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História do Cristianismo

INTRODUÇÃO

A identidade de um povo é construída pelo conjunto de características sociais, morais,


éticas, pessoais, religiosas e culturais agrupadas num processo histórico que se perpetua pela
transmissão de uma geração à outra, através dos meios possíveis. Tal processo revela o que
os homens fizeram, pensaram e sentiram enquanto seres sociais. Nesse sentido, o
conhecimento histórico ajuda na compreensão do homem enquanto ser que constrói seu
tempo.

Portanto, a história é feita por homens, mulheres, crianças, ricos e pobres; por
governantes e governados, por dominantes e dominados, pela guerra e pela paz, por
intelectuais e principalmente pelas pessoas comuns que desde os tempos mais remotos
deixaram a sua marca, o seu legado ou simplesmente viveram os seus dias como todos os
mortais

A história está presente no cotidiano e serve de alerta à condição humana de agente


transformador do mundo ao estudá-la nos deparamos com o que os homens foram e fizeram,
e isso nos ajuda a compreender o que podemos ser e fazer. Assim, a história é a ciência do
passado e do presente, mas o estudo do passado e a compreensão do presente não
acontecem de uma forma perfeita, pois não temos o poder de voltar ao passado e ele não se
repete. Por isso, o passado tem que ser “recriado”, levando em consideração as mudanças
ocorridas no tempo.

As informações recolhidas no passado não servirão ao presente se não forem


recriadas, questionadas, compreendidas e interpretadas. A história não se resume à simples
repetição dos conhecimentos acumulados. Ela deve servir como instrumento de
conscientização dos homens para a tarefa de construir um mundo melhor e uma sociedade
mais justa.

FONTES

O estudo da História foi dividido em dois períodos: A Pré-História (antes do surgimento


da escrita) e a História (após o surgimento da escrita, por volta de 4.000 a.C). Para analisar a
Pré-História, os historiadores e arqueólogos analisam fontes materiais (ossos, ferramentas,
vasos de cerâmica, objetos de pedra e fósseis) e artísticas (arte rupestre, esculturas, adornos).

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Já o estudo da História conta com um conjunto maior de fontes para serem analisadas
pelo historiador. Estas fontes podem ser: livros, roupas, imagens, objetos materiais, registros
orais, documentos, moedas, jornais, gravações, etc.

CIÊNCIAS AUXILIARES DA HISTÓRIA

A História conta com ciências que auxiliam seu estudo. Entre estas ciências
auxiliares, podemos citar:

Antropologia (estuda o fator humano e suas relações).

Paleontologia (estudo dos fósseis).

Heráldica (estudo de brasões e emblemas).

Numismática (estudo das moedas e medalhas).

Psicologia (estudo do comportamento humano).

Arqueologia (estudo da cultura material de povos antigos).

Paleografia (estudo das escritas antigas) entre outras.

O GREGO HERÓDOTO (485 A.C. - 430 A.C.)

A História nasce unida à Filosofia. São os gregos que descobrem a importância


específica da explicação histórica. Heródoto, historiador grego, nascido no século V a.C, é
considerado o pai da História, pois é o primeiro a empregar a palavra no sentido de
investigação, pesquisa.

O desenvolvimento do termo vai mudando a partir dos paradigmas formulados por cada
momento histórico. Na idade média, a história está voltada às explicações sobrenaturais,
segundo um plano de providência divina. A partir dos séculos V e VI d.C (período medieval),
quando se forma a civilização ocidental européia, a realidade está dividida em dois planos: o
superior, perfeito (Deus) e o inferior, imperfeito (Ser Humano). Essa visão é ainda mais
arraigada por Santo Agostinho, o primeiro formulador de uma interpretação teológica da
História.

Com o declínio do medievo e o desenvolvimento da razão e da busca por respostas


mais racionais para a realidade, nasce o que comumente chamamos de modernidade. Aos
poucos vai se formulando uma concepção não teológica do mundo e da história. O
conhecimento não parte de mais de uma revelação divina, mas de uma explicação da razão.

Com o advento do racionalismo já não se procura mais a salvação num outro mundo,
mas sim o progresso e a perfeição aqui neste mundo mesmo. O ser humano não seria mais
guiado pela fé, mas pela razão. Com a mudança de paradigma, agora não mais teocêntrico,
mas antropocêntrico, a maneira de pensar a história também vai se transformando.

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No século XVIII, com o aparecimento da burguesia e a desestruturação de uma


sociedade feudal, surge o Iluminismo. Essa corrente de pensamento busca mostrar a história
como sendo o desenvolvimento linear, progressivo e ininterrupto da razão humana.

Adiante no tempo, no começo do século XIX, surge outra corrente filosófica, o


Positivismo, na França. Os principais idealizadores do positivismo foram os pensadores
Augusto Comte e John Stuart Mill. Esta escola filosófica ganhou força na Europa na segunda
metade do século XIX e começo do XX, período em que chegou ao Brasil. O positivismo
defende a idéia de que o conhecimento científico é a única forma de conhecimento verdadeiro.
De acordo com os positivistas somente pode-se afirmar que uma teoria é correta se ela foi
comprovada através de métodos científicos válidos.

Os positivistas não consideram os conhecimentos ligados as crenças, superstição ou


qualquer outro que não possa ser comprovado cientificamente. Para eles, o progresso da
humanidade depende exclusivamente dos avanços científicos. Para os positivistas, cabe à
história um levantamento científico dos fatos, sem procurar interpretá-los.

De certa forma somos herdeiros dessa tradição positivista e aprendemos a olhar a


história somente a partir de fatos que nos foram passados, pelo pensamento dominante.
Somos acostumados a pensar a história a partir só dos seus heróis, sem levar em conta a rede
de relações que esses heróis estão envolvidos. É muito comum, inclusive, nos debruçarmos
sobre a história dos grandes heróis da fé: Moisés, Abraão e tantos outros, sem de fato nos
voltamos para pessoas comuns que estiveram junto com esses “heróis”, fazendo a história. O
que dizer de Hagar, a escrava usada e excluída pela família do “herói” Abraão?

Como vimos, a maneira de olhar a história transforma-se de acordo com o momento


histórico em que vivemos. Nos dias atuais fala-se de um processo histórico de longa duração,
onde o olhar do historiador está voltado para os detalhes que permeiam a realidade social. A
história é feita do cotidiano das pessoas que não são apenas sujeitos, mas agentes no seu
mundo em construção.

A partir de uma visão mais ampliada do fazer história algumas perguntas são
importantes nesse objetivo de contar esta História da Igreja: Quem fez esta História? Quais são
os seus personagens? Quem nos conta esta História? Quais interesses estão em jogo nesta
História? De que lugar a História é contada? Onde estão as mulheres, as crianças, o pobre, o
marginalizado nesta História? Há de se pensar nesses questionamentos ao lermos sobre a
História do Cristianismo e quiçá possamos resgatar outros personagens além do que nos é
passado nos manuais de estudo da História da Igreja.

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CAPÍTULO 1

PANORAMA GERAL DA HISTÓRIA DO CRISTIANISMO

A história do Cristianismo é na verdade a história da civilização ocidental. O


Cristianismo tem tido uma influência marcante na sociedade como um todo – arte, linguagem,
política, lei, vida familiar, datas no calendário, música e a forma que pensamos – tudo sem sido
colorido pela influência Cristã por quase dois milênios.

O cristianismo é uma das chamadas grandes religiões. Tem aproximadamente 1,9


bilhões de seguidores em todo o mundo, incluindo católicos, ortodoxos e protestantes.
Cristianismo vem da palavra Cristo, que significa messias, pessoa consagrada, ungida. Do
hebraico mashiah (o salvador) foi traduzida para o grego como khristos e para o latim como
christus. A doutrina do cristianismo baseia-se na crença de que todo o ser humano é eterno, a
exemplo de Cristo, que ressuscitou após sua morte. A fé cristã ensina que a vida presente é
uma caminhada e que a morte é uma passagem para uma vida eterna e feliz para todos os que
seguirem os ensinamentos de Cristo.

Os ensinamentos estão contidos exclusivamente na Bíblia, dividida entre o Antigo e o


Novo Testamento. O Antigo Testamento trata da lei judaica, ou Torá. Começa com relatos da
criação e é todo permeado pela promessa de que Deus, revelado a Abraão, a Moisés e aos
profetas enviaria à Terra seu próprio filho como Messias, o salvador. O Novo Testamento
contém os ensinamentos de Cristo, escritos por seus seguidores. Os principais são os quatro
evangelhos ("mensagem", "boa nova"), escritas pelos apóstolos Mateus, Marcos, Lucas e João.
Também inclui os Atos dos Apóstolos (cartas e ensinamentos que foram passados de boca em
boca no início da era cristã, com destaque para as cartas de Paulo) e o Apocalipse.

O nascimento do cristianismo se confunde com a história do império romano e com a


história do povo judeu. Na sua origem, o cristianismo foi apontado como uma seita surgida do
judaísmo e terrivelmente perseguida. Quando Jesus Cristo nasceu, por volta do ano 4 AC, na
pequena cidade de Belém, próxima a Jerusalém, os romanos dominavam a Palestina. Os
judeus viviam sob a administração de governadores romanos e, por isso, aspiravam pela
chegado do Messias (criam que seria um grande homem de guerra e que governaria
politicamente), apontado na Torá (VT) como o enviado que os libertaria da dominação romana.

Até os 30 anos Jesus viveu anônimo em Nazaré, cidade situada no norte do atual Israel.
Aos 33 anos seria crucificado em Jerusalém e ressuscitaria três dias depois. Em pouco tempo,
aproximadamente três anos, reuniu seguidores (os 12 apóstolos) e percorreu a região

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pregando sua doutrina e fazendo milagres, como ressuscitar pessoas mortas e curar cegos,
logo tornou-se conhecido de todos e grandes multidões o seguiam.

Mas, para as autoridades religiosas judaicas ele era um blasfemo, pois se


autodenominava o Messias. Não tinha aparência e poder para ser o líder que libertaria a região
da dominação romana. Ele era o Deus que num processo de “Kenosis”, assumiu a sua
humanidade e pregava paz, amor ao próximo. Para os romanos, era um agitador popular. Após
ser preso e morto, a tendência era de que seus seguidores se dispersassem e seus
ensinamentos fossem esquecidos. Ocorreu o contrário. É justamente nesse fato que se
assenta a fé cristã. Como haviam antecipado os profetas no Antigo Testamento, Cristo
ressuscitou, apareceu a seus apóstolos (Apóstolo quer dizer enviado.) que estavam
escondidos e ordenou que se espalhassem pelo mundo pregando sua mensagem de amor,
paz, restauração e salvação.

O cristianismo firmou-se como uma religião de origem divina. Seu fundador era o
próprio filho de Deus, enviado como salvador e construtor da história junto com o homem. Ser
cristão, portanto, seria engajar-se na obra redentora de Cristo, tendo como base a fé em seus
ensinamentos. Rapidamente, a doutrina cristã se espalhou pela região do Mediterrâneo e
chegou ao coração do império romano.

A difusão do cristianismo pela Grécia e Ásia Menor foi obra especialmente do apóstolo
Paulo, que não era um dos 12 e teria sido chamado para a missão pelo próprio Jesus. As
comunidades cristãs se multiplicaram e em Roma, muitos cristãos foram transformados em
mártires, comidos por leões em espetáculos no Coliseu, como alvos da ira de imperadores
atacados por corrupção e devassidão.

Em 313, o imperador Constantino se converteu ao cristianismo e concedeu liberdade de


culto, o que facilitou a expansão da doutrina por todo o império. Antes de Constantino, as
reuniões ocorriam em subterrâneos, as famosas catacumbas que até hoje podem ser visitadas
em Roma. O cristianismo, mesmo firmando-se como de origem divina, é, como qualquer
religião, praticado por seres humanos com liberdade de pensamento e diferentes formas de
pensar.

Veículos de difusão do cristianismo

Após a morte de Jesus, a mensagem cristã difundiu-se rapidamente beneficiando de


uma conjectura social e políticas muito propícias. Assim podemos atribuir o sucesso da
expansão cristã aos seguintes fatores:

1 - Uma excelente rede de estradas que facilitou a circulação dos discípulos e dos
ideais cristãos;

2 - Unidade lingüística do império que facilitou a transmissão desses mesmos ideais;

3 - Uma intensa obra evangelização por parte dos apóstolos, quer pelas suas viagens,
quer pela redação dos quatro evangelhos do Novo testamento;

4 - O apostolado de Paulo e de Pedro;

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5 - A existência de comunidades judaicas (diáspora), por todo o Império, que acolheram


bem este novo credo, por ser também monoteísta;

6 - O descontentamento e a insatisfação gerais da população romana devido às


desigualdades sociais existentes;

7 - Os valores defendidos pelo Cristianismo eram sinônimos de esperança para os


povos oprimidos;

8 - A fuga da perseguição religiosa empreendida inicialmente por judeus conservadores,


e posteriormente pelo Estado Romano;

9 - A existência de numerosas cidades;

10 - O cárter universalista da mensagem, uma fé que propõe que a mensagem de Deus


destina-se a toda a humanidade e não apenas a um povo escolhido;

11 - O ideal de paz pregado pelos cristãos;

12 - E por último a corajosa resistência dos mártires cristãos, que, em tempos de


perseguição enfrentavam as torturas mais cruéis.

Outro fator coadjuvante foi a crise que a própria religião tradicional romana, atravessava
nessa época. Excessivamente formal e ritualista incapaz de dar respostas satisfatórias às
inquietações dos homens, que procuravam expectativas de felicidade no Além. A aliar a esta
crise religiosa, as correntes filosóficas que circulavam, espalhavam a idéia de um Deus único,
supremo e transcendente, adubando o caminho para o monoteísmo.

A cidade de Jerusalém foi o centro da primeira comunidade cristã até a sua destruição
pelos Romanos em 70 d. C., por ordem de Tito, que mandou destruir também o templo. O
centro do movimento cristão irradiou então a sua influência a outros núcleos urbanos da
Palestina. No entanto ironicamente a sua expansão foi mais limitada na Palestina do que
noutras partes do Império. Devido a perseguição movida pelas autoridades religiosas judaicas,
e à morte do primeiro mártir, Estêvão, o cristianismo começa a conquistar os judeus dispersos
por todo o Império Romano, ganhando força, sobretudo nas províncias orientais do Egito, da
Ásia Menor e da Grécia. A conversão dos judeus de Alexandria, Éfeso, Antioquia e Corinto
abriu as portas para a conversão dos povos pagãos.

No que diz respeito ao ocidente formou-se uma importante comunidade em Roma em


meados II d.C.. Nas Gálias, a expansão cristã teve como eixo principal o vale de Ródano.
Também chegou à Germânia e à Britânia. Na remota Hispânia, expandiu-se de forma inicial
nas áreas romanizadas, sob a influência de Roma e do vizinho cristianismo africano.

Num determinado momento, os cristãos sem raízes judaicas ultrapassaram em


número os judeus cristãos. A ação do apóstolo Paulo neste sentido foi crucial. Paulo que
nasceu judeu, com estatuto de cidadão romano, mas pouco depois da morte do mártir Estêvão
converteu-se ao cristianismo, acabando por se tornar um dos principias instrumentos de
transmissão da mensagem de Cristo aos gentios através das suas Epístolas direcionadas às
comunidades cristãs.

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CAPÍTULO 2

PANORAMA GERAL DA IGREJA PRIMITIVA

A palavra igreja vem do grego ekklesia, que tem origem em kaleo ("chamo ou
convosco"). Na literatura secular, ekklesia referia-se a uma assembléia de pessoas, mas no
Novo Testamento (NT) a palavra tem sentido mais especializado. A literatura secular podia
usar a apalavra ekklesia para denotar um levante, um comício, uma orgia ou uma reunião para
qualquer outra finalidade. Mas o NT emprega ekklesia com referência à reunião de cristãos
para adorar a Cristo.

Que é a igreja? Que pessoas constituem esta "reunião"? Que é que Paulo pretende
dizer quando chama a igreja de "corpo de Cristo"? Para responder plenamente a essas
perguntas, precisamos entender o contexto social e histórico da igreja do NT. A igreja primitiva
surgiu no cruzamento das culturas hebraicas e helenística.

Fundada a Igreja

Quarenta dias depois de sua ressurreição, Jesus deu instruções finais aos discípulos e
ascendeu ao céu (At 1.1-11). Os discípulos voltaram a Jerusalém e se recolheram durante
alguns dias para jejum e oração, aguardando o ES, o qual Jesus disse que viria. Cerca de 120
pessoas seguidores de Jesus aguardavam. Cinqüenta dias após a Páscoa, no dia de
Pentecoste, um som como um vento impetuoso encheu a casa onde o grupo se reunia.
Línguas de fogo pousaram sobre cada um deles e começaram a falar em línguas diferentes da
sua conforme o Espírito Santo os capacitava. Os visitantes estrangeiros ficaram surpresos ao
ouvir os discípulos falando em suas próprias línguas. Alguns zombaram, dizendo que deviam
estar embriagados (At 2.13).

Mas Pedro fez calar a multidão e explicou que estavam dando testemunho do
derramamento do Espírito Santo predito pelos profetas do Antigo Testamento (AT) (At 2.16-21;
Jl 2.28-32). Alguns dos observadores estrangeiros perguntaram o que deviam fazer para
receber o Espírito Santo. Pedro disse: "Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em
nome de Jesus Cristo, para remissão dos vossos pecados, e recebereis o dom do Espírito
Santo " (At 2.38). Cerca de 3 mil pessoas aceitaram a Cristo como seu Salvador naquele dia
(Atos 2.41).

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Durante alguns anos Jerusalém foi o centro da igreja. Muitos judeus acreditavam que os
seguidores de Jesus eram apenas outra seita do judaísmo. Suspeitavam que os cristãos
estavam tentando começar um nova "religião de mistério" em torno de Jesus de Nazaré.
É verdade que muitos dos cristãos primitivos continuaram a cultuar no templo (At 3.1) e alguns
insistiam em que os convertidos gentios deviam ser circuncidados (At 15). Mas os dirigentes
judeus logo perceberam que os cristãos eram mais do que uma seita. Jesus havia dito aos
judeus que Deus faria uma Nova Aliança com aqueles que lhe fossem fiéis (Mt 16.18); ele
havia selado esta aliança com seu próprio sangue (Lc 22.20).

De modo que os cristãos primitivos proclamavam com ousadia haverem herdados os


privilégios que Israel conhecera outrora. Não eram simplesmente uma parte de Israel, mas
eram o novo Israel (Ap 3.12; 21.2; Mt 26.28; Hb 8.8; 9.15). "Os líderes judeus tinham um medo
de arrepiar, porque este novo e estranho ensino não era um judaísmo estreito, mas fundia o
privilégio de Israel na alta revelação de um só Pai de todos os homens." (Henry Melvill Gwatkin,
Early Church History, pag 18).

a) A Comunidade de Jerusalém.

Os primeiros cristãos formavam uma comunidade estreitamente unida em Jerusalém


após o dia de Pentecoste. Esperavam que Cristo voltasse muito em breve.
Os cristãos de Jerusalém repartiam todos os seus bens materiais (At 2.44-45). Muitos vendiam
suas propriedades e davam à igreja o produto da venda, a qual distribuía esses recursos entre
o grupo ( At 4.34-35).

Os cristãos de Jerusalém ainda iam ao templo para orar (At 2.46), mas começaram a
partilhar a Ceia do Senhor em seus próprios lares (At 2.42-46). Esta refeição simbólica trazia-
lhes à mente sua nova aliança com Deus, a qual Jesus havia feito sacrificando seu próprio
corpo e sangue. Deus operava milagres de cura por intermédio desses primeiros cristãos.
Pessoas enfermas reuniam-se no templo de sorte que os apóstolos pudessem tocá-las em seu
caminho para a oração (At 5.12-16). Esses milagres convenceram muitos de que os cristãos
estavam verdadeiramente servindo a Deus.

As autoridades do templo, num esforço por suprimir o interesse das pessoas na nova
religião, prenderam os apóstolos. Mas Deus enviou um anjo para libertá-los (At 5.17-20), o que
provocou mais excitação. A igreja crescia com tanta rapidez que os apóstolos tiveram de
nomear sete homens para distribuir víveres às viúvas necessitadas. O dirigente desses
homens era Estevão, "homem cheio de fé e do Espírito Santo" (At 6.5). Aqui vemos o começo
do governo eclesiástico. Os apóstolos tiveram de delegar alguns de seus deveres a outros
dirigentes. À medida que o tempo passava, os ofícios da igreja foram dispostos numa estrutura
um tanto complexa.

b) O Assassínio de Estevão.

Certo dia um grupo de judeus apoderou-se de Estevão e, acusando-o de blasfêmia, o


levou à presença do conselho do sumo sacerdote. Estevão fez uma eloqüente defesa da fé
cristã, explicando como Jesus cumpriu as antigas profecias referentes ao Messias que
libertaria seu povo da escravidão do pecado. Ele denunciou os judeus como "traidores e
assassinos" do filho de Deus (At 7.52). Erguendo os olhos para o céu, ele exclamou que via a

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Jesus em pé à destra de Deus ( At 7.55). Isso enfureceu os judeus, que o levaram para fora da
cidade e o apedrejaram (At 7.58-60).

Esse fato deu início a uma onde de perseguição que levou muitos cristãos a
abandonarem Jerusalém (At 8.1). Alguns desses cristãos estabeleceram-se entre os gentios de
Samaria, onde fizeram muitos convertidos (At 8.5-8). Estabeleceram congregações em
diversas cidades gentias, como Antioquia da Síria. A princípio os cristãos hesitavam em
receber os gentios na igreja, porque eles viam a igreja como um cumprimento da profecia
judaica.

Não obstante, Cristo havia instruído seus seguidores a fazer "discípulos de todas as
nações, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo" (Mt 28.19). Assim, a
conversão dos gentios foi "tão-somente o cumprimento da comissão do Senhor, e o resultado
natural de tudo o que havia acontecido..." (Gwatkin, Early Church History, p. 56). Por
conseguinte, o assassínio de Estevão deu início a uma era de rápida expansão da igreja.

c) Atividades Missionárias.

Cristo havia estabelecido sua igreja na encruzilhada do mundo antigo. As rotas


comerciais traziam mercadores e embaixadores através da Palestina, onde eles entravam em
contato com o evangelho. Dessa maneira, no livro de Atos vemos a conversão de oficiais de
Roma (At 10.1-48), da Etiópia (At 8.26-40), e de outras terras. Logo depois da morte de
Estevão, a igreja deu início a uma atividade sistemática para levar o evangelho a outras
nações. Pedro visitou as principais cidades da Palestina, pregando tanto a judeus como aos
gentios. Outros foram para a Fenícia, Chipre e Antioquia da Síria. Ouvindo que o evangelho era
bem recebido nessas regiões, a igreja de Jerusalém enviou a Barnabé para incentivar os novos
cristãos em Antioquia (At 11.22-23). Barnabé, a seguir, foi para Tarso em busca do jovem
convertido Saulo (Paulo) e o levou para a Antioquia, onde ensinaram na igreja durante um ano
(At 11.26).

Um profeta por nome Ágabo predisse que o Império Romano sofreria uma grande fome
sob o governo do Imperador Cláudio. Herodes Agripa estava perseguindo a igreja em
Jerusalém; Ele já havia executado a Tiago, irmão de João, e tinha lançado Pedro na prisão (At
12.1-4). Assim os cristãos de Antioquia coletaram dinheiro para enviar a seus amigos em
Jerusalém, e despacharam Barnabé e Paulo com o socorro. Os dois voltaram de Jerusalém
levando um jovem chamado João Marcos (At 12.25). Por esta ocasião, diversos evangelistas
haviam surgido no seio da igreja de Antioquia, de modo que a congregação enviou Barnabé e
Paulo numa viagem missionária à Ásia Menor (At 13-14). Esta foi a primeira de três grandes
viagens missionárias que Paulo fez para levar o evangelho aos recantos longínquos do Império
Romano.

Os primeiros missionários cristãos concentraram seus ensinos na Pessoa e obra de


Jesus Cristo. Declararam que ele era o servo impecável e Filho de Deus que havia dado sua
vida para expiar os pecados de todas as pessoas que depositavam sua confiança nele (Rm
5.8-10). Ele era aquele a quem Deus ressuscitou dos mortos para derrotar o poder do pecado
(Rm 4.24-25; 1Co 15.17).

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d) Governo Eclesiástico.

