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Macroeconomia
5ªED1ÇÃO

N. Gregory Mankiw
Harvard University

Tradutor

A. B. Pinheiro de Lemos

Revisor Técnico
Leonardo Weller
Mestre em Economia pelo
Instituto de Economia da UFRJ

FGV-SP / BIBLIOTECA
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csi 1200600675

LTC
EDITORA
No interesse de difusão da cultura e do conhecimento. os autores e os editores envidaram o
máximo esforço para localizar os detentores dos direitos autorais de qualquer material
utilizado, dispondo-se a possíveis acertos posteriores caso. inadvertidamente, a identificação
de algum deles tenha sido omitida.

Capa: Lissí Sigíllo/Barbara Reingold. -·-·-----------


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Reproduzida com permissão da Worth Pub!isher.
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MACROECONOMICS. Fifth Edition itl:i1Uc.i (


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First published in the United States


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by

WORTH PUBUSHERS, New York and Basigstoke

Copyright© 2003, 2000. 1997. 1994, 1992 by Worth Publishers

All Rights Reserved

Publicado originalmente nos Estados Unidos

por

WORTH PUBUSHERS, New York and Basigstoke

Copyright© 2003. 2000, 1997. 1994. 1992 by Worth Publishers

Todos os Direitos Reservados

Direitos exclusivos para a língua portuguesa


Copyright © 2004 by
LTC - Livros Técnicos e Científicos Editora S.A.
Travessa do Ouvidor, l l
Rio de Janeiro, RJ - CEP 20040-040
Tel.: 21-2221-9621
Fax: 21-2221-3202

Reservados todos os direitos. É proibida a duplicação


ou reprodução deste volume. no todo ou em parte,
sob quaisquer formas ou por quaisquer meios
(eletrônico. mecânico. gravação. fotocópia,
distribuição na Web ou outros),
sem permissão expressa da Editora.
sumario
,, .

Prefacio xvii O Preço de uma Cesta de Bens 21


O IPC versu,s o Oeflator do PIB 21
parte 1 .,. ESTUDO DE CASO O IPC Sobrestima a Inflação! 23
INTRODUÇÃO 2,3 Medindo a Falta de Emprego: A Taxa de
Desemprego 23
Capítulo 1 A MACROECONOMIA COMO CltNCIA 3 ... ESTUDO DE CASO Desemprego, PIB e Lei de Okun 24

1-1 O que os Macroeconomista.s Estudam 3 2-4 Conclusão: De Estatísticas Econômicas a Modelos


• ESTUDO DE CASO O Desempenho Hisrôrico da Economia Econômicos 25
dos Escadas Unidos 4
1-2 Como os Economistas Pensam 6 parte 2
Teoria como Construção de Modelo 6
TEORIA CLÁSSICA: A ECONOMIA NO
.,. SAIBA MAIS O Uso de Funções para Expressar Relações
entre Variá()eis 9 LONGO PRAZO
Uma Multitude de Modelos 7 Capítulo 3 RENDA NACIONAL: DE ONDE VEM E
Preços Flexíveis ()eTSU.S Preços Rígidos 8 /<' PARA ONDE V AI 31
Pensamento Microeconômico e Modelos
3,1 O que Determina a Produção Total de Bens e
Macroeconômicos 9
Serviços? 32
1.J Como este Livro É De5envolvido 10
Os Fatores de Produção 32
Capítulo Z Os DADOS DA MACROECONOMIA 12 A Função de Produção 32
A Ofena de Bens e Serviços 33
2-1 Medindo o Valor da Atividade Econômica: Produto
'1 Interno Bruto 12 3,2 Como a Renda Nacional É Distribuída entre os Fatores
Renda, Gasto e o Fluxo Circular B de Produção? 33
.,. SAIBA MAIS Estoques e F!UXDs 14
Preços de Fator 33
Regras para o Cálculo do PIB 14 As Decisões da Empresa Competitiva 33
A Soma de Maçãs e Laranjas 14 A Demanda por Fatores da Empresa 34
Bens Usados 18 O Produto Marginal do Trabalho 35
O Tratamento de Estoques 15 Do Produto Marginal do Trabalho â Demanda por
Trabalho 35
Bens Intermediários e Valor Adicionado IS
Serviços Habitacionais e Outras Imputações 15 O Produto Marginal ror Capital e a Demanda por
PIB Real l•ersus PIB Nominal 16 Capital 36
O Deflator do PIB 16 A Divisão da Renda Nacional 37
Medidas Ponderadas em Cadeia do PIB Real 17 ... ESTIJOO DE CASO A Peste Negra e os Preços de Fatores 37

,.. SAIBA MAIS Dois Recursos Aritméticos para Lidar com J.J O que Determina a Demanda por Bens e Semços? 38
Mudanças Percentuais 17 Consumo38
Os Componentes da Despesa 18 Investimento 38
,.. SAIBA MAIS O que .É Investimento? 1.8 Compras do Governo 39
,.. ESTUDO DE CASO PIB e Seus Componentes 19 ... SAIBA MAIS As Diversas T axa.s de Juros 40
Outras Medidas de Renda 19 3-4 O que Leva a Oferta e a Demanda por Bens e Serviços
... ESTUDO DE CASO O CidoSazonal e Ajuste Sazonal 20 ao Equih'brio? 41
2-2 Medindo o Custo de Vida: O Índice de Preços ao Equilíbrio no Mercado de Bens e S~rviços: A Oferta e a
Consumidor 21 Demanda da Produção da Economia 41
ifº

X SUMÁRIO

Equilíbrio nos Mercados Fínanceíros: A Oferta e a Demanda ,.. ESTUDO DE CASO O Movimento da Pmw Liwe, a Eleição
de Fundos Emprestáveis 41 de 1896 e o Mágico de Oz 68
Mudanças na Poupança: Os Efeitos da Política Fiscal 43 Um Benefício da Inflação 68
Um Aumento das Compras do Governo 43 ,.. SAIBA MAIS Keynes (e Lênin) sobre o Custo da Inflação 69
,.. ESTUDO DE CASO Guerrru e Taxas de Juros na Inglaterra, 4• 7 Híperinílação 69
1730-1920 43 Os Custos da Hiperinílação 69
Uma Redução nos Impostos 45 ,.. ESTUDO DE CASO A Vida durante a Hiperinflação
Mudanças na Demanda por Investimento 45 Boliviana 70
,.. 'SAIBA MAlS O Problema da IdentificOfào 46 As Causas da Hiperintlação 71
3-S Conclusão 47 ... ESTUDO DE CASO Hiperinf/ação na Alemanha do
Apêndice: A Função de Produção Cobb-Douglas 50 Entre-Guerrru 71
4•8 Conclusão: A Dicotomia Clássica 7 2
Capitulo 4 MOEDA E INFLAÇÃO 53 Apêndice: O Modelo Cagan: Como a Moeda Corrente
4,1 O que É Moeda? 53 e Futura Afeta o Nível de Preços 75
As Funções da Moeda 54
Capítulo 5 A EcONOMIA ABERTA 77
Os Tipos de Moeda 54
,.. ESTUDO DE CASO Moeda em um Campo de Prisioneiros de
5,1 Os Fluxos IntemaciQnais de Capital e Bem 77
Guerra 54 O Papel das Exportações Líquidas 77
Como a Moeda Fiduciária Evolui 55 Fluxos de Capim\ Internacionais e a Balança Comercial 78
,.. ESTUDO DE CASO Moeda e Convenções Sociais na ilha de Fluxos Internacionais de Bens e Capital: Um
,.. SAIBA MAIS
Yap55 Exemp!o 80
Como a Quantidade de Moeda É Controlada 55 5,Z Poupança e Investimento em uma Economia Aberta
Pequena 80
Como a Quantidade de Moeda É Medida 56
Mobilidade de Capim! e a Taxa de Juros Mundial 80
4,2 A Teoria Quantitativa da Moeda 57
O Modelo 81
Transações e a Equação Quantitativa 57
Como as Políticas Econômicas Influenciam a Balança
Das Transações à Renda 57 Comercial 81
A Função de Demanda por Moeda e a Eq,ração Política Fiscal Interna 82
Quancitativa 57 Política Fiscal Externa 82
O Pressuposto de Velocidade Constante, 58 Mudanças na Demanda por Investimento 83
Moeda. Preços e Inflação 58 Avaliando a Política Econômica 83
,.. ESTUDO DE CASO lnflOfão e Expansão Monetária 59 ,.. ESTIJDO DE CASO O Défieii Comercial dos Estados
4,3 Senhoriagem: A Receita da Emissão de Moeda 60 Unidos 84
• ESTUDO DE CASO Pagando a Remlução Americana 61 5,3 Taxas de Câmbio 86
4,4 Inflação e Taxas de Juros 61 Taxas de Câmbio Nominal e Real 86
Duas Taxas de Juros: Real e Nominal 61 A Taxas de Câmbio Nominal 86
O Efeito Fisher 61 .. SAIBA MAIS Como os Jornais Informam a Taxa de
,.. ESTUDO DE CASO Taxa de Infl.ação e Taxa de Juros Câmbio 87
Nomina/62 A Taxa de Câmbio Real 86
Duas Taxas de Juros Reais: E.x Ante e Ex Post 63 A Taxa de Câmbio Real e a Balança Comercial 86
,.. ESTUDO DE CASO Taxa de Juros Nominat no Séwlo XIX 63 Os Determinantes Ja Taxa de Câmbio Real 88
4,S A Taxa de Juros Nominal e a Demanda por Como as Políticas Econômicas lnílut>nciam a Taxa de
Moeda 64 Câmbio Reiil 88
O Custo de Rerer Moeda 64 Política Fiscal Interna 88
Moeda Futura e Preços Correntes 64 Política Fiscal Externa 89
4-6 Os Custos Sociais da Inflação 65 Mudanças da Demanda por Investimento 90
A Visão do Leigo e a Reação Clássica 65 Os Efeitos das Políticas Comerciais 91
,.. ESTUDO DE CASO O que os Economistas e o Público Dizem Os Determinantes da Taxa de Câmbio Nominal 92
sobre a Inflação 66 ,.. ESTUDO DE CASO In~ão e Taxas de C&nbio Nominais 92
Os Custos da Inflação Esperada 66 O Caso Especial da Paridade do Pcxler de Compra 93
Os Custos da Inflação Não-esperada 67 .. ESTUDO DE CASO O Big Mac ao Redor do Mundo 94

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SUMÁRIO XÍ

5-4 Conclusão: Os Estados Unidos como uma Economia A Oferta de Bens e a Função de Produção 124
Aberta Grande 96 A Demanda de Bens e a Função de Consumo IZ4
Apêndice: A Economia Aberta Grande 99 Crescimento do Estoque de Capital e o Estado
Fluxo Líquido de Capital para o Exterior 99 Estacionário 125
O Modelo 100 Aproximando-se ao Estado Estacionário: Um Exemplo
O Mercado de Fundos Emprestáveis 100 Numérico 126
O Mercado de Câmbio Externo 100 ... ESTUDO DE CASO Crescimento do Japão e da Alemanha no
Políticas Econômicas na Economia Aberta Grande 101 Pós-guerra 128
Política Fiscal Interna 102 Como a Poupança Afeta o Crescimento 129
Mudanças da Demanda por Investimento 102 ... ESTUDO DE CASO Poupança e investimento ao Redor do
Políticas Comerciais 103
Mundo 130
Mudanças do Fluxo Líquido de Capital para o
7 -2 Nível de Capital da Regra de Ouro 131
Comparação de Estados Estacionários 131
Exterior 103
Encontrando ô Estado Estacionário da Regra de Ouro: Um
Conclusão l 03
Exemplo Numérico 133
Capítulo 6 DESEMPREGO 106 A Transição para o Estado Estacionário da Regra de
Ouro 134
6-1 Perda do Emprego, Obtenção de Emprego e Taxa
Começando com Muito Capital 134
Natural de Desemprego 107
Começando com Pouco Capital 135
6-2 Busca de Emprego e Desemprego Friccionai 108
7.3 Crescimento Populacional 136
Política Econômica e Desemprego Friccionai 109
O Estado Estacionário com Crescimento
... ESTUDO DE CASO Seguro-Desemprega e a Taxa de
Obtenção de Emprego 109 Populacional 136
6-3 Rigidez do Salário Real e Desemprego Estrutural 110 Os Efeitos do Crescimenco Populacional 137
Leis do Salário Mínimo 110 .,. ESTUDO DE CASO Crescimento Populacional ao Redor do
Mundo 138
... ESTUDO DE CASO Uma Visão Revisionista do Salário
M(nimo 111 7,4 Conclusão 139
Sindicatos Trabalhistas e Negociação Coletiva 112
Capítulo 8 CRESCIMENTO EcONÔMICO II 142
Salários de Eficiência 113
... ESTUDO DE CASO O Dia de Traba!ho de $5 de Henry 8-1 Progresso Tecnológico no Modelo de Solow 142
Ford 113 A Eficiência do Trabalho 142
6-4 Padrões de Desemprego 114 O Estado Estacionário com Progresso Tecnológico 143
A Duração do Desemprego 114 Os Efeitos do Progresso Tecnológico 144
Variação na Taxa de Desemprego entre Gnipos 8,2 Políâcas Econômicas para Promover o
Demográficos 114 Crescimento 144
Tendências do Desemprego nos Estados Unidos 115 Avaliação da Taxa de Poupança 144
Demografia 115 Alterando a Taxa de Poupança 145
Mudanças Setoriais 115 .,.ESTUDO DE CASO O Sistema de Seguridade Social Deve Ser

Produtividade 115 Reformado? 145


Entradas e Saídas da Força de Trabalho 116 Alocando o Investimento na Economia 146
O Aumento do Desemprego Europeu 116 Estimulando o Progresso Tecnológico 14 7
Os Segredos da Felicidade 118
... ESTUDO DE CASO ~ ESTUDO DE CASO A Redução do Crescimento Econômico
6-S Conclusão 118 em todo o Mundo 14 7
Problemas de Mensuração 148
Preços do Petróleo 148
parte 3 Qualidade do Trabalhador 148
TEORIA DO CRESCIMENTO: O Esgotamento de Idéias 148
A ECONOMIA A LONGUÍSSIMO PRAZO ... ESTUDO DE CASOTecnologia da Informação e a Nova
Economia 149
Capítulo 7 CRESCIMENTO EcONÔMICO 1123 8-3 Da Teoria do Crescimento ao Crescimento na
7•1 A Acumulação de Capital 123 Prática 150
A Oferta e a Demanda de Bens 124 Crescimento Equilibrado 150
r xii SUMÁRIO
...

Convergência 150 \ Capítulo 10 DEMANDA AGREGADA 1 177


Acumulação de Fator versus Eficiência da Produção l 51 ' 10,1 O Mercado de Bens e a Curva IS 178
8-4 Além do Modelo de Solow: Teoria do Crescimento A Cruz Keynesiana 178
Endógeno 151
Gasto Planejado 178
O Modelo Básico 152 A Economia em Equilíbrio 179
Um Modelo com Dois Setores 152
Política Fiscal e o Multiplicador: Compras do
A Microeconomia de Pesquisa e Desenvolvimento 153 Governo 180
8-5 Conclusão 154 Política Fiscal e o Multiplicador: Imposto, 182
Apêndice: Contabilidade das Fontes de Crescimento ... ESTUDO DE CASO Redução de Impostos para Estimular a
Econômico 156 Economia 183
Aumentos dos Fatores de Produção 156 A Taxa de Juros, Investimento e a Curva IS 183
Aumentos do Capital 156 Como a Política Fiscal Altera a Curva IS 184
Aumentos do Trabalho 156 Urna Interpretação da Curva IS a Partir dos Fundos
Aumentos do Capital e do Trabalho 156 Emprestáveis 184
Progresso Tecnológico 157 10,2 O Mercado Monetário e a Curva LM 186
A Teoria da Preferência pela Liquidez 186
As Fontes de Crescimento nos Estados Unidos 158
... ESTIJDO DE CASO O Aperto Monetário de Paul Volker
... ESTUDO DE CASO O Crescimento dos Tigres Asiáticos 158
Aumentou ou Diminuiu as Taxas de Ju.ros? 188
Renda, Demanda por Moeda e a Curva LM 188
parte 4 Corno a Política Monetária Desloca a Curva LM 189
TEORIA DO CICLO ECONÔMICO: Uma Interpretação da Curva LM Através da Equação
Quantitativa 189
A ECONOMIA NO CURTO PRAZO 10,3 Conclusão: O Equih'brio no Curto Pra:zo 190
Capítulo 9 INTRODUÇÃO AS OSCILAÇÕES
, Capítulo 11 DEMANDA AGREGADA II 194
ECONÔMICAS 163 1/
11,1 Explicação das Oscilações com o Modelo IS-LM 194
9-1 Horizontes de Tempo na Macroeconomia 164 Como a Politica Fiscal Desloca a Curva IS e Muda o
Em que o Curto Prazo e o Longo Prazo Diferem 164 Equilíbrio de Curto Prazo 194
... ESTUDO DE CASO O Enigma dos Preços Rígidm dm Variações das Compras do Governo 194
Ret1istas 164 Variações dos Impostos 195
O Modelo 1.-la Oferta Agregada e da Demanda Agregada 165 Corno a Política Monetária Desloca a Curva LM e Muda o
9-2 Demanda Agregada 165 Equilíbrio de Cuno Prazo 19 5
A Equação Quantitativa como Demanda Agregada 166 A Interação entre Política Monetária e Política Fiscal 196
... ESTUDO DE CASO Análise de Política Econômirn com
Por que a CLtrva de Demanda Agregada É Negativamente
Modelos Ma.CToeconômicru 198
Inclinada 166
Choques no Modelo JS-LM 199
Deslocamentos da Curva de Demanda Agregada 167
... ESTUDO DE CASO A Contração Económica dos Estados
9.3 Oferta Agregada 168
Unidos em 2001 199
O Longo Prazo: A Curva de Oferta Agregada Vertical 168 Qual É o lnscrumemo de Política do Banco Central: A
O Curto Prazo: A C urva de Oferta Agregada Oferta Monetária ou a Taxa de Juros? 200
Horizontal 169 11·2 IS-LM como uma Teoria de Demanda
Do Curto Prazo para o Longo Prazo 170 Agregada 200
... ESTUDO DE CASO Ouro, Greenbacks e a Contração da Do Modelo IS-LM à Curva de Demanda Agregada 200
Década de 1870 171 O Modelo IS-LM no Curto Prazo e no Longo Prazo 201
9.4 Política de Estabifuação 1 72 11-3 A Grande Depressão 203
Choques na Demanda Agregada 172 A Hipótese do Gasto: Choques na Curva IS 203
Choques na Oferta Agregada 173 A Hipótese Monetária: Um Choque na Curva LM 205
... ESTUDO DE CASO Como a OPEP Ajudou a Causar a A Hipótese Monetária de Novo: Os Efeitos de Preços em
Estag{lação na Década de 1970 e a Euforia na Década de Queda 205
1980174 Os Efeitos Estabilizadores da Deflação 206
9,5 Conclusão 175 Os Efeitos Desestabilizadores da Deflação 206
SUMÁRIO xiü

A Depressão Pode Acontecer de Novo? 207 Ataques Especulativos, Conselhos Monetários e


... ESTUDO DE CASO O Declínio Japonês 207 Dolarização 230
11·4 Conclusão 208 12-6 O Modelo Mundell-Fleming com um Nível de Preços
... SAIBA MAIS A Armadilha da Liquidez 209 Instável 231
Apêndice: A Álgebra Simples do Modelo lS-LM e a 12.7 Um Lembrete de Conclusão 233
Curva de Demanda Agregada 212 Apêndice: Um Modelo da Economia Aberta Grande
A Curva IS 212 no Curto Prazo 235
A Curva LM 213 Política Fiscal 23.5

A Curva de Demanda Agregada 213 Política Monetária 236


Uma Regra Prática 236
... ESTUDO DE CASO A Eficácia das PoUcicas MQ71erária e
Fiscal 214
Çapítulo 13 ÜFERTA AGREGADA 239
~
Capítulo 12 DEMANDA AGREGADA NA EcONOM1A , 13·1 Três Modelos de Oferta Agregada 239
ABERTA Zl5 O Modeló de Rigidez Salarial 240
.- ESTUDO DE CASO O Comporw.memo Cíclico do Salário
12-1 O Modelo Mundell-Fleming 215
Real 241
O Pressuposw Básico: Economia Abena Pequena com
O Modelo de Informação lmperfeica 242
Perfeita Mobilidade de Capital 216
O Modelo de Preços Rígid05 243
O Mercado de Bens e a Curva IS* 216
.,. ESTIJDO DE CASO Diferenças Internacionais na Curva da
O Mercado Monetário e a Curva LM* 216
Oferta Agregada 244
Juntando as Peças 217
Resumo e Implicações 245
12,Z A Economia Aberta Pequena sob Taxas de Câmbio 13•2 Inflação, Desemprego e a Curva de Phillips 246
Flutuantes 217
Obtenção da Curva de Phíllips a Partir da Curva de Oferta
Política Fiscal 218
Agregada 246
Política Monetária 219 ... SAIBA MAIS A História da Curva de Phillips
Política Comercia! 220 Moderna 247
12.3 A Economia Aberta Pequena sob Taxas de Câmbio Expectativas Adaptativas e Inércia Inflacionária 248
Fixas 221
Duas Causas de Alta e Queda <la Inflação 248
Como Funciona um Sistema de Taxa de Câmbio
.,. ESTUDO DE CASO Inflação e Desemprego nus Estados
Fixa 221 Unidos 248
.. ESTIJDO DE CASO O Patfrão-Ouro Internacional 222 A Troca entre Inflação e Desemprego no Curto Prazo 250
Política Fiscal 222 Desinflação e Taxa de Sacrifício 250
Polícica Monetária 223 ,.. SAIBA MAIS Até que Ponto SãoPrecisas as Esrimatim.s da
.- ESTUDO DE CASO Desvalorizaçiio e a Recuper~ão da Taxa Natural de Desemprego' 251
Grande Depressão 224 Expectativas Racionais e a Possibilidade de Desinflação
Política C omercial 224 Indolor 252
Política Económica no Modelo Mundell-Fleming: Um .. ESTIJDO DE CASO A Taxa de Sacrifício na Prática 25 3
Resumo 224 Histerese e a Contestação da Hipótese da Taxa
12.4 Diferenciais de Taxas de Juros 225 Nacural 254
Risco-País e Expectativas de Taxa de Câmbio 225 13.3 Conclusão 254
Diferenciais de Juros no Modelo Mundel\-Fleming 226 Apêndice: Um Modelo Grande e Abrangente 257
.,. ESTUDO DE CASO Crise Financeira lntemacional , México , Caso Especial 1: A Economia Fechada Clássica 25 7
1994-1995 227 Caso Especial 2: A Economia Aberta Pequena
.,. ESTIJDO DE CASO Crise
Financeira lncernadonal: Ásia, Clássica 25 7
1997-1998 228
Caso Especial 3: O Modelo Básico de Demanda Agregada e
12-5 As Taxas de Câmbio Devem Ser Flutuantes ou Oferta Agregada 257
Fixas? 229 Caso Especial 4: O Modelo JS-LM 257
Prós e Contras de Diferences Sistemas de Taxa de Caso Especial 5: O Modelo Mundell-Aeming com uma Taxa
Câmbio229 de Câmbio Flutuante 258
.,. ESTUDO DE CASO Uníao Monetári,;i nos Estados Unidos e Caso Especial 6: O Modelo Mundell-Fleming com uma Taxa
na Europa 229 de Câmbio Fixa 258
xiv SUMÁRIO

15,3 A Visão Tradicional da Dívida do Governo 284


parte 5
15-4 A Visão Ricardiana da Dívida do Governo 285
DEBATES DA POLÍTICA
A Lógica Básica da Equivalência Ricardiana 285
MACROECONÔMICA
Consumidores e Impostos Futuros 286
Capítulo 14 POLÍTICA DE ESTABILIZAÇÃO 261 Miopia286
Restrições de Empréstimo 286
14,l A Política Deve Ser Ativa ou Passiva? 261
... ESTUDO DE CASO Q Experimento de Retenção na Fonte, de
Defasagem entre Implementação e Efeitos da Política
George Bush 286
Econômica 26Z
Gerações Futuras 287
.,. SAIBA MAIS O que Há no fndice de Indicw:lares Econômicos
Básicos? 263 • ESTUDO DE CASO Por que os Pais Deixam Herança! 287
A Difícil Tarefa da Previsão Econômica 263 Fazendo uma Opção 288
... ESTUDO DE CASO Erros de Pre11isão 263 .,. SAIBA MAIS Ricardo sobre a Equivalência Ricardiana 288

Ignorância, Expectativas, e a Crítica de Lucas 265 15,5 Outras Perspectivas sobre a Dívida do Governo 289
1
O Regiscro Histórico 265 Orçamemos Equilibrados versus Política Fistal Ideal 289
... ESTUDO DE CASO A Eswbilização da Economia É uma Estabilização 289
Invenção dos Dadm! 166 Nivelação Fiscal 289
11,, ESTUDO DE CASO A Extraordinária. Estabilidade da Década Redistribuição lntergeracional 289
de 1990 Z66 Efeitos Fiscais na Política Monetária 290
14,2 A Política Deve Ser Cond11%ida por Regras ou Ser Dívida e o Processo Político 290
Discricionária? 267
Dimensões Internacionais 290
Desconfiança dos Formuladores de Política Econômica e o
11,, ESTUDO DE CASO Os Benef(cios de Títulos Indexados 291
Processo Político 267
... ESTUDO DE CASO A Economia dos EUA sob Presidentes
15·6 Conclusão 292
Republica.nos e Democrata.s 268
A Inconsistência Temporal da Política Econômica parte 6
Discricionária 269 MAIS SOBRE A MICROECONOMIA POR
.,. ESTUDO DE CASO Alexander Hamilton versus Inconsistênôa.
TRÁS DA MACROECONOMIA
Temporal 270
Regras para a Política Monetária 270 Capítulo 16 CONSUMO 297
11,, ESTUDO DE CASO Meta de Inflação: Política. Econômica. por J
' 16-1 John Maynard Keynes e a Função Consumo 297
Norma ou Discrid OJWia. Resrritn. 1 2 71
Conjecturas de Keynes 297
• ESTUDO DE CASO A Regra de Política. Monetária de John
Taylor ( e de Alan Greenspan /) 272 Os Sucessos Empíricos Iniciais 298
A Independência do Banco Central 2 73
.,._ ESTUDO DE CASO Estagnação Secular, Simon Kuznets e o Enigma do
14,3 Conclusão: Fllendo Política Econômica ent um Consumo 299
Mundo Incerto Z7 4 16,2 Irving Fisher e a Escolha lntertemporal 300
Apêndice: Inconsistência Temporal e a Troca entre A Restrição Orçamentária lntertemporal 300
Inflação e Desemprego Z76 .,. SAlBA MAIS Valor Presente, ou por que um Prêmio de
$ J.000.000 Vale Apenas $623.000 301
Capítulo 15 DÍVIDA DO GOVERNO 278 Preferências do Coruumidor 302
15,l O Tamanho da Dívida do Governo 279 Otimização 302
.,._ ESTUDO DE CASO O Futuro Fiscal: Boas e Más Como as Variações da Renda Afetam o Consumo 303
Notícias 280 Como as Variações da Taxa de Juros Real Afetam o
15•2 Problemas de Medição 281 Consumo 304

Primeiro Problema de Medição: Inflação 281 Restrições à Tornada de Empréstimo 305


Segundo Problema de Medição: Ativos de Capital 282 11,, ESTUDO DE CASO A E/eva.da Taxa de Poupança do
Terceiro Problema de Medição: Passivos ]a.pão 306
Não-contabilizados 282 16,3 Franco Modigliani e a Hipótese do Ciclo de Vida 306
Quarto Problema de Medição: O Ciclo Econômico 283 A Hipótese 307
Resumindo 283 Implicações 307
.,. ESTUDO DE CASO Conrabilida.de lntergeradonal 283 ~ FSIUDO DE CASO O Consumo e a Poupança. dos Idosos 309
SUMÁRIO XV

16•4 Milton Friedman e a Hipótese da Renda 18,2 Demanda por Moeda 334
Permanente 309 Teorias de P(!Tefó!io de Demanda por Moeda 335
A Hipótese 309 ~ ESTUDO DE CASO Papel-moeda e a Economia lnfornlill 335
lmplicações310 Teorias Transacionais da Demanda por Moeda 336
.._ ESTUDO DE CASO O Corr.e Fiscal de I964 e a Sobrecaxa O Modelo Baumol-Tobin de Administração de Caixa 336
Fiscal de 1968 310 Ji", ESTIJDO DE CASO Estudos Empfricos sobre a Demanda por
16-5 Robert Hall e a Hipótese do Passeio Aleatório J 11 Moeda 338
A Hipótese 311 Inovação Financeira, Quase-moeda e o Fim dos Agregados
Implicações 311 Monetários 339
Ji", As Variações PTevisíveis da Renda Le,.,am
ESTUDO DE CASO 18-3 Conclusão 339
a Variações Previs(wis do Consumo? 312
16-6 David Laibson e a Pressão por Gratificação Capítulo 19 AVANÇOS DA TEORIA DO CICLO DE
Imediata 312 NEGÓCIOS 342
16-7 Conclusão 313 19-1 A Teoria dos Ciclos Reais de Negócios 343
A Economia de Robinson Cru50e 343
Capítulo 1 7 INVESTIMENTO 316
." i -
A Interpretação do Mercado de Trabalho 344
17 • l Investimento em Capital Fixo Privado 31 7 Ji", ESTUDO DE CASO O Estudo da Substituição
O Preço de Aluguel do Capital 31 7 Inrertempm-al 344
O Custo do Capital 318 A Importância dos Choques Tecnológicos 345
Os Determinantes do Investimento .319 Ji", ESTUDO DE CASO O Resíduo de Solow e o Ciclo
Impostos e Investimento 320 Econômico 505
O Mercado de Ações e o Q de Tobin 320 A Neutra! idade da Moeda 34 7
.- ESTUDO DE CASO O Mercado de Ações como um Indicador ._ ESTUDO DE CASO T esre d.a Neutm!idru:íe da Moeda 34 7
Econômico 3 21 A Flexibilidade de Salários e Preços 348
Restrições ao Financiamento 322 19-2 A Economia Neokeynesiana 348
ESTUDO DE CASO Crises Bancárias e ApeTtos de
Ji",
Os Pequenos Cust05 de Menu e as Extemalidades da
Crédito 323 Demanda Agregada 348
17,2 Investimento em Residências 323 Recessões como Falha de Coordenação 349
O Equilíbrio do Estoque e o Fluxo de Ofertá 323 ~ ESTUDO DE CASO Evidências Experimentais em Jogos de
Variação da Demanda por Imóveis 324 Coordenação 350
._ SAIBA MAIS Com que Preço de !mooel Você Pode A Irregularidade de Salários e Preços 350
Arcar? 325 ~ ESTUDO DE CASO Se Você Quer Saber por que as Empresas
As Leis Tributárias e ós Imóveis 325 Têm Preços Rígidos, Pergunte a Elas 351

1 7 ,3 Investimento em Estoques 326 19-3 Condusão 352


Porque É Necessário Manter Est.oque 326
Epílogo O QUE SABEMOS, O QUE NÃO
O Mwelo de Estnques Acelerador 326
SABEMOS 355
Ji", ESTUDO DE CASO A Compromçao do Mode!o
Acdenulur 3Z7 As Quatro Lições Mais Importantes da Macroeconomia 355

Estoque e a Taxa de Jur0s Real 327 Liçâo I: N 0 l0ngo prazo, a caracidade de um país de produzir
bens e serviços determina o padrão de vida de seus
1 7 -4 Conclusão 3 28
cidadãos. 355
Capítulo 18 ÜFERTA MONETÁRIA E DEMANDA Lição 2: No curto prazo, a demanda agregada influí na
quantidade de bens e serviços que um país produz. 356
,\1 POR MOEDA 330
Lição 3: No longo prazo, a taxa de crescimento da
18·1 Oferta Monetária 330 quantidade de moeda determina a taxa de inflação, mas
Reserva Bancária de 100% 330 não afeta a taxa de desemprego. 356
Reserva Bancária Fracionária 331 Lição 4: No curto prazo, os fonnuladores das políticas
Um Modelo da Oferta Monetária 332 monetária e fiscal enfrentam uma troca entre inflação e
desemprego. 356
Os Três Instrumentos da Política Monetária 333
.., ESnJDO DE CASO Falências de Bancos e a Oferra Monetária As Quatro Questões Não-Resolvidas Mais Importantes da
na Década de 1930 333 Macroeconomia 357
,--

xvi SUMÁRIO

Questão I : Como os formuladores de política econômica Questão 4: Até que ponto a dívida do governo é um grave
devem tentar aumentar a taxa natural do produto da problema? 358
economia? 357
Questão 2: Os formuladores de política econômica devem
Conclusão 359
tentar escabilizar a economia? 357 Glossário 360
Questão 3: Até que pomo a inflação é custosa, e até que
ponto a redução da inflação é custosa? 358 Índice 370
prefácio

Um economista deve ser "matemático, historiador, estadista, oscilações econômicas, é importante lembrar que a economia
filósofo, em algum grau.( ... ] tão apartado e tão incorruptível clássica provê as respostas certas para multas questões funda-
quanto um artista, ai.as às vezes tão próximo da terra quanto mentais. Neste livro, incorporo muitas contribuições dos eco-
um político". Foi o que comentou John Maynard Keynes, o nomistas clássicos que antecederam Keynes, e dos novos eco-
grande economista britânico que, mais do que qualquer outro, nomistas clássicos, das duas últimas décadas. Dedico, por exem-
pode ser çhamado de pai da macroeconomia. Nenhuma outra plo, uma cobertura considerável à teoria dos fundos de emprés-
declaração resume melhor o que significa ser economista. timo da taxa de juros, à teoria quantitativa da moeda e ao pro-
Como a avaliação de Keynes sugere, os estudantes que de- blema da inconsistência temporal. Ao mesmo tempo, reconhe-
sejam aprender economia têm de usar muitos talentos diferen- ço que muitas idéias de Keynes e dos neokeynesianos são ne-
tes. O trabalho de ajudar os estudantes a encontrar e desenvol- cessárias para a compreensão das oscilações económicas. Uma
ver esses talentos cabe aos professores e aos autores de livros cobertura substancial é dispensada também ao modelo lS-LM
didáticos. Quando escrevi este hvro para os cursos de nível da demanda agregada, à troca de curto prazo entte inflação e
intermediário .de macroeconomia, meu objetivo era tomar a desemprego e às modernas teorias da rigidez de salários e pre-
macroeconomia compreensível, relevante, e (acreditem ou ços.
não) divertida. Os que optaram por ser macroeconomistas pro- Em terceiro lugar, apresento a macroeconomia com uma va-
fissionais assim fizeram porque são fascinados por essa área. Mais riedade de modelos simples. Em vez de pretender que exista um
importante ainda, achamos que o estudo da macroeconomia único modelo, que seria completo o bastante para explicar to,
pode esclarecer muita coisa sobre o mundo, e que as lições a- dos os aspectos da economia, estimulo bs estudantes a apren,
prendidas, se forem devidamente aplicadas, podem tornar o derem como usar e comparar um conjunto de modelos proe,
mundo um lugar melhor. Espero que este livro transmita não minentes. Esse esquema tem o valor pedagógico de permitir que
apenas os conhecimentos acumulados de nossa profissão, mas cada modelo seja apresentado de modo relativamente simples
também entusiasmo e senso de propósito. em um ou dois capítulos. Mais ainda, esse esquema exige que
os estudantes pensem como economistas, que sempre tenham
o Foco DESTE LIVRO em mente vários modelos ao analisarem eventos econômicos
ou políticas econômicas.
Embora os macroeconomistas partilhem uma massa comum de Em quarto lugar, enfatizo que a macroeconomia é uma dis-
conhecimentos, nem todos têm a mesma perspectiva sobre a ciplina empírica, mótlvada e orientada por uma ampla gama
maneira de melhor ensinar esses conhecimentos. Permitam-me de experiência:. Este livro contém numerosos estudos de caso,
começar esta nova edição pela recapitulação de quatro dos meus que aplicam a teoria macroeconómica para esclarecer dados ou
objetivos, que juntos definem melhor o foco deste livro. fatos do mundo real. Para destacar a extensa aplicabilidade da
Em primeiro lugar, tento mostrar um equilíbrio entre as ques- teoria básica, elaborei os estudos de caso de problemas atuais
tões de curto e de longo prazo na macroeconomia. Todos os eco- com que se defrontam as economias do mundo e de episódios
nomistas estão de acordo em que as políticas púhlicas e outros históricos estilizados. Os estudos de caso analisam as políticas
eventos influenciam a economia em diferentes horizontes de econômicas de Alexander Hamilton, Henry Ford, Alan Gre-
tempo. Vivemos em nosso curto prazo, mas tamhém vivemos enspan e George Bush (ambos!). Ensinam o leitor a aplicar
no longo prazo que nossos pais nos legaram. Em conseqüência, princípios econômicos a questões da Europa do século XIV, da
os cursos de macroeconomia precisam cobrir tanto os proble- ilha de Yap, da terra de Oz e do jornal de hoje.
mas de curto prazo, cal como o ciclo econômico e a política de
estabilização, quanto as questões de longo prazo, como o cres-
cimento econômico, a taxa natural de desemprego, a inflação
o QUE HA DE Novo NA QUINTA EDIÇÃO?
persistente e os efeitos da dívida do governo. Nenhum hori- Melhorei este livro em sua quinta edição sob vários aspectos.
zonte de tempo prevalece sobre o outro. O mais óbvio: o livro foi atualizado. Desde que a quarta edição
Em segundo lugar, integro as percepções da teoria keynesiana foi publicada, o mercado de ações dos Estados Unidos experi-
e da teoria clássica. Embora a Teoria Geral de Keynes propor- mentou um declínio considerável, o país elegeu um novo pre-
cione a base para grande parte da nossa compreensão atual das sidente, o Congresso norte-americano aprovou um corte de im,
r r
xviii PREFÁCIO

postos, e ataques terroristas lançaram uma mortalha sobre uma > O Cap. 16 traz uma nova seção sobre o que as novas pes-
economia já Lema. Ao mesmo tempo, houve progressos no quisas de psicologia e economia nos ensinam a respeito
campo da macroeconomia, à medida que novas pesquísas apu- do comportamento do consumidor.
ram nossa compreensão do crescimento econômico e de suas
oscilações. Embora os elementos básicos da macroeconomia Além disso, vários capítulos trazem, ao final, novas perguntas,
sejam os mesmos de poucos anos atrás, muitas coisas mudaram sugerindo aos estudantes que façam uso da Internet como um
nos detalhes e na prática da macroeconomia, o suficiente para instrumento de pesquisa.
justificar uma nova edição. Todas as mudanças que efetuei, assim como as muitas ou-
A maior mudança nesta quinta edição é a organização. Os tras que considerei, foram avaliadas sob o aspecto dos benefí-
capítulos sobre crescimento econômico estão agora separados cios da brevidade. Por minha própria experiência como estu-
em sua parte exclusiva, tanto para realçar a importância desse dante, sei que os livr05 longos têm menor probabilidade de se~
tópico quanto para impedir que o material complique o desen- rem lidos. Meu objetivo neste livro é oferecer o curso mais cla-
volvimento do modelo clássico. A nova organização apresen- ro, mais atualizado e mais acessível de macroeconomia com o
ta primeiro a teoria clássica de renda, preços, comércio e de- mínimo de palavras possível.
semprego. Ô modelo clássico é o pomo de partida para a teoria
do crescimento e a teoria do ciclo econômico que se seguem. A DISPOSIÇÃO DOS TóPICOS
Além da reorganização, o livro foi atualizado, para incorpo-
rar novos eventos, novos dados e novas idéias. Aqui estão al- Minha estratégia para o ensino de macroeconomia é primeiro
gumas das principais mudanças: examinar o longo prazo, quando os preços são flexíveis, e de-
pois examinar o curto prazo, quando os preços são rígidos. Esse
> O Cap. 4 inclui uma nova seção sobre a maneira como a esquema oferece várias vantagens. Primeiro, uma vez a dicoto-
inflação pode ajudar a lubrificar as engrenagens do mer- mia clássica possibilita a separação de questões reais e questões
cado de trabalho. monetárias, o material do longo prazo pode ser compreendido
> O Cap. S tem um novo boxe Saiba Mais, ilustrando are- com mais facilidade pelo estudante. Segundo, quando come-
lação entre o fluxo internacional de bens e o fluxo inter- çam a estudar as oscilações que ocorrerão a curto prazo, os es-
nacional de capital. tudantes compreendem plenamente o equilíbrio a longo pra-
> O Cap. 5 inclui um estudo de caso meticulosamente re- zo, em tomo do qual a economia oscila. Terceiro, começar pelos
visado sobre o déficit comercial dos Estados Unidos. modelos de compensação do mercado torna mais clara a rela-
> O Cap. 6 tem um novo estudo de caso sobre a maneira ção entre macroeconomia e microeconomia. Quarto, os estu-
como a percepção de felicidade das pessoas depende da dantes aprendem primeiro a matéria que é menos controversa
inflação e da taxa de desemprego. entre os macroeconomistas. Por todos esses motivos, a estraté-
>- O Cap. 8 traz um novo estudo de caso sobre a maneira gia de começar pelo modelo clássico de longo prazo slmplifica
como a tecnologia da infonnaçâo aumentou o crescimen- o ensino da macroeconomia.
to da produtividade durante a década de 1990. Passemos agora da estratégia à tática. O que vem a seguir
> O Cap. 8 tem uma nova seção sobre os papéis da acurou· uma rápida excursão pelo livro.
lação de capital e da eficiência da produção na explica-
ção das diferenças internacionais de padrões de vida. Parte 1: Introdução
> O Cap. LO apresenta um estudo de caso atualizado, que O material de introdução na Parte 1 é breve, para que os estu-
analisa o corte fiscal aprovado em 2001 nos EUA. dantes possam chegar logo à essência dos tópicos. O Cap. 1
> O Cap. 11 traz um novo boxe Saiba Mais, em que se exa- estuda as questões amplas tratadas pelos macroeconomistas e a
mina a possibilidade de uma armadilha da liquidez. maneira como os economistas constroem modelos para expli-
> O Cap. 11 traz um novo estudo de caso sobre o declínio car o mundo. O Cap. 2 apresenta os dados fundamentais da
econômico dos EUA em 2001. macroeconomia, enfatizando o produto interno bruto, o índi-
> O Cap. 12 inclui uma nova seção sobre os ataques ce de preços ao consumidor e a taxa de desemprego.
especulativos, conselhos monetários e dolarização.
> O Cap. 13 tem um novo boxe Saiba Mais sobre a confi-
Parte 2: Teoria Clássica : A Economia no Longo Prazo
abilidade das estimativas da taxa natural de desempre·
go. A Parte 2 estuda o longo prazo, em que os preços são flexíveis.
>- O Cap. 13 tem um novo apêndice, que aborda de ma· O Cap. 3 apresenta o modelo clássico básico de renda nacio-
neira mais analítica como alguns dos modelos desenvol- nal. Nesse modelo, os fatores de produção e a tecnologia de
vidos neste Livro relacionam-se uns com os outros. produção determinam o nível de renda, e os produtos margi-
>- O Cap. 14 traz um novo estudo de caso sobre a extraor- naís dos fatores determinam sua distribuição para as famílias.
dinária estabilidade macroeconômica da década de 1990. Além disso, o modelo mostra como a política fiscal influencia
>- O Cap. 15 inclui um estudo de caso meticulosamente re- a distribuição dos recursos da economia entre consumo, inves-
visado sobre a perspectiva da polftíca fiscal. timento e compras do governo. Também destaca como a taxa
PREFÁCIO xix

de juros real equilíbra a oferta e a demanda por bens e servi- O estudo das oscilações que ocorrerão a curto prazo prosse-
ços. gue no Cap. 12, que focaliza a demanda agregada em uma eco-
A moeda e o nível de preços são apresentados no Cap. 4. nomia aberta. O capítulo apresenta o modelo Mundell-Fleming,
Como se pressupõe que os preços são plenamente flexíveis, o e mostra como as políticas monetária e fiscal afetam a econo-
capítulo apresenta as idéías proemínentes da teoria monetária mia sob sistemas de taxa de câmbio fixa e sistemas de taxa de
clássica: a teoría quantitativa da moeda, o imposto de inflação, câmbio flutuante. Também examina o debate sobre a decisão
o efeito Fisher, os custos sociais da inflação, e as causas e os cus- de adotar taxa de câmbio fixa ou flutuante.
tos da hiperinflação. O Cap. 13 examlna mais atentamente a oferta agregada. O
O estudo macroeconômico da economia aberta começa no capítulo examina várias abordagens para explicar a curva de de-
Cap. 5. Mantendo o pressuposto de pleno emprego, o capítulo manda agregada de curto prazo, e fala sobre a troca de curto
apresenta modelos para explicar a balança comercial e a taxa prazo entre inflação e desemprego.
de câmbio. Várías questões de polf tíca econômica são tratadas:
a relação entre o déficit orçamentário e o déficit comercial, o Parte 5: Debates de Política Macroeconómica
impacto macroeconômico de políticas comerciais protecionis-
tas, e o efeito da política monetária no valor de uma moeda no Depois que o estudante conhece os modelos padrões da eco-
nomia de longo prazo e de curto prazo, o livro aplica esses
mercado de câmbío externo.
modelos como base para apresentar alguns dos debates funda-
O Cap. 6 altera o pressuposto de pleno emprego ao analisar
mentais sobre a política econ6mlca. O Cap. 14 trata da ma-
a dinâmica do mercado de trabalho e a taxa natural de desem-
neira como os formuladores de política econômica devem rea-
prego. O capítulo examina várias causas do desemprego, inclu-
gir às oscilações econômicas que ocorrerão a curto prazo. Oca -
sive a busca de emprego, as leis do salário mínimo, o poder dos
pítulo enfatiza duas questões amplas. A política monetária e a
sindicatos e os salários de eficiência. Também apresenta alguns
política fiscal devem ser atlvas ou passivas? A política econô-
fatos importantes sobre os padrões de desemprego. ·
mica deve ser conduzida por regra ou deve ser discricionária?
O capítulo apresenta argumentos dos dois lados nessas questões.
Parte 3: Teoria do Crescimento: A Economia a O Cap. 15 trata dos vários debates sobre a dívida do gover-
Longuíssimo Prazo no. O capítulo dá certo sentido à magnitude do endividamento
do governo, analisa por que a mensuração dos déficits orçamen-
A Parte 3 mostra a análise clássica da dinâmica da economia, tários nem sempre é objetiva, recapitula a visão tradicional dos
ao desenvolver os instrumentos da moderna teoria do cresci- efeitos da dívida do governo, apresenta a equivalência ricardi-
mento. O Cap. 7 apresenta o modelo de crescimento de Solow ana como uma visão alternativa e examina várias outras pers-
como uma descrição da maneira como a economia evolui ao pectivas sobre a dívida do governo. Tal como no capítulo an-
longo do tempo. O capítulo enfatiza ós papéis da acumulação terior, os estudantes não recebem respostas prontas, mas sim
de capital e do crescimento populacional. Depois, o Cap. 8 a- os instrumentos para avaliarem por corita própria as alternati-
crescenta o progresso tecnológico ao modelo de Solow. Oca- vas de pontos de vista.
pítulo aplica o modelo para analisar experiências de crescimen-
to ao redor do mundo, assim como as políticas públicas que
influenciam o nível e o crescimento do padrão de vida. Final- Parte 6: Mais sobre a Microeconomia por
mente, o Cap. 8 apresenta aos estudantes a moderna teoria do Trás d.a Macroeconomia
crescimento endógeno. Depois de desenvolver teorias para explicar a economia a lon-
go praw e a curto prazo, aplicando em seguida essas teorias aos
Parte 4: Teoria do Ciclo Econômico: A Economia no debates de política macroeconômica, o livro passa para vários
Curto Prazo tópicos que apuram nossa compreensão da economia. Os úlri-
mos quatro capítulos analisam mais plenamente a microeco-
A Parte 4 examina o curto prazo, quando os preços são rígidos. nomia que há por trás da macroeconomia. Esses capítulos po-
Começa no Cap. 9, pela apresentação do modelo de oferta agre- dem ser apresentados ao final de um curso, ou podem ser trata-
gada e de demanda agregada, assim como pelo papel da políti- dos antes, dependendo da preferência do professor.
ca de estabilização. Os capítulos subseqüentes apuram as idéi- O Cap. 16 apresenta as diversas teorias sobre comportamen-
as aqui apresentadas. to do consumidor, inclusive a função de consumo keynesiana,
Os Caps. 10 e 11 examinam mais atentamente a demanda o modelo de escolha intertemporal de Fisher, a hipótese do ciclo
agregada. O Cap. 1Oapresenta a cruz keynesiana e a teoria da de vida de Modigliani, a hipótese da renda permanente de
preferência pela liquidez, aplicando esses modelos como fun- Fríedman, a hipótese do passeio aleatório de Hall e o modelo
damentos para o desenvolvimento do modelo IS-LM. O Cap. de gratificação imediata de Laibson. O Cap. l 7 examina a te-
11 adota o modelo JS-LM para explicar as oscilações económi- oria subjacente à função investimento. O Cap. 18 oferece
cas e a curva da demanda agregada. O capítulo conclui com um material adicional sobre o mercado monetárlo, inclusive opa-
extenso estudo de caso da Grande Depressão. pel do sistema bancário na determinação da oferta monetária
XX PREFÁCIO

e o modelo Baumol-Tobin de demanda por moeda. O Cap. 19 tas apresentam um argumento mais rigoroso ou uma prova de
estuda os avanços na teoria das oscilações econômicas, inclu- um resultado matemático. Os esrudantes que não aprenderam
sive a teoria dos clclos econômicos reais e as teorias os instrumentos matemáticos necessários podem ignorar essas
neokeynesianas de preços rígidos; essas teorias recentes adotam notas sem maiores problemas.
uma análise microeconômica, numa tentativa de compreender
melhor as oscilações econômicas a curto prazo. Resumos de Capítulos
Ep(logo Cada capítulo se encerra com um breve resumo, não-técnico,
das principais lições do texto. Os estudantes podem usar esses
O livro termina com um breve epílogo, que recapitula as lições resumos pilra situar o material em perspectiva e revisá-lo para
amplas acerca das quals a maioria dos macroeconomistas está as provas.
de acordo e discute algumas das mais importantes questões em
aberto. Independentemente dos capítulos que um professor Conceitos-Chave
elege para tratar, esse epílogo pode ser usado para lembrar aos
estudantes como os muitos modelos e temas macroeconômi- Aprender a nomenclatura de uma disciplina é uma parte im-
cos se relacionam entre si. Aqui e em todo o livro enfatizo que, portante de qualquer curso. Dentro do capítulo, cada concei-
apesar das divergências entre os macroeconomistas, sabemos to-chave é impresso em negrito, quando aparece pela primeira
muita coisa sobre _a maneira como a economia funciona. vez. Ao final do capítulo, os conceitos-chave são novamente
apresentados, para uma revisão.
INSTRUMENTOS DE APRENDIZAGEM
Questões para Revisão
Sinto-me satisfeito por terem os estudantes achado acessível a
edição anterior deste livro. Tentei fazer com que esta quinta Depois de estudar um capítulo, o estudante pode testar imedi-
edição seja ainda mais acessível. atamente se compreendeu as lições básicas, respondendo às
Questões para Revisão.
Estudos de Caso
Problemas e Aplicil{ões
A economia adquire vida quando é aplicada em prol da com-
preensão de eventos que de fato ocorreram. Portanto, os nu- Cada capítulo inclui Problemas e Aplicações projetados para
merosos estudos de caso (muitos novos ou revisados nesta edi- os deveres de casa. Alguns são aplicações numéricas da teoria
ção) constituem um importante instrumento de aprendizagem. contida no cnpítulo. Outros estimulam o estudante a ir além
A freqüência desses estudos de caso garante que o estudante do material tratado no capítulo, apresentando novas questões
nao terá de absorver uma dose excessiva de teoria antes de vê- estreitamente relacionadas com os tópicos do capítulo.
la aplicada. Os estudantes relatam que os estudos de caso são a
sua parte predileta do livro. Apêndices de Capítulo
Vários capítulos contêm apêndices que oferecem material adi-
Boxes Saiba Mais
cional, às vezes em um nível superior de sofisticação matemá-
Esses boxes apresentam material auxiliar para que você "saiba tica. Esses apêndíce~ foram projetados para que os professores
mais". Costumo usá-los para esclarecer conceitos difíceis, pro- possam cobrir determinados tópicos com maior profundidade,
pare ionar informação·adicional sobre instrumentos da econo- se assim desejarem. Mas pode-se ignorar por completo os apên-
mia e mostrar como a economia se relaciona com a nossa vida dices sem perda de continuidade,
cotidiana. Vários boxes desta edição são novos ou revisados.
Glossário
Gráficos
Para ajudar o estudante a se familiarizar mais com a linguagem
Compreender a análise gráfica é uma parte fundamenralda apren- da macroeconomia, no final do livro há um glossárlo com mais
dizagem da macroeconomia. Esforcei-me por fazer com que as de 250 termos.
figuras fossem entendidas com facilidade. Uso com freqüência
boxes de comentário dentro das figuras, chamando a atenção para TRADUÇÕES
pontos importantes que a figura ilustra. Esses gráficos devem aju-
dar os estudantes tanto a aprender como a revisar a matéria. A versão em língua inglesa deste livro tem sido usada em deze-
nas de países. Para tornar o livro mais acessível a estudantes ao·
redor do mundo, há (ou haverá em breve) edições disponíveis
Notas Matemáticas em quinze outraslínguas: alemão, annênio, chinês, tore ano, es-
De vez em quando, uso rodapés em linguagem matemática para panhol, francês, grego, húngaro, indonésio, italiano, japonês,
manter fora do texto principal o material mais difícil. Essas no- português; romeno, russo e ucraniano. Além disso, há também

n - -. .4 .-.R,Htii
PREFÁCIO X.Xi

uma adaptação canadense, com a co-autoría de William Scarth Christopher Comell


(McMaster Universicy ). Os professores que desejarem informa- (Ohio Suue Uniwrsity)
ções sobre essas versões do livro podem entrar em contato com Vanessa Crafc
a W orth Publishers. (Bendey Co!/.ege)
Ron Cmnovich
AGRADECIMENTOS (Universidade de Nevada., Lm Vegas)
Ao escrever e revisar este livro, beneficiei-me das contribuições A. Edward Day
de muitos revisores e colegas na profissão de economista. Quero ( Universidade do Texas, Dallas)
agradecer a cada um que, nesta edição ou em edições anteriores,
David DeJong
abriu mão de parte do seu escasso tempo para me ajudar a me- ( Uniwrsidade de Pictslm.rgh)
lhorar os aspectos econômicos ou pedagógicos do texto:
Charles Delorme, Jr.
Daron Acemoglu { Universidade da Geórgia)
(Massachusetts lnstitute o[ Techno/og),) Paula DeMasi
Francis Ahking (Fundo Monetário lntemocional)
(Uni1'ersidade de Connecticur) William Dickem
StevenAllen (Unit'ersidade da Califórnia, Berkeley)
(Nonh Carolina State Uniwrsiry)
John Driscoll
D:wiJ Aschauer (Brown Unit,ersity)
( Bates College)
Donald Dutkowsky
Laurence Ball (Syracuse Unfoersity)
(Johns Hopkins l'nit·miry)
Mark Dwyer
Susanto Basu ( Un1t•ersidade da Calif6mia, Los Angeles)
( Unit•ersidade de Michigan)
Karen Dynan
Chrisropher Baum (Federal Resen,e Board)
( Bosion College)
Jan Eberl\-'
Rohert Barry (Northwestem Universit'I)
(Collep:e of William and Mary)
Douglas Elmendorf
Robert Barsky (Federal Resen,e Board)
(Uniwrsidade de Michigan)
GerJIJ Epstein
Charles Bean
( Uniwrsidade de Massachusetts)
(Banco da lnglaterm)
Charles Bischuff Mark Evans
(SUNY, Binghamwn)
(Califórnia State Unit•ersicy, Bakersfield)

Duncan Black Michael Everett


(L'ni, ,ersillade da Califórnia, ln~ne) (Quinnipiac Unii•ersity)

Dwight M . Blut)J Liang-Shing Fan


(Brigham Ymmg Unii-nsit:l'l (Colorado .Sacate Unii,ersity)

Ronald BoJkin FuaJ FariJi


(Unit·eTsidade de Octawa) (Han•ard Unit•ersity)
Karhleen Brook Antonio Fatas
(Neu• Me:cicu Statt.' L1nii•ersit)') (INSEAD)
Alisun Butler John Fernald
(Florida Internacional Unit•mity) (Federal Resenie Board)
John Campbell Chris Fooce
(Har11ard Unit--ersit:I'} (Han,ard Universicy)
NikoCanner Peter Frevert
(McKinsey & Company) (Unit,ersidade do Kansas)
Christopher D. Carroll Rachel Friedberg
(Johns Hopkins University) (Brown University)
xxii PREFÃcro

David Gapinski John Lapp


(Florida Smte University) (North CaroUna Suu.e Uni11ersity)
Michelle R . Garfinkel Emily C. Lawrence
(Universidade da Califórnia, lrt/ÍTie) (Denison University)
HarveyGram John Leahy
(Queern College) (Boston Universicy)
Edward Gramlich Daniel Levy
(UniveTSidade de Michigan) (Emory Uni11ersity)
Usa Gwbar Bill Maloney
(California Stace Universiiy, Long Beach) ( Universidade de r!linois em Urbana-Champaign)
Richard Grossman Deborah Mankiw
(Wesleyan University) (NBER)
Chris Hanes W. Douglas McMillan
(Unít,ersidade da Pensilt•ânía) (Louisiana Stare University)
Da\'id Himarios Starr McMul!en
(Unii,ersidade do T e.ws em Arlington) ( Oregon State University)
Steven Holland David Meinster
(Universidade do Kentucky) (antiga T emple University)
Peter ln~land Diego Mendez-Carbajo
(Boston College) (Illinois Wesl.eyan Universiry)
Dennis Jansen Andrew Meuick
(Texas A & M Unii,ersiry) (Universidade da Pensilvânia)
Nancy Jianakoplos Jeffrey Miron
(Colorado Swte Unit,crsity) (Boston University)
Andrew John Bruce Mizrach
(Universidade da Virgínia) (Rutgers University)
Anil Kashyap O!ivier Morand
( Universidade de Chicago) (Universidade de Connecticut)
Roger Kaufman Douglas Morgan
(Smith College) (Universidade da Califórnia, Santa Barbara)
Klaus Oierer John Robert Murphy
( Universidade de Tecnologia Chemnitz) (Boston College)
Peter Klenow Egon Neuberger
(Federal Res~rw Bank de Minneapolis) (Universidade Escadunl de Now. Ycrrk em Swny Brook)
David Jnhnson Neil Niman
( Harvard Uni,,eTSit'i) (Uniuersidadede New Hampshire)
Richard Johnson Lee Ohanian
(Han•ard Unit•ersit'I} (Federa! Reserve Bank de Minneapolis)
Mnnfred Keil Michael Oldfather
(Claremont McKenna College) (Kansas State University)
Robert W. Kilpacrick Stefan Oppers
(Office of Management and Budget) (Fundo Monetário Internacional)
David C. Klingaman David Parsley
( Ohio University) (Vanderbilt University)
Kennech Koelln Parag Pathak
( Unit1ersidade do Norte do Texas) (Harvard University)
John Laitner Thomas Pague
(Universidade de Michigan) ( Unit1ersídade d.e Iowa)
PREFÁCIO XXiii

Uri M. Possen David Tabak


(ComeU Univmir.y) (NERA)
Michael Rashes Lowell Taylor
(Harvard Universiry) (Camegie-MeUon University)
Salim Rashid Richard T rethewey
(Universidade de fllínois em Urbana-Champaign) (Kenyon College)
David Rearden Brian M. Trinque
(Universidade do Kansru) (Uníversidade do Texas)
Kevin Reffett John Veitch
(Universidade do Arizona) (Universidade d.e San Francisco)
Karen Reid Anne P. Villamil
(Universidade do Tennessee, Knoxville) (Uniwrsidade de Illinois em Urbana-Champaign)
Changyong Rhee PingWang
( Universidade Nacional d.e Seul) (Penrnylvania Swte Unit,ersity)
Joseph Rítter David Weil
(F.-deral Reserw Bank de St. Lmi,i) (Brown University)
David Romer Charles Whiteman
( Uniwrsidade da Califórnia, Berkeley) (Uniwrsidade de Iowa)
Andrew K. Rose Justin Wolfers
( Unitmidade da Califórnia. Berkeley) ( Harmrd Univmity)
Marjorie Rose Jeffrey Zax
(Dartmouth College) ( Unit,ersidade do Colorado em Boul.der)
Bennecr Rushkoff
(Federal Tra.de Commission) O pessoal da Worth Publishers, que cuidou da edição ame-
ricana, sempre foi muito amável e dedicado. Sou grato a Alan
Amy Salsbury
McClare, editor de economia, que coordenou o processo de
(Haward Unitoenit,·)
revisão para esta edição; Barbara Reingold, diretora de arte;
Michael Samson Margarer Comaskey, editora de projetos; Barbara Seixas, ge-
(Williams College)
rente de produção; Eve Moeller, editora de suplementos; e
Laurence S. Seidmah Sr:icey Alexander, gerente de suplementos.
(Universidade de Delaware) Muitas outras pessoas também deram contribuição valiosa,
Macchew Shar,iro principalmente Jane T ufts, editora independente de desenvol-
(Unit•midnde de Michigan) vimento de projetos, que mais uma vez empre~tou sua magia a
este livro, confirmando que é a melhor no ramo. Alexandra
Alden Shiers
Nickerson fez um grande trabalho na preparação do índice.
(California Polytechnic Universit:v)
Yvonne Zinfon, minha assistente em HarYard, demonstrou fi-
Roberc Shimer dedignidade, paciência e boa di5posição ao me ajudar a ler as
(Princerun Unit•ersity) provas de todo o livro.
Brían Si! vermme Não posso esquecer de citar Ricardo Reis. Ricardo não aju-
(Uni,,ersidad.e de \\:'aikaw) dou nem um pouco nesta edição nem em qualquer outra, mas
Boris Simhwich sua mãe queria ver seu nome mencionado no livro.
( Ham.1rd Unit·mity) Finalmente, eu gostaria de agradecer à minha filha de dez anos,
Catherine, meu filho de sete anos, Nicholas, e meu filho de três
Seamus Smyth
(Har.,ard Uni11ersity) anos, Peter. Eles ajudaram imensamente nesta revisão-tanto ao
me proporcionarem uma agradável distração quanto ao melem-
David Spencer brarem que os livros didáticos são escritos para a próxima geração.
( Brigham Yottng Uni,,ersity)
Edward Steinberg
(New York Uni1,•ersity) f/. ~ //J1-..L
Abdulhamíd Sukar Cambridge, Massachusetts
(Cameron Universícy) Janeiro de 2002
sobre o autor

N. Gregory Mankiw é professor de Economia na Harvard Uni- balhos sobre ajuste de preços, comportamento do consumidor,
versity. Começou a estudar Economia na Princeton Universi- mercados financeiros, políticas monetária e fiscal, e crescimento
ty, onde, em l 980, recebeu um diploma de bacharel summa cum econômico. Além de suas funções em Harvard, ele é pesqµisa-
laude. Após a conclusão do doutorado em Economia no MIT dor associado do Natíonal Bureau of Economic Research, mem-
( Massachusetts lnsti tute of Technology), começou a ensinar bro do Brooking~ Panei sobre Atividade Econômica, e assessor
em Harvard em 1985. Foi promovido a professar de dedicação do Federal Reserve Bank de Boston e do Centro de Orçamen-
exclusí va em 198 7. Hoje, dá cursos regulares de macroecono- to do Congresso. É também autor de um livro bastante conhe-
mia, inclusive para alunos de pós-graduação. cido de introdução à Economia, Principies of Economics (South-
O professor Mankiw é um escritor prolífico e participante W escem/Thomson) .
ativo em debates acadêmicos e de política econômica. Sua pes- O professor Mankiw reside em Wellesley, Massachusetts, com
quisa estende-se por muitas áreas da Economia, incluindo tra- a esposa, Dehorah, e os filhos Catherine, Nicholas e Peter.
,.

