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UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA

INSTITUTO DE CIÊNCIAS SOCIAIS


DEPARTAMENTO DE SOCIOLOGIA
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM SOCIOLOGIA

Mediações entre o pensamento sociológico de Florestan Fernandes e Lélia


González e posições sobre a universidade pós-cotas: o caso dos docentes de
Direito da UFBA

Yuri Santos de Brito


Pensamento Social Brasileiro - 2018.1 - Prof. Sérgio Tavolaro
Introdução

A questão racial tem sido um tema fundante e recorrente na sociologia brasileira.


Mais que isso, tem sido um tema central na discussão sobre as características da
nossa existência enquanto país - em geral, ressaltando as peculiaridades do
desenvolvimento histórico, social e econômico de uma colônia que virou império e
depois república sob a marca do escravismo.
Há uma interação complexa de interdependência entre a vida colonial e
escravista – e suas heranças e desenvolvimentos – do ponto de vista econômico,
social, intelectual e político. Dizer isso significa afirmar que, ao observar a obra de
Gilberto Freyre, por exemplo, detectamos um filho do mundo do engenho escrever e
pesquisar sobre essa realidade, ressaltando a mestiçagem entre raças e a mistura
cultural como o ponto focal da identidade brasileira, ao mesmo tempo em que
participava ativamente do mundo político e das soluções encontradas para os dilemas
brasileiros. Coisa parecida pode ser dita de figuras como Guerreiro Ramos, Florestan
Fernandes, Lélia González e tantos outros pensadores e pensadores que são, a um só
tempo, produtos e construtores de uma realidade social e de interpretações sobre ela.
Isso nos remete ao tema da reflexividade, caro às discussões sobre a
modernidade, tal como Giddens (1991) nos aponta. A teoria sociológica acaba por não
apenas (pretender?) explicar, como também influenciar e construir a realidade social,
no contexto moderno; e, a despeito do que se goste de fantasiar, por esse critério o
Brasil se revela numa pujante modernidade.
É este o aspecto que este trabalho pretende explorar. A partir de um conjunto de
entrevistas realizadas com docentes da Faculdade de Direito da UFBA, tentarei discutir
os aspectos analíticos e reflexivos do pensamento sociológico de Florestan Fernandes
e Lélia González. São, portanto, duas questões que se apresentam: por um lado, o
quanto as categorias analíticas construídas por ambos ajudam a explicar as posições e
atitudes captadas nas entrevistas?; por outro, o quanto as concepções debatidas na
obra dos autores se fazem presentes nas análises proferidas pelos entrevistados?
Com isso, reitero, não há a perspectiva de validar ou invalidar as obras, nem de
afirmar que suas ideias se tornaram canônicas no pensamento médio dos juristas
brasileiros ou baianos. O que se quer aqui é demonstrar – e testar – criticamente a
relevância dos conceitos trabalhados como marcos referenciais para a construção de
novas hipóteses, análises e mesmo metodologias sobre o tema racial, por um lado; e
por outro, demonstrar como a presença da temática racial, não apenas na história
social e econômica do país mas, também, no meio intelectual favorece a disseminação
de determinada explicações para esse fenômeno.
Assim, tomando por referências algumas ideias e concepções presentes nas
obras A Integração do Negro na Sociedade Brasileira (Fernandes, 2008) e A Categoria
Político-Cultural da Amefricanidade (González, 1988), o presente trabalho discutirá
como elas ajudam a compreender e analisar os argumentos utilizados pelos docentes
entrevistados e também como essas mesmas ideias são constitutivas de parte desses
argumentos. Para tanto, será necessário estabelecer uma referência mínima sobre as
entrevistas, seguidas da discussão propriamente dita acerca delas, respondendo às
duas perguntas ora formuladas. À guisa de conclusão, ofereço uma reflexão sobre o
papel dos intelectuais na decodificação dos fenômenos históricos, levando em conta a
importância da consequência trazida pelos diferentes usos de determinadas
interpretações; e destacando que os compromissos intelectuais, sociais e políticos
assumidos, inclusive abertamente, por autores considerados clássicos foram
fundamentais para o seu sucesso “de crítica e de público”, discutindo, em específico, o
caso do autor e da autora escolhidos no contexto dos sujeitos entrevistados.

Metodologia

O lastro empírico da reflexão desenvolvida neste trabalho advém das entrevistas


e reflexões empreendidas na monografia que apresentei como trabalho de conclusão
do curso de Ciências Sociais com habilitação em Sociologia. O material recolhido está
centrado em 11 entrevistas semi-estruturadas, realizadas com professores e
professoras da Faculdade de Direito da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Na
composição da amostra, busquei a variedade entre áreas de atuação profissional, de
ensino, idade, sexo e raça/cor. No que tange situação funcional, sexo, idade, raça e
cor, a amostra reproduz, ainda que aproximadamente, a proporção no corpo docente
da Faculdade, conforme os achados de Barreto (2015) e as observações que fiz.