A princípio, os seguidores de Jesus não viram a necessidade de desenvolver um


sistema de governo da Igreja. Esperavam que Cristo voltasse em breve, por isso tratavam os
problemas internos à medida que surgiam - geralmente de um modo muito informal.
Mas o tempo em que Paulo escreveu suas cartas às igrejas, os cristãos reconheciam a
necessidade de organizar o seu trabalho.

O NT não nos dá um quadro pormenorizado deste governo da igreja primitiva.


Evidentemente, um ou mais presbíteros presidiam os negócios de cada congregação (Rm
12.6-8; 1Ts 5.12; Hb 13.7,17,24), exatamente como os anciãos faziam nas sinagogas judaicas.
Esses anciãos (ou presbíteros) eram escolhidos pelo Espírito Santo (At 20.28), mas os
apóstolos os nomeavam (At 14.23). Por conseguinte, o Espírito Santo trabalhava por meio dos
apóstolos ordenando líderes pra o ministério. Alguns ministros chamados evangelistas
parecem ter viajado de uma congregação para outra, como faziam os apóstolos. Seu título
significa "homens que manuseiam o evangelho".

Alguns têm achado que eram todos representantes pessoais dos apóstolos, como
Timóteo o foi de Paulo; outros supõem que obtiveram esse nome por manifestarem um dom
especial de evangelização. Os anciãos assumiam os deveres pastorais normais entre as visitas
desses evangelistas. Algumas cartas do NT referem-se a bispos na igreja primitiva. Isto é um
bocado confuso, visto que esses "bispos" não formavam uma ordem superior da liderança
eclesiástica como ocorre em algumas igrejas onde o título é usado hoje.

Paulo lembrou aos presbíteros de Éfeso que eles eram bispos (At 20.28), e parece que
ele usa os termos presbítero e bispo intercambiavelmente (Tt 1.5-9). Tanto os bispos como os
presbíteros estavam encarregados de supervisar uma congregação. Evidentemente, ambos os
termos se referem aos mesmos ministros da igreja primitiva, a saber, os presbíteros.
Paulo e os demais apóstolos reconheceram que o ES concedia habilidades especiais de
liderança a certas pessoas (1Co 12.28). Assim, quando conferiam um título oficial a um irmão
ou irmã em Cristo, estavam confirmando o que o Espírito Santo já havia feito.

A igreja primitiva não possuía um centro terreal de poder. Os cristãos entendiam que
Cristo era o centro de todos os seus poderes (At 20.28). O ministério significava servir em
humildade, em vez de governar de uma posição elevada (Mt 20.26-28). Ao tempo em que
Paulo escreveu suas epístolas pastorais, os cristãos reconheciam a importância de preservar
os ensinos de Cristo por intermédio de ministros que se devotavam a estudo especial, "que
maneja bem a palavra da verdade" (2Tm 2.15).

A igreja primitiva não oferecia poderes mágicos, por meio de rituais ou de qualquer
outro modo. Os cristãos convidavam os incrédulos para fazer parte de seu grupo, o corpo de
Cristo (Ef 1.23), que seria salvo como um todo. Os apóstolos e os evangelistas proclamavam
que Cristo voltaria para o seu povo, a "noiva" de Cristo (Ap 21.2; 22.17). Negavam que
indivíduos pudessem obter poderes especiais de Cristo para seus próprios fins egoístas (At
8.9-24; 13.7-12).

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e) Padrões de Adoração.

Visto que os cristãos primitivos adoravam juntos, estabeleceram padrões de adoração


que diferiam muito dos cultos da sinagoga. Não temos um quadro claro da adoração Cristã
primitiva até 150 dC, quando Justino Mártir descreveu os cultos típicos de adoração. Sabemos
que a igreja primitiva realizava seus serviços no domingo, o primeiro dia da semana.
Chamavam-no de "o Dia do Senhor" porque foi o dia em que Cristo ressurgiu dos mortos. Os
primeiros cristãos reuniam-se no templo em Jerusalém, nas sinagogas, ou nos lares ( At 2.46;
13.14-16; 20.7-8).

Alguns estudiosos crêem que a referência aos ensinos de Paulo na escola de Tirano (At
19.9) indica que os primitivos cristãos às vezes alugavam prédios de escola ou outras
instalações. Não temos prova alguma de que os cristãos tenham construído instalações
especial para seus cultos de adoração durante mais de um século após o tempo de Cristo.
Onde os cristãos eram perseguidos, reuniam-se em lugares secretos como as catacumbas
(túmulos subterrâneos) de Roma.

Crêem os eruditos que os primeiros cristãos adoravam nas noites de domingo, e que
seu culto girava em torno da Ceia do Senhor. Mas nalgum ponto os cristãos começavam a
manter dois cultos de adoração no domingo, conforme descreve Justino Mártir - um bem cedo
de manhã e outro ao entardecer. As horas eram escolhidas por questão de segredo e para
atender às pessoas trabalhadoras que não podiam comparecer aos cultos de adoração durante
o dia.

Ordem do Culto:

Geralmente o culto matutino era uma ocasião de louvor, oração e pregação. O serviço
improvisado de adoração dos cristãos no Dia de Pentecoste sugere um padrão de adoração
que podia ter sido geralmente adotado. Ao olharmos o texto de (At 2.14-36) percebemos que o
padrão apresentado é a leitura do livro do profeta Joel, a exposição da Palavra com um apelo
que culmina no batismo dos convertidos, esta seqüência poderia ter sido perpetuada na liturgia
da igreja primitiva. Também o apóstolo Paulo em (1Co 14.26), nos dá uma visão clara de como
funcionava a ordem do culto da Igreja Primitiva: "Portanto, meus irmãos, o que é que deve ser
feito? Quando vocês se reúnem na igreja, um irmão tem um hino para cantar; outro, alguma
coisa para ensinar; outro, uma revelação de Deus; outro, uma mensagem em línguas
estranhas; e ainda outro, a interpretação dessa mensagem. Que tudo seja feito para o
crescimento espiritual da igreja." - NTLH

A Ceia do Senhor:

Os primitivos cristãos tomavam a refeição simbólica da Ceia do Senhor para comemorar


a Última Ceia, na qual Jesus e seus discípulos observaram a tradicional festa judaica da
Páscoa. Os temas dos dois eventos eram os mesmo. Na Páscoa os judeus regozijavam-se
porque Deus os havia libertado de seus inimigos e aguardavam com expectação o futuro como
filhos de Deus. Na Ceia do Senhor, os cristãos celebravam o modo como Jesus os havia
libertado do pecado e expressavam sua esperança pelo dia quando Cristo voltaria (1Co 11.26).

A princípio, a Ceia do Senhor era uma refeição completa que os cristãos partilhavam

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em suas casas. Cada convidado trazia um prato para a mesa comum. A refeição começava
com oração e com o comer de pedacinhos de um único pão que representava o corpo partido
de Cristo. Encerrava-se a refeição com outra oração e a seguir participavam de uma taça de
vinho, que representava o sangue vertido de Cristo. Algumas pessoas conjeturavam que os
cristãos estavam participando de um rito secreto quando observavam a Ceia do Senhor, e
inventaram estranhas histórias a respeito desses cultos. O imperador Trajano proscreveu
essas reuniões secretas por volta do ano 100 dC. Nesse tempo os cristãos começaram a
observar a Ceia do Senhor durante o culto matutino de adoração, aberto ao público.

Batismo:

O batismo era um acontecimento comum da adoração cristã no tempo de Paulo (Ef


4.5). Contudo, os cristãos não foram os primeiros a celebrar o batismo. Os judeus batizavam
seus convertidos gentios; algumas seitas judaicas praticavam o batismo como símbolo de
purificação, e João Batista fez dele uma importante parte de seu ministério. O NT não diz se
Jesus batizava regularmente seus convertidos, mas numa ocasião, pelo menos, antes da
prisão de João, ele foi encontrado batizando. Em todo o caso, os primitivos cristãos eram
batizados em nome de Jesus, seguindo o seu próprio exemplo (Mc 1.10; Gl 3.27).
Parece que os primitivos cristãos interpretavam o significado do batismo de vários modos -
como símbolo da morte de uma pessoa para o pecado (Rm 6.4; Gl 2.12), da purificação de
pecados (At 22.16; Ef 5.26), e da nova vida em Cristo (At 2.41; Rm 6.3). De quando em quando
toda a família de um novo convertido era batizada (At 10.48; 16.33; 1Co 1.16), o que pode
significar o desejo da pessoa de consagrar a Cristo tudo quanto tinha.

Calendário Eclesiástico:

O NT não apresenta evidência alguma de que a igreja primitiva observava quaisquer


dias santos, a não ser sua adoração no primeiro dia da semana (At 20.7; 1Co 16.2; Ap 1.10).
Os cristãos não observam o domingo como dia de descanso até ao quarto século de nossa
era, quando o imperador Constantino designou-o como um dia santo para todo o Império
Romano. Os primitivos cristãos não confundiam o domingo com o sábado judaico, e não faziam
tentativa alguma para aplicar a ele a legislação referente ao sábado.

O historiador Eusébio diz-nos que os cristãos celebravam a Páscoa desde os tempos


apostólicos; 1Co 5.6-8, talvez se refira a uma Páscoa cristã na mesma ocasião da Páscoa
judaica. Por volta do ano 120 dC, a igreja de Roma mudou a celebração para o domingo após
a Páscoa judaica enquanto a igreja Ortodoxa Oriental continuou a celebrá-la na Páscoa
Judaica.

f) Conceito do NT sobre a Igreja.

É interessante pesquisar vários conceitos de igreja no NT. A Bíblia refere-se aos


primeiros cristãos como família e templo de Deus, como rebanho e noiva de Cristo, como sal,
como fermento, como pescadores, como baluarte sustentador da verdade de Deus, de muitas
outras maneiras. Pensava-se na igreja como uma comunidade mundial única de crentes, da
qual cada congregação local era afloramento e amostra. Os primitivos escritores cristãos
muitas vezes se referiam à igreja como o "corpo de Cristo" e o "novo Israel". Esses dois
conceitos revelam muito da compreensão que os primitivos cristãos tinham da sua missão no

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mundo.

O Corpo de Cristo:

Paulo descreve a igreja como "um só corpo em Cristo" (Rm 12.5) e "seu corpo" (Ef
1.23). Em outras palavras, a igreja encerra numa comunhão única de vida divina todos os que
são unidos a Cristo pelo Espírito Santo mediante a fé. Esses participam da ressurreição (Rm
6.8), e são a um tempo chamados e capacitados para continuar seu ministério de servir e
sofrer para abençoar a outros (1Co 12.14-26). Estão ligados numa comunidade que personifica
o reino de Deus no mundo.

Pelo fato de estarem ligados a outros cristãos, essas pessoas entendiam que o que
faziam com seus próprios corpos e capacidades era muito importante (Rm 12.1; 1Co 6.13-19;
2Co 5.10). Entendiam que as várias raças e classes tornam-se uma em Cristo (1Co 12.3; Ef
2.14-22), e deviam aceitar-se e amar-se uns aos outros de um modo que revelasse tal
realidade. Descrevendo a igreja com o corpo de Cristo, os primeiros cristãos acentuaram que
Cristo era o cabeça da igreja (Ef 5.23). Ele orientava as ações da igreja e merecia todo o louvor
que ela recebia. Todo o poder da igreja para adorar e servir era dom de Cristo.

O Novo Israel:

Os primitivos cristãos identificavam-se com Israel, povo escolhido de Deus. Acreditavam


que a vinda e o ministério de Jesus cumpriram a promessa de Deus aos patriarcas (Mt 2.6; Lc
1.68; At 5.31), e sustentavam que Deus havia estabelecido uma Nova Aliança com os
seguidores de Jesus (2Co 3.6; Hb 7.22, 9.15).

Deus, sustentavam eles, havia estabelecido seu novo Israel na base da salvação
pessoal, e não em linhagem de família. Sua igreja era uma nação espiritual que transcendia a
todas as heranças culturais e nacionais. Quem quer que depositasse fé na Nova Aliança de
Deus, rendesse a vida a Cristo, tornava-se descendente espiritual de Abraão e, como tal,
passava a fazer parte do "novo Israel" (Mt 8.11; Lc 13.28-30; Rm 4.9-25; Gl 3-4; Hb 11-12).

Características Comuns: Algumas qualidades comuns emergem das muitas imagens da


igreja que encontramos no NT. Todas elas mostram que a igreja existe porque Deus trouxe à
existência. Cristo comissionou seus seguidores a levar avante a sua obra, e essa é a razão da
existência da igreja.

As várias imagens que o NT apresenta da igreja acentuam que o Espírito Santo a dota
de poder e determina a sua direção. Os membros da igreja participam de uma tarefa comum e
de um destino comum sob a orientação do Espírito. A igreja é uma entidade viva e ativa. Ela
participa dos negócios deste mundo; demonstra o modo de vida que Deus tenciona para todas
as pessoas, e proclamam a Palavra de Deus para a era presente.

A unidade e a pureza espirituais da igreja estão em nítido contraste com a inimizade e a


corrupção do mundo. É responsabilidade da igreja em todas as congregações particulares
mediante as quais ela se torna visível, praticar a unidade, o amor e cuidado de um modo que
mostre que Cristo vive verdadeiramente naqueles que são membros do seu corpo, de sorte
que a vida deles é a vida de Cristo neles.

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CAPÍTULO 3

O CONCÍLIO DE JERUSALÉM

O capítulo quinze do livro de Atos é o ponto crucial de toda narrativa e da própria


história da Igreja cristã como a conhecemos, foi neste contexto que ocorreu o primeiro concílio
da Igreja Cristã. A discussão iniciada em Antioquia e que posteriormente se desloca para
Jerusalém e suas conclusões irão definir o futuro do cristianismo que se permanecesse
atrelado ao judaísmo corria o risco de desaparecer e emancipando-se alcançaria as fronteiras
do mundo.

Paulo e Barnabé retornam da primeira viagem missionária com relatórios exuberantes


da aceitação por parte dos gentios da mensagem evangélica. Muitas comunidades cristãs
foram estabelecidas em diversas cidades, incluindo alguns grandes centros cosmopolitas. Tais
relatos produziram duas reações conflitantes: por um lado os crentes de Antioquia vibraram
com entrada de um numero cada vez maior de gentios na Igreja; por outro lado, alguns dos
judeus convertidos vindos da Judéia e segundo Lucas, originalmente haviam pertencido ao
grupo dos fariseus (15.1-5) sentiram-se grandemente incomodados e começaram a ensinar
que os convertidos gentios deveriam se submeter à circuncisão e aos ritos judaicos prescritos
na Lei de Moisés.

Paulo e Barnabé reagem imediatamente e uma grande celeuma se forma. O que esta
em pauta não é uma questão secundária, mas o ponto nevrálgico do próprio cristianismo: para
ser cristão é preciso antes se converter ao judaísmo? A salvação provida por Cristo esta
subordinada aos ritos judaicos?

Após um período curto, mas intenso, de discussões a liderança da Igreja em Antioquia


entende ser melhor levar a discussão para Jerusalém. A razão de subirem a Jerusalém não
esta vinculada a falta de autonomia ou uma subordinação eclesiástica, mas unicamente pelo
fato de que ainda por aqueles dias vários apóstolos permaneciam naquela comunidade e
poderiam dar maior embasamento à resolução deste debate – o que realmente veio acontecer.

Inicio dos Debates

Paulo e Barnabé e alguns outros delegados de Antioquia chegam à Jerusalém e são


recepcionados pelos apóstolos e presbíteros e/ou anciãos daquela igreja. Os dois missionários
não discutem, apenas relatam tudo quanto o Espírito Santo realizou por meio deles e o numero

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grande de gentios que se converteram mediante a pregação do Evangelho. Mas, o grupo de


ascendência farisaica insiste com veemência de que os gentios convertidos devem ser tratados
como prosélitos judeus e se submeterem à circuncisão e ritos judaicos e suas reivindicações
esta relacionada à interpretação que dão ao que Deus disse a Abraão em Gn 17.10-14 (cf Js
5.2-9) e a Moisés em Dt 5.28-33.

O Testemunho de Pedro (15.6-12)

Após ouvir o relatório dos missionários e as reivindicações dos judeus-cristãos, o


apóstolo Pedro levanta-se e descreve sua própria experiência, colocando-se como o precursor
da missão entre os gentios, relembrando os acontecimentos da casa do romano Cornélio (Atos
10). A conclusão de Pedro é enfática, uma vez que os gentios receberam o mesmo Espírito
Santo que os judeus convertidos, e declara que Deus “não fez nenhuma distinção entre nós e
eles, purificando o coração deles, mediante a fé”. Portanto, a questão central dos convertidos,
tanto dos judeus como dos gentios, não é a Lei ou a circuncisão, mas a fé em Jesus e o
compromisso de vivenciar as verdades do Evangelho ensinado por Ele. Uma vez mais Paulo e
barnabé relatam tudo quanto Deus realizou por meio deles (15.12).

O Posicionamento de Tiago (15.13-21)

Este Tiago é o meio irmão de Jesus, uma vez que seu homônimo havia sido martirizado
por Herodes alguns anos antes. A posição de Tiago era aguardada com muita expectativa, pois
além de ocupar um lugar de liderança inquestionável, ele também era considerado o baluarte
do ponto de vista judaico conservador. Partindo do testemunho de Pedro ele faz mais um
reforço, citando “as palavras dos profetas” uma vez que eles anunciaram que Deus haveria de
adquirir para si um povo de entre os gentios. O texto principal é o do profeta Amós 9.11-12,
provavelmente da versão grega, onde se lê que “o resto dos homens procure o Senhor com
todas as nações que foram consagradas ao meu Nome”. A idéia aqui é que tanto o resto fiel de
Israel como os convertidos das demais nações haveriam de formar um único povo de Deus. O
que se cumpre no surgimento da Igreja. As palavras enfáticas de Tiago “Eu sou de parecer que
não devemos importunar os pagãos que se convertem a Deus” ratificam a decisão final que
será promulgada. A interpretação de Tiago parecer ser que a profecia não trás qualquer
exigência sobre os gentios que entram no reino, de maneira que nada se deve exigir deles.

Recomendações (15.20)

As quatro recomendações feitas por Tiago visam aos crentes gentios que compartilham
da mesma comunidade com os convertidos judeus, de maneira que possam conviver
harmoniosamente e em plena comunhão. Distintamente da preposição defendida pelo grupo da
circuncisão, que entendiam que a obediência a Lei era necessário para a salvação, ele tem
vista tão somente o modus vivendi entre gentios e judeus convertidos. O raciocínio dele é bem
coerente, pois uma vez que os judeus cristãos estavam dispostos a colocar de lado seu
preconceito de séculos contra os gentios, estes deveriam demonstrar a mesma disposição ao
fazerem concessões frente aos escrúpulos judaicos. E sua argumentação é lógica, pois a lei
vinha sendo lida (ensinada)“desde os tempos antigos ... nas sinagogas” (15.21), ou seja, ela
fazia parte da vida judaica durante séculos e seria muito difícil pô-la de lado facilmente.

As quatro recomendações estão inseridas em uma parte da lei de santidade em Levítico

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17-18, que proíbe certas coisas não apenas a“todo homem da casa de Israel”, mas também, a
todos “os estrangeiros que residem no meio deles” (Lv 17.8).

As quatro recomendações são:

1) Que vos abstenhais das coisas sacrificadas aos ídolos – literalmente “que se
abstenham da poluição dos ídolos”. A palavra ídolos pode ter uma conotação mais ampla, e
que a proibição aqui não seja simplesmente alimentar, mas contra participar de qualquer ato
associado aos ídolos. E os crentes de Corinto são provas de que o risco naqueles dias era
muito grande (1 Co 8.1-13; 10.19-30).

2) Que se guardassem contra a prostituição – é possível que haver uma conexão entre
estas duas primeiras recomendações, pois a idolatria com freqüência envolvia a imoralidade. A
palavra "porneia” (fornicação, prostituição) também é usada em sentido mais amplo, referindo-
se a toda sorte de desvios sexuais e frequentemente é traduzida simplesmente por “impureza".
Os judeus incluíam aqui o casamento de parentes próximos.

3) Não comessem da carne sufocada – era proibido principalmente porque o sangue


não era retirado da carne. Este mandamento vem desde o tempo de Noé, quando os homens
tiveram a primeira permissão de comer os animais (Gn 9.4) e repetido na lei mosaica. A idéia
original é de que a vida humana esta no sangue e visava à valorização e preservação da vida.

4) E que não comessem do sangue – provavelmente esta relacionada ao precedente.


Entretanto, alguns manuscritos antigos omitem “animais sufocados” e interpretam sangue
como derramamento de sangue ou assassinato. Mas as evidências textuais favorecem o texto
comum dado acima.

Circular às Igrejas (15.22-29)

Uma vez resolvido as questões os apóstolos e demais lideranças entenderam ser


oportuno emitirem uma circular esclarecendo oficialmente a questão dos gentios e enviaram
através de dois representantes Judas, chamado Barsabás e Silas às igrejas em Antioquia, Síria
e Cilícia.

O documento desautoriza quaisquer vozes dissonantes (15.1); elogiam e reafirmam o


ministério missionário gentílico de Paulo e Barnabé; transcreve a decisão tomada em
Jerusalém: “Decidimos, o Espírito Santo e nós, não impor sobre vocês (gentios) nenhum fardo”
e por fim, as quatro restrições que foram solicitadas.

A Alegria da Liberdade (15.31)

As comunidades gentílicas se alegram sobremaneira, pois agora não paira mais


nenhuma barreira quanto à missão entre os gentios. A presença de Judas e Silas trouxe aquela
atmosfera de fraternidade entre Antioquia e Jerusalém. Ao final de um tempo, Judas retorna a
Jerusalém, mas Silas opta por permanecer em Antioquia e vai se tornar o novo companheiro
de Paulo na segunda viagem missionária, em lugar de Barnabé que prefere investir no jovem
Marcos e vai para sua cidade de origem Chipre.

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CAPÍTULO 4

AS PERSEGUIÇÕES E AS HERESIAS

A história da Igreja de Deus tem sido sempre, desde a era apostólica até o presente, a
história da graça divina no meio dos erros dos homens. Muitas vezes se tem dito isso, e
qualquer pessoa que examine essa história com atenção não pode deixar de se convencer que
assim é. Lendo as Epístolas do Novo Testamento vemos que mesmo nos tempos apostólicos o
erro se manifestou, e que a inimizade, as contendas, as iras, as brigas e as discórdias, com
outros males, tinham apagado o amor no coração de muitos crentes verdadeiros.

Deixaram as suas primeiras obras e o seu primeiro amor e alguns que tinham
principiado pelo espírito, procuravam depois ser aperfeiçoados pela carne.Mas havia muito
mais do que isso. Não somente existiam alguns verdadeiros crentes em cujas vidas se viam
muitas irregularidades, e que procuravam, pelas suas palavras, atrair discípulos a si, como
também havia outros que não eram de modo algum cristãos, mas que entraram
despercebidamente entre os irmãos, semeando ali a discórdia. Isto descreve o estado de
coisas a que se referem os primeiros versículos do capítulo dois de Apocalipse, na carta escrita
ao anjo da igreja em Éfeso.

Tempos De Perseguição

Porém estava para chegar um tempo de perseguição para a Igreja, e isso foi permitido
pelo Senhor, na sua graça, a fim de que se pudessem distinguir os fiéis. Esta perseguição,
instigada pelo imperador romano Nero, foi a primeira das dez perseguições gerais que conti-
nuaram, quase sem interrupção, durante três séculos.

Por que razão permite Deus que o seu povo amado sofra assim? Muitas vezes se tem
feito esta pergunta, e a resposta é simples: é porque Ele ama esse povo. Podia haver, e sem
dúvida há outras razões, porém a principal é esta - Ele o ama. "Porque o Senhor corrige o que
ama ' e se o coração se desviar, tornar-se-á necessária a disciplina. Ele nos trata como filhos; e
se sofremos com paciência, cada provocação pela qual Ele nos faz passar dará em resultado
mais uma bênção para a nossa alma. Tal experiência não nos é agradável, porém, à noite de
tristeza sucede a manhã de alegria, e dizemos com o salmista Davi: "Foi bom para mim, ter
sofrido aflição".

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A Perseguição

No ousado e santo Estevão temos um exemplo do verdadeiro crente militante. Foi ele o
primeiro mártir cristão. E que grande vitória ele ganhou para a causa de Cristo quando morreu
pedindo ao Senhor pelos seus perseguidores! Davi, séculos antes da era cristã, disse: "O justo
se alegrará quando vir a vingança: lavará os seus pés no sangue do ímpio", porém Estevão,
que viveu na época cristã, orou:"Senhor, não lhes imputes este pecado". Isto foi um exemplo
da verdadeira milícia cristã.

