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A Pregação de Jesus

Conforme se observa no Antigo Testamento, ao tempo dos patriarcas,


todos os piedosos e justos podiam falar em nome de Deus, quando
visitados pelo Espírito. Porém quando Israel prevaricou adorando
ídolos, parece que Deus limitou seu Espírito a homens escolhidos, aos
Profetas, e Sumos Sacerdotes e Reis. Mas com a morte dos últimos
Profetas escritores, Ageu, Zacarias e Malaquias, o Espírito "se apagou
por causa do pecado de Israel" e desde então acreditava-se que Deus
continuaria falando apenas pelo "eco de sua voz"(ver Joel). Na idéia
de que "Espírito se apagara" expressa-se a convicção de que o tempo
presente estava alienado de Deus, e tempo sem a manifestação do
Espírito é "tempo sob o julgamento de Deus" . Deus se cala e
somente nos últimos tempos viria de novo o Espírito. Há então a
partir daí inúmeros testemunhos da aspiração intensa pela vinda do
Espírito.

A PREGAÇÃO DE JOÃO BATISTA

A atividade de João Batista precedeu imediatamente à de Jesus, e


consistia num apelo ao reconhecimento do pecado e no batismo
daqueles que se dispunham à conversão. O seu apelo transformou-se
num grande movimento de penitência, e de todos os lados afluíam as
multidões para o vale do Jordão. O resumo da pregação do Batista
pode ser encontrado em Mt 3, 1-12: Ele anuncia a proximidade do
Reino de Deus como motivo da necessidade de conversão (v.2) e a
chegada de alguém mais forte do que ele, que batizará não mais
apenas com um batismo de conversão, mas um batismo no Espírito
Santo e no fogo (v.11). Jesus mesmo reconheceria a missão do
Batista, como podemos ver em Mt 11, 10: "Dele é que está escrito:
Eis que eu envio meu mensageiro diante de ti". Jesus viu nele um
Profeta. Retorna assim, depois de longa interrupção, o Espírito que se
extinguira. Deus rompe o seu silêncio e volta a falar ao seu povo,
como no tempo dos Profetas.

O BATISMO DE JESUS POR JOÃO

O Evangelho de Mateus usa as mesmas palavras para descrever a


pregação de João e a pregação de Jesus: "Convertei-vos, o reinado
dos céus aproximou-se" (Mt 3,2 e Mt 4,17).
Os quatro Evangelhos e os Atos(1,22) estão de acordo em afirmar
que também Jesus se dirigiu ao Jordão para ser batizado por João.
Porém, o seu foi um batismo especial, porque enquanto cumpria a
justiça da Lei (Mt 3,15), manifestar-se-ia diante de todos que Ele era
o Enviado. Este é o primeiro sinal visível da diferença entre a
pregação de João e a pregação de Jesus. Como João Batista, Jesus
prega convida à conversão, mas enquanto o Batista anuncia outro
que está perto, Jesus anuncia a si mesmo, porque Ele é o cumpridor
da promessa, Ele traz em si o Reino esperado. Jesus inaugura com a
sua presença, na sua Pessoa, a chegada do Reino de Deus. Por isso,
no tempo anterior, João era o maior, mas no tempo que agora se
inicia, João é o menor (Mt 11,11). Este é o abismo, que sem prejuízo
à mensagem, separa a pregação dos dois.

A PREGAÇÃO DE JESUS

O tema central da pregação de Jesus foi a soberania real de Deus, a


BASILËIA, ou o REINO DE DEUS. Numerosas são as parábolas nas
quais Ele trata do Reino de Deus. Jesus chama todos os homens de
todos os tempos e lugares para converter-se ao Reino de Deus, que
Ele mesmo veio inaugurar. O que significaria isto?

Pra entender as palavras de Jesus referentes ao Reino de Deus, é de


grande importância saber quais as idéias que os homens do seu
tempo ligavam à expressão "Reino de Deus". Enquanto para o
Ocidental, reino significa um território, para o oriental significa
simplesmente o poder de reinar, a autoridade, a soberania em ação.
Então, o Reino de Deus seria a firmação de sua autoridade sobre toda
autoridade humana no céu e na terra. O Livro de Daniel já se referira
a um futuro reino de Deus (Dn 2,44), e a um Reino de Deus na era
presente (Dn 4,31).

Segundo o pensamento de Israel, o estabelecimento do Reino de


Deus deu-se pela proclamação da Lei, e se tornará visível em todo
lugar onde os homens se sujeitem a obedecê-la. Por isto quando o
judeu recita o SHEMÁ, ou seja, a profissão de fé no Deus único, está
com isto a proclamar o reinado de Deus sobre Israel. Assim todo
pagão que se converte, toma sobre sí o jugo do reino de Deus.

Todavia, ainda segundo o pensamento do povo de Israel, na era


presente o reino de Deus está limitado, oculto, porque Israel está sob
a servidão dos povos pagão que rejeitam a Lei. O reino de Deus e o
reino dos pagão se contrapõem em insuportável contradição, mas
virá a hora em que esta dissonância será abolida. Israel será
libertado e o reino de deus se revelará em toda a sua glória, e o
mundo todo se colocará sob a autoridade de Deus. (Veja Zc 14,9).

Jesus retoma tudo isto. Porém, Ele é muito mais do que um Profeta.
Ele não retoma simplesmente a história passada: Ele a ultrapassa.
Sua tarefa não é a dissolução da Torá (Lei), mas o seu verdadeiro e
perfeito cumprimento.

