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FERNANDO GIL VILLA

O que significa pesquisar?


Exorcismo do trabalho de pesquisa

Tradução: Hildegard Susana Jung

W
Edições
Hipótese
EDIÇÕES HIPÓTESE é nome fictício da coleção de livros editados pelo Núcleo de
Estudos Transdisciplinares: Ensino, Ciência, Cultura e Ambiente, o Nutecca.

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Prof. Dr. André Constantino da Silva (IFSP).

EBOOK DE DISTRIBUIÇÃO LIVRE E GRATUITA


Sumário
Apresentação por Ivan Fortunato ................................................................................................................. 05

Introdução ........................................................................................................................................................ 06

1. O paradigma do pesquisador como herói ................................................................................................. 15

1.1. Raízes culturais do trabalho de pesquisa .................................................................................................... 15


1.2. Um trabalho muito masculino .................................................................................................................... 22
1.3. Referências cristãs. O bolsista crucificado ................................................................................................. 28
1.4. O processo de santificação do clássico ...................................................................................................... 35
1.5. Sísifo, o pesquisador .................................................................................................................................. 39

2. Genealogia da pesquisa ............................................................................................................................... 46

2.1. Topografia do trabalho de pesquisa ........................................................................................................... 46


2.2. Norma e forma ........................................................................................................................................... 51
2.3. O fantasma do procedimento ..................................................................................................................... 57
2.4. Como NÃO se faz uma tese ....................................................................................................................... 60
2.5. Em que se parecem uma pirâmide e um trabalho de pesquisa? ................................................................. 64
2.6. O pesquisador entre heróis, super-heróis e intra-heróis ............................................................................. 75
2.7. Sobre como as técnicas de pesquisa estão supervalorizadas ...................................................................... 81
2.8. Do Livro Essência ao Livro Puro. Uma falsa evolução ............................................................................. 89

3. Construir de forma fraudulenta .............................................................................................................. 107

3.1. A pesquisa como farol .............................................................................................................................. 107


3.2. As redes sociais como estratégia de condescendência ............................................................................. 116
3.3. As consequências não procuradas da especialização como seguro anti-risco ......................................... 122
3.4. O risco da implicação emocional ............................................................................................................. 131

4. O paradigma do pesquisador como anti-herói ....................................................................................... 136

4.1. Aprendendo com as telenovelas ............................................................................................................... 136


4.2. Tipos ideais de pesquisador: explorador, detetive ou poeta ..................................................................... 143
4.3. Um artigo para o Daily Planet: pedestres que atravessam com o sinal vermelho .................................... 148

Epílogo. O pesquisador como intelectual crítico ........................................................................................ 161

Bibliografia .................................................................................................................................................... 164


Gil Villa; Fernando. O que significa pesquisar? Exorcismo do trabalho de pesquisa.
Tradução: Hildegard Susana Jung São Paulo: Edições Hipótese, 2017.
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El mundo intelectual, que se cree tan profundamente liberado de las


conveniencias y de las convenciones, siempre me ha parecido como lleno
de profundos conformismos
(Bourdieu, 2006, p. 145).

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Tradução: Hildegard Susana Jung São Paulo: Edições Hipótese, 2017.
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Apresentação

Este já é o terceiro livro autoral internacional publicado pelas Edições Hipótese.

Faz-se necessário expressar os agradecimentos aos dois parceiros que tornaram isso

possível: Dr. Fernando Gil Villa, catedrático da Universidade de Salamanca, e

Hildegard Jung, colega que traduziu a obra para nossa língua pátria.

O livro que temos em tela é sobre PESQUISAR. Tarefa que, apesar dos excessos

de pesquisa na graduação, na especialização, nos programas stricto senso... não é nada

fácil. Requer, antes de tudo, paciência: ler, observar, refletir, ler de novo, ler mais,

observar mais, experimentar, reler, testar e testar... enfim, é preciso ter calma para que a

pesquisa se verta, efetivamente, em um produto que possa beneficiar o avanço do

conhecimento.

Dessa forma, fica a esperança de que essa obra e os esforços para trazê-la ao

público brasileiro no idioma português apenas ajude a termos mais e melhores pesquisa.

São Paulo, julho de 2017

Ivan Fortunato, editor

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Tradução: Hildegard Susana Jung São Paulo: Edições Hipótese, 2017.
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Introdução

Pesquisar é fácil. Mas parece difícil.

A que se deve essa aparência que desanima tantos a cada dia? Tal mal-entendido

não possui um fundo dramático, não convém desfazê-lo urgentemente se considerarmos

que o progresso de um país está no fato de que sua gente, além de acumular anos de

educação formal, desenvolvam a habilidade de pesquisar, aplicada, seja a trabalhos

científicos ou a assuntos cotidianos de interesse pessoal? Somente desse modo

poderemos associar aquele progresso com a liberdade de seus cidadãos (além de seu

bem-estar econômico), dado que somente assim estaremos em condições de garantir

uma vida limpa de preconceitos, em constante alerta epistemológico, longe do

autoengano.

Na medida em que as reflexões que aqui são expostas fazem parte da sociologia

do conhecimento ou da filosofia da ciência, apresso-me a acrescentar que, sobre tais

matérias, pesa igualmente um preconceito que poderia colocar em alerta e desanimar os

leitores. E espero ter mostrado, de passagem, que não são especialidades aptas

unicamente para cientistas sociais com um potente background em filosofia da ciência

ou uma inclinação desmedida pelos conhecimentos reflexivos dotados de alto poder de

abstração. Igualmente como sucede com a pesquisa, qualquer um pode praticá-las, daí o

lema que ao final resumirá boa parte das conclusões: tudo pode ser pesquisado por

todos. De fato, o trabalho de pesquisa pode ser considerado independente até um certo

ponto, mas é inseparável do trabalho epistemológico, porque somente assim a pesquisa

será independente. Esta espécie de trava-línguas resume nossa aventura.

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Tradução: Hildegard Susana Jung São Paulo: Edições Hipótese, 2017.
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Aventura porque o objetivo desta obra é mostrar como o trabalho de pesquisa

pode e deve ser aproveitado ao proporcionar o prazer das aventuras. Obviamente,

existem múltiplos tipos de aventuras e formas de experimentá-las, de maneira que

haverá também tipos ideais com os quais os leitores poderão se identificar: explorador,

detective ou poeta, com seus diferentes subtipos, angelicais e demoníacos.

Mas antes de que o leitor possa começar a “brincar” de ser pesquisador,

seguindo o papel de jornalista, trabalhando para o Daily Planet, como colega do Super-

Homem, ou para O Clarín, se prefere o Homem-Aranha (talvez porque é fã de Umberto

Eco e não gosta dos visitantes de Krypton), e de acordo com as indicações e exemplos

que aqui serão dados, antes digo, em uma primeira e mais extensa primeira parte, que

deverá submeter-se a um programa de desintoxicação. Neste, ficará consciente dos

temores e das fobias os quais deve enfrentar no dia a dia, com a finalidade de extrair,

como se tratasse de um exorcismo, o espírito do paradigma dominante da pesquisa

como super-herói sacrificado.

Trata-se de uma leitura obrigatória que obriga a refletir sobre o sentido de ter ao

lado de sua escrivaninha o pôster gigante que lhe deram de presente na universidade

quando defendeu o TCC da graduação, a dissertação de mestrado, a tese de doutorado,

esse que tem a imagem de Cristo com a cruz ao fundo ou a de Sísifo subindo e descendo

a montanha carregado de livros (normalmente, lhe pedem para escolher um, às vezes se

inclui um terceiro, Prometeu acorrentado).

A maior parte do presente texto tenta desconstruir o atual sistema de pesquisa.

Tal desconstrução deve ser entendida como a versão amável da destruição, destruição

por desmantelamento e não por explosão e, por isso mesmo, destruição mais terrível,

pois se um edifício explode, a nostalgia pode levar os vizinhos, no futuro, quando a

memória se apague, a sua re-construção. Entretanto, se a destruição procedeu com

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Tradução: Hildegard Susana Jung São Paulo: Edições Hipótese, 2017.
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parcimônia, retirando as peças uma por uma, então os vizinhos “fofoqueiros”, ou seja,

os curiosos, os potenciais investigadores, os cidadãos, poderão assistir dia a dia, como

esses aposentados que nunca faltam ao lado de uma obra, ao espetáculo de sua

vivissecção. A cada manhã verão uma peça podre diferente, poderão assombrar-se

perante o estado de putrefação que apresenta, exclamando: “Quem diria, veja como

estava! ”.

A desconstrução, tal e como aqui se pratica é, pois, a destruição com fins

pedagógicos. Somente assim a reconstrução educará. Para os vizinhos deve permanecer

na memória a marca do mal que estava, não no edifício em si, mas em todas as suas

partes, o que significa que devem acabar pensando que se o edifício tivesse caído

totalmente, teria suposto um desastre afundando cada parte. A cozinha incendiada, parte

do telhado desmoronado ou o elevador avariado, teria colocado seus cidadãos em sérios

problemas. Algo que estava pensado para proteger e melhorar a qualidade de vida teria

se convertido em fonte de sofrimento, exatamente igual aos trabalhos de pesquisa

pervertidos, desviados, tomados como partes do sistema de organização da pesquisa

acadêmica que hoje temos, um edifício muito apodrecido.

Uma advertência. Os leitores encontrarão um texto continuamente salpicado de

parêntesis. É algo totalmente planejado. Mais ainda, pretende servir de ilustração prática

do ataque ao estilo acadêmico formal cuja crítica será abordada em profundidade. Ao

que parece, muitos escritores, como Cortázar, odeiam o parêntese. Também um dos

meus orientadores de tese há trinta anos me desaconselhava a usá-los, de forma amável,

mas insistente. Na época, eu não relacionava a posição social de tais doutores com sua

posição acadêmica e com seus conselhos de orientação. Ou seja, não refletia sobre as

condições sociais nas quais se pratica a ciência. Puxando o fio dessas pequenas manias,

podemos descobrir, como veremos, muitas coisas.

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Tradução: Hildegard Susana Jung São Paulo: Edições Hipótese, 2017.
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Como exemplo, podemos falar sobre o que acontece com o referido parêntese.

Os parênteses incomodam a quem e por quê? Há algum argumento lógico

definitivo que o contradiga, ou se trata de razões discutíveis? Pode-se alegar, por

exemplo, que o sinal interrompe a leitura, mas isso não lhe diminui a funcionalidade,

pelo contrário, tal como sucede com o silêncio numa conversa, ao permitir ao falante

que respire e que reflita para continuar se comunicando. É evidente que na maior parte

dos casos se trata de desculpas que escondem razões inconfessadas e incontroladas.

Muitos colegas leitores podem ser assaltados pelo espírito fantasmagórico da

burguesia, sempre prestes a reclamar, de forma inoportuna, sua filiação, apresentado

através de tics incontroláveis, as atas oficiais do ensino acadêmico recebido durante

longos anos. Os parêntesis os deixam nervosos. Sentem perante eles a mesma

desconfiança que sentiram seus ancestrais ao ter que passar (os olhos se veem obrigados

a passar durante a sessão de leitura pelas ruas das letras) por um bairro judeu ou árabe,

epítome de enjambre humano e de resistência, oposto às grandes avenidas, aos infinitos

espaços suavemente ajardinados criados para impossibilitar as barricadas. A crítica à

falta de estética do parêntese ou à sua disfuncionalidade rupturista em relação ao ritmo,

esconde um medo antropológico no leitor, maior quanto mais obcecado esteja pela

segurança, portanto, quanto mais doses de educação burguesa tenha incorporado.

A gente nunca sabe o que nos aguarda por trás do parêntese. Talvez uma

emboscada. De qualquer modo, não pode evitar o incômodo que produz a surpresa, o

sobressalto imposto, no fundo uma ameaça a sua posição privilegiada (a comodidade do

leitor é um reflexo da comodidade da posição social que assume a cultura livresca como

alta cultura) sob a forma de crítica. Curiosamente, essas mesmas raízes culturais, de

altura, fazem com que adore a música clássica e, dentro dela, a polifónica. Entretanto, é

incapaz de ver o jogo de vozes nos parênteses que balizam o texto, ou seja, o jogo da

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diferença enriquecedora, de pluralidade orquestrada, dialogante. Aqui está outra das

contradições que desgarram a posição da burguesia intelectual e que causam no sujeito

um entorpecimento da percepção, uma cegueira mais ou menos transitória na hora de

avaliar os estilos, assim como uma incapacidade para relaxar e aproveitar a leitura como

aventura e descobrimento.

Por certo que a intenção polifônica do texto também poderá observar o leitor na

mudança de pessoa adotada pelo narrador, na maneira como o autor se dirige a ele ou a

ela. De novo, a regra manda manter a mesma pessoa supostamente em benefício da

coerência. Mas a coerência que o autor e o pesquisador estão obrigados a manter, por

respeito ao leitor, se refere ao conteúdo, às ideias. Uma das mais incômodas hipocrisias

da literatura acadêmica (e fictícia) é aquela pela qual o autor se obriga a si mesmo,

talvez em um triste remedo de seus hábitos domésticos, a vestir o texto com

indumentárias e gestos sóbrios e comedidos, enquanto que o conteúdo está duplamente

fragmentado, tanto em suas conexões semânticas como na relação que guardam com

outras obras do autor, quando as tem, e com seus comportamentos na vida real. É assim

também quando muitos autores, por um lado, pregam uma coisa e fazem outras, y por

outro, escrevem livros onde as teses se perdem de vista, e desde o começo perdem

contato com um fio argumentativo lógico.

Neste mesmo sentido, me permito adiantar mais dois possíveis comentários

críticos que se resumiriam na qualificação do texto como “radical” e como

“banalizador”. A frequência de tais reações permitiria medir, como no caso de qualquer

remédio, o sucesso de seu princípio ativo. A probabilidade de que em um contexto

altamente conservador, um comentário reflexivo seja qualificado como radical, é alta.

Igualmente, em uma casa onde o uso do estilo formal é obrigatório, ainda que seja de

maneira informal, o mínimo gesto de transparência poderá ser interpretado como uma

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obscenidade. Desde a perspectiva da cultura burguesa, tanto a nudez como a

sinceridade, as duas primeiras formas que a transparência assume, são consideradas

como vulgares. Por essa razão, a divulgação científica se sente permanentemente

assediada pela sombra da vulgarização.

Gostaria de destacar, por último, que esta obra foi escrita com uma paciência

irritante, e de algum modo sob (de)pressão, portanto, e também, de uma forma

poderíamos dizer que oposta àquela usada hoje em dia pela maior parte dos autores, que

trabalham sob pressão. Isto inclui, obviamente, os autores acadêmicos, posto que eles

constituem uma subespécie caracterizada, entre outras coisas, pelo super estresse. Dessa

maneira, se por definição, o autor de nosso tempo está estressado pelo estilo de vida

mais-que-moderna e pela ânsia desenfreada e ilimitada de sucesso que caracteriza a

sociedade mais-que-moderna, mais ainda estará o autor acadêmico, o qual compete não

somente pela fama, como seus homólogos do campo da ficção, mas também pelo status

acadêmico. Esta nota informativa é importante para o leitor porque, justamente o que

esta obra tenta ensinar aos aprendizes da pesquisa, é curar-se da angústia.

Essa tem sido uma das motivações fundamentais para escrever o livro. Convido

o leitor observador a passar por uma das salas que costumam abrigar as bibliotecas

universitárias para os pesquisadores. A atitude desmaiada, a disposição dos materiais, os

rostos, os rastros de bebidas estimulantes nunca terminadas, as olheiras. Se ademais

pudesse conversar amistosamente com algumas das vítimas escolhidas ao acaso, muito

provavelmente arrecadaria uma informação de cores compatíveis com a cena

apresentada: a insônia, o consumo conseguinte de drogas (em general mais legais que

ilegais, o que já é sintomático) para dormir, a ansiedade declarada, as queixas pela falta

de orientação resumidas na sensação de insuportável solidão…

A que se deve tanto sofrimento? Se ao menos estivesse justificado, como no

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caso em que o sacrifício é obrigatório, por exemplo ao acompanhar alguém em uma

grave estadia hospitalar, mas não está. A firme convicção de que se trata de um dos

sofrimentos mais inúteis e absurdos que existem, unida à forte suspeita de que fazemos

(nos, os doutores orientadores) vista grossa porque é mais fácil e cômodo para nós do

que refletir sobre o problema, porque no fundo sabemos que não se trata simplesmente

de um problema psicológico que poderia ser resolvido individualmente com alguns

conselhos terapêuticos, mas sim de um mal-estar que indica una falha fundamental e

estrutural do sistema no qual se organiza a pesquisa acadêmica, ambas as coisas digo,

são as que me levaram a escrever estas páginas. Não o fiz somente pensando em ajudar

aqueles que precisam enfrentar pela primeira vez uma pesquisa, grande ou pequena, que

cada vez são mais e mais. Não pretendi escrever um livro de autoajuda, mas denunciar

um estado de coisas, uma forma de trabalhar que me parece tremendamente injusta e, ao

mesmo tempo, repito, absurda.

Há algum tempo vinha sentindo a sensação de urgência, de responsabilidade

moral urgente em escrevê-lo. Contudo, sempre intuí que, para fazê-lo, necessitaria, além

da oportunidade, um período de tempo relativamente longo (alguns meses) durante os

quais não tivesse que compartilhar a energia intelectual com outras tarefas, conectando

com um estado de ânimo especial.

Efetivamente, quando por fim coloquei as mãos à obra, minhas impressões se

viram confirmadas. Cada manhã, quando ia escrever, não podia evitar uma sensação de

vertigem, como se a estrutura pudesse desmoronar a qualquer momento. Tão frágil era,

tão arriscado era mover-se entre camadas de pensamentos de tanta densidade. E

acontece que, se toda obra passa por um processo de construção durante o qual é, por

definição, isso, construção, necessariamente provocará em seu autor - seu arquiteto e

seu construtor -, um certo mal-estar, ao submergir em uma situação paradoxal, quando

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está pensada, como já referi, como des-construção. Neste caso, pretendia construir um

edifício que replicasse o edifício científico (obviamente em pequena escala), no qual se

mostrassem seus tendões, vasos sanguíneos, nervos e, sobretudo, ossos. Como nessas

exposições de cadáveres com fins educativos. Assim, desnudar a ciência de suas

roupagens, suas carnes e suas maquiagens, tornar evidentes seus defeitos, mostrando a

cozinha da pesquisa, implicava um risco, pois não todos estão dispostos a admirar um

esqueleto. Este, por si mesmo, apenas se mantém em pé. O expositor deve engendrar

maneiras para alcançar o equilíbrio e vigiar para que se mantenha constantemente. Por

outro lado, o trabalhinho tem algo de politicamente incorreto, por muito que nos digam

que, em teoria, a cultura admite todo tipo de manifestações na alta modernidade. A

verdade é que hoje mais que nunca tendemos a esconder a feiura e todo o rastro de

morte, como pó debaixo do tapete. Se o público é resistente para reconhecer em si

mesmo e nos demais qualquer sinal de decrepitude, quanto mais não o será em se

tratando dos que a ciência mostra, último bastião onde sobrevive – ainda que seja a

duras penas - a utopia, último depositário da fé na salvação da humanidade após a

secularização?

Como toda obra que mostra esqueletos, esta é também terrível. Confio, em

princípio, na atração que nossa época sente pelo grotesco para convidar à leitura.

Depois, na que sente pelo anti-herói para enfrentar seus medos. Ambas coisas

constituem nosso alter ego e nos atraem precisamente porque devem repelir-nos,

portanto, por pura perversão, o que indica que, a estas alturas, ainda continuamos

representando a comédia social da velha burguesia da qual somos herdeiros, ainda que

alguns se neguem a reconhecê-lo em nome de uma interpretação que quer ser

progressista, quando é somente idealista, portanto, sem muito entusiasmo e seguindo

versões já bastante desfiguradas pelo sfumatto do niilismo.

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1. O paradigma do pesquisador como herói

1.1. Raízes culturais do trabalho de pesquisa

O trabalho de pesquisa é, antes de mais nada, e como seu próprio nome indica,

um trabalho, de maneira que seu sentido último deve ser interpretado de acordo com o

valor cultural que este tenha em uma determinada época e sociedade. Na nossa, está

marcado pelo individualismo, medido em função do critério abstrato do esforço do

sujeito, que passa por dono e senhor de seu destino.

Para tornar-se compatível com esse marco de crenças, o sistema acadêmico se

organiza sobre certas práticas e normas destinadas a concentrar a responsabilidade no

estudante. Nem a organização concreta do trabalho, ou seja, as normas que o regulam,

nem o acaso, nem o orientador, são considerados partícipes do fracasso ou do êxito do

resultado final. As comissões encarregadas de coordenar o Mestrado e/ou o Doutorado

de cada departamento impõem critérios arbitrários dentro do respeito a certas diretrizes

gerais estabelecidas pelas universidades e pelas administrações educativas. Os alunos

costumam acatar tais ordens com menos resistência ainda do que na graduação, como se

a urgência em conseguir o título de pós-graduação, e a sensação de que se trata de uma

etapa educativa especial cuja altura reforça a autoridade sagrada dos professores

doutores, geraram a obrigação moral de agradecimento por ter sido admitido, por fazer

parte dos privilegiados, o que implica não discutir normas tão arbitrárias como o

número de citações ou páginas obrigatórias ou o grau de assistência. A atitude submissa

não deve ser considerada típica do estudante. É na verdade um dos objetivos chave de

um sistema de ensino baseado na memória e nas provas e alheio às aprendizagens

criativas, participativas e dinâmicas. Uma das funções sociais que cumpre referido

sistema, ao socializar os alunos desde os primeiros anos na obediência e na recepção

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Tradução: Hildegard Susana Jung São Paulo: Edições Hipótese, 2017.
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passiva de conteúdos e valores. Precisamente inculca os valores mais desejados pelos

empregadores em cujos braços acabarão os estudantes, alguém que chegue

pontualmente ao trabalho, asseado, com boas maneiras e obediente.

Em teoria, à medida que se ascende na pirâmide educativa, se outorgaria ao

aluno mais autonomia, em correspondência com a que seria outorgada a um trabalhador

mais qualificado. Mas este esquema lógico parece mais do que discutível hoje em dia

por várias razões, entre as quais se destaca a vulnerabilidade da população jovem,

incluída a graduada, que flutua à deriva em uma sociedade incapaz de oferecer-lhe

caminhos dignos de emancipação. Outro dos grandes motivos é a falta de pensamento

crítico, o que, por sua vez, se explica não somente pela falta de instrução a respeito –

pois se o único culpado fosse o próprio sistema educativo, o argumento seria

tautológico -, mas também pela influência das novas tecnologias e, particularmente da

rede no estudo, assim como pela falta de alternativas institucionais que permitam uma

formação integral e amena. Também é interessante a falta de referências intelectuais, a

perda de transcendência do papel do professor universitário que, vítima ele mesmo da

mentalidade tecnocrática que impera na academia, se esquece dos traços de sua

identidade, esses que durante toda a história o converteram em algo mais que um

simples expert que transmite um programa concreto dentro de una relação contratual

que outorga créditos em troca de um salário.

O caso é que o estudante de pós-graduação que enfrenta um trabalho de

pesquisa, o faz a partir de una situação de fragilidade máxima. Isso contribui para que

prenda nele a ideologia do sacrifício e heroicidade, único veículo apropriado para

sobrelevar a submissão exigida.

Se a primeira sensação, consequência da insegurança semeada a partir de tantas

perspectivas – e ainda seria necessário falar de uma que envolve todas, um último

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Tradução: Hildegard Susana Jung São Paulo: Edições Hipótese, 2017.
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círculo concêntrico, macrossociológico, no qual a sociedade deve ser definida como

sociedade da incerteza – é, portanto, a de que se encontra sozinho perante o perigo, e a

consequência lógica é que devemos andar pisando em ovos.

Tudo o que você diga ou escreva pode ser usado contra você, essa parece ser a

regra implícita que rege o momento terrível do início do trabalho de pesquisa. A

presunção de inocência, essa garantia jurídica destinada em seu âmbito, precisamente a

oferecer um mínimo de segurança e tranquilidade, fica invertida, sequer de modo

informal, na realidade cotidiana da pesquisa. A ingenuidade fica exposta de forma

alarmante e, devido ao paternalismo que a amortece, se transforma, via sarcasmos dos

professores e orientadores, em infantilismo, cortando pela raiz qualquer uma das fontes

de energia que o estudante pudesse ter. Com isso, se dá uma nova volta no parafuso da

incerteza e ansiedade do aprendiz.

Andar pisando em ovos é uma questão que afeta o tempo e as forças implicadas.

O primeiro passará muito lentamente. O trabalho avança devagar pelos contínuos

bloqueios que a cautela impõe em um ambiente de insegurança. Quanto ao motor que

serve de inspiração, fica descartada desde o princípio a hibris, essa potência básica que

ativa o orgulho do herói por sê-lo, sua autoconfiança geradora de arrebatamentos

temerários que em matéria de escrita deveriam provocar impulsos criativos, golpes de

graça assestados às páginas ou telas em branco que esperam desafiantes. Ambos, tempo

e força de inspiração, ficam como amordaçados, contidos. A autocontenção é uma

manifestação do autocontrole do sujeito burguês, faz parte das heranças que passam ao

pesquisador por sua genética, junto com a já comentada responsabilidade personalizada.

A esse nível, o autocontrole tem sido observado em trabalhos clássicos, desde Elias a

Foucault o Freud. Os processos de socialização política confluem com os provenientes

do mundo do trabalho no corpo do sujeito, que se racionaliza além de privatizar-se. O

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doutorando, como expressão máxima da pessoa que enfrenta um trabalho de pesquisa,

se converte em um campo de contradições que terminam por avalizar este fenômeno.

Tradicionalmente, tem toda a vida para completar lentamente seu trabalho.

Paralelamente, a orientação é tão flexível que não tem um horário obrigatório nem um

calendário que o pressione para realizar as distintas atividades. Precisamente por essa

teórica liberdade, o êxito depende do autocontrole. Somente aqueles que têm alcançado

um domínio máximo de seu corpo, acabam a tese. Tal corpo não somente abarca,

obviamente, as vastas planícies físicas da preguiça, mas também as que têm a ver com a

resistência académica, portanto, com o espírito de rebeldia e com o atrevimento

intelectual.

O corpo pede ao pesquisador ira no estudo, mas os cânones o desautorizam.

Ortega y Gasset luta contra este preconceito aproveitando uma deliciosa anedota

acadêmica:

Em 4 de junho de 1866, um discípulo predileto de Mommsen


apresentou na Universidade de Berlim, com motivo de sua defesa
doutoral, a seguinte tese: Historiam puto scribendam ese et cum ira et
cum studio (A história deve ser escrita com iracunda e com
entusiasmo). A maior inocência que se pode padecer é acreditar que a
ira et cum estudium são incompatíveis com a objetividade. Como se
esta fosse outra coisa que uma das inumeráveis criações devida à ira
et studium do homem! (ORTEGA y GASSET, 1966, p. 419).

Qual é o sentido da regra que impede deixar rastros emocionais na escrita do

trabalho de pesquisa? A vulgaridade que delata. O carácter ideal para o burguês

ocidental se rege pelo mesmo princípio. “Deixar entrever cólera ou ódio em gestos ou

palavras – observa um filósofo - é inútil, é perigoso, é néscio, é ridículo, é vulgar”

(SCHOPENHAUER, 2009, p. 504).

Seria necessário sublinhar a última palavra para entender a conexão. Se o

autocontrole é entendido em nossa cultura como um meio imprescindível para separar o

homem do animal e sujeitar o corpo, esta exigência será ainda maior se supomos que

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Gil Villa; Fernando. O que significa pesquisar? Exorcismo do trabalho de pesquisa.
Tradução: Hildegard Susana Jung São Paulo: Edições Hipótese, 2017.
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vão fazer parte da elite da sociedade. Os que aspiram a dirigi-la devem concentrar em

sua pessoa as virtudes da época. É lógico, pois, que o trabalho de pesquisa, além da

função pedagógica declarada de instruir em certas habilidades na arte da observação, e

da função igualmente explícita de revelar a verdade sobre alguma questão obscura que

preocupa a humanidade, sirva para cumprir outra função social oculta. Um trabalho de

pesquisa investiga antes que o objeto de estudo declarado, a própria personalidade,

trabalha, antes do mundo exterior, o mundo interior, o campo dos sentimentos.

Observemos a relação que se estabelece entre as funções explícitas e implícitas.

A ciência a serviço da verdade é o lema que enobrece a pesquisa. Entretanto, na

realidade, este objetivo é muito diferente de outro politicamente incorreto e

inconfessado: a ciência a serviço da distinção social. É mais, ambas coisas podem ser

vistas como contraditórias. O trabalho de pesquisa serve para separar quem o faz

vulgarmente, não somente porque lhe outorga um título que lhe faculta para ascender a

melhores postos de trabalho, mas também porque lhe instrui no manejo da linguagem

que o separa do povo. Dessa forma, o fato de que não possa se materializar a primeira

vantagem, sobretudo em épocas de crise, nas quais os doutores ficam desempregados,

não invalida o argumento, pois dentro dessa maioria de desempregados, o uso culto da

linguagem verbal e não verbal, as mostras de contenção emocional na expressão, o

carácter grave após a passagem pelo calvário da pesquisa, segue criando categorias

sociais.

A contradição estriba no fato de que a ciência toma sua legitimidade nas

sociedades democráticas unicamente quando se estabelece sobre uma igualdade de

oportunidades na dimensão de sua formação (científica) e sobretudo se divulga os

resultados e os materializa em melhoras da qualidade de vida de toda a população. Isso

exige, em primeiro e muito importante lugar, que se cumpra a condição de divulgação

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Gil Villa; Fernando. O que significa pesquisar? Exorcismo do trabalho de pesquisa.
Tradução: Hildegard Susana Jung São Paulo: Edições Hipótese, 2017.
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do conhecimento. Pois bem, o estilo acadêmico que se exige nos trabalhos de

investigação é, por natureza, elitista. Antes pelo contrário, odeia o vulgar e, portanto,

seu matiz, o vulgo ou povo como o demonstra o fato de que identifica e agrupa seus

inimigos, os aspectos negativos que o investigador deve se esforçar em erradicar,

segundo o grau de vulgaridade que os caracteriza, como observávamos na citação

anterior.

Esta contradição é mais grave nas ciências sociais por dois motivos, um indireto

e outro direto. Em primeiro lugar, quanto mais técnicos sejam os trabalhos de pesquisa,

quanto mais ininteligível e crítico for seu estilo, mais facilmente os intermediários serão

encarregados de lhes dar vida e colocá-los em circulação, os gestores e responsáveis

pelas políticas sociais, os encerrem na gaveta de seus escritórios e se esqueçam deles.

Em segundo lugar, mais difícil será que quando forem publicados, possam chegar à

população em geral, atuando diretamente sobre ela, formando-a, ou seja, limpando o

tema em questão de preconceitos, abrindo as consciências e atacando, portanto,

diretamente o sofrimento que causam as discriminações, as omissões ou os mal-

entendidos. Por qual razão uma tese de mestrado ou de doutorado sobre a violência

contra a mulher, sobre a xenofobia na escola ou sobre a corrupção política, somente

para citar alguns exemplos, não deve ser divulgada? O menos que se pode dizer é que

consiste um triste desperdício que montanhas de trabalhos de pesquisa a cada ano sejam

abandonados e se convertam em arquivos eletrônicos fantasmas destinados a viver nas

catacumbas das universidades.

Mas, se trata disso, de um simples desperdício, ou de um desperdício de enormes

proporções que não podemos permitir nem desde o ponto de vista prático, nem desde o

ponto de vista ético. Da mesma forma, quem atira no lixo um pedaço de pão que lhe

sobrou. Pode ser que não lhe dê importância. Pode ser que lhe desse mais se pensasse na

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Gil Villa; Fernando. O que significa pesquisar? Exorcismo do trabalho de pesquisa.
Tradução: Hildegard Susana Jung São Paulo: Edições Hipótese, 2017.
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soma de todos os pedaços de pão que são desperdiçados e nas vidas que seriam salvas

se fossem distribuídos entre aqueles que passam fome. O problema que se objetará

talvez neste caso, é justamente a distribuição: como fazer com que os pedaços de pão

cheguem aos seus destinatários? Pois o mesmo acontece nos trabalhos de pesquisa. A

condição prévia necessária para sua divulgação é que sejam construídos com um estilo

compreensível. O próprio Ortega y Gasset, coerente com sua crítica ao modo do

quefazer científico, não se cansava de repetir que a clareza é a cortesia do filósofo. O

senso comum avalia o lema, pois por mais profunda que seja una pesquisa, sempre

haverá uma maneira de expressar seus resultados de forma transparente para que possa

ser compartilhada – a cortesia não anula a valentia -.

Devemos nos aprofundar na consequência que marca o jogo da dupla função da

investigação. Para tanto, podemos retomar a interpretação do texto clássico.

Recordemos que Schopenhauer está se dirigindo a um público específico, que está

instruindo o cidadão burguês. Após encorajá-lo a esconder seus sentimentos, o insta a

parler sans accent.

Parler sans accent; esta velha regra das gentes do mundo propõe que
deixemos ao senso comum do outro adivinhar o que é o que foi dito;
se é lento, antes de que tenha terminado, já estaremos longe. Por
outro lado, parler avec accent significa falar aos sentimentos; com o
que tudo resulta de modo contrário (Ibidem).

A ocultação dos sentimentos é uma habilidade que se treina. Pois bem, o que se

esconde, no fundo, não é a emoção. Se fosse, a desculpa moral, a prudência como

defesa psicológica perante a exposição do outro, serviria. Mas a verdade é que o

sentimento não é outra coisa, senão um cavalo de Troia que alberga o pensamento,

verdadeiro protagonista e objetivo ao que, no fundo, pretende-se ocultar. Tal

pensamento se joga sobre o campo sentimental do outro como uma bomba.

Antecipamos seus efeitos explosivos, sua carga negativa. O que se oculta é a má

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Tradução: Hildegard Susana Jung São Paulo: Edições Hipótese, 2017.
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consciência de nossa intenção última de uso manipulador da verdade, algo que será

mais evidente ali onde haja mais quantidade da mesma, na casa do pesquisador

científico. Trata-se de uma simples estratégia das “pessoas do mundo” que se exporta

do processo negociador da comunicação na vida cotidiana, ao campo da pesquisa. A

manipulação da verdade com a finalidade de tirar um proveito pessoal, autêntico filão

argumental das séries de ficção, gera, no pensador, ou seja, em quem reflete sobre isso,

ainda que não chegue ao fundo, um pouso de má consciência. Tal pouso pode ser visto

como uma sombra fantasmagórica que persegue com mais ou menos insistência –

dependendo de sua personalidade – ao aprendiz de bruxo, digo, de pesquisador,

precisamente porque planeja sobre seu trabalho certa associação vaga e inconsciente

com a bruxaria, portanto com a tentação da manipulação dos fatos pesquisados. Aquele

que use esse trabalho para ser distinguido socialmente pelo poder que lhe outorga o

“saber superior” que teoricamente representa - contradizendo assim seu juramento e seu

compromisso com a democratização do conhecimento, sua heroica e desinteressada

dedicação à busca da Verdade -, alimenta constantemente aquela sombra.

1.2. Um trabalho muito masculino

Uma consideração do tema desde a perspectiva de gênero confirma nossas

suspeitas. A sociedade acadêmica é uma réplica da sociedade patriarcal geral e,

portanto, reflete seus valores. A mulher, escreve o filósofo clássico há mais de um

século e meio, “não está destinada ao grande trabalho intelectual” (SCHOPENHAUER,

2009, p. 1073). Hoje, em pleno século XXI, as políticas de igualdade não conseguem

negar estas palavras com números. Quantos prêmios Nobel são concedidos a mulheres

pesquisadoras? Quantas catedráticas há na Espanha? A tendência geral que marca o

nivelamento dos gêneros não é uniforme nem imparável, como poderia parecer à

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Tradução: Hildegard Susana Jung São Paulo: Edições Hipótese, 2017.
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primeira vista. As reformas legislativas em matéria de educação e ciência podem

implicar em retrocessos ainda que seja como efeitos não procurados. Tal é o caso da

fatal combinação, que se vive no caso específico da Espanha, nos primeiros anos da

segunda década do século XXI, de crise econômica e novos sistemas de promoção. Uma

vez abandonado o procedimento das “habilitações”, a cátedra é concedida

automaticamente unicamente após o reconhecimento de quatro tramos 1 de pesquisa

avaliados por uma comissão nacional de avaliação. Posto que cada tramo consta de seis

anos, na melhor das hipóteses são exigidos 24 anos de dedicação exclusiva e intensa na

carreira do pesquisador, o que no caso da mulher implica renunciar ao tempo de

dedicação que exige a maternidade, algo obrigatório em uma sociedade como a

espanhola, caracterizada por uma ampla desigualdade na prática na distribuição das

tarefas domésticas. Para a realização do cálculo, não se pode esquecer do aumento da

precariedade de referida carreira. A idade média de consolidação, de acesso como

funcionário a um posto de professor universitário, ascende aos quarenta anos. Por outro

lado, a crise acrescenta obstáculos ao não convocar ou amortizar as vagas dos

catedráticos aposentados ou ao não renovar o contrato a um grande número de jovens

pesquisadores.

Mas aprofundemos na caracterização sexista do trabalho de pesquisador tal e

como tem sido concebido tradicionalmente. Os preconceitos vão se acumulando à

medida que extrapolamos ao âmbito acadêmico as supostas poucas virtudes e os muitos

defeitos que definem a mulher em comparação com o homem e que pairam como uma

nuvem de crenças sobre a sociedade, certificada pela autoridade do expert em

1
Nota da tradutora: Na Espanha, período de seis anos para desenvolver uma pesquisa, os quais podem ser
consecutivos ou não, a ser avaliada após solicitação. Uma avaliação “favorável” implica no
reconhecimento de mérito individual do pesquisador, requisito para a percepção de retribuição financeira
adicional por méritos de pesquisa, cuja regulamentação está prevista no Decreto n. 405/2006. Este
estabelece as retribuições adicionais a serem pagas ao Personal Docente e Investigador (PDI). Mais
informações em http://www.aqu.cat/doc/doc_16214949_1.pdf (Acesso em 23.04.2017).

