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O potencial das areias monazíticas brasileiras foi descoberto ainda no final do século XIX.

Várias publicações apontam o engenheiro americano John Gordon como o primeiro a olhar
para as areias das praias do sul da Bahia e perceber uma diferença de coloração com relação
a outros lugares do litoral.

Gordon, funcionário da empresa britânica de exportação de café Edward Johnston & Co.,
recolheu amostras da areia e as enviou para o professor francês Henrique Gorceix, fundador
e então diretor da conceituada Escola de Minas de Ouro Preto. Após análise, Gorceix
informou em relatório que as areias continham algum tipo de minério, mas desconhecia
qualquer uso industrial.

De posse do relatório, John Gordon foi a Europa procurar interessados em comprar o tal
mineral brasileiro e encontrou o austríaco Carl Auer von Welsbach, criador de um sistema
de lâmpadas incandescentes a gás que iluminou a Europa durante vários anos. Ele
descobriu que o óxido de tório era o melhor material para produzir uma luz forte e
duradoura, e encontrou em John Gordon o grande vendedor de areia.

Enquanto a iluminação elétrica ainda dava os primeiros passos na Europa, tanto a Auer
Light quanto diversas outras empresas europeias que fabricavam luminárias a gás passaram
a encomendar areia monazítica para a retirada do tório. Na época, a maior parte da areia era
extraída no balneário de Cumuruxatiba, na região de Prado, Sul da Bahia.

John Gordon viu uma oportunidade de negócios e conseguiu do governo brasileiro


autorização para mapear e identificar em que locais da costa havia a ocorrência desse tipo
de areia e explorá-la.
O sistema de iluminação a gás criado pelo austríaco Carl Auer usava óxido de tório,
derivado da monazita. A demanda pela areia brasileira aumentou bruscamente. As
lâmpadas eram usadas na iluminação pública de grande parte da Europa e também dos
Estados Unidos. O principal vendedor, John Gordon, retirava areia do Sul da Bahia e fugia
dos impostos atuando na clandestinidade. Muitas vezes encheu navios declarando que a
areia serviria apenas como lastro.

A reportagem do Gazeta Online encontrou registros de jornais brasileiros que relatam, entre
1880 e 1910, atos do Poder Executivo brasileiro concedendo a John Gordon inúmeras
porções de terra com areia monazítica. Há registros também de acusações contra o
americano por ter subornado governantes e tomado terras de outros homens, sobretudo no
Sul da Bahia. Para convencer o governo de que sua proposta era vantajosa, ele alegava que
as areias eram um bem infinito, com grande potencial de exploração e sem grandes
impactos à natureza. Seja por má-fé ou falta de conhecimento técnico, as autoridades
brasileiras acabaram aceitando as propostas de Gordon, que pagava menos pela posse das
terras do que os antigos donos. Ele também ficou milionário com a exploração.
AREIA CAPIXABA

A areia monazítica de Guarapari só foi descoberta em 1898 e, oito ano depois, foi instalada
a empresa franco-brasileira Société Minière Industrielle Franco-Brasilienne.

A “Minière”, que funcionava à beira do porto de Guarapari – onde hoje existe uma praça –
retirava areia monazítica da praia e do fundo do mar e separava, através de eletroímãs e
lavagem, a monazita (dourada), a ilmenita (preta), a zirconita (cinza) e a granada
(vermelha). O material era ensacado e carregado em navios com destino à França.

CONTRABANDO E “TESTAS-DE-FERRO”

Contando com o monopólio da exploração de monazita no Brasil e gerenciando a extração


das areias de Cumuruxatiba e Prado, na Bahia, John Gordon colocava “testas-de-ferro” para
liderar a empresa em Guarapari. Diversos registros, no entanto, colocam em dúvida a
legalidade das suas atividades.

Segundo a pesquisadora Beatriz Bueno, John Gordon explorou e exportou ilegalmente


areias monazíticas das praias de Guarapari dentro de navios, disfarçadas de lastro.
“Diversas embarcações que não tinham nada para fazer em Guarapari estacionavam na
nossa praia e pegavam a areia com a desculpa de fazer peso nos porões. Nós fomos
saqueados durante anos”, conta Beatriz. A prática de encher navios vazios de areia já era
feita por Gordon no Sul da Bahia.

