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100 ANOS DE MARIO

MÁRIO DE ANDRADE E
HENRIQUETA LISBOA
Alaíde Lisboa de Oliveira
Depoimento apresentado pela autora no Centro Cultural de
São Paulo, em 27/08/92, por ocasião das comemorações
dos 70 anos da "Semana de Arte Moderna" e a convite da
Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo e do Insti­
tuto de Estudos Brasileiros da USP. Da mesa-redonda tam­
bém participaram Antonio Candido e Décio de Almeida
Prado.

Muito se tem cogitado sobre os sentimentos que


caracterizam as cartas de Mário de Andrade a
Henriqueta Lisboa. Essas cogitações suscitam a
análise da amizade entre homem e mulher, e ainda
mais entre homem e mulher intelectuais. Já se dis­
se que nesse caso pode haver amor, pode haver
hostilidade e pode haver culto mas se exclui ami­
zade. Faço minha opção por culto, em que a afe­
tividade complemente, complete, envolva o culto.
É comum dizer-se que amamos os pais, os irmãos,
os filhos e até amamos o povo, mas se a amiga diz
que ama o amigo, a conotação de amor se .modifi­

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ca; por quê? Realmente a amizade entre homem e vos se envolvem nas manifestações intelectuais e
mulher se reveste de muita sutileza, muito requin­ se fundem em plenitude. É o ir e vir da inteligên­
te e se toma difícil traduzir a amor-amigo. cia para o coração, do coração para a inteligência.
É a absorção de belezas do espírito, um devaneio
E como será esse amor-amizade entre dois
das áreas da cultura. São realidades, pequenas ou
intelectuais?
grandes, transpostas para o nível indefinido do sa­
Como serão as nuances desse culto-afetivo à dis­ ber.
tância? As dedicatórias ao lado das cartas deno­
Cartas envoltas em belezas reformuladas pela in­
tam esse bem-querer - e na associação coração e
teligência, irmanadas na sensibilidade. Nas trocas
espírito.
de cartas eles talvez nem sabiam que se amavam,
Como será lido o livro de autoria do amigo pela mas sabem que se admiram, que se respeitam, que
amiga ou a amiga pelo amigo? Talvez como se confiam, um no outro.
estivesse ouvindo uma sinfonia: os sons absorvem
As cartas de amiga de Henriqueta aguardam a li­
as expressões, a melodia das frases se associa às
beração prevista pelo próprio Mário quando a
idéias, o espírito penetra na profundidade de cada
toda sua correspondência: "50 anos depois de sua
pensamento transposto em letra de forma, e ele ou
morte", faltam poucos anos, essas cartas podem
ela fica a imaginar aquela mão, aqueles dedos,
ser pressentidas, adivinhadas, aqui e ali, nas ex­
aquele cérebro no momento da criação literária ou
pressões de Mário.
científica, e a prever o momento de reencontro
pessoal para nova comunicação; até a voz, aí re­ Em Mário a confiança na expansão de sua vida
lembrada, como que mantém o timbre, a sonori­ interior, a revelação de sentimentos, angústias,
dade real daquele momento em que a fala foi en­ alegrias, enternecimentos. As hesitações confessi­
volvida. onais, as certezas de sentimentos, a fuga ao senti­
Das dissertações nos livros ou das exposições mentalismo. Comunicar-se, ter um ouvinte queri­
orais fica a lembrança viva da fala, fisicamente, in­ do, era profundamente necessário; as auto-análi­
telectualmente, a toda sensibilidade, num trans­ ses tinham de ser divididas, ao mesmo tempo em
cender da matéria para o espírito, do espírito para que sua alma transbordava, encolhia:-se, não que­
o espírito, do coração para o coração, do cotidia­ ria ultrapassar medidas que o próprio eu deter­
no para o raro. minasse. Mário sabia até liberar o seu exigir, sem
ser contraditório; amava sobretudo a verdade, a
E nos reencontros, de amigo e amiga, nas páginas sinceridade e, mais importante, confiava na amiga.
alheias, de poetas, romancistas, ensaístas, cada um
a imaginar o que pensaria o outro naquela leitura; Nestas cartas vamos ver ainda que as confissões
como o outro resolveria suas dúvidas; cada um a de Mário são mais espontâneas, mais humanas,
querer adivinhar as impressões que o outro teria, mesmo nas referências a problemas intelectuais. O
as interpretações, os julgamentos críticos. E o modo de pensar e o de sentir se integram nos co­
