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Vida e Viagens de Bamboxê Obitikô

LISA EARL CASTILLO*

* Artigo originalmente publicado em:


CASTILLO, L .E. In: Jesus, A.J.S. & Junior, V.C.S. (orgs.).
Minha Vida é Orixá. Salvador: Ifá Editora, 2011. p. 55-81.

Bamboxê Obitikô foi um dos homens mais destacados da


história das religiões afro-brasileiras. Segundo a memória
coletiva da Casa Branca, Bamboxê, também conhecido como
Rodolfo Manoel Martins de Andrade, era babalaô e devoto de
Xangô. Realizou ritos essenciais no estabelecimento do
espaço físico do terreiro, contribuições sinalizadas hoje
durante o padê, um ritual semiprivado realizado antes de
todas as cerimônias públicas, em homenagem ao orixá Exu e
aos homens mortais importantes nos primeiros tempos do
terreiro. Nesse ritual, Bamboxê é saudado como Essa
Obitikô.

Apesar de sua importância inegável no campo ritual, até


agora a vida de Bamboxê Obitikô fora desse âmbito
permanecia um mistério. 0 texto atual apresenta dados
históricos obtidos através de pesquisa documental,
cruzando-os com informações embutidas em narrativas orais.
0 resultado é um esboço preliminar da vida desse personagem
singular, com os primeiros detalhes concretos sobre seu
tempo no cativeiro, vida familiar e viagens a outras
cidades do Brasil e a África. A pesquisa também trouxe
informações preciosas sobre sua amizade com Joaquim Vieira
da Silva, Obá Sanyá, outra ilustre figura masculina da rede
religiosa da Casa Branca durante o século XIX. Através
desses dois homens, a Casa Branca se inseria numa rede
sociorreligiosa que ligava Salvador a Lagos e também se
estendia até as províncias de Pernambuco e do Rio de
Janeiro.

Primeiros anos no Brasil


Em uma das versões da memória oral sobre a fundação do
terreiro, afirma-se que o babalaô chegou à Bahia como
pessoa livre com Marcelina da Silva quando esta retornou de
uma viagem à África. Uma variação da história sustenta que
ele teria chegado como escravo, mas que foi Marcelina que
pagou sua carta de alforria. Ainda outra, juntando
elementos das duas primeiras, diz que Bamboxê foi
escravizado, que sua senhora foi Marcelina e que o babalaô
chegou da África com ela nessa condição. Apesar das
diferenças, percebe-se que em todas as versões, Marcelina
da Silva é representada como uma presença importante na
vida de Bamboxê Obitikô, desde os primeiros tempos deste na
Bahia.

A documentação histórica confirma que Bamboxê foi


escravizado no Brasil, mas revela que Marcelina não foi sua
senhora. 0 babalaô serviu a um português, Manoel Martins de
Andrade, e foi batizado com o nome Rodolfo, provavelmente
nos anos 1840. Andrade tinha uma pequena fazenda com
árvores frutíferas na vila litorânea de Jaguaripe e possuía
também propriedades na capital - um grande sobrado na rua
do Tijolo, número 18, onde morava com sua família, e duas
casas térreas na vizinhança, ambas na rua do Saboeiro.
Quando morreu, em 1871, deixou dez escravos. Encontrei
evidência de pelo menos treze outros que teve entre 1852 e
1861, entre eles dois Rodolfos, dos quais um foi o nosso
Bamboxê Obitíkô.

A documentação indica que Manoel Martins de Andrade era um


senhor intransigente e quando contrariado as consequências
podiam ser brutais. Em setembro de 1852, o português
recorreu à polícia para disciplinar Luis nagô, um jovem
escravo com 24 anos de idade.

Num pedido dirigido ao chefe de polícia, o senhor explicou


que seu escravo era desobediente e solicitou permissão para
puni-lo com 400 açoites, sem relatar os pormenores do caso.
A severidade do castigo foi excepcional, semelhante às
punições sofridas por alguns insurgentes da revolta dos
males. A polícia a considerou exagerada e autorizou
"apenas" 150 chibatadas.
Não encontrei outras referências às relações de Manoel
Martins de Andrade com seus cativos, mas com certeza a
violência do castigo de Luis - bem como outras punições que
não chegaram ao conhecimento da polícia - deve ter ficado
gravada na memória de todos os cativos que viviam sob o
domínio do português. Alguns anos depois desse incidente,
Bamboxê conseguiu sua liberdade. Em 22 de maio de 1857,
Andrade assinou uma carta conferindo a alforria "ao meu
escravo Rodolfo, africano, pelo preço de 1:750$000 réis,
que d'ele recebi ao assinar d'esta". O preço foi alto,
porque Bamboxê, com cerca de 40 anos de idade, ainda era
relativamente jovem, talvez mestre de algum ofício
rentável. Preocupado que seu senhor renegasse o acordo,
Bamboxê não perdeu tempo. No dia seguinte, registrou a
carta em um tabelião.

Apesar de Bamboxê não ter sido escravo de Marcelina, é


ainda possível que tivesse chegado com ela da África no
mesmo navio, como as narrativas orais sustentam. Nesse
caso, ela teria sido uma passageira livre e ele um dos
presos no porão. Os navios negreiros também transportavam
negros livres e libertos que viajavam por vontade própria.
Porém, é pouco provável que Marcelina o trouxesse nessa
condição. Ao longo de sua vida, foi senhora de mais de
trinta escravos, mas não encontrei documentos que
sugerissem que ela se envolvia no comércio negreiro.
Entretanto, independente da veracidade das memórias orais
de que Bamboxê chegou à Bahia no mesmo navio de Marcelina,
é evidente que ela realmente estava envolvida de alguma
forma na sua manumissão. No mesmo dia em que Bamboxê foi a
um cartório para registrar sua carta de liberdade,
Marcelina da Silva foi a outro tabelião, para registrar a
venda de um escravo africano. O comprador era a Manoel
Martins de Andrade, e o preço foi 850$000 réis - a metade
do valor que Bamboxê tinha acabado de pagar por sua
liberdade. O texto da escritura da venda não menciona a
relação de Marcelina com o liberto Rodolfo, mas,
considerando a data e o preço, parece claro que ela
pretendia compensar o português pela perda dos serviços de
Bamboxê, fornecendo-lhe outro cativo. Andrade saiu muito
bem do negócio: um novo escravo e 900$000 réis a mais no
bolso.

