You are on page 1of 365

Dany-Robert Dufour

A cidade perversa
Liberalismo e pornografia

Tradução de
Clóvis Marques

Revisão técnica de
Marilia Amorim

1ª edição

Rio de Janeiro
2013

Copyright © Éditions Denoël, 2009
Copyright da tradução © Civilização Brasileira, 2013

TÍTULO ORIGINAL FRANCÊS:
La Cité Perverse. Libéralisme et Pornographie

PROJETO GRÁFICO DE MIOLO
Editoriarte

CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA FONTE
SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ

Dufour, Dany-Robert
D911c A cidade perversa [recurso eletrônico]: liberalismo e pornografia / Dany-Robert Dufour ; tradução
Clóvis Marques. - 1. ed. - Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2013.
recurso digital

Tradução de: La cité perverse : liberalisme et pornographie
Formato: ePub
Requisitos do sistema: Adobe Digital Editions
Modo de acesso: World Wide Web
Inclui bibliografia e índice
ISBN 978-85-2001-233-8 (recurso eletrônico)

1. Pornografia - Aspectos sociais. 2. Sexo - Aspectos sociais. 3. Capitalismo - Aspectos sociais. 4.
Livros eletrônicos. I. Título.

CDD: 363.47
CDU: 392.64
13-06623

Todos os direitos reservados. Proibida a reprodução, armazenamento ou
transmissão de partes deste livro, através de quaisquer meios, sem prévia
autorização por escrito.

Este livro foi revisado segundo o novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.

Direitos desta tradução adquiridos pela
EDITORA CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA
Um selo da

EDITORA JOSÉ OLYMPIO LTDA.
Rua Argentina, 171 – Rio de Janeiro, RJ – 20921-380 – Tel.: 2585-2000

Seja um leitor preferencial Record.
Cadastre-se e receba informações sobre nossos lançamentos e nossas promoções.

Atendimento e venda direta ao leitor:
virginia.rivera@harlequinbooks.com.br ou (21) 2585-2002

Produzido no Brasil
2013

A nossa descendência

“Dá-me aquilo de que preciso e terás de mim aquilo de que por tua vez precisas.”
Adam Smith, A riqueza das nações, I (1776)

“Dá-me a parte do teu corpo que pode satisfazer-me por um instante e goze, se assim
quiseres, da parte do meu que te pode ser agradável.”
Donatien Alphonse François de Sade, Juliette, primeira parte (1799)

Sumário

PREFÁCIO
Romildo do Rêgo Barros

PRÓLOGO
Mais um esforço!
1. O SÉCULO XVIII
A grande reviravolta da metafísica ocidental: genealogia do princípio
pornográfico, de Pascal a Sade
2. 1929-1960
Sade, o retorno
3. HOJE:
A cidade perversa

EPÍLOGO
A obscenidade desnudada

as façanhas do Marquês de Sade. Neste novo trabalho. a este mandamento supremo: Goze!”. por força do que Dufour chama a uma certa altura de “desinibição pulsional”. antes de mais nada. do lado da perversão. como algo que. cujo mundo é identificado por Dufour. apesar de portar o mesmo nome. como. Ou. trazido por Freud. logo nas primeiras linhas. e a segunda. considera que houve uma passagem de uma primeira a uma segunda transgressão: a primeira diz respeito ao que se define classicamente como perversão. o autor aproxima o liberalismo. Os modelos usados pelo autor para descrever essa passagem para o excesso são. ergue-se um novo sujeito que. tão paradoxal quanto o título do livro. que conduz à “servidão do homem liberado”. com o supereu lacaniano: “um universo no qual os indivíduos obedecem. justamente por ser transgressão.1 Dany-Robert Dufour constatava o declínio de duas formações subjetivas que estavam de certa forma na base da modernidade: o sujeito do dever. no panfleto Franceses. Sobre os túmulos dos sujeitos kantiano e freudiano. melhor dizendo. rompe no entanto com a relação necessária com a lei e se abre para o sem-limite. que em vários dos seus escritos. ou seja. e o sujeito do conflito. Cidade perversa. poder-se-ia dizer. Prefácio Em um dos seus livros publicados no Brasil. da pornografia. mais um esforço se quiserdes ser . na sua fase atual. teorizado por Kant. a partir de um traço comum a ambos: o excesso. Dufour considera. dois patamares de transgressão. por exemplo. na verdade. erige o excesso em regra de vida. só pode ser entendido a partir da lei. Este é o sujeito sadeano.

a hegemonia da grande finança em detrimento da produção. Ele não pretende nos conduzir. como pensar que possa inspirar um laço social minimamente estável? O mundo sadeano é. Mas não é da ironia do divino marquês que trata Dany-Robert Dufour neste livro. Isso ocorre sob a inspiração do que Dufour entende como um novo contrato social. apresenta-nos o excesso como uma nova lei — aqui está o paradoxo — cujos fundamentos estariam na natureza. a feroz ironia do mundo por meio da descrição caricatural de um mundo impossível. se existirem. E. na sua opinião. no final das contas. em que o próprio termo “mundo” somente poderá ser pensado para exprimir algo em dissolução. Dufour quer nos prevenir contra algo que. portanto obsceno. se decidam finalmente a cercar o homem sadeano num impasse. a descrição do ideal como se fosse a realidade. para impedir que esse homem transforme sua funesta solução na única saída possível?” . dispensa a anuência dos outros. deverá no entanto resolver uma contradição: se está fundada no egoísmo absoluto. do lado do liberalismo. como comenta Dufour. é uma paródia. premido pelas exigências últimas da natureza. o panfleto Franceses. pode de repente ultrapassar os limites da ficção irônica e irromper na nossa história concreta. ao sorriso um tanto amargo de quem assistiu à descrição de uma utopia. o mundo da contingência. que já não se dá entre o burguês e o proletário produtor.. Nesse sentido. pelo menos à primeira vista. A orgia sadeana.. no final da leitura. O gênio do escritor Sade foi descrever essa dissolução sob a forma de uma instituição. a quem é pedido que consuma até onde puder. que expõe ao mundo o seu gozo excessivo. e o consumidor proletarizado. para ser alçada ao papel de paradigma de uma época. Apesar disso. Ou seja — para usar os termos com os quais Bergson definia a ironia —. mais um esforço. Pelo contrário. na busca de um gozo que. e com isso inventar para ela uma permanência que se sustenta unicamente no apetite de gozo do algoz.republicanos. e também em Os cento e vinte dias de Sodoma. elevou os lucros e os salários de alguns altos executivos internacionais a um patamar no qual já não se veem as relações de origem que teriam com o trabalho. este amplamente citado por Dufour. é ainda um otimista. que em alguns casos. mas entre o “hiperburguês”. como deixa entrever a pergunta com que conclui o seu livro: “Será que ainda resta tempo para que os homens mais ou menos normais.

Muita coisa que se pensava sem fim. filósofos. revelam-se agora passíveis de se transformarem. cada um procura achar as pistas que conduzem do mal-estar à crítica. Quem são os normais? Aqui está o ponto capital da demonstração do nosso autor. como disse um dia Lacan? Serão aqueles que resultam do confronto entre o sujeito do dever e o sujeito do conflito? Serão aqueles neuróticos que têm a temperança como regra de conduta? Ou serão os partidários de um “bom uso da perversão”. como costuma fazer nos seus escritos. que de fato nunca se pode deixar de levar em conta quando já não se tem a garantia da tradição. No encontro com a contingência. e de vez em quando desespero. Romildo do Rêgo Barros . as próprias massas de nomes e rostos múltiplos — que estão buscando os sinais do futuro a partir do transe que vivemos no presente. e desta a um novo projeto. Essa garantia era uma ilusão. muitas vezes entusiasmo. até certo ponto. e. a partir da qual “tudo o que é sólido se desmancha no ar”. claro. políticos. que ignora a tradição e desconhece.. no sentido que deu Glauber Rocha a esse termo. o projeto que está sempre por vir..? Dany-Robert Dufour é um daqueles pensadores — sociólogos. segundo a expressão com a qual Dufour qualifica os que conseguem transgredir os ditames moralistas sem no entanto cederem à vertigem suicida da hybris. o que provoca perplexidade. mais recentemente. Serão os loucos. como o lugar da autoridade familiar ou as formas sociais da diferença sexual. ponto a partir do qual Dufour se oferece diretamente à discussão. Talvez estejamos testemunhando o surgimento de mais uma versão do famoso diagnóstico que deu Marx da estratégia burguesa. mas só se sabe depois. e também os próprios vícios endêmicos da sociedade. Sob pena do pior.

Rio de Janeiro. 2005. . Companhia de Freud.Nota 1A arte de reduzir as cabeças — Sobre a nova servidão na sociedade ultra-liberal.

da prostituição e da própria pornografia3 — com esses acoplamentos sem pé nem cabeça. Prólogo MAIS UM ESFORÇO!1 1 Sade não morreu! Mais ainda: ressuscitou. o consumo pornográfico em constante expansão… Alguém desconhece que a pornografia. os encontros de finalidade sexual através dos sites de encontro da internet. que avançam consideravelmente. costuma-se pensar apenas na dimensão sexual. De fato. do sexo. Mas que é exatamente um mundo sadeano? É um universo no qual os indivíduos obedecem. O que é compreensível. se for incluída a parapornografia. esses preenchimentos de orifícios diversos. na medida em que muitas práticas atuais nesse terreno parecem atender perfeitamente a esse mandamento. antes de mais nada. Basta lembrar os hábitos que rapidamente se disseminam hoje. tornou-se uma das maiores indústrias do mundo? Se não. Que nada: triunfa! Será esta a hipótese desenvolvida aqui: vivemos num mundo cada vez mais sadeano. essas ponta-cabeças espetaculares. o contato instantâneo através de redes do tipo Aka-Aki2. a este mandamento supremo: Goze! É o que começamos a perceber. essas . Mas ainda não foram bem percebidas as diferentes dimensões em que podia se dar esse gozo. de encontros promissores. esse atar e enfiar das mais diversas maneiras. vejamos: a indústria de acessórios sexuais. como o speed dating (encontros expressos).

