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Nº 34

2012 Patrimônio
Histórico e Artístico Nacional
Revista do

História e Patrimônio
Revista do Patrimônio
Histórico e Artístico Nacional
Revista do Patrimônio
Histórico e Artístico Nacional nº 34 / 2012
História e Patrimônio
Organização: Márcia Chuva
Presidenta da República do Brasil
Dilma Rousseff
Ministra de Estado da Cultura
Ana de Hollanda
Presidente do Instituto do Patrimônio Histórico e
Artístico Nacional
Luiz Fernando de Almeida
Chefe de Gabinete
Weber Sutti
Procurador-Chefe Federal
Heliomar Alencar de Oliveira
Diretora de Patrimônio Imaterial
Célia Maria Corsino
Diretor do Patrimônio Material e Fiscalização
Andrey Rosenthal Schlee
Diretora de Planejamento e Administração
Maria Emília Nascimento Santos
Diretor Substituto de Articulação e Fomento
Claudio Antonio Marques Luiz
Organização
Márcia Chuva
Editoração e Revisão Geral
Ana Carmen Amorim Jara Casco
Produção
Vera Lúcia de Mesquita
Capa, Abertura e Apoio à Diagramação
Aluízio de Carvalho
Iconografia e Legendas
Cintia Mayumi Carli Silva
Revisão e Padronização de Texto
Alexandra Bertola
Rosalina Gouveia
Diagramação
Njobs Comunicação
(a partir do projeto gráfico de Victor Burton)

Capa e abertura: ilustração que representa trecho do rio Tocantins, localizado a sudeste
da região norte brasileira, que documenta a ocupação da região por volta de 1781
Acervo Mapoteca do Itamaraty, Ministério das Relações Exteriores

Folha de rosto: Cais deVenda do Pescado


Foto: E. Cavalcante, 1974. Acervo: Arquivo Central do Iphan

A Revista do Patrimônio é publicada pelo Instituto do


Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, do Ministério
da Cultura, desde 1937. Os artigos são autorais e não
refletem necessariamente a posição do Iphan e da
organizadora deste número, Márcia Chuva.

Instituto do Patrimônio Histórico


e Artístico Nacional
SEPS 713/913, Lote D
70390-135 – Asa Sul – Brasília – DF

Réplica da estátua Pensador angolano


Acervo do Museu do Dundo, em Luanda, Angola
Ho m en a g e m pó s tu ma

A r t í s t ico N acional
Este número da Revista foi marcado pela perda
de dois grandes historiadores que para ele
contribuíram – Sandra Jatahy Pesavento e
Manoel Luiz Salgado Guimarães.

e
A gaúcha Porto Alegre brilha singular na poesia

P a t rim ô nio H is t ó rico


de Mário Quintana, “O mapa”. E por meio dela
brilha também a cidade qualquer, o espírito
urbano sem nome, que vai do pequeno mundo
de cada um ao universal, ao humano.
Que a simplicidade da poesia fale por nós das
perdas que não podemos dimensionar, que não
sabemos traduzir.

do
O mapa
Mário Quintana

R evis t a
Olho o mapa da cidade
Como quem examinasse
A anatomia de um corpo...
(É nem que fosse meu corpo!)
Sinto uma dor esquisita
Das ruas de Porto Alegre
Onde jamais passarei...
5
Há tanta esquina esquisita
Tanta nuança de paredes
Há tanta moça bonita
Nas ruas que não andei
(E há uma rua encantada
Que nem em sonhos sonhei...)
Quando eu for, um dia desses,
Poeira ou folha levada
No vento da madrugada,
Serei um pouco do nada
Invisível, delicioso
Que faz com que o teu ar
Pareça mais um olhar
Suave mistério amoroso
Cidade de meu andar
(Deste já tão longo andar!)
E talvez de meu repouso...

“O mapa”. In: Apontamentos


de história sobrenatural.
São Paulo: Globo, 1976
© by Elena Quintana
L ui z Fer nan do de Al m ei da
Ap r es en t aç ão

A rtístico N acional
Apresentar ao público um novo número da histórica e sempre atual Revista do Patrimônio
Histórico Artístico Nacional, editada pelo Iphan, é como abrir as portas e janelas de uma casa

e
brasileira. Dessas que preservamos com o prazer e o orgulho comprometido com a proteção e a

P atrimônio H istórico
difusão de nossas raízes históricas. Casa cheia de compartimentos e recantos, memórias, ruídos e
cheiros, que convido o leitor a descobrir e conhecer.
Melhor ainda essa metáfora quando pensamos que o assunto deste número é a História,
disciplina que desde os primórdios do Iphan acompanha suas práticas e a inerente construção de
saberes que preservar o patrimônio produz em cada Nação que se dispõe a enfrentar este desafio.
História que comparece em nossa prática, seja na atribuição de valores aos bens culturais, seja
na forma de compreender a lógica que constitui nossa identidade nacional, seja na abordagem

do
que fazemos dos grupos sociais que dão sentido ao patrimônio que preservamos. História que

R evista
resgatamos, interpretamos e difundimos para proteger e preservar as mais diversas dimensões e
expressões do nosso patrimônio cultural.
Cuidadosamente organizado pela historiadora Márcia Chuva, ex-funcionária deste Instituto
e sua permanente colaboradora, que hoje enriquece os quadros universitários como professora
do Departamento de História da Unirio, este número da Revista aborda as diferentes relações da
História com a preservação do patrimônio cultural brasileiro. Reúne pesquisadores e profissionais
7
que, com seriedade e zelo, trouxeram suas contribuições a este tema tão antigo quanto atual, mas
necessariamente permanente na nossa rotina de trabalho. A todos os colaboradores, manifestamos
os nossos sinceros agradecimentos por terem tornado realidade mais este número da Revista.
Neste momento em que o Iphan, consolidando e recriando continuamente as suas práticas,
amplia sua capacidade de trabalho por meio da vertente da formação profissional, conferida
pelo reconhecimento das atividades de seu mestrado profissionalizante, entregar ao público este
número da Revista soa quase como sublinhar essa característica que gostaríamos de valorizar e que
é a de reunir teoria e prática, produção acadêmica e formação profissional. Afinal, a superação
do abismo que muitas vezes parece cindir o pensar e o fazer é o nosso desafio permanente na
construção cotidiana dos caminhos da preservação do patrimônio.
Se a mediação dinâmica entre teoria e prática é nosso desafio permanente, o tema deste
Círio de Nazaré, Belém (PA),
número da Revista instiga novas percepções e perspectivas sobre o papel dos historiadores na registrado em 2005 no Livro das
Celebrações como manifestação
preservação do patrimônio. E estamos convencidos que esta reflexão propiciará experiências cultural que integra o patrimônio
imaterial brasileiro. Foto: Francisco
únicas para o compartilhamento de ideias, saberes, práticas e ações desenvolvidas cotidianamente Moreira da Costa, sem data. Em Círio de
Nazaré. Rio de Janeiro: Iphan/MinC,
2006. (Dossiê Iphan n. I)
para que o nosso patrimônio, memória e cultura sejam alicerces do futuro.
Com a metáfora da casa, convidamos os leitores a conhecerem todos os recantos da Revista.
Boa visita!
História e Patrimônio

Márcia Chuva Marcus Tadeu Daniel Ribeiro


Introdução – História e patrimônio: Entre o ser e o coletivo
entre o risco e o traço, a trama 11 o tombamento das casas históricas 223

Parte I Lia Motta


Em foco o campo do Patrimônio O patrimônio cultural urbano à luz
do diálogo entre história e arquitetura 249
Dominique Poulot
A razão patrimonial na Europa DaryleWilliams
do século XVIII ao XXI 27 Além da história-pátria
as missões jesuítico-guaranis,
José Carlos Reis o patrimônio da humanidade e
O tempo histórico como outras histórias 281
“representação intelectual” 45
Jaelson Bitran Trindade
Jorge Coli Patrimônio e história
Materialidade e imaterialidade 67 a abordagem territorial 303

Márcia Mansor D´Alessio Parte III


Metamorfoses do patrimônio Temas clássicos da história,
O papel do historiador 79 novos objetos de patrimonialização

Manoel Luiz Salgado Guimarães Lilia Moritz Schwarcz


História, memória e patrimônio 91 Nacionalidade e patrimônio
o Segundo Reinado brasileiro
Andrea Daher e seu modelo tropical exótico 337
Objeto cultural e bem patrimonial
representações e práticas 113 Alberto da Costa e Silva
O Brasil na África Atlântica 361
Roberto Conduru
Artifícios para inventar e destruir Flávio Gomes
Arquitetura, história, Terra e camponeses negros
preservação cultural 131 o legado da pós-emancipação 375

Márcia Chuva Sandra Jatahy Pesavento


Por uma história da noção História, literatura e cidades
de patrimônio cultural no Brasil 147 diferentes narrativas para
o campo do patrimônio 397
Parte II
História e Política José Carlos Sebe Bom Meihy
História oral e identidade
Analucia Thompson, Cláudia F. Baeta Leal, caipira, espelho, espelho meu? 411
Juliana Sorgine, Luciano dos Santos Teixeira
História e civilização material na Mário de Andrade
Revista do Patrimônio 167 Noturno de Belo Horizonte 427
Carla da Costa Dias e Notas Biográficas 440
Antônio Carlos de Souza Lima
O Museu Nacional e a construção
do patrimônio histórico nacional 199
Márci a C huva
In t r o du çã o

A rtístico N acional
História e patrimônio:
entre o risco e o traço, a trama

Viver é muito perigoso... Querer o bem com apontava os numerosos constrangimentos a

e
P atrimônio H istórico
demais força, de incerto jeito, pode já estar sendo se que estavam submetidos, na sua produção
querendo o mal, por principiar. Esses homens! (...) intelectual, em função de um processo de
Guimarães Rosa1 formação, enquadramento e disciplinarização
que delineava um lugar de fala, limitado por
regras de diversas naturezas. Dentre elas,
Se os historiadores produzem o podem ser destacadas as de financiamento
passado e é o passado que faz uma nação,2 de estudos, postos a julgamentos sobre suas

do
os historiadores do patrimônio fazem finalidades e objetivos por comissões de alto

R evista
política, inventando o patrimônio nacional, nível, bem como as regras que regem a oferta
atribuindo valor e significados a bens e de trabalho, lembrando ainda que o perfil
práticas culturais que circunscrevem os e a política das instituições em que estão
limites da nação. Sabemos bem que o inseridos, entre outros aspectos, impõem a
trabalho do historiador ao fabricar um agenda dos estudos do momento. Alguns desses
patrimônio no seu próprio ofício da escrita autores, em confronto com interpretações
da história está integrado a um projeto totalizantes acerca dos fenômenos sociais, 11
de nacionalizar, de construir o Estado e, verificavam, também, que diante de estratégias
portanto, de poder. de dominação – identificadas em microescalas
Certa produção historiográfica e e em diferentes tipos e níveis de relações –
sociológica em debate pelo menos desde os havia a possibilidade de pequenas subversões
anos 70 e já clássica na atualidade3 trouxe ou da adoção de sutis táticas de resistência;
novos ingredientes para se refletir sobre essa noutra vertente, pode-se falar na porosidade
ambiguidade do papel desse historiador e do ou nas brechas que se verificam em todo
intelectual de um modo geral. Essa literatura sistema e que arejam e alimentam esperanças
de transformação. Ainda que circunscritas Pág. 8: Círio de Nazaré, Belém (PA).
Foto: Luiz Braga, sem data. Em Círio de
a determinados limites, essas ações de Nazaré. Rio de Janeiro: Iphan/MinC,
2006. (Dossiê Iphan n. I)
1. Fala de Riobaldo, personagem de João Guimarães Rosa em
Grande sertão: veredas (1984:14). resistência, aparentemente insignificantes, Pág. 10: Forte Coimbra à margem
2. Para o assunto, ver Eric Hobsbawm (2000), dentre outros direita do rio Paraguai, na cidade
colocam em movimento as relações e podem de Corumbá (MS) Tombamento
vários estudos que fez acerca do nacionalismo e dos processos realizado pelo Iphan na década de
de construção da nação. alterar a realidade de uma ordem imposta 1970. Foto: Edgar Jacintho, 1975
Acervo: Arquivo Central do Iphan, seção
3. Podemos citar, a título de exemplo, Michel de Certeau
(1982), Michel Foucault (1979), Pierre Bourdieu (2006) e,
ou dominante, num jogo vivido cotidiana e Rio de Janeiro

noutra vertente, E. P. Thompson (1998). mais ou menos silenciosamente. É evidente,


Apre se nt ação – H i st ór i a e pat r i mônio. . .
nessa perspectiva, que para todo exercício de historiográfica – “vício” da profissão no qual o
violência simbólica ao qual somos submetidos historiador constrói a dialética do seu ofício. Em
na qualidade de sujeitos históricos4 verificam- metáfora, é o risco permanente do abismo. Mas
A rtístico N acional

se nossas capacidades inventivas nos limites o risco é também um traço.


de possibilidades de ação de que dispomos. Em realidade, condensando de modo
Essa estranha “margem de manobra”, ou em brutal o dito, foi o risco que lançou a
melhores palavras, essa interseção entre um historiadora gaúcha Sandra Jatahy Pesavento
profundo pessimismo e a utopia de se construir a escrever seu artigo para esta edição no
um mundo melhor – esse espaço obscuro pequeno intervalo de tempo no qual, quem
e
P atrimônio H istórico
Márc ia Ch u va

cujos usos e possibilidades são sempre quase sabe, enganou a morte e ofereceu a si
completamente desconhecidos –, cremos, é mesma o deleite de viver a vida fazendo o
que mobiliza os homens para a ação. que bem queria. Nesse rol de possibilidades
O drama da modernidade, que se institui e realizações, nos limites de tempo que
a partir da certeza de ruptura do presente dispunha, ela escolheu continuar cumprindo
para sempre descolado do passado (Hardman, a sua sina de narrar, de fazer do risco o traço
1992), instituidor das nações e das histórias e fabricar um patrimônio, que nos legou
do

nacionais, é também fundador das práticas pela forma verdadeira e apaixonada que
R evista

de preservação do patrimônio cultural. O tecia a trama da história. Presto aqui sincera


presentismo a que estamos submetidos na homenagem a essa mulher surpreendente que
atualidade,5 quando, além do corte com o tive a sorte de conhecer e admirar.
passado, também as conexões com o futuro A perda repentina de Manoel Luiz
estão rompidas pela falta de utopias, parece Salgado Guimarães, no auge de sua produção
tornar esse drama eterno: o risco de se viver intelectual, foi um choque de realidade.
12 sem referências e sem perspectivas faz essa As peças que o destino prega são sempre
modernidade ser vivida na forma do drama um alerta para o historiador: nem tudo
e leva à produção de memórias em excesso, tem sentido; o acaso, o ilógico, a desrazão
numa busca permanente de referências, também são constituintes do devir histórico.
laços, vínculos de identidade que apaziguem a Coincidência sem sentido, a publicação deste
existência do homem moderno. número da Revista do Patrimônio, dedicado
É naquela “margem de manobra” ou ao diálogo entre história e patrimônio, sai
interseção, referida acima, que este número da marcada pela perda e ao mesmo tempo pela
Revista se inscreve, apontando o vigor da relação valiosa contribuição de Sandra Pesavento e
entre história e patrimônio, tanto na construção Manoel Salgado. Ambos que, generosamente,
deste quanto na reflexão acerca dessa prática ao longo de anos, estimularam, provocaram
e instigaram esse diálogo. Remendando
4. Vale dizer, violência essa disseminada nas relações de esse espaço roubado do prelo, faço singela
poder que também exercemos em diferentes circunstâncias e
lugares, cujas clivagens não estão diretamente remetidas aos homenagem ao querido Manoel, historiador
antagonismos de classes. brilhante – mestre de todos nós.
5. Conforme François Hartog (2003), o presentismo seria o
regime de historicidade que rege a contemporaneidade.
Apre se nt ação – H i st ór i a e pat r i mônio. . .
Por uma noção de que não se aproprie do tempo como
patrimônio cultural categoria histórica e como categoria de
análise. Será ela, justamente, que dará

A rtístico N acional
A publicação de um número da Revista unidade aos artigos deste número da Revista,
do Patrimônio dedicado à relação entre história a fim de avançar na consideração sobre as
e patrimônio é, sem dúvida, sinal de que contribuições específicas da história no
vivemos novos tempos.6 Para compreender campo do patrimônio.7
a oportunidade desse empreendimento, vale Por opção, a maior parte dos
ressaltar que, no campo do patrimônio, a autores deste número é de historiadores

e
P atrimônio H istórico
Márc ia Ch u va
história sempre esteve presente, fosse como de formação. Contudo, em defesa da
disciplina subsidiária, fosse como metodologia interdisciplinaridade constituinte do campo
de investigação – voltada para a produção de do patrimônio, trouxemos ao diálogo
conhecimento sobre o patrimônio cultural –, arquitetos, antropólogos, historiadores da
fosse ainda como narrativa para a atribuição de arte, que aceitaram o desafio da reflexão
valor de patrimônio a subsidiar a sua gestão. interdisciplinar, considerando que todos eles
No contexto brasileiro, contudo, a presença estabeleceram em suas trajetórias alguma

do
da história nas práticas de preservação do relação com a história e enfrentam esse

R evista
patrimônio cultural se deu, por muito tempo, diálogo na sua lida profissional. Optamos
de modo subliminar, ocultando (ou mesmo também por mesclar as contribuições de
limitando) as contribuições da disciplina para o autores “de dentro” e “de fora” do Iphan,
campo da preservação e, em especial, o papel explicitando seus diferentes lugares de fala,
do historiador como produtor de narrativas que considerando que se trata de diálogos não
também fabricam o patrimônio. Esperamos, somente interdisciplinares, mas também
neste volume da Revista do Patrimônio, apresentar interinstitucionais e, por fim, entre 13

diferentes usos e perspectivas que a história intelectuais comprometidos em refletir


pode oferecer para o campo da preservação, sobre o campo do patrimônio.
trabalhando no sentido de abrir caminhos Como é sabido, a origem das práticas
para um tratamento integral do patrimônio de preservação do patrimônio cultural
cultural, ultrapassando a divisão histórica e no mundo moderno está associada aos
ainda existente na atualidade entre patrimônio processos de formação dos estados
material e imaterial. nacionais, no século XIX; modelo que se
O historiador não concebe a reflexão multiplicou globalmente conforme a nova
ordem mundial que se instalava então.
6. Não poderia deixar de agradecer à equipe da Copedoc, Naquele contexto, coube aos historiadores
especialmente os historiadores da área de pesquisa, Analucia
Thompson, Cláudia Leal, Juliana Sorgine e Luciano Teixeira,
que colaboraram desde a concepção do projeto deste número e 7. A categoria profissional dos antropólogos tem buscado
ao longo de toda a sua produção. Eles ingressaram no Iphan por refletir sobre sua especificidade nesse campo, colocando
concurso em 2006, juntamente com cerca de 20 historiadores, em evidência as ambiguidades dessa tarefa, a complexidade
prova de que realmente vivemos novos tempos, pois, até dessa ação e as questões de ordem ética que ela envolve.
bem recentemente, eram bem poucos os que compunham os Para o assunto, ver Isabela Tamaso (2006) e Antônio Augusto
quadros da instituição. Arantes (2001).
Apre se nt ação – H i st ór i a e pat r i mônio. . .
(como uma das questões fundadoras da graduação, de laboratórios de pesquisa e
disciplina da história que se constituía) de financiamento por agências de fomento
a escrita das histórias nacionais. É nesse também no Brasil. Este parece ser o momento
A rtístico N acional

contexto que um conjunto de bens em que se encontra em franca expansão


arquitetônicos e monumentais é consagrado o diálogo entre a produção acadêmica e a
como patrimônio nacional, cujos atributos produção reflexiva advinda das instituições
o tornam prova da existência da nação e executivas de preservação cultural, em
de suas origens em tempos imemoriais, especial o Iphan, cuja prática é ainda
configurando uma identidade própria, referencial nesse assunto. E dele pretendemos
e
P atrimônio H istórico
Márc ia Ch u va

isto é, apropriadamente nacional. Ao tirar o maior proveito.


final do século XX, o surpreendente Dentre os investimentos que vêm sendo
desenvolvimento científico-tecnológico feitos, nas últimas décadas, no sentido de
e os enfrentamentos sociais, ideológicos consolidar essa área de investigação, podemos
e culturais levaram ao fim de utopias e destacar nomes consagrados como o do
a brutais desilusões, resultando também geógrafo inglês David Lowenthal (1998) ou
numa crise de referência sobre o lugar do o do antropólogo argentino Nestor Garcia
do

intelectual no mundo contemporâneo. Canclini (1997), na perspectiva latino-


R evista

A temática se apresenta hoje, portanto, americana. Nesta Revista, optamos pela


numa perspectiva bastante distinta daquela tradução de um artigo do historiador francês
descrita anteriormente, contudo, ainda Dominique Poulot, que tem desempenhado
relacionada à questão das identidades. papel significativo na atualidade, no sentido
Ao mesmo tempo em que vimos ocorrer de configurar um campo específico de
um redimensionamento simbólico das investigação relacionado ao patrimônio
14 fronteiras nacionais, vimos o mergulho no cultural a partir da contribuição disciplinar
universo singular das identidades locais da história. Ao mesmo tempo, vale destacar
territorializadas e a proliferação de memórias o caráter interdisciplinar que tem dado
como uma característica sui generis da ao seu empreendimento, aproximando
contemporaneidade. Nessa nova configuração, especialmente a história e a antropologia,
o campo do patrimônio cultural sofreu como integrante do LAHIC.9
ampliação e mudanças significativas para lidar Dois aspectos perpassam a narrativa
com um mundo saturado de memórias.8 Tais deste número da Revista: o primeiro
fenômenos vêm intrigando historiadores e deles é o questionamento feito, de modo
cientistas sociais e têm se tornado objeto explícito ou não, sobre o sentido da divisão
de investigação de programas de pós- entre materialidade e imaterialidade do

8. Em outra perspectiva, esse fenômeno pode ser visto também 9. O LAHIC – Laboratoire d’Antropologie et d’Histoire de
como a crise de identidades provocada pela globalização e l’Institution de la Culture – é um laboratório de pesquisa, de
localização, que tem gerado novas formas de identidades, caráter interdisciplinar, que se propõe ao estudo da instituição
conforme tratado por vários autores em diferentes contextos. da cultura. Foi criado em 2001, integrando L’Ecole des Hautes
(Tamaso, 2006) Etudes en Sciences Sociales – EHESS, na França.
Apre se nt ação – H i st ór i a e pat r i mônio. . .
patrimônio cultural que ainda se apresenta recurso a interpretações em diacronia e o
na atualidade. O segundo se refere ao caráter reconhecimento da pertinência de diferentes
interdisciplinar da reflexão e da ação no temporalidades em um mesmo contexto

A rtístico N acional
âmbito da preservação cultural. Nenhuma brasileiro de espaço-tempo, além do trabalho
disciplina tem condições de assumir, sistemático com fontes documentais de
na sua totalidade, as discussões sobre a diferentes naturezas, que dão especificidade
preservação cultural, tampouco a formação ao seu trabalho, permitem ao historiador, na
de profissionais para atuarem nessa seara. maioria das vezes, identificar novos problemas
Contudo, a importância da contribuição que estavam ocultados pela memória

e
P atrimônio H istórico
Márc ia Ch u va
de cada disciplina nesse universo inter e histórica10 ou por leituras expeditas que se
multidisciplinar é, justamente, o que ela põe reproduzem acriticamente.
em diálogo graças à sua singularidade. Reunimos aqui os artigos que de
A partir dessas considerações, os algum modo problematizam a noção de
artigos foram reunidos em três partes, tempo e provocam a reflexão acerca da
que se apresentam numa sequência de aceleração da produção de memórias no
sentido. Detalhadas a seguir, a primeira presente. O artigo de Dominique Poulot,

do
parte remete à reflexão sobre a história referido anteriormente, afina-se com

R evista
da configuração do campo do patrimônio essas preocupações. Nele, o autor divulga
cultural, problematizando aspectos sua ideia a respeito da existência de uma
conceituais constituintes desse campo. Na “razão patrimonial”, estabelecendo nexos,
segunda parte, a ênfase está na reflexão sobre consonâncias e confrontos entre o discurso
a gestão do patrimônio cultural no Brasil. E, histórico e o discurso patrimonial.11
na terceira parte, o foco está na possibilidade Atento ao alerta de Michel de Certeau
de temáticas tradicionais da história do Brasil sobre os riscos do uso do tempo como um 15
fazerem vislumbrar novos objetos para a mero instrumento de taxionomia, José
categoria de patrimônio cultural. Carlos Reis apresenta em seu artigo, numa
Preocupados especialmente em perspectiva diacrônica, um amplo universo
compreender as razões que levaram à de leituras sobre as apropriações da noção
dimensão superlativa alcançada pelo campo de tempo como categoria operativa para a
do patrimônio cultural na atualidade e à reflexão historiográfica. Reis preocupa-se
amplitude de temas e questões postos na em caracterizar o vestígio como coisa (aquilo
agenda da contemporaneidade no campo da que deixa a mensagem durar e assegura a
cultura que, de certo modo, passaram a ser passagem anterior de outros homens) e como
tratados sob a ótica da patrimonialização,
pretendemos evidenciar, na Parte I, intitulada 10. A noção de memória histórica está sendo usada aqui na
Em foco o campo do patrimônio como a perspectiva adotada por Carlos Alberto Vesentini em seu livro
A teia do fato.
pesquisa histórica pode elucidar questões 11. Disponível no original em francês no site http://www.
lahic.cnrs.fr/IMG/pdf/article_poulot.pdf. Título original:
capazes de colaborar com a formulação de “Histoire de la raison patrimoniale en Europe, XVIIIème –
alternativas para a preservação cultural. O XXIème siècles”.
Apre se nt ação – H i st ór i a e pat r i mônio. . .
sinal (que carrega em si a sua data sem tomar memórias”, citando André de Chastel, mas
o lugar do que ela representa), referindo-se à para a autora, essa tensão ainda está presente
preocupação com a imagem que o futuro terá nos dias de hoje, em função dos debates em
A rtístico N acional

do presente. Damos aqui um passo adiante torno do direito à memória. No Brasil, esse
na reflexão sobre a divisão hoje existente direito, conquistado juridicamente com a
entre a materialidade e a imaterialidade do Constituição de 1988, faz parte, ainda, da
patrimônio cultural. agenda contemporânea, pois vários grupos
Jorge Coli, num mergulho radical sobre continuam lutando para sair da invisibilidade
a materialidade e a imaterialidade da obra a que estão submetidos. Uma das possíveis
e
P atrimônio H istórico
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de arte, questiona a real importância da contribuições do historiador é a proposição


conservação da matéria, se não seriam as de ferramentas metodológicas para lidar com
suas representações em outros suportes (em a experiência da alteridade no tempo.
reproduções fotográficas etc.) ou mesmo pela Manoel Salgado nos oferece uma
memória (as representações do espírito) que reflexão sobre os usos e demandas
trariam o real sentido do ato de preservação. contemporâneos do passado, no intuito
Nesse caminho, Coli propõe a distinção de esmiuçar o trabalho simbólico de
do

entre autor e artista para introduzir uma patrimonialização e refletir sobre a


R evista

polêmica discussão no campo das políticas transformação de objetos em algo distinto


de conservação do patrimônio cultural daquilo para o qual foram produzidos. Se, na
acerca da autoridade do artista em definir origem, patrimonializar significou a ruptura
sobre a preservação ou não da sua obra, pois, do presente com o passado, a consciência
em sua radicalidade, o que importa são as de que se vivia um novo tempo levou à
apropriações da obra no tempo, pelos sujeitos elaboração de um luto pela sua perda e à
16 pensantes que ela produz. O tema trabalhado necessidade de se preservar marcas desse
nos levou a refletir sobre as consultas feitas tempo perdido. Na atualidade, o excesso
regularmente ao arquiteto Oscar Niemeyer a de produção de memórias tem colocado
respeito da restauração de sua obra na cidade em xeque sentidos até então consagrados e
de Brasília – tombada em nível federal e formulado novos problemas ao historiador.
declarada Patrimônio Mundial pela Unesco. O caso do DDR Museum (dedicado à antiga
Sem dúvida, esse assunto pode ser remetido à República Democrática Alemã), em Berlim,
outra natureza de questões, relativa à ética na apresentado pelo autor é paradigmático da
preservação do patrimônio cultural. realidade que vivemos hoje.
Sobre ética e o ofício do historiador, Por que não pensarmos sobre a ação
Márcia Mansor D’Alessio aponta para uma de patrimonialização na atualidade como
reflexão sobre construções identitárias, uma atualização do drama da modernidade,
que almejam estabilidade (seja ela de na medida em que a escala amplificada que
ordem social, política, emocional etc.). assume essa ação hoje pode significar não
A construção de uma memória nacional sua repetição (que redundaria em farsa – no
provocou, historicamente, uma “guerra de verdadeiro espírito pós-moderno), mas em
Apre se nt ação – H i st ór i a e pat r i mônio. . .
transformações significativas do mesmo? conduz a uma reflexão sobre a imaterialidade
Para isso novos problemas de entendimento do fazer arquitetônico e levanta indagações
devem ser colocados em pauta e quem traz a sobre a sua preservação.

A rtístico N acional
lume essa questão, numa certa perspectiva, é A atualidade da discussão sobre o
Andrea Daher, ao propor o rompimento com nacional, conforme consagrado por Benedict
o antigo paradigma iluminista e romântico de Anderson (2008), quer pela sua colocação
que haveria garantias de “qualidade eterna” explícita, quer ainda pela sua invisibilidade
numa obra, seja ela qual for. Definitivamente, em favor de outros recortes de identidade
é preciso aceitar que tais bens não possuem possíveis contidos no(s) nacional(is),

e
P atrimônio H istórico
Márc ia Ch u va
valores intrínsecos para se refletir sobre os nos levou a propor a reflexão histórica e
valores de uso do patrimônio cultural, tendo historiográfica acerca da natureza dos bens
em vista a dificuldade de se considerar a patrimonializados e dos processos instaurados
imaterialidade dos usos diversos dos bens para essa patrimonialização, bem como das
culturais, ainda encontrada nos discursos e formas de consagração, salvaguarda e gestão
práticas da atualidade. A autora vai analisar do patrimônio cultural no Brasil.
a persistência do “paradigma modernista” Fechando essa parte, então, apresento

do
ainda em vigor nas práticas de preservação e um artigo de caráter projetivo, cujo objetivo

R evista
as dificuldades daí advindas para a proposição é instigar a reflexão sobre a possibilidade de
de uma nova perspectiva de tratamento do novos paradigmas que operem, efetivamente,
patrimônio cultural. com uma noção de patrimônio cultural
Semelhante crítica também é realizada integradora das categorias material e
por Roberto Conduru em seu artigo. No imaterial, apontando para o caráter histórico
diálogo entre história e arquitetura, o autor dessa divisão, no âmbito da política brasileira
estabelece uma série de aproximações e de patrimônio cultural. 17
distinções entre as disciplinas, num jogo Na Parte II, denominada História e política
dialético que nos leva a refletir sobre dois artigos estão voltados para construção de
a historicidade das mesmas em suas uma história do pensamento e do campo do
relações com o campo do patrimônio patrimônio cultural no Brasil, relacionando
cultural, apontando que a “construção dos suas redes e suas matrizes teóricas. Em
patrimônios” tem participado da construção artigo de fôlego, os historiadores Analucia
dos campos da história e da arquitetura. Para Thompson, Cláudia Leal, Juliana Sorgine e
exemplificar essa afirmativa, faz referência Luciano Teixeira fazem uma análise diacrônica
ao desprezo feito à arquitetura acadêmica da Revista do Patrimônio, focando o papel da
pelos “modernistas do patrimônio”, história na Revista. Seus 33 números foram
focalizando o caso do Instituto de divididos em duas fases, sendo que, na
Educação, na cidade do Rio de Janeiro, cujo primeira (de 1937 a 1978), foi trabalhada a
tombamento em nível federal foi rejeitado. gênese da noção de civilização material e seus
Considerando a prevalência dada ao projeto, conteúdos configuradores de um novo espaço
especialmente o modernista, o autor nos de conhecimento, especialmente concentrada
Apre se nt ação – H i st ór i a e pat r i mônio. . .
na visão de Afonso Arinos de Melo Franco, que o popular se confunde com o patrimônio
buscando compreender com qual noção de imaterial nas políticas de preservação, assim
história se operava então. Nesse exercício, como a complementaridade do acervo
A rtístico N acional

os autores identificaram o historiador como documental fotográfico das duas instituições,


categoria predominante entre aqueles que que os autores valorizam e dão a conhecer.
escreviam na Revista, não definida pela Outros três artigos desta parte vão
formação acadêmica naquele momento analisar diferentes estratégias do Iphan na
inicial, mas por outros critérios relativos a sua gestão do patrimônio cultural que privilegiam
trajetória socioprofissional. A segunda fase, a perspectiva histórica, considerando o
e
P atrimônio H istórico
Márc ia Ch u va

que perdura até a atualidade, é o momento viés político que dá sentido às escolhas e
em que o periódico investe numa abordagem impingem tomadas de decisão.
multidisciplinar e visa ampliar o diálogo com Marcus Tadeu Daniel Ribeiro polemiza,
diferentes setores da sociedade. Desse modo, em seu artigo, a política institucional
por meio da sua Revista, o Iphan se posiciona do Iphan que evita os tombamentos das
no campo do patrimônio constituído e que chamadas “casas natais” ou, conforme
cada vez mais se especializa, consagrando sua prefere o autor, “casas históricas”, por
do

natureza múltipla, diversa e interdisciplinar. considerar prejudicial empreender ações de


R evista

O artigo de Antônio Carlos de Souza proteção em imóveis de remissão evocativa


Lima e Carla Costa Dias analisa as relações à memória de personalidades, à exceção
entre o Museu Nacional na esfera da daqueles depositários de acervo arquivístico,
antropologia e o Sphan, nos anos 30 e 40, documental ou artístico. Explicitamente
ambas instituições voltadas – cada qual a seu contrário a tal política, o autor descreve,
modo – para elaborar e disseminar uma ideia classifica e analisa tombamentos de “casas
18 de nação. Nesse complexo empreendimento, históricas” realizados pelo Iphan, trabalhando
um elo surpreendente serviu de enlace e diacronicamente a ideia de valor histórico
constituiu redes, na gestão de Heloísa Alberto nas ações institucionais, relacionando-as
Torres e de Rodrigo Melo Franco de Andrade, com matrizes da historiografia brasileira. Ao
à frente das instituições, respectivamente: a instigar a polêmica, o autor afirma defender
ideia de popular, apresentada historicamente não o culto da imagem por meio desse tipo
no artigo. Sphan e Museu Nacional de tombamento, mas a compreensão da
compartilharam a organização de expedições mentalidade de uma época, por meio de
do fotógrafo Herman Kruse ao sertão estudos a respeito da ação de sujeitos, estudos
baiano, que duraram até o ano de sua morte, esses que devem ser empreendidos visando ao
em 1947, com o propósito de colecionar tombamento, preservando assim vestígios que
peças que “fizessem ver o mais típico dos possam documentar a história brasileira.
nossos elementos, o sertanejo” e também Lia Motta, também preocupada com
de fotografar a arquitetura tradicional ali a preservação de vestígios que possam
encontrada. Vale destacar a originalidade do documentar a história da ocupação do
tema e sua atualidade, nesse momento em território brasileiro, apresenta o relato
Apre se nt ação – H i st ór i a e pat r i mônio. . .
da experiência de aplicação do Inventário patrimônio no Brasil. Para o autor, não é
Nacional de Bens Imóveis em Sítios Urbanos possível entender a trajetória histórica de um
Tombados – INBI-SU, concebido nos anos patrimônio cultural brasileiro sem pensar

A rtístico N acional
80 para enfrentar o problema de gestão do na prática e na escrita de uma história pátria
patrimônio urbano. A riqueza do artigo está nacional (e nacionalista), ambas direcionadas
na sua cuidadosa descrição da metodologia, pelo estado central.
pondo em evidência suas principais filiações Fechando essa parte, o artigo-
teóricas, tais como a adoção do conceito depoimento de Jaelson Bitran Trindade,
de cidade-documento, que inaugurou os primeiro historiador contratado pelo Iphan,

e
P atrimônio H istórico
Márc ia Ch u va
novos tombamentos de cidades realizados em 1970, relata, numa perspectiva quase
pelo Iphan, naquela década, e sua estrutura pessoal “entre a memória e a história”,
de trabalho interdisciplinar, visto como conforme dito por ele mesmo, a trajetória das
única possibilidade de efetivamente criar pesquisas desenvolvidas na sede regional do
um trabalho de preservação do patrimônio Iphan em São Paulo. Enfatiza, principalmente,
cultural renovado, inaugurando-se, então, o período em que Luís Saia esteve à frente da
uma cultura interdisciplinar no Iphan. sede regional, de 1937 a 1975, que contou

do
Mais interessante, contudo, é a capacidade também com a mítica figura de Mário de

R evista
da autora – ela mesma arquiteta – de Andrade entre os seus funcionários até 1945,
apresentar o diálogo entre arquitetos e ano de sua morte. Vale lembrar que Luís Saia
historiadores na análise da forma urbana. fora aprendiz de Mário de Andrade, tendo
Essa metodologia, aprimorada na década de participado das famosas viagens de inventário
1990, com a sua institucionalização, tornou- ao Nordeste brasileiro realizadas ainda no
se periférica como alternativa de gestão do Departamento de Cultura de São Paulo.
patrimônio urbano na atualidade, fruto das Por fim, na parte III, denominada 19
tensões da política institucional tratada no Temas clássicos da história, novos objetos de
presente artigo. patrimonialização, reunimos os artigos que
Daryle Williams introduz no debate deste abordam questões clássicas da história, mas
número da Revista a temática do patrimônio que, no campo da preservação cultural,
cultural universal numa perspectiva política. se apresentam como novos temas, para os
Para tanto, analisa os vestígios das missões quais ainda não dispomos de experiência
jesuítico-guarani no Brasil e na América do acumulada nem de referenciais conceituais
Sul e as estratégias para sua gestão. A história consolidados para identificação de
de um patrimônio nacional consagrado curva- objetos, bens e práticas culturais, cuja
se às possibilidades e às tensões do Patrimônio patrimonialização poderia ser de interesse,
da Humanidade, reconhecido pela Unesco em tampouco para avaliar os aspectos políticos
1984, do patrimônio regional, reconhecido que envolveriam tal ação. Esses artigos
pelos países-membros do Mercosul em contribuem para a construção de novos
1996 e também do patrimônio local – neste objetos de patrimonialização, considerando
caso, presença constante na história do em especial a perspectiva de uma abordagem
Apre se nt ação – H i st ór i a e pat r i mônio. . .
integral do patrimônio cultural, associada proteção de bens que têm relação com a
ao compromisso com a valorização da construção da nação no século XIX ainda
diversidade cultural brasileira pensada hoje é medíocre em termos quantitativos.
A rtístico N acional

aqui historicamente. Desse modo, tais Desse modo, desconstruindo essa visão
artigos podem ser estimulantes no sentido limitada relativa ao período, a autora vai
de se promover a ressignificação de apresentar o explícito desejo do imperador
vestígios materiais antes não reconhecidos de “construir uma nacionalidade” e vai
como representativos de uma identidade mostrar que selecionar, destacar e criar
brasileira em construção, tanto quanto um um determinado patrimônio nacional e
e
P atrimônio H istórico
Márc ia Ch u va

redimensionamento de questões atualmente procurar em um passado mítico as estacas


tratadas de modo setorial. Ou seja, abordam desse edifício foi tarefa premeditada do
temas e valorizam aspectos já incorporados Segundo Reinado, que buscou uma “origem”
em ações voltadas para a salvaguarda remota, em uma região lendária onde
do patrimônio imaterial, especialmente conviveriam indígenas e nobres brancos.
relacionados à cultura afrodescendente, de Obviamente, era impensável a consideração
modo que sejam também incorporados aos do negro nessa “comunidade de sentido” que
do

debates relacionados ao patrimônio material. se pretendeu construir na ordem escravista.


R evista

Lilia Schwarcz discute a construção de Alberto da Costa e Silva, ao apresentar


uma espécie de “comunidade imaginada” um panorama das relações históricas entre
como uma política de Estado durante Brasil e África, iniciadas ainda no século XVI
o governo de d. Pedro II. Esse tema foi (com o deslocamento de negros escravizados
até bem pouco tempo desprezado pelas no Brasil para a África, junto com
ações de proteção do patrimônio cultural portugueses, a fim de recuperar o território
20 em nível federal, pelo entendimento dos de Angola tomado pelos holandeses) até
fundadores dessa ação no Brasil de que as o momento em que essas relações foram
origens da nacionalidade se revelaram em bastante minimizadas, ao final da Grande
expressões artísticas do período colonial, Guerra, produz uma narrativa carregada
em particular na intensa produção das de sentidos e identidades que, nascidos da
Minas Gerais, o que não teve continuidade fenda da diáspora, foram compartilhados
no período seguinte, pós-Independência, especialmente pelos chamados “retornados”
quando foi entendido que no projeto de – aqueles africanos escravizados no Brasil
civilizar o país e construir a nação do que retornam à África ao longo do século
Império, o fundamental era assemelhar-se XIX. Em um emaranhado de linhas
ao europeu. Dessa forma, os elementos fronteiriças que se fazem e se desfazem
artístico-arquitetônicos então construídos concreta e simbolicamente, apresenta-nos um
perderam aquele caráter de expressão surpreendente, amplo e diverso acervo de
genuína da brasilidade ao tentar se espelhar patrimônio cultural que, por uns instantes,
nos modelos europeus de então. Embora nos faz esquecer o imenso Atlântico que se
essa visão não seja mais predominante, a impõe entre os dois continentes. A redução
Apre se nt ação – H i st ór i a e pat r i mônio. . .
desse contato com o fim do intenso comércio com populações indígenas e também sobre
marítimo abriu um processo de anglicização, experiências pós-1888. Para o autor, o
afrancesamento e mesmo reafricanização investimento em investigações históricas

A rtístico N acional
desses grupos. Contudo, o autor destaca a sobre as experiências camponesas do passado
presença ainda marcante da arquitetura e pode trazer novos conhecimentos para
dos antigos fortes em vasta região da costa uma definição mais ampla dos quilombolas
atlântica africana, até a linha do Equador. históricos e das comunidades negras, bem
A perspectiva apresentada por Alberto da como dos vários significados dos quilombos
Costa e Silva nos sugere uma reflexão sobre e seus remanescentes, reduzindo, com isso,

e
P atrimônio H istórico
Márc ia Ch u va
as possibilidades de integração cultural as dificuldades para o reconhecimento,
por meio da proposição conjunta de bens demarcação e efetiva titularização da posse
culturais – do Brasil com países africanos, dessas terras, problemas enfrentados por
em especial os de língua portuguesa – esses grupos para garantir seus direitos
como patrimônio mundial à Unesco (de na atualidade.
natureza vária), considerando a contiguidade Sandra Jatahy Pesavento trabalha com
territorial dos dois continentes, sendo o a cidade, tema clássico para a história. Para

do
Atlântico uma linha de fronteira tênue que, isso, relaciona a história com a literatura,

R evista
apesar do drama histórico, irmanou mais do narrativas que se entrelaçam, justamente,
que distinguiu os povos. no espaço urbano, lócus de origem e
Tendo como preocupação colaborar produção desses textos. A autora percorre
com as discussões acerca do tratamento a ser caminhos que a levam às similitudes e às
dado aos sítios detentores de remanescências diferenças dessas duas formas de falar do
de antigos quilombos para atender ao que real: a história, que produz versões acerca
determina a Constituição Brasileira de do passado; e a literatura, sem o mesmo 21
1988, Flávio Gomes aborda experiências compromisso de encontrar versões que
da escravidão e pós-emancipação, tema remetam à ideia de verossimilhança com
caro à historiografia brasileira, trazendo relação ao passado. Para a autora, as duas
luz às contribuições que o historiador, no narrativas se mesclaram para construir uma
exercício do seu ofício, pode oferecer. história da cidade e, para compreender esse
Nessa tarefa, descreve diferentes formas processo, propõe a diluição de fronteiras
de aquilombamento, cruzando registros para relativizar a dualidade entre verdade/
de antigos quilombos com evidências ficção ou outras oposições que simplificam
contemporâneas com comunidades negras em demasia a realidade. Para radicalizar,
remanescentes, articulando diferentes a autora nos provoca com a afirmativa de
fontes documentais. Fez registros de que os fatos históricos são – também eles
memórias em comunidades negras no Pará, – criação do historiador, propondo que tal
onde aparecem narrativas fragmentadas confronto se desfaça com a ideia de que as
sobre fugas de escravos, sobre migrações, duas narrativas são representações discursivas
trocas, feiras, tensões e solidariedades que falam do real e reinventam o passado.
Apre se nt ação – H i st ór i a e pat r i mônio. . .
Ambas tomaram a cidade como objeto e, o Estado e os movimentos sociais, quer
como a memória, presentificam um ausente. porque ainda não se dispõe de padrões
A autora se propõe, então, a entrelaçar os ou ferramentas de ação, quer porque os
A rtístico N acional

três campos na cidade – história, literatura, dispositivos existentes não detêm mais a
memória – remetendo à construção das legitimidade desfrutada anteriormente.
identidades urbanas como um processo 1) Sobre o processo de seleção visando
social e individual a um só tempo. Abrir essas à patrimonialização: coloca-se em discussão
fronteiras é o grande desafio do historiador hoje a representatividade social do processo
contemporâneo que, numa atividade de seleção de bens culturais que se tornam
e
P atrimônio H istórico
Márc ia Ch u va

multidisciplinar, deve estabelecer diálogos patrimônio seja por meio do tombamento


com outros objetos e temas. seja por meio do registro, bem como dos
José Carlos Sebe Om Meihy apresenta processos instaurados para compartilhamento
vários aspectos teórico-metodológicos dessa seleção e indicação de sua consagração
que envolvem o fazer da história oral, pela chancela do Estado. Nesse aspecto, a
considerando pontos que a tornam, sem conformação e as atribuições do Conselho
dúvida, um modo já consagrado de produção Consultivo do Patrimônio Cultural,
do

historiográfica, mas, também, um recurso vinculado ao Iphan, e também dos demais


R evista

polêmico em relação a seus usos. Apresenta conselhos ligados aos órgãos de patrimônio
como estudo de caso curiosa discussão nos outros níveis de poder são postas
a respeito das representações em torno em discussão.12 Nesse assunto, incluem-
do caipira em Taubaté, cidade natal de se também os debates acerca das novas
dois ilustres criadores dessa mítica figura abordagens sobre objetos historicamente
da cultura brasileira, por eles desenhada consagrados como patrimônio cultural.
22 de modo antagônico: Monteiro Lobato 2) Sobre a valorização da diversidade
e Mazzaropi. A fim de compreender os cultural brasileira: trata-se do longo processo
vínculos afetivos e identitários daquela de consolidação de novos paradigmas a partir
população com o “ser ou não ser caipira”, dos debates instaurados na Constituinte e
nas palavras do autor, realizou uma série de dos resultados concretos alcançados a partir
entrevistas nas ruas da cidade buscando a do texto constitucional de 1988, com a
opinião de seus moradores sobre as estátuas identificação de outras fontes de identidade
instaladas pela Prefeitura em praça pública advindas do reconhecimento da pluralidade e
em homenagem ao caipira. diversidade cultural formadora da sociedade
O que apontamos até aqui não deixa brasileira, para além do reducionismo
dúvidas sobre a complexidade do campo do histórico do mito das três raças. Nesse
patrimônio cultural. Para circunscrevê-lo,
destacamos alguns processos pertinentes
12. Isabela Tamaso (2006) indaga a respeito do papel do
à sua preservação, nos quais se situam antropólogo nesse tipo de Conselho, por se tratar de uma
esfera de poder que hierarquiza práticas culturais. Na mesma
boa parte dos problemas enfrentados na linha de preocupação, ver artigo de Regina Abreu e Manuel
atualidade, que envolve o setor privado, Ferreira Lima Filho (2007).
Apre se nt ação – H i st ór i a e pat r i mônio. . .
assunto, novos objetos – materiais ou pela titularização do registro, ou ainda,
imateriais – passam a ser vistos na perspectiva alteram-se as práticas para se adaptarem a
da patrimonialização, relacionados à demandas do mercado turístico, atraído pela

A rtístico N acional
cultura popular de modo amplo, às culturas declaração de patrimônio cultural atribuída
indígenas, aos afrodescendentes e também pelo poder público.
às culturas dos imigrantes no Brasil e que 4) Sobre os aspectos jurídicos da
precisam de um tratamento como patrimônio preservação cultural: todas as ações de
cultural não dividido em material e imaterial. patrimonialização requerem ferramentas
3) Sobre a gestão do bem cultural jurídicas para sua implementação. Nesse

e
P atrimônio H istórico
Márc ia Ch u va
patrimonializado: a gestão do patrimônio caso, a natureza dos bens vai interferir na
cultural chancelado pelo Estado, por escolha das ferramentas apropriadas, bem
meio de políticas públicas, que agregam como na inter-relação com os problemas e as
valor simbólico, intervém na economia de ferramentas de outros setores como o meio
mercado de bens culturais. Essa ação altera ambiente, a gestão urbana, os direitos culturais,
o valor econômico dos bens, valorizando a questão agrária e a posse da terra etc. Em
o patrimônio mobiliário (de obras de arte relação às manifestações culturais relacionadas

do
em geral, inclusive de produção popular) e a bens de natureza imaterial (ofícios, festas

R evista
também o patrimônio imobiliário urbano, coletivas, feiras etc.), as ações de salvaguarda
especialmente quando apropriado pelo empreendidas pelas políticas públicas remetem
turismo.13 Há circunstâncias em que, por a problemas jurídicos relacionados aos
outro lado, ocorre uma desvalorização do direitos difusos, que requerem ferramentas
valor econômico da propriedade privada, jurídicas ainda inexistentes, bem como geram
impedida de se transformar ou de ser consequências sobre essas manifestações,
demolida pela especulação imobiliária intervindo, inevitavelmente, na sua trajetória 23
urbana. Em qualquer dessas situações, histórica, nos seus traços, no seu modo de estar
o importante é perceber a ambivalência e de se relacionar com o mundo.
dos efeitos da patrimonialização pela Com a narrativa que compõe, no todo,
ação do poder público em relação à sua este número da Revista dedicado à relação
mercantilização, pois, ao mesmo tempo entre história e patrimônio, gostaríamos de
em que quer proteger o bem cultural oferecer aos leitores os equipamentos para
da destruição está promovendo a sua uma longa viagem, na qual se debrucem
transformação. Também as manifestações sobre a complexa trama que envolve as
culturais sofrem alterações ao serem práticas de preservação do patrimônio
chanceladas pelo Estado. Instala-se, por cultural. Pensá-las em consonância com a
vezes, uma espécie de concorrência proposição de uma “razão patrimonial”, sem
entre os produtores e/ou praticantes, deixar de atentar para os matizes próprios
que singularizam o caso brasileiro, parece-
13. Para o assunto, ver também o estudo de Leila Bianchi
Aguiar (2006) sobre patrimônio e turismo, com estudo de caso
nos uma interessante porta de entrada. A
sobre a cidade de Ouro Preto. todos nós, boa sorte na viagem.
Apre se nt ação – H i st ór i a e pat r i mônio. . .

Referências
A rtístico N acional

Abreu, Regina & Lima Filho, Manuel F. A


Antropologia e o Patrimônio Cultural no Brasil.
Em Lima Filho, Manuel F., Eckert, Cornélia &
Beltrão, Jane Felipe. Antropologia e patrimônio cultural:
diálogos e desafios contemporâneos. Blumenau: Nova Letra
Gráfica, 2007, p. 21-43.
Aguiar, Leila B. Turismo e preservação nos sítios urbanos
brasileiros: o caso de Ouro Preto. Tese de doutorado.
Niterói: UFF, 2006.
e

Anderson, Benedict. Comunidades imaginadas –


P atrimônio H istórico
Márc ia Ch u va

reflexões sobre a origem e a difusão do nacionalismo. São


Paulo: Cia. das Letras, 2008.
Arantes, Antônio Augusto. Patrimônio imaterial e
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Bourdieu, Pierre. O poder simbólico. 9ª ed. Rio de
Janeiro: Bertrand Brasil, 2006.
Canclini, Nestor G. Culturas híbridas: estratégias para
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Certeau, Michel de. A escrita da história. Rio de
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Janeiro: Forense Universitária, 1982.


