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A INFORMAÇÃO E O CONHECIMENTO SOB AS LENTES DO MARXISMO

Chapter · July 2014

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4 authors, including:

Rodrigo Moreno Marques Marta Macedo Kerr Pinheiro


Universidade FUMEC Universidade FUMEC, PPG_GOC/UFMG
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A INFORMAÇÃO E O CONHECIMENTO
SOB AS LENTES DO MARXISMO
Conselho Editorial

Bertha K. Becker (in memoriam)


Candido Mendes
Cristovam Buarque
Ignacy Sachs
Jurandir Freire Costa
Ladislau Dowbor
Pierre Salama
Rodrigo Moreno Marques
Filipe Raslan
Flávia Melo
Marta Macedo Kerr Pinheiro (orgs.)

A INFORMAÇÃO E O CONHECIMENTO
SOB AS LENTES DO MARXISMO
Copyright © 2014, dos autores
Direitos cedidos para esta edição à
Editora Garamond Ltda.
Rua Candido de Oliveira, 43/Sala 101 - Rio Comprido
Rio de Janeiro - Brasil - 20.261-115
Tel: (21) 2504-9211
editora@garamond.com.br

Revisão
Clarissa Penna

Editoração Eletrônica
Editora Garamond / Luiz Oliveira

Capa
Estúdio Garamond
sobre fotografia de Colink, disponível em
https://www.flickr.com/photos/colink/6681277365/
sob licença Creative Commons “Atribuição”.

Este livro foi publicado com o apoio da


FAPEMIG - Fundação de Amparo à Pesquisa
do Estado de Minas Gerais

CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO


SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ

I36
A informação e o conhecimento sob as lentes do marxismo / organi-
zação Rodrigo Moreno Marques ... [et al.]. - 1. ed. - Rio de Janeiro :
Garamond, 2014.
254 p. ; 21 cm.
Inclui bibliografia
ISBN 9788576173526
1. Marx, Karl, 1818-1883. 2. Capitalismo. 3. Filosofia Marxista I. Mar-
ques, Rodrigo Moreno.

14-11370 CDD: 335.4


CDU: 330.85

Todos os direitos reservados. A reprodução não-autorizada desta publicação, por qualquer


meio, seja total ou parcial, constitui violação da Lei nº 9.610/98.
AGRADECIMENTOS

Essa publicação é fruto do seminário “A Informação e


o Conhecimento sob as Lentes do Marxismo” ocorrido
em 23 e 24 de novembro de 2011 na Escola de Ciência
da Informação da Universidade Federal de Minas Gerais,
em Belo Horizonte (MG). O seminário contou com o
financiamento e apoio do Programa de Pós-Graduação
da Escola de Ciência da Informação da UFMG, da FAPE-
MIG - Fundação de Amparo a Pesquisa de Minas Gerais,
da CAPES - Coordenação de Aperfeiçoamento de Pes-
soal Nível Superior e do Núcleo Pr@xis. O livro contou
com financiamento da FAPEMIG - Fundação de Amparo
a Pesquisa de Minas Gerais e da Escola de Ciência da In-
formação da UFMG.
SUMÁRIO