Os navios Mercator e Fijord foram presença fiel no porto de Guarapari durante as várias
décadas de exploração da areia monazítica. O jornal carioca Última Hora, em reportagem
sobre a extração ilegal das areias em 1948, conversou com moradores de Guarapari que
confirmaram que as duas embarcações, a primeira de bandeira sueca e a segunda
norueguesa, aportavam regularmente no cais e eram carregados com sacos de areia
monazítica sem qualquer fiscalização.

No acordo com o Brasil, a empresa pagava 4% do preço de exportação ao nosso governo.


Porém, o governo de Guarapari arcava com parte dos custos de extração. Sobrava, então,
pouco mais de 1% do preço da venda para o município.

Além disso, a areia que seguia para a Europa e Estados Unidos eram declaradas a preços
três vezes mais baixos do que o praticado pelo mercado internacional. No início do século
XX, o quilo do nitrato de tório era vendido a US$ 500 nos Estados Unidos. Com a areia
brasileira clandestina, o preço caiu drasticamente.

Ao jornal Imprensa Popular, em 1956, o Deputado capixaba José Cupertino de Almeida


denunciou a baixa taxa de impostos cobrados pela exploração da areia monazítica de
Guarapari. “É doloroso registrar que o município de Guarapari possui uma das maiores
reservas de minerais atômicos do mundo e, no entanto, é um dos municípios mais pobres do
país”.

A ORIGEM DO INTERESSE ATÔMICO

Com a popularização da energia elétrica, a partir de 1920, a exportação da monazita sofreu


uma queda, até que as pesquisas sobre energia atômica se intensificaram no período da
Segunda Guerra Mundial e na Guerra Fria. A monazita foi, então, recolocada em evidência
por conter tório, elemento radioativo do qual é possível fabricar o urânio-233.

Bomba de Urânio-233 lançada em 1956 durante testes no deserto de Nevada,


nos Estados Unidos

Passados 70 anos do fim da Segunda Guerra Mundial, não há documentos que comprovem
que a areia monazítica de Guarapari e de outras regiões brasileiras foi usada
especificamente nas bombas lançada sobre Hiroshima e Nagasaki. Pelo contrário: sobre
esse assunto restam mais provas contrárias, uma vez que o elemento base da bomba
batizada de Little Boy era o Urânio-235 (U-235), e não o U-233 gerado a partir do tório das
areias. Já a bomba que caiu sobre Nagasaki tinha como base o Plutônio.

De qualquer moddo, o Urânio-233 chegou a ser usado em pesquisas do Projeto Manhattan,


uma iniciativa ultra-secreta voltada para o desenvolvimento de armas nucleares pelo
governo americano. Oficialmente, bombas de U-233 só foram produzidas por volta de
1950, durante a Guerra Fria, quando havia um grande temor por parte dos norte-americanos
de que a União Soviética estivesse produzindo suas próprias armas nucleares.

É aí que a monazita brasileira assume papel estratégico para os EUA. Os americanos já


dominavam a fissão do U-233 e o envio da areia que já acontecia há anos se intensificou
ainda mais. O alto escalão político do governo de Franklin Roosevelt tratou de negociar
com o governo de Getúlio Vargas para conseguir o embarque do maior volume possível de
monazita para os Estados Unidos. O maior ponto de extração era Guarapari. Para tanto
foram enviados embaixadores e comissários americanos para conversar diretamente com
assessores e ministros de Vargas. A maior parte das visitas está documentada no livro
oficial do Projeto Manhattan, disponível para consulta no site das Forças Armadas
americanas.

A Índia, outro grande proprietário de terras ricas em tório, suspendeu completamente as


exportações para desenvolver sua própria tecnologia atômica, dez dias após o fim da
Segunda Guerra Mundial. Isso ajuda a justificar o interesse ainda maior dos americanos
pela monazita brasileira.

O envio – clandestino ou oficial – perdurou fortemente por pelo menos mais 15 anos. O
fato é que o Urânio-233 ganhou destaque em um projeto de pesquisas em armas nucleares,
batizado de Operação Teapot. Ao todo, 14 bombas foram lançadas em pontos do deserto de
Nevada, nos EUA, sendo que algumas tinham como base o U-233, combinado com
Plutônio. Tudo documentado pelo exército, com fotos e vídeos. O total de bombas
desenvolvidas durante o projeto, porém, é desconhecido.

