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LFG – PENAL ESPECIAL – Aula 07 – Prof.

Rogério Sanches – Intensivo II – 12/11/2009


CRIMES CONTRA O PATRIMÔNIO

CRIMES CONTRA O PATRIMÔNIO


Arts. 155 e ss., do Código Penal

1. FURTOS SIMPLES

Furto
Art. 155 - Subtrair, para si ou para outrem, coisa alheia móvel: Pena - reclusão,
de 1 (um) a 4 (quatro) anos, e multa.
§ 1º - A pena aumenta-se de um terço, se o crime é praticado durante o repouso
noturno.
§ 2º - Se o criminoso é primário, e é de pequeno valor a coisa furtada, o juiz pode
substituir a pena de reclusão pela de detenção, diminuí-la de um a dois terços, ou aplicar
somente a pena de multa.
§ 3º - Equipara-se à coisa móvel a energia elétrica ou qualquer outra que tenha
valor econômico.

Furto Qualificado
§ 4º - A pena é de reclusão de 2 (dois) a 8 (oito) anos, e multa, se o crime é
cometido:
I - com destruição ou rompimento de obstáculo à subtração da coisa;
II - com Abuso de confiança, ou mediante fraude, escalada ou destreza;
III - com emprego de chave falsa;
IV - mediante concurso de duas ou mais pessoas.
§ 5º - A pena é de reclusão de 3 (três) a 8 (oito) anos, se a subtração for de
veículo automotor que venha a ser transportado para outro Estado ou para o exterior.

O art. 155 inaugura o Título II, do Código Penal. Vamos ver a topografia do art. 155. Isso pode parecer
bobagem, mas muitas das questões que estão sendo discutidas no Supremo hoje estão mencionando a
topografia. Como está a topografia do furto no CP?

 Caput – Traz o furto simples.


 § 1º - Traz o furto majorado pelo repouso noturno
 § 2º - Traz o privilégio
 § 3º - Traz uma cláusula de equiparação
 §§ 4º e 5º - Qualificadoras.

Essa é a topografia do furto no Código Penal.

Qual é o bem jurídico tutelado aqui? “Ah, Rogério, é o patrimônio” Jura? Brilhante! Se você responder
que é o patrimônio, o examinador vai perguntar: “de quem?” E você: da vítima! Brilhante! É o patrimônio de
quem? Do proprietário? Na posse de alguém? Ou também o patrimônio na mera detenção de alguém?

Na verdade, o art. 155 protege a propriedade? A propriedade e a posse? Ou a propriedade e a posse e


a mera detenção? Há três correntes:

1ª Corrente: Protege-se somente a propriedade (Hungria)


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2ª Corrente: Para a segunda corrente, a proteção recai sobre a propriedade e a posse (Noronha)

3ª Corrente: A proteção abrange propriedade, posse e detenção (Fragoso com a maioria)

Observação: “É imprescindível que a propriedade, posse ou detenção sejam legítimas.”

Então, o direito penal só agasalha posse, propriedade ou detenção legítimas? Sim. E o que acontece
com o ladrão que furta ladrão? Tem perdão? Isso caiu em concurso! Qual é o crime do ladrão que furta ladrão?
Caiu em concurso exatamente isso: A é o proprietário, B furtou A. B, logo em seguida, foi furtado por C.
Vejam, A é vítima do furto de B. E quem é vítima do furto de B? Não é B, porque B tem posse ilegítima. Então,
a vítima do furto de C continua sendo A. Ou seja, C vai responder por furto, não há dúvida! Não tem essa
história do perdão, mas a vítima não é B, que tinha uma posse ilegítima. A vítima continua sendo A. Voltando
ao caput:

Art. 155 - Subtrair, para si ou para outrem, coisa alheia móvel: Pena - reclusão,
de 1 (um) a 4 (quatro) anos, e multa.

Vejam que o crime admite, inclusive, suspensão condicional do processo. Quem é o sujeito ativo?
Quem pode ser o furtador? O tipo exige alguma qualidade especial? Cuidado porque se você responde na prova
apenas “crime comum e ponto”, perdeu a oportunidade de se diferenciar. Você vai responder assim: trata-se
de crime comum, pode ser praticado por qualquer pessoa, salvo o proprietário pois a coisa deve ser alheia. Aí
o examinador vai perguntar: “existe furto de coisa própria?” Aí você vai dizer que não.

“Qual crime pratica o proprietário que subtrai coisa sua na legítima posse de alguém?” Podem ser dois crimes: o
art. 345, do Código Penal ou o art. 346, do Código Penal, dependendo da natureza da posse, se é por
determinação judicial ou convenção ou não.

Exercício Arbitrário das Próprias Razões


Art. 345 - Fazer justiça pelas próprias mãos, para satisfazer pretensão, embora
legítima, salvo quando a lei o permite: Pena - detenção, de 15 (quinze) dias a 1 (um) mês,
ou multa, além da pena correspondente à violência.

Art. 346 - Tirar, suprimir, destruir ou danificar coisa própria, que se acha em
poder de terceiro por determinação judicial ou convenção: Pena - detenção, de
6 (seis) meses a 2 (dois) anos, e multa.

Se a coisa está em poder de terceiro por determinação judicial ou convenção, art. 346.

“Funcionário público subtrai coisa em poder da Administração.” Que crime pratica? O candidato responde logo:
pratica peculato-furto, art. 312, §1º. Não é bem assim. Olha o que diz o § 1º, do art. 312:

§ 1º - Aplica-se a mesma pena, se o funcionário público, embora não tendo a


posse do dinheiro, valor ou bem, o subtrai, ou concorre para que seja subtraído, em proveito
próprio ou alheio, valendo-se de facilidade que lhe proporciona a qualidade
de funcionário.

Então, a gente tem que enfrentar o problema considerando se o funcionário teve ou não facilidade em
razão do cargo. Tendo facilidade, é o art. 312, § 1º. Não tendo, é o furto comum.

Se eu estiver diante de uma subtração facilitada, aí vai ser o art. 312. § 1º, do CP. Agora, se eu estiver
diante de uma subtração não facilitada pela qualidade funcional, aí é o art. 155, do CP. A diferença é importante
porque a do CP admite suspensão do processo. O crime funcional, não. Você vai ter que saber extrair do seu
problema se você está diante de uma subtração facilitada ou não. Se for facilitada, peculato-furto. Caso
contrário, furto comum. Um admite suspensão e o outro, não.

Subtrair coisa comum de condômino ou co-herdeiro ou sócio, o crime é o do art. 156, do CP (furto de
coisa comum).
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Furto de Coisa Comum


Art. 156 - Subtrair o condômino, co-herdeiro ou sócio, para si ou para outrem,
a quem legitimamente a detém, a coisa comum: Pena - detenção, de 6 (seis) meses a 2
(dois) anos, ou multa.
§ 1º - Somente se procede mediante representação.
§ 2º - Não é punível a subtração de coisa comum fungível, cujo valor não excede
a quota a que tem direito o agente.

Aqui você tem um crime praticado entre condôminos, co-herdeiros ou sócio e a coisa subtraída é
comum. Detalhe, este furto de coisa comum é de menor potencial ofensivo. E mais, depende de representação
da vítima. É de ação pública condicionada (§ 1º).

Quem é a vítima? Proprietário, possuidor ou detentor. O que pune o art. 155? Ele pune “apoderar-se
para si ou para outrem de coisa alheia móvel” Esse apoderamento pode ser:

 Apoderamento direto, que nada mais é do que uma apreensão manual ou pode ser
 Apoderamento indireto, valendo-se de terceiros ou animais.

No MP/RO caiu uma questão exatamente enfocando o apoderamento indireto, o agente valendo-se
de animais.
(Intervalo – 01:23:18)

E a coisa alheia móvel é o objeto material. É a coisa sobre a qual recai a conduta criminosa. O que é
coisa alheia móvel?

Coisa alheia móvel – “Entende-se como objeto material do crime a coisa alheia móvel economicamente apreciável.”

É importantíssimo que a coisa alheia móvel da qual o agente se apodera tenha interesse econômico. Se
e não há interesse econômico, mas há interesse sentimental ou moral? Quem me dá um exemplo? Fotografia é
o exemplo típico. Agenda de adolescente que vira diário. A agenda vira uma maleta com chiclete mascado do
seu amado, como palito do primeiro picolé que tomaram juntos. Qual o valor econômico disso? Nenhum. E o
valor sentimental? Todo. Ela prefere que subtraiam-lhe o carro, mas a agenda, não. Não está escrito
que o objeto material do delito é a coisa economicamente apreciável? Então, onde ficam as coisas de interesse
sentimental? Por isso vocês vão fazer essa observação:

“Nélson Hungria abrange também as coisas de relevante interesse moral ou sentimental.”

O objeto material tem que ser, antes de mais nada, coisa. Pergunto: homem vivo pode ser objeto
material de furto? Não. Se você subtrair um homem, estará, na verdade, praticando crime de sequestro ou
cárcere privado. Homem vivo não é coisa e não pode ser objeto material de furto.

E o cadáver? Pode ser objeto material de furto? Você subtraiu um cadáver, praticou furto? Essa é a
pergunta que cai. E a resposta é: em regra, não.

“Em regra cadáver não pode ser objeto material de furto, salvo se destacado para uma finalidade específica, por exemplo,
servir uma faculdade de medicina em aulas de anatomia.”

Vocês acham que é bobeira essa discussão, mas não é. Eu não sei se vocês têm conhecimento, mas o
Michael Jackson morreu, mas aquele caixão estava vazio por medo das pessoas subtraírem o corpo.

Agora, prestem atenção: essa coisa, objeto material do furto, tem que ser alheia. Não basta ser coisa.
Tem que ser alheia. Pergunto:

Coisa de ninguém é alheia? Pode ser objeto material de furto? Não. Coisa de ninguém não é alheia,
não configurando furto.
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E a coisa abandonada? Não é alheia. Já foi alheia. Coisa abandonada não configura furto. Vai cair
coisa de ninguém, vai cair coisa abandonada? Não.

Vai cair coisa perdida. Coisa perdida pode ser objeto material de furto? Pergunto: é alheia? Coisa
perdida é alheia, mas não conclua que por ser alheia é furto. Na coisa perdida, apesar de ser alheia, não há
subtração, mas sim, apropriação. Logo, sendo a coisa perdida, você que dela se apropria e não entrega ao real
proprietário, praticou o art. 169, § único, II, do CP, apropriação de coisa achada. O fato de ser alheia, não
significa que a coisa perdida será objeto material de furto. Isso porque o fato de ser alheia não combinou porque
não há subtração e sim apropriação. Apropriar-se de coisa alheia perdida é apropriação de coisa achada.

Apropriação de Coisa Achada


II - quem acha coisa alheia perdida e dela se apropria, total ou parcialmente,
deixando de restituí-la ao dono ou legítimo possuidor ou de entregá-la à autoridade
competente, dentro no prazo de 15 (quinze) dias.

E se for coisa pública de uso comum? Pode ser objeto material de furto? Coisa pública de uso
comum é alheia? Não. A todos pertence. Não é alheia, então, não pode ser objeto material de furto, salvo (e é
esse salvo que cai) se destacada do local de origem, ganhando significado econômico. Exemplo: você está na
praia, pega um balde de areia e leva para casa. Areia da praia é bem público que a todos pertence, você não
praticou furto. Mas se levou uma retro-escavadeira, praticou crime ambiental, né idiota? Você pode, com
baldinho! Cuidado, senão dá crime ambiental. Eu sou artista, e peguei a areia no baldinho e levo pra casa para
fazer desenhos com essa areia dentro de garrafinhas para vender essas garrafinhas. Essa areia passou a atender
ao meu interesse econômico. Se alguém se apropria dessa minha areia, pratica furto. Eu não estou dizendo que
o artista furtou a areia da praia. Se alguém subtrai essas garrafinhas com areia, praticou furto porque a coisa de
uso comum foi destacada para atender a interesse econômico. Passa a ser objeto material de furto.

Preste atenção agora: e a pessoa que subtraiu o óculos do Drummond em Copacabana? A pessoa que
levou embora o óculos praticou qual crime? A pessoa que levou o braço do Ayrton Senna, que crime pratica?
Isso configura dano qualificado ao patrimônio público. Não é furto!

Por fim, a coisa alheia deve ser também móvel. O que vem a ser coisa móvel? O conceito de coisa
móvel no direito penal coincide como conceito do direito civil? O direito penal entende que a coisa é móvel
quando pode ser transportada de um local para o outro sem perder a sua identidade. Aí é móvel. O direito
penal não trabalha com os conceitos de direito civil. Para o direito penal, móvel é a coisa que pode ser
transportada de um local para o outro sem perder a sua real identidade. Olha o exemplo: você está reformando
sua casa, derrubou a parede, mas vai reempregar os tijolos na reforma. Para o direito civil, os tijolos configuram
coisa imóvel. E para o direito penal, móvel. Então, sob a ótica do direito civil, esses tijolos não poderiam ser
objeto material de furto. É o exemplo que cai em concurso: tijolos que vão ser reempregados na construção.

O crime de furto é punido a título de dolo. Então, preste atenção nos detalhes. Ele é punido a título
de dolo + finalidade especial, caracterizada no enriquecimento próprio ou de terceiro (“subtrair para si ou para
outrem”). Essa é a finalidade especial. Agora, a observação que eu vou fazer é a mais importante de todas:

“E imprescindível animus de apoderamento definitivo, isto é, intenção de não mais devolver a coisa ao proprietário.”

1.1 FURTO DE USO

Se ele tiver o animus de uso, eu não tenho crime. Aí vou ter o furto de uso. Cuidado com o furto de
uso, lembrando que o furto de uso é atípico! O examinador pergunta por que o furto de uso é atípico e você
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não sabe responder. O furto de uso é atípico por ausência de dolo característico do crime. E quais são os três
requisitos do furto de uso?

 1º Requisito – “Intenção, desde o início, de uso momentâneo da coisa subtraída.” Ou seja, você
subtraiu já com essa intenção.

 2º Requisito – Coisa não consumível. Somente na coisa não consumível é que você consegue
obedecer também ao requisito seguinte.

 3º Requisito – Restituição imediata e integral à vítima.

São requisitos cumulativos. Há doutrina que fala em coisa fungível, infungível. Discordo. A expressão
que melhor se amolda é “coisa não consumível.” Faltando um desses requisitos, esqueça o furto de uso.

É possível furto de uso de automóvel? Se o tanque estava cheio? O automóvel está perfeito, só com o
tanque vazio. O tanque vazio caracteriza o furto de uso, pois eu não devolvi a coisa no status quo ante? Tem
doutrina que está se apegando a essas questões periféricas: combustível, desgaste do freio, do óleo. Se você se
apegar a isso, você nunca vai reconhecer o furto de uso. Você não pode esquecer que a coisa furtada foi o
veículo. Se você devolveu o veículo nas condições iniciais, é furto de uso. Pouco importa o desgaste natural
para o seu uso. Então, a jurisprudência moderna não impede o furto de uso de automóvel por desgaste do óleo
ou da pastilha de freio. A coisa que você queria subtrair era o carro. O objeto que deve ser restituído imediata
e integralmente à vítima é o carro e não os periféricos que servem para o seu uso regular. Se você fica se
apegando a isso, você não reconhece furto de uso jamais. A jurisprudência moderna não se apega a essas
questões acessórias.

1.2. FURTO FAMÉLICO

É crime? Não. Exclui o quê do crime? Tipicidade, ilicitude ou culpabilidade? À noite responderam:
inexigibilidade de conduta diversa. Errado! Furto famélico é caso de estado de necessidade. Vocês estão
lembrados dos quatro requisitos do furto famélico? Furto famélico é caso típico de estado de necessidade (art.
24, do CP) que tem como requisitos:

1º Requisito – “Que o fato seja praticado para mitigar a fome.”

2º Requisito – “Inevitabilidade do comportamento lesivo.”

3º Requisito – “Subtração de coisa capaz de diretamente contornar a emergência.”

4º Requisito – “Insuficiência dos recursos adquiridos ou impossibilidade de trabalhar.”

Furto famélico é tese somente de desempregado ou pode ser aplicada para quem tem emprego? Você
tem coragem de pedir para o juiz furto famélico para quem é assalariado? Furto famélico não é tese somente
de desempregados. É o 4º requisito. Eu fiz uma pergunta à noite que teve gente que teve dificuldade. Não é
para ter dificuldade na pergunta que vou fazer agora. A subtração é de comida porque é o que vai diretamente
mitigar a fome (1º requisito). Você não pode furtar um ventilador porque não come um ventilador. Então, não
dá. A pessoa subtraiu caviar para matar a fome. É possível furto famélico? Para matar a fome pode ser qualquer
coisa! Não se pode exigir dela que subtraia para matar a fome batata chips. Se aquele era o produto que ela
tinha à sua disposição para matar a fome, é válido. Então, cuidado! Não se impressione pelo caviar! Não se
impressione pelo caviar! Ele estava passando fome. Ele pode pegar qualquer coisa que possa contornar a sua
fome.

1.3. FURTO: CONSUMAÇÃO


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Quando que o crime de furto se consuma? São quatro correntes discutindo o momento consumativo.
“Ah, Rogério, mas eu só quero decorar a que prevalece.” Tudo bem, mas caiu em concurso recente pedindo
para discorrer sobre as teorias da consumação do furto.

1ª Corrente: Teoria da Concrectatio: “a consumação se dá pelo simples contato entre o agente e a coisa
alheia, dispensando o seu deslocamento.”

2ª Corrente: Teoria da Amotio: “dá-se a consumação quando a coisa subtraída passa para o poder do
agente, mesmo que num curto espaço de tempo, independentemente de deslocamento ou posse pacífica.” (STF e STJ)

3ª Corrente: Teoria da Ablatio: “a consumação ocorre quando o agente, depois de apoderar-se da coisa,
consegue deslocá-la de um lugar para o outro.”

4ª Corrente: Teoria da Ilatio: “para ocorrer a consumação, a coisa deve ser levada ao local desejado
pelo agente e mantida a salvo.”

Dessas quatro correntes, qual prevalece? Tomara que caia isso porque STF e STJ estão falando a mesma
língua: Amotio. Essa é a corrente que prevalece nos tribunais superiores. Então, para o STF e para o STJ o crime
se consuma quando a coisa subtraída passa para o poder do agente. Mesmo que num curto espaço de tempo,
independentemente de deslocamento ou posse pacífica. Adotar essa teoria é importante por quê? O que
importa não é o agente se enriquecer ou ter posse mansa e pacífica. O que importa é a vítima perder a
disponibilidade da coisa. Pronto. O que importa é a vítima perder o poder sobre a coisa. Então, diante dessa
teoria, estão consumados os seguintes exemplos:

 Empregada que subtrai jóias da patroa e deixa embaixo do sofá, mesmo que ainda na casa da
patroa. O crime está consumado. Se a patroa quiser usar as jóias não vai poder. É o exemplo
de Nélson Hungria. A empregada sabe onde está a jóia e a patroa perdeu a disponibilidade,
independentemente do deslocamento ou posse pacífica. Então, a teoria da amotio permite
consumar esse exemplo.

 Você subtrai uma carteira num navio. O dono viu e você a lança ao mar. O crime está
consumado. Você não se locupletou, mas a vítima perdeu a disponibilidade sobre a coisa.

Admite tentativa? O crime de furto admite tentativa. É delito plurissubsistente.

Agora eu quero saber: o agente colocou a mão no bolso da vítima, mas naquele bolso não tinha nada.
Ele cometeu algum crime? É tentativa de furtou ou é crime impossível? Pode até gerar uma importunação
ofensiva. Nelson Hungria diz: tentativa, pronto e acabou. Para ele, houve uma relativa impossibilidade, não
configura crime impossível, gera tentativa. Bittencourt discorda: você tem que perquirir se ele trazia valores em
algum outro compartimento da vestimenta. Se ele não trazia dinheiro ou valores naquele bolso ou em nenhum
outro, é crime impossível. Para Bittencourt, se ele não trazia dinheiro naquele bolso, mas trazia em outro,
tentativa. Se o examinador adotar a tese de Bittencourt, vocês vão ter que diferenciar o quê no problema? Se a
vítima não trazia qualquer valor, configurando crime impossível ou se a vítima trazia qualquer valor em outro
compartimento da vestimenta, configurando tentativa.

A última questão sobre consumação e tentativa diz respeito ao seguinte: vigilância eletrônica em
estabelecimentos comerciais. Gera crime impossível? Por si só não gera. Aquele dispositivo eletrônico não
serve para impedir o furto. Serve para dificultar a ação do agente e facilitar a repressão. Tem que ser analisado
o caso concreto. Tem que ver qual é a ação do dispositivo de vigilância que, por si só, não gera crime impossível.
É preciso analisar o caso concreto: deque modo o dispositivo atua. Só filmar a pessoa não impede o furto.
Você estará flagrando o furto e tentará impedi-lo. Então, tem que ser analisado o caso concreto. Isso caiu na
segunda fase do MP/SP. Essa questão sobre estabelecimento vigiado caiu no MP/SP e teve candidato que, na
peça prática, arquivou.
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1.4. REPOUSO NOTURNO

Agora vamos ao § 1º, do art. 155, que traz uma causa de aumento de pena:

§ 1º - A pena aumenta-se de um terço, se o crime é praticado durante o repouso


noturno.

Essa majorante é importante porque já não cabe mais a suspensão condicional do processo (cabível no
caput) porque a pena mínima fatalmente suplantará um ano. É uma causa de aumento que vai impedir no caput,
a suspensão condicional do processo. Olha a importância dela. Não é qualificadora, é causa de aumento e para
você entendê-la, a gente tem que discutir o que seja repouso noturno.

Repouso noturno – “É o período em que, à noite, pessoas se recolhem para o descanso diário.”

Quando começa esse período e quando termina? Vocês acham que esse período é o mesmo numa
grande cidade e numa cidade do interior em que as pessoas sabem o que os vizinhos comeram. Eu fui promotor
em uma cidade com 17 mil habitantes. Que horas começa o repouso noturno nessa cidade? O promotor já
estava repousando às duas da tarde. Tem cidades que às 20h, o pessoal já está dormindo com as galinhas, no
sentido mais puro. Quando perguntarem sobre esse período, você vai ter que dizer: depende dos costumes da
localidade. Se tem pessoas que não enxergam uma utilização válida do costume no direito penal, aqui está.
Vamos nos valer do costume interpretativo. O costume do local dirá qual é o repouso noturno daquela
coletividade.

Agora, vejam: entende a maioria que essa majorante só incide se o furto atenta contra o imóvel em que
a pessoa rotineiramente repousa. Entende a maioria que não abrange estabelecimentos comerciais. No meu
código comentado para concurso, eu coloquei uma jurisprudência recente que entendeu que abrange até
estabelecimentos comerciais. Mas para a maioria não abrange. O que significa isso? Você está dentro do imóvel
e o seu carro na rua. Para a maioria não incide a majorante porque o carro estava na rua. Você não atentou
contra o imóvel em que a pessoa repousa. E se o veículo estava na garagem? Incide a majorante porque o
veículo estava protegido pelo imóvel que você repousa. Isso para a maioria. Mas tem uma jurisprudência recente
do STJ, que abrangeu estabelecimentos comerciais. Mas isso não espelha, necessariamente, a maioria da
jurisprudência.

Este imóvel, para incidir a majorante deve estar habitado ou pode estar desabitado ocasionalmente? Se
vocês entendem que deve estar habitado, os moradores devem estar repousando ou podem estar acordados.
Para vocês responderem a essa pergunta, vocês têm que ter em mente o motivo da majorante. E qual é ele? É
que no período noturno, você diminui a vigilância sobre a coisa e ainda coloca em risco pessoas indefesas.
Cezar Roberto Bittencourt diz, então, que só pode ser em face de imóvel, o imóvel deve estar habitado e os
moradores repousando. Nelson Hungria também concorda. Se estão comemorando o aniversário de alguém
no imóvel, já não incide a majorante.