Contribuições à crítica da era da informação e do conhecimento


Rodrigo Moreno Marques e Filipe Raslan .................................................9
Intelecto geral
Eleutério F. S. Prado ............................................................................23
As rendas informacionais e a apropriação capitalista do
trabalho científico e artístico
Marcos Dantas ....................................................................................35
Tecnologias da informação e comunicação:
a lógica instrumental do acesso
Rosilene Horta Tavares .........................................................................61
Trabalho, capital intangível e historicidade do valor:
uma tentativa de definição do capitalismo imaterial
Alain Herscovici ..................................................................................77
Propriedade intelectual e a forma da mercadoria: novas
dimensões na transferência legislada da mais-valia
Michael Perelman ................................................................................99
Os limites à taylorização do trabalho na fase de concepção
da produção de software
César Bolaño, José Guilherme da Cunha Castro Filho ............................115
Acerca da perspectiva ontológica que matriza a Teoria Social
Marxiana e a produção e reprodução social dos conhecimentos
Hormindo Pereira de Souza Júnior.......................................................135
Tempo de Trabalho e Luta de Classes
Henrique Amorim .............................................................................149
Movimentos sociais contemporâneos sob as lentes do marxismo
Maria Guiomar da Cunha Frota ........................................................169
Pensamento marxista na arquivologia, na biblioteconomia,
na museologia e na ciência da informação
Carlos Alberto Ávila Araújo ................................................................191
Informação e Educação no contexto da ECI/UFMG:
interlocuções históricas e contrapontos
Alcenir Soares dos Reis ......................................................................217

Sobre os autores e organizadores .....................................................247


CONTRIBUIÇÕES À CRÍTICA DA ERA
DA INFORMAÇÃO E DO CONHECIMENTO
Rodrigo Moreno Marques
Filipe Raslan

“Marx é hoje, mais uma vez, e com toda justiça, um


pensador para o século XXI”
Eric Hobsbawm1

O meio acadêmico, o segmento editorial e os meios de co-


municação de massa têm dado destaque, por meio de diferentes
abordagens, à relevância da informação e do conhecimento para a
sociedade, especialmente após o advento da internet e das tecno-
logias que servem de suporte para as novas redes sociotécnicas. Se
o emprego das categorias informação e conhecimento tem sido
frequente na ciência e no senso comum, por outro lado, é cada
vez maior a divergência das perspectivas adotadas. Ganham po-
pularidade termos como “sociedade da informação e do conhe-
cimento”, “economia do conhecimento”, “capital intelectual” e
“capital humano”. No entanto, não há consenso em relação às
interpretações propostas e, na ausência de acordo, somos desafiados
por algumas indagações inquietantes.
Que contradições podem ser percebidas nas novas fronteiras
da apropriação da informação e do conhecimento? Quais são os
argumentos daqueles que advogam a emergência de novas cate-
gorias, como “trabalho imaterial”, “capitalismo cognitivo” e “pós-

1 Hobsbawn, E. Como mudar o mundo: Marx e o marxismo, 1840-2011. São Paulo: Compa-
nhia das Letras, 2011.

9
10 | A informação e o conhecimento sob as lentes do marxismo

-grande indústria”? Em que medida essas hipotéticas transforma-


ções modificam o modo de produção capitalista e as relações de
trabalho? Qual é a pertinência da teoria do valor no mundo atual?
O que se passa hoje na arena do direito de propriedade intelectu-
al? Como se inserem no capitalismo do século XXI a ciência e as
novas tecnologias emergentes? Como as tecnologias de informa-
ção e comunicação se integram no universo da educação escolar e
da pedagogia? Que contribuições pode a epistemologia apresentar
para o debate colocado?
Esses são alguns dos desafios que os autores aqui reunidos acei-
taram enfrentar quando foram convidados a discutir a informação
e o conhecimento no mundo contemporâneo à luz das concep-
ções de Karl Marx e dos pensadores que adotaram o prisma do
pensamento crítico para apreender a construção social da realidade.
Na verdade, os debates acerca das contradições que envolvem
o conhecimento, a ciência e a técnica não são novidade nas teorias
marxistas. São notórias, por exemplo, as obras de Harry Braverman
e Jürgen Habermas.
Data da década de 1970 o esforço de Braverman (2011) em
salientar os embates voltados para a busca do controle e do mono-
pólio da informação e do conhecimento nos domínios do traba-
lho, elementos que sempre foram e sempre serão imprescindíveis
aos processos de produção.
A análise de Habermas (1999), por sua vez, coloca a esfera co-
municacional no centro da sociabilidade humana, na medida em
que o progresso técnico tornaria a ciência a principal força pro-
dutiva. Nesse contexto, o trabalho e a teoria do valor perderiam
relevância como categorias explicativas.
Com a emergência da internet e das tecnologias de informa-
ção e comunicação, novas discussões voltam a abordar as categorias
da economia política. Diferentes teorias são frutos dessa nova safra,
como as teorias da economia do conhecimento, do trabalho ima-
terial, do capitalismo cognitivo, do fim da centralidade do trabalho
Contribuições à crítica da era da informação e do conhecimento | 11