PARA DEBORAH
Os ramos da política, ou das leis que regem a vida social, nos pulo, se ela esquecer em algum momento de lhe dispensar a
quais existe uma variedade de fatos bastante selecionados e que devida atenção. Os ventos e as ondas também são insensíveis.
foram organizados metodicamente .p ara formarem o princípio Você aconselha ria quem sai ao mar a negar os· ventos e as on-
de uma ciência, devem ser ensinados com conhecimento de das ... ou recomendaria aproveitá-los, e encontrar os meios de
causa. Entre os principais figura a Economia Política, as fontes se precaver contra seus perigos? Meu conselho é estudar os gran-
e as condições da riqueza e da prosperidade material para os con- des autores da Economia Política, e se apegar com firmeza ao
juntas agregados de seres humanos. [. , .) que considera verdadeiro em seus textos; e ter a certeza de que,
Quem menospreza a Lógica também vai advertir o leitor, de se você não é egôísta nem desumano, não será a Economia
modo geral, contra a Economia Política. É insensível, dirão. Re- Política que o tomará assim.
conhece fatos desagradáveis. De minha parte, considero que a
- John Stuart Mill
coisa mais insensível que conheço é a lei da gravidade: quebra 1867
o pescoço da melhor e mais amável pessoa, sem o menor escrú-
r
sumário geral

Prefácio xvii Capítulo 11 Demanda Agregada II 194


Capítulo 12 Demanda Agregada na Economia
parte 1 Aberta 215
INTRODUÇÃO Capítulo 13 Oferta Agregada 239
Capítulo l A Macroeconomüi como Ciência 3
Capítulo 2 o~ Dados d,1 Macrueconomia 12 parte 5
DEBATES DA POLÍTICA
MACROECONÔMICA
parte 2
TEORIA CLÁSSICA: A ECONOMIA NO Capítulo 14 Política de Estabilíiação 261
LONGO PRAZO Capítulo 15 Dívida do Governo 278

Capítulo 3 Renda Nacional: De Onde Vem e para Onde


Vai 31 parte 6
Capítulo 4 Moeda e lnfbção 53 MAIS SOBRE A MICROECONOMIA POR
Capítulo 5 A Economia Aherta 77 TRÁS DA MACROECONOMIA
Capítulo 6 Desemprego L06 Capítulo 16 Consumo 297
Capítulo 17 Jnvestimenco 316
parte 3 Capítulo 18 Oferta Monetária e Demanda por
TEORIA DO CRESCIMENTO: A ECONOMIA Moeda 330
A LONGUÍSSIMO PRAZO Capítulo 19 Avanços da Teoria do Ciclo de
Negócios 342
Capítulo 7 Crescimentú Econômico I 123
Capítulo 8 Crescimento Econômico II 142 Epílogo: O que Sabemos, o que Não Sabemos 355

Glossário 360
parte 4
TEORIA DO CICLO ECONÔMICO: Índice 370
A ECONOMIA NO CURTO PRAZO
Capítulo 9 Introdução às Oscilações Ecnnômicas 16_,
Capítulo 1O Demanda Agregada I L77
F , ·.·

Parte 1

INTRODUÇÃO
Capítulo 1

A MACROECONOMIA COMO CIÊNCIA

O totlo du. ciênciu nada mai.~ é q.ue o refinamento do pensamento cotidiano.


- Albert Ein:;tdn

1-1 O QUE OS MACROECONOMISTAS ESTUDAM


Por que alguns países experhnentaram um rápido crescimento Embora a função de formular a política econômica caiba aos
das rendas ao longo do úlrimo século, enquanto outros atolaram líderes mundiais, a função de explicar como funciona a econo-
na pobreza? Por que alguns países têm altas taxas de inflação, mia como um todo cabe aos economistas. Com esse objetivo,
enquanto outros conseguem manter os preços estáveis! Por que os macroeconomistas recolhem dados sobre rendas, preços,
todos os países experimentam recessões e depressões - perío- desemprego e muitas outras variáveis de diferentes períodos e
dos recorrentes d.e declínio das rendas e desemprego em alta países. Depois, tentam formular teorias gerais quê ajudem a
- e como a política governamental pode reduzir a freqüência explicar esses dados. T ai como astrônomos estudando a evolu-
e a gravidade desses episódios? A macroeconomia, o estudo da ção das estrelas, ou biólogos estudando a evolução das espéci-
economia como um todo, tenrn responder a essas e a muitas es, os macroeconomiscas não podem realizar experimentos con-
outras perguntas relacionadas. trolados. Em \'ez disso, devem fazer uso dos dados que a histó-
Para compreender a importância da macroeconomia, você ria lhes oferece. Os macroeconomisras observam que as econo-
só precisa ler o jornal ou escuraro noticiário da televisão ou do mias diferem entre si e mudam ao longo do tempo. Essas obser-
rádio. Todos os dias você vai encontrar manchetes como CRE..S- vações prnporciom1m tanto a motivação para o desenvolvimen-
CIMENTO DA RENDA DIMINUI, BANCO CENTRAL to de teorias macroeconômicas quanto os dados para testá-las.
ADOTA MEDIDAS CONTRA INFLAÇÃO ou QUEDA Com toda certeza, a macroeconomia é uma ciência recente
NA BOLSA POR MEDO [)E RECESSÃO. Embora possam e imperfeirn. A capacidade do macroeconomista de prever o
parecer abstratos, esses eventos macroeconômicos afetam a vida curso futuro dos eventos econômicos não é melhor do que ,1
de todos nós. Os execuri\·os de empresas, prevendo a demanda capacidade do meteorologista de prever o tempo no próximo
para seus produtos, têm que adivinhar até que ponto vai cres- mês. Mas, como você vai constatar, os macroeconomistas sa-
cer a renda dos consumidores. Os idosos, vivendo de rendimen- bem muita coisa sobre a maneira como a economia funciona.
tos fixos, especulam a que rapidez os preços vão subir. Os re- Esse conhecimento é útil parn explicar os fatos econômicos, e
cém-fonnados na universidade, que estão à procura de empre- também para formular a política econ6mica.
go, esperam que a economia prospere e as empresas contratem Cada época rem seus problemas econômicos peculiares. N a
novos empregados. década de 1970, os presidentes americanos Richard N ixon,
Como o estado da economia afeta todo mundo, as questões Gernld Ford e Jimmy Carter lutaram em vão contra uma taxa
macroeconômicas desempenham papel central no debate po- crescente de inflação. Na década de 1980, a inflação diminuiu,
lítico. Os eleitores têm noção do desempenho da economia, e mas os presidentes Ronald Reagan e George Bush governaram
sabem que a política econômica do governo pode afetar a eco- com enormes déficics orçamentários. Na década de 1990, com
nomia por meios poderosos. Em conseqüência, a popularidade o presidente Bill Clinton na presidência, o déficit orçamentá-
do presidente no cargo aumenta quando a economia vai hem, rio encolheu, e até se transformou em superávit. Mas os impos-
e diminui quando vai mal. tos federais como uma parcela da renda nacional, alcançaram
As questões macroeconômicas também estão no centro da um recorde histórico. Por isso, não foi surpresa que o presiden·
política internacional. Nos últimos anos, a Europa avançou para te George W . Bush, ao entrar na Casa Branca em 2001, inclu-
uma moeda comum, muitos países asiáticos experimentaram ísse cortes nos impostos como um ponto importante do seu pro-
crises econômicas e fuga de capitais, e os Estados Unidos finan- grama de governo. Os princípios básicos da macroeconomia não
ciaram vultosos déficits comerciais com empréstimos do exte· mudam de uma década para outra, mas o macroeconomista deve
rior. Quando os Hderes mundiais se reúnem, esses assuntos cos- aplicar esses princípios com flexibilidade e criatividade, a fim
tumam ocupar lugar de destaque em suas agendas. de enfrentar as circunstâncias em constante transformação.
4 CAPITULO 1

ESTUDO DE CASO
0 DESEMPENHO HISTÓRICO DA ECONOMIA DOS de renda declinante estejam associados a substanciais dificul-
ESTADOS UNIDOS dades econômicas.
Os economistas utilizam muitos tipos de dados para medir o A Fig. 1-2 mostra a taxa de inflação dos Estados Unidos.
desempenho de uma economia. Três variáveis macroeconô- Pode-se verificar que a inflação varia consideravelmente. Na
micas são especialmente importantes: o produto interno bru- primeira metade do século XX, a taxa de inflação manteve-se,
to (PIB) real, a taxa de inflação e a taxa de desemprego. O em média, .um pouco acima de zero. Os períodos de preços em
PIB real mede a renda total de todo mundo na economia queda, o que se chama de deflação, foram quase tão comuns
(ajustado para o nível de preços) . A taxa de inflação mede a quanto os períodos de preços em alta. No último meio século,
rapidez com que os preços sobem. A taxa de desemprego mede a inflação tem sido a norma. O problema da inflação tomou-se
a fração da força de trabalho que está sem trabalho. Os mais grave durante o final da década de 1970, quando os pre-
macroeconomistas estudam como essas variáveis são determi- ços sublram a uma taxa de quase 10% ao ano. Nos últimos anos,
nadas, por que mudam ao longo do tempo e como interagem a taxa de inflação tem sido de cerca de 2 a 3% ao ano, indican-
entre si . do que os preços vêm se mantendo relativamente estáveis.
A Fig. 1-1 mostra o PIB real per capita nos Estados Unidos. A Fig. 1-3 mostra a taxa de desemprego nos Estados Uni-
Dois aspectos dessa figurn devem ser destacados. Prtmeiro, o PIB dos. Observe que sempre há desemprego na economia ameri-
real cresce ao longo do tempo. O PIB real per capita é hoje cerca cana. Além disso, embora não haja uma tendência a longo pra-
de seis vezes maior do que em 1900. Esse crescimento na renda zo, o nível de desemprego varia de ano para ano. As recessões
média permite-nos desfrutar um padrão de vida mai.s elevado e depressões estão associadas a um desemprego excepcional-
do que nossos bisavós desfrutaram. Segundo, embora o PIB real mente alto. As maiores taxas de desemprego foram alcançadas
cresça na maioria dos anos, esse crescimento não é constante. durante a Grande Depre~são da década de 1930.
Há repetidos períodos em que o PIB real cai, sendo o exemplo Ess1:1s três figuras oferecem um vislumbre da história dos
mais drástico o que ocorreu no início da década de 1930. Esses Estados Unidos. Nos próximos capítulos, vamos examinar pri-
períodos são chamados de recessões, se são brandos, e depres- meiro como essas variáveis são medidas, e depois desenvolver
sões, _se sao mais severos. Não é de surpreender que períodos teorias para exp!ic1:1r tomo elas se comportam.

PIB real per capita Primeira Segunda Guerra Primeiro choque do petróleo
(dólares de 1996) Guerra Grande Guerra da Guerra , Segundo choque do petróleo
35.000 Mundial Depressiio Mundial Coréia do Vietnà; / 1
30.000

20.000

10000

5.000

3.000 ~ _ _,__ _...__ __.__ __.__ ___.._ _.......___ __,__ __.__ __J.___ __.__

1900 1910 1920 1930 1940 1950 1960 1970 1980 1990 2000
Ano

Fig. 1·1 PIB Real Per Capita na Economia dos Estados Unidos O PIB real mede a renda total de todos os agentes econômicos, enquanto o PIB
real per capita mede a renda de um agente econômico médio. Esta figura mostra que o PIB real per capita tende a crescer ao longo do tempo, e que
esse crescimento normal é às vez.es interrompido por períodos de declínio da renda, chamados de recessões ou depressões.
Nota: O PIB real é traçadci aqui.em uma escala logaritmica. Nessa escala, uina dada distância no eixo vertical repcesenta uina mudança igual <lm percemagem . Assim, a distância entre $5.000
e $10.000 (uma mudança de 100%) é a mesma entre $10.000 e $20.000 (uma mudança de 100%).
Fonte: U.S. Bureau of the Census (Historical Stadsr:ics oi ihe Uniced Sr.atas: CoJon/11/ Times co 1970) a U.S. Department of Commerce.

L
--
A MACROECONOMIA COMO CiflNCIA 5

Percentual
Primeira Segunda Guerra Guerra
30 Guerra Grande Guerra da do Primeiro choque do petróleo
Mundial Depressão Mundial Coréia Vietna / Sepndo choque do petróleo
25

20

lnAação 15

10

s
o
-5

Deflação -10

-15

-20
1900 1910 1920 1930 1940 1950 1960 1970 1980 1990 2000
Ano

Fig. 1-2 Taxa de Inflação na Economia dos Estados Unidos A taxa de inflação mede a mudança percentual no nível médio de preços em
relação ao ano anterior. Quando a taxa de inflação situa-se acima de zero, os preços estão subindo. Quando está abaixo de zero, os preços estão
caindo. Se a taxa de inflação declina. mas permanece positiva, os preços estão subindo, mas a um ritmo mais lento.
Nora: A taxa de inflação é medida aqui pelo uso do deftator do PIB.
fant8: U. S. Bureau of the Cen~us /Hisconcai S!atistics of the United States: Coloma! Times to 1970) e U. S. Department oi Comme,ce.

Percentual Primeira Seg11nda Guerra Guerra Primeiro ehoque do petró,eo


,
desempregado Guerra Grande Guerra da do
Vietnã / fegundo choque do petróleo
Mundial Depressão Mtmdial Coréia
25

20

15

10

o .____.____ ..___........___ ...L..._ ____._ _ _....__ __ _ , . __ __.__ __ ...__ __.__

1900 1910 1920 1930 1940 1950 1960 1970 1980 1990 2000
Ano

Fig. 1-3 Taxa de Desemprego na Economia dos Estados Unidos A taxa de desemprego mede o percentual de pe$$oas da força de.trabalho
que não têm emprego. A figura mostra que a economia sempre tem algum desemprego e que a quantidade oscila de um ano para outro.
Fonte.· U S. Bureau of the Censu.s IHiston·ca/ S/.atistics oi the United States: Colonial Times to 1970) e U. S. Depa1tment or Commerce.
r 6 CAPITULO 1

1-2 COMO OS ECONOMISTAS PENSAM


Embora estudem com freqüência questões de extrema impor- teração no mercado de pizza. Por exemplo, o economista su-
tância política, os economistas tentam avaliar tais questões com põe que a quantidade de pizza demandada pelos consumido-
a obíetividade de um cientista. Como em qualquer ciência, os res Q<l depende do preço da pizza P e da renda agregada Y. Essa
economistas dispõem de seu próprio conjunto de instrumen- relação é expressa na equação
tos - terminologia, dados e uma maneira de pensar - que ao
leigo pode parecer estranho e enigmático. A melhor maneira
Q1 = D(P,Y),
de se familiarizar com esses instrumentos é usá-los, e este livro onde D( ) representa a função de demanda. Da mesma ma-
proporciona amplas oportunidades para isso. Para tomar esses neira, o economista supõe que a quantidade de pizza fornecida
instrumentos menos assustadores, no entanto, vamos analisar pelas pizzarias Q' depende do preço da pizza P e dó preço dos
aqui alguns deles. insumos Pm• como queijo, tomate, farinha de trigo e enchovas.
Essa relação é expressa como
TEORJA COMO CONSTRUÇÃO DE MODELO
As crianças pequenas aprendem muita cois~ sobre o mundo à onde S( ) representa a função de oferta. Finalmente, o econo-
sua vólta ao \:,rincarem com versões de brinquedo de o\:,jetos mista presume que o preço da pizza ajusta-se para colocar a
reais. Costumam, por exemplo, montar miniaturas de carros, quantidade ofertada e a quantidade demandada em equilíbrio:
trens ou aviões. Esses modelos estão longe de ser realistas, mas
mesmo assim aprende-se muito ao construí-los. O modelo ilus- Q' = Q1.
tra a essência do objeto real que ele visa representar. Essas três equações compõem um modelo do mercado de pizza.
Os economistas também usam modelos para compreender O economista ilustra o modelo com um gráfico de oferta e
o mundo, embora seja mais provável que o modelo de um eco- demanda, corno na Fig. 1-5. A curva da demanda mostra are-
nomista seja feito de símbolos e equações do que de plástico e lação entre a quantidade demandada de pizza e o preço da pizza,
cola. Os economistas constroem suas "economias de brinque- mantendo a renda agregada constante. A curva de demanda
do" para ajudar a explicar as variáveis econômicas, como PIB, inclina-se para. baixo porque um preço mais alro da piz:a esti-
inflação e desemprego. Os modelos econômicos ilustram, com mula os consumidores a trocarem-na por outros alimentos e
freqüência em termos matemáticos, as relações entre as variá- comprar menos pizza. A cun·a da oferta mostra a relação entre
veis. São úteis porque nos ajudam a descartar detalhes irrele- a qmmtidade de pizza ofertada e o preço Ja pizza, mantendo o
vantes e nos concentrar nas conexões importantes. preço Jos insumos constante. A curvada úferta inclina-se para
Os modelos têm dois tipos de variáveis: as variáveis endó- cima porque um preço maior da pizza faz com que vender pizza
genas e as variáveis exógenas. As variáveis endógenas são aque- se torne mais lucrativo, o que estimula as pizzarias a produzi-
las que um modelo tenta explicar. As variáveis exógenas são rem mais. O equilíbrio do mercado reúne o preço e a quantida-
aquelas que um modelo aceita como dadas. O propósito de um de aos quais as curvas da oferta e demanda se cruzam. Ao preço
modelo é mostrar como as variáveis exógenas afetam as variá- de equilíbrio, os consumidores llptam por comprar a quantida-
veis endógenas. Em outras palavras, como ilustra a Fig. 1-4, as de de pizzas que as pizzarias optam por produzir.
variá veis exógenas vêm de fora do modelo, e servem como seus Esse modelo do mercado de pizza tem duas variáveis
insumos, enquanto as vari.,íveis endógenas são definidas den- exógenas e duas variáveis endógenas. As variáveis exógenas são
tro do modelo, constituindo n seu prnduto. a renda agregada e o preço dos insumos. O modelo n;i.o tenta
Para tomar essas idéias mais concretas, vamos analisar o explicá -las, mas as considera dadas (talvez para serem explicadas
mais famoso de wdos os modelos econômicos: o modelo de por outro modelo.) As variáveis endógenas são o preço da pizza
oferta e demanda . Imagine que um economista estivesse in- e a quantidade de pizza vendida. São essas as variáveis que o
teressado em verificar quais fatores influenciam o preço da modelo tenta explicar.
pizza e a quantidade de pizza vendida. Ele desenvolveria um O modelo pode ser usado para mostrar como uma mudança
modelo que descrevesse o compórtamento dos compradores de uma das variáveis exógenas afeta as duas varhiveis endóge-
de pizza, o comportament0 dos vendedores de pizza e sua in- nas. Por exemplo, se a renda agregada aumenta, a demanda por

Modelo

Fig. 1-4 Como os Modelos Funcionam Os modelos são teorias .simplilicadas que mostram as relações fundamentais entre as variáveis económi-
cas. As.variáveis exógenas são aquelas que.vêm de fora do modelo. As variáveis endógenas são aquelas que o modelo explica. O modelo mostra
como as mudanças nas variáveis exógenas afetam as variáveis endógenas.
--
A MACROECONOMIA COMO CIÊNCIA 7

Preço da pizza, P

Preço de
equilfbrio

Quantidade
de equillbrio

Quantidade de pizza, Q

Fig. 1-5 O Modelo de Oferta e Demanda O mais famoso modelo econômico é o da oferta e demanda de um bem ou serviço - neste caso. pizza.
A curva da demanda é inclinada para baixo, relacionando o preço da pizza com a quantidade de pizza que os consumidores demandam. A curva da
oferta é mclinada para cima, relacionando o preço.da pizza com a quantidade de pizza que as pizzarias ofertam . O preço da pizza ajusta-se até que
a quantidade ofertada iguale a quantidade demandada. O ponto ao qual as duas curvas se cruzam é o equil!brio do mercado. que mostra o preço de
equilíbrio e a quantidade de equilíbrio de pizza.

pizza também aumenta, como no painel (a) da Fig. 1-6. O A arte da economia é julgar quando um pressuposto é
modelo mostra que tanto o preço de equilíbrio quanto a quan- esclarecedor e quando é enganoso. Qualquer modelo constru-
tidade de equilíbrio de pizza sobem. Assim também, se o preço ído para ser completamente realista seria complicado demais
dos insumos aumenta, a oferta de pizza diminui, como no pai- para se compreender. A simplificação é necessária na constru-
nel (b) da Fig. 1-6. O modelo mostra que, nesse caso, o preço ção de um modelo útil. Os modelos, no entanto, levam a con-
de equilíbrio da pizza sobe e a quantidade de equilíbrio de pizza clusões incorretas se ignorarem características da economia
cai. Assim, o modelo mostra como as mudanças da renda agre- cruciais para as questões em estudo. O modelo econômico,
gada ou do preço dos materiais afetam o preço e a quantidade portanto, exige cuidado e bom senso.
no mercado de pizza.
Tal como todos os modelos, este modelo do mercado de pizza
conta com pressupostos simpliflcadores. O modelo não leva em
UMA MULTITUDE DE MODELOS
consideração, por exemplo, o fato de que cada pizzaria .se en- Os macroeconomistas estudam muitos aspectos da economia.
contra em um local diferente. Para cada cliente, uma pizzaria é Por exemplo, examinam o papel da poupança no crescimento
mais conveniente do que as outras. Assim, as pizzarias têm al- econômico, o impacto dos sindicatos trabalhistas no desempre-
guma capacidade de fixar seus própríos preços. Embora o mo- go, o efeito da inflação nas taxas de juros, e a influência da
delo assuma que há um único preço para a pizza, na verdade política comercial na balança comercial e nas taxas de câm-
pode haver um preço diferente em cada pizzaria. bio. A macroeconomia é tão diversificada quanto a economia.
Como devemos reagir à falta de realismo do modelo? De- Embora os economistas utilizem modelos para tratar de to-
vemos descartar o modelo simples de oferta e demanda de das essas questões, não há um modelo único que possa respon-
pizza? Devemos tentar construir um modelo mais complexo, der a todas as perguntas. Assim como os carpinteiros usam di-
que permita diversos preços de pizza? As respostas para essas ferentes ferramentas para diferentes tarefas, os economistas
indagações dependem dos nossos propósitos. Se o objetivo é usam diferentes modelos para explicar diferentes fenômenos
explicar como o preço do queijo afeta o preço médio da pizza econômicos. Os estudantes de macroeconomia, portanto, de-
e a quantidade vendida de pizza, a diversidade dos preços de vem lembrar que não ·existe um modelo único "correto" útil para
pizza provavelmente não é importante. O modelo simplifica- todos os propósitos. Em vez disso, há muitos modelos, cada um
do do mercado de pizza realiza um bom trabalho no tratamento dos quais é útil para esclarecer um aspecto diferente da econo-
dessa questão . Mas, se o nosso objetivo é explicar por que nas mia. O campo da macroeconomia é como um canivete do exér-
cidades onde há três pizzarias os preços da pizza são mais bai- cito suíço: um conjunto de instrumentos complementares mas
xos do que nas cidades onde só há uma pizzaria, o modelo sim- distintos, que podem ser aplicados de maneiras diferentes, em
ples é menos útll. circunstâncias diferentes.
8 CAPITULO I
"
(a) Um Deslocamento da Demanda
Preço da pizza, P

Q,--. . Q2 Quantidade de pizza, Q

(b) Um Deslocamento da Oferta


Preço da pizza, P

Q1 Quantidade de pizza, Q

Fig. 1-6 Mudanças no Equilíbrio No painel {à). um aumento na renda agregada faz com que a demanda por pizza cresça: a um dado preço
qualquer, os consumidores querem agora comprar mais pizzas. Isso é representado por um deslocamento para a direita da curva de demanda,
de D, para D, O mercado se desloca para a nova interseção da oferta e demanda. O preço de equilíbrio sobe de P, para P;., e a quantidade de
pizza de equilíbrio sobe de O, para O,. No painel (b), um aumento no preço dos insumos diminui a oferta de pizza: a um dado preço qualquer,
as pizzarias descobrem que a venda de pizza é menos lucrativa, e por isso optam por produzir menos pizzas . Isso é representado por um des-
locamento para a esquerda da curva de oferta, de S, para S,· O mercado se desloca para a nova interseção da oferta e demanda. O preço de
equilíbrio passa de P 1 para P, , e a quantidade de equilíbrio cai de O: para O,.

Este livro apresenta muitos modelos diferentes, que tratam PREÇOS FLEXÍVEIS VERSUS PREÇOS RÍGIDOS
de questões diferentes e estabelecem pressupostos diferentes.
Lembre-se de que um modelo é apenas tão bom quanto seus Ao longo deste livro, um conjunto de pressupostos se mostrará
pressupostos, e que um pressuposto útil para alguns propósitos especialmente importante: é o que trata da rapidez com que sa-
pode ser enganoso para outros. Ao utilizar um modelo para tra- lários e preços se ajustam. Os economistas nonnalmence pres-
tar de uma questão, o economista não pode ignorar os pressu- supõem que o preço de um bem ou serviço se altera depressa
pogtos básicos, devendo julgá,los para determinar se são razoá- para promover um equilíbrio entre a quantidade ofertada e a
veis para o problema em foco. quantidade demandada. Em outras palavras, pressupõem que o
A MACROECONOMIA COMO ClÊNClA 9

MAis
SAIBA
O Uso de Funções para Expressar Relações entre Variáveis·
Todos os modelos econômicos expressam relações entre va- Qd = 60 - lOP + ZY.
ri,áveis econômicas. Com bastante freqüência, essas relações
Neste caso, a função de demanda é
são expressas como funções. Uma função é um conceito ma-
temático que mostra como uma variável depende de um D(P,Y) = 60 - IOP + ZY.
conjunto de outras variáveis. Por exemplo, no modelo de
mercado de pizza dizemos que a quantidade de pizza deman- Para qualquer preço de pizza e qualquer renda agregada, esta
dada depende do preço da pizza e da renda agregada. Para função apresenta a quantidade correspondente de pizza de-
expressar isso, usamos a notação funcional para escrever mandada. Por exemplo, se a renda agregada é $1 Oe o preço
da pizza é $2, a quantidade de pizza demandada é 60 unida-
Qd = D(P,Y). des; se o preço da pizza sobe para $3, a quantidade deman-
Esta equação diz que a quantidade de pizza demandada Qd é dada cai para 50.
uma função do preço da pizza Peda renda agregada Y. Na A notação funcional permite-nos expressar uma relação
notação funcional, a variável que precede o parêntese de- entre vaúáveis mesmo quando a relação numérica precisa é
nota a função. Neste caso, D( ) é a função que expressa desconhecida. Por exemplo, podemos saber que a quanti-
como as variáveis entre parênteses determinam a quantida- dade de pizza demandada cai quando o preço sobe de $2 para
de de pizza demandada. $3; mas não podemos saber quanto cai. Nesse caso, a nota-
Se soubéssemos mais sobre o mercado de pizza, podería- ção funcional é útil: enquanto soubermos que há uma rela-
mos atribuir uma fórmula numérica à quantidade de pizza ção entre variáveis, podemos nos lembrar dessa relação ao
demandada. Poderíamos escrever usar a notação funcional.

mercado tende ,10 e4u íIíbrio entre (1ferta e demanda. fase pres- posto de flexihilidade dos preços é menos plausível. Ao longo
suposto é chamado de equilíbrio de mercado, sendo fundamen- de períodos curtos, muitos preços sào flxados em níveis prede-
tal no modelo do me rcíldo de pirn1 discutido ,mterionnente. terminado5. Por isso, a maioria dos macroeconomisras acha que
Para responder à m,lioriíl das questües, os economistas usam a rigidez dos preços é um pressuposto melhor para se estudar o
modelos de equilíhrio de merc.ldo. comportamento da economia no curto prazo.
Mas o pressuposto de equilíhrio do mercado contínuo não é
totalmente realista. Para que os mercadus tenham um equilí-
brio incessante, os preços devem se ajustar de mudo insramâ~ PENSAMENTO MICROECONÔMICO E
neo à.~ mudanças na oferta e na demanda. Na verdade, porém, MODELOS MACROECONÔMICOS
muitos salários e preços ajustam-se lentamente. Com hasrnnte
freqüência. os contratos de trnhalho fixam salários para a dura-
A microeconomia é ú esrudtl da maneira como as famílias e as
empresas tomam decisões, e como esses tomadores de decisões
ção de três anos. Muitas empresas mantêm os preços de seus
interagem no mercado. Um princípio fundamental da microe-
produtos por longos períodos -por exemplo, as editoras de re-
conomia é que as famílias e as empresas otimizam, ou seja, fa.
Yiscas geralmente demoram de três a quatro ~11111s para mudar
seus preços de \·enda em hanca. Emhora ns modelos de ajuste zem o melhor que podem por si mesmas, dados os seus ohíeti-
\'OS e as restrições que enfrentam. Nos modelos microecont"1-
do mercado pressuponham que todos os sahirios e preços são
flexíveis , no mundo real alguns salários e preços são rígidos. micos, as famílüi s escolhem as comrras que maximizam seu
A aparente rigidez de preços não faz com que os modelos de nível de satisfação, o que os economistas chamam de utilidade.
equilíbrio do mercado sejam inúteis. Afinal. os preços não fi- As empresas, por sua yez, tomam decisões de produção para
cam imóveis para sempre; mais cedo ou mais tc1rde, acaham se maximizar seus lucros.
ajustando às mudanças na oferta e na demanda. Os modelos Como os eventos na economia em geral derivam da inte-
de ajuste do mercado podem não descrever a economia a todo ração de muitas famílias e muitas empresas, a macroeconomia
instante, mas descrevem o eqtiilíhrio para o qual a economia e a microeconomia estão ligadas de maneira inextricável.
gravita. Por isso, a maioria dos macroeconomistas acha que a Quando estudamos a economia como um todo, devemos le-
flexibilidade dos preços é um bom pressuposto para o estudo var em consideração as decisões dos agentes econômicos in-
dos problemas a longo prazo, como o crescimento no PIB real dividuais . Por exemplo, para compreender o que determina o
que observa\nos de uma década para outra. gasto cocal com consumo, devemos pensar em uma família de-
Pará o estudo das questões de curto prazo, como as oscila- cidindo quanto vai gastar hoje e quanto vai poupar para o
ções de ano para ano no PIB real e no desemprego, o pressu- futuro. Para compreender o que determina o gasto total em
]0 CAPITUW l

investimento, devemos pensar em uma empresa decidindo se


constrói uma nova fábrica. Como as variáveis agregadas são
quantidade de pizzas a serem compradas estão por trás da de-
manda por pizza; e as decisões das pizzarias sobre a quantida-
'
!

a soma das variáve is que descrevem muitas decisões indivi- de de pizzas a serem produzidas se encontram por trás da ofer-
duais, a teoria macroeconômica baseia-se em um fundamen- ta de pizza. Presumivelmente, as famílias tomam suas decisões
to microeconômico. para maximizar a utilidade, enquanto as pizzarias tomam as
Embora as decisões microeconômicas sempre estejam por decisões para maximizar o lucro. O modelo, no entanto, não
trás dos modelos econômicos, em muitos modelos o compor- enfoca as decisões microeconômicas deixando-as em segun-
tamento otimizador das famílias e empresas é implícito, em do plano. Da mesma maneira, em grande parte da macroeco-
vez de expl fci to. O modelo do mercado de pizza, anteriormen- nomia, o comportamento otimizador das famílias e empresas
te discutido, é um exemplo. As decisões das famílias sobre a está implícito.

,.
1-3 COMO ESTE LIVRO E DESENVOLVIDO
Este livro tem seis partes. Este capítulo e o pr6ximo constitu- os preços sã.o rígidos. O modelo de equilíbrio fora do mercado,
em a Parte I, a introdução. O Cap. 2 examina como os econo- desenvokido aqui, tem como objetivo a análise de problemas
mistas medem as variáveis econômicas, tais como a renda agre- no curto prazo, tais como os motivos das flutuações econômicas
gada, a taxa de inflação e a taxa de desemprego. e a influência da política econômica do governo sobre essas
A Parte li, "Teoria Clássica: A Economia no Longo Prazo", flutuações. É mais apropriado para se analisarem as mudanças na
apresenta o modelo clássico da maneira como a economia fun- economia que observamos mês a mês ou ano a ano.
ciona. O pressuposto fundamental do modelo clássico é que os A Pane V, "Debates da Política Macroeconômica", parte da
preços são flexíveis. Ou seja, com raras exceções, o modelo clás- análise anterior para considerar o . papel que .o governo deve
sico pressupõe o equi 111:,rio de mercado. Como o pressuposto de assumir na economia. Estuda como o governo deve reagir -
tlexihilidade do preço descre\·e a economia apenas no longl1 se é que deve - às oscilações de curto prazo no PIB real e no
pram, a teoria clá~sica é mais apropriada para se analisar um desemprego. Também examina as várias opiniões sobre os efei-
espaço de tempo de pelo menos vários anos. tos da dívida pública.
A Parte lll , "Teoria do Crescimento: A Economia a A Parte VI, "Mais sobre a Microeconomia por Trás da Ma-
Longuís~ímo Prazo", haseia-se no modelo clássico. Mantém o croeconomia", apresenta alguns dos modelos microeconômi-
pressuposto de equilíhrio do mercado, mas dá nova ênfase ao cos que são úteis na análise das questões macroeconômicas. Essa
crescimenw no estoque de capital, na força de trahalho e no parte ex;unina, por.exemplo, as decisões das famílias sobre quan-
conhecimento tecnológico. A teoria do crescimento \'isa ex- to consumir e quanto poupar, e as decisões da empresa sobre
plicar c~imo a economia e\'olui ao longo de um período de vá- quanto investir. Juntas, essas decisões individuais formam o
rias décadas. quadro maior da macroeconomia. O objetivo do estudo deta-
A Parte IV. "Teoria do Ciclo Econômico: A Economia no lhado dessas decisões microeconômícas é aprimorar nossa com-
Curro Prazo", examina o comportamento da economia quando preensào da economia agregada.

RESUMO
1. A macroeconomia é o estudt) da economia como um todo, 3. Um aspecto fundamental de um modelo macroecontnni-
incluindo ll crescimento das rendas. as mudanças dos pre- co é o fat0 de pressupor que os preços são flex íveis ou rí-
ços e a taxa de desemprego. A macroeconomia tenta expli- gidos. Segundo a maioria dos macroeconomistas, os mo-
car os eYentos econômicos e. ao mesmo tempo, projetar delos com preços flex íveis descrevem a economia no lon-
políticas para melhorar o de~empenho da economia. go prazo, enquanto os modelos com preços rígidos ofe-
recem uma descrição melhúr da economia no curro pra-
2. Para compreender a economia, os economistas usam mode-
zo .
los, teorias que simplificam a realidade para revelar como
as variáveis exógenas influenciam as variáveis endógenas. 4. A microeconomia é o estudo de como as empresas e os in-
A arte da ciência econômica é julgar se um modelo capta as divíduos tomam decisões, e como ess.es tomadores de deci-
relações econômicas relevantes na questão em estudo. Como sões interagem. Como os eventos macroeconômicos deri-
nenhum modelo isolado pode responder a todas as questões, vam de muitas interações microeconômicas, os macroeco-
os macroeconomistas utilizam diferentes modelos para es- nomistas utilizam. muitos dos instrumentos da microecono-
tudar diferentes questões. mia.
A MACROECONOMIA COMO CU'.~NCJA 11

CONCEITOS-CHAVE
Macroeconomia Depressão Equilíbrio do mercado
PIB real Deflação Preços flexíveis e preços rígidos
Taxa de inflação Moddos Microeconomia
Taxa de desemprego Variáveis endógenas
Recessão Variáveis exógenas

QUESTÕES PARA REVISÃO


I. Explique as diferenças entre macroeconomia e microeconomia. 3. Qual é o modelo de equilíbrio do mercado! Quando o pressuposto
Como as duas áreas se relacionam/ de equilíbrio do mercado é apropris.do?
z. Por que os economisras consuoem modelos 1

PROBLEMAS E APLICAÇÕES
I. Que quesrões macroeconômicas estiveram no notici,írio ultima- quantidade de sorvete vendida. Em sua explirnçiin, identifique as
mente! vari,íveis exógenas e endógenas.
2. Que características você acha que definem uma ciência? O estudo 4. A que freqüência muda o rreço que você paga por Ulll corte de
da economia- tem essas características! Vucê acha que .i macroe- cn he lo? O que sua resrosra sugere sohre a milidade dos modelos
conomia deve ser cunsiderada uma ciência? Por que sim, ou pm de ~quilíbrio du mercado p,1rn ,malis,lf o mercado ele cone de
que não? c.1hdo?
3. Utilize o modelo de oferca e demanda par,1 explirnr cumo um,1
queda no pn:ço do fro:en '(Ogun afetari.i 1, preço do sorvete e :1
Capítulo 2

Os DAoos DA MAcROECONOMIA

E wn cr m n1pit,d tcorí,w· untes dos dmlo.s. Com extrema insensihilidaclc,


i:oHl<.\'.u . . ..;<.' a dis t,H·cer o ., fc..tos J,ard se udaf,l'ar Lls teorias.
cm i·c-:: de se ajustar as teorias a().s fato s .
-- ~lwd ..,1 H, ,Im,·,

Os cientistas, os economistas e os deteti\·es têm muita coisa em ção óhvia: como diz o ditado antigo, o plural de "experiências
comum: todos querem descobrir o que está acontecendo no pessoais" é "dados".
mundo à sua volta. Para isso, contam com a teoria e a observa- Hoje, os dados econômicos oferecem uma fonte de informa-
ção. Constroem teorias na tentativa de dar sentido ao que vêem ções sistemáticas e objetivas. Quase todos os dias, os jornais
acontecer. Depois, passam a fazer uma observação mais sistemá- publicam uma reportagem sobre alguma estatística nova, que
tica, a fim de avaliar a validade das teorias. Só quando a teoria e acaba de ser divulgada. A maior parte dessas estatísticas é pro-
as evidências combinam é que eles acham que compreendem a duzida pelo governo. Vários órgãos governamentais pesquisam
situação. Este capítulo analisa os tipos de observação que os eco- famílias e empresas, a fim de saber da sua atividade econômi-
nomistas utilizam para desenvolver e testar suas teorias. ca: quanto ganham, o que compram, que preços cobram, se têm
A observação casual é uma fonte de informação sobre o que emprego ou procuram por trabalho, e assim por diante. Com
está acontecendo na economia. Quando você faz compras, base nessas pesquisas, são calculadas várias estatísticas, resumin-
observa a velocidade à qual os preços aumentam . Quando pro, do o estado da economia. Os economistas usam essas estatísti-
cura um emprego, descobre se as empresas estão contratando. cas para estudar a economia; os formuladores de política eco-
Como somos todos participantes da economia, temos uma idéia nômica usam-nas para monitorar os acontecimentos e formu-
das condições econômicas ao conduzirmos nossas vidas. lar suas políticas.
Um século atrás, os economistas que monitoravam a eco- Este capítulo enfoca as três estatísticas que os economistas
nomia não tinham muito mais em que se basear do que essas e formuladores de política econômica usam com mais freqüên-
observações casuais. Tais informações fragmentadas tornavam cia. O produto interno bruto, ou PIB, informa qual é a renda
mais difícil a construção de política econômica. Um incidente total do país e o gasto total com sua produção de bens e servi-
com uma pessoa sugeria que a economia se deslocava em uma ços. O índice de preços ao consumidor, ou IPC, mede o nível
direção, enquanto um incidente com urna pessoa diferente su- de preços. A taxa de desemprego informa qual é a fração de
geria que o movimento era no sentido contrário. Os economis- trabalhadores desempregados. Nas próximas páginas, vamos
tas precisavam, de alguma maneira, de combinar as muitas ex- mostrar como são calculadas essas estatísticas, e o que elas nos
periências individuais em um todo coerente. Havia uma solu- dizem sobre a economia.

2-1 MEDINDO O VALOR DA ATIVIDADE ECONÔMICA:


PRODUTO INTERNO BRUTO
O produto interno bruto é considerado por muitos a melhor Há duas maneiras de se considerar essa estatística. Uma ma-
medida do desempenho da economia. Nos Estados Unidos, neira de ver o PIB é como a renda total de todos na economia.
essa estatística é calculada a cada três meses pelo Centro de Outra maneira de pensar no PIB é como o gasto total com a pro-
Análise Econômica (Bureau of Economics Analysis, uma dução de bens e serviços da economia. De todos os pontos de vis-
parte do Departamento do Comércio dos Estados Unidos), a ta, é evidente por que o PIB é uma medida do desempenho
partir de uma grande quantidade de fomes de dados primári- econômico. O PIB mede algo com que as pessoas se importam:
os. O objetivo do PIB é resumir em um únicçi número o valor suas rendas. Além disso, uma economia com uma grande pro-
em dólares da atividade econômica em um determinado pe- dução de bens e serviços pode satisfazer melhor às demandas
ríodo. de famílias, empresas e governo.
ÜS DADOS DA MACROECONOMIA 13

Como o PIB pode medir ao mesmo tempo a renda da eco- flui das famílias para as empresas, e o pão flui das empresas para
nomia e o gasto com sua produção? O motivo é que essas duas as famílias.
quantidades são na verdade a mesma coisa: para a economia O circuito externo na Fig. 2-1 representa o fluxo correspon-
como um todo, a renda deve ser igual ao gasto. Esse fato, por dente de dólares. As famílias compram pão das empresas. As
sua vez, é decorrente de outro, ainda mais fundamental: como empresas usam uma parte da receita dessas vendas para pagar
cada transação tem ao mesmo tempo um vendedor e um com- os salários de seus trabalhadores. O restante é o lucro, que per-
prador, cada dólar de gasto de um comprador deve se tornar tence aos donos das empresas (que, por sua vez, também inte-
um dólar de renda para um vendedor. Quando Joe pinta a casa gram o setor de famílias). Portanto, o gasto com pão flui das
de Jane por $1.000, essa quantia é renda para Joe e gasto para famílias para as empresas, e a renda em forma de salários e lu-
Jane. A transação contribui com $1.000 para o PIB, indepen - cros flui das empresas para as famílias.
dentemente de estarmos somando todas as rendas ou todos os O PIB mede o fluxo de dólares na economia. Podemos
gastos. calculá-lo de duas maneiras. O PIB é a renda total da pro-
Para compreender mais plenamente o significado do PIB, dução de pão, que é igual à soma de salários e lucro - a me-
vamos recorrer à contabilidade da renda nacional, o sistema tade superior do fluxo circular de dólares. O PIB é também
contábil usado para medir o PIB e muitas estatísticas relacio- o gasto total com compras de pão - a metade inferior do
nadas. fluxo circular de dólares. Para calcular o PIB, podemos olhar
para o fluxo de dólares das empresas para as unidades fami-
liares, 0u o flu xo de dólares das unidades familiares para as
RENDA, GASTO E O FLUXO CIRCULAR empresas.
Imagine uma economia que produza um único bem, pão, de um Essas duas maneiras de calcular o PIB devem ser iguais,
único insumo, o trabalho. A Fig. 2-1 ilustra todas as transações porque o gasto dos compradores com os produtos é, pelas
econômicas que ocorrem entre as famílias e as empresas dessa regras da contabilidade, a renda dos vendedores desses pro-
economia. dutos. Cada transação que afeta o gasto deve afetar a renda,
O circuito interno na Fig. 2-1 representa os fluxos de pão e e cada transação que afeta a renda deve afetar o gasto. Va-
trabalho. As famílias vendem seu trabalho para as empresas. A s mos supor, por exemplo, que uma empresa produza e venda
empresas usam o trabalho de seus empregados para produzir pão, mais um pão para uma família. É evidente que essa transa-
o qual vendem em seguida para as famílias. Ou seja, o trabalho ção afeta o gasto total com pão, mas também tem um efeito

Renda($)

Trabalho

Famllias Empresas

Bens (pào)

Gasto($)

Fig. 2-1 O Fluxo Circular Esta figura ilustra os fluxos entre empresas e famílias em uma economia que produz um único bem. pão, de um único
insumo, trabalho. O circuito interno representa os fluxos de trabalho e pão: as famílias vendem seu trabalho às empresas, e as empresas vendem o
pão que produzem às famílias. O circuito externo representa os fluxos correspondentes de dólares: as famílias pagam às empresas pelo pão, e as
empresas pagam salários e lucros às famílias. Nesta economia, o PIB é o gasto total com pão e a renda total da produção de pão.
14 CAPÍTULO 2

SAIBA MAis
Estoques e Fluxos
Muitas variáveis econômicas mensuram uma quantidade de ferentes. Dizemos que a banheira contém 200 litros de água,
alguma coisa: uma quantidade de dinheiro, uma quantida- mas que a água está saindo da torneira a 20 litros por minuto.
de de bens, e assim por diante. Os economistas distinguem O PIB é provavelmente a mais importante variável de
dois tipos de variáveis quantitativas: estoques e fluxos. Um fluxo na economia: informa quantos dólares estão fluindo
estoque é uma quantidade medida em um determinado pelo fluxo circular da economia por unidade de tempo.
momento, enquanto fluxo é uma quantidade medida por Quando você ouve alguém dizer que o PIB dos Estados
unidade de tempo. Unidos é de $10 trilhões, deve compreender que isso signi-
A banheira mostrada na Fig. 2,2 é o exemplo clássico fica que é de $10 trilhões por ano. (De modo equivalente,
usado para ilustrar estoques e fluxos. A quantidade de água podemos dizer que o PIB dos Estados Unidos é de $317 .000
na banheira é um estoque: é a quantidade de água contida por segundo.)
na banheira em determinado momento. A quantidade de Muitas vezes, estoques e fluxos têm relação entre si. No
água que sai da torneira é um fluxo: é a quantidade de água exemplo da banheira, essas relações são evidentes. O esto-
que está sendo acrescentada à banheira por unidade de tem- que de água na banheira representa a acumulação do fluxo
po. Observe que medimos estoques e fluxos em unidades di- da torneira, e o fluxo de água representa a mudança no es-
toque. Quando construímos teorias para explicar as variá-
veis econômicas, com bastante freqüência é útil determinar
se as variáveis são estoques ou fluxos, e se há relações entre
elas.
Aqui estão alguns exemplos de estoques e fluxos relacio-
nados, que estudaremos em capítulos subseqüentes:
> A riqueza de uma pessoa é um estoque; renda e gasto são
fluxos.
>- O número de pessoas desempregadas é um estoque; o nú-
mero de pessoas que estão perdendo o emprego é um fluxo.
Fig. 2-2 Estoques e Fluxos A quantidade de água na banheira é > A quantidade de capital na economia é um estoque; a
um estoque, uma quantidade medida em um determinado momen- quantidade de investimento é um fluxo.
to. A quantidade de água que sai da torneira é um fluxo , uma quan- >- A dívida do governo é um estoque; o déficit orçamentá-
tidade medida por unidade de tempo. rio do governo é um fluxo.

igual na renda coral. Se a empresa produz um pão extra sem A Soma de Maçãs e Laranjas A economia dos Estados Uni-
contratar mais trabalho (por exemplo , tornando o processo dos produz muitos bens e serviços diferentes: hambúrgueres,
de produção mais eficiente), o lucro aumenta. Se a empresa cortes de cabelo, carros, computadores e assim por diante. O
produz o pão extra pela contratação de mais trabalho, os sa- PIB combina o valor desses bens e serviços em uma única me-
lários aumentam. Nos dois casos, gasto e renda aumentam dida. A diversidade de produtos na economia complica o cál-
igualmente. culo do PIB, porque diferentes produtos podem ter diferentes
valores.
Suponhamos, por exemplo, que a economia produz quatro
REGRAS PARA O CÁLCULO DO PIB maçãs e três laranjas. Como calculamos o PIB? Podemos sim-
Em uma economia que produz apenas pão, podemos calcular o plesmente somar maçãs e laranjas , e concluir que o PIB é igual
PIB pela soma do gasto total com pão. As economias reais, no a sete frutas. Mas isso só faz sentido se pensarmos em maçãs e
entanto, incluem a produção e venda de uma vasta quantida- laranjas com um valor igual, o que em geral não acontece. (Isso
de de bens e serviços. Para calcular o PIB de uma economia tão ficaria ainda mais claro se a economia produzisse quatro me-
complexa, será útil ter uma definição mais precisa: o produto lancias e três uvas.)
interno bruto (PIB) é o valor de mercado de todos os bens e serviços Para calcular o valor total de bens e serviços, a contabilida-
finais produzidos dentro de uma economia, em determinado perío~ de da renda nacional usa os preços de mercado, porque esses
do . Para verificar como essa definição é aplicada, vamos exa- preços refletem quanto as pessoas estão dispostas a pagar por
mirtar algumas das normas que os economistas seguem para um bem ou serviço. Assim, se uma maçã custasse $0,50 e uma
construir essa estatística. laranja custasse $1,00, o PIB seria
-
Os DADOS DA MACROECONOMIA 15

PIB = (Preço das Maçãs X Quantidade de Maçãs) Bens Intermediários e Valor Adicionado Muitos bens são
+ (Preço das Laranjas X Quantidade de Laranjas) produzidos em estágios: as matérias-primas são processadas em
= ($0,50 X 4) + ($1,00 X 3) bens intermediários por uma empresa, e depois vendidas a ou-
= $5,00. tra empresa para o processamento final. Como devemos tratar
esses produtos ao calcularmos o PIB? Vamos supor, por exem-
O PIB é igual a $5,00- o valor de todas as maçãs, $2,00, mais
plo, que um criador de gado venda 100 gramas de carne ao
o valor de todas as laranjas, $3,00.
McDonald's por $0,50, e depois o McDonald's vende a você
um hambúrguer por $1,50. O PIB deve incluir a carne e o ham-
Bens Usados Quando a Topps Company faz um pacote de
búrguer (um total de $2,00), ou apenas o hambúrguer ($1,50)?
figurinhas de jogadores de beisebol e vende por 50 centavos,
A resposta é que o PIB inclui apenas o valor dos bens finais.
essa quantia é acrescentada ao PIB do país. Mas o que aconte-
Ou seja, o hambúrguer está incluído no PIB, mas não a carne:
ce quando um colecionador vende uma figurinha rara de
o PIB aumenta em $1 ,50, não em $2,00. O motivo é que ova-
Mickey Mande para outro colecionador por $500? Esses $500
lor dos bens intermediários já está incluído como parte do pre-
não são parte do PIB. O PIB mede o valor dos bens e serviços
ço de mercado dos bens finais em que são usados. Acrescentar
produzidos agora. A venda da figurinha de Mickey Mantle re-
os bens intermediários aos bens finais seria dobrar a contagem
flete a transferência de um ativo, não um acréscimo à renda da
- ou seja, a carne seria contada duas vezes. Por isso, o PIB é o
economia. Assim, a venda de bens usados não é incluída como
valor total de bens e serviços finais produzidos.
parte do PIB.
Uma maneira de se calcular o valor de todos os bens e ser-
viços finais é somar o valor agregado em cada estágio da pro-
O Tratamento de Estoques Imagine que uma padaria con-
dução. O valor agregado de uma empresa é igual ao valor da
trata trabalhadores para produzirem mais pão, paga seus salári-
produção da empresa menos o valor dos bens intermediários
os, e depois não consegue vender o pão adicional. Como essa
que a empresa compra. No caso do hambúrguer, o valor agre-
transação afeta ó PIB?
gado do pecuarista é $0,50 (presumindo que ele não comprou
A resposta depende do que acontece com o pão que não é
bens intermediários), enquanto o valor agregado do McDonal-
vendido. Vamos primeiro supor que o pão estraga. Nesse caso,
d's é $1,50 - $,50, o que dá $1,00. O valor agregado total é
a empresa pagou mais em salários, mas não recebeu qualquer
$0,50 + $1,00, oquedá$1,50. Para a economia como um todo,
receita adicional. Logo, o lucro da empresa é reduzido pelo mon-
a soma de cada valor agregado deve ser igual ao valor de todos
tante ao qual os salários aumentaram. O gasto total na econo-
os bens e serviços finais. Por isso, o PIB é também o valor agre-
mia não mudou, porque ninguém comprou o pão. A renda to-
gado total de todas as empresas que operam na economia.
tal também não mudou - embora mais seja distribuído como
salários e menos como lucro. Como não afeta nem a despesa
Serviços Habitacionais e Outras Imputações Embora a
nem a receita, a transação não altera o PIB.
maioria dos bens e serviços seja avaliado pelo preço de merca-
Agora, vamos supor, em vez disso, que o pão seja posto no
do quando se calcula o PIB, alguns não são vendidos no mer-
estoque, para ser vendido mais tarde. Neste caso, a transação é cado, e por isso não têm preço de mercado. Se o PIB inclui o
tratada de maneira diferente. Presume-se que os donos da em-
valor desses bens e serviços, temos que usar uma estimativa do
presa "compraram" o pão para fazer estoque. O lucro da firma seu valor. Essa estimativa é chamada de valor imputado.
não é reduzido pelos salários adicionais que ela pagou. Como As imputações são especialmente importantes para se de-
os salários mais altos aumentam a renda total, e como o gasto terminar o valor da moradia. Uma pessoa que aluga uma casa
maior com o estoque aumenta a despesa total, o PIB da econo- está comprando serviços de moradia, e proporcionando renda
mia cresce. para o locador; a locação é parte do PIB, como despesa do lo-
O que acontece mais tarde, quando a empresa vende o pão catário e renda do locador. Muitas pessoas, no entanto, vivem
que tinha em estoque? Esse caso é muito parecido com a venda em imóveis próprios. Embora não paguem aluguel a um loca-
de um bem usado. Há um gasto dos consumidores de pão, mas dor, desfrutam de serviços habitacionais similares aos que são
há um desinvestimento de estoque da empresa. Esse gasto ne- comprados por locatários. Para levar em consideração os servi-
gativo da empresa contrabalança o gasto positivo dos consu- ços habitacionais dos que são proprietários de imó'_'.eis, o PIB
midores; portanto, a venda do estoque não afeta o PIB. inclui o "aluguel" que eles "pagam" para si mesmos. E claro que
A regra geral é que, quando uma empresa aumenta seu es- os proprietários não pagam esse aluguel para si mesmos. O De-
toque de bens, esse investimento em estoque é contabilizado partamento do Comércio estima qual seria o valor de mercado
como gasto dos donos da empresa. Assim, a produção para es- da locação de uma casa, se fosse alugada, e inclui esse aluguel
toque aumenta o PIB tanto quanto a produção para venda fi- imputado como parte do PIB. Esse valor é incluído tanto na
nal. Uma venda de estoque, no entanto, é uma combinação de despesa quanto na renda do proprietário.
gasto positivo (a compra) e gasto negativo (o desinvestimento As imputações também são usadas na avaliação dos servi-
do estoque). Portanto, não afeta o PIB. Esse tratamento does- ços do governo. Por exemplo, os policiais, bombeiros e sena-
toque garante que o PIB seja um reflexo da produção corrente dores prestam serviços à população. Atribuir um valor a esses
de bens e serviços da economia. serviços é difícil, porque eles não são vendidos no mercado, e
r 16 CAPITULO 2

por issonão têm preço de mercado. A contabilidade da renda mistas chamam o valor de bens e serviços medidos pelos pre-
nacional inclui esses serviços no PIB ao avaliá-los por seu cus- ços correntes de PIB nominal.
to. Ou seja, os salários desses servidores públicos são usados Uma medida melhor do bem-estar econômico seria contar a
como uma medida do valor da sua produção. produção de bens e serviços da economia sem qualquer influên-
Em muitos casos, uma imputação deveria ser dada por prin- cia das mudanças de preços. Para esse propósito, os economistas
cípio, mas não o é à guisa de simplicidade. Como o PIB inclui usam o PIB real, que é o valor dos bens e serviços medidos por
o aluguel imputado de casas ocupadas pelos proprietários, era um conjunto de preços constante. Ou seja, o PIB real mostra o
de se esperar que incluísse também o aluguel imputado de car- que teria acontecido com o gasto em produção se as quantidades
ros, cortadores de grama, jóias e outros bens duráveis, de pro- mudassem, com os preços permanecendo constantes.
priedade das famílias. Mas o valor desses serviços de locação Para entender como o PIB real é calculado, imagine que
fica fora do PIB. Além disso , uma parte da produção da econo- queríamos comparar a produção de 2002 com a produção de
mia é produzida e consumida em casa, e nunca entra no mer- 2003, em nossa economia de maçãs e laranjas. Poderíamos
cado. Por exemplo, as refeições preparadas em casa são simila- começar pela escolha de um conjunto de preços, chamados de
res às refeições oferecidas em um restaurante, mas o valor agre- preços do ano-base, tal como os preços que prevaleciam em 2002.
gado das refeições em casa não entra no PIB. Os bens e serviços são depois somados, utilizando-se esses pre-
Por fim, nenhuma imputação é feita para o valor dos bens e ços do ano-base para avaliar os diferentes bens nos dois anos.
serviços vendidos na economia infonnal. É a parte da economia O PIB real em 2002 seria
que as pessoas escondem do governo, porque desejam se esqui-
var da tributação, ou porque a atividade é ilegal. Os emprega-
PIB real = (Preço das Maçãs 2002 X Quantidade de
Maçãs 2002)
dos domésticos, que recebem sem qualquer registro, constitu-
em um exemplo. O tráfico de drogas é outro.
+ (Preço das Laranjas 2002 X Quantidade
de Laranjas 2002)
Como as imputações necessárias para se calcular o PIB são
apenas aproximadas, e como o valor de muitos bens e serviços De modo semelhante, o PIB real em 2003 seria
é deixado de fora, o PIB é uma medida imperfeita da atividade
PIB real = (Preço das Maçãs 2002 X Quantidade de
econômica. Essas imperfeições são mais problemáticas quando
Maçãs 2003)
se comparam os padrões de vida de diferences países. As dimen-
+ (Preço das Laranjas 2002 X Quantidade
sões da economia informal, por exemplo, variam de um país para
de Laranjas 2003)
outro. Contudo, na medida em que essas imperfeições perma-
necem relativamente constantes ao longo do tempo, o PIB é E o PIB real em 2004 seria
útil para se comparar a atividade econômica de um ano para PIB real = (Preço das Maçãs 2002 X Quantidade de
outro. Maçãs 2004)
+ (Preço das Laranjas 2002 X Quantidade
PIB REAL VERSUS PIB NOMINAL de Laranjas 2004)
Os economistas usam as regras que acabamos de descrever para Observe que os preços de 2002 são usados para se calcular o PIB
calcular o PIB, que avalia a produção total de bens e serviços real durante todos os três anos. Como os preços se mantêm
da economia. Mas o PIB é uma boa medida do hem-estar eco- constantes, o PIB real só varia de um ano para outro se as quan-
nômico? Pense, mais uma vez, na economia que produz apenas tidades produzidas variarem. Como a capacidade de uma soci-
maçãs e laranjas. Nessa economia, o PIB é a soma do valor de edade de proporcionar satisfação econômica a seus integrantes
todas as maçãs produzidas e do valor de todas as laranjas pro- depende, em última instância, das quantidades de bens e ser-
duzidas. Ou seja, viços produzidos, o PIB real oferece uma medida melhor do
bem-estar econômico do que o PIB nominal.
PIB = (Preço das Maçãs X Quantidade de Maçãs)
+ (Preço das Laranjas X Quantidade de Laranjas)
0 DEFIATOR DO PIB
Observe que o PIB pode aumentar por causa de uma elevação
nos preços ou de uma elevação na quantidade . A partir do PIB nominal e do PIB real podemos calcular uma
Éfácil perceber que o PIB calculado dessa maneira não é uma terceira estatística: o deflator do PIB. O deflator do PIB, tam-
boa medida do bem-estar econômico. Ou seja, essa medida não bém chamado de deflator implícito de preços do PIB, é defini -
reflete de maneira acurada quão bem a economia pode satisfa- do como a razão entre o PIB nominal e o PIB real:
zer as demandas de famílias, empresas e governo. Se todos os PIB nominal
preços dobrassem sem qualquer mudança nas quantidades, o PIB Defl ator d o PIB =- -- - -
PIB real
dobraria. Mas seria enganador dizer que dobrou a capacidade
da economia de satisfazer as demandas, porque a quantidade O deflator do PIB reflete o que está acontecendo com o nível
de todos os bens produzidos permaneceu a mesma. Os econo- geral de preços na economia.
pz

Os DADOS DA MACROECONOMIA 17

Para compreender isso melhor, imagine outra vez uma eco- Nesta forma, pode-se constatar que o deflator faz jus ao seu
nomia com apenas um bem, o pão. Se P é o preço do pão e Q a nome: é usado para deflacionar (ou seja, tirar a inflação de) o
quantidade vendida, o PIB nominal é o total de dólares gasto PIB nominal e calcular o PIB real.
com pão naquele ano, P X Q. O PIB real é o número de pães
produzidos no ano vezes o preço do pão em algum ano-base,
MEDIDAS PONDERADAS EM CADEIA DO
P"""' X Q. O deflator do PIB é o preço do pão no ano relativo
ao preço do pão no ano-base, P/P0, ,. . PIB REAL
A definição do deflator do PIB permite-nos separar o PIB Temos falado do PIB real como se os preços usados para calcu-
nominal em duas partes: uma parte mede as quantidades (PIB lar essa medida nunca mudassem em relação aos valores no ano-
real) e a outra mede os preços (o deflator do PIB) . Ou seja, base. Se isso acontecesse de fato, os preços se tornariam cada
vez mais ultrapassados. Por exemplo, o preço dos computado-
PIB nominal = PIB real X Deflator do PIB. res caiu de modo substancial nos últimos anos, enquanto o preço
da anuidade na universidade subiu. Ao se avaliar a produção
O PIB nominal mede o valor corrente em dólares da produção da eco- de computadores e educação, seria enganador utilizar os pre-
nomia. O PIB real mede a produção avaliada em preços constantes. ços. que prevaleciam dez ou vinte anos atrás.
O deflator do PIB mede o preço da produção relativo ao seu preço Para resolver esse problema, o Centro de Análise Econômica
desta no ano-base. Podemos também escrever a equação como dos EUA atualizava periodicamente os preços usados para cal-
cular o PIB real. Em intervalos aproximados de cinco anos, um
PIB real = PIB nominal novo ano-base era escolhido. Os preços eram mantidos fixos,
Deflator do PIB utilizados para se medir a mudança de ano para ano na produ-

Para manipular muitas relações econômicas, há um recurso mento do deflator do PIB (5%) e do crescimento do PIB
aritmético que é útil conhecer: a variação percentual de um real (3%). 1
produto de duas variáveis é aproximadamente a soma das varia- Um segundo recurso aritmético segue como um corolário
ções percentuais em cada uma das variáveis. do primeiro: a variação percentual de uma proporção é apro-
Para entender como isso funciona, pense em um exem- ximadamente a variação percentual do numerador menos a
plo. Seja P o deflator do PIB e Y o PIB real. O PIB nominal variação percentual do denominador. Mais uma vez, consi-
é P X Y. A regra enuncia que dere um exemplo. Seja Y o PIB e La população. Assim, Y/L
é o PIB per capita. O segundo método enuncia
Variação Percentual de (P X Y)
= (Variação Percentual de P) Variação Percentual de (Y/L)
+ (Variação Percentual de Y). = (Variação Percentual de Y)
- (Variação Percentual de L).
Por exemplo, suponha que em um ano o PIB real seja 100
e o deflator do PIB seja 2; no ano seguinte, o PIB real é Por exemplo, suponha que no primeiro ano Y seja 100.000
103 e o deflator do PIB é 2,1. Podemos calcular que o PIB e L seja 100. Portanto, Y/L é 1.000; no segundo ano, Y é
real subiu 3% e que o deflator do PIB subiu 5%. O PIB no- 110.000 e L é 103; portanto, Y/L é 1.068. Observe que o
minal passou de 200 no primeiro ano para 216,3 no segun- crescimento do PIB per capita (6,8%) é aproximadamente
do, um aumento de 8,15%. Observe que o crescimento no o crescimento da renda (10%) menos o crescimento na
PIB nominal (8,15%) é mais ou menos a soma do cresci- população (3%).

