1
Anna Blackwell
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Prefácio / 05
Biografia de Anna Blackwell / 06
Opinião dos Editores / 10
Ensaio / 11
4
Prefácio
5
Biografia de Anna Blackwell (1816 – 1900)
7
frieza, incrédulo por natureza e por educação,
pensador seguro e lógico, e eminentemente prático no
pensamento e na ação.
Era igualmente emancipado do misticismo e do
entusiasmo.”
Grave, lento no falar, modesto nas maneiras,
embora não lhe faltasse uma certa calma dignidade,
resultante da seriedade e da segurança mental, que
eram traços distintos de seu caráter.
Nem provocava nem evitava a discussão mas nunca
fazia voluntariamente observações sobre o assunto a
que havia devotado toda a sua vida, recebia com
afabilidade os inúmeros visitantes de toda a parte do
mundo que vinham conversar com ele a respeito dos
pontos de vista nos quais o reconheciam um
expoente, respondendo às perguntas e objeções,
explanando as dificuldades, e dando informações a
todos os investigadores sérios, com os quais falava
com liberdade e animação, de rosto ocasionalmente
iluminado por um sorriso genial e agradável, com
quanto tal fosse a sua habitual seriedade de conduta
que nunca se lhe ouvia uma gargalhada. Entre as
milhares de pessoas por quem era visitado, estavam
inúmeras pessoas de alta posição social, literária,
artística e científica.
Não temos aí, certamente, o perfil a bico de pena do
prof. Rivail/Kardec, mas uma visão pessoal da
tradutora Anna Blackwell.
Trata-se de uma declaração relevante, todavia, pois
8
de quem conviveu com o codificador, como já
mencionado, que a incumbiu – ela o diz no citado
prefácio – de passar para o inglês as obras básicas da
recém codificada Doutrina dos Espíritos.
Vale enfatizar que, ainda não o conhecêssemos
através de suas obras, bastaria essa meia dúzia de
palavras para levar-nos a admirar um ser humano
assim tão bem estruturado: um simples, sem
ambições materiais, simpático no trato, sereno e culto,
mas enérgico, firme em suas posições – uma
personalidade sólida e cativante. (02)
Fontes
9
Opinião dos Editores
10
Ensaio
12
tal como o materialismo teria por resultado
necessário a destruição, não somente do que
chamamos “a sociedade” mas da espécie humana em
si mesma; é então natural que a perspectiva de
deteriorização e de ruína que se apresenta assim
apavore o espírito daqueles que ainda não
aprenderam de modo algum a observar todos os
estados como essencialmente transitórios, e a ver em
todos os de dissolução uma simples destruição de
formas perecíveis que tinham se tornado
temporariamente os elementos imperecíveis, uma
simples colocação em liberdade desses elementos,
preliminarmente indispensável de sua recombinação
em alguns novos modos de união temporária.
Mas a dissolução “de velhas idéias”, cuja
preponderância do materialismo é atualmente o
resultado mais líquido, parece, a quem examine
atentamente o assunto, não ser uma exceção à lei
consoladora da ordem providencial que faz do que
chamamos “morte” a ante-sala e o precursor do que
chamamos “vida”. Pois a negação materialista de um
poder criador e soberano distinto da criação: alma e
dever humano, responsabilidade e destino, é menos
uma negação dessas intuições fundamentais do
espírito humano, do que uma rejeição das concepções
teóricas, arbitrárias e fantasiosas, sobre as quais são
apresentadas; e a hipótese materialista deveria então
ser observada como uma simples fase passageira da
reação da ciência moderna contra as velhas idéias,
13
ainda de pé, mas que devem necessariamente ser
varridas antes que os elementos fundamentais da
crença humana possam ser estabelecidos
seguramente sobre o terreno sólido da certeza
científica e racional.