A primeira onda da perseguição geral que veio sobre a igreja fez-se sentir no ano 64, no
reinado do imperador Nero, que tinha governado já com certa tolerância durante nove anos.
Neste tempo, o assassinato de sua mãe, e a sua indiferença brutal depois de ter praticado
aquele crime tão monstruoso, mostrou claramente a sua natural disposição, e indicou ao povo
aquilo que havia de esperar dele. Desgraçadamente, as tristes apreensões que muitos tinham
a seu respeito tornaram-se negra realidade.

Roma Incendiada

Uma noite no mês de julho, no ano acima citado, os habitantes de Roma foram
despertados do sono pelo grito de "Fogo!" Esta terrível palavra fez-se ouvir simultaneamente
em diversas partes da cidade, e dentro de poucas horas a majestosa capital ficou envolvida em
chamas. A grande arena situada entre os montes Palatino e Aventino, onde cabiam 150.000
pessoas, em pouco tempo estava ardendo, assim como a maior parte dos edifícios públicos, os
monumentos, e casas particulares.

O fogo continuou por espaço de nove dias, e Nero, por cujas ordens se tinha praticado
este ato tão monstruoso, presenciou a cena da torre de Mecenas, onde manifestou o prazer
que teve em ver a beleza do espetáculo, e, vestido como um ator, acompanhando-se com a
música da sua lira, cantou o incêndio da antiga Tróia!

O grande ódio que lhe votaram em conseqüência deste ato, envergonhou-o e tornou-o
receoso; e com a atividade que lhe deu a sua consciência desassossegada, logo achou o meio
de se livrar dessa situação. O rápido desenvolvimento do cristianismo já tinha levantado muitos
inimigos contra essa nova doutrina. Muita gente havia em Roma que estava interessada na sua
supressão, por isso não podia haver nada mais oportuno, e ao mesmo tempo mais simples
para Nero, do que lançar a culpa do crime sobre os inofensivos cristãos.

Tácito, um historiador pagão, que não era de modo algum favorável ao cristianismo, fala
da conduta de Nero da seguinte maneira:

"Nem os seus esforços, nem a sua generosidade para com o povo, nem as suas ofertas
aos deuses, podiam pagar a infame acusação que pesava sobre ele de ter ordenado que se
lançasse fogo à cidade. Portanto, para pôr termo a este boato, culpou do crime, e infligiu os
mais cruéis castigos, a uns homens... a quem o vulgo chamava cristãos", e acrescenta: "quem
lhes deu esse nome foi Cristo, a quem Pôncio Pilatos, procurador do imperador Tibério, deu a
morte durante o reinado deste.

"Esta superstição perniciosa, assim reprimida por algum tempo, rebentou de novo, e

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espalhou-se não só pela Judéia, onde o mal começara, mas também por Roma, para onde
tudo quanto é mau na terra se encaminha e é praticado. Alguns que confessaram pertencer a
essa seita foram os primeiros a ser presos; e em seguida, por informações destes prenderam
mais uma grande multidão de pessoas, culpando-as, não tanto do crime de terem queimado
Roma, mas de odiarem o gênero humano".

É quase escusado dizer que os cristãos não nutriam ódio algum pela humanidade, mas
sim pela terrível idolatria que prevalecia em todo o Império Romano; e só por este motivo eram
considerados como inimigos da raça humana.

Cruéis Tormentos Dos Crentes

Não se sabe quantos sofreram por essa ocasião, mas de certo foram muitos, e eram-
lhes aplicadas todas as torturas que um espírito engenhoso e cruel podia imaginar, para
satisfazer os depravados gostos do imperador.

Alguns foram vestidos com peles de animais ferozes, e perseguidos pelos cães até
serem mortos, outros foram crucificados; outros envolvidos em panos alcatroados, e depois
incendiados ao pôr do sol, para que pudessem servir de luzes para iluminar a cidade durante a
noite. Nero cedia os seus próprios jardins para essas execuções e apresentava, ao mesmo
tempo, alguns jogos de circo, presenciando toda a cena vestido de carreiro, indo umas vezes a
pé no meio da multidão, outras vendo o espetáculo do seu carro. Hegesipo, um escritor do II
século, faz algumas referências interessantes sobre o apóstolo Tiago, que acabou a sua
carreira durante esse período, e fornece um detalhado relatório do seu martírio, que podemos
inserir aqui:

"Consta que o apóstolo tinha o nome de Oblias, que significava justiça e proteção,
devido à sua grande piedade e dedicação pelo povo. Também se refere aos seus costumes
austeros, que sem dúvida contribuíram para aumentar a sua fama entre o povo. Ele não bebia
bebidas alcoólicas de qualidade alguma, nem tampouco comia carne. Só ele teve licença de
entrar no santuário. Nunca vestiu roupa escolhendo ele aquela posição por se achar indigno de
sofrer na mesma posição em que sofreu o seu Senhor. Paulo que sofreu no mesmo dia foi
poupado a uma morte tão dolorosa e lenta, sendo degolado. "A estes santos apóstolos",
acrescenta Clemente, "se ajuntaram muitos outros, que tendo da mesma maneira sofrido vários
martírios e tormentos, motivados pela inveja dos outros, nos deixaram um glorioso exemplo.
"Pelos mesmos motivos, foram perseguidos, tanto mulheres como homens, e tendo sofrido
castigos terríveis e cruéis, concluíram a carreira da sua fé com firmeza."

Morte De Nero

O miserável Nero morreu às suas próprias mãos, no ano 68, cheio de remorsos e de
medo; depois da sua morte a igreja teve descanso por espaço de trinta anos. Contudo durante
esse tempo Domiciano (que podia quase levar a palma a Nero, quanto à intolerância e
crueldade) subiu ao trono; e depois de quatorze anos do seu reinado, rebentou a perseguição
geral.

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Tendo chegado aos ouvidos do imperador que alguém, descendente de Davi, e de


quem se tinha dito: "Com vara de ferro regerá todas as nações", vivia na Judéia, fez com que
se procedesse a investigação, e dois netos de Judas, o irmão do Senhor Jesus, foram presos e
conduzidos à sua presença.

Quando ele, porém, olhou para as suas mãos, calosas e ásperas pelo trabalho, e viu
que eram uns homens pobres, que esperavam por um reino celeste, e nada queriam saber do
reino terrestre, despediu-os com desprezo. Diz-se que eles foram corajosos e fiéis em
testemunhar a verdade perante o imperador, e que, quando voltaram para sua terra natal,
foram recebidos com amizade e honras pelos irmãos.

Perseguição a João

Pouco se sabe a respeito desta perseguição; mas esse pouco é sem dúvida
interessante. E entre os muitos mártires que sofreram, encontra-se João, o discípulo amado de
Jesus, e Timóteo, a quem Paulo escreveu com tão afeiçoada solicitude. Diz a tradição que o
primeiro foi lançado, por ordem do tirano, numa caldeira de azeite fervente mas, por um
milagre, saiu de lá ileso. Incapaz de o ferir no corpo, o imperador desterrou-o para a ilha de
Patmos, onde foi obrigado a trabalhar nas minas. Foi ali que ele escreveu o livro de Apocalipse,
e teria sem dúvida terminado ali mesmo a sua vida, se não fosse a inesperada morte do
imperador, assassinado pelo próprio administrador da sua casa, no dia 18 de Setembro de 96
d.C. Sendo então o apóstolo João posto em liberdade, voltou para Éfeso, onde escreveu a sua
história do Evangelho e as três epístolas que têm o seu nome.

Parece que ali, como sempre, foi levado em toda a sua vida pelo amor, e quando
morreu, na avançada idade de cem anos, deixou, como legado duradouro, este simples
preceito: "Filhinhos, amai-vos uns aos outros". Frase simples esta, e pronunciada há muitos
anos, mas qual de nós tem verdadeiramente aprendido o seu sentido?

Assassinato De Timóteo

Timóteo sustentou virilmente a verdade, na mesma cidade, até o ano 97, em que foi
morto pela turba numa festa idolatra. Muitos homens do povo, mascarados e armados de paus,
dirigiam-se para os seus templos para oferecer sacrifícios aos deuses, quando este servo do
Senhor os encontrou. Com o coração cheio de amor, encaminhou-se para eles, e lembrando-
se talvez do exemplo de Paulo, que poucos anos antes tinha pregado aos idolatras de Atenas,
falou-lhes também do Deus vivo e verdadeiro. Mas eles não fizeram caso do seu conselho,
zangaram-se por serem reprovados e, caindo sobre ele com paus, bateram-lhe tão
desapiedadamente, que expirou poucos dias depois.

E agora, lançando a vista por um momento para os tempos passados, encontram-se, de


certo, na história destas primitivas perseguições, muitos exemplos para dar ânimo e coragem
aos nossos corações. Em vista de tais sofrimentos, não se pode deixar de admirar o ânimo dos
santos, e agradecer a Deus a graça pela qual eles puderam suportar tanto com tão sofredora
paciência.

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Nem a cruz, nem a espada nem os animais ferozes, nem a tortura, puderam prevalecer
contra aqueles fiéis discípulos de Jesus Cristo. Quem os poderia separar do seu amor? Seria a
tribulação, ou a angústia, ou a perseguição, ou a fome, ou a nudez, ou o perigo, ou a espada?
Não! Em todas essas coisas eles foram mais do que vencedores por meio daquele que os
amou. Não lhes dissera o Senhor que deviam esperar tudo isso? Não tinha Ele dito aos seus
discípulos, quando ainda estava entre eles: "No mundo ter eis aflições"? e não era bastante
compensação para os seus sofrimentos, que duraram poucos anos, a brilhante esperança da
glória eterna que Ele lhes tinha dado?

Depois de mais alguns anos, tanto perseguidores como perseguidos teriam deixado
este mundo, e passado para a eternidade; então - que grande mudança! Para os primeiros, a
escuridão das trevas para sempre; para os últimos, aquele "peso eterno de glória muito
excelente". Que contraste!

Heresias e Dissensões

Estando para terminar este capítulo, devemos notar a impossibilidade que temos em
vista, por causa do pequeno espaço de que dispomos, de enumerar todas as heresias e
dissensões que têm entristecido e dividido a Igreja de Deus desde o seu princípio; portanto,
apenas nos propomos a lançar a vista para os atos que nos apresentem maior interesse, tanto
pela sua especial astúcia, como pela sua grande influência.

O gnosticismo era um desses males, e foi talvez a primeira heresia que depois dos
tempos dos apóstolos se desenvolveu mais. Era um amontoado de erros que tinham a sua
origem na cabala dos judeus, uma ciência misteriosa dos rabinos, baseada na filosofia de
Platão, e no misticismo dos orientais. Um judeu chamado Cerinto, mestre de filosofia em
Alexandria, introduziu parte do Evangelho nesta massa heterogênea da ciência (falsamente
assim chamada) e sob esta nova forma foram enganados muitos crentes verdadeiros, e se
originou muita amargura e dissensão.

Mas havia muito tempo que não se ocupavam com esse erro, nem com muitos que se
lhe seguiram, e a Palavra de Deus, que é a única que contém as doutrinas inabaláveis da
Igreja, já tinha predito que "os homens maus e enganadores irão de mal a pior, enganando e
sendo enganados" (2 Tm 3.13). Já o apóstolo Paulo tinha aconselhado o seu filho Timóteo a
opor-se aos clamores vãos e profanos que só poderiam produzir maior impiedade (2 Tm 2.16);
e se tinha referido, em linguagem inspirada pelo Espírito Santo, às "perversas contendas de
homens corruptos de entendimento e privados da verdade" (1 Tm 6.5): "Mas tu, ó homem de
Deus", clamou ele, "foge destas coisas, e segue a justiça, a piedade, a fé, a caridade, a
paciência, a mansidão. Milita a boa milícia da fé, lança mão da vida eterna, para a qual também
foste chamado, tendo já feito boa confissão diante de muitas testemunhas" (1 Tm 4.11, 12).

O amado apóstolo já tinha combatido o bom combate e acabado a sua carreira e


guardado a fé, e com a consciência que o esperava pronunciou palavras que deviam servir
para animar a Igreja de Deus nos tempos futuros: "Pelo demais a coroa da justiça está-me
guardada, a qual o Senhor, justo juiz, me dará naquele dia; e não somente a mim, mas
também, a todos os que amarem a sua vinda" (2 Tm 4.7,8).

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CAPÍTULO 5

PANORAMA GERAL DO CRISTIANISMO NO SEGUNDO E TERCEIRO SÉCULO

O fato de maior destaque na História da Igreja no segundo e terceiro séculos foi, sem
dúvida, a perseguição ao Cristianismo pelos imperadores romanos. Apesar de a perseguição
não haver sido contínua, contudo ela se repetia durante anos seguidos, por vezes. Mesmo
quando havia paz, a perseguição podia recomeçar a qualquer momento, cada vez mais
violenta.

A perseguição, no quarto século, durou até o ano 313, quando o Edito de Constantino,
o primeiro imperador cristão, fez cessar todos os propósitos de destruir a igreja de Cristo.
Surpreendente é o fato de se constatar que durante esse período, alguns dos melhores
imperadores foram mais ativos na perseguição ao Cristianismo, ao passo que os considerados
piores imperadores, eram brandos na oposição, ou então não perseguiam a igreja.

Antes de apresentar a história, investiguemos alguns dos motivos que forçaram o


governo, de um modo geral justo e que procurava o bem-estar de seus concidadãos, a tentar
durante duzentos anos, suprimir uma instituição tão reta, tão obediente à lei e tão necessária,
como era o Cristianismo. Podem-se apresentar várias causas para justificar o ódio dos
imperadores ao Cristianismo.

O paganismo em suas práticas aceitava as novas formas e objetos de adoração que


iam surgindo, enquanto o Cristianismo rejeitava qualquer forma ou objetos de adoração. Onde
os deuses já se contavam aos centos, quiçá aos milhares, mais um ou menos um não
representava diferença. Quando os habitantes de uma cidade desejavam desenvolver o
comércio ou a imigração, construíam templos aos deuses que se adoravam em outros países
ou cidades, a fim de que os habitantes desses países ou cidades fossem adorá-los. Eis por que
nas ruínas da cidade de Pompéia, Itália, se encontra um templo de ísis, uma deusa egípcia.

Esse templo foi edificado para fomentar o comércio de Pompéia com o Egito, fazendo
com que os comerciantes egípcios se sentissem como em seu próprio país. Por outro lado, o
Cristianismo opunha-se a qualquer forma de adoração, pois somente admitia adoração ao seu
próprio Deus. Um imperador desejou colocar uma estátua de Cristo no Panteão, um edifício

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que existe em Roma até hoje, e no qual se colocavam todos os deuses importantes. Porém os
cristãos recusaram a oferta com desprezo. Não desejavam que o seu Cristo fosse conhecido
meramente como um deus qualquer entre outros deuses.

A adoração aos ídolos estava entrelaçada com todos os aspectos da vida. As imagens
eram encontradas em todos os lares para serem adoradas. Em todas as festividades eram
oferecidas libações aos deuses. As imagens eram adoradas em todas as cerimônias cívicas ou
provinciais. Os cristãos, é claro, não participavam dessas formas de adoração. Por essa razão,
o povo não dado a pensar considerava-os como seres insociáveis, taciturnos, ateus que não
tinham deuses, e aborrecedores de seus companheiros. Com reputação tão desfavorável por
parte do povo em geral, apenas um passo os separava da perseguição.

A adoração ao imperador era considerada como prova de lealdade. Nos lugares mais
visíveis de cada cidade havia uma estátua do imperador reinante, e ainda mais, a essa imagem
era oferecido incenso, como se oferecia aos deuses. Parece que em uma das primeiras
epístolas de Paulo há uma referência cautelosa contra essa forma de idolatria. Os cristãos
recusavam-se a prestar tal adoração, mesmo um simples oferecimento de incenso sobre o
altar. Pelo fato de cantarem hinos e louvores e adorarem a "outro Rei, um tal Jesus", eram
considerados pelo povo como desleais e conspiradores de uma revolução.

A primeira geração dos cristãos era tida como relacionada com os judeus e o Judaísmo
era reconhecido pelo governo como religião permitida apesar de os judeus viverem separados
dos costumes idólatras e não comerem alimentos usados nas festas dos ídolos. Essa suposta
relação preservou os cristãos por algum tempo da perseguição. Entretanto, após a destruição
de Jerusalém, no ano 70, o Cristianismo ficou isolado, sem nenhuma lei que protegesse seus
seguidores do ódio dos inimigos.

As reuniões secretas dos cristãos despertaram suspeitas. Eles se reuniam antes do


nascer do sol, ou então à noite, quase sempre em cavernas ou nas catacumbas subterrâneas.
A esse respeito circulavam falsos rumores de que entre eles praticavam-se atos imorais e
criminosos. Além disso, o governo autocrático do império suspeitava de todos os cultos e
sociedades secretas, temendo propósitos desleais. A celebração da Ceia do Senhor, da qual
eram excluídos os estranhos, repetidas vezes era causa de acusações e de perseguições.

O Cristianismo considerava todos os homens iguais. Não havia nenhuma distinção


entre seus membros, nem em suas reuniões. Um escravo podia ser eleito bispo na igreja. Tudo
isso eram coisas inaceitáveis para a mentalidade dos nobres, para os filósofos e para as
classes governamentais. Os cristãos eram considerados como "niveladores da sociedade",
portanto anarquistas, perturbadores da ordem social. Eis por que eram tidos na conta de
inimigos do Estado.

Não raro os interesses econômicos também provocavam e excitavam o espírito de


perseguição. Assim como o apóstolo Paulo, em Éfeso, esteve em perigo de morte, em razão
de um motim incitado por Demétrio, o ourives, assim também, muitas vezes os governantes
eram influenciados para perseguir os cristãos, por pessoas cujos interesses financeiros eram
prejudicados pelo progresso da igreja: sacerdotes e demais servidores dos templos dos ídolos,
os que negociavam com imagens, os escultores, os arquitetos que construíam templos, e todos

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aqueles que ganhavam a vida por meio da adoração pagã. Não era coisa rara ouvir-se o
populacho gritar: "Os cristãos às feras, aos leões quando seus negócios e sua arte estavam em
perigo, ou quando funcionários públicos ambiciosos desejavam apoderar-se das propriedades
de cristãos ricos.

Durante todo o segundo e terceiro séculos, e mui especialmente nos primeiros anos do
quarto século até ao ano 313, a religião cristã era proibida e seus partidários eram
considerados fora da lei. Apesar dessas circunstâncias, a maior parte do tempo a espada da
perseguição estava embainhada e os discípulos raramente eram molestados em suas
observâncias de caráter religioso. Contudo, mesmo durante estes períodos de calma aparente,
estavam sujeitos a perigo repentino a qualquer momento, sempre que um dos governantes
desejasse executar os decretos, ou quando algum cristão eminente dava seu testemunho
abertamente e sem medo.

Houve, contudo, alguns períodos de curta ou de longa duração, quando a igreja foi alvo
de feroz perseguição. As perseguições do primeiro século, efetuadas por Nero (66-68) e por
Domiciano (90-95) foram, não há dúvida, explosões de delírio e ódio, sem outro motivo, a não
ser a ira de um tirano. Essas perseguições deram-se de forma esporádica e não se
prolongavam por muito tempo. Entretanto, desde o ano 250 a 313 d.C. a igreja esteve sujeita a
uma série sistemática e implacável de atentados governamentais em todo o império, a fim de
esmagar a fé sempre crescente.

Desde o reinado de Trajano ao de Antonino Pio (98-161), o Cristianismo não era


reconhecido, mas também não foi perseguido de modo severo. Sob o governo dos quatro
imperadores Nerva, Trajano, Adriano e Antonino Pio (os quais, com Marco Aurélio, foram co-
nhecidos como os "cinco bons imperadores"), nenhum cristão podia ser preso sem culpa
definida e comprovada. O espírito da época inclinava-se a ignorar a religião cristã.

Contudo, quando se formulavam acusações e os cristãos se recusavam a retratar-se,


os governantes eram obrigados, contra a própria vontade, a pôr em vigor a lei e ordenar a
execução. Alguns mártires proeminentes da fé executados nesse período foram os seguintes:
Simeão (ou Simão; Marcos 6:3), o sucessor de Tiago, bispo da igreja em Jerusalém e, como
aquele, era também irmão do Senhor. Diz-se que alcançou a idade de cento e vinte anos. Foi
crucificado por ordem do governador romano na Palestina, no ano 107, durante o reinado de
Trajano.

Inácio, bispo de Antioquia da Síria. Ele estava disposto a ser martirizado, pois durante a
viagem para Roma escreveu cartas às igrejas manifestando o desejo de não perder a honra de
morrer por seu Senhor. Foi lançado às feras no anfiteatro romano, no ano 108 ou 110. Apesar
de a perseguição durante estes reinados não haver sido tão forte como a que se manifestou
depois, contudo, registraram-se vários casos de martírios, além dos dois que já registramos.

O melhor dos imperadores romanos, e um dos mais eminentes escritores de ética, foi
Marco Aurélio, que reinou de 161 a 180. Sua estátua equestre ainda existe diante as ruínas do
Capitólio em Roma. Apesar de possuir tão boas qualidades como homem e governante justo,
contudo foi acérrimo perseguidor dos cristãos. Ele procurou restaurar a antiga simplicidade da
vida romana e com ela a antiga religião. Opunha-se, pois, aos cristãos por considerá-los

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inovadores. Milhares de crentes em Cristo foram decapitados e devorados pelas feras na


arena. Entre a multidão de mártires desse período, desejamos mencionar apenas dois.

Policarpo, bispo de Esmirna, na Ásia Menor; morreu no ano 155. Ao ser levado perante
o governador, e instado para abjurar a fé e negar o nome de Jesus, assim respondeu: "Oitenta
e seis anos o servi, e somente bens recebi durante todo o tempo. Como poderia eu agora
negar ao meu Senhor e Salvador?" Policarpo foi queimado vivo.

Justino Mártir era filósofo antes de se converter, e continuou, ensinando depois de


aceitar o Cristianismo. Era um dos homens mais competentes de seu tempo, e um dos
principais defensores da fé. Seus livros, que ainda existem, oferecem valiosas informações
acerca da vida da igreja nos meados do segundo século. Seu martírio deu-se em Roma, no
ano 166.

Depois da morte de Marco Aurélio, no ano 180, seguiu-se em período de confusão. Os


imperadores fracos e sem dignidade estavam demasiado ocupados com as guerras civis e com
seus próprios prazeres, de modo que não lhes sobrava tempo para dar atenção aos cristãos.
Entretanto, Septímio Severo, no ano 202, iniciou uma terrível perseguição que durou até à sua
morte, no ano 211. Severo possuía uma natureza mórbida e melancólica; era muito rigoroso na
execução da disciplina. Procurou, em vão, restaurar as religiões decadentes, do passado.

Em todos os lugares havia perseguição contra a igreja; porém, onde ela se manifestou
mais intensa foi no Egito e no norte da África. Em Alexandria, Leônidas, pai do grande teólogo
Orígenes, foi decapitado. Perpétua, nobre mulher de Cartago, e Felicitas, sua fiel escrava,
foram despedaçadas pelas feras, no ano 203. Tão cruel fora o espírito do imperador Septímio
Severo, que era considerado por muitos escritores cristãos como o anticristo.

No governo dos numerosos imperadores que se seguiram em rápida sucessão, a igreja


foi esquecida pelo período de quarenta anos. O imperador Caracala (211-217) confirmou a
cidadania a todas as pessoas que não fossem escravas, em todo o império. Essa medida foi
um benefício indireto para os cristãos, pois não podiam ser crucificados nem lançados às feras
a menos que fossem escravos. Entretanto, no governo de Décio (249-251) iniciou-se outra
terrível perseguição; felizmente seu governo foi curto e com sua morte cessou a perseguição
durante algum tempo.

Com a morte de Décio seguiram-se mais de cinquenta anos de relativa calma, somente
quebrada em alguns períodos por breves levantes contra os cristãos. Um desses períodos foi
no tempo de Valeriano, no ano 257. O célebre Cipriano, bispo de Cartago, um dos maiores
escritores e dirigentes da igreja desse período, foi morto, e bem assim o bispo romano Sexto.A
última, a mais sistemática e a mais terrível de todas as perseguições deu-se no governo de
Diocleciano e seus sucessores de 303 a 310.

