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Felipe Bragantino

FELIPE BRAGANTINO

DEMANDA ÉTICA EM
RELAÇÃO AOS ANIMAIS:
DESAFIOS, CONTROVÉRSIAS E POSSÍVEIS
IMPACTOS NA MUDANÇA DE SUA
NATUREZA JURÍDICA

1
FELIPE BRAGANTINO

DEMANDA ÉTICA EM
RELAÇÃO AOS ANIMAIS:
DESAFIOS, CONTROVÉRSIAS E POSSÍVEIS
IMPACTOS NA MUDANÇA DE SUA
NATUREZA JURÍDICA

1ª edição

Santa Cruz do Sul

2015

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Felipe Bragantino

CONSELHO EDITORIAL
Prof. Dr. Alexandre Morais da Rosa – Direito – UFSC e UNIVALI/Brasil
Prof. Dr. Alvaro Sanchez Bravo – Direito – Universidad de Sevilla/Espanha
Profª. Drª. Angela Condello – Direito - Roma Tre/Itália
Prof. Dr. Carlos M. Carcova – Direito – UBA/Argentina
Prof. Dr. Demétrio de Azeredo Soster – Ciências da Comunicação – UNISC/Brasil
Prof. Dr. Doglas César Lucas – Direito – UNIJUI/Brasil
Prof. Dr. Eduardo Devés – Direito e Filosofia – USACH/Chile
Prof. Dr. Eligio Resta – Direito – Roma Tre/Itália
Profª. Drª. Gabriela Maia Rebouças – Direito – UNIT/SE/Brasil
Prof. Dr. Gilmar Antonio Bedin – Direito – UNIJUI/Brasil
Prof. Dr. Giuseppe Ricotta – Sociologia – SAPIENZA Università di Roma/Itália
Prof. Dr. Gustavo Raposo Pereira Feitosa – Direito – UNIFOR/UFC/Brasil
Prof. Dr. Humberto Dalla Bernardina de Pinho – Direito – UERJ/UNESA/Brasil
Prof. Dr. Ingo Wolfgang Sarlet – Direito – PUCRS/Brasil
Prof.ª Drª. Jane Lúcia Berwanger – Direito – UNISC/Brasil
Prof. Dr. João Pedro Schmidt – Ciência Política – UNISC/Brasil
Prof. Dr. Jose Luis Bolzan de Morais – Direito – UNISINOS/Brasil
Profª. Drª. Kathrin Lerrer Rosenfield – Filosofia, Literatura e Artes – UFRGS/Brasil
Profª. Drª. Katia Ballacchino – Antropologia Cultural – Università del Molise/Itália
Profª. Drª. Lilia Maia de Morais Sales – Direito – UNIFOR/Brasil
Prof. Dr. Luís Manuel Teles de Menezes Leitão – Direito – Universidade de Lisboa/Portugal
Prof. Dr. Luiz Rodrigues Wambier – Direito – UNIPAR/Brasil
Profª. Drª. Nuria Belloso Martín – Direito – Universidade de Burgos/Espanha
Prof. Dr. Sidney César Silva Guerra – Direito – UFRJ/Brasil
Profª. Drª. Silvia Virginia Coutinho Areosa – Psicologia Social – UNISC/Brasil
Prof. Dr. Ulises Cano-Castillo – Energia e Materiais Avançados – IIE/México
Profª. Drª. Virgínia Appleyard – Biomedicina – University of Dundee/ Escócia
Profª. Drª. Virgínia Elizabeta Etges – Geografia – UNISC/Brasil

COMITÊ EDITORIAL
Profª. Drª. Fabiana Marion Spengler – Direito – UNISC e UNIJUI/Brasil
Prof. Me. Theobaldo Spengler Neto – Direito – UNISC/Brasil

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Essere nel Mondo
Rua Borges de Medeiros, 76
Cep: 96810-034 - Santa Cruz do Sul
Fones: (51) 3711.3958 e 9994. 7269
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B813d Bragantino, Felipe


Demanda ética em relação aos animais: desafios, controvérsias e
possíveis impactos na mudança de sua natureza jurídica [recurso
eletrônico] / Felipe
Bragantino. – Santa Cruz do Sul: Essere nel Mondo, 2015.
129 p.

Texto eletrônico
Modo de acesso: World Wide Web

1. Animais - Proteção. 2. Direitos dos animais. 3. Relação


homem-animal. 4. Ética. I. Título.

CDD-Dir.: 341.3476
Prefixo Editorial: 67722
Número ISBN: 978-85-67722-36-8

Bibliotecária responsável: Fabiana Lorenzon Prates - CRB 10/1406


Catalogação: Fabiana Lorenzon Prates - CRB 10/1406
Correção ortográfica: Aila Graça Corrent
Diagramação: Daiana Stockey Carpes

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Felipe Bragantino

“A grandiosidade de uma nação e


o seu progresso moral podem ser
medidos pela forma com que seus
animais são tratados.”

Mahatma Gandhi

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NOTA DO AUTOR

Este livro aborda uma questão primordial dos dias de hoje: a


capacidade de, como seres humanos, aceitar e respeitar o direito à vida
dos demais seres que dividem o planeta. A obra traz em seu bojo, ainda,
os desafios e as barreiras que travam a aceitação de eventual mudança na
concepção jurídica de sua natureza. Pretende-se, também, versar sobre as
possíveis consequências acarretadas pela mudança da natureza jurídica
dos animais no modo de vida a que o homem está habituado. O texto
foi estruturado com base no método indutivo, e o estudo foi realizado
por meio de pesquisa autor-data, cujas fontes são doutrina, legislação,
artigos científicos e revistas.

Palavras-chaves: Direito. Vida. Animal. Respeito.

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Felipe Bragantino

LISTA DE TABELAS E QUADROS

Tabela 1 – Estabelecimentos de abate do Médio Vale do Itajaí 76


segundo tipo de insensibilização

Quadro 1 – Diagnósticos de lesão por esforço repetitivo em 97


operários da indústria de corte de aves e de industrialização de
suínos e bovinos segundo setor e função

Tabela 2 – Indústria da alimentação: principais indicadores 99

Tabela 3 – Abate total e per capita (bovinos, suínos e aves) no 109


Brasil e em Santa Catarina (2010)

Tabela 4 – Remuneração média de empregos formais em 31 de 111


dezembro de 2010

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LISTA DE SIGLAS

a.C. – Antes de Cristo


AGE – Assessoria de Gestão Estratégica
CFMV – Conselho Federal de Medicina Veterinária
DORT – Distúrbio osteomuscular relacionado ao trabalho
FAWAC – Farm Animal Welfare Council
FURB – Universidade Regional de Blumenau
GO – Goiás
IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas
INSS – Instituto Nacional do Seguro Social
LER – Lesão por esforço repetitivo
MAPA – Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento
MPT – Ministério Público do Trabalho
PIB – Produto Interno Bruto
SC – Santa Catarina
SDA – Secretaria de Defesa Agropecuária
SEDEC – Secretaria de Desenvolvimento Econômico
SIM – Serviço de Inspeção Municipal
SP – São Paulo
ZRD – Zona Rural de Desenvolvimento

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Felipe Bragantino

SUMÁRIO

INTRODUÇÃO 13

REVISÃO HISTÓRICA 17
A CONSTRUÇÃO DA SUPERIORIDADE HUMANA COMO FUNDAMENTO 18
DO DIREITO PARA O USO DOS OUTROS SERES

A TRADIÇÃO FILOSÓFICO-RELIGIOSA ASIÁTICA EM SUAS DOUTRINAS 29


HINDUÍSTA, BUDISTA E JAINISTA

A TEORIA CARTESIANA 33
DEMANDA ÉTICA EM RELAÇÃO AOS ANIMAIS 39
OS ARGUMENTOS CONSERVACIONISTA, BEM-ESTARISTA E ABOLICIONISTA 46

LEGISLAÇÃO BRASILEIRA E NORMATIVOS INTERNOS 46


DEFINIÇÃO CONSTITUCIONAL DE DIREITOS FUNDAMENTAIS 52
LEGISLAÇÃO CONSTITUCIONAL E INFRACONSTITUCIONAL 53
NORMATIVAS DO MINISTÉRIO DA AGRICULTURA, PECUÁRIA E 59
ABASTECIMENTO QUANTO À FISCALIZAÇÃO DOS PRODUTORES DE
CARNE

LEGISLAÇÃO ESTADUAL E NORMATIVAS DA SECRETARIA DO ESTADO DA 71


AGRICULTURA E DA PESCA DE SANTA CATARINA

LEGISLAÇÃO MUNICIPAL E NORMATIVAS DA SECRETARIA MUNICIPAL DE 76


DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO DE BLUMENAU

A NOVA NATUREZA JURÍDICA DOS ANIMAIS E SUAS 82


IMPLICAÇÕES PARA O DESENVOLVIMENTO

O AGRONEGÓCIO 88
MERCADOS DE ALIMENTAÇÃO ALTERNATIVOS 89
MODO ALTERNATIVO DE CRIAÇÃO ANIMAL 100
IMPLICAÇÕES NA MUDANÇA DE PADRÃO ALIMENTAR EM DECORRÊNCIA 105
DA NOVA NATUREZA JURÍDICA DOS ANIMAIS

CONSIDERAÇÕES FINAIS 114

REFERÊNCIAS 119

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PREFÁCIO

Poucas coisas são tão espinhosas quanto analisar criticamente a


relação que temos com os animais na sociedade contemporânea, mais ainda
se o fazemos com vistas a refletir sobre os padrões de desenvolvimento
que envolvem interesses de muitas pessoas – tanto de grupos muito
poderosos quanto de setores da população com poucas oportunidades
de escolha real com relação a que atividade econômica realizar.
Mas as dificuldades não são só essas, uma vez que tal reflexão
implica lidar com poderes econômicos fortemente intrincados com os
poderes políticos nos três níveis do estado, no Brasil. Esse entrelaçamento
realimenta artificialmente, uma e outra vez, supostas “virtudes” de um
modelo que garante parte expressiva da pauta de exportações, mas
que mata bilhões de seres sencientes, mutila trabalhadores e deixa
inestimáveis “externalidades” ambientais.
A questão animal é um assunto que certamente suscita controvérsias,
mas não é propriamente das controvérsias decorrentes de análises
racionais que resultam as dificuldades. A rigor, os contrapontos se apoiam
num razoável consenso em que tende a chegar a maior parte dos que se
debruçam com seriedade na questão: há algo de muito errado com o
tratamento que dispensamos aos animais na nossa sociedade, mesmo
que esse tratamento se apresente conveniente.
Contudo, ainda que a tarefa de analisar o modo como tratamos os
animais seja difícil, delicada e dolorosa, Felipe Bragantino a encara nesta
obra com coragem e competência, explorando nuances fundamentais
para a reflexão jurídica e para pensar os padrões de desenvolvimento
desejáveis para Santa Catarina.
De início, percebe-se, ao longo do livro, que a questão animal, longe
de ser um assunto de pessoas excessivamente sensíveis e com tempo de
sobra, é tema crucial na formação civilizatória ocidental e cujas marcas
não resistem à reflexão crítica que essa própria civilização nos estimula
a realizar. Percebe-se, ao ler a obra, que dessa contradição resulta nosso
incômodo. Por outro lado, o trabalho nos mostra as principais vertentes
da discussão, deixando claro o que é e aquilo que não é realmente uma

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Felipe Bragantino

controvérsia, evidenciando assim o quanto há de se fazer se levamos


a sério apenas os pontos pacíficos da discussão, mesmo que eles nos
defrontem com obstáculos práticos.
A obra se apoia num tripé bastante relevante – a reflexão sobre os
fundamentos éticos e morais da relação com os animais na sociedade
moderna, a análise da legislação constitucional e infraconstitucional que
regula essa relação no Brasil e em Santa Catarina e, diante da verificação
de um descompasso entre ambos aspectos mencionados, a reflexão
sobre as implicações para o padrão de desenvolvimento de uma eventual
revisão da natureza jurídica dos animais em prol de uma concepção mais
consistente e com fundamentos éticos defensáveis.
Ao ser apresentada a discussão ética, são bem expostas as linhas de
raciocínio consagradas na literatura – a conservadora, a bem-estarista e a
abolicionista. Nelas, o autor se rende com grande honestidade intelectual
à autoexigência de coerência, própria de um agente moral consistente, e
reconhece que

se partimos do ponto de que os seres sencientes, ou seja, aqueles


que tenham consciência de sua própria existência merecem
proteção e, por conseguinte merecem ter direito à vida, pela
lógica [...] somente poder-se-á admitir como apropriada para a
defesa dos animais não humanos, a corrente abolicionista, única
que defende a plenitude da vida animal (p. 47).

Mas, a despeito dessa reflexão, Bragantino encontra na análise


da legislação que os animais são basicamente reduzidos ao estatuto
de “coisa”, isto é, entidades sem qualquer valor moral intrínseco e cuja
importância se resume à utilidade que resulta aos seus proprietários,
como meios para os fins deles. Nesse sentido, a obra, além de
explorar os limites impostos pela legislação para os usos dos animais,
fundamentalmente no que diz respeito à proibição da crueldade, evidencia
também a precariedade com que esse limite é de fato observado. Assim,
o texto nos mostra a contradição inerente aos dispositivos que, de um
lado, visam proteger, porém, de outro, dão garantias a uma indústria
cujo alicerce normativo é justamente a desconsideração dos interesses
dos animais não humanos.
Com isso, o autor deixa caracterizado como a reflexão ética
impele à necessidade de se definir outro estatuto jurídico aos animais
não humanos. Nesse sentido, ele explora alternativas sem definir uma

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proposição conclusiva, mas alerta sobre diversas implicações de ordem
prática e política, nas quais, entende, radicam os verdadeiros obstáculos.
É sobre esses verdadeiros obstáculos que nos adverte ao final do seu
trabalho, com termos próprios e palavras de filósofos consagrados.
Serão nossas conclusões morais suficientes para autoimpor limites aos
nossos interesses?
O trabalho de Bragantino oferece excelente ajuda para pensar
nessa questão, sem maniqueísmos, mas também sem o confortável
conformismo a que nos induz a naturalização de perspectivas que, por
estarem incorporadas, nos dão a impressão de serem aceitáveis.

Luciano Félix Florit

Sociólogo
Professor do Departamento de Ciências Sociais e Filosofia e
do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Regional da
Universidade Regional de Blumenau

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Felipe Bragantino

INTRODUÇÃO

“Uma vez que todos nós habitamos


a Terra, somos todos considerados
terráqueos, pois não há sexismo,
racismo ou especismo no termo
terráqueo” (EARTHLINGS, 2012, site,
grifo do autor).

O termo terráqueo utilizado na epígrafe encerra em si a definição


de que todos os seres vivos que habitam o planeta – e isso inclui os
seres humanos – devem assim ser considerados, independentemente da
posição de dominante ou dominado.
Sob essa perspectiva, a visão habitual e o tipo de tratamento
dispensado aos outros animais são causa de espanto e perplexidade, na
medida em que os animais não humanos não são considerados terráqueos
e são distinguidos da espécie humana.
Tal perplexidade advém justamente do fato de o ser humano possuir
um nível de consciência que lhe permite distinguir o certo do errado,
o justo do não justo. Nesse sentido, não parece razoável aceitar que a
forma como são tratados os animais não humanos possa lhes causar dor
e sofrimento.
Além disso, indaga-se: é justificável considerar normal os animais
não terem um valor por si mesmo, apenas porque o homem ainda se vê
como o centro de tudo, inclusive do debate ético, moral e legal?
Dito isso, ainda é possível entender que o homem é o senhor de
tudo o que está a seu redor? É razoável compreender que lhe pertencem
a natureza, seus recursos, os animais, as plantas, enfim, que o meio
ambiente é seu e que, dele, o ser humano tem o direito de dispor do
melhor modo que o convém, pois assim lhe foi concedido?
Ao prevalecer a ética centrada no ser humano, as tradições hebraicas
e gregas fizeram do homem o centro do universo moral, baseado no plano
divino, como consta no relato bíblico da criação, no Livro de Gênesis, em
que Deus concedeu ao homem o domínio sobre a Terra e tudo o que se

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move sobre ela (BÍBLIA, 2011). Assim, é possível questionar se, de fato,
há justiça no tipo de tratamento dispensado às outras criaturas.
Independentemente da resposta, parece clara a existência da
sensação de que, apesar dos argumentos filosóficos, teológicos e jurídicos
que a sustentam, há alguma coisa errada no modo como são tratadas as
criaturas não humanas.
Esse questionamento, em geral, toma novos contornos, à medida
que se constata que o critério de racionalização da produção industrial
vem promovendo, ano a ano, aumento expressivo da quantidade de seres
sensíveis submetidos a tratamentos que provocam dor e sofrimento.
Entretanto, as questões tomam conotações mais específicas quando se
averigua a existência de uma vasta discussão mundial sobre esse assunto,
porém com pouca expressão no Brasil, país que, por sinal, detém um dos
maiores crescimentos desse fenômeno por conta da divisão internacional
do trabalho.
O que resulta da discussão filosófica, ética e jurídica em relação
a esse tema tão controverso? Como essas reflexões repercutiriam no
modelo de desenvolvimento brasileiro?
Para tentar responder a essas questões, com o objetivo de discutir
o impacto que uma eventual mudança da natureza jurídica dos animais
causaria ao modelo de desenvolvimento adotado no Brasil, no que
diz respeito à pecuária, este trabalho apresenta uma análise crítica da
legislação brasileira e dos pressupostos morais que a subsidiam nesse
aspecto em particular.
Têm-se identificado correntes de pensamento claramente definidas
quanto ao tratamento dispensado aos animais não humanos possíveis de
serem traduzidas em conservadora, bem-estarista e abolicionista, cujos
argumentos serão discutidos a seguir, já que elas exprimem os principais
dilemas e desafios apresentados quando se tenta estabelecer a relação
entre a reflexão ética e os padrões de desenvolvimento.
Apesar dos avanços obtidos na consideração de uma consciência
animal, a história mostra que a sociedade cristã ocidental, com sua
visão antropocêntrica do mundo, sempre se arvorou como senhora e
legítima possuidora de tudo o que há na face da Terra, considerando
sempre que a existência se justifica para sua utilização, fato ainda
observado atualmente.
Reflexo, dessa forma, do olhar para o mundo e o que há nele vem

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Felipe Bragantino

estampado na legislação que ampara a conduta do ser humano em relação


aos animais e à natureza.
Em análise, nota-se que a legislação brasileira considera os animais
bens particulares ou bens públicos, os quais somente têm valor pela
piedade e sua utilidade sentimental no caso dos animais de estimação ou
pelo valor econômico nas demais situações.
Além de toda celeuma jurídica, mesmo entre os filósofos que
abordam a questão, há divergência sobre a eventual alteração da
concepção do lugar dos animais, no âmbito da moralidade humana, que
possa garantir a eles o direito de serem titulares ativos da garantia estatal.
Assim, a discussão, a seguir, direciona-se no sentido de mostrar
que, se os animais forem considerados moralmente, como sujeitos ativos
de direitos, garantindo a eles os chamados direitos de primeira geração
(como a vida e a liberdade, por exemplo), não há como aceitar a ideia de
que seu valor seja relativizado em vista do ser humano, posto que não se
concebe a ideia de concessão de um meio-direito, por assim dizer, a um
ser, seja ele humano ou não.
Admitir, ainda que em casos extremos, a utilização dos animais,
partindo do princípio de que suas vidas têm valor menor do que a do
ser humano, seria como admitir a escravidão de seres humanos em
determinadas situações. Donde se pode concluir que, ou se concebe o
direito em sua plenitude aos animais ou não se concebe, pois, como dito,
não pode ser aceitável a ideia de proteção de um ser somente enquanto
seus interesses não concorram com aqueles dos seres humanos.
Portanto, partindo da premissa de que, aos animais, deve ser dado
o direito de livre escolha, de reprodução, assim como de sua vida, tal
como considerado para com os homens, adequado parece o argumento
abolicionista para justificar a garantia do direito a uma vida justa. Essa
constatação parte do princípio de não haver discriminação de espécies
e de que os homens devem aos demais animais não apenas os deveres
negativos, no sentido de não lhes fazer mal, mas também os positivos,
ao proporcionar-lhes o direito de gozar de sua vida.
A pesquisa objeto deste livro tem como finalidade a análise
da legislação brasileira, a fim de averiguar como os animais são
considerados quanto à sua natureza jurídica e a seus reflexos no modelo
de desenvolvimento. Quanto ao método e a técnica, foram utilizados o
indutivo e a pesquisa, respectivamente.

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Objetivou-se apresentar a legislação brasileira nos níveis federal,
estadual e municipal, verificando como ela sofre influência antropocêntrica
em sua elaboração e, ainda, como impede o avanço da concepção de um
estatuto jurídico aos animais; para tal, partiu-se de análise da discussão
ética em contraponto à legislação brasileira e de apresentação do campo
da ética ambiental, na qual se discutem as concepções trazidas pelas já
mencionadas correntes conservadora, bem-estarista e abolicionista.
A obra é composta por cinco capítulos. No primeiro, a introdução,
apresentam-se o tema, o problema de pesquisa, seu objetivo e a justificativa
para sua realização.
O segundo capítulo expõe a análise da evolução histórica da
superioridade do ser humano em relação aos animais, abordando a
influência do antropocentrismo na construção da visão de mundo e o
contexto histórico de sua caracterização, à contrapartida de algumas
das tradições filosóficas asiáticas, a fim de demonstrar outro viés de
consideração moral ao ser humano e sua relação com o cosmos e para
com os animais. Trata, ainda, de discutir a demanda ética em relação
à extensão de direitos aos animais, finalizando com a exposição das
correntes conservadora, bem-estarista e abolicionista.
No terceiro capítulo, é analisada a legislação brasileira nos níveis
federal, estadual e municipal em relação ao uso dos animais como
matéria-prima da indústria alimentícia. Busca-se demonstrar que a visão
antropocêntrica está arraigada na legislação, a qual objetiva a proteção do
ser humano, a proteção da matéria-prima e da qualidade dos produtos e,
em contrapartida, oferece poucos recursos para a proteção dos animais.
Já no quarto capítulo objetiva-se, em um primeiro momento,
demonstrar a força do agronegócio no Brasil, principalmente no setor
da agropecuária, e sua pressão sobre a produção em massa de animais
para o consumo do ser humano, além de sua importância em nível
global. Também se pretende apresentar mecanismos alternativos de
alimentação e modelos diferenciados de criação animal, bem como os
possíveis impactos que uma eventual mudança da natureza jurídica dos
animais traria ao modelo de criação animal, no qual se apoia o modelo de
desenvolvimento brasileiro.
Ao final, no quinto capítulo, são explanadas as conclusões da obra,
com auxílio da pesquisa bibliográfica.

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Felipe Bragantino

REVISÃO
HISTÓRICA

“Cuidado todo especial merece nosso


planeta Terra. Temos unicamente ele
para viver e morar” (BOFF, 2001, p.
133, grifo do autor).

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A CONSTRUÇÃO DA SUPERIORIDADE HUMANA
COMO FUNDAMENTO DO DIREITO PARA
O USO DOS OUTROS SERES

Há muito tempo, o ser humano concebe a si próprio o título de


detentor divino do direito à vida que floresce no planeta. Rodrigues (2008,
p. 40) explica que

Aristóteles (384-322 a.C.) desenvolveu a idéia (sic) de que o


cosmo seria colocado à disposição do homem, na cosmovisão
aristotélica, imperava a supremacia do ser humano sobre a
Natureza e sobre todos os outros seres, os quais estariam a
serviço do homem. Essa doutrina teve enorme influência na
educação européia (sic), principalmente a partir do século XIII, a
formar a visão antropocêntrica.

Entretanto, já não mais se justifica o pensamento de Aristóteles, pois


os seres humanos escravos, para ele, também eram considerados artigos
de propriedade, ou seja, segundo o filósofo, somente os seres humanos
livres poderiam ser considerados em si. Conforme Levai (2004, p. 17):

Nos primórdios da história a relação do homem com os animais


era quase instintiva, movida pelas leis naturais da sobrevivência.
Ao se curvar aos deuses do Olimpo e aos santos das Escrituras, o
homem mudou sua concepção de mundo e, tornando-se a medida
de todas as coisas – conforme a célebre fórmula de Protágoras
(481-411 a.C.) –, passa a subjugar as outras criaturas vivas.

Não é atual a ideia de que o ser humano se considera dono de tudo


o que vive sobre o planeta e, por isso, poderia aproveitar o que quisesse
da melhor forma que lhe aprouver, como mesmo afirma a Bíblia (2011,
site), “Deus os abençoou e disse-lhes: Multipliquem-se, encham a terra e
dominem-na. Tenham poder sobre os peixes, sobre as aves dos céus e
sobre os animais que rastejam pela terra”. E mais:

Eu dou a vocês todas as plantas que nascem na superfície de


toda a terra e que dão sementes, e todas as árvores frutíferas
que dão sementes. A todos os animais em que há fôlego de vida,
ou seja, a todos os animais selvagens, a todas as aves do céu e
aos animais que rastejam pelo chão dou todos os vegetais como
alimento E assim foi (BÍBLIA, 2011, site).

18
Felipe Bragantino

Então, após o dilúvio, Deus renovou a autoridade do homem sobre


a criação animal: “Temam e tremam em vossa presença todos os animais
da Terra, todas as aves do céu, e tudo o que tem vida e movimento na
terra. Em vossas mãos pus os peixes do mar. Sustentai-vos de tudo o que
tem vida e movimento” (THOMAS, 1996, p. 22). O mesmo autor ainda diz:

Todo animal estava, pois, destinado a servir a algum propósito


humano, se não prático, pelo menos moral ou estético. Os
animais selvagens necessariamente eram instrumentos da ira
divina, tendo sido deixados entre nós a fim de serem nossos
professores, eles estimulavam a coragem do homem e o
preparavam para as guerras (THOMAS, 1996, p. 24).

Doravante, os homens seriam carnívoros e os animais poderiam ser


abatidos e comidos legitimamente, guardando-se apenas as restrições da
dieta vigente (THOMAS, 1996).
Legitimada, assim, a utilização da carne dos animais para a
alimentação dos homens, não tardou para que os animais fossem utilizados
para outros fins, bastando apenas justificar a ausência de consciência.
Todavia, pode-se verificar, pelas passagens da Bíblia citadas, que,
antes do dilúvio, Deus havia dado ao ser humano o direito somente de
alimentar-se de todas as plantas nascidas na superfície da Terra que dão
sementes e das árvores frutíferas que produzem sementes; em relação
aos animais, o ser humano foi destinado a ser uma espécie de cuidador.
Só depois do dilúvio, Deus autorizou o ser humano a alimentar-se
dos animais; logo, pode-se entender que se alimentar de animais seria
admissível apenas nos casos de catástrofes que gerassem escassez de
alimento.
Como se observa, para o cidadão ocidental cristão, seu olhar do
mundo é passado pela religião e, nela, justifica seus atos. O cristianismo
trouxe ao mundo a visão sagrada da vida humana, que conferiu a ideia
da imortalidade para a alma do ser humano; nesse entendimento, só aos
homens era destinada a vida após a morte, diferentemente de outras
religiões, principalmente as orientais, como o budismo, hinduísmo
e jainismo. Em razão disso, foi criado o modo de ver os animais não
humanos como seres despidos de sentimentos.
Assim, aceitar o fato de outro animal, que não o ser humano, ter
direito à vida, por exemplo, é difícil, mesmo quando se comparam homens
que não conseguem se expressar, como os bebês.

19
Pela visão cristã, não há pecado algum em matar animais não
humanos, pois os pecados existem como classificação para com Deus,
para com outros homens e para consigo mesmo; portanto, não há uma
categoria de pecados contra outros seres vivos.
Para São Tomás, por exemplo (apud SINGER, 2010, p. 283), ao
sujeitar todas as coisas aos homens, inclusive os animais, Deus não pede
ao homem para prestar contas do que faz com os bois ou outros animais
e, embora admita que a compaixão pelos animais advém de que esses
seres sentem dor, conclui que isso é insuficiente para considerá-los pelo
mesmo ponto de vista e “a única razão existente contra a crueldade para
com os animais é que ela pode levar à crueldade com seres humanos”.
Conforme Levai (2004, p. 6), do ponto de vista do antropocentrismo,
os animais não humanos somente merecem consideração em razão da
sua serventia aos seres humanos, quer como alimentos ou vestuário,
perdendo, assim, sua singularidade, tendo “negada sua natural condição
de seres sensíveis”.
De acordo com a concepção cristã, no início, o ser humano possuía
uma relação muito mais amistosa para com os animais, porém essa visão
mudou a partir do momento em que o ser humano se concebeu como
medida de tudo.
A partir dessa concepção, a natureza deixa de ter um valor em si para
ser somente algo do qual o ser humano pode apropriar-se indistintamente.
Como já se colocou, a possessão humana sobre os animais vem
sendo justificada com base no pensamento cristão de que Deus fez o
mundo para o ser humano e a ele subordinou todas as coisas e criaturas
da Terra.
Após a saída do homem do paraíso, pela qual foram culpadas a mulher
e uma serpente, matar animais passou a ser permitido (SINGER, 2010).
Rodrigues (2008, p. 40) explica que:

sob o prisma do Cristianismo e com a influência da concepção


agostiniana, a natureza e os Animais passaram a ser valorados
hierarquicamente. Tomás de Aquino e Alberto Magno também
enfatizaram a dominação do ser humano sobre o cosmo e,
portanto, sobre os Animais.

Como já discorreu Singer (2002, p. 280): “As atitudes ocidentais


ante a natureza são uma mistura daquelas defendidas pelos hebreus,
como encontramos nos primeiros livros da Bíblia, e pela filosofia da Grécia

20
Felipe Bragantino

antiga, principalmente a de Aristóteles”.


Levai (2004, p. 18) destaca que:

na Grécia Antiga, época dos filósofos naturalistas, acreditava-se


na dinâmica das coisas, na evolução das espécies e na origem
animal do homem. Porém, foi a partir dos sofistas, entretanto,
que os gregos aderiram ao antropocentrismo, considerando
o homem o centro do universo. Ao proclamar a superioridade
humana sobre tudo o que existe, tal teoria compactuou com
a matança e a subjugação dos mais fracos afastando-se da
perspectiva cosmocêntrica.

Todavia, foi com a difusão das ideias jurídicas romanas no


mundo ocidental que a concepção dos animais como coisas passíveis
de apropriação pelo ser humano tornou-se corrente, inserida assim
no contexto do direito privado, igualados aos objetos inanimados,
sacramentando a servidão. Nesse aspecto, esclarece Levai (2004, p. 18-
19, grifo no original):

Se o gênero filosófico desenvolveu-se com o pensamento grego,


a ciência do direito – posteriormente influenciada pela moral
cristã – é uma invenção dos romanos, costuma-se dizer, aliás, que
Roma helenizou o mundo. Com o trabalho dos jurisconsultos,
nesse período, sobreveio a difusão do ordenamento jurídico
romano pelo mundo ocidental. Quanto aos animais, inseridos no
contexto privatista em que a noção do Direito alcançava apenas
os homens em sociedade, foram considerados res (coisas). Assim,
sob o mesmo regime jurídico conferido aos objetos inanimados
ou à propriedade privada, a servidão animal foi sacramentada
pelo Direito.

Nesse mesmo sentido, observa Rodrigues (2008, p. 49):

objetivando as defesas da sacralidade da vida humana, não se


encontrou respaldo suficiente a justificar essa especial valoração.
Simplesmente introduziu-se no pensamento dominante, onde
até hoje permanece, a concepção de que a vida humana tem um
valor diferente e superior à de outros seres vivos.