STF e STJ entendem que o imóvel pode estar, inclusive, ocasionalmente desabitado. É pacífico isso?
Não! Já deu para perceber. Mas o STJ e o STF entendem que incide a majorante, mesmo no caso de imóvel
ocasionalmente desabitado.

A majorante só incide no caput (furto simples) ou também é possível aplicá-la ao furto qualificado?
Prevalece que a majorante só se aplica ao furto simples. Se o furto está qualificado, não cabe a majorante, mas
não impede o juiz de considerar na fixação da pena-base. Mas qual o fundamento disso? Interpretação
topográfica. O §1º só se aplica ao caput. Se se quisesse que se aplicasse aos demais, estaria colocado como último
parágrafo do dispositivo.

1.5. FURTO PRIVILEGIADO OU FURTO MÍNIMO (§ 2º)


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Isso caiu na defensoria/BA e o candidato achou que estivesse falando do furto insignificante. Errou.
Furto mínimo é sinônimo de furto privilegiado.

§ 2º - Se o criminoso é primário, e é de pequeno valor a coisa


furtada, o juiz pode substituir a pena de reclusão pela de detenção, diminuí-la de um a
dois terços, ou aplicar somente a pena de multa.

Quantos requisitos nós temos para o furto privilegiado? Dois. Um subjetivo e outro objetivo.

 Requisito subjetivo – primariedade do agente


 Requisito objetivo – pequeno valor da coisa

Lembrando que são requisitos cumulativos. Primário é o não reincidente, mesmo que tenha
condenações pretéritas. Se as condenações não geram reincidência, você é primário. E quando a coisa é de
pequeno valor? Quando não ultrapassa um salário-mínimo.

É possível a aplicação do princípio da insignificância (se é insignificante diminui pena)? Vocês não
podem confundir pequeno valor com valor insignificante:

“O pequeno valor do prejuízo não se confunde com prejuízo insignificante, este, causa de exclusão da tipicidade. Na
insignificância existe mínima ofensividade na conduta, nenhuma periculosidade na ação, reduzido grau de reprovabilidade do
comportamento e inexpressividade da lesão jurídica.”

O caso concreto dirá.

A pergunta mais importante e que vai cair nos próximos concursos:

“posso aplicar o privilégio ao furto qualificado? Existe furto qualificado privilegiado? O privilégio é compatível com a
qualificadora?”

Duas correntes! Cuidado que vai cair em concurso porque o STJ e o STF, finalmente, estão falando a
mesma língua. E isso, a partir deste ano. Ano passado não se falava.

1ª Corrente: “A gravidade da qualificadora é incompatível com o privilégio. Não bastasse, a posição topográfica
do privilégio não alcança as qualificadoras (era a posição do STF).”

2ª Corrente: “Assim como admitimos homicídio qualificado-privilegiado, também é possível furto


qualificado-privilegiado. (atual posição do STF e do STJ).”

A última observação que faço: O privilégio é um direito subjetivo do réu e não mera faculdade do juiz.
Presentes os requisitos, o privilégio é direito subjetivo do réu.

1.6. ART. 155, § 3º - CLÁUSULA DE EQUIPARAÇÃO

Toda doutrina está comentando que de 2008 para 2009, principalmente em 2009, o STF e o STJ estão
tentando falar a mesma língua. Então, muitos posicionamentos estão mudando.

§ 3º - Equipara-se à coisa móvel a energia elétrica ou qualquer outra que


tenha valor econômico.

O § 3º traz uma cláusula de equiparação, equiparando à coisa móvel a energia elétrica ou qualquer outra
que tenha valor econômico.

Exemplo de qualquer outra energia que tenha valor econômico e que não seja elétrica: mecânica,
térmica, radioatividade e genética. São as outras formas de energia.
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Energia genética – Sêmen de animal. Tem animais que valem fortuna, não somente por conta das
suas propriedades físicas, mas do seu sêmen. O fruto que pode eventualmente advir desse animal. Eu assisti a
um leilão e vi um empresário pagar dois milhões de reais por meio touro, pela parte reprodutora do touro. Mas
é imprescindível valor econômico.

Pergunta que caiu no MP/RO (2ª fase) e eu nunca peguei um caso como esse: dois vizinhos
proprietários de dois animais da mesma raça, com pedigree, premiadíssimos. Um era dono do cachorro e o
outro, da cadela. O dono da cadela sugeriu a cruza entre os animais, que foi recusada pelo vizinho. O dono do
cachorro achava, inclusive, que ele tinha um brilho no pelo por causa da virgindade. O dono da cadela, à noite,
pegou a sua cadela e orientou o animal a romper o tapume que dividia as duas propriedades e colher o sêmen
do cachorro. No dia seguinte, o cachorro estava desmaiado. O examinador queria que você oferecesse a
denúncia. Qual o crime? Teve gente pensando em crime ambiental (maus-tratos de animais). Sabe qual foi a
resposta? Furto mediante apoderamento indireto (que se dá por meio de animais, por exemplo), qualificado
pelo rompimento de obstáculo (porque rompeu o tapume) de coisa equiparada a móvel: energia genética. Aí
teve gente que colocou a majorante do repouso noturno, mas eu falei para vocês: não pode, porque o repouso
noturno só se aplica ao caput. Questão interessante.

Também caiu em Rondônia (MP, 2ª fase): Que crime pratica uma pessoa que convence um semi-
imputável a manter relações com uma cabra. Resposta: maus-tratos de animais. Crime ambiental.

É possível equiparar à coisa móvel sinal de TV à cabo? Vamos imaginar que você fez um contrato com
a Sky. Você contratou um ponto. Mas, de repente, na sua casa tem Sky no quarto, na cozinha, no banheiro.
Você contratou um ponto, mas tem Sky na residência inteira. É furto? Sinal de TV a cabo é coisa passível de
furto?

“Sinal de TV a cabo equipara-se a coisa móvel?”

1ª Corrente: “Não se equipara. A energia se consome, se esgota, diminui, ao passo que o sinal de televisão,
não se esgota.” Cezar Roberto Bittencourt.

2ª Corrente: “Sinal de televisão é uma forma de energia.” Nucci e STJ. Sempre que essa questão
chegou no STJ, o STJ decidiu de acordo com a segunda corrente.

É claro que você vai ser esperto. Se for prestar prova para Defensoria, vai ficar com a 1ª corrente.

A mesma discussão ocorre quando se discute pulsos telefônicos. Quando se trata de energia elétrica,
não dá para confundir furto de energia elétrica com estelionato em face da concessionária. Uma coisa é furto
de energia que não se confunde com estelionato em face da concessionária. São dois comportamentos que não
se confundem e vou dar uma dica para vocês não confundirem:

 O furto de energia é praticado mediante ligação clandestina (o famoso gato). O agente,


no furto de energia, o agente não está autorizado a consumir a energia.

 No estelionato, o agente altera o medidor de energia. No estelionato, o agente está


autorizado por contrato a consumir a energia, fraudando, ludibriando o valor da dívida

Você, no seu problema, tem que saber se ele realizou ligação clandestina ou não, se somente alterou o
medidor de energia. Se isso não ajuda, tenta perceber se ele está ou não autorizado a consumir a energia. Se
não está, é fruto mediante fraude. Se está, é estelionato. Isso repercute na pena. Em um, está cumulada com
multa, no outro não.

Antes de começar as qualificadoras, deixa eu fazer uma observação que você não vai usar na prova, a
não ser que esteja prestando defensoria. No mais, não utilize o que eu vou falar. Em caso de furto de energia e
você tem que analisar o caso concreto, senão você acaba aplicando um direito penal elitista. Eu peguei o caso
em que um casal realizou ligação clandestina e conseguiu trazer, com o gato, a energia do poste para a sua casa.
A CIA Paulista de Força e Luz, apurou um gato exagerado, foi lá e percebeu a ligação clandestina. A Cia Paulista
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CRIMES CONTRA O PATRIMÔNIO

noticiou o fato à autoridade policial que instaurou o IPL. Qual crime? Furto de energia. Art. 155. Esse casal foi
indiciado por furto de energia elétrica e o delegado ainda jogou um furto qualificado pelo concurso de pessoas
(casal). Depois me chegou a notícia: o casal, quando foi indiciado, fez um acordo com a CPFL para pagar em
tantas vezes. Juntaram o acordo. Qual é o benefício quando há o arrependimento e uma dívida é quitada? Qual
é o benefício? Arrependimento posterior. Mera diminuição de pena. Eu, Rogério, teria que fazer o quê com o
casal? Denunciar! E o juiz ia ter que fazer o quê? Condenar e depois diminuir um pouco a pena. Aí eu fiquei
pensando... Vamos imaginar que não fosse um casal subtraindo energia elétrica, mas vamos supor que fossem
sonegadores de 1 milhão de reais. Se eles tivessem parcelado a dívida haveria mera diminuição de pena? Não!
Estaria extinta a punibilidade. Quem pratica dano ao erário público em milhões tem direito ao parcelamento
extintivo da punibilidade. Eles não! Eles estavam sendo processados porque subtraíram 500 reais de energia
elétrica! O que eu fiz? Eu apliquei o instituto dos crimes contra a ordem tributária no furto. Se o sonegador
milionário que parcela extingue, o pobre que furta energia e parcela também extingue. Pronto! Analogia in
bonam partem. O RS já tem julgado nesse sentido. Extremamente minoritário, mas para quem vai prestar
defensoria, olha que raciocínio interessante: do direito penal elitista. O rico tem REFIS I, REFIS II, REFIS III
e tal. O pobre, tunga, arrependimento posterior. Eu, como promotor, faço sempre, se o crime é sem violência
e sem grave ameaça, a gente destrói. Sem violência, eu digo pro delegado: “chama ele, se ele reparar o dano, eu
vou arquivar.” 90% ou tentam reparar ou reparam.

1.7. ART. 155, § 4º - FURTO QUALIFICADO

O § 4º é o que mais cai em concurso. O § 1º traz majorante! O § 4º, o furto qualificado. A pena do
furto, caput, que era de 1 a 4, dobra, passa a ser de 2 e 8 e multa.

Furto Qualificado
§ 4º - A pena é de reclusão de 2 (dois) a 8 (oito) anos, e multa, se o crime é
cometido:
I - com destruição ou rompimento de obstáculo à subtração da coisa;
II - com abuso de confiança, ou mediante fraude, escalada ou destreza;
III - com emprego de chave falsa;
IV - mediante concurso de duas ou mais pessoas.

Inciso I – Traz um furto praticado com violência. Mas não é uma violência contra à pessoa. É o furto
praticado com violência à coisa. Acreditem, no passado, isso era roubo. Antes o roubo era subtração violenta
contra a pessoa ou coisa. Aí perceberam que não dava para equiparar a violência contra a pessoa à coisa. Já deu
para perceber que há um obstáculo que se coloca entre o agente e a coisa. Deu para perceber claramente o
seguinte: o que qualifica o crime de coisa é a violência empregada contra o obstáculo. Violência empregada
contra a própria coisa não gera a qualificadora. O que gera é a violência praticada contra o obstáculo! A violência
empregada contra a própria coisa visada não gera a qualificadora. Então, cuidado com isso! Para gerar a
qualificadora a violência tem que romper o obstáculo que se coloca entre o agente e a coisa.

Eu quero ver duas situações com vocês que vão dizer qual gera ou não qualificadora.

 Eu quero furtar um carro. Eu destruo o vidro e vou embora com esse carro. Furto simples ou
qualificado? Você responde: furto simples, porque a violência foi exercida sobre a própria coisa
visada.

 Eu quero subtrair um notebook dentro do carro. Eu quebro o vidro do carro e furto o notebook.
Furto simples ou qualificado? Sua resposta: qualificado.

O que vocês acharam da resposta de vocês? A resposta é legal. Mas vamos pensar sob o prisma da
equidade. Está certo? Melhor você dizer pro agente: furta o carro que o notebook vai de brinde. Porque sua
pena é melhor se você levar tudo.
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Tem uma jurisprudência importante dizendo o seguinte: quando o obstáculo rompido vale muito mais
do que a coisa furtada, não incide a qualificadora. Quando o obstáculo rompido vale consideravelmente mais
do que a coisa furtada, não incide a qualificadora.

Porém, o STJ recentemente decidiu o assunto e decidiu pela qualificadora. Foi legalista, sem tem nada
de equidade. Incide a qualificadora e pronto. O veículo é o obstáculo e o laptop é a coisa visada. Rompeu o
obstáculo, subtraiu a coisa visada, conclusão do STJ: furto qualificado pelo rompimento de obstáculo.

Eu removi as telhas e entrei na casa. Furto simples ou qualificado? A entrada na casa mediante remoção
de telhas é simples ou qualificado. Olha a expressão! Ela diz tudo! Eu “removi” as telhas. O furto é simples.
Eu não destruí as telhas. Elas continuam servindo para cobrir a casa. Mera remoção de telhas, mera desativação
de alarme é furto simples porque você não rompe obstáculo. Romper obstáculo é tornar a coisa inservível,
como dizem os tribunais. Romper obstáculo é você destruir as telhas, destruir o alarme. A mera remoção de
telhas, a mera desativação de alarme, você venceu o obstáculo sem precisar destruí-lo. Se você venceu o
obstáculo sem exercer violência sobre ele, não existe a qualificadora. Questão boa! Cuidado!

A violência contra coisa deve ser exercida antes, durante ou logo após o apoderamento. Se for exercida
muito depois do apoderamento, aí você tem um crime autônomo de dano. Se o crime já está consumado e aí
você exerce a violência contra a coisa, gera o crime autônomo de dano.

Tem jurisprudência minoritária entendendo que ligação direta em automóvel é rompimento de


obstáculo. Mas é entendimento minoritário.

Inciso II – O inciso II tem quatro qualificadoras, quando o crime é praticado com: abuso de confiança,
mediante fraude, mediante escalada ou mediante destreza.

Abuso de confiança – quando incide essa qualificadora? Quando o agente se vale de uma confiança
incomum nele depositada. Aqui, o agente se vale de confiança incomum nele depositada. Essa confiança pode
advir de amizade, pode advir de parentesco, pode advir de uma relação laboral.

Observação importante – “O criminoso pode captar propositadamente a confiança ou valer-se de confiança já existente.”

Ele pode trabalhar para conquistar a confiança e praticar o crime ou então, já tendo a confiança, decidir
pela prática criminosa. A mera relação de amizade, de parentesco ou laboral não induz essa qualificadora. A
confiança tem que ser incomum. Você tem que dar a ele que os seus outros amigos não tem, que os seus outros
parentes não tem, que os seus outros empregados não têm. É lógico que em qualquer relação de amizade,
parentesco ou laboral há uma confiança. Mas a confiança tem que ser incomum. Você, na relação de parentesco,
amizade e labora, tem que ser detentor da maior confiança.

Observação importante – “Os tribunais para a configuração da qualificadora exige facilidade na execução em razão da
confiança.”

Para os tribunais, só vai haver a qualificadora se aquela confiança te trouxe facilidade na execução. Se
você tinha a confiança, mas não encontrou qualquer facilidade na execução em razão dela, não incide a
qualificadora. Isso é exigência dos tribunais. Na lei você não consegue concluir por isso.

Pergunta do MP/MG: qual é a diferença entre o furto qualificado mediante abuso da confiança e o
delito de apropriação indébita? Eu vou dar duas dicas que vocês vão ter que extrair do caso concreto. Na
apropriação indébita, o agente exerce a posse em nome de outrem. Ou seja, ele tem uma posse desvigiada. Já
no furto, ele não exerce posse em nome de outro. No furto, o agente tem mero contato com a coisa. Ainda que
ele tenha a posse, é uma posse vigiada. É a primeira dica: natureza da posse que ele exerce. A segunda diferença
está em que na apropriação indébita, a vontade de praticar o crime é posterior, superveniente à posse. Eu estou
diante de um dolo superveniente. No furto, a vontade de praticar o crime é anterior à posse. Estou de diante
de um dolo antecedente agora. Aí não tem erro.

Furto mediante fraude – é a qualificadora que mais cai em concurso. E vou direto para o que
despenca: qual é a diferença entre o furto mediante fraude e o estelionato? Duas dicas também!
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CRIMES CONTRA O PATRIMÔNIO

 Furto mediante fraude – No furto, a fraude visa diminuir a vigilância da vítima sobre a coisa e possibilitar a
subtração. Aqui, a vontade de alterar a posse é unilateral, ou seja, a coisa sai da vítima e vai para o agente de forma
unilateral.

 Estelionato – No estelionato, a fraude visa com que a vítima entregue a coisa espontaneamente. Ela emprega uma
posse desvigiada. Aqui, a vontade de alterar a posse é bilateral.

Numa prova objetiva, você consegue matar as questões só com o que eu coloquei aqui.

MP/SP (caiu nos últimos 2 concursos), MP/MG, magistratura/SP e PR, delegado/DF (tudo nos
últimos três anos) e MP/BA em 2005: duas pessoas se passam por funcionários da telefônica. Chegam até uma
residência, anunciam para a senhora da casa que há um problema e pedem que um deles seja conduzido até a
antena. Pedem que a senhora permaneça junto à antena para ajudar na verificação do problema. Ele desceu,
limparam a casa da mulher. Que crime praticaram? Se vocês disserem que foi estelionato, vejam que o fato de
ter sido praticado por duas pessoas não gera a qualificadora porque o estelionato não tem essa qualificadora.
Se vocês disserem que foi furto mediante fraude, além da qualificadora, o juiz ainda pode considerar o concurso
de agentes como circunstância judicial. E aí? É só você pensar: ela entregou as coisas espontaneamente? A
mudança da posse foi bilateral? É fácil essa resposta.

Exemplo clássico: a senhora está com dificuldade no caixa eletrônico. O agente usa um mecanismo e
faz prender o cartão na máquina e depois oferece ajuda. Ela aceita a ajuda. Ele tira o cartão dela, troca por
outro. A pessoa digita a senha, ele fica com o cartão, sabendo a senha. Que crime ele praticou? Troca de cartões.
Furto mediante fraude ou estelionato? Ela entregou o cartão espontaneamente a ele? Não! Ele subtraiu o cartão.
Ele usou de um artifício que fez com que ela perdesse a vigilância sobre o cartão.

É só não esquecer o esquema acima que vocês não têm como errar. A única hipótese que podem,
eventualmente errar é hipótese de jurisprudência divergente. Até agora, tudo o que estou falando é pacífico.

MP/SP (2ª fase) – Troca de embalagens de produtos em supermercado. Exemplo do MP/SP: Você
pegou uma garrafa de água, esvaziou a garrafa de água no supermercado e nela introduziu um vinho caríssimo.
Você colocou um vinho, passou pelo caixa e pagou o preço da água. Você pagou água, mas levou vinho. Que
crime pratica uma pessoa que abre a caixa do ventilador e coloca lá dentro uma televisão? Que crime você
pratica? Estelionato ou furto mediante fraude? Muitos alunos, nessa prova do MP colocaram estelionato porque
a vítima representada pela caixa entregou a coisa espontaneamente numa posse desvigiada. A garrafa saiu de
forma bilateral. Não! Aí você está trabalhando com a garrafa e não é isso que ele quer. Ele quer o que está
dentro da garrafa. O vinho não saiu da garrafa dele espontaneamente. Em nenhum momento ela quis entregar
o vinho para ele. O vinho entrou na garrafa de forma unilateral. Furto mediante fraude.

Exemplo de estelionato que pode, eventualmente confundir (também caiu em concurso) – Você sai da
boate e você tem o número 06, que foi onde você deixou sua bolsa, mas você percebe que a bolsa que está no
compartimento 09 é Louis Vuitton. Você leva a bolsa Louis Vuitton. Aí você praticou estelionato. A bolsa saiu
da mulher da chapelaria e foi para você de forma espontânea. Ela te deu uma posse desvigiada.

Questão megathunderblaster. Já caiu na magistratura/SP com uma resposta e no MP/SP com outra.
Falso test-drive é furto mediante fraude ou estelionato? Você vai numa concessionária e pede para testar a pick-
up sozinho. Ele dá a chave do carro e o cara não volta. Ele foi vítima do quê? Estelionato ou furto mediante
fraude? A magistratura colocou estelionato, mas está errado. A magistratura pensou: a vítima entregou a coisa
espontaneamente, deu a chave. O carro saiu da vítima e foi para o agente de forma bilateral. Mas eu pergunto:
deu a posse desvigiada? Não! Então, não é estelionato, mas furto mediante fraude. Para ser estelionato, a posse
tem que ser desvigiada. De 2008 para cá temos mais de 15 julgados dizendo que é furto mediante fraude e não
estelionato exatamente pela ausência da posse desvigiada. Então, falso test-drive é furto mediante fraude. A
saída do carro para o agente de forma desvigiada ocorreu unilateralmente.

A mesma questão caiu para delegado/DF, mas lá foi um falso test-drive de roupas. A pessoa entrou
numa loja, pediu para experimentar a roupa, foi no provador, tirou o sobretudo, vestiu algumas roupas, colocou
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o sobretudo e foi embora com as roupas por baixo. É a mesma hipótese do falso test-drive de veículos. A
resposta para a polícia civil do DF foi: furto mediante fraude.

Vejam a diferença de pena: estelionato é de 1 a 5, furto mediante fraude é de 2 a 8. Acabou a suspensão


do processo.

Escalada – É a terceira qualificadora. Significa o uso de via anormal para ingressar no local em que se
encontra a coisa desejada. Isso é escalada.

Quando o candidato vê escalada, já imagina subida. Você não admite descida. Esqueça! É o uso de
qualquer via anormal, seja subida, seja inclusive, ingressando por meio de túneis artificiais, de penetração
subterrânea. Essa é uma via anormal. Toda e qualquer via anormal, seja subida, seja descida, seja cavando túneis,
haverá a escalada, haverá a qualificadora.

 Observação 01 – Não necessariamente subida.


 Observação 02 – A jurisprudência exige a presença de um esforço incomum do agente.

Para configurar a qualificadora da escalada, a jurisprudência exige um esforço incomum do agente. Se


não houver prova de que ele despendeu um esforço incomum, não existe essa qualificadora.

Exemplo: eu tenho um muro de 1 metro. A via normal é você abrir o portão e entrar. Se você pular o
muro, isso é escalada, mas só configurará qualificadora se você, para pular o muro de um metro despendeu um
esforço incomum. Pedro Taques vai suar para escalar esse muro. A altura dele faz com que ele despenda um
esforço incomum para vencer esse muro. O Fabrício, numa passada, vence um muro de um metro. Se vocês
entenderam isso, olha como uma pergunta tem a ver com a outra: para configurar essa qualificadora é
prescindível ou imprescindível perícia?

1ª Corrente: A perícia é prescindível, pois escalada não deixa vestígios. Um absurdo isso! Quem julga
dessa maneira acha que escalada é só subir muro e ver se a sola está suja.

2ª Corrente: A perícia é indispensável somente quando deixa vestígio (caso do túnel).

3ª Corrente: A perícia é sempre imprescindível, pois deve atestar o desforço incomum. Pelo menos uma
fotografia do muro é preciso porque o juiz tem que aquilatar se o agente, diante daquele obstáculo,
empreendeu desforço incomum.

Olha a pergunta que caiu: é comum, no interior, furto de cobre dos fios de energia elétrica. A pessoa
sobe num poste e leva os fios de cobre embora. Incide a qualificadora? Vocês escreveram que escalada é uso
de via anormal. Ele subiu num poste e levou os fios. É escalada? Isso é via anormal? Como é que você sobe
num poste? Por helicóptero? Ele usou a via normal!!! A não ser que façam trocas de fios por helicóptero. Então,
ele usou a via normal para atingir o alto do poste, que é escalando o poste. Não tem outro modo. Furto simples.
Cuidado!

Destreza – Qualifica-se o crime de furto quando praticado mediante destreza. O que é destreza?

“Destreza é peculiar habilidade física ou manual praticando o crime sem que a vítima perceba que está sendo despojada.”

É o famoso caso dos batedores de carteira, também chamados de punguistas.

Observação: Para a configuração desta qualificadora, a jurisprudência exige que a coisa visada seja transportada
junto ao corpo da vítima.