Quadro 1 – Referências dos entrevistados


Nome Gênero Raça/Cor Faixa Etária Titulação CH Carreira
Paulo Homem Branca 30-39 Mestre 20h Academia
Francisca Mulher Branca 30-39 Mestre 40h Analista Judiciária
Ives Homem Branca 60+ Doutor 40h Advocacia Pública
Felipa Mulher Negra 30-39 Mestre 40h Assessoria Jurídica Popular
Miguel Homem Branca 40-59 Mestre 40h Advocacia Pública
Luís Homem Branca 60+ Mestre 40h Fazenda Pública
Orlando Homem Branca 30-39 Doutor 40h Advocacia Privada
Eduardo Homem Branca 40-59 Mestre 20h Magistratura
Thereza Mulher Branca 60+ Mestre 20h Magistratura
Quitéria Mulher Branca 30-39 Mestre 40h Advocacia Privada
Cândido Homem Negra 40-59 Graduado 40h Assesoria Jurídica Popular

Além das entrevistas, dados recolhidos em apoio a elas são utilizados,


sobretudo a partir de observação direta e entrevistas informais e abertas com
estudantes. Houve visitas interessadas à Faculdade antes, durante e depois da
realização das entrevistas. Ao longo de um semestre, cursei a disciplina de Sociologia
Jurídica, no turno noturno, com o objetivo de me preparar para o trabalho empírico e
enriquecer a discussão dos resultados deste.
Por fim, também mantive contato interessado com estudantes ao longo de toda
a pesquisa. Estes, com diferentes graus de compreensão da sua condição de
colaboradores, forneceram pistas decisivas e que, uma vez investigadas, resultaram
em material relevante para a pesquisa.
É crucial destacar, como aponta Hill Collins (2016), que ser um jovem negro
entrevistando “Doutores da Lei” me deu uma posição peculiar neste campo, assim
como na reflexão posterior. Ressalto que, ser um "outsider within", ou, como me vi, um
estrangeiro nativo, foi bastante definidora de minhas análises ao longo do trabalho.

Entre a “Condição Inicial” e a modernidade sonhada

Há um razoável consenso nas interpretações sobre o Brasil de apresentar a


escravidão colonial como uma “condição inicial” da desigualdade racial no Brasil
(Osório, 2008), ainda que, como aponta Lélia González (1988), a gramática do racismo
– e mesmo a prática da escravidão – só tenha desenvolvido um etnocentrismo que já
se encontra presente no cenário pré-colonial.
Florestan Fernandes é um dos que desenvolve uma análise sobre como o
escravismo tardio, com suas características e, sobretudo, a partir da forma com ele se
dissolve, é absolutamente central na construção das desigualdades raciais que
permeariam o século XX. Na sua interpretação, não apenas havia a escravidão – que
tornava a cor de pele um signo de posição social, que aprisionava o negro na sua
origem social inferior mesmo que ele a superasse –, como também houve um
“desalento” no pós-abolição. Com uma política que ativamente ocupou os postos de
trabalho com imigrantes europeus, a situação dos negros tornou-se ainda mais crítica
(Fernandes, 2008). Afirma ele que, em última instância,

“Qualquer que venha a ser, posteriormente, a importância dinâmica do


preconceito de cor e da discriminação racial, eles não criaram a realidade pungente
que nos preocupa. Esta foi herdada como parte de nossas dificuldades em superar os
padrões de relações raciais inerentes à ordem social escravocrata e senhorial.”
(Fernandes, 2008, pp. 303)

Esta posição reforça que a “condição inicial” é mais do que isso, na visão do
autor. Ela é uma clausura, afirma ele, do negro numa “condição estamental do ‘liberto’”
(pp.303). Assim, a produção da desigualdade racial situa-se numa época passada, bem
definida. A transição para uma ordem competitiva, sustenta o autor, é incompleta uma
vez que

"As inovações institucionais e a eficácia da liberalização jurídico-política


republicanas foram circunscritas, na prática, às necessidades da adaptação da ‘grande-
empresa agrária’ ao regime de trabalho livre e às relações de troca no mercado de
trabalho que ele pressupunha. Fora e acima disso, continuaram a imperar os modelos
de comportamento, os ideais de vida e os hábitos de dominação patrimonialista,
vigentes anteriormente na sociedade estamental e de castas."(Fernandes, 2008, pp.61)
Somente com a superação deste quadro e com a implementação de uma ordem
social competitiva plena que as características específicas da desigualdade racial e da
discriminação seriam superadas. A princípio, parece ser este o argumento central de
Fernandes; e, como aponta Osório (2008), ele não se encontra isolado nesta posição.
Essa visão encontra importantes ecos reflexivos nas entrevistas coletadas. A
professora Thereza, por exemplo, ao analisar a política de cotas raciais e sua razão de
ser, afirma que

“Infelizmente a solução tem que vim de garganta a baixo, né? Você


tem que conviver pra se habituar, né? E você tem uma história, né,
escravocrata, de servidão de uso do outro. E isso não vai sumir por
causa de um decreto. […] Porque na América do Norte, por
exemplo, quando houve a abolição da escravidão todo mundo foi
para escola. Aqui isso não existiu […] agora eu acho que precisa
de uns dois séculos pra encerrar a conta, pra chegar lá. ”
(Thereza, branca)

Já o professor Ives recorre ao argumento complementar. Para ele, essas


políticas são um passo necessário para chegar a um objetivo muito específico:

“O assistencialismo num primeiro momento ele é necessário. […].


