposição se não gostar do quarto? Não se preocupe. Está ótimo. Posso pedir uma bebida para nós? Nadine sacudiu a cabeça.

se não gostar do quarto? Não se preocupe. Está ótimo. Posso pedir uma bebida para nós?

Eu vou indo, para que você possa desfazer suas malas e se acomodar. Além disso, preciso voltar para o escritório para terminar algumas coisas. — E, de costas, aproximou-se da porta. Lawrence tirou o paletó, jogando-o sobre a cama, e soltou o nó da gravata.

Então, janta comigo? Você precisa me pôr a par de tudo o que está acontecendo. Ela sorriu timidamente.

Não sei se vai gostar disso, Lawrence, mas você terá de jantar comigo todos os dias, até a inauguração de sua exposição. E não é só jantar. Lawrence parou com a mão na gravata e levantou uma sobrancelha. Rapidamente, Nadine explicou:

— Everett quer que eu o acompanhe em tudo: café da manhã, almoço, jantar,

coquetéis, vernissages e festas. Tentei explicar que você não é muito dado a este

tipo de coisas, mas ele não quis me ouvir. Espero que não se importe. A expressão dele era enigmática. Jogou a gravata nas costas da cadeira e abriu os três primeiros botões da camisa.

— Quer dizer que eu terei o prazer de sua companhia em todas essas funções?

— Receio que sim. — Sentia-se constrangida.

— Então, tenho certeza de que vou adorar. O que temos programado para esta

noite?

— Só o jantar. Eu consegui convencer Everett de que você estaria cansado

demais da viagem para ir a uma festa no Studio 54 hoje à noite. Mas, se quiser, podemos ir.

— Que festa é essa?

— E em homenagem a um estilista, Solomon Arpeggio. Ele está fazendo o

maior sucesso com um novo tipo de suspensórios que criou. — Vendo a expressão

dele, Nadine caiu na risada. — Esqueça a festa. Não faz o seu gênero. Ele também riu.

— Tem razão. Mas vamos jantar. Teremos companhia? Nadine hesitou.

riu. — Tem razão. Mas vamos jantar. Teremos companhia? Nadine hesitou. — Não. Seremos só nós

Não. Seremos só nós dois. Everett

Já sei. Everett mandou, Everett achou, Everett disse, você prometeu a Everett! Já entendi. Não quer jantar comigo, mas ele a está obrigando. O que não entendo é como consegue obrigá-la, logo você, a fazer alguma coisa que não queira. Ela tentou gracejar, rindo.

Chantagem, é claro. — Então, baixou os olhos, — Nós temos reservas para as sete e meia, na Taverna Verde. Passarei aqui às sete. Vai ser gostoso atravessar o parque a pé. Ela estava inquieta pela maneira com que ele a olhava. Será que Everett já o avisara da vernissage à qual deveriam comparecer às cinco horas, e Lawrence

estava esperando que ela mencionasse o assunto? Ela pretendia dizer a Everett, no dia seguinte, que Lawrence não estava disposto a ir. Ela precisava ver Jamie naquele fim de tarde, nem que fosse por pouco tempo, já que ia sair à noite. — Ótimo. — Ele estava parado, com os braços cruzados, esperando que ela dissesse alguma coisa, ou saísse, ou fizesse alguma coisa, afinal de contas. Nadine hesitava, sem saber se deveria ou não mencionar a vernissage. — Acho que está ansiosa para voltar à galeria e receber instruções de Everett sobre o que deverá me dizer durante o jantar. Você vai voltar para a galeria, não vai? Muito sem jeito, Nadine assentiu. Ela detestava mentir. Lawrence foi até a porta, abriu-a, e disse sorrindo:

— Então, até às sete.

Na porta do hotel, Nadine hesitou, sem saber se ia direto ver o filho, ou se passava antes na galeria. Se Everett descobrisse que eles não tinham ido à vernissage, e soubesse que ela não tinha voltado à galeria, será que cumpriria sua ameaça? Não, provavelmente não queimaria seus trunfos tão cedo, pois ela ainda poderia lhe ser de grande utilidade. Além do mais, como saberia se eles tinham ido ou não à vernissage? Assim, tomou sua decisão e dirigiu-se à casa da. Irmã. Charlotte ficou furiosa com a atitude de Everett, e sua sugestão para resolver o problema era muito simples: contar a verdade a Lawrence.

Mas, se ele ficar sabendo, tenho quase certeza de que vai querer tirar Jamie de mim.

contar a verdade a Lawrence. Mas, se ele ficar sabendo, tenho quase certeza de que vai

Bobagem! Um pai natural tem menos direitos sobre o filho do que a

mãe!

Mas, quando acontece de o pai ser rico, famoso e determinado, e de a mãe ser pobre e trabalhar fora o dia inteiro, posso assegurar-lhe que o pai tem tanta chance quanto a mãe de ficar com a custódia do filho.

Quando Steve voltou do trabalho, deu toda a razão a Charlotte.

Você vai passar o tempo todo com medo de que ele venha a descobrir tudo sobre Jamie de alguma outra maneira. E tudo indica que isso acabará acontecendo. Conte a ele, Nadine. Você se sentirá bem melhor.

Apesar do que foi dito, o máximo que conseguiram arrancar dela foi uma promessa de pensar no assunto e de que talvez contasse tudo a Lawrence dentro de alguns dias.

Quando Jamie ficou sabendo que a mãe ia jantar fora, teve mais um de seus acessos de mau humor e foi emburrado para o quarto. Quando Nadine quis conversar, ficou desenhando e nem olhou para ela. Sentando-se na beirada da cama, ela disse:

Meu filho querido, você sabe que mamãe tem de trabalhar para ganhar dinheiro e a gente poder viver. Estou saindo porque é o meu trabalho. Você sabe que, se eu pudesse, ficaria com você. Mas não posso. Eu vou sentir muita falta sua. Não pense que estou saindo porque quero.

Aonde você vai?

Eu vou jantar. E vou voltar para dormir aqui, para que amanhã de manhã a gente possa tomar o café juntos numa lanchonete, antes de irmos para a escola. Só nós dois. O que você acha?

Eu não quero dormir aqui. Quero ir para casa. Querido, eu sei disso. Eu também queria. Mas, na vida, às vezes a gente tem de fazer coisas que não quer. Seja bonzinho e ajude a mamãe. Em menos de uma semana, tudo isso vai terminar e nossa vida voltará ao normal. Está bem assim? Ela viu que Jamie estava lutando para não chorar, e então abraçou-o com carinho. Ele não pôde conter um soluço.

Ela viu que Jamie estava lutando para não chorar, e então abraçou-o com carinho. Ele não

Está bem, mamãe. Charlotte escolheu um vestido lindo para emprestar a Nadine, comprado na época em que ela era bem mais magra. Era de seda pura verde-esmeralda, com um decote em V na frente, que ia até a cintura.

Você vai ficar maravilhosa com este vestido.

Mas, Charlotte, é um jantar de negócios — protestou Nadine, rindo. — E meu negócio não é levar Lawrence para a cama. Vamos ver outro. Mas Charlotte gostava de vestidos sensuais, e cada um que tirava do armário era mais audacioso que o anterior. Com um suspiro profundo, Nadine pôs o vestido verde e se olhou no espelho.

Você está deslumbrante! — exclamou Charlotte com entusiasmo. — E está certinho em você! Oh, Nadine, como é que eu fui engordar tanto?

Você não está gorda. Você está gostosa e sabe que Steve a prefere assim. Portanto, não reclame. — E apertando os olhos girou diversas vezes pelo quarto, fazendo o vestido subir em ondas suaves. Ele era realmente maravilhoso, e Nadine estava certa de que Steve tinha pago uma fortuna por ele.

Acho que só o usei uma vez — disse Charlotte com tristeza. — Que desperdício! Nadine concordou, mas não disse nada. Pelo menos, quando Lawrence a visse naquele vestido; não iria desconfiar da vida apertada que levava. Só de pensar nas poucas roupas que tinha em seu pequeno armário, teve vontade de rir. Mas aquilo era uma coisa que Lawrence jamais veria. Esta noite, ela seria uma outra pessoa: a rica e misteriosa companheira do famoso artista:

De joelhos, Charlotte revirava o armário procurando sapatos. Seus pés são maiores que os meus — disse, arfando, depois de encontrar o que queria. — Mas veja se estes lhe servem. Não é por causa de uma ou duas bolhas que você vai estragar seu visual, não é?

Nadine calçou os sapatos de saltos altíssimos e fez uma careta, pois estavam bastante apertados.

seu visual, não é? Nadine calçou os sapatos de saltos altíssimos e fez uma careta, pois

Não tem importância — animou-a Charlotte. — Lembre-se de que vai passar a maior parte do tempo sentada, comendo. Ninguém vai reparar se você os tirar. Com as meias, vai melhorar um pouco. Aqui estão, pegue-as. Agora, precisamos de um colar. — E saiu do quarto.

Nadine ficou parada no meio do quarto, lembrando-se de seu tempo de adolescente, quando elas também usavam roupas e acessórios uma da outra.

Veja o que encontrei! — disse Charlotte, trazendo um colar de coral na mão. — Vai ficar perfeito. Você gosta?

Nadine sacudiu a cabeça, calçando novamente os sapatos e tirando-os rapidamente.

É lindo, mas não posso ir com ele. É muito parecido com aquele que Lawrence me deu em Florença.

Então, finja que é o dele. Veja como combina com o vestido!

Sinto muito, Char, mas não quero. Que mais você tem aí?

Pérolas.

Ótimo. Vou ficar supersofisticada. A refinada simplicidade do vestido de seda, combinada com a altura dos sapatos e o requinte do colar de pérolas deu a Nadine uma aparência de luxo e sofisticação.

Quer usar minha maquilagem? Eu tenho de ver o jantar. Não vai ser tão bom como o seu, mas vou me esforçar.

Acho que vou aceitar. — respondeu Nadine, pegando a caixa de maquilagem que estava em cima do móvel. Nadine raramente se maquilava, mas naquela noite caprichou. Em seguida, penteou o cabelo, colocou uma gota de perfume atrás de cada orelha e levantou-se, tentando imaginar a reação de Lawrence. Por um momento, procurou entender por que estava se arrumando com tanto cuidado para sair com ele. Ah, era divertido, só isso. Afinal, fazia anos que ela não saía com ninguém; estava adorando ter a oportunidade de se arrumar, maquilar-se e pegar as roupas da irmã. Com um leve sorriso nos lábios, entrou na sala. Steve deu um longo assobio.

maquilar-se e pegar as roupas da irmã. Com um leve sorriso nos lábios, entrou na sala.

Eu não sei o que você pretende fazer — disse ele. — Mas, seja lá o que for, conseguirá. Você está espetacular!

Obrigada — respondeu, sorrindo.

Quer tomar alguma coisa antes de sair?

Já são quinze para as sete. É melhor eu ir andando. Combinei pegar Lawrence às sete.

Ao ouvir a exclamação de Steve, Charlotte veio para a sala, com um avental amarrado na cintura. Olhou para a irmã com um ar de aprovação.

Você está deslumbrante, mana. Se começar a ficar deprimida, basta olhar-se no espelho. Vai dormir aqui?

Venho, sim. Vou dormir no sofá, se você não se importar. Eu prometi a Jamie que o levaria para tomar café numa lanchonete. Provavelmente, a gente vai sair antes de você acordar. — Apanhando seu casaco, desceu para pegar o táxi que Steve tinha chamado.

Por favor, diga ao senhor Lawrence Stebbing que Nadine Barnet está aqui — pediu ao recepcionista do hotel, ignorando seu olhar de admiração. Enquanto o recepcionista ligava para o quarto de Lawrence, ela se virou de costas, olhando em torno do saguão elegantemente decorado e pensando, com grande excitação: "Lawrence, Lawrence! Eu vou sair com Lawrence!"

Ele pediu para a senhora subir — disse o recepcionista, interrompendo seus pensamentos. — É o quarto 1206. Nadine estava esperando que ele descesse para saírem imediatamente, mas não iria discutir com o recepcionista. Provavelmente, Lawrence devia ter pegado no sono e tinha acabado de acordar. Agora, teria de esperar que ele se arrumasse. Sentiu-se um tanto decepcionada por constatar que ele não a estava esperando ansiosamente. Ele abriu a porta no mesmo instante em que ela bateu, como se já a estivesse esperando. Olhando-a com aprovação, saiu da frente da porta para que ela pudesse passar. Largando o casaco e a bolsa de maneira casual na poltrona mais próxima, Nadine

da porta para que ela pudesse passar. Largando o casaco e a bolsa de maneira casual

foi até a janela, respirou fundo para, acalmar seu coração, que estava disparado, e voltou-se para ele. Lawrence estava de pé no meio do quarto, com as mãos nos bolsos das calças, olhando-a com admiração. Estava muito elegante, num terno preto impecável, camisa branca e gravata de seda pura. — Oi — disse ele. Ela sorriu. Por que esperava encontrá-lo barbudo, desarrumado e sem disposição?

Você está maravilhosa. Não quer sentar? Com relutância, Nadine despregou os olhos dos dele e sentou-se na poltrona de veludo vermelho. Foi só então que ela notou a garrafa de champanhe com duas taças sobre a mesinha. Voltou a olhar para Lawrence.

Comemorando sua volta? Ele pareceu surpreso.

Eu pensei que a idéia fosse sua. Isso chegou há dez minutos. Quer dizer que não foi você quem mandou?

Não — disse, sacudindo a cabeça. — Deve ser cortesia do hotel.

Eu não acho. — Entregando-lhe um cartão que estava sobre a mesa,

perguntou: — De quem é esta letra? Era um cartão do tipo usado pela Galeria Mills para promover exposições; nas costas, havia um anúncio da mostra de Lawrence e uma mensagem escrita à mão:

"Bem-vindo de volta a Nova Iorque."

