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Breve cronografia dos DESMANCHES

Lais Myrrha
Desmanches:

físico 6

simbólico 6

voluntário 8

involuntário 9

deflagrador 10

voluntário rentável 12

voluntário exemplar 13

(in)voluntário punitivo 14

de função 16

de uso 18

de uso rentável e invertido 20

de interdição 21

de negação 22

de afirmação 23

tautológico 24

reflexivo 26

precoce-monumental 27

parcial forçoso 28

de interdição antecipado 30

recuperatório 32

de segurança 34

de controle 36

Uma cronografia de espectros encarte


por Maria Angélica Melendi
Breve cronografia dos DESMANCHES
BREVE CRONOGRAFIA DOS DESMANCHES BREVE CRONOGRAFIA DOS DESMANCHES

Desmanche físico

O desmanche físico é fruto de uma operação voluntária ou


de um acontecimento fortuito que provoca o arruinamento
físico, completo ou parcial, de determinada construção.
Entretanto, não há desmanche físico que não seja, num
certo grau, simbólico também. Por isso, dizer “A casa do
homem ruiu” pode significar mais do que um amontoado de
vigas e tijolos dispersos sobre o chão.

Desmanche simbólico

Nesse tipo de desmanche o aspecto físico de uma edificação


pode sofrer apenas pequenas modificações ou, inclusive,
permanecer intacto. Tão poderoso é esse tipo de desmanche
que não é raro vermos um pedestre, em plena praça pública,
tropeçar num monumento.

6 | desmanche físico / simbólico desmanche físico / simbólico | 7


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Desmanche voluntário Desmanche involuntário

Diz-se da operação em que uma edificação foi propositalmente Nos casos mais óbvios refere-se a edificações que foram
desmantelada, por exemplo, as demolições ou grandes acidentalmente desmanteladas, completa ou parcialmente, em
reformas. Mas a vontade de uns pode contradizer os anseios função de intempéries, envelhecimento, incêndios ou alguma
de outros. Então nos inclinamos a perguntar de quem foi, falha relativa à sua construção.
afinal, a ideia (a vontade) de demolir a biblioteca. Do
mais forte, é claro! Mais complicado é explicar a destruição de bairros, cidades
e até mesmo países em decorrência de conflitos. Sob os
escombros, o desmanche só (a)parece como involuntário para
quem o enxerga em contra plongée.

8 | desmanche voluntário desmanche involuntário | 9


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Desmanche deflagrador

Naquela rua onde só havia casas e moradores antigos, agora se


escuta apenas o som irritante de maquitas, de bate-estacas,
de britadeiras. Depois que morreram o senhor A. e a senhora
Y., vizinhos de muro, suas famílias decidiram vender os
imóveis a uma grande incorporadora. Ao invés de dinheiro,
os herdeiros do senhor A. preferiram ser pagos com duas
unidades do edifício que será construído sobre o quintal
onde brincaram toda sua infância. Quando finalmente estiver
pronto, da varanda gourmet, poderão ver toda a vizinhança
como se fosse um mapa e acompanhar, palmo a palmo, o seu
desmanche.

10 | desmanche deflagrador desmanche deflagrador | 11


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Desmanche voluntário rentável Desmanche voluntário exemplar

As demolições de construções sãs para usos mais rentáveis e A casa de shows e o cinema continuam estruturalmente os
aproveitáveis é sua ocorrência mais típica. Nessa modalidade mesmos: o palco elevado, a plateia, a ótima acústica. Mas
é frequente o desmantelamento de casas para edificação de agora, na caixa de cena, o que se representa é o triunfo da
prédios. Primeiro, remove-se tudo aquilo que poderá ser moral cristã.
reaproveitado: batentes de janelas, portas, portões. Depois,
as lajes. Por último as paredes onde costumavam pendurar os
retratos da família.

12 | desmanche voluntário rentável desmanche voluntário exemplar | 13


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Desmanche (in)voluntário punitivo

No início do século passado, depois de ter suas atividades


encerradas por falta de investimento, o casarão destinado
a abrigar alienados foi legado à decrepitude. Ficou
interditado por muitos anos tamanha a precariedade em
que se encontravam suas instalações. Talvez porque fosse
simbolicamente condenável, tenha sido deixado à própria
sorte até o arruinamento.