Na Idade Média, com a afirmação do cristianismo pelo mundo


ocidental como a corrente ética predominante, o mundo ocidental se
manteve avesso a qualquer atitude caridosa com os seres considerados
inferiores (LEVAI 2004).
Felipe (2002, s/p), em singular descrição, expõe:

21
Mais do que do perfeccionismo aristotélico, a concepção de
domínio dos superiores, entendida como despotismo, parece
ter sido herdada da tradição judaica, revisitada pelo cristianismo
no pensamento de Tomás de Aquino, que usa, eu diria, mais
judaica do que aristotelicamente o perfeccionismo, para decretar
que seres superiores tudo podem fazer em busca de benefícios
pessoais, à custa dos inferiores. [Cf. Regan, Defending Animal
Rights, p. 7]. A tradução usual da palavra hebraica rada com o
sentido de domínio, como tirania sobre o mundo não humano,
tem sido criticada desde o final da década de sessenta do
século XX nas obras de White e de McHarg, que acusam-na de
ter causado a ‘crise ambiental’, da qual ainda não conseguimos
sair. Nas três décadas que se seguiram àquelas obras, Linzey
(1976, 1987), McDaniel (1989) e Callicott (1993) são apontados
por Regan como os críticos mais importantes do conceito rada
como domínio tirânico. Para esses autores, opositores, pois,
da tradição perfeccionista judaica e aristotélica, rada ‘pode ser
entendida como a idéia (sic) da responsabilidade, zelo ou cuidado
humanos pela ordem criada que é boa independentemente da
presença humana’.

Portanto, forçoso é constatar e concluir o que explicita Rodrigues


(2008, p. 41):

indene de dúvida, as crenças religiosas judaicas, cristãs, e o


islamismo contribuíram para a justificativa ética à destruição da
natureza, ao afirmar a necessidade de prevalecer a economia dos
povos. Com distorção dos valores, pregaram que a única ideia e
possibilidade de o dinheiro ser gerado, a possibilitar o instituto
da propriedade, seria mediante a apropriação da natureza.

Se não isso, segundo Levai (2004, p. 21), é “triste constatar,


entretanto, que as sociedades contemporâneas – na busca daquilo que
chama ‘progresso’ – deslocaram seu eixo de ação do ser para tê-lo, como
se existir somente se justificasse em função do usufruir”.
Tal conotação há muito vem se afirmando, desde tempos imemoriais,
em que o ser humano busca justificar a utilização do mundo colocando-se
no centro de todas as coisas e acima delas.
Thomas (1996, p. 21), destaca:

Na Inglaterra dos períodos Tudor e Stuart, a visão tradicional


era que o mundo fora criado para o bem do homem e as outras
espécies deviam se subordinar a seus desejos e necessidades.
Tal pressuposto fundamenta as ações dessa ampla maioria de
homens que nunca pararam um instante para refletir sobre a
questão. Entretanto, os teólogos e intelectuais que sentissem a
necessidade de justificá-lo podiam apelar prontamente para os
filósofos clássicos e a Bíblia. A natureza não fez nada em vão,

22
Felipe Bragantino

disse Aristóteles, e tudo teve um propósito. As plantas foram


criadas para o bem dos animais e esses para o bem dos homens.
Os animais domésticos existiam para labutar, os selvagens para
serem caçados. Os estoicos tinham ensinado a mesma coisa: a
natureza existia unicamente para servir aos interesses humanos.
Foi nesse espírito que os comentadores Tudor interpretaram o
relato bíblico da criação. Se bem que os especialistas modernos
localizam relatos conflitantes incorporados na narrativa
do Gênesis; os teólogos do início do período moderno, de
modo geral, não viam dificuldades para chegar a uma síntese
razoavelmente aceita. O Jardim do Éden, afirmavam, era um
paraíso preparado para o homem, no qual Deus conferiu a
Adão o domínio sobre todas as coisas vivas (Gênesis, 1, 28).
No princípio, homem e bestas conviveram pacificamente. Os
homens provavelmente não eram carnívoros e os animais eram
mansos. Mas com o pecado e a Queda a relação se modificou.
Ao rebelar-se contra Deus, o homem perdeu o direito de exercer
um domínio fácil e inconteste sobre as outras espécies. A terra
degenerou. Espinhos e cardos nasceram onde antes existiam
apenas frutos e flores (Gênesis, III, 18). O solo fez-se pedregoso
e árido, tornando necessário um trabalho árduo para o seu
cultivo. Apareceram pulgas, mosquitos e outras pestes odiosas.
Vários animais livraram-se da canga, passando a ser ferozes,
guerreando uns com os outros e atacando o homem. Até mesmo
os animais domésticos deviam agora ser forçados à submissão.

Assim, já escreveu Thomas (1996, p. 24): “todo animal estava, pois,


destinado a servir algum propósito humano, se não prático pelo menos
moral ou estético”.
No século XVIII, o pensamento predominante era de que a
domesticação dos animais não se constituía um mal em si, pelo contrário,
de alguma forma ela protegeria os animais de um fim cruel, quer seja a
morte pelos predadores naturais quer seja o fim biológico.
Entendia-se, naquela época, que o abate dos animais para alimento
humano serviria para amenizar o sofrimento animal, pois era feito de
forma rápida e indolor, ao contrário da morte natural.
Não parece razoável a justificativa de que o abate dos animais os
livra de um sofrimento ou de uma morte cruel, pois o que seria mais cruel
para o animal: viver em seu ambiente natural em companhia de indivíduos
de sua mesma natureza e morrer de causas naturais ou mesmo por ataque
de outro animal, mas tendo aproveitado sua liberdade ou nascer e passar
a vida toda em um ambiente não natural, onde será manejado de acordo
com a vontade humana, sem poder ter contato com outros indivíduos de
sua mesma natureza, sem expressar sua natural condição de ser?

23
Se os homens se colocassem no lugar dos animais que os servem
de alimento e pudessem escolher em que situação prefeririam morrer,
acredita-se que seria selecionada a primeira opção.
Entretanto, justificava-se a matança dos animais para alimento
humano sob o argumento de que não haveria injustiça quando se matasse
o gado para fornecer alimento a um animal mais nobre, no caso, o homem.
Além desse pensamento, legitimava-se a utilização dos animais –
como alimento para o ser humano ou utilitário – sob a perspectiva de
que o sofrimento animal é diferente do sofrimento do ser humano, pois
o animal não tem concepção do futuro e nada perdia por ser privado da
vida. Tal pensamento, infelizmente, ainda persiste atualmente.
Levai (2004, p. 6) coloca que:

sob o prisma antropocêntrico, a natureza e os animais deixam


de ter um valor em si, transformando-se em meros recursos
ambientais. Tal sistema, ao desconsiderar a singularidade de
cada criatura e o caráter sagrado da vida, justifica a tutela da
fauna conforme a serventia que os animais possam ter tratados,
via de regra, como mercadoria, matéria-prima ou produto de
consumo, os animais – do ponto de vista jurídico têm negada
sua natural condição de seres sensíveis.

Essa visão antropocêntrica do mundo, construída e sustentada pela


visão cristã-ocidental, vem sendo paulatinamente modificada.
Para Singer (2002, p. 280-281):

As atitudes ocidentais ante a natureza são uma mistura daquelas


defendidas pelos hebreus, como encontramos nos primeiros
livros da Bíblia, e pela filosofia da Grécia antiga, principalmente a
de Aristóteles. Ao contrário de outras tradições da Antiguidade,
como, por exemplo, a da Índia, as tradições hebraicas e gregas
fizeram do homem o centro do universo moral; na verdade,
não apenas o centro, mas, quase sempre, a totalidade das
características moralmente significativas deste mundo. Hoje, os
cristãos debatem o significado dessa concessão de ‘domínio’, e
os que defendem a preservação do meio ambiente afirmam que
ela não deve ser vista como uma licença para fazermos tudo o
que quisermos com as outras coisas vivas, mas, sim, como uma
orientação para cuidarmos delas em nome de Deus e sermos
responsáveis, perante o Criador, pelo modo como as tratamos.

Ao prevalecer a ética centrada no ser humano, as tradições hebraicas


e gregas fizeram dele o centro do universo moral, baseado no plano
divino, como consta no relato bíblico da criação, no Livro de Gênesis.
Segundo essa obra, Deus concedeu ao ser humano o domínio sobre a

24
Felipe Bragantino

Terra e tudo o que se move sobre ela (BÍBLIA, 2011).


“A implicação é clara: agir de modo a provocar medo e terror em
todas as criaturas que se movem sobre a terra não constitui um erro; na
verdade, está de acordo com a lei de Deus” (SINGER, 2002, p. 281).
Ao predominar no Império Romano, o cristianismo também
assimilou elementos da antiga atitude grega para com o mundo natural.
A influência grega foi levada para a filosofia cristã pelo maior dos
escolásticos medievais, São Tomás de Aquino, cuja obra de toda a vida
foi a fusão da teologia cristã com o pensamento de Aristóteles, que, por
sua vez, via a natureza como uma hierarquia na qual os que têm menos
capacidade de raciocínio existem para os que têm mais (SINGER, 2002).

Em sua obra, a Summa Theologica, Santo (sic) Tomás de


Aquino seguiu esse trecho de Aristóteles quase ao pé da letra,
acrescentando, apenas, que o ponto de vista está de acordo com
a ordem divina que se encontra no Gênesis. Na classificação
dos pecados, Santo (sic) Tomás só admite os que são contra
Deus, contra nós mesmos ou os nossos semelhantes. Não há
possibilidade alguma de se pecar contra os animais, ou contra o
mundo natural.
As plantas existem para o bem dos animais, e estes, por sua vez,
existem para o bem do homem – os animais domésticos para seu
uso e alimento, e os selvagens (ou seja, a maior parte deles) para
fornecer alimentos e outros acessórios necessários à vida, como
as roupas e inúmeras ferramentas. Uma vez que a natureza não
faz nada sem propósito ou em vão, é inegavelmente verdadeiro
que ela fez todos os animais para o bem do homem (SINGER,
2002, p. 282, grifo no original).

A supremacia e o predomínio humano tinham, portanto, lugar


central no plano divino. O homem era o fim de todas as obras de Deus,
declarava Jeremiah Burroughes em 1657 (apud THOMAS, 1996, p. 23):

‘Ele fez os outros para o homem e o homem para si próprio’.


‘Todas as coisas’, concordava Richard Bentley em 1692, foram
criadas ‘principalmente para benefício e prazer do homem’. ‘Se
procurarmos as causas finais, o homem pode ser visto como o
centro do mundo’, ponderava Francis Bacon, ‘de tal forma que
se o homem fosse retirado do mundo todo o resto pareceria
extraviado, sem objetivo ou propósito’

Para Singer (2002, p. 283):

De acordo com a tradição ocidental dominante, o mundo natural


existe para o benefício dos seres humanos. [...] Os seres humanos
são os únicos membros moralmente importantes desse mundo.

25
Em si, a natureza não tem nenhum valor intrínseco, e a destruição
de plantas e animais não pode configurar um pecado, a menos
que, através dessa destruição, façamos mal aos seres humanos.

A ideia de que o homem foi criado como divindade fica estampada


quando Thomas (1996, p. 37) assim escreve:

O homem, dizia-se, era mais belo e perfeitamente formado que


qualquer dos outros animais. Ele tinha ‘mais da majestade divina
em suas feições’ e uma ‘simetria mais rara das partes’. Jeremiah
Burroughes recordava à sua congregação que, quando Deus viu
suas outras obras, Ele apenas disse que eram ‘boas’, ao passo
que, quando fez o homem, Ele disse ‘muito boa’: ‘Observem,
nunca disse ‘muito boa’ até o último dia, até que o homem fosse
feito’. Ainda assim, existia uma acentuada falta de concordância
sobre onde exatamente repousava a superioridade exclusiva
do homem. A busca desse esquivo atributo foi um dos mais
sérios desafios enfrentados pelos filósofos ocidentais, a maior
parte dos quais tendeu a se fixar em um traço e a enfatizá-lo
de maneira desproporcional, por vezes até o absurdo. Assim, o
homem foi descrito como animal político (Aristóteles); animal
que ri (Thomas Willis); animal que fabrica seus utensílios
(Benjamin Franklin); animal religioso (Edmundo Burke); e um
animal que cozinha (James Boswell, antecipando Lévi-Strauss).
Como observa o Sr. Cranium do romancista Peacock, o homem
já foi definido como bípede implume, como animal que forma
opiniões e, ainda, animal que carrega um bastão.

Vê-se, assim, que o homem é considerado, há muito, detentor do


direito de ter e dispor de tudo o que existe no planeta, sob o argumento
de sua criação divina.
Rodrigues (2008, p. 41-42), mais uma vez, esclarece:

a dominação mundial da natureza pelo homem afirmou-se com a


Revolução Industrial, a qual provocou grande impacto destrutivo
sobre toda a vida existente no planeta. O desenvolvimento da
indústria e a nova atividade tiveram influência na alteração
ambiental e notoriamente na climática, vez que a conglomeração
das sociedades nos centros urbanos e a poluição atmosférica
provocaram desencadeante fator de inversões térmicas.

Com o passar dos tempos, o homem sempre buscou suprir suas


necessidades, que, após anos e séculos, só aumentaram a medida de sua
fome pelo ter.
A ganância do homem pelo ter, que se manifesta de forma preocupante
contra o mundo natural e tudo que nele há, não é exclusividade, infelizmente,
da atualidade; pelo contrário, vem de muito antes.

26
Felipe Bragantino

A forma como o homem lida com a natureza e, em especial, sua


relação com os animais, sejam eles domésticos ou não, denotam pouca
ou quase nenhuma preocupação com o valor da vida dos animais em
si, restringindo-se apenas à satisfação material quer pelo saciar da fome
quer pelo prazer.
Essa forma de lidar com os animais pode ser entendida por meio da
lógica do capitalismo, pois, enquanto a natureza jurídica dos animais os
classificarem como “coisas” (artigo 82 da Lei nº 10.406 de 10 de janeiro
de 2002) – posto que referida norma considera bens móveis aqueles
suscetíveis de movimento próprio –, eles continuarão a ser vistos como
objetos passíveis de transformação (BRASIL, 2002).
Enquanto houver demanda para os produtos derivados de animais,
haverá produção – e em grande escala, para sempre melhorar a oferta
desses produtos.
A partir do momento em que o homem (europeu) lançou-se à
conquista de novas terras, paulatinamente assenhoreou-se da natureza
encontrada, manejando-a e adaptando-a às suas necessidades.
Exemplo disso é o Brasil. No país, mais especificamente a partir do
período colonial, foram introduzidas espécies animais que não pertenciam
à sua fauna, comprovando o manejo da natureza pelo ser humano e sua
intenção de controlá-la em seu próprio benefício. Como bem destaca
Levai (2004, p. 25):

Teria sido no século XVI, início do período colonial, que os


primeiros animais domésticos desembarcaram no Brasil, quando
Ana Pimentel – esposa de Martim Afonso de Souza – trouxe a São
Vicente vários ruminantes na caravela Galga.

O exemplo citado é só uma amostra de como o ser humano interage


com a natureza, em especial com os animais, e deixa claro seu uso nas
mais variadas formas. Assim, a natureza (animais e vegetais) só possui
importância em sua existência se estiver, de alguma forma, à disposição
ou a serviço do homem.
Como delimita Araújo (2003, p. 65), “na tradição judaico-cristã o
homem é tomado como um microcosmo, uma espécie de epítome da
variedade das espécies, uma síntese das qualidades exemplarmente
ilustradas nos animais não humanos”. Portanto, conforme essa visão,
matar animais ou destruir florestas não é problema, desde que tal situação
seja usada em benefício do homem e não lhe seja prejudicial.

27
Como está escrito no Livro de Gênesis, o mundo foi criado em
benefício dos homens, pois teria Deus dado ao homem o domínio sobre o
mar, a terra e o ar; portanto, a natureza não tem qualquer valor intrínseco,
e a destruição de animais e plantas não se constitui pecado (BÍBLIA, 2011).
De acordo com a visão que o homem possui do mundo, busca-se
apenas o próprio interesse em consumir sem produzir, em retirar todos os
esforços dos animais, inclusive suas crias, submetendo-os à escravidão
que impede suas vidas de chegarem ao fim de forma natural.
Só para se ter ideia, segundo informações levantadas por Gruen
(1995), somente nos Estados Unidos da América, mais de 5 milhões
de animais são abatidos todos os anos para servirem de alimento
ao ser humano; no Brasil, não é diferente, como será analisado mais
profundamente no capítulo 4.
Em tais casos, a esmagadora maioria desses animais sequer vê a
luz do dia, pois permanece confinada em suas baias ou cercados, com
pouquíssimo espaço, até mesmo para exercer sua natural condição de
locomoção à espera da morte.
Entretanto, no ano de 1988, a Igreja Católica Apostólica Romana
iniciou um movimento admitindo que a questão dos movimentos
ecológicos começava a se infiltrar em seus ensinamentos.
Singer (2010, p. 285-286) destaca que o ponto de partida se deu
com a encíclica Sollicitudo Rei Socialis (Sobre a Solicitude Social), quando
o então Papa João Paulo II apela para o desenvolvimento humano incluir
“respeito pelos seres que fazem parte do mundo natural”.
Vale destacar a parte do texto da encíclica colacionado em Singer
(2010, p. 286):

O domínio conferido ao homem pelo Criador não é poder


absoluto, nem pode alguém falar de uma liberdade para usar
e abusar ou dispor das coisas como melhor lhe aprouver [...]
quando se trata do mundo natural, estamos sujeitos não apenas
a leis biológicas, mas também a leis morais, que não podem ser
transgredidas impunemente.

Em arremate, a encíclica Sollicitudo Rei Socialis (1987, site) destaca:

A limitação imposta pelo mesmo Criador, desde o princípio, e


expressa simbolicamente com a proibição de «comer o fruto da
árvore» (cf. Gén 2, 16 -17), mostra com suficiente clareza que,
nas relações com a natureza visível, nós estamos submetidos

28
Felipe Bragantino

a leis, não só biológicas, mas também morais, que não podem


impunemente ser transgredidas.

Vê-se, assim, que a rejeição pelo Papa quanto à ideia do domínio do


homem sobre os animais é muito promissora, pois proporciona a esperança
da existência de um momento na história em que os animais não humanos
terão reconhecido seu valor como seres sencientes.

A TRADIÇÃO FILOSÓFICO-RELIGIOSA ASIÁTICA EM


SUAS DOUTRINAS HINDUÍSTA, BUDISTA E JAINISTA

Na tradição filosófico-religiosa ocidental, o homem é o centro de


tudo e, nesse sentido, a ética deve estar a serviço dos seres humanos,
diferentemente do observado nas tradições filosófico-religiosas orientais,
como a da Índia, por exemplo.
Muito embora somente hoje os cristãos debatam o significado da
concessão divina do domínio sobre a natureza, essa visão (domínio da
natureza) não é compartilhada por outras tradições.
Diferentemente da tradição filosófico-religiosa ocidental, a tradição
asiática, em especial, como coloca Felipe (2007, p. 201, grifo no original),
“a hinduísta, budista e jainista, afirma a reencarnação – samsãra – a
estabelecer como fundamento da compaixão para com todas as espécies
de vida animal”.

De acordo com aquelas tradições filosóficas, qualquer ser


humano pode voltar a nascer em qualquer uma das formas
animais de vida. Nesse sentido, lembra John Bowker, todo ato
praticado contra o bem-estar e a integridade física e emocional de
um animal pode representar, para aquele que o pratica, o traçado
de seu próprio destino futuro no ciclo da eterna reencarnação.
[...] Hinduístas, budistas e jainistas têm concepções distintas da
morte biológica e, pois, da liberdade humana para tirar a vida
dos animais. Os budistas, por exemplo, rejeitam o sacrifício de
animais, pois entendem que a morte intempestiva impede os
seres animados, humanos ou não humanos, de realizar o fim
para o qual nascem. Também os jainistas, que se abstêm de
prescrever a outros seus ideais, recusam-se a tomar parte em
qualquer ritual de sacrifício animal.
[...] Embora compartilhando basicamente a mesma posição,
os argumentos hinduístas são diferentes dos budistas e dos

29
jainistas. Para os primeiros, não é possível a alguém tocar, afetar
ou matar, de fato, o ser ou o espírito de outro. Pode-se destruir
apenas o organismo, isto é, a ‘embalagem’ na qual cada ser se
configura individualmente ao encarnar-se no mundo vivo. O
sacrifício de um animal, para o hinduísta, não mata o que há de
essencial, o ser animado, apenas sua aparência exterior (FELIPE,
2007, p. 202-203, grifo no original).

De maneira geral, nas tradições indianas somente pode haver


harmonia quando todos os seres sencientes puderem desfrutar as boas
coisas que o cosmo oferece, como se extrai da leitura do texto La etica
India de Purussottoma Bilimoria1.
Os jainistas creem em duas classes de seres: os conscientes (todos
os seres vivos) e os não conscientes (a matéria, o tempo e o espaço).
Conforme o ensinamento professado por essa corrente, qualquer homem
(ser humano) pode voltar a viver sob outra forma de vida animal e, assim,
suas ações definirão o tipo de vida animal que o aguarda.
Embora tenham semelhanças entre si, as tradições citadas são
diferentes em sua concepção do modo como veem a vida e o respeito
com os animais. No hinduísmo, pode-se dizer que há duas concepções:
uma popular e outra doutrinária, que pode ser transcendental e empírica.
Sob esse prisma, estabelecer uma relação entre o homem e os animais
não requer a aceitação da perspectiva animal (FELIPE, 2007). O que conta,
segundo Felipe (2007, p. 203, grifo no original), “é o moksía, o projeto
humano de purificação ou salvação. É na perspectiva do moksía, mais
especificamente do ahimsã – princípio da não violência [...] – que o
hinduísta acaba por descobrir o modo gentil de tratar os animais”.
Nessa visão, a violência que contamina a prática, em seres humanos
ou em animais, tem como referência o sujeito moral, e não o objeto
afetado por suas ações.
Destaca Felipe (2007, p. 204, grifo no original):

Por outro lado, há que se compreender o fundamento da


concepção hinduísta da vida e das formas de reencarnação
possíveis àqueles que morrem, somente os mortos humanos
podem voltar a nascer, se, ao longo de sua existência, humanos
cometem atos que os tornam indignos de voltar a nascer nessa
espécie, podem nascer numa espécie de vida inferior. O ser
humano cuja moksía não se completa antes de sua morte pode
nascer outra vez, como cão, gato, ou outro animal qualquer,

1 Para maior compreensão, ler o texto La ética india de Purussottoma Bilimoria, publicado
na obra Ética Prática de Singer (1994, p.82).

30
Felipe Bragantino

por não ter aproveitado seu espírito humano para alcançar


a purificação. Os humanos não têm, por isso, deveres morais
diretos para com os animais, por serem estes a encarnação de
espíritos não purificados na existência humana, uma espécie
de testemunho vivo da fraqueza individual nas realizações da
moksía.

Apesar de não possuírem deveres morais diretos com os animais,


todo ser humano que desrespeita o princípio da ahimsã ou o princípio da
não violência poderá reencarnar como o animal contra o que perpetrou
seu ato violento.
Nesse aspecto, embora os animais sejam considerados formas
inferiores de vida, a desobediência aos princípios da não crueldade e não
violência continua a valer como modo de orientação das ações dos seres
humanos em relação aos animais.
Apesar disso, em determinados casos, os hinduístas aceitam o
sacrifício de animais; porém, como se colocou, em casos muito especiais,
cuja grande maioria visa influenciar o cosmos, a fim de possibilitar o
nascimento de novos deuses.
De qualquer maneira, mesmo permitindo seu sacrifício, os animais
não podem sofrer quaisquer tipos de maus-tratos, tortura ou sofrimento.
Também não pode haver vazão a impulsos maldosos dos seres humanos.
Por fim, é dever destacar que, para o hinduísta, é impossível atingir-
se o ser embora se disponha do corpo do animal, pois considera-se o
corpo apenas um invólucro que aprisiona o ser e, assim, a morte não
destrói o ser, apenas sua aparência, ainda que pareça o fim.
Já na tradição filosófico-religiosa dos jainistas “os seres se distinguem
em vivos – o homem e a mulher, considerados conscientes, dotados de
espírito e de energia -, e não vivos destituídos dessas características”
(FELIPE, 2007, p. 206). Os jainistas classificam as formas de vida de
maneira hierarquizada por meio dos sentidos tato, olfato, visão, audição,
paladar e o sexto, atribuído a determinada categoria, o pensar.
Seres que possuem apenas um dos sentidos, como o tato, são
colocados no mais baixo nível da escala, por exemplo, a terra, a água, o
fogo etc. Seres dotados de mais de um sentido, por sua vez, vêm logo a
seguir nessa escala, como os vermes, e assim sucessivamente. De acordo
com essa hierarquização, os animais – como os pássaros, os peixes e os
humanos – estão no topo mais alto da escala evolutiva, posto que são
dotados dos cinco sentidos (tato, olfato, visão, audição, paladar), além de

31
um sexto (pensar/consciência/espírito), o que os diferencia dos demais.
Os jainistas se assemelham aos hinduístas, pois sua religião e
filosofia têm a finalidade de ajudá-los a evoluir e a atingir o estado de
não violência (ahimsã), no qual o ser evoluído está despido de qualquer
intenção cruel para com seu semelhante ou outros animais. Como bem
ilustra Felipe (2007, p. 207, grifo no original):

Ações maldosas praticadas contra o outro danificam o espírito de


quem as pratica. Se o dano não aparece na presente encarnação
(ação encarnada), certamente estará reservado, na forma do
karma para outra encarnação, pois o ser humano é o único
capaz de aderir seu espírito a essa espécie de massa carregada
de sofrimento produzida pelos próprios atos de violência.

E, mais adiante, continua:

Em compensação, somente aos seres humanos está reservada


a possibilidade de purificação – moksía, através da ahimsã, a
libertação daquela carga, a libertação de qualquer desejo ou
impulso de destruição e morte. Nesse sentido, conclui Chappe,
[...] atos de violência devem ser evitados porque resultarão em
injúria, no futuro, para aquele que os pratica, ou até mesmo na
reencarnação em outra espécie (FELIPE, 2007, p. 207, grifo no
original).

Assim, tanto a tradição filosófico-religiosa hinduísta como a jainista


acreditam no respeito à vida em qualquer de suas formas.
Por fim, no budismo, as razões que explicam o cuidado com
todas as criaturas sencientes não se resumem ao medo de uma eventual
reencarnação como animal ou coisa do gênero.
Como coloca Florit (2013):

Elas decorrem de que, para os budistas, a ‘natureza búdica’ está


presente, na mesma proporção tanto nos seres de completa
realização espiritual, quanto no menor dos seres sencientes.
Assim, em termos absolutos, a única diferença entre um animal
e um ‘buda’ (um ser ‘iluminado’) é que este reconhece completa e
estavelmente a sua natureza búdica e o animal não, assim como
também não a reconhecem os seres humanos comuns.
Isto não significa, entretanto, que humanos e animais tenham
as mesmas condições físicas e mentais para conseguir este
reconhecimento, e é precisamente nisto que radica a condição
especial que é admitida aos humanos – a facilidade relativa que
estes têm, caso queiram, em reconhecer a natureza última da
realidade, o que implica em reconhecer a sua própria natureza
búdica. É esta consideração dos animais como iguais detentores
de natureza búdica tanto quanto os humanos o que explica a

32
Felipe Bragantino

gravidade, do ponto de vista da doutrina do ‘karma’, de ações


que os desrespeitem ou lhes causem sofrimento. Por outro
lado, dadas as dificuldades que os animais comuns teriam,
comparativamente a nós humanos, em reconhecer sua natureza
absoluta, é que seriam merecedores de compaixão e cuidado
ainda maior. Assim, o Budismo reconhece a humanos e animais
como idênticos em termos da sua natureza absoluta, mas
com condições físicas e mentais diferentes, sendo que estas
diferenças deveriam imbuir aos humanos não de direito para
desconsidera-los, mas de maior compaixão, responsabilidade e
afeição (BSTAN-ÏDZIN-RGYA-MTSHO, 2000 e CHAGDUD, 2003).

Em comum, todas as tradições apresentadas afirmam que, ainda


que se nasça animal ou outra forma de vida, todo o ser vivo tem vontade
de viver e busca sua sobrevivência e segurança ao se sentir coagido.

A TEORIA CARTESIANA

No século XVII, a tentativa mais notável de ampliar a diferença


existente entre o ser humano e os demais animais, como coloca Thomas
(1996, p. 39) “foi uma doutrina originalmente formulada por um médico
espanhol, Gomez Pereira, em 1554, mas desenvolvida de maneira
independente e celebrizada por René Descartes, de 1630 em diante”.
Nessa esteira, surge a teoria cartesiana, segundo a qual os animais
não possuem consciência e, consequentemente, não podem sentir dor.
Remonta-se, portanto, ao ano de 1649, mais precisamente aos textos
de Descartes, os quais tratam da questão da constituição da consciência
animal e seus pressupostos mentais (FELIPE, 2007).

A teoria mecanicista da natureza animal dá sustentação à crença


difundida entre os cientistas de que os animais são destituídos
da consciência da dor, por serem destituídos da linguagem e do
pensamento. A linguagem e o pensamento, para Descartes, são
duas habilidades fundamentais para que um ser sensível possa
ter experiência e consciência da dor e, consequentemente possa
sofrer (FELIPE, 2007, p. 41).

Assim, considera-se que os seres não humanos, embora possam


responder em certo grau a um estímulo de dor, não têm exata noção do
que sentem e, portanto, não lhes pode ser considerado o sentimento.
Tal posição advém do fato de serem negados aos animais a alma

33
ou o espírito, reservados somente aos seres humanos; nesse contexto,
despidos da alma, não há como os animais sentirem as mesmas dores
que os humanos.
Para Aristóteles, a alma intelectiva é o próprio espírito, outro gênero
de alma – a única separável do corpo –, que se divide em espírito sensitivo
(receptivo), o qual exerce a exerce a função de matéria (potência), e
espírito eficaz (ativo), a que se atribui a forma (ato).

[...] Assim, os animais não humanos são concebidos como seres,


que embora possuam vida/alma (animal), são destituídos de
espírito, de modo que é por um impulso natural não deliberado
que a andorinha constrói o seu ninho e a aranha sua teia, pois
somente o espírito humano é capaz de deliberar (SANTANA,
2007, p. 6).

Há, inegavelmente, preconceito na tese cartesiana que distingue


os humanos dos demais animais, ao atribuir a consciência apenas a
seres dotados de linguagem como condição sine qua non da consciência,
quando a estabelece como pressuposto do pensamento sem o demonstrar
(FELIPE, 2007).

Em outras palavras, por não admitir semelhanças com os humanos,


dos quais, diga-se de passagem, também pouco ou quase nada
se sabia à época, para não antropomorfizar, o filósofo preferiu
robotizar o movimento animal. Descartes acredita, ou assim o
faz crer, que o comportamento animal possa ser explicado à luz
do mecanicismo. Ao ser pisado, por exemplo, o animal produz
sons que resultam do atrito do objeto que afeta seus tecidos com
algum nervo, analogamente, ao que acontece quando roçamos a
palheta nas cordas de um violão. O atrito produz o som. A pisada
do homem no cão, ou o atrito de uma lâmina cortando sua pele,
produziria um som, que sai na forma de ganido. O organismo do
animal assemelha-se, em sua mecânica, a um robô, isso significa,
a uma máquina programada pela natureza divina para mover-se
no mundo e reagir automaticamente aos estímulos exteriores
sem que isso requeira a posse da consciência, o domínio da
linguagem, a atividade do desejo, ou a percepção de si, na forma
do pensamento (FELIPE, 2007, p. 45).