e tantas outras que estão a desafiar novamente o pensamento mar-


xista e a teoria do valor.
André Gorz é exemplo emblemático dessa virada teórica. O
autor alega que o conhecimento se tornou a principal força pro-
dutiva do capitalismo e defende a redefinição das categorias tra-
balho, valor e capital. Afirma que na economia do conhecimento
o trabalho incorpora o chamado capital imaterial, que se torna o
coração e o centro da criação de valor. E o conhecimento, agora
convertido em nova força produtiva, seria em grande parte uma
inteligência geral que não tem valor de troca, pode ser partilha-
do livremente e a custos desprezíveis nas novas redes tecnológicas
(2005).
Em direção semelhante, a corrente do capitalismo cognitivo
advoga que o mais relevante atualmente não é o fenômeno da
economia do conhecimento, mas sim uma profunda mutação que
estaria afetando a maneira como o capital é dotado de valor. O
valor, tomado agora como categoria imensurável, seria decorrente
da capacidade inovativa dos sujeitos que se articulam por meio das
tecnologias de informação e comunicação. Propondo uma pers-
pectiva emancipatória, supõe-se que os processos de inovação atu-
ais se tornaram libertos da disciplina da fábrica e do seu controle
hierárquico (Corsani, 2003; Moulier-Boutang, 2011).
Contesta-se a importância dos construtos teóricos de Marx
quando confrontados com a realidade social e econômica em cur-
so. Moulier-Boutang (2002, 2006, 2011) afirma que a transição
para o capitalismo cognitivo é tão profunda que pode ser classifi-
cada como uma grande transformação, no sentido polanyiano, o
que enseja que a economia política nascida no século XVIII seja
deixada para trás.
Assim, ressurge atualmente, com novos matizes, a polêmica
em torno da pertinência ou não da obra e das ideias de Marx. O
debate demonstra que continua bastante atual o esforço para des-
vendar o enigma do valor inscrito na mercadoria. Pode-se afirmar
12 | A informação e o conhecimento sob as lentes do marxismo

que a discussão é atual, mas não é nova. Há quase trinta anos, João
Antônio de Paula assim se manifestava sobre esse embate, que tem
recorrência secular:
Desde a sua gênese, a problemática do valor se tem debatido
a partir de dois grandes veios: a vertente objetiva e a vertente
subjetiva na explicação do valor. [...] De um lado, os que pre-
tendem estar o valor ancorado na subjetividade da apreciação
individual dos objetos. De outro, os que entendem o valor
como realidade anterior à exposição no mercado, que veem
no valor a expressão da produção social, do trabalho humano
(1984, p. 114).
Apesar da recorrente controvérsia sobre antigos e novos argu-
mentos que colocam em xeque ou que defendem os construtos
de Marx, uma releitura atenta dos seus textos revela uma surpreen-
dente atualidade. Essa conclusão não é diferente, ainda que se tome
como pressuposto que as tecnologias emergentes criam hoje novas
dinâmicas socioeconômicas no universo da mercadoria, onde es-
tão inseridos o conhecimento e a informação que circulam (ou
deixam de circular!) na internet.
Esse ponto de vista nos remete a duas estimulantes controvér-
sias acadêmicas.
A primeira delas refere-se à acusação recorrente de que a te-
oria marxiana limita-se ao universo da economia industrialista e
da mercadoria tangível. Contrariando essa afirmativa, Paula (1984)
alega que Marx não incluía na categoria mercadoria apenas os
bens palpáveis, como os produtos das indústrias de tecelagem ou
metalurgia. Nos termos do filósofo, “a mercadoria é, antes de mais
nada, um objeto externo, uma coisa que, por suas propriedades,
satisfaz necessidades humanas, seja qual for a natureza, a origem
delas, provenham do estômago ou da fantasia” (Marx, 1980, p. 41).
Tomar a mercadoria como “tudo aquilo que satisfaz o estôma-
go ou a fantasia”, explica Paula (1984), implica considerar que ela
Contribuições à crítica da era da informação e do conhecimento | 13

