You are on page 1of 17

O CPC DE 2015 E O PROCESSO DO TRABALHO – BREVE ESBOÇO PARA

UMA COMPREENSÃO GERAL

Douglas Alencar Rodrigues, Ministro do Tribunal


Superior do Trabalho (TST), Mestre em Direito (PUC/SP),
Professor do Centro Universitário IESB, Presidente da
Academia Brasiliense de Direito do Trabalho (ABRADT) e
Membro do Instituto Brasileiro de Direito Processual Civil
(IBDP).

Introdução

Com o advento do novo Código de Processo Civil, introduzido pela Lei 13.105, de
16.3.2015, a sociedade brasileira renova suas expectativas e esperanças na atuação do
Poder Judiciário, esfera da soberania estatal que não tem logrado cumprir, no curso da
história democrática recente, com a eficiência e a qualidade desejadas, a missão
constitucional que lhe foi confiada.

A sociedade que emergiu com a superação do regime de exceção iniciado em 1964 e a


retomada da democracia tem demonstrado o desejo incontido de avanços e de
emancipação em sua experiência civilizatória.

O projeto social idealizado no Texto Fundamental de 1988 apresenta como fundamentos


a cidadania, a soberania, a dignidade da pessoa humana, o pluralismo político e os
valores sociais do trabalho e da livre iniciativa (art. 1º). A Carta Política de 1988 ainda
consagra como objetivos a construção de uma sociedade livre, justa e solidária, voltada
à promoção do bem de todos, sem preconceitos de quaisquer espécies, além da
erradicação da pobreza e da marginalização, da redução das desigualdades sociais e
regionais, garantindo-se o desenvolvimento nacional (art. 3º).

Esses louváveis fundamentos e objetivos, entretanto, enquanto importantes ideias-força,


de caráter aberto ou conteúdo indeterminado, exigiriam - e continuam a exigir - do
legislador a edição de normas adicionais, com o objetivo de densificar seus conteúdos
ou detalhar seus significados concretos, como forma de viabilizar a atribuição de
direitos e a imputação de deveres a todos os integrantes da sociedade.

Com esse propósito, são inúmeras as normas constitucionais e infraconstitucionais que


vinculam deveres, consagram direitos ou ainda indicam políticas públicas a serem
implementadas pelo Poder Público, com o propósito de permitir a realização dos
direitos fundamentais reconhecidos na Constituição da República.

No âmbito das relações entre particulares, a Carta Magna traça também parâmetros
relevantes de conduta, reconhecendo o direito de propriedade como direito fundamental
(CF, art. 5º) e a livre iniciativa (CF, art. 1º, IV), expressamente vinculados à função
social (art. 5º, XXIII, 170, III, 173, § 1º, I, 182, § 2º, 184, 185, parágrafo único e 186).
Passados quase 28 anos desde o advento da Carta Constitucional de 1988, os dados
estatísticos do Poder Judiciário dão conta da dimensão do desafio que lhe foi colocado
pela sociedade brasileira.

No âmbito do Conselho Nacional de Justiça - uma das mais louváveis inovações legadas
pelo processo de reforma do Poder Judiciário, inaugurado pela PEC 26-A de 1992 e
concluído com a Emenda Constitucional 45/2004 -, diversos estudos e projetos estão se
louvando em dados estatísticos precisos, colhidos junto a todos os órgãos do Poder
Judiciário. Além das múltiplas possibilidades de análise, inclusive sob as perspectivas
sociológica e econômica, tais dados estão fomentando políticas públicas judiciais,
voltadas ao resgate da decantada promessa de eficiência na prestação jurisdicional.

Também com o objetivo de resgatar esse ideal de eficiência judicial, o legislador


ordinário tem oferecido contribuições relevantes ao longo da história, merecendo
especial registro as inovações pontuais na legislação processual a partir da década de 90
do século passado, entre as quais as que: (i) introduziram a possibilidade de antecipação
dos efeitos da tutela e da tutela específica da obrigação, compartilhando entre os
litigantes os ônus da demora patológica do processo (CPC, art. 273 c/c as Leis 8.952/94
e 10.444/02); (ii) romperam com a noção de colegialidade nos tribunais, permitindo a
prolação de decisões monocráticas (CPC, art. 557 c/c a Lei 9.756/98); (iii) trouxeram
nova disciplina para o regime dos agravos retido e de instrumento (Lei 11.187/05); iv)
introduziram a noção do sincretismo processual, convertendo a execução em fase do
processo de conhecimento (Lei 11.232/05); v) consagraram a súmula impeditiva de
recursos e reforçaram a possibilidade de saneamento de vícios processuais em grau de
apelação (art. 581, § 1º, do CPC c/c a Lei 11.276/05; e vi) autorizaram o julgamento
liminar de improcedência, nos casos de demandas repetitivas já solucionadas
previamente pelo órgão judiciário (art. 285-A do CPC c/c a Lei 11.277/06).

Embora notável e digno de encômios esse esforço do legislador, é fato que não foram
produzidos os resultados desejados, o que acabou impondo a adoção de outra opção
política, vinculada à edição de um novo Código, forjado com a participação de diversos
juristas e parlamentares, num grande esforço pela maior racionalização do sistema
processual. Como fruto desse amplo trabalho, que envolveu protagonistas da academia,
da advocacia, do Judiciário e da arena política, foi editada a Lei 13.105, em 16.3.2015 -
o novo Código de Processo Civil, que, desde então, vem provocando estudos e debates
em todos os âmbitos e esferas da sociedade brasileira.

Cumpre, pois, a todos os atores da cena judiciária conferir sentido e efetividade às novas
disposições, de modo a permitir que as disputas sejam resolvidas a tempo e modo, de
forma verdadeiramente democrática e substancialmente justa.

1. Um novo sistema, um novo olhar, um novo tempo: síntese parcial das inovações
consagradas.

A partir do advento do CPC de 2015, o sistema processual brasileiro experimentou um


salto qualitativo inquestionável, pois fundado em bases teóricas verdadeiramente
democráticas e compatíveis com o ideal de justiça próprio ao Estado Democrático de
Direito ou ao Estado de Direito Democrático.

Breve análise de algumas de suas disposições permite identificar as características


essenciais do novo sistema processual.

No artigo 1º do CPC de 2015, dispôs o legislador que “O processo civil será ordenado,
disciplinado e interpretado conforme os valores e as normas fundamentais
estabelecidos na Constituição da República Federativa do Brasil, observando-se as
disposições deste Código.”