Provavelmente, a intervenção da ialorixá deixou Bamboxê com


uma dívida ética e financeira, que, talvez, o obrigasse a
servi-la durante um tempo para compensar o favor. Segundo o
sistema iorubá de iwofa, quando alguém tomava um
empréstimo, o devedor, ou um substituto arranjado por ele,
tinha que servir ao credor por um determinado número de
horas a cada semana. Não era escravidão: o serviço era
limitado ao valor dos juros e acabava quando o pagamento da
dívida terminava. Mas envolvia trabalho obrigatório
realizado por alguém de uma posição socioeconômica inferior
para outra pessoa mais privilegiada. Diante desse costume,
a versão da tradição oral que mantém que Bamboxê era
escravo de Marcelina pode ser interpretada como uma
lembrança alegórica do envolvimento da ialorixá na alforria
dele.

Uma vez liberto, Bamboxê acrescentou o nome completo do seu


ex-senhor ao seu nome de batismo, tornando-se Rodolfo
Manoel Martins de Andrade. Em pouquíssimo tempo passou a
ser senhor de escravos. Em setembro de 1858, apenas um ano
e meio após sua manumissão, comprou Pedro, um africano com
cerca de 50 anos de idade. Provavelmente devido à idade do
escravo, o preço foi baixo: 300$000 réis. Alguns anos
depois, em 1864, Bamboxê comprou Cypriano, também africano
e da mesma faixa etária, pelo mesmo preço. É possível que,
nessas compras de mão-de-obra "de segunda", Bamboxê
estivesse seguindo uma lógica que remetia ao universo
religioso-cultural iorubá. Um dos versos de Ifá relembra
que o primeiro cativo comprado pelo orixá Oxalá era
aleijado. Inicialmente Oxalá se arrependeu dessa compra,
mas acabou mudando de ideia, pois o escravo lhe trouxe
riqueza e boa sorte.

Apenas dois anos depois de comprar Cypriano, Bamboxê o


vendeu, talvez precisando de dinheiro líquido, pois tinha
acabado de comprar uma casa. Era localizada na estrada de
Pau Miúdo, uma pequena vila da periferia semirrural da
freguesia de Santo Antônio além do Carmo. A escritura,
datada de 28 de abril de 1866, observa que Bamboxê já
residia na freguesia, e outros documentos sugerem que tinha
fixado residência por lá desde 1861. A casa era humilde,
com paredes de taipa, coberta por telhas. Tinha dois
quartos, cozinha, sala e quintal. O terreno, foreiro à
Quinta dos Lázaros, um dos hospitais da cidade, tinha nove
braças de frente e trinta de fundo. A escritura nos informa
que o comprador era pai: a propriedade foi registrada no
nome de sua filha Júlia, de menor, "com a condição, porém,
de poder ele comprador usufruir a dita casa durante sua
vida". Esta Júlia, com certeza, era a filha conhecida na
memória oral por Maria Júlia, que na sua vida adulta teria
um filho, Felisberto, que também se tornará babalaô. A
primeira vista, o fato de colocar a casa no nome dela
parece indicar um carinho paternal especial. Mas há de
lembrar também que, para africanos libertos que tinham a
condição econômica de adquirir propriedade, era também uma
maneira de contornar uma lei provincial que proibia
africanos de comprar imóveis, implementada pelo governo
provincial após a insurreição de escravos de 1835.

Depois deste documento, há uma lacuna de seis anos na


documentação sobre o babalaô. 0 próximo registro que
encontrei em seu nome é de 16 de março de 1872, quando ele
pediu um passaporte para viajar a Pernambuco. Naquela
época, passaportes eram necessários não apenas para viagens
para fora do país, mas também para ir a outras províncias.
Para um negro obter permissão para viajar, tinha que
comprovar primeiro que não era escravo. No caso de negros
nascidos livres, a certidão de batismo servia, mas no caso
do ex-escravo, exigia-se a carta de alforria, original ou
cópia autenticada por um tabelião. Para viagens
subsequentes, bastava o passaporte vencido. Ao pedido de
passaporte de Bamboxê está anexada a carta de alforria
original: uma folha de papel desgastada, enrugada e um
pouco suja, de quinze anos dobrada no bolso, sinalizando
que era sua primeira saída da Bahia como liberto.

Obá Sanyá, "amigo inseparável" de Bamboxê

No dia 18 de março de 1872, a polícia recebeu outro pedido


de passaporte para Pernambuco, de um africano liberto
chamado Joaquim Vieira da Silva. Lembrado pela tradição
oral como amigo inseparável de Bamboxê, "Tio" Joaquim foi
também importante na história da Casa Branca. Outro devoto
de Xangô, seu nome ritual era Obá Sanyá, o que significa "o
rei se vinga de sofrimento". Hoje, é saudado durante a
cerimônia do padê, pelo nome Essa Oburô. Conta-se que Tio
Joaquim tinha um terreiro, próximo do então povoado do Rio
Vermelho.
Na carta de liberdade de Joaquim, consta que era
marinheiro. Seu senhor, Antônio Vieira da Silva, era um
imigrante português que acumulou vasta fortuna durante o
período ilegal do tráfico transa-tlântico de escravos.
Quando não estava no alto-mar ou em um dos portos da Costa
da África negociando a compra de cativos, Antônio Vieira da
Silva morava em Salvador, freguesia de São Pedro, num
luxuoso sobrado de dois andares localizado na rua Portão da
Piedade. Quando morreu, em agosto de 1866, Antônio Vieira
da Silva era proprietário de cerca de cinqüenta escravos,
mais de trinta imóveis e 200 contos em dinheiro e letras.
No seu testamento, Silva concedeu liberdade a mais de doze
escravos, entre eles Joaquim e vários outros marinheiros.
Nessa altura, Joaquim tinha 40 anos de idade.

Não está claro por quanto tempo Joaquim tinha sido cativo,
mas parece provável que tenha sido escravizado na década de
1840, talvez vendido ao seu senhor por um dos
atravessadores em Ouidah de quem Silva era cliente, como
Antônio e Ignácio Félix de Souza, filhos do poderoso
mercador de escravos Francisco Félix de Souza, o "Chachá".
Diante do envolvimento do seu senhor no tráfico em seres
humanos, podemos supor que Joaquim aprendeu o ofício de
marinheiro em navios negreiros.

Embora a importação de escravos africanos para o Brasil


tenha terminado efetivamente no final de 1850, a
documentação sugere que o senhor de Joaquim demorou a fazer
a transição para o comércio lícito. Com o fim do tráfico
para o Brasil, ainda restava o mercado cubano. Numa carta
ao seu sócio escrita em Ouidah em janeiro de 1854, Silva
comentava que "nesta data já V.M. deve estar embolsado do
dinheiro da Havana, "porque alguns aqui já o seu
receberam", sem dúvida se referindo aos negócios cubanos de
outros traficantes estabelecidos naquele porto. Contudo, os
rendimentos do tráfico negreiro eram cada vez mais
difíceis. No início dos anos de 1860 Antônio Vieira da
Silva passou a trabalhar no tráfico interprovincial,
levando escravos e outras mercadorias da Bahia para serem
vendidos no sul. Infelizmente, apesar da ampla documentação
sobre as atividades marítimas de Antônio Vieira da Silva,
não constam os nomes dos tripulantes dos seus navios, o que
nos deixa sem saber como o marinheiro Joaquim nagô figurava
nos negócios de seu senhor. Porém, diante das viagens aos
mais diversos portos do mundo Atlântico parece provável que
Joaquim tenha ido a alguns desses lugares, inclusive ao
continente do seu nascimento. Se não como tripulante nas
embarcações do próprio Antônio Vieira da Silva, quiçá
alugado ao mestre de outro navio.