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meteorologia que representa o filósofo clássico que presta seu testemunho em pleno

coração da época moderna. Por que as mulheres não estão capacitadas para os trabalhos

intelectuais que a pesquisa exige? Em primeiro lugar, porque “tomam a aparência das

coisas como a verdade” e “preferem as pequenezas do que o mais importante” (Ibid.:

1075). Ambas as manias, obviamente, atentam diretamente contra os procedimentos

mais básicos do trabalho de pesquisa, o qual se baseia no rigor e na ordem. Em segundo

lugar, a mulher costuma tomar suas decisões de forma apressada (sic), o que se

confirmaria em um âmbito como o científico (a paciência é a mãe da ciência). Em

terceiro lugar, a mulher, devido ao fato de que sua natureza se aproxima mais à do

animal, encontra-se amarrada ao presente, ou seja, exibe certa incapacidade para

remeter-se tanto ao passado, quanto ao futuro (sic). De novo, este defeito é

especialmente lacerante para quem decide dedicar seu tempo à pesquisa, porque todo

trabalho nesta matéria deve partir, por definição, de um capítulo inicial de antecedentes

que exige submergir na história do tema, e de um capítulo final de conclusões e

resultados esperados que exige antecipar a evolução do problema estudado.

Todos estes aspectos podem ser considerados ao mesmo tempo com a finalidade

de extrair uma conclusão, voltando a vista ao plano dos sentimentos, fechando assim o

círculo de nosso argumento: a mulher mostra mais “compaixão, mais amor ao ser

humano” (sic). E a ideia básica que mobiliza toda esta ideologia sexista, ao consistir na

desvalorização, aproxima a mulher não somente do animal, mas também e, sobretudo,

da criança. Sendo as mulheres “crianças grandes durante toda a sua vida” (Ibid, 1073),

afetadas por um infantilismo que certifica seu déficit ou incapacidade congênita, podem

permitir-se as expressões sentimentais. Elas são, em realidade, matéria sentimental que

se derrama de forma incontida e, portanto, perigosa. Representam, portanto, justamente,

aquilo que a ciência pretende exorcizar, não de passagem ou indiretamente, mas como

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objetivo principal. Pois sua missão não é outra, senão a herança ilustrada que concebe a

razão científica como a arma mais letal idealizada pela humanidade mais civilizada da

história, a da época moderna, para acabar contra os fantasmas dos preconceitos e as

fraudes. A oposição entre razão e sentimento constitui-se, assim, em um dos esquemas

mentais sagrados da modernidade. A polarização exagera os extremos e lhes impõe uma

carga moral: o sentimento representa o mal.

O trabalho de pesquisa é também, ademais de uma indagação concreta sobre um

problema, um trabalho moral no qual se deve perseguir o mal e acabar com ele. Daí que

neste peculiar paradigma o pesquisador possa ser comparado com um herói ou com um

santo, às vezes sacrificado durante a batalha, e convertido em mártir.

Definitivamente, o mal deve ceder ao bem, como o sentimento e os juízos de

valor devem ceder perante a razão objetiva, como a mulher deve submeter-se ao

homem, como o privado – âmbito ao qual se designa a mulher - deve submeter-se ao

público – ao que pertence o acadêmico -, como o saber inferior puramente prático deve

submeter-se ao saber superior de caráter místico (ou capaz de tornar-se mito, como a

tecnologia atual), como os cidadãos vulgares que conformam a massa acrítica

inexperiente y leiga devem render-se perante a distinta e prestigiosa elite de doutores e

acadêmicos.

A desconstrução do trabalho de pesquisa não pode separar-se da desconstrução

do sistema acadêmico que, por sua vez, faz parte da cultura ocidental moderna. Sua

dissecação através de cortes transversais específicos, como o de gênero, põe de

manifesto os defeitos congênitos mais conhecidos, como a hipocrisia e o cinismo da

burguesia intelectual – a qual apadrinha a pesquisa acadêmica – assim como os

mecanismos psicológicos (sociais) com os quais habitualmente os racionaliza. Um dos

mais socorridos e famosos, o da projeção, emerge neste ponto com toda sua força

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gráfica: a “irresistível inclinação da mulher à mentira” (Ibid., p. 1076), esconde a

denunciada má consciência do cientista, sua irresistível tentação de manipular o saber-

poder. Este aspecto fundamental aflora no estado de ânimo. A “peculiar alegria da

mulher” (sic) contrasta com o “homem tomado de preocupações”, encarnado melhor

que em nenhum protótipo social no cenho franzido do Pensador, na seriedade do doutor

que conseguiu completar várias estações do calvário da pesquisa.

Não estamos aqui perante o temor à mulher como uma constante antropológica,

senão perante uma espécie de temor específico, o temor ao bem-estar, ao prazer do

trabalho que realiza. Neste sentido, a mulher representa a felicidade ignorante, a ilusão

da humanidade, preconceitos contra os quais reage violentamente, a consciência do

pesquisador. Como observava Foucault em sua leitura de Nietzsche, se interrogarmos a

consciência científica sobre sua história, se descobriremos que por trás da máscara da

objetividade neutra, a vontade de saber é malvada. E concluía: “A análise histórica

desse grande querer-saber que recorre a humanidade põe, pois, de manifesto que não há

conhecimento que não repouse na injustiça” (FOUCAULT, 1988, p. 70).

A “simpatia pelos desgraçados” (sic), própria da mulher, no pensamento do

filósofo alemão, não convém ao homem, porque demonstra fraqueza, e menos ao

acadêmico, ao pesquisador seguro de si mesmo. À medida que ascendemos no sistema

educativo, o ensino vai perdendo seu aspecto lúdico, somente desculpável nas etapas

prévias, infantis, “femininas”, e vai ganhando gravidade. Na cúpula da pirâmide, nos

estudos de pós-graduação, a seriedade alcança seu máximo esplendor, mas sempre às

custas da tolerância e da ternura. “Alguma regra de nossa cultura proíbe ao homem de

falar de ternura ou abrir-se à linguagem da sensibilidade, pois em sua educação se tem

insistido que ele seja lugar de dureza emocional e autoridade a toda prova”

(RESTREPO, 1994, p. 15). O autor destas palavras confessa que quando um homem,

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como é o seu caso, se atreve a defender um discurso sobre a ternura, “aparece de

imediato o fantasma da afeminação” (Ibidem). Se aceitarmos que a Academia refina seu

caráter à medida que se desenvolve, utilizando o recurso da personalização, então, a

organização e gestão do trabalho de pesquisa deveria ser sumariamente masculino e

minimamente feminino. E em efeito, não é difícil comprovar tal coisa através da

observação. A solidão do aprendiz de pesquisador encaixa no estilo do pai ausente e

pouco afetivo, longe da mãe presente que anima. O ritual da defesa dos trabalhos de

pesquisa de pós-graduação oferece mais dados a respeito. Os doutores da banca que os

julga se enfurecem em suas críticas. Se estas fossem todas gravadas e depois mostradas

a um júri popular de pessoas graduadas ou licenciadas nessa área, com toda certeza este

apostaria que os candidatos foram reprovados, de tão potentes, em profundidade e em

extensão que são tais críticas.

Há algo de desmedido nas mesmas, um componente sádico que logo se oculta

na incrível - por ilógica - votação positiva em quase todos os casos do trabalho de

pesquisa avaliado. Este duplo movimento é tão acusado, com o contraste entre os

momentos de explosão e efusão dos aplausos e posteriores apertos de mãos, que um

observador externo não pode sentir-se menos que abrumado pelo mesmo, em princípio,

e tentado depois a classificar como tragicomédia com matizes esquizofrênicos o absurdo

e macabro ritual. Se tivermos em conta a argumentação que aqui seguimos, também se

poderia interpretar a contradição, para desfazê-la, como um reflexo da hipocrisia do

caráter científico que por sua vez herda o gênio burguês patriarcal, masculino e

autoritário. De acordo com nosso esquema, o beijo (ou o abraço) final dos doutores

acadêmicos é tão falso como o de Judas, e tanto mais quanto mais santo for o doutor

que o oferece, como no caso de Judas. A falsidade e a ironia que o acompanha

expressam, através da linguagem não verbal e do silêncio, o duplo jogo, a duplicidade

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do acadêmico, sua situação de classe contraditória, ao ver-se obrigado a cooptar um

novo escolhido, para assegurar a reprodução da elite, o que é bom e necessário –

tranquilizando sua consciência como servidor público, de semental que cumpre com a

função social de permanência da espécie-, mas também é perigoso, porque aumenta a

potencial competição pessoal pela consecução de um posto entre os próceres, beatos ou

santos.

1.3. O referencial cristão. O bolsista crucificado

O trabalho de pesquisa, na atual cultura acadêmica, é concebido como uma

longa travessia no deserto de incerto resultado. A característica que melhor o define é,

portanto, a ansiedade. Uma infinidade de dificuldades aguarda o estudante. Por que

fazê-lo então? Porque a recompensa prometida é grande. A magnitude do prêmio guarda

logicamente certa proporcionalidade com os problemas para consegui-lo. Ainda assim,

muitos se perguntarão se valeu a pena colocar-se nesse caminho.

Acontece que a meta não é uma meta normal, mas uma mescla de realidade e

ficção. Como toda Terra Prometida, o objetivo da pesquisa é de natureza mítica. O grau

de dificuldade e a conseguinte carga de ansiedade arrastada são tais que, ainda que se

chegue à meta, a frustração está garantida. O maná recebido terá pouco sabor, tanto por

sua contribuição calórica – entendidos como rendimentos econômicos do investimento

realizado no tempo, dinheiro e desgaste emocional em termos de capital humano -,

como por seu benefício espiritual – que, traduzido à linguagem de nossa reflexão

significa prestígio pelo título ao que o trabalho dá acesso -. O grau de doutor, o circuito

de máxima dificuldade, deixa uma sensação de forte ressaca (pensemos que o número

de vítimas é igualmente proporcional à dificuldade da travessia). Na graduação, menos

que no mestrado. No mestrado, menos que no doutorado. Depois do momento de

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euforia, após a defesa, chega o momento depressivo do Eclesiastes, no qual se toma

consciência da vaidade do ato e da inutilidade e falta de sentido da aventura. Quando o

flamante doutor consegue olhar para trás com a suficiente serenidade, recordará os

colegas que ficaram pelo caminho.

Muitos serão os chamados, mas poucos os escolhidos. Esta frase retumbará em

sua memória, para sentir-se superior ou para sentir-se culpado, dependendo de sua

cultura moral. Em ambos os casos, a consequência consistirá em aumentar a quantidade

de sofrimento existente, seja indiretamente, nos outros, ao fomentar nos novos doutores

atitudes e estratégias de distinção discriminatórias, seja diretamente, através do

arrependimento.

A sensação de ter sido vítima de uma vã ilusão aumenta quando o doutor, ou

seja, aquele que conseguiu superar com êxito as três travessias, observa que a corrida

continua na prática. Ouve nos corredores acadêmicos com inquietação o rumor de novos

e remotos Dourados. Alguns colegas já embarcaram na nova aventura dos pós-

doutorados. Assim pois, o que foi vendido como fim não era o fim. A corrida parece

não acabar nunca. Um suor frio o embarga, deverá continuar sofrendo. Até quando? Por

toda a vida. Porque o sentido da carreira do pesquisador não é autônomo, mas foi

copiado de referenciais simbólicos más gerais e de suas ideologias anexas. Como na

tradição judaico-cristã, a vida verdadeira somente começa após a morte. O mundo da

pesquisa só pode ser um vale de lágrimas. Aqueles que pereceram no intento são heróis

mártires. Aqueles que envelhecem e colhem êxitos são simplesmente heróis. Estes

últimos irão se decantando por uma trajetória lúdica ou por outra esforçada. Ainda que

se trata de opções que têm a ver com reações lógicas explicadas por um complexo

conjunto de fatores entre os quais contam a personalidade e as circunstâncias que

rodeiam a cada sujeito, a sorte tem um papel fundamental. Alguns, sobretudo se têm a

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possibilidade de alcançar uma sinecura graças ao seu novo título de doutor, se afanarão

por viver o mais comodamente possível. Posto que sofreram tanto durante tantos anos,

agora é a hora de passar bem. A ansiedade que se acumulou no estudo sacrificado se

transforma, como se fosse tratar-se de uma moeda de ouro no mercado do prazer. Assim

se explicam essas transformações que em ocasiões nos chamam a atenção de pessoas

tão esforçadas e contidas que até o final de suas vidas tentam convencer-nos a fazer

parte da seita do carpe diem da qual são fanáticos seguidores. No caso oposto, se

manterão apegados a um intenso ritualismo de maneiras e hábitos que se estenderá

insensivelmente do trabalho acadêmico a todos os âmbitos da vida social e privada.

Ainda que muitos estudantes a enfrentem, para eles, penosa tarefa de realizar um

trabalho de pesquisa contra sua vontade, pois se trata de um requisito para a graduação

ou como opção pessoal (ainda que geralmente com escassa convicção) para o mestrado

e o doutorado, existe uma figura que resume de forma exemplar o perfil do trabalhador:

o bolsista.

O bolsista bem pode ser definido, em efeito, como um trabalhador. De fato,

existem associações a distintos níveis territoriais que tentam defender seus direitos,

regulados por contratos que os vinculam a fundações ou administrações públicas. O

bolsista recebe uma ajuda ou salário para realizar seu trabalho de pesquisa. Dado que

essa ajuda tem um prazo de tempo limitado de vários anos, o aprendiz de pesquisador

trabalha sob uma pressão a mais, a qual emana da natureza do trabalho e da organização

do sistema acadêmico no qual cobra vida, as quais, como se verá, são maiúsculas.

A figura do bolsista é útil para compreendermos as perversidades que encerra a

concepção imperante da pesquisa, não só porque concentra a pressão por sua situação

concreta, à maneira de um prisma, mas também porque, desde um ponto de vista

diacrônico, projeta esse facho de luz densa sobre toda sua trajetória vital, sobre seu

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futuro, tingindo seu destino com a mesma cor da incerteza. Pois se supõe que, no caso

de superar com êxito a prova da via dolorosa de seu primeiro trabalho de pesquisa,

depois haverá outro, e logo outro mais, e assim até o final de sua carreira, e inclusive,

diferentemente das demais ocupações, mais além da mesma, quando tenha acabado sua

vida laboral, se é que vai estar vivo para conta-lo. Por essa razão, sua figura está

inexorável e profundamente unida à tradição da pesquisa da qual faz parte, explicando

não só sua identidade pessoal e profissional, como também seu status social e sua

posição económica.

Mas concentremo-nos, no momento, no início de sua caminhada. Em seguida,

passado um primeiro momento de euforia e celebração familiar após haver sido

comunicado sobre a obtenção da bolsa, como se tratasse de um prêmio, começará o

calvário. Nunca como ao princípio, dada sua lógica falta de experiência, sentirá com

tanta força o sentimento de perda (no sentido de estar literalmente perdido). É certo que

referida ansiedade é compartilhada de forma universal por todo neófito. Até o aprendiz

do ofício mais simples se supõe que a experimenta. Entretanto, no bolsista a ansiedade

alcança a proporção máxima. Isso se deve, de novo, tanto à forma que toma a divisão do

trabalho social dentro das unidades ou departamentos de investigação, quanto às

presunções subjacentes que servem de guia orientativa não escrita para avançar nas

tarefas diárias. Quanto ao primeiro aspecto, se bem que é certo que todo aprendiz ocupa

a posição mais baixa na escala laboral e costuma se encarregar, ademais de seu trabalho,

de tarefas inferiores de intendência que não figuram em seu contrato, escrito ou verbal,

como trazer um café ou comprar folhas, o normal é que esta dimensão negativa se

compense com outra de signo oposto na qual está submetido a reforços positivos ou

negativos, convidando-o a reuniões ou celebrações especiais ou exonerando-o de

algumas cargas durante um período de tempo, de maneira que possa concentrar-se em

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sua tese. No caso da pesquisa, especialmente a ligada à tradição universitária espanhola,

entretanto, a relação com os chefes, com os catedráticos (no masculino), está baseada no

distanciamento. Como no caso de Kafka, a autoridade do pai ausente aumenta a

angústia da relação de subordinação.

A solidão vem a ser para o bolsista como o vento, um agravante de sua já - por si

mesma -, difícil situação. Assim como a sensação térmica faz com que se experimente o

frio em um modo não proporcional, mas superior à temperatura objetiva, o isolamento

do pesquisador principiante multiplica seu mal-estar. Daí que, se lhe aplicamos o

qualificativo de negro, coisa que sucede frequentemente quando nos referimos aos

trabalhos sujos que deve realizar como favores aos membros com mais poder do

departamento – como realizar entrevistas para seus projetos de pesquisa, processa dados

empíricos no computador, preencher formulários ou ir ao aeroporto receber um colega -,

se bem que se trata de um traço compartilhado com os aprendizes de outras ocupações,

neste caso, se aproxima à categoria mais baixa das mesmas, aquela que no folclore

corresponde a cenas antológicas da história da escravidão, como a animada nos campos

de trabalho ao entardecer por canções tristes do gênero negro espiritual: Nobody knows,

the trouble I´ve seen/Nobody but Jesus.

Através desta melodia, se conectam as cargas metafóricas das figuras do bolsista

e de Jesus Cristo, itinerantes dolorosos e solitários. As estações que salpicam a

particular via crucis do acadêmico aprendiz são os encontros com seu orientador de

tese. Ante a porta do chefe-orientador, o bolsista se detém um momento para tomar ar

como Jesus Cristo no Getsêmani e encomenda a alma a Deus: -Pai, se possível, afasta

de mim este cálice de amargura; mas não se faça o que eu quero, mas o que queres tu

(Mt 26: 39).

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Tradução: Hildegard Susana Jung São Paulo: Edições Hipótese, 2017.
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A história é bem conhecida. Deus não parece estar para o trabalho, com o qual

condena aos seus filhos – o paternalismo nas relações acadêmicas é evidente -, a seguir

sofrendo. O procedimento pelo qual um professor realiza o seguimento do trabalho

diário de seu apadrinhado resulta, de maneira geral, sinistro. O habitual é que lhe diga,

dando-lhe tapinhas nas costas: “Trabalhe, trabalhe, siga trabalhando e logo me

mostrará” (LLOVET, 2011, p. 59).

Compreendemos então a sensação de abandono e o lamento ao que

inevitavelmente conduz: Elí, Elí, lema sabactaní? – Senhor, senhor, por que me

abandonaste? - (Mt 27,45).

A sorte está lançada. A história se aproxima lentamente do seu clímax. Todo

final tem sentido de morte. Crucificação de Cristo e do Bolsista na banca que julga a

tese no dia do juízo final – após os possíveis juízos parciais -.

Mas a morte não é definitiva para o cristão, o qual acredita na ressurreição. Após

a prova mais dura, Cristo reaparece ao terceiro dia, como o bolsista após uns dias de

ressaca que requerem as celebrações. Começa agora, após a morte iniciática, um

período de transição, uma nova fase com a qual sonhava o escravo, a era da liberdade.

Entretanto, a nova era fica de repente diferida. Jesus Cristo ascende aos céus, se vai e

com isso volta a deixar sós os humanos, isso sim, com a promessa de que voltará, uma

segunda vinda, supostamente a definitiva, precedida de uma longa tribulação (Mt 24,

29-31). Da mesma forma, ao bolsista recém alforriado lhe dura pouco tempo a alegria

de seu novo status. Em realidade, acaba tendo que admitir que tal condição é, em uma

boa parte, fictícia. De novo se vê imerso no caminho. Em realidade, sua carreira apenas

acaba de começar, de maneira que a via dolorosa de seu primeiro trabalho de pesquisa

deve repetir-se uma segunda vez, e deveria repetir-se uma terceira, e uma quarta, e

assim indefinidamente, até o fim de seus dias. A lógica que alimenta esse impulso é

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Gil Villa; Fernando. O que significa pesquisar? Exorcismo do trabalho de pesquisa.
Tradução: Hildegard Susana Jung São Paulo: Edições Hipótese, 2017.
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extrínseca, para consolidar sua posição acadêmica, mas também intrínseca, pois alguém

que investiga como diletante não poderia deter sua curiosidade em um momento dado

posto que seu objetivo não é conseguir um simples título (algo demasiado grosseiro e

pouco defendível não somente para as amizades, mas também para o ideal do eu), senão

conhecer o mundo (algo muito mais louvável desde o ponto de vista ético e mais

vendível no mercado de amizades).

Desta forma, chegamos a uma conclusão importante: o sofrimento do

pesquisador nunca termina. Sua redenção fica protelada a uma segunda existência, a

uma segunda vida, fase, dentro de sua carreira, como no caso do cristão. A segunda

vida, depois da ressurreição, é uma vida de segunda categoria, pois o homem e o

bolsista arrastam uma existência miserável, uma vida falsa por trás de outra verdadeira

que não se sabe quando chegará - Velai, pois não sabes o dia nem a hora (Mt 25, 13)-,

uma vida que ao passar pela prova de transição, converte o atuante em morto vivo, um

conceito que, desde o ponto de vista da sociologia da morte, remete à eclosão pós-

moderna do heterogêneo conglomerado de grupos sociais com una existência apagada –

enfermos crônicos, depressivos, adictos a mil e uma coisas, excluídos, mitômanos de

personagens imortais-, o que leva à revisão das relações sociais com a morte (GIL

VILLA, 2011), e desde a perspectiva cristã, remite a modelos de vida místicos como o

de São João da Cruz, para os que o sofrimento é não somente o pão de cada dia, mas o

único modo de conquistar a identificação com Cristo – No vazio e secura de todas as

coisas Deus há de provar os que são soldados fortes para vencer sua batalha (JOÃO

DA CRUZ, 2003, p. 1302).

A existência de um estigma prova a qualidade da segunda vida (de segunda

categoria). As chagas que demonstram que Cristo passou pelo ritual de iniciação da

morte ficam representadas no caráter de quem passou pelas mortes das bancas de

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Gil Villa; Fernando. O que significa pesquisar? Exorcismo do trabalho de pesquisa.
Tradução: Hildegard Susana Jung São Paulo: Edições Hipótese, 2017.
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graduação, mestrado e doutorado e, posteriormente, pelas comissões que julgaram seus

projetos e suas sucessivas obras. As pegadas que todos esses trabalhos de pesquisa

deixam, se inscrevem umas sobre as outras. Quantas mais haja, mais potente será o

estigma. É difícil que o acadêmico se livre do caráter ritualista, o qual, em termos de

Merton, se oporia ao tipo social rebelde, ao inovador como desviado, ao que se salta às

normas (MERTON, 1972, p. 149). Extraímos aqui outra das conclusões. Tal e como se

concebe a pesquisa em nosso entorno, pouco favorece a inovação, com o que,

paradoxalmente, limita as possibilidades das revoluções científicas, dos atrevimentos

que em tantas ocasiões tem feito avançar a ciência rompendo com a tradição.

1.4. O processo de santificação do clássico

Devemos insistir na ideia da posposição de gratificações. Se esta é chave na

socialização da burguesia ocidental, não é menos que isso na carreira de pesquisador. É

mais, na academia, aquele prolongamento chega a sua expressão máxima e, por isso, é

possível analisá-lo com o pano de fundo do cristianismo. A celebração de cada trabalho

fica anulada pela necessidade do próximo, de modo que a celebração verdadeira e final

se anula e pospõe para a outra vida, literalmente. O pesquisador, como o cristão, deve

crer na imortalidade. Trabalhar para consegui-la é o que dá sentido à carreira do

primeiro experimentada como via dolorosa. Ou, dito de outra forma, o pesquisador

somente chegará a sua máxima realização se conseguir que seu trabalho ou trabalhos

sejam reconhecidos e aclamados pelo público, tenham aportado à humanidade um

serviço especial. Então o esforço de toda uma vida de sacrifício teria valido a pena. A

fama, a glória, constituem, pois, seu verdadeiro objetivo. Como o cristão, o pesquisador

é consciente de que somente uns poucos o conseguirão, os que fazem parte do santoral e

do reduzido círculo dos clássicos. Daí que, ao final de sua carreira laboral, a angústia

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Gil Villa; Fernando. O que significa pesquisar? Exorcismo do trabalho de pesquisa.
Tradução: Hildegard Susana Jung São Paulo: Edições Hipótese, 2017.
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que sempre lhe acompanhou em algum grau ao longo de toda sua carreira, volta a lhe

incomodar com uma intensidade superior, a mesma que sentiu quando começou como

bolsista. É assim que o círculo se fecha. Ao final da carreira, como ao final do primeiro

trabalho de pesquisa – sobretudo, mas também dos sucessivos, se acontecerem -, se

reproduz de forma global o juízo final.

O processo de canonização da igreja católica guarda algumas similitudes com o

processo pelo qual se eleva um autor à categoria de clássico. Para um cristão não há

honra maior que chegar a ser santo, como para um pesquisador chegar a que o

considerem um autor imprescindível em seu campo. Ainda assim, a elite de santos e de

clássicos está hierarquizada espontaneamente em função do grau de seguimento e dado

que a imortalidade procede em boa medida do recordo. Temos os santos mais venerados

como temos os protoclássicos mais citados. De fato, citar é sinônimo de rezar (reza

assim, ou seja, diz assim tal autor). E como no caso dos santos, muitas vezes os citamos

ou a eles rezamos de forma oportunista e vantajosa - nos lembramos de Santa Bárbara

quando troveja -. Os rezadores (recitadores) sabem tão pouco das pessoas especiais aos

que se encomendam como os citadores daquelas que conseguiram dotar sua voz de

autoridade. Muitas vezes nem sequer foram lidos, ou o fizeram superficialmente, apenas

parágrafos selecionados arbitrariamente por colecionadores de citações.

O mesmo processo de canonização permite que sigamos jogando com a

comparação. A santidade deve estar precedida de uma dignidade prévia, a beatificação.

O caso dos pesquisadores, a categoria intermediária que serve na prática de ponte

(necessário, mas não o suficiente para ser considerado um clássico) é a de professor

emérito. No primeiro caso, um Conselho de Relatores deve preparar um memorando

exaustivo no qual se sustenta a fama de santidade do candidato. Quem desejar ser

proclamado emérito deve igualmente defender com várias memórias sua postulação

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Gil Villa; Fernando. O que significa pesquisar? Exorcismo do trabalho de pesquisa.
Tradução: Hildegard Susana Jung São Paulo: Edições Hipótese, 2017.
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através de uma relação de méritos acadêmicos especiais. Não é qualquer professor que

pode apresentar sua candidatura antes da aposentadoria. Como na Igreja Católica, a

“fama de santidade” não pode se basear na simples popularidade, mas deve ser

demonstrada. A normativa que regula a categoria acadêmica comentada no ano de 2012,

na Universidade de Salamanca, exige que o candidato tenha pelo menos seis tramos de

pesquisa reconhecidos, ademais de seis quinquênios de docência.2 Este último requisito

não funciona como filtro, mas o primeiro, sim. Trinta e seis anos de pesquisa avaliada

positivamente por agencias externas que aplicam critérios sumariamente restritivos dado

que pontuam mais as publicações em revistas e editoras ordenadas de acordo com

indicadores de qualidade que buscam a máxima objetividade. Obviamente, esta última

nunca se consegue totalmente, se trata de uma aproximação, mas posto que a lista é

internacional e os requisitos são numerosos, o grau de dificuldade e a competência

aumenta no grau sumário, razão pela qual uma boa porcentagem dos professores

universitários nem sequer consegue ver reconhecido um único tramo de pesquisa em

toda sua carreira. Muitos são os chamados e poucos os escolhidos. Muito poucos,

pouquíssimos, são ao menos aqueles que podem optar pela categoria de eméritos. Após

a apresentação da candidatura, duas instâncias devem votá-la positivamente em ambos

os casos, a Comissão de Teólogos e a Congregação de Cardeais e Bispos no primeiro

caso, e o Conselho de Departamento e a Junta da Faculdade no segundo. No caso de que

o resultado seja duplamente positivo, deverá ser ratificado pelo Santo Padre e o

Conselho de Governo da universidade.

Beatos e eméritos têm seus seguidores, sobretudo locais, encaixados em redes

sociais de paroquianos. Já são venerados e citados, possuem notoriedade social, são

condecorados por seus esforços.

2
Normativa sobre nomeação de professores eméritos da Universidade de Salamanca (aprovada pelo
Conselho de Governo em 26 de maio de 2011).

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Gil Villa; Fernando. O que significa pesquisar? Exorcismo do trabalho de pesquisa.
Tradução: Hildegard Susana Jung São Paulo: Edições Hipótese, 2017.
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O título de Emeritus era outorgado na antiga Roma ao soldado veterano que

tinha se destacado por seus serviços. O professor emérito atual tem muito de soldado

veterano que sacrificou sua vida à pesquisa, o que no plano cristão equivale a ter vivido

com arranjo às virtudes cristãs em um grau heróico.

O bolsista soldado inicia, mancando, sua épica ascensão à glória. Deverá coroar

38 mil em um período mínimo de 36 anos, não podendo assaltar mais de uma torre por

ano. Completar com êxito a série lhe garante um posto entre a elite acadêmica de sua

área científica em seu país, mas não no mundo inteiro nem eternamente. Via de regra,

geralmente o brilho de sua memória terá uma limitação proporcional à difusão e

reconhecimento de sua obra. Passados alguns anos, seus livros irão passar ao depósito

das bibliotecas, e ao não completar um certo número de vendas e não ser reeditado,

deixarão de fazer parte das bibliografias dos programas acadêmicos, toda vez que estas

se vejam obrigadas a ser colocadas em dia, entendendo por isso o ano de publicação.

Isto quer dizer que o esforço de toda uma vida, inclusive no melhor dos casos, ali onde

rendeu seus máximos benefícios, não garante o objetivo da fama. Sua consecução se

aloja fora da lógica. Faz falta a confluência do acaso para conquista-lo. Ou utilizando a

gíria cristã, faz falta um milagre, o mesmo que necessita o beato para ser declarado a

posteriori santo. Para que algo seja considerado milagre, a igreja exige que não se possa

explica-lo por causas naturais.

O best-seller entra nesta categoria. Muitos fatores podem ajudar a vender um

livro e, portanto, podem ser relativamente controlados, em função dos recursos. Mas a

essência de um êxito editorial continua sendo um mistério. Não faz parte dos

acontecimentos previsíveis, não se guia pela lei das probabilidades. É catalogável como

um acontecimento escalável. O trabalho do pesquisador autor faria parte desse grupo

especial de ocupações, como o escritor ou o especulador por contraste com o padeiro ou

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Gil Villa; Fernando. O que significa pesquisar? Exorcismo do trabalho de pesquisa.
Tradução: Hildegard Susana Jung São Paulo: Edições Hipótese, 2017.
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o médico. O escritor faz o mesmo esforço para atrair um leitor que, para cativar

milhões, enquanto que os outros devem acrescentar quantidades sucessivas de tempo e

trabalho para aumentar suas clientelas, topando cedo ou tarde com um teto. O

pesquisador poderia ganhar um prêmio Nobel, converter-se em Einstein, em um

personagem famoso, mas para isso deve pagar um preço:

São profissões mais competitivas, produzem desigualdades


monstruosas e são muito mais aleatórias, com disparidades imensas
entre os esforços e as recompensas: uns poucos podem levar-se uma
grande parte do bolo, deixando os demais marginalizados, ainda que
não tenham nenhuma culpa (TALEB, 2009, p. 74).

“Por regra geral, quanto mais longa vá ser a fama, mais tarda em chegar”

(SCHOPENHAUER, 2009, p. 423). Daí que na maioria dos melhores casos chegue

após a morte, como a santidade. Então, pode-se dizer que porta a imortalidade, essência

do credo cristão e crença igualmente básica da ideologia que regula nossa tradição

acadêmica. O sentido que se outorga à vida e ao trabalho de pesquisador como centro da

mesma se difere por definição a um futuro imprevisível, como fica dito, incorrendo com

isso na alienação, já que sua consequência mais importante é que a recompensa se torna

extrínseca. Pesquisar não é grato, nem muito menos prazeroso nem divertido, senão

puro trabalho de soldado e de escalador, puro sofrimento sem fim.

1.5. Sísifo, o pesquisador

É por isso que a figura mítica de Jesus Cristo pode servir-nos de apoio para

compreender o fenômeno no qual o aprendiz se vê envolvido. Mas não é a única.

Existem outros personagens que compartilham boa parte das ideias deste paradigma.

Em especial, me parece oportuno o mito de Sísifo. Como se sabe, este foi castigado a

subir a ladeira de um monte carregando um grande penhasco para logo, uma vez no

topo, deixando cair e começando outra vez.

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Tradução: Hildegard Susana Jung São Paulo: Edições Hipótese, 2017.
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Sísifo é pois, também, um escalador nato. E é, como os cristãos, após cometer o

pecado original, um homem atado ao destino do castigo perpétuo do sofrimento. Não

importa que o motivo do castigo seja escuro ou discutível. Em nossa exposição,

podemos ficar com este: ousou revelar os segredos dos deuses aos homens. De ser

assim, se parece a Prometeu, ladrão do fogo. O aprendiz de investigador se caracteriza

pela mesma audácia, ao tentar descobrir o mistério que rodeia um problema científico y

social com a finalidade última de divulgá-lo e melhorar a qualidade de vida da

humanidade. Esta é uma razão para castigá-los? – Pergunta-se o humanista romântico.

Não seria talvez uma ação que deveriam recompensar a divindade? A resposta é a

contradição ou, se preferirmos, o mistério. Cristo também veio a revelar a boa nova. É

mais, aparece como o profeta por antonomásia, posto que não somente desvela com sua

palavra os arcanos de Deus pai – no princípio era o verbo – mas também o encarna em

sua pessoa ao fazer-se, literalmente, esse mesmo verbo, carne.

Tudo isto é muito misterioso, e é que em realidade o mistério e o paradoxo

constituem as chaves desta ideologia que ampara sub-repticiamente a concepção

imperante da pesquisa. O certo é que a recompensa da audácia de Cristo (pois sua

audácia com os judeus e com Roma está fora de toda dúvida), não foi a fortuna, como

reza o aforismo latino, mas o sofrimento. A moral das histórias coincide: a revelação

está proibida. A profissão de pesquisador estaria maldita em suas origens. Isso nos

ajudaria a entender a grande quantidade de cadáveres que deixa pelo caminho, de cruzes

nas montanhas, de jovens e não tão jovens que não acabam seu trabalho de pesquisa,

atirando a toalha em um momento do caminho, ou de acadêmicos que renunciam a

seguir escalando montanhas. Entretanto, a verdadeira maldição consiste em não poder

abandonar o caminho, expressada no fato de não poder morrer. A imortalidade é a

grande pena (um aspecto compartilhado com outros mitos que versam sobre o mesmo

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Gil Villa; Fernando. O que significa pesquisar? Exorcismo do trabalho de pesquisa.
Tradução: Hildegard Susana Jung São Paulo: Edições Hipótese, 2017.
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tema, como o do vampirismo. Ao nosferatu lhe pesa a vida). Conta a lenda que a Sísifo

os deuses concederam a imortalidade, em troca de viver sempre no absurdo fazer e

desfazer seu caminho carregado de peso, como um aprendiz de pesquisador autor que

escreve cem vezes um rascunho e cem vezes o joga no lixo, ainda que seja a lixeira

virtual de seu computador.

Por isso podemos polemizar, sempre de acordo com o sentido desta exposição,

com as versões idealistas de Sísifo, como a realizada pelo genial Albert Camus.

Obviamente que podem ser feitas interpretações otimistas, mas sua força estará sempre

limitada à sua beleza, à sua dimensão estética. Um ser humano poderia diminuir sua

vida à selvageria solitária de um Robinson ou sobreviver em um campo de concentração

graças a sua imaginação, certo, mas em pura lógica, isto deve ser considerado um mal

menor. A exaltação da vida contemplativa, o convencimento de que a felicidade passa

pelo disfrute dos prazeres intelectuais que a vida do interior proporciona, vai unido,

como proposta filosófica clássica, à condição material de uma mínima liberdade que

somente outorga uma combinação de tempo livre indolor e solidão. Sísifo não cumpre

estas condições objetivas, assim como não as cumpre o prisioneiro de guerra, o escravo

ou o operário explorado.

O castigo de Sísifo não tem sentido, observa Camus, se o personagem renova

sua esperança cada vez que sobe a montanha. De onde se deduz que a tragédia depende

da consciência? Pois bem, é difícil separar a obra de um de seus atos. Esquecer-se do

sentido geral e ainda invertê-lo, concentrando-se em uma das partes – a subida-, já é

uma operação retórica que quando deixa de sê-lo para converter-se em real tem

implicações ideológicas contraditórias. A esperança de Sísifo, convertido em operário

humanizado por Camus, se aproxima então, perigosamente, do modelo da esperança

cristã da redenção. Sofra e esqueça de seu sofrimento, porque uma vez morto, será

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Tradução: Hildegard Susana Jung São Paulo: Edições Hipótese, 2017.
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recompensado no outro mundo. Omita-se – e, portanto, converta-se em seu cúmplice -

daqueles ao seu redor que não sofrem, mas que vivem como deuses, porque são

realmente, como Zeus ou Jesus Cristo, porque são socialmente, como os ricos. Ambos

tipos se mostram encantados com seu papel de juízes castigadores da humanidade. A

humilhação do castigado acaba com a rebeldia. Aceitar o castigo é aceitar como

próprias as regras do jogo impostas por outros. Unicamente no caso extraordinário da

sobrevivência ameaçada, se justifica tal atuação. E ainda, então, há que reconhecer a

derrota. Concentrar-se nos pequenos gestos da vida para aferrar-se a ela é uma tarefa

necessária, mas alienante. Exaltá-la e celebrá-la é cair em um idealismo absurdo.

Defender o absurdo é insensato porque é contraditório, e é contraditório porque é

insensato: cedo ou tarde se corre o risco de que a parte vertiginosa do absurdo conduza

insensivelmente a vida à morte.

O absurdo é voraz. Toda voracidade está dotada de vida. Sua vida consiste em

fagocitar qualquer coisa quando esta se descuida. Há que estar continuamente alerta. A

consciência não é a tragédia, mas o único remédio contra a tragédia. No absurdo não há

vida, há mal-estar. Subir o penhasco com uma carga a vida toda, não é vida para os

humanos, senão para os animais ou para os humanos degradados de sua parte animal.

