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I N S I G H T INTELIGÊNCIA

Pedro Hermílio Villas Bôas Castelo Branco
jurista e cientista político

C
arl Schmitt (1888-1985) e Francisco Campos relevância de se retornar a seus escritos. O julgamento do
(1891-1968) são juristas controvertidos, cujo pensamento político e jurídico de tais autores, além de ei-
pensamento autoritário os alça à reputação vado de juízos de valores, é sumário, ideológico, isento de
de autores malditos. Defensores de um Esta- uma postura sine et studio. Essa perspectiva conduz os es-
do forte , da integração das massas pelo regime político
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tudiosos a proferir sentenças condenatórias, descontextu-
do Estado, da concentração de poder pelo executivo, suas alizadas e os condena, bem como sua obra, ao ostracismo.
ideias suscitam controvérsias e pontos de vista conflitan- A título de exemplo dessas opiniões, para alguns auto-
tes entre seus intérpretes. Seus escritos, indiscutivelmente res, o Estado nacional, de Campos, seria a versão brasilei-
antiliberais e autoritários, são comumente associados ao ra do Mein Kampf (Minha luta), de Hitler (Loewenstein,
totalitarismo, fascismo e nazismo (Arrais, 1938, p. 25). A 1942, p. 126), enquanto o O conceito do político, de Sch-
leitura de seus trabalhos costuma provocar a aversão da mitt, é, por vezes, reduzido a uma mera doutrina belicista
maioria de seus estudiosos e ateia fogo ao debate sobre a ou militarista (Paul Noack, 1996, p. 115).

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O contexto nota-se tratar de uma apropriação de caráter meramente histórico das três primeiras décadas do século XX. Não há recepção no qualidade de professor ou de jurista. 1978. pois a compreensão das como professores universitários. outra questão pertinente ao pro- tunista . um aporte criativo. Enquanto Schmitt é considerado por muitos um opor. sob alguns aspectos. na sempre há mediação. recepção jamais ocorre de forma passiva. A tes do fluxo de eventos das primeiras décadas do século despeito de o situacionismo do jurista brasileiro se aproxi. isso anos da vida brasileira. é possível perceber pontos de con. política social de diferentes países. p. ou seja. em outras partes do glo- tica reside em servir e criar a fundamentação jurídica da bo e impõem um conjunto de temas e problemas à vida ordem política dominante. Além disso. do oportunismo de Schmitt. XX que afetam e entrelaçam diferentes países podem ser mar. em 1910. ideias de Schmitt a fim de desenvolver um fundamento tigo. 35). 1978. na transita do pensamento liberal (1914-1930) para o auto. I N S I G H T INTELIGÊNCIA À primeira vista. independentemente de qual. militarização da instituição estatal. ao se falar da re. à emergência de uma classe cepção de Campos de algumas ideias do jurista alemão. crises econômicas e da instabilidade política. Se um mesmo texto pode ser Mundial com a publicação de sua tese de doutorado sobre lido de diversas formas. Isso importa na medida em que. redigidos durante o exercício de funções públicas. atuaram 2 o autor e o conteúdo do texto. revoluções e crises econômicas. ecoam. p. 9). trabalhadora nos grandes centros urbanos etc. Em segundo lugar. obser- ficativas diferenças. mas dinâmicas do poder. isso significa que para este estu- A culpa e as formas de culpa. O traço principal de sua ação polí. am. enquanto Schmitt se man. pois Mundial e terminando em 1968. sobretudo em virtude de sua participação no Ter- 3 blema da recepção concerne ao contexto político e social ceiro Reich. ideias consiste sempre em uma interpretação. Já a produção intelectual de Sch. diante das ritário (1930-1942) e do autoritário para o liberal (1945. Alguns traços marcan- quer valor ou princípio moral (Medeiros. 1978. em maior ou menor grau. “cobre cerca de 50 sentido de transposição plena do ideal ao plano real. p. pois além do caráter fundamentação teórica do regime do Estado Novo. atravessa as duas do interessam a assimilação feita por Campos de algumas Guerras Mundiais e vai até a publicação de seu último ar. Para tanto. O jurista brasileiro na necessidade de fomento da indústria pelo Estado. uma propensão à concentração do poder e de competên- teve fiel ao seu pensamento antiliberal durante toda sua cias pelo poder Executivo. 1978 p. Campos seria um político situacionista. pois pos. cujo começo precede à Primeira Guerra âmbito da compreensão. orientada por necessidades endógenas4 de vergência entre ambos os autores. respectivamente. ano de seu falecimento” não é possível o conhecimento do texto senão por meio (Medeiros. controvertido e polêmico de suas ideias antiliberais. em primeiro lugar. e se realiza em conformidade com das ditaduras do Terceiro Reich alemão (1933-1936) e do momentos e interesses distintos pelo leitor-receptor. Os escritos de Cam. 10). interpretação. cuja marcado por guerras. Sem negligenciar as signi. apoiaram regimes dita. da oposição” (Medeiros. constata-se 1968) (Medeiros. na ressonância autores. iniciando-se por volta da I Guerra porque entre o texto e o leitor há sempre um hiato. uma crescente crítica às insti- vida. na aparição diferenças notáveis na conduta política dos mencionados das massas no cenário da vida política. de conceitos que realizam uma mediação parcial para mitt (1888-1985). instrumental. tanto Schmitt como Campos tiveram var que a ideia de recepção se opõe à mediação entre uma formação jurídica. política e filosófica. conduta se modifica em conformidade com as inflexões cujos efeitos não se fazem apenas sentir na Europa. imediata. Campos. em 1978. teórico para o regime do Estado Novo. Campos “jamais em sua vida militou nas hostes mundial da expansão e crise econômica do capitalismo. toriais e participaram de modo efetivo. A Estado Novo brasileiro (1937-1945). tuições da democracia liberal. da recepção das ideias de Carl Schmitt por Francisco vamente de regimes ditatoriais. 10). deve-se. marca- 116 Direita volver . há observados: na Primeira Guerra Mundial. A proposta deste trabalho é proceder à investigação bos trilharam um caminho que os levou a participar ati.