É por esse caminho que deveria vir a meritocracia, entendeu?
Reconhecer o esforço que foi feito, reconhecer o benefício que
eles receberam, e o que fazer para os que vem depois? É preciso
compreender que isso foi um primeiro momento. Em seguida, a
meritocracia que vai ter que vir, entendeu? Agora isso é um… isso
é um programa… de… décadas. De gerações. Entendeu? Que os
países que se desenvolveram todos usaram.” (Ives, branco)

Assim como em outras entrevistas, estes docentes reconhecem a existência da


desigualdade racial, atribuindo-a a um passado de escravidão, que persiste na
estrutura da sociedade. As ações afirmativas, assim, seriam um caminho do qual
adviria uma ordem social moderna e competitiva, onde reinaria a meritocracia.
Tal discurso é uma decodificação peculiar do fenômeno do racismo: como um
arcaísmo. Seria produto do passado, guardando pouca relação com práticas presentes;
assim, a chave conceitual da inclusão ou integração faz sentido – a sociedade
brasileira é moderna, mas há um contingente à parte dela, que precisa ser incluído.
Ora, o próprio Florestan lança contrapontos a essa tese. Como em outras obras,
a argumentação do autor se desenvolve conforme a nossa leitura – ou a escrita dele –
avança. Ao discutir o mito da democracia racial, ele nos brinda com argumentos que
podem ser resumidos numa fórmula relativamente simples: este mito opera a
naturalização das desigualdades advindas da ordem estamental escravocrata como
fossem próprias das desigualdades de classe da ordem competitiva que convive com o
capitalismo industrial, conferindo privilégios raciais aos brancos na competição social.
Assim sendo – num tipo de argumento desenvolvido mais amplamente sobre a
sociedade brasileira no A Revolução Burguesa no Brasil (1987) –, o “atraso” brasileiro
não seria meramente um arcaísmo, como também uma parte, ainda que “atrasada”,
plenamente funcional de uma sociedade moderna e integrada ao capitalismo global. A
ideia de um “atraso funcional” joga luz sobre um outro aspecto – a da necessidade da
reprodução dessas desigualdades no tempo presente, sob pena de desmantelar a
ordem social; seria nesses casos que a discriminação atuaria de maneira aberta e
franca para, com o sacrifício do pacto de silêncio e de “paz” que dele deriva, manter as
pessoas em seus devidos lugares, como ilustra bem Sales Jr. (2006).
Portanto, a superação desse cenário não virá do curso natural da história. Ora,
fosse o racismo apenas uma sobrevivência, a consequência lógica seria que o tempo o
superasse. Sendo parte funcional do sistema social, econômico e político, argumenta
Fernandes que

“Em nossa situação, só a atuação organizada, ativa e intransigente do negro e


do mulato, dadas outras condições favoráveis, poderia assegurar tal desfecho [...] A
dinamização no sentido democrático e igualitário da ordem racial tem de partir do
elemento de cor, embora deva ser tolerada, acolhida e sancionada pelos brancos em
geral. Construído e utilizado para reduzir ao mínimo tal dinamização, o referido mito se
converteu numa formidável barreira ao progresso e à autonomia do homem de cor – ou
seja, ao advento da democratização racial no Brasil.” (Fernandes, 2008, pp. 326-7)

Isto também se dá, argumenta ele, por que a ascensão social das pessoas
negras, no contexto desta sociedade, só é permitida sob o patronato de pessoas,
famílias ou instituições brancas. Com a interdição do debate público e da intervenção
coletiva de movimentos sociais sobre o problema da desigualdade racial, no contexto
paulista do início do século XX, ele detecta que

“eliminava-se também a viabilidade de mecanismos societários de correção dos


problemas sociais existentes no ‘meio negro’. Só restava, ao negro e ao mulato, a via
consagrada tradicionalmente, da infiltração pessoal e da ascensão social parcelada,
que não tinha suficiente alcance coletivo [...] e possuía o inconveniente gravíssimo de
promover reiteradamente a acefalização das ‘massas negras’” (Fernandes, 2008, pp.
320-1)

Restando, portanto, aos brancos da elite um papel de magistrados a decidir o


que convém às pessoas negras individualmente e ao povo negro coletivamente. O que,
sem dúvida, condicionava a ascensão social das pessoas negras à adesão a princípios
e comportamentos organizados, inclusive, a partir do mito da democracia racial.
Ora, também aqui encontra-se importantes paralelos nas entrevistas coletadas.
É importante notar a relevância e a relação que Florestan Fernandes teve com o
movimento negro, reconhecida, por exemplo por Abdias do Nascimento (2016). O
professor Cândido, ele mesmo um militante do movimento negro, reivindicando um
“passo adiante” nas políticas de ação afirmativa, coloca:

“Eu tenho brincado, mas é uma brincadeira mordaz com...


portanto, um fundo de verdade, que a universidade hoje está se
aproximando daquilo que sempre foi o ideal da elite branca
brasileira: produzir um negro de alma branca, né? Imagine você
entrando num curso de direito e dependendo da circunstância a
qual você se submeta no plano da formação, você vai
provavelmente, até o fim do curso, cortar seu cabelo... passar a
andar de paletó e gravata... e vai repetir autores basicamente de
uma tradição teórica e de leitura da realidade que não é a sua:
Kelsen, /Savigny/, etc, etc, etc. A universidade, se quer ser
consequente com a política de diversificação, não pode manter-se
epistemologicamente eurocêntrica, androcentrica, racista,
monocultural. Parece que há um desafio fundamental, e esse é o
pólo que aglutina a nossa mobilização hoje discutindo a adoção de
ações afirmativas na pós-graduação, né? Se você não dá o passo
de oxigenar pesquisa, formação de docentes, etc., pra uma outra
perspectiva de universidade, você vai aprofundar essa lógica, você
bota corpos negros, mas deixa do lado de fora o legado
epistemológico, civilizatório, que esse sujeito tem, e os converte,
no mais das vezes, às expectativas liberais e tradicionais que a
universidade sempre acolheu. Ou seja, você convida um excluído a
se incluir num modelo que é, em si, perverso e equivocado, eh?”
(Cândido, negro)