“Há que imaginar-se Sísifo como um afortunado”, nos diz Camus (CAMUS,

1957, p. 97). Não podemos. A idealização de Sísifo exige a renúncia ao suicídio como

ato exemplar, último reduto da liberdade, prova definitiva da autonomia, da

independência dos deuses – reais ou simbólicos -.

Sísifo se apresenta em várias dimensões do trabalho do pesquisador. A partir de

uma perspectiva sincrônica, o estudante é um asno destinado a subir as escadas da

biblioteca todos os dias carregado de livros. A partir de uma perspectiva diacrônica,

após o Trabalho de Conclusão de Curso da graduação, vem a dissertação de mestrado e

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depois a tese de doutorado. E depois, se tiver a sorte de conseguir uma bolsa – o que é

mais difícil ainda em conjunturas de crises econômicas-, terá que apresentar projetos e

ainda agradecer pelo sacrificado trabalho que comportam em caso de serem financiados,

seguindo as maneiras e modos de Frei João, porque dessa forma nos permitimos

continuar sofrendo uma estação mais no calvário da fama. O bolsista se faz eterno,

ainda que venha envolto no disfarce de professor contratado ou funcionário, porque o

melhor que pode te acontecer é que a angústia se renove constantemente. O bom

catedrático conserva sua alma de bolsista como o bom general conserva o espírito do

soldado raso. Essa filosofia de base, que no fundo dá sentido a sua vida, ainda que logo

a lei da gravidade da personalidade a revista de seda para idealizá-la – Como o convite a

tamanho masoquismo iria suportar a mínima barreira defensiva da autoconfiança? - .

Mas convém que não despachemos esta questão tão rapidamente. Se pensarmos

mais detalhadamente, aqui deve-se achar o restante do traço necessário para fechar o

círculo do paradigma. O que ajuda Hércules a realizar seus 12 trabalhos (12 capítulos da

tese?), a Cristo a completar as 14 estações de sua Via Crucis (ou eram 14 os capítulos?),

ou a Sísifo a construir eternamente rascunhos de pesquisa, poderia ser, segundo o

sugerido até aqui, a motivação do êxito. “A fama (essa última fragilidade das almas

excelentes) – em citação de Milton acolhida por Schopenhauer- é a espora que espeta as

almas nobres a que desprezem os prazeres e que se consagrem a intensos dias de

trabalho” (Ibid., 2009, p. 431).

Entretanto, tal fim é demasiadamente vago e escuro, demasiado latente e

distante, sobretudo ao princípio da carreira do pesquisador médio, sem falar no caso de

quem não tem intenção de segui-la após sua tese. Existe uma versão muito menos

transcendental da mesma motivação geral que anima a maioria dos pesquisadores

enquanto estudantes que aspiram um título: o credencialismo. O diploma de graduação

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situa os indivíduos em uma posição de vantagem no momento de competir por um bom

posto de trabalho. De fato, até há meio século, o acesso à universidade era um

passaporte para aceder às elites de poder europeias. Entre 1960 e 1990, entretanto,

produz-se uma massificação dos estudos superiores que diminui rentabilidade da antiga

licenciatura. Já durante o último terço do século XX, a teoria do capital humano, que

havia demonstrado desde 1950 a importância de investir em educação, tanto a nível

individual quanto coletivo, havia encontrado algumas limitações, especialmente em

conjunturas de crise económica. Em tais circunstâncias, um título superior não garante

um bom posto de trabalho, nem que seja um posto de trabalho qualquer, mas um posto

na fila do emprego. Os desajustes entre oferta e demanda na parte alta da hierarquia de

ocupações não se consertam com decisões racionais de cada indivíduo, mas apresentam

rigidez devida a fatores muito variados, desde a cultura empresarial e sindical (que em

nosso país costuma confundir a igualdade com o igualitarismo) até a mentalidade

tradicional que sobrepõe o prestígio ao pragmatismo (o carro e o vestido à comida). Um

país onde a maioria dos egressos do Ensino Médio opta pela universidade e, dentro

desta, por carreiras tradicionais, reforçará inevitavelmente a rigidez estrutural de seu

sistema de formação e, portanto, o risco de desemprego.

Para o caso que aqui tratamos, o importante é observar que quanto mais

ascendemos na escala dos graus acadêmicos, mais importante se torna o trabalho de

pesquisa. Este ocupa uma porcentagem de créditos muito inferior na graduação que no

título de mestrado e constitui a totalidade da tese de doutorado. Tanto a saturação do

mercado de trabalho de titulados superiores, como as circunstâncias negativas, referidas

tanto na conjuntura econômica global como na estrutura dos sistemas formativo e

laboral nacionais, transladam para cima o investimento em educação como estratégia

defensiva na sobrevivência, com o que cada vez mais as pessoas precisam enfrentar o

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trabalho de pesquisa em mais de uma ocasião. Daí a importância de uma reflexão crítica

sobre seu significado, destinada a eliminar preconceitos com a finalidade de favorecer o

trânsito, ajudando assim a materializar a igualdade de oportunidades, verdadeira pedra

angular de uma sociedade livre e justa.

A meta credencialista, pragmática e materialista de alcançar o sucesso através de

um título não é incompatível com a meta romântica do heroico pesquisador que aspira

conseguir um prêmio Nobel ou chegar a ser considerado como um clássico em sua

matéria. Ambos objetivos fazem parte da mesma mentalidade individualista e

competitiva de raízes puritanas. É possível que, no fundo, o altruísmo do santo não seja

outra coisa, senão uma manifestação invertida e inconfessada de seu egoísmo, de acordo

com certa interpretação filosófica. Nesse caso, não será maior ainda o desejo de fama do

pesquisador? Assim como no comportamento popularmente qualificado como de beato,

a ostentação do sacrifício pessoal parece ser una condição necessária para consegui-lo.

O problema não é a objeção às metas pessoais, nem o destino cruel que aguarda tantos

mártires, mas a perda de qualidade de vida que arrasta, com seu exemplo, todo um

exército dos milhares de recrutas que se alistam a cada ano nas universidades para

realizar trabalhos de pesquisa com esse modelo em mente.

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2. Genealogia da pesquisa

2.1. Topografia do trabalho de pesquisa

Se o autocontrole é um conceito central para entender nossa vida social

civilizada, deverá refletir-se obrigatoriamente nas obras de pesquisa, flor e nata da

civilização ocidental moderna, desde um primeiro momento, ou seja, no estilo com o

qual escrevem. Cortázar agradecia a Borges por tê-lo ensinado a fazer um uso comedido

da linguagem, segundo lemos na contracapa de uma edição dos contos completos deste

último: “Borges me ensinou a eliminar todos os floreios, todas as repetições, as

reticências, os pontos de exclamação inúteis...” (BORGES, 2011).

O autor sente vergonha do que representam tais símbolos? Talvez os veja da

mesma forma que outros, como estridências do espírito, incômodas rupturas da

harmonia quieta que deve envolver a comunicação humana e o mundo, como os gritos

em uma conversa, símbolo de vulgaridade. Os conselhos de Schopenhauer que vimos há

pouco não caem em um saco furado. Os escritores, como as pessoas, têm ou não têm

estilo. E isso se reflete na forma como se comportam, se movem e, sobretudo, falam e

gesticulam. O bom estilo literário é o que se rende à elegância, que vem de êlegantia,

sinônimo de distinção. O estilo é um instrumento para distinguir-se socialmente do

povo humilde. Dá no mesmo se falarmos de literatura simplesmente ou de literatura

acadêmica, por algo ambos âmbitos de escrita compartilham a mesma raiz, a

contaminação pelo mesmo preconceito cultural, a mesma carga que converte aqueles

que a cultivam em sofredores émulos de Sísifo.

Entretanto, o simples é o estilo acadêmico. Graficamente, a identificação

metafórica se produz com a orografia do plano, o melhor do altiplano. Ali não cabe o

suspense das reticências, que representariam os barrancos e precipícios onde habitam

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nossos medos. Para digerir o suspense, o leitor burguês necessita duas coisas: o familiar

trinar das pombinhas e - metamorfoses do espectador – vê-lo no cinema ou na televisão,

transformada a obra literária em imagens, incluídas as do romance gráfico, gêneros

menores onde a alta cultura condescende com a cultura popular, assim como o estudioso

(pré-doutor ou já doutor) deve romper seu sagrado isolamento por alguns minutos e dar

um passeio, permitindo-se, inclusive, dar um pequeno chute, acompanhado com um

sorriso, na bola perdida de alguns meninos que por ali andam jogando.

Tampouco cabem as interjeições, como não cabem plantas que se elevem no ralo

panorama que se estende silencioso fechando o horizonte. Toda estrutura vertical é

declarada não grata. Tudo o que sobressai inquieta o espírito que reina na planície e se

apoderou da mente do escritor pesquisador. A não ser que este se preocupe com refletir

prévia e duplamente, por questões epistemológicas – que verdades podemos acessar e

como saber se são confiáveis - e de sociologia do conhecimento – que grupos sociais

acreditam e estão interessados em defender certas verdades e, sobretudo, certos

enunciados falsos, certos preconceitos - com relação a seu trabalho, coisa que não

ocorre em 99% dos casos, se encontrará servindo ao demônio que o possui, ao fantasma

da mediocridade; desconfiará de qualquer animalzinho que se mova na superfície plana,

se inquietará por qualquer som que rompa o silêncio tranquilizador característico do

deserto que assola não somente sua pobre mente, incapaz de imaginar, mas também sua

alma, incapaz de sentir. É mais, desta forma se exercita na arte da mediocridade,

adormece suas faculdades. Qualquer movimento será facilmente detectado nas planícies

da escrita. O movimento delata a vida. O predador acabará com ela em instantes.

O predador é, por definição, o grande observador, portanto, o pesquisador, posto

que a pesquisa se baseia na observação. O pesquisador, neste triste ecossistema (leia-se

paradigma), converte-se em rastreador, em vigilante predador. Seu trabalho, o trabalho

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Tradução: Hildegard Susana Jung São Paulo: Edições Hipótese, 2017.
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de pesquisa, consiste em dar algumas voltas pelo prédio. Cada volta é uma correção no

rascunho. Em cada volta se limpa algo, se acaba com algum movimento incômodo, com

algum “sinal” de vida demasiadamente humana que se infiltrou. Humana, neste

contexto, quer dizer imaginativa.

O texto vivo que mais chama a atenção no marasmo da tela do computador do

pesquisador é o que contém traços de inteligência atrevida. O gênio se caracteriza por

realizar associações arriscadas, aparentemente absurdas, provocando rupturas, e

incompreensíveis (ao menos em princípio e para a maioria). Interpretados como

movimentos, e vistas do alto, são saltos, às vezes mortais, acrobacias que surgem

espontaneamente nas criaturas da noite. “Nunca mais voltei a presenciar – dizia Max

Brod sobre seu amigo Kafka - associações de ideias tão ágeis, saltando desde a mais

remota distância, ocorrências tão divertidas e extravagantes, fantasias tão espontâneas”

(KOCH, 2009, p. 265). Somente as associações extraordinárias iluminam hipóteses

inovadoras que acabam por iluminar os problemas. Mas não podem existir sem o

componente da imaginação. No caso de um trabalho de pesquisa sociológico, o

ingrediente se apresenta na forma da imaginação sociológica. O conceito foi

desenvolvido em um ensaio do mesmo nome escrito por Wright Mills, que se converteu

em um clássico publicado em 1959.

É a capacidade de passar de uma perspectiva a outra: da política à


psicológica, do exame de uma só família à estimativa comparativa dos
pressupostos nacionais do mundo, da escola teológica ao
estabelecimento militar, do estudo da indústria do petróleo ao da
poesia contemporânea. É a capacidade de passar das transformações
mais impessoais e remotas às características mais íntimas do eu
humano, e de ver as relações entre ambas as coisas (MILLS, 1987, p.
27).

Trata-se, portanto, de outro salto, a variedade que pode ser considerada o

equivalente funcional nas ciências sociais da fantasia do literato. Desgraçadamente, o

texto do sociólogo norte-americano não é uma leitura obrigatória nos seminários de

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Gil Villa; Fernando. O que significa pesquisar? Exorcismo do trabalho de pesquisa.
Tradução: Hildegard Susana Jung São Paulo: Edições Hipótese, 2017.
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introdução à pesquisa. Com ele ocorre como com os clássicos da pedagogia aos que nos

referiremos em breve: vêm-se impingidos a um canto da memória, convertidos em

farrapos esquartejados, ou seja, em resumos insulsos e incompletos, fabricados

rapidamente por professores estressados por cumprir com os programas de teoria

sociológica, os mesmos que logo lecionam nos cursos de pós-graduação, onde se veem

igualmente obrigados e estressados a corrigir trabalhos de pesquisa. Assim, se produz

uma dissociação da qual não são conscientes dentro de sua prática docente entre a

graduação, considerada implicitamente uma extensão do Ensino Médio, e a pós-

graduação, considerada da mesma forma como uma etapa absolutamente diferente.

Ainda que o mestrado apareça como o degrau intermediário entre a carreira e a

tese doutoral, na mente do professor não atento à vigilância epistemológica, o que há é

um salto no abismo entre as concepções de docência e pesquisa, como se desde a

troposfera passássemos diretamente ao espaço interplanetário onde giram sem gravidade

os planetas doutores e as estrelas dos clássicos. Os defeitos que daqui se desprendem

são sumamente nocivos: nem se faz pesquisa enquanto ensina, nem se ensina enquanto

se faz pesquisa. Neste último caso, que é o que aqui mais nos ocupa, a conclusão se

duplica, reverberando como um eco perverso: não se “ensina” a pesquisar. Obviamente,

se o professor universitário não foi capaz de integrar a leitura da imaginação

sociológica, limitando-se quando foi aluno, no pior dos casos, a ter uma noção extraída

da Wikipédia ou do Rincón del Vago, e no melhor, das hipóteses, limitou-se a ler

realmente o livro de Mills, mas nunca refletiu posteriormente sobre como ativar essas

ideias, como leva-las à prática de forma pessoal, o mais lógico, então, é que também

não seja capaz de mostrar caminhos concretos aos alunos aos que orienta trabalhos de

pesquisa, de mostrá-los de forma rápida, com a centelha inteligente que deve se acender

em seu cérebro após dar uma olhada no rascunho do projeto que lhe mostram. Algo que

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Gil Villa; Fernando. O que significa pesquisar? Exorcismo do trabalho de pesquisa.
Tradução: Hildegard Susana Jung São Paulo: Edições Hipótese, 2017.
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só pode acontecer se esse cérebro está preparado para funcionar como um forno

constantemente alimentado pela madeira da imaginação.

De uma maneira geral, isso não é o que ocorre, pois ocorre exatamente o

contrário. Qualquer hipótese alocada é descartada de antemão, morta pelo professor-

doutor-águia após um sobrevoo em círculo carregado de gravidade e um golpe

propinado pelo duro bico da ironia.

O estilo acadêmico recomendável no trabalho de pesquisa privilegia a forma

sobre o conteúdo e, dentro deste, o conteúdo morto sobre o conteúdo em movimento,

vivo, atrevido. Desta forma cai em uma de suas mais famosas contradições. Por um

lado, existe a ideia de que o trabalho deve ser original. Entretanto, a aprendizagem e o

caminho da pesquisa, concebido como Via Crucis, dissuade o aprendiz da audácia

necessária para converteres em protagonista de qualquer inovação. E não somente dela,

como resultado, mas também de toda aproximação lúdica e prazerosa às tarefas que

conduzem ao mesmo.

Esta análise não deve ser interpretada em termos maniqueístas. A proposta da

imaginação não é incompatível com o trabalho sério, em termos de disciplina, nem com

o distanciamento que exige a análise social. De novo aqui nos assaltam preconceitos

que, assim como os demônios, habitam nas antípodas do paradigma dominante e que

completam o cerco desde o outro lado, fazendo imprescindível, agora sim, o exorcismo.

Me refiro ao mito da genialidade como inspiração alegre e malograda, o mito do

grande escritor que entra em transe para escrever, abduzido por algum entusiasmo

poderoso, possivelmente invocado por certas substâncias e estados febris artificiais.

Voltando ao caso de Kafka, por um lado se necessita concentração para escrever, algo

que não é fácil de conseguir, o que leva a algum desespero: “Não poderei escrever nada

enquanto tenha que ir à fábrica… O contato com a vida laboral…, me impede toda a

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Gil Villa; Fernando. O que significa pesquisar? Exorcismo do trabalho de pesquisa.
Tradução: Hildegard Susana Jung São Paulo: Edições Hipótese, 2017.
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visão de conjunto” (KAFKA, 2004, p. 600). O ruído é outra das grandes ameaças: “O

vizinho passa horas e horas conversando com minha patroa… Interrompida, quem sabe

por quanto tempo, a escrita, que tinha sido iniciada há dois dias. Puro desespero” (Ibid.,

p. 603). E um mês mais tarde: “Perseguido pelo ruído” (Ibid., p. 605). Estamos em

1915. Como se sentiria Kafka – enquanto figura que encarna qualquer pobre diabo que

precisa redigir sua tese de doutorado ou seu enésimo trabalho de pesquisa - na Espanha

de 2012, o segundo país más ruidoso do mundo?

Isto quanto às condições de trabalho. Por outro lado, o assinalado comentário

sobre as associações pouco usuais deste autor, indício de suas geniais qualidades,

deveria ser complementado por outro, extraído igualmente de um contemporâneo seu,

que destacava sua “frieza de espectador implacável”, ainda que com delicadeza, sem

cair no excesso de sensibilidade nem no polo contrário do cronista sem emoções

(KOCH, 2009, p. 79). Definitivamente, o esforço analítico não é incompatível com a

ternura. Entretanto, ao aprendiz de pesquisador não lhe ensinam a arte do equilibrismo.

No trabalho de investigação, no trabalho de escrita, se padece e se disfruta, não

somente se padece (como no modelo do calvário) ou somente se disfruta (como no

modelo do diletante escandaloso).

2.2. Norma e forma

A metáfora orográfica se completa com a metáfora arquitetônica. A obra escrita,

o trabalho de pesquisa, se estende como uma mancha uniforme, uma colmeia de abelhas

onde as moradias se empilham de modo impessoal nas camadas todas iguais.

Parágrafos similares se levantam ao pé de largas colinas, as notas de rodapé,

compostas por sua vez de vários estratos. A verdade é que sobre a cidade plana paira o

silêncio porque o texto não tem muito feeling.

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Falam de fato os mortos, posto que, em sua maior parte, a escrita comenta o dito

por autores que têm mais probabilidades de estar mortos que vivos, dado que sua

autoridade depende, como vimos, de sua santidade, a qual quase garante seu enterro.

As citações, diretas ou indiretas, outorgam à obra um tom monumental, em

concreto de mausoléu, de monumento funerário.

A cidade mais se parece com uma cidade de mortos, necrópoles, simetria de

andores. Quanto maior for, mais poder terá, como ocorre com as megalópoles dos vivos.

O valor de uma tese, obviamente, mas também para muitos leitores, o valor de

um romance, se mede pela quantidade de folhas que, à maneira de andores, contém

restos de tinta, como se o detrito orgânico que supõe o papel e a tinta fosse no fundo a

verdadeira medida pela qual se deve julgar a obra, um valor, portanto, fora de qualquer

critério acadêmico.

Ou talvez se trate de uma ironia que expressa a falta de base dos cânones

acadêmicos, que incluem os usados pelos críticos literários, sua arbitrariedade, sua

barriga vazia, inflada pela fome.

Flaubert: “As obras mais bonitas são aquelas nas quais há menos matéria”

(1998, p. 120). Pode-se prender uma flor em uma montanha de matéria caracterizada

pela decomposição da imaginação? Podemos, mas é muito raro, porque a beleza é

justamente a antítese de qualquer tese. O estilo acadêmico é considerado incompatível

com a graça estética. É anódino e pesado, lastrado pelas citações.

Concebo – sonha Flaubert três meses depois de escrever o anterior,


em 24 de abril de 1852 -… um estilo que seria bonito, que alguém
algum dia utilizará ao escrever, daqui a dez anos ou dez séculos, e
que será rítmico como o verso, preciso como a linguagem das
ciências, e com ondulações, zumbidos de violoncelo, pássaros de
fogo; um estilo que penetraria na ideia como um estilete, e onde o
pensamento navegaria sobre as superfícies lisas, como uma barca ao
surcar o mar com o vento a seu favor” (Ibid., p. 120-121).

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Nos resta o consolo da passagem do tempo. Somente nos restam oito séculos e

meio no pior dos prognósticos do autor francês.

Esclareçamos que a consideração do critério da beleza não deve ser entendida

unicamente como tema de tertúlia literária. Cabe aplicá-la perfeitamente à pesquisa

social. Bauman se alinha com Arendt na defesa da ideia de beleza como força motriz da

cultura porque, segundo ele, “é o epítome mesmo de objeto esquivo que desafia toda

explicação racional/causal, que carece de finalidade ou uso visível” (BAUMAN, 2006,

p. 78). Desgraçadamente a tribo dos flaubertianos abunda pouco não somente nas lindes

literárias, mas também na ciência social. Aqui, continua o sociólogo polaco, a cultura

segue sendo entendida como “mecanismo estabilizador que gera rotina e repetição: um

instrumento de inércia” (Ibidem). Pois bem, nos perguntamos, onde se observa mais

claramente esta opaca concepção, a não ser no estilo acadêmico dos trabalhos de

pesquisa, sementes das obras que constituem a cultura legítima das ciências sociais, o

acervo bibliográfico onde se guarda a excelência de seu modelo?

A repetição como recurso nos trabalhos não se refere somente a um recurso

estilístico, no sentido literal como é conhecido, ao repetir as ideias na introdução, no

corpo da tese e nas conclusões, mas também à repetição das ideias de outros autores.

Previamente, a repetição está incrustada no próprio coração da escrita, porquanto que

esta se baseia na constante repetição de símbolos alfabéticos e numéricos.

A inércia alude ao movimento lento e diferido, não dotado de força nova e

original. Mais graves são os outros traços opostos à ideia de beleza, e que aludem à

mentalidade calculadora. Em um escrito anterior, Bauman fundamentava algumas das

perversões que ameaçam a racionalidade moderna. Talvez, o principal consistia na

extrapolação da ação racional ao mundo da moral. Este corre o risco de conformar-se

com acerto ao critério da regularidade e da ordem. A condição moral das pessoas, para

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evitar seu destino errático e imprevisível, deve ser encarrilada unicamente por leis e

normas, “princípios que claramente especificam o que em uma situação dada

deveríamos fazer e não fazer. A moralidade, como o resto da vida social, deve estar

fundamentada na lei e deve haver, portanto, um código ético além da moralidade,

consistente em prescrições e proibições” (BAUMAN, 1995, p. 5).

A erradicação das emoções das burocracias será um dos efeitos imediatos desse

fenômeno, extremo facilmente comprovável nos passos estipulados que deve seguir um

trabalho de pesquisa tomado de condições explícitas às quais deve ater-se a forma, e

outras implícitas às quais deve ater-se o conteúdo. As primeiras são regulações às quais

os estudantes têm acesso nas páginas eletrônicas que regulam os trabalhos de TCC da

graduação ou do Mestrado e da tese de doutorado. São também as normas que regem os

procedimentos para defender e aprovar o trabalho. Resta dizer que tais regulamentos

têm crescido nos últimos anos, pormenorizando-se e sofisticando-se a extremos

insuspeitados há duas ou três décadas.

Paralelamente, proliferam as comissões criadas pelos departamentos, as

faculdades, os institutos, os centros de estudos, e as universidades como instituições

gerais, com a finalidade de julgar a seleção dos estudantes, de avaliar os trabalhos de

pesquisa, de dirimir conflitos, de gerir plataformas de comunicação virtuais, de

relacionar-se com outros estudos de graduação ou de pós-graduação, de reformar os

planos de estudos, de organizar as práticas – que se forçam em alguns casos até

convertê-las em pantomimas -, e um longo etecetera.

A consequência mais clara desta superdose normativa é que o estudante que

enfrenta um trabalho de pesquisa desloca sua atenção do conteúdo à forma. Suas

preocupações pela forma – como oposta à ideia de beleza, se seguirmos a corrente aos

autores citados, mas, também simplesmente à ideia -, são tão constantes que

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escassamente têm tempo, e o que é pior, consciência da necessidade de dedica-lo à

reflexão prévia e fundamental do sentido de seu trabalho. É mais, inclusive pode chegar

a sacrificar a escolha do tema a investigar se com isso facilita algo no calvário

burocrático. De fato, não é raro encontrar estudantes cuja bússola de orientação é a

picaresca, de maneira que seus movimentos e decisões estão calculados

estrategicamente para burlar a burocracia. Corre o rumor de que, com tal orientador, os

trâmites se agilizam, as bancas são mais amigáveis ou a correção menos exaustiva. À

primeira vista poderíamos pensar que a burocracia encontra na resistência estudantil

uma limitação a seus efeitos negativos. Entretanto, tal pensamento não deixa de ser

superficial e romântica, ao menos no tema que em concreto aqui nos ocupa. Porque se

trata de um conflito onde as forças são equivalentes só aparentemente e onde a

verdadeira perdedora é a moral da pesquisa.

A resistência nunca se justifica moralmente pelo simples fato de burlar uma

polícia administrativa censora e proibidora, mas também pelo objetivo a cujo serviço

trabalha. A trapaça não é o fim, dado que então se corre o risco de trivializar a visão do

conflito (sociologicamente falando, a visão do conflito é mais importante que o próprio

conflito), reduzindo-a ao jogo de gato – o poder - e rato – a resistência -.

Isto supõe entender a resistência como desobediência civil em sua versão

acadêmica, mas também como exercício de responsabilidade. Deve validar-se

unicamente com o critério da satisfação alcançada com o objetivo último e pessoal – o

qual deve estar conectado com a con/ciência social - que nos levou a realizar o trabalho

de pesquisa. Se ele não existe, mas utilizamos tal trabalho como um mero instrumento

para conseguir um grau, um título, então a trava burocrática se torna tão imoral quanto

seu burlador. Trata-se definitivamente de não confundir o meio com o fim.

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Com relação a este tema é importante separar o sentido desta reflexão da retórica

ideológica barata. A burocracia não é má per se, pois, certa dose é necessária se

queremos manter sadio o corpo democrático de uma comunidade, já que contém alguns

dos escassos princípios ativos capazes de gerar defesas, que é a garantia da igualdade de

todos os cidadãos perante a lei, e uma mínima objetividade que igualmente assegure

uma igualdade de oportunidades. O problema, como em todo veneno, está na dose.

Demasiada burocracia pode matar a vitalidade.

No que se refere ao caso aqui analisado, sua onipresença atenta contra o

pensamento criativo e integral, último suspiro do pesquisador. Antes de aniquilá-lo,

desgastará o órgão que o protege, o simples pensamento. Hoje nossa sociedade não se

queixa precisamente da falta de pensamento, já nem crítico, mas simplesmente de

pensamento?

Pensemos na tragédia que supõe tal coisa para o trabalho de pesquisa,

independentemente de que este desemboque em obras de ensaio – incluindo em

primeiro lugar o acadêmico - ou de ficção. Mencionávamos há pouco como a pesquisa

deveria ser entendida como uma arte de equilibrismo, ideia que vai ficando mais clara à

medida que avançamos em nossa reflexão. Pois bem, justamente o verbo pensar alcança

um sentido congruente com esta proposta graças a sua referência etimológica à ação de

pesar e, sobretudo, de contrapesar, de calibrar prós e contras. Nisso consiste a

indagação, em manter um equilíbrio entre dois polos cujos valores são sempre relativos,

razão pela qual devem estar continuamente sendo contrapesados. De modo que o

aprendiz de pesquisador pode se identificar com um equilibrista que sabe interpretar,

sentindo as correntes de ar, por muito finas que sejam, que se contra arrestam a ambos

os lados do estreito caminho pelo que avançamos.

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Poderíamos, assim, perguntar-nos como é possível que se pense nesse sentido

indagador tão pouco em um momento histórico no qual a maioria dos cidadãos

conseguiu, por fim, cultivar-se com a educação formal obrigatória. Provavelmente, e em

boa medida, porque as novas tecnologias socializam os jovens em uma vida acelerada

compatível com a velocidade das mudanças sociais e culturais. Ao final, se produz uma

fatal confluência entre o crescimento das administrações, inercial posto que ninguém se

preocupa em colocar-lhe freios, algo que se veria como politicamente incorreto, dada a

sacralização de sua fonte jurídica – os direitos fundamentais -, e o crescimento da

informação. Esta última se beneficia da mesma desculpa política: é bom, em princípio,

proporcionar uma informação massiva aos cidadãos, assim como o é proporcionar a

maior quantidade de serviços e bens possível na perspectiva do bem-estar.

O problema surge quando a hiperinflação institucional se desborda ao mesmo

tempo em que o faz o rio da informação proporcionada pela rede. Incapaz de assimilá-

las, ou seja, de alcançar o equilíbrio, o cidadão corre o risco de afogar-se. Da mesma

forma, o estudante pode perecer se desmoronarem as infinitas camadas de burocracia

que compõem os fundamentos de seu trabalho, ou as não menos infinitas camadas de

informação morta ou de matéria em processo de decomposição em que consistem suas

“fontes”, ou os não menos perigosos, pesados, velhos ainda que mil vezes repintados,

andaimes de ferro em que consistem os “métodos e técnicas”.

2.3. O fantasma do procedimento

Afunilando um pouco, podemos dizer que o espírito da burocracia persegue o

pesquisador representado no fantasma do procedimento, flanqueado pelos guarda-costas

da forma e da técnica.

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A lógica do procedimento que se aplica ao trabalho de pesquisa é duplamente

negativa. Externamente, a racionalidade procedimental, de cujos perigos para a

moralidade avisa Bauman, distrai, poderíamos dizer, o pesquisador, impedindo os

trabalhos de distanciamento do objeto de estudo para poder compreendê-lo em

profundidade, questionando-o, mais além de seu funcionamento cotidiano e aparente. A

lógica envolvente dos procedimentos normativos aplicados aos trabalhos tem letra

miúda, que deve ser observada com lupa constantemente, esbanjando uma energia

escassa que deveria ser utilizada em outra parte. Não é somente questão de energia, mas

também de como se canaliza e como os modos de canalização socializam, acostumam o

sujeito e o vão modelando desde o ponto de vista dos valores.

A voz do procedimento tem um timbre muito diferente das vozes da imaginação

e da fantasia, mas também das vozes do sentimento de humanidade.

Se vivemos obedecendo constantemente procedimentos, obtemos a recompensa

da comodidade. Basta deixar-se levar, com as normativas sempre à mão, sem perguntar-

nos pelas exceções, sem necessidade de questionar os passos e as regras, e menos ainda

sua origem e pressupostos filosóficos educativos.

As preferências individuais e os afetos desaparecem. O normal é que aqueles

que mais aceitarem este jogo “pensem” menos, sejam menos arriscados em suas

hipóteses, menos espontâneos em sua escrita, se permitam menos interrogar-se sobre

seus desejos, se permitam menos dar uma oportunidade a suas ideias mais loucas sobre

os problemas que investigam para que demostrem suas promessas.

Sua identidade reside mais em ser membros de uma organização, como

bolsistas, professores auxiliares ou como simples estudantes, privilegiados ainda por

fazer parte do grupo de iniciados que aspira a ter um título superior que os eleva do

resto do mundo, de transitar os níveis mais altos de uma universidade, que é o nível

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mais alto do sistema educativo, escada ao céu, um céu que não se sabe muito bem em

que consiste porque nunca se pensou nisso e que precisamente por não ter refletido a

respeito, atua como fonte de vagas promessas.

É assim como a racionalidade procedimental se converte em mentalidade

procedimental e se infiltra do exterior ao interior, ou seja, dos requisitos formais que

deve cumprir o trabalho de pesquisa no seio de uma organização regrada da mesma

forma como se trabalha na intimidade o objeto de estudo.

Se na organização burocrática (como a universidade) o modelo ideal exige que a

ação de cada um seja totalmente impessoal, o que significa que não se pode permitir

importar-se com as crenças, convicções ou emoções (BAUMAN, 1994, p. 6), os

mesmos critérios servem como guias de orientação para realizar o trabalho de

investigação, onde as simpatias e as antipatias pelos objetos e os cientistas devem ficar à

margem, junto com os juízos de valor e os pontos de exclamação.

Internamente, aquela mentalidade busca procedimentos de trabalho nos quais

encontre o mesmo tipo de comodidade que satisfaz a personalidade ritualista, no fundo

insegura, submissa. Encarar os pensamentos como fantasmas que nos perseguem

enquanto caminhamos pela rua ou quando estamos deitados, com suas associações

extravagantes, é uma loucura para a qual não estamos dispostos. É muito melhor

funcionar com a ordem que regule as tarefas e os objetivos, ordem nos horários e ordem

nas leituras. O procedimento ordenado manda ordenar as ideias como regra básica. As

ideias dos outros, não as nossas. O artifício dos procedimentos casa bem com o

paradigma da pesquisa como montanha tomada de obstáculos artificiais que podem ser

montados e desmontados, compostos de matéria em decomposição. O aprendiz de

pesquisador se move, como um médico legista, entre corpos mortos, como um

arquivador entre estantes de testemunhos do passado.

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A biblioteca é uma instituição regida pela ordem.

Queremos dizer aqui que o pensamento deve ser submetido a certos patamares e

não se pode pular certos procedimentos.

O temor ao caos espreita.

O aprendiz de pesquisador deve acostumar-se a esse meio. Deve conseguir

sentir-se bem nas bibliotecas, protegido por tanta sabedoria presente, morta, mas sempre

disposta a despertar, a ressuscitar.

O investigador deve passar por uma etapa de iniciação na qual deve lutar com a

ansiedade que se desprende de sua ignorância ante tais torres de sapiência.

São raros os pesquisadores que sentem claustrofobia nos espaços sagrados dos

livros. Toda uma complexa concepção da cultura, da qual aqui somente podemos

oferecer algumas pistas, empurra nessa direção.

Daí o sucesso das bibliotecas com espaços reservados para pesquisadores e daí o

sucesso dos livros que ensinam como fazer uma tese, baseados na idolatria dos

símbolos, na bibliofilia, no fetichismo da alta cultura – cabe dizê-lo ao contrário, a alta

cultura baseada no fetichismo -. Um dos textos mais famosos a esse respeito é o do

semiólogo Humberto Eco, intitulado Como se faz uma tese.

2.4. Como NÃO se faz uma tese

Como se faz uma tese? Vamos ao ponto, ao capítulo que explica o “Plano de

trabalho”. Este deve ser preparado minuciosamente, com um esquema prévio onde se

esboça a estrutura. Trata-se de um parêntese efêmero como um sonho, onde alguns

aprendizes brincam de ser orientadores de seu próprio pensamento, concebendo e não

somente executando, imitando os arquitetos, rabiscando índices nos quais se permite

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aparecer fugazmente a imaginação sequer nos títulos dos capítulos, inclusive nas

associações entre eles.

Mas este período não dura muito. É provisório, precisa da ajuda do professor e

se caracteriza pela insegurança. O sistema – e o paradigma que o anima - recomenda

começar já as tarefas ingratas, de execução pesada, ou seja, recomenda deixar de lado a

caneta de arquiteto sonhador e carregar a pedra nas costas, vestido de Sísifo.

De fato, o capítulo do livro de Eco se intitula “O plano do trabalho e as fichas”,

uma união de termos que diz tudo. O procedimento a seguir consiste em resumir as

ideias dos outros sobre o tema para tentar combiná-las de forma particular. Poderíamos

dizer original, e essa é precisamente uma das justificativas oferecidas pelo sistema

acadêmico aos aprendizes para acalmar sua insatisfação. A verdade é que a combinação

de citações de 50 autores, e não digamos 100, são infinitas, mas irrelevantes. Se trata,

portanto de uma falácia, posto que o resultado é uma obra pseudo-original.

Mas o importante é que o aprendiz tem já a falsa motivação e sobretudo o

tranquilizador material para começar a trabalhar seu plano provisório (o plano é o de

menos) à mão.

À mão? Não exatamente. Deve ir às bibliotecas, onde colocará em ação o

procedimento dos ficheiros.

Umberto Eco explica como se deve fazer uma ficha, que nomenclatura seguir,

que sistemas de inscrição e anotação utilizar. De repente, no meio do capítulo, observa

como, enfim, havíamos proposto “um pequeno fichamento bibliográfico” e agora nos

vemos perante toda uma serie de fichamentos complementares: a) fichamentos de

leitura de livros ou artigos, b) fichamentos temáticos, c) fichamentos por autores, d)

fichamentos de citações, e) fichamentos de trabalho. E se pergunta com certo senso de

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humor: “verdadeiramente é necessário fazer todos estes fichamentos? Naturalmente que

não” (Eco, 2005, p. 132).

Ufa! Suspira o aprendiz (eu, por exemplo, quando fazia minha tese nos anos

oitenta do século passado, pois o livro de Eco foi publicado em 1977 e continua sendo

reeditado apesar da entrada em cena das novas tecnologias).

A biblioteca é o lugar de trabalho do pesquisador, devemos, pois, prestar a ela

uma atenção especial. Nela reina, além do silêncio, a ordem (o silêncio é o cadafalso da

ordem). Não existe lugar sobre a terra mais ordenado que uma biblioteca. A ordem

elevada a sua máxima potência causa, desde que se entra no recinto, uma sensação de

esmagadora humildade. Que pequeno se sente o leitor - sobretudo se é bolsista ou

estudante -, quando enfrenta pela primeira vez o desafio de escrever uma pesquisa que

aspira ocupar um pequeno espaço nessas torres sagradas que encerram a história da

humanidade, a qual representa a humanidade!

A biblioteca se oferece como um microcosmos onde se encerra a essência do

mundo, daí seu odor a templo sagrado.

Em realidade, a sensação de insignificância pessoal é complexa, vai unida a

outra que a neutraliza e que destaca a grandiloquência do momento, a sensação de fazer

parte, potencialmente, da maior criação coletiva realizada pelos seres humanos.