Veja um dos vídeos produzidos durante a Operação Teapot

https://www.youtube.com/watch?v=xvfwv-LYl9k
Teste com bomba de U-233 durante a Operação Teapot, 1955.
Todas as fotos desta galeria pertencem ao Departamento de Estado norte-americano
Teste com bomba de U-233 durante a Operação Teapot, 1955
Observadores acompanham o lançamento de bomba no deserto de Nevada
Destroços analisados após queda de bomba-teste em Nevada, 1955
Teste com bomba de U-233 durante a Operação Teapot, 1955
Almirante Álvaro Alberto (ao centro), primeiro representante brasileiro na Comissão de
Energia Nuclear da ONU e fundador do CNPq, defendia o intercâmbio de conhecimento
atômico com outros países, ideia fortemente combatida pelo governo americano.

A questão nuclear brasileira começou no primeiro governo Vargas e refletiu durante muitos
anos o papel do Brasil como exportador de matérias primas em detrimento do
desenvolvimento de produtos e tecnologias.

Apesar do potencial nuclear das areias monazíticas de Guarapari ter sido descoberto por
volta de 1890 por empresas estrangeiras, foi apenas em 1940 que o governo brasileiro
começou a voltar a atenção para os recursos nucleares do país.

Neste ano foi firmado com os EUA um Programa de Cooperação para a Prospecção de
Recursos Minerais que possibilitou a identificação de depósitos de areias monazíticas
localizados entre São Francisco de Itabapoana (RJ) e Guarapari (ES).

Em 1945, foi assinado o primeiro acordo com os Estados Unidos, que previa um
fornecimento de 5.000 toneladas anuais de monazita e que poderia ser prorrogável por até
dez vezes. Três anos depois, o Conselho de Segurança Nacional denunciou o acordo
alegando que não havia nenhum retorno de benefício claro dos EUA em troca da monazita.
As exportações foram interrompidas demonstrando o primeiro ato de preocupação do
governo visando resguardar as matérias-primas nucleares existentes no solo brasileiro.

A Lei 1.310 de 1951, que criou o Conselho Nacional de Pesquisas (CNPq), estabeleceu o
monopólio estatal dos principais minérios atômicos, proibindo a exportação de urânio e
tório, a não ser por autorização expressa do governo.

O CNPq, através do almirante Álvaro Alberto, propunha uma política nacional de energia
nuclear com planos de produção de urânio enriquecido, construção de reatores e busca de
apoio científico e tecnológico em outros países além dos Estados Unidos. Os detalhes do
acordo foram descritos pelo pesquisador Kurt Rudolf Mirow, no livro “Loucura nuclear: os
enganos do Acordo Nuclear Brasil Alemanha”.

Para o CNPq, o material radioativo só poderia ser exportado caso houvesse uma
compensação específica: o material seria trocado por conhecimento tecnológico para a
criação de reatores nucleares. No entanto, essa demanda ia contra a Lei McMahon dos
Estados Unidos, que protegia todos os conhecimentos associados à energia nuclear.

O almirante passou, então, a procurar e propor acordos com outros países que fossem mais
vantajosos para o Brasil. Ele defendia, notadamente, uma cooperação com a República
Federal da Alemanha, que estava pesquisando uma maneira alternativa de enriquecimento
de urânio.

Assim, foi feito um acordo secreto com a Alemanha para instalação de três equipamentos
de enriquecimento de urânio no Brasil, apesar da eficácia do método pesquisado pelos
alemães estar longe de ser comprovada.

Após a compra das máquinas e do treinamento de centenas de pesquisadores, a suspeita se


confirmou: o processo por jet-nozzle usado pelos alemães era altamente complexo, e
totalmente inviável para os fins que o Brasil desejava. Uma sabotagem também prejudicou
os planos de Álvaro Alberto: contrários a qualquer acordo paralelo, os americanos
conseguiram barrar o envio das centrífugas alemãs poucos dias antes do embarque para o
Brasil.

Oficialmente, é aí que termina a primeira tentativa do governo brasileiro de adquirir a


tecnologia para a produção de reatores nucleares. No entanto, sempre houve a suspeita de
que o verdadeiro motivo do acordo com a Alemanha era adquirir a tecnologia para a bomba
atômica.