É evidente, e aqui não há problema algum em ressaltar, que seria, mais que
uma inferência, um salto no escuro, afirmar que a conexão entre o argumento de
Fernandes e do professor Cândido tem uma natureza diretamente reflexiva. O
conjunto da entrevista revela referências mais relevantes, do ponto de vista da
formação da leitura que o entrevistado faz acerca da questão racial na universidade.
Porém, ela também afirma uma utilidade das categorias analíticas empregadas
pelo autor para compreender tanto o discurso do docente quanto a situação que ele
descreve. Há uma importante ressonância no esforço de desnaturalização das
condições raciais nas instituições sociais, que não seriam meramente neutras ou
“modernas”, no sentido de desconsiderar a cor ou raça em favor de um mérito sem
corpo e sem face.
Para ambos, o futuro tão sonhado parece não ser produto de uma ordem
competitiva que marcha indiferente às desigualdades raciais historicamente
constituídas, demolindo-as pela força impetuosa da meritocracia. Ele só adviria de uma
atuação organizada e consciente daqueles que viveram sob a bota do racismo – atual e
moderno, não apenas um sobrevivente ladino e furtivo da escravidão de outrora.

O “racismo disfarçado” e o estilhaçamento de identidades

Lélia González (1988) nos apresenta uma concepção também bastante


majoritária nas análises sobre o racismo brasileiro: a ideia de que, em oposição a
regimes como o apartheid sul-africano e a segregação oficial dos Estados Unidos, o
racismo brasileiro se daria de forma disfarçada. Dizer isso, no caso dela – e aí já não
estamos tão perto de um consenso – não significa afirmar que o racismo brasileiro
seria mais suave ou tolerante à ascensão de pessoas negras.
Pelo contrário: denunciando o mito da democracia racial, ela apresenta a
modalidade disfarçada como uma forma superior de organização das hierarquias
raciais. Ela dispensa um ordenamento jurídico e uma coerção exercida pelo Estado
com a finalidade diretamente racial; ela, aliás, consegue se sustentar de um ponto de
vista institucional e coercitivo sem necessariamente recorrer a uma gramatica
explicitamente racializada.
Afirma ela que

“[...]no caso das sociedades de origem latina, temos o racismo disfarçado


ou, como eu o classifico, o racismo por denegação. Aqui, prevalecem as ‘teorias’ da
miscigenação, da assimilação e da ‘democracia racial’. A chamada América Latina que,
na verdade, é muito mais ameríndia e amefricana do que outra coisa, apresenta-se
como o melhor exemplo de racismo por denegação.” (pp. 72, González, 1988)

Mais adiante, ela recupera a herança da hierarquização racial na península


ibérica, que complementa:
“As sociedades que vieram a constituir a chamada América Latina foram as
herdeiras históricas das ideologias de classificação social (racial e sexual) e das
técnicas jurídico-administrativas das metrópoles ibéricas. Racialmente estratificadas,
dispensaram formas abertas de segregação, uma vez que as hierarquias garante a
superioriedade dos brancos enquanto grupo dominante. A expressão do humorista
Millôr Fernandes, ao afirmar que ‘no Brasil não existe racismo por que o negro
reconhece o seu lugar’ sintetiza o que acabamos de explor (González, 1988b).” (pp. 73
González, 1988)

A percepção sobre um fenômeno tão complexo e, sobretudo, caracterizado pela


sua furtividade, só poderia ser, também, igualmente complexa e furtiva. Já no texto de
Fernandes (2008) ele relata encontrar, em suas entrevistas, relevantes diferenças
sobre a forma como brancos e negros percebiam a situação díspar entre eles:

“Em entrevistas feitas para focalizar o assunto, ficou patente que os brancos
interpretaram a situação em termos psicológicos: o mulato e o negro ‘não tinham
ambição’, por isso não arrostavam, como os imigrantes europeus, as duras dificuldades
que permitiam converter a poupança em fator de acumulação capitalista, de mobilidade
ocupacional e de ascensão social. Os informantes negros e mulatos revelam maior
realismo, mostrando-se convictos de que não tinham meios para se inserir no referido
processo, competindo quer com os brancos nacionais, quer com os imigrantes. A
‘ambição’ existia e ela foi, exatamente, a causa de sua perda, pois fomentou opções
extremamente rígidas e negativas. Vendo-se a questão retrospectivamente, com as
perspectivas abertas pela análise sociológica, percebe-se que as interpretações ex
post facto dos próprios negros e mulatos são aproximadamente corretas.” (pp. 72,
Fernandes, 2008)