Em uma série de editos determinou-se que todos os exemplares da Bíblia fossem


queimados. Ao mesmo tempo ordenou-se que todos os templos construídos em todo o império
durante meio século de aparente calma, fossem destruídos. Além disso, exigiu-se que todos
renunciassem ao Cristianismo e à fé. Aqueles que o não fizessem, perderiam a cidadania
romana, e ficariam sem a proteção da lei.

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Em alguns lugares os cristãos eram encerrados nos templos, e depois ateavam-lhe


fogo, com todos os membros no seu interior. Consta que o imperador Diocleciano erigiu um
monumento com esta inscrição: "Em honra ao extermínio da superstição cristã".1

Entretanto, setenta anos mais tarde o Cristianismo era a religião oficial do imperador, da
corte e do império. Os imensos Banhos de Diocleciano, em Roma, foram construídos pelo
trabalho forçado de escravos cristãos. Porém, doze séculos depois de Diocleciano, uma parte
do edifício foi por Miguel Ângelo transformada em igreja de Sta. Maria dos Anjos, dedicada em
1561, e ainda hoje serve para adoração da igreja católico-romana. Diocleciano renunciou ao
trono no ano 305, porém seus subordinados e sucessores, Galério e Constâncio, continuaram
a perseguição durante seis anos. Constantino, filho de Constâncio, servindo como co-
imperador, o qual nesse tempo ainda não professava o Cristianismo, expediu o memorável
Edito de Tolerância, no ano 313. Por essa lei o Cristianismo foi oficializado, sua adoração
tornou-se legal e cessou a perseguição, para não mais voltar, enquanto durou o Império
Romano.

Por volta do ano 70, foram escritos os evangelhos atribuídos a Mateus e Marcos, em
língua grega. Trinta anos depois, publicava-se o evangelho atribuído a João, e a doutrina da
Santíssima Trindade (Pai, Filho e Espírito Santo) começava a tomar forma. Apegados ao
monoteísmo, os cristãos não juravam o culto divino ao imperador, provocando reações
violentas. As perseguições ocorreram em curtos períodos, embora violentos, à medida que o
culto divino ao imperador, estabelecido por Augusto, mas formalizado por Domiciano era
aplicado nas províncias. Muitos foram perseguidos, outros morreram nas arenas, devorados
por feras. Ao mesmo tempo, cada vez mais pessoas se convertiam ao cristianismo,
especialmente pobres e escravos que se voltavam para a Igreja por acreditarem na promessa
de vida eterna no Paraíso.

O poder do cristianismo não podia mais ser ignorado. A partir do momento em que
cidadãos ricos do Império Romano se converteram à nova religião, a doutrina, que pregava a
igualdade e a liberdade, deixava de representar um perigo social. Aos poucos, a Igreja se
institucionalizava e o clero se organizava, com o surgimento dos bispos e presbíteros. O
território sob o domínio romano foi dividido em províncias eclesiásticas. Os Patriarcas, bispos
dos grandes centros urbanos - como Roma, Constantinopla e Alexandria -, ampliaram seu
poder, controlando as províncias.

Em 313, o imperador Constantino fez publicar o Édito de Milão, que instituía a tolerância
religiosa no império, beneficiando principalmente os cristãos. Com isso, recebeu apoio em sua
luta para se tornar o único imperador e extinguir a tetrarquia. Em 361, assumiu o trono Juliano,
o Apóstata, que tentou reerguer o paganismo, dando-lhe consistência ético-filosófica e
reabrindo os templos. Três anos depois o imperador morreu e, com ele, as tentativas de
retomar a antiga religião romana.

Em 391, Teodósio I (379-395) oficializou o cristianismo nos territórios romanos e


perseguiu os dissidentes. Após seu reinado, o império foi dividido em duas partes. Os filhos de
Teodósio assumiram o poder: Arcádio herdou o Império Romano do Oriente, cujo centro

1
Esta declaração, apesar de ser feita por muitos historiadores, baseia-se em provas incertas e bem pode ser que não
seja verídica.

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político era Constantinopla (antiga Bizâncio, rebatizada em homenagem ao imperador


Constantino, localizava-se onde hoje é a cidade turca de Istambul); a Honório coube o Império
Romano do Ocidente, com capital em Roma.

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CAPÍTULO 6

CONTROVÉRSIAS TRINITÁRIAS E CRISTOLÓGICAS

No fim do II Século e no III começam aparecer divergências de interpretação dentro da


própria Igreja. As três grandes linhas de interpretação posterior (Ásia Menor, Roma e
Alexandria) já começaram aparecer nos pais apostólicos. Movimentos gnósticos estão
presentes em toda a Igreja no fim do II e início do III século. Só foi possível contorná-los após
a exclusão de seus grandes líderes. Com a ascensão de Constantino, conhecido como o
"imperador cristão", o palco estava pronto para uma série de conflitos teológicos que duraria do
IV até o VIII século. Estas controvérsias começaram como discussão da relação de Jesus
Cristo a Deus Pai e terminaram tentando explicar a relação entre as duas naturezas de Cristo.
As primeiras são chamadas de "trinitárias"; as últimas, "cristológicas".

O Concílio de Nicéia

Este concílio reuniu 318 bispos por um período de 3 meses para resolver as diferenças
entre Alexandre e Ário. Segundo Ário, presbítero de Alexandria, somente Deus Pai seria
eterno não gerado. O Logos, o Cristo preexistente, seria mera criatura. Criado a partir do nada,
nem sempre existiria. O Cristo existiria num tempo anterior à nossa existência temporal, mas
não era eterno. Por outro lado estavam Alexandre e o jovem Atanásio que afirmava que o
Logos era eterno e era o próprio Deus que apareceu em Jesus. Deus é Pai apenas porque é o
Pai do Filho. Assim o Filho não teria tido começo e o Pai estaria com o Filho eternamente.
Portanto, o Filho seria o filho eterno do Pai, e o Pai, o Pai eterno do Filho.

A cristologia de Ário foi rejeitada pelo concílio de Nicéia afirmando que a igreja
acreditava em: "Um só Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus; gerado do pai, unigênito da
essência do Pai, Deus de Deus, Luz de Luz, verdadeiro Deus de verdadeiro Deus, gerado não
feito, consubstancial com o Pai, por quem todas as coisas foram feitas no céu e na terra; o
qual, por nós homens e pela nossa salvação desceu do céu e encarnou e foi feito homem.
Todos os que dizem que houve um tempo que ele não existiu, ou que não existiu antes de ser
feito, e que foi feito do nada ou de alguma outra substância ou coisa, ou que o Filho de Deus é

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criado ou mutável, ou alterável, são condenados pela Igreja Católica".

Controvérsia Cristológica

A questão do relacionamento entre o Filho e o Pai foi resolvida em Nicéia, porém isto
gerou novos questionamentos, agora em torno do relacionamento entre as naturezas humana
e divina de Cristo. Em geral os teólogos ligados a Alexandria salientaram a divindade de Cristo,
enquanto que os relacionados à Antioquia, a sua humanidade, a expensas de Sua deidade. A
controvérsia se iniciou no ensino de Paulo de Samosata, bispo de Antioquia. Este ensinava o
que se chama de adocionismo ou monarquismo dinâmico. Jesus era um homem "energizado"
pelo Espírito no batismo e assim exaltado à dignidade divina. Apolinário de Laodicéia foi o
primeiro a negar formalmente que Jesus teve uma alma racional. No seu lugar estava o divino
Logos.

O Concílio de Calcedônia (451) definiu a cristologia afirmando que Jesus Cristo era:
"Perfeito em divindade e perfeito em humanidade, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, de
alma racional e corpo, da mesma substância com o Pai segundo a divindade; e da mesma
substância conosco segundo a humanidade, semelhante a nós em todos os aspectos, sem
pecado, gerado do Pai antes de todos os tempos segundo a divindade..."

Os "Pais" da Igreja

Os pais da igreja se dividem em três categorias básicas: Pais Apóstolicos, Pais da


Igreja Ante-Nicéia e Pais da Igreja Pós-Nicéia. Os Pais da Igreja Apostólica foram aqueles
como o Clemente de Roma, os quais foram ensinados diretamente pelos apóstolos, levando
adiante suas tradições e o ensinamentos. Lino, mencionado em 2 Timóteo 4:21, se tornou o
bispo de Roma depois que Pedro foi martirizado. Clemente assumiu depois de Lino. Lino e
Clemente de Roma são, portanto, considerados Pais Apostólicos. No entanto, aparenta ser o
caso que nenhum manuscrito de Lino sobreviveu, enquanto que muitos dos escritos de
Clemente de Roma sobreviveram. Ao começo do segundo século, os Pais Apostólicos já
tinham morrido, com exceção daqueles que foram discípulos do Apóstolo João, tal como
Policarpo. João morreu em Éfeso cerca de 99 D.C.

Os Pais Ante-Nicéia foram aqueles que surgiram depois dos Pais Apostólicos e antes
do Conselho de Nicéia em 325 D.C. Desse grupo fazem parte indivíduos notáveis como
Iraenus, Inácio e Justin Martyr.

Os Pais Pós-Nicéia surgiram após o Conselho de Nicéia em 325 D.C. Desse grupo
fazem parte homens notáveis como Agostinho, bispo de Hippo, o qual é muitas vezes chamado
do Pai da Igreja Católica, devido ao seu grande trabalho na doutrina da Igreja; Crisóstomo, o
“boca dourada”, como é chamado devido a sua grande habilidade de oratória; e Eusébio, o
qual escreveu uma história da Igreja a partir do nascimento de Jesus até 324 D.C., um ano
antes do Conselho de Nicéia. Ele faz parte do grupo pós-Nicéia porque ele não escreveu sua
história até depois do Conselho de Nicéia ter acontecido.

Outros Pais pós-Nicéia foram Jerônimo, que traduziu o Novo Testamento do grego ao
Vulgata Latina (latim vulgar), e Ambrósio, o qual foi grandemente responsável pelo imperador
Constantino ter se convertido ao cristianismo.

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Então, em que os Pais da Primeira Igreja acreditavam? Os Pais Apostólicos estavam


mais preocupados em proclamar o mesmo Evangelho que os Apóstolos tinham proclamado.
Eles não estavam interessados em formular uma doutrina teológica, pois o Evangelho que
tinham aprendido com os apóstolos era perfeitamente suficiente para eles na área da
ortodoxia. Os Pais Apostólicos eram tão zelosos quanto os Apóstolos em arrancar e expor
falsas doutrinas que estavam começando a surgir. A ortodoxia da mensagem foi preservada
pelo desejo dos Pais Apostólicos de permanecer fiéis ao Evangelho como ensinado pelos
Apóstolos o máximo possível.

Os Pais Ante-Nicéia também tentaram permanecer fiéis ao Evangelho o máximo


possível, mas eles tinham uma preocupação a mais que não estava presente na era dos Pais
Apostólicos. Agora existiam vários escritos falsos que alegavam ter a mesma autoridade que
os escritos de Paulo, Pedro e Lucas. O motivo para a existência destes documentos falsos era
bastante evidente, pois se o Corpo de Cristo poderia ser persuadido a acreditar que um
documento falso era o mesmo que um documento considerado verdadeiro, então o documento
falso seria visto como verdadeiro também. Portanto, os Pais Ante-Nicéia começaram a dedicar
muito do seu tempo em defender a fé cristã das falsas doutrinas, e isso levou ao início da
formação da doutrina da Igreja.

Os Pais pós-nicéia executaram a missão de defender o Evangelho contra todos os tipos


de heresias e falsas doutrinas, por isso os pais pós-Nicéia começaram mais e mais a se
interessar em defender o Evangelho e menos interessados na transmissão do Evangelho de
uma forma verdadeira e pura, o qual foi a marca dos Pais Apostólicos. Ao chegar a época de
Agostinho, a necessidade de se defender contra as heresias e falsas doutrinas tinha chegado
ao ponto em que a verdadeira doutrina do Corpo de Cristo já estava estabelecida. Essa foi a
era do teólogo que iria discutir de temas misteriosos à morte, tais como "quantos anjos podem
dançar na cabeça de um alfinete".

Os Historiadores da Igreja

Eusébio de Cesaréia (260-340). Escreveu sua História Eclesiástica onde apresenta a


história da Igreja desde seu início até 324. A sua Crônica começa com Abraão e vai a 323. Deu
estrutura cronológica para toda a história medieval. Escreveu a Vida de Constantino onde louva
o imperador. Foi acusado de ser semi-ariano.

Socrates. Nasce em Constantinopla e escreveu a história da Igreja de 305 até 439. É


um autor não crítico, ignorava a Igreja no oeste. Ele apresenta uma coleção inestimável de
dados e documentos.

Sozomen. Foi criado em Gaza mas viveu em Constantinopla após 406. Apresenta a
história de 323 a 439. Foi educado para ser monge. Dá destaque ao monaquismo em
detrimento de outros dados como a verdadeira filosofia cristã. A biografia é a principal força de
sua história.

Os "Teólogos" da Igreja

Atanásio (298-373) Assistiu o Concílio de Nicéia, mas aparentemente não foi um


grande luminário lá. Após a morte de Cirilo, Atanásio foi eleito bispo de Alexandria em 328.

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Durante seu bispado foi exilado 5 vezes por Constantino e seus sucessores. Sua força se
tornou tão grande, que os últimos dois mandatos do exílio não podiam ser cumpridos. Nesse
período a ortodoxia nicena já havia triunfado sobre o arianismo. Sua vida pode ser dividida em
3 etapas: Antes de Nicéia até 325; luta contra o arianismo 325-361 e período de vitória da
ortodoxia, 361-373

João Crisóstomo (345-407). Foi um grande expositor e orador. Ao princípio advogou


segundo seu treino em direito. Após seu batismo em 368 se tronou monge. Com a morte da
sua mãe em 374 seguiu uma vida extremamente ascética até 380. foi ordenado em 386 e se
tornou patriarca de Constantinopla em 398. Foi banido em 404 por ter denunciado as
vestimenta extravagantes da imperatriz, bem como a colocação de uma estatueta dela em
prata na Igreja ao lado de Santa Sofia. Morreu no exílio em 407. Ainda existem 604 dos seus
sermões. A leitura destes sermões mostra a força da sua pregação sem o acréscimo da
personalidade de seu autor. A grande maioria destes sermões versa sobre as epístolas de
Paulo. Procurava levar em consideração o contexto e aplicar aos dias dele o sentido literal do
texto.

Teodoro de Mopsuéstia (350-428). Foi príncipe dos exegetas da antiguidade. Em


contraste com os alexandrinos, ele com Crisóstomo procuravam proclamar o sentido natural do
texto. Foi defensor, pelo menos em parte, de Nestório. Defendeu insistentemente a integridade
da humanidade de Cristo.

Basílio de Cesaréia (329-379) foi instalado na sé de Cesareia em 370. Logo em


seguida começou uma série de negociações teológicas, primeiro com Atanásio e depois com
o papa Dâmaso para promover a reunião das igrejas cismadas pela controvérsia sobre a
Trindade. Graças a sua obra de organizador e legislador criou uma nova concepção da
instituição monástica. Colocou como ideal o quadro dos cristãos em Jerusalém (At:2-4) e
destacou daí a obediência ao superior.

Gregório de Nissa (331-395). Irmão mais novo de Basílio foi um estudante da Bíblia e
de Orígenes. Foi eleito bispo em 371. Tornou-se o defensor mais avançado do credo de Nicéia.
Foi o primeiro a procurar estabelecer por considerações racionais a totalidade das doutrinas
ortodoxas. A filosofia se tornou uma auxiliadora da teologia. Embora divergisse de Orígenes,
especialmente em cosmologia, na maior parte aceitou o ensino deste no que podia acomodá-lo
à fé explícita da Igreja.

Gregório de Nazianso (330-390). Foi eleito bispo em 372, junto com os dois anteriores,
procurou reconciliar as duas proposições de Atanásio: a identidade de essência entre Pai e
Filho com a distinção de pessoalidade entre Pai e Filho. Os dois Gregório também procuravam
salvar a reputação de Orígenes para a ortodoxia. Assim adotaram a doutrina de Orígenes que
rezava que o Logos uniu-se com a natureza sensível pela mediação de uma alma humana
racional. Acrescentaram que o Logos tomou todas as partes da natureza humana em
comunhão consigo e as permeava.

Jerônimo (347-419). Foi o autor da Vulgata que ele insistiu traduzir do grego (NT) e
hebraico (AT), salvo os Salmos que já foram traduzidos da Setuaginta (LXX). Jerônimo
introduziu dois outros elementos à Igreja ocidental que tiveram grandes repercussões lá.

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Introduziu a vida ascética a Europa ocidental. A importância disto só pode ser avaliada à luz da
forma que a Igreja toma na Europa medieval. Introduziu também Orígenes ao Oeste. Por causa
de uma tradução tendenciosa por parte de Rufino, Jerônimo fez uma tradução ao pé da letra de
Orígenes.

Mais tarde ficou embaraçado de ter seu nome ligado a Orígenes. Condenou a doutrina
deste, mas sempre admirou seu estilo de escritor. Além de suas traduções da Bíblia e de
Orígenes, Jerônimo é famoso por seus comentários nas Escrituras. Seu primeiro (388)
comentário foi sobre Eclesiastes, seguido no mesmo ano por Gálatas, Efésios e Tito. Três anos
depois publicou um sobre cinco dos profetas menores. De 397 até 419 completou os profetas
menores, bem como Jonas, Daniel, Isaias, Ezequiel e Jeremias. E do NT apenas Mateus.

Ambrósio de Milão (340-397). Foi um grande administrador eclesiástico; pregador e


teólogo. Foi a pregação de Ambrósio que trouxe Agostinho ao evangelho. Era governador
imperial da área ao redor de Milão quando o bispo da cidade morreu em 374. O povo
unanimemente queria que Ambrósio aceitasse ser bispo. Crendo ser isto a vontade de Deus,
renunciou ao seu cargo político, distribuiu seus bens aos pobres e, após sua eleição, iniciou um
estudo intensivo das Escrituras. Foi um grande pregador apesar de sua exposição ser
desfigurada pela interpretação alegórica das Escrituras. Resistiu ao imperador Teodósio, não o
permitindo participar da Ceia até que humilde e publicamente se arrependesse do massacre
dos tessalonicenses. Aparentemente foi Ambrósio que introduziu o cantar de hinos na Igreja
Ocidental.

O que se pode dizer em relação ao período patrístico, é que foi extremamente frutífero
em termos de pensadores que analisavam a fundo a fé cristã. Foi seguido este período, pela
escuridão intelectual denominada a Idade Média. Antes de cair a cortina, a fé cristã foi
iluminada por estes grandes homens a quem tanto devemos.

Aurélio Agostinho (354-430)

Fora do círculo apostólico, difícil é achar um homem de maior estatura que Agostinho.
Bispo, místico, santo, pregador, administrador, estudioso, teólogo, polemista, filósofo,
historiador, epistolário, comentador, mestre e autor. Entre seus muitos livros, talvez estes três
sejam os livros mais importantes; A Cidade de Deus, As Confissões, Sobre a Doutrina Cristã
(Todos existem em português). É o pai do misticismo medieval, o monaquismo e o
escolasticismo. Dominou a teologia da Idade Média como autoridade maior. Calvino disse que
poderia ter escrito a teologia dele dos livros de Agostinho. Além de intelectual, foi também
místico. Confissões, orações e adoração faziam parte do seu regime diário. ‘E considerado o
fundador da filosofia moderna porque lutou com conceitos como: o eu cônscio, a
personalidade, o tempo, a história, o livre arbítrio, a verdade subjetiva. Por sua vez Agostinho
foi muito influenciado por Platão.

A Odisséia Intelectual de Agostinho

Antes de tornar-se cristão (354-386), foi acordado para o amor à filosofia pela leitura de
Hortesius de Cícero. Este livro trouxe dois aspectos polares ao pensamento de Agostinho: a
idéia de Deus como fonte do ser e da inteligência, e a idéia da alma como uma natureza
espiritual que pode achar sua realização em Deus. Em Cartago, Agostinho se tornou adepto

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do maniqueismo, e embora ele talvez não passou de "ouvinte" durante os 9 anos (dos 19 aos
28 anos) que era ligado à heresia. Foi fascinado durante muito anos pela astrologia embora
não tenha chegado a praticar adivinhação. Após esfriar sua simpatia para com o maniqueismo,
Agostinho passou pelo ceticismo e pelas especulações neoplatônicas.

Converteu-se aos 32 anos sob a pregação de Ambrósio de Milão. Tornou-se


apologético e usou seus dons intelectuais e espirituais para combater as filosofias que outrora
havia seguido. Negou o conceito maniqueu de que há uma união do bem e do mal na alma
humana. Contra o ceticismo achou inegável que o homem possui pelo menos uma parte da
verdade. Insiste contra os neoplatônicos de que há salvação em Jesus Cristo.

Da conversão ao episcopado, (386-396). Escreveu três livros em seis meses para se


preparar para o batismo: Contra os Acadêmicos; Vida Alegre e Providência Divina. Ao morrer
seu filho Adeodatus em 389 escreveu A vera Religião, o Professor, e Música. Foi consagrado
sacerdote em 391 e bispo em 395, ambos em Hipona.

Seu episcopado, (396-430). Iniciou suas Confissões em 397 e terminou-as em 399.


Iniciou-se seu longo conflito com os donatistas em 398; e em 412 com os pelagianos. Mesmo
rejeitando o donatismo, Agostinho adotou a hermenêutica de Ticônio, um dos seus líderes. Em
seus últimos anos Agostinho se dedicou ao problema da relação entre a soberania divina e a
responsabilidade humana. Graça de Cristo e o Pecado Original (418), A Predestinação dos
Santos e o Dom da Perseverança (429)

A controvérsia donatista foi sobre a santidade da Igreja. Os donatistas estavam


preocupados principalmente com questões de disciplina. Não podiam separa o caráter apóstata
do bispo e do valor dos atos litúrgicos celebrados por ele. Assim o caráter imoral ou indigno do
oficiante destruía a santidade e assim o efeito divino do sacramento. Agostinho rejeitou a
ligação donatista entre a santidade da Igreja e a santidade empírica do clero. Escreveu sete
livros sobre batismo contra os donatistas, bem como três outros para responder duas cartas de
Petiliano. No fim Agostinho se ajuntou aos que usariam a força para trazer os donatistas de
volta ao arraial católico.

A controvérsia contra o pelagianismo. Também ocupou bastante a vida de Agostinho,


usou três volumes na coleção de seus ensinos. O monge Pelágio acusou Agostinho de heresia.
O Problema focalizado foi o da relação entre o poder divino para salvar e a vontade humana
para responder ao poder salvador. Agostinho admitia alguma liberdade humana, mas insistia
que tanto o poder salvador como a resposta humana vem de Deus. O ensino de Pelágio era
que Adão foi criado mortal. Ele teria morrido mesmo sem a queda. O pecado de Adão feriu
apenas Adão. Cada um nasce inocente, mas de fato cai no pecado.

Assim que haviam homens sem pecado antes de Cristo. Para Pelágio, ao nascer a
criança tem vida eterna, mesmo sem o batismo. Perde-a ao praticar pecado concreto ao
chegar à idade da razão (perto dos 7 anos). O batismo não regenera. O mal, por sua vez, é
comunicado pelo mau exemplo dos homens. Assim tanto Adão como Cristo influenciam a raça.
Assim que a graça é necessária para redimir do pecado. Deus dá a regeneração bem como a
habilidade de agir. A lei tem o efeito de trazer os perdidos a Cristo.

O ensino de Agostinho. Para ele, o pecado de Adão é transmitido a todos os homens

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pela semente humana, Rom.5:12. Também ensina que Adão foi nosso representante.
Distinguiu entre "voluntas"(vontade com capacidade de agir) e "velleitas"(desejo sem liberdade
para agir). Os eleitos têm "voluntas"; os perdidos "velleitas. A graça que liberta o homem é
preveniente e irresistível. Não há em Agostinho o conceito de dupla predestinaçào. Rejeita o
dualismo maniqueu. O mal é ausência do bem. A criação tende a voltar ao não-ser donde
surgiu.

Desde o seu retiro a Cassiciacum para se preparar para o batismo, Agostinho viveu nas
Escrituras. Acima de tudo era um estudante da Bíblia. Todos os seus sermões tem por base as
Escrituras: ou o texto do calendário ou outro por ele escolhido. Seu vocabulário e estilo são
permeados com a maneira antiga e rude das antigas traduções latinas da Bíblia. Começou com
a interpretação alegórica de Ambrósio (a Bíblia falava do mundo das idéias eternas). Mas o
estudo o levou a ser preocupado com os eventos históricos. A sua interpretação continua
influenciando os teólogos de hoje.