— Everett — disse ela.

Você já viu este cartão antes? — Lawrence estava com a voz estranha.

— Ele manda fazer esses cartões e os manda para as pessoas que podem

ajudar no sucesso da exposição. — Só então ela virou o cartão para ver qual das obras de Lawrence tinha sido escolhida para ilustrá-lo. Everett não quisera que Nadine desse palpite nem interferisse na escolha, e agora ela sabia por quê. Um rubor subiu-lhe às faces ao se ver mais uma vez no Madrugada toscana. — Eu não sabia que ele ia usar essa obra com fins promocionais. Não pensei que

mais uma vez no Madrugada toscana. — Eu não sabia que ele ia usar essa obra

"Mas por que não a usaria?" pensou, ao mesmo tempo. Todos estavam de acordo que aquela era a melhor obra de Lawrence, e um homem como Everett não iria permitir que os sentimentos dela interferissem no sucesso da exposição, como ele já havia deixado claro.

Pensei que você é que cuidasse desses detalhes. — Lawrence estava perplexo diante da reação de Nadine. Era evidente que ela não havia visto o cartão antes.

Geralmente, sou eu. — Soltou o cartão sobre a mesa e olhou para ele, tentando tirar aquele quadro da cábeça. Como é que uma simples reprodução podia

deixá-la tão sem ação? — Desta vez, Everett insistiu em cuidar pessoalmente da publicidade. Ele disse que essa mostra era importante demais para me deixar correr o risco de cometer algum engano. Só agora entendo o porquê. Eu jamais teria escolhido essa obra. Lawrence pegou a garrafa de champanhe e começou a soltar a rolha.

— Por que não? É um dos meus melhores trabalhos.

Isso é mesmo. A rolha saltou com um estouro e o champanhe derramou no carpete. Com destreza, Lawrence encheu as taças.

— A Everett Mills! — brindou ele, erguendo a taça.

Ela assentiu em silêncio e tomou um longo gole. Então, engasgou e começou a tossir. Com um tapa nas costas, Lawrence ajudou-a a recuperar o fôlego, fazendo-a rir.

— Obrigada — disse, quando voltou a respirar. — Desceu pelo lado errado. Vamos

fazer outro brinde, aquele não foi muito bom. Ao sucesso da exposição! Quero ver se eu engasgo agora. — E bebeu tranqüilamente o resto do champanhe.

Como já eram quase oito horas quando eles terminaram a garrafa de champanhe, decidiram tomar um táxi em vez de atravessar o parque a pé, pois ficaria muito tarde. Nadine suspirou aliviada, sabendo que seus pés ficariam acabados com aquela caminhada, por causa dos sapatos apertados da irmã.

suspirou aliviada, sabendo que seus pés ficariam acabados com aquela caminhada, por causa dos sapatos apertados

Enquanto esperavam que o porteiro chamasse um táxi, Nadine estava exultante por estar tomando parte da verdadeira vida noturna de Nova Iorque, de cuja existência ela só ouvira falar sem jamais ter participado. Mas, como era só por alguns dias, ela pretendia aproveitá-la ao máximo. Durante o trajeto, conversaram amigavelmente. Era maravilhoso estar novamente com Lawrence. Apesar de não demonstrar nenhum interesse romântico por ela, era o mesmo homem de quatro anos atrás:

interessado, alerta, gentil, simpático. Chegou a lembrar-se de quando iam à ópera em Florença, ou a concertos, com a diferença de que, naquela época, havia um brilho diferente nos olhos de Lawrence, e ele raramente largava sua mão. Essa era a única diferença, disse a si mesma. Uma diferença sem importância. A mesa reservada no restaurante ficava no jardim, iluminado por lampiões presos às árvores. Nadine estava encantada.

Você vem sempre aqui? — perguntou Lawrence, depois que eles fizeram o

pedido.

Não. — Seu véu de sofisticação caiu um pouco. — Na verdade, é a primeira vez. Ele levantou as sobrancelhas.

Mas parece que todo mundo a conhece por aqui. Como é possível? Ela não tinha notado nada de extraordinário, além da extrema cortesia com que estavam sendo tratados.

Eu não sei — respondeu, sem entender por que Lawrence estava franzindo

a testa. Um flash iluminou a mesa deles enquanto ela seguia o olhar de Lawrence, no fundo do restaurante. Dois fotógrafos e um repórter vinham na direção deles. Ela olhou assustada para Lawrence.

O que foi que você — começou ele, em tom ameaçador.

Não era possível que Lawrence pensasse que ela havia marcado uma entrevista com a imprensa em seu primeiro jantar na cidade! Como podia imaginar que ela fosse tão irresponsável, tão grosseira?

com a imprensa em seu primeiro jantar na cidade! Como podia imaginar que ela fosse tão

Boa noite. — O repórter, munido de um bloco, atreveu-se a abordá-los. — Peço que desculpem minha interrupção. Sou Les Stein, do Herald Times. Bem-vindo a Nova Iorque, senhor Stebbing, Quanto tempo pretende ficar aqui?

Nadine interveio antes que Lawrence pudesse responder. Ele era seu convidado, ainda que por ordem de Everett, e a privacidade e o bem-estar dele eram de sua responsabilidade.

— O senhor Stebbing já tem uma entrevista coletiva marcada com a

imprensa, ocasião em que o senhor poderá lhe fazer as perguntas que desejar. Hoje ele não responderá a nenhuma pergunta. Em vez de se sentir intimidado, o repórter voltou sua atenção para Nadine. Os flashes das câmeras continuavam a espocar.

— Ah, senhorita Barnet, é um prazer conhecê-la. É verdade que foi a

musa inspiradora do senhor Stebbing há vários anos, e que foi justamente nessa época que ele pintou suas melhores obras? Por que o abandonou? Pode-se

concluir que este jantar íntimo indica que o relacionamento de vocês voltou ao mesmo ponto em que estava quando ele pintou Madrugada toscana? Quando Nadine já estava a ponto de explodir, Lawrence interveio.

— A senhorita Barnet estará comigo na entrevista coletiva que darei, e o

senhor também poderá fazer-lhe as perguntas que desejar. Agora, se nos dá licença, gostaríamos de ficar a sós para que pudéssemos jantar.

Ao ver que eles estavam sendo alvo de todos os olhares no restaurante, Nadine estremeceu de raiva. Para seu alivio, viu que o maitre se aproximava da mesa deles, atendendo a um sinal de Lawrence. — Nós gostaríamos de manter nossa privacidade — disse ele, dirigindo-se ao maitre,. — Por favor, acompanhe estes cavalheiros até a porta. Pelo tom autoritário de Lawrence, o maitre percebeu que, se os jornalistas não saíssem, seria o senhor Stebbing quem sairia. Assim, apressou-se em colocá-los para fora. O rosto de Nadine estava transtornado, e Lawrence olhou com simpatia para ela.

Nem precisa me dizer — disse ele. — Everett Ela assentiu em silêncio.

e Lawrence olhou com simpatia para ela. Nem precisa me dizer — disse ele. — Everett

— Estou ansioso para encontrar esse homem — observou secamente, tentando reconstruir o ar de camaradagene de alguns minutos atrás. — Eu não me lembro de ele ser tão tirano e tão alucinado por publicidade.

Mas ele é. — Nadine estava muito envergonhada diante do que tinha acabado de acontecer. Como é que Everett podia ser tão inconseqüente?

— Ei — disse Lawrence, atraindo sua atenção. — Você não está chateada, está?

Claro que estou. Ele não tinha o direito de fazer isso! Sei que você sempre detestou esse tipo De publicidade, e disse isso a ele. Eu já deveria saber que não faria a menor diferença.

Olhe, para mim não faz a menor diferença mesmo. Vamos esquecer tudo, está bem? Já tive de enfrentar perguntas bem piores. Além disso, eu amadureci bastante. —E, dando uma piscada, concluiu: — Eu já não perco a cabeça com tanta facilidade como antes.

Finalmente, o jantar foi servido e eles começaram a comer. Em meio a saladas, siris e escalopes, conversaram sobre os mais variados assuntos: livros, filmes, política. Tudo muito impessoal.

Fale-me sobre Everett — pediu Lawrence, finalmente.

Antes que Nadine pudesse responder, o maitre trouxe dois cálices de licor.

Por conta da casa — informou. — Com as nossas desculpas pela recente

intrusão.

Lawrence agradeceu e voltou sua atenção para Nadine.

Você me perguntou sobre Everett — disse ela. — Acho que não posso lhe dizer nada sobre ele. Não seria justo.

Ah! — exclamou Lawrence, tomando um gole do licor. — Era isso que eu queria saber. Agora, quero que você me explique urna coisa: por que trabalha para ele se não gosta?

Preciso desse emprego.

Posso saber quanto ganha? Ela sacudiu a cabeça.

por que trabalha para ele se não gosta? — Preciso desse emprego. — Posso saber quanto

Sinto muito, mas não pode. Você ficaria com o coração partido se soubesse a miséria que ganho. Mas, provavelmente, acabará saindo nas colunas de mexericos, que falarão sobre nós nestes próximos dias; portanto, não se preocupe. — Fez uma pausa e continuou: — Lawrence, você me parece exausto. Pelo horário italiano, já deve ser quase de manhã. Deixe-me levá-lo para o seu hotel. Não se esqueça de que tomaremos o café da manhã juntos, às nove horas.

Não faça isso comigo — disse ele sorrindo.

Se eu pudesse, não faria, pois também estou cansada. O único consolo é . que a reunião no escritório de Everett é só às onze. Depois do café, iremos a pé para a galeria, que não fica longe do hotel. Ele não disse mais nada, e o garçom trouxe a conta, que era exorbitante. Lawrence estendeu a mão para pegá-la, mas foi impedido por Nadine.

— Everett pagará por isso — disse ela.

Pelo seu tom, acho que não será só pelo jantar — observou secamente, deixando-a pegar a conta. Lawrence só voltou a falar quando já estavam no táxi, a caminho do hotel.

Eu não sei qual é o jogo de Everett, e não sei se você sabe, mas pretendo continuar até descobrir. Então, fica combinado: às nove, no saguão do meu hotel, está certo?

Certo. Mostrando-se aliviada depois de tirar os sapatos, Nadine recostou a cabeça no banco do táxi. Então, o carro passou num buraco e ela bateu a cabeça contra o banco, soltando um grito de dor. Lawrence chegou mais perto e passou o braço em torno dela.

Encoste a cabeça no meu ombro. Está melhor assim? De certa maneira, estava. Mas, por outro lado, aquele aconchego e aquele perfume de lavanda que ele usava a deixavam perturbada. Encostou o rosto no tecido macio do paletó de Lawrence e fechou os olhos. Ah, se Mas naquele momento o carro chegou ao hotel, pois a corrida era muito curta. Ela estava odiando a idéia de se separar dele e levantou a cabeça com relutância.

pois a corrida era muito curta. Ela estava odiando a idéia de se separar dele e

— Everett vai pagar a corrida — disse, não deixando que ele pagasse. — Além

do

mais, eu vou continuar no táxi. Como estava escuro, Nadine não - podia ver a expressão dos olhos de Lawrence,

e

não sabia se ele estava decepcionado, aliviado ou indiferente. No entanto,

segurando-a pelo queixo, ele levantou seu rosto e a beijou por um breve momento. Seus lábios eram suaves e seu beijo, uma promessa. Mas logo a soltou e desceu

do carro.

— Até amanhã, às nove — disse ele, debruçando-se na janela do carro. — Boa noite.

— Boa noite.

Quando o táxi estava saindo, Lawrence se virou, e as luzes da entrada do hotel iluminaram seu rosto. Então, Nadine pôde ver que sua expressão não era de decepção nem de indiferença, mas de inconfundível desejo.

Então, Nadine pôde ver que sua expressão não era de decepção nem de indiferença, mas de

Capítulo Sete

Na manhã seguinte, Nadine entrou como um furacão na sala de Everett, atirou a bolsa sobre uma cadeira e ficou olhando para ele, com as mãos nos quadris.

Que diabo você pensa que está fazendo ao mandar um bando de repórteres em nosso encalço, humilhando-me e deixando Lawrence transtornado? Como foi que eles ficaram sabendo do caso que tivemos? Foi você quem lhes contou! Como é que eles sabiam o horário de chegada dele, o restaurante em que íamos jantar e onde tomaríamos café esta manhã? Foi você quem lhes contou! Por que eles iriam pensar que dormimos juntos essa noite? Por que você quis que tomássemos café juntos no hotel, para que eles pensassem isso mesmo! Deus do céu!, Everett, será que você não tem nenhum senso de decência?

Vá com calma — disse ele, sem conseguir esconder sua satisfação diante do êxito de seu plano. — Onde está Lawrence Stebbing agora?

— Foi comprar um jornal. Eu lhe disse que queria ter uma palavrinha com você

antes. Everett, Lawrence não deseja esse tipo asqueroso de publicidade, entende? Ele

não quer ser aborrecido com perguntas impertinentes, entende? Não quer ser visto comigo só para aumentar o preço dos seus quadros, entende? Você está fazendo tudo errado. Se eu fosse Lawrence, abandonaria essa exposição agora mesmo! E pode ter certeza de que vou abandonar essas tarefas degradantes que você me forçou a realizar. Se eu soubesse por que você me pediu para ficar junto de Lawrence, teria recusado de saída.

Nós dois sabemos por que você não teria me recusado nada. Não comece a bancar a indignada nessa altura do espetáculo, benzinho. Em vez disso, acho bom me dar uma boa razão por vocês não terem ido à vernissage de ontem à tarde. A imprensa não ficou nada satisfeita por ter ido lá à toa.