Passados alguns instantes necessários para digerir essa dupla emoção, experimentamos,

como satisfação e rastro que deixa a primeira impressão do perfume recém sentido, uma

sensação desconcertante: o absurdo. Como tudo em excesso, a super ordem que reina

nas bibliotecas parece burlar-se de nós. Sequer por um segundo, ao dobrar um dos

corredores ao levantar a vista até uma prateleira inacessível, nos parece vislumbrar um

sorriso irônico do espírito dos livros.

[…] A cada um dos muros de cada hexágono correspondem cinco


prateleiras; cada prateleira encerra trinta e dois livros de formato

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Tradução: Hildegard Susana Jung São Paulo: Edições Hipótese, 2017.
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uniforme; cada livro é de quatrocentas e dez páginas; cada página,
de quarenta linhas; cada linha, de umas oitenta letras de cor preta
(Borges, 2011: 137-138).

Mas esta sensação de ordem kafkiana que beira o absurdo também passa com o

tempo, à medida que avançamos, dando passagem, talvez aproveitando que nos

sentamos, a uma terceira sensação de tranquilidade, ou melhor, de segurança, porque

pensamos que, entre todas essas estantes, estão contidos todos os segredos do mundo,

portanto, todos os sortilégios para acabar com todos os problemas dos humanos.

Isso deveria incluir o pequeno, modesto problema que nós, como aprendizes,

queremos pesquisar. A fantasia de que ali estão todos os ingredientes que necessitamos

para alcançar nossa particular e modesta fórmula nos satisfaz. Certamente que há que

procurá-los na selva de livros, mas ali estão. Talvez seja como procurar uma agulha em

um palheiro, mas ao menos já sabemos onde está o palheiro, é mais, já estamos dentro,

e isso nos proporciona um certo bem-estar.

A imagem do palheiro é cálida. Se o palheiro é bom, inclusive se pode ali tirar

cochilo.

Não é raro ver pesquisadores dormitando discretamente ocultos entre colunas de

livros, não muito longe da cena imaginada por Borges: “à esquerda e à direita do saguão

há dois gabinetes minúsculos. Um para dormir…” (Ibid., p. 137).

Suponhamos que estamos no melhor dos palheiros, no mais completo, na

biblioteca das bibliotecas, tal e como imaginou Borges em seu relato A biblioteca de

Babel. Si pretendêssemos atravessá-la em linha reta, posto que A Biblioteca é ilimitada

e periódica, ao cabo dos séculos nos daríamos conta que os livros voltam a repetir-se na

mesmo desordem, a qual, “repetida, seria uma ordem: a Ordem”. E o autor acrescenta,

arrematando o relato: “Minha solidão se alegra com essa esperança” (Ibid., p. 145).

O que Borges queria dizer? Talvez se limitava a dar fé da alegria de quem se

recosta no palheiro, vã e ilusoriamente, porque há camas melhores; a resignada e triste

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Gil Villa; Fernando. O que significa pesquisar? Exorcismo do trabalho de pesquisa.
Tradução: Hildegard Susana Jung São Paulo: Edições Hipótese, 2017.
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alegria da pseudo-originalidade aludida e que agora se compreende melhor: com nossa

obra reproduzimos a Ordem. Nosso trabalho de pesquisa é apenas mais uma palhinha,

mas não totalmente igual às outras palhinhas. Esse não totalmente representa 0,001%

quando muito, mas com isso nos conformamos, pois ao menos nossa obra-grão de areia

está representada na grande montanha da sabedoria humana, para a qual contribuímos

modestamente.

Pequena vitória sim, mas única sombra de esperança que alegra o deserto da

solidão por onde passa seu obrigado e sacrificado retiro, o iniciado nas artes da

pesquisa.

A Ordem nos possuiu e pariu em nós uma obrinha com os conteúdos muito bem

ordenados e contidos.

2.5. Em que se parece uma pirâmide a um trabalho de pesquisa

A imagem de um pobre diabo buscando uma agulha em um palheiro nos ajuda a

compreender os processos de criação que transcorrem nos trabalhos de pesquisa, mas

não é suficiente. Necessitamos de outras metáforas. Pensemos nas arquiteturas que

podemos encontrar em nossa longa travessia pelo deserto da investigação. Sem dúvida,

a pirâmide é uma das mais atrativas.

Pergunta (que não é piada): Em que se parece uma pirâmide a um trabalho de

pesquisa? Em muitas coisas. Vejamos.

O pesquisador é um operário encarregado de construir uma pirâmide. Deve ser

levantada na solidão do deserto. Isso já havíamos combinado. Mas ali não há pedras à

vista. Deve ir procurá-las em um longínquo canteiro chamado biblioteca. Ali trabalham

de forma solitária os pesquisadores. Marcam suas lápides com graffiti, inscrições que

permitem identificá-las, dado que todas estão cortadas com o mesmo padrão.

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Gil Villa; Fernando. O que significa pesquisar? Exorcismo do trabalho de pesquisa.
Tradução: Hildegard Susana Jung São Paulo: Edições Hipótese, 2017.
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Na margem da página 137 do libro anotarão:

T. (4.5.6.) dobra temporal

O qual significa que a anotação se refere à Tese e a essa subdivisão em particular. Do

mesmo modo, em vosso plano de trabalho anotareis, referindo ao parágrafo 4.5.6.: Cfr.

Sheakley, Mindswap, 137 (ECO, 2008, p. 130).

Vão trabalhando as lápides e vão arrastando depois ao lugar escolhido no

deserto. O processo de arrastamento não tem maior complicação ainda que não esteja

isento de riscos, depois de tudo podem chegar a pesar muitos kilo-bits. Podem nos

roubar o arquivo-lápide, somente ou com o carro que o transportava – memória ou

computador -. Outro risco: podemos trabalhar toda uma jornada em uma pedra e logo

pode cair de repente, com todo o sistema no qual estava apoiada (a isto se conhece

como cair o sistema).

Em todo caso, se supõe que com a passagem dos dias e das horas, as lápides com

as inscrições vão se acumulando e o operário pesquisador começa a levantar a estrutura.

Tanto na pirâmide como no trabalho de pesquisa, o “operário” cava sua própria

tumba. Há que comentar que no segundo caso o operário coincide com o destinatário da

obra, ou seja, o operário pensa que é o faraó. Os faraós pensavam que eram deuses e,

como já observamos, os pesquisadores aspiram ser imortalizados com suas obras.

Claro que também poderia ocorrer que a obra acabaria com o operário não em

um sentido figurado, mas literal, que a pessoa deixasse a pele na tese, já fora no solar de

construção, ou no canteiro-biblioteca, esgotado pelo esforço: […] peregrinei em busca

de um livro[…]. Agora que meus olhos não podem decifrar o que escrevo, me preparo

para morrer a umas poucas léguas do hexágono no qual nasci (BORGES, 2011, p.

138).

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Tradução: Hildegard Susana Jung São Paulo: Edições Hipótese, 2017.
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E acontece que a grande biblioteca é uma matriz simbólica, Terra no feminino

que dá a vida e mata. Sobretudo mata, porque enterra.

O pesadelo do pesquisador é morrer lapidado, que lhe caiam por cima, enquanto

folheia um livro em um dos corredores da biblioteca, as centenas de livros acumulados

nos andores posteriores, devido, por exemplo, a um tremor de terra.

É também o pesadelo de seu herói favorito, Sísifo, que poderia perecer aplastado

se faltassem as forças ao ascender a pendente. O personagem mitológico seria arrastado

então por sua carga, expressando dessa forma o risco constante que ameaça o trabalho

de todo pesquisador: passar de arrastar a ser arrastado pela matéria (supomos que

ninguém duvida da gravidade da matéria intelectual, inclusive se reduzimos a

informação digital). Sísifo é congruente com o modelo piramidal. Sendo a pesquisa uma

pirâmide, seu construtor deve subir carregado de pedras o tempo todo.

A biblioteca como canteiro, assim como a pirâmide (ao final, na base da

pirâmide foi possível armazenar tantas pedras que temos um pequeno canteiro onde

podemos trabalhar) constituem espaços claustrofóbicos.

É o que acontece quando a Terra se compara com o restante do Universo.

Paulatinamente, à medida que os argumentos vão se fechando como costuras na

construção da pesquisa, sentimos que começa a faltar luz e oxigênio. Em algumas

ocasiões chegamos a estados de fadiga e de confusão mental, nos perdemos no labirinto

de raciocínios que levantamos com nossas próprias mãos.

Nesses momentos duvidamos, suamos de angústia, como um Cristo caído no

meio de uma das estações do Calvário. Se levantamos a vista e vemos o plano inclinado

desde a perspectiva interior, sentimos que a obra vai deixando de ser nossa obra e cobra

vida própria, de forma tal que não somos nós quem à vontade se involucra, e nos

encerramos para refugiar-nos do mundo, mas ela se fecha sobre nós a seu próprio

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capricho. Temos a amarga sensação de que podemos ser suas vítimas, de que talvez

confiamos demais, como esses insetos devorados pelas atrativas, mas letais, corolas das

plantas carnívoras gigantescas.

A relação de todo pesquisador com sua obra esconde, por conseguinte, sempre

algo de sinistro. Tem a cara do amor, mas também a do ódio. Oferece a recompensa da

criação, de dar vida, que talvez seja a mais mágica que existe, mas em troca exige correr

o risco da morte, ao menos como sonho percutor. De alguma maneira, na obra vai-se

deixando a vida, assim como o construtor. Logicamente, a quantidade de vida que se

gasta depende da envergadura da obra. Quanto mais ambiciosa, mais imposto vital se

cobra. Uma pirâmide deve cobrar o tipo máximo. Se a isso somamos que o pesquisador

passa a vida obrando na biblioteca, e depois dentro de seu próprio mundo piramidal, que

é virtual, porque está dentro de seu computador, mas muito real, concluímos que cada

vez terá mais aspecto de morto-vivo, pálido, licnóbio.

O modelo piramidal é plenamente compatível com o paradigma imperante da

pesquisa que nos propusemos a desvendar. Todo trabalho de pesquisa aspira a ser uma

pirâmide, ainda que seja de brinquedo, como quando se diz que é um projeto. Nese

caso, é um projeto de pirâmide, uma pirâmide em potencial. Outra coisa é que pretenda

ser a sétima maravilha do mundo, e ao materializar-se, fique logo em uma pirâmide de

quinta, una dessas pirâmides que se confundem com as dunas. Não importa, o que conta

é a vocação de grandeza com a qual nasceu.

Todo trabalho de pesquisa, tal e como o concebe a academia, é pretencioso por

definição, leva em si o gene da monumentalidade.

Todo trabalhador trabalha por empreitada para seu único dono e senhor, o deus

Eu, idolatrado, como se fosse um faraó pertencente à dinastia dos cientistas modernos,

na era cultural do individualismo.

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Todo trabalho de investigação, como toda pirâmide, deve estar envolto de

mistérios. Os mapas, as chaves para decifrar os hieroglíficos, existem mas resistem a ser

divulgadas. De fato, o leitor, o cidadão, habitante humano das cidades nas ribeiras dos

rios, afastadas do deserto, costuma visitar os fantásticos e pétreos monumentos e sair

deles ignorantes da mesma forma, ou talvez, um pouco menos.

Um inciso. O rio é um símbolo múltiplo para o escritor pesquisador: frente à

solidão do deserto, proporciona o contato com as massas; representa também a diversão

e a diversidade, frente à uniformidade que se desprende como uma pista que vai ao

transcendentalismo; e acrescenta um plus de spa relaxante e purificador, muito

adequado para esfoliar as crostas de pó e sujeira que se acumulam na pele do peregrino,

obreiro lapidário; e ainda serve de relaxante para o espírito, remetendo a um modelo

distinto de sabedoria, oriental e budista – pensemos no jovem Siddartha de Herman

Hesse -, oposto ao cristão monoteísta. Por último, na ribeira, a raça dos pesquisadores

veste cores mais alegres. Na academia, os pesquisadores parecem obcecados com os

pretos e os cinzas. A indumentária psicossomática, no pesquisador universitário, reflete

logicamente o ponto de necrofilia adquirido pelo trabalho funerário descrito.

A posição do leitor profano dos trabalhos de pesquisa equivale à do turista

profano perante as sagradas tumbas dos faraós.

Doutores famosos equivalem a faraós famosos, espécies privilegiadas por

estarem em contato com a divindade, portanto, com a verdade, somente a eles revelada.

Daí o esoterismo que rodeia o saber superior caracterizado em suas origens pela magia e

que carregam os livros de pesquisa.

O desejo de abri-los e de lê-los é grande. Quem conseguir decifrá-los terá as

chaves para conhecer o mundo e, portanto, o poder para manipulá-lo. Se tal coisa fosse

fácil, qualquer um poderia fazê-lo. Mas o poder é escasso por definição. Por isso, pese a

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que o cidadão comum se congratule por ter acesso à educação formal, se frustra ao

tentar decifrá-los. Não é suficiente poder entrar na biblioteca e tocar o livro. Ainda que

o sonho da modernidade e, portanto, a lenda que falsamente se derramou entre os

modernos, foi precisamente esse, o de que a ciência poderia divulgar suas investigações

em livros de maneira que, simplesmente, tocando-os, outorgariam ao leitor,

automaticamente, sabedoria. Seu poder taumatúrgico se traduziria em democracia.

A realidade, entanto, é muito diferente. E a prova indireta é que a ciência segue

sendo trabalhada em obras que se esforçam por atesourar segredos difíceis de entender,

começando pelo estilo. Aparentemente se abre ao público a porta da ciência ao permitir

que todo graduado pesquise, mas é como abrir as portas das pirâmides aos turistas.

Porque o grave não é a comparação do leitor com o turista, o grave é a comparação do

pesquisador com o turista.

O sistema acadêmico está organizado para permitir que o pesquisador acabe seu

trabalho e tenha acreditado no caráter esotérico do mesmo, de forma que, em uma

conversa de café, lhe perguntemos quais foram seus resultados, literalmente, que coisas

encontrou? E não saiba nos responder, ou venha com desculpas: “Bom, a questão é

complexa…”. O que quer dizer que não pode – ou não quer - compartilhar seu saber

conosco, com o qual não se pode evitar de creditar entre os interlocutores a sensação de

que o pesquisador flutua no ar, de que, de alguma maneira, é superior ao resto de nós,

inclusive no caso pouco comum de que o protagonista se empenhe em contra arrestá-la

com desesperados e patéticos gestos não verbais de modéstia, como a gagueira.

Este caráter misterioso da pesquisa, órfico se pensarmos na prolongação

escatológica dos prêmios, envolto de forma paradoxal (e por que não dizer, pérfida) em

roupagens democráticas e inclusive populistas, subjaz nos manuais que ensinam a

pesquisar, como o de Umberto Eco. Este autor escreveu um famoso romance nos anos

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oitenta do século passado intitulado O nome da rosa. A rosa, observou depois, tem

tantos significados na história da humanidade que, por isso mesmo, perdeu todos.

“Assim, o leitor ficava desorientado e com razão… O título deve confundir as ideias,

não as arregimentar” (ECO, 1987, p. 12).

Dito assim, parece que a escrita é um assunto divertido, um jogo. Claro que se

fosse assim, seria do tipo brincadeira, uma brincadeira para a qual talvez o leitor não

esteja disposto, pois poderia considera-la de mau gosto.

Tipo adivinhação, por isso precisa da pesquisa, por isso a escrita é pesquisa,

como a que se desenvolve, aproximando-se um pouco do gênero de romance negro.

O autor dá como certo que o leitor aprecia essas brincadeiras, que encerram um

componente não só esotérico, mas também sádico, porque pode ser que você fique com

vontade de saber a resposta. Na medida em que a brincadeira da leitura gera frustração e

na medida em que a brincadeira da escrita que o torna possível passa obrigatoriamente

pela pesquisa, teremos que reconhecer que esta última foi manipulada, utilizada a

serviço de uma determinada concepção cultural que, quando menos e intuitivamente,

podemos qualificar de perversa.

A citação anterior foi retirada de um livro publicado pelo mesmo autor, pouco

depois de lançar seu romance, Notas sobre O nome da rosa. A razão lógica para

escrever um livro sobre o romance de um sucesso nada comum, é que se quer esclarecer

algo sobre ele. Mas neste caso, o autor nos avisa de que não vai revelar o mistério, que

não é isso o que pretende. É este fenômeno extraordinário o que nos permite qualificar a

atuação do autor como jogo imposto e estranho. Para ele, “o narrador não deve facilitar

interpretações de sua obra” (Ibid., p 9). Isso é tarefa, se supõe, nesta concepção, do

leitor, que volta a sentir sobre seus ombros o peso da leitura como uma carga.

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O que aconteceu aqui? Sísifo, o escritor pesquisador, decidiu compartilhar um

pouco de sua dor com o público, decidiu projetar ao leitor seu padecimento. Sejamos

magnânimos em nosso julgamento. Talvez essa ação se justificasse se pudéssemos

dividir a dor, como a mãe que roga a Deus padecer ela a dor física de um filho. Talvez,

parte dos leitores estivessem dispostos a compartilhar algumas das feridas com as que

acabou o herói escritor pesquisador seu perigoso périplo pelos distantes desertos; talvez

estivesse disposto a pagar um preço psicológico extra, agregado ao monetário por

comprar o livro, se o prazer que a leitura proporcionara fosse importante. Mas vemos

aqui que tal coisa é impossível, que a dor sentida pela criança enferma é pessoal,

intransferível e, sobretudo, indivisível. E vemos, ademais, que o assunto do prazer

extraído da leitura é relativo, pois é proporcional à igualdade como base sobre a qual se

estabelece o “contrato” entre escritor ou pesquisador e leitor. Se o texto e a mensagem

não se compreendem, se não houver clareza, então não haverá igualdade na base,

porque poderá haver um calote. A clareza não és somente a cortesia do filósofo, como

pensava Ortega y Gasset, é algo mais, é a única cláusula que garante o respeito pelo

leitor.

Podemos deixar de cumprir essa cláusula de várias formas. Uma delas é

escrevendo com um estilo incompreensível, como veremos mais adiante quando

aludimos ao problema da forma e da embromação. Outra é a que nos ocupa neste

momento, a que rodeia o conteúdo de um ar de mistério. A conclusão é a mesma: o

escritor pesquisou, mas não pode comunicar seus achados. Entretanto, acabou seu

trabalho de pesquisa, pelo que se supõe que obteve resultados. Ou não, porque não o

sabemos, não o saberemos nunca, porque esses resultados são incomunicáveis. Dá no

mesmo se nos forem negados diretamente ou que nos digam que devemos imaginá-los.

A ausência de resultados materiais e visíveis e como a ausência de provas. Será que a

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Tradução: Hildegard Susana Jung São Paulo: Edições Hipótese, 2017.
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dura travessia pelo deserto que implicou o desenvolvimento da pesquisa foi uma viagem

inútil? Não, porque se tratava de fazer uma viagem inicial.

Não havíamos de encontrar o Santo Grial, pois tal quimera era somente uma

desculpa. Tratava-se de percorrer o caminho. O objetivo era o caminho, passar a prova,

resistir a corrida, suportar o sofrimento. Isso é o que distingue o herói, mais que as

recompensas da guerra. Porque a recompensa é a distinção. O trabalho de pesquisa e de

escrita serve para separar os melhores do resto, as elites intelectuais dotadas do povo

simples, inculto e vulgar. As formas e rituais com os que se apresenta o trabalho, a

lenda de professor maluco, de gênio misantropo, de escritor intratável, são todas elas

estratégias de distanciamento, regra de ouro que seguem os chefes dos humanos já em

seus estágios mais primitivos. Pode ser que, de forma inconsciente, esta leitura, esta

interpretação que aqui fazemos de Umberto Eco, autorizados por ele mesmo, posto que

em suas próprias palavras, “um romance é uma máquina de gerar interpretações”,

encontra demasiadas coincidências com o paradigma do pesquisador como herói que

pretendemos desmistificar neste ensaio. Porque o romancista não é somente romancista,

mas antes que isso (e sobretudo depois), é pesquisador, autor de Como se faz uma tese.

Professor de Semiótica na Universidade de Bolonha. Dificilmente poderia encaixar

outra situação real na paródia do sumo sacerdote explicando a religião do Signo, como

prova a favor da função de distinção social a qual serve, em última instância, à

investigação, ainda que seja em uma versão pós-moderna, amparada no relativismo

cultural.

Parece então bastante provável que se o café ao que antes fazíamos referência, o

tomarmos com um discípulo de Eco que acaba de terminar sua tese doutoral sobre

semiótica, tendo seguido sua guia de procedimentos e plano de trabalho, e sentindo uma

certa admiração por seu mestre de forma que tente imitá-lo em algum dos aspectos de

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sua personalidade (em algum de seus habitus) – não sei, talvez nos gestos, na

indumentária ou nos gostos musicais-, – coisa frequente entre discípulo e mestre-, ao

perguntar-lhe pelos resultados pudesse vacilar: “bom, veja, a questão é complexa”.

O professor italiano foge dos paparazzi, se enclaustra precisamente na

universidade mais antiga da Europa, símbolo do saber superior, esse que, como

observava Veblen na última parte de sua Teoria da classe ociosa, é superior aos saberes

práticos e instrumentais, como os que habilitavam os aprendizes dos ofícios “vis e

mecânicos” (VEBLEN, 2004). É mais, as carreiras que melhor encarnam o futuro do

século XXI, como a biotecnologia, conseguem sintetizar os dois polos tradicionais do

espectro, conseguem unir, o que tem um certo cariz de proeza histórica, a velha

dicotomia do esoterismo e o esoterismo.

O fato de que agora Bolonha encabece o Espaço Comum Europeu de educação

Superior, sob certa mentalidade tão tecnocrática que lhe granjeou numerosos detratores

intelectuais, não deve nos despistar. Bolonha, como símbolo ilustrativo da essência da

universidade, segue expressando a função social de reprodução da estrutura social,

ainda que, obviamente, adaptada aos tempos atuais.

A democratização ou massificação dos estudos universitários é relativamente

enganosa. Na Espanha, por exemplo, a educação obrigatória ostenta uma alta taxa de

fracasso escolar, que flutua ao redor de um terço e resiste a baixar de forma decidida e

sustentada. Realizada a conta da composição social do alunado que fracassa, e dos que

se matriculam nos cursos universitários mais prestigiosos e, sobretudo, nos estudos de

pós-graduação, onde são obrigatórios os trabalhos de investigação, temos que admitir (e

repetir, dada a relevância da conclusão), que a concepção e organização da investigação

deve ser compatível com a função social, tão velha como Bolonha, de selecionar entre a

população aqueles que ocuparão as melhores posições sociais e econômicas, ainda que

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seja para repartir as miseráveis e migalhas da crise econômica, e com independência da

mistura exata e a reconversão efetuada em cada caso individual entre méritos e heranças

de todo tipo, incluindo as culturais.

Uma pesquisa pensada como heroicidade sacrificada, uma investigação

disfarçada de esoterismo, converte-se imediatamente em suspeita do delito de gerar

desigualdade social.

Desde o século XIII e até há pouco tempo, as universidades se rodeavam de

rituais de entrada e de saída, rituais de iniciação destinados a uma minoria social. O

romance de Umberto Eco, qualificada pela crítica, entre outras coisas, como um

romance de mistério e de iniciação, pode ser vista como o degrau pós-moderno da

história social da universidade. Se este professor italiano foi proposto pelo Corpo de

Doutores da Universidade de Salamanca para sua nomeação como doutor Honoris

Causa, o que supõe a culminação exitosa em vida, de uma carreira universitária com a

qual alguns sonham, observaríamos um momento durante a celebração do ritual, após a

colocação simbólica do barrete e do anel, no qual o padrinho mostra um livro aberto

dizendo: “En librum apertum, ut scietiarum arcana reseres (Eis aqui o livro aberto,

para que abras os segredos da sabedoria)”.

Logo em seguida, lhe mostra o livro fechado e formula: “En clausum, ut eadem

prout oporteat in intimo pectore custodias (Ei-lo fechado, para que referidos segredos,

segundo convenha, os guardes no fundo do coração”.

Somente então o padrinho lhe entrega ao novo doutor o libro, não sem antes

acrescentar a frase central pela qual lhe outorga o poder do saber: “Do ibi facultatem

legendi, intelligendi et interpretando (Lhe dou a faculdade de ensinar, compreender e

interpretar)”.

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Inclusive, se nos afastarmos do contexto secular da atmosfera humanista das

velhas universidades europeias e de seus tradicionais campos da linguística e da

filosofia, dos quais emana a interpretação dos símbolos como disciplina oficial, e

pensarmos em um estudante que se matricula em um doutorado relacionado com a

tecnologia, a ideia exposta não se veria ameaçada, mas reforçada. Porque a tecnologia

também representa um saber mágico, posto que o interior das tecnologias está cheio de

mistério para o público. Steve Jobs, o famoso gênio, guru ou visionário da Apple, como

descrito frequentemente, sobretudo depois de morto, não se via como um vulgar técnico

eletrônico, mas como um mago. Um de seus biógrafos, em uma obra intitulada

significativamente para nós de O caminho de Steve Jobs, observa que, no mundo dele,

os produtos não são criados por pessoal sustentado “por um rebanho de engenheiros ou

artesãos que colocam suas mãos e convertem as ideias em produtos funcionais”. Longe

deste enfoque, continua: “Steve compreendeu que a inovação […] precisa ser

evangelizada” (ELLIOT, 2011, p. 177-178). Ou seja, suas qualidades não eram atitudes

que pudessem ser treinadas, faculdades racionais. Na verdade, era capaz de ver coisas

que ninguém mais via e antecipar-se ao futuro arriscando-se e intuindo os desejos

(necessidades?) do público. Tinha um dom. Era superior. Também estava rodeado

pessoalmente pelo mistério do câncer em sua vida privada. Era difícil chegar a ele. Seu

meio era, como o de Eco e o de tantos famosos pesquisadores, o deserto, não o rio.

2.6. O pesquisador entre heróis, super-heróis e intra-heróis.

Uma última prova da coerência da interpretação aqui sugerida é que Eco odeia o

Super-Homem. Como não podia deixar de ser, porque o Super-Homem é um herói de

massas. Em realidade, desde sua perspectiva subjacente do investigador como herói, era

lógico que a tomasse contra um personagem caracterizado como super-herói.

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Adotando supostamente uma atitude de intelectual crítico, Eco rejeita o Super-

Homem pela sua falta de passado e de futuro. Estando atado ao presente, seria incapaz

de lutar pela mudança social, promovendo ainda o valor da submissão (ECO, 1988, p.

161). Mas, analisemos por um momento esta interpretação.

O que significa que o personagem carece de passado? Quer dizer que carece de

uma certidão de nascimento certificada pelos burocratas do hospital e do Registro Civil,

permitindo sua classificação de acordo com categorias estatísticas determinadas pelo

universo de valores burguês (como as duas categorias de sexo)? Carece de Origem? Não

possui certificado de limpeza do sangre, de castelhano antigo, pedigree? Significa que

um criptoniano sem papéis não vai ser tratado com os mesmos direitos que um humano?

Por outro lado, a falta de futuro poderia estar indicando a preferência ante uma

filosofia da história de corte mais linear do que circular. O Super-Homem, é certo,

aparece como um corte transversal da vida cotidiana, na qual o Bem luta contra o Mal

uma guerra eterna, um igualado pulso composto de pequenas e triviais batalhas. A

justiça se contempla neste esquema realista como um conceito eternamente incompleto,

cópia do Eterno Retorno, o mesmo que, diga-se de passagem, ilumina o final do relato

de Borges sobre a biblioteca de Babel. Sua natureza especial, entretanto, não é relevante

para o funcionamento desse esquema.

Os intra-heróis, referindo-nos assim aos cidadãos normais e comuns que cortam

a força, o valor ou a sagacidade em doses muito menores que a do Super-Homem,

também podem operar dentro do mesmo, expressando-o de forma fictícia e concentrada,

como as dos personagens das telenovelas. Estas últimas também funcionam por

capítulos seriados com uma circularidade básica conflitante que admite variações na

fórmula de alternância, segundo o número de batalhas ganhas pelos maus e pelos bons.

Assim se apresenta a vida, definida por sua insegurança, uma concepção filosófica

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realista especialmente compatível com a interpretação sociológica de nossa sociedade

atual de mudanças, geradora de máxima incerteza em comparação com qualquer época

passada. Frente a esta visão, opõe-se aquela outra que, a partir do idealismo, contempla

a vida como uma linha de progresso que vai até a utopia. Aqui não se encaixam nem os

super-heróis, nem os intra-heróis. Aqui somente se encaixa o herói, esse cujo problema

é a obsessão em chegar ao final do caminho, de tal forma que acaba se esquecendo do

próprio caminho (como se esquecesse das palavras do poeta: caminhante, não há

caminho, se faz caminho ao andar).

A crítica de Eco ao presente, a partir do futuro, muito bem poderia ser invertida.

A obsessão pelo futuro faz com que nos esqueçamos do que ocorre neste preciso

momento a nosso redor. E é aqui e agora, no presente, onde habita o sofrimento e onde

urge a chamada a nossa responsabilidade moral. O presente é o único tempo que tem

rosto real, a única fonte, portanto, de olhar cominatório.

Se intui o perigo para o pesquisador, pois este, enquanto herói, não pode evitar

de encarregar-se da herança de tais problemas. Toda investigação deve ter um final,

como todo romance deve tê-lo tradicionalmente, como toda humanidade tende a um

final feliz. O adjetivo feliz não é o de menos. O adjetivo é o que se contagia. Para o

pesquisador, o capítulo final, o das conclusões, não só é preceptivo, mas é o único

momento no qual ele se permite certo prazer. Acabar uma tese supõe acariciar certa

felicidade. O fato de que o pesquisador remeta seu trabalho a sucessivas e necessárias

pesquisas na mesma linha implica algo mais que uma falsa modéstia, politicamente

correta. Mais poderosa é, obviamente, sua ambição e a fé em seu trabalho, sustentada

por uma vaidade que cresceu de maneira diretamente proporcional à distância e dureza

da prova, até perder o juízo e o sentido da realidade. Daí que quase todo pesquisador

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Gil Villa; Fernando. O que significa pesquisar? Exorcismo do trabalho de pesquisa.
Tradução: Hildegard Susana Jung São Paulo: Edições Hipótese, 2017.
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principiante, como quase todo romancista ou autor de qualquer gênero na mesma

situação, acabem supervalorizando sua obra.

Mas o adiamento encerra um significado mais profundo, a saber: a crença de que

a ciência, como a história, funciona por acumulações de resultados positivos que

desembocam em um final feliz. A história do conhecimento é uma cópia da história da

humanidade, sustentada neste preconceito idealista. As batalhas ganhas pelo Bem não

têm o mesmo valor que as ganhas pelo Mal, como em Super-Homem, nas telenovelas

ou na vida real. Os ganhos vão se acumulando, as forças vão se somando, como se fosse

um exército poderoso cuja fama lhe outorga a dupla vantagem psicológica do medo dos

inimigos e de atração dos amigos à hora de envolver-se voluntariamente. Da mesma

forma, entre os cientistas se adverte um gosto pelas metáforas militares nas quais se vai

ganhando batalhas cada vez mais importantes no cerco ao problema pesquisado,

convertido em inimigo.

A história da ciência, como a da humanidade, é a história de uma superação que

começa por ser auto-superação. A do indivíduo, a do cidadão burguês exemplar, e em

seu nome e em primeiro lugar, a do cientista em amadurecimento, que começa seu

longo caminho até a felicidade, ao final de sua carreira, como a humanidade caminha

até o seu, próprio e geral, em um bonito caracol holístico ideal, onde todos os

fenômenos equivalem funcionalmente, por estarem feitos à imagem e semelhança do

mesmo princípio divino. Com o aprazimento do sistema, o pesquisador poderá saborear

um pedaço do bolo do triunfo, tão desejado com a conclusão do seu trabalho. Para isso,

devem ser aceitas as regras do jogo, aceitar que o curso do trabalho ou da obra, como o

da carreira, é um caminho de iniciação e tem a natureza de prova, de maneira que a

história de uma superação (dentro da história da superação) possa ser entendida como a

história de uma super-ação, convertendo então o pesquisador em cidadão exemplar, em

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Gil Villa; Fernando. O que significa pesquisar? Exorcismo do trabalho de pesquisa.
Tradução: Hildegard Susana Jung São Paulo: Edições Hipótese, 2017.
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um herói. Não em um herói qualquer, obviamente não em um herói de massas, posto

que as provas de iniciação não são feitas para maiorias, por definição, nem tampouco

em um espantalho de herói enquistado nos tecidos da intra-história, pouco desejados por

natureza.

O que o futuro e o passado opõem ao presente, para criticar o Super-Homem, o

retrofuturismo expressado por Eco, bem que poderia ser contemplado no espelho de

propostas artísticas como as do fotógrafo Pablo Genovés. O trabalho, A biblioteca e o

muro pode ser interpretado como a cronificação do dualismo passado e futuro, incapaz

de reconciliar-se sem a mediação do presente. 3Uma biblioteca do tipo clássico assoma

por cima de uma muralha desgastada pelo tempo, mas com força suficiente para

continuar cumprindo sua função de separação. A cultura aparece pendurada, no alto,

boa imagen de alta cultura. Na fotografia se lê que não pode descer, pese aos ataques

das vanguardas e do pós-modernismo relativista. O futuro não pode completar sua

promessa de democratização cultural, porque não pode resolver com êxito a contradição

que tal promessa supunha para sua alma nobre.

Encarnada na biblioteca, esta contradição pode ser observada de forma gráfica.

Nos piores espaços, os livros de texto (o cavalo de Tróia do direito à educação); na

câmara blindada (toda biblioteca tem uma, de acordo com suas possibilidades), seus

tesouros, pequenos ou grandes, os livros que mais se aproximam ao Livro Total (os

frascos onde se guarda a essência da pesquisa pura, fragmentos da pedra filosofal). Mas

apesar de tudo, a biblioteca não pode se desfazer do corpo presente, corruptível e

fetichista dos livros de papel, vestidos com seus melhores trajes antes de dormir o sono

eterno em seus andores exigentes de espaço físico.

http://www.elcultural.es/galerias/galeria_de_imagenes/408/ARTE/La_Cronologia_del_ruido_de_Pablo_
Genoves

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Tradução: Hildegard Susana Jung São Paulo: Edições Hipótese, 2017.
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Toda biblioteca está hierarquizada: em seus espaços más pobres. Deste modo, a

biblioteca de Genovés é compatível com a biblioteca Babel de Borges e com a

biblioteca labirinto de Eco.

Em todos os casos, acusa o malefício da inacessibilidade. Nasceu sendo

inacessível e, contra todos os prognósticos, assim morrerá. A promessa ilustrada da

negociação, a filosofia política do reformismo mostra suas limitações. Ao final, será

tudo ou nada. As novas tecnologias e o desaparecimento do livro de papel poderiam

acabar com o dualismo e, portanto, com o essencialismo e o classicismo que nele

subjaz, mas não para implantar uma cultura equilibrada da mesma espécie, senão para

voltar a uma época de barbárie na qual a cultura já não cumpre com a função de

reprodução ou de seleção social porque não necessita de uma instância mediadora

treinada na sutileza dos mediadores, a base de bibliotecas que condensam o ensino

formal e a pesquisa acadêmica.

Cabe sobrepor a este comentário outro que sugere a leitura da crítica do

fotógrafo citado. Suas composições digitais – lemos - mostram a desolação dos espaços

“de representação” do poder político, econômico ou espiritual (EL CULTURAL, 3-2-

2012). Pois bem, não deveríamos esquecer que todos esses espaços de poder, contudo,

são atraídos, ao final da modernidade, pela órbita da esfera cultural. Acredito assim que

o conceito de ruínas futuras é muito conveniente para nosso caso. Porque os indícios, as

pistas que hoje temos, acerca do futuro, levando em conta os “precedentes” do século

XX e primeiros passos do século atual, não vislumbram precisamente a realização da

utopia.

De qualquer modo, ao contrário, a tendência tende a separar a utopia de suas

possibilidades, transformando-a em distopia. O que emerge, tanto no plano físico meio-

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ambiental como no plano social, é a ruína, o cumprimento da profecia de Nietzsche:

vejo subir a maré do niilismo, ou o que é o mesmo, o féretro do final feliz.

Se queremos mudar esta visão, temos que abandonar o prisma pelo qual

olhamos, o paradigma do pesquisador como herói.

A pesquisa precisa estar centrada nas urgências do presente, não perder de vista

o objetivo de diminuir o sofrimento das pessoas, mas sugerido não como um objetivo

apoteótico e global, mas como um conjunto de micro-batalhas cotidianas nas quais é

necessário fazer o possível para permanecer com a pele da consciência, posto que a

outra pele, a verdadeira, vamos deixar, queiramos ou não.

Dedicar suas energias ao passado e ao futuro exigirá um distanciamento (social,

não epistemológico) de consequências nefastas.

Dedicá-las ao presente abre uma nova perspectiva na qual desaparece a obsessão

no final, um final piramidal (que acaba arruinando, servindo de enterro ao eu)

acorrentado ao cumprimento de sacrificados e escalonados objetivos, escada para um

céu impossível; uma nova perspectiva menos estressante na qual se recobra o sentido do

prazer além das superfícies e tempos lúdicos autorizados; na qual a pesquisa recupera

seu simples e popular traje de curiosidade intelectual, deixando no armário a roupa do

herói.

2.7. De como as técnicas de pesquisa estão supervalorizadas

Os procedimentos aconselhados por Eco para fazer um trabalho de pesquisa

podem ser qualificados certamente de fantasmagóricos, pela maneira esotérica de

conceber o conhecimento, refletida na retroalimentação que se dá entre seus ensaios e

seu romance. A paixão pelo procedimento normativo é proporcional àquela que se sente

pela técnica.

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Tradução: Hildegard Susana Jung São Paulo: Edições Hipótese, 2017.
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Existe uma relação entre o papel da técnica, em geral, como debate que tanto pó

levantou no último século, sobretudo entre filósofos e sociólogos, e o papel das

técnicas, agora no plural, prescritas e recomendadas (as duas coisas) nos trabalhos de

pesquisa.

