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Platão e o mundo das Ideias


Para pensar
Imagine que você está sentado na sala de aula, e uma bola entra pela janela, pula pelas carteiras, faz
alguns estragos. Quase automaticamente, você faz uma série de operações de pensamento: de onde veio a
bola, quem pode ter arremessado, onde ela vai parar? Essas operações são estratégias para se chegar ao
conhecimento da situação.
Todos são capazes de conhecer. Mas qual seria a génese, ou seja, a origem do conhecimento? Na história
da Filosofia, diversos pensadores tentaram desenvolver uma Teoria do Conhecimento, buscan do indicar a
fonte de um conhecimento verdadeiro e as condições em que é possível estabelecê-lo. Como veremos a
seguir, para Platão a busca pelo conhecimento verdadeiro deve ser entendida como a busca pela essência -
aquilo que é eterno e imutável.
Esse pensamento teve - e ainda tem - grande alcance no Ocidente. Pintores abstratos, por exemplo,
concentraram seu trabalho na busca por aquilo que eles pensavam ser a essência da pintura. No caso de Mark
Rothko, essa essência estaria na cor.

A importância do pensamento socrático


Já sabemos que os primeiros escritos de Platão foram uma resposta à injusta condenação de Sócrates.
Mas a influência de Sócrates sobre seu discípulo não se limitou a esse impulso inicial. Para Platão, o discurso
não é mera expressão de uma opinião, devendo estar fundamentado naquilo que de fato existe ou existiu;
naquilo que é, portanto, verdadeiro. Por isso pode-se dizer que Platão incorporou e desenvolveu os
ensinamentos socráticos.
Na tentativa de reproduzir as conversas que Sócrates mantinha, criou a forma do "diálogo". Com ele
pretendia mostrar que o conhecimento verdadeiro só pode ser atingido por meio da troca de ideias e do
debate, incluindo a maiêutica e o uso da ironia. A palavra dialética refere-se a essa busca da verdade pelo jogo
do diálogo.
Segue trecho do livro A República, de Platão, no qual Sócrates explica em que consistiria exata-mente a
tarefa do filósofo de "amar o espetáculo da verdade".
SÓCRATES: Acontece a mesma coisa com o justo e o injusto, o bom e o mau e todas as outras formas: cada
uma delas, tomada em si mesma, é uma; porém, dado que entram em comunidade com ações, corpos e entre
si mesmas, elas se revestem de mil formas que parecem multiplicá-las.
GLAUCO: Tens razão.
SÓCRATES: É neste sentido que eu diferencio, de um lado, os que amam os espetáculos, as artes e são os
homens práticos; e, de outro, aqueles a quem nos referimos no nosso discurso, os únicos a quem com razão
podemos denominar filósofos.
No trecho, a personagem Sócrates afirma que existem o justo e o injusto, o bom e o mau, e cada uma dessas
coisas, apesar de "se revestir de mil formas diferentes", de fato é uma só. Em outras palavras, existe algo a que
se chama Bom, e esse algo assume diversas características, na medida em que "entra em comunidade" com
outras coisas, quer dizer, na medida em que caracteriza pessoas, objetos ou ações. Dessa forma, temos o homem
bom, a ação boa, o cavalo bom. Em todos esses casos, o "bom" sempre existe, independentemente dos diversos
itens que caracteriza. Chama-se a isso de forma: a forma Bom é única e eterna.
Para Sócrates, algumas pessoas admiram as artes e os espetáculos, ou seja, os diversos modos como a
realidade se apresenta, e se entretém com eles. O filósofo, por sua vez, busca conhecer as formas e sua essência.