mostrava “o avanço mundial da temática sexual” em todos os tipos de programas — ficção. ondinismo ou fisting …4 — gera atualmente negócios de mais de 1 trilhão de dólares por ano em todo o mundo. jogos. que movimenta anualmente mais de 4 bilhões de euros em direitos autorais em Cannes. essas orgias zoofílicas ou pedofílicas. Eles distinguiram três libidos ou “concupiscências”: não só a que decorre da paixão dos sentidos e da carne (a libido sentiendi). que podem perfeitamente ter sido mais perspicazes que nós nesse terreno. o que equivale a mais que as duas indústrias de ponta das armas e dos produtos farmacêuticos. por sinal. mas também na da posse e da dominação. a darmos crédito aos antigos. essas ejaculações infindáveis. talk-shows. assim como na do saber. vamos encontrar. celebram ou incitam ao gozo. a que diz respeito à paixão de ver e saber (a libido sciendi). mas também a que procede da paixão de possuir sempre mais e dominar (a libido dominandi) e. essas giratórias com ou sem manteiga. com ou sem 3 Isso nos leva a crer que é possível gozar não só na dimensão sexual. cinema…) voltadas para o divertimento de massa também se tornaram em grande medida “obscenizantes”. podem misturar-se alegremente. espiritualidade — três temáticas que. pois cabe acrescentar indústrias que. internet. pela ordem: sexo.5 Mas isto não é tudo.7 a vergonha. essas práticas exóticas como bukkake. não sendo estritamente pornográficas. finalmente.sessões de tortura mais ou menos consentidas. E por sinal todas elas mobilizam . Um levantamento realizado em 2008 no concorrido Mercado Internacional de Programas de Televisão (MIPTV). Assim é que as indústrias culturais (televisão. programas de variedades…6 Nas paradas de sucessos dos programas. 2 Significaria isso que a dimensão sexual é a única em que se pode concretizar o mandamento do gozo? Não.

a exibição do gozo. obscenus. O respeito do outro (aidos em grego e Achtung em alemão)8 proibia. Hoje. Mas a partir do momento em que a pornografia se mistura ao mundo oficial. ou pelo menos não mostrar seu gozo a qualquer um. o estado de gozo tem a idade do mundo. segundo o dicionário dos acadêmicos. para eles. era “obsceno”. Mostrá-lo. na medida em que este ultrapassou a . Além disso.9 É verdade. saber resistir a uma ascendência demasiado forte de qualquer dessas três libidos. 4 Ora. constituía um mundo à margem do mundo oficial. respeitar o outro significava. preservando o respeito. Haverá. no entanto. fechadas ou guardadas. Dizia-se então que esse indivíduo agia com vergonha. Quando a pornografia era oculta. “obsceno” remete. não podemos deixar de constatar que entramos num mundo sem vergonha. A esse respeito. um outro mundo ao qual se tinha acesso através de portas bem dissimuladas. no entanto. se se encontrasse na companhia de outros. instrumentalizados no gozo daquele que a isso se entrega. de tal maneira que permite selar pactos. para um sujeito. esse estado de gozo não devia ser exibido diante dos outros. passa a fazer parte integrante de um novo mundo. rejeitar qualquer limite que pudesse entravar essa excitação e deixar-se levar por patamares até o gozo. ele se ostenta na esfera pública como uma atividade comum — o que representa uma notável diferença. em latim. 5 Esclareçamos essa diferença. Mas era oculto.o mesmo esquema: basta excitar uma dessas libidos. E se entende o porquê: porque podemos ser apanhados. com efeito. Mas nossa diferença em relação aos antigos é que. Desse modo. Naturalmente. ao que “não deve ser mostrado em cena”. que significa literalmente “de mau augúrio. os números do comércio pornográfico e parapornográfico que acabo de mencionar constituem um sintoma maciço. pois o gozo compartilhado compromete. assim. argumentando com o fato (inegável) de que o comércio pornográfico sempre existiu. um mundo obsceno. sinistro”. quem diga que nada há de novo aí.

à dominação ou à posse e ao saber.10 Mas essas práticas também são obscenas por serem ostentadas como se não precisassem mais remeter a nenhuma vergonha. São conhecidos os três principais métodos desse suborno: salários mirabolantes. mas financeiros. moral…) que sacode o mundo atualmente terá contribuído amplamente para sua disseminação. como as chamadas aposentadorias “chapéu” e outros paraquedas dourados (indenizações enormes. mas também as outras atividades caracterizadas pela obscenidade. aos dirigentes das grandes empresas que prosperaram em nossa economia de mercado desregulamentada. político. esses altos executivos que normalmente enriqueciam de maneira legítima vendendo seus produtos no mercado de acordo com a lei da oferta e da procura foram comprados. caso deixassem a empresa por qualquer motivo. de criar uma espécie de ciência — poderíamos dar-lhe o nome de pornologia geral — dedicada aos estudos de fenômenos obscenos. exceto malversação de fundos). pelos acionistas de suas empresas. considerar não só as exibições sexuais atuais. Basta lembrar as práticas que consistiram em conceder lucros indecentes. assim. por serem venais. voltados para a hybris (a “falta de medida” dos gregos).diferença entre o pornográfico e o não pornográfico. Um novo mundo que se caracteriza por ter se tornado de certa maneira pós-pornográfico. ultrapassando os limites. portanto. extremos. Acontece que a crise de civilização (pois ela afeta todos os terrenos: econômico. Primeiro. que caracterizam o mundo pós-pornográfico em que já agora vivemos. financeiro. Com efeito. 6 Seria o caso. Já não é vergonhoso ganhar numa semana tanto quanto um assalariado durante a vida inteira. para levar a cabo objetivos não mais industriais. manifestando-se em todos os terrenos relativos ao sexual. que de sua parte . fora de toda medida. as três libidos 7 A essa pornologia caberia. Essas práticas são duplamente obscenas. A indecência representada por esses comportamentos perante outros homens. participação nos lucros da empresa na forma de bônus e stock-options e concessão de vantagens exorbitantes.

criação . à simples leitura dos jornais: acordos e cartéis. aos que no mundo das grandes empresas se valem. tornaram-se então verdadeiros escroques. eles exigiram e conseguiram a socialização de suas perdas… se possível.12 a “titularização” dessas dívidas — ou seja. Alguns deles. balanços adulterados. a pessoas que não têm meios de reembolsar (caso. depois de terem exigido a privatização dos lucros. Mas seu campo se ampliou. pois ela passou a ser aplicada. além das normas habituais. sua transformação em títulos que serão misturados a outros e que por isso logo passarão a ser considerados “podres”. nos Estados Unidos (mas também em outros países). como os empréstimos em grande escala. os “patrons-voyous” [empresários-vigaristas]. grandes dirigentes empresariais (GM. etc. uso de informação privilegiada e especulação. Sabemos que alguns desses dirigentes de imensa fortuna sentiram-se tentados a tirar vantagem da confusão das finalidades industriais e financeiras que caracterizam sua nova posição. vem a ser desculpabilizada. abuso de posição dominante. vejamos. beneficiando diretamente pessoas físicas ou jurídicas — termo que no caso soa um pouco falso. sem-vergonha. não raro há muito tempo. Quando a indecência assim se ostenta sem maquiagem. Assim foi que vimos.devem naturalmente submeter-se à medida comum. hoje famoso. podemos acrescentar a essas duas camadas de obscenidade uma terceira. Assim é que. ainda por cima. Finalmente. fazendo operações com as stock-options em seu poder enquanto obtinham informações privilegiadas sobre os programas industriais e a etapa em que se encontravam. Se não.11 Essa criminalidade é hoje tão disseminada que foi necessário criar uma palavra para qualificar os que a praticam. de toda uma gama de atos-limite e eventualmente delituosos para gerir capitais “laváveis”. Ford e Chrysler) solicitarem bilhões de ajuda pública… em jatinhos particulares. desde as revelações da crise. estamos diante de fatos obscenos. absorção e desmembramento de concorrentes. desinibida. A crise terá contribuído ao mesmo tempo para a revelação desse fenômeno e para seu agravamento: os homens submetidos à medida são os mesmos que há um ano foram chamados a socorrer os que não conseguiam mais satisfazer todas as suas exigências exorbitantes. dumping e vendas forçadas. das subprimes). montagem de operações financeiras ultra- arriscadas. A expressão designava inicialmente os que praticavam transferências selvagens de empresas para países estrangeiros (fábricas desmontadas à noite.). com a preservação de suas vantagens abusivas.

a política pós-moderna mobilizou enormes somas do dinheiro público para redistribuí-las de uma forma ou de outra ao setor privado de negócios. como o “golpe do século”. de higiene e segurança. desvio de créditos públicos e negócios manipulados. de contribuições sociais. na França e em vários países da Europa. ações. Este risco não é desprezível: a . na alta ou na baixa. em outras palavras. chegando às vezes a expor os Estados. chantagem e delação. Estamos diante de uma total ausência de limites para a liberação das paixões e pulsões de posse e dominação. a risco de falência. que montou o que se costuma chamar de uma “pirâmide”. embora sua renda fiscal de referência fosse em média da ordem de um milhão de euros”. etc.14 Durante a crise. segundo mercado de ações dos Estados Unidos. matérias-primas. violação dos regulamentos em matéria de direitos trabalhistas e liberdade sindical. manipulação de preços de transferência (preços em que são faturadas as transações entre empresas de um mesmo grupo multinacional para “otimizar” a contabilidade e reduzir impostos). limitando os índices globais de cobrança fiscal dos contribuintes mais ricos. como agiu o poder político pós-moderno? Antes da crise.de hedge funds não raro implantados em paraísos fiscais que permitem especular em grande escala sobre a evolução dos mais diferentes tipos de mercados (moedas. 8 Ante tais desvios.13 Isso foi antes do lançamento do “escudo fiscal”. ele apoiou uma política fiscal de redistribuição… para os mais ricos. enriquecimento ilícito e abusos de bens sociais. ex- diretor do Nasdaq. que agravou ainda mais essa situação. fraude mediante utilização de filiais offshore de empresas instaladas em “paraísos fiscais”. responsável pela crise. praticado por Bernie Madoff. brutalmente convocados a socorrer as empresas. num montante de 50 bilhões de dólares. poluição e meio ambiente… A tudo isso se acrescentam as puras e simples vigarices. da avidez. Assim foi que em 2008 tomou-se conhecimento num relatório oficial de que centenas de ricos contribuintes franceses “não tinham pago imposto ou haviam recebido restituição do Tesouro público. vigilância e espionagem. corrupção e comissões ocultas.).