R evista

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Janeiro: Graal, 1979.
Hardman, Francisco Foot. Antigos modernistas.
Tempo e história. São Paulo: Cia. das letras, 1992.
Hartog, François. Régimes d’historicité. Présentisme et
expériences du temps. Paris: Seuil, 2003.
Hobsbawm, Eric. Etnia e nacionalismo na Europa
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Lowenthal, David. The past is a foreign country.
Cambridge: Cambridge University Press, 1995.
Rosa, João Guimarães. Grande sertão: veredas. São Paulo:
Círculo do Livro, 1984.
Tamaso, Isabela. A expansão do patrimônio: novos olhares
sobre velhos objetos, outros desafios. Brasília: Departamento
de Antropologia da UnB, 2006. (Série Antropologia).
Thompson, E. P. Costumes em comum. Estudos sobre a
cultura popular tradicional. São Paulo: Cia das Letras, 1998.
Vesentini, Carlos Alberto. A teia do fato. Uma
proposta de estudo sobre a Memória Histórica. São
Paulo: Hucitec, 1997.

Pág. 25: Feira em FerrãoVeloso (AL),


registrada por Mário de Andrade
Acervo: Arquivo Central do Iphan, seção
Rio de Janeiro
Domi ni que Po u l o t
A r a z ã o p atri mo ni al na Europa

A rtístico N acional
d o século XV III ao XXI

O patrimônio, que se tornou símbolo abolidas desde o final da 2ª Guerra Mundial,

e
P atrimônio H istórico
de elo social, está hoje em toda parte, da recentemente fez recrudescer o sentimento
mobilização dos corpos políticos à instituição de urgência que sempre acompanhou e nutriu
cultural.1 Paralelamente, a realidade do a consciência patrimonial.
turismo internacional, tendo em vista a
importância de suas repercussões econômicas,
torna a interpretação do patrimônio, ou
mesmo sua simulação, um instrumento quase

do
sempre decisivo para o desenvolvimento local

R evista
(Greffe, 2003). O imperativo de conservação
da herança material e, de agora em diante, da
imaterial, impõe-se, portanto, sem discussão
nos países desenvolvidos, bem como no resto
do mundo. A cada dia adquire um caráter mais
geral e de obrigatoriedade, manifestando-
se por meio de dispositivos legais e de 27
regulamentação, cujo âmbito de aplicação se
amplia cada vez mais. Além disso, a realidade
das destruições (iconoclasmos religiosos ou
ideológicos, danos colaterais de conflitos ou
“domicídios” concertados),2 que, sem dúvida,
se tendeu a subestimar ou a considerar
Buda de 55 metros de altura no Vale Bamiyan, Afeganistão
Foto: F. Rivière, Unesco. Acervo: Wikimedia Foundation/Wikicommons
(http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Tall-Buddha-Bamiyan_F.Riviere.jpg)

1. Ver Beghaim (1998). As recomposições de heranças


materiais na Europa no final do século XX resultaram em uma A manifestação de um ponto de
patrimonialização nostálgica ou não (Boym, 2001; Verdery, vista contrário – uma eventual recusa da
1999), enquanto o ensaísmo cultural multiplicava as análises
do jogo referencial de “segunda mão” à Marjorie Garber patrimonialização ou sua crítica radical
Local do Buda destruído
(2003). Sobre os casos franceses Bensa A. e Fabre D., Une – só pode ser considerada “vândala”, pelos talibãs em 2001 no
histoire à soi, Mission du Patrimoine ethnologique, cahier nº 18, Vale Bamiyan, Afeganistão
Paris, MSH, 2001. estigmatizada como tal, ou, ao menos, Acervo: Wikimedia Foundation/
Wikicommons
2. J. Douglas Porteous e Sandra E. Smith (2001) fornecem a (http://en.wikipedia.org/wiki/

geografia dos empreendimentos deliberados de destruição de


não significativa no debate público. A File:BigBuddha.jpg)

moradias e territórios construídos. emergência de críticas tornou-se, de fato,


A razão pat r i moni al na Europa. . .
bastante improvável afora a expressão de objeto específico, por ser, ela própria, vítima
divergências sobre a melhor maneira de da diversidade dos campos de intervenção
tratar os monumentos, os objetos e os sítios. e de competência dos serviços aos quais
A rtístico N acional

Mais que isso, essas preocupações, outrora deve prestar contas. Não raro, ela espelha
estreitamente profissionais, passaram a as partilhas entre disciplinas e histórias
ocupar amplamente o espaço público, especializadas, que resultam em um diálogo
ensejando numerosos colóquios, oficinas ou de surdos, ou mesmo em conflitos implícitos
entrevistas, onde são debatidos os meios e (Poirrier e Vadelorge, 2003). Tanto que,
D om in iqu e Pou lot

os fins, o futuro e os limites eventuais do na França, o patrimônio suscitou apenas,


e
P atrimônio H istórico

fenômeno, em geral, dentro das próprias de maneira geral, um interesse bastante


instituições patrimoniais.3 A perspectiva relativo no campo da pesquisa em história e
“erudita” na matéria assemelha-se, em ciências sociais – à diferença do arquivo,
sobretudo, a um levantamento das expertises a um só tempo objeto e instituição de
feitas de forma contraditória sobre esta ou memória relativamente próximo à primeira
aquela iniciativa da administração, ou sobre vista.5 Contudo, da mesma forma que o
esta ou aquela opção de restauração ou de crescimento da preocupação com a memória
do

intervenção (Bessy e Chateaubriand, 1995). permitira outrora a Pierre Nora pensar os


R evista

Os comentaristas não se furtam em destacar lugares de memória nacionais, a atualidade


as contradições ou as ambiguidades dessa viva da patrimonialização é um convite para
gestão, os limites das políticas públicas e, questionar a construção dessa forma de
com mais frequência, todavia, o peso dos obrigação e de responsabilidade no tocante à
constrangimentos externos para lastimar presença material do passado.6 A atualidade
desvios em relação a uma suposta idade dessa abordagem é evidente: se o arquivo
28 de ouro da preservação, e para reafirmar contou, na antiga configuração dos saberes
a necessidade de uma política sempre históricos, com a vantagem do segredo a ser
respaldada na erudição dos especialistas.4 desvendado – que lhe era constitutivo –,
A perspectiva de uma história da o patrimônio pode contar com a vantagem
administração cultural, por mais que liberta
das argúcias de militantismos contrariados, 5. O arquivo assumiu o caráter de uma metáfora central
no trabalho da teoria cultural depois de Michel Foucault e
não basta tampouco para construir um Jacques Derrida na reflexão epistemológica conduzida por
historiadores e antropólogos sobre a questão da leitura dos
arquivos, assim como em uma série de interpretações da
paisagem, do corpo ou da fotografia (Rosalind Kraus), bem
3. Dos Entretiens du Patrimoine aos encontros Musée-Musées antes de ser objeto de uma (re)apropriação crítica pelos
do Louvre, a atualidade recente francesa é testemunha arquivistas. Tornou-se aos poucos uma figura privilegiada para
de um movimento internacional iniciado no começo da pensar a tecnologia estatal, sobretudo em sua versão imperial
década de 1970, por mim assinalado em Le Débat do século XIX. Em termos foucaultianos, dir-se-ia que o
na ocasião. patrimônio não é a soma dos monumentos conservados nem
4. Tal é, finalmente, o propósito de Françoise Choay em a instituição que os conserva, mas as regras de sua prática, o
L’allégorie du patrimoine (1996). Por outro lado, uma sociologia sistema de seus julgamentos. Para o estado da arte cf. Jean
crítica e o projeto de uma arqueologia geral, concorrente com Boutier, Jean-Louis Fabiani, Jean-Pierre Olivier de Sardan
a história da arte, esboçaram uma denúncia do patrimônio, (1999, 2001).
tido por braço armado desta ou daquela disciplina, ou como o 6. Sobre o caso dos museus ver Ludmilla Jordanova (1989) e
defensor de interesses particulares. Daniel J. Sherman (1989).
A razão pat r i moni al na Europa. . .
da sua publicidade na nova disposição da herdado e o que é (re)construído, ou entre
história cultural, na qual o explícito é, por ficções sinceras e invenções desonestas, do
sua vez, privilegiado pela investigação. que de questionar a produção e o consumo

A rtístico N acional
Convém apreender a história dos da própria evidência patrimonial, a um só
patrimônios como conjuntos materiais e, de tempo imaginário e instituição.10
modo indissolúvel, como saberes, valores O patrimônio é como o princípio
e regimes do sentido.7 Dessa forma, será subterrâneo e a manifestação autoproclamada
preservado da teleologia manifestada, por de um trabalho social e intelectual: querer

D om in iqu e Pou lot


exemplo, na criação de séries retrospectivas apreender o gesto patrimonial no seio da

e
P atrimônio H istórico
de episódios tidos a posteriori como história social e cultural é pensar nos recortes
“patrimoniais” e que, presumidamente, e nos “enquadramentos” aos quais ele se
desembocam na legislação contemporânea.8 consagra em uma relação sempre complexa
Evitar-se-á, ainda, a tentação de estabelecer com o que o organiza. A temporalidade
topografias dos patrimônios sob a forma material – segundo a expressão usada por
de inventários de “outro país” sem maiores Bernard Lepetit (1995) para evocar a paisagem
implicações para nós. Ou repertórios que urbana do tempo solidificado – aí adquire

do
enunciam os comportamentos em relação valor em nome de vínculos, de convicções,

R evista
ao passado material segundo uma escala mas também de racionalizações eruditas e
de julgamentos – morais e profissionais de condutas políticas. A relação íntima ou
–, do desprendimento científico ao zelo secreta de um proprietário, de usufrutuários
partidário, de modo a expor falsificações a títulos diversos, de especialistas ou de
e manipulações, desconsiderando a iniciados em determinados objetos, lugares
complexidade do investimento em todo ou monumentos, torna-se pública, quando
processo de patrimonialização.9 Trata-se esses são patrimonializados. Inversamente, 29
menos de distinguir entre o que é de fato como exposto por Simmel, aspectos outrora
públicos da herança partilhada ficam,
certamente, sob a garantia do segredo.11
7. Ver, além dos estudos clássicos de David Freedberg, Ann
Kibbey (1986).
8. Ao assumir a parte de anacronismo que reveste um
intitulado de história do patrimônio para os séculos que 10. Esse breve panorama dos pontos de vista a propósito do
precederam ao nosso, meu projeto se exporia senão à patrimônio, que me disponho a desenvolver ulteriormente,
reprovação de identificar uma “essência” do patrimônio ao remete aos mesmos sistemas de partilha observados em
longo dos séculos. O fenômeno é particularmente evidente outros campos quando se trata de “discutir o indiscutível”,
em uma tradição de compilações legislativas frequente na conforme a demonstração de Alain Desrosières,
Itália por motivos evidentes: Leggi, bandi e provvedimenti per la particularmente na razão estatística e no debate social. A
tutela dei beni artistici e culturali negli antichi stati italiani, 1571- oposição passa, por um lado, entre a descrição e a prescrição
1860, editado por Andrea Emiliani (1996). Sobre os usos do e, por outro lado, na própria linguagem da ciência, entre
anacronismo, ver as reflexões de Nicole Loraux (1993) e G. “posição realista” que fala da “fiabilidade da medida” e o
Didi-Huberman (2000). esforço da história social ou da sociologia construtivista do
9. David Lowenthal propôs, sucessivamente, esses dois conhecimento para examinar os laços entre taxionomia e
tipos de abordagens em duas obras enciclopédicas, The sociedade. Ver Alain Desrosières (1993).
past is foreign country (1985) e em The heritage crusade and 11. Sobre este texto de Simmel, ver Pierre Nora (1976).
the spoils of history (1998), que respondiam a um programa Daniel Fabre desenvolveu a problemática do “viver no
resumido anteriormente em David Lowenthal & Marcus patrimônio” no presente em Domestiquer l’histoire – Ethnologie
Binney (1981). des monuments historiques (2000).
A razão pat r i moni al na Europa. . .
O patrimônio encarna, em suma, um de objetos e culturas; e, por fim, que engaja
“crescendo em generalidade” de obras e narrativas de acesso, de (re)apropriação, de
objetos singulares, concebido de forma útil fruição, que constroem diversas convenções
A rtístico N acional

para a ação de conhecimento e de conservação eruditas e populares.


coletiva.12 Nisso, o patrimônio parece Pretendo, pois, desenvolver,
constituir um campo de aplicação privilegiado simultaneamente, três eixos de investigação,
para reexaminar três questões sob o ângulo a saber:
da circulação social: a do olhar erudito sobre
D om in iqu e Pou lot

obras e objetos materiais; a da historicização 1 . A c r e d i b i l i d a d e p a t r i m o n i a l


e
P atrimônio H istórico

de uma sociedade e, de forma mais geral, de


sua relação com “regimes de historicidade”;13 Em um momento no qual o simbolismo
e, por fim, a da ética e da estética que do patrimônio desempenha um papel
dela decorrem ou à qual estão ligadas (a tão importante no debate público,
exemplaridade e a adesão,14 mas também a especificamente em recomposições mais ou
emancipação ou a denegação).15 menos voluntaristas de legitimidade cultural,
A partir dessas conquistas, pode-se não se pretende aqui sondar a opacidade
do

adiantar que a evidência do patrimônio se dos seus objetos em uma abordagem


R evista

enuncia nos discursos contemporâneos sob hermenêutica própria à história da arte; nem
forma de uma “razão” específica; que ela estabelecer, paralelamente ao seu interesse
mobiliza sociedades e procedimentos diante artístico, documental, ilustrativo ou erudito,
seu valor de comunicação em nome de
12. O patrimônio pertence em grande parte ao domínio do
“paradigma indiciário” de Carlo Ginzburg, mas, desdobrado,
eventuais disciplinas – museologia, heritologia
se assim se pode dizer, já que a inclusão de um monumento no (Pickstone, 1994). Não se trata, tampouco,
patrimônio remete, por um lado, à sua época histórica e, por
30 outro lado, ao trabalho dos serviços que assim o definiram: ele
de traçar a progressiva elaboração de uma
é, dito de outra forma, o indício e o ícone de duas épocas. Que consciência coletiva, desde os balbucios
as representações escamoteiam as práticas que as organizam é
uma das lições de Michel de Certeau na sua reflexão sobre a dos primeiros arautos até seu coroamento
heterologia e a história. sob uma administração esclarecida; nem
13. “Regime de historicidade” – “[...] podia ser entendido de
duas formas. Em uma acepção restrita, como uma sociedade de escrever a crônica de progressivos
trata seu passado e o utiliza. Em uma acepção ampla, na qual enriquecimentos, no crescendo da proteção
o regime de historicidade serviria para designar a modalidade
de consciência de si de uma comunidade humana” (François aos monumentos e na multiplicação dos
Hartog, 2003:19). Cf. os trabalhos de Gérard Lenclud (1992)
e de J. Revel (1995). Ver também J. Revel e F. Hartog (2001).
museus. A perspectiva é, ao contrário, de
Um ponto de vista sociológico que se interessa pela relação desconstruir as representações de identidade
com a temporalidade é o de Andrew Abbott (2001 e 2003).
14. A sociologia da legitimidade cultural deveria ser convencionadas de um “patrimônio”
integralmente citada aqui. Sobre a história intelectual da para insistir sobre as novas configurações
exemplaridade, assim como a das obras-primas que atravessam
a do patrimônio sem recobri-la exatamente, ver Walter Cahn de seu estatuto, sobre suas incessantes
(1979) e Michel Jeanneret (1998). recontextualizações, sobre as desvalorizações
15. A literatura sobre o conjunto desses assuntos é vastíssima,
mas os escritos mais úteis parecem-me ser Moses I. Finley e as deslegitimizações que o permeiam.
(1990), Arnaldo Momigliano (1998), Peter Burke (1969),
Donald R. Kelley (1997) e seu comentário crítico por Jean-
O discurso patrimonial foi inicialmente
Pierre Cavaillé, George Huppert (1973) e Paul Ricoeur (2003). uma categoria de celebração própria à
A razão pat r i moni al na Europa. . .
A rtístico N acional
D om in iqu e Pou lot
e
P atrimônio H istórico
do
R evista
Exemplo de vandalismo ideológico na França: Abadia de Cluny, demolida entre 1798 e 1823, e reconstruída posteriormente. Foto: Patrick Giraud
Acervo: Wikimedia Foundation/Wikicommons. (http://fr.wikipedia.org/wiki/Fichier:Cluny_Tours_et_Clochers.jpg)

literatura artística, sob a forma de “exaltação mais espetaculares decorre – no domínio


a uma cidade ou nação apreendidas em suas do edificado –, ao lado da conservação
tradições e obras”, como André Chastel o stricto sensu, do surgimento de intervenções
resumiu com base em Julius Von Schlosser. que respondem à progressiva instauração 31
A Idade Moderna assistiu à multiplicação das de um academicismo da conservação-
listas de obras e coleções de cidades no campo restauração (Denslagen, 1994; Jokilehto,
da escrita antiquária (Schlosser, 1984).16 Em 1999; Sette, 2001).17 O vínculo da nação
seguida, com a nova configuração cultural com a conservação passa por evidente com
aberta pela Revolução Francesa, o propósito a emergência de “comunidades imaginadas”
se confundiu com a luta contra o vandalismo: (Anderson, 1991): a maioria dos objetos
ele se tornou um compromisso para a “que contam”, e cuja beleza pertence a
manutenção do status quo. No apagamento todos – como Victor Hugo proclamou –
do Antigo Regime nos objetos de memória torna-se a encarnação do “espírito” de uma
e nas suas civilidades, veem-se configurar coletividade particular (Miller, 1998). Eles
novas relações com a coletividade ao longo se inscrevem em um lugar – uma jazida –,
do século XIX. Uma das manifestações que eles ilustram e que os engaja em uma

16. Pouco estudados na França, esses campos são, ao contrário,


bastante explorados na Inglaterra: ver Rosemary Sweet (1997, 17. Ver também os estudos de caso reunidos em P. G. Stone e
cap. 1, notadamente sobre o antiquariato). G. Planel (1999).
A razão pat r i moni al na Europa. . .
reivindicação de autoctonia em um culto da uma profusão de esforços públicos e
transmissão.18 Percorrer os objetos nacionais, privados em benefício de comunidades
tal um proprietário, torna-se, para o cidadão, múltiplas (Penna, 1999 e Clifford, 1997).
A rtístico N acional

um ato político – uma prova de civismo. Esse Paralelamente, um patrimônio mundial


comércio particular com as “lembranças” marcado por controvérsias pós-coloniais
delineia formas culturais gerais e coloca em notórias abre-se para um retorno reflexivo
ressonância estética e política, do sublime à sobre sua composição e seus usos.20 Se, em
nostalgia, dando lugar a enunciados múltiplos todos esses casos, a perspectiva histórica
D om in iqu e Pou lot

do in situ (Marchand, 1996). A arqueologia, pode ensejar uma tomada de consciência


e
P atrimônio H istórico

em particular, fornece um conjunto de dos silêncios e das falsas evidências, o


demonstrações reinvestidas ao sabor de papel de uma história do patrimônio não se
eventuais revivals.19 confunde com uma profissão de ceticismo
Ao longo do século XX, a noção epistemológico, com a denúncia dos abusos
de conservação engaja claramente uma do passado, ou com a simples inversão do
representação da historicidade: o princípio processo em proveito de objetos esquecidos
de precaução contém uma conservação ou negligenciados.
do

dita “preventiva” definida de forma estrita, O estudo da “vida social dos objetos”
R evista

enquanto as reflexões administrativas não (Appadurai, 1986) – apreendido, em


cessam de afirmar que o patrimônio é “um particular, nos jogos do colecionismo
presente do passado” (Group-Conseil, ou mais geralmente na sua recepção –
2000). Paulatinamente, o patrimônio orienta-se há alguns anos para uma história
assume uma posição crítica sob a forma de suas práticas de admiração estética e
de um aproveitamento positivo e de um de memorização ética, de engajamento
32 julgamento de valor que afirma escolhas. erudito e de apego cívico. Tornou-se, da
Confessa-se marcado por embates políticos, escola de Warburg a Arnaldo Momigliano
econômicos e sociais, que ultrapassam ou Frances Yates, de Paolo Rossi (1993)
largamente as fronteiras disciplinares a Mary Carruthers (2002), ou Caroline
(entre história, filosofia, estética ou Bynum (2001), uma frente pioneira da
história da arte, folclore ou antropologia) história cultural e política. Por meio de
–, assim como o mostrou, ao longo da perspectivas diversas oriundas de tradições
década de 1970, o reconhecimento de culturais e nacionais heterogêneas, ou
“novos patrimônios”. Tal é ainda o caso mesmo de regimes científicos incompatíveis,
da conservação dos recursos intangíveis, esboça-se, contudo, uma imagem. Assim,
ou da conservação cultural definida no Leonard Barkan mostrou a relação entre
início da década de 1980 e que recobre a arqueologia e a emergência da categoria

18. Ver Yan Thomas (1980:425 e 1998) e o trabalho em 20. Ao lado das disputas já antigas sobre restituições de
andamento do Garae sobre a vertente antropológica. obras, Moira G. Simpson (1996) forneceu um quadro dos
19. Dois exemplos muito significativos: John Hutchinson debates atuais sobre a restituição de objetos sacros e de restos
(2001) e J. F. Gossiaux (1995). humanos. Para uma análise exemplar ver Yves Le Fur (1999).
Bem restaurado pós-vandalismo na França, século XIX. Detalhe da fachada da Catedral de Notre-Dame, Paris. Foto: Glória Torrico, 2008

Bem restaurado pós-vandalismo na França, século XIX. Detalhe da fachada da Catedral de Notre-Dame, Paris. Foto: Glória Torrico, 2008
A razão pat r i moni al na Europa. . .
estética no Renascimento (Barkan, 1999).21 de suas práticas e fruições.26 Gostaria de
Outros estudos procuram relacionar mostrar como são relatados os “achados”,
os objetos, as práticas e os discursos por meio dos inventários, dos percursos
A rtístico N acional

que gradualmente constituíram o saber e dos intercâmbios; como se elaboram,


da história da arte, do museu ao livro paralelamente, as intrigas, os tipos de
ilustrado e à cátedra (Haskell, 1993).22 inventores e os estilos de patrimônios em
Reexaminando as grandes narrativas do relação com a “ecologia das imagens” e dos
saber antiquário e histórico, da emoção lugares. É essencial aqui a elaboração de
D om in iqu e Pou lot

visual (o deslumbramento, a ressonância23) um sentido visual do passado, das paisagens


e
P atrimônio H istórico

e da vontade política e social, trata-se aqui monumentais das cidades às do campo, em


de deslocar a perspectiva, de uma genealogia uma relação complexa com a historiografia e
da estética e das disciplinas antiquárias à com os aprendizados eruditos. O estudo do
das convenções patrimoniais como regime patrimônio responde, em sua generalidade,
material e grandeza do passado.24 Dar- aos três princípios de perceptibilidade, de
se-á atenção, em particular, às crises e às especificidade e de singularidade próprios
tensões sociais e políticas; às polêmicas à sociologia da recepção, tal como Jean-
do

e aos conflitos artísticos e culturais;25 às Claude Passeron (1992, cap. IX e XII) o


R evista

desarticulações repentinas ou progressivas explicitou. Cada um dos objetos “que contam”


das relações com o passado e o futuro. Tais é identificado por meio de guias, relatos de
momentos assistem à invenção de poéticas viagem, correspondências, diários, catálogos,
patrimoniais inéditas em suas definições, em função de reproduções em circulação, da
escolhas e exigências. importância das evocações ou das citações das
quais é o pretexto ou o princípio. Dar-se-à
34 2. A
 s civilidades do patrimônio atenção às articulações desses objetos em
diferentes discursos ou argumentos, eruditos
A história da invenção e da publicização ou familiares, e à encenação de seus “amigos”
do patrimônio, pela exposição e pela – em redes de socialização erudita e artística
escrita, deve ser considerada graças ao e, especificamente, segundo os modelos
estudo dos meios empregados para o seu disponíveis de apostolado patrimonial.27 De
(re)conhecimento; graças à análise de seus fato, morais individuais e éticas coletivas são
modos de identificação e de gestão, jurídicos elaboradas ou adotam novas configurações em
e eruditos; graças, enfim, à abordagem relação a legados mais ou menos reivindicados
e “achados” mais ou menos oportunos.
Assim, conviria interrogar a forma na qual
21. Ver a continuação em Haskell e Penny (1981).
22. Pode ser complementado por Burke (2001).
23. Retomando as formulações gerais propostas por Stephen 26. Para um exemplo de um ponto de vista metodológico ver
Greenblatt e Helga Geyer-Ryan (1990). Sharon Macdonald (1998) e, em especial, Lynne Cooke e Peter
24. Retiro essa perspectiva de Clifford Geertz (1983). Wollen (1998).
25. Ver notadamente sobre a abordagem dos sciences studies e 27. Conviria comparar com a ética da república das letras
suas possíveis adaptações às cenas centrais e locais Jean-Louis considerada por Ann Goldgar (1995) e criticada por
Fabiani (1997). Christian Jouhaud.
A razão pat r i moni al na Europa. . .
a emulação erudita e a rivalidade na fruição a História, afirmações moralizadoras e
das coisas se exacerbam mutuamente, por enumeração de hierarquias.
exemplo, em proveito da identidade de Uma enorme diversidade de modos

A rtístico N acional
uma população, de uma memória religiosa de fazer passa a operar. Modos de fazer que
(os Vaudois de Alexis Muston, saudado por devem ser questionados do ponto de vista
Michelet) ou de uma cidade. notadamente do tipo de escrita comum
Os “amigos” dos objetos patrimoniais, encontrada em apontamentos de laboratório,
amadores ou profissionais, polígrafos ou em anotações de pesquisa, cuja riqueza a

D om in iqu e Pou lot


especialistas, militantes e funcionários, etnologia começou a explorar.30 O homem

e
P atrimônio H istórico
constituídos em comunidades de do patrimônio em campo, distinguindo-se do
interpretação, erigem-se em porta-vozes ou homem comum, deve referenciar o objeto
em advogados das inovações, apropriações com suas coordenadas – temporais, espaciais
e atribuições.28 Algumas dessas figuras – o –, para situá-lo em suas ambições, explicá-lo,
antiquário e sua ruína, o conservador e interpretá-lo.31 Esse percurso é sempre mais
seu museu, o folclorista e seu campo – ou menos uma autodidaxia, como, desde o
tornaram-se aos poucos estereótipos quase século XVIII, se afirmava do connoisseurship,

do
antropológicos.29 Observá-los permite tido como um saber apreendido à força

R evista
questionar as identidades construídas pela de “andanças”, ou seja, de viagens e de
reciclagem de imagens, objetos e práticas intercâmbios. Daí em diante, o leque de
deserdadas e simultaneamente “dadas” em curiosidades se abriu, ensejando a coleta
herança. Dir-se-ia que os objetos patrimoniais de grande número de detalhes, de recursos
permitem localizar diferentes configurações complementares ou intermediários, com ares
de um social que se desdobra por meio de furtivos.32 Toda uma economia da arqueologia
suas partilhas e recusas. Esses dependem e esboça-se, por exemplo, das descobertas 35
se conservam a partir de procedimentos, fortuitas no cultivo da terra até sua invenção
de convenções discursivas, de exigências por antiquários locais e seu reconhecimento
materiais ou técnicas. Os guias de estudo
ou os manuais pedagógicos, os documentos 30. Daniel Fabre (1993), Martin de La Sourdière e Claudie
oficiais, e as atas das sociedades eruditas Voisenat (1997) e em outro plano, para figuras de escrita
expostas, sendo algumas patrimonializadas, ver Armando
– e, mais amplamente, os romances Petrucci (1993) e Béatrice Fraenkel (2002).
31. Bonnie Smith (1998) examina a questão de gênero no
familiares dos patrimonializadores e toda trabalho de arquivo e o seminário – particularmente a relação do
a literatura dos apegos aos monumentos trabalho original e da vulgarização, do amador e do profissional
– de uma forma que poderia ser útil aqui para pensar o lugar do
pertinentes – alimentam especulações sobre feminino na elaboração de um corpus patrimonial e sua validação.
as nomenclaturas e interrogações sobre Ver de forma mais geral o dossiê reunido por Luisa Passerini e
Polymeris Voglis, Gender in the production of History.
32. Tomo este termo emprestado à clássica análise de Michel de
28. Os estudos de microssociedades e trocas informais em seu Certeau (1980:36). A uma produção racionalizada, expansionista,
seio multiplicam-se hoje em história moderna e contemporânea. tanto quanto centralizada, ruidosa e espetacular, corresponde uma
Algumas observações bastante sugestivas de Miguel Tamen (2001) outra produção, qualificada de “consumo”: essa é astuta, dispersa, mas
podem, desse ponto de vista, servir de base metodológica. se insinua por toda parte, silenciosa e quase invisível, já que não se
29. Stephen Bann (1984), Donald Preziosi (2003) e minha nota faz notar com produtos próprios, mas pelas maneiras de empregar os
crítica na Revue de l’Art, setembro de 2004. produtos impostos por uma ordem econômica dominante.
A razão pat r i moni al na Europa. . .
no seio da erudição nacional, economia de dedicar um interesse particular aos princípios
longa duração desde o Antigo Regime até de construção de um corpus, à estratégia do
as redes mais densas da poligrafia do século trabalho em comissão – forma de resposta
A rtístico N acional

XIX (Woolf, 2003). No distanciamento ou na a crises e/ou a problemas de definição –,


proximidade das peças, na permanência ou e aos modos de inspeção e de inscrição em
na fugacidade de sua exposição, na sedução séries que pressupõem, com frequência, uma
eventual dos processos de sua reprodução cadeia de categorias a serem preenchidas, de
entra em jogo uma publicidade ampliada dos lugares a serem verificados, em resumo, uma
D om in iqu e Pou lot

patrimônios, que tece laços complexos com hierarquia a ser enumerada. A documentação
e
P atrimônio H istórico

o comércio de objetos e de imagens baratas, patrimonial, assimilada por Guizot ao gênero


de mais ou menos “bom gosto”, nas franjas do da estatística descritiva alemã, cria algarismos
popular e do pitoresco.33 – o que Eric Brian denomina “inscrição dos
Em todos os casos, as viagens improvisadas signos numéricos em condições particulares de
e as missões planejadas, as visitas e as coletas, as produção”. São algarismos comparados pouco
compilações e as investigações, as intervenções a pouco, de uma nação a outra, para medir
restauradoras e o aprendizado de modos de os “pesos” relativos dos patrimônios, e que
do

fazer elaboram e sancionam procedimentos.34 conviria analisar no âmbito dos intercâmbios


R evista

Os detalhes a serem apreendidos ou, ao entre eruditos, administradores ou


contrário, as partes a serem negligenciadas legisladores, e a opinião pública (Brian, 1994).
respondem a diversos gêneros de inscrição do Ela produz também “coleções efêmeras”,
notório e do pertinente no seio de repertórios torcendo a fórmula de Francis Haskell, que
a construir (Leask, 2002). A tentativa de são outras tantas (re)produções – pela imagem
construir uma história patrimonial da cultura (Mondenard, 2002) e pela escrita – de
36 material exige debruçar-se sobre a erudição e objetos isolados em uma recontextualização
o colecionismo, suas disposições tácitas, suas ad hoc, a da identificação de um Estado em
pequenas ferramentas, suas fruições mudas. um determinado momento do saber e do
Em suma, sobre todos os gestos e saberes que gosto. Ela fornece às gerações seguintes
organizam a percepção e a representação dos representações concorrentes, e em todo caso
objetos em função de hierarquias entre saberes fictícias, de um conjunto imperceptível como
locais, vínculos particularizados e o horizonte tal, salvo se imaginarmos uma cartografia
de conhecimentos gerais de um homem de que se sobreponha ao território.36 Com
sociedade.35 Para além disso, tratar-se-á de frequência, essas imagens não permitem que
se considere o detalhe dos procedimentos
de apresentação e de conhecimento que
33. Rosemary Hill (1997) e mais geralmente uma grande parte
dos artigos da revista Things, como os de Res no campo da levaram a esse último estado. Que se avaliem
antropologia. as incertezas das ofertas, das escolhas e dos
34. Cf. as perspectivas a partir de objetos de ciência abertas
por Eric Brian (1999).
35. Ver Peter Becker e William Clark (2001). Para a oralidade, 36. Thomas DaCosta Kaufmann (2004) fornece um
Françoise Waquet (2003) e para as comparações com a vida de balanço historiográfico que, em certos aspectos, atravessa
laboratório a obra de Bruno Latour. a questão.
A razão pat r i moni al na Europa. . .
meios que marcaram, ou mesmo balizaram, privilegiado (Cardinal, 2001). As histórias
de perto, a realização de um inventário – de vida ou os romances familiares – como
sempre no horizonte do projeto patrimonial. o dos Visconti, conservadores do Vaticano e

A rtístico N acional
Por fim, o jornalismo patrimonial, se assim se depois do Louvre, no final do século XVIII,
pode chamá-lo, que periodicamente noticia que acompanharam seus objetos ao longo
“invenções” e descobertas, opera regularmente das ocupações e das revoluções – oferecem
para os ajustes entre os sentidos de um a possibilidade de articular singularidade
passado e a consciência do presente.37 Com de comprometimentos particulares e

D om in iqu e Pou lot


isso, contribui, provavelmente, tanto para compartilhamento de valores coletivos.

e
P atrimônio H istórico
normalizar as diferenças como para colocar em
destaque a singularidade de um monumento 3 . A c i ê n c i a m o r a l d o
ou de uma peça para a inteligência da história e patrimônio
o orgulho coletivo.
Para além de uma geografia, essencial para A fruição do patrimônio, que gerou
a configuração patrimonial, as atividades dos uma abundante literatura, sendo algumas
amigos de objetos delineiam uma economia obras-primas, nutriu-se, sobretudo, de

do
do faro e do acaso, a de serendipity,38 que está argumentos e de convenções, ou mesmo

R evista
na origem de achados bem-apresentados de um legendário, moral e historiográfico.
e, por meio desses, de uma hierarquia Esse alimenta os questionamentos sobre os
dos “patrimonializadores”. Esses últimos estágios da história e as especulações sobre
estabelecem um diálogo complexo com os as primeiras mitologias, mas também as
colecionadores, com os “acumuladores” de afirmações sobre os modelos e os depósitos
objetos “selvagens” ligados ao imaginário de valores. O imaginário social da genealogia
arqueológico ou, ainda, com os atores de marcou profundamente, durante o Antigo 37
folclorismos mais ou menos ligados a uma Regime, a ideia de transmissão. As noções
“performatividade” comemorativa e presentista de boa economia de uma família se unem
(Kirshenblatt-Gimblett, 1989; Myrone & a essas exigências quando a Encyclopédie
Peltz, 1999). Donde a questão do sucesso ou de Diderot e d’Alembert sublinha que
do fracasso dos antiquários, dos colecionadores o curioso desestabiliza a sua fortuna, na
evérgetas ou dos conservadores de museus tradição dos moralistas do Grand Siècle.
eruditos, quando seus conhecimentos ou suas Mas, às vésperas de 1789, o Watelet faz o
paixões são pouco ou malcompartilhados ou, elogio dos gabinetes patrióticos, supondo
ao contrário, quando saudados por um coro um novo ideal do colecionismo basculado
de elogios são objeto de um reconhecimento sobre o presente de uma modernidade
francesa, da qual se começa a vislumbrar as
37. Ver a contribuição de Daniel Woolf a Brendan Dooley e perspectivas.39 Na sequência, a descrição,
Sabrina Baron (2002).
38. Ver sobre esse termo criado por Horace Walpole, em
1754, e seus recursos para uma sociologia e uma antropologia 39. Nesse campo marcado por Colin Bailey (2002), aguarda-
históricas do trabalho erudito Robert K. Merton e Elinor G. se a tese de Charlotte Guichard sobre o amador (EHESS, sob
Barber (1992). minha orientação).
A razão pat r i moni al na Europa. . .
por vezes paródica, das imperfeições e dos regionais. Sem se submeter à geografia
ridículos do colecionador, opostos à moral do artística nesse assunto, a historiografia
museu, marca os dicionários e as fisiologias inglesa está também fortemente ancorada
A rtístico N acional

da primeira metade do século XIX.40 O Grand na sua relação com os colecionadores, por
Dictionnaire Universel de Pierre Larousse, no motivos complexos ligados tanto a uma
final da década de 1860, renuncia a “passar em argumentação patrimonial, quanto ao
revista todas as variedades, todas as audácias, elogio da inteligência da mercadoria, no seu
todas as singularidades da coleciomania”.41 Ele circuito do marchand ao proprietário. Na
D om in iqu e Pou lot

mostra, como Clément de Ris em La curiosité França da segunda metade do século XIX,
e
P atrimônio H istórico

(1864), que o colecionismo está à beira da a atividade de divulgador de um Philippe


doença mental ou, na terminologia da época, de Chennevières e o surgimento de uma
da “medicina experimental”.42 imprensa erudita vinculada ao colecionismo
Uma tradição da história da arte insiste, mostram o elo entre o elogio das coleções,
no entanto, de maneira diferente segundo o esforço de avaliação das escolas regionais,
os países, é verdade, sobre o papel de enfim, a vontade de dispor de uma história
destaque dos colecionadores não apenas nacional. O início das investigações eruditas
do

na constituição de patrimônios coletivos sobre os colecionadores do passado


R evista

e na elaboração de um corpus de saberes. mantém, entretanto, uma relação ambígua


Mas, ainda, como artistas ou protagonistas com a cultura material contemporânea.
de revivals,43 na configuração de um gosto O historiador da literatura Brian Rigby
nacional. Tanto isso é verdade que um sublinha o quanto, nos grandes romances do
patrimônio de mau gosto só é imaginável em século XIX, a descrição da vida dos bibelôs
determinadas condições.44 Esse legendário – acompanha-se “de uma resistência complexa,
38 no sentido empregado por Michel de Certeau estética e moral, aos objetos” – como
– pretende convencer sobre a inteligência, a em Flaubert.
perspicácia e a generosidade do colecionador. Considerando os diferentes graus de
O que se verificou em particular na intimidade social com o passado material, a
história da arte italiana, na qual numerosos distribuição desigual de “grandezas” – entre
colecionadores foram objeto de monografias coleções e museus (Wright, 1996:229-39
elogiosas, relacionadas com um “espírito de e Coombes, 1988) – tentar-se-á mostrar
campanário” nutrido da tradição de escolas se e como o antigo regime dos objetos de
memória e de suas civilidades saiu de cena
40. Ver os trabalhos clássicos de Krzysztof Pomian (1987 em proveito de novas referências e de novas
e 2003) sobre o léxico, a semiologia e a história dos partilhas (Herzfeld, 1997). Pois muitos dos
colecionadores e do colecionismo; e um balanço por Françoise
Hamon (2001). amigos de objetos parecem, ao longo dos
41. Verbete “coleção”, t. VI, 1868. séculos XVIII e XIX, ter sido desapossados,
42. Ver as figuras do colecionador, do excêntrico e do esteta
descritos por Dominique Pety (2003). tanto material como simbolicamente, de
43. Sobre esse aspecto, a seleção feita por Giulio Carlo Argan
(1974) permanece sugestiva.
suas disposições individuais pela experiência
44. Ver a demonstração sugestiva de Lionel Gossman (2002). histórica, quando se elabora um movimento
A razão pat r i moni al na Europa. . .
coletivo dedicado ao “patrimônio” e à social e cultural. Esse é um campo de
história nacional.45 Mais tarde, as disposições investigação que se situa entre epistemologia,
da conservação articulam-se de modo estética e ética ou teoria política, que se pode

A rtístico N acional
cada vez mais visível às vicissitudes dos apenas assinalar aqui.
estereótipos nacionais, à construção de Agrupando esses três eixos sob uma
narrativas identitárias e à massificação perspectiva de investigação unificada pela
dos públicos, notadamente por meio das atenção dedicada aos mundos do patrimônio –
mutações da cenografia histórica ou da para retomar uma fórmula doravante clássica

D om in iqu e Pou lot


museografia internacional (Duncan, 1995). de Howard Becker –, trata-se de contribuir

e
P atrimônio H istórico
Ao menos, a abertura de museus públicos para a análise histórica de um fenômeno social
enseja novas tomadas de posição diante e de uma instituição, de categorias de saber
de potenciais objetos afetivos, quer sejam e de gosto, enfim de práticas e recepções.
nacionais ou exóticos, a contrapelo de uma Pretendo dar continuidade, a propósito
instrumentalização unívoca (Preziosi, 2003; desse objeto, ao diálogo entre a história e
Plato, 2001; Baker e Richardson, 1997; as ciências sociais engajado, desde os meus
Conn, 1998; Thomas, 1991). A proliferação primeiros trabalhos, e aprofundado com a

do
de objetos patrimonializados que se usufruem vinculação a um novo laboratório colocado

R evista
e para os quais se luta – ou não – põe sob a influência do trabalho antropológico. O
novamente em questão a adesão dos cidadãos meu engajamento na equipe do Laboratoire
a um depósito de valores, a um common interest d’Anthropologie et d’Histoire de l’Institution
da imaginação e da arte, mas que é também de la Culture (Lahic) me proporcionou não
uma figura da alteridade.46 Tudo isso compõe tanto os “recursos” que a antropologia oferece
o que se poderia chamar de “moralidade” à história, mas sim a crítica que a antropologia
do patrimônio nas representações coletivas, faz a certa tendência da história de tratar 39
moralidade que pode tomar a forma ora de exaustivamente as fontes ou de necessitar
um programa de emancipação, até mesmo de que as mesmas expressem as ideias ou
subversão, ora o partido de um conformismo representações de um grupo social significativo
e não somente de indivíduos isolados.
45. Para o espaço alemão de autorrepresentação dispõe-se Resta considerar, em seguida, as
de Bénédicte Savoy (2003), que permite compreender sua
construção em torno de 1800 “graças” ao deslocamento construções patrimoniais como outros
francês. Susan A. Crane (2000) defende a tese da perda das
capacidades individuais da experiência histórica à medida
tantos “modos apropriados” de tratar o
que se fundem os interesses pessoais de colecionadores e passado, como outros tantos estilos – o
de amadores de história no seio de um movimento coletivo
dedicado ao “patrimônio” e à história alemães. Em outro plano, estilo encarnando uma “noção de perspectiva
H. Glenn Penny (2001) esboça um quadro bastante semelhante histórica” (Guinzburg, 1998:120), segundo
dos efeitos da publicidade museal sobre a natureza dos objetos
colecionados e sobre os discursos que lhes dão vida. Para um a formulação luminosa de Carlo Ginzburg.
estudo de caso, ver Alon Confino (1997). Exposições recentes consagradas, ora a atores
46. Remeto às análises sobre as bibliotecas, os livros e
os leitores conduzidas por Roger Chartier como outros da patrimonialização monumental – para
tantos modelos a serem testados para tal abordagem das
representações de patrimônios, de suas implicações políticas
além dos grandes iniciadores Mérimée e
e apropriações. Viollet-le-Duc, que são casos de escola –,
A razão pat r i moni al na Europa. . .
ora a fundadores de museus, ora, por fim, a Boym, Svetlana. The future of nostalgia. Nova York: Basic
Books, 2001.
inventores de sítios arqueológicos, mostram
Brian, Eric. “Calepin. Repérage en vue d’une histoire
o quanto esses episódios foram outros tantos
A rtístico N acional

réflexive de l’objectivation”. Enquête, 2:193-222, 1996.


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José C arl o s Rei s
O t em p o hi stó ri c o c o mo

A rtístico N acional
“ re pre s e nt ação int elect ual”

O que seria a “dimensão histórica” do talvez ingenuamente, evite teorizar sobre a

e
P atrimônio H istórico
tempo? Se o passado é o que não é mais, temporalidade. É ingênuo porque “narrar uma
portanto é inobservável, seria possível o história” não é (re)vivê-la, é uma operação
conhecimento histórico? O historiador deve cognitiva, que exige a teorização. Para Prost
se contentar com uma ilusão intelectual (1996), fazendo a teoria da história, o que
como resultado do seu trabalho? Vamos distingue a questão do historiador em relação
nos deter na especialidade do historiador: às questões dos outros cientistas sociais é a
a sensibilidade à “dimensão histórica” do “dimensão diacrônica” e mesmo quando trata

do
tempo. Contudo, embora seja central para de estruturas e sincronias, o que o historiador

R evista
a história, a categoria “tempo histórico” foi percebe e enfatiza é a mudança. O sentido da
pouco tematizada pelos historiadores. Para sua investigação é acompanhar os homens em
Michel de Certeau, “o tempo é o impensado suas mudanças, produzindo a sua descrição,
de uma disciplina que não para de utilizá- análise e avaliação.
lo como instrumento taxonômico. O Para Philipe Ariès (1986), a “dimensão
tempo é tão necessário ao historiador que diacrônica” do tempo é percebida quando
ele o naturalizou e instrumentalizou. Ele se constata a diferença entre o ontem e o 45
é o impensado não porque é impensável, hoje e o objetivo da pesquisa histórica é
mas porque não é pensado” (Certeau, a explicação dessa diferença. A pesquisa
1987:89). O historiador não separa a histórica se apresenta como uma resposta a
reflexão teórica sobre o tempo da pesquisa uma surpresa, a um espanto com as diferenças
concreta das experiências humanas: a sua entre o hoje e o ontem. O passado só é
teoria é prática, a sua noção do tempo apreensível pela comparação com o presente,
permanece implícita à sua reconstrução a única duração que o historiador pode
do vivido. Todo trabalho de história é uma conhecer concretamente. Febvre sustenta
organização temporal: cortes, ritmos, que a função da história é “explicar o mundo
periodizações, interrupções, sequências, ao mundo”, “organizar o passado em função
surpresas, imbricações, entrelaçamentos. do presente” (Febvre, 1965), o que significa
Os casos que o historiador pesquisa já são que o historiador se dirige ao presente, aos Relógio de bolso d. Pedro
V, c. 1860, Suíça.
em si mesmos “temporalidades vividas”, seus contemporâneos. O tempo da história- Exposição “O tempo sob
medida”, Fundação Medeiros e
que ele tenta reencontrar e reconstituir problema seria um tempo de diálogo, de Almeida/CCBB/LGDN Produções

por meio da documentação e, por isso, aproximação e comunicação, que pressupõe


O t e mpo hi st ór ico. . .
a diferença entre o presente e o passado. mas vidas determinadas, isto é, “plasmadas
Nessa comunicação, Febvre considera que temporalmente”. O tempo histórico não é
o maior erro seja o anacronismo, que leva algo exterior, que envolveria os fenômenos,
A rtístico N acional

ao desentendimento, à incomunicabilidade um ser substancial, uma intuição divina, como


entre o presente e o passado, que teriam acreditou Newton, mas a própria forma dos
Jos é Carlos Reis

um do outro informações equivocadas. No eventos humanos, que lhes dá identidade e


anacronismo, a qualidade da sensibilidade inteligibilidade. O tempo histórico não é um
historiadora à dimensão diacrônica se tempo físico ou psicológico ou dos astros ou
deteriora e a narração das oscilações do relógio, divisível e quantificável. E também
e
P atrimônio H istórico

temporais se desequilibra: o historiador não não é uma infinidade de fatos sucessivos como
“compreende” mais o passado, pois perdeu a linha é uma infinidade de pontos. O tempo
a “empatia”, o vínculo com o passado. histórico é o das coletividades públicas, das
Entretanto, Dumoulin (1986) e Loraux (apud sociedades, civilizações, um tempo comum,
Novaes, 1992) chamam a atenção para um que serve de referência aos membros de um
aspecto positivo do anacronismo – “positivo” grupo. Por um lado, o tempo histórico possui
no sentido de que poderia enriquecer e uma objetividade social, é independente
do

aprofundar essa comunicação. O anacronismo, da vontade dos indivíduos; por outro,


R evista

intrusão de uma época em outra, que seria o os indivíduos também o criam e tecem,
erro histórico por excelência, pode ter um interferem e o transformam, suas biografias
valor heurístico: a proposição de questões ou modificam a sociedade, mas não podem
técnicas de análise de hoje no passado pode ignorar o tempo social que se impõe a eles.
lançar luzes sobre ele. Assim, em vez de fim A seguir, vamos apresentar algumas
da comunicação entre passado e presente, elaborações do tempo histórico feitas por
46 ele traria, paradoxalmente, o avanço nessa historiadores e não historiadores, para
comunicação. Como fonte de conhecimento, “pensar o impensado”. Há alguns conceitos
o anacronismo tomaria o tempo “com e ideias sobre o tempo que são essenciais
efeito” e deixaria de ser o “pecado mortal” à “operação historiográfica” e, se fossem
para se tornar uma estratégia preciosa de usados conscientemente, tornariam a
conhecimento. Dumoulin e Loraux têm abordagem do passado mais eficaz. Vamos
razão, mas o risco, agora, é a transformação retomar três concepções do tempo histórico
retórica do defeito em “efeito”. como “representação intelectual”: o debate
Para Bloch, a história é “a ciência dos entre os Annales e a história tradicional, o
homens no tempo” e o tempo é “o plasma em tempo-calendário, de Paul Ricoeur, e as
que se banham os fenômenos, lugar de sua categorias meta-históricas de “campo da
inteligibilidade” (Bloch, 1974). A história é a experiência” e “horizonte de expectativa”,
ciência das “formas das experiências vividas” de Reinhart Koselleck. São construções
que se determinam espaço-temporalmente. diferentes que, por serem diferentes,
O historiador afirma que não há homem permitem uma fecunda visão poliédrica da
em geral, vago, universal, especulativo, dimensão histórica do tempo.
O t e mpo hi st ór ico. . .
1 . A h i s t ó r i a s e r i a O passado como objeto dessa história é
“o e s t u d o d o s f a t o s objetivado, posto como exterior ao presente
h u m a n o s d o p a s s a d o”? e apreensível “com precisão e exatidão,

A rtístico N acional
baseado em fontes seguras”. Esse passado é
Há uma concepção mais tradicional do concebido como a sucessão de eventos bem-

Jos é Carlos Reis


tempo histórico que, se não for pensada de reconstituídos e precisamente datados. Eis o
maneira muito tradicional, mantém a sua que pensa do tempo histórico o historiador
consistência. Nessa perspectiva, o tempo tradicional dito “positivista” (Furet, 1982;
histórico se confunde com a dimensão Carbonnel, 1978; Reis, 2006).

e
P atrimônio H istórico
do passado das sociedades humanas e a Os historiadores mais heterodoxos,
história é “o estudo dos fatos humanos do ao contrário, tendem a fazer coincidir o
passado”. Nessa historiografia, o passado tempo histórico com a “relação presente-
pode ser posto em relação mais forte ou passado”, mas sempre cautelosos em
mais fraca com o presente, mas sua relação relação a uma reflexão histórica sobre o
com o futuro é praticamente inexistente. futuro. Como objeto de “ciência”, o tempo
Para os historiadores mais tradicionais, histórico confundir-se-ia com o passado

do
o futuro não existe como dimensão da dado e o presente que o recebe criticamente.