A pesquisadora Tânia Malheiros, autora de “Brasil: A Bomba Oculta – O Programa


Nuclear Brasileiro”, afirma que o governo manteve dois programas nucleares: o oficial,
com fins pacíficos, e o paralelo e sigiloso. Sempre houve facções do regime que defendiam
que a única maneira do Brasil ser respeitado no mundo seria ter a bomba.

A Constituição de 1988 havia proibido o país de usar a tecnologia nuclear para fins bélicos,
mas o “esforço paralelo” dos militares sobreviveu até 1990, segundo confirmou mais tarde
José Carlos Santana, ex-presidente da Comissão Nacional de Energia Nuclear no governo
Collor.

Para Marcos Tadeu, físico e pesquisador das areias monazíticas de Guarapari, o tório
capixaba chegou a ser usado nesse esforço paralelo dos militares, mas se provou pouco
eficaz e foi abandonado alguns anos depois.

A suspeita de que o Brasil trabalhava secretamente em uma ogiva nuclear tornou-se mais
intensa na segunda metade da década de 1980. Uma série de reportagens da mídia nacional
revelou aspectos secretos do programa atômico. Isso só fez aumentar os rumores sobre um
possível teste nuclear brasileiro.

A maior comprovação do esforço para criação de uma ogiva nuclear, porém, só veio no
final dos anos 80. O jornal Folha de São Paulo expôs a construção de instalações
subterrâneas que “se prestam a testes nucleares diversos” na Serra do Cachimbo, no Sul do
Pará. A área era militar, delimitada por decreto durante o governo Geisel. Na época o
presidente José Sarney negou que o espaço fosse utilizado para esses fins.

Em 1990, porém, em entrevista ao programa Fantástico, da Rede Globo, Sarney contou


que, ao assumir o governo, descobriu que havia instalações nucleares na Serra do
Cachimbo.

Pouco depois, ele jogou uma simbólica pá de cal num poço de 320 m para testes nucleares e
ordenou sua destruição.

A pesquisadora Beatriz Bueno explica propriedades das areias de Guarapari:


http://www.dailymotion.com/video/x30l4oa_a-pesquisadora-beatriz-bueno-explica-
propriedades-das-areias-de-guarapari_news

A partir da morte de Boris Davidovitch, a exploração de terras raras passou a ter um


controle maior do Estado e a sede da Mibra em Guarapari se transformou na empresa
Nuclemon, subsidiária da estatal Nuclebrás, criada para concentrar a exploração desse tipo
de material para interesses industriais.

A Nuclemon continuou extraindo areia monazítica e beneficiando seus derivados por mais
de 20 anos, até a década de 80, quando uma nova campanha capitaneada pelo então prefeito
de Guarapari, Graciano Espíndula, propunha o fim definitivo da exploração da areia na
cidade e mais investimentos em turismo e infraestrutura, tornando o balneário atrativo para
tratamento de pessoas com diversas doenças, sobretudo reumáticas. “Se Cleveland (EUA) é
a referência mundial em cardiologia, Guarapari será referência em reumatologia”, declarou
o prefeito em maio de 1983, em entrevista ao jornal A Gazeta.
O prefeito de Guarapari, Graciano Espíndula, concede entrevista em 1983 ao jornal A
Gazeta, dando sua versão da briga judicial travada pelo fim da exploração de areia na
cidade. Entrevista à repórter Maura Fraga. Foto: Helô Santana

Na época os benefícios das areias radioativas de Guarapari para tratamento de doenças já


eram bastante difundidos, e a cidade recebia turistas de diversas partes do Brasil e do
mundo entre os meses de março e junho. Uma série de reportagens publicadas por A Gazeta
mostrava histórias de gente que buscou Guarapari para se tratar e acabou adotando o local
como residência. Também não faltavam relatos de pessoas creditando a cura de diversas
doenças ao tratamento feito com a areia das praias.