O racismo disfarçado assim, comporia o eixo basilar do mito da democracia


racial – para ambos os autores. Não seria um ordenamento jurídico legal, versando
sobre o tema da raça ou cor dos cidadãos, que garantiria as hierarquias entre estes
com base nestes mesmos critérios, e sim a conjunção entre uma cerca “condição
inicial”, como discutido anteriormente, e um conjunto de disposições e comportamentos
baseados, ainda sub-repticiamente, em raça ou cor, que são construídas no tempo
presente.
Um produto relevante destas condições é o que Lélia González (1988) chama de
“efeitos de estilhaçamento, de fragmentação da identidade” (pp.73). A convivência
entre uma ideia de superioridade racial branca e um mito de democracia racial teria
como resultante este desejo pelo embranquecimento, pela “negação da própria raça,
da própria cultura” (pp.73).
Ora, nas entrevistas que fiz, encontrei alguma conexão relevante entre estas
categorias políticas e os discursos dos docentes ouvidos. Assim como em Fernandes,
os docentes brancos entrevistados, sobretudo os homens, apresentavam uma
tendência a justificar suas próprias trajetórias – e, em alguns casos, a de seus
estudantes – com argumentos individuais, meritocráticos, e, em alguns momentos, de
ordem psicológica: falam em “esforço” (Miguel, Eduardo), “senso de responsabilidade
individual” (Miguel), “dedicação” (Orlando, Luís), “foco” (Paulo), “disciplina”
(Eduardo).
Já os docentes negros – e a maioria das mulheres entrevistadas – destacam
outros caminhos para a ascensão a prestigiosas carreiras jurídicas e à docência
universitária. Apontamentos de estratégias eminentemente familiares, como o acesso
privilegiado à educação básica – “Reconhecer o privilégio é pressuposto pra essa
discussão, acho que eu tive acesso a uma formação educacional que a maioria das
pessoas não tem acesso ou mesmo de ação política coletiva” (Francisca, branca) – ou
mesmo a ação política coletiva, como relatam os docentes negros:

“Militância nos movimentos sociais. A minha grande formação


acadêmica, intelectual, ética, se deu fora da universidade. Se deu
a partir da militância nos movimentos de bairro, no movimento
negro [...] O que me qualificou academicamente não foi a
universidade. Não foi a experiência dentro da Faculdade de
Direito.” (Cândido, negro)
“[...] foi o fato também de eu me articular em algumas redes de
apoio assim. Então, né... Eu sei que eu obtive é... a aprovação em
primeiro lugar nesses concursos que eu fui fazendo porque eu me
especializei e tive acesso a determinados conhecimentos porque
eu tava militando cotidianamente com isso. Os meus concorrentes,
nenhum deles tava trabalhando com o que eu tava trabalhando,
eram mais aventureiros assim, entendeu?” (Felipa, negra)

Esse curioso viés “psicologizante”, hegemônico no discurso dos brancos, e


“sociologizante”, hegemônico no discurso dos negros, tanto no trabalho de Florestan
quanto nas entrevistas que fiz, não denotam apenas diferenças nas trajetórias em si.
Eles ajudam a compreender como sujeitos decodificam a realidade de maneira
diferente de acordo com as suas posições sociais; essa decodificação depende não
apenas das informações que detém sobre suas próprias vidas, mas também de um
instrumental analítico que é provido por uma forma característica de organização da
sociedade.
Este fato ajuda a perceber a relevância das categorias discutidas acima, às
quais Lélia González lança mão para explicar o racismo brasileiro. Ainda assim, as
entrevistas que fazem exceção ao padrão detectado por Florestan Fernandes ajudam
mais ainda a perceber a importância das categorias discutidas por González, à
exemplo da fala do professor Paulo:

“Rapaz, ser "hômi" branco no mundo acadêmico significa que você chega
num lugar e as portas se abrem pra você. Tudo é mais fácil, entende? Às
vezes não... No mundo jurídico também. Então eu já passei por situação
que, por eu ser paulista, a galera me olhar torto. Por eu ser de direito, a
galera me olhar torto. Eu já passei por situação que eu... que por ser
homem, eu tinha que ficar quieto. Mas por que? Por que eu estou sempre
buscando outros espaços, espaços de alteridade, pra se desconstruir [...]
<interrompe a pergunta seguinte, pedindo para comentar mais sobre o
assunto> Ó. Em todas as seleções que eu fiz, na UFBA. De grupo de
pesquisa, de... substituto, de pós-graduação, sempre tinha competindo...
Em todas essas seleções tinha uma mulher, um negro... ou uma mulher
negra... Competindo comigo, e eu sempre passei em primeiro. Não vou
tirar meu mérito. Mas, por outro lado... <pausa, fala baixo:> ...né?”
(Paulo, branco)

Mais jovem que a média da Faculdade de Direito, Paulo lança mão de um


referencial diferente para a decodificação de sua trajetória, identificando o fenômeno
ambíguo que González chama de racismo disfarçado. Sem dúvida alguma que o fato
de frequentar o que ele chama de “espaços de alteridade” permite inferir que há uma
reflexividade entre a tradição de leitura crítica sobre o racismo disfarçado, empreendido
em grande parte por intelectuais negros e negras, além de outros nomes que são
expoentes da sociologia, e a construção desta opinião.
Aliás, os docentes mais jovens, de uma maneira geral, tendem a ter opiniões
que parecem bastante influenciadas por essas tradições, que, aliás, passam a ter um
peso maior no campo de estudo das relações raciais a partir da década de 1970
(Osório, 2008). Além disso, alguns, como o próprio Paulo, conviveram com o intenso
debate que precedeu a implantação das cotas raciais nas universidades brasileiras,
ainda na condição de estudantes.
O tema do estilhaçamento das identidades – um produto desse “racismo
disfarçado” – é, também, relevante – tanto como categoria analítica, quanto como
produto intelectual incorporado reflexivamente no “discurso nativo” dos docentes. Aqui,
recorro ao relato dos docentes negros sobre sua própria experiência.
O professor Cândido fala que sua experiência de chegar como um estudante
pobre e negro na Faculdade de Direito foi