Isso é tudo? Não. E o futuro. É esperar que o feitiço da progressão contínua dos índices volte a ocorrer de maneira mágica.16 Essa intenção não se manifesta apenas na França. a crise era o momento ideal para aplicar remédios estruturais rigorosos. dos quais procedem). Mas o que se viu foram apenas algumas medidas cosméticas. cultura. nos Estados Unidos). justiça. como antes… para que finalmente seja possível esquecer a crise e aquilo que a provocou. o governo Berlusconi decidiu em 2008 suspender os processos em andamento envolvendo direito comercial quando as pessoas processadas fossem passíveis de menos de dez anos de prisão. a mercantilização de amplos setores da sociedade (saúde. por exemplo. a City de Londres ou o estado de Delaware. tomadas com grande estardalhaço. mas não. mais um esforço se quereis ser democratas!…17 O Estado. tanto menos preocupado . teria início um período de desordens graves (internas e externas) de consequências imprevisíveis. é procrastinar tomando a decisão menos suscetível de provocar reações em curto prazo. a Espanha. essencialmente para acalmar as populações indignadas (alguns paraísos fiscais mais ou menos exóticos. foram denunciados. Assim. é claro. na Itália. educação. pois toda a velha Europa esclarecida está envolvida. Ora. italianos. ou o que dele resta. cuidar dos “empresários-vigaristas”. Todos se lembram de que o presidente da República Francesa prometeu. o Paquistão e a Ucrânia estavam no fim de 2008 em situação próxima da bancarrota. Por exemplo. Como a política pósmoderna administra no dia a dia. a Irlanda e a Grécia — a lista não é exaustiva — estavam nesse mesmo momento numa situação financeira no mínimo delicada. aplicando-lhes as leis “naturais” do mercado (as mesmas que se revelaram geradoras de catástrofes nos meios de negócios. E a promessa foi cumprida: ele pretende promover uma reforma para… descriminalizar o diretor comercial15 e acabar com o juiz de instrução. assistimos ao enterro do moderno provérbio de que “governar é prever”. a política pós-moderna contempla corajosas reformas. informação). governar é evitar comprometer-se em longo prazo. Hoje. E países grandes como a Itália. Comentava-se então que se essa funesta perspectiva de falência se concretizasse. em tais condições? Podem ficar tranquilos. em sua campanha eleitoral. rendeu-se à reivindicação sadeana: impunidade para aqueles que cometem o que o ex-primeiro-ministro Michel Rocard.Islândia. Franceses.

”19 10 Apostar na libido dominandi. como sabemos. homem de letras e de teatro inclinado a encenar o obsceno) em Os cento e vinte dias de Sodoma. com efeito. e particularmente o excesso. inclusive na mais extrema celeratez. qualificou recentemente de “crimes contra a humanidade”. É precisamente o motivo pelo qual estou chocado. com toda evidência a coisa funcionava excepcionalmente bem. geralmente apresentado como o “economista dos economistas” ou “o Maestro”. o desmoronamento de uma crença geralmente acarreta grande desordem — o que não deixou de acontecer. “ter acreditado que o senso do interesse próprio. sua obra mais horrendamente sublime. o antigo gênio da economia declarou. Entrevistado no auge da crise pela comissão incumbida nos Estados Unidos do controle da ação governamental. que afirma que o mundo funciona há trinta ou quarenta anos exclusivamente pelo princípio da avidez. A uma pergunta do presidente da referida comissão — “Considera que sua visão de mundo. sua ideologia não era a melhor. E se lhe falta imaginação para conceber tudo que ali . é exatamente uma situação desse tipo a evocada por Sade (como sabemos. na liberação das paixões e pulsões de avidez. Resta-lhe apenas encontrar as modalidades de realização daquilo que normalmente é impossível para qualquer outra pessoa. e mesmo mais.em medir suas palavras por não estar mais na vida pública. Além disso. pois há quarenta anos.18 9 Não é o autor. era a melhor salvaguarda possível”.20 Tudo. Alan Greenspan. vale dizer. não podia deixar de acarretar situações de acúmulo excessivo. tornou-se logicamente possível para o banqueiro Durcet. é o castelo de Silling. especialmente entre os banqueiros. exatamente. filósofo suspeito de apreciar Diógenes e o seu tonel. em virtude de sua enorme fortuna. É aquele que ainda há pouco era considerado um dos mais famosos banqueiros do século. não funcionava?” —. Ora. Ora. Greenspan respondeu simplesmente: “Com certeza. ex-presidente do todo-poderoso Banco Central Americano (Fed). o lugar isolado onde é convocado o excesso está na sua posse.

pode fazer e mesmo mais. práticas mafiosas e para-mafiosas as mais diversas e um evidente gosto pela prostituição e pelas práticas pornográficas. basta-lhe associar-se ao duque de Blangis. mas aquele que cede sem qualquer vergonha a suas paixões e pulsões. o cinema comercial. posses em zonas fiscais no exterior. e a alguns outros “celerados” como ele. Quanto ao resto do cinema americano. esses meios onde vamos encontrar muito dinheiro ganho com rapidez e métodos eventualmente sumários.23 12 . Que os celerados ousem concretizar em gozos diversos todo o excesso que acumularam. iates. o grande e feroz organizador libertino. que constitui uma das mais poderosas indústrias culturais do mundo. Nem tampouco castelos de Silling (residências suntuosas ultraguardadas. nas quais convida as massas a desfrutar… do gozo sadeano da “hiperburguesia” e de outros grupos predadores — ou seja.). por exemplo) tão bem focalize. sustentado por uma riqueza de tal ordem que leva a gozar com a austeridade imposta às 42 vítimas fechadas no castelo para satisfazer a todas as fantasias dos referidos celerados.22 Mas é significativo que o bom cinema americano (os filmes de Martin Scorsese ou David Lynch. 11 O que poderia ser dito de outra maneira: as três libidos podem converter-se uma na outra. “Celerado” designa não tanto o simples libertino. Hoje. não temos muito como saber: esses meios não são muito permeáveis. Cabe notar que “celerado” e “celeratez” são termos sadeanos.21 Os cento e vinte dias… focaliza um grupo de quatro celerados que organizam. às vezes com certa complacência. essas cerimônias de excesso. permitindo que sua fecunda imaginação sistematicamente explore sem limites o território das seiscentas paixões humanas conhecidas. não faltam outros Durcet imensamente ricos. está sempre produzindo uma quantidade de obras de caráter para-sadeano. dia após dia. um gozo por procuração. em meio a um luxo inacreditável. etc.

ou pôr adiante. a épithumia. e de indivíduos. onde se encontram as paixões concupiscentes relativas às necessidades naturais e sexuais (“os prazeres de Afrodite”) e outras paixões semelhantes. com efeito. “é sobretudo com o dinheiro que são satisfeitos esses tipos de paixões”.24 13 Ou então bastava ler Marx. por sua vez composto de pro. elas não têm nenhum terreno comum: as práticas pornográficas só dão prazer àqueles que a elas se entregam (e ainda assim…). que. Mas seria tudo? Não. ou encenar o que geralmente não é exposto em público. Por quê? Simplesmente porque. são. Vamos então examinar o que quer dizer “pornográfico”? Em “pornográfico” existe o grego pornê. Não podem. Ora. ser globalmente qualificadas de “pornográficas”. remetendo como tais ao mundo dos negócios.25 pornô. portanto. “expor em público”. aprendemos que resulta da dominação social uma soma. e statuere. ainda que alguns as pratiquem de forma delituosa. pornê. . segundo o dicionário Bailly. E “prostituir” vem do latim prostituere. e graphe. pernémi 14 Já posso ouvir os comentários de alguns não muito inclinados a ouvir o que aqui se expõe: o autor mistura tudo. as de venda ou compra.Terá sido necessário esperar o cinema americano para saber disso? Não. e as práticas mercantes são úteis a todos. Ao definir a terceira alma. bastava ler Platão. concluir que as atividades. Com Marx. em particular. em geral. “mais- valia”. pois a mais superficial investigação etimológica demonstra que a palavra vem diretamente do verbo pernémi. práticas pornográficas e atividades mercantes. ampliado por Lacan. “prostituta”. Cabe. o “mais-de-gozar”. sobretudo. A porno-grafia é portanto escrever. chamada Mehrwert. decorrente do sobre-trabalho imposto aos proletários. portanto. como afirma Platão. “adiante”. ele menciona que essa alma também é uma grande “amiga do dinheiro”. podendo ser consideradas pornográficas. “colocar”. “escrito”. remete a tudo que diga respeito à compra e venda de mercadorias. E com Lacan aprendemos que essa mais-valia recolhida pelo senhor também é uma reserva de fundo que pode ser convertida em gozos de todos os tipos.

etc. o irmão de Platão. nem todas as atividades de compra e venda são pornográficas — longe disto. é diretamente responsável pela enorme crise atual. o impuro). decorrente de se colocar diante daquilo que os gregos rejeitavam. em compensação. estamos naquilo que os gregos chamavam de pleonexia. ou bem uma dignidade. E por sinal muitos exegetas de textos gregos antigos notam que a própria palavra pleonexia tem muitas vezes conotação sexual. ou seja. nem tudo pode ser monetarizado: “Tudo tem ou bem um preço. mas que seria validado muito mais tarde. os valores. no liberalismo de Adam Smith. mas que já existia muito antes de ser formulado: o princípio de dignidade. em sua certeza de poder tudo comprar e vender. com o nome de self-love. nos quais Trasímaco e depois Glauco. estamos aí no mundo da akaqarsia (o obsceno. a partir do momento que tudo pode ser comprado — os homens. por exemplo. portanto.”26 A partir do momento que o princípio de dignidade não é respeitado. Naturalmente. o que não tem preço. para passarem a perseguir objetivos financeiros. o qual. Poderíamos expressá-lo com mais consideração falando da passagem do capitalismo industrial para o capitalismo financeiro. Para Kant. como vimos. —. aos acionistas a partir da década de 1980. ocupam a posição de defesa da avidez. a pleonexia está muito diretamente relacionada à porneia. essa passagem do capítulo 5. a justiça. e não mais industriais. É muito interessante saber que nos espaços gregos e judaico-cristãos. com efeito. exceto o que é digno. Do que dá testemunho. pois se trata de uma das possíveis dimensões da avidez. nem. Ora. que elas respeitem um princípio perfeitamente exposto por Kant em seus Fundamentos da metafísica dos costumes. fundamentos de nossa cultura. Ele pode ser formulado assim: tudo pode ser comprado. é aquilo que possui uma dignidade. E. as opiniões. A pleonexia é justamente o que remete à vontade de possuir sempre mais. as mulheres. o amor. “egoísmo”. Basta. equivalente.3 da Epístola de Paulo aos efésios: “Que nem a porneia (prostituição) nem nenhuma akaqarsia (obscenidade) nem a pleonexia (avidez) sejam sequer . de fato. foi exatamente esse o caso quando os executivos na direção de empresas se venderam. O que certamente poderia ser dito assim: eles foram putanizados pelos acionistas. cuja teoria é exposta nos livros I e II da República de Platão. O que tem um preço pode ser substituído pelo seu equivalente.