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CAPÍTULO 7

A IGREJA IMPERIAL

A Ascensão Da Igreja Romana

No período que agora vamos tratar o fato mais notável, e também o mais influente,
tanto para o bem como para o mal, foi a vitória do Cristianismo. No ano 305, quando
Diocleciano abdicou o trono imperial, a religião cristã era terminantemente proibida, e aqueles
que a professassem eram castigados com torturas e morte. Contra o Cristianismo estavam
todos os poderes do Estado. Entretanto, menos de oitenta anos depois, em 380, o Cristianismo
foi reconhecido como religião oficial do Império Romano e um imperador cristão exercia
autoridade suprema, cercado de uma corte formada de cristãos professos. Dessa forma
passaram os cristãos, de um momento para o outro, do anfiteatro romano onde tinham de
enfrentar os leões, a ocupar lugares de honra junto ao trono que governava o mundo!

Logo após a abdicação de Diocleciano, no ano 305, quatro aspirantes à coroa estavam
em guerra. Os dois rivais mais poderosos eram Maxêncio e cujos exércitos se enfrentaram na
ponte Múvia sobre o Tibre, a dezesseis quilômetros de Roma, no ano 312. Constantino era
favorável aos cristãos, apesar de ainda não se confessar como tal. Ele afirmou ter visto no céu
uma cruz luminosa com a seguinte inscrição: "In Hoc Signo Vinces" (por este sinal vencerás), e
mais tarde, adotou essa inscrição como insígnia do seu exército. A vitória entre Constantino e
Maxêncio pertenceu ao primeiro, sendo que Maxêncio morreu afogado no rio Tibre.

Pouco tempo depois, em 313, Constantino promulgou o famoso Edito de Tolerância,


que oficialmente terminou com as perseguições. Somente no ano 323 foi que Constantino
alcançou o posto supremo de imperador, e o Cristianismo foi então favorecido. O caráter de
Constantino não era perfeito. Apesar de ser considerado justo, de um modo geral, contudo,
ocasionalmente era cruel e tirano. Dizia-se que "a realidade do seu cristianismo era melhor do
que a sua qualidade". Ele retardou o ato de seu batismo até as vésperas da morte, julgando
que o ato do batismo lavava todos os pecados cometidos anteriormente, idéia que prevalecia
entre os cristãos, naquela época. Se Constantino não foi um grande cristão, foi, sem dúvida,
um grande político, pois teve a idéia de unir-se ao movimento que dominaria o futuro de seu
império.

Da repentina mudança de relações entre o império e a igreja surgiram resultados de

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alcance mundial. Alguns úteis e outros danosos, tanto para a igreja como para o Estado. É fácil
de verificar em que sentido a nova atitude do governo beneficiou a causa do Cristianismo.
Cessaram, como já dissemos, todas as perseguições, para sempre. Durante duzentos anos
antes, em nenhum momento os cristãos estiveram livres de perigos, acusações e morte.
Entretanto, desde a publicação do Edito de Constantino, no ano 313, até ao término do império,
a espada foi não somente embainhada; foi enterrada.

Os templos das igrejas foram restaurados e novamente abertos em toda parte. No


período apostólico celebravam-se reuniões em casas particulares e em salões alugados. Mais
tarde, nos períodos em que cessavam as perseguições, construíam-se templos para as igrejas.
Na última perseguição, durante o tempo de Diocleciano, alguns desses templos foram
destruídos e outros confiscados pelas autoridades. Todos os templos que ainda existiam
quando Constantino subiu ao poder, foram restaurados e aqueles que tinham sido destruídos,
foram pagos pelas cidades em que estavam. A partir dessa época os cristãos gozaram de
plena liberdade para edificar templos que começaram a ser erguidos, por toda parte. Esses
templos tinham a forma e tomavam o nome da "basílica" romana ou salão da corte, isto é, um
retângulo dividido por filas de colunas, tendo na extremidade uma plataforma semicircular com
assentos para os clérigos. O próprio Constantino deu o exemplo mandando construir templos
em Jerusalém, Belém, e na nova capital, Constantinopla. Duas gerações após, começaram a
aparecer às imagens nas igrejas. Os cristãos primitivos tinham horror a tudo que pudesse
conduzir à idolatria.

Nessa época a adoração pagã ainda era tolerada, porém haviam cessado os sacrifícios
oficiais. O fato significativo de uma mudança tão rápida e tão radical em costumes que estavam
intimamente ligados a todas as manifestações cívicas e sociais prova que os costumes pagãos
eram então mera formalidade e não expressavam a crença das pessoas inteligentes. Em
muitos lugares os templos pagãos foram dedicados ao culto cristão. Esses fatos sucediam
principalmente nas cidades, enquanto nos pequenos lugares a crença e a adoração pagãs
perduraram durante gerações. A palavra "pagão", originalmente significava "morador do
campo". Mais tarde, porém, passou a significar, um idólatra, que não pratica a verdadeira ado-
ração.

Em todo o império os templos dos deuses do paganismo eram mantidos pelo tesouro
público, mas, com a mudança que se operara, esses donativos passaram a ser concedidos às
igrejas e ao clero cristãos. Em pequena escala a princípio, mas logo depois de maneira
generalizada e de forma liberal, os dinheiros públicos foram enriquecendo as igrejas, e os
bispos, os ministros, todos os funcionários do culto cristão eram pagos pelo Estado. Era uma
dádiva bem recebida pela igreja, porém, de benefício duvidoso.

Ao clero foram concedidos muitos privilégios, nem sempre dados pela lei do império,
mas por costume, que pouco depois se transformava em lei. Os deveres cívicos obrigatórios
para todos os cidadãos, não se exigiam dos clérigos; estavam isentos de pagamento de
impostos. As causas em que estivessem envolvidos os clérigos eram julgadas por cortes
eclesiásticas e não civis. Os ministros da igreja formavam uma classe privilegiada acima da lei
do país. Tudo isso foi, também, um bem imediato que se transformou em prejuízo tanto para o
Estado como para a igreja.

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O primeiro dia da semana (domingo) foi proclamado como dia de descanso e adoração,
e a observância em breve se generalizou em todo o império. No ano 321, Constantino proibiu o
funcionamento das cortes e tribunais aos domingos, exceto em se tratando de libertar os
escravos. Os soldados estavam isentos de exercícios militares aos domingos. Mas os jogos
públicos continuaram a realizar-se aos domingos o que o tornava mais um feriado que um dia
santo.

Como se vê, do reconhecimento do Cristianismo como religião preferida surgiram


alguns bons resultados, tanto para o povo como para a igreja. O espírito da nova religião foi
incutido em muitas ordens decretadas por Constantino e seus sucessores imediatos.

A crucificação foi abolida. Note-se que a crucificação era uma forma comum de castigo
para os criminosos, exceto para os cidadãos romanos, os únicos que tinham direito a ser
decapitados, se fossem condenados à morte. Porém a cruz, emblema sagrado para os
cristãos, foi adotada por Constantino, como distintivo de seu exército e foi proibida como
instrumento de morte.

O infanticídio foi reprimido. Na história de Roma e suas províncias, era fato comum que
qualquer criança que não fosse do agrado do pai, podia ser asfixiada ou "abandonada" para
que morresse. Algumas pessoas dedicavam-se a recolher crianças abandonadas; criavam-nas
e depois vendiam-nas como escravos. A influência do Cristianismo imprimiu um sentido
sagrado à vida humana, até mesmo à das crianças, e fez com que o infanticídio fosse banido
do império.

Através de toda a história da república e do Império Romano antes que o Cristianismo


chegasse a dominar mais da metade da população era escrava, sem nenhuma proteção legal.
Qualquer senhor podia matar os escravos que possuía, se o desejasse. Durante o domínio de
um dos primeiros imperadores, um rico cidadão romano foi assassinado por um de seus
escravos. Segundo a lei, como castigo todos os trezentos escravos daquele cidadão foram
mortos, sem levar-se em consideração o sexo, a idade, a culpa ou a inocência. Entretanto, a
influência do Cristianismo tornou mais humano o tratamento dado aos escravos. Foram-lhes
outorgados direitos legais que antes não possuíam. Podiam, de acordo com a lei, acusar seu
amo de tratamento cruel, e a emancipação foi assim sancionada e fomentada. Dessa forma as
condições dos escravos foram melhoradas e a escravidão foi gradativamente abolida.

As lutas de gladiadores foram proibidas. Essa lei foi posta em vigor na nova capital de
Constantino, onde o hipódromo jamais foi contaminado por homens que se matassem uns aos
outros para prazer dos espectadores. Contudo, os combates ainda continuaram no anfiteatro
romano até ao ano 404, quando o monge Telêmaco invadiu a arena e tentou apartar os
gladiadores. O monge foi assassinado, porém, desde então, cessou a matança de homens
para prazer dos espectadores.

Apesar de os triunfos do Cristianismo haverem proporcionado boas coisas ao povo,


contudo a sua aliança com o Estado, inevitavelmente devia trazer, como de fato trouxe, maus
resultados para a igreja. Se o término da perseguição foi uma bênção, a oficialização do
Cristianismo como religião do Estado foi, não há dúvida, maldição.

Todos queriam ser membros da igreja e quase todos eram aceitos. Tanto os bons como

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os maus, os que buscavam a Deus e os hipócritas buscando vantagens, todos se apressavam


em ingressar na comunhão.

Homens mundanos, ambiciosos e sem escrúpulos, todos desejavam postos na igreja,


para, assim, obterem influência social e política. O nível moral do Cristianismo no poder era
muito mais baixo do que aquele que destinguia os cristãos nos tempos de perseguição.

Os cultos de adoração aumentaram em esplendor, é certo, porém eram menos


espirituais e menos sinceros do que no passado. Os costumes e as cerimônias do paganismo
foram pouco a pouco infiltrando-se nos cultos de adoração. Algumas das antigas festas pagãs
foram aceitas na igreja com nomes diferentes. Cerca do ano 405 as imagens dos santos e
mártires começaram a aparecer nos templos, como objetos de reverência, adoração e culto. A
adoração à virgem Maria substituiu a adoração a Vênus e a Diana. A Ceia do Senhor tornou-se
um sacrifício em lugar de uma recordação da morte do Senhor. O "ancião" evoluiu de pregador
a sacerdote.

Como resultado da ascensão da igreja ao poder, não se vê os ideais do Cristianismo


transformando o mundo; o que se vê é o mundo dominando a igreja. A humildade e a
santidade da igreja primitiva foram substituídas pela ambição, pelo orgulho e pela arrogância
de seus membros. Havia, é certo, ainda alguns cristãos de espírito puro, como Mônica, a mãe
de Agostinho, e bem assim havia ministros fiéis como Jerônimo e João Crisóstomo. Entretanto,
a onda de mudanismo avançou, e venceu a muitos que se diziam discípulos do humilde
Senhor.

Se tivesse sido permitido ao Cristianismo desenvolver-se normalmente, sem o controle


do Estado, e se o Estado se tivesse mantido livre da ditadura da igreja, tanto um quanto a outra
teriam sido mais felizes. Porém, a igreja e o Estado tornaram-se uma só entidade quando o
Cristianismo foi adotado como religião do império e dessa união desnaturada surgiram males
sem conta nas províncias orientais e ocidentais. No Oriente, o Estado dominava de tal modo a
igreja, que esta perdeu todo o poder que possuía. No Ocidente a igreja, pouco a pouco,
usurpou o poder secular e o resultado não foi Cristianismo, e, sim, o estabelecimento de uma
hierarquia mais ou menos corrompida que dominava as nações da Europa, fazendo da igreja
uma máquina política.

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CAPÍTULO 8

O GRANDE CISMA

Desde o século dez até ao décimo - nono existiu na Europa uma organização política
singular, que demonstrou possuir características diferentes nas várias gerações. O nome oficial
dessa organização era este: Sacro Império Romano, ainda que em forma comum, porém
incorreta, era denominado Império Germânico. Até à sua aparição, a Europa situada ao oeste
do Mar Adriático vivia em completa desordem, governada que era por tribos guerreiras em
lugar de ser governada por Estados. Apesar de tudo, em meio a tanta confusão, o antigo
conceito romano de ordem e unidade permaneceu como aspiração por um império para ocupar
o lugar do Império Romano que, mesmo desaparecido, ainda era tradicionalmente venerado.

Na última etapa do século oitavo levantou-se um dos maiores homens de todos os


tempos, Carlos Magno (742-814). Era neto de Carlos Martelo, o vencedor da batalha de Tours,
(732). Carlos Magno, rei dos francos, uma tribo germânica que dominava uma grande parte da
França, constituiu-se a si mesmo senhor de quase todos os países da Europa Ocidental, norte
da Espanha, França, Alemanha, Países-Baixos, Áustria e Itália, em verdade, um império. Ao
visitar a cidade de Roma, no dia de Natal do ano 800, Carlos Magno foi coroado pelo Papa
Leão III, como Carlos Augusto, imperador romano, e, assim, considerado sucessor de Augusto,
de Constantino e dos antigos imperadores romanos. Carlos Magno reinou sobre todo o vasto
domínio com sabedoria e poder. Era reformador, conquistador, legislador, protetor da educação
e da igreja.

Somente por um pouco de tempo, a autoridade de seu império foi efetiva na Europa. A
fraqueza e a incapacidade dos descendentes de Carlos Magno, o desenvolvimento dos vários
países, dos idiomas, dos conflitos provocados por interesses regionais, fizeram com que a
autoridade do Sacro Império Romano ou Germânico se limitasse ao oeste pelo Reno. Até
mesmo na Alemanha os pequenos estados se tornaram praticamente independentes;
guerreavam uns com os outros e a maior parte do tempo apenas nominalmente estavam sob o
domínio do imperador. O imperador era reconhecido como chefe titular do Cristianismo
europeu. Na França, na Inglaterra e nos Estados escandinavos, o imperador era honrado,
porém, não obedecido. Pelo fato de sua autoridade ter-se limitado à Alemanha e em pequena

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escala à Itália, o reino foi comumente chamado de Império Germânico.

Mais tarde, quando os sucessores de Carlos Magno perderam o trono, o imperador era
eleito por um corpo de eleitores formado por sete príncipes. Dos cinquenta e quatro
imperadores somente mencionaremos os mais importantes: Henrique I (o Passarinheiro), 919-
936, iniciou a restauração do império que havia decaído, porém seu filho, Otto I (o Grande),
apesar de não haver sido coroado senão no ano 951, é considerado como o verdadeiro
fundador do Sacro Império Romano, isto é, como uma entidade, e distinto do Império Romano.
O reinado do Otto I estendeu-se até 973. Frederico Barbarroxa foi um dos imperadores mais
poderosos nessa sucessão. Participou da Terceira Cruzada, porém afogou-se na Ásia Menor e
sua morte fez a expedição fracassar.

Frederico II, neto de Barbarroxa foi chamado "a maravilha e o enigma da história; ilustre
e progressista, o homem mais liberal de sua época", em suas idéias políticas e religiosas. Foi
excomungado duas vezes pelo papa, mas na Quinta Cruzada proclamou-se a si mesmo rei de
Jerusalém.

Rodolfo de Habsburgo, fundador da Casa da Áustria, recebeu a coroa imperial no ano


de 1273, quando esse ato não tinha maior significação do que um título qualquer e sem valor.
Entretanto, obrigou os príncipes e barões a submeterem-se à sua autoridade. A partir de então,
a Áustria era o Estado mais poderoso da confederação Germânica e quase todos os
imperadores eram descendentes do fundador da Casa da Áustria. Carlos V, imperador no
tempo do início da Reforma (1519-1556), era também herdeiro da Áustria, da Espanha e dos
Países-Baixos. Fez o que pode, porém não conseguiu manter sob o domínio da antiga religião
todos os países que governava. No ano de 1556 abdicou voluntariamente e passou os dois
últimos anos de sua vida afastado de todos.

Durante muitos séculos a história do império registrou forte rivalidade e até mesmo
guerras entre papas e imperadores; imperadores lutando para governar o império. Já vimos
como o papa Gregório VII (Hildebrando), certa ocasião, exigiu a submissão de um imperador e
como Inocêncio III nomeava e destituía imperadores e reis. Porém a luta tornou-se menos
intensa e cessou, depois da Reforma, quando se fixaram as linhas divisórias entre a igreja e o
Estado.

Quando o reino da Áustria se tornou importante, os imperadores cuidavam mais de


seus domínios. As muitas províncias do império alcançaram quase que a independência
completa, de modo que o título de imperador tinha a significação de um título honorífico ou
pouco mais do que isso. No século dezoito, o engenhoso Voltaire declarou que "o Sacro
Império Romano não era sacro nem romano, nem era império". A sucessão de imperadores
terminou no ano de 1806, quando Napoleão alcançou o clímax do poder. Nesse ano Francisco
II foi obrigado a renunciar ao título de imperador do Sacro Império Romano e tomou o de
"imperador da Áustria".

A separação das igrejas Grega e Latina realizou-se formalmente no século onze, ainda
que praticamente se tivesse efetuado muito tempo antes. As relações normais entre papas e
patriarcas, durante séculos, caracterizaram-se pelas lutas, até que, finalmente, em 1054 o
mensageiro do papa colocou sobre o altar da igreja de Sta. Sofia, em Constantinopla, o decreto

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de excomunhão. Por sua vez o patriarca expediu decreto de excomunhão de Roma e das
igrejas que se submetessem ao papa. Desde então as igrejas Latina e Grega conservaram-se
separadas, não reconhecendo uma a existência eclesiástica da outra. A maioria das questões
que deram causa à separação, são consideradas triviais em nossos dias. Entretanto, durante
séculos, elas foram temas de violentas controvérsias, e às vezes, de cruéis perseguições.

Doutrinariamente, a principal diferença consistia na doutrina conhecida como "a


procedência do Espírito Santo". Os latinos afirmavam que "o Espírito Santo procede do Pai e
do Filho" — em latim "filioque". Os gregos, por sua vez, declaravam que procedia "do Pai",
deixando fora a palavra "filioque". Acerca dessa palavra realizaram-se intermináveis debates,
escreveram-se livros em abundância e até mesmo sangue foi derramado nessa amarga
contenda.

Nas cerimônias da igreja Oriental e da Ocidental os usos e costumes eram diferentes e


alguns deles transformaram-se em lei. O casamento dos sacerdotes foi proibido na igreja
Ocidental, enquanto na igreja Oriental foi sancionado. Atualmente, na igreja grega, qualquer
sacerdote do povo (que tem o título de "papa", equivalente a "padre" entre os católicos-
romanos) deve ser casado. Nas igrejas ocidentais a adoração de imagens é praticada há mais
de mil anos, enquanto nas igrejas gregas não se encontram estátuas, mas apenas quadros.
Contudo os quadros são imagens em baixo-relevo, e são estimados com profunda reverência.

No exercício da missa o pão sem fermento (a hóstia) é usado nas igrejas romanas, ao
passo que nas igrejas gregas é servido pão comum. Como protesto contra a observância
judaica do sétimo dia, surgiu a prática do jejum aos sábados no Ocidente, mas jamais esse
costume foi observado no Oriente. Mais tarde, porém, o dia de jejum católico-romano foi
transferido para as sextas-feiras, o dia da crucificação do Senhor.

Contudo, uma influência mais profunda do que estas diferenças cerimoniais, que
provocou a separação das igrejas latina e grega, foi a causa política da separação ou
independência da Europa do trono de Constantinopla, com o estabelecimento do Sacro Império
Romano (ano 800). Mesmo depois da queda do antigo império de Roma, em 476, o espírito
imperial ainda exercia influência e os novos reinos dos bárbaros: godos, francos e outras raças,
de uma forma um tanto vaga, teoricamente consideravam-se sob o governo ou domínio de
Constantinopla. Porém quando o Sacro Império Romano foi estabelecido por Carlos Magno,
tomou o lugar do antigo Império, e era separado e independente dos imperadores de
Constantinopla. Um Estado independente necessitava de uma igreja independente.

Mas o fator decisivo e poderoso que levou à separação foram as contínuas


reclamações de Roma, alegando ser a sua igreja dominante e insistindo em que o papa era "o
bispo universal". Em Roma a igreja pouco a pouco dominava o Estado. Em Constantinopla a
igreja continuava submissa ao Estado. Diante dessas circunstâncias era inevitável o
rompimento entre as duas igrejas de conceitos opostos. A separação definitiva das duas
grandes divisões da igreja, como já vimos, aconteceu no ano 1054.

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CAPÍTULO 9

AS CRUZADAS

Outro grande movimento da Idade Média, sob a inspiração e mandado da igreja, foram
as Cruzadas, que se iniciaram no fim do século onze e prolongaram-se por quase trezentos
anos. Desde o quarto século até aos nossos dias, numerosas peregrinações à Terra Santa
foram organizadas. O número de peregrinos aumentou de modo considerável, no ano 1000,
quando era crença quase universal que nesse ano se daria o grande evento da segunda vinda
de Jesus. Apesar de tal acontecimento não se haver realizado nessa data, contudo as
peregrinações continuaram.

A princípio as peregrinações eram facilitadas pelos governantes muçulmanos da


Palestina. Porém mais tarde as peregrinações sofriam pressão, os peregrinos eram roubados e
até mesmo mortos. Ao mesmo tempo, o debilitado Império Oriental estava ameaçado pelos
maometanos. Foi por isso que o imperador Aleixo solicitou ao papa Urbano II que lhe enviasse
guerreiros da Europa para ajudá-lo. Nesse tempo manifestou-se na Europa o desejo de libertar
a Terra Santa do domínio maometano. Desse impulso surgiram as Cruzadas.

As principais Cruzadas foram em número de sete, além de muitas outras expedições de


menor importância, às quais se dá também o nome de cruzadas. A primeira Cruzada foi
anunciada pelo papa Urbano II, no ano 1095, no Concílio de Clermont, quando então elevado
número de cavaleiros receberam a cruz como insígnia e se alistaram para combater os
sarracenos. Antes que a expedição principal fosse inteiramente organizada, um monge
chamado Pedro, o Eremita, convocou uma multidão de cerca de 40.000 pessoas sem
experiência e sem disciplina e enviou-as ao Oriente, esperando ajuda milagrosa para aquela
multidão. Mas a desprovida e desorganizada multidão fracassou; muitos de seus membros
foram mortos e outros foram feitos escravos.2 Entretanto, a primeira e verdadeira Cruzada foi
integrada por 275.000 dos melhores guerreiros de todos os países da Europa. Era chefiada por
Godofredo de Bouillon e bem assim outros chefes. Depois de sofrerem muitos contratempos,
principalmente por falta de disciplina e por desentendimentos entre os dirigentes, conseguiram

2
A história da Cruzada de Pedro o Eremita baseia-se em argumentos de informação incerta e alguns historiadores modernos
duvidam da sua veracidade.

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tomar a cidade de Jerusalém e quase toda a Palestina, no ano 1099. Estabeleceram então um
reino sobre princípios feudais. Havendo Godofredo recusado o título de rei, foi nomeado "barão
e defensor do Santo Sepulcro". Com a morte de Godofredo, seu irmão Balduíno tomou o título
de rei. O reino de Jerusalém durou até ao ano de 1187, apesar de haver estado
constantemente em condições difíceis, cercado por todos os lados exceto pelo mar pelo
império dos sarracenos, e por estar muito distante de seus aliados naturais, na Europa.

A Segunda Cruzada foi convocada em virtude das notícias segundo as quais os


sarracenos estavam conquistando as províncias adjacentes ao reino de Jerusalém, e a própria
cidade de Jerusalém estava ameaçada. Sob a influência da pregação do piedoso Bernardo de
Clairveaux, Luiz VII da França e Conrado III de Alemanha conduziram um grande exército em
socorro dos lugares santos. Enfrentaram muitas derrotas, mas, finalmente, alcançaram a
cidade. Não conseguiram recuperar o território perdido, mas conseguiram adiar por uma
geração a queda final do reino.

Em 1187 Jerusalém foi retomada pelos sarracenos sob as ordens de Saladino, e o reino
de Jerusalém chegou ao seu fim, apesar de o título "Rei de Jerusalém" ter sido usado ainda por
muito tempo.

A queda da cidade de Jerusalém despertou a Europa para organizar a Terceira Cruzada


(1188-1192), a qual foi dirigida por três soberanos proeminentes: Frederico Barbarroxa, da
Alemanha, Filipe Augusto, da França e Ricardo I, "Coração de Leão", da Inglaterra. Entretanto
Frederico, o melhor general e estadista, morreu afogado e os outros dois desentenderam-se.
Filipe Augusto voltou à sua pátria e toda a coragem de Ricardo não foi suficiente para conduzir
seu exército até Jerusalém. Contudo, fez um acordo com Saladino, a fim de que os peregrinos
cristãos tivessem direito a visitar o Santo Sepulcro sem serem molestados.

