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PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DO RIO GRANDE DO SUL

FACULDADE DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS

LUARA FERNANDEZ DE CANDIDO

CRÉDITO SOB A ÓTICA DA TERCEIRA IDADE – SIGNIFICADOS DA


UTILIZAÇÃO DO EMPRÉSTIMO PESSOAL PARA OS IDOSOS

Porto Alegre
2007
LUARA FERNANDEZ DE CANDIDO

CRÉDITO SOB A ÓTICA DA TERCEIRA IDADE – SIGNIFICADOS DA


UTILIZAÇÃO DO EMPRÉSTIMO PESSOAL PARA OS IDOSOS

Monografia apresentada como requisito


para a obtenção do grau de Bacharel
em Ciências Sociais pelo curso de
Ciências Sociais da Pontifícia
Universidade Católica do Rio Grande
do Sul.

Orientadora: Prof.ª Dr.ª Lúcia Helena Alves Müller

Porto Alegre
2007
LUARA FERNANDEZ DE CANDIDO

CRÉDITO SOB A ÓTICA DA TERCEIRA IDADE – SIGNIFICADOS DA


UTILIZAÇÃO DO EMPRÉSTIMO PESSOAL PARA OS IDOSOS

Monografia apresentada como


requisito para a obtenção do grau de
Bacharel em Ciências Sociais pelo
curso de Ciências Sociais da Pontifícia
Universidade Católica do Rio Grande
do Sul.

Aprovada em _____ de ____________________ de________

BANCA EXAMINADORA:

______________________________________________
Profª. Drª. Fernanda Bittencourt Ribeiro (PUCRS)

______________________________________________
Profª Drª Lúcia Helena Alves Müller (PUCRS)

______________________________________________
Profa. Me. Roshangela de Freitas Bastani (PUCRS)
CITCFGEKOGPVQU

Agradeço à minha orientadora, Lúcia Müller, por se dispor a me


acompanhar no desenvolvimento deste trabalho , pelas fantásticas aulas
ministradas que influenciaram minha paixão pela antropologia e por ter
possibilitado a minha participação no Núcleo de Estudos de Empresas e
Organizações.
À professora Fernanda Ribeiro, pelos seminários inesquecíveis e por ter
aceitado participar da minha última etapa da graduação.
À professora Roshangela Bastani, por ter acompanhado o início deste
trabalho nas aulas de estágio, com muita paciência e disposição para me
apontar novas direções e por também ter se disposto a acompanhar o final
deste estudo.
Aos professores Emil A. Sobottka e Ricardo Mariano, pelo incentivo e
pela qualidade das aulas ministradas.Aos demais professores, funcionários e
colegas da FFCH que tive o prazer de conhecer durante no decorrer da
faculdade.
Meus sinceros agradecimentos aos meus colegas do banco, os quais
considero verdadeiros amigos. Obrigada à todos por terem possibilitado o
andamento desta pesquisa, pelo carinho e apoio e pelo aprendizado que cada
um me propiciou.
Aos meus amigos e familiares, pelos sorrisos e alegrias propiciadas. Nos
momentos de dificuldade foram vocês que me ajudaram a seguir adiante. Muito
obrigada!
Agradeço em especial ao meu pai, Carlos Alberto de Candido, por
sempre acreditar nos meus sonhos e por estar ao meu lado, me apoiando e
acompanhando todos meus passos. Sem sua presença essa conquista não
seria possível. Muito obrigada pai!
RESUMO

O presente trabalho de conclusão de curso tem como objetivo mapear os


aspectos simbólicos envolvidos na utilização do crédito com desconto em folha
de pagamento destinado aos aposentados do INSS. Através de uma
abordagem etnográfica, analisa- se os discursos dos idosos no espaço
institucional de uma agência bancária de Porto Alegre, assim como o conteúdo
de algumas entrevistas realizadas. Inicialmente, faz-se uma explanação acerca
das políticas econômicas implantadas pelo governo federal que influenciaram
as mudanças dos significados do papel do idoso na mídia e no mercado.
Realiza-se uma breve análise dos conflitos existentes entre a política de
expansão ao crédito e as políticas públicas voltadas para a terceira idade.
Posteriormente, busca – se entender qual a lógica presente nos cálculos dos
usuários dos serviços financeiros e quais os aspectos culturais que estão
envolvidos nas tomadas de decisões, além de como se dão as relações entre
os clientes aposentados e os agentes bancários . Os significados atribuídos
pelos aposentados à utilização do crédito com desconto em folha de
pagamento variam, podendo remeter tanto à aspectos positivos como
negativos. A lógica existente nos cálculos de quem solicita um empréstimo
possui aspectos relacionados às relações familiares e à valores morais , ou
seja, aspectos subjetivos que procurou-se decifrar durante a pesquisa.

Palavras- chave: Empréstimos. Aposentados. Serviços financeiros. Práticas


financeiras.
ABSTRACT

The objective of this abstract is to map the symbolic aspects involved in the use
of credit with discount on sheet of payment for INSS's retirees. From an
ethnographic approach, analyzes the speeches of retirees inside the
institutional premises of a bank in Porto Alegre, as well as the content of some
interviews conducted. Initially, it is an exposition on the economic policies
implemented by the Federal Government that influenced the changes of
meanings of the role of the elderly in the media and on the market. It is a brief
analysis of the conflict between the policy of expanding the credit and public
policies directed toward the elderly. Later, finding themselves understand how
this logic in the calculation of the users of financial services and the cultural
aspects that are involved in decision-making, and how the relationship between
retirees customers and bank agents are made. The meanings assigned by
retirees to the use of credit with discount on sheet of payment are variable, and
may refer to both the positive and negative aspects. The logic in the
calculations of who requests a loan has aspects related to family relationships
and moral values or subjective aspects that tried to decipher during the search.

Key words: Loans. Retirees. Financial Services. Financial Pratices.


Lista de ilustrações

Gráfico 1 - crescimento dos saldos do crédito consignado e do crédito pessoal -------------- 6

Esquema 1- variáveis do cálculo de risco -------------------------------------------------------------- 7

Gráfico 2 - População residente de 60 anos ou mais de idade, por grupos ------------------ 12


de idade Brasil - 1991/2000

Gráfico 3 - Projeção de crescimento da proporção da população de 60 anos----------------13


ou mais de Idade, segundo sexo – Brasil 2000 - 2020

Gráfico 4 - Proporção de pessoas de 60 anos ou mais de idade responsáveis ----------- 14


pelos domicílios urbanos, por classes de rendimento nominal mensal
médio em salários mínimos- Brasil – 1991/2000

Gráfico 5 - Proporção de pessoas de 60 anos ou mais de idade responsáveis pelos---------15


domicílios rurais, por classes de rendimento nominal mensal médio em
salários mínimos- Brasil- 1991-2000

Gráfico 6 - Rendimento total das pessoas de 60 anos ou mais de idade, segundo ------ 16
a contribuição de cada tipo de rendimento – Brasil -1992/1999

Imagem 1 – Oferta de empréstimos para aposentados -------------------------------------------- -18

Imagem 2 – Oferta de empréstimos para aposentados ------------------------------------------- -19

Imagem 3 – Oferta de empréstimos para aposentados -------------------------------------------- 19

Imagem 4 – Oferta de empréstimos para aposentados ------------------------------------------- - 20

Diagrama 1 – Impacto da política de expansão ao crédito ------------------------------------------ 21

Quadro 1 – Classificação dos serviços financeiros -------------------------------------------------- 24

Quadro 2 – Necessidades financeiras e mecanismos atuais ------------------------------------- 26


SUMÁRIO

INTRODUÇÃO ....................................................................................... .. 1

1. Política econômica de expansão do acesso ao crédito ..................... 5


1.1 Risco das operações – chave da política econômica ............................... 7
1.2 Aposentados do INSS e a terceira idade ................................................ 10
1.3 Poder de consumo x imagem na mídia .................................................. .18

2. O valor de pedir emprestado ................................................................. 24

3. A instituição x tomadores de crédito


3.1 Oferta e procura de crédito ................................................................... 36
3.1.1 Sônia - Como não ajudar?A vida é assim minha filha! .........................38
3.1.2 Lurdes : “eu sou do momento”! ............................................................ 39
3.1.3 Marisa: “ Não posso dar o passo maior que a perna! “....................... 41

4. Cálculos: quando o valor considerado vai além do valor do dinheiro 42

CONCLUSÃO ............................................................................................... 47

REFERÊNCIAS ........................................................................................... 50
1

01. Introdução:

Nos últimos anos a política econômica do governo federal criou mecanismos


para facilitar o acesso ao crédito aos grupos da população que anteriormente não
eram vistos como “potenciais consumidores” por parte das instituições financeiras. A
lógica das instituições de estabelecer juros e “emprestar”, tendo como uma das
principais variáveis o risco que as operações financeiras oferecem, exclui do alvo de
oferta de produtos financeiros àqueles indivíduos que não se encaixam nos critérios
avaliados como garantia de retorno. Com os objetivos de expandir o acesso ao
crédito oferecido a esses indivíduos e de diminuir os custos para quem “pede
emprestado”, as políticas desenvolvidas a partir de 1999 pelo Governo Federal e
Banco Central do Brasil visaram a garantir a diminuição dos riscos de inadimplência
para os bancos e financeiras, ampliando o acesso às informações cadastrais dos
tomadores e criando novas possibilidades de cobrança dos financiamentos. O
crédito com desconto em folha de pagamento, modalidade na qual o pagamento dos
valores tomados são descontados diretamente dos proventos do indivíduo, criou um
cenário no qual novos perfis de consumidores vêm sendo disputados entre as
diversas instituições que oferecem crédito. O risco extremamente baixo de
inadimplência que essa modalidade oferece, se comparado a outras linhas, eliminou
critérios anteriormente entendidos como necessários para aprovar ou não a
liberação de recursos. São diversos segmentos que vem sendo alvo da oferta do
crédito desconto em folha - servidores públicos, militares do exército, marinha,
aeronáutica, entre outros. No entanto, neste trabalho o foco será a oferta de crédito
a aposentados e a utilização por parte dos mesmos.
Oferecer empréstimo para os aposentados se tornou um negócio
extremamente lucrativo, transformando os indivíduos da terceira idade foco das
vendas desse produto e das propagandas de bancos e financeiras. “Dinheiro fácil,
rápido e sem burocracia” passou a ser o marketing de muitas empresas que
oferecem os serviços de crédito com desconto em folha. O crescimento da utilização
desse tipo de empréstimo é visível e se tornou foco de análise por parte de
economistas, assim como notícia freqüente na mídia. Pesquisas já foram realizadas
divulgando dados acerca da finalidade das contratações e da opinião dos
2

aposentados sobre o produto a eles oferecido; no entanto, se desconhece estudos


que tenham como objetivo entender de que forma esse grupo específico, o dos
aposentados, percebe e vivencia esse processo de transformação no status que o
mercado lhe atribui. O que se pretende com esse trabalho é fornecer pistas de como
os indivíduos da terceira idade, aposentados do INSS tomadores de crédito,
percebem e utilizam os produtos a eles destinados, mapeando os significados da
imagem que lhes é atribuída pelas instituições financeiras e da imagem que eles têm
de si mesmos, que são refletidas em suas práticas financeiras.
Em 2006 fui contratada para trabalhar no setor de crédito de uma agência
de um banco estatal localizado na cidade de Porto Alegre, Rio Grande do Sul.
Neste mesmo ano passei a fazer parte do Núcleo de Estudos de Empresas e
Organizações da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da PUCRS, no projeto
Me dá um dinheiro aí? Crédito e inclusão financeira sob a ótica de grupos populares,
coordenado pela antropóloga Dra Lúcia Helena Alves Müller. O projeto que trata da
ótica de grupos populares em relação ao crédito e à inclusão financeira tem como
objetivo a compreensão de como os grupos sociais que vão sendo incorporados ao
mercado de serviços financeiros vivenciam esse processo e de que forma
incorporam os recursos e instrumentos financeiros em suas práticas cotidianas e em
seu universo simbólico. Ambas as atividades propiciaram o desenvolvimento deste
trabalho, facilitando o acesso ao conhecimento teórico e aos dados empíricos.
A proposta deste estudo foi a de realizar uma análise antropológica dos
discursos e práticas dos indivíduos da terceira idade tomadores de crédito, dentro e
fora do espaço bancário, tendo como pano de fundo uma questão mais ampla.
Como e até que ponto o âmbito econômico transforma valores culturais, e como os
aspectos culturais atravessam as práticas econômicas. Estas são as principais
questões que motivaram o desenvolvimento do trabalho.
3

Metodologia

Optou-se, para a realização deste estudo, pela utilização de uma abordagem


etnográfica. Durante o período de setembro de 2006 a outubro de 2007 foram
realizadas observações no espaço institucional da agência bancária, o que
possibilitou a captura de aspectos relevantes relacionados à obtenção do crédito, os
quais foram analisados em conjunto com os dados das entrevistas realizadas.