Essas concepções, efetivamente, não admitindo,
para as diversas ordens de seres, nenhuma origem,
nenhum destino comuns, e, por conseqüência, não
reconhecendo nenhuma identidade de objetivo nas
evoluções da existência – mas ao contrário
classificando em categorias sempre distintas, e
substituindo a uma cooperação ordenada de avanço
de permanentes antagonismos, - impedem descobrir a
única base sobre a qual a crença no Criador e à
imortalidade da alma possa se estabelecer de uma
maneira racional e sólida.
O protesto materialista a esse respeito presta um
imenso serviço às idéias que ele busca destruir, pois
ele prepara, sem se dar conta, a via ao
estabelecimento de uma teoria unitária cuja
necessidade começa a se fazer sentir de forma
generalizada, mesmo que vagamente; teoria que
combinará todos os fatos da existência em uma
grande síntese comum, fornecerá ainda a chave do
problema das origens e dos fins, cujas pesquisas mais
sutis não conseguiram até aqui achar a solução. Ora, é
somente pela solução desse problema que podemos
chegar a crer racionalmente na existência de um
Criador benéfico e regulador do universo, a aceitar
14
racionalmente as conseqüências morais tão
importantes que resulta dessa crença; é então
evidente que tudo o que tende a sabotar essas
concepções arbitrárias e errôneas prepara o terreno
para o estabelecimento do Teísmo Científico que,
somente garante certeza da eterna persistência do
princípio espiritual, única base sólida da ciência física,
o único guia certo à elucidação das questões sociais, é
a necessidade mais urgente do dia.
Na realidade, o materialismo moderno prepara essa
síntese sem se dar conta disso. Pressionado pela
identidade de seus constituintes químicos e de seus
fenômenos vitais, a atribuir uma origem e um destino
comuns às diversas ordens de seres que povoam
nosso globo, e incapaz de os unir em um terreno
comum de espiritualidade, o materialismo experimenta
uni-los num terreno comum de materialidade. O
mundo visível é um campo de observação muito
estreito para construir uma teoria que possa
reconciliar os fatos da vida e o fato da morte com a
crença em um Criador benevolente e regulador do
mundo. Tal crença implicando forçosamente a
admissão de um elemento espiritual distinto da
matéria, o materialismo se esforça, a eliminar essa
crença e por conseqüência negando a existência de
um elemento espiritual, de unir essas duas ordens de
seres e de fatos em uma fórmula comum. Como ele só
vê a matéria, toma-a por base de suas especulações.
Atribuindo à matéria a propriedade de força, ela é a
15
causa do movimento; e lhe atribuindo as
propriedades psíquicas, é a causa dos fenômenos
imateriais.
Não podendo imaginar um começo do universo
material, ele atribui à matéria a impulsão reguladora
de suas evoluções, impulsão inteligente e
preestabelecida, que, regendo os elementos
ininteligentes e instáveis da matéria, é ao mesmo
tempo o efeito e a prova de uma direção superior para
esses elementos.
Confundindo assim o efeito e a causa, o materialismo
chega a dotar a matéria de vida própria que é a
característica distintiva do Criador.
Negando – ou atribuindo a pretensas “propriedades
da matéria” – todos os fatos que indicam a
concorrência da alma, da força e da matéria nos
fenômenos da existência, e a ação de uma inteligência
absoluta na coordenação desses três elementos
constituintes do universo, o materialista chega a uma
base de raciocínio que parece ser unitário, mas que
não é unitário senão na aparência; e ele constrói
sobre essa base incompleta e ilusória uma teoria da
existência que, tanto que experimenta para chegar à
formação da síntese unitária que será o archote do
futuro, constitui um progresso sobre os antagonismos
teóricos do passado, mas que na realidade é tão
incompleta e tão vazia quanto as diversas concepções
sem fundamento que ela substitui.