é porque Durcet movimentou muito dinheiro para sustentar a aventura dos celerados. Sade é de um rigor absoluto. por exemplo. De tal maneira que submerge o luxo de Silling e é preciso comê-la. Georges Bataille. no entanto.” São atitudes que. Muito. Ou Annie Le Brun. se há muita merda em Os cento e vinte dias…. escreveu em A literatura e o mal (1967) que “ninguém. dentre as seiscentas paixões metodicamente exploradas nos Cento e vinte dias…. Hoje elas são exibidas. nada havia lá de extravagante. mesmo o mais forte — inclusive das pessoas mais receptivas a Sade. justamente. Depois dessa viagem. 16 Também serão consideradas pornográficas certas proezas artísticas atuais escoradas na afirmação de que é impossível distinguir um objeto realmente artístico de uma merda. Pelo contrário. Em outras palavras. se não estiver surdo. desde que a titica seja vendida caro — voltaremos ao assunto. a merda 15 Questão surpreendentemente pouco levantada: por que. o mundo já não é o mesmo. Demais. concluirá Os cento e vinte dias… sem cair doente”. requerem expiação. quando ele desenvolver sua analítica da fase (tão bem denominada) sádico-anal: a merda é dinheiro. o dinheiro. Voltei de lá doente.28 Nada mais. segundo os versículos seguintes. comentando assim sua entrada em Silling: “Ninguém jamais foi capaz de entrar normalmente no castelo de Silling […]. Mas será preciso esperar Freud para entendê-lo. 17 . que requer um estudo especial (ver fragmentos 267.mencionadas entre vós. as que fazem parte do ciclo da merda e de tudo que se pode fazer com ela — especialmente comê-la — ocupam um lugar tão considerável? Encontramos aí uma paixão tão delicada que abala o coração. 268 e 269 deste livro).”27 E.

e pode ser interessante estudálo. do sempre mais. registrado: o autor destas linhas de modo algum se considera um missionário do pudor. ao mesmo tempo que se ostentam como um novo catecismo perverso. ele não é. vier a imaginar que o autor acaba de aderir a uma liga da virtude e achar que. O primeiro termo. pelo contrário. nem contra nem a favor. a coisa faz pensar.29 18 Fique. e é então a vantagem dos prazeres furtivos que se evapora. “não sou contra nem a favor”. de épochè. o que tende a conferir a nossas sociedades . portanto. quer dizer que as paixões podem ser belas. Perversão demais. atenção: como costuma acontecer. designando a suspensão do julgamento — especialmente do julgamento moral. Com a ideia de que esse bom uso se está perdendo à medida que passamos ao terreno do excesso. ele está. “muito pelo contrário”. e ficamos obedientes a esses ditames. Mas. corremos o risco de nos tornar objeto passivo de nossas paixões. caso contrário. Vale dizer. podemos estar tratando aqui do bom uso da perversão. muito pelo contrário… Não hesitemos em transformar essa proposição ligeira num lema para este estudo. lendo estas linhas. no momento. como dizia o humorista. diremos simplesmente: eis o que está acontecendo. Quanto ao segundo termo. desde os céticos. clamando sua indignação. Continua ainda hoje adotando o provérbio que lhe costumava recitar um amigo (atualmente um homem de teatro renomado) quando era jovem estudante: “Um pouquinho de perversão não faz mal a ninguém!”. Na verdade. E de fato ela é mais séria do que parece. empolgado pelo proselitismo dos recém-convertidos. Nada disso.Peço ao leitor que me conceda o benefício da dúvida se. como veremos. O sujeito tinha razão: não faz mal nenhum sair dos ditames moralizantes. Perversão de menos. diante dos fatos que menciona. tudo é uma questão de dosagem. repetia ele. Pois. Em outras palavras. sem-limites. ele se abstém de qualquer julgamento moral. pois é a vida correndo em nós. não diremos aqui “isto está certo” ou “isto está errado”. pois eles já não contradizem nenhuma proibição. Em suma. mas desde que façamos delas algo. pode ser enunciado em termos filosóficos: é o que se chama. Em suma.

mais corpo. para ele. o tristemente célebre “casse-toi. O britânico Tim Walker. declara que “toda fotografia de moda gira em torno do sexo!” O que. realizadas para a marca de prêt-à-porter Dolce e Gabbana pelo fotógrafo Steven Klein. Ele se apresenta sob múltiplas formas. imagens de identificação para a maioria. que cada vez mais as caracteriza. observamos. em primeiro lugar. 19 Um lado pornográfico que embebe e.* Não deveríamos extrair ensinamentos filosóficos consequentes do fato de termos na França um presidente da república que se dirige às pessoas comuns do povo com um “con”** na boca? Sabendo que a situação não é muito diferente na Itália.31 . às vezes. a exibição dos corpos — o que é normal: esses dois movimentos constituem um perfeito sistema que poderíamos chamar de sistema pornográfico. Poderão objetar que se trata de um gênero marginal.ocidentais pós-modernas esse lado obsceno. exatamente aquela que ele tenta cultivar. Não é o que acha um dos fotógrafos de moda mais respeitados. no afrouxamento da língua. dignas do falar do grosseiro das periferias (entre outras.30 Podemos ter uma boa ideia do pornô chique observando certas publicidades para-sadeanas. outro país que também supúnhamos de alta cultura. “acaba com a magia”. que se torna vulgar até nos pronunciamentos públicos: das declarações obrigatoriamente licenciosas das “celebridades”. Pensamos. 21 O modelo desse gênero que mostra corpos à espera de se encaixarem é o chamado pornô “chique”. em muitos talk-shows de televisão. portanto. caracterizado por esta relação: menos discurso. 20 Depois do afrouxamento da língua. e mesmo pornográfico. pauvre con!”). satura as práticas e os comportamentos sociais contemporâneos. que se considera uma exceção em sua profissão. às derrapagens presidenciais.

Além disso — um além que o espectador é firmemente convidado a imaginar —. mas eis o que dizem: — Num deles. Também vemos em seu corpo a sombra de uma silhueta. O que é mostrado é o ponto de tensão máximo. 22 O sistema pornográfico não se limita ao gênero pornô chique. em posições emaranhadas que correspondem a… alguns segundos antes de ter início a “ação”. Nelas. . passamos ao processo de resolução da tensão. ele terá a mulher” (Automóveis da marca Audi). — Com foto de uma boneca inflável de boca aberta: “Sua noiva vai ficar boquiaberta” (telefone celular Nomad). vemos a mancha ainda recente de um líquido untuoso escorrendo em seu busto. eu a amarro. a meto na panela”**** (de creme batido). vemos em geral quatro ou cinco homens e mulheres. — Com um cão de guarda lambendo uma mulher despida (para o costureiro Ungaro). — Com a seguinte legenda: “Babette. não raro munidos de máquinas sofisticadas. — Um outro mostra um carro com esta legenda: “Ele tem o dinheiro. ele tem o carro. às vezes. às vezes quatro ou cinco homens ou mulheres apenas. Ele está no cerne de todos os pequenos relatos martelados cotidianamente pelas ondas e afixados nos muros da cidade. Temos então uma variante: a ação acabou de ocorrer. Olhando bem. no convés de um iate. pele cor de chocolate: “Você diz não. Num outro anúncio feito para Dolce e Gabbana. a campanha continuou com outros cartazes com estas legendas: “Procuram-se papilas gulosas para gozar num rochedo”*** e “Procura-se adepta do crocante para ser comida sem cerimônia”. Alguém que há um instante ainda estava perto da moça. Já nem notamos esses anúncios publicitários. É como se estivéssemos vendo atores pornôs à espera do barulho da claquete para entrar em ação. percorrendo uma paisagem de sonho. — Com a foto de uma modelo nua. entre os seios. de tal maneira nos habituamos a eles. vemos uma modelo topless deitada ao sol. vemos nádegas de mulher com a seguinte legenda: “Será que ela aguenta? Confira a solidez da sua empresa!” (Escritório de auditoria). mas se ouve sim” (chocolate Suchard). bato e.