Vocês acham que a destreza é analisada sob o ângulo da vítima ou de terceiros? A vítima não percebeu,
mas terceiros perceberam. Incide a qualificadora? Cuidado! A destreza é analisada única e exclusivamente da
vítima. Mesmo que terceiros percebam, o que importa é ela não perceber. A qualificadora persiste. É o que
prevalece. Eu não falei que é unânime.
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CRIMES CONTRA O PATRIMÔNIO

Inciso III – O inciso III qualifica o crime quando há o emprego de chave falsa. O que é chave falsa?

“Chave falsa é todo o instrumento, com ou sem forma de chave (é o conceito para os tribunais superiores), destinado a
abrir fechadura.”

Chave verdadeira obtida fraudulentamente é chave falsa? Você abriu com a chave verdadeira, mas
obteve fraudulentamente. Noronha diz que incide e o TRF da 4ª Região já decidiu que incide, mas não é o que
prevalece porque chave verdadeira, ainda que obtida fraudulentamente, é chave verdadeira. Não é falsa!
Noronha abrange na expressão “chave falsa” a “chave verdadeira obtida fraudulentamente”. Não é o que
prevalece.

Exemplo de chave falsa: chave-lixa ou gazua, vareta, grampos, arame do cabide, canivete e por aí vai.

Certeza que vai cair na sua prova: ele usou a chave falsa, não para abrir a fechadura do carro, mas para
ligar o motor. Incide a qualificadora? O STJ, até 2008, entendia que não configurava essa qualificadora a
utilização da chave só para movimentar o veículo. A partir de 2008 a coisa mudou. O STJ vem decidindo que
qualifica o crime, sim. Anote o julgado: REsp 906685/RS. Prova do Cespe vai cair!
(Intervalo – 01:24:00)

Inciso IV – Incide a qualificadora quando o crime é praticado mediante concurso de duas ou mais
pessoas (a pena dobra: 2 a 8 anos).

Aqui há uma discussão doutrinária, mas é só na doutrina, porque a jurisprudência já pacificou tudo.
Nélson Hungria diz o seguinte: a qualificadora do § 4º, IV, exige pluralidade de executores. Nélson Hungria
não abrange partícipe. Se A subtrai, e B somente auxilia A a subtrair, para Nélson Hungria, como você tem só
um executor do crime e ele não computa o partícipe, para ele, este furto não é qualificado. Para ele, ambos
respondem por furto simples.

Já para a maioria, o § 4º, IV fala “concurso de duas ou mais pessoas” e a expressão concurso abrange
coautores como também os partícipes. Para a maioria, basta a pluralidade de agentes, abrangendo partícipes.

É dispensável a qualificação de todos. Basta a prova de que houve concurso de agentes, de que duas
ou mais pessoas concorreram para o crime. Ponto.

Incide a qualificadora mesmo que um dos concorrentes seja menor inimputável.

Atenção a um detalhe importante: o que o concurso de pessoas fez com a pena do furto? Dobrou. A
pena, de 1 a 4, passou a ser de 2 a 8. O roubo também tem uma circunstância parecida. Porém, não qualificadora,
mas majorante. No roubo, a pena é de 4 a 10 e no caso de concurso de agentes, essa pena de 4 a 10 é aumentada
de 1/3 até a metade. O roubo, que é um crime bem mais grave, no caso de concurso de agentes, a pena pode,
no máximo, ser aumentada de metade. No máximo, ser aumentada de metade. O que vocês acham? Tem gente
dizendo o seguinte: isso é inconstitucional porque fere o princípio da proporcionalidade. Você pune menos
com mais e mais com menos. Como é que pode um concurso dobrar a pena do menos e só aumentar de metade
a do mais? Tese para a defensoria pública. Não é o que prevalece. Prevalece que é constitucional.

1ª Corrente: Não vai dobrar a pena de 1 a 4, passando a ser de 2 a 8 porque é inconstitucional.


Aplica o aumento do roubo no furto simples.

2ª Corrente: Mas prevalece que a aplicação da majorante do roubo no furto fere o princípio da
legalidade porque é o juiz legislando. Juiz não pode legislar. Essa é a posição do STJ.

Parágrafo 5º – A última qualificadora do furto está no § 5º, que aumenta em 1 ano a pena mínima,
mantendo a máxima.

§ 5º - A pena é de reclusão de 3 (três) a 8 (oito) anos, se a subtração for de


veículo automotor que venha a ser transportado para outro Estado ou para o exterior.
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CRIMES CONTRA O PATRIMÔNIO

É imprescindível para a incidência da qualificadora que o veículo ultrapasse os limites do Estado ou a


fronteira do País. Está falando do DF? Quando fala em Estado, é óbvio que está abrangendo o DF. Nem a
Constituição lembra de diferenciar Estado de DF em todos os seus dispositivos... Então, a palavra Estado é
unidade da federação, abrangendo o DF.

A partir do momento que eu digo que para incidir essa qualificadora é imprescindível ultrapassar os
limites de um Estado ou fronteira do País, pergunto: admite tentativa? Vamos imaginar o seguinte: SP e PR.
Você furtou o veículo em SP, estava chegando no Paraná e foi preso com o veículo. Incide a qualificadora?
Não incide a qualificadora. Pergunto: Mas não seria essa a hipótese da qualificadora tentada? Não, porque se o
crime estava consumado, ele não passa a ser tentado só porque você não conseguiu ultrapassar os limites do
Estado. Então, não incide a qualificadora e o crime continua consumado.

Agora, vejam a segunda situação: Você subtraiu o veículo em SP e foi perseguido incessantemente pela
polícia de SP, entrando no PR e no PR você foi preso. Incide a qualificadora? Se você ultrapassou os limites
do Estado, incide a qualificadora. Eu não falei que é imprescindível ultrapassar os limites do Estado? Pergunto:
crime consumado ou tentado? Para a teoria da amotio, o crime está consumado. Mas para a teoria da ilatio, o
crime é tentado. Aliás, seria a única hipótese em que essa qualificadora admitiria a tentativa e mesmo assim para
a teoria da ilatio.

Olha o que vai cair na sua prova: A furtou um veículo. A contratou B para transportar o veículo para
outro Estado. B consegue transportar o veículo até o seu destino. Que crime pratica A? Que crime pratica B?
É exatamente esse o problema da sua prova.

1ª Hipótese: B, de qualquer modo, participou do furto? Se B fez isso, seja induzindo ou instigando
A, por exemplo, A responde pelo art. 155, § 5º e B responde pelo art. 155, § 5º, na condição de partícipe,
combinado com o art. 29, do CP. A e B respondem pelo furto qualificado pelo § 5º. É claro que não incide o
§ 4º, IV (concurso de agentes). Se são duas qualificadoras, vai incidir a mais grave. Vocês já viram isso comigo
em lesão corporal. O § 4º, IV, não incide, porque o § 5º é mais grave e deve ser considerado como circunstancia
judicial.

2ª Hipótese: B, de qualquer modo, não participou do furto. Foi contratado para transportar o veículo
sabendo que o veículo era produto de crime. Que crime praticou A, lembrando que ele conseguiu transportar
o veículo para o outro estado? Art. 155, § 4º. E B, praticou qual crime? Receptação. Um detalhe, já muda o
crime para B.

3ª Hipótese: B não participou do furto e desconhecia a origem do veículo. A responde por furto
qualificado pelo § 5º e B, em regra, é atípico. A não ser que você consiga comprovar uma receptação culposa.

O que eu coloquei nesse problema que te impede de criar situação de favorecimento real para B? Eu
falei que B foi contratado. No favorecimento real, B não buscaria qualquer vantagem pessoal. B só buscaria
auxiliar A. Então, jamais haverá favorecimento real aqui. Nós vamos ter uma aula para falar de favorecimento
real. Aliás, na próxima aula, de receptação, a gente vai ver a diferença. No favorecimento real, B não poderia
extrair qualquer vantagem. B tinha que trabalhar só para favorecer A. E é o que ele está fazendo. No
favorecimento real, você favorece o furtador e aqui ele está buscando vantagem, contratado, está recebendo.
Na aula de receptação, vocês vão entender melhor ainda.

2. ROUBO – Art. 157, CP

Roubo
Art. 157 - Subtrair coisa móvel alheia, para si ou para outrem, mediante grave ameaça
ou violência a pessoa, ou depois de havê-la, por qualquer meio, reduzido à impossibilidade de
resistência: Pena - reclusão, de 4 (quatro) a 10 (dez) anos, e multa.
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§ 1º - Na mesma pena incorre quem, logo depois de subtraída a coisa, emprega violência
contra pessoa ou grave ameaça, a fim de assegurar a impunidade do crime ou a detenção da coisa
para si ou para terceiro.

§ 2º - A pena aumenta-se de um terço até metade:


I - se a violência ou ameaça é exercida com emprego de arma;
II - se há o concurso de duas ou mais pessoas;
III - se a vítima está em serviço de transporte de valores e o agente conhece tal
circunstância.
IV - se a subtração for de veículo automotor que venha a ser transportado para outro
Estado ou para o exterior;
V - se o agente mantém a vítima em seu poder, restringindo sua liberdade.

§ 3º - Se da violência resulta lesão corporal grave, a pena é de reclusão, de 7 (sete) a 15


(quinze) anos, além da multa; se resulta morte, a reclusão é de 20 (vinte) a 30 (trinta) anos, sem
prejuízo da multa.

Como sempre faço, vou colocar como o roubo está topograficamente colocado no CP:

 Caput – Traz o roubo simples ou propriamente dito.


 § 1º - Traz o roubo simples impróprio ou impropriamente dito
 § 2º - Traz majorante de pena
 § 3º - Traz qualificadoras

Sabe o que caiu em concurso? Quem me dá sinônimo de roubo simples impróprio? Caiu isso em
concurso. Roubo por aproximação. “Doutor, fale um pouco sobre o roubo por aproximação.” O candidato ficou
falando de furto com violência à coisa.

Qual é o bem jurídico tutelado? Lendo o caput, vê-se que há dois bens jurídicos. É um crime complexo:
patrimônio e liberdade individual da vítima. O roubo, nada mais é do que um furto + constrangimento ilegal.
No furto, patrimônio, no constrangimento ilegal, liberdade individual da vítima. Pronto! É um crime complexo.
Protege dois bens jurídicos.

O crime é comum e pode ser praticado por qualquer pessoa, salvo o proprietário. Proprietário que
subtrai violentamente coisa sua em favor de alguém, é exercício arbitrário das próprias razões.

Quem é a vítima do roubo? Não é somente a pessoa ferida no patrimônio, que teve o patrimônio
diminuído, mas também aquela contra a qual o agente empregou a violência ou a grave ameaça.

Agora, vejam, nós temos dois comportamentos punidos da leitura do art. 157, caput: Subtrair coisa móvel
alheia, para si ou para outrem, mediante grave ameaça ou violência a pessoa, ou depois de havê-la, por qualquer meio, reduzido à
impossibilidade de resistência.”

Nós vamos falar do roubo próprio. No roubo próprio, o agente emprega a violência física ou então,
emprega grave ameaça ou então, emprega qualquer outro meio para a subtração. Vejam que no roubo próprio
ou propriamente dito, o ato antecedente é a violência física, ameaça ou qualquer outro meio para a pessoa
subtrair. A subtração, no roubo próprio, é ato subsequente.

Quem me dá exemplo de qualquer outro meio que não seja violência física ou moral? Exemplo
emblemático de qualquer outro meio: administração de psicotrópicos. O famoso boa-noite-cinderela. A
doutrina comenta também da hipnose. Esse “qualquer outro meio” que configura roubo próprio é chamado
pela doutrina de “violência imprópria”. Cuidado! Violência imprópria dentro modus operandi do roubo próprio.

2.1. ROUBO IMPRÓPRIO– Art. 157, § 1º, CP


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CRIMES CONTRA O PATRIMÔNIO

§ 1º - Na mesma pena incorre quem, logo depois de subtraída a coisa, emprega


violência contra pessoa ou grave ameaça, a fim de assegurar a impunidade do crime ou a
detenção da coisa para si ou para terceiro.

É chamado roubo impróprio ou roubo por aproximação. Qual é a diferença para o roubo próprio?
Tem algumas diferenças, mas já deu para perceber que o que é antecedente em um é subsequente em outro e
o que é subsequente em um é antecedente no outro.

No roubo impróprio, primeiro ocorre a subtração, o apoderamento. O apoderamento é o ato primeiro.


Para assegurar a impunidade ou a detenção da coisa, o que o agente faz? Ele emprega violência física ou grave
ameaça. Então, vejam que no roubo impróprio, o antecedente é a subtração. O subsequente é o emprego da
violência ou grave ameaça.

Cuidado! No roubo próprio havia violência, grave ameaça, ou qualquer outro meio (a chamada
violência imprópria). E no roubo impróprio, existe espaço para a violência imprópria? Não existe violência
imprópria. Eu posso incluir? Claro que não, sob pena de analogia in malam partem.

Olha o detalhe que cai em concurso: para haver o roubo impróprio é imprescindível o prévio
apoderamento. É indispensável o prévio apoderamento. É indispensável o contato físico agente-coisa. A
doutrina diz que o roubo impróprio nada mais é do que um furto que se transforma em roubo em razão das
circunstâncias. Vou dar três situações, vai cair a terceira (1ª fase do MP):

1. Eu coloco uma arma na sua cabeça, faço você descer do seu veículo e levo embora o seu carro –
roubo próprio ou impróprio? Arma na cabeça é grave ameaça. O ato subsequente é subtrair para
si ou para outrem. Roubo próprio.

2. Eu me apodero da sua TV, estou saindo da sua casa com a TV e você aparece. Para garantir a
detenção ou a impunidade, eu te agrido e fujo – Roubo impróprio. Me apoderei, depois pratiquei
a violência.

3. Quando eu ia me apoderar da televisão, não houve contato, você apareceu. Eu te agredi para fugir
e saio em fuga – que crime eu pratiquei? Caiu na primeira fase do MP. Galeras responderam roubo
impróprio. Cuidado! Eu ia me apoderar. Se eu falei que eu ia, não houve contato agente-coisa e eu
falei que no roubo impróprio esse contato é indispensável. Então, você esqueça roubo impróprio.
O que você tem? Tentativa de furto (eu ia me apoderar) + crime contra a pessoa. Homicídio ou
lesão corporal.

Diz o § 1º: “Na mesma pena incorre quem, logo depois de subtraída a coisa.” A jurisprudência diz que só
configura roubo impróprio, configurando esse “logo depois” até a consumação do furto. Se o furto já está
consumado e depois você emprega a violência, isso não transforma o furto consumado em roubo impróprio.
Você responde por furto consumado + crime contra a pessoa. Eu falei que o roubo impróprio é um furto que
se transforma em roubo, é um furto que ainda não se consumou e se transforma em roubo. Se o furto já está
consumado, a violência posterior é crime autônomo. Vejam que ele diz que a violência que transforma esse
furto em roubo impróprio deve ser exercida logo depois da subtração. Isso significa que o furto que se
transforma em roubo é um furto que ainda não se consumou. O furto que já se consumou não se transforma
em roubo com a nova violência. A violência é um crime autônomo.

Aplica-se o princípio da insignificância, seja ele próprio ou impróprio? O princípio da insignificância é


possível no roubo? Quem presta defensoria, é possível até no estupro. Um roubo de uma escova de dentes, de
2 reais, aplica-se princípio da insignificância? Não se aplica o princípio da insignificância no roubo. Não se
aplica! Vamos anotar a justificativa:

“É inaplicável o princípio da insignificância no roubo, por se tratar de crime complexo, no qual o tipo penal tem como
elemento constitutivo o constrangimento ilegal, protegendo também a integridade física (STF e STJ).”

Tem gente querendo aplicar o privilégio do furto no roubo, por analogia, sendo uma analogia in bonam
partem. Se o agente é primário, e é de pequeno valor a coisa, eu posso aplicar, por analogia, o privilégio do furto
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no roubo. Admite-se? STF e STJ entendem que o privilégio é incompatível com a gravidade do roubo, não
admitindo essa analogia.

O crime de roubo é punível a título de dolo. Só dolo? Qual é o elemento subjetivo do roubo? O
candidato bobeou. Você tem que dividir o roubo próprio do roubo impróprio:

 Roubo próprio – É punido a título de dolo, mais elemento subjetivo (finalidade especial). Qual é
a finalidade especial? “para si ou para outrem”.

 Roubo impróprio – Também é punido a título de dolo, mais elemento subjetivo (finalidade
especial também). Qual é a finalidade especial? “para assegurar impunidade e para assegurar a
detenção da coisa”.

Então, vejam que entre um e outro, achamos mais uma diferença, qual seja, o elemento subjetivo dos
crimes é diferente. Já caiu no MP/MG as diferenças do roubo próprio e impróprio. Além das duas que já vimos,
vocês têm essa terceira.

É possível roubo de uso? Coloquei uma arma na sua cabeça, usei o seu caso e devolvi. É crime o
roubo de uso? STF e STJ: roubo de uso é crime. Agora, Rogério Greco diz: é crime, mas não de roubo. Roubo
de uso: vocês já sabem que o roubo é formado de furto + constrangimento ilegal. Se ele é apenas de uso, não
tem mais o furto. Para ele, se o roubo é de uso, você não tem a finalidade de animus definitivo. Desaparece o
furto que integra o roubo. Então, o roubador de uso deve responder apenas por constrangimento ilegal. Essa
é a tese de Rogério Greco. Quem roubou deve ser punido somente por constrangimento ilegal. Tese para
defensoria pública.

Quando o crime de roubo se consuma? Temos que diferenciar o momento consumativo do roubo do
caput (roubo próprio) e do roubo do § 1º (roubo impróprio):

 Consumação no roubo próprio (caput) – O caput é o mesmo raciocínio do furto. “Consuma-se com o
apoderamento, perdendo a vítima a disponibilidade, dispensando posse mansa e pacífica.” É a teoria da
amotio. Essa é a posição do STF e do STJ. Não é a do TJ/SP que parece exigir posse mansa e
pacífica. Admite tentativa.

 Consumação no roubo impróprio (1º 1º0 – “Consuma-se com o emprego da violência ou grave
ameaça, dispensando posse mansa e pacífica.”

Então, vejam que o momento consumativo difere no roubo próprio e no roubo impróprio. Mas,
cuidado! A doutrina diverge quanto à possibilidade de tentativa:

1ª Corrente: “Não se admite a tentativa, pois ou a violência é empregada e tem-se a consumação, ou não é
empregada, e o que se apresenta é o crime de furto.” Quem adota essa primeira corrente? Por exemplo,
Damásio. E essa corrente se diz majoritária.

2ª Corrente: “É possível a tentativa quando o agente, após apoderar-se do bem, tenta empregar a violência, mas
é contido.” Quem adota essa corrente? Mirabete.

A primeira corrente se diz majoritária, mas eu, fazendo uma pesquisa, cheguei à seguinte conclusão: ela
é majoritária na doutrina clássica. A moderna está com a segunda. A primeira corrente é majoritária em Nelson
Hungria, Noronha e por aí vai. Mas a doutrina moderna (Mirabete, Rogério Greco, Nucci, etc.) fica com a
segunda corrente. Nós não temos decisões dos tribunais superiores solucionando o tema.

2.2. CAUSAS DE AUMENTO DE PENA – Art. 157, § 2º, CP

§ 2º - A pena aumenta-se de um terço até metade: I - se a violência ou ameaça é


exercida com emprego de arma;
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Vocês estão cansados de ouvir que aqui o roubo é qualificado. Está errado. Aqui é roubo majorado.
Quantas vezes vocês escutaram que “fulano praticou roubo qualificado pelo emprego de arma.” Está errado.
Aqui é roubo majorado. Não é qualificadora, é causa de aumento. Então, cuidado! Estamos diante de majorante,
causa de aumento de pena.

É necessário o emprego efetivo da arma no roubo ou basta o porte ostensivo da arma? Você precisa
empunhar a arma no roubo ou basta subtrair alguém mostrando que você está armado?

1ª Corrente: Cezar Roberto Bittencourt entende indispensável o emprego efetivo da arma, não
basta o simples porte. Ele tem que empregar efetivamente a arma no crime.

2ª Corrente: Luiz Régis Prado: basta o porte ostensivo. Tem prevalecido que basta o porte
ostensivo.

O que é arma? Essa expressão gera uma indisfarçável controvérsia. Arma é só revólver, pistola,
instrumentos bélicos, ou abrange qualquer instrumento? Você está andando na rua, a pessoa coloca um caco
de vidro no seu pescoço. Isso é arma? Coloca uma lâmina de barbear no seu pescoço, é arma? O que é arma?

1ª Corrente: “Toma a expressão no seu sentido restrito. Arma, para esta corrente, é o instrumento fabricado
com finalidade exclusivamente bélica, por exemplo, revólver.”

2ª Corrente: “Toma a expressão no seu sentido amplo: arma é todo instrumento, com ou sem finalidade bélica,
capaz de servir ao ataque.” Aqui, por exemplo, faca de cozinha é arma.

Qual das duas prevalece? A segunda corrente está fazendo uma interpretação extensiva contra o réu.
É possível? O Brasil admite isso? Essa segunda corrente é a que prevalece. Sabendo que a segunda corrente é
a que prevalece, vocês já sabem: o Brasil admite interpretação extensiva contra o réu porque a interpretação
extensiva não é para favorecer ou prejudicar o réu, mas para chegar na vontade do legislador. Então, vejam que
para o Brasil, arma, é todo instrumento com ou sem finalidade bélica capaz de servir ao ataque.

Dica para defensoria – quem for prestar defensoria jamais vai concordar com a interpretação extensiva
contra o réu. Você vai usar um argumento importante: Estatuto de Roma, que expressamente proíbe a
interpretação extensiva contra o réu. “Mas Rogério, isso é para o TPI, não para nós”. Como não?? Isso é tratado de
direitos humanos que entra no Brasil com status, pelo menos de direito supralegal. O Estatuto de Roma é, antes
de mais nada, um documento de direitos humanos. Mas você, defensor público, que usar isso, não se esqueça
que o TPI admite investigação pelo MP. Não adianta usar uma parte e negar a outra.
Caiu em dois concursos: admite-se a interpretação extensiva contra o réu. E a resposta foi falso! Absurdo. O
direito penal veda a analogia in malam partem contra o réu. Na interpretação extensiva existe a lei sendo
interpretada para se chegar na real vontade do legislador. Mas para defensoria pública, se quiser combater a
interpretação extensiva contra o seu assistido, use o Estatuto de Roma, que expressamente coíbe a interpretação
extensiva contra o réu.

Arma de brinquedo ou simulacro de arma de fogo gera a majorante? Não há dúvida de que a arma de
brinquedo é suficiente para gerar a grave ameaça do roubo. Isso é certo! Mas a pergunta é se ela gera a majorante
do § 2º. O roubo com arma de brinquedo é simples ou majorado? A arma de brinquedo que é suficiente para
agrave ameaça do roubo, gera a majorante? Até 2001, se trabalhava com a Súmula 174 do STJ.

STJ Súmula nº 174 - 23/10/1996 - DJ 31.10.1996 - Cancelada -


RESP 213.054-SP - 24/10/2001 - No crime de roubo, a intimidação feita com arma
de brinquedo autoriza o aumento de pena.

Ou seja, roubo com arma de brinquedo, não só configura a grave ameaça elementar do tipo como
autoriza o aumento de pena. Isso até 2001. Porém, em outubro de 2001, a 3ª Seção deliberou pelo cancelamento
dessa súmula. Isso significa que para o STJ e para o STF que aplaudiu esse cancelamento, para os dois tribunais
superiores, arma de brinquedo não mais autoriza o aumento. Isso significa que roubo com arma de brinquedo
é roubo simples ou majorado por outra circunstâncias. Por essa, jamais!
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Essa súmula foi cancelada sob dois fundamentos: a arma gera um maior risco à incolumidade pessoal.
Uma arma, num roubo pode, tranquilamente gerar um maior risco à vítima, causando-lhe até a morte. Então,
a arma de brinquedo não gera aumento porque não tem a capacidade de criar o risco que se busca prevenir. Ela
é incapaz de criar o risco que se busca impedir. Logo, nós estamos trabalhando com duas teorias: com o
Princípio da Lesividade e Teoria da Imputação Objetiva porque a arma de brinquedo não é capaz de criar o
risco proibido. São essas duas teorias que fundamentam o cancelamento da Súmula 174.