“pode ser não só o que é tangível, corpóreo, acumulável, que tem


existência no tempo e no espaço, quanto o que não é material, não
tem massa e que só existe no tempo: uma execução musical, um
espetáculo teatral, uma aula etc.” (p. 122).
Esse entendimento lança luz sobre a discussão marxiana do
conceito de trabalho produtivo. Segundo Marx (1963, 1980, 2004),
tendo em vista que o processo de trabalho é apenas um meio para
o processo de valorização do capital, o trabalho produtivo é aquele
que gera diretamente mais-valia, que valoriza o capital. Uma vez
que a mais-valia é considerada o fim determinante, o interesse
propulsor e o resultado final do processo de produção capitalista, a
produtividade do trabalhador está ligada a sua capacidade de gerar
diretamente mais-valia. Assim, é inadequada a definição de traba-
lho produtivo e trabalho improdutivo em função do seu conteúdo
material, ou seja, essa definição não está relacionada ao conteúdo
do trabalho, a sua utilidade particular ou ao valor de uso específico
no qual ele se expressa.
Importante notar que a discussão de Marx sobre o trabalho
produtivo engloba não somente a produção de mercadorias tan-
gíveis, mas abarca também a produção de caráter intelectivo e ar-
tístico. Para ilustrar seu ponto de vista, o filósofo apresenta três
exemplos esclarecedores: (i) Um escritor que fornece serviços para
um industrial do ramo editorial é um trabalhador produtivo, en-
quanto não o é um escritor independente, ainda que este venda
sua obra para seus leitores. (ii) Um cantor é um trabalhador impro-
dutivo. Na medida em que vende seu canto, torna-se assalariado
ou comerciante. Porém, esse artista, caso se ponha a cantar para
ganhar dinheiro por meio de um contrato com um empresário,
passa a ser trabalhador produtivo. (iii) No segmento educacional,
um professor será trabalhador produtivo caso seja contratado “para
valorizar, mediante seu trabalho, o dinheiro do empresário da ins-
tituição que trafica com o conhecimento” (Marx, 2004, p. 115).
Esses exemplos demonstram que Marx percebeu e refletiu em seu
14 | A informação e o conhecimento sob as lentes do marxismo

tempo sobre as atividades que atualmente têm sido categorizadas


como trabalho imaterial.
Outro ponto que tem gerado calorosa contenda no meio aca-
dêmico diz respeito à relevância da teoria do valor de Marx no
contexto do mundo contemporâneo. Esse confronto surge, princi-
palmente, com as teorias que advogam a emergência de uma eco-
nomia da informação e do conhecimento marcada pelo trabalho
dito imaterial e pelos produtos intangíveis.
Nesse caso também é preciso, antes de tudo, registrar as re-
flexões do próprio Marx. Conforme salienta o texto de Michael
Perelman aqui publicado, ao abordar o conhecimento científico
em Teorias da mais-valia, Marx já dava destaque à impossibilidade
de apreender o valor do trabalho intelectual por meio do tempo
de trabalho socialmente necessário, ou seja, apontava a incompati-
bilidade da lei do valor nesse contexto:
O produto do trabalho mental – a ciência – sempre perma-
nece bem distante do seu valor porque o tempo de trabalho
necessário para reproduzi-lo não tem relação alguma com o
tempo de trabalho para sua produção original. Por exemplo,
um estudante pode aprender o teorema binomial em uma
hora (Marx, 1963, p. 353).
Some-se a esse argumento o famoso exercício teórico em
que Marx aborda o general intellect nos Grundrisse (Marx, 2011),
importante referência nas discussões que nos apresentam Alain
Herscovici, Eleutério Prado, Henrique Amorim, Marcos Dantas
e Michael Perelman.2
Percebe-se, portanto, que discutir os limites da teoria do valor
nada mais é do que buscar respostas para um problema que Marx