A observação participante possibilita a verificação de discursos ausentes de


constrangimentos pelo fato do observado não criar mecanismos que distorçam sua
forma de agir pelo fato de se sentir intencionalmente observado. Nas observações,
procurou-se identificar os aspectos culturais que orientam a busca pelo crédito e as
justificativas fornecidas para esse ato, assim como, analisar as relações que os
idosos mantêm com suas famílias e os significados que os mesmos atribuem ao seu
papel nesse grupo social.

Também se analisou o posicionamento dos aposentados em relação à


instituição no momento da solicitação dos empréstimos. As interações entre o
agente bancário e os aposentados revelaram aspectos da imagem que os indivíduos
da terceira idade acreditam serem adequados, vistos como positivos ou negativos.
Quais as características que estão presentes no imaginário dos aposentados e que
definiriam um “tipo ideal de consumidor de crédito ” e quais práticas financeiras são
classificadas como adequadas ou inadequadas também foram aspectos que se
procurou identificar nos discursos durante a pesquisa. Procurou-se, também, decifrar
os significados que os aposentados atribuem à utilização das linhas de crédito,
mapeando o universo simbólico existente em relação a aspectos como o dinheiro, o
crédito, a dívida, assim como o papel dos mesmos nas relações familiares.
As entrevistas foram realizadas com indivíduos situados em posições
distintas, com o intuito de se verificar os diferentes olhares a cerca de uma mesma
temática. Foram entrevistados: um funcionário da agência bancária e uma agente de
crédito de um pequeno posto de oferta de empréstimos; dois aposentados, clientes
da agência, um que já havia solicitado empréstimos e outro que não utiliza as linhas
de crédito; um aposentado que trabalha como segurança de rua para aumentar sua
4

renda e fez uso dos das linhas de crédito com desconto em folha; uma pensionista
do INSS, de 67 anos, que também já utilizou os empréstimos e a neta de uma
aposentada juntamente com sua mãe, a qual já havia solicitado dinheiro emprestado
à sua avó. Os nomes dos entrevistados foram alterados para preservar o sigilo.
O primeiro capítulo tratará sobre os aspectos do cenário econômico atual que
desperta a atenção de diversos seguimentos da sociedade: o crescimento acelerado
no consumo de crédito por parte da terceira idade, após implementação da política
estabelecida pelo governo e o Banco Central - de estabelecimento de um teto
máximo de juros para a oferta de crédito consignado. Neste capítulo, procura-se
fazer uma breve análise de como o aposentado teve o status transformado no
mercado de crédito e de como a mídia e as instituições financeiras acompanharam
esse processo, assim como se verificar os conflitos presentes entre as políticas que
visam proteger a categoria denominada terceira idade e a política econômica de
expansão do crédito.
O segundo capítulo analisa os significados existentes no ato de se pedir
dinheiro emprestado. As falas dos entrevistados e os discursos dos aposentados
observados no espaço institucional revelam alguns dos valores associados ao ato de
se solicitar um empréstimo, os quais são descritos nesse capítulo.
O terceiro apresenta as análises realizadas no espaço da agência bancária.
Analisa-se como se dão as interações entre os clientes aposentados e os
funcionários e descreve-se as diversas “cenas sociais” observadas no decorrer do
estudo.
O quarto capítulo trata dos diferentes aspectos que envolvem os cálculos dos
aposentados nas tomadas de decisões referentes às finanças.
5

1 . Política econômica de expansão do acesso ao crédito

Segundo dados do Relatório de Economia Bancária e Crédito, em 2005, do


Banco Central do Brasil, desde outubro de 1999 o Governo Federal e o Banco
Central atuam juntos para expandir a oferta de crédito e para diminuir os custos dos
empréstimos e financiamentos praticados no país. As principais medidas tomadas
foram de caráter fortemente institucional e microeconômico, direcionadas a expandir
o acesso ao crédito com custos mais acessíveis.
Em 17 de dezembro de 2003, como parte da política de inclusão financeira,
foi promulgada a Lei 10820, originada da medida provisória 130 de setembro de
2003, que dispõe sobre as operações de crédito com consignação em folha de
pagamento. Tal Lei permitiu o acesso desse tipo de crédito aos aposentados e
pensionistas do INSS, possibilitando o estabelecimento de convênios entre bancos e
financeiras com o Instituto Nacional de Seguro Social. A legislação que ampara o
crédito consignado para aposentados e pensionistas estabelece que o teto máximo
para desconto seja de 30% do valor do benefício, no número máximo de 36
prestações, e estipula uma taxa máxima de juros para as operações. .Além disso, o
INSS estabelece normas que devem ser seguidas pelas instituições que ofertam o
produto, tendo ocorrido, inclusive, modificações desde que foram firmados os
convênios, pelo fato de se constatar irregularidades e problemas de comportamento
agressivo por parte de muitos agentes de crédito. Ficou estabelecida a
obrigatoriedade, por parte das instituições que oferecem o produto, de fornecer
dados específicos acerca das transações realizadas – taxa mensal e anual de juros,
total a ser pago, acréscimos remuneratórios, moratórios e tributários, o valor, número
e periodicidade das prestações e a soma total a pagar por empréstimo,
financiamento ou operação de arrendamento mercantil.
O relatório de 2005 do Banco Central do Brasil, que dedica um capítulo
especificamente para tratar dos empréstimos consignados, fornece dados concretos
acerca do aumento das contratações da modalidade, especialmente sobre o crédito
consignação em folha para aposentados e pensionistas do INSS, por se tratar das
operações com maior volume no período que o estudo foi realizado.
O gráfico abaixo, extraído do documento, compara o crescimento dos saldos
do crédito consignado e do crédito pessoal não consignado.
6

Gráfico 1- crescimento dos saldos do crédito consignado e do crédito pessoal.


Fonte:Sistema de informações de crédito (SCR) e séries temporais do Banco Central do Brasil

Três pontos interessantes podem ser observados no gráfico. Em dezembro de


2003, no período que a Lei que dispõe sobre o crédito consignado foi promulgada,
inicia-se um crescimento nas contratações. Em maio de 2004, início das operações
para aposentados e pensionistas do INSS, o gráfico aponta o crescimento
relativamente constante nas contratações. Em dezembro de 2004 verifica-se um
crescimento expressivo.
A Dataprev revelou, em janeiro de 2006, que do total de 19 milhões de
aposentados e pensionistas do Regime Geral da Previdência Social, 4,6 milhões já
tinham tomado dinheiro nos bancos com descontos mensais nos seus benefícios.
Os dados revelam, ainda, que a maioria dos titulares de benefícios do INSS (57,7%)
tem preferido parcelar seu empréstimo por um prazo que varia de 31 a 36 meses e
que quem mais toma empréstimo entre os titulares de benefícios recebe até um
salário mínimo por mês; o que, no período da pesquisa representava 50,36% dos
empréstimos ativos acumulados. Até junho de 2007, 8.089.890 pessoas já tinham
recorrido aos empréstimos.
7

1.1. Risco das operações – chave da política econômica

A política de expansão do acesso ao crédito criou mecanismos para


diminuição do risco de inadimplência para que, assim, as exigências por parte das
instituições para “emprestar” fossem modificadas e o acesso ao crédito fosse
facilitado. Autorizar automaticamente o desconto de prestações de empréstimos dos
benefícios dos tomadores de crédito do INSS foi um dos mecanismos adotados.
Segundo dados do Ministério da Previdência, atualmente 55 instituições financeiras
possuem convênio que as autoriza a trabalhar com a modalidade de empréstimo
com desconto em folha, o que ilustra o grande interesse pela oferta de um produto
que oferece baixíssimos riscos para a instituição.
São inúmeras as variáveis consideradas para calcular o risco de
inadimplência de um cliente: tipo de vínculo empregatício, histórico de “bom” ou
“mau” pagador, renda comprometida, entre outras. O esquema abaixo é um exemplo
de algumas características que podem ser consideradas nos cálculos de risco e que
impactam na liberação do crédito, assim como no valor a ser disponibilizado e na
taxa de juros cobrada, observadas durante o período de minha experiência em
vendas de crédito no banco.

Renda:
Trabalhador vinculado a Funcionário público
Sem renda / Trabalhador temporário / Trabalhador informa l/ empresa privada / na ativa ou aposentado
Estagiário

Restrições Crediticias

Cheques devolvidos (CCF) SPC/SERASA – estabelecimentos comerciais SPC/SERASA – instituições


financeiras

Tempo de relacionamento com o banco e tempo de vínculo empregatício

Menor Maior

Negativo(risco maior) Positivo (risco menor)


___________________________________________________________________________________Æ
Esquema 1- variáveis do cálculo de risco
Fonte: O autor (2007)
8

No sistema financeiro é possível calcular o risco de uma operação de crédito


baseando-se no histórico do cadastro do cliente devido aos avançados sistemas de
informações cadastrais.
Bittencout, Magalhães e Abramovay (2005) analisam o impacto dos sistemas
de informações cadastrais para o cálculo de risco na expansão do acesso ao crédito.
Acerca das centrais de informações de crédito afirmam:

Como a maioria das instituições financeiras e estabelecimentos


comerciais não possuem um relacionamento contínuo com grande
parte da sua clientela, a utilização de informações histórica dos seus
próprios cadastros é insuficiente e torna necessário o recurso a
instituições que reúnam informações de diversos cadastros e
possibilitem a troca de informações no mercado. No Brasil existem
três grandes centrais de informações, a Serasa, o Serviço de
Proteção ao Crédito e a Central de Risco de Crédito do Banco
Central.
(BITTENCOURT, MAGALHÃES e ABRAMOVAY,2005,p.216)

A Serasa, como os autores citam no artigo, é uma instituição privada criada


em 1968 pelos grandes bancos e é apontada como a maior central de informações
da América Latina. Tem como objetivo apoiar a avaliação do risco do crédito, de
inadimplência e de fraude. Seu banco de dados recebe 2,5 milhões de consultas
diárias.