Ainda bem! — Nadine estava exaltada, sem se importar com o que dizia. — Você não tem o direito de fazer isso! Everett inclinou-se para a frente e vociferou:

importar com o que dizia. — Você não tem o direito de fazer isso! Everett inclinou-se

Quero deixar uma coisa bem clara, Nadine Barnet: você trabalha para mim e não está em posição de me dizer como dirigir meus negócios. Está me entendendo? Não vou tolerar grosserias, maus modos ou o não cumprimento do seu dever. Está me entendendo? Eu quero saber por que vocês não foram à vernissage ontem.

Lawrence não quis. — Nadine estava tentando controlar-se. Como ela odiava aquele cafajeste!

Na próxima vez, você o convencerá a ir, Nadine. Eu não vou trair o seu segredo desta vez, mas não conte com a minha generosidade se falhar novamente. Usarei todos os meios para transformar essa exposição num sucesso. E você é um desses meios.

Lawrence tirará o corpo fora. Você verá. Eu posso ser chantageada, mas ele não. Ele não suportaria esse tipo de tratamento. Everett encolheu os ombros.

Se Stebbing cair fora, você perderá seu emprego, seu único meio de sustento, Nadine. Além do mais, se isso acontecer, pode ter certeza de que tanto ele quanto a imprensa saberão que seu Ele ia dizer filho, mas Nadine interrompeu-o com um grito antes que pudesse pronunciar a palavra. Ela havia se virado, furiosa, quando viu que Lawrence estava parado junto à porta, ouvindo tudo. Ela não fazia idéia do quanto ele tinha ouvido. No entanto, assim que saíram da galeria, para almoçar no Mercúrio, Lawrence começou a falar rispidamente com ela.

Quer dizer que esse é o seu encantador Everett Mills? O relacionamento entre vocês me parece extraordinário.

O que está querendo dizer?

O que ele quis dizer quando falou que você não lhe recusaria nada? Então ele tinha mesmo escutado! Nadine sentiu um aperto no coração e teve de apressar o passo para conseguir acompanhá-lo. Olhou para seu rosto tenso e lábios apertados, sentindo-se mais longe dele do que nunca. Incapaz de mentir, nada respondeu.

para seu rosto tenso e lábios apertados, sentindo-se mais longe dele do que nunca. Incapaz de

Entraram no elegante restaurante italiano e sentaram-se perto da janela. Depois de fazerem os pedidos, Lawrence recostou-se na cadeira e ficou tomando um gim-tônica.

Ontem à noite, você não queria falar de seu patrão, para evitar que eu ficasse com uma idéia pré-concebida sobre ele. Pois bem, agora que eu já o conheci, poderia me responder algumas perguntas?

Depende das perguntas. — Ela deu um meio-sorriso que não chegou até os olhos.

Everett parecia muito ansioso para que você continuasse trabalhando para ele — disse com sarcasmo. — Sempre se preocupa assim com seu bem-estar? É claro que ele tinha ouvido Everett ameaçá-la de demissão caso Lawrence desistisse da mostra. Nadine respondeu vagarosamente:

De certa maneira, ele se preocupa comigo, sim; e, além disso, é obviamente um grande homem de negócios. Caso contrário, a Galeria Mills não seria o sucesso que é. Acontece que eu nem sempre concordo com os métodos dele, como por exemplo fazer com que você seja alvo das fofocas e dos fotógrafos em todos os lugares por onde anda. Everett não gostou de minha crítica e descontrolou-se. Lawrence não tirava os olhos dela.

Entendo. Ele se descontrolou quando você lhe disse que se recusava a seguir seu plano de ser vista em público comigo, não foi isso?

Exatamente.

Então, ele disse que vocês dois sabiam por que você não lhe recusaria nada. Posso saber o motivo? Ela passou a língua nos lábios secos, dizendo:

Eu preciso deste emprego.

É claro que você precisa desse emprego. — A voz dele estava fria como a lâmina de uma faca. — Agora, vejamos. Ontem, quando eu lhe perguntei por que Everett pode obrigá-la a fazer coisas que não gosta, você falou em chantagem. E estranho que essa palavra tenha sido mencionada duas vezes em dois dias, não acha?

gosta, você falou em chantagem. E estranho que essa palavra tenha sido mencionada duas vezes em

Ela tomou um gole de vinho branco para molhar a garganta.

— Bem, é verdade. É o que acabei de lhe dizer: eu preciso deste emprego. Você sabe qual é o atual custo de vida em Nova Iorque? — Acho que no momento isso não vem ao caso. Uma mulher com a sua

inteligência e experiência poderia facilmente encontrar outro lugar para trabalhar. Levantando as sobrancelhas, ela procurou mostrar um ar condescendente.

— Não me diga que não lê jornal desde que saiu dos Estados Unidos! Você

não ouviu dizer que nosso atual índice de desemprego é o mais alto desde o período da Depressão? Posso garantir-lhe que já faz um ano que estou procurando um outro emprego. Ele não se mostrou impressionado com suas sobrancelhas.

— Fico feliz por saber disso, mas você ainda não respondeu minha pergunta. O

que o seu patrão pode usar para fazer essa chantagem?

— Eu já lhe disse: ele ameaça me despedir.

— É este o segredo que ele prometeu não revelar? Ah, mas que decepção! Eu pensei que você tivesse assassinado alguém ou assaltado um banco.

— O segredo é esse mesmo — respondeu Nadine com firmeza. Sua mão estava tremendo ao pegar a taça de vinho.

Você é uma péssima mentirosa. Nadine fixou os olhos na abertura da camisa dele, onde aparecia o começo dos pêlos do peito, tentando inutilmente recuperar a agradável sensação de intimidade que ela havia experimentado na sala de Everett. Como pôde imaginar que seria possível confiar seus temores e inseguranças àquele homem e contar-lhe sobre Jamie? Não havia maneira de aproximar-se de Lawrence quando ele ficava daquele jeito. Mentirosa! Ele a chamou de mentirosa! — Não venha bancar a indignada para cima de mim. — Lawrence lembrou das palavras de Everett. — Você só está se enrolando cada vez mais. Agora, entenda o meu ponto de vista. Estou muito curioso para saber qual é esse segredo que você tem com seu patrão. Se eu desistisse da exposição, ele me contaria, não é mesmo? E também à imprensa. Infelizmente, você o interrompeu antes que revelasse o segredo, mas eu já sei o que devo fazer para descobrir.

Infelizmente, você o interrompeu antes que revelasse o segredo, mas eu já sei o que devo

Nadine ficou lívida. Lawrence ia desistir da exposição, Everett ia despedí-la e revelar a existência de Jamie, ela não teria recursos para lutar pela custódia dele, além de perder os dois: Jamie e Lawrence. Enquanto pensava nisso, um grupo de repórteres entrou no restaurante, causando um grande alvoroço. Sentindo-se incapaz de enfrentar mais perguntas inconvenientes, Nadine levantou-se bruscamente.

Nadine, espere. — A voz de Lawrence estava diferente. Ao ver que a saída estava bloqueada pelos jornalistas, ela entrou no toalete e

encostou-se na pia, satisfeita por estar sozinha. Era bem feito que Lawrence agora tivesse de enfrentar sozinho os jornalistas. Quem mandou ele querer desistir da exposição para fazê-la perder o emprego? Depois de algum tempo, uma senhora entrou no toalete e Nadine começou a arrumar o cabelo, só para disfarçar. Bem, já estava na hora de sair e enfrentar a situação. Lawrence continuava sentado, tornando um coquetel. Não havia o menor sinal de jornalistas. Ele olhava para o copo, girando o gelo, perdido em pensamentos. Nadine aproximou-se lentamente da mesa e ele a olhou.

— Oi. Você perdeu uma bela confusão. — Como ela não respondesse, ele

continuou: Qual a programação para hoje à tarde?

— Você está livre para fazer o que quiser.

— E o jantar? Vamos jantar juntos de novo?

— Infelizmente, sim. Mas antes vamos tomar um aperitivo com Everett no Salão Azul do hotel.

Lawrence fez uma cara tão ridícula que Nadine quase caiu na gargalhada. Ao sair do restaurante, ele a acompanhou até a galeria, dizendo que ia dar uma volta pelo Soho para visitar mais algumas. Antes de ir embora, colocou as mãos nos ombros de Nadine, num gesto que ela se lembrava muito bem, e disse:

— Não sei o que você e Everett estão aprontando. Seus planos e segredos fogem

de minha compreensão, e eu já vi que não vou conseguir nenhuma explicação com nenhum dos dois. Mas não vou desistir da exposição para conseguí-las, pois não quero que você perca o emprego por minha causa. Eu vou acabar descobrindo, mas

exposição para conseguí-las, pois não quero que você perca o emprego por minha causa. Eu vou

será do meu jeito. Vou saber por que Everett tem esse poder sobre você, por que trabalha para ele e obedece ordens que a desagradam. Vou descobrir por que não me falou da vernissage de ontem à tarde e por que mentiu a Everett dizendo que eu não fui porque estava muito cansado.

Como Nadine continuasse calada, sem tentar esclarecer nenhum desses pontos, ele continuou:

— E tem mais: eu quero descobrir onde você mora e conhecer o seu apartamento. — Nesta altura, Nadine empalideceu visivelmente. — E quero conhecer seus pais e sua irmã. Quero saber o que aconteceu nestes últimos quatro anos. Por isso, vou continuar esse jogo, presumindo que, com isso, estarei protegendo seu emprego. Mas, em retribuição, eu vou querer respostas, todas as respostas. — Inclinando-se para a frente, roçou os lábios nos dela. Não conseguindo resistir, Nadine fechou os olhos e entregou-se àquela boca firme, decidida. — É estranho — murmurou ele, depois do beijo, com os lábios quase encostados aos dela. — Os seus beijos são o que você tem de menos secreto. Acho que eu ficaria sabendo de muito mais coisas se nós ficássemos nos beijando em vez de ficarmos conversando. — Segurou o queixo dela entre o polegar e o. indicador. — A que horas eu a encontro no Salão Azul?

Às seis e meia — respondeu, meio sem fôlego. Finalmente, Lawrence a soltou e ela foi direto para os elevadores, não sem antes ouvir mais um clique de uma câmera.

Nos dias que se seguiram, a imprensa apertou mais ainda o cerco. Jornais e revistas publicavam fotografias do casal, relatando todas as suas atividades e criando a história do renascimento de um romance ardente entre eles.

Quando Charlotte entregou a Nadine um jornal onde aparecia uma fotografia dos dois se beijando, esta ficou ruborizada.

Parece que você não o odeia tanto quanto diz — falou Charlotte. — O que está havendo entre vocês? Eu tenho lido tanta besteira nestes últimos dias, que já não sei mais o que é realidade e o que é invenção

Eu tenho lido tanta besteira nestes últimos dias, que já não sei mais o que é

Mas ela não conseguiu fazer com que a irmã lhe contasse nada. Nadine dizia apenas que Everett insistia que ela continuasse acompanhando Lawrence nas atividades programadas, e que eles não estavam envolvidos emocionalmente. Sem acreditar, Charlotte deu mais uma olhada na fotografia.

— Você vai lhe contar sobre Jamie? — Jamie! Você está brincando? Aqueles malditos repórteres iriam cercá-lo quando ele chegasse e saísse da escola Ele não teria um minuto de sossego, Char! Eu já estou dando graças a Deus por ainda não terem descoberto nada por conta própria.

Não estou sugerindo que você conte aos repórteres. — Charlotte não se deixou impressionar pela veemência de Nadine. Só ao pai. Ele tem o direito de saber. Nadine deu uma risada de deboche.

Você acha que, se nós três saíssemos juntos pelas ruas de Nova Iorque, os repórteres não cairiam sobre nós como um bando de lobos? Eu não vou permitir que Jamie passe por isso; para mim mesma já é bem difícil.

Oh, Nadine! — Charlotte estava com pena da irmã. — Você está atravessando um momento muito difícil, não é mesmo? Mas, assim que essa exposição terminar e você se sentir mais calma e menos pressionada, poderá contar tudo a ele. Nadine nem respondeu. Naquele mesmo dia, Everett tinha dito que estava tentado a revelar acidentalmente que Lawrence tinha um filho, para assegurar o sucesso da exposição. Ela teve de recorrer a mentiras e ameaças, dizendo que eles tinham realmente reatado o romance, e que, assim que a exposição terminasse, ela mesma lhe falaria sobre Jamie. Se Everett expusesse o filho de Lawrence à imprensa, ele certamente ficaria furioso e abandonaria a exposição sem pensar duas vezes. Everett franziu os lábios e concordou em esperar mais um pouco. Na véspera da inauguração da mostra, eles foram jantar num restaurante no bairro italiano, e depois do jantar passearam pelas ruas estreitas. Lawrence insistia em saber as coisas da vida particular de Nadine, mas ela sempre respondia com evasivas.

estreitas. Lawrence insistia em saber as coisas da vida particular de Nadine, mas ela sempre respondia

Enquanto caminhavam de mãos dadas, uma lufada de vento frio fez Nadine estremecer, dizendo:

— Detesto inverno!

Num impulso, ele passou o braço pelos ombros dela, procurando aquecê-la. A princípio, Nadine enrijeceu o corpo, mas logo achou que estava tão gostoso que acabou passando o braço pela cintura de Lawrence. Depois de caminharem mais um pouco, tomaram um táxi até o hotel, continuando abraçadinhos dentro do carro. Ao chegarem, ele perguntou:

Não quer subir? A tentação era grande. O carinho e o calor dele despertaram em Nadine um desejo

que ela não ousava demonstrar. Então, ela sacudiu a cabeça. Além do mais, disse a si mesma, não queria mais se prender a nenhum homem, nenhum mesmo. Era doloroso demais quando chegava ao fim.

— Então, até amanhã.

Ela sorriu.