Mas do mesmo modo que o sol, malgrado os vapores
16
terrestres que deformam seu esplendor, continua a
cumprir sua função benéfica como regulador e
alimentador do sistema dos mundos que giram em
torno dele, do mesmo modo a soberania divina,
deixada indene pela negação dos homens, fornece o
remédio apropriado à aberração materialista, dando
aos espíritos dos pretensos “mortos” o poder de nos
provar de uma maneira irrecusável sua existência
continuada além do túmulo. Justamente no momento
em que eclodem as descobertas físicas dos últimos
anos ao cego sobre a existência de um princípio
espiritual, esta soberania fornece ao mundo as provas
visíveis e tangíveis da realidade e da universalidade
desse princípio, que fundamentará nossas convicções
a propósito do elemento espiritual de nossa natureza
complexa sobre a mesma base científica e positiva que
serve de apoio às nossas convicções nos fatos de
nossa existência física. A autenticidade dessas provas,
confirmada em nossos dias por milhões de
observadores espalhados sobre toda a terra, é
absolutamente correta para todos os que observaram
por si mesmos; e como o círculo destes aumenta com
uma rapidez sem igual nos anais do mundo
intelectual, é evidente, desde o presente, que essa
ordem de fatos está destinada a se tornar, num futuro
próximo, a única base prática, imbatível, prolífica, da
doutrina que reconhecia a presença de um outro
elemento além da matéria nos fenômenos da
existência.
17
Evidentemente, é impossível atribuir muita
importância à influência que uma comunicação
inteligente, entre a terra que habitamos e o mundo
dos espíritos, deve exercer sobre a nova fase de
convicção para a qual nós tendemos, malgrado as
circunstâncias que, à primeira vista, parecem diminuir
o valor dos resultados que se pode esperar obter
dessa comunicação.
As duas regiões de existência que oferece nosso
planeta sendo duas partes integrantes de um mesmo
todo, precisamos admitir que todas as duas são
submetidas à mesma lei de progresso lento e gradual.
Devemos então ter paciência para encontrar, como é
evidente para os que seguiram o movimento espírita,
que a ignorância dos princípios gerais, a persistência
dos preconceitos e do erro, e os raciocínios baseados
nas impressões, as suposições e as especulações
pessoais, são também numerosas do outro lado do
túmulo quanto deste. O semelhante atrai o
semelhante, é evidente que cada médium só atrairá
espíritos de mesmo grau de adiantamento que ele
mesmo, e que as dificuldades inerentes à arte da
manifestação, do lado dos espíritos, devem
necessariamente impedir, no presente e talvez por
longo tempo ainda, a livre e correta transmissão do
pensamento das regiões superiores do mundo dos
espíritos. Mas, é igualmente evidente que, malgrado
esses obstáculos, - que são devidos à inferioridade
geral de nosso planeta, e do que não se poderá se
18
desfazer senão pelo progresso gradual das duas
classes de sua população, isto é, das almas
encarnadas e das almas desencarnadas, - a
comunicação estabelecida agora de todas as partes da
superfície da terra e o mundo dos espíritos deve
todavia exercer uma influência determinante sobre seu
desenvolvimento futuro.
Em primeiro lugar, essa comunicação provará a
sobrevivência da alma inteira com sua atividade e suas
afeições após a morte do corpo, sobrevivência à qual
a maioria da humanidade não acrescenta nenhuma
crença real, e que não tem, por consequência,
nenhuma influência sobre suas ações. É verdade que
essa sobrevivência não é suficiente para provar a
indestrutibilidade da alma, pois o prolongamento de
sua existência através de algumas centenas, alguns
milhares ou mesmo alguns milhões de anos, não é de
forma alguma uma prova certa que ela se prolongará
através da eternidade; o que não pode ser provado de
uma maneira incontestável senão por uma teoria
unitária da existência. Entretanto, se a comunicação
inteligente entre os homens e os espíritos não devia
ter outro resultado senão o de mostrar que a alma não
morre com o corpo, e que não há por consequência
nenhuma possibilidade inerente à idéia que a alma
está destinada a durar eternamente, o fato dessa
comunicação entre os dois mundos seria ainda
incomparavelmente mais interessante em si mesma, e
mais importante em sua influência sobre as crenças e
19
a evolução futuras da humanidade, que todas as
descobertas puramente físicas que são a glória da
ciência positiva de hoje.