Diretor da Nuclemon, Delzo Marques, se posiciona sobre a permanência da empresa em


Guarapari por mais três anos. A Gazeta, 7 de maio de 1983

O próprio prefeito lembrou que uma história de infância o marcou profundamente e serviu
como estímulo para entrar na briga contra a exploração da areia na cidade. “Lembro-me
que vi um homem completamente paralítico descer de um barco e sendo transportado para
o outro lado da cidade, quando ainda não havia a ponte de Guarapari. Depois descobri que
se tratava do secretário de Estado de Minas Gerais, vítima de reumatismo crônico, em
busca da cura nas areias monazíticas. Ele estivera na Europa para tratamento, sem
resultado. Meses depois, vindo da escola, vi aquele homem descer de um bonde, aqui
mesmo em Vitória, sem a ajuda de ninguém, e seguir rua afora. Essa imagem ficou gravada
na minha memória”, declarou Graciano, que se julgava um profundo interessado nas
propriedades medicinais das areias da cidade e era, por muitos, taxado de sonhador.

Por outro lado, a continuação das atividades da Nuclemon deixava grandes buracos pela
cidade e incomodava autoridades e moradores. A areia extraída na cidade era enviada para
uma usina em São Paulo, de onde se retirava diversos elementos para fabricação industrial,
de eletrodos a fibras de vidro, indústria de lentes, de televisores, além do próprio tório, de
interesse da Comissão Nacional de Energia Nuclear.
NA JUSTIÇA

Médico, ensaísta e membro da Academia Brasileira de Letras, Antonio da Silva Mello é


considerado o maior divulgador das belezas de Guarapari e das propriedades medicinais das
areias monazíticas. Vários de seus artigos circularam o mundo na primeira metade do
século passado

O caso foi parar na Justiça Federal após a denuncia da prefeitura de que a a Nuclemon
estava extraindo areia em terrenos ilegais e destruindo trechos da Rodovia do Sol e de
praias onde a exploração já havia sido embargada por leis do próprio município, como
Areia Preta, Praia dos Namorados e Praia do Morro.

Diante da batalha judicial, a Nuclebrás alegou que o trabalho em Guarapari era estratégico
para os interesses nacionais, uma vez que somente a cidade capixaba era responsável por
20% de toda a produção de minerais pesados do Brasil. A empresa conquistou o direito de
seguir explorando as areias de Guarapari por mais três anos, encerrando suas atividades de
uma vez por todas em 1986.

A partir daí, o município consolidou seu lema de “Cidade-Saúde” e passou a receber cada
vez mais turistas interessados nas areias medicinais. As praias se urbanizaram e a estrutura
hoteleira melhorou. A cidade incrementou sua vocação turística e hoje chega a receber mais
de um milhão de visitantes durante o verão. Talvez parte de um sonho idealizado pelo
médico Antônio da Silva Mello a partir de 1930, de que aquela antiga vila de pescadores
guardava um tesouro para a medicina e para a cura de milhões de pessoas por meio de suas
areias radioativas.

Os artigos de Silva Mello rodaram o mundo, e atraíram estudiosos e curiosos para o


balneário capixaba desde então.
Na França, o laboratório de Marie Curie (1867-1934), ganhadora de um Prêmio Nobel por
seus estudos em radioatividade, foi um dos que usou areia monazítica de Guarapari em seus
estudos

Nos arquivos público franceses, mais de 210 documentos entre cartas, pedidos de material e
recibos ligam a Société Minière Industrielle Franco- Brésilienne, precursora da Mibra, em
Guarapari, a diversos laboratórios franceses e alemães.

A maioria dos contatos são de compra, venda e aluguel de tubos de Tório entre a empresa e
o Institut du Radium, laboratório presidido pela ganhadora do prêmio Nobel de Química,
Marie Curie. Ela e o marido, Pierre, foram responsáveis pela descoberta da radioatividade e
por ter dedicado a vida às pesquisas sobre o uso terapêutico dos materiais radioativos.

As trocas aconteceram entre os anos de 1911 e 1934.

Segundo o estudo “Marie Curie and the Radium industry” do pesquisador Xavier Roqué, a
partir de 1903 o uso na medicina de materiais radioativos foi popularizado na França, o que
fez aparecer um mercado de extração de materiais radioativos pelo mundo. O material era
usado em centros de tratamento de câncer tanto em Paris quanto em outras cidades. Na
capital Francesa, a Société Minière et Industrielle Franco-Brésilienne mantinha um
escritório no número 20 do boulevard Montmartre, e uma usina de tratamento de tório e
outos materiais radioativos na cidade de Clichy. Por questões de segurança, nos anos 80, a
usina foi demolida e enterrada pelo governo francês.