— Você vai ver: sua exposição será um grande sucesso. Boa noite.

ao fim. — Então, até amanhã. Ela sorriu. — Você vai ver: sua exposição será um

Capítulo Oito

Os flashes das câmeras não paravam de espocar. Limusines encostavam na frente da galeria, e delas desciam homens e mulheres vestidos a rigor, que eram imediatamente abordados pelos repórteres. "Se Everett queria uma cobertura sensacional da imprensa, ele a conseguiu", pensou Nadine. Ela recebia as pessoas que chegavam, com um sorriso encantador, sempre com um olho na mesa de coquetel, para ver se não estava faltando nada. Segurando uma taça de champanhe, que levava aos lábios ocasionalmente, trocava amabilidades com as pessoas que conhecia e cumprimentava outras. Todas estavam curiosas sobre o seu tão divulgado romance com o famoso artista. Esta noite ela estava de branco — um vestido de chiffon, de alças, decotado nas costas. A roupa era de Charlotte, que lhe havia comprado meias prateadas para usar com os sapatos brancos de saltos altíssimos. As meias davam um toque exótico às pernas, e de vez em quando Nadine as olhava com satisfação. O quadro que causou maior sensação foi, sem dúvida, Madrugada toscana. Havia sempre um grande número de pessoas reunidas em torno dele, e houve muitas ofertas pela obra, sempre recusadas. Lawrence tinha deixado bem claro: o quadro não estava à venda por preço nenhum. Nadine ficou a maior parte do tempo ao lado do artista, apresentou-o aos. compradores em potencial e a diversos críticos de arte, fazendo algumas piadinhas ocasionais.

Senhora Addamson, quero apresentar-lhe Lawrence Stebbing. Lawrence, a senhora Addamson tem uma coleção particular que é famosa. Ela está impressionada com seu trabalho, e quer um conselho seu sobre qual obra deveria comprar. Respondendo apenas com um olhar, Lawrence deu o braço à idosa senhora e levou-a para fazer um exame de seus quadros. Nadine sentia-se feliz e entusiasmada, seguindo a dupla com os olhos, até ser interrompida pela voz de Everett.

Nadine sentia-se feliz e entusiasmada, seguindo a dupla com os olhos, até ser interrompida pela voz

— Conseguimos. É um sucesso estrondoso. Meus parabéns.

— Obrigada. Parabéns para você também.

Num momento como aquele, ela se sentia generosa até em relação àquele homem que a tratara de maneira tão sórdida. Tudo estava correndo às mil maravilhas. Seu coração batia fortemente, como se o seu corpo fosse pequeno demais para conter toda aquela felicidade. No dia seguinte, voltaria a ser a Nadine de sempre, mas naquela noite era uma celebridade — todos queriam ver de perto a musa do artista, ainda que fingissem que não olhavam para ela. Lawrence voltou, com um sorriso.

Ainda bem que eu a encontrei. Você é o meu refúgio contra todos esses estranhos. Nadine lembrou-se de como ele detestava aglomerações, e sorriu com simpatia.

Você está fazendo o maior sucesso. Ninguém entende por que você tem a fama de ser um bicho-papão em suas exposições.

Diga-lhes que é porque você nunca cuidou delas. Você fez um trabalho espetacular. — O olhar dele estava cheio de ternura. — E está linda hoje, Nadine. Alguma coisa deve ter acontecido para deixá-la tão radiante. Ela sentiu que ficava corada.

— É de ver que está todo mundo falando de mim e me olhando, embora finjam o contrário. Até que estou achando isso tudo divertido.

Você disse que sua irmã viria.

Sim, ela já chegou. — Nadine ficou contente ao ver que Charlotte havia chegado, mas ainda não tinha conseguido falar com ela. Sua irmã havia desaparecido na sala onde estava a obra tão controvertida, e ainda não tinha voltado.

— Gostaria de conhecê-la.

Nadine não poderia negar-lhe nada naquela noite. As palavras dele mexiam com seu coração, e o toque da mão daquele homem lhe acelerava o pulso. Ela tivera muita sorte em ter seu amor. Dando-lhe um grande sorriso, levou-o para o salão principal. Se estava preocupada com a recepção que sua irmã daria a Lawrence, seus temores se dissiparam assim que colocou os olhos nela. Charlotte veio apressadamente

que sua irmã daria a Lawrence, seus temores se dissiparam assim que colocou os olhos nela.

na direção deles, sem o menor sinal de hostilidade. Sorrindo calorosamente, estendeu-lhe a mão.

Eu já ia pedir a ela que nos apresentasse — disse, para espanto de

Nadine.

Charlotte, Lawrence. Lawrence, Charlotte. — Nadine estava admirada com

a atitude insinuante de Charlotte em relação ao homem que ela dizia odiar. Charlotte comentou diversas pinturas, provocando-o algumas vezes e elogiando-o outras, até finalmente mudar de assunto.

— Steve, meu marido, não pôde vir porque teve de ficar com as crianças. Mas eu gostaria que vocês se conhecessem. Nadine franziu as sobrancelhas, sem entender onde a irmã queria chegar.

— Com licença — disse, dirigindo-se para a mesa, com o pretexto de ver se estava tudo em ordem.

Mas não havia nada para ela fazer: o champanhe corria como água, as bandejas de prata estavam bem abastecidas com uma grande variedade de canapês e não havia copos sujos sobre a mesa.

— Só agora entendi como foi que você ficou perdidamente apaixonada por

esse homem — disse Charlotte, aproximando-se por trás dela e servindo-se de uma taça de champanhe. Dando um suspiro exagerado, comentou: — Ah, se eu não fosse casada! Eu sabia que deveria ter esperado mais algum tempo!

Nadine teve de rir diante da expressão cômica da irmã.

Quer dizer que meus pecados foram perdoados? Acha que mamãe entenderia se o conhecesse?

Oh, Nadine! — Charlotte apertou-lhe a mão, num gesto de solidariedade. — Ela precisava conhecê-lo. Nadine encolheu os ombros. Por que estavam falando da mãe numa noite como aquela?

Sobre o que vocês estavam conversando? — perguntou Nadine.

— Sobre uma porção de coisas. Ele a admira muito. Estou começando a

ter dúvidas se abandoná-lo foi mesmo a melhor solução para você. Será que não foi tão culpada quanto ele pela separação?

se abandoná-lo foi mesmo a melhor solução para você. Será que não foi tão culpada quanto

Garanto que, mais que ele, não fui.

Eu o convidei para jantar lá em casa amanhã. Quero que Steve o conheça. Ele idorou o convite, sabe? Espero que você não me ache muito precipitada.

Mas, Charlotte, e o Jamie? O que é que eu faço com ele? Terminando seu champanhe de um só gole, Charlotte respondeu:

Já estará dormindo antes de Lawrence chegar, e você sabe que ele dorme como uma pedra. Lawrence não ficará sabendo de nada, embora eu ache que você deveria lhe contar.

Aposto que é uma armadilha que você preparou com Steve. E Lawrence também deve estar metido nisso. Eu não posso confiar em ninguém!

Não pode, é? — disse Lawrence, surgindo atrás dela. — É uma pena. Nadinie procurou disfarçar suas apreensões.

— Charlotte me contou que o convidou para jantar.

— Se você tivesse me apresentado a ela assim que cheguei a Nova Iorque,

eu já teria sido convidado há muito tempo. Já estou cansado de comer em restaurantes, apesar da companhia extremamente agradável.

Bem, preciso ir andando — disse Charlotte, sorrindo e estendendo a mão para Lawrence. — Até amanhã, então.

Até amanhã. Foi um prazer conhecê-la. Charlotte beijou a irmã e saiu. Nadine continuou a conversar com Lawrence.

Está se divertindo?

Para falar a verdade, estou louco para ir embora. Posso?

Você precisa ficar no mínimo mais meia hora. Sinto muito. Mas pode deixar que eu o avisarei assim que estiver liberado.

Então, pelo menos me faça companhia. Assim, mais tarde, poderemos falar das pessoas que encontramos.

Com todo o prazer. Agora, vejamos. Quem foi que me pediu para ser apresentado a você? Bem mais tarde, Nadine conseguiu arrancá-lo de uma conversa com uma senhora gorda, de vestido vermelho.

a você? Bem mais tarde, Nadine conseguiu arrancá-lo de uma conversa com uma senhora gorda, de

Pronto, já cumpriu o seu dever, senhor Stebbine. Pode ficar à vontade.

Até que enfim. — E foi direto para a porta. Quando viu que ela não o acompanhara, voltou. — Você não vem?

Aonde? Comigo.

Quero ficar a sós com você.

Aquelas palavras não eram um bom sinal, mas seu desejo de continuar com ele depois do sucesso daquela festa era tentador demais. Concordou em ir andando com ele até o hotel, e assim seguiram pela 5ª Avenida.

Eu gostaria que você subisse ao meu quarto para tomarmos alguma coisa e comemorarmos em particular o sucesso da inauguração. — Era uma afirmação, não um pedido. Se ela subisse, acabariam inevitavelmente fazendo amor. Do jeito que o coração de Nadine estava batendo, do jeito que seus joelhos estavam moles só de ver o sorriso dele, sabia que não seria capaz de impedí-lo. E nem queria isso.

Não — disse ela, em tom de súplica.

Então vamos ao seu apartamento.

Não! — Desta vez, ela soltou um grito. Nadine sentiu que ele apertava sua mão com força, num gesto de frustração.

Por quê? — perguntou ele, depois de andarem mais alguns quarteirões. — Diga-me por que está fugindo. Sabe que estou louco por você, e às vezes consigo ver a Nadine que era louca por mim. Outras vezes, vejo uma rainha de neve, que parece ter medo de derreter se eu a tocar. Do que você tem medo?

Tenho medo de derreter.

Então, derreta! Por que negar a si mesma algo de que você gosta? — Como ela não respondesse, ele perguntou: — Você ainda não me perdoou, não é mesmo? Eu me desculpei de todas as maneiras possíveis, mas mesmo assim, ainda não me perdoou.

Eu o perdoei. Não é por isso que não quero dormir com você.

Então, o que é?

assim, ainda não me perdoou. — Eu o perdoei. Não é por isso que não quero

Não quero passar de novo pelo que já passei da outra vez. Eu não suportaria outra separação. — Sua voz estava trêmula. — Na verdade, nenhum de nós mudou, Lawrence. Eu continuo possessiva, insegura e ciumenta, e você despreocupado e egoista. Neste momento, você se sente atraído por mim, mas ficará assim por quanto tempo? Vai voltar para Florença e eu vou ficar em Nova Iorque. Para que nos envolvermos de novo?

Você sempre consegue me surpreender, Nadine. Não vê o quanto gosto de você? Disse que me perdoou, mas não confia em mim. Tenho certeza de que você também gosta de mim, mas não quer dar aos seus sentimentos a chance de se desenvolverem.

E exatamente isso. É claro que gosto de você. Mas não quero que meus sentimentos escapem de meu controle, para não ficar chateada quando você partir. Lawrence parecia preocupado.

Procure entender — continuou Nadine, pensando que ele não tivesse entendido. — Existem algumas coisas das quais eu gosto mais do que você.

E posso saber que coisas são essas?

Eu já lhe disse: segurança, independência. Não pretendo me apaixonar por alguém em quem não posso confiar.

Você acha que se passar a noite comigo ficará novamente apaixonada

por mim? Ficar apaixonada novamente por ele? Nunca, jamais! Mas ela nada respondeu. Sentia-se inquieta demais com toda aquela conversa, e além do mais tinham acabado de chegar ao hot e l.

Ainda não são nem dez horas. Suba comigo, nem que seja um pouquinho.

Primeiro, ela hesitou, sabendo que se subisse não seria por um pouquinho. Estava louca para adormecer nos braços dele, ao ritmo de seu amor, ouvindo palavras de carinho, e acordar com a respiração dele em seu rosto, olhos nos olhos. Afinal, seria apenas por uma noite.

palavras de carinho, e acordar com a respiração dele em seu rosto, olhos nos olhos. Afinal,

Sem nada dizer, segurou na mão dele e subiu a escadaria do hotel, entrando no saguão. Lawrence falou com o recepcionista, e então foram para o elevador. Assim que Lawrence fechou a porta do quarto, Nadine tirou os sapatos e foi até a janela, abrindo-a e respirando o ar fresco com os olhos fechados. Lawrence aproximou-se por trás e enlaçou-a pela cintura. Ela recostou a cabeça no ombro dele, e com os olhos semicerrados ficou olhando o movimento da rua. Por alguma razão, ela não tinha mais medo dos seus sentimentos. Lawrence beijou-lhe o alto da cabeça e apertou-a com mais força, resvalando os polegares pela base de seus seios. Foram interrompidos por uma batida na porta. Enquanto Lawrence recebia o champanhe que havia pedido, Nadine esticou-se como uma gata na poltrona, determinada a curtir aquela noite. Lawrence tirou o paletó e a gravata borboleta e serviu o champanhe. Enquanto bebiam, ficaram conversando sobre a exposição.

Sempre gostei de seus quadros — disse Nadine, com seriedade. — Acho que não os entendia. Lembra-se de que eu lhe disse que agora seus quadros estavam diferentes? Talvez seja eu quem tenha mudado e não seus quadros. Agora eu os entendo de uma maneira como jamais pude entendê-los.

Gostaria de poder dizer o mesmo a seu respeito. Eu sempre a amei, mas não consigo entendê-la. Você mudou e, ao invés de entendê-lá melhor, passei a entendê-la menos ainda. Aqui em Nova Iorque, eu conheci uma faceta sua que jamais pensei que possuísse. Você sempre foi uma pessoa tão expansiva, alegre, e agora a vejo tão reservada

Eu sei, eu sei. — E colocando um dedo sobre os lábios dele, disse: — Não vamos falar disso agora. Docemente, ele a puxou da poltrona para os seus braços, beijando-a com ternura. Depois de alguns instantes, seus beijos passaram a ser calorosos, exigentes, uma disputa de línguas e lábios.