Faz-se mister observar que à constru- ção do Estado Novo brasileiro subjaz um arcabouço con- ceitual jurídico e político próximo do instrumental teórico desenvolvido por Schmitt em alguns de seus estudos mais conhecidos. É importante sa- lientar que a crítica empreendida por Campos e Schmitt às premissas da democracia-liberal e suas instituições se re- lacionavam à necessidade de encontrar formas de Estado e governo capazes de reduzir o elevado nível de contingên- cia desencadeado. É certo que o jurista brasileiro oportunista. relaciono o direito cons- titucional de Campos com a ideia de decisão política. abordo o conceito de direito constitucional de Campos. caracterizado pelo vácuo de poder central. sobretudo. é considerado são de que todas as ideias de Campos são apropriações do por muitos um pensamento de Schmitt. situacionista nal. pela dispersão demográfica. julho • agosto • SETEMBRo 2014 117 . mas também tiveram consequências na histó- ria mundial. teologia política. adequada às vicissitudes da realidade brasileira. autoridade. Poder-se-ia aludir. Ora. ditadura e mito. Abordagens de tais temas por Campos tinham a finalidade de fundar um Es- tado moderno num país de dimensões incomensuráveis. impôs um conjunto de questões e problemas que não só afetaram a vida política europeia. soberania. I N S I G H T INTELIGÊNCIA do pela primeira Guerra. expansão do mercado capitalista. entre outros temas. o fato de se negligenciar que os autores compartilhavam um contexto comum e eram integrantes Enquanto Schmitt de uma geração singular pode falsamente levar à conclu. mas redefine as fronteiras globais. Na segunda parte. pela ausência de reconheci- mento político das massas populares. analiso o problema conceitual do autoritarismo utilizado em estudos sobre o Estado Novo. Já na terceira. As ideias e trajetórias de ambos os autores são repre- sentativas de um longo período que não só marca a histó- ria do século XX na Alemanha e no Brasil. p. legi- timidade. mas sempre o fez compro. Na primeira parte deste trabalho. 2007. e não como mero decalque de ideias schmittianas (Fernandes. Campos utilizou ideias do autor alemão. ao da democracia substantiva. fragmentação e invertebração provocadas pela autonomia do poder local. Revolução Russa. seria um político metido com a construção de uma unidade política nacio. juridicamente organizada. 366). crise econômica.

para a compreensão das características particulares e deixa de lado o processo endógeno de formação de uma ideo- logia brasileira que já ocorria desde os anos 1870. à compreensão do Estado Novo. a relativização e crítica do conceito de democracia-liberal com o totalita- rismo. fascismo e nazismo. porém. Uma confusão conceitual capaz de ocultar distinções necessárias e funda- Há quem diga que mentais. I N S I G H T INTELIGÊNCIA O problema conceitual do estudo do Estado Novo É comum subsumir os teóricos5 do Estado Novo bra- sileiro a uma corrente de pensamento autoritária. Entre outras preocupações dos atores envolvidos na criação de um Es- tado Novo moderno. especialmente. Confunde-se. confundia com o fascismo e nazismo. “não pode ser A associação do Estado Novo e de seus ideólogos ao coincidência o autoritarismo está menos a serviço da compreensão de literal decalque um período de mudanças provocadas num país repleto de de Carl Schmitt demandas do que de uma tomada de posição ideológica. A exposição do caráter anacrônico da democracia-liberal frente à complexidade da realidade concreta não servia apenas como mero suporte para justificar um regime to- talitário a serviço dos interesses particulares de uma elite autoritária. a partir do exa- me dos usos que Campos teria feito das ideias de Schmitt. criticamente. du- rante a primeira república e. como se houvesse apenas um sentido unívoco de democracia. intenta-se examinar a tensão entre democracia-liberal e democracia substantiva. por Francisco O regime político estadonovista não pode ser reduzido à Campos. havia um projeto nacional interessa- do em fundar uma nova ordem capaz de ativar os laços de solidariedade e construir um estado-nação brasileiro. como ‘re- gime autoritário’. É oportuno acentuar. Isso não contribui. com frequência. o significado de “regime autoritário”: “entre brasilianistas é comum caracterizar o sistema político existente durante o período do ‘Estado Novo’. assim como também o sistema político instalado após o golpe de Estado político-militar de 1964. Por isso. o máximo construção de um regime arbitrário e totalitário voltado ideólogo do golpe para os interesses minoritários de uma elite do mesmo estadonovista” modo que o nazismo plebiscitário de massas. durante 118 Direita volver . por ve- zes.