Com essa prescrição, o legislador torna claro o vínculo absoluto entre o sistema
processual democrático e as normas fundamentais da ordem jurídica, reafirmando a
força normativa dos princípios e o desafio lançado aos juristas de construção
permanente do sentido do justo, de acordo com as circunstâncias e especificidades
próprias a cada caso concreto.1

Confirmando o consenso teórico-doutrinário de que a busca por novas formas de


solução adequada de conflitos representa não apenas a saída para a crise de efetividade
do sistema judicial, mas também a garantia de maior qualidade e efetividade na
resolução de disputas, o legislador enalteceu e buscou estimular o recurso amplo à
arbitragem (art. 3º, § 1º), ao mesmo tempo em que indicou o dever estatal de promoção
de mecanismos consensuais de resolução de disputas, especialmente a mediação e a
conciliação, a qualquer tempo, mesmo no curso do processo judicial (art. 3º, §§ 2º e
3º).2

Após realçar e reafirmar a exigência de probidade e boa-fé dos litigantes (art. 5º) 3, fruto
da natureza pública do processo, o legislador introduziu, agora de maneira expressa e

1
De acordo com a doutrina, “... a nova lei institui um verdadeiro sistema de princípios que se soma às
regras instituídas e, mais do que isso, lhes determina uma certa leitura, qual seja, uma leitura
constitucional do processo (ou embasada no processo constitucional democrático), tendo como grandes
vetores o modelo constitucional do processo e seus corolários, devido processo legal (formal e
substantivo), o contraditório – em uma versão dinâmica (art. 10 Novo CPC), a ampla defesa e uma
renovada fundamentação estruturada e legítima das decisões judiciais (art. 489, Novo CPC).” (Novo
CPC – Fundamentos e sistematização. JUNIOR, Humberto Theodoro; DIERLE, Nunes; BAHIA,
Alexandre Melo Franco; PEDRON, Flávio Quinaud. Rio de Janeiro: Forense, 2015, 2ª. Edição, p. 46).
2
“4.1. O sucesso dessas formas de resolução de conflito, que começam agora a ganhar espaço em nosso
País, depende, principalmente, da capacitação desses profissionais e da credibilidade de que gozem
perante as partes e do respeito que venha a conquistar. 4.2. A novidade trazida por este dispositivo
consiste justamente em se abrirem portas para que o próprio magistrado (assim como advogados,
defensores e membros do Ministério Público) incentive as partes, tendo em vista as peculiaridades do
caso, a tentar a resolução do conflito pela mediação ou pela conciliação. (...). Aliás, já há alguns anos,
sente-se o estímulo às soluções consensuais de conflitos. Foram instituídas como políticas públicas no
Brasil (Res. 125, 2012 do CNJ). O NCPC abraça essa tendência, dedicando 11 (onze) artigos, toda uma
seção (Seção V – Dos Conciliadores e Mediadores Judiciais), para disciplinar a mediação e a
conciliação (arts. 165 a 175).” (Primeiros comentários ao novo código de processo civil: artigo por
artigo. WAMBIER, Tereza Arruda; CONCEIÇÃO, Maria Lúcia Lins; RIBEIRO, Leonardo Ferres da
Silva; MELLO, Rogério Licastro Torres de. São Paulo: Ed. RT, 2016, 2ª. Edição, revista e ampliada, p.
66).
3
“A boa fé pode ser reconduzida à segurança jurídica, na medida em que é possível reduzi-la
dogmaticamente à necessidade de proteção À confiança legítima – que constitui um dos elementos do
inequívoca, o dever de cooperação4 entre todos os sujeitos do processo, inclusive e
especialmente o juiz, como forma a viabilizar a resolução do mérito das disputas em
tempo razoável (art. 4º)5, com justiça e efetividade (art. 6º).6

Ainda de forma coerente com o mandamento inscrito no art. 1º do CPC, o legislador


fixou ao juiz, ao aplicar o ordenamento jurídico, o dever de atender aos fins sociais e às
exigências do bem comum, resguardando e promovendo a dignidade da pessoa humana
e observando a proporcionalidade, a razoabilidade, a legalidade, a publicidade e a
eficiência (art. 8º).

Com a perspectiva de garantir o acesso democrático ao Poder Judiciário, consagrou


também a noção de “contraditório maximizado”, afastando-se a denominada “decisão
surpresa” (art. 9º), mesmo quando envolvidas questões de ordem pública (art. 10),
embora com as ressalvas vinculadas à concessão de tutela provisória de urgência (art.
300) e evidência (art. 311, II e III) e às decisões em ações monitórias (art. 701).

A esse respeito, deve ser lembrada a compreensão já exposta pelo Tribunal Superior do
Trabalho (TST), segundo a qual são excluídas da vedação em causa, vinculada à
impossibilidade de cognição judicial sem prévia oitiva das partes, as questões
processuais de previsibilidade obrigatória, concernentes às condições da ação, aos
pressupostos de admissibilidade de recurso e aos pressupostos processuais, salvo
disposição legal expressa em contrário (art. 4º, § 2º, da IN 39/2016).

A leitura do novo CPC revela ainda a introdução de algumas normas importantes, na


linha do prestígio à resolução do mérito das disputas, com a superação da concepção
teórico-doutrinária, assimilada pela jurisprudência, que conferia às normas de direito
processual igual valor às normas de direito material. O novo sistema impôs a derrocada
dessa concepção que, embora praticada sob as luzes da concepção instrumental do
processo, considerava legítimas e plenamente válidas, do ponto de vista jurídico-formal,
as decisões lastreadas em aspectos de ordem técnica ou processual, que inviabilizavam

princípio da segurança jurídica – e de prevalência da materialidade no tráfego jurídico. Como elemento


que impõe tutela da confiança e dever de aderência à realidade, a boa-fé que é exigida no processo civil
é tanto a boa-fé subjetiva como a boa-fé objetiva.” (MARINONI, Luiz Guilherme. ARENHART, Sério
Gruz. MITIDIERO, Daniel. Novo Código de Processo Civil Comentado. São Paulo: Ed. RT, 2016, 2ª.
Edição, p. 151). Ver também: MEDINA, José Guilherme Garcia. Novo Código de Processo Civil
comentado: com remissões e notas comparativas ao CPC/1973. São Paulo: Ed. RT, 2015, p. 48-49.
4
A propósito, vale conferir o excelente estudo de Humberto Theodoro Junior, ob. cit., p. 69/92.
5
De acordo com Marinoni, “O direito à duração razoável do processo não constitui e não implica direito
a processo rápido ou célere. As expressões não são sinônimas. A própria ideia de processo já repele a
instantaneidade e remete ao tempo como algo inerente À fisiologia processual. (...). O que a Constituição
e o novo Código determinam é a eliminação do tempo patológico – a desproporcionalidade entre
duração do processo e a complexidade do debate da causa que nele tem lugar.” (ob. cit., p. 149).
6
“O fim da colaboração está em servir de elemento para organização de um processo justo e idôneo a
alcançar uma decisão de mérito justa e efetiva (art. 6º, CPC) além de viabilizar a formação de
precedentes devidamente dialogados no âmbito da Justiça Cível.” (MARINONI, ob. cit., p. 154).
o exame do mérito das disputas e que, levadas ao extremo, consolidaram o que se
convencionou denominar de “jurisprudência defensiva”.7

No art. 357 do CPC de 2015, o legislador erigiu condutas de caráter profilático a serem
adotadas pelo magistrado, realçando com letras fortes o compromisso com a melhor
preparação ou instrução das causas.