A Quarta Cruzada (1201-1204) foi um completo fracasso, porque causou grandes


prejuízos à igreja cristã. Os cruzados (componentes das Cruzadas), se afastaram do propósito
de conquistar a Terra Santa e fizeram então guerra a Constantinopla, conquistaram-na,
saquearam-na e impuseram seu próprio governo ao Império Grego, governo que durou
cinquenta anos. Entretanto, não cuidaram da defesa do império e deixaram-no indefeso, um
insignificante baluarte para enfrentar o crescente poder dos turcos "seljuks", raça de guerreiros
não civilizados, que sucederam aos sarracenos e maometanos no poder dominante depois do
término do período das Cruzadas.

Na Quinta Cruzada (1228) o imperador Frederico II, apesar de excomungado pelo papa,
conduziu um exército até à Palestina e conseguiu um tratado no qual as cidades de Jerusalém,
Haifa, Belém e Nazaré, eram cedidas aos cristãos. Sabendo que nenhum sacerdote o coroaria
(pois estava sob a excomunhão papal), Frederico coroou-se a si mesmo rei de Jerusalém. Por
esse motivo o título "rei de Jerusalém" foi usado por todos os imperadores germânicos e depois
pelos da Áustria, até ao ano 1835. Por causa da contenda do papa com Frederico II, os
resultados da Cruzada não foram aproveitados. A cidade de Jerusalém foi novamente tomada
pelos maometanos, em 1244, e desde então permaneceu sob o seu domínio.3

3
No dia 8 de dezembro de 1817, a cidade de Jerusalém se rendeu ao exército inglês e no dia 11 do mesmo mês, o general
britânico entrou na cidade e tomou posse oficial, em nome de seu governo e das forças Aliadas.

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A Sexta Cruzada (1248-1254) foi empreendida por Luiz IX, da França, conhecido como
São Luiz. Ele invadiu a Palestina através do Egito. Apesar de haver alcançado algumas vitórias
a princípio, contudo foi derrotado e aprisionado pelos maometanos. Depois foi resgatado por
elevada soma e permaneceu na Palestina até ao ano 1252, quando a morte de sua mãe, que
ficara em seu lugar como regente, o obrigou a voltar à França.

A Sétima Cruzada (1270-1272) teve também a direção de Luiz IX, juntamente com o
príncipe Eduardo Plantagenet, da Inglaterra, que veio a ser Eduardo I. A rota escolhida para a
Cruzada foi novamente a África, porém Luiz IX morreu em Tunísia. Seu filho propôs a paz e
Eduardo voltou à Inglaterra a fim de ocupar o trono. Esta é, geralmente, considerada a última
Cruzada, cujo fracasso foi total.

Houve ainda cruzadas de menor importância, porém nenhuma delas merece menção
especial. Em verdade, a partir do ano 1270 qualquer guerra realizada em favor da igreja era
considerada cruzada, ainda mesmo que tais guerras fossem contra os "hereges" em países
cristãos.

As Cruzadas fracassaram no propósito de libertar a Terra Santa do domínio dos


maometanos. Um olhar retrospectivo indicará quais as causas do fracasso. É fácil notar um
fato em cada uma das Cruzadas: reis e príncipes que chefiavam tais Cruzadas estavam
sempre em desacordo. Cada qual estava mais preocupado com os interesses próprios do que
com a causa comum. Invejavam-se uns aos outros e temiam que o êxito proporcionasse
influência e fama ao rival. Contra o esforço dividido que havia no meio das Cruzadas estava um
povo unido, valente, uma raça valorosa na guerra sob as ordens absolutas de um comandante,
quer se tratasse de um califa, ou de um sultão.

A causa maior e mais profunda do fracasso foi, sem dúvida, a falta de um estadista
entre os chefes das Cruzadas. Nenhum deles possuía visão ampla e transcendente. O que
eles desejavam era obter resultados imediatos. Não compreendiam que para fundar e manter
um reino na Palestina, a milhares de quilômetros de distância de seus países, eram
necessárias comunicações constantes com a Europa Ocidental, e bem assim uma base de
provisões e reforço contínuo. A conquista da Palestina era uma intromissão e não uma
libertação. O povo da Terra Santa foi praticamente escravizado pelos cruzados; como
escravos, eram obrigados a construir castelos, fortalezas e palácios para seus odiados
senhores. Acolheram com satisfação o regresso de seus primitivos governantes muçulmanos,
pois mesmo que o jugo deles fosse pesado, ainda assim era mais leve do que o dos reis
cristãos de Jerusalém.

Contudo, apesar do fracasso em manter um reino cristão na Palestina, ainda assim a


Europa obteve alguns bons resultados das Cruzadas. É que depois de cessadas as
expedições, os peregrinos cristãos eram protegidos pelo governo turco. Em verdade o país
prosperou e nas cidades de Belém, Nazaré e Jerusalém cresceram em população e riqueza,
por causa das caravanas de peregrinos que visitavam a Palestina, sob a garantia e segurança
dos governantes turcos.

Depois das Cruzadas, as agressões muçulmanas na Europa foram reprimidas. A


experiência desses séculos de lutas despertou a Europa para ver o perigo do islamismo. Os

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espanhóis animaram-se a fazer guerra aos mouros que dominavam a metade da península.

Comandados por Fernando e Isabel, os espanhóis, em 1492, venceram o reino


mourisco e expulsaram os maometanos do país. Na fronteira oriental da Europa, a Polónia e a
Áustria estavam alertas, de modo que em 1683 fizeram retroceder a invasão turca, em uma
violenta batalha travada próximo à cidade de Viena. Essa vitória marcou o início da decadência
do poder do Império Turco.

Outro bom resultado alcançado pelas Cruzadas foi um melhor conhecimento das
nações entre si. Não somente os governantes e chefes, mas também cavaleiros e soldados
dos diferentes países, começaram a conhecer-se e a reconhecer os interesses comuns. Entre
as nações nasceu um respeito mútuo e fizeram-se alianças. As Cruzadas contribuíram
grandemente para o desenvolvimento da Europa moderna.

As Cruzadas também deram um grande impulso ao comércio. A procura de mercadoria


de todas as espécies — armas, provisões e navios — aumentou a indústria e o comércio. Os
cruzados levaram para a Europa o conhecimento das riquezas do Oriente, seus tapetes, sedas
e jóias e o comércio estendeu-se a toda a Europa Ocidental. Os mercadores enriqueceram;
surgiu então uma classe média entre os senhores e os vassalos. As cidades progrediram e
aumentaram seu poder e os castelos começaram a perder a ascendência que exerciam sobre
elas. Nos séculos seguintes, as cidades transformaram-se em centros de liberdade e reformas,
sacudindo, assim, o domínio autoritário tanto dos príncipes como dos prelados.

O poder eclesiástico aumentou consideravelmente ao se iniciar o movimento das


Cruzadas. As guerras eram convocadas pela igreja que, dessa forma, demonstrava seu
domínio sobre príncipes e nações. Além disso, a igreja adquiria terras ou adiantava dinheiro
aos cruzados que oferecessem suas terras como garantia. Foi dessa forma que a igreja
aumentou suas possessões em toda a Europa. Na ausência dos governantes temporais, os
bispos e os papas aumentavam seu domínio. Contudo, ao fim de tudo isso, as grandes
riquezas, a arrogância dos sacerdotes e o uso sem escrúpulo que faziam do poder,
despertaram o descontentamento e ajudaram a preparar o caminho para o levante contra a
igreja católica romana, isto é, a Reforma.

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CAPÍTULO 10

OS PRÉ-REFORMADORES

Durante este período, especialmente seu ocaso, manifestaram-se réstias de luz


religiosa, presságios da futura Reforma. Cinco grandes movimentos de reformas surgiram na
igreja; contudo, o mundo não estava preparado para recebê-los, de modo que foram reprimidos
com sangrentas perseguições.

Os albigenses ou cátaros (cathari), "puritanos", conseguiram proeminência no sul da


França, cerca do ano 1170. Eles rejeitavam a autoridade da tradição, distribuíam o Novo
Testamento e opunham-se às doutrinas romanas do purgatório, à adoração de imagens e às
pretensões sacerdotais, apesar de terem algumas idéias estranhas relacionadas com os
antigos maniqueus, e rejeitarem o Antigo Testamento. O papa Inocêncio III, em 1208, mobilizou
uma "cruzada" contra eles, e a seita foi dissolvida com o assassínio de quase toda a população
da região, tanto a católica como a herege.

Os valdenses apareceram ao mesmo tempo, em 1170, com Pedro Valdo, um


comerciante de Lyon, que lia, explicava e distribuía as Escrituras, as quais contrariavam os
costumes e as doutrinas dos católicos romanos. Pedro Valdo fundou uma ordem de
evangelistas, "os pobres de Lyon", que viajavam pelo centro e sul da França, ganhando
adeptos. Foram cruelmente perseguidos e expulsos da França; contudo encontraram abrigo
nos vales do norte da Itália. Apesar dos séculos de perseguições, eles permaneceram firmes, e
atualmente constituem uma parte do pequeno grupo de protestantes na Itália.

João Wyclif iniciou um movimento na Inglaterra a favor da libertação do domínio do


poder romano e da reforma da igreja. Wyclif nasceu em 1324, educou-se na Universidade de
Oxford, onde alcançou o lugar de doutor em teologia e chefe dos conselhos que dirigiam
aquela instituição. Atacava os frades mendicantes e o sistema do monacato. Recusava-se a
reconhecer a autoridade do papa e opunha-se a ela na Inglaterra. Escreveu contra a doutrina
da transubstanciação, considerando o pão e o vinho meros símbolos. Insistia em que os
serviços divinos na igreja fossem mais simples, isto é, de acordo com o modelo do Novo
Testamento. Se ele fizesse isso em outro país, certamente teria sido logo martirizado. Porém,
na Inglaterra, era protegido pelos nobres mais influentes. Mesmo depois que algumas de suas
doutrinas foram condenadas pela Universidade, ainda assim lhe foi permitido voltar à sua

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paróquia em Lutterworth, e a continuar como clérigo, sem ser molestado. Seu maior trabalho foi
a tradução do Novo Testamento para o inglês, terminado em 1380. O Antigo Testamento, no
qual foi ajudado por alguns amigos, foi publicado em 1384, ano de sua morte. Os discípulos de
Wyclif foram chamados "lolardos", e chegaram a ser numerosos. Porém, no tempo de Henrique
IV e Henrique V foram intensamente perseguidos e, por fim, exterminados. A pregação de
Wyclif e sua tradução da Bíblia sem dúvida prepararam o caminho para a Reforma.

João Huss, da Boêmia (nascido em 1369 e martirizado em 1445), foi um dos leitores
dos escritos de Wyclif, pregou as mesmas doutrinas, e especialmente proclamou a
necessidade de se libertarem da autoridade papal. Chegou a ser reitor da Universidade de
Praga, e durante algum tempo exerceu influência atuante em toda a Boêmia. O papa
excomungou João Huss, e determinou que a cidade de Praga ficasse sujeita à censura
eclesiástica enquanto ele morasse ali. Huss, então retirou-se para lugar ignorado. Porém, de
seu esconderijo enviava cartas confirmando suas idéias. Ao fim de dois anos consentiu em
comparecer ao concílio da igreja católico-romana de Constança, que se realizou em Badem, na
fronteira da Suíça, havendo para isso recebido um salvo-conduto do imperador Sigismundo.
Entretanto, o acordo foi violado, não respeitaram o salvo-conduto sob a alegação de que "Não
se deve ser fiel a hereges". Assim foi Huss condenado e queimado em 1415. Porém sua
atividade e sua condenação foram elementos decisivos na Reforma de sua terra natal, e in-
fluenciaram a Boêmia, por muitos séculos, desde esse tempo.

Jerônimo Savonarola (nascido em 1452) foi um monge da Ordem dos Dominicanos, em


Florença, Itália, e chegou a ser prior do Mosteiro de S. Marcos. Pregava tal qual um dos
profetas antigos, contra os males sociais, eclesiásticos e políticos de seu tempo. A grande
catedral enchia-se até transbordar de multidões ansiosas, não só de ouvi-lo, mas também para
obedecer aos seus ensinos. Durante muito tempo foi praticamente o ditador de Florença onde
efetuou evidente reforma. Finalmente foi excomungado pelo papa. Foi preso, condenado
enforcado e seu corpo queimado na Praça de Florença. Seu martírio deu-se em 1498, apenas
dezenove anos antes que Lutero pregasse as teses na porta da catedral de Wittenberg.

A queda de Constantinopla, em 1453, foi assinalada pelos historiadores como a linha


divisória entre os tempos medievais e os tempos modernos. O Império Grego nunca se
recuperou da conquista de Constantinopla pelos cruzados em 1204. Entretanto, as fortes
defesas naturais e artificiais protegeram durante muito tempo a cidade de Constantinopla
contra os turcos que sucederam aos árabes como poder maometano dominante. Província
após província do grande império foi tomada, até ficar somente a cidade de Constantinopla,
que finalmente, em 1453, foi tomada pelos turcos sob as ordens de Maomé II. Em um só dia o
templo de Sta. Sofia foi transformado em mesquita (condição que perdurou até 1920) e
Constantinopla tornou-se a cidade dos sultões e a capital do Império Turco. Depois da primeira
guerra mundial, Ancara foi declarada a capital turca. A igreja grega continua com seu patriarca,
despojado de tudo, menos de sua autoridade eclesiástica, com residência em Constantinopla
(Istambul). Com a queda de Constantinopla, em 1453, terminou o período da Igreja Medieval.

Vamos mencionar, ainda que ligeiramente, alguns dos homens eruditos e dirigentes do
pensamento no período que estudamos. Durante os mil anos da igreja Medieval, levantaram-se
muitos homens de valor, porém somente citaremos quatro deles como dirigentes intelectuais
da época.

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Anselmo nasceu em 1033, no Piomonte, Itália; era um erudito, como tantos outros
homens de seu tempo, que vagava por vários países. Anselmo fez-se monge do Mosteiro de
Bec, na Normandia, e alcançou o cargo de abade, em 1078. Foi nomeado arcebispo de
Canterbury e primaz da igreja na Inglaterra por Guilherme Rufus, em 1093. Contudo lutou
contra Guilherme e contra seu sucessor Henrique I, por causa da liberdade e autoridade da
igreja, e por isso foi exilado, por algum tempo. Escreveu várias obras teológicas e filosóficas,
sendo por isso chamado "o segundo Agostinho". Morreu no ano 1109.

Pedro Abelardo, que nasceu no ano 1079, e morreu em 1142, como filósofo e teólogo,
foi o pensador mais ousado da Idade Média. Pode ser considerado como o fundador da
Universidade de Paris, que foi a mãe das Universidades européias. A fama de Abelardo, como
professor, atraiu milhares de estudantes de todas as partes da Europa. Muitos dos grandes
homens da geração que lhe sucedeu foram influenciados por seus pensamentos. Suas
intrépidas especulações e opiniões independentes o colocaram mais de uma vez sob a expul-
são da igreja. Mais famosa do que seus ensinos e escritos foi a história romântica que manteve
com a formosa Eloísa, por quem deixou a vida monástica. Casaram-se, porém logo depois
foram obrigados a separar-se e a entrar para conventos. Abelardo morreu no posto de abade, e
Eloísa quando era abadessa.

Bernardo de Clairvaux (1090-1153) foi um nobre pertencente a uma família francesa.


Educou-se para servir na corte, porém renunciou, a fim de entrar para um convento. Em 1115
fundou em Clairvaux um mosteiro da ordem dos cistercienses e foi ele o primeiro abade do
convento. Essa ordem espalhou-se por muitos países e seus membros eram geralmente
conhecidos como bernardinos. Bernardo era uma admirável união de pensador místico e
prático. Organizou a Segunda Cruzada em 1147. Foi um homem de mente esclarecida e
coração bondoso. Opunha-se à perseguição aos judeus e escrevia contra ela. Alguns de seus
hinos, como "Jesus, só o pensar em ti", e ainda "Ó fronte ensanguentada", cantam-se em todas
as igrejas. Somente vinte anos depois da morte foi ele canonizado como São Bernardo. Lutero
declarou o seguinte: "Se houve no mundo um monge santo e temente e Deus, esse foi S.
Bernardo de Clairvaux."

A mentalidade maior da Idade Média foi, sem dúvida, Tomás de Aquino, que viveu nos
anos de 1225 a 1274, e foi chamado o "Doutor Universal, Doutor Angélico e Príncipe da
Escolástica". Nasceu na localidade de Aquino, no reino de Nápoles. Contra a vontade da
família, os condes de Aquino, entrou para a ordem dos monges dominicanos. Quando ainda
estudante, Tomás era tão calado que lhe deram o apelido de "boi mudo". Mas o seu mestre
Alberto Magno sempre dizia: "Um dia esse boi encherá o mundo com seus mugidos." E, de
fato, ele foi a autoridade mais célebre e mais elevada de todo o período medieval, na filosofia e
na teologia. Seus escritos ainda hoje são citados, principalmente pelos eruditos católicos
romanos. Tomás de Aquino morreu em 1274.

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CAPÍTULO 11

A REFORMA PROTESTANTE

Neste período de duzentos anos que vamos comentar, o grande acontecimento que
despertou a atenção geral foi a Reforma; iniciada na Alemanha espalhou-se por todo o norte da
Europa e teve como resultado o estabelecimento de igrejas nacionais que não prestavam
obediência nem fidelidade a Roma. Anotemos algumas das forças que conduziram à Reforma
e ajudaram de forma notável o seu progresso.

Uma dessas forças foi, sem dúvida, o notável movimento conhecido como Renascença,
ou despertar da Europa para um novo interesse pela literatura, pelas artes e pela ciência, isto
é, a transformação dos métodos e propósitos medievais em métodos modernos.

Durante a Idade Média o interesse dos estudiosos havia sido orientado para a verdade
religiosa, com a filosofia relacionada com a religião. Os principais pensadores e escritores,
conforme vimos eram homens pertencentes à igreja. Porém, no período da Renascença, surgiu
um novo interesse pela literatura clássica, pelo grego e pelo latim, pelas artes, de forma
inteiramente separada da religião. Por via de tal interesse, apareceram os primeiros vislumbres
da ciência moderna. Os dirigentes do movimento, de modo geral, não eram sacerdotes nem
monges, e sim leigos, especialmente na Itália, onde teve início a Renascença, não como um
movimento religioso, mas literário; não abertamente anti-religioso, porém cético e investigador.

A maioria dos estudiosos italianos desse período era homens destituídos de vida
religiosa; até os próprios papas dessa época destacavam-se mais por sua cultura do que pela
fé. No norte dos Alpes, na Alemanha, na Inglaterra, e na França o movimento possuía
sentimento religioso, despertando novo interesse pelas Escrituras, pelas línguas grega e
hebraica, levando o povo a investigar os verdadeiros fundamentos da fé, independente dos
dogmas de Roma. Por toda parte, de norte a sul, a Renascença solapava a igreja católica
romana.

A invenção da imprensa veio a ser um arauto e aliado da Reforma que se aproximava.


Essa descoberta foi realizada por Gutemberg, em 1455, em Mogúncia, no Reno, e consistia em
imprimir livros com tipos móveis, fazendo-os circular, facilmente, aos milhares. Antes de se
inventar a imprensa, os livros eram copiados a mão. Uma Bíblia, na Idade Média, custava o

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salário de um ano de um operário. É muito significativo o fato de o primeiro livro impresso por
Gutemberg haver sido a Bíblia, demonstrando, assim, o desejo dessa época.

A imprensa possibilitou o uso comum das Escrituras, e incentivou a tradução e a


circulação da Bíblia em todos os idiomas da Europa. As pessoas que liam a Bíblia,
prontamente se convenciam de que a igreja papal estava muito distanciada do ideal do Novo
Testamento. Os novos ensinos dos Reformadores, logo que eram escritos, também eram logo
publicados em livros e folhetos, e circulavam aos milhões em toda a Europa.

Nessa época começou a surgir na Europa o espírito nacionalista. Esse movimento era
diferente das lutas medievais entre papas e imperadores. Tratava-se mais de um movimento
popular do que mesmo um movimento relacionado com os reis. O patriotismo dos povos
começou a manifestar-se, mostrando-se inconformados com a autoridade estrangeira sobre
suas próprias igrejas nacionais; resistindo à nomeação de bispos, abades e dignitários da
igreja feitas por um papa que vivia em um país distante. Não se conformava, o povo, com a
contribuição do "óbolo de S. Pedro", para sustentar o papa e para a construção de majestosos
templos em Roma. Havia uma determinação de reduzir o poder dos concílios eclesiásticos,
colocando o clero sob o poder das mesmas leis e tribunais que serviam para os leigos. Esse
espírito nacionalista era um sustentáculo do movimento da Reforma.

Enquanto o espírito de reforma e de independência despertava a Europa, a chama


desse movimento começou a arder primeiramente na Alemanha, no eleitorado da Saxônia, sob
a direção de Martinho Lutero, monge e professor da Universidade de Wittenberg. Vamos anotar
algumas das causas originais.

O papa reinante, Leão X, em razão da necessidade de avultadas somas para terminar


as obras do templo de S. Pedro em Roma, permitiu que um seu enviado, João Tetzel,
percorresse a Alemanha vendendo bulas, assinadas pelo papa, as quais, dizia, possuíam a
virtude de conceder perdão de todos os pecados, não só aos possuidores da bula, mas
também aos amigos, mortos ou vivos, em cujo nome fossem as bulas compradas, sem
necessidade de confissão, nem absolvição pelo sacerdote. Tetzel fazia esta afirmação ao povo:
"Tão depressa o vosso dinheiro caia no cofre, a alma de vossos amigos subirá do purgatório ao
céu." Lutero, por sua vez, começou a pregar contra Tetzel e sua campanha de venda de
indulgências, denunciando como falso esse ensino.

A data exata fixada pelos historiadores como início da grande Reforma foi registrada
como 31 de outubro de 1517. Na manhã desse dia, Martinho Lutero afixou na porta da Catedral
de Wittenberg um pergaminho que continha noventa e cinco teses ou declarações, quase todas
relacionadas com a venda de indulgências; porém em sua aplicação atacava a autoridade do
papa e do sacerdócio. Os dirigentes da igreja procuravam em vão restringir e lisonjear Martinho
Lutero. Ele, porém, permaneceu firme, e os ataques que lhe dirigiam, apenas serviram para
tornar mais resoluta sua oposição às doutrinas não apoiadas nas Escrituras Sagradas.

As 95 teses podem ser resumidas nas doutrinas dos cinco solas da Reforma:

Sola Scriptura - (somente a Escritura)

Solus Christus - (somente Cristo)

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Sola Gratia - (somente a graça)

Sola Fide - (somente a fé)

Soli Deo Gloria - (glória somente a Deus).

Após longas e prolongadas controvérsias e a publicação de folhetos que tornaram


conhecidas as opiniões de Lutero em toda a Alemanha, seus ensinos foram formalmente
condenados. Lutero foi excomungado por uma bula 4 do papa Leão X, no mês de junho de
1520. Pediram então ao eleitor Frederico da Saxônia que entregasse preso Lutero, a fim de ser
julgado e castigado. Entretanto, em vez de entregar Lutero, Frederico deu-lhe ampla proteção,
pois simpatizava com suas idéias. Martinho Lutero recebeu a excomunhão como um desafio,
classificando-a de "bula execrável do anticristo". No dia 10 de dezembro, Lutero queimou a
bula, em reunião pública, à porta de Wittemberg, diante de uma assembléia de professores,
estudantes e do povo. Juntamente com a bula, Lutero queimou também cópias dos cânones ou
leis estabelecidas por autoridades romanas. Esse ato constituiu a renúncia definitiva de Lutero
à igreja católica romana.

Em 1521 Lutero foi citado a comparecer ante a Dieta do Concílio Supremo do Reno. O
novo imperador Carlos V concedeu um salvo-conduto a Lutero, para comparecer em Worms.
Apesar de advertido por seus amigos de que poderia ter a mesma sorte de João Huss, que nas
mesmas circunstâncias, no Concílio de Constança, em 1415, apesar de possuir um salvo-
conduto, foi morto por seus inimigos, Lutero respondeu-lhes: "Irei a Worms ainda que me
cerquem tantos demônios quantas são as telhas dos telhados." Finalmente, no dia 17 de abril
de 1521 Lutero compareceu ante a Dieta, presidida pelo imperador. Em resposta a um pedido
de que se retratasse, e renegasse o que havia escrito, após algumas considerações respondeu
que não podia retratar-se, a não ser que fosse desaprovado pelas Escrituras e pela razão, e
terminou com estas palavras: "Aqui estou. Não posso fazer outra coisa. Que Deus me ajude.
Amém." Instaram com o imperador Carlos para que prendesse Lutero, apresentando como
razão, que a fé não podia ser confiada a hereges. Contudo, Lutero pôde deixar Worms em paz.