2 Grundrisse der Kritik der politischen Ökonomie, traduzido por Elementos fundamentais para a
crítica da economia política, é um manuscrito de Karl Marx, escrito em 1857 e 1858, dez anos
antes da primeira edição de O Capital. A primeira publicação integral do texto data de
1939, tendo sido organizada pelo Instituto de Marxismo-Leninismo de Berlim e Moscou.
Contribuições à crítica da era da informação e do conhecimento | 15

revelou em seu tempo e que permanece em aberto até os dias atu-


ais. Se, por um lado, Marx decifrou o enigma do valor nas relações
socioeconômicas da sua época, por outro lado, estamos hoje diante
de novos desafios que o filósofo não viveu, mas vislumbrou. Nesse
campo ele não deixou resposta acabada, mas seu legado abre-nos
importantes janelas.
Essas são apenas duas das inúmeras arenas onde Marx revela-
-se atual, instigante e inspirador. Muitas outras são reveladas pelos
autores que nos honram nesta obra com suas reflexões dialéticas,
que são sinteticamente apresentadas a seguir.
Eleutério Prado abre o debate com um texto que reconstrói o
significado do termo intelecto geral (general intellect) na obra eco-
nômica de Marx, particularmente nos Grundrisse. Prado discute os
termos de Marx, coloca-os em perspectiva e recupera as catego-
rias manufatura e grande indústria, desenvolvidas em O Capital. O
autor questiona os princípios do operaísmo europeu, assim como
os postulados do chamado neo-marxismo, e aponta novos rumos
para a crítica marxista.
No capítulo seguinte, Marcos Dantas propõe uma releitura
das categorias de Marx no contexto das novas tecnologias digitais.
O autor discute a apropriação capitalista nos campos da ciência
e da arte, partindo do problema do valor do trabalho científico
e artístico. Dantas argumenta que atualmente o capital mobiliza
principalmente o trabalho informacional, capaz de gerar valor de
uso, mas não valor de troca. A apropriação do valor obtido por
esse trabalho exige do capital a instituição do monopólio do co-
nhecimento científico ou artístico, por meio do qual é instituída a
extração de renda informacional.
Rosilene Horta explora as contradições ocultas nas tecnolo-
gias de informação e comunicação, bem como suas possibilidades
emancipatórias. Sua análise dialética está voltada para a integração
das tecnologias ao universo da educação escolar. A autora analisa
as políticas que, apesar de revestidas de um aparente caráter demo-
16 | A informação e o conhecimento sob as lentes do marxismo