Agora quero falar da arma verdadeira, mas desmuniciada ou inapta ao disparo. Gera o aumento? Agora
estou falando da arma verdadeira inapta ao disparo. Aqui havia duas correntes:

1ª Corrente: Gera o aumento do § 2º, I


2ª Corrente: Não gera o aumento do § 2º, I

Uma dessas correntes saiu fortalecida do cancelamento da Sumula 174, qual foi? A segunda. Se
cancelaram a Súmula 174 porque a arma de brinquedo não tem potencial para produzir o risco proibido, arma
verdadeira incapaz do disparo também não tem essa capacidade. Então, a segunda corrente foi fortalecida com
o cancelamento da Súmula 174. Isso foi dissertação: disserte sobre o emprego majorado pelo uso de arma.
Você tinha que enfrentar esse ponto da arma inapta ao disparo.

Para incidir essa causa de aumento do emprego de arma, é dispensável ou indispensável a apreensão
da arma? Prevalece que para incidência da majorante a apreensão da arma é dispensável, desde que comprovado
o seu emprego por outros meios. Sempre prevaleceu isso. Dispensa a apreensão da arma, que não precisa ser
apreendida para gerar o aumento, desde que o seu emprego seja comprovado por outros meios. Eu falei que é
o que prevalece. Se para gerar o aumento a arma não precisa ser apreendida, como saber se a arma empregada
no roubo era de brinquedo? A vítima não vai poder contestar porque hoje há réplicas idênticas. Se a arma não
aparece você nunca vai poder apurar se a arma era ou não capaz de disparar. Por isso, este ano, temos uma
decisão do STF e do STJ entendendo indispensável a apreensão e perícia na arma.

“Apesar de minoria, o STJ e o STF, no ano de 2009, entenderam ser necessária a apreensão da arma para que se possa
implementar o aumento de pena previsto no art. 157, § 2º, I. Com a ausência da apreensão e perícia da arma, não se pode apurar
sua lesividade e, portanto, o maior risco para a integridade física da vítima (STJ HC 99762/MG).”

Eu gosto muito desse julgado (não que eu tenha aplaudido), porque do jeito que ele explica, ficou muito
claro qual é a razão desse aumento e porque não tem que incidir quando a arma não é apreendida (o julgado é
muito longo, só coloquei a ementa). Prova do Cespe, certeza que é essa a posição que vai cair. Inclusive, esse
julgado até reconhece a existência de posicionamentos em contrário, mas afirma que é o tipo de coisa que não
pode mais prevalecer.

STJ HC 99762 RELATORA : MINISTRA MARIA THEREZA DE


ASSIS MOURA 6ª TURMA – 10/03/2009
1. A necessidade de apreensão da arma de fogo para a implementação da causa de aumento
de pena do inciso I do § 2º do art. 157 do Código Penal, tem a mesma raiz exegética
presente na revogação da Súmula n. 174, deste Sodalício.
2. Sem a apreensão e perícia na arma, não há como se apurar a sua lesividade e, portanto,
o maior risco para o bem jurídico integridade física. 3. Ausentes a apreensão e a perícia da
arma utilizada no roubo, não deve incidir a causa de aumento.
4. Ordem concedida, para afastar a causa de aumento de pena prevista no inciso I do § 2º
do art. 157 do Código Penal, reduzindo as penas privativa de liberdade e de multa
impostas, fixando-as, respectivamente, em 4 (quatro) anos de reclusão e 10 (dez) dias-
multa.
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CRIMES CONTRA O PATRIMÔNIO

Por fim, eu quero saber o seguinte: roubo majorado com emprego de arma pode conviver com a
quadrilha ou bando armada? Pode o MP denunciar uma pessoa pelo art. 157, § 2º, I, e pelo art. 288, § único?
Roubo com emprego de arma e quadrilha ou bando armada em concurso material? Pode?

1ª Corrente: Não admite, configurando bis in idem. Nucci. Se você tem uma quadrilha ou bando
armada, esqueça a arma no roubo ou vice-versa. Você vai excluir o que for mais benéfico para o réu.

2ª Corrente: Admite, não havendo bis in idem. Para esta segunda corrente, são infrações
independentes, protegendo, cada qual bens jurídicos próprios. STF.

Na verdade, para não haver bis in idem você tem que perceber o seguinte: no art. 157, § 2º, I, você está
punindo o fato de ele empregar a arma do crime. O art. 288, § único pune o fato de a quadrilha ter arma. Por
isso são circunstâncias diferentes. Aí eu até posso concordar que não há bis in idem. Mas se você olhar sob o
enfoque da arma, vai ver bis in idem. Mas o art. 157, § 2º, I, não pune mais gravemente porque tem arma, mas
porque a arma foi empregada no crime. O art. 288, § único pune mais gravemente a quadrilha porque ela
possui arma. São situações distintas e aí posso concordar que não há bis in idem. Por ora, é a posição do
Supremo. Eu digo, por ora, porque a hora que isso chegar lá nessa nova composição, eles aniquilam com isso.
MP/MG e MP/SP já perguntaram isso e a resposta certa foi a segunda corrente.

Vocês têm material suficiente para uma dissertação. O MP/SP queria que você dissertasse só sobre o
157, § 2º, I. Agora vamos para o art. 157, § 2º, II:

§ 2º - A pena aumenta-se de um terço até metade: II - se há o concurso de duas


ou mais pessoas;

O que falamos sobre o concurso de duas ou mais pessoas, no furto, transportem para cá. Ou seja,
lembram da discussão do Nelson Hungria? Vocês vão colocar só o que prevalece: nesse número mínimo de
duas pessoas eu vou computar:

 Partícipes,
 Concorrentes não identificados (conseguiram bem sucedida fuga) e
 Concorrentes inimputáveis (menores).

§ 2º - A pena aumenta-se de um terço até metade: III - se a vítima está em


serviço de transporte de valores e o agente conhece tal circunstância.

O legislador aqui não precisava ter dito “conhece tal circunstância” porque, do contrário, haveria
responsabilidade penal objetiva. Nem precisava. Se a vítima está “em serviço de”, ou seja, é imprescindível que
a vítima esteja prestando serviços para alguém. Então, não incide a causa de aumento quando a vítima está
transportando seus próprios valores. Somente quando ela está no transporte de valores para alguém. Se ela está
transportando seus próprios valores, não incide a majorante. Questão boa! Cuidado!

O que são valores? Quais são os valores abrangidos pela majorante? Vocês vão encontrar doutrina
dizendo que são apenas valores bancários. Ou seja, tem doutrina que limita à proteção do carro-forte. Mas onde
está essa restrição? Eu não tenho dúvida de que a preocupação do legislador foi com o carro-forte, mas isso
não significa que ele tenha limitado o inciso III somente ao objeto carro-forte. Por isso, prevalece que abrange
qualquer tipo de valor, seja carro-forte, seja caminhão transportando carga, não importa a carga: carne, remédio,
cigarro, bebida, eletrodoméstico. Tem um caminhão transportando valor e é roubado na autoestrada, pronto,
incide a majorante. É transporte de qualquer valor. Nesses roubos de carga nas rodovias, que a gente vê no
jornal, incide o inciso III.

§ 2º - A pena aumenta-se de um terço até metade: IV - se a subtração for de


veículo automotor que venha a ser transportado para outro Estado ou para o exterior;

No furto, existe uma circunstância idêntica, sendo que lá é qualificadora, aqui é causa de aumento.
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§ 2º - A pena aumenta-se de um terço até metade: V - se o agente mantém a


vítima em seu poder, restringindo sua liberdade.

Vamos trabalhar com esse inciso V daqui a pouco. “Mas Rogério, era aqui que eu colocava o sequestro-
relâmpago?” Pode ser. O sequestro-relâmpago era uma expressão vulgar que servia a várias situações. Essa era
uma das situações à qual se aplicava a expressão “sequestro-relâmpago.”

Magistratura: qual é a diferença do roubo majorado pela privação da liberdade e o delito de roubo em
concurso com o crime de sequestro? No roubo, a privação da liberdade da vítima é necessária para o sucesso
da subtração ou da impunidade. Reparem que no roubo majorado pela privação da liberdade, essa privação é
necessária ou para a detenção da coisa ou para garantir a fuga, mas é necessária. No roubo do § 2º, V, a privação
não é prolongada. Ela dura o tempo absolutamente necessário para o sucesso da empreitada.

Agora, você vai ter roubo em concurso com o art. 148, esquecendo o § 2º, V, quando a privação da
liberdade da vítima não é necessária. E é uma privação prolongada, perdurando por tempo absolutamente
desnecessário. Olha o exemplo: eu vou assaltar uma casa e coloco todos os moradores trancados no banheiro
e vou embora com o veículo da família e os objetos dentro do carro. Que crime cometi? Roubo majorado pela
restrição da liberdade.

Outro exemplo: eu coloco uma arma na sua cabeça e subtraí o seu veículo, dizendo, “vai para o outro
banco.” Você, com uma arma na cabeça fica 24 horas comigo roubando a cidade, ou coloco você no porta-
malas. Eu uso o seu veículo para praticar vários assaltos com você no porta-malas. Neste caso, a privação da
sua liberdade não era necessária. Eu te mantive preso por tempo prolongado. Isso é roubo em concurso
material do delito do art. 148.

Aumento da pena - Terminamos o §2º, que diz que a pena é aumentada de um terço até metade.
Como é que o juiz varia esse aumento?

1ª Corrente: Quanto mais majorantes, mais próximo de metade; quanto menos majorantes, mais
próximo de 1/3. STF.

2ª Corrente: Devem ser analisadas a gravidade de cada circunstância, ou seja, a gravidade do


crime e não com a quantidade das circunstâncias que rodeiam o crime. Não importa a quantidade,
mas a gravidade do crime majorado.

Exemplo: uma pessoa assaltou a vítima sozinha com uma arma. Para o STF, o aumento vai ser de 1/3.
A segunda corrente discorda porque há que perquirir sobre a natureza da arma, era um revólver ou uma
metralhadora? Se era uma metralhadora, é uma circunstancia que faz com que a pena seja aumentada além de
1/3. Além da arma, ela olha que arma foi essa.

Exemplo: roubo praticado com pluralidade de agentes. Para o STF, o aumento vai ser de 1/3. Para a
segunda corrente, é preciso saber quantas pessoas: 30? Esquema de arrastão?? Então tem que aumentar mais.

2.3. QUALIFICADORAS E LATROCÍNIO – Art. 157, § 3º, CP

Agora vamos ao § 3º, que despencou na magistratura da Bahia, no concurso de 2005, salvo engano.

§ 3º - Se da violência resulta lesão corporal grave, a pena é de reclusão, de 7 (sete)


a 15 (quinze) anos, além da multa; se resulta morte, a reclusão é de 20 (vinte) a 30 (trinta)
anos, sem prejuízo da multa.

O § 3º, sim, traz qualificadoras e eu vou analisar esse dispositivo fazendo observações. Ele diz que:

 Se da violência resulta lesão grave – Pena de 7 a 15 anos + multa


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 Se da violência resulta morte – Pena de 20 a 30 anos + multa

Nós estamos diante, então, de duas circunstâncias qualificadoras.

Observação 01: Somente o § 3º, in fine, isto é, morte, chama-se latrocínio e é crime hediondo.

Cuidado! Não vai você pensar que o § 3º inteiro se chama latrocínio. Não vá você imaginar que o § 3º
inteiro é hediondo. É apenas o § 3º in fine e somente esta hipótese é chamada de latrocínio.

Observação 02: Os resultados lesão grave e morte podem advir de dolo ou culpa.

Ou seja, é uma qualificadora dolosa ou preterdolosa e mesmo a forma preterdolosa é hedionda. Mesmo
quando a morte advém de culpa, é hediondo. Para isso serve o princípio da proporcionalidade.

Observação 03: Os resultados devem ser consequência da violência física, não abrangendo grave ameaça.

A lesão grave e a morte devem advir da violência. Se a vítima morreu em razão da grave ameaça, você
não tem latrocínio. Os resultados devem ser consequência da violência física. Ele colocou a arma na cabeça da
vítima, a vítima se assustou e morreu. Que crime praticou? Roubo com emprego de arma + eventualmente
homicídio, doloso ou culposo, tudo vai depender se ele quis, aceitou ou se não quis e não aceitou, mas era
previsível o resultado. Aí o caso concreto dirá.

Observação 04: A violência deve ser empregada durante o assalto e em razão do assalto (fator tempo + fator nexo).

A violência empregada deve obedecer ao fator tempo: durante o assalto; e o fator nexo: em razão do
assalto. Isso caiu na magistratura/BA. Ausente um dos fatores, tempo ou nexo, esqueça, não há o latrocínio.

Exemplo 01: Durante o assalto, o assaltante, aproveitando que já está com a arma, mata um desafeto
seu que passa pelo local. É latrocínio? Aqui responde por roubo + homicídio do desafeto. Não é latrocínio.
Não é latrocínio porque há o fator tempo, mas está ausente o fator nexo. A morte ocorreu durante o assalto,
mas não tem nada a ver com o assalto. Esse é um caso em que o roubo vai a júri, já que é conexo.

Exemplo 02: Duas semanas depois do assalto, o assaltante mata o gerente que o reconheceu. É
latrocínio? Não. Ele vai responder pelo art. 157, porque ele roubou; e vai responder pelo art. 121, qualificado
pela conexão consequencial, que vocês já estudaram comigo. Ele matou para assegurar a impunidade. Aqui, eu
tenho o fator nexo (ele matou em razão do assalto), mas não tenho o fator tempo. Caíram em concurso esses
dois exemplos.

Observação 05: Assaltante que mata o outro para ficar com o proveito do crime não configura latrocínio.

Ele vai responder pelo art. 157, mais homicídio qualificado pela torpeza, ganância. O caso vai a júri.

E o assaltante que mata o outro sem querer? Erro na execução, matou o comparsa, é latrocínio? Ele
mirou na vítima, mas errou e matou o comparsa. Pergunto: é latrocínio, quando a morte do outro se dá por
erro na execução? É latrocínio, porque aí eu vou aplicar o art. 73, do CP que diz que se consideram as qualidades
da vítima virtual, como se tivesse matado a vítima que ele queria. Relembrando:

Erro na Execução
Art. 73 - Quando, por acidente ou erro no uso dos meios de execução, o agente,
ao invés de atingir a pessoa que pretendia ofender, atinge pessoa diversa, responde como se
tivesse praticado o crime contra aquela, atendendo-se ao disposto no § 3º do Art. 20 deste
Código. No caso de ser também atingida a pessoa que o agente pretendia ofender, aplica-se
a regra do Art. 70 deste Código.

O crime de latrocínio não é um crime doloso contra a vida. No latrocínio vocês têm: o meio é a morte
e o fim visado é o patrimônio. O que você tem no latrocínio? A morte como meio para se atingir o fim
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CRIMES CONTRA O PATRIMÔNIO

patrimônio. Por isso, latrocínio não vai a júri, porque não é crime doloso contra a vida, mas é um crime contra
o patrimônio que tem como meio a morte. Súmula 603, do STF:

STF Súmula nº 603 - DJ de 31/10/1984 - A competência para o processo


e julgamento de latrocínio é do juiz singular e não do Tribunal do Júri.

Mas cuidado! Se a intenção inicial era a morte e depois resolveu subtrair os pertences que estavam com
o outro, aí o que eu tenho? Ele queria matar! Matou e depois resolveu levar tudo o que estava com a vítima.
Aqui é homicídio seguido de furto.

Eu peguei um caso desses. Uma pessoa levou um casal para um canavial, matou o casal, levou a carteira
e o carro. A tese que eu construí do inquérito (aliás, o delegado já havia construído essa tese) era a de que ele
já queria assaltar, a intenção dele já era o patrimônio. Ele matou os dois para garantir a execução. A tese do
advogado foi outra: ele queria matar, depois resolveu subtrair. O advogado é louco? Não. Ele está querendo
levar o caso a júri, porque é bem mais fácil você absolver um homicídio no júri do que num duplo latrocínio,
ainda mais de um casal. Onde que eu e o advogado discutíamos? Eu dizia que ele queria o patrimônio do casal
e os levou ao canavial para matar. O advogado dizia que não, que ele queria matar, depois resolveu subtrair o
patrimônio. Essa inversão de raciocínio pode culminar com a mudança de competência. Foram condenados
pelo latrocínio.

Consumação

Quando o crime se consuma? Agora é a parte mais importante da aula. Preste atenção! Vamos trabalhar
com a consumação do § 3º, enfocando, mais precisamente o latrocínio.

1ª Situação: Morte consumada e subtração consumada – O que eu tenho aqui? Latrocínio consumado.

2ª Situação: Morte consumada e subtração frustrada – O que eu tenho aqui? Latrocínio também
consumado. O STF diz isso. Súmula 610, do STF:

STF Súmula nº 610 - DJ de 31/10/1984 - Há crime de latrocínio, quando


o homicídio se consuma, ainda que não se realize o agente a subtração de bens da vítima.

Para defensoria, mitiga essa súmula. Como rebater essa súmula? Para prestar prova do MP você tem
que ser xiita contra o réu? Não. Cada vez você tem menos esse predicado no MP. Tanto é que Rogério Greco
é examinador em Minas e ele é garantista nato. Mas a defensoria pública tem que ser xiita ao contrário,
totalmente a favor do réu. Você, defensor, não pode deixar aplicar essa súmula. E você tem que rebater a
súmula porque quanto mais gente não abaixar a cabeça para ela, o Supremo acaba revendo, óbvio. E como
você rebate isso? Não se esqueçam que o latrocínio é um crime complexo. Ele é formado de morte + subtração.
Olha o que diz o art. 14, I, do CP, que trata do crime consumado (e essa crítica é de Rogério Greco – quando
ele for examinador, esqueçam a Súmula 610 do Supremo). E o crime só é consumado:

Art. 14 - Diz-se o crime:


Crime Consumado
I - consumado, quando nele se reúnem todos os elementos de sua
definição legal;

Quais são os elementos que definem o latrocínio? Morte e subtração. Enquanto os dois elementos não
forem consumados, o latrocínio não é consumado. Rogério Greco diz que a Súmula 610, do Supremo, fere o
art. 14, I, do CP. Por que? Porque está considerando consumado um crime sem que nele estejam reunidos
todos os elementos da sua definição. Legal. Entenderam como é fácil criticar essa súmula? Coloquem a Súmula
610, com a crítica de Rogério Greco.

3ª Situação: Morte tentada + subtração tentada – E agora? Latrocínio tentado!

4ª Situação: Morte tentada + subtração consumada


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Se isso não cair na sua prova eu corto meu braço esquerdo. O que eu tenho aqui? Três correntes
principais:

1ª Corrente: Latrocínio tentado – Doutrina + maioria do STF e STJ


2ª Corrente: Roubo qualificado pelo resultado quando ocorrer lesão grave (art. 157, § 3º, 1ª parte)
3ª Corrente: Homicídio qualificado tentado em concurso com roubo qualificado.

Reparem que a primeira corrente está tirando o caso do júri e está dizendo que o crime é hediondo. A
segunda corrente não vai para júri e mais, não é crime hediondo (porque roubo qualificado pela primeira parte
do parágrafo). Para a terceira corrente, o caso para júri e representa recentes decisões do Supremo. Eu
não falei que é a posição do Supremo!! Isso ficou uma miscelânea. A primeira é corrente é a que prevalece no
Supremo e te dou até o nome: Min. Ellen Gracie. E a doutrina ainda insiste que a primeira corrente é do
Supremo. O problema é que o Min. Cesar Peluso levantou uma questão que embaralhou o pedaço. A segunda
corrente já tem adepto no Supremo. Reparem que a segunda corrente evita de o crime ser hediondo e o caso
não vai a júri. A segunda corrente retira a hediondez. A terceira corrente mantém a hediondez e o caso vai a
júri. E também tem adeptos no Supremo. Mas prevalece a primeira corrente.

Observação 06: Havendo pluralidade de mortes e uma só subtração, quantos crimes há? Você mata o motorista,
proprietário do carro, o passageiro que acompanhava o motorista e subtrai o veículo. O que você tem?
Pluralidade de mortes, porém, uma subtração. Quantos crimes há?

1ª Corrente: Sendo o latrocínio crime complexo, a pluralidade de vítimas não implica pluralidade de latrocínios.
Trata-se de crime contra o patrimônio, servindo as várias mortes para agravar a pena. Cesar Roberto Bittencourt.
Aqui há um latrocínio e as várias mortes o juiz vai considerar na fixação da pena-base.

2ª Corrente: Haverá continuidade delitiva. As várias mortes configuram crimes diversos, porém, em continuidade
delitiva, configuram pluralidade de crimes.

3ª Corrente: Haverá concurso formal. É tese institucional do MP/SP.

Qual prevalece? Não tem como dizer qual prevalece. Nos tribunais superiores vocês encontram de
tudo! Nesse caso, eu prefiro não falar.

Observação 07: A morte tem que recair sobre o proprietário da coisa? “É desnecessário que a vítima da violência
seja a mesma da subtração, desde que haja conexão entre os dois fatos.”

Observação 08: No art. 157, há o caput, e os três parágrafos. O roubo qualificado qualifica, seja o
roubo impróprio, seja o roubo próprio. O impróprio é também chamado de roubo por aproximação (não se
esqueça). Então, o § 3º qualifica, seja o roubo impróprio, seja o roubo próprio. Se você tem § 3º, não se aplicam
as majorantes do § 2º. As majorantes do § 2º só se aplicam ao roubo simples, não se aplicam ao roubo
qualificado. Então, essa circunstância do § 3º devem servir somente na pena-base. O fato de ele ter utilizado
arma, não vai majorar o § 3º, mas pode servir na fixação da pena-base. Então, você não pode estender as causas
de aumento do § 2º quando você estiver diante do § 3º. O § 2º só majora a pena do roubo simples e não do
roubo qualificado. Sabe o que aconteceu na magistratura/BA? Todo mundo aplicou a majorante do § 2º
(emprego de arma) na qualificadora e aí a pena vai lá pra casa do capeta: 40 anos mínimo e 60 anos máximo.
Não dá! Se você tem § 3º, esqueça § 2º, mas as circunstâncias do § 2º podem ser utilizadas na fixação da pena-
base.

(Intervalo: 01:26:07)
3. EXTROSÃO – ART. 158

Extorsão
Art. 158 - Constranger alguém, mediante violência ou grave
ameaça, e com o intuito de obter para si ou para outrem indevida vantagem econômica,
a fazer, tolerar que se faça ou deixar fazer alguma coisa: Pena -
reclusão, de 4 (quatro) a 10 (dez) anos, e multa.
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Reparem a preocupação do legislador em punir a extorsão exatamente com a mesma pena básica do
roubo: 4 a 10 anos.

Qual é o bem jurídico tutelado? Continuamos tutelando dois bens jurídicos: patrimônio e liberdade
individual. Reparem que no crime de extorsão, o ataque à liberdade é o meio e o patrimônio ou vantagem
econômica é o fim. No art. 158, do CP, você tem:

 Ataque à liberdade – Meio


 Vantagem econômica - Fim

É exatamente este fim especial que diferencia o art. 158, do art. 146, constrangimento ilegal. A diferença
do constrangimento ilegal para o delito de extorsão reside exatamente na finalidade do agente: vantagem
econômica.

O que está em negrito é exatamente o constrangimento ilegal e vamos ler o art. 146, para ver que ele
coincide exatamente com o que está em negrito.

Constrangimento Ilegal
Art. 146 - Constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, ou depois
de lhe haver reduzido, por qualquer outro meio, a capacidade de resistência, a não fazer o
que a lei permite, ou a fazer o que ela não manda: Pena - detenção, de 3 (três) meses a 1
(um) ano, ou multa.