mundo das cogitações de um será o mundo das mentários de idéias. As belezas de sua alma se re­
cogitações dos dois. velam no que ele diz e no como diz. A liberdade
lingüística traduz uma oposição à violência das
Em que se diferenciaria a amizade do amor? margens, das normas, mas sem agressão, numa
A amizade seria doação? O amor seria exigência? atitude de busca de expressão natural de pensa­
mento e sentimento.
Na troca de cartas entre amigo e amiga intelectu­
ais, as cartas são vividas por quem as escreve e A espiritualidade transcende o cotidiano, e não
por quem as lê. A amizade conduz o espírito e as importa a distância do convívio pessoal: "Poucas
mãos escrevem e conduz a alma e os olhos que lê­ vezes te vi, sempre te amei".
em. E as sutilezas enternecidas, os disfarces afeti­
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E vamos lembrar Fernando Pessoa: dar refletir refletir e com cuidado e com paciência
fazer tudo em terreno novo"3.
Temos todos que vivemos Alguma coisa há de ficar (e ficou muito).
uma vida que é vivida
e outra vida que é pensada. Não tem nada como a gente se respeitar, a
O prefácio do Padre Lauro Palu, todo sabedoria, si mesmo. Isso não é vaidade, é dever é um
ilumina os caminhos da interpretação das belas trabalho imenso em que agora você terá de
cartas de Mário a Henriqueta. botar a vida inteirinha se quiser mesmo al­
guminha coisa.
NO MODERNISMO A solução de você tem isso de valiosíssimo,
por mais que você empregue termos e mo­
As reações modernistas de Mário de Andrade, em dismos caboclos você conserva uma suntuo­
relação à língua, aos problemas linguísticos em si sidade artística na dicção que é eminente­
mesmos, e em relação às técnicas e processos re­ mente literária e não oral ... fala oral brasi­
novadores, na Poesia, na Arte são muito mais só­ leira já a gente possui e não carece dela , a
lidas, mais equilibradas, mais lúcidas do que pen­ independência verdadeira está justamente
savam os adversários, os opositores da época (e em construir uma linguagem literária pecu­
que fizeram Mário sofrer). liarmente da gente baseada na fala oral e
Basta ler pequenos trechos das cartas aos amigos, distinta". E continua: "a técnica processual
para uma melhor compreensão das intenções, das tem uma importância extraordinária e isso
perspectivas de Mário; quantas vezes num simples de naturalidade, sinceridade e ignorância,
comentário de algum trabalho do amigo ele re­ tudo são fadigas momentâneas de cérebros
vela, com segurança suas idéias. Na própria forma moços4.
expressiva de Mário, na linguagem, no emprego
de recursos originais, as novidades aparecem co­ Sobre criação poética, Mário adverte5 cuidadosa­
mo acréscimo, e nunca com espírito destrutivo. O mente, sabiamente: "O perigo é que em vez de
vocabulário e a estrutura de frases usadas nos tra­ você se deixar levar pelo estado lírico, você se
balhos dos amigos sofrem observações de ponde­ preocupou mais com o processo com que se rea­
radas convicções de Mário. liza o fato exterior, em vez de observar o seu es­
tado psicológico e por ele descrever o fato exte­
Vamos ver algumas observações suas, sobre obje­ rior. Em vez de processos técnicos, síntese, ono­
tivos e planos: matopéias, superposição simultânea de palavras.
combinações orais, em vez dos processos técnicos
Pretende-se "língua brasileira que corresponda ao serem um meio para você realizar sua sensação e
nosso caráter, realidade, função".! emoção - fim da poesia, destino dela - foi uma
certa sensação que você escolheu para poder
A gente não deve se esquecer que não es­
empregar e mostrar certos processos técnicos
tamos fazendo uma fotografia do falar oral
modernos. Assim para você (ao menos nestes dois
e sim uma organização literária, fotografá­
poemas) a sensação é um meio, o processo técni­
la não é dar uma solução que tenha viabili­
co em fim". "No fundo a poesia é uma só e conti­
dade literária, e nem siquer prática. 2
nua a ser tradicional, seguindo a linha comprida
que do homem da caverna vem até nós."
Cauteloso continua "o trabalho que nós temos é
imenso, não basta intuição, tem que estudar estu­
3. Ibidem, p. 74.
1. ANDRADE, p. 53. 4. ANDRADE, p. 90.
2. Ibidem, p. 53 - 54. 5. Ibidem, p. 39.

