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A utilização da transação penal e da

suspensão do processo nos crimes


ambientais

Marcela Vitoriano e Silva


Publicado em 05/2011. Elaborado em 04/2011.

Sumário: 1 Introdução – 2 Penas restritivas de direito – 3 A reparação


do dano e a compensação ambiental – 4 A transação penal – 5 A suspensão
do processo – 6 A função do Ministério Público nos Crimes
Ambientais – 7 Conclusões – Referências bibliográficas

Palavras-chave: Crimes ambientais. Transação penal. Suspensão do


processo. Reparação do dano ambiental.

1. INTRODUÇÃO
A proteção ao meio ambiente foi contemplada com a tríplice
responsabilização – administrativa, civil e penal –. Isto significa dizer que o ato
que violar as disposições legais referentes à proteção desse bem jurídico pode
ter reflexos nas três esferas de responsabilização.

A Constituição Federal, em seu §3º, art. 225, assim dispôs:

As condutas e atividades consideradas lesivas ao meio ambiente


sujeitarão os infratores, pessoas físicas ou jurídicas, a sanções penais e
administrativas, independentemente da obrigação de reparar os danos
causados.
Deste dispositivo ficou clara a aplicação do direito penal em matéria
ambiental, inclusive às pessoas jurídicas, o que trouxe grandes discussões no
meio jurídico.

A razão da tutela penal na proteção do meio ambiente decorre da sua


natureza de direito fundamental, uma vez que a sua manutenção permitirá a
perpetuação da vida humana na Terra.

O emprego do modelo tradicional de penalização não se amolda com a


defesa do bem jurídico tutelado – o meio ambiente. A pura aplicação da pena
privativa de liberdade não é suficiente para a garantia da efetividade deste
direito. A penalização do indivíduo tem efeitos restritos e não atinge a mesma
proporção da lesão do ato criminoso, eis que este, na esfera ambiental,
alcança inúmeras vítimas, tendo em vista a natureza difusa do direito e o
caráter holístico do meio ambiente.

Além disso, o sistema prisional brasileiro não traz condições de


ressocialização do preso, nem lhe incuti a noção do mal da realização do
crime, para si e para toda a sociedade. Pelo contrário, mantém o indivíduo em
condições sub-humanas e permite, ainda mais, a sua criminalização, através
da aprendizagem de novas técnicas e entrosamento com outros criminosos [01].

Diante de tais constatações pelo legislador e, compreendendo a


dimensão da proteção do meio ambiente, ele buscou a utilização de novos
institutos adequados a responsabilização penal ambiental, quando da criação
da Lei nº 9.605/98, que trata dos Crimes Ambientais. A transação penal e a
suspensão do processo, embora já presentes no nosso ordenamento, foram
adequados para utilização no caso de crimes ambientais.

Conforme LECEY,

Referida lei trouxe impactos expressivos no Direito Ambiental Penal, como


reflexos na tipologia, valorização das alternativas à pena de prisão, destacada
preocupação com a reparação do dano ao ambiente, transformou a transação
penal e a suspensão do processo em instrumentos de efetiva proteção
ambiental, bem como impactos trouxe na autoria singular e coletiva, com
concorrência por omissão do dirigente da pessoa jurídica no crime de outrem e
a responsabilização criminal da própria pessoa jurídica. (LECEY, 2007)
Ainda neste sentido,

O direito penal ambiental, na perspectiva do juizado especial criminal, tem


contribuição efetiva na proteção do bem jurídico ambiental ao admitir a
possibilidade de se colocar a pena privativa de liberdade em segundo plano,
privilegiando a célere reparação/indenização do dano. A correção entre este
tipo de justiça consensual penal que é o Juizado Especial e a lei de crimes
ambientais é enorme (...) (SANDRO e BALESTRINI, 2006, p. 2)
Diante disso, com o advento da Lei de Crimes Ambientais houve a
modernização do modelo de instituição das penas para garantir maior
efetividade ao direito tutelado, com a aplicação primordial das penas restritivas
de direitos, inclusive com a criação de espécies mais adequadas a esta
proteção.