“Bastante... problemática. Quando eu fiz vestibular... na turma de 200


alunos que ingressaram naquele ano, eh... induvidosamente negros,
éramos dois. Ah... Pobres mais alguns. E vivíamos uma dificuldade muito
grande de integração no curso por que era um curso frequentado pela...
fina flor da elite soteropolitana, baiana, portanto por pessoas que vinham
com relações prévias de... intimidade, de convivência. Primeiro dia de
aula, e isso chamou muita atenção, o fato de que a maioria esmagadora
da turma já se conhecia, já se frequentava, já se referia a um passado
compartilhado [...] foi um processo difícil que me levou inclusive a
abandonar o curso mais de uma vez [...] Eu abandonei o curso, cheguei a
ficar na lista de jubilamento mais de uma vez [...] Os primeiros semestres,
em especial, nós tivemos, eu tive uma... eh... oferta de disciplinas e de...
eh... curso muito extravagante, tinha aula pela manhã, pela tarde e pela
noite em vários dias, o que dificultava a possibilidade de inserção no
mundo do trabalho, então houve um momento que eu tive de parar o
curso também, pra trabalhar durante um semestre e fazer algum caixa pra
me manter nos semestres seguintes, enfim. Foi um processo bastante,
eh... Turbulento, né, e... penoso e muitas vezes quase conduzindo a
expulsão da universidade.” (Cândido, negro)

Mais adiante, falando sobre como ele vê seus estudantes cotistas adentrando na
universidade e vivendo seus dissabores, ele analisa, se colocando no lugar destes:

“A outorga de um título de doutor honoris causa pode significar uma


manifestação que lembra um episódio medieval, com aquele... Com aquela
procissão com o /pálio/ da universidade, etc. e tal. Então na universidade, o
ambiente dela é um ambiente que já reflete nos sujeitos distintos uma imagem
diferenciada. E eu, desde 84, não me enxergava naquelas manifestações. Elas
pareciam implicitamente me dizer: ‘Você não é daqui. Este mundo não é o seu’”
(Cândido, negro)

A professora Felipa, mais jovem e com menos tempo de casa, também analisa
sua trajetória sob a ótica de uma identidade fraturada, objeto de tentativas reiteradas
de captura e negação, em vários trechos de sua entrevista. Ao falar do fato de ter sido
uma estudante negra, de família economicamente desprivilegiada em relação a seus
colegas brancos, numa escola privada, ela relata o sentimento de estar “fora do lugar”;
termo que, depois, vai aparecer num trecho interessante da entrevista:
“Quando eu tomei a posse na UFBA, um coletivo lá de estudantes fez
uma postagem lá no facebook que repercutiu bastante com minha foto,
enfim, aquela coisa ‘ah, primeira professora negra da faculdade de direito,
tal’. O meu primeiro impacto ao ver aquilo foi... me esconder assim, de
não quero ter essa visibilidade porque eu não sei se eu tou preparada pra
lidar com isso, porque a TVE ligou pra mim pra marcar entrevista, virou
uma coisa meio... é. Eu fiquei pensando "eu não quero", não é que eu
não queira que eu sei que isso tem uma importância política, eu não me
sentia com a estrutura necessária para falar em nome disso, entendeu.
Então, eu tou participando dessas atividades até pra, porque [...] eu
sempre me senti um estranho no ninho, em todos lugares. Sempre me
senti fora do lugar, ou como aquele lugar não me pertencesse.” (Felipa,
negra)

Ora, daí se extrai a relevância dessa ideia de estilhaçamento: conquanto não se


sinta à vontade nos espaços hegemonicamente brancos, também a docente não se vê
na posição de afirmar uma identidade negra contrahegemônica. Ela mesma explica
como o processo de se conhecer e se reconhecer como uma mulher negra é difícil,
recorrendo a uma questão específica:

“Como eu morei, né, muito tempo no interior e como no interior a gente


não tinha como a gente tem em Salvador um movimento negro tão...
solidificado, é... tão, digamos, orgulho, tão, é... da f, com essa gramática
de movimento negro não tinha , entendeu. Eu tenho mais agora, né,
mas... mas nunca porque era menos ou mais importante, mas talvez a
gramática, entendeu, que aqui eu tenho conseguido... elaborar mais.”
(Felipa, negra)