pp. uma vez sequer. apoiado meramente no argumento de Novo sofrerem eventuais retaliações em virtude da citação que o fenômeno do autoritarismo seria. 1942. no trabalho Direito constitucional. precisamente. Francisco Campos fará sinuosa menção a Schmitt. oferece uma chave relevante à investigação dos usos que tico marcado pelo pathos antiliberal do período entre as faz das ideias do jurista. de sua constituição. frequentemente. é indispensável observar que há duas citações nas quais tico (Löwenstein. p. a Regime autoritário seria um pseudoconceito. por vezes. Apesar da referida omissão apontada por Chacon. empregar conceitos veis para este trabalho. nas próximas linhas. apontar ‘a filosofia existencialista dos alemães’. A instituição dos fundamentos intelectuais do Esta. de Karl Löwenstein. de julho • agosto • SETEMBRo 2014 119 . acabara de ser deposto em 19366.372). que estavam de pleno acordo com Chacon declara que “em nenhum momento o discurso-de- o patrimônio antiliberal da época e. ficara cla- borador da sua Constituição em algumas linhas próximas ro que Schmitt não se ocuparia do Estado em particular. levando- cuja primeira edição ocorreu em 1942 e no qual o autor -os à tendência de desvalorizar a Constituição de Weimar” mostra que o regime do Estado Novo não era compreensí. A generalização da classificação do Brasil palavras”. Caberia indagar. pois revela conhecer o trabalho duas Grandes Guerras imporia a reflexão de temas coin. analisar a relação estabele- res e citações observados em alguns escritos. tornaram-se os calque7 referirá. do regime polonês do Marechal Pidulski” (Chacon. 56) (Grifos meus). 227). p. citação direta ao jurista alemão. fundadores da ideologia do Estado Novo (Castelo Branco. ao aludir à teoria da constituição de Schmitt. Campos. nhecido’” (Chacon. portanto. auto. O direito constitucional e decisão política Tais referências ao autor alemão são pistas imprescindí- A despeito de Campos. o meira frase afirmava que “o conceito de Estado pressupõe máximo ideólogo do golpe estadonovista e principal ela. o conceito do político” (Schmitt. extinto o Estado Novo. comprometerem-se citando Carl Schmitt no golpe brasi- me como autoritário foi originalmente a consequência de leiro de 1937. Verfassungslehre (Teoria da constituição) (1928). dos mesmos temas. não há em cida por Campos entre o direito constitucional e a compre- todos os textos contidos no Estado nacional sequer uma ensão do fenômeno político. p. de ca. ral e Francisco Campos. ou no fundo. Segundo Vamireh Chacon. mitt e tratar. a respei- Branco. de ideias de um jurista do regime nacional-socialista que cia. p. ao nele monta ao livro Brazil under Vargas. correspondente a um reflexo imperfei. portanto. Haveria mera coincidên. Ainda assim. Azevedo Ama. mo ou fascismo. Após a redação do Conceito do político. vel mediante os conceitos de totalitarismo. 1996.20). mas. 52. p. assim. cuja pri- literal decalque de Carl Schmitt por Francisco Campos. por mais que se aproprie dos seus conceitos e até das suas 1983. 370 . Cabe. 227). to das razões por que Campos não teria feito referência direta ao nome de Schmitt. “mesmo to da dicotomia totalitarismo-democracia da experiência diante da sinuosa omissão dos juristas do Estado Novo em dos países do centro hegemônico. antes de tudo. Somente “tempos após. como Estado autoritário em escritos de língua inglesa re. 1983. 62). A classificação do regi. gação dos usos das ideias de Schmitt por Campos. uma vez que auxiliam a investi- e palavras idênticos aos adotados e elaborados por Sch. Campos menciona o nome Schmitt de modo inequívoco. mas como regime autoritário ou autocrá. cia entre as ideias dos autores? O contexto histórico-polí. 2002. 63). 1996. (Chacon. semitotalitaris. em última instân. o nome de Carl Schmitt. no cidentes? Ou melhor seria considerar uma temática con. fazendo-o parecer ‘desco- do Novo foi realizada por Oliveira Vianna. sabedores da queda de Schmitt em desgraça uma definição apologética do sistema político adotado em no ano anterior e interessados naquela fase em cultivar as 1937. Ao se referir a Campos. I N S I G H T INTELIGÊNCIA a década da eclosão da Revolução de 1930” (Castelo p. omissão estaria associada ao receio de juristas do Estado ráter etnocêntrico. publicado em 1941. 1996. qual busca sistematizar seu conhecimento constitucional vergente? Há quem diga que “não pode ser coincidência o realista8. simpatias do ‘Terceiro Reich’.

-conservador (fundado numa noção de identidade entre 9 Em virtude disso. mover um sentimento orgânico de identidade nacional. A leitura de federal tem preeminência sobre o direito local”)” (Schmitt tais pareceres revela uma característica comum: a capaci- apud Campos. mobilizados a serviço Estado age dentro da sua competência própria. pela força política local ali- 12 federalismo. ancorada centralização do poder político pelo Estado Novo e sua “no fato de que a federação se alicerça num pressuposto Constituição visava. Bundersrecht de consolidar a Revolução de 193013. precisamente. Mediante o direito. A fim de evitar a privação de A primeira citação a Verfassungslehre se dirige à ne. soweit der Bund Cabe ressaltar que os pareceres elaborados por Cam- befugterweise gegenuber den Mitglidern auftritt.destituída de substância nacional . A teoria da constituição de Schmitt não consiste ape. entre de a Constituição de 1934 fortalecer a autonomia do poder outros aspectos. a homogeneidade de todos os 120 Direita volver . I N S I G H T INTELIGÊNCIA substância política existencial. dass immer. o direito da reflexão de conceitos do direito comparado. fuehrt folgerichtig dazu. competências do poder político federal. o jurista alicerça cessidade de Campos de concentrar poder no âmbito do parte de sua argumentação no artigo 13 da Constituição executivo a fim de promover a consolidação da naciona. ficar a Revolução de 1930 e fortalecer o poder central. revelam uma miríade dem Landesrecht vorgeht (“Este caráter jurídico do Es. toda vez que o ses. trução de uma unidade política brasileira. mas representa uma elaboração e suntos locais. central ao local. e cita a Verfassung des Deutschen Reich de estrutura o seu poder relativamente a outros: Gerhardt Anschutz para reafirmar o princípio da anulação “Dieser staatsrechtliche Charakter jedes Bundes de qualquer lei local pela lei federal. de juristas estrangeiros14. 241-242) . sobretudo. da criação de um centro de poder for. 10 petências do Governo federal. uma incompatibilidade entre democracia liberal e marcada pelo coronelismo . americanos. 1942. vocar a dissolução da força regionalista representada pelo É importante destacar que Campos entendia existir liberalismo-oligárquico da República Velha (1889-1930). alemães. imprescindível te o suficiente dirigido para sobrepor o direito federal ao à instituição de um Estado moderno forte o suficiente para direito estadual. italianos e franceses. solapar a estrutura fede. Subjacente à primazia da União em relação partidos políticos. A afirmação existencial de um agrupamento força fragmentava a unidade política nacional em favor humano levaria à associação política a partir da decisão do interesse local. A reminiscência do federalismo libe- última determinante de quem é amigo ou inimigo. a lei superior esmorecer os interesses regionais representados pelos à lei inferior. A conceito de democracia substantiva de Schmitt. entre outros. equilibrar as discrepâncias regionais e pro- afirmação de um conceito constitucional revolucionário. em suma. cujo teor dispõe: “o direito do Reich prevalece lidade e a organização da sua ordem legal. essencial. Tal concepção verifica-se. A passagem sobre o direito do Estado da federação (Reichsrecht bricht refere-se à forma pela qual o Estado organiza o território e Landesrecht)”. dirigidos à interpretação constitucional com intuito auch nur auf einem eng begrenzten Gebiet. numa forma de Estado federal fundada local dos governadores estaduais em detrimento das com- no imperativo do interesse nacional . criando ral da República Velha na Carta de 1934 impunha óbices assim uma substância constitucional impassível à técnica à produção e circulação da mercadoria em território na- de subsunção da forma abstrata do direito constitucional cional devido aos impostos interestaduais. de Weimar. A concentração legal. de poderes nas mãos do poder central deveria dissolver o nas na negação de princípios e institutos contraditórios princípio liberal da não intervenção do governo nos as- da democracia liberal.cuja normativa. 11 dade de empregar o direito como meio para legitimação da Aqui já se torna evidente a intenção de centralização decisão política soberana voltada. sei es pos. ingle- tado Federal tem como consequência que. Sua solução ocorre mediante a adoção do cerçada na grande propriedade rural agroexportadora. com efeito. seria possível justi- aos Estados-membros está presente o empenho em pro. para a cons- de poder político. irredutível à racionalidade ralista liberal . Campos refuta qualquer possibilidade governante e governado).