R evista
história concreta e só pode ser incluído Os Annales combateram a historiografia
no raciocínio do historiador como uma tradicional, sustentando que o passado e o
variável desconhecida, ou seja, sem valor presente se relacionam determinando-se
determinante. Esses historiadores tendem reciprocamente. Enquanto os historiadores
a fazer coincidir o tempo histórico com a tradicionais interditavam o presente como
dimensão do passado em si, sem qualquer objeto do historiador, pois não seria abordável
relação com o presente ou futuro. Esse serena e refletidamente, porque é espaço da 47
passado, inscrito no tempo-calendário, experiência e não da reflexão, Bloch (1974)
constitui-se da sucessão – nele datada propôs o “método regressivo”: o historiador
precisamente – de eventos singulares e deve partir do presente ao passado e retornar
irrepetíveis. A singularidade do evento do passado ao presente. Talvez fosse melhor
consiste em estar em um momento preciso definir o seu método como “retrospectivo”,
dessa escala homogênea e linear. Quanto ao para se evitar o risco da regressão infinita
historiador, manipulando os documentos, em busca das origens. Para ele, por um
também precisamente datados e verificados, lado, o passado explica o presente, pois o
reconstitui empírica e exatamente o que presente não é uma mudança radical, uma
se passou ali naquele momento preciso ruptura rápida e total. Os mecanismos
do calendário. Nessa perspectiva, há certa sociais tendem à inércia, são prisões de longa
obsessão pela “reconstituição empírica, duração: código civil, mentalidade, estruturas
precisa e exata do passado”, o que leva ao sociais. Ignorar esse passado comprometeria
seu isolamento do presente – que seria uma a ação no presente. Por possuir raízes
fonte de imprecisões – e à sua reificação. longas, o presente é explicável tanto pelo
O t e mpo hi st ór ico. . .
passado imediato quanto por um passado objeto da história é a vida presente-passada,
mais remoto. O presente está enraizado que estava na parte superior da ampulheta,
no passado, mas conhecer essa sua raiz não e não os homens pulverizados pelo tempo,
A rtístico N acional

esgota o seu conhecimento, porque é também indiferenciados e amontoados na parte inferior,


um conjunto de tendências para o futuro e incognoscíveis. Com o método retrospectivo
Jos é Carlos Reis

espaço de uma iniciativa original. Ele exige evita-se a vinda mecânica do atrás para a frente
um estudo dele próprio, pois é um momento e evita-se também a busca das origens, que
original, que combina origens passadas, levaria a uma regressão infinita, que exclui
tendências futuras e ação atual.1 definitivamente o presente da perspectiva do
e
P atrimônio H istórico

Portanto, para Bloch (1974), as relações historiador. Esse método é o sustentáculo da


entre passado e presente são mais complexas história-problema, que se apresenta como uma
e recíprocas. Pelo seu método retrospectivo, história “cientificamente conduzida”. Temática,
o passado só é compreensível se o historiador tal história elege os temas que interessam ao
for até ele com uma problematização suscitada presente, problematiza e os trata no passado,
pela experiência presente e bem-formulada trazendo informações que esclarecem sobre a
racionalmente. O historiador não pode sua própria experiência vivida.
do

ignorar o presente que o cerca, precisa olhar


R evista

em torno, ter a sensibilidade histórica do


seu tempo, para, a partir dele, interrogar e 2 . O t e m p o - c a l e n d á r i o
explicar o passado. Ele faz o caminho do mais é “o n ú m e r o d a s
conhecido, o presente, ao menos conhecido, mudanças das
o passado. Ele sabe mais dos tempos mais s o c i e d a d e s h u m a n a s”
próximos e parte deles para descobrir
48 os tempos mais longínquos e retornar ao Para Ricoeur, o tempo histórico é
presente. Essa é a estratégia retrospectiva do coletivo, das sociedades, de suas mudanças
conhecimento histórico, um conhecimento a coletivas, organizadas e dirigidas pelo
contrapelo: do presente ao passado, do passado tempo-calendário. Para ele, o tempo-
ao presente. Há um interesse vivo do presente calendário seria um “terceiro tempo”, por
pelo passado, perguntas que ele se faz para fazer a conexão entre o tempo vivido da
uma melhor compreensão de continuidade e consciência e o tempo cósmico (Ricoeur,
diferença. A história como “conhecimento dos 1983). O tempo-calendário é indispensável
homens no tempo” não se restringe, então, à vida dos indivíduos e das sociedades e
ao passado, Bloch não admite que a história é essencial ao historiador. Diversos, os
seja apenas “o estudo dos fatos humanos do calendários têm uma estrutura comum:
passado”, porque ela une o estudo dos vivos sempre há um evento fundador, que abre
(presente) ao dos “vivos ainda” (passado). O uma nova época, ponto zero a partir do
qual se cortam e se datam os eventos. Desse
1. Para maior detalhamento do nosso ponto de vista sobre o
debate entre os historiadores tradicionais e os Annales, ver Reis
ponto zero pode-se percorrer o tempo em
(2004 e 2008). duas direções: do presente ao passado, do
O t e mpo hi st ór ico. . .
passado ao presente. O futuro está excluído. O historiador que opera com o tempo-
Fixam-se, então, as unidades de medida: dia, calendário busca datar e periodizar as
mês, ano. O tempo-calendário é ao mesmo experiências vividas que estuda. Ele cria a sua

A rtístico N acional
tempo astronômico e da consciência. Do periodização orientado por sua interpretação
tempo físico, ele mantém as características ou deve oferecer uma periodização única?

Jos é Carlos Reis


de continuidade, uniformidade, linearidade A periodização é realista ou interpretativa?
infinita, segmentável à vontade, a partir Talvez possamos dizer que o realismo da
de instantes quaisquer; não tem presente, datação não impede a interpretação da
é reversível, mensurável e numerável. É a

e
periodização. Por um lado, as datas não

P atrimônio H istórico
astronomia que sustenta essa numeração
podem deixar de ser sempre as mesmas para
e medida. Mas, o tempo-calendário não é
qualquer historiador: 1789, 1792, 1822,
só astronômico, porque o ponto zero é um
1922, 1968, 1989 definem os mesmos
evento, um presente vivido, determinado e
eventos para todos. Assim, a datação em
singular, que teria rompido com uma época
história é realista e consensual. Não se pode
e aberto outra. O tempo-calendário é um
colocar a Revolução Francesa em outra data,
tempo original: o “momento axial” não é
a Segunda Guerra Mundial não ocorreu no

do
astronômico, mas um evento que foi capaz de
século XIX. O controle do antes e do depois

R evista
dar curso novo à história dos homens. Esse
momento axial dá posição a todos os outros dos eventos deve ser o mais preciso possível.
eventos. Assim, os eventos, sem qualquer
relação entre si, são organizados a partir desse
momento axial como simultâneos, anteriores
e posteriores. A nossa própria vida individual
recebe sua localização em relação aos eventos 49
datados pelo calendário. No Ocidente, esse
evento divisor de épocas foi a vinda de Cristo.
Todos os eventos são “datados”, inseridos
no tempo-calendário, acompanhados
da informação a.C. ou d.C. Há vários
calendários, mas em todos eles a estrutura do
tempo é a mesma: a inserção da vida dispersa
das sociedades em quadros permanentes,
definidos por mudanças religiosas, políticas e
movimentos naturais regulares. O ano é uma
unidade de tempo natural, litúrgica e cívica.
O tempo-calendário inscreve a dispersão e Relógio ampulheta (duas
multiplicidade da vida individual e coletiva na faces), c. 1625, Polônia.
Exposição “O tempo sob
medida”, Fundação Medeiros e
uniformidade, continuidade e homogeneidade Almeida/CCBB/LGDN Produções

de quadros naturais e sociais permanentes.


Jos é Carlos Reis O t e mpo hi st ór ico. . .
O t e mpo hi st ór ico. . .
O primeiro esforço do historiador é produzir do vestígio é importante porque deixa a
uma sucessão rigorosa dos eventos, isto é, mensagem durar e porque já é uma mensagem
datar com rigor. A partir dessa base de dados, sobre os meios materiais de expressão

A rtístico N acional
ele constrói a interpretação. A pesquisa daquela época. No presente, o historiador
histórica tem, por um lado, uma dimensão examina um vestígio para interpretar aquela

Jos é Carlos Reis


reconstituidora dos fatos e, por outro, uma mensagem do efêmero: “os homens passam,
dimensão problematizadora e avaliadora, mas as suas obras permanecem”. O vestígio
que afeta e modifica a reconstituição, sem indica o aqui-agora da passagem dos vivos.
comprometê-la. Quando se põe a interpretar, Ele orienta a pesquisa dos vivos sobre os

e
P atrimônio H istórico
o historiador cria fases, épocas, idades, eras, outros enquanto eram vivos. Ele assegura que
etapas de declínio, ascensão, crise, estagnação, houve a passagem anterior de outros homens
apogeu, início, fim, continuidade, ruptura, vivos. A história é o conhecimento por meio
ritmos. O historiador coordena as datas e lhes de vestígios: ela procura o significado de um
atribui um sentido. Por exemplo: em 1492, passado acabado que permanece em seus
Cristóvão Colombo chegou à América. Isso vestígios. O vestígio é coisa e sinal. Ele se
é um dado e uma data consensual. Definida insere no tempo-calendário, carrega em si a

do
a data, o historiador perguntará: “o que esta sua data. Ele revela bem o lado paradoxal do

R evista
data significa?”. Para Bosi, “narrar é enumerar, tempo: “faz aparecer” o passado sem torná-lo
contar o que aconteceu exige que se diga presente. Nele, o passado é um ausente que
o ano, o dia, a hora. As datas são pontas de afirma a sua presença. Para Ricoeur (1983),
iceberg, balizas que orientam a navegação no o vestígio é um dos instrumentos mais
tempo, evitando o choque e o naufrágio. As enigmáticos pelos quais a narrativa histórica
datas são sinais inequívocos, números, sempre refigura o tempo; e os historiadores fariam
iguais a si mesmas. As datas são numes, pontos bem em não somente usá-los, mas em se 51
de luz na escuridão do tempo” (Bosi, 1992). perguntarem sobre o que ele significa.
O conhecimento das datas supõe a O tempo-calendário organiza a vida
compreensão de sucessões, sincronismos, humana dentro de quadros permanentes,
convergências, intervalos, sequências. A conta/enumera a vida humana, que
data é sinal e não toma o lugar do que ela não é quantificável como pura vida
representa. Todo corte em história é uma humana. Ela adquire forma: inícios e fins,
representação, uma atribuição de sentido. expressão, relevância, ritmos, recomeços.
Nada começa e termina absolutamente, O tempo-calendário data os feitos, as
porque não se corta o tempo. Para datar, o obras, nascimentos e mortes, surpresas e
historiador recorre aos vestígios deixados pelo descontinuidades. O tempo-calendário é
passado, que têm um lado material: couro, “o número das mudanças das sociedades
metal, madeira, barro, argila, cerâmica, humanas”, visa à numeração do inumerável, Relógio ampulheta (duas
pedra, papel, tinta, impressões diversas e um ou seja, dos ritmos mais rápidos e mais faces), c. 1625, Polônia.
Exposição “O tempo sob
medida”, Fundação Medeiros e
conteúdo interno, uma mensagem deixada lentos da vida humana. Contudo, o tempo- Almeida/CCBB/LGDN Produções

pelos homens do passado. O lado material calendário permitiria, de fato, ao historiador


O t e mpo hi st ór ico. . .
conhecer efetivamente a experiência vivida, sofredores, às instituições e organizações que
transitória, finita, mortal? Se ele não permite dependem deles. Cada uma delas tem o seu
um conhecimento exaustivo, definitivo ritmo próprio de realização. A interpretação
A rtístico N acional

e absoluto das “mudanças perpétuas das dessas experiências nos obriga a ultrapassar as
sociedades humanas”, como diria Ricoeur, determinações naturais do tempo.
Jos é Carlos Reis

pelo menos, as datas e vestígios, como os Para ele, a questão maior posta pelo
símbolos, “dão o que pensar” (Ricoeur, 1960). tempo histórico é “como, em cada presente,
as dimensões temporais do passado e do
futuro foram postas em relação?” Sua
e
P atrimônio H istórico

3 . A s c a t e g o r i a s m e t a - hipótese: “determinando a diferença


históricas que entre passado e futuro, entre campo da
revelam o tempo experiência e horizonte de expectativa,
histórico: “campo- em um presente, é possível apreender
da-experiência” alguma coisa que seria chamada de “tempo
e “horizonte-de- histórico”. Passado e futuro necessariamente
expectativa” se remetem um ao outro, e essa sua relação
do

é que dá sentido à ideia de temporalização.


R evista

Para Koselleck, o tempo-calendário Na experiência individual, por exemplo,


não resolve o problema posto pelo tempo o envelhecimento modifica a relação entre
histórico, que continua sendo a questão experiência e expectativa. Quando se é mais
mais difícil para o conhecimento histórico jovem ou se é mais velho, o passado e o
(Koselleck, 2006). Ele insiste na importância futuro têm, para nós, significados diferentes
de datar corretamente os fatos, mas isso e a sua relação se altera. Portanto, o tempo
52 seria apenas condição prévia, porque não histórico, para Koselleck, é pensável por
define o que se poderia chamar de “tempo da duas categorias principais: “campo da
história”. A cronologia oferece calendários e experiência” e “horizonte de expectativa”.
medidas relacionadas a um tempo comum, Essas categorias não são ligadas à linguagem
o do sistema planetário, calculado segundo das fontes, não são realidades históricas,
as leis da física e da astronomia. No entanto, mas categorias formais de conhecimento
quando alguém se interessa pelas relações suscetíveis de ajudar a fundar a possibilidade
entre história e tempo, não é no calendário de uma história. A história é sempre de
que pensa, mas “nas rugas no rosto do experiências vividas e de esperas dos
velho, nos meios de comunicação modernos homens que agem e sofrem. Os conceitos
convivendo com os passados, na sucessão de experiência e expectativa referem-se
de gerações”, acrescenta Koselleck. Um um ao outro, não se pode ter um termo
tempo mensurável da natureza não se refere sem o outro. Sem essas categorias, para ele,
a um conceito de tempo histórico. O tempo a história seria mesmo impensável. Elas
histórico se liga às ações sociais e políticas, estruturam tanto a história-realidade quanto
a seres humanos concretos, agentes e a história-conhecimento:
O t e mpo hi st ór ico. . .
(...) experiência e espera são duas categorias história: o futuro da história não é o resultado
que, entrecruzando passado e futuro, são perfeitamente simples do passado, embora este traga
aptas a tematizar o tempo histórico.Tanto a conselhos. A relação entre eles tem a estrutura

A rtístico N acional
história concreta se realiza no cruzamento de certas do prognóstico: o possível deduzido dos dados
experiências e certas esperas, como oferecem ao do passado. Essas diferenças entre experiência e

Jos é Carlos Reis


conhecimento histórico as definições formais que expectativa são plurais, isto é, o tempo histórico
permitem decriptar aquela realização. Elas remetem não é um, mas múltiplos e se superpõem.
à temporalidade do homem e de alguma forma Cada época mantém relações diferentes com
meta-histórica à temporalidade da história. O tempo o seu passado e futuro, cada presente constrói

e
P atrimônio H istórico
histórico não é então somente uma expressão vazia de ritmos históricos diferenciados, mesmo se um
conteúdo, mas um valor adequado à história e cuja deles predomina. Essas categorias, por serem
transformação pode-se deduzir da coordenação variável formais, são trans-históricas e permitem o
entre experiência e espera... (Koselleck, 2006). conhecimento de tempos históricos múltiplos.
Portanto, em Koselleck, o tempo
A “experiência” é o passado atual, cujos histórico, sem ignorar as medidas do tempo-
eventos foram integrados e podem ser calendário, não se confunde jamais com este.

do
rememorados por uma elaboração racional A reflexão sobre o tempo histórico é feita por

R evista
e também comportamentos inconscientes, meio dos conceitos que analisam e interpretam
estranhos a ela mesma experiência. A as ações e intenções de sujeitos coletivos
“expectativa” é o passado atualizado no e singulares. O tempo histórico perde a
presente. São conceitos assimétricos: a espera continuidade, homogeneidade e linearidade
não se deixa deduzir da experiência, passado e conferidas pelo tempo-calendário, pois sua
futuro não se recobrem. A presença do passado referência não é mais apenas o número dos
é outra que a do futuro. O passado constitui movimentos objetivos, mas as relações de 53
um espaço, pois é aglomeração de experiências dependência, reciprocidade e descontinuidade
em um todo que se dá ao mesmo tempo; o das mudanças políticas e sociais. Ele se torna
futuro é um horizonte, uma linha atrás da intrínseco à experiência vivida das sociedades
qual se abre um novo campo da experiência particulares, isto é, sua relação particular ao
possível cujo conhecimento é inantecipável. São seu passado e ao seu futuro antecipado. Assim,
conceitos assimétricos e da sua diferença pode- não se pode falar de um tempo histórico
se deduzir algo que seria o tempo histórico. único, mas de tempos históricos plurais,
Um não se deixa transpor pelo outro sem que como são plurais as sociedades. Pode-se
haja ruptura. O tempo histórico é essa tensão falar de tempos históricos heterogêneos,
entre experiência e expectativa, uma relação com mudanças e direções não lineares. As
estática não é concebível. Eles constituem sociedades se relacionam diferentemente,
uma diferença temporal em nosso presente, na em cada época, com seu próprio passado
medida em que se imbricam de forma desigual. e seu futuro. Isto é: uma sociedade pode
A diferença revelada por essas categorias nos mudar de perspectiva em relação a si mesma,
remete a uma característica estrutural da pode resgatar passados esquecidos, esquecer
O t e mpo hi st ór ico. . .
passados sempre presentes, abandonar entre as épocas (Prost, 1996; Pomian, 1984;
projetos, propor outras esperas. Beaujouan, 1961; Cordoliani, 1961).
O tempo histórico é, portanto, Em segundo lugar, o tempo histórico
A rtístico N acional

em primeiro lugar, uma “representação é uma “representação cultural”, porque


intelectual”, porque não é uma reconstituição o historiador não realiza a sua operação
Jos é Carlos Reis

dos fatos tal como se passaram. Não há historiográfica fora de uma sociedade e época.
coincidência entre a narrativa histórica e a E toda sociedade e época se orientam por uma
experiência passada que narra. Uma obra representação cultural da temporalidade. Aqui,
de história é uma sofisticada construção estamos apresentando essa representação
e
P atrimônio H istórico

intelectual do historiador. O tempo cultural em “segundo lugar”, mas ela


histórico como representação intelectual talvez ocupe o primeiro lugar na operação
é um conceito complexo que engloba historiográfica. A construção intelectual
todas as formas de apreensão do tempo: do historiador está impregnada da visão do
intelectual, psicológica, biológica, social. mundo de sua sociedade e época, por mais
O controle do tempo histórico põe em que tente se destacar e se apresentar como
ação operações mentais: identificação, neutra, asséptica, objetiva, o que só revela a
do

associação, memória, juízo, comparação, ingenuidade do historiador. Para Gourevitch,


R evista

medida; operações psicológicas: percepção “as representações do tempo são componentes


da duração, retrospecção, transposição, essenciais da consciência social. A estrutura da
projeção, expressões afetivas, atitudes em consciência social reflete os ritmos e cadências
relação a valores culturais. O controle desse que marcam a evolução da cultura. O modo
conceito supõe o desenvolvimento integral da de percepção e de apercepção do tempo revela
pessoa: capacidade de abstração do presente, as tendências fundamentais da sociedade, de
54 de recuo, de representação simbólica de um seus grupos, classes, indivíduos. O tempo é
século, um milênio; capacidade de situar uma categoria central no modelo do mundo
um evento, um personagem, um processo, de uma cultura, e a representação cultural do
cronologicamente, antes e depois na sucessão; tempo domina a experiência vivida e todas as
capacidade de evocar, de ver o que só aparece suas expressões, sejam elas as mais abstratas
por vestígios e documentos, de imaginar uma e formais” (Gourevitch apud Ricoeur, 1978).
época, de avaliar a mudança, de perceber Inclusive a escrita da história.
velocidades históricas: mudanças rápidas,
lentas, ritmos não uniformes, heterogêneos,
descontínuos. Enfim, “ter sentido histórico” O tempo histórico
é ter a sensibilidade à tensão da “dimensão como “representação
diacrônico-sincrônica” do tempo; é perceber cultural”
que os homens mudam, as instituições
mudam; é ser capaz de perceber as durações: Por que o homem está aí? Qual seria o
continuidade e mudança, mudança e sentido da presença humana no mundo? Que
continuidade, as rupturas e a solidariedade direção dar às ações, às escolhas e decisões,
O t e mpo hi st ór ico. . .
à vida? Como seria o melhor modo de se comunidade humana. Essa noção pode ser um
comportar e se conduzir, o que festejar e instrumento para comparar tempos históricos
comemorar, o que preservar ou esquecer? diferentes, lançar luz sobre formas singulares de

A rtístico N acional
O que esperar? Quem sou eu e o que posso experiência do tempo (Hartog, 2003).
ou devo fazer? Essas são indagações que todo A historicidade é a condição de ser

Jos é Carlos Reis


homem se faz quando se descobre aí, no histórico, em que o homem se sente presente
espaço-tempo, vivo, histórico, aspirando e como elemento histórico. Hartog esclarece
querendo agir, venerando e preservando o que tal conceito não é uma “cronosofia”, não
passado ou querendo destruí-lo pela crítica é uma metafísica universal, quer somente

e
P atrimônio H istórico
radical. Contudo, embora as formule, os exprimir uma ordem histórica dominante do
homens raramente se inquietam com essas tempo, uma forma de ordenar e traduzir as
questões, que os tocam apenas de leve, experiências do tempo, articulando e dando
porque sua sociedade e época já ofereceram sentido entre passado/presente/futuro.
as respostas. Na verdade, essas questões Um “regime de historicidade” se instala
podem até parecer ridículas a quem já se lentamente e dura muito tempo. Ele é uma
sente plenamente integrado ao seu mundo “ordem do tempo”, aliás, “ordens”, “regimes”,

do
social e ao cosmo. A sociedade constrói que variam segundo lugares e tempos. São

R evista
“representações” da sua presença no mundo ordens imperiosas às quais os indivíduos se
e as inculca nos indivíduos, tornando-se dobram sem se dar conta. Elas se impõem
neles um habitus, estruturando a sua visão por si mesmas e, se queremos contradizê-las,
de si mesmos, dos outros e da história. chocamo-nos com elas. As relações que uma
Toda sociedade é governada por um “regime sociedade mantém com o tempo parecem
de historicidade”, por um discurso sobre incontestáveis e, geralmente, os indivíduos
o tempo que dá sentido e localização aos têm pouca margem para negociação. 55
seus membros. Estas “ordens do tempo” são Um “regime de historicidade” – e fica
criações, narrativas de si de uma sociedade, clara a influência de Koselleck – é, sobretudo,
mas, depois de criadas, tornam-se o próprio uma articulação, em um presente, entre um
real, a verdade absoluta; e os indivíduos se “campo-da-experiência” e um “horizonte-de-
sentem enjaulados nessas “grades temporais”. expectativa”. É a consciência histórica e de si
Um “regime de historicidade” se impõe desse presente, é o que ele se lembra e o que
imperiosamente aos indivíduos sem que ele espera. Com essas categorias formais de
eles percebam, dando forma, plasmando, Koselleck, que se determinam em “regimes
esculpindo o seu corpo, o seu cotidiano, de historicidade” concretos, pode-se dar uma
enfim, a sua vida. olhada rápida sobre milênios da história da
François Hartog, dialogando com cultura Ocidental. Para Hartog, os “regimes de
Koselleck e com o antropólogo Sahlins, criou historicidade” são de longa duração e, mesmo
esse conceito de “regime de historicidade” para quando passam, continuam convivendo e
se referir ao modo como uma sociedade trata o assombrando o novo. Vamos aplicar essas
seu passado, ao grau de consciência de si de uma categorias de Koselleck e Hartog e ver como
O t e mpo hi st ór ico. . .
elas se preencheram de conteúdo nos últimos escatológica cedeu lugar à confiança no futuro
dois séculos da história Ocidental. Vamos dar terrestre. O apocalipse cedeu lugar à utopia:
exemplos de dois regimes de historicidade “se o fim do mundo devia ser o fim das
A rtístico N acional

mais recentes, de duas articulações significações humanas, a utopia se apresenta


determinadas entre “campo-da-experiência” como a consagração global de todas as esferas
Jos é Carlos Reis

e “horizonte-de-expectativa”, duas e todas as significações humanas”. O século


“representações culturais do tempo histórico”. XVIII fugiu do século XVIII em direção ao
Os dois exemplos, que vamos apenas expor século XXI. A utopia era fruto da fantasia
sem nos estendermos, são a modernidade imaginativa, da análise do presente, da crítica
e
P atrimônio H istórico

(1789-1989) e o presentismo (pós-1989). da ordem estabelecida, da defesa de valores


O primeiro foi bastante desenvolvido por racionais e da esperança de que a história e
Koselleck, e o segundo teve suas características seus horrores seriam superados.
gerais bem-definidas por Hartog. No século XVIII, os europeus tenderam
vertiginosamente ao futuro, que não seria
mais o fim do mundo, mas a realização do
O regime de mundo. A espera era outra: o progresso
do

historicidade moderno: da razão estava aberto e ficava nas mãos


R evista

a linha utópica dos homens a aceleração do tempo. Para


Koselleck, o pensamento do tempo específico
Para Koselleck, em sua obra Futuro- da modernidade foram as filosofias da história.
passado – Contribuição à semântica dos tempos Por elas, a modernidade rompia com o passado
históricos (1990 / 2006), a partir do século e se abria ao futuro, combinando previsão
XVIII, a tendência linear de busca da Salvação racional e intuição profética. Na filosofia
56 no futuro iminente, com a chegada do do progresso, havia mistura de elaboração
Messias, criação do judaico-cristianismo, racional do futuro e espera da salvação. Na
foi secularizada. A profecia cristã tornou-se verdade, havia “fé na razão”: a ação dos homens
utopia. A ideia de progresso, antes restrita ao deveria produzir a aproximação acelerada
conhecimento, generalizou-se, e, agora, todos do futuro ao presente. O presente era uma
os aspectos da atividade humana caminhavam eterna novidade, pois fora tomado pelo futuro,
para uma perfeição futura. Não se queria que não seria para as futuras gerações, mas
mais impedir o tempo de gerar, sofrendo-o, para a atual mesma. O presente perdeu a
mas forçá-lo a gerar. Acreditava-se que o possibilidade de ser vivido como presente e
homem, ele próprio, iria se resgatar, se salvar, escapou para dentro do futuro. O tempo se
e nesse mundo mesmo, pela construção dividiu em períodos de “revolução” e “reação”.
de uma sociedade moral e racional e pelo A tese do progresso garantia a perfectibilidade,
acúmulo progressivo de conhecimentos sobre a racionalização progressiva de todas as esferas
o mundo. A ideia de progresso exprimia essa da atividade humana. Nos séculos XVIII e XIX,
nova situação em que o homem se sentia a modernidade se concebia como liberada
produtor, criador do futuro. A esperança de toda referência ao passado, opondo-se à
O t e mpo hi st ór ico. . .
história em seu conjunto. Concebia-se como de um objeto universal (a humanidade, sujeito
uma constante renovação. A história seria, singular-coletivo universal). Para Ricoeur,
então, um progresso coerente, unificado e eram narrativas e a própria história, porque

A rtístico N acional
acelerado da humanidade, um sujeito singular- a ação executava a narrativa, que era o saber,
coletivo, em direção ao futuro. Esse processo a consciência verdadeira da história. Não

Jos é Carlos Reis


de implantação do futuro no presente foi havia distância entre interpretação e ação, a
designado por termos novos: revolução, progresso, narrativa era um mapa vivo da história, que
emancipação, evolução, crise, espírito do tempo, legitimava a ação e era confirmada por esta
termos que a modernidade criou para se (Ricoeur, 1983).

e
P atrimônio H istórico
pensar, sem fazer empréstimos a outras épocas. Koselleck, em sua obra Le régne de la
Para Habermas, os tempos novos foram critique (1979) foi um crítico radical das
marcados pela reflexividade: a modernidade filosofias iluministas da história. Para ele, a
buscou em si a sua normatividade, remetendo- crítica iluminista era hipócrita, uma crítica
se a si mesma, não querendo ser devedora moral que escondia suas intenções políticas.
nem da Antiguidade e nem do cristianismo Resultado dessa dissimulação: o terror, a
(Habermas, 1985). Ela queria ser autônoma, soberania indiscutível da utopia. O lugar-

do
autoconsciente, fundada sobre os seus e-tempo-nenhum era soberano sobre o

R evista
próprios meios. Ela se percebia como não aqui-agora. A “liberdade” era o que a grande
fixidez, como atualização constante, como narrativa iluminista via no fim da história,
plena historicização. A modernidade acreditava a ser conquistada pela ação concreta dos
que o futuro iria trazer uma novidade sem homens. “Fazer-história” e “fazer-a-história”
precedentes, que a mudança acelerada era não se diferenciavam, a ação encontrava
para o melhor. E que os homens faziam a a sua legitimidade na razão e a razão era
história e a levavam das trevas às Luzes, do legitimada pela ação. Interpretação e 57
passado obscuro ao futuro iluminado, por intervenção/ação se recobriam. O espaço-
meio da aceleração do tempo, da revolução, da-experiência era abreviado e interrompido
que eliminava atrasos, sobrevivências, para que o horizonte-de-expectativa se
ignorâncias. Esse futuro iluminado seria tornasse já o campo-da-experiência. O
conquistado pelo homem, que o antecipava, culto da história servia à sua destruição
planejava o seu acesso e o executava. A como história, dispersão e horrores, para
modernidade era o reino da mudança, da se inaugurar o reino da moral, da razão, da
transformação acelerada – havia um culto da perfeição, da liberdade, da eternidade. E
história como produção de eventos novos. As pela ação mesma dos homens, por sua crítica
filosofias da história eram “grandes narrativas”, racional prática do presente. Terá sido esse
pois se referiam à humanidade como sujeito “regime de historicidade” uma mera “filosofia
racional e pretendiam produzir um desenho especulativa” sobre o que deveria ser o tempo
total do desenvolvimento histórico. Eram e a história? Ou será que uma “representação
“grandes narrativas”, totais (abarcando cultural” da historicidade é muito mais que
passado, presente, futuro e todos os eventos), um discurso, mas a própria realidade?
O t e mpo hi st ór ico. . .

O regime de só o presente é felicidade! O passado e o futuro


historicidade do mundo são desvalorizados em nome da vida e da arte.
pós-1989: o presentismo Neste momento, os pensadores e movimentos
A rtístico N acional

que antes valorizaram o presente são


Para Hartog, em sua obra Régimes resgatados, sobretudo Nietzsche, que atacou
Jos é Carlos Reis

d’historicité: présentisme et experiences du temps a cultura histórica em nome da vida presente.


(2003), a temporalidade contemporânea é Em maio de 1968, gritou-se: “Esquecer o
dominada pelo presente. O grande evento futuro!”, “Tudo agora!” O presentismo é contra
que definiu a nossa época ocorreu em o progresso, contra o caráter positivo da
e
P atrimônio H istórico

1989: a Queda do Muro de Berlim, que marcha para o futuro. É o fim de uma ilusão:
representou o fim do projeto comunista o presente não é mais revolução. E, por isso, é
e da revolução e a ascensão de múltiplos chamado de “pós-moderno”.
fundamentalismos. Teria sido a revogação Que sentido atribuir a esse presentismo
do regime de historicidade anterior ou dominante? Para Hartog, vivemos o tempo
uma reinterpretação? Para ele, não há imperioso da globalização, que é, ao mesmo
dúvida de que houve um corte no tempo: tempo fruto da crise de confiança no
do

o fim da tirania do futuro, que se tornou progresso e a sua realização: o progresso


R evista

imprevisível. A crise do futuro estremeceu tecnológico continua a galopar e a sociedade


a relação do Ocidente com o tempo e a de consumo se expande. Os anos 80 viram
história tornou-se um túnel escuro, sem a expansão de uma economia mundial, a
segurança, incerto. Vivemos em uma ordem sociedade de consumo inflou o presente
do tempo desorientada, entre dois abismos: com a busca vertiginosa de inovações e
de um lado, um passado que não foi abolido lucro. As palavras-chave do presentismo são
58 e esquecido, mas que não orienta mais o “produtividade”, “flexibilidade”, “mobilidade”,
presente e nem permite imaginar o futuro; que expressam o tempo empresarial
de outro, um futuro sem a menor imagem/ capitalista dominante. O tempo-mercadoria
figura antecipada. Vivemos em uma “brecha se radicalizou e deve ser comprado,
temporal”: o tempo histórico parece parado! consumido até o nanossegundo. A mídia tem
Hartog insiste que, ao propor que vivemos este tempo: 1 minuto por 30 anos de história.
esse corte temporal, não quer ser mais um Há uma corrida de palavras e imagens, que
a celebrar o “fim da história”, mas estimular também se manifesta no turismo presentista,
a reflexão, desfazer a evidência do presente, em que o mercado coloca ao alcance da mão
historicizar o presente. e do bolso o mundo inteiro. Junto com essa
Neste presentismo pós-1989, vivemos euforia empresarial, com a mercantilização
já no absoluto, pois temos a velocidade absoluta do tempo, o presentismo oferece
onipresente. Para que olhar para trás? Veloz, também a tragédia do desemprego, um
o presente torna-se eterno. Cada um está tempo sem futuro, homens sem futuro.
persuadido de que cada dia será o seu último O desemprego é um aprisionamento no
dia! E assim se quer apreciar cada hora, porque presente, pesado, desesperado, soterrado
O t e mpo hi st ór ico. . .
e assombrado pelos apelos publicitários de monumentos, objetos, modos de vida,
em todos os sons, cores e imagens: carpe paisagens, espécies animais e o meio
diem! A morte foi escamoteada, os mortos ambiente. A conservação e a reabilitação

A rtístico N acional
não contam. Ninguém morre! As agendas substituem o imperativo da modernização.
controlam a vida cotidiana, um profissional Inquieto, o presente busca raízes e

Jos é Carlos Reis


respeitado não tem tempo. Há até a guerra identidades, frequenta mais assiduamente
em tempo real! A economia midiática produz arquivos e museus, que foram modernizados
e consome o evento. Hartog avalia que o e descentralizados. Os poderes públicos
presente deseja se olhar como se fosse já investem em bibliotecas e museus, as cidades

e
P atrimônio H istórico
histórico e volta-se sobre si mesmo para se dotaram de arquivos. Tudo é arquivável!
controlar a imagem que o futuro lançará Invoca-se uma memória que não é mais a do
sobre ele quando for passado. Ele quer Estado-Nação. A memória, hoje, é de tudo,
se fazer passado antes de ser plenamente uma arquivística obsessiva, psicologizada,
advindo. O 11 de Setembro pertence à lógica privada – “eu me lembro!”
dos eventos contemporâneos, que se dão a Nessa obsessão pela conservação, o
ver enquanto ocorrem, são quase já a própria passado também escapa. A memória não

do
comemoração, ocorrem sob as câmeras e é do passado, mas instrumento que torna

R evista
os olhares do mundo todo. A descrição de o presente presente a ele mesmo. Antes
Hartog para esse período nos faz pensar que era a memória nacional; agora, o regime
o presente tornou-se um “horizonte-cerco” da memória mudou: memórias parciais,
ou “horizonte-dique”, sem passado e sem setoriais, particulares, de grupos, associações,
futuro imediato. empresas, coletividades, que se consideram
Mas, Hartog é um crítico desse mais legítimas do que o Estado. O Estado-
presentismo e percebe falhas por onde Nação não impõe mais seus valores, os 59
o passado e o futuro se intrometem. Tal diversos atores sociais definem o que deve
presente absoluto, onipresente, dilatado, ser preservado. Para Hartog, estamos, hoje,
autossuficiente, se revela inquieto. Ele em pleno uso presentista do passado: tem-se
gostaria de ter dele mesmo o seu próprio o pequeno patrimônio, o patrimônio local.
ponto de vista, mas descobre que é O patrimônio não deve ser mais olhado
impossível, porque é incapaz de abolir como “passeísmo”, mas como categoria de
a diferença entre espaço-da-experiência ação do presente sobre o presente. Ele se
e horizonte-de-expectativa. Em relação tornou um ramo da indústria dos lazeres e
ao futuro, esse presentismo é ansioso objeto de fortes investimentos econômicos.
por previsões e predições, cerca-se de A sua valorização se insere diretamente nos
especialistas, que consulta, ansioso, faz ritmos e temporalidades rápidas da economia
projeções, sondagens, que se enganam comercial. O Muro de Berlim foi museificado
quase sempre, e o futuro escapa. Em relação instantaneamente e comercializado em
ao passado, esse presentismo começa a se pequenos fragmentos com a marca “Muro de
mostrar preocupado com a conservação Berlim original”.
O t e mpo hi st ór ico. . .
O século XX foi o que mais invocou o passado histórico se submete às normas pós-
futuro, o que mais construiu e massacrou modernas e só as fachadas são conservadas.
em seu nome e, no final, foi também o O patrimônio se multiplicou para ser
A rtístico N acional

que deu maior extensão ao presente: um consumido: patrimônio cultural, natural, vivo
presente massivo, invasor, onipresente, que (genético), técnico. Houve uma produção
Jos é Carlos Reis

não tem outro horizonte que ele mesmo, de patrimônio por todo o mundo. As ruínas
fabricando o passado e o futuro que tem do passado são adaptadas à vida presente
necessidade. Um presente já passado antes e, no futuro, serão semióforos duplicados.
de ter completamente advindo. Contudo, A arte mundial tornou-se uma herança da
e
P atrimônio H istórico

paradoxalmente, respira-se um ethos museal, civilização mundial. O patrimônio é uma


uma obsessão com a memória e a preservação, noção que se fortalece em momentos fortes
entre a amnésia e a vontade de nada esquecer. de questionamento da ordem do tempo,
A inquietação é com a ameaça de destruição fortalece-se em tempo de crise. É o perigo
universal! O patrimônio é, hoje, local- do desaparecimento e perda da ordem
nacional-universal. A preocupação com o temporal de Roma, da Revolução Francesa,
meio ambiente é imensa: os ecomuseus são da Nação. Os crimes contra a humanidade
do

parques naturais, reservas de fauna, flora, não só nazistas, as catástrofes do século


R evista

paisagens, microclimas, territórios, savoirs- XXI, esta insegurança excessiva é que leva
faires. O ecomuseu não tem visitantes, mas à patrimonialização excessiva, múltipla,
“habitantes”, um espaço de interação entre presentista, que oferece uma “presença
passado/presente/futuro. Desde 1980, a emocional do passado”. Há pressa em
Unesco investe na patrimonialização universal, patrimonializar tudo e teme-se chegar tarde!
porque teme a aceleração, que pode levar à
60 ruptura. O fundamento do patrimônio reside
na “transmissão”, que se torna uma obsessão Conclusão
diante da possibilidade do desaparecimento
ou perda. O meio ambiente se degrada e O que é o tempo? Que pergunta!
é preciso patrimonializar a natureza, para Quem saberia dizer? Santo Agostinho (1982)
se dotar de recursos jurídicos de forma a lamentava. Se lhe perguntassem, já não
preservá-la e transmiti-la aos descendentes. sabia mais... A experiência do tempo é a
Hartog insiste que a percepção da mudança, da sucessão, da diferença, da
patrimonial presentista não é “passeísta”: novidade, da separação, da finitude e nenhuma
é o presente que quer dar visibilidade sociedade humana conseguiu viver em paz
a certo passado apropriado por ele. Os com este “ser-não-ser” que praticamente
centros urbanos são reabilitados, renovados, as constitui. Este não-ser que atravessa
revitalizados, para entrar na lógica do o ser da humanidade, corrompendo-a,
mercado. Deve-se museificar mantendo vivo, envelhecendo-a, separando-a, é causa de
revitalizar reabilitando, oferecer um museu medo, angústia e dor. A experiência da
fora dos muros, um museu-sociedade. O temporalidade foi descrita com as palavras
O t e mpo hi st ór ico. . .
mais duras que a linguagem humana já os ascendentes, deixaram vestígios,
produziu: dispersão, deriva, conflito, errar, documentos, nos quais os historiadores
dissolução, corrupção, ruína, indigência, tentam, para atender aos sucessores, decifrar

A rtístico N acional
agonia, envelhecimento, exílio, nostalgia, as suas mensagens, que definem direitos,
noite, inconsistência, inconstância, demarcam territórios, informam a autoria

Jos é Carlos Reis


mutabilidade, não identidade, não sentido, de descobertas científicas, identificam o
limite, relatividade, vazio, falta, incompletude, criador das inovações artísticas etc. A lógica
angústia, incomunicabilidade, transitoriedade, da investigação documental do historiador
irreversibilidade, separação, opressão, é cartorial. Ele busca nos documentos a

e
P atrimônio H istórico
guerra, tortura, inferno, inautenticidade, definição de nomes e linhagens, declarações e
perda de si, escuridão, solidão, contingência, testemunhos que garantam a transmissão de
acaso, descontinuidade, marcha para a privilégios, bens e poderes.
morte, finitude, ausência. Ausência do Ser. Para Ricoeur, a ideia central do tempo
As sociedades humanas aspiraram sempre à histórico é a de “sucessão de gerações”,
eternidade, à estabilidade, à unidade, a um segundo a qual a história é de homens
presente eterno. Elas quiseram sempre se mortais (Ricoeur, 1983). Os sucessores têm

do
esquecer e não se lembrar das suas mudanças sempre muito interesse e emoção em resgatar

R evista
perpétuas. Essa foi a sua esperança: sair da os antecessores do esquecimento, ou seja,
experiência da temporalidade e reencontrar em impor a permanência, a imortalidade,
o Ser, o sentido, a permanência, a presença; sobre a transitoriedade e mortalidade dos
isto é, suprimir a irreversibilidade em um indivíduos. Se, por um lado, o interesse pela
instante eterno. O que se deseja é a presença, documentação do passado é “cartorial”, visa
a eternidade (Alquié, 1990 [1943]; Lavelle, administrar a sucessão do direito a riquezas
1945; Reis, 2009). e poderes, por outro, essa documentação 61
Contudo, para o historiador, essa busca estabelece entre as gerações um diálogo,
da eternidade na circularidade supralunar, uma comunicação, mostra as influências,
no eterno retorno, na escatologia ou na afinidades e fidelidades recíprocas, vencendo
utopia, é uma paixão anti-histórica, ineficaz. o tempo como morte e esquecimento. A
O tempo histórico é imperioso, inescapável, ideia de “geração”, argumenta Ricoeur, talvez
e o seu trabalho é “elaborá-lo”: lembrar, seja o conceito que mais “faça aparecer” o
descrever, analisar e avaliar as mudanças tempo histórico, ao mostrar a luta entre
perpétuas das sociedades humanas. Para ele, os conservadores e os progressistas, uns
o tempo histórico está ligado ao que há de buscando a continuidade da tradição e outros
mais concreto na vida humana: a genealogia, a lutando pela inovação. A história possibilita a
sucessão de gerações, a herança, a transmissão comunicação dos jovens e velhos de hoje com
do patrimônio cultural e material aos os jovens e velhos do passado. Nem sempre
descendentes. Os historiadores tratam dos os jovens são os inovadores, porque pertencer
predecessores, dos antepassados, dos homens a uma geração ou suceder não é ter a mesma
que vieram primeiro. Os antecessores, idade ou ser mais jovem, mas possuir uma
O t e mpo hi st ór ico. . .
contemporaneidade de influências, de armou Cronos, que cresceu e lutou com o
eventos e mudanças. As influências recebidas pai, castrou-o e impôs o seu novo poder.
e exercidas criam uma sequência e uma Agora, dono do mundo, Cronos gerou filhos
A rtístico N acional

comunicação entre as gerações. Pertence- com sua irmã Rhéa, mas fazia o mesmo que
se a uma geração por afinidades sutis, mais seu pai Urano: engolia os próprios filhos.
Jos é Carlos Reis

sentidas e recebidas do que procuradas, Quando Zeus nasceu, Rhéa deu a Cronos uma
pela participação em um destino comum: pedra para engolir, envolvida em panos. Zeus
um passado lembrado, um presente vivido cresceu, enfrentou o pai, obrigou-o a vomitar
e um futuro antecipado. A “geração” não é seus filhos e a pedra, castrou-o e o submeteu
e
P atrimônio H istórico

somente uma contemporaneidade biológica (Leach, 1974).


e anônima, mas um tempo intersubjetivo, Essa parece ser a cena original da
um viver-juntos simbólico. A historiografia temporalidade: a intensidade do amor/
é também uma forma de evasão, de ódio entre o pai, a mãe e o filho. O pai é a
administração do sofrimento do terrorismo Lei atual, o filho quer conquistar o mundo e
temporal. O historiador se lembra, impor um novo tempo, mas tem de enfrentar
reconstrói, reúne a documentação, reconhece o pai. O filho conta com a cumplicidade
do

os vestígios, faz o elogio dos grandes e é da mãe, que o gerou e é solidária com o
R evista

empático com os mais fracos, é fiel aos seu sucesso, mesmo que custe o poder do
homens pulverizados pelo tempo. pai. Talvez ela deseje também o mundo
O conceito de geração tem um sentido do filho para obter a liberdade, pois não
mais concreto também: é o filho que faz estará submetida mais ao poder do marido
aparecer a sucessão. Ele é o sucessor, sua e terá o poder de uma verdadeira rainha.
presença representa a morte do pai, o fim do Essa cumplicidade da mãe com o filho, o
62 seu poder e do seu mundo. Ele é o herdeiro interesse dos dois na sucessão, talvez seja o
do mundo do pai e, ao vê-lo, o pai recusa ou momento de maior visibilidade do tempo. O
reconhece a sua finitude. Um homem que filho, com o apoio da mãe, conspira contra a
não gerou um filho dá a impressão de lutar permanência do domínio do pai, e o tempo
contra o tempo e querer ser eterno. Ele não aparece como fecundidade, geração, novo
quer gerar, pois teme a finitude, que o rosto nascimento, herança, nova era. O filho faz
do próprio filho deixa ver. E, talvez, por isso, aparecer a sucessão, a mãe a deseja, o pai
por sua relação com os filhos, Cronos, pai a teme. Urano e Cronos, ao evitarem o
de Zeus, seja a representação simbólica do nascimento dos filhos, queriam interromper
tempo e tenha se tornado até o prefixo que o transcurso do tempo, impedi-lo de
revela a relação de uma palavra com o tempo. gerar, esterilizá-lo. Cronos e Zeus, quando
Diz a lenda que Cronos, rei dos Titãs, era castraram seus pais, quiseram impedi-los de
filho de Urano e Gaia (Céu e Terra). Urano, gerar novos herdeiros e rivais na disputa do
tão logo nascia uma de suas crianças, ele a seu patrimônio. Essa relação triádica, além de
empurrava de volta para dentro do corpo de ser o centro do pensamento freudiano e das
Gaia. Para escapar a essa gravidez prolongada, narrativas históricas das dinastias, e talvez por
O t e mpo hi st ór ico. . .
isso, está no centro da religião dos europeus, e inapreensível, que virá surpreendê-lo. E,
na Sagrada Família do cristianismo. A relação para Levinas, essa relação que o homem
triádica, nos três discursos, é o lugar de uma solitário mantém com a morte é o modelo

A rtístico N acional
enorme tensão, de conflitos imensos, em da sua relação com os outros homens, que
torno da transmissão do nome, da herança, lhe chegam como a alteridade da morte: uma

Jos é Carlos Reis


do patrimônio, do poder. Aqui está o centro face misteriosa, incontrolável, limite ao seu
da disputa histórica: o direito ou a guerra poder. Para Levinas, é a situação de face a face
decidirão sobre a “sucessão” do prestígio, da que realiza o tempo: o eu face à alteridade da
riqueza e do poder. morte, do outro, do futuro. O outro humano

e
P atrimônio H istórico
Mas, nem tudo é guerra, traição e horror é como o futuro e a morte, que se dão e se
nessa relação temporal entre pai-mãe-filho, escondem. Os três representam a alteridade
enfim, na história. Ela é também o lugar além do controle do sujeito solitário. Na
do amor supremo. Levinas, em sua obra Le diferença dos sexos, essa alteridade se dá
temps et l’autre (1989), retoma esse tema intensamente. A relação amorosa é entre
da relação entre o tempo e a paternidade, duas alteridades, cujo desejo se acentua
oferecendo outra perspectiva: a paternidade quanto maior é a percepção da diferença

do
é a salvação do tempo. Para Levinas, um do desejo de um e de outro. O um quer o

R evista
homem solitário existe de forma intransitiva, outro, que não é objeto, não é apreensível.
fora do tempo, relaciona-se consigo mesmo, A relação erótica é uma relação intensa por
ao seu existir. Ele é só porque quer controlar causa da alteridade absoluta. O outro é como
a sua existência, dominar a sua identidade. uma presença-ausente à qual o sujeito precisa
Ele se sente mestre do seu existir e pode fazer face, mas sem poder. Como o futuro,
até optar por interromper a sua existência, como a morte. A morte é o evento puro,
que é a liberdade de ser ou não ser. Ele o futuro puro, quando o eu não pode nada 63
é Uno. Nesse sentido, a solidão não é mais. O outro também é mistério, presença
desespero e abandono, mas uma imitação e opacidade, fim do controle do sujeito.
de Deus: virilidade, orgulho, soberania, Como vencer a morte, como continuar
unidade. Como um Deus, o homem só vive soberano e livre, quando esse evento
atemporalmente, não tem alteridade e o seu sobrevier? Como continuar dono de si e
poder lhe parece ilimitado. capaz de vencer a alteridade que se impõe?
Mas, o seu poder é limitado pela Como fazer face ao outro e ao futuro? Como
chegada da morte, evento que ele não vencer a alteridade do tempo? Levinas
controla. Esse é o limite do seu poder sobre propõe duas maneiras: a primeira é não
si: quando a morte chega, ele não está mais acolhê-la e conservar-se em si, fazer-lhe
lá. O que quer dizer que o sujeito está à face. O evento chega a um sujeito que não
mercê de um evento que ele não controla. A o assume, que não pode nada contra ele,
morte chega-lhe sem que ele possa fazer algo mas que faz face a ele. É a posição que se
contra ela. A morte é a alteridade do sujeito pode sustentar também diante do outro
solitário, um outro misterioso, inantecipável humano: fazer-lhe face, preservando-se em si
O t e mpo hi st ór ico. . .
e livre. Essa é a escolha do homem solitário. de nenhum valor, de nenhuma oposição.
A segunda maneira de vencer a alteridade Se Urano e Cronos tivessem assumido o
é por meio da “paternidade”. Para Levinas, tempo, a guerra entre os protagonistas da
A rtístico N acional

na paternidade o eu de certa forma assume temporalidade não teria existido. Teria sido
o outro. Na paternidade, o sujeito aceita a a vitória do “reconhecimento recíproco”
Jos é Carlos Reis

alteridade: a morte, o futuro, o outro. Na sobre a guerra e reinaria na história a paz


paternidade, o sujeito mantém uma relação e o amor intenso entre homens/mulheres,
com o outro que, sendo outro, também que se revelaram capazes de se odiar com
é ele. O filho é como a morte e o outro: tal intensidade. E, então, não seria mais
e
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não é propriedade, posse, domínio, mas, o preciso buscar estratégias de evasão, porque,
pai é o filho, de alguma forma. O eu está provavelmente, as mais belas palavras que
presente no tu. A alteridade do filho não é o homem criou poderiam ser usadas para
a alteridade misteriosa, inapreensível, da definir a experiência temporal: paternidade,
morte. Acredita Levinas que é segundo a maternidade, filiação, fraternidade,
categoria do pai que se faz a liberdade e se fidelidade, aliança, companhia, associação,
realiza a salvação do tempo. O pai sai da solidariedade, comunicação, construção,
do

solidão e não está submetido à alteridade da criação, erotismo, ócio, lazer, fantasia,
R evista

morte. Ele vence esta ao se renovar no filho. imaginação, identidade, luz do meio-dia,
Contra o terror do evento, que é a cessação plenitude, alegria, encontrar, comunicar,
de ser sem a escolha do não ser, o pai aceita dialogar, conversar, pensar, música, poesia,
a sua morte, porque sabe que renascerá no arte, dança, marcha para a vida...
filho e, transferindo-lhe o seu nome e todo Talvez Nietzsche (2003) tenha tido esta
o seu patrimônio, continuará nele, potente intuição da alegria do “viver no instante”, do
64 e livre. “viver de tal maneira que se queira viver de
Portanto, se Levinas tiver razão, se novo”, da vontade de ser infinito enquanto
Urano e Cronos tivessem reconhecido os dure, da aceitação do amor fati de dor e
seus filhos, teriam assumido a temporalidade, alegria. Assim, o nosso maior erro não terá
acolhido o futuro e aceitado a finitude. sido, talvez, tentar sair da experiência da
Eles teriam saído da solidão, que é o medo temporalidade e reencontrar o Ser, o Sentido,
da geração e da sucessão que o tempo a Presença, a Eternidade? Talvez o mundo
representa. Os seus poderes teriam sido Ocidental tivesse uma história melhor se
reconhecidos pelas suas mulheres, que houvesse seguido o poeta, o psicanalista,
são portadoras do tempo, pois trazem o artista, o historiador que, ao contrário
a fecundidade e o filho no ventre. Não dos metafísicos, que se evadem, acolhem
teria havido a traição das mulheres nem a alteridade do tempo, aceitam a finitude,
a violência dos filhos. Naquele mito, as envolvem-se com a história, elaborando-a,
mulheres e os filhos representam o caráter transformando a experiência vivida em
imperioso do transcurso temporal, que linguagem compartilhada e reconhecível. Será
não se detém diante de nenhum poder, que não erramos de esperança?
O t e mpo hi st ór ico. . .
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Leach, Edmond. “Dois ensaios a respeito da
representação simbólica do tempo”. Em Repensando a
antropologia. São Paulo: Perspectiva, 1974.
Jorge C o l i
M a t er i a l i d ad e e i mate rialidade

A rtístico N acional
O que é um patrimônio? Algo que se situa deduzir que uma obra de arte condensa um

e
P atrimônio H istórico
entre a matéria e o pensamento, que pode pensamento, e que esse pensamento não é o do
estar só em um desses termos. Riegl levou ao artista: é o pensamento da obra. O artista, o
extremo a ideia de que todo documento, todo criador, é um indivíduo que pensa como cada
testemunho histórico, possui algo de artístico. um de nós, por meio de palavras e de frases.
Isso é verdadeiro. Para aprofundar a questão, Isso propõe uma divisão muito clara
é preciso mergulhar em alguns aspectos entre tipos de pensamento, diferente da
que se encontram no cerne da arte, noção percepção mais corrente, que parece natural:

do
que tem poderes particulares, únicos, na o pensamento é feito de palavras, quando ele

R evista
cultura ocidental. pode também ser feito de outras coisas, que
De início, uma referência. Extraída de um não podem ser ditas. Quando Chimot se refere
artigo escrito por Jean-Philippe Chimot sobre ao pensamento plástico, com seus elementos
Delacroix, e publicado na revista Information de constitutivos de uma natureza diferente das
l’Histoire de l’Art (Chimot, 1964:74-76). Ele diz: palavras e das frases, ele quer dizer que dentro
da obra existe um pensamento: a obra pensa.
Aqui, a noção de linguagem é central.Trata-se A arte não produz objetos, produz 67
de ultrapassar seu sentido exclusivo de “retórica”, do sujeitos. Sujeitos pensantes. Que não pensam
estilo discursivo herdado do classicismo (ou antes, por palavras. Emitem significações, são
do academismo), para se abrir ao sentido mais significações silenciosas.
largo de “pensamento”, supondo que pode existir Se partirmos da ideia de que a obra de
um pensamento musical e um pensamento plástico arte pensa, somos conduzidos a deduzir que
com seus elementos constitutivos de uma natureza este pensamento não é o pensamento do
diferente das palavras e das frases. artista, é o pensamento da obra. Como todos
nós, o artista pensa por frases e palavras. Ora,
A passagem, escrita em 1964, era então não é com palavras, não é com frases que ele
de grande originalidade: arte concebida não se torna um artista, a menos, naturalmente,
como forma ou como objeto, mas como que seja um poeta ou um ficcionista. Mas
pensamento.1 Partindo dela, somos levados a aqui as palavras tomam uma opacidade Dominique Ingres. A
banhista de Valpinçon,
suplementar que as faz funcionar como 1808. Óleo sobre tela,
146 x 97 cm. Museu do
1. A retomada atual do pensamento de Aby Warburg e as
reflexões de Didi-Huberman têm evidentes afinidades com
instrumento do pensamento do artista e não Louvre, Paris

esse modo de conceber a obra de arte. como instrumento do conceito lógico.