Como já vimos a tradição oral do Candomblé diz que Joaquim


e Bamboxê eram grandes amigos. Exatamente quando se
conheceram não está claro, mas, em novembro de 1866,
"Joaquim Antônio Vieira da Silva" aparece num livro de
batismos da freguesia de Santo Antônio, como padrinho de
uma criança recém-nascida. A madrinha, Maria do Carmo,
morava no Pau Miúdo, perto de onde morava também Bamboxê.
Podemos especular, então, que se Joaquim não conhecia
Bamboxê antes deste período, poderiam ter-se conhecido por
aí.

Na tradição oral, Bamboxê Obitikô e Joaquim Vieira da Silva


são lembrados como atores importantes nos ritos de abertura
do Ilê Iyá Nassô, antigamente conhecido como o Engenho
Velho e hoje por outro apelido, a Casa Branca. Essa memória
é útil para tentar estabelecer uma parte ainda elusiva da
história do terreiro: a data da sua instalação no local
atual, no Engenho Velho da Federação. Na época de Iyá
Nassô, fundadora do terreiro, a comunidade religiosa
funcionava no centro da cidade de Salvador, mas esse
período, que talvez tenha começado no início dos anos 1820,
provavelmente se encerrou em 1837, quando a fundadora
juntou sua família, escravos e agregados - entre eles
Marcelina da Silva - e viajou para a África. Ainda segundo
a tradição oral, o terreiro se mudou algumas vezes antes de
instalar-se no Engenho Velho.

É pouco provável que Bamboxê realizasse os ritos da


inauguração do espaço sagrado nos tempos de Iyá Nassô, pois
naquele período era criança ainda. Joaquim, por sua parte,
nem sequer tinha nascido. Assim, deduzimos que a
participação dos dois se deu posteriormente, durante os
ritos realizados depois da mudança para o Engenho Velho, o
que deve ter ocorrido entre a volta de Marcelina à Bahia em
1839 e sua morte em 1885. Infelizmente, em toda a extensa
documentação histórica encontrada sobre Marcelina da Silva,
não consta nenhuma propriedade no Engenho Velho. A primeira
evidência da presença do terreiro no novo local vem apenas
em 1892, dois anos após a morte de Maria Júlia Figueiredo,
sucessora de Marcelina. Em junho daquele ano, a propriedade
foi arrematada para pagar dívidas tributárias. Nessa altura
já possuía edificações bem estruturadas.

Uma grande casa de taipa, coberta de telha, situada no


lugar denominado Engenho Velho, estrada do Rio Vermelho,
freguesia de Brotas, com 150 palmos de frente, 2 salas, 6
quartos, varanda ao lado, cozinha e mais cômodo que serve
de dispensa; uma pequena casa de taipa, coberta de telha,
da qual é rendeira Venância Maria dos Anjos, além desta
ainda existe uma pequena casa de palha que está ao serviço
da casa grande, todas edificadas em terreno arrendado e de
propriedade do Dr. José Carneiro de Campos.

A "grande casa de taipa" é obviamente o barracão, enquanto


a estrutura menor "a serviço da casa grande" talvez seja
uma casa de santo. De qualquer forma, a presença de tanta
infraestrutura sugere que a comunidade religiosa estivesse
funcionando no local há alguns anos. Mas quantos?

Se Bamboxê participou dos preceitos para inaugurar o novo


espaço no Engenho Velho, parece provável que tenha
acontecido em algum momento depois da sua liberdade em
1857, quando teria mais autonomia para permanecer durante
ritos prolongados. Lembremos também que o envolvimento de
Marcelina da Silva na alforria de Bamboxê pode tê-lo
deixado com uma dívida com ela. Se o babalaô a serviu como
iwofa, a sua assessoria nos ritos para estabelecer o novo
local do terreiro poderia ter sido um dos termos do acordo
entre os dois. Por outro lado, Joaquim Vieira da Silva
também é lembrado como participante na fundação do
terreiro. Já que era marinheiro durante o cativeiro, deve
ter passado muito tempo em viagens no alto-mar, o que teria
dificultado seu envolvimento em rituais religiosas em
Salvador. Sua alforria, obtida em 1866 por verba
testamental do seu senhor, estipulou que servisse aos
herdeiros durante três anos, e a carta de liberdade de
Joaquim só foi emitida em setembro de 1870.

Se aceitarmos que a mudança provavelmente aconteceu depois


de setembro de 1870, quando os dois já eram libertos,
poderíamos ainda arriscar que teria ocorrido antes de março
de 1872, quando foram juntos a Pernambuco. Porque essa
viagem marcou, para Joaquim, o início de uma longa estada
naquela província. Na vida do babalaô foi o começo de um
período de viagens itinerantes que duraria mais de vinte e
cinco anos, no qual atravessou o Atlântico várias vezes,
como o fizeram outros parentes seus, tema da próxima seção.

Uma rede transatlântica

Depois da viagem a Pernambuco, em 1872, a próxima notícia


de Bamboxê Obitikô e Joaquim Vieira da Silva vem de meados
de 1873. Nos registros de passaportes emitidos na Bahia
consta que, no dia 10 de junho, Rodolfo Manoel Martins de
Andrade, "preto liberto com 50 anos de idade, de nação
mina", pediu permissão para viajar à Costa da África,
levando na sua companhia seus três filhos: Júlia, que tinha
17 anos, Lucrécia, com 13, e o pequeno Theóphilo, que tinha
apenas sete. Essa viagem, provavelmente, foi a primeira
volta de Bamboxê ao continente do seu nascimento. Durante a
travessia marítima, ele também seria responsável por mais
dois crioulos livres, menores de idade: Cosme, com 13 anos,
e Rosalina, que, aos 18 anos, legalmente não tinha atingido
ainda a maioridade. Os dois adolescentes tinham feito uma
viagem de dois dias, de Recife, para se integrar ao grupo,
provavelmente juntos com Feliciana Maria da Conceição, uma
crioula de 24 anos que também chegara de Pernambuco para ir
à África. Sem dúvida, a presença desses três pernambucanos
no grupo estava relacionada à viagem recente de Bamboxê
àquela província.