Para análise de risco de pessoas físicas, a Serasa reúne


informações sobre uso de cheques, protestos, ações judiciais,
pendências financeiras, dívidas vencidas, informações sobre
veículos, quitação de multas e impostos. As principais fontes de
informações utilizadas são cartórios de distribuição judicial, varas
cíveis, cartórios de protestos, juntas comerciais, Banco Central,
instituições financeiras e não financeiras, banco de dados de
duplicatas e cheques cedidos às factorings, banco de informações
sobre apólices e sinistros, e sistema de informações do registro
nacional de veículos.
(BITTENCOURT, MAGALHÃES e ABRAMOVAY,2005,p.218)
9

O Serviço Nacional de Proteção ao Crédito – SPC Brasil - é um órgão de


serviços da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas – CNDL. O SPC foca a
gestão de risco na venda e crédito de consumo.
Como colocam os autores, o SPC e SERASA são grandes centrais de
informações e usufruem de alta tecnologia e imensa gama de informações. No
entanto, de certa forma, as centrais limitam o processo de inclusão financeira e
expansão do acesso ao crédito da população de baixa renda. Isso se dá pelo fato
das centrais trabalharem com os chamados cadastros negativos (ocorrências de
inadimplências).
O único sistema de informações de crédito que trabalha com o cruzamento de
informações positivas(histórico de pagamentos) e negativas é o Sistema de
Informações de Crédito do Banco Central do Brasil, criado em 1997. Porém, as
informações dessa central somente são consideradas para as operações acima do
valor de R$ 5.000,00, o que exclui a possibilidade de indivíduos de baixa renda que
solicitam valores inferiores, pois não estão inseridos nesse modelo de cálculo de
risco.
Os autores afirmam a importância da criação de uma central de informações
de cadastro positivo destinada a obter informações das práticas dos indivíduos de
baixa renda baseando-se em variáveis como freqüência dos pagamentos de conta
de luz e água.
Em 2005, o Conselho Monetário Nacional transferiu para as instituições
financeiras a decisão de autorizar ou não operações de crédito para indivíduos com
dívidas ativas. Muitas instituições passaram a oferecer crédito com desconto em
folha de pagamento, inclusive para aqueles indivíduos com restrições de crédito –
nome nos cadastros do SPC, SERASA ou CCF, o que normalmente não é praticado
pelo mercado financeiro. Esse aspecto está relacionado com o baixo risco de
inadimplência que tais operações oferecem.
Com a nova modalidade de empréstimo, muitos aspectos do cálculo de risco
foram eliminados pelas instituições que oferecem crédito . As instituições financeiras
trabalham com a lógica do cálculo racional. Os modelos criados para calcular
valores e aprovar o crédito visam à segurança do negócio e a garantia do retorno
financeiro. A relação entre a instituição que empresta e o tomador de crédito é
estabelecida por parte da instituição, tendo como critérios mecanismos concretos
que garantem o retorno dos pagamentos. Os aspectos abstratos presentes nas
10

trocas entre os indivíduos são desconsiderados pela lógica econômica, pois não são
tidos como garantias reais de pagamento.
O empréstimo consignação em folha, por não exigir o cálculo de risco que
outras modalidades exigem, se tornou um caso peculiar que permitiu o acesso ao
crédito mesmo por parte daqueles que possuem restrições. O aposentado tornou-se
além de um consumidor potencial aos olhos do mercado, aquele que pode, no grupo
familiar e de amigos, “emprestar o nome” , mesmo que esteja com o “nome sujo”
para consumir.

1.2 Aposentados do INSS e a terceira idade

A Previdência Social é o seguro social para a pessoa que contribui.


É uma instituição pública que tem como objetivo reconhecer e
conceder direitos aos seus segurados. A renda transferida pela
Previdência Social é utilizada para substituir a renda do trabalhador
contribuinte, quando ele perde a capacidade de trabalho, seja pela
doença, invalidez, idade avançada, morte e desemprego
involuntário, ou mesmo maternidade e a reclusão.

(Ministério da Previdência,2007 )

A previdência dispõe de diversas categorias de benefício – pensão por morte,


aposentadoria por invalidez, auxílio maternidade, aposentadoria por tempo de
contribuição, aposentadoria por idade, entre outros. Para o estudo proposto, cabe
especificar os critérios necessários para aposentar-se por idade.
As exigências para se ter acesso ao benefício do INSS por idade são
diferenciadas, havendo uma divisão entre “trabalhadores rurais” e “trabalhadores
urbanos”, assim como entre homens e mulheres. A idade mínima exigida varia
segundo tais categorias. Atualmente, exige-se que, sendo trabalhador urbano do
sexo masculino se tenha a idade de 65 anos, e a idade de 60 anos para o sexo
feminino. Os trabalhadores rurais podem pedir aposentadoria por idade com cinco
anos a menos: aos 60 anos, homens, e aos 55 anos, mulheres. Já para aposentar-
se por tempo de contribuição, os critérios referentes à idade são:
11

Para ter direito à aposentadoria integral, o trabalhador homem deve


comprovar pelo menos 35 anos de contribuição e a trabalhadora
mulher, 30 anos. Para requerer a aposentadoria proporcional, o
trabalhador tem que combinar dois requisitos: tempo de contribuição
e a idade mínima. Os homens podem requerer aposentadoria
proporcional aos 53 anos de idade e 30 anos de contribuição (mais
um adicional de 40% sobre o tempo que faltava em 16 de dezembro
de 1998 para completar 30 anos de contribuição). As mulheres têm
direito à proporcional aos 48 anos de idade e 25 de contribuição
(mais um adicional de 40% sobre o tempo que faltava em 16 de
dezembro de 1998 para completar 25 anos de contribuição).”
( Ministério da Previdência, 2007)

Aposentadoria e terceira idade são conceitos que normalmente estão


interligados no imaginário social. As categorias que separam os indivíduos por idade
cronológica são construções culturais, como coloca DEBERT (1999) em sua obra “A
Reinvenção da Velhice”, que trata sobre as transformações dos significados
atribuídos à categoria dos idosos historicamente. Em seu trabalho, a autora
demonstra como “ser velho” pode ter significados variados e como a definição de
uma idade cronológica X, para se considerar um indivíduo idoso, é uma construção
ligada às necessidades institucionais para estabelecimento de políticas publicas,
defesa e delegação de direitos aos cidadãos. A idéia de que a velhice é um
momento de abandono, de carência, de solidão e de insegurança em relação ao
sustento foi modificada no decorrer dos anos, tendo como uma das principais
causas o fato da velhice ter se tornado tema de debate público estimulado pelas
estatísticas do aumento da população idosa no mundo. O direito à aposentadoria por
idade impactou nessa transformação, atribuindo um novo status aos indivíduos da
terceira idade.
A Organização Mundial de Saúde define como população idosa aquela a
partir dos 60 anos para os países em desenvolvimento e 65 anos para os países
desenvolvidos, não havendo distinção entre o gênero e atividade profissional.
Segundo dados do Censo 2000 do IBGE, o número de idosos no Brasil é de quase
15 milhões. Nos próximos 20 anos, a previsão é de que a população idosa no país
poderá exceder 30 milhões de indivíduos, como ilustram os gráficos abaixo:
12

Gráfico 2 -População residente de 60 anos ou mais de idade, por grupos de idade Brasil- 1991/2000
Fonte: Relatório do Perfil dos idosos responsáveis pelo domicilio no Brasil. IBGE (2000)
13

Gráfico 3 - Projeção de crescimento da proporção da população de 60 anos ou mais de Idade,


segundo sexo – Brasil 2000 - 2020
Fonte: Relatório do Perfil dos idosos responsáveis pelo domicilio no Brasil. IBGE (2000)

O relatório do “Perfil dos idosos responsáveis pelo domicílio no Brasil (IBGE-


2000) traz dados referentes à população idosa e chama a atenção para a
necessidade de se debater acerca do impacto do rápido envelhecimento da
população. Cita, como indicadores de que a questão do idoso tem sido alvo das
preocupações da agenda nacional, a inclusão dos idosos como um dos grupos a
serem defendidos no Programa Nacional de Direitos Humanos, em 2002, que visava
a defender grupos mais vulneráveis à discriminação, e a promulgação da Lei n°
8842, de janeiro de 1994, que dispõe sobre a política nacional para o idoso :

De acordo com o texto da referida lei, a política nacional do idoso


tem por objetivo assegurar os direitos sociais do idoso, criando
condições para promover sua autonomia, integração e participação
efetiva na sociedade. Vale ressaltar as disposições do 3° artigo
desta Lei, que trata o envelhecimento populacional como uma
questão de interesse da sociedade em geral e reconhece a
necessidade de se considerar as diferenças econômicas, sociais e
regionais existentes no País na formulação de políticas direcionadas
aos idosos.
(Perfil dos Idosos Responsáveis pelo Domicílio no Brasil- IBGE 2000)
14

Os dados apresentados no relatório demonstram, ainda, o crescimento do


número de idosos responsáveis economicamente pelos domicílios de 1991 a 2000 .
No ano de 2000, 62,4% dos idosos eram responsáveis pelos domicílios,
observando-se um aumento em relação a 1991, quando os idosos responsáveis
representavam 60,4%. O conceito responsável pelo domicílio é baseado, segundo o
IBGE, no apontamento por parte dos moradores do domicílio daquela pessoa tida
como referência do domicílio.

Nos dados referentes ao rendimento dos idosos, o censo aponta diferenças


entre as regiões assim como entre a área urbana e rural, mas indica crescimento. A
maior parte da população idosa responsável pelo domicílio recebe até um salário
mínimo, como ilustram os gráficos a seguir:

Gráfico 4- Proporção de pessoas de 60 anos ou mais de idade responsáveis pelos domicílios urbanos, por
classes de rendimento nominal mensal médio em salários mínimos- Brasil – 1991/2000

Fonte: Perfil dos idosos responsáveis pelo domicilio no Brasil. IBGE (2000)

"
15

"

"

"

Gráfico 5 - Proporção de pessoas de 60 anos ou mais de idade responsáveis pelos domicílios rurais, por
classes de rendimento nominal mensal médio em salários mínimos- Brasil- 1991-2000

Fonte: Perfil dos idosos responsáveis pelo domicilio no Brasil. IBGE (2000)

Para buscar algumas justificativas para a verificação do crescimento da renda


dos idosos responsáveis pelo domicílio, o IBGE recorreu aos dados do PNAD. Os
referidos dados, ilustrados no gráfico abaixo, demonstram que o principal
componente da renda tanto de homens quanto de mulheres de 60 anos ou mais
advêm da aposentadoria.
16

"

Gráfico 6 - Rendimento total das pessoas de 60 anos ou mais de idade, segundo a contribuição de cada tipo de
rendimento – Brasil -1992/1999
Fonte: Perfil dos idosos responsáveis pelo domicilio no Brasil. IBGE (2000)

Os dados apontados pelo IBGE não especificam a natureza das


aposentadorias; no entanto, a universalização dos benefícios da seguridade social é
apontada como fator primordial para o crescimento positivo dos rendimentos.
É possível, diante deste cenário, levantar algumas questões. É evidente o
crescimento da população idosa no mundo e no Brasil e, nesse sentido, a velhice se
tornou alvo de políticas públicas. No Brasil, como aponta o Censo do IBGE do ano
de 2000, cresceu o número de indivíduos idosos responsáveis pelo domicílio, assim
como houve um crescimento dos rendimentos dos mesmos, tendo como principal
justificativa apontada a universalização da aposentadoria. O censo aponta, ainda, as
diferenças existentes no perfil da população idosa nas diferentes regiões do País,
assim como entre população residente em área urbana e área rural.
A expansão do acesso ao crédito gerou um quadro de crescimento na
economia. No entanto, os impactos na organização da economia familiar gerados
pelo alto grau de endividamento dos aposentados tomadores de crédito não foi
avaliado. Não se pode cruzar as estatísticas fornecidas pelo IBGE com as
estatísticas acerca das contratações de empréstimos com desconto em folha de
17

pagamento fornecidos pela Dataprev. Além da diferença de idade estabelecida como


parâmetro para um indivíduo ser considerado idoso para o Censo do IBGE e da
idade mínima necessária para se ter acesso aos benefícios do INSS, os dados
levantados sobre as contratações englobam os tomadores de crédito que são
pensionistas, não sendo estes indivíduos necessariamente parte da população
idosa. Mesmo na ausência de dados estatísticos de possível cruzamento, pode-se
fazer algumas observações a cerca da política econômica de expansão de crédito:

1) Ao autorizar o empréstimo com desconto em folha de pagamento


para os aposentados e pensionistas do INSS, não se fez nenhuma
distinção no estabelecimento do teto máximo de juros entre aqueles
que recebem um salário mínimo e os demais beneficiários, sendo
que as estatísticas fornecidas pelo IBGE a cerca do perfil dos idosos
responsáveis pelo domicílio que visam o melhor desenvolvimento de
políticas públicas, mostram que a grande maioria dos idosos recebe
até um salário mínimo.