Trata-se da tese de que os animais não passam de autômatos, como


os relógios, por exemplo, passíveis de comportamentos complexos, mas
incapazes de se manifestar.
A teoria mecanicista foi construída pelo filósofo francês René
Descartes para apoiar seus experimentos, demonstrando que os animais
não sofrem dor ou, pelo menos, não têm consciência do que seja a dor, pois

34
Felipe Bragantino

segundo ele, faltam-lhes as habilidades do pensamento e da linguagem,


fundamentais para que um ser sensível possa ter consciência de sua dor
e de seu sofrimento e, assim, possa expressá-los (FELIPE, 2007).
Logo, com o mecanicismo cartesiano, surge uma nova analogia
que compara os animais a máquinas, reduzindo-os, como coloca Araújo
(2003, p. 81), “a uma dimensão automática e corporal, não reflexiva nem
autoconsciente”.
Experimentos de toda ordem se apoiam ainda atualmente, apesar
de toda a evolução dos tempos, na teoria construída por Descartes
para justificar toda sorte de abusos praticados contra os animais, seja
em experimentos científicos ou na forma como são criados, mortos,
descarnados, processados etc.
A teoria mecanicista, construída a partir das conclusões do filósofo
francês – que se baseia essencialmente nas duas habilidades consideradas
fundamentais para que qualquer ser vivo possa compreender e expressar
a dor: o pensamento e a linguagem – traduz-se atualmente, talvez, na
maior barreira para que o ser humano possa aceitar como naturais a dor
e o sofrimento de outros animais, assim como aceita e se comove com
a dor e o sofrimento de outros seres humanos que não podem ou não
conseguem exprimir sua vontade, como as pessoas com nível acentuado
de deficiência mental ou os bebês.
Além das habilidades citadas, Descartes destaca ainda três sensações
para que se possa ter consciência da dor, quais sejam afecção, percepção e
o juízo. Nesse sentido, vale ressaltar a lição de Felipe (2007, p. 43):

Descartes distingue três graus de sensação: a afecção do órgão


sensorial por um estímulo externo, experiência comum a animais
e humanos; a percepção; e o juízo sobre a percepção. O segundo
e o terceiro graus de sensação, a percepção e o juízo sobre a
percepção, requerem a consciência. O primeiro, a afecção, não a
requer. O juízo sobre as percepções, atividade própria do pensar,
só é possível, por sua vez, no entender de Descartes, para os
seres dotados da linguagem.

Com essa afirmação, Descartes justifica que os animais podem


reagir a um estímulo externo, mas não possuem condições de distinguir
o que sentem, pois não possuem a percepção do que lhes acomete ou
não fazem qualquer juízo quanto a essa percepção ou a falta dela (FELIPE
2007).
Regan (apud FELIPE, 2007, p. 43) sintetiza a teoria cartesiana da

35
seguinte forma: “1. Somente seres dotados de linguagem podem ter
consciência. 2. Animais não são dotados de linguagem. 3. Logo, animais
não têm consciência”.
Nos dias atuais, a teoria construída por Descartes contraria o senso
comum; porém, na época de sua construção, era tida como natural, dadas
as conjunturas do momento (ano 1.630 em diante), muito embora já
houvesse quem a contestasse, como coloca Müller (2010, p. 35):

[...] O filósofo iluminista François-Marie Voltaire (1694-1778),


já no século XVIII, ridicularizou a tese cartesiana. Disse ele:
‘Responda-me, mecanicista: organizou a natureza todas as
fontes do sentimento nesse animal com o propósito de que ele
nada possa sentir? Tem ele nervos a fim de que se torne incapaz
de sofrer?’

Como apresentado por Thomas (1996, p. 40), “Descartes apenas


estava acentuando uma distinção já implícita na doutrina escolástica”.
A construção da teoria que defende o fato de os animais serem
meros autômatos e, portanto, não sentirem dor servia para justificar e
possibilitar a utilização dos animais nos mais variados experimentos sem
a preocupação da dor e do sofrimento, não acarretando, assim, ao ser
humano qualquer culpa. Tal teoria serviu ainda mais para distinguir o
ser humano dos animais, à medida que somente o homem possuía alma
imortal, pois negava esse direito aos animais.
Thomas (1996, p. 41) esclarece:

Mas o mais forte argumento em favor da posição cartesiana era


que ela constituía a melhor racionalização possível para o modo
como o homem realmente tratava os animais. A visão alternativa
deixava espaço para a culpa do homem, ao reconhecer que
os animais podiam sofrer e efetivamente sofriam; e suscitava
dúvidas sobre os motivos de um Deus capaz de permitir que
os bichos sofressem misérias não merecidas em tal escala.
O cartesianismo, ao contrário, absolvia Deus das acusações
de causar injusta dor às bestas inocentes, ao permitir que os
homens as maltratassem; também justificava o predomínio do
homem, ao libertá-lo, como Descartes afirmava, de ‘qualquer
suspeita de crime, por mais frequentemente que pudesse comer
ou matar os animais’. Ao negar a imortalidade dos bichos, ele
afastava qualquer dúvida remanescente quanto ao direito do
homem a explorar a criação bruta. Pois, como os cartesianos
observavam, se os animais realmente tivessem um elemento
imortal, as liberdades que os homens tomavam com eles seriam
injustificáveis; e admitir que os animais tivessem sensações era
fazer do comportamento humano algo intoleravelmente cruel.

36
Felipe Bragantino

A visão cartesiana, em que pese ultrapassada, ainda hoje é admitida


para justificar o modo como o ser humano encara a exploração econômica
dos animais, ou seja, para afirmar que eles cumprem papel secundário na
hierarquia das considerações morais, a fim de atender às necessidades
humanas. Como explica Pauli (1997, site):

No plano da filosofia do ser particularizado, inovou Descartes


um dualismo de várias irredutibilidades. Em resumo, asseverou
haver somente duas espécies de substâncias criadas: extensão
e pensamento, porque na análise dos objetos pensados restam
apenas estas duas noções, como as mais simples e irredutíveis
entre si. Dada a diretriz dualista tomada, a cosmologia
cartesiana se desenvolveu em plano rijamente separado da
psicologia, opondo claramente corpo (como extensão) e alma
(como pensamento). Com referência à alma, sua essência
seria o pensamento; este não seria apenas uma operação de
uma faculdade, a qual, por sua vez, fosse sustentada por uma
substância. As sensações seriam apenas pensamentos confusos.
Quanto aos animais, uma vez considerados como não tendo
pensamento e por isso não tendo alma, não passariam de
máquinas bem construídas. As relações causais entre alma e
corpo são as de duas substâncias completas (conforme Platão).
De natureza irredutível e especificamente distintas, Descartes
não encontrava explicação clara para esclarecer como a alma
podia agir sobre o corpo, e, vice-versa, o corpo sobre a alma;
a partir dali surgiriam novas explicações futuras criadas pelos
ocasionalistas e ontologistas.

Por sua vez, Regan (2006, p. 81-81) destaca:

Ele argumenta que seres humanos têm mentes que são imateriais
e corpos que são materiais. Em contraste, os outros animais só
têm corpos; eles não têm mentes. Para Descartes, os animais
não são conscientes de nada. Coloque um cachorrinho no fogo.
Arranque a pele de uma foca viva. Nenhum deles sente nada. Os
animais do mundo são desprovidos de mentes da mesma forma
que o coelho da pilha Energizer.

A teoria cartesiana evitou antropomorfizar a explicação do


comportamento animal, para não serem comparados o ser humano e
os demais animais, possibilitando o avanço de pesquisas científicas, em
animais ou em corpos humanos, sem que isso causasse algum choque
com a Igreja, uma vez que se separou o corpo da alma, justificando,
então, a utilidade dos animais em benefício do homem.
Atualmente, não há mais como sustentar a teoria explanada, posto
que estudos científicos demonstram com clareza que os animais, por

37
possuírem sistema nervoso semelhante ao dos seres humanos – e, assim,
serem morfologicamente semelhantes aos humanos –, sentem dores.
Tais argumentos são sustentados na observação do comportamento
animal quando em situações que lhes infligem dor; nesses momentos,
são observados sinais como contorções dos rostos, gemidos, ganidos e
outras formas de apelo.
Se for admitido que os animais, pela impossibilidade de expressar
sua vontade, não sentem dor ou, ao menos, não têm consciência dela,
também seria correto afirmar que os seres humanos impossibilitados de
expressar sua vontade não teriam consciência da dor. Nesse contexto,
como exemplifica Singer (2010, p. 29, grifo no original):

a única coisa que distingue o bebê do animal, aos olhos dos


que alegam o ‘direito a vida’, é ele ser, biologicamente, um
membro da mesma espécie Homo sapiens, ao passo que os
chimpanzés, os cães, os porcos não o são.

Assim, parafraseando Singer (2010), conceber o direito à vida


ao bebê, por ser um membro da espécie humana, e não estender esse
mesmo direito aos demais animais corrobora para puro especismo, ou
seja, é uma forma de discriminação, tais como o racismo ou sexismo, por
exemplo.
Atualmente, a ideia cartesiana beira ao absurdo, pois é conhecido
e reconhecido o fato de que os animais de qualquer espécie sentem dor
independentemente de terem ou não o domínio da linguagem, do desejo,
ou da percepção tida pelos seres humanos.
Certa ainda é a afirmativa de Felipe (2007), para quem os seres
humanos não capacitados ao domínio da linguagem (ou que a perderam)
também não sentiriam dor ou sofreriam (como algum ser que não
possa exprimir sua vontade por meio da linguagem como se conhece),
permitindo que a eles tudo fosse passível de ser feito, eis que os gritos
ou gemidos nada mais seriam senão reações mecânicas do atrito de algo
cortante, por exemplo.
Em suma, dos estudos científicos da natureza animal, obtém-se
a confirmação de que eles, embora não sejam dotados de linguagem
compreensível ao homem, são sensíveis e capazes de sofrer, além de
serem vulneráveis às mesmas emoções que podem destruir ou fomentar
a qualidade de vida de um humano.
Nessa linha, vale ressaltar a reportagem reproduzida na revista Veja,

38
Felipe Bragantino

em entrevista ao neurocientista Philip Low, na qual restou publicizado


que, em uma conferência em Cambridge, “neurocientistas de todo o
mundo assinaram um manifesto afirmando que todos os mamíferos, aves
e outras criaturas, incluindo polvos, têm consciência” (PIRES, 2012, site).
Da entrevista, vale destacar a resposta dada por Philip Low à
pergunta sobre a consciência animal. Assim, afirmou Philip Low:

Descobrimos que as estruturas que nos distinguem de outros


animais, como o córtex cerebral, não são responsáveis pela
manifestação da consciência. Resumidamente, se o restante
do cérebro é responsável pela consciência e essas estruturas
são semelhantes entre seres humanos e outros animais, como
mamíferos e pássaros, concluímos que esses animais também
possuem consciência (PIRES, 2012, site).

Portanto, não se pode conceber, em pleno século XXI, a prevalência


do pensamento cartesiano da inconsciência animal, como bem explicita
Felipe (2007).

DEMANDA ÉTICA EM RELAÇÃO AOS ANIMAIS

Apesar dos avanços obtidos na consideração de uma consciência


animal, a história mostra que a sociedade cristã ocidental, com sua
visão antropocêntrica do mundo, sempre se arvorou como senhora e
legítima possuidora de tudo o que há na face da Terra, considerando
ininterruptamente que a existência se justifica para sua utilização, o que
ainda se observa atualmente.
Como bem coloca Levai (2004, p. 7):

o testemunho da história mostra que a nossa relação com os


animais tem sido marcada pela ganância, pelo fanatismo, pela
superstição, pela ignorância e, pior ainda, pela total indiferença
perante o destino das criaturas subjulgadas.

Dessa forma, o olhar que o homem tem sobre o mundo (e o que há


nele) vem estampado na legislação que ampara sua conduta em relação
aos animais e à natureza.
Para Felipe (2010), falar em direitos animais pressupõe o
entendimento do duplo sentido do termo: a propositura de normas
jurídicas que impeça ou minimize o tormento ao qual eles são submetidos

39
e a abolição do sistema que permite ao ser humano a exploração dos
animais como produtos para seu bem-estar. Nesse contexto, insere-se o
debate sobre a consideração de um estatuto ético em relação aos animais.
Por ética, pode-se entender aquilo que diz respeito, no âmbito
moral, à crítica dos hábitos humanos, ou seja, trata-se de uma reflexão
sobre os valores sociais considerados nos âmbitos coletivo e individual.
A ética seria uma reflexão da influência que o código moral
estabelecido exerce sobre a subjetividade e acerca de como o homem lida
com essas prescrições de conduta, se aceitos de forma integral ou não
esses valores normativos e, dessa forma, até que ponto se dá o efetivo
valor a tais valores (RIBEIRO, 2011, site).
Surge a ética como um pensar crítico da conduta do ser humano
– entre aquilo que pode e deve ser feito e aquilo que deve ser evitado –,
cuja finalidade é estabelecer normas mínimas de comportamento, a fim
de evitar o caos.
O debate ético que ainda se faz atualmente, mesmo vivendo em
uma época em que existe um sistema normativo de conduta humana, é
imprescindível para impulsionar a evolução do pensamento.
Quando se ouve falar em direito dos animais, há variadas opiniões
sobre tal assunto mesmo entre especialistas, para os quais não existe um
consenso sobre o mais adequado.
Nesse hiato existente quanto à definição de como considerar a figura
dos animais não humanos, mesmo entre aqueles que biologicamente se
aproximam dos seres humanos, como os mamíferos, por exemplo, não se
consegue conceber uma ideia-centro de como considerá-los.
Do ponto de vista dos direitos morais, tem-se assentado hoje que
todo e qualquer ser humano tem garantido, por ser inerente a si mesmo,
como sujeitos da ação, os direitos morais, como a vida, a liberdade e o
corpo, como ensina Regan (2006).
Vale destacar:

Possuir direitos morais é ter um tipo de proteção que poderíamos


imaginar como um sinal invisível dizendo: ‘entrada proibida’. O
que esse sinal proíbe? Duas coisas. Primeira: os outros não são
moralmente livres para nos causar mal; dizer isto é dizer que os
outros não são livres para tirar nossas vidas ou ferir nosso corpo
como bem quiserem. Segunda: os outros não são moralmente
livres para interferir na nossa livre escolha; dizer isso é dizer
que os outros não são livres para limitar nossa livre escolha
como bem quiserem. Em ambos os casos, o sinal de ‘Entrada
proibida’ visa proteger nossos bens mais importantes (nossas

40
Felipe Bragantino

vidas, nossos corpos, nossa liberdade), limitando moralmente


a liberdade dos outros (REGAN, 2006, p. 47).

Em sua obra, Jaulas Vazias, Regan (2006) discorre com propriedade


sobre questões relevantes de fundo, com a finalidade de demonstrar que,
aos animais não humanos, independentemente de sua espécie, assim
como aos humanos, é possível assegurar os mesmos direitos morais,
como a vida, a liberdade e o corpo.
De certo, a posição defendida por Regan (2006) causa estranheza
e suscita acalorado debate ético entre os que concebem a defesa da ideia
de extensão dos direitos morais aos animais não humanos e os que não
os consideram passíveis de extensão desses direitos.
Regan (2006), mais uma vez, justifica sua posição ao reconhecer os
animais não humanos como “sujeitos de uma vida”, tendo como certo que
os animais também querem viver e se importam com suas vidas tanto
quanto os seres humanos. Contudo, há os que não consideram possível
o reconhecimento aos animais dos direitos morais, posto entender que,
para ser possível o reconhecimento, é necessária a possibilidade da
manifestação do querer.
Nesse sentido, Frey (apud FELIPE, 2007, p. 134, grifo no original)
destaca:

Frey defende a tese de que para um ser ter desejos é preciso que
seja capaz de crenças. Crer, em outras palavras, é querer. Querer
é desejar algo por saber que isso existe. Desejos, crenças, querer,
são eventos só possíveis a seres dotados de linguagem, pois
é na linguagem que tudo se armazena para a construção dos
desdobramentos necessários ao querer por crer na existência
de algo. Para Frey, os animais não têm interesses, embora
tenham necessidades, não tendo conhecimento de suas próprias
necessidades, não são capazes de crer em coisa alguma. Na falta
de capacidade de crer, nenhum animal é capaz de desejar. Em
não sendo capaz de desejar, não há interesse que um animal
possa cultivar.

Nessa linha de pensamento, não há como defender a extensão de


qualquer direito aos animais, ante a sua incompreensão do que lhes está
sendo garantido, vez que eles não têm consciência de seus direitos e não
têm como expressar-se. Gruen (1995, p. 2) resume essa ideia:

Algunos filósofos, en particular Donald Davidson en Inquiries


into truth and interpretation y R. G. Frey en Interests and rights,
han afirmado que los seres no pueden tener pensamientos a

41
menos que puedan comprender el habla de otros. Según esta
concepción, el lenguaje está necesariamente vinculado a actitudes
proposicionales, como «deseos», «creencias» o «intenciones». Un
ser no puede excitarse o decepcionarse sin el lenguaje2.

A dificuldade, muitas vezes, de conceder aos animais o direito


à vida, à liberdade e à inviolabilidade de seus corpos advém da forma
como são encarados. De certo, para alguns, o motivo de vê-los ainda
como objeto de apropriação é causa da impossibilidade de considerá-los
sujeitos ativos de seus direitos.
Para essa visão, Francione (2008, p. 13) critica:

Animais são coisas que possuímos e que têm apenas valor


extrínseco ou condicional como meios para nossos fins.
Podemos, por uma questão de escolha pessoal, agregar mais
valor aos nossos animais de companhia, como os cães e os gatos,
mas, no que concerne à lei, mesmo esses animais não são nada
mais do que mercadorias. De um modo geral, não consideramos
os animais como seres com valor intrínseco, e protegemos seus
interesses apenas até onde nos beneficiamos fazendo isso.

Com raciocínio análogo, expõe Bartlett (2007, p. 19):

Para muitas pessoas em nossa sociedade, a idéia (sic) de


direitos subjetivos para outros animais é quase ‘inconcebível’.
Isso porque a nossa relação com a maior parte dos animais é
baseada na exploração: nós os comemos, caçamos e usamos
em uma variedade de forma que os prejudicam. A idéia (sic) de
que estes animais sentem dor e que têm interesses que clamam
por reconhecimento revela-se incômoda. Enquanto forem
considerados propriedade, vamos enfrentar severas limitações
na nossa capacidade de proteger os animais e seus interesses.

Felipe (2007, p. 307), nesse aspecto, destaca:

Interesses humanos, por mais triviais que sejam, como os de


embelezar-se, parecer elegante, charmoso, ou até mesmo divertir-
se para esquecer, por instantes, a monotonia da própria vida, são
considerados superiores a quaisquer interesses animais, mesmo
que estes sejam os de viver e não sofrer. A indiferença humana
em relação ao estado da vida animal resulta da diferenciação
ontológica que cremos dever manter, quando não concebemos

2 Alguns filósofos, incluindo Donald Davidson em Inquiries into truth and interpretation
e R. G. Frey em Interests and rights, alegaram que os seres não podem ter pensamentos
a menos que possam entender a linguagem dos outros. Nessa visão, a linguagem
está necessariamente ligada a atitudes proposicionais como “desejos”, “crenças” ou
“intenções”. Uma pessoa não pode ser animada ou desapontada sem linguagem (tradução
do autor).

42
Felipe Bragantino

o ser de um animal como distinto do ser das outras coisas que


se encontram sob nosso domínio, na forma de propriedade. Tal
indistinção reduz o animal a um ‘objeto de propriedade’, mais
especificamente, à ordem das mercadorias e dos ‘descartáveis’.

A bem da verdade, a relação do homem com os animais, geralmente,


é construída a partir de uma visão de superioridade, pela qual os animais
não humanos são tidos como inferiores, justamente por não poderem
expressar-se de maneira compreensível ao ser humano.
Assim, tomando como linha de início o raciocínio do pensamento
da superioridade, torna-se impossível qualquer tentativa de discussão
acerca da extensão de direitos aos animais.
Todavia, a ideia concebida de que a racionalidade humana é superior
à dos demais animais, e por essa ser uma das razões pelas quais não há
como conceber direitos aos animais não humanos, parece falha, uma vez
que, de alguma forma, os animais se comunicam.
Vários autores destacam que os animais se comunicam e interagem
entre si e com o mundo ao seu redor; certo é, porém, que a forma como
essa comunicação se opera é diferente daquela a que os seres humanos
estão habituados.
Aceitando a ideia de interação dos animais não humanos entre si
e com o mundo ao seu redor, o homem é levado a crer que, de alguma
forma, os animais possuem um padrão de comportamento definido pelo
grupo ao qual pertencem.
Portanto, se há racionalidade e forma de expressão nos animais
não humanos, não é moralmente aceitável o ser humano dispor da vida
dos animais a seu bel prazer. De modo comparativo, se poderia buscar
a forma como os antigos senhores de escravos pensavam e agiam com
aqueles, pois os consideravam meras mercadorias, sem direito à garantia
de vida, liberdade e ao seu corpo.
Embora o exemplo possa parecer estranho, eis que os escravos
ainda são seres humanos, enquanto os porcos continuam sendo porcos,
é na forma da visão que se tinha, em relação à questão da raça, e se tem
atualmente em relação à espécie em que se encontram semelhanças.
Sarlet e Fensterseifer (2007, p. 70) colocam com propriedade:

É do conhecimento de todos que a matriz filosófica moderna


da concepção de dignidade humana tem sido reconduzida
essencialmente e na maior parte das vezes ao pensamento do
filósofo alemão IMMANUEL KANT. Especialmente no campo do

43
Direito até hoje a fórmula elaborada por KANT informa a grande
maioria das conceituações jurídico-constitucionais da dignidade
da pessoa humana. A formulação kantiana coloca a idéia (sic)
de que o ser humano não pode ser empregado como simples
meio (ou seja, objeto) para a satisfação de qualquer vontade
alheia, mas sempre deve ser tomado como fim em si mesmo
(ou seja, sujeito) em qualquer relação, seja em face do Estado
seja em face de particulares. Isso se deve, em grande medida,
ao reconhecimento de um valor intrínseco a cada existência
humana, já que a fórmula de se tomar sempre o ser humano
como um fim em si mesmo está diretamente vinculada às
idéias (sic) de autonomia, de liberdade, de racionalidade e de
autodeterminação inerentes à condição humana.

Diferentemente de como se consagra a concepção humana, aos


animais não é reservada a ideia de que possam ser sujeitos, na verdade,
a visão que se tem deles, tanto nos chamados argumentos conservadores
como nos argumentos bem-estaristas, é de que são meros objetos, em
maior ou menor grau, mas ainda sem valor intrínseco em si.
A visão de que os animais não são sujeitos de direitos, mas meros
objetos existentes para satisfação do homem, parece justificar-se apenas
no argumento conservador, em que o debate ético travado não considera
os animais não humanos como sujeitos da ação. Já nos argumentos bem-
estaristas e, principalmente, no abolicionista, o debate que se trava advém
justamente da consideração como sujeitos que os animais deveriam possuir.
Ora, se forem considerados sujeitos de direito, ainda que apenas
alguns, seria necessário admiti-los como detentores de direitos e, assim
como no passado, a evolução dos direitos daqueles que eles não tinham
passou por debate ético, o mesmo ocorre atualmente em relação aos animais
não humanos.
Como muito bem colocado por Singer (1995, p. 25, grifo no original)
na introdução da obra Compêndio de Ética:

La ética versa sobre los valores, sobre el bien y mal, lo correcto


y lo incorrecto: no podemos evitar implicarnos en ella, pues todo
lo que hacemos – y dejamos de hacer - siempre os posible objeto
de evaluación. Cualquiera que piense em lo que debe hacer está
implicado, consciente o inconscientemente, en la ética3.

3 Ética é sobre valores, sobre o bem e o mal, certo e errado: não podemos evitar ser
envolvidos nela, pois tudo o que fazemos – e não fazemos – sempre possibilita o objeto
da avaliação. Qualquer pensamento é envolvido, consciente ou inconscientemente, na
ética (tradução do autor).

44
Felipe Bragantino

A moralidade humana, ao discutir a relação com os animais não


humanos, tem aversão à ideia de que a eles também devem ser estendidos
os mesmos direitos.
A forma como se observa o debate ético, por vezes, parece ser
reducionista, porque se traz ao centro a impossibilidade de os animais
não humanos firmarem relações jurídicas da forma como existe. De fato,
os animais não humanos não podem pactuar relações jurídicas com os
homens, tal como se realizam entre os próprios seres humanos, porém
não é por isso que se deve reduzir ou limitar a ideia de que a esses seres
não podem ser estendidos os mesmos direitos morais possuídos pelos
seres humanos.
Curioso é ler que, quanto mais se avança na discussão acerca da
ideia de conceber aos animais o direito inerente a si mesmos – como a vida,
por exemplo –, mais se encontra resistência a essa ideia, muito embora os
ventos da mudança sopram a favor de tal opinião, ao menos por ora.
Entretanto, não se pode fingir que tudo está normal e que a vida dos
animais utilizados em experiências ou para servir de alimentos – somente
para citar dois aspectos – é plena de respeito; pelo contrário, constata-
se, em diversas publicações, que milhões de animais são submetidos a
verdadeiros calvários em vida, os quais incluem desde servir de cobaias
vivas em diversos e dolorosos tipos de experimentos até a forma de sua
criação para serem transformados em alimentos.
Singer (2010), em outras palavras, sentencia que, quando se negam
aos animais a consideração moral, tratando-os como objetos a serem
usados para o prazer do homem, o resultado é previsível.
Portanto, quando o ser humano se alimenta de um frango e rói
seus ossos até o fim, dificilmente, para dizer quase nunca, pensa que o
alimento era um ser vivo e raramente reflete sobre o que se fez com ele
antes de se tornar aquele prato.
Considerando que o cerne da moralidade humana pode ser a
erradicação da violência e do sofrimento (infligido e não consentido), a
fim de garantir uma sobrevivência segura e sem medo ou sofrimento,
na mesma medida se poderá assegurar igual consideração aos não
humanos, centrando, assim, a análise na capacidade de sofrimento como
requisito para a existência de interesses, o que permitiria, na opinião
de Araújo (2003, p. 96), “defender a tese da igualdade de consideração
de interesses entre humanos e não humanos sem embrenharmos numa

45
indagação sobre a natureza essencial dos direitos”.
Portanto, a interrupção da utilização dos animais para serviço do
ser humano depende da mudança do enfoque em relação a eles, ou seja,
garantir uma sobrevivência segura e sem medo ou sofrimento, além da
interferência governamental para cortar subsídios e incentivos que levem
à prática da crueldade com os animais.

OS ARGUMENTOS CONSERVACIONISTA,
BEM-ESTARISTA E ABOLICIONISTA

Entre tantas formas de se pensar a extensão dos direitos


fundamentais aos animais, o livro adotará a divisão proposta por Felipe
(2007), a qual aborda, sob três pontos de vista, a argumentação daqueles
que se propõem ao debate.
Da discussão atual, Felipe (2007) sugere uma divisão entre os
doutrinadores, chamada de correntes conservadora, bem-estarista
e abolicionista. Nesse sentido, o autor (2007, p. 31) bem resume a
divergência:

Na argumentação filosófica sobre a moralidade das formas


tradicionais de satisfação das necessidades humanas, Carl Cohen,
R.G. Frey, Alan White e Jan Narceson defendem a continuidade das
práticas de criação de animais em escala industrial para o abate,
esporte, lazer, etc. Em suas respectivas posições conservadoras,
cada um desses filósofos, com diferentes argumentos, nega aos
animais direitos morais e legais. Julgam os autores, filiados leais à
tradição filosófica, que aqueles direitos devem ser exclusividade
dos humanos, por serem estes dotados de razão e linguagem e
aptos a estabelecer contratos de reciprocidade.

E continua:

Por outro lado, Robert Wright e James Rachels, por exemplo,


defendem que os direitos humanos de primeira geração,
direitos que consagram a vida, a integridade física, emocional e
ambiental, a liberdade e a reprodução, sejam extensivos também
aos animais. Steven Zak defende o direito à vida, para humanos
e animais. Edward Johnson, por sua vez, claramente posicionado
contra a corrente conservadora, que aponta limites ou deficiências
mentais nos animais, defende o direito à experiência mental
em qualquer de suas manifestações, refinada, excepcional ou
limitada, seja humana, seja animal. (FELIPE, 2007, p. 31)

46
Felipe Bragantino

Por fim, destaca Felipe (2007, p. 34, grifo no original) que:

Enquanto conservadores e abolicionistas defendem posições


antagônicas no debate sobre a moralidade do uso de animais [...],
uma terceira corrente alimenta a ética prática contemporânea,
voltada à reflexão sobre o estatuto moral dos animais. Filósofos
e ativistas da causa animal propõem a eliminação de todas as
práticas, costumes e hábitos humanos causadores de dor e
sofrimento ao animal, quando esses não podem ser justificados
moralmente. Defendem, no entanto, os bem-estaristas, a
preservação das formas que denominam intercâmbio entre
homens e animais, desde que tal intercâmbio beneficie os
animais.
Em caráter excepcional, os bem-estaristas defendem o emprego
de animais para benefício exclusivo do homem, quando não há,
comprovadamente, outro meio para atender a uma emergência
humana [...]. Os bem-estaristas concluem que, sob a condição
de que o animal usado pelo homem tenha sua integridade física,
psíquica e ambiental preservada pelos cuidados deste, certas
práticas humanas, de interação não escravizadora dos animais,
podem ser consideradas um intercâmbio justo e saudável com
os mesmos, não uma forma de exploração.

Nesse contexto, muito embora Felipe (2007), quando da fala


exposta, refira-se à experimentação animal, e não à utilização deles como
alimentos ou vestuário, a ideia pode muito bem ser aproveitada.
Como visto, para Felipe (2007, p. 134, grifo no original), filósofos
como Frey defendem que somente os seres humanos possuem interesses
a serem defendidos ou respeitados, uma vez que o referido filósofo
“vincula o conceito de interesses ao de querer”. A esses dois, Frey (apud
FELIPE, 2007) ainda soma dois outros: desejo e necessidade.
Como destacado, o contraponto do argumento conservacionista
para manutenção da visão dos animais não humanos como não passíveis
de concessão de direito parece ser o entendimento de que a eles falta
capacidade de consciência reflexiva, o que impediria o reconhecimento
por parte dos animais de suas próprias experiências, limitando-os, por
lógico, de serem responsáveis pelos seus atos, o que, via de consequência,
impede-os de estabelecer contratos de reciprocidade.
Conforme a autora, “para Frey, os animais não têm interesses,
embora tenham necessidades. Não tendo conhecimento de suas
próprias necessidades, não são capazes de crer em coisa alguma”
(FELIPE, 2007, p. 134).
Assim, de acordo com a lógica apresentada, se há falta de capacidade
de crer nos animais e não há desejo, então também não haverá interesses

47
a serem defendidos ou preservados. Mais uma vez, resume Felipe (2007)
que o argumento de Frey se assemelha à teoria cartesiana, posto que,
enquanto Descartes negava direito aos animais não humanos em razão
da falta de linguagem, Frey os nega em razão da falta de interesses por
serem incapazes de crer.
Outros autores, como White e Cohen (apud FELIPE, 2007), por
exemplo, também defendem a não extensão aos animais não humanos
dos direitos morais, que entendem ser exclusivos dos seres humanos,
haja vista que, para eles, direitos são concedidos para serem usados,
usufruídos, exigidos, reivindicados; contudo, ao mesmo tempo,
exigem a contrapartida, definida como um dever, uma obrigação, uma
responsabilidade, ou seja, há necessidade da compreensão da troca.
White, parafraseado por Felipe (2007, p. 137-138), explica:

White não admite, assim, subsumir4 direitos a capacidades, sejam


essas quais forem. Por exemplo, o autor não admite vincular,
derivar ou fazer depender o direito de não sofrer a capacidade
de sentir dor. No seu entender, o aparato jurídico não pode
oferecer a qualquer ser sensível proteção ou garantia alguma de
não-sofrimento. Indivíduos podem sofrer por razões diversas e
de modo diferente, subjetivo.