O artista precisa das palavras, das frases, para
Mat e r i ali dade e i mat e r ialidade
todos eles, indicando que aquela unidade faz
viver, para se comunicar, mas não é isso o pensar parte de um conjunto maior. Não são apenas
da obra. Quando o artista produz uma obra, características formais, estilísticas; é uma questão
A rtístico N acional

ele emprega um conjunto de elementos que de pensamento, pensamento genérico criado


constituem um pensamento concreto, objetivado pelo conjunto das obras e do qual as obras
e material, e que está fora dele, o criador. participam. Cada obra faz parte de uma parte
Esse ponto me parece muito importante, orgânica, de um todo, que a ultrapassa.
Jorge Coli

porque imaginamos que a obra e o artista Seria esse pensamento genérico o


são mais ou menos a mesma coisa. Não é pensamento do artista? A resposta deve
e
P atrimônio H istórico

verdade. A obra é independente do artista. ser, novamente, “não”. Não é o artista que
Posso conhecer a biografia do artista, e esse exprime esse pensamento geral por palavras.
conhecimento vai me dar elementos para É o conjunto das obras que exprime esse
entender a gênese da obra, mas apenas uma pensamento geral sem palavras.
parte de sua gênese. Temos assim duas unidades diferentes:
Graças à materialidade daquilo que são primeiro a unidade genética, que preside a
feitos, um quadro, uma escultura, seja o que criação, que pertence ao artista. E a segunda,
do

for, desencadeiam pensamentos sobre o mundo, ou unidade a posteriori, é uma unidade


R evista

sobre as coisas, sobre os homens, pensamentos extraída das obras.


que dificilmente seriam por nós formulados Existe uma prática constante no trabalho
como conceitos e como frases. Muitas vezes o dos especialistas em arte do final da Idade
artista é incapaz de interpretar a própria obra. Média ou do início do Renascimento. Nesse
Ou seja, ele não consegue ver o que fez, o que período havia muitos artistas, anônimos.
está dentro da obra. Essa autonomia me faz Tem-se um quadro, mas nenhuma outra
68 reiterar que o princípio da obra de arte como informação, a não ser o próprio quadro. Um
pensamento material e objetivado deixa de ser especialista, porém, olha para outro quadro e
objeto, torna-se sujeito, sujeito pensante. O diz: “Este quadro tem muita semelhança com
artista, portanto, dá vida a um ser pensante, aquele que eu vi anteriormente”.
que, uma vez no mundo, se torna autônomo É assim possível pressupor que esses
em relação ao seu próprio criador. dois quadros tenham sido feitos pela mesma
Quero fazer aqui uma distinção entre o mão, porque há neles uma série de constantes
artista e o autor. Se reunirmos um conjunto de que se repetem. Os historiadores da arte
obras feitas pelo mesmo artista, vamos constatar inventaram o termo “mestre” para os autores
constantes. Constantes físicas, constantes anônimos desses quadros. Não têm um artista,
formais, constantes de pensamento, obsessões... mas têm um autor: o Mestre da vela, o Mestre
Ou seja, um conjunto da produção de um dos cravos, o Mestre da Anunciação de Aix.
mesmo artista pertence a um pensamento Quando o especialista trabalha dessa
genérico do qual cada obra participa. maneira, está engendrando uma unidade
Os quadros de Van Gogh são extremamente posterior à aparição dos quadros. Ele não
reconhecíveis, pois existe certa semelhança em tem a dimensão genética. Não sabe qual é ou
quais eram os traços biográficos, psicológicos, relação ao artista que a produz, e uma autoria

Mat e r i ali dade e i mat e r ialidade


familiares, de formação desse artista. Não que é, por assim dizer, a conjunção abstrata
sabemos que aventuras ele teve. de uma série de elementos que se

A rtístico N acional
O grupo da revista Les Cahiers du Cinéma encontram nas obras diferentes do
criou, na década de 1950, uma noção muito mesmo artista.
interessante para se compreender o cinema: a Partindo desses axiomas, há algumas
ideia de auteur. Seus inventores foram André importantes consequências, a primeira delas,

Jorge Coli
Bazin e, depois, François Truffaut, o criador da social, porque permite esvaziar a autoridade
expressão “política dos autores”. Sem entrar do artista sobre a obra. Isso é alguma coisa

e
P atrimônio H istórico
em uma discussão mais aprofundada sobre essa difícil de aceitar, mas é preciso levar ao
noção, há uma consequência sua que quero extremo o raciocínio. O artista tem o dom da
assinalar aqui. Esses teóricos designavam como obra. O artista está na gênese da obra como
autores os cineastas que imprimem características um demiurgo na gênese da criação do seu
originais de criação em seus filmes. A partir mundo. Mas o mundo que ele instaura passa a
dessas características, é possível distinguir um viver por si só.
diretor autor, de um não autor.Talvez, mais A concepção das artes foi muito marcada

do
rigorosamente e melhor, poderíamos empregar pelo romantismo. Acreditamos que o artista

R evista
esse princípio de maneira levemente diversa, exprime a sua alma, os seus sentimentos na
dizendo que todos os cineastas são autores: criação. Por isso imaginamos que ele tenha uma
apenas, uns são bons, outros são ruins. autoridade natural sobre os seus quadros, sobre
Mas não é este ponto que me interessa as suas esculturas, suas fotografias, os seus filmes.
aqui. Quero chamar a atenção para o efeito Ora, se considerarmos que o artista é um
desse princípio na crítica cinematográfica. médium para o autor, que o autor se encontra
Os críticos marcados pelo princípio da no artista, mas não se identifica com o artista, 69
política dos autores consideram os filmes em temos de concluir que o artista não exprime
relação à filmografia do realizador, buscando coisa nenhuma. O artista não exprime nada.
as recorrências e temas desenvolvidos nos Mas fabrica obras carregadas de expressão.
diferentes filmes de um cineasta. Essa posição O artista não exprime aquilo que está na sua
permitiu aos Cahiers du Cinéma revelar grandes obra. Fabrica coisas expressivas.
realizadores norte-americanos, considerando-os É muito interessante termos certos dados
autores, como Hitchcock, Hawks ou Huston, biográficos do criador, o que nos ajuda a
realizadores esses que, eles próprios, não se entender a gênese da obra, mas, passado esse
consideravam autores. Pensavam estar apenas ponto, a obra começa a falar por si só. Ela
realizando produtos de divertimento destinados pode mesmo negar o dado genético ou, então,
ao sucesso e com objetivos do melhor lucro confirmar esse dado. Agora, porém, isso deixa
possível. Suas obras foram, contudo, capazes de de importar, porque a obra está dizendo outra
constituir uma entidade artística: o auteur. coisa, ela está falando por si mesma. Ou seja,
Recapitulando: temos uma autonomia o artista insere na obra elementos que sua
da obra, um objeto pensante autônomo em consciência racional, conceitual, ignora.
Não podemos, portanto, como prática, Para sermos rigorosos, teríamos
Mat e r i ali dade e i mat e r ialidade

conceder mais valor do que se deve às de admitir o fato de nenhum artista ter,
palavras do artista. E os artistas são espertos. portanto, o direito de destruir qualquer uma
A rtístico N acional

Buscam assegurar seus poderes. Desse modo, de suas obras. Está claro que, humanamente
deveríamos questionar – por princípio e, suponho, legalmente, o artista tem o poder
teórico e, sempre que fosse possível, na de anular o que criou. Mas o princípio teórico
prática – o poder que o artista tem em alterar é importante.
Jorge Coli

sua própria obra. Quantos escritores e poetas, Trago aqui um exemplo concreto. Há
na velhice, reviram e reescreveram suas algumas décadas, fiz parte do Condephaat,
e
P atrimônio H istórico

obras de juventude, modificando-as segundo o Conselho que discute e decide a respeito


uma concepção tardia, que eles acreditaram dos bens a serem tombados no Estado de
melhor, decretando-as definitivas? Quantos São Paulo, órgão ao qual chegou um dossiê
compositores? Stravinsky, nesse aspecto, é reclamando a proteção legal para a fábrica de
um exemplo clássico. Na verdade, dessas biscoitos Duchen, no município de Guarulhos
modificações resultam duas obras diferentes, (Figuras 1, 2 e 3). Construída por Oscar
a mais antiga e a mais nova, que incorporam Niemeyer em 1950, era, sem dúvida, um
do

modos diversos da criação segundo os marco na história da arquitetura industrial do


R evista

diferentes momentos. No caso das artes Brasil. E, agora, um novo proprietário tinha
plásticas, a questão concreta se impõe, já a intenção de pô-la abaixo. Um membro do
que a obra alterada esconde ou desfigura o conselho chamou a atenção para um ponto.
primeiro original. Ele afirmava que Niemeyer não tinha essa sua
obra em alta conta. A decisão tomada pelo
conselho seguiu o princípio de autoridade
70 do artista. O arquiteto foi consultado e se
mostrou indiferente à destruição. Assim, o
conselho recusou o tombamento e a fábrica
foi destruída.
Temos aqui um evidente exemplo do
conflito entre o artista e o autor. O artista,
ser concreto, de carne e osso, pensante e
raciocinante, confere a si mesmo o direito
de desfalcar o autor, de modificar suas
características pela supressão de uma obra.
Para o historiador, porém, o princípio
de método só pode ser o da consciência desse
pensamento objetivado numa obra, que se une
às outras para constituir um pensamento mais
amplo e complexo. É essa separação entre o
Figura 1. Maquete da Fábrica de Biscoitos Duchen. Capa da Revista
Politécnica, ano 40, n. 164. São Paulo: Grêmio Politécnico, nov.-fev. 1952 autor e o artista que nos garante o rigor.
Mat e r i ali dade e i mat e r ialidade
A rtístico N acional
Jorge Coli
e
P atrimônio H istórico
do
R evista
Figura 2. Fábrica Duchen, Guarulhos (SP). Vista externa. Foto: B. Castello Branco. Novembro de 1987. Processo de Tombamento no 24896/1986,
Condephaat, São Paulo

71

Figura 3. Fábrica Duchen, Guarulhos (SP). Vista interna. Foto: B. Castello Branco. Novembro de 1987. Processo de Tombamento no 24896/1986,
Condephaat, São Paulo
Creio que a noção de semelhança não é
Mat e r i ali dade e i mat e r ialidade
Seria possível desenvolver, nesse ponto,
suficientemente estudada. No entanto, ela põe uma discussão sobre as questões imateriais
em xeque a visão do fetichismo que temos em ligadas ao ato, muito concreto e físico, de
A rtístico N acional

relação aos originais, às obras. Por que essa conservação e restauração.


questão de semelhança é fundamental para Prefiro, porém, avançar por um outro
mim, que sou um historiador da arte? Porque caminho. Esse objeto material, ao qual
a história contemporânea da arte surgiu com chamamos “obra de arte”, necessita dessa
Jorge Coli

a fotografia. obsessiva conservação por um claro motivo.


Até o surgimento da fotografia, a A obra é um unicum, algo que não pode ser
e
P atrimônio H istórico

história da arte era a história dos artistas, feito novamente. Conhecemos, nas práticas
eram biografias. Quando começa a fazer a reflexivas, nas práticas do gosto e, mesmo,
história dos movimentos artísticos, uma das nas práticas do mercado, as diferenças
referências, um dos elementos essenciais hierárquicas que existem entre um original e
para isso, são as coleções fotográficas. O uma cópia.
historiador da arte trabalha, sobretudo, Já dissemos: a reprodução fotográfica
com reproduções. de uma obra não é a obra, mas uma espécie
do

Se trabalho sobre um conjunto de de sucedâneo, de ersatz, mero aide-mémoire.


R evista

obras, das quais eu tenho o original, que Conhecemos um texto arquicélebre, A obra de
eu conheço, mas se trabalho também sobre arte na era de sua reprodutibilidade técnica, cujas
as reproduções, sobre o que exatamente origens fortemente românticas recobrem
eu estou trabalhando? Estou trabalhando a obra com uma aura de um misticismo
sobre alguma coisa que está entre eles, fetichista. Esse texto condena os processos
que se liga a eles. Somos levados a de banalização trazida pelos meios mecânicos
72 um desprezo muito grande, graças à de reprodução. A imagem fotográfica de um
tradição romântica, por tudo aquilo que quadro não é o quadro; não apenas é menos
é reprodução. A reprodução parece uma que o original, mas pode ser mesmo sua
espécie de erzats: na falta do original, negação, porque expõe, em grande escala,
tenho alguma coisa que substitui, mas não uma aparência que não possui a imanência
tem o valor do original. sagrada da obra.
Mas se ao contrário, a obra fosse feita Historiadores da arte sabem, no entanto,
do original e das suas reproduções? O que que existe uma ligação forte entre coisas
garante essa hipótese é a semelhança entre que se assemelham. São as fotos de quadros,
os dois. de estátuas, de edifícios, que permitem
A noção obra de arte traz, de modo aos historiadores os estudos comparativos.
imediato, a referência a uma “coisa”, Trabalham com imagens de imagens. Os
um objeto palpável, que os museus e grandes centros internacionais de estudos
coleções, por obrigação, têm de conservar, em história das artes têm mesas bastante
lutando contra o tempo, que passa e altera espaçosas, indispensáveis, sobre as quais se
inevitavelmente a matéria de que são feitas. podem dispor e comparar várias fotografias.
Comparar é uma forma de compreensão terceiro lugar, uma terceira margem do rio,

Mat e r i ali dade e i mat e r ialidade


silenciosa da relação entre as imagens. onde, invisíveis, imateriais, o semelhante
As palavras não conseguem apreender se funde no semelhante, onde a analogia se

A rtístico N acional
as obras: podem ser, no melhor dos casos, metamorfoseia em fusão.
indicativas de intuições mudas. Em um
estudo de história da arte, as imagens nunca
são secundárias, como ilustrações destinadas

Jorge Coli
a embelezar um texto. Elas são nucleares,
porque carregam em si o próprio processo

e
P atrimônio H istórico
de raciocínio. Quando Roberto Longhi
quer demonstrar que Piero di Cosimo viu a
pintura dos mestres setentrionais, não perde
tempo em expor argumentos: dispõe, numa
página, detalhes de quadros que mostram a
semelhança entre obras realizadas na Itália e
na Alemanha no século XV. Basta isso. Para

do
evocar outro nome essencial na história da

R evista
arte, Aby Warburg e o célebre Atlas de imagens
Mnemosyne, cujo princípio comparativo criava
relações intuitivas e expressivas apenas pela
relação mantida entre as obras, graças à sua
proximidade e disposição sobre uma prancha.
É o sonho de uma história da arte por Figura 4. Dominique Ingres. A banhista de Valpinçon, 1808. Óleo
sobre tela, 146 x 97 cm. Museu do Louvre, Paris
imagens, sem palavras 73
Por esse meio, é possível estabelecer Um exemplo: Ingres (1780-1867)
filiações, contatos, reconstituir a cultura acreditava que a perfeição do todo se
visual de um pintor do passado. Essa prática originava na perfeição das partes. Trabalhava
demonstra, por sinal, que não existe tábula de maneira obsessiva sobre os elementos das
rasa em artes. Por trás de um quadro ou imagens que deviam compor uma pintura,
de uma estátua, existe outro e mais outro. fazendo e refazendo cada um. Com eles,
Os historiadores da arte costumam dizer montava a figura repetidamente, até chegar
que é preciso treinar o olho. Isso significa à convicção de que ela se tornara perfeita. A
incorporar um saber, sempre silencioso, forma obtida viajava, então, de quadro em
sempre intuitivo, capaz de captar o que há quadro, reaparecendo nas telas sucessivas
de comum entre as formas. Mas que lugar que pintava.
é esse que a preposição “entre” indica? Não O caso mais evidente é o dos nus
há apenas dois lugares, o lugar de uma femininos, que constituem uma longa sequência
imagem e de outra imagem, o lugar de em sua obra. O desfile termina na apoteose
uma aparência e de outra aparência. Há um do Banho turco, tela que reúne nus numerosos,
concebidos e retomados anteriormente, ao
Mat e r i ali dade e i mat e r ialidade

longo de sua carreira. Formou-se, desse modo,


uma galeria constituída por eclosões que
A rtístico N acional

manifestam o princípio de uma imagem acima


das imagens, obtida pelo pintor e fortalecida
a cada nova aparição. Esta palavra, aqui, não é
casual. Ela nos remete ao princípio da imagem
Jorge Coli

como “fantasma”, cara a Aby Warburg. A banhista


deValpinçon (Figura 4) “reaparece” na Pequena
e
P atrimônio H istórico

banhista (Figura 5) e, enfim, em O banho turco


(Figura 6). Ou seja, ela nasce numa tela, viaja
para o invisível, volta em outra, e ainda em
outra, ao mesmo tempo, como a mesma e
Figura 6. Dominique Ingres. O banho turco, 1862. Óleo sobre tela,
como nova. ø 108 cm. Museu do Louvre, Paris

O processo singular, próprio ao


artista, se reitera no conjunto coletivo A exploração mais sutil dessa terceira
do

das produções artísticas. Um dos grandes margem do rio foi feita não por um teórico,
R evista

prazeres dos historiadores das artes é nem por um historiador, mas por um
descobrir as imagens renascendo dentro romancista: Marcel Proust, em sua obra
de outras imagens, tomando novos literária. Proust era fascinado pelas artes e
sentidos, ressuscitando o mesmo, para se pela ressurreição das imagens.
transformarem em outro. Walter Benjamin assinalou, numa
passagem breve, a importância da noção de
74 semelhança no universo de Proust:

Toda interpretação sintética de Proust


deve partir necessariamente do sonho. Portas
imperceptíveis a ele conduzem. É nele que se
enraíza o culto frenético de Proust, seu culto
apaixonado da semelhança. Os verdadeiros signos
em que se descobre, de modo sempre desconcertante e
inesperado, nas obras, nas fisionomias, nas maneiras
de falar. A semelhança entre dois seres, a que
estamos habituados e com que nos confrontamos
em estado de vigília, é apenas um reflexo impreciso
da semelhança mais profunda que reina no mundo
dos sonhos, em que os acontecimentos nunca são
idênticos, mas semelhantes, impenetravelmente
Figura 5. Dominique Ingres. A pequena banhista, 1828. Óleo sobre
tela, 27 x 35 cm. Museu do Louvre, Paris semelhantes entre si (Benjamin, 1985:39).
Walter Benjamin pressupõe, porém, Em uma passagem, o narrador de Proust

Mat e r i ali dade e i mat e r ialidade


À la recherce du temps perdu como uma obra evoca a estátua de uma virgem medieval da
autobiográfica (Benjamin, 1985:36), que qual ele vira com paixão numerosas fotografias

A rtístico N acional
seria o sonho lembrado de uma experiência e mesmo sua reprodução em gesso no antigo
pessoal. Essa relação direta entre autor e Museu dos Monumentos Franceses de Paris.
narrador foi sempre feita pela grande maioria Agora, ia para a cidade fictícia de Balbec, onde
dos especialistas de Proust, o que confere a escultura real se encontrava. Eis a passagem:

Jorge Coli
uma percepção mesclada de seus processos
genéticos entre autor e ficção. No entanto, Dizia para mim mesmo: É aqui, é a igreja de

e
P atrimônio H istórico
é legítimo – e eu seria tentado a dizer que Balbec. Essa praça que parece saber sua glória, é o
é a única legitimidade possível – tomar À la único lugar no mundo que possui a igreja de Balbec.
recherce du temps perdu pelo que ela de fato é: O que vi, até agora, eram fotografias dessa igreja e,
uma obra de ficção, da qual o narrador não desses Apóstolos, dessaVirgem do pórtico, tão célebres,
é o autor. Os exegetas de Proust deveriam apenas as moldagens. Agora, é a própria igreja, é a
se lembrar da máxima de Nietzsche: “Uma própria estátua, elas, as únicas: é muito mais.
coisa sou eu, outra são os meus escritos...” Era menos, também, talvez. (...) meu espírito,

do
Assim, aquilo que é chamado por Benjamin que tinha elevado aVirgem do Pórtico fora das

R evista
de “mundo dos sonhos”, considerado a partir reproduções que eu tivera sob os olhos, inacessível às
de uma vigília “real”, é, na verdade, o lugar de vicissitudes que poderiam ameaçá-las, intactas, se
experiências imaginárias (pouco importa se fossem destruídas, ideal, tendo um valor universal,
inspiradas ou não na realidade vivida) onde, espantava-se por ver a estátua, que ele havia
como veremos, se situa a obra de arte. esculpido mil vezes, reduzida agora à sua própria
Proust frequentou o Louvre na sua aparência de pedra, ocupando, em relação ao alcance
juventude e fez viagens a Veneza, Pádua, de meu braço, um lugar onde tinha por rivais 75
Holanda e Bélgica. Essas atividades são um cartaz eleitoral e a ponta de minha bengala,
testemunhos de um contato intenso com as prisioneira da praça, inseparável do desembocar da
obras reais que descobria, mas não significam rua principal, não podendo escapar aos olhares do
uma presença insistente diante dessas mesmas café e do escritório de ônibus, recebendo em seu rosto
obras. O essencial de sua familiaridade com a metade do sol poente – e logo, dentro de algumas
a arte vinha de um outro modo: por meio de horas, a claridade do lampião - do qual o escritório
reproduções fotográficas. O que importa ao do banco de descontos recebia a outra metade;
narrador de À la recherche é tecer as relações banhada, ao mesmo tempo que essa sucursal de um
entre essas réplicas, a obra, e o lugar delas, a estabelecimento de crédito, pelo ranço da cozinha
terceira margem do rio. da doceria; submetida à tirania do particular a tal
Proust assinala: esta relação entre as obras ponto que, se eu quisesse traçar minha assinatura
e suas reproduções não são simples, nem sobre essa pedra, é ela, aVirgem ilustre que até então
mecânicas. Nem as reproduções são apenas eu tinha dotado de uma existência geral e de uma
veículos que transmitem, como podem, de intangível beleza, aVirgem de Balbec, a única (o
maneira subalterna, a essência do original. que, por infelicidade, queria dizer a única), que,
sobre seu corpo encardido pela mesma fuligem que das reproduções. O ponto muito original
Mat e r i ali dade e i mat e r ialidade

as casas vizinhas, teria, sem poder apagá-lo, o traço de Proust, inteiramente antirromântico e
de meu pedaço de giz e as letras de meu nome, e era avesso ao fetichismo, é a ideia de que a obra
A rtístico N acional

ela enfim, a obra de arte imortal e tão longamente de arte não se reduz à sua materialidade.
desejada, que eu encontrava metamorfoseada, assim Essa materialidade tornou-se uma espécie
como a própria pequena igreja, numa velhinha de de lastro que pode ser substituído, com
pedra que eu podia medir a altura e contar as rugas certas vantagens, pelas representações
Jorge Coli

(Proust, 1971:245-246). materiais – a fotografia, a moldagem – e pelas


representações do espírito, pela memória.
e
P atrimônio H istórico

Nesse trecho crucial, Proust pressupõe A pedra, ou qualquer outra matéria,


um lugar para as obras “de significado captou as intuições criadoras do artista; o
eterno”, como diz, que deve se encontrar espectador proustiano termina por intuir
não apenas fora do quotidiano, mas fora essas intuições, que brotam na matéria,
daquilo que seria o “real”. Lembremos: em mas existem fora dela. Na verdade, a obra
meio a tantas citações de obras existentes encontra-se nesses “espaços interiores”,
que percorrem À la recherche, a estátua da onde se constrói uma verdade superior à da
do

virgem encontra-se na igreja de uma cidade experiência, embora seja alimentada por ela.
R evista

que não existe (Balbec), mas, que não deixa No caso de Proust não existe aura perdida
de ser o “real” paradigmático. A obra não pela reprodução técnica da fotografia, nem
existe nesse real, nesse concreto, concreto e culto do original, nem cuidado com o que seria
real que podem, graças à expectativa de certo uma divulgação em ampla escala da imagem.
fetichismo do original, agentes destrutores Num certo sentido, a reprodução se torna
de alguma essência própria atribuída às única, pois foi ela (neste ela incorporando-se
76 virtudes aparentemente irredutíveis do um “aquela” específico, “aquela que eu vi e
concreto. “Elas, as únicas: é muito mais” cria vejo, que se encontra em minha mesa, ou em
uma expectativa provocada pelo privilégio minha parede”). Não existe condenação alguma
absoluto do singular. Mas logo depois, a das reproduções mecânicas, mas a constituição
sequência, desencantada, demonstra como o de uma verdade surgida da obra, capaz de
real se encontra aquém da obra. fecundar as experiências (incluindo aqui a
A estátua real é menos verdadeira que experiência fotográfica), que terminam por
a estátua construída pelo espírito. Inserida conduzir à verdade da obra.
na banalidade do quotidiano, é a escultura Aquilo que para o colecionador, para
autêntica, a obra de arte única, que perde o amador esclarecido, é o núcleo – ou seja,
a sua aura. Esse quotidiano significa uma o que poderíamos chamar de o fetichismo
imersão no “real”. do original – não o é de modo algum para
Encontramo-nos, portanto, em oposição Proust, segundo quem o núcleo se acha fora
diametral à concepção da aura pensada por do material, formado por jogos de fusão.
Walter Benjamin, ou da visão altamente Nesse campo de fusões, uma prática
elitista e crítica de Adorno sobre a banalização frequente que se encontra na obra de Proust é a
relação de semelhança entre os seres existentes possíveis dos afetos. Odette incorporara-se à

Mat e r i ali dade e i mat e r ialidade


e as obras de arte. De todas, muito conhecida eternidade de uma obra de arte.
é a da semelhança que Swann estabelece entre O amálgama entre a arte e a vida

A rtístico N acional
Odette de Crécy e uma figura de Botticelli, demonstra que o princípio de semelhança
Séfora, a filha de Jetro, no afresco da capela opera como fulcro da percepção, mas,
Sistina. Proust, ele próprio, conhecia essa ainda, a erige como processo primeiro da
imagem não por tê-la visto de fato, pois nunca compreensão. No universo proustiano não há

Jorge Coli
estivera em Roma, mas por uma reprodução de essências platônicas, estáveis, inteiramente
uma cópia que dela fizera Ruskin. fora do mundo, mas um contaminar-se

e
P atrimônio H istórico
Swann, vendo Odette, em penhoar, contínuo dentro do qual assemelhar é
debruçada sobre uma gravura, percebe conhecer e reconhecer. São processos que
o quanto ela é parecida com a figura de escapam da solidez “real” do mundo para
Botticelli. O narrador nos explica que Swann alcançar uma intensidade etérea.
gostava de descobrir semelhanças entre pessoas Semelhanças e analogias criam uma
e personagens pintados pelos grandes artistas. substância artística maior do que seus limites
Odette e a figura de Botticelli se materiais. As obras são únicas, sem dúvida,

do
superpõem, e “essa semelhança conferia a ela mas como pontos num tecido amplo de

R evista
também uma beleza, tornava-a mais preciosa. outras obras, ou, como no caso de Proust, da
Swann se acusou de ter desconhecido o valor “realidade”, por meio de uma percepção que a
de um ser que teria parecido adorável ao transforma em arte. Essas obras não são feitas
grande Sandro, e felicitou-se pelo fato de que o apenas de um original. Dela fazem parte, como
prazer que ele tinha ao ver Odette encontrasse elemento constitutivo profundo, e não como
uma justificação na sua própria cultura estética. sucedâneos desprovidos de alma, a reprodução,
(...) A palavra de ‘obra florentina’ trouxe um a marca deixada na memória, as sobrevivências 77
grande serviço a Swann. Permitiu-lhe, como nas réplicas, nas cópias, nas imitações: todas
um título, fazer adentrar a imagem de Odette as formas de representação, ou antes, de re-
num mundo de sonhos onde, até então, ela apresentação, todas as formas de associações
não tinha acesso, e onde ela se impregnou de presididas pela semelhança. Material e
nobreza” (Proust, 1971:268). imaterial, a obra é tudo isso, é feita de tudo isso.
Swann põe, sobre sua mesa de trabalho,
“como uma fotografia de Odette, uma
reprodução da filha de Jetro.” Referências
Tal semelhança enobrecia Odette. No
romance, ela é uma espécie de prostituta BENJAMIN, Walter. “A imagem de Proust”. Em Obras
escolhidas – magia e técnica, arte e política. São Paulo:
de luxo, que, se descobre à leitura da obra,
Brasiliense, 1985.
esteve na cama de um grande número de CHIMOT, Jean-Philippe. ‘‘Delacroix e a sociedade
personagens de À la recherche, e entre os de seu tempo’’. Em Information de l’Histoire de l’Art,
1964, nº 2.
mais imprevistos. Essa semelhança previne PROUST, Marcel. À l’ombre des jeunes filles en fleur. Paris:
também, como diz o narrador, os desgastes Gallimard, Livre de Poche, 1971.
Márci a Mans o r D ´ Al es s i o
M e t a m or fo s e s d o patrimônio

A rtístico N acional
O papel do historiador

Explícito ou silenciado o objeto de A prática de registro dos acontecimentos

e
P atrimônio H istórico
investigação da história é o passado; desde ou ausência dela revela o tipo de relação
que se tornou ciência, no século XIX, os com o tempo desenvolvido por grupos ou
vestígios do que já passou constituem sua sociedades. A frágil diferenciação entre
matéria-prima: eis o íntimo parentesco passado e presente caracteriza as sociedades
entre a construção do conhecimento nas quais a memória é vivenciada, o que
histórico e o preservacionismo.1 implica a ausência de distinção nítida
A ideia moderna de patrimônio está entre o antes e o depois: sociedades que

do
ligada ao impulso de preservação de bens constroem história, certamente, mas não

R evista
materiais e imateriais que emerge do social. necessariamente historiografia.2 O desejo de
É uma forma de relação com o passado, um registro indica consciência histórica, operação
sentimento que revela o desejo de eternizar intelectual que pressupõe outra concepção de
traços e marcas dos grupos humanos. Essa tempo, vale dizer, aquela na qual se concebe
reflexão pretende partir da dimensão afetiva a ruptura entre o que já passou e o que está
do impulso dirigido à preservação, porém sendo vivido (Le Goff, 1984).
historicizando-a, ou seja, colocando tal O reconhecimento do passado liberta 79
sensibilidade no tempo, com vistas a significá- os homens do aprisionamento no vivido,
la historicamente à medida que é transformada possibilitando-lhes experimentar a alteridade
em patrimônio. Faz-se necessário precisar que a no tempo (Le Goff, 1984), mas lhes aponta,
referida dimensão afetiva será tratada a partir simultaneamente, a ameaça do esquecimento,
da memória e da identidade, tomando-as como o que leva os grupos a preservarem suas
elementos da produção de historiografia e lembranças num impulso de se referenciar
como fenômenos estruturantes das noções e nelas. Nesse sentido, a historiografia é a
práticas de preservação. memória dos grupos e povos não mais

1. Vários historiadores contestaram a ideia de que a história é 2. Ver Maurice Halbawachs (1990:80). “...geralmente a
a ciência do passado, contestação que se reforçou com o grupo história começa somente no ponto onde acaba a tradição, Bruno Giorgi. Monumento
à juventude brasileira,
inicial dos Annales, em consequência da crítica que fizeram aos momento em que se apaga ou se decompõe a memória social. 1947. Estátua em granito
metódicos, pelo fato de eles eliminarem o presente dos estudos Enquanto uma lembrança subsiste, é inútil fixá-la por escrito, de Petrópolis, 400 cm
históricos. Gostaríamos de esclarecer que, para nós, existe uma nem mesmo fixá-la, pura e simplesmente”. Ver também Nora altura, instalada nos
jardins do Palácio Gustavo
diferença entre estudo do que já passou, no sentido de que estudar (1984:25). “Tout ce que l´on appelle aujourd´hui mémoire Capanema, Rio de Janeiro
o que já passou não exclui, absolutamente, o presente, apenas n´est donc pas de la mémoire, mais déjà de l´histoire. Tout ce Foto: Ana Carmen Jara Casco,
2009
significa que a história não estuda o que aconteceu, ou seja, não faz que l´on appelle flambée de mémoire est l´achèvement de sa
futorologia. Sobre a referida contestação, ver Marc Bloch (2001). disparition dans le feu de l´histoire”.
Me t amorfose s do Pat r i mônio. . .
vivenciada, mas preservada e, ao mesmo inalterado, exceto as nuvens, e debaixo delas, num
tempo, uma busca identitária. campo de forças de torrentes e explosões, o frágil e
Françoise Choay conceituou com minúsculo corpo humano (Benjamin, s/d:198).
A rtístico N acional

precisão a expressão “patrimônio histórico”:


“A expressão designa um bem destinado ao A imobilidade do espaço e dos objetos
usufruto de uma comunidade que se ampliou no espaço são fatores de estabilidade.
a dimensões planetárias, constituído pela As marcas materiais têm um tempo de
acumulação contínua de uma diversidade de existência maior que as vidas humanas.
M árc ia M an sor D´Ales s io

objetos que se congregam por seu passado Nesse sentido, elas referenciam os homens
e
P atrimônio H istórico

comum: obras e obras-primas das belas-artes e espacial e temporalmente: nas lembranças


das artes aplicadas, trabalhos produtos de todos o espaço localiza o tempo. A mentalidade
os saberes e savoir-faire dos seres humanos. (...) preservacionista responde aos sentimentos de
Ela [a expressão] remete a uma instituição e a perda provocados pelas transformações dos
uma mentalidade” (Choay, 2006:11). E ambas, traços concretos que orientam os homens.
diríamos, – esta instituição e esta mentalidade Mas além da mentalidade, as instituições
– remetem ao desejo de estabilidade que destinadas a guardar o passado, real ou
do

compõe as construções identitárias. imaginado, respondem a esses sentimentos.


R evista

Tomemos as edificações, bens que Na contemporaneidade, o fim do século


ocupam um lugar privilegiado na ideia de XVIII e, sobretudo, o século XIX assistem
patrimônio. A concretude dos edifícios ao surgimento dessas instituições. Não
avaliados como monumentos históricos3 atesta por acaso, trata-se de momento histórico
o estatuto ontológico do passado, dimensão de transformações profundas trazidas pela
do tempo que, vivida coletivamente, consolida industrialização e pela construção/consolidação
80 coesões grupais. É importante esclarecer, no dos Estados-nacionais, momentos nos quais
entanto, que sua condição de bem material ocorrem perdas coletivas materiais e espirituais,
privilegiado não lhes confere exclusividade ingredientes certeiros para o desenvolvimento
na evocação do passado coletivo que constrói do desejo de memória e de busca identitária.
identidade. Toda paisagem no interior da qual A industrialização é vista como
se desenvolvem relações humanas cumpre fenômeno dos mais traumáticos em termos
essa função. Sua destruição sempre acarreta de descontinuidade de modos de vida,
dolorosas perdas de referenciais. Na sofrida formas de trabalho, valores, paisagens,
reflexão de W. Benjamin sobre os resultados temporalidades. P. Nora, em seu ensaio
catastróficos da I Guerra Mundial, lemos: “Entre memória e história. A problemática
dos lugares”, ao enfatizar a obsessão atual pela
Uma geração que ainda fora à escola num memória, sugere uma perda de referenciais
bonde puxado por cavalos se encontrou ao ar da qual um dos sinais mais marcantes é a
livre numa paisagem em que nada permanecera “mutilação sem retorno que representou
o fim dos camponeses, essa coletividade-
3. Para o conceito de Patrimônio ver Françoise Choay, 2006. memória por excelência cuja voga como
Me t amorfose s do Pat r i mônio. . .
objeto da história coincidiu com o apogeu do e na luta de classes. Chastel mostra que na
crescimento industrial” (Nora, 1993:7-28). E época da Revolução a palavra de ordem é a
Françoise Choay aponta o efeito de disrupção destruição dos bens e símbolos do passado:

A rtístico N acional
no tempo e a sensação de perda do passado “Tombez, c´est le décret” (Chastel apud Nora,
que a industrialização provoca, levando 1986:410). Mas essa destruição, continua
ao impulso de proteção aos monumentos. o autor, se dirige ao passado aristocrático,
Assim, simultaneamente à ameaça de perda visto como indigno de figurar na árvore
do passado, dá-se a colocação do monumento genealógica dos revolucionários, que se

M árc ia M an sor D´Ales s io


nesse passado perdido. Daí a necessidade de consideravam os verdadeiros franceses.

e
P atrimônio H istórico
protegê-lo, matriz da ideia de preservação: Não obstante, mais do que nunca o passado
foi buscado, cultuado e materializado em
Sem dúvida, a entrada na era industrial, a patrimônio; para tanto, foi inventado,
brutalidade com que ela vem dividir a história recriado ou simplesmente nomeado “passado
das sociedades e de seu meio ambiente, o “nunca dos revolucionários”, e depositado na nação.
mais como antes” que daí resulta estão entre as O excesso de hostilidades em relação aos
causas do romantismo, ao menos na Grã-Bretanha bens/objetos ligados ao Antigo Regime

do
e em França. Contudo, o choque dessa ruptura preocupou alguns homens da época, levando-

R evista
extravasa amplamente o movimento romântico. os a uma movimentação em direção à
(...) a consciência do advento de uma nova era e de despolitização do patrimônio em nome da
suas consequências criou, em relação ao movimento preservação dos bens culturais, considerados
histórico, outra mediação e outra distância, ao “valor geral”, isto é, acima das classes e
mesmo tempo que liberava energias adormecidas em seus conflitos. Assim, o “bem geral”, noção
favor de sua proteção (Choay, 2006:135). estruturante da nação burguesa que se
formava, foi aplicado à prática da preservação 81
E ainda, levando a uma nova ideia de patrimônio.
Uma das novidades daí resultante foi a
A consagração do monumento histórico incorporação das obras de arte ao inventário
aparece, pois, diretamente ligada, tanto na Grã- dos bens fundamentais e inalienáveis que
Bretanha quanto na França, ao advento da era deveriam expressar a “riqueza moral da nação
industrial (Choay, 2006:137). inteira”. O autor diz ainda: “(...) a noção
moderna de patrimônio começa a aparecer
A França, no entanto, viveu, segundo através da preocupação moral e cívica”
André Chastel, um processo ambíguo pelo (Chastel, apud Nora, 1986:412).
fato da noção de patrimônio ter surgido em De toda essa reflexão do autor podemos
meio à revolução de 1789. Poderíamos dizer salientar alguns aspectos que nos parecem
que o impulso em direção à preservação, sugeridos em seu pensamento. De imediato,
nesse caso, se dá mediado pela luta de a relação entre patrimônio e nação ressalta
classes. Dito de outra forma, o processo de com nitidez; por outro lado, os objetos,
construção da ideia de patrimônio se dá pela incorporados à noção de patrimônio, dão
Me t amorfose s do Pat r i mônio. . .
existência material ao passado, ou seja, Mas a população não seguia
provam concretamente que o passado existiu, necessariamente as motivações dos
evidência que incide sobre o sentimento especialistas, o que deu ensejo à guerra de
A rtístico N acional

identitário; e, finalmente, a preocupação memórias. Com efeito, na medida em que


com obras de arte revela uma relação entre a população das províncias não enxergava o
cultura e nação e mostra que a invenção de caráter que se anunciava “nacional” de todas as
um passado maravilhoso, para além de uma edificações ou criações coletivas, os conflitos
necessidade ideológica, é também, e talvez colocados nos objetos reapareciam e os
M árc ia M an sor D´Ales s io

sobretudo, a busca envaidecida de referenciais objetos cultuados entravam em disputa. É o


e
P atrimônio H istórico

comuns de um grupo-nação em momentos que se depreende da reflexão do autor:


de desconstrução/reconstrução. A criação
de museus, a partir do século XVIII, tem, (...) o ódio dos edifícios símbolos, tão
segundo o autor, uma vocação pedagógica, violentos sob a Convenção, está sempre pronto a
qual seja, formar o gosto contemporâneo e, reaparecer. Será visto em Paris com a comuna, que
poderíamos acrescentar, comum e nacional. não abandona a cidade sem incendiar a Cour des
Fruto do contexto em questão, a França, Comptes e as Tuilleries. Mas a lembrança do
do

assiste, no século XIX, ao desenvolvimento drama encontrou seu lugar-memorial no Père-


R evista

de uma política de preservação. Em 1834, é Lachaise (Chastel apud Nora, 1986:429).


criado o Comité Historique des Arts et des
Monuments, com a missão de listar edifícios As viagens de Mérimée alargaram a
merecedores de proteção e intervenção. concepção de patrimônio ao incorporar a vida
Ocorre que a imensidão do patrimônio cotidiana das províncias com suas criações, mas,
francês restringiu a atribuição de monumento em contrapartida, o século XIX teve resistência
82 histórico às edificações centrais, isolando em aceitar obras do presente como objeto de
a província. Houve, então, uma busca nas preservação, o que tornou rígida a concepção
províncias, que poderíamos classificar de da temporalidade no que concerne às práticas
uma busca pela França profunda. O nome preservacionistas. Além disso, o autor mostra,
a destacar, segundo Chastel, é Mérimée, também ali, uma ideia abstrata de patrimônio,
responsável, segundo o autor, por esse ou seja, sem historicidade, que se revela na
trabalho e, mais importante, pela mudança no restauração, quando os especialistas apagavam
conceito de patrimônio. traços do tempo em nome de um modelo
Mérimée viajou em condições adversas válido, portanto fixado previamente, de bem
pelas províncias francesas, numa época de patrimonial. O resultado era um restauro que
comunicação precária entre as regiões. não se restringia às partes danificadas, mas
Ao constatar o esquecimento em relação a tomava toda a obra, praticamente refazendo-a,
monumentos, redescobriu-os no passado, portanto violentando-a. A fórmula utilizada
descobrindo o que Chastel chamou de pelo autor é feliz: segundo suas palavras,
“paisagem histórica” de seu país (Chastel apud as restaurações retiravam o “vivo” da obra,
Nora, 1986:428). apagando o “tempo” nela contido:
Me t amorfose s do Pat r i mônio. . .
A intervenção pode ser um belo trabalho e dar reflexão que vimos propondo, do desejo de
uma satisfação a seu autor; mas ela ultraja o vivo preservação que alimentou o surgimento
da obra, ela desperta uma dúvida insuportável sobre de instituições responsáveis pela guarda do

A rtístico N acional
sua autenticidade, ela rompe a cadeia. Se é julgada passado em vários países ocidentais.
intolerável é porque ela compromete a percepção da Uma das faces mais visíveis da relação
“obra no tempo”, que é a chave de todo o processo nação/preservação é o uso do passado
(Chastel apud Nora, 1986:430). feito pelos Estados nacionais com vistas à
legitimação de seus respectivos projetos

M árc ia M an sor D´Ales s io


Se a industrialização foi um momento de políticos. Decorre daí a tônica bastante

e
P atrimônio H istórico
ruptura que levou ao desejo de memória e, nacionalista das instituições patrimoniais
consequentemente, à prática da preservação a surgidas nos século XIX e início do século XX
partir do fim do século XVIII, ela também esteve em vários países ocidentais.
no centro – como fator desencadeador – das Esse uso, porém, não era vazio de
duas Guerras Mundiais ocorridas no século XX significado, na medida em que houve, nos
e igualmente devastadoras do ponto de vista processos de construção/consolidação
dos referenciais de pessoas e grupos. Cidades da nação burguesa, condições históricas

do
destruídas significaram o desaparecimento de que o favoreceram. Talvez a matriz dessas

R evista
estabilidades físicas que organizavam o espaço. Em condições esteja na ideia de que o passado
sua obra O espaço proustiano, Georges Poulet diz: comum de um grupo prepara e justifica
um destino comum, ideia que floresceu no
(...) como não perder a fé na vida, quando se terreno fértil das profundas transformações
percebe que é ilusória a única fixidez dos lugares, dos política, econômica e cultural. Do ponto
objetos ali situados? A mobilidade rouba nosso último de vista político, a França pode servir-nos
recurso. A que se agarrar, se os lugares, como os tempos de paradigma para observarmos o quanto 83
e os seres, também são arrastados nessa corrida que só a centralização político-administrativa foi
conduz até a morte? ( Poulet, 1992). importante para o desenvolvimento da ideia
de grupo coeso e homogêneo.
E Chastel mostra que “o abalo afetivo das A história tem mostrado a ocorrência de
guerras dá vida aos símbolos” (Chastel apud processos políticos de centralização do poder
Nora, 1986:434). Os bens destruídos foram a partir de conflitos, por vezes violentos,
muito sentidos pelas pessoas. Houve, naqueles com interesses locais, sejam eles políticos,
contextos, uma nova investida emocional e econômicos ou culturais. No caso de
prática em direção à preservação. formação dos Estados nacionais, o processo
Compondo a atmosfera do período não foi diferente e teve como consequência a
de construção da modernidade, a transformação do centro de poder em fator
industrialização tem seu correlato político importante de construção e disseminação de
na consolidação do Estado-nação, fenômeno identidade do grupo-nação.
igualmente responsável pelo desenvolvimento Uma das reflexões mais elucidativas
do sentimento identitário produtor, pela a respeito da centralização do poder na
Me t amorfose s do Pat r i mônio. . .
França é a de Alexis de Tocqueville, como se ao contrário de Tocqueville, foi partidário
sabe, sujeito histórico que vivenciou aquele fervoroso das transformações de 1789.
contexto com um olhar crítico em relação ao Sieyés escreve o conhecido texto Qu´est-ce
A rtístico N acional

Absolutismo e à Revolução de 1789. que le Tiers Etat? (1982), no qual a ideia de


Em sua obra O Antigo Regime e a revolução “bem geral” expressa um corpo político
(1989), Tocqueville defende a ideia de que harmônico, com várias vontades formando a
a centralização administrativa não foi obra vontade comum. No entanto, a construção
da Revolução de 1789, mas da Monarquia dessa situação é um processo conflituoso,
M árc ia M an sor D´Ales s io

Absoluta, que é vista por ele como pois implicou a expulsão da sociedade de
e
P atrimônio H istórico

desagregadora do corpo político, a instituição setores considerados inimigos. Assim, para


que retirou da sociedade – leia-se dos nobres se constituir, a nação precisou de um inimigo
– a possibilidade de exercício do poder. Nesse contra o qual todos deveriam unir-se. Este
sentido, essa forma de governo apontou para inimigo, para Sieyés, é a aristocracia ou os
a igualdade, mas não levou à liberdade. “privilegiados”. Eles devem ser expulsos da
Essa reflexão revela o nível de tensão nação porque não pensam no “bem geral”,
entre nobres e poder central e mostra que mas sim em seus interesses particulares, eles
do

a centralização administrativa não foi um têm espírito de corpo, confundem o público


R evista

problema técnico de organização das funções com o privado.


de governo, mas uma questão política, à Um dos argumentos de Emmanuel Sieyés
medida que coloca em jogo o controle do para a exclusão da aristocracia está ligado
poder, que sai dos nobres, concentrando-se ao significado do trabalho no capitalismo,
cada vez mais no rei. que, de atividade desprestigiada, passa a
A partir da centralização do poder, dignificadora do homem. Só o “Terceiro
84 Tocqueville vai mostrando o processo geral Estado” trabalha, logo ele sustenta a
de centralização do país, chegando a advertir sociedade. Os parasitas são “estrangeiros”, não
para o perigo da “uniformização” da sociedade pertencem a esta sociedade. Sieyés descreve
que, aliás, veio a tornar-se suporte espiritual todas as atividades necessárias à manutenção
decisivo para a identificação da população da população e conclui: “Tels sont les travaux
com o “todo nacional” em construção. qui soutiennent la société. Qui les supporte?
Poderíamos ainda pensar em outro Le tiers état”. E sobre a aristocracia diz: “Une
elemento que constrói este suporte: a já telle classe est assurément étrangère à la
sugerida ideia de bem geral ou vontade geral, nation par sa fainéantise”(Sieyès, 1982).
propalada insistentemente na Revolução Em 1880, a França conheceu a reforma
Francesa, mas que povoa o vocabulário educacional Jules Ferry, outro fato que reforçou
de todo discurso nacionalista produzido o sentimento de união nacional, sobretudo,
pelos Estados nacionais. Novamente é um por ter produzido um discurso de forte apelo
participante da mencionada revolução quem patriótico. Os historiadores ocuparam um
pode fornecer elementos para a análise grande espaço nesta reforma educacional,
desta expressão: Emmanuel Sieyés, que, contribuindo decisivamente para forjar o
Me t amorfose s do Pat r i mônio. . .
modelo de nação elaborado pelo projeto político que não comportam recorte de nenhuma
republicano, do qual resultou o cidadão francês natureza, mas, ao contrário, navegam ao sabor
identificado com a França e não mais com suas das ações e realizações de homens, grupos,