A QUEM SE DIRIGIA A PREGAÇÃO DE JESUS

Na sociedade contemporânea de Jesus se distinguiam quatro grupos


especiais: Os Sacerdotes, Os Escribas, os Fariseus e os Zelotas. Os
Sacerdotes constituíam um estado hereditário e sua ordenação não
dependia de formação teológica, mas de prova de honestidade. Seu
papel essencial era realizar o culto em Jerusalém. Já os Escribas,
estado que se formara na época pós-exílica, eram teólogos estudados
que tinham direito de dar decisões válidas tanto de cunho religiosos
como penal, na qualidade de juízes. E os fariseus constituíam um
grupo de leigos que se formara na metade do século II a.C. a fim de
opor-se à helenização judaica. Seus membros provinham de todos os
setores e camadas da população, consistindo, na maioria, de
comerciantes e trabalhadores manuais. Por toda parte do país eles se
reuniam como leigos piedosos e cumpridores de todos os rituais da
lei. E os Zelotas constituíam um movimento político em prol da
libertação de Israel do jugo das nações opressoras.

Conforme vimos no Capítulo anterior, Jesus, na morte de Cruz veio


colocar em crise todos estes grupos, assim como revelar aonde
estava de fato colocada a sua esperança. É o que denominamos
escândalo Pascal. Assim também a sua pregação realizou neste
grupos uma espécie de escândalo pré-pascal. A mensagem profética
autêntica é portadora de dois aspectos que se ligam
indissoluvelmente: Graça e Julgamento. Jesus atribui uma dupla
missão à sua pregação: por um lado, abre os olhos para o Evangelho
Misericórdia. Ele anuncia a irrupção pródiga da Graça no tempo. Ele
abre o tempo salvífico. Assim é que insere no tempo a semente do
Reino de Deus. A Boa-Nova é a oferta do último tempo da
Misericórdia antes do julgamento. Mas por outro lado, esta mesma
misericórdia é rejeitada de tal modo que pronuncia desde já um
julgamento sobre aqueles que a recusam. Por isso, a mensagem de
Jesus representa a Salvação, mas pode operar a maior desgraça
(Veja Mc 4,11).

O Escândalo da Pregação de Jesus

O escândalo pré-pascal consistiu na oferta de Salvação feita aos


pobres e aos pecadores, para os quais Jesus olha com infinita
misericórdia antes mesmo que eles tenham consciência do seu
pecado. Aconteceu com Zaqueu, aconteceu com a Samaritana,
aconteceu com a pecadora que ia ser apedrejada, aconteceu com
Levi...O Deus que Jesus prega é Pai dos pequeninos e perdidos, que
quer tratar com os pecadores e se rejubila quando um deles acha o
caminho de casa (Lc 15,7-10). Porque Deus é assim, bom e sem
limites, porque Deus ama os pecadores, é que Jesus escancarou as
portas do Reino da Salvação, chamou a todos sem exceção, “como
uma galinha chama todos os pintinhos para o abrigo de suas asas”
(Mt 23,37), para serem como ramos inseridos no tronco que é Ele
mesmo. E a todos, Jesus pronuncia o perdão não só com palavras,
mas com atos. Um grande exemplo disto é a sua comunhão de mesa
com os pecadores (Mc 2,15/Lc 15,2).
No Oriente, receber alguém à mesa significa até hoje uma oferta de
paz, confiança, fraternidade e perdão. Assim sendo, as refeições de
Jesus com os pecadores são expressão da sua missão e mensagem,
uma expressão clara do amor Redentor de Deus. Além disto, trazem
uma mensagem escatológica, pois prefiguram o banquete salvífico do
fim dos tempos, ao qual todos somos convidados, e livres para
escolher (Mt 8,11). Jesus investiu no pecador, de quem todos já
tinham desistido, expressando o caráter ilimitado da sua misericórdia.
As portas do Reino estão abertas para todos, e os que livremente
decidirem entrar nele receberão riquezas diante das quais todos os
seus valores anteriores empalidecerão. Este é o dom por excelência,
do tempo da Salvação que está a irromper-se.

O anúncio da Boa-Nova foi recebido com uma tempestade de


indignação primeiramente pêlos círculos farisaicos, porque era por
eles considerado dever religioso mais importante manter a separação
com referência aos pecadores. Para estes, Deus ajuda os justos, mas
para os pecadores, só vale o julgamento e o mérito. Aos olhos de
Jesus, os fariseus são homens que realmente tentam fazer a vontade
de Deus. Jesus via a sua disponibilidade, seu jejum, seu sacrifício,
suas obras, seu zelo missionário. Todavia, os vê em perigo e
distanciamento de Deus, porque enxergam minuciosamente os atos
de pecado, concedendo-lhe graus de importância de tal modo, que
não vêem a essência do pecado, que a revolta contra Deus, e que
esta pode se instalar até mesmo antes de qualquer ato, pela recusa
do próprio coração a Deus. Lá onde o pecado não é levado a sério, o
homem que confia nas suas obras pensa bem demais sobre si
mesmo, auto justificando-se, e assim corrompendo sua vida inteira.
O homem que pensa bem demais de si mesmo não perscruta o
coração de Deus, porque está seguro no seu julgamento positivo
sobre si mesmo. Por isso, toda a sua piedade tem em mira
unicamente que os homens o tenham por piedoso. E igualmente, o
homem que pensa bem demais de si mesmo não leva a sério o irmão.
Tem-se por melhor e o despreza (Lc 15,25-32/Lc 7,39).