Os capítulos de técnicas são tão importantes nos manuais que ensinam a

pesquisar, ou nos cursos preparatórios, que até se saem do seu curso normal e justificam

manuais específicos e cursos específicos. Normalmente passa despercebido, contudo, a

relação aludida com o papel da técnica na vida moderna somente pode ser entendida,

em última instância, se pensarmos na influência, como efeito bruto e difuso, não

controlado, exercido pelos valores políticos na ciência. A democracia em matéria de

educação, a extensão da escolarização a todos os públicos, é um dos direitos

fundamentais, mas como acontece em outros casos, tal espírito democrático se desborda

eufórico pela vitória conseguida e faz sentir seus efeitos de ebriedade sobre as coisas

anexas. Assim, um dos preconceitos de nossa época consiste em acreditar que se

dominamos a técnica, em qualquer aspecto e atividade da vida, já tem o domínio de tal

arte ou de tal ciência, e já pode ser considerada um artista e um cientista.

Paira no ar a ideia de que se nos matricularmos em uma oficina de técnicas de

escrita ou em um seminário de técnicas de investigação, já saberemos o caminho. A

falácia é evidente, mas a crença segue viva, o que não deixa de ser curioso se pensarmos

que não estamos falando da técnica para construir barcos ou casas, mas obras de

pensamento. Uma vez mais, se demonstra que em casa de ferreiro, o espeto é de pau. Na

casa dos pesquisadores, é mais, na casa da alta pesquisa, na flor e nata do pensamento,

este somente se usa dentro do trabalho, mas não no trabalho. Ou seja, o pesquisador usa

o pensamento, como não poderia ser de outra forma, para implementar suas tarefas, para

resolver os problemas e os obstáculos que lhe vão surgindo no caminho-calvário, mas

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não o usa para pensar em como o faz e se poderia fazê-lo de outra forma, nem tampouco

para ver se encontra a gosto, se vale a pena o esforço, se os procedimentos ou ordens

recebidas são absurdas, irracionais ou inclusive pouco humanas e, nesse caso, como

poderia burlá-las sem colocar em perigo seu interesse honesto pela questão que

investiga, entre outras coisas.

Talvez não o faça como mecanismo de defesa. Porque usar o pensamento para

todas estas questões sobre seu trabalho, mas que vão além do mesmo (meta), ademais

de levar tempo, levaria à conclusão de que perdeu tempo, pois as obras baseadas na

mera aplicação das técnicas não podem ser originais, não aportam grandes inovações.

Se fosse assim, qualquer um poderia fazê-las. Qualquer um levaria seu filho à melhor

escola de letras desde pequenino e este sairia, anos depois, um Cervantes. Ou estudar

em Harvard garantiria o prêmio Nobel. Dizer isto não é defender que o gênio na

pesquisa nasce e não se faz, mas argumentar que a aprendizagem e a organização do

sistema de pesquisa estão erradas, posto que não só não facilitam o desenvolvimento da

imaginação e as qualidades e modos de fazer análogas e compatíveis, mas também que

os asfixiam. Da mesma maneira que você pode dominar as técnicas da escrita criativa e

ser incapaz de ter ideias originais e expressá-las de forma bela e precisa, você pode

conhecer as técnicas de pesquisa social e fazer uma tese sumamente medíocre na qual

falta o lampejo, as associações de ideias originais onde ficam desprotegidas as relações

entre as variáveis e entre as dimensões implicadas no problema social, sempre tão

complexas.

Ao conceder tanta importância à técnica, corremos o risco de perder de vista o

objetivo, como um mau cirurgião que estivesse mais pendente do estado e

características dos instrumentos cirúrgicos do que da ferida e estado do paciente.

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Quando levamos muitos anos pesquisando e resolvemos, ainda que seja

modestamente, de forma satisfatória, os problemas analisados, se dá conta de até que

ponto o discurso do método é realmente pura retórica, cujas elaborações obrigam a

examiná-la para ver a quem convém e que consequências.

Quando nos interessa uma questão determinada, não deveríamos nos preocupar

demasiado pelas técnicas. A falta de habilidade nas chamadas quantitativas pode

sobrelevar-se. Recordo ter realizado cursos para aprender o manejo de complexos

programas estatísticos de tratamento de dados. Entretanto, perdi o interesse, sobretudo

quando comprovei sua volatilidade, seu constante desenvolvimento que exige uma

reciclagem perpétua que drena uma energia e um tempo vital para o investigador.

Escher: “A técnica requer demasiado tempo e empenho de parte de quem, com direito

ou sem ele, acredita (como eu) que não se tem tempo a perder” (ESCHER, 2002, p. 6).

Pergunta: Durkheim precisou do SPSS para desenvolver sua tese sobre o suicídio?

É preferível pagar pela pesquisa pedindo financiamentos, pedir ajuda aos

estatísticos em troca de outros trabalhos ou favores, em uma espécie de aplicação do

“banco de tempo” entre pesquisadores, pedir emprestadas bases de dados ou, em última

instância, recorrer aos milhões de enquetes que circulam pela rede para “conseguir”

(conseguir como forma de vida facilitada pela sociedade-rede) algum dado que permita

contrastar nossas hipóteses concretas.

Quanto às técnicas qualitativas, o manejo da intuição é aqui mais claro que no

caso anterior, de maneira que permite fazer entrevistas de diversos tipos, com a ajuda da

experiência, sem necessidade de ler manuais ou assistir a cursos. Sempre me pareceram

patéticas as citações obrigatórias sobre a bondade de certas entrevistas, da observação

participante, ou inclusive das técnicas qualitativas, para justificar seu uso no trabalho,

para todo tipo de objetivos. São citações-clichês absolutamente inúteis para o

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desenvolvimento e as conclusões da análise, como uma etiqueta colada em um pacote

de batatas fritas que contivesse: “fabricado com instrumentos humanos”. A verdade é

que o próprio capítulo de metodologia já parece unido à força na maior parte dos

trabalhos de pesquisa, o qual é uma arbitrariedade absurda porque não há uma relação

entre a qualidade de referido capítulo e qualidade do trabalho em si. Pelo contrário, um

dos poucos momentos gratos que salpicam as tragicomédias das bancas nas quais se

julgam as teses é quando precisamos ler um trabalho no qual o pesquisador fez muito

com pouco, de uns quantos grupos de discussão levados com sensatez e empatia, e

organizados por critérios ditados pelo senso comum; ou de uma história de vida, soube

extrair suculentas observações e depois estabeleceu interessantes relações entre elas,

ordenando-as em dimensões coerentes, uma vez mais segundo lhe ditava a pura lógica.

Algo parecido acontece na música, quando escutamos os compositores dizerem que

com apenas nada, sem arranjos nem produções dispendiosas, inclusive com poucos

acordes, inventaram os melhores temas. Sem dúvida, algumas das canções mais belas se

destacam por sua simplicidade. Não precisaram de sofisticados estúdios de gravação e

de complicadas técnicas de produção. Mas, é óbvio, poucos pesquisadores se orientam

pelo senso comum, desenvolvem sua imaginação ou cultivam a arte da empatia, tão

imbuídos que estão da mentalidade tecnocrática, tão (mal) educados estão na arte do

distanciamento social e a soberba pela própria experiência acadêmica.

Pode ser que eu esteja vacinado contra o preconceito (e prejuízo) do método,

depois de mais de vinte anos de pesquisas. Entretanto, o passar do tempo não garante a

imunidade, da mesma forma que tampouco evita nossas manias, quaisquer que sejam

elas. De qualquer maneira, acredito que está mais que justificado falar de preconceito do

método para aludir a uma crença obceca a comunidade científica e artística (este é um

bom exemplo do parentesco de sangue entre a ciência e a arte).

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Tradução: Hildegard Susana Jung São Paulo: Edições Hipótese, 2017.
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Pois bem, um preconceito, uma crença falsa, não poderia ser descrita como uma

alucinação? E por ser assim, esse estado transitório deveria se resolver, nos casos mais

felizes, como um momento de consciência iluminadora (após o exorcismo?):

Eu mesmo me encontrei durante muitos anos em semelhante estado de


alucinação, até que chegou o momento em que caiu a venda que
cobria meus olhos e me dei conta de que minha meta não era o
domínio da técnica […]. Antes ocorria frequentemente que, de uma
infinidade de rascunhos, escolhia aquele que me parecesse mais
apropriado para a técnica que nesse momento gozava de minha
predileção. Hoje escolho, entre as técnicas que aprendi, aquela que
me parece a mais apropriada para representar o tema que nesse
momento absorve minha fantasia (ESCHER, 2002, p. 5).

Vejo refletida esta experiência de Escher quando me vejo obrigado a fazer parte

de bancas (denominadas “comissões”, um eufemismo que delata a hipocrisia da

linguagem politicamente correta, pois a tendência de suavização não chega ao nível dos

atos, que são tão violentamente simbólicos e sádicos como antes ou más) de Dissertação

de Mestrado, muitas dos quais parecem puros relatórios técnicos feitos pelos burocratas

das administrações públicas e privadas. Sua forma é sempre a mesma: objetivos

específicos e estratégias múltiplas, quadros e mais tabelas com atores de todo tipo,

constituem um desdobramento de meios impressionante cuja finalidade é sempre

melhorar o funcionamento de uma instituição já existente, desde uma residência de

anciãos ou uma associação de enfermos crônicos a uma escola ou um hospital, passando

por um bairro ou distrito rural fantasma. Durante sua leitura, e perante a penosa

ausência da reflexão teórica e de imaginação sociológica, as palavras de Carlos Lerena,

e sua crítica ao empirismo, se fazem presentes para mim: “entre um sociólogo da

educação e um vereador da prefeitura, encarregado dos assuntos de educação, não há

possível paralelismo, nem na definição do objeto com o qual ambos trabalham, nem nos

limites que o seu campo alcança”. Contrariamente à visão do político, o tecnólogo e o

homem da rua – continua -, a sociedade não é, para o sociólogo, nem um enfermo a

curar, nem um bolo a repartir, nem um sítio para administrar. “Não se trata de conseguir

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que funcione melhor – a partir de que objetivos? Para que grupos? – Mas sim de

compreender como funciona e em que arbitrários descansa a necessária lógica de seu

atual funcionamento, o qual, sob outros supostos, poderia funcionar de outra maneira e

seguir outras leis diferentes” (LERENA, 1985, p. 225). Posteriormente, durante a defesa

oral, tenho a impressão de que os investigadores principiantes atuam como esses

comerciais que aspiram vender um produto centrando-se mais na embalagem que no

conteúdo, nos modelos formais que na ideia que lhes preocupa e que, posteriormente,

aparece como enterrada, aplastada e deformada pela aparelhagem. Há que colocar muita

atenção, efetivamente, para poder reconhecer nela algum rastro da beleza ética com a

que deveria nascer na mente do estudante, meses antes.

Nessas ocasiões me pergunto se não estarei moralmente legitimado a negar-me a

participar em tais bancas por motivos de objeção de consciência, praticando a

desobediência acadêmica como versão da desobediência civil. Como já estou ali e a

coisa não tem remédio, tento em minha intervenção, mais que recriminar, chamar a

atenção sobre o perigo da obsessão com a forma e os meios, tomando como base a

sensação expressada por Escher e que alguns compartilham plenamente, após um longo

percurso no campo da pesquisa.

Escher é um pintor famoso por suas “arquiteturas impossíveis”, relativamente

impossíveis pelas suas sugestões, opostas à arquitetura funcional pensada para gerenciar

massas que encontra seu correlato no estilo acadêmico. Não em vão, a paradoxal e

estranha, mas sumariamente atrativa arte de Escher, devém de uma “potente imaginação

individual”, a qual, não obstante, “não se desborda em uma torrente passional”

(FELLOWS, 1995 p. 7). Pudera que esta mesma comentarista exagere ao opinar,

ademais, que o pintor holandês seja “talvez o único artista do século XX que consegue

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superar o abismo entre a ciência e a arte” (Ibidem). De qualquer modo, ambas opiniões

o convertem em um candidato excelente para ilustrar nossos argumentos.

Voltamos outra vez à mesma ideia: o equilíbrio alcançado por alguns criadores

entre a imaginação e o distanciamento como fórmula flexível, mas necessária para

romper com o paradigma acadêmico tradicional. Já vimos o caso de Kafka. As situações

literárias que propõe nos colocam no mesmo não-lugar de Escher, abraçando o possível

e o impossível.

Nesse espaço de ruptura, as diferenças entre o cientista e o artista se esvaem,

precisamente porque se instalam na interseção que abre o instinto de pesquisador,

entendido como força inovadora, indomável para a técnica formal e a racionalidade

procedimental.

Infelizmente, os tempos não favorecem a aparição deste tipo de autores, por si

minoritários. Dado que a burocracia é cada vez maior, seu gélido espírito converte a

paisagem acadêmico em um marasmo no qual dificilmente poderá crescer alguma

planta digna de admiração.

Isso significa que, com o passar do tempo, o temor de Arendt e de Bauman,

como destino malfadado da modernidade, se faz cada vez mais presente. Pelo visto,

seus comentários – como os de outros intelectuais críticos - não serviram para corrigir o

rumo, desprezados pelos gestores responsáveis pela organização acadêmica.

Sua defesa da beleza não faz parte das causas perdidas da retórica romântica. De

fato, aqui se sustará que é preciso ter um cuidado especial no momento de interpretar o

conceito de belo de Flaubert.

Vamos ver que não devemos dar carta branca, em nosso desesperado intento de

sair de um paradigma amortecido nem à poesia, nem à matemática, esta última

escolhida como representante da linguagem das ciências.

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Devemos buscar sua companhia, mas com desconfiança. Antes de dar-lhes a

mão, devemos submetê-las a certas provas, deve-se desvesti-las para demonstrar que

não se tratava de um disfarce. É importante recordar o seguinte: uma arquitetura

contrária à impessoal, e os assentamentos irregulares, onde a maioria das famílias se

veem obrigadas a amontoar-se por causa de construtores que somente buscam ter lucro

com o menor custo e, perante a passividade dos políticos, ou por ação deles; um

desenho desejável não deveria destacar unicamente o lado pessoal.

Por isso é tão importante recorrer a desenhos como os de Escher, como

referências. Da mesma forma, o escritor não deveria ficar obcecado pela originalidade,

por fazer coisas diferentes, buscando em cada impulso criativo mais a extravagância que

a coerência. A beleza, como a emoção, o pessoal, o original, são condições necessárias,

mas não suficientes. Também não seria certo refugiar-nos nos formigueiros de alguns

bairros comerciais para fugir dos cemitérios. É necessário que nos acostumemos a certa

solidão, aprender a aproveitar seu sabor agridoce, especialmente se vai escrever algo

que exija reflexão, certa pesquisa.

2.8. Do Livro Essência ao Livro Puro. Uma falsa evolução.

Uma boa forma de conectar as perversões dos modelos opostos, impessoal e

pessoal, é através do conceito de Livro Total. Se seguimos Barthes, tal desiderato, como

fórmula mestra, pode ser destilada em duas bebidas aparentemente opostas: o Livro

Essência e o Livro Puro (Barthes, 2005). Este encerra uma essência de saberes, o sonho

de um conhecimento completo encerrado em um livro, modelo da grande tese de

doutorado, do trabalho de pesquisa absoluto, aquele que alcançou o propósito de chegar

até o final da aventura, que encontrou com O Objetivo, não com um concreto, mas com

o tesouro mais bem guardado pelos arcanos do mundo, com a Pedra Filosofal. Em

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nenhuma época se evocou tanto este ideal como no Renascimento. Ali, o homem

perfeito podia realizar o trabalho de pesquisa perfeito, o que exigia experiência e

acumulação de diferentes saberes. As “acumulações” exigem uma ordenação a serviço

da qual trabalham as sacrificadas vírgulas, pontos e outros sinais de pontuação e

disposição textual baseados na lógica.

No outro extremo encontraríamos o Livro Puro, um livro “breve, denso, puro,

essencial” (Ibid., p. 251). Barthes destaca o exemplo do livro sonhado por Mallarmé. Na

nossa época e entre nós, podemos encontrar alguns casos resenháveis, como o trabalho

de Caballero Bonald intitulado Entreguerras. Se trata de um “Poema Total” de 3000

versos com o qual o autor fecharia definitivamente sua obra, aos 85 anos, segundo suas

próprias declarações. Considerando que o autor é Prêmio Nacional de Poesia e possui

uma das trajetórias mais longas e afamadas, pode servir de referência para nossa análise.

A contraposição com o outro modelo parece clara se observarmos a forma, pois neste

poema-livro não há pontos nem vírgulas, mas foram mantidos os sinais de interrogação

e as exclamações, ou seja, “aqueles que têm a ver com a ênfase necessária no

sentimento pessoal 4“.

Mas, as coisas são tão simples assim? Podemos então afirmar que o modelo de

tese de doutorado e, por extensão, o mito fantástico que se esconde por trás dos sinais

de identidade de qualquer trabalho de pesquisa, é o Livro Essência e não o Livro Puro?

A resposta é negativa. Na realidade, ambos extremos atraem o Trabalho de Pesquisa,

ambos servindo de referência. Pois bem, posto que ambos são isso, extremos, o ideal

para o pesquisador é contraditório.

Podemos tentar ordenar essas incoerências observando o problema a partir do

ponto de vista de sua evolução. Assim, quando eu escrevi minha tese de doutorado, nos

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Entrevista publicada no Jornal El País, em 7-01-2012, sob o título “O poema total”

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anos oitenta, um dos membros da banca estendeu a mão para ver quanto pesava. Hoje

em dia, contudo, aumenta o número dos convertidos à religião da brevidade. O número

de páginas reduziu à metade nas exigências imaginadas e pouco confessadas dos

orientadores.

Teoricamente, ou seja, a partir do ponto de vista da fantasia que proporciona

desculpas morais, o critério da quantidade é substituído pelo da qualidade.

Na prática, o trabalho é o mesmo porque a força estressante do mito que o

impulsiona é da mesma magnitude. Agora o esforço não reside na colonização de

páginas-telas em branco, mas na profundidade das ideias. O tempo que se leva para

escrever uma página “de alta qualidade” se multiplicou por dois, com o que o tempo

total de escrita é o mesmo.

A capacidade de síntese estressa tanto como o afã por conquistar território (todo

território sonhado é branco, por isso aquele que é oferecido como estímulo para a escrita

é autêntico, o autêntico território).

Barthes recorre à expressão de Mallarmé: “Não há outra explosão aparte de um

livro” (Ibid, p. 249). Para nós, poderia significar que é permitido ao aprendiz de

pesquisador, hoje em dia, manusear um material muito mais perigoso do que há trinta

ou cinquenta anos, consequência do deslocamento do polo magnético, do Livro

Essência ao Livro Puro. Daí sua cautela. Daí também sua ansiedade, de novo cunho. O

manejo de cada palavra é delicado. Uma falha, uma queda, poderia ocasionar a explosão

e morte de todo o parágrafo, a contaminação radiativa de toda a página ou inclusive de

todo o capítulo, posto que já não se dispõe de uma planície extensa que possa amortecer

e dissimular.

Assim, a evolução afetaria o conteúdo do trabalho de pesquisa através da forma.

E não somente na dimensão da qualidade, como também na da subjetividade. Assim

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como na relação dos médicos com os pacientes, conta a lenda que se tende a um novo

modelo mais participativo na tomada de decisões, oferecendo espaço à negociação de

doses e tratamentos e, sobretudo, abrindo-se à escuta, assim também entre as novas

gerações de acadêmicos aparecem orientadores que valorizam a autobiografia no

trabalho de pesquisa. Isso poderia ser considerado como prova a favor da mudança de

referência para o Livro Puro, pois este impõe à força um componente subjetivo. É que

sua essência é tão concentrada, como no caso dos perfumes, tão explosiva, que remete,

forçosamente, à metáfora da origem, a um Big Bang do conhecimento onde a energia

criativa se encontra em seu grau mais puro. Nesse primeiro momento mítico,

necessariamente, o subjetivo precisa fazer parte do magma do objetivo. Pois bem, cada

trabalho de pesquisa, por muito modesto que seja, deve reverberar o som da Criação. É

necessário recordar que no jargão dos escritores - e em todo o trabalho de pesquisa,

considerado parte da ocupação geral da escrita -, o verbo trabalhar, portanto, a ação, se

disfarça frequentemente com o eufemismo criar?

Um centro do universo mais subjetivo e qualitativo deve ser também mais

poético. A poesia é considerada o rei dos gêneros, o mais nobre (sem segundas

intenções), o mais puro. A lenda rosa a define perante a opinião pública como a arte dos

sentimentos. Cabe, por fim, descrever uma emoção, escrevê-la, observá-la, colocando-a

como “licença poética”.

O poético sinaliza a plenitude delimitada no texto do subjetivo e o qualitativo. O

livro de poemas é, pois, o candidato que mais se acerca al Libro Puro. Sobretudo, se

nascer com uma pretensão testamentária, autobiográfica, amparada em uma forma

individual e única, mas longa, um único poema que narra a gestação da vida, ou seja, o

que a vida ensinou ao autor. Nesse caso em particular, o Poema Total é como um

símbolo do Livro Total, porquanto entesoura, mais que vida, sabedoria. O suco extraído

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Tradução: Hildegard Susana Jung São Paulo: Edições Hipótese, 2017.
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da vida do poeta é o conhecimento e teve que ser alcançado pela via da pesquisa. Neste

sentido, o Poema Total, enquanto versão da fórmula do Libro Puro, oferece ao

pesquisador justificativas de sobra para ser adotado.

Mas as coisas não são tão simples assim. A história recente da epistemologia não

pode ser interpretada como uma simples substituição de modelos. O fato de que não

sejam poucos os que se veem tentados a entende-lo assim, deve-se a uma necessidade

psicológica. É mais cômodo adotar o esquema hegeliano da evolução do conhecimento,

assim como é mais fácil acreditar em fadas. Vamos a uma sociedade melhor, porque

temos mais direitos. Caminhamos para uma sociedade do conhecimento, como prova o

fato de que a ocupação e a energia intelectual ganha sobre a ocupação e o emprego da

energia física. O médico e o advogado, os profissionais liberais, deixam de exercer sua

autoridade do modo tradicional e estendem a mão à participação. O mesmo ocorrerá

com os acadêmicos que, tanto em sua função docente quanto em suas tarefas de gestão

da pesquisa, tentam adotar estratégias profissionalizantes. A história vai de A a B. O

modelo do saber enciclopédico do Libro Essência (A) propende ao modelo do Libro

Puro (B). Com isso, a história entra em uma nova fase, muito mais justa e equitativa,

mais feminina, que a aproxima da meta da felicidade coletiva.

O problema desta interpretação é sua simplicidade e o maniqueísmo que encerra

e que a falsifica. Nem A é tão mau, nem B é tão bom. Além disso, nenhum é tão puro,

pois A tem coisas de B, assim como B tem coisas de A. Isso provocará interferências

não somente nas maneiras, mas também entre as maneiras, aumentando a desorientação

dos pesquisadores.

Não se trata somente de maniqueísmo. O que justifica a leitura simplista é

também o motor dialético que a estimula. B seria o contraponto funcional que justifica

A. B seria o espelho no qual A se contempla, um espelho embaçado que reflete de

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forma borrada a má consciência da “palha” perante o “grão”, o sonho da transparência

como origem, de uma origem capaz de materializar-se em um original que concentra a

essência da sabedoria, um rascunho recém finalizado (o trabalho de pesquisa) que

reproduz o longínquo começo dos tempos, pelo fechamento do círculo tranquilizador,

sobretudo redentor.

O caso é que B promete mais do que pode dar ao cair em sua própria armadilha

epistemológica. Ao final, B se desilude da mesma forma ou mais que A, dependendo de

quanto prometeu ao pesquisador-autor ou de quanto este acreditou em suas promessas.

Votemos sobre o exemplo analisado, o Poema Total – como o batiza o

informativo - de Bonald intitulado Entreguerras. Alguns anos antes, em 2005, havia

publicado um poema em seu Manual de Infratores intitulado Summa Vitae, que foi

escolhido precisamente para encabeçar una antologia em 2007, com sua autorização. De

alguma maneira, pois, o poeta se torna octogenário desejando, ou fantasiando (usando

os verbos propostos por Barthes para falar do Livro Total) rubricar sua trajetória não

com una chave de ouro qualquer, ou seja, com uma obra mais, mas com A Obra, com

uma que a culmine sintetizando-a, um perfume novo, mas feito de ingredientes velhos e

concentrados, essência, não água de colônia, portanto, um livro muito mais explosivo.

Em princípio, Entreguerras nasce com vocação de Livro Puro, com conteúdo

autobiográfico e sob o sinal de pontuação da galáxia emocional – com interrogação e

interjeição, mas ponto e vírgula -. Entretanto, não pode evitar funcionar por

acumulações, traço central do modelo oposto, do Livro Essência. Ao ser um poema

testamentário, pelo ponto da trajetória em que se produz e por sua vocação de

rememoração, não pode evitar uma ordem, ainda que seja de experiências relativamente

anárquicas. A consciência deste fato provoca no Poeta Pesquisador um súbito mal-estar,

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Tradução: Hildegard Susana Jung São Paulo: Edições Hipótese, 2017.
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como se estivesse traindo o espírito do ideal que persegue: “Tenho medo do

acumulativo” (BONALD, 2012, p. 213).

Toda estratégia de acumulação leva um plus de ansiedade, uma preocupação,

tanto material, quanto espiritual. Por um lado, o temor de que uma crise acabe com as

economias, a imagem do corralito5. Espiritualmente, a sensação de que o esforço será, a

médio ou longo prazo, em vão, pois não há garantia de que a fortuna acumulada não vai

ser dilapidada pelos herdeiros. Além disso, é mais provável que a acumulação se perca,

como se perde a energia, mais um caso da segunda lei da termodinâmica, do império da

entropia. E se esta é a lei desde tempos imemoráveis, quanto mais não o será em uma

fase da história, como a que nos cabe viver ao final da modernidade, caracterizada pela

mudança, uma mudança que se faz crítica, que se associa à experiência de crise, com

seus traços típicos de mudança e volatilidade?

Neste sentido, o poeta, ao admitir o temor ante a acumulação, não está

exercendo unicamente o papel de porta-voz da burguesia intelectual moderna, em um

enésimo recordatório Frommiano da maldição do caráter social impulsionado pelo

capitalismo. Na verdade, sua vida longeva e seu trabalho de pesquisa poética lhe

permitiram sobrevoar essa modernidade e situar-se em seu final, em pleno século XXI.

Então pode testemunhar a ansiedade do cidadão que, em qualquer momento, pode

perder tudo e cair na exclusão social. Esta conjuntura crítica, que não deveríamos, por

certo, subvalorizar, dado que sua definição, como tal, é discutível se atendemos a sua

duração no tempo e sua profundidade, apoia-se nas intuições do poeta que desconfiam

do estilo acumulador, estilo pessoal, ou seja, referido à personalidade, mas também

estilo acadêmico, forma de pensar e de escrever um trabalho de pesquisa, poético ou

5
Nota da tradutora: A expressão surgiu em 2001, na Argentina, durante a grave crise financeira de 2001.
Corralito é uma restrição decretada pelo governo, que consiste em impedir que os cidadãos retirem seu
dinheiro dos bancos ao mesmo tempo, afundando o sistema financeiro. Maiores informações em:
http://www.eleconomista.es/diccionario-de-economia/corralito-financiero (consultado em 05.05.2-17).

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não. Os símbolos que utiliza para descrevê-las não deixam lugar a dúvidas. No poema

Summa Vitae se expressa às claras o temor de que após as essências da vida, não fique

nada: “Nada senão uma sombra/cruzando-se na noite com minha sombra” (BONALD,

2012, p. 297).

O modelo poético do Libro Puro não é tão puro, posto que bebe da acumulação,

ainda que seja para arrepender-se disso logo em seguida, o que lhe provoca

necessariamente um imediato mal-estar gástrico, efeito psicossomático da traição por ter

bebido da água proibida do modelo inimigo.

Mas há mais traições.

Acontece que a poesia é vendida no mercado e a consciência, quando se supõe

que sua razão de ser é simbolizar a antimercadoria, aquilo que não pode ser

comercializado, aspecto no qual coincidiria com a obra doutoral, e por extensão com

todo o trabalho de pesquisa, cujo valor de uso anula o valor de troca (é esta similitude a

que os define na esfera do Livro Puro). Caballero Bonald pertence, segundo os manuais

que gerem os cânones acadêmicos, à chamada geração ou promoção de 50 (do século

XX). Um dos representantes desse grupo ao qual se atribui maior influência nas

gerações posteriores é Jaime Gil de Biedma. Este último autor é também especialmente

digno de interesse, não somente por suas criações, mas também por suas opiniões sobre

as condições de produção poética, e isso porque conseguem rasgar o véu do

politicamente correto, muito más do que o habitual. Encaixa bem, ademais, em nosso

comentário, posto que, entre outras coisas, chegou a ser qualificado, por exemplo, pela

escritora e jornalista Maruja Torres, de “sentimental incontrolado” (GIL DE BIEDMA,

2010, p. 1289), dos aspectos centrais do modelo de pesquisa poético (a emoção e a

infração) que, em princípio, se opõe ao acadêmico e que também, em princípio, definem

a obra de Bonald.

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Entretanto, em outra entrevista, faz a dessacralização do conceito geracional

como categoria de identidade. “Eu não vejo – diz - a “promoção de 50” como a veem

Hortelano ou Hernández, ou os críticos da literatura”. Com muitos de seus elementos,

continua, nunca se sentiu vinculado. Se trata, em sua opinião, simplesmente, de uma

operação de marketing, que de qualquer modo assume: “E em um dado momento

decidimos nos lançar como grupo, em uma operação absolutamente publicitária, não

literária” (GIL DE BIEDMA, 2010, p. 1286).

A sobrevivência, com a força de sua incontestável autoridade, outorga hoje a

Caballero Bonald um redobrado valor como porta-voz daquela geração –

contraditoriamente vivida, negada, mas aceita -, e de certo modo uma maior

responsabilidade na apresentação de sua obra como produto. Na fita vermelha que

envolve seu “último” livro, exposto nas prateleiras, o que contém o definitivo Poema

Total, se lê: “O escritor mais importante da Espanha na atualidade…”. Como se sabe, o

objetivo das faixas e de suas frases de impacto, normalmente assinadas por críticos que,

por sua vez, são criticados pelos próprios autores (assim, Gil de Biedma: “Li muita

crítica e ainda leio quando não está escrita por teóricos da literatura nem por críticos” –

Ibid., p. 1307), é a pura y dura publicidade […].

O poeta que anuncia seu produto com estratégias publicitárias poderia se

justificar alegando que não busca o enriquecimento, ou por que nasceu rico, caso de

muitos dos poetas santificados, ou porque se tornou esnobe e declara doar os direitos de

autor que poderia obter da venta de livros a alguma nobre obra de caridade (que na

versão moderna costuma passar por uma ONG). Mas com isso somente agravaria sua

situação de suspeito. O chamado marketing social é tão marketing como aquele ou mais,

da mesma forma como a fama e o desejo de glória, de imortalidade, tal e como vimos,

são o verdadeiro objetivo. Daí que a figura do poeta sempre esteja presente entre os

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chamados Imortais, ou seja, entre os membros da Academia de Letras de países com

tradição cultural francófona. O êxito é um termo duplicado: a eventual extirpação de um

dos órgãos (dinheiro ou prestígio) não ameaça o funcionamento do corpo, a motivação

central de sua ação.

Cabe também a desculpa ideológica, o uso de um meio capitalista para um fim

anticapitalista: a publicidade transformada em propaganda. Mas, é eticamente lícito usar

as armas do inimigo (o capitalismo como encarnação do demônio, o arqui-inimigo) para

combatê-lo? E sobretudo, não se corre o risco de violentar o gênero poético ao colocá-lo

a serviço da ideologia? O poeta pode admitir a pegada política em sua trajetória. Assim

Gil de Biedma esclarece: “Durante alguns anos fui marxista bastante ativamente”.

Alguns de seus poemas, efetivamente, constituem “claramente uma análise marxista”.

Mas, acrescenta, – e isto é o fundamental -, referido poema, “não fica aí, claro está,

senão, não seria um poema”. A poesia serve para demolir o edifício da Ditadura

franquista? - Pergunta em seguida o entrevistador -. Resposta contundente: “Não,

obviamente que não. Em absoluto, não. E a missão da poesia nunca foi essa” (Ibid., p.

1285).

Certamente, encontramos autores cuja obra adquire sentido por seu conteúdo

político. Mas o que faz com que a poesia, assim como a pesquisa científica em geral, se

incline ao paradigma do herói, não é tanto a carga ideológica, como sua função social

messiânica. Para que esta última seja colocada em funcionamento, é necessário que seja

assumida voluntariamente por um poeta, ainda que isso não signifique que seja

totalmente consciente o jogo de consequências que tal missão implica.6

Perante à opção transcendentalista pode-se reivindicar o papel cotidiano,

aparentemente trivial da poesia, que exigiria uma investigação da intra-história, mais

6
Veja-se a respeito meu artigo Zurita o el poeta como redentor (2012).

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que da história. “A poesia estava toda escrita antes do mundo”, observava Emerson

(2010, p. 219). Ainda assim, esta concepção é demasiadamente ampla, seria necessário

separar o quefazer poético como diário do labor poético arqueológico que levanta

atestados quase oficiais dos grandes acontecimentos trágicos humanos.

De igual forma encontramos, em geral e em matéria de pesquisa, partidários de

centrar-se em grandes problemas por um lado, e partidários de investigar tudo, pelo

outro. Esta diferença é fundamental na definição do paradigma do investigador como

herói, por contraposição do pesquisador como anti-herói. Aqui defenderemos que tudo é

matéria de pesquisa e que não somente é falso, como também prejudicial para o

aprendiz simpatizar com uma perspectiva transcendentalista.

A crença de que a pesquisa, acadêmica ou poética, deve estra centrada

unicamente, ou pelo menos preferencialmente, sobre pontos quentes, lugares especiais

da sociedade e de seu mundo, delata o complexo de superioridade dos “profissionais”

que a ela se dedicam. Tão idealizado têm o trabalho que, em vez de trabalho, o chamam

de missão, e não duvidam em usar sinônimos transcendentais e divinos, como a

vocação. Obviamente, o grande profissional não se encarrega de qualquer coisa, a não

ser das mais importantes.

Ninguém está disposto a contemplar como uma heroicidade ir ao banheiro ou

passar pelo semáforo, salvo nas piadas. Entretanto, deveríamos prestar atenção às

piadas, pois em muitas ocasiões nos ajudam a limpar a realidade de preconceitos. Mais

adiante, quando passaremos a expor nossa proposta, veremos como o simples gesto de

passar pelo semáforo é matéria de pesquisa e mais interessante do que parece à primeira

vista. O trabalho de pesquisa deve ter a aspiração de extrair o petróleo de baixo das

pedras, porque as pedras encerram segredos se soubermos ausculta-las, como o mundo

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encerra poesia sempre que, como destacava Emerson, tenhamos ouvidos finos. A

questão é que o ouvido pode ser educado. Todos podem pesquisar e tudo é pesquisável.

A pedagogia, incluindo em primeiro lugar aquela usada para orientar os

trabalhos de pesquisa, poderia se dedicar a eliminar as barreiras intimidantes do saber

expert em vez de promove-las. Uma criança, qualquer pessoa, poderia aproximar-se

sem medo de uma obra de arte e dialogar com ela, imaginar o que diz, imitá-la,

inclusive exclamar “Eu também sou pintor!”, como reza a epígrafe de O mestre

ignorante, de Rancière: “a pintura, como a escultura, a gravura ou qualquer outra arte é

uma linguagem que pode ser entendida e falada por qualquer um que tenha a

inteligência de sua própria linguagem. Com relação à arte, como se sabe, «não posso»

se traduz de bom grado por «isso não me diz nada». A comprovação da «unidade do

sentimento», ou seja, do querer dizer da obra, será assim o meio da emancipação para

aquele que «não sabe» pintar, o equivalente exato da comprovação sobre o libro da

igualdade das inteligências”.7

“O poeta revela” – tal é sua missão - e não deve ser confundido nem com um

cronista, nem com um palhaço (COLINAS, 2008, p. 24). Com relação ao primeiro, já

vimos como este princípio teórico é desmentido pelo trabalho poético. Vamos nos

centrar agora nos outros dois aspectos que se complementam por oposição. Pois a

gravidade é contrária à diversão. Não é difícil voltar a apreciar a comparação com o

trabalho de pesquisa e o trabalho acadêmico em geral. A aprendizagem que se impõe na

escola moderna durante o século XIX não se caracteriza precisamente por seu aspecto

lúdico. Pelo contrário, dado que seu objetivo mais urgente é a escolarização massiva, o

caminho mais fácil é empregar métodos marciais e hospitaleiros. Assim, durante esse

7
Jacques Rancière, El maestro ignorante. Cinco lecciones sobre la emancipación intelectual, Barcelona,
Laertes, 2002, p. 38.

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século e o seguinte, a história da pedagogia estará salpicada de experiências inovadoras

contra a corrente estabelecida. Mas o público beneficiado será minoritário e seu destino

acabará sendo fazer parte de manuais que são estudados nas faculdades de pedagogia

organizada segundo o sistema majoritário.

Há algo de perverso na paradoxal cena composta de aprendizes de pedagogos

decorando, para uma prova, experimentos que lutam contra o sistema sádico e

materialista da docimologia, a “arte” de examinar. Durante mais de vinte anos fui

docente na Faculdade de Educação, devido a minha relação inicial com a sociologia da

educação, que marcou o início da minha carreira (minha tese de doutorado pesquisou

uma escola pública e outra privada). Como parte de minhas obrigações, tinha que

encarregar-me de ser orientador dos estágios de alunos de pedagogia nas escolas. Não

podia deixar de surpreender-me com a organização das práticas docentes dos futuros

pedagogos, estabelecidas sobre a mesma base cínica e inútil. Nos manuais se repetia que

o objetivo de tais práticas era a observação, supondo-a como base da pesquisa. Mas

99% dos estudantes repetiam ano após ano os mesmos memoriais, com os mesmos

extensos anexos sobre as leis educativas e os mesmos relatórios sobre o funcionamento

da escola, uma pura descrição dos órgãos do governo; também com um diário que não

era um diário, mas uma fotocópia da unidade didática observada pelo professor ou

professora em exercício. Nas primeiras sessões que mantinha com eles, tentava fazê-los

ver que deveriam remontar essa prática docente baseada na repetição e que precisavam

tentar detectar problemas, encontrar os conflitos e refletir sobre experiências de

inovação pedagógica.