A rtístico N acional
particularidades regionais. A partir dos anos 80 povos. Choay, ao justificar a longa periodização
do século XIX, circulavam pela imprensa versos que estabelece do período de consagração
e cantos como os que se seguem: do monumento histórico motivado pela
industrialização – do século XIX a 1964 –, diz:
Para ser um homem, é preciso saber escrever

M árc ia M an sor D´Ales s io


E em pequeno, aprender a trabalhar. As divisões cronológicas (...) não têm, no

e
P atrimônio H istórico
Pela Pátria, uma criança deve instruir-se entanto, senão um alcance relativo e secundário por
E na escola aprender a trabalhar. comparação com a unidade do período (1820-1960)
Soou a hora, marchemos a passo, que os engloba: unidade soberana que impõe pelo seu
Jovens crianças, sejamos soldados. (bis)4 reconhecimento, a sua coerência e a sua estabilidade
o estatuto adquirido pelo monumento histórico com a
Fica evidenciado o papel da educação chegada da era industrial (Choay, 2006:112).
na construção do “Nós” constitutivo do

do
sentimento identitário. E Manoel Luiz Salgado Guimarães, em

R evista
Pierre Vilar classificou o século XIX como seu estudo sobre o Instituto Histórico e
fase nacionalitária (Vilar, 1982:165).Tentamos Geográfico Brasileiro, destaca a extensão da
mostrar dois fenômenos históricos que justificam discussão da questão nacional no século XIX:
esta classificação: a industrialização e a formação
dos estados-nacionais, que tiveram um lugar No palco europeu, (...) percebe-se claramente
inicial de surgimento, a Europa, mas que se que o pensar a história articula-se num quadro
espalharam por outras regiões do planeta. Em mais amplo, no qual a discussão da questão 85
compassos diferentes, é certo, mas respondendo nacional ocupa uma posição de destaque
a um momento histórico que construiu um (Guimarães, 1988).
perfil e uma atmosfera que não conheceram,
necessariamente, fronteiras geográficas. Em relação à preservação do passado,
Esgotado o debate ocorrido no Brasil sobre a pretendemos demonstrar que se trata de uma
natureza das relações de trocas e influências ideia que esteve – e está – sempre presente
de ideias entre países – imitação ou recriação na contemporaneidade, embora esse passado
original – debate que, de resto, colaborou para possa significar manutenção do que existe ou
maior esclarecimento da questão, podemos invenção do que, para alguns interesses, deveria
pensar na coincidência de situações históricas ter existido. Nesse sentido, as discussões
entre países como obra da própria História sobre preservacionismo compuseram este
(história-vivida). Esta, em sua dimensão de tempo histórico no qual questionamentos a
tempo longo, constrói unidades e/ou estruturas respeito de quem preserva, o que se preserva, como se
preserva, povoaram os debates dos especialistas.
4. Citado por Guy Bourdé e Hervé Martin, s/d. Atualmente, o tema passa por uma espécie
Me t amorfose s do Pat r i mônio. . .
de dessacralização, porque é abundante a um Estado-nação capaz de sintonizar o país
produção de estudos sobre esta discussão, com exigências da expansão internacional do
historicizando-a. Referenciamo-nos capitalismo” (Rodrigues, 2001:7).
A rtístico N acional

nos trabalhos já realizados e continuamos Os apelos de reconhecimento do Brasil


nossa reflexão a partir do recorte que vimos na época do Império e da Primeira República
praticando: a relação entre industrialização/ restringiam-se às elites intelectuais e políticas.
estado-nacional e apelo ao passado. As políticas de Estado com este objetivo eram
Guimarães, no estudo citado, já mostrou esparsas, limitadas e frágeis. Foi a década de
M árc ia M an sor D´Ales s io

o paralelo que existe entre França e Brasil no 1930 que assistiu à intensificação das ações
e
P atrimônio H istórico

que concerne à vinculação entre historiografia protecionistas e colocaram-nas no quadro


e tentativas de criação do Estado-nação e mais geral de um projeto nacional. Ideias e
da identidade nacional no período imperial práticas vindas de diferentes esferas do social
brasileiro (Guimarães, 1988). Sobre a República, convergiam, respondendo ao momento
aprendemos com Marly Rodrigues que as histórico vivido pelo mundo ocidental – ou
primeiras ideias de proteção ao patrimônio capitalista, se quisermos –, o Brasil incluso. O
histórico arquitetônico no Brasil surgiram projeto industrializante do governo Vargas levou
do

em 1910. As elites do país, segundo a autora, à transformação do Estado, que, altamente


R evista

estavam interessadas, desde 1904, com o início centralizado e intervencionista, teve como uma
da política dos governadores que possibilitou a de suas preocupações fundamentais a criação
estabilização do regime republicano, em “forjar de um novo brasileiro, um brasileiro cidadão,
patriota, mas também trabalhador. Novamente
aqui, vemos a vinculação entre indústria e nação.
Com efeito, foi grande a proposta de
86 nacionalizar o trabalhador brasileiro durante a
era Vargas. Os motivos são vários, mas a mola
propulsora vinha do desejo de modernidade
que tomou conta das elites no período.
Quando falamos de modernidade, falamos, de
imediato, de industrialização, fato histórico
tanto mais bem-sucedido quanto mais o
país estivesse integrado territorialmente,
unificado economicamente e uniformizado
culturalmente, ou seja, quanto mais se
apresentasse como uma “nação moderna”.
Como todo projeto nacionalista, o projeto
Adriana Janacopulus. Mulher
sentada. Estátua de granito varguista esforçava-se em criar concreta e
instalada no terraço-
jardim do Palácio Gustavo simbolicamente referenciais que unissem a
Capanema, Rio de Janeiro
Foto: César Barreto, 2009 população em torno de seus objetivos. E pode-
se dizer que os próprios acontecimentos criavam
Me t amorfose s do Pat r i mônio. . .
os sujeitos históricos que os viabilizavam. de traços e rastros culturais “autenticamente”
É sintomática a obra de literatos, artistas e brasileiros revelam o espírito da época: o
intelectuais em geral na busca de brasilidade em passado, sempre o registro do passado.5

A rtístico N acional
suas criações. Um estudo de Lauro Cavalcanti A mentalidade preservacionista que
sobre as criações arquitetônicas daquele ganhou impulso no Brasil a partir da década
momento e os conflitos da área entre várias de 1930, como já foi dito, não ficou restrita
concepções de arte brasileira afirma que: às esferas do poder. O fato de as elites
intelectuais e artísticas abraçarem os ideais

M árc ia M an sor D´Ales s io


Uma das principais preocupações do Estado de construção da nação implicou, naquele

e
P atrimônio H istórico
Novo diz respeito à construção do novo homem contexto, o despertar do sentimento de
brasileiro. Como instrumentos para tal objetivo, pertencimento ao grupo-nação reconstruído.
são criados dois ministérios: o do Trabalho e o Por outro lado, os conflitos de classe dos anos
da Educação e Saúde Pública. (...) O trabalho é 50 e a atenção do Estado em direção às classes
considerado o meio por excelência para integrar o populares transformaram os trabalhadores
homem à sociedade, transformando-o em cidadão/ em interlocutores das forças políticas que
trabalhador (...) (Cavalcanti, 2006:33). até então os excluíam; no entanto, suas lutas,

do
criações culturais, sensibilidades e formas

R evista
A proximidade dos objetivos transformou de vida não foram, naquele momento,
em apenas um os dois ministérios em questão. incorporadas ao patrimônio da nação.
É o próprio Gustavo Capanema, então A grande transformação na concepção de
ministro da Educação e Saúde, quem diz: patrimônio histórico aconteceu nas últimas
décadas e acompanhou tanto a conjuntura
O Ministério da Educação e Saúde se destina emancipadora dos anos 60, como a abertura
a preparar, a compor, a afeiçoar o homem do Brasil. de espaço no discurso historiográfico para 87
Ele é verdadeiramente o Ministério do Homem essas emancipações.
(Cavalcanti, 2006:33). Com efeito, conhecemos a participação
política de amplos setores da população
À primeira vista, a ideia de “homem brasileira no combate à ditadura instalada no
novo” pode contradizer o apego ao passado país em 1964; conhecemos também a forte
que estamos apresentando como busca de presença dos trabalhadores no jogo político
memória e identidade coletiva, com influência
nas concepções de preservação. Ocorre que 5. O debate da época em torno da concepção de moderno,
focalizado por Lauro Cavalcanti, nos mostra o quanto o “novo”
este homem novo, adaptado à modernidade e o “moderno” aparecem sempre legitimados pelo passado: A
desejada, para artistas, intelectuais e reivindicação do novo não era, contudo, exclusividade dos modernos:
Correia de Araújo, professor, futuro diretor da Enba e partidário do
políticos da época, significava o homem neocolonial, escreveu a Capanema em 1937: “O moderno é a arte
verdadeiramente brasileiro, encontrado no criando, bem diferente do modernismo, que é o conjunto de
princípios em voga em certos meios que se julgam avançados”
“Brasil profundo”, construído num passado (apud Lissovsky e Sá, 1986). Logram os modernos, entretanto,
escapar dessa pecha de gratuidade inconsequente, mostrando como o seu
remoto. As viagens de Mário de Andrade pelo “novo” tem vínculo com o “espírito do passado” e, ao mesmo tempo, com
interior do país, na década de 1920, em busca uma previsão “científica” do futuro (Cavalcanti, 2006:49).
Me t amorfose s do Pat r i mônio. . .
a partir daí. Impossível não relacionar essas para a formulação das políticas públicas
conquistas ao reconhecimento dos silêncios na de preservação do patrimônio histórico.
memória histórica brasileira. Considera-se que o discurso historiográfico
A rtístico N acional

O Brasil dos anos 70 assiste a uma fica subsumido aos argumentos ditados pela
profusão de estudos sobre memória. Além do lógica do mercado, dimensão da realidade
reconhecimento da ligação “umbilical” entre que hoje influi na questão da preservação.
memória e identidade, ganharam destaque Os historiadores, dizem os especialistas, têm
as reflexões sobre a relação memória/ mais a contribuir do que os agentes sociais
M árc ia M an sor D´Ales s io

história. Uma evidência se tornou premissa lhes atribuem. Para refletir sobre o assunto,
e
P atrimônio H istórico

nesse campo de investigação: lembrança destacaremos algumas ideias e posicionamentos


e esquecimento são partes de um mesmo que aparecem na referida publicação.
todo. Talvez esta tenha sido a conquista Em primeiro lugar, a constatação de que a
historiográfica decisiva para o alargamento ideia de preservação é histórica, ou seja, aquilo
da concepção de patrimônio histórico das que é objeto de preservação depende de cada
últimas décadas. Além da reivindicação de período histórico, de cada geração, de cada
incorporação de todos os grupos sociais, grupo social. Não é supérfluo lembrar que o
do

em todas as suas manifestações, à memória trabalho com o tempo e as transformações


R evista

do país, recuperando passados esquecidos, por ele provocadas são objeto de investigação
os sujeitos históricos envolvidos nessa do historiador, tornando-o, por isso mesmo,
movimentação – tanto estudiosos do tema, habilitado a dessacralizar construções
como os movimentos sociais – criaram a naturalizadas. Diz Nilson Moulin Louzada:
expressão “direito à memória”, conferindo
cidadania às lembranças e assinalando a Em cada geração, em cada período histórico
88 preponderância das identidades de grupos (...) que grupos sociais e que critérios determinam
e classes em relação à identidade nacional. o que deve ser preservado? Embora alguns insistam
Essas reflexões e essas posturas geraram em em tentar construir uma única memória, a
1992, uma publicação justamente com o multiplicação quase infinita de registros já não o
título: O direito à memória. Patrimônio histórico e permite (Louzada apud Cunha, 1992:15).
cidadania, coletânea de estudos apresentados
em Seminário Internacional, promovido pelo Além disso, a multiplicidade de memórias
Departamento do Patrimônio Histórico de produzidas tem historicamente levado à
São Paulo (Cunha, 1992). Além da análise disputa entre elas, o que influi decisivamente
dos diferentes aspectos que compõem o na decisão do que deve ser preservado. A
fenômeno memória, esse livro nos traz memória torna-se, assim, um lugar de disputa
reflexões a respeito do papel do historiador política e as múltiplas ideias de preservação
na realização das práticas preservacionistas. revelam a dimensão dos conflitos sociais.
De imediato, é importante assinalar uma Não só a memória vem sendo
preocupação dos estudiosos do patrimônio: o dessacralizada, mas também o discurso
pouco espaço dado, no Brasil, aos historiadores historiográfico. Com efeito, se o século XIX
Me t amorfose s do Pat r i mônio. . .
foi, como disse Gabriel Monod, o século Cavalcanti, Lauro. Moderno e brasileiro. A história
de uma nova linguagem na arquitetura (1930-60). Rio de
da história (Monod, 1876:21), o XX foi o Janeiro: Jorge Zahar, 2006.
século do seu desencantamento, porque o

A rtístico N acional
Chastel, André. “La notion de patrimoine”. Em
conhecimento histórico, ele próprio, tornou- Nora, Pierre. Les lieux de mémoire, vol. II, La Nation.
Paris: Gallimard, 1986.
se objeto de investigação do historiador, ou Choay, Françoise. A alegoria do patrimônio. São Paulo:
seja, a historiografia foi colocada no tempo, o Estação Liberdade: Unesp, 2006.
Cunha, Maria Clementina Pereira (org.). O direito
que levou à desconstrução de interpretações
à memória. Patrimônio histórico e cidadania. São Paulo:
únicas e verdades a-históricas. Nesse processo,

M árc ia M an sor D´Ales s io


Secretaria Municipal de Cultura / Departamento do
experiências silenciadas aparecem, fontes Patrimônio Histórico – DPH, 1992.

e
Guimarães, Manoel Luiz Salgado. “Nação e civilização

P atrimônio H istórico
novas são descobertas e outros suportes de nos trópicos: o Instituto Histórico e Geográfico
memória alargam o conceito de patrimônio. Brasileiro e o projeto de uma história nacional”. Em
Estudos históricos. Rio de Janeiro: FGV, 1988.
Podemos concluir, portanto, que o debate
Halbwachs, Maurice. A memória coletiva. São Paulo:
sobre preservação é paralelo ao debate sobre a Vértice, Editora Revista dos Tribunais, 1990.
natureza do conhecimento histórico (Paoli apud Le Goff, Jacques. “Memória”. Em Enciclopédia Einaudi,
vol. I, Memória-História. Portugal: Imprensa Nacional-
Cunha, 1992:25), o que põe a história, mais Casa da Moeda, 1984.
uma vez, na condição de disciplina importante Lissovsky, Maurício e Sá, Paulo Sérgio Moraes de.
“O novo em construção: o edifício do Ministério da

do
para a discussão sobre patrimônio cultural.
Educação e Saúde e a disputa arquitetural nos anos 30”.

R evista
Finalizando, gostaríamos de destacar a Revista Rio de Janeiro, nº 3, 1986.
responsabilidade do historiador, por dever de Louzada, Nilson Moulin. “Diferentes suportes
para a memória!”. Em Cunha, Maria Clementina
ofício e compromisso ético, como observador Pereira (org.). O direito à memória. Patrimônio histórico e
das artimanhas dos poderes estabelecidos no que cidadania. São Paulo: Secretaria Municipal de Cultura /
concerne ao uso do passado – e, portanto, da Departamento do Patrimônio Histórico – DPH, 1992.
Monod, Gabriel. “Du progrès des études historiques
memória e da história – na classificação dos bens en France depuis le XVI siècle”. Revue Historique. Tome
coletivos e consequentemente na concepção de Premier, v. 1, janvier à juin, 1876. Paris: Librairie 89
Germer Baillière et Compagnie.
patrimônio histórico. Segundo Jacques Le Goff: Nora, Pierre. Les lieux de mémoire. Vol. I. Paris :
Éditions Gallimard, 1984.
Devemos trabalhar de forma a que a memória ______. “Entre memória e história. A problemática
dos lugares”. Revista Projeto História,10:7-28. São Paulo:
coletiva sirva para a libertação e não para a EDUC, 1993.
servidão dos homens (Le Goff, 1984). Paoli, Maria Célia. “Memória, história e cidadania: o
direito ao passado”. Em O direito à memória. Patrimônio
histórico e cidadania. São Paulo: Secretaria Municipal
de Cultura/Departamento do Patrimônio Histórico –
DPH, 1992.
Poulet, Georges. O espaço proustiano. Rio de Janeiro:
Referências Imago, 1992.
Rodrigues, Marly. Imagens do passado.A instituição do
Benjamin, Walter. “O narrador. Considerações sobre patrimônio em São Paulo. 1969-1987. São Paulo: Unesp, 2001.
a obra de Nikolai Leskov”. Em Obras escolhidas. Magia e Sieyès, Emmanuel. Qu´est-ce que le Tiers État. Paris:
técnica, arte e política. São Paulo: Brasiliense, s/d. Presses Universitaires de France, 1982.
Bloch, Marc. Apologia da história ou o Ofício de Tocqueville, Aléxis de. O Antigo Regime e a
historiador. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001. Revolução. 3ª ed. Brasília-São Paulo: UnB-Hucitec, 1989.
Bourdé, Guy e Martin, Hervé. As escolas históricas. Vilar, Pierre. Iniciación al vocabulario del análisis
Portugal: Publicações Europa-América, s/d. histórico. Barcelona: Editorial Crítica, 1982.
Mano el Lui z S al gado G u i m arã e s
His t ór i a , me mó ri a e pat rimônio

A rtístico N acional
museográfica que expõem. Mas o visitante

e
1. O problema

P atrimônio H istórico
que se dispusesse a percorrer, nesse dia, o
La representación del pasado que se hace la conjunto de acervos museológicos da cidade
mayoria de la gente es uma forma de vivir el tiempo não teria o tempo necessário para realizar
presente (Ballart, 2002:131). tal empresa, tamanha a grandiosidade da
oferta. O visitante experimentaria, na
Numa noite fria de um sábado chuvoso, própria carne, os dilemas da passagem do
uma pequena multidão aguardava na fila tempo – sua falta impedindo-o de ver tudo,

do
a hora de entrar no mais recente museu registrar tudo. Contudo, a pequena multidão

R evista
criado na cidade de Berlim. Aquelas pessoas que aguarda na rua, sob condições adversas,
aproveitavam o evento bianual promovido a entrada para o pequeno museu chama a
pelo organismo de cultura da cidade, que atenção e nos leva a perguntar: o que parece
permite até de madrugada a entrada nas atrair e despertar o interesse daquelas
principais instituições museológicas a um pessoas, diante da variedade de oferta de
preço único e com acesso irrestrito, nele instituições mais renomadas do que aquela?
incluído o transporte exclusivamente Trata-se de um museu inteiramente dedicado 91
direcionado aos diferentes percursos à antiga República Democrática Alemã – o
museológicos. A Longa Noite dos Museus, DDR Museum –, que iniciou em 2006 suas
em sua 22ª edição em janeiro de 2008, atividades, oferecendo ao visitante um acervo
teve como tema As time goes by..., uma voltado a reconstituir as condições de vida
proposta de refletir sobre o tempo e sua – em sua acepção mais completa – na antiga
passagem, em seus mais variados aspectos. república socialista alemã. O visitante é
A partir dos diversos acervos integrantes levado a inteirar-se da vida do outro lado do
dos museus da cidade, o evento tem por Muro de Berlim a partir do cotidiano daquela
objetivo sublinhar os aspectos relativos às sociedade: a escolarização, o mundo do
mudanças e transformações implicadas pela trabalho, as formas de sociabilidade e de vida
passagem do tempo, desde a Antiguidade sob o regime socialista. Ponto alto do acervo,
até os dias atuais. Um dia inteiro dedicado um Trabant (ou Trabi, na linguagem popular) Figura 1. Detalhe de grafite
do Muro de Berlim, no
à visita dos principais museus, alguns deles é o carro associado à imagem da República subúrbio berlinense
Foto: Guilherme Cruz de
certamente referência mundial, não apenas Democrática Alemã, sonho de consumo no Mendonça, 2009

por seu acervo, mas também pela concepção então lado socialista. A diferença: o visitante
H ist ór i a, me mór i a e pat r imônio
A rtístico N acional
M an oe l Lu iz Salgado Gu im ar ães
e
P atrimônio H istórico

Figura 2. Muro de Berlim fragmentado, com gradil de proteção para evitar a sua dilapidação. Foto: Guilherme Cruz de Mendonça, 2009
do

pode tocá-lo, sentar-se e mesmo ligar o período que correspondeu à existência


R evista

automóvel, “experimentando” um objeto política de dois estados alemães entre


da “história”, assim como pode fazê-lo em 1949 e 1989 no novo Museu de História
relação ao conjunto do acervo que tem diante da Alemanha a poucos metros do Museu
de seus olhos. Menos do que sacralizados, da DDR – e pela presença tornada exótica
esses objetos parecem estar ali como desse passado recente com marcas visíveis
sinais de um exotismo a que se pretende na paisagem de uma cidade como Berlim.
92 constranger as formas de vida e sociabilidade Seria essa uma forma do “gosto pelos outros”1
que até a Queda do Muro em 1989 esteve que marcaria uma forma particular de
conformando identidades coletivas e formas instituição museológica, fundamentalmente
políticas (Figuras 1, 2 e 3). Ver o outro aquelas voltadas para a exposição das culturas
como exótico não necessariamente significa extraeuropeias? No caso específico, esse
entendê-lo como histórico, parece mesmo outro tornado exótico, objeto de um gosto
uma das formas de condená-lo a não ser possível, era um cidadão de outro Estado,
submetido ao crivo crítico e interrogativo falante, contudo, de uma mesma língua e
da história. Esse parece ser, no entanto, teoricamente tendo partilhado um passado
o atrativo maior do museu em questão. em comum.
Permitir ao visitante, sobretudo para aqueles
que viveram a realidade de duas Alemanhas 1. O autor (De L’Estoile, 2007) sugere uma interessante
separadas por um muro, uma forma menos abordagem das instituições museológicas, dividindo-as em
“Museus de Si” e “Museus dos Outros”, cada uma dessas formas
dolorida de lidar com uma ferida ainda comportando maneiras distintas não só de hierarquizar seus
acervos, mas também de torná-los visíveis ao olhar. Segundo o
não cicatrizada. Perceptível somente pelas autor, cada uma dessas abordagens organiza de forma diversa o
ausências – o pouco espaço conferido ao mundo ao redor, preenchendo-o de significado.
H ist ór i a, me mór i a e pat r imônio
A rtístico N acional
M an oe l Lu iz Salgado Gu im ar ães
e
P atrimônio H istórico
Figura 3. Início do trecho do Muro de Berlim no subúrbio, região oeste da cidade. Ao fundo, observa-se a torre de televisão Fernsehturm, vestígio
da antiga República Democrática Alemã (RDA). Foto: Guilherme Cruz de Mendonça, 2009

do
Mas o que pretende exatamente essa o nascimento da história como disciplina

R evista
instituição dedicada a tornar o passado acadêmica, no século XIX, e o patrimônio
recente da Alemanha (de uma parte como preocupação da política dos
dela) um objeto museológico e, por estados nacionais modernos baseada em
esse caminho, uma forma de objeto das intervenções fundadas num conhecimento
narrativas acerca do passado, o que não que se tornou também disciplinar.
implicaria necessariamente considerá- “Escreva um pedaço da História”2 são
la uma narrativa de história? E aqui um as palavras que encabeçam um formulário 93
esclarecimento que nos parece necessário: distribuído pelos organizadores aos
a distinção ora proposta não está baseada visitantes, convidando-os a participar de
em uma pretensa maior cientificidade, uma denominada “História”, elaborada
objetividade e veracidade da narrativa com relatos, memórias ou objetos que
histórica, em detrimento de outras formas tenham qualquer relação com a vida na
próprias de nossa contemporaneidade de antiga República Democrática Alemã. Nas
narrar o passado. Funda-se tão somente palavras dos responsáveis pela instituição
na distinção necessária entre formas museológica, somente os dados e fatos do
de narrar, expor e dar visibilidade ao passado em sua forma bruta não seriam
passado, que, certamente, guardam entre
si relações importantes e significativas uma 2. “Schreiben Sie ein Stück Geschichte... DDR Museum”. O
vez que nos remetem às interrogações título do formulário entregue aos visitantes é “DDR Museum.
Geschcichte zum Anfassen” (Museu da DDR. A História para
sobre usos do passado. Retornaremos tocar-se”). Aqui podemos pensar no duplo significado do tocar:
não só os objetos expostos são passíveis dessa experiência
a essa questão quando indicarmos sensorial por parte do visitante, mas ele, também, deve ser
algumas das importantes relações entre tocado pelo que vê exposto.
capazes de “apresentar” o passado, uma
H ist ór i a, me mór i a e pat r imônio
ao visitante/historiador que ele relacione
vez que não seriam capazes de “espelhar” o sua experiência de vida na DDR com suas
sentido e o significado que tiveram tais fatos impressões pessoais.3 Em suma, por todo
A rtístico N acional

para os envolvidos neles. Como museu de o percurso, o visitante é cativado pela


História do tempo presente – denominação possibilidade de escrever a história a partir de
assumida pelos próprios organizadores –, suas lembranças e memórias, que parecem,
a vantagem explícita do Museu da DDR assim, se confundir com a própria ideia de
seria poder contar com as memórias e História. O ator como a um só tempo autor
M an oe l Lu iz Salgado Gu im ar ães

lembranças dos participantes dos fatos e testemunho. O patrimônio histórico não


e
P atrimônio H istórico

narrados e apresentados da “Weltgeschichte” parece mais distante e monumentalizado


(história universal como modelo de história apenas em lugares especialmente pensados
válida), quer como participantes quer como para ele, mas próximo e integrado por
testemunhas. Desse modo, pretendem os objetos do cotidiano acessível a qualquer
organizadores e patrocinadores do Museu pessoa vivendo num tempo e em uma
preservar e tornar disponível para as gerações sociedade. Tudo, em princípio, pode agora
futuras esse conjunto de lembranças e integrar esse patrimônio, como todos podem
do

memórias denominadas todo o tempo de ser autores dessa nova história universal.
R evista

“Geschichte” (História). Ainda que de forma Uma observação nos parece importante
não explícita, esse parece ser o caminho para para a discussão aqui proposta e que toma
se atingir uma história mais verdadeira, já o Museu da DDR apenas como um sinal,
que ela é fundada na própria experiência e dentre outros, que poderíamos indicar em
vivência dos fatos. Isso, por si só, já garantiria nossa contemporaneidade, de uma mutação
maior veracidade e densidade ao narrado. significativa com relação aos usos pretendidos
94 Um sintoma de nossos tempos e dos usos do passado. Tanto na sua forma de uma
do passado que se fazem necessários como narrativa acadêmica da história – como a
demanda coletiva. Matéria para reflexão do formulada pelo projeto de uma história do
historiador interessado em pensar a história tempo presente –, quanto nas formas atuais
na sua historicidade. de patrimonialização do passado, operação
Em seguida aos esclarecimentos sobre envolvendo não apenas conhecimentos
os objetivos do Museu da DDR, o visitante qualificados e academicamente validados,
encontra espaço para fornecer seus dados mas também políticas públicas de organismos
pessoais, assinalando se tem experiência com estatais nacionais e de organismos com atuação
o trabalho de “testemunho de um tempo” e
se estaria disposto a relatar sua história diante 3. O formulário utiliza o termo “persönlichen Stimmung”, que
traduzimos por impressões pessoais. É importante salientar que
das câmaras. O formulário solicita, ainda, a palavra Stimmung relaciona-se também à ideia de modulação,
uma curta biografia com a indicação dos “fatos remetendo, portanto, a uma forma de intervenção pessoal.
Algo que demanda a participação e envolvimento de alguém.
históricos” dos quais foi testemunho, ou em É o caso do visitante, que se quer transformar também em
responsável pelo relato da História, tornando-se, por essa
que condições esteve presente quando tais forma, autor e assim se reconhecendo nesse novo relato da
fatos ocorreram. A última questão sugere “história universal”.
e abrangência internacionais. O Museu da alemães, que, a partir de Winckelmann

H ist ór i a, me mór i a e pat r imônio


DDR, entidade privada, ocupa um local no século XVIII, produzira a Grécia como
simbolicamente relevante, carregado de modelo civilizatório e referência de passado,

A rtístico N acional
sentidos para a história contemporânea da assim como era parte da política cultural
Alemanha a partir do século XIX. A pouca do estado prussiano a partir das guerras
distância que o separa da “Museuminsel” de expulsão dos franceses em 1813, após a
– a famosa ilha dos Museus (Figura 4) no ocupação napoleônica. A inauguração do Altes
rio Spree, que banha a cidade de Berlim, Museum, assim como a criação da cátedra de

M an oe l Lu iz Salgado Gu im ar ães
denominada por isso a Atenas do Spree – História na Universidade de Berlim ocupada

e
P atrimônio H istórico
sinaliza para um dos aspectos a ser considerado por Leopold Von Ranke, a partir de 1824-25,
com o projeto do Museu da DDR. Trata-se sinalizam para a importância e centralidade
de sua conexão com a história da Alemanha, que a história ocuparia nesse projeto político-
simbolizada pelo conjunto de instituições cultural. Pensar o passado transformava-se
que, a partir de 1830 até o século XX, foram em condição para a construção do presente
localizadas estrategicamente nesse espaço. após a presença estrangeira nos territórios
Faziam parte de um programa histórico alemães. Além de seu significado para a

do
e patrimonial desenvolvido em distintos história da arte e do patrimônio, a ilha dos

R evista
momentos e com distintos propósitos sobre Museus simboliza a representação do poder
os usos do passado, pelo Estado prussiano, do Estado por meio dessas instituições de
num primeiro momento, e pelo estado cultura com as tensões que são próprias às
nacional alemão a partir da unificação política “lutas de representação”. Como exemplo,
na segunda metade do século XIX. Iniciado a tentativa de introduzir representantes da
com o projeto do Altes Museum, inaugurado pintura moderna em espaços museológicos
em 1830 pelo rei Frederico Guilherme III, para eles idealizados. Assim, a ilha dos Museus 95
o projeto da ilha dos Museus seria concluído é também expressão de embates travados
exatamente um século depois, em 1930, com em torno da definição do patrimônio e de
a inauguração do Museu de Pérgamo, a quarta seus objetos a serem preservados, ou seja,
instituição localizada nesse espaço. Transformar em torno do que poderia, efetivamente, se
a ilha dos Museus progressivamente em constituir como parte da herança coletiva do
uma “Acrópole alemã”, segundo as palavras passado. Num primeiro momento, anterior à
do historiador da arte Thomas Gaehtgens,4 unificação alemã, o sentido dessa “acrópole”
inscrevia-se numa forte tradição dos letrados berlinense estava mais voltado para a capital
da Prússia, uma importante capital entre
4. Thomas Gaehtgens aborda a ilha dos Museus de Berlim outras integrantes dos territórios de língua
como um lugar de memória, analisando os diversos projetos
de instituições culturais e do patrimônio histórico traçados e alemã. Num momento posterior à unificação
executados para este lugar simbolicamente central na geografia e à fundação do Império Alemão, o projeto
da cidade (em François e Schulze, 2003:86-104). Acerca do
significado da Grécia para a cultura histórica alemã, consultar era o de transformar Berlim numa capital
Marchand (2003). O livro examina as formas como esse
interesse pela Grécia tornou-se institucionalmente operante
entre outras de igual importância europeia
para além de interesses individuais pelo passado grego. (sobretudo Londres e Paris). E, para isso, era
preciso dar novo significado ao patrimônio
H ist ór i a, me mór i a e pat r imônio

abrigado na ilha dos Museus: um acervo que


fosse capaz de expor a variedade de culturas
A rtístico N acional

humanas. Uma forte relação entre preservação


do passado – das diferentes culturas humanas
–, conhecimento acadêmico especializado e
política cultural foi a característica central
do programa idealizado para esse espaço de
M an oe l Lu iz Salgado Gu im ar ães

museus, repercutindo num crescimento de


e
P atrimônio H istórico

áreas de conhecimento como a arqueologia, a


egiptologia e a história da arte, entre outras.
Nesse sentido, esse lugar estrategicamente
localizado entre as principais instituições
representativas do poder do Estado prussiano Figura 4. Mapa da Ilha dos Museus (Museumsinsel). Localizada na
margem do rio Spree, congrega cinco grandes museus alemães:
Museu Pergamon, Altes Museum, Neues Museum, Alte Nationalgalerie
– o palácio imperial, a catedral protestante e e Museu Bode – construídos entre 1824 e 1930. Acervo: Wikimedia
Foundation/Wikicommons. (http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Karte_berlin_
católica, a universidade, a ópera –, às margens museumsinsel.png)
do

do eixo ligando ocidente e oriente da cidade,


R evista

é sintoma das transformações históricas Em recente e instigante livro sobre os


que possibilitaram os diferentes projetos desafios contemporâneos para a escrita da
arquitetônicos para abrigar o “passado” história, o historiador francês Christophe
necessário a cada momento específico dessa Prochasson (2008) argumenta que estaríamos
história. De um passado que deve ser fonte sob um novo regime de escrita. Segundo ele, ao
para a “Bildung” (formação) do habitante historiador de ofício seria exigida cada vez mais
96 da cidade a um passado, objeto de um uma escrita submetida aos ditames dos afetos,
conhecimento específico e academicamente sejam eles derivados de engajamentos políticos
controlado por especialistas, as instituições específicos, de crenças particulares, ou mesmo
da ilha dos Museus, transformada em derivados de um convite à individualidade
patrimônio da humanidade pela Unesco em do historiador. Este seria instado a mostrar-
2000, encenam possíveis e necessários usos do se por meio de seu texto, postura bastante
passado para uma sociedade, que como todas diversa da que o obrigava a esconder-se por
aquelas a partir do século XIX, necessitam dele trás da pesquisa científica. Esse novo regime
como condição de sua existência e produção emocional, conforme as palavras do historiador
de sentido. Portanto, o Museu da DDR francês, supõe determinados constrangimentos
parece conectar-se a esse sentido mais geral, às narrativas do passado e faz um apelo à
adequando o passado recente às demandas dimensão cada vez mais autoral do texto
sociais contemporâneas sobre os usos do historiográfico. Como parte dessas mutações
passado. Mas, o que estaria sendo formulado próprias ao campo de atuação do historiador,
como demanda contemporânea específica de a biografia ganharia novo espaço e significado
modo a nos voltarmos para o passado? para a pesquisa histórica, assim como um lugar
que perdera como gênero legítimo da escrita no cenário político e intelectual europeu

H ist ór i a, me mór i a e pat r imônio


histórica. A ego-história encontrou, igualmente, do Oitocentos vir a coincidir com as
espaço nesse novo campo de atuação para o preocupações relativas ao patrimônio como

A rtístico N acional
historiador de ofício. O sujeito pode voltar à política pública quando assistimos também ao
cena da história e é mesmo convocado a essa nascimento de disciplinas e práticas voltadas à
tarefa como parece ser o desafio formulado preservação e restauração do legado material
pelo projeto do Museu DDR. do passado, com o significado agora – no
O que o trabalho de Christophe cenário da cultura histórica Oitocentista – de

M an oe l Lu iz Salgado Gu im ar ães
Prochasson nos ajuda a refletir é sobre os provas materiais da existência de um passado

e
P atrimônio H istórico
usos e demandas contemporâneas do passado, passível de ser acessado, também, pela via
definindo uma variedade de narrativas desses restos materiais.
sobre eventos pretéritos consumidos Se partirmos dessa primeira consideração,
pelas sociedades contemporâneas, ávidas a de que a reflexão em torno do patrimônio
de lembranças e memórias de um tempo pode ser considerada uma forma de escrita
muitas vezes idealizado como de certezas e do passado, teremos, necessariamente, que
segurança. É como parte dessas demandas que tratar essa escrita a partir de uma perspectiva

do
devemos encarar o interesse contemporâneo histórica. Isso significa dizer que as formas

R evista
em torno do patrimônio e das tarefas de assumidas por essa modalidade específica
patrimonialização do passado. Com isso, de escrita do passado variam segundo as
queremos deixar claro que o estudo do contingências temporais e sociais sob as quais
patrimônio só pode ser compreendido a ela se realiza. Não se trata de pensar numa
partir de sua vinculação com as problemáticas evolução das formas de escrita patrimonial,
atuais que definem interesses específicos mas antes de pensar nas diferentes maneiras
com relação ao passado. Portanto, refletir sob as quais esses restos materiais do 97
sobre o patrimônio pode e deve ser uma passado vieram a ser tratados sob a forma de
das preocupações do campo historiográfico, patrimônio histórico. Nesse sentido, tomamos
submetendo-o a uma investigação que distância da tese de Jean-Michel Leniaud,5
sublinhe a dimensão histórica de sua invenção. que pretende tratar a questão do patrimônio
Como toda escrita histórica, a reflexão recuando no tempo para além dos marcos
em torno do patrimônio deve considerar
5. Segundo o autor (Leniaud, 2002:15), em sua forma de
as situações históricas de sua emergência abordar a questão do patrimônio: “On s’efforecera ici, au
– dos discursos e narrativas acerca do contraire, d’élargir la chronologie, de faire remonter ces
politiques le plus haut possible dans le temps; on verra
patrimônio – como forma de compreender qu’elles ne sont pas nécessairement liées aux États et que,
a patrimonialização do passado. Como parte de ce fait, le patrimoine peu connaître d’autres formes
d’instrumentalisation”. [“Aqui faremos o esforço, pelo
do esforço das sociedades humanas em tornar contrário, de alargar a cronologia, de fazer recuar no tempo
a experiência do transcurso temporal uma essas políticas: veremos que elas não são necessariamente ligadas
ao Estado e que, por isso, o patrimônio pode conhecer outras
experiência partilhável social e coletivamente. formas de instrumentalização”]. Cabe ressaltar que o autor fala
em patrimônio e não em patrimônio histórico, o que nos parece
Não nos parece mera coincidência temporal dar um sentido distinto e peculiar à maneira de tratar os restos
o fato de a emergência da disciplina histórica materiais do passado.
instituídos pela Revolução Francesa e sua
H ist ór i a, me mór i a e pat r imônio
tornar o passado recente em objeto de fruição,
política de patrimonializar o passado. Adjetivar muitas vezes acrítica, mas, certamente, com
como histórico um conjunto de bens e traços forte apelo de público e de mídia.
A rtístico N acional

de épocas pretéritas implica já uma operação


peculiar só possível de ser compreendida a
partir do momento em que a história instituída 2 . P a t r i m ô n i o h i s t ó r i c o
como disciplina parece invadir semanticamente e escrita do passado
diversos espaços da vida das sociedades do
M an oe l Lu iz Salgado Gu im ar ães

século XIX. Como nos faz ver Koselleck, O meu interesse nesta área de reflexão
e
P atrimônio H istórico

o moderno conceito de história assume tal decorre de minhas preocupações sobre o


protagonismo no cenário político-intelectual tema da escrita da história em suas diversas
do Oitocentos, capaz de transformar em modalidades e possibilidades. Pretendo,
“histórico” o conjunto das realizações humanas portanto, sugerir que uma reflexão em torno
num tempo passado. E assim também aquelas do patrimônio pode ser compreendida, e
a serem realizadas no futuro. Nada parece acredito mesmo que deva ser feita, em suas
escapar à condição de histórico, tornando estreitas vinculações com o trabalho de
do

natural o que é fruto de uma criação histórica, produzir narrativas sobre o passado, ofício
R evista

já que está submetida às condições de certo a que certamente os historiadores, mas não
tempo. A partir dessa consideração, portanto, somente e também não exclusivamente, se
o interesse contemporâneo pelo patrimônio dedicam. Assim, o “patrimônio é também uma
deve ser interpretado segundo as demandas escrita do passado, submetida evidentemente
próprias às nossas sociedades contemporâneas, a uma gramática e a uma sintaxe específicas”.
segundo aquilo que inicialmente apontamos, Se esta afirmação parece ser hoje de certa
98 a partir de Christophe Prochasson, como forma evidente, nem sempre as questões
o novo regime emocional sob o qual nos relacionadas ao tema do patrimônio no Brasil
voltamos para o passado. Isso não apenas foram compreendidas como integrantes do rol
fornece a moldura a partir da qual a questão de problemáticas de natureza historiográfica.
ocupa hoje centralidade como empenho das A geração dos fundadores do patrimônio,
políticas públicas, mas diferencia igualmente integrada basicamente por arquitetos de
da forma como o patrimônio veio a ser objeto formação, imprimiu uma marca peculiar
dessas políticas públicas no momento de ao campo, cujos traços ainda hoje se fazem
invenção das Nações modernas na esteira das presentes. Certamente a consideração
transformações engendradas pela Revolução dessa especificidade é importante para
Francesa. É como parte desse novo regime compreendermos os rumos e as diretrizes
emocional que novas escritas se tornam assumidas pela questão patrimonial em
possíveis e necessárias, assim como novas nosso país. Longe de ser uma natureza, sua
formas de patrimonialização são demandadas. vinculação ao campo da arquitetura deriva de
Tal qual a que parece sintomatizar a criação de uma história peculiar da constituição desse
um museu como o Museu da DDR, capaz de campo entre nós e, por isso, não parece ser
estranho um relativo distanciamento do prima do trabalho do historiador, e elemento

H ist ór i a, me mór i a e pat r imônio


universo de interrogações propriamente central sobre o qual se engendram formas
historiográficas. No entanto, não apenas de narrá-lo como condição de o tornar

A rtístico N acional
entre nós, mas no panorama das discussões significativo para as coletividades humanas,
internacionais em torno do patrimônio, tem- pergunta-se: Como não vermos nesse trabalho
se observado uma aproximação entre diversos uma relação com os problemas que afetam
campos de atuação profissional, tornando o diretamente o seu ofício? E é o tempo da
tema do patrimônio um lugar privilegiado história aquele que marcará definitivamente

M an oe l Lu iz Salgado Gu im ar ães
para um diálogo entre historiadores, a experiência da modernidade, tomando

e
P atrimônio H istórico
arquitetos, antropólogos, historiadores da a medida das ações humanas, como a de
arte, para ficarmos com apenas alguns desses escandir a marcação da própria passagem
campos que têm contribuído, de forma do tempo. Com a Modernidade, o tempo
decisiva, para tornar complexas as discussões da história torna-se o tempo hegemônico, e
e abordagens acerca do patrimônio, da sua o nascimento da disciplina, no século XIX,
conservação e relação com as sociedades deve ser visto como parte desse trabalho de
contemporâneas. A semântica do termo já narrar o tempo a partir da história das ações

do
nos sugere uma relação com um tempo que humanas. No mesmo cenário de emergência

R evista
nos antecede, e com o qual estabelecemos da história em sua forma disciplinar, assiste-se
relações mediadas por intermédio de objetos ao nascimento das preocupações de natureza
que acreditamos pertencer a uma herança patrimonial, tomando logo sua forma
coletiva. Assim, esses objetos que acreditamos também disciplinar (Poulot, 1997/2006;
pertencer ao patrimônio de uma coletividade, Babelon & Chastel, 1994). Não se trata de
e, hoje, até mesmo da humanidade, mera coincidência temporal, mas de solos
estabelecem nexos de pertencimento, de emergência similares, que tornaram as 99
metaforizam relações imaginadas, que preocupações disciplinares com a história
parecem adquirir materialidade a partir da e as relativas ao patrimônio parte de uma
presença desse conjunto de monumentos. cultura histórica que investe de maneira
O termo patrimônio supõe, portanto, sistemática em diferentes possibilidades
uma relação com o tempo e com o seu de narrar o tempo passado. Stephen Bann
transcurso. Em outras palavras, refletir sobre qualificou esse interesse pela história
o patrimônio significa, igualmente, pensar nas como parte de uma paixão das sociedades
formas sociais de culturalização do tempo, oitocentistas pelo passado, paixão decorrente
próprias a toda e qualquer sociedade humana. da experimentação de uma irremediável
É através desse trabalho de produzir sentido perda diante das profundas transformações
para a passagem do tempo que as sociedades que caracterizaram o século XIX. Neste
humanas constroem suas noções de passado, sentido, narrar o passado quer sob sua forma
presente e futuro, como formas históricas e acadêmica e disciplinar, quer sob o signo da
sociais de dar sentido para o transcurso do proteção do patrimônio seriam formas de
tempo. Uma vez que o tempo é matéria- realizar o luto: por uma perda irreparável
do passado, definitivamente separado do e nossa compreensão acerca do patrimônio,
H ist ór i a, me mór i a e pat r imônio

presente, os espaços de experiência não qualificando as necessárias e importantes


guardando mais necessariamente uma relação políticas públicas de produção patrimonial. Da
A rtístico N acional

estreita com os horizontes de expectativa, mesma forma que uma escrita sobre o passado
sobretudo, a partir de um evento ímpar demanda uma operação que transforme uma
como a Revolução Francesa.6 O interesse massa documental em fonte para a construção
amplo e variado pelo passado – da pintura desse passado, é também uma operação,
histórica, passando pelos museus de história à uma escolha e um ato valorativo aquele que
M an oe l Lu iz Salgado Gu im ar ães

afirmação acadêmica da disciplina –, próprio transforma objetos do passado em patrimônio


e
P atrimônio H istórico

da cultura histórica oitocentista, seria ainda cultural de uma coletividade humana. É


visto como um “lenitivo para a angústia igualmente a partir de traços do passado que
própria da modernidade” (Ballart, 2002:165). o patrimônio pode empreender sua tentativa
Uma angústia derivada da insegurança de reconstrução de uma cadeia temporal e
decorrente das profundas transformações da hereditária, vinculando as gerações presentes
modernidade, que tornavam o passado não àquelas que as precederam, estabelecendo,
mais fonte da tradição e dos modelos a serem por esse meio, importantes laços sociais
do

copiados no presente; mas que demandava necessários à vida das coletividades humanas.
R evista

novos significados para as experiências E aqui as relações entre patrimônio e memória


passadas, articulando-as de maneira distinta são estreitas. A simples sobrevivência ao
com o presente dos homens em vida. Esse tempo não assegura por si só a condição de
interesse pelo passado como um novo transformar em patrimônio histórico um
pharmacon para os homens do presente no objeto, um vestígio material ou um acervo
século XIX, às voltas com um mundo que arquitetônico. E nem mesmo todo o conjunto
100 parecia de ponta-cabeça. de restos que sobreviveram à passagem do
O argumento que procuro defender é o tempo vieram a se constituir em patrimônio
de que uma reflexão em torno do patrimônio, histórico de uma coletividade. O patrimônio
definitivamente parte das agendas políticas é, portanto, resultado de uma produção
contemporâneas, deve aproximar-se de uma marcada historicamente. É ao fim de um
investigação acerca da escrita da história, trabalho de transformar objetos, retirando-
na medida em que podemos caracterizar o lhes seu sentido original, que acedemos
investimento patrimonial como uma escrita à possibilidade de transformar algo em
peculiar empenhada em narrar o tempo patrimônio. Adjetivar um conjunto de traços
passado, segundo procedimentos também do passado como patrimônio histórico é mais
particulares. Perceber as articulações do que lhes dar uma qualidade, é produzi-los
possíveis com a escrita da história pode, como algo distinto daquilo para o qual um dia
segundo meu juízo, enriquecer nosso debate foram produzidos e criados. Da mesma forma
que um conjunto de documentos só poderá se
6. A respeito dos conceitos de espaço de experiência e
horizonte de expectativa e da tensão e do esgarçamento dessa
transformar em fonte histórica pelo trabalho
relação na modernidade consultar Reinhart Koselleck (2006). do historiador, igualmente os objetos que
aprendemos a ver como patrimônio histórico de língua alemã esta cidade desempenhava

H ist ór i a, me mór i a e pat r imônio


só ganharam essa qualidade a partir de uma papel referencial, na esteira de um caminho
operação envolvendo diferentes esferas de aberto por Winckelmann, mas também

A rtístico N acional
produção de saberes e poderes. entre os franceses o Grand Tour, a viagem à
cidade símbolo da Antiguidade ocupava um
papel relevante.9 Roma parecia reunir um
3 . O p a s s a d o c o m o conjunto de vestígios do passado capazes de
história. História torná-la uma cidade singular e especial para

M an oe l Lu iz Salgado Gu im ar ães
e patrimônio na os interessados pela história. Na verdade,

e
P atrimônio H istórico
cultura histórica o interesse renovado pela cidade de Roma
oitocentista a partir da cultura das Luzes inscreve-se
numa tradição da cultura humanista, que
[Rome] Ce n’est pas simplesment un desde o Renascimento sublinhava o papel
assemblage d’habitations, c’est l’histoire du monde, central da cidade para a história dos homens.
figurée par divers emblèmes, et représentée sous Isso por duas razões, segundo a análise de
diverses formes.7 Alain Schnapp; em primeiro lugar, pelo

do
papel privilegiado da cidade quanto à

R evista
O significado de Roma para a cultura existência de manuscritos gregos e latinos;
letrada oitocentista está ligado ao papel e em seguida pela possibilidade evidente
central que a Antiguidade assume como de descobrir na paisagem mesma da cidade
referência de autoridade. Desde a segunda a presença material da Antiguidade.10
metade do século XVIII, as viagens à Essa materialidade parecia conferir novas
Itália desempenharam papel relevante possibilidades de uma escrita da história,
para a formação [Bildung] de alguém que transformando tais vestígios em documento 101
pretendesse reconhecimento no mundo das para o estudo de uma época. Assim, escrever
letras. Goethe em sua viagem à Itália entre a história e patrimonializar os vestígios
os anos de 1786-1788 assim se expressou do passado inscrevem-se num mesmo
em seu diário no dia 1º de novembro de movimento de valorização do passado a
1786: “Sim, cheguei afinal a esta capital
do mundo!”8 Não apenas entre os letrados 9. “Les français entretiennent avec la ville de Rome des
relations particulières, parfois contradictoires, souvent
passionnées.. Fils de l’église ou libéraux anti-cléricaux,
les Français viennent à Rome à la recherche d’une histoire
7. [Roma]. “Não se trata apenas de um amontoado de disparue, d’une culture encore proche, d’une spiritualité
habitações, é a história do mundo figurada por meio de toujours vive.” [“Os franceses mantêm com a cidade de Roma
diversos emblemas e representada sob diferentes formas” relações peculiares, às vezes contraditórias, frequentemente
(Madame de Staël, 1985: 136). apaixonadas... Filhos da igreja ou liberais anticlericais, os
8. Goethe (1999:148). No mesmo diário, anotava Goethe no franceses vêm a Roma em busca de uma história desaparecida,
dia 12 de outubro de 1786 na cidade de Veneza: “A arquitetura de uma cultura ainda próxima, de uma espiritualidade sempre
ergue-se da tumba feito um espírito do passado, incita-me a viva”] (Foro, em Anabases,Traditions et Réception de l’Antiquité,
estudar seus ensinamentos como os de uma língua morta: não 2007:103. Todo o número 5 da revista é dedicado ao exame da
para aplicá-los ou para deles desfrutar ativamente, mas para relação entre os franceses e Roma.
reverenciar em silêncio a nobre existência de uma época para 10. Ao tratar do nascimento dos antiquários na cidade de Roma,
sempre passada” (op. cit.: 115). Schnapp (1993) a denomina “capital da História”.
partir da cultura das Luzes setecentistas e
H ist ór i a, me mór i a e pat r imônio
ou nos direitos da aristocracia, mas numa
posteriormente ressignificado na cultura constituição escrita que deve indicar as bases
romântica oitocentista. Desse ponto de vista desse poder. O passado será preocupação por
A rtístico N acional

compreende-se o papel singular de Roma, excelência deste novo regime, voltado para
uma vez que reunia não apenas as fontes fundar em tempos remotos a legitimidade de
manuscritas como indícios eloquentes do uma criação recente: a Nação francesa saída
passado, e também um conjunto de restos da Revolução de 1789. O rei é agora o rei dos
materiais agora monumentalizáveis como franceses, tornando-se imprescindível que
M an oe l Lu iz Salgado Gu im ar ães

traço e prova da existência do passado. São estes mesmos franceses tenham e conheçam
e
P atrimônio H istórico

elementos indispensáveis para um novo a sua história, ocupação acadêmica a ser


projeto de conferir autoridade ao passado administrada pelo Estado, mas também tarefa
diante das demandas do presente. Tanto uma política inadiável com relação aos usos do
escrita da história acadêmica, submetida passado. Ao lado da criação de instituições
às regras de um projeto de conhecimento ocupadas em organizar o conhecimento
científico, quanto a formulação de sobre o passado, o historiador ministro,
políticas públicas visando à preservação do Guizot, que assume a pasta da Instrução
do

patrimônio inscrevem-se nesse projeto e na Pública, faz a reforma do sistema escolar


R evista

definição de uma nova forma de autoridade proposta no mesmo ano de 1833, em que
do passado para o presente das sociedades são criadas as duas instituições na capital
humanas oitocentistas. francesa, voltadas para esta finalidade. A
Particularmente representativo nos reforma previa um maior controle laico
parece o caso francês para ilustrar essa sobre a educação, ainda que sem desprezar
profunda relação entre as preocupações com o trabalho e a presença da Igreja, não
102 a escrita da história em sua feição disciplinar obstante sua formação religiosa protestante.
e as políticas do patrimônio como forma Esse esforço em relação ao cuidado com o
de preservação dos restos ameaçados do passado se expressa ainda pela preocupação
passado. Este se torna objeto por excelência relativa a outras instituições de memória,
de uma sedução preservacionista pelas que são reorganizadas a partir dos novos
diferentes narrativas que se afirmam ao interesses com relação ao passado (Theis apud
longo do Oitocentos. Sobretudo a partir da Nora, 1986). O debate envolvendo saberes
revolução de 1830 na França, a história ocupa considerados indispensáveis à prática do
papel central na agenda política do estado ofício de historiador, como a diplomática, dá
monárquico. Nas palavras de François Furet, bem a medida de como antigas competências
Luís Felipe da dinastia de Orléans, que chega relativas aos manuscritos do passado assumem
ao poder com o movimento de julho de 1830, outros significados a partir das novas
é o primeiro monarca “de uma dinastia sem exigências da escrita de uma história nacional.
passado” (Furet, 1988), uma vez que busca Assim, o mesmo ministro Guizot incentiva
fundar a legitimidade de seu poder não na a publicação da obra de Natalis de Wailly
existência atemporal de uma casa dinástica intitulada Elementos de paleografia, como forma
de difundir conhecimentos considerados segundo o projeto inicial, a Sociedade teria

H ist ór i a, me mór i a e pat r imônio


indispensáveis para a leitura de manuscritos como finalidade primeira a publicação dos
antigos inéditos sobre a história da França, Documentos originais da história da França. O

A rtístico N acional
sobretudo, relativos à Idade Média (Wailly, documento, que registra o nascimento dessa
1838). Do ponto de vista político, a revolução associação voltada para a edição e publicação
de 1830 significou a possibilidade de de fontes para a história nacional francesa,
rearticular a geração de historiadores dos anos fazia questão de registrar a inovação deste
20 a partir de um conjunto de instituições trabalho de coleta, organização, crítica e

M an oe l Lu iz Salgado Gu im ar ães
voltadas ao trabalho com o passado. Bem- publicidade para as fontes documentais.

e
P atrimônio H istórico
sucedida, tal estratégia foi capitaneada por Diferentemente do trabalho dos eruditos e
Guizot, que reuniu em torno si historiadores antiquários, cuja importância é reconhecida
renomados como Michelet, Mignet, Thierry. ao longo de dois séculos de pesquisa, o
Igualmente, é com o movimento de 1830 que trabalho da Sociedade – organizada de
se criou o cargo de inspetor dos Monumentos forma mais sistemática – se voltaria para um
Históricos, ocupado inicialmente por público maior. A Sociedade estaria, assim,
Ludovic Vitet e, em seguida, de 1834 a 1860, mais apta para o trabalho daqueles que se

do
por Prosper Mérimée. Uma geração de dispunham ao exercício da crítica histórica.