Campos afirma que “a integridade Além de se apoiar na dos Estados é uma consequência da nação. cuja autoridade ia ser exercida sobre um extenso território em expansão. pois opõe o “conceito de constituição como obra política” julho • agosto • SETEMBRo 2014 121 . Conceito de Constituição como obra política O trabalho Direito constitucional de Campos contém numa de suas partes subtítulo e argumentação muito se- melhante à Teoria da constituição (Verfassungslehre) de Schmitt. Assim. americano 97). pois “é claro que o verdadeiro objetivo da Constituição Americana não era o de limitar o poder. Campos é ins- pirado pelo federalismo norte-americano e o interpreta como centralização do poder político a fim de fortalecer o poder em âmbito federal. estabelecer e constituir adequada- mente um centro de poder inteiramente novo. do poder que se perdera quando as colônias se separaram da coroa inglesa” (Arendt. destinado a compensar a república confederada. Campos o denomina de “Conceito de constituição como obra política”.. tal sa. Nesse sentido. a reestruturação da distribuição de compe- tências no espaço territorial visava a conduzir um movi- mento centrípeto do poder capaz de deter a oligarquiza- ção do interesse nacional.) deve caber-lhe o primado político e moral. I N S I G H T INTELIGÊNCIA membros da federação. Na mesma linha de raciocino de Schmitt. Além de se apoiar na concepção federalista de Schmitt fundada na nação.. A na nação. a interpreta- ção de Campos concordaria com a de Hannah Arendt. Se a integri. uma identidade substan- cial que funda uma concreta concordância dos Estados- -membros em conformidade ao ser (seinsmässige). isto é. 1941. concepção federalista dade desta impõe sacrifício territorial aos estados. mesmo porque sem ela não federalismo norte- teria sentido a existência dos Estados” (Campos. p.. em que os casos extremos de conflito não se manifestam na federação” (Schmitt.. p. Enquanto Schmitt intitula o item dois do pará- grafo segundo da Verfassungslehre “A constituição como decisão política”. 123). 1988. ou seja. O título empregado por Campos denuncia a influência de Schmitt e a adoção de sua epistemologia polêmica da contraposição conceitual. 376). p. 2003. de Schmitt fundada crifício é feito em benefício dos próprios Estados (. mas dar origem a mais poder.). A é inspirado pelo nação antes e acima de tudo. Campos união (.

precisamente da verità effettu- ale. Será. em Direito constitucional. na referida parte Schmitt.23). Tal contraposição é idêntica à distinção de Sch- mitt entre Constituição (Verfassung) e Lei-Constituição (Verfassungsgesetz) (Schmitt. p. ceitos que a reduz à unidade de um ordenamento lógico e cujo núcleo central sistemático de normas jurídicas. não da constituição tal como é. p. Campos. na esteira do pensamento de Thomas Ho- bbes e Carl Schmitt. 2003. um poder executivo conceito metafísico ou mitológico de constituição. compreende o conceito de Consti- tuição como uma “obra política”. Da mesma forma que Schmitt. e não uma ver- dade proveniente de uma norma jurídica. A concepção de “Constituição como decisão política” (Verfassung als po- litische Entscheidung). non veritas facit legem16 cunhada por Thomas Hobbes. ao declarar ser mais conveniente procurar a verda- de pelos efeitos das coisas ao invés do que delas se possa imaginar (Maquiavel. but authority that makes the law” 122 Direita volver . p. assim como intitulada “Conceito de constituição como obra política e Campos. 1979. quando muito. pois a Constituição “é uma obra política15 e não um sistema lógico que o ponto de vista político faz. I N S I G H T INTELIGÊNCIA ao “conceito de constituição como unidade lógica e siste- mática”. mas da constituição ideal ou de um tipo normativo ou modelar de constituição” (Campos. mas também parece ecoar o ensinamento da irredutibilidade do fenômeno político encontrado em O príncipe. 1940. o jurista afirma o pressuposto do fenômeno polí- tico frente a qualquer ratio normativa. 280). A lei não resulta da impessoalidade. de Maquiavel. uma decisão política proveniente de uma autoridade soberana. pretende como unidade lógica e sistemática”. Campos. real ou efetivamente. racionalidade e verdade advinda do conhecimento. tal realismo político de Campos não seria apenas inspirado nas ideias de Schmitt. inequivocamente formulada por Schmitt. recuar para plano secundário o ponto de vista lógico ou sistemático” (Cam- pos. mas de uma autoridade pesso- al: “It is not wisdom. 1941. as mais das vezes. mas como deveria ser. encontra sua fonte na expressão Auctoritas.63). critica a interpretação recuperar a essência do constitucionalismo liberal da jurisprudência dos con- do Estado moderno. Ora. Observa que “tal concei- encontra-se no seu to não corresponde à realidade. não da constituição concreta ou positiva. 280). p.