2) As estatísticas fornecidas pela Dataprev apontam que a maior parte


dos tomadores de crédito com desconto em folha recebe até um
salário mínimo e que a grande maioria prefere parcelar o empréstimo
de 31 a 36 vezes. O impacto a longo prazo gerado pelo
comprometimento da renda na organização das finanças dos idosos
não foi avaliado .

Não se buscou nesse estudo analisar minuciosamente as políticas


econômicas e as políticas públicas. Verificou-se que, se por um lado há através de
políticas públicas, a preocupação de garantir o bem estar da população idosa, a
política econômica de expansão do acesso ao crédito não contempla
necessariamente os princípios das demais iniciativas. Conhecer o cenário apontado
é necessário para compreender as mudanças de uma categoria específica da
sociedade - os idosos- no mercado, sendo essa a proposta desse estudo.
18

1.3 Poder de consumo x imagem na mídia

As contratações dos empréstimos com desconto em folha de pagamento não


são exclusivamente destinadas aos aposentados. Os grandes investimentos em
propagandas passaram a colocar o idoso numa categoria de consumidor em
potencial. Em 2002, DEBERT escreveu o artigo intitulado “O idoso na mídia” para
um site que trata sobre temas envolvendo a terceira idade. O artigo inicia com a
afirmação de uma representante de um dos conselhos estaduais dos idosos,
realizada num seminário sobre as imagens dos velhos na mídia, que diz :" "Quando a
terceira idade no Brasil for um fato econômico sério, aí a publicidade vai dar gás à terceira
idade e o valor que ela merece". Sobre a afirmação, a antropóloga observa que a
mesma “estabelece, com propriedade, a relação fundamental entre a capacidade de
consumo de um segmento social e suas imagens na mídia”
O surgimento dos empréstimos consignados, mesmo dirigidos àqueles que
possui baixa renda, fez com que as propagandas direcionadas para o consumo
desse produto passassem a trabalhar com uma imagem positiva ligada a terceira
idade e imagens que relacionam o poder de consumo com a felicidade. Nas
propagandas, observa-se pessoas idosas sorridentes, muitas com seus familiares,
além de artistas conhecidos, como mostram as ilustrações a seguir:

Imagem 1 – Oferta de empréstimos para aposentados


Fonte: www.soemprestimos.com (2007)
19

Imagem 2 – Oferta de empréstimos para aposentados


Fonte: http://www.emprestimofacil.com (2007)

Imagem 3 – Oferta de empréstimos para aposentados


Fonte: http://www.fininvest.com.br/apo/index.asp (2007)
20

Imagem 4 - Oferta de empréstimos para aposentados


Fonte: http://veja.abril.com.br/180505/p_090.html (2005)

Já em relação à divulgação de notícias, pode-se verificar que o crescimento


do consumo por parte dos aposentados é bastante noticiado e que, após a
autorização dos empréstimos com desconto em folha, alguns aspectos foram
fortemente reforçados através dos noticiários, matérias de sites e revistas. No site do
jornal “ Valor Econômico ”, as notícias, acerca do crescimento da utilização do
crédito por parte dos aposentados, na grande maioria focam o impacto desse
fenômeno na economia do país de forma mais abrangente. Já no site do Ministério
da Previdência, os dados revelados são basicamente estatísticos referentes à taxa
de juros, média dos valores dos benefícios daqueles que mais utilizam os
empréstimos, quantidade de prestações verificadas com maior freqüência nas
operações, além de informações sobre como se proteger de golpes envolvendo as
operações de crédito. São poucas as veiculações de notícias que revelam
preocupação com o grau de endividamento dos aposentados, entretanto,
recentemente, o Governo Federal mostrou estar preocupado com o impacto do
endividamento dos tomadores de crédito, iniciando campanhas de conscientização
que alertam os aposentados para “consumirem com moderação”.
21

O diagrama abaixo ilustra o ciclo que gerou o aumento do consumo do crédito por
parte dos aposentados.

Política
econômica de Autorização de
expansão do empréstimos
acesso ao crédito com desconto
em folha de
pagamento

É grande o
número de Aposentado
indivíduos sem
Risco das
acesso ao crédito
operações
caírem,
facilidades para
Etgueg" os tomadores
kogpucogpvg"q" aumenta
pûogtq"fg"
eqpvtcvcèùgu"fg"
gortêuvkoqu0" Aposentados
Dgpghkekâtkqu" ganham um
swg"tgegdgo" novo status no
cvê"wo"ucnâtkq" mercado. A
oîpkoq"uçq"qu"
swg"ocku"
imagem do
wvknk|co"q" idoso passa a ser
rtqfwvq0" trabalhada pela
publicidade

Diagrama 1 – Impacto da política de expansão de acesso ao crédito


Fonte: O autor (2007)

O ciclo se inicia com uma política econômica, desenvolvida pelo governo


federa,l que para atingir o objetivo de aumento do acesso ao crédito para um maior
número de indivíduos garantiu a diminuição dos riscos para bancos e financeiras
com a autorização da cobrança dos empréstimos descontados diretamente na folha
22

de pagamento dos indivíduos. Os aposentados, localizados no centro do esquema,


passaram a utilizar de forma visível as linhas de crédito a eles destinada.
Já foram realizadas pesquisas diversas com o objetivo de averiguar a
finalidade das contratações de empréstimo por parte dos aposentados. Grande parte
delas foi encomendada pelas instituições financeiras que oferecem o produto. A
pesquisa realizada pelo IBOPE para o Banco Cruzeiro do Sul (2005), realizada no
período de 11 a 12 de maio de 2005, com 500 aposentados , revelou que 58% dos
entrevistados apontam como principal razão para aquisição destes empréstimos a
quitação de dívidas com juros superiores. Além disso, a pesquisa revela que 89%
dos entrevistados considera ótima ou boa a decisão do governo de liberar
empréstimos para aposentados e pensionistas com desconto diretamente no
benefício.
Outras pesquisas com a finalidade de verificar a opinião dos indivíduos acerca
da aposentadoria e envelhecimento mostram dados interessantes. A pesquisa
realizada pelo HSBC (2007) sobre o envelhecimento no mundo, por exemplo, revela
que no Brasil 93% das pessoas querem contribuir com a renda familiar após a
aposentadoria. Tal dado pode ser utilizado para pensar que a lógica dos idosos nas
tomadas de decisões em relação aos aspectos financeiros não está descolada dos
valores atribuídos à família e ao papel que os mesmos acreditam ter que exercer na
economia doméstica. Ainda, segundo o levantamento do HSBC, as pessoas acima
de 60 anos contribuem economicamente com suas famílias de forma significativa.
Tais pesquisas nos fornecem dados superficiais acerca da utilização do crédito por
parte da terceira idade e da opinião que os mesmos possuem sobre a modalidade,
assim como a opinião dos aposentados em relação ao papel que acreditam ter na
família. No entanto, podem ser utilizadas como base para construção do quadro de
referência que envolve o consumo de crédito por essa população.
São poucos os dados que nos permitem decifrar os aspectos culturais
presentes na lógica do consumo do produto por parte dos aposentados e as
transformações diante de um cenário que coloca esse grupo com status de
consumidor potencial de crédito. Pensar que os princípios que orientam as ações e
decisões dos indivíduos em relação às finanças são puramente racionais e
utilitaristas empobrece a compreensão das práticas financeiras que são repletas de
significados. O endividamento gerado pela utilização do crédito veste somente sob a
ótica do “homem econômico ” impede que se compreendam os aspectos que estão
23

envolvidos nas práticas financeiras dos idosos. Uma política econômica gera
impactos nas relações sociais, mas as mesmas se articulam com lógicas já
construídas, agregando os novos conhecimentos e novos produtos às práticas
econômicas já existentes.
24

2. O valor de pedir emprestado

Em estudo realizado a cerca das microfinanças, Bruski e Fortuna (2000)


verificam como os indivíduos – no caso do estudo, indivíduos de baixa renda –
classificam os serviços financeiros existentes utilizando as seguintes categorias:
setor formal, setor semiformal e setor informal.

"

Quadro 1 – Classificação dos serviços financeiros


Fonte: BRUSKI e FORTUNA. Entendendo a demanda para as microfinanças no Brasil.Um estudo qualitativo em
duas cidades.2000 p.16

Segundo os autores, o empréstimo bancário, integrante do setor formal, é


serviço visto de forma negativa. A população por eles estudada designa crédito às
compras de bens de forma parcelada e empréstimo o crédito em dinheiro :
25

No sentido mais restrito, o termo crédito significa formas facilitadas


de pagamento de compras ou de serviços, que não envolvem
transferências físicas de dinheiro da parte de quem concede para
parte de quem toma. No caso do crédito, o que está sendo
negociado são bens ou serviços, ainda que por um custo maior. No
sentido mais amplo, o termo crédito ultrapassa os limites financeiros
e está associado ao comportamento correto, ao hábito de cumprir os
compromissos assumidos, qualquer que seja a natureza desses
compromissos, financeiros ou não. De outro lado, os empréstimos
são unicamente uma cessão de dinheiro do emprestador para o
tomador. No empréstimo se paga pelo dinheiro. É uma compra de
dinheiro por um valor mais alto do que o seu valor de face.
( BRUSKI e FORTUNA, 2002, p. 30)

Os dados desse estudo demonstram que o uso das linhas de crédito em


dinheiro é visto como algo negativo. Nas escolhas entre os serviços financeiros
disponíveis, um cálculo ligado a valores culturais, e não apenas matemáticos, é o
que orienta as decisões do consumo.
Segundo o mesmo estudo, há, ainda, eventos específicos relacionados às
preferências de utilização de cada modalidade de serviço financeiro. Os
mecanismos apontados no estudo para solução de problemas em cada evento
mostram que recorrer a parentes e amigos é uma prática comum:

O apoio da rede de relações sociais formada por familiares, amigos


e vizinhos é uma primordial estratégia de gestão, sobretudo nas
camadas mais pobres. Nesses grupos, o capital social é quase o
único capital disponível e redes informais de ajuda mútua se formam
para solucionar problemas mais graves com seus membros. A
cessão de um cheque ou o empréstimo do cartão de crédito para um
amigo ou parente, ou a compra de um televisor ou geladeira no
crediário feito com o nome de alguém que tenha cadastro positivo
na loja, são práticas comuns em ambas as cidades estudadas,
embora envolvam alguns riscos.(BRUSKI e FORTUNA, 2002,p.45)
26

Quadro 2 – Necessidades financeiras e mecanismos atuais


Fonte: BRUSKI e FORTUNA .Entendendo a demanda para as microfinanças no Brasil..Um estudo qualitativo em
duas cidades.2000 p. 36
27

O quadro “Necessidades financeiras e mecanismos atuais” aponta as


diversas formas de crédito utilizadas pelos indivíduos em diferentes situações. Pode-
se observar que recorrer a parentes é prática que aparece com certa freqüência,
mas as opções utilizadas variam de acordo com o evento e com a renda.
Há um paradoxo que envolve o uso de crédito. Ao mesmo tempo em que
pedir dinheiro emprestado assume significados negativos, os arranjos existentes
para suprir a carência do acesso aos serviços formais de oferta de crédito faz com
que a prática de “se emprestar o nome” seja usual. Para o aposentado, que contrata
um empréstimo para terceiros, há dois tipos de registros que envolvem a transação,
os quais são estabelecidos e orientados por distintos significados. O ato de contratar
um empréstimo no banco envolve um tipo de registro, já o ato de se emprestar o
dinheiro para um parente ou amigo envolve outro tipo de registro.
“Para filho pode”, é o que certa vez me afirmou um cliente que fora solicitar
informações sobre taxas de juros para empréstimo. Seu filho estava “precisando
arrumar a moto” e como “no banco dele é muito caro”, seria mais vantajoso solicitar
um empréstimo com desconto em folha de pagamento. “Aposentado tem essa
facilidade”, afirmou. Não se pode fazer generalizações, pois há diversos aspectos
que envolvem as relações familiares, no entanto, a idéia de que um pai ou uma mãe
não consegue negar ajuda a um filho está presente quando questionamos a razão
de se ajudar.
Trabalhando como agente de crédito desde agosto de 2007, em um posto de
oferta de empréstimos em Porto Alegre, Neusa, ao ser interrogada acerca dos
aposentados tomadores de crédito, diferencia o comportamento de homens e
mulheres. Entre as razões para solicitação dos empréstimos, no caso dos homens,
ela observa:

Para pagar dívida, quando estão reformando, comprar material de


construção...Geralmente eles pedem para tirar um OP...Sabe o que
é OP? OP é ordem de pagamento, eles tiram na boca do caixa. A
maioria deles tem conta corrente, mas eles não querem que seja
depositado, para as esposas não saberem, entendeu?
28

Neusa alega que praticamente todos os clientes homens preferem que o


dinheiro não seja depositado em conta corrente. Alguns, segundo ela, não informam
o telefone residencial, somente o celular, para a confirmação do empréstimo. Já em
relação à finalidade dos empréstimos no caso de clientes mulheres, Neusa afirma:

Para pagar dívida de filho...principalmente !!!Mulher pede para os


filhos ou para emprestar para os filhos ou para o filho comprar
alguma coisa, para pagar uma dívida. A mulherada é para família
sim ... Ou porque elas querem arrumar a casa ou comprar alguma
coisa.