Enquanto viajava de regresso à sua cidade, Lutero foi cercado e levado por soldados do
eleitor Frederico para o castelo de Wartzburg, na Turíngia. Ali permaneceu Lutero guardado,
em segurança e disfarçado, durante um ano, enquanto as tempestades de guerra e revoltas
rugiam no império. Entretanto, durante esse tempo, Lutero não permaneceu ocioso; nesse
período traduziu o Novo Testamento para a língua alemã, obra que por si só o teria
imortalizado, pois essa versão é considerada como o fundamento do idioma alemão escrito.
Isto aconteceu no ano de 1521. O Antigo Testamento só foi completado alguns anos mais
tarde. Ao regressar do castelo de Wartzburg a Wittenberg, Lutero reassumiu a direção do
movimento a favor da igreja Reformada, exatamente a tempo de salvá-la de excessos
extravagantes.

A divisão dos vários estados alemães, em ramos Reformados e romanos, deu-se entre
o Norte e o Sul. Os príncipes meridionais, dirigidos pela Áustria, aderiram a Roma, enquanto os
do Norte se tornaram seguidores de Lutero. Em 1529 a Dieta reuniu-se na cidade de Espira,

4
Os decretos do papa chamavam-se "bulas"; a palavra bula quer dizer "selo". O nome é aplicado a qualquer documento selado
com selo oficial.

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com o objetivo de reconciliar as partes em luta. Nessa reunião da Dieta os governadores


católicos, que tinham maioria, condenaram as doutrinas de Lutero. Os príncipes resolveram
proibir qualquer ensino do luteranismo nos estados em que dominassem os católicos. Ao
mesmo tempo determinaram que nos estados em que governassem luteranos, os católicos
poderiam exercer livremente sua religião. Os príncipes luteranos protestaram contra essa lei
desequilibrada e odiosa. Desde esse tempo ficaram conhecidos como protestantes, e as
doutrinas que defendiam também ficaram conhecidas como religião protestante.

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CAPÍTULO 12

O IMPACTO DA REFORMA

Em nosso estudo do período moderno, nos últimos três séculos, nossa atenção dirigir-
se-á especialmente para as igrejas que nasceram da Reforma. A igreja católica romana
continuou em seu próprio caminho, inteiramente separada do mundo protestante; está fora do
nosso horizonte. Nosso propósito é descrever, de modo breve, certos movimentos de
importância, que por meio da Reforma influenciaram países protestantes como a Inglaterra, a
Alemanha setentrional e a América do Norte.

Pouco depois da Reforma apareceram três grupos diferentes na igreja inglesa: os


elementos romanistas que procuravam fazer amizade e nova união com Roma; O
anglicanismo, que estava satisfeito com as reformas moderadas estabelecidas nos reinados de
Henrique VIII e da rainha Elisabete; e o grupo protestante radical que desejava uma igreja igual
às que se estabeleceram em Genebra e Escócia. Este último grupo ficou conhecido, cerca do
ano de 1654, como "os puritanos", e opunha-se de modo firme ao sistema anglicano no go-
verno de Elisabete, e por essa razão muitos de seus dirigentes foram exilados. Os puritanos
também estavam divididos entre si: uma parte mais radical era favorável à forma presbiteriana;
a outra parte desejava a independência de cada grupo local, conhecidos como "independentes"
ou "congregacionais". Apesar dessas diferenças, continuavam como membros da igreja in-
glesa.

Na luta entre Carlos I e o Parlamento, os puritanos eram fortes defensores dos direitos
populares. No início o grupo presbiteriano predominava. Por ordem do Parlamento, um concílio
de ministros reunido em Westminster, em 1643, preparou a "Confissão de Westminster" e os
dois catecismos, considerados durante muito tempo como regra de fé por presbiterianos e
congregacionais. Durante o governo de Oliver Cromwell (1653-1658), triunfou o elemento
independente, ou congregacional. No governo de Carlos II (1660-1685) os anglicanos
assumiram novamente o poder, e nessa época os puritanos foram perseguidos como não-
conformistas. Após a Revolução de 1688, os puritanos foram reconhecidos como dissidentes
da igreja da Inglaterra e conseguiram o direito de organizarem-se independentemente. Do
movimento iniciado pelos puritanos surgiram três igrejas, a saber, a Presbiteriana, a
Congregacional, e a Batista.

Nos primeiros cinquenta anos do século dezoito, as igrejas da Inglaterra, a oficial e a

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dissidente, entraram em decadência. Os cultos eram formalistas, dominados por uma crença
intelectual, mas sem poder moral sobre o povo. A Inglaterra foi despertada dessa condição, por
um grupo de pregadores sinceros dirigidos pelos irmãos João e Carlos Wesley e Jorge
Whitefield. Dentre os três, Whitefield era o pregador mais poderoso, que comovia os corações
de milhares de pessoas, tanto na Inglaterra como na América do Norte. Carlos Wesley era o
poeta sacro, cujos hinos enriqueceram a coleção hinológica a partir de seu tempo. João
Wesley foi, sem dúvida alguma, o indiscutível dirigente e estadista do movimento. Na idade de
trinta e cinco anos, quando desempenhava as funções de clérigo anglicano, João Wesley
encontrou a realidade da religião espiritual entre os morávios, um grupo dissidente da igreja
Luterana. Em 1739 Wesley começou a pregar "o testemunho do Espírito" como um
conhecimento pessoal interior, e fundou sociedades daqueles que aceitavam seus ensinos. A
princípio essas sociedades eram orientadas por dirigentes de classes, porém mais tarde
Wesley convocou um corpo de pregadores leigos para que levassem as doutrinas e relatassem
suas experiências em todos os lugares, na Grã-Bretanha e nas colônias norte-americanas. Os
seguidores de Wesley foram chamados "metodistas", e Wesley aceitou sem relutância esse
nome. Na Inglaterra foram conhecidos como "metodistas wesleyanos", e antes da morte de seu
fundador, contavam-se aos milhares.

Apesar de haver sofrido, durante muitos anos, violenta oposição da igreja de Inglaterra,
sem que lhe permitissem usar o púlpito para pregar, Wesley afirmava considerar-se membro da
referida igreja; considerava o movimento que dirigia como uma sociedade não separada, mas
dentro da igreja da Inglaterra. Contudo após a revolução norte-americana, em 1784, organizou
os metodistas nos Estados Unidos em igreja independente, de acordo com o modelo episcopal,
e colocou "superintendentes", título que preferiu ao de "bispo". Nos Estados Unidos o nome
"bispo" teve melhor aceitação e foi por isso adotado. Nesse tempo os metodistas na América
eram cerca de 14.000.

O movimento wesleyano despertou clérigos e dissidentes para um novo poder na vida


cristã. Também contribuiu para a formação de igrejas metodistas sob várias formas em muitos
países. Na América do Norte, presentemente a igreja metodista conta com aproximadamente
onze milhões de membros. Nenhum dirigente na igreja cristã conseguiu tantos seguidores
como João Wesley.

A Reforma estabeleceu o direito do juízo privado acerca da religião e da Bíblia,


independente da autoridade sacerdotal e da igreja. Um resultado inevitável aconteceu:
enquanto alguns pensadores aceitaram as idéias antigas da Bíblia como um livro sobrenatural,
outros começaram a considerar a razão como autoridade suprema, e a reclamar uma
interpretação racional e não sobrenatural das Escrituras. Aqueles que seguiam a razão, em
prejuízo do sobrenatural, foram chamados "racionalistas". O gérmen do racionalismo existiu na
Inglaterra e na Alemanha desde o princípio do século dezoito, porém suas atividades como
movimento distinto começaram com Johann Semler (nascido em 1725 e morto em 1791), o
qual defendia que coisa alguma recebida pela tradição devia ser aceita sem ser posta à prova,
e acrescentava que a Bíblia devia ser julgada pela mesma crítica que era aplicada a qualquer
escrito antigo, e que o relato dos milagres devia ser desacreditado, que Jesus era unicamente
homem e não um ser divino.

O espírito racionalista cresceu e quase todas as universidades da Alemanha foram

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dominadas por ele. O racionalismo alcançou seu apogeu com a publicação do livro "A Vida de
Jesus", de Frederico Strauss, em 1835, no qual tentou demonstrar que os relatos dos Evange-
lhos eram mitos e lendas. Essa obra foi traduzida por Jorge Eliot (Mariana Evans) em 1846 e
obteve ampla circulação na Inglaterra e na América do Norte.

Os três grandes líderes que fizeram com que a corrente do pensamento no século
dezenove mudasse de racionalista para ortodoxa foram: Schliermacher (1769-1834), mui
justamente chamado "o maior teólogo do século dezenove". Os outros dois pensadores foram,
Neander (1789-1850), e Tholuck (1790-1877). Os ensinos do racionalismo despertaram um
novo espírito de investigação, e fizeram com que muitos teólogos e intérpretes da Bíblia se
apresentassem para defender a verdade. Dessa forma conseguiu-se que o conteúdo da Bíblia
e as doutrinas do Cristianismo fossem amplamente estudados e entendidos mais
inteligentemente. Por exemplo, até então a vida de Cristo nunca fora escrita de forma
escolástica. Depois do livro de Strauss (1835), as obras profundas sobre a vida de Jesus
contam-se aos milhares. O racionalismo, que ameaçava proscrever e paralisar os efeitos do
Cristianismo, na realidade, o que conseguiu foi aumentar a sua força.

Cerca do ano de 1875 apareceu uma tendência na igreja da Inglaterra, que provocou
forte controvérsia e em seus variados aspectos recebeu diferentes nomes. Em razão do seu
propósito foi chamado "o movimento anglo-católico", mas por haver surgido na universidade de
Oxford, também foi conhecido por "Movimento de Oxford". Esse movimento foi divulgado
mediante a publicação de noventa tratados numerados, escritos por vários escritores
defendendo suas idéias sendo por isso também chamado "o movimento tratadista".

Frequentemente era também mencionado pelos adversários por "movimento puseyista",


ou "puseyismo", por causa do nome de um de seus defensores.

Tratava-se de um esforço para separar a igreja da Inglaterra do protestantismo, e


restaurar as doutrinas e práticas dos séculos primitivos, quando a igreja cristã era uma só e
não necessitava de reformas. Os dirigentes do movimento marcaram seu início em 1827, com
a publicação do "Ano Cristão", de John Keble, uma série de poemas que despertaram um novo
interesse na igreja.

O princípio, entretanto, foi um sermão pregado por Keble, em julho de 1833, em Sta.
Maria, Oxford, sobre a "Apostasia Nacional". Logo a seguir começou a aparecer uma
interessante série de "Tratados de Atualidade", acerca da forma de governo, doutrinas e adora-
ção da igreja na Inglaterra, que durou de 1833 até 1841. Apesar de haver sido Keble o
inspirador do movimento, e de manter por ele inteira simpatia, contudo o dirigente foi João
Henrique Newman, o qual escreveu muitos dos "Tratados de Atualidade", e cujos sermões no
púlpito de Sta. Maria eram a apresentação popular da causa.

Outro dos grandes defensores foi o competente erudito e profundamente religioso


Eduardo B. Pusey. Milhares de proeminentes clérigos e leigos da igreja da Inglaterra apoiaram
ativamente o movimento. Levantou-se grande controvérsia. Os dirigentes foram denunciados
como romanistas em seu espírito e propósito; porém o efeito geral foi o de fortalecer e elevar
os padrões da igreja. Como o espírito do movimento era no sentido de desacreditar a Reforma
e promover o anglo-catolicismo, claro está que possuía uma inevitável tendência para Roma.

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Em 1845, seu principal dirigente, Newman, seguindo a lógica de suas convicções, ingressou na
igreja católica romana. Essa separação seguida de outras, causou certo choque, porém não
deteve a corrente anglo-católica.

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CAPÍTULO 13

O CRISTIANISMO MODERNO

Durante um período de mil anos, a partir dos dias apostólicos, o Cristianismo foi uma
instituição ativa na obra missionária. Nos primeiros quatro séculos de sua história, a igreja
converteu o império romano ao Cristianismo. Depois seus missionários encontraram-se com as
hordas dos bárbaros que avançavam, e os conquistaram antes que os bárbaros conquistassem
o império Ocidental.

Depois do século dez, a igreja e o Estado, o papa e o imperador estavam em luta pelo
domínio supremo, de modo que o espírito missionário arrefeceu, embora não tenha
desaparecido inteiramente. A Reforma estava interessada no propósito de purificar e
reorganizar a igreja, antes de expandi-la. Já demonstramos que no último período da Reforma,
o primeiro movimento para cristianizar o mundo pagão não foi realizado por protestantes, mas
pelos católicos romanos, sob a orientação de Francisco Xavier.

Desde 1732 os morávios iniciaram o estabelecimento de missões estrangeiras,


enviando Hans Egede à Groelândia, e logo após a mesma igreja estava trabalhando entre os
índios da América do Norte, entre os pretos das Índias Ocidentais e nos países orientais.
Proporcionalmente ao pequeno número de membros em seu país, nenhuma outra
denominação sustentou tantas missões como a igreja morávia em toda a sua história. O
fundador das missões modernas da Inglaterra foi Guilherme Carey. Inicialmente foi sapateiro,
mas educou-se por sí mesmo, e em 1789 tornou-se ministro da igreja Batista. Tendo contra si
próprio forte oposição, insistiu em enviar missionários ao mundo pagão. Um sermão que
pregou em 1792, e que tinha dois títulos, "Empreendei grandes coisas para Deus" e "Esperai
grandes coisas de Deus", foi a causa da organização da Sociedade Missionária Batista, e
também contribuiu para o envio de Carey à índia. Carey foi impedido de desembarcar pela
Companhia Inglesa da índia Oriental, a qual na época governava a índia, porém, foi acolhido
em Serampore, uma colônia dinamarquesa próxima a Calcutá.

Apesar de não haver recebido educação em sua mocidade, Carey chegou a ser um dos
homens mais eruditos do mundo, no que diz respeito à língua sânscrito e a outras línguas
orientais. Suas gramáticas e dicionários são usados ainda hoje. De 1800 a 1830 foi professor

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de literatura oriental no Colégio de Fort William em Calcutá. Carey morreu em 1834,


reverenciado por todo o mundo, como o pai de um grande movimento missionário.

O movimento missionário na América do Norte teve sua primeira inspiração na famosa


"reunião de oração" que se realizou no Colégio Williams, em Massachusetts, no ano de 1811.
Um grupo de estudantes reuniu-se no campo para orar acerca de missões. Nessa ocasião de-
sabou fortíssima tempestade. Os estudantes refugiaram-se em um depósito de feno, e ali
consagraram suas vidas à obra de Cristo no mundo pagão.

Como resultado dessa reunião, fundou-se a Junta Americana de Comissionados para


Missões Estrangeiras, a qual, no princípio, era interdenominacional; mais tarde, porém, outras
igrejas fundaram suas próprias sociedades e a Junta Americana ficou pertencendo às igrejas
Congregacionais. A Junta Americana enviou inicialmente quatro missionários, a saber: Newel
e Hale, à índia; Judson e Rice se dirigiam ao Extremo Oriente, mas durante a viagem mudaram
de idéia acerca de batismo nas águas, e desligaram-se da Junta Americana. Essa atitude fez
com que se organizasse a Sociedade Missionária Batista Americana, e Judson e Rice iniciaram
o trabalho missionário na Birmânia. O exemplo dos congregacionais e dos batistas foi seguido
também por outras denominações, de modo que depois de alguns anos cada igreja tinha sua
própria junta e seus próprios missionários.

Atualmente, quase não há país na terra que não conheça o Evangelho. Escolas cristãs,
hospitais, orfanatos e outras instituições filantrópicas estão semeados em todo o mundo pagão,
resultantes da obra missionária, e os gastos anuais das diferentes juntas ascendem a muitos
milhões de dólares. A característica mais evidente da igreja atual, na Grã-Bretanha e na
América do Norte, é seu profundo e amplo interesse em missões estrangeiras.

Dentre os muitos grandes homens que se levantaram nos últimos três séculos é difícil
mencionar os principais no que se refere a pensamentos e atividades cristãs. Contudo, aqueles
que vamos mencionar podem apontar-se como homens representativos dos movimentos de
seu tempo.

Ricardo Hooker (1554-1600) foi o autor da obra mais famosa e influente na constituição
da igreja da Inglaterra. Filho de pais pobres, conseguiu auxílio para educar-se na Universidade
de Oxford, na qual conquistou altos conhecimentos em diferentes assuntos, e foi nomeado
instrutor, catedrático e conferencista, nessa ordem. Foi ordenado em 1582 e durante algum
tempo foi pastor em Londres, associado a um eloquente puritano, apesar de Hooker ter idéias
anglicanas.

Suas controvérsias no púlpito fizeram com que Hooker procurasse uma igreja rural,
onde dispusesse de tempo para seus estudos. O grande trabalho de Hooker foi: "As Leis do
Governo Eclesiástico", em oito volumes, a apresentação mais hábil do sistema episcopal que já
se publicou, e do qual a maioria dos escritores, desde então, tiram seus argumentos. Contudo,
mostra-se liberal em suas atitudes para com as igrejas não episcopais e é singularmente livre
do espírito amargo da controvérsia. Hooker tinha apenas quarenta e sete anos quando morreu.

Tomás Cartwright (1535-1603) pode ser considerado o fundador do puritanismo, apesar


de não haver sido ele o maior de seus membros. Essa honra cabe a Oliver Cromwell, cujo
registro de grandeza está na história do Estado e não na da igreja. Cartwright alcançou o lugar

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de professor de teologia na Universidade de Cambridge, em 1569, porém perdeu sua posição


no ano seguinte, por causa de suas opiniões que foram publicadas e não agradaram à rainha
Elizabete nem aos principais bispos.

Cartwright defendia a idéia de que as Escrituras contêm não somente a regra de fé e


doutrina, mas também do governo da igreja; que a igreja devia ser presbiteriana em seu
sistema; que não somente devia estar separada do Estado, mas praticamente devia estar
acima do Estado. Era tão intolerante quanto o prelado em sua defesa ardorosa de uma religião
uniforme e posta em vigor pelas autoridades civis; contanto que a igreja fosse presbiteriana e
sua doutrina a de João Calvino.

Durante vários anos Cartwright foi pastor nas ilhas Guernsey e Jersey, nas quais
estabeleceu igrejas da mesma fé que professava. Entretanto, de 1573 a 1592 passou a maior
parte do tempo na prisão ou exilado no continente. Parece que os últimos nove anos ele os
passou afastado das atividades. Mais tarde suas idéias dominaram a Câmara dos Comuns, ao
passo que as dos prelados dominavam a Câmara dos Lordes. A luta entre os dois partidos
culminou com a guerra civil e o governo de Cromwell.

Jonathan Edwards (1703-1758) é considerado como o primeiro de todos os norte-


americanos em metafísica e teologia, e bem assim o maior teólogo do século dezoito nos dois
lados do Atlântico. Nele combinavam-se a lógica mais aguda, o ardor mais intenso na
investigação teológica, e um piedoso fervor espiritual. Desde a infância demonstrou inteligência
precoce. Quando se graduou no Colégio de Yale, com dezessete anos, já havia lido de forma
intensa a literatura filosófica de todas as épocas e do seu próprio tempo. Em 1727 tornou-se
pastor associado com seu avô na igreja Congregacional, em Northhampton, e logo se
distinguiu como ardente defensor de uma sincera vida espiritual.

Do púlpito que Jonathan Edwards ocupou saiu "O Grande Despertamento", um


avivamento que se espalhou por todas as colônias norte-americanas. A oposição que iniciou
contra o que era aceito em toda a Nova Inglaterra, mediante o qual as pessoas eram admitidas
como membros das igrejas sem terem caráter religioso definido, levantou contra ele o
sentimento de muitos, e culminou com a sua expulsão da igreja, em 1750. Durante oito anos foi
missionário entre os índios. Foi nesse tempo de retiro espiritual que escreveu a monumental
obra "A Vontade Livre", que desde então passou a ser o livro-texto do calvinismo na Nova
Inglaterra. No ano de 1758 foi eleito presidente do Colégio Princeton, mas após algumas
semanas de atividade, morreu, com a idade de cinquenta e cinco anos.

João Wesley nasceu em Epworth, no norte da Inglaterra, no mesmo ano em que


Jonathan Edwards nasceu na América, em 1703, porém Wesley viveu mais do que ele um
terço de século, até 1791. O pai de Wesley foi reitor da igreja da Inglaterra, em Epworth,
durante quarenta anos. Contudo, Wesley recebeu maior influência de sua mãe, descendente
de ministros puritanos e não-conformistas. Ela foi mãe e professora de dezoito filhos. Wesley
graduou-se no Colégio da Igreja de Cristo, em Oxford, em 1724, e foi ordenado ministro da
igreja da Inglaterra. Durante alguns anos foi catedrático da Universidade Lincoln. Durante esse
tempo uniu-se a um grupo de estudantes de Oxford, que aspirava a uma vida santa, e era
chamado zombeteiramente "o Clube Santo". Em razão da maneira como esses estudantes
viviam, deram-lhes depois o nome de "metodistas", nome que alguns anos mais tarde se tornou

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definitivo para os seguidores de Wesley.

No ano de 1735, Wesley e seu irmão mais novo, Carlos foram enviados como
missionários à nova colônia da Geórgia. Seu trabalho não teve muito êxito, e por isso
regressaram à Inglaterra, após dois anos na América. Esse período foi decisivo na vida de
ambos, pois foi nessa época que eles conheceram um grupo de morávios, seguidores do
conde Zinzendorf, e por intermédio dos novos amigos alcançaram conhecimento experimental
de uma vida espiritual. Até então, o ministério de Wesley havia sido um fracasso, mas a partir
dessa data nenhum ministro na Inglaterra despertava tão grande interesse como ele, exceto
Jorge Whitefield. Wesley viajava a cavalo por toda a Inglaterra e Irlanda, pregando,
organizando sociedades e orientando-as durante os longos anos de vida, que durou até quase
ao fim do século dezoito. Como resultado de suas atividades, não somente se organizou o
corpo wesleyano na Inglaterra sob várias formas de organização, mas também surgiram as
igrejas metodistas na América do Norte e no mundo inteiro, elevando-se seus membros a
muitos milhões. Wesley morreu em 1791, com a idade de oitenta e oito anos.

João Henrique Newman (1801-1890), pela habilidade e estilo lúcido de seus escritos,
pela clareza de suas idéias, pelo fervor de sua pregação e sobretudo por uma rara atração
pessoal, foi o dirigente do movimento anglo-católico do século dezenove. Recebeu o diploma
do Colégio Trinity de Oxford, no ano de 1820 e foi nomeado catedrático da faculdade Oriel
College; com as honras mais elevadas, em 1822. No ano de 1828 foi ordenado na igreja
inglesa, e alcançou o lugar de vigário da igreja de Sta. Maria, a igreja da Universidade, na qual,
mediante seus sermões, conseguiu exercer influência dominante sobre os homens de Oxford,
durante uma geração inteira.

Apesar de o conhecido movimento de Oxford haver sido iniciado por Keble, contudo seu
verdadeiro dirigente foi Newman. Ele escreveu vinte e nove dos noventa tratados, e inspirou a
maioria dos restantes. Por causa de o movimento que liderava não ter o apoio das autoridades
da Universidade nem dos bispos da igreja, e também porque suas idéias se modificaram,
Newman, em 1843, renunciou ao cargo que ocupava em Sta. Maria, e retirou-se para uma
igreja em Littlemore, e ali viveu até ao ano de 1845, quando então foi recebido na igreja
católica romana.

Depois dessa mudança de relações eclesiásticas ainda viveu quarenta e cinco anos, a
maior parte dos quais em Birmingham, em menor evidência do que no passado, mas ainda
querido por seus amigos. Seus escritos foram muitos, porém os que mais circularam foram os
tratados e vários volumes de sermões. O livro que publicou em 1864, cujo título era "Apologia
Pro Vita Sua", um relato de sua própria vida religiosa e mudança de opinião, demonstrou sua
completa sinceridade e aumentou a reverência que já era sentida por ele, excetuando a de
alguns mordazes opositores. Foi ordenado cardeal em 1879 e morreu em Birmingham em
1890. Sua influência foi muito grande.