A casuística rabínica apresenta uma série de pecados “imperdoáveis”,


o que impede de se ver a raiz de cada um deles. É a bagatelização do
pecado, que impede de ver que não só o assassinato, mas já a
palavra ofensiva de ira é gravíssima. Por isso, é que seu excesso de
“leis” impedem de enxergar a raiz do pecado e converter-se. Jesus se
expressa diversamente em Mc 3,28s: Deus pode perdoar aos homens
todos os pecados, até mesmo toda sorte de blasfêmia que disserem.
Mas a blasfêmia contra o Espírito Santo não se perdoa. O que
significa isto? O pecado dos indiferentes e empedernidos, que vivem
obcecados de auto justificação, o que os torna surdos ao evangelho.
Os pecadores públicos já não tinham como auto justificar-se, por isto
abriam-se facilmente à misericórdia divina: o publicano, a pecadora,
a Samaritana, etc. Os fariseus piedosos, pensando bem demais de si
mesmos, estão mais longe de Deus que os pecadores notórios.

Jesus censura os fariseus porque estes, enquanto pagam


escrupulosamente o dízimo, mandam às favas a justiça, a
misericórdia e a fidelidade interior (Mt 23,23s). Cumprem
exteriormente os preceitos, mas seu interior é impuro. Dão dinheiro
aos pobres, observam cuidadosamente as horas de oração, jejuam
duas vezes por semana (Mt 6,1-18), mas toda a sua piedade está a
serviço do desejo de recompensa e da soberba, e daí a hipocrisia.
Assim, se assemelham a sepulcros pintados de branco na primavera,
mas por dentro são só ossadas (Mt 23,27s). Aos olhos de Jesus, eles
estão expostos ao perigo de não entrar no Reino de Deus.

Na sua censura aos contemporâneos, às gerações que se recusam a


crer, Jesus inclui também os sacerdotes (Mc 11,15-17). Estes fizeram
do templo um covil donde partem para empreendimentos de roubo.
Abusam da sua posição usando a casa de Deus para negócios e lucro.
Assim, pretendem colocar Deus a serviço do pecado pelo fanatismo,
pela tentativa de realizar trocas com Deus. E inclui também os
escribas, a quem Jesus endereça uma censura totalmente diversa:
Querem ser respeitados, procuram lugares de honra, saudações e
títulos, e assim transformam a glória de Deus na sua própria. Com
sermões sérios, exortam o povo enquanto alimentam intenção de
levar a cabo crimes piores. Pregam a vontade de Deus e todavia não
a realizam. Lançam, pesados fardos nos ombros dos homens e no
entanto não os querem tocar nem com a ponta dos dedos(Veja Mt
23,1-13.16-22.29-36).

Jesus contempla como os homens correm para a perdição enquanto


acusam os outros, os acontecimentos. E por vezes até o próprio
Deus. Você por acaso não enxerga que está na posição de acusado,
você que acusa Deus e aos outros? E que sua causa é desesperada
porque o intervalo da graça está passando? É o último minuto para
entrar em acordo com o juiz (Mt 5,25) Vista o traje nupcial, antes
que seja tarde demais (Mt 22,11-13). Jesus vem inaugurar o Tempo
da Graça, mas este tempo tem um limite. Pode ser o limite desta
vida, pode ser o limite da sua volta. Por isto, abrir-se à misericórdia
que transforma é a necessidade da hora. A conversão é necessária
não só para os “pecadores públicos”, mas até mais para os que,
segundo o julgamento do mundo “não precisam de penitência” (Lc
15,7). Os que se julgam honestos, piedosos, que não cometeram
nenhum pecado público. Para eles, sim a conversão é mais urgente,
porque ainda nem sequer conhecem a verdade sobre si mesmos. A
verdade de que ninguém é justo diante de Deus. Este é o primeiro
passo para a sua conversão.
Os que esperavam o fim, a separação iminente dos justos e
pecadores, chegam a perguntar a Jesus porque ele não afasta os
pecadores do grupo que o segue. Mas a esta pergunta Jesus
respondeu com a parábola do Trigo e do Joio (Mt 13,24-30), porque
ainda não chegou a hora, ainda é o intervalo da Graça. Quando vier a
hora, o próprio Deus, que conhece o coração de cada homem, fará a
separação. Nenhum de nós pode fazê-la. Mas Jesus, ao chamar os
que o acompanhavam, insistiu na Urgência do seu apelo (Lc 10,7/Mt
8,22). Sua missão significa o prelúdio para a chegada do tempo
escatológico da tribulação. O mundo, dominado pelo pecado, caminha
para a morte. A urgência do apelo à conversão mostra que ainda se
dispõe de um último tempo de Graça, que não é longo (Veja Mt
24,37-39/Mt 25,1-12/Lc 14,15-24). Por isto, cumpre entrar
urgentemente no Reino, e experimentar desde já as suas primícias.

O Que Significa Conversão

Reconhecer a própria culpa. Não as falsas culpas, mas a real, a


profunda culpa. Deixar que o Espírito Santo revele a raiz do pecado. E
deste reconhecimento deve brotar uma nova postura diante de Deus,
de si mesmo e dos irmãos. Chega de cobrar Deus. Chega de auto-
piedade, chega de acusar o irmão. (Veja Mt 5,23s;lc 17,4).