Nesse sentido, estabeleceu que, não sendo o caso de extinção do processo sem resolução
do mérito (CPC, art. 485), de extinção do feito com resolução do mérito (pela pronúncia
da decadência ou da prescrição ou ainda de decisão homologatória de reconhecimento
do pedido, transação ou renúncia à pretensão – art. 487, II e III) ou de julgamento
antecipado do mérito da lide (arts. 355 e 356), o juiz deve “preparar a causa” para
viabilizar a melhor cognição possível, delimitando as questões de fato sobre as quais
recairá a atividade probatória, especificando os meios de prova admitidos, definindo a
distribuição do ônus da prova e identificando as questões de direito relevantes para a
solução do mérito do conflito.

Essa notável previsão, sediada no art. 357 do CPC, deve ser analisada em consonância
com as regras que dispõem sobre o novo sistema de precedentes judiciais e que
consolidaram a aproximação do nosso sistema jurídico de tradição romano-germânica
(que tem na lei a fonte primária de deveres e direitos) com o sistema anglo-saxão (em
que os precedentes assumem o papel primário de orientar condutas, gerando deveres e
direitos aos integrantes da sociedade).

Pelas novas regras, os precedentes judiciais, quando editados em conformidade com os


procedimentos previstos no CPC, serão alçados à condição de fontes normativas
dotadas de poder vinculante e de observância obrigatória (art. 927, III).

Com esse mesmo espírito há de ser considerado o dever de fundamentação analítica e


exauriente, inscrito no § 1º do art. 489 do CPC de 2015 e objeto de larga polêmica no
seio jurídico, particularmente da magistratura.

No novo sistema de precedentes, em que são vinculantes as decisões com reflexos


massivos (art. 976) ou que resolvam relevantes questões de direito, com grande
repercussão social (art. 947), o papel dos magistrados de primeiro grau cresce
exponencialmente, pois as singularidades fáticas dos casos que lhes são submetidos
representam as bases do raciocínio jurídico a ser empreendido nos julgamentos futuros,

7
Entre essas disposições, podem ser citados: o art. 139, IX, que consagra o dever do magistrado de
determinar o suprimento de pressupostos processuais e o saneamento de outros vícios; o parágrafo único
do art. 932, em que vedada ao Relator a inadmissão de recursos sem previamente facultar a correção de
vícios; o § 5º do art. 1.024, no qual dispensada a ratificação, complementação ou alteração de recurso
aviado, mesmo quando alterado o julgado recorrido por força de embargos de declaração opostos pela
parte contrária; o § 3º do art. 1.029, segundo o qual é facultado ao STF e ao STJ desconsiderar ou mandar
sanar vício formal não grave, em recurso tempestivo dirigido às referidas Cortes; os §§ do art. 1.007,
segundo os quais defeitos no preparo de recursos devem ser submetidos a procedimento corretivo, antes
da pronúncia da deserção.
balizando tanto a edição de súmulas (art. 926, § 2º), quanto vinculando a pesquisa
acerca de sua aplicabilidade a outros casos concretos (art. 489, § 1º, V e VI).8

Ainda a propósito do art. 357 do CPC de 2015 e de sua aplicação, mesmo que tópica ao
processo do trabalho, particular destaque deve ser conferido ao tema da definição das
questões de fato, meios de prova e ônus subjetivo correspondente, em instante anterior
ao início da fase de instrução propriamente dita.

No âmbito da jurisdição laboral, em que a regra é a cumulação objetiva de pedidos,


normalmente vinculados a questões de fato, as partes duelavam na arena da instrução,
sem, porém, deter a certeza objetiva acerca da titularidade do ônus subjetivo da prova,
matéria apenas definida pelo juiz no instante do julgamento.

Muito embora não exista previsão expressa de decisões saneadoras no âmbito do


processo do trabalho, cujos procedimentos, estruturados a partir da audiência, são
gravados por uma dinâmica que prestigia a celeridade e a economia processuais, parece
razoável exigi-la dos magistrados trabalhistas, na linha da concepção colaborativa e
participativa introduzida pelo CPC de 2015 (art. 6º).

A adoção de medidas e procedimentos saneadores já na própria audiência dita inicial,


antes ou imediatamente após a apresentação da defesa, prestigia a regra da decisão de
mérito (art. 4º) e impede a edição de decisões não precedidas de um procedimento justo
e democrático, relativamente à delimitação dos fatos controvertidos, dos meios de prova
admissíveis e da prévia imputação do ônus subjetivo correspondente.

É preciso recordar que o TST, ao editar a Instrução Normativa 39, de 16 de março de


2016, não pretendeu exaurir a análise das novas normas processuais aplicáveis ao
processo do trabalho, como está claramente delineado no art. 3º da referida instrução,
que possui o seguinte teor: “Sem prejuízo de outros, aplicam-se ao Processo do
Trabalho, em face de omissão e compatibilidade, os preceitos do Código de Processo
Civil que regulam os seguintes temas: (...).”

Por conseguinte, e porque compatível com a filosofia abraçada pelo novo CPC, nada
impede, alias tudo recomenda, que os magistrados trabalhistas conduzam a instrução
com transparência e objetividade, indicando, logo na audiência em que recebida a
defesa, instante adequado para a melhor ordenação dos futuros atos de instrução, quais
são os fatos controvertidos, quais as provas admissíveis e a quem cabe resgatar o ônus
probatório correspondente.

8
“Amplia-se o debate contraditório (art. 10) e, com isso, fortalece-se a fundamentação adequada (art.
489), de modo a que as decisões possam melhor servir de substrato para um sistema que se vale dos
precedentes como técnica decisória. Com decisões mais bem fundamentadas, após uma cognição mãos
bem preparada (art. 357), inclusive com possibilidade de acordo processual típico, com fixação de
limitação cognitiva e efeitos preclusivos (saneador negociado e comparticipado – Art. 357, §§ 2º e 3º),
confia-se na diminuição das enormes taxas de reforma, fruto do atual debate superficial.” (JUNIOR,
Humberto T., ob. cit., p. 21-22).
Deve ser realçado que o art. 15 do CPC prevê a aplicação de suas disposições (regras e
princípios) ao processo do trabalho, de forma supletiva (em caso de omissão absoluta) e
subsidiária (em caso de omissão parcial), ao passo que o TST, ao editar a IN 39/2016,
apenas tencionou expedir uma orientação inicial aos atores judiciais acerca dos
impactos das novas regras, não assumindo, portanto, posição definitiva, fechada ou
absoluta.