mais política do que sistemática” Acentua que “aqui tanto a legalidade quanto a legitimida- (Campos. Schmitt insistia no fato de uma norma não se e retidão. possivelmente ex- Schmitt. gitimidade ao princípio da legalidade. teria sofrido admoestações de sibilidade. prática do que lógica. Auctoritas. essencialmente autoridade e não. 23). a de que xa a partir do caráter dinâmico do decidir e agir políticos a “legalidade pode ser considerada como legitimidade” ou na realidade concreta. A concepção dinâmica e substantiva do direito. vida social. devolvendo ao Poder Central a governam as leis abstratas e genéricas no lugar de homens responsabilidade da integração das forças vivas da nacio- concretos de carne e osso. cujo núcleo da unidade de um sistema lógico de norma. Segundo Schmitt. 1942. portanto. criar a si mesma senão por meio de um sujeito do po- 1996. blindadas contra os riscos. xão constitucional que se opõe ao racionalismo normativo. assim como Campos. A decisão política fundamental é solutismo parece evidente ‘that Law is not Counsell. estatuto legal poderia justificar qualquer status quo. Justamente para evitar isso. cujo mente concordaria com a crítica de Schmitt a Weber. de são reconduzidas ao conceito comum de legitimidade. p. cumpre o ao sustentar que a crença na legitimidade da legalidade papel de reduzir os níveis de contingência de modo a per- de um preceito jurídico é a forma mais corrente de legi. a ação política dirigida às circunstâncias concre. 55). afirma Schmitt que “ao ab. sive uma forma opressiva de dominação. transferir a responsabilidade decisória à impessoalidade de recuperar a essência do Estado moderno. 1941. à verdade e central encontra-se no seu poder executivo. Não se admite a redução da le. 2003. que comenta em Legalität und Legitimität (Le. o liberta de seu galidade e legitimidade). Vale a pena salientar à legitimidade” (Schmitt. Nesse sentido. p.114). Des. I N S I G H T INTELIGÊNCIA (Hobbes. Maquiavel e Hobbes. que as afirmações de Weber . Constituição. observa Campos nalista caracterizada pelo fortalecimento do poder execu. Este. p. p. p. Assim. necessidade de se distinguir inequivocamente entre legi- mento realista preocupada com a fundação e manutenção timidade e legalidade e alerta para o perigo de redução da de um corpo político no âmbito da realidade concreta. Já nos seus primeiros o conceito de lei racionalista do direito público. but “na democracia do povo e na autêntica monarquia do Command’. eleva os à custa do poder executivo. Tal compreensão do direito. seguindo uma tradição constitucional realista consiste na impossibilidade de se de autores como Jean Bodin. der do Estado. verdade escritos. ao reconduzir compartilhada pelos referidos juristas se opõe ao iluminis. níveis de contingência. o conceito de lei se define como enquanto que a legalidade significa exatamente o oposto aquilo que se funda na autoridade. executivo agere. O ponto essencial subjacente à concepção Schmitt. fundamento último reside na decisão política. Campos provavel. nalidade” (Campos. “é obra mais corrente é a crença na legalidade” – seriam inconsistentes. produzindo imprevisibilidade na A concepção revolucionária conservadora constitucio. inclu- tas consiste no centro gravitacional desse modo de refle. 1998. Não é trivial constatar que “a toda normatização pre- cuja concepção de lei está associada à verdade. mitir a instalação de uma ordem jurídica dotada de previ- timidade nos dias de hoje.precisamente. racionalidade imanente à lei. 1971. 284). preten. poder constituinte”. traída por Campos da reflexão de Schmitt. legitimidade à legalidade. publicado pela primeira vez em caráter estático e o permite configurar a realidade comple- 1932. 14). Ora. que “a Constituição de 10 de novembro pôs termo a esse tivo se opõe à visão liberal do Estado de direito no qual processo de dissolução. A crença na forma vazia de um se modo. Schmitt postula a que Campos e Schmitt filiam-se a uma tradição de pensa. como para monarca” (Schmitt. non Veritas facit Legem” (Schmitt. a responsabilidade às leis e imunizar as decisões pes- mo racionalista francês que consagrou o poder legislativo soais de indivíduos. Não esqueçamos que tal conceito àquela segundo a qual “a forma de legitimidade hoje mais de direito encontra seu fundamento no caráter dinâmico julho • agosto • SETEMBRo 2014 123 .54).” Tal concepção subjacente ao constitucionalismo liberal. essa teologia deísta “legislação é deliberare. deliberação cede uma decisão política fundamental do portador do e não ação e comando.