O mundo das Ideias


As formas platónicas são uma expansão da forma socrática e se caracterizam, entre outros, pelo fato de não
se aplicarem somente a conceitos abstratos como bom e mau, justo e injusto, mas também a seres e objetos da
realidade concreta, como, por exemplo, as plantas e os animais.
Pensemos num cão. Nenhum cão é igual. Apesar de existirem cães da mesma raça, da mesma cor e até do
mesmo tamanho, sempre haverá algo que os diferencia. Além disso, cada cão individual tem uma determinada
idade e, conforme o tempo passa, ele envelhece e se transforma, até um dia deixar de existir. Porém, há algo em
todo cão que nos permite identificá-lo como tal. Trata-se da forma cão.
Outro exemplo: se pedirmos para quarenta pessoas pensarem em uma rosa, certamente todas pensarão de
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fato em uma rosa. Das quarenta rosas imaginadas, talvez nenhuma seja igual: terão diferentes cores, tamanhos,
quantidades de pétalas e folhas. Porém, apesar da diversidade, cada rosa imaginada será uma representação
individual da forma rosa.
Existe, portanto, uma diferença entre os objetos materiais (que se transformam, mudam) e as formas (ao
mesmo tempo eternas e imutáveis). As coisas materiais são percebidas pelos homens através dos órgãos dos
sentidos (visão, audição, tato, etc.), enquanto as formas só podem ser entendidas pelo pensamento (ou pela
"alma"). Em outras palavras, existe um mundo concreto, percebido pelos sentidos, com todas as suas
imperfeições; mas além dele existe outro, o mundo das Ideias, que contém as formas imutáveis e perfeitas. A
tarefa do filósofo seria conhecer esse mundo.
Platão defendia a superioridade do mundo das ideias sobre o mundo material. Isso se deve não só ao fato
de a realidade concreta estar sempre mudando (e nunca poderemos ter um conhecimento seguro sobre algo que
hoje "é de um jeito" e amanhã é "de outro"), mas também ao fato de nossos sentidos nos enganarem (muitas
vezes pensamos ter visto ou ouvido uma coisa, que na verdade era outra).
O ser humano carrega essa dualidade: é ao mesmo tempo corpo (que se transforma e acaba por morrer) e
aquilo que não é corpo e podemos chamar de alma (considerada imortal e sede do pensamento). Se a alma é
eterna, pertence ao mundo das ideias; portanto, sempre existiu e sempre existirá, antes e depois daquele
intervalo de tempo em que ocupou o corpo de um indivíduo. Por possuir uma alma, cada homem já nasce com
uma vaga noção das formas. Segundo Platão, guardamos dentro de nós a reminiscência, isto é, a lembrança das
formas perfeitas com as quais nossa alma estava em conta-to antes de se juntar a um corpo. Quando vemos um
cão, nossa alma identifica essa criatura com a forma cão que já existe em nosso pensamento. Ou seja, as ideias
são inatas (já nascemos com elas); os que amam o conhecimento (os filósofos) simplesmente aproximam-se
delas, aprimorando o conhecimento que já possuem.
Quando Platão se refere a Eros - o amor ao conhecimento e o desejo de se aproximar do imortal (para
aprofundar, leia texto da Leitura Complementar) -, trata desse desejo da alma de alcançar o mundo das ideias,
de retornar ou de entrar em comunhão com sua morada original. A alma desejaria se libertar da prisão imperfeita
que é o corpo.
A alegoria da caverna
No livro VII de A República, Platão relata o mito ou a alegoria da caverna. Mais uma vez dando voz a Sócrates,
descreve o seguinte cenário: uma caverna, no fundo da qual estão vários prisioneiros, acorrentados,
imobilizados, com as cabeças presas na di-reção de uma parede. Em suas costas, desfilam figuras, espécies de
marionetes, que têm suas sombras projetadas na direção da parede e se movimentam com a ajuda de algumas
pessoas. Os prisioneiros, que só vêem as sombras, acham que elas são seres verdadeiros e que as vozes ouvidas
são delas.
Certo dia, um dos prisioneiros consegue se libertar. Ele dá as costas à parede para onde olhava até então.
Inicialmente, fica ofuscado pela luz, uma vez que até 'então só vira sombras, mas logo vê as marionetes sendo
manipuladas e a chama que pro-jetava as sombras na parede.
Em seguida, o prisioneiro, agora liberto, caminha para fora da caverna e, finalmente, contempla o sol. A luz
quase o cega, mas ele acaba aprendendo a lidar com tanta claridade e começa a ver as coisas verdadeiras. Ele
percebe que elas são muito mais belas e claras que as sombras no fundo da caverna. Conclui que a luz do sol é
a origem de toda beleza que existe.
Sabendo que ainda existem várias pessoas acorrentadas, o ex-prisioneiro decide voltar para a caverna para
libertá-las. Voltando à escuridão, tem dificuldade de ver nas sombras (uma vez que agora já se acostumou à luz).
Mesmo assim, tenta convencer as pessoas de que aquilo que elas vêem não é a realidade, mas uma cópia muito
imperfeita dela. Os demais prisioneiros não conseguem conceber que exista algo além das sombras: eles riem e,
caso o prisioneiro liberto tente libertar mais alguém, correrá o risco de ser morto.
Com a alegoria da caverna, Platão descreve a forma como se origina o conhecimento, ou seja, a forma
como o filósofo deixa para trás o mundo das coisas visíveis, materiais e imperfeitas, e chega até o mundo das
ideias, que brilham diante de nós até quase nos cegar. Há no texto uma crítica aos habitantes de Atenas, que,
ao condenarem Sócrates à morte, agiram como os prisioneiros no fundo da caverna, que se negaram a caminhar
para a luz, ou para o conhecimento, que estava sendo apontado por Sócrates.
Dessa alegoria ainda se depreende que o filósofo deve ter a coragem de seguir o difícil caminho de sair
da caverna (o que pode trazer sofrimento) e, ao mesmo tempo, tem a obrigação de apontar o caminho do
conhecimento às outras pessoas, apesar de, com isso, correr riscos.