Cabe, pois, aos magistrados e advogados, na gestão de casos concretos, construir os


limites de aplicação dos novos procedimentos, como forma de realizar os valores
democráticos e de justiça visados pelo novo CPC.9 10

Várias outras inovações mostram-se dignas de menção, pela relevância processual que
ostentam e pelo potencial de transformação da realidade vivida pelo Poder Judiciário,
seja em relação ao grau de justiça de suas decisões, seja no que concerne ao maior grau
de racionalização sistêmica conferido à atuação de seus órgãos.

Disciplinado nos artigos 133 a 137, o Incidente de Desconsideração da Personalidade


Jurídica (IDPJ) foi idealizado para conferir maior segurança e juridicidade às decisões
que superam o biombo fictício e formal da pessoa jurídica, alcançando o patrimônio de

9
Nas palavras de Luiz Guilherme Marinoni: “A concretização da norma processual deve tomar em conta
as necessidades de direito material reveladas no caso, mas a sua instituição decorre, evidentemente, do
direito fundamental à tutela jurisdicional efetiva. O legislador atua porque é ciente de que a jurisdição
não pode dar conta das variadas situações concretas sem a outorga de maior poder e mobilidade,
ficando o autor incumbido da identificação das necessidades concretas para modelar a ação processual,
e o juiz investido do poder-dever de, mediante argumentação própria e expressa na fundamentação da
sua decisão, individualizar a técnica processual capaz de permitir-lhe a efetiva tutela do direito. A lei
processual não pode antever as verdadeiras necessidades de direito material, uma vez que estas não
apenas se transformam diariamente, mas igualmente assumem contornos variados, conforme os casos
concretos. Diante disso, chegou-se naturalmente à necessidade de uma norma processual destinada a
dar aos jurisdicionados e ao juiz o poder de identificar, ainda que dentro de sua moldura, os
instrumentos processuais adequados à tutela dos direitos”. (A legitimidade da atuação do juiz a partir do
direito fundamental à tutela jurisdicional efetiva. In: MEDINA, José Miguel Garcia; CRUZ, Luana
Pedrosa de Figueiredo; CERQUEIRA, Luís Otávio Sequeira de; GOMES JUNIOR, Luiz Manoel. Os
poderes do juiz e o controle das decisões judiciais: estudos em homenagem à professora Teresa Arruda
Alvim Wambier. São Paulo: RT, 2008. p. 230-231).
10
Também oportuna a lição de Ben-Hur Silveira Claus: “Depois de assinalar que o procedimento não é
pura forma, Mauro Cappelletti registra que sobre o procedimento recai o imenso desafio de nossa época,
cabendo-lhe articular rapidez, eficiência, justiça, liberdade individual e igualdade; uma das mais
eloquentes formulações acerca da relação ontológica em que se entrelaçam procedimento e direito
material. Na teoria jurídica , essa genética relação entre direito substancial e procedimento é
compreendida como expressão do fenômeno do pertencimento que se estabelece desde sempre entre
objeto (direito material) e método (procedimento). Daí a consideração epistemológica de que direito
substancial e procedimento são categorias conceituais que operam numa espécie de círculo
hermenêutico: as respostas procedimentais nos remetem ao direito material a ser concretizado. Em
outras palavras: somos reconduzidos ao direito material quando nos dirigimos às questões
procedimentais. A circularidade entre pergunta e resposta vem à teoria jurídica enquanto legado da
filosofia hermenêutica de Gadamer: o direito processual somente se deixa compreender no retorno ao
direito material em que reconhece sua própria identidade; numa metáfora, o direito processual mira-se
na superfície do lago do direito material em busca de sua identidade.” (O incidente de desconsideração
da personalidade jurídica previsto no CPC 2015 e o Direito Processual do Trabalho. Disponível em <
http://www.enamat.gov.br/wp-content/uploads/2015/11/TD14_Ben_Hur_Silveira_Claus_4_O-incidente-
de-desconsidera%C3%A7%C3%A3o-da-personalidade-jur%C3%ADdica-previsto-no-novo-CPC.pdf>.
Acesso em 11.7.2016).
seus sócios em situações expressamente previstas em lei (art. 34 da Lei 12.529/2011,
art. 28 da Lei 8.078/90, art. 4º da Lei 9.605/98 e art. 50 do CC).

Concebida como modalidade de intervenção de terceiros, o legislador processual de


2015 forjou um procedimento enxuto e objetivo para a sua arguição e resolução,
preservando o contraditório e a prolação de decisão interlocutória fundamentada.

Embora possa ser instaurado na fase que antecede a formação da coisa julgada, caso em
que a decisão que vier a ser proferida será irrecorrível (CLT, art. 893, § 1º c/c o art. 6º, §
1º, I, da IN TST 39/2016), o incidente em exame deverá ser mais frequente na fase de
cumprimento da sentença, momento em que poderá ser instaurado, inclusive de ofício
pelo magistrado (CLT, art. 878).

Nesse último caso, a decisão que vier a ser proferida desafiará, no âmbito da Justiça do
Trabalho, a interposição de agravo de petição, independentemente da garantia do juízo
(art. 6º, § 1º, II, da IN TST 39/2016)11.

Cuida-se, portanto, de mais uma exceção, definida pelo TST, ao postulado da


irrecorribilidade imediata das decisões interlocutórias no processo do trabalho (CLT,
art. 893, § 1º c/c a Súmula 214 do TST).

A experiência jurisdicional tem revelado que a fase de cumprimento da sentença


representa, nos domínios da jurisdição especializada, o “calcanhar de Aquiles” do ramo
trabalhista do Poder Judiciário, cuja atuação, no curso da história, tem buscado
assegurar maior efetividade aos direitos sociais fundamentais trabalhistas.12

Embora inspirados no louvável objetivo de tornar concretas condenações inscritas em


títulos judiciais, muitos dos juízes do trabalho acabam por impor ritos e procedimentos
que encerram claro atropelo às garantias processuais fundamentais conferidas aos
litigantes.

Não são raros os casos que desaguam nos tribunais do trabalho, em que se discute a
adequação formal dos atos processuais praticados no curso de execuções trabalhistas,
nos quais se opera a decretação da desconsideração da personalidade jurídica dos entes
morais executados, a apreensão de patrimônio de seus sócios ou a decretação de fraude
11
“Art. 6°Aplica-se ao Processo do Trabalho o incidente de desconsideração da personalidade jurídica
regulado no Código de Processo Civil (arts. 133 a 137), assegurada a iniciativa também do juiz do
trabalho na fase de execução (CLT, art. 878). § 1º Da decisão interlocutória que acolher ou rejeitar o
incidente: (...) II - na fase de execução, cabe agravo de petição, independentemente de garantia do juízo;
(...).”
12
De acordo com o relatório Justiça em Números, relativo ao ano de 2015 (p. 196), divulgado pelo
Conselho Nacional de Justiça: “Constava na Justiça do Trabalho um acervo de 4,4 milhões de processos
que estavam pendentes de baixa no início do ano de 2014, dentre os quais, quase a metade (49%) era
referente aos processos de 1º grau na fase de execução. (...).No 1º grau, apesar de os processos de
execução de título extrajudicial apresentar taxas de congestionamento superiores ao grupo de processos
de execução judicial (taxas de 79% para os processos de execução extrajudicial não fiscal, 74% para as
execuções fiscais e 66% para as execuções judiciais), o volume dos processos de execução judicial é bem
maior, o que vem a causar maior impacto visto que estes processos representam aproximadamente 94%
do total de casos pendentes na fase de execução da Justiça do Trabalho.” (Disponível em:
http://www.cnj.jus.br/programas-e-acoes/pj-justica-em-numeros. Acesso em 11.7.2016).
à execução e consequente ineficácia dos atos de alienação de domínio por eles
praticados ao tempo em que tramitavam as reclamações trabalhistas.