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Essas advertências demonstram a alta compreen­ gante". Quando todos deixaram a mesa, já na sala
são do que seja realmente poesia. E costumo dizer de visitas, Helena Antipoff que o chamaria de "Gi­
que alguns poetas modernos chegaram a entender gante" em carta a mim dirigida, exclamou: "Fui fe­
que a poesia moderna se caracterizava apenas pela liz durante todas essas horas, muito feliz mesmo",
mudança de linhas da mensagem. Alguns não per­ ela que também sabia levar felicidade aos outros.
cebem as nuanças, o requinte, a graça, a beleza de
De volta a São Paulo, poucos meses depois falecia
uma forma chamada livre, mas bem trabalhada, às
o nosso grande Mário, sociável, encantador, além
vezes até a partir de inspiração de uma forma
de tantas riquezas de espírito e coração.
clássica.
Como Mário, várias vezes, demonstrou nas cartas DEPOIMENTO
que sofreu com as críticas injustas, achei por bem
reunir ponderações, princípios, idéias, afirmações José Lourenço de Oliveira conta? que em 1924

pessoais do Autor, que se constituem em bela de­ chegava a São João Del Rei para exercer o ofício

fesa em relação a certas incompreensões daqueles de professor e foi .surpreendido com a presença na

momentos primeiros de renovação literária. cidade de uma caravana de São Paulo que vinha à

cidade para assistir a uma Semana Santa. Ao ler o

Em cartas a Drummond6 Mário afirmava eu não /I


registro de hóspedes do Hotel Macedo transcre­

ataco nem nego a erudição, a civilização, ao veu literalmente a página correspondente ao dia

contrário, respeito-as" e adiante" "Trata-se de 16 de abril de 1924.

uma estilização culta da linguagem popular, da


roça ou da cidade, do passado ou do presente" e, Eis o curioso registro:

ainda "falo em criar uma linguagem culta brasi­ "D. Olívia Guedes Penteado, solt.; photographer,

leira". anglaise, Londom.

D. Társia do Amaral; solt.; dentista, americana,

Chicago.

LEMBRANÇA DA PRESENÇA DE MÁRIO


Dr. Réné Thiollier, casado; pianista, russo, Rio.

Mário de Andrade, em visita a Henriqueta Lisboa, Blaise Cendars, solteiro; violinista, allemand, Ber­

em Belo Horizonte, teria dito à Amiga que apreci­ lin.

ava muito a comida mineira, a couve bem verde, o MÁRIO DE ANDRADE, SOLTEIRO, FAZEN­

tutu de feijão, as costelinhas de porco, etc... Tinha DEIRO, NEGRO, BAHIA.

eu nesta época uma cozinheira especial e Henri­ Oswald de Andrade Filho, solt.; escrittore, suíço,

queta sugeriu um almoço lá em casa. Ao meio dia Berne.