Mas a comunicação em questão é, evidentemente,
destinada a levar a um resultado muito mais
importante que o simples estabelecimento da
presunção, em favor de nossa existência eterna, que
pode se deduzir da sobrevivência da alma durante um
período mais ou menos longo após a morte do corpo.
Embora seja evidente que a maior parte das
comunicações mediúnicas devem ser somente um
reflexo das ideias presentes dos espíritos que estão
mais perto da região habitada pelos homens, e os
médiuns para os quais eles são simpaticamente
atraídos, todavia, é igualmente evidente que, pela
generalização da mediunidade, os grandes espíritos –
que se destacaram em sua carreira terrestre e dirigem
a transformação das ideias que se efetua atualmente
em nosso mundo – do mesmo modo escolherão os
médiuns mais aptos a lhes servir de instrumentos para
a transmissão das ideias que eles podem ter para nos
sugerir. Dessa maneira, essas inteligências de elite nos
ajudarão a concluir a explicação geral do plano criador
que – devendo necessariamente abranger as relações
do presente com o passado e o futuro, e as de nossa
terra e suas raças com os outros globos e os outros
seres do universo – não pode jamais ser elaborado
pelos únicos esforços de observação e de indução
humanas; pois é evidente que não poderemos chegar
20
a essa explicação, senão com a ajuda daqueles a
quem seu adiantamento superior permite tomar, sobre
os arranjos providenciais, uma visão mais ampla do
que a que se pode fazer da terra. Essa explicação,
elucidada e confirmada pelas descobertas progressivas
da ciência, nos esclarecerá sobre a natureza e as
condições da existência da alma, e nos dará assim ao
mesmo tempo a razão e a certeza da duração eterna
de cada alma individualizada, como objetivo e
resultado desses arranjos.
A suposição de um ensino parecido, nos mostrando
seres colocados de um ponto de vista mais elevado
que o de nossa vida presente, como consequência que
faz naturalmente prever a comunicação estabelecida
agora entre os espíritos e os homens, pressupõe
necessariamente a impossibilidade para nós de
conhecer antecipadamente, em sua totalidade, as
ideias que nos serão gradualmente comunicadas por
esse ensino. Mas é evidente que, no objetivo de nos
mostrar o vestígio da teoria unitária pesquisada agora,
mais ou menos conscientemente, pelos pensadores
avançados, esse ensino superior deve fazer três
coisas:
21
origem e de destino, e têm lugar em virtude de um
plano unitário e de uma intenção que ligam juntos, em
uma corrente sem fim de progresso, todos os reinos,
modos e regiões da criação.
22
aglomerações temporárias desses elementos que nós
chamamos “corpo”, e que todos os “corpos” naturais,
do mais simples ao mais complexo, do mais inferior ao
mais elevado, não são senão resultados temporários
da ação passada ou presente da alma sobre os
elementos materiais, aos diversos estados de
desenvolvimento pelos quais ela passa; - por
consequência, que não existe universo fixo e estável,
mas somente uma sucessão de fenômenos
temporários, constituídos atualmente pela ação da
alma, e que a duração de uma nebulosa com seus
miríades de sóis e de planetas é também variável e
passageira, considerada em sua relação com a
eternidade, que essa efeméride que vive e morre em
um só dia. Essa teoria unitária deve enfim nos mostrar
que todas as ciências positivas, química, geologia,
astronomia, eletricidade, mineralogia, botânica,
fisiologia, história natural, etc., são tudo simplesmente
o resumo de modos diversos da ação da alma, nas
direções especiais das quais elas tratam
separadamente.
23
realização na fruta.