Basta ler A filosofia na alcova para entender que é exatamente essa a posição da jovem Eugénie. são autênticos neuróticos. parecendo intimidados. a não ser que não queiram mesmo ver. completamente tapados e totalmente recalcitrantes. entrarem no quarto da filha. Em suma. Saem rapazes de todos os lados. A mensagem inverteu-se: deve ir do filho para os pais. o plano bom para os jovens. se arrebente sem deixar seu orçamento ser arrebentado pelos planos pré-pagos!”33 Por mais que adote o gênero “duplo sentido”. do banheiro… Dá para perceber que uma grande suruba acaba de ocorrer. graças ao contrato de telefonia que lhe permite falar com os amigos. Mas o problema é que os pais.32 Também aqui temos muito “duplo sentido”. a Sra. de Mistival. O que aí se manifesta é a inversão de sentido da relação pedagógica. trajando camisola. será com a condição de inverter o seu sentido. Vamos então analisar o que poderíamos chamar de retórica do duplo sentido (ver o fragmento 266). E se nela deve haver educação. e os pais perguntam à filha… se seus amigos ficarão para o almoço. É verdade. não queiram saber de nada nem entender nada do que podem ver. não “arrebenta” mais o orçamento. 23 Enquanto isso. que entendeu tudo perfeitamente num átimo de segundo e trata de dar uma lição à mãe. esse anúncio contém um sentido pedagógico único: a transmissão evidentemente não se dá mais no sentido antigo.***** apregoando as vantagens do “plano pré-pago da Universal Mobile”. Essa inversão indica que a geração anterior é liberada e mesmo expulsa do suposto dever educativo de que se prevalecia. Haverão de objetar que se trata de duplo sentido. . maus alunos. Aparece a mensagem: “Com o plano pré-pago Universal Mobile. dos pais para os filhos. de baixo da cama. o que lhe permite “se arrebentar”. pois se trata de uma educação para gozar. consideremos o anúncio de uma grande empresa de telefonia móvel pertencente ao mesmo grupo que o canal de televisão TF1. Eles parecem satisfeitos porque a filha. objeto de zombaria da publicidade. nada entendem das práticas liberadas de sua linda filha. Vemos um pai e uma mãe. uma loura alta e diáfana de seus 20 anos. de baixo dos lençóis.

por isso. uma fala que não para de dizer: “Gozem!” Ora. mas nem por isso ele deixa de estar constantemente aí. assim. seria necessário . vão buscar uma boa parte de sua inspiração. Foi o caso da campanha do Canal Jeune [Canal Jovem]. Estamos de tal modo habituados a esse espetáculo permanente que nem sequer o vemos mais. o telefone. contrabalançada pela multiplicação de pequenas narrativas. Para voltarmos a nos dar conta disso.35 No momento da passagem à pós-modernidade. Esse espetáculo adquiriu direito de cidadania — é o caso de dizê-lo. já que essas imagens passaram a cobrir os muros da Cidade. quanto a proliferação dessas pequenas narrativas publicitárias. naturalmente. quaisquer que sejam. extremamente “irônicas”. como acabamos de ver. A pós-modernidade. a queda das grandes narrativas veio a ser. bastava postá-los diante de uma televisão sintonizada no Canal Jeune para que eles “(se) arrebentassem”. Devemos entender. por exemplo. em 2007. que sempre acabam com a exibição de seus pequenos gozos. por exemplo. que infestam amplamente o espaço privado (o rádio. das pequenas narrativas egolátricas. funcionam na base dessa inversão. caracteriza-se — e é este um de seus traços decisivos — pelo fato de não estarmos mais às voltas com uma fala proibitiva. de certa forma. a internet) e o espaço público (os cartazes e vídeos nos muros da cidade). a televisão. exaltando constantemente a mercadoria e propondo este ou aquele objeto manufaturado. intitulada “Seus filhos valem mais que isto”. proferida pelas pequenas narrativas. este ou aquele serviço mercante que supostamente satisfará todas as nossas apetências pulsionais. alho-poró na orelha e salsa no nariz). “Isto” se referia aos pais e avós idiotas com suas vãs tentativas de divertir os filhos (eles botavam. quando. escorada pelas grandes narrativas. na pornografia. essas pequenas narrativas.34 24 Todos esses anúncios “liberados” veiculam o mandamento supremo: Goze! Essa permanente incitação ao gozo coonesta o fim das grandes narrativas teológicas ou políticas que contavam na época moderna uma grande história de resgate coletivo (como o cristianismo) ou de emancipação (como o marxismo). mas com uma fala incitadora. em todos os setores. tanto a ascensão. Muitas campanhas publicitárias atuais.

Comecemos pelo melhor. um cantor famoso — não importa. lendária como a do insurreto parisiense. no sentido em que participa. ele ficou limitado às aventuras do príncipe e da princesa de Mônaco e suas filhas. pelo menos de um liberalismo . na vanguarda cultural. Ele mostrava uma sucessão de imagens representando aquela que se tornaria a nova primeira- dama da França. A pornocracia é um regime em que o corpo do rei (e o corpo da rainha) é exibido em seu funcionamento pulsional. mítica como a de Che. Quando se deu o novo casamento de nosso ex-presidente Sarkozy. Pois o que vemos nessas imagens que circularam por toda a França é manifestamente uma pessoa liberada. recebi por e-mail.convocar um grego da época clássica ou mesmo um cidadão exemplar do início do século XX. se não de uma liberação cultural. Entre elas eram intercaladas cerca de vinte fotos em que ela aparecia com seu amante do momento: um grande ator. Se ainda resta um leitor cuja representação da esquerda é feita com outras imagens — gloriosa como a do resistente antinazista. um “panorama” de aspecto perfeitamente pornô chique. Durante muito tempo. podemos falar de pornocracia. não conseguiu segurar um rompante quando recebeu a notícia do idílio entre a cabeça do poder da época (Sarkozy) e Carla Bruni. Disse: “Carla Bruni é a esquerda no topo do Estado” (Le Monde de 21 de dezembro de 2007). o corpo da rainha. Tudo isso porque. desde que ele fizesse parte do jet-set ou do meio político. conduzindo seu trator nos kolkhozes. mas se infiltrou na República Francesa. ela dissera certa vez algumas palavras em favor do casamento homossexual. o dever do autor é dizer-lhe que está muito atrasado. ao que parece. provavelmente como boa parte dos franceses. fora de moda como a do valoroso homem de ferro de colheita generosa. O sempre saltitante Jack Lang. como se sabe. elementos de pornocracia 25 Quando esse funcionamento pornográfico atinge o Estado.****** que está. Viam-se aproximadamente trinta fotografias publicitárias em que a antiga top-model posava nua em todas as posições possíveis. ver seu enrubescimento e seu mal-estar para então entender sua vergonha de estar em contato com isso.

para Marx). Por quê? Porque indica que ficou para trás o tempo em que a burguesia. se conhecia como “galinha de luxo”. mas ainda assim fino observador). Eu diria mesmo que a coisa toma impulso. primeira primeira-dama de Sarkozy. Algo aconteceu. Em suma. Prada. ela revela o princípio central que comanda o todo e que pode ser enunciado numa simples palavra: Goze. o homem das tecnoparadas e outras egoparadas — em suma. “se goza aos montes”. o certo é que não estamos mais no conservadorismo “velha França”. passamos à alcova. É parecido porque Cecília. Seu mérito é grande: com efeito. mas em versão muito melhorada. tinha indicado a tendência: ela já andava bastante às voltas com o principal concorrente de Dolce e Gabbana. vestida. 26 Tudo isso mostra que ficou bem para trás o tempo em que as senhoras da alta sociedade precisavam de todo modo manter um salão literário. agradecendo a Tia Yvonne por ter-lhes poupado esse espetáculo. como dizia o saudoso Philippe Muray (panfletário fora do comum. Mas o tempo do pudor parece ter ficado para trás. Eis aí um deslocamento topográfico que indica uma mudança filosófica importante. já não temos hoje exatamente a mesma ideia da primeira-dama da França. Houve um inegável progresso. oferecia em troca dessa punção cuidar da literatura e das artes. A Generala******* se foi e veio a ser substituída pelo que. a segunda primeira. Os filhos e filhas da velha França se berlusconizaram. e a seguinte. revelando-nos o alto de suas longas pernas. A coisa salta aos olhos: é parecido. ou seja. de tudo aquilo em que. no meio popular em que eu vivi na juventude. É bem verdade que de vez em quando podemos vê-la. teríamos de acreditar que Yvonne de Gaulle poderia ter se mostrado desse jeito! É aí que os tristes moralistas e os alegres estetas poderão se entender. Ou então. Mas é melhor porque a segunda primeira-dama da França se exibe ainda mais. graças às capas dos seus DVDs. Do salão. mas graças a Deus ainda nos resta uma coleção de imagens que ela continua alimentando.cultural… Jack Lang. saída diretamente das cenas de Dolce e Gabbana. O . Basta pensar no salto histórico que acaba de se dar entre o que representava a ex. a primeira primeira-dama da França do mandato de Sarkozy. aproveitando-se do sobre-trabalho imposto aos proletários (a “mais- valia”. ao lado da rainha da Inglaterra. Seja como for.

para que ele sinta o cheirinho (do perfume Dolce e Gabbana. nós cuidamos das coisas do espírito. A partir daí. antes de mais nada. ficar como voyeur de Carla na alcova dá muito o que pensar. nada a perder (“senão suas correntes”. então. Zeus não brincava com essa questão. que olhar. nesse mesmo texto. Se pensarmos por um momento. mas o consumidor proletarizado. mas na exibição. rapazes. em suma. o pudor. Enquanto isso. se pelo menos ele ousasse. tudo que implica algum recato diante do outro (cf. só pode ser para desafiar a lei de Zeus e instaurar uma nova religião baseada não mais no aidos. vestir-se.37 e do outro. Vocês não sabem a sorte que têm por não precisar pensar. o aidos. ou seja. pelo menos é o que espero. ainda que involuntariamente. enquanto o burguês estava incumbido da arte. mais uma vez ele). fundem o seu corpo físico no grande corpo produtivo das fábricas. alinhando. que devia ficar feliz por não ter nenhum contrapeso artístico a carregar. E a arte é uma coisa pesada. de um lado.38 E o que o hiperburguês comunica não é mais “Trabalhe enquanto eu cuido das artes”. Hoje. Na verdade. pois assim exortava Hermes. não mais o produtor.que poderia ser enunciado mais ou menos assim: “Trabalhem. como tão bem disse Marx. mas “Consuma e observe bem como é que eu gozo. sabendo-se que respeito é. vigora um novo contrato. melhor dizendo. Assim. a hiperburguesia. claro).”36 Em suma. o respeito. a propósito do seu aidos: “Faça valer em meu nome a seguinte lei: que seja morto aquele que não for capaz de participar do respeito e da justiça”. 320c- 322d). como diziam os gregos. damo-nos conta de que existem consequências políticas para o fato de a mulher do “cabeça” do Estado. mostrar o traseiro e mandar embora a vergonha. será apenas uma questão de iniciar o bom povo. desçam ao fundo das minas. 27 Pode-se ver. pornográfica como tal. . havia uma espécie de contrato social entre o burguês e o proletário. E trate de fazer o mesmo. mostrando-lhe o que poderia escancarar também para ele a porta para o progresso em matéria de satisfação de suas apetências pulsionais. na medida de suas possibilidades!”. bem que gostaríamos de estar em seu lugar. e fiquem sabendo que não é nada fácil. o Protágoras de Platão. se a mulher do chefe insiste em se despir.