O grupo teve que esperar dois meses para viajar. No dia 7


de agosto, Bamboxê, seus filhos e os pernambucanos deixaram
o Brasil a bordo do brigue Bemvindo. Dez dias depois,
Joaquim Vieira da Silva viajou para Recife de novo, talvez
levando as notícias de que a viagem transatlântica do grupo
já tinha começado. Seja qual for o motivo de sua ida,
Joaquim permaneceu na capital pernambucana durante muitos
anos, como veremos mais adiante.

Oito meses antes, outro africano liberto, Eduardo Américo


de Souza, também tinha deixado a Bahia para ir à África.
Eduardo Américo também figura na memória oral, pelo seu
casamento com Júlia, filha de Bamboxê, com quem teve um
filho, o já aludido babalâo Felisberto Sowzer. Na sua
viagem, Eduardo Américo também levou algumas crianças para
Lagos. Uma foi Sophia, uma adolescente de 15 anos, cuja
mãe, Esperança Ritta Pereira, era africana liberta e morava
na freguesia da Rua do Passo. Outra integrante do grupo de
Eduardo Américo foi um menina crioula de doze anos de
idade, chamada Querina. Diferente de Sophia, que nasceu
livre, Querina tinha passado toda sua vida até então no
cativeiro. Quando Querina nasceu, sua mãe, a africana
liberta Justa, era escrava de Marcelina da Silva, sucessora
de Iyá Nassô na liderança da Casa Branca. Em maio de 1872,
Justa, já liberta, pagou 900$000 réis a sua senhora pela
liberdade de Querina, provavelmente já pensando na viagem à
África então sendo organizado por Bamboxê e Eduardo
Américo. Para poder enviar a menina com o grupo, tinha que
resgatá-la primeiro do cativeiro. Pelos vínculos de Justa e
sua filha com a Casa Branca, percebe-se que Eduardo Américo
provavelmente também frequentava a comunidade religiosa.

Como Bamboxê, Eduardo foi descrito como "mina" no seu


passaporte. No cativeiro, serviu ao advogado Américo de
Souza Gomes, que residia na freguesia de Santa Anna e
ocupou vários cargos importantes no governo provincial. Não
é claro quando Eduardo se tornou escravo desse senhor, mas
comprou sua liberdade em 15 de dezembro de 1860, pagando
1:550$000 réis. Depois disso, os próximos registros em seu
nome são de 1865, quando Eduardo também passou a ser
proprietário de escravos, comprando duas mulheres
africanas. Três anos depois, em abril de 1868, Eduardo foi
um dos vinte africanos e crioulos que pediram passaportes
para a Costa da África. Não há indícios de que embarcação o
grupo pretendia pegar, mas logo depois de receber o
passaporte, Eduardo vendeu uma de suas escravas,
provavelmente para custear as despesas da viagem. Ele tinha
então 35 anos.

Dessa vez, Eduardo Américo permaneceu na África por quatro


anos, provavelmente em Lagos, que tinha sido ocupada pelos
ingleses em dezembro de 1851, posteriormente atraindo cada
vez mais africanos libertos do Brasil. Quando Eduardo
voltou à Bahia, em 19 de julho de 1872, já portava um
passaporte inglês. Poucas semanas depois, viajou para
Pernambuco aonde, como vimos, Bamboxê e Joaquim tinham ido
há quatro meses. Quando Eduardo retornou novamente à Bahia,
em 12 de setembro do mesmo ano, trouxe três crianças que
também pretendia levar a Lagos: dois meninos chamados
Carlos, um de oito anos de idade e o outro de dez, e uma
menina, Francisca, também com dez anos.

Obviamente, as idas paralelas de Bamboxê e seu futuro genro


a África, cada um levando um grupo de crianças, algumas das
quais eram pernambucanas, eram ligadas. Seguramente,
durante os quatro anos que já tinha passado em Lagos,
Eduardo adquiriu contatos que foram úteis na sua volta
posterior com as crianças. Esses contatos possivelmente
forneceram hospedagem e outras formas de assistência aos
recém-chegados. Nesse aspecto, Bamboxê talvez dependesse
dele, pois o babalaô tinha passado longos anos no Brasil
sem retorno ao continente negro. Mas Bamboxê, por sua
parte, deve ter trazido à parceria contatos da sua rede
sócio religiosa no Brasil. Quando Bamboxê e Joaquim
viajaram a Pernambuco, em março de 1872, Eduardo ainda
estava na África. Não é claro se a ida de Eduardo àquela
província, alguns meses depois, foi ao encontro dos outros
dois, mas, com certeza, Eduardo dependia do trabalho de
organização e divulgação já feito no Recife por Bamboxê e
Joaquim. Também não é claro como estes dois se comunicavam
com Eduardo antes de sua volta da África. Provavelmente,
recorreram a outros viajantes do seu círculo social para
levar mensagens verbais ou cartas redigidas por outrem.

De qualquer forma, a superação das dificuldades impostas


pela separação geográfica requereu muita articulação, o que
sugere que os três homens participavam de uma rede de
solidariedade sócio religiosa baseada na Bahia, que ajudava
libertos em outras partes do Brasil a retomar contato com a
África, para voltar a viver por lá e, talvez, até
reconstruir laços de família e amizade despedaçados pela
escravidão. Já que Bamboxê, Joaquim e, provavelmente,
Eduardo eram ligados à Casa Branca, podemos supor que
Marcelina da Silva, que quarenta anos antes também tinha
feito uma viagem ao continente africano, teria consciência
dessa rede e oferecia seu apoio, tácito ou ativo. Na sua
ida a África em 1837, Marcelina também levou sua filha,
Maria Magdalena, então com cerca de oito anos de idade. A
menina permaneceu na África por mais vinte anos,
provavelmente com Iyá Nassô.

Nos anos que se seguiram a ocupação de Lagos pelos


britânicos, azeite de dendê, então muito usado como
lubrificante industrial e combustível, substituiu escravos
como o mais importante produto de exportação da cidade. A
subsequente prosperidade econômica atraiu libertos do
Brasil, que foram acolhidos pelo governo colonial. 53
Alguns, como Eduardo Américo de Souza, tinham conquistado a
liberdade há relativamente pouco tempo quando atravessaram
o mar rumo a Onim, como a cidade era então conhecida no
Brasil. Outros tinham ficado na Bahia, como libertos por
décadas, tomando a decisão de voltar só alguns anos após a
instalação dos ingleses. Os imigrantes foram aproveitar as
oportunidades de trabalho que estavam surgindo naquela
cidade para pedreiros, marceneiros, sapateiros, etc. As
famílias que enviaram seus filhos masculinos, com Eduardo
Américo e Bamboxê, no início dos anos de 1870,
provavelmente queriam que se tornassem aprendizes de um
desses ofícios lucrativos. Talvez também pensassem nos
terrenos sendo distribuídos a imigrantes através de um
programa iniciado pelo obá Dosomu. Havia também a
possibilidade de se matricular numa escola, como no caso do
conhecido babalaô Martiniano do Bonfim, levado a Lagos por
seu pai, Eliseu do Bonfim, em 1875. Martiniano estudou numa
escola missionária até a quarta série, tornando-se letrado
em iorubá e inglês. Ficou em Lagos por onze anos, e durante
esse período trabalhou como pedreiro, inclusive na
construção da catedral católica da cidade, a Holy Cross.
Desde sua infância, Martiniano era vinculado à Casa Branca,
através do seu pai, que era compadre de Marcelina da Silva
e amigo de Bamboxê Obitikô, e parece provável que no seu
tempo em Lagos, Martiniano estava em contato com o babalaô
e seus filhos. Possivelmente, fosse com Bamboxê que
Martiniano foi iniciado no culto de lfá.