Finalmente, depois de ter passado pelo purgatório do abandono,


o casarão foi reformado. Com isso, o risco de uma tábua se
desprender do piso e nos atingir em cheio se tornou quase
inexistente. Redimido ao olhos contemporâneos ele funciona
agora como a sede administrativa de um hospital.

14 | desmanche (in)voluntário punitivo desmanche (in)voluntário punitivo | 15


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Desmanche de função

Abrigar dada instituição em um prédio que lhe seja


inconveniente pode impedi-la de exercer plenamente as suas
funções. Por um lado, isso pode gerar uma série de ações e
práticas que desmancham os limites e parâmetros da própria
instituição.

Arejada por essa inteligente virada crítica, pensa- se, por


um momento, que ela poderá durar mais cem anos. Lastima-se,
por fim, que nem sempre ações positivas possam livrá-la do
sucateamento e, em casos mais drásticos, da mais completa
ignomínia.

16 | desmanche de função desmanche de função | 17


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Desmanche de uso

A vizinhança foi se tornando indesejável com o passar dos


anos. O excesso de pessoas e carros transitando todo o
tempo pela rua, um dia erma, o enfurecia. Num domingo foi
comprar o jornal, como de costume. Desta vez entregaram-no
dentro de uma sacola que continha o prospecto de um novo
condomínio surgido nas margens da cidade. O céu azul, as
palmeiras imperiais, a oportunidade única de habitar o
Novo Mundo BAIRRO RESIDENCE PARK.

O aluguel de sua casa foi assim anunciado:

EXCLUSIVAMENTE PARA FINS COMERCIAIS


TRATAR DIRETO COM O PROPRIETÁRIO

O valor obtido mensalmente com a locação foi suficiente para


poder pagar sem esforço as parcelas do financiamento que,
aliás, durou mais do que a tranquilidade prometida.

18 | desmanche de uso desmanche de uso | 19


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Desmanche de uso rentável e invertido Desmanche de interdição

Esse subtipo do desmanche de uso é digno de nota. Nem tanto É uma modificação no uso e/ou no aspecto físico de determinado
porque o velho casarão passou a abrigar um banco, mas imóvel com o objetivo adequá-lo aos novos critérios legais.
pelo fato de que muitos, ao adentrarem o banco, fantasiam Apaga-se o antigo uso, remove-se a interdição.
atravessar um portal que os conduz à antiga mansão.
Assim, o odor adocicado dos perfumes femininos, misturado à
densa nuvem de tabaco, acabou tragado pelo cheiro de tinta
fresca que as falsas paredes exalavam.

20 | desmanche de uso rentável e invertido desmanche de interdição | 21


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Desmanche de negação Desmanche de afirmação

Deriva da necessidade de remover dado aspecto de uma Serve para afirmar, intransigentemente, o desmanche daquilo
construção que se tornou desagradável ao convívio. Por ser que já foi desmanchado.
irreparável ou, simplesmente, démodé.

22 | desmanche de negação desmanche de afirmação | 23


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Desmanche tautológico

Aquela praça nunca foi verdadeiramente uma praça, mas era


chamada praça. Era mais semelhante a uma rotatória ornada
por um pequeno jardim cultivado ao redor de um busto de
bronze. Uma pequena ilha no centro de um cruzamento de ruas
cada vez mais sobrecarregado pelo tráfego de automóveis.
Um dia, resolveram removê-la com o intuito de ajudarem a
desafogar o trânsito.

Ninguém sentiu falta de ter que contorná-la. O busto do dono


da Eureka foi movido para o canteiro de fronte à Big-Pão que
é, na verdade, um minimercado. Hoje, poucos vizinhos sabem
o que foi a Eureka.

24 | desmanche tautológico desmanche tautológico | 25


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Desmanche reflexivo Desmanche precoce-monumental

Tudo foi projetado com cautela. Esconderam todo traço que Toda e qualquer grande obra abandonada antes mesmo de ser
fazia daquele vão lugar impróprio à ocupação simétrica e concluída configura um desmanche precoce-monumental. Seja
plana. Depois vieram outras pessoas que preferiram assumir por desacordos, negligência ou incompetência, essa classe
as vertentes do espaço e deixaram nas paredes as marcas de desmanche deixa sempre, como rastro da má-fé, estranhos
de uma antiga reforma feita para obliterar o desnível do monumentos.
piso.