Embora tais medidas estejam previstas pelo ordenamento jurídico e sejam legítimas
quando frustradas as medidas ordinárias de execução, é fato que as decisões judiciais
assim proferidas, regra geral, não são adequadamente fundamentadas (ou contam com
motivação lacônica) e não são precedidas da ordem de citação dos sócios das empresas
executadas, aos quais sequer é garantido o benefício de ordem expressamente previsto
em lei (art. 1.024 do CC).

Não convencem os argumentos contrários à aplicação do IDPJ no âmbito da jurisdição


trabalhista, normalmente centrados na: a) necessidade de iniciativa da parte; b)
concessão de efeito suspensivo ao processo; c) ônus da prova do credor em relação à
presença dos requisitos legais para a desconsideração; d) necessidade de contraditório
prévio, com possibilidade adoção de medidas de frustração da execução, após citados,
com a alienação ou ocultação do patrimônio; e) recorribilidade autônoma da decisão que
decide o incidente; e e) óbvia ciência dos sócios acerca da existência e do estado
processual das ações propostas contra as empresas.13

Em primeiro plano, a previsão de requerimento da parte para a instauração do incidente


não se mostra incompatível com a possibilidade de atuação de ofício do julgador na fase
de cumprimento da sentença (CLT, art. 878), tratando-se de clara hipótese de aplicação
supletiva do CPC ao processo do trabalho.

A concessão de efeito suspensivo ao incidente, da mesma forma, não parece constituir


óbice à adoção do procedimento previsto para a superação da personalidade jurídica da
empresa devedora, seja porque esse efeito já era previsto para as ações incidentais de
embargos de terceiro, normalmente manipuladas pelos sócios das pessoas jurídicas
executadas, convocados a adimplir a obrigação exequenda, seja porque a oposição
alternativa de embargos à execução pelos mesmos sócios, e posterior agravo de petição,
produzia na prática aquele efeito suspensivo, igualmente inibindo a conclusão dos atos
de execução. A rigor, portanto, o debate acerca da responsabilidade patrimonial dos
sócios, antes travado em incidentes (exceção de pré-executividade) ou ações incidentais
(embargos à execução ou embargos de terceiro), apenas foi antecipado.

Adotada a teoria menor da desconsideração da personalidade jurídica no âmbito da


Justiça do Trabalho e sendo conduzidas de ofício as execuções por seus juízes, parece

13
Por todos, confira-se a argumentação de Ben-Hur Silveira Claus: “A necessidade de iniciativa da parte
(art. 133), a previsão de automática suspensão do processo (art. 134, § 3º), a atribuição ao credor do
ônus da prova quanto à presença dos pressupostos legais que autorizam a desconsideração da
personalidade jurídica da sociedade (art. 134, § 4º), a exigência de contraditório prévio (art. 135) e a
previsão de recurso autônomo imediato da decisão interlocutória respectiva art. 136 e parágrafo único)
tornam o incidente de desconsideração da personalidade jurídica revisto nos arts. 133 e seguintes do
NCPC incompatível com o processo do trabalho, por revelar-se, na prática, manifestamente contrário
aos princípios jurídicos trabalhistas do impulso oficial, da concentração dos atos, da celeridade e da
efetividade, da simplicidade das formas e da irrecorribilidade autônoma das decisões interlocutórias,
incompatibilidade essa que inviabiliza a aplicação subsidiária desse incidente – burocrático e ineficaz –
à execução trabalhista (CLT, arts. 769 e 889).” (ob. cit., p. 15).
inaplicável o debate em torno do ônus da prova dos pressupostos legais previstos para a
afetação patrimonial dos sócios.

O argumento vinculado à recorribilidade imediata da decisão que resolver o incidente,


da mesma forma, não parece inibir a sua aplicação no âmbito da Justiça do Trabalho.
Afinal, a doutrina e a jurisprudência ainda não lograram pacificar a exata vocação do
recurso de agravo de petição (CLT, art. 897, “a”), também admitido contra decisões de
cunho interlocutório, a depender das circunstâncias da causa ou da relevância das
questões debatidas. Em se tratando, portanto, de ato judicial que alcança patrimônio de
pessoa não integrante da relação processual, nada mais razoável que do que assegurar
plenamente o contraditório e o direito de defesa.

De se notar que o legislador expressamente dispôs que, uma vez “Acolhido o pedido de
desconsideração, a alienação ou a oneração de bens, havida em fraude de execução,
será ineficaz em relação ao requerente” (art. 137), bem assim que a declaração de
fraude à execução, nos casos em que for desconsiderada a personalidade jurídica,
retroagirá à data da citação da parte cuja personalidade se pretenda superar (art. 792, §
3º, do CPC).

Definitivamente, a ação do Estado, em qualquer de suas esferas, deve ser conformar ao


devido processo legal, tanto na perspectiva procedimental, com a estrita observância das
garantias fundamentais e procedimentos processuais previamente delineados, quanto na
dimensão material ou substantiva, com respeito às noções essenciais da razoabilidade e
da proporcionalidade.

Em boa hora, portanto, o legislador disciplinou o procedimento destinado a fixar a


responsabilidade dos sócios e alcançar seus bens, ante a condição potencial de
responsáveis patrimoniais sucessivos ou secundários.

Também digna de menção a recente inovação centrada no Incidente de Resolução de


Demandas Repetitivas (IRDR), disciplinado nos artigos 976 a 987 do CPC, idealizado
para resolver, de forma célere e democrática, questões que afetam grandes contingentes
de cidadãos e/ou pessoas jurídicas, e que figuram em milhares de ações distribuídas
aleatoriamente entre os vários órgãos judiciários, com grave risco de ofensa à isonomia
e à segurança jurídica.

Fundamentalmente, os recursos em que suscitado o IRDR assumem natureza também


objetiva (alcançando todos quantos se encontrem na mesma questão jurídica), de tal
sorte que o mérito da controvérsia será julgado mesmo que haja desistência ou
abandono por parte dos litigantes (art. 976, § 1º).