Vamos dar uma rápida olhada sobre as
consequências que se podem deduzir da ideia da
síntese unitária em direção a qual, assim como vimos,
tende o movimento intelectual de nossos dias,
primeiro quanto à crença e depois quanto às formas
sociais do futuro.
24
4. O fato de que as criaturas de criações anteriores
tenham atingido esses campos elevados de atividade
(“os Tronos, os Principados, as Potestades” a quem,
como a ministros de suas vontades, o Criador confiou
a administração prática do universo), implica essa
outra consequência que nós e as outras criaturas da
criação atual, à qual nossa terra e seus habitantes
pertencem, chegarão ao grau de superioridade ao qual
já chegaram as criaturas de criações anteriores, e, que
após nós, aí chegarão igualmente as criaturas de
criações inumeráveis do porvir que devem se suceder
através da eternidade:
25
em todas as “Bíblias” do mundo e nos escritos dos
maiores pensadores, desde os tempos mais recuados
até nossos dias. Essas doutrinas são: (a) a
preexistência da alma ao corpo que ela anima, e (b) a
progressão gradual da alma em ciência, virtude, poder
e felicidade, pelo efeito mesmo de encarnações
sucessivas no mesmo planeta ou em planetas mais ou
menos elevados, até que ela tenha atingido um grau
de desenvolvimento espiritual, moral e corporal, que a
eleve acima da necessidade de se unir posteriormente
a alguma matéria planetária que seja, e o inicie aos
modos de existência mais nobres que nos fazem
entrever, mesmos obscuramente, todas essas Bíblias,
“como a existência gloriosa que todos nós devemos
alcançar, mas da qual somos absolutamente incapazes
de formar a menor concepção, em nosso estado
presente de inferioridade.
Nenhuma teoria poderia se dizer unitária, se ela não
atendesse às condições expostas aqui; ela não
poderia, por consequência, satisfazer à necessidade
intelectual de nosso tempo: pois, nenhuma outra
poderia explicar as afinidades e a construtividade no
reino mineral; a vitalidade, a digestão, a circulação, o
sono e a vigília, as atividades, as preferências, os
esforços, as doenças e a morte, no reino vegetal; a
inteligência, as paixões e os sofrimentos, no reino
animal; as condições desiguais, as aflições, as
aspirações, a progressividade, na raça humana; e a
persistência, nos reinos superiores, de caracteres
26
especiais dos reinos inferiores. Sem essa explicação
coerente e sintética, é impossível demonstrar a
existência de um todo-poderoso e benéfico Autor,
Regulador e Governador do universo, - de demonstrar
a existência de uma unidade, de natureza e de
destino, entre os seres dos diversos reinos de nosso
planeta ou entre estes e os outros seres do universo, -
de justificar a concepção da fraternidade da raça
humana, - ou de conceber a sublime síntese de todas
as possibilidades de atividade humana, tais como o
Cristo as reuniu na prece profética, que a “vontade”
do Criador seja feita na terra como é feita nos mundos
mais avançados, em que os habitantes aprenderam a
pôr em prática a lição de obediência voluntária, às leis
impostas pela potência criadora, que nós estamos
atualmente aprendendo na disciplina de nossa vida
terrestre. Todas essas concepções, se não forem
assentadas sobre a base sólida de uma teoria unitária
da existência, não podem ser observadas senão como
simples ficções da imaginação, sem fundamento real.