R evista
especialistas sobre o passado reúne-se a partir À erudição própria dos beneditinos de
do Ministério da Instrução Pública, que teve, Saint Maur, contrapunha-se uma atividade
não casualmente, suas atribuições bastante de profissionais da história, cujo trabalho
alargadas sob a direção de François Guizot: deveria necessariamente visar a um público
para além dos estabelecimentos escolares e que formulava demandas novas e diferentes
da Universidade, passaram à responsabilidade à prática da história, de acordo com um
da pasta da Instrução Pública o Collège de mundo política e socialmente distinto, cujo 103
France, o Museu, a Biblioteca Real, a Escola divisor de águas era a experiência de 1789.
de Chartres (importante na formação de As antigas coleções, objeto da prática do
especialistas para o trabalho com os arquivos) antiquarianismo e vindas à luz a partir de
entre outros (Theis, 1986). critérios próprios da cultura desses eruditos,
Como parte desse movimento, pelo qual deveriam agora ser reorganizadas segundo um
a história se transforma em poderosa arma claro critério, definido a partir dos princípios
política, Guizot, no cargo de ministro da formulados por uma geração voltada para
Instrução Pública, e àquela altura historiador a construção política e simbólica da nação
consagrado por seus trabalhos, encabeçava francesa. O ponto de referência continuava
o Comitê de membros fundadores de sendo a inovação revolucionária, que deveria,
uma sociedade cultural voltada para as agora, integrar o passado pré-1789 a essa
preocupações com a história: a Société de história, num processo em que a Revolução
l’Histoire de France. Do grupo fundador, pudesse se transformar definitivamente em
além de Guizot, outros historiadores história e não mais em objeto de disputas e
participaram como Barante e Thiers e projetos políticos contemporâneos.
Ao se distanciarem dessa tradição, é uma porção do patrimônio moral que cada
H ist ór i a, me mór i a e pat r imônio

apontando os seus limites, mas também geração que desaparece lega àquela que a substitui;
formulando uma maneira própria de nenhuma deve transmiti-la da mesma maneira que
A rtístico N acional

incorporá-la pela via das “ciências auxiliares recebeu, mas todas têm por dever acrescentar algo a
da história”, os historiadores da geração esse patrimônio em termos de certeza e em clareza...
romântica pretendem para o exercício do De onde viemos, para onde vamos? Essas duas
ofício um novo estatuto, novas regras e grandes interrogações: o passado e o futuro político
procedimentos, cujo vetor indica o sentido preocupam-nos agora.11
M an oe l Lu iz Salgado Gu im ar ães

dessa atividade para as novas coletividades


e
P atrimônio H istórico

nacionais em formação. Parece evidente a O sentido político conferido à história


clara presença do Estado na formulação, por essa geração de historiadores-políticos é
na organização e na administração da mais do que evidente; para além do passado,
história, segundo as novas exigências. No o que estava em jogo era a produção de um
primeiro Boletim da Sociedade é publicado sentido para o futuro dessa comunidade
o projeto de Guizot, apresentado ao rei, nacional. Uma tentativa de ler nesse passado
para o financiamento da pesquisa de fontes certo destino possível, garantindo a coesão
do

históricas significativas para a escrita da social para o presente. Olhar o passado com
R evista

história da França. Esse mesmo volume ainda os olhos da nação foi a grande tarefa a que se
estampa em seu título Revue de l’Histoire et lançaram os especialistas do passado reunidos
des Antiquités Nationales, recuperando numa em torno do Estado.
nova formulação o termo antiguidades. O documento que Guizot envia ao rei
Agora, merecem esse qualificativo não Luís Felipe como justificativa do orçamento
apenas os restos materiais das culturas para o exercício de 1835 do ministério
104 clássicas da Antiguidade, mas também as sob sua responsabilidade é esclarecedor
marcas do passado nacional, legitimadas quanto ao sentido que confere às tarefas de
pelo termo “antiguidade” e, por isso mesmo, “administração” do passado. Chamando a
igualmente merecedoras da atenção e atenção para o fato de que os manuscritos
cuidado da pesquisa histórica. Reelaboração e monumentos originais e desconhecidos
da tradição, agora segundo novas demandas. pelo público superam em muito o que já é
Esse novo sentido conferido ao trabalho conhecido, destaca que somente o Estado,
com a história pode ser bem ilustrado pelas com seu papel coordenador, poderia levar a
páginas de Augustin Thierry, um dos muitos cabo uma tarefa daquela envergadura. Sem
historiadores da geração da primeira metade
do século XIX, e também colaborador de
11. “L’histoire nationale est, pour tous les hommes du même pays, une
Guizot. De maneira clara, ele formula sua sorte de propriété commune; c’est une portion du patrimoine moral
compreensão dessa tarefa afirmando: que chaque génération qui disparaît lègue à celle qui la remplace;
aucune ne doit la transmettre telle qu’elle l’a reçu, mais toutes ont
pour devoir d’y ajouter quelque chose en certitude et em clarté”…
“D’où venons-nous, où allons-nous? Ces deux grandes questions,
A história nacional é para todos os homens de le passé et l’avenir politiques, nous préoccupent maintenant…”
um mesmo país uma espécie de propriedade comum; (Thierry, 1842:29-30).
desprezar os esforços anteriores relacionados materiais a ser objeto dessa mesma política

H ist ór i a, me mór i a e pat r imônio


ao trabalho de conhecimento desse passado, de administração do passado para as gerações
aponta o fato de as finalidades políticas dessa do presente. Ainda que os procedimentos

A rtístico N acional
tarefa requererem a presença ativa do Estado sejam distintos, requerendo competências
para seu gerenciamento (Guizot, 1860). específicas – a coleta e pesquisa das fontes
Interessante observar, no documento, a documentais nos acervos arquivísticos ou
distinção que procura estabelecer entre os nas bibliotecas, e a viagem pelo território
acervos necessários à história contemporânea para o inspetor de monumentos –, o cuidado

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e sob a guarda da Biblioteca Real e aqueles com o passado é a tônica e a constante destes

e
P atrimônio H istórico
integrados pelos arquivos do Reino, esforços do Estado.
importantes para o esclarecimento do Num segundo documento dirigido
passado. Para Guizot, os documentos para ao rei, François Guizot, já com o seu
os quais demanda uma política do estado pedido para o orçamento de 1835 aceito
francês são “reflexo vivo de todos os séculos, não sem grande debate, passa a expor as
repertório dos julgamentos de cada época medidas tomadas, considerando os fins
sobre ela mesma” (Guizot, 1860:397). O propostos no documento anterior sobre

do
ministro-historiador define uma cronologia a preservação dos vestígios do passado

R evista
segundo a qual os documentos anteriores francês. Dentre elas, a criação de um
ao reinado de Luis XV pertencem já à Comitê de especialistas reconhecidos
história, podendo, por isso, ganhar a luz sem “pelo mérito de seus trabalhos históricos”
maiores inconvenientes, uma vez que não (Guizot, 1860:400), com a finalidade de
pertencem ao mundo da política. Ou seja, acompanhar o trabalho desenvolvido em
não são mais objeto de disputas presentes, cada região do país a partir das instruções
foram pacificados pelo trabalho da narrativa formuladas e supervisionadas pelo ministro 105
histórica. Guizot conclui afirmando que “a da Instrução Pública. Em alguns casos, o
publicação que tenho a honra de apresentar ministério designava diretamente alguém
a Vossa Majestade será um monumento encarregado do trabalho de diagnosticar, in
digno dela e da França”.12 Sublinhe-se o loco, a situação das bibliotecas e arquivos,
uso do termo monumento para referir-se como foi o caso de Michelet, enviado
ao seu trabalho, que sugere claramente o para o sudoeste da França. Nas províncias
que está implícito: lembrança e advertência interessa-lhe especialmente a situação das
necessárias à comunidade nacional em bibliotecas e de seu acervo, assim como
processo de constituição. O termo pode a atuação das academias de letrados,
igualmente ser aplicado para designar um que a partir do século XVIII tornam-se
conjunto documental a ser preservado, frequentes no cenário intelectual europeu
reunido e publicado como também aos restos em geral. Lugar por excelência da tradição
antiquária e colecionista, essas academias
12. “... la publication que j’ai l’honneur de proposer àVotre Majesté
será un monument tout à fait digne d’elle et de la France” (Guizot,
serão contatadas com a finalidade de se
1860:398). adequarem às novas demandas que estão
sendo formuladas pelo estado nacional
H ist ór i a, me mór i a e pat r imônio
o ministro, a arquitetura seria ao mesmo
francês. Juntamente com o ministro, o tempo o começo e o resumo de todas
Comitê elabora uma lista com o nome de as artes e, dessa forma, uma entrada
A rtístico N acional

87 possíveis colaboradores nas províncias e privilegiada para o estudo do passado das


o trabalho a ser realizado por eles. Como sociedades humanas. História e história da
exemplo, a indicação do que de significativo arte, entendida como história da arquitetura,
para a política de preservação existiria em conectam-se nesse projeto em que o passado
sua região, que seria submetida ao olhar deve ser investigado em todos os seus
M an oe l Lu iz Salgado Gu im ar ães

central em Paris, a quem caberia a decisão aspectos e por meio do conjunto dos indícios
e
P atrimônio H istórico

final. O primeiro balanço da situação nas que dele restou. Contudo, o ministro
diferentes regiões da França não se mostra está atento ao fato de o trabalho com os
satisfatório, uma vez que parece “reinar a monumentos ser inovador em sua proposta.
desordem e a confusão” (Guizot, 1860:401) De natureza particular, ainda que relativo ao
decorrentes do período revolucionário, na estudo e conhecimento do passado francês,
avaliação do ministro da Instrução Pública. possui especificidade quanto aos trabalhos
O documento é, ao mesmo tempo, um históricos relacionados com os acervos
do

breve inventário da situação dos diversos escritos. O que propõe é então a realização
R evista

arquivos e seus acervos espalhados pelo de um inventário completo e de um catálogo


território da França, com sua localização comentado dos monumentos das diferentes
e indicação das fontes neles preservadas. épocas que existiram ou ainda existissem
O olhar educado pelas novas exigências da em território francês. Um projeto de
escrita do passado esquadrinha o material, inventariar como forma de produção de
indicando, no mesmo movimento, seus um novo tipo de poder, fundamentado num
106 possíveis usos para uma escrita da história saber e em competências específicas, que
nacional, necessidade imperativa para ao conhecer, descrever, organizar e agrupar
o novo regime. Guizot indica em seu produz igualmente uma coerência que
texto alguns desses documentos, que parece “desvelada” como natural quando,
são monumentalizados por meio desse na verdade, é produzida como componente
procedimento e que, uma vez publicados, central das formas modernas de poder.
terão maior publicidade, podendo ser usados O poder que não se exterioriza por meio
em pesquisa histórica. do uso da força, mas pelo domínio de
Ao final, o documento dedica atenção saberes específicos; o poder de uma nova
às medidas que estão sendo tomadas com comunidade política nacional em busca
relação aos monumentos propriamente de legitimação e fundamentação para o
arquitetônicos, seu estudo e sua preservação, exercício desse poder (Foucault, 2005).
já que, segundo Guizot, este estudo é Mostra-se inequívoco o sentido político
capaz de revelar “mais vivamente o estado para os usos do passado envolvidos por
social e o verdadeiro espírito das gerações esse projeto de conhecimento da “história”
precedentes” (Guizot, 1860:410). Para de uma Nação quando lemos as palavras
finais do ministro Guizot escritas ao rei disciplina em afirmação, aliada ao interesse

H ist ór i a, me mór i a e pat r imônio


Luis Felipe. “Esta empresa não deve ser um pelos restos materiais do passado, está
esforço acidental e passageiro; será uma também presente no cenário da cultura

A rtístico N acional
longa homenagem, e por assim dizer, uma letrada portuguesa. João Pedro Ribeiro,
instituição duradoura em honra às origens, professor com doutorado em Cânones
às lembranças e à glória da França” (Guizot, pela Universidade de Coimbra, representa
1860:410). para Portugal este tipo de interesse. Sócio
da Academia Real de Ciências de Lisboa,

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a serviço da qual viajara pelo interior do

e
P atrimônio H istórico
reino para fazer minucioso levantamento
dos acervos documentais existentes em
Portugal, foi o primeiro ocupante da cátedra
de Diplomática. Sua nomeação para ocupar
a cadeira coroava uma trajetória iniciada em
1784, quando fora designado para inventariar
os títulos pertencentes ao patrimônio da

do
Universidade de Coimbra, seguindo-se em

R evista
1789 sua indicação para auxiliar o Dr. João
Antonio Salter de Mendonça no exame
de alguns cartórios. Em 1802, o visconde
de Balsemão o nomeia responsável pela
realização de inventário circunstanciado
de todos os documentos do real Arquivo
da Torre do Tombo (Figuras 5, 6, 7 e 8). 107
Figura 5. Detalhe de torre do Castelo de São Jorge, Lisboa. Local que
abrigou a Torre do Tombo até 1755. Foto: Anna Finger, 2009
Torna-se referência para os assuntos ligados
à documentação do Estado português, o que
lhe valeu a nomeação, em 1807, de cronista
Por reunir um conjunto significativo do Ultramar, com ordenado de 200$000 réis.
de historiadores de ofício em torno de O trabalho que realiza guarda semelhanças
uma política de Estado voltada para a com o projeto formulado por Guizot no
administração do passado, o caso francês âmbito do Estado francês. No caso de João
é, em certa medida, exemplar. Mas não é Pedro Ribeiro, é a serviço de uma academia
único. Ao longo do século XIX, o interesse típica das Luzes, reunindo diferentes áreas de
pelo passado se torna parte das preocupações conhecimento, que se fará um mapeamento
dos estados nacionais europeus, guardando dos acervos portugueses dispersos pelo
as especificidades próprias que a discussão reino, muitos deles em péssimas condições
nacional tomou em cada país. A preocupação de legibilidade, segundo correspondência
com a escrita da história fundada em de João Pedro Ribeiro ao abade Correia da
novas bases, segundo os protocolos da Serra (Baião, 1934). Essa correspondência
com o abade, um dos fundadores, com de Diplomática na Torre do Tombo, quanto
H ist ór i a, me mór i a e pat r imônio

o duque de Lafões, da Academia Real de para Varnhagen, que tivera sua formação
Ciências de Lisboa, permite acompanhar intelectual nos meios letrados em Portugal.
A rtístico N acional

as preocupações de alguém que reconhece Na década de 1880, A. C. Borges


a necessidade de a escrita da história ser de Figueiredo e M. Alexandre de Sousa
fundada em novos procedimentos, em grande iniciam a publicação da Revista Archeologica
medida herdados da tradição erudita, mas e Histórica, uma publicação mensal
a serem empreendidos agora pela cultura voltada para o tratamento de temas que
M an oe l Lu iz Salgado Gu im ar ães

letrada das Luzes portuguesas. É importante, poderíamos caracterizar como transversais,


e
P atrimônio H istórico

contudo, salientar que João Pedro Ribeiro por articularem a história, a arqueologia
não se considerava um historiador – traço e o patrimônio histórico. Nas palavras dos
distintivo em relação a Guizot, que era editores ao apresentarem o periódico, a
reconhecidamente um praticante do ofício – e importância que conferem a esses estudos
tampouco teve a pretensão de classificar sua reafirma o lugar do passado para essa cultura
vasta produção escrita como uma obra de oitocentista. “Importa a arte, as recordações,
história. Mas ela viria a se tornar referência a memória de nossos pais, a conservação de
do

central para a geração dos primeiros coisas cuja perda é irremediável, a glória
R evista

denominados historiadores de além e aquém- nacional, o passado e o futuro, as obras mais


mar. Tanto para Herculano, em Portugal, que espantosas do entendimento humano, a
frequentara entre os anos de 1830-31 a Aula história e a religião”. (1887:1)

108

Figura 6. Castelo de São Jorge, Lisboa. Foto: Anna Finger, 2009


contemporâneas lidarem com a experiência

H ist ór i a, me mór i a e pat r imônio


4. Conclusão
do transcurso do tempo e seu resultado
É, portanto, no terreno da cultura para o conjunto das realizações humanas.

A rtístico N acional
histórica oitocentista que a emergência das Significa também operar a partir de um “duplo
narrativas modernas sobre o passado – dentre incontornável: a ausência e o sentimento que
elas a que se ocupa em patrimonializar o ela provoca”, significáveis apenas por meio de
passado – deve ser compreendida. Ainda traços, de restos e de indícios que nos chegam.
que guardando suas especificidades, O passado só pode ser interrogado por

M an oe l Lu iz Salgado Gu im ar ães
próprias de uma gramática particular, essas intermédio desses sinais e, por esse caminho,

e
P atrimônio H istórico
narrativas, ao representarem o passado ganhar sentido para as sociedades num
sob diferentes formas, tornam esse tempo determinado presente. Traços que poderão
pretérito condição para inteligibilidade do assim ajudar na ressignificação das construções
tempo presente. Seja ao representá-lo pela materiais das sociedades passadas fazendo com
via da escrita acadêmica, seja pela via da que seus objetos possam ser vistos como algo
patrimonialização de objetos materiais. diferente daquilo que eram quando foram
Refletir sobre o patrimônio é, a partir do criados. Trata-se, por conseguinte de uma nova

do
século XIX, parte do esforço das sociedades forma de produção de visibilidade, capaz de

R evista
em narrar o passado. E, segundo entendo, transformar tais objetos do passado em algo
obriga-nos a uma reflexão sobre uma forma diferente daquilo que um dia foram (Hartog,
específica de as sociedades modernas e 2003). Os objetos dispostos para o olhar

109

Figura 7. Mosteiro de São Bento, atual Palácio de São Bento e Assembleia da República Portuguesa, Lisboa. Local que abrigou a documentação
que estava na Torre do Tombo depois do terremoto de 1755. Acervo: Wikimedia Foundation/Wikicommons, 2005. (http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Lisboa_-_
Assembleia_da_Rep%C3%BAblica.jpg)
do visitante do Museu da DDR, com o qual natureza de um dado objeto do patrimônio.
H ist ór i a, me mór i a e pat r imônio

começamos este artigo, são assim algo distinto Com isso, pretendo sublinhar o caráter de
de sua materialidade, porque evocam, por operação que torna possível um determinado
A rtístico N acional

meio da operação museográfica, um tempo conjunto de objetos do passado serem


passado, dão a ver um invisível para o visitante. alçados à condição de patrimônio histórico.
Opera-se claramente por esse caminho uma O que os faz aceder a essa categoria não é,
transformação, que nos obriga a interrogar tal portanto, a natureza do objeto em si, mas a
processo de produção de uma nova realidade operação que permite que sejam vistos como
M an oe l Lu iz Salgado Gu im ar ães

para os referidos objetos: símbolos de algo integrantes de um patrimônio histórico e,


e
P atrimônio H istórico

para além de sua materialidade dada ao olhar. assim, ganhem uma nova visibilidade. Sabemos
que nem todos os restos e traços de uma
determinada época adquirem o estatuto de
patrimônio histórico, mas somente aqueles
selecionados e produzidos como tal poderão
se integrar a um projeto de recordação
próprio da política de patrimonialização.
do

Tomando as sugestões de Françoise Choay em


R evista

seu clássico trabalho intitulado A alegoria do


patrimônio, a monumentalização do passado
por meio de um trabalho de patrimonialização
de seus restos é uma forma de elaboração
coletiva da perda desse passado. E, sobretudo
uma maneira de conjurar a experiência da
110 inexorabilidade do tempo e de seus efeitos
destruidores sobre o homem.
O retorno do drama faustiano que
marcou a experiência da modernidade parece
novamente presente, apontando para os
paradoxos do ser moderno: a necessidade de
preencher com certezas – e com lembranças
Figura 8. Fachada principal da Torre do Tombo (Arquivos Nacionais
– aquilo que é incerto por sua própria
de Portugal), Cidade Universitária de Lisboa. Sede do arquivo desde
1990. Acervo: Wikimedia Foundation/Wikicommons, 2006. (http://pt.wikipedia.org/
condição – o tempo pretérito.
wiki/Ficheiro:Torredotombo.jpg)

Essa nova realidade seria aquilo que daria


propriamente a condição de histórico a um
conjunto monumental e que, nas palavras Referências
da Unesco, se traduz por objetos dotados
Babelon, J.-P. & Chastel, A. La notion de
de “valor excepcional”. Vale ressaltar que patrimoine. Paris: Édition Liana Levi, 1994.
me refiro à condição de histórico e não à Baião, Antonio. A infância da academia (1788-1794).
H ist ór i a, me mór i a e pat r imônio
Visita aos arquivos do Reino. Correspondência a tal Staël, Madame de. Corinne ou l’Italie. Paris:
respeito de João Pedro Ribeiro, Santa Rosa de Viterbo, Gallimard, 1985.
etc. Lisboa: Academia de Ciências, 1934. Theis, Laurent. “Guizot et les institutions de

A rtístico N acional
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R evista
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pour la recherche et la publication des documents
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A ndrea Daher
Ob j et o c ultu ral e be m pat rimonial

A rtístico N acional
representações e práticas

Uma forma historiográfica como a história de estar relacionada ao caráter altamente

e
P atrimônio H istórico
cultural – qualquer que seja a sua definição – institucionalizado da proposta de Roger
deve ser pensada a partir dos conceitos e dos Chartier (Corbin, 1992), exposta no volume
modelos historiográficos que mobiliza, de dos Annales voltado para o “tournant critique”
suas formas de circulação e de recepção, para da história, em 1989. Nela, uma “história
além de seus programas e dos diagnósticos social das representações, das sensibilidades
de pesquisas e de campos de “atuação”. Isso ou da cultura” torna-se “uma história cultural
porque os programas enunciados se inscrevem do social”, e o recorte por classes, por sua

do
de modos diferenciados nas pesquisas vez, cede lugar à dinâmica dos modos de

R evista
empíricas, sem deixar de corroborar o caráter “articulação, reflexividade, de apropriação e
normativo das empresas.1 de circulação” nos grupos sociais observados
Neste texto, são duas as escolhas nesse (Poirrier, 2004:21).
sentido: primeira, a de privilegiar como Com efeito, havia uns 20 anos que, em
forma historiográfica a história cultural algumas teorias, já se encontrava o esforço
francesa, a mais bem-sucedida das empresas em abandonar a ideia da preponderância
nesse domínio; segunda, a de ter por da produção e dos produtores em relação 113
perspectiva os objetos e conceitos eleitos, aos receptores ou consumidores dos
por um lado, em discursos e procedimentos bens culturais. Reagindo ao formalismo
dessa história cultural e, por outro, naquilo do New Criticism, a teoria da recepção
que Dominique Poulot chamou de “razão (Rezeptionstheorie) definira a produção
patrimonial”, não menos definidora de tantos do sentido como relação dialógica entre
outros discursos e práticas. as proposições das obras e as categorias
estéticas e interpretativas de seus públicos;
ou ainda, o New Historicism considerara
1. História cultural a relação entre as obras e os discursos ou Fragmento do desenho
da prancha da Praça XV
as práticas ordinárias matrizes da criação de Novembro, no Rio de
Janeiro, 1988. Obra de
A escolha da definição de história cultural estética e condição da sua inteligibilidade. Carlos Gustavo Nunes
Pereira (Guta)
através de sua vertente francesa não deixa No entanto, essas perspectivas tomaram os Acervo: Prefeitura da
Cidade do Rio de Janeiro/

textos como se existissem em si mesmos, Secretaria Extraordinária de


Desenvolvimento/Instituto
Municipal de Urbanismo Pereira

1. Este trabalho de longo fôlego, que não poderia ser feito


abstraindo-os das formas materiais em que Passos

aqui, foi realizado por Philippe Poirrier (2004). são dados a ler e universalizando a leitura, na
Ob je t o cult ural e b e m pat r i monial. . .
figura do destinatário solitário e silencioso de objetos culturais são práticas sociais em
identificada ao leitor do presente. que se inscrevem usos específicos que se
Não é aleatória, nesse sentido, a dão segundo partilhas anônimas e coletivas,
A rtístico N acional

centralidade da história do livro e das práticas relacionadas aos habitus dos diferentes grupos
de leitura na perspectiva de Chartier, cujo sociais (Poirrier, 2004:18).
campo conceitual foi investido por reflexões Assim, a afirmação, na história cultural
sócio-históricas de modo a tomar a leitura proposta por Chartier, de uma lógica das
como prática social, voltando a análise práticas em oposição ao idealismo semiótico
para a materialidade dos textos e para a se constrói numa clara interlocução com
A n dre a D ah er
e
P atrimônio H istórico

corporalidade social e cultural dos leitores. a reflexão de Michel de Certeau sobre as


A história do livro e das práticas de leitura apropriações e, mais precisamente, sobre a
proposta por Roger Chartier tornou-se “ciência contemporânea do ordinário” que
o carro-chefe de uma história cultural, De Certeau atribui a Wittgenstein. A matriz
na França, a partir de toda uma série de wittgensteiniana pode ser lida, ainda, na
interlocuções2 que permitiram, como já se noção de “senso prático” em oposição ao
sabe bem, pensar o consumo cultural não em “ponto de vista escolástico”, tributária de
do

termos da distribuição desigual de objetos, Austin, na teoria da ação de Pierre Bourdieu.


R evista

mas em termos de seus usos diferenciais. Uma história das apropriações


“A significação de uma obra – afirma como práticas só é possível na mediação
Chartier – nunca é dada de uma vez por dos discursos que hoje as dão a ler,
todas, na suposta estabilidade do texto” considerando-se que os registros do passado
(Chartier, 1987:12), entendendo, assim, que não escapam à representação e não podem
toda e qualquer variação na forma material de ser apreendidos numa imediatez em relação
114 uma obra faz variar também sua destinação e ao que é pretérito.
seu estatuto, e com eles a própria construção Quanto à lógica das práticas, Bourdieu
do sentido. É a isso que visa esta história do sustenta que “uma lógica prática quer dizer
livro e das práticas de leitura: o processo de coerente, mas só até certo ponto (além do
construção do sentido por meio do qual os qual deixaria de ser prática), e orientada para
leitores se apropriam diversamente do objeto fins práticos, ou seja, para a realização de
de leitura, o que implica a caracterização dos desejos (de vida ou de morte)...” (Bourdieu,
dispositivos formais dos objetos impressos 2005). Estes princípios das práticas (ou
como um dos modos de acesso aos usos que esquemas práticos) são identificados,
deles foram feitos. ainda segundo Bourdieu, ao ponto de vista
Importa, sobretudo, a centralidade escolástico como “erro epistemocêntrico”
da noção de prática social para essa sócio- que supõe, justamente, a suspensão de toda
história: tanto a produção quanto a recepção necessidade prática, até mesmo por estar
distanciado do seu caráter de urgência.
2. Notadamente com as obras de Michel de Certeau, Pierre
Adotar “um ponto de vista teórico sobre
Bourdieu, de Michel Foucault, Norbert Elias, entre outras. o ponto de vista teórico” é, nesse sentido,
Ob je t o cult ural e b e m pat r i monial. . .
primordial para que não se descreva as esta obrigação, inquestionável em tempos de
práticas como aplicações de regras, mas como “atualidade viva do patrimônio” e cuja recusa
desdobramento inventivo e ajustado à situação significaria “vandalismo” em meio ao debate

A rtístico N acional
de articular estratégias. público (Poulot, 2006:157).
A noção de prática, diz Chartier, Longe de ser definido, portanto, como
“talvez seja a mais aguda para articular as uma coleção de obras canônicas, patrimônio,
percepções, as linguagens e as racionalidades nesta acepção contemporânea, remete à
próprias dos atores com as interdependências diversidade da cultura e das práticas sociais.
desconhecidas por eles e que, com efeito, O caráter popular do patrimônio hoje, em

A n dre a D ah er
e
P atrimônio H istórico
constroem e governam as suas estratégias” escala ocidental, por mais que constatável,
(Chartier, 1998:157-161). não pode responder às indagações sobre
as representações que veicula – sobretudo
nos discursos de preservação – se não for
2. Razão patrimonial compreendido segundo as diversas formas
de apreensão do passado, na longa duração,
É certo que se possa falar, hoje, inscritas numa “razão patrimonial”.

do
com Dominique Poulot, de “patrimônio” Segundo Dominique Poulot (2006):

R evista
como uma disciplina ou como um tipo de
administração voltada para a promoção de […] l’évidence du patrimoine se décline
tradições, memórias e lugares, e mobilizada dans les discours contemporains sous forme
tanto para a produção de saberes quanto d’une “raison” spécifique, mais elle s’inscrit à
para as comemorações cívicas e o comércio l’horizon d’attente de différentes inventions du
de produtos, como os turísticos. Em todas passé, et engage des pratiques d’admiration et
essas práticas se inscreve a necessidade de de mémoire, de militantisme et d’attachement. 115
preservação, inegavelmente ligada à busca da En reprenant à nouveaux frais les grands récits
autenticidade de uma herança coletiva. du savoir antiquaire et historien, les perspectives
Nesse sentido, ainda segundo Poulot, de l’émotion (l’émerveillement, la résonance)
patrimônio tornou-se hoje, no Ocidente, et de la volonté politique et sociale, il s’agit de
sinônimo de laço social pela mobilização do passer d’une généalogie de l’esthétique ou des
poder público através das instituições culturais disciplines savantes à l’intelligence des conventions
e de leis cada vez mais amplas que regulam a patrimoniales quant au régime matériel et à la
necessidade de conservação diante da realidade grandeur du passé.3
da destruição e da iconoclastia. Uma consciência
patrimonial sustenta, assim, a construção 3. […] a evidência do patrimônio encontra-se declinada em discursos
contemporâneos na forma de uma “razão” específica, mas se inscreve no
memorial – cara aos historiadores desde a horizonte de expectativa de diferentes invenções do passado, e engaja
empreitada teórica de Pierre Nora em torno práticas de admiração e de memória, de militantismo e de adesão.
Tomando a seu encargo as grandes narrativas do saber antiquário e
dos lugares de memória (nacionais) – como histórico, as perspectivas da emoção (o encantamento, a ressonância) e da
vontade política e social, trata-se de passar de uma genealogia da estética
obrigação em relação aos resíduos materiais do ou das disciplinas acadêmicas à inteligência das convenções patrimoniais
passado. Poulot aponta a naturalidade que marca relativas ao regime material e à grandeza do passado.
Ob je t o cult ural e b e m pat r i monial. . .
Nesse sentido, Poulot propõe uma o nosso presente, no qual, geralmente, a vida é
perspectiva histórica, apta a dar conta dos muito opaca (Chartier, 2000:216).
diferentes regimes de representação em
A rtístico N acional

que funciona (ou funcionou) a categoria As noções de prática de representação


“patrimônio”, evidenciando o seu caráter e de representação de práticas, tais como
tanto imaginário quanto institucional e, com formuladas por Chartier, permitem, nesse
ele, os seus sentidos no presente. sentido, duas sortes de desnaturalização: a da
presença dos resíduos do passado em materiais
conservados no presente; e a da naturalidade
A n dre a D ah er
e
P atrimônio H istórico

3 . H i s t ó r i a d a s de suas interpretações dominantes.


apropriações e Aplicar o questionário crítico e
discursos genealógico sugerido por Foucault aos
patrimoniais: a discursos equivale, nesse mesmo sentido,
relação com o à recusa de uma aproximação unicamente
presente interna dos textos. A mesma que transparece
na proposta da história cultural e, em
do

Em trabalhos de história cultural, particular, na história do livro e das práticas


R evista

é manifesta a recusa da história como de leitura. E que consiste numa crítica


legitimadora do presente. Philippe Poirrier dos paradigmas semiótico, estruturalista e
estima que esta perspectiva é tributária linguístico como condição para determinar as
do projeto de Lucien Febvre, ao definir as legibilidades do livro como objeto e da leitura
três recusas fundadoras da história: a da como prática social.
identificação exclusiva do documento ao A “operação de Chartier” – para falar
116 escrito; a da concepção positivista do fato como João Adolfo Hansen –, no interior
histórico; e a da história como “disciplina da operação historiográfica (De Certeau,
gratificante”, encarregada de legitimar o 1975:63-120), consistiria, portanto, numa
presente (Poirrier, 2004:24). negativa de toda e qualquer textualização, seja
Mais precisamente, a recusa da história ela textualização da subjetividade informada
cultural como legitimadora do presente pela língua ou pelo inconsciente, seja ainda
aparece, de forma conclusiva, em um como relação intersubjetiva de consciências
comentário feito por João Adolfo Hansen que abstrai seu meio material (Hansen,
a uma exposição de Roger Chartier sobre 1999:125).
Literatura e história, em que afirma que o É constatável a falta de preocupação
presente é “resistência”: genealógica da historiografia em geral
em relação aos textos do passado –
[...] talvez o morto, o texto do passado, que particularmente aqueles anteriores ao
podemos reconstruir e fazer falar metaforicamente paradigma iluminista –, cujos pressupostos,
segundo os critérios de Chartier, possa interessar universais e naturalizados, apoiam-se
como um diferencial crítico que nos permite criticar na crença presentista de classificações e
Ob je t o cult ural e b e m pat r i monial. . .
divisões sociais – tais como o alfabetismo ele o academismo ou o estrangeirismo,
e o analfabetismo – como excludentes a partir de 22, deu-se em nome de um
da apropriação de modelos e padrões da recomeço “em direção a uma literatura

A rtístico N acional
cultura letrada.4 Por sua vez, a preocupação genuinamente nacional”.
documental, embora não tenha estado ausente Sustentado em Mário de Andrade – aliás,
da historiografia, encontra-se geralmente artífice do Serviço de Patrimônio Histórico e
positivada na recusa de um procedimento Artístico Nacional, desde seus primórdios –,
arqueológico, tal como o estudo da Barros Baptista lembra que essa “liquidação
normatividade organizadora da recepção para o recomeço” não se deu por motivos

A n dre a D ah er
e
P atrimônio H istórico
dos discursos que definiria o campo de uma estritamente literários. Segundo o próprio
história cultural das práticas de representação Mário de Andrade:
(Hansen, 1999:170).
Na recente história da instituição Embora se integrassem nele figuras e grupos
patrimonial, dois aspectos de um preocupados de construir, o espírito modernista
“presentismo” predominante podem, que avassalou o Brasil, que deu o sentido
igualmente, ser levantados. O primeiro histórico da Inteligência nacional desse período,

do
diz respeito à teleologia da concepção foi destruidor. Mas esta destruição, não apenas

R evista
histórica de discursos patrimoniais. No caso continha todos os germes da atualidade, como
brasileiro, ele assumiu, particularmente, a era uma convulsão profundíssima da realidade
feição modernista. brasileira. O que caracteriza esta realidade
No sentido da afirmação desta mesma que o movimento modernista impôs é, a meu
feição, a história da literatura e a crítica ver, a fusão de três princípios fundamentais:
literária avançaram em passos muito mais o direito permanente à pesquisa estética; a
largos diante da história dos discursos e das atualização da inteligência artística brasileira; 117
instituições de preservação patrimonial. e a estabilização de uma consciência criadora
Em O livro agreste, Abel de Barros Baptista nacional. Nada disto representa exatamente
mostra que a teoria da literatura de Antônio uma inovação e de tudo encontramos exemplos
Cândido assumiu eficácia histórica no na história artística do país. A novidade
prolongamento do programa modernista, fundamental, imposta pelo movimento, foi
tornando-se um paradigma crítico dominante a conjugação dessas três normas num todo
ainda hoje, embora institucionalizado por orgânico de consciência coletiva (Baptista,
via universitária, contribuindo para “tornar 2005:44).
o Brasil problema central da atividade
intelectual brasileira” (Baptista, 2005:45). Como “estabilização de uma consciência
Barros Baptista mostra que a liquidação nacional”, na rejeição do modernismo
do “outro”, opositor do modernismo, fosse unicamente como movimento literário, o
“todo orgânico” de que fala Mário de Andrade
4. Em 1998, Hansen discute, em seu texto “Leituras coloniais”,
questões aplicáveis a uma história da leitura, no universo colonial
foi o motor da institucionalização tanto do
brasileiro. Em Abreu, 1999:169-182. patrimônio como da literatura, verdadeiros
Ob je t o cult ural e b e m pat r i monial. . .
construtores da nação brasileira e, ao mesmo o Brasil, desde a primeira fase do povoamento até
tempo, testemunhas dessa construção.5 que se irradiasse o ensino acadêmico no século XIX,
É dessa forma que Lucio Costa a obra dos pintores foi acessória dos arquitetos.
A rtístico N acional

propõe, no artigo “A arquitetura jesuítica […] O que sucedeu, ali, foi um surto
no Brasil”, uma cronologia classificatória original, perfeitamente caracterizado, como
para definir a arte barroca brasileira (Costa, Lucio Costa observou, “distinto das manifestações
1941), instaurando uma linha evolutiva da equivalentes, contemporâneas, nas demais regiões
“arquitetura tradicional”, baseada na crença do País ou da antiga metrópole”.Verifica-se,
no universalismo da arte.6 Nela, o Brasil é plenamente, a procedência do conceito do mesmo
A n dre a D ah er
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P atrimônio H istórico

posto na era moderna através de um “ajuste especialista, segundo o qual “um foco ideológico
dos relógios”7 do tempo colonial.8 comum atuou simultaneamente sobre as obras de
A concepção ainda associa, talha e de pintura, ambas concebidas segundo
definitivamente, arte e arquitetura, uma os mesmos princípios de composição”. Arquitetos,
vez que, para Costa, a evolução dos estilos é entalhadores e pintores tiveram a movê-los
mais observável na composição de talhas e uma idêntica intenção plástica, cujos efeitos se
retábulos, o que viria a institucionalizar-se traduziram em formas definidamente peculiares
do

como “arquitetura de interior”.9 Um artigo no interior das igrejas mineiras do período


R evista

póstumo de Rodrigo Melo Franco de Andrade, (Andrade, 1978:11 e 42).


publicado em 1978, sobre pintura colonial
mineira (Andrade, 1978), coroa essa associação, Do mesmo modo que a história literária
no ajuste dos relógios na “hora modernista”: da época colonial foi sendo redescrita, a
partir de 22, para “nela se delimitarem linhas
Não se pode, com rigor, considerar o de um abrasileiramento progressivo rumo à
118 desenvolvimento da pintura brasileira do período nacionalidade plena” (Baptista, 2005:31), o
colonial independentemente da evolução da “surto original” mineiro se dirige visivelmente
arquitetura no País. Em Minas Gerais, como em todo à mesma plenitude, na teleologia do
modernismo arquitetônico.
5. Parafraseio aqui Abel de Barros Baptista (2005). Em todo caso, esse presentismo
6. Para um trabalho crítico sobre essas concepções na Revista modernista continuará a se perpetuar nos
do Patrimônio, refiro-me a Esteves, Felipe “O Barroco impresso
na Revista do Iphan (1937-1978)”, comunicação apresentada discursos e nas práticas institucionais de
no Seminário de História da Historiografia: Historiografia
Brasileira e Modernidade, Universidade Federal do Ouro
preservação até que o trabalho crítico,
Preto, Mariana, 2008. de caráter histórico, possa tornar viável
7. Expressão de Márcia Chuva (1998).
8. Para Lucio Costa a periodização do “barroco brasileiro” a constituição de um patrimônio, não
comportaria as seguintes fases: classicismo barroco (fins do naturalmente nacional, mas como escolha
século XVI até primeira metade do XVII), romanicismo barroco
(segunda metade do XVII até princípios do XVIII), goticismo localizável e historicamente explicável das
barroco (primeira metade até meados do XVIII) e renascimento instituições autorizadas.10
barroco (segunda metade do XVIII até princípios do XIX).
9. A partir da Resolução do Conselho Consultivo da SPHAN,
de 13/08/85, referente ao Processo Administrativo nº 13/85/
SPHAN, os tombamentos de igrejas passaram a incluir também 10. Este argumento está em continuidade com o de Abel de
o seu acervo, classificado como “arquitetura de interior”. Barros Baptista para a literatura (2005:38).
Ob je t o cult ural e b e m pat r i monial. . .
Nesse sentido, evidencia-se um segundo sociocultural que torna verossímil, hoje, esta
aspecto do presentismo, tal como proposto concepção de futuro – e de presente –, no
por François Hartog, mais genérico e bojo da razão patrimonial.

A rtístico N acional
relacionado à “experiência contemporânea do
tempo”. Nesta, o engendramento do tempo
histórico estaria suspenso, levando a uma 4 . H i s t ó r i a c u l t u r a l
noção de presente “perpétuo, inalcançável e e discursos
quase imóvel” (Hartog, 2003:28). patrimoniais: valor
de uso e valor

A n dre a D ah er
e
P atrimônio H istórico
Aujourd’hui, dans cette évidence de la original
mémoire et de la centralité du patrimoine, tout
comme dans les polémiques autour de la mémoire A noção de apropriação,
et de l’histoire, faut-il reconnaître un “retour” potencialmente, pode fazer com que a
de la catégorie du passé, une nostalgie pour análise sócio-histórica se aplique com
le vieux modèle de l’ historia magistra, ou pertinência a práticas de preservação
plutôt, une prédominance, inédite jusqu`alors, e sobre objetos como monumentos

do
de la catégorie du présent? Le moment même ou bens patrimoniais, posto que nos

R evista
du présentisme. Mais le patrimoine est-il usos diferenciais desses objetos estão
obligatoirement “passéiste”? Non, dans la mesure inscritos valores históricos e artísticos,
où la démarche qui consiste à patrimonialiser partilhados no âmbito de um grupo (no
l’environnement amène à réintroduire le futur caso, privilegiadamente, o nacional). Mais
(Hartog, 2003:112).11 ainda, partindo de Michel de Certeau,
pode-se dizer que o sentido não é
Hartog não deixa de assinalar que a atribuição exclusiva do autor ou produtor, 119
memória é uma resposta a um sintoma do e que, dessa forma, o receptor também
presentismo: na sua mais nova extensão, que é contribui na construção de sentido do
a patrimonialização do meio ambiente, novas objeto recebido, incluindo assim os usos
interações têm se estabelecido entre presente “populares” – no sentido de minúsculos e
e futuro, configurando este último não uma cotidianos – em toda e qualquer produção
conquista, mas uma ameaça. Mas talvez simbólica. Com isso, pode ser eliminada
seja preciso, ainda, avançar no tempo para a ideia da produção – por exemplo,
conhecer melhor as condições do consenso arquitetônica – como definidora unívoca
do valor atribuído ao monumento, e serem
11. Hoje, com esta evidência da memória e da centralidade do pensadas as apropriações dos bens pelos
patrimônio, exatamente como nas polêmicas em torno da memória
e da história, deve-se reconhecer um "retorno" da categoria de seus “consumidores” como valor de uso,
passado, uma nostalgia do velho modelo da historia magistra, inclusive valor patrimonial.
ou melhor, uma predominância, inédita até então, da categoria
de presente? O momento exato do presentismo. Mas o patrimônio Nesse sentido, é possível, ainda, aplicar
é obrigatoriamente “passadista”? Não, na medida em que a
démarche que consiste em patrimonializar o meio ambiente leva a
aos bens tombáveis o questionamento de
reintroduzir o futuro. Donald Mckenzie para a “sociologia de textos”
Ob je t o cult ural e b e m pat r i monial. . .
– que resulta do estudo da materialidade (Londres, 2005:42). Distingue, de modo
dos livros – na seguinte paráfrase: uma pertinente, o bem cultural do bem
comunidade dá forma e sentido a suas patrimonial, mostrando que, no segundo
A rtístico N acional

experiências mais fundamentais a partir da caso, a intermediação do Estado “através


decifração dos materiais (arquitetônicos, de agentes autorizados e de práticas
pictóricos etc.) múltiplos que recebe, produz socialmente definidas e juridicamente
e de que se apropria.12 regulamentadas contribui para fixar
É certamente com essa intenção que sentidos e valores, priorizando determinada
Cecília Londres ressalta, citando Roger leitura”. Esses valores atribuídos podem
A n dre a D ah er
e
P atrimônio H istórico

Chartier, a importância de se considerar a ser de caráter histórico, artístico ou


recepção dos bens patrimoniais, atentando etnográfico, diferentemente do bem
para o fato de que “todo receptor é, cultural, que, segundo Londres, tem valor
na verdade, um produtor de sentido” utilitário e econômico, ou seja, “valor de
do
R evista

120

Praça XV de Novembro, antigo largo do Carmo, Rio de Janeiro. Ao fundo, observa-se à esquerda a antiga Catedral e, à direita, a Igreja da Ordem
Terceira do Carmo. O Arco do Teles e o Chafariz de Mestre Valentim são visíveis na lateral direita. Reprodução de foto do fim do século XIX
Acervo: Arquivo Central do Iphan, seção Rio de Janeiro

12. Coube à bibliografia ou sociologia dos textos a tarefa de


propor um campo de estudos que abrigasse a compreensão uso enquanto habitação, local de culto,
das relações entre a forma e o sentido dos textos, assumindo ornamento; e valor de troca, determinado
uma importante posição no estudo de práticas simbólicas. O
objetivo é fazer com que se possa pensar de que modo “uma pelo mercado” (Londres, 2005).
comunidade dá forma e sentido a suas experiências mais
fundamentais a partir da decifração dos textos múltiplos que
Essas afirmativas partem do princípio
recebe, produz e de que se apropria” (Mckenzie, 1986). implícito de que foi operada uma separação
Ob je t o cult ural e b e m pat r i monial. . .
ou uma diferenciação brutal entre bem uma relação de força intercultural negociada
cultural e bem patrimonial, uma vez que a e renegociada, de tradições continuamente
atribuição de valor histórico, artístico ou reinterpretadas e refeitas de aportes exteriores”

A rtístico N acional
etnográfico refere-se especificamente a uma (Turgeon, 2003).
identidade coletiva, pressuposto de uma No entanto, os conceitos de
comunidade nacional natural. mestiçagem e de hibridismo, altamente
Nesse mesmo sentido, a comparação positivados, acabam por fazer com que se
com a literatura (ou com a obra de arte), atribua um sentido comemorativo aos usos
evocada também por Londres para definir a de bens simbólicos, que de fato não são

A n dre a D ah er
e
P atrimônio H istórico
noção de bem patrimonial contemporânea, nem naturalmente nacionais (como suposto
não é gratuita: ela remete ao estatuto na mestiçagem), nem genuinamente
representacional da obra literária que ainda originais (como suposto no hibridismo).
se encontra a serviço de uma concepção Em menor proporção, a vantagem de
nacionalista e essencializante. Somente uma abordagem como esta é a de escapar
fora dessa noção iluminista e romântica de à exclusividade do caráter material dos
literatura, seria possível se conceber que objetos patrimoniais – especialmente os

do
os objetos literários (ou artísticos) mudam arquitetônicos – e incluir na sua valoração a

R evista
de acordo com as leituras que triunfam, imaterialidade de seus usos.
enquanto outras, no mesmo momento, A patrimonialização massiva por
desaparecem. E que não há, assim, garantia meio da prática do tombamento de bens
de qualidade definitiva e eterna da obra: materiais apoiada na atribuição de valor
tantos os intérpretes quanto os objetos estético-arquitetônico – mais até do que
participam da mesma contingência. histórico – é a evidência histórica do papel
Nesse sentido, há textos que podem se exercido, desde sempre, pelos arquitetos 121
tornar canônicos, sem que haja um valor como agentes por excelência dos serviços de
intrínseco e eterno da obra literária tombamento e preservação, muito além do
comandando o cânone. caso brasileiro.13
Os riscos ainda perduram, no entanto, Segundo Márcia Chuva (1998), a
quando, com intenção desnaturalizante – ou rotinização das práticas de preservação, no
mais ingenuamente, pluralizante –, se passa Brasil, resultou na institucionalização da
à consideração das apropriações dos objetos profissão de arquiteto como responsável
culturais como bens culturais ou patrimoniais. pela temática do patrimônio histórico e
O historiador canadense Laurier artístico nacional. A centralidade quase
Turgeon tentou, com essa mesma intenção, exclusiva da profissão de arquiteto nas
dar conta da possibilidade de se pensar um práticas de preservação pode ser explicada,
patrimônio híbrido e mestiço, resultado
de permeabilidades culturais evidentes na 13. A noção recente de patrimônio imaterial talvez permita que
outros saberes e especialistas venham, aos poucos, ocupar um
produção e no consumo dos bens patrimoniais, lugar de destaque nas práticas de tombamento e conservação:
como afirma: “A cultura resulta, portanto, de etnólogos, antropólogos, sociólogos e historiadores.
R evista do P atrimônio H istórico e A rtístico N acional

122
Márc ia M an sor D ´ A le ssio A n dre
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R evista do P atrimônio H istórico e A rtístico N acional
123

A n dre a D ah er Ob je t o cult ural e b e m pat r i monial. . .