Aqui, vê-se nitidamente que, assim como Lélia González aponta no texto, o
movimento negro como produtor de outras identidades culturais pode ter um papel na
reconstrução dos sujeitos a partir de uma atividade genuinamente criadora. A
identidade (“gramática”) perseguida por Felipa, para González, não seria a busca por
uma cultura sobrevivente, nem por uma já bem-acabada: seria a busca por – por
exemplo – uma “criatividade cultural baiana” (pp.78), que subsiste sobretudo na capital
do Estado. Mais que isso, a construção de uma identidade cultural negra que reverta o
processo de estilhaçamento pressuporia que alguém que crescesse no mesmo
ambiente em que ela viveu a infância tivesse acesso a referenciais que
instrumentalizassem para os confrontos que ela, mais tarde, revelaria ter vivido ao
longo de sua trajetória: das piadas sobre o cabelo, à afirmação nua e crua de que
“Você não é ninguém, quem você pensa que é?”. Mas, mais que isso, para uma vida
mental e fisicamente saudável, sem a negação de sua existência por conta da cor da
pele ou dos traços físicos identificados como uma raça.
Por fim, quero ressaltar a peculiaridade da terminologia utilizada por González:
racismo disfarçado. Corrente na nossas interpretações sobre o Brasil, além de
distanciar de uma maneira talvez exagerada a realidade do racismo nos países
anglófonos ou francófonos, ela não apenas confere um caráter furtivo ao racismo,
como também facilita a interpretação – muito comum, aliás – de que há uma certa
sutileza ou suavidade nele. O que, aliás, não parece ser o caso: vejamos dois
exemplos que permitem discutir os limites e os usos que se faz dessa terminologia que,
mesmo estando correta do ponto de vista de identificar um fenômeno relevante, talvez
erre ao torna-lo excessivamente provincial e, principalmente, compartilhado com certa
corrente de pensamento que gostaria de esquecer que existe racismo no Brasil.
O docente Miguel afirma, sobre casos de discriminação na Faculdade: “nunca
ouvi falar, nem nunca me contaram”. Já Orlando declara, sobre o mesmo tema: “Do
meu ponto de vista, não vejo. Ele <o estudante negro> vê, com certeza, mais do que
eu, mas eu não tenho percebido tratamento diferente”. O docente Ives declama
veementemente, sobre cobranças diferenciadas e exageradas sobre cotistas: “[...cobrar
diferenciadamente] De que? Dos cotistas? Ah, de cotista? Duvido. Ficaria surpreso
com isso. Duvido. <pausa> Duvido! <falando em tom alto>”.
Enquanto isso poderia ser um testamento ao disfarce do racismo, creio que isso
é, na verdade, um testamento à influência que determinadas chaves explicativas sobre
ele tem na constituição das atitudes e disposições dos sujeitos sobre o tema. Como
seria possível dizer o contrário, à luz do relato de outros docentes sobre fatos desta
natureza? Vejamos o que dizem:

“O pessoal postou hoje no facebook que botaram no mural do CARB, lá


do Centro Acadêmico, eh, um cartazinho assim com, com, só a sombra
de um estudante com um black, [escrito] ‘Quer dizer que você entrou por
cotas, hein?” (Felipa, negra)

“Desde um primeiro momento, quando nós lutávamos pelas cotas e um


grupo de estudantes organizado na forma de... de um núcleo político que
lançava e lança até o hoje chapas para concorrer às representações
estudantis, e que anunciou que faria um trote desonroso aos primeiros
cotistas que ingressassem na "Egrégia" Faculdade de Direito, e nós
mandamos recado dizendo que se isso se desenvolvesse... ia ter porrada.
Por que a gente ia reagir em defesa desses estudantes, além deles
próprios, evidentemente, se auto-defendendo, inclusive com a disposição
para o confronto físico, por que... seria intolerável.” (Cândido, negro)

“Aqui em direito tem essa tradição de trote, e uma das brincadeiras do


trote era pedir pra os calouros virem com a farda da escola pra faculdade
né, tipo assim, pra sacanear os calouros, todo mundo de roupa e eles de
farda de escola. E [a aluna] disse que ficou muito puta porque ela não
consegue imaginar como as pessoas que propuseram aquela brincadeira
não imaginaram o efeito que aquilo ia gerar na sala de aula, e aí ela disse
que no outro dia, que assim, quem não tivesse com farda da escola ia ser
pintado, e todo mundo não queria passar por isso, no outro dia tinha 70%
da sala com a farda do Anchieta, do Colégio São Paulo, do colégio sei lá
qual que é, popzinho aí da classe média soteropolitana, e 30% da sala
escondidinha no fundo, né, meio constrangida com a farda de colégio
público, e assim... Como que aquilo foi uma brincadeira que demarcava
muito bem de onde você vem, né, e porque vocês não vão se misturar, e
aí minha aluna contou isso pra mim assim eu fiquei tão pensando assim...
Puta merda, né? Que coisa forte, e essa vivência ser marcada no primeiro
dia de aula, então a brincadeira era uma forma de marcar, quem é quem
aqui desde o primeiro dia de aula, e isso foi uma coisa que me tocou
bastante como que talvez essa experiência das cotas estejam sendo
vivenciadas entre os estudantes.” (Francisca, branca)

Poderia recorrer a outros relatos, mas finalizo com um que foi repetido por
muitos informantes e entrevistados:

“É um dos primeiros episódios aqui da faculdade, vou falar como


estudante mais uma vez, foi um professor que reprovou uma turma
inteira, a primeira turma de cotistas que ele pegou, ele reprovou
praticamente toda a turma, como uma manifestação de que vocês não
têm competência pra estar aqui, né. <pausa> Isso é um episódio bem
singular né, na história dessa faculdade.” (Francisca, branca)