vemos um ilustre desconhecido chamado Luís Capeto transmutar-se em Rei-Sol através de uma simples miragem autofundadora. peruca.39 O quadro oferece um espetáculo fascinante: nele. Pude. na medida em que utiliza o Estado residual para emitir e propagar o mandamento: “Goze!”. veludos azuis. Esse “estado do espelho real”40 bastava para provocar o olhar dos sujeitos a confirmá-lo como grande Sujeito. calções bufantes. eu aposto que podemos empreender uma analítica quase completa do poder simplesmente observando-o com cuidado. o corpo glorioso de Luís o Grande. no mesmo momento. com efeito. É bem verdade que desde então o rei morreu. mediante muitas plumas. Também é preciso observar o corpo do rei. Ela poderia ser definida da seguinte maneira: a pornocracia é a forma de governança mais adaptada à era ultraliberal. eles se situavam como sujeitados a essa autoridade. Mas não basta. lições de perversão . poderíamos dizer. por Hyacinthe Rigaud: Luís XIV em trajes de sagração. há algum tempo. Não é concebível ganhar essa batalha sem ir na direção da criação desse misto de democracia e pornografia a que dou aqui o nome de pornocracia. mas não devemos excluir a hipótese de que a exibição permanente de sua veemência pulsional acabe por agradar e mesmo por permitir aos liberais e ultraliberais liberados (sejam de direita sejam de esquerda) “ganhar a batalha ideológica” — aquela que garantiria a vitória total do liberalismo em longo prazo41. instruir-me um bocado. para o irrespeito. em 1701. Essa permanente agitação desagrada a muitos. E. O grande Sujeito foi de certa forma encolhido. o progresso estará garantido. Mas aposto que temos muito a aprender sobre o poder hoje. artisticamente dispostas pelo pintor. considerando. de tal maneira que. 28 Ser voyeur do corpo da rainha é bom. púrpuras e decorações antigas. trajes de seda. pintado. Bastaria considerar as pulsões que o agitam constantemente e que ele não consegue controlar. obtendo sua autoridade de si mesmo. considerando o corpo do atual reizinho. se você deixar a sua condição de neurótico e se encaminhar valentemente para a perversão.Em suma. a exemplo de Louis Marin. meias brancas.

porque uma Cidade que se tornou perversa não pode deixar de estabelecer uma “seleção natural” dos mais aptos a sustentar o seu ideal. políticos. com efeito. porque os indivíduos restantes. devemos assim pressupor a existência de neuróticos — ou seja. homens absolutamente comuns e mesmo “normais” — de comportamento perverso. inclusive. a exibição pública de comportamentos “culturais”. um traço constitutivo de nossa época pós-moderna: a cidade pode ser perversa sem que todos os indivíduos o sejam. Um tal poder cria então um perfeito círculo vicioso (seria o caso de dizer): quanto mais as cenas pornoizantes forem difundidas. Mas é evidente que estar mergulhado numa cultura perversa não deixa de ter consequências para os indivíduos. . ficam a cargo de indústrias (culturais) muito poderosas. a permanente difusão de autênticas lições de perversão. 32 Essas lições de perversão. Em primeiro lugar.29 Para se perenizar. serão convidados a adotar comportamentos perversos. essa pornocracia pressupõe. 31 Ao lado dos verdadeiros perversos. 30 Não devemos deduzir da propagação dessas lições de perversão que se tornem necessariamente perversos aqueles que as recebem diariamente. mais haverão de se transformar em modelos de comportamento. econômicos ou artísticos pornoizantes. Em segundo lugar. É este. longe disso. vale dizer. muitas vezes. para seguir Freud. e quanto mais forem disseminadas. mesmo não sendo perversos. mais criarão uma demanda que essas indústrias se empenharão em atender… 33 Vejamos de que maneira esse autêntico sistema de perversão pode instituir-se.

mas um simples ato ad hoc. A exemplo desse sexo cruamente exposto. no fim das contas. com sua força pragmática. de cânones estéticos. esses discursos desinibidos só valem no momento em que são pronunciados. fascinam. é “aquele que age”). por parte da imprensa. destituído. É evidente que esses discursos. um efeito perlocutório em que a fala não é mais um dito a ser situado entre outros ditos. a uma cultura saturada de princípios morais. rápida e eficaz (o actor. Mas é notável que essas lições de perversão funcionem também quando procedem de uma divulgação indignada ou de uma denúncia. pela exibição de discursos desinibidos (“sem tabu”). “Torne-se. Visam uma eficácia comunicacional imediata. mas com isto se coloca cada vez mais na . o termo é bastante interessante. utilitarista e realista. vale dizer. visando conquistar uma posição entre os que interagem e que já são apenas considerados atores — do que dá testemunho a virada pragmática atual nas ciências humanas e sociais e na filosofia. Inicialmente. Fascinam tanto quanto um sexo mostrado cruamente. já que: 1º pressupõe que os indivíduos sempre desempenhem um papel. por fascinação. na medida em que fustigam as atitudes refletidas e lisonjeiam as pulsões de poder absoluto — ainda que totalmente imaginário. como eu. assim. sobre a maioria. em latim. como os que acabo de mencionar. 34 Presumo. O que coloca hoje a imprensa numa posição delicada: ou ela não fala dessas passagens ao ato pornográficas que saturam o espaço público. 2º evoca a ação como tal. sem se preocupar com princípios e valores. “livre” de qualquer pudor cultural e podendo servir no instante. ator da sua própria vida” é exatamente a mensagem que esses discursos desinibidos parecem enviar. que esses discursos atuem. por exemplo. aspirando à verdade (o que remete ao logos). as lições de perversão funcionam. ou então fala. Como esse tipo de lisonja costuma ser eficaz. de atos sem pudor. deixando assim de cumprir sua missão de informação. de condutas éticas. E. podendo ser tanto mais importante na medida em que saibam aderir às circunstâncias e extrair o melhor partido das forças em jogo. como tal. de ideais de verdade — tudo isso depositado em dogmas pressupondo uma anterioridade que represente autoridade e alteridade. de todo valor que o remetesse a um além simbólico.

Para sua própria salvaguarda. em minha opinião. e nunca do contexto simbólico. seria ridículo que ele adotasse um funcionamento diferente. na medida em que se trata sempre do erro de uma pessoa. por sua própria teimosia ou cegueira. outrora adorados pelos avós que não tinham outro prazer senão o de gozar de indignação com a narrativa detalhada de bebês esquartejados.posição dos famosos jornais especializados em escândalos. os bons neuróticos). na simples medida em que corre o risco então de ser o único agindo assim. altruísta. mulheres violadas de maneira selvagem. Os atos que acabo de evocar podem. . é porque. jurídico ou moral que produz esses atos. parecer incômodos. é porque pressupõem. repreensíveis e mesmo inaceitáveis para a maioria (ou seja. mas nem por isso deixam de ensinar- lhes um método para se comportar no mundo. é necessário que ele adote o comportamento que atribui aos outros. os indivíduos visam sempre a maximização de seus ganhos. Costuma-se entender por isso a doutrina segundo a qual: 1º não existe nenhuma outra realidade senão a do indivíduo. Com efeito. esses fatos repetem incansavelmente a um determinado indivíduo que. a se tornar presa dos outros. muito embora não seja realmente o seu. 2º todo conjunto social não passa do resultado da ação dos indivíduos. assim. nada mais se busca nesses casos senão uma denúncia caso a caso. a indignação não representa um entrave à ampliação do alcance dessas lições de perversão. 35 Se os discursos de reivindicação e denúncia contribuem tanto para a propagação dessas lições de perversão junto à maioria. por exemplo. em ambos os casos. político. que tudo se explica pelo mesmo princípio liberal fundamental: o do individualismo metodológico. Se avalio tais procedimentos com severidade. portanto. rememora ou corresponde muito bem ao de certos jornais sensacionalistas de ontem. muito pelo contrário. como seus congêneres funcionam dessa maneira. homens ferozmente castrados — e tantas outras coisas do gênero. Na realidade. e 3º em suas trocas com os outros. o que haveria de condená-lo. Bastaria algumas observações para mostrar que o conteúdo de boa parte dos jornais televisivos atuais evoca.

mas como uma causa permanente de entrave. assim. constatado desde George Orwell. não é mais entendido como condição da própria realização. insatisfação. mesmo. já que os “decentes comuns” são incitados a adotar um comportamento que não é necessariamente o seu. e ter sabido fazer. você é minha vítima 37 . a síntese dessas três regras. é necessário: 1) estar sempre afirmando os próprios direitos contra o outro — o que gera a regra nº 1 que se impõe de maneira lógica a todo indivíduo vivendo nesse regime democrático pós-moderno: não existe um limite para os meus direitos. Parece-me ser esta a melhor explicação para o recuo. propondo uma nova máxima. é necessário e suficiente que o outro seja minha vítima.42 Podemos dizê-lo de outra maneira: a common decency não representa um anteparo sólido contra as lições de perversão. para que tenha todos os direitos. desapossamento. que poderia ser enunciada da seguinte maneira: para que eu não seja vítima do outro. 36 Basta darmos um passo a mais para que se revele ao indivíduo assim pervertido o princípio que regula o espaço no qual ele deve viver: a democracia não passa do lugar onde estamos em permanente concorrência com os outros. portanto. por assim dizer. da common decency (a “decência comum”). para que assim seja definida minha irredutível identidade. esse “senso moral inato” que supostamente deveria incitar as pessoas simples a agir bem. complicação e. vítima do outro. uma metamáxima. O gênio de Sade foi ter entendido que isso não poderia deixar de acontecer se fosse permitido que os princípios liberais baseados no egoísmo chegassem a sua conclusão. 3) defender-se constantemente da ascendência real ou suposta do outro — o que gera a regra nº 3: sou sempre. 2) buscar um enraizamento identitário inabalável — do qual se deduz a regra nº 2: preciso provar de forma absoluta que sou essencialmente diferente do outro e que ele nada me pode trazer. O alter ego. antes mesmo que a coisa acontecesse. real ou potencialmente. Para enfrentar essa fatalidade.