O que está em negrito no art. 158 é, nada mais nada menos do que constrangimento ilegal. Se
transforma em extorsão graças ao miolo cinza. Se não fosse a finalidade em cinza o art. 158 seria idêntico ao
art. 146. Então, o art. 158, nada mais é, do que um constrangimento ilegal com a finalidade econômica.

Sujeito ativo – Qualquer pessoa. É um crime comum, que pode ser praticado por qualquer pessoa.
Cuidado quando o sujeito ativo for funcionário público. Aí você pode estar diante de um crime de concussão
(art. 316, do CP).

Sujeito passivo – Tratamos de um crime que protege dois bens jurídicos: patrimônio e liberdade
individual (meio para se atingir o fim patrimônio) e é o fim patrimônio que diferencia a extorsão do
constrangimento ilegal. Quem é, portanto, a vítima? Não é somente aquela ferida no patrimônio, mas também
a pessoa que, alheia ao patrimônio, sofreu a violência ou a grave ameaça. Então, se você for atacado em qualquer
um dos bens jurídicos, você é vítima. Não precisa ser o patrimônio e a liberdade individual. Os dois bens
jurídicos lesados não precisam estar reunidos na mesma vítima.

O que pune o art. 158? – O núcleo é “constranger”, portanto é constrangimento + finalidade de


locupletamento ilícito. E esse constrangimento pode ser praticado mediante violência ou grave ameaça. O crime
é um constrangimento com finalidade de locupletamento ilícito e o constrangimento pode ser praticado com
violência ou grave ameaça.

Roubo vs. Extorsão – Vocês sabem diferenciar no caso concreto o roubo da extorsão? Eu coloco a
arma na sua cabeça e digo: “passa a carteira!” Isso é roubo, eu subtraí, ou extorsão, eu extorqui? Antigamente
se falava, “ah, não tem importância porque é a mesma pena”. Agora a coisa pegou. Tem importância, sim. E
qual é a importância. Eu vou colocar um quadro, diferenciando roubo e extorsão. Vocês não podem confundir
o crime de roubo com o crime de extorsão.

Vamos usar a Fórmula de Frank, que tem várias fórmulas no direito penal e essa é uma delas.

 No roubo, o ladrão subtrai, já na extorsão, o extorsionário faz com que se lhe entregue –
Se você olhasse somente essa diferença, no exemplo acima, vocês concluiriam que houve extorsão.
Mas cuidado, temos que analisar as outras hipóteses
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 No roubo, o agente busca vantagem imediata; na extorsão, o agente busca vantagem


mediata, futura – Lembrem do exemplo: agora virou roubo, porque ele quer vantagem imediata.

 No roubo, a colaboração da vítima é dispensável; já na extorsão, a colaboração da vítima


é indispensável

Com esse quadro, não tem como você confundir no caso concreto. A doutrina presta atenção
principalmente na dispensabilidade ou indispensabilidade da colaboração da vítima. No exemplo da arma na
cabeça, “passa a carteira”, é roubo. Mesmo se a vítima não passasse a carteira, havia como subtraí-la sem que
ela colaborasse. Guardem esse quadro! Você só vai encontrar o crime de forma segura se você tiver o quadro
na cabeça atentando-se, principalmente, para a terceira diferença.

Isso não significa que não possa ser possível o concurso dos dois crimes no caso concreto. Eu não
estou dizendo que se tiver extorsão é impossível o roubo e vice-versa. Há vários julgados dos tribunais
superiores tratando disso. Olha o exemplo emblemático: o cara coloca a arma na sua cabeça e leva o carro e
depois manda passar o cartão do banco com a senha. Se você não der a senha, ele não consegue a vantagem
futura. Houve o roubo do carro, mais a extorsão do cartão do banco. Concurso de delitos. É perfeitamente
possível. É a posição do STJ. Exemplo clássico de concurso material de delitos: arma na cabeça, passa o carro!
Roubo consumado. Agora, arma na cabeça, passa a carteira e me dá a senha, extorsão. Se você não der a senha,
ele não tem como tirar a vantagem econômica. E tem concurso material. É a posição do STJ.

Tipo subjetivo – O crime do art. 158 é punido a título de dolo. É o dolo + finalidade específica, qual
seja, vantagem econômica indevida. E se a vantagem não for econômica? Há extorsão? E se a vantagem visada
for, por exemplo, sexual, não tem extorsão, mas crime contra a dignidade sexual. Se a vantagem não for
econômica, outro será o crime. A vantagem, necessariamente tem que ser econômica e tem que ser indevida.
E se ela for devida? Neste caso configura-se exercício arbitrário das próprias razões (art. 345, CP).

Consumação – Quando o crime de extorsão se consuma? Ele é material, depende do enriquecimento


indevido ou é formal, dispensando o locupletamento ilícito?

1ª Corrente: O crime é material, consumando-se com a obtenção da indevida vantagem econômica.


2ª Corrente: O crime é formal, consumando-se com o constrangimento, dispensando a obtenção da indevida
vantagem econômica.

Para a segunda corrente, se ocorrer a obtenção da vantagem econômica, é mero exaurimento. E o que
você faz com o exaurimento? Enfia na pena. Trabalha com o exaurimento na fixação da pena. Qual das duas
prevalece? A segunda corrente prevalece. Tem inclusive súmula do STJ:

STJ Súmula nº 96 - DJ 10.03.1994 - O crime de extorsão consuma-se


independentemente da obtenção da vantagem indevida.

Para discordar do STJ, você teria que adotar a primeira corrente. Crime material. Caiu para DPU e sabe
qual foi a resposta? Crime de mera conduta. Não tem nem doutrina defendendo essa porra! Onde que ele
arrumou isso? Se não quer dizer que é crime formal, a única coisa que sobra é dizer que é crime material. Eles
inventaram a mera conduta. Os candidatos recorreram, mas não adiantou nada. Outro dia eu vi um julgamento
no STF, e o Min. Joaquim Barbosa disse: o art. 2.º, da Lei 8.137 é formal ou de mera conduta, como se fossem
sinônimos. É o fim da picada!

Tem alguma repercussão prática isso? Claro que tem!

 Se você entende que o crime é material – a prescrição começa a correr da obtenção da vantagem. E, no
momento da obtenção, admite-se flagrante.

 Se você defende que o crime é formal – se você defende que o crime é formal, a prescrição começa a correr
do constrangimento. No momento da obtenção da vantagem, em regra, não admite flagrante porque você está diante
de mero exaurimento. O flagrante aqui é não de crime, mas de exaurimento.
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E para o STJ, nos termos da Súmula 96, o crime é formal.

Tentativa – As duas correntes admitem a tentativa, que é perfeitamente possível.

3.1. MAJORANTES DE PENA – Art. 158, § 1º

O § 1º do art. 158 traz majorantes de pena:

§ 1º - Se o crime é cometido por duas ou mais pessoas, ou com emprego


de arma, aumenta-se a pena de um terço até metade.

Tem alguma diferença para o roubo? O roubo tem cinco causas de aumento:

 Emprego de arma (inciso I) – O § 1º também prevê o emprego de arma. Então, tudo o que eu falei
sobre o emprego de arma no roubo se aplica aqui.
 Concurso de pessoas (inciso II) – Aqui também tem essa causa de aumento.
 Transporte de valores (inciso III) – Essa majorante não está prevista aqui, mas pode ser aplicada
na fixação da pena-base.
 Transporte de veículos para outro Estado (inciso IV) - Não tem aqui.
 Privação da liberdade (inciso V) – Tem aqui?

Se não cair isso, eu devolvo o dinheiro de vocês. Majorantes: roubo e extorsão. E só vai ter isso no seu
caderno:

No roubo, o § 2º, traz 5 majorantes: emprego de arma, concurso de pessoas, transporte de valores,
transporte para outro estado ou país e privação da liberdade da vítima.

Na extorsão:

O § 1º prevê o emprego de arma (e tudo o que eu falei sobre o emprego de arma no roubo, vocês
transportam para a extorsão, tudo!).

O § 1º fala em “cometido por duas ou mais pessoas”. É a mesma coisa que o concurso de pessoas do roubo?
Não é a mesma coisa! Vocês viram que quando se fala em concurso de pessoas, abrange partícipe e quando
fala em “cometido por duas ou mais pessoas”, na expressão não abrange partícipe. Então, a extorsão exige dois
ou mais executores e não abrange partícipes. No roubo, a expressão utilizada foi o “concurso de pessoas” que
abrange o partícipe. Já na extorsão, que fala em “cometido por duas ou mais pessoas” não abrange o partícipe.
Então, para incidir a majorante na extorsão, eu tenho que ter duas ou mais pessoas, pelo menos, executando o
crime.

A causa de aumento “transporte de valores” prevista no roubo, não aparece na extorsão, mas o juiz
pode considerar na fixação da pena-base.

Transporte de veículo para outro estado ou país – também não tem na extorsão. O juiz pode considerar
na fixação da pena-base.

Privação da liberdade – na extorsão não é majorante, é qualificadora do § 3º, parágrafo incluído pela
Lei 11.923/09.

3.2. QUALIFICADORAS – Art. 158, § 2º e 3º


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Antes de estudar o § 3º, vamos ver o § 2º e vejam se eu preciso explicar alguma coisa:

§ 2º - Aplica-se à extorsão praticada mediante violência o disposto no § 3º do


artigo anterior.

Tudo o que eu falei sobre o roubo qualificado se aplica à extorsão qualificada. Tudo o que eu falei no
§ 3º, do art. 157, vocês vão transportar para o § 2º, do art. 158. Vamos para o que mais interessa, que é o § 3º:

§ 3º Se o crime é cometido mediante a restrição da liberdade da vítima, e essa


condição é necessária para a obtenção da vantagem econômica, a pena é de reclusão, de 6
(seis) a 12 (doze) anos, além da multa; se resulta lesão corporal grave ou morte, aplicam-se
as penas previstas no art. 159, §§ 2º e 3º, respectivamente. (Acrescentado pelo L-011.923-
2009)

Como era o sequestro-relâmpago antes da Lei 11.923/09? Vamos analisar antes e depois. O sequestro-
relâmpago, expressão popular, vulgar, era previsto para qualquer das três situações.

ANTES da Lei 11.923/09:


I. O sequestro-relâmpago podia configurar o art. 157, § 2º, V quando o agente subtrai com violência e a
colaboração da vítima é dispensável.
II. O sequestro-relâmpago também podia configurar o art. 158, caput: o agente faz com que se lhe entregue e a
colaboração é indispensável.
III. O sequestro-relâmpago podia configurar também o próprio art. 159, do CP, onde o agente sequestra com
privação de curta duração. No art. 159, a colaboração de terceiro é indispensável.

A expressão popular “sequestro-relâmpago” era prevista para qualquer uma das três situações. No art.
157, § 2º, V configurava uma majorante e ainda configura. No art. 158, caput, era considerada pelo juiz na
fixação da pena base, porque não tinha majorante nem qualificadora nesse sentido. No art. 159, do CP, a
privação da liberdade é elementar do tipo.

Então, vejam como o sequestro-relâmpago vai trabalhar no âmbito da Lei 11.923/09: o sequestro-
relâmpago podia configurar um roubo majorado pela privação da liberdade, podia configurar extorsão e a
privação da liberdade era considerada na fixação da pena-base ou podia configurar um sequestro de curta
duração, porque a liberdade é elementar do tipo. Como ficou depois da Lei 11.923/09: continua configurando
as três situações.

DEPOIS da Lei 11.923/09:

I. Art. 157, § 2º, V – ficou igual


II. Art. 158, § 3º – passa de mera circunstância judicial a qualificadora com pena de 6 a 12 anos.
III. Art. 159 – ficou igual

Então, o que a Lei 11.923, resumindo e concluindo, fez? A única diferença, com o advento da Lei
11.923/09, foi transformar o sequestro-relâmpago do art. 158 em mera qualificadora. No mais está tudo igual.
Agora, o legislador foi brilhante porque ele chama apenas o art. 158, § 3º de sequestro-relâmpago. Ele adotou
o termo popular. Essa é uma grande crítica, pois será que ele não percebeu que essa era uma gíria, uma expressão
popular?

Agora, ao invés de circunstancia judicial é uma qualificadora com pena de 6 a 12 anos. E olha o que já
estão comentando: Mas o roubo majorado pela privação da liberdade é 4 a 10 anos + 1/3 até a metade. Tem
doutrina dizendo que isso é desproporcional. A doutrina que diz isso não está percebendo que existe um
aumento de pena. Reparem que não é de 4 a 10. É 4 a 10 + a majorante. Têm penas muito próximas, não traz
desproporcionalidade alguma. Basta você lembrar de comparar 4 a 10 com 1/3 até a metade. Quem defende a
desproporcionalidade é Cezar Roberto Bittencourt. Quem defende a proporcionalidade é Nucci.
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Olha que importante que eu vou falar agora: o roubo é hediondo quando advém morte (art. 157, § 3º
in fine). O art. 159 é sempre hediondo. E o art. 158 é hediondo? É hediondo também quando advém morte.
Sabe onde está isso? No art. 158, §2º, do CP. E olha o que diz a Lei 8.072/90 (Lei dos Crimes Hediondos) e
vocês vão encontrar os três crimes aqui:

Art. 1º - São considerados hediondos os seguintes crimes, todos tipificados no


Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940 - Código Penal, consumados ou tentados:
II - latrocínio (Art. 157, § 3º, in fine);
III - extorsão qualificada pela morte (Art. 158, § 2º);
IV - extorsão mediante seqüestro e na forma qualificada (Art. 159, caput e §§
1º, 2º e 3º);

O roubo é hediondo quando resulta da violência a morte. A extorsão é hedionda quando resulta da
violência a morte. A extorsão mediante sequestro é sempre hedionda, seja na forma simples ou qualificada.

Qual é o problema? É que existe morte na extorsão que não está no § 3º. E quando a morte advém do
sequestro-relâmpago é crime hediondo? Vocês estão entendendo aonde estou querendo chegar? O fato da
extorsão ter morte, é hediondo (§2º). O problema é que também tem morte na extorsão que está no § 3º. É
que quando foi feita a Lei dos Crimes Hediondos não tinha o sequestro-relâmpago da Lei 11.923.

Art. 158, § 3º, com morte, é hediondo?

1ª Corrente: Hoje prevalece que, por uma falha do legislador, o art. 158, § 3º, com morte, não é
hediondo. Fere o sistema legal da Lei dos Crimes Hediondos. Hoje prevalece que morte no
sequestro-relâmpago não é hediondo. Quando eu digo maioria, me refiro a Nucci, Bittencourt,
Rogério Greco. Só é hediondo o que está especificamente trazido na Lei 8.072/90. O legislador, ao
acrescentar o § 3º, no CP, acrescentasse o resultado morte também nos crimes hediondos. Se ele
assim não fez, nós não podemos fazer. É o que entende a maioria.

Eu discordo. Eu acho que é hediondo, sim. Quando nasceu a Lei dos Crimes Hediondos, o sequestro-
relâmpago do art. 158 estava no caput, como mera circunstância judicial. Então, se houvesse morte, o sequestro-
relâmpago estava abrangido pelo § 2º. Naquela época estava abrangido pelo § 2º. Pessoal, o § 2º qualifica o
caput, se o sequestro-relâmpago estava no caput e o § 2º era uma qualificadora do caput, o sequestro-relâmpago
com resultado morte era hediondo. Ele estava qualificado pela hediondez. O que a lei nova fez? Ela só retirou
esse modus operandi dando-lhe um parágrafo novo. Só isso! Continua sendo extorsão qualificada pela morte.
Qual é a vontade do legislador? É considerar extorsão com morte crime hediondo. Essa é a vontade do
legislador. O que a Lei 11.923/09 fez no § 3º? Colocou a extorsão com morte. Porém, criou-se um meio
especial, qual seja, restrição da liberdade. Não mudou em nada. A situação de morte é igual, logo, também é
hediondo. Aliás, seria um absurdo você punir a extorsão simples como hedionda e a extorsão agravada pelo
meio de execução com morte não ser hedionda. Seria absurdo! Você vai matar? Então priva a liberdade dele!
Porque se você matar sem privar a liberdade é hediondo. Então, priva da liberdade para você fugir da
hediondez. É absurdo! Não tem sentido dizer que não é hediondo.

2ª Corrente: “O que fez o legislador com o advento da Lei 11.923/09 foi apenas especificar uma das várias
formas de execução do delito de extorsão. Ele não criou delito novo.Explicitou uma de suas múltiplas possibilidades de
execução. Sem o § 3º, já era possível encaixar o sequestro-relâmpago com resultado morte na Lei dos Crimes
Hediondos. Conclusão: o sequestro-relâmpago do § 3º, do art. 158, com resultado morte é hediondo, tratando-se de
interpretação extensiva, única forma de chegar na real vontade do legislador.”

Mas prevalece a primeira corrente, 90% primeira corrente.

4. EXTORSÃO MEDIANTE SEQUESTRO – ART. 159

Extorsão Mediante Seqüestro


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Art. 159 - Seqüestrar pessoa com o fim de obter, para si ou para outrem,
qualquer vantagem, como condição ou preço do resgate:
Pena - reclusão, de 8 (oito) a 15 (quinze) anos.

Eu já disse que a extorsão mediante sequestro é SEMPRE hedionda, não importa se simples ou
qualificada.

Bens jurídicos tutelados: patrimônio, liberdade de locomoção e incolumidade pessoal da vítima.

Sujeito ativo: Quem, no Brasil, pode ser sequestrador? O tipo exige qualidade especial do agente?
Não. Qualquer pessoa pode ser sujeito ativo.

Sujeito passivo: Quem pode ser vítima? Pessoa jurídica pode ser vítima de extorsão mediante
sequestro? A vítima no crime não é só aquela que é vítima da liberdade de locomoção, mas qualquer outra que
suporta a lesão patrimonial. Então, é perfeitamente possível você privar a liberdade de locomoção alguém e
quem paga o resgate é a pessoa jurídica, que vai ser vítima do crime. Se quem paga o resgate pelo Silvio Santos
é o SBT, há duas vítimas: o Silvio Santos privado da locomoção e a pessoa jurídica privada do patrimônio.
Rogério Greco defende isso no livro dele.

Você priva da liberdade de locomoção um animal e pede um resgate para devolver. Que crime você
praticou? Você privou da liberdade o cachorro da Luiza e pede dinheiro para o resgate. Animal não pode ser
objeto material de delito de sequestro. Que crime é esse? Extorsão. Art. 158, do CP.

Núcleo objetivo - O que pune o art. 159? Ele tem um núcleo só: “sequestrar”. Mas onde está o cárcere
privado? Ele pune só sequestrar, mas e o cárcere privado? Aqui, o termo “sequestrar” foi utilizado no seu
sentido amplo, abrangendo cárcere privado. Então, por que se eu, no sequestro-relâmpago, faço uma
interpretação extensiva do que é hediondo e o pessoal acha que é errado? Por que você lê bigamia e sabe que
lá está escrito também a poligamia? Se você pode fazer interpretação extensiva aqui e na bigamia, por que não
permitir o sequestro-relâmpago com resultado morte como hediondo? É exatamente o mesmo raciocínio.

O crime é de execução livre. Pode ser antecedido de violência, grave ameaça, fraude ou qualquer outro
modo. Importante: a vítima não precisa ser removida de um lugar para o outro. É perfeitamente possível a
extorsão mediante sequestro sem que a vítima saia do local onde se encontra.
Tipo subjetivo - O crime do art. 159 é punido a título de dolo, mas não é somente dolo. É dolo com finalidade
especial. E no que consiste essa finalidade especial? Obter qualquer vantagem, como condição de preço ou
resgate. O art. 158 não falava em qualquer vantagem, mas em indevida vantagem econômica. O art. 159 não
fala mais em indevida vantagem econômica. Ele fala em qualquer vantagem. Então, eu pergunto: isso significa
que no art. 159, seja vantagem devida ou indevida configura o crime de extorsão mediante sequestro? Vantagem
não econômica configura esse crime? O art. 158 é claro: a vantagem buscada na extorsão deve ser indevida e
não só indevida, mas também de natureza econômica. O art. 159 a expressão que o legislador usa é “qualquer
vantagem”. Então, com essa expressão ampla e genérica, eu posso entender que são abrangidas todas as
vantagens, ainda que indevidas? Se você sequestrar alguém e pede o pagamento de uma vantagem indevida o
crime é o do art. 159? Se você sequestrar alguém e pedir uma vantagem moral, o crime é do art. 159? Prevalece
que a natureza de vantagem indevida e a natureza de vantagem econômica são expressões implícitas no art.
159. Tem que ser indevida e tem que ser econômica. Se devida, o crime é de exercício arbitrário das próprias
razões + sequestro. Então, prevalece que a indevida e a natureza econômica da vantagem são expressões
implícitas no tipo.

“De acordo com Nelson Hungria, a natureza indevida e econômica da vantagem são implícitas na redação do art. 159.
Se o sequestro visa obter vantagem devida, o crime será o de exercício arbitrário das próprias razões em concurso formal com o de
sequestro.”

Consumação - Quando o crime de extorsão mediante sequestro se consuma? Há duas correntes:

1ª Corrente: “Consuma-se com a privação da liberdade seguida da indevida exigência.” Reparem que para
essa corrente dispensa-se a obtenção da vantagem exigida. Logo, crime formal ou de consumação
antecipada.
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CRIMES CONTRA O PATRIMÔNIO

2ª Corrente: “O crime consuma-se com a privação da liberdade da vítima.” Para essa corrente, dispensa-se
a efetiva exigência, bem como o locupletamento do agente. O crime continua sendo formal. STF.

A diferença é que a primeira, além da privação, entende indispensável a concretização da exigência;


para a segunda corrente, basta a privação com a finalidade de exigir vantagem, pouco importando se foi ou não
exigida. O Supremo adota a segunda corrente. Para ambas, o recebimento do resgate é mero exaurimento que
você considera na fixação da pena.

O crime é permanente. Isto é, enquanto a vítima estiver privada da sua liberdade de locomoção, a
consumação se prolonga. Eu falei que a consumação se prolonga enquanto a vítima estiver privada. Então, o
que encerra o crime é a libertação do sequestrado e não o pagamento do resgate. Pagou o resgate e a vítima
não foi solta, o crime continuará protraindo-se no tempo. Então, cuidado! A consumação persiste enquanto o
sequestrado não for libertado. Pouco importa se já foi pago o resgate.

Quando eu falo que o crime é permanente, vocês têm que lembrar de três coisas:

1º) Súmula 711, do STF:

STF Súmula nº 711 - DJ de 13/10/2003 - A lei penal mais grave aplica-


se ao crime continuado ou ao crime permanente, se a sua vigência é anterior à cessação da
continuidade ou da permanência.

Se durante o período em que a vítima está sequestrada vier uma lei, ainda que mais grave, essa lei vai
ser aplicada. Vamos imaginar o sequestro do Abílio Diniz. Na época, o sequestro não era hediondo e o
sequestro dele foi o estopim para se tornar hediondo. Se a Lei dos Crimes Hediondos tivesse vindo antes do
fim do sequestro do Abílio Diniz, os seqüestradores iram responder por ela.

2º) Prisão em flagrante a qualquer tempo na permanência – caiu em concurso isso: “posso
prender em flagrante o sequestrador na hora do recebimento do resgate?” sim, desde que a vítima ainda não
tenha sido libertada. Se a vítima já foi libertada, aí dificilmente cabe flagrante, a não ser que seja o presumido.

3º) A prescrição só começa a correr depois de cessada a permanência – Não é depois de


pago o resgate! É depois de cessada a permanência.

O tempo de privação da liberdade interfere na consumação? Ficando na privação da liberdade por um


tempo muito pequeno o crime deixa de ser consumado? O tempo de privação interfere na pena! E não na
privação. Não há que se falar que a privação tem que durar tempo juridicamente relevante. O que é tempo
juridicamente relevante? Se for para a vítima, 10 segundos já é tempo juridicamente relevante. Prevalece que o
tempo da privação não interfere na consumação, mas na pena.