'Nota matemática: A prova de que esse recurso dá certo começa pela seqüência de cálculos:
d(PY) = Y dP + P dY.
Agora, divida os dois lados da equação por PY para obter
d(PY)/(PY) = dP/P + dY/Y.
Observe que todos os três termos nesta equação são variações percentuais.
18 CAPÍTULO 2

ção de bens e serviços, até que o ano-base fosse outra vez atu- da economia. Também se interessam pela distribuição da pro-
alizado. dução entre os usos alternativos. A contabilidade da renda
Em 1995, o Centro anunciou uma nova política para o tra- nacional divide o PIB em quatro amplas categorias de gasto:
tamento de mudanças do ano-base. Em particular, agora se
enfatizam as medidas ponderadas em cadeia do PIB real. Comes- > Consumo (C)
sas novas medidas, o ano-base muda continuamente ao longo > Investimento (I)
do tempo. Em essência, os preços médios em 2001 e 2002 são > Compras do governo ( G)
utilizados para medir o crescimento real de 2001 para 2002; os > Exportações líquidas (NX)
preços médios em 2002 e 2003 são usados para medir o cresci-
mento real de 2002 para 2003; e assim por diante. Todas essas Assim, representando o PIB por Y
taxas de crescimento de ano para ano, são reunidas para for-
mar urna "cadeia", que se pode utilizar para comparar a produ- Y=C + I + G + NX.
ção de bens e serviços entre duas datas quaisquer.
Essa nova medida do PIB real em cadeia é melhor do que a O PIB é a soma de consumo, investimento, compras do gover-
medida mais tradicional, pois assegura que os preços utilizados no e exportações líquidas. Cada dólar do PIB está incluído em
para calcular o PIB real nunca estejam defasados. Para a maio- uma dessas categorias. Essa equação é uma identidade - uma
ria dos propósitos, no entanto, as diferenças não são importan- equação que permanecerá válida por causa da maneira como
tes. As duas medidas do PIB real têm uma estreita correlação. as variáveis são definidas. Ela é chamada de identidade da con-
O motivo desta estreita relação é o fato de que a maioria dos tabilidade da renda nacional.
preços relativos muda lentamente ao longo do tempo. Ou seja, O consumo consiste nos bens e serviços comprados pelas fa-
as duas medidas do PIB real refletem a mesma coisa: as mudan - mílias. É dividido em três subcategorias: bens não-duráveis, bens
ças na produção de bens e serviços gerais na economia. duráveis e serviços. Os bens não-duráveis são aqueles que du-
ram pouco, como alimentos e roupas. Os bens duráveis são aque-
les que duram mais, como carros e aparelhos de televisão. Os
ÜS COMPONENTES DA DESPESA serviços incluem o trabalho efetuado por indivíduos e empre-
Os economistas e os formuladores de políticas econômicas não sas aos consumidores, como cortes de cabelos e consultas mé-
se preocupam apenas com a produção total de bens e serviços dicas.

SAIBAMAfs
O que Ê Investimento!
Os novatos em macroeconomia ficam às vezes confusos pela ção de Smith não criou uma nova moradia para a econo-
maneira corno os macroeconomistas usam palavras conhe- mia; apenas transferiu a propriedade de uma moradia que já
cidas de maneiras novas e específicas. Um exemplo é o ter- existia. A compra de Smith é investimento para ele, mas é
mo "investimento". A confusão ocorre porque o que parece desinvestimento para a pessoa que vendeu a casa. Em con-
investimento para urna pessoa pode não ser investimento traste, Jones acrescentou uma nova moradia à economia; sua
para a economia como um todo. A regra geral é que o in- casa nova é contada como investimento.
vestimento da economia não inclui as compras que apenas Pense também nestes dois eventos:
redistribuem ativos já existentes entre diferentes pessoas.
> Bill Gates compra $5 milhões em ações da IBM de
Pela maneira como os macroeconornistas usam o termo, in-
Buffett, na Bolsa de Valores de Nova York.
vestimento é aquilo que cria capital novo.
> A General Motors vende $10 milhões em ações para o
Vamos considerar alguns exemplos. Suponha que obser-
público, e usa a receita para construir uma nova fábrica
vamos dois eventos:
de carros.
> Smith compra para si urna casa em estilo vitoriano de 100
Aqui, o investimento é de $10 milhões. Na primeira tran-
anos.
sação, Gates está investindo em ações da IBM, enquanto
> Jones constrói uma casa moderna para ser sua moradia.
Buffett está desinvestindo; para a economia, não há inves-
Qual é o investimento total aqui? Duas casas, uma casa, ou timento. Em contraste, a General Motors está usando parte
zero? da produção de bens e serviços da economia para aumentar
Um macroeconomista, diante dessas duas transações, seu volume de capital; por isso, sua nova fábrica é contada
conta apenas a casa dejones como investimento. A transa- como um investimento.
Os DADOS DA MACROECONOMIA 19

O investimento consiste em bens comprados para uso futu- tados por funcionários públicos. Não inclui pagamentos de
ro. O investimento também se divide em três subcategorias: in- transferências para pessoas, como previdência e assistência so-
vestimento fixo da empresas, investimento fixo imobiliário e cial. Como redistribuem a renda existente, e não são efetuados
investimento em estoque. O investimento fixo das empresas é em troca de bens e serviços, os pagamentos de transferência não
a aquisição de novas fábricas e equipamentos. O investimento fazem parte do PIB.
imobiliário é a compra de novos imóveis pelas famílias e Loca- A última categoria, exportações líquidas, leva em considera-
dores. Investimento em estoque é o aumento do estoque de bens ção o comércio com outros países. As exportações líquidas são
das empresas (se os estoques estão caindo, o investimento em os valores de bens e serviços exportados para outros países
estoque é negativo) . menos o valor dos bens e serviços que recebemos do exterior.
Compras do governo são os bens e serviços adquiridos pe- A exportações líquidas representam o gasto líquido do exteri-
los governos federal, estadual e municipal. A categoria inclui or com nossos bens e serviços, provendo renda para os produ-
itens como equipamentos militares, estradas e os serviços pres- tores nacionais.

ESTUDO DE CASO
0 PIB E SEUS COMPONENTES
Em 2000, o PIB dos Estados Unidos totalizou cerca de $10
trilhões. É um número tão grande que toma-se quase impossí- Total (bilhões Per capita
vel compreendê-lo. Podemos facilitar sua compreensão dividin- de dólares) (dólares)
do-o pela população dos Estados Unidos no ano de 2000, de Produto Interno Bruto 9.963,1 36.174
275 milhões de habitantes. Dessa maneira, obtemos o PIB per
Conswno 6.757,3 24.534
capita - a quantidade de gasto por americano médio-, que Bens não-duráveis 2.010,0 7.298
foi de $36.1 74 em 2000. Bens duráveis 820,3 2.978
Como esse PIB foi usado? A Tabela 2-1 mostra que cerca de Serviços 3.927,0 14.258
dois terços, ou $24.534 per capita, foram gastos em consumo. Investimento 1.832,7 6.654
O investimento foi de $6.654 per capita. As compras do go- Investimento fixo não-habitacional 1.362,2 4.946
verno foram de $6.331 per capita, dos quais $1.369 foram gas- Investimento fixo habitacional 416,0 1.510
tos pelo governo federal em defesa nacional. Investimento em estoque 54,5 198
O americano médio comprou $5.330 em bens importados Compras do Governo 1.743,7 6.331
do exterior, e produziu $3.984 em bens exportados para outros Federal 595,2 2.161
Defesa 377,0 1369
países. Como o americano médio importou mais do que expor- Não-defesa 218,2 792
tou, as exportações líquidas foram negativas. Além disso, como Estadual e municipal 1.148,6 4.170
o americano médio ganhou menos com a venda aos estrangei- Exportações Líquidas -370,7 -1.346
ros do que gastou com bens estrangeiros, a diferença teve que Exportações 1.097,3 3.984
ser financiada pela tomada de empréstimos de estrangeiros (ou, Importações 1.468,0 5.330
o que é equivalente, pela venda de alguns ativos). Assim, o ame-
Fonte: U. S. Department of Commerce.
ricano médio tomou emprestado $1.346 do exterior em 2000.

ÜUTRAS MEDIDAS DE RENDA PNB = PIB + Pagamentos do Fator do Exterior -


- Pagamentos do Fator para o Exterior.
A contab ilidade da renda nacional inclui outras medidas de ren-
da, que diferem um pouco da definição do PIB. É importante Enquanto o PIB mede a renda total da produção interna, o PNB
ter noção das várias medidas, porque os economistas e a im- mede a renda total ganha pelos nacionais (residentes de um
prensa se ~eferem a elas com freqüência. país). Por exemplo, se um residente japonês possui um prédio
Para compreender como as medidas alternativas de renda de apartamentos em Nova York, a renda das locações torna-se
relacionam-se umas com as outras, vamos começar pelo PIB e parte do PIB americano, porque foi ganha nos Estados Unidos,
acrescentar ou subtrair várias quantidades. Para obter o produ~ Mas, como essa renda de locação é um fator de pagamento para
to nacional bruto ( PNB), acrescentamos as receitas do fator renda o exterior, não é parte do PNB norte-americano. Nos Estados
(salários, lucros e locações) do resto do mundo, e subtraímos Unidos, os pagamentos de fator do exterior e os pagamentos
os pagamentos do fator renda para o resto do mundo: de fator para o exterior são de tamanho similar - cada qual
20 CAPÍTULO 2

representando cerca de 3% do PIB- e por isso o PIB e o PNB Uma série de ajustes leva-nos da renda nacional para a ren-
são bastante próximos. da pessoal, o montante da quantidade de renda recebida pelas
Para obter o produto nacional líquido (PNL) subtraímos a depre- famflías e pelos empreendimentos que não são pessoas jurídi-
ciação do capital - a quantidade de fábricas, equipamentos e es- cas. Três desses ajustes são os mais importantes. Primeiro, re-
truturas residenciais da economia que se desgastam durante o ano: duzimos a renda nacional pelo montante que as empresas ga-
nham mas não distribuem, seja por estarem retendo ganhos,
PNL = PIB - Depreciação.
seja por pagarem impostos. Esse ajuste é efetuado pela sub-
Nas contas da renda nacional, a depreciação é chamada de con- tração dos lucros da empresa (que é igual à soma dos impos-
sumo de capital fixo. Equivale a cerca de 10% do PNB. Como a tos que ela paga, os dividendos e os ganhos retidos) e pelo
depreciação do capital é um custo de produção da economia, sua reacréscimo dos dividendos. Segundo, aumentamos a renda
subtração mostra o resultado líquido da atividade econômica. nacional pelo montante líquido que o governo desembolsa em
O próximo ajuste nas contas da renda nacional é pelos im- pagamentos de transferência. Esse ajuste é igual às transferên-
postos indiretos das empresas, tal como os impostos sobre ven- cias do governo para pessoas menos as contribuições de
das. Esses impostos, que constituem cerca de 10% do PNL, im- seguridade social pagas ao governo. Terceiro, ajustamos a ren-
põem uma diferença entre o preço que os consumidores pagam da nacional para incluir os juros que as famílias ganham, em
por um bem e o preço que as empresas recebem. Como as em- vez dos juros que as empresas pagam. Esse ajuste é feito pelo
presas nunca recebem esse imposto, ele não é parte da sua ren- acréscimo da renda pessoal de juros e pela subtração dos ju-
da. Depois que subtraímos os impostos indiretos das empresas do ros líquidos. (A diferença entre juros pessoais e juros lfquidos
PNL, obtemos uma medida que é chamada de renda nacional: deriva, em parte, dos juros sobre a dívida do governo.) As-
sim, a renda pessoal é
Renda Nacional = PNL - Impostos Indiretos sobre Empresas.
A renda nacional mede quanto todas as pessoas na economia
Renda Pessoal = Renda Nacional
- Lucros das Empresas
ganharam.
A contabilidade da renda nacional divide a renda nacional - Contribuições à Seguridade Social
em cinco componentes, dependendo da maneira como a ren- - Juros Líquidos
da é aferida. As cinco categorias, junto com os percentuais da + Dividendos
renda nacional pagos a cada uma, são as seguintes:
+ Transferências do Governo para
Indivíduos
> Remuneração dos empregados (70%). Os salários e benefíci- + Renda Pessoal de Juros.
os adicionais ganhos pelos trabalhadores.
> Renda dos proprietários (9%). Os rendimentos de empreen- Em seguida, se subtraímos os pagamentos de impostos pessoais
dimentos que não são pessoas jurídicas, como uma pequena e certos pagamentos não-tributários para o governo (como mul-
fazenda, uma loja de família, um escritório de advocacia. tas de trânsito), obtemos a renda pessoal disponível.
> Renda de locações (2%). A renda que os locadores recebem, inclu- Renda Pessoal Disponível
sive o aluguel imputado que os proprietários de suas residências = Renda Pessoal - Impostos Pessoais e
"pagam" a si próprios, menos as despesas, tal como a depreciação. Pagamentos Não-Tributários.
> Lucros das empresas (12%). A renda das empresas após o
pagamento aos empregados e aos credores. Estamos interessados na renda pessoal disponível porque é o
> Juros líquidos (7%). Os juros pagos pelas empresas nacionais montante do qual as famílias e os empreendimentos que não
menos os juros por elas aferidos, mais os juros aferidos de são pessoas jurídicas dispõem para gastar, depois de cumprirem
estrangeiros. suas obrigações fiscais com o governo.

ESTUDO DE CASO
0 CICLO SAZONAL E AJUSTE SAZONAL sazonal regular. A produção da economia aumenta durante o
Uma vez que o PIB real e as outras medidas da renda refletem ano, alcançando o pico no quarto trimestre (outubro, novem-
como está sendo o desempenho da economia, os economistas bro e dezembro) e depois caindo no primeiro trimestre (janei-
se interessam por estudar as oscilações trimestrais dessas variá- ro, fevereiro e março) do ano seguinte. Essas mudanças sazo-
veis. Quando começamos a fazê-lo, no entanto, um fato logo nais regulares são substanciais. Do quarto para o primeiro tri-
se destaca: todas essas medidas da renda apresentam um padrão mestre, o PIB real cai em média cerca de 8%. 2

2Robert B. Barsky e Jeffrey A. Miron, "The Seasonal Cycle and the Business Cycle", }oumal of Political Econom)' 97 (junho de 1989): 503-534.
p

Os DADOS DA MACROECONOMIA 21

Não surpreende o fato de que o PIB real siga um ciclo sazo- veis. Você constatará que a maioria das estatísticas econômi-
nal. Algumas dessas mudanças são atribuíveis a alterações em cas apresentadas nos jornais tem um ajuste sazonal. Isso signifi-
nossa capacidade de produzir: por exemplo, nos países de cli- ca que os dados foram ajustados para remover as oscilações sa-
ma frio, construir casas é mais difícil durante o inverno do que zonais regulares. (Os procedimentos estatísticos precisos usa-
durante as outras estações. Além disso, as pessoas têm gostos dos para isso são elaborados demais para serem abordados aqui,
sazonais, com ocasiões preferenciais para determinadas ativi- mas em essência implicam a subtração das alterações na renda
dades, como fazer compras nas férias e nos feriados. que são previsíveis apenas pela época do ano.) Portanto, quando
Quando os economistas estudam as oscilações no PIB real e você observa um crescimento ou queda do PIB real ou qual-
outras variáveis econômicas, muitas vezes querem eliminar a quer outra série de dados, deve olhar além do ciclo sazonal para
parcela de oscilações causadas por mudanças sazonais previsí- chegar a uma explicação.

2-2 MEDINDO O CUSTO DE VIDA:


O ÍNDICE DE PREÇOS AO CONSUMIDOR
Um dólar hoje não compra tanta coisa quanto comprava 20 Suponha, por exemplo, que o consumidor típico compre 5
anos atrás. O custo de quase tudo subiu. Esse aumento do nível maçãs e 2 Laranjas todos os meses. Portanto, a cesta de merca-
geral de preços é chamado de inflação, umas das preocupações dorias consiste em 5 maçãs e 2 laranjas, e o IPC é
básicas dos economistas e dos formuladores de políticas eco-
nômicas. Em capítulos posteriores, examinaremos em detalhes (5 X Preço Corrente das Maçãs)+
as causas e os efeitos da inflação. Aqui, trataremos apenas da IPC = (2 X Preço Corrente das Laranjas)
maneira como os economistas mensuram as mudanças no cus- (5 X Preço das Maçãs em 2002) +
to de vida.
(2 X Preço das Laranjas em 2002)

0 PREÇO DE UMA CESTA DE BENS Neste IPC, 2002 é o ano-base. O índice mostra quanto custa-
va comprar 5 maçãs e 2 laranjas em relação a quanto custa com-
A medida mais comumente usada para se determinar o custo
prar a mesma cesta de frutas em 2002.
de vida é o índice de preços ao consumidor (IPC). Nos Estados
O índice de preços ao consumidor é o que recebe mais aten-
Unidos, é do Departamento de Estatísticas do Trabalho ( Bureau
ção, mas não é o único índice de preços. Outro é o índice de
of Labor Statistics), que faz parte do Ministério do Trabalho
preços ao produtor, que mede o preço de uma cesta típica de bens
dos EUA (U. S. Department ofLabor), a incumbência de cal-
e serviços comprados pelas empresas, em vez de pelos consumi-
cular o IPC.* A tarefa começa pela coleta dos preços de mi-
dores. Além desses índices gerais de preços, o Departamento de
lhares de bens e serviços. Assim como o PIB transforma o mon-
Estatística do Trabalho calcula índices de preços para tipos es-
tante de muitos bens e serviços em um único número, medin-
pecíficos de produtos, como alimentos, habitação e energia.
do o valor da produção, o IPC converte os preços de múitos
bens e serviços em um único índice, medindo o nível geral de
preços. 0 IPC VERSUS O DEFIATOR DO PIB
Como os economistas devem agregar os inúmeros preços na
economia em um único índice, medindo de maneira confiável No início deste capítulo, tratamos de outra medida de preços:
o nível de preços? Eles podem simplesmente calcular uma mé- o deflator implícito de preços do PIB, que é a razão entre o PIB
dia de todos os preços. Esse método, no entanto, trataria todos nominal e o PIB real. O deflator do PIB e o IPC dão informa-
os bens e serviços de maneira igual. Como as pessoas compram ções um pouco diferentes sobre o que está acontecendo com o
mais galinha do que caviar, o preço da galinha deve ter um peso nível geral de preços na economia. Há três diferenças funda-
maior no IPC do que o preço do caviar. O Departamento de mentais entre as duas medidas.
Estatísticas do Trabalho atribui pesos a itens diferentes ao cal- A primeira é que o deflator do PIB mede os preços de todos
cular o preço de uma cesta de bens e serviços comprados por os bens e serviços produzidos, enquanto o IPC mede os preços
um consumidor típico. O IPC é o preço dessa cesta de bens e apenas dos bens e serviços comprados pelos consumidores. As-
serviços em relação ao preço da mesma cesta em algum ano- sim, um aumento no preço de bens comprados por empresas ou
base. pelo governo vai aparecer no deflator do PIB, mas não no IPC.

*No Brasil, o IPC e outros índices de preços são calculados pela Fundação Getulio Vargas (FGV - RJ). (N. Rev. Téc.)
22 CAPÍTULO 2

A segunda diferença é que o deflator do PIB inclui apenas melhor medida do custo de vida. A resposta, em última ins-
os bens produzidos domesticameme. Os bens importados não tância , é a de que nenhum é claramente superior. Quando os
fazem parte do PIB, e por isso não aparecem no deflator do PIB. preços de diferentes bens variam em quantidades diferentes,
Assim, o aumento do preço de um Toyota fabricado no Japão o índice Laspeyres (cesta fixa) tende a sobrestimar o aumen-
e vendido nesse país afeta o IPC, porque é comprado por con- to no custo de vida, porque não leva em conta que os consu-
sumidores, mas não afeta o deflator do PIB. midores têm oportunidade de substituir os bens mais caros por
A terceira diferença, mais sutil, resulta da maneira como as outros mais baratos. Em contraste, o índice Paasche (cesta va-
duas medidas agregam os muitos preços na economia. O IPC riável) tende a atenuar o aumento do custo de vida. Embora
atribui pesos fixos aos preços de diferentes bens, enquanto o admita a substituição de bens alternativos, não reflete a re -
deflator do PIB atribui pesos variáveis. Em outras palavras, o dução no bem-estar dos consumidores que pode resultar des-
IPC é calculado pelo uso de uma cesta fixa de bens, enquanto sas substituições.
o deflator do PIB permite que a cesta de bens varie ao longo do O exemplo da colheita de laranja destruída mostra os pro-
tempo, à medida que muda a composição do PIB. O exemplo a blemas dos índices de preços Laspeyres e Paasche. Como o IPC
seguir mostra como essas abordagens diferem entre si. Suponha é um índice Laspeyres, exagera o impacto do aumento dos pre-
que grandes geadas destruam a colheita nacional de laranjas. ços da laranja sobre os consumidores: ao usar uma cesta fixa de
A quantidade de laranjas produzidas cai a zero. O preço das bens, ignora a capacidade dos consumidores de substituir as
poucas laranjas que restam nos supermercados dispara. Como laranjas por maçãs. Em contraste, o deflator do PIB, por ser um
as laranjas não são mais parte do PIB, o aumento do preço das índice Paasche, atenua o impacto sobre os consumidores: o
laranjas não aparece no deflator do PIB. Mas, como o IPC é deflator do PIB não apresenta aumento dos preços, mas sem
calculado com uma cesta fixa de bens que inclui laranjas, o dúvida o preço maior das laranjas piora a situação dos consu-
aumento no preço das laranjas causa um aumento substancial midores.
no IPC. Por sorte, na prática a diferença entre o deflator do PIB e
Os economistas chamam o índice de preços com uma ces- o IPC não costuma ser muito grande. A Fig. 2-3 mostra a mu -
ta fixa de bens de índice Laspeyres, enquanto um índice de dança percentual do deflator do PIB e a mudança percentual
preços com uma cesta variável é um índice Paasche. Os teóri- do PIB a cada ano, a partir de 1948. As duas medidas em ge -
cos da economia têm estudado as propriedades desses diferen- ral relatam a mesma história sobre a velocidade da subida dos
tes tipos de índices de preços, a fim de determinarem qual é a preços.

Mudança
percentual 1 6

14 IPC

12

10

6
Oeflator do PIB
4

- 2 '--~~.L-~~-'-~~--'-~~-'-~~-"-~~----'~ ~~ ~ ~ ~ . L - ~ ~ - ' -~ ~- ' - ~ ~ - '


1948 1953 1958 1963 1968 1973 1978 1983 1988 1993 1998 2003
Ano

Fig. 2-3 O Deflator do PIB e o IPC A figura mostra a mudança percentual do deflator do PIB e do IPC em cada ano desde 1948. Embora divirjam
às vezes, as duas medidas de preços em geral nos contam a mesma história sobre a velocidade à qual os preços sobem. Tanto o IPC .q uanto.o deflator
do PIB mostram que os preços subiram lentamente na maior parte das décadas de 1950 e 1960, elevararn~se mais depressa na década de 1970, e
tomaram a subir devagar nas décadas de 1980 e 1990.
Fonte: U. S. Department of Commerce, U.S. Department of Labor.
ÜS DADOS DA MACROECONOMIA 23

ESTUDO DE CASO - - - - - - - - - - - ~
0 IPC SOBRESTIMA A INFLAÇÃO? que ela vende, nem toda a mudança no preço do bem reflete
O índice de preços ao consumidor é uma medida da inflação uma mudança no custo de vida. Nos Estados Unidos, o Bureau
que recebe o máximo de atenção. Os formuladores de política of Labor Statistics faz o melhor que pode para levar em consi-
econômica do Federal Reserve ( o Banco Central dos Estados deração as mudanças na qualidade dos bens ao longo do tem-
Unidos) monitoram o IPC ao elaborarem a política monetá- po. Por exemplo, se a Ford aumenta a potência de um determi-
ri<.l. Além disso, muitas leis e contratos privados têm cláusulas nado modelo de carro de um ano para outro, o IPC refletirá a
que levam em consideração o custo de vida ( em inglês, COLA, mudança: o preço do carro ajustado à qualidade não subirá tão
cost-of-living allowance), utilizando-se o IPC para reajustes no depressa quanto o preço não-ajustado. Mas há muitas mudan-
nível de preços. Por exemplo, os benefícios da seguridade soci- ças na qualidade, como conforto e qualidade, que são difíceis
al são ajustados automaticamente a cada ano, para que a infla- de medir. Se a melhora da qualidade não-medida (em vez da
ção não prejudique o padrão de vida dos idosos. deterioração da qualidade não-medida) é típica, então o IPC
Como tanta coisa depende do IPC , é importante assegurar medido sobe mais depressa do que deveria.
que essa medida do nível de preços seja acurada. Muitos eco- Por causa desses problemas de mensuração, alguns econo-
nomistas, por diversas razões , acham que o IPC tende a mistas têm sugerido uma revisão nas leis, a fim de se reduzir o
sobrestimar a inflação. grau de indexação. Por exemplo, os benefícios da seguridade
Um problema é o desvio causado pela substituição, de que social poderiam ser indexados ao IPC menos 1%. A mudança
já falamos. Uma vez que mede os preços de uma cesta fixa de proporcionaria uma maneira aproximada de contrabalançar os
bens, o IPC não reflete a capacidade dos consumidores de subs- problemas de mensuração. Ao mesmo tempo, tomaria automa-
tituir, escolhendo os bens cujos preços relativos caíram. Assim, ticamente mais lento o crescimento dos gastos do governo.
quando os preços relativos mudam, o verdadeiro custo de vida Em 1995 , o Comitê de Finanças do Senado norte-america-
sobe menos depressa do que o IPC. no designou uma comissão de cinco eminentes economistas -
Um segundo problema é a introdução de novos bens. Quan- Michael Boskin, Ellen Dulberger, Robert Gordon, Zvi Griliches
do um novo bem é introduzido n o mercado, os consumidores e Dale Jo rgenso n - para estudar a magnitude do erro de
ficam em situação melhor, porque dispõem de mais produtos mensuração no IPC. A comissão concluiu que o IPC era
entre os quais escolher. N a verdade, a introdução de novos bens distorcido para cima em 0,8 a 1,6% ao ano, com a sua "melhor
aumenta o valor real do dólar. Esse aumento no poder de com- estimativa" sendo 1, 1%. O relatório levou a algumas mudan-
pra do dólar, no entanto, não é refletido em um IPC mais baixo. ças na maneira como o IPC é calculado. Por isso, considera-se
Um terceiro problema está nas mudanças não-medidas na que o desvio seja um pouco menor de que 1°/..,. O IPC ainda
qualidade. Quando uma empresa muda a qualidade de um bem sohrestima a inflação, mas não tanto quanto antes. 1

2-3 MEDINDO A FALTA DE EMPREGO:


A TAXA DE DESEMPREGO
Um aspecto do desempenho econômico é a eficiência com que Com hase nas respostas às perguntas da pesquisa, cada adulto
uma economia utiliza seus recursos. Como os trabalhadores são ( 16 anos ou mais) em cada família é situado em uma de três
o melhor recurso de uma economia, mantê-los empregados é categorias: empregado, desempregado, ou fora da força de tra-
uma preocupação fundamental das autoridades econômicas. A balho. A pessoa está empregada se passou algum tempo da
taxa de desemprego é a estatística que mede o percentual de semana anterior trabalhando em um emprego remunerado. Ela
pessoas que querem trabalhar mas não encontram emprego. está desempregada se n ão tem um emprego, embora procure,
T odos os meses, o Departamento de Estatística do Traba- ou encontra-se em dispen sa temporária. Uma pessoa que não
lho dos Estados Unidos calcula a taxa de desemprego , além se enquadre em nenhuma das duas categorias anteriores, como
de várias outras estatísticas que os economistas e os um estudante em tempo integral ou um aposentado, está fora
formuladores de políticas econômicas utilizam para monito- d a força de tra balho. Uma pessoa que quer um emprego mas
rar o desenvolvimento no mercado de trabalho. Essas estatís- desistiu de procurar - um trabalhador desalentado - está fora
ticas derivam de uina pesquisa com cerca de 60.000 famílias. da força de trabalho .

;Para um exame adicional dessas questões, veja Marrhew Shapiro e David Wilcox, "Mismeasurement in the Cot1.sumer Prices lndex: An Evaluacion", NBER
Macroeconomics Annual, 1996, e o simpósio "Measuring the CP!", na edição do inverno de 1998 de The Joumal of Economic Perspeciives .
24 CAPITULO 2

A força de trabalho é definida como a sorna dos empregados Taxa de Participação na Força de Trabalho=
e desempregados. A taxa de desemprego é medida pelo percentual = (140,9/209,7) X 100 = 67,2%.
da força de trabalho que não está empregado. Ou seja,
Portanto, cerca de dois terços da população adulta integravam
a força de trabalho, e cerca de 4% das pessoas na força de tra-
Força de Trabalho =
balho não tinham um emprego.
= Número de Empregados+ Número de Desempregados
e
População: 209,7 milhões
Número de Desempregados X lOO (16 anos e mais)
T axa d e Desemprego = d T b Ih ..
Força e ra a o

Uma estatística relacionada é a taxa de participação na força


de trabalho, o percentual da população adulta que integra a
força de trabalho: Fora da força
de trabalho:
68,8 milhões
Força de
Taxa de T b Ih O
· ·
P art1c1pação na Força d e T rabaIh o = ra .a X 1·0 0 .
População
Adulta
O Departamento de Estatística do Trabalho calcula essa esta-
tística para a população em geral e para grupos dentro da po-
pulação: homens e mulheres, brancos e negros, trabalhadores
adolescentes e jovens. Fig. 2-4 Os Três Grupos da População Quando o Departamento de
A Fig. 2-4 mostra a divisão da população pelas três catego- Estatística do Trabalho dos EUA pesquisa a população, situa todos os
rias em 2000. As estatísticas indicam o seguinte: adultos em uma das três categorias: empregados. desempregados, ou fora
da força de trabalho. A figura mostra o número de pessoas em cada cate-
Força de Trabalho= 135,2 + 5,7 = 140,9 milhões. goria em 2000.
Taxa de Desemprego = (5,7/140,9) X 100 = 4,0%. Fonte: U. S. Department of Labor.

ESTUDO D E CASO
DESEMPREGO, PIB E LEI DE ÜKUN de desemprego mantêm estreita relação com as mudanças do
Qual a relação que devemos esperar encontrar entre desempre - PIB real.
go e PIB real? Como os trabalhadores empregados ajudam a Podemos ser mais precisos quanto à magnitude da relação
produzir bens e serviços, o que não acontece com os desempre- da lei de Okun. A linha traçada através da dispersão de pontos
gados, os aumentas da taxa de desemprego devem estar assoc i- (calculada com um procedimento estatístico chamado de mí-
ados a quedas do PIB real. Essa relação negativa entre desem- nimos quadrados ordinários) nos diz que
prego e PIB é chamada de lei de Okun , em homenagem a
Mudança Percentual n o PIB Real
Arthur Okun, o economista que prime iro estudou o assunto. 4
= 3% - 2 X Mudança na T axa de Desemprego
A Fig. 2-5 faz uso dos dados anuais dos Estados Unidos para
ilustrar a lei de Ohm. A figura é um gráfico de dispersão, em Se a taxa de desemprego permanece a mesma, o PIB real cres-
que cada ponto representa uma observação (neste caso, os da- ce em cerca de 3%; esse crescimento n ormal da produção de
dos para um ano determinado ). O eixo horizontal representa bens e serviços é resultado do crescimento da força de traba-
a mudança na taxa de desemprego do ano anterior, enquanto lho, da acumulação de capital e do progresso tecnológico. Além
o eixo vertical representa a mudança percentual no PIB. A disso, para cada ponto percentual em que a taxa de desempre-
figura mostra claramente que as mudanças ano a ano da taxa go aumenta, o crescimento do PIB real geralmente cai 2%. Por

4
Arthur M. Okun , "Pocential ONP: lts Measurement and Significance", em Proceedings of the Business mui Economics Statiscics Section, American Sracisrical Association
(W dShington, D.C. : American Statiscical Association , 1962) , 98-103; reproduzido em Archur M. Okun, Economics for Policymaking (Cambridge, Massachusetts:
M!T Press, 1983) , 145-158.
Os DADOS DA MACROECONOMIA 25

Variação percentual
no PIB real
10

8 li

-3 -2 -1 o 2 3 4
Variação da taxa de desemprego

Fig. 2-5 Lei de Okun Esta figura é um gráfico de dispersão com a variação da mudança da taxa de desemprego no eixo horizontal e a variação
percentual do PIB real no eixo vertical, tornando dados da economia dos Estados Unidos. Cada ponto representa um ano. A correlação negativa entre
essas variáveis mostra que aumentos no desemprego tendem a estar associados a um crescimento abaixo do normal no PIB real.
Fonte: U. S. Department of Commerce. U. S. Departrnent of Labor.

isso, se a taxa de desemprego subisse de 6 para 8%, o cresci- Neste caso, a lei de Okun diz que o PIB cairia 1%, indicando
mento do PIB real seria que a economia está em recessão.
Mudança Percentual no PIB Real = 3% - 2 X (8% - 6%)
= -1%.

2-4 CONCLUSÃO: DE ESTATÍSTICAS ECONÔMICAS A


MODELOS ECONÔMICOS
As três estatísticas discutidas neste capítulo - produto inter- Nos próximos capítulos, estudaremos algumas dessas te-
no bruto, índice de preços ao consumidor e raxa de desempre- orias. Ou seja, construiremos modelos que explicam como
go - quantificam o desempenho da economia. Os tomadores essas variáveis .são determinadas e como a política econô-
de decisões da iniciativa pública e privada utilizam essas esta- mica as afeta. Tendo aprendido a mensurar o desempenho
tísticas para monitorar as mudanças da economia e formular as econômico, estamos agora preparados para aprender como
políticas econômicas apropriadas. Os economistas fazem uso explicá-lo.
dessas estatísticas para desenvolver e testar teorias sobre a
maneira como a economia funciona.

RESUMO
1. O produto interno bruto (PIB) mede tanto a renda de to- 2. Os valores dos bens e serviços do PIB nominal são os preços
dos os indivíduos na economia quanto o gasto total na pro- correntes. Os valores dos bens e serviços do PIB real são os
dução de bens e serviços da economia. preços constantes. O PIB real só sobe quando a quantidade
r-
26 CAPfTULO 2

de bens e serviços aumenta, enquanto o PIB nominal pode dor típico. Tal como o deflator do PIB, que é a razão entre o
subir porque a produção aumentou ou porque os preços au- PIB nominal e o PIB real, o IPC mede o nível geral de pre-
mentaram. ços.
3. O PIB é a soma de quatro categorias de gastos: consumo, in- 5. A taxa de desemprego mostra qual fração daqueles que gos-
vestimento, compras do governo e exportações líquidas. tariam de trabalhar não encontram emprego. Quando a taxa
4. O índice de preços ao consumidor (IPC) mede o preço de de desemprego sobe, o PIB real geralmente cresce mais de-
uma cesta fixa de bens e serviços adquiridos por um consumi- vagar do que sua taxa normal, e pode até cair.

CONCEITOS-CHAVE
Produto interno bruto (PIB) Valor imputado Investimento
Índice de rreços ao consumidor (IPC) PIB nominal versus PIB real Compras do governo
Taxa de desemrrego Deflator do PIB Exportações líquidas
Contabilidade da renda nacional Identidade da contabilidade da renda Força de trabalho
Estoques e flux os nacional Taxa de participação na forç a de trabalho
Valor agregado Consumo Lei deükun

QUESTÕES PARA REVISÃO


1. Relac ione as duas coisas que o PIB mede. Como o PlB mede essas 3. Relacione as três categorias usadas pelo Departamento de Estatís-
duas coisas ao mesmo tempo? tica do Trabalho dos EUA para class ificar todos os indivíduos na
economia. Como o centro calcula a taxa de desemprego?
2. O que o índice de preços ao consumidor mede?
4. Explique a lei de Ohm.

PROBLEMAS E APLICAÇÕES
1. Ve rifique os jornais dos ülrimos dias. Que novas estatísticas econô- b. Investimento doméstico privado bruto
micas fora m divulgadas? Como você interpreta essas estatísticas 7 c. Compras do governo
2. Um agricultor colhe um alqueire de trigo e vende a um moleiro por d. Exportações líquidas
$ 1,00. O molei ro transforma o trigo em farinha , e depois vend e a e. Compras da defesa naciona l
farinha a um p[!deiro por $3 ,00. O padeiro usa a farinha rara fazer f. Compras de governos estaduais e mun icipais
pão, e vende o pão a um engenheiro por $6,00. O engenheiro come g. Importações
o pão. Qual é o valor agregado por cada pessoa? Qual é o PIB? Você percebe quaisquer relações estáveis entre os dados? Percebe
3. Suponhamos que uma mulher se case com seu mordomo. Depois doca- quaisquer tendências? (Dica: Um bom lugar para procurar os dados é
samento, o marido continua a servi-la, como antes, e ela continua a o apêndice estatístico do Economic Report of the Presidem, publicado
sustentá-lo, como antes (só que agora como marido, não mais como em- todos os anos pelo Council of Economic Advisers. Alternativamen-
pregddo). Como o casamento afeta o PIB 1 Como ele deve afetar o PIB? te, você pode também procurar em http://www.bea.doc.gov, que é o
site na Internet do Bureau ofEconomic Analysis. )
4. S icue cada uma das seguintes transações em um dos quatro com-
ponentes de gasto: consumo, investimento, compras do governo e 6. Considere uma economia que produz e consome pão e automóveis.
exportações líquidas. A tabela a seguir contém dados de dois anos diferentes.
a. A Boeing vende um avião para a Força Aérea.
b. A Boeing vende um avião para a American Airlines. Ano Ano
c. A Boeing vende um avião para a Air France. 2000 2010
d. A Boeing vende um av ião para Amelia Earhart.
e. A Boe ing constrói um avião para ser vendido no próximo ano.
Preço de um automóvel $50.000 $60.000
5. Descubra os dados sobre o PIB e seus componentes, e calcule o Preço de um pão $10 $20
percentual do PIB para os seguintes componentes, em 19 50, 197 5 Número de automóveis produzidos 100 120
e 2000.
Número de pães produzidos 500.000 400.000
a. Gastos de consumo pessoal
p

ÜS DADOS DA MACROECONOMIA 27

a. Tomando 2000 como ano-base, calcule as seguintes estatísticas a. Um furacão na Flórida obriga a Disney World a fechar por um
para cada ano: PIB nominal, PIB real, o deflator de preço implí- mês.
cito para o PIB, e um índice de preços de peso fixo, como o IPC. b. A descoberta de uma nova variedade de trigo, fácil de cultivar,
b. Quanto os preços subiram entre 2000 e 2010? Compare as res- aumenta as colheitas.
postas dadas pelos índices de preços Laspeyres e Paasche. Ex- c. A crescente hostilidade entre sindicatos trabalhistas e empre-
plique a diferença. gadores desencadeia uma onda de greves.
c. Suponha que você seja um senador elaborando uma lei para o d. Empresas por toda a economia experimentam uma queda na
índíc:e das pensões federais e seguridade social. Ou seja, sua lei demanda, o que leva-as a dispensar empregados.
ajustará esses benefícios para compensar as mudanças no custo e. O Congresso aprova novas leis ambientais, proibindo as em-
de vida. Você usará o deflaror do PIB ou o IPC? Por quê?
presas de utilizarem métodos de produção que emitam muita
7. Abby consome apenas maçãs. No ano 1, as maçãs vermelhas cus- poluição.
tam $1 cada e as maçãs verdes custam $2 cada. Abby compra 10 f. Mais estudantes do curso médio abandonam os estudos para
maçãs vermelhas. No ano 2, as maçãs vermelhas custam $2, as aceirar emprego como aparadores de gramados.
maçãs verdes custam $1 e Abby compra 1Omaçãs verdes. g. Os pais em todo o país reduzem a sua semana de trabalho, a fim
a. Calcule um índice de preços ao consumidor das maçãs para cada de passarem mais tempo com os filhos.
ano. Suponha que u ano l seja o ano-base, em que a cesta do con-
sumidl)r é fixada. C, )mo o índice muda do ano 1 para o ano 2 ? 9. Em um discurso que fez em 1968, quando era candidato a presi-
h. Calcule o gast,) nominal de A hhy cmn m:1çJs a cada ;mn. Como dente dos Estados Unidos, o senador Rohert Kennedy disse o se-
mucb do ano l parn ,1 ann 2: /!Liintc sohrc o PIB:
e. Tomando<) ,mn I c,11m) ,mo-h,1se, cakule o gasto real de Abby [O PIB] niio leva em cunrn a saúde de nossos filhos, a qualida-
com maçãs em cada an,). Com,) muda dn ,m,1 1 para o ano 2 '. de de sua educação, nem a alegria de suas diversões. Não inclui
d. Definindo o deflaror implícito de preço como gast,) nnminal a helc:a da nossa poesia, nem a força do nosso casamento, a in-
dividido pelll gastu rei!, calcule n detbrm de cada ann. Como teligência de nossos dehates púhlicos, nem a integridade de
o deflator muda dn ano l para L) an,) 2 1 nossas autoridades públicas. Não mede nossa coragem, nem a
e. Suponha que Ahhy se sinta igu·.1lmente feli: etJmendo maçãs nossa sabedoria, nem a nossa dedicação ao país. Mede tudo, em
vermelhas Llu verdes. Quanto n custo de vida verdadeiro aumen- suma, exceto o que faz com que a vida valha a pena. Pode nos
tnu para Ahby? Compare com as respnsrns parn as questôes (a)
Ji:er tudo sobre a América, exceto por que nos orgulhamos de
e (d). O que este exemrln lhe di: snhre os índices de preços
ser mnericanos.
Laspeyres e Paasche:
Rnbert Kennedy estava certo? Se estava, por que nos importamos
8. C,)nsidere a prohahiliLladl' de cada um dos eventns a seguir afl'r,1r
t,mto com<) PIB?
o PIB real. Você acha qul' a mudança nn PIB rt:'al refleti:' um,1 mu-
dlmç,1 semelh,mte n,1 hem-estar ccnnômtco 1
~
~····.
Parte 2

TEORIA CLÁSSICA: A ECONOMIA NO


LONGO PRAZO
Capítulo 3

RENDA NACIONAL: DE ÜNDE VEM E


PARA ÜNDE VAI

Uma g,·ande renda é a melhor receita /iarn a felicidade de que já ouvi falar.
-··· J,me· Au.,ten

A variável macroeconômica mais importante é o produto in- como funcionam as economias reais. Mostra a ligação entre os
terno bruto (PIB) . Como já ressaltamos, o PIB mede a produ- agentes econômicos - famí lias, empresas e o governo - e
ção total de bens e serviços e a renda total de um país. Para como os dólares fluem entre eles, através dos vários mercados
avaliar o significado do PIB, basta dar uma rápida olhada nos da economia.
dados internacionais: em comparação com seus equivalentes Vamos examinar o fluxo de dólares do ponto de vista desses
mais pohres, os países com PIB per capita elevado têm tudo, agentes econômicos. As famílias auferem uma renda e usam-
desde melhor nutrição infantil até mais apare lhos de tevê por na para pagar impostos ao governo, consumir bens e serviços,
família. Um grande PIB não garante que todos os cidadãos de e poupar por meio dos mercados financeiros. As empresas ob-
um país serão felizes, mas pode ser a melhor receita para a feli - têm uma receita da venda de bens e serviços, e usam-na para
cidade que os macroeconomistas têm a oferecer. pagar os fatores de produção. Tanto as famílias quanto as em-
Este capítulo trata de quatro grupos de questões sohre as fon- presas tomam emprestado nos mercados financeiros para com-
tes e usos do PIB de um país: prar bens de investimento, como casas e fábricas. O governo
recebe receita dos impostos, e utiliza-a para pagar as compras
> Quanto as empresas da economia produzem? O que de-
do governo. Qualquer excesso de receita fiscal sobre o gasto do
termina a renda total de um país?
governo é chamado de pqupança pública, que pode ser positi-
> Quem recebe a renda da produção? Quanto destina-se à
va (um superávit orçamentário) ou negativa (um déficit orça-
remuneração dos trabalhadores, e quanto destina-se à re-
mentário).
muneração dos donos do capita l?
Neste capítulo, desenvolvemos um modelo clássico básico
> Quem compra a produção da economia? Quanto as fa-
para explicar as interações econômicas descritas na Fig. 3-1.
mílias compram para consumo, quanto as famílias e as
Começamos pelas empresas e examinamos o que determina seu
empresas compram para investimento, e quanto o gover-
nível de produção (e, com isso, o nível de renda nacional).
no compra para propósitos públicos?
Depois, examinamos como os mercados dos fatores de produ-
> O que equilibra a demanda e a oferta de bens e serviços?O
ção disuihuem essa renda para as famílias. Em seguida, consi-
que garante que o gasto desejado com consumo, investi-
deramos quanto dessa renda as famílias consomem e quanto
mento, e compras do governo iguale o nível de produção?
poupam. Além disso, para tratar da demanda por bens e servi-
Para responder a essas perguntas, devemos examinar como as ços decorrente do consumo das famílias, estudamos a deman-
várias partes da economia interagem. da que vem do investimento e das compras do governo. Por fim,
Um bom lugar para se começar é o diagrama de fluxo circu- fechamos o círculo e verificamos como a demanda por bens e
lar. No Cap. 2, traçamos o fluxo circular de dólares em uma serviços (a soma do consumo, investimento e compras do go-
economia hipotética que produzia apen as um produto, pão, a verno) e a oferta desses bens e serviços (o nível de produção)
partir de trabalho. A Fig. 3-1 reflete de maneira mais acurada encontram o equilíbrio.
32 CAPITULO 3
'
Renda Pagamentos de fatores
~$ ie f-attJre:s
. . ~Piiod.ú;ãO

Poupança privada
,~rl(!f
· Ffr.il!nq,.k9~:..

Poupança
pública
Impostos
Famllias Governo Empresas

Compras Investimento
do governo

Consumo Mercados de Receita da empresa


Bens e Serviços

Fig. 3-1 O Fluxo Circular de Dólares Através da Economia Esta fi gura é uma versão mais realista do diagrama de fluxo circular apresentado
no Cap. 2. Cada caixa: em cinza-claro representa um agente econômico: famílias, empresas e o governo. Cada caixa em cinza-escuro representa um
tipo de mercado: os mercados de bens e serviços. os mercados de fatores de produção e os mercados financeiros. As setas mostram o fluxo de dó·
lares entre os agentes econômicos, através dos três tipos de mercados.

3-1 O QUE DETERMINA A PRODUÇÃO TOTAL DE


BENS E SERVIÇOS?
A produção de bens e serviços de uma econ omia - seu PIB - L = L.
depende ( 1) da quantidade de insumos, chamados de fa tores
A barra superior significa que cada variável é fixa em algum
de produção, e (2) da capacidade de transformar insumos em
níve l. N o Cap. 7, vamos examinar o que acontece quando os
produção, confo rme é representado pela fu nção de produção.
fa tores de produç ão mudam ao longo do tempo, como ocorre
Vamos examinar uma coisa de cada vez.
no mundo real. Por enquanto, manteremos a an álise simpl ifi-
cada, pressupondo quantidades fixas d e capital e trabalho.
Os FATORES DE PRoouçÃo T ambém pressupomos aqui qu e os fa tores de produção são
Os fatores de produção são os insumos utilizados para produ- plenamente utilizados - ou seja, que não há recursos desper-
zir bens e serviços. Os dois fatores de produção mais importan- diçados. Mais uma vez, no mundo rea l, parte da força de tra-
tes são o capital e o trabalho. Capital é o conjunto de instru - balho es tá desempregada, e algum capital permanece ocioso.
mentos que os trabalhadores utilizam: o guindaste do operário No Cap. 6, vamos examinar os motivos do desemprego; por
da construção civ il, a calculadora do contador e o microcom- ora, pressupomos que capital e trabalho são plenam ente apro-
putador deste autor. Trabalho é o tempo que as pessoas gastam veitados.
trabalhando. Usamos o símbolo K para indicar a quantidade
de capital e o símbolo L para indicar a quantidade de trabalho. A FUNÇÃO DE PRODUÇÃO
Neste capítulo, consideramos os fatores de produção dados.
Em outras palavras, pressupomos que a economia tem um mon- A tecnologia de produção disponível determina quanto se pro-
tante fixo de capital e uma q1.1antidade fixa de trabalho. Escre- duz de uma dada quantidade de capital e trabalho. Os econo-
vemos mistas expressam a tecnologia disponível por meio de uma fun-
ção de produção. Denotando a quantidade produzida por Y,
K= K. escreve mos a função de produção como
RENl)A NACIONAL: DE ONDE VEM E PARA ÜNDE VAI 33

Y = F(K, L). Como um exemplo de função de produção, pense na pro-


dução de uma padaria. A cozinha e seu equipamento constitu-
Esta equação enuncia que a produção é uma função da quanti-
em o capital da padaria, os trabalhadores contratados para fa-
dade de capital e da quantidade de trabalho.
zer o pão são o trabalho e os pães são a produção. A função de
A função de produção reflete a tecnologia disponível para
produção da padaria mostra que o número de pães produzidos
transformar capital e trabalho em produção. Se alguém in-
depende da quantidade de equipamento e do número de tra-
venta uma maneira melhor de produzir um bem, o resultado
balhadores. Se a função de produção tem retornos constantes
é mais produção com as mesmas quantidades de capital e tra-
de escala, dobrar a quantidade de equipamento e a quantidade
balho. Logo, uma mudança tecnológica altera a função de
de trabalhadores também dobra a produção de pão.
produção.
Muitas funções de produção apresentam uma propriedade
chamada retornos constantes de escala. Uma função de pro- A ÜFERTA DE BENS E SERVIÇOS
dução tem retornos constantes de escala se um aumento Podemos agora compreender que, juntos, os fatores de produ-
percentual igual em todos os fatores de produção causa um ção e a função de produção determinam a quantidade de bens
aumento da produção no mesmo percentual. Se a função de e serviços ofertada, que por sua vez é igual à produção da eco-
produção apresenta retornos constantes de escala, então obte- nomia. Para expressar isso em termos matemáticos, escrevemos
mos 10% a mais de produção quando aumentamos capital e
trabalho em 1O'X,. Em termos matemáticos, uma função de pro- Y = F( K, L)
dução apresenta retornos constantes de escala se = Y.
zY = F( zK, zL) Neste capítulo, como pressupomos que as ofertas de capital e
para qualquer número positivo z. Esta equação mostra que, se de trabalho e a tecnologia são fixas, a produção também é fixa
multiplicarmos a quantidade de capital e a quantidade de tra- (a um nível indicado aqui como Y ). Quando discorrermos
balho por um número z, a produção também é multiplicada por sobre o crescimento econômico, nos Caps. 7 e 8, vamos exa-
z. Na prl'>xima ,eção, \·erificaremos que o pressuposto de retor- minar como os aumentos no capital e no trabalho, assim como
nos constantes de escala tem uma importante implicação na as melhoras da tecnologia de produção, levam ao crescimento
maneira Clllno é distrihuída a renda da produção. da produção da economia.