Ob je t o cult ural e b e m pat r i monial. . .
em grande parte, pelas relações entre O prédio do dito convento foi usado
estes profissionais que se estabeleceram na diversamente, ao longo de sua história,
diretoria e em cargos centrais do Serviço que se inicia como Hospital da Ordem
A rtístico N acional

(depois Instituto) de Patrimônio Histórico Terceira. Em 1810, a biblioteca real, trazida


e Artístico Nacional. Essa importância da de Portugal, foi acomodada, justamente,
figura do arquiteto acabou por privilegiar nas salas do Hospital da Ordem Terceira do
a preservação de bens materiais que Carmo, na rua Direita, hoje rua 1° de Março.
remetessem às supostas origens da profissão Em 1811 foi franqueada ao público, mas
de arquiteto no Brasil, como prática ainda era restrita aos leitores que podiam
A n dre a D ah er
e
P atrimônio H istórico

genuinamente brasileira. consultar os livros com prévio consentimento


Não é difícil observar que a pureza de um régio. A princípio, a biblioteca ocupava
valor original (arquitetônico) impera, desde somente o andar superior do Hospital. Mais
sempre, na concepção de bem tombável tarde, tendo crescido com outros livros
pelos artífices dos patrimônios históricos e vindos de Lisboa, estendeu-se, em 1812, ao
artísticos nacionais, de modo geral. pavimento térreo, de onde foram removidos
O Convento da Ordem Terceira os doentes para o recolhimento do Parto, na
do

do Carmo, tombado como extensão do rua dos Ourives.


R evista

tombamento da Igreja do Carmo em Sendo patente a insuficiência do edifício


1967, no Rio de Janeiro, é exemplar nesse para o fim a que se propunha, no Ministério
sentido.14 Inscrita como bem tombado no do barão de Cotegipe, converteram-se
dia 20 de abril de 1938, a Igreja do Carmo em salas os dois terraços que havia ao
tinha como anexo o que, muito antes, lado da construção central do segundo
havia sido o Hospital da Ordem Terceira pavimento. Em uma delas, estabeleceu-se
124 do Carmo, bem como alguns outros a seção de manuscritos, que também já
pequenos prédios. não cabia no seu antigo local; e, na outra,
Nesse processo de tombamento é a coleção adquirida por compra a Alves de
patente a importância atribuída pelos Carvalho e os livros doados por Salvador de
funcionários do Iphan ao critério de Mendonça. Em 1870, a Biblioteca Real foi
originalidade da construção tombada, para o edifício que funciona até hoje como
segundo a preferência pela preservação das Biblioteca Nacional.
construções originais e a exclusão de tudo o Sob a proteção de Pedro II, o prédio
Págs. 122 e 123: Pranchas
que fora erigido posteriormente: “Os forros abrigou o Instituto Histórico e Geográfico
da Praça XV de Novembro,
no Rio de Janeiro,
dos dois salões (enfermarias) que abrem para Brasileiro, de 1849 a 1913. Uma placa
projetando sua evolução
urbana nos anos de 1580, o pátio interno são inteiramente trabalhados, comemorativa lembra hoje essa função, nos
1620, 1750 e 1790. Obra
de Carlos Gustavo Nunes ao contrário do 3º salão, mais medíocre, locais do convento. Atualmente, o prédio,
Pereira (Guta)
Acervo: Prefeitura da visivelmente mais recente”. tombado e restaurado externamente e
Cidade do Rio de Janeiro/
Secretaria Extraordinária de
Desenvolvimento/Instituto
em muitas de suas partes internas, abriga
Municipal de Urbanismo Pereira 14. Este processo de tombamento foi estudado por Jean Felipe
Passos
Bastardis, como bolsista de iniciação científica (PIBIC-CNPq),
uma universidade particular. Além da placa
em 2006. comemorativa do IHGB – não menos uma
Ob je t o cult ural e b e m pat r i monial. . .
instituição de preservação de memória a que correspondem dos dois outros pavimentos,
–, nada indica que doentes e leitores igual número de janelas rasgadas e sacadas com
percorreram os corredores do convento, bacias de cantaria e guarda-corpos de ferro. Entre

A rtístico N acional
antes de meados do século XIX. o edifício do convento e a igreja localizava-
Essa descrição sumária da história do se a torre sineira, ao pé da qual havia uma
Convento da Ordem Terceira contrasta porta de entrada, precedida esta por um copiar.
com o texto que se encontra, atualmente, Para os fundos, para o jardim claustral, que se
na página web do Iphan, na rubrica “Bens estendia até a rua Detrás-do-Carmo, atual rua
Tombados”, voltado exclusivamente para o do Carmo, a edificação se abria, no térreo, por

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e
P atrimônio H istórico
valor arquitetônico original do prédio – ou meio de arcadas de cantaria e, nos demais pisos,
seu “aspecto primitivo” –, testemunhado por janelas de peitoril. Ali ainda aparecem
pela iconografia oitocentista e recobrado, os primitivos e fortes gigantes de alvenaria,
obviamente, pelo trabalho de restauração. colados à fachada, entre os vãos. A iconografia
da edificação no aspecto primitivo é extensa,
Denominado de Terreiro da Polé, onde em compreendendo desenhos e gravuras de Ender, de
1590, frades carmelitas iniciaram a edificação Debret, de Victor Froud [sic], etc., fotos de Ferrez

do
de suas residências, passou a denominar-se e, na vista panorâmica da cidade, de Burchell,

R evista
Terreiro ou Praça do Carmo. Inicialmente com aparece a fachada dos fundos da edificação,
dois pisos, a construção foi depois acrescida de voltada para o antigo jardim claustral.
mais um terceiro. Apresenta no térreo, janelas Restaurada, a edificação retornou, no que foi
que ladeiam a porta principal de verga curva, possível, à sua feição original.

125

Convento do Carmo, atual Faculdade Cândido Mendes. Fachada principal e lateral esquerda. Praça XV de Novembro, Rio de Janeiro. Foto: Paulo
Thedim Barreto. Acervo: Arquivo Central do Iphan, seção Rio de Janeiro
Ob je t o cult ural e b e m pat r i monial. . .
O texto do verbete referente à Igreja O filósofo italiano Giorgio Agamben
do Carmo – que inaugura o tombamento do afirma que a noção de profanação provém da
conjunto – assume, por excelência, o critério esfera do direito e da religião romana:
A rtístico N acional

estético, pautado, cronologicamente, numa


história da arquitetura no Brasil, nos moldes Segundo o direito romano, sagradas ou
forjados pelo cânone modernista, em que as religiosas eram as coisas que pertenciam de
figuras de Mestre Valentim e de Aleijadinho algum modo aos deuses [...] E se consagrar
aparecem autorizadas por parecer de Lucio (sacrare) era o termo que designava a saída das
Costa.15 coisas da esfera do direito humano, profanar
A n dre a D ah er
e
P atrimônio H istórico

A descrição citada – que corrobora, significava ao contrário restituir ao livre uso


coerentemente, o teor do processo de dos homens. “Profano”, podia escrever assim
tombamento do caso em questão – não destoa o grande jurista Trebazio, diz-se em sentido
em nada de concepções que ainda podem próprio, daquilo que, de sagrado ou religioso
ser encontradas em instituições análogas que era, é restituído ao uso e à propriedade dos
fora do Brasil. Em todos os casos, supõem- homens (Agamben, 2005:14).
se “impuros” os usos dos bens materiais
do

tombados diante da pureza do valor original Agamben propõe-se, assim, a pensar,


R evista

arquitetônico. Desse modo, o descompasso por exemplo, os museus como espaços do


ainda é visível entre a afirmação recente de improfanável, ou seja, daquilo que não pode
um patrimônio imaterial e a impossibilidade ser restituído ao uso. Evidentemente, esses
de ser considerada, em discursos e práticas espaços encontram-se numa esfera maior da
de preservação, a imaterialidade dos usos impossibilidade de uso, que é a própria esfera
diversos de bens materiais (e seus eventuais do consumo ou da exibição espetacular do
126 vestígios materiais). capitalismo, em seus próprios termos.
Com efeito, quaisquer usos que A separação dessas esferas não se dá, sem
tenham fins diversos das supostas intenções sacrifício, ainda segundo Agamben:
dos produtores de bens materiais são
justificadamente “profanatórios” diante da É possível definir religião, nesta
intenção de preservação. perspectiva, como aquilo que subtrai coisas,
lugares, animais e pessoas do uso comum e
15. Sobre Mestre Valentim, lê-se que executou a capela do
as transfere para uma esfera separada (...) A
noviciado “em estilo rococó”. Ainda: “Os altares laterais estão profanação é o contradispositivo que restitui
iluminados por lampadários de prata, desenhados por Mestre
Valentim. Na sacristia, destacam-se o arcaz, o altar de São ao uso comum aquilo que o sacrifício havia
Miguel e um lavabo de mármore, obra, também, de Mestre separado e dividido (Agamben, 2005).
Valentim. A Capela do Noviciado, com talha de Mestre
Valentim, destaca-se das demais capelas cariocas pela graça,
elegância e unidade de composição...” E sobre o Aleijadinho: Há, sem dúvida, interesse em mostrar
“A portada de lioz da frontaria [...] apresenta notável
medalhão com imagem da Virgem que, segundo Lucio Costa, a fixação de um sentido unívoco de uso
teria influenciado o risco de Antônio Francisco Lisboa, o
Aleijadinho, para as portadas das igrejas dos Terceiros de São
em discursos e práticas museológicas e
Francisco de Ouro Preto e São João del Rei”. patrimoniais. No entanto, o questionamento
Ob je t o cult ural e b e m pat r i monial. . .
ou a negação dessa imposição de sentido em são inevitavelmente profanatórios.
prol da restituição ao uso corre o risco de se Algumas perspectivas tidas por “história
tornar elogio positivante da pluralidade. cultural” correm também o risco de assumir

A rtístico N acional
Dominique Poulot descreve as inúmeras um tom de comemoração de um equivocado
práticas, tomadas como modalidades de “usos caráter “libertador” das apropriações. Alcir
populares”, que convêm serem pensadas Pécora expressou o seu temor de que se
numa “perspectiva patrimonial democrática”, faça da história da leitura, nos moldes de
referindo-se diretamente a De Certeau. E na Chartier, uma espécie de “linguística da
sequência, à imagem da “Cruzada popular” libertação”, em nome “da apropriação heroica

A n dre a D ah er
e
P atrimônio H istórico
de Lowenthal: que resiste à ordenação autoritária do autor,
da cultura erudita e das classes dominantes”,
Loin de la définition canonique d’un héritage muito em voga nas “produções paradidáticas,
culturel cohérent, à transmettre à la génération pedagogizantes, demasiado ativas no mercado
suivante, on a vu émerger l’idée de cultures brasileiro” (Pécora, 1996).17
multiples, propres à alimenter et à conforter des Ativas também estão, por toda parte,
identités plurielles. as práticas comemorativas dos patrimônios

do
Aujourd’hui, dans nos sociétés de consommation nacionais. François Hartog considera

R evista
et de culture de masse, l’usage du patrimoine, son fundamentais para o triunfo do Museu e
interprétation, voire sa simulation, désormais, par do Patrimônio, na França, as sucessivas
des dispositifs virtuels, tiennent lieu d’instrument comemorações que se sucederam nos anos
d’un développement local ou national, en fonction 80, definindo um novo calendário da vida
du tourisme et des pratiques marchandes du savoir pública (Hartog, 2003:132). Longe de
et du loisir. Pour toutes ces raisons le patrimoine est ser um fenômeno unicamente francês e
devenu l’objet d’une “croisade populaire”, ainsi que restrito a festas públicas, a consolidação 127
l’a baptisée David Lowenthal.16 da noção de patrimônio ao lado das de
memória e de comemoração – num núcleo
A positividade atribuída aos usos que é o da noção de identidade, baseada na
plurais instaura a irrecusável positividade positivação dos “usos populares” – fez com
democrática, ainda um tanto paradoxal em que se multiplicassem os empreendimentos
termos de preservação, já que os usos plurais editoriais, dos guias de turismo às
teses doutorais. É assim que, das festas

16. “Longe da canônica definição de um patrimônio cultural


coerente, a ser transmitido para a geração seguinte, vimos emergir 17. Exemplo disso talvez seja o parágrafo final do texto de
a ideia de culturas múltiplas, próprias para alimentar e confortar Lacerda, que fecha a conclusão do volume de textos do I°
identidades plurais. Hoje, em nossas sociedades de consumo e Congresso: “Esses desafios [o debate acadêmico sobre temas
de cultura de massa, o uso do patrimônio, a sua interpretação, como gênero, imigração, geração, etnia, posição geográfica,
e até mesmo a sua simulação, através de dispositivos virtuais, pertencimento religioso e outros] nos levarão certamente às
tornaram-se instrumento de um desenvolvimento nacional ou vozes mais silenciadas ou silenciosas na escrita da História
local, em função do turismo e das práticas comerciais relacionadas Oficial, particularmente no que se refere à participação
ao conhecimento e ao lazer. Por todas estas razões, o patrimônio dos negros, dos escravos, das mulheres e dos indivíduos
tornou-se objeto de uma ‘cruzada popular’, como a denominou em posição socioeconômica desprestigiada” (Lacerda,
David Lowenthal”. (Poulot, 2006:155). 1999:623).
Ob je t o cult ural e b e m pat r i monial. . .
comemorativas aos textos, se estende uma patrimoniais talvez se encontre uma mesma
variedade de práticas e de objetos como “pulsão referencial”, variando, no entanto,
manifestações de uma razão patrimonial em a força e a função da referencialidade da
A rtístico N acional

civilidades que são tão somente as nossas. representação e a marca do momento


referencial da narração, entre o discurso
e o que foi. Isso porque a noção de
5 . O b j e t o c u l t u r a l e patrimônio é validada, antes de tudo, pela de
bem patrimonial transmissibilidade de um conjunto de bens;
entre práticas e pelas práticas de sociabilidade de grupos
A n dre a D ah er
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P atrimônio H istórico

representações sociais capaz de recebê-los como seus; e


pelos valores – presentistas, entre outros –
O esforço teórico aqui foi descartar que permitem articulá-los como legado do
as equivalências teóricas e metodológicas passado (Poulot, 2006:158).
forçadas entre uma forma historiográfica, Nesse sentido, o pacto de confiança
a história cultural, e as representações de instaurado entre o historiador e seu leitor
uma “razão patrimonial” contemporâneas, e – como produtor e consumidor –, operado
qualificar algumas das diversas competências
do

em dispositivos textuais definidores da prova


– variáveis, historicamente – tanto do
R evista

documental histórica – notas, referências


discurso histórico quanto do patrimonial, e citações – (Chartier, 2007:83), na razão
para representar o passado. patrimonial se atualiza nos dispositivos
Essa competência do discurso de saber, de sociabilidade, de valoração
histórico foi denominada por Paul Ricoeur (inclusive ética) implicados na transmissão
représentance. Com o termo, Ricoeur quis do patrimônio.
128
designar a própria intencionalidade do Quanto à competência específica da
conhecimento histórico: história cultural para representar as práticas
(culturais) passadas através de seus resíduos
[…] la représentation en tant que no presente, talvez nela se encontre uma
narration ne se tourne pas naïvement vers les resposta adequada a um presentismo
choses advenues; la forme narrative en tant naturalizante que faz do último uso o mais
que telle interpose sa complexité et son opacité definitivo porque patrimonial.
propres à ce que j’aime appeler la pulsion
référentielle du récit historique […]18 Referências

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R ober t o C o n du r u
A r t i f í c i os pa ra i nve ntar e dest ruir

A rtístico N acional
Arquitetura, história,
preservação cultural

Em memória de Afonso Carlos Marques interpretação da obra, mas “depreendem

e
P atrimônio H istórico
dos Santos da natureza da arte e dos seus necessários
limites e carências”. Refutando como teoria
prescritiva da poesia a formulação ut pictura
Arquitetura e história, poesis (assim na poesia como na pintura),
espaço e tempo Lessing propõe uma teoria distintiva para
as artes, a partir de suas características
Tomemos o Laocoonte. Não a célebre fundamentais, dividindo-as em dois grupos

do
escultura da Antiguidade – Laocoonte e seus – as artes do tempo e as artes do espaço

R evista
filhos (Figura 1) – cuja fama era grande – e situando a poesia entre as primeiras, a
entre os artistas no Renascimento mesmo pintura e a escultura com as últimas.
antes de ser descoberta em Roma, no início Seria possível posicionar história e
do século XVI, influência que só cresceu a arquitetura no território proposto por
partir de então. Embora a imagem de uma Lessing: elas estariam em domínios opostos.
família asfixiada por serpentes marinhas Nessa clivagem, pareceria óbvio situar a
deva fazer sentido para instituições e história no domínio do tempo. Duas razões 131
agentes de preservação patrimonial, sob ao menos justificariam tal opção. Uma de suas
o cerco constante de interesses políticos e principais matérias é o tempo, essa categoria
econômicos, muitas vezes ditos culturais. difícil de definir, impossível de precisar,
Tomemos o importante livro de mas na qual se processaria a história e cujo
Gotthold Ephraim Lessing, publicado transcorrer a história justamente pretenderia
em 1766: Laocoonte. Ou sobre as fronteiras e de algum modo conseguiria recuperar,
da poesia e da pintura (Lessing, 1998). reconstituir. Além disso, o modo de a história
Dialogando com Johann Joachim constituir-se é temporal, processando-se
Winckelmann, entre outros críticos, e em escritos, falas e outros tipos de coisas e
focando na escultura, ele propõe que práticas que duram, transcorrem no tempo,
os motivos para o “comedimento na vinculada que está às artes narrativas: à poesia,
expressão da dor corporal” das figuras ao romance, às letras em suma. A história
Figura 1. Laocoonte e seus
humanas que a compõem derivam não da seria, portanto, uma das artes do tempo. Filhos, c. 175-50 I a.C.
Mármore, 242 cm. Museu
nobre simplicidade e serena grandeza dos Em contraposição, evidente e Pio Clementino, Vaticano

gregos, como queria Winckelmann em sua logicamente, a arquitetura seria uma das
Ar t ifícios para i nve nt ar e de st r uir. . .
artes do espaço, assim como as demais artes Títulos não faltam para atestar como o
ditas plásticas: escultura, pintura, gravura e espaço também é matéria imprescindível da
desenho, entre outras. Posição corroborada, história. Dois grandes exemplos parecem
A rtístico N acional

sobretudo, se pensarmos no texto inaugural suficientes: O Mediterrâneo e o mundo


de August Schmarsow, “A essência da criação mediterrâneo à época de Felipe II, obra publicada
arquitetônica”, de 1893, no qual ele define a por Fernand Braudel em 1949, na qual o
arquitetura como a arte criadora de espaços Mar Mediterrâneo é, como o título deixa
(Schmarsow, 1994:281-297). Se à história entrever, ao mesmo tempo objeto e chave
caberia tornar palpável e, de algum modo, da interpretação histórica, e História da arte
Robe r to Con dur u
e
P atrimônio H istórico

reter o tempo, a arquitetura estaria incumbida como história da cidade, livro de 1983, de
de encarnar o espaço. Giulio Carlo Argan, que vincula o fenômeno
Entretanto, parece mais produtivo ver artístico indissociavelmente à cultura
as fronteiras entre esses domínios como citadina. Em clave historicista, pode-se dizer
franjas imprecisas, borradas, devido a que a história é uma expressão do lugar em
insuficiências da própria teoria de Lessing que foi escrita, tanto quanto é do tempo em
quando aplicada às diferentes práticas e foi produzida.
do

modalidades no campo artístico. Para isso, Portanto, cada qual ao seu modo,
R evista

basta pensar em uma pintura de Tommaso história e arquitetura lidam com tempo e
Masaccio como O pagamento do tributo, de espaço, não podendo ser conectadas apenas
1426-27, com a exibição simultânea de e exclusivamente a uma dessas categorias.
cenas ocorridas em momentos distintos. Ou, Partilhando-as, se imbricam muitas vezes.
ainda, na pintura chinesa, com seus vazios Articulações que têm implicações múltiplas
que articulam espaços e tempos diversos em em relação à problemática da preservação de
132 uma só superfície. O que também se aplica valores e bens simbólicos.
à história e à arquitetura, tanto antes quanto
na contemporaneidade.
Por um lado, a arquitetura demanda Arquitetura e
tempo. Primeiro, porque espaço e tempo preservação
exigem um ao outro, estão mutuamente
condicionados. Objetos e espaços A arquitetura pode ser vista em sentido
arquitetônicos são percebidos e usados no amplo, lato, abrangendo todo o campo da
tempo, determinando ritmos de diálogo construção de espaços necessários à vida
com o pulsar humano, podendo tensionar, humana, ou de modo circunscrito, como uma
acolher, fazer fluir, estancar. Para não falar de das disciplinas que a modernidade produziu
sua temporalidade múltipla: os tempos que ao subdividir aquele campo – arquitetura,
esses objetos e espaços atravessam; os tempos urbanismo, paisagismo –, transformando-
dos quais são expressões. O que exatamente as quase em domínios autônomos. Também
faz da arquitetura um dos signos da história a pode ser situada no campo ampliado da arte
serem preservados. na contemporaneidade, como qualificou
Ar t ifícios para i nve nt ar e de st r uir. . .
Rosalind Krauss o território marcado por ele inclui as construções de monumentos
formulações mais indefinidas do que híbridas, suntuários e as artes, assim como o luxo, os
mapeando-o com os seguintes termos: enterros, as guerras, os cultos, os jogos, os

A rtístico N acional
arquitetura, local-construção, paisagem, espetáculos e a “atividade sexual perversa
locais demarcados, não paisagem, escultura, (isto é, desviada da finalidade genital)”.
não arquitetura, estruturas axiomáticas Bataille divide as produções da arte em duas
(Krauss, s.d.:87-93). grandes categorias em relação à noção de
Tanto nas visões geral e específica quanto despesa: a que comporta “despesas reais” e
nesse território impreciso, mutante, aberto, a a que é definida pelo princípio da “despesa

Robe r to Con dur u


e
P atrimônio H istórico
arquitetura pertenceria ao campo da arte, o qual simbólica”. Na primeira categoria, ele alinha
estaria subdividido em literatura, música, artes arquitetura, música e dança; na segunda,
cênicas e artes plásticas. Como desenho, pintura, reúne pintura, escultura, literatura e teatro;
escultura e gravura, entre outras categorias, a estes dois últimos domínios “em sua forma
arquitetura seria uma das artes plásticas. maior”: a tragédia.
Nesse sentido, vale a pena retomar a A princípio, a arquitetura é, nesse
formulação de Georges Bataille, em seu enquadramento, uma das artes, mas implica

do
ensaio “A noção de despesa”. Ele diz: perdas menores, porquanto exige apenas

R evista
“despesas reais”. Contudo, a situação da
A atividade humana não é inteiramente arquitetura nesse sistema é ambígua, pois,
redutível a processos de reprodução e conservação, como diz o autor, “a escultura e a pintura, sem
e o consumo deve ser dividido em duas partes falar da utilização dos locais para cerimônias
distintas. A primeira, redutível, é representada pelo ou para espetáculos, introduzem na própria
uso do mínimo necessário, para os indivíduos de arquitetura o princípio da segunda categoria”.
uma dada sociedade, à conservação da vida e ao Ou seja, o diálogo com outras artes insere na 133
prosseguimento da atividade produtiva: trata-se, arquitetura a “despesa simbólica”.
portanto, simplesmente da condição fundamental A partir dessas proposições de Bataille, é
desta última (Bataille, 1975:25-45). possível arriscar dizer que a arquitetura não é
um objeto a ser preservado indefinidamente,
Para Bataille, a segunda parte do pois a permanência eterna seria um tanto
consumo é representada pelas “formas oposta à despesa, à “perda que deve ser a
improdutivas”, as quais, “pelo menos nas maior possível para que a atividade adquira
condições primitivas, têm em si mesmas seu verdadeiro sentido”. Construir, destruir,
seu fim”. Para essas, ele diz ser “necessário construir, destruir... – uma dinâmica própria
reservar o nome de despesa”. As “despesas à despesa, à humanidade.
ditas improdutivas” constituem “um conjunto Dinâmica que a modernidade teria
caracterizado pelo fato de que, em cada acelerado com sua vertiginosa destruição
caso, a ênfase é colocada na perda, que deve dos ambientes previamente constituídos,
ser a maior possível para que a atividade mais sua incomparável construção de novos
adquira seu verdadeiro sentido”. Entre elas, objetos e espaços, permitindo ver tanto
Ar t ifícios para i nve nt ar e de st r uir. . .
o acúmulo e a aceleração da despesa na A imagem do projeto simultaneamente
modernidade, quanto a cultura moderna inacabado e decadente aparece, também,
como um incremento incomparável da em um dos primeiros trabalhos que
A rtístico N acional

despesa. Dinâmica particularmente cara à tentaram sistematizar a história da arte


cultura brasileira. Claude Lévi-Strauss, em como disciplina científica. Em seu livro A
suas reflexões sobre a cultura brasileira, arte clássica, de 1898, Heinrich Wölfflin
de 1955, notou a voracidade construtiva e comparou a arte da Idade de Ouro do
arrasadora das cidades americanas a partir de Renascimento “com a ruína de um edifício
uma referência à cultura do continente: que nunca foi terminado completamente”
Robe r to Con dur u
e
P atrimônio H istórico

(Wölfflin, 1990:4-5). A imagem da


Um espírito malicioso definiu a América “ruína precoce” também foi usada por
como uma terra que passou da barbárie à Lucio Costa, em 1947, quando propôs o
decadência sem conhecer a civilização. Poder- tombamento da Igreja de São Francisco de
se-ia, com mais acerto, aplicar a fórmula às Assis (Figuras 2 e 3), na Pampulha, em Belo
cidades do Novo Mundo: elas vão do viço à Horizonte, projeto de Oscar Niemeyer
decrepitude sem parar na idade avançada de 1943, com o edifício ainda inacabado
do

(Lévi-Strauss, 1996:91). (Costa, 1999:67-68).


R evista

134

Figura 2. Fachada de fundos da Igreja de São Francisco de Assis, que integra o conjunto arquitetônico da Pampulha em Belo Horizonte
Projeto do arquiteto Oscar Niemeyer, 1943. Acervo: Iphan
Ar t ifícios para i nve nt ar e de st r uir. . .
O que sugere retornar à noção de coibir hábitos culturalmente entranhados,
despesa em suas relações com a problemática entre outras ações, gastando recursos
da preservação. Por um lado, a prática (financeiros, energéticos, sociais) vultosos.

A rtístico N acional
preservacionista seria um dos “processos Assim, a preservação não estaria imune à
de reprodução e de conservação” de que violência inerente à despesa. Preservar, assim
fala Bataille. Seria, portanto, contrária à como construir e destruir, seria uma despesa.
despesa, na medida em que, de muitos Outro desdobramento dessa associação da
modos, em diferentes contextos sociais, noção de despesa à preservação seria pensá-
garantiu a persistência de valores e bens. la não só a partir da lógica da produção,

Robe r to Con dur u


e
P atrimônio H istórico
Contemporaneamente, seria um modo de com tombamentos de bens referentes às
reverter a tendência à despesa exaltada e realizações de regimes políticos, ciclos
supostamente cega da modernidade. econômicos e sistemas produtivos, mas,
Entretanto, em sentido oposto, pode-se também, ao consumo, à destruição. O que
muitas vezes entendê-la exatamente como seria, no mínimo, um paradoxo.
uma modalidade da despesa exponenciada Retomando o enquadramento da
da modernidade: recuperar ruínas menos ou arquitetura no campo das artes, cabe aqui

do
mais avançadas, manter objetos obsoletos e um breve desvio: observar a tendência

R evista
atual de substituir a designação artes
plásticas por artes visuais, privilegiando o
aspecto imagético das obras e a dimensão
retiniana e imaterial das imagens, embora
esquecendo que as imagens artísticas
têm uma determinada concretude
física, mínima que seja, e, portanto, 135
espacializam, mobilizando a corporeidade
de si e de quem as experimenta, sendo
obviamente plásticas. Sem dúvida,
essa substituição faz pouco ou nenhum
sentido para a arquitetura, eminente e
incontornavelmente concreta, corpórea,
plástica. Substituição que não deixa,
contudo, de afetar a arquitetura e acarretar
desdobramentos para a preservação, pois,
ao insistir na imagem em detrimento
da plasticidade, permite restringir-se à
conservação de imagens, excluindo outros
objetos, coisas e corpos, liberando a
Figura 3. Fachada frontal da Igreja de São Francisco de Assis, que destruição dos ambientes construídos pela
integra o conjunto arquitetônico da Pampulha em Belo Horizonte
Projeto do arquiteto Oscar Niemeyer, 1943. Acervo: Iphan e para a experiência humana.
Ar t ifícios para i nve nt ar e de st r uir. . .
Além dessa desmaterialização, também à pesquisa do Ministério de Ciência e
importa lembrar concepções e práticas que Tecnologia, a arquitetura integra a área
entendem a arte não como criação em uma denominada ciências sociais aplicadas,
A rtístico N acional

linguagem particularmente artística, mas com desenho industrial, museologia,


como problematização reflexiva, lúdica e comunicação, direito, economia, serviço
socialmente comprometida de estruturas social e turismo, entre outros campos
vigentes, sejam elas ideias, linguagens, disciplinares. Ou seja, distante tanto dos
processos, fatos, obras e instituições, ofícios, quanto das musas.
artísticas ou não. Mudanças de nome e Transitando entre os campos de artes,
Robe r to Con dur u
e
P atrimônio H istórico

conceituação que participam do processo ciências exatas e ciências sociais aplicadas,


de redefinição do campo das artes, em é relativa a condição da arquitetura.
particular, e das disciplinas, de modo Por um lado, ela pode ser vista como
geral, implicando, no limite, a expulsão da uma resposta técnica a necessidades
arquitetura do campo da arte. humanas, menos ou mais individualmente
Com efeito, não é obrigatório, nem condicionadas. Por outro, pode-se ver
tem sido constante, o entendimento sua dimensão alusiva, quase ficcional.
do

da arquitetura como arte. No Brasil, a Pois não só o projeto arquitetônico, mas


R evista

arquitetura já esteve e ainda está relacionada também os edifícios, os jardins, as cidades


ao domínio das artes plásticas, na teoria e podem anunciar outros modos de ver e
na historiografia da disciplina, na formação viver. Respondendo a exigências objetivas
e na prática profissional, no entendimento e subjetivas inerentes às realizações de
de especialistas e leigos. Contudo, a indivíduos e grupos, correndo riscos como
arquitetura também já esteve e, em certo o tecnicismo, as necessidades e o desejo
136 sentido, ainda está muito próxima da área de transcendência, os objetos e espaços
tecnológica, especialmente da engenharia, arquitetônicos situam-se entre processos
seja em associações profissionais, como sociais e construções simbólicas, podendo
os Conselhos Regionais de Engenharia, trafegar do mais puro materialismo à mais
Arquitetura e Agronomia, seja em estruturas delirante representação.
organizacionais de algumas universidades, Entretanto, mais do que demandar
nas quais cursos de arquitetura são geridos circunscrição definitiva, essa situação
em departamentos de engenharia e/ou de da arquitetura, conectada ao mesmo
desenho industrial. tempo aos campos de artes, ciências
Atualmente, a arquitetura está exatas e ciências sociais aplicadas,
articulada também a outros domínios, implica mudanças nos modos como se
afastando-se um tanto dos campos da entende e opera com a disciplina, seus
arte e da engenharia. Na tabela de áreas objetos, agentes, ações, obras. Muitos
do conhecimento do Conselho Nacional são, portanto, os modos como podem ser
de Desenvolvimento Científico e articuladas preservação e arquitetura.
Tecnológico, o CNPq, agência de fomento Tomando a arquitetura como um objeto
Ar t ifícios para i nve nt ar e de st r uir. . .
de preservação, é preciso ressaltar como, a qual, tendo como paradigmas a noção de
no caso brasileiro, a ideia de patrimônio cultura, as práticas, o imaterial, demanda
histórico e artístico nacional determinou redefinição ampliada de seus objetos,

A rtístico N acional
por um longo período o foco das ações de métodos, domínios.
tombamento e conservação, principalmente A ideia de preservar práticas culturais
nos ditos bens de pedra e cal, fazendo do faz pensar na preservação de práticas que
edifício o objeto preferencial do sistema geram e mantêm bens fabricados, entre eles
público oficial de preservação. O que os edificados. Assim como cantar e dançar
gerou certa dificuldade para entender a o tambor de crioula, rezar, fazer e comer

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e
P atrimônio H istórico
preservação para além da conservação de acarajé, compor, cantar e dançar o samba
coisas, especialmente de edifícios. carioca, também o fazer arquitetônico
Essas reflexões também devem ser será preservado? Serão preservadas as
confrontadas ao processo de substituição práticas de conceber, projetar, construir
da ideia de patrimônio histórico e artístico e usar a arquitetura? Isso não implicaria
nacional pela ideia de patrimônio cultural, superar previamente antigas dicotomias

do
R evista
137

Figura 4. Fachada frontal do Instituto de Educação, antiga Escola Normal, 1930, Rio de Janeiro. Projeto de Ângelo Bhruns. Foto: Pedro Oswaldo Cruz
Acervo: Inepac
entre erudito e popular? Essa preservação
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O uso, em edifícios novos de cunho
da prática arquitetônica não ajudaria a modernista, de princípios, formas e figuras
rever histórias e processos de tombamento de construções antigas é também um
A rtístico N acional

calcados em autorias individualizadas, efeito da relação concomitante em projeto,


genialidades artísticas? construção e preservação arquitetônica no
O acento nas práticas culturais pode Brasil, especialmente no Rio de Janeiro, a
enfatizar as diferenças entre preservação e partir da década de 1930. Além de obras
tombamento. Em vez de sacralizar objetos especiais exemplificando como fazê-lo,
e espaços, transformando o ambiente da Lucio Costa justifica esse uso, por exemplo,
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vida em um museu a céu aberto, difundir a ao criticar o neocolonial, dizendo ser esse
preservação em hábitos de cidadãos e ações movimento em prol da criação de um estilo
institucionais conscientes da necessidade brasileiro um:
de estabelecer e conservar os valores por
meio dos quais as coletividades se instituem. Equívoco ainda agravado pelo
De onde emerge a questão da educação desconhecimento das verdadeiras características da
patrimonial a ser disseminada em várias arquitetura tradicional e consequente incapacidade
do

instituições públicas e privadas, minimizando de lhe saber aproveitar convenientemente aquelas


R evista

o foco na arquitetura. soluções e peculiaridades de algum modo adaptáveis


Outro indício da dominância da aos programas atuais (Costa, 1995:165).
arquitetura no que tange às ações
preservacionistas é a presença de O não reconhecimento pelo Iphan do
arquitetos em suas instituições, os ditos edifício da Escola Normal (Figuras 4 e 5)
arquitetos do Patrimônio. O que fez como signo de um projeto de renovação
138 da preservação patrimonial quase uma educacional e arquitetônica que teve
especialidade profissional em arquitetura, enorme ressonância na cultura nacional
com pesquisa, estudos, restauração e em determinado período é um resquício
conservação de bens patrimoniais inseridos de avaliações como essa.1 Pois nesse
em processos formativos e na atuação silêncio institucional parece ainda ecoar
profissional e crítica. as lutas travadas nas décadas de 1920 e
1930 entre os adeptos dos movimentos

1. O edifício está tombado, desde 1965, pelo Instituto


Estadual do Patrimônio Cultural (Inepac), órgão de
preservação cultural do Estado do Rio de Janeiro, em cujo
Guia de Bens Tombados virtual é dito que “O tombamento
representa o reconhecimento da importância histórica da
mais tradicional instituição de formação de professores
do Brasil. Por outro lado, inclui no acervo do patrimônio
arquitetônico fluminense o edifício que melhor simboliza o
estilo neocolonial em voga nos decênios de 1920 a 1940”.
Disponível em http://www.inepac.rj.gov.br/modules.
Figura 5. Desenho em perspectiva da Escola Normal, ilustração do
projeto de autoria de Ângelo Bhruns. Acervo: Arquivo Central do Iphan,
php?name=Guia&file=consulta_detalhe_bem&idbem=352
seção Rio de Janeiro Acesso em 02 out. 2006.
Ar t ifícios para i nve nt ar e de st r uir. . .
neocolonial e moderno pelo controle das a história guarda reservas, distâncias, diante
instituições oficiais federais responsáveis das ciências e das artes. Se um esforço
pelo ensino artístico – Escola Nacional de conciliador pode ver a arquitetura, ao mesmo

A rtístico N acional
Belas-Artes (Enba) – e pela preservação tempo, como arte e ciência, dificilmente a
do patrimônio cultural (Sphan), além história chega a ser uma ou outra.
das disputas no mercado das construções A condição artificial da história
públicas e privadas. O que demanda leva a questionar o seu entendimento
revisão das políticas de preservação do como acontecimento essencialmente
órgão e de sua história. preservacionista. Como processo, assim

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como o tempo, só escoa, não é integralmente
recuperável. Como narrativa, ou seja,
História, arquitetura, como criação, pode apenas reconstituir
preservação parcialmente o processo pretérito de
acordo com os desejos e as possibilidades
Em duas diferentes concepções do que é do presente, seja porque o historiador
história, tanto em sua visão como realidade, lida com resquícios do passado e a

do
processo social que se desdobra no tempo totalidade é inalcançável, seja porque a

R evista
e no espaço, quanto em sua compreensão narrativa é produto de um indivíduo
como representação, narrativa sobre socialmente situado, vinculado a grupos e
aquele processo, sobressai sua dimensão instituições, ideais, preconceitos e ideias,
artificial. No primeiro entendimento, conscientemente ou não.
caso não se parta de uma visão da história O que obriga a pensar em práticas de
como algo divinamente predeterminado, preservação que entendam como também
constata-se que ela resulta de ações, inações elas estão vinculadas a indivíduos, grupos 139
e obras humanas. No segundo modo de e instituições localizados socialmente. E
entendimento, a história é um ofício. A remete a uma frase de Walter Benjamin, em
história e a História são humanamente seu texto “Sobre o conceito da história”: “O
elaboradas, produtos do homo faber, não um dom de despertar no passado as centelhas
desígnio divino que cabe aos humanos sofrer da esperança é privilégio exclusivo do
ou usufruir, e desvelar, mas, ao contrário, historiador convencido de que também
construir e reconfigurar. No que tange ao os mortos não estarão em segurança se o
segundo juízo, de modo semelhante ao inimigo vencer” (Benjamin, 1995:224-225).
que ocorre com a arquitetura, a história é Fazendo pensar em que medida os esforços
relativa, pois as visões sobre ela também de preservação (assim como a história da
oscilam entre o cientificismo e a ficção, arquitetura e a história da preservação) têm
entre a reconstituição objetiva dos fatos e garantido a segurança dos mortos,
a interpretação criativamente subjetiva do dos vencidos.
passado. Com uma diferença: sem fixar-se Somado às implicações da noção de
jamais na objetividade ou no subjetivismo, desperdício de Bataille, esse artificialismo
Ar t ifícios para i nve nt ar e de st r uir. . .
obriga a pensar a preservação (assim de escrevê-la patrimonialmente. Por
como a História da arquitetura) para além conseguinte, a preservação bem pode
das edificações suntuárias, recuperando ser uma especialidade dos historiadores,
A rtístico N acional

o que foi inviabilizado e destruído ao assim como, por motivos semelhantes,


longo do tempo e do espaço em nome de para antropólogos, sociólogos, geógrafos,
totalidades maiores e menores: Estado, pedagogos e até – por que não? – cientistas
Nação, Império, classes, castas, grupos, políticos, entre outros profissionais.
indivíduos. O que inviabiliza tomá-las Como visto, imbricar história
como referências apaziguadoras de conflitos e arquitetura produz consonâncias e
Robe r to Con dur u
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sociais imiscuídos na escolha e manutenção assimetrias. Caminho no qual é imediato


de valores e bens simbólicos. e óbvio pensar conexões de subordinação:
Embora a História possa ser uma história da arquitetura, arquitetura da história.
disciplina subsidiária, uma ferramenta para Para pensar a história da arquitetura,
quem se dedica a cuidar da preservação vale operar, inicialmente, com a imagem
de bens e valores patrimoniais, os esquemática do conhecimento humano como
historiadores estiveram pouco presentes nas floresta, com suas diversas árvores. Sendo
do

instituições brasileiras de preservação do a história uma delas, no ramo da história da


R evista

patrimônio simbólico, se comparados aos cultura floresceria o galho da história das


arquitetos. Como o Sphan e o atual Iphan artes, que se subdividiria de acordo com as
tem expressado suas mudanças também características de cada uma delas: literatura,
e especialmente por meio de sua revista, música, artes cênicas, artes plásticas. Uma
esse volume é mais um indício da crescente das bifurcações do galho da história das
presença de historiadores, antropólogos e artes plásticas seria justamente a história
140 outros profissionais na instituição, a indicar da arquitetura. Contudo, as já mencionadas
mudanças no modo como se entende e pratica vinculações da arquitetura à engenharia e às
a preservação no país. ciências sociais aplicadas permitiriam pensar
De modo inversamente semelhante, a história da arquitetura em outros galhos
a preservação pode ser uma disciplina do referido ramo – o da história das ciências
subsidiária ao ofício historiográfico. –, embora sabendo que esse galho se abriria
As correlações estabelecidas por em outros, gerando a história das ciências
Jacques Le Goff entre monumento e exatas e a história das ciências sociais,
documento (Le Goff, 1985:95-106) subdividindo-se esta última na história das
indicam a necessidade de incluir os ciências sociais e na história das ciências
bens simbólicos como objetos e fontes sociais aplicadas.
do fazer historiográfico. Além disso, o A indefinição, ou, melhor, a definição
tombamento e a preservação desses bens múltipla da história da arquitetura determina
e valores não deixam de ser um modo de objetos, princípios e métodos e problemas
instituir a História por meio de coisas, de distintos para o historiador. Indefinição que
inscrevê-la na paisagem mental e física, é, portanto, interessante, produtiva. Além da
Ar t ifícios para i nve nt ar e de st r uir. . .
história, com suas transformações teóricas e a distância entre o artístico e o cultural.
metodológicas mais e menos recentes, essa Há ainda os diálogos recentes ou não entre
condição plural da arquitetura possibilita história, arqueologia e etnografia. Para

A rtístico N acional
diferentes interpretações históricas no não falar da noção de patrimônio cultural
que tange a objetos, modos de pensar, ver, que tem substituído a designação anterior,
escrever, ler e ensinar. como se pode ver no próprio tema desse
A correlação simultânea com as artes volume da Revista do Patrimônio.
e as ciências também está parcialmente Contudo, tendo em vista a própria
inscrita no próprio nome da principal história da instituição, ficam algumas

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instituição de preservação no Brasil, perguntas. Pode ela abandonar formulações
inicialmente designada como Serviço de iniciais de seus agentes criadores há muito
Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, mitificados? Não é suficiente manter as
Sphan, e agora como Instituto do Patrimônio designações existentes e alterar ideias,
Histórico e Artístico Nacional, Iphan. princípios e modos de ação, especialmente
Conexão múltipla e divisão também em uma sociedade como a brasileira, na qual
expressas nos nomes dos Livros do tombo a relação entre mudança e impermanência

do
da instituição: Livro do tombo arqueológico, é muitas vezes apenas aparente? Mas

R evista
etnográfico e paisagístico, Livro do tombo acomodar ideias e modos novos em
histórico, Livro do tombo das belas artes e Livro estruturas rígidas, enquadramentos
do tombo das artes aplicadas. Os dois primeiros estanques, não é, ao final, retornar a
são dedicados ao patrimônio tombado concepções anteriores supostamente
principalmente em função de sua dimensão ultrapassadas, conservar o mesmo?
sociocultural; os outros dois são voltados ao Em contrapartida, também vale pensar
patrimônio tombado devido à sua qualidade a arquitetura da história. Tanto a dinâmica 141
artística, em sentido estético, a partir da social processada ao longo do tempo,
distinção entre artes maiores e menores. quanto a narrativa sobre esse processo,
Entretanto, essa divisão é é algo humanamente fabricado. Entre as
problemática. Algumas questões metáforas possíveis para a história como
recomendam duvidar da pertinência artifício humano – trama e tecido, entre
dessa clivagem e, com ela, rever a divisão outras – a imagem da construção é forte.
dos livros e o nome da instituição. Uma Daí ser possível pensar sua “arquitetura”:
delas é a própria definição múltipla da suas ideias, matérias, modos de construir,
arquitetura e, sobretudo, a ênfase atual sistemas de sustentação, realizações,
em suas especificidades técnicas e sociais, usos. Imagem que gera outra, a partir do
em detrimento de sua artisticidade. Outra entendimento da arquitetura como edifício,
questão deriva de visões contemporâneas urbe, paisagem, da história como um
da arte, que minimizam sua estetização, se objeto, um espaço. Pensá-la como objeto
não a rechaçam totalmente, acentuando sua pode remeter imediatamente ao livro, a
dimensão sociocultural e, assim, diminuem alguns livros de história fundamentais,
Ar t ifícios para i nve nt ar e de st r uir. . .
coletiva ou individualmente. Mas também sua linhagem tradicional, e, quem sabe?,
remete aos arquivos e instituições de ensino inconscientemente, o seu álibi histórico diante
e pesquisa. Assim como, obviamente, ao da conjuntura vigente (Campofiorito, 1985).
A rtístico N acional

campo historiográfico, no qual se processam


relações sociais. O que sugere pensar as Com a criação do Sphan, em janeiro de
instâncias de preservação do patrimônio 1937, constituíram-se “as condições para
como agentes nesse processo, tomar que a mesma orientação fosse garantida
Iphan e demais órgãos públicos oficiais de na elaboração de (algumas) formas para
preservação como fatores de construção da o futuro e na seleção das obras pretéritas
Robe r to Con dur u
e
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história, de sua escrita. a serem sacralizadas e a dar um perfil do


No imbricar de arquitetura e história, passado da nação”, como indica Lauro
outra possibilidade é pensar conexões Cavalcanti (Cavalcanti, 1995:149). O
reflexivas: arquitetura da arquitetura e que afetou o meio arquitetônico, as ações
história da história. No primeiro caso, cabe preservacionistas e a historiografia da
refletir sobre como se estrutura e constrói arquitetura e da preservação. E o que ajuda
o campo arquitetônico. No segundo, além a entender e leva a parafrasear o apelo
do

de desnaturalizar o fazer historiográfico, de Marcelo Puppi por uma história não


R evista

essa reflexão implica consciência, crítica moderna da arquitetura (e da preservação


e revisão da historiografia como artifício. simbólica) brasileira (Puppi, 1998:86-96).
Reflexividade que, quando aplicada às
práticas de preservação, sugerem rever como
os feitos e instituições patrimoniais têm
participado da construção dos campos da
142 arquitetura e da história. De onde emerge a
preservação como modo de legitimar certas
arquiteturas e histórias.
Um traço distintivo do modernismo
do Brasil é o fato de alguns dos renovadores
da arquitetura com princípios e formas
do movimento moderno terem estado
entre os que se dedicaram à preservação
de bens simbólicos da nação, criando uma
genealogia para suas ações. Como afirma
Ítalo Campofiorito,

desde a sua institucionalização no


Ministério da Educação e Saúde, no Rio
de Janeiro, (alguns dos) nossos modernistas Figura 6. Arco do Teles. Fachada principal – arco visto de frente
Praça XV de Novembro, Rio de Janeiro. Acervo: Arquivo Central do Iphan,
adotaram o seu pedigree, escolheram a seção Rio de Janeiro
Figura 7. Arco do Teles. Praça XV de Novembro, Rio de Janeiro. Foto: Edgard Jacintho Silva, 1948. Acervo: Arquivo Central do Iphan, seção Rio de Janeiro
Ar t ifícios para i nve nt ar e de st r uir. . .
Do desprezo de alguns modernistas a aprovação do projeto junto ao Sphan
pela maior parte da arquitetura acadêmica (Bolonha, 2003).
basta relembrar o caso da Escola Normal.
A rtístico N acional

Contudo, também a trincheira dos Ainda conforme Bolonha, Castro Maya


modernistas foi um campo de querelas que o procurou para desenvolver o projeto, a
envolveu o Sphan. Um caso merecedor de fim de “obter a licença de construção junto
revisão historiográfica é o que conecta o à prefeitura e a autorização no Serviço do
edifício-sede do Jockey Club Brasileiro – Patrimônio Histórico e Artístico Nacional
com os sucessivos projetos desenvolvidos – Sphan – (...), a partir do ‘risco original’
Robe r to Con dur u
e
P atrimônio H istórico

por Álvaro Vital Brazil e o projeto elaborado do arquiteto Lucio Costa”. Bolonha
por Lucio Costa – e o edifício Arco do também indica como o edifício Arco do
Teles (Figuras 6 e 7), ambos localizados Teles conecta-se ao edifício-sede do Jockey
no centro do Rio de Janeiro. Esse caso Clube Brasileiro: “Nesse momento, (...) o
permite pensar processos e práticas do arquiteto Vital Brazil desenvolvia o projeto
movimento moderno de arquitetura e de para a sede do Jockey Clube Brasileiro”.
preservação de bens simbólicos no Brasil. Contudo, informando outros elementos em
do

Na avaliação de Ítalo Campofiorito, “entre jogo no referido “acordo de cavalheiros” e


R evista

1954 e 1955, permitiu-se a construção “as verdadeiras razões de obras ‘sem maior
de um prédio de Francisco Bolonha, sem interesse artístico’”, Bolonha sustenta que
maior interesse artístico, sobre os imóveis o “arquiteto Vital Brazil foi afastado do
do Arco do Teles, na praça XV, no Rio de projeto da nova sede do Jockey pela diretoria
Janeiro” (Campofiorito, 1985:32). Em do clube. Em seu lugar foi chamado o
resposta a Campofiorito, Bolonha afirma arquiteto Lucio Costa, que nem sequer havia
144 que o referido edifício, de propriedade de participado do concurso de 1948” (Conduru,
Raymundo de Castro Maya, “foi projetado 2006:238-241).
pelo arquiteto Lucio Costa” (Bolonha, Com efeito, as formulações resultantes
2003:177-178). Segundo Bolonha, em do imbricamento de arquitetura e história
virtude das dificuldades para aprovar, no em função da preservação implicam a
Sphan, a proposta de construir um edifício desnaturalização do campo, permitindo
sobre o Arco do Teles, Castro Maya convidou tomar consciência de como ele tem
se constituído. Para as instituições de
o arquiteto Lucio Costa, alto funcionário preservação do patrimônio no Brasil, isso
do Sphan, para realizar o projeto. Nasceu demanda revisões das versões históricas
desse convite um “acordo de cavalheiros”, existentes, estimulando ações historiográficas
estabelecendo que o arquiteto Lucio Costa sobre preservação de valores e bens
faria o “risco original” do edifício, mas que simbólicos a serem elaboradas, sobretudo,
outro profissional seria o responsável pelo fora das próprias instituições, dinâmica ainda
desenvolvimento do projeto. Ficou, ainda, bem tímida no país.
estabelecido que aquele arquiteto obteria
Ar t ifícios para i nve nt ar e de st r uir. . .
Fazer, inventar, Referências
destruir

A rtístico N acional
Bataille, Georges. “A noção de despesa”. Em A parte
maldita. Rio de Janeiro: Imago, 1975.
A preservação é inerente à arquitetura. Benjamin, Walter. “Sobre o conceito da história”. Em
Edifício, cidade, paisagem são pensados Walter Benjamin. Obras escolhidas 1. Magia e técnica, arte e
política. São Paulo: Brasiliense, 1985.
para sobreviver, durar no tempo, alcançar Bolonha, Francisco. Apud Macedo, Oigres Leici
o futuro. Tempo que pode ser pequeno, de. Francisco Bolonha: ofício da modernidade. 2003.
quase nada, mínimo, mas é algum tempo. Dissertação de mestrado em arquitetura. Escola de
Engenharia de São Carlos, Universidade de São Paulo,

Robe r to Con dur u


Também a história é preservacionista, pois

e
São Carlos, 2003.