Nas falas dos entrevistados, auxiliar os descendentes é visto como algo


“natural”, algo que não pode se negado. Ao ser interrogada sobre a
“obrigatoriedade” da ajuda aos filhos ou netos, Sra Lidia, 67 anos, pensionista,
afirmou “Não que seja obrigação, mas a pessoa acaba ajudando. Aquela coisa de
mãe, de avó.”
Antonio, funcionário da agência, ao opinar sobre do fato de muitos
aposentados ajudarem filhos e netos afirmou: “Porque pai é pai...mãe é mãe.”
Marcelo, 62 anos, cliente da agência, apesar de afirmar que sua aposentadoria é
sagrada e que não faz empréstimo para ninguém, ao fornecer sua opinião sobre os
empréstimos com desconto em folha afirmou “Estão deixando atolados certos
aposentados nos empréstimos”. Em resposta a minha afirmação de que solicita
empréstimo quem deseja e de que ninguém é obrigado a ajudar os parentes Marcelo
afirmou que, quando um filho pede para o pai ou para a mãe, os mesmos jamais vão
negar ajuda. E ainda:

Mas aí chega um filho e diz “pai, eu estou precisando de um


empréstimo. Tu faz um empréstimo lá depois eu te pago” .... “oh pai,
não deu, esse mês não vou poder pagar” ...No outro mês : “não vai
dar”...e aí..sobra para o aposentado, quer dizer, está descontado em
folha, não vai escapar

Se para muitos ajudar filhos e netos é algo “inevitável”, quando a ajuda se


refere a dar ou emprestar dinheiro, a questão se torna mais delicada. Em etnografia
realizada nos EUA sobre o significado do dinheiro, Oliven (2001) compara os
significados atribuídos ao dinheiro nos EUA e no Brasil. Enquanto nos EUA dinheiro
29

é assunto tratado sem constrangimentos, Oliven afirma que no Brasil, calcular o


valor de um relacionamento, o custo de um casamento, de uma morte, por exemplo,
seria visto como atitude de um indivíduo insensível, como atitude de uma pessoa
“fria” e calculista. Além disso, como coloca o autor, no Brasil o dinheiro está
associado a significados negativos:

No Brasil, o dinheiro é encarado como algo mais poluente do que


nos Estados Unidos. Na verdade, no Brasil, quando uma pessoa
está sem dinheiro algum, ela diz que está “limpa”, ou quando uma
quadrilha rouba um banco, ela “limpa” o cofre. Mas uma pessoa
muito rica é “podre de rica”, o que equivale em inglês a stinking rich
(fedorento de rico). Na gíria brasileira, “poupança” se refere também
às nádegas. E quando alguém está totalmente sem dinheiro, diz:
“Estou sem um puto tostão”. ( OLIVEN, 2001,p.13)

O autor afirma, ainda:

Enquanto nos Estados Unidos o dinheiro fala alto, no Brasil há uma


atitude de desconfiança em relação a ele. No Brasil, as pessoas
quase sempre têm vergonha de falar em dinheiro. A maneira mais
educada de se pedir dinheiro é “Você pode me emprestar algum...”-
ou seja, omite-se a palavra “dinheiro”.(OLIVEN,2001,p.13)

Abramovay (2004), em seu livro que trata sobre a vida financeira das famílias
vivendo próximo à linha da pobreza verifica como se organizam aqueles indivíduos
que estão excluídos dos serviços financeiros formais e, como se dão os “laços
financeiros na luta contra a pobreza”, Segundo o autor:

Os indivíduos fazem o possível para não recorrer a parentes


próximos quando necessitam de empréstimos: é que, nestes casos,
a retribuição envolvida no recebimento de uma dádiva não se limita
ao puro pagamento de seu valor monetário.
(ABRAMOVAY,2004, p. 43).
30

Emprestar dinheiro para parentes envolve o sentido atribuído às relações de


reciprocidade na família e ao significado atribuído ao dinheiro. Se as relações entre
os membros da família seguem uma lógica que classifica como normal,
determinados tipos de ajuda entre membros específicos - como de pai para filho, avô
para neto - quando o que está envolvido é dinheiro, o significado atribuído ao
mesmo fortalece o sentimento de “dever”. Receber dinheiro emprestado de um
familiar implica em se dever não só o dinheiro, e sim dever um favor, dever
satisfação e explicações.

Um exemplo disso pode ser identificado no caso de uma das entrevistadas,


Eliane, 22 anos, que vive com seus pais e seus dois irmãos. Sua avó Sueli,
aposentada, 74 anos, reside na casa dos fundos. A entrevista inicialmente seria
realizada com Sueli, no entanto, quando cheguei à residência a senhora me
informou que “estava de saída” e não sabia quando voltava. Achei interessante
verificar o olhar dos demais membros da família em relação ao tema “pedir
emprestado”. Inicialmente perguntei sobre a organização das contas da casa. O que
me informaram é que Antonia, 44 anos – mãe de Eliane - trabalha com vendas de
jóias e cuida da casa. Nei, 45 anos - pai de Eliane e filho de Sueli- foi apontado
como responsável pelas despesas pelo fato de ser o membro da família com maior
rendimento. Sueli recebe aposentadoria e pensão pela morte do marido e, segundo
seus parentes, “se sustenta”. Quando perguntei se já haviam pedido dinheiro
emprestado para Sueli, Antonia e Eliane responderam que sim, mas que não foi
necessário que ela pedisse empréstimo para isso. Logo em seguida perguntei se
em uma situação de emergência dariam preferência por pedir emprestado para um
parente ou pedir empréstimo no banco. Ambas afirmaram em alto tom “pedir
empréstimo com certeza!”. Explicando as razões da escolha , Eliane afirmou:

Prefiro fazer empréstimo. Mais pela parte da cobrança né? Ah!Você


tem que me pagar.porque não sei o quê...’ Acho que sendo
empréstimo tu vai ter que pagar naquela data que tu pediu
emprestado, vai ser um acordo e tu vai ter que pagar, não vai ter a
cobrança”.
31

O mesmo sentimento se verificou na fala de Francisco, 58 anos, aposentado


e segurança de uma rua em bairro residencial da Zona Sul de Porto Alegre. Em
entrevista, ele afirmou que fez empréstimo para “comprar a área” ¹, se referindo ao
pedaço do quarteirão que ele é responsável por vigiar. Perante a entrevista, uma
amiga dele passou pela rua, ele interrompeu a fala e a chamou. Ela ficou ali, parada
ao lado, atenta às perguntas e respostas. Quando perguntei “com quem o senhor
mora?” ele me respondeu: “sozinho, graças a Deus!”. Quando perguntei se tinha
filhos, a resposta foi semelhante: “não, graças a Deus!”. Em seguida, Francisco
afirmou “Tá louca guria, daí tinha que dar metade do meu salário que ganho aqui! Ia
ter que trabalhar feito um louco 24 horas sem parar!”. Quando questionado sobre
qual a melhor opção, entre solicitar empréstimo ou pedir emprestado para algum
parente, Francisco afirmou:

Não peço nada para parentes! Se eu posso tirar, porque vou pedir para
eles? Depois fico com dívidas com eles também! Tu pede para um
parente, chega um dia que tu não vai querer pagar, te esquece
qualquer coisa...No banco não tem nada disso aí não, no banco já
vem descontado em folha.Ali não tem como o cara dizer “não é para
descontar”, já vem descontado ali!

Quando perguntei se era vantajoso solicitar um empréstimo formal mesmo


que se pague juros, a amiga de Francisco interrompeu a conversa e afirmou que “as
vezes vale mais a pena pagar juros do que se incomodar com os parentes...”.
Mauss (2001), em sua obra “O Ensaio Sobre a Dádiva”, escrita em 1924,
formulou a idéia de que a circulação de bens e riquezas é um “fato social total”, isto
é, engloba diversos aspectos da vida coletiva.

___________________________________________________________________
¹ “Comprar a área”: nos últimos anos, devido o aumento da violência na cidade de Porto Alegre ,
verifica-se a prática de oferta de serviços de segurança nos bairros da capital. Os serviços de
segurança muitas vezes são realizados por intermédio de acordos informais. Um indivíduo oferece a
vigilância da rua para a vizinhança, passando a controlar o “seu pedaço”, o qual não pode ser
controlado por outra pessoa sem que haja um acordo entre as partes. Sr. Francisco “comprou a área”
antes vigiada por seu sobrinho, sendo o “novo dono” do quarteirão que vigia.
32

A tensão presente nas relações de troca, entre espontaneidade e


obrigatoriedade, é mostrada pelo autor. Segundo Mauss :

Nestes fenômenos sociais <<totais>>, como propomos chamar-lhes,


exprime-se ao mesmo tempo, e de uma só vez, todas as espécies
de instituições: religiosas, jurídicas e morais - e estas políticas e
familiares ao mesmo tempo; econômicas - e estas supõem formas
particulares da produção e do consumo, ou antes, da prestação e da
distribuição.
De todos esses temas muito complexos e desta multiplicidade de
coisas sociais em movimento, não queremos aqui considerar senão
um dos aspectos profundos, mas isolado: o caráter involuntário, por
assim dizer, aparentemente livre e gratuito, e todavia forçado e
interessado por essas prestações . (MAUSS,2001, p. 52)

Pelo o que vimos nos dados dessa pesquisa a “cobrança” que se evita ao
fugir do empréstimo solicitado a parentes, não é a do valor que se pediu
emprestado, é algo que está além dos contratos de bancos e financeiras. A dádiva,
tratando-se de empréstimos em dinheiro, envolve aspectos morais e significados
construídos culturalmente acerca do dinheiro.
Se, por um lado o acesso ao crédito formal é dificultado devido às exigências
para o cálculo do risco de inadimplência, os empréstimos entre amigos e parentes
exigem outro tipo de garantias. Trata-se preservar o nome e a honra de quem pediu,
que não deve ser prejudicada.
33

3. A instituição x tomadores de crédito

Peixoto e Clavairolle (2005), em estudo que trata sobre envelhecimento e novas


tecnologias, analisam o fenômeno de automatização do espaço bancário e
observam que a implementação de novas tecnologias tem o objetivo de proporcionar
maior fluidez de circulação e de distribuição do espaço, mas principalmente,
minimizar os custos.