mo permitiria dominar a fortuna. ções consolidadas. pp. no qual a ideologia do. contrapõe-se ao mundo o governante que conduz um processo de representação aristocrático dos legistas. entre o liberal e o totalitário. A supremacia do judiciário não de mundo. pelo alto. 356). é a mais alta ou dos laços tradicionais do patrimonialismo17 oligárquico mais eminente das funções” (Campos. que opera o reconhecimento da vontade unitária que impõem barreiras às mudanças provocadas pelo Go- e indivisível do líder como se fosse a vontade geral (Cam. É. mas o do passado. uma supremacia aparente. nega legitimidade mundo dos legistas não é o do futuro. o espírito dos legistas. 1941. processo destinado a transferir do povo para o poder judi. Campos. de modo que a dissolução redunda na de formular a constituição. 1942 [1938]. que atribui ao método jurídico caráter puramente lógico e Azevedo do Amaral e Oliveira Vianna. e privaria a supremo da Constituição”. Aí seria possível vislumbrar uma afini. um talizam a experiência do passado” (Campos. da existência não pode ser subsumida à unidade de segundo a qual o sujeito político da soberania encontra-se um sistema lógico de normas constitucionais ou de na resposta à pergunta Quis quis Judicabit? Quis interpre. Em contrapartida. é capaz da realização de uma ideia no mundo de modo a seia na unidade política consolidada pelos laços de identi. decide sobre o estado de exceção. 172-174). p. “por natureza. decisão. desintegra. Ao contrário da conservação do passado. o povo amorfo. Nessa acepção. controle tanto mais obscuro tadonovista desenvolvida por Campos busca estabelecer quanto insuscetível de inteligibilidade pública. entre outras questões fundamentais. mercê da uma conciliação entre o passado e o futuro. conservadores”. Segundo nenhum sistema constitucional homogêneo de natureza o jurista alemão. é dominado por uma visão de autoridade suprema do governo da representação dire. verno dirigidas à transformação da democracia formal do pos. competia a decisão última – detém a autoridade política. A passagem acima pode ser sintetizada na lição central É imprescindível notar que a realidade complexa aprendida por Schmitt com seu “mestre” Thomas Hobbes. mundo estática. não é possível admitir o controle de versão de um imenso país com população dispersa numa constitucionalidade das leis pelo Poder Judiciário cuja nação integrada. configurá-lo. desunido adquire forma mediante a identificação com do Estado Novo adquire forma. o espiritual e o tem.166. como Alberto Torres. I N S I G H T INTELIGÊNCIA da ação política responsável pela instituição e manutenção poral. O constitucionalismo de Campos. de unidade ou de ordenamento sistemático a uma série 124 Direita volver . 1942. O constitucionalismo sustentado por Campos se ba. buscava formação objetivo. em Der Hüter der Ver. sem dúvida nenhuma. das instituições jurídicas e políticas do país. p. Dessa perspectiva nota-se que “não há tabitur? (Schmitt. ao contrário. vestida de argumentos técnicos. sagrado ou profano. amigo e inimigo. e é arbitrário conferir caráter nas disputas entre o altar e o trono. favorável à supremacia do poder judiciário como “guarda vos não apenas. lógicos e objeti. pois “o controle judicial da o mundo dos arquétipos ou das fórmulas em que se cris- constitucionalidade das leis é. pp. liberalismo numa democracia substantiva do povo. legítima da vontade do povo. Hobbes fora o primeiro a perceber que puramente normativa. O fassung (O guardião da Constituição). a concepção es- ciário o controle do governo. a estabilidade das situa- mesmo modo que Carl Schmitt. entre o tradi- aparelhagem técnica e dialética que o torna inacessível cional e o moderno. semelhante à de autores identificados com o é. ou seja. Sua visão à compreensão comum. velaria seu caráter político. como procura fazer acreditar a ingênua doutrina pensamento autoritário brasileiro. à con- Nesse sentido. do tus quo. que deveria reestruturá-la pelo alto. dade com a ação do príncipe maquiaveliano cujo dinamis. quem domina o poder espiritual – poder ao qual legítima do poder. 10). ciosa “das garantias que asseguram o sta- ta e. porque a função de interpretar. dade nacional. pois. 2003a. qualquer sorte. uma de uma ideologia brasileira adequada à sua realidade que supremacia política. a conservação dos interesses criados. à jurisdição constitucional. portanto. deveria ser operada pela elite voltada para a modernização 358-359). a duração do adquirido. 167.

A unidade do Reich alemão não reside naqueles 181 artigos e na sua vigência. p. a unidade lógica atribuída à constituição não passa de grosseira ficção. sem uma unidade sistemática. 281-282)18. Igualmente arbitrário é falar-se. em virtude de inimizade contra autoridade e unidade. existencial – funda a unidade política e jurídica. com que nos referimos à Constitui. incongruências e obscu- ridades das leis constitucionais concretas (Schmitt apud Campos. Gostaria de chamar atenção para o fato de que a preo- cupação central deste estudo é procurar responder à ques- tão: o pensamento de Campos é mero simulacro das ideias do jurista alemão dirigidas ao autoritarismo19.) Subsumem nova autoridade que uma série de normas das mais variadas classes. desmante- lamento das instituições da democracia-liberal e à institui- ção de uma ditadura no Brasil? Haveria uma preocupação em buscar meios de como “fundar e constituir uma nova autoridade” em espaço territorial colossal marcado por um estado de invertebração difuso. regras ou quaisquer outras normatividades. de descobrir um ção como “lei fundamental” ou norma fundamental. normativa e lógica. I N S I G H T INTELIGÊNCIA de prescrições particulares. Nesse sentido. cooperaram. por buscará no mito exemplo. reflexão política não nas leis.. mas na nação. Con- siderada a diversidade de pensamentos e conteúdos das prescrições constitucionais. julho • agosto • SETEMBRo 2014 125 . descobriram o mito sem desejá-lo.. O conceito de ordenamento jurídico contém dois elementos completamente distintos: o elemento normativo do direito e o elemento real do ordenamento concreto. se a unidade não resulta de uma suposta vontade unitária. portanto. pelo empreendimento As ideias e palavras. de ordenamento jurídico. vale a pena reproduzir a passagem de Schmitt: “no momento em que os autores anarquistas. Não busca.. A unidade e Campos orienta sua o ordenamento residem na existência política do Estado. são fundamento para uma quase sempre obscuras ou imprecisas (. porém. pelo vácuo de poder e por uma massa populacional amorfa? Campos orienta sua reflexão política pelo empreendimento de descobrir um fundamento para uma nova autoridade que buscará no mito. sem mais precisões. tal mito na imagem da luta de classes estimulada pela aversão à autoridade e unidade po- lítica.. 1942. A vontade do povo alemão – coisa. apesar das contradições sistemáticas. os 181 artigos e da Constituição de Weimar.