3-2 COMO A RENDA NACIONAL É DISTRIBUÍDA


ENTRE OS FATORES DE PRODUÇAO?
Como ressaltamo, nu Cap. 2, a produção total de uma econo- produção: o salário que os trabalhadores recebem e a renda que
mia é igual ~ sua renJ,1 total. Como os fatores de produção e a os proprietários do capital auferem. Como a Fig. 3-2 ilustra, o
funçàll de prnduç,1l , juntos determinam a produção total de bens preço que cada fator de produção recebe por seus serviços é
e sen·içll,. tamhém detenninam a renda nacional. O diagrama determinado, por sua vez, pela oferta e demanda desse fator.
de fluxu circular Ja Fig. "3-1 mostra que essa renda nacional flui Como pressupomos que os fatores de produção da economia são
,1,
de empre,,1, pani fomílias atra\'és dos mercados para os fato- fixos, a curva da oferta de fator da Fig. 3-2 é vertical. A inter-
res de pwduç,i<.1. seção da cur\'a de demanda pelo fator, negativamente inclina-
Ne,t,1,eçiio, cDntinuamos a desen\'oker nosso modelo eco- da, e a curva vertical de oferta determinam o equilíbrio do pre-
nômico, examinando ctimo funcionam esses mercados de fa- ço do fator.
tores. H,'í muitll 4ue us economistas estudam os mercados de Para compreender os preços de fator e a distribuição da ren-
fatore, a fim ele ct,mpreenderem a distribuição da renda. (Por da, devemos examinar a demanda pelos fatores de produção.
exempk1, Karl 1vlarx, o famoso economista do século XIX, con-
Como a demanda por fator deriva de milhares de empresas que
sumiu muiro remrn remando explicar as rendas de capital e
utilizam capital e trabalho, vamos examinar agora as decisões
trabalho. A filosnfü1 plllítica do comunismo baseou-se em par-
enfrentadas por uma empresa típica sobre quantos desses fato-
te na teoria Je Marx, hoje desacreditada.) Aqui, apresentare-
res empregar.
mos a moderna teoria da divisão da renda nacional entre os
fatores de prnduçãn. Essa teoria, chamada de teoria neoclássica
da distribuição, é hoje aceita pela maioria dos economistas. As DEc1sõEs DA EMPRESA COMPETITIVA
O pressuposto mais simples a ser estabelecido sobre uma em-
PREÇOS DE FATOR presa típica é o fato de ser competitiva. Uma empresa compe-
A distribuição da renda nacional é determinada pelos preços titiva é pequena em relação aos mercados em que opera, e por
de fator. Preços de fator são os montantes pagos aos fatores de isso tem pouca influência sobre os preços de mercado. Por exem-
34 CAPÍTULO 3

Preço do fator
'
Oferta do
fator

~ · · · · · ····· ···· ·· ·· ··
Preço de
equillbrio
do fator
Quantidade do fator

Fig . 3-2 Como um Fator de Produção É Remunerado O preço pago por qualquer fator de produção depende da oferta e da <iemanda dos ser-
viços desse fator. Como pressupomos que a oferta é fixa. a curva da oferta é vertical. A curva da demanda é negativamente inclinada. A interseção
.da oferta e demanda determina o preço de equilíbrio dos fatores.

pio, nossa empresa produz um bem e o vende ao preço de mer- vendem seu trabalho. As empresas obtêm os dois fatores de pro-
cado. Como muitas empresas produzem esse bem, nossa empresa dução das famílias que os possuem.'
pode vender tanto quanto quiser sem causar uma queda no A meta da empresa é maximizar o lucro. Lucro é a receita
preço, ou pode parar de vender por completo sem causar um menos o custo: é o que sobra para os donos da empresa após te-
aumento no preço. Da mesma maneira, nossa empresa não pode rem pago os custos de produção. A receita é igual a P X Y, o preço
influenciar os salários dos trabalhadores que emprega, porque de venda do bem P multiplicado pela quantidade Y do bem que
muitas outras empresas locais também empregam trabalhado- a empresa produz. Os custos incluem os custos do trabalho e os
res. A empresa não tem motivo para pagar mais do que o salá- custos do capital. Os custos do trabalho são iguais a W X L, o
rio de mercado; e, se tentasse pagar menos, seus trabalhadores salário W multiplicado pela quantidade de trabalho L. Os custos
arrumariam emprego em outras empresas. Portanto, a empresa de capital são iguais a R X K, o preço do aluguel do capital R
competitiva toma os preços de sua produção e de seus insumós multiplicado pela quantidade de capital K. Podemos escrever
como dados. Lucro = Receita - Custos de Trabalho - Custos de Capital
Para produzir seu produto, a empresa precisa de dois fatores = PY - WL - RK.
de produção, capital e trabalho. T ai como fizemos na econo-
Para compreendermos como o lucro depende dos fatores de
mia agregada, representamos a tecnologia de produção da em-
produção, usamos a função de produção Y = F(K, L) para subs-
presa pela função de produção tituir Y e obter
Y = F(K, L), Lucro = PF(K, L) - WL - RK.
na qual Y é o número de unidades prodmidas (a produção da Esta equação mostra que o lucro depende de P, o preço do pro-
empresa), K o número de máquinas utilizadas (a quantidade de duto, de W e R os preços de fator e de L e K, as quantidades de
capital) e Lo número de horas trabalhadas pelos empregados fator. A empresa competitiva toma o preço do produto e os
da empresa (a quantidade de trabalho). A empresa tem maior preços de fator como dados e escolhe as quantidades de traba-
produção se conta com mais máquinas, ou se os empregados lho e capital que maximizam o lucro.
trabalham mais horas.
A empresa vende sua produção a um preço P, contrata tra-
balhadores por um salário W, e aluga o capital a uma taxa R. A DEMANDA POR FATORES DA EMPRESA
Ao falarmos que as empresas alugam capital, estamos pressu- Sabemos agora que nossa empresa vai contratar trabalho e ar-
pondo que as famílias possuem o capital da economia. Nessa rendar capital nas quantidades que maximizam o lucro. Mas que
análise, as famílias alugam seu capital. da mesma forma que elas quantidades são essas? Para responder a essa pergunta, devemos

' Isso é uma simplificação. No mundo real. a propriedade do capital é indireta, porque as empresas possuem o capital e as famílias possuem as empresas. Ou seja,
as empresas reais têm duas funções: possuir capital e produzir bens. Como auxílio para compreendermos como os fatores de produção são remunerados, no
entanto, partimos do princípio de que as empresas só produzem seus beru e que as famílias possuem o capital diretamente.
RENDA NACIONAL: DE ONDE VEM E PARA ONDE VAI 35

considerar primeiro a quantidade de trabalho e, depois, a quan- do a urna quantidade fixa de capital, no entanto, o PMgL cai.
tidade de capital. Menos pães adicionais são produzidos porque os trabalhadores
são menos produtivos quando a cozinha está mais cheia. Em
O Produto Marginal do Trabalho Quanto mais trabalho outras palavras, mantendo-se fixo o tamanho da cozinha, cada
a empresa emprega, mais produção tem. O produto marginal trabalhador adicional acrescenta menos e menos pães à produ-
do trabalho (P.MgL) é a quantidade extra de produção que a ção da padaria.
empresa obtém de urna unidade extra de trabalho, mantendo A Fig. 3-3 representa a função de produção. Ilustra o que
fixa a quantidade de capital. Podemos expressar isso por meio acontece com a quantidade produzida quando mantemos o
da função de produção: capital constante e variamos a quantidade de trabalho. A figu-
ra mostra que o produto marginal do trabalho é a inclinação
PMgL = F(K, L + 1) - F{K, L).
da função de produção. À medida que a quantidade de traba-
O primeiro termo, no lado direito, é a quantidade de produção lho aumenta, a função de produção torna-se mais horizontal,
com K unidades de capital e L + 1 unidades de trabalho; o se- indicando uma diminuição do produto marginal.
gundo termo é a quantidade de produção obtida com K unida-
des de capital e L unidades de trabalho. Esta equação enuncia Do Produto Marginal do Trabalho à Demanda por Trabalho
que o produto marginal do trabalho é a diferença entre a quan- Quando está decidindo se contrata uma unidade adicional de
tidade de produção obtida com L + 1 unidades de trabalho e a trabalho, a empresa competitiva, maximizadora de lucro, leva
quantidade obtida com apenas L unidades de trabalho. em conta como a decisão poderia afetar seu lucro. Ou seja,
A maioria das funções de produção apresenta a propriedade compara a receita extra do aumento da produção, que decorre
do produto marginal decrescente: mantendo-se fixa a quanti- do trabalho adicional, com o custo extra do gasto maior com
dade de capital, o produto marginal do trabalho diminui à salários. O aumento na receita de uma unidade adicional de
medida que a quantidade de trabalho aumenta. Pense outra vez trabalho depende de duas variáveis, o produto marginal do tra-
na produção de pão em uma padaria. À medida que contrata balho e o preço da produção. Como uma unidade extra de tra-
mais trabalho, a padaria produz mais pão. O PMgL é a quanti- balho produz PMgL unidades de produção, e cada unidade de
dade extra de pão produzida quando uma unidade extra de tra- produção é vendida por P dólares, a receita extra é P X PMgL.
balho é contratada. À medida que mais trabalho é acrescenta- O custo extra de contratar mais uma unidade do trabalho é o

Produção, Y

r
2. A medida que
mais trabalho é
acrescentado,. o
produto marginal
do trabalho
diminui.

1. A inclinação
da função de
PMgL-- produção iguala
o produto
margina/do
trabalho.

Trabalho, L

Fig. 3-3 A Função de Produção Esta curva mostra como a produção depende do insumo trabalho, a quantidade de capital permanecendo cons-
tante. O produto marginal do trabalho PMgL é a mudança da produção quando o insumo trabalho é aumentado em 1 unidade. À medida que a
quantidade de trabalho aumenta, a função de produção toma-se menos inclinada, indicando um produto marginal decrescente.
r
36 CAPÍTIJLO 3

salário W. Assim, a mudança do lucro pela contratação de uma A Fig. 3-4 mostra como o produto marginal do trabalho
unidade adicional de trabalho é depende da quantidade de trabalho empregada (mantendo-
se constante o capital da empresa). Isto é, a figura apresenta
 Lucro =  Receita -  Custo a curva do PMgL. Como o PMgL diminui à medida que a quan-
= (P X PMgL) - W. tidade de trabalho aumenta, a curva é negativamente incli-
O símbolo  (chamado delta) indica a mudança de uma vari- n ada. Dado qualquer salário real, a empresa contrata até o
ponto em que o PMgL é igual ao salário real. Por isso, a curva
ável.
Podemos agora responder à indagação que formulamos no do PMgL é também a curva de demanda por trabalho da em-
início desta seção: quanto trabalho a empresa contrata? O ge- presa.
rente da empresa sabe que, se a receita extra P X PMgL supe-
rar o salário W, uma unidade extra de trabalho aumenta o lu-
O Produto Marginal do Capital e a Demanda por Ca-
pital A empresa decide quanto capital alugar, da mesma ma-
cro. Portanto, o gerente continua a contratar trabalho até que
neira como decide quanto trabalho contratar. O produto mar,
a próxima unidade não seja mais lucrativa - ou seja, até que o
ginal do capital (PMgK) é a quantidade de produção extra que
PMgL alcance o ponto em que a receita extra é igual ao salá-
a firma obtém de uma unidade extra de capital, mantendo-se
rio . A demanda por trabalho da empresa é determinada por
constante a quantidade de trabalho:
P X PMgL = W. PMgK = F(K + 1, L) - F(K , L).
Podemos também escrever isso como
Logo, o produto marginal do capital é a diferença entre a quan-
PMgL = W/P. tidade produzida com K + 1 unidades de capital e a quantida-
de produzida com apenas K unidades de trabalho. Assim como
W/P é o salário real, o pagamento do trabalho medido em uni- o trabalho, o capital está sujeito ao produto marginal decres-
dades de produção, em vez de dólares. Para maximizar o lucro,
cente.
a empresa contrata até o ponto em que o produto marginal do O aumento do lucro proveniente do aluguel de uma máqui-
trabalho é igual ao salário real. na adicional é a receita extra de vender a produção dessa má-
Por exemplo, considere outra vez uma padaria. Suponha quina menos o preço do aluguel da máquina:
que o preçú do pão P seja $2, e que um trabalhador receba
um salário W de $20 por hora. O salário real W/P é de 1Opães 6-Lucro = 6-Receita - ACusto
por hora. Neste exemplo, a empresa continua a contratar tra- = (P X PMgK) - R.
balhadores enquanto cada empregado adicional produzir pelo Para maximizar o lucro, a empresa continua a alugar mais ca-
menos 1Opães púr hora. Quando o PMgL cai para 1Opães por pital, até que o PMgK iguale o preço real do aluguel:
h ora ou menos, contratar trabalhadores adicionais não é mais
lucrativo. PMgK = R/P.

Unidades de produção

Salário
real

PMgL, Demanda
por trabalho
Unidades de trabalho, L
Quantidade de
trabalho demandada

Fig. 3-4 O Produto Marginal da Curva de Trabalho O produto marginal do trabalho PMgL depende da quantidade de trabalho. A curva PMgL
inclina-se para baixo parque o PMgL declina à medida que L aumenta. A empresa contrata trabalho ;:1té o ponto em que o salário real WIP iguala o
PMgL Por isso, essa curva é a mesma curva de demanda por trabalho da empresa.
RENDA NACíONAL: DE ONDE VEM E PARA ONDE V AI 37

O preço real do aluguel de capital é o preço do aluguel medi- resultado matemático chamado teorema de Euler ,z que enuncia
do em unidades de bens em vez de dólares. que, sea função de produção tem retornos constantes de esca-
Para resumir, a empresa competitiva, maximizadora de lucro, la, então
segue uma regra simples sobre quanto trabalho contratar e
quanto capital alugar. A empresa demanda cada fator de produ-
F(K, L) = (PMgK X K) + (PMgL x L).
ção até que seus produtos marginais igualem-se aos seus preços reais . Se cada fator de produção recebe o equivalente ao.seu produto
marginal, a soma desses pagamentos de fatores é igual à produ-
ção total. Em outras palavras, os retornos constantes de escala,
A DIVISÃO DA RENDA NACIONAL
a maximização do lucro e a concorrência determinam, juntos,
Tendo analisado como uma empresa decide quanto de cada que o lucro econômico seja zero.
fator empregar, podemos agora explicar como os mercados para Se o lucro econômico é zero, como podemos explicar a exis-
os fatores de produção distribuem a renda total da economia. tência de "lucro" na economia? A resposta é que o termo "lu-
Se todas as empresas da economia são competitivas e cro", tal como usado normalmente, é diferente de lucro eco-
maximizam o lucro, cada fator de produção é pago por sua con- nômico. Partimos do pressuposto de que há três tipos de agen-
tribuição marginal ao processo de produção. O salário real pago tes: os trabalhadores, os donos do capital e os donos das em-
a cada trabalhador é igual ao PMgL, e o preço real do aluguel presas. A renda total é dividida entre salários, retorno do capi-
pago a cada proprietário de capital é igual ao PMgK. Os salári- tal e lucro econômico. No mundo real, no entanto, a maioria
os reais totais pagos aos trabalhadores, portanto, são PMgL X das empresas possui, em vez de alugar, o capital que utilizam.
L, enquanto o aluguel real total pago aos proprietários doca- Como os donos de empresa e os donos de capital são as mes-
pital é PMgK x K. mas pessoas, o lucro econômico e o retomo do capital são muitas
A renda que sobra depois que as empresas pagaram os fato- vezes agregados. Se chamarmos essa definição alternativa de
res de produção é o lucro econômico dos donos das empresas. lucro contábil, podemos dizer que
O lucro econômico real é
Lucro Contábil= Lucro Econômico+ (PMgK X K).
Lucro Econômico = Y - (PMgL X L) - (PMgK x K).
Sob nossos pressupostos - retornos constantes de escala, ma-
Como queremos examinar a distribuição da renda nacional, ximização do lucro, concorrência - o lucro econômico é zero.
rearrumamos os termos da seguinte maneira: Se esses pressupostos descrevem o mundo de maneira aproxi-
mada, o "lucro" computado nas contas da renda nacional deve
Y = (PMgL X L) + (PMgK x K) + Lucro Econômico.
ser, acima de tudo, a receita do capital.
A renda total é dividida entre a remuneração do trabalho, a Podemos agora responder à pergunta apresentada no início
remuneração do capital e o lucro econômico. deste capítulo sobre a maneira como a renda da economia é dis-
Qual é o tamanho do lucro econômico? A resposta é sur- tribuída das empresas para as famílias. Cada fator de produção
preendente: se a função de produção tiver retornos constantes é pago por seu produto marginal, e esses pagamentos de fatores
de escala, o que é considerado com freqüência, o lucro econô- representam a produção total. A produção total é dividida entre
mico deve ser zero. Ou seja, nada sobra depois que ôs fatores os pagamentos ao capital e os pagamentos ao trcibalho, dependendo
de produção são pagos. Essa conclusão decorre de um famoso de suas produtividades marginais.

ESTUDO DE CASO
A PESTE NEGRA E os PREÇOS DE FATORES res. A epidemia de peste bubônica - a Peste Negra - em 1348
Como acabamos de ressaltar, na teoria da distribuição reduúu a população da Europa em cerca de um terço num período
neoclássica os preços dos fatores igualam os produtos marginais de poucos anos. Como o produto marginal do trabalho aumenta à
dos fatores de produção. Comei os produtos marginais depen- medida que a quantidade de trabalho diminui, essa redução maci-
dem das quantidades dos fatores, uma mudança da quantidade ça na força de trabalho aumentou o produto marginal do trabalho.
de qualquer fator altera os produtos marginais de todos os fato- (A economia deslocou-se para a esquerda ao longo das curvas das
res. Portanto, uma mudança da oferta de um fator altera o equilí- Figs. 3-3 e 3-4.) Os salários reais aumentaram de maneira subs-
brio dos preços dos fatores. tancial durante os anos da peste - chegando a dobrar, segundo
A Europa do século XIV proporcibna um exemplo nítido da algumas estimativas. Os camponeses que foram afortunados o bas-
maneira como as quantidades dos fatores afetam os preços dos fato- tante para sobreviver desfrutaram de prosperidade econômica.

'Nota matemática: para provar o teorema de Euler, comece com a definição de retornos constantes de escala: zY = F(zK, zl..). Agora, diierencie com relação a
z·e depois a valie em z = 1.
r
38 CAPITULO 3

A redução da força de trabalho causada pela peste também produção adicional. Essa queda no produto marginal da terra
afetou a renda da terra, o outro grande fator de produção na levou a um declínio nos aluguéis reais, de 50% ou mais. Assim,
Europa medieval. Com menos trabalhadores disponíveis para enquanto os camponeses prosperavam, as classes fundiárias
cultivar a terra, uma unidade de terra adicional tinha menos sofriam reduções na renda.3

3-3 O QUE DETERMINA A DEMANDA POR BENS E SERVIÇOS?


Já estudamos o que determina o nível de produção e como a 3, 2, a renda que as famílias recebem é igual à produção da eco-
renda da produção é distribuída entre trabalhadores e proprie, nomia Y. O governo, portanto, tributa as famílias em um mon-
tários de capital. Agora, continuaremos nossa volta pelo dia- tante T. (Embora o governo imponha muitos tipos de impos-
grama do fluxo circular, a Fig. 3-1, e examinaremos como é tos, como o imposto de renda de pessoa física e de pessoa jurí-
utilizada a produção. dica, o imposto sobre circulação de mercadorias e outros, para
No Cap. 2, identificamos os quatro componentes do PIB: nossos propósitos podemos agrupar todos.) Defina a renda de-
pois do pagamento de todos os impostos, Y - T , como renda
> Consumo (C)
disponível. As famílias dividem sua renda disponível entre
>- lnvestimento (I)
consumo e poupança.
> Compras do governo (G)
Suponha que o nível de consumo depende diretamente do
> Exportações líquidas (NX).
nível de renda disponível. Quanto maior a renda disponível,
O diagrama do fluxo circular contém apenas os três primeiros maior o consumo. Logo,
componentes. Por ora, para simplificar a análise, vamos pres-
supor uma economia fechada: um país que não comercializa com
C = C(Y - T).
outros países. A ssim, as exportações líquidas são sempre zero. Esta equação enuncia que ó consumo é uma função da renda
(Examinamos a macroeconomia das economias abertas no Cap. disponível. A relação entre consumo e renda disponível é cha-
5.) mada de função consumo.
Uma economia fechada utiliza os bens e serviçós que pro- A propensão marginal a consumir (Cmg) é a quantidade
duz de três formas. Esses três componentes do PIB são expres- pela qual o consumo muda quando a renda disponível aumen-
sos na identidade de contas da renda nacional: ta em um dólar. A Cmg situa-se entre zero e um: um dólar ex-
tra de renda aumenta o consumo, mas em menos de um dólar.
Y= C + I + G. Logo, se as famílias obtêm um dólar extra de renda, poupam
As famílias consomem uma parte da produção da economia; as uma parte. Por exemplo, se a Cmg é O, 7, as famílias gastam 70
empresas e as famílias utilizam uma parte da produção para centavos de cada dólar adicional de renda disponível em bens
investimento; e o governo compra uma parte da produção para de consumo e serviços, poupando 30 centavos.
propósitos públicos. Queremos verificar como o PIB é distri- A Fig. 3-5 ilustra a função consumo. A inclinação da fun-
buído entre esses três usos. ção consumo nos diz em quanto o consumo aumenta quando a
renda disponível aumenta em um dólar. Ou seja, a inclinação
da função consumo é a Cmg.
CONSUMO
Quando comemos, usamos roupas ou vamos ao cinema, estamos
INVESTIMENTO
consumindo alguma coisa da produção da economia. Todas as
formas de consumo, juntas, constituem dois terços do PIB. Tanto empresas quanto famílias comprarn bens de investimen-
Como o consumo é tão grande, os macroeconomistas têm em- to. As empresas compram bens de investimento para aumen-
penhado muita energia em estudar a maneira como as famílias tar seu volume de capital e para substituir o capital existente à
decidem quanto consumir. O Cap. 16 examina isso em deta- medida que ele se desgasta. As famílias compram casas novas,
lhes. Aqui, vamos considerar a história mais simples do com- que também são parte do investimento. Nos Estados Unidos,
portamento do consumidor. o investimento total alcança a média de 15% do PIB.
As famílias recebem renda por seu trabalho e por sua pro- A quantidade de bens de investimento demandada depen-
priedade de capital, pagam impostos ao governo, e depois de- de da taxa de juros, que mede o custo dos recursos usadós para
cidem quanto consumir e quanto poupar de sua renda após financiar ó investimento. Para um projeto de investimento ser
cumprirem suas obrigações fiscais. Como ressaltamos na Seção lucrativo, seu retomo (a receita da produção futura aumenta-

'Cario M. Cipolla, Befo,e the Industrial Revolut:ion: European Society and Economy , 1000-1700, 2.ª ed. (N ova York: Norton, 1980), 200-202.
p

RENDA NACIONAL: DE ONDE VEM E PARA ÜNDE V AI 39

Consumo, C

Função

Renda disponível, Y'-T

Fig. 3.5 A Função Consumo A fu nção consumo relaciona o consumo C com a renda disponível Y - T. A propensão marginal a consumir Cmg é
a quantidade pela qual o consumo aumenta quando a renda disponível aumenta em um dólar.

da de bens e serviços) deve superar o custo (os pagamentos pelos nal é de 8% e a taxa de inflação é de 3%, a taxa de juros real é
fundos financeiros emprestados). Se a taxa de juros sobe, me- de 5%. No Cap. 4, examinaremos em detalhes a relação entre
nos projetos de investimento são lucrativos, e a quantidade de taxa de juros nominal e real. Aqui, basta ressaltar que a taxa
bens de investimento demandada diminui. de juros real mensura o verdadeiro custo de se tomar empresta-
Suponha, por exemplo, que uma empresa esteja ponderan- do; logo, determina a quantidade do investimento.
do se deve construir uma fábrica de $1 milhão, que proporcio- Podemos sintetizar essa discussão com uma equação que re-
naria um retomo de $100.000 por ano, ou 10%. A empresa laciona o investimento I à taxa de juros real r:
compara esse retorno com o custo de tomar emprestado $1
milhão. Se a taxa de juros está abaixo de 10%, a empresa pega
I = I(r).
o dinheiro nos mercados financeiros e faz o investimento. Se a A Fig. 3-6 mostra essa função de investimento. Tal função é
taxa de juros está acima de 10%, a empresa desiste da oportu- negativamente inclinada, porque, à medida que a taxa de ju-
nidade de investimento e não constrói a fábrica. ros aumenta, a quantidade de investimento demandada cai.
A empresa toma a mesma decisão de investimento mesmo
quando não precisa romar $1 milhão emprestado, podendo
empregar seus próprios recursos. A empresa sempre pode de- COMPRAS DO GOVERNO
positar esse dinheiro em um banco, ou em um fundo de inves- As compras do governo são o terceiro componente da deman-
timentos do mercado financeiro, ganhando os juros. Construir da por bens e serviços. O governo federal compra armas, mís-
a fábrica é mais lucrativo do que a aplicação se, e somente se, a seis e os serviços dos funcionários públicos. Os governos muni,
taxa de juros for inferior aos 10% de retomo sobre a fábrica. cipaís compram livros para as bibliotecas, constroem escolas e
Uma pessoa que queira comprar uma casa nova enfrenta uma contratam professores. Os governos em todas as instâncias cons-
decisão parecida. Quanto mais alta a taxa de juros, maior o custo troem estradas e realizam outras obras públicas.Todas essas tran-
de uma hipoteca. Uma hipoteca de $100.000 custa $8.000 por sações constituem as compras do governo de bens e serviços,
ano se a taxa de juros for de 8% e $10.000 por ano se a taxa de que, nos Estados Unidos, representam cerca de 20% do PIB.*
juros for de 10%. À medida que a taxa de juros sobe, o custo de Essas compras são apenas um tipo de gasto do governo . O
ser o proprietário de uma casa aumenta e a demanda por novas outro tipo é o pagamento de transferências para famílias, como
casas diminui. assistência social para os pobres e pagamento de pensões para
Ao estudar o papel da taxa de juros na economia, os econo- os idosos. Ao Contrário das compras do governo, os pagamen-
mistas distinguem a taxa de juros real da taxa de juros n omi- tos de transferências não são efetuados em troca da produção
nal. Essa distinção é relevante quando o nível geral de preços de bens e serviços da economia. Portanto, não são incluídos na
está mudando. A taxa de juros nominal é a taxa de juros cal variável G.
como geralmente expressa: o que os investidores pagam para Os pagamentos de transferências afetam a demanda por bens e
tomar dinheiro emprestado. A taxa de juros real é a taxa de serviços indiretamente. São o oposto dos impostos: aumentam a
juros nominal corrigida pela inflação. Se a taxa de juros nomi- renda disponível das famílias, assim como os impostos a reduzem.

*No Brasil, a razão entre compras do governo e PIB também é cerca de 20% . (N.T.)
,.--

40 CAPÍTULO 3

Taxa de juros real, r

Quantidade de investimento, /

Fig. 3-6 A Função Investimento A função investimento relaciona a quantidade de investimento I à taxa de juros real r. O investimento depende
da taxa de juros real porque é o custo de se tomar dinheiro emprestado. A fu nção de investimento é relativamente incli nada: quando a taxa de juros
sobe, menos proJetos de investimento são lucrativos.

Logo, um aumento dos pagamentos de transferências financiado Se as compras do governo são iguai s a impostos menos
por um aumento nos impostos deixa a renda disponível inalterada. transferências, então G = T, e o governo tem um orçamento
Podemos agora redefinir nossa definição de T como igual a impos- equilibrado. Se G supera T, o governo tem um déficit orçamen-
tos menos pagamentos de transferências. A renda disponível, Y - tário, o qual ele financia com a emissão de títulos da dí\'ida
T, inclui ao mesmo tempo o impacto negativo dos impostos e o pública, ou seja, tomando emprestado nos mercados financei-
impacto positivo dos pagamentos de transferências. ros. Se G é menor que T, o governo tem um superái•it orça-

SAIBA MAIS
As Diversas Taxas de Juros
Se você procurar na seção de economia de um jornal, vai a taxa de juros. O crédito de menor risco é o dado ao
encontrar referências a diversas taxas de juros. Em contras- governo, e por isso os títulos do governo tendem a ter
te, ao longo deste livro, falaremos sobre "a'' taxa de juros, uma taxa de juros mais baixa. No outro extremo, as em-
como se houvesse apenas uma única taxa de juros na eco- presas em situação financeira diffcil só conseguem le-
nomia. A única distinção que faremos é entre a taxa de ju- vantar recursos com a emissão dos chamados junk
ros nominal (que não é corrigida pela inflação) e a taxa de bonds, que pagam juros bastante elevados para compen-
juros real (que é corrigida pela inflação). Quase todas as taxas sar o risco elevado.
de juros informadas no jornal são nominais. > Regime fiscal. Os juros sobre diferentes tipos de títulos são
Por que o jornal refere-se a tantas taxas de juros? As di- tributados de maneiras diferentes. O mais importante:
versas taxas de juros diferem em três aspectos: quando governos estaduais e municipais emitem títulos,
chamados títulos municipais, os compradores não pagam
> Prazo . Alguns empréstimos na economia são de curto
o imposto de renda federal sobre os rendimentos dos ju-
prazo, até mesmo de um dia para outro. Outros emprés-
ros. Por causa dessa vantagem fiscal, os títulos munici-
timos são por 30 anos, ou até mais. A taxa de juros sobre
pais pagam juros mais baixos.
um empréstimo depende do seu prazo. As taxas de juros
de longo prazo em geral são - mas nem sempre - mais Quando você vê duas taxas de juros diferentes no jornal,
elevadas que as taxas de juros de curto prazo. quase sempre pode explicar a diferença pelo prazo, pelo ris-
> Risco de crédito. Ao decidir se concede um emprésti- co de crédito e pelo regime fiscal do empréstimo.
mo, o emprestador deve levar em consideração a pro- Embora haja muitas taxas de juros diferentes na econo-
babilidade de o tomador pagar. Nos Estados Unidos, a mia, os macroeconomistas em geral podem ignorar tais di-
lei permite que os tomadores tornem-se inadimplentes ferenças . As várias taxas de juros tendem a subir e descer
por meio da declaração de falência. Quanto mais alta juntas. O pressuposto de que há apenas uma taxa de juros é
a probabilidade percebida de inadimplência, mais alta uma simplificação útil para nossos propósitos.
RENDA NACIONAL: DE ÜNDE VEM E PARA ÜNDE VAI 41

mentário, ao qual ele pode recorrer para saldar uma parte de Mas queremos examinar o impacto da política fiscal sobre as
sua dívida pendente. variáveis determinadas dentro do modelo, as variáveis endó-
Não tentaremos explicar aqui o processo político que leva a uma genas. As variáveis endógenas aqui são o consumo, o investi-
determinada política fiscal, ou seja, ao nível de compras do gover- mento e a taxa de juros.
no e impostos. Em vez disso, tomamos as compras do governo e os Para compreender como as variáveis exógenas afetam as
impostos como variáveis exógenas. Para indicar que essas variáveis variáveis endógenas, devemos completar o modelo. Esse é o as-
são fixadas fora do nosso modelo de renda nacional, escrevemos sunto da próxima seção.
G = G.
T = f.

3-4 O QUE LEVA A OFERTA E A DEMANDA DE


BENS E SERVIÇOS AO EQUILÍBRIO?
Completamos o círculo no diagrama de fluxo ciKular, a Fig. 3-1. Agora, combinaremos essas equações, descrevendo a oferta
Começamos pela oferta de bens e serviços, e terminamos pela e a demanda da produção. Se substituirmos a função consumo
demanda. Como podemos ter certeza de que todos esses fluxos e a função investimento pela identidade das contas da renda
se equilibram? Em outras palavras, o que garante que a soma nacional, obteremos
de comumo, investimento e compras do governo é igual à quan-
Y = C(Y - T) + I(r) + G.
tidade produzida? Veremos que, neste modelo clássico, a taxa
de juros tem o papel crucial de equi librar oferta e demanda. Como as variáveis G e T são fixadas pela política governamen-
Há duas maneirás de pensar sobre o papel da taxa de juros tal, e o nível de produção Y é fixado pelos fatores de produção
na economia. Podemos considerar como a taxa de juros afeta a e pela função de produção, podemos escrever
oferta e a demanda de bens e serviços. Ou podemos refletir so-
bre como a taxa de juros afeta a oferta e a demanda de fundos Y = C( Y - T) + l(r) + G.
financeiros emprestá,·eis. Como verificaremos, esses dois aspec- Esta equação enuncia que a oferta de produção é igual à sua de-
tos sãn ,·erso e reverso da mesma moeda. manda, que é a soma de consumo, investimento e compras do
governo.
Observe que a taxa de juros ré a única variável que ainda
EQUILÍBRIO NO M ERCADO DE BENS E
não foi determinada na última equação. Isso acontece porque
SERVIÇOS: A ÜFERTA E A DEMANDA DA a taxa de juros ainda tem um papel fundamental a desempe-
PRODUÇÃO DA ECONOMIA nhar: deve se ajustar para garantir que a demanda por bens e
se rviços seja igual à oferta. Quanto maior a taxa de juros, me-
As equaçôes a seguir resumem a análise da demanda por bens nor o nível de investimento e, portanto, menor a demanda
e serviços na Seção 3-3:
por 1'ens e serviços, C + I + G. Se a taxa de juros é muito
Y = C + 1 + G. alta, o investimento é muito baixo, e a demanda pela produ-
C = C(Y - T) . ção fica aquém da oferta. Se a taxa de juros é muito baixa, ci
1 = l(r) . investimento é muito elevado, e a demanda supera a oferta.
À taxa de juros de equilíbrio, a demanda por bens e seniíços é igual
G= G . à oferta .
T = T. Essa conclusão pode parecer um tanto misteriosa. Pode-se
A demanda pela rrnduçãn da economia vem do consumo, do especu lar como a taxa de juros alcança o nível em que equili-
investimento e das compras do gtwerno. O consumo depende bra oferta e demanda de bens e serviços. A melhor maneira de
da renda disponível; o investimento depende da taxa de juros responder a essa pergunta é considerar como os mercados fi-
real; e as compras e impostos do governo são as variáveis exógenas nanceiros se enquadram na história.
determinadas pelos formuladores de política econômica.
Para esta análise, acrescentaremos o que aprendemos sobre EQUILÍBRIO NOS MERCADOS FINANCEIROS:
a oferta de bens e serviços na Seção 3-1 . Verificamos ali que os
fatores de produção e a função de produção determinam a quan-
A ÜFERTA E A DEMANDA DE FUNDOS
tidade de produção ofertada à economia: EMPRESTÁVEIS
Como a taxa de juros é o custo de tomar emprestado e a receita
Y = F (K, I) de emprestar nos mercados financeiros, podemos compreender
= Y. melhor seu papel na economia se pensarmos sobre os merca-
42 CAPITULO 3

dos financeiros. Para isso, reescrevemos a identidade das con- Y- C(Y T) - G = I(r)
tas da renda nacional como S = I(r).
Y-C-G=I. O lado esquerdo dessa equação mostra que a poupança nacio-
O termo Y - C - G é a produção que permanece depois que nal depende da renda Y e das variáveis de política fiscal G e T .
as demandas dos consumidores e do governo foram atendidas; Para valores fixos de Y, G e T, a poupança nacional S também
é chamada de poupança nacional, ou simplesmente de poupan- é fixa. O lado direito da equação mostra que o investimento
ça (S, do inglês saving). Nessa forma, a identidade das contas depende da taxa de juros.
da renda nacional mostra que a poupança é igual ao investi- A Fig. 3-7 mostra a poupança e o investimento como uma
mento. função da taxa de juros. A função poupança é uma reta vertical,
Para compreender mais plenamente essa identidade, pode- porque neste modelo a poupança não depende da taxa de juros
mos dividir a poupança nacional em duas partes, uma repre- (embora esse pressuposto deva ser abandonado mais adiante). A
sentando a poupança do setor privado e a outra representando função investimento é negativamente inclinada: quanto maior
a poupança do governo: a taxa de juros, menos projetos de investimentos são lucrativos.
A um rápido olhar para a Fig. 3-7, pode-se pensar que se trata
(Y - T - C) + (T - G) = l. de um gráfico de oferta e demanda de um bem determinado.
O termo (Y - T - C) é a renda disponível menos o consumo, N a verdade, poupança e investimento podem ser interpreta-
que é a poupança privada . O termo (T - G) é a receita do dos em termos de oferta e demanda. Neste caso, os "bens" são
governo menos a despesa do governo, que é a poupança públi- os fundos emprestáveis, e o "preço" é a taxa de juros. A pou-
ca. (Se o gasto do governo supera sua receita, o governo tem pança é a oferta de fundos emprestáveis: as famílias emprestam
um déficit orçamentário, e a poupança pública é negativa.) A sua poupança para investidores, ou depositam em um banco,
poupança nacional é a soma da poupança privada e da poupança que depois empresta os fundos. O investimento é a demanda
pública. O diagrama de fluxo circular da Fig. 3-1 revela uma por fundos emprestáveis: os investidores tomam emprestado di-
interpretação dessa equação, que enuncia que os fluxos para os retamente do público, através da venda de títulos, ou indire -
mercados financeiros (poupança privada e poupança pública) tamente, através dos bancos. Como o investimento depende
devem equilibrar os fluxos que saem dos mercados financeiros da taxa de juros, a quantidade de recursos emprestáveis deman-
(investimento) . dada também depende da taxa de juros.
Para compreender como a taxa de juros promove o equilíbrio A taxa de juros ajusta-se até que a quantidade que as empresas
nos mercados financeiros, substitua a função consumo e a fun- querem investir seja igual à quantidade que as famílias querem pou-
ção investimento pela identidade das contas da renda nacional: par. Se a taxa de juros é muito baixa, eis investidores querem mais
da produção da economia do que as famílias querem poupar. Em
Y - C(Y - T) - G = I(r). termos equivalentes, a quantidade de fundos emprestáveis deman-
Em seguida, observe que G e T são fixados por decisão política, e dada supera a quantidade ofertada. Quando isso ocorre, a taxa de
Y é fixado pelos fa tores de produção e pela função de produção: juros sobe. Inversamente, se a taxa de juros é muito elevada, as fa-

Taxa de juros real, r


Poupança, S

Taxa de
juros de
equilíbrio
Investimento desejado, J(r)
5 Investimento, Poupança,/, S

Fig. 3-7 Poupança, ln vestimento e a Taxa de Juros A taxa de juros ajusta-se de maneira a equilibrar poupança. e investimento. A curva vertical
representa a poupança: a oferta de fundos emprestáveis. A curva positivamente inclinada representa o investimento: a demanda por fundos
emprestáveis. A interseção dessas duas curvas determina a taxa de juros de equilíbrio.
R ENDA NACIONAL: DE ÜNDE VEM E PARA ONDE VAI 43

mílias querem poupar mais do que as empresas querem investir; e outra categoria de demanda. Como a renda disponível Y - T
porque a quantidade de fundos emprestáveis é maior que a quanti- se mantém inalterada, o consumo C também permanece
dade demandada, a taxa de juros cai. A taxa de juros de equilíbrio inalterado. O aumento das compras do governo deve ser
é encontrada no ponto em que as duas curvas se cruzam. À taxa de acompanhado de uma redução igual no investimento.
juros de equilíhrio, o desejo de poupar das fanu1ias é igual ao desejo de Para induzir o investimento a cair, a taxa de juros deve su-
investir das empresas, e a quantidade de fundos emprestáveis ofertada é bir. Assim, o aumento das compras do governo faz a taxa de
igual à quantidade demandada. juros aumentar e o investimento diminuir. Diz-se que as com-
pras do governo deslocam* o investimento.
A fim de compreender melhor os efeitos de um aumento das
MUDANÇAS NA POUPANÇA:
compras do governo, pense no impacto no mercado de fundos
Os EFErros DA PoLíTicA F1scAL emprestáveis. Como o aumento das compras do governo não é
Podemos adorar nosso modelo para mostrar como a política acompanhado de um aumento de impostos, o governo finan-
fiscal afeta a economia. Quando o governo muda seu gasto ou cia o gasto adicional tomando emprestado - ou seja, reduzin-
o nível de impostos, afeta a demanda pela produção de bens e do a poupança pública. Com a poupança privada inalterada,
serv iços da economia; e também altera a poupança nac ional, o essa tomada de empréstimo do governo reduz a poupança na-
investimento e a taxa de juros de equilíbrio. cional. Como a Fig. 3-8 mostra, uma redução na poupança
nacional é representada por um deslocamento para a esquerda
Um Aumento das Compras do Governo Pense primeiro da oferta de fundos emprestáveis disponíveis para investimen-
nos efeitos de um aumento nas compras do go\·erno em um to. À taxa de juros inicial, a demanda por fundos emprestáveis
montante ~G. O impacto imediato é o aumento da demanda supera a oferta. A taxa de juros de equilíbrio aumenta até o
por bens e serviços em ~G . Mas como a produção total é fixa- ponto em que a curva do invest imento cruza a nova curva da
da pelos fatores de produção, o aumento das compras do go- poupança. Logo, um aumento das compras do governo faz com
verno de ve ser ac01'npanhado de um decréscimo em alguma que a taxa de juros aumente de r 1 para r 1•

Taxa de juros real , r

l(r)
Investimento, Poupança, /, S

Fig. 3-8 Uma Redução da Poupança Uma redução da poupança, às vezes em conseqüência de uma mudança da política fiscal, desloca a curva de
poupança para a esquerda . O novo equilíbrio é o ponto em que a nova curva de poupança cruza a curva de investimento. Uma redução da poupança
diminui a quantidade de investimento e aumenta a taxa de juros. As medidas de política fiscal que reduzem a poupança deslocam o investimento.

ESTUDO DE CASO
GUERRAS E TAXAS DE JUROS NA INGIATERRA, ras proporcionam um experimento natural em que os econo-
1730-1920 mistas podem testar suas teorias. Podemos aprender sobre a
As guerras são traumáticas, tanto para aqueles que lutam quan- economia ao estudar como, em tempo de guerra, as variáveis
to para a economia de um país. Como as mudanças econômi- endógenas reagem às grandes mudanças nas variáveis
cas que as acompanham são muitas vezes profundas, as guer- exógenas.

*Esta relação também é conhecida, em português, pelo termo em inglês cro«!dingouc. (N. Rev. Téc.)
1'
44 CAPÍTULO 3

Uma variável exógena que muda substancialmente em tem- Um problema do uso de guerras para testar teorias é o fato
po de guerra é o nível de compras do governo. A Fig. 3-9 mos- de que muitas mudanças econômicas podem ocorrer ao mes-
tra o gasto militar como um percentual do PIB na Inglaterra, mo tempo. Por exemplo, na Segunda Guerra Mundial, enquan-
de 1730 a 1919. O gráfico mostra, como era de se esperar, que to as compras do governo aumentavam de maneira drástica, o
as compras do governo subiram de maneira súbita e dramática racionamento também restringia o consumo de muitos bens.
durante as oito guerras desse período. Além disso, o risco de derrota na guerra e a presumível
Nosso modelo prevê que essa elevação das compras do gover- inadimplência do governo, deixando de pagar a dívida, aumen-
no em tempo de guerra - e o aumento na tomada de emprésti- tam a taxa de juros que o governo deve pagar. Os modelos eco-
mos pelo governo para financiar as guerras - deveria ter eleva- nômicos prevêem o que acontece quando uma variável exóge-
do a demanda por bens e serviços, reduzido a oferta de fundos na muda e todas as outras variáveis exógenas permanecem cons-
emprestáveis e aumentado a taxa de juros. A fim de testar essa tantes. No mundo real, no entanto, muitas variáveis exógenas
previsão, a Fig. 3-9 também mostra a taxa de juros de longo prazo podem mudar ao mesmo tempo. Ao contrário de experimen-
de títµlos do governo, chamados de consols no Reino Unido.*
tos controlados em laboratório, os experimentos do mundo real
Uma relação positiva entre compras militares e taxa de juros é
em que os economistas devem se basear nem sempre são fáceis
evidente na figura. Esses dados cofirmam a previsnao do modelo:
de interpretar.
a taxa de juros tende a subir quando as compras do governo au-
mentam.4

Percentual Taxa de juros


do PIB (percentual)
50 6
Primeira
45 Guerra
Taxas de juros Mundial
(escala direita) 5
40

35 / 4
30

25 3

20
Guerra da Guerra da f
Sucessão Independência 1
Austrfaca AmerJCana Gasto militar 2
15 Guerra dos /Guerras Napoleónicas (escala esquerda) G~;;'ª I
10 Sete Anos }, J~ Bôeres
\ /\ n1 l ''w' \ Guerra da Crimé,a A !
5 / /\ /
;.../·, /' '.te.~~
\ /
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.... ,.....-.,...,._~ , ; . )
/ \J
o~- -'-- -"--- ~ - -~-- ~--~--....__ _ ....__ _ ~-~o
1730 1750 1770 1790 1810 1830 1850 1870 1890 1910
Ano

Fig. 3·9 Gasto Militar e a Taxa de Juros no Reino Unido A figura mostra o gasto militar corno percentual do PIB no Reino Unido, de 1730 a
1919. Não surpreende que o gasto militar tenha aumentado de modo substancial durante cada uma das oito guerras nesse período. A figura também
mostra que a taxa de juros tendeu a subir quando o gasto militar aumentou .
Fonte. sé rie.extraida de várias fontes. descritas em Robert J. Ba rro. "Government Spending, lnterest Rates, Prices. and Budget Deftc1t.s ln the United Kingdom. 1701 -1918". Joumal of Monetary
Economics 20 (setembro de 1987}: 221· 248.

*No Brasil, a Selic tem papel semelhante. (N.T.)


'Daniel K. Benjamin e Levis A. Kochin, "War, Prices, and lnterest Rates: A Martial Solution to Gibson's Paradox", em M.D. Bordo e A.J. Schwartz, eds., A
Rerrospeccive on the Classical Gold Standard , 1821-1931 (Chicago: Universicy of Chicago Press, 1984), 587-612; Robert J. Barro, "Govemment Spending, lnterest
Rates, Príces, and Budger Deficits in rhe Unired Kingdom, 1701 -19 18",Joumal of Monerary Economics ZO (setembro de 1987): 22 1-248.
RENDA NACIONAL: DE ONDE VEM E PARA ÜNDE V AI 45

Uma Redução nos Impostos Considere agora uma redu- Uma razão para que a demanda por investimento possa au,
ção em â T dos impostos. O impacto imediato do corte fiscal é mentar é a inovação tecnológica. Suponha, por exemplo, que
o aumento da renda disponível e, portanto, o aumento do con- alguém invente uma nova tecnologia, tal como a ferrovia ou o
sumo. A renda disponível sobe em â T; o consumo aumenta a computador. Antes que uma empresa ou família possa aprovei-
quantidade igual a â T vezes a propensão marginal a consumir tar a inovação, deve comprar bens de investimento. A inven-
Cmg. Quanto maior a Cmg, maior o impacto do corte fiscal no ção da ferrovia não teve qualquer valor até que fossem produ-
consumo. zidos os vagões e instalados os trilhos. A idéia do computador
Como a produção da economia é fixada pelos fatores de pro- não foi produtiva até que eles fossem fabricados. Logo, a ino-
dução e o nível de compras do governo é fixado pelo próprio vação tecnológica leva a um aumento da demanda por inves-
governo, o aumento do consumo deve ser acompanhado de uma timento.
diminuição do investimento. Para o investimento cair, a taxa A demanda por investimento também pode mudar porque
de juros deve subir. Assim, uma redução dos impostos, como o governo estimula ou desestimula o investimento por meio de
um aumento das compras do governo, desloca o investimento leis fiscais. Suponha, por exemplo, que o governo aumente o
e aumenta a taxa de juros. imposto de renda sobre pessoa física e utilize a receita extra para
Podemos também analisar o efeito de um corte fiscal olhando financiar cortes fiscais àqueles que investem em capital novo.
para a poupança e o investimento. Como o corte fiscal aumenta Essa mudança jurídica faz com que mais projetos de iiwestimen-
a renda disponível em â T , o consumo sobe em Cmg X â T. A to sejam lucrativos; assim, tal como ocorre com a inovação
poupança nacional S, que é igual a Y - C - G, cai na mesma tecnológica, há um aumento da demanda por bens de investi-
quantidade do aumento do consumo. Como na Fig. 3-8, are- mento.
dução na poupança desloca a oferta de fundos emprestáveis para A Fig. 3-10 mostra os efeitos de um aumento na demanda
a esquerda, o que aumenta a taxa de juros de equilíbrio e deslo- por investimento. A qualquer taxa de juros dada, a demanda
ca o investimento. por bens de investimento (e também por fundos emprestáveis)
é maior. Esse aumento na demanda é representado por um des-
locamento para a direita da curva na linha de investimento. A
MUDANÇAS NA DEMANDA POR economia passa do equilíbrio antigo, ponto A, para o novo
INVESTIMENTO equilíbrio, ponto B.
A surpreendente implicação da Fig. 3-1 O é que a quantida,
Até aqui, analisamos como a política fiscal pode mudar a pou- de de investimento de equilíbrio permanece inalterada. Sob
pança nacional. Podemos também utilizar nosso modelo para nossos pressupostos, o nível fixo de poupança determina a quan-
examinar o outro lado do mercado: a demanda por investimen- tidade de investimento; em outras palavras, há uma oferta fixa
to. Nesta seção, estudaremos as causas e os efeitos das mudan- de fundos emprestáveis. Um aumento na demanda por inves-
ças da demanda por investimento. timento só aumenta a taxa de juros de equilíbrio.

Taxa de juros real, r


s

1. Um aumento

2 . ... aumenta
a taxa de
juros.

Investimento, Poupança,/, S

Fig . 3-1 OUm Aumento da Demanda por ln vestimen to Um aumento da demanda por bens de in vestimenta desloca a curva de investimen-
to para a direita . A uma dada taxa de juros qualquer , o investimento é maior. O equilíbrio passa do ponto A para o ponto B. Como a quantidade
da poupança é fixa, o crescimento da demanda por investimento aumenta a taxa de juros, enquanto deixa inalterada a quantidade de investi-
mento de equilíbrio.
46 CAPÍTULO 3

Taxa de juros real, r

3 . ... e eleva o
investimento e a
,,
poupança de equilíbrio.

---+ Investimento, Poupança,/, 5

Fig. 3-11 Um Aumento da Demanda por Investimento Quando a Poupança É Função da Taxa de Juros Quando a poupança é po-
sitivamente reiacionada com a taxa de juros. um deslocamento para a dir eita da curva de investimento aumenta a taxa de juros e a quantida-
de de investimento . A taxa de 1uros mais alta mduz as pessoas a aumentarem a poupança, o que permite, por sua vez. que o investimento
aumente .

SAIBA MAIS
O Problema da Identificação
Em nosso modelo, o investimento depende da taxa de ju- é mostrado no lado esquerdo do painel (a) da Fig. 3-12, todas
ros. Quanto mais alta a taxa de juros, menos projetos de in- as mudanças representariam movimento ao longo de uma
vestimento são lucrativos. A curva de investimento, portan- curva fixa de investimento. Como mostra o lado direito do
to, é negativamente inclinada. painel (a), os dados traçariam essa curva de investimento.
Os economistas que examinam os dados macroeconômi- Assim, observaríamos uma relação negativa entre investi-
cos, no entanto, em geral não encontraram uma relação mento e taxas de juros.
óbvia entre investimento e taxa de juros. Em anos em que Suponha, por outro lado, que todas as mudanças da taxa
as taxas de juros são elevadas, o investimento nem sempre é de juros resultaram de inovações tecnológicas - ou seja, de
baixo. Em anos em que as taxas de juros são baixas, o inves- deslocamento da curva de investimento. Nesse caso, como
timento nem sempre é elevado. mostra o painel (b), todas as mudanças representariam des-
Como interpretamos essa constatação? Ela significa que o locamento da curva de investimento ao longo de uma cur-
investimento não depende da taxa de juros? Sugere que nos- va de poupança fixa. Como o lado direito do painel (b)
so modelo de poupança, investimento e a taxa de juros é in- mostra, os dados refletiriam essa curva de poupança. Logo,
compatível com a maneira como a economia funciona de fato? observaríamos uma relação positiva entre investimento e
Por sorte, não precisamos descartar nosso modelo. A in- taxas de juros.
capacidade de encontrar uma relação empírica entre inves- No mundo real, as taxas de juros mudam às vezes por
timento e taxas de juros é um exemplo do probl.ema de iden- causa de deslocamentos da curva da poupança, e às vezes
tificação. O problema de identificação surge quando as vari- por causa de deslocamento da curva do investimento. Nes-
áveis são relacionadas de mais de uma maneira. Quando veri- se caso misto, como é mostrado no painel (e), um levan-
ficamos os dados, observamos uma combinação dessas dife- tamento dos dados não revelaria relação reconhecível en-
rentes relações, e é difícil "identificar" qualquer uma delas. tre taxas de juros e a quantidade de investimento, como
Para compreender o problema de maneira mais concre- os economistas observam nos dados concretos. A moral da
ta, pense nas relações entre poupança; investimento e a taxa história é simples e pode ser aplicada a muitas outras situ-
de juros. Suponha, por um lado, que todas as mudanças da ações: a relação empírica que esperamos observar depen-
taxa de juros resultaram de mudanças da poupança - ou de de maneira crucial das variáveis exógenas que pensa-
seja, de deslocamento da curva de poupança. Nesse caso, como mos que estão mudando.
F

RENDA NACIONAL : DE ONDE VEM E PARA O NDE VAI 47

Chegaríamos a uma conclusão diferente, no entanto, se mo- Com uma curva de poupança positivamente inclinada, um
dificássemos nossa função consumo simples e permitíssemos que aumento da demanda por investimento aumentaria tanto a taxa
0 consumo (e seu reverso, a poupança) dependesse da taxa de de juros de equilíbrio quanto a quantidade de investimento de
juros. Como a taxa de juros é a receita da poupança (assim como equilíbrio. A Fig. 3-11 mostra essa mudança. O aumento da taxa
0 custo do empréstimo), uma taxa de juros maior pode reduzir o de juros faz com que as famílias consumam menos e poupem
consumo e aumentar a poupança. Se assim for, a curva de pou- mais. A diminuição do consumo libera recursos para investi-
pança seria positivamente inclinada, em vez de vertical. mento.

3-5 CONCLUSAO
Neste capítulo, desenvolvemos um modelo que explica a pro- Ao longo do capítulo, discorremos sobre várias aplicações
dução, a distribuição e a alocação d a produção de bens e servi- do modelo. O modelo pode explicar como a renda é dividida
ços da economia. Como incorpora todas as interações ilustra- entre os fatores de produção, e como os preços dos fatores de-
das no diagrama de fluxo circular, n a Fig. 3-1, o modelo é às pendem da oferta dos fatores. T ambém utilizamos o modelo
vezes chamado de modelo de equilíbrio geral. O modelo enfatiza para mostrar como a política fiscal altera a alocação da pro-
como os preços se ajustam para equilibrar a oferta e a deman- dução entre seus usos alternativos - consumo, investimen -
da. Os preços de fato res equilibram os mercados de fatores. A to e compras do governo - e como afeta a taxa de juros de
taxa de juros equilibra a oferta e a demanda de bens e serviços equilíbrio.
(ou, de modo equiva lente, a oferta e demanda de fundos A esta a ltu ra, é útil revisa r a lguns dos pressupostos
emprestáveis). simplificadores que estabelecemos neste capítulo. Nos capítu-

(a) Deslocamento das Curvas de Poupança (b) Deslocamento das Curvas de Investimento
O que Está Acontecendo O que Observamos O que Está Acontecendo O que Observamos
r r r r
s,

• •
• •
• •

/, s /, s l, S /, s
(e) Deslocamento das Curvas de Poupança e de Investimento
O que Está Acontecendo O que Observamos
r r

/
>: ,,
I
2
5,:

,, s







I, S

Fig. 3-12 Identificando a Função Investimento Quando examinamos os dados sobre a taxa de juros r e o investimento I . o que encontramos
depende de quais variáveis exógenas estão mudando. No painel (a), a curva de poupança está se deslocando, talvez por causa de mudanças da
política fisc al; observaríamos uma correlação negativa entre r e I. No painel (b), a curva de investimento está se deslocando, talvez por causa de
inovações tecnológicas; observaríamos uma correlação positiva entre r e J. Na situação mais realista mostrada no painel (e), as duas curvas estão se
e
deslocando. Nos dados, não observaríamos qualquer correlação entre r e I, o que de fato o que os pesquisadores geralmente encontram .
r
48 CAPÍTULO 3

los subseqüentes, retomaremos alguns desses pressupostos, a fim > Partimos do princípio de que o capital, a força de trabalho e a
de tratar de uma gama mais ampla de questões. tecnologia de produção são fixos. Nos Caps. 7 e 8, mostraremos
como as mudanças no longo do tempo, em cada um, levam ao
> Ignoramos o papel da moeda, o ativo com que bens e ser-
crescimento da produção de bens e serviços da economia.
viços são comprados e vendidos. No Cap. 4, explicare-
>- Ignoramos o papel dos preços rígidos no curto prazo. Nos Caps.
mos como a moeda afeta a economia e a influência da
9 a 13, desenvolveremos um modelo de oscilações de curto
política monetária.
prazo, que inclui os preços rígidos. Depois, indicaremos como
>- Partimos do pressuposto de que n ão há comércio com ou-
o modelo de oscilações no curto prazo relaciona-se com o
tros países. No Cap. 5, mostraremos como as interações
modelo de renda nacional desenvolvido neste capítulo.
internacionais afetam nossa conclusão.
> Pressupomos que a força de trabalho está em pleno em- Antes de passarmos aos próximos capítulos, voltemos ao iní-
prego. No Cap. 6, examinaremos os motivos do desem- cio deste, para n os certificarmos de que você está apto a res-
prego, e mostraremos como a política pública influencia ponder aos quatro grupos de questões sobre a renda nacional
o nível de desemprego. que dá início ao capítulo.

RESUMO
1. Os fatores de produção e a tecnologia de produção determi- pras do governo e os impmtos são variáveis exógenas da po-
n am a produção de bens e serviços da eccmomia. Um au- lítica fiscal.
mento em um dos fatores de produção ou um avanço tec-
4. A taxa de juros real aj usta-se para equilibrar a oferta e a
n ológ ico aumenta a produção.
demanda da produção da economia; ou, em termos equh·a-
2. As empresas competitivas, maximizadoras de lucro, contra- lentes, para equilihrar a oferta de fundos emprestáveis (pou-
tam empregados até que o produto marginal do trabalho seja pança) e a demanda por fundos emprestá\'eis (irwestimen -
igual ao salário real. De modo semelhante, essas empresas to). Um declínio da poupança nacional, seja por causa de
alugam capital até que o produto marginal do capital iguale um aumento das compras do governo ou de uma diminui-
o preço real do aluguel. Portanto, cada fator de produção é ção dos impostos, reduz a quanrid,'ide de investimento de
pago pelo seu produto marginal. Se a furi.ção de produção equilíbrio e aumenta a taxa de juros. Um aumento da de-
tem retornos con stantes de escala, toda a produção é utili- manda por investimento, seja por causa de uma inovaçii,o
zada para remunerar os insumos. tecno lóg ica ou de um incenri\'o fisca l para o im·estimento,
também aumenta a taxa de juros. Uma elevação da deman-
3. A produção da economia é utilizada em consumo, inves(i-
da por investimento só aumenta a quantidade de im·esri-
men co e compras do governo. O consumo é positivamente
mento se uma taxa de juros mais alta estimular a poupança
relacionado com a renda disponível. O investimento é ne-
adicional.
gativamente relacionado com a taxa de juros real. As com-

CONCEITOS-CHAVE
Fatores de produção S,11.ír io real T axa de jurns nllminal
Função de rrodução Produto marginal Jo capital (PMgK) T axa de juros real
Retornos constante, de escah1 Preço real do aluguel de capital Poupança n ac ional (rourança)
Preços de fator Lucro econômico ('ers11s lucro cmm1bil PL)upança rriv;id::i
Concorrência Renda d isponível Pourança pública
Produto marginal do trabalho (PMgL) Funç5o consumo Fundos emrrestá,·cis
Produto marginal decrescente Prorensão margina l a consumir (Cmg) Efei to deslocàmenro ( crowding our)

QUESTÕES PARA REVISÃO


1. O que determina a quantidade de produção de uma economia? 3. Qual é o papel dos retornos constantes de escala na distribuição
2. Explique como uma empresa competitiva, maximizadora de lucro, da renda?
decide qual a sua demanda por cada fator de produção. 4. O que determina o consumo e o investimento/
F
RENDA NACIONAL: DE ÜNDE VEM E PARA ÜNDE V AI 49

5. Explique as diferenças entre compras do governo e pagamentos de 7. Explique o que acontece com o consumo, o investimento e a taxa
transferências. Dê dois exemplos de cada. de juros quando o governo aumenta os impostos.
6. O que faz a demanda pelos de bens e serviços produzidos na eco-
nomia igualar a oferta?