O novo modelo legal também atende os ditames dos Princípios


Ambientais, entre eles, o Princípio do Desenvolvimento Sustentável, da
Prevenção e da Reparação, este em especial na colocação da reparação do
meio ambiente como condição para obter os benefícios dos novos instrumentos
processuais penais – a transação e a suspensão do processo – definidos como
medidas despenalizadoras fundadas no consenso [02].
E, mesmo em expressão mais tênue, contemplou os ditames do
Princípio da Educação Ambiental ao prever a aplicação de penas restritivas de
direito, como a prestação de serviços à comunidade voltada para a realização
de tarefas em parques, jardins, unidades de conservação e outros. A
aproximação do indivíduo com a natureza, através da realização desse tipo de
atividade favorece o desenvolvimento da consciência ambiental e a
constatação da importância do equilíbrio do processo ecológico para o bem-
estar humano.

Por fim, o Princípio do Poluidor-Pagador foi contemplado ao exigir, a


Lei de Crimes Ambientais, a composição do dano e a reparação do dano na
utilização dos novos instrumentos processuais.

No dizer de GARCIA e THOMÉ (2009, p. 35),

O princípio do poluidor-pagador, considerando como fundamental na


política ambiental, pode ser entendido como um instrumento econômico que
exige do poluidor, uma vez identificado, suportar as despesas de prevenção,
reparação e repressão dos danos ambientai.
Assim, o maior interesse do direito ambiental, em todas as suas esferas
de responsabilização, é a recuperação e preservação das condições
ambientais, com mantença dos recursos naturais e da biodiversidade, medidas
estas voltadas para nossa sobrevivência, com saúde e qualidade.

2. PENAS RESTRITIVAS DE DIREITOS


Seguindo a razão da atuação do Direito Penal na esfera ambiental,
procurou o legislador enquadrar o uso das penas restritivas de direitos no caso
de crimes ambientais, o que foi de grande pertinência, haja vista os benefícios
de sua utilização.

As penas restritivas de direito podem ser substitutivas da pena privativa


de liberdade ou autônomas. A substituição ocorre, de acordo com a disposição
do inciso I, do art. 7º, da Lei de Crimes Ambientais, quando a pena privativa de
liberdade cominada for inferior a 04 (quatro) anos.

Desta forma, tais penas não são aplicáveis somente aos crimes de
menor potencial ofensivo, cuja pena máxima cominada é de até 02 (dois) anos,
mas também naqueles em que a pena privativa de liberdade for inferior a 04
(quatro) anos, o que corresponde a maioria dos crimes tipificados na Lei de
Crimes Ambientais.

Em 2001, com a Lei nº 10.259, que dispõe sobre os Juizados Especiais


Federais, os crimes de menor potencial ofensivo foram ampliados, pois a Lei nº
9.099/1995 definiu a pena máxima de 01 (um) ano. Hoje é pacífico o
entendimento jurisprudencial e doutrinário da aplicação do conceito da Lei nº
10.259/2001 também aos Juizados Especiais Estaduais. Assim, houve o
aumento da quantidade de crimes de menor potencial ofensivo.

A valorização das penas restritivas de direito pela Lei de Crimes


Ambientais é fato. E diante do surgimento da responsabilização penal da
pessoa jurídica, a lei dividiu as espécies de penas restritivas de direito,
conforme a personalidade do infrator.

As penas restritivas de direitos da pessoa física são a prestação de


serviços à comunidade; interdição temporária de direitos; suspensão parcial ou
total de atividades; prestação pecuniária e recolhimento domiciliar Os artigos
9º, 10, 11 ,12 e 13 conceituam cada espécie.

Já as penas restritivas da pessoa jurídica, pela sua própria natureza,


são diferentes, pois, inaplicáveis algumas espécies previstas para a pessoa
física. Portanto, são elas: suspensão parcial ou total das atividades; interdição
temporária de estabelecimento, obra ou atividade; proibição de contratar com o
Poder Público, bem como dele obter subsídios, subvenções ou doações.

Coloca SANDRO e BALESTRINI (2006, p. 6) que existem duas formas


de aplicação da pena restritiva de direitos:

No final do processo penal, quando o agente tiver sido condenado a


cumprir Pena Privativa de Liberdade, em substituição à essa Pena Privativa de
Liberdade Imposta; Antes do Processo, como medida alternativa que busca
justamente evitar esse processo e as mazelas dele decorrentes por meio dos
institutos da Transação Pena (art. 76 da Lei 9.099/95) e Suspensão condicional
do Processo.

As penas restritivas de direito são, desta forma, amplamente aplicadas


na Lei de Crimes Ambientais através do instituto da transação penal, e se
revelam como boa alternativa de penalização para a espécie de crimes aqui
discutida.