Nadine, eu me enganei achando que poderia trazê-la aqui só para batermos um papo e nada mais. Não consigo tirar minhas mãos de você — disse, com uma voz rouca.

e nada mais. Não consigo tirar minhas mãos de você — disse, com uma voz rouca.

Eu já sabia que seria assim.

Você é mais esperta que eu. — E depois de dar-lhe mais um beijo, perguntou: — Tem certeza de que não vai se arrepender amanhã? Ela sacudiu a cabeça, dizendo:

Só se eu engravidar. Houve um longo silêncio, e finalmente ele disse:

Daremos um jeito. Você confia em mim? Ela assentiu, com o rosto ainda encostado ao dele. Lawrence levantou-se e puxou-a também. Depois de ficarem se olhando, embevecidos, Lawrence abriu o zíper do vestido dela e tirou-o pela cabeça. Nadine continuou parada, apenas de calcinha e meias. Então, os lábios dele passaram a percorrer caminhos sinuosos pelo corpo dela, começando pelo pescoço, descendo pelo colo, chegando á base dos seios e subindo novamente até o mamilo rosado, que ele segurou entre os dentes. Nadine jogou a cabeça para trás e enfiou as mãos no cabelo dele, soltando um gemido lânguido. Rapidamente, Lawrence desabotoou a camisa, enquanto Nadine debruçava-se para apagar o abajur. Ele a segurou, dizendo:

Já faz tanto tempo que eu não a vejo. Não apague a luz. Eles costumavam fazer amor com a luz acesa, explorando os sensuais mistérios de seus corpos, excitados por suas expressões de prazer. Nadine não sabia se poderia entregar-se a ele com o mesmo abandono de antes. Quando se deitou sobre ela, olhando-a nos olhos, Nadine percebeu que Lawrence sentiu que estava tensa. Ele a segurou pelos ombros, dizendo:

Você não quer me dizer o que está acontecendo? Está se comportando mais como uma virgem do que quando você realmente o era. — Percebendo que ela tinha ficado assustada com sua reação, prendeu uma mecha de cabelo atrás da orelha dela, num gesto carinhoso. — Você sabe que eu não quero fazer isso se não quiser. Mas aquela afirmação era só da boca para fora, pois a ereção dele era evidente quando se deitou novamente em cima dela. Em seguida, tirou-lhe as meias e a calcinha, e sua boca começou a acariciar-lhe os tornozelos e as pernas com

dela. Em seguida, tirou-lhe as meias e a calcinha, e sua boca começou a acariciar-lhe os

muita sensualidade. Depois, deitou-se ao lado de Nadine, que abriu-lhe as calças. Mas antes que ela continuasse, Lawrence segurou sua mão.

Meu amor, olhe para mim. Como ela se recusasse a obedecê-lo, levantou-lhe o rosto, segurando-a pelo queixo.

Você pode querer continuar mantendo seu segredo, e pode também não querer me contar por que está tão tensa e amedrontada. Entenda minha posição, só por um momento. Eu quero você e já fiz de tudo para me aproximar, mas você não deixa. Agora, já não sei se está querendo fazer amor comigo por minha causa, por causa de Everett, ou por alguma outra razão misteriosa, que me é desconhecida. E não me agrada não saber.

Não há nenhuma razão misteriosa. Só esta. — E, assim dizendo, guiou a mão dele até o ponto de seu corpo que provava toda sua excitação.

Não é a isto que estou dizendo — disse ele, acariciando-a lentamente e proporcionando-lhe um imenso prazer. — Estou contente que você me queira tanto quanto eu a quero, mas assim mesmo eu me sinto como se estivesse por fora. O que aconteceu depois que você voltou a Nova Iorque? Que segredo é esse que Everett sabe e eu não? Quero que me conte. Ela apenas sacudiu a cabeça, apavorada. "Agora não" pensou. "Não podemos estragar tudo agora." Antes, ela precisava ter certeza de que ele não lhe tomaria Jamie.

Você encontrou outro homem? Foi novamente magoada?

Não. Ninguém, Lawrence. Ela levantou os quadris ao sentir que estava sendo levada ao auge do prazer, e ele parou o movimento por alguns instantes.

Você não teve nenhum outro homem em todos esses anos, Nadine? Com este corpo e sensualidade, é difícil de acreditar. Ela estava pouco ligando se ele acreditava ou não; o que queria é que Lawrence parasse de conversar e continuasse a acariciá-la. Mas ele insistiu:

Por que não responde?

queria é que Lawrence parasse de conversar e continuasse a acariciá-la. Mas ele insistiu: — Por

Finalmente, ele conseguiu atingí-la. Ela abriu os olhos, sentou-se na cama, e com o rosto afogueado respondeu:

Você sabe por quê. Quem você pensa que é para ficar me fazendo esse tipo de pergunta, querendo que eu seja alguém que já não sou? Por que deveria confiar em você depois do que me fez? Nós dois somos adultos e sabemos o que queremos: sexo. Puro e simples. Mas você não se satisfaz em ter só meu corpo. Também quer meu coração e minha alma, sabe-se lá por quê. Mas isso você não terá, pois eles estão guardados em segurança. Pode me possuir, nós podemos nos possuir mutuamente, mas você não pode mais me magoar. Lawrence estava sentado na cama, recostado nos travesseiros, com as mãos cruzadas atrás da cabeça, olhando-a com admiração. Nadine colocou os pés no chão para se levantar, quando ele a puxou para si.

Então, vamos esquecer tudo — disse, respondendo ao olhar de interrogação que ela lhe lançou. — Eu posso esperar mais um pouco; o que não posso é ficar numa situação na qual mais tarde você poderia me acusar de só ter desejado sexo com você. Além do mais, para mim não seria o suficiente. Sinto muito, Nadine. Você também terá de esperar.

Se está fazendo isso só para me castigar

Não estou castigando você. Só não quero fazer amor sem que você me queira, mas queira mesmo, e não fazer sexo só para compensar quatro anos de abstinência. Talvez eu esteja sendo egoísta e arrogante, querendo que você retribua meu amor. Eu ainda acho que é melhor do que uma simples gratificação sexual, como você deseja.

Retribuir seu amor! Não me venha com essa! Você nem sabe o significado dessa palavra! Ele parecia determinado a não perder a paciência, e suavemente respondeu:

Se sua definição de amor é a histeria ciumenta de quatro anos atrás, talvez você esteja certa. Ela levantou-se, furiosa.

Aonde você vai? — perguntou Lawrence.

Você me insultou e humilhou. Vou para casa.

Ela levantou-se, furiosa. — Aonde você vai? — perguntou Lawrence. — Você me insultou e humilhou.

É justamente o contrário. Você é que me insultou e humilhou. Você é que fingiu que gostava de mim, quando a única coisa que queria era fazer sexo sem nenhum amor.

Você me provocou — Pegando seu vestido, apertou-o entre as

mãos.

Minha querida, não pense que eu estava menos excitado que você. Só que eu tenho um pouco mais de orgulho.

Orgulho! — Ela soltava faísca pelos olhos. Ele desceu da cama e aproximou-se dela.

Sim, orgulho. Imagine se acontecesse o contrário, ou seja, se eu, sabendo que você me amava, quisesse ir para a cama com você só para fazer sexo, deixando bem claro que eu queria fazer aquilo só por prazer físico, sem qualquer envolvimento emocional. Duvido que você quisesse. Ela não tinha o que responder.

Bem, agora, pelo menos, você entende o meu lado, apesar de eu não entender o seu. Sexo sem amor, casamento sem amor Por que isso tudo, Nadine?

Acho que deveria entender. Afinal, você fez sexo com Lily, mas disse que me amava. Foi sexo sem amor, ou você amava as duas?

Isso foi há quatro anos. Hoje, meus valores são diferentes. Com o passar do tempo, todos nós mudamos.

Sinto muito, Lawrence. — Era tarde demais, pois ela também tinha mudado muito. Ele passou a mão pela cabeça e sorriu.

Não vá embora — pediu. — Fazer amor é apenas urna parte do que eu queria fazer com você. Eu queria também conversar, dormir junto com você Vai ficar, não vai? Depois de hesitar por um momento, ela concordou.

Não se vista — disse ele, quando ela ia pegar o vestido. — Vou apagar a luz e conversaremos no escuro.

concordou. Não se vista — disse ele, quando ela ia pegar o vestido. — Vou apagar

Mas estou com frio. — E era verdade; estava toda arrepiada. Lawrence foi até o armário e pegou uma camisa de algodão do cabide.

Ponha isto. Ficará melhor. Enquanto ela vestia a camisa que lhe chegava até o meio das coxas, Lawrence tirou as calças e a cueca, e foi para a cama, apagando a luz em seguida.

Chegue mais perto — disse, quando Nadine se sentou na beirada da cama. — Vou esquentá-la. — Assim dizendo, passou um braço em torno dela e, com o outro, esfregou-lhe as costas e os ombros. Ela achou muito bom ficar lá deitada, com o rosto no peito dele.

Agora o momento era apropriado para contar-lhe sobre Jamie. Nadine sentia-se mais próxima dele do que nunca. Antes que Lawrence fosse à casa de Charlotte, antes que viesse a descobrir de outra maneira, ela lhe contaria sobre o filho.

— Lawrence?

Silêncio.

— Lawrence?

A única resposta foi um ressonar bem baixinho. Ela sentiu um misto de alivio e irritação. Sabendo que ele dormia, acariciou-lhe o peito e o ventre; Lawrence se mexeu, mas não acordou. Ela também acabou dormindo.

que ele dormia, acariciou-lhe o peito e o ventre; Lawrence se mexeu, mas não acordou. Ela

Capítulo Nove

Nadine estava um poço de ansiedade diante da iminência da chegada de Lawrence à casa de Charlotte. As crianças já tinham jantado e ela estava ajudando a irmã a arrumar a cozinha. Billy e Cory estavam assistindo a um filme na televisão, mas Jamie não queria desgrudar da mãe. Seu instinto lhe dizia que ele estava atrapalhando a mãe naquela noite, mas, apesar disso, continuou exigindo maior atenção que de costume. Um barulho de vidro quebrado fez Nadine pular de susto.

Jamie, tome cuidado! Ele tinha derrubado um jarro de vidro cheio de água no chão.

Não foi nada, Jamie — interveio Charlotte, vendo que ele tinha ficado assustado. — Deixe, a titia limpa tudo aqui, está bem? Cuidado para não se cortar. Mas Jamie, tentando ajudar, acabou por cortar o dedo e começou a chorar. Vendo que Nadine estava a ponto de explodir, de tanto nervosismo, Charlotte procurou dar um jeito nas coisas.

Ah, isso não foi nada, Jamie. Não chore mais. — Voltou-se para a irmã. — Nadine, faça-me um favor: vá até a sala e sirva-se de um aperitivo. Sei que Steve vai adorar ter companhia. Vou colocar um band-aid no dedo de Jamie e colocá-lo na cama, pois já é tarde.

Não! — choramingou Jamie. — Não! Quero ficar com a mamãe! O coração de Nadine derreteu ao ver o desespero do filho.

A mamãe não vai sair, querido — disse, pegando-o no colo. — Venha comigo, que eu vou fazer um curativo bem bonito no seu dedo. Vamos deixar a tia Chariotte aqui, para ela poder limpar a cozinha. Venha, meu amorzinho. Depois de fazer o curativo e segurar o filho no colo para acalmá-lo, Nadine trocou-o, colocou-o na cama e fechou a porta, deixando-o com um olhar triste e desafiador ao mesmo tempo. Steve serviu-lhe um uísque, insistindo na idéia de que ela deveria contar

um olhar triste e desafiador ao mesmo tempo. Steve serviu-lhe um uísque, insistindo na idéia de

a Lawrence sobre o filho.

Steve, nós já discutimos isso. Não posso correr o risco de perder Jamie para ele. Naquele exato momento a campainha soou e o coração de Nadine quase foi parar na garganta.

Coragem, garota! — disse Steve. — Estamos aqui para protegê-la. Deixe, eu atendo a porta. Enquanto Steve abria a porta, Nadine se sentou numa poltrona, procurando parecer despreocupada, mas, ao ouvir vozes no hall, deu um salto e se postou na frente da janela.

Oi, Lawrence.

Oi, Nadine. — E, ao invés de lhe dar a mão, beijou-a levemente nos lábios, fazendo-a corar. No decorrer do jantar, a tensão reinante no apartamento antes da chegada de Lawrence desapareceu por completo. Nadine conversava animadamente, discutindo sobre as diferenças dos estilos de vida americano e italiano. O filé estava uma delícia, acompanhado por duas garrafas de um excelente vinho, e a musse de chocolate encerrava com chave de ouro o jantar. O café foi servido na sala, e Charlotte e Steve deram um jeito para que Nadine se sentasse ao lado de Lawrence. Enquanto conversavam animadamente, um choro atrás da porta do quarto quase fez Nadine derrubar a xícara.

Mamãe! Sem perceber o que estava fazendo, Nadine colocou a xícara na mesa e já ia se levantando quando deparou com o olhar surpreso de Lawrence. Voltando a se sentar, olhou com ar de suplica para a irmã. Procurando disfarçar, Charlotte pediu licença e saiu apressadamente da sala. O ambiente estava mergulhado num silêncio desconfortável. Steve se levantou, oferecendo mais café, que Lawrence recusou e Nadine aceitou. Mas ela tremia tanto que Steve acabou por tirar-lhe a xícara das mãos. Os gritos de Jamie aumentaram.

que Steve acabou por tirar-lhe a xícara das mãos. Os gritos de Jamie aumentaram. — —

Mamãe! Eu quero a mamãe!

Nadine começou a ficar desesperada. Ela não podia deixar Jamie chorar, chamando-a, sem responder. Por que tinha concordado com aquele maldito jantar? Então ouviu a voz de Lawrence, que se dirigia a ela:

É melhor você ir, não acha? “Eu já deveria ter lhe contado”, pensou, levantando- se e saindo da sala. Nadine pegou Jamie do colo da irmã, e ele parou de chorar quase que de imediato, continuando apenas a soluçar.