Desde esses primeiros contatos com a experiência pedagógica, o aluno realiza

duas identificações centrais que marcarão sua concepção sobre a equação. Em primeiro

lugar, a docência se define subjetivamente como uma situação paradoxal. Elaborar um

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bom trabalho de pesquisa, um bom memorial, chega a ser incompatível com realizar um

bom trabalho de estágio de docência. Se “observarmos” demasiado, pode-se causar um

mal-estar na escola. Basta que se solicite as atas do Conselho Escolar, o principal órgão

de gestão da escola, no qual se baseia toda uma cultura da participação democrática,

para que comecem as negativas. A partir daí, experimentará na própria carne que a

realidade resiste a ser investigada. Certamente também encontrará resistência se tentar

aplicar na sala de aula uma unidade didática original, idealizada por ele ou ela, que

substitua àquela que estava programada.

Todo centro de ensino, como toda instituição, mas especialmente se é educativa,

posto que se supõe que precisa dar o exemplo (dar exemplo assim, portanto, da cultura,

do bom comportamento, portanto do comportamento obediente com a norma), tende a

mostrar-se ao espectador como uma unidade harmônica. Pois bem, acontece que todo

trabalho de investigação opera como uma contra-tendência àquela que pode prestar uma

grande ajuda ao pensamento sociológico crítico, dado que sua função é “contribuir para

que se feche a cortina na qual se representa a farsa e que os verdadeiros atores apareçam

no cenário: as diferentes estratégias dos diversos grupos sociais em conflito acerca da

definição e da reprodução da cultura” (LERENA, 1985, p. 284).

Junto com a sensação de frustração, o aluno não poderá evitar, também, levar

para casa, em segundo lugar, certa sensação de monotonia rotineira e o tédio. Poucos se

dão conta de que a pesquisa é o único meio que garante a ruptura epistemológica do véu

do cotidiano convertendo-o em algo atrativo e surpreendente, sobretudo porque

ninguém lhes ensinou o que significa pesquisar, deixando-os à mercê dos fantasmas

que, a modo de preconceitos, debilitam esta palavra e a circundam de temor.

Sem dúvida, uma das estratégias responsáveis deste feito é o uso da linguagem.

Se um estudante se aproxima de um memorial ou de um trabalho de pesquisa, de uma

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tese, com a sã e intuitiva intenção de ter uma ideia do que precisa fazer, pode acabar

com a desagradável impressão de enfrentar um relatório técnico, um exercício de

erudição de pesada e paciente acumulação de citações, ou um texto denso e crítico.

Quanto mais aprofundar o exemplo lido na tendência que representa, mais conseguirá

semear a dúvida na autoconfiança de quem deve imitá-lo. De qualquer maneira, o efeito

provocado é o mesmo, um choque do leigo com um código linguístico elaborado que

serve de parábola para ilustrar a verdadeira função de separação entre o povo e a elite de

experts.

O poeta, assim como o pesquisador, revela. Como o que revela são palavras,

sinais, é normal que não seja compreendido pelo povo. Na contracapa da obra

Entreguerras, nosso exemplo de Poema Total como Livro Puro, se elogia a “riqueza do

vocabulário inventivo do autor”. E o poeta é o menos entendido dos autores. Sua

linguagem é o exemplo perfeito do hermetismo: difícil é que dois leitores de um poema

entendam a mesma coisa em um poema. O poeta é um dos maiores representantes do

saber superior, da alta cultura. É mais, no contexto de dessacralização cultural que vive

o ocidente nos últimos séculos, a poesia parece alçar-se como o último foco de

resistência.

O poeta mostra-se como conhecedor de segredos, parente do xamã, do mago, do

bruxo que conjura, mas também do tecnólogo que sabe como funcionam os aparatos

eletrônicos que nos rodeiam e do médico que prescreve receitas que o paciente não pode

entender, mas sobretudo do investigador médico que escreve livros com fórmulas que o

leigo não pode entender.

Obviamente, não se pode dizer que sejam textos muito divertidos. Neste sentido,

teses radicais como a de Grombrowicz são compreensíveis para uma boa parte dos

poemas que circulam por aí com o certificado de qualidade expedido pela academia:

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“quase ninguém gosta dos versos e o mundo da poesia versificada é um mundo fictício e

falsificado” (GROMBROWICZ, 2009, p. 12). “As poesias não me produzem nenhum

entusiasmo… mais que isso, me aborrecem” (Ibid., p. 25).

Esta afirmação se baseia sobretudo no argumento de que “os bardos de hoje”, “já

não podem se expressar porque devem expressar a Poesia” (Ibid., p. 29). Ou seja,

podem ser considerados “escravos da Forma”. Na realidade, escravos da Forma

seríamos quase todos nós, os membros desta sociedade caracterizada, entre outras cosas,

pela sacralização de tal Forma.

A Forma com maiúsculas convertida em ídolo (se bem que de barro, pois sua

consistência é a das enteléquias), “Forma Inter-humana como soberana força criadora”,

observa o citado autor; levada ao trono pela racionalidade procedimental e a estrutura

tecno-burocrática do poder, poderíamos acrescentar nós atendendo a nossa exposição.

A Forma tiraniza através da Norma. Demasiadas leis restringem a liberdade do

cidadão, que vê como engordam os códigos, regulamentando todas as esferas da vida,

incluído o trabalho da pesquisa e a “arte” da poesia como referente do mesmo.

Não estamos descobrindo o Mediterrâneo. A tentação da tirania como forma de

governo não somente político, como também trabalhista e inclusive pessoal, é algo

onipresente em nossa cultura. Assim, Pessoa assinala: “Como a música, o verso é

limitado por leis rítmicas que, ainda que não são as leis rígidas do verso regular, existem

como defesas, coações, dispositivos automáticos de opressão e castigo. Na prosa,

falamos livres” (PESSOA, 1994, p. 37).

A novidade não é o perigo, o novo é a forma que toma em cada momento e lugar

esse perigo. Mostrá-la, torná-la visível, não é tarefa fácil, toda vez que sua definição

global passa pela recomposição das definições específicas em ao menos três das

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dimensões sinalizadas: a da pesquisa, a de seus referentes acadêmicos e a do contexto

social no qual ambas se inserem.

A dependência da forma causa angústia no pesquisador como poeta e no poeta

como pesquisador. Como mecanismo de defesa, estes acabam por projetar a ansiedade

sobre o leitor cidadão, erigindo-a como uma barreira invisível, mas muito real.

A linguagem da investigação se parece ao poético também nesse caso, revelando

segredos, nos quais outorga superioridade social, e não é lúdica. Mas há que insistir em

algo: todos estes preconceitos que vão tecendo a lenda do trabalho de pesquisa se

alimentam de modelos diferentes, como o Livro Essência e o Livro Puro, e se inculcam

em um longo processo de socialização que começa nos primeiros estágios do sistema de

educação. Daí que encontremos suas pegadas e seus efeitos muito antes de que o

estudante se atreva a realizar um trabalho de pesquisa. Então, já será temido. O choque

linguístico aludido, por exemplo, não é outra coisa senão uma versão refinada daquilo

que sofrem os alunos de classes populares, imigrantes ou pertencentes a etnias

marginalizadas nas escolas primárias e secundárias quando escutam o professor ou os

alunos de classe média. Já ali, muito antes de ter sido processados como objetos de

descarte pelo sistema de ensino, dadas suas probabilidades de fracasso escolar, intuem e

sofrem à distinção entre um saber superior e um saber prático desprestigiado.

Uma apreciação sobre o subtítulo da obra comentada permite fechar o

comentário que se verte como um balde de água fria sobre o futuro epistemológico da

pesquisa, visto como evolução do modelo enciclopédico quantitativo, patriarcal e anti-

afetivo, até o modelo essencialista e poético. O livro-poema Entreguerras leva como

subtítulo Ou da natureza das coisas. Existe tal coisa? O essencialismo que pulsa em

conceitos como natureza, evolução ou origem, deveria fazer-se evidente em uma

reflexão como a que se faz nestas páginas. Trata-se de mitos, de lendas construídas

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socialmente para manter posições de poder de certos grupos sociais. Resgatamos aqui a

proposta de Nietzsche e, sobretudo, de Foucault, de recusar a busca da origem

(Ursprung), porque para o genealogista por trás das coisas não há nenhum segredo

essencial “a não ser o segredo de que não têm essência” (FOUCAULT, 1988, p. 18).

Origem e fim possuem uma existência fantasmagórica. O que existe é o véu ideal

que envolve seu coração vazio de enteléquia, merecedor de um exorcismo

epistemológico. Na faixa publicitária panegírica de Entreguerras Ou da natureza das

coisas, lemos: “Um conjuro contra…”. Mas o leitor, assim como o pesquisador (o leitor

é, ou deveria ser, antes que leitor, leitor-pesquisador), teria que trabalhar, que pre-

ocupar-se, não por encontrar conjuros, mas por achar conjuros contra os conjuros.

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3. Construir de forma fraudulenta

3.1. A pesquisa como farol

Uma prova de que a sacralização da forma e suas consequências perversas temos

em sua utilização a serviço da crítica. A perversão, neste caso, salta à vista antes de sua

própria causa, dado o paradoxo que encerra. Supõe-se que o trabalho de pesquisa, mas

também seu mais oposto e distante referente, como o livro de versos, aniquila seu

espírito, tanto imaginativo como crítico, ao colocar o corpete asfixiante da forma. Os

pesquisadores e autores mais atrevidos, contudo, se fazem com um corpete transparente,

ou o inventam. Dessa forma, o corpo do trabalho se mostra aparentemente nu ante os

demais, ante o público leitor, começando pelos próprios colegas. O efeito causado é,

obviamente, o escândalo. A mensagem emitida é a da libertação, o da alforria do

escritor da escravidão das formas. É mais, através da escrita se representa o drama da

ruptura com a norma, e se apresenta como uma promessa de um mundo melhor, como o

foco interior (intelectual) de uma revolução que depois se estenderá ao contorno vital

externo (material). Acontece que se trata de uma falsa aparência, pois o corpo não deixa

de estar atado a um corpete invisível.

Assim, acabamos por encontrar-nos na paradoxal situação de investigações

escritas com um estilo acadêmico heterodoxo, mas que trabalham, sem pretender, para o

paradigma tradicional dominante. Esta consequência não procurada indica que o

melhor conservador é o que não sabe, mas atua como tal, sendo superado, em todo caso,

por aquele outro que acredita não ser, mas atua como tal. A contribuição à manutenção

da estrutura social desigual da pesquisa consiste em uma declaração de intenções crítica

no trabalho, mas em seguida preenche-lo com um discurso ininteligível, composto de

palavras ocas que atuam à maneira de corifeus da “voz cantante”, o modelo implícito

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que guia ao investigador em suas tarefas. Um exemplo temos em algumas das obras do

francês Jacques Derrida. Sua obra Tímpano, está escrita à margem da filosofia (de fato,

o livro onde aparece editado este ensaio se intitula Margens da filosofia) não somente

no sentido conceitual, mas literal (DERRIDA, 1989, p. 15 y ss.). Daí que se o

observarmos, veremos que nas margens das páginas vai se tecendo outro texto. Com

isso, se pretende uma escrita intertextual onde cada texto remete a leituras diferentes e

contraditórias em uma estratégia de disseminação sem fim.

Nenhum dos meus alunos pode entender até agora o sentido nem desse, nem de

outros textos cujos títulos parecem mais aproveitáveis para um trabalho de pesquisa do

que a filosofia confluindo com a sociologia, como Políticas da amizade para uma tese

sobre esse tema.

Outra das maneiras das quais a forma perverte a pesquisa através da fraude é

usando linguagens alternativas como material de apoio. Entre eles, sem dúvida a

matemática constitui a linguagem formal por excelência, daí que se converta na tentação

recorrente de muitos pesquisadores nas ciências sociais. Especialmente se

acrescentarmos o tradicional complexo de inferioridade que as ciências “humanas”

sentiram sempre com relação às ciências “exatas”. Posto que a razão é a suposta

vantagem em termos de objetividade, a emulação passa pela depuração do discurso por

meio do filtro dos números. Estes, junto com os símbolos que os auxiliam, possuem

duas propriedades especialmente interessantes: ordem e concentração. Com a primeira,

o pesquisador combate o medo ao caos original do qual parte e ao que deve enfrentar

todos os dias. A segunda funciona como promessa: se é boa, a pesquisa (como a obra

literária, e em especial, neste ponto, o livro de versos) funcionará como um

microcosmo; quem conseguiu um bom trabalho, além da contribuição a um problema

concreto, alcançou a proeza de reduzir o mundo a uma dimensão portátil; ou o admira

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Gil Villa; Fernando. O que significa pesquisar? Exorcismo do trabalho de pesquisa.
Tradução: Hildegard Susana Jung São Paulo: Edições Hipótese, 2017.
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como quem contempla um exótico pedaço do centro da terra, matéria pura e original,

fetiche.

E como costuma acontecer sempre com os humanos, tamanhas tentações causam

grandes fiascos que passam a fazer parte da história da ciência. No terreno científico, é

bem conhecido o escândalo que causou há alguns anos a revisão da parte matemática

utilizada por autores como Lacan, na elaboração de suas teorias psicanalíticas. A

propósito de certo número quebrado cujo numerador é o termo significante, cujo

denominador é o termo significado, e cujo resultado é o termo enunciado, escrevem:

Aqui, Lacan zomba do leitor. Inclusive se sua “álgebra” tivesse


algum sentido, é evidente que o “significante”, o “significado” e o
“enunciado” que ali aparecem não são números, e a barra horizontal
(símbolo escolhido arbitrariamente) não indica a divisão dois
números. Por conseguinte, seus “cálculos” são pura fantasia”
(SOKAL e BRICMONT, 2008, p. 42).

No outro extremo do espectro da escrita, que em realidade não o é, dado que,

como nós nos preocupamos em mostrar aqui, funciona igualmente como referente para

o trabalho de investigação e ao mesmo tempo se baseia na investigação, a poesia não

deixou de sentir a fascinação pelas qualidades matemáticas. Isto é algo que se reflete

não somente nas regras da métrica, cujo objetivo consciente é a ordem, mas também na

busca constante da essência em cada poema, que a leva em muitas ocasiões a obcecar-se

pela forma, como se acreditasse que o trabalho poético fosse puro contorcionismo,

questão de encontrar una forma capaz de aprisionar o gênio travesso, sempre no

movimento da ideia.

O caso é que tais versificadores conseguem seu objetivo, mas às custas de

asfixiar o duende, de maneira que o poema oferece o mesmo triste espetáculo que

muitos trabalhos de pesquisa, o de uma tumba, suscetível a ser considerada monumento

funerário pela crítica acadêmica, patrimônio (fóssil) da humanidade. E como somente se

consegue enganar ao leitor relativamente, ou seja, ele pode ser induzido a comprar, ou

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Tradução: Hildegard Susana Jung São Paulo: Edições Hipótese, 2017.
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retirar o livro da biblioteca, ou “baixá-lo” da rede, mas não a seguir lendo,

contemplando-o, uma vez comprovado que a cápsula formal contém um bicho morto,

mas ao final acabamos descobrindo o farol.

Também realizei pormenorizadas entrevistas sobre algum poema


para acabar constatando que esses entregues admiradores não
haviam terminado de lê-lo. Como? Tanto prazer e não ler até a última
palavra? Como? Admirar a “precisão matemática” do verbo poético
e não advertir que a mencionada precisão foi radicalmente
transtrocada? (GROMBROWICZ, 2009, p. 27).

Evidentemente, a crítica ao uso fraudulento de linguagens como o matemático

não invalida seu uso adequado. Em algumas ocasiões, seus sinais podem servir ao

pesquisador para expor uma ideia de forma contundente, clara, simples e eficaz.

Cumprindo estes critérios, alguém que estivesse teorizando sobre o amor na alta

modernidade poderia expressar, por exemplo, que o amor sem reservas poderia

acontecer sempre que contasse com um seguro psicológico.

Para ilustrar este ponto, alguém poderia pensar em uma quantidade máxima

disponível de libido ou de energia amorosa “X”. Não haveria problema em depositá-la

no casal sempre que o próprio sujeito se amasse a si mesmo X+1. Com isso, poderia

querer indicar várias coisas:

1) Que o amor não é um jogo de somar zeros, de forma que se ganha ou se perde

tudo. Pelo contrário, podemos apostar tudo em uma carta, mas sem perder de vista um

plus de egoísmo;

2) Que tal plus funcionaria da mesma maneira de um seguro de risco que

unicamente seria usado em caso de “catástrofe amorosa”;

3) Que para funcionar, o seguro deveria, logicamente, atualizar-se, ou seja, re-

pensar-se com certa frequência e na dimensão das fantasias, com pensamentos positivos

e escapistas dos quais não pode tomar parte a persona amada, e

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Tradução: Hildegard Susana Jung São Paulo: Edições Hipótese, 2017.
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4) Em caso de que, no hipotético caso de se produzir a ruptura (a catástrofe), o

seguro não cobriria todos os custos, pois o dano seria sentido não somente com o

sofrimento pessoal, mas também com consequências reais que afetam as rotinas e os

produtos das ações da vida cotidiana. Viria a ser, por conseguinte, um seguro com

franquia. A vítima (e aqui o sujeito deve se considerar vítima por definição, inclusive no

caso de que ele seja culpado pelo choque e a consequente ruptura) é consciente, durante

o tempo do romance, ou seja, durante a duração do contrato, de que terá que pagar uma

parte, portanto, de que não poderá evitar o sofrimento, mas ao mesmo tempo, lhe

tranquiliza e compensa o fato de que não se responsabilizará pelo total da reparação,

pois nesse caso, perante um possível sinistro total, não poderia suportá-lo, vendo-se

obrigado a admitir a falência de sua personalidade e talvez de sua vida.

Pois bem, este exemplo poderia ser refinado ajustando-se a comparação com as

fórmulas matemáticas que se usam em matéria de seguros em maior ou menor grau.

Aqui nos limitamos a descrever a ideia de forma sugestiva a esse respeito, mostrando as

possibilidades de conexão entre linguagens diferentes na pesquisa de uma forma não

fraudulenta. Existe um uso intuitivo e imaginativo da matemática, como existe um uso

obsessivo e rígido da linguagem lógica que a reduz à pura esclerose. Em uma posição

parecida, poderíamos considerar algumas das obras citadas aqui, como O cisne negro,

cujo autor, doutor em matemática financeira, opta pelo pensamento empírico baseado na

intuição perante o formalismo baseado nas habilidades técnicas. De fato, em outro de

seus livros, não duvida em ridiculizar o “estereótipo do matemático puro”, “um homem

anímico… (que) com o tempo está cada vez mais absorto em suas temática de teoremas

puros, alcançando níveis cada vez mais elevados de abstração”. Coloca o exemplo de

um desses personagens sinistros nos Estados Unidos, um que acabou matando pessoas

que fomentavam a tecnologia moderna, e observa que “não houve um só jornalista que

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fosse capaz de sequer aproximar-se da temática de sua tese, Limites complexos, já que

não tem um equivalente inteligível (TALEB, 2006, p. 44).

“Não é que (Taleb) considere que a matemática não se corresponda com uma

estrutura objetiva da realidade, apenas sinaliza que não aplicá-las corretamente provoca

a ilusão de certezas onde elas não existem, criando perigos quando aparece um Cisne

Negro” (J. MIRA, 2011, p. 106). Desta maneira, estando o perigo na simples ausência

de sua consideração, o defeito dos estilos formalistas é mais nefasto do que possa

parecer à primeira vista, pois não se trata unicamente de uma questão de forma, mas de

fundo, na qual indiretamente se alimenta a crença em falsas utopias que nos levam, por

comodidade, a desentender-nos da dura realidade. Aqui se percebe como o uso

tradicional imposto pela academia aos trabalhos de pesquisa e às formas de pensamento

que lhes dão vida, coadjuvam ao advento do niilismo social, dos traumas que provocam

a longo prazo as falsas promessas coletivas, choques culturais que geram mal-estar na

população ao mesmo tempo que retroalimentam esquemas esquizofrênicos de

interpretação do mundo.

É lógico (e paradoxal) que, aqueles que usaram a matemática com um sentido

mais “autêntico” ou “puro”, como Escher, acabassem atraindo mais os cientistas do que

os artistas, pois as carências delatam os gostos. Em suas palestras acadêmicas, o gênio

holandês nunca soube explicar verbalmente suas intuições, nem as traduzir à linguagem

das fórmulas. Eram visões (FELLOWS, 1995, p. 7).

Como contraponto, podemos reler a frase já citada de Cortázar sobre Borges,

mas desta vez em sua totalidade, para ilustrar o estilo acadêmico formalista e plano

dominante: “(Borges me ensinou a eliminar)… os sinais de exclamação inúteis e isso

que ainda existem na literatura e que consiste em dizer em uma página o que tão bem se

pode dizer em uma linha” (BORGES, 2011). A precisão matemática, a capacidade de

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concentração, parece ser a base de tal admiração, delatando que não é outra coisa que

uma admiração pela pura forma.

Pois bem, podemos extrair um comentário muito mais suculento desta citação se

analisarmos a relação entre as duas proposições que a compõem. Na primeira parte,

havíamos proposto prescindir dos sinais emocionais no texto. Na segunda, propomos a

concisão. Ambas ideias se contradizem em parte e aqui reside o aspecto mais relevante

do comentário, o que o torna complexo e lhe confere certo interesse. Tanto o uso de

sinais “neutrais” no texto – o ponto e a vírgula, por exemplo - como sua redução à

máxima expressão, causam uma impressão de objetividade. Daí que possamos falar da

linguagem matemática como referente ideal com relação à precisão. Entretanto, o farol

não deve ser contemplado somente como o perigo imediato que acabamos de referir. O

exemplo de Lacan é, neste sentido, demasiadamente grosseiro, pois indica que o

investigador foi de tal forma seduzido pelos cantos de sereia das fórmulas matemáticas,

que as incorporou diretamente. Na maioria dos casos, contudo, os autores não se

atrevem a tanto, sua sedução não é tão completa e, portanto, não caem tão diretamente

na armadilha do farol. Mas cair, caem e, ainda que tentem dissimular a sedução que

padecem, não o conseguirão totalmente. É precisamente a incapacidade de alcançar a

concisão desejada que os delata.

A maior parte dos trabalhos de pesquisa, assim como nas obras de ficção, estão

cheios de palha. A palha não só oculta o grão, como também tem por função ocultá-lo

quando este não existe.

A palha é a condição para o farol.

A palha é o próprio farol.

Daí que os sentimentos do pesquisador e do autor perante a palha sejam

contraditórios. Por um lado, permite ocultar os erros, as falhas, por isso é necessário

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estar agradecido a ela. Por outro lado, não pode evitar de temer que o Outro, seja outro

colega ou qualquer leitor, ou seja a voz de sua consciência, queira rebuscar na palha. A

probabilidade é escassa, porque as pessoas não têm tempo e energia para encontrar

“uma agulha no palheiro”, mas existe como sensação geral, como fantasia que gera

pesadelos, que assedia o autor enquanto dorme.

Este conflito interno reflete a insegurança como traço característico clássico da

burguesia intelectual, à qual pertencem pesquisadores e autores em geral. Sua posição

de classe média lhe faz habitar uma zona social intermediária, com a descida como

ameaça perpétua, seja real (como em tempos de crises) ou fantástica e potencial,

somatizando-se no estilo daquele que fala e a escrita em um exagerado apego à forma,

percebida como uma espécie de salva-vidas. Mas como também está em contato com a

classe operária, ao proceder dela uma forma más direta que a classe alta, não pode evitar

apreciar, muitas vezes o seu pesar, certos traços da ideologia popular. Sem dúvida, um

dos mais importantes é o sentido pragmático da vida, um realismo que impulsiona o

sujeito a preferir os atos e não as palavras, e os resultados e não a retórica, o concreto

frente ao abstrato, o claro frente ao difuso.

Daí que o pesquisador e o escritor, juntos na mesma pessoa ou separados,

fiquem presos na contradição última que ilustra a frase comentada de Cortázar. Por um

lado, se odeiam os sinais pessoais, refletindo assim a vergonha da procedência de classe

popular, lastrada pelo emocional, incapaz de levantar voo do distanciamento. O autor

abandona assim, de forma exageradamente decidida, o mundo cultural pertencente à

posição social da qual conseguiu escapar e na qual obviamente não gostaria de voltar a

cair por nada nesse mundo. Mas ao mesmo tempo, depois de romper o cordão umbilical,

não pode deixar de sentir saudade da “mãe”, sentimento profundo expresso em seu

desejo consciente de escrever com concisão.

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O senso comum diz que isso de “ir ao ponto” é bom não somente para cultivar a

conversa, mas também como critério na escrita, porque a lógica da investigação na qual

se baseia o exige; exige desenvolver uma linha de argumentação para chegar a revelar o

problema que nos propomos a analisar, seja com fins de intervenção ou com fins de

entretenimento, no caso da literatura de ficção.

Também poderíamos completar a ideia de outra forma, aludindo à má

consciência que tem o investigador autor como “bolsista traidor”, em expressão de

Gramsci. Visto no plano dos dilemas culturais morais, posteriormente, o autor como

representante da burguesia intelectual em sua versão polifônica, mas coerente das novas

classes médias pós-modernas, sofre a tensão da personalidade do traidor como sujeito

social (GIL VILLA, 2001, p. 82). Faça o que fizer, será um traidor. Se trair a classe da

qual procede, será não somente um traidor com suas origens, mas também um traidor

com o estilo acadêmico e literário racional e razoável, intrínseco da escritura. Mas se

para escapar desta sensação, se inclinasse por uma escrita “razoável”, então estaria

traindo o hábito da academia, o hábito cultural das classes médias, copiado das altas,

feito para distanciar-se das baixas, desconectado por definição da realidade, portanto,

obrigatoriamente aéreo e etéreo, necessitado urgentemente de palha e de farol.

Definitivamente, neste último caso, o pesquisador e o autor nadariam contra a corrente,

trairiam o paradigma imperante do herói sacrificado e sofreriam, portanto, o preço que

isso implica, de marginalização acadêmica.

Entre estas duas posições se debate cada pesquisador, cada autor, cada dia, no

momento de escrever, de uma forma ou de outra. Tome a decisão que tome, por muito

equilibrada que seja, sempre terá que pagar um preço.

Sem dúvida, haverá diferenças na percepção e vivência subjetiva da posição de

classe contraditória. Sua importância também é relativa à sociedade na qual a cada autor

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lhe compete viver, definida pelas tensões sociais do momento e o grau de sensibilidade

cultural à desigualdade na estrutura social.

Inclusive a influência derivada da relação que guarda o ofício de pesquisador e

de escritor com outras ocupações análogas, merece sem dúvida uma consideração

cultural. Provavelmente, a profissão mais emparentada é a docente. A maioria dos

pesquisadores e muitos escritores, são também professores, um trabalho

tradicionalmente definido por seu caráter híbrido, entre profissional e operário, dado

que sua autonomia no trabalho não é tão grande como no caso das profissões liberais.

Suas limitações vêm da imposição dos planos de estudo e dos meios de ensino e,

sobretudo, pela submissão de suas atividades docentes a controles burocráticos que têm

aumentado nas últimas décadas, especialmente após o estabelecimento do Espaço

Comum Europeu de Educação Superior, a partir de 2010. A exacerbação desta

tendência coincidiu, por um lado, com os cortes orçamentários, tanto na educação como

na pesquisa e, por outro, com a crise da indústria editorial, devido tanto à crise

económica, como ao auge do livro eletrônico e sua vulnerabilidade à pirataria. O

resultado da conjunção destes fenômenos empobreceu os pesquisadores e os autores, os

colocou em uma situação de fragilidade extrema, chegando inclusive a ameaçar sua

sobrevivência, reavivando os debates sobre sua posição social material, ressaltando as

referidas contradições de classe.

3.2. As redes sociais como estratégia de condescendência

O farol não esgota todas as formas de fraude acadêmica. Nem sequer

pretendemos aqui que sua consideração seja interpretada como parte de uma análise

sobre esse tema concretamente. De fato, convém terminar a reflexão desvinculando-a

dos debates sobre o escândalo, os quais desviariam a atenção sobre a maior parte do

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trabalho de pesquisa na maior parte dos casos. Alguns autores se atrevem a fornecer

números sobre os pesquisadores que admitem ter realizado falcatruas. Para citar um

exemplo recentemente publicado, Michael Brooks diz que afeta a um terço. Em seu

livro “Radicais livres. A anarquia secreta da ciência”, fala de pesquisadores

delinquentes, adictos às drogas e infratores das normas da Academia, heterodoxos como

os descobridores da dupla hélice do DNA, Watson e Crick (BROOKS, 2012).

O menos que se pode dizer é que tais concepções, baseadas na exploração de

anedotas da vida privada dos pesquisadores, realizada mais com a finalidade de vender,

do que de fazer a verdadeira história da ciência, se situam nas antípodas de nossa

reflexão. Se entenderá isto claramente se situarmos o debate em um marco mais amplo,

que lhe dê perspectiva, como o da corrupção. Os políticos e personagens públicos

acusados e, principalmente, condenados por casos de corrupção são a exceção, como o

são os cientistas que ganham o Nobel sob os efeitos de LSD. Isso não quer dizer,

contudo, que o resto das pessoas que ocupam postos de poder não pratiquem em certas

doses, a corrupção. Além disso, uma boa parte da cidadania, em diversas escalas, se

beneficia pessoalmente de recursos públicos de forma ilegal quando tem a

oportunidade. Temos, portanto, que separar os desvios ou extremos, da média.

Criminosos e santos, por um lado, e população “normal” por outro.

Poucos são os cidadãos que defraudam o fisco ou cometem atos de corrupção

tais que são processados e sancionados com penas de prisão. Da mesma forma, poucos

são os cidadãos cuja honestidade e solidariedade pode ser qualificada como absoluta. A

maioria se move em uma zona média na qual desobedece à norma em um grau

suficientemente irrelevante, de maneira que o sistema social perca sua ordem. Um

enunciado como este é reversível, e esse é precisamente seu traço central. Os demais

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não se arriscam a comportamentos de extrema ou absoluta desobediência ou obediência,

porque em ambos os casos, os custos ameaçam superar os benefícios.

Os pesquisadores são, como os políticos, antes de mais nada, cidadãos e,

portanto, aplicam este mesmo esquema racional a suas ações com relação à norma. O

mal-entendido que representa a leitura feita por Brooks consiste em associar o risco à

atitude científica heterodoxa, iconoclasta, quando em realidade reside na transparência

oposta: “obviamente, alguns cientistas não arriscam somente a vida de um único ser

humano. Em lugar disso (ao menos segundo eles), colocam em perigo todo nosso estilo

de vida” (BROOKS, 2012, p. 139).

Este é um dos paradoxos que rege nosso sistema científico atual. Em matéria de

pesquisa, é menos arriscado brincar com um farol do que ser claro, encher o trabalho de

palha, do que ir ao ponto, da mesma maneira que em uma sociedade com uma forte

cultura da corrupção é mais insensato pertencer à minoria que permanece incólume a

suas influências cotidianas.

A mistura de criticismo e fragmentos de linguagens lógicas constituem uma

poderosa argamassa com a qual o estilo acadêmico vai construindo o texto como uma

fortaleza. Quanto mais alta, mais intimidará ao leitor que se aproxima. Este desconhece

se o interior alberga tesouros ou palha com teias de aranha. Seus olhos buscam

inutilmente um resquício entre a densa e cinzenta textura que trançam os parágrafos.

A função da estrutura é desestimular o assaltante (todo leitor é um potencial

assaltante) a penetrar em seu interior, exagerar a perspectiva para produzir um efeito

ótico intimidante; converter inclusive aqueles que aproximam como aspirantes para

conhecer a verdade, em simples turistas, trocar suas intenções, entretê-los com o

continente, enredando-os em seus detalhes, fatiga-los ao ponto de que já não desejem

entrar.

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Quanto mais ceda em clareza de estilo, mais o pesquisador se arriscará, pois

mais baixos ficarão os muros e mais exposto ficará o conteúdo.

Quanto mais alto seja o Castelo, mais importante (e altaneiro) será o senhor

(pesquisador ou autor) que nele se esconde, mais inacessível.

Se alguém quiser conhecê-lo pessoalmente, terá que esperar que se digne em

con-descender em um dia ensolarado e deter-se em alguma de suas residências menores

e campestres, casinhas-blogs de palha que permitem a comunicação com o povo

simples, isso sim, rodeado de severos limites de segurança (com “bloqueio de grosserias

elevado” ativado). “A estratégia da condescendência consiste em beneficiar-se da

relação de forças objetiva entre as línguas que na prática se enfrentam no próprio ato de

negar simbolicamente essa relação” (BOURDIEU, 1985, p. 42).

Esses passeios pelas redes sociais nos quais o senhor escritor toma um rápido

banho de multidões, são fundamentais para alentar sua lenda de superioridade. Visto e

não visto, se no grande pesquisador ou escritor é memorável um gesto tão humano,

trivial e popular, é precisamente porque é pouco humano e porque sua escrita é o

contrário da trivialidade.

A inculcação de uma atitude conservadora perante os riscos como parte central

da socialização à qual o sistema acadêmico submete os pesquisadores e escritores é um

processo de sobras conhecido nas correntes culturais críticas da ciência. Recordemos as

descrições de Nietzsche do “tipo de homem teórico” como forma de ser do cientista,

baseada na contenção, na insegurança e na desconfiança em si mesmo (NIETZSCHE,

1984, p. 142). Um sujeito metódico, na defensiva, organizado, utilitarista e elitista

(NIETZSCHE, 1988, p. 117 e 120).

Também devemos recordar a explicação deste fenômeno, as pesquisas sobre as

raízes puritanas e autoritárias da família e a escola plantadas no canteiro das classes

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médias europeias desde o começo da modernidade. Através delas, importa para a

ciência o ascetismo religioso (GIL VILLA, 1996, p. 68 e ss.). Através delas, o

pesquisador forja seu caráter acumulativo, conservador (como atitude perante a vida

mais que como ideologia política), e sadomasoquista (FROMM e MACCOBY, 1974, p.

35; 1978, p. 40).

É pouco provável que no aprendiz de pesquisa não haja calado o autocontrole no

qual foi educado desde a educação infantil. Não obstante, se isso ocorresse, o sistema

acadêmico colocaria em andamento os dois controles formais de que dispõe para fazê-lo

voltar à razão.

Em primeiro lugar, os membros da banca ou orientadores dos trabalhos de

pesquisa evitarão arriscar-se dando luz verde a aqueles casos em que, por sua vez,

arriscaram mais do que deveriam em questões tanto de forma, como de conteúdo.

Inclusive, se o resultado final agradar, tenderão a descarta-lo ou a cerceá-lo para não

comprometer os membros das comissões ou bancas de colegas que irão julgá-los.

O mesmo sistema de favores, de natureza conservadora, funciona no contexto

externo das publicações científicas. Quanto mais prestigiada é uma coleção determinada

de uma editora de renome, mais conservador será o pesquisador acadêmico que a dirige

à hora de selecionar os manuscritos. Em tal decisão tentará sempre alcançar um

equilíbrio entre dois critérios chave: o prestígio intelectual do pesquisador autor que

pretende publicar e o estilo de seu trabalho. Somente em casos excepcionais, o primeiro

compensa o uso do segundo, o que, de entrada, deixa os pesquisadores jovens fora da

possibilidade de publicar. Isto coloca a editora em um dilema que costuma ser resolvido

com uma solução salomônica. Um trabalho original e inovador, que seja claro e

contundente, será mal considerado por ter quebrado a distância entre a academia e as

audiências populares. Sua publicação nas sagradas coleções ficará descartada,

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aconselhando-se, na melhor das hipóteses, que seja publicado em coleções de

divulgação consideradas de segunda categoria pelos avaliadores da carreira do

pesquisador. Acontece então que a divulgação se converte em um caminho paralelo,

mas diferenciado da via clássica. Nesta esquizofrenia na qual hoje se encontra a

academia, os trabalhos intermediários, rigorosos, mas claros e de divulgação, correm o

risco de não se encaixar em nenhuma das duas vertentes, e serem penalizados de

qualquer maneira. É assim que o sistema acadêmico dissuade o aprendiz de pesquisa de

atitudes arriscadas com relação ao estilo, tanto na forma, como no conteúdo.

A atitude conservadora perante o risco se observa não somente no estilo, mas

também no polo oposto, nas decisões sobre a tomada de postura nos debates que a

pesquisa gera. Literal e coloquialmente, o pesquisador não se molha. Assim, em uma

disciplina como a sociologia do crime e do desvio, poucos são os autores que se

posicionam a favor da diminuição da idade penal, da legalização das drogas e da

prostituição, somente por citar alguns exemplos. Sua cautela os levará a conduzir o

debate de forma “equânime”.

O escrito, desde o ponto de vista acadêmico, terá mais valor na medida em que

mostre mais equilíbrio entre argumentos contra e a favor de cada tema discutido.

O balanço do fifty-fifty é o mais cobiçado.

Quanto mais se distanciem as conclusões deste termo ideal, mais risco se corre

de ser acusado de ser retórico ou parcial, ou as duas coisas.

Entretanto, todo balanço é subjetivo, um artifício forçado pela manifestação da

equanimidade, um preconceito que condiciona a objetividade à falta de risco, à decisão

consequente das argumentações que seguem depois da análise, conduzidas, aí sim, de

forma objetiva, a favor de propostas de acordo com os valores subjacentes que

informam a pesquisa e que conectam com os direitos fundamentais.

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O problema é que tais raízes se dão como supostas a tal ponto que chegamos a

esquecer-nos delas, quando deveriam estar gravadas com letra maiúscula em nossos

gabinetes. Daí que muitas pesquisas nos pareçam paradoxais ou pelo menos chocantes,

e, de repente, depois de um estudo da discriminação de gênero, encontramos quase uma

apologia ao status quo, como se ao final, ao pesquisador lhe parecesse que demostrar

pela enésima vez que existe o problema do sexismo, não vai ser considerado original

nem suficiente, de forma que força a análise até conseguir, com seus resultados, o efeito

de “chover no molhado”, surpreendendo aos leitores com uma visão “diferente” da

realidade que matiza o problema. O matiza tanto que quase o questiona, ou então o nega

em parte. Mas poucos são os que dão o “salto no abismo” e recomendam estratégias aos

atores, neste caso às mulheres, para melhorar sua situação; estratégias que cumpram a

dupla condição de deduzir naturalmente da análise e que não sejam teóricas (outro dos

faróis habituais), mas que possam ser aplicadas na vida cotidiana.