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NOME ____________________________________________________ N.º _________ SÉRIE __________

1. Por que Platão costuma ser considerado o criador da razão ocidental?

2. "Sócrates: Admitamos, pois - o que me servirá de ponto de partida e de base - que existe um Belo em si
e por si, um Bem, um Grande, e assim por diante. Se admitirmos a existência dessas coisas, se concordares comigo,
esperarei que elas me permitirão tornar-te clara a causa que assim descobrirás, que fez com que a alma seja
imortal".
(Platão, Fédon.)
Ao falar do Belo, do Bem e do Grande, Sócrates está se referindo às formas. O que é forma e qual a principal
característica da forma platónica?

3. Platão estabeleceu a distinção entre dois mundos. Quais são eles e como se caracterizam?

4. Para Platão, a realidade última não teria natureza apenas racional e ética, mas também estética: o Bem, a
Verdade e o Belo estariam realmente unidos no supremo princípio criativo, impondo ao mesmo tempo afirmação
moral, fidelidade intelectual e rendição estética. A Beleza - a mais acessível das Formas, atraindo o filósofo
para a visão do conhecimento do Verdadeiro e do Bom. Com isso Platão mostrava que a visão filosófica mais
elevada só seria possível a quem tivesse o temperamento de um amante. O filósofo deveria se permitir ser agar
rado pela mais sublime forma de Eros: aquela paixão universal de reconstituir a unidade anterior, de superar a
separação com o divino e tornar-se uno com ele.
Platão descreveu o conhecimento do divino como algo implícito em todas as almas, embora esquecido. A
alma, imortal, sentiria o contato direto e íntimo com as realidades anteriores ao nascimento, mas a condição
pós-nascimento do aprisionamento corporal faria a alma esquecer a verdadeira situação. A meta da filosofia
seria libertar a alma dessa condição ilusória na qual ela é enganada pela finita imitação e encobrimento do
eterno.
(Adaptado de R.Tarnas, A Epopeia do Pensamento Ocidental.)
Explique a seguinte frase do segundo parágrafo: "A meta da filosofia seria libertar a alma dessa condição
ilusória na qual ela é enganada pela finita imitação e encobrimento do eterno".

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Tarefa Complementar
4. Para responder às questões, tome por base a imagem e o comentário que seguem.

A escultura de Praxíteles ilustra o quanto a arte grega,


principalmente a do período clássico (séc. V e IV a.C.), esteve
preocupada com certo ideal de beleza. Isso se deve ao fato de
que os gregos desenvolveram uma concepção de estética ligada
ao conceito de Belo. Baseados na mimese - imitação da natureza
-, criaram um naturalismo idealista, em que aspectos da realidade
são "disfarçados", em favor daquilo que se considera belo.
Platão, todavia, tinha profunda desconfiança da arte,
afirmando que a obra de arte era apenas a cópia de um objeto
do mundo real que, por sua vez, era cópia imperfeita do mundo
das ideias.
1. Estabelecendo as possíveis relações entre as concepções
estéticas gregas e as ideias de Platão sobre arte, comente a
afirmação do historiador da Arte E. H. Gombrich:
"(...) suas obras [dos gregos] nunca se parecem com espelhos
onde se refletem todos os recantos, ainda os mais insólitos, da
natureza. Elas ostentam sempre o cunho do intelecto que as
criou."

2. Passados muitos séculos, o ideal de beleza continua sendo uma preocupação das sociedades
contemporâneas. Seria possível afirmar que, também nesse sentido, somos herdeiros dos gregos? Fale sobre
os perigos de uma valorização exagerada dos padrões de beleza.

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AVALIAÇÃO GERAL DO ALUNO E RECOMENDAÇÕES:


O aluno necessita:
( ) ser mais claro ( ) apresentar opiniões mais elaboradas
( ) ser mais objetivo ( ) estudar em casa retomando conceitos
( ) prestar mais atenção ao enunciado das questões ( ) responder as questões sem pressa
( ) estar atento às normas cultas da língua
( ) dar respostas mais completas
portuguesa

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