Tentativa – É possível tentativa de extorsão mediante sequestro? Sim, porque o ato de sequestrar é
plurissubsistente. A sua execução admite fracionamento em vários atos.

4.1. Qualificadoras – Art. 159, § 1º

§ 1º - Se o seqüestro dura mais de 24 (vinte e quatro) horas, se o


seqüestrado é menor de 18 (dezoito) ou maior de 60 (sessenta) anos, ou
se o crime é cometido por bando ou quadrilha:
Pena - reclusão, de 12 (doze) a 20 (vinte) anos.

São três qualificadoras que traz o dispositivo.

a) 1ª Qualificadora: Se durar mais do que 24 horas


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A primeira qualificadora confirma o que eu já falei para vocês, ou seja, que o tempo da privação pode
não interferir na consumação, mas pode interferir na pena. Se for mais de 24 horas, sequestro qualificado. Se
não for mais de 24 horas, sequestro simples. Eu falei que o que tem que durar mais de 24 horas é a privação da
liberdade, mesmo que o resgate tenha sido pago antes.

b) 2ª Qualificadora: Leva em conta a idade da vítima: Menor de 18 e maior de 60

O que importa é que no início ele seja menor, ainda que no fim seja maior. É ter menos de 18 no início
do sequestro. Começou o sequestro com menos de 18, o crime está qualificado, mesmo que tenha mais de 18
no fim. No caso do maior de 60 anos, inverte. Índice a qualificadora se você tiver mais de 60 antes de acabar o
sequestro, mesmo que no início, tenha menos de 60. É imprescindível que o agente conheça a idade da vítima
para evitar a responsabilidade penal objetiva. Já caiu isso em concurso e o examinador não deixou claro se o
agente sabia ou não que a vítima era maior de 60 anos. A prova tem que deixar isso bem claro, para evitar
responsabilidade penal objetiva.

c) 3ª Qualificadora: Cometido por quadrilha ou bando

Neste caso, esqueçam o art. 228, do CP, para evitar bis in idem. Se a quadrilha ou bando já qualifica o
crime, não pode configurar, também, delito autônomo. Então, esqueçam o art. 228.

4.2. Qualificadoras – Art. 159, § 2º e § 3º

§ 2º - Se do fato resulta lesão corporal de natureza grave: Pena - reclusão, de


16 (dezesseis) a 24 (vinte e quatro) anos.
§ 3º - Se resulta a morte: Pena - reclusão, de 24 (vinte e quatro) a 30 (trinta)
anos.

Eu vou ser bem breve nos comentários porque já comentamos isso no latrocínio.

Esses resultados qualificadores podem ser fruto de dolo ou culpa. Então, eu posso ter uma extorsão
mediante sequestro qualificada dolosamente pela lesão grave ou pela morte ou culposamente, pela lesão grave
e pela morte. São qualificadoras dolosas ou preterdolosas.

A pergunta que cai, no que diz respeito a extorsão mediante sequestro é a seguinte: “quem tem que
sofrer lesão grave? É o sequestrado ou qualquer pessoa ligada ao sequestro? Pode incidir a qualificadora quando
a morte atinge o policial que estourava o cativeiro? Neste caso, a extorsão é qualificada pela morte ou não?
Prevalece que esses resultados têm que atingir a pessoa do sequestrado.

4.3. Delação Premiada – Art. 159, § 4º

§ 4º - Se o crime é cometido em concurso, o concorrente que o denunciar à


autoridade, facilitando a libertação do seqüestrado, terá sua pena reduzida de um a dois
terços.

Quantos requisitos têm que ser preenchidos? Quais as condições para o agente se valer deste prêmio?

 Crime cometido em concurso


 O concorrente que o denunciar
 Facilitar a libertação do sequestrado

a) 1º Requisito: O crime tem que ser praticado em concurso de pessoas


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Não precisa ser quadrilha ou bando. Basta o concurso de pessoas. O delator não precisa ser um
quadrilheiro. Ele pode ser um mero partícipe no concurso de agentes. Antes de 1996, o requisito era a existência
de quadrilha ou bando. Agora não. Basta o concurso de agentes.

b) 2º Requisito: Que um dos concorrentes noticie à autoridade

Relata à autoridade quem são os comparsas, relata onde a vítima está. Quem é essa autoridade? Ele
tem que denunciar à autoridade. É autoridade em sentido amplo, abrangendo delegado, promotor, juiz, etc.

c) 3º Requisito: Que a delação seja eficaz

Só haverá prêmio para a delação eficaz. Tem que facilitar a libertação do sequestrado.

Olha o que caiu no concurso: se foi pago o resgate, a delação depende da recuperação do que foi pago
ou basta a liberação do sequestrado? É requisito? A recuperação do resgate não é requisito. Tem doutrina
dizendo, mas isso é absurdo. Requisitos são apenas esses três.

E qual é o prêmio para este delator? Redução de pena: a pena é reduzida de 1 a 2/3. Quanto maior o
auxílio, maior a redução. A diminuição é proporcional ao maior ou menor auxílio prestado pelo delator. A
redução é maior ou menor, proporcional ao auxílio prestado pelo delator.

5. ESTELIONATO – ART. 171

Estelionato
Art. 171 - Obter, para si ou para outrem, vantagem ilícita, em prejuízo alheio,
induzindo ou mantendo alguém em erro, mediante artifício, ardil, ou qualquer outro meio
fraudulento: Pena - reclusão, de 1 (um) a 5 (cinco) anos, e multa.

Bem jurídico tutelado – Patrimônio. Não vamos perder tempo. Me recuso.

Sujeito ativo – O art. 171 exige alguma qualidade especial do agente? Não. Trata-se de crime comum.
Não exige qualidade ou condição especial do agente. Aqui não há interesse.

Sujeito passivo – A questão passa a ter interesse na vítima. O sujeito passivo é comum. Qualquer
pessoa pode ser vítima de estelionato.

Observação 01: A vítima patrimonial pode não ser aquela que foi enganada. Aí haverá duas vítimas: a
pessoa lesada, diminuída no patrimônio, bem como a pessoa que foi enganada pelo agente. Isto se não coincidir
na mesma vítima. Isso é importante porque nenhuma das duas entra no rol de testemunhas. O MP fica com o
rol livre para nomear 8 pessoas.

Observação 02: A vítima deve ser capaz. Isso é importante, porque se a vítima é incapaz, o crime é o
do art. 173, do CP e não mais admite suspensão do processo (o estelionato é de 1 a 5).

Abuso de Incapazes
Art. 173 - Abusar, em proveito próprio ou alheio, de necessidade, paixão ou
inexperiência de menor, ou da alienação ou debilidade mental de outrem, induzindo
qualquer deles à prática de ato suscetível de produzir efeito jurídico, em prejuízo próprio ou
de terceiro: Pena - reclusão, de 2 (dois) a 6 (seis) anos, e multa.

Se você não tem conhecimento deste artigo, você vai aplicar o art. 171 e vai errar porque vai oferecer
suspensão do processo e não cabe suspensão do processo neste caso.
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Observação 03: A vítima deve ser certa. No caso de vítima incerta, o que eu tenho? Não tem mais
estelionato. Haverá crime contra a economia popular (Lei 1.521/51). Três exemplos de fraudes contra vítimas
incertas e que incidem nessa lei (cai em concurso, você não sabe da lei e joga no art. 171):

 Adulteração de balança
 Adulteração de taxímetro – o taxista altera para futuros clientes (vítimas incertas)
 Adulteração de bomba de gasolina – você adultera o medidor. Coloca menos gasolina do que
está marcando. Não se insere no exemplo desta lei a adulteração de combustível, que tem lei
especial.

5.1. Elementos estruturais do art. 171

Isso caiu no MP/PE. São eles:

a) Fraude

A fraude é o primeiro elemento estrutural do estelionato, e serve para quê? Ele se vale da fraude para
levar o seu patrimônio; não se vale de violência nem de grave ameaça, como no roubo. A fraude é o meio de
execução. Mas fraude para quê? Para induzir a vítima em erro? Só isso? Leiam o art. 171: ele fala em induzir ou
manter alguém em erro. Então, a fraude serve para induzir a vítima em erro ou manter a vítima em erro.

 No “induzir” é o agente quem cria a falsa percepção da realidade.


 No “manter a vítima em erro”, o agente aproveita-se do engano espontâneo da vítima e a fraude
serve para mantê-la nesse estado.

A sua denúncia tem que ser induzir a vítima em erro ou a mantê-la nesse estado. Se você imputar
induzir a vítima em erro para alguém que só a manteve nesse estado, sua denúncia é inepta. Reparem que é um
crime de ação múltipla. É a mesma coisa que você imputar a venda de drogas a uma pessoa que só a manteve
em depósito. Cuidado! A sua denúncia tem que explicar para quê serviu a fraude no evento.

A fraude é empregada de três formas:

 Mediante artifício
 Mediante ardil
 Mediante qualquer outro meio
Artifício – Nada mais é do que uso de objetos ou aparatos aptos a enganar. Por exemplo: “bilhete
premiado”, documentos falsos, disfarces, etc. A sua denúncia, além de dizer para que serviu a fraude, tem que
dizer o meio da fraude: artifício, ardil ou outro meio.

Ardil – Uma historinha com fins didáticos: quando você começa a namorar, você muda de vida. Você
abandona os seus amigos. Ela fica colocando coisa na sua cabeça. Você passa a odiar os seus amigos. Acabou
o namoro. Você pula da tribo dos mortos-vivos para a tribo dos vivos novamente. Você é um morto-vivo
tentando voltar pra vida antiga. Seus amigos sumiram e você não sabe mais o que fazer à noite. Aí você resolve
sair, guerreiro, sozinho. Você tá lá, camisa por dentro da calça, cintinho, morto-vivo. Entrou na fila da balada,
a mulher puxa um papo aí você pergunta: “você faz direito?” Ela some, você entra na balada pronto para dançar
a macarena. Roxette. Você chega no bar, outra mulher se aproxima e você conta que acabou o namoro. Aí a
mulher diz que o homem tem que sair com os amigos e coisa e tal. Você, lógico, pede em namoro. Dali a um
mês ela está igualzinha à sua ex. Você foi vítima de estelionato. Ela usou ardil. Então, o que é ardil? Enganar é
fraude. Ardil é conversa enganosa. Engana com a lábia, sem usar um objeto.

Outro meio – Sobra o que para outro meio se artifício é o uso de objetos e ardil é conversa enganosa? O
silêncio é muito utilizado para manter a vítima em erro. Já caiu em concurso se é possível estelionato por
omissão. É possível estelionato com o silêncio.

Essa fraude tem que ser apta a enganar. Se for fraude grosseira, é crime impossível.
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b) Obter indevida vantagem

Observação 01: No caso de vantagem devida, o crime é de exercício arbitrário das próprias razões.

Observação 02: Prevalece que a vantagem deve ser necessariamente econômica. Vantagem não
econômica não configura estelionato.

c) Prejuízo alheio - Prejuízo, obviamente, econômico.

5.2. Cola eletrônica

Cola eletrônica é estelionato? Uma pessoa vai com um pontinho na orelha fazer a prova e lá fora ficam
passando gabarito. Temos duas correntes dentro do Supremo:

Minoria do STF – Diz que a cola eletrônica configura estelionato porque existe vantagem econômica
indevida. Que vantagem econômica indevida? A vaga numa universidade pública, o cargo que vai te trazer
salário, etc. E existe prejuízo alheio. O prejuízo do concorrente que não foi aprovados por causa da sua fraude
e a própria instituição. Além disso, essa minoria do Supremo acha que configura falsidade ideológica porque o
agente insere no documento ideia de terceiro, e não ideia dele. Eu acho que forçou um pouco.

Maioria no STF – A maioria no Supremo diz que não há estelionato porque há ausência de vantagem
econômica (eu acho absurdo, claro que há vantagem econômica) e diz que também não há falsidade ideológica.
A ideia do terceiro é adotada pelo agente. Passa a ser também sua ideia. Logo, resumindo e concluindo, para a
maioria do Supremo a cola eletrônica é fato atípico. Carece de tipificação.

5.3. Hacker

O Hacker entra no sistema de um banco e começa a transferir dinheiro de uma conta para outra,
configura estelionato? O STJ já decidiu: é furto mediante fraude. E, ao decidir assim, inviabiliza a suspensão
condicional do processo.

5.4. A fraude bilateral exclui o crime?

O que é fraude bilateral? É a vítima também agir com má-fé. É a vítima se achar mais esperta que o
próprio espertalhão. A vítima acha que está passando a perna mas, na verdade, é ela que está sendo enganada.
O bilhete premiado é um exemplo.

1ª Corrente: O tipo não exige a boa-fé da vítima. Logo, a sua má-fé não exclui o crime (maioria,
inclusive posição do STF).

2ª Corrente: A lei não pode amparar a má-fé da vítima. Logo, a fraude bilateral exclui o crime. Essa
segunda posição é de Nélson Hungria.

5.5. Estelionato e documento falso

É perfeitamente possível o estelionato ser acompanhado de documentos falsos. O agente responde


por qual crime? Só pelo estelionato, só documento falso ou pelos dois?

1ª Corrente: Responde pelo estelionato + falsidade documental em concurso material. Responde


pelos dois porque os dois crimes protegem bens jurídicos diversos e um não pode absorver o outro. E concurso
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material porque há duas condutas produzindo dois resultados. Essa primeira corrente é a posição do STJ que,
no entanto, prevê exceção na Súmula 17. O STJ diz que responde pelos dois crimes em concurso material, mas
manda ter cuidado com a Súmula 17 que prevê uma exceção:

STJ Súmula nº 17 - DJ 28.11.1990 - Quando o falso se exaure no


estelionato, sem mais potencialidade lesiva, é por este absorvido.

Aí não tem dois crimes. O agente responde só pelo estelionato. Se o falso se exaure no estelionato, aí
o agente não responderá pelos dois crimes. Lendo a súmula contrario sensu, diz que quando o falso não se exaure
no estelionato, o agente responde pelos dois. Ex.: estelionato com cheque falsificado: o cheque se esgota no
estelionato. Aplico, neste caso, a súmula. Aquela folha de cheque se esgotou naquele estelionato. Agora,
estelionato com cartão de crédito falso. O falso não se esgotou no estelionato porque você sai da loja com o
cartão, com o instrumento falso e responderá pelos dois crimes (não se aplica a súmula neste caso).

2ª Corrente: Responde por estelionato + falsidade documental, porém o concurso é formal. A


segunda corrente concorda com a primeira no sentido de que não pode absorver porque os bens jurídicos são
diversos. Porém, o concurso é formal: uma conduta produz dois resultados. Na verdade, você tem uma conduta
dividida em vários atos. STF. É a corrente tradicional do STF, se bem que ultimamente eu vejo o STF
caminhando na primeira. Mas a corrente tradicional é essa.

3ª Corrente: Se o documento é público, absorve o estelionato. É o crime mais grave absorvendo o


crime menos grave. Só responde por falsidade documental. Minoria.
(Intervalo – 01:28:50)

5.6. Tipo subjetivo

O crime é: “Obter, para si ou para outrem, vantagem ilícita, em prejuízo alheio, induzindo ou mantendo alguém em
erro, mediante artifício, ardil, ou qualquer outro meio fraudulento.”

O crime é punido a título de dolo + finalidade específica (obter para si ou para outrem vantagem ilícita).
Sem grandes dificuldades: é punido a título de dolo com finalidade especial.

5.7. Consumação

Preste atenção: o crime de estelionato é de duplo resultado: ele se consuma com a obtenção da indevida
vantagem, seguida do prejuízo. Se faltar um dos dois, tentativa. Se faltar a indevida vantagem ou o prejuízo, é
tentativa.

Eu emprego a fraude e consigo obter da vítima um título de crédito. A partir do momento que eu
emprego a fraude, eu consigo obter da vítima uma nota promissória, estou diante do crime consumado ou
tentado? Vocês acabaram de anotar que o crime de estelionato é de duplo resultado. Para se consumar depende
da obtenção da vantagem econômica + prejuízo alheio. Se eu obtive uma nota promissória, o crime está
consumado? Anotem:

“Quando o agente, mediante fraude, consegue obter da vítima um título de crédito, tem-se crime consumado ou tentado?”

1ª Corrente: “Considerando que a obrigação assumida pela vítima já é um proveito adquirido pelo estelionatário,
tem-se crime consumado.”

2ª Corrente: “Enquanto o título não é convertido em valor material, não há efetivo proveito do agente, respondendo
por tentativa.” esta corrente é a mais correta. O crime é de duplo resultado. Enquanto o título não for convertido
em matéria, não tem proveito, não tem prejuízo. É a mais correta exatamente pelo fato de ser um crime de
duplo resultado.

5.8. Estelionato Privilegiado – Art. 171, § 1º


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§ 1º, Art. 171. Se o criminoso é primário e é de pequeno valor o prejuízo, o juiz


pode aplicar a pena conforme o disposto no art. 155, § 2º.

Ou seja, o que trata o art. 155, § 2º? Do furto privilegiado, ou seja, o art. 171, § 1º, prevê o furto
privilegiado. Cuidado com os requisitos. Pegadinha de primeira fase:

 O furto privilegiado ou furto mínimo tem como requisitos: primariedade do agente + pequeno
valor da coisa subtraída.

 O estelionato privilegiado ou estelionato mínimo, por sua vez, tem como requisitos:
primariedade do agente + pequeno valor do prejuízo.

Cuidado! No furto, o pequeno valor é da coisa. No estelionato, o pequeno valor é do prejuízo.

5.9. Subtipos de Estelionato – Art. 171, § 2º

Nos subtipos do § 2º é indispensável o mesmo rol dos elementos estruturais. Os subtipos do § 2º


continua exigindo fraude, obtenção de indevida vantagem e prejuízo alheio. Os três elementos estruturais do
caput se repetem no § 2º. Se no caput há fraude, obtenção de indevida vantagem e prejuízo alheio, no § 2º,
continuo encontrando fraude, obtenção de indevida vantagem e prejuízo alheio.

Disposição de Coisa Alheia Como Própria


§ 2º - Nas mesmas penas incorre quem: I - vende, permuta, dá em pagamento,
em locação ou em garantia coisa alheia como própria;

Quem é o sujeito ativo aqui, esse que faz caridade com chapéu alheio? O sujeito ativo é qualquer
pessoa. O crime é comum. Hoje em dia, quando o examinador pergunta sobre estelionato, ele quer saber dos
subtipos porque o caput está batidão.

Configura o crime do inciso I o condômino que vende a coisa indivisa como se fosse o único dono?
Pratica esse crime? Sim. Prevalece que abrange o condômino que aliena coisa indivisa como se só dele fosse.

Quem é a vítima? Quem são as duas vítimas? O adquirente de boa-fé e o real proprietário. Se há duas
vítimas, estou diante de um crime de dupla subjetividade passiva.

Vocês perceberam que o agente permuta, dá em garantia, etc, coisa alheia como própria. O objeto
material do crime é a coisa alheia. Guardem isso, porque é exatamente um dos pontos que diferenciam o inciso
I do inciso II. No inciso I, o objeto material é a coisa alheia alienada como se própria fosse. No inciso II, o
objeto material é a coisa própria. No I, o objeto material e a conduta recaem sobre a coisa alheia.

O inciso I traz vários negócios jurídicos (vender, permutar, dar em pagamento, etc.). Esse é um rol
taxativo ou exemplificativo? Anotem no final do inciso I: “compromisso de compra e venda” (?) Vocês estão
vendo que o compromisso de compra e venda não está abrangido no rol do inciso I. E isso está caindo em
concurso. O examinador coloca arbitrariamente o compromisso de compra e venda, só que o rol é taxativo.
Não abrange o compromisso de compra e venda. Se alguém se compromete a vender uma coisa que é minha
como se dela fosse, até pratica o crime, mas é o crime do caput. O compromisso de compra e venda cai no caput
porque não deixa de haver fraude e prejuízo alheio.

Quando esse crime se consuma? Eu falei: os subtipos precisam dos mesmos elementos estruturais. O
caput é crime de duplo resultado. Se consuma com a obtenção da vantagem seguida do prejuízo. O caso do §
2º, I também é crime de duplo resultado. Se consuma com a obtenção da vantagem seguida do prejuízo.

Se a coisa alheia for móvel, quando você transfere e propriedade? Com a tradição. A transferência da
propriedade se dá com a tradição. E se for coisa imóvel? É com o registro. O crime para consumar-se precisa
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da tradição no caso de coisa móvel e da alteração do registro no caso de coisa imóvel? A tradição, a escritura,
são dispensáveis ou indispensáveis? Você tem um copo de ouro que eu vendo como se fosse meu. A pessoa
me pagou pelo copo. Eu não entreguei o copo. Eu já tive vantagem e ela já teve prejuízo. Eu preciso entregar
o copo para que ela tenha prejuízo e eu tenha vantagem? Não. O crime dispensa a tradição no caso de coisa
móvel ou a alteração no registro no caso de coisa imóvel.

Agora, se o estelionatário alterar o registro se passando por proprietário, praticou mais um crime:
falsidade ideológica, além do estelionato. Se o estelionato for seguido da alteração do registro, além do
estelionato, ele responde por falsidade ideológica. Essa é, inclusive a posição de Nelson Hungria.

Furtador que vende a coisa furtada como se fosse dono pratica quantos crimes? Ele vende o carro
furtado como se fosse dono. Responde pelo furto e pelo estelionato?

1ª Corrente: Prevalece que o estelionato é o post factum impunível. É o modo que ele encontrou a
vantagem no furto. Fato posterior impunível, princípio da consunção. Prevalece que ele responde
apenas pelo furto do veículo. Isso prevalece. Francisco de Assis Toledo.

2ª Corrente: Mas tem minoria que entende que responde pelos dois crimes em concurso material.
É a posição institucional do MP/SP. E por que essa posição entende assim? Porque essa minoria vê
que há duas vítimas distintas. O furtador responde também pelo estelionato em concurso material.

Eu vendi seu carro como se fosse meu. Aí eu comprei o seu carro que eu já vendi como se fosse meu.
Isso exclui o crime? Anotem o seguinte: “Efetivada a alienação, ainda que o agente regularize posteriormente o domínio, o
crime permanecerá (pode configurar arrependimento posterior).”

Alienação ou Oneração Fraudulenta de Coisa Própria


§ 2º - Nas mesmas penas incorre quem: II - vende, permuta, dá em pagamento
ou em garantia coisa própria inalienável, gravada de ônus ou litigiosa, ou imóvel que
prometeu vender a terceiro, mediante pagamento em prestações, silenciando sobre qualquer
dessas circunstâncias;

Está trabalhando com alienação fraudulenta de coisa própria. Nós vimos que no inciso I o objeto
material é a coisa alheia. Aqui, o objeto material é a coisa própria. E aqui, já ajuda para definir o sujeito ativo:
o proprietário. E quem é a vítima? O adquirente de boa-fé.
O que pune: “vender, permutar, dar em pagamento ou em garantia coisa própria inalienável gravada de ônus ou
litigiosa ou imóvel que prometeu vender a terceiro, mediante pagamento em prestações, silenciando sobre qualquer dessas
circunstâncias.”

Eu vendi para uma pessoa um imóvel gravado com cláusula de inalienabilidade. Pratiquei o crime? O
seu problema traz o seguinte: A vendeu para B um imóvel que estava gravado de inalienabilidade. Vendeu mais
barato por causa da cláusula. Cadê a fraude, que é o primeiro dos elementos estruturais? “Silenciando sobre
qualquer dessas circunstâncias.” eis a fraude! Então, não basta vender imóvel inalienável. Tem que vender
imóvel inalienável silenciando sobre a cláusula de inalienabilidade. Não basta vender imóvel inalienável. Não
basta vender coisa litigiosa. Tem que vender silenciando sobre a disputa. Senão, não tem fraude. Você tem que
descobrir na prova se ele silenciou ou não. Se não silenciou aí passa a ilícito civil.