Resulta daí uma cruzada pornográfica visando um público tanto maior. Esta metamáxima sadeana é compartilhada. exibição de atitudes políticas ou econômicas obscenas. referindo-se aos jovens que aterrorizam e assaltam: “São nossas vítimas. científico…). de Saint-Ange se dirige à mãe de Eugénie. sejam da esfera do “empresariado vigarista”. quando dizem sem pestanejar. quando a Sra. como . nos dias atuais. todo sujeito é firmemente convidado a praticá-la. em nome de uma liberação sexual libertária. Os jovens “vândalos” das periferias pelo menos têm o mérito de assumi-lo sem rodeios. da canalha política ou da pequena delinquência. como partilham da mesma regra sadeana. se assemelham. estejam ligados ao establishment ou pertençam à margem. Os três grupos que acabo de mencionar são. descolado. programas de televisão berlusconizantes. da moda. discursos da ciência política higienista liberal eventualmente coroados por uma festa do orgasmo (data recentemente criada no Brasil)… Essas lições de perversão. político. 7º diálogo). assim. visam criar uma espécie de repertório de gestos sexuais de base supostamente comuns a todos os seres “normais”. constantemente destiladas. portanto. A partir do momento em que a pornografia se torna pública e coletiva. 38 A atual incitação pornográfica de massa é múltipla: publicidade. na medida em que ela alterna diferentes estilos de linguagem (grosseiro.É necessário e suficiente que o outro seja minha vítima. É verdade que se opõem. mas. canções. a Sra. aqui. muito menos antagonistas do que parecem. humorístico. discursos das ciências sobre o sexo. informações permanentes sobre a vida sexual das celebridades. por exemplo. É desse modo que. sua puta! Vou acabar por lhe ensinar!… Para nós você é uma vítima enviada por seu próprio marido” (A filosofia na alcova. de Mistival. pelos diferentes meios sociais predadores. clean. Não surpreende. dizendo-lhe: “Ouça. artes de demonstração das pulsões.44 educação sexual segundo a internet. que muitas vezes vejamos aquele que pretende acabar com a delinquência******** agir ou reagir ele próprio como um delinquente. se constrói uma nova normatividade em que o coletivo está constantemente intervindo no privado.”43 Eles não sabem que estão dando novo uso à palavra em vigor em Sade. músicas.

E. podemos dizer que o sadismo. como se todo prazer pressupusesse uma ejaculação. quanto sua desaprovação nas épocas anteriores. não pode. pois nesse caso atropela minha liberdade absoluta nesse terreno. deixar de participar de uma vontade de codificar e formatar essa pulsão. apresentando-o paradoxalmente como virtuoso. que surgiu no fim do século XVIII. O do egoísmo. Tentarei mostrar que resulta diretamente de uma postura filosófica e moral assumida em torno de 1700 que aposta de maneira impudente e imprudente num princípio. Exatamente por isso é que o gozo dos outros não deve ser exibido. Nessa medida. como tantas vezes se pensa. Sade foi o único que compreendeu aonde isso podia levar. Como se toda sexualidade pressupusesse um orgasmo. É pretender esquecer que a verdadeira liberdade. ele vem de longe.se se tratasse de exercícios de ginástica. portanto. é aquilo que diz a verdade da doutrina liberal elaborada no início do mesmo século. 39 De onde sai esse mundo obsceno em que nos encontramos? Teria surgido. ao longo dos últimos 40 anos. no entanto. marcados pela virada pós- moderna na cultura e pela ascensão do ultraliberalismo na economia? Não. De muito mais longe. . do self-love. foi que a pulsão pode tomar os caminhos mais inesperados para alcançar seus objetivos — por isso é que a sexualidade humana é fundamentalmente impossível de codificar. que corresponde a uma intrusão de poderes com sua normatividade pretensamente “libertária” no encontro sexual privado. com vistas a sua exploração em grande escala. de preferência facial. se não mais. em matéria sexual. uma pornografia pessoal com seu ou seus parceiros. do qual o pensamento liberal fez seu credo central. Essa banalização da pornografia está produzindo tanto sofrimento. sempre foi poder inventar. O estabelecimento dessa relação direta entre o liberalismo e o sadismo é uma hipótese que nunca foi sustentada com seriedade. e assim por diante. bons para a saúde. que então se lançava à conquista do mundo. ou julgar que era possível inventar. que eu saiba. A incitação pornográfica de massa. Se Freud nos ensinou algo. Está aí o gênio do Divino Marquês: ele foi o primeiro a extrair as consequências e desvendar todas as implicações do princípio liberal baseado no egoísmo.

logicamente — sadeano. pelas atuais avaliações bem comportadas de Sade. Esta última tese. no fim do século XVIII. já que este. em função do desmoronamento do Antigo Regime e do surgimento balbuciante de um novo mundo. A hipótese de um vínculo estreito entre o sadismo e o liberalismo não é levantada. . uma hipótese nova que será proposta. se quis inteiramente disponível para transcrever a insurreição física de um corpo superexcitado por causa do aprisionamento. possibilitada por um pensamento que. e. não parece mais tão “súbito” a partir do momento em que é associado ao surgimento do pensamento liberal do início do século XVIII. alguns graves atos atentatórios ao outro. naturalmente. naturalmente. da tortura e do assassinato. em sua obra. Mas a hipótese segundo a qual o sadismo decorre do liberalismo tampouco foi expressa pelos que viram o sadismo como súbita manifestação de um “bloco de abismo”47 que repentinamente permitiu que viessem à tona. é muito mais séria que a primeira. sobretudo. para não falar de outros “detalhes” do mesmo tipo. a apologia do incesto. o elogio sadeano da sodomia — que hoje em dia é de bom tom celebrar — e de bom grado esquece-se o resto: em sua vida. é mencionado. mais se torna — e só poderia mesmo tornar-se. mas esquece que o surgimento de Sade. retomando os textos fundamentais do pensamento liberal. invertendo o curso da metafísica ocidental.45 Destacou-se em especial o grande conhecimento que Sade tinha da filosofia de sua época. portanto. Uma exploração sistemática das paixões. Mas sem prestar particular atenção à possível continuidade entre a filosofia liberal e a filosofia de Sade. podendo ser assim enunciada: quanto mais o mundo se torna liberal. já que os homens podem chegar a gozar com o que há de desumano nelas. Nada comparável tampouco nas considerações atuais sobre Sade. por causa dos carolas da época. as paixões humanas em sua ambiguidade fundamental. tratará precisamente de apostar na liberação das paixões — é o que vamos acompanhar aqui.46 Em matéria de ninharias. que se limitam a deplorar que o pobre marquês tenha passado 27 anos na prisão por algumas ninharias. É. pela primeira vez. Os que adotam esta posição simplesmente não conhecem nada da fantástica radicalidade e negatividade de Sade. dos quais nossa época felizmente se teria livrado.muito se disse e escreveu sobre Sade desde que ele foi progressivamente tirado do inferno das bibliotecas a partir da década de 1950.

no Théatre des Doms. incluindo a gestão dos próprios prazeres. que no momento em que publicava sua Riqueza das nações (1776). 40 Durante um encontro com Jean-Claude Michéa e Jean-Pierre Lebrun. Sade seria provavelmente o único a ver em nossa época a confirmação do seu gênio. E chegamos à conclusão de que. baseado como tal na liberação das paixões e pulsões. a propósito de nossos respectivos trabalhos sobre o pensamento liberal. ou melhor. expondo uma ética egoísta. Para convencer-se disso. todos sabem já agora que é possível fazer um uso político e/ou um uso pessoal. só pode desabrochar em sadismo. Quero dizer muito mais: o liberalismo. em três patamares. Em suma. em Avignon. Sade…). ou seja. é verdade que de maneira algo contrariada. Não quero dizer apenas que o libertino é primo-irmão do liberal. na medida em que havia perfeitamente visto. ainda apostava num certo altruísmo. de maneira a construir a genealogia e mostrar os efeitos da irresistível ascensão do princípio egoísta no Ocidente Moderno. como ele está constantemente assinalando em seus textos. apresentados numa progressão cronológica. eles provavelmente ficariam muito surpresos com o mundo atual e assustados com os efeitos e as consequências de seus discursos. se por um milagre fossem tirados de sua hibernação os grandes pensadores do século XVIII que apostaram no princípio egoísta (Bernard de Mandeville. previsto. sem demora levado a ocupar todo lugar em detrimento de qualquer outro. menos um: Sade. fazendo a defesa e ilustração do princípio altruísta. . com efeito. Adam Smith. Todos. Sade. basta pensar em Adam Smith. Isso já sabemos desde o século XVIII: da liberdade que se afirma. 41 Este livro é organizado em três partes. A maioria. ficariam todos consternados com o triunfo absoluto do egoísmo e a derrota do altruísmo. reeditava também sua Teoria dos sentimentos morais. de maneira a despertá-los bruscamente de seu longo sono egolátrico. o nome de Sade naturalmente entrou na discussão. até onde poderia levar a introdução do princípio egoísta. Benjamin Constant. em maio de 2008. mas efetiva. De todos os liberais ou libertinos do século XVIII.

com Klossowski. Bataille. Tentaremos mostrar seus avanços. Depois. com o envolvimento de questões da maior importância para o momento presente. O primeiro patamar situa-se no século XVIII. O terceiro patamar situa-se hoje. . Tentaremos mostrar que a explosão sadeana do fim do século XVIII é uma consequência lógica e direta da reflexão iniciada um século antes pelos mais rigoristas dentre os teólogos: os agostinianos (jansenistas e calvinistas). Trata-se de uma questão carregada de consequências. na França. destinada hoje a uma brilhante carreira. Identificaremos aí essa figura decisiva do pensamento liberal em formação. Retornaremos a alguns textos marcando as décadas de 1950 e 1960 a propósito de Sade. Blanchot e Lacan. Inicialmente nos Estados Unidos. Tentaremos distinguir as diferentes características da Cidade perversa em que vivemos atualmente. O segundo patamar situa-se entre 1929 e a década de 1960. hoje em dia. a do perverso puritano. abertamente. de forma mascarada já a partir da crise de 1929. pois esses obstáculos nos impedem de enxergar com clareza no plano ético (na dosagem entre as máximas kanteanas e as máximas sadeanas) e no plano político (o que implica um funcionamento cada vez mais libidinal do capitalismo desde 1929). Vamos nos questionar sobre o retorno de Sade. mas também seus limites.