A organização do sistema acadêmico de pesquisa pressiona os autores a que se

abstenham desses atrevimentos. Prova disso é a divisão que propugna entre o trabalho

de pesquisa a secas (entende-se que propriamente dito) e o trabalho de pesquisa

destinado à intervenção. Em certas ocasiões, as normas que regulam os trabalhos de fim

de mestrado chegam inclusive a sentenciar e legitimar tal divisão de forma que somente

se o estudante optar pelo primeiro poderá logo ter acesso ao doutorado.

3.3. As consequências não procuradas da especialização como seguro anti-risco.

A falta de risco que o sistema acadêmico inculca nos pesquisadores pode chegar

a ser realmente um fenômeno nocivo comparável com a inoculação de um vírus que

acabará por provocar uma mutação genética. Existem muitas probabilidades de que o

aprendiz de pesquisador acabe encharcando seu instinto, suas reservas originais de

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Gil Villa; Fernando. O que significa pesquisar? Exorcismo do trabalho de pesquisa.
Tradução: Hildegard Susana Jung São Paulo: Edições Hipótese, 2017.
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curiosidade e, por conseguinte, a fonte de alegria e a satisfação por seu trabalho. Nos

referimos não tanto às decisões que devem ser tomadas em cada trabalho de pesquisa,

mas principalmente à decisão geral do rumo das sucessivas pesquisas, à escolha dos

temas.

Talvez a melhor forma de valorizar este fenômeno seja propondo uma situação

fictícia, mas baseada em fatos reais. Suponhamos que um autor considerado clássico em

sociologia, como Emile Durkheim, fosse um jovem pesquisador de nossa época.

Observa a educação e publica obras como Sociologia e educação ou A educação (em

realidade, ambas são póstumas, mas neste exemplo a ordem cronológica dos fatores não

altera o produto).

Dois anos depois, esboça um projeto de pesquisa sobre As formas elementares

da vida religiosa e o apresenta à direção central.

A avaliação se torna negativa perante a falta de pontuação do apartado de

antecedentes na temática sobre a que versa o projeto.

Ainda assim, o senhor Emilio não se assusta e publica seu famoso livro sobre o

tema, mas depois de um tempo, volta ao tema e solicita uma subvenção para estudar o

suicídio como caso paradigmático no estudo da ruptura de normas. Poderia acontecer

que o recusaram pelo mesmo motivo, ainda que agora com mais veemência, pois o

pesquisador mostra uma “incoerência” pertinaz em sua “errática trajetória”.

Publica O suicídio e três anos depois concorre a bolsas com um novo projeto

sobre metodologia (do qual sairão As regras do método sociológico). Aqui sim já é

possível irritar os avaliadores, posto que não somente volta a dar uma virada

extraordinária em sua trajetória, mas também tem o atrevimento de meter-se em uma

das subdisciplinas mais técnicas, para a qual o argumento da experiência é ainda mais

válido.

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Gil Villa; Fernando. O que significa pesquisar? Exorcismo do trabalho de pesquisa.
Tradução: Hildegard Susana Jung São Paulo: Edições Hipótese, 2017.
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Teríamos assim um resultado realmente digno de atenção para a história das

ciências sociais: um clássico penalizado pelo sistema de avaliação baseado na

especialização na qual se assenta nosso atual modelo acadêmico.

O senhor Durkheim lavrou uma trajetória pouco comum, heterodoxa, ao cultivar

demasiadas “linhas de pesquisa”, por saltar da sociologia da educação à sociologia da

religião, daí para a sociologia do desvio e, por último, para a metodologia das ciências

sociais (repito que a ordem não importa).

O senhor Durkheim, como se fosse uma criança sem-vergonha, é castigado por

ser mal-educado, ao ser incapaz de “centrar-se” em algo, por seu comportamento

imprevisível.

Este viés do infantilismo que subjaz ao modelo de pesquisa atual se deve

certamente a um pressuposto paternalista, despótico ilustrado, mas também, em um

plano muito menos transcendental, à comodidade do burocrata que deve avaliar.

Obviamente, quanto mais previsível seja tudo, quanto mais os pesquisadores se atenham

a um padrão, mais fácil será identificar os critérios para sua avaliação.

O sentido desta crítica não é a defesa de um modelo romântico do pesquisador

renascentista que procura saber tudo. Inclusive o próprio exemplo deveríamos tomá-lo

cum granum salis, para o qual valeria unicamente se mudássemos de figura intelectual e

nos fixássemos em um pesquisador contemporâneo, igualmente francês e famoso, não

classificável como durkheimniano, e duramente castigado pela crítica acadêmica

precisamente por sua posição heterodoxa dentro da academia, por sua posição crítica

(sua obra é uma bela mostra de como a epistemologia leva indubitavelmente à crítica e

não ao contrário, por isso é bela). Me refiro a Pierre Bourdieu e seu seguinte

testemunho:

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Gil Villa; Fernando. O que significa pesquisar? Exorcismo do trabalho de pesquisa.
Tradução: Hildegard Susana Jung São Paulo: Edições Hipótese, 2017.
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Sem dúvida é o empenho por “viver todas as vidas”, da qual fala
Flaubert, e por aproveitar todas as oportunidades de penetrar na
aventura que constitui cada vez o descobrimento de ambientes novos
(ou, de forma lisa e rasa, a excitação de iniciar uma nova pesquisa) o
que, unido à recusa da definição científica da sociologia, me levou a
interessar-me pelos mundos sociais mais diversos (BOURDIEU,
2006, p. 94).

O sentido desta reflexão é, ao contrário, mostrar a castração que leva este

sistema da vontade e a curiosidade intelectual treinada de nossos cientistas, algo que

sem dúvida deve se refletir em uma diminuição do potencial criativo e original de nossa

produção nacional.

As nefastas consequências não só afetam o agregado, como também e

principalmente, o indivíduo. O sistema condiciona a trajetória do pesquisador, ata-o

literalmente ao primeiro tema investigado, como pedra que deverá arrastar por toda a

sua existência, triste réplica de Sísifo ou, se preferirmos, como a cruz que converterá

sua carreira em um calvário.

Todo pesquisador enfrenta assim um poderoso dilema. Se decide se desfazer do

estigma inicial, do pecado original representado pela juvenil escolha de um tema de

pesquisa, arrisca-se a ser sancionado pelo sistema acadêmico, limitando-se às

possibilidades de promoção.

Se, pelo contrário, seguir uma linha de pesquisa, sentirá que trai seus interesses

pessoais.

Não importa o que decida, pagará um preço alto. A maioria dos pesquisadores

cede à chantagem do sistema e paga, por conseguinte, o preço da frustração pessoal. Ao

final de sua vida acadêmica e de pesquisadores, exibirão, na melhor das hipóteses, um

excelente currículo, e a honra que concede o prestigio social da cátedra e da categoria

de professor emérito. Mas à medida que passar o tempo, não poderão evitar uma

reflexão desoladora em forma de dúvida existencial sobre sua opção perante o dilema

enunciado.

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Tradução: Hildegard Susana Jung São Paulo: Edições Hipótese, 2017.
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Ao final de tudo, na cena simbólica do leito de morte, (real ou antecipada) esse

aguilhão será mais doloroso que nunca. Cada vez que empreenderam um projeto,

puderam corrigir o rumo, voltando-o para o interesse pessoal. Mas não o fizeram.

Quanto mais rica tenha sido sua trajetória, mais oportunidades tiveram. Talvez dez, ou

vinte. Pior ainda, mais culpados se sentem. Em sua solidão, os méritos reconhecidos

ficarão embaçados pela névoa da vã ilusão. A angustiante sensação de ter traído,

enganado a si mesmos, se fará inevitável. O reconhecimento certificado pelo sistema

perde sua potência consoladora. Se pudessem, voltariam atrás e se arriscariam, esse é

seu último e inconfessado pensamento. Se pudessem, desafiariam o sistema, como teria

feito Durkheim. Se pudessem, optariam por uma bela e original trajetória no lugar de

uma consolidada. Porque a coerência bem entendida é a que se deve à curiosidade

intelectual de cada um, e a mal-entendida, a que se mostra eternamente devedora com as

eleições prévias, incapaz de superar-se e reinventar-se, única forma de tornar o trabalho

de pesquisa agradável.

Por que a especialização se converte em um seguro anti-risco quase obrigatório

para o pesquisador? Porque a atividade investigadora se concebe como uma extensão

dos valores culturais da civilização burguesa. Os investigadores atuam como

exploradores que competem por marcar o território virgem com a dupla bandeira,

pessoal e disciplinar, da patente e dos direitos de autor registrados. As citações

acadêmicas são uma imposição, um pedágio que deverá ser pago obrigatoriamente no

futuro pelo resto dos viandantes, como reconhecimento do direito básico à propriedade.

Tal tema, tal tratamento de tal tema, são domínio do doutor tal e da sua disciplina.

O pesquisador adoece do complexo de conquistador. Busca com ansiedade um

território virgem onde possa se instalar, precisa ser o primeiro a escrever sobre o tema,

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dar fé em seu diário de campo, que como tal atua simbolicamente seu trabalho. Uma vez

que o conhecimento se traduz em domínio, não pode evitar sua deriva em dominação.

Para o herdeiro da civilização burguesa, sobre cujas costas recai o peso de seu

próprio destino, a esposa virgem supõe menos riscos que a mulher cujas experiências a

colocam em uma situação de igualdade. Assim também o pesquisador arrisca menos, se

for o primeiro a se pronunciar sobre um tema. Daí que títulos e subtítulos consistam em

longas cadeias de níveis e variáveis delimitadoras de zonas aparentemente novas.

Os testes de virgindade constituem um protocolo que os avaliadores se limitam a

aplicar previamente porque simplifica seu trabalho. Apresentada como questão de grau,

quanto menos tocado esteja o objeto (de estudo), menos necessário será submetê-lo a

testes de contraste.

A originalidade funciona como desculpa, um mecanismo de defesa baseado na

racionalização. No fundo, bate o medo e a avareza da acumulação.

Os problemas analisados não sabem nada de disciplinas especializadas, de

enfoques teóricos e metodológicos, e de identidades investigadoras. Entretanto, são

classificados e etiquetados com nomes e sobrenomes, associados, por sua vez, a nomes

e sobrenomes daqueles os obrigam a guardar para sempre uma relação de filiação. Por

isso as marcas, bandeiras ou batizados, funcionem como estigmas e forcem a realidade a

obedecer às aparências.

O incremento constante dos títulos dos trabalhos de pesquisa anuncia para onde

leva esta política de terra queimada. Cada vez fica mais difícil encontrar um espaço, um

pedaço de terra não trabalhado. Na atualidade, o neófito tem a impressão, mais que

nunca, de que tudo já foi dito. Uma busca provisória e superficial na Internet com as

palavras clave do tema a investigar indica a saturação do espaço.

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Os nomes dos pesquisadores saltam na rede com a rapidez desesperada dos

peixes recém pescados que ainda têm a ilusão de voltar a ser livres. Em dezenas,

centenas, desejam ser reconhecidos.

Ou então, se preferirmos usar a metáfora espacial, de novo devemos falar de

nichos mortuários. O resultado é o mesmo. O pesquisador deve, neste caso, transpassar

cada vez mais múltiplos estratos para encontrar um lugar no qual repousar. Tendo se

multiplicado exponencialmente as revistas especializadas e as de divulgação, os artigos

de imprensa e as publicações eletrônicas, é como se os temas estivessem envoltos em

camadas e mais camadas de sudários sobrepostos.

O efeito de mumificação é surpreendente. O pesquisador se vê a si próprio como

um médico legista ou como um arqueólogo especializado em sepulturas: deve escavar

muito para conseguir encontrar algo de vida.

O problema, então, emergindo mais um nível na cadeia de metáforas, é o lixo,

um problema derivado da civilização burguesa. Montanhas de papel inútil crescem

constantemente em bibliotecas e arquivos de universidades, fundações e todo tipo de

organismos.

Quando o papel já não consiste no suporte fundamental, mais evidência haverá

de sua inutilidade, medida pela probabilidade de cada escrito de receber visitas. Quando

se complete o ciclo de desmaterialização da informação ao longo deste século, se

comprovará, contudo, o equívoco que supõe pensar que, por fim, se cumpre aquilo de

que o saber não ocupa espaço, graças a sua digitalização.

As gravações de dados comprimidos até o inimaginável atuarão de maneira

invisível, mas como potentes minas, semeadas por toda parte e dispostas a saturar a

atmosfera com suas ondas e sua luminescência perante um eventual tropeço em uma

fonte de energia.

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Tradução: Hildegard Susana Jung São Paulo: Edições Hipótese, 2017.
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De qualquer modo, um modelo de conhecimento baseado na dominação e na

acumulação tem um problema com o lixo, porque o pesquisador passa o tempo

separando e descartando material.

Nisto, se adverte uma coerência com seu papel de cidadão consumidor. Assim

como o consumo, em nossa época, deixa cada vez mais de ser um meio para satisfazer

necessidades, para funcionar como sob a força da inércia, como uma instituição

desengonçada que tudo substitui, retroalimentando um mundo sem âncoras, assim

também a especialização do pesquisador deixa de ser funcional, uma vez que foi

transpassado certo umbral.

Então, suas propriedades positivas se invertem. O objetivo de diminuir os riscos

via especialização deixa de ser rentável quando o bem escasso, o nicho espacial onde

“pôr o ovo” se torna demasiadamente escasso.

Nesse caso, o seguro anti-risco chega a ser incompatível com o investimento em

capital humano feito pelo pesquisador, portanto, no plano microeconômico. No plano

macro, a vantagem das economias externas provocadas pelas pesquisas pode não ser

compensada pela quantidade de investimentos públicos e privados no financiamento de

projetos se for cumprida a dupla condição de que o sistema científico se torna

demasiadamente conservador (promovendo os seguros anti-risco) e ao mesmo tempo

ostenta um funcionamento inercial.

Um ritmo vertiginoso com um aumento exponencial dos pesquisadores e da

frequência de sua produção é simplesmente incapaz de ser digerido (divulgado) pela

sociedade. Isso na melhor das hipóteses, ou seja, supondo que os conteúdos sejam

relevantes para a resolução dos problemas sociais.

A situação hipotética descrita pode não ter as mesmas probabilidades de

materializar-se em todas as partes. O perigo é mais real em países pioneiros em matéria

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de pesquisa e muito menos em países como a Espanha, ainda na segunda década do

século XXI, lastrados por una cultura política pouco consciente de sua importância, a

julgar pela porcentagem do PIB dedicado a este capítulo, muito abaixo da média

europeia.

O fato de que haja cada vez menos espaços disponíveis, ao mesmo tempo em

que aumenta as exigências de formação dos pesquisadores, supõe um incremento do

estresse que se combate com falsas soluciones, todas elas dentro da mesma linha da

procrastinação.

O aprendiz desenvolve a obsessão pela acumulação de pontos em sua formação

(cursos, diplomas, comunicações em congressos, participação em publicações), em vez

de centrar-se na reflexão paciente que exige o tema que lhe preocupa.

Reflexão paciente significa sempre zelo, estabelecer uma relação positiva com o

trabalho de pesquisa, longe do estresse.

Também aqui se adverte o temor de enfrentar, sem prazos, respeitando seu

biorritmo e o da própria temática.

Procrastinação, igualmente, quando prefere dedicar suas energias para buscar um

dos escassos espaços em vez de dedica-las a enfocar um tema já trabalhado a partir de

uma perspectiva interdisciplinar. Ainda que o inter ou transdisciplinar seja

politicamente correto, tal perspectiva exige uma mudança de mentalidade para a qual

não está preparado. Entre outras coisas, porque é mais compatível com um enfoque

generalista que com um baseado na especialização. Perante a contradição, prevalece o

traço mais integrado no restante das características do sistema, em seu contorno

conservador. Por isso, tantos casos de teses e trabalhos que se dizem interdisciplinares,

mas não são. Ou o curioso espetáculo de tantos estudos de pós-graduação

interdepartamentais, portanto, com formação interdisciplinar, que acabam parindo,

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contudo, teses muito disciplinares, ou porque a formação acadêmica recebida está

desconectada do trabalho de pesquisa final (o qual deveria ser entendido como um

indicador de fracasso da organização desses estudos), ou porque é incoerente e

fragmentada (outra falha), ou ainda porque o espírito interdisciplinar é falso, algo

puramente formal, mera propaganda para captar matrículas, mas desmentido depois pela

postura pragmática dos departamentos associados, que competem por orientar os

trabalhos e que obstaculizam de diversas formas as tentativas de mudança levantadas

pelos estudantes, em relação com o tema ou o departamento, ou a fórmula da co-

orientação.

Se o uso da especialização como seguro anti-risco leva o aprendiz de

pesquisador a desconsiderar temas muito trabalhados, apesar de que lhe atraiam e de

que constituam problemas socialmente relevantes no sentido de que preocupam a

comunidade, se o fizer, porque concebe de forma preconceituosa a originalidade como

algo que ninguém ainda disse sobre o tema; então, é claro que esse mesmo temor e a

mesma atitude conservadora o levarão a fugir da prática dos tratamentos

interdisciplinares, posto que estes obviamente multiplicariam o trabalho e a ansiedade

de enfrentar montanhas ingentes de antecedentes.

Entretanto, se equivoca. Porque as combinações de coisas ditas a partir de

diferentes perspectivas teóricas são não só infinitas e, portanto, originais, como também

muito mais produtivas e, portanto, aproveitáveis pela sociedade que espera respostas.

Definitivamente, a estratégia da especialização, baseada no medo, a estas alturas

da sociedade da informação e do conhecimento, de não se submeter a limitações através

de reflexões como a que aqui se tenta, parece aumentar mais do que diminuir a

satisfação, tanto dos trabalhadores da pesquisa, como da sociedade que se beneficia de

seus resultados.

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3.4. O risco da implicação emocional

O mesmo temor profundo que leva o pesquisador a não assumir riscos com o

estilo e as ideias, fará com que tenda a interpretar mal e exagerar o simples e higiênico

princípio do distanciamento com o objeto de estudo.

Não negaremos aqui que a relação com o problema estudado, tratando-se de

ciências sociais, é um assunto delicado, pois as “coisas sociais” se encarnam em atores

de carne e osso, sendo no fundo suas esperanças e sofrimentos os que estão em jogo.

Dois tipos de soluções cabem a respeito. Ou se opta por uma estratégia de

reajustes contínuos que, não obstante permitem marcar tempos desiguales, ou se opta

por uma estratégia radical que elimina o problema de raiz (morto o cão, se acabou a

raiva). É esta opção a que menos risco e vigilância epistemológica exige por parte do

pesquisador, a mais recomendada e conseguintemente a mais seguida.

Ao aprendiz se inculca desde os primeiros anos de formação o medo de

empalidecer com o objeto de estudo, o medo de misturar-se no jogo, de envolver-se

emocionalmente.

A verdade é que todo pesquisador tem, a priori, uma postura geral sobre o tema,

pautada nas hipóteses de trabalho.

Mas, principalmente, não podemos perder de vista que todo trabalho de pesquisa

tem por finalidade precisamente ajudar a assumir uma postura com relação ao problema

analisado.

Obviamente, durante o parêntese da análise, o estudioso deve tentar ser o mais

objetivo possível, ou seja, deve tentar levar em conta argumentos a favor e contra, o que

o leva a desempenhar o papel de advocatus diaboli, papel no qual supostamente poderia

não se encontrar muito à vontade.

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Entretanto, conforme vai adquirindo experiencia, o pesquisador deve conseguir

interpretar tal papel como se fosse uma dramatização teatral, o que significa que deve

conseguir entender a análise como um jogo e encontrar certo prazer na interpretação.

O bom ator de teatro é aquele que alcança o difícil equilíbrio mental de usufruir

da interpretação do papel de mau, sem que por isso sua personalidade sofra uma

reorganização simbólica e se modifique pelo rótulo. Além disso, expressando-nos em

termos literários, conviríamos que aquele que desce ao inferno estará mais consciente

para lutar contra os horrores que causam sofrimento, do aquele que o contemplou à

distância.

Nesse sentido, o trabalho de pesquisa deve servir, paralelamente, para

conscientizar a população da importância do problema social em questão, o que

geralmente leva a uma mudança de opinião consistente na substituição de preconceitos

por argumentos e provas aduzidas.

A relação entre esse objetivo geral e a tomada de postura individual do

pesquisador é um tema agregado, não carente de interesse. Pode-se exigir do mesmo

uma coerência entre os resultados do trabalho e suas ações posteriores? Obviamente que

sim.

Nunca entendi em nome de que alguns desculpam e ainda justificam com um

sorriso as excentricidades do gênio quando estas humilham ou inclusive ferem os

direitos dos outros.

Fora desse extremo, sigo sem compreender muito bem como é possível que um

pesquisador do câncer que descobre que o tabaco é cancerígeno, continua fumando

(considerando, é claro, que não quer se suicidar).

Se ao estudar as problemáticas juvenis, observamos que grande parte do mal-

estar e da desorientação vem da diminuição do capital social que os pais dedicam aos

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seus filhos em termos de tempo, daí se deduz, logicamente uma recomendação em

sentido contrário. Supondo que o pesquisador seja pai, e no caso de não seguir seus

próprios conselhos, poderia ouvir de certos colegas um comentário engraçado: “em casa

de ferreiro, o espeto é de pau”.

Este cinismo corporativista, amparado no senso do humor popular, é uma

expressão inconsciente e patética de um conflito não resolvido entre o pesquisador e seu

objeto de estudo. Para solucioná-lo, o pesquisador deveria dedicar um tempo vital à

reflexão sobre o sentido de seu trabalho e suas repercussões na sociedade e em sua vida

pessoal. De outra maneira, suas opiniões e decisões serão provisórias; as explosões que

provocam as contradições, ao não estar controladas, poderão causar mal-estar, tanto

nele, como nos outros.

A estratégia radical que mata o cão para matar a raiva, uma espécie de taoísmo

eterno, em certas ocasiões pode levar a situações extremas nas quais a ciência se

enfrenta com a ética. Assim é o caso desse observador do mundo animal que narra e

filma a lenta agonia e morte de um filhote de cachorro de uma espécie selvagem ao qual

sua mãe não alimenta o suficiente perante a presença competidora do irmão. Ou então, o

investigador que desafia o código deontológico e é capaz de conduzir experimentos com

pessoas, abusando de sua condição econômica desfavorável, ou de seu desespero

perante uma doença, ultrapassando os limites de sua humanidade.

No ano de 2012, ante o recrudescimento da crise econômica e o implacável

aumento da pobreza e da desigualdade no mundo inteiro, mas especialmente na

Espanha, o lema da campanha de Cáritas, una das organizações mais ativas nessa luta, é

esclarecedor para esta reflexão: viva de maneira simples para que, simplesmente, os

outros possam viver.

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O fato de que devemos nos dedicar aqui a discutir sobre a implicação emocional

do pesquisador não é um sinal muito bom. Tal implicação é um requisito fundamental

para não perder a conexão das pesquisas com os direitos fundamentais, a cujo serviço

devem trabalhar sempre e em todo o tempo. Isto implica, por definição, ter que correr

certos riscos nas decisões que rodeiam o trabalho de pesquisa, buscando abrir as portas

da coerência entre o nível pessoal e o social, e desafiando opiniões populares e

consignas de atores em posição de poder.

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4. O paradigma do pesquisador como anti-herói

4.1. Aprendendo com as telenovelas

Se o paradigma do pesquisador como herói se inspira na alta cultura, seja em sua

versão enciclopédica ou essencialista da literatura clássica e da poesia em particular, o

paradigma do pesquisador como anti-herói pode se inspirar nas expressões da cultura

popular, tais como as telenovelas.

Antes de iniciar a reflexão, convém esclarecer que a finalidade deste livro não é

o repúdio às manifestações da cultura clássica, pois o paradigma proposto não pode

fazer com que sua identidade se constitua em uma reação, nem os motivos para cultivá-

lo são exclusivamente defensivos. Não se trata de uma categoria negativa em um

sentido rigoroso, apesar de que, em certas ocasiões, a forma com a qual nos

expressamos, como quando nos referimos ao anti-herói, cause essa impressão.

O objetivo final não é criticar e tentar desbancar uma forma de fazer as coisas

em matéria de pesquisa, mas conseguir que os pesquisadores concebam seu trabalho de

forma atrativa e gratificante, e inclusive dar um passo à frente e superar a brecha que

existe entre a elite acadêmica e o leigo, de maneira que a chamada divulgação científica

vá além dos interesses da indústria editorial ou da bem-intencionada retórica de uma

política educativa ilustrada, potencializando a pesquisa em todos os âmbitos e níveis,

como uma espécie de jogo ou passatempo criativo que estimula a curiosidade.

As telenovelas possuem grande popularidade em boa parte do globo terrestre.

Seus roteiros são maniqueístas. Os atores se dividem em dois grupos, os bons e os

maus. Depois, a audiência, formada por atores sociais, amplifica as histórias narradas

com base no mecanismo da identificação, o qual não está isento de contradições. De

fato, seu exame é o núcleo de nosso comentário analítico.

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Na maioria dos casos, a história tem um final feliz. Entretanto, o telespectador

deve sofrer até chegar ao mesmo. De fato, seu gancho consiste em uma continuação de

batalhas que formam uma constelação de histórias satélite ou secundárias em torno de

um casal de atores principais, tudo isso com resultado incerto e dotado do componente

ineludível da surpresa.

No momento de elaborar o roteiro, o escritor optará por dois grandes tipos de

esquemas pré-determinados. Ou “uma de cal e uma de areia”, ou então, “uma de cal por

várias de areia”. No primeiro caso, por cada vitória dos bons ocorre outra dos maus. No

segundo caso, assistimos uma sequência de triunfos do mal, uma curva ascendente que

se inverte de forma apressada, após um ponto de inflexão mais ou menos distante, um

parêntese temporal que dará lugar à repetição do ciclo. A maior parte dos roteiros se

inclina por este segundo esquema, que se rege mais pelo padrão da teoria das catástrofes

ou dos sistemas não lineares, do que pelo esquema explicativo geral, normal, de causa-

efeito. Isso se deve a que o desenlace é positivo e, portanto, não tem relação com “o

histórico” do caso. O previsível, o que se esperaria na vida real, é uma vitória final das

forças do mal. Ao acontecer o contrário podemos deduzir que as histórias não são reais,

mas fictícias.

São reais, não obstante, suas consequências, em termos de aprendizagem social.

Em efeito, sabemos que o comportamento desviado pode ser aprendido através do

mecanismo da imitação, dentro de um conjunto complexo de fatores que aumentam as

definições desfavoráveis à norma (Akers y Jensen, 2009, p. 41). A influência das

telenovelas entraria dentro da categoria de observação indireta do comportamento de

outras personas, ante a observação direta, como a derivada das relações familiares. Por

sua vez, os modelos indiretos podem ser extraídos de várias fontes, dentre as quais se

destacam os meios de comunicação, podendo distinguir entre personagens reais e

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fictícios.

É interessante destacar como, no caso das telenovelas, essa última diferença

tende a se dissipar ao concretar-se em roteiros que distanciam o gênero da ficção do

subgênero fantástico, aproximando-o o máximo possível da realidade dos

telespectadores. Para isso, se servem de um conjunto de técnicas de aproximação, entre

as que se destacam as próprias situações (tramadas, via de regra, em torno da

competência pelo êxito, um fim cultural bem definido em apresentações sociológicas

clássicas como o de Merton), o uso de formas de falar específicas de diferentes grupos

sociais, ou os cenários urbanos e rurais atuais.

Frequentemente, um ou vários personagens perdem o sentido da realidade. Não

parece que o recurso da alienação mental possa se justificar somente por seu atrativo no

argumento, a teor de seu uso recorrente e de sua definição reduzida ao sintoma das

alucinações. É muito provável que cumpra também uma função meta-literária, destinada

a reforçar a ideia básica de mesclar a realidade com a ficção. O objetivo último

consistiria em fazer com que o telespectador consiga se introduzir de tal forma na

telenovela, que a siga com tanta paixão, a ponto de esquecer-se de todo o resto,

“compartilhando” com os personagens suas experiências, integrando a história a sua

vida, realizando comparações, falando dela com seus familiares e amigos. Por esse

caminho, pode chegar a confundir, em algum grau logicamente relativo, a realidade com

a ficção, da mesma forma que o personagem que se transforma enlouquecendo,

imaginando cenas e conversas não reais. Os “seguidores” mais fanáticos das

telenovelas, mais autênticos deveriam experimentar as mesmas metamorfoses através da

identificação. Assim também como acontece em Dom Quixote, alguém poderia ver

tantas telenovelas, a ponto de “seguir” os passos de seus protagonistas favoritos.

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O veículo para conseguir aproximar-se mais ou menos a esse extremo é,

logicamente, a identificação. É neste ponto onde se situa a parte central de nosso

comentário, o lugar de onde podemos tirar mais frutos para nossa reflexão geral sobre a

pesquisa.

Se perguntarmos a um telespectador com quem se identifica, provavelmente

responderá que com os bons. Tal resposta é previsível, mas parcial e incorreta. Dado

que a novela usa, como dito, o maniqueísmo, fazendo dos personagens tipos ideais onde

se concentra o bem ou o mal, o ator social não pode se identificar plenamente com

nenhum dos dois, mas com uma mescla. Por debaixo da razão aduzida, explicita, que

funciona como racionalização psicológica a serviço da idealização do eu, ao mesmo

tempo em que, como desculpa politicamente correta destinada a obter benefícios nas

relações, existe uma razão oculta, implícita e inconsciente: a comodidade. Os

personagens bons das telenovelas se deixam levar pela suave corrente da vida cotidiana

que vai modelando seu destino. Constantemente, se escutam comentários nos salões dos

telespectadores nos quais se atrevem a criticar carinhosamente ditos personagens,

qualificando-os de tolos, “bobos” demasiadamente ingênuos. E a ingenuidade - cápsula

na qual vem envolto o coração nobre e admirado do ser bom - outorga ao

comportamento do ator uma visível lerdeza. Nela flutua e com ela obtém, assim, uma

sensação de doce rendição perante o destino que lhe aguarda. As atitudes perante a vida

que denota são, portanto, a passividade e a resignação, as quais conectam muito bem

com a comodidade que busca e na qual está instalado o telespectador em seus

momentos de lazer.

Pelo contrário, demora mais a identificar-se com os maus, além do plano moral,

no plano intelectual, porque sua atitude é mais exigente. Sua curiosidade é proverbial,

os leva a farejar em todos os cantos, a desconfiar das pessoas, as coisas e as palavras.

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Gil Villa; Fernando. O que significa pesquisar? Exorcismo do trabalho de pesquisa.
Tradução: Hildegard Susana Jung São Paulo: Edições Hipótese, 2017.
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Essa atitude básica de desconfiança faz com que se apliquem a uma infinidade de

pequenas averiguações, esquadrinhando os pequenos detalhes, contrastando as

informações, seguindo os outros personagens como se fossem detetives particulares.

Em realidade, atuam como tais, como pesquisadores da vida privada. Têm

vocação par ser pesquisadores, desenvolvem as habilidades necessárias para sê-lo,

contam com a capacidade mais valiosa, a curiosidade, e estão dispostos a “trabalhar”, a

não economizar recursos, não tanto o dinheiro, como o tempo e a imaginação. Mostram-

se como grandes mestres na arte de imaginar coisas. Compreende-se agora porque, em

qualquer momento, como acontece com os gênios da pesquisa científica, podem perder

a cabeça, como sinalizamos há pouco.

Os maus das telenovelas, enfim, são um bom modelo para aprender a pesquisar,

para afiar as garras da pesquisa, no plano cognoscitivo, porque são os únicos que optam

por revelar o mundo das aparências, de rasgar o véu fenomenológico que cobre as

coisas, de questionar o saber do senso comum, a realidade que se dá por certa.

Precisamente por dá-la por certa (por deixar-se levar, por estarem sentados

vendo a vida passar) constantemente, é que os bons se convertem continuamente em

vítimas potenciais do mundo que os rodeia, em sofredores e maus sobreviventes.

Essa grande diferença é a que faz com que os maus tenham o poder. Seu poder é

o poder que outorga o saber. O saber somente se obtém através da pesquisa. A pesquisa

é mais uma atitude que um método científico. Os maus das telenovelas, ao se

questionarem o mais trivial, se afastam da coisa observada, conseguem distanciar-se

dela e, por isso mesmo, conseguem controla-la. O controle sobre as coisas e as pessoas

se conquista da mesma forma: quanto mais saibamos sobre elas, ainda que sejam

pequenos detalhes, quanto mais informação esteja em nosso poder, mais poderemos

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Gil Villa; Fernando. O que significa pesquisar? Exorcismo do trabalho de pesquisa.
Tradução: Hildegard Susana Jung São Paulo: Edições Hipótese, 2017.
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dominá-las. Assim poderemos ir ao mercado das relações para trocar conhecimento por

poder.

Deste pensamento podemos deduzir o protótipo de ator social que abunda em

cada época e em cada lugar. Os grupos sociais majoritários alcançarão certa pontuação

em uma escala de menor a maior atitude pesquisadora. Não é fácil pronunciar-se neste

sentido sobre a influência das telenovelas nas audiências massivas e nos tempos atuais,

consideradas como meio de socialização no duplo plano analisado.

Inclusive poderíamos pensar, como se deduz do raciocínio que se acaba de

expor, que seus efeitos são contraditórios em ambos casos. Uma identificação centrada

na dimensão moral suporia uma socialização centrada no valor da confiança. Centrada

na dimensão intelectual, pelo contrário, fomentaria orientações baseadas na

desconfiança. Ambas funcionariam como filtros das crenças e ideias que conformam a

opinião pública da comunidade e da qual faz parte a audiência. Também se projetariam

em decisões tomadas no plano da vida cotidiana. A opção por um ou outro estilo

obedeceria, por sua vez, a fatores de personalidade e a cosmovisões e ideologias dos

grupos primários aos que pertence cada indivíduo, assim como de estruturas sociais

mais amplas nas quais se veem envolvidos, como a classe social, em suas distintas

versões.

De qualquer maneira, ambas orientações não deixam de provocar um conflito na

identidade e consciência de cada telespectador que se resolverá provavelmente de forma

incompleta na maior parte dos casos. O instinto de sobrevivência pode chegar às classes

populares, aprendendo as artes da pesquisa dos personagens rotulados social e

previamente como desviados por um processo parecido ao da osmose, não assumido

conscientemente, mas valioso para aumentar em pequenas doses o controle sobre o duro

mundo no qual lhes restou viver. Expressado em termos retóricos, de ser isto assim, as

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Gil Villa; Fernando. O que significa pesquisar? Exorcismo do trabalho de pesquisa.
Tradução: Hildegard Susana Jung São Paulo: Edições Hipótese, 2017.
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telenovelas cumpririam uma função social útil para o povo, justo o contrário do que a

crítica intelectual acadêmica tem interpretado tradicionalmente, na linha de uma espécie

de equivalente funcional da religião que na melhor das hipóteses adormece (um ópio

simbólico) e no pior dos casos, os submete à violência (também simbólica) da

aculturação em valores estranhos, os das classes médias.

A operação perfeita, desde o ponto de vista da epistemologia, consistiria em

aprender com os maus das telenovelas as técnicas de pesquisa, as quais incluiriam as

estratégias encaminhadas fundamentalmente a detectar as mentiras ditas por atores

individuais e coletivos, seu tipo e função, assim como os usos linguísticos e as

justificativas morais, junto com um desenvolvimento da curiosidade intelectual como

ingrediente básico e exercitável da inteligência. Consistiria em aprender tudo isso para

colocá-lo a serviço do trabalho geral para diminuir o sofrimento imediato e próximo dos

outros.

As telenovelas ajudam a desenvolver as qualidades que a pesquisa exige,

demonstram que todo mundo pode pesquisar e que esse trabalho pode ser concebido

como um estilo de vida curioso que garante mais felicidade que muitos outros, pois

reencanta o mundo, compensa o angustiante niilismo dos tempos modernos.

O mal-entendido é um dos recursos centrais nos quais se baseiam as telenovelas.

É interessante finalizar esta reflexão sinalizando como o próprio gênero é vítima de suas

próprias armas. Talvez a melhor forma de reunir esta ideia seja voltar à expressão

metafórica que usamos ao princípio para referir-nos à estrutura que seguem os roteiros.

Observávamos como estes últimos parecem seguir o esquema: “uma de cal e uma (ou

várias) de areia”. Pois bem, se perguntamos pelo significado desta popular frase

espanhola na Internet, como em uma espécie de pré-teste, antes da entrevista à

população em geral, veremos que a maior parte das respostas que aparecem nos fóruns

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Tradução: Hildegard Susana Jung São Paulo: Edições Hipótese, 2017.
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concebem a areia como o ingrediente nobre, associada ao “bom”, e a cal, como oposto,

“mau”, talvez porque a cal queima, destrói, enterra.

Trata-se, contudo, de um preconceito. A origem desta frase feita teria que ser

buscada, ao que parece, no âmbito laboral da construção no qual se usa uma mistura de

cal e de areia denominada “argamassa”. Em épocas passadas, entretanto, o elemento

escasso e, portanto, o mais valioso, era a cal, pelo que em muitas ocasiones a mistura

tinha mais proporção de areia (BUITRAGO, 2009, p. 163). Depois de conhecer os

antecedentes, nossa metáfora cobra ainda mais sentido. As aparências enganam. O pior

da argamassa não é a cal, mas a areia. O pior das telenovelas são os bons, porque com

sua falta de senso de pesquisa, não sabem interpretar o mundo, nem podem, por

conseguinte, ensinar-nos a conhece-lo e controla-lo. Os bons nos levam (como modelo)

à autodestruição, ao desarmar-nos, ao ajudar-nos com suas atitudes passivas e

resignadas a converter-nos em vítimas. Nesse sentido profundo, os bons representam a

cal, um material caracterizado por sua capacidade para queimar, para destruir.

A cal, como os bons, arrasta a vida para a morte, empurra o mundo para sua

extinção. A areia, como os maus, salvaguarda o intento desesperado da sobrevivência.