3. A REPARAÇÃO DO DANO E A COMPENSAÇÃO AMBIENTAL


Sabidamente, ao criar a Lei de Crimes Ambientais, o legislador fixou a
exigência da reparação do dano ambiental tanto na transação penal, ao falar
em composição do dano (art. 27), quanto na suspensão do processo (art. 28),
ao mencionar que a declaração de extinção da punibilidade depende de laudo
de constatação da reparação do dano.

Ao contrário das disposições da Lei de Crimes Ambientais, a Lei nº


9.099/1995 fixou a composição civil do dano como mera faculdade. A
formalização da transação não estava condicionada à realização da
composição civil do dano.
O benefício da composição civil do dano, prevista na lei, é a renúncia
automática do direito de queixa ou representação da vítima, não alcançando,
portanto, as ações penais públicas incondicionadas.

Como a Lei 9.605/98 definiu, em seu artigo 26, que todas as infrações
ali tipificadas são de ação pública incondicionada, não cabe falar em renúncia
do direito de queixa no caso de realização de composição do dano, mas a fixou
como condição inafastável para a transação.

Na prática, quando o crime cometido enquadrasse em Ação Penal


Pública Incondicionada, o provável infrator não se prontificava a realizar a
composição civil do dano, porque sabia que ainda assim seria beneficiado com
a transação penal. Então, para que assumir duas obrigações se poderia
assumir somente uma?

No caso de Crimes Ambientais tal situação não ocorre, já que a


composição é condição da transação. E nisto reside a grande esperteza do
legislador, que, através da criação de nova lei tentou "consertar" o erro legal e,
ao mesmo tempo, ajustou as novas disposições ao fim pretendido.

Entretanto, nem sempre a reparação do dano é possível, fato que


também foi suscitado pela lei. Neste caso, a mera afirmação da
impossibilidade, seja por parte do infrator, do magistrado ou do Representante
do Ministério Público não basta para afastar esta condição de aplicação da
transação e da suspensão do processo.

Da mesma maneira, o legislador criou uma saída correta para a


comprovação da impossibilidade da reparação: a demonstração através de
laudo técnico. As relações ambientais são complexas e, por isso, exigem a
presença de profissionais diversificados para diagnóstico preciso de uma
situação ecológica determinada. São várias condicionantes que se relacionam.

Quando a reparação do dano for inviável, poderá ser realizada a


compensação ambiental que, conforme SILVA (2004, p. 30), corresponde a
substituição do bem ou elemento lesionado por outro equivalente, com intuito
de buscar uma situação ao menos semelhante àquela anterior ao dano".

A máxima do direito ambiental é a reparação natural e integral do dano,


entretanto, nem sempre é viável, até mesmo financeiramente, a sua total
reparação ou por não haver medidas tecnológicas suficientes para propiciá-la.

Tanto nas hipóteses em que for cabível a transação penal ou a


suspensão condicional do processo, não seria razoável o possível infrator se
eximir da reparação ao simples argumento de sua inviabilidade, seja técnica ou
financeira. Existem hoje diversas demandas ambientais, de naturezas diversas.
Assim, a compensação pode ser plenamente viável em outra área de igual
relevância ecológica, já degradada, o que é comum e em proximidade a área
lesionada.
Ao lado da reparação ou compensação, a aplicação de pena restritiva
de direito que tenha relação com a proteção do meio ambiente vem somar as
medidas reparadoras do Direito Penal, que trouxe, neste novo momento, uma
atuação positiva da penalização e não somente incriminadora.

Vale ressaltar ainda, que a composição do dano, seja através da


reparação ou compensação, permitirá, em muitos casos, a resolução do
conflito cível, uma vez que atinge o seu objeto, evitando, com isso, um
desgastante percurso judicial, com difícil produção probatória e delonga na
produção de uma sentença satisfativa.

4. A TRANSAÇÃO PENAL
A transação penal é um instituto de direito processual disciplinado
originalmente pela Lei nº 9.099/1995, que dispõe sobre os Juizados Especiais,
seguindo o mandamento constitucional, fixado no inciso I, art. 98, da
Constituição Federal. Este dispositivo constitucional já havia previsto a
aplicação da transação no caso de crimes de menor potencial ofensivo.