Uma vez em Lagos, Bamboxê Obitikô, Eduardo Américo de Souza


e seus grupos se integraram na ainda pequena comunidade de
imigrantes brasileiros, ou aguda, como são conhecidos em
iorubá, que já incluía cerca de mil pessoas, numa cidade
cuja população total não ultrapassava de 25,000. Como bem
aponta o antropólogo Milton Guran, a construção da
identidade étnica dos aguda envolveu uma complexa mistura
de elementos culturais africanos e brasileiros, com o
catolicismo formando uma pedra fundamental. Nesse sentido,
Bamboxê e Eduardo, apesar de permanecerem culturalmente
iorubá na sua devoção ao culto aos orixás, também
mantiveram um envolvimento seletivo com o catolicismo. Após
sua chegada em Lagos, ambos tiveram vários filhos ao longo
dos anos e os levavam para batizar. Contudo, na
constituição de suas famílias, seguiram as normas da
cultura iorubá. Seus filhos foram havidos de diversas
mulheres, não de relações subsequentes, mas concorrentes.
Não há dúvida: eram polígamos.

Nesse período, havia certa precariedade nas condições


básicas do cotidiano de Lagos. Guerras civis tinham se
espalhado pelo interior do território iorubá, o que tornava
perigoso viajar na região. Mesmo dentro da cidade, a vida
também tinha seus perigos. Incêndios era um problema
recorrente, devido ao uso de palha nos tetos das casas. Em
1873, no intervalo entre as chegadas dos grupos de Eduardo
e de Bamboxê, um grande incêndio destruiu quinhentas casas
no bairro brasileiro. Esse cenário se repetiu várias vezes
até o final do século. Epidemias de gripe, cólera, febre
amarela e malária também eram comuns. Em 1895, a
preocupação sobre o número de pessoas que morriam em
epidemias motivou uma grande reunião, envolvendo o príncipe
iorubá e todos os chefes e mais velhos locais. Entre as
possíveis causas da epidemia, consideraram que a feitiçaria
fosse a mais provável, e a reunião terminou com uma ordem
aos chefes dos adeptos de "Shopono" (Obaluaiyê) que
identificassem e punissem os responsáveis entre os devotos
desse orixá.

Por outro lado, apesar desses perigos, também havia


vantagens em termos da liberdade de religião. Os cultos aos
orixás ainda predominavam na colônia, apesar dos esforços
constantes de grupos missionários, e podia cultuar as
divindades tradicionais publicamente. Em abril de 1875, por
exemplo, realizou-se os ritos fúnebres de axexê, em
homenagem aos 28 anos da morte da mãe do rei Dosomu, com
uma grande procissão de 400 egunguns (Babá Egun) que
circularam publicamente pelas ruas.

Num texto pioneiro sobre os retornados do Brasil em Lagos


durante o século XIX, A.B. Laotan faz uma relação dos
antigos moradores, na qual o babalaô aparece identificado
como "Papae Bamgbósé No. 2 (Senhor Martins)". Laotan
assinala que, nesse período, havia outro imigrante
brasileiro também chamado Bamgbósé. Nos anos 1850, quando o
nosso Bamboxê Obitikô era ainda escravo, o outro já residia
em Lagos, mas foi expulso pelos ingleses, acusado de
envolver-se numa conspiração contra o poder colonial.
Alguns anos depois, foi permitido retornar. Tudo indica que
foi esse primeiro Bamgbósé, que Laotan chama de "Papae
Bamgbósé No. 1", que deu nome a rua Bamgbósé, pois a rua
foi batizada por volta de 1868, cinco anos antes do retorno
do babalaô Bamboxê Obitikô à África. Uma vez em Lagos, o
babalaô, seja por coincidência ou por desígnio, fixou
residência naquela rua, hoje em dia uma das vias principais
do bairro brasileiro. Sua casa existe até hoje e lá ainda
moram descendentes seus. Os orixás cultuados pela família
são Exu, Xangô, Ogum e Oxum, e também cultua-se os egunguns
dos seus ancestrais, entre eles Labo Ajankoro Dugbe Dugbe,
o patriarca da família que veio do Brasil - ou seja,
Bamboxê Obitikô.

Apenas três meses depois de sua chegada em Lagos, Bamboxê


Obitikô se tornou pai de novo. A menina, Justina Maria, foi
a primeira de sete filhos nascidos em solo africano ao
longo de duas décadas (Tabela 1). A vida dela começou no
Brasil e a menina atravessou o Atlântico ainda no ventre da
mãe. Nos registros católicos do seu batismo, realizldo em 1
de dezembro de 1873, o nome da mãe aparece como "Firmina"
da Conceição. Desconfio, porém, que o escrivão tenha erra
Io e o prenome da mãe, na verdade, era Feliciana - a
crioula liberta que veio de Pernambuco para viajar a África
com Bamboxê. Se for o caso, quando ela foi a policia baiana
com Bamboxê em junho daquele ano, para solicitar seu
passaporte à África, já tinha cerca de 4 meses de gravidez.
Bamboxê também casou com a outra pernambucana do grupo que
atravessou o mar no seu grupo, Rosalina. No final de 1875,
nasceu Andreas, filho do babalaô com ela. Quando foi
batizado, em janeiro de 1876, o padrinho foi Eduardo
Américo de Souza. No mesmo dia, Bamboxê batizou outro
filho, Balbino, nascido há apenas quinze dias, havido com
ainda outra mulher, Philomena da Conceição.