26 | desmanche reflexivo desmanche precoce-monumental | 27


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Desmanche parcial forçoso

O jardim construído por de trás da fachada parece ignorar sua


presença. A Yuca, ao contrário, esboça sentir ainda a sombra
de um dentro que não há, como se fora uma espécie de dor-
fantasma: seguindo a lei do heliotropismo cresce avançando
pelos vãos das antigas janelas.

Hoje, o hotel apresenta como curiosidade histórica o que


restou da antiga estação de bonde. Nem se lembram mais
de quando lamentaram não poderem completar o projeto
paisagístico. Nele, os 50 centímetros de espessura da fachada
seriam ocupados pelas bordas de um canteirinho ondulante,
recoberto por pedras brancas.

28 | desmanche parcial forçoso desmanche parcial forçoso | 29


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Desmanche de interdição antecipado

Há mais ou menos uns 80 anos, se deu a escolha do arquiteto


que iria projetar aquele belo exemplar de casa modernista.
O proprietário do terreno não precisou escolher alguém já
famoso, porque era homem possuidor de um aguçado senso
de contemporaneidade, traço de sua personalidade que foi
confirmado pela última reforma empreendida.

Mesmo já em idade avançada, ele próprio inspecionou a obra
que transformou o vão que formava o antigo pilotis, metade
numa garagem fechada e a outra num quarto de ferramentas.
Se dizia cansado de sanar infiltrações e por isso determinou
que construíssem um telhado de cerâmica (embora ninguém que
tivesse vivido ou frequentado a casa lembrasse de haver baldes
espalhados pela sala ou manchas de umidade na pintura).

Muitos criticaram as modificações, inclusive seus filhos e
netas. Vinte e seis anos depois constatou-se que a reforma
foi feita graças a uma antecipação histórica e um formidável
tino comercial. Destituída dos principais elementos que
qualificavam a casa como modernista, ela pôde ser vendida
por uma soma generosa a uma empresa que comprou todo o
quarteirão para erguer ali um novo shopping center.

A época da última reforma coincidiu com o fim da guerra
fria. Para o proprietário não foi difícil deduzir que, finda
a preocupação com o futuro, o passado seria o próximo alvo.

30 | desmanche de interdição antecipado desmanche de interdição antecipado | 31


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Desmanche recuperatório

Como a ilha que emergiu subitamente após um forte sismo, o


centro histórico, cuja importância fora engolida por “novos
e modernos” centros empresariais, volta à tona como uma
grande fonte de preocupação. Do alto dos prédios espelhados,
enquanto respiram o hálito do ar-condicionado regularmente
higienizado, ponderam sobre como sanar a cidade enferma.

Como abolir a presença da decadência e do atraso de


determinadas áreas, se perguntam. Para isso, seria imperioso
determinar, primeiro, quais eram os signos do declínio e
da ignorância, depois o seu oposto. Foi a partir disso que
os cinemas tornados igrejas e estacionamentos voltaram a
exibir filmes e os figurantes indesejados foram banidos para
margens cada vez mais distantes da cidade. Ao antigo centro,
foi devolvida a fotogenia perdida.

32 | desmanche recuperatório desmanche recuperatório | 33


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Desmanche de segurança

O desmanche de segurança não torna dada construção insegura;


a transforma, simplesmente, num corpo sem pele: elimina
alguns elementos que nos fazem esquecer o que está acima de
nossas cabeças e sob nossos pés.

34 | desmanche de segurança desmanche de segurança | 35


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Desmanche de controle

Dentro da agência bancária, funcionários conversavam com


fisionomia severa. Parecia um assunto crucial. Resguardados
pelo vidro e pelos reflexos que o turvava, não nos era
permitido ler o que seus lábios diziam. No chão havia
estilhaços de vidro, como estrelas que se derramam em uma
constelação. Era a porta de detector de metais que havia
espatifado.