Este instituto consiste na criação consensual, com intermédio de um


Representante do Ministério Público, de uma obrigação ao provável infrator,
que tenha certa familiaridade com a natureza da infração, prestando ainda,
como alternativa imediata de penalização, com o afastamento dos efeitos da
condenação penal e evitando-se a delonga na tramitação processual e lotação
jurisdicional.

A transação "não se trata apenas de um mecanismo que atenua a


formalidade processual, mas sim, de um mecanismo que tem por escopo a
pronta solução de litígios." (SANDRO e BALESTRINI, 2006, p.1)

A Lei nº 9.605/1998, que define os crimes ambientais, utilizou-se deste


instituto, porém, com algumas alterações. Além da presença dos requisitos do
§ 2º, do art. 76, da Lei nº 9.099/95 [03], exigiu ainda, a citada Lei de Crimes
Ambientais, conforme disposição do art. 27, a prévia composição do dano
como condição para a formalização da transação. Tal exigência enquadra-se
ao fim da responsabilização penal ambiental.

A única hipótese de não cumprimento da exigência da composição do


dano ambiental é a impossibilidade de sua realização, que deverá ser
demonstrada através de estudo técnico, o qual também subsidiará a escolha
das melhores propostas no caso de possibilidade da transação.

Importante ressaltar que a formalização da transação, nos termos do §


4º, do art. 76, não implica o reconhecimento de culpa e "não importa em
reincidência, sendo registrada apenas pra impedir novamente o mesmo
benefício no prazo de 5 (cinco) anos."
O benefício da formalização da transação continua sendo o
afastamento da condenação penal e seus efeitos, com a solução imediata e
satisfatória do conflito. Porém, não cumprida a obrigação fixada na transação,
retoma a ação penal o seu procedimento normal.

É o entendimento dos Tribunais:

O descumprimento da transação penal prevista na lei 9.099/95 gera a


submissão do processo em seu estado anterior, oportunizando-se ao Ministério
Público a propositura da ação penal e ao Juízo o recebimento da peça
acusatória, não havendo que se cogitar, portanto, na propositura de nova ação
criminal por crime do art. 330 do CP. (...) Com base nesse entendimento, a
Turma, por falta de justa causa, deferiu habeas corpus a paciente para
determinar o trancamento de aço penal contra ele instaurada pelo não
cumprimento de transação penal estabelecida em processo anterior, por lesão
corporal leve. (HC 84976/SP, Rel. Min. Carlos Britto, 20.9.2005)
Diante disso, a transação penal vem sendo amplamente utilizada em
nossos Tribunais e assim não poderia deixar de ser. E, em matéria ambiental,
desde que haja a prévia composição do dano é possível a sua utilização, a qual
será homologada pelo juiz e terá eficácia de título executivo.

5. A SUSPENSÃO DO PROCESSO
A suspensão do processo é aplicada nos crimes de médio potencial
ofensivo, definidos como aqueles em que a pena mínima cominada é igual ou
menor a 01 (um) ano (art. 89, da Lei nº 9.099/1995).

Se aplicado este instituto, o processo penal fica suspenso por 02 (dois)


a 04 (quatro) anos. A Lei nº 9.605/1998 também exigiu a reparação do dano
ambiental para que ocorra a suspensão do processo, o que dependerá de
laudo de constatação (art. 28, inciso I), salvo impossibilidade.

Assim, a suspensão do processo aplica-se em crimes diversos da


transação e com algumas diferenciações, entretanto, a exigência da
composição do dano é presente nos dois institutos.

Caso não haja a reparação integral do dano ambiental, o prazo de


suspensão pode ser prorrogado desde que não exceda ao limite máximo
previsto, ou seja, 04 (quatro) anos.

Finda a suspensão, desde que cumprida a exigência da reparação do


dano, a punibilidade é declarada extinta. Caso contrário, a suspensão é
revogada, nos termos do § 3º, do art. 89, da Lei nº 9.099/1995, retomando o
processo o seu curso natural.
6. A FUNÇÃO DO MINISTÉRIO PÚBLICO NOS CRIMES
AMBIENTAIS
O Ministério Público, na condição de legitimado privativo da propositura
da ação penal, exerce influência de peso na concretização da
responsabilização por crime ambiental.

O Promotor atuante em Ação Penal que tenha por objeto crime


ambiental deve se ater sempre ao fim principal da lei: a proteção e recuperação
do meio ambiente. Logo, todas as alternativas de transação devem observar
esse fim maior.