P atrimônio H istórico
retém e perpetua visões do passado. Ao Campofiorito, Ítalo. “Muda o mundo do
patrimônio. Notas para um balanço crítico”. Revista do
fazê-lo, contudo, age sobre o presente e o Brasil, II(4):32-43, Rio de Janeiro, 1985.
futuro. Além do passado, a história, assim Cavalcanti, Lauro. As preocupações do belo. Rio de
como a arquitetura, constrói presente e Janeiro: Taurus, 1995.
Conduru, Roberto. “Corrosão central – três
futuro, os inventa. Também a preservação projetos de Vital Brazil no Centro do Rio de Janeiro”.
de valores e bens simbólicos interfere Em Guimaraens, Cêça (org.). Arquitetura e movimento
moderno. Rio de Janeiro: FAU/UFRJ, 2006.
nos processos sociais, é um fator a mais
Costa, Lucio. “Depoimento de um arquiteto carioca”.

do
na dinâmica social, e um elemento nada Em Lucio Costa: registro de uma vivência. São Paulo:

R evista
desprezível em contextos nos quais o direito Empresa das Artes, 1995.
______. “Tombamento da Igreja de São Francisco
de propriedade, a especulação imobiliária de Assis da Pampulha, Belo Horizonte – MG”. Em
e a mercantilização da cultura são tão Pessôa, José (org.). Lucio Costa: documentos de trabalho.
proeminentes na dinâmica social. Rio de Janeiro: Iphan, 1999.
Krauss, Rosalind. “A escultura no campo ampliado”.
Entretanto, se o sentido de preservação Gávea, Rio de Janeiro: Puc-Rio, s.d.
de objetos e espaços arquitetônicos é inerente Le Goff, Jacques. “Documento/monumento”. Em
Enciclopédia Einaudi.1. Memória-História. Porto: Einaudi- 145
à ideia, ao raciocínio projetual, ao esforço Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1985.
construtivo e ao uso deles, o seu oposto Lessing, Gotthold Ephraim. Laocoonte. Ou sobre as
não é de todo estranho a eles, dado que a fronteiras da poesia e da pintura. São Paulo: Iluminuras-
Secretaria de Estado da Cultura, 1998.
obsolescência pode lhes ser inerente, bem Lévi-Strauss, Claude. Tristes trópicos. São Paulo: Cia.
como a vontade de os adaptar ou reconfigurar das Letras, 1996.
Pessôa, José (org.) Lucio Costa: documentos de trabalho.
totalmente pode ocorrer aos seus usuários. Rio de Janeiro: Iphan, 1999.
Assim, são desdobramentos lógicos da Puppi, Marcelo. Por uma história não moderna da
arquitetura as práticas preservacionistas, arquitetura brasileira. Campinas: Pontes- CPHA/IFCH/
Unicamp, 1998.
bem como as destrutivas. Se uma história Schmarsow, August. The essence of architectural
é constituída, consagrada, outras possíveis creation. Em Mallgrave, Harry Francis &
Ikonomou, Eleftherious (eds.). Empathy, form and
são descartadas. Quando alguns bens são
space: problems in German aesthetics, 1873-1893. Santa
preservados, certos aspectos do passado são Monica: The Getty Center for the History of Art and
eleitos para sobreviver, outros fenecem. O the Humanities, 1994.
Wölfflin, Heinrich. A arte clássica. São Paulo:
que aproxima – se não torna indissociável – Martins Fontes, 1990.
inventar e destruir.
Márci a C huva
Po r u m a h i s tó ri a d a noção de

A rtístico N acional
patri mô ni o cult ural no B rasil

(...) Esses homens! Todos puxavam o mundo estruturar a partir dessa distinção da natureza

e
P atrimônio H istórico
para si, para concertar o consertado. Mas cada um dos objetos, organizando-se em setores
só vê e entende a coisa dum seu modo. de patrimônio material e imaterial – bem
Guimarães Rosa. Grande sertão veredas. como à proposição de projetos e ações que a
reforçam, apresento algumas considerações
Neste artigo, proponho uma viagem sobre a história dessa divisão, para estimular
prospectiva sobre a possibilidade de pensar o desenvolvimento e a proposição de projetos
novos paradigmas para a preservação do integrados e integradores da noção de

do
patrimônio cultural, que efetivamente patrimônio cultural.1 Ao focar especialmente

R evista
operem com uma noção de patrimônio determinados aspectos que se consagraram
cultural integradora. Para isso, é preciso em versões oficiais da história da preservação
começar por uma trilha retrospectiva, a fim do patrimônio cultural no Brasil, espero
de compreender os motivos e os sentidos levantar algumas pistas que possam nos levar a
da divisão, nas ações atuais de preservação outras leituras possíveis e ao aprofundamento
no Brasil, entre a materialidade e a das pesquisas sobre o assunto.
imaterialidade do patrimônio cultural. Em 1980, a primeira versão oficial sobre 147
A noção de patrimônio cultural – a história da preservação do patrimônio
categoria-chave para a orientação das cultural no Brasil foi publicada pela Secretaria
políticas públicas de preservação cultural do Patrimônio Histórico e Artístico
– é historicamente constituída e tem se Nacional e Fundação Nacional Pró-Memória
transformado no tempo. No Brasil, as (Sphan/PróMemória), intitulada Proteção e
singularidades da trajetória de formação revitalização do patrimônio cultural no Brasil:
do campo de patrimônio levaram a uma uma trajetória. Nessa obra, delineava-se
configuração dicotômica dessa categoria, uma trajetória das ações de preservação
dividida entre material e imaterial. Não há,
hoje, vozes dissonantes em torno do consenso 1. Alguns poucos projetos foram desenvolvidos no Iphan,
até o momento, com essa preocupação desde a publicação
de que se trata de uma falsa divisão, numa do decreto nº 3.551/2000, que institui o Registro de Bens
Procissão da Glória na
Festa da Boa Morte, em
aparente unanimidade sobre o assunto. Culturais de Natureza Imaterial. Dentre eles, podemos citar o Cachoeira (BA) evidencia
o caráter indivisível do
projeto Rotas da Alforria: trajetória das populações afrodescendentes patrimônio cultural
No entanto, na medida em que a referida na região de Cachoeira (Iphan, 2008), desenvolvido na Copedoc/ Foto: Renata Gonçalves, 2005.
Projeto Rotas da Alforria,
Iphan e o projeto desenvolvido pela Superintendência Regional
divisão tem levado à reestruturação das do Iphan em São Paulo sobre o Bairro do Bom Retiro na capital
Copedoc/Iphan

instituições de patrimônio – que passam a se paulistana (Scifoni, 2007).


Po r uma hist ór i a da noção de pat r i mônio. . .
que remontava ao século XVIII, ao referir- do Mário de Andrade sobre arte popular, sobre
se às intenções do então governador de antropologia foram um elemento enriquecedor para
Pernambuco d. Luís Pereira Freire de o projeto. Mas tudo o mais veio do Dr. Rodrigo e
A rtístico N acional

Andrade2 de preservar construções deixadas da equipe dele (Prudente de Moraes Neto e Afonso
pelos holandeses no Recife. Esta versão Arinos trabalharam com ele antes da formação
oficial também introduziu uma periodização da equipe de arquitetos). Grande contribuição de
que se tornou consagrada, organizando em Mário de Andrade para o patrimônio foi ter-nos
duas grandes fases a trajetória institucional: trazido o Luís Saia (...)4
a fase heroica e a fase moderna.3 A partir dela,
e
P atrimônio H istórico

também, foi disseminada a ideia de que o Desse modo, a insistente recorrência à


M árc ia Ch u va

anteprojeto apresentado, em 1936, por Mário figura de Mário de Andrade como fundador
de Andrade a pedido do então ministro da das práticas de preservação cultural no Brasil
Educação e Saúde, Gustavo Capanema, para pareceu estratégica: ela empresta forte carga
a organização de um serviço voltado para a simbólica e concede legitimidade a todos
preservação do patrimônio, no qual propõe que pleiteiam parte de sua herança, apesar
a criação do Span (Serviço do Patrimônio da distância já constituída no tempo, de
do

Artístico Nacional), havia sido matricial mais de 50 anos da sua morte. No entanto,
R evista

para a consolidação do texto do decreto- essa memória histórica5 tem obscurecido as


lei 25/1937, proposto no ano seguinte por tensões que historicamente caracterizaram o
Rodrigo Melo Franco de Andrade. campo do patrimônio cultural. Sem dúvida,
No entanto, no depoimento da museóloga a versão oficial de 1980 foi produzida num
Lygia Martins Costa, que atuou no Iphan a certo contexto de lutas, as quais devem
partir dos anos 50, esse papel atribuído a ser compreendidas, de modo a ultrapassar
148 Mário de Andrade fica bastante relativizado: o anacronismo que, para demonstrar a
pertinência da filiação com Mário de Andrade
(...) a minha geração não vê o Mário de na constituição dessa trajetória, forjou uma
Andrade como a geração de vocês. Quando entrei linha de continuidade histórica, obscurecendo
para o Patrimônio, não falávamos do Mário de a complexidade e os antagonismos presentes
Andrade como autor do projeto de criação do
Sphan, pois o plano que ele fez, em 1936, a 4. Entrevista publicada na Revista do Patrimônio Histórico
e Artístico Nacional, nº 31/2005. Luís Saia, formado
pedido do ministro Capanema, não foi realmente em engenharia e arquitetura pela Escola Politécnica da
significativo para o Patrimônio. (...) Não se trata Universidade de São Paulo, integrou a equipe de Mário
de Andrade no Departamento de Cultura de São Paulo,
de um projeto do Mário de Andrade. As ideias participando das viagens para realização de inventário
etnográfico de manifestações culturais ao Nordeste brasileiro.
Em seguida, foi indicado por Mário de Andrade para ocupar a
2. A referida publicação reproduz trecho da carta encaminhada chefia da Representação Regional do Sphan em São Paulo.
pelo governador de Pernambuco ao então vice-rei do Estado do 5. Na concepção aqui adotada, a “memória histórica” é uma
Brasil, d. André de Melo e Castro, conde de Galveias, datada de periodização construída a posteriori dos fatos em análise, que
5 de abril de 1742, sem indicação da localização da fonte. leva ao ocultamento de disputas, dos diferentes projetos e das
3. Para uma crítica a essa periodização, reproduzida incertezas do contexto histórico analisado, sendo que a própria
amplamente na literatura sobre o tema, bem como à referida produção historiográfica aceita tais periodizações sem crítica
publicação de 1980, ver Chuva (2009). (ver Vesentini, 1997).
Po r uma hist ór i a da noção de pat r i mônio. . .
naquele âmbito político. Embora seja com a criação das primeiras universidades
inegável a influência do poeta para aquela brasileiras, como a Universidade de São Paulo
geração de intelectuais, é necessário chamar (USP), em São Paulo, ou a Universidade do

A rtístico N acional
a atenção para os danos ético-políticos Distrito Federal (UDF), no Rio de Janeiro.
causados pela adoção de uma visão “histórica” Nesse percurso de construção, há
essencialmente cronológica e linear, bem diferentes concepções de patrimônio em
como suas consequências para as formulações jogo, em campos de ação que se cruzam
das políticas públicas por ela subsidiadas. (ou não) na trajetória histórico-política
Um ano antes de sua morte, em 1944, dessas concepções, com a demarcação de

e
P atrimônio H istórico
Mário de Andrade lembrava a Rodrigo M. questões e a constituição de temas tornados

M árc ia Ch u va
F. de Andrade seu orgulho de ser brasileiro.6 clássicos em cada um desses campos, até
E mais, sua honra em fazer parte daqueles a estabilização de nichos e a consolidação
privilegiados sujeitos históricos que, como de visões hegemônicas, inclusive com a
agentes do poder público, “inventaram” o separação de categorias por cada um deles.
Brasil. Minha intenção, aqui, não é realizar Quero dizer com isso que, embora diferentes
mais um estudo a respeito de Mário de grupos estivessem preocupados em conhecer

do
Andrade, o que há em profusão, com e preservar a cultura brasileira e em construir

R evista
enfoques e perspectivas as mais variadas. uma identidade nacional (Vilhena, 1997;
Mas, antes, colocar em evidência aspectos Chuva, 2009; Bomeny, 1994), as relações
das políticas públicas para o campo do entre eles apontaram para tensões e disputas
patrimônio cultural no Brasil a partir da que, ao longo do tempo, definiriam as noções
construção histórica da noção de patrimônio, apropriadas pelas áreas de conhecimento que
distanciando-se da concepção de uma linha se estruturavam, tornando-se aparentemente
de continuidade em que bens culturais de nativas a tais campos. Bom exemplo são as 149
diferentes naturezas e tipos foram sendo associações correntes feitas entre patrimônio
agregados a essa categoria, segundo a qual histórico e artístico e arquitetura, cultura
praticamente tudo pode ser patrimonializado. popular e antropologia.
Quero sugerir a complexidade desse
processo, fortemente inserido no campo
político e também acadêmico-científico, A herança de Mário de
considerando que a partir dos anos 30, Andrade: trajetórias
enquanto as ações de preservação do bifurcadas
patrimônio eram introduzidas no âmbito
das políticas públicas, concomitantemente, Figura ímpar nos campos intelectual
ia se constituindo uma série de novos e literário brasileiros, Mário de Andrade
campos de conhecimento, fruto de divisões introduziu ideias fecundas acerca da cultura
e especializações e de lutas por autonomia, brasileira e das políticas públicas para a sua
preservação, as quais se tornaram balizas
6. Carta de 10/2/44, reproduzida em Andrade (1981:187). que inspiraram o pensamento brasileiro em
Po r uma hist ór i a da noção de pat r i mônio. . .
A rtístico N acional
e
P atrimônio H istórico
M árc ia Ch u va

Mário de Andrade tomando banho de rio na Praia do Chapéu Virado, em Belém (PA), 1927. Acervo: Arquivo Central do Iphan, seção Rio de Janeiro
do
R evista

certos domínios da cultura – tanto aquele que não julgando pertinente essa distinção.
constitui o patrimônio histórico e artístico Suas viagens em missão ao Nordeste,
nacional com bens materiais (arquitetônicos; seguidas da ação no Departamento de
objetos de arte; conjuntos urbanos), quanto Cultura da Prefeitura de São Paulo, foram
aquele que se interessava pelas práticas as suas principais fontes de experiência
150 cotidianas ou extraordinárias, celebrações e para a construção de uma metodologia de
ritos, manifestações de arte. Seu idealismo, conhecimento da cultura brasileira de caráter
sua produção intelectual e sua capacidade de científico,7 que subsidiaria a criação, em 1947,
execução – apesar da morte prematura, em da Comissão Nacional de Folclore,8 e para
1945 – legaram aos brasileiros um vastíssimo a formulação das suas concepções de arte,
território semeado por seu pensamento cultura e patrimônio, que fundamentariam o
criativo, cheio de paixão e vivacidade, que anteprojeto para a criação do Span. 9
não envelheceu com o tempo.
É sabido que, nos anos 30, Mário 7. De acordo com Vilhena (1997), o caráter científico – termo
adotado na época – era considerado necessário às novas
de Andrade encarnou o papel de agente pesquisas para se distinguirem dos textos literários que
do poder público para a promoção da predominavam nos estudos folclóricos até então.
8. A Comissão Nacional de Folclore (CNF) foi criada em
cultura brasileira, lançando tanto as bases 1947, sendo uma das comissões temáticas do Instituto
para a ação do Estado na preservação do Brasileiro de Educação, Ciência e Cultura (IBECC),
organizada no Ministério das Relações Exteriores (MRE) para
patrimônio artístico no Brasil, quanto para ser representante brasileira na Unesco (Cf. Vilhena, 1997).
9. Sobre o sentido de arte pensado por Mário de Andrade
o conhecimento do folclore brasileiro – que como categoria mais abrangente ao propor a criação do Span,
denominava também de cultura popular, ver Chagas (2003).
Po r uma hist ór i a da noção de pat r i mônio. . .
A rtístico N acional
e
P atrimônio H istórico
M árc ia Ch u va
Feira em Ferrão Veloso (AL), registrada por Mário de Andrade. Acervo: Arquivo Central do Iphan, seção Rio de Janeiro

do
R evista
Mas a diversidade de posições dos cultural brasileiro – de um nacionalismo não
vários intelectuais que fizeram parte da meramente retórico, mas constituído em
administração do governo Vargas não pode política de Estado pelo governo Vargas – os
ser ignorada e talvez seja possível afirmar, campos do patrimônio e do folclore tiveram
conforme Silvana Rubino (2002:153), que, suas trajetórias apartadas na origem.
no âmbito do patrimônio cultural, “não Ao que tudo indica, o (re)encontro 151
houve o monopólio dos modernistas. Talvez desses dois caminhos vai se dar somente
tenha sido deles, contudo, o monopólio na atualidade, incorporados, inclusive, em
da versão dos fatos, das publicações, termos institucionais dentro do Iphan, fruto
da ocupação do espaço intelectual”. As do surpreendente gigantismo alcançado pelo
diferenças presentes na gênese dessas campo do patrimônio cultural brasileiro.
políticas perduraram e “o que não coube A expansão desse campo tem abarcado
no Sphan virou, décadas depois, Funarte” um universo muito amplo de agentes
(Rubino, 2002:152). sociais, de bens e práticas culturais passíveis
Mário de Andrade apontava para uma de se tornarem patrimônio, bem como
concepção integral da cultura, na qual promovido uma série de consequências
concebia patrimônio em todas as vertentes sociais, políticas e administrativas relativas
e naturezas, sendo que o Estado deveria à sua gestão, tanto relacionada aos bens de
estar pronto para uma atuação integradora. natureza material, com sua proteção, quanto
Embora originados da mesma matriz aos bens de natureza imaterial, com as
andradiana e no mesmo contexto político- políticas de salvaguarda. Esse campo tem se
Po r uma hist ór i a da noção de pat r i mônio. . .
tornado, progressivamente, multidisciplinar, A noção de patrimônio cultural tornou-
o que pode ampliar as possibilidades de se maleável e ampla, capaz de agregar
diálogo em busca de novos consensos. Sob valores, visões de mundo e ações políticas
A rtístico N acional

outro ângulo, essa multidisciplinaridade nem sempre harmoniosas ou coerentes


tem colocado em evidência também um entre si. Por isso, refletir sobre a herança
campo de batalhas, onde diversas áreas de intelectual de Mário de Andrade, partilhada
conhecimento encontram-se em disputa hoje por grupos com diferentes visões de
pelo predomínio no campo do patrimônio. mundo, coloca especialmente em foco
Com vistas à reserva de mercado de o prestígio que ele empresta para a ação
e
P atrimônio H istórico

trabalho ou prestígio, essas disputas podem política, em que suas ideias são atualizadas
M árc ia Ch u va

levar até mesmo a práticas corporativas ou e apropriadas em contextos específicos


a um isolacionismo prejudicial à finalidade e reconfiguradas em novas criações. Na
da preservação do patrimônio cultural. maioria das introduções de artigos ou
Nesse caso, o consenso em torno da apresentações de publicações que abordam
multidisciplinaridade que caracteriza o a história da constituição do campo do
campo – todos reconhecem que nenhuma patrimônio imaterial no Brasil, não somente
do

área de conhecimento é capaz de dar aquelas de caráter oficial, mas também


R evista

conta de todos os aspectos que envolvem trabalhos de viés mais acadêmico,10 Mário
o trabalho com o patrimônio cultural – de Andrade é apresentado como mentor e
dificulta um olhar mais atento para as lutas fundador de um novo tempo. Inicialmente,
de representação travadas entre diferentes então, gostaríamos de analisar como se deu
setores e áreas, em busca desse domínio. a divisão entre esses dois campos de ação das
Na atualidade, a área do patrimônio políticas públicas: o do patrimônio e o do
152 engloba um conjunto significativo de questões folclore, que estavam unidos no pensamento
de ordem política, de relações de poder, de Mário de Andrade.
de campos de força e âmbitos do social.
Anteriormente alheio a essa prática, hoje o
patrimônio toma em consideração questões O âmbito do patrimônio
relativas à propriedade intelectual, ao meio
ambiente, aos direitos culturais, aos direitos Para Antônio Gilberto Ramos Nogueira
difusos, ao direito autoral, ao impacto cultural (2005:50), a experiência e o aprendizado
causados pelos grandes empreendimentos,
além dos temas já tradicionais, como aqueles 10. Isso pode ser verificado na maioria dos artigos que tratam do
que envolvem questões de urbanismo e assunto. A reprodução dessa ideia pode ser vista em publicações
recentes (Cf. Chagas e Abreu, 2003; Lima F., Eckert e Beltrão,
uso do solo, expansões urbanas sobre áreas 2007); na Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional nº
históricas decadentes, questão habitacional 32/2006; na Revista Tempo Brasileiro nº 147, 2001. E também, em
diversos textos oficiais, tais como os encontrados em Iphan (2003
em áreas históricas urbanas e, principalmente, e 2006), além da publicação disseminadora dessa ideia, tratada
anteriormente (Iphan, 1980). O mesmo se repete na exposição
os limites que o tombamento impõe à de motivos para o encaminhamento do decreto nº 3.551/2000, já
propriedade privada. citado, como será visto adiante.
Po r uma hist ór i a da noção de pat r i mônio. . .
das viagens realizadas por Mário de Andrade de um tratamento integral da cultura cuja
mostram que, em sua tentativa de construção trilha seria traçada na experiência, na
da nação, o passado seria uma matéria-prima metodologia de inventário, nas técnicas de

A rtístico N acional
a ser resgatada como referencial. Não um registro, na noção de arte com que trabalhava.
passado que não existe mais, mas justamente a Com o desmonte do Departamento
existência, nesse imenso Brasil, de diferentes e o consequente afastamento de Mário de
temporalidades, encontradas por ele em suas Andrade, o recém-criado órgão federal de
missões ao interior do Brasil, distante de São patrimônio – o Sphan – não tomou para
Paulo ou das grandes cidades; distante das si aquelas funções de caráter nacional,

e
P atrimônio H istórico
elites e da sua erudição europeia e bastante curiosamente exercidas por um departamento

M árc ia Ch u va
próximo do popular, encontrado no próprio municipal, ainda que Mário de Andrade
tecido social, a ser apreendido por meio do tenha tentado, sem sucesso, que o Ministério
que vem do olhar, do escutar, do saborear, da Educação e Saúde as incorporasse.12 Na
do conversar. Nicolau Sevcenko (1992) conjuntura política do Estado Novo, foi, sem
analisa de modo brilhante o surgimento do dúvida, graças à forte amizade entre Mário de
moderno como um valor positivo, durante os Andrade e Rodrigo Melo Franco de Andrade

do
anos 20, e a sua progressiva vinculação com que o primeiro conseguiu, depois de alguns

R evista
a ideia do “popular” associada àquilo que é anos no Rio de Janeiro, ser abrigado no Sphan
autenticamente brasileiro. Sobre o popular, como funcionário da Representação Regional
lugar da redescoberta do Brasil, foi feito do Serviço em São Paulo, sob a direção
imenso esforço de pesquisa e se construiu, de seu amigo e discípulo nas missões de
pela primeira vez, segundo o autor, o vínculo pesquisa folclórica, o arquiteto Luís Saia
entre distinção social, sofisticação, passado (Chuva, 2009).
colonial e raiz popular.11 Até aquele momento, poder-se-ia 153
No curto período de 1936 a 1938, Mário imaginar a existência de um pensamento
de Andrade organizou a Missão de Pesquisas integrado em torno de um mesmo projeto,
Folclóricas, no Departamento de Cultura do tendo em conta a apresentação de Rodrigo
município de São Paulo; busca etnográfica Melo Franco de Andrade (1937:4) no
em que realizou seu maior investimento primeiro número da Revista do Sphan, ao
no sentido de um inventário da cultura lamentar que “o presente número desde logo
brasileira. Mário de Andrade estruturou, a se ressente de grandes falhas, versando quase
partir do poder político local, um projeto todo sobre monumentos arquitetônicos,
de conhecimento e construção da nação como se o patrimônio histórico e artístico
brasileira. Nesse projeto, tinha a perspectiva nacional consistisse principalmente nesses”.

11. Para Sevcenko (1992), a peça de Afonso Arinos O contratador


de diamantes, encenada em 1919 em São Paulo, foi matricial nesse 12. Luís Rodolfo Vilhena (1997) e Antônio Gilberto Ramos
processo.Ver também, o estudo desenvolvido por Carla Costa Dias Nogueira (2005) advertem que Mário de Andrade insistiu,
(2005) sobre a formação da coleção regional do Museu Nacional sem sucesso, com o ministro Gustavo Capanema para que
para uma análise mais detida sobre as noções de popular, o incorporasse ao Ministério da Educação e Saúde as funções até
sertanejo e o folclore em construção naquele contexto histórico. então exercidas pelo Departamento de São Paulo.
Po r uma hist ór i a da noção de pat r i mônio. . .
Contudo, o entendimento de patrimônio pelo instituto do tombamento nos seus
cultural de Mário de Andrade era bastante primeiros anos de existência, pode-se afirmar
diferente, e até mesmo antagônico, do que a “arte popular”, ainda que enunciada,15
A rtístico N acional

entendimento do grupo de intelectuais não foi incorporada às práticas de proteção


integrado à rede de Capanema e Rodrigo nem ao rol de bens culturais passíveis de
Melo Franco de Andrade e que se tornou se tornarem patrimônio. À frente desse
hegemônico no Sphan. Para Mário de processo, vimos os arquitetos a um só tempo
Andrade, a cultura brasileira deveria ser se profissionalizarem, com autonomia em
apreendida como uma totalidade coesa, relação à formação em engenharia e belas-
e
P atrimônio H istórico

ainda que constituída pela mais ampla artes, e dominarem o campo do patrimônio
M árc ia Ch u va

diversidade de práticas possível. Uma como especialistas, sob a liderança intelectual


unidade cultural amalgamada pela diferença, do arquiteto Lucio Costa (Chuva, 2009).
que escapava, nessa perspectiva, a qualquer Essa vertente esteve assentada nas teses
tipo de regionalismo (Andrade, 1981). sobre as três raças formadoras da sociedade
Assim, o folclore, as tradições populares brasileira, graças à noção de civilização
das várias localidades brasileiras foram por material introduzida por Afonso Arinos
do

ele valorizadas como partes constitutivas de Melo Franco, que percebia no branco
R evista

da própria nacionalidade. Para Mário de português a maior influência, em razão da


Andrade, a identidade nacional seria uma maior perenidade dos materiais utilizados
síntese de diferentes costumes e formas de nos processos construtivos, e na presença
expressão, resultado de suas preocupações do negro africano e do índio autóctone
acerca do folclore.13 Ao elaborar uma influências de menor envergadura.16 Essa
“política de preservação” em seu anteprojeto, perspectiva justificava o predomínio da
154 ela enfatiza sua perspectiva etnográfica, proteção de bens materiais, especialmente
especialmente o que chamava de “etnografia arquitetônicos, relativos ao período colonial.
popular”: “o povo brasileiro em seus costumes
e usanças e tradições folclóricas, pertencendo
15. Conforme apontado em Chuva (2009), Rodrigo M.
à própria vida imediata, ativa e intrínseca do F. de Andrade delimitou, como objetivo da linha editorial
Brasil”.14 Percebe-se, portanto, uma inflexão do Serviço, as questões gerais e específicas da formação e
desenvolvimento das artes plásticas no Brasil, assim como
política e também conceitual no Sphan em os estudos sobre materiais “de nossa arqueologia, de nossa
etnografia, de nossa arte popular, de nossas artes aplicadas
relação ao projeto de Mário de Andrade e dos monumentos vinculados à nossa história” (Andrade,
naquele momento (Nogueira). 1937). Além disso, vale lembrar que um dos quatro livros
do Tombo criados pelo decreto-lei n. 25/1937, destinado às
Em relação ao conjunto de práticas artes aplicadas, o Livro de Tombo Arqueológico, Etnográfico
implementadas pelo Sphan e consagradas e Paisagístico, foi inaugurado com a inscrição dos objetos
de magia negra apreendidos pela polícia na época (Maggie,
1992; Silva, 2002).
16. Afonso Arinos de Melo Franco, primo de Rodrigo Melo
13. Seu trabalho serviria de inspiração ao que posteriormente Franco de Andrade, ministrou para os funcionários do Sphan
foi realizado pela Comissão Nacional do Folclore – CNF. Para o um curso de formação sobre a civilização material brasileira,
assunto ver Vilhena (1997). que se tornou um livro intitulado Desenvolvimento da civilização
14. Carta de Mário de Andrade a Rodrigo M. F. de Andraade, material no Brasil (Franco, 1944). Para o assunto, ver Chuva
em 29/7/1936, publicada em Andrade (1981:61). (2009) e Teixeira (2009).
Po r uma hist ór i a da noção de pat r i mônio. . .
O âmbito do folclore

A rtístico N acional
Os estudos de Mário de Andrade
apontavam para registros etnográficos
condizentes com a produção intelectual
de sua época, que experimentava sua
primeira fase de institucionalização com a
criação da USP e a presença de uma série
de intelectuais estrangeiros e brasileiros.17

e
P atrimônio H istórico
Segundo Vilhena (1997), contudo, na

M árc ia Ch u va
medida em que as ciências sociais se
institucionalizavam no Brasil, dava-se,
progressivamente um afastamento da
temática folclorista no campo acadêmico.
Na administração pública, o
distanciamento entre as vertentes do

do
patrimônio e do folclore tornou-se evidente

R evista
com a criação da Comissão Nacional do
Folclore, em 1947, no Ministério das
Relações Exteriores (MRE), por um
grupo de intelectuais que almejava o
reconhecimento do folclore como saber
científico. Eles ramificaram o movimento
em comissões estaduais, promoveram 155

Tombamentos exemplares realizados nos anos iniciais do Iphan: a


congressos e viabilizaram, em 1958, a
cidade de Ouro Preto como referência máxima do barroco brasileiro,
tombada pelo Sphan em 1938 e a Igreja São Francisco de Assis,
criação da Campanha de Defesa do Folclore
na Pampulha em Belo Horizonte (MG), tombada pelo Iphan em
1948, projeto de Oscar Niemeyer, como exemplar representativo da
Brasileiro (CDFB), vinculada ao Ministério
arquitetura moderna brasileira, considerada legítima herdeira da
arquitetura colonial. Acervo: Arquivo Central do Iphan, seção Rio de Janeiro da Educação e Cultura (MEC), criado em
1953, por Getúlio Vargas, ao qual ficou
vinculada também a Dphan (Diretoria do
O Span de Mário de Andrade não teve Patrimônio Histórico e Artístico Nacional,
lugar naquele contexto, e a proposta de uma antigo Sphan). Segundo Vilhena (1997), a
etnografia da cultura – uma metodologia de CDFB foi o momento auge dos estudos do
inventário e conhecimento para documentar folclore brasileiro, pelo menos até 1964,
tudo aquilo que fosse compreendido como
patrimônio cultural – não irá se efetivar dentro
17. Há muitos estudos sobre o assunto, que destacam o
do Sphan, mas somente em outra agência do papel de Dina Lévi-Strauss, esposa de Claude Lévi-Strauss,
na formação de etnólogos, dentre eles o próprio Mário de
Estado, posteriormente, tendo sido apartada Andrade, com quem teve contato estreito (Vilhena, 1997;
do então campo do patrimônio cultural. Peixoto, 1998, dentre outros).
Po r uma hist ór i a da noção de pat r i mônio. . .
quando nova inflexão vai ocorrer em função (o branco português, o negro, o índio),
do regime militar instalado. buscava-se um objeto que sintetizasse essas
Manteve-se, naquele contexto, uma três matrizes. Ao mesmo tempo em que
A rtístico N acional

significativa distância entre os grupos de empreendiam estudos do folclore, cujos


intelectuais envolvidos com as duas esferas de temas privilegiados variaram da poesia
ação do MEC. No campo do folclore, nomes popular para a música, para os folguedos,
como Cecília Meirelles e Renato Almeida empreendiam ações para a disseminação do
marcaram a trajetória intelectual desse campo. folclore nas escolas.
Como se pode verificar, não havia representantes Essa rede de intelectuais, que concebeu
e
P atrimônio H istórico

da Dphan nas reuniões da Comissão Nacional do um projeto e assumiu uma missão voltada
M árc ia Ch u va

Folclore, nem representantes desta no Conselho para a descoberta da originalidade da


Consultivo da Dphan. cultura mestiça, preocupava-se também
Ao estudar as redes de folcloristas com o destino das “tradições nascentes”,
conectados à Comissão,Vilhena (1997) afirma em função do desenvolvimento econômico
que a formação da nação era um problema descontrolado em um país subdesenvolvido.
fundamental também daqueles intelectuais que Como veremos a seguir, nos anos 70,
do

apostaram em um modelo de institucionalização novas divisões em relação à concepção


R evista

vinculado estreitamente ao Estado e elegeram integradora de Mário de Andrade acerca


temas de investigação presentes, sob outro de patrimônio e cultura foram colocadas
ângulo, nos trabalhos de sociologia e nos em jogo, em função de uma série de
estudos de comunidades. Com estratégias fenômenos históricos que se relacionam
de poder semelhantes àquelas adotadas pela não tanto com a constituição do campo das
Dphan, Renato Almeida preocupava-se em ciências sociais, mas principalmente com as
156 envolver colaboradores locais numa rede de tomadas de posição dos agentes do poder
solidariedade em torno da “causa”. institucionalizado naquele momento, inclusive
Sob a égide dos relatos de fundação do em função das viradas políticas sofridas no
Brasil a partir dos três grupos formadores Brasil, com o golpe militar em 1964.

Vista da cidade de Olinda


(PE), incluída na Lista de
Patrimônio Mundial da
Unesco em 1982. Foto: Pedro
Lobo, 1981. Acervo: Arquivo
Central do Iphan, seção Rio
de Janeiro
Po r uma hist ór i a da noção de pat r i mônio. . .
Política cultural global sido o “primeiro plano oficial abrangente em
condições de nortear a presença governamental
Em termos internacionais, a inserção na área da cultura, a chamada Política Nacional

A rtístico N acional
do campo do patrimônio cultural em escala de Cultura” (Miceli, 1984:57), de 1975, durante
global, que vinha se constituindo desde o final a gestão de Ney Braga no Ministério da Educação
da 2ª Guerra Mundial, alcançou seu ápice com e Cultura, que inseriu o domínio da cultura
a aprovação final da Convenção do Patrimônio entre as metas da política de desenvolvimento
Mundial Cultural e Natural, de 1972, que social do período.18 Ainda que nos tempos de
vinha sendo desenhada desde a década anterior Getúlio Vargas enormes investimentos tenham

e
P atrimônio H istórico
(Leal, 2008), na Assembléia Geral da Unesco. sido feitos no campo cultural, esse foi o primeiro

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Para Eric Hobsbawm (1993), as décadas documento que formalizou um conjunto de
de 1970 e 1980, por ele denominados de “as diretrizes e previu colaborações intersetoriais,
décadas de crise” do capitalismo, marcaram envolvendo parceiros históricos em projetos
um novo tipo de concorrência em termos culturais pontuais, como o Ministério das
globais. Associado a outros fatores estruturais, Relações Exteriores e o Ministério da Justiça,
o advento da tecnologia promoveu um severo além de considerar a participação dos outros

do
enfraquecimento dos Estados e a expansão níveis do poder público.

R evista
fantástica do poder transnacional do capital a Nessa nova política, foram germinadas
ignorar as fronteiras nacionais. Novos valores e ideias relacionadas à diversidade e pluralidade
clivagens foram sendo constituídos a partir desse cultural da sociedade brasileira, integrando os
contexto, e esmaeceram a ideia de nação em Planos Nacionais de Desenvolvimento (PNDs),
favor do fortalecimento de recortes identitários formulados na ditadura militar, especialmente,
de outras naturezas, como por exemplo, a partir do governo do general Ernesto Geisel.
religiosa, étnica, ideológica, de gênero etc. Na leitura de Miceli (1984), os dois órgãos do 157
Novas concorrências se instalaram, portanto, e a MEC que atuavam na preservação da cultura –
identidade nacional foi reconfigurada, sofrendo o Iphan e a CDFB – sofreram transformações
transformações significativas. É nessa conjuntura significativas nesse novo contexto. Ao analisar
que ocorre a ampliação da noção de patrimônio aquele momento da formulação de uma política
cultural, em que novos objetos, bens e práticas nacional de cultura, que promoveu a coesão
passam a ser incluídos ou a concorrer para se das inúmeras ações dispersas em diferentes
tornarem patrimônio cultural. De um modo agências do Estado, Miceli compreendeu que
geral, tal ampliação tem sido explicada em o campo cultural encontrava-se dividido em
função da guinada antropológica no âmbito das duas frentes: uma executiva e outra patrimonial.
ciências sociais, a partir da qual a cultura passou A frente executiva foi formada com a criação
a ser observada como processo, e as relações
cotidianas tornaram-se objetos de investigação.
18. A respeito da Política Nacional de Cultura, ver artigo de
No Brasil, os estudos de Sérgio Miceli sobre Lúcia Lippi de Oliveira (2007); sobre o Conselho Federal de
Cultura, de 1971 a 1974, ver artigo de Lia Calabre (2006);
política cultural são ainda importante ponto de sobre a política cultural da Funarte, ver artigo de Isaura
partida para se compreender aquele que teria Botelho (2000).
Po r uma hist ór i a da noção de pat r i mônio. . .
A rtístico N acional
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P atrimônio H istórico
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Forte Coimbra à margem direita do rio Paraguai, na cidade de Corumbá (MS). Tombamento realizado pelo Iphan na década de 1970. Foto: Edgar
Jacintho, 1975. Acervo: Arquivo Central do Iphan, seção Rio de Janeiro
do
R evista

da Fundação Nacional de Arte (Funarte), em Uma terceira frente relacionada à


1975.19 Nela foram incorporados os projetos valorização da cultura também foi formulada
relacionados ao folclore e à cultura popular, naquele contexto, fora, entretanto, do
por meio da criação do Instituto Nacional do circuito de poder institucional do MEC. Essa
Folclore (INF),20 substituindo a CDFB. frente se organizou com a criação do Centro
A frente patrimonial era monopolizada Nacional de Referência Cultural (CNRC),
158 pelo Iphan, cuja ação voltava-se, no Ministério da Indústria e Comércio,
principalmente, para a restauração de bens sob a liderança do renomado designer
arquitetônicos, que consumia a maior parte pernambucano Aloísio Magalhães.
dos recursos institucionais, ainda que novas O CNRC não trabalhava com a noção
perspectivas tenham sido abertas ao longo dos de patrimônio cultural, mas sim de bem
anos 70, na gestão de Renato Soeiro.21 cultural; nem com a ideia de folclore, mas
de cultura popular. Em confronto com a
19. Funarte – criada pela lei nº 6.312, de 16 de dezembro
de 1975, com a atribuição de formular, coordenar e executar
perspectiva do folclore da CDFB, também
programas no âmbito da produção cultural, tendo, sob sua se colocava reticente com relação à prática
responsabilidade, o Instituto Nacional de Artes Plásticas; o
Instituto Nacional de Música e, a partir de 1978, o Instituto de preservação do patrimônio histórico e
Nacional de Folclore. artístico conduzida pelo Iphan.
20. O Centro Nacional de Cultura Popular, vinculado ao
Iphan na atualidade, é o herdeiro dessas instituições. Para Com significativa autonomia no início de
compreensão das transformações sofridas pela instituição ao suas atividades, a experiência do CNRC trouxe
longo do tempo ver Iphan (2006).
21. Sobre a gestão de Renato Soeiro na presidência do Iphan ver os produtores – agentes da cultura – para o
Júlia Wagner Pereira (2009). Para pensar sobre as estratégias
de aproximação do Iphan com a Unesco, na gestão de Renato
processo de reconhecimento e valorização da
Soeiro, ver Cláudia Leal (2008). prática cultural e buscou estratégias para a sua
Po r uma hist ór i a da noção de pat r i mônio. . .
salvaguarda, aproximando a cultura do viés do indica, a chamada “fase moderna” da trajetória
desenvolvimento econômico e do mercado da preservação no Brasil, quando se operou
(Fonseca, 1997). a fusão entre Iphan e CNRC originando a

A rtístico N acional
O CNRC propunha uma associação entre Sphan/Pró-Memória, nasceu exatamente de
cultura e desenvolvimento que se coadunava uma brecha encontrada por Aloísio Magalhães
aos parâmetros fornecidos pelos PNDs, que na estrutura de poder do Estado brasileiro.
por sua vez propunham uma desconcentração Considerando esses aspectos, tornam-se
da riqueza do país no Centro-Sul e uma maior mais compreensíveis os motivos que levaram
assistência às regiões Norte e Nordeste, a tais escolhas, pois apesar das críticas feitas à

e
P atrimônio H istórico
visando ao seu desenvolvimento. Segundo folclorização da cultura popular, é evidente que o

M árc ia Ch u va
Miceli (1984), num momento de crise, foco das ações do CNRC o aproximava bem mais
em que corria o risco de ver os projetos da frente executiva da cultura – tendo em vista
do CNRC ficarem sem continuidade, os estudos desenvolvidos pela CDFB, seguida
Aloísio Magalhães conseguiu articular-se pelo INF – do que da frente patrimonial. Além
politicamente e assumir a presidência do disso, uma série de reformulações conceituais
Iphan, para onde levaria os projetos e toda a no campo do folclore vinha se concretizando em

do
equipe do CNRC.22 Transformando o risco razão das críticas oriundas do âmbito acadêmico

R evista
em oportunidade de se fortalecer em termos desde a década de 1950. Dessa forma, vinha se
políticos, ele ocupou estrategicamente o processando uma aproximação progressiva da
comando da frente patrimonial, naquele visão matricial de Mário de Andrade, em que
momento, mais enfraquecida, dando-lhe não haveria distinções marcadas entre folclore e
novo fôlego. Com a criação da Fundação cultura popular, mas que vinha constituída, sim,
Nacional Pró-Memória, Aloísio Magalhães pela diversidade de expressões culturais.
promoveu ainda a incorporação de vários 159
outros órgãos da esfera da cultura que se
encontravam em condições bastante precárias Por um novo paradigma
naquele momento,23 o que proporcionaria o da preservação do
crescimento e a requalificação significativos patrimônio cultural
do setor cultural, cujos resultados se
verificariam na década de 1980. Ao que tudo Esse panorama do campo cultural do
final dos anos 70 ainda tem muitas lacunas a
serem preenchidas.
22. Nessa reforma, o Programa das Cidades Históricas (PCH),
também originário de setores econômicos e de planejamento, No contexto da época, várias estratégias
foi, da mesma forma, levado para o campo político da cultura, foram adotadas para dar sentido à reforma
por meio de sua incorporação ao Iphan (Sant’Anna, 1995).
23. A Fundação Nacional Pró-Memória foi criada em institucional que se promovia com a junção
sua gestão, como braço executivo do antigo Iphan, agora do CNRC ao Iphan e não àqueles que se
Subsecretaria do Ministério da Educação (Sphan). A Fundação
incorporou uma enorme gama de instituições de cultura, como apresentavam como herdeiros de Mário de
a Biblioteca Nacional, o Museu Nacional de Belas-Artes, o
Museu Histórico Nacional, centralizando então o processo de
Andrade e que formularam políticas para
modernização dessas unidades nos anos 1980. a cultura popular, agora ligados à Funarte.
Po r uma hist ór i a da noção de pat r i mônio. . .
Dentre essas estratégias, foi necessário forjar
um elo entre as diferentes frentes de ação
do Estado que, historicamente, estiveram
A rtístico N acional

apartadas. O elo encontrado foi a própria


figura de Mário de Andrade.
Para a consagração dessa versão que
institui um “histórico” capaz de forjar uma
linha de continuidade evolutiva para a noção
de patrimônio cultural, foi lançada pela Sphan
e
P atrimônio H istórico

a publicação de 1980, citada anteriormente,


M árc ia Ch u va

com uma primeira versão oficial da trajetória


da preservação do patrimônio cultural no
Brasil, que tinha como ponto de chegada,
naquele momento, a incorporação do CNRC
ao Iphan. Com essa reestruturação, o campo
do patrimônio absorveu tensões para seu
do

interior, tornando-se a arena privilegiada


R evista

de conflitos onde se confrontaram posições


e visões de patrimônio diversas, por vezes
antagônicas, que passaram a concorrer Casa da Dona Neni. Casarão de madeira que abrigou os primeiros
imigrantes italianos que chegaram em Antônio Prado (RS), tombado
também por hegemonia e por recursos. pelo Iphan na década de 1980. Acervo: Arquivo Central do Iphan, seção Rio
de Janeiro

Ainda que mudanças significativas tenham


sido sentidas na ação institucional nos anos 80
160 – como apontou Fonseca (1997) em sua análise
dos processos de tombamento desse período
–,24 sem dúvida, com a morte prematura de
Aloísio Magalhães, permaneceu inconcluso um
projeto político que começou a germinar no
bojo dessa ampliação do campo cultural. Projeto
este que pressupunha uma visão integral da
cultura, como preconizara Mário de Andrade.
Assim, continuaram apartadas as frentes de Cidade de Laguna (SC), tombada pelo Iphan na década de 1980
ação política relacionadas à cultura popular e Acervo: Arquivo Central do Iphan, seção Rio de Janeiro

ao patrimônio, com seus universos próprios de


questões, tensões e interesses em jogo. Foi também nesse contexto que
a perspectiva ampliada de patrimônio
24. Abordando a ação institucional sobre as cidades históricas cultural marcou um lugar vitorioso com
no período em apreço, ver a dissertação de Márcia Sant'Anna
(1995) sobre os conceitos de cidade monumento e cidade
a Constituição Federal de 1988. Tendo
documento. acompanhado o processo de ampliação do
Po r uma hist ór i a da noção de pat r i mônio. . .
campo do patrimônio que se deu em todo Acreditamos ser essa a melhor maneira para
o mundo ocidental, o texto constitucional capitalizar o grande consenso que existe hoje em
consolidou uma noção ampla e plural da dia em torno da importância dos bens imateriais,

A rtístico N acional
identidade brasileira, trazendo para a cena para nosso patrimônio cultural. Um consenso que
jurídico-política a noção de bens culturais de se forja na pregação da Mário de Andrade, Câmara
natureza imaterial.25 Cascudo e Aloísio Magalhães e de tantos outros
Na década de 1990, o resultado do líderes e intelectuais (Iphan, 2003:72).
Grupo de Trabalho do Patrimônio Imaterial
e da Comissão de assessoramento ao Grupo Por sua vez, o Grupo de Trabalho

e
P atrimônio H istórico
de Trabalho – criados pelo Ministério que subsidiou a elaboração do decreto, ao

M árc ia Ch u va
da Cultura26 com a tarefa de elaboração apresentar seu relatório final, afirmava que
de uma nova legislação que atendesse em função do enorme problema em se
às especificidades da preservação do
patrimônio imaterial, conforme determinava estabelecer dispositivos de proteção para
a Constituição – se concretizaria em 4 de equacionar questões específicas que o uso e
agosto de 2000, com a assinatura do decreto a comercialização desses produtos envolve

do
nº 3.551, que instituiu o Registro de Bens (...) optou-se por iniciar um trabalho de

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Natureza Imaterial e criou o Programa identificação, inventário, registro e conhecimento
Nacional de Patrimônio Imaterial. Esse do patrimônio imaterial de relevância nacional
Programa, inicialmente vinculado ao antes (Iphan, 2003:19).
Ministério da Cultura, foi transferido em
2003 para o Iphan, que absorveu todas as À semelhança das proposições de Mário
atribuições relativas ao patrimônio imaterial.27 de Andrade e também da tradicional política
No encaminhamento ao ministro da de patrimônio do Estado brasileiro, manteve- 161
Cultura, de 9 de setembro de 1999, a se a preocupação em atribuir um valor
Comissão assim tratava o assunto: nacional às manifestações culturais passíveis
de registro. Nesse contexto, isso significou
25. Lê-se, no artigo 216 da Constituição Brasileira: “Constituem pensar e agir politicamente em relação à
patrimônio cultural brasileiro os bens de natureza material ou identidade cultural brasileira, cujo valor
imaterial, tomados individualmente ou em conjunto, portadores
de referência à identidade, à ação, à memória dos diferentes primordial destacado é sua diversidade.
grupos formadores da sociedade brasileira (...)”.
26. A Comissão foi criada pela portaria nº 37 de 4 de março de
O marco de 1980, portanto, é significativo
1998, com a finalidade de estabelecimento de critérios, normas para se compreender as dificuldades atuais
e formas de acautelamento do patrimônio imaterial brasileiro,
e o Grupo de Trabalho, cuja finalidade era dar assessoramento para se construir uma noção de patrimônio
à referida Comissão, foi criado pela portaria nº 229, de 6 cultural integral, pois embora sejam evidentes
de julho de 1998, ambas assinadas pelo ministro da Cultura
Francisco Weffort (Iphan, 2003). Sobre a composição dos dois os avanços no sentido da preservação de bens
grupos citados ver também Iphan (2003). culturais de natureza imaterial, a origem
27. Interessante frente de pesquisa a ser desenvolvida é
investigar as correlações entre o grupo responsável pelo lobby na artificial, em termos conceituais, da unificação
Constituinte para formulação do capítulo da Cultura e o grupo
que tomará a frente, a partir de 1997, das novas diretrizes
desses universos distintos – material e
previstas internacionalmente para o campo do patrimônio. imaterial –, no momento de junção do CNRC
Po r uma hist ór i a da noção de pat r i mônio. . .
e Iphan, tem impedido a identificação, com destacar aqui. O esforço em desconstruir
maior clareza, das diferenças de postura que se essa memória histórica vem ao encontro da
apresentam ainda hoje. necessidade de se problematizar a noção de
A rtístico N acional

Talvez a opção pela perpetuação da patrimônio cultural por meio de uma efetiva
memória histórica que estabelece uma linha investigação da sua trajetória histórica, tendo
de continuidade dos anos 30 até hoje, por em vista seu papel na configuração do campo
meio da atualização do mito fundador de e das políticas de preservação cultural.
Mário de Andrade, venha obscurecendo os A divisão entre patrimônio material e
antagonismos e dificultando a percepção imaterial é, conceitualmente, enganosa, posto
e
P atrimônio H istórico

das diferentes apropriações da noção de que qualquer intervenção na materialidade


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patrimônio cultural presentes na atualidade, de um bem cultural provocará modificações


assim como a proposição de projetos na sua imaterialidade. Além disso, essa divisão
que articulem efetivamente uma noção artificial implica uma política institucional que
integradora do patrimônio cultural. promove uma distribuição desigual de recursos.
É preciso investigar com maior A unanimidade meramente retórica em
profundidade as inflexões sofridas ao longo torno do mito fundador de Mário de Andrade,
do

dessa trajetória e os recortes temporais que bem como da ideia de um patrimônio cultural
R evista

propusemos como rupturas nesse processo, não divisível não tem se revelado o melhor
visando tirar da obscuridade aspectos até caminho à formulação de novos paradigmas
então delegados a um segundo plano pela para a ação de preservação do patrimônio
visão hegemôni