Já os pesquisadores Bernward Joerges e Terry Shinn, autores do estudo “Instrumentation


Between Science, State and Industry”, a Minière foi criada, inclusive, com a supervisão da
pesquisadora Marie Curie para fornecer material e logística ao seu laboratório, assim como
outros laboratórios e empresas da Europa, principalmente da Inglaterra e Alemanha.

Além da pesquisa, os laboratórios utilizam o tório na fabricação de aparelhos de


radioterapia e de sais luminosos (material fosforescente usado em pinturas e em agulhas).

Marie Curie visitou o Brasil em 1926, atraída pela fama das águas radioativas do Termas de
Lindóia, em São Paulo. Na época, o local já era conhecido como terapêutico. Curie visitou
o local durante um dia.

A visita às terras brasileiras, no total, durou mais de 40 dias. Madame Curie esteve em São
Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, onde visitou o primeiro hospital brasileiro
especializado em tratamento de câncer com uso de radiação. Marie Curie faleceu em 1934,
depois de muitos problemas de saúde, provavelmente em razão da contínua exposição à
radiação.

Afinal, o que teria acontecido com as toneladas e mais toneladas de tório exportados para
os Estados Unidos principalmente durante a Guerra Fria? No final das contas, o que restou
delas agora é encarado como problema de segurança nacional e opinião pública.

Exemplos de compartimentos onde o urânio-233 está armazenado, sob a forma de pastilhas


e óxido, entre outras. Foto: DOE-USA
Pouco mais de 1.500 quilos de Urânio-233 criado a partir do tório – e que chegou a ser
testado em bombas e reatores na década de 1950 – está agora armazenado em latas e tubos
em um depósito do governo americano no estado de Tennessee. Novas tecnologias
nucleares mais seguras tornaram obsoleta a pesquisa com U-233 há várias décadas. Sem
serventia, o governo decidiu transportar esse material para um túnel de armazenamento de
lixo nuclear em Nevada, justamente onde as bombas atômicas eram testadas, perto de Las
Vegas.

A iniciativa, com custo estimado de 500 milhões de dólares, mobiliza a opinião pública
nacional e sobretudo da população de Nevada, sendo alvo constante de protestos de
ativistas. No entanto, testes para o transporte foram iniciados em maio de 2015, e o envio
pode acontecer a qualquer momento. O urânio-233 armazenado é considerado de “baixo
nível de risco” pelas autoridades americanas.

Robert Alvarez, especialista em estudos políticos e consultor do Departamento de Energia


dos Estados Unidos durante o governo de Bill Clinton, estima que 200 toneladas de u-233
foram produzidas a partir de 800 toneladas de tório entre 1954 e 1970, nos EUA. O custo
dessa produção pode variar entre US$ 5,5 e US$ 11 bilhões de dólares.

A constatação de diversos especialistas americanos é de que a corrida nuclear durante a


Guerra Fria acabou gerando estoques de matéria-prima e materiais processados que hoje
geram apenas dor-de-cabeça para o governo. Um exemplo emblemático disso é justamente
o tório enviado das praias brasileiras e o urânio de laboratório produzido a partir dele.

Algumas correntes chegam a especular sobre o perigo desse material radioativo nas mãos
de nações ou grupos com interesses bélicos. Outros cientistas defendem a teoria de que
reatores de tório podem ser soluções viáveis para a geração de energia elétrica atualmente.
De qualquer modo, a constatação de que toneladas e mais toneladas de areia exportada
durante décadas acabam por se tornar um problema envolvendo latinhas de lixo radioativo
é, no mínimo, curiosa.
EM CHICAGO, AREIA FOI USADA EM ATERRAMENTOS

Vista da região de Streeterville, a oeste de Chicago, onde boa parte do bairro foi aterrado
com areia monazítica ao longo do século XX. Foto; Matt Howry / Flickr / creative
commons

Sede da Lindsay Light & Co, a maior compradora norte-americana da areia monazítica
capixaba, a cidade de Chicago também vive hoje um impasse em relação ao que sobrou da
matéria prima usada pela empresa, que utilizou o tório primeiramente para fabricação de
lâmpadas e, mais tarde, foi a principal fornecedora do material para os projetos secretos de
construção de bombas atômicas.