O banco não abriu ao público naquele dia, e nem no dia


seguinte, porque os cacos ainda estavam sobre o piso e
encobriam o fato principal: não tinham conseguido instalar
a nova porta giratória que, com seus compartimentos, era
usada para aprisionar as centenas de suspeitos que passavam
por ela diariamente. O homem com marca-passo, a senhora com
sua muleta, a adolescente que esconde uma caixa de grampos,
o cowboy que usava uma bota de bico fino com ponteira
de metal, todos eles, sem exceção, gostariam de entrar
pela porta dessa vez; caminhar Através de seus incontáveis
fragmentos os fazendo estalar a cada passo, aumentando seu
número.

Mas, como a instituição financeira precisava garantir as


condições para o exercício do controle, não abriram a
agência, não deixaram os suspeitos pousarem os pés sobre
os seus cacos e fizeram a moça apagar as fotos que fez da
cena à revelia de autorização. Ela apagou. O segurança viu
com seus próprios olhos, as fotos desapareceram. O que ele,
os outros seguranças que vieram para engrossar o caldo e a
gerente mal-humorada não sabiam é que os cartões de memória
são palimpsestos.

36 | desmanche de controle desmanche de controle | 37


Uma cronografia de espectros
Maria Angélica Melendi

39
Con las reliquias de su ruina erigieron, en el mismo lugar, la desatinada
ciudad que yo recorrí...
Borges

Um dia ou outro, a poeira [...] começará a ganhar dos encarregados


da limpeza, invadindo imensas ruinas de casarões abandonadas,
armazéns desertos: e nessa época distante, já não subsistirá nada que
nos salve dos terrores noturnos...
Bataille
Na noite do 24 de agosto de 79, d.C., a cidade de Pompeia foi sepultada pela
erupção do Vesúvio. Em 1599, durante a escavação de um canal subterrâneo
para desviar o curso do rio Sarno, os operários esbarraram em muros antigos
cobertos de pinturas. Domenico Fontana, arquiteto notável, foi consultado e,
depois de achar outros afrescos, ordenou que tudo fosse enterrado novamente.
Somente no século XVIII, a cidade começou a ser exumada.

*
A cidade maia de Edzná está localizada ao norte do estado mexicano de
Campeche, na península de Yucatan. Edzná já era habitada em 400 a.C., mas
depois de ter florescido durante o período Clássico — há evidências de que
no ano de 650 d.C. moravam nela por volta de 70 mil almas — foi abandonada
pelos seus habitantes na metade do século XV. A floresta tropical, então,
avançou sobre a cidade, envolveu o Templo das cinco histórias, a Acrópole,
o Templo das máscaras, a Casa da lua. Troncos e raízes quebraram as pedras *
e destelharam as casas. No início do século XX, Nazário Quintana Bello Na Avenida Paulista, 37, no bairro de Bela Vista, sobrevive a Casa das Rosas.
começou a explorá-la. Inspirada no modelo arquitetônico dos casarões franceses, foi projetada, no
final da década de 1920, pelo escritório de Ramos de Azevedo, para servir de
* residência a uma das suas filhas. O casarão foi habitado pela família até 1986,
No momento da sua conclusão, o World Trade Center, conhecido em conjunto quando foi desapropriado pelo Governo do Estado de São Paulo. Desde 11 de
como “Torres Gêmeas”, apresentava os edifícios mais altos do mundo. março de 1991, abriga o espaço cultural conhecido por Casa das Rosas. Nunca
Construídos entre os anos de 1975 e 1985, o complexo, localizado no coração pareceria uma ruina aos olhos vorazes dos turistas, desejosos de ver arquitetura
de Nova York, tinha 1.240.000 metros quadrados de espaço de escritórios. autêntica e bela. A mansão restaurada e o belo jardim de roseiras são, porém, o
Na manhã de 11 de setembro de 2001, dois aviões colidiram contra as torres, espectro maquiado do que alguma vez foi a elegante Avenida Paulista.
que desmoronaram em pouco tempo. A queda das torres, combinada aos
incêndios que os destroços iniciaram em vários prédios vizinhos, levou ao *
colapso parcial ou completo de outros edifícios na zona próxima. O processo O título deste livro, Breve cronografia dos DESMANCHES, cria uma expectativa:
de limpeza levou oito meses, depois dos quais restou um espaço de terra o termo desmanche, no Brasil, é usado comumente para aludir ao desmonte de
devastada. um automóvel, geralmente roubado, para vender as peças usadas. Assim, o
desmanche supõe uma posterior utilização das partes do objeto desmanchado.
II III
Porém, entre as várias significações do verbete desmanchar, encontramos a desmanche ou ruína às fotos dos escombros informes ou às dos prédios em
1.2: fazer(-se) em pedaços, reduzir(-se) a fragmentos, despedaçar(-se), fragmentar(-se), perfeito estado de conservação. Se bem, a maioria dessas imagens exibe terrenos
destroçar(-se) e a 1.9: fazer desaparecer ou desaparecer, acabar com; extinguir(-se), baldios com restos de edificação, entulho de casas arrasadas, edifícios em processo
eliminar(-se)1. Nesse sentido a palavra pode designar os diferentes processos de destruição, estátuas de líderes sendo derrubadas, obras abandonadas antes de
de destruição e aniquilamento — não apenas físico, mas também afetivo e sua conclusão. A autora não naufraga no deleite da melancolia; pelo contrário,
simbólico — dos objetos que amamos ou das cidades que habitamos. sutis ironias são alinhavadas lá e acolá. Ante a imagem da destruição, os textos
nos permitem um sorriso imprevisível.