Já para Cohen (apud FELIPE, 2007, p. 157):

[...] a capacidade para o juízo moral, que distingue humanos


de animais, não é um teste a ser aplicado aos humanos, um a
um. Pessoas, que por causa de alguma deficiência são incapazes
de desempenhar funções morais naturais a seres humanos, não
são expulsas, por essa razão da comunidade moral. A questão é
de espécie. Humanos são de uma espécie tal que só podem ser
submetidos a experimentos com seu consentimento voluntário.
As escolhas que fazem livremente devem ser respeitadas. Animais
são de uma espécie tal que lhes é impossível, em princípio, dar
ou recusar consentimento voluntário, ou fazer uma escolha
moral. O que os humanos, mesmo inaptos, preservam, animais
jamais possuem.

Assim, no entender dos que defendem o argumento conservador,


somente o ser humano é dotado de interesse, desejo e necessidade,
capacidades que lhe traduzem o reconhecimento de sua própria
experiência. Nessa visão, animais não humanos não merecem qualquer
consideração, estando eles a serviço do ser humano.

4 Subsumir: Aplicar a; colocar em concordância com (DICIONÁRIO INFORMAL, 2012, site).

48
Felipe Bragantino

Em contraposição ao argumento conservador, há, na divisão


proposta por Felipe (2007), o argumento abolicionista; nesse caso, como
o nome mesmo sugere, propõe-se a abolição da utilização dos animais
em benefício dos seres humanos.
Entre os que se destacam com maior visibilidade está Regan
(2006), para quem os animais não humanos são sujeitos de uma vida e,
se considerados como tais, merecem os mesmos direitos concedidos aos
seres humanos.
Em sua obra, Jaulas Vazias, Regan (2006) fala em “consciência
animal”, em reconhecimento dos animais como “sujeitos de uma vida”,
ou seja, para ele, os animais também querem viver e se importam com
suas vidas, tal como os seres humanos valorizam as suas.
A favor da teoria abolicionista, deve-se ter em mente que, ao entrar
em um açougue para comprar carne para o jantar ou o almoço, ignoram-
se muitas vezes os maus-tratos a que são submetidos os animais ali
dispostos para servir de alimento ao homem.
Essa etapa, qual seja, a da compra do produto acabado e embalado,
é o ápice de um longo processo ao qual são submetidos os animais, que
engloba desde a forma de sua criação, em locais apertados, sem ventilação
adequada, com privação de seus movimentos mais básicos, muitas vezes
do sono e de uma alimentação sadia, até o transporte inadequado para os
abatedouros ou grandes frigoríficos, os quais impõem inúmeras aflições
às vítimas, sem contar a forma como são abatidas. Nesse processo, tudo
o que é feio é afastado dos olhos do consumidor, a fim de assegurar um
ar elegante e refinado ao produto.
Portanto, considerando-se os animais não humanos como sujeitos
de uma vida, como propõe Regan (2006), não é difícil imaginar a concessão
a eles dos direitos morais usufruídos pelos seres humanos, como o direito
à vida, à liberdade e, inclusive, o direito de dispor do seu próprio corpo,
que engloba o direito constitucionalmente garantido da inviolabilidade
do corpo previsto no inciso X do artigo 5º da Constituição da República
Federativa do Brasil de 1988 (BRASIL, 1988).
Em verdade, como coloca Araújo (2003, p. 299), o que Regan
defende ou reclama é a libertação mediante o reconhecimento de direitos
subjetivos aos animais, entendido o direito subjetivo como um poder e
uma faculdade advindos de uma regra interposta pelo Estado na proteção
dos interesses coletivos, ou seja, reconhecer aos animais o direito à vida,

49
por exemplo.
Além das duas correntes apresentadas, há ainda uma terceira,
denominada bem-estarista.
Os bem-estaristas defendem o uso dos animais pelos seres humanos,
desde que não lhes sejam infligidos dor e sofrimento em nenhuma etapa de
suas vidas; com isso, busca-se compatibilizar a produção industrial com a
diminuição do sofrimento, legitimando o uso instrumental dos animais no
contexto da indústria, criando condições para que sua utilização continue
e se expanda mais e mais.
Os bem-estaristas têm se apropriado das argumentações de Singer
(2010), pois esse autor não exclui completamente a ideia de que, em
determinadas circunstâncias, possa ser justificado o uso de animais;
todavia, jamais concordaria com a posição dos bem-estaristas na utilização
dos animais como a indústria da carne o faz, por exemplo, tanto que em
sua obra, Animal Liberation, o autor tece duras críticas à forma de criação
intensiva de animais e sua exploração pela indústria de alimentos. Singer
baseia-se, ainda, na ideia de utilitarismo, conforme a qual, em qualquer
situação, devem ser considerados igualmente os interesses dos seres
diretamente envolvidos pela ação.
Como colocado por Felipe (2010, p. 12):

o movimento bem-estarista busca contornar essa condição dos


animais, projetando leis que obrigam os humanos, aos quais
esses animais estão submetidos fisicamente a se conterem em
seus ímpetos agressivos e violentos, ou em sua ambição de
lucros.

Nessa perspectiva, não se considera o direito próprio do ser, ou


seja, não há garantia à vida, liberdade ou autonomia prática, muito menos
de autopreservação sem interferência do ser humano, mas tão somente,
há proteção contra a crueldade (maus-tratos) ou a ambição humana.
Nenhuma das leis bem-estaristas visa considerar o fim da
escravização dos animais com a finalidade de pôr fim à sua exploração
em benefício do homem, como já disse Felipe (2007).
Entretanto, ao partir do ponto de que os seres sencientes, ou seja,
aqueles que têm consciência de sua própria existência, merecem proteção
e, por conseguinte, fazem jus ao direito à vida, pela lógica exposta
somente se poderá admitir como apropriada para a defesa dos animais
não humanos a corrente abolicionista, a única que defende a plenitude da

50
Felipe Bragantino

vida animal.
Na definição de Araújo (2003), Peter Singer defende uma vertente
mais moderada, mais permeável à solução de simples salvaguarda do
bem-estar animal, mesmo que em detrimento de direitos individuais de
seres não humanos, mas aberta a um cômputo mecânico de interesses
em confronto, de acordo com critérios e ditames utilitaristas.
Aliás, o doutrinador anteriormente citado coloca em evidência
a existência de duas teses centrais que, na visão dele, dividiram-se
entre admissões indiretas e diretas de um estatuto moral próprio dos
animais não humanos; de acordo com o autor, as primeiras catalisam a
primazia dos valores antropocêntricos, e as segundas assentam-se num
descentramento da ética ou da bioética (ARAUJO, 2003).
Entre as teses indiretas, destaca-se a visão cristã, na qual se
reconhece uma hierarquia de seres vivos; no seu topo, estão os seres
humanos e, por conseguinte, os que estão em níveis abaixo devem ter
seus direitos relativizados em comparação aos que, conforme a hierarquia,
estão acima, sendo eles os únicos merecedores em si mesmos de uma
consideração moral (ARAUJO, 2003). Outro destaque das teses indiretas
considera a tese cartesiana, pela qual os seres não humanos são despidos
de alma, assim seu comportamento é puramente mecânico.
De outro norte, há a visão kantiana, conforme a qual, considerando
que só os seres humanos são capazes de libertar-se das paixões e dos
instintos, somente a eles é possível exigir um distanciamento crítico. Há,
ainda, a visão contratualista, na qual a moralidade e o direito só podem
ser considerados quando há seu livre exercício (ARAUJO, 2003).
Nas visões expostas, como destaca Araújo (2003), os interesses
dos animais não humanos não são diretamente relevantes, estão sempre
atrelados aos interesses dos seres humanos sobre eles, como o apego aos
animais de estimação (abalo pela perda), o proveito econômico do animal
ou a lesão eventualmente causada a outrem.
Contudo, uma vez que a ética não admite parcialidade, o que
vale para um deve valer para o outro. Nesse sentido, existem questões
importantes para o debate dos direitos dos animais: o direito moral e o
direito legal, que serão analisados mais adiante.

51
LEGISLAÇÃO
BRASILEIRA E
NORMATIVOS
INTERNOS

52
Felipe Bragantino

A seguir, serão explicitadas considerações acerca da legislação


brasileira referente aos direitos fundamentais.

DEFINIÇÃO CONSTITUCIONAL DE DIREITOS


FUNDAMENTAIS

Historicamente, o Direito Constitucional surge para proteger


o cidadão do poder do Estado, garantindo-lhe o direito à liberdade,
limitando, por conseguinte, o poder do Estado.
Cruz (2002, p. 29, grifo no original), ao abordar a questão, esclarece:

Desde o começo do movimento constitucionalista, a formulação


de uma Declaração de Direitos aparece como a primeira tarefa a
ser levada a cabo para assegurar a liberdade do indivíduo. Trata-
se de enumerar os direitos de todos os cidadãos, isto é, aqueles
direitos que são inerentes a esta condição ou, de forma mais
ampla, a todo ser humano, com a denominação de Direitos do
Homem.

Caracteriza-se, bem o define Silva (2008), como garantia de uma


convivência digna, livre e igual de todas as pessoas. E continua “[...] tais
direitos são inatos, absolutos, invioláveis (intransferíveis) e imprescritíveis”
(SILVA, 2008, p. 179-180).
No seu conceito clássico, de acordo com Bonavides (2008, p. 35),
possui “inspiração liberal e tem precipuamente por objeto estabelecer
a forma de Estado, a forma de governo e o reconhecimento dos
direitos individuais”. De forma resumida, pode-se considerar o Direito
Constitucional o ordenamento supremo do Estado.
Certo, portanto, que a Ciência Jurídica no atual Estado Democrático
de Direito, no qual se vive, permeia todo e qualquer debate da vida social,
como, aliás, afirma o próprio Cruz (2002, p. 19).
Classicamente, divide-se o Direito Constitucional em Direito
Público e Direito Privado. Assim, enquanto a parte pública do Direito trata
das questões de interesse coletivo, a parte privada, por óbvio, trata de
aspectos que regulam a atividade do indivíduo.
Na classificação apontada, não está de todo equivocado dizer que
os direitos fundamentais pertencem ao ramo do Direito Público, uma vez
que guardam a defesa dos pressupostos ligados à coletividade. Nesse

53
sentido, as normas criadas defendem ou tendem a defender ou, ainda, a
realizar um interesse coletivo, de forma a criar ou manter condições de
caráter geral, indispensáveis para que cada indivíduo possa buscar seu
interesse particular (CRUZ, 2002).
Assim, a proteção dos direitos fundamentais, que são em verdade
certos bens inerentes a todo ser humano, surge como fator mais importante
no Direito Constitucional ao garantir a segurança do indivíduo frente ao
Poder do Estado ao mesmo tempo que limita, divide e responsabiliza o
Poder do Estado em relação ao indivíduo. Portanto, correspondem a uma
ideia de direito absoluto que só excepcionalmente podem sofrer mutações
e, ainda assim, somente por meio de lei de emenda à Constituição
(BONAVIDES, 2008).
Na Constituição da República Federativa do Brasil de 1988, os
Direitos Fundamentais estão previstos no Título II, mais especificamente
nos artigos 5 a 17 (BRASIL, 1988, site). Neles, estão apresentados os direitos
e deveres individuais e coletivos, os direitos sociais, da nacionalidade e
políticos, que além de regularem as relações entre os indivíduos, também
limitam e responsabilizam a atuação do Poder do Estado em relação ao
indivíduo. Entretanto, limitam-se os direitos e garantias fundamentais
previstos na Constituição à pessoa humana (BRASIL, 1988, site).
Além da liberdade ao indivíduo, os direitos e garantias fundamentais
garantem também a igualdade de tratamento, valendo a máxima de que
todos são iguais perante a lei, nos exatos dizeres de Cruz (2002, p. 136):

os direitos fundamentais não só asseguram situações de


indivíduos particulares mas também servem para definir os
valores e fins da estrutura política constitucional. Têm, assim, os
direitos fundamentais uma finalidade individual e uma finalidade
coletiva.

São situações jurídicas sem as quais a pessoa humana não poderia


sobreviver ou mesmo se realizar, posto que igualam e reconhecem o
homem.
São considerados direitos constitucionais, já que insertos dos
textos constitucionais ou de declarações solenemente estabelecidas
pelo poder constituinte. Para Silva (2008), são direitos que nascem e se
fundamentam, portanto, no princípio da soberania popular.
A variedade de normas constitucionais relativa aos direitos e garantias
fundamentais e a diferença de entendimento de sua extensão em um momento

54
Felipe Bragantino

histórico são determinantes para o que se entende por direitos e garantias


fundamentais dignos de proteção legal. Entretanto, é possível admitir-
se como realidade que os direitos e garantias fundamentais nos Estados
Democráticos de Direito, com algumas pequenas variações, são análogos,
garantindo, sobretudo, além da liberdade do indivíduo e a igualdade de
tratamento, a limitação e a responsabilização do Poder do Estado.
Forçoso é reconhecer que o direito à proteção da vida, muito mais
do que simples legislação ordinária, possui caráter constitucional e assim
deve ser considerada a referida norma como cláusula pétrea, ou seja,
disposição legal que deve ser cumprida obrigatoriamente, que não permite
renúncia ou inaplicabilidade, por estar petrificada, dura, imóvel, por ser
inquebrável e intocável. É lei ou norma que se cumpre sem qualquer
discussão quanto à sua interpretação de viabilidade – fática ou de direito
– por ser e estar taxativamente blindada na ordem constitucional, não
se modifica, não se revoga ou não se reforma; é, portanto, superior
hierarquicamente falando, quanto à validade e à soberania legal, faz parte
da base e do sistema jurídico adotado e assegurado (MAIA NETO, 2011).
Como explica o próprio Maia Neto (2011, p. 1):

a Constituição Federal (08.10.1988) tem como cláusulas pétreas


os dispositivos referentes à constituição da república, seus
princípios e fundamentos, bem como as garantias individuais,
indisponíveis e fundamentais da cidadania, expressos nos
artigos 1º ao 5º. O § 1º do artigo 5º da Carta Magna dispõe
que as garantias fundamentais possuem aplicação imediata,
são auto-aplicáveis, em outras palavras, não necessitam de lei
ordinária para regulamentar, razão pela qual devem ser aplicadas
e asseguradas diretamente pelo Poder Judiciário, na falta ou
carência de norma infra-constitucional.

Na lição de Schäfer (2005), a teoria geracional dos direitos


fundamentais utiliza a evolução histórica como elemento essencial à
própria caracterização e individualização dos direitos fundamentais; logo,
considera-se a progressiva afirmação da respectiva juridicidade, partindo-
se do modelo inicial (consenso sobre a limitação do poder) até o modelo
atual (pluralismo democrático com efetiva interligação responsável entre
Estado e cidadão). Os direitos fundamentais, a partir desse critério,
sofrem uma tríplice classificação: a) direitos fundamentais de primeira
geração, os quais têm a liberdade como elemento caracterizador; b)
direitos fundamentais de segunda geração, identificados com a busca
da igualdade material; c) direitos fundamentais de terceira geração –

55
complexa estrutura de direitos que tem na solidariedade humana o
elemento caracterizador.
Para Cruz (2002), é possível ainda distinguir quatro “gerações” de
direitos e garantias fundamentais constitucionalmente reconhecidas,
como destaca:

1) primeira geração – corresponde ao constitucionalismo


liberal dos séculos XVIII e XIX, com uma acentuada ênfase dos
textos constitucionais à dimensão individual, como proteção
do indivíduo à ameaça do Estado – direitos de liberdade –
e garantia para sua participação na vida pública – direitos
políticos;
2) segunda geração – corresponde ao constitucionalismo
social do período posterior à Primeira Guerra Mundial, com
constituições nas quais aos direitos anteriores são acrescentados
outros, que levam em consideração as relações do indivíduo com
seu meio social – relações de trabalho, econômicas etc. – e que
supõem garantias de bem-estar, as ditas prestações materiais –
educação, saúde, previdência etc;
3) terceira geração – corresponde aos direitos coletivos
relativos a bens antes considerados naturais, culturais e base
da vida, mas que começaram a tornar-se escassos e cujo
desaparecimento ameaçaria a coletividade como um todo –
direito ao meio ambiente saudável, patrimônio artístico e cultural
etc;
4) finalmente, o constitucionalismo recente passou a
levar em conta os avanços alcançados pela ciência nas áreas
de informática – espaços virtuais, comunicações via internet
etc. – e da manipulação genética – clonagem, reprodução
assistida, transgênicos etc. – que devem estar regulados
nas constituições como forma de proteção à essência do ser
humano e como proteção à criação dos ditos “seres genéticos,
que podem ser utilizados para fins biológicos”. Essas previsões
são denominadas (ainda que de forma incipiente) “direitos de
quarta geração”.

O conjunto dessas garantias forma o sistema de proteção que Silva


(2008) classifica em proteção social, política e jurídica. A Constituição da
República Federativa do Brasil de 1988 não consigna qualquer extensão
dos direitos fundamentais aos demais seres vivos, apenas estende as
garantias e os direitos aos seres humanos (BRASIL, 1988, site).
A previsão inserta no artigo 225, inciso VII, da Constituição não
pode ser tomada como um direito fundamental de primeira geração,
por exemplo, pois não põe a salvo a vida dos animais, apenas coíbe a
crueldade contra eles, que são as maiores vítimas da modernidade e
possuem menos direitos (BRASIL, 1988, site).

56
Felipe Bragantino

A exploração dos animais advém de ganância, ambição, egoísmo,


falta de solidariedade, entre outros pontos. Comparativamente, o ser
humanos os trata como, em outras épocas, os negros, os índios, as
mulheres e as crianças eram tratados, só que a extensão de direitos de
primeira geração, por exemplo, a esses grupos se deu de forma mais
natural, posto que os animais, diferentemente de outros grupos já
explorados, pertencem à outra espécie.
A maneira como são explorados os animais atualmente, como já se
disse, advém em grande parte da forma como é utilizada a natureza para
atender às necessidades humanas, aplicando a ela (natureza) tecnologia, a
fim de “industrializá-la” e, assim, não só suprimir as crescentes demandas
por mercadorias, mas também gerar lucros com a minimização dos custos.
Essa forma de utilização repete a lógica do capitalismo, em que
tudo é tido ou visto como passível de transformação, no intuito de
estabelecer rentabilidade ao sistema produtivo, internalizando lucros e
externalizando custos.
Para que se possa avançar na questão de estender ou não os direitos
fundamentais aos animais não humanos, é necessário estar disposto a
progredir moralmente, para possibilitar uma mudança de foco em relação
a eles, tal como se fez em relação a outros grupos em determinada época,
pois, como coloca Chuahy (2009, p. 10), “o respeito pela natureza não é
retrógrado, pelo contrário, é progressista”.
Como exposto, o Direito não é estático, imóvel, inalterável; pelo
contrário, é dinâmico, altera-se com o passar do tempo e, na maioria das
vezes, evolui. A defesa de um estatuto jurídico próprio aos animais passa
por uma mudança de sua concepção jurídica, criando uma nova categoria
dentro do Direito Civil, mesmo que ainda sejam tratados como “coisas”,
porém sem desprezar sua condição de ser senciente.
Segundo Godinho, A. e Godinho, H. (2012, site):

o Direito deve evoluir sem perder a consciência da interdependência


entre as espécies, abandonando-se a idéia (sic) de coisa como
sendo algo totalmente submetido à vontade humana. Poderia
ser entendido como direito dos animais o conjunto de regras
jurídicas destinadas à sua tutela. Sendo o animal objeto de
transações, poderia, sem se negar sua natureza, deixá-lo figurar
no direito das coisas, mas com a criação de uma nova categoria
específica: sua classificação comportaria as coisas móveis, as
imóveis e as sensíveis (os animais).

57
Seria possível ir além, ou seja, abandonar definitivamente a
ideia de espécies, deixando de lado também o pensamento de que os
animais são bens suscetíveis de movimento próprio, desvinculando-os
da vontade humana e, dessa forma, salvaguardando sua natureza de ser
sensível, o que criaria um conjunto de regras jurídicas destinado à sua
tutela.
O que impede isso? A visão de mundo do homem? O medo de
que, com a mudança, o ser humano perderá a identidade? O medo de ter
consciência de quanto se está errado na forma de agir com os animais?
A defesa de um estatuto jurídico próprio aos animais poderia passar
pela mudança de paradigma a não mais utilizar o ser humano como
modelo para extensão de direitos aos animais. Nesse aspecto, tomando
como exemplo a ideia de constituir garantia legal aos animais, poderia
ser prevista na constituição a garantia das chamadas cinco liberdades
(nutricional, sanitária, ambiental, comportamental e psicológica) – termos
criados em 1967 pelo Conselho de Bem-Estar de Animais de Produção
(Farm Animal Welfare Council [FAWAC]) da Inglaterra, que estabeleceu
um conjunto de estados ideais chamados de as “cinco liberdades” dos
animais.
As cinco liberdades reconhecidas significam que os animais devem
permanecer livres de: 1) fome e sede, o que implica a provisão abundante
de água e alimentação adequada que permita manter sua saúde e vigor;
2) desconforto, o que implica a provisão de um ambiente apropriado
em termos de abrigo e área para um descanso confortável; 3) dores,
ferimentos e doenças, o que implica atenção veterinária preventiva
e rápido tratamento; 4) impedimentos a exercer seu comportamento
natural, o que requer espaços adequados à espécie e companhia
de animais da mesma espécie; 5) medo ou estresse, o que significa
condições de tratamento que evitem o sofrimento mental ou psíquico
(FLORIT, 2011).
Portanto, pensar na elaboração de normas jurídicas capazes
de defender os interesses dos animais, estabelecendo um mínimo de
dignidade na forma como são criados, passa pela análise das chamadas
cinco liberdades, quais sejam: nutricional, sanitária, ambiental,
comportamental e psicológica, como já descritas.

58
Felipe Bragantino

LEGISLAÇÃO CONSTITUCIONAL E
INFRACONSTITUCIONAL

Como colocado, a discussão pelo reconhecimento de direito


aos animais não humanos perpassa pelo debate entre direito moral e
direito legal.
De acordo com sua análise, vê-se que a legislação brasileira
considera os animais bens particulares ou bens públicos, que somente
têm valor pela piedade, no caso dos animais domésticos5, ou pelo seu
valor econômico nos demais casos.
Todavia, a proteção dos animais, ainda que de forma relativa, está
inserta na legislação brasileira desde o período colonial, como bem explica
Levai (2004, p. 27-28):

Durante o período colonial e nos tempos imperiais também


eram freqüentes (sic) os maus tratos cometidos por cocheiros
e cavalariços, condutores de carroças, carruagens e ou
charretes, em detrimento de seus animais. Até duas décadas
antes da proclamação da República, aliás, os bondes de São
Paulo e do Rio de Janeiro eram puxados por burros, cujo
martírio se prolongou até o início do século XX. Curiosamente,
na mesma época em que se aditaram em território brasileiro
as leis de abolição da escravatura – do Ventre Livre (1871),
dos Sexagenários (1885) e, enfim, Lei Áurea (1888) – o
município de São Paulo inseria em seu Código de Posturas,
de 6 de outubro de 1886, uma norma legal que parece ter
sido pioneira em tratar de um assunto relacionado à proteção
dos animais, conforme se verifica em seu artigo 220: ‘É
proibido a todo e qualquer cocheiro, condutor de carroça,
pipa d’água, etc., maltratar os animais com castigos bárbaros
e imoderados. Esta disposição é igualmente aplicada aos
ferradores. Os infratores sofrerão a multa de 10$, de cada
vez que se der a infração’. Surgia assim, pela primeira vez no
Direito brasileiro, um dispositivo capaz de salvaguardar de
abusos os animais, como que antecipando a vontade política
que se firmaria apenas século seguinte.

Levai (2004, p. 32) também expõe que a Constituição da República


Federativa do Brasil deu novo fôlego à proteção dos animais, conforme se
extrai da colação abaixo:

5 Domésticos, aqui, são considerados os animais que convivem com o ser humano
harmonicamente.

59
A promulgação da atual Constituição Federal, em 5 de outubro de
1988, renovou as esperanças voltadas à proteção dos animais,
mesmo porque um de seus principais dispositivos – aquele
que propõe proteger a fauna, evitar a extinção das espécies e
proibir a crueldade (art. 225 § 1º, inciso VII) – foi incorporado
ao texto da maioria das Constituições Estaduais. E também
inspirou a redação do artigo 32 da Lei n. 9.605/98 (Lei dos
Crimes Ambientais), que considera infração penal a conduta de
crueldade para com animais.

Rodrigues (2008, p. 70-71), entretanto, revela que, apesar da


proteção conferida aos animais, eles ainda continuam sendo vistos como
pertencentes à propriedade privada ou como bens difusos, conforme se
infere pela colação a seguir transcrita:

A bem da verdade, sob a égide jurídica os Animais são


protegidos da seguinte forma: primeiro, os Animais continuam
sendo considerados coisas ou semoventes, ou coisas sem dono
conforme os dispositivos do Código Civil Brasileiro e, nesse
sentido, são protegidos mediante o caráter absoluto do Direito
de Propriedade, ou seja, como propriedade privada do homem
e passíveis de apropriação. Aqui se encontram os Animais
domésticos e domesticados, considerados coisas, sem percepção
e sensações. Segundo, como patrimônio da União, sendo que a
biodiversidade terrestre pertence ao Direito Público e, portanto,
devem ser protegidos como bens socio-ambientais inseridos na
categoria de bens difusos, o que, diga-se de passagem, já foi
uma grande evolução no âmbito protecionista dos direitos dos
Animais. Sob essa proteção estão incluídos os Animais silvestres
em ambiental natural, e os exóticos, os quais são originários de
outros países.

No entanto, em nenhuma das situações apontadas, os animais


são considerados sujeitos ativos de direito; assim, mostra-se razoável
conceber a proteção à fauna, prevista no artigo 225, §1º, inciso VII da
Constituição da República Federativa do Brasil, com o caráter de direito
fundamental, pois, como bem esclarece Rodrigues (2008), ou os animais
são vistos do prisma jurídico como coisas semoventes, e nesse aspecto
continuam abarcados pelo direito da propriedade, ou são considerados
pertencentes ao patrimônio da União.
Nesse mesmo sentido, destaca Levai (2004, p. 129-130):

Se o nosso Direito autoriza a subjugação dos animais, isso


revela a influência do pensamento antropocêntrico na cultura
ocidental. A própria formação jurídica do bacharel fundamenta-
se na doutrina privatista que se incorporou aos principais
diplomas legislativos do século XX. Para muita gente, a suposta

60
Felipe Bragantino

incapacidade de os animais comunicarem-se conosco e de se


fazerem inteligíveis em seus anseios impede que os tenhamos
como sujeitos jurídicos.

Além de toda celeuma jurídica, mesmo entre os filósofos que


abordam a questão há divergência sobre eventual alteração da concepção
do lugar dos animais no âmbito da moralidade humana que possa garantir
a eles o direito a serem titulares ativos da garantia estatal.
Aqueles que negam a extensão de direitos aos animais não humanos
baseiam sua objeção no Direito e na Biologia, como destaca Müller (2010);
assim, na objeção legal, os que negam o direito aos animais não humanos
têm como alicerce a visão de uma leitura contratualista conservadora,
em uma perspectiva de direitos baseada em direitos legais. Na objeção
biológica, reconhece-se a fundamentação da mesma na visão cartesiana
dos animais não humanos, em razão de considerá-los seres autômatos,
desprovidos de sensações e sentimentos; além disso, os animais são
desprovidos de razão e linguagem que lhes permitam compreender e
expressar desejos.
Especificamente, a Constituição da República Federativa do Brasil de
1988 não estende aos animais qualquer garantia ou direitos fundamentais,
aliás, sequer faz menção à consideração desses seres vivos como entes
dotados de personalidade jurídica própria (BRASIL, 1988). A proteção
tanto ao meio ambiente como aos animais aparece apenas no artigo 225,
assim definido:

Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado,


bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de
vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de
defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações
(BRASIL, 1988, site).

Como se pode notar pelo exposto, a garantia da norma é genérica,


inclusive quanto às pessoas que têm o dever de proteger o meio ambiente,
e lacunosamente transfere essa responsabilidade ao Poder Público e à
coletividade sem, contudo, definir quem ou qual dos Poderes Públicos deverá
tomar a iniciativa da defesa e quais os meios para se exercer tal poder.
A Constituição tenta, nos incisos de seu parágrafo primeiro,
resolver a questão, embora novamente não esclareça a forma, limitando-
se a declarar que incumbe ao Poder Público assegurar a efetividade desse
direito. A Carta encarrega o Poder Público, por exemplo, de “proteger

61
a fauna e a flora, vedadas, na forma da lei, as práticas que coloquem
em risco sua função ecológica, provoquem a extinção de espécies ou
submetam os animais à crueldade” (BRASIL, 1988, site).
As Constituições Estaduais repetem o estabelecido pela Constituição
Federal; como exemplo, cita-se a Constituição Estadual de Santa Catarina
de 1989, que estabelece em seu artigo 182, inciso III, a tarefa do Estado,
na forma da lei, proteger a fauna e a flora, vedadas as práticas que
coloquem em risco sua função ecológica, provoquem extinção de espécie
ou submetam animais a tratamento cruel.
Apesar da inexistência de um princípio constitucional que estenda
aos animais a proteção à vida e à garantia como norma inerente do próprio,
há várias outras regras que, se não põem a salvo a vida dos animais, ao
menos garantem, ainda que em tese, o sofrimento desnecessário6.
Nessa esteira, a primeira norma legal de proteção à vida animal que
se tem conhecimento é o Decreto Federal nº 16.590, de 10 de setembro
de 1924 (Regulamento das Casas de Diversões Públicas), promulgado
pelo então Presidente da República Arthur da Silva Bernardes. O artigo
5º desse documento vedava a concessão de licença para corridas de
touros, garraios, novilhos, brigas de galo e canários, além de quaisquer
outras diversões desse gênero causadoras de sofrimento aos animais
(LEVAI, 2004).
Dez anos depois, em 10 de julho de 1934, o Governo Provisório de
Getúlio Vargas expediu o Decreto Federal nº 24.645, proibitivo da prática
de maus-tratos (LEVAI, 2004).
Alguns autores, entre os quais se destaca Levai (2004), sustentam
que a exceção feita ao superado sistema das penas previstas no Decreto
nº 24.645 – não foi revogado por nenhuma lei posterior a ele –, nem
expressa nem tacitamente, tem natureza de lei, de modo que somente
outra lei poderia inviabilizá-lo, o que até o momento não aconteceu.
Na mesma linha, Rodrigues (2008, p. 66, grifo no original) sustenta
que:

Permanece parcialmente em vigor, pois ainda não foi totalmente


revogado. Seu mérito consistiu em reforçar a proteção jurídica

6 Apesar de utilizar a expressão sofrimento desnecessário, confessa-se não ser a melhor


forma de expressão, pois não há uma definição clara de seu conceito ou, mesmo, se há
como considerar a existência de algum tipo de sofrimento julgado como necessário.
Entretanto, a expressão é utilizada ao longo do texto por falta de outra que possa ser
mais bem empregada.