cratizador, têm como essência a finalidade de acentuar a acumu-


lação de capital, esta já em patamares elevadíssimos. Partindo da
crítica à racionalidade de tipo instrumental, nascida com a Escola
de Frankfurt, a autora evidencia alguns limites reais das políticas de
acesso às tecnologias, questionando os meandros do controle social
da inteligência, a função da escola e a integração da tecnologia à
pedagogia.
A tese do capitalismo imaterial é o cerne dos argumentos que
Alain Herscovici nos apresenta em seu texto. O seu ponto de par-
tida é a hipótese de que atualmente estão se generalizando, para
a maior parte das atividades econômicas, elementos econômicos
que antes pertenciam somente ao universo dos bens culturais e
imateriais. O autor advoga que a teoria do valor trabalho não é
mais capaz de explicar a produção e a distribuição do valor no
capitalismo imaterial, nova fase do modo de produção capitalis-
ta. Defende, portanto, a necessidade do estabelecimento de novas
categorias e instrumentos analíticos para o estudo da cultura, da
informação e da comunicação, bem como do conjunto das ativi-
dades econômicas da atualidade.
Michael Perelman elege o direito de propriedade intelectual
como o eixo da sua argumentação, especificamente nos campos da
ciência e da tecnologia no cenário norte-americano. O autor afir-
ma que os direitos de propriedade intelectual têm se tornado um
componente fundamental da economia moderna, tendo em vista
que eles representam a conversão do “trabalho universal” conce-
bido por Marx em uma forma de mercadoria inteiramente nova.
Alega também que o direito de propriedade intelectual tornou-se
o contrapeso financeiro para combater a desindustrialização em
curso nos Estados Unidos, a ponto de configurar-se como uma das
diretrizes mais prementes da política externa desse país. Eviden-
ciando algumas contradições do direito de propriedade intelectual,
Perelman sugere uma direção para a integração dessa problemática
à teoria do valor.
Contribuições à crítica da era da informação e do conhecimento | 17

As reflexões de César Bolaño e José Guilherme da Cunha


Castro Filho estão voltadas para as relações sociais no contexto das
fábricas de software. Ao caracterizar as etapas de concepção, produ-
ção e uso de softwares nos processos produtivos, os autores apontam
um paradoxo nas dinâmicas de subsunção do trabalho intelectual.
Na fase de concepção, em que a subjetividade envolvida na tarefa
de codificação de programas ainda é fortemente dependente do
trabalho vivo, o trabalho subsumido apenas formalmente não se
adéqua aos conceitos de taylorismo e fordismo, sendo caracteri-
zado como uma situação muito próxima àquela do período ma-
nufatureiro. Na etapa de produção dos softwares, observa-se uma
importante taylorização, pois o programador manipula sem auto-
nomia ferramentas de desenvolvimento, sendo ele e a produção
monitorados pela gerência. A terceira fase, quando os programas
são empregados nos processos produtivos, é marcada por uma am-
pla automatização e um processo avançado de subsunção, que é
viabilizado pelo trabalho de concepção da primeira etapa.
Hormindo Pereira de Souza Júnior propõe um reencontro com
a Ontologia do Ser Social marxista, destacando a importância da te-
oria social de Marx para o entendimento e a explicação do mundo
contemporâneo. O autor argumenta que a posição marxiana sobre
os problemas atuais que envolvem a produção, reprodução e distri-
buição do conhecimento ganha relevo na captura das essencialida-
des básicas, fundamentais, de caráter ontológico. Hormindo con-
sidera que o “trabalho, como objetivação e autodesenvolvimento
humano, como uma mediação necessária do homem com a nature-
za, constitui a esfera ontológica fundamental da existência humana”.
Ao longo do seu texto, o autor aborda temas pertinentes, como a
alienação no trabalho, a relação sujeito/objeto do conhecimento
e a articulação entre objetividade e subjetividade nos processos de
produção e reprodução social dos conhecimentos.
No ensaio de Henrique Amorim, a discussão da categoria
tempo de trabalho ganha destaque, em especial o seu caráter con-
18 | A informação e o conhecimento sob as lentes do marxismo