A história de Guilherme Carey (1761-1834), o fundador das missões protestantes


modernas, já foi relatada e dispensa repetição. Seu monumento é o vastíssimo sistema de
pregação e educação missionária que está transformando o mundo pagão.

No início do século vinte as igrejas protestantes da Inglaterra e da América do Norte

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demonstravam características mui diferentes daquelas que possuíam cem anos antes. Os
sistemas doutrinários são relativamente sem importância e praticamente todas as igrejas têm
as mesmas crenças. A diferença entre predestinação e livre-arbítrio pode ser considerada
como uma questão acadêmica, porém já não é uma prova prática. Os ministros, passam do
ministério de uma denominação para a outra sem mudarem de crença. Nota-se uma crescente
unidade de espírito correspondente à unidade de crença. As igrejas já não se mantêm
separadas umas das outras. Organizam planos e trabalham unidas em grandes movimentos. A
união efetiva de igrejas foi alcançada em alguns casos. Notáveis exemplos são a Igreja Unida
do Canadá, formada pela união de metodistas, de congregacionais e parte dos presbiterianos,
realizada em 1925. Outro exemplo é a união da Igreja da Escócia e da Igreja Livre Unida, em
1929. Houve ainda a união das igrejas Congregacionais e Cristãs na América do Norte em
1931, e a grande união dos metodistas da Grã-Bretanha (primitivos metodistas unidos e
wesleyanos), em 1932. Outra característica de grande evidência do Cristianismo nos tempos
atuais é o espírito de serviço social.

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CAPÍTULO 14

O PROTESTANTISMO NO BRASIL

Como parte final de nosso curso vamos estabelecer um breve resumo dos primórdios
do protestantismo no Brasil, no começo foi uma expressão do cristianismo com parâmetro
tímidos, uma vez que a coroa portuguesa responsável por nosso colonização professava a fé
católica apostólica romana.

Período Colonial

 Os primeiros protestantes chegaram ao Brasil ainda no período colonial. Dois grupos


são particularmente relevantes:

1. Os franceses na Guanabara (1555-1567): no final de 1555, chegou à Baía da


Guanabara uma expedição francesa comandada pelo vice-almirante Nicolas Durand de
Villegaignon, para fundar a "França Antártica." Esse empreendimento teve o apoio do
almirante huguenote Gaspard de Coligny, que seria morto no massacre do dia de São
Bartolomeu (24-08-1572).

 Em resposta a uma carta de Villegaignon, Calvino e a igreja de Genebra enviaram um


grupo de crentes reformados, sob a liderança dos pastores Pierre Richier e Guillaume
Chartier (1557). Fazia parte do grupo o sapateiro Jean de Léry, que mais tarde estudou
na Academia de Genebra e tornou-se pastor (†1611). Ele escreveria um relato da
expedição, História de uma Viagem à Terra do Brasil, publicado em Paris em 1578.

 Em 10 de março de 1557, esses reformados celebraram o primeiro culto evangélico do


Brasil e talvez das Américas. Todavia, pouco tempo depois Villegaignon entrou em
conflito com as calvinistas acerca dos sacramentos e os expulsou da pequena ilha em
que se encontravam.

 Alguns meses depois, os colonos reformados embarcaram para a França. Quando o


navio ameaçou naufragar, cinco deles voltaram e foram presos: Jean du Bordel,
Matthieu Verneuil, Pierre Bourdon, André Lafon e Jacques le Balleur. Pressionados por
Villegaignon, escreveram uma bela declaração de suas convicções, a "Confissão de Fé
da Guanabara" (1558). Em seguida, os três primeiros foram mortos e Lafon, o único

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alfaiate da colônia, teve a vida poupada. Balleur fugiu para São Vicente, foi preso e
levado para Salvador (1559-67), sendo mais tarde enforcado no Rio de Janeiro, quando
os últimos franceses foram expulsos.

 A França Antártica é considerada como a primeira tentativa de estabelecer tanto uma


igreja quanto um trabalho missionário protestante na América Latina.

2 Os holandeses no Nordeste (1630-54): depois de uma árdua guerra contra a


Espanha, a Holanda calvinista conquistou a sua independência em 1568 e começou a
tornar-se uma das nações mais prósperas da Europa. Pouco tempo depois, Portugal caiu
sob o controle da Espanha por sessenta anos – a chamada "União Ibérica" (1580-1640).

 Em 1621, os holandeses criaram a Companhia das Índias Ocidentais com o objetivo de


conquistar e colonizar territórios da Espanha nas Américas, especialmente uma rica
região açucareira: o nordeste do Brasil. Em 1624, os holandeses tomaram Salvador, a
capital do Brasil, mas foram expulsos no ano seguinte. Finalmente, em 1630 eles
tomaram Recife e Olinda e depois boa parte do Nordeste.

 O maior líder do Brasil holandês foi o príncipe João Maurício de Nassau-Siegen, que
governou o nordeste de 1637 a 1644. Nassau foi um notável administrador, promoveu a
cultura, as artes e as ciências, e concedeu uma boa medida de liberdade religiosa aos
residentes católicos e judeus.

 Sob os holandeses, a Igreja Reformada era oficial. Foram criadas vinte e duas igrejas
locais e congregações, dois presbitérios (Pernambuco e Paraíba) e até mesmo um
sínodo, o Sínodo do Brasil (1642-1646). Mais de cinquenta pastores ou "predicantes"
serviram essas comunidades.

 A Igreja Reformada realizou uma admirável obra missionária junto aos indígenas. Além
de pregação, ensino e beneficência, foi preparado um catecismo na língua nativa.
Outros projetos incluíam a tradução da Bíblia e a futura ordenação de pastores
indígenas.

 Em 1654, após quase dez anos de luta, os holandeses foram expulsos, transferindo-se
para o Caribe. Os judeus que os acompanhavam foram para Nova Amsterdã, a futura
Nova York.

II. Brasil Império

 O século XIX testemunhou a implantação definitiva do protestantismo no Brasil.

1. Primeiras manifestações:

 Após a expulsão dos holandeses, o Brasil fechou as suas portas aos protestantes por
mais de 150 anos. Foi só no início dos século XIX, com a vinda da família real
portuguesa, que essa situação começou a se alterar. Em 1810, Portugal e Inglaterra
firmaram um Tratado de Comércio e Navegação, cujo artigo XII concedeu tolerância
religiosa aos imigrantes protestantes. Logo, muitos começaram a chegar, entre eles um

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bom número de reformados.

 Depois da independência, a Constituição Imperial (1824) reafirmou esses direitos, com


algumas restrições. Em 1827 foi fundada no Rio de Janeiro a Comunidade Protestante
Alemã-Francesa, que veio a congregar, ao lado de luteranos, reformados alemães,
franceses e suíços.

 Um dos primeiros pastores presbiterianos a visitar o Brasil foi o Rev. James Cooley
Fletcher (1823-1901), que aqui chegou em 1851. Fletcher foi capelão dos marinheiros
que aportavam no Rio de Janeiro e deu assistência religiosa a imigrantes europeus. Ele
manteve contatos com D. Pedro II e outros membros destacados da sociedade; lutou
em favor da liberdade religiosa, da emancipação dos escravos e da imigração
protestante. Ele escreveu o livro O Brasil e os Brasileiros (1857), que foi muito
apreciado nos Estados Unidos.

 Fletcher não fez nenhum trabalho missionário junto aos brasileiros, mas contribuiu para
que isso acontecesse. Foi ele quem influenciou o Rev. Robert Reid Kalley e sua esposa
Sarah P. Kalley a virem para o Brasil, o que ocorreu em 1855. Kalley fundou a Igreja
Evangélica Fluminense em 1858. No ano seguinte, chegou ao Rio de Janeiro o
fundador da Igreja Presbiteriana do Brasil, o Rev. Ashbel G. Simonton.

2. Protestantismo de Imigração:

 "Ao iniciar-se o século XIX, não havia no Brasil vestígio de protestantismo" (B. Ribeiro,
Protestantismo no Brasil Monárquico, 15).

 Em janeiro de 1808, com a chegada da família real, o príncipe-regente João decretou a


abertura dos portos do Brasil às nações amigas. Em novembro, novo decreto concedeu
amplos privilégios à imigrantes de qualquer nacionalidade ou religião.

 Em fevereiro de 1810, Portugal assinou com a Inglaterra tratados de Aliança e Amizade


e de Comércio e Navegação. Este, em seu artigo XII, concedeu aos estrangeiros
"perfeita liberdade de consciência" para praticarem sua fé. Tolerância limitada: proibição
de fazer prosélitos e falar contra a religião oficial; capelas sem forma exterior de templo
e sem uso de sinos.

 O primeiro capelão anglicano, Robert C. Crane, chegou em 1816. A primeira capela foi
inaugurada no Rio de Janeiro em 26-05-1822; seguiram-se outras nas principais
cidades costeiras. Outros estrangeiros protestantes: americanos, suecos,
dinamarqueses, escoceses, franceses e especialmente alemães e suíços de tradição
luterana e reformada.

 "Quando se proclamou a Independência, contudo, ainda não havia igreja protestante no


país. Não havia culto protestante em língua portuguesa. E não há notícia de existir,
então, sequer um brasileiro protestante" (B. Ribeiro, ibid., 18).

 Com a independência, houve grande interesse na vida de imigrantes, inclusive


protestantes. Constituição Imperial de 1824, art. 5º: "A religião católica apostólica

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romana continuará a ser a religião do Império. Todas as outras religiões serão


permitidas com seu culto doméstico ou particular, em casas para isso destinadas, sem
forma alguma exterior de templo."

 1820 – suíços católicos iniciaram a colônia de Nova Friburgo; logo a área foi
abandonada e oferecida a alemães luteranos que chegaram em maio de 1824: um
grupo de 324 imigrantes acompanhados do seu pastor, Friedrich Oswald Sauerbronn
(1784-1864).

 A maior parte dos imigrantes alemães foram para o sul: cerca de 4.800 entre 1824 e
1830 (60% protestantes). Primeiros pastores: Johann Georg Ehlers, Karl Leopold Voges
e Friedrich Christian Klingelhöffer.

 Junho 1827: fundação da Comunidade Protestante Alemã-Francesa do Rio de Janeiro,


por iniciativa do cônsul da Prússia Wilhelm von Theremin. Luteranos e calvinistas.
Primeiro pastor: Ludwig Neumann. Primeiro santuário em 1837 (alugado); o edifício
próprio foi inaugurado em 1845.

 Por falta de ministros ordenados, os primeiros luteranos organizaram sua própria vida
religiosa. Elegeram leigos para serem pastores e professores, os "pregadores-colonos."
Na década de 1850, a Prússia e a Suíça "descobriram" os alemães do sul do Brasil e
começaram a enviar-lhes missionários e ministros. Isso criou uma igreja mais
institucional e européia.

 Em 1868, o Rev. Hermann Borchard (chegou em 1864) e outros colegas fundaram o


Sínodo Evangélico Alemão da Província do Rio Grande do Sul, que foi extinto em 1875.
Em 1886, o Rev. Wilhelm Rotermund (chegou em 1874), organizou o Sínodo Rio-
Grandense, que tornou-se modelo para outras organizações similares. Até o final da
Segunda Guerra Mundial as igrejas luteranas permaneceram culturalmente isoladas da
sociedade brasileira.

 Uma conseqüência importante da imigração protestante é o fato de que ela ajudou a


criar as condições que facilitaram a introdução do protestantismo missionário no Brasil.
Erasmo Braga observou que, à medida que os imigrantes alemães exigiam garantias
legais de liberdade religiosa, estadistas liberais criaram "a legislação avançada que,
durante o longo reinado de D. Pedro II, protegeu as missões evangélicas da
perseguição aberta e até mesmo colocou as comunidades não-católicas sob a proteção
das autoridades imperiais" (The Republic of Brazil, 49).

 Em 1930, de uma comunidade protestante de 700 mil pessoas no país, as igrejas


imigrantes tinham aproximadamente 300 mil filiados. A maior parte estava ligada à
Igreja Evangélica Alemã do Brasil (215 mil) e vivia no Rio Grande do Sul.

3. Protestantismo Missionário:

 As primeiras organizações protestantes que atuaram junto aos brasileiros foram as


sociedades bíblicas: Britânica e Estrangeira (1804) e Americana (1816). Traduções da
Bíblia: protestante – Rev. João Ferreira de Almeida (1628-1691); católica – Pe. Antonio

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Pereira de Figueiredo (1725-1797). Primeiros agentes oficiais: SBA – James C. Fletcher


(1855); SBBE – Richard Corfield (1856). O trabalho dos colportores.

 A Igreja Metodista Episcopal foi a primeira denominação a iniciar atividades


missionárias junto aos brasileiros (1835-41). Obreiros: Fountain E. Pitts, Justin
Spaulding e Daniel Parish Kidder. Fundaram no Rio de Janeiro a primeira escola
dominical do Brasil. Também atuaram como capelães da Sociedade Americana dos
Amigos dos Marinheiros, fundada em 1828.

 Daniel P. Kidder: figura importante dos primórdios do protestantismo brasileiro. Viajou


por todo o país, vendeu Bíblias, contactou intelectuais e políticos destacados, como o
Pe. Feijó, regente do império (1835-37). Escreveu Anotações de Residência e Viagens
no Brasil, publicado em 1845, clássico que despertou grande interesse pelo nosso país.

 James Cooley Fletcher (1823-1901): pastor presbiteriano, estudou em Princeton e na


Europa, casou-se com uma filha de César Malan, teólogo calvinista de Genebra.
Chegou ao Brasil em 1851 como novo capelão da Sociedade dos Amigos dos
Marinheiros e como missionário da União Cristã Americana e Estrangeira. Atuou como
secretário interino da legação americana no Rio e foi o primeiro agente oficial da
Sociedade Bíblica Americana. Promotor entusiasta do protestantismo e do "progresso."
Escreveu O Brasil e os Brasileiros, publicado em 1857.

 Robert Reid Kalley (1809-1888): nascido na Escócia, estudou medicina e em 1838 foi
trabalhar como missionário na Ilha da Madeira. Oito anos depois, escapou de violenta
perseguição e foi com seus paroquianos para os Estados Unidos. Fletcher sugeriu que
fosse para o Brasil, onde Kalley e sua esposa Sarah Poulton Kalley (1825-1907)
chegaram em maio de 1855. No mesmo ano, fundaram em Petrópolis a primeira escola
dominical permanente do país (19-08-1855). Em 11 de julho de 1858, Kalley fundou a
Igreja Evangélica, depois Igreja Evangélica Fluminense (1863), cujo primeiro membro
brasileiro foi Pedro Nolasco de Andrade. Kalley teve importante atuação na defesa da
liberdade religiosa. Sua esposa foi autora do famoso hinário Salmos e Hinos (1861).

 Igreja Presbiteriana: missionários pioneiros – Ashbel Green Simonton (1859), Alexander


L. Blackford (1860), Francis J.C. Schneider (1861). Primeiras igrejas: Rio de Janeiro
(12-01-1862), São Paulo e Brotas (1865). Imprensa Evangélica (1864), seminário
(1867). Primeiro pastor brasileiro: José Manoel da Conceição (17-12-1865). A Escola
Americana foi criada em 1870 e o Sínodo do Brasil surgiu em 1888.

 Imigrantes americanos: estabeleceram-se no interior de São Paulo após a Guerra Civil


americana (1861-65). Foram seguidos por missionários presbiterianos, metodistas e
batistas. Pioneiros presbiterianos da Igreja do sul dos Estados Unidos (PCUS): George
N. Morton e Edward Lane (1869). Fundaram o Colégio Internacional (1873).

 Igreja Metodista Episcopal (sul dos EUA): enviou Junius E. Newman para trabalhar junto
aos imigrantes (1876). O primeiro missionário aos brasileiros foi John James Ransom,
que chegou em 1876 e dois anos depois organizou a primeira igreja no Rio de Janeiro.
Martha Hite Watts iniciou uma escola para moças em Piracicaba (1881). A partir de
1880, a I.M.E. do norte dos EUA enviou obreiros ao norte do Brasil (William Taylor,

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Justus H. Nelson) e ao Rio Grande do Sul. A Conferência Anual Metodista foi


organizada em 1886 pelo bispo John C. Granbery, com a presença de apenas três
missionários.

 Igreja Batista: os primeiros missionários, Thomas Jefferson Bowen e sua esposa (1859-
61) não foram bem sucedidos. Em 1871, os imigrantes de Santa Bárbara organizaram
duas igrejas. Os primeiros missionários junto aos brasileiros foram William B. Bagby,
Zachary C. Taylor e suas esposas (chegados em 1881-82). O primeiro membro e pastor
batista brasileiro foi o ex-padre Antonio Teixeira de Albuquerque, que já estivera ligado
aos metodistas. Em 1882 o grupo fundou a primeira igreja em Salvador, Bahia. A
Convenção Batista Brasileira foi criada em 1907.

 Igreja Protestante Episcopal: última das denominações históricas a iniciar trabalho


missionário no Brasil. Um importante e controvertido precursor havia sido Richard
Holden (1828-1886), que durante três anos (1861-64) atuou com poucos resultados no
Pará e na Bahia. O trabalho permanente teve início em 1890 com James Watson Morris
e Lucien Lee Kinsolving. Inspirados pela obra de Simonton e por um folheto sobre o
Brasil, fixaram-se em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, estado até então pouco ocupado
por outras missões. Em 1899, Kinsolving tornou-se o primeiro bispo residente da Igreja
Episcopal do Brasil.

4. Igrejas Pentecostais e Neo-Pentecostais:

 As três ondas do pentecostalismo brasileiro: (a) Décadas 1910-1940: chegada


simultânea da Congregação Cristã no Brasil e da Assembléia de Deus, que dominam o
campo por 40 anos; (b) Décadas 1950-1960: campo pentecostal se fragmenta, surgem
novos grupos – Evangelho Quadrangular, Brasil Para Cristo, Deus é Amor e muitos
outros (contexto paulista); (c) Anos 70 e 80: neopentecostalismo – Igreja Universal do
Reino de Deus, Igreja Internacional da Graça de Deus e outras (contexto carioca).

 Congregação Cristã no Brasil: fundada pelo italiano Luigi Francescon (1866-1964).


Radicado em Chicago, foi membro da Igreja Presbiteriana Italiana e aderiu ao
pentecostalismo em 1907. Em 1910 (março-setembro) visitou o Brasil e iniciou as
primeiras igrejas em Santo Antonio da Platina (PR) e São Paulo, entre imigrantes
italianos. Veio 11 vezes ao Brasil até 1948. Em 1940, o movimento tinha 305 "casas de
oração" e dez anos mais tarde 815.

 Assembléia de Deus: fundadores: suecos Daniel Berg (1885-1963) e Gunnar Vingren


(1879-1933). Batistas de origem, abraçaram o pentecostalismo em 1909. Conheceram-
se numa conferência pentecostal em Chicago. Assim como Luigi Francescon, Berg foi
influenciado pelo pastor batista W.H. Durham, que participou do avivamento de Los
Angeles (1906). Sentindo-se chamados para trabalhar no Brasil, chegaram a Belém em
novembro de 1910. Seus primeiros adeptos foram membros de uma igreja batista com a
qual colaboraram.

 Igreja do Evangelho Quadrangular: fundada nos Estados Unidos pela evangelista Aimee

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Semple McPherson (1890-1944). O missionário Harold Williams fundou a primeira IEQ


do Brasil em novembro de 1951 (São João da Boa Vista). Em 1953 teve início a
Cruzada Nacional de Evangelização, sendo Raymond Boatright o principal evangelista.
A igreja enfatiza quatro aspectos do ministério de Cristo: aquele que salva, batiza com o
Espírito Santo, cura e virá outra vez. As mulheres podem exercer o ministério pastoral.

 Igreja Evangélica Pentecostal O Brasil Para Cristo: fundada por Manoel de Mello, um
evangelista da Assembléia de Deus que depois tornou-se pastor da IEQ. Separou-se da
Cruzada Nacional de Evangelização em 1956, organizando a campanha "O Brasil para
Cristo," da qual surgiu a igreja. Filiou-se ao CMI em 1969 (desligou-se em 1986). Em
1979 inaugurou seu grande templo em São Paulo, sendo orador oficial Philip Potter,
secretário-geral do CMI. Esteve presente o cardeal arcebispo de São Paulo, Paulo
Evaristo Arns. Manoel de Mello morreu em 1990.

 Igreja Deus é Amor: fundada por David Miranda (nascido em 1936), filho de um
agricultor do Paraná. Vindo para São Paulo, converteu-se numa pequena igreja
pentecostal e em 1962 fundou sua igreja em Vila Maria. Logo transferiu-se para o centro
da cidade (Praça João Mendes). Em 1979, foi adquirida a "sede mundial" na Baixada do
Glicério, o maior templo evangélico do Brasil (dez mil pessoas). Em 1991 a igreja
afirmava ter 5.458 templos, 15.755 obreiros e 581 horas diárias em rádios, bem como
estar presente em 17 países (principalmente Paraguai, Uruguai e Argentina).

 Igreja Universal do Reino de Deus: fundada por Edir Macedo (nascido em 1944), filho
de um comerciante fluminense. Trabalhou por 16 anos na Loteria do Estado (subiu de
contínuo para um posto administrativo). De origem católica, ingressou na Igreja de Nova
Vida na adolescência. Deixou essa igreja para fundar a sua própria, inicialmente
denominada Igreja da Bênção. Em 1977 deixou o emprego público para dedicar-se ao
trabalho religioso. Nesse mesmo ano surgiu o nome IURD e o primeiro programa de
rádio. Macedo viveu nos EUA de 1986 a 1989, quando voltou ao Brasil, transferiu a
sede da igreja para São Paulo e adquiriu a Rede Record. Em 1990 a IURD elegeu três
deputados federais. Macedo esteve preso por doze dias em 1992, sob a acusação de
estelionato, charlatanismo e curandeirismo.

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BIBLIOGRAFIA:

A Igreja que Deus Quer, José Pontes Filho – Editora Evangélica Esperança

As Igrejas do Novo Testamento, Geo W. MacDaniel – Juerp

Atos I, Delcyr de Souza Lima – Juerp

Cronologia da História Eclesiástica, Terry Williams – Edições Vida Nova

Despertamento Apostólico no Brasil, Ivar Vingren – CPAD

Dicionário da Bíblia, John Davis – Juerp

Doutrinas Bíblicas, Uma Perspectiva Pentecostal, Menzies & Horton – CPAD

História da Igreja Cristã, Jesse Lyman Hurlbut – Editora Vida

História das Assembléias de Deus no Brasil, Emílio Conde – CPAD

História do Cristianismo, A. Knight e W. Anglin – CPAD

História Eclesiástica, Eusébio de Cesáreia – CPAD

História da Igreja, Raimundo Pereira – Edições EETAD

História da Igreja Cristã, Williston Walker – Aste/Juerp

História da Igreja em Quadros, Robert C. Walton – Editora Vida

História do Cristianismo, Bruce L. Shelley – Shedd Publicações

História Ilustrada do Cristianismo, Justo González – Edições Vida Nova

Novo Dicionário da Bíblia, Volumes I,II – Edições Vida Nova

O Catolicismo Romano, Ankenberg & Welton – Chamada da Meia-Noite

O Cristianismo Através dos Séculos, Earle E. Cairns – Edições Vida Nova

Os Padres da Igreja, A. Hamman – Edições Paulinas

Pequena Enciclopédia Bíblica, Orlando Boyer – Editora Vida

Revista 70 Anos da Assembléia de Deus na Bahia – Edições Adesal

Tragédia da Guanabara, Jean Crespin – CPAD

Visão Panorâmica da História da Igreja, Justo González – Edições Vida Nova

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DADOS DE VÍDEOS INSERIDOS NO CDROM

AULA DE TEOLOGIA - HISTÓRIA DA IGREJA PRIMITIVA (54:50 Min.)


https://www.youtube.com/watch?v=O9ghrt_wE20

Pedro foi o primeiro papa? Como surgiu o papado. (30:32 Min.)


https://www.youtube.com/watch?v=6dSxtfOyAHc

Dia da Reforma - Bloco 1: O que foi a Reforma | Bate-papo VE (38:53 Min.)


https://www.youtube.com/watch?v=zDjsy1HjdTY

EVIDÊNCIAS - Idade das Trevas (parte2), 2013 – TVNovoTempo (28:24 Min.)


https://www.youtube.com/watch?v=CB8wbmEspAE

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