62
Felipe Bragantino

dos Animais por meio de vários dispositivos próprios, permitindo


a interpretação de um novo status quo dos Animais como sujeitos
de direito, em razão da possibilidade de o Ministério Público
assisti-los em juízo na qualidade de substituto legal.

Com o surgimento da Lei de Contravenções Penais (Decreto-lei nº


3.688/41), a crueldade para com os animais passou a ser considerada
contravenção penal, imputando aos infratores penas de multa (BRASIL, 1941).
Além desses institutos jurídicos, muitos outros surgiram na tentativa
de frear o ímpeto de agressão e maus-tratos aos animais. Em relação a
esses instrumentos, destaca Levai (2004, p. 31):

quanto à situação dos animais selvagens, não menos dramática,


vale registrar que o pioneiro Código de Caça (Decreto n.
5.894/43), que compactuava com a matança, foi substituído
pela Lei de Proteção à Fauna (Lei federal n. 5.197/67), que, além
de transformar em crime a caça profissional, fez com que todos
os bichos mudassem sua condição, deixando de ser produtos
pertencentes ao caçador para se tornarem propriedade do
Estado. Também à pesca (comercial, esportiva ou científica),
outrora objeto do Decreto n. 794/38, passou a ser disciplinada
pelo Decreto-lei 221/67, conhecido como Código de pesca.
Este diploma, em parte alterado pela Lei Federal n. 7.679/88,
impôs restrições à chamada ‘pesca predatória’, realizada com
instrumentos proibidos (armadilhas, redes, tarrafas, explosivos
e substâncias tóxicas) ou praticada no período de ‘piracema’
(época de reprodução e desova de peixes), porque ambas podem
facilmente dizimar a fauna aquática.

Além dos citados, Levai (2004, p. 32) destaca outros:

No âmbito federal há que se mencionar, ainda, a Lei n. 6.638/79


(que estabeleceu normas para a vivissecção de animais) e a Lei
n. 7.173/83 (que regula o funcionamento de jardins zoológicos).
Algum tempo depois foi editada a Lei n. 7.643/87, destinada
a coibir a pesca e o molestamento intencional dos cetáceos
(baleias, botos e golfinhos). Também na década de 80 dois
diplomas federais, em particular, permitiriam o efetivo exercício
da tutela jurídica do ambiente e dos animais: a Lei n. 6.938/81
(política Nacional do Meio Ambiente) e a Lei n. 7.347/85 (Ação
Civil Pública), instrumento processuais largamente utilizados
pelo Ministério Público na defesa da fauna.

Salienta-se, ainda, que a Lei nº 9.605, de 12 de fevereiro de 1998,


dispõe sobre as sanções penais e administrativas derivadas de condutas
e atividades lesivas ao meio ambiente, e dá outras providências,
estabelecendo o critério de penas para quem pratica ato de abuso, maus-

63
tratos, fere ou mutila animais silvestres, domésticos ou domesticados,
nativos ou exóticos. Entretanto, nenhuma legislação considera os animais
não humanos como detentores de direitos fundamentais tal como o
homem. Embora prevejam a proteção, o fazem pelo viés da vedação à
crueldade com os animais.
As legislações citadas, portanto, não aderem à ideia de que os animais
não humanos possam ter direito à vida, à liberdade, à inviolabilidade de
seus corpos. Como coloca Felipe (2010, p. 13):

as leis de proteção animal aprovadas ao redor do mundo


e no Brasil não evitam o ‘especismo eletivo’. Elege-se uma
determinada espécie de animal para proteger, por exemplo,
os da fauna silvestre, as espécies ameaçadas de extinção, os
aquáticos e assim por diante, enquanto práticas idênticas e
até mesmo mais tormentosas continuam a ser levadas a efeito
contra outros animais não protegidos por aquela lei. Se animais
têm direitos, então não se pode discriminar algumas espécies e
proteger outras.

Apesar de a legislação considerar inadmissível qualquer forma de


crueldade com os animais, esse mesmo documento não vê os animais
como sujeitos de direito ou, como coloca Regan (2006), como sujeitos de
uma vida.
Como aponta Araújo (2003), deve-se a Regan a ideia de estender
um direito muito mais jusnaturalista aos animais não humanos, isto é,
centrado na ideia que defende o fato de o direito ser independente da
vontade humana, ou seja, ele existe antes mesmo do homem e acima das
leis do homem, isto é, o direito é algo natural e busca sempre um ideal
de justiça. Assim, o direito à vida ou mesmo a uma existência plena é
inerente e universal de qualquer ser vivo, imutável e inviolável.
Portanto, nenhuma diferença há entre o direito dos seres humanos
a uma existência plena ou o direito de outro animal, pois ambos têm
direito à vida em toda sua plenitude. Sem esse reconhecimento, os animais
continuarão a ser tratados como coisas ou objetos como estabelece a Lei
nº 10.406, de 10 de janeiro de 2012, (Código Civil) em seus artigos 936,
1.397 e 1.445 a 1.447, ou seja, suscetíveis de apropriação por parte do
ser humano, passíveis de utilização como força motriz, como fonte de
alimento ou como fonte de vestuário (BRASIL, 2002).
Vários são os acordos e leis que estabelecem algum tipo de garantia
de vida aos animais, entretanto esse reconhecimento se restringe à vedação

64
Felipe Bragantino

de atos cruéis, somente. Tais iniciativas visam, amiúde, à proteção ao bem-


estar dos animais, sem, contudo, esmiuçar a possibilidade de estender a
eles direitos subjetivos; em outras palavras, o direito é inerente ao próprio
sujeito reconhecido pela ordem jurídica, que terá eficácia quando houver
mudança da perspectiva da ordem social tal como é concebida. Muito da
resistência a uma extensão de direitos mais efetivos aos animais passa
pela visão antropocêntrica do direito.
Como escreve Araújo (2003, p. 299):

essa é a razão pela qual Tom Regan entende que é crucial começar
por postular-se a existência de direitos subjectivos conexos
com um «valor intrínseco», objectivo, dos animais – pois isso
transferiria o ônus da justificação para quem quer que, com os
seus atos, procurasse infligir algum sofrimento em animais.

Nem mesmo a Declaração Universal dos Direitos dos Animais, da


qual o Brasil é signatário desde 1978, embora não a tenha ratificado,
reconhece os animais como detentores legais do direito à vida (CFMV,
2012).
Como as demais legislações acerca do assunto, a Declaração
Universal dos Direitos dos Animais é apenas mais uma boa intenção de
minimizar a crueldade da conduta humana com os demais animais. Isso
fica claro com a leitura de vários artigos do referido documento, mais
especificamente do artigo 9º, o qual estabelece que, se o animal for criado
para consumo humano, deve ser “nutrido, alojado, transportado e morto
sem que para ele resulte ansiedade e dor” (CFMV, 2012, site).
De fato, a Declaração admite em seu texto (artigo 3º, inciso II) que
os animais possam ser mortos por necessidades, entretanto deixa de
especificar o que seria essa necessidade e no que consistiria, privilegiando
um critério utilitarista-antropocêntrico (CFMV, 2012).
Como já escreveu Araújo (2003, p. 313):

uma admissão dessas esvazia de conteúdo a proclamação


categórica do art. 11 da Declaração Universal dos Direitos dos
Animais, de que a morte desnecessária de um animal é um «crime
contra a vida», um «biocídio» - porque, muito simplesmente,
não há definição do que seja «necessidade», o que, como vimos,
permite a maior amplitude de uma interpretação estritamente
antropocêntrica.

Assim, mais uma vez, pode-se observar que, como proclamam vários
pensadores da defesa animal, a legislação, quando elaborada e pensada

65
para a proteção dos animais, sempre se faz pelo viés antropocêntrico.
Como já colocou Rodrigues (2008, p. 72), “para o ordenamento
jurídico como ciência antropocêntrica, tanto os Animais como bens
socioambientais, quanto coisas ou semoventes, são tidos tão somente
como objetos de direito”.
Ainda atualmente os animais são vistos como coisas semoventes e
disponíveis, apesar de sua natureza jurídica ter sido modificada de coisas
sem dono para bens públicos. De qualquer forma, eles continuam a ser
vistos não como sujeitos de direito, mas sob a ótica do objeto de direito.
Para que essa situação mude, há a necessidade de a sociedade, com
novos hábitos e convicções, impor ao Direito o reconhecimento de que
os seres não humanos possuem interesses próprios e, por isso, merecem
ser respeitados.
Esse direito sempre existiu – como coloca Rodrigues (2008) – como
pensamento abstrato, tal como a ideia do Contrato Social que deu base à
Democracia. Assim coloca:

os seres vivos devem ter direitos legais assim como são os direitos
humanos. Na realidade, como observa o brilhante filósofo Michel
Serres, esse direito sempre existiu como uma idéia (sic) abstrata,
da mesma forma da idéia (sic) do contrato social que fundou a
Democracia. Ou seja, mesmo aqueles que não possuíam direitos
legais, como as mulheres, as crianças, os povos indígenas,
os escravos, em verdade os tinham abstratamente, mas só
passaram a tê-los lealmente com a evolução do sistema jurídico
(RODRIGUES, 2008, p. 107).

Nesse patamar, os animais podem ser vistos como já o foram as


crianças, as mulheres, os escravos, os povos indígenas que sempre
tiveram os direitos hoje reconhecidos, embora de forma abstrata, que,
com a evolução do sistema jurídico, foram sendo absorvidos e codificados,
garantido a eles os direitos antes negados.
Seria possível considerar que a libertação dos animais não humanos
pudesse passar pela abolição dos direitos reais que sobre eles recai, como
bem coloca Araújo (2003).
Novamente, Araújo (2003 p. 320) destaca:

a desconsideração da personalidade jurídica depende dos


ordenamentos jurídicos aos quais está subordinada e depende
de uma intervenção discriminatória, tal como já ocorreu com a
superação do escravagismo, por exemplo.

66
Felipe Bragantino

As mudanças certamente serão profundas nas sociedades, haverá


necessidade da “libertação do homem na visão materialista nele embutida
e da manipulação dos Animais por ele imposta” (RODRIGUES, 2008, p. 107).
Nesse contexto, o Equador inseriu em sua Constituição Federal
de 2008 os artigos 71 e 72, reconhecendo no dispositivo constitucional
direitos intrínsecos à natureza, os chamados derechos de la naturaleza
(direitos da natureza), como coloca Pacheco (2012). Esse autor (2012, p.
2, grifo no original) explicita que:

diante da crescente desarmonia na relação do homem com o


meio ambiente, surge interessante inovação legislativa na
Constituição do Equador. O avanço consiste no reconhecimento
e criação - de forma pioneira no mundo – do chamado derecho
de la naturaleza, onde o texto constitucional equatoriano passa
a reconhecer a natureza como sujeito de direitos.

Como apresentado por Pacheco, o texto constitucional equatoriano


subverte a ótica tradicional, considerando a natureza sujeito de direitos
(PACHECO, 2012).
O artigo 71 da Constituição do Equador assim estabelece:

Art. 71. La naturaleza o Pacha Mama, donde se reproduce y


realiza la vida, tiene derecho a que se respete integralmente
su existencia y el mantenimiento y regeneración de sus ciclos
vitales, estructura, funciones y processos evolutivos.
Toda persona, comunidad, pueblo o nacionalidad podrá exigir
a la autoridad pública el cumplimiento de los derechos de la
naturaleza.
El Estado incentivará a las personas naturales y jurídicas y a
los colectivos, para que protejan la naturaleza, y promoverá
el respeto a todos los elementos que forman un ecosistema7
(PACHECO, 2012, site).

Nesse ponto, comenta Pacheco (2012, p. 5):

Pela leitura do texto é evidente a inovação constitucional. À


primeira vista, se destaca a superação da visão antropocêntrica
que considera a natureza coisa ou recurso natural, e agora, pela
visão do texto constitucional equatoriano, passa a ser vista e

7 Art. 71. A natureza ou Mãe Terra, onde se reproduz e realiza a vida, tem o direito
de ver plenamente respeitada a sua existência e a manutenção e regeneração de seus
ciclos de vida, estrutura, funções e processos evolutivos. Toda pessoa, comunidade, vila
ou nacionalidade poderá exigir da autoridade pública o cumprimento dos direitos da
natureza. O Estado incentivará os indivíduos e a coletividade, para proteger a natureza
e promover o respeito a todos os elementos que compõem um ecossistema (tradução
do autor).

67
conceituada como Pacha Mama (Mãe Terra), reconhecendo
a natureza como sujeito de direitos onde a mesma possui,
conforme o texto legal, o direito a que se respeite integralmente
sua existência e manutenção.
A constituição em comento aprofunda e avança, incluindo também
como sujeitos de direitos os ciclos vitais (ou ecossistemas),
assim como preconizam o respeito a todos os seres vivos que
formam um ecossistema (Art.71). Tal feita insinua e obriga, com
hierarquia constitucional, a adoção de uma visão mais ampla
que sugere também a necessidade de proteção dos demais
seres vivos, expresso pelo termo ‘respeto a todos los elementos
que forman un ecosistema’ (Art.71). A norma constitucional,
ao deferir direitos a seres vivos que habitam ecossistemas,
definitivamente força o paradigma antropocêntrico indo ao
encontro inevitável aos princípios da ecologia profunda, o
Deep Ecology, desenvolvendo personalidade normativa sem
precedentes em nenhuma constituição no mundo.

A ecologia profunda reconhece o valor intrínseco de todos os seres


vivos e concebe os seres humanos apenas como mais uma parte no
sistema da vida, conforme definição de Capra (apud PACHECO, 2012).
Diferentemente da legislação brasileira, que carrega a visão
antropocêntrica em seus dispositivos, visando à proibição da prática cruel
do homem em relação à proteção do meio ambiente e dos próprios animais
não humanos, mas não reconhece um valor intrínseco, Pacheco (2012,
p. 8) destaca que “a constituição equatoriana e os instituídos direitos
da natureza sugerem e legislam que os ecossistemas e seus ‘indivíduos’
(animais) possuem valor intrínseco, ou seja, são sujeitos de direitos”.
Como coloca Gudynas (2009, p. 37), o texto da Constituição do
Equador concede, à natureza e aos seus indivíduos, direitos, de forma
diversa do que ocorre com as demais constituições de países latino-
americanos, senão veja-se:

En la nueva Constitución ecuatoriana por primera vez se


reconocen derechos propios de la Naturaleza o Pachamama. Ésta
‘tiene derecho a que se respete integralmente su existencia y el
mantenimiento y regeneración de sus ciclos vitales, estructura,
funciones y procesos evolutivos’ (Artículo 72). Enseguida, se indica
que ‘toda persona, comunidad, pueblo, o nacionalidad podrá
exigir a la autoridad pública el cumplimiento de los derechos
de la naturaleza’, y que el ‘Estado incentivará a las personas
naturales y jurídicas, y a los colectivos para que protejan
la naturaleza, y promoverá el respeto a todos los elementos
que forman un ecosistema’ (Artículo 72). Éste es un cambio
radical, en comparación con la mayor parte de los regímenes
constitucionales en América Latina, donde generalmente se

68
Felipe Bragantino

incorporaron los temas ambientales como ‘derechos de tercera


generación’, también llamados ‘derechos económicos, sociales y
culturales’ (incluido el ‘derecho a un ambiente sano’)8.

Não é mais possível admitir que o Direito sirva apenas para reger
as relações entre os homens, embora essa seja a premissa maior como
regulamentação das relações jurídicas entre o homem versus o homem e
o homem versus o animal.
O Direito, atualmente, precisa considerar, para extensão de
garantias, não só os agentes morais, mas também os pacientes morais
(seres sencientes). Os animais, como pacientes morais, tanto merecem
atenção quanto os seres humanos (agentes morais), pois não parece
razoável deixar de estender direitos aos animais apenas porque não se
pode esperar reciprocidade deles.
Recentemente, a França reconheceu os animais como seres
sencientes, por meio da redação dada ao artigo 518-14 do Código Civil e,
embora seja cedo para avaliar as consequências efetivas dessa mudança,
parece promissora do ponto de vista jurídico a consideração estendida
aos animais.
Não há, pelo menos nesse momento, uma certeza da forma como
será efetivada essa nova garantia, ou seja, se ela apenas servirá de
mero apêndice sem efetividade, ou se será entendida como uma norma
proibitiva, no sentido da utilização dos animais como objeto no campo
afetivo ou no campo comercial. (ANDA, 2015, site).
De acordo com Felipe (2006, p. 55-56), em crítica à Declaração
Universal dos Direitos Humanos, o documento somente protege a pessoa
humana, único sujeito de uma vida, considerando-a inviolável, o que
acarreta a ideia de superioridade do sujeito moral sobre todas as espécies,
à exceção da sua.
Na mesma obra, a autora conclui:

É preciso que a ONU redefina o estatuto do ser humano no âmbito


da comunidade moral internacional, que ao ser humano seja

8 A nova Constituição equatoriana pela primeira vez reconhece direitos inerentes à


natureza ou Mãe Terra. Ela “tem o direito de ver respeitada plenamente a existência
e a manutenção e regeneração de seus ciclos de vida, estrutura, funções e processos
evolutivos” (Artigo 72). Então, afirma-se que “cada pessoa, comunidade, aldeia, ou
nacionalidade pode exigir da autoridade pública o cumprimento dos direitos da natureza”
e “o incentivo do Estado para as pessoas singulares e coletivas e grupos para proteger a
natureza e promover o respeito por todos os elementos que compõem um ecossistema”
(Artigo 72)” (Tradução do autor).

69
atribuída à responsabilidade pela preservação das condições da
vida no planeta, devendo ocupar-se disso, e não apenas de seu
próprio bem-estar. A paz, nesse sentido, será buscada também
para outras espécies vivas, desse modo, ao preservar os valores
morais construídos por sua razão, finalmente o ser humano
expande o círculo da moralidade para além das fronteiras da
espécie Homo sapiens. Essa é a única saída para redimensionar a
Declaração, tornando-a digna do momento ético alcançado pela
razoabilidade humana, o da consciência de deveres para com
todas as formas de vida (FELIPE, 2006, p. 81).

Assim, não é mais possível pensar que o homem possa continuar


a exercer sua visão utilitarista impondo ao mundo sua vontade; nesse
sentido, cabe à norma jurídica ser resultado da realidade social, na qual o
homem não seja mais visto como único detentor de direitos, mas apenas
como mais um elemento inserido no meio ambiente, respeitando os
demais seres vivos que habitam a Terra.
Ao se considerar moralmente os animais como sujeitos ativos de
direitos, garantindo a eles os chamados direitos de primeira geração,
como a vida e a liberdade, por exemplo, não é possível aceitar a ideia de
que seu valor seja relativizado em vista do ser humano, posto que não se
concebe o pensamento de concessão de um meio-direito, por assim dizer,
a um ser – seja ele humano ou não.
Admitir, ainda que em casos extremos, a utilização dos animais não
humanos, partindo do princípio de que suas vidas têm valor menor que
a do ser humano, seria como aceitar a escravidão de seres humanos em
determinadas situações. Assim, pode-se concluir que ou se concebe o
direito em sua plenitude aos animais ou não se concebe, pois, como dito,
não pode ser aceitável a ideia de proteção de um ser somente enquanto
seus interesses não concorram com os interesses dos seres humanos.
Portanto, partindo da premissa de que, aos animais, deve ser
concedido o direito de livre escolha, de reprodução, assim como de sua
vida, a mesma forma que é considerado aos seres humanos, de acordo
parece o argumento abolicionista para explicar a garantia do direito a
uma vida justa, partindo-se do princípio de não haver discriminação de
espécies e que os homens devem aos demais animais não apenas os
deveres negativos, no sentido de não lhes fazer mal, mas também os
deveres positivos, de maneira a proporcionar-lhes o direito de gozar sua
vida, como bem sentencia Felipe (2007).

70
Felipe Bragantino

NORMATIVAS DO MINISTÉRIO DA AGRICULTURA,


PECUÁRIA E ABASTECIMENTO QUANTO À
FISCALIZAÇÃO DOS PRODUTORES DE CARNE

O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), por


meio de suas portarias e regulamentos, apenas se presta aos cuidados de
fiscalização quanto à criação, ao transporte e ao abate dos animais, visando
muito mais evitar as perdas e zelar pela saúde dos seres humanos do que
efetivamente preocupar-se com o bem-estar dos animais (BRASIL, 2009).
Isso fica claro quando se acessa o sítio eletrônico do Ministério da
Agricultura, em que se destacam os três objetivos principais:

Mercado interno: O Ministério da Agricultura trabalha para que


o maior consumidor de seus produtos seja o próprio brasileiro.
Segundo a Assessoria de Gestão Estratégica (AGE), a previsão
é de que até 2019/2020 o mercado interno seja responsável
pelo consumo de 50% do produto pecuário produzido no Brasil.
Por isso, tem mantido a fiscalização rígida de todo o produto
pecuário brasileiro, fazendo exigência de registros e autorizações
concedidas pelo ministério e suas superintendências.
Exportação: O Brasil lidera o ranking de maior exportador de
carne bovina do mundo desde 2008 e as estatísticas mostram
crescimento também para os próximos anos. A exportação de
carne bovina crescerá a 2,15% ao ano, enquanto a carne de aves
3,64%.
Importação: Os produtos de origem animal importados pelo
Brasil são fiscalizados e controlados pelo Ministério da Agricultura.
O objetivo é preservar a saúde animal e garantir a conformidade
de insumos agropecuários importados. O desembarque de
qualquer produto animal depende da autorização da Vigilância
Agropecuária Internacional (Vigiagro), que mantém postos em
aeroportos, portos e fronteiras (BRASIL, 2012, site).

Segundo informação contida no sítio eletrônico do MAPA, o Brasil é um


dos maiores produtores mundiais de carne. O país possui um vasto mercado
interno, tanto que, em 2010, da produção de 24,5 milhões de toneladas de
carne, 75% foram consumidos internamente no país (BRASIL, 2012).
Como se observa pela leitura no sítio do já mencionado ministério,
a nova legislação prevê a fiscalização da qualidade do produto e esforços
empreendidos pelo país a fim de extirpar doenças e contribuir para o
aumento da produção, com prevalência para a erradicação das patologias
que podem afetar não só a produção, mas também a saúde de quem
consome os produtos de origem animal (BRASIL, 2012).

71
No Brasil, destaca-se a criação de bovinos e bubalinos – o rebanho
brasileiro é considerado um dos maiores do mundo (senão o maior). Além
disso, o país se sobressai mundialmente também na criação de caprinos,
ovinos, aves, equídeos e suínos.
Analisando os normativos do MAPA, denota-se que a maior preocupação
faz referência à segurança e à higiene do produto destinado ao consumo e,
em menor grau, ao cuidado com os interesses dos animais destinados ao
abate, embora recomenda-se o abate humanitário (BRASIL, 2012).
Destaca-se a informação lançada no sítio eletrônico do MAPA quanto
à sanidade animal:

A saúde animal, numa visão ampliada, envolve questões


relacionadas a enfermidades dos animais, saúde pública, controle
dos riscos em toda a cadeia alimentar, assegurando a oferta de
alimentos seguros e bem-estar animal (BRASIL, 2012, site).

Na mesma linha, porque não poderia ser diferente, salienta-se a


apresentação do Manual Técnico editado pelo MAPA:

Instrumento orientador das ações do setor Saúde Animal, a


Política Nacional de Defesa Agropecuária tem como propósito
definir diretrizes e responsabilidades institucionais, com vistas a
criar condições para proteger a saúde do rebanho nacional, bem
como prevenir agravos à saúde pública (BRASIL, 2009, site).

Por sua vez, o inciso II, do artigo 27-A, da Lei nº 8.171, de 17 de


janeiro de 1991, que dispõe sobre a política agrícola, estabelece:

Art. 27 - A. São objetivos da defesa agropecuária


assegurar:
I – (...)
II - a saúde dos rebanhos animais (BRASIL, 1991, site).

Confirma-se, assim, pelas citações apresentadas, que há maior


preocupação com a saúde do destinatário do produto final, ou seja, com
a saúde do ser humano. Outro exemplo é a Portaria nº 210/1998, do
Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento/Secretaria de Defesa
Agropecuária (SDA/MAPA), a qual, ao definir o vocábulo carcaça, permite
que o animal seja abatido sem insensibilização, pois assim estabelece:

CARCAÇA: entende-se pelo corpo inteiro de uma ave após


insensibilização ou não, sangria, depenagem e evisceração,
onde papo, traquéia, esôfago, intestinos, cloaca, baço, órgãos
reprodutores e pulmões tenham sido removidos. É facultativa

72
Felipe Bragantino

a retirada dos rins, pés, pescoço e cabeça. CORTES: entende-se


por corte, a parte ou fração da carcaça, com limites previamente
especificados pelo DIPOA, com osso ou sem osso, com pele ou
sem pele, temperados ou não, sem mutilações e/ou dilacerações
(BRASIL, 1998, site, sem grifos no original).

Da referida Portaria, ainda se destaca seu Anexo II, conforme o qual é


permitido legalmente o abate de aves, por exemplo, sem insensibilização,
como mesmo se depreende da leitura a seguir:

4.2. INSENSIBILIZAÇÃO E SANGRIA


[...]
Permite-se o abate sem prévia insensibilização apenas para
atendimento de preceitos religiosos ou de requisitos de países
importadores (BRASIL, 1998, site).

Veja-se que, após a insensibilização, procede-se à sangria do animal,


à escaldagem e à depenagem (feitos, geralmente, com água quente),
além da evisceração. Deve-se ter em mente que, durante essas ações, o
animal continuará vivo e/ou debatendo-se; além disso, recorda-se que,
nesse momento, ele está sentindo toda a intensidade da dor, uma vez que
não foi sequer insensibilizado, em razão de preceitos religiosos ou por
imposição de países importadores.
Resta evidente que os interesses de certos grupos consumidores
se sobrepõem à recomendação da utilização da insensibilização, como
exemplifica o item 4.2, do Anexo II, da Portaria SDA/MAPA 210/1998
citado (BRASIL, 1998, site).
As exceções previstas pela Portaria mencionada, em relação à
utilização dos métodos de insensibilização, principalmente no que diz
respeito às questões de cunho religioso ou quando se referem a imposições
de países importadores, já foram tratadas por Singer (2010) como falha
grave permitida pelas legislações de maneira geral.
Nessa linha, destaca Singer (2010, p. 223):

Na Grã-Bretanha, os abatedouros, em teoria, são controlados


por leis de abate humanitário, o Farm Animal Welfare Council
(Conselho do Bem-Estar dos Animais de Criação). O governo
fiscalizou alguns deles e descobriu: ‘Concluímos que a
inconsciência e a insensibilidade dos animais, que supomos
existir nas muitas operações do abate, ocorrem, com grande
probabilidade, em grau que não é suficiente para torná-los
insensíveis à dor’.

73
Também fica claro que os animais são tratados como mera
propriedade de seus donos, sem qualquer consideração por suas vidas,
na análise do artigo 1º, da Lei nº 569, de 21 de dezembro de 1948,
publicada no Diário Oficial da União, de 23 de dezembro de 1948, Seção
1, página 18.256, a qual estabelece medidas de defesa sanitária animal e
dá outras providências (BRASIL, 1948, site).
Estabelece o referido artigo 1º:

Art. 1o Sempre que, para salvaguardar a saúde pública, ou por


interesse da defesa sanitária animal venha a ser determinado o
sacrifício de animais doentes, destruição de coisa ou construções
rurais, caberá ao respectivo proprietário indenização em dinheiro,
mediante prévia avaliação.
Parágrafo único. Far-se-á devido desconto na avaliação quando
parte das coisas ou construções condenadas seja julgada em
condições de aproveitamento (BRASIL, 1948, site).

Assim são todos os demais normativos federais que tratam da


fiscalização dos produtos que envolvem a morte de animais para sua
elaboração: a primeira preocupação diz respeito à qualidade do insumo;
depois, discute-se a saúde do destinatário e, por último, há a preocupação
com o animal que servirá de matéria-prima para o produto.
Morsch e Florit (2009) destacam que, em 1997, a União Europeia
reconheceu os animais de criação como seres sencientes (Tratado de Amsterdã,
1997). Os autores ainda esclarecem que, ao assim serem vistos os animais
de criação, haverá uma continuidade progressiva no reconhecimento dos
interesses desses animais com o surgimento de “normativas mais rigorosas
sobre bem-estar animal” (MORSCH e FLORIT, 2009, p. 8-9).
Segundo relatam, “um reflexo desta discussão no Brasil foi a
aprovação da normativa que determina a adoção de práticas de ‘abate
humanitário’” (MORSCH e FLORIT, 2009, p. 9). Esse abate humanitário pode
ser compreendido como a utilização de técnicas para colocar o animal em
estado de inconsciência, que perdure até o fim da sangria, não causando
sofrimento desnecessário e promovendo a sangria tão completa quanto
possível (ROÇA, 2002, p. 1).
Segundo Morsch e Florit (2009, p. 9):

a Secretaria de Defesa Agropecuária do Ministério da Agricultura


apresentou a Instrução Normativa nº 3, sobre o regulamento técnico
de métodos de insensibilização para o abate humanitário de animais
de açougue, tendo sido a mesma publicada em janeiro de 2000.

74
Felipe Bragantino

A normativa determina a adoção das práticas de abate humanitário,


e tal medida teria se feito necessária para padronizar e modernizar os
processos de abate de animais de açougue, garantindo-lhes condições
mínimas de bem-estar desde a recepção na propriedade rural até o
momento do abate.
Os autores explicam:

No que diz respeito ao abate humanitário, do ponto de vista


normativo, o Brasil tem se adequado a essa lógica. Isto vem
acontecendo por diversos motivos, mas uma vez que se constata
a falta de uma discussão pública do assunto, resulta evidente
que o principal fator para a formulação desta agenda é o fato do
Brasil ser um dos maiores exportadores de carne para Europa.
Dessa maneira, parece ter aderido a essa normativa na tentativa
de não prejudicar a imagem diante de uma demanda crescente,
principalmente europeia, de cuidados e direitos animais, pois a
questão dos interesses dos não humanos, que já expressa uma
consistente preocupação sobre estas questões. Ao que parece,
procede da nossa tendência a importar aspectos normativos dos
países mais desenvolvidos, seja por interesses comerciais ou por
incessantes tentativas de nos igualarmos nos ideais de progresso
e desenvolvimento seguidos por eles (MORSCH e FLORIT, 2009,
p. 11).

A crítica quanto à utilização das técnicas de abate humanitário


refere-se ao fato de ela não salvaguardar os animais de continuarem a
ser explorados, ou seja, eles ainda são utilizados como matéria-prima
para transformação, colocando o ser humano em situação de conforto
moral.
Morsch e Florit (2009, p. 2), mais uma vez, destacam que, na região
de Blumenau e cidades das redondezas, foi realizado um mapeamento
pelo Grupo Interdisciplinar de Pesquisa sobre Desenvolvimento e Meio
Ambiente (GIPADMA), cujo resultado demonstrou que:

o abate humanitário não é efetivamente realizado nem fiscalizado


na região. De acordo com esse levantamento os métodos de
insensibilização ainda não correspondem à normativa, sendo
que a grande maioria dos abatedouros de bovinos utilizam
instrumentos que são proibidos como a marreta.

A Tabela 1, a seguir, apresenta o tipo de método de insensibilização


utilizado com os animais e em quantas oportunidades se observou a sua
não utilização.