traditório. Se, por um lado, a dinâmica de expansão do capitalismo


impõe a redução do tempo de trabalho na produção, por outro
lado, o modo de produção capitalista não consegue se afastar do
trabalho vivo, considerado a fonte de criação de toda riqueza.Ten-
do como referência os Grundrisse, O Capital, entre outros textos
de Marx, o autor tece críticas às teorias que, flertando com uma
interpretação determinista da história, perceberiam nessa contra-
dição a perspectiva de transformação e superação automática do
capitalismo, ou seja, sem atribuir a devida importância ao papel dos
embates e dos confrontos políticos entre classes sociais.
O desafio que Maria Guiomar da Cunha Frota se propôs foi
a realização de uma leitura analítica de dois movimentos sociais
da atualidade – Occupy Wall Street (EUA) e Movimento pela
Educação Pública (Chile) – a partir de princípios do marxis-
mo. Para levar a cabo esse objetivo, que parte do nível abstrato
para atingir o nível concreto, a autora privilegia os conceitos
sociais elaborados por autores que tomaram como referência os
trabalhos do jovem Marx. Evidencia também a questão da rela-
ção entre sociedade civil e sociedade política, tema derivado de
abordagens clássicas, privilegiando o pensamento de Habermas e
outros autores que também se debruçaram sobre a esfera pública
e a ação comunicativa.
Carlos Alberto Ávila Araújo apresenta uma abordagem episte-
mológica das áreas de arquivologia, biblioteconomia, museologia
e ciência da informação. O autor argumenta que esses campos
estão marcados, desde a sua origem, por uma acentuada natureza
operacional, como otimização de produtos e processos, pouco se
detendo nos meandros da reflexão crítica. Apesar disso, conforme
argumenta e demonstra o autor, é possível identificar, na evolução
histórica dessas áreas, relevantes manifestações de “pensamentos e
problematizações críticas sobre a informação, as instituições e os
sistemas de informação e sobre diferentes usos e apropriações que
ocorrem com a sua circulação”.
Contribuições à crítica da era da informação e do conhecimento | 19

Encerrando o debate, Alcenir Soares dos Reis aponta contra-


dições e aspectos críticos que se manifestam nas interlocuções en-
tre informação e educação, enfatizando as contribuições do pen-
samento marxista no âmbito da Escola de Ciência da Informação
da UFMG. O resgate do percurso da consolidação da linha de
pesquisa Informação, Cultura e Sociedade evidencia a relevância
dos princípios da historicidade, da tensionalidade e da totalidade,
e destaca a dimensão dialética que marca a arena da informação e
da educação.
Em suma, este livro apresenta um mosaico diversificado e esti-
mulante de reflexões que são frutos do desafio de debater a infor-
mação e o conhecimento no mundo atual sob o prisma do mar-
xismo. E os caminhos que aqui são apontados parecem confirmar
o argumento que Hormindo nos traz:
Antigas questões que teimam em persistir nos afligindo, bem
como outras, saudadas nos dias de hoje como descobertas re-
centes, estão presentes, e de modo bastante pertinente, na te-
oria social desenvolvida por Marx. [...] Ao nos debruçarmos
sobre a extensa obra marxiana, verificamos o quanto é atual,
quanta produtividade ela é capaz de impulsionar, o quanto é
desafiador apoiar-se em teoria assim tão absolutamente incon-
clusa, que só pode efetivar-se em coautoria com os sujeitos
sociais de cada tempo histórico.
Os autores aqui reunidos também se inquietam e buscam res-
postas para a instigante pergunta que Hobsbawm nos legou: Qual
é a relevância de Marx no século XXI? Hobsbawm argumenta
que as tentativas de instaurar o projeto do “socialismo” no sécu-
lo XX foram determinantes para a criação de um juízo quanto
ao marxismo que não se fundamenta no pensamento do próprio
Marx, mas sim “em interpretações ou revisões póstumas do que
ele escreveu”. No entanto, destaca o autor, “o fim do marxismo
oficial da União Soviética liberou o pensador alemão da identifi-
20 | A informação e o conhecimento sob as lentes do marxismo