Os filhos brasileiros do babalaô também constituíram


famílias em Lagos. Como foi assinalado acima, a mais velha,
Maria Júlia, casou com Eduardo Américo de Souza.
Aparentemente, o matrimônio foi realizado pelos ritos
iorubás, pois os nomes de Maria Júlia e seu marido não
constam nos registros de casamentos católicos realizados
nessa época. Podemos supor, entretanto, que a união data
1876, pois seu filho, Felisberto, nasceu em julho de 1877.
Foi batizado aos oito meses de idade, em 10 de
fevereiro de 1878, com Antônio Alexander e Francisca
Antonia de Castro como padrinhos. A julgar pelos nomes
lusófonos, faziam parte da comunidade de imigrantes
"brasileiros" em Lagos. Segundo a tradição oral, Júlia teve
outro filho com Eduardo, mas não encontrei registro.
Contudo, Eduardo Américo de Souza teve mais doze filhos,
havidos de cinco outras mulheres. Uma dessas outras esposas
foi Querina, a ex-escrava de Marcelina da Silva que foi a
Lagos com ele, no final de 1872. Provavelmente, as futuras
co-esposas Maria Júlia e Querina se conheciam desde a
infância, na casa da ialorixá da Casa Branca.

Tudo indica que Felisberto foi o primeiro neto do babalaô.


Logo depois do batizado do menino, Bamboxê voltou à Bahia,
deixando sua família estendida em Lagos. Chegou a Salvador
em 26 de setembro de 1878, no patacho Garibaldi, junto com
21 outros passageiros, entre eles Eliseu do Bonfim, o pai
de Martiniano do Bonfim, que tinha passado um tempo em
Lagos por negócios. O babalaô ficou no Brasil por apenas um
ano, embarcando de novo para Lagos no dia 16 de setembro de
1879, no patacho Hester.66 No início de 1882, nasceu outra
filha sua em Lagos, Josepha, que foi batizada com menos de
uma semana de nascida. Consta no registro que a mãe se
chamava Orisabukola. A ausência de um nome católico indica
que ela ainda não tinha passado pelos ritos de batismo
católico, pelo qual deduzimos que, diferente das outras
mulheres do babalaô, nunca morou no Brasil.

Depois do batismo de Josepha, Bamboxê some dos registros de


ambos os lados do mar por alguns anos. Reencontramos ele no
Brasil em 8 de fevereiro de 1886, quando seu nome consta
numa lista de passageiros chegando a Salvador do Recife.
Marcelina da Silva tinha falecido em junho de 1885, o que
talvez motivasse a volta do babalaô à Bahia, deixando sua
mulher Feliciana grávida em Lagos.68 Não é claro porque
Bamboxê foi a Pernambuco antes de vir a Salvador. Talvez
não encontrasse um navio que embarcasse para Bahia e foi a
Pernambuco por isso, onde pegou outro, rumo à capital
baiana. De qualquer maneira, pouco mais de um mês depois de
sua chegada à Salvador, o babalaô viajou para o Rio de
Janeiro, retornando à capital baiana apenas em janeiro do
ano seguinte.

Uma terceira ida a Lagos, que durou vários anos, começou em


20 de outubro de 1887. 0 ano seguinte, quando a abolição da
escravidão se concretizou no Brasil, em 13 de maio, Bamboxê
estava ainda em Lagos e, provavelmente, participou das
grandes festividades comemorativas que ocorreram no bairro
brasileiro da cidade alguns meses depois, lembrado como o
“Jubilee Àguda”. Em 1890, Bamboxê Obitikô tornou-se avô de
novo, com o nascimento de João, primogênito do seu filho
Theóphilo. O menino foi batizado em 27 de junho de 1890,
com o avô paterno como padrinho. Em 1895, nasceu outro
filho de Theóphilo e, no mesmo ano, o próprio Bamboxê, já
com cerca de 70 anos de idade, também voltou a ser pai, com
o nascimento de outra filha de Orisabukula, Rosa. "A menina
era ainda muito pequena, de colo, quando seu pai voltou ao
Brasil, pois em 13 de maio de 1896, Rodolpho Martins chegou
em Salvador de novo, vindo, mais uma vez, via Recife.
Certamente, durante sua estada em Pernambuco, reencontrou
com seu velho amigo Obá Sanyá, que ainda morava lá, já
casado e com filhos, como veremos.

Não encontrei registros de outras viagens de Bamboxê, mas


aparentemente regressou a Lagos logo em seguida, pois em
agosto de 1896, os correios de Lagos anunciaram a chegada
de uma carta, talvez do Brasil, endereçada a "R. Manoel
Martin". Em 27 de junho de 1897, ainda em Lagos, Bamboxê
Obitikô batizou sua última filha, Marcolina. No dia do
batismo, faltavam dois dias para o décimo primeiro
aniversário da morte de Marcelina da Silva, o que leva a
pensar que a semelhança entre o nome de batismo da menina e
o da falecida ialorixá não seja mera coincidência. 0 último
registro que diz respeito ao babalaô vem alguns meses
depois, quando outra carta endereçada a ele chegou aos
correios de Lagos. Sabe-se, entretanto, que Bamboxê Obitikô
ainda voltou ao Brasil, porque faleceu em Salvador; segundo
a memória familiar, por volta de 1907. Seu túmulo se
encontra na capela mor da Igreja do Rosário dos Pretos do
Pelourinho, um dos poucos posteriores à virada do século
XX, o que sinaliza o enorme prestígio que o velho babalaô
tinha entre a população negra da Bahia.

Tudo indica que dois dos filhos que Bamboxê teve no Brasil,
Lucrécia e Theóphilo, permaneceram em Lagos pelo resto de
suas vidas. Mas Maria Júlia puxou seu pai e vivia entre os
dois continentes. Não acompanhava o babalaô nas suas
viagens marítimas, mas ao menos uma vez, fez-se acompanhar
por sua co-esposa, Querina. Saíram de Lagos em fevereiro de
1896, no patacho Alliança, com mais de cinquenta
passageiros, chegando ao porto da Bahia no dia 5 de abril.
Querina levou duas das filhas que teve com Eduardo Américo:
Joanna, já com dezenove anos, e Theodora, que tinha
catorze. Maria Júlia, contudo, viajou sem seu filho
Felisberto, talvez o tenha deixando em Lagos. Já tinha
levado ele à Bahia numa viagem anterior, em 1886, quando
mãe e filho chegaram no dia 20 de setembro, a bordo da
escuna Zizi. Não é claro se a viagem de 1896 fosse a última
vez que Maria Júlia Martins de Andrade atravessou o oceano,
mas se sabe que, apesar de viver em Lagos por muitos anos,
ela terminou sua vida na Bahia. Quando morreu, em 18 de
fevereiro de 1925, já estava estabelecida em Salvador há
décadas.