Evidentemente, é também impossível prever os
detalhes das instituições sociais que nascerão na fase
de “crença unitária” para a qual tendemos, como
prever todas as ideias que serão compreendidas nessa
“crença”. Pode-se, entretanto, afirmar, com certeza,
que essas instituições procederão das experiências e
das aspirações de nosso passado, dos quais elas serão
o complemento e o coroamento, e que, no entanto,
elas diferenciarão das do passado tanto quanto nossas
27
convicções a vir diferenciarão de nossas “crenças”
atuais. As instituições do passado procediam de uma
teoria de diversidades e de antagonismos que se
supunha erradamente inerentes à natureza das coisas,
e atribuíam uma importância exagerada às condições
presentes de uma vida terrestre que se supunha ser
para cada um a única vida; também essas instituições
personificaram o egoísmo individual e social implicado
nessas suposições. Mas as instituições do porvir
procederão de uma teoria da existência que nos
mostrará todas as criaturas do universo passando
sucessivamente pelas mesmas etapas, tendo partido
de um mesmo ponto, seguindo uma única e mesma
via, e devendo atingir um único e mesmo destino;
esplêndida síntese na qual as diversidades aparentes e
temporárias tendem todas para um fim comum, e na
qual os interesses de cada um são inseparáveis dos de
todos: também essas instituições são a aplicação
prática dessa convicção que, não somente a
benevolência ativa é realmente o único “cumprimento
da lei’ da criação, mas ainda, que nós não podemos
assegurar nossos interesses próprios, e nossa
felicidade individual, senão substituindo aos arranjos
divergentes e antagônicos que fazem de TODOS os
rivais e os inimigos de CADA UM, os arranjos
convergentes de cooperadores que assegurarão a
CADA UM a ajuda e o concurso de TODOS.
Pode-se então predizer, com toda certeza, que o
individualismo e o antagonismo, que caracterizou a
28
organização social do passado, serão seguidos da
aplicação do princípio de cooperação, como
característica da organização social do porvir.
Ninguém atualmente gostaria de constatar a potência
que se pode obter pela união das vontades e dos
esforços na realização de um dado objetivo; e é
lamentável se alguns duvidam ainda da grandeza
prodigiosa dos resultados econômicos que se
obteriam, no duplo ponto de vista da produção e da
distribuição de todos os elementos do bem-estar
humano, aplicando, a todos os interesses e a todas as
ocupações da vida, o princípio de cooperação e de
ajuda mútua. Se o espaço o permitisse, seria fácil
mostrar que, do mesmo modo que todos os males de
ordem moral resultam da substituição do egoísmo ao
sentimento da justiça e da caridade, do mesmo modo
que todos os males de nossa ordem social resultam da
substituição do individualismo e do antagonismo à
cooperação e à ajuda mútua; daí segue que esses
males não podem ser tratados com sucesso senão
substituindo o individualismo pela cooperação.
A ignorância, a injustiça, a miséria, a brutalidade, a
pobreza, a prostituição, o proletariado, a guerra, os
vícios, as doenças, devem fatalmente produzir seus
efeitos naturais; e se devemos nos felicitar por
esforços filantrópicos de toda sorte que nossos dias
experimentam melhorar o que é radicalmente mau, é
sobretudo porque essas tentativas nos conduzirão
necessariamente, com o tempo, a reconhecer que é
29
impossível diminuir os males de nosso estado social,
de outra forma nos entregando causas às quais são
devidos. E para quem quer que seja refletirá sem
paixão à natureza desses males e nas condições
requeridas para os destruir, é claro que um resultado
semelhante não poderá ser atingido senão adotando
um gênero de vida capaz de assegurar a cada membro
da família humana o pleno e inteiro desenvolvimento
da sua natureza física, intelectual, artística e moral, ao
mesmo tempo que assegurará a cada uma esfera de
atividade, apropriada a suas faculdades individuais, na
qual ele contribuirá para o bem e ao interesse geral,
ao mesmo tempo que se beneficiará de tudo o que
criou a indústria, a arte, a ciência e o gênio dos outros
membros da grande família humana.
Praticai, minha simples doutrina de fraternidade e de
caridade, “disse o grande Mestre há mil e oitocentos
anos, “e todo o resto vos será dado por acréscimo; em
outros termos, enquanto a busca exclusiva de seu
próprio interesse, da parte de cada indivíduo, é
necessariamente fatal a esse interesse mesmo, a
aplicação dos princípios de fraternidade e de ajuda
mútua que o século XIX designada nitidamente pela
única palavra de cooperação, dará a todos o conforto,
a saúde, a ciência, a elegância, a segurança.