PROBLEMAS E APLICAÇOES
I. Aplique a teoria neoclássica de distribuição para prever o impacto 5. Suponha que um aumento da confiança do consumidor eleve as
sobre o salário real e o preço real de aluguel do capital de cada um expectativas de renda futura e, conseqüentemente, a quantidade
dos seguintes eventos: que ele quer consumir hoje. Isso pode ser interpretado como um
a. Uma onda de imigração aumenta a força de trabalho. deslocamento para cima da função consumo. Como essa mudança
b. Um terremoto destrói parte do capital instalado. afeta o investimento e a taxa de juros?
c. Um a\'anço tecnológico melhora a função de produção. 6. Considere uma economia descrita pelas seguintes equações:
2. Se um aiunenw d1: 10% du capital e do trnhalho faz a produção
aumentar ,'m menn;; de l 0%, diz-se que a função de produção tem
Y C+l+G,
Y 5.000,
retomo, tlecr<'scemcs de escala . Se fa: com que a produção aumente
em mais de 10'}o, di:-se que a função de rrod ução arresenta retor-
G = 1.000,
T 1.000,
nos cre,cent<'s de escala. Por que uma função de produção pode apre-
sentar retornos crescentes ou decrescentes de escala?
C = 250 + 0,75 (Y - T)
1 1.000 - 50r.
3. Segundu a temia neudássica de distribuição, o salário real recebi-
du por qu:1lquer rrnh1lhaclor é igual à produtividade marginal do a. N essa economia, calcule a poupança privada, a roupança pú-
rrahalh,1c!nr. \',1m,,s 1, arrir dessa idéia para examinar as rendas de hlica e a poupança nacional.
d<lis grur,1, ck rrnhalhadl1res: lavradores e barbeiros. h. Encontre a taxa de juros de equilíbrio.
,1. Ao lnngo dn ülrimu século, a rrodutividade dos lavradores au- c. Suponha agora que G aumente para 1.250. Calcule a poupan •
mentou de 111<,do suhscancial por causa do progresso tecnológi- ça rrivada, a roupança rüblica e a poupança nacional.
co. Segumlll a temi,1 neoclássica, <) que deveria ter acontecido d. Encontre a nova caxa de juros de equilíbrio.
com ,, :;,1hírin re,11 dos lavradores? 7. Suponha que o governo aument1: os imrostos e as compras d<l go-
b. Em que tmidade, u ,nl,írio real indicado n a parte (a) é verno em quantidades iguais. O que acontece com a taxa de juros
mensurad,,' e,., investimento em re;ição a essa mudança no or.ç amento equili -
e. A,, hmg,, lk, mt'S111<, rerí<:>d<:>, a produtividade dos barheiros rer- brado1 Sua resposta depende da propensão marginal a consumir?
m,mc·t:cu c,m,r:mtc·. O que deverü1 ter acontecido com<) s,1!.1-
rio real ,.l<>, h,1rhcirlls? 8. Quando 0 governo subsidia o investimentll, comq fa. com um cré-
cl. Em que uni ,Lidcs n sa L1ri o rea l indicado na parte (c) é dito fiscal de investimentn, muitas ve!es o subsídio só se arlica a
tnl't1Sllnlllll'. alguns tipos de investimento. Esta qu1:st~o pede que você consi-
e. Sur,, ,nha que, is tr:1h;1lhad,,res têm liherdade de se deslocar sem dere n efeirn de tal mudança. Suronha que há dois tiros de inves-
,liflculdadc, cnrre a:; atividades de lavrador e barbeiro. O que timento na economia: o investimento empresarial e o investimento
e,sa 111\lhilid:lllc acarreta parans salários de lavradores e har- residencial. E suponh,1 que u governo institui um crédito fiscal de
bcirns·~ investimento arenc1s rara o investimento empresarial.
f. LJ lll' suas resp<1.,ras anterinres sugerem rara o preço do cnne
l) a. Como essa política atern a curva de demanda por investimen-
de c1bc•l" cm rd.1çJ,, ao preç,, d,.>s alimenrns? to empresarial' E a curva .Je demanda por investi mento
g. Quem Sl' heneticia Jn pmgressu tecnológico na agricultura: os residencial 1
Lt,Tach>rc,, 111 e,, ha rhe ims ? b. Projete a uferta e a de1rn1nd,1 de fundllS emprestáveis da econo-
mia. Como essa política afern a oterta e a demanda de fund os
4. O g,l\·c·rn" aument:1 "·' imposws em $100 bilhões. Se a propensão
emprestáveis? O que acontece com a taxa Je juros de equilíbrio ?
m:irgin,1! :i consumir é 0,6, o que ;icontece com os agregados reb-
c. Compare o antigo e o novo equilíbrio. Como essa política afeta
cic,nadl,, a segu ir: s,1hem ou descem? Em que quantidade '
a quantidade rotai de investimento? a quantidade de investimen-
ri. Pnurança l'úh!ica.
to empresarial? e a quantidade de investimen tú residencial'
h. Puur:mça rrh·ada.
e. Pour,mça nacinn,11. 9. Se n consumn dep1:ndesse da taxa de juros. como isso afetaria as con-
d. ln \'t!stimen to. clusões alcançadas neste capítulo sobre os efeitns da política fiscal'
Apêndice

A FUNÇÃO DE PRODUÇÃO
CoBB-DouGIAS

Que função de produção descreve como as economias de fato na qual a é uma constante entre zero e 1, medindo a participa-
transformam capital e trabalho em PIB? A resposta a essa per- ção do capital na renda. Ou seja, a determina qual parcela da
gunta vem de uma histórica colaboração entre um senador dos renda vai para o capital e qual parcela vai para o trabalho. Cobb
Estados Unidos e um matemático. mostrou que a função com essa propriedade é
Paul Douglas foi senador pelo estado de Illinois de 1949 a
Y = F(K , L) = AK" v-o.,
1966. Em 19 27. no entanto, quando ainda professor de econo-
mia, notou um fato surpreendente: a divisão da renda nacio- na qual A é um parâmetro maior do que zero que mede a pro-
nal entre capital e trabalho mantivera-se mais ou menos cons- dutividade da tecnologia disponível. Essa função tomou-seco-
tante por um longo período. Em outras palavras, à medida que nhecida como função de produção Cobb-Douglas.
a economia se tomava mais próspera, com o passar do tempo a Examinaremos mais a fundo algumas das propriedades des-
renda total dos trabalhadores e a renda total dos proprietários sa função de produção. Primeiro, a função de produção Cobb-
de capital crescia quase exatamente à mesma taxa. Essa obser- Douglas tem retornos constantes de escala. Ou seja, se capital
vação levou Douglas a especular quais condições garantiam par- e trabalho aumentam na mesma proporção, então a produção
ticipações constantes dos fatores na renda. também aumenta nessa proporção. 1
Douglas perguntou ao matemático Charles Cobb se have- Em seguida, considere os produtos marginais da função de
ria alguma função de produção capaz de garantir participações produção Cobb-Douglas. O produto marginal do trabalho é 6
constantes dos fatores na renda, uma vez que os fatores sempre
são remunerados pelos seus produtos marginais. A função de PMgL = (1 - a) AK«L-ª,
produção precisaria ter a propriedade de
e o produto marginal do capital é
Renda do Capital= PMgK X K = aY

e
Dessas equações, lembrando que a se situa entre zero e l, po-
Renda do Trabalho= PMgL X L = (1 - a)Y, demos perceber o que fez com que os produtos marginais dos

;Nora nwtemâtirn: para pnwar yue a ttmçãn Cohh-Dnugla, rem rcrnmn, cnnscanre, de escala, examine n que acnnrece 4uanJo multiplicamos capital e traralho
por uma comrant<' ::

Expandindo ,,s termos à direita,

Rearranjando parn agrupar os termos similares, temns

Corno z"z 1-(\ = z, nossa fu.nçfü1 t0rna ~se


F(zK, zL) = ,AK"L'-".
Mas AK"L 1-º = F(K, L). Logo,

F(zK, zL) = zF(K, L) = zY.


Em conseqüência, a quantidade de produção Y aumenta pelo mesmo fat or z, o que indica que essa função de produção tem retornos constantes de escala.
'Nora matemática: para se obter as fórmulas dos produtos marginais da função de produção é necessário um pouco de cálculo. Para encontrar o PMgL, diferencie
a função de produção em relação a L. Isso é feito com a multiplicação pelo exponente (1 - a), e depois pela subtração de 1 do antigo exponente, para se obter
o novo exponente, -a. De modo semelhante, para obter o PMgK, diferencie a função de produção em relação a K.
RENDA NACIONAL : DE ONDE VEM E PARA ONDE VAI 51

dois fatores mudassem. Um aumento na quantidade de capi- Podemos agora verificar outra coisa: se os fatores ganham seus
tal aumenta o PMgL e reduz o PMgK. De modo semelhante, produtos marginais, o parâmetro a nos diz quanto de renda vai para
um .aumento da quantidade de trabalho reduz o PMgL e au- o trabalho e quanto vai para o capital. A soma total dos salários,
menta o PMgK. Um avanço tecnológico que aumenta o pa- que já vimos ser PMgL X L, é simplesmente ( 1 - a)Y. Portanto,
râmetro A eleva o produto marginal dos dois fatores propor- ( 1 - a) é a participação do trabalho na produção. Assim também,
cionalmente. a receita total do capital, PMgK X K, é a Y, e a é a participação do
Os produtos marginais da função de produção Cobb-Douglas capital na produção. A razão entre a renda do trabalho e a renda
também podem ser escritos como 7 do capital é uma constante, (1 - a)/et, tal como Douglas obser-
vou. As participações dos fatores dependem apenas do parâmetro
PMgL = (1 - et)Y/L. a, e não das quantidades de capital ou de trabalho, ou do estado da
PMgK = et YJK. tecnologia, tal como mensurado pelo parâmetro A.
Dados mais recentes dos Estados Unidos também são coerentes
O PMgL é proporcional à produção por trabalhador, e o PMgK com a função de produção Cobb, Douglas. A Fig. 3-13 mostra a razão
é proporcional à produção por unidade de capital. Y/L é cha- entre a renda do trabalho e a renda total nos Estados Unidos, de
mado de produtividade média do trabalho, e Y/K é chamado de 1960 a 2000. Apesar das muitas mudanças da economia, ao longo
produtividade média do capital. Se a função de produção é Cobb- das quatro últimas décadas essa razão permaneceu em cerca de O, 7.
Douglas, a produtividade marginal de um fator é proporcional A divisão de renda é facilmente explicada por uma função de pro-
à sua produti v idade média. dução Cobb-Douglas, em que o parâmetro o: é cerca de 0,3.

Razão entre renda do


trabalho e renda total
1,0

0 ,8

0,6

0 ,4

0 ,2

0--------------------~-
1960 1965 1970 1975 1980 1985 1990 1995 2000
Ano

Fig. 3-13 A Razão entre Renda do Trabalho e Renda Total A renda do trabalho tem permanecido cerca de 0.7 da renda total durante um longo
períôdo. Essa constância aproximada das participações dos fatores na renda é a evidência da fun ção de produção Cobb-Douglas. (Esta figura foi
produzida com dados das contas da renda nacional dos Estados Unidos. A renda do trabalho é a remuneração dos trabalhadores. A renda total é a
soma de renda do trabalho, lucros da empresa, juros líquidos, renda de aluguéis e depreciação A renda dos proprietários está excluída destes cálcu-
los, porque é uma combinação de renda do trabalho e renda do capital. )
fome: U S. Department oi Commerce

;Nota matemática: a fim de verificar essas expressões com relação aos produtos marginais, substitua a função de produção por Y, para mostrar que as expressões
são equivalentes às fórmulas anteriores com relação aos produtos marginais.
52 CAPÍTULO 3

• .:.-• • • ~ -~ - ~ - .; .. ··::- ,,L. --·.·

MAIS PROBLEMAS E APLICAÇÕES


1. Suponha uma função de produção Cobb-Douglas com parâmetro b. Derive uma expressão para o produto marginal do capital hu-
oc = 0,3. mano. Como um aumento da quantidade de capital humano
a. Que frações da renda o capital e o trabalho recebem? afeta o produto marginal do capital humano?
b. Suponhamos que a imigração aumente a força de trabalho em 10%. c. Qual é a fração da renda paga ao trabalho? Qual é a fração da
O que acontece com a produção total (em porcentagem)? O que renda paga ao capital humano / Nas contas da renda nacional
ocorre com o preço de aluguel do capital? e com o salário real? dessa economia, que fração da renda total você acha que os tra-
c. Suponha que um presente do exterior aumente o capital instala- balhadores pareceriam receber? (Dica: leve em consideração
do em 10%. O que acontece com a produção total (em porcen- onde aparece a receita do capital humano.)
tagem)? e com o preço de aluguel do capital? e com o salário real? d. Um trabalhador não-qualificado ganha o produto marginal do
d. Suponha que um avanço tecnológico aumente o ·valor do pa- trabalho, enquanto um trabalhador qualificado ganha o produto
râmetro A em 10%. O que acontece com a produção total (em marginal do trabalho mais o produto marginal do capital hu-
porcentagem)? O que ocorre com o preço de aluguel do capi- mano. Utilizando as respostas que você deu para (a) e (b), en-
tal? e com o salário real? contre a razão entre salário qualificado e salário não-qualifica-
2. (Este problema exige o uso de cálculo.) Considere uma função de do. Como um aumento da quantidade de capital humano afeta
produção Cobb-Douglas com três insumos. K é o capital (o núme- essa proporção 1 Explique.
ro de máquinas), L é o trnbalho (o número de trabalhadores) e H e. Algumas pessoas defendem que o governo deve financiar bol-
é o capital humano (o númer.o de pessoas com curso superior en- sas de estudo, a fim de criar uma sociedade mais igualitária.
tre os trabalhadores). A função de produção é Outros argumentam que as bolsas de estudo ajudam apenas
\' = K1''L' "H"'· aqueles que têm condições de ingressar na universidade. Suas
respostas às questões anteriores trazem algum esclarecimento a
a. Derive uma expressão para o produto marginal do trabalho. esse debate?
Como um aumento na quantidade de capital humano afeta o
produto marginal do trabalho 1
Capítulo 4

MOEDA E INFLAÇÃO

Não há meio mais sutil e mais seguro de subverter a base existente da sociedade do que a deterioração da moeda.
O processo agrega todas as forças ocultas da lei econômica no lado da destruição,
e o faz de uma maneira que nem um homem em um milhão é cajmz de diagnosticar.
--- ,li ,hn lvbyn.ud Kt·vne~

Em 1970, o New York Times custava 15 centavos, o preço mé- As "forças ocultas da lei econômica" que levam à inflação
dio de uma residência familiar nos Estados Unidos era 23.400 não são tão misteriosas quanto Keynes alega na citação que abre
dólares, e o salário médio na indústria era 3,36 dólares por hora. este capítulo. A inflação é simplesmente um aumento no ní-
Em 2000, o Times custava 75 centavos, o preço médio de uma vel médio de preços, e um preço é a taxa à qual o dinheiro é
casa subira para 166 mil dólares, e o salário médio era de 14,26 trocado por um bem ou serviço. Para compreender a inflação,
dólares por hora. Esse aumento geral dos preços é chamado de portanto, devemos compreender a moeda: o que é, o que afeta
inflação, e é o assunto deste capítulo. sua oferta e demanda, e que influência tem sobre a economia.
A taxa de inflação - o percentual de mudança no nível Assim, a Seção 4-1 inicia a análise da inflação pela discussão
geral de preços - varia bastante ao longo do tempo e através do conceito de "moeda" para o economista, e como o governo,
dos países. Nos Estados Unidos, segundo o índice de preços ao na maioria das economias modernas, controla a quantidade de
consumidor, houve um aumento médio de 2,4% ao ano na moeda em poder do público. A Seção 4-2 mostra que a quan-
década de 1960, 7, 1% ao ano na década de 1970, 5 ,5 % ao ano tidade de moeda determina o nível de preço. e que a taxa de
na década de 1980, e 3,0% na década de 1990. Mesmo quando crescimento da quantidade de moeda determina a taxa de in-
o problema da inflação americana tornou-se severo, na década flação.
de 1970, não era nada em comparação com os episódios de A inflação, por sua vez, tem numerosos efeitos próprios so-
inflação extraordinariamente alta, chamada de hiperinflação, bre a economia. A Seção 4-3 analisa a receita que os governos
que outros países experimentam de vez em quando. Um exem- obtêm pela emissão de moeda, às vezes chamada de imposto
plo clássico é a Alemanha em 1923, quando os preços subiam inflacionário. A Seção 4-4 examina como a taxa de juros nomi-
em média 500% ao mês. nal afeta a quantidade de moeda que as pessoas desejam reter,
Neste capítulo, examinaremos a teoria clássica das causas, e com isso o nível de preço.
dos efeitos e dos custos sociais da inflação. A teoria é "clássi- Depois de concluir a análise das causas e efeitos da inflação,
ca" no sentido de que pressupõe que os preços são flexíveis . trataremos na Seção 4-6 da questão que talvez seja a mais im-
Como ressaltamos no Cap. 1, a maioria dos economistas acre- portante nessa discussão: a inflação é um grande problema so-
dita que esse pressuposto descreve o comportamento da eco- cial? A inflação equivale a "subverter a base existente da soci-
nomia a longo prazo. Em contraste, muitos preços são consi- edade", como sugere a citação na abertura do capítulo?
derados rígidos no curto prazo, e a partir do Cap. 9, incorpo- Finalmente, na Seção 4- 7, examinaremos o caso extremo
ramos esse fato em nossa análise. Contudo, por enquanto, da hiperinílação. É sempre interessante estudar os casos de hi-
ignoraremos a rigidez dos preços no curto prazo. Como vere- perinflação, porque mostram claramente as causas, os efeitos e
mos, a teoria clássica da inflação não apenas proporciona uma os custos da inflação. Assim como os sismólogos aprendem
boa descrição do longo prazo, mas também oferece um fun- muito com o escudo dos terremotos, os economistas também
damento útil para a análise de curto prazo que será desenvol- aprendem muito ao estudarem como a hiperinflação começa e
vida mais adiante. como acaba.

4-1 O QUE É MOEDA?


Quando dizemos que uma pessoa tem muito dinheiro, em ge- um economista, moeda não se refere a toda a riqueza, mas ape-
ral queremos dizer que ela é rica. Em contraste, os economistas nas a um tipo específico: moeda é um estoque de ativos qu1: po-ª.e
usam o termo moeda de uma maneira mais especializada. Para ser prontamente usado para etetuar transações. Em ·termos ge-
54 CAPfTUW4

rais, os dólares em poder do público constituem o estoque de um mundo assim, o comércio exige a dupla coincidência de
moeda do país. anseios - a eventualidade improvável de duas pessoas, cada
uma com um bem que a outra quer, se encontrarem no mo-
mento certo, no lugar certo, para efetuarem uma troca. Uma
As FuNçõEs DA MOEDA economia de escambo permite apenas as transações mais sim-
A moeda tem trê.s propósitos. É uma reserva de valor, uma ples.
unidade de contâ~ eummeio de troca. -~- - -------- . ------------ A moeda torna possível transações mais indiretas. Uma
Como reserva de valor, a moeda é um meio de transferir o professora usa seu salário para comprar livros; o editor usa a
poder aquisitivo do presente para o futuro. Se eu trabalho hoje receita da venda dos livros para comprar papel; o fabricante
e ganho $100, posso guardaresse-valor pãra gastar amanhã, na de papel usa a receita da venda de papel para pagar o lenha-
próxima semana ou no próximo mês. É claro que a moeda é uma dor; o lenhador usa a sua renda para mandar o filho para o
reserva de valor importante: se os preços estão subindo, a quan- colégio; e o colégio usa o dinheiro que recebe do aluno para
tidade que você pode comprar com qualquer quantidade dada pagar o salário da professora. Em uma economia moderna,
de moeda está caindo. Mesmo assim, as pessoas guardam moe- complexa, o comércio é muitas vezes indireto e exige o uso
da, porque podem trocá-la por bens e serviços em algum mo- da moeda.
mento no futuro.
Como unidade de conta, a moeda estabelece os termos pe-
os
los quais preços são.cte~erminados e ~s-dívidas registradas. Os Tiros DE MoEDA
A microeconom_ia-nos ensina que os recursos são alocados de A moeda assume muitas formas. Na economia dos Estados
acordo com os preços relativos - ~s p~eços de bens em rela- Unidos, efetua-se transações com um item cuja função exclu-
ção a outros bens - mas as lojas fixam seus preços em dóla- siva é servir como moeda: as notas de dólar. Esses pedaços de
res e centavos. Um vendedor de carros diz que um veículo papel verde, com pequenos retratos de norte-americanos famo-
custa $20.000, não 400 camisas (embora possam valer ames- sos, teriam pouco valor se não fosse por sua aceitação ampla
ma coisa). De modo semelhante, a maioria das dívidas exige como moeda. O dinheiro que não tem valor intrínseco é cha -
que o devedor entregue um número especificado de dólares mado de moeda fiduciária, porque é instituído como dinheiro
no futuro, não uma quantidade especificada de alguma mer- por determinação do governo.
cadoria. A moeda é o padrão pelo qual medimos as transações Embora a moeda fiduciária seja a norma em quase todas as
econômicas. economias atuais, a maioria das sociedades no passado usava
Como meio de troca, a moeda é o que usamos para comprar como dinheiro alguma mercadoria com um va lor intrínseco. O
bens e serviços. "Esta nota tem valor legal para todas as dívi- dinheiro desse tipo é chamado de moeda-mercadoria. O exem-
das, públicas e privadas" é a frase impressa no dólar americano. plo mais disseminado de moeda-mercadoria é o ouro. Quando
Quando entramos nas lojas, estamos confiantes de que os lo- as pessoas usam o ouro como moeda (ou usam o papel-moeda
jistas aceitarão nossa moeda em troca dos itens que estão à que pode ser trocado por ouro), diz-se que a economia usa o
venda. A facilidade com que o dinheiro é convertido em ou- padrão ouro. O ouro é uma forma de moeda-mercadoria por-
tras coisas - bens e serviços - é às vezes chamada de liquidez que pode ser usado para vários propósitos - em jóias, restau-
da moeda. rações dentárias e assim por diante - além de transações. O
Para compreender melhor as funções da moeda, tente ima- padrão ouro foi comum no mundo inteiro durante o final do
ginar uma economia sem ela: uma economia de escambo. Em sécu lo XIX.

ESTUDO DE CASO - - - - - - - - - - - - - .
MOEDA EM CAMPO DE PRISIONEIROS DE GUERRA O escambo, no entanto, provou ser uma maneira inconve-
Uma forma incomum de moeda-mercadoria foi instituída em niente de distribuir esses recursos, porque exigia a dupla coin-
alguns campos nazistas de prisioneiros de guerra, durante a cidência de anseios. Em outras palavras, um sistema de escambo
Segunda Guerra Mundial. A Cruz Vermelha fornecia diver- não era a maneira mais fácil de garantir que cada prisioneiro
sas mercadorias aos prisioneiros, como alimentos, roupas, ci- recebesse os bens que mais apreciava. Até mesmo a economia
garros e assim por diante. Essas rações, no entanto, eram dis- restrita do campo de prisioneiros precisava de alguma forma de
tribuídas sem qualquer atenção às preferências pessoais. Por moeda para facilitar as transações.
isso, eram com freqüência ineficientes. Um prisioneiro po- Eventualmente, os cigarros tornaram-se a "moeda corren-
dia preferir chocolate, enquanto outro preferia queijo e um te" estabelecida, em que os preços eram fixados e as trocas
terceiro queria uma camisa nova. Os gostos e dotações dife- efetuadas. Uma camisa, por exemplo, custava cerca de 80 ci-
rentes dos prisioneiros levaram-nos a negociar uns com os garros. Os serviços também eram cotados em cigarros: alguns
outros. prisioneiros ofereciam-se para lavar as roupas de outros pelo
MOEDA E INFLAÇÃO 55

custo de dois cigarros por peça. Até mesmo os não-fumantes ciassem. Dentro do campo de prisioneiros de guerra, o cigar-
ficavam felizes em aceitar cigarros como pagamento, saben- ro tornou-se a reserva de valor, a unidade de conta, e o meio
do que poderiam trocá-los no futuro por algum bem que apre- de troca. 1

COMO A MOEDA FIDUCIÁRIA EVOLUI das são mais fáceis de usar do que lingotes de ouro, porque seu
valor é amplamente reconhecido.
Não surpreende que alguma forma de moeda-mercadoria surja O passo seguinte é o governo aceitar ouro da população em tro-
para facilitar o intercâmbio: as pessoas estão dispostas a aceitar ca de certificados de ouro: pedaços de papel que podem ser resgata-
uma moeda-mercadoria, como o ouro, porque esta tem um valor dos por uma determinada quantidade de ouro. Se as pessoas acre-
intrínseco. O desenvolvimento da moeda fiduciária, no entan- ditam na promes.sa do governo de resgatar o papel, entregando ouro
to, é mais desconcertante. O que levaria as pessoas a prezarem ao portador, as notas são tão valiosas quanto o próprio ouro. Além
uma coisa que é intrinsecamente inútil? disso, como as notas são mais leves do que o ouro (e do que as moedas
Para compreender como ocorre a evolução da moeda-mer- de ouro), são mais fáceis de usar em transações. Eventualmente,
cadoria para a moeda fiduciária, imagine uma economia em que ninguém mais carrega ouro, e esses certificados do governo, com
as pessoas carregam sacos com ouro por toda parte. Quando uma lastro no ouro, tomam-se o padrão monetário.
compra é efetuada, o comprador calcula a quantidade apropri- Por fim, o lastro em ouro torna-se irrelevante. Se ninguém
ada de ouro. Se o vendedor está convencido de que o peso e a jamais se dá ao trabalho de resgatar as notas, trocando -as por
pureza do ouro estão certos, a troca é efetuada. ouro, ninguém se importa se o lastro é abandonado. Enquanto
O governo pode primeiro envolver-se no sistema monetá- todos continuarem a aceitar as moedas de papel nas trocas, elas
rio para ajudar as pessoas a reduzirem o custo de transação. Usar terão valor e servirão como moeda. Assim, o sistema de moe-
o ouro bruto como moeda é dispendioso, porque sempre se leva da-mercadoria evolui para uma forma de moeda fiduciária.
algum tempo para verificar a pureza do ouro e mensurar a quan- Observe que, no final, o uso da moeda no intercâmbio é uma
tidade cerca. A fim de reduzir esses custos, o governo pode cu- convenção social: todos aceitam a moeda fiduciária porque
nhar moedas de ouro, com pureza e peso conhecidos. As moe- esperam que todos os outros também aceitem.

ESTUDO DE CASO
MOEDA E CONVENÇÕES SOCIAIS NA ILHA DE YAP Eventualmente, tomou -se prática comum que o novo dono do
A economia de Yap, uma pequena ilha no Pacífico, tinha um fei não se desse ao trabalho de assumir a posse física da pedra. Em
tipo de moeda que era intermediária entre moeda-mercadoria vez disso, aceitava um título de posse do fei, sem removê-lo do lu-
e moeda fiduciária. O meio tradicional de troca em Yap era o gar em que se encontrava. Em futuras transações, ele negociava esse
fei , uma roda de pedra de até três metros de diâmetro. As pe- título pelos bens que desejava. Tomar posse física da pedra tor-
dras tinham buracos no centro, para que pudessem ser carrega - nou-se menos importante do que ter o direito legal sobre ela.
das com estacas e usadas para troca. Essa prática foi submetida a teste quando se perdeu uma pedra
As pedras grandes não eram uma forma apropriada de di- valiosa no mar, durante uma tempestade. Como o dono perdera
nheiro. Como eram pesadas, o novo dono precisava fazer um o dinheiro por acidente, não por negligência, todos concordaram
esforço considerável para levar seu fei para casa, depois de efe- em que seu título de posse do fei continuava válido. Mesmo gera-
tuada a transação. Embora o sistema monetário facilitasse a ções depois, quando não havia mais ninguém vivo que tivesse
troca, também acarretava um grande custo. visto a pedra, o título sobre esse fei ainda era aceito em trocas. 2

COMO A QUANTIDADE DE MOEDA É oferta de moeda é a quantidade dessa mercadoria. Em uma eco-
nomia que utiliza moeda fiduciária, como a maioria das econo-
CONTROLADA mias atuais, o governo controla a oferta monetária: restrições
A quantidade de moeda disponível é chamada de oferta mo; legais concedem ao governo o monopólio de impressão da
netária. Em uma economia que utiliza moeda-mercadoria, a moeda. Assim como o nível de tributação e o nível de compras

'R.A. Radford, "The Economic Organisacion of a P.0.W. Camp", Economica (novembro de 1945): 189-201. O uso de cigarros como moeda não se limitou a esse exemplo. Na
União Soviética, ao final da década de l 980, maços de Marlboro eram preferidos aos rublos na vasta economia informal.
' Nonnan Angell, The Story ofMoney (Nova York: FrederickA. Srokes Company, 1929), 88-89.
56 CAPÍTULO 4

do governo são instrumentos de política do governo, o mesmo O ativo mais óbvio a se incluir na quantidade de moeda é o
acontece com a oferta monetária. O controle sobre a oferta papel-moeda, a soma de papel-moeda e moedas metálicas. A
monetária é chamado de política monetária. maioria das transações do dia-a-dia usa dinheiro como meio de
Nos Estados Unidos e em muitos outros países, a política troca.
monetária é delegada a uma instituição parcialmente indepen- Um segundo tipo de ativo utilizado para transações são os
dente, chamada banco central. O banco central dos Estados depósitos à vista em bancos, os recursos que as pessoas man-
Unidos é o Federal Reserve, muitas vezes chamado apenas de têm em contas correntes. Se a maioria dos vendedores aceita
Fed. Se você examinar uma nota de dólar americano, vai cons- cheques pessoais, os ativos em uma conta corrente são quase
tatar que é chamada de Federal Reserve Note. As decisões sobre tão convenientes quanto o papel-moeda. Nos dois casos, os ati-
política monetária são tomadas pelo Federal Open Market vos estão em uma forma pronta para facilitar a transação. Os
Committee. Esse comitê é constituído de membros da direção depósitos à vista em bancos, portanto, são acrescentados ao
do Federal Reserve, indicados pelo Presidente e confirmados papel-moeda em circulação quando se mede a quantidade de
pelo Congresso, junto com os presidentes dos bancos regionais moeda.
do Federal Reserve. O Federal Üpen Market Committee reú- Depois que admitimos a lógica de se incluírem os depósitos
ne-se a cada seis semanas para discutir e estabelecer a política à vista no estoque monetário medido, muitos outros ativos tor-
monetária. nam-se candidatos à inclusão. Os recursos em contas de pou-
A principal maneira pela qual o Fed controla a oferta mo- pança, por exemplo, podem ser facilmente transferidos para
netária é por meio de operações de mercado aberto,* a com- contas correntes; esses ativos são quase tão convenientes para
pra e venda de títulos do governo. Quando o Fed quer aumen- as transações quanto os depósitos à vista. As contas de fundos
tar a oferta monetária, usa alguns dos dólares de que dispõe para mútuos possibilitam que os investidores emitam cheques, em-
comprar do público títulos do governo. Como esses dólares bora às vezes haja restrições em relação ao valor do cheque ou
deixam o Fede passam para as mãos do público, a compra au- ao número de cheques emitidos. Como podem ser facilmente
menta a quantidade de moeda em circulação. Inversamente, utilizados em transações, esses ativos devem ser incluídos na
quando quer diminuir a oferta monetária, o Fed vende alguns quantidade de dinheiro.
títLilos do governo de sua carteira. Essa venda de títulos no mer- Como é difícil julgar quais ativos devem ser incluídos no
cado aberto tira alguns dólares das mãos do púhlico, e assim di- estoque monetfüio, há vários conceitos disponíveis. A Tabela
minui a quantidade de moeda em circulação. 4-1 mostra os quatro conceitos do estoque de dinheiro que o
No Cap. 18, discutiremos em detalhes como o Fed controla Federal Reserve calcula para a economia dos Estados Unidos,
a oferta monetária. Para a nossa análise atual, esses detalhes não
são cruciais. Basta, por ora, pressupor que o Fed (ou qualquer
outro banco central) controla diretamente a oferta monetária.
TABELA 4-1 AE, Medidas do Dinheiro
Quantidade em
COMO A QUANTIDADE DE MOEDA É Março de 2001
MEDIDA Símbolo Ativos Incluídos (bilhões de dólares)

Um objetivo deste capítulo é determinar como a oferta C Papel- moeda $ 539


monetári afeta a economia; trataremos desse prohlema na pró- Ml Papel-moeda mais 1.111
xima seção. Como base pata esta análise, estudaremos primei- depósitos à vista. traveler's
ro como os economistas medem a quantidade de moeda. checks e outros depósitos
descontáveis
Como múeda é o estoque de ativos utilizados para transa- M2 Ml mais saldos de fundo 5.100
ções, a quantidade de moeda é a quantidade desses ativos. Em mútuo do mercado
economias simples, é fácil medir essa quantidade. No campo financeiro, depósitos de
de prisioneiros de guerra, a quantidade de moeda era a quanti- poupança (inclusive contas
dade de cigarros que ha\'ia ali. Mas, como podemos medir a correntes) e
depósitos de curto prazo
quantidade de moeda em economias mais complexas como a
M3 M2 mais depósitos de longo 7.326
nossa? A resposta não é óbvia, porque não há um ativo único prazo, acordos de recompra.
utilizado em todas as transações. As pessoas podem usar vários euradólares, e saldos de
ativos, como papel moeda ou cheque, para efetuar transações, fundos mútuos de
embora alguns ativos sejam mais convenientes do que outros. aplicadores institucionais
Essa ambigüidade leva a numerosas medidas da quantidade de
Fonte: Federal Reserve.
moeda.

*Em textos em pnrtuguês, é comum o uso do termo em inglês "open-market" para se referir ao mercado aberto. (N.T.)
MOEDA E INFLAÇÃO 57

éa junto com uma lista dos ativos que são incluídos em cada me- senso, no entanto, sobre qual conceito de estoque monetário é
.. A dida. Dos maiores para os menores, são designados como C, M l, o melhor. Divergências sobre política monetária às vezes sur-
) de M2, e M3. Os conceitos mais comuns para se estudarem os gem, porque diferentes conceitos de moeda estão se movimen-
efeitos da moeda na economia são o Ml e o M2. Não há con- tando em diferentes direções.
) os
an-
::'.ita
1ase 4-2 A TEORIA QUANTITATIVA DA MOEDA
ati-
Tendo definido o que é a moeda e descrito como ela é contro- Ou seja, para que $30 de transações por ano ocorram, com $10
Os
lada e medida, podemos agora examinar como a quantidade de de moeda, cada dólar deve mudar de mãos três vezes por ano.
; ao
moeda afeta a economia. Para fazer isso, devemos verificar como A equação quantitativa é uma identidade: as definições das
· de
a quantidade de moeda está relacionada com outras variáveis quatro variáveis fazem com que ela seja verdadeira. A equação
econômicas, como preços e rendas. é útil porque mostra que, se uma das variáveis muda, uma ou
itos
mais das outras também devem mudar para manter a igualda-
tor-
,ou- de. Por exemplo, se a quantidade de moeda aumenta e a velo-
TRANSAÇÕES E A EQUAÇÃO QUANTITATIVA
iara cidade de circulação da moeda permanece inalterada, o preço
As pessoas guardam moeda para comprar hens e serYiços. Quan- ou o número de transações deve suhir.
iara
to maior a quantidade de moeda precisam para essas transações,
.dos
mais moeda guardam. Assim, a quantidade de moeda da eco-
~m- DAS TRANSAÇÕES À RENDA
nomia está relacionada com a quantidade de dólares trocados
: ou
·nte em transações. Quando estudam o papel da moeda na economia, os economis-
; na O elo entre transações e dinheiro é expresso na seguinte tas em geral utilizam uma versão da equação quantitativa um
equação, chamada de equação quantitativa: pouco diferente do que esta que acaha de ser apresentada. O
problema da primeira equação é o fato de ser difícil medir o
no Moeda X Velocidade = Preço X Transações
n{nnero de transações. Para resolver esse problema, o número de
,ela M X V p X T.
1e o transações T é suhstituído pelo produto total da economia Y.
fos, Examinaremos cada uma das quatro \'arüiveis dessa equação. Transações e produto estão relacionados, porque quanto mais
O lado direito da equação quantitatÍ\'él refere-se às transa- a economia produz, mais bens são comprados e vendidos.Não são
ções. T representa a quantidade torai de transações durante um a mesma coisa, no entanto. Quando uma pessoa vende um carro
determinadu períudo, como, por exemplo, um ano. Em outras usado para outra, por exemplo, arnhos efetuam uma transação
palavras, T é o númerú de \'ezes em um ano em que hens ou utilizando moeda, mesmo que o carro usado não seja parte da
serviços são trocados por moeda. P é o preço de urna transação produção atual. Mesmo assim, o valor em dólares das transações
típica: o número de dólares trocados. O produto do preço de é mais ou menos proporcional ao valor em dólares do produto.
3S)
uma transação e o número de transações, PT, é igual à quanti- Se Y indica a quantidade do produto e P o preço de urna
dade de dólares trocados em um ano. unidade de produção, então o valor em dólares do produto é
O lado esquerdo da equação quantitativa refere-se à moeda PY. Encontramos medidas para essas variáveis quando falamos
utilizada para se efetuarem as transações. M é a quantidade de sohre as contas da renda nacional, no Cap. 2: Y é o PIB real, P
moeda . V é chamado de velocidade de circulação da moeda, é o deflator do PIB e PY é o PIB nominal. A equação quantita-
medindo \) ritlnt) ao qual a moeda circula na economia. Em tiva torna-se
outras pala nas, a velocidade indica o número de vezes em que
uma norn de um dólar troca de mãos em um período dado. Moeda X Velocidade Preço X Produto
Suponh,1, por exemplo, que 60 pães são vendidos em detenni- M X V = p X Y.
nado ano, a $0,50 por pão. Portanto, T é igual a 60 pães por ano, e Como Y é tamhérn a renda total, V nesta versão da equação da
Pé igual a $0,50 por pão. A quantidade total de dólares trocados é quantidade é chamado de velocidade renda da moeda. A ve-
PT = $0,50/pão X 60 pães/ano = $30/ano. locidade renda da moeda indica o número de vezes que uma
nota de um dólar soma-se à renda de alguém em um determi-
O lado direito da equação da quantidade é de $30 por ano, que nado período. Esta versão da equação quantitativa é a mais
é o valor em dólares de todas as transações. comum, e a que utilizaremos daqui por diante.
Suponha ainda que a quantidade de moeda na economia seja
de $10. Reformulando a equação quantitativa, podemos cal-
cular a velocidade como A FUNÇÃO DE DEMANDA POR MOEDA E A
EQUAÇÃO QUANTITATIVA
V= PT/M
= ($30/ano)/($10) Quando analisamos como a moeda afeta a economia, com fre-
= 3 vezes por ano. qüência é útil expressar a quantidade de moeda em termos das
58 CAPÍTULO 4

quantidade de bens e serviços que ela pode comprar. Esse mon- pressuposto adicional de que a velocidade da moeda é constan-
tante, M/P, é chamado de encaixes monetários reais. te, a equação quantitativa toma-se uma teoria útil dos efeitos
Os encaixes monetários reais medem o poder aquisitivo do da moeda, chamada de teoria quantitativa da moeda.
estoque monetário. Considere, por exemplo, uma economia que Como acontece com muitos pressupostos na economia, o
produza apenas pão. Se a quantidade de moeda é $10 e o preço pressuposto da velocidade constante é apenas uma aproxima-
de um pão é $0,50, então o encaixe monetário real é de 20 pães. ção da realidade. A velocidade não muda se a função de de-
Ou seja, a preços atuais, o estoque de moeda da economia é manda por moeda mudar. Por exemplo, quando foram intro-
capaz de comprar 20 pães. duzidos caixas automáticos, as pessoas puderam reduzir a quantia
Uma função de demanda por moeda é uma equação que média de moeda que mantinham, o que significava uma queda
mostra o que determina a quantidade de encaixes monetários do parâmetro k da demanda por moeda e um aumento da velo-
reais que as pessoas desejam ter. Uma função de demanda por cidade V. Não obstante, a experiência mostra que o pressupos-
moeda simples é to de velocidade constante proporciona uma boa aproximação
(M/P)d = kY, em muitas situações. Portanto, vamos supor que a velocidade
seja constante e verificar quais são as implicações desse pressu -
em que k é uma constante que nos diz quanto de moeda as pes- posto nos efeitos da oferta de moeda da economia.
soas querem manter para cada dólar de renda. Essa equação Uma vez que supomos que ave locidade é constante, a equa-
enuncia que a quantidade de encaixe monetário real deman- ção quantitativa pode ser vista como uma teoria do que deter-
dada é proporcional à renda real. mina o PIB nominal. A equação quantitativa enuncia
A função de demanda por moeda é como a função de de -
manda por um bem específico. Aqui, o "bem" é a conveniên- MV = PY,
cia de manter encaixes monetários reais. Assim como possuir
um carro torna mais fácil viajar para uma pessoa, manter moe - em que a barra sobre o V significa que a velocidade é constan-
da toma mais fácil efetuar transações. Portanto, da mesma te. Portanto, uma mudança na quantidade de moeda (M) deve
maneira que a renda maior leva a uma demanda maior por car- causar uma mudança proporcional no PIB nominal (PY). Ou
ros, a renda mais alta também leva a uma demanda maior por seja, se a velocidade é constante, a quantidade de moeda de-
encaixes monetários reais. termina o valor em dólares do produto da economia.
Essa função de demanda por moeda oferece outra maneira
de considerar a equação quantitativa. Para constatar isso, acres- MOEDA, PREÇOS E INFIAÇÃO
cente à função de demanda por moeda a condição de que a
demanda por encaixes monetários reais (M/P)·1 deve ser igual Temos agora uma teoria para explicar o que determina o nível
à oferta M/P. Portanto, geral de preços da economia. A teoria tem três fundamentos:
M/P = kY. 1. Os fatores de produção e a função de produção determinam
o nível do produto Y. Tiramos essa conclusão do Cap. 3.
Uma simples reformulação dos termos muda essa equação para
2. A oferta monetária determina o valor nominal do produto,
M(l /k) = PY, PY. Essa conclusão decorre da equação quantitativa e do
pressuposto de que a velocidade da moeda é constante.
que pode ser escrita como
3. O nível de preço Pé então a razão entre valor nominal do
MV = PY, produto, PY, e o nível de produto Y.
em que V = 1/k. Essa matemática simples mostra a relação entre Em outras palavras, a capacidade produtiva da economia de-
a demanda por moeda e a velocidade de circulação da moeda. termina o PIB real, a quantidade de moeda determina o PIB
Quando as pessoas querem reter muito de cada dólar de renda nominal e o deflator do PIB é a razão entre o PIB nominal e o
(k é grande), a moeda muda de mãos com pouca freqüência (V PIB real.
é pequeno) . Inversamente, quando as pessoas querem reter Essa teoria explica o que acontece quando o Fed muda a
pouca moeda (k é pequeno), a moeda muda de mãos com fre - oferta monetária. Como a velocidade é constante, qualquer
qüência (V é grande). Em outras palavras, o parâmetro k da mudança da oferta monetária leva a uma mudança proporcio-
demanda por moeda e a velocidade de circulação da moeda V nal no PIB nominal. Como os fatores de produção e a função
são lados opostos da mesma equação. de produção já determinaram o PIB real, a mudança no PIB
nominal deve representar uma mudança no nível de preço. Por
Ü PRESSUPOSTO DE VELOCIDADE isso, a teoria quantitativa implica que o nível de preço é pro-
porcional à oferta monetária.
CONSTANTE Como a taxa de inflação é a mudança percentual no nível
A equação quantitativa pode ser considerada uma definição: de preço, essa teoria do nível de preço é também uma teoria da
define a velocidade V como a proporção do PIB nominal, PY, taxa de inflação. A equação quantitativa, escrita em forma de
para a quantidade de moeda M. Contudo, se estabelecermos o variação percentual, é
MOEDA E INFLAÇÃO 59

éconstan- % Variação de M +%Variação de V = % Variação de P + de variação do produto Y depende do crescimento dos fatores
dos efeitos % Variação de Y. de produção e do progresso tecnológico, o que podem ser con-
da. siderados dados para os nossos atuais propósitos. Esta análise
:onomia, o Tome cada um desses quatro termos. Primeiro, o percentual de nos diz que (exceto por uma constante que depende do cresci-
aproxima- variação da quantidade de moeda M está sob controle do ban- mento exógeno do produto) o crescimento da oferta monetá-
ção de de- co central. Segundo, o percentual de variação na velocidade V ria determina a taxa de inflação.
,ram intro- reflete as alterações da demanda por moeda; partimos do Assim, a teoria quantiwtiva da moeda enuncia que o banco cen-
ir a quantia proncípio de que a velocidade é constante, e por isso o tral, que controla a oferta de dinheiro , tem o controle supremo sobre a
uma queda percentual de variação é zero. Terceiro, o percentual de varia- taxa de inflação. Se o banco central mantém estável a oferta monetá-
to da velo- ção do nível de preço Pé a taxa de inflação; esta é a variável ria, o nível de preço será estável. Se o banco central aumenta rapida-
p.ressupós- da equação que gostaríamos de explicar. Quarto , o percentual mente a oferra monetária, o nível de preço subirá rapidamente.
roximação
velocidade
!Sse pressu- ESTUDO DE CASO
tte, a equa- INFLAÇÃO E EXPANSÃO MONETÁRIA Friedman, junto com sua colega economista Anna Schwartz,
que deter- "A inflação é sempre e em toda parte um fenômeno monetá- escreveu dois tratados sobre a história monetária, documentando
Leia rio." Foi o que escreveu Milton Friedman, o grande econo- as fontes e os efeitos de variações da quantidade de moeda ao lon-
mista que ganhou o Prêmio Nobel de Economia em 1976. A go do último século. 1 A Fig. 4-1 toma alguns de seus dados e traça
teoria quantitativa da moeda leva-nos a concordar em que o a taxa média de expansão monetária e a taxa média de inflação
crescimento na quantidade de moeda é o principal determi- dos Estados Unidos, ao longo de cada década desde a década de
é constan- nante da taxa de inflação. Mas a alegação de Friedman é 1870. Os dados confirmam a relação entre inflação e crescimen-
~ (M) deve empírica, não teórica . Para avaliar sua alegação, e julgar a to da quantidade de moeda. As décadas com grande expansão mo-
l (PY) . Ou utilidade da nossa teoria, precisamos examinar os dados so- netária tendem a ter inflação alta, enquanto as décadas com pe-
moeda de- bre moeda e preços. quena expansão monetária tendem a ter inflação baixa.
a.

Taxa de 8
lntlação 7910
ina o nível (percentual) · 1910
6 1940
lamentos:
1980
~terminam
4
) Cap. 3.
lo produto, 1950
1960
:ativa e do 2 1990 1900
tstante.
1ominal do
o 18
,nomia de- 1880
-2 1930 1810
:lina o PIB · 1920
ominal e o
-4
ed muda a o 2 4 6 8 10 12
:, qualquer Expansão monetária (percentual)
proporcio- Fig. 4-1 Dados Históricos sobre Inflação e Expansão Monetária nos Estados Unidos Neste gráfico de expansão monetária e inflação, cada
e a função ponto representa uma década. O eixo horizontal mostra a expansão monetária.média (tal como medido por M2) ao longo da década, enquanto o eixo
tça no PIB vertical mostra a taxa média de inflação (conforme medida pelo deflator do PIB). A correlação positiva entre crescimento do dinheiro e inflação é uma
preço. Por confirmação da previsão da teoria quantitativa de que uma expansão monetária elevada leva a uma inflação alta.
reço é pro- Fonte: para os dados até a década de 1960: Milton Friedman e Anna J. Schwartz, Monetary Trends in rhe United States and the United Kingdom: Their Relaaon to Income. Prices. and Interest
Rates. 1867-1975 (Chicago: Unlversity oi Chicago Presa, 1982). Para os dados recentes: U. S. Department oi Commerce, Federal Reserve.
il no nível
,a teoria da
n forma de 'Milron Friedman e Anna J. Schwam, A Monetary History of rhe Unired States , 1867-1960 (Princeton, New Jersey: Princeton Univmiry Pres.s, 1963 ); Milcon Friedman e Anna J·
Séhwam, Monetary Trends in the United States and rhe United Kingdom: Their Relation to Incarne , Prices, and lnrerest Rates, 1867-1975 (Chicago; Universiry of Chicago Press, 1982).
60 CAPÍTULO 4

Taxa de 10.000
República Democrática
inAação
(percentual,
Nicarágua N do Congo

escala
1.000 li!< ~ Angola
logarítmica) Geórgia
li! ,. "' Brasil

100
..
..
10
~,, ; Alemanha
Kuwait-<
/ 5-":.'
.~--~

Estados Unidos i\
Canadá
Orna Japão

o, 1 ' - - - - - - - . l . - - - - - - - ' - - - - - - - - ' - -- - - - - - ' - - - - - -- - ' - - - -


0, 1 10 100 1.000 10.000
Expansão monetária (percentual, escala logarítmica)

Fig. 4-2 Dados Internacionais sobre Inflação e Expansão Monetária Neste gráfico , cada ponto representa um país. O eixo horizontal mostra
a expansão monetária média (conforme medido pelo papel-moeda mais os depósitos à vista) durante a década de 1990, enquanto o eixo vertical
mostra a taxa de inflação médra (tal como medida pelo deflator do PIB). Mais urna vez, a correlação positiva é confirmação da previsão da teoria
quantitativa de que uma expansão monetária elevada leva a uma inflação alta.
Fonte· JnternationaJ Financial Statis tics.

A Fig. 4-2 examina a mesma questão com dados internaci- Se examinarmos os dados mensais sobre expansão monetá-
onais. Mostra a taxa média de inflação e a taxa média de ex- ria e inflação, em vez de verificarmos os períodos de 10 anos,
pansão monetária em mais de 100 países durante a década de não veremos uma relação tão estreita entre essas duas variáveis.
1990. Mais uma vez, é evidente a ligação entre expansão mo- Esta teoria da inflação funciona melhor no longo prazo, não
netária e inflação. Os países com grande expansão monetária no curto prazo. Examinaremos o impac to no curto prazo de
tendem a ter inflação alta, enquanto os países com pouc a ex- variações da quantidade de moeda quando estudarmos as
pansão monetária tendem a ter inflação baixa. flutuações econômicas, na Parte IV deste livro.

4-3 SENHORIAGEM: A RECEITA DA EMISSAO DE MOEDA


Até aqui, vimos como o crescimento da ofe rta monetária gera direito pertence ao governo central, constituindo uma fonte de
inflação. Mas o que pode induzir o governo a aumentar a ofer- receita.
ta monetária? Examinaremos agora uina resposta para essa ques- Quando o governo emite moeda para financiar gasto, au-
tão. menta a oferta monetária. O aumento na oferta monetária, por
C o mecemos por um fato incontestável: todos os governos sua vez, causa inflação. Emitir moeda para aumentar a receita
têm gastos. Uma parte desses gastos é para comprar bens e ser- é como impor um imposto inflacionário.
viços (como estradas e polícia ), e uma parte é para proporcio- A princípio, talvez não seja óbvio que a inflação pode ser
nar pagamentos de transferência (para os pobres e idosos, por encarada como um imposto. Afinal, ninguém recebe a conta
exemplo). Um governo pode financiar seus gastos de três ma- por esse imposto; o governo apenas emite moeda, se precisa.
neiras. Primeiro, pode aumentar a receita por meio de impos- Quem, então, paga o imposto inflacionário? A resposta é sim-
tos, como o imposto de renda sobre pessoa física e jurídica. ples: os detentores de moeda. À medida que os preços sobem,
Segundo, pode tomar emprestado do público, vendendo títu- o valor real da moeda em sua carteira cai. Quando o governo
los do governo. Terceiro, pode emitir moeda. emite moeda nova para seu uso, faz com que a moeda antiga
A receita obtida por meio da emissão de moeda é chamada nas mãos do público seja menos valiosa. Assim, a inflação é
de senhoriagem. O termo vem de seigneur, a palavra francesa como um imposto sobre a posse de moeda.
para "senhor feudal". Na Idade Média, o senhor feudal tinha o O total arrecadado pela emissão de moeda varia de um país
direito exclusivo de cunhar moeda em suas terras. Hoje, esse para outro. Nos Estados Unidos, o montante tem sido pequeno:
F

MOEDA E INFLAÇÃO 61

a senhoriagem em geral representa menos de 3% da receita do perinflação, a senhoriagem é com freqüência a principal fonte
governo. Na Itália e na Grécia, a senhoriagem tem sido mais de de receita do governo: na verdade, a necessidade de emitir mo-
to% da receita do govemo. 4 Em países que experimentam a hi- eda para financiar gastos é uma causa principal da hiperinflação.

ESTUDO DE C A S O - - - - - - - - - - - ~
PAGANDO A REvüLUÇÃO AMERICANA tia aumentou para $19 milhões em 1776, $13 milhões em 1777,
Embora a senhoriagem não tenha sido uma grande fonte de re- $63 milhões em 1778 e 125 milhões em 1779.
ceita para o governo dos Estados Unidos na história recente, a Não foi surpresa que esse rápido crescimento da oferta mone-
situação era muito diferente dois séculos atrás. Começando em tária levasse a uma inflação generalizada. Ao final da guerra, o
1775, o Congresso Continental precisava encontrar um meio de preço do ouro medido em dólares continentais era 100 vezes
financiar a Revolução americana, mas tinha uma capacidade li- maior que seu nível apenas alguns anos antes. A grande quan-
mitada de levantar recursos por meio da tributação. Por isso, tidade da moeda continental fez com que o dólar continental
dependia da emissão de moeda fiduciária para pagar a guerra. se tomasse quase sem valor. Essa experiência também deu ori-
A dependência do Omgresso Continental à senhoriagem gem a uma expressão outrora popular: as pessoas costumavam
aumentou com o passar do tempo. Em 1775, as novas emissões dizer que alguma coisa "não valia um continental", significan-
de moeda continental foram de cerca de $6 milhões. A quan- do que o item tinha pouco valor real.

4-4 INFLAÇAO E TAXAS DE JUROS


Como ressaltamos no Cap. 3, as taxas de juros figuram entre as A taxa de juros real é a diferença entre a taxa de juros nominal
mais importantes variáveis macroeconômicas. Em essência, são e a taxa de inflação. 5
os preços que ligam o presente e o futuro. Aqui, vamos exami-
nar a relação entre inflação e taxas de juros.
o EFEITO FISHER
Rearrumando os termos em nossa equação para a taxa de juros
DUAS TAXAS DE JUROS: REAL E NOMINAL
real, podemos mostrar que a taxa de juros nominal é a soma da
Suponha que você deposite suas economias em uma conta no taxa de juros real e a taxa de inflação:
banco que paga 8% de juros ao ano. No ano seguinte, você retira
sua poupança e os juros acumulados. Você está 8% mais rico i = r + TI.
do que na ocasião em que fez o depósito, um ano antes? A equação escrita dessa maneira é chamada de equação Fisher,
A resposta depende do que significa "mais rico". Sem dúvi- em homenagem ao economista Irving Fisher (1867 - 1947).
da você tem 8% de dólares a mais do que antes. Mas se os pre- Mostra que a taxa de juros nominal pode mudar por duas ra-
ços subiram de tal modo que cada dólar compra menos, seu zões: porque a taxa de juros real muda, ou porque a taxa de
poder de compra não aumentou em 8%. Se a taxa de inflação inflação muda.
foi de 5%, a quantidade de bens que você pode comprar au- Depois que separamos a taxa de juros nominal nesses dois
mentou em apenas 3%. E se a taxa de inflação foi de 10%, seu componentes, podemos aplicar essa equação para dese nvol-
poder de compra teve uma queda de 2%. ver uma teoria que explica a taxa de juros nominal. O Cap. 3
o~ economistas chamam a taxa de juros que o banco paga mostrou que a taxa de juros real ajusta-se para equilibrar pou-
de taxa de juros nominal, enquanto o aumento em seu poder pança e investimento. A teoria quantitativa da moeda mos-
de compra é a taxa de juros real. Se i indica a taxa de juros
tra que a taxa de expansão monetária determina a taxa de
nominal, r a taxa de juros real e TI a taxa de inflação, are lação
inflação. A equação Fisher nos diz então para somar a taxa
entre essas três variáveis pode ser escrita como
de juros real e a taxa de inflação para determinar a taxa de
r =i- TI. juros nominal.

'Stanley Fischer, "Seigniorage and the Case for a National Money", Journal of Political Economy 90 (abril de 1982): 295-313.
;Noca maremática: esta equação, .relacionando a taxa de juros real, a taxa de juros nominal e a taxa de inflação, é apenas uma aproximação. A fórmula exata é ( l + r) = (1 + i)/
( 1 + 1r). A aproximação do texto é mais ou menos acurada, desde quer, i e 1t sejam relativamente pequenos (digamos, menos de 20% ao ano).
r
62 CAPÍTULO 4

A teoria quantitativa e a equação Fisher juntas estabelecem gundo a equação Fisher, um aumento de 1% na taxa de inflação,
como a expansão monetária afeta a taxa de juros nominal. Se- por sua vez, causa um aumento de 1% na taxa de juros nominal.
gimdo a teoria quantitativa, um aumento de 1% da taxa de expan- A relação um-para-um entre a taxa de inflação e a taxa de ju-
são monetária causa um aumento de 1% na taxa de inflação . Se- ros nominal é chamada de efeito Fisher.

ESTUDO DE CASO
TAXA DE INFIAÇÃO E TAXA DE JUROS NOMINAL tra, a taxa de inflação e as taxas de juros nominais de um país
Até que ponto o efeito Fisher é útil para explicar as taxas de estão inter-relacionadas. Os países com inflação alta tendem
juros! Para responder a essa pergunta, examinaremos dois ti- a ter taxas de juros nominais elevados, enquanto os países
pos de dados sobre as taxas de inflação e de juros nominal. com inflação baixa tendem a ter taxas de juros nominais
A Fig. 4-3 mostra a variação ao longo do tempo da taxa de baixas.
juros nominal e da taxa de inflação nos Estados Unidos. Pode- A relação entre inflação e taxas de juros é bastante conhe-
se constatar que o efeito Fisher explica bem as flutuações da cida entre os investidores de Wall Street. Como os preços dos
taxa de juros nominal ao longo do último meio século. Quan- títulos se movimentam na direção inversa das taxas de juros,
do a inflação é alta, as raxas de juros nominais geralmente são uma pessoa pode enriquecer por prever corretamente a direção
elevadas; e quando a inflação é baixa, as taxas de juros nomi- das taxas de juros. Muitas empresas de Wall Street contratam
nais também costumam ser baixas. observadores do Fed para monitorar a política monetária e as
Um argumento similar que corrobora o efeito Fisher vem notícias sobre a inflação, a fim de antecipar-se às mudanças das
da análise de diferenças entre países. Como a Fig. 4-4 mos - taxas de juros.

Percentual
16

14

12

10

8 Taxa de
juros nominal
6

4
\
2

- 2 '--~~.L-~ ~ ' - -~ - ' - ~ ~----'--~~-'--~~-'--~~ " - ~_JL_~---L~~----'--~


1950 1955 1960 1965 1970 1975 1980 1985 1990 1995 2000
Ano

Fig. 4-3 Inflação e Taxa de Juros Nominal ao Longo do Tempo Esta figura apresenta a taxa de juros nominal (de títulos de três meses do
Tesouro dos EUA) e a taxa de inflação (tal como medida pelo IPC) nos Estados Unidos, desde 1954. Mostra o efeito Fisher: a inflação mais alta leva
a uma taxa de juros nominal mais elevada.
Fonte: Federal Reserve e U. S. Department of Labor.
MOEDA E INFLAÇÃO 63

100
Taxa de juros
nominal
(percentual, Quénia
. " Casaquistão
!Ili
escala Armênia
logarítmica) :I' Uruguai
..a:, , _\.at
Itália
\ . ~ 1'!

O Fran\ç• ' \ • ' ,~ \ •


1

'} -;:~ Nigéria

, \~
' . ~.. Reino Unido

· Estados Unidos
Japão
Alemanha

Cingapura
1 '------ - - - - - - ' -- - - - - -- - - ' - - - - - - ----'---
1 10 100 1000
Taxa de inflação (percentual, escala logarítmica)

Fig. 4.4 Inflação e Taxas de Juros Nominais em Vários Países Este gráfico exibe a taxa de juros nominal média de títulos do Tesouro de curto
prazo e a taxa de inflação médii! em 77 países durante a década de 1990. A correlação positiva entre a taxa de inflação e a taxa de juros nominal é a
confirmação do efeito Fisher.
Fonte: ln tematinnaJ Financial Scatistlcs.