Está tudo bem — disse Nadine a Charlotte. — Pode voltar para a sala. Charlotte abraçou a irmã.

Foi melhor que tivesse acontecido. Não era justo você guardar esse segredo. Você também não gostaria, se Lawrence fizesse o mesmo. Nadine não respondeu, e ficou embalando o filho, murmurando palavras de carinho, enquanto pensava na reação de Lawrence. Charlotte tinha razão: se ele guardasse um segredo como aquele, ela também ficaria furiosa. Ao ouvir a porta se abrir, ela olhou para trás e viu Lawrence, que olhava para o filho. Jamie levantou a cabeça do ombro da mãe e também ficou olhando para ele com curiosidade.

Oi, Jamie. — A voz de Lawrence era suave.

Oi. Lawrence se aproximou deles, com os olhos pregados em Jamie.

Você devia ter me contado. Nadine sacudiu a cabeça, sentindo um nó na garganta. Colocando Jamie na cama, cobriu-o e balbuciou:

Não podemos conversar aqui.

Aqui, não, mas nós vamos conversar. Debruçando-se sobre a cama, Lawrence beijou a cabeça de Jamie. Como por encanto, o menino dormeceu. Então, os dois saíram para o corredor.

Você ia deixar Jamie dormindo aqui? Suponho que ele também tenha dormido aqui ontem, não foi?

para o corredor. Você ia deixar Jamie dormindo aqui? Suponho que ele também tenha dormido aqui

Sim. Ao voltarem para a sala, encontraram Steve e Charlotte apreensivos. Lawrence foi objetivo:

: — Nadine disse que Jamie pode dormir aqui. Espero que vocês não se importem, pois temos muito que conversar,

Foi um prazer conhecê-lo — disse Steve. — Esperamos vê-lo outras

vezes.

;

Ao chegarem à rua, Lawrence começou a procurar um táxi.

Aonde vamos? — perguntou Nadine, sem saber se estava tremendo de frio ou de nervosismo.

Como eu já sei porque você nunca me convidou para ir ao seu apartamento, talvez agora a gente possa ir lá. A não ser que você tenha mais segredos Sem responder, ela entrou no táxi que havia parado e deu seu endereço ao motorista. Fizeram o trajeto todo sem trocar uma palavra, e Nadine sentia que a raiva de Lawrence crescia a cada momento. Como o apartamento era muito pequenino, Nadine se sentiu envergonhada, achando que Lawrence estava aborrecido por ver que seu filho estava vivendo naquele lugar horroroso, quando poderia estar correndo pelas campinas de Fiesole. Mas, pela expressão dele era impossível adivinhar o que se passava em sua cabeça.

O que você quer tomar: café ou alguma outra coisa?

Você devia ter me contado. — A voz dele tremia de raiva.

Eu ia lhe contar. Só não queria que ele ficasse exposto a toda aquela publicidade, e decidi esperar até depois da exposição. Ontem à noite eu ia lhe contar

Não estou falando de ontem à noite, ou da semana passada. Estou falando de quatro anos atrás. Você já sabia quando foi embora? Quando estava com enjôo na estação?

Não.

Estou falando de quatro anos atrás. Você já sabia quando foi embora? Quando estava com enjôo

Quando ficou sabendo?

Em janeiro.

Devia ter me contado, então. Nadine se preparou para a batalha, cruzando os braços.

Devia ter lhe contado o quê? Jamie é meu. Só meu.

Steve me disse a idade dele, e sou perfeitamente capaz de fazer contas. Também conheço um pouco de biologia. Que eu saiba, é totalmente impossível uma criança ser apenas de uma mulher.

Você sabe muito bem do que estou falando — disse ela, levantando o

queixo.

Não, não sei, não. Você devia ter me contado! Eu poderia, pelo menos, tê-la ajudado financeiramente, mesmo que você nunca mais quisesse me ver.

Eu me virei muito bem sozinha. Eu não queria e não precisava da sua

ajuda.

Steve me disse que lhe emprestava dinheiro até dois anos atrás.

E daí? Eu lhe paguei tudo. Além do mais, você deveria estar contente por seu filho não ter sido criado em berço de ouro, como eu fui. Você sempre achou isso errado. Sempre se achou superior por ter sido criado na pobreza. Não se sente realizado ao saber que seu filho teve a mesma criação?

Nadine, eu jamais permitiria que um filho meu passasse as necessidades que passei, se pudesse evitar.

O meu filho não passa necessidades. Nós vivemos muito bem.

Vocês não vivem muito bem, não. Você não só está negando um pai ao seu filho, como está negando uma mãe ao meu filho. Você trabalha, portanto passa o dia inteiro longe dele. Se ao menos gostasse do seu trabalho, eu ainda entenderia, mas você nem gosta do que faz!

Não estou negando nada a Jamie, nada. Ele tem uma mãe, que passa a maior parte do tempo possível com ele. Tem parentes que tomam conta dele com muito carinho e cuidado, quando necessário. Você não tem o direito de

ele. Tem parentes que tomam conta dele com muito carinho e cuidado, quando necessário. Você não

criticar o que eu fiz, ou como fiz. Fiz o melhor que pude.

Você sabe que não é assim. Se não o tivesse escondido de mim, teria meios de criá-o com maior segurança.

Ora, Lawrence, você não queria assumir nenhuma responsabilidade, quanto mais a de criar um filho! Pensa que é um homem honrado porque se casou com Lily, achando que ela estava grávida. Você acha que amor e honra são a mesma coisa? Eu o amava e aceitei viver com você nos seus termos, por causa disso. E não o abandonei porque você saiu com Lily. Eu o abandonei porque você abusou da liberdade na nossa relação. Aí, você perdeu todos os direitos ao seu filho.

Se eu soubesse da existência de Jamie — disse ele, com os dentes cerrados —, teria sido diferente.

Você quer dizer que teria se casado comigo porque ia ter um filho seu? Ora Lawrence, você acha que eu ficaria feliz se me casasse por causa de Jamie? A esta altura, você deve saber que sou mais egoísta e possessiva do que isso! Eu queria o seu amor, e não o seu maldito senso de obrigação! Lawrence se virou e ficou de frente para ela. Nadine sustentou seu olhar.

Você sabe que eu a amava tanto quanto você me amava. E também sabe que era uma pessoa muito difícil de se conviver, assim como eu também. Então, não venha pôr toda a culpa da nossa separação nas minhas costas. Você também teve a sua parte. Eu a amava tanto que lhe escrevi duas cartas, mesmo depois daquela sua resposta. Por favor, Nadine, tire-me do pedestal em que me colocou. Eu não sou um cafajeste, um traidor, mas também não sou aquele homem virtuoso e perfeito que você imaginava, ou queria que fosse. Sou apenas um sujeito comum, que está apaixonado por você. Ah, se aquilo fosse verdade! Mas como poderia acreditar nele agora?

Você quer dizer: estava apaixonado,

Ao contrário de você, digo o que penso: eu estou apaixonado por

você.

Você, provavelmente, fica interessado nas mulheres com quem faz

digo o que penso: eu estou apaixonado por você. — Você, provavelmente, fica interessado nas mulheres

sexo, e, para aliviar a consciência, chama esse interesse de amor. Assim que você se cansar de fazer amor comigo, ou assim que surgir algum problema com o qual não queira se preocupar, você irá procurar outra mulher.

Acha que egoísmo, ciúme e possessibilidade são sinônimos de amor, não é mesmo? E que amor é esse que fez você me abandonar? — perguntou Lawrence. A pequena sala estava carregada de amargura e ressentimento de quatro anos. Muitas acusações e palavras ásperas foram trocadas, até que Lawrence, finalmente, explodiu:

Mas isso foi há quatro anos! Como é que você pode ficar remoendo coisas velhas, que não interessam mais? Eu mudei, você mudou! É com a nossa relação atual que estou preocupado: eu, você e Jamie.

Será que você não entende que o que aconteceu há quatro anos influi, e muito, sobre o que está acontecendo neste momento? Sim, você tem razão: eu mudei. Foi você quem me ensinou como eu deveria ser, e aprendi a lição direitinho. Pode ter certeza de que mudei!

E o que foi que eu lhe ensinei?

A nunca mais confiar em você! Nunca mais! Ele cerrou os dentes e se aproximou dela. Por um momento, Nadine achou que tinha ido longe demais e que ele iria agredí-la; então, levantou o queixo num ar desafiador. Ele não a agrediu, mas suas palavras foram mais duras que qualquer agressão física.

Você é uma idiota, Nadine. Jamie é meu filho também. E eu não vou permitir que ele cresça sem pai, só com meia mãe. Nadine arregalou os olhos, aterrorizada. Aquilo era o que mais temia: ele ia tirar Jamie dela!

Não se atreva! Nunca deixarei que você me tire Jamie. Não vou permitir que faça com ele o que fez comigo. Custei para me recuperar de sua traição, mas uma criança ficaria marcada pelo resto da vida se fosse abandonada.

Custei para me recuperar de sua traição, mas uma criança ficaria marcada pelo resto da vida

Jamais deixarei que você entre mais uma vez na minha vida, ou na de Jamie! Jamais!

Eu nunca a traí e jamais trairei Jamie. Você quer fazer o favor de parar com esse melodrama?

Não vou discutir semântica com você — disse, procurando colocar desprezo em sua voz para disfarçar o medo. — Mas não vou deixar que você magoe meu filho do jeito que me magoou. Não posso perdoá-lo por ele, se não por mim. Depois de ficarem algum tempo em silêncio, Lawrence falou:

Eu estava enganado. Você não mudou nem um pouquinho. Continua sendo a mesma garota imatura, ciumenta e possessiva que conheci, e, ao que parece, nunca vai crescer para se transformar numa mulher. E, assim dizendo, deu-lhe as costas e saiu do apartamento, batendo a porta com força atrás de si. “Você também não mudou”, pensou Nadine. “Você sempre teve a mania de sair no meio de uma discussão.”

de si. “Você também não mudou”, pensou Nadine. “Você sempre teve a mania de sair no

Capítulo Dez

No dia seguinte, Nadine foi trabalhar bastante apreensiva. Ao mesmo tempo que temia que Lawrence lhe tomasse o filho, pensando até na possibilidade de rapto, sentía-se muito triste por eles terem brigado mais uma vez. No fundo de sua mente, ela acalentava uma imagem dos três juntos, sem a ansiedade que sentia pelo filho, sem as intermináveis horas de trabalho, sem sua eterna solidão. Um pouco antes do almoço, decidiu que à tarde ligaria para Lawrence e, se ele ainda não tivesse voltado para Florença, ela lhe pediria desculpas pelo seu comportamento na noite anterior. Naquele mesmo instante, o telefone tocou. — Galeria Mills. Nadine Barnet falando.

Nadine, é Lawrence. Desculpe ter saído daquele jeito ontem. Foi uma besteira que eu fiz. Ela não sabia o que dizer. Nunca pensara que ele pudesse lhe telefonar, ainda mais para pedir desculpas por ter saído, como se o que ela fizera não tivesse importância.

Tudo bem. Acho que, àquela altura, você estava muito nervoso.

Olhe, como nós não resolvemos nada ontem, que tal você me convidar hoje para jantar? Assim a gente termina aquela conversa de uma maneira mais civilizada. Prometo não sair às pressas e não ficar nervoso.

Seria muito bom, mas o problema é que Jamie estará lá, e não quero brigar na frente dele.

Mas nós não vamos brigar.

Verdade?

Verdade. O que você acha de eu passar na casa da sua irmã para pegar Jamie e levá-lo para o apartamento? Nadine hesitou.

casa da sua irmã para pegar Jamie e levá-lo para o apartamento? Nadine hesitou. — Pode

Pode deixar. Eu posso ir buscá-lo.

— Mas não me custa nada, e eu gostaria de conversar com ele a sós.

Havia tanta ansiedade na voz dele que o coração de Nadine se derreteu. Foi

um absurdo imaginar que ele poderia raptar seu filho.

Está bem, então. Fica mais fácil para mim.

Olhe, não precisa comprar nada. Jamie e eu vamos levar comida chinesa para casa. A que horas você chega?

Lá pelas cinco e meia.

Então, até lá. Às três horas ela pediu para sair, alegando uma dor de cabeça, e no caminho para casa comprou café, algumas velas e lenha para a lareira. Chegando ao apartamento, olhou-o com espírito crítico, e chegou à conclusão de que realmente não estava bom. Rapidamente, começou a arrumar as coisas no lugar, afofando as almofadas coloridas, que davam um toque alegre ao ambiente, e colocou um bonito xale nas costas de uma poltrona que estava manchada. Em seguida, pôs uma toalha xadrez em vermelho e branco sobre a mesa da cozinha, onde também

colocou duas velas acesas. A terceira vela ficou sobre a mesinha em frente ao sofá. Finalmente, acendeu o abajur que ficava ao lado da cama, no outro extremo da sala, e, satisfeita com o resultado, trocou de roupa e se deitou no sofá para esperar Lawrence e Jamie. Nadine ficou emocionada ao vê-los chegar: estavam de mãos dadas e Jamie olhava com adoração para o pai. Entregando um grande pacote a Nadine, Lawrence beijou-a no rosto. Ela ficou corada, e, para disfarçar, abraçou Jamie, que estava muito excitado.

— Lawrence quer ver os meus desenhos, mamãe! Eu mostrei o desenho que fiz na escola hoje e ele disse que gostou muito.

Que ótimo, querido. E, depois, Lawrence também poderá lhe mostrar alguns desenhos dele. Você gostaria de vê-los? Jamie arregalou os olhos, dizendo:

Você também desenha?

Para falar a verdade, sim.