75
Tabela 1 – Estabelecimentos de abate do Médio Vale do Itajaí
segundo tipo de insensibilização

Uso de insensibilização
Sem Total de
Município Choque
Marreta Outra insensibilização estabelecimentos
elétrico

Apiúna 1 0 0 0 1
Ascurra 0 0 0 0 0
Benedito Novo 1 0 0 0 1
Blumenau 1 1 0 3 4*
Botuverá 0 0 0 0 0
Brusque 0 0 0 0 0
Doutor Pedrinho 1 0 1 0 1*
Gaspar 1 0 0 1 2
Guabiruba 0 0 0 0 0
Indaial 6 2 1 2 10*
Pomerode 4 4 0 1 9
Presidente Getúlio 3 1 0 0 3
Rio dos Cedros 4 3 1 0 7*
Rodeio 0 0 0 0 0
Timbó 1 1 0 1 3
TOTAL 23 12 3 8 41

* Um estabelecimento do município apontou dois métodos diferentes


de insensibilização de acordo com a espécie de animal.
Fonte: Graf (2010, site).

Nesse sentido, resta claro que a ideia de abate humanitário, além


de comportar exceções, também não serve de garantia para a ausência
do sofrimento animal, pois, apesar de a normativa existir, sua aplicação
apresenta lacunas.

LEGISLAÇÃO ESTADUAL E NORMATIVAS DA


SECRETARIA DO ESTADO DA AGRICULTURA E DA
PESCA DE SANTA CATARINA

Assim como a Legislação Federal, a Estadual também privilegia a


fiscalização para salvaguardar o destinatário final dos produtos de origem
animal, ou seja, o homem, sem maiores preocupações com os animais
utilizados no processo, mesmo porque a fiscalização e a vigilância são

76
Felipe Bragantino

concorrentes entre União, Estado e Município.


É evidente a posição citada quando se verifica o parágrafo único do
artigo 1º da Lei Estadual nº 10.366/1997, que estabelece:

Art. 1o: [...]


Parágrafo único. Para os efeitos desta Lei, entende-se por defesa
sanitária animal o conjunto de ações básicas a serem desenvolvidas
visando à proteção dos animais, à diminuição dos riscos da
introdução e propagação de agentes causadores de doenças, bem
como à redução das possibilidades de transmissão de doenças
dos animais ao homem (SANTA CATARINA, 1997, site).

Apesar de responsabilizar os proprietários de animais quanto à


manutenção deles em condições adequadas de nutrição, saúde, manejo,
higiene e profilaxia de doenças, as sanções existem para salvaguardar os
animais não afetados pela eventual doença, a fim de não comprometer o
rebanho e a produção.
Isso fica claro quando analisado o artigo 6º da mesma lei, em que
se verifica:

as medidas de combate às doenças, com vistas a seu controle e


erradicação, serão aplicadas prioritariamente sobre as doenças
transmissíveis e parasitárias com grande poder de difusão, cujas
consequências sócio-econômicas (sic) e de saúde pública possam
ser graves e que interfiram no comércio interno, interestadual
ou internacional de animais vivos, seus produtos e subprodutos
(SANTA CATARINA, 1997, site).

Mais uma vez repete-se, agora em nível estadual, que a preocupação


com a saúde e a vida dos animais faz jus apenas ao seu caráter extrínseco.
Tal qual a Legislação Federal, a Lei Estadual sob comento também
trata o animal somente como algo suscetível de apropriação, conforme
se depreende da leitura do artigo 11 da mencionada lei, que repete, com
alguma modificação, mas preservando seu objetivo o artigo 1º, da Lei
nº 569, de 21 de dezembro de 1948, citada no tópico anterior (BRASIL,
1948, site).
Estabelece o artigo 11 da Lei Estadual nº 10.366/1997:

Art. 11 - Sempre que, por interesse da defesa sanitária animal


ou para salvaguardar a saúde pública, venha a ser determinado
o sacrifício de animais doentes, destruição de construções,
instalações e equipamento rurais, caberá indenização ao
respectivo proprietário, mediante prévia avaliação (SANTA
CATARINA, 1997, site).

77
No estado de Santa Catarina, a responsável pelo controle de doenças e
do bem-estar animal é a Companhia Integrada de Desenvolvimento Agrícola de
Santa Catarina (CIDASC). Esse órgão, por meio de portarias, organiza a circulação
de animais e produtos deles derivados. Todavia, as normativas publicadas
espelham a preocupação com o animal em razão de seu valor econômico, por
assim dizer, além, é claro, em função do impacto na saúde humana.
Esses aspectos tornam-se evidentes quando se analisam algumas
portarias, como a Portaria SAR nº 75, de 12 de dezembro de 2011, que
estabelece regras de controle da doença chamada anemia infecciosa
equina, exigindo exames para a circulação e a criação de animais no estado
e determinando o abate dos animais infectados, bem como a forma de
indenização de seus proprietários (SANTA CATARINA, 2011).
Além da portaria citada, existem outras que impõem controle sobre a
entrada, circulação, abate e processamento de animais, como a Portaria SAR
nº 17, de 28 de outubro de 2010, conforme a qual o Serviço de Inspeção
Industrial e Sanitária de Produtos de Origem Animal no estado de Santa
Catarina será executado de acordo com o Regulamento da Inspeção Industrial
e Sanitária de Produtos de Origem Animal no estado de Santa Catarina,
aprovado pelo Decreto nº 3.748, de 12 de julho de 1993, alterado pelo
Decreto nº 2.740, de 11 de novembro de 2009 (SANTA CATARINA, 2010).
Por intermédio do Decreto nº 3.748, de 12 de julho de 1993, artigo
2º, “ficam sujeitos à inspeção e reinspeção, previstas neste Regulamento,
os de abate, o pescado, o leite, o ovo, o mel, a cera de abelha e seus
subprodutos derivados” (SANTA CATARINA, 1993).
O parágrafo 1º do artigo 2º, do Decreto nº 3.748, de 12 de julho de
1993, especifica a que se refere a inspeção e qual sua motivação, como
se pode observar pela transcrição a seguir.

Art. 2º.: (...)


Parágrafo 1°:
A inspeção a que se refere o presente artigo abrange, a
inspeção “ante” e “post-mortem” dos animais, o recebimento,
manipulação, transformação, elaboração, preparo, conservação,
acondicionamento, embalagem, depósito, rotulagem, trânsito e
consumo de quaisquer produtos e subprodutos destinados ou
não à alimentação humana. (SANTA CATARINA, 1993, site).

O Decreto nº 3.748, de 12 de julho de 1993, assim como as demais


normas que tratam do assunto, visa à proteção da saúde humana por
meio do controle de produção e processamento de produtos de origem

78
Felipe Bragantino

animal (SANTA CATARINA, 1993). Isso fica claro quando são estudados os
artigos 420 e 616 que assim prescrevem:

ARTIGO 420:
Considera-se impróprio para o consumo o pescado:
I - de aspecto repugnante, mutilado, traumatizado ou deformado;
II - que apresente coloração, cheiro ou sabor anormais;
III - portador de lesões ou doenças microbianas que possam
prejudicar a saúde do consumidor:
IV - que apresente infestação muscular maciça por parasitas, que
possam prejudicar ou não a saúde do consumidor;
V - tratado por anti-séticos ou conservadores não aprovados pela
S.A.A.
VI - provenientes de águas contaminadas ou poluídas;
VII - procedente de pesca realizada em desacordo com a legislação
vigente ou recolhido já morto, salvo quando capturado em
operações de pesca:
VIII - em mau estado de conservação;
IX - quando não se enquadrar nos limites físicos e químicos
fixados para o pescado fresco.
Parágrafo único:
O pescado nas condições deste artigo deve ser condenado e
transformado em subprodutos não comestíveis.

ARTIGO 616:
É considerado impróprio para o consumo o queijo que:
I - contenha substâncias conservadoras não permitidas ou
nocivas à saúde;
II - apresente, disseminados na massa e na crosta parasitos,
detritos ou sujicidades;
III - esteja contaminado por germes patogênicos;
IV - apresente caracteres organolépticos anormais, de qualquer
natureza, que o tornem desagradáveis;
V - contenha substância não aprovadas pela S.A.A.

Quanto ao animal em si, a preocupação restringe-se à recomendação


da utilização da insensibilização quando do abate, ideia depreendida
da leitura da SEÇÃO II, MATANÇA NORMAL, que, em seu artigo 113,
estabelece: “Só é permitido o sacrifício de bovídeos por insensibilização
seguida de imediata sangria”. (SANTA CATARINA, 1993, site).
Todavia, igual às demais normas que tentam emprestar um mínimo
de dignidade à morte dos animais utilizados como matéria-prima para o
processamento, o Decreto nº 3.748, de 12 de julho de 1993, põe a salvo
as exceções advindas com as exigências religiosas; logo, compreende-
se da leitura do parágrafo 1º, do artigo 113: “é facultado o sacrifício de
bovinos de acordo com preceitos religiosos (jugulação cruenta)” (SANTA

79
CATARINA, 1993, site).
Além da legislação apontada, o estado de Santa Catarina estabelece,
por meio de lei estadual, a obrigatoriedade de transporte adequado dos
animais, devendo os veículos serem limpos e desinfetados, bem como
observados os critérios de espaço mínimo requerido para cada espécie
(artigos 23º e 24º da Lei Estadual nº 10.366/1997); entretanto, a realidade
encontrada é diferente (SANTA CATARINA, 1997). Na maioria das vezes,
os veículos utilizados para transporte de animais não observam o espaço
mínimo ou a higienização requerida para evitar a proliferação de doenças.
Ainda se ressalva que a própria legislação não estabelece o espaço mínimo
para cada espécie a ser respeitado.
Em que pese a legislação do estado de Santa Catarina também
afirme que a proteção se dá muito mais em relação à qualidade do produto
final de origem animal do que à vida do animal em si, há que se destacar
a Lei Estadual nº 12.854, de 22 de dezembro de 2003, que instituiu o
Código Estadual de Proteção aos Animais (SANTA CATARINA, 2003). No
referido Estatuto, fica claro o avanço em relação à proteção animal, como
se depreende da leitura do artigo 2º:

Art. 2º É vedado:
I - agredir fisicamente os animais silvestres, domésticos
ou domesticados, nativos ou exóticos, sujeitando-os a qualquer
tipo de experiência capaz de causar-lhes sofrimento ou dano, ou
que, de alguma forma, provoque condições inaceitáveis para sua
existência;
II - manter animais em local desprovido de asseio, ou que
os prive de espaço, ar e luminosidade suficientes;
III - obrigar animais a trabalhos extenuantes ou para cuja
execução seja necessária uma força superior à que possuem;
IV - exercer a venda ambulante de animais para menores
desacompanhados por responsável legal;
V - expor animais para qualquer finalidade em quaisquer
eventos agropecuários não autorizados previamente pela
Secretaria de Estado da Agricultura e Política Rural; e
VI - criar animais em lixeiras, lixões e aterros sanitários
públicos ou privados (SANTA CATARINA, 2003, site).

Pelo referido estatuto, a utilização de animais como tração é


permitida, como verificado na leitura do artigo 9º, embora haja restrições
quanto à forma de sua utilização e ao estado de saúde dos animais, como
elenca o artigo 10 da mesma norma.
Assim, estabelece o artigo 10 da Lei Estadual nº 12.854 de 22 de
dezembro de 2003:

80
Felipe Bragantino

Art. 10. É vedado:


I - atrelar animais de diferentes espécies no mesmo veículo;
II - utilizar animal cego, enfermo, extenuado ou desferrado, bem
como castigá-lo;
III - fazer o animal viajar a pé por mais de dez quilômetros sem
lhe dar descanso;
IV - fazer o animal trabalhar sem lhe dar água e alimento;
V - atrelar animais em veículos sem os apetrechos indispensáveis
ou com arreios incompletos, incômodos ou em mau estado, ou
com acréscimo de acessórios que os molestem ou lhes perturbem
o funcionamento do organismo; e
VI - os veículos devem estar providos de sistema de freios, placas
refletivas e em boas condições de conservação e uso. (SANTA
CATARINA, 2003, site).

Além das restrições expostas, a Lei Estadual nº 12.854, de 22


de dezembro de 2003, também impõe ressalvas quanto ao transporte
de animais (artigos 11 e 12), exigindo que os veículos sejam limpos e
desinfetados para garantir o bem-estar animal; quanto à criação intensiva,
pune-se o criador que não cumpre alguns requisitos, como fornecer água
e alimento aos animais, de acordo com a evolução da ciência, observadas
as exigências peculiares a cada espécie e à finalidade da sua criação;
também há punições para os que, quanto às instalações, não propiciarem
adequadas condições ambientais de espaço, higiene, circulação de ar e
temperatura (artigo 14) (SANTA CATARINA, 2003).
No que diz respeito ao abate de animais, a Lei Estadual nº 12.854,
de 22 de dezembro de 2003, em seus artigos 15 e 16, impõe:

Art. 15. Todos os estabelecimentos que abatem animais no Estado


de Santa Catarina deverão utilizar-se de métodos científicos e
modernos de insensibilização, aplicados antes da sangria, por
instrumentos de percussão mecânica, processamento químico,
elétrico ou decorrente do desenvolvimento tecnológico.

Art. 16. É vedado:


I - o emprego de qualquer método considerado cruel para o
abate; e
II - o abate de fêmeas em período de gestação e de nascituros,
e animais até a idade de três meses de vida, exceto em caso de
doença, com propósito de evitar o sofrimento do animal ou a
transmissão de enfermidades. ). (SANTA CATARINA, 2003, site).

Além dos artigos citados, outros tentam pôr em salvaguarda a vida


dos animais, como os artigos 20 (proibição da prática de vivissecção
sem uso de anestésico), 22 (proibição de exportação de animais para

81
pesquisas científicas e médicas, exceto por requerimento de autoridade
consular para realização de estudos científico ou médico); 27 a 34 (tipo,
forma e valores de penalidades pelas infrações) (SANTA CATARINA, 2003).
Como visto, a legislação estadual também tenta traçar uma linha
para demarcar o uso de animais sem sofrimento, quer seja para locomoção,
experimento ou mesmo alimentação; todavia, ainda assim, a lei considera
o animal apenas como objeto de apropriação, conforme se vê nos artigos
9º (permissão da tração animal em veículos ou instrumentos agrícolas
e industriais), 13 (permissão para criação de animais em confinamento
e uso de tecnologia visando economia de espaço e trabalho e rápido
ganho de peso), 15 (prescrição para utilização de métodos científicos e
modernos de insensibilização no abate de animais) e 17 (permissão da
prática da vivissecção) (SANTA CATARINA, 2003).

LEGISLAÇÃO MUNICIPAL E NORMATIVAS DA


SECRETARIA MUNICIPAL DE DESENVOLVIMENTO
ECONÔMICO DE BLUMENAU

O município de Blumenau-SC, apesar de sua vocação industrial,


também fomenta a atividade agropecuária. Essa preocupação não é atual,
como bem demonstra a legislação municipal.
Destaca-se que, em 1948, por meio da Lei nº 25, Blumenau criou a
Diretoria de Fomento Agropecuário Municipal, cuja principal missão era dar
condições para que os pequenos produtores rurais do município tivessem
condições adequadas para o desenvolvimento da atividade, o que incluía
o manejo de animais tanto para o corte como para o fornecimento de leite
e seus derivados – fato verificado no artigo 2º da já mencionada norma
(BLUMENAU, 1948).
Entre as várias empresas instaladas no município de Blumenau,
possivelmente a maior da área de beneficiamento de produtos de origem
animal foi a Cia. Jensen, localizada na área norte da cidade, que produzia
leite e seus derivados, como pode ser conferido no vídeo disponível em
<https://www.youtube.com/watch?feature=player_detailpage&v=12rJlT6
wEwU#t=1012>.
Atualmente, o município ainda mantém áreas passíveis de criação

82
Felipe Bragantino

animal, as chamadas zonas rurais, que são destinadas tanto à produção


agrícola como à criação de animais, conforme se verifica no inciso II, do
artigo 4º, da Lei Complementar nº 751, de 23 de março de 2010, que dispõe
sobre o Código de Zoneamento, Uso e Ocupação do Solo no Município de
Blumenau e dá outras providências: “II - Zona Rural de Desenvolvimento - ZRD
- é caracterizada por áreas destinadas à produção agrícola, criação de animais
e atividades comerciais, de serviço e industriais” (BRASIL, 2010b, site).
Nesse sentido, a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico
do Município de Blumenau tem como uma de suas atribuições, na área
de desenvolvimento rural, apoiar os produtores de alimentos, rurais e
urbanos, desde o plantio até o seu processamento, com o intuito de
promover a segurança alimentar no município, bem como que o alimento
produzido necessite do mínimo uso de insumos químicos, que respeite e
interaja com o meio ambiente e que ofereça garantia de qualidade para o
consumidor (BLUMENAU, 2012).
Como se pode verificar pelo propósito da Secretaria, da mesma
forma que nos âmbitos Federal e Estadual, a preocupação que baliza as
ações é salvaguardar a integridade do ser humano como consumidor de
produtos de origem animal. Como prova disso, a Lei Municipal nº 7.519,
de 07 de abril de 2010, em seus artigos 1º e 2º, estabelece:

Art. 1o É obrigatória a afixação de cartaz, contendo alerta sobre a


qualidade da carne fornecida aos consumidores, nos açougues,
mercados e supermercados, com os seguintes dizeres: A
CARNE DE ANIMAIS CRIADOS COM EXCESSO DE HORMÔNIOS É
PREJUDICIAL À SAÚDE E DEIXA SEQUELAS.
Parágrafo Único - O cartaz, em tamanho 60 cm x 80 cm, em
letras garrafais, de fácil leitura a média distância, deve ser
afixado em ponto acima do balcão de venda de carnes - tudo de
responsabilidade do proprietário do estabelecimento comercial.
Art. 2o O descumprimento ao disposto nesta lei sujeitará o
infrator ao pagamento de multa, no valor de 5 (cinco) UFM´s
(Unidades Fiscais do Município de Blumenau), a ser aplicada em
dobro no caso de reincidência (BLUMENAU, 2010c, site).

Como se pode observar por meio dos dispositivos legais


apresentados, a intenção do legislador municipal não foi a de preservar a
vida ou o bem-estar do animal, mas, sim, a saúde do consumidor final do
produto, embora não fique claro, pela leitura do dispositivo legal, de que
modo o consumidor estará protegido com o referido cartaz.
De igual sentido, a Lei Complementar nº 747, de 23 de março de

83
2010, que institui o Código do Meio Ambiente do Município de Blumenau,
e dá outras providências, quando se refere aos direitos dos animais,
apenas condiciona a aplicação de multa a quem os maltratar, porém se
nota que nenhuma preocupação há em relação à sua condição de ser
senciente (BLUMENAU, 2010a).
Tal conceito resta claro da leitura dos dispositivos legais colacionados
a seguir, extraídos do corpo da Lei Complementar nº 747/2010.

Art. 102. As condutas e atividades lesivas ao meio ambiente serão


punidas com sanções administrativas, pelo órgão ambiental
municipal, as quais poderão cumular-se, sendo independentes
entre si.
Parágrafo Único - Considera-se infração administrativa ambiental
toda ação ou omissão que viole as regras jurídicas de uso, gozo,
promoção, proteção e recuperação do meio ambiente (Redação
acrescida pela Lei Complementar nº 776/2010).

Art. 103. São sanções administrativas:


(...)
IV - apreensão dos animais, produtos e subprodutos da fauna e
flora e instrumentos, petrechos, equipamentos ou veículos de
qualquer natureza utilizados na infração; (Redação dada pela Lei
Complementar nº 776/2010).(...).

Art. 110. São circunstâncias agravantes na infração ter o agente


cometido a infração:
(...)
IX - com o emprego de métodos cruéis para abate ou captura de
animais.

Art. 134. Compete ao órgão ambiental municipal:


I - proteger a fauna e a flora, vedadas as práticas que coloquem
em risco sua função ecológica ou que submetam os animais à
crueldade; provoquem extinção das espécies, estimulando e
promovendo o reflorestamento, preferencialmente com espécies
nativas, em áreas degradadas, objetivando especialmente a
proteção de encostas e dos recursos hídricos;(...).
Art. 136. É proibida a introdução, transporte, posse e utilização
de espécies de animais silvestres não autóctones no Município,
salvo as autorizadas pelo órgão ambiental municipal, com
rigorosa observância à integridade física, biológica e sanitária
dos ecossistemas, pessoas, culturas e animais do território
municipal (BLUMENAU, 2010a, site, grifo no original).

Não poderia ser diferente o Código de Postura do Município ao


tratar do assunto. A Lei Complementar nº 778, de 22 de outubro de 2010,
alterou o inciso XI, do artigo 47, da Lei nº 2.047, de 25 de novembro de
1974, que “Institui o Código de Posturas Municipal de Blumenau e dá

84
Felipe Bragantino

outras providências”, o qual passou a vigorar com a seguinte redação:

Art. 47 ...
XI - lançar ou atirar aves ou animais mortos, lixo, detritos, papéis,
invólucros, ciscos, pontas de cigarro, gomas de mascar ou
quaisquer resíduos sólidos ou líquidos, ainda que biodegradáveis
em curto prazo, nas vias públicas, praças, jardins ou quaisquer
áreas ou logradouros públicos (BLUMENAU, 2010d, site, grifo no
original).

O Código de Posturas Municipal de Blumenau também veda a


criação de animais de corte no perímetro urbano, conforme se verifica
no artigo 58, porém autoriza sua criação fora do perímetro urbano, de
acordo com o que se infere da colação a seguir:

Art. 58 - É vedada a criação de animais para corte no perímetro


urbano da cidade.
Parágrafo Único - A proibição contida neste artigo não se aplica
quando a criação desses animais se realizar em locais afastados
dos centros urbanos (...) (BLUMENAU, 2010d, site, grifo no original).

É de notar, entretanto, que novamente a preocupação existente


para com os animais refere-se apenas quanto a seu asseio e sua higiene,
tanto que o parágrafo único, do já citado artigo 58, assim estabelece:

Art. 58 (...)
Parágrafo Único - A proibição contida neste artigo não se aplica
quando a criação desses animais se realizar em locais afastados
dos centros urbanos, obedecidas as seguintes disposições:
I - os animais deverão permanecer em confinamento:
II - os pisos das instalações deverão ser impermeabilizados;
III - os dejetos provenientes das lavagens das instalações
deverão ser canalizados para fossas sépticas exclusivas, vedada
a sua condução até as fossas em valas ou em canalizações a céu
aberto (BLUMENAU, 2010d, site, grifo no original).

Novamente, fica explícita a preocupação do legislador municipal com


a vida do ser humano, e não com a dos animais. Tal feito é evidente quando
se leem os artigos subsequentes, em especial, os a seguir transcritos:

Art. 146 - Os cadáveres de animais encontrados nas vias públicas


serão recolhidos pelo órgão de limpeza pública da Prefeitura que
providenciará a cremação ou enterramento.
Art. 147 - É proibido o despejo, nas vias públicas e terrenos sem
edificação, de cadáveres de animais, entulhos, lixo de qualquer
origem, quaisquer materiais que possam ocasionar incômodos à
população ou prejudicar a estética da cidade (BLUMENAU, 2010d,
site, grifo no original).

85
Apesar dos poucos avanços na legislação quanto à proteção da
integridade dos animais, é necessário destacar que Blumenau proíbe
a utilização de animais em espetáculos de circo. Essa vedação está
estampada no artigo 1º da Lei nº 6.422/2004, que assim estabelece: “Art.
1º. É proibida, em toda a extensão territorial do Município de Blumenau,
a utilização, sob qualquer forma, em espetáculos de circo, de animais
selvagens, domésticos, nativos ou exóticos” (BLUMENAU, 2004, site).
Ademais, a Lei Complementar nº 530, de 27 de julho de 2005, que
baliza as ações do Poder Público Municipal, objetivando o controle das
populações animais, a prevenção e o controle de zoonoses e o equilíbrio
do meio ambiente, no município de Blumenau, em seu artigo 2º, conceitua,
nos incisos IX e X, a questão dos maus-tratos e das condições inadequadas
na tentativa de minimizar o sofrimento animal, conforme se infere pela
seguinte transcrição:

IX - maus tratos: toda e qualquer ação voltada contra os animais, e


que implique em crueldade, especialmente na ausência de abrigo,
cuidados veterinários, alimentação necessária, excesso de peso de
carga, tortura, uso de animais feridos, submissão a experiências
pseudo-científicas e o que mais dispõe o Decreto Federal nº
24.645, de 10 de julho de 1.934, a Declaração Universal dos
Direitos dos Animais, de 27 de janeiro de 1.978, a Lei de Crimes
Ambientais nº 9605/98 e o artigo 225, da Constituição Federal;
X - condições inadequadas: a manutenção de animais em contato
direto ou indireto com outros animais portadores de doenças infecto-
contagiosas e/ou zoonoses, ou ainda, em alojamentos impróprios à
sua espécie e/ou porte, ou aqueles que permitam a proliferação de
animais sinantrópicos indesejáveis (BLUMENAU, 2005, site).

Ao mesmo tempo, a norma que garante aos animais a salvaguarda


contra maus-tratos e condições inadequadas de alojamento permite sua
instalação em gaiolas e jaulas, como se extrai da leitura dos incisos XX e
XXI do artigo 2º.

XX - gaiola: a instalação destinada ao abrigo de aves, gatos


e outros animais de pequeno porte, construída em metal
inoxidável ou com pintura antiferruginosa, com escoamento de
águas servidas, incomunicável com outra gaiola, não podendo
ser sobreposta a outra gaiola;
XXI - jaula: compartimento destinado ao abrigo de animais que
oferecem risco a pessoas, com área de volume compatível com
o tamanho do animal que abriga e sistema de limpeza adequado
à eficiência e à segurança, sendo que, nos estabelecimentos de
exposição ao público (zoológicos, feiras e outros) deve estar afastada,
no mínimo, 1,50m das áreas de passeio (BLUMENAU, 2005, site).

86
Felipe Bragantino

Dos dispositivos da referida norma jurídica, verifica-se a preocupação


com dois aspectos: salvaguardar a integridade do ser humano em relação
a doenças que eventualmente tenham os animais e controlar a população
de animais, de acordo com o verificado nos artigos 3º e 4º da já mencionada
lei (BLUMENAU, 2005, site).
Em relação à elaboração, ao beneficiamento e à comercialização
de produtos de origem animal e vegetal, a municipalidade regulou a
atividade por meio da Lei Ordinária nº 4.915, de 12 de dezembro de 1997,
a qual estabelece normas sanitárias para a elaboração e a comercialização
de produtos comestíveis de origem animal e vegetal no município de
Blumenau e cria o Serviço de Inspeção Municipal (SIM) (BLUMENAU, 1997).
Para o artigo 2º da referida norma, são considerados passíveis de
beneficiamento e elaboração as seguintes matérias-primas, seus derivados
e subprodutos:

Art. 2º: (...):


I - produtos apícolas;
II - ovos;
III - frutas;
IV - cereais;
V - leite;
VI - carnes;
VII - peixes, crustáceos e moluscos;
VIII - microorganismos;
IX - outros produtos de origem animal e vegetal (BLUMENAU,
1997, site).

Embora preveja e regulamente o beneficiamento de produtos de


origem animal, exigindo de quem os produza a observância das regras de
limpeza e higiene, nada estabelece quanto à forma de abate dos animais
utilizados para elaboração dos produtos e subprodutos.
Da análise da legislação municipal, evidencia-se a tendência de considerar
os animais ou pelo valor econômico que eles possam representar para seus
donos ou a preocupação restrita quanto ao seu bem-estar, sem considerá-los
detentores de um direito inato, reforçando a concepção existente em nível
federal e estadual e, em que pese existir uma data municipal dedicada aos
defensores dos animais, que por designação do artigo 1º da Lei nº 6.897/2006
comemora-se no dia 4 do mês de outubro, a verdade é que pouco se faz em
favor da vida e dos direitos desses seres (BLUMENAU, 2006).

87
A NOVA
NATUREZA
JURÍDICA DOS
ANIMAIS E SUAS
IMPLICAÇÕES
PARA O
DESENVOL-
VIMENTO

88
Felipe Bragantino

Considerações sobre a indústria que se utiliza de animais para


obtenção de lucros e modos alternativos de criação animal serão
apresentados a seguir.

O AGRONEGÓCIO

Como se sabe, atualmente, o agronegócio é de longe uma


indústria lucrativa e promove grandes movimentações financeiras, cujas
consequências imediatas são o aumento do poderio econômico dos
grandes grupos, o grande impacto positivo na arrecadação dos tributos
relativos às atividades pelos governos e o enfraquecimento da produção
artesanal, traduzindo-se na utilização de um número cada vez maior
de animais submetidos à dor e ao sofrimento e na falta de interesse do
Estado em mudar essa realidade, em razão dos dividendos financeiros
que a atividade produz.
Trazendo as questões para a parte do agronegócio que tem como
objeto a criação em escala industrial de animais para consumo humano,
percebem-se implicações diretas e graves na qualidade de vida dos
animais durante o curto processo de industrialização da carne, que pode
ser contado da concepção ao abate e à transformação do produto.
Segundo levantamento constante na obra de Levai (2004), a área
agrícola no Brasil atinge 140 milhões de hectares. Entretanto, a disposição
em sustentar um modelo de desenvolvimento centrado na produção
agropecuária traz consigo efeitos indesejados, entre os quais se elenca a
redução na área de cultivo de alimentos que poderiam ser destinados aos
seres humanos. A isso, soma-se a pressão pelo aumento da produtividade,
com o surgimento da criação intensiva.
Levai (2004, p. 73) mais uma vez destaca:

Depois da Segunda Guerra, com a chamada industrialização das


atividades agropecuárias, houve uma ruptura com o sistema
tradicional de criação de animais. Logicamente tal mudança
só foi possível por causa do grande avanço que a ciência e a
tecnologia conheceram nesse período. Surgiu daí o sistema de
criação intensiva, que, afora a abrupta redução do tempo de vida
do animal, também lhe diminuiu os espaços.

Com o surgimento da criação intensiva, o agronegócio tornou-se


um princípio cruel que, como coloca Levai (2004, p. 73), “se sustenta pela

89
fórmula tecnocrata ‘manejo & produção’, sem nenhum compromisso com
o chamado ‘bem-estar animal’”.
Todos os dias, no Brasil, os grandes matadouros chegam a abater
1.500 bovinos e 1.500 suínos e sacrificam até 300 mil frangos (LEVAI,
2004). Somente no segundo trimestre de 2012, foram abatidas 7,625
milhões bovinos, representando aumento de 5,6% em relação ao trimestre
imediatamente anterior e de 7,9% em relação ao mesmo período de 2011,
conforme relatório de produção animal do segundo semestre de 2012
(IBGE, 2012).
O mesmo relatório destaca ainda:

Na comparação dos segundos trimestres 2012 e 2011, a Região


Centro-Oeste aumentou sua participação no âmbito nacional em
3,2%, e respondeu por 39,0% do abate de bovinos no 2º trimestre
de 2012. Todas as demais regiões apresentaram quedas de
participação: Regiões Norte (20,1%), Sudeste (19,6%), Sul (11,4%)
e Nordeste (9,9%). O crescimento dos volumes de abate no Pará
e em Rondônia determinou, pelo terceiro trimestre consecutivo,
maior participação da Região Norte frente à Região Sudeste no
abate de bovinos. Mato Grosso e Mato Grosso do Sul lideraram o
ranking dos estados brasileiros e abateram conjuntamente 67,0%
dos cerca de 558 mil unidades bovinas abatidas a mais em todo
o país. Na Região Sudeste, Minas Gerais também foi destaque
no aumento (14,1%) do número de cabeças abatidas. Entre os
estados que reduziram o abate de bovinos, São Paulo (- 38.331
unidades) foi o destaque. Ceará (-13,5%) e Pernambuco (-25,5%)
contribuíram para que somente a Região Nordeste apresentasse
decréscimo no número de cabeças abatidas (IBGE, 2012, site).