DuAs TAXAS DE JuRos REA1s: Ex ANTE E Ex As duas taxas de juros reais diferem quando a inflação de fato
1T é diferente da inflação esperada 1r•·.
PosT Como essa distinção entre inflação de faro e inflação espe-
Quando um tomador e um emprestador estão de acordo quan- rada modifica o efe ito Fisher? É evidente que a taxa de juros
to a uma taxa de juros nominal, eles não sabem qual será a ta,<a nominal não pode se ajustar à inflação de fato, porque a infla-
de inflação de longo prazo do empréstimo. Portanto, devemos ção de fato não é conhecida quando a taxa de juros nominal é
estabelecer dois conceitos de taxa de juros real: a taxa de juros fixada. A taxa de juros nominal pode ser ajustada apenas à in-
real que o tomador e o emprestador esperam quando o emprés- flação esperada. O efeito Fisher é escrito mais precisamente
timo é feito, chamada de taxa de juros real ex ante, e a taxa de como
juros real realizada de faro , a taxa de juros real ex post.
Embora não possam prever com certeza a inflação futura,
tomadores e emprestadores têm alguma expectativa s~bre a taxa A taxa de juros real ex ante ré determinada pelo equilíbrio no
de inflação. Vamos supor que 1T indique a inflação futura de mercado para bens e serviços, como descreve o modelo do Cap.
fato e TI º a expectativa de inflação futura. A taxa de juros real 3. A taxa de juros nominal i movimenta-se um-para- um com
ex ante é i - 1r<, enquanto a taxa de juros real ex post é i - 1T . as mudanças da inflação esperada 1rº .

ES'I1JDO DE CASO
TAXA DE JUROS NOMINAL NO SÉCULO XIX durante esse período deixou Irving Fisher perplexo. Ele suge-
Embora dados recentes apresentem uma relação positiva entre riu que a inflação "pegou os negociantes cochilando".
taxas de juros nominais e taxas de inflação, essa descoberta não Como devemos interpretar a ausência de um efeito Fisher
é universal. Em dados do final do século XIX e início do século aparente nos dados do século XIX? Esse período da história
XX, as taxas de juros nominais elevadas não acompanham a proporciona evidência contra o ajuste das taxas de juros nomi-
inflação alta. A aparente ausência de qualquer efeito Fisher nais à inflação? Uma pesquisa recente sugere que esse período
64 CAPITUL04

tem pouco a nos dizer sobre a validade do efeito Fisher. A ex- é razoável que esperem para o futuro uma inflação também alta.
plicação é que o efeito Fisher relaciona a taxa de juros nomi- Em contraste, durante o século XIX, quando o padrão ouro
nal com a inflação esperada, e a inflação nessa época, segundo estava em vigor, a inflação tinha pouca persistência. A infla-
a pesquisa, não era em grande parte esperada. ção alta em um ano podia ser acompanhada no ano seguinte
Embora as expectativas não sejam observáveis, podemos tanto por inflação baixa quanto por inflação alta. Portanto, a
extrair inferências sobre elas pelo exame da persistência da inflação alta não indicava uma inflação esperada elevada e não
inflação. Recentemente, a inflação tem sido muito persisten- levava a taxas de juros nominais altas. Ou seja, em certo senti-
te: quando é alta em um ano, tende a ser alta também no ano do, Fisher estava certo ao dizer que a inflação "pegou os nego-
seguinte. Portanto, quando as pessoas observam a inflação alta, ciantes cochilando". 6

4-5 A TAXA DE JUROS NOMINAL E A DEMANDA POR MOEDA


A teoria quantitativa baseia-se em uma função de demanda por enuncia que a demanda pela liquidez dos encaixes monetários
moeda simples: pressupõe que a demanda por encaixes mone- é uma função da renda e da taxa de juros nominal. Quanto mais
tários é proporcional à renda. Emhora seja um hom começo, alto o nível de renda Y, maior a demanda por encaixes mone-
quando se analisa os efeitos da moeda sobre a economia, a te- tários reais. Quanto maior a taxa de juros n ominal i, mais bai-
oria quantitativa não explica toda a história. Acrescentamos xa a demanda por encaixes monetários reais.
aqui outro determinante da quantidade de moeda demandada:
a taxa de juros nominal.
MOEDA FUTURA E PREÇOS CORRENTES
Moeda, preços e taxas de juros estão agt1 ra inter-relacionados
o CUSTO DE RETER MOEDA de vrírias tmmeiras. A Fig. 4-5 ilustra as relaçôes que examina-
Os dólares que você retém em sua carteira não rende juros. mos. Como a teoria quantitatiYa da moeda explica, a oferta
Se, em vez de ficar com o dinheiro, você o usasse para com- monet,iria e a demanda por moeda, juntas, determinam o ní-
prar títulos do governo ou depositar em uma conta de pnu- \'e l de preço de equilíbrio. As mudanças do ní\'el de preço, por
pança, ganharia a taxa de juros nnminal. A taxa de juros no- definição, constituem a taxa de inflação. A inflação, por sua
minal é o custnde oportunidade de ficar com a moeda: é aquilo \'ez, afeta a taxa de juros nominal através do efeito Fisher. Mas
a que você renuncia ao reter moeda em vez de adquirir títu- agora, como a raxa de juros nominal é o custo de se reter moe-
los mobiliários. da, a caxa de juros nominal afetará a demanda por moeda.
Outro meio de constatar que o custo de reter moed<i é igual Pense em como a introdução dessa última relação afeta nnssa
à taxa de juros nominal é pela comparação de rett)mos reais de teoria do níYel de preço. Primeirn, iguale a ofem\ de encaixe s
ativos alternatin1s. Os ativos que não a moeda, corno títulos reais M/P à demanda L(i,Y):
do governo, rendem o retorno real r. O dinheiro rende um re-
tomo real esperado de -,r\ porque seu valor real declina à taxa
M!P = L(i,Y)
de inflaçfü>. Quando retém moeda, você renuncia à diferenç,i Depois, aplique a equação Fisher para escre\'er a taxa lie juros
entre esses dois retornos. Assim, o cusw de reter moeda é r - nominal como a srnna da taxa de juros real e a inflação espera-
( -1r''), o que a equação Fisher nns diz ser a taxa de juws non,i- da:
nal i.
M/P = L(r + 1r' , Y).
Assim como a quantidade de pão demandada depende do
preço do pão, a quantidade de moeda demandada depende do Esta equação enuncia que tl nÍ\'el de saldos mnnet,hios reais
preço de reter moeda. Por isso, a demanda por encaixes mone- depende da raxa de inflação esperada.
tários depende tanto do nível de renda quanto da taxa de jurns A última equação coma uma história mais st1fisricada do que
nominal. Escrevemos a função geral de demanda por moeda a teoria quantitativa sohre a determinação do nível de preços.
como A teoria quantirnti\'a da moeda sustenta que a oferta moneni-
ria hoje determina o nível de preços hoje. Esra conclusão per-
(M/P)d = L(i,Y).
manece em parte verdadeira: se a taxa de juros nominal e o nível
A letra L é usada para indicar a demanda por moeda, porque a do produto se mantêm constantes, o nfrel de preços se altera
moeda é o ativo mais líquido da economia (o ativo usado com proporcionalmente à oferta monetária. Contudo, a taxa de ju-
mais facilidade para se efetuarem transações). Essa equação ros nominal não é constante; depende da inflação esperada, que,

' Robert B. Barsky. "The Fisher Effect and rhe Forecasrar>ility and Persiscence of lnflarion",Journal ofMonelLlry Economics 19 (janeiro de 1987): 3: 24.
F
MOEDA E INFLAÇÃO 65

Oferta
Monetária

Nível de Taxa de
Taxa de
Preços fnf/oção Juros
Nominal

Demanda
por Moeda
1
t J
Fig. 4-5 As Relações entre Moeda, Preços e Taxas de Juros Esta figura ilustra as.relações entre moeda, preços e taxas de juros. A oferta e a
demanda de moeda determinam o nível de preço. As mudanças no nível de preço determinam a taxa de inflação. A taxa de inflação influencia a taxa
de juros nominal Como a taxa de juros nominal é o custo de reter moeda, ela pode afetar a demanda por moeda. Esta última relação (apresentada
como a linha preta) é omitida pela teoria quantitativa da moeda básica.

por sua vez, depende do cresc imento da oferta monetária. A nominal. Uma taxa de juros nominal mais elevada reduz a de-
presença da taxa de juros nominal na função da demanda por manda por encaixes monetários reais. Como a quantidade de
moeda gera um canal ad icional, através do qual a oferta mane, moeda não mudou, a menor demanda por encaixes monetári-
niria afeta o níYel de preços. os reais leva a um nível de preços mais alto. Assim, a maior
Essa equação gera l da demanda por moeda indica que o ní- expansão monetária espetada no futuro leva a um nível de pre-
\·el de preços depende não apenas da oferta monetária hoje , mas ços mais alto h oje.
também da oferra monetária esperada no futuro. Para enten- O efeito da moeda sobre os preços é complexo. O apêndice
der por que, suponh<1 que o Fed anuncie que aumentará a ofer- deste capítulo descreve a matemática que relacion a o nível de
ta monetária no futuro, mas não muda a oferta monetária h oje. preço com a moeda corrente e futura. A conclusão da análise é
Esse m,úncio faz com que as pessoas esperem uma expansão que o nível de preços depende de uma média ponderada da
moner,fria maior e uma inflação mais alta. Através do efeito oferta monetária corrente e da oferta monetária que se espera
Fisher, esse aumenrn da inflação esperada eleva a taxa de juros que prevaleça no futuro.

4-6 OS CUSTOS SOCIAIS DA INFLAÇAO


Nossadiscussfüi sobre as causas e os efe itos da inflação não nos cendo mais depressa. Em vez disso, quando a inflação diminu,
diz muito S,lhre os problemas sociais que resultam da inflação. ísse, as empresas aumentariam menos os preços de seus produ ,
Vamos tratar desses problemas agora. tos a cada ano; e, em conseqüência, dariam aumentos menores
a seus empregados.
Segundo a teoria cláss ica da moeda, uma mudança do ní-
A VISÃO DO LEIGO E A REAÇÃO CIÁSSICA vel gera l de preços é como uma mudança nas unidades de
Se você perguntar a uma pessoa comum por que a inflação é medida. É como se trocássemos as medidas de distância de
um pruhlema social, é hem provável que ela responda que a metros para centímetros: os números tornam-se maiores, mas
inflação a deixa mais pobre. "T odos os anos o patrão me dá um na verdade n ada muda. Imagine que amanhã de manhã você
aumenw, mas os preços sobem e isso acaba com o aumento." acorda e descobre que, por algum motivo, todas as cifras em
O pressupostn implícito n essa declaração é que, se não houvesse dólares da economia foram multiplicadas por dez. O preço de
inflação, a pessoa teria o mesmo aumento e poderia comprar tudo que você compra aumentou dez vezes, mas o mesmo
mais bens. aconteceu com o seu salário e o valor de sua poupança. Que
Essa queixa sohre a inflação é uma falácia comum. Como diferença isso faz? T odos os números teriam um zero a mais
sabemos, pelo Cap. 3, o poder de compra do trabalho - o sa- no final, mas nenhuma outra coisa mudaria. Seu bem-estar
~ário real - depende da produtividade marginal do trabalho, econômico depende dos preços relativos, não do nível geral
não da quantidade de moeda que o governo decide emitir. Se de preços.
o governo reduzisse a inflação diminuindo a taxa de expansão Por que então um aumento persistente do nível geral é um
monetária, os trabalhadores não veriam seu salário real cres- problema social ? Acontece que os custos da inflação são sutis.
66 CAPÍTULO 4
r
Para surpresa de muitos Leigos, alguns economistas. argumen- as. taxas de inflação moderadas que a maioria dos países vem
tam que os custos da inflação são pequenos - pelo menos para experimentando nos últimos anos. 7

ESTUDO DE C A S O - - - - - - - - - - - - - - .
Ü QUE OS ECONOMISTAS E O PúBLICO DIZEM SOBRE A Pediu-se aos pesquisados que julgassem a gravidade da in-
INFLAÇÃO flação como um problema de política do governo: "Você con-
Como já ressaltamos, os leigos e os economistas têm visões di- corda em que evitar a inflação alta é uma prioridade nacional
ferentes sobre o custo da inflação. O economista Robert Shiller importante, tão importante quanto evitar o consumo de dro-
documentou essa diferença de opinião em um levantamento gas, ou evitar a deterioração da qualidade de nossas escolas?"
dos dois grupos. Os resultados do levantamento são extraordi- Entre os leigos, 52% concordaram tom essa posição, em com-
nários, porque mostram como o estudo da economia muda as paração com apenas 18% dos economistas. Ao que tudo indi-
atitudes de uma pessoa. ca, a inflação preocupa o público muito mais do que aos profis-
Em uma questão , Shiller indagou às pessoas se "a maior sionais de economia.
queixa contra a inflação" era o fato de que "a inflação prejudi- A aversão do público à inflação pode ser psicológica. Shiller
ca meu poder de compra real, deixando-me mais pobre". Enrre perguntou aos pesquisados se concordavam com a seguinte
o público em geral, 77°/o concordaram com essa declaração, em declaração: "Acho que eu sentiria mais satisfação no trabalho
comparação com apenas 12 % dos economistas. Shiller também se meu salário fosse aumentado, mesmo que os preços subissem
perguntou às pessoas se concordavam com a seguinte declara- n a mesma proporção." Entre o público em geral, 49% concor-
ção: "Quando vejo projeções sobre quantas vezes mais custará daram plena ou parcialmente tom essa declaração, em compa-
um curso universitário, ou quantas vezes mais alto será o custo ração com 8% dos economistas.
de vida nas próximas décadas, não posso evitar um sentimento Esses resultados de levantamento significam que os leigos
de apreensão; essas projeções de inflação realmente me preo- estão errados e os economistas estão certos quanto aos custos
cupam, fazendo-me pensar que meu salário não aumentará tanto da inflação! Não necessariamente. Mas os economistas têm a
quanto o custo de vida". Entre o público em geral, 66% respon- vantage m de dispensarem mais consideração ao problema.
deram que concordavam plenamente com a declaração, en- Portanto, vamos examinar agora quais poderiam ser alguns dos
quanto apenas 5% dos economistas concordaram. custos da inflação.~

Os CusTos DA INFLAÇÃO ESPERADA Um segundo custo da inflação surge porque a inflação ele-
vada leva as empresas a mudarem seus preços fixados com mais
Pense primeiro no caso da inflação esperada. Suponha que to- freqüência. A mudança de preços é algo dispendioso: por exem-
dos os meses o nível de preço aumenta em 1%. Quais seriam os plo, pode exigir a impressão e distribuição de um novo catálo-
custos sociais desse aumento estável e previsível da inflação de go. Esses custos são chamados de custos de menu, porque quan-
12% ao ano! to mais alta a taxa de inflação, mais freqüentemente será a ne-
Um custo é a distorção da taxa de inflação na quantidade cessidade de os restaurantes imprimirem novos menus.
de moeda que as pessoas retêm. Como já ressaltamos, uma taxa Um terceiro custo da inflação ocorre porque as empresas,
de inflaç ão maior leva a uma taxa de juros nominal mais alta, diante dos custos de menu , mudam os preços com menos fre-
o que, por sua vez, leva a uma queda dos encaixes monetários qüência; portanto, quanto mais alta a taxa de inflação, maior
reais. Se as pessoas retêm em média encaixes monetários me- a variabilidade dos preços relativos. Suponha, por exemplo,
nores, devem fazer visitas mais freqüentes ao banco para reti- que uma empresa lance um novo catálogo todo mês de janei-
rar dinheiro; por exemplo, podem retirar $50 duas vezes por ro. Se não há inflação, os preços da empresa, relativos ao ní-
semana, em vez de $100 uma vez por semana. A inconveniên- vel geral de preços, permanecem constantes ao longo do ano.
cia de reduzir a quantidade de dinheiro na mão é chamada, em Mas se a inflação é de 1% ao mês, do início até o fim do ano
termos metafóricos, de custo da sola de sapato da inflação, os preços relativos da empresa caem em 12 %. As vendas des-
porque andar até o banco com mais freqüência faz com que os se catálogo tenderão a ser mais baixas no início do ano (quan-
sapatos se desgastem mais depressa. do os preços são relativamente altos) e mais elevadas no pe-

'Ver, por exemplo, o Cap. 2 de Alan Blinder, Hard Heads , Safe Hearts : Tough-Minded Economics for a]ust Society (Reading, Massachusetts: Addisón Wesley, 1987).
'Robert J. Shiller, ''Why Do People Oíslike lnflation "', em Christina O. Romer e David H. Romer, eds., Reducing fn/lation: Motivation and Stracegy (Chicago: Universiry of Chi-
cago Press, 1997).
f
MOEDA E INFLAÇÃO 67

íodo posterior do ano (quando os preços são relativamente arbitrariamente a riqueza entre as pessoas. Pode-se observar
~aixos). Assim, quando induz a variabilidade nos preços re- como isso funciona pelo exame dos empréstimos a longo pra-
lativos, a inflação acarreta ineficiências microeconômicas na zo. A maioria dos acordos de empréstimo especifica uma taxa
alocação de recursos. de juros nominal, baseada na taxa de inflação esperada na oca-
Um quarto custo da inflação resulta das leis fiscais. Muitos sião do acordo. Se a inflação é diferente do que se esperava, o
dispositivos do código fiscal não levam em consideração os efei- retorno real ex post que o devedor paga ao credor difere do que
tos da inflação. A inflação pode alterar o passivo fiscal dos in- ambas as partes previam. Por um lado, se a inflação se toma
divíduos de uma maneira que os legisladores não pretendiam. mais alta do que o esperado, o devedor ganha e o credor perde,
Um exemplo da falha do código tributário com relação à in- porque o devedor paga o empréstimo com dólares menos vali-
flação é o tratamento dispensado aos ganhos de capitais. Su- osos. Por outro, se a inflação é mais baixa do que o esperado, o
ponha que você compre algumas ações hoje e venda-as daqui a credor ganha e o devedor perde, porque o pagamento vale mais
um ano, ao mesmo preço real. Pareceria razoável que o gover- do que as duas partes previam.
no não cobrasse um imposto, porque você não obteve renda Imagine, por exemplo, uma pessoa que fez uma hipoteca em
real com o investimento. Na verdade, se não há inflação, um 1960. Na ocasião, uma hipoteca de 30 anos tinha uma taxa de
débito fiscal de zero seria o resultado. Suponha, porém, que a juros de cerca de 6% ao ano. Essa taxa baseava-se em uma taxa
taxa de inflação seja de 12 % ao ano, e você pagou inicialmen- de inflação esperada baixa: durante a década anterior, a infla-
te $100 por ação; para que o preço real sej a o mesmo um ano ção média fora de apenas 2,5%. O credor provavelmente espe-
depois, você deve vender cada ação a $112. Nesse caso, o có- rava ter um retorno real de cerca de 3,5%, e o devedor espera -
digo fiscal. que ignora os efeitos da inflação, diz que você teve va pagar esse retorno real. Mas a taxa de inflação, durante o
um rendimento de $12 por ação, e o governo o tributa sobre prazo da hipoteca, foi em média de 5%. Assim, o retorno real
esse ganho de capital. O problema, é claro, é que o código fis- ex post foi de apenas 1o/o. Essa inflação imprevista beneficiou o
cal mede o rendimento como ganho de capital nominal, em devedor, à custa do credor.
vez de real. Neste exemplo - e em muitos outros - a inflação A inflação imprevista também prejudica as pessoas que vi-
distorce a maneira como os tributos são cobrados. vem de pensão fixa. Os trabalhadores e as empresas muitas vezes
Um quinto custo da inflação é a inconveniência de viver acertam uma pensão nominal fixa quando o trabalhador se
em um mundo em que o nível de preço muda constantemente. aposenta (ou mesmo antes). Como a pensão é baseada em ga-
O dinheiro é o padrão pelo qual medimos as transações econô- nhos adiados, o trabalhador está essencialmente fazendo um
micas. Quando há inflação, a régua a qual nos referimos muda empréstimo para a empresa: presta serviços de trabalho à em-
de tamanho. Para continuar na analogia, suponha que o Con- presa enquanto jovem, mas não tem uma remuneração plena
gresso aprovasse uma lei especificando que um metro teria 98 até a velhice. Como qualquer credor, o trabalhador é prejudi-
centímetros em 2002, 96 centímetros em 2003, 94 centíme- cado quando a inflação é mais elevada do que a prevista. Como
tros em 2004 e assim por diante. Não haveria qualquer ambi- qualquer devedor, a empresa é prejudicada quando a inflação é
güidade na lei, mas seria bastante inconveniente. Quando al- mais baixa do que a prevista.
guém medisse uma distância em metros, seria necessário espe- Essas situações oferecem um argumento claro contra a in-
cificar se a medida foi no metro de 2002 ou no metro de 2003; flação variável. Quanto mais variável a taxa de inflação, mai-
para comparar distâncias medidas em anos diferentes, seria or a incerteza enfrentada por devedores e credores. Como a
preciso efetuar uma correção de "inflação". Da mesma manei- maioria das pessoas é avessa ao risco -detesta as incertezas-, a
ra, o dólar é uma medida menos útil quando seu valor está sem- imprevisibilidade causada por uma inflação altamente variável
pre mudando. prejudica quase todo mundo.
Por exemplo, um nível de preços em constante mudança Diante dos efeitos da inflação incerta, é desconcertante que
complica o planejamento financeiro pessoal. Uma decisão os contratos nominais sejam tão predominantes. Era de se es-
importante, enfrentada por todas as famílias, é quanto da ren- perar que devedores e credores se protegessem dessa incerteza,
da consumir e quanto poupar para a aposentadoria. Um dólar elaborando contratos em termos reais; ou seja, indexando por
poupado hoje e investido a uma taxa de juros nominal fixa ren- alguma medida de nível de preço. Em algumas economias com
derá uma quantia fixa em dólar no futuro. Contudo, o valor real inflação alta e variável, a indexação é com freqüência dissemi-
dessa quantia em dólar - que vai determinar o padrão de vida nada; às vezes, essa indexação assume a forma de contratos es-
do aposentado - depende do futuro nível de preços. Decidir critos com base em uma moeda estrangeira mais estável. Em
quanto poupar seria muito mais simples se as pessoas pudessem economias com inflação moderada, como a dos Estados Uni-
contar que o nível de preços dentro de 30 anos seria igual ao dos, a indexação é menos comum. Contudo, mesmo nos Esta-
nível de hoje. dos Unidos, algumas obrigações de longo prazo são indexadas.
Por exemplo, os benefícios da previdência social para os idosos
são reajustados anualmente em reação a mudanças no índice
Os CusTos DA INFLAÇÃO NÃO-ESPERADA de preços ao consumidor. E em 1997 o governo federal norte-
A inflação não-esperada tem um efeito mais pernicioso do que americano, pela primeira vez, emitiu títulos indexados pela
qualquer dos custos da inflação estável e prevista: redistribui inflação.
68 CAPITULO 4

Finalmente, ao se pensar nos custos da inflação, é importan- se um país decidir adotar uma política monetária de inflação alta,
te realçar um fato bastante documentado, mas pouco compre- é bem provável que aceite também a inflação altamente variá-
endido: inflação alta é inflação variável. Ou seja, os países com vel. Como acabamos de mostrar, a inflação altamente variável
inflação média elevada também tendem a ter taxas de inflação aumenta a incerteza para credores e devedores, sujeitando-os a
que mudam bastante de um ano para outro. A implicação é que, redistribuições de riqueza arbitrárias e potencialmente grandes.

ESTUDO DE CASO - - - - - - - - - - - - - - .
Ü MOVIMENTO DA PRATA LIVRE, A ELEIÇÃO DE 1896 NOS Esse debate sobre a prata encontrou sua expressão mais
EsTADos UNmos E o MÁGICO DE Oz memorável em um livro para crianças, O Mágico de Oz. Escrito
As redistribuições da riqueza causadas por mudanças inespera- por um jornalista do Meio-Oeste , L. Frank Baum, logo depois
das do nível de preço são com freqüência uma fonte de distúr- da eleição de 1896, o livro conta a história de Dorothy, uma
bio político, como ficou evidenciado pelo movimento da Pra- menina perdida numa terra estranha, longe de sua casa no
ta Livre, ao final do século XIX nos Estados Unidos. De 1880 a Kansas. Dororhy (representando os valores tradicionais ame-
1896, o nível de preços no país caiu 23%. Essa deflação foi boa ricanos) faz três amigos: um espantalho (o agricultor), um ho-
para ns credores, em particular os banqueiros da região Nor- mem de lata (o trabalhador industrial) e um leão, cujo rugido
deste, mas foi ruim para os devedores, em particular os fazen- excede seu poder (William Jennings Bryan). J1,mtos, os quatro
deiros das regiões Sul e Oeste do país. Uma solução proposta percorrem uma perigosa estrada de tijolos amarelos (o padrão
para esse problema foi a substituição do padrão ouro por um ouro), esperando encontrar o Mágico que ajudará Dorothy a
padrão bimetálico, pelo qual tanto o ouro quanto a prata po- voltar para casa. Acabam chegando a Oz (Washington), onde
deriam ser cunhados em moedas. A mudança para um padrão todos vêem o mundo através de óculos verdes (o dinheiro) . O
bimetálico aumentaria a oferta de dinheiro e acabaria com a Mágico (William McKinley) tenta ser todas as coisas para to-
deflação . das as pessoas, mas se revela uma fraude. O prohlema de Dorothy
A questão da prata prevaleceu a eleição presidencial de 1896. só é resolvido quando ela toma conhecimento do poder mági-
William McKinley, o candidato republicano, fez campanha co de suas sandálias de prata. 9
com uma plataforma de preservação do padrão ouro. William Embora os repuhlicanos tenham ganho a eleição de 1896 e
Jennings Bryan, o candidato democrata, era favorável ao pa- os Estados Unidos renham permanecido no padrão ouro, os de-
drão himetálico. Em um discurso famoso, Bryan proclamou: fensores da Prata Livre conseguiram a inflação que queriam. Na
"Não empmrarão na caheça do trabalho essa coroa de espinhos, é,x1ca da eleição, descohriu-se ouro no Alasca, na Austrália e na
não vão crucificar a humanidade numa cruz de ouro". Não sur- Africa do Sul. Além disso, os refinadores de ouro criaram o pro-
preende que McKinley fosse o candidato do establishment con- cesso de cianeto, que facilita a separação do ouro do minério. Esses
se n·ador do Leste, enquanto Bryan era o candidato dos acontecimentos levaram a aumentos da oferta monetária e dos
popu listas do Sul e do Oeste. preços. De 1896 a 1910, o nível de preços subiu 35%.

UM BENEFÍCIO DA INFLAÇÃO ma coisa que um aumento de 3% com uma inflação de 5% em


termos reais; mas os trahalhadores nem sempre têm essa per-
Até aqui. tratamos dos muitos custos da inflação. Esses custos cepção. O corte de 2% no salário pode parecer um insulto, en-
levam muitos economistas a concluir que as autoridades mo- quanto o aumento de 3% ainda é, no final das contas, um au-
netárias de\'eriam ter em mira a inflação zero. Contudo, hti mento. Estudos empíricos confirmam que os salários n ominais
outro lado na histôria. Alguns economistas acreditam que um raramente caem.
pouco de inflação-digamos, 2 ou 3% ao ano- pode ser uma Esse faro sugere que alguma inflação pode fazer com que
hoa coisa. os mercados de trabalho funcionem melhor. A oferta e a de-
O argumento em prol da inflação moderada começa com a manda de diferentes tipos de trabalho estão sempre mudan-
ohserYação de que os cortes nos salários nominais são raros: as do. Às vezes um aumento da oferta ou uma diminuição da
empresas relutam em cortar os salários nominais de seus traba- demanda levam a uma queda do equilíhrio do salário real para
lhadores, e os trabalhadores relutam em aceitar tais cortes. Um um grupo de trabalhadores. Se os salários nominais não po-
corte de 2 % n o salário, em um mundo de inflação zero, é ames- dem ser cortados, a única maneira de reduzir os salários reais

'O filme realizado 40 anos depois escondeu grande parte da alegoriá, ao mudar as sandálias de Dorothy de prata para rubi. Para saber mais sobre esse assunto, veja Henry M.
Littlefield, "The Wizard of Oz: Parable on Populism", American Qt4llrcerly 16 (primavera de 1964): 47-58; e Hugh Rockoff, "The Wizard of 0z as a Monetary Allegory", Joumal
of Political Economy 98 {agosto de 1990): 739-760.
f
MOEDA E INFLAÇÃO 69

a
s. O grande economista John Maynard Keynes não gostava tornam-se os "exploradores", que são o alvo do ódio da bur-
nem um pouco da inflação, como indica a citação na aber- guesia, enfraquecida pelo inflacionismo, e também do prole-
tura deste capítulo. Aqui está o trecho mais completo do seu tariado. À medida que a inflação avança e o valor real da
moeda oscila desenfreado de um mês para outro, todas as re-
famoso livro, As Conseqüências Econômicas da Paz, em que
1 lações permanentes entre devedores e credores, que formam
Keynes previu (corretamente) que o tratado imposto à Ale-
o alicerce principal do capitalismo, tornam-se tão desordena-
is manha depois da Primeira Guerra Mundial levaria a dificul- dos que chega a perder seu sentido; e o processo de obtenção
o dades econômicas e à retomada das tensões internacionais: de riqueza degenera num jogo e numa loteria.
is Lênin sem dúvida tinha razão. Não há meio mais sutil e
Lênin teria declarado que a melhor maneira de destruir o Sis-
a seguro de subverter a base existente da sociedade do que avil-
tema Capitalista era aviltar a moeda corrente. Por um contí-
o tar a moeda. O processo empenha todas as forças ocultas da lei
nuo processo de inflação, os governos podem confiscar, de uma
econômica no lado da destruição, de uma maneira que nenhum
maneira secreta e não observada, uma parte importante da ri-
homem em um milhão é capaz de diagnosticar.•c
1- queza de seus cidadãos. Por esse método, eles não só confis-
o cam, como também confiscam arbitrariamente; e o processo,
A história tem oferecido amplo suporte a essa avaliação. Um
o enquanto empobrece muitos, enriquece alguns. Essa
redisposição arbitrária de riqueza é um golpe não apenas con-
exemplo recente ocorreu na Rússia, em 1998, quando mui-
o tos cidadãos viram as taxas de inflação elevadas acabarem
a tra a segurança, mas também contra a confiança na distribui-
ção eqüitativa da riqueza nacional. Aqueles para os quais o com suas poupanças em rublos. E, como Lênin teria previs-
e
sistema proporciona ganhos inesperados, muito além do que to, essa inflação expôs a um sério risco o sistema capitalista
)
mereciam, até mesmo além de suas expectativas ou desejos, florescente do país.

e é permitir que a inflação o faça. Sem inflação, o salário real nas um pouco de inflação é necessário: uma taxa de inflação
ficará empacado acima do nível de equi líbrio, resultando em de 2% faz com que os salários reais caiam em zil{i ao ano, ou
a desemprego maior. 20% por década , sem cortes nos salários nominais. Essas redu -
a
Por esse motivo, alguns economistas argumentam que a in- ções automáticas nos salários reais são impossíveis com infla-
flação "azeita as engrenagens" dos mercados de trabalho. Ape- ção zero.11
s
s
4- 7 HIPERINFLAÇÃO
J
A hiperinflação é muitas vezes definida como a inflação que litativamente os mesmos que foram analisados antes. Quando
ultrapassa 50% ao mês, um pouco acima de 1% ao dia. Persis- a inflação alcança níveis extremos, no entanto, esses custos são
tente ao longo de muitos meses, essa taxa de inflação leva a mais evidentes, porque são mais severos.
aumentos muito grandes do nível de preços. Uma taxa de in- Os custos de sola de sapato associados à posse de menos di-
flação de 50% ao mês acarreta um aumento de mais de 100 vezes nheiro, por exemplo, são sérios na hiperinflação. Os executi-
no nível de preços ao longo de um ano e um aumento de mais vos das empresas dedicam muito tempo e energia à adminis-
de 2 milhões de vezes em três anos. Vamos considerar aqui os tração do dinheiro quando ele perde o valor depressa. Ao des-
custos e as causas dessa inflação extrema. viar esse tempo e essa energia de atividades socialmente mais
valiosas, como as decisões de produção e investimento, a hipe-
rinflação faz com que a economia seja administrada com me-
Os CusTos DA HIPERINFLAÇÃO
nos eficiência.
Embora os economistas discutam se os custos da inflação mo- Os custos de menu também se tornam maiores na hiperin-
derada são grandes ou pequenos, ninguém duvida que a hipe- flação. As empresas têm de mudar os preços com tanta freqüên-
rinflação cobra um alto tributo à sociedade. Os custos são qua- cia que as práticas normais de negócios, como imprimir e dis-

'"John Maynard Keynes, The Economic Coruequences of the Peace (Londres: Macmillan, 1920): 219-220.
llPara um recente ensaio que examina esse benefício da inflação, veja George A. Akerlof, William T. Dickens e George L. Perry, "The Macroeconomics of Low lnflarion",
Brookings Papers on Economic Acriviry, 1996: ] , pp. ] . 76.
70 CAPITULO 4

tribuir catálogos com preços fixos, tornam-se impossíveis. Em gamemos de imposto sobre a renda estimada a cada três meses.
um restaurante alemão, durante a hiperinflação da década de Esse prazo curto não tem muita importância na inflação baixa.
1920, um garçom subia em uma mesa a cada 30 minutos para Em contraste, durante a hiperinflação, até mesmo um prazo
anunciar os novos preços. bastante curto reduz a receita fiscal. Quando o governo recebe
De modo semelhante, os preços relativos não refletem bem o que lhe é devido, o valor da moeda já caiu. Em conseqüên-
a verdadeira escassez durante a hiperinflação. Quando os pre- cia, depois que a hiperinflação começa, a receita fiscal real do
ços mudam com freqüência, em valores altos, é difícil para os governo muitas vezes sofre uma queda substancial.
clientes procurarem os melhores preços. Os preços instáveis e Finalmente, ninguém deve subestimar a pura inconveniên-
em rápido crescimento podem alterar o comportamento sob cia de viver com a hiperinflação. Quando levar moeda para o
muitos aspectos. Segundo um relato, quando os clientes entra- armazém torna-se tão difícil quanto carregar as compras de volta
vam em uma cervejaria durante a hiperinflação alemã, costu- para casa, o sistema monetário não está fazendo o melhor que
mavam comprar logo duas canecas de cerveja. A segunda ca- pode para facilitar a troca. O governo tenta superar esse pro-
neca perderia valor ao esquentar com o passar do tempo, mas a blema ao acrescentar mais e mais zeros ao papel-moeda, mas
perda seria menor do que o dinheiro que deixaria a carteira do muitas vezes não consegue acompanhar a explosão do nível de
cliente se ele esperasse para comprar depois. preços.
Os sistemas tributários também são distorcidos pela hiperin- Eventualmente, os custos da hiperinflação tomam-se dolo-
flaç ão, mas em aspectos que são muito diferentes dos que ocor- rosos. Com o passar do tempo, a moeda perde seu papel como
rem sob a inflação moderada. Na maioria dos sistemas tributá- reserva de valor, unidade de conta e meio de troca. O escambo
rios, há um prazo entre o momento em que um imposto é taxa - torna-se mais comum. E moedas extra-oficiais mais estáveis -
do e o momento em que é pago ao governo. Nos Estados Uni- cigarros, ou dólares americanos - começam a substituir a
dos, por exemplo, os contribuintes são obrigados a efetuar pa- moeda oficial.

ESTUDO DE CASO
A VmA DURANTE A HrrERINFIAÇÃo B0uv1ANA mente por dó lares. N o dia em que recebeu 25 milhões de pesos,
A reportagem reproduzida a seguir do Wall Street ]oumal , mos- um dólar custava 500 mil pesos. Porranro, ele recebeu U$50.
tra como era a vida durante a hiperinflação boliviana de 1985. 11 Apenas dias depois, com o dó lar a 900 mil pesos, ele reria recebi-
do U$Z7.
Que custos da inflação o texto enfatiza?
"Pensamos apenas no dia de hoje e na conversão de cada peso
em dó lar", diz Ronald MacLean, gerente de uma empresa de mi-
O Peso Precário: Com uma Inflação Descontrolada, neração de ouro. "Nós nos tornamos míopes."
Bolivianos Concentram-se na Troca de Moeda E empenhados na sobrevivência. Os funcionários públicos não
LA PAZ, Bolívia - Quando Edgar Miranda recebe seu salário preenchem um formulário sem um suborno. Ad vogados, contado-
mensal de professor, de 25 milhões de pesos, não tem um minuto res, barbeiros, até mesmo prostitutas, quase todos desistiram de
a perder. A cada hora, os pesos perdem valor. Por isso, enquanto a exercer se u ofício para se tornarem doleiros nas ruas. Os trabalha-
esposa corre para o supermercado, a fim de comprar o suprimento dores fazem greves sucessivas e roubam dos patrões. Os patrões
para um mês de arroz e macarrão, ele leva o restu dus pesos para contrabandeiam sua produção para o exterior, tumarn falsos em-
trocar nu mercado negro de dólares. préstimos, sonegam impostos ... lJUalquer coisa para conseguir dó-
O sr. Miranda está praticando a Primeira Regra da Subrevi- lares, que são usados na especu lação.
vência em meio à inflação mais descon trolada do mundo. A A produção nas minas estaduais, por exemplo, caiu de 18 mil
Bolívia é um estudo de caso sobre como uma inflação galopante para 12 mil toneladas no ano passado. Os mineiros complemen-
pode corroer uma sociedade. Os aume ntos de preços são tão gran - tam seu salário contrabandeando o minério mais rico em suas
des que as cifras tornam-se quase além da compreensão. Em um marmitas. Esse minério vai para o vizinho Peru, através de uma
período de seis meses, por exemp lo, os preços subiram a uma raxa extensa rede de contrabando. Sem uma grande mina de estanho,
anual de 38.000%. Pelos cálculos oficiais, no entanto, a inflação o Peru hoje exporta cerca de 4.000 toneladas métricas desse mine-
do ano passado ficou em 2.000%, e espera que a inflação des te ral por ano.
ano seja de 8.000%, embora outras estimativas indiquem núme- "Não produzimos nada. Somos todos especuladores de moeda",
ros muito ma is elevados. Seja como for, a taxa da Bolívia ofusca diz um revendedor de equipamentos pesados de La Paz. "As pesso-
os 370% de Israel e os 1.100% da Argentina -dois outros casos as não sabem mais o que é bom e o que é ruim. Nós nos tornamos
de inflação severa. uma.sociedade amoral.[ ... ]"
É mais fácil compreender o que acontece com o salário do sr. É um segredo aberto que quase todos os dólares do mercado
Miranda, um homem de 38 anos, se ele não trocá-lo imediata- negro vêm do tráfico de cocaína para os Estados Unidos. A esti-

"Reproduzido com permissão do Walt Streer Joumm, © 13 de agosto de 1985, p. J, Dow Jones & Company, lnc. Todos os direitos reservados em todo o mundo.
f
MOEDA E INFLAÇÃO 71

:s. mativa é de que os traficantes ganham cerca de 1 bilhão de dóla- o déficit aumentando para quase 25% da produção anual total do
a. res por ano. [... ) país. As receitas são prejudicadas pelo atraso no pagamento dos
!O
Enquanto isso, o país sofre com a inflação, em grande parte por- impostos, e os impostos não são cobrados em grande parte por causa
Je
que as receitas do governo cobrem apenas 15% dos seus gastos, com do roubo e do suborno disseminados.
1-
lo

1- As CAUSAS DA HIPERINFLAÇÃO governo um credor de grande risco. Para cobrir o déficit, o go-
0 verno recorre ao único mecanismo de que dispõe: a máquina
Por que as hiperintlações começam, e como acabam? Essa ques-
ta de impressão de moeda. O resultado é a rápida expansão mo-
tão pode ser respondida em diferentes níveis.
1e netária e a hiperinflação.
A resposta mais óbvia é que as hiperinflações são causadas
)- Depois que a hiperinflação começa, os problemas fiscais
por aumento excessivo da oferta monetária. Quando o banco
3.S tomam-se ainda mais severos. Por causa do atraso nos pagamen-
central emite moeda, o nível de preços aumenta. Quando emite
le tos de impostos, a receita fiscal real cai à medida que a inflação
moeda com bastante rapidez, o resultado é a hiperinflação. Para
deter a hiperinflação, o banco central deve reduzir a taxa de avança. Assim, a necessidade do governo de usar a senhoriagem
)-
expansão monetária. é um reforço para si mesma. A criação rápida de moeda leva à
LO
Essa resposta, no entanto, é incompleta, pois deixa em aberto hiperinflação, que leva a um déficit orçamentário maior, que
10
o motivo pelo qual os bancos centrais, nas economias em hi- leva a uma emissão de moeda ainda mais rápida.
perinflação, optam por emitir tanta moeda. Para tratar dessa Os finais das hiperinflações quase sempre coincidem com
a questão mais profunda, devemos desviar nossa atenção da po- reformas fiscais. Assim que a magnitude do problema torna-se
lítica monetária para a política fiscal. A maioria das patente, o governo reúne a vontade política para reduzir os
hiperinflações começa quando o governo tem uma receita fis- gastos públicos e aumentar os impostos. Essas reformas fiscais
cal inadequada para cobrir seus gastos. Embora possa preferir reduzem a necessidade de senhoriagem, o que permite uma re-
financiar esse déficit orçamentário pela emissão de títulos da dução da expansão monetária. Por isso, mesmo que a inflação
"1 dívida pública, o governo pode se descobrir incapaz de romar seja sempre e em toda parte um fenômeno monetário, o fim da
IS, emprestado, talvez porque os emprestadores considerem o hiperinflação é, com freqüência, também um fenômeno fiscal. 1i
o.
ti-

ESTUDO DE CASO
HrPERINFIAÇÀO NA ALEMANHA DO ENTRE-GUERRAS milhões de marcos em 17 de novembro. Em dezembro de 1923,
io
Depois da Primeira Guerra Mundial, a Alemanha experimen- a oferta monetária e os preços tiveram uma estabilização
.)- tou um dos mais espetaculares exemplos de hiperinflação da abrupta. 14
.le história. Ao final da guerra, os Aliados exigiram que os ale- Assim como problemas fiscais causaram a hiperinflação ale-
a- mães pagassem reparações substanciais. Esses pagamentos le- mã, uma reforma fiscal encerrou-à. Ao final de 1923, o núme-
es varam a déficíts fiscais na Alemanha, que o governú alemão ro de funcionários públicos foi reduzido em um terço. Os paga-
[\-
acabou reforçando, através da emissão de grandes quantida- mentos das reparações foram suspensos em caráter temporário,
:,- des de moeda. e eventualmente reduzidos. Ao mesmo tempo, um novo ban-
O painel (a) da Fig. 4-6 mostra a quantidade de moeda e o co central, o Rentenbank, substituiu o antigo banco central, o
1il
nível geral de preços na Alemanha de janeiro de 1922 a de- Reichsbank. O Rencenbank estava decidido a não financiar o
1-
,lS
zembro de 1924. Durante esse período, ranto a moeda quan- governo por meio da emissão de moeda.
1a to os preços subiram a um ritmo espantoso. Por exemplo, o Segundo nossa análise teórica da demanda por moeda, o
lJ, preço de um jornal passou de 0,30 marco em janeiro de 1921 fim de uma hiperinflação deve levar a um aumento dos en-
e- para 1 marco em maio de 1922, 8 marcos em outubro de 1922, caixes monetários reais, já que o custo de reter moeda cai. O
100 marcos em fevereiro de 1923 e 1.000 marcos em setem- painel (b) da Fig. 4-6 mostra que os encaixes monetários re-
bro de 1923. Depois, no outono de 1923, os preços decola- ais na Alemanha caíram à medida que a inflação aumentava,
)-
ram: o jornal era vendido a 2.000 marcos em 1º de outubro, e depois aumentaram à medida que a inflação caía. Mas o
)S
20.000 marcos em 15 de outubro, 1 milhão de marcos em 29 aumento dos encaixes monetários reais não foi imediato.
de outubro, 15 milhões de marcos em 9 de novembro, e 70 Talvez o ajuste dos encaixes monetários reais ao custo de re-
lo

"Para saber mais sobre essas questões, veja Thomas J. Sargent, "The End of Four Big lnflarions", em Robert Hall, ed., Tnflacion (Chicago: University cif Chicago Press, 1983 ), 41-
98; e Rudiger Dombusch e Stanley Fischer, "Stopping Hyperinflations: Past and Present", Welrwirschafrliches Archiv 122 (abril de 1986): 1-47.
1
'0s dados sobre os preços de jornal são de Michael Mussa, "Sticky Individual Prices and the Oynamics of rhe General Price Levei", Camegie-Rochester Conference on Public Polícy
15 (outono de 1981): 261-296.
-- r
72 CAPÍTULO 4

ter moeda seja um processo gradativo. Ou talvez levasse tem- flação acabara. Por isso, a inflação esperada caiu mais deva-
po para que as pessoas na Alemanha acreditassem que a in- gar do que a inflação de faro.

(a) Moeda e Preços


Oferta monetária 22 , 6 Nível de preços
10 10
(marcos em ....---····, .... ,..- .- ... (índice de 1913 = 100)
papel-moeda)
1020 1 o••
Nível de preços
1 o'ª 10"
(escala direita)

10 16 10 10

1
10 " Oferta monetária 1 º"
( escala esq1,1erda)
10 12 ~ 10º

10 1 º L-_ __. lOJ

1 oª '--~~~~~~~~-"-~~~~~~~~--'-~~~~~~~~--' 10'
1922 1923 1924 1925
Ano

(b) Inflação e Encaixes Monetários Reais


Índice
. de . 120 100 .000 Taxa de
encaixes reais Taxa de inflação mensal
Encaixes reais
Uaneiro de inflação mensal ( escala logarítmica)
1922 = 100) 1 DO / (escala esquerda)
/ (escala direita) 10.000

80
1.000
60
100
40

10
20

OL--~ ~~ ~ ~~~__J_~ ~ ~~ ~~ ~ _ _ J L - ~ ~ - - ~ ~ ~____J o


1922 1923 1924 1925
Ano

Fig. 4-6 Moeda e Preços na Alemanha do Entre-guerras A figura (a) mostra a oferta monetária e o nível de preços na Alemanha de janeiro de
1922 a dezembro de 1924. Os imensos aumentos da oferta monetária e do nível de preços representam uma ilustração dramática dos efeitos da
emissão de grandes quantidades de moeda A fi gura (b) mostra a inflação e os encaixes monetários reais. À medida que a inflação subia , os encaixes
monetários reais caíam. Quando a inflação acabou. ao final de 1923, os encaixes monetários reais aumentaram.
F'onte: Adaptado de Thomas J. Sargent. "'The End of Four Big lnflations·. em Robert Hall. ed .. /nllation {Chicago: University of Chicago Press. 1983): 41-98

4-8 CONCLUSÃO: A DICOTOMIA CLÁSSICA


Concluímos nosso estudo sobre moeda e inflação. Vamos ago- N o Cap. 3, explicamos muitas variáveis macroeconômicas.
ra dar um passo atrás e estudar um pressuposto fundamental, Algumas dessas variáveis eram quantidades, como o PIB real e
que se tomou implícito em nossa análise. o estoque de capital; outras eram preços relativos, como o salá-
F
MOEDA E INFLAÇÃO 73

rio real e a taxa de juros real. Mas todas essas variáveis tinham mercado de trabalho explicou o salário real sem explicar o sa-
uma coisa em comum: mediam uma quantidade física (em vez lário nominal.
de monetária). O PIB real é a quantidade de bens e serviços Os economistas chamam essa separação teórica de variáveis
produzidos em um determinado ano, e o estoque de capital é a reais e nominais de dicotomia clássica. Essa dicotomia é a base
quantidade de máquinas e estruturas disponíveis num determi- da teoria macroeconômica clássica. A dicotomia clássica é uma
nado momento. O salário real é a quantidade do produto que percepção da maior importância, porque simplifica a teoria eco-
um trabalhador ganha por cada hora de trabalho. A taxa de nômica. Em particular, possibilita que examinemos as variáveis
juros real é a quantidade do produto que uma pessoa ganha no reais, como fizemos, enquanto ignoramos as variáveis nominais.
futuro ao emprestar uma unidade de produção hoje. Todas as A dicotomia clássica ocorre porque, na teoria econômica clássi-
variáveis medidas em unidades físicas, como quantidades e pre- ca, as mudanças da oferta monetária não influenciam as variá-
ços relativos, são chamadas de variáveis reais. veis reais. Essa irrelevância da moeda para as variáveis reais é
Neste capítulo, examinamos as variáveis nominais , aque- chamada de neutralidade monetária. Para muitos propósitos -
las que são expressas em termos de moeda. A economia tem em particular para estudar as questões a longo prazo - , a neu-
muitas variáveis nominais, como o ní,·el de preços, a taxa de tralidade monetária é aproximadamente correta.
inflação e o ,alário em dólares que uma pessoa ganha. A neutralidade monetária, no entanto, não descreve plena-
De início, pode parecer surpreendente que fôssemos capa- mente o mundo em que vivemos. A partir do Cap. 9, escudare-
zes de explicar as ,·ariÔ.\'eis reais sem intrndL:zir as ,·arüh·eis mos os desvios do modelo clássico e da neutralidade monetá-
nominais o u a existência de moeda. Nú Cap. 3, estudamos o ria. Esses des vios são fundamentais para a compreensão de
nível e a disrribuiçãn da prudução da economia sem mencio- muitos fenômenos macroeconômicos, como as oscilações eco-
nar o nível de preços ou a taxa de inflação. Nossa teoria do nômicas no curto prazo.

RESUMO
1. A moeda é o e,tnque de ati,·os usados par,1 transações. Fun- depe nda da taxa de juros nominal. Se é o que acontece,
ciona comn uma reser\'a de , ·alor, uma unidade de conta e então o nível de preços depende ao mesmo tempo da quan -
um meio de troca. Diferentes tipos de ativns são usados como tidade corrente de moeda e das quantidades de moeda espe -
moeda: os sistemas de moeda-mercadoria usam um ativo com radas no futuro.
valor intrín:,;eco, enquanto os sistemas de moeda fiduc i.hia
6. Os custos da inflação esperada incluem O custo da sola de
usam um ativo cuja única função é servir CO!Till moeda. Nas
sapato, o custo do menu, o custo da variabilidade dos pre-
economias modernas , um banco central, como n Federa l
ços relativos, as distorções fiscais e a inconveniência de se
Reser,·e, dos Estados Unidl1S, é respon;;,í\·el pelo controle da
efetuarem correções inflacionárias. Além disso, a inflação
oferta mnnen1ria.
inesperada causa redistribuições arhitrárias da riqueza entre
2. A teuri.1 quantiratin1 da moeda presume que a velocidade devedores e oednres. Um possível benefício da inflação é a
da moed<1 é estável e conclui que o PIB nnminal é proporci- melhora do funcionamento dos mercados de trabalho, ao
onal an estoque monet,friL). CotTill os fatmes de prndução e permitir que os salários reais alcancem níveis de equi líbrio
a função de pwduçào determinam o PIB real. a temia quan- sem cortes nos salários norilinais.
titati,·a indica que n nível de preços é propmci(inal à quan-
7. Durante os períodos de hiperinflação, a maioria dos custos
tidade de moeda. Portanto, a rnxa de crescimento da quan-
tiJade de mueda determina a taxa de inflação. da inflação torna-se bastante severa. As hiperinflações ge-
ralmente começam quando os governos financiam gr;:mdes
e 3. A senhoriagem é a receita que o gm·erno obtém pela emis- déficits orçamenrários pela emissão de moeda . Acabam
.a são de moeda. É um impo sto sobre a re tenção da moeJ,,. quando as reformas fiscais eliminam a necessidade de
is Embora seja quantitativamente pe4.uena na maioria das senhoriagem.
economias, a senhoriagem é com freqüência uma grande
fonte de receita do governo em economias que experimen- 8. Segundo a teoria e.conômica clássica, a moeda é neutra: a
J tam hiperinflaçào. oferta monetária não afeta as variáveis reais. Portanto, a
teoria clássica permite -nos estudar como as variáveis reais
4. A taxa de juros n ominal é a soma da taxa de juros real e da são determinadas sem qualquer referência à oferta monetá-
taxa de inflação. O efeito Fisher diz que a taxa de juros no- ria. O equilíbrio no mercado monetário determina o nível
minal acompanha paripassu a inflação esperada. de preço e, em conseqüência, todas as outras variáveis no-
5. A taxa de juros nominal é o custo de oportunidade de se reter minais. Essa separação teórica das variáveis reais e nominais
s. moeda. Assim, pode-se esperar que a demanda por moeda é chamada de dicotomia clássica.
e
i-
74 CAPfTULO 4

CONCEITOS-CHAVE
Inflação Banco central Senhoriagem
Hiperinflação Federal Reserve Taxas de juros reais e nominais
Moeda Operações de mercado aberco Equação Fisher e efeito Fisher
Reserva de valor Papel-moeda Taxas de juros reais ex ante e ex post
Unidade de conta Depósitos à vista em bancos Custo da sola de sapato
Meio de troca Equação quantitativa Custo de menu
Moeda fiduciária Velocidade de circulação da moeda Variáveis reais e nominais
Moeda-mercadoria Velocidade renda da moeda Dicotomia clássica
Padrão ouro Encaixes monetários reais Neutralidade monetária
Oferta monetária Função de demanda por moeda
Política monetária Teoria quantitativa da moeda

-
QUESTOES PARA REVISAO
-
1. Descreva as funções da moeda. 8. Relacione rodos os custos de inflação em que puder pensar, e
2. O que é moeda fiduciária? O que é moeda-mercadoria? classifique-os de acordo com a importância que você acha que
3. Quem controla a oferta monetária, e como? eles têm.
4, Escreva a equação quantitativa e explique. 9. Explique os papéis das políticas monetária e fiscal na causa e no
5. O que implica o pressuposto da velocidade constante/ término da hiperinflação.
6. Quem paga o imposto de inflação 1 10. Defina os termos "variável real" e "variável nominal", e dê um
7. Se a inflação sobe de 6 para 8%, o que acontece com as taxas de exemplo de cada.
juros reais e nominais, segundo o efeito Fisher?

PROBLEMAS E APLICAÇOES
1. Quais são as três funções da moeda? Quais das funções os itens a '
desquantidades de avião. Por que isso poderia ter sido uma arma
seguir satisfazem/ eficaz?
a. Um cartão de crédito 6. Calvin Coolidge disse certa vez que "inflação é repúdio". O que ele
b. Um quadro de Rembrandt quis dizer com isso? Você concorda? Por que sim, ou por que não?
e. Um bilhete do merrô Faz alguma diferença se a inflação é esperada ou não-esperada?
2. No país de Wiknam, a velocidade da moeda é constante. O PIB 7. Alguns historiadores econômicos observaram que, durante a época do
real cresce 5% ao ano, o estoque monetário cresce 14% ao ano, e padrão ouro, as descobertas de minas de ouro tinham mais probabili-
a taxa de juros nominal é de 11 %. Qual é a taxa de juros real? dade de ocorrer depois de um longo período de deflação. (As desco-
3. Uma matéria de jornal distribuída pela Assúciated Press, em 1994, bertas de 1896 são um exemplo.) Por que isso pode ser verdade?
informou que a economia dos Estados Unidos estava experimen- 8. Suponha que o consumo depende do nível dos encaixes monetá-
tando uma taxa de inflação baixa. Acrescentou que "a inflação rios reais (sob o fundamento de que os encaixes monetários reais
baixa tem o seu aspecto negativo: 45 milhões de beneficiários da são parte da riqueza). Mostre que, se os encaixes monetários reais
Previdência Social e de outros benefícios verão o valor de seus dependem da taxa de juros nominal, então um aumento da expan-
cheques subir apenas 2,8% no próximo ano". são monetária afeta o consumo, o investimento e a taxa de juros
a. Porque a inflação afeta a Previdência Social e outros benefícios 7 real. A taxa de juros nominal ajusta-se mais do que um-para-um
b. Esse efeito é um custo da inflação, como o artigo sugere? Por ou menos do que um-para-um à inflação esperada?
que sim, ou por que não? Esse desviada dicotomia clássica é chamado de "efeito Mundell-
4. Suponha que você esteja aconselhando um pequeno país (como T obin". Como você pode determinar se o efeito Munde\1-Tobin é
Bermudas) sobre se deve emitir sua própria moeda ou usar a moe- importante na prática?
da de um vizinho maior (como os Estados Unidos). Quais são os 9. Utilize a Internet para identificar um país que tenha sofrido uma
custos e os benefícios de uma moeda nacional? A estabilidade po- inflação elevada no último ano, e outro país que tenha tido uma
lítica relativa dos dois países tem algum papel nessa decisão? inflação reduzida. ( Dica: Um site útil é www :economist.com.) Para
5. Durante a Segunda Guerra Mundial, tanto a Alemanha quanto esses dois países, encontre a taxa de expansão monetária e o nível
a Inglaterra tinham planos para uma arma de papel: cada país im- corrente da taxa de juros nominal. Relacione suas descobertas com
primiu o papel-moeda do outro, com a intenção de lançar gran- as teorias apresentadas neste capítulo.
Apêndice

o MODELO CAGAN:
COMO A MOEDA CORRENTE E
FUTURA AFETA o NíVEL DE PREÇOS

Neste capítulo, mostramos que, se a quantidade de en- Esta equação enuncia que o nível de preços corrente p, é uma
caixes monetários reais demandada depende do custo de se média ponderada da oferta monetária atual m,e o nível de pre-
reter moeda, o nível de preços depende ao mesmo tempo da ços do próximo período P,+i · O nível de preços do próximo
oferta monetária corrente e futura . Este apêndice desenvol- período será determinado da mesma maneira que o nível de
ve o modelo Cagan, para mostrar explicitamente como isso preços no período atual:
e funciona. 15
e Para manter a matemática o mais simples possível, pressu-
pomos uma função de demanda por moeda que é linear nos
J logaritmos naturais de todas as variáveis. A função de deman-
da por moeda é
:l Agora, substitua a Equação A3 por P,+ 1 na Equação A2 para obter
m, - P, = -'Y(P,+1 - P,), (Al)

em quem, é o log da quantidade de moeda no período t, p, é o


log do nível de preços no período e 'Y é um parâmetro que de-
termina a sensibilidade da demanda por moeda à taxa de infla-
A Equação A4 enuncia que o nível de preços atual é uma mé-
ção. Pela propriedade dos logaritmos, m, - p, é o log dos encai-
dia ponderada da oferta monetária atual, a oferta monetária do
xes monetários reais e P,+1 - p,é a taxa de inflação entre o pe-
a próximo período e o nível de preços do período seguinte. Mais
ríodo t e o período t + 1. Essa equação enuncia que se a infla-
uma vez, o nível de preços em t + 2 é determinado como na
ção sobe 1%, os encaixes monetários reais caem 'Yº/o.
e Equação A2:
Estabelecemos vários pressupostos ao escrever a função de
demanda por moeda dessa maneira. Primeiro, ao excluir o ní-
vel de produto como um determinante da demanda por moe-
?=- 1 -)m 1+( I-
J da , presumimos implicitamente que o produto é constante. Pr +" ( I + 'Y 1+" +'Y -
'Y ) P1+3· (AS)
Segundo, ao incluir a taxa de inflação, em vez da taxa de juros
nominal, estamos pressupondo que a taxa de juros real seja
Agora, substitua a Equação AS na Equação A4 para obter
constante. Terceiro, ao incluir a inflação verificada, em vez da
inflação esperada, presumimos uma previsão perfeita. Todas
esses pressupostos são para manter a análise o mais simples 1 1 'Y 2
P, =- -m +
l+"y' I
1
(l+-y) "
m,+1 + (l+"y') 3
m, +2 +
possível.
s Queremos resolver a Equação Al para expressar o nível de
'Y 3
:l preços como uma função de moeda corrente e futura. Para fazê- + (] + 'Y)3 P1+3· (A6)
lo, observe que a Equação Al pode ser reescrita como

A esta altura, você percebe o padrão. Podemos continuar a usar

a
p1 = (-
l+'Y
1
) m1 + (-'Y)
l+"y'
P1 +l ·
(A2) a Equação A2 para substituir o nível de preços futuro. Se faze-
mos isso por utn número infinito de vezes, encontramos
a
3

1 ';Este modelo é extraído de Phillip Cagan, "The Monetary Dynamics of Hyperinflation", in Milton Friedrnan, ed., Srudies inche Quanliry Theory of Money (Chicago: University
of Chicago Press, 1956).
76 CAPÍTULO 4

Pi = e: e: 'Y) [mr + 'Y) mr+I + (-'Y ) Em1+1


I + 'Y

+ (-'Y-)2
1+-y
m,+2 + (-'Y-)3
1+-y
m,+3 + ···], (A7) + Y-)2 Emi+z + (-'l+-y
(-'l+'Y Y-)3 Emt +3 + ...]. (A9)
l
,,

em que ... indica um número infinito de termos análogos. De


acordo com a Equação A 7, o nível de preços corrente é uma A Equação A9 enuncia que o nível de preços depende da ofer-
média ponderada da oferta monetária atual e de todas as ofer- ta monetária corrente e das ofertas monetárias futuras espera-
tas monetárias futuras. das.
Observe a importância de"/, o parâmetro que determina a Alguns economistas utilizam esse modelo para argumentar
sensibilidade dos encaixes monetários reais à inflação. Os pe- que a credibilidade é importante para acabar com a hiperinfla-
sos das ofertas monetárias futuras declinam geometricamente, ção. Como o nível de preços depende da oferta monetária cor-
à taxa de -y/(1 + 'Y ). Se 'Y é pequeno, então -y/(1 + é peque-'Y) rente e futura esperada, a inflação depende da expansão mo-
no, e os pesos declinam rapidamente. Nesse caso, a oferta mo- netária corrente e futura esperada. Portanto, para acabar com
netária atual é o principal determinante do nível de preços. a inflação alta, tanto a expansão monetária corrente quanto a
(Com efeito, se 'Y é igual a zero, então obtemos a teoria quan- expansão monetária esperada devem cair. As expectativas, por
titativa da moeda: o nível de preços é proporcional à oferta sua vez, dependem da credibilidade - a percepção de que o
monetária corrente, e as ofertas monetárias futuras não têm a
'Y
menor importância.) Se é grande, então -y/(1 + -y) está pró-
hanco central está empenhado em uma política nova e mais
estável.
ximo de 1, e os pesos declinam lentamente. Nesse caso, as ofer-
Como um hanco central pode alcançar credibilidade no
tas monetárias futuras desempenham papel fundamental na
meio de uma híperinflação? A credibilidade é muitas vezes
determinação do nível de preços de hoje.
obtida pela remoção da causa básica da hiperinflação: a neces-
Finalmente, vamos relaxar o pressuposto da previsão perfei-
sidade da senhoriagem. Assim, com freqüência é necessária uma
ta. Se o futuro não é conhecido com certeza, então devemos
reforma fiscal digna de crédito para uma mudança da política
escrever a função de demanda por moeda como
monetária digna de crédito. A reforma fiscal pode assumir a
m, - P, = -"l(Ep, + 1 - p,), (A8) forma de redução dos gastos governamentais e de tomar o banco
central mais independente do governo. A despesa reduzida
em que EP,+ 1 é o nível de preços esperado. A Equação A8 enuncia diminui a necessidade de senhoriagem, enquanto o aumento
que os encaixes rn.onetários reais dependem da inflação esperada. da independência permite que o banco central resista às exi-
Seguindo passos similares aos precedentes, podemos mostrar que gências de senhoriagem do governo.