Desmanche parcial forçoso

O jardim construído por de trás da fachada parece ignorar sua


presença. A yuca, ao contrário, esboça sentir ainda a sombra
de um dentro que não há, como se fora uma espécie de dor-
fantasma: seguindo a lei do heliotropismo cresce avançando
pelos vãos das antigas janelas2.

Sob a foto de um descampado onde se estende uma grande fileira de pilares


sobre os que não há qualquer plataforma, o verbete esclarece

Desmanche precoce-monumental

Quando passamos suas folhas, apesar de observar um ou outro prédio intato, Toda e qualquer grande obra abandonada antes mesmo de ser
vemos os restos de catástrofes: viadutos inacabados, casa derruídas, amplos concluída configura um desmanche precoce-monumental.
terrenos desolados em meio a prédios novos, uma fachada que ainda se sustenta Seja por desacordos, negligência ou incompetência, essa
classe de desmanche deixa sempre, como rastro da má-fé,
na frente da morada ausente, escombros, desmantelamentos, derrubamentos,
estranhos monumentos3.
desmanches, ruínas.
O monumento não é monumento apenas pelo seu tamanho, mas na ausência
Cada foto do livro é acompanhada de um verbete classificatório que se resolve de sentido aparente — que significam os pilares da ferrovia sem a ferrovia? —
num breve relato. Um relato em ruínas, também, que oscila entre o ficcional se constitui como alegoria do descaso e da corrupção. Walter Benjamin acredita
e o fatual. Porque a toda hora nos perguntamos sobre a pertinência de chamar