Considerando que a tese a ser editada no IRDR afetará um número expressivo de


cidadãos e entidades jurídicas, que figuram como partes em ações judiciais outras,
impôs o legislador a mais ampla divulgação e publicidade, cabendo ao relator ouvir as
partes e os demais interessados, inclusive pessoas, órgãos e entidades com interesse na
controvérsia, com ampla possibilidade de produção de provas e realização de audiência
pública (art. 983).

Com a observância desse procedimento, aberto a todos os interessados, a tese jurídica


consagrada no julgamento do incidente deverá ser aplicada, de forma obrigatória, pelos
órgãos judiciários vinculados ao tribunal aos casos pendentes e futuros (art. 985),
admitindo-se a reclamação quando não observada (CPC, art. 985, 1º).

Evidentemente, a tese consagrada no julgamento de IRDR não estará imune a revisões


futuras (art. 987), as quais, no entanto, apenas serão admitidas mediante prévia e ampla
participação dos interessados (art. 927, § 2º), preservando-se a possibilidade de
modulação dos efeitos da nova orientação, no interesse social e no da segurança jurídica
(art. 927, § 3º), mas sempre mediante fundamentação adequada e específica, por
imposição dos princípios da segurança jurídica, da proteção da confiança e da isonomia
(art. 927, § 4º).

Por último, no conjunto de inovações criadas pelo legislador processual de 2015 figura
o Incidente de Assunção de Competência (IAC), disciplinado no art. 947 do CPC,
destinado a permitir que determinadas causas - nas quais se discute relevante questão de
direito, com grande repercussão social, embora sem repetição em múltiplos processos -
sejam julgadas desde logo pelo órgão encarregado de uniformizar a jurisprudência no
âmbito do tribunal. O IAC igualmente serve ao propósito de prevenir ou superar
divergência entre câmaras ou turmas do tribunal (art. 947, § 4º).

Por coerência lógica, a decisão que vier a ser proferida vinculará todos os juízes e
órgãos fracionários do tribunal (artigos 927, III, e 947, § 3º).

2. Os recursos na Justiça do Trabalho após o advento da Lei 13.015/2014 e do CPC de


2015.

Inserida no bojo das reformas no sistema processual brasileiro, a edição da Lei 13.015,
em 21.7.2014, responsável por alterar dispositivos e introduzir novos preceitos na CLT,
foi recebida com grande entusiasmo no âmbito da Justiça do Trabalho.

Ao advento do referido Diploma Legal seguiu-se a edição do CPC de 2015, cujos


impactos no processo do trabalho se fazem sentir de modo expressivo, com a
expectativa de um novo tempo de celeridade e efetividade na prestação jurisdicional.

Com o escopo de examinar com a brevidade e urgência que o grandioso tema exigia, o
TST constituiu comissão composta por nove ministros, aos quais foi delegada a missão
de examinar, de forma analítica e detalhada, todas as prescrições do novo sistema
processual comum, para posterior edição de Resoluções Administrativas, nas quais
seriam veiculadas Instruções Normativas destinadas a orientar todos os atores da cena
judiciária laboral, acerca de seus impactos sobre o processo do trabalho.
Considerou o TST, de forma consentânea com sua missão precípua de uniformizar a
jurisprudência, que a edição de atos administrativos, nos mesmos moldes da IN 27/2005
(que veio a lume após o advento da EC 45/2004), teria a virtude de evitar dissensos
grandiosos, que fariam postergar indefinidamente a resolução de um grande numero de
ações e recursos, envolvendo questões processuais fundadas no CPC de 2015.

Diante do novo arcabouço normativo, o TST fez editar três Instruções Normativas, as de
número 38 (dispondo sobre o Incidente de Resolução de Recursos de Revista e de
Embargos Repetitivos), 39 (disciplinando alguns dos impactos das novas regras do CPC
no processo do trabalho) e 40 (regulando o cabimento de agravo de instrumento em caso
de admissibilidade parcial de recurso de revista no Tribunal Regional do Trabalho).

Entre as inovações consagradas pela Lei 13.015/2014, foram introduzidos novos


procedimentos, com a previsão de requisitos formais de admissibilidade para o recurso
de revista (art. 897-A, § 1º, da CLT), a disciplina do incidente de uniformização de
jurisprudência no âmbito dos TRTs e seus reflexos sobre os recursos de revista (CLT,
art. 896, §§ 3ºe 6º), além da introdução de sistemática para julgamento de recursos de
revista repetitivos (CLT, art. 896-C e §§).

Ao impor aos Tribunais Regionais a uniformização de sua jurisprudência (art. 896, §


3º), evitando-se que tal atribuição continuasse a ser exercida pelo próprio TST, o
legislador tencionou resgatar uma das funções desenvolvidas pelas Cortes Regionais,
precisamente a de pacificação dos conflitos no âmbito de sua jurisdição.

No novo sistema, a constatação da existência de casos reiterados e de decisões


conflitantes acerca da mesma questão jurídica passou a impor ao Ministro Relator do
Recurso de Revista ou ao Presidente do TRT, nesse caso por ocasião do processamento
do referido recurso, a determinação de instauração de incidente de uniformização de
jurisprudência (art. 896, §§ 4º e 5º, da CLT).

Com o objetivo de melhor detalhar o procedimento, o TST editou a Instrução


Normativa (IN) 38, aprovada pela Resolução Administrativa (RA) 201, de 10.11.2015,
estruturada em 22 artigos.

Relativamente aos impactos do CPC de 2015 sobre a sistemática recursal trabalhista, o


TST fez editar a Instrução Normativa 39, aprovada pela Resolução Administrativa (RA)
203, de 15.3.2016, reafirmando o postulado da irrecorribilidade imediata (ou em
separado) das decisões interlocutórias (CLT, art. 893, § 1º) e o prazo de oito dias para
os recursos trabalhistas (art. 6º da Lei 5.584/70), com exceção dos embargos de
declaração (CLT, art. 897-A).

Apenas foi prevista a ressalva única para os casos de decisões interlocutórias, proferidas
nos Incidentes de Desconsideração da Personalidade Jurídica, instaurada em fase de
cumprimento da sentença, que poderão ser questionadas em agravo de petição. Uma
exceção adicional, portanto, às hipóteses já delineadas na Súmula 214 do TST.
Ainda nessa mesma Instrução Normativa 39, a Corte Superior Trabalhista definiu a
compatibilidade da disciplina inscrita no § 7º do art. 485 do CPC com o processo do
trabalho. Por essa disciplina, caberá aos magistrados exercitar, caso haja recurso
ordinário contra sentenças de extinção do processo sem resolução do mérito, o juízo de
retratação no prazo de cinco dias.