cação pública com o leninismo da teoria e com os regimes leninis-


tas na prática” (2011, pp. 15-20). Assim, ganham relevo novamente
muitas e boas razões para rediscutir o que Marx tem a nos dizer
sobre o mundo em que vivemos.
Não espere o leitor que irá encontrar neste livro respostas aca-
badas para as muitas indagações que fomentaram o debate coloca-
do. Esperar respostas deterministas e definitivas seria uma expecta-
tiva contrária aos princípios da dialética.
Nossa intenção é, antes, estimular um exercício reflexivo que
contribua para a construção de uma visão de mundo que não abre
mão do pensamento crítico, que não se satisfaz com a superficia-
lidade dos fenômenos, que busca a essência que eles ocultam. Um
ponto de vista que encontra nas contradições – e não nas harmo-
nias – a perspectiva de emancipação e desalienação. Um ponto
de vista que, sobretudo, não se contenta apenas em interpretar o
mundo, pois, afinal, o que importa mesmo é transformá-lo.

Referências
Braverman, H. Trabalho e capital monopolista. Rio de Janeiro: LTC,
2011.
Corsani, A. Elementos de uma ruptura: a hipótese do capitalismo co-
gnitivo. In: Cocco, G. (org.). Capitalismo cognitivo: trabalho, redes e
inovação. Rio de Janeiro: DP&A, 2003.
Gorz. A. O imaterial, conhecimento, valor e capital. São Paulo: Annablume,
2005.
Habermas, J. Teoría de la acción comunicativa, i – racionalidad de la ac-
ción y racionalización social. México-df: Taurus, 1999.
Hobsbawm, E. Como mudar o mundo: Marx e o marxismo. São Paulo:
Cia. das Letras, 2011.
Marx, K. Theories of surplus value. Moscow: Progress Publishers, 1963,
vol. 1.
______. O Capital. 6. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1980.
Contribuições à crítica da era da informação e do conhecimento | 21

Livro 1.
______. Capítulo VI inédito de O Capital. 2. ed. São Paulo: Centauro,
2004.
______.Grundrisse. São Paulo: Boitempo, 2011.
Moulier-Boutang, Y. «Nouvelles frontières de l’économie politique
du capitalisme cognitif», Revue Éc/arts, n. 3, p.121-135, 2002.
________. Antagonism under cognitive capitalism: class composition, class
consciousness and beyond. Paper apresentado ao Seminário Immate-
rial labour, multitudes and new social subjects: class composition
in cognitive capitalism, Cambridge, abril de 2006.
________. Cognitive capitalism. London: Polity Press, 2011.
Paula, J. A. Ensaio sobre a atualidade da lei do valor. Revista de Econo-
mia Política, v. 4, n. 2, p. 111-134, abr.-jun. 1984.
INTELECTO GERAL
Eleutério F. S. Prado

Como é sabido, Marx usou uma única vez o termo “intelecto


geral”, em inglês no original escrito basicamente em alemão, em
toda a sua obra. E o fez no seguinte parágrafo dos Grundrisse:
A natureza não constrói máquinas nem locomotivas, ferrovias,
telégrafos elétricos, máquinas de fiar automáticas etc. Elas são
produtos da indústria humana; material natural transformado
em órgãos da vontade humana sobre a natureza ou de sua ati-
vidade na natureza. Elas são órgãos do cérebro humano criados pela
mão humana; força do saber objetivada. O desenvolvimento do
capital fixo indica até que ponto o saber social geral, conheci-
mento, deveio força produtiva imediata e, em consequência, até
que ponto as próprias condições do processo vital da socie-
dade ficaram sob o controle do intelecto geral e foram reor-
ganizadas em conformidade com ele. Até que ponto as forças
produtivas da sociedade são produzidas, não só na forma do
saber, mas como órgãos imediatos da práxis social; do processo
real da vida. (Marx, 2011, p. 589).
O emprego desse termo – e também dos sinônimos “cérebro
social” e “inteligência social” – numa obra tão extensa não teria
chamado atenção excepcional não fosse pelo contexto expositivo
em que aparece: a antecipação do que ocorrerá com o desenvol-
vimento do modo de produção da grande indústria. Em particu-
lar, ganha um sentido notável frente ao começo do parágrafo dos
Grundrisse que antecede aquele acima citado:

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