Todavia a conversão é mais. Implica afastamento do pecado. Isto é


posterior ao perdão. Pode-se dizer que é graça que provém do perdão
divino. Graça a ser abraçada. Por isto a primeira obra do Espírito
Santo no reconhecimento do pecado é nos fazer compreender a
gratuidade e a imensidão do amor pessoal de Deus por nós. “Fomos
criados por um gesto misericordioso”. Somos como que “embebidos”
de misericórdia, constituídos como seres chamados à vida por um
perdão que precedeu nosso erro e o nosso arrependimento. Se Deus
não fosse misericordioso, não teríamos jamais existido; e se esta
misericórdia existe desde o princípio do nosso viver, ela ainda agora é
fonte de vida graça da qual temos continuamente necessidade, e que
constantemente nos cerca. Cada dia que passa é um perdão sempre
novo, pessoal, criativo. Mas também discreto e silencioso, tão
discreto que a própria pessoa às vezes se arrisca a não reconhecê-lo.

Vivemos imersos na misericórdia divina, mas podemos não nos dar


conta disso. Quando pelo menos um só de nós percebe isto, Deus faz
uma festa no céu. Foi Jesus quem o revelou, comparando a alegria de
Deus pelo pecador que retorna com a do Bom Pastor que encontra a
ovelha perdida, e acrescentando que o próprio Pai sente muito mais
alegria por um pecador que se descobre envolvido por essa
misericórdia que por noventa e nove pretensos justos, que se iludem
com sua justiça e crêem que só de vez em quando têm necessidade
do perdão de Deus”. (Viver Reconciliados, Amedeu Cencini, Ed
Paulinas,p.64). Deixar o pecado não é simplesmente mudar hábitos
comportamentais, pois isto é conseqüência. Deixar o pecado é
retornar para Deus, é retornar à casa paterna, reassumindo a própria
filiação divina. Por isto é que o coração do penitente é um coração de
criança: “Quem não receber o Reino dos Céus como uma criança não
entrará nele” (Mc 10,15). As crianças e os que lhes assemelham ,
segundo a sociedade daquele tempo e lugar, acham-se numa
situação de total dependência. Ela não é o símbolo da inocência, mas
da disponibilidade e obediência sincera. Ao acolher o Reino de Deus
com tais disposições, entra-se imediatamente nele. É com isto que
chegamos ao centro da conversão anunciada por Jesus: Converter-se
significa aprender de novo a dizer ABBA, encontrar o caminho de
volta para a casa do Pai, que ali lhe espera de braços abertos. Em
última instância, a conversão à qual Jesus nos chama, nada mais é
do que abandonarmo-nos à ação da Graça de Deus.

O motivo da conversão é a gratuidade divina. Já João Batista


interpelara à Penitência. Mas a conversão, pregada por Jesus vai
além. Onde está a diferença? Dá-se uma resposta na conversão de
Zaqueu (Veja Lc 19,1-10). A este homem era inconcebível que Jesus
tenha pretendido hospedar-se na sua casa, e comer com ele, que era
o mal-falado, o desprezado, o evitado. Jesus lhe restitui a honra
perdida ficando com ele em sua casa e partindo com ele o pão.
Fazendo-o participar da comunhão com Ele mesmo, abre-lhe as
portas do reino da gratuidade, da doação de si. Implicitamente
convida-o a ser dom, e Zaqueu acolhe o convite. Zaqueu entra no
reino da doação de si mesmo. A bondade de Jesus vence Zaqueu. O
que não conseguiram todas as censuras, e todo o desprezo de seus
concidadãos, conseguiu-o a bondade de Jesus, diante da qual Zaqueu
publicamente reconhece a sua culpa e se penitencia. O mesmo se dá
com a Samaritana, a quem Jesus pediu água. Depois de tudo ela
corre a anunciar, o “homem que sabia tudo da sua vida”. Por outro
lado, isto não aconteceu com Corazim e Batsaida. Nestas cidades se
deram ações visíveis da misericórdia de Deus, mas seus habitantes
continuaram a viver para si mesmos. É a liberdade do chamado
divino a entrar no Reino: “se hoje ouvires a minha voz entrarei e
cearei contigo”. Penitência não é ato de humildade humana, mas
penitência é ser vencido pela graça de Deus.

A Graça de Deus sempre desinstala o homem, e o insere aonde ele


deveria estar se não fosse o pecado: Em Cristo. Tomemos Isaías 53,
o quarto canto do servo de Iahweh, no qual a tradição cristã sempre
viu o mesmo destino histórico de Jesus. O servo não cometeu
nenhum pecado, mas “levou nossos pecados em seu próprio corpo, e
por suas feridas fomos curados” (Veja também Fl 2,6-11). Ele doou
sua vida por amor a nós, e assim nos salvou. Veja agora is 53,5-11.
“Ser salvo não quer dizer simplesmente que Cristo , ao morrer na
Cruz, nos reabriu as portas do reino, mas que nos deu um novo ser:
o Seu. E não em termos genéricos, mas particularmente nos
comunicou aquele seu ser que salva carregando nos ombros o peso
do outro. Portanto, salvando-nos, nos participou e compartilha
conosco sua vontade de salvar e aquela mesma disponibilidade a nos
tornar, nele, instrumentos de salvação do outro” (Viver
reconciliados,p.136-7).