Fica evidente que uma eventual mudança da natureza jurídica dos


animais trará profundo impacto nas regiões cujo desenvolvimento foca
principalmente a pecuária. Na citação apresentada, resta claro que a
região Centro-Oeste, por concentrar a maior produção de abates, é a que
terá maior impacto, e não pode, logicamente, ser desprezado o impacto
nas demais regiões.
É óbvio que a imagem romantizada da vaca no pasto não mais
existe; nas fazendas de criação, os animais são submetidos a jornadas
estressantes para garantir a produção do leite e assegurar a produtividade
e o ganho de capital e, quando não mais atingem a meta, são sacrificados
ou simplesmente descartados.
Da mesma forma, nas granjas ou nos currais, as aves e os porcos são
colocados em locais que lhes dificultam viver, quando não lhes impedem

90
Felipe Bragantino

a circulação, justamente para proporcionar o ganho mais rápido de peso.


Ao nascerem, milhares de pintos são privados de seu bico, assim
como os porcos são privados de seu rabo por técnica dolorosa, pois,
enquanto os bicos dos pintos são arrancados a ferro quente, sem anestesia,
os rabos dos porcos são cortados com tesoura, nas mesmas condições.
A técnica resolve um problema comum entre esses animais; para
as aves, evita-se que elas se machuquem; no caso dos porcos, evita o
canibalismo. Essas atitudes, contudo, são provocadas pelo estresse
causado pela falta de espaço para que se locomovam, porém são
justificadas em nome do desenvolvimento a qualquer custo.
De outro lado, para Rodrigues (2008, p. 90), existe um caminho
alternativo:

Somente por intermédio de uma gestão racional e equilibrada


da complexidade das situações do planeta, será possível a
formação de um novo conjunto de valores que permitirá um
desenvolvimento habilitado para assegurar as futuras gerações.
Não há outra saída; impõe-se à sociedade a conscientização de
que a sobrevivência do homem e do planeta deve prevalecer
sobre o interesse econômico, pois no limite da concorrência o
ambientalismo não sobreviverá. A ordem deve tomar seu lugar. Há
que imperar o ‘ser’ sobre o ‘ter’ e enfocar a necessidade de serem
reavaliados todos os valores existentes, rumo a uma nova ética do
homem face à natureza, alterando as condutas humanas inclusive
dando-se um basta aos desvios do mercado de consumo. Frente à
realidade mundial, ainda que importe em processo a longo prazo,
a única verdadeira e possível solução para a real sustentabilidade,
capaz de conduzir a civilização ao desenvolvimento econômico e
ambiental sustentável, reside na Consciência Ecológica Global do
homem baseada na ética ambiental e na mudança de paradigmas
econômicos e sociais do ser humano.

Em vista do exposto, parece óbvio que uma mudança na concepção


da natureza jurídica dos animais abarcará não só a forma como são editadas
as leis que regulam as relações entre os seres vivos, mas também trará
implicações nos modelos de desenvolvimento que se apoiam na pecuária
e/ou outras formas de criação animal.
Nesse sentido, caberá ao Estado promover a mudança jurídica e dotar
as regiões afetadas de infraestrutura adequada para sobreviver ao impacto
da mudança, o que se dará por meio de debate junto à sociedade, a fim de
demonstrar a percepção da vida além da humana aos agentes ou sujeitos.
Em que pese o Brasil possuir uma imensa gama de legislações que
tenta traçar um mínimo de respeito à vida animal, não há de concreto

91
uma doutrina capaz de assegurar a vida deles quando sua produção se
destina ao consumo humano.
Há que se ponderar ainda que eventual mudança no status jurídico
dos animais não humanos implicará a busca de modos alternativos de
sustentabilidade e desenvolvimento humanos, posto que não será mais
palatável a utilização dos animais como força motriz, seja ela econômica
– indústria alimentícia ou vestuária – ou força de trabalho escravo.
Há várias consequências no tipo de criação intensiva desenvolvida e
aplicada atualmente nas grandes fazendas e abatedouros, que vão desde
o aparecimento de doenças nos animais e falta de espaços adequados
para a movimentação deles até a forma, na maioria das vezes, cruel como
são abatidos.
Como coloca Singer (2010, p. X), “os europeus conheceram a
indústria do agronegócio com o surgimento da doença da vaca louca e
da aftosa”. Ele ainda afirma que, a partir desses eventos, essa sociedade
percebeu que os bovinos (primeiro) não viviam em pastos como até então
se pensava e (segundo) não eram alimentados só por vegetais, posto que,
grande parte das vezes, é ingerida ração com proteína animal, ou seja, é
alimento processado com restos de outros animais.
Tal dieta é necessária para a obtenção de rápido crescimento e
desenvolvimento no animal, porém estudos científicos comprovam que
os efeitos colaterais podem ser desastrosos tanto para os animais que
se alimentam desse tipo de ração quanto para os seres humanos que
consomem a carne de animais contaminados.
As fazendas de criação de animais para o corte, como são chamados,
em nada lembram aquela cena bucólica dos livros infantis, em que a vaca
pode passear livremente pelo campo e se alimentar de capim, enquanto
o porco chafurda na lama, e a galinha cisca no quintal. Na verdade,
atualmente, as grandes corporações tomaram conta da criação de animais
para o fornecimento de alimentos aos seres humanos, visando, por óbvio,
ao lucro máximo com essa atividade.
A busca pela lucratividade máxima, com o menor desperdício de
insumos e o maior aproveitamento dos animais, faz com que eles sejam
tratados em verdadeiras linhas de desmontagens. Como mesmo escreve
Singer (2010, p. X), “o que se viu foi uma prova incontestável de que a
moderna produção pecuária trata os animais como coisas, apenas meios
para seus fins. É como se existissem somente para isso”.

92
Felipe Bragantino

Chuahy (2009, p. 35) destaca que “só nos Estados Unidos, quatro
corporações controlam 79% da indústria da carne, e esse tipo de fazenda
mata 100 milhões de mamíferos e cinco bilhões de aves por ano”.
Exemplifica Singer (2010, p. 142):

As grandes empresas e os que com elas precisam competir


não estão preocupados com nenhum senso de harmonia entre
plantas, animais e natureza. A criação é competitiva, e os
métodos adotados são os que reduzem custos e aumentam a
produção. Isso a transformou em ‘criação industrial de animais’.
Eles são tratados como máquinas, que convertem forragem de
baixo preço em carne de preço elevado e, qualquer inovação
será utilizada caso resulte na ‘taxa de conversão’ mais barata.

Tal modelo de exploração vem se propagando pelo mundo e se faz


presente tanto na América do Norte, na Europa e no Japão quanto em
países do hemisfério Sul, como o Brasil, por exemplo, que também vem
adotando o modelo de fazendas-fábricas. Segundo Chuahy (2009, p. 35),
“no Brasil uma primeira fazenda-fábrica fundada em 1953 em Goiás, é a
maior exportadora de carne da América Latina e um dos quatro maiores
frigoríficos do mundo”.
No Médio Vale do Itajaí, região que se orgulha pelos seus relativamente
bons índices de desenvolvimento humano, mais precisamente no município
de Indaial-SC, está localizado um dos maiores produtores da América
Latina de foie gras de canard (patê de pato), especializado também na
produção de carne de coelho, marreco e pato (CHUAHY, 2009).
Para se ter uma ideia da tortura a que são submetidos os animais
utilizados para a fabricação do foie gras, transcreve-se, de forma resumida,
o procedimento de sua produção:

As aves são mantidas, por toda a sua curta vida, em confinamento


permanente dentro de gaiolas mínimas, o que as impede de
fazer qualquer movimento. Alimentadas de 3 a 5 vezes ao
dia — quando são seguradas pelo pescoço —, têm seus bicos
abertos, onde é introduzido um cano metálico de 20 a 30 cm
de comprimento, que chega até o estômago do animal. Uma
alavanca então é acionada e bombeia, de uma vez, através desse
cano, uma mistura de milho, gordura e sal. Cada ave é forçada
a ingerir até 3,5 kg dessa ração por dia, o que equivale a um
ser humano ser forçado a comer 12,5 kg de macarrão por dia.
Após a alimentação, um anel elástico é apertado no pescoço da
ave para impedir que regurgite. Após 4 semanas de alimentação
forçada, o animal é morto e seu fígado, retirado para produzir o
patê (DIREITOS DOS ANIMAIS, 2012, site).

93
Em arremate, esclarece Chuahy (2009, p. 43): “Enquanto o Brasil
aumenta a produção desse tipo de produto, outros países como Inglaterra,
Áustria, Alemanha e Israel, já se conscientizaram do método cruel utilizado
para a produção de foie gras e baniram a prática” (Grifo no original).
Sabe-se que a vida dos animais, quando submetidos a esse tipo
de criação, é miserável do nascimento à morte. Como descreve Chuahy
(2009, p. 36):

Os animais são confinados, marcados com ferro em brasa, presos


com cordas para ficarem imóveis, castrados sem nenhuma
anestesia, eletrocutados, mutilados e forçados a receber
hormônios e outras substâncias que lhes causam desconforto.
Eles sofrem constante de dor, ansiedade, medo, desespero,
revolta e até canibalismo. O pesadelo continua desde a fazenda
até o matadouro, ou abatedouro, onde, para minimizar os custos,
os fazendeiros colocam o maior número possível de animais em
caminhões para transporte. Apertados nesses veículos, passam
horas sobre excrementos de outros animais, sem comida, luz, ar
ou água. Sofrem extremo frio ou calor excessivo no transporte.

Os grandes produtores somente evitam práticas que possam


causar dor e sofrimento aos animais, quando há ameaça de perda de
preço deles, pois, no momento em que são submetidos ao estresse, eles
perdem peso, machucam-se e danificam, por assim dizer, o produto a ser
comercializado. Como já escreveu Harrison (apud SINGER, 2010, p. 143),
“crueldade é reconhecida apenas quando cessa o lucro”.
No agronegócio, o primeiro animal a ser retirado da criação tradicional
foi a galinha, que serve para duas coisas: fornecer carne e ovos. Nos
dois casos, as galinhas são agrupadas em grande número, em um menor
espaço físico possível, para aumentar a produtividade com menor custo
tanto na utilização de insumos (alimentação e água) como de cuidados.
Quando criadas para o abate, da mesma forma são criadas em conjunto,
em espaço inadequado, que não lhes permite abrir as asas, ciscar o chão
ou movimentar-se de outra maneira, como seria de sua própria natureza.
Elas são, ainda, forçadas a ingerir grande quantidade de ração, muitas
vezes fabricada com resto de outros animais, em um ambiente fétido, sem
iluminação adequada, com ventilação forçada, a fim de que engordem
no menor tempo possível. As consequências desse confinamento para as
galinhas são trágicas, como já escreveu Singer (2010) e outros autores.
Acerca da criação de galinhas em granjas industriais, Singer (2010,
p. 145) destaca:

94
Felipe Bragantino

Dentro do aviário cada aspecto é controlado para provocar um


crescimento mais rápido, com menor alimento. Ração e água
são supridos automaticamente dos comedouros e bebedouros
suspensos ao teto. A iluminação é ajustada de acordo com os
conselhos dos pesquisadores: por exemplo, deve haver luz bem
clara, 24 horas por dia, na primeira e na segunda semanas,
para estimular os frangos a ganhar peso rapidamente; então,
a intensidade da luz é diminuída, as lâmpadas são acesas e
apagadas a cada duas horas, pois se acredita que os frangos,
após um período de sono, estejam prontos para comer;
finalmente, por volta da sexta semana, quando as aves tiverem
crescido tanto que o espaço começa a ficar apertado, as luzes
são mantidas bem fraquinhas, o tempo todo. O objetivo é reduzir
a agressividade causada pela superlotação.

A situação das galinhas poedeiras, por sua vez, não é melhor do que
a dos frangos de corte, pois elas são amontoadas em gaiolas metálicas,
nas quais cabem cinco ou seis aves, enfileiradas umas sobre as outras,
de modo que não há espaço físico para movimentar-se. Como exemplifica
Singer (2010, p. 161):

Na maioria dos grandes produtores de ovos, as gaiolas são


empilhadas umas em cima das outras. A ração e a água são postas
em calhas ao longo das gaiolas, abastecidas automaticamente a
partir de um depósito central. Os engradados são dotados de piso
de arame inclinado. O declive, em geral com um gradiente de um
por cinco, dificulta às galinhas ficarem de pé confortavelmente,
mas faz com que os ovos rolem para a frente, onde podem ser
facilmente recolhidos, ou, nas unidades mais modernas, levados
por um esteira transportadora para uma sala de embalagem.

Assim, o pensamento predominante nas grandes indústrias


do agronegócio é o de que os animais criados apenas representam
commodities9, ou seja, servem somente para ganhar dinheiro a um menor
custo possível para a indústria.
Além de serem cruéis com os animais, as fazendas-fábricas
prejudicam o meio ambiente, tendo em vista o consumo exagerado de
água. Também podem ser consideradas causa de desmatamento para
criação de pastagens e para produção de grãos e cereais destinados à
fabricação de ração com a finalidade de alimentar os animais, o que acaba
destruindo o habitat de outras espécies.

9 Commodity é um bem fungível, ou seja, é equivalente e trocável por outro igual,


independentemente de quem o produz, como o petróleo, a resma de papel, o leite, o
cobre e os imóveis.

95
Do lado do ser humano, as fazendas-fábricas veem seus
empregados como mera fonte de renda, sem dispensar maiores
cuidados à saúde. Para se ter noção de quanto o trabalho nas fazendas-
fábricas faz mal ao homem, Singer (2010) esclarece que um estudo
realizado pelo Departamento de Medicina Comunitária da Universidade
de Melbourne, na Austrália, identificou que 70% dos trabalhadores
em criadouros de galinhas apresentavam irritação nos olhos, quase
30% apesentavam tosse regular e cerca de 15% apresentavam asma e
bronquite crônicas.
Pesquisa realizada no mês de agosto de 2004, na região do Médio
Vale do Itajaí, mapeou 17 abatedouros municipais e 13 estaduais, todos
autodenominando-se empresas familiares (MORSCH e FLORIT, 2009).
Sobre os trabalhadores, a mesma pesquisa constatou que 54 atuam nos
estabelecimentos municipais e 89 nos estaduais, verificando-se que os
abatedouros estaduais, com menor número de empresas, contribuem para
o maior índice de empregos, o que corresponde a uma cadeia produtiva
de carne mais intensiva (MORSCH e FLORIT, 2009). Essa constatação
demonstra que, mesmo em uma região cujo foco econômico-industrial
principal não é o agronegócio, esse tipo de cultura se mostra enraizado.
Por fim, vale destacar a conclusão da referida pesquisa na relação entre o
ser humano e sua profissão, a qual aponta para um “dilema entre o ato de
matar e o sofrimento do animal e de alguns envolvidos neste processo”
(MORSCH e FLORIT, 2009).
Denota-se, assim, que o ambiente em que são criados os animais
não faz mal apenas a eles, mas também a todo o conjunto à sua volta,
afetando desde o meio ambiente até o próprio ser humano, que, além
da saúde debilitada, possui baixos salários e fica exposto a acidentes de
trabalho.
Chuahy (2009) esclarece que, nos Estados Unidos, o número de
acidentes de trabalho envolvendo o setor agropecuário é três vezes maior
do que os que se referem aos trabalhadores de outros ramos da indústria.
Estudo realizado por Padovani (2008, site) esclarece a situação no
Brasil:

Submetido a este quadro laboral, os trabalhadores do ramo


da alimentação chegam inclusive a denominar as instalações
produtivas como ‘linha’ ou ‘gaiola’, sendo submetidos a
um ritmo desenfreado de produção, cujas mãos e braços
executam tarefas de modo rítmico, acompanhados de uma

96
Felipe Bragantino

sinfonia infernal do barulho das máquinas. A intenção destes


trabalhadores é liquidar o mais rápido possível aquilo que
parece infindável, interminável e incontrolável por parte das
máquinas, ou seja, é o trabalho de Sísifo relatado na mitologia
grega. O cansaço, a tensão na face de cada um deles deixa
transparecer que trabalham com muito esforço, procurando
suplantar o limite que cada um agüenta (sic). Ao transpor este
limiar ocupacional de esforço físico, temos o nascimento da
chamada LER/DORT.

Para Lacaz e Sato (2000), a indústria da alimentação representa uma


verdadeira fábrica de lesão por esforço repetitivo (LER), o que claramente
pode ser observado no Quadro 1 a seguir.

Quadro 1 – Diagnósticos de LER em operários da indústria de


corte de aves e de industrialização de suínos e bovinos segundo
setor e função

Fonte: Lacaz e Sato (2000, p. 16).

97
A rotina dos trabalhadores da indústria de abate de aves, suínos e
bovinos envolve inúmeros riscos em razão do manuseio de instrumentos
cortantes, da pressão por altíssima produtividade e, não raro, de jornadas
exaustivas em ambientes frios e insalubres.
Produzida pelo Repórter Brasil (2012), a investigação Moendo
Gente mostra os maiores problemas da indústria dos frigoríficos, um dos
principais setores do agronegócio nacional. Atualmente, empregam-se
mais de 750 mil pessoas e, em 2011, foi exportado o equivalente a 15,64
bilhões de dólares em carnes.
A referida investigação apurou que, na unidade da Brasil Foods
de Rio Verde-Goiás-GO, segundo levantamento do Ministério Público do
Trabalho (MPT), cerca de 90 mil pedidos de afastamento foram registrados
entre janeiro de 2009 e setembro de 2011. As licenças relacionadas
a injúrias osteomusculares (chamadas distúrbios osteomusculares
relacionados ao trabalho [DORT]) foram as mais recorrentes – uma
média altíssima de 28 atestados por dia ou 842 por mês. Já na unidade
da JBS de Barretos-São Paulo, 14% dos aproximadamente 1.850
funcionários estão permanentemente afastados do trabalho em razão
de acidentes e doenças ocupacionais; consequentemente, sobrevivem
com o benefício pago pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).
Só no primeiro semestre de 2011, registraram-se 496 pedidos de
afastamento temporário (com menos de 15 dias) por conta de distúrbios
psíquicos e problemas esquelético-musculares. Em 2011, a Seara
(empresa do grupo Marfrig) foi condenada a pagar uma indenização
de 14,6 milhões de reais por danos morais coletivos causados aos
trabalhadores na unidade de Forquilhinha (SC). A Justiça determinou
também que a empresa conceda pausas para recuperação térmica de
20 minutos a cada 1 hora e 40 minutos de trabalho. A mesma sentença
obriga ainda o frigorífico a liberar a ida dos trabalhadores ao banheiro
sem a necessidade de autorização prévia de um superior (REPÓRTER
BRASIL, 2012).
Segundo Paiva (1999, p. 29 apud PANDOVANI, 2008, site), “a
Indústria de Alimentos no país representa um segmento importante da
produção industrial brasileira”, com faturamento anual de praticamente
184,6 bilhões de reais, cerca de 9,7% do Produto Interno Bruto (PIB)
nacional conforme se vê na Tabela 2.

98
Felipe Bragantino

Tabela 2 – Indústria da alimentação: principais indicadores

Fonte: ABIA (2007 apud PADOVANI, 2008, site).

A obsessão pelo mercado livre, pelo ganho exacerbado e a


perseguição da diminuição de custos operacionais, aliada à ganância dos
produtores são alguns fatores que contribuem para o agronegócio se
caracterizar como um dos setores econômicos que mais atribui sofrimento
aos animais e aos seres humanos.
Assim, é preciso discutir e estudar os modos como os agentes
de desenvolvimento percebem, compreendem e utilizam os seres
vivos não humanos, enfatizando a identificação dos valores que
informam essa percepção socialmente condicionada, como o faz
a Constituição do Equador de 2008. Esse documento, como visto,
reconheceu no dispositivo constitucional direitos intrínsecos à
natureza, os chamados derechos de la naturaleza (direitos da
natureza) (PACHECO, 2012).

99
MERCADOS DE ALIMENTAÇÃO ALTERNATIVOS

Partindo da premissa de que é aceito como incontroverso o


sofrimento dos animais criados em grandes fazendas-fábricas, cujo único
objetivo é maximizar o lucro, minimizando o investimento, é preciso,
ainda que de modo não definitivo, considerar a ideia da busca de uma
solução quanto à forma de alimentação do ser humano.
Ora, aceitando a ideia de que o sofrimento de outros animais
sencientes é inadmissível, não há como considerar a continuidade da
criação de animais para servir como alimento, vestuário ou qualquer outra
forma de aproveitamento. Não há como defender a ideia de que se pode
continuar criando animais livres, de forma com que possam exercitar-se
naturalmente e, depois, simplesmente matá-los para servir de alimento.
Como vários autores defendem, há outros meios pelos quais os seres
humanos podem suprir suas necessidades alimentares ou de vestuário
sem que, para tanto, façam uso de outros animais. Uma dessas maneiras
é o vegetarianismo, que, como coloca Kheel (2010), “é o termo usado
para descrever uma dieta que exclui carne animais, tem uma história
longa, complexa e muitas vezes tumultuada”.
Kheel (2010, p. 182) explica que:

O termo apareceu pela primeira vez em meados de 1840,


derivado do radical vegetus, significando a ideia de “inteiro e
vital” . Embora a palavra se refira àqueles que se abstém de
comer carne, existe discordância sobre o que constitui carne,
e algumas pessoas que se denominam vegetarianas consomem
frango e peixe. A maioria dos vegetarianos, porém, acreditam
que o termo deve ser reservado aos que evitam todas as
formas de carne de origem animal, os tipos mais comuns de
vegetarianos são: ovolactovegetarianos, que incluem ovos e
laticínios em sua dieta; lactovegetarianos, que incluem leite;
ovovegetarianos, que incluem ovos; veganistas, que excluem
todos os produtos animais higienistas naturais, que mantêm
uma dieta não processada, baseada em plantas; crudívoros,
que comem somente alimentos crus; e frutarianos, que comem
apenas frutas. (grifo no original)

Nesse sentido, conforme escreve Singer (2010, p. 233), adotar


uma forma alternativa de alimentação é “assumir a responsabilidade por
nossas vidas, tornando-a o mais isenta possível de crueldade”. Como
se faria isso? O próprio autor (2010, p. 233) novamente responde: “o
primeiro passo é cessar de comer animais”.

100
Felipe Bragantino

De acordo com Singer, para defender o direito dos animais,


considerando-os não mais como meros objetos ou coisas passíveis de
apropriação e, assim, tê-los como sujeitos de direito próprio, seria preciso
que o homem se tornasse vegetariano – passo definitivo para acabar
com a justificativa de morte de animais, bem como com a imposição de
sofrimento a eles (SINGER, 2010). Para Singer (2010, p. 235-236):

Tornar-se vegetariano não é um gesto meramente simbólico. Não


é uma tentativa de nos isolar das horrorosas realidades do mundo
para nos manter puros, e, portanto, sem responsabilidade diante
da crueldade e da carnificina que acontecem em todas as partes.
Tornar-nos vegetarianos é um passo prático e eficaz para acabar
tanto com a matança como com a imposição de sofrimento a
animais não humanos.

Chauhy (2009, p. 179) explica que o biólogo e coordenador do


departamento de meio ambiente da Sociedade Vegetariana Brasileira Sérgio
Greif “acredita que o vegetarianismo, juntamente com uma política de
melhor produção e distribuição de comida, pode salvar o mundo da fome”.
Não há como justificar a continuação da criação de animais para
servir de alimento, ainda que se faça de modo tradicional, posto que,
mesmo tendo compaixão pelos animais, o ato de matar viola o direito à
vida, do qual não se tem o direito de dispor.
Chauhy (2009, p. 193) conclui que:

[...] justifica-se o vegetarianismo por meio dos seguintes


argumentos: 1. Respeito pelos animais; 2. Preservação do meio
ambiente; 3. Boa saúde; 4. Eficiência na produção e distribuição
de alimentos visando ao fim da fome mundial.

Como explica Singer (2010, p. 237), “o vegetarianismo é uma


forma de boicote”. Portanto, a atitude que se toma diante do que é dito
é essencial ao sucesso ou não da mudança, ou seja, de nada adianta
protestar contra a produção agrícola industrial, mas continuar comendo
carne. Isso é o mesmo que denunciar o apartheid da África do Sul e pedir
ao vizinho que não venda a casa para negros, como comparou Singer
(2010, p. 238).
Além do vegetarianismo – que, ao contrário do articulado por
muitos, inclui na dieta o consumo de leite e seus derivados, além dos
ovos – há o veganismo, outra vertente mais radical que o vegetarianismo,
que defende a alimentação de seres humanos sem qualquer alimento de

101
origem animal, excluindo inclusive o consumo de leite, seus derivados e
ovos, substituindo-os por alimentos à base de vegetais, como o leite e a
carne de soja, tofu etc.
Além da soja, Felipe (2012b) escreve que há várias outras formas
de se obter leite, chamado de leite vegano. Destaca-se, então, a produção
de leite à base de sementes, por exemplo, de abóbora, alpiste, amêndoa,
amendoim, entre outros produtos de origem vegetal possíveis de utilização.
Essa preparação pode ser produzida em casa, em menos de 10 minutos.
Embora seja certo pensar que a consideração pelos animais não
humanos deva passar necessariamente pela modificação dos hábitos
alimentares, é claro também que isso não ocorrerá do dia para noite,
como se diz.
Recomenda-se, nesses casos, que aquela pessoa que se sentiu
tocada pela situação dos animais e que não concorda com a sua utilização
como alimento substitua os alimentos de origem animal pelos de origem
vegetal, mas não de uma só vez, e sim aos poucos (SINGER, 2010).
Além do mercado alternativo de alimentação, também serve de
pressão o boicote à utilização de artigos de vestuário que tenham como
base peles e couros de animais, por exemplo. Atualmente, é muito fácil
a substituição de sapatos de couro por outros fabricados com material
sintético, assim também cintos, casacos, bancos de automóveis e toda
uma gama de produtos que não precisam ser fabricados utilizando-se
parte de animais.
Nesse sentido, tem-se a substituição das velas, que antes eram
fabricadas com sebo e atualmente utilizam material sintético em sua
composição, bem como sabonetes, perfumes e outros produtos que
aderiram à tática. Portanto, a utilização de animais para benefício humano,
quer como alimento quer como vestuário ou outra forma qualquer, é antes
de tudo um luxo cruel.
Como coloca Chuahy (2009, p. 193):

justifica-se o vegetarianismo por meio dos seguintes argumentos:


1. Respeito pelos animais. 2. Preservação do meio ambiente. 3.
Boa saúde. 4. Eficiência na produção e distribuição de alimentos
visando o fim da fome mundial.

Se for aceita como possível a adoção de um estatuto moral aos


animais não humanos, mudanças serão implementadas na maneira de
pensar, seja em relação à alimentação ou à forma de o homem se vestir.

102
Felipe Bragantino

Felipe (2010, p. 18) esclarece:

Animais são mortos ininterruptamente ao redor do planeta, para


cada uso que se faz deles é preciso aprender o ‘des-uso’, quer
dizer, inventar substitutivos. Quem quer ver abolida a violência
contra os animais precisa estar preparado para tornar-se um ‘re-
lutante’, alguém que topa cada dia com novas pregas a serem
desdobradas nos seus hábitos de consumo mais triviais. Lute de
novo. E outra vez.

Como bem colocado por Felipe (2010), a aceitação de direito aos


animais não humanos implica mudança de hábitos, para a qual elege seis
passos ou estações.
Na primeira estação ou primeiro passo, vê-se como necessária a mudança
de hábitos alimentares, acarretando na busca incessante pela vedação ao
consumo de qualquer produto que tenha em sua composição uma molécula
de origem animal, inclusive leite ou ovos, por exemplo, pouco importando se
a escolha se dará dentro ou fora de casa, no almoço, jantar ou lanche.
A segunda estação ou passo é a abolição ou substituição do uso de
produtos de limpeza e higiene que contenham derivados de animais ou
que tenham sido concebidos às custas da morte ou do sofrimento deles.
Na terceira estação ou passo, assim como na abolição dos produtos
de higiene e limpeza, será necessária a substituição e abolição de uso de
roupas e vestuários que contenham derivados de animais.
A quarta estação ou passo é deixar de assistir a eventos que utilizem
animais como diversão do espetáculo, como os presentes em aquários e
zoológicos.
A quinta estação ou passo é lutar contra o uso de animais
pelas indústrias químicas, bélicas ou em laboratórios, extinguindo a
experimentação animal.
Por fim, a sexta estação ou passo recomenda ler sempre as bulas
dos produtos e procurar identificar a utilização de animais para testes ou
composição, o que pode ser verificado na tinta da impressora, em produtos
derivados de petróleo, nos quais foram utilizados animais como testes etc.
Portanto, resta claro que a consideração e o respeito à vida animal
implicarão necessariamente mudança na forma como os seres humanos
se relacionam com eles, posto que não é mais admissível (do ponto de
vista moral ou legal) a utilização dos animais como fonte de alimento,
vestuário, trabalho ou pesquisa, tanto quanto não é possível a utilização
de seres humanos para tais fins.

103
MODO ALTERNATIVO DE CRIAÇÃO ANIMAL

Algumas melhorias na forma como são tratados os animais nas


grandes indústrias alimentícias já vêm sendo implementadas há algum
tempo em diversos países. Entretanto, a legislação, de modo geral, não
estende os benefícios aos animais criados para consumo humano, prova
disso é a Lei de Proteção das Aves, sancionada em 1954 na Grã-Bretanha.
Tal lei excetua da proteção as aves de produção – situação análoga contém
a Lei Americana de Bem-Estar Animal de 1970 e suas revisões.
Apesar das resistências, há países que se esforçam para alcançar em
boa medida a proteção aos animais, ainda que os considerem alimentos.
Como explica Singer (2010), em 1981, a Suíça aprovou legislação
que determinou a abolição das baterias de gaiolas para criação de galinhas
poedeiras, dando aos fazendeiros o prazo de 10 anos para se adaptarem.
Hoje, ao que se sabe, as baterias de gaiolas são consideradas fora da lei e
é assegurado a todas as galinhas poedeiras acesso a ninhos e piso macio.
Em algumas regiões da Suíça, os animais podem ter representantes
legais, caso seus direitos sejam transgredidos, como consta da
reportagem Abaixo à Crueldade Humana, publicada contida na Revista
Veja (2010, p. 127).
Ainda destaca a reportagem:

no Brasil, a única regulamentação obrigatória que contempla o


direito dos animais, criada em 2000, diz respeito ao abate de bois,
porcos, carneiros e aves. Eles devem ser sedados com métodos
como as pistolas pneumáticas ou choques elétricos antes de
serem mortos (REVISTA VEJA, 2010, p. 127).

Entretanto, como visto, além de nem sempre a insensibilização do


animal ser eficiente, quando descarnado ele pode ainda sofrer. Se não isso,
em razão de certos ritos religiosos, não se pode insensibilizar o animal.
Na mesma revista, a reportagem destaca:

Na Califórnia, uma lei promulgada há dois anos determina o fim


da criação de galinhas poedeiras em gaiolas a partir de 2015.
Os estados da Flórida, Arizona e Michigan seguem pelo mesmo
caminho. Uma das carnes mais apreciadas pelos gourmets
americanos é a de vitelo. Seu consumo caiu drasticamente em
meados desta década depois que se tornou público que, para
produzir essa carne branca e macia, os bezerros são separados
da mãe pouco depois do nascimento e confinados em cubículos

104
Felipe Bragantino

minúsculos, onde não conseguem se mexer. Há três anos, o órgão


americano que regula a criação de vitelos anunciou o fim desse
confinamento cruel para 2017 (REVISTA VEJA, 2010, p. 126).