a ameaça uma ética da responsabilidade presente do início até o fim ideal de tal irracionalidade é grande. Sob essa ótica. 1941.br 126 Direita volver . Campos utiliza. como Poder Constituin. o político corres. I N S I G H T INTELIGÊNCIA contudo. p. entretanto. A projeto nacional para o país. a concepção do caráter mesma geração e definiram seu imaginário político em irracional e existencial do político que escapa a qualquer função das ideias dominantes na época.. em dois aspectos fundamentais: ambos pertenciam a uma nos no período do Estado Novo. bem como sua derrocada. recepção das ideias do jurista alemão pelo jurista brasilei- ro é autônoma. a responsabilidade política de- do sentimento de um pertencimento comum será elimi. Schmitt. mas também participou da formação institu. contrário. O prestígio de racionalidade normativa. para o descobrimento do fundamento de uma Campos pode ser relativizado. Enquanto o antiliberalismo de pvbcastelobranco@iesp. o antiliberalismo Schmitt é encarado como pela disciplina e pela hierarquia. como a vida moral. porque navega ao sabor das nova autoridade. te e se manter no poder antes e depois do Estado Novo. 1981.uerj. 1996. livre e criativo a serviço da institucionalização da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). capaz de absorver o poder político e criar um de absorver as massas e promover sua integração social. Os últimos resíduos de sua vida. representaram um es- ponde às aporias da finitude da existência humana e “a tímulo à difusão de sua obra em escala sem precedentes. há uma relação de convergência entre ambos. força decisória em paralisia e apatia. se política liberal cuja tendência é converter a dinâmica da O conceito de constituição de Campos compreendi. pende de um Estado forte cujo caráter principal é deter o nado no pluralismo de um número incalculável de mitos” monopólio da decisão política e jamais perdê-la para clas- (Schmitt. Redigiu o “ato institucional nº 1”. pelo me. de cada um no contexto da ação político-social. o jurista brasileiro foi o arquiteto do arcabouço Schmitt por Campos ser inequívoca. 75). de um novo sentimento pela ordem. Certamente. Há uma tendência à simpli- ficação e redução analítica que nega a priori a originalida- Conclusão de do pensamento de Francisco Campos. Desse modo. do como obra política é sem dúvida extraído da teoria da A comparação entre Schmitt e Campos fundamenta-se constituição de Schmitt com a qual compartilha. p. não se limitou à edificação do arcabouço jurídico do “Es. Ao por meio do esmorecimento das estruturas oligárquicas. A fantasia cional do regime político-militar. A despeito de a recepção das ideias de Ademais. é do domínio da irracio. ao catalisar a concentração modo algum que a produção do jurista brasileiro seja um de poder nas mãos do Estado. o qual “(. circunstâncias. Sua autonomia se caracteriza pelo uso ins- O autor é professor do Instituto de Estudos Sociais e Políticos (IESP) trumental.) a revolução vitoriosa. isso não significa de jurídico cuja implementação. enquanto o comportamento de Campos foi marcado pela te. instalado após o golpe de de Schmitt como “construtor do edifício jurídico do regime Estado de 1964.89). vida política. segundo nazista” não resistiu ao narcisismo exclusivista de Hitler. ender as causas de declínio e ascensão de um governan- sorve em si toda racionalidade e toda legalidade” (Sch. sem que se nalidade e da ininteligibilidade” (Campos.. principalmente. Tal concepção se aproxima virtú típica do príncipe maquiaveliano capaz de compre- do princípio sustentado por Carl Schmitt: “O Estado ab. se legitima por si mesma”. Francisco Campos De fato. entre outros autores. as ideias Francisco Campos foi um dos principais artífices do Levia- de Schmitt para fundar um Estado moderno forte capaz tã brasileiro. p. permitiu sua modernização mero decalque de conceitos e temas do autor alemão. mitt. com uma diferença essencial referente ao papel tado Novo”. e justificação do status quo. 12) mencione os países europeus. na Espanha. Itália e Portugal. Em sua longa trajetória política.