Não é indiferente que Cristo nos tenha remido morrendo na cruz,


assumindo as nossas dores. Se nos salvou, também nos transmitiu
um modo correspondente de viver a Salvação e de ser salvo, não só
como modalidade comportamental ou exemplo a imitar, mas como
uma disponibilidade nova a doar as nossas vidas. Por isto, aquele que
acolhe a Salvação recebe a predisposição para agir em conformidade
com aquele ato que o salvou. Morre o homem velho e nasce a
criatura nova, disponível à doação de si. Isto é acolher a salvação,
isto é verdadeira conversão, é realização de si mesmo. “O homem,
única criatura sobre a terra a ser querida por Deus por si mesma, não
se pode encontrar plenamente a não ser no sincero dom de si
mesmo” (GS,n.24)

Aquele que se fez pecado por nós e por cujas chagas todos nós fomos
curados nos revela que o pecado é vencido pela graça de doar a si
mesmo, em Cristo. O homem muitas vezes fracassa em seu processo
de conversão porque pretende derrotar o seu pecado para sua
salvação e para construir sua santidade isoladamente. Assim, em vez
de derrotar o mal que há em si, o do egoísmo, realiza uma falsa
conversão, legalista, farisaica, e acaba ficando só com seu pecado e
com seus sonhos de santidade, a lutar contra o vazio. A Salvação
nunca é subjetiva, particular. Ela implica sempre a atuação do
mandamento do amor. Veja o que aconteceu com Zaqueu, veja o que
aconteceu com Leví, veja o que aconteceu com a pecadora, e veja o
que aconteceu com o jovem Rico, que foi embora sozinho, com sua
pretensa santidade. Com efeito, o verdadeiro mal do qual o homem
tem necessidade de ser libertado é o egoísmo: quando o vence é que
entra realmente no Reino de Deus, e experimenta a alegria de ser
salvo.

Neste contexto é que vemos a Samaritana dar-se conta de seu


egoísmo, da sua falta de amor pêlos tantos “maridos” que teve. Jesus
estava lhe oferecendo a água da vida, que desinstala, que tira o
homem de si mesmo e o lança para amar. Aí ele detesta o pecado, e
pretende deixá-lo para não mais ferir a Deus e ao próximo. Quando
encontra gratuidade do amor de Deus que dá-se sem medidas, e
acolhe este amor é impelido a dar-se sem medidas. Enquanto isto
não acontece, o homem permanece numa falsa conversão,
simplesmente legalista, a “limpar a casa e deixá-la vazia” até que
venham outros tantos demônios provindos do desamor, a se instalar
nela (Veja Mt 12,43-45 e Lc 11,24-26).
Embora dê orientações, a grande novidade no apelo de Jesus à
conversão não é o ato, mas a sua motivação. O judaísmo antigo está
dominado pela idéia do Mérito. A mola propulsora do agir é a
esperança de recompensa. Jesus também fala de recompensa, mas
na Lei Nova ela é preexistente. neste caso, é outro o motivo para
agir: a gratidão pelo dom de Deus. Aquele que acha o tesouro é
vencido pela grande alegria. Fica sendo a coisa mais óbvia do mundo
que ele entregue tudo para apropriar-se deste tesouro (Mt 13,45s).
Assim como a experiência da bondade sem fronteiras de Deus e sua
paciência é fonte de que jorra o amor pêlos inimigos, , o perdão de
Deus constrange a amar. Em Lc 7,36-50 temos um exemplo disto.
Deus perdoa a pecadora não porque ela amou muito, mas ela amou
muito porque Deus a perdoou gratuitamente. Deus a amou
gratuitamente, e por isso a perdoou, e ela então amou Deus muito
mais do que aquele que não teve a experiência da gratuidade do
amor divino. Por isto, aquele que vive de comércio com Deus não
pode conhecer o Seu incondicional e gratuito amor, e então não pode
verdadeiramente amar, porque não viveu esta experiência. No reino
de Deus só há um motivo para agir: a gratidão pelo perdão. Zaqueu
também é vencido pela bondade de Jesus, e por isto responde, de
todo coração com a restituição dos que defraudou e a doação ao
pobres.

Jesus tem sede da nossa conversão. E ele disse isto à Samaritana.


Jesus necessidade de hospedar-se na nossa casa. E ele disse isto a
Zaqueu. Jesus tem sede de restituir-nos a imagem de Filhos do Pai
que é todo doação de si. Jesus não tem sede das nossa ações
vistosas. Jesus tem sede do nosso dar-se, sem limites porque se
arriscamos ele nos dá a graça de fazê-lo. João Batista pregava o
batismo do reconhecimento do pecado. Jesus também o fez, mas foi
infinitamente mais além, porque suas palavras são de vida eterna.
Ele trouxe para o tempo a linguagem da eternidade. Amar, dar-se
inteiramente, sem limites. Ele deixou-se batizar e pagou os impostos
para que se cumprisse a justiça da lei, mas ele foi infinitamente além
da lei. E quer nos levar infinitamente para além da Lei. Ele tornou
tranformou os pecadores públicos da Bíblia em doadores de si mesmo
até as últimas consequências. Ele os inseriu em si mesmo e eles
realizaram prodígios que ficaram não apenas no tempo mas varam a
eternidade.