2 MYRRHA, Lais. Breve cronografia dos desmanches. São Paulo, 2013. p.28.
1 Disponível em: < http://houaiss.uol.com.br/busca?palavra=desmanchar>. Acesso
em: 20 nov. 2013. 3 MYRRHA, 2013. p.27.
IV V
que tanto a ruína como a alegoria falam de uma ruptura na relação entre forma foi alguma vez salão de baile e convoca os espectros familiares para dançar
e significado: As alegorias são, no reino dos pensamentos, o que são as ruínas no reino silenciosamente na nova-velha sala.
das coisas4. A modernidade pareceria projetar o ameaçante passo do tempo sobre
os destroços do passado, como o mostraria a produção contemporânea de Desmanche de interdição
literatura, arte e arquitetura impregnada do fragmentado e do ruinoso.
É uma modificação no uso e/ou no aspecto físico de
determinado imóvel com o objetivo de adequá-lo aos novos
As ruínas do viaduto nunca finalizado seriam, também, ruínas do futuro, como critérios legais. Apaga-se o antigo uso, remove-se a interdição.
quer Carlos Garaicoa. Para o artista cubano, essas ruínas — esqueletos de
prédios em processo de construção, abandonados logo que esta se iniciara; casas Assim, o odor adocicado dos perfumes femininos, misturado
à densa nuvem de tabaco, acabou tragado pelo cheiro de tinta
destelhadas, sem janelas —, seriam os remanescentes de um projeto político e
fresca que as falsas paredes exalavam6.
social fracassado.
*
O encontro com esses lugares evoca uma estranha sensação:
Se o final do século XX foi marcado por uma intensa demanda de memória,
não são ruínas de um passado luminoso, mas de um presente
incapaz. Olhamos para uma arquitetura que nunca foi a primeira década do século XXI desperta cominada por um estranho amor
finalizada, pobre na sua incompletude, proclamada ruína pelas ruínas. As ruínas do século XX —, afirma Svetlana Boym — desvelariam
antes de existir plenamente. A verdadeira imagem do as contradições internas das primeiras vanguardas; as singularidades e as
arruinado pelo abandono: as chamarei ruínas do futuro5. excentricidades que as definem, tanto quanto o elemento visionário e a busca
da igualdade social7. O fascínio contemporâneo pelas ruínas revela-se como um
Outras fotos, outros verbetes, expõem edifícios bem conservados
paradoxo moderno a nos lembrar o inevitável fracasso das utopias.
— a fachada da boate Olímpia em Belo Horizonte, nos anos 1990,
um palacete eclético ocupado por um banco na Avenida Paulista
As ruínas começaram a ser percebidas como resíduos valiosos do passado
em São Paulo, ou o auditório impecável do Museu de Arte da Pampulha, até
durante a Renascença. Os remanescentes arquitetônicos de antigas civilizações
1957, boate do Cassino da Pampulha.
adquiriram o estatuto de testemunhos, ainda vivos do passado. Mesmo tendo
perdido seu significado e sua função, foram investidas com atributos estéticos,
O que neles se desmanchou, o que se arruinou, não foi o aspecto material, uma
políticos ou históricos do presente. Assim, a ruína é um tropo de indagação
e outra vez restaurado, mas sua função primeira, que apagada, foi esquecida e
sobre a própria origem; o lugar de estratégias de reflexão que podem nos dizer
substituída por uma nova. Vez por outra, algum artista relembra que o auditório
mais sobre quem as olha que sobre o que é olhado.
4 BENJAMIN, Walter. Origem do drama barroco alemão. São Paulo: Brasiliense, 1984,
p.200. 6 MYRRHA, 2013. p. 21.
5 GARAICOA, Carlos. Disponível em: <http://www.universes-in-universe.de/car/ 7 Cf. BOYM, Svetlana. De la torre de Tatlin a la arquitectura de papel, in Punto de Vista, n.
documenta/11/brau/s-garaicoa.htm>. Acesso em: 15 nov. 2007. 88, p. 20 e ss.
VI VII
Georg Simmmel acreditava que as ruínas denunciavam a ruptura do pacto o trabalho do homem no informe da matéria bruta, mas estaria a criar novas
entre o homem e a natureza8. As construções, erguidas à revelia do espaço formas contaminadas, totalmente significantes, compreensíveis, diferenciadas10.
natural, ir-se-iam arruinando num processo em que a natureza parecia lutar
contra o corpo estranho construído nela. Abandonado pelos humanos, o Na ruína, o equilíbrio entre natureza e espírito se destrói e a natureza prevalece.
edifício esboroaria, derrubado pelo descaso e pela intempérie. A vingança Surge assim, um processo de luto que as habita com os espectros da melancolia.
consumava-se quando o monte de escombros era revestido pela vida vegetal e A ruína cria a forma presente de uma vida passada, não com base nos seus conteúdos ou
povoado pelas animálias que faziam dele sua guarida. nos seus restos, mas com base no seu passado, enquanto tal11.

*
Nos últimos anos, muitos artistas se voltaram para um imaginário de decadência
e destruição. Observamos uma proliferação de trabalhos que exploram as ruínas
da arquitetura modernista, das estruturas fenecidas dos anos 1950, das paisagens
devastadas por desastres industriais ou climáticos. Seus precursores imediatos
são alguns artistas das décadas de 1960 e 1970 que exploram a falência do
projeto utópico da modernidade. Robert Smithson, Gordon Mata-Clark e Hélio
Oiticica conseguiram ver, nessa época, as sombras que avançavam desde o futuro
até seus próprios tempos.