Reportagens de diversos jornais de Chicago nos últimos anos relatam que, após feita a
separação do tório, a areia que sobrava era vendida para utilização em aterros. Assim, a
região de Streeterville, fortemente industrializada na época, recebeu toneladas de aterro
radioativo para construção de novos prédios e fábricas. Ninguém sabe exatamente quando a
venda da sobre de areia foi encerrada pela Lindsay Light, mas o bairro passa atualmente por
uma modernização e a construção de novos edifícios residenciais, hotéis e condomínios de
luxo levanta o risco à saúde ao se revirar a areia radioativa.
Local onde foram depositadas toneladas de areia pela Lindsay Light Co, a maior
compradora da areia brasileira. Foto: Illinois Emergency Management Agency

Em entrevista ao jornal Chicago Tribune, representantes da Agência de Proteção Ambiental


dos EUA informaram que a inalação de poeira contaminada por tório aumenta o risco de
desenvolver câncer de pulmão e pâncreas. Grupos ativistas lutam há pelo menos 20 anos
pelo desenvolvimento de projetos para retirar completamente a areia da cidade.

Em uma década, uma ação para retirar a areia contaminada retirou 13.500 toneladas do
material de diversos terrenos de Chicago. A areia é enviada para um aterro licenciado a
trabalhar com resíduos radioativos, em Utah. As multinacionais que assumiram o controle
da Lindsay Light fizeram acordos com a Justiça e se comprometeram a injetar recursos para
auxiliar na limpeza desses terrenos. O custo para retirada de toda a areia é estimado em
US$ 121 milhões. A estimativa de governantes é de que quase 150 mil toneladas dessa
areia foram despejados em terrenos a oeste de Chicago. Não é difícil presumir que grande
parte do polêmico material enterrado em Chicago tenha sido retirado de Guarapari. Em seu
depoimento à CPI da Energia Atômica, Boris Davidovitch havia declarado que o principal
cliente da Mibra era justamente a Lindsay Light, da qual o próprio Boris possuía
participação acionária.
Mais de 600 casas cujo solo foi aterrado com restos industriais de monazita e tório tiveram
de ser limpas ao longo da década passada. Algumas foram desocupadas para a retirada do
solo contaminado. A limpeza residencial já foi concluída em Chicago, de acordo com o
governo local. Foto: Illinois Emergency Management Agency

Pelo menos seis regiões de Chicago, inclusive residenciais, receberam a areia para aterro.
Uma área utilizada pela Lindsay Light ficou conhecida como “montanha de tório” pela
grande quantidade de material concentrado. Apesar de boa parte da limpeza já ter sido
efetuada, o impasse agora fica por conta do destino do lixo industrial, e não apenas em
Chicago: assim como a Lindsay Light, estima-se que pelo menos outras 15 indústrias
atuaram na produção de mantas de tório para lâmpadas em diversos Estados americanos, e
tenham comprado, em quantidades desconhecidas, areia monazítica no período entre 1900 e
1930.