MAIS PROBLEMAS E APLICAÇÕES


l. No modelo de Cagan, se esperamos que a oferta monetária cresça d. Se um banco central está prestes a reduzir a taxa de expansão
a uma taxa consta meµ (para que Em,_. = m, + sµ), então a Equa- monetáriaµ mas quer manter constante o nível de preços p,, o
ção A9 pode ser mostrada para indiGH que p, = m, + -yµ. que ele deve fa:er com m,? Você percebe problemas práticos que
<1. lnterrrete o resultado. podem surgir pela adoção dessa política'
b. O que acontece com o nível de preços p,quando a oferta mo- e. Como suas respostas anteriores mudam no caso especial em
netária m, muda, mantendo-se consrnnte a taxa de expansão que a demanda por moeda não depende da taxa de inflação
monetária µ? esperada (ou seja, 'Y = ( )) ?
e. O que acontece com o ní\'el de preços p,quando a taxa de ex-
pansão monetária µ muda, mantendo-se constante a oferta de
dinheiro m,'
, -,~ " . ,, ;r ..- ~- ·r:.:

Capítulo 5

A ECONOMIA ABERTA

Nenhuma nação jamais foi arruinada pelo coméi-cio.


·-· Bt:njarnin Franklin

Mesmo que nunca deixe sua cidade natal, você é um partici- Este capítulo inicia nosso estudo sobre a macr(1economia
pante ativo de uma economia global. Quando vai ao super- com economia aberta. Começamos na Seção 5-1 com questões
mercado, por exemplo, você pode escolher entre maçãs culti- de mensuração. Para compreender como a economia aberta
vadas no seu próprio país ou uvas cultivadas no Chile. Quan- funciona, temos de entender as variáveis macroeconômicas fun-
do você faz um depós ito no banco local, o dinheiro pode ser damentais que medem as interações entre os países. As identi-
emprestado para seu vizinho, ou para uma empresa japonesa que dades de conta revelam uma percepção básica: o fluxo de bens
está construindo uma nova fábrica de automóveis nos arredo- e serviços através das fronteiras nacionais é sempre acompanha-
res de Tóquio. Como nossa economia é integrada a muitas ou- do de um fluxo equivalente de fundos financeiros para finan-
tras em todo o mundo, os consumidores têm mais bens e servi- ciar a acumulação de capital.
ços de que escolher, e os poupadores têm mais oportunidades Na Seção 5-2, examinamos os determinantes desses fluxos
de investir sua riqueza. internacionais. Desenvolvemos um modelo da economia pe-
Em capítulos anteriores, simplificamos a análise pressupon- quena aberta que corresponde ao nosso modelo de economia
do uma economia fechada. Na verdade, porém, quase todas as fechada no C ap. 3. O modelo mostra os fatores que determi-
economias são abertas: exportam bens e serviços para o exteri- nam se um país é devedor ou credor nos mercados mundiais, e
or, importam bens e serviços do exterior, tomam emprestado e como as políticas econômicas internas e externas afetam os flu-
emprestam nos mercados financeiros internacionais. A Fig. 5- xos de capital e bens.
1dá uma idéia dessas interações internacionais, ao mostrar im- Na Seção 5-3, ampliamos o modelo para examinar os pre-
portações e exportações como um percentual do PIB para sete ços aos quais um país efetua trocas nos mercados mundiais.
grandes países industriais. Como a figura mostra, as importa - Examinamos o que determina o preço dos bens internos em
ções e exportações nos Estados Unidos representam mais de relação aos bens externos. T ambém examinamos o que de-
10% do PIB. O comércio é ainda mais importante para muitos termina a taxa à qual a moeda nacional corrente é trocada
outros países: no Canadá e no Reino Unido, por exemplo, as por moedas estrangeiras. Nosso modelo mos tra como as polí-
importações e exportações constituem cerca de um terço do ticas comerciais proteci onistas - políticas destinadas a pro-
PIB. Nesses países, o comércio internacional é fundamental teger as indústrias internas da concorrência estrangeira -
para a análise dos desenvolvimentns econômicos e para a for- influenciam no montante de comércio internacional e na taxa
mulação de pol íticas econômicas. de câmbio.

5-1 OS FLUXOS INTERNACIONAIS DE CAPITAL E BENS


A diferença macroeconômica fund amental entre economia 0 PAPEL DAS EXPORTAÇÕES LÍQUIDAS
aberta e economia fechada é que, em uma economia aberta, os
gastos de um país em qualquer ano determinado não precisam Considere o gasto com o produto de bens e serviços de uma econo-
igualar sua produção de bens e serviços. Um país pode gastar mia. Em uma economia fechada, todo o produto é vendido inter-
mais do que produz ao tomar emprestado do exterior, ou pode namente. O gasto é dividido em crês componentes: consumo, in-
gastar menos do que produz e emprestar a diferença a estran- vestimento e compras do governo. Em uma economia aberta, uma
geiros. Para compreender isso mais plenamente, analisaremos parte do produto é vendido internamente, e outra parte é exporta-
de novo a conta da renda nacional, de que tratamos primeiro da, para ser vendida no exterior. Podemos dividir o gasto de um
no Cap. 2. produto Y de uma economia aberta em quatro componentes:
78 CAPITULO 5

Percentual 40
do PIB
35

30

25

20

15

10

o
Canadá França Alemanha Itália Japão Reino EUA
1m portações Exportações Unido

Fig. 5-1 Importações e Exportações como Percentual do Produto: 2000 Embora o comércio internacional seja importante para os Estados
Unidos, é ainda mais vital para os outros países .
Fonte. OCDE .

> C·l, o consumo de bens e serviços internos, Y = C + I + G + EX - IM.


> I•\ o investimento em bens e serviços internos,
Como o gasto em importações está incluído no gasto interno
> G ·', as compras do governo de bens e serviços internos,
( C + I + G), e corno os bens e serviços importados do exterior
> EX , as exportações de bens e serviços internos.
não são parte do produto de um país, essa equação subtrai os
A divisão do gasto nesses componentes é expressa na identidade gastos em importações. Definindo-se exportações líquidas
y = C 1 + I" + G·1 + EX. como exportações menos importações (NX = EX - IM), a
identidade torna-se
A soma dos três primeiros termos, C 1 + I" + G", é o gasto in-
terno em bens e serviços internos. O quarto termo, EX, é o gasto Y =C + l + G - NX.
externo em bens e serviços internos. Esta equação enuncia que o gasto em produção interna é a soma
Queremos agora tomar essa identidade mais útil. Para fazê-lo, de consumo, investimento, compras do governo e exportações
observe que o gasto interno em todos os bens e serviços é a soma líquidas. É a forma mais comum da identidade da conta nacio-
do gasto interno em bens e serviços internos e do gasto interno nal; deve ser bem conhec ida, do Cap. 2.
em bens e serviços externos. Assim, o consumo total C é igual ao A identidade da conta da renda nacional mostra como a
consumo dos bens e serviços in temos C'1mais o consumo de bens produção interna, o gasto interno e as exportações líquidas es-
e serviços externos C'; o investimento torai I é igual ao investi- tão relacionadas. Em particular,
mento em bens e serviços internos I" mais o investimento em bens
e serviços externos Jt; e as compras totais do governo G são iguais NX= y - (C + I + G)
às compras do governo de hens e serviços internos G" mais as com- Exportações Líquidas = Produto - Gasto Interno.
pras do governo de bens e serviços externos G' . Assim, Esta equação mostra que, em uma economia aberta, o gasto in-
C = CI + C', terno não precisa ser igual à produção de bens e serviços. Se o
I = JJ + I1, produto excede o gasto interno, exportamos a diferença: as exporta-
G= G .t + G 1• ções líquidas são positivas. Se o produto fica aquém do gasto interno,
importamos a diferença: as exportações líquidas são negativas.
Substituímos essas três equações na identidade acima:
Y = (C - C') + (1 - I') + (G - G 1) + EX.
FLUXOS DE CAPITAL INTERNACIONAL E A
Podemos rearrumar para obter BAIANÇA COMERCIAL
Y= C + I + G + EX - (C" + fi + G 1).
Em uma economia aberta, tal como na economia fechada que
A soma do gasto interno em bens e serviços externos (Cf + examinamos no Cap. 3, os mercados financeiros e os mercados
I' + Gf) é o gasto em importações (IM). Podemos assim escre- de bens estão estreitamente relacionados. Para entender essa
ver a identidade das contas nacionais como relação, devemos reescrever a identidade da conta de renda
A ECONOMIA ABERTA 79

nacional em termos de poupança e investimento. Comece com Fluxo Líquido


a identidade de Capital para o Exterior = Balança Comercial
Y = C + I + G + NX.
S- I = NX.
Se S - I e NX são positivos, temos um superávit comercial.
Subtraia C e G dos dois lados para obter
Nesse caso, somos credores líquidos nos mercados financeiros
Y- C - G = I + NX. mundiais, e estamos exportando mais bens do que importamos.
Se S - l e NX são negativos, temos um déficit comercial. Nesse
Lembre-se, do Cap. 3, que Y - C - G é a poupança nacional
caso, somos devedores líquidos nos mercados financeiros mun-
S, a soma da poupança privada, Y - T - C, e da poupança diais, e estamos importando mais bens do que exportamos. Se
pública, T - G. Portanto,
S - I e NX são exatamente zero, temos um comércio equili-
S = I + NX. brado, porque o valor das importações é igual ao valor das ex-
portações.
Subtraindo I dos dois lados da equação, podemos escrever a A identidade das contas da renda nacional mostra que o fluxo
identidade da conta da renda nacional como internacional de fundos para financiar a acumulação de capital e o
S - I = NX. fluxo internacional de bens e serviços são os dois lados da mesma
moeda. Por um lado, se a poupança supera o investimento, a
Essa forma da identidade da conta da renda nacional mostra poupança que não é investida internamente passa a ser usada
fos que as exportações líquidas de uma economia devem sempre para efetuar empréstimos a estrangeiros. O s estrangeiros reivin-
igualar a diferença entre sua poupança e seu investimento. dicam esses empréstimos porque estamos lhes proporcionando
Examinaremos mais atentamente cada parte dessa identi- mais bens e serviços do que eles nos proporcionam. Ou seja,
dade. A parte fácil é o lado direito, NX, que é nossa exporta- estamos tendo um superá vir comercial. Por outro lado, se o in-
ção líquida de bens e serviços. Outro nome para exportações vestimento supera a poupança, é preciso financiar o investimen-
líquidas é balança comercial, porque nos diz como o comércio to extra tomando emprestado do exterior. Esses empréstimos
de bens e serviços se afasta do ponto de referência de importa- externos nos permitem importar mais bens e serviços do que
no ções e exportações iguais. exportamos. Ou seja, estamos com um déficit comercial. A
tor O lado esquerdo da identidade é a diferença entre poupança Tabela 5-1 sintetiza essas idéias.
os interna e investimento interno, S - I, que chamaremos de flu- Cabe ressaltar que o fluxo internacional de capital pode
.as xo líquido de capital para o exterior. (Este é às vezes chamado assumir muitas formas. É mais fáci l presumir - como fizemos
·ª de investimento externo l(quido.) Se o fluxo líquido de capital é até aqui - que os estrangeiros nos fazem empréstimos quan-
positivo, a poupança excede o investimento, e emprestamos o do temos um déficit comercial. Isso acontece, por exemplo ,
superávit para estrangeiros. Se o fluxo líquido de capital é nega- quando os japoneses compram as dívidas de empresas dos
tivo, o investimento excede a poupança, e financiamos esse in- Estados Unidos ou do governo norte-americano. Mas o fluxo
na vestimento extra tomando emprestado do exterior. Assim, o fluxo de capital pode também assumir a forma de estrangeiros com-
,es
de saída de capital líquido é igual ao montante que os residentes prando ativos internos, como ocorre quando um cidadão da
o- internos estão emprestando no exterior menos o montante que Alemanha compra ações de um americano na Bolsa de Valo-
os estrangeiros estão nos emprestando. Isso reflete o fluxo inter- res de Nova York. Estejam comprando dívida de emissão in-
,a
nacional de recursos para financiar a acumulação de capital. terna ou ativos de propriedade interna, os estrangeiros estão
!S•
A identidade da conta da renda nacional mostra que o flu - obtendo um direito aos retornos futuros de capital interno.
xo líquido de capital para o exte rior é sempre igual à balança Nos dois casos, os estrangeiros acabam possuindo uma parte
comercial. Ou seja, do capital realizado interno.

n-
o
a-
O, TABELA 5-1 Fluxos Intemacioruús de Bens·e Capital: Resumo
Esta tabela mostra os três resultados que uma economia aberta pode expertmentar.
Superávit Comercial Comércio Equilibrado Déficit Comercial
Exportações > Importações Exportações =:e Importações Exportações< Importações
Export.ações Líquidas > O Exportações Líquidas =:e O Exportações Líquidas < O
ie Y>C+I+G Y-C+I+G Y<C+I+G
)S
Poupança > Investimento Poupança = Investimento Poupança < Investimento
Fluxo Líquido de Capital Fluxo Liquido de Capital Fluxo Líquido de Capital
;a para o Exterior > O para o Exterior =:e O para o Exterior < O
la
80 CAPÍTULO 5
r
SA15,AMA,[S
Flnxos-Intemadonais de Bens e Capital: Um Exemplo
A igualdade de exportações líquidas e fluxo líquido de capital Situação oposta ocorre no Japão. Quando o consumidor
para o exterior é uma identidade: deve manter-se pela maneira japonês compra uma cópia do sistema operacional Windows,
como os números são somados. Mas é fácil deixar de registrar a as compras de bens e serviços ( C + I + G) do Japão sobem,
intuição que há por trás dessa importante relação. A melhor mas não há mudança no que o Japão produziu (Y). A tran-
maneira de compreendê-la é por meio de um exemplo. sação reduz a poupança do Japão (S = Y - C - O) por um
Imagine que Bill Gates venda uma cópia do sistema determinado nível de investimento (I). Enquanto os Esta-
operacional Windows a um consumidor japonês por 5.000 dos Unidos experimentam um fluxo líquido de capital para
ienes. Como sr. Gates é residente nos Estados Unidos, a o exterior, oJapão experimenta um fluxo líquido de capital
venda representa uma exportação dos Estados Unidos. Tudo do exterior.
o mais constante, as exportações líquidas norte-americanas Agora, vamos mudar o exemplo. Suponhamos que, em
sobem. O que mais acontece para sustentar a identidade? De - vez de investir 5.000 ienes em um ativo japonês, sr. Gates
pende do que sr. Gates faz com os 5.000 ienes. usa a quantia para comprar alguma coisa fabricada no Ja-
Suponha que sr. Gates decida guardar os 5.000 ienes pão, como um walkman da Sony. Nesse caso, as importa-
debaixo do colchão. Nesse caso, ele reservou uma parte de ções dos Estados Unidos sobem. Juntas, a exportação do
sua poupança para um investimento na economia japonesa Windows e a importação do walkman representam um
(em forma de moeda japonesa), em vez de um investimen- comércio equilibrado entre Japão e Estados Unidos. Como
to na economia norte-americana. Assim, a poupança nor- as exportações e as importações aumentam igualmente, as
te-americana excede o investimento norte-americano. O au- exportações líquidas e o fluxo líquido de capital se man-
mento das exportações líquidas dos Estados Unidos é acom- têm inalterados.
panhado de um aumento no fluxo líquido de capital para o Uma possibilidade final é que sr. Gates troque seus 5.000
exterior dos Estados Unidos. ienes por dólares americanos em um banco local. Mas isso
Se o sr. Gates quer investir no Japão, no entanto, é im- não muda a situação: o banco agora tem de fazer alguma coisa
provável que faça da moeda japonesa seu ativo escolhido. com os 5.000 ienes. Pode comprar ativos japoneses (um flu-
Ele pode usar os 5.000 ienes para comprar algumas ações da xo de saída de capital líquido dos Estados Unidos); pode
Sony Corporation, por exemplo, ou pode comprar um títu- comprar um bem japonês (uma importação americana); ou
lo emitido pelo governo japonês. Em qualquer caso, uma pode vender os ienes para outro norte-americano que quei-
parte da poupança norte-americàna está fluindo para o ex- ra efetuar essa transação. Se você acompanha a moeda, pode
terior. Mais uma vez, o fluxo líquido de capital para o exte- constatar que, no final, as exportações líquidas norte-ame-
rior dos Estados Unidos é exatamente igual às exportações ricanas devem igualar o fluxo líquido de capital para o ex-
líquidas norte-americanas. terior dos Estados Unidos.

5-2 POUPANÇA E INVESTIMENTO EM UMA


ECONOMIA ABERTA PEQUENA
Até aqui, em nosso exame dos fluxo s internacionais de bens MOBILIDADE DE CAPITAL E A
e capital, apenas reformulamos identidades de conta . Ou
seja, definimos algumas variáveis que mensuram transações
TAXA DE JUROS INTERNACIONAL
em uma economia aberta, e demonstramos as relações en- Lúgo apresentaremos um modelo dos fluxos internacionais de
tre essas variáveis decorrentes de suas definições . Nosso pró- bens e capital. Como a balança comercial é igual ao fluxo lí-
ximo passo é desenvolver um modelo que explique o com- quido de capital, que por sua vez é igual a poupança menos in-
portamento dessas variáveis. Poderemos então utilizar o vestimento, o modelo enfoca a poupança e o investimento. Para
modelo para responder a perguntas tais como a maneira pela desenvolver esse modelo, tomamos alguns elementos que de-
qual a balança comercial reage a mudanças da política eco- vem ser bem conhecidos, do Cap. 3; mas, em contraste com o
nômica. modelo do Cap. 3, não pressupomos que a taxa de juros real
f
A ECONOMJ A ABERTA 81

equilibre poupança e investimento. Em vez disso, permitimos > O investimento I é negativamente relacionado com a taxa
que a economia tenha um déficit comercial e tome empresta- de juros real r. Escrevemos a função investimento como
do de outros países, ou que tenha um superávit comercial e I = I(r).
empreste a outros países.
Se a taxa de juros real não se ajusta para equilibrar poupan- Essas são as três partes fundamentais do nosso modelo. Se você
ça e investimento nesse modelo, o que a determina? Respon- não compreende essas relações, revise o Cap. 3 antes de pros-
demos a esta pergunta, aqui, pela consideração do caso simples seguir.
de uma economia aberta pequena, com perfeita mobilidade de Podemos agora voltar à identidade das contas nacionais e
capital. Com "pequena" estamos querendo dizer que a econo- escrevê -la como
mia é uma pequena parte do mercado mundial. Ou seja, por si NX = (Y - C - G) - I
mesma, só pode ter um efeito insignificante n a taxa de juros NX=S-I.
mundial. Com "perfeita mobilidade de capital" estamos que-
rendo dizer que os residentes do país têm pleno acesso aos mer- Suhstituindo os três pressupostos do Cap. 3 e a condição de que
cados financeiros mundiais. Em particular, o governo não im- a taxa de juros iguale a taxa de juros internacional, obtemos
pede a tomada nem a concessão de empréstimos internacionais.
Por causa desse pressuposto de perfeita mobilidade de capi- NX = [Y - C( Y- T) - GJ - I(r *)
tal. a taxa de juro, em nossa economia aherra pequena, r, deve s - f(r*).
igualar a taxa de juros internacional r*, a taxa de juros real Esta equação mostra o que determina a po upança Se o inves-
preva lecente nús mercados financeiros mundiais: timento 1- e, assim, a balança comercial NX. Lembre-se de
r = r*. que a poupança depende da política fiscal: as compras do go-
verno G mais baixas ou impostos T mais altos aumentam a
Os re5ident es da economia aberta pequena nunca precisam poupança nacional. O investimento depende da taxa de ju-
rumar emprestado a uma taxa de juros acima der*, porque sem- ros real internacional r*: taxas de juros elevadas fazem com
pre podem ohter um empréstimo a r* do exterior. Da mesma que alguns projetos de investimentos não sejam lucrativos.
maneira. o~ residentes dessa economia nunca precisam empres- Portanto, a balança comercial depende também dessas variá -
tar a qu,lk1uer taxa abaixo der*, porque sempre podem ganhar veis.
r* emprestando para o exterior. Ass im, a taxa de juros interna- No Cap. 3, representamos graficamente poupança e inves-
cional determina a rnxn de juros em nossa economia aberta pe- timento como na Fig. 5-2. Na economia fechada estudada na-
quena. quele capítulo, a taxa de juros real ajusta-se para equilibrar
Examinaremos por um momento o que determina a taxa de poupança e investimento - ou seja, a taxa de juros real é
jums real intemacional. Em uma economia fechada, o equilíbrio encontrada no ponto em que as curvas de poupança e investi-
entre poupança intema e investimento interno detennina a taxa mento se cruzam. Na economia aberta pequena, no entanto, a
de juros. Excetu,mdu o comércio interplanetário, a economia taxa de juros real iguala a taxa de juros real internacional. A
mundia l é um,i ecnnomia fechada. Portanto, o equilíbrio entre balança comercial é determinada pela diferença entre poupança e
poupança internacinnal e ilwestimento intem.acional determi - investimento à taxa d.e juros internacional.
na a taxa de juros internac ional. N ossa economia aherta peque- A essa altura, você pode especular sobre o mecanismo que
na tem um efeirn imignificante na taxa de juros internacional, faz com que a balança comercial iguale o fluxo líquido de capi-
porque, ,endu .1penas uma parte mínima do mundo, tem um efei- tal. Os determinantes dos flu xos de capital são fáceis de com-
to insignificmte na poupança e no investimento internacionais. preender. Quando a poupança fica aquém do investimento, os
Portanto, nussa ecot1l)J11ia aberta pequena assume a taxa de ju- investidores tomam emprestado do exterior; quando a poupança
ros intern~1cinnal cnmo um dado exógeno. excede o investimento, o superávit é emprestado a outros paí-
ses. Mas o que faz com que as pessoas que importam e expor-
tam se comportem de uma maneira que garanta que o fluxo
0 MODELO internac ional de bens tenha um equilíbrio exato com o fluxo
Para construir o modelo da economia aberta pequena, assumi- internacional de capital? Por ora, deixaremos essa indagação
mos três pressupostos dn Cap. 3: sem resposta. Mas voltaremos a tratar do assunto na Seção 5-
3, quando estudarmos a determinação das taxas de câmbio.
> O produto da economia Y é fixado pelos fatores de pro-
dução e pela função de produção. Escrevemos isso como
COMO AS POLÍTICAS ECONÔMICAS
Y= V = F( K, I). INFLUENCIAM A BALANÇA COMERCIAL
> O consumo C é positivamente relacionado com a renda Suponha que a economia comece em uma posição de comér-
disponível Y = T. Escrevemos a função consumo como cio equilibrado. Ou seja, à taxa de juros internacional, o inves -
C = C(Y- T). timento I iguala a poupança S, e as exportações líquidas NX
82 CAPITULO 5
r
Taxa de juro
real, r Superdvit 5
comercial

r* ........ . . . .
"'
NX

Taxa de
juros
internacional

Taxa de
juros se a
economia
fo sse fechada
Investimento, Poupança, /, S

Fig. 5-2 Poupança e Investimento em uma Economia Aberta Pequena Numa economia fe chada, a taxa de juros real ajusta-se para equili-
brar poupança e investimento. Em uma economia aberta pequena, a taxa de juros é determinada nos mercados financeiros mund iais. A diferença
entre poupança e investimento determina a balança comercial. Aqui, hâ um superávit comercial. porque a poupança excede o investimento à taxa
de juros internacional.

são iguais a zero. U tilizaremos nosso modelo para prever os efei- te fisca l vai para a poupança privada, mas a poupança pública
tos de políticas do governo no país e no exterior. cai na quantidade correspondente ao corte fiscal; no total, a
poupança diminui.) Como NX = S - I, a redução da poupan-
Política Fiscal Interna Consideremos primeiro o que acon- ça nac ional, por sua vez, diminui NX.
tece com a economia aberta pequena se o governo expande os A Fig. 5-., ilustra esses efeitos. Uma mudança da política
gastos internos pe lo aumento das compras do governo. O au- fiscal que aumenta o consumo pri vado C ou o consumo públi-
mento de G reduz a poupança nacional, porque S = Y - C - co G reduz a poupança nacional (Y - C - G); assim , desloca
G. Com uma taxa de juros real internacional constante, o in- a curva vertical que representa a poupança de S1 para S2• Como
vestimento permanece o mesmo. Portanto, a poupança cai NX é a distância entre a curva de poupança e a curva de inves -
abaixo do investimento. Algum investimento deve agora ser timento, à taxa de juros internacional, esse deslocamento re-
financiado pela t omada de empréstimos no exterior. Como duz NX. Por isso, partindo do comércio equilibrado, uma mudança
NX = S - I, a diminuição de S acarreta uma queda de NX. A da política fiscal que reduz a poupança nacional leva a um déficit
economia passa a ter um déficit comercial. comercial.
A mesma lógica aplica-se a uma redução nos impostos. Um
corte fiscal diminui T, aumenta a renda disponível Y - T , es- Política Fiscal Externa Consideremos agora o que aconte-
timula o consumo e reduz a poupança nacional. (Parte do cnr- ce com uma economia aberta pequena quando governos es-

Taxa de juros 2 . ... mas quando


real, r s, uma expansão
fiscal reduz a
poupança ...

1. Esta economia
parte do comércio
equilibrado, ...
,.... ..... ... .... -~,- - / . . ' .. . . .. ..... .. .. .. . . .

3 . ... o resultado
é um déficit
comercia./.
Investimento, Poupança, //S

Fig. 5-3 Uma Expansão Fiscal Interna em uma Economia Aberta Pequena Um aumento das .compras do governo ou uma redução dos im-
postos diminui a poupança nacional, e com isso desloca a curva de poupança para a esquerda, de S 1 para S,. O resultado é um déficit comercial.
r
A ECONOMIA ABERTA 83

trangeiros aumentam suas compras de governo. Se esses paí- tos, proporcionando créditos fiscais a todo investimento. A
ses são uma parte pequena da economia mundial, então sua Fig. 5-5 ilustra o impacto de um deslocamento da curva de
mudança fiscal tem um impacto insignificante em outros pa- investimento. A uma dada taxa de juros internacional, o
íses. Mas, se os outros países representam uma parte grande investimento é agora maior. Como a poupança permanece
da economia mundial, o aumento das compras de governo constante, parte do investimento deve ser financiado por
reduz a poupança internacional e faz com que a taxa de juros empréstimos do exterior, o que significa que o fluxo líquido
internacional suba. de capital é negativo. Em termos diferentes, como NX = S
O aumento na taxa de juros internacional eleva o custo de - I, o aumento de I implica uma redução em NX. Por isso,
contrair empréstimo. Assim, reduz o investimento em nossa um deslocamento da curva de investimento para a direita causa
economia aberta pequena. Como não houve alteração na pou- um déficit comercial.
pança interna, a poupança S agora supera o investimento I; e
urna parte da nossa poupança começa a ir para o exterior. Como AVALIANDO A POLÍTICA ECONÔMICA
NX = S - I, a redução em 1 deve também aumentar NX. As-
sim, a redução da poupança externa leva a um superávit comer- Nosso modelo da economia aberta mostra que o fluxo de bens
cial interno. e serviços, medido pela balança comercial, está ligado de modo
A Fig. 5-4 ilustra como uma economia aberta pequena, par- inextricável ao fluxo internacional de fundos para a acumula-
tindo do comércio equilibrado, reage a uma expansão fiscal ção de capital. O fluxo líquido de capital para o exterior é a
externa. Como a mudança de política econômica está ocorren- diferença entre a poupança interna e o investimento interno.
do no exterior, as curvas de poupança interna e investimento Assim, o impacto das políticas econômicas na balança comer-
interno permanecem as mesmas. A única mudança é um au- cial pode sempre ser encontrado pelo estudo do impacto na
poupança interna e no investimento interno. Políticas que
mento na taxa de juros internacional, de Ti• para r2• • A balan-
aumentam o investimento ou diminuem a poupança tendem a
ça comercial é a diferença entre as curvas de poupança e in-
causar um déficit comercial, e políticas que diminuem o inves-
vestimento; como a poupança supera o investimento em r.' , timento ou aumentam a poupança tendem a causar um supe-
há um superávit comercial. Por isso, um aumento da taxa de j~- rávi t comercial.
ros internacional , em decorrência de uma expansão fiscal no exteri- Nossa análise da economia aberta tem sido positiva, não
or, leva a um superávit comercial. normativa . Ou seja, a análise da maneira como as políticas
econômicas influenciam os fluxos internacionais de bens e
Mudanças na Demanda por Investimento Considere - capital não nos disse se essas políticas são desejáveis. A avali-
mos o que acontece com nossa economia aberta pequena se ação das políticas econômicas e seu impacto na economia aberta
a curva de investimento se desloca para a direita, ou seja, se é assunto de freqüentes debates entre economistas e formula-
a demanda por bens de investimento aumenta, a qualquer dores de política econômica.
taxa de juros. Essa mudança ocorreria, por exemplo, se o Quando um país tem um déficit comercial, os formuladores
governo mudasse as leis fiscais para estimular os investimen- de política econômica devem enfrentar uma questão: se isso re-

Taxa de juros
real, r s
2 . ... reduzo
investimento e
leva a um
superdvit
comercial.
1. Um
r*
aumento 2
da taxa ---t
de juros r"
1
interna-
dona/...

Investimento, Poupança, 11 S
Fig. 5-4 Uma Expansão Fiscal no Exterior em uma Economia Aberta Pequena Uma expansão fiscal em uma economia externa bastante.
grande para influenciar a poupança e o investimento internacionais eleva a taxa de juros internacional de r; para r;. A taxa de juros internacional
mais alta reduz o investimento nessa economia aberta pequena. causando um superávit comercial.
84 CAPÍTULO 5
r
Taxa de juros
real, r s

1. Um aumento
na demanda
por investimento .. .

2 . ... leva a um
déficit comercial.

r*

Investimento, Poupança,/, 5

Fig. 5.5 Um Deslocamento da Curva de Investimento em uma Economia Aberta Pequena Um deslocamento para a direita da curva de
investimento, de I(r) , para J(r);, aumenta a quantidade de investimento à taxa de juros internacional r*. Em conseqüência. o investimento agora
excede a poupança, o que significa que a economia está tomando emprestado do exterior e tendo um déficit comercial.

presenta um problema nacional. A maioria dos economistas Os déficits comerciais, no entanto, nem sempre são um refle-
considera que um déficit comercial não é um problema em si, xo de enfermidade econômica. Quando economias rurais pobres
mas talvez o sintoma de um problema. Um déficit comercial se desenvolvem, tomando-se modernas economias industriais,
pode ser um reflexo de uma poupança baixa. Em uma econo, às vezes financiam seus altos níveis de investimento com emprés-
mia fechada, a poupança baixa leva a baixo investimento e a timos externos. Nesses casos, os déficits comerciais são um sinal
um estoque de capital futuro menor. Em uma economia aber- de desenvolvimento econômico. Por exemplo, a Coréia do Sul
ta, a poupança baixa leva a um déficit comercial e uma cres- teve vultosos déficits comerciais ao longo da década de 1970, e
cente dívida externa, que eventualmente terá de ser paga. Nos tomou-se uma das histórias de sucesso de crescimento econômi-
dois casos, o elevado consumo corrente leva a um consumo co. A lição é que não se pode julgar o desempenho econômico
futuro menor, fazendo com que as gerações futuras arquem com apenas pela balança comercial. Em vez disso, devem-se procurar
o fardo da poupança nacional baixa. as causas básicas dos fluxos internacionais.

ESTUDO DE CASO ~ - - - - - - - - - - - - - - .
0 DÉFICIT COMERCIAL DOS ESTADOS UNIDOS podemos esquecer que o déficit comercial é a diferença entre
Durante as décadas de 1980 e 1990, os Estados Unidos tive - poupança e investimento.
ram enormes déficits comerciais. O gráfico (a) da Fig. 5-6 do- O começo do déficit comercial coincidiu com uma queda
cumenta essa experiência, mostrando as exportações líquidas da poupança nacional. Essa ocorrência pode ser explicada pela
como um percentual do PIB. O tamanho exato do déficit co- política fiscal expansionista da década de 1980. Com o apoio
mercial oscilou ao longo do tempo, mas foi considerável du- do presidente Reagan, o Congresso dos Estados Unidos apro-
rante essas duas décadas. Em 2000, o déficit comercial era de vou, em 1981, uma legislação que reduzia substancialmente o
$371 bilhões, ou 3,7% do PIB. Como as identidades das con- imposto de renda de pessoas físicas, ao longo dos três anos se-
tas nacionais exigem, esse déficit comercial tem de ser financi, guintes. Como esses cortes fiscais não foram acompanhados de
ado por empréstimos do exterior (ou, de modo equivalente, pela cortes correspondentes nos gastos do governo, o orçamento
venda de ativos dos Estados Unidos no exterior) . Durante esse federal tornou-se deficitário. Esses déficits orçamentários figu,
período, o país passou de maior credor do mundo para o maior raram entre os maiores já experimentados em período de paz e
devedor do mundo . prosperidade, e continuaram muito depois que Reagan deixou
O que causou o déficit comercial dos Estados Unidos? Não a presidência. De acordo com o nosso modelo, essa política
há uma explicação isolada. Mas, para compreender algumas das econômica deve reduzir a poupança nacional, causando assim
forças em ação, ajuda examinarmos a poupança e o investimen- um déficit comercial. E, na verdade, foi exatamente o que acon-
to internos, como é mostrado no gráfico (b) da figura. Não teceu. Como o orçamento do governo e a balança comercial
A ECONOMIA ABERTA 85

(a) Balança Comercial dos EUA


Percentual 2
do PIB
Superávít

-1 l)\
-2
\./ / \
Déficit Balança comercial ~
-3

-4

-5 '-~~----'---~~~.L.._~~-----'-~~~-'-~~----L~~~...,_~~--'~~~--'--
e 1960 1965 1970 1975 1980 1985 1990 1995 2000
a Ano

(b) Poupança e Investimento nos EUA


Percentual 20
s do PIB
19
18
;;
/':
~ ;
17 l
t
16
15
)

r 14
Poupança /
13

12
11
1
10
19 60 1965 1970 1975 1980 1985 1990 1995 2000
Ano

Fig 5.6 Balança Comercial, Poupança e Investimento: A Experiência dos Estados Unidos O gráfico (a) mostra a balança comercial como
um percentual do PIB Os números positivos representam um superávit, e os números negativos representam um déficit. O gráfico (b) mostra a
poupança e o investimento nacionais como um percentual do PIB desde 1960, A balança comercial é igual a poupança menos investimento.
Fome: U. S. Department of Commerce.

tomaram-se deficitários, mais ou menos na mesma ocasião, esses nal da década de 1990, elevou as rendas, aumentando ainda
problemas foram chamados de défiws gêmeos. mais a receita fiscal. Essas mudanças transformaram o orçamen-
As coisas começaram a mudar na década de 1990, quando o to federal norte-americano de deficitário em superavitário, o
governo federal dos Estados Unidos tratou de reparar o proble- que, por sua vez, elevou a poupança nacional.
ma fiscal. O primeiro presidente Bush e o presidente Clinton Em contraste com o que o nosso modelo prevê, o aumento
assinaram leis de aumento de impostos, ao mesmo tempo em da poupança nacional não coincidiu com uma redução do dé-
que o Congresso tratava de conter os gastos. Além dessas mu- ficit comercial, porque o investimento interno subiu ao mes-
danças políticas, um rápido aumento da produtividade, ao fi- mo tempo. A explicação provável é que a súbita difusão da
---
86 CAPITULO 5
l'
tecnologia da comunicação causou uma mudança expansionista A história do déficit comercial dos Estados Unidos mostra
na função investimento dos Estados Unidos. Embora a políti- que essa estatística, por si só, não nos diz muito sobre o que está
ca fiscal já estivesse pressionando o déficit comercial para o su- acontecendo na economia. Temos de examinar mais a fundo a
perávit, o crescimento do investimento foi uma força ainda poupança, o investimento e as políticas econômicas e eventos
maior, pressionando a balança comercial para o déficit. que fazem com que ambos mudem ao longo do tempo.

5-3 TAXAS DE CÂMBIO


Depois de examinar os fluxos internacionais de capital e de ( 120 ienes /dólar) X
bens e serviços, vamos agora ampliar a análise, considerando Taxa de Câmbio (10.000 dólares/Carro Americano)
os preços aplicados a essas transações. A taxa de câmbio entre Real (2.400.000 ienes/Carro Japonês)
dois países é o preço ao qual os residentes desses dois países
efetuam transações uns com os outros. Nesta seção, exami-
=0 5
Carro japonês
naremos primeiro o que exatamente a taxa de câmbio mede, ' Carro Americano
e depois verificaremos como as taxas de câmbio são determi-
A esse preço e essa taxa de câmbio, obtemos metade de um carro
nadas.
japonês por carro americano. Em termos mais gerais, podemos
escrever esse cálculo como
TAXAS DE CÂMBIO NOMINAL E REAL
Taxa de Câmbio Nominal X
Os economistas distinguem entre duas taxas de câmbio: a taxa
Taxa de Câmbio Preço do Bem Doméstico
de câmbio nominal e a taxa de câmbio real. Analisaremos uma
de cada vez e verificaremos como se relacionam entre si. Real Preço do Bem Estrangeiro
A taxa à qual trocamos os bens estrangeiros e nacionais depende
A Taxa de Câmbio Nominal A taxa de câmbio nominal é o dos preços nas moedas locais e da taxa a que essas moedas são
preço relativo das moedas de dois países. Por exemplo, se a taxa trocadas.
de câmbio entre o dólar americano e o iene japonês é de 120 Esse cálculo da taxa de câmbio real por um único bem suge-
ienes por dólar, você pode trocar um dólar por 120 ienes nos re como devemos definir a tax.a de câmbio real para uma cesta
mercados mundiais de câmbio. Um japonês que quisesse obter de bens mais ampla. Sejam e a taxa de câmbio nominal (o nú-
dólares pagaria 120 ienes para cada dólar que comprasse. Um mero de ienes por dólar), P o nível de preços dos Estados Uni-
americano que quisesse obter ienes receberia 120 ienes para dos (medido em dólares) e P* o nível de preços do Japão (me-
cada dólar. Quando as pessoas se referem à "taxa de câmbio" dido em ienes). Então, a taxa de câmbio real E é
entre dois países, em geral estão falando da taxa de câmbio no-
minal. Taxa de Taxa de Proporção de
Câmbio = Câmbio X Níveis
Real Nominal de Preço
A Taxa de Câmbio Real A taxa de câmbio real é o preço
relativo dos bens de dois países. Ou seja, a taxa de câmbio real
E = e X (P/P* ).
indica a taxa à qual podemos trocar bens de um país por bens A taxa de câmbio real entre dois países é calculada a partir da
de outro. A taxa de câmbio real é às vezes chamada de termos taxa de câmbio nominal e dos níveis de preços dos dois países.
de troca. Se a taxa de câmbio real é elevada, os bens estrangeiros são relari-
Para compreender a relação entre as taxas de câmbio real e vamente baratos, e os bens domésticos são relativamente caros. Se
nominal, considere um único bem produzido em muitos paí- a taxa de câmbio real é baixa, os bens estrangeiros são relatit•amen-
ses: carros. Suponha que um carro americano custe $10.000, te caros, e os bens domésticos são relativamente baratos.
enquanto um carro japonês similar custe 2.400.000 ienes. Para
comparar os preços dos dois carros, devemos convertê-Los em
A TAXA DE CÂMBIO REAL E A BALANÇA
uma moeda comum. Se um dólar vale 120 ienes, então o carro
americano custa 1.200.00 ienes. Comparando ó preço do car- COMERCIAL
ro americano (1.200.000 ienes) e o preço do carro japonês Qual a influência macroeconômica da taxa de câmbio real? Para
(2.400.000 ienes), concluímos que o carro americano custa responder a essa pergunta, lembre-se de que a taxa de câmbio
metade do que custa o carro japonês. Em outras palavras, aos real nada mais é que um preço relativo. Assim como o preço
preços correntes, podemos trocar dois carros americanos por um relativo de hambúrgueres e pizzas determina o que você esco-
japonês. lhe para almoçar, o preço relativo dos bens internos e externos
Podemos resumir nosso cálculo da seguinte maneira: afeta a demanda desses bens.
A ECONOMIA ABERTA 87

·a

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-~--,-/,;;,t. :;:,.,'.;".·;·,
:~~ :~ ~'.:l ~~~:• ~:~
.1 .. "•i", •'"!· r • ·. ·•, i.
.: 4e·~bl~·-
lS f. •

Você pode encontrar informações sobre as taxas de câmbio sempre expressa a taxa de câmbio em unidades de moeda
_J nominais todos os dias em muitos jornais. Aqui está como corrente estrangeira por dólar.
essas taxas são apresentadas no Wall Street]oumal. A taxa de câmbio nessa quinta-feira, de 116,29 ienes por
Observe que cada taxa de câmbio é informada de duas dólar, estava abaixo da taxa de 117 ,67 ienes por dólar do dia
maneiras. Na quinta-feira do anúncio, um dólar comprava anterior. Essa queda na taxa de câmbio é chamada de desva-
116,29 ienes, e um iene comprava 0,008599 dólar. Podemos lorização do dólar; um aumento na taxa de câmbio é chama-
dizer que a taxa de câmbio é de 116,29 ienes por dólar, ou do de valorização. Quando a moeda doméstica se desvalori-
podemos dizer que a taxa de câmbio é 0,008599 dólar por za, compra menos da moeda estrangeira; e quando se valo-
iene. Como 0,008599 é igual a 1/116,29, as duas maneiras riza, compra mais.
de expressar a taxa de câmbio são equivalentes. Este livro

CURRENCYTRADING
o Thursday, September 20, 2001 U.S. $ EOIIIV. CURREMCY 1'1:R U.S. $
)S Thu Wad Thu Wed
EXCHANGE RATES Count~
The. foreign exchange mid-range rates be.low apply to trading Japan ) .008599 .008498 116.29 117.57
amoi,g ba11ks ln amounts of $1 mil!iori and more , as quoted at 1-mon1h forward .008618 .008517 116.04 117.41
4 p.m. Ei1Stern time by Rueters ;and Other sources. Retail 3-months lorward .008655 .008553 115.53 \16.92
transactions provide fewer unics of foreign· curn:ncy per dollar. 6-months lorward .008707 .008603 114,85 11 6.23
Rans for the 12 Euro cul'r'l!:ncy countries are derived from the Jordan (Dinar) 1.4069 1.4069 .7108 .7108
latest ·dollar-eum rate using the exchange ratim; set 1 / 1 /99. Kuwait (Dinar) 3.2830 3.2841 .3046 .3045
U.S. S EQUIV. CURRENCY PER U.S. $ Lebanon (Pound) .0006604 .0006604 1514.25 1514.25
Country Thu Wed Thu Wed Malaysi& (Ringgi\)-b .2632 .2632 3.8000 3.8000
Argentina (Peso) 1.0002 1.0003 .9998 .9997 Malta(Lira) 2.ns 2.2774 .4390 .4391
Australla (Dollar) .4932 4931 2.0274 2.0278 MHico (Peso)
Austrla (Schilling) .06740 .06735 14.837 14.848 Floating rate .1 055 .\060 9.4825 9.4325
e Bahraln (Dinar) 2.6525 2.6518 .3770 .3771 Netheilands (Guilder) .4209 .4205 2.3761 2.3779
Belglum (Franc) .0230 .0230 43.4955 43.5284 New leeland 1Dollar) .4128 .4122 2.4225 2.4260
o Braztl (Real) .3612 .3699 2.7685 2.7035 No,way (Krone) .1169 .1169 8.5530 B.5551
Brttain (Pound) 1.4671 1.4684 .6816 .6810 Pekisten (Rupee) .01559 .01 559 64.150 64.150
1-monlh forward 1.4648 1.4658 .6827 .6822 Peru {new So1J .2857 .2857 3.5005 3.5003
3-monlhs forward 1.46(13 1.4615 .6848 .6842 Phiílppines ( eso) .01949 .01946 51.300 51.375
6-months lorward 1.4540 1.4549 .6878 .6873 Poland {Zloty)-o .2404 .2382 4.1600 4.1 975
a Canada (Dollar) .6364 .6376 1.571 3 1.5683 Portugal (Escudo) .004626 .004623 216.16 216.33
1-monlh forward .6359 .6371 1.5725 1.5696 Russla (Rllble)-a .03399 .03397 29.422 29.442
1- Saudl Arabla (R~al) .2il&l .2666 3.7508 3.7505
3-monlhs lorward .6354 .6365 1.5739 1.5712
L- 6-mon1hs forward .6348 .6359 1.5752 1.5725 Slngaporé (Dollar) .5758 .5749 1.7368 1.7395
Chile (Peso) .001440 .001449 694.55 690.15 Slovak Rep. (Koruna) .02116 .02118 47.253 47.219
China (Renminbi) .1208 1208 8.2766 8.2766 Soulh Afrlca (Aand) .1149 .1 156 8.6998 8.6478
Co!ombta (Peso) .0004269 .0004264 2342.50 2345.00 South Korea (Won) .ooom4 0007740 1293.00 1292.00
Czech. Rep. (Korunaj Spain (Peseta) .005574 .005570 179.40 179.54
Commercial rate .02704 .02716 36.985 36.822 Sweden (Krona) 0942 .0952 10.6178 10.5030
.1246 .1245 8.0260 8.0315 Swltzerland (Franc) 6303 .6260 1.5865 1.5974
Denmart trone) .6302 .6259 1.5Bll7 1.5977
Ecuador ( S Oollar)-e 1.0000 1.0000 1.0000 1.0000 l-morlh lorward
Flnland [Marllka) .1 560 ,1559 6.4108 6.4157 3-morlhs loiward .6301 .6258 1.5870 1.5980
France (Franc) .1414 .1413 7.0727 7.0780 6-monlhs f01Ward .6303 .6259 1.5866 1.5977
1-morlh forward ,1413 ,1412 7.0794 7.0846 Taiwan (Dollar) .02894 .02895 34.560 34.540
3-monlhs lorward .1410 ,1409 7.0921 7.0970 Thalland [Bahl} .02266 .02265 44.1 40 44.150
6-morlhs lorward .1407 .1406 7.1 088 7.1 146 Turkey (Lira)-! .00000066 .00000066 1520000 1504000
Gennany (Mark) .4742 .4738 2.1 088 2.11 04 United Arab (Dimam) .2723 .2723 3.6730 3.6728
a 1-morlhforward .4738 .4734 2.1108 2.1124 Uruguay (New Pl;so)
3-morlhs lorward .4729 .4726 2.1 146 2.11 61 Financial .07278 .07278 13.740 13.740
;, 6-morlhs lorward .4718 .4714 2.1196 2.121 4 Venezuela (Bolivar) ,001345 .001345 743.25 743.25
Gree<:e (Drachma) .002722 .002720 367.41 367.70 SDR 1.2945 1.2950 .7725 .7722.
Hong KontDollar) .1282 ,1282 7.7995 7.7992 Euro .9275 ,9268 1.0782 1.0790
e Hungary ( 1111)
lndla (Aupee)
.003589
.02084
.003592
.02083
278.67
47.980
278.40
48.010
Special Drawing Rights (SDR) are based on excha.nge rates for
the U.S., German, British. French, and Japanese currencies .
lndonesia (Rupiah) .0001059 .0001041 9445 9605 Source: lntemational Monecary F1.md.
lreland (Punt) l.1776 1.1767 .8492 8498 a-Russian Central Bank rate. b-Govemment rate. d-Floating
Israel (Shekel) .2297 .2304 4.3541 4.3400 rate.; trading bar,d suspe11ded on 4/11/00. e-Adopted U.S .
llaly(Ura) .0004790 .0004786 2087.74 2089.31 dollar as of 9/11 / 00. f-Floacing rate, eff. Feb. 22.

Sowcec Wa/1 Streetjo11rnal, Friday, September 21, 2001. Reprinred by permission ofthe Wa/1 Streetjournal,
© 2001 Dow Jones & Company, lnc. Ali Righcs Reserved Worldwide.

a
Q

Q Suponha primeiro que a taxa de câmbio real seja baixa. Nes- Heineken, e passarão as férias na Flórida em vez de na Europa.
se caso, como os bens domésticos são relativamente baratos, os Pelo mesmo motivo, os estrangeiros vão querer comprar muitos
,s residentes do país vão querer comprar poucos bens importados: dos nossos bens. Em conseqüência dessas escolhas, a demanda
comprarão Fords em vez de Toyotas, beberão Coors em vez de pelas nossas exportações líquidas será elevada.
88 CAPÍTULO 5
r
Ocorre o oposto se a taxa de câmbio real for alta. Como os A Fig. 5-8 ilustra essas duas condições. A curva que mostra a
bens domésticos são caros em relação aos bens estrangeiros, os relação entre exportações líquidas e taxa de câmbio real é ne-
residentes do país comprarão muitos bens ii:nportados, enquanto gativamente inclinada, porque uma taxa de câmbio real baixa
os estrangeiros comprarão poucos produtos nossos. Portanto, a faz com que os bens domésticos tornem-se relativamente bara-
demanda por nossas exportações líquidas será menor. tos . A curva que representa o excesso de poupança sobre in-
Escrevemos essa relação entre a taxa de câmbio real e as vestimento, S - I, é vertical porque nem a poupança nem o
exportações líquidas como investimento dependem da taxa de câmbio real. A intercessão
NX = NX(e.). dessas duas linhas determina a taxa de câmbio de equilíbrio.
A Fig. 5-8 parece um gráfico comum de oferta e demanda.
Esta equação enuncia que as exportações líquidas são uma fun- Na verdade, pode-se pensar nele como representando a oferta
ção da taxa de câmbio real. A Fig. 5-7 ilustra essa relação ne- e a demanda de moeda estrangeira. A curva vertical, S - 1, re-
gativa entre a balança comercial e a taxa de câmbio real. presenta o fluxo líquido de capital; ou seja, a oferta de dólares
a ser trocada por moeda estrangeira e investida no exterior. A
ÜS DETERMINANTES DA TAXA DE CÂMBIO curva negativamente inclinada, NX, representa a demanda lí-
quida por dólares, vinda de estrangeiros que querem dólares para
REAL comprar bens norte-americanos. À taxa de câmbio real de equi-
Temos agora todas as peças necessárias para construir um mo- lílrrio , a oferta de dólares dispon{vel do fiuxo líquido de capital equi-
delo que explica quais fatores determinam a taxa de câmbio libra a demanda por dólares de estrangeiros para comprar exporta-
real. Em particular, combinamos a relação entre exportações ções líquidas dos EUA.
líquidas e a taxa de câmbio real, que acabamos de analisar,
com o modelo da balança comercial, que desenvolvemos an-
tes neste capítulo. Podemos resumir a análise da seguinte
COMO AS POLÍTICAS ECONÔMICAS
maneira: INFLUENCIAM A TAXA DE CÂMBIO REAL
>- A taxa de câmbio real é relacionada com as exportações Podemos adotar esse modelo para mostrar como as mudanças
líquidas. Quando a taxa de câmbio real é mais baixa, os da política econômica discutidas antes afetam a taxa de câm-
bens domésticos são menos caros em relação aos bens es- bio real.
trangeiros, e as exportações líquidas são maiores.
>- A balança comercial (exportações líquidas) deve igua- Política Fiscal Interna O que acontece com a taxa de câm-
lar o fluxo líquido de capital para o exterior, que por sua bio real se o governo reduz a poupança nacional pelo aumento
vez é igual a poupança menos investimento. A poupan- das compras do governo ou pelo corte de impostos? Comores-
ça é determinada pela função consumo e pela política saltamos antes, essa redução da poupança diminui S - l e, em
fisca l; o investimento é determinado pela função inves- conseqüência, NX. Ou seja, a redução da poupança causa um
timento e pela taxa de juros internacional. déficit comercial.

Taxa de câmbio
real, e

NX(E)

O Exportações líquidas, NX

Fig. 5-7 Exportações Líquidas e a Taxa de Câmbio Real O gráfico mostra a relação entre a taxa de câmbio real e as exportações líquidas:
quanto mais baixa a taxa de câmbio real. menos caros são os bens internos em relação aos bens externos, e assim as exportações líquidas são mai-
ores. Observe que uma parte do eixo horizontal mede valores negativos de NX como as importações podem exceder as exportações, as exportações
líquidas podem ser menores do que zero.
r A ECONOMIA ABERTA 89

a Taxa de câmbio
real, E
a
1-

o
o

l.
a Taxa de
câmbio real
de equillbrio
·s
NX(e)
\
Exportações líquidas, NX
a
Fig. 5-8 Como a Taxa de Câmbio Real É Determinada A taxa de câmbio real é determinada pela interseção da curva vertical, que.representa
poupança menos investimemo, e a curva negativamente inclinada das exportações liquidas. Nessa interseção, a quantidade de dólares oferecida
para o fluxo de capital externo iguala a quantidade de dólares demandada para a exportação líquida de bens e serviços.

A Fig. 5-9 mostra como a taxa de câmbio real de equilíbrio Política Fiscal Externa O que acontece com a taxa de câm-
ajusta-se para fazer com que NX caia. A mudança da política bio real se os outros governos aumentarem as compras de go-
fiscal desloca a curva vertical S - 1 para a esquerda, diminuin- verno ou cortarem impostos? Essa mudança da política fiscal
s do a oferta de dólares a serem investidos no exterior. A oferta reduz a poupança internacional e aumenta a taxa de juros in-
mais baixa faz com que a taxa de câmbio real de equilíbrio suba ternacional. O aumento da taxa de juros internacional reduz o
de e 1 para Ec, ou sej a, o dólar torna-se mais valios,}. Por causa ilwestimenro interno I, o que aumenta S - 1 e, logo, NX. Ou
do aumento do valor do dólar, os bens domésticos tornam-se seja, o aumento da taxa de juros internacional causa um supe-
mais caros em relação aos bens estrangeiros, o que faz com que rávit comercial.
,)
as exportações caiam e as importações subam. As variações das A Fig. 5-10 mostra que essa mudança da política fiscal des-
exportações e das importações atuam para reduzir as exporta- loca a curva vertical S - 1para a direita, aumentando a oferta
l
ções 1íq u idas. de dólares a serem investidos no exterior. A taxa de câmbio real
l

Taxa de câmbio
real, E 1. Uma redução da
poupança reduz a
oferta de dólares, .. .

2 . ... o E
2
que
aumenta _j
a taxa de 1
câmbio E 1
real...

NX2 T NX, Exportações líquidas, NX


3 . ... e causa uma
quedadas
exportações /(quidas.

Fig. 5-9 O Impacto da Política Fiscal Expansionista Interna na Taxa de Câmbio Real A política fiscal expansionista interna, tal como um
aumento das compras do governo ou um corte dos impostos, reduz a poupança nacional. A queda da poupança reduz a oferta de dólares a serem
trocados por moeda estrangeira, de S: - I para S2 - I. Essa mudança aumenta a taxa de câmbio real de equilíbrio de 1:, para Ez.
90 CAPITULO 5
T
Taxa de câmbio
real, E 1. Um aumento das taxas
de juros internacionais
reduz o investimento,
o que aumenta a
oferta de dólares, ...

2 . ... causa
a queda da
taxa de
câmbio
real...
NX, -r+ NX2 Exportações líquidas, NX
3 . ... e aumenta
as exportações
lfquidas.

Fig. 5-10 O Impacto da Política Fiscal Expansionista Externa na Taxa de Câmbio Real A politica fis cal expansionista externa reduz a
poupança internacional e aumenta a taxa de juros internacional de r; para r~. O aumento da taxa de juros internacional reduz o investimento no
país, o que, por sua vez, aumenta a oferta de dólares a serem trocados por moedas estrangeiras. Em conseqüência, a taxa real de juros de equilíbrio
cai de E: para E; ,

de equilíbrio cai. Ou seja, o dólar toma-se menos valioso, e os crédito fiscal para o invest imento? A uma dada taxa de juros
ben s internos to m am-se menos caros em relação aos bens ex- internacional, o aumento da demanda por investimento leva
ternos. a um investimen to maior. Um valor superior de I significava-
lores mais baixos de S - I e NX. O u seja, o aumento da de-
Mudanças da Demanda por Investimento O que acon - manda por investimento causa um déficit comercial.
tece com a taxa de câmbio real se a demanda interna por in - A Fig. 5-11 mostra que o aumento da demanda por investi-
vestimento aumenta, digamos , porque o Con gresso aprova um mento desloca a curva vertical S - 1 para a esquerda, reduzín-

Taxa de câmbio
real, E 5- /1
1. Um aumento do
~ -+-- investimento reduz
a oferta de dólares, .. .

2 . ... O E
2
que
aumenta
a taxa -t
de câmbio.. . E1

NX2 T NX1 Exportações líquidas, NX

3. .. .e reduzas
exportações lfquidas.