Além disso, a análise do caso concreto irá demonstrar a melhor


proposta de transação a ser formulada pelo Parquet, que, abusando da sua
criatividade, claro com respaldo legal, criará situações que encaixem melhor ao
bem jurídico tutelado.

Presente os requisitos de aplicação da transação penal e da suspensão


condicional do processo, não pode o Membro do Ministério Público esquivar-se
da sua aplicação. Obrigatoriamente deve apresentar a proposta de transação
penal ou suspensão do processo, se cabível, mesmo porque, estando tais
institutos à disposição do provável infrator, tem ele o direito de receber os seus
benefícios, não configurando, portanto, mera faculdade do Parquet.

Neste diapasão:

JUIZADO ESPECIAL CRMINAL. TRANSAÇÃO PENAL. APLICABILIDADE


DO INSTITUTO AO ACUSADO DO CRIME DO ART. 60 DA LEI
9.605/98.NECESSIDADE. É necessária a aplicação do instituo previsto no art.
76 da Lei 9.099/95 ao acusado do crime do art. 60 da Lei 9.605/98, uma vez
que tal delito prevê pena de 1 a 6 meses de detenção, ou multa, ou ainda
ambas as sanções cumulativamente, e o art. 27 deste último diploma prevê a
possibilidade da transação penal, nos termos do referido dispositivo da lei dos
juizados especiais criminais, sendo certo que é nula a decisão de
reconhecimento da denúncia, se não houve designação de audiência
preliminar. (TACrimSP; 8ª Câmara. HC 382230/8; Rel. René Nunes. 19/4/2001)
O artigo 7º, da Lei nº 9.605/1998, coloca, além da limitação temporal da
pena cominada, outros fatores para a aplicação das penas restritivas de
direitos, como a culpabilidade, os antecedentes, a conduta social e a
personalidade do condenado, bem como os motivos e as circunstâncias do
crime. Verificado que estes fatores não indicam a aplicação da pena restritiva
de direitos, o Representante do Ministério Público pode dispensar a oferta de
transação penal.

Neste sentido é a seguinte jurisprudência:

Desobediência e desacato - transação penal exige não só o requisito


objetivo da pena máxima inferior a dois anos, como também o subjetivo de
antecedência, personalidade do agente, motivos e circunstâncias do crime
indicarem ser necessária e suficiente a transação - ordem legítima de
magistrada - intuito de desprestígio e menoscabo - condenação mantida -
recurso improvido. (TJMG. Apelação criminal n° 1.0527.04.911982-1/001 –
Relator Des. Erony da silva, 11/10/2005)
Como subsídio na formalização da transação, compartilhamos o
entendimento de LUTTI [04], quanto à criação de um Banco de Entidades –
privadas ou públicas – pelas Promotorias de Meio Ambiente de cada Comarca,
para recebimento de valores ou outras benefícios decorrentes da transação
penal.

A destinação correta dos recursos também garante a efetividade da


tutela ambiental penal. Com a criação do Banco é possível, prontamente,
identificar os setores e entidades mais necessitados, inclusive com análise da
sua idoneidade. Através deste procedimento é possível ainda detectar
atividades mais urgentes e não atendidas diante da falta de entidade com
atuação específica.

7. CONCLUSÃO
A transação penal e suspensão condicional do processomostram-se
como ferramentas para efetivar o direito ao meio ambiente ecologicamente
equilibrado, que se bem utilizadas trarão grandes frutos, que não refletem
somente a idéia tradicional da Teoria das Penas, ou seja, a punição como
medida de ressocialização do infrator e como forma de evitar novas infrações
através da criação do temor social pela repressão dos atos criminosos. Segue
mais além a finalidade da Lei de Crimes Ambientais, ao lado do fundamento do
direito penal tradicional, traz nova roupagem a este direito, agora com natureza
de um direito penal reparador, voltado para a efetividade do direito tutelado,
porque além de punitivo, incorporou o caráter preventivo.

Entretanto, a maior dificuldade de aplicação do instrumento é quanto á


mensuração do dano, para posterior proposta de transação ou suspensão
condicional do processo. O dano ambiental pode acarretar reflexos
incalculáveis, que transpõem fronteiras e afetam diversas pessoas, seja direta
ou indiretamente.