O grande volume de areia aterrada em Chicago também sugere que a quantidade exportada
pelo Brasil é realmente maior do que as 100 mil toneladas declaradas oficialmente. Em
1950, reportagem do jornal Chicago Tribune detalhava a preocupação do setor industrial
norte-americano com a possibilidade de uma lei brasileira proibir a exportação de monazita
a partir do ano seguinte. Ouvido pela reportagem, Charles Lindsay, proprietário da Lindsay
Light, detalhou que havia uma grande corrida pela monazita por conta dos projetos
atômicos americanos. Ele alegou que o governo brasileiro estaria fazendo pressão para que
Lindsay instalasse uma fábrica no Brasil para tratamento do tório. Ele também declarou ao
jornal que “mantinha um grande estoque de areia monazítica nos Estados Unidos”, sem
citar, porém, a quantidade.
1. Foi na época de bastante movimento no porto de Guarapari que foram criados os
hotéis Torium, Radium e Monazita. O Radium foi um casino muito frequentado na
década de XX, e símbolo de ostentação da classe mais abastada do Espírito Santo.
Hoje está desativado.
2. Boris Davidovitch é nome de rua na Praia do Morro, em Guarapari, exatamente a
mesma onde funcionava a antiga Inaremo. Não é possível precisar a data exata da
criação da lei, na Câmara dos Vereadores da cidade, que dá à rua o nome do
empresário russo
3. Augusto Frederido Schmidt, além de proprietário da Orquima, que explorava areia
no Norte do Espírito Santo, foi um grande empresário paulista, criador de uma rede
de supermercado e firmas industriais. Ele também é criador do famoso slogan “50
anos em 5”, usado na campanha de Juscelino Kubitschek para a construção de
Brasília. No entanto, o fato mais curioso é que Schmidt é um dos poetas mais
conhecidos da segunda geração do Modernismo brasileiro, com três livros
publicados. Assim como Boris Davidovitch, morreu após um infarto fulminante.
4. O problema da exploração ilegal de areia monazítica também foi denunciado pela
imprensa da Índia, sobretudo por volta de 1990. Reportagens de diversos jornais
relatavam que empresas escondiam o volume de areia retirado, exportava sem
autorização e causava impacto a comunidades em volta das áreas com maior volume
de areia monazítica.
5. A Índia, aliás, que desde o fim da Segunda Guerra Mundial havia proibido a
exportação de terras raras, trabalha atualmente em um reator de tório para geração
de energia. A tecnologia também é visada por países como China e Irã. A previsão é
de que o reator indiano entre em operação a partir de 2018.
6. Em 2013, o Brasil negociou a venda de 16 mil toneladas de Torta II, resíduo
radioativo proveniente do tratamento químico da areia monazítica. O comprador foi
uma empresa de Taiwan chamada Global Green, que domina técnicas para extrair
terras raras desse tipo de resíduo. A alegação na época é de que o Brasil não possui
tecnologia para fazer essa extração. O estoque ficava situado na cidade mineira de
Caldas. De acordo com as Indústrias Nucleares do Brasil (INB), o material é
estocado desde 1940.
 Robert Alvarez (2013): Managing the Uranium-233 Stockpile of the United States,
Science & Global Security: The Technical Basis for Arms Control, Disarmament,
and Nonproliferation Initiatives, 21:1, 53-69; disponível online
 Depoimento de Boris Davidovitch à CPI da Energia Atômica de 1956, Diário do
Congresso Nacional, 30 de outubro de 1956, disponível online
 Uranium Substitute Is No Longer Needed, but Its Disposal May Pose Security Risk,
New York Times, 23 de setembro de 2012, disponível online
 U-233 Disposition Project Update, Departamento de Segurança dos Estados Unidos,
2011, slides disponíveis clicando aqui
 A Física Atômica no Brasil: da questão das areias monazíticas à CPI de 1956. Mário
Fabrício Fleury
 Especial Município A Gazeta -Guarapari – 26 set 1994
 A bomba atômica dos militares – Revista Aventuras na História, publicado em
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 Instrumentation Between Science, State and Industry – edited by Bernward Joerges,
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 Guarapari, muito mais que um sonho lindo. Beatriz Bueno, 2012
 “Testes são possíveis há dois anos”, Folha de S.Paulo, São Paulo, 10 de agosto de
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 “A bomba atômica no porão”, Veja, São Paulo, n. 792, abril de 1987
 “Na cerimônia e nas ruas, átomos de discórdia”, Folha de S.Paulo, São Paulo, 9 de
abril 1988
 Mineração: Guerra pelas terras raras, Unesp, 09/04/2012
 A política nuclear brasileira entre 1945-1964. Fabiano Farias de Souza (UERJ)
 “Serra do Cachimbo pode ser local de provas nucleares”, 08/Agosto/1986, Folha de
São Paulo
 Especial “A Nuclebrás em Guarapari”, Maura Fraga, Jornal A Gazeta, 15/05/1983
 “Nuclebrás fica em Guarapari por mais três anos”, Jornal A Gazeta, 7/05/1983
 Reportagens publicadas pelos jornais Tribuna da Imprensa (RJ), Revista da Semana
(RJ), Diário de Notícias (RJ), Folha Capixaba (ES), Diário da Noite (RJ)
 Chicago Tribune, “Brazil acts to bar export of minerals”, 3 de abril de
1950.Disponível online
 Fluvial Monazite Deposits in the Southeastern United States. Department of
Interior, EUA, 1968. Disponível online
 The geologic Occurrence of Monazite, Department of the Interior. USA,
1967.Disponível online

A reportagem contou com a colaboração de Anelize Nunes (Cedoc), Arabson


(ilustrações), Marcelo Franco (Ilustrações) e Wing Costa (edição de vídeo)
Publicada em 29/08/2015