Anteriormente, as operações que se efetuavam no balcão eram


intermediadas por um agente bancário e nem sempre rentáveis.
Doravante, elas devem ser realizadas pelos caixas automáticos,
menos custosos que os homens, liberando-os de tarefas não-
produtivas e permitindo que se dediquem plenamente às atividades
comerciais. ( PEIXOTO e CLAVAIROLLE, 2005, p. 74).

Segundo os autores, tudo está previsto para que o cliente não demore muito
na zona de serviços, não havendo nem mesas nem cadeiras, apenas um balcão
estreito para se preencher os envelopes e cheques. “As pessoas de mais idade são
um estorvo nesta relação automatizada e em plena aceleração”. A empresa
observada por Peixoto e Clavairolle distinguem duas categorias de indivíduos, o
sênior - potencial investidor- e as pessoas de mais idade que na visão da instituição
“poluem”, no sentido de estarem atrapalhando a lógica de atendimento adotada
onde o fator tempo é componente essencial.

Fundada em 2004, a agência bancária na qual foram realizadas as


observações feitas nessa pesquisa é de porte pequeno e está localizada em um
bairro de classe média da cidade de Porto Alegre. Muitos clientes são moradores do
bairro e muitos de bairros vizinhos. As características dos bairros próximos variam
bastante em relação à renda média dos moradores. Enquanto que no bairro que a
agência está localizada o rendimento médio dos responsáveis pelo domicílio é de 17
salários mínimos, nos demais varia de 3 a 11 salários mínimos. Sendo assim, a
agência observada atende distintos perfis de clientes.
34

O ambiente da entrada da agência é chamado de auto-atendimento, local


onde estão localizados os terminais eletrônicos e onde é possível se realizar
praticamente todas as transações financeiras que são efetuadas no interior da
agência. No entanto, muitos clientes preferem utilizar o atendimento interno.

Passando pela porta giratória, logo à frente, estão os caixas. À direita


encontra-se o atendimento. Normalmente, os funcionários trabalham cada um em
uma mesa específica, as quais são separadas por divisórias de vidro. Nas mesas
que estão posicionadas na frente das cadeiras de espera estão os funcionários que
atendem os clientes do setor “pessoa física”. Nas mesas que ficam atrás dos
mesmos está localizado o atendimento para os clientes exclusivos e a gerência. O
atendimento para empresas é realizado em uma sala separada. Desta forma, a
divisão do espaço físico da agência é pensada para melhor atender os distintos
perfis de clientes. Pelo fato do espaço ser pequeno, as divisões têm a função de
demarcar o espaço de cada atendimento, facilitando o fluxo dos usuários.

Assim como no estudo de Peixoto Clavairolle (2005), na agência em que essa


pesquisa foi desenvolvida, os clientes são incentivados a utilizarem os terminais
eletrônicos pela praticidade e rapidez. No entanto, ao contrário, os funcionários não
consideram os idosos como clientes prejudiciais ao fluxo de atendimento. Muitos
desses clientes utilizam com bastante freqüência os serviços da agência e, pelo fato
de muitos serem moradores dos arredores, não é raro que sejam amigos ou
conhecidos. Quando vão ao banco para realizar alguma transação, aproveitam para
conversar e contar sobre algum acontecimento. As características da agência
tornam maiores as possibilidades de uma proximidade entre cliente e funcionário.

Há um aspecto importante relacionado à interação entre agente bancário e o


cliente no consumo de empréstimos. Conforme o observado, a relação funcionário
cliente é um fator visto como algo positivo pelos clientes. Peixoto e Clavairolle,
verificam que os indivíduos que a empresa foco de seus estudos considerava mais
aptos a utilizarem os caixas eletrônicos – os sêniors - preferiam utilizar o
atendimento do agente bancário, pelo fato de desejarem usufruir do serviço que o
banco “deve” lhes prestar. A utilização dos terminais eletrônicos tem como
vantagem o fato de não ocupar a mão de obra dos funcionários, permitindo um
maior volume de negócios em curto espaço de tempo. No entanto, a interação
35

entre agente bancário e cliente traz diversos aspectos positivos para a empresa.
No caso do consumo de empréstimos que não possuam o desconto em folha de
pagamento, a proximidade entre agente bancário e cliente cria garantias
adicionais, que envolvem questões abstratas e subjetivas que sistema bancário
não pode calcular. Preservar o nome perante a instituição se torna prioridade
quando há maior proximidade entre as partes envolvidas, trazendo para as
relações entre banco e cliente aspectos das relações de âmbitos distintos, como
família e grupo de amigos.

Em relação às operações de crédito com desconto em folha, pode-se


perguntar se existe alguma vantagem para a instituição em cultivar as interações
entre agente bancário e cliente, tendo em vista que o empréstimo com desconto
em folha envolve risco baixo de inadimplência. O que se pode perceber é que
muitos clientes aposentados, que procuram o atendimento do agente bancário,
sentem-se mais satisfeitos do que se tivessem efetuado o contrato no terminal
eletrônico. Após um atendimento satisfatório, o cliente irá recorrer ao funcionário
que já sabe de sua “trajetória” para auxiliar na solução de problemas financeiros,
quando não houver limites disponíveis pré-aprovados.

Como minha função na instituição era a de ofertar e vender crédito, grande


parte dos clientes me tinham como referência quando necessitavam contratar os
empréstimos, no caso de já ter os atendido alguma vez. Da mesma forma, quando
um outro funcionário os atendia, era por ele que buscavam. É através da
proximidade criada pelos atendimentos pessoais que, para o cliente, além de
oferecer produtos e realizar transações financeiras, o banco se torna um ambiente
com pessoas que são muitas vezes confidente, indivíduo que conhecem as
práticas financeiras de quem utiliza o banco e, por esta razão – por serem pessoas
e não somente máquinas - merecem conhecer as razões que dá sentido a essas
práticas. Desta forma, através de atendimentos seguidos, pode-se obter o histórico
dos clientes que vai além dos dados das transações gravadas no sistema do
banco.
36

3.1 Oferta e procura de crédito

As redes e laços, que uma transação de empréstimo envolve, remetem a


distintos quadros de referência, com valores distintos, que são atualizados de acordo
com a circunstância. Nas observações no ambiente da agência, pude observar que
há uma distinção entre as relações estabelecidas inicialmente pelo banco, e as
relações estabelecidas por iniciativa do cliente.

No início do meu estágio, minha função foi a de oferecer crédito por telefone –
o que se chama de telemarketing ativo. Ao contatar os clientes, percebi que a
receptividade dos mesmos variava.

Quando um cliente possuía aplicação financeira ou não apresentava


nenhuma necessidade imediata de recursos financeiros, normalmente negava a
oferta do crédito, justificando: “para que eu vou querer um empréstimo? Ou ainda:
“nem pensar, caso eu queira, eu vou até aí”. Na oferta de financiamento de bens, o
discurso dos clientes contatados não costumava assumir tom de reprovação, mesmo
que eles não estivessem interessados em contratar o financiamento. Tais
características podem ser relacionadas com as análises de Bruski e Fontoura
apontadas no início do trabalho, ou seja, há uma distinção dos significados
atribuídos a solicitar empréstimos em dinheiro e a financiar um bem. Os
financiamentos são vistos de forma mais positiva do que os empréstimos em
dinheiro, pelo fato de se estar adquirindo um bem.

Quando o cliente estava passando por alguma dificuldade financeira e recebia


uma ligação do banco lhe oferecendo empréstimo, observou-se uma super
valorização da instituição e do agente de crédito, reveladas por expressões como:
“Ai! Moça, não tenho nem palavras para agradecer! Muito obrigada, você é um
anjo!”. O valor atribuído aos serviços varia conforme o momento que o indivíduo está
vivendo. A mesma pessoa que agradece o telefonema do agente de crédito e super
valoriza a instituição pode, em outro momento, utilizar um discurso com aspectos
negativos relacionados ao consumo de empréstimo.

A oferta de crédito por telefone muitas vezes não possui efeito imediato.
Alguns clientes não demonstram interesse no momento da ligação, mas
37

posteriormente comparecem à agência para contratar ou entram em contato com o


funcionário que havia lhe ligado.

Já entre os clientes que se direcionam ao atendimento para solicitar


empréstimos, o comportamento varia de acordo com a situação. Para se solicitar um
empréstimo com desconto em folha de pagamento, o aposentado pode utilizar os
terminais eletrônicos, caso já seja cliente e possua limite pré-aprovado, ou deve se
direcionar ao atendimento, no caso de não ser cliente ou não possuir limites vigentes
na modalidade consignação em folha. A documentação exigida para a contratação
do empréstimo é: identidade, CPF, comprovante de endereço e comprovante de
benefício do INSS. Não é exigido que o cliente tenha conta no banco para contratar
o empréstimo. Em relação às restrições como SPC e SERASA, o banco não autoriza
o fornecimento de crédito caso o solicitante esteja com o nome em tais cadastros.

Goffman.(1959), ao abordar a forma do comportamento humano em


sociedade, observa as formas de representações que o homem utiliza para se
mostrar aos seus semelhantes. Para esse autor, os indivíduos representam
manipulando os códigos culturais considerados adequados para cada situação. Da
mesma forma, verificou-se que no momento de pedir empréstimo no banco os
aposentados enfatizam certos aspectos que eles consideram positivos e adequados
e que também acreditam que a instituição considera positivos e adequados. O
discurso dos aposentados, que buscam a instituição, é orientado pela imagem que
os mesmos possuem do que o banco considera um bom cliente e os significados
que eles próprios atribuem ao ato de pedir um empréstimo. Segundo Goffman:

Quando um indivíduo chega à presença de outros, estes,


geralmente, procuram obter informação a seu respeito ou trazem à
baila a que já possuem. Estarão interessados na sua situação sócio
econômica geral, no que pensa de si mesmo, na atitude a respeito
deles, capacidade, confiança que merece, etc. Embora algumas
destas informações pareçam ser procuradas quase como um fim em
si mesmo, há comumente razões bem práticas para obtê-las. A
informação a respeito do indivíduo serve para definir a situação,
tornando os outros capazes de conhecer antecipadamente o que ele
esperará deles e o que dele podem esperar. Assim informados,
saberão qual a melhor maneira de agir para dele obter uma resposta
desejada. (GOFFMAN,1985,p. 11).
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O sistema de informações do banco e as exigências para se obter um


empréstimo permitem que a instituição obtenha informações acerca do indivíduo que
podem ser consideradas positivas ou negativas. O indivíduo que se dirige até a
instituição bancária possui noções do que lhe será solicitado e considerado bom ou
ruim. Verificou-se que, de forma espontânea, os clientes procuram justificar os
aspectos considerados negativos. Além disso, no caso dos aposentados, quando o
cliente se direciona ao atendimento para solicitar um empréstimo, a grande maioria
procura justificar o motivo das contratações. Tais aspectos encontram-se presentes
nas cenas sociais apresentadas a seguir.

3.1.1 Sônia - Como não ajudar?A vida é assim minha filha!

Com 76 anos, Sônia possui uma renda aproximada de nove salários mínimos,
advinda de duas aposentadorias e uma pensão pela morte de seu marido. Certa vez
Sônia se dirigiu a minha mesa para ser atendida, e em voz baixa falou que iria me
contar um segredo. Com ar de preocupação, falou sobre um problema de saúde de
seu filho, que já havia comparecido com ela em outras ocasiões na agência. Com
diversos empréstimos contratados, a cliente desejava o valor de R$10.000,00 para
comprar uma casa. Enquanto eu realizava as pesquisas necessárias, Sonia ia me
contando de forma espontânea sobre seus problemas familiares. Explicou que cuida
dos três netos e que a pensão que recebe repassa para o seu filho para que o
mesmo administre e sustente as crianças. Falou sobre seu apartamento era muito
frio e que, por isso, queria se mudar, além de estar preocupada com o aumento do
aluguel. Um amigo lhe oferecera uma casa por dez mil reais e, por essa razão, ela
queria fazer um outro empréstimo. Falou que tinha um valor para receber da justiça
e que logo iria pagar tudo o que devia, que seu filho que lhe causava muitos gastos,
mas que ela não poderia deixar de ajudar seus netos, pois afinal, ela era a avó.
Fica claro no discurso de Sônia a forte noção de que é dever dos mais velhos
auxiliar economicamente os mais novos, e é devido a essa noção que solicitar
empréstimos para solucionar problemas para a família possui um significado
diferente do que solicitar para o próprio benefício. Nas situações anteriores, nas
39

quais Sônia se dirigiu à agência juntamente com seu filho e sua neta para solicitar
empréstimos destinados ao filho, ela não procurou fornecer muitas explicações
sobre a finalidade da contratação e não demonstrou sentir-se envergonhada de
estar ali efetuando uma operação de crédito. Já na sua última visita à agência, com
muitas explicações e justificativas, falou que estava se sentindo humilhada. O termo
utilizado pela cliente chamou atenção, pois percebi que, de fato, ela estava
extremamente desconfortável de estar ali solicitando mais valores que, dessa vez,
seriam utilizados para seu proveito.