A novel disciplina da remessa oficial, inscrita no art. 496 do CPC, igualmente foi pelo
TST declarada compatível com o processo do trabalho. Essa compreensão determina,
por efeito lógico, a automática cessação da eficácia da diretriz inscrita na Súmula 303
do TST, editada sob as luzes do CPC de 1973 e que vinha sendo interpretada e aplicada
sem as cautelas devidas, embora observadas no âmbito do Superior Tribunal de Justiça,
no sentido de que apenas os valores de condenações líquidas - e não aqueles impostos
provisoriamente para fins de fixação de custas processuais - podem ser considerados
para efeito de restringir o reexame obrigatório das decisões condenatórias contra a
Fazenda Pública.

Ainda no capítulo alusivo aos recursos, o TST afirmou a aplicabilidade ao processo do


trabalho do art. 1.013 do CPC, que trata do efeito devolutivo em profundidade dos
recursos na instância ordinária, questão que já estava pacificada sob o regime processual
superado e que figura também na Súmula 393 do TST.

Nesse mesmo art. 1.013 do CPC há previsão de julgamento imediato do mérito pelo
tribunal, nas hipóteses em que: a) reformar sentença declaratória de extinção do
processo sem resolução do mérito; b) decretar a nulidade da sentença por não ser ela
congruente com os limites do pedido ou da causa de pedir; c) constatar a omissão no
exame de um dos pedidos, hipótese em que poderá julgá-lo; d) decretar a nulidade de
sentença por falta de fundamentação; e e) reformar sentença que reconheça a decadência
ou a prescrição.

Essa mesma providência deverá ser observada no âmbito da Justiça do Trabalho, como,
aliás, já dispõe o item II da Súmula 393 do TST, providência que denota a mitigação do
duplo grau de jurisdição em favor da resolução rápida do mérito das disputas (CF, art.
5º, LXXVIII).

No que concerne ao alcance da cognição judicial em grau de recurso, o art. 1.014 do


CPC, reputado compatível com o processo do trabalho pela Corte Maior Trabalhista,
limita-se a reprisar a literal disciplina inscrita no art. 517 do CPC de 1973, segundo a
qual “As questões de fato não propostas no juízo inferior poderão ser suscitadas na
apelação, se a parte provar que deixou de fazê-lo por motivo de força maior.”

Com o propósito de uniformizar o regime recursal destinado a viabilizar a impugnação


às decisões monocráticas proferidas nos tribunais, o novo CPC introduziu a figura do
agravo interno (art. 1.021), com prazo de 15 (quinze dias), dissipando a dicotomia entre
os regimes do agravo (art. 557 do CPC de 1973) e do agravo previsto nos Regimentos
Internos dos tribunais (CF, art. 96, I, “a”).
No regime processual do agravo interno, consagrou-se o pressuposto recursal da
dialeticidade, com a necessidade de impugnação específica pelo agravante às razões de
decidir (§ 1º do art. 1.021), cabendo ao julgador, com esse mesmo espírito, examinar as
razões recursais vedada a mera reprodução dos fundamentos inscritos na decisão
agravada para desprover o agravo interno (§ 3º do art. 1.021).

Com exceção do prazo de 15 (quinze) dias, o agravo interno e a respectiva sistemática


de processamento e julgamento foram declarados aplicáveis ao processo do trabalho,
(art. 3º, XXIX, da IN/TST 39).

No mesmo sentido de aceleração dos julgamentos, realizando a promessa constitucional


da razoável duração dos processos (CF, art. 5º, LXXVIII), o art. 356 e seus §§ 1º a 4º do
CPC, que regem o julgamento antecipado parcial do mérito, são plenamente aplicáveis
ao processo do trabalho, admitindo-se recurso ordinário de imediato da sentença parcial
proferida, pela parte sucumbente.

Considerando que a ação judicial continuará tramitando em primeiro grau, em relação


aos demais objetos, o desafio procedimental para a implementação da nova regra parece
envolver a concretização do procedimento recursal, mediante a formação de autos
físicos suplementares ou duplicação parcial de arquivos e pastas digitais, no caso de
ação proposta pelo sistema do Processo Judicial Eletrônico (PJE).

Ainda na análise preliminar empreendida pelo TST ao conjunto de inovações


consagradas no CPC de 2015, foram consideradas aplicáveis ao Processo do Trabalho
as regras do art. 332 do CPC, com as necessárias adaptações à legislação processual
trabalhista.

Impõe-se, desse modo, o julgamento liminar de improcedência do pedido que


contrariar: enunciado de súmula do Supremo Tribunal Federal ou do Tribunal Superior
do Trabalho (CPC, art. 927, inciso V); acórdão proferido pelo Supremo Tribunal
Federal ou pelo Tribunal Superior do Trabalho em julgamento de recursos repetitivos
(CLT, art. 896-B; CPC, art. 1046, § 4º); entendimento firmado em incidente de
resolução de demandas repetitivas ou de assunção de competência; enunciado de
súmula de Tribunal Regional do Trabalho sobre direito local, convenção coletiva de
trabalho, acordo coletivo de trabalho, sentença normativa ou regulamento empresarial
de observância obrigatória em área territorial que não exceda à jurisdição do respectivo
Tribunal (CLT, art. 896, “b”, a contrario sensu); e ainda nas situações em que
constatada desde logo a decadência (art. 7º da IN 39/TST).

Um das mais significativas inovações, decorrente do advento do novo sistema de


precedentes inaugurado a partir da Lei 13.015/2014, envolve o cancelamento pelo TST
da Súmula 28514 e da Orientação Jurisprudencial 377 da SBDI15.

14
Súmula 285 do TST. RECURSO DE REVISTA. ADMISSIBILIDADE PARCIAL PELO JUIZ-
PRESIDENTE DO TRIBUNAL REGIONAL DO TRABALHO. EFEITO (cancelada) - Res. 204/2016,
DEJT divulgado em 17, 18 e 21.03.2016. O fato de o juízo primeiro de admissibilidade do recurso de
Como se sabe, as referidas diretrizes disciplinavam parte do procedimento a ser
observado no exercício do juízo inicial de admissibilidade dos recursos de revista,
praticado no âmbito dos tribunais regionais.

Como a regra nas ações trabalhistas é a cumulação objetiva de pedidos, a existência de


vários temas questionados no recurso de revista tornava dispensável a análise de todos
eles, no referido juízo inicial de admissibilidade, quando a Corte Regional verificasse
que pelo menos em relação a um o recurso deveria ser admitido (Súmula 285).

Com isso, o exame da admissibilidade do recurso de revista em relação aos demais


capítulos impugnados era exercido de forma inédita pelo próprio TST, sem que se
pudesse considerar presente qualquer vício processual, até porque não se admitia a
oposição de embargos de declaração contra a decisão interlocutória de admissibilidade
do referido recurso de natureza extraordinária (OJ 377 da SBDI-I do TST).