A aplicação à vida social de princípios que são
universalmente aceitos em teoria, mas universalmente
rejeitados na prática, não pode se fazer senão
gradualmente, por tentativas repetidas, e com a ajuda
30
da resultante dos insucessos parciais e temporários.
Mas, mesmo que tal transformação da sociedade deva
necessariamente ser laboriosa e lenta, nenhum dos
que crêem na supremacia do bem sobre o mal,
nenhum dos que vêem os primeiros clarões da aurora
através da obscuridade do presente, pode duvidar que
essa transformação se faça, e no caminho indicado
pelo próprio Cristo, isto é, pela aplicação do princípio
da mutualidade a cada circunstância da vida humana;
mas, é evidente que tal aplicação da lei de
fraternidade e de caridade não se tornará possível
senão à medida que, e somente à medida, que o fato
da comunicação inteligente entre as almas encarnadas
e as do mundo dos espíritos tiver produzido seus
frutos naturais, alargando o horizonte intelectual da
humanidade e definindo a verdadeira natureza e o
verdadeiro objetivo da existência terrestre. Pois, os
males de nosso estado social sendo devidos, como já
vimos, às concepções limitadas da vida e do destino
humanos que têm prevalecido até aqui no mundo, a
persistência dessas concepções eternizaria as
condições incorretas que são o resultado material e
efetivo. Pode-se então afirmar que tal transformação
das condições sociais não pode ser realizada senão
pela modificação das ideias, dos motivos de dos
objetivos humanos, que será cedo ou tarde o
resultado necessário dessa comunicação.
A possibilidade de semelhante substituição do
antagonismo pela cooperação sendo uma vez
31
admitida, que poderia assinalar um limite ao
melhoramento da existência humana que seguiria uma
transformação também radical de suas condições
sociais?
Sendo más as condições de nossa terra, atraem a
elas as almas pouco elevadas cuja inferioridade
corresponde como consequência natural das condições
más do meio onde elas se encarnam e que elas
contribuem a seu turno a perpetuar. Ao contrário, o
melhoramento das condições sociais na terra atrairá
almas mais avançadas, já aptas a aproveitar suas
melhores condições, e pelas quais esse melhoramento
de condições será alcançado ainda mais longe; até
que nossa terra, pelo melhoramento resultante do
esforço das gerações sucessivas, se torne a morada da
honestidade; da fraternidade e da paz, anunciada pelo
Cristo em termos breves mas cheios de promessas.
Qual imaginação de pintor ou de poeta poderia dizer
o esplendor, a beleza, a felicidade da vida terrestre em
tais condições, purificada e enobrecida como o seria
pela convicção, devida a nossas relações como os
espíritos de uma ordem mais avançada, que a vida
terrestre, mesmo em condições tão melhoradas, não é
ainda senão os degraus, o pórtico, conduzindo a uma
existência superior, e que seus mais requintados
refinamentos só têm valor para nos ensinar a atingir
os modos de existência etérea que nos são reservados
além da região dos mundos planetários? Com efeito,
como já temos dito, tal transformação das condições
32
sociais de nossa terra não pode se efetuar senão por
uma transformação de nossas “crenças” científicas,
filosóficas e religiosas, que nos leve a conceber de
outra maneira a vida humana. Essa nova concepção
reduzirá, de uma parte, a ideia que nós nos fazemos
da importância intrínseca de uma vida terrestre,
mostrando-nos que ela não é senão um passo na rota
sem fim que devemos percorrer, ao passo que, de
outra parte, ela crescerá indefinidamente a ideia que
nos fazemos de sua importância relativa, mostrando-
nos que o emprego feito por nós, de cada fase de
nossa existência, decide o caráter da fase seguinte de
nossa eterna carreira.
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