A neta caçula de Maria Júlia, D. Irene Sowzer Santos, hoje


com noventa anos de idade, conta que seus avôs atravessaram
o Atlântico muitas vezes, nem sempre junto. Os registros
das viagens de Maria Júlia em 1886 e 1896 confirmam que ela
viajava sem o marido, e há também indícios de uma viagem
feita por Eduardo Américo à Bahia em 1881, sem suas
esposas. Salvador foi sua base, mas passou a maior parte do
tempo viajando a outras províncias: Rio de Janeiro em
junho, Pernambuco em agosto e Maceió em outubro. Depois
disso, há uma lacuna de quase um ano na documentação, até
20 de junho de 1882, quando o encontramos saindo da Bahia
para Lagos, a bordo do palhabote Africano. Para Eduardo
Américo, essa viagem de volta à África foi a terceira e,
provavelmente, a última. Não há evidência que sugere outras
idas ao Brasil; pelo contrário, entre 1883 e 1887, nasceram
cinco filhos seus, todos em Lagos. Em algum momento,
Eduardo passou a trabalhar a terra. Quando morreu, em
Lagos, em 14 de março de 1897, foi descrito como
agricultor, com uma roça na rua Tokonboh, próxima à rua
Bangbose.

Viagens interprovinciais

As narrativas orais do povo-de-santo afirmam que Bamboxê


Obitikô e Obá Sanyá viajavam ao Rio de Janeiro e a
Pernambuco para assessorar comunidades religiosas na
realização de rituais importantes. Conta-se que Bamboxê
esteve envolvido na fundação do terreiro mais antigo de
Recife, o Ilê Obagunté, ou o Sítio de Pai Adão, como é mais
conhecido. A documentação apoia essas memórias, revelando
que Bamboxê fez pelo menos quatro viagens a Pernambuco.
Contudo, a tradição oral pernambucana coloca a fundação do
terreiro em 1875, período em que Bamboxê estava na África.
É bem possível que ele tenha participado de algum tipo de
ritual preliminar durante sua visita a Recife em 1872,
quando ele e Joaquim estavam organizando a primeira viagem
a Lagos. Também pode ser que o babalaô estivesse presente
em cerimônias que aconteceram durante suas viagens
posteriores a essa cidade. Esta rede sócio religiosa entre
Bahia e Pernambuco, da qual Bamboxê e Joaquim provavelmente
foram os arquitetos principais, persistiu até as primeiras
décadas do século XX, via Martiniano do Bonfim, que
mantinha uma forte amizade com Pai Adão, o segundo líder do
terreiro. Este, por sua vez, teria feito uma viagem a Lagos
em algum momento também, mas não é claro quando.

Uma neta de Joaquim Vieira da Silva, Cantulina Pacheco, que


faleceu em 2004 com 104 anos de idade, contava que seu avô
"era de Pernambuco" - isto é, lá morava durante o cativeiro
- e casou-se com "uma crioula de Recife", vindo à Bahia bem
depois, por causa de sua amizade com Bamboxê. Como já
vimos, entretanto, o senhor de Joaquim dividia seu tempo
entre a Bahia e Ouidah, e a primeira vez que Obá Sanyá saiu
da Bahia como liberto foi em 1872.

Por outro lado, seu trabalho de marinheiro o levava aos


diversos portos e é provável que a capital pernambucana
fosse um deles. Seja como for, os registros eclesiásticos
da Freguesia de São José do Recife revelam que Joaquim
Vieira da Silva, africano liberto, se casou na mesma
freguesia com a crioula Isadora Maria da Conceição em 31 de
janeiro de 1880. Consta que os nubentes eram residentes da
freguesia e que Isadora era natural da Bahia. Em pouco
tempo, foram chegando os filhos: Felismina, em 1881,
Francisco, em 1882, Alfredo, em 1884, e, depois de um
intervalo de nove anos, Raymundo, nascido em 1893.

Quando Obá Sanyá se casou, já morava em Pernambuco há


vários anos. Em agosto de 1877, fez parte de um grupo de
africanos que enviaram um abaixo assinado ao jornal Diário
de Pernambuco, reivindicando o direito de livremente
praticar sua religião. Este grau de integração nas
articulações políticas da comunidade africana local sugere
que Joaquim já residia na cidade há tempo, e há indícios de
que continuou lá por volta de duas décadas. Depois de sua
saída da Bahia rumo a Recife em agosto de 1873, não
encontrei mais sugestões de sua presença em Salvador até
1896, quando, no dia 14 de setembro, chegou a bordo do
vapor Brazil. O navio começou sua viagem em Manaus, fazendo
várias escalas ao longo do litoral, e Joaquim embarcou do
Recife. Como já vimos, Cantulina sustentava que Bamboxê
influenciou a decisão de Obá Sanyá de se mudar para a
Bahia, e o babalaô esteve em Pernambuco na primeira metade
de 1896, poucos meses antes da vinda de Joaquim a Salvador,
o que certamente apoia essa memória.

Seja o que for, em 1900 encontramos evidência definitiva


que Joaquim e sua esposa já moravam na capital baiana. Na
escritura da compra de uma grande propriedade com sete
casas e um terreno baldio no bairro de Nazaré, o casal foi
descrito como "proprietários, domiciliados nesta capital".
As casas foram localizadas na Ladeira da Fonte das Pedras,
não muito longe do distrito de Matatu, onde Bamboxê já
morava. Em 1902, quando Joaquim morreu, entre seus bens
também havia outra propriedade imóvel, uma pequena roça no
bairro de Santa Cruz, próxima ao povoado do Rio Vermelho.

As várias versões da tradição oral concordam que, em 1886


Bamboxê Obitikô e Obá Sanyá participaram na fundação de um
dos terreiros mais antigos do Rio de Janeiro, o Ilê Axé Opô
Afonjá. Uma versão sustenta que também estava envolvida uma
jovem adepta de Xangô chamada Eugenia Anna dos Santos,
crioula de pais africanos e filha de santo de Bamboxê.
Outra versão conta que apenas Bamboxê e Joaquim realizaram
os rituais da fundação do templo, mas que Aninha, como era
apelidada, veio ao Rio posteriormente e daí passou a
liderar o terreiro. A documentação apoia a ideia de que
Bamboxê estava presente durante a fundação do templo. O
babalaô viajou pelo menos duas vezes ao Rio de Janeiro,
passando dois meses em 1879 e quase um ano em 1886, como
vimos acima. Mas Eugenia Anna dos Santos, que residia na
Bahia, não aparece nas listas de passageiros dessas
viagens, nem em qualquer outra durante a década de 1880, um
ponto a favor da segunda versão da história. 87 Por outro
lado, Joaquim Vieira da Silva, presente em ambas as
versões, também não consta nas listas de passageiros de
Salvador. Mas, como morava em Recife nessa altura, ele
provavelmente teria começado sua viagem daquela cidade.
Qualquer que seja a verdade sobre a participação de Bamboxê
Obitikô e Obá Sanyá na fundação do Ilê Axé Opô Afonjá no
Rio de Janeiro, ambos são atores importantes nas narrativas
orais de eventos que antecederam a fundação do terreiro do
mesmo nome na Bahia. É dito que, depois da morte de
Marcelina da Silva em 1885 surgiram divergências acirradas
na Casa Branca sobre a escolha da próxima ialorixá, e que
voltaram à cena em 1890, com a morte da sua sucessora,
Maria Júlia Figueiredo. Segundo Edison Carneiro, essas
rivalidades reapareceram novamente depois da morte de
Ursulina. Nessa altura, segundo Carneiro, Joaquim teria
sido candidato para a sucessão. Derrotado, Joaquim teria se
afastado do Engenho Velho, formando sua própria comunidade
religiosa - segundo alguns, no bairro de Santa Cruz, o que
está de perfeito acordo com a localização da "roça"
mencionada no inventário citado acima.