Fig. 5-11 O Impacto de um Aumento da Demanda por Investimento sobre a Taxa de Câmbio Real Um aumento da demanda por inves-
timento eleva a quantidade de investimento interno de I1 para I2• Em conseqüência, a oferta de dólares a serem trocados por moedas estrangeiras cai
de S - I1 para S - 12. Essa diminuição da oferta aumenta a taxa de câmbio real de equilibrio de E 1 para E2.
r
A EcONOMIA ABERTA 91

do a oferta de dólares a serem investidos no exterior. A taxa de No novo equilíbrio, a taxa de câmbio real é mais elevada, o nível
câmbio real de equilíbrio sobe. Assim, quando o crédito fiscal de equilíbrio das exportações líquidas permanece o mesmo, a
ao investimento toma mais atraente investir nos Estados Uni- taxa de câmbio real é maior, e as exportações líquidas perma-
dos, também aumenta o valor dos dólares americanos necessá- necem constantes. Apesar do deslocamento da curva de expor-
rios para se fazer esses investimentos. Quando o dólar se valo- tações líquidas, seu nível de equilíbrio permanece o mesmo,
riza, os bens domésticos tomam-se mais caros em relação aos porque a política protecionista não altera a poupança nem o
bens estrangeiros, e as exportações líquidas caem. investimento.
Esta análise mostra que as políticas comerciais protecionis-
tas não afetam a balança comercial. Está surpreendente con-
Os EFEITOS DAS POLÍTICAS COMERCIAIS clusão é com freqüência ignorada no debate público sobre po-
Agora que temos um modelo que explica a balança comercial líticas comerciais. Como um déficit comercial reflete um ex-
e a taxa de câmbio real, contamos com os instrumentos para cesso de importações sobre exportações, pode-se imaginar que
examinar os efeitos macroeconômicos de políticas comerciais. uma redução das importações - como ocorre com a proibição
Definidas em termos gerais, as políticas comerciais são da importação de carros estrangeiros - reduziria o déficit co-
projetadas para influir diretamente n a quantidade de bens e mercial. Contudo, nosso modelo mostra que as políticas prote-
serviços exportados ou importados. Com baseante freqüência, cionistas levam apenas a uma valorização da taxa de câmbio
as políticas comerciais assumem a forma de proteção às indús- real. O aumento no preço dos bens internos em relação aos bens
trias internas contra a concorrência externa, ao se aplicar um externos tende a diminuir as exportações líquidas ao estimular
imposto sobre as importações estrangeiras ( uma tarifa), oures- as importações e desestimular as exportações. Assim, a valori-
a
tringir a quantidade de bens e serviços que se pode importar zação contrabalança o aumento das exportações líquidas que
(uma quota). se pode atribuir diretamente à restrição comercial.
Como um exemplo de política comercial protecionista, Embora não alterem a balança comercial, as políticas comer-
imagine o que aconteceria se o governo proibisse a importação ciais protecionistas afetam o volume de comércio. Conforme
de carros estrangeiros. A qualquer taxa de câmbio real dada , as já ressaltamos, como a taxa de câmbio real se valoriza, os bens
importações seriam agora menores, indicando que as exporta- e serviços que produzimos tornam-se mais caros em relação aos
s ções líquidas (exportações menos importações) seriam maio- bens e serviços estrangeiros. Portanto, exportamos menos no
:l res. Assim, a curva de exportações líquidas desloca-se para a novo equilíbrio. Como as exportações líquidas permanecem
direita, como na Fig. 5-12. Para verificar os efeitos da política inalteradas, devemos também importar menos. (A valorização
comercial, comparamos o antigo equilíbrio e o novo equilíbrio. da taxa de câmbio estimula as importações até certo ponto, mas

Taxa de câmbio
real, E
S- /

1. Polfticas protecionistas
aumentam a demanda
por exportações lfquidas ...
2 . ... e ~E2 •........•......

aumentam
a taxa de
camb10... E
1

3 . ... , mas deixam


inalteradas as
exportações liquidas.

Fig. 5-12 O Impacto de Políticas Comerciais Protecionistas na Taxa de Câmbio Real Uma política comercial protecionista, como uma
barreira à importação de carros, desloca a curva de exportações líquidas de NX(E) 1 para NX(e) 2, o que aumenta a taxa de câmbio real de E 1 para E2.
Observe que, apesar do deslocamento da curva de exportações líquidas, o nível de equilíbrio das exportações líquidas permanece inalterado.
--
92 CAPÍTULO 5

isso apenas contrabalança em parte a queda nas importações preço japonês P* subir, a taxa de câmbio nominal aumentará:
causada pela restrição comercial.) Assim, as políticas proteci- como um iene vale menos, um dólar comprará mais ienes.
onistas reduzem tanto a quantidade de importações quanto a É instrutivo considerar as variações da taxa de câmbio ao
quantidade de exportações. longo do tempo. A equação da taxa de câmbio pode ser escrita
Essa queda do volume total de comércio é o motivo pelo qual como
os economistas quase sempre se opõem a políticas protecionis-
% Variação de e= % Variação de e.+ % Variação de P* -
tas. O comércio internacional beneficia todos os países, possi-
- % Variação de P.
bilitando que cada um se especialize no que produz melhor e
proporcionando a cada país uma variedade maior de bens e A variação percentual de e. é a variação da taxa de câmbio real.
serviços. As políticas protecionistas diminuem esses ganhos do A variação percentual de P é a taxa de inflação interna 1T, e a
comércio. Embora essas políticas beneficiem determinados gru- mudança de porcentagem em P* é a taxa de inflação no outro
pos dentro da sociedade - por exemplo, uma proibição da im- país 1r* . Assim, a variação percentual da taxa de câmbio nomi-
portação de carros ajuda os produtores de carros internos-, nal é
em média a sociedade fica pior quando as políticas reduzem o
% Variação de e=% Variação de E+ (1r* - 1T)
volume de comércio internacional.
Variação Variação
ÜS DETERMINANTES DA TAXA DE CÂMBIO
P~rcentual da = Percentual da + Diferenças das
Taxa de Câmbio Taxa de Câmbio Taxas de
NOMINAL Nominal Real inflação.
Depois de verificar o que determina a taxa de câmbio real, va-
mos agora concentrar nossa atenção na taxa de câmbio nomi- Esta equação enuncia que a variação da taxa de câmbio n.o-
nal, a taxa à qual as moedas correntes de dois países são trocadas. mina l entre as moedas de dois países é igual à variação
Lembre-se da relação entre taxa de câmbio real e taxa de câm- percentual da taxa de câmbio real mais a diferença das taxas
bio nominal: de inflação. Se um país tem uma alta taxa de inflação em relação
aos Estados Unidos, um dólar comprará uma quantidade cada vez
Taxa de Taxa de Proporção de maior da moeda estrangeira ao longo do tempo. Se o outro país
Câmbio Câmbio X Níveis tem uma taxa de inj1.ação baixa em relação aos Estados Unidos,
Real Nominal de Preços um dólar comprará uma quantidade cada vez menor de sua moe-
E e X (P/P*). da ao longo do tempo.
Podemos escrever a taxa de câmbio nominal como Essa análise mostra como a política monetária afeta a taxa
de câmbio nominal. Sabemos, do Cap. 4, que uma expansão
e =E X (P*/P). monetária elevada leva a uma inflação elevada. Aqui, acaba-
Esta equação mostra que a taxa de câmbio nominal depende da mos de verificar que uma conseqüência da inflação elevada é
taxa de câmbio real e dos níveis de preços dos dois países. Dado uma moeda corrente em depreciação: alto 1T indica queda em
o valor da taxa de câmbio real, se o nível de preços interno P e. Em outras palavras, assim como o crescimento da quantida-
sobe, a taxa de câmbio nominal e cairá: como um dólar vale de de moeda afeta o preço de bens medido em termos monetá-
menos, um dólar comprará menos ienes. Contudo, se o nível de rios, também tende a aumentar o preço de moedas estrangei-
ras , medido em termos da moeda interna.

ESTUDO DE CASO - - - - - - - - - - - - -
INFLAÇÃO E TAXAS DE CÂMBIO NOMINAIS dia de cada país e a taxa de inflação média dos Estados Uni-
Se examinarmos os dados sobre taxa de câmbio e níveis de preço dos (,rr* - 1T). No eixo vertical está a variação percentual
de diferentes países, logo compreenderemos a importância da média da taxa de câmbio entre a moeda corrente de cada país
inflação para explicar mudanças na taxa de câmbio nominal. e o dólar norte-americano ( variação precentual de e). A re-
Os exemplos mais eloqüentes vêm de períodos de inflação muito lação positiva entre essas duas variáveis é clara nessa figura.
alta. Por exemplo, o nível de preços do México subiu em Os países com inflação relativamente alta tendem a ter moe-
2.300% de 1983 a 1988. Por causa da inflação, o número de das desvalorizadas (um norte-americano pode comprar mais
pesos que urna pessoa podia comprar com um dólar norte-ame - com seus dólares, ao longo do tempo), enquanto os países com
ricano passou de 144 em 1983 para 2.281 em 1988. inflação relativamente baixa tendem a ter moedas valoriza-
A mesma relação se aplica a países com inflação mais mo- das (um norte-americano pode comprar menos com seus dó-
derada. A Fig. 5-13 é um gráfico de dispersão que mostra a lares, aó longo do tempo).
relação entre inflação e a taxa de câmbio em 15 países. No Como um exemplo, considere a taxa de câmbto entre mar-
eixo horizontal está a diferença entre a taxa de inflação mé- cos alemães e dólares norte-americanos. Tanto a Alemanha
A ECONOMIA ABERTA 93

Variação 10
percentual 9
da taxa 'li•
A(rica do Sul
de câmbio 8
nominal 7
6 Desvalorização
Itália
5 :t, em relação ao
Nova Zelândia ;, dólar norte-americano
4
Austrália f' Espanha
3 Suécia
'''Irlanda
2 Canadd
~
Reino Unido
1 França
Bélgica
o ~ -1-------------- - - - ------<
- 1 Alemanha :. Valorização
Holanda
-2 em relação ao
Su1ço
dólar norte-americano
- 3 Japão
- 4
-3 -2 -1 o 2 3 4 s 6 7 8
Diferencial de inflação

Fig. 5-13 Diferenciais de Inflação e a Taxa de Câmbio Este gráfico mostra a relação entre inflação e a taxa de câmbio nominal. O eixo horizon -
tal mostra a taxa de inflação média do país menos a taxa de inflação média dos Estados Unidos durante o período de 1972 a 2000. O eixo vertical é
)
a mudança percentual média da taxa de câmbio do país (por dólar norte-americano). durante esse período. A figura mostra que países com inflação
s relativa.mente alta tendem a ter moedas desvalorizadas, e que países com inflação relativa.mente baixa tendem a ter moedas valorizadas.
)
Fonte: International Financial Statistics.
<.
s
como os Estados Unidos experimentaram inflação ao longo dos dos Estados Unidos. Isso significa que o valor do marco caiu
últimos vinte anos. Portanto, tanto o marco quanto o dólar menos do que o valor do dólar. Portanto, o número de marcos
compram menos bens do que antes. Mas, como a Fig. 5-13 mos- alemães que você pode comprar com um dólar norte-america-
l
)
tra, a inflação da Alemanha foi mais baixa do que a inflação no vem caindo ao longo do tempo.

Ü CASO ESPECIAL DA PARIDADE DO PODER mentàriam o preço interno do trigo em relação ao preço exter-
no. Assim também, se um dólar pudesse comprar mais trigo no
DE COMPRA exterior do que internamente, os negociantes comprariam no
Uma hipótese famosa em economia, chamada de lei do preço exterior e venderiam internamente, forçando a baixa do preço
único, estabelece que o mesmo bem não pode ser \·endido por interno em relação ao preço externo. Ou seja, os negociantes
preços diferentes, em lugares diferentes, ao mesmo tempo. Se internacionais em busca de lucro fazem com que os preços do
1 um alqueire de trigo é vendido em Nova York por menos do trigo sejam os mesmos em rodos os países.
que em Chicago, seria lucrativo comprar trigo em Nova York Podemos interpretar a teoria da paridade do poder de com-
e depois vender em Chicago. Negociantes espertos aproveita- pra romando nosso modelo da taxa de câmbio real. A ação rá-
riam essa oportunidade; com isso, aumentaria a demanda por pida desses negociantes internacionais indica que as exporta-
s trigo em Nova York e aumentaria a oferta de trigo em Chica- ções líquidas são bastante sensíveis a pequenos movimentos na
go. Isso faria o preço suhir em Nova York e baixar em Chicago, taxa de câmbio real. Uma pequena diminuição do preço de bens
o que garante a equalização dos preços nos dois mercados. internos em relação aos bens externos - ou seja, uma peque-
A lei do preço único aplicada ao mercado internacional é na diminuição da taxa dé câmbio re al - faz com que os nego-
s chamada de paridade do poder de compra. Segundo essa lei, ciantes comprem bens internamente e vendam no exterior. De
1 se é possível a arbitragem internacional, então um dólar (ou modo semelhante, um pequeno aumento do preço relativo dos
qualquer outra moeda corrente) deve ter o mesmo poder de bens internos faz com que os negociantes importem bens do
compra em qualquer país. O argumento é o seguinte. Se um dó- exterior. Portanto, como a Fig. 5-14 mostra, a curva de expor-
lar pudesse comprar mais trigo internamente do que no exteri- tações líquidas muito pouco inclinada à taxa de câmbio real,
or, haveria oportunidades de lucrar pela compra do trigo inter- que iguala o poder de compra entre os países: qualquer peque-
3 no e sua venda externa. Os negociantes em busca de lucro au- na variação da taxa de câmbio real leva a uma grande mudan-
,
94 CAPÍTULO 5

Taxa de câmbio
real, E S-1

NX(e)

Exportações líquidas, NX

Fig. 5-14 Paridade do Poder de Compra A lei do preço único aplicado ao mercado internacional sugere que as exportações liquidas são bastante
sensíveis a pequenas variações da taxa de câmbio real. Essa sensibilidade elevada é refletida aqui por urna curva de exportações líquidas quase
horizontal.

ça das exportações líquidas. Essa extrema sensibilidade das ex- vel transportar cortes de cabelo. Segundo, até mesmo os bens
portações líquidas garante que o equilíbrio da taxa de câmhio comerciáveis nem sempre são substitutos perfeitos. Alguns
real esteja sempre próximo do nível que garante a paridade do consumidores preferem T oyotas, enquanto outros preferem
poder de compra. Fords. Assim, o preço relativo de Toyotas e Fords pode variar
A paridade do poder de coinpra tem duas implicações im- até certo ponto, sem deixar qualquer oportunidade de lucro na
portantes. Primeira, como a curva de exportações líquidas é arbitragem. Por esses motivos, a taxa de câmbio real realmen-
pouco inclinada, as mudanças da poupança ou do investimen- te varia ao longo do tempo.
to não influenciam a taxa de câmhio real ou nominal. Segun- Embora a teoria da paridade do poder de compra não des-
da, como a taxa de câmhio real é constante, rodas as mudanças creva o mundo com perfeição, pelo menos proporciona uma
da taxa de câmhio nominal resultam de mudanças dos níveis razão para que a variação da taxa de câmbio real seja limitada.
de preços. Há muita validade nessa lógica subjacente: quanto mais a taxa
Essa teoria de paridade de poder de compra é realista? A de câmbio real se afasta do nível previsto pela paridade dopo-
maioria dos economistas acredita que, apesar da sua lógica atra- der de compra, maior o incentivo para as pessoas se empenha-
ente, a paridade do poder de compra não proporciona uma rem na arbitragem internacional de bens. Emhora não possa-
descrição completamente acurada do mundo. Primeiro, mui- mos confiar na paridade do poder de compra para eliminar to-
tos bens não são trocados com facilidade. Um corte de cabelo das as variações da taxa de câmbio real, essa doutrina oferece
pode ser mais caro em Tóquio do que em Nova York, mas não um motivo para se esperar que as oscilações da taxa de câmhio
há espaço para a arbitragem internacional, porque é impossí- real sejam geralmente pequenas ou temporárias. 1

ESTUDO DE CASO
0 BIG MAC AO REDOR DO MUNDO guer Big Mac, do McDonald's. Segundo a paridade do poder
A teoria da paridade do poder de compra enuncia que deve- de compra, o preço de um Big Mac deve estar estreitamente
mos constatar, depois que ajustamos as taxas de câmbio, que relacionado com a taxa de câmbio nominal do país. Quanto
.os bens são vendidos pelo mesmo preço em toda parte. Inver- maior o preço de um Big Mac na moeda local, maior deve ser a
samente, diz que a taxa de câmbio entre duas moedas deve taxa de câmbio (medida em unidades da moeda local por dólar
depender dos níveis de preço nos dois países. americano).
Para verificar como essa teoria funciona, The Economist, uma A Tabela 5-2 apresenta os preços internacionais em 2000,
revista noticiosa internacional, coleta regularmente dados so- quando um Big Macera vendido a $2,51 nos Estados Unidos.
bre o preço de um bem vendido em muitos países: o hambúr- Com esses dados, podemos nos servir da teoria da paridade

1Para aprender mais sobre a paridade do poder de compra, veja Kenneth A. Froot e Kennech Rogoff, "Perspectives on PPP and Long-Run Real Exchange Rates",

em Gene M. Grossman e Kenneth Rogoff, eds., Handbook of Tmernational Economics , vol. 3 (Amsterdam: North-Holland, 1995 ).
A ECONOMIA ABERTA 95

Taxa de Câmbio
(por dólar norte-americano)

Preço de
País Moeda umBigMac Prevista Efetiva

Indonésia Rupia 14.500 5.777 7.945


It.ália Lira 4.500 1.793 2.088
Coréia do Sul Won 3.000 1.195 1.108
Chile Peso 1.260 502 514
Espanha Peseta 375 149 179
Hungria Forint 339 135 279
Japão Iene 294 117 106
Taiwan Dólar 70,0 27,9 30,6
Tailândia Baht 55,0 21,9 38,0
República Tcheca Coroa 54,37 21,7 39,1
Rússia Rublo 39,50 15,7 28,5
Dinamarca Coroa 24,75 9,86 8,04
Suécia Coroa 24,0 9,56 8,84
México Peso 20,9 8,33 9;41
França Franco 18,5 7,37 7,07
Israel Shekel 14,5 5,78 4,05
China Iuane 9,90 3,94 8,28
África do Sul Rand 9,0 3,59 6,72
Suíça Franco 5,90 2,35 1,70
Polônia Zloti 5,50 2,19 4,30
Alemanha Marco 4,99 1,99 2,11
Malásia Dólar 4,52 1,80 3,80
Nova Zelândia Dólar 3,40 1,35 2,01
Cingapura Dólar 3.20 1,27 1.70
Brasil Real 2,95 1,18 1,79
Canadá Dólar 2,85 1,14 1,47
Austrália Dólar 2,59 1.03 1,38
Estados Unidos Dólar 2,51 1,00 1.00
Argentina Peso 2,50 1,00 1,00
Grã-Bretanha Libra 1,90 0,76 0,63
Observação: A taxa de câmbio prevista é a taxa de câmbio que faria o preço de um Big Mac naquele país ser igual ao
preço nos Estados Unidos .
Fonte: TheEconomist, 29 de abril de 2000, 75.

do poder de compra para prever as taxas de câmbio nominais. previs ta estão mais ou menos no mesmo nível. Nossa teoria
Por exemplo, como um Big Mac custava 294 ienes no Japão, prevê, por exemplo, que um dólar americano deve comprar
podíamos prever que a taxa de câmbio entre o dólar e o iene o maior número de rupias indonésias e menos libras britâ-
era de 294/2, 51, ou 117 ienes por dôlar. A essa taxa de câm- nicas, o que é verdadeiro . No caso do Japão, a taxa de câm-
bio, um Big Mac custaria a mesma coisa no Japão e nos Esta- bio prevista de 11 7 ien es por dó lar está próxima da taxa efe -
dos Unidos. tiva, que é de 106 ienes. Contudo, as predições da teoria
A T abe la 5-2 mostra as taxas de câmb io previstas e efeti- estão longe de serem exatas e, em muitos casos, a diferença
vas para 30 países, classificados na ordem da taxa de câm- é de 30% ou mais. Por isso, embora proporcione um guia
bio prevista. Pode-se verificar que a ev idên cia da paridade aprox imado para o níve l das taxas de câmbio, a teoria da
do poder de compra é ambígua. Como as duas últimas colu- paridade do poder de compra não exp lica plenamente as
nas mostram, a taxa de câmbio efetiva e a taxa de câmbio taxas de câmbio.
--
96 CAPfTIJLO 5

5-4 CONCLUSAO: OS ESTADOS UNIDOS COMO UMA


ECONOMIA ABERTA GRANDE
Neste capítulo, vimos como funciona uma economia aberta pe- pio, os grandes déficits orçamentários norte-americanos fo-
quena. Já examinamos os determinantes do fluxo internacio- ram culpados pelas taxas de juros reais elevadas que prevale-
nal de fundos para acumulação de capital e o fluxo internacio- ceram no mundo inteiro durante a década de 1980. Segundo,
nal de bens e serviços. Também examinamos os determinan- o capital pode não ter uma mobilidade perfeita entre os paí-
tes das taxas de câmbio nominal e real de um país. Nossa aná- ses. Se as pessoas preferem manter sua riqueza em ativos in-
lise mostra como várias políticas econômicas - políticas mo- ternos em vez de ativos externos, os recursos para a acumula-
netárias, políticas fiscais e políticas comerciais - afetam a ção de capital não vão fluir livremente para igualar as taxas
balança comercial e a taxa de câmbio. de juros em todos os países. Por esses dois motivos, não pode-
A economia que estudamos é "pequena" no sentido de que mos aplicar diretamente o modelo da economia aberta peque-
sua taxa de câmbio é fixada pelos mercados financeiros mun- na aos Estados Unidos.
diais. Ou seja, presumimos que essa economia não afeta a taxa Ao analisar a política econômica de um país como os Esta-
de juros mundial, e que pode tomar emprestado e emprestar, à dos Unidos, precisamos combinar a lógica da economia fecha-
taxa de juros mundial. em montantes ilimitados. Esse pressu- da do Cap. 3 com a lógica da economia aberta pequena do
posto contrasta com o pressuposw que estabelecemos quando presente capítulo. O apêndice deste capítulo constrói um mo-
estudamos a economia fechada, no Cap. 3. Na economia fe- delo de uma economia entre esses dois extremús. Neste caso
chada, a taxa de juros interna equilibra a poupança interna e o intermediário, há empréstimos e tomadas de empréstimos in-
investimento interno, indicando que as políticas econômicas ternacionais, mas a taxa de juros não é fixada pelos mercados
que influem na poupança ou no investimento alteram a taxa financeiros interrnKionais. Em vez disso, quanto mais a eco-
de juros de equilíbrio. nomia toma emprestado do exterior, maior a taxa de juros que
Qual dessas análises deve ser aplicada a uma economia como deve oferecer aos investidores externos. Os resulr,1dos, nada
a dos Estados Unidos? A resposta é: um pouco das duas. Os Es- surpreendentes, são uma mistura dos dois casos extremos que
tados Unidos não são tão grandes nem tão isolados que sejam já examinamos.
imunes aos eventos que ocorrem no exterior. O s grandes défi- Considere, por exemplo, uma redução da poupança nacio-
cits comerciais das décadas de 1980 e 1990 mostram a impor- nal causada por uma expansão fiscal. Como na economia fe -
tância dos mercados financeiros internacionais para financia- chada, essa política econômica eleva a taxa de juros real e des-
rem o investimento nos Estados Unidos. Por isso, a análise de loca o investimento interno. Tal como na economia aherta
economia fechada do Cap. 3 não pode, por si mesma, explicar pequena, ramhém reduz o fluxo líquido de capital para o exte-
por completo o impacto de políticas econômicas na economia rior, le\'ando a um déficit comercial e valorização da taxa de
norte-americana. câmhio. Por isso, embora não descreva precisamente uma eco-
Contudo, a economia norte-americana não é tão pequena nomia como a dos Estados Unidos, o modelo da economia aher-
e tão aberta que a análise deste capítulo possa se aplicar com ta pequena examinado aqui proporciona a resposta certa aprn-
perfeição. Primeiro, os Estados Unidos são tão grandes que po- ximada para a maneira comú as políticas econômicas afetam ,1
dem influenciar os mercados financeiros mundiais. Por exem- halança comercial e a taxa de câmbio.

RESUMO
1. As exportações líquidas s5.t1 a diferença entre exportações e pacto na poupança e no in\' estimento. Políticas que au-
importações. São iguais à diferença entre o que produzimos mentam a poupança ou reduzem o in\'estimenro le\'am a
e o que demandamos para consumo, in\'eStimento e com- um superávit comercial, e políticas que reduzem a poupan-
pras do governo. ça ou aumentam o investimento Levam a um déficit cúmer-
cial.
2. O fluxo líquido de capital para o exterior é o excesso de
poupança interna em relação ao investimento interno. 4, A taxa de câmbio nominal é a taxa à qual as pessoas trocam
A balança comercial é a quantidade recebida por nossas a moeda de um país pela moeda de outro. A taxa de câmbio
exportações líquidas de bens e serviços. A identidade da reàl é a taxa à qual as pessoas trocam os bens produzidos nos
conta da renda nacional mostra que o fluxo líquido de dois países. A taxa de câmbio real é igual à taxa de câmbio
capital para o exterior sempre é igual à balança comer- nominal multiplicada pela proporção dos níveis de preços
cial. nos dois países.
3. O impacto de qualquer política econômica sobre a balan- 5. Como a taxa de câmbio real é o preço dos bens internos em
ça comercial pode ser determinado pelo exame do seu im- relação aos bens externos, uma valorização da taxa de câm-
A EcONOMIA ABERTA 97

bio real tende a reduzir as exportações líquidas. A taxa de 6. A taxa de câmbio nominal é determinada pela taxa de câm-
câmbio real de equilíbrio é a taxa à quual a quantidade das bio real e pelos níveis de preços nos dois países. Tudo mai~
exportações líquidas demandadas é igual ao fluxo líquido de constante, uma taxa de inflação alta leva a uma desvalori-
capital para o exterior. zação da moeda corrente.

CONCEITOS-CHAVE
Exportações líquidas Comércio equilibrado T axa de câmbio nominal
s Balança comercial Economia aberta pequena Taxa de câmbio real
Fluxo líquido de capital para o exterior T axa de juros internacional Paridade do poder de compra
Superávit e déficit comerciais

.1 QUESTOES PARA REVISAO


) l. O que sihi fluxu líquido de capital para o exterior e balança co- 4. Se uma economia abe rt a peque n a proíbe a importação de
merci,1 l' Explique c,Jrno se relacionam entre si. videocassetes japoneses, o que acon tece com a poupança. o inves-
2. Defin;i ,1rnxa de d mhi Ll nominal e a taxa de câmbio real. timento, a balança comercial, a taxa de juros e a taxa de câmbio ?
3. Se uma ec,momia aberra pequena corta gastos com defesa, o que 5. Se a Alemanha tem uma inflação alta e a Itália tem uma inflação
aconrece com a poupança, o investimento, a balança comercial, a baixa, o que acontece rá com a taxa de câmbio entre o marco ale-
raxa de ju ros e a taxa de câmbio? mão e a lira italiana?

PROBLEMAS E APLICAÇOES
1. Uti li:e ,.1 mlldeln da economia aberta pequena para prever o que 3. O país de Leverett é uma economia aberta pequena. Subitamen-
au,nreceria c,,m a hnlanç.i comercial, a taxa de câmbio real e a taxa te, uma mudança das preferê ncias internacionais faz com que as
d<' c:'hnh in nnminal em reaçàti a cada um dos seguintes eventos: exportações de Leverett tomem-se impopulares.
e ,1. Uma queda d,1 confi ança dos consumidores quanto ao futuro a. O que acontece em Leverett com a poupança, o investimento,
indu: os cnnsumidores a gasearem menos e pouparem mais. as exportações líquidas, a taxa de juros e a taxa de câmbio ?
b. O lança me nro de uma linha de modernos T oyocas faz com que b. Os cidadãos de Leverecc gostam de viajar para o exterior. Corno
alguns consumidor<:!s prefiram ca rros estrangeiros em vez dos essa mudança na taxa de câmbio os afetará?
c~uros nac ionais. c. Os responsáveis pela po lítica fiscal de Leverett querem aj ustar
e. O l.mçamenr,, de caixas aurornát icos dos bancns reduz a deman- os impostos para mantere m a taxa de câmbio em seu nível an-
dei pllr dinheim. terior. O que devem fazer? Se fi zerem isso, quais são os efe itos
2. C,msiJere uma econnm ia desc rita pelas seguintes equações: ger;iis sobre a poupança, o investimento, as exportações líqui -
das e a raxa de juros!
Y =C+ /+G+N'X., 4. O que acontecerá com a balança co mercial e a taxa de câmbio
Y = 5.000,
real de um a econo mi a aberta pequena qu ando as compras do
U = l.000,
gove rno au mentarem, como ocorre durante uma guerra? Suares-
a T = 1.000,
posta depende de determinar se é uma guerra local ou uma gue r·
C = 250 + 0,75(Y - T),
ra mundial?
l = 1.000 - 50r,
NX = 500 - SOOE, 5. Em 1995, o presidente Clinton considerou a imposição de uma
r = r* = 5. tarifa de 100% sobre a importação de carros japoneses de luxo. Ana·
[l
lise os aspectos econômicos e po líticos de tal decisão. Em particu-
a. Nessa economia, indique a poupança, o investimento, a balança
lar, como essa política econômica afetaria o déficit comercial dos
J comerc ial e a taxa de câmbio nacionais de equilíbrio.
Estados Unidos? Como afetaria a taxa de câmbio? Quem seria pre-
•5 b. Suponha agora que G suba para 1.250. Indique a poupança, o
judicado por essa política? Quem se beneficiaria dela ?
:) investimento, a balança comercial e a taxa de câmbio nacio-
,s nais de equilíbrio. Explique o que descobrir. 6. Suponha que outros países comecem a subsidiar o investimento,
e. Suponha agora que a taxa de juros mundial suba de 5 para 10%. instituindo um crédito fiscal para investi mento.
(G é de novo 1.000 ). Indique a poupança nacional, o investi- a. O que acontece com a demanda por investimento mundial
n mento, a balança comercial e a taxa de câmbio nacionais de como uma função da taxa de juros internacional?
equilíbrio. Explique o que descobrir. b. O que acontece com a taxa de juros internacional?
,.,..

98 CAPITULO 5

c. O que acontece com o investimento em nossa economia aber- 8. Você lê no jornal que a taxa de juros nominal é de 1Z% ao ano no
ta pequena? Canadá e de 8% ao ano nos Estados Unidos. Suponhamos que as
d. O que acontece com a balança comercial? taxas de juros reais sejam igualadas nos dois países e que se mante-
e. O que acontece com a taxa de câmbio real? nha a paridade do poder de compra.
7, "Viajar pela Itália é muito mais barato hoje do que era há dez anos", a. Aplicando a equação Fisher ( examinada no Cap. 4), o que você
diz um amigo. "Dezanos atrás, um dólar comprava 1.000 liras; este pode inferir sobre a inflação esperada no Canadá e nos Estados
ano, um dólar compra 1.500 liras." Unidos?
Seu amigo está cerco ou errado? Considerando que a inflação b. O que você pode inferir sobre a mudança esperada na taxa de
total durante esse período foi de 25% nos Estados Unidos e 100% câmbio entre dólar canadense e dólar americano?
na Itália, tomou-se mais ou menos dispendioso viajar pela Itália? c. Um amigo propõe um esquema para enriquecer depressa: tome
Escreva sua resposta utilizando um exemplo concreto - como uma emprestado de um banco dos Estados Unidos a 8%, deposite o
xícara de café americano contra uma xícara de espresso italiano - dinheiro em um banco canadense a 12%, e obtenha um lucro
que possa convencer seu amigo. de 4%. O que está errado nesse esquema?
Apêndice

A ECONOMIA ABERTA GRANDE

Ao analisar a política econômica em um país como os Esta- Taxa de juros


dos Unidos, precisamos combinar a lógica da economia fecha- real, r
da do Cap. 3 com a lógica da economia aberta pequena no
presente capítulo. Este apêndice apresenta um modelo de uma
economia entre esses dois extremos, chamada de economia
aberta grande.

FLUXO LÍQUIDO DE CAPITAL PARA O ~ }


Fluxo líquido
EX'fERIOR Toma emprestado Empresta para de capital
A diferença fundamental entre as economias abertas pequena do exterior o exterior para o
(CF< O) ( CF > O) exterior, CF
e grande é o comportamento do fluxo líquido de capital para o
exterior. No modelo da economia aberta pequena, o capital flui
Fig. 5-15 Como o Fluxo Líquido de Capital para o Exterior De-
livremente para dentro ou para fora da economia, a uma taxa
pende da Taxa de Juros Uma tax a de juros interna mais alta
de juros mundial constante r*. O modelo da economia aberta desestimula os investidores domésticos a emprestarem dinheiro para o
grande propõe um pressuposto diferente sobre fluxos interna- extenor. e estimula os investidores estrangeiros a emprestarem aqui
cionais de capital. Para compreender esse pressuposto, lembre- Portanto. o fluxo liquido de capital para o exterior CF é negativamente
se de que o fluxo líquido de capital para o exterior é o montan- relacionado com a taxa de juros.
te que os inve~tidores internos emprestam no exterior, menos
o montante que os investidores externos emprestam aqui.
Imagine que você seia um investidor interno - como o vo, dependendo do fato de a economia ser devedora ou credo-
administrador do fundo de investimentos de uma universida- ra nos mercados financeiros mundiais.
de - decidindo onde investir seus recursos. Você pode inves- Para verificar como essa função de CF se relaciona com os
tir internamente (por exemplo, fazendo empréstimos a empre- modelos anteriores, considere a Fig. 5-16. Essa figura mostra dois
sas dos Estados Unidos), ou pode investir no exterior (fazendo casos especiais: uma função de CF vertical e uma função de CF
empréstimos a empresas estrangeiras). Muitos fatores podem horizontal.
afetar sua decisão, mas um deles, com certeza, é a taxa de juros A economia fechada é o caso especial apresentado no pai-
que você pode obter. Quanto mais alta a taxa de juros que você nel (a) da Fig. 5-16. Na economia fechada, não há tornada de
puder obter internamente, menos atraente sera o investimen- empréstimo nem empréstimo internacional, e a taxa de juros
to no exterior. ajusta-se para equilibrar a poupança e o investimento interno.
Os investidores no exterior enfrentam uma decisão seme- Isso significa que CF = Oem todas as taxas de juros. Essa situ-
lhante. Têm uma opção entre investir em seu próprio país ou ação ocorreria se os investidores aqui e no exterior relutassem
emprestar para alguém nos Estados Unidos. Quanto mais alta em ter ativos externos, independentemente do retorno. Tam-
a taxa de juros nos Esrados Unidos, mais os estrangeiros esta- bém pode ocorrer se o governo proibisse seus cidadãos de efe-
rão dispostos a emprestar a empresas norte-americanas e a com- tuar transações em mercados financeiros externos, como fazem
prar ativos norte-americanos. alguns governos.
Assim, por causa do comportamento dos investidores inter- A economia aberta pequena, com perfeita mobilidade de
nos e externos, o fluxo líquido de capital para outros países, que capital, é o caso especial apresentado no painel (b) da Fig. 5-
indicaremos como CF, é negativamente relacionada com a taxa 16. Neste caso, o capital flui livremente para dentro e para fora
de juros real interna, r. À medida que a taxa de juros aumenta, do país, a uma taxa de juros mundial constante r*. Essa situa-
menos da nossa poupança flui para o exterior, e mais fundos ção ocorreria se investidores aqui e no exterior comprassem
para a acumulação de capital fluem de outros países. Escreve- qualquer ativo oferecido pelo retorno mais alto, e se essa eco-
mos isso como nomia fosse pequena demais para influenciar a taxa de juros
internacional. A taxa de juros da economia seria fixada pela
CF = CF(r). taxa de juros predominante nos mercados financeiros interna-
Esta equação enuncia que o fluxo líquido de capital para o ex- cionais.
terior é uma função da taxa de juros interna. A Fig. 5-15 ilus- Por que a taxa de juros de uma economia aberta grande,
tra essa relação. Observe que CF pode ser positivo ou negati- como a dos Estados Unidos, não é fixada pela taxa de juros in-
100 CAPITULO 5

(b) A Economia Aberta Pequena com


(a) A Economia Fechada Perfeita Mobilidade de Capital
Taxa de juros Taxa de juros
real, r real, r

o Fluxo líquido o Fluxo líquido


de capital de capital
para o exterior, para o exterior,
CF CF

Fig. 5-16 Dois Casos Especiais Na economia fechada, mostrada no gráfico (a), o fluxo líquido de capital para o exterior é zero para todas as taxas
de juros. Na economia aberta pequena. com perfeita mobilidade de capital, mostrada no gráfico (b), o fluxo líquido de capital para o exterior é perfei-
tamente elástico à taxa de juros mundial r*.

ternacion al! Há duas razões. A primeira é o fato de os Estados o modelo da economia aberta pequena. Vamos juntar todas as
Unidos conscituírem um país grande o bastante para influen- peças n a próxima seção.
ciar os mercados financeiros internacionais. Quanto mais os Es-
tados Unidos emprestam no exterior, maior a oferta de emprés-
timos na economia mundial, e mais baixa a taxa de juros ao
0 MODELO
redor do mundo. Quanto mais os Estados Unidos tomam em- Para compreender como a economia aberta grande funciona,
prestado do exterior (ou seja, quanto mais negativo CF setor- precisamos considerar dois mercados fundamentais: o merca-
na), mais altas as taxas de juros internacionais. Usamos o rótu- do de fundos emprestáveis (em que a taxa de juros é determi-
lo "economia aherta grandeº porque esse modelo aplica-se a nada) e o mercado de câmbio externo (em que a taxa de câm-
uma economia grande o bastante para influenciar as taxas de bio é determinada). A taxa de juros e a taxa de câmbio são os
juros internacionais. dois preços que orientam a alocação de recursos.
Há, no entanto, uma segunda razão para que a taxa de juros
em uma economia não seja fixada pela taxa de juros internaci- O Mercado de Fundos Emprestáveis A poupança S de uma
cmal: o capital pode não ser perfeitamente móvel. Ou seja, os economia aberta é utilizada de duas maneiras: para financiar o
investidores aqui e no exterior podem preferir manter sua ri- investimento interno I e para financiar o fluxo líquido de ca-
queza em ativos internos em vez de externos. Essa preferência pital para o exterior CF. Podemos escrever
por ativos internos pode decorrer de informações imperfeitas S = I + CF.
sobre os ativos externos, ou por causa de obstáculos do gover-
no aos empréstimos internacionais. Em quàlquer caso, os fun- Considere como essas três va riáveis são determinadas. A pou-
dos para a acumulação de capital não fluirão livremente para pança nacional é fixada pelo níve l do produto, pela política
igualar as taxas de juros em todos os países. Em vez disso, o flu- fiscal e pela função consumo. O investimento e o fluxo líquido
xo líquido de capital dependerá das taxas de juros internas em de capital para o exterior dependem da taxa de juros real inter-
relação às taxas de juros externas. O s investidores americanos na. Podemos escrever
só emprestarão n o exterior se as taxas de juros nos Estados
Unidos forem relativamente baixas, e os investidores externos S = I(r) + C F(r) .
só investirão nos Estados Unidos se as taxas de juros forem com- A Fig. 5-17 mostra o mercado de fundos emprestáveis. A ofer-
parativamente elevadas. O modelo da economia aberta gran - ta de fundos emprestáveis é a poupança nacional. A demanda
de, portanto, pode ser aplicado até mesmo a uma economia pe- por fundos emprestáveis é a soma da demanda por investimen-
quena, se o capital não flui livremente para dentro e para fora to interno e da demanda por investimento externo (fluxo lí-
da economia. quido de capital para o exterior) . A taxa de juros ajusta-se para
A ssim, seja porque a economia aberta grande afeta as taxas equilibrar oferta e demanda.
de juros internacionais, seja porque o capital não é perfeitamen-
te móvel, senão pelas duas razões, a função CF é negativamen- O Mercado de Câmbio Externo Em seguida, considere a
te inclinada. Exceto por essa nova função CF negativamente relação entre o fluxo líquido de capital para o exterior e a balan-
inclinada, o modelo da economia aberta grande é parecido com ça comercial. A identidade da conta da renda nacional nos diz

fj,.
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A EcONOMIA ABERTA 101

Taxa de juros Taxa de câmbio


real, r real, E

Taxa de Taxa de
juros real câmbio real
de equillbrio de equi/fbrio
l(r) + CF(r)
Exportações líquidas, NX
Fundos emprestáveis, S, I + CF
Fig. 5-18 O Mercado de Câmbio de Moedas Estrangeiras na Eco-
Fig. 5-17 O Mercado de Fundos Emprestáveis na Economia Aber- nomia Aberta Grande À taxa de câmbio de equilíbrio, a oferta de dó-
ta Grande À taxa de juros de equilíbrio, a oferta de fundos emprestáveis lares do Ouxo líquido de capital para o exterior, CF, equilibra a demanda
da poupança S equilibra a demanda por fundos emprestáveis do investi- por dólares de nossas exportações líquidas de bens e serviços, NX.
mento interno I e os investimentos de capital do exterior CF.

l.S NX =S-I. e=e X (P*/P).


,i-
Por ser NX uma função da taxa de câmbio real, e porque CV = A taxa de câmbio real é determinada como na Fig. 5-18, e os
S - I, podemos escrever níveis de preços são determinados pelas políticas monetárias,
aqui e n o exterior, como mostramos no Cap. 4. As forças que
NX(E) = CF. mov imentam a taxa de câmbio real ou os níveis de preços tam-
1S
A Fig. 5-18 mostra o equilíbrio no mercado de câmbio exter- bém mov imentam a taxa de câmbio n ominal.
no. Mais uma vez, a taxa de câmbio real é o preço que equili-
bra a balança comercial e o fluxo líquido de capital para o ex-
POLÍTICAS ECONÔMICAS NA ECONOMIA
terior.
3., A última var iável que devemos levar em conta é a taxa de ABERTA GRANDE
l- câmbio nominal. Como antes, a taxa de câmbio nominal é a Podemos agora considerar como as políticas econômicas influ-
i- taxa de câmbio real vezes a proporção dos níveis de preço: enciam a economia aberta grande. A Fig. 5- 19 mostra os três
l•
)S

(a) O Mercado de Fundos Emprestáveis (b) Fluxo Líquido de Capital para o Exterior
la Taxa de juros r
o real, r
l-

1-

:a I + CF
CF( r)
·º Fundos emprestáveis, S, 1 + CF Fluxo líquido de capital
r-
para o exterior, CF

(e) O Merca~o de Câmbio Externo


r- Taxa de
Fig. 5-19 O Equilíbrio na Economia Aberta câmbio
ia Grande O gráfico (a) mostra que o mercado de real, E
1-
fundos emprestáveis determina a taxa de juros
í- de equilíbrio. O gráfico (b) mostra que a taxa de
:a juros determina o fluxo liquido de capital para o
exterior, que por sua vez determina a oferta de
dólares a serem trocados por moedas estrangei-
a ras. O gráfico (e) mostra que a taxa de câmbio real NX(E)
l•
ajusta-se para equilibrar essa oferta de dólares à
demanda proveniente das exportações líquidas . Exportações líquidas, NX
.z
102 CAPITULO 5 1'
gráficos que precisamos para a análise. O painel {a) mostra o Uma maneira de ver como os três tipos de economia estão
equilíbrio no mercado de fundos emprestáveis; o painel (b) relacionados é considerar a identidade
mostra a relação entre a taxa de juros de equilíbrio e o fluxo
líquido de capital para o exterior; e o painel (c) mostra o equi- S = I + NX.
líbrio no mercado de câmbio externo. Nos três.casos, a política fiscal expansionista reduz a poupança
nacional S. Na economia fechada, a queda de S coincide com
Política Fiscal Interna Considere os efeitos de uma políti- uma queda igual em I, enquanto NX permanece constante em
ca fiscal expansionista: um aumento das compras do governo
zero. Na economia aberta pequena, a queda de S coincide com
ou uma diminuição dos impostos. A Fig. 5-20 mostra o que
uma queda igual em NX, enquanto I permanece constante no
acontece. A política fiscal reduz a poupança nacional S, re-
nível fixado pela taxa de juros internacional. A economia aber-
duzindo assim a oferta de fundos emprestáveis e aumentando
ta grande é o caso intermediário: tanto I como NX caem, cada
a taxa de juros r de equilíbrio. A taxa de juros mais alta reduz
o investimento interno I e o fluxo líquido de capital para o qual em menos do que a diminuição em S.
exterior CF. A queda do fluxo líquido de capital para o exte-
rior reduz a oferta de dólares a serem trocados por moeda es- Mudanças da Demanda por Investimento Suponha que
trangeira. A taxa de câmbio é valorizada e as exportações lí- a curva de demanda por investimento se desloque para a di-
quidas caem. reita, talvez porque o Congresso aprova um crédito fiscal para
Observe que o impacto da política fiscal nesse modelo com- investimento. A Fig. 5-21 mostra o efeito. A demanda por fun-
bina seu impacto na economia fechada e seu impacto na eco- dos emprestáveis aumenta, elevando a taxa de juros de equi-
nomia aberra pequena. Como na economia fechada, uma ex- líbrio. A taxa de juros mais alca reduz o fluxo líquido de capi -
pansão fiscal em uma economia aberta grande aumenta a taxa tal para o exterior: os norte-americanos emprestam menos ao
de juros e afasta o investimento. Tal como na economia aber- exterior, e os estrangeiros concedem mais empréstimos aos
ta pequena, uma expansão fiscal causa um déficit comercial e norte-americanos. A queda do fluxo líquido de capital para o
uma valorização da taxa de câmbio. exterior reduz a oferta de dólares no mercado de câmbio ex-

(a) O Mercado de Fundos Emprestáveis (b) Fluxo Líquido de Capital para o Exterior
Taxa de juros r
real, r s
' 2 ......... . . . . . . . . . . . •. . . . . •. . . . . . . . . . . . . . . . r2

A
1.Uma
diminuição
· da pou- · r, . ... . . ·:· . . .
2. ... pança ... 3 . ... o que
aumenta !+ CF baixa o
a taxa de fluxo lfquido CF(r)
juros, ...
Fundos emprestáveis, 5, 1 + CF de capital Fluxo líquido
para o de capital para
exterior, ... o exterior, CF

(e) O Merc~do de Câmbio Externo


Taxa de
câmbio
real, e e
2
Fig. 5-20 Uma Redução da Poupança Nacional na Eco-
nomia Aberta Grande O gráfico (a) mostra que uma re~ ~
d ução da poupança nacional diminui a oferta de fundos 4. ... e1
emprestáveis A taxa de juros de equilíbrio sobe. O gráfico aumenta
(b) mostra que a taxa de juros mais alta diminui o fluxo lí- a taxa de
quido de capital para o exterior. O gráfico (e) mostra que o câmbio...
fluxo líquido reduzido de capital para o exterior significa NX(E)
uma oferta reduzida de dólares no mercado de câmbio de 5. ... e
reduzas Exportações
moedas estrangeiras. A oferta reduzida de dólares faz com líquidas, NX
que a taxa de câmbio real se valorize e as exportações lí- exportações
quidas caiam.
liquidas.
A EcONOMIA ABERTA 103

io (a) O Mercado de Recursos Emprestáveis (b) Fluxo Líquido de Capital para o Exterior
Taxa de juros r
real, r s
............................. r2

~
;a
:n
:n 1. Um ..... . r1
t
n 2 . ... aumento da
eleva a demanda por 3 . ... o que
LO
taxa de investimento ... I+ CF reduzo
r- CF(r)
juros, ... fluxo ffquido
ia Fundos emprestáveis, S, I + CF de capital : CF1 Fluxo líquido de
para o capital para o
exterior, ... exterior, CF
,e (e) O Mer~ado ~e Câmbio Externo
i- Taxa de
:a câmbio
l- real, E
E2
i-
i-
.0
r-f
4. ... e,
Fig. 5-21 Um Aumento da Demanda por Investimen- eleva a
>S
to na Economia Aberta Grande O gráfico (a) mostra que taxa de
o um aumento da demanda por investimento eleva a taxa de câmbio, ...
{•
juros. O gráfico (b) mostra que a taxa de juros mais alta reduz
o fluxo líquido de capital para o exterior. O gráfico (c) mostra 5 . ... e
que um fluxo liquido de capital para o exterior menor causa reduz as Exportações
a valorização da taxa de câmbio real e a queda das exporta- exportações lfguidas, NX
ções líq uidas líquidas.

terno. A taxa de câmbio se valoriza e as exportações líquidas Unidos. A qualquer taxa de juros norte-americana dada, o flu-
caem. xo líquido de capital dos Estados Unidos cai.
Outro motivo do deslocamento da curva CF é a instabili-
Políticas Comerciais A Fig. 5-22 mostra o efeito de uma dade política no exterior. Suponha que ocorra uma guerra ou
barreira comercial, como uma quota de importação. A deman- revolução em outro país. Os investidores ao redor do mundo
da reduzida por importações desloca a curva de exportações tentarão retirar seus ativos daquele país e procurar um "porto
líquidas para a direita no painel (c). Como nada mudou no mer- seguro" em um país estável, como os Estados Unidos. O resul-
cado de fundos emprestáveis, a taxa de juros permanece cons- tado é uma redução do fluxo líquido de capital para o exterior
tante, o que, por sua, vez indica que o fluxo líquido de capital dos Estados Unidos.
para o exterior permanece o mesmo. O deslocamento da curva A Fig. 5-23 mostra o impacto de um deslocamento da curva
de exportações líquidas faz com que a taxa de câmbio se valo- CF. A demanda reduzida por fundos emprestáveis diminui a
rize . O aumento da taxa de câmbio faz com que os bens dos taxa de juros de equilíbrio. A taxa de juros mais baixa tende a
Estados Unidos se tomem caros em relação aos bens externos, aumentar o fluxo líquido de capital para o exterior, mas, como
o que reduz as exportações e estimula as importações. Ao final, isso atenua apenas em parte o deslocamento da curva CF, CF
a barreira comercial não afeta a balança comercial. contínua a cair. O nível reduzido do fluxo líquido de capital
para o exterior reduz a oferta de dólares no mercado de câmbio
Mudanças do Fluxo Líquido de Capital para o Exteri- externo. A taxa de câmbio sofre valorização, e as exportações
or Há vários motivos para que a curva CF se desloque. Um de - líquidas caem.
les é a política fiscal no exterior. Por exemplo, suponhamos que
a Alemanha adote uma política fiscal que aumente a poupan-
ça alemã. Essa política reduz a taxa de juros daquele país. A taxa CONCLUSÃO
de juros alemã mais baixa desestimula os investidores norte- Em que são diferentes a economia aberta pequena e a econo-
americanos a emprestar na Alemanha, ao mesmo tempo em que mia aberta grande? Não resta a menor dúvida de que as políti-
estimula os investidores alemães a emprestarem nos Estados cas econômicas afetam a taxa de juros em uma economia aber-
(a) O Mercado de Fundos Emprestáveis (b) Fluxo líquido de Capital para o Exterior
r
Taxa de juros
real, r s

I + CF CF(r)

Fundos emprestáveis, S, 1 + CF Fluxo líquido


de capital para
o exterior, CF

(c) O Mercado _de Câmbio Externo


Taxa de 1. As políticas
câmbio protecionistas

n.
real,~ e 2 aumentam a
demanda por
exportações líquidas, ...

2 . ... o que
aumenta a
Fig. 5·22 Uma Restrição às Importações na Econo- taxa de
câmbio, ... NX(E)
mia Aberta Grande Uma restnção às importações au-
menta a demanda por exportações líquidas, como é mos- Exportações líquidas, NX
trado no gráfico (c). A taxa de cámbio real se valoriza, en- 3 . ...
quanto a balança comercial de equilíbrio permanece igual. deixando
inalteradas
Nada acontece no mercado de fundos emprestáveis, no
as exportações
gráfico (a). ou com o fluxo liquido de capital para o exteri- líquidas.
or. no gráfico (b).

(a) O Mercado de Fundos Emprestáveis (b) Fluxo líquido de Capital para o Exterior
r
Taxa de juros
real, r s
1. Uma queda do
'-----",;.-----------+- - fluxo liquido de
capital para o exterior...
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . r,
.. . . • . . . . . . . •... r2
2 . ... faz CF(r)
a taxa
de juros
Fundos emprestáveis, S, I + CF CF1 Fluxo líquido de
cair, ...
capital para o
exterior, CF

(c) O Mercad.o d1; Câmbio Externo


Taxa de
câmbio
real, E CF
3 . ... a
taxa de
Fig. 5-23 Uma Queda do Fluxo Líquido de Capital para câmbio
o Exterior na Economia Aberta Grande O gráfico (a) subir.. .
mostra que um deslocamento para a esquerda da curva CF
reduz a demanda por empréstimos e, portanto, a reduz a taxa
de juros de equilíbrio. O gráfico (b) mostra que cai o nível 4 . ... eas
de fluxo líquido de capital para o exterior. O gráfico (c) mos- exportações
lfquidas Exportações
tra que a taxa de cámbio real se valoriza, e as exportações
cafrem líquidas, NX
líquidas caem.
r A ECONOMIA ABERTA 105

ta grande, ao contrário do que ocorre em uma economia aber- levam a déficits comerciais. Nas duas economias, as políticas
ta pequena. Mas, sob outros aspectos, os dois modelos propor- comerciais protecionistas fazem com que a taxa de câmbio so-
cionam conclusões semelhantes. Tanto na economia aberta pe- fra valorização e não influenciam a balança comercial. Como
quena quanto na grande, as políticas econômicas que aumen- os resultados são tão semelhantes, para a maioria das questões
tam a poupança ou diminuem o investimento levam a pode-se utilizar o modelo mais simples da economia aberta
superávits comerciais. Da mesma maneira, políticas econômi- pequena, mesmo que a economia que está sendo examinada não
cas que diminuem a poupança ou aumentam o investimento seja realmente pequena.

MAIS PROBLEMAS E APLICAÇÕES


1. Se uma guerra irrnmpesse no ex terior, afetaria a economia dos e. Os norte-americanos tomam-se apreensivos quanto a viajar
E.5tados Unidos sob muitos aspectos. Utili:e o modelo da econo- para o exterior. A maioria prefere passar as férias nos Estados
mi a aberta grande para avaliar cada um dos efeitos dessa guerra Unidos.
realcionados a seguir. O que acontece nµs Estados Unidos com a f. Os invest idores estrangeiros procuram um porto seguro para suas
poupança, o investimento, a balança comercial, a rnxa de juros e a ap licJções nos Estados U nidos.
raxa de câmbio ? (Para simplificar, considere cada um dlls efeitos
em separado.) 2. A 21 de setembro de 1995, "o presidente da Câmara dos Re-
a. O governo dos Estados Unidos, temendo a necessidade de entrar prese ntantes, Newt Gingrich, ameaçou declarar os Estados
na guerra, aumenta SL1<1s compras de equipamentos militares. Unidos inadimplenres em sua dívida, pela primeira vez na his-
b. Outros países aumenwm suas demandas por armas de alta tec- tória do país, a fün de forçar a Administração Clinton a equili-
nologia, uma das principais exportações dos Estados Unidos. brar o orçamento, em termos republi canos" (Neu, York Times,
c. A guerrn deixa as empresas dos Estados Unidos indecisas quanto 22 de setembro de 1995, A l ). N o mesmo dia , a taxa de juros de
ao fururo, e muiras adia m alguns projetos de investimento. títulos de 30 anos do governo norte-americano subiu de 6,46
d. A guerra faz com que os consumidores norte-americanos se tt)r- para 6,55%, e 0 dólar caiu em valor de 102, 7 para 99,0 ienes.
nem inseguros quanto ao futurn; em conse 4 üênc ia, l)S consu- Utili ze o mod elo da economia nberra grande para explicar esse
midores passam a pl>up,1r mais. eve nto.
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Capítulo 6

DESEMPREGO

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O desemprego é o problema macroeconômico que afeta as pes- por exemplo, em geral costumam aumentar o desemprego en-
soas de modo mais direto e cruel. Para a maioria das pessoas, a tre os membros menos qualificados e menos experientes da força
perda do emprego significa um padrão de vida reduzido e uma de trabalho. Ao mostrarem os efeitos das várias políticas eco-
angústia psicológica. Não surpreende que o desemprego seja um nômicas, os economistas ajudam os formadores de política eco-
tema freqüente no debate político, e que os políticos muitas nômica a avaliarem suas opções.
vezes aleguem que suas propostas econômicas ajudariam a cri- Até aqui, nossas análises do mercado de trabalho ignoraram
ar empregos. o desemprego. Em particular, o modelo de renda nacional do
Os economistas estudam o desemprego para identificar suas Cap. 3 baseou-se no pressuposto de que a economia mantinha-
causas e ajudar a melhorar as políticas econômicas que afetam se sempre a pleno emprego. Na realidade, é claro, nem todos
os desempregados. Algumas dessas políticas, como os progra- os indivíduos na força de trabalho têm emprego durante todo
mas de treinamento, ajudam as pessoas a encontrarem empre- o tempo: todas as economias de livre mercado experimentam
go. Outras, como o seguro-desemprego, aliviam algumas das algum desemprego.
dificuldades que os desempregados encontram. Outras políti- A Fig. 6-1 mostra a taxa de desemprego - ó percentual da
cas ainda afetam inadvertidamente a prevalência do desempre- força de trabalho desempregado - nos Estados Unidos desde
go. Leis que tornam compulsório um salário mínimo elevado, 1948. Embora a taxa de desemprego oscile de um ano para

Percentual de
desempregados

10
Taxa de desemprego ~
.,
8

Taxa natural
4 de desemprego

º'------'---- ~---~---'-- ---''---- ~----'----'-----'-- ---'---........-


1945 1950 1955 1960 1965 1970 1975 1980 1985 1990 1995 2000
Ano

Fig. 6-1 A Taxa de Desemprego e a Taxa Natural de Desemprego nos Estados Unidos Sempre há algum desemprego. A taxa natural de
desemprego é o n ível médio em torno do qual oscila a.taxa de desemprego. (A taxa natural de desemprego, para qualquer ano específico, é estimada
aqui pela média de todas as taxas de desemprego. de dez anos antes a dez anos depois. As taxas de desemprego futuras estão fixadas em 5,5%.)
DESEMPREGO 107

outro, nunca chega sequer perto de zero. A média fica entre 5 a Parte IV deste livro, onde examinamos as oscilações econô-
e 6%, significando que 1 em cada 18 pessoas na força de traba- micas de curto prazo. Aqui, estudaremos os determinantes da
lho não tem emprego. taxa natural de desemprego: a taxa média de desemprego em
Neste capítulo, iniciaremos o estudo do desemprego expli- tomo da qual a economia oscila. A taxa natural é a taxa de de-
cando por que há sempre algum desemprego, e o que determi- semprego em tomo da qual a economia gravita no longo prazo,
na o nível de desemprego. Não estudaremos o que determina com todas as imperfeições do mercado de trabalho que impedem
35 oscilações de um ano para outro da taxa de desemprego até os trabalhadores de encontrarem emprego imediatamente.

},
6-1 PERDA DO EMPREGO, OBTENÇAO DE EMPREGO E
l. A TAXA NATURAL DE DESEMPREGO
lc
Todos os dias, alguns trabalhadores perdem ou deixam o em- emprego todos os meses. Juntas, a taxa de separação se a taxa
prego, enquanto alguns trabalhadores desempregados são con- de obtenção de emprego f determinam a taxa de desemprego.
l· tratados. Nesta seção, desenvolveremos um modelo da dinâ- Se a taxa de desemprego não está subindo nem descendo -
:a mica da força de trabalho que mostra o que determina a taxa ou seja, se o mercado de trabalho se mantém num estado esta-
)• natural de desemprego.' cionário-o número de pessoas que está obtendo emprego deve
)• Comecemos com alguma notação. L vai indicar a força de igualar o número de pessoas que está perdendo o emprego. O
trabalho, E o número de trabalhadores empregados e U o nú- número de pessoas que obtém emprego é fU, e o nú