O estabelecimento do Reino de Deus, que Jesus veio inaugurar, se


tornará visível em todo lugar onde os homens se sujeitem, por livre
decisão, a obedecer a lei. Aí ele irá além da lei. Porque seu intuito
não será a recompensa, mas será doar-se a si mesmo, e Deus
mesmo é a sua recompensa. Quem entra atende ao chamado de
Jesus e entra no Reino de Deus está sob uma nova justiça, que é
parte integrante da vida nova que Jesus nos trouxe. Esta nova justiça
não consiste na abolição da lei, mas em levá-la à perfeição. Para isto
Jesus veio. Para fazer o homem compreender Deus e a Sua vontade,
e entrar nela. O direito divino do Antigo Testamento fixou-se na Torá
escrita e na Torá oral A Torá oral ou Halaká consistia na interpretação
dos escribas, de onde provinham todas aquelas minúcias que
conhecemos. A Jesus não interessa destruir a lei, mas interpretá-la
em sua medida escatológica plena. É preciso compreender a lei com
visão de eternidade, em vista do amor, que é o que há de eterno.
Jesus rejeita a Halaká (Mc 2,27/Mc 3,4/ Mc 7,1-8/Mc 7,15/Mc 7,21)
porque esta legislação muito contradiz o Mandamento do Amor (Mc
7,6-8). Somente num lugar Jesus parece tomar uma atitude positiva
para com a Halaká, mas ainda assim não lhe dá uma aprovação
global: “Os escribas e os fariseus estão sentados na cátedra de
Moisés. Fazei, pois, tudo o que vos disserem, mas não vos reguleis
por seus atos, pois eles dizem e não fazem”.

Constituiu uma ousadia de Hilel (cerca de 20 a.C. o fato de ele ter


feito notar a um gentio que a regra de ouro era a súmula da Lei
escrita: “Tudo o que te parece nocivo a ti, não o faças a outrem. Isto
é toda a Torá”. A versão negativa de Hilel se contentava em não
causar ao próximo nenhum prejuízo. Jesus se liga a Hilel, mas vai
além. Sua versão é positiva e conclama a dar-se provas de amor por
atos positivos: “amai ao próximo como a si mesmo” (Veja também Lc
6,27-38). A lei vital do Reino de Deus é o Mandamento do amor,
expresso não só por sentimentos e palavras, mas por atos, na
capacidade para o dom (Mt 5,42) e na disposição para o serviço (Mc
10,42-45). Mateus 25,31-46 enumera as seis mais importantes obras
de amor: Dar de comer a quem tem fome, acolher o estrangeiro,
vestir os nus, visitar os doentes, Ir aos prisioneiros.

Uma outra marca deste amor é seu caráter ilimitado. A parábola do


bom samaritano descreve o caráter sem fronteiras do amor com
especial destaque (Lc 10,30-37). A ajuda desinteressada que o
mestiço demonstra para com o desamparado mostra isto, porque a
moral da época excetuava a obrigação de amar o inimigo pessoal, ao
passo que Jesus dá como motivo do amor aos inimigos: “a fim de
serdes verdadeiramente filhos do vosso Pai, que faz nascer o sol
sobre os justos e injustos” (Veja Lv 18,18 e Mt 5,43-48).

O mandamento do amor não dispensa a lei. O que Ele faz é corrigir


sua imperfeição, porque sem o amor toda lei acaba servindo aos
nossos interesses egoístas. Portanto não se trata de um desprezo da
lei, mas do seu aperfeiçoamento. Nas seis antíteses o sermão da
montanha (Mt 5,21-48) Jesus contrapõe o novo direito divino ao
antigo. Seis setores da vida recebem nova orientação (Veja vv. 21-
26/vv.27-30/vv.31s/vv.33-37/vv.38-42/vv.42-48).

O Reino de Deus irrompe para dentro de um mundo que ainda está


sob o signo do pecado, da morte, de Satã. Por isto, a conversão ao
reino é trabalho para uma vida toda. Jesus esclarece, no Sermão da
Montanha, como se apresenta a vida nova, que deve ser aplicada a
todos os aspectos da vida do discípulo, porque eles mesmos
construirão o Reino de Deus com a transformação das suas vidas.
Toda a sua vida deve testemunhar ao mundo que o Reino de Deus
chegou até a humanidade é convidado a, livremente, escolher entrar
nele. Em sua vida, enraizada e fundada nos valores do Reino, deve
ficar visível a verdadeira felicidade. No reino de Deus, dá-se uma
total inversão de valores: os pobres ficam ricos, os famintos saciados,
os tristes consolados, porque Deus doa vida eterna, onde “eterna”
significa “participação na vida de Deus”. Por isso, dizemos que As
Bem-Aventuranças são a Lei fundamental do Reino de Deus ao qual
Jesus nos convida a entrar. Vivendo-as, encontramos e oferecemos
ao mundo razões para esperar. Elas não somente assinalam o
caminho a percorrer, mas ajudam a chegar na meta. Elas nos situam
diante do dom de Deus, nos movem e nos ajudam a fazer deste dom
o fundamento e o centro de nossa vida humana.

“Seu ensinamento se dirige a homens que já foram libertados do


poder de Satanás mediante a Boa-Nova; a homens que já vivem no
Reino de Deus e irradiam seu fulgor. Dirige-se a homens que
receberam o perdão, que encontraram a pérola preciosa, que são
convidados às núpcias, a homens que pela fé em Jesus pertencem à
nova criação, ao mundo novo de Deus. Dirige-se a homens que já
experimentaram em suas vidas aquela grande alegria de que fala a
parábola do tesouro no campo: o homem que encontrou vai, cheio de
alegria, e sacrifica tudo o que possui. Dirige-se aos filhos pródigos
que o Pai recebe novamente na casa paterna. Desde já - lhes diz
Jesus - podeis viver na era da salvação. Mas o tempo da Salvação é
também o tempo em que a vontade de Deus entra em vigor com toda
a sua força. Pois presença do reino significa estabelecimento do
direito querido por Deus para o mundo que vem. este direito divino é
ao mesmo tempo vontade santa e perdão soberano. Ao nos perdoar,
Deus nos convida a doar a nossa vida.