Quando o crime se consuma? Continua sendo de duplo resultado. Precisa da vantagem e do prejuízo.

Defraudação de Penhor
§ 2º - Nas mesmas penas incorre quem: III - defrauda, mediante alienação não
consentida pelo credor ou por outro modo, a garantia pignoratícia, quando tem a posse do
objeto empenhado.

Agora vocês vão ter uma verdadeira aula de direito civil comigo. Eu estou tratando deu ma garantia
pignoratícia. Eu estou no direito real de garantia, chamado penhor. Pergunto: em regra, a coisa empenhada fica
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na posse de quem? No contrato pignoratício, em regra, a coisa empenhada fica com o credor. Mas,
excepcionalmente, a coisa empenhada pode ficar na posse do devedor. E é aqui a hipótese do inciso III, onde
o devedor, na posse da coisa empenhada defrauda a garantia em prejuízo do credor.

 Sujeito ativo – O devedor no contrato pignoratício.


 Sujeito passivo – A vítima é o credor.

Estou diante de um crime bipróprio.

O que o devedor faz? O devedor defrauda a garantia ou alienando a coisa ou de qualquer outro modo,
por exemplo, adquirindo a coisa. Então, o que o devedor no contrato pignoratício faz? Ele aliena a coisa sem
consentimento do credor ou destrói a coisa em prejuízo do credor. Oque importa é que ele, de qualquer modo,
defraude a garantia.

Quando se consuma? É crime de duplo resultado, crime material.

Observação - Tem jurisprudência minoritária dizendo que esse crime é formal. Ou seja, se consuma
com a mera defraudação, dispensando obtenção de indevida vantagem. Mas É minoria. O crime é de duplo
resultado, material, mas tem minoria falando que é formal, dispensa o enriquecimento, locupletamento.

Defraudação de penhor = art. 171, § 2º, III, do CP. Quando eu falo de penhor, estou falando de coisa
empenhada. Estou falando de um direito real de garantia. Contrato pignoratício. Agora, quero saber que crime
configura a defraudação de penhora. Quando falo de penhora, estou falando de coisa penhorada, estou falando
de garantia à execução. Não se confunde. Cuidado na prova! Tem que ver se é defraudação de penhor ou de
penhora. A defraudação de penhora levou o devedor à insolvência, ou seja, o seu passivo ultrapassou o ativo?
Se o devedor foi levado à insolvência, haverá o crime do art. 179, do CP (fraude à execução). Se a defraudação
da penhora levou o devedor à insolvência, haverá a incidência do art. 179, do CP:

Fraude à Execução
Art. 179 - Fraudar execução, alienando, desviando, destruindo ou danificando
bens, ou simulando dívidas: Pena - detenção, de 6 (seis) meses a 2 (dois) anos, ou multa.

Reparem que a fraude é de menor potencial ofensivo, diferente da defraudação de penhor.

Se o devedor, apesar da defraudação, continua em estado de solvência (ativo suplanta o passivo),


estamos diante de mero ilícito civil. Antigamente, ele poderia até ser preso como depositário infiel. Mas hoje,
o Supremo vem negando essa prisão do depositário infiel.

Fraude na Entrega de Coisa


§ 2º - Nas mesmas penas incorre quem: IV - defrauda substância, qualidade ou
quantidade de coisa que deve entregar a alguém;

Sujeito ativo – Qualquer pessoa juridicamente obrigada a entregar algo a alguém. Não escrevam mais
do que isso no sujeito ativo.

Sujeito passivo – É a pessoa prejudicada com o recebimento.

Reparem que a ação nuclear continua a mesma: defraudar, agir com fraude. E aqui, o que o sujeito
ativo faz? Defrauda a qualidade, substância de coisa que deveria entregar a alguém.

Substância – Natureza da coisa. Exemplo: você substitui os diamantes por vidro. Você defrauda a
substância, a natureza da coisa.

Qualidade – Atributo da coisa. Também pratica esse crime quem defrauda a qualidade. Entrego arroz
de segunda ao invés de arroz de primeira.
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Quantidade da coisa – Relacionada à números: peso, dimensão, quantidade, etc.

O crime o inciso IV, que estamos estudando é de duplo resultado. Vejam: olha a pergunta que caiu no
MP/TO: você levou sua TV para consertar. O comerciante trocou as peças da sua TV e colocou peças
recondicionadas. O comerciante trocou as peças por peças recondicionadas. Praticou esse crime? Cuidado! Se
tiver uma relação de comércio, fraude no comércio, o crime é o do art. 175, do CP.

Fraude no Comércio
Art. 175 - Enganar, no exercício de atividade comercial, o adquirente ou
consumidor:
I - vendendo, como verdadeira ou perfeita, mercadoria falsificada ou deteriorada;
II - entregando uma mercadoria por outra:
Pena - detenção, de 6 (seis) meses a 2 (dois) anos, ou multa.

A maioria entende que o art. 175, do CP foi revogada. Hoje, a fraude do comércio é a Lei 8.078/90 ou
Lei 8.137/90, crime do CDC ou Contra as Relações de Consumo. E é uma zona isso. Tem situações que podem
se encaixar tanto na 8.078/90, quanto na 8.137/90. E aí o candidato pensa: “já sei: nesses casos, eu vou aplicar
a Lei 8.137 porque ela é posterior. Cuidado porque apesar de ser posterior quanto ao número, ela é anterior
quanto à vigência porque a vigência do CDC foi posterior. O 8.137/90 teve vacatio longa. O art. 175 foi
revogado. Por qual? Ah, em alguns casos por uma e em outros casos por outra. Tá errado! A Lei 8.137/90 é
que veio primeiro. É uma zona! Vocês já viram os crimes na relação de consumo? Qual é a dica que eu dou?
Vão no código do Alberto Silva Franco que ele tem uma tabela dizendo quais os artigos estão prevalecendo na
8.078 em face da 8.137 e vice-versa. Ele montou uma tabela. Isso é difícil mesmo.

Fraude para Recebimento de Indenização ou Valor de Seguro


§ 2º - Nas mesmas penas incorre quem: V - destrói, total ou parcialmente, ou
oculta coisa própria, ou lesa o próprio corpo ou a saúde, ou agrava as consequências da lesão
ou doença, com o intuito de haver indenização ou valor de seguro;

É pressuposto deste crime a existência de um contrato de seguro vigente e válido. Se o contrato de


seguro não está mais válido ou vigente, não haverá chance de conseguir vantagem, logo, o crime é impossível.

Sujeito ativo: o segurado, podendo o beneficiário do contrato de seguro figurar como partícipe.

Vítima: a seguradora.

Você destrói o seu carro, joga no Tietê e diz que foi vítima de furto, para conseguir o valor da
indenização do seguro que não está nem perto do que o mercado te paga pelo carro. Coloca fogo no seu carro,
etc. No tipo penal, a conduta é clara. Esse crime é material ou formal? Até agora vimos que o estelionato é
crime material. Aqui, é o único caso em que a jurisprudência, majoritariamente, entende que o crime é formal.
O único estelionato que não é formal, que não é de duplo resultado, é este. É um caso de estelionato formal.
A jurisprudência majoritária diz que é formal porque dispensa a obtenção da vantagem.

Fraude no Pagamento por Meio de Cheque


§ 2º - Nas mesmas penas incorre quem: VI - emite cheque, sem suficiente provisão
de fundos em poder do sacado, ou lhe frustra o pagamento.

Sujeito ativo – Esse é um estelionato muito comum (fraude no pagamento por meio de cheque). Sujeito
ativo é quem emite o cheque. O crime é emitir cheque. Abrange o endossante? Aquele que endossa o cheque,
sabendo que não tem fundos pratica o crime? Endossante de cheque sem fundo pratica crime? É essa a pergunta
megathunderblaster que vai cair na sua prova;

“Endossante pratica o crime?”


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1ª Corrente: “Endossante não emite o cheque. Logo, não pratica o crime, salvo na condição de partícipe.
(Nucci).”

2ª Corrente: “A expressão 'emitir' abrange o endosso, pois deve ser tomada no seu sentido amplo. (Noronha).”

A tendência, em concurso, é prevalecer a primeira. Sempre que caiu, caiu de acordo com a primeira
corrente.

O que pune o inciso VI? Duas condutas: emitir cheque sem fundos ou frustrar o pagamento. Dois são
os comportamentos punidos:

 Emitir cheque sem provisão de fundo


 Frustrar o pagamento do cheque emitido – Por exemplo, encerrando a conta ou sustando o
cheque.

Nas duas hipóteses, é imprescindível má-fé. Súmula 246, do STF:

STF Súmula nº 246 - 13/12/1963 - Comprovado não ter havido fraude,


não se configura o crime de emissão de cheque sem fundos.

Claro! A fraude é um dos elementos estruturais do estelionato.

E se o cheque sem fundos for pós-datado? É crime? Você tem que perquirir se, apesar de pós-datado,
gerou fraude. Anotem:

“A emissão de cheque pós-datado, em regra, não configura o crime, deixando de ser ordem de pagamento à vista,
revestindo-se das características de nota promissória (garantia do crédito). Se apesar de pós-datado houver a fraude, haverá o
estelionato do caput.”

É preciso analisar se houve ou não fraude na emissão desse cheque.

Como fica a reparação do dano nessa modalidade de estelionato? Ela é orientada não pelo
arrependimento posterior, mas pela Súmula 554, do STF:

STF Súmula nº 554 - DJ de 5/1/1977 - O pagamento de cheque


emitido sem provisão de fundos, após o recebimento da denúncia, não obsta ao
prosseguimento da ação penal.

Essa súmula só se aplica a uma espécie de estelionato: cheque sem fundos. Não faz referência a frustrar
pagamento. Porém, a maioria estende para o “frustrar pagamento”. Não vê rezões para que só seja aplicada ao
cheque sem fundos.

Competência para processar esse estelionato: Súmula 521, do STF:

STF Súmula nº 521 - DJ de 12/12/1969 - O foro competente para o


processo e julgamento dos crimes de estelionato, sob a modalidade da emissão dolosa de
cheque sem provisão de fundos, é o do local onde se deu a recusa do pagamento pelo sacado.

Essa súmula não se aplica para frustrar pagamentos. A Súmula 521 só se aplica para cheque sem fundos.
A maioria, no entanto, admite. Então, cuidado! A Súmula nasceu para cheque sem fundos, mas não para frustrar
pagamento. Na prática, a maioria abrange porque não vê sentido na diferença ou na restrição.

O STJ tem uma súmula que aplica esse raciocínio (local do banco que recusa) que é a seguinte:

STJ Súmula nº 244 - DJ 01.02.2001 - Compete ao foro do local da recusa


processar e julgar o crime de estelionato mediante cheque sem provisão de fundos.
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Agora, quando o cheque for falsificado, esqueçam o local da recusa pagamento! No caso do cheque
falsificado é o local da obtenção da vantagem (Súmula 48):

STJ Súmula nº 48 - DJ 25.08.1992 - Compete ao juízo do local da obtenção


da vantagem ilícita processar e julgar crime de estelionato cometido mediante falsificação de
cheque.

Resumindo:
 Cheque sem fundos – Súmula 521, STF e Súmula 244, STJ – Local é o da recusa do pagamento.
 Frustrar pagamento – Apesar de não expressas, a maioria aplica a Súmula 521 e 244. eu não
falei que é unânime, mas não há razão para diferenciar. O local competente aqui é a recusa do
pagamento.
 Cheque falsificado – Súmula 48, do STJ: o local competente é o da obtenção da vantagem.

Observação 01: vocês não podem confundir “emitir cheque” e “frustrar o pagamento” com emitir
cheque de conta já encerrada. Uma coisa é você primeiro emitir o cheque e num segundo momento encerrar a
conta. Aqui incide o art. 171, § 2º, VI. Se você encerra a conta e cai por aí, num segundo momento emitindo o
cheque, isso é caput. Vejam que não incide as súmulas a que fiz referência.

Observação 02: é crime emitir cheque sem fundo para pagar dívida de jogo? O art. 814, do Código
Civil diz:
Art. 814. As dívidas de jogo ou de aposta não obrigam a pagamento; mas não
se pode recobrar a quantia, que voluntariamente se pagou, salvo se foi ganha por dolo, ou
se o perdente é menor ou interdito.

Portanto, não pratica crime quem emitiu cheque sem fundo para pagar dívida de jogo porque essa
dívida é incobrável. Cheque sem fundos para pagar dívida de jogo ou aposta não é crime porque são dívidas
incobráveis.

Na aula de hoje, vamos terminar estelionato. Ficou faltando somente o § 3º, que eu tenho certeza que vai cair
por conta de uma discussão recente que se iniciou no Supremo, aliás, numa liminar dada pelo novo Ministro
Toffoli.

5.10. Causa de aumento de pena – Art. 171, § 3º

§ 3º - A pena aumenta-se de um terço, se o crime é cometido em detrimento de


entidade de direito público ou de instituto de economia popular, assistência social ou
beneficência.

O § 3º não é qualificadora! É causa de aumento de pena!

Antes de mais nada, uma pergunta: eu aplico o § 3º se o estelionato é praticado em face do Banco do
Brasil? Não! Não se aplica o § 3º neste caso porque Banco do Brasil é sociedade de economia mista, entidade
de direito privado.

Eu aplico essa causa de aumento no estelionato contra o Instituto da Previdência Social? Sim. Tem até
súmula nesse sentido:

STJ Súmula nº 24 - DJ 10.04.1991 - Aplica-se ao crime de estelionato, em


que figure como vítima entidade autárquica da Previdência Social, a qualificadora do § 3º
do Art. 171 do Código Penal.
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A súmula 24 não chama o § 3º de majorante, mas de qualificadora. Olha que redação atécnica! O § 3º
não traz qualificadora. É causa de aumento, da 3ª fase da aplicação da pena. “Rogério, o STJ errou?” Não! O
STJ não erra, ora! Ele usou o termo em sentido amplo.

Agora a pergunta que eu tenho certeza que vai cair: se não cair na sua prova em 2010, eu devolvo o
que você paga. Estelionato contra a Previdência Social, aquele estelionato clássico, aquele que você entrega para
a autarquia um atestado falso e graças a ele você está recebendo o benefício indevido. A pessoa mediante uma
certidão, atestado ou documento falso, engana a previdência e, todo mês, é depositado na conta desse
estelionatário um benefício indevido. Eu quero saber o seguinte: esse estelionato clássico é um crime
instantâneo, de efeitos permanentes ou permanente? Em fevereiro de 2009 você recebe um benefício indevido
porque apresentou um atestado falso. Em março você continua recebendo, abril, maio, junho e por aí vai. Esse
crime se consumou em fevereiro e os seus efeitos perpetuam no tempo ou este crime é permanente com a
consumação que se protrai durante todo o período do benefício indevido? Eu quero saber: o crime se
consumou em fevereiro e o que se protrai são os seus efeitos ou o crime se consuma durante todo o tempo do
recebimento indevido?

 STJ – Entende que o crime é permanente.


 STF – Entende que o crime é instantâneo de efeitos permanentes.

E qual a aplicação prática disso? Qual o interesse prático disso? São dois:

1ª repercussão prática:

 Se você entende que o crime é instantâneo, lá no início deve ocorrer o flagrante.


 Se você entende que é permanente, durante todo o período, é possível o flagrante.

E sabe o que aconteceu? Isso está no STF, exatamente discutindo isso. Se você entende que o crime é
instantâneo, admite o flagrante apenas no recebimento da primeira vantagem porque as demais configuram
mero exaurimento do crime. Se você entende que o crime é permanente, ele admite flagrante a qualquer tempo
do recebimento. Enquanto você não parar de receber a indevida vantagem, o crime admite flagrante.

2ª repercussão prática:

 Se você entende que é instantâneo de efeitos permanentes, a prescrição começa a correr do


recebimento da primeira vantagem. As demais configuram mero exaurimento
 Se você entende que o crime é permanente, a prescrição só começa a correr depois de cessada a
permanência. Enquanto está recebendo a indevida vantagem, não corre a prescrição.

Depois vocês não podem esquecer da Súmula 711 do STF que é de aplicação somente para crime
continuado ou permanente. Não se aplica ao crime instantâneo de efeitos permanentes (salvo se em
continuidade delitiva):

STF Súmula nº 711 - DJ de 13/10/2003 - A lei penal mais grave aplica-


se ao crime continuado ou ao crime permanente, se a sua vigência é anterior à cessação da
continuidade ou da permanência.

Está no Supremo exatamente isso. Há uma liminar do Min. Toffoli confirmando a posição do STF e
contrariando a posição do STJ.

Com isso, praticamente terminamos estelionato. Para terminar, temos que analisar duas leis especiais
que tratam de estelionatos especiais.

5.11. Estelionatos especiais


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a) Estelionato da Lei 7.492/85:

A Lei dos Crimes Contra o Sistema Financeiro tem estelionato especial (Lei 7.492/96):

Art. 6º Induzir ou manter em erro, sócio, investidor ou repartição pública


competente, relativamente a operação ou situação financeira, sonegando-lhe informação ou
prestando-a falsamente: Pena - Reclusão, de 2 (dois) a 6 (seis) anos, e multa.

Reparem que é um estelionato especial que não admite suspensão do processo.

b) Estelionato da Lei 11.101/05 (Lei de Falências):

Fraude a Credores
Art. 168. Praticar, antes ou depois da sentença que decretar a falência, conceder
a recuperação judicial ou homologar a recuperação extrajudicial, ato fraudulento de que
resulte ou possa resultar prejuízo aos credores, com o fim de obter ou assegurar
vantagem indevida para si ou para outrem. Pena - reclusão, de 3 (três) a 6 (seis) anos, e
multa.

Da parte grifada se conclui o quê? Até agora vimos que o estelionato é, em regra, um crime material.
Na Lei de Falência, não. O art. 168 trata de um crime formal. Haverá o crime se resultar ou for possível prejuízo
aos credores. Na Lei de Falências, o crime não é material, mas formal. É imprescindível que possa resultar no
prejuízo. O fato de resultar ou não é circunstância que o juiz vai dosar na pena. Isso é importante! Vai cair. E
o crime é punido independentemente de o ato do devedor falido ter ocorrido antes ou depois de decretada a
falência.

6. RECEPTAÇÃO – ART. 180, CP

6.1. Topografia da Receptação

Receptação
Art. 180 - Adquirir, receber, transportar, conduzir ou ocultar, em proveito
próprio ou alheio, coisa que sabe ser produto de crime, ou influi para que terceiro, de boa-
fé, a adquira, receba ou oculte: Pena - reclusão, de 1 (um) a 4 (quatro) anos, e multa.

Receptação Qualificada
§ 1º - Adquirir, receber, transportar, conduzir, ocultar, ter em depósito,
desmontar, montar, remontar, vender, expor à venda, ou de qualquer forma utilizar, em
proveito próprio ou alheio, no exercício de atividade comercial ou industrial, coisa que deve
saber ser produto de crime: Pena - reclusão, de 3 (três) a 8 (oito) anos, e multa.

§ 2º - Equipara-se à atividade comercial, para efeito do parágrafo anterior,


qualquer forma de comércio irregular ou clandestino, inclusive o exercício em residência.

§ 3º - Adquirir ou receber coisa que, por sua natureza ou pela desproporção entre
o valor e o preço, ou pela condição de quem a oferece, deve presumir-se obtida por meio
criminoso: Pena - detenção, de 1 (um) mês a 1 (um) ano, ou multa, ou ambas as penas.
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§ 4º - A receptação é punível, ainda que desconhecido ou isento de pena o autor


do crime de que proveio a coisa.

§ 5º - Na hipótese do § 3º, se o criminoso é primário, pode o juiz, tendo em


consideração as circunstâncias, deixar de aplicar a pena. Na receptação dolosa aplica-se o
disposto no § 2º do Art. 155.

§ 6º - Tratando-se de bens e instalações do patrimônio da União, Estado,


Município, empresa concessionária de serviços públicos ou sociedade de economia mista, a
pena prevista no caput deste artigo aplica-se em dobro.

 Caput – Receptação dolosa simples


 § 1º - Receptação dolosa qualificada (certeza que vai cair isso)
 § 2º - Cláusula de equiparação
 § 3º - Receptação culposa
 § 4º - Dispositivo explicativo
 § 5º - Perdão judicial e privilégio
 § 6º - Aumento de pena (majorante)

Bem jurídico tutelado na receptação – Patrimônio. Se sua resposta ficar só nisso, será idêntica a
todos os candidatos. Se cai essa pergunta é pra você falar mais, colocar um diferencial na prova. Tem doutrina
que, secundariamente, entende que fere a administração da justiça. Sim, porque a partir do momento que o
produto do crime sai do furtador, passa para outra pessoa e por aí vai, você está dificultando a recuperação do
produto. Você está dificultando a própria administração da justiça.

“Temos doutrina lecionando que o art. 180 protege também a administração da justiça embaraçada pela ação do
receptador (Noronha).”

6.2. Receptação dolosa simples – Art. 180, caput

Receptação
Art. 180 - Adquirir, receber, transportar, conduzir ou ocultar, em proveito
próprio ou alheio, coisa que sabe ser produto de crime, ou influi para que terceiro, de boa-
fé, a adquira, receba ou oculte: Pena - reclusão, de 1 (um) a 4 (quatro) anos, e multa.

O art. 180, caput, traz a receptação dolosa simples.

a) Sujeito ativo

Qualquer pessoa, não podendo essa pessoa ter sido coautora ou partícipe do crime anterior, do crime
do qual provenha a coisa. Olha como você começa a diferenciar sua resposta do concorrente. Você vai dizer
que é praticado por qualquer pessoa, mas vai alertar: qualquer pessoa que não tenha concorrido para o crime
anterior porque, nesse caso, ela não responde por receptação, mas pelo crime anterior. Exemplo: nós furtamos
um veículo. Dividir ao meio, não dá. Eu compro a sua parte. Neste caso não estarei praticando receptação
porque participei do crime anterior. Respondo só por furto.

É possível receptação de coisa própria? – Caiu isso para delegado/PR (acho). O proprietário do bem
pode praticar receptação? Alguém furtou o seu relógio. Aí aparece na sua casa uma pessoa vendendo o seu
relógio com uma outra pulseira dizendo que é quente. Você compra o relógio. Praticou receptação? Não. Outro
problema: o seu relógio foi penhorado e está lá como garantia para o credor. Uma pessoa furta o depositário
do relógio e vai te vender. Você percebe que aquele é o seu relógio que foi penhorado e você compra o relógio
que você percebeu que foi furtado do depositário. Você pratica receptação? Neste caso você pratica receptação.
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Por que aqui pratica e no exemplo anterior não? Porque na receptação é preciso analisar a natureza da coisa na
mão de terceiro. Vamos anotar isso:

“Excepcionalmente, pode figurar como sujeito ativo o proprietário do bem, caso o objeto esteja na posse legítima de
terceiro.”

Então, cuidado! Se a coisa está na posse legítima de terceiro, alguém furta esse terceiro, você percebe
e compra o seu relógio, você praticou receptação. Vejam que é possível, ainda que em casos excepcionalíssimos,
o proprietário da coisa ser sujeito ativo de receptação.

b) Sujeito passivo

A teve os eu veículo furtado por B. B vende esse veículo para C, que sabe ser produto de crime. C
praticou receptação. Quem é a vítima da receptação de C? O bem jurídico principal é o patrimônio, mas
patrimônio de quem? De A. Então, A é a vítima. A vítima do crime anterior continua vítima da receptação.

c) Conduta punida

“Adquirir, receber, transportar, conduzir ou ocultar, em proveito próprio ou alheio, coisa que sabe ser produto de
crime.”

Nós temos uma classificação doutrinária de crime que consiste em dividir crimes principais dos
chamados crimes acessórios. O do art. 180 é um crime principal ou acessório?

 Crime principal – Não pressupõe outro para a sua existência.


 Crime acessório – Pressupõe outro para existir, mas com punibilidade independente.