Você gostaria de vê-los? Jamie arregalou os olhos, dizendo: — Você também desenha? — Para falar

Eu não sabia que gente grande sabia desenhar. A minha professora não

sabe.

Lawrence e Nadine trocaram um olhar de orgulho e ternura e entraram na sala. Olhando em torno de si, Lawrence exclamou:

Ei, isso aqui está lindo! O que foi que você fez? Tirou folga no serviço?

Ah, não estava tão ruim ontem, estava? — Então, deve ter sido minha imaginação. — Tirou a capa e ficou observando as velas acesas, o fogo na lareira, os móveis confortáveis. Então, sorriu para ela. — Eu trouxe um vinho. Que tal começarmos a tomá-lo enquanto esquentamos a comida? Nadine começou a tirar as coisas do pacote.

Nossa, isto aqui dá para uma família de oito pessoas — disse ela, examinando as diversas bandejas com diferentes pratos.

Se não conseguirmos comer tudo, guardaremos para quando tivermos más filhos. — Como ela olhasse assustada para ele, Lawrence deu uma piscada. — Onde está o saca-rolha? Nadine entregou-lhe o saca-rolha e Jamie voltou trazendo uma pilha de cadernos de desenho.

Jamie, por que você não leva Lawrence para a sala, para que ele possa ver melhor os seus desenhos? Vocês podem se sentar no sofá, perto da lareira, e acender a luz grande da sala, para enxergar melhor. Enquanto isso, eu esquento a comida. Por um bom tempo eles ficaram sentados no sofá, olhando os desenhos, conversando, rindo. Durante o jantar, Nadine ficou impressionada ao ver como o filho tentava imitar o pai na hora de rir, apertando os olhinhos e jogando a cabeça para trás.

Quando ninguém mais agüentava comer, Lawrence serviu mais um pouco de vinho e fez um brinde:

Este brinde é para nós: você, Jamie e eu. Jamie também brindou com seu copo de leite.

de vinho e fez um brinde: — Este brinde é para nós: você, Jamie e eu.

Enquanto Nadine fazia o café, Lawrence ofereceu-se para colocar Jamie na cama. Depois de uma pequena hesitação, ela acabou concordando. Ele a beijou com ternura, dizendo em seguida:

Gostaria de contar a Jamie hoje. Todo o corpo dela se enrijeceu.

Que você é pai dele?

Sim. Ela se virou e começou a mexer no bule, sem dizer uma palavra. Suas idéias estavam realmente muito confusas, mas ela não conseguia inventar uma boa razão para o filho não saber a verdade. Ao se voltar, os dois já haviam saído da sala.

Quando Lawrence voltou, sentou-se ao lado dela no sofá.

— Acho que ele ficou contente — disse, respondendo ao olhar inquiridor de Nadine. — E não me pareceu nada surpreso. Isso era uma coisa que ela não estranhava. Pai e filho tinham se

reconhecido e identificado muito além do interesse que compartilhavam pelo desenho. Sob muitos aspectos, eles eram almas gêmeas. Nadine, tomou mais um gole de vinho.

— O que vamos fazer? — disse finalmente. — Por que toda essa amizade e paternidade? Não entendo.

— Estou tentando ser seu amigo, e como Jamie faz parte da sua vida,

quero ser amigo dele também. Você sabe que aquilo que eu disse ontem, só falei por falar. Não vou tentar tirá-lo de você, Nadine. É você que me interessa. "Você está caindo na conversa dele e vai dar com a cara no chão", dizia-lhe uma voz interior. Ela respondeu lentamente:

—Acontece que isso não faz nenhuma diferença. Nós vivemos vidas separadas, em países separados. Teremos pouca chance de nos ver, e você terá poucas chances de ver Jamie. Portanto, seria fútil de nossa parte nos envolver um com o outro. Lawrence segurou a mão dela.

nos envolver um com o outro. Lawrence segurou a mão dela. — Neste momento, isso é

Neste momento, isso é verdade, mas podemos mudar isso.

Como?

Você poderia se casar comigo.

Isso é impossível.

Esqueça um pouco o passado e encare as coisas de um ponto de vista prático. Você largaria seu emprego na galeria, do qual não gosta, e poderia terminar seu curso de mestrado. Você e Jamie iriam morar em Florença, onde ele poderia respirar ar fresco e aproveitar a vida do campo, que é tão saudável, e ter uma excelente formação cultural, além de viver com a mãe e o pai. E eu poderia viver com a mulher que amo, minha musa inspiradora, e meu filho.

Do ponto de vista romântico, isso é maravilhoso. Mas você já pensou no meu lado? Posso não gostar do meu emprego e de morar em Nova Iorque com Jamie, mas aqui tenho segurança, e não posso me arriscar a perder tudo o que tenho, depois do que passei para conseguí-lo.

Nadine, meu casamento foi horrível e meu divórcio pior ainda, mas, apesar de tudo, eu quero me casar com você. Foi você quem me abandonou, e eu a perdoei. Quero recomeçar minha vida com você.

Não adianta, Lawrence, não posso correr esse risco. Não quero depender de ninguém, pois acho que não agüentaria sofrer mais um golpe. Além do mais, tenho de ter muito cuidado, porque quero proteger Jamie.

Você não confia mesmo em mim, não é?

Quando se trata de relacionamentos, você é muito diferente de mim. Você se apaixona e desapaixona num piscar de olhos. Pode fazer amor com dezenas de mulheres e dizer que ama todas. Pode se casar com uma dessas mulheres por achar que é um dever de honra, e, quando descobre que não havia necessidade, livra-se do relacionamento. Aposto que disse a Lily que a amava. Você não acha que a magoou? Já imaginou quanto ela deve tê-lo amado para forçá-lo a se casar com ela? Você magoa as pessoas porque não quer assumir a responsabilidade dos seus relacionamentos. Lily, eu, você mesmo, todos nós fomos magoados, e não vou deixar que magoe Jamie.

dos seus relacionamentos. Lily, eu, você mesmo, todos nós fomos magoados, e não vou deixar que

Lawrence se levantou e começou a andar de um lado para outro, até que finalmente falou:

Como você exagera o que fiz! Por que me faz ficar na defensiva o tempo todo? Já lhe pedi desculpas. Fiz muita besteira e assumo o que fiz, mas agora eu mudei. E não é possível que você continue achando que fui o único culpado da nossa separação. — Ele parou de andar e ficou olhando para ela. — Agora, tente ser prática. Você estaria adquirindo e não perdendo segurança. Nós três teríamos uma vida familiar, e você poderia se concentrar na defesa da sua tese de mestrado, sem qualquer preocupação financeira, vivendo numa cidade que eu sei que você adora, com seu filho e com o homem que a ama. Nadine, nunca deixei de amar você, acredite-me. Como ela desejou, durante todos aqueles anos, ouvir aquela declaração de amor! Tudo parecia um sonho: a casa em Florença, seu mestrado, Jamie correndo livremente pelos campos floridos, e Lawrence, o tempo todo ao lado dela. A oferta era praticamente irrecusável, mas ela já o amara muito e não dera certo.

Estou contente — disse finalmente. — Estou contente por saber que você me ama, pois agora vai ver como é bom. Agora vai entender o quanto sofri quando você me traiu com Lily.

Está bem. Agora você está vingada. Você me amava antes e eu a amo

agora. Se a gente fosse viver junto, talvez você voltasse a me amar e pudéssemos ser felizes. Mas não estou pedindo que você me ame. Só quero que aceite a segurança que estou lhe oferecendo, por você e por Jamie. Assim, ambos teremos o que mais queremos na vida: você quer segurança e eu quero você. Nadine sentia um zumbido na cabeça. Estendeu a mão para Lawrence e ele a segurou.

— Lawrence — começou, mas logo sentiu um nó na garganta. Com a outra

mão, segurou a cabeça dele e beijou-lhe o pescoço. Em seguida, abriu-lhe a camisa e acariciou-lhe o peito, fazendo-o gemer.

— Querida Ele a beijava no pescoço, na orelha, com sofreguidão.

Sentia que ela o queria. Ela apertou o corpo contra o dele, tremendo.

que ela o queria. Ela apertou o corpo contra o dele, tremendo. — Jamie pode acordar?

Jamie pode acordar? — ele perguntou entre beijos.

Não. Ele estava cansado. Ele a despiu, admirando a dança da luz das velas sobre seu corpo nu, e foram para a cama, que ficava no canto oposto da sala. Nadine sentia o corpo queimar até os ossos. A cama rangia sob o peso deles, e Lawrence a olhou com os olhos carregados de paixão.

Diga — ordenou ele, com a voz rouca. A princípio, ela não entendeu. Ele esmagou sua boca contra a dela, e depois desceu para o pescoço e os seios.

Eu amo você Eu amo você, Nadine. Era evidente que ele queria ouvir a mesma coisa dos lábios dela, e como ela continuasse calada, continuou aquele assalto carinhoso ao corpo dela.

Lawrence, por favor — gritou Nadine. Ela podia lhe entregar seu corpo, demonstrar todo o seu desejo, mas ainda não podia lhe dizer que o amava.

Finalmente, ele atingiu o centro de prazer dela, e em questão de segundos Nadine explodia numa delirante onda de arrebatamento. Agarrado a ela, e chamando seu nome, Lawrence a embalou nos braços. Seus corpos estavam molhados. Algum tempo depois, quando eles já não estavam mais ofegantes, Lawrence se apoiou sobre o cotovelo e passou a mão pelo rosto de Nadine, que a beijou.

— Antes de conhecer você, eu nunca soube o que era abrir o coração para

alguém. Quando era criança, tentei; primeiro para o meu pai, que nos abandonou, e depois para a minha mãe, que me tratou de forma abominável a maior parte do tempo. Assim, aprendi cedo que não podia ter sentimentos, a fim de me proteger. As únicas vezes em que me libertava era quando pintava, mas mesmo assim havia muita frieza em mim. E então conheci você, que era tão aberta, tão confiante, tão cheia de amor para dar. Você era mais forte do que eu porque não tinha medo de se dar, e eu me senti arrasado quando você se foi. Foi por isso que escrevi aquela carta, e a sua resposta só me confirmou que eu seria rejeitado se abrisse meu coração para alguém.

Desculpe-me. Sinto muito

Não tem importância, porque tudo isso serviu para uma coisa: eu aprendi a ter sentimentos e a expressá-los. Você se lembra de como notou que meus

isso serviu para uma coisa: eu aprendi a ter sentimentos e a expressá-los. Você se lembra

quadros estavam diferentes no mês passado? Só agora encontrei a explicação para isso: eu passei a pintar com sentimento, e isso uma coisa maravilhosa! Nadine escondeu as lágrimas, fechando os olhos.

Comigo foi diferente — disse ela. Eu era do jeito que você falou, mas agora sou insegura e uma das coisas que aprendi foi controlar minhas emoções. Não dou mais meu afeto e minha lealdade como costumava dar.

O autocontrole não é uma coisa ruim. Só porque você pode controlar suas emoções não significa que não as tem guardadas. Mas eu não sabia mais sentir emoções. Eu não tinha mais nada para controlar. Nadine assentiu, sentindo um misto de tristeza e alegria no peito. Lawrence a abraçou, e ela recostou o rosto no peito dele.

Venha comigo para Florença. Você vai ver como tudo vai dar certo. Depois de um longo silêncio, ela respondeu:

Está bem. Vou me casar com você. Lawrence respirou aliviado, depois de tanta tensão, e selou aquela promessa com um beijo.

Vamos nos casar antes de partirmos.

Mas não conte a Jamie ainda — disse ela, repentinamente.

Por que não?

É melhor esperar alguns dias. O coração de Nadine estava disparado como o de um animal assustado. Lawrence a beijou mais uma vez, e ela procurou afastar o pânico infundado que estava sentindo por ter assumido aquele compromisso. Nenhum dos dois dormiu bem, e logo que o dia amanheceu se levantaram e foram tomar café. Não tocaram no assunto da noite anterior, e como Jamie também acordou em seguida, pai e filho ficaram conversando animadamente à mesa. Lawrence se ofereceu para levar Jamie à escola e Nadine lhe entregou a chave do apartamento, porque assim ele poderia também trazê-lo de volta.

Então, até a noite — disse ele, beijando-a no rosto.

porque assim ele poderia também trazê-lo de volta. — Então, até a noite — disse ele,

Ela ficou olhando os dois descerem a escada, de mãos dadas, e sentiu o coração se contrair de amor e de um certo temor.

Charlotte e Steve os convidaram para jantar no dia seguinte, e Nadine finalmente concordou em anunciar seu noivado durante o jantar. Lawrence e Jamie já estavam em casa quando ela voltou do trabalho, e foi calorosamente recebida por eles. Depois de um rápido bate-papo, Nadine foi se trocar no quarto de Jamie, sendo seguida por Lawrence. Ele a abraçou enquanto ela calçava os sapatos.

O que aconteceu com aquele seu fantástico guarda-roupa? — perguntou ele, olhando dentro do armário. — Eu estava começando a achar que você tinha um quarto só para guardar as roupas.

Ah, eram todas da minha irmã; ela era bem mais magra. Lawrence ficou pensativo, mas não fez qualquer comentário. Nadine olhou para ele, que estava muito atraente, e sentiu uma onda de amor e desejo. Largando a escova, encostou o rosto no peito dele, e ele passou os braços em torno dela.

Nadine, vamos contar a seus pais que nós vamos nos casar. Você não gostaria que eles viessem ao casamento? Seria uma ótima oportunidade para fazer as pazes. Desvencilhando-se dos braços dele, ela voltou a escovar o cabelo diante do espelho.

Esqueça — ela disse, olhando-se no espelho.

Por quê?

— Eles me abandonaram de uma maneira pior que a sua. Não posso perdoá-los.

Mas o que foi que eles fizeram? Você nunca me contou.