Na Holanda, as baterias de gaiolas se tornaram ilegais a partir de


1994, passando a contar com um espaço mínimo de 1m2 para cada ave e
a garantia de acesso ao ninho e à área de ciscar. (SINGER, 2010).
Contudo, como destaca Singer (2010, p. 357) a lei mais abrangente
é a sueca, sancionada em julho de 1988, que, além de exigir a abolição
das baterias de gaiolas, declarou a criação de vacas, porcos e animais
para fornecer pele “em ambientes mais naturais possíveis”.
Já em 1987, o Parlamento Europeu recomendou a todos os países
que compõem o bloco econômico a exclusão das baterias de gaiolas no
prazo de 10 anos; entretanto, como explica Singer (2010), o Parlamento
apenas tem poder de aconselhamento.
Embora muito se venha fazendo, caso o homem entenda que a dieta
alimentar dos seres humanos deve continuar a ter carne de animais em
sua composição, pelo menos deve-se levar em consideração a forma como
são criados os animais a serem consumidos, para, na pior das hipóteses,
proporcionar-lhes uma vida digna, sem sofrimento, ainda que curta.

IMPLICAÇÕES NA MUDANÇA DE PADRÃO


ALIMENTAR EM DECORRÊNCIA DA NOVA NATUREZA
JURÍDICA DOS ANIMAIS

Como coloca Florit (2011, p. 3), o desenvolvimento não deve estar


focado apenas na satisfação dos interesses dos humanos. Na verdade,
segundo o autor,

os processos de desenvolvimento não podem nem devem se ater


cegamente a uma trajetória linear pré-definida, mas que devem
atender a uma gama complexa de variáveis, tanto objetivas (como
a viabilidade econômica, os limites ambientais e as condições
político-institucionais) quanto subjetivas (como as concepções
de bem-estar, valores e anseios dos sujeitos envolvidos).

Nesse sentido, a América Latina, assim como outras regiões, está


vivendo uma crescente preocupação pela temática ambiental, de acordo

105
com Gudynas (1999, p. 101). O autor destaca ainda: “Cuestiones como
la preservación de especies silvestres, los efectos de la contaminación, o
los problemas ambientales globales, son motivo de atención de políticos,
académicos y ciudadanos”10.
Embora haja discussões e estudos que tentam apontar soluções
para a problemática ambiental frente ao desenvolvimento, não parece
haver uma resposta unânime a essas questões.
Talvez a dificuldade de se encontrar uma via para atender o interesse
focado no desenvolvimento em equilíbrio com o meio ambiente esteja
na forma como se construiu o conceito de natureza, principalmente na
América Latina, pois se observa uma visão europeizada da natureza,
como aponta Gudynas (1999, p. 102):

Las concepciones latinoamericanas son una herencia directa de


las visiones europeas. Por un lado, los europeos que llegaron a
América Latina impusieron sus concepciones de la naturaleza
sobre las culturas originarias. Por otro lado, desde la colonia, los
principales políticos, empresarios e intelectuales de la región se
nutrían educativa e informativamente de las posturas europeas11.

Sob essa perspectiva, difundiu-se a ideia de que a natureza oferece


todos os recursos necessários para atender aos interesses humanos, e o
homem pode extraí-los e controlá-los de forma inesgotável.
Segundo Gudynas (1999), diversos estudos sobre a história
ecológica da região têm demonstrado que a colonização desencadeou
uma estratégia de apropriação das riquezas: após a primeira etapa de
riquezas minerais, seguiu-se a exploração extrativista e, ao final, a
exploração intensiva da criação de animais.
A visão da natureza como fornecedora de recursos inesgotáveis
aos seres humanos e a dificuldade de modificá-la encontram objeções
fundamentadas, portanto, no antropocentrismo.
Gudynas (1999, p. 102) descreve que:

10 Questões como a preservação de espécies selvagens, os efeitos da poluição, ou


os problemas ambientais globais são de atenção dos políticos, acadêmicos e cidadãos
(tradução do autor).
11 As concepções latino-americanas são um legado direto das visões europeias. Por
um lado, os europeus que vieram à América Latina impuseram suas concepções sobre
a natureza das culturas originais. Por outro lado, desde a colônia, líderes políticos,
empresários e intelectuais da região se nutriam educativa e informativamente das
posturas europeias (tradução do autor).

106
Felipe Bragantino

la idea que la naturaleza ofrecía todos los recursos necesarios,


y que el ser humano debía controlarla y manipularla. Esta visión
se inicia en el Renacimiento con las ideas sobre el conocimiento
de F. Bacon, R. Descartes y sus seguidores. Estos pensadores
rompieron con la tradición medioeval que veía a la naturaleza en
forma organicista, como un ser vivo, y donde las personas eran
un componente más. Esa concepción se fracturó, y la naturaleza
quedó despojada de esa organicidad y desde una postura
antropocéntrica se la vió como un conjunto de elementos, algunos
vivos y otros no, que podían ser manipulados y manejados. La
naturaleza pasó a ser interpretada como el reloj de Descartes,
constituida por engranajes y tornillos, donde al conocerse
todas sus partes, podría accederse a entender y controlar su
funcionamiento12.

Seguindo tal concepção, a natureza foi reduzida nos primeiros


estudos de economia como um fator da produção terra (GUDYNAS, 1999).
Gudynas (1999, p. 103) destaca que:

los primeros economistas, profundamente imbuidos en estas


concepciones, promovían tanto el progreso material, y la
apropiación de la naturaleza para hacerlo posible. Adam Smith
en su texto monumental sobre la “riqueza de las naciones”,
publicado en 1776, alude específicamente a las metas de la
acumulación de riqueza, mediante un progreso sostenido13.

A visão da natureza como recurso inesgotável e passível de


apropriação para atender aos interesses do ser humano vem mudando
aos poucos. Essa concepção também pode ser notada no que se refere
aos animais, embora, como se disse anteriormente, de forma lenta.
Mesmo que a mudança na percepção jurídica em relação aos animais
com a possível adoção de um estatuto moral seja vagarosa, seu impacto
frente às discussões sobre o desenvolvimento pouco tem avançado

12 A ideia de que a natureza ofereceu todos os recursos necessários e que o homem


deve controlá-los e manipulá-los. Essa visão começa no Renascimento, com ideias
sobre o conhecimento de F. Bacon, R. Descartes e seus seguidores. Esses pensadores
romperam com a tradição medieval que via a natureza como organismo, como a vida,
e onde as pessoas eram um componente. Esse conceito foi fraturado, e da natureza
do que foi retirado de postura antropocêntrica orgânica e foi considerada como um
conjunto de elementos, alguns vivos e alguns não, que podia ser manipulados e
controlados. A natureza tornou-se interpretada como o relógio de Descartes, constituído
por engrenagens e parafusos, em que se encontram todas as suas partes e pode ser
acessado para entender e controlar sua operação (tradução do autor).
13 Os primeiros economistas, profundamente imbuídos dessas ideias promovidas pelo
progresso material, consideram a apropriação da natureza para que isso aconteça.
Adam Smith, em seu texto monumental sobre a Riqueza das Nações, publicado em
1776, refere-se especificamente aos objetivos de acumulação de riqueza pelo progresso
sustentado (tradução do autor).

107
– apesar de sua importância – dado que há regiões, principalmente no
Brasil, que têm todo o seu planejamento voltado e centrado na criação de
animais, bem como o processamento de produtos de origem animal.
Nesse ponto, Florit (2011, p. 3) destaca:

A problemática do estatuto moral dos animais é hoje uma


questão que mobiliza diversos campos da vida social, mas que,
surpreendentemente, pouco ou nada tem sido trazida para o
centro das discussões respeito dos pressupostos normativos
do desenvolvimento. Trata-se de uma omissão séria dada a
importância desta atividade na configuração territorial do Brasil,
e na medida em que existem regiões que têm a exploração animal
dentre suas atividades econômicas principais fazendo com que o
Brasil conte hoje com o maior rebanho bovino do mundo.

Nesse sentido, quais serão as implicações para a indústria de


beneficiamento de carne, caso algum dia se chegue efetivamente na
mudança da natureza jurídica dos animais?
Não é muito difícil imaginar o tamanho do impacto que uma possível
mudança na natureza jurídica dos animais teria sobre o modo de vida, em
especial, a forma como atualmente os homens se alimentam.
Segundo informação constante do sítio eletrônico do MAPA, em
2010, o consumo per capita de carnes aumentou em relação ao ano
anterior chegando a 37,4kg de carne bovina, 43,9kg de carne de aves
e 14,1kg de carne suína, refletindo o bom desempenho da economia
brasileira. Também as carnes ovina e caprina, assim como a produção
de leite e seus derivados, são consumidas majoritariamente no mercado
interno brasileiro (BRASIL, 2009).
Para se ter uma ideia, conforme se infere pela Tabela 3 a seguir, o
índice de abate per capita14 no Brasil é de 26,47. Em Santa Catarina, esse
mesmo índice aumenta para 145,33, demonstrando a força da indústria
da pecuária no país e o viés especista do modelo de desenvolvimento,
conforme Grava e Florit (2012), que argumentam os dados do Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE) – Pesquisa Trimestral do Abate
de Animais.

14 O índice per capita é utilizado por Grava e Florit (2012) para apontar a densidade
de animais sencientes abatidos em um território específico com relação ao tamanho
da população humana desse mesmo local. Tal índice se diferencia dos cálculos que
expressam as toneladas de carne ou o peso das carcaças, mas que não quantificam os
seres abatidos. Assim, o índice de abate per capita de um território pode ser considerado
um indicador do grau de especismo do modelo de desenvolvimento predominante no
território.

108
Felipe Bragantino

Tabela 3 – Abate total e per capita (bovinos, suínos e aves)


no Brasil e em Santa Catarina (2010)

Total de Índice de
População
animais % % abate per
humana
abatidos capita
Brasil 5.050.109.405 100 190.755.799 100 26,47

Santa
908.143.597 17,98 6.248.436 3,27 145,33
Catarina

Fonte: Grava e Florit (2012, site).

Se ocorresse a mudança da natureza jurídica dos animais,


várias especulações acerca do tema emergiriam; porém, entre aquelas
aparentemente razoáveis, prevalece a ideia de que a indústria de
beneficiamento de carne e os grandes produtores pecuaristas devem
desaparecer. Entretanto, como destaca Singer (2010), essa dissipação não
ocorrerá de uma hora para outra. Tem-se em mente que levará muito
tempo para as relações jurídicas se ajustarem.
Certamente, os bovinos e demais animais criados nas fazendas
industriais não serão libertos de um momento para outro, assim como
não o foram os negros escravos que viviam no Brasil à época do Império.
Também não se concebe que todos, de forma unânime, aceitarão as
mudanças jurídicas e suas implicações.
Como consequência lógica da mudança da natureza jurídica dos
animais, Singer (2010, p. 331) expõe sua ideia:

A redução será gradual. Isso tornará a criação de animais


menos lucrativa. Os criadores se voltarão para outros tipos de
produção e as corporações investirão o capital em outros ramos.
O resultado será a criação de um número cada vez menor de
animais. Os abatidos não serão substituídos, e não porque os
enviarão “de volta” ao ambiente selvagem. [...], os rebanhos de
bois e de porcos viverão em grandes reservas, muito parecidas
com os refúgios de vida selvagem de hoje em dia. A escolha,
portanto, não é entre a vida na fazenda industrial e a no ambiente
selvagem. Trata-se de saber se os animais destinados a crescer
nas fazendas, para o abate e geração de comida, devem nascer.

Se, de um lado, a indústria da pecuária render elevados dividendos


ao país, não há publicações sobre a outra face da moeda, como se
pode chamar, pois, do outro lado, nota-se um rastro de destruição que

109
compromete todo o meio ambiente, incluindo a saúde dos seres humanos.
Felipe (2012a) considera minuciosamente a indústria do leite
(produto tratado pelo senso comum como sinônimo de pureza e suavidade),
verificando alguns dados estarrecedores por trás da sua produção que
exemplificam a lógica da indústria de produtos de origem animal como
um todo. Como observa a autora (2012a, p. 74):

Há injustiça, imperceptível mesmo ao “olho que vê” (Jorge


Amado), do consumidor galactômano, entre consumidores de
produtos lácteos, carne e ovos, em centros urbanos, onde nada
disso é cultivado, e os trabalhadores das regiões produtoras,
obrigados a arcarem com o manejo das doenças e do sofrimento
dos animais, a devastação das florestas para virarem lavouras
de monocultura de grãos e cereais e a devastação ambiental
causada pelos excrementos e pela emissão de gás metano.

Ainda segundo ela:

A mesma injustiça existe entre os países produtores e exportadores


de leite e laticínios e os países importadores, desobrigados
de cheirarem os resíduos líquidos e sólidos das vacas, de
administrarem a montanha de excrementos, de consumirem
suas reservas de água potável no processamento de laticínios e
na manutenção das vacas e instalações, de emitirem gás metano
para a atmosfera. Nos países produtores de leite e laticínios, os
trabalhadores rurais arcam com os males decorrentes desse tipo
de exploração dos animais, que acabam por afetar sua saúde
também. Quem importa o leite e seus derivados não importa os
excrementos nem cede a água e o alimento dado às vacas, apenas
recebe o líquido branco embalado e pasteurizado. Nenhum
importador e consumidor de leite é convocado a defrontar-se
com a imundice que esse alimento deixa atrás de si no processo
de extração e produção. Ninguém é desafiado a avaliar e a julgar,
sob a perspectiva ética e econômica, seu próprio consumo. Os
dados ficam bem guardados, a salvo das vistas e da consciência
dos galactômanos.

De acordo com Schmid (apud FELIPE, 2012a, p. 58), “uma vaca


usada para extração de 40 litros de leite, produz em torno de 530 litros de
resíduos por dia, considerando-se o total de fezes, urina e outros dejetos
do sistema de confinamento”.
Para o trabalhado na indústria, o impacto talvez não seja tão
significativo, posto que, em termos salariais, a categoria é a que menos
paga ao trabalhador, conforme se observa na Tabela 4 a seguir (BRASIL,
2012).

110
Felipe Bragantino

Tabela 4 – Remuneração média de empregos formais em 31


de dezembro de 2010

Total das atividades


IBGE Setor Masculino Feminino Total
1. Indústria extrativa mineral 3.596,31 3.556,80 3.592,32
2. Indústria de transformação 1.749,98 1.118,99 1.556,22
3. Serviços industriais de utilidade
2.829,19 2.582,92 2.786,26
pública
4. Construção civil 1.294,47 1.480,59 1.308,55
5. Comércio 1.142,98 917,62 1.047,96
6. Serviços 1.724,90 1.384,02 1.568,00
7. Administração pública 2.698,14 1.924,80 2.242,55
8. Agropecuária. Extração vegetal.
932,98 755,50 905,41
Caça e pesca
Total 15.969 13.721 15.007

Fonte: Brasil (2012, site).

Além de parar a produção e o beneficiamento de carne para o


consumo humano, outra implicação que ocorrerá será a utilização de
recursos naturais. Sabe-se que, para aumentar a capacidade de produção
de carne, é necessário elevar a área para ocupação do gado, matéria-prima
da indústria. Também é notório que, para aumentar a área disponível
para a criação de gado, na maioria das vezes, são derrubadas florestas e
demais vegetações, como a restinga no cerrado, para dar lugar a grandes
áreas de pastagens.
O desmatamento produzido para criação de área de pastagens afeta
todo o meio ambiente à sua volta, pois engloba o corte ilegal de árvores
e a extinção ou deslocamento de animais silvestres que compõem o
ecossistema afetado, por exemplo. No Brasil, a atividade agropecuária é a
maior responsável pelo desmatamento da floresta. Como explica Chuahy
(2009, p. 174):

O grupo interministerial formado para combater o desmatamento


na Amazônia alegou que a pecuária é responsável por cerca de
80% de todo o território desmatado na região. Atualmente, a área
cumulativa desmatada na Amazônia brasileira chega a 652.908
quilômetros quadrados, o que equivale a 16,30% de seu total.

111
Se nada for feito, estima-se que, em 50 anos, a região se
transformará em uma grande plantação de soja e em pasto para o gado
ou, ainda, em um grande deserto.
A par disso, um recurso substancialmente afetado pela criação
industrial de animais é a água. Chuahy (2009, p. 170) explica que
a produção de carne e laticínios necessita da utilização de grande
quantidade de água. Exemplifica que “são necessários 550 litros de água
para produzir farinha suficiente para fazer um pão, o equivalente a uma
fração dos 7 mil litros utilizados para produzir um bife de 100 gramas”.
Em relação à utilização de água na produção de leite, Felipe (2012a, p.
77) coloca que:

Segundo a Embrapa, ‘as vacas consomem 8,5 litros de água para


cada litro de leite produzido. Quando a temperatura ambiente
se eleva, nos meses de verão, o consumo de água aumenta
substancialmente’. [...].
Se foram extraídos ao redor do mundo, em 2008, 578.450.488.000
litros de leite de vaca, e, se, para cada litro de leite extraído,
foram bebidos 8,5 litros de água potável, a produção láctea
consumiu do planeta aproximadamente 5 trilhões de litros de
água. [...].
Uma vaca bebendo 100 litros de água por dia consome o que
50 humanos necessitam para se hidratarem no mesmo dia. [...].
O rebanho do leite bebe cinco vezes mais água potável, por dia,
no Brasil, do que a população humana.

Também se conta como certa a escassez de água tanto em razão


do desperdício na sua utilização, como na sua utilização na produção de
grãos para alimentar os rebanhos.
Nesse contexto, não é difícil concluir que, se for aceita a ideia de
que os animais são seres com direitos próprios, como os seres humanos,
não haverá mais possibilidade legal de sua utilização como alimento e,
por conseguinte, não haverá necessidade de utilização de água para o
plantio de alimentos destinados aos animais ou para a manufatura dos
produtos e subprodutos de origem animal, acarretando a preservação
desse bem natural.
Além do que foi exposto, outro aspecto a ser observado diz respeito
à diminuição da emissão de gases que causam o efeito estufa. Estudos
demonstram que o rebanho bovino atual é responsável por 80 milhões de
toneladas de gás metano, o que corresponde a 28% das emissões totais
de metano geradas por atividades humanas (CHUAHY, 2009).
Conforme Schmid (apud FELIPE, 2012a, p. 76), em relação ao

112
Felipe Bragantino

rebanho bovino destinado à geração de leite, cada litro desse produto


deixa um rastro de 12kg de excrementos. Essas substâncias, por sua vez,
são acumuladas sobre o solo, levadas pelas águas e escorridas para os
oceanos.
Assim, quer pelo viés humanitário quer pelo viés social ou ambiental,
as consequências de uma possível modificação da natureza jurídica dos
animais terão o efeito de alterar a forma como são tratados os animais em
si, o ser humano e o meio ambiente. Além disso, será possível modificar
de forma significativa as regiões nas quais o planejamento e seu próprio
desenvolvimento estão focados na criação intensiva de animais para o
consumo humano.
Como coloca Florit (2011, p. 4):

a omissão da discussão em torno do estatuto moral dos animais


com relação aos modelos de desenvolvimento, obedece a razões
que, no fundo, são políticas, e sua superação passaria por
revisar criticamente as ‘vocações’ imputadas às regiões que tem
a criação animal como uma das suas atividades principais.

Com isso, há necessidade premente de um estudo mais aprofundado


no sentido de apontar caminhos que se mostrem suficientes para
minimizar o impacto que adviria com a adoção de um estatuto jurídico
aos animais. Isso acarretaria, por exemplo, no fechamento de fazendas,
indústrias, frigoríficos e outras atividades produtivas ligadas diretamente
à utilização dos animais como fonte de recursos, não sendo mais aceitável
a omissão dessa discussão, que deve ser travada tanto pela sociedade
como também deve estar inserida na agenda de políticas públicas.

113
CONSIDERAÇÕES FINAIS

A questão que guiou o presente trabalho teve como fonte o debate


ético em relação à consideração moral para a modificação da natureza
jurídica dos animais em contraponto com a legislação vigente no Brasil
e suas prováveis consequências para o modelo de desenvolvimento
adotado em no país, em especial aquela face do desenvolvimento
brasileiro fortemente apoiado na atividade pecuária e na indústria de
beneficiamento de produtos de origem animal.
Assim, pode-se constatar, mediante a leitura da presente obra, que
o modo como o ser humano se relaciona com a natureza e tudo que nela
está inserido tem origem em uma visão antropocêntrica, criada a partir
de concepções religiosas construídas ao longo dos séculos com o intuito
de justificar a apropriação da natureza pelo homem.
O cristianismo trouxe ao mundo a visão sacralizada da vida humana,
segundo a qual somente o ser humano estava designado a uma vida
após a morte, conferindo-lhe a ideia da imortalidade da alma humana,
diferentemente da consideração dispensada aos animais não humanos. A
partir desse momento, justificou-se a ideia de que o homem é o centro de
tudo e a natureza e o que nela existe somente têm razão de assim o ser
para satisfação das necessidades dele.
Em que pese a visão cristã até então justificar a centralidade do
mundo no ser humano e ter afirmado que não há pecado em matar
animais não humanos (pois os pecados existem como classificação para
com Deus, para com os outros homens e para consigo mesmo), a Igreja
Católica Apostólica Romana, com a encíclica papal Sollicitudo Rei Socialis,
reconheceu o respeito pelos demais seres que fazem parte do mundo
natural.
Todavia, a visão de que o homem é o centro do universo foi
incorporada por vários filósofos. Esses estudiosos, ao longo do tempo,
buscaram justificar a apropriação e a transformação da natureza – e, por
conseguinte, dos animais – como forma de suprir as necessidades do ser
humano, resultando em uma perspectiva que, nesse aspecto, tornou-se
fortemente dominante no contexto da filosofia ocidental.

114
Felipe Bragantino

A matança de animais para alimento humano já foi explicada sob


o argumento de que não haveria injustiça quanto a matar o gado para
fornecer o alimento a um animal mais nobre, no caso, o ser humano.
Da mesma forma, já se justificou a domesticação dos animais para
servirem aos propósitos humanos como forma de protegê-los, já que isso
os impediria de ter um fim cruel (morte por predadores naturais ou fim
biológico). Se não isso, outra proposição apresentada ao longo do tempo
foi que o sofrimento dos animais é diferente do sofrimento humano, já
que o animal, por não ter concepção de futuro, nada perderia ao ser
privado da vida. Nesse sentido, estava legitimada a utilização dos animais
como fonte de alimento ao homem; logo, não tardou para sua utilização
ter outros fins.
A ética pode ser entendida como uma reflexão da conduta do ser
humano, entre aquilo que pode e deve ser feito e aquilo que deve ser
evitado. Ela tem como finalidade estabelecer critérios normativos que
sirvam de orientação para discernir o que é correto e aceitável do que
deveria ser negado. Assim, ao estabelecer normas de condutas baseadas
na reciprocidade, o ser humano exclui os animais por, exatamente, não
saber como estabelecer uma relação entre a conduta humana e os animais.
Do ponto de vista dos direitos morais, tem-se assentado atualmente
que todo e qualquer ser humano tem garantidos, por serem inerentes a si
mesmo, como sujeito da ação, os direitos morais, como a vida, a liberdade
e seu corpo, de forma diversa do que ocorre com os demais animais.
Nessa linha de pensamento, não há como defender a extensão de
qualquer direito aos animais ante a sua incompreensão daquilo que lhes
está sendo garantido, pois eles não têm consciência de seus direitos, bem
como não possuem meios para se expressarem. Logo, aceitar que outro
animal possui algum direito é muito difícil.
A bem da verdade, a relação do homem com os animais geralmente
é construída a partir de uma visão de superioridade, conforme a qual
os animais não humanos são tidos como inferiores por não poderem
expressar-se de maneira compreensível ao ser humano.
Assim, como já foi dito, tomando como linha de raciocínio o
pensamento da superioridade, torna-se impossível qualquer tentativa
de discussão acerca da extensão de direitos aos animais. De fato, os
animais não podem pactuar relações jurídicas com os homens, tal como
se realizam entre os próprios seres humanos, mas nem por isso deve-se

115
reduzir ou limitar a ideia de que a esses seres não podem ser estendidos
os mesmos direitos morais que têm os seres humanos.
Negar a extensão desses direitos aos animais com base na falta de
comunicação com o homem é admitir, ainda que involuntariamente, que
seres humanos despidos da capacidade de comunicação e compreensão
podem ser classificados da mesma forma como se rotulam os animais.
Apesar de todo o avanço no debate que envolve a concessão de
direito aos animais, poucas mudanças efetivamente ocorreram. Reflexo
disso é a forma de olhar o mundo e o que há nele. Essa concepção está
estampada na legislação que ampara a conduta do ser humano em relação
aos animais e à natureza.
Atualmente, pode-se dizer que o debate está centrado em três
correntes: a conservadora, a bem-estarista e a abolicionista. Como
foi explicado ao longo da obra, é possível apontar que a corrente
conservadora, em linhas gerais, defende que somente os seres humanos
possuem interesses a serem resguardados ou respeitados e, embora
reconheça as necessidades dos animais, nega seus interesses, porque
eles não têm conhecimento disso.
De outro lado, a corrente bem-estarista, defendida por Peter Singer,
luta pelo princípio da igual consideração de interesses entre humanos e
animais. O problema dessa corrente parece ser estar ligado ao fato de
que ela não deixa de considerar a utilização dos animais para satisfação
do ser humano, embora a restrinja. Parece ser justamente esse o ponto
fraco dessa corrente, posto que a indústria se apropriou da corrente do
bem-estar e a moldou a seus interesses particulares, propagando a ideia
de que a utilização dos animais se justificaria desde que eles não sofram
em vida e tenham uma morte digna ou, como chamam, humanitária.
Se for considerado que os animais não podem mais ser utilizados
como fonte de recursos para a satisfação do ser humano, conclui-se nessa
análise que a corrente a se observar é a abolicionista.
Essa corrente, defendida por Tom Regan, considera cada ser como
sujeito de sua própria vida e, portanto, vê os animais sob a perspectiva
de sujeitos de uma vida, e não há apenas a relativização dos interesses
envolvidos.
Da análise da legislação vigente no Brasil, é possível concluir que,
apesar da proteção dada aos animais, mediante o § 1º, inciso VII, do artigo
225 da Constituição Federal, pouco se avançou efetivamente na proteção

116
Felipe Bragantino

à vida dos animais, dado que ainda são vistos como objetos de direitos,
ou seja, passíveis de apropriação pelo ser humano (BRASIL, 1988).
Pelo estudo empreendido até aqui, é possível constatar que a
legislação brasileira incorpora a ideia de bem-estar animal, no sentido de
diminuir apenas alguns aspectos do sofrimento animal – de forma pouco
eficiente.
Este livro não possui o escopo de apresentar uma solução pronta
e acabada para essa questão, mas tenta trazer novos elementos ao
debate. Como visto, pode ser que a mudança de perspectiva em relação
ao estabelecimento de um estatuto jurídico aos animais esteja na forma
como são utilizados os paradigmas para considerá-lo.
Nesse sentido, seria possível acrescentar à discussão a criação de
uma nova categoria jurídica, no intuito de diferenciar o sujeito de direito,
o objeto de direito e os seres sencientes.
Denota-se, ainda, pelo que foi exposto na presente obra, que a
concessão de direitos aos animais encontra-se em dualidade de posições
com predomínio de fracos consensos que vão do reconhecimento absoluto
à recusa pura e simples do conceito de direito dos animais, confrontando-
se paixões extremas e dificilmente conciliáveis.
Na verdade, os interesses dos animais somente são levados em
consideração quando não se opõem ou se chocam com os interesses dos
seres humanos; quando verificada essa colisão de interesses, mesmo
quando for contrária à vida do animal humano e ao capricho do homem,
prevalece o interesse humano.
Deve-se considerar moralmente os animais não apenas quando em
jogo os sentimentos pessoais, como nos casos em que o homem se depara
com uma situação que envolva um animal de estimação, mas muito mais
em razão de que eles têm interesses próprios e não é justificável a sua
exclusão da esfera da consideração moral.
A eventual modificação da natureza jurídica dos animais ou a
elaboração de um estatuto jurídico que garanta aos animais a integridade
de sua vida, por exemplo, afetará de modo impactante os modelos de
desenvolvimento centrados na pecuária.
Nesse sentido, o Brasil, que atualmente é um dos maiores criadores
mundiais de animais e possui forte indústria centrada no beneficiamento
e processamento dos produtos com essa origem, deverá buscar modos
alternativos de desenvolvimento que possibilitem a convivência

117
harmoniosa entre os seres humanos e os não humanos, no sentido de
respeitar cada um pelo valor de sua vida.
Como colocado por Singer (2010), apesar da enorme distância a
percorrer e do lento caminhar, há alguns avanços significativos; como
exemplo, citam-se a proibição de baias de confinamento na Grã-Bretanha
e a eliminação das baterias de gaiolas da Suíça e na Holanda. Na Suécia,
explica, os avanços são maiores, tanto que destaca a proibição das:

baias para bezerros, baterias de gaiolas,


celas para porcos e demais engenhocas que
impedem os animais de se movimentar livremente.
Também tornarão ilegal a manutenção de gado em
confinamento, obrigando os criadores a soltá-lo nos
pastos nos meses mais quentes. (SINGER (2010, p.
357).

Em arremate, Singer (2010, p. 360-361) coloca:

Nossa tirania continuará a provar que a


moralidade nada vale quando se choca com o
interesse pessoal, como sempre afirmaram os cínicos
poetas e filósofos? Ou nos ergueremos ante o desafio
e provaremos nossa capacidade de altruísmo, pondo
fim à cruel exploração das espécies sob nosso poder
não porque sejamos forçados a isso por rebeldes ou
terroristas, mas porque reconhecemos que nossa
posição é moralmente indefensável?

Sem sombra de dúvida, a consideração moral aos animais exigirá


dos humanos muito mais solidariedade para com eles do que qualquer
outro movimento de libertação, já que os animais são incapazes de se
comunicar com os humanos pela linguagem, tal como se conhece, o que
os impede de se manifestarem e expressarem suas próprias vontades.

118
Felipe Bragantino

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127
FELIPE BRAGANTINO

Mestre em Desenvolvimento Regional


pela FURB (2013), Pós-graduado em Direito
Processual Civil pela FURB (2000), possui gra-
duação em Direito pela FURB (1993). Tem ex-
periência na área de Direito, com ênfase em
Direito Processual Civil, Civil e do Trabalho.
Atua como advogado desde 1994. E leciona
disciplinas relacionadas ao Núcleo de Prática
Jurídica desde o ano de 2002, junto a FURB -
Universidade Regional de Blumenau.

128
Felipe Bragantino

O trabalho aborda uma questão primordial nos dias


de hoje em relação a nossa capacidade, enquanto se-
res humanos, em aceitar e respeitar o direito à vida dos
demais seres que conosco dividem o planeta. Trás em
seu bojo ainda os desafios e as barreiras que travam a
aceitação de uma eventual mudança na concepção jurí-
dica de sua natureza. Pretende ainda abordar quais as
possíveis consequências que a mudança da natureza ju-
rídica dos animais impactariam no modo de vida a que
estamos acostumados. O texto está estruturado através
do método indutivo; o estudo foi realizado por meio de
pesquisa autor-data e como fontes de pesquisa: a doutri-
na, legislação, artigos científicos e revistas.

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