Eu falei que o crime acessório pressupõe o outro para existir, mas não depende do outro para ser
punido! É acessório quanto à existência, não quanto à punição. Basta você ler o art. 180, § 4º:

§ 4º - A receptação é punível, ainda que desconhecido ou isento de pena o autor


do crime de que proveio a coisa.

Então, cuidado! Nunca digam que o crime acessório é aquele que depende de outro para ser punido.
Você tem que dizer que no crime acessório a sua dependência é para existir. Se vai ser ou não punido, não
depende do outro. Não importa o que aconteceu com o outro. Não importa se o agente do crime pressuposto
foi absolvido. O que importa é que houve o crime pressuposto.

Vocês têm a receptação como exemplo de crime acessório. Vou dar mais três exemplos:

 Favorecimento pessoal (art. 348, CP),


 Favorecimento real (art. 349, CP) e
 Lavagem de capitais (art. 1.º, da Lei 9.613/98)

O crime de lavagem pressupõe crimes pressupostos. Um deles é a presença de organização criminosa.


Vocês viram o que o Supremo está para fazer? Está para absolver o casal da Igreja Renascer, porque está
entendendo que não existe ainda definição de organização criminosa no Brasil e se o crime pressuposto ainda
não existe, a lavagem também não.

Voltando ao art. 180, caput. Ele pune: Adquirir, receber, transportar, conduzir ou ocultar, em
proveito próprio ou alheio, coisa que sabe ser produto de crime, ou influi para que terceiro, de boa-fé, a adquira,
receba ou oculte.
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O que está em negrito é a chamada receptação própria ou propriamente dita. É a única que lembramos.
Tem gente que desconhece o que está em cinza, a chamada receptação imprópria. Então, cuidado porque a
receptação simples tem duas modalidades:

 Receptação própria – 1ª parte do caput


 Receptação imprópria – 2ª parte do caput

*Receptação própria
Adquirir, receber, transportar, conduzir ou ocultar, em proveito próprio ou alheio, coisa que
sabe ser produto de crime

Já deu para perceber que na receptação própria, a coisa sai do agente, autor, coautor ou partícipe do
crime anterior para o receptador.

É prescindível ou imprescindível um ajuste entre os dois? Entre o concorrente do crime antecedente e


o receptador? O ajuste é prescindível, ou seja, é dispensável. Não precisa. Exemplo de uma receptação sem
ajuste: você viu uma pessoa furtando a carteira. O furtador, na fuga, joga a carteira e você vê onde a carteira
caiu. Você vai e embolsa a carteira. Isso é receptação. E não teve ajuste entre você e o furtador. Você está
ocultando coisa que sabe ser produto de crime.

*Receptação imprópria
Influir para que terceiro, de boa-fé, a adquira, receba ou oculte.

Aqui, há o agente concorrente do crime anterior, o receptador e o adquirente de boa-fé. Percebam que
receptador na receptação imprópria nada mais é do que o intermediário. O que a receptação imprópria chama
de interceptador é o intermediário. É aquele que está influindo para que terceiro de boa-fé adquira a coisa
produto de crime. O receptador aqui é o intermediário, é quem está fazendo com que a coisa produto de crime
saia do agente e vá para o terceiro de boa-fé.

E se o adquirente agir de má-fé? Ou seja, ele sabe que a coisa é produto de crime. Ai não haverá a
receptação imprópria. Haverá a receptação propriamente dita. E aquele que influenciou para ele comprar? É
partícipe pela receptação propriamente dita. Se ele agiu com má-fé, passa a ser autor de receptação própria e o
intermediário é partícipe na receptação própria. Se o último da cadeia agiu com má-fé, o receptador passa a ser
partícipe de uma receptação própria.

Agora vamos analisar o caput como um todo. O crime consiste em: Adquirir, receber, transportar, conduzir
ou ocultar, em proveito próprio ou alheio, coisa que sabe ser produto de crime. Pergunto: abrange produto de
contravenção penal? Existe receptação ao se adquirir coisa produto de contravenção penal? O examinador é
claro: você tem que adquirir coisa produto de crime! Então, não é possível. Não abrange contravenção penal
porque isso seria analogia in malam partem.

E se for produto de ato infracional? É receptação? Um adolescente furtou um veículo. Você compra
o veículo. Você praticou receptação?

1ª Corrente: Não há receptação por falta de previsão legal. Menor infrator não pratica crime.
Fragoso adota essa corrente.

2ª Corrente: Há receptação, pois a lei exige coisa produto de fato previsto como crime,
abrangendo o ato infracional. O ato infracional nada mais é do que um fato previsto como crime
praticado por menor inimputável. É a que prevalece.

É possível receptação de receptação? Isso vocês vão encontrar em Hungria. O crime precedente pode
ser uma receptação? Vamos supor que B praticou um furto, aí ele vende para C que praticou receptação. Se C
vender para D existe receptação? Sim. É perfeitamente possível receptação de receptação. Enquanto
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permanecer a má-fé dos adquirentes, haverá a receptação da receptação. A partir do momento que um deles
agir com boa-fé, aí acabou a cadeia. Se ele adquirir com boa-fé, daí para frente, não há mais crime.

Pergunta megathunder: é possível receptação de coisa imóvel (é coisa imóvel para o direito penal!)?
quando o legislador fala em adquirir, receber, transportar, conduzir ou ocultar, em proveito próprio ou alheio, coisa que sabe
ser produto de crime, abrange a coisa imóvel?

“O objeto material pode ser coisa imóvel?

1ª Corrente: O objeto material pode ser qualquer coisa (móvel ou imóvel), não diferenciando o
tipo penal. Aqui, a lei não distingue, como no furto, que tem que ser coisa móvel. Fragoso.

2ª Corrente: O objeto material só pode ser coisa móvel. O significado léxico da palavra
‘receptação’ pressupõe coisa passível de deslocamento. Hungria. A coisa móvel está presente no
próprio nomen iuris. STF.

Vou dar um exemplo. Ex: Uma senhora vira pra mim e diz: “foi você que me salvou ontem? É que
estou procurando quem me salvou ontem para doar um apartamento.” Aí eu digo que fui eu. Aí ela passou a
escritura para o meu nome. Ela estava enganada. Eu a mantive em erro. Eu pratiquei o crime de estelionato.
Recebi um imóvel enganando a pobre senhora. Mas aí eu vejo que não tenho condições de manter aquele
imóvel (condomínio caro, etc.) e vendo por 10 mil reais explicando que eu estava vendendo barato porque
recebi de uma senhora que achou que eu era alguém que eu não era. O comprador adquiriu sabendo ou não
que a coisa era fruto de estelionato? Sabendo. Praticou ou não receptação? Praticou receptação. Porém, o STF
está com a segunda corrente. Para concurso, já não basta Hungria, temos o STF. Agora, tecnicamente, não é a
mais correta porque dá para provar a possibilidade de receptação de coisa imóvel.

O crime é Adquirir, receber, transportar, conduzir ou ocultar, em proveito próprio ou alheio, coisa que sabe ser
produto de crime. Tem que ser coisa genuína, autêntica? Ou pode ser a coisa transformada? A receptação é
só da coisa produto do crime anterior ou pode ser a coisa transformada produto do crime anterior? Vamos
imaginar o seguinte exemplo: furtaram a Taça Jules Rimet, de ouro maciço, que consagrou o nosso
tricampeonato mundial. Derreteram essa taça e fizeram várias medalhinhas para comemorar o centenário do
Corinthians, com o rosto do Ronaldinho. Aí vendem as medalhinhas, avisando que o ouro veio da Taça Jules
Rimet. Se eu adquirir essa medalhinha estou praticando receptação? Ele não adquiriu a taça, mas a medalhinha
cunhada com o ouro da Taça Jules Rimet.

“Não importa ser a coisa genuína, transformada ou alterada. É receptação.”

Vocês perceberam que a receptação pressupõe coisa produto de crime. Outra perguntinha de concurso:
esse crime é necessariamente contra o patrimônio? É possível crime antecedente que gera receptação e que não
é contra o patrimônio, que não seja roubo, furto, estelionato. Pode ser um crime contra a Administração Pública
como o peculato. Peculato não é crime contra o patrimônio. É crime contra a Administração Pública que pode
gerar receptação. Cuidado que o crime antecedente não precisa ser, necessariamente, contra o patrimônio. Pode
ser contra a Administração Pública, como o peculato.

Há algumas modalidades especiais de receptação configurando o delito de contrabando ou


descaminho. Eu não estou dizendo que adquirir coisa de contrabando ou descaminho é o art. 334. Pode ser o
art. 334 como pode ser o 180. Depende de quem adquire. Se for comerciante, é o art. 334. Então, cuidado!
Temos algumas modalidades especiais de receptação configurando o contrabando ou descaminho. Por
exemplo, o comerciante que adquire coisa produto de contrabando para revender.

Receptação X Favorecimento Real – O art. 180 pune o agente que adquire, recebe, transporta,
conduz ou oculta em proveito próprio ou alheio coisa que sabe ser produto de crime. Aqui, há a primeira
diferença da receptação para o crime de favorecimento real (art. 349):

Favorecimento Real
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Art. 349 - Prestar a criminoso, fora dos casos de co-autoria ou de receptação,


auxílio destinado a tornar seguro o proveito do crime: Pena - detenção, de 1 (um) a 6 (seis)
meses, e multa.

Já deu para perceber a diferença. Na receptação, o agente, com a receptação, busca vantagem pessoal
ou de terceiro que não o autor do crime anterior. Já no crime de favorecimento real, o agente, com o
favorecimento, quer garantir a vantagem do autor do crime anterior. Vejam a diferença. Se eu adquiri um
veículo furtado para mim ou para meu irmão, é receptação. Se eu ocultar o veículo furtado para ajudar o
furtador, é favorecimento real. A diferença está exatamente na natureza da vantagem. Se o favorecimento é
para garantir a vantagem do próprio autor do crime anterior é favorecimento real. Tem que analisar para quem
é a vantagem.

Dolo eventual – O art. 180, caput, utiliza a expressão “coisa que sabe ser produto de crime”, ao utilizar
a expressão “coisa que sabe” abrange também o dolo eventual? O crime é punido apenas a título de dolo direto
ou também, implicitamente, o dolo eventual também está abrangido? Prevalece (eu não falei que é unânime)
que a expressão “que sabe” abrange apenas o dolo direto, não abrangendo o dolo eventual.

Dolo superveniente – Dolo superveniente configura o crime? Você adquire a coisa e depois descobre
que é produto de crime. Você a oculta. É crime? Você descobre que o carro que você adquiriu é furtado e você
não devolve. Você praticou receptação? Prevalece que não. Prevalece que o dolo deve estar presente no
momento a aquisição. O dolo superveniente não gera crime. O dolo deve ser, pelo menos, contemporâneo à
prática do núcleo. Deve existir no momento da conduta. O dolo superveniente à conduta não gera o crime.
Nélson Hungria discorda. Ele entende que há o crime.

d) Consumação

Quando a receptação se consuma? Temos que analisar a consumação no delito de receptação própria
e depois na imprópria.

Receptação própria – Se consuma com a prática de qualquer um dos núcleos: Adquirir, receber,
transportar, conduzir ou ocultar. Lembrando que alguns núcleos configuram delito permanente: transportar,
conduzir e ocultar. Cuidado! E você já sabe o que pode acontecer com crime permanente. Enquanto está
ocultado não corre a prescrição. Admite tentativa ao tentar adquirir.

Receptação imprópria – Na receptação imprópria, basta a influência sobre o terceiro de boa-fé.


Pouco importa se ele adquire, recebe ou oculta. Basta o ato de influir no convencimento. Admite tentativa? A
doutrina diz que não. A maioria nega a tentativa na receptação imprópria. Eu discordo. É perfeitamente possível
quando o ato de influir é feito por escrito. A carta interceptada, antes de chegar ao terceiro de boa-fé.

6.3. Receptação Qualificada – Art. 180, § 1º

Receptação Qualificada
§ 1º - Adquirir, receber, transportar, conduzir, ocultar, ter em depósito,
desmontar, montar, remontar, vender, expor à venda, ou de qualquer forma utilizar, em
proveito próprio ou alheio, no exercício de atividade comercial ou industrial,
coisa que deve saber ser produto de crime: Pena - reclusão, de 3 (três) a 8 (oito) anos, e
multa.

A pena que era de 1 a 4 passa a ser de 3 a 8 anos.

Por que o § 1º está qualificado? Porque estamos diante de um crime próprio. Só pode ser praticado
por quem está no exercício de atividade comercial ou industrial. Deixou de ser crime comum. E por que é mais
grave quando praticado no exercício dessas atividades? Porque há uma maior facilidade de repassar a terceiros
de boa-fé. Por que o crime é qualificado? Por conta das condições do agente, que está no exercício de atividade
industrial ou comercial, com maior facilidade para repassar a coisa para terceiro de boa-fé.
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Não basta ser comerciante e adquirir a coisa. Tem que ser coisa adquirida diretamente ligada ao seu
comércio. Logo, será repassada mais facilmente. Você tem padaria e adquiriu um carro furtado. Você não vende
carro na padaria. Não incide carro na qualificadora, obviamente. Você tem oficina, agência de automóveis e
adquire o carro. Aí incide a qualificadora porque está ligado diretamente à sua atividade. É imprescindível esse
nexo! Não vai ficar pensando que qualquer comerciante que compra coisa produto de crime já incide a
qualificadora. Não! Tem que ter o nexo com a sua atividade.

Abrange o comerciante de fato? Abrange a sua vizinha que vende coisas no quintal? Ela viajou e veio
cheia de novidades. Você pratica receptação se vai lá e compra? E quando você compra no camelô? Incide ou
não incide? Posso abranger o camelô, a vizinha? Se tivesse só o § 1º não ia poder. Mas temos o § 2º que não
deixa dúvidas:

§ 2º - Equipara-se à atividade comercial, para efeito do parágrafo anterior,


qualquer forma de comércio irregular ou clandestino, inclusive o exercício em residência.

O § 2º traz uma cláusula de equiparação.


(Intervalo – 01:24:20)

*A questão da constitucionalidade do § 1º
O § 1º fala que o agente “deve saber ser produto de crime”. Não falou que sabe!

O art. 180, caput, traz a tal da receptação simples com pena de 1 a 4 anos e exige que o agente saiba ser
produto de crime e esse “que sabe” abrange somente o dolo direto. O art. 180, § 1º, por sua vez, receptação
qualificada, com pena de 3 a 8 anos, ao invés da expressão “que sabe” usa a expressão “que deve saber”. E
agora? Presta atenção no que vou falar:

1ª Corrente: A expressão “que deve saber” indica somente dolo eventual. Se é assim, a consequência
será que o dolo eventual será punido com 3 a 8 e o dolo direto com 1 a 4 anos. Para essa primeira
corrente, a pena do § 1º é inconstitucional por ferir o princípio da proporcionalidade. Sabe o que
significa isso? Para a receptação qualificada, eles ignoram o 3 a 8 anos e aplicam a pena do caput para
ficar proporcional. A saída é essa: substituir a pena do § 1º pela do caput. A mais recente do STJ é
nesse sentido. Eu falei que é posição do STJ? Não. Isso, nos tribunais superiores está uma zona. Cada
dia decide de um jeito.

2ª Corrente: A expressão “que deve saber” abrange, não só o dolo eventual, também o dolo direto,
sendo a pena proporcional. A mais recente decisão do STF é nesse sentido (HC 97344). Mas não é a
posição do Supremo Porque antes desta, prevalecia a posição do Min. Celso de Mello, dizendo que é
inconstitucional. Eu não estou falando que a primeira corrente do STJ porque o STF também tem
posições nesse sentido. Apenas a mais recente está no STJ. A mais recente do STF, eu não vou dizer
que é posição do STF porque o STJ também entende assim.

Tomara que não caia, mas se cair, é só prestar atenção: vai prestar concurso para o MP? Segunda
corrente. Vai prestar defensoria? Primeira corrente. E magistratura? Decide e fundamenta.

6.4. Receptação Culposa – Art. 180, § 3º

§ 3º - Adquirir ou receber coisa que, por sua natureza ou pela


desproporção entre o valor e o preço, ou pela condição de quem a
oferece, deve presumir-se obtida por meio criminoso: Pena - detenção, de 1 (um) mês a
1 (um) ano, ou multa, ou ambas as penas.

Vocês estudaram comigo no Intensivo I viram que o crime culposo está normalmente redigido em um
tipo aberto. Vocês têm no art. 180, § 3º um exemplo de crime culposo de tipo fechado. Vai cair em concurso:
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existe algum crime culposo de tipo fechado? Existe. É o art. 180, § 3º. Reparem que esse dispositivo já traz as
hipóteses que configuram a negligência. É um crime culposo de tipo fechado. Então, quando vocês tiverem
que trabalhar isso em concurso vão escrever que o tipo culposo é, em regra, de tipo aberto porque,
excepcionalmente, pode ser de tipo fechado, que é o § 3º, do art. 180, que já traz as modalidades de negligência.
São três as hipóteses que presumem a negligência: são as três hipóteses grifadas. É claro que é uma presunção
relativa.

6.5. Perdão judicial e Privilégio – Art. 180, § 5º

§ 5º - Na hipótese do § 3º, se o criminoso é primário, pode o juiz, tendo em


consideração as circunstâncias, deixar de aplicar a pena. Na receptação dolosa aplica-se o
disposto no § 2º do Art. 155.

O § 5º traz dois benefícios:

Perdão judicial – É só para receptação culposa. Não vão aplicar este benefício a outra receptação. É
exclusivo da culposa e tem como requisitos: a primariedade do agente e a culpa levíssima. Vejam que o perdão
judicial não observa o valor da coisa. O valor da coisa não interfere. Você pode aplicar o perdão judicial na
receptação culposa de um relógio, como também na receptação culposa de um veículo importado, desde que
o receptador seja primário e a culpa levíssima.

Privilégio – Esse benefício se aplica à receptação dolosa e, para a maioria, abrange, inclusive, a forma
qualificada. Os requisitos do privilégio são os mesmos do § 2º, do art. 155, isto é, primariedade do agente e
pequeno valor da coisa.

6.6. Causa de aumento de pena – Art. 180, § 6º

§ 6º - Tratando-se de bens e instalações do patrimônio da União, Estado,


Município, empresa concessionária de serviços públicos ou sociedade de economia mista, a
pena prevista no caput deste artigo aplica-se em dobro.

Art. 181 - É isento de pena quem comete qualquer dos crimes previstos neste
título, em prejuízo:
I - do cônjuge, na constância da sociedade conjugal;
II - de ascendente ou descendente, seja o parentesco legítimo ou ilegítimo, seja civil ou
natural.

7. IMUNIDADES PATRIMONIAIS – Arts. 181 a 183

7.1. Imunidade patrimonial absoluta – art. 181:

Art. 181 - É isento de pena quem comete qualquer dos crimes previstos neste
título, em prejuízo:
I - do cônjuge, na constância da sociedade conjugal;
II - de ascendente ou descendente.

O art. 181 traz a chamada imunidade patrimonial absoluta, hipótese de isenção de pena. Quando está
isenta a pena em um crime patrimonial?
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1ª Hipótese: Quando praticado em prejuízo do cônjuge.

A maioria, através da analogia in bonam partem, abrange o convivente numa união estável. Tem gente
que não abrange porque é norma de exceção, mas a maioria abrange.

E se os cônjuges estão separados de fato, incide essa isenção de pena? O fato de estarem separados
impede a isenção de pena? A imunidade, chamada escusa absolutória, incide mesmo na separação de fato.

2ª Hipótese: A segunda hipótese de isenção de pena é crime praticado em prejuízo de ascendente ou


descendente.

Observação importante: não abrange irmãos, não abrange colaterais, não abrange os afins. Furto entre
irmãos não está isento de pena. Furto entre primos não está isento de pena, não abrange os afins: furtar a sogra
não te isenta de pena.

7.2. Imunidade patrimonial relativa – art. 182:

Art. 182 - Somente se procede mediante representação, se o crime previsto neste


título é cometido em prejuízo:
I - do cônjuge desquitado ou judicialmente separado;
II - de irmão;
III - de tio ou sobrinho, com quem o agente coabita.

O art. 182 traz imunidade patrimonial relativa, escusa relativa. A escusa ou imunidade absoluta isenta
o agente de pena. Aqui, temos apenas uma modificação da ação penal. Modifica-se a ação penal de pública
incondicionada para pública condicionada. Por isso, Cezar Roberto Bittencourt critica esse nome: não deveria
se chamar imunidade porque não torna ninguém imune. Só modifica o tipo de ação penal.

E quando incide a escusa relativa?

1ª Hipótese: Crime praticado em prejuízo do cônjuge separado judicialmente. Observação importante:


se já divorciado, não incide imunidade.

 Casados ou separados de fato – Art. 181


 Separados judicialmente – Art. 182
 Divorciados – Não aplica o art. 181 e nem o art. 182. Não vai ter benefício algum.

2ª Hipótese: Em prejuízo de irmãos.

3ª Hipótese: Em prejuízo de tio ou sobrinho, exigindo a coabitação entre eles. Por que tio e sobrinho?
Não entendi. É imprescindível a coabitação. Mas não estou dizendo que o crime tem que ter ocorrido sob o
mesmo teto. Exige-se a coabitação, mas não que o crime tenha que ocorrer sob o teto da coabitação.

*Exceções à aplicação das imunidades absoluta e relativa


Art. 183 - Não se aplica o disposto nos dois artigos anteriores:
I - se o crime é de roubo ou de extorsão, ou, em geral, quando haja emprego de
grave ameaça ou violência à pessoa;
II - ao estranho que participa do crime.
III – se o crime é praticado contra pessoa com idade igual ou superior a 60
(sessenta) anos. (Redação dada pela L-010.741-2003).
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Inciso I - Só não se aplica quando há violência à pessoa. Violência contra a coisa, não impede a
aplicação da imunidade. Só a violência contra a pessoa. O furto qualificado pelo rompimento de obstáculo
merece a imunidade.

Inciso II – Não se aplica a imunidade ao estranho que participa do crime. Então, o vizinho que ajudou
o marido a subtrair a esposa não está imune. Só o marido.

Inciso III – Esse inciso foi incluído pelo Estatuto do Idoso. Não permite qualquer das imunidades se
a vítima tem idade igual ou superior a 60 anos. Eu sempre brinco com vocês que o legislador esquece o idoso
com idade igual. Aqui ele lembrou do idoso com idade igual a 60 anos.

Será que a imunidade patrimonial absoluta contra a mulher, no ambiente doméstico e familiar, continua
tendo incidência? O crime contra o patrimônio da mulher no ambiente doméstico e familiar continua com a
imunidade? Será que o marido que furta a esposa tem direito à imunidade? Ou a Lei Maria da Penha veda?

Delegado/MT: marido furta a mulher. Praticou violência doméstica patrimonial. Art. 7º, IV, da Lei
Maria da Penha.

Art. 7º São formas de violência doméstica e familiar contra a mulher, entre


outras: IV - a violência patrimonial, entendida como qualquer conduta que configure
retenção, subtração, destruição parcial ou total de seus objetos, instrumentos de trabalho,
documentos pessoais, bens, valores e direitos ou recursos econômicos, incluindo os destinados
a satisfazer suas necessidades;

Marido furta a esposa. Merece a imunidade ou não? Maria Berenice Dias ensina que a Lei Maria da
Penha, ao prever a violência patrimonial como violência doméstica e familiar contra a mulher, não admite a
imunidade. Já que a violência familiar foi prevista como espécie de violência doméstica e familiar contra a
mulher, logo, incompatível com a imunidade. Só que não dá para concordar com isso porque é analogia in
malam partem. Se o legislador da Lei Maria da Penha quisesse evitar a imunidade, ele teria que acrescentar mais
um inciso ao art. 183, do CP, como fez o Estatuto do Idoso. Se a Lei Maria da Penha quisesse evitar a
imunidade, ela teria que ser expressa, como foi o Estatuto do Idoso, ao acrescentar o inciso III. Isso que a Des.
Maria Berenice fez foi analogia in malam partem. E a esmagadora maioria não concorda com ela.