Mas quem consegue praticar tudo isso? Nós, homens tão miseráveis,
sempre inconstantes, oscilando de um para o outro lado? Antes de
cada palavra do Sermão da Montanha houve alguma coisa. O que
precedeu foi a pregação do reino de Deus. O que precedeu foi o dom
feito aos discípulos, do privilégio de ser filhos (Mt 5,14-16). O que
precedeu foi o testemunho, em palavras e em obras, que Jesus deu
sobre a sua pessoa: o exemplo de Jesus transparece em cada frase
do Sermão da Montanha. Cristo Jesus é o verdadeiro protagonista das
oito Bem-Aventuranças, não é apenas aquele que as ensinou ou
anunciou, mas é sobretudo aquele que as realizou do modo mais
perfeito durante e com toda a sua vida. As Bem-Aventuranças são a
sua mensagem. ou melhor, ele é toda sua mensagem. Por isso, não
há necessidade de estudá-lo muito, mas sim de contemplá-lo. Só ha
um caminho para viver as Bem-Aventuranças: Abrir-se ao Espírito
Santo e segui-lo.

Desde a pobreza do presépio até a sua morte na cruz, as oito Bem-


Aventuranças são os oito capítulos de sua vida, sua autobiografia
espiritual. Ao proclamá-las não faz senão descrever-se a si mesmo,
Elas são o retrato mais perfeito de Jesus : pobre, manso, triste,
faminto, misericordioso, puro de coração, construtor de paz e
perseguido por causa da justiça. Isto é o que o Papa disse aos jovens
de Lima em 2 de fevereiro de 1985: “As Bem-Aventuranças são como
o retrato de Jesus Cristo, um resumo de sua vida, e por isso se
apresentam também como um programa de vida para seus
discípulos. São um programa de fé viva. Toda a vida terrena do
cristão, fiel a Cristo, pode encerrar-se neste programa, na
perspectiva do Reino de Deus”

As Bem Aventuranças

BEM- AVENTURADOS OS POBRES

Nestas palavras não há canonização da pobreza como fonte de


valores e de virtudes. Os pobres são bem aventurados não porque
sejam os melhores, mas porque, carentes de outros bens, poderão
ter mais facilidade em acolher o dom do Reino. Os pobres, ao
carecerem de apoio neste mundo, só lhes resta por sua confiança em
Deus. O pobre bíblico é exatamente o contrário do rico: estes põem
sua salvação nos bens deste mundo. Se somente os pobres
desfrutaram do banquete (Lc 14,16-24), não foi porque eram mais
virtuosos, mas porque não tinham motivos para deixar de participar.
Os pobres de espírito puseram seu ideal não no desprendimento dos
bens terrenos, e sim na submissão voluntária e alegre à vontade de
Deus. Eles, desde agora, possuem o reino porque têm Jesus como
sua única riqueza.

BEM- AVENTURADOS OS MANSOS

Esta Bem-Aventurança é um aspecto da humildade que se exerce


sendo amáveis em nossas relações para com o próximo. É a forma
mais delicada do amor, da Caridade, que é paciente e serviçal, que
não é egoísta, que tudo escusa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.
Todavia, a mansidão não é somente suavidade. A verdadeira
mansidão, que é reflexo de cristo, é penetrada de fortaleza, e nada
de comum tem com a covardia ou indiferença, mas é verdadeira
escola de martírio. A força verdadeira da mansidão é a do homem
capaz de correr o risco de ser considerado fraco, porque tem para
todos, inclusive para si mesmo, entranhas de misericórdias.

BEM- AVENTURADOS OS QUE CHORAM

Às vezes, a existência do religioso é marcada por tristeza singular,


que o não-crente não pode compreender. Por um lado vê que com
Jesus Cristo começou um mundo novo que tende para sua plenitude
definitiva. Por outro, vê com mais claridade do que os outros homens
que o mundo que o rodeia está submerso em atmosfera de pecado e
de ausência de Deus. Se vivemos o compromisso cristão e não
levamos vida superficial, não podemos permanecer indiferentes, mas
estaremos aflitos e tristes ante à destruição que o príncipe deste
mundo opera na vida dos homens. Esta aflição gera o desejo pelo
mundo vindouro, e uma alegre e segura espera pêlos bens do mundo
futuro. Assim, a aflição vai de mãos dadas com a alegria que gera a
esperança dos novos céus e da nova terra.

BEM-AVENTURADOS OS QUE TÊM FOME E SEDE DE JUSTIÇA

Fome e sede são o vazio apto a ser preenchido pela fartura de Deus.
A nova justiça, a do reino dos Céus, chama-se santidade, e significa
cumprir a vontade plenamente a vontade de Deus. E não podemos
guardá-la para nós mesmos. Esta justiça-santidade tem dimensão
individual e social, pois a chave de toda mudança social é o homem.
As estruturas, as formas de vida e as leis não têm eficácia por si
mesmas. poderão ser uma ajuda, mas é o homem que deve mudar
para assegurar a transformação social que deseja. Não podemos
transformar o mundo sem pôr de nossa parte o esforço e o sacrifício
indispensáveis para nos tornarmos melhores. Jesus cristo, ao unir
indissoluvelmente o amor de Deus ao amor ao próximo, estabeleceu
no coração do homem as bases da mudança social mais profunda e
mais radical que a história conheceu.