3.1.2 Lurdes : “eu sou do momento”!

Lurdes, 59 anos, é profissional liberal e pensionista do INSS. Na primeira vez


que a atendi, questionava o motivo de não poder ter acesso às linhas de crédito
destinadas aos pensionistas do INSS com juros mais baixos. “O banco não ajuda a
gente quando a gente precisa”, afirmou. Recebia sua pensão em outro banco e já
havia solicitado valores que comprometiam o valor máximo autorizado pelo INSS de
30% de desconto de benefício, por esse motivo não poderia solicitar novo
empréstimo nessa modalidade.

Para ter acesso a linha de crédito própria do banco com juros mais acessíveis
– destinados a beneficiários do INSS - se faz necessário que o cliente receba o
benefício em conta corrente. Informei a Lurdes que para que fosse disponibilizada tal
linha de crédito ela deveria solicitar a transferência do recebimento do benefício para
sua conta no banco. Na expectativa de solucionar seu problema, Lurdes aceitou a
transferência do recebimento da pensão.

O motivo da solicitação do empréstimo era a compra de mesas e cadeiras


para o bar que ela estava montando. Acompanhei o caso até que os valores fossem
disponibilizados para que Lurdes contratasse o empréstimo que necessitava. Algum
tempo depois, Lurdes retornou à agência solicitando que eu a atendesse, pois “já
sabia do caso dela”. Necessitava comprar mais cadeiras e mesas para o bar.
Explicou que no bar oferecia lanches e música, e que os clientes não deviam gostar
de sentar muito próximos uns dos outros, por isso precisava de mais mesas. Ainda
contou que uma das cadeiras que havia comprado com o dinheiro do outro
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empréstimo havia quebrado, que elas eram ruins. “Pobre é fogo”, afirmou, se
referindo ao fato das dificuldades e dos acontecimentos. Enquanto eu atualizava o
cadastro da cliente a fim de liberar novamente valores para empréstimos, ela me
contou que cuidava das netas, falou sobre os cuidados que tinha em relação à
limpeza no bar. “Sou caprichosa”, afirmou. Nesse contato, Lurdes procurou transmitir
os aspectos que justificariam a solicitação de mais um empréstimo, reforçando que
ela era uma pessoa que batalha, cuida das netas, possui um empreendimento e que
os recursos seriam bem aplicados.

Tendo se passado alguns meses, Lurdes retornou à agência e logo foi em


direção à mesa na qual eu estava atendendo. Com a mão cobrindo a boca, sentou
na minha mesa e disse: ”quero falar com você”. Envergonhada, falou que estava
banguela, que tinha ido ao dentista ma não havia solucionado o problema devido a
uma inflamação. Ainda constrangida pelo fato de estar sem os dentes me solicitou:
“Vê o que você consegue de crédito aí para mim!”. “Deixa eu te contar o que
aconteceu.” Sem que eu questionasse, Lurdes começou a contar as razões pelas
quais estava necessitando mais uma vez solicitar um empréstimo. Contou que
comprara uma moto para seu neto, por isso estava sem limites nas financeiras.
Disse que o neto trabalhava em um supermercado grande no bairro onde residem, e
que comprou a moto, pois ele, com sua própria renda, não tinha como ter um
financiamento aprovado. Segundo a cliente, a moto é “sonho de guri”, por isso ela
fez tanta questão de comprar. Apesar de ter financiado em seu nome, explicou que
fez questão de que a moto estivesse no nome do sobrinho, justificando: ”Meus filhos
são espertos, são meus filhos mas são espertos.”. Lurdes afirma que já é velha, que
“uma hora” vai morrer e teme que os filhos queiram brigar pela moto que “o
coitadinho está pagando”.

Em seguida, enquanto eu averiguava os limites de crédito, ela contou que


comemorara seu aniversário no final de semana, e que havia feito uma
“churrascada” e cantou até o amanhecer. “Eu fiz mesmo, não tenho vergonha de
dizer.”. O fato de estar solicitando um novo empréstimo e ter investido dinheiro na
festa de aniversário foram justificados de forma espontânea por Lurdes, que
buscava, dessa forma, não ser julgada negativamente pela instituição. Ela afirmou
41

que trabalhava muito, e que de vez em quando se permitia ter um lazer. Contou que
uma vez por mês gostava de comer em um restaurante fino.

Nessa ocasião, o empréstimo solicitado era para resolver um imprevisto. O


frezzer do bar havia estragado, tendo sido necessária a utilização dos limites de
todos os cartões de crédito para consertá-lo. Além disso, ela precisava de dinheiro
para comprar mais bebidas. Quando perguntei sobre o bar, Lurdes afirmou que
estava “bombando”. Contou que gastava cerca de R$2.000,00 (dois mil reais) cada
vez que comprava bebida – “conhaque do bom”, refri e cerveja. Falando sobre o
empreendimento, afirmou que o banco possibilitou o crescimento do seu negócio.
Alegando “ter visão”, contou que trabalhou com outro banco durante trinta anos, mas
que este não havia ajudado quando ela precisou. ”Sou do momento”, explicou.
Lurdes afirmou também que quando não está bom o relacionamento com uma
instituição, busca outra. Disse que tem interesse em que o sobrinho e o neto abram
conta na agência, para desde cedo aprenderem a “ter visão”, a administrar o
dinheiro e a preservar o nome. "
"

3.1.3 Marisa: “ Não posso dar o passo maior que a perna! “

Marisa, 58 anos, é cliente da agência há bastante tempo. Com planos de


montar uma confecção, solicitou um empréstimo para compra da máquina de
costura. Muito preocupada com os detalhes do empréstimo, falou que não queria
“dar o passo maior que a perna”, e que “mais para frente” iria solicitar um outro valor
para construir uma peça, local onde deixaria a máquina e seria destinado à
produção.

Passado um período, Marisa entrou em contato, desejando contratar outros


empréstimos, pois não poderia dar início à confecção, visto que o piso de sua casa
não suportava o peso da máquina em funcionamento. Logo, ela teria que construir a
peça antes do tempo previsto. Sem que eu a questionasse, alegou que no final do
ano iria “pagar tudo o que deve para o banco” com o dinheiro do aluguel de uma
casa na praia. Também contou que já estava programando a realização da festa de
formatura do seu filho no final do ano, o que seria “um gasto a mais”.
42

4. Cálculos: quando o valor considerado vai além do valor do dinheiro

Segundo Florence Weber (2002) os indivíduos dispõem de uma pluralidade


de sistemas de referência e agem em cenas sociais em que as regras de
comportamento, os objetivos procurados, os limites percebidos, as racionalidades
práticas, são distintos. Como propõe a autora, para decifrarmos as formas diversas
de cálculo, os raciocínios e as formas de mensuração dos indivíduos se faz
necessário analisar as diversas cenas sociais que os mesmos vivenciam.
O empréstimo com desconto em folha de pagamento é amplamente divulgado
e noticiado. Os aposentados observados mostraram conhecer o produto e saber que
a modalidade oferece juros mais baixos entre as demais. No entanto, mesmo
sabendo dessas vantagens, alguns clientes preferem não contratar o empréstimo e
seguir pagando juros superiores.
Certa vez entrei em contato com o cliente Roberto, de 68 anos, a fim de
ofertar a contratação de um empréstimo com desconto em folha para efetuar o
pagamento de seu cheque especial que estava sendo utilizado. A vantagem em
relação aos juros era inquestionável; mas o cliente não quis efetuar a contratação. O
mesmo contatou alguns dias depois desejando informações sobre o financiamento
de material de construção. Apesar de possuir valores aplicados, informou que não
queria “mexer” na aplicação para comprar o material, pois aquele valor estava
reservado para alguma emergência. Depois de obter as informações sobre o
financiamento do material de construção, linha que possui juros acessíveis, mas não
desconta as prestações em folha de pagamento, o cliente contou que havia
comprado algumas portas na madeireira de sua amiga e que gostaria que eu a
contatasse para explicar como realizar a operação de crédito (o lojista , nesse caso,
deve realizar o procedimento no próprio estabelecimento junto à máquina do cartão
de crédito). Tendo passado alguns dias sem que eu conseguisse contatar a amiga
de Roberto, o mesmo compareceu na agência e falou que estava pensando em
utilizar o dinheiro da aplicação, pois não gostava de “confusão” e desejava pagar a
compra efetuada.
Em outro atendimento, recebi uma cliente de 66 anos, pensionista, que estava
solicitando um empréstimo para ajudar seu sobrinho. Ela parecia constrangida,
nunca havia contratado empréstimos anteriormente. No entanto, o sobrinho
necessitava de um valor para entregar a casa em que morava de aluguel, e ela se
43

viu “obrigada a ajudar”. O sobrinho estava presente no dia em que a mesma


compareceu ao banco e parecia bastante preocupado, afirmando constantemente
que ela só estava realizando a operação no nome dela, mas ele que iria pagar. Ao
definir o número de prestações, o rapaz preferiu contratar em um número menor de
vezes pelo fato de os juros serem inferiores. Além disso, ele não queria que o
empréstimo se estendesse muito, para tia dele não ficar preocupada. O que motivou
a escolha do número de vezes, nesse caso, além da lógica racional – cálculo dos
juros – foi o sentimento de obrigação de preocupar-se com a tia e de não estar
explorando-a, para não causar maiores preocupações no âmbito familiar.Tempos
depois, a cliente retornou na agência desejando fazer uma renovação – parcelar em
mais vezes o valor já contratado - pois o sobrinho não estava conseguindo efetuar o
pagamento
Como podemos perceber, os cálculos dos clientes observados variam de
acordo com a situação e seus orçamentos. Muitos aposentados demonstram ter alto
controle do orçamento e de quanto podem dispor ao mês para pagamento do
empréstimo. Várias vezes, ao perguntar aos clientes em quantas vezes os mesmos
desejariam parcelar o empréstimo, muitos respondiam “não pode passar de X reais,
verifique em quantas vezes dá isso”. Já para outros, o mais importante no momento
de definir o número de vezes é não estender muito a operação, para não ficar “a
vida toda” pagando. Em relação ao valor solicitado, quando o cliente não possui
valores pré-aprovados definidos, ao serem questionados sobre qual o valor que
pensam contratar, respondem “vê aí quanto libera”. Talvez tal resposta esteja ligada
ao fato de o cliente não saber qual valor seria considerado “normal” por parte do
funcionário que está realizando a análise de crédito, sendo assim, prefere não
arriscar uma resposta para não passar uma imagem negativa.
Em relação à preocupação com a taxa de juros, muitos clientes perguntam
qual a taxa aplicada, no entanto, se preocupam mais com o tempo que vão ter que
permanecer pagando ou com o valor da prestação. Em uma situação considerada
como urgente pelos indivíduos, muitos buscam uma solução imediata, mesmo que
futuramente seu orçamento fique prejudicado. Em entrevista para a Revista Amanhã
o site TERRA, Eduardo Giannetti, economista, sociólogo e filósofo, fala acerca da
temática de seu livro “O Valor do Amanhã” (2005), que trata da noção de juros e da
miopia temporal, característica que ele atribui ao brasileiro. Segundo o autor:
44