Para uma melhor definição dos moldes de reparação do dano, impõe-


se a realização de prova técnica robusta, que dimensione a sua real proporção
e indique medidas adequadas. E, em caso de impossibilidade, nortear a melhor
forma de compensação do dano.

Para fixação da proposta de transação penal, o Membro do Ministério


Público, além da análise da amplitude do dano causado e condições do crime
(meios empregados no exercício de uma certa atividade, por exemplo), deve
verificar ainda, o lucro auferido pelo responsável da degradação ambiental,
como contrapeso.
Como já dito a função do Membro do Ministério Público é de destaque
na proteção do meio ambiente, necessitando ficar atento para as ocorrências e
colocação das melhores alternativas de penalização.

Desta forma, o importante não é somente a punição e sim a promoção


da recuperação do dano e da educação ambiental através do processo penal
ambiental, bem como a utilização da pena como mais uma forma de efetivação
de um direito fundamental, motivo da presença da "ultima ratio" – o direito
penal.

Esta visão do legislador fez com que permitisse a utilização, na grande


maioria dos crimes ambientais, dos novos institutos despenalizadores, não em
prol do infrator, mas em prol do meio ambiente.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
DOBON, Maria Carmen Alastuey. Consideraciones sobre el objeto
de protección em el derecho penal del médio ambiente. In: Direito Penal
contemporâneo: estudos em homenagem ao Professor José Cerezo Mir.
Coord. Luiz Régis PRADO. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2007.

GARCIA, Leonardo de Medeiros; THOMÉ, Romeu. Direito Ambiental.


Bahia: Editora JusPodivm, 2009.

LECEY, Eladio. Direito Ambiental Penal Reparador. Composição e


reparação do dano ao ambiente: reflexos no juízo criminal e a
jurisprudência. In: Revista de Direito Ambiental, vol 45, São Paulo: Editora
Revista dos Tribunais, 2007.

MILARÉ, Édis. Direito do Ambiente. 5ª edição. São Paulo: Revista


dos Tribunais, 2007.

NOGUEIRA, Sandro D’Amato; BALESTRIN, Thelleen Aparecida. Da


transação penal ambiental – aspectos diferenciais sobre a reparação e a
composição do dano ambiental em face do art. 27, da Lei 9.605/98.
4/2/2009. Disponível em
http://www.ecoeacao.com.br/index.php?option=com_content&task=view&id=38
4&Itemid=42

LUTTI, José Eduardo Ismael. O Ministério Público e a Transação


Penal. Data de acesso: 2/2/2010. Disponível em:
http://www.mp.sp.gov.br/portal/page/portal/cao_urbanismo_e_meio_ambiente/b
iblioteca_virtual/bv_teses_congressos/Dr%20Jos%C3%A9%20Eduardo%20Ism
ael%20Lutti.htm
SILVA, Danny Monteiro da Silva. O dano ambiental e sua
reparação. Dissertação de mestrado. Faculdade de Direito de Bauru, São
Paulo, 2004.

SOBRANE, Sérgio Turra. Transação Penal. São Paulo: Ed. Saraiva, 2001.

TÁVORA, Nestor; ALENCAR, Rosmar Rodrigues. Curso de Direito


Processual Penal. 3ª edição revista, ampliada e atualizada. Bahia: Editora Jus
Podivm, 2009.

NOTAS
1. No mesmo sentido SANDRO e BALESTRINI (2006, p. 2) : "Evita-se a
imposição de sanções restritivas da liberdade para as infrações de baixo poder
ofensivo, uma vez que a detenção não cumpre adequadamente as funções da
sanção penal e acaba incrementando a criminalidade."
2. SANDRO e BALESTRINI, 2006, p. 2
3. Art. 76 (...)
§2º Não se admitirá a proposta se ficar comprovado:

I – ter sido o autor da infração condenado, pela prática de crime, à pena


privativa de liberdade, por sentença definitiva;

II – ter sido o agente beneficiado anteriormente, no prazo de cinco anos,


pela aplicação de pena restritiva ou multa, nos termos deste artigo;

III – não indicarem os antecedentes, a conduta social e a personalidade


do agente, bem como os motivos e as circunstâncias, ser necessária e
suficiente a adoção da medida.

III – não indicarem os antecedentes, a conduta social e a personalidade


do agente, bem como os motivos e as circunstâncias, ser necessária e
suficiente a adoção da medida.

4. LUTTI, 2010. p. 4