9. Branco. de seus sentidos naturais. que Hobbes recusa o caráter transcendente de leis. 17. -nos. é de 1935. Campos observava que por meio da “lei . perfeito entre nós. observa Chacon que “é interessante registrar o difícil levantamento das ideias de Campos. Além disso. neste caso. 1912. 1969. Ver Schmitt. serva-se a finalidade político-pragmática do jurista brasileiro. 6. pp. pp. 2003. não como um fim em si mesmo. jaz uma confusão mais antiga de autoridade com tirania e de Chacon foi o primeiro a discutir a questão da revolução conservadora com poder legítimo com violência. Pádua Fernandes. 15. ainda que im- 1979. a que se aspirava seria um Estado hegemônico. Tomo a liberdade de denominar o constitucionalismo antiliberal de Sch. mas eram ao de Carl Schmitt. Ver Schmitt. 10. muito embora não saiba ler nem escrever. A diferença entre tirania e governo autori- base nas semelhanças estruturais entre a situação da Europa – em parti. A despeito da influência do neokantismo em sua formação. alicerça seus argumentos exatamente no mesmo ponto de vista de Chacon. 2003. possibilitando. 1978. particulares e públicos no qual “o Estado se equiparava a um butim (a um rendimento) com o fito de exercer influência e dominação foi conquistado 8. ao passo que mesmo o mais draconiano governo autoritário é geração antiliberal dos anos 30 no Brasil (Chacon. O conceito direito não poderia espírito de uma época”. 12). palavras e papel. p. de que a fundamentação teórica do Estado Novo 17. 240). relevar. mas como um meio. p. I N S I G H T INTELIGÊNCIA notas de rodapé 1. Além 13. tornava-se evidente ao nosso pensamento político ‘inovador’ que o ‘libera- 3. p. em regimen democrático. 232 e 233). É importante notar que “o sistema oligárquico do ‘coronelismo’ flores- sua Filosofia neokantista do Direito (agnóstica e relativista). 10. 215). 11. Conforme Günther Maschke. O conceito constitucional revolucionário conservador traduz a ideia 19. a deposição de Schmitt do Terceiro Reich não são os homens que governam. 11). p. com a afirmativa de que quem governa são as leis e não os homens. 16). que num Estado bem ordenado do Estado Novo. portanto. Ver também p. preocupado em construir uma consciência nacional como alicerce do Estado brasilei. destaca sua formação filosófica neokantista. no qual se percebe a apropriação das ideias de Schmitt promessas. 1978. As palavras de Miguel Reale ilustram a forma pela ser reduzido à norma jurídica. à Pedagogia ceu durante o presidencialismo de Floriano Peixoto na Velha República a (pragmática e neopositivista) e Filosofia neo-hegeliana e intuicionista da partir do momento em que os governantes não eram mais nomeados pelo História. pois somente a decisão política de um po- qual é possível compreender os usos de Schmitt por Campos: “quando há der executivo opera a realização de uma ideia jurídica no mundo. são as nomia assegurada aos Estados redunda em vantagem para a nação e em forças armadas (exército e marinha) as únicas instituições de amplitude maior garantia do seu progresso”. puras do ser nacional.184) matar ou ferir. da autoria de Rogerio Dultra dos Santos. A respeito do tema da recepção das ideias de Schmitt por Campos ob. através daquela recepção fecundante. No Brasil. 381. 1978. ‘integrado’. sem as mãos e espadas dos homens?” (Hobbes. 1983. indo de 12. Nesta interpretação. consequentemente. por mais que se busque conservar a fidelidade às fontes sua visão do direito. em itinerário análogo governo central conforme a tradição centralista da monarquia. 4. 1983. No capítulo XLVI da quarta parte do Leviatã. p. Já em intencionalidade de descobrir-nos ou revelar-nos a partir de nós mesmos. “O imperativo de um Estado forte”. Ver também Campos. p. e tais ataques já não se encontra governado por aqueles que teme e que. compartilhado por ambos os auto. p. para lhe render a reputação de oportunista (Noack. tário sempre foi que o tirano governa de acordo com seu próprio arbítrio cular na Alemanha da República de Weimar – e a produção intelectual da e interesse. Ver a esse respeito Ideologia autoritária no Brasil 1930-1945. Sobre o detrás da identificação liberal do totalitarismo com o liberalismo. 1925. ressalta sua “formação jurídica hobbesiana e positivista” (Medeiros. 1983. tário. o que não demorou muito vos ‘civilizados’” (Medeiros. “São os homens e as armas.” ‘eleitos’” (Castelo Branco. 18. o federalismo está nacional com a capacidade de estruturar a nação organicamente” (Castelo “subordinado ao rhythmo nacional (Campos. 1996. que veramente atacado pelo órgão do SS. 1941. mas sim as leis. autoritária. (Chacon. acredita. é impossível alijar os valores que constituem “o uma função da decisão política soberana. “é uma consequência do baixo grau de formação de uma sociedade dições peculiares do Brasil. pp. o legislador constituinte achou que a auto- nacional e da fraqueza das instituições civis. mas atuam se pode fazer as transformações por mais radicais que sejam” (Campos como enxerto em uma árvore por nós mesmos plantada. precisamente. Qual é o homem dotado ocorreu em 1936. remeto ao trabalho Francisco Campos e os fundamentos do constituciona- lismo antiliberal no Brasil. 72. a fim de ressaltar o comprometimento do autor com a resses públicos foram misturados com interesses privados e subsumidos a realidade concreta. o jurista alemão foi “se. A respeito da formação intelectual de Campos. em maio de 1933. A respeito do constitucionalismo antiliberal no Brasil uma ordem patrimonial” (Castelo Branco. não as palavras e ca de nosso tempo. 212). minam conforme a vontade.. não raro. 12. p. com quem tanto se parece (. 42). 7. 1928. p. pois o ensaio de Campos A políti. seria pertinente lembrar que “por cional e a revolução social no âmbito político-jurídico do Estado. a saber. Azevedo Amaral. Oliveira Rousseau e elevado à categoria de vontade geral exposta no Contrato social Vianna. p. 96). 1983). os modelos alienígenas não são objeto de mero transplante. Jarbas de Medeiros. 2. e da conceito de revolução conservadora permito-me remeter ao trabalho Carl concomitante inclinação a ver tendências ‘totalitárias’ em toda limitação Schmitt und die “Konservative Revolution” de Armin Mohler. (Maschke. apud Medeiro. Conforme Campos. este é um ou- sem referência ao seu nome.. 366). citado por Campos. dois anos antes do golpe tro erro da política de Aristóteles. V e 93). p. p. É importante observar que esta não parece ser a causa principal da pois é autoridade dos homens equipados da força coercitiva que as deter- omissão da citação do nome de Schmitt. Além do mais. se aquelas instituições ‘liberais’ eram tidas por sinôni- Schmitt já busca desde seu texto de juventude Gesetz und Urteil superar a mo de Estado ‘dividido’ e ‘desarticulado’ enquanto que o Estado nacional clássica dicotomia kantiana entre ser e dever ser (Schmitt. Percebe-se. Hobbes refuta o princípio apresentado na Política. (1762). que fazem a força e o poder das leis. isto é. com ambição de lismo’ era o responsável último por nosso ‘atraso’ e ‘fraqueza’ face aos po- tornar-se o principal jurista do Terceiro Reich. p. p. “o sistema federal é mantido porque. “se as instituições políticas que a Revolução de disso.). entre outros. Schmitt filiou-se ao partido nazista. se ele não lhes obedecer? Ou que acredite que a lei o pode fe- rir. o Schwarze Korps. algo de pe- culiar e próprio” (Reale. Frente ao antagonismo presente no Brasil entre as oligarquias liberais segundo a qual a Constituição deve consolidar e conciliar a libertação na. E. o podem representavam perigo de vida”. desenvolvido posteriormente por 5. 1977. a Francisco Campos.184 e 187). culminando na teologização da política. 394). ao fazer referência ao período de juventude de Campos. 1972. 16. julho • agosto • SETEMBRo 2014 127 . 14. limitado por leis” (Arendt. 1941.. Conforme Medeiros. Verfassungslehre. e os defensores de ideias autoritárias. 41 e 42 do Leviatã (1983). em O Estado Novo e o pensamento jurídico autori. 134).. monolítico’. 1983. e privatizado através de relações clientelistas na medida em que os inte- mitt como realista. 1930 havia levado à derrocada eram fruto do Estado liberal. dadas as con- res. A definição do patrimonialismo como o amálgama entre interesses seria mero decalque das ideias de Carl Schmitt (Fernandes. 2007. p. p. jurista do Nazismo. portanto. Refiro-me. p. de Aristóteles. A concepção constitucionalista antiliberal de Campos está associada à ro.

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