A idéia básica é mostrar que os juros não são invenção de


banqueiros ou de Bancos Centrais. Os juros estão presentes em
todas as situações nas quais se dá alguma troca intertemporal. Os
juros monetários são um aspecto muito particular desta realidade
mais geral. Os juros são os termos de troca entre presente e futuro.
Eles aparecem em duas situações: quando se abre mão de uma
coisa agora em prol de alguma coisa no futuro (posição credora) ou
quando se aceita pagar alguma coisa no futuro para antecipar um
valor e desfrutá-lo agora – posição devedora. No primeiro caso,
você tem juros auferidos e no segundo caso, na direção inversa,
você tem juros devidos. Estamos mais familiarizados com os juros
monetários, ligados ao crédito. Mas a realidade dos juros está
presente em todas as situações do dia-a-dia em que se verifica uma
troca intertemporal. Por exemplo, no caso do jovem que aceita abrir
mão de alguns prazeres na juventude para aumentar sua
expectativa de vida e sua saúde na velhice. É uma troca
intertemporal. Se você é bem-sucedido, você colhe os frutos dessa
troca, e frutos aí são juros, quando chegar o futuro. Envolve
decisões profissionais de longo alcance, decisões afetivas e até
mesmo religião. Os primeiros teólogos do Cristianismo usavam,
inclusive, esta terminologia econômica dos juros para se referir aos
sacrifícios que eram exigidos do devoto em nome da bem-
aventurança eterna, para você conquistar o paraíso. É uma situação
complexa porque no caso religioso você está falando de juros
infinitos – a eternidade. (GIANNETTI , Revista Amanhã. 2006)

Acerca do consumo na sociedade brasileira, Giannetti afirma:

O que há de fato é uma alta propensão ao consumo na sociedade


brasileira. A nossa sociedade, por razões inclusive de natureza
sociocultural e histórica, é muito voltada para o presente. O centro
de gravidade da imaginação brasileira é desfrutar o momento, é o
agora, não é o cuidar do amanhã. É o extremo oposto do que
prevalece nas culturas asiáticas, em que as pessoas sacrificam até
em demasia o presente para pensar no amanhã e cuidar deste
amanhã. Eu diria que o Brasil é um caso de miopia temporal. Nas
culturas asiáticas, teríamos um caso de hipermetropia temporal. Não
vejo como esse traço comportamental possa mudar em curto
espaço de tempo. É uma questão civilizatória, depende de
educação. (GIANNETTI , Revista Amanhã. 2006)
45

Comprar a prazo e fazer empréstimos a serem pagos em longo período são


formas oferecidas pelo mercado e divulgadas fortemente pela mídia. Muitos
aposentados responsáveis pelo domicílio, como mostra os dados do último censo do
IBGE, recebem até um salário mínimo. Solicitar empréstimos torna-se, assim, um
mecanismo para suprir “temporariamente” as necessidades que não se consegue
suprir com o valor recebido. A cerca deste assunto, opiniões distintas são
observadas. Giannetti reforça o aspecto cultural da “miopia temporal” dos brasileiros.
No Brasil, não se tem o hábito de poupar tendo como uma das causas a
necessidade de se viver o imediato, o presente. É preciso distinguir, no entanto, o
que está se consumindo a prazo. Se não há a cultura da poupança, em situações de
emergência, pede-se emprestado. Se o prazo do financiamento é longo,
compromete-se a renda a longo prazo, o que impacta no orçamento de forma
significativa.
Essa percepção também pode ser identificada entre os entrevistados. É o que
vemos na fala do Sr Ari ao ser questionado sobre os empréstimos consignação em
folha, afirmou:

Eu, sinceramente, o que acho é o seguinte...é uma faca de dois


gumes...Ela te ajuda num momento...mas te aprisiona para o
futuro....Por um tempo...eu penso assim...eu estou pensando
assim...não é porque já lancei mão disso aí, eu lancei por
necessidade..mas hoje eu penso o seguinte...que se na época não
tivesse isso aí, eu estaria ganhando meus trezentos e pouco que eu
tenho aí, eu ia me condicionar a viver dentro desses trezentos e
pouco e me virado de outro jeito....do que agora, que estou pagando
um monte de juros, estou recebendo uma mixariazinha... e não
tenho para onde saltar e estou preso no mínimo por 3 anos....

Sr. Ari continua:

...Tu já é apertado, aquilo que tu ganha é pouco, ...tu fica sempre na


esperança de que vá acontecer alguma coisa que tu consiga te
equilibrar.....e aí tu vai te afunilando, tu te aperta....se pular o bixo
pega se parar o bixo come entendeu?...
46

Verifica-se, no discurso do cliente, que o empréstimo foi solicitado em um


momento de necessidade, na expectativa de que em um futuro próximo houvesse
alguma mudança para melhor no orçamento que solucionasse as questões
financeiras. O empréstimo, nesse sentido, é algo pensado como provisório, para
resolver uma situação presente e ser quitado assim que possível. O senhor Ari
contou que iria começar a trabalhar novamente e que assim poderia “sair do sufoco”.
Contou da dificuldade para conseguir emprego devido a sua idade e ao preconceito
em relação aos idosos.

A preocupação em relação às finanças está presente na maioria dos casos


observados. O que impulsiona a tomada de crédito é, muitas vezes, o desejo de se
livrar da angústia gerada por algum problema que tentará, com o passar do tempo, a
ser resolvido de outra maneira. Como pode se ver na fala do senhor Ari: “A minha
posição como aposentado hoje é assim, eu estou procurando sair do compromisso
porque o que eu ganho como aposentado não permite que eu assuma
compromisso”.

Com o passar do tempo, novas opções para oferta de crédito foram sendo
criadas pelas instituições. O fato de existir um percentual máximo para desconto e
um prazo máximo para realização das operações de crédito consignado fez com
que, após um período como no início as operações com desconto em folha, não
tivessem um crescimento elevado. Novas formas para se pedir dinheiro foram
elaboradas. As chamadas operações de renovação englobam em um único contrato
as operações que o cliente já possui, possibilitando, assim, a retirada de novos
valores. Muitos aposentados, que já possuem diversos contratos, se dirigem à
agência e solicitam a renovação, pois “fica tudo uma coisa só!” A impressão passada
pelos clientes é a que ter várias operações em aberto gera um sentimento maior de
“se estar devendo”. Na renovação, os valores permanecem os mesmos, se
estendendo o prazo e permitindo a diminuição do valor da prestação, podendo ou
não se pedir um valor extra.
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"""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""
"""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""Conclusão

O estudo realizado trouxe elementos que contribuem para um melhor


entendimento das questões que envolvem as mudanças no status social dos idosos
provocada pela política econômica de expansão do acesso ao crédito, bem como
das representações e lógicas envolvidas nos cálculos efetuados pelos idosos
tomadores de crédito. Além disso, a pesquisa realizada aponta novos
questionamentos e possíveis novos estudos.
Verificou-se que os diferentes valores relativos à terceira idade e à prática de
solicitar empréstimos são acionados pelos idosos nas tomadas de decisões
referentes à utilização dos serviços financeiros, não havendo um padrão único de
comportamento. Um indivíduo pode tomar decisões distintas em diferentes situações
ocorridas ao longo de um curto espaço de tempo. Em cada uma delas considera
relevante para a decisão uma variável diferente. Conhecer quais são essas variáveis
e em quais situações elas são acionadas pode ser um caminho interessante para se
decifrar a lógica da tomada de decisões relacionadas às finanças. O que se pode
verificar até aqui é que o consumo de crédito não é uma prática descontrolada ou
impensada. São as situações do dia-a-dia que vão influenciando as tomadas de
decisões, interferindo nos cálculos e na forma de utilização do crédito.
O papel do idoso sofreu transformações na família, na mídia, e na economia.
O aposentado passou a ser, em muitos casos, o principal responsável pela
manutenção econômica do grupo familiar. Nesse sentido, as relações entre os
membros da família são um fator importante nas definições sobre a utilização dos
serviços financeiros. O sentimento de obrigatoriedade de se auxiliar um parente, por
exemplo, é mais forte quando este parente é filho ou neto. A idéia de que não se
pode negar auxílio em ocasiões nas quais tais membros da família estejam
envolvidos foi verificada nas entrevistas e discursos dos clientes observados.
Quanto ao sentimento de quem recebe os valores emprestados, pode-se perceber
que os indivíduos se sentem desconfortáveis na situação de “dever um favor para
um parente”, como se essa dívida os colocassem na suspeita de que estariam
“explorando” os aposentados. Nesse sentido, seria interessante aprofundar a
pesquisa sobre as percepções dos parentes que solicitam empréstimos entre si.
48

No espaço institucional, verificou-se que os discursos dos clientes


normalmente incluem elementos que os mesmos pensam serem vistos como
positivos por parte do banco. Preservar a imagem de bom consumidor e manter um
bom relacionamento com o banco é, para muitos, uma garantia de que poderão
contar com a instituição nos momentos de apuros.
Os aspectos que distinguem o atendimento eletrônico – realizado pelo cliente
nos terminais eletrônicos do banco - e o atendimento realizado por um funcionário
são importantes para se avaliar a importância das interações entre as pessoas e a
instituição. Nessas interações, são fortalecidos os aspectos referentes às garantias
em relação ao uso adequado dos produtos do banco. Quanto mais freqüentes as
interações entre funcionários e clientes, maior a segurança de se obter um retorno
em casos de negociações, tendo em vista que o vínculo do cliente com o banco é
reforçado pela relação pessoal, que envolve os aspectos de como preservar a
honra, manter uma boa imagem, retribuir o bom atendimento prestado, entre outros.
Em relação à finalidade das contratações dos empréstimos, os aposentados
vêem como razões plausíveis para o uso do crédito a ajuda a um filho ou neto, por
exemplo. Também é visto como “natural” pagar as contas da casa com o dinheiro
obtido via crédito. Por outro lado, solicitar valores para investir em um negócio é
“pensar no futuro”. Já contratar um empréstimo para uso próprio e para lazer foram
situações raramente verificadas nas observações. Para se aprofundar essas
questões, seria necessário realizar um número maior de entrevistas, o que não foi
possível devido ao tempo de duração do estudo.
Verificar as diferenças entre o comportamento masculino e feminino em
relação às práticas financeiras dos idosos também é aspecto importante. Durante a
realização do estudo, foram identificadas algumas pistas referentes a essa temática,
entre elas a questão da finalidade e da autonomia individual relativa ao controle
sobre as finanças. Uma das entrevistadas apontou para o fato de que muitos
aposentados homens não costumam deixar claros os motivos das contratações, mas
evidenciam sua preocupação com o fato de que suas esposas ficarem sabendo da
transação. Já as aposentadas mulheres costumam solicitar valores para os filhos e
para “as coisas da casa”.
A abordagem etnográfica assumida nesse estudo possibilitou a percepção de
aspectos que não seriam captados somente através de entrevistas. O convívio diário
com as situações ocorridas na agência bancária, os atendimentos realizados e as
49

observações dos atendimentos diversos foram de extrema importância para o


entendimento do comportamento dos tomadores de crédito da terceira idade.
Levando-se em conta o fato de que no ato de solicitar um empréstimo
distintos quadros de referência são recorridos. Compreender os cálculos e as lógicas
de determinada categoria de indivíduos é um processo que exige acompanhar as
mudanças dos papéis dos mesmos dentro da cultura em que estão inseridos. Os
aspectos revelados por este estudo são importantes registros do cenário presente
que fazem parte da transformação do próprio quadro de referência dos aposentados
tomadores de crédito. Futuramente, o grau de endividamento da população idosa
pode vir a transformar o status atual atribuído a ela. Entretanto, não se pode pensar
em uma ruptura dos significados presentes, que certamente irão influenciar os
comportamentos em novos contextos."

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