chegou Mário, tão simpático, muito elegante, de Oswald de Andrade, viúvo; escolar, holandês,

terno marrom, gravata bonita ... Convidamos tam­ Rotterdam. "

bém, para o almoço, a Profa. Helena Antipoff,


A maluquice informativa da resenha, não sei se
aquela mulher extraordinária de pensamento e
era obra de um só ou então produto cooperativo.
ação; pessoas geniais, Mário, Helena, Henriqueta
Mas era a mesma letra em que se lavrara.
se encontravam na casa de Alaíde e Lourenço. E o
almoço começou, ao meio dia e meio; os quatro Seria uma reação irônica de protesto contra a
filhos pequenos do casal, sentados, no final da burocracia, o formalismo, o controle tradicional?
mesa, com olhos arregalados, almoçaram e se reti­ E Lourenço comenta mais tarde:
raram, para expandir energias.
O grupo continuou na mesa até 17 horas, elevadas Faz vinte anos que vi o nome de Mário de
e belas trocas de idéias centralizadas naquele "Gi­ Andrade num registro de hotel. Este nome
cresceu e humanizou-se, até se identificar

6. ANDRADE, 1982. p. 24. 7. OLIVEIRA. Ao correr do tempo, p. 77.

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admiravelmente com o homem que depois vista do Brasil um artigo intitulado Arte
conheci em Belo Horizonte, na casa de Religiosa no Brasil, no qual descreve a via­
Henriqueta Lisboa. Pude vê-lo, então, de gem e fala com entusiasmo no Aleijadinho
portas a dentro, como diria Frei Luís de (1920). Alguns anos mais tarde o escritor
Sousa. Era um MÁRIO maior do que o paulista produzirá sua magistral análise da
MÁRIO dos livros que li. Um MÁRIO bom, figura de Antônio Francisco Lisboa, num
cordial, humano, muito humano. texto que se tomou clássico. Começava pois
a reavaliação crítica da arte colonial mineira.
Relendo-lhe a obra, agora, desde os desva­
rios da Paulicéia, 1922, até os Aspectos,
Essas lembranças mostram a bela associação do
1943, pude ir sentindo, com amor, este ho­
movimento renovador com a arte tradicional.
mem de minhas predileções.
Mesmo do ponto de vista gramatiqueiro, fui PALAVRAS FINAIS
vendo como progrediu para uma linguagem
cada vez mais canônica. Mário de Andrade realmente se revela um gênio
tanto através do que escreve, em prosa ou em
O que vale, nele, está para além do escân­ poesia, como através de suas atividades.
dalo do professor de gramática, e vive, pal­
pitando sob os solecismos propositados, na Nas cartas suas idéias se multiplicam, com lúcidas
inspiração, na cultura, na compreensão, na cogitações, análises sobre a criatura humana desde
brasilidade, na fraternidade. a superfície até o profundo do ser.

Será de um precursor o seu linguajar? Pas­ E como sabia amar a vida, a humanidade, os ami­
sará ele à consagração de clássico brasilei­ gos. Sua força sensível se confunde com o alto ní­
ro? vel de sua inteligência. Humano, profundamente
humano.
Quem poderá prenunciar os caminhos da
língua e os termos das tendências? (1945) Tão grande e em vaidade, estimulava os poetas
generosamente.
VISITA A MARIANA Sabia valorizar as artes nas suas várias manifesta­
Para lembrar a integração de Mário de Andrade ções de escolas e de épocas. Amava São Paulo.
com Minas e os mineiros trago também um de­ Amava também Minas Gerais e era por ela muito
amado; assim estou feliz representando aqui o
poimento de Fernando Correia Dias, publicado em
amor de Minas nesta homenagem.
Barroco I da série dirigida por Affonso Ávila.
Fernando conta:
REFERÊNCIAS BIBlIOCjRÁFlCAS
Em 1919, Mário de Andrade vai a Mariana. 1. ANDRADE, Mário de. Cartas a Pedro Nava.
Está visitando as velhas cidades. E mantém Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982.
contato com Alphonsus, que já tanto admi­
rava. No seu refúgio, o extraordinário sim­ 2. . A lição do amigo; cartas de Mário de
bolista recebe aquele que seria, alguns anos Andrade a Carlos Drummond de Andrade.
depois, a presença revolucionária mais emi­ Rio de Janeiro: José Olympio, 1982.
nente nas letras brasileiras.
A visita recebida causou-lhe profunda im­
pressão. Mário, assinando M. Morais de
Andrade publicaria no ano seguinte na Re­

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