Qual não foi minha surpresa ao descobrir que o docente que fez isso está entre
aqueles entrevistados que nunca ouviram falar de discriminação na universidade!
Ora, o que pretendo com esse confronto de narrativas é estabelecer um ponto
argumentativo relevante: há uma forte influência reflexiva não apenas do mito da
democracia racial – construído sobre bases teóricas muito reconhecíveis, e não apenas
sobre os “fatos” que se apresentam como exemplares –, como Fernandes e González
apontam; mas também das interpretações sobre a sutileza ou suavidade de um
racismo que pode ser complexo, mas não tem absolutamente nada de sutil ou suave. A
ausência presente de normativas jurídicas que tratem de raça e cor com viés de
discriminação negativa nem apaga o passado próximo em que tais normativas
existiam, nem os mecanismos escancaradamente racistas que garantem a reprodução
de hierarquias raciais mesmo dentro de um dos cursos mais tradicionais e prestigiados
de Direito do Brasil.
Não resta dúvida que o intento desses autores também contemplava a denúncia
dessa espécie de discurso. Porém, assim como os intelectuais juristas entrevistados,
eles também fizeram parte de um dado contexto, onde o diálogo com determinadas
teses sociológicas sobre o racismo brasileiro era necessário para que as suas próprias
interpretações fossem edificadas e legitimadas, ou mesmo, no seu primeiro instante,
formadas. Ainda assim, cabe uma reflexão crítica sobre a opção por uma gramática
que escamoteia o que considero a principal contribuição da própria Lélia González no
tema: a forma do racismo identificada no Brasil – não sendo ela exata e genuinamente
nacional – é uma forma superior, por introjetar disposições tão ou mais eficientemente
que a segregação oficial e aberta, sem precisar de seus traumas.

Conclusão(?)

O ponto fundamental deste trabalho é afirmar que a decodificação dos


fenômenos sociais é quase tão relevante quanto a sua própria existência. Aliás, um
depende do outro: uma tese que não se apoie em fatos pode ficar relegada à prateleira
da ficção científica; tanto quanto um fato que não encontre uma efetiva tradução não
pode ser considerado legítimo e justo. A inteligibilidade dos fenômenos sociais é parte
fundamental da sua reprodução – e mesmo da sua própria existência.
Toda interpretação é, assim, ao mesmo tempo, detetive e suspeito. No caso do
racismo brasileiro, todas as teses merecem uma consideração crítica apurada, haja
vista o histórico de associação entre intérpretes, interpretações, arranjos de poder e
políticas concretas. Não há sequer – para usar uma palavra-chave do presente debate
– disfarce para essas conjunções: Fernandes e González, aliás, orgulham-se de
mostrar seus compromissos institucionais, acadêmicos, políticos. Outros, nem tanto.
Não há mais inocência possível nesse tema. É necessário examinar todos os
argumentos à luz das consequências que apregoam pelo desenvolvimento de seus
pressupostos e hipóteses.
Isso se dá por que além da inegável utilidade das categorias analíticas – tanto
as discutidas nesse trabalho, quanto das demais que correm pelas interpretações
sobre o Brasil –, o fenômeno da reflexividade tal como Giddens expõe (1991) não
permite haver dúvida sobre a responsabilidade que recai sobre aqueles que se arvoram
a trilhar os caminhos das disciplinas que interpretam a realidade social.
Mais ainda, a produção de trabalhos sobre o tema deve se expor a passar,
também, por esse crivo crítico. A qualidade da discussão acadêmica fica prejudicada
sem isso; aliás, a leitura dos textos clássicos sobre as interpretações do Brasil mostra
que esses intelectuais, que se fizeram clássicos pela força de suas argumentações,
não se furtaram deste aspecto, igualmente decisivo na sua transformação em “leituras
obrigatórias” da sociologia brasileira, sucessos, portanto, de “público e de crítica”.
Avalio que isso se aplica a produção acadêmica em geral. Porém, aqui, pude
perceber e aprofundar um argumento sobre a relevância das categorias analíticas
discutidas e apresentadas por Fernandes e González – ainda que se insiram numa
tradição mais longa de pensamento social e sociológico –, mesmo que com viés crítico
a algumas delas. A ideia de racismo disfarçado, ainda que possa fantasiar as relações
raciais em alhures, e ainda que a escolha de termos como “velado”, “disfarçado”,
“mascarado”, dentre outros, não contribua para furar a interdição discursiva que ela
mesma denuncia, ajuda a compreender boa parte dos fenômenos relatados pelos
docentes, que contam sobre mecanismos bastante complexos de construção de
hierarquias raciais dentro da própria Faculdade de Direito.
Por outro lado, a reflexividade percebida, ao menos em hipótese, pela inserção
dessas ideias no ambiente intelectual formador dos entrevistados, é impressionante; as
categorias analíticas são utilizadas, ainda que de maneira diluída, pelos entrevistados
para explicar sua própria condição. As interpretações clássicas, por vezes ambíguas,
sobre o racismo brasileiro, parecem bastante difundidas no discurso dos docentes, e
em alguns momentos, coincidem marcadamente com o pensamento do autor e da
autora escolhidas. Porém, especialmente no discurso do professor e da professora
negras, é bastante evidente o recurso a essas chaves explicativas; a proximidade e o
diálogo que Florestan Fernandes e Lélia González tiveram com o movimento negro
parecem ser importantes para isso. Fica, inclusive, uma tentação de questionar
diretamente sobre estas várias conexões numa eventual segunda rodada de entrevista,
para conferir se estão num plano de uma influência difusa ou mais concentrada, pela
leitura direta das diferentes correntes de pensamento social e sociológico sobre o tema.
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