Eles nunca me perdoaram por engravidar estando solteira. Eles nem quiseram saber de Jamie. Se não fosse Charlotte — Ela escovou o cabelo com tanta força que doeu. Ele se aproximou por trás e a abraçou pela cintura.

Charlotte — Ela escovou o cabelo com tanta força que doeu. Ele se aproximou por trás

Oh, querida. Deve ter sido horrível.

Foi horrível.

Mas agora você vai se casar, e eles devem estar morrendo de vontade de arrumar uma desculpa para vê-la novamente.

Se eles precisam de uma desculpa, que arranjem uma — disse bruscamente, soltando-se dos braços dele.

Meu amor, você não acha que deveria ser mais razoável?

Não. Eu não quero voltar correndo e dizer-lhes que finalmente segui o conselho deles e vou me casar! Não vou me casar por causa deles!

Mas não foi isso o que eu disse. Eu só estava sugerindo uma reconciliação. Você não pode continuar aborrecida com eles.

Eu não estou aborrecida. Simplesmente não penso neles. E não tenho a menor intenção de me reconciliar. Ela parou de falar quando viu Jamie na porta. Ele já estava pronto para sair:

de calças jeans, malha vermelha e um par de tênis que Lawrence havia lhe comprado naquele dia mesmo. Nadine teve de admitir que a mudança em Jamie, desde que Lawrence tinha aparecido, era extraordinária. Seus olhos ficaram suaves.

— Não fique zangada, mamãe. Lawrence não queria fazer nada de mal.

Está bem, querido — respondeu sorrindo. — Está pronto para ir à casa de tia Charlotte?

Tô.

Então vamos indo. Discutiria o assunto mais tarde, quando Jamie não estivesse por perto. Mas, infelizmente, o assunto voltou à tona durante o jantar, partindo de sua entusiasmada irmã.

— Mamãe e papai vão ficar tão contentes ao saber que vocês vão se casar! Vai

ser uma maneira maravilhosa de todos se reconciliarem, não acha, Lawrence? Antes que ele pudesse responder, Nadine falou rispidamente:

maravilhosa de todos se reconciliarem, não acha, Lawrence? Antes que ele pudesse responder, Nadine falou rispidamente:

Esqueça isso, Charlotte. Você sabe que para eles tanto faz. E se eles se importarem, melhor ainda! Que fiquem magoados. Para mim, eles morreram. Charlotte ficou chocada.

Não fale assim. — E olhou em volta para ver se nenhuma das crianças estava por perto.

Eu tinha comentado esse mesmo assunto um pouco antes de virmos para cá — disse Lawrence lançando um olhar de advertência para Nadine. — Ela deve estar achando que nós combinamos, que estamos querendo forçá-la a fazer algo que ela ainda não está preparada para enfrentar. Mudemos de assunto.

Steve resolveu vir em seu socorro.

Quando vocês pretendem voltar para Florença? — perguntou inocentemente, e não entendeu o olhar furioso de Nadine. — Mas o que foi?

Por que você acha que nós vamos morar em Florença? Provavelmente é porque eu sou mulher, e meu dever é seguir meu marido onde quer que ele vá? Nós ainda não decidimos onde vamos morar, mas não vejo razão para que seja em Florença, e não em Nova Iorque. Charlotte olhou assustada para Nadine. Lawrence segurou com força a taça de vinho e ficou olhando para as mãos. Steve se levantou, dizendo:

Nadine, ajude-me a servir o café, por favor. Char, querida, não é melhor vocês irem para a sala? Na cozinha, enquanto ela arrumava as xícaras na bandeja, Steve falou:

Você não me parece feliz com a decisão que tomou de se casar com Lawrence. Você sabe que sua irmã e eu só queremos o seu bem. Não acha que deveria pensar melhor no assunto antes de decidir?

Vocês acham que não sei o que é melhor para mim?

Não, não foi isso o que eu disse.

Por que vocês não me deixam em paz? Eu não preciso dos seus conselhos, não preciso dos meus pais, não preciso de ninguém! Pode deixar, que eu sei cuidar de mim mesma!

dos seus conselhos, não preciso dos meus pais, não preciso de ninguém! Pode deixar, que eu

Ninguém está dizendo que você não sabe. Nós só estamos tentando

ajudar

Então, parem de tentar! — exclamou, furiosa. — Por que é que tenho de voltar me arrastando para os meus pais e dizer-lhes que finalmente vou fazer o que eles sempre quiseram: casar com o pai de Jamie? Não é por causa deles que vou me casar com Lawrence, e também não é por achar que cometi algum pecado idiota vivendo com ele sem sermos casados! Lawrence apareceu na porta e ela já ia agredí-lo também, mas mudou de idéia ao ver a fúria reprimida nos olhos dele.

Vamos embora — disse ele calmamente. — Não vou ficar a noite inteira pisando em ovos para evitar uma briga, e não quero ser responsável por submeter Charlotte e Steve ao seu mau humor. — Olhou para Steve, que estava muito sem jeito, arrumando as xícaras. — Tomaremos o café numa outra ocasião.

Tudo bem.

Vá pegar Jamie — ordenou ele a Nadine. Ela obedeceu, dirigindo-se para a sala de televisão sem protestar, pois conhecia muito bem a raiva reprimida de Lawrence. Já em casa, depois de colocar Jamie na cama, Nadine se sentou no sofá e olhou para Lawrence com um ar de desafio. Ele tirou a malha, serviu-se de uísque e sentou-se numa poltrona, a uma certa distância dela. Preparada que estava para ouvir uma bronca, Nadine ficou espantada com as palavras dele.

Vou lhe fazer uma pergunta e quero que responda do fundo do coração. Sem truques, sem mentiras, está bem? — Ela assentiu. — O que você acha que estou pensando neste exato momento? Ela abriu a boca de espanto. "Do fundo do coração", ele dissera. O que achava que ele estava pensando? Abaixou a cabeça, sentindo-se humilhada.

Você acha que sou irracional, histérica, uma idiota imatura, e não quer mais se casar comigo. — Mal se podia ouvir sua voz. Ele deu um suspiro profundo, carregado de tristeza. Nadine pensava que ele fosse concordar, mas, ao invés disso, sentou-se ao lado dela. Nadine sentiu o sofá

tristeza. Nadine pensava que ele fosse concordar, mas, ao invés disso, sentou-se ao lado dela. Nadine

afundar sob o peso dele, mas não teve coragem de olhá-lo. A voz de Lawrence estava pesada.

Eu sabia que você ia dizer isso. Esta noite, você fez o possível para me fazer perder a paciência. É como se você quisesse me provar que eu não gosto de você o suficiente para me casar. Assim, eu deveria romper o noivado, para que você pudesse fazer, mais uma vez, o papel de vítima, dizendo a si mesma que continuo sendo o mesmo sujeito egoísta e mau-caráter de quatro anos atrás. Você está implorando para bancar a vítima, Nadine. Por quê?

Eu não estou. Não quero nada disso.

Acredito que você faça isso inconscientemente, mas por quê? Por que você acha que não me merece, ou que eu não a mereço? Ela sentiu a vista ficar turva, e se concentrou, tentando focalizar as coisas. Lawrence segurou-lhe as duas mãos e ela se sentiu dominada por aquelas mãos grandes, másculas. Sua voz não passava de um sussurro.

Acho que nunca vou me sentir de outro jeito. Serei sempre como sou agora:

insegura, desconfiada de sua fidelidade, sem saber se você me ama de verdade, ou se está se casando comigo por causa de Jamie, ou porque está com pena de mim — Engoliu em seco e continuou: — Não é só pelo que aconteceu entre nós no passado, é porque os meus pais também me abandonaram. Nunca pensei que eles pudessem fazer uma coisa dessas comigo. Você não imagina o pânico que senti! Tive tanto medo de não conseguir vencer sozinha.

Mas você conseguiu.

Consegui. Mas o preço que paguei foi alto demais para eu me arriscar a passar novamente pelo que passei. É por isso que não quero mais depender de você, dos meus pais, ou de quem quer que seja. E o amor é um tipo de dependência. É por isso que não quero mais ver meus pais. Porque eu os perdoaria e voltaria a precisar deles e a contar com eles como antigamente.

Esqueça seus pais. E eu?

Com você é a mesma coisa. Se me casasse com você, passaria a precisar de você, contar com você, e viveria aterrorizada, temendo que a qualquer momento eu

com você, passaria a precisar de você, contar com você, e viveria aterrorizada, temendo que a

fosse atirada na rua da amargura, e dessa vez eu teria Jamie para proteger também. Não posso me casar com você, Lawrence. Não posso mudar meus sentimentos. Pensei que pudesse, mas não posso. A resposta dele marcou o fim do relacionamento:

Eu sei. — Foi tudo o que ele disse.

Quando ela olhou para ele, para mostrar como estava sendo corajosa, como não estava chorando pelo rompimento do romance, ele nem pôde vê-la, pois estava com os olhos cheios de lágrimas.

— Nunca me perdoarei por destruir sua fé e confiança nas pessoas que ama.

Mas você esperou demais de mim, Nadine. Sou apenas um homem. Não posso sequer lhe prometer que se nós nos casássemos eu nunca mais a magoaria. Tenho minhas fraquezas, meus defeitos, e se você não pode conviver com eles, não daria certo. Ele se levantou abruptamente, ficando de costas para ela, com os ombros caídos. Sentindo um aperto no coração, ela se levantou e pôs a mão no ombro

dele.

— Lawrence Apoiando-se com as duas mãos na mesa da cozinha, como se estivesse muito fraco para sustentar o corpo, ele pediu:

Não faça isso. Ela voltou para o sofá, admirada com a tristeza dele, e ficaram assim por algum tempo, em completo silêncio. Lawrence foi o primeiro a se mexer. Pegando o copo de uísque, deu um gole muito grande e acabou engasgando. Nadine correu para acudí-lo e deu-lhe um tapa forte nas costas. Quando ele recuperou o fôlego, ambos começaram a rir, olhando um para o outro. Então, ele a segurou pelos pulsos e se beijaram desesperadamente. A grande frustração pela qual eles passaram transformou-se numa luta pela posse física. Aquela era a Nadine de antigamente: desinibida, audaciosa, meiga e terrivelmente excitante. Ela pressionava os seios contra o peito dele, brincando com a língua em sua orelha, pescoço, dentes e língua.

Ela pressionava os seios contra o peito dele, brincando com a língua em sua orelha, pescoço,

Rapidamente, ela o despiu lá mesmo, jogando as roupas no chão da cozinha. Enlouquecido com tanta provocação, ele a pegou no colo e a levou para a cama, onde a despiu quase com selvageria. Com o maior empenho, ele passou a cobrir todo o corpo dela de beijos, e Nadine também passou a excitá-lo, até que finalmente ele a puxou sobre si, fazendo com que ela o montasse e olhasse extasiada para ele, por entre as pálpebras semicerradas.

Quero que você me ame — ele ordenou com a voz rouca. — Venha, meu

amor.

E ela obedeceu. Seus corpos se transformaram em um só, e eles rolaram na cama, ao ritmo do amor, num frenesi de paixão. Lawrence nunca havia feito amor com tanta violência, como se quisesse tomar posse do corpo dela, já que não podia possuir sua alma. Ele foi aumentando o ritmo e a força, como se estivesse procurando alguma coisa dentro dela, até atingir o clímax, levando-a consigo naquela onda carregada de paixão, que finalmente arrebentava.

Quando ele soltou o peso do corpo sobre ela, percebeu que ela estava tremendo.

O que foi, meu amor? — perguntou, abraçando-a carinhosamente. Ele ainda estava ofegante. — Eu a machuquei?

Não. — A voz dela estava abafada pelo peito dele. — É que você foi

demais

Ele a abraçou com mais força.

Deve haver uma maneira de recomeçar — murmurou, sentindo-se frustrado. — Não vou desistir. Não vou mesmo.

— Deve haver uma maneira de recomeçar — murmurou, sentindo-se frustrado. — Não vou desistir. Não

Capítulo Onze

Quando Nadine acordou de manhã, viu que estava sozinha. Cansada, porém animada, depois do amor selvagem que tinham feito na noite anterior, espreguiçou-se e olhou em todos os cantos do quarto. Onde estaria Lawrence? Não havia nenhum ruído no banheiro ou no quarto de Jamie. Levantou-se, vestiu um roupão e foi até a cozinha, onde encontrou um bilhete em cima da mesa; era de Lawrence e dizia:

Fomos à escola. Volto daqui a meia hora. Não quisemos acordá-la.

Ela não pôde deixar de sorrir ao imaginá-los andando pelo apartamento na ponta dos pés, preparando o café sem fazer barulho, cochichando para não acordá-la. Estava chovendo forte, e Nadine decidiu tomar seu café. Ela não conseguia entender por que estava com aquela estranha sensação de alivio e felicidade. Teria sido o fato de eles concordarem que não se casariam mais? Aquilo não tinha o menor sentido. Enquanto tomava o café, ficou olhando a chuva que batia na janela. Como é que ia agüentar passar mais um inverno ali? Como ela ia agüentar o frio, a solidão, o emprego chato e a ansiedade pela segurança de Jamie? Não teria ela forças suficientes para conservar sua independência e amar Lawrence ao mesmo tempo? Ela quase achou que teria. A chave girou na porta e lá estava Lawrence, totalmente encharcado. O coração de Nadine deu um salto, vendo-o com o cabelo colado na cabeça e a roupa pingando.

Bom dia — disse ela, sorrindo. — Quer um café? A aparência dele era a de quem tinha passado a noite em claro; a barba por fazer e as olheiras davam a impressão de que ele estava exausto.

Aceito, sim, obrigado. — Tirou o paletó molhado, sacudiu-o e passou a mão pela cabeça, sentando-se em seguida.

Aceito, sim, obrigado. — Tirou o paletó molhado, sacudiu-o e passou a mão pela cabeça, sentando-se

Nadine serviu o caf