No novo sistema de precedentes, em que a cognição deve ser bem preparada nas
instâncias ordinárias, competindo aos TRTs o controle da estabilidade, coerência e
integridade de sua jurisprudência, inclusive instaurando, de ofício, Incidentes de
Uniformização de Jurisprudência, não mais havia razão lógica ou jurídica para
considerar prescindível o exame de todas as pretensões recursais dirigidas à instância
extraordinária de jurisdição laboral.

Complementando o novo sistema, o TST fez editar a IN 40, consagrando a necessidade


de exame individualizado de cada qual dos capítulos do julgamento regional alvejado
em recurso de revista, inclusive cabendo às partes, na hipótese de admissão parcial do
recurso de revista, interpor agravo de instrumento, para evitar a preclusão (art. 1º).

Também assentou o TST, na referida IN, o cabimento de embargos de declaração para


suprir omissão no exame de decisões de admissibilidade de recursos de revista, sob
pena de preclusão (§ 1º do art. 1º), cominando a pecha da nulidade para essas decisões,
quando não supridas as omissões suscitadas nos embargos de declaração (§ 2º do art.
1º), desde que as partes as tenham impugnado pela via do agravo de instrumento (§ 3º
do art. 1º).

Ainda buscando simplificar o procedimento e realizar o ideal da celeridade processual,


o TST dispôs competir ao Ministro Relator do agravo de instrumento, mediante decisão
irrecorrível, a determinação de retorno dos autos ao Presidente do TRT, para
integralização da prestação jurisdicional, quando previamente provocado por embargos

revista entendê-lo cabível apenas quanto a parte das matérias veiculadas não impede a apreciação integral
pela Turma do Tribunal Superior do Trabalho, sendo imprópria a interposição de agravo de instrumento.
15
Orientação Jurisprudencial 377. EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. DECISÃO DENEGATÓRIA DE
RECURSO DE REVISTA EXARADO POR PRESIDENTE DO TRT. DESCABIMENTO. NÃO
INTERRUPÇÃO DO PRAZO RECURSAL. (cancelada) - Res. 204/2016, DEJT divulgado em 17, 18 e
21.03.2016. Não cabem embargos de declaração interpostos contra decisão de admissibilidade do recurso
de revista, não tendo o efeito de interromper qualquer prazo recursal.
de declaração (§ 4º do art. 1º da IN 40). Aplicou, nesse caso, por analogia, o § 5º do art.
896 da CLT, dispositivo que permite ao Presidente do TRT ou ao Relator do recurso de
revista no TST a determinação de instauração do Incidente de Uniformização de
Jurisprudência, que subsiste no processo do trabalho, por força da Lei 13.015/2014, que
conferiu nova redação aos §§ 3º a 6º do art. 896 da CLT.

Conclusão

Diante do complexo normativo em vigor desde o ano 2014, surge a expectativa social
legítima de que os órgãos da Justiça do Trabalho possam bem desempenhar seus
ofícios, prestando a jurisdição com qualidade e em tempo razoável, como prescreve o
Texto Constitucional e exigem a cidadania e a ética republicana.

Um dos temas mais candentes do novo sistema processual envolve a questão da


vinculação obrigatória dos magistrados às decisões proferidas nos incidentes de
resolução de demandas repetitivas e de assunção de competência, às súmulas do STF e
STJ (no âmbito trabalhista, obviamente, as súmulas editadas pelo TST) e às
“orientações” do plenário ou órgão especial aos quais vinculados, tal como disposto nos
incisos do art. 927 do NCPC.

Vozes respeitáveis da doutrina já se ergueram para anunciar a inconstitucionalidade do


novo sistema de precedentes, sob o argumento de que o Texto Constitucional apenas
estabelece a vinculação obrigatória às decisões proferidas nas ações de controle
concentrado de constitucionalidade e às súmulas vinculantes do STF (NERY: 2015, p.
1837).

Embora com a reverência que o respeito ao contraditório impõe, é preciso anotar o


equívoco absoluto presente na base dessa compreensão crítica, fundada em perspectiva
parcial e dogmática do Texto Constitucional, sem considerar o complexo dos princípios
constitucionais que consagram o sentido material da garantia de amplo acesso à Justiça
e as ideias essenciais da segurança jurídica, da isonomia efetiva no trato jurisdicional e
da máxima eficiência na ação estatal.

Portanto, compreender o sentido do exercício da jurisdição e os papeis desempenhados


pelos magistrados e demais atores da cena processual, na ordem processual em vigor, é
essencial para que as tantas virtudes anunciadas possam ser concretizadas, com o
propósito de realizar o horizonte de eficiência e qualidade do sistema de Justiça.

BIBLIOGRAFIA

BRASIL. CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA. Relatório Justiça em Números Ano-base


2015. Disponível em: http://www.cnj.jus.br/programas-e-acoes/pj-justica-em-numeros. Acesso
em 11.7.2016

CLAUS, Bem-Hur Sileira. O incidente de desconsideração da personalidade jurídica previsto no


CPC 2015 e o Direito Processual do Trabalho. Disponível em < http://www.enamat.gov.br/wp-
content/uploads/2015/11/TD14_Ben_Hur_Silveira_Claus_4_O-incidente-de-
desconsidera%C3%A7%C3%A3o-da-personalidade-jur%C3%ADdica-previsto-no-novo-
CPC.pdf>. Acesso em 11.7.2016

JUNIOR, Humberto Theodoro; DIERLE, Nunes; BAHIA, Alexandre Melo Franco; PEDRON,
Flávio Quinaud. Novo CPC – Fundamentos e sistematização. Rio de Janeiro: Forense, 2015, 2ª.
Edição.

MARINONI, Luiz Guilherme. ARENHART, Sério Gruz. MITIDIERO, Daniel. Novo Código
de Processo Civil Comentado. São Paulo: Ed. RT, 2016, 2ª. Edição, p. 151).

- A legitimidade da atuação do juiz a partir do direito fundamental à tutela jurisdicional efetiva.


In: MEDINA, José Miguel Garcia; CRUZ, Luana Pedrosa de Figueiredo; CERQUEIRA, Luís
Otávio Sequeira de; GOMES JUNIOR, Luiz Manoel. Os poderes do juiz e o controle das
decisões judiciais: estudos em homenagem à professora Teresa Arruda Alvim Wambier. São
Paulo: RT, 2008

MEDINA, José Guilherme Garcia. Novo Código de Processo Civil comentado: com remissões e
notas comparativas ao CPC/1973. São Paulo: Ed. RT, 2015.

NERY JR., Nelson; NERY, Rosa Maria de Andrade. Comentários ao Código de Processo Civil.
São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2015.

WAMBIER, Tereza Arruda; CONCEIÇÃO, Maria Lúcia Lins; RIBEIRO, Leonardo Ferres da
Silva; MELLO, Rogério Licastro Torres de. Primeiros comentários ao novo código de processo
civil: artigo por artigo. São Paulo: Ed. RT, 2016, 2ª. Edição, revista e ampliada.