Porém, os documentos mostram que a fundação do terreiro de


Obá Sanyá não podia ter acontecido depois da morte de Iyá
Ursulina, porque ela faleceu por volta de 1920, mais de
quinze anos depois de Joaquim. Se realmente houve algum
racha envolvendo ele, só podia ter sido a que surgiu após a
morte de Maria Júlia de Figueiredo em 1890. Seja o que for
as várias versões concordam que Bamboxê e Aninha se aliaram
ao terreiro de Joaquim em função das dissidências da Casa
Branca. Obá Sanyá faleceu em 1902, seguido alguns anos
depois por Bamboxê. Em 19 de janeiro de 1909, Aninha
comprou um grande terreno no distrito rural de São Gonçalo,
inaugurando um terreiro no ano seguinte. 0 nome escolhido
foi Ilê Axé Opô Áfonjá, em homenagem à qualidade do seu
Xangô, Afonjá.

Na formação de sua comunidade religiosa, certamente seus


vínculos com Joaquim e Bamboxê ajudaram Aninha a atrair
filhos de santo. No terreiro de Joaquim, Aninha já iniciava
iaôs. Depois da morte de Bamboxê, uma das primeiras filhas
de Aninha foi a bisneta de Marcelina da Silva, Maria
Bibiana do Espírito Santo, hoje mais conhecida pelo apelido
de Senhora. Senhora já tinha uma relação de amizade com a
ialorixá há anos. Nascida em 1890, ficou órfã da mãe,
Claudiana, neta de Marcelina da Silva, em 1900, e do pai,
Félix José do Espírito Santo, dois anos depois. As duas
tias maternas de Senhora faleceram em 1904 e 1906. Nesse
período difícil, a futura fundadora do OpôAfonjá ajudou
Senhora e seus quatro irmãos com a organização dos funerais
católicos e, talvez, também dos ritos de axêxê. Quando, em
1938, Aninha veio a falecer, Senhora era iakeke-rê (mãe
pequena) do Opô Afonjá da Bahia, tornando-se ialorixá do
terreiro em 1942.

Além dos descendentes de Marcelina da Silva, outros membros


da ICasa Branca também deixaram o terreiro para se integrar
à nova comunidade liderada por Aninha, entre eles o babalaô
Martiniano no Bonfim e um jovem ogã chamado Miguel Santana.
Alguns anos mais adiante, em 1937, Cantulina Pacheco, a
neta de Joaquim Vieira da Silva mencionada acima, seria uma
das últimas iaôs de Aninha, iniciada poucos meses antes da
morte da ialorixá.

Outro fator que contribuiu para o crescente prestígio do


Ilê Axé Opô Afonjá nos seus primeiros anos foi o vínculo
entre Aninha e a família Pimentel, da vila de Itaparica,
localizada na ilha do mesmo nome na Baía de Todos os
Santos. O patriarca da família, um liberto nagô consagrado
a Xangô Aganju, Marcos Theodoro Pimentel, era adepto Ido
culto iorubá aos ancestrais, no Brasil conhecido como Babá
Egun. Marcos Theodoro tinha dois filhos, Marcos Cardoso
Pimentel e José Theodoro Pimentel. Em maio de 1881, o jovem
Marcos via ou a Lagos com seu pai, retornando em novembro
do mesmo ano. É dito que trouxeram da África um assento de
Babá Olukotun, legendário ancestral dos povos iorubás,
cultuado até hoje nos terreiros de Babá Egun da Bahia. 0
velho Marcos morreu poucos anos depois. Na primeira década
do século XX, após a morte de Bamboxê, José Theodoro
Pimentel passou a assessorar Aninha, assumindo o cargo de
Bale Xangô, chefe da casa de Xangô. Em 1921, sua filha
carnal, Ondina Valéria Pimentel, foi iniciada por Aninha e,
quatro décadas depois, em 1968, foi escolhida como
sucessora de Mãe Senhora na liderança do terreiro.

Não é certo como Aninha conheceu essa família, que morava


relativamente longe de Salvador. Parece provável, no
entanto, que o velho Marcos e seu filho homônimo, durante
sua estada em Lagos, tenham feito parte da rede sócio
religiosa de devotos de Xangô no bairro brasileiro. Nesse
âmbito, poderiam ter conhecido Bamboxê Obitikô e Martiniano
do Bonfim, e, de volta ao Brasil, através deles, Aninha. De
todo modo, é evidente que o apoio de famílias tão
respeitadas por seu zelo religioso e também por seus
vínculos com a África ajudou a impulsionar o terreiro de
Aninha para uma posição de proeminência no universo
religioso afro-brasileiro, lugar que ocupa até hoje em dia.

Conclusão

Os dados históricos apresentados neste texto, interpretados


sob a luz de narrativas orais, fornecem informações
preciosas sobre as trajetórias de vida de dois ilustres
personagens masculinas na história das religiões afro-
brasileiras. Tanto Bamboxê Obitikô quanto seu amigo
"inseparável" Obá Sanyá eram atores importantes na
organização de comunidades religiosas em diversos estados
brasileiros e nas articulações desses terreiros entre si.
Como Júlio Braga aponta, no seu texto incluído no presente
volume, o grande interesse acadêmico nas contribuições das
mulheres acabou obscurecendo a participação real dos homens
no candomblé. Não é que as mulheres não tenham realizado
papéis importantes, mas, como Braga e também J. Lorand
Matory defendam, a cidade é longe de ser apenas delas,
contrário à tese defendida por Ruth Landes no seu trabalho
clássico sobre o candomblé da Bahia. Os novos dados sobre a
vida de Bamboxê Obitikô aqui apresentados também demonstram
claramente que os chamados "mitos" de viagens de volta à
África são de dimensões míticas apenas no sentido de sua
imensa importância para o imaginário afro-brasileiro, mas
não são mitos no sentido de serem invenções. Alem de terem
acontecido de verdade, as viagens foram muitos e
frequentes, um dos grandes legados da herança africana no
Brasil.