O trabalho de Lais Myrrha transita também do lado dessas sombras, em uma


tensão permanente entre a solidez da imagem e os rastros flutuantes do seu
apagamento. A artista está atenta ao momento de formação da imagem e ao
do seu desaparecimento; sempre concentrada na emergência ou na morte dos
Se toda construção leva em si, como uma semente prestes a brotar, o cerne de objetos, parece não interessar-lhe o instante de sua permanência. Sua obra nos
sua destruição, as ruínas seriam o resultado de essa germinação monstruosa. oferece o resultado de uma meditação constante sobre o tempo intermitente
A ideia romântica da ruína como uma reconciliação do espírito com a terra mensurado pelos relógios e a fugacidade da experiência vivida.
mãe aponta para o retorno da arquitetura à natureza — lugares de vida de
onde a vida afastou-se 9. O processo de deterioração temporal não ocultaria

8 Cf. SIMMEL, Georg. La rovina: Rivista di Estetica, 8, 1981, 10 Cf. HUYSSEN, Andreas. Autenthic ruins. In: HELL, Julia e SCHONLE, Andreas.
p. 121-127. (Org.). Ruins of Modernity. Durham/London: Dike University Press, 2010. p. 19.
9 Cf. SIMMEL, 1981, pp. 121-127. 11 SIMMEL,Georg. 1981, pp. 121-127.
VIII IX
Entre todos seus trabalhos, talvez seja Pódio para ninguém, 2010, o que expresse
melhor essa tensão. O Pódio tem a forma e as medidas do objeto usado nas
premiações, está feito, porém, de pó de cimento prensado. Ninguém poderá
subir ao pódio, ninguém será premiado nunca. Apenas montada, a forma esboroa
e tende a desaparecer. Só restará a poeira, espalhada no chão como a de tantas
construções desmanchadas.
*
Sobre a ruína — sobre os desmanches — estende-se um véu de melancolia que
nasce da percepção paradoxal de que, neles, a obra humana transforma-se num
joguete, seja da natureza, seja das forças de destruição humanas.

Se, como cita Benjamin, a fachada partida, as colunas despedaçadas, têm a função de
proclamar o milagre de que o edifício em si tenha sobrevivido às forças elementares da
destruição, do raio e do terremoto12, sabemos que hoje esse milagre parece não ser
mais desejável. Depois dos atentados, depois dos tsunamis e dos maremotos,
depois das invasões e as guerras, tudo será reconstruído ou desaparecerá.
As mercadorias não envelhecem e os montes de entulho que provém dos
desmanches serão jogados em algum aterro. O mesmo acontecerá com os
desmanches simbólicos, o velho uso será — ou não —, enterrado em alguma
plaquinha de bronze inaugurada pela autoridade de turno.

Não esperamos mais do milagre dessa sobrevivência, entretanto Lais Myrrha


circula com leveza entre os espectros — seres feitos de signos, de signaturas13,
que o tempo inscreve nas coisas — e os convida a nos assombrar desde fotografias
ou entre as linhas dos textos de sua breve cronografia.

12 BORINSKY apud BENJAMIN, Walter. Origem do drama barroco alemão. São Paulo,
Brasiliense, 1984. P. 200.
13 Cf. AGAMBEN, Giorgio. Signatura rerum sul método.Torino: Borati Boringhieri, 2008.
X XI
Breve cronografia dos DESMANCHES
Lais Myrrha, 2013

Uma cronografia de espectros


Maria Angélica Melendi, 2013

Revisão
Daniela Pinheiro

Crédito das Imagens


Alexis Azevedo (pp. 17 e 21)
Reuters (p. 19)
Lais Myrrha (pp. 4, 7, 8, 11, 13,
15, 16, 18, 22, 25, 29, 31, 33)
Rodrigo Schmidt (p.5)
Ricardo de Siqueira Barreto (p.27)
Maria Angélica Melendi (encarte)

Direção de fotografia
Lais Myrrha

Tratamento de imagens
Estúdio 321
Lais Myrrha (encarte)

Agradecimentos
Alexis Azevedo
Danielle Menezes
Fábio Tremonte
Farinha Produções
Fernando Cohen
Galeria Manoel Macedo

Impressão
Gráfica Pampulha
Trabalho realizado pelo Edital Bolsa Funarte de
Estímulo à Produção em Artes Visuais, 2012