BEM-AVENTURADOS OS MISERICORDIOSOS

A misericórdia preside a história da Salvação: a redenção nada mais


é do que a misericórdia total (2 Cor 1,3). Realmente a história da
Salvação é a revelação da misericórdia divina. É o grande mistério
escondido desde o começo dos séculos e das gerações (Cl 1,26).
Entre a misericórdia de Deus e a misericórdia dos homens há de
haver relação muito especial (Veja Mt 18,35). Aos misericordiosos,
que não ousam julgar os outros segundo os seus próprios critérios,
mas usa do amor divino, Jesus Cristo ofereceu-lhes a mais bela
recompensa. Capacita-os a abraçarem largamente a misericórdia
divina, de modo a não serem condenados quando comparecerem
perante o justo tribunal de Deus.
BEM-AVENTURADOS OS DE CORAÇÃO PURO

O coração é o centro da vida interior, onde encontram sua sede todas


as forças psíquicas e espirituais do homem. Nele se radica sua
escolha fundamental por Deus. Às vezes se concretiza esta bem-
aventurança na castidade, mas ela não é somente isto, embora a
inclua. Pureza de coração equivale a retidão de intenções. Opõe-se à
duplicidade e ao farisaísmo. Puros de coração são os que as
disposições internas sincronizam com a ação externa. São puros os
que têm o coração não dividido, os sinceros, leais, sem artifícios. Os
que servem a Deus e aos homens por amor a Deus, de todo o
coração, embora sejam julgados, criticados, ou tidos por tolos. Os
que servem sem cálculos, sem fingimentos. A pureza de coração
consiste assim na perfeita coerência entre o interior e o exterior. A
cidade deste mundo, apesar de sua bela aparência, rapidamente é
transformada, por isso é melhor ter os olhos fixos na cidade que nos
espera, sem dividir o coração com coisa alguma deste mundo. Assim,
é que os puros de coração adquirem grande sabedoria, e não
somente vêem a Deus, mas nele, Deus se vê. Neste mundo a
experiência da visão de Deus é fruto da contemplação cristã. É a
Bem-Aventurança dos contemplativos.

BEM-AVENTURADOS OS QUE CONSTROEM A PAZ

Para os judeus, a paz significa mais do que a concórdia entre os


homens. Ela consiste num estado de felicidade e plenitude a que
aspira o homem desde o mais profundo do seu ser. Jesus cristo, que
sempre viveu envolto nesta paz, no-la deixa como herança (Jo
14,27), com a condição de que como ele, também vivamos neste
mesmo estado de abandono confiante nas mãos do Pai. Aqui está a
grandeza original de Jesus e dos cristãos: poder viver no meio dos
malogros e tempestades com a alma plena de serenidade e calma,
poder ser profundamente felizes vivendo no meio das adversidades.
Esse é o fruto mais saboroso do sentir a Deus como Pai amabilíssimo
e do viver confiantemente abandonados em suas mãos benditas. É
preciso compreender também que esta Bem-Aventurança não se
refere a uma disposição interior, mas sim a uma atividade que visa o
benefício dos outros. “Eironopoios” é o que faz a paz. não se trata de
simples disposição de ânimo, e sim de ação. Essa Bem-Aventurança é
de ação. É de irradiação para o exterior. A paz constroi-se à medida
em que se ama. E aquele que ama se torna igualmente Filho de Deus
(Mt 5,44-45).

BEM-AVENTURADOS OS QUE SOFREM PERSEGUIÇÃO PELA


JUSTIÇA

O privilégio não está em seus sofrimentos, mas na causa pela qual os


suportam: Jesus Cristo. Os primeiros cristãos estavam persuadidos
de que professando a fé em Jesus Cristo e vivendo esta fé, se
chocariam com o ambiente pagão. Desde o começo sabiam que
tornar-se cristão significava entrar em comunhão com Cristo
perseguido. Sentiam até solidariedade profunda com a Paixão e Morte
do Senhor, mas unidos a Ele conservavam sua confiança em Deus no
meio das tribulações, e esperavam o prêmio definitivo de participar
da sua Ressurreição. Hoje, os cristãos que vivem no mundo estão
submetidos igualmente à lei do sofrimento por causa de Cristo e de
sua justiça. Em muitos países os cristãos são perseguidos,
torturados, martirizados por suas convicções religiosas. E nos países
onde a liberdade religiosa é oficialmente reconhecida, os cristãos que
procuram viver fielmente sua religião são, às vezes considerados
como gente atrasada, ingênua e rara. O cristão que não dá motivo a
semelhantes reações negativas ao seu redor, deveria questionar-se
se sua adesão a cristo é autêntica. Mas a dor pela dor não tem
sentido cristão O sofrimento cristão pressupõe a inserção de nossa
dor na dor de cristo e a sensação profunda de triunfo que está na
essência do cristianismo: “Sofremos com Cristo para ser glorificados
com Ele” (Rm 8,17). A nossa vinculação à sua pessoa e à sua missão
é a melhor garantia de nossa entrada no Reino de Deus.