4.2. Tipos ideais de pesquisador: explorador, detetive ou poeta

Um convite à pesquisa passa por desconstruir um paradigma consolidado que

em vez de convidar, dissuade. Sendo conscientes dos múltiplos preconceitos que

lastram essa aproximação tradicional, é necessário mostrar as habilidades potenciais que

todos temos para desenvolver trabalhos de pesquisa. Pode ser que estas obedeçam a um

mesmo impulso geral de curiosidade. Entretanto, tomam diferentes formas, adotam mais

ou menos riscos, expressam caracteres distintos e inclinações éticas que podem chegar a

ser opostas. A seguinte classificação tem um valor didático, mais que teórico. Pretende

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Tradução: Hildegard Susana Jung São Paulo: Edições Hipótese, 2017.
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unicamente imaginar figuras facilmente identificáveis no universo místico dos ofícios

que se baseariam na capacidade intuitiva para pesquisar. Por sua vez, cada tipo admitiria

duas grandes variações na hora de canalizar essa energia, vias que coincidem a grosso

modo com a valorização da responsabilidade ética do investigador.

Tipos intuitivos de pesquisador

Curiosidade Caráter Subtipos

Explorador Tranquila Extrovertido 1) Peregrino

2) Colecionador

Detective Excitante Desconfiado 1) Justiceiro

2) Jogador de xadrez

Poeta Inquieta Introvertido 1) Amigo

2) Amante

É certo que todo ser humano necessita orientar-se. Alguns, contudo, fazem ou

poderiam fazer desse impulso básico o centro de sua existência. Pode ser que, no fundo,

todos gostemos de descobrir coisas novas. Nesse caso, será necessário dizer que é

apaixonante. É fundamental compreender que a descoberta é, por definição,

ambivalente. Por um lado, surpreende. Por outro, classifica o mundo que nos rodeia. A

descarga de adrenalina cede à tranquilidade que nos outorga o conhecimento do meio.

O descobridor traça mapas e reconta o estoque. Entrevista.

O pesquisador explorador tem espírito censitário, no sentido mais amplo do

termo. Esteja onde esteja, “dará uma volta” sempre que seja possível. Observará os

lugares e falará com as pessoas. Elaborará uma lista mental de quem é quem, onde vive

e o que faz. Em algumas ocasiões, sua curiosidade “tranquila”, paga ou não, lhe renderá

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Tradução: Hildegard Susana Jung São Paulo: Edições Hipótese, 2017.
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maus bocados. Recordo que enquanto terminava a graduação de Sociologia, comecei a

fazer entrevistas em um bairro de classe média de Madri. O susto que nos causavam os

cachorros de algumas casas, imprevisível, nos ensinou uma das primeiras lições da

pesquisa, a saber, que a realidade resiste a ser investigada.

Também aqui o movimento é duplo e paradoxal. A “chamada” tira o cidadão de

sua rotina. A saudação do explorador é bem-vinda, traz notícias, recompõe o mundo,

reorganiza as informações. Mas também pode incomodar, “tirar do normal”, alterar o

mundo que damos por certo. O aprendiz de pesquisador deve saber, portanto, de

antemão que, como a vida, as ações da pesquisa requerem riscos se quiserem

desenvolver-se e enriquecer.

O explorador admite dois subtipos. À diferença do detetive, o peregrino parte da

premissa da bondade dos vizinhos, da hospitalidade da raça humana. O peregrino é um

cosmopolita. Ao projetar sua figura nos demais, todos os habitantes do planeta se

convertem magicamente em seus hóspedes.

Através deste artifício, vai forjando sua identidade no caminho, nas interações

reais ou simbólicas.

Ao apresentar-se, se auto representa e se auto classifica.

Como a atividade central consiste na viagem, não pode aprofundar nas relações,

diferentemente do poeta. À luz da fogueira, todas as tardes, a conversa com outros

peregrinos leva à confissão, dá a impressão de que a confiança se desborda como um

rio. Obviamente, trata-se de uma ilusão de ótica provocada pela magia do misticismo. A

realidade exige tempo para a amizade. A “rede social” do peregrino cresce diariamente.

O número de “sujeitos entrevistados” se multiplica.

A moral do colecionador parece opor-se à do peregrino. Este aspira a

reconciliação com uma natureza que supõe prenha de substância divina, que se oferece

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gratuitamente como objeto de estudo, como Outro generalizado materializado nos

companheiros do caminho, de forma que gera dívida, agradecimento.

O peregrino é altruísta. Pelo contrário, o colecionador é egoísta. No peregrino,

seu lado exterior e interior coincidem sob o domínio do primeiro. No colecionador, é ao

contrário. Sua extroversão é somente um meio. O peregrino é feliz compartilhando

almoços no campo. Sua intimidade quase não existe porque se funde com o espírito do

mundo.

O colecionador, contudo, necessita desfrutar sozinho de seus troféus. Ali

submete a informação coletada a infinitos e secretos “cruzamentos”. Os publicará como

e quando quiser.

Todo colecionador é, no fundo, um fetichista. o Dado é seu fetiche. Adora a

semiótica. Seu passatempo favorito são os acrônimos: “P.P.1” (pai entrevistado em uma

escola pública, sendo o primeiro da lista).

A análise serve para dissecar e manipular as partes do objeto de estudo.

É um taxidermista. Já intui seu fantasma, seu lado escuro. Primeiro, como

ritualista. Sua insegurança o leva a organizar tudo constantemente. O controle das

coisas é um processo com vários passos: detectar, limpar, nomear e conservar. O ideal

de máxima segurança implicaria ter os dados “em conserva”.

Enquanto os dados são extensões de corpos humanos, o desvio do colecionador,

desde o ponto vista da fantasia, mas também de uma hipotética realidade, desembocaria

na figura do sequestrador. Como o protagonista do romance de John Fowles,

colecionador de borboletas, a deriva é aleatória, como se metaforizasse o importante

papel do fator estocástico das análises estatísticas, como se representasse a vingança do

acaso perante a pretensão do científico (O que estou tentando dizer é que o fato de a ter

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como hóspede sucedeu de repente, não foi algo que eu planejasse (…) Toda a ideia foi

repentina, quase como um golpe de inteligência” (FOWLES, 1999, p. 84-85).

A desconfiança move o detetive. Encarna o tipo mais noveleiro. Desconfia de

tudo. Em princípio, “pensa mal” de todos e de tudo porque acredita que “as aparências

enganam”. A questão está na forma que dá a essa força, em como a canaliza. Pode

pensar que o mundo é um imenso tabuleiro de xadrez onde se jogam partidas

constantemente. Nesse caso, a solução dos problemas é uma questão quase lúdica

porque o distanciamento é máximo. Pelo contrário, pode implicar-se emocionalmente

ao máximo, identificando-se com o papel de justiceiro. O filtro mais provável ao que se

submetem as emoções será de tipo ideológico. As pessoas ocultam as coisas por

interesse. Na maior parte dos casos, - incluídos os assuntos amorosos -, esse interesse

tem tradução material, ainda que não seja direta. E nos poucos em que não se encontra

esse rastro, a musa da justiça se colocará a roupa de sua prima irmã, a verdade.

Com respeito ao poeta, seu sentimento-guia é a compaixão. Confia mais do que

desconfia, o que o aproxima do explorador. Mas à diferença deste, prefere poucas

relações, porém, mais intensas, ou seja, inclina-se mais pelas técnicas qualitativas que

pelas quantitativas.

Dentro destas temos duas possibilidades clássicas: os grupos de discussão,

associados aos amigos, e a entrevista em profundidade individual, que poderia

converter-se em uma história de vida, e que se associaria à relação de casal. No primeiro

caso, temos o exemplo dos lakistas, esse pequeno grupo de famosos românticos ingleses

reunidos ao redor da região dos lagos. A canalização da energia da amizade reparte

também entre vários os riscos de perversão do amor em ódio.

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Entretanto, o caso a caso, mais visível na relação amorosa, a identificação com o

“objeto” pode desembocar em uniões ilícitas ou mal vistas. O risco do pesquisador-

poeta, nesta vertente, é a de todo amante, no sentido mais restrito da palavra.

Este tipo de pesquisador é mais reservado, dotado de uma grande capacidade de

conexão, de empatia. Será muito difícil não se projetar, não imputar, distanciar-se do

objeto de estudo, diferentemente do detetive jogador de xadrez. Se a figura do

sequestrador é o pesadelo (no sentido de alter ego malvado involuntário) do

pesquisador colecionador, a infidelidade e o incesto serão os fantasmas oníricos mais

temidos do pesquisador-poeta.

4.3. Um artigo para o Daily Planet: pedestres que atravessam no sinal vermelho

Imagine que você é um periodista recém-formado (ou a ponto de se formar) e

começa a trabalhar ou a fazer práticas em um jornal qualquer. O diretor ou diretora lhe

encomenda um artigo breve sobre pedestres que cruzam o semáforo com o sinal

vermelho.

É possível que você saia um pouco decepcionado de sua sala. Talvez você

gostaria de investigar algo mais interessante, como certo vazamento de informações

sobre a implicação do prefeito em um caso de corrupção. De qualquer forma, não lhe

resta mais remédio, senão colocar as mãos à obra. Por onde você começa?

Por sentar-se em sua sala e montar um breve esquema com passos lógicos. Em

primeiro lugar, você liga o computador e escreve em um site de busca: “cruzar o sinal

vermelho”. Depois você se certifica de que se trata de pedestres:

- Primeiro, busca a normativa jurídica que trate do tema;

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Tradução: Hildegard Susana Jung São Paulo: Edições Hipótese, 2017.
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- Segundo, lê algumas opiniões sobre o tema, distinguindo entre “experts”

(basicamente os típicos professores universitários e os gestores encarregados da

política viária) e fóruns, e

- Terceiro, faz anotações para, se tiver tempo, revisar na biblioteca pública mais

completa e próxima, algumas referências bibliográficas que se repetem ou

aparecem como palavras-chave à primeira vista e que você pode dividir em dois

grupos:

1) estudos, relatórios realizados por instituições públicas ou por

empresas ou fundações privadas, e

2) livros ou artigos.

É possível (e um bom sintoma), que você não se sinta satisfeito com esse

primeiro banho de informação. Agora você gostaria de abordar o tema fora da sua sala,

na vida real. Trata-se de uma segunda parte, uma segunda olhada complementar, uma

aproximação empírica do problema.

Como você poderia investigá-lo na prática? Pense, imagine.

Você pensa em ficar parado em um cruzamento de ruas e observar os pedestres.

Deveria ter um mínimo cuidado na hora de escolher o cruzamento. Seria conveniente,

por exemplo (lhe diz o senso comum), um ponto com certa complexidade, com várias

intersecções, onde apesar de que o semáforo está no vermelho, os carros estão parados,

há boa visibilidade e dúvidas e comportamentos diferentes entre os pedestres. Pode ser

que você recorde, por experiência própria, que fica nervoso nesse semáforo e que quase

sempre vê gente se atrevendo a cruzar. Suponhamos então que você fica plantado ali um

instante (pode ser sentado em uma cafeteria de onde vislumbra claramente o

cruzamento) e anota em seu “caderno de campo” (se você gosta das novas tecnologias,

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comprova se um aplicativo – app - para antropólogos urbanos) o perfil dos que cruzam

o sinal no vermelho, com o verde intermitente e olhando para os lados.

No pior dos casos, não encontrará nenhum padrão. Em tal caso, pode fazer duas

coisas:

A. Decidir investir mais tempo e munir-se de paciência. Volta ao mesmo

lugar em diversos horários, ou comparando dias úteis e feriados.

Também podes mudar de ponto de observação e comparar diferentes

bairros.

B. Mudar de procedimento. Você pode se colocar no início de um

calçadão e entrevistar ao acaso distintos transeuntes, perguntando-lhes

se alguma vez cruzaram o semáforo com o sinal vermelho, com

quanta frequência e algo mais. O acaso é também uma forma de falar,

você pode inventar formas de selecionar os entrevistados: um homem

e uma mulher, por idades, um a cada cinco, etc.

Com essa sondagem provisória, você tem uma parte da cena. Para ter uma ideia

mais completa, deveria entrevistar o chefe da polícia municipal ou alguém que possa

oferecer informação sobre denúncias e sanções a pedestres.

Suponhamos que, tanto pelo primeiro caminho, ou pelo segundo, ou seja, pelo

do padrão ou pela breve entrevista, encontras que as mulheres cruzam menos o sinal

vermelho do que os homens.

Eureka! Você descobriu uma relação! Agora precisa reforçá-la da melhor forma

possível. Em primeiro lugar, entrevistando mais pessoas, em outros pontos (ou

observando mais cruzamentos) e, em segundo lugar, voltando ao computador e às

bibliotecas e buscando em estudos sobre infrações de normas de circulação de

pedestres.

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Tradução: Hildegard Susana Jung São Paulo: Edições Hipótese, 2017.
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Pode ser que, em algum deles, os pesquisadores tenham encontrado que,

efetivamente, a variável do gênero ajuda a entender quem infringe mais essa norma.

Nesse caso, você deverá prestar atenção na definição do objeto de pesquisa que esses

trabalhos utilizaram. Seguramente não queriam averiguar, assim como você, quem

cruza o sinal no vermelho simplesmente, mas, por exemplo, quem desobedece várias

normas de circulação viária. Isso lhe ajudaria a enquadrar sua modesta averiguação em

um grupo de objetos mais amplo, mas que você pode encaixar em uma mesma reflexão,

servindo-se de um mesmo conjunto de argumentos.

Uma última averiguação e você terá material suficiente para redigir um artigo

sensato para seu jornal. Você escreve um e-mail a algum professor universitário que

tenha trabalhado com o tema, seja especificamente, sobre infrações de pedestres, seja no

seu defeito, em general, sobre segurança viária. Pede o telefone para que possa com ele

fazer uma breve entrevista, que explique a relação de género com a infração.

E isso é tudo, ainda que, obviamente, você deve considerar que esse tudo é

somente o centro de sua reflexão.

Durante todo o processo, deve tentar conduzir o assunto com flexibilidade e

senso comum.

Dissemos que você poderia não encontrar um padrão na observação nos

semáforos. Esses pequenos tropeços são normais e podem ocorrer em cada passo. O

professor que você vai contatar, por exemplo, poderia fornecer dados gerais da infração

ou dizer onde encontrá-los, mas não aportar nada especial sobre a relação de género.

Nesse caso, você deve seguir indagando até encontrar uma saída. Muda de enfoque, se

situa em um plano mais geral (neste caso, em outro pode ser ao contrário, coloca o

zoom mais longe ou mais perto na ladeira da indução-dedução). O que significa

atravessar a rua com o sinal verde? Obedecer uma norma. Estamos falando, portanto, de

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Tradução: Hildegard Susana Jung São Paulo: Edições Hipótese, 2017.
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normas e de sua ruptura. Deve ser comparável, até certo ponto, com outras rupturas. Dar

voltas à expressão “ruptura de normas”. Você precisa misturá-la em sua busca na

Internet com gênero. Assim encontrará o marco teórico que analisa porque as mulheres

rompem menos com a norma.

Quando você descobrir a existência dessa relação, desse fenómeno, será

gratificante, posto que parece indicar que suas intuições vão pelo bom caminho. A partir

daí, reconduzir a pesquisa é fácil. Pode chamar outro professor que investiga essa

relação e que fale das razões. Depois, pense quais são mais aplicáveis a seu caso

concretamente. Suponhamos que o teórico fale que a substância é uma estrutura social

patriarcal, dado que, ao seguir a mulher ocupando-se da criação dos filhos, passa todo o

tempo proibindo as crianças de quebrar as regras, de forma que logo é difícil que ela

mesma as rompa, posto que acaba se identificando com o papel socializador. Se esse

ângulo parecer interessante, você poderá tentar entrevistar algumas das mulheres que

viu cruzando a rua com o sinal vermelho e perguntar-lhes se têm filhos. Assim,

contrastará as opiniões e atitudes de mães e não mães, levando em conta a geração à

qual pertencem, ou outras variáveis.

Sua pesquisa está em andamento. A partir daí, pode puxar o fio e complicá-la

mais ou complicá-la menos. Mais um exemplo a respeito: imagine que você descubra

que, se bem que as mulheres atravessam a rua menos no vermelho, por outro lado, as

que o fazem e são denunciadas, pagam menos multas (pode ser que seja mais fácil você

encontrar casos a respeito se ampliar seu campo de observação dos pedestres para os

motoristas). Ao perguntar por que isto acontece, o expert poderá dizer que poderia ser

devido à chamada “hipótese do cavalheirismo”, segundo a qual os pais, os professores,

mas também os policias e os juízes (as agências de controle social) tratam de forma

mais favorável as mulheres do que os homens perante uma mesma infração. Salvo no

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Tradução: Hildegard Susana Jung São Paulo: Edições Hipótese, 2017.
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caso de meninas que adotam modelos de comportamento masculinizados. Você poderia

tentar ver se tal hipótese se cumpre, entrevistando algumas mulheres infratoras,

pedestres ou motoristas, incluindo nas observações o uso da linguagem verbal e não

verbal, a indumentária, o discurso com relação às justificativas, ou o tipo de veículo,

dependendo do caso.

Seu artigo pode insistir mais ou menos em algum destes pontos. Você pode

aumenta-los ou diminui-los. Pode resumir a informação que lhe aportem em parágrafos

que formem uma página coerente, ou dois ou três. Imagine que vai entregá-lo ao diretor,

ele gosta e lhe pede outro mais amplo (de dez ou vinte páginas, suponhamos) para uma

reportagem que sairá em uma revista mensal do mesmo grupo de imprensa. Você

ampliará todos esses pontos de forma equilibrada, dividindo a informação em epígrafes.

Pois bem, não existe, no fundo, muita diferença entre esse artigo e um artigo

considerado “científico” de uma revista acadêmica. Pela mesma regra de três, você pode

convertê-lo em uma dissertação de mestrado ou em um projeto de tese e,

posteriormente, uma tese de doutorado. Os passos e o fio condutor são os mesmos. A

diferença não está, como dirão alguns, em que um trabalho acadêmico deve ser menos

subjetivo, pois também é uma regra deontológica do jornalismo o fato de submeter as

afirmações à prova dos argumentos. A diferença está, na verdade, em que o trabalho

acadêmico deve mostrar certa erudição, ou seja, você deve apoiar a glosa de suas

observações empíricas e de seus comentários em citações. Mas o esqueleto, o relatório,

é o mesmo. Além disso, fica claro, no exemplo que vimos, que não é necessário ser

sociólogo, dependendo do caso, para escrever de forma consciente e tão pormenorizada

a ponto de ter uma extensão da típica monografia. Pois bem, esse mesmo relatório, sem

citações, poderia ser submetido a certo embelezamento teórico estratégico que seria

injetado, acrescentando o correspondente apartado de referências bibliográficas.

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Tradução: Hildegard Susana Jung São Paulo: Edições Hipótese, 2017.
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Citações e conceitos. Conceitos e citações. O trabalho de citação consiste em

intercalar no texto principal frases não muito longas de autores diferentes, como se

estivesse tecendo com fios de diferentes cores. Os conceitos são o orgulho da matéria,

as marcas de identidade da disciplina. Em realidade, pode-se dizer que, em muitos

casos, sua função real é servir para dar profundidade e coerência ao pensamento,

encontrando caminhos lógicos que unam os argumentos. Analisados friamente, a

maioria dos conceitos se colocam no ridículo, ao se exibirem de forma tão pretenciosa,

entre aspas ou em itálico, quando se trata de simples palavras ou expressões que vivem

unicamente da inteligência, limitando-se a traduzir para a linguagem acadêmica ideias

já condensadas (e com mais graça) em refrãos e ditados populares.

Com tal gesto, a grande academia se delata uma vez mais perante uma mínima

inteligência moral: o importante é a indumentária, não o conteúdo. Além disso, a

mesma ideia, vestida de gala, se vende muito melhor se está vestida com a linguagem

acadêmica formal, pois seu valor aumenta muito. Isso quer dizer que o valor depende

mais do continente, do que do conteúdo, pensamento que contradiz e perverte o objetivo

declarado da ciência de chegar à verdade e de divulga-la depois o máximo que puder, o

que passa inevitavelmente por sua simplificação, para melhorar a vida das pessoas.

Nem sequer teríamos que acrescentar os capítulos de introdução e conclusões

preceptivos, porque o rascunho do relatório já costuma tê-los. Como também costuma

ter uma estrutura por contextos ou estratos que se limita a seguir o senso comum,

normalmente indo do global ao particular e separando ou misturando, dependendo dos

gostos, as partes de exposição teórica dos dados primários e secundários de campo.

Assim, se quiséssemos converter nosso humilde artigo de jornal em uma tese de

doutorado, indo de extremo a extremo, poderíamos arrecadar informação sobre a

história moderna dos problemas do trânsito dentro das cidades, evolução da legislação

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Tradução: Hildegard Susana Jung São Paulo: Edições Hipótese, 2017.
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em matéria de trânsito e circulação (mostrando sua complexidade por níveis territoriais,

europeu, estatal, autonômico, municipal, e acrescentando planos, recomendações e

projetos educativos de segurança viária) assim como séries estatísticas de sinistralidade

e de denúncias. Da mesma forma, deveríamos ampliar a amostra de entrevistados com

algum critério de representatividade com arranjo a algumas das variáveis “dependentes”

típicas (idade, lugar de residência, estudos, ocupação, etc.), colocadas a serviço de nossa

preocupação, objetivo e hipóteses centrais, as quais giram em torno das diferenças de

gênero no momento de quebrar as regras em general e a norma de cruzar no sinal

vermelho do semáforo em particular.

Esta forma de trabalhar é a oposta à qual se pratica normalmente. A realidade

funciona na maior parte dos casos deste triste modo: o estudante solicita à professora

doutora Fulana (ou ao professor doutor Beltrano) que oriente seu trabalho de pesquisa.

Tem a vaga ideia de que gostaria de fazer algo sobre os acidentes de trânsito na cidade.

O doutor ou doutora em questão não se sentam tranquilamente com tal aluno para falar

amistosamente em uma primeira sessão para averiguar o porquê desse tema e chegar ao

fundo da preocupação do aluno, dando-lhe forma. Se houvesse interesse, seguindo um

pouco o método da maiêutica socrática (apressemo-nos a repetir que estamos falando do

primeiro encontro, não de converter as orientações em uma terapia psicanalítica), o

estudante voltaria para casa satisfeito nesse primeiro dia. Longe disso, ele é induzido a

mudar de ideia. A estratégia do professor neste caso consiste em puxar a brasa para o

seu assado, ou seja, aos temas que a ele interessam, porque dessa forma o orientando

poderia ajuda-lo com o “trabalho sujo”, de recopilação ou de processamento de dados.

De qualquer modo, e ainda que não seja assim, o mais provável é que surja uma longa

lista de “materiais”, em geral, composta de artigos e livros, para que “se vá colocando a

par do assunto”. Também pode ser que a lista seja curta, porque o professor não sabe

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Gil Villa; Fernando. O que significa pesquisar? Exorcismo do trabalho de pesquisa.
Tradução: Hildegard Susana Jung São Paulo: Edições Hipótese, 2017.
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muito sobre esse tema. Seu colega da sala ao lado sabe mais, mas como se trata de uma

potencial tese de doutorado e, portanto, possíveis pontos para seu currículo (se é um

TCC ou uma dissertação de Mestrado também conta, de alguma maneira), não vai

passar o aluno ao seu concorrente.

O estudante acaba sendo cúmplice do delito que se está cometendo, tanto contra

a honestidade intelectual, quanto contra o progresso da ciência, posto que não se

preocupou em saber quem é quem, o que inclui uma simples busca na Internet para

saber a trajetória dos professores doutores e adequá-la aos seus interesses, assim como

uma entrevista prévia para averiguar algo sobre o trato humano (ou desumano), estilo

pessoal e filosofia pedagógica que adotam em suas orientações. Uma vez, uma aluna

veio para pedir-me um conselho. Quando me disse que era orientada pelo doutor X, que

nunca tinha pesquisado essas questões, não pude evitar de perguntar-lhe por que então o

havia escolhido. Sua resposta ficará gravada para sempre na mina memória: “Veja, uma

tarde vim aqui e fui batendo nas portas, até que uma se abriu”.

Assim pois, a maioria daqueles que enfrentam um trabalho de pesquisa acabam

de bruços na biblioteca. E já sabemos aqui o que isso significa: o labirinto e a sensação

de estar perdido, a angústia e a sensação de não saber nada, de ser pouca coisa, de ter

que carregar por uma eternidade, escadas acima, escadas abaixo (o elevador não evita o

mal, pois acrescenta claustrofobia), assim como Sísifo, pesadas talhas. Recordemos,

neste ponto, que a informatização das bibliotecas e sua tendência a desmaterializar-se, a

virtualizar-se, não elimina o problema. Inclusive alguém poderia facilmente argumentar

que aumenta o problema, pois a dificuldade para orientar-se na rede é maior. O único

consolo é que, aquele que conseguir terminar, será um herói ou um mártir. Mas até que

chegue a essa “terra prometida”, a essa longínqua outra e verdadeira vida, nesta em que

agora se encontra, lhe espera um autêntico calvário, um vale de lágrimas.

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Gil Villa; Fernando. O que significa pesquisar? Exorcismo do trabalho de pesquisa.
Tradução: Hildegard Susana Jung São Paulo: Edições Hipótese, 2017.
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Frente a este modelo, tão nefasto, mas tão estendido que aqui criticamos, a

aproximação do “jornalista” proposta é justamente a oposta. Continuando com nosso

exemplo, o estudante deixará a teoria para o final e se centrará em “fazer coisas”. Desde

o primeiro dia verá como crescem as pastas na sua mesa, seja fisicamente ou

virtualmente, tocará os papeis, as anotações, o que lhe dará uma sensação de que não

está perdendo tempo. Deve mimá-las, por pequenas que sejam, deve organizá-las,

pensar nelas com carinho. Enfim, este modelo aposta na autoconfiança, tenta de

estimular a pesquisa e eliminar a ansiedade.

Este modelo mostra ao menos duas coisas. Que todo mundo pode pesquisar e

que tudo pode ser pesquisado. Desgraçadamente, principalmente com relação ao

primeiro ponto, trata-se de uma maneira de falar, porque não todos os cidadãos podem

dedicar seu tempo a fazer um trabalho formal de pesquisa. Para muitos lhes falta a

oportunidade. Um país que conseguisse aproveitar a curiosidade de seus cidadãos,

educando-a positivamente (o contrário do que se faz agora), ou seja, canalizando-a para

formas de conhecimento distantes do sadomasoquismo, sem dúvida conseguiria

progredir de uma forma muito mais fiel aos valores que marcam os direitos humanos do

que até agora ninguém conseguiu.

Na situação imaginada, falamos de um estudante de Ciência da Informação, que

em realidade poderia ter estudado qualquer outra graduação. Ou seja, não teria

necessidade, em princípio, de possuir conhecimentos específicos nem em sociologia,

nem em psicologia, nem em antropologia, nem em história, nem em filosofia. Ainda

que, nem é preciso dizer, ter uma base de alguma dessas disciplinas seria muito bom

para ele. Isso seria o suficiente para fazer um trabalho de pesquisa. Um dos principais

preconceitos que pesam sobre os estudantes é precisamente que não têm base suficiente

para abordar a pesquisa. Este problema é mais visível naquelas pessoas que se

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Gil Villa; Fernando. O que significa pesquisar? Exorcismo do trabalho de pesquisa.
Tradução: Hildegard Susana Jung São Paulo: Edições Hipótese, 2017.
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matricularam no mestrado ou no doutorado tendo cursado estudos em outros

departamentos (normalmente afins, obviamente). Um bom orientador deveria trabalhar

este temor nas primeiras sessões, proporcionando o marco para a reflexão sobre a

relação entre educação formal e trabalho realizado. Por que a ideia geral - a saber, que a

maioria dos trabalhadores entrevistados com titulação superior acredita que para realizar

as tarefas que desempenham habitualmente não lhes serve nada daquilo que aprenderam

na faculdade -, não teria que extrapolar ao trabalho da pesquisa? O preconceito

acadêmico, que faz parte do elenco de ideias que constitui o paradigma dominante, tem

um sentido claro: a desvalorização da autodidaxia. Quanto mais autodidata é o

pesquisador, menos controlável pelo sistema acadêmico ele é. Isto também não é algo

especial do âmbito da pesquisa. Dentro da tribo dos jornalistas, seguindo com o

exemplo, o free-lance é aquele que “vai libre”, portanto, que está menos submetido às

normas de uma empresa ou instituição.

Recomendo aos professores doutores que orientam trabalhos de pesquisa, que

usem o truque do aprendiz de jornalista. Com ele tenho colhido bons resultados. Serve

para estimular quem enfrenta um trabalho de pesquisa pela primeira vez. Serve para

tirar-lhe das costas os pesos que, de forma invisível (ainda que visível para um bom

fisionomista) arrasta o estudante, assim como Sísifo com pesar, como Prometeu

acorrentado e castigado antes de ter cometido seu delito, por somente ter planejado um

projeto. Serve enfim, num plano mais profundo, para substituir o nefasto paradigma do

pesquisador como herói por um enfoque oposto. Super-homem, o herói favorito de

Umberto Eco, segundo vimos, tem outra face. A face oculta do herói – portanto, a cara

do anti-herói -, é a de um jornalista normal e comum, Clark Kent, que trabalha para o

Daily Planet (no caso análogo de Homem-Aranha, Peter Parker trabalha no Clarín).

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Tradução: Hildegard Susana Jung São Paulo: Edições Hipótese, 2017.
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No nosso exemplo, narrávamos o possível desencanto inicial de nosso jovem

jornalista com o tema do artigo. Em parte, reflete um mal-entendido de importantes

consequências, que se estabelece sobre uma nova distinção hierárquica (que mostra a

mania do sistema acadêmico em hierarquizar) e que a reproduz, neste caso, entre

objetos de primeira e de segunda. Inclusive, tal desdobramento pode encaixar,

tacitamente na hierarquia de pesquisadores de primeira e de segunda (da que fazem

parte os aprendizes, de entrada). Tal distinção é, entretanto, fictícia, estranha à mecânica

da aproximação fenomenológica do objeto. Tão estranha, que até se inverte a curva de

prazer do pesquisador. Um tema espetacular, normalmente ditado pela “atualidade” ou a

moda, oferece um grande interesse ao princípio, mas logo costuma decair, à medida que

aprofundamos e nos damos conta de que a coisa não era tão extraordinária, depois de

tudo.

Funciona aqui o velho, tão humano, mecanismo mental da desilusão, tanto mais

efetivo quanto mais se idealizou seu objeto, fenômeno que tem seu reverso. Se, por

casualidade ou obrigação nos colocamos a pesquisar sobre algo aparentemente

irrelevante, é muito possível que com o passar do tempo acabemos nos apaixonando

pelo tema. Chega a parecer que a modesta aparência com a qual se apresenta, é

enganosa. Algo parece lógico ao colocá-lo entre parênteses, ao tirá-lo de seu contexto

habitual, ao interrogá-lo. Ao nos aproximarmos desta humilde laranja com um

microscópio, descobrimos que encerra todo um universo fantástico, não imaginado.

Por isso não devemos depreciar a priori nenhum tema nem fenômeno. Em

matéria de ciências sociais, parece que as coisas não podem ser medidas por sua

envergadura, não há coisa social pequena. Alguns dos mais importantes pesquisadores

sociológicos de nosso tempo parecem ter seguido esta consigna. Prestemos atenção ao

testemunho de Pierre Bourdieu: “Assim, no polo oposto da retórica da importância

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Tradução: Hildegard Susana Jung São Paulo: Edições Hipótese, 2017.
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mediante a qual se assinala a altura filosófica, eu as engendrei para deixar as

contribuições teóricas mais importantes nos incisos ou nas notas ou para introduzir

minhas preocupações mais abstratas em análise hiperempíricas de objetos socialmente

secundários, politicamente insignificantes ou intelectualmente depreciados”

(BOURDIEU, 2006, p. 142).

Em muitas ocasiões, é questão de estratégia. Sempre existe um ângulo pelo qual

se pode re-descrobri-la. O que muitos parecem ignorar é que a questão fundamental de

encontrar esse ângulo depende mais da imaginação sociológica do que da erudição ou

da perícia em técnicas sofisticadas de pesquisa.

Qualquer um pode pesquisar qualquer coisa, desde que disponha de duas

ferramentas simples: a curiosidade e o senso comum. A primeira atua como força

motriz, o segundo como guia e direção. Entretanto, ambas estão, literalmente,

arruinadas no panorama atual da pesquisa. Espero ter conseguido mostrar pelo menos

parte das estratégias das quais se vale o sistema acadêmico para ocultá-las, enterrando-

as. Espero, igualmente e em segundo lugar, tê-las recuperado entre os escombros,

mostrando parte ao menos de seu esplendor nesta exposição. Se com isso um só

aprendiz de pesquisador se sentir aliviado ao lê-la, me darei por satisfeito.

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Tradução: Hildegard Susana Jung São Paulo: Edições Hipótese, 2017.
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Epílogo. O pesquisador como intelectual crítico

Às vezes, em nome da equanimidade, se ultrapassa a linha que separa a

imparcialidade da conivência. Demasiadas vezes o analista cai na tentação de jogar o

jogo, tirando os aspectos chamativos e excepcionais que matizam a tendência geral de

desigualdade, apagando dessa forma o brilho da denúncia, superdimensionando a

exceção até torna-la digna de tanta atenção como a que se empresta à regra. Mas

acontece que aquela linha não é estática, mas se modifica em função das circunstâncias

que se citam em um lugar e espaço determinados.

Estou de acordo com aqueles que, como Todorov, ao final de seu Morais da

história, reclamam uma tomada de postura por parte dos intelectuais como um dever

moral se o que se quer é que seus trabalhos de pesquisa sirvam para melhorar a vida das

pessoas e, em especial, as que fazem parte dos grupos sociais com menos

oportunidades.

Em algumas ocasiões, entretanto, tais chamamentos se enunciam de forma tão

alegre, que “tomar postura” equivale simplesmente a declarar-se crítico ou desejar sê-lo,

quando literalmente significa posicionar-se, o que exige encontrar previamente a

posição, e aí reside a dificuldade.

A posição deveria associar-se não a um ato de vontade, mas a um árduo trabalho

de pesquisa constante para sintonizar, a cada dia, uma frequência que muda

constantemente no dial. Muda, porque as circunstâncias da desigualdade trabalham

coordenadamente e sem descanso para ocultar-se. Ontem conseguimos localizá-las

neste ponto, e apenas começamos a preparar as estratégias para desmontar suas ações

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Gil Villa; Fernando. O que significa pesquisar? Exorcismo do trabalho de pesquisa.
Tradução: Hildegard Susana Jung São Paulo: Edições Hipótese, 2017.
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terroristas, quando desapareceram do mapa. Não só é que hoje se encontram já em outro

lugar, mas que se mostrarão seguramente sob outra forma ou disfarce. Daí que muitos

intelectuais acabem atirando a toalha, cedo ou tarde, legitimamente, ou seja, mostrando

publicamente um certificado válido segundo os cânones da cultura académica para pedir

demissão (normalmente uma demissão parcial e recorrente, como corresponde aos

funcionários covardes com pouca consciência moral).

O que para mim significa a função crítica do (verdadeiro) intelectual é a

paciência e o compromisso de trabalho diário por encontrar a posição do inimigo para

poder, por sua vez, posicionar-se e tentar de neutralizá-lo com a caneta e a palavra,

armas tão afiadas ou más que a espada, como se tem demonstrado ao longo da história.

Nessa busca, a utilidade dos mapas é relativa porque a “natureza” do social é um terreno

extremadamente volátil. Contudo, em algo ajudam. Assim, em conjunturas de crise

econômica, a posição do intelectual deve ser mais radical que em épocas de bonança

porque as consequências de uma postura de conivência inconsciente seriam mais

graves.

O radicalismo afeta o trabalho de pesquisa em todos os aspectos. Não podemos

permitir-nos demasiadas contemplações nos procedimentos metodológicos porque

perderia um tempo vital que os inimigos da igualdade aproveitariam para fugir. De igual

maneira, tampouco podemos perder tempo em partes enfastiantes com uma linguagem

rebuscada e ostentadora, inventando conceitos e vendo-se obrigado, consequentemente,

a esclarecê-los a cada pouco. Não pode, moralmente, porque deve ter presente que “sua

situação” é desesperadora, porque parte da premissa de que “sua situação” é a mesma

daqueles aos que pretende “salvar”, ou seja, aqueles que, neste momento, estão sofrendo

e demandam ajuda urgente.

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Gil Villa; Fernando. O que significa pesquisar? Exorcismo do trabalho de pesquisa.
Tradução: Hildegard Susana Jung São Paulo: Edições Hipótese, 2017.
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Com isso, o intelectual não recupera nenhuma função messiânica porque não é

um déspota. Sabe que, em uma época na qual a violência simbólica toma o relevo da

violência física em muitas dimensões da vida social, que é despotismo, ainda que seja

ilustrado. Faz bem em localizar a posição das armadilhas e sinalizá-las. Depois, pode

ficar ou não para ajudar aos que pedirem para evitá-las. Com sua sinalização, que

equivale à denúncia pública, possibilitada pelos meios de comunicação e de publicidade

massivos, cumpre com seu dever como cidadão que aspira a melhorar a vida de seus

concidadãos, que em um mundo global devem ser identificados como todos os

habitantes do planeta.

A sofisticação das armadilhas tem relação com a conjuntura econômica e social,

ainda que esta última dependa menos do passado recente do que se costuma pensar.

Nem o número de anos de uma população, nem o de suas normas de direito positivo

garantem a igualdade. A sociedade do conhecimento e das leis pode cair em um ciclo de

exclusão social que tem aspecto de buraco negro imprevisível. Nesse caso, a

degeneração pode ser tão rápida que as armadilhas podem parecer inclusive primitivas.

Daí que não requerem instrumentos heurísticos muito especializados por parte dos

pesquisadores exploradores. E, não obstante, acontece algo extraordinário: é tão visível

e grosseira a armadilha, que muitos pesquisadores passam de largo… ainda vendo

rastros de cadáveres, portanto, sabendo que as pessoas continuam caindo.

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Tradução: Hildegard Susana Jung São Paulo: Edições Hipótese, 2017.
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