deputada da “esquerda unitária europeia” no Parlamento europeu. finalmente. pois abarca todos os aparelhos que emitem um sinal bluetooth. o gokkun. 5São dados de difícil obtenção. para impregnar as roupas.) **** Tocadilho com a expressão popular “passer à la casserole”.) *** “Rochedo” é o nome dado a um tipo de bombom de chocolate. (N.T. dupla ou tripla penetrações. cada membro da rede pode saber onde se encontra outro membro.T. sexuais). mas agora os homens são dotados de feromônios eletrônicos (cabe lembrar que os feromônios são substâncias químicas emitidas pela maioria dos animais e que transmitem. disponível no site do Parlamento. 4 Sejamos precisos: além das clássicas orgias e gang bangs com as habituais simples. da R. que consiste em recolher o esperma num recipiente para ser bebido pela pessoa. se for em público.) 1 Trata-se de uma expressão de Sade bastante conhecida.) ******* Referência a Yvonne. do T. com suas preferências (entre outras. O poder de Aka-Aki parece ilimitado. utilizada na época da Revolução Francesa. Iluminuras. do T. O trabalho mais preciso de quantificação é . informações entre os indivíduos de uma mesma espécie. por dois motivos: 1º Essas atividades. existe o bukkake. apesar de muito disseminadas. úteis sobretudo na atração sexual). pouco depois de assumir o cargo.T. e mesmo mais. em fevereiro de 2008. (N. consiste em penetrar a vagina ou o reto da parceira (ou parceiro) com o punho. aparelhos de GPS dos carros… O reino animal tinha os feromônios químicos. São Paulo.T. da R. (N.Notas * Resposta extremamente grosseira (equivalendo a algo como “Se manda. são mantidas em relativo sigilo.) ***** O equivalente da rede Globo no Brasil. no qual um grupo de homens ejacula sucessivamente numa pessoa (homem ou mulher). ou então a pessoa se solta. 1999.T.) ** “Con” é um palavrão que designa o sexo feminino. O fisting. de preferência no rosto. computadores. impressoras. O ondinismo tem a ver com a urina: ela é bebida diretamente na fonte. da R.) ****** Jack Lang foi ministro da Cultura dos governos de esquerda durante muito tempo e caracteriza uma política cultural do tipo festivo. (N. Existe uma variante. que equivale à conotação sexual de “comer”. Nicolas Sarkozy. de preferência discretamente. Desse modo. a alguém que recusou seu aperto de mão enquanto caminhava e cumprimentava os passantes no Salão da Agricultura. 2 Quando dois membros da rede Aka-Aki fornecem seu “perfil”. (N. do T. que era conhecido na França como “o general”. Diálogo V). mulher de Charles de Gaulle. (N. que é atualmente a norma em telefones celulares. seu babaca”) dada pelo presidente da França. (N. 2º mobilizam redes paralegais ou ilegais. da R. 3 Definições precisas dessas atividades podem ser consultadas no excelente relatório sobre as indústrias do sexo redigido por Marianne Eriksson. muitas vezes pelo olfato.) ******** Referência ao ex-presidente francês Sarkozy. da R. (N. seus telefones celulares tocam quando estão num raio próximo. Ver edição brasileira: (Filosofia da Alcova.

Nova Cultural. o capital dos bancos deve ser constituído de cerca de um dólar para cada 12 dólares de crédito. estão sendo processados desde 2007 por supostos delitos de informação privilegiada. S. Ela decorre em linha direta das três concupiscências a que se referia o apóstolo João: a cobiça dos olhos. entre eles o ex-presidente Noël Forgeard. O juiz Van Ruymbeke.. se for eliminado o juiz de instrução. 16 Cf. 9 de março de 2009. São Paulo. 2004). conceder até 32 dólares de crédito por um dólar de capital! 13 Trecho do relatório de 5 de junho de 2008 da Comissão de Finanças. o pré-relatório sobre a reforma dos procedimentos da fase preparatória do processo penal. sexe et spiritualité dominent le marché des programmes”.J. mas eles são legião: dezesseis diretores do grupo EADS. que é um magistrado . São Paulo. Esse relatório. Rachida Dati. referente a uma etapa. 2002. em obediência ao desejo manifestado por Nicolas Sarkozy a 7 de janeiro. tradução de J. 9 O que ficou perfeitamente demonstrado na bela exposição montada no Louvre em 2000 por Régis Michel (curador): Posséder et détruire — stratégies sexuelles dans l’art d’Occident. redigido pelo alto magistrado Philippe Léger e apresentado na segunda-feira. mediante diferentes procedimentos. 1999. 12 Pelas regras clássicas.o do sociólogo e antropólogo canadense Richard Poulin (Universidade de Ottawa). As finanças de mercado. de onde foi extraído o montante aqui citado (cf. São Paulo. cuja independência permitiu a instrução de muitos casos. e A. defendida por Keynes. o relatório da comissão presidida pelo alto magistrado Jean-Marie Coulon. por terem vendido stock-options em 2005 e 2006. disponível em http://www. 15Cf. não necessariamente o mais convincente.assembleenationale. 7 Santo Agostinho desenvolve essa análise no livro X das Confissões. a cobiça da carne e o orgulho da vida (Primeira epístola de João. Ottawa. Prostitution. 12 de abril de 2008. traite des femmes et des enfants. Escala.pdf. Oliveira Santos. mas o processo parecerá emblemático em matéria de comportamento financeiro nos círculos dirigentes. Paulus. Economia Geral e Planejamento da Assembleia Nacional (sob o lema “Liberdade — Igualdade — Fraternidade”). Ambrósio de Pina. Edição brasileira: Confissões. pornographie. É verdade que o caso ainda não foi julgado. tradução de Antonio Carlos Braga. 11 Citarei um único exemplo. 14 Essas políticas fiscais se inspiravam em escolas do pensamento econômico ultraliberal favorecendo a “economia da oferta” contra a “economia da demanda”. 2:16). L’Interligne. no máximo. entregue em 20 de fevereiro de 2008 à ministra da Justiça da época. S. 8Existem mais de 300 ocorrências dessa palavra em Kant. diante da Corte de Cassação. e Fundamentação da metafísica dos costumes e outros escritos. Edições brasileiras: Crítica da razão prática. num momento em que disporiam de informações sobre as perspectivas financeiras pessimistas do grupo e os atrasos nos programas A380 e A350. 2006. 6Ver a pesquisa de Guy Dutheil intitulada “Jeux. La Mondialisation des industries du sexe. comporta como medida principal a eliminação da figura do juiz de instrução. muitas delas na Crítica da razão prática e nos Fundamentos da metafísica dos costumes. segundo se estimou. Le Monde. permitiram a seus agentes.J. não se enganava: “A eliminação do juiz de instrução será o fim dos escândalos […] Amanhã.fr/13/controle/Synthesenichesfiscales. 10 A média da remuneração anual dos dirigentes das quarenta maiores empresas francesas chegava a 40 milhões de euros por cabeça.

os jatos particulares. Como certos Durcet de nossa época foram arruinados pela crise. Le Monde. Ficamos sabendo que as luxuosas propriedades muito bem guardadas. “Testimony of Dr Alan Greenspan”. encore un effort pour être républicain!” 18 Vale lembrar a declaração de Michel Rocard. 21Sobre a perversidade em Sade. 23 de outubro de 2008. abordaremos a conversão envolvendo a libido sciendi. a valsa das prostitutas e as drogas faziam parte do universo cotidiano de uma parte considerável do mundo da alta finança em que evoluía esse herói de Wall Street. por exemplo. Pode-se ler. disponível em: http://oversight. Os maiores economistas se calam. Dominique Strauss-Kahn. A ex-juíza Éva Joly. . soubemos que nossa intuição sobre a ligação entre liberalismo e pornografia era correta. tradução de Fátima Andrade. estampadas no sério diário madrilenho El Pais (4 de junho de 2009). Paris. No sistema preconizado pelo presidente da República. A verdade é que misturar créditos podres a outros. 1º de novembro de 2008). por meio da titularização. 1996. em crime contra a humanidade” (cf. o autor retoma o texto de Sade. 20Todos os textos de Sade aqui citados podem ser consultados (em francês) na internet. O que eles fazem redunda. assumiu posição semelhante. definida como o fato de obedecer sem reservas ao imperativo “Gozar!”. Cf. Max Pilo. Le Monde de 10 de janeiro de 2009. no auge da crise: “O que impressiona é o silêncio da ciência. 22 Mas hoje já sabemos um pouco mais a respeito. livro IX. 24 A República. vendo-se nus de uma hora para outra. edição brasileira: O lobo de Wall Street. afetando segundo ele até 20% dos protagonistas do setor. Logo que a edição francesa deste livro foi publicada. é roubo. o magistrado encarregado de conduzir as investigações estará subordinado ao poder Executivo.house. 17 Novamente. Kimé. e para as quais eram recrutadas escort girls (prostitutas). Existe um excesso de reverência à indústria da finança e à indústria intelectual da ciência financeira.pdf. parafraseando o original: “Français. às vezes. Os políticos falam apenas de finanças. 23Neste prólogo. o relato das edificantes aventuras do trader arrependido Jordan Belfort (Le Loup de Wall Street. os helicópteros. o FMI. Planeta.com. menores de idade. 580e. E não têm coragem de dar nomes aos bois. São Paulo. 2008.000 dólares por minuto à frente da financeira Statton Oakmont. por ter desnudado para o mundo inteiro suas tendências sadeanas ao ser preso em Nova York por agressão sexual em 14 de maio de 2011. Paris. sem que o saibam.sade-ecrivain. ver os notáveis trabalhos de Philippe Mengue L’Ordre sadien.gov/documents/20081023100438. As precauções de vocabulário são indecorosas. que ganhava até 1. Professores de matemática ensinam aos alunos como dar golpes na bolsa. 2008). Indicarei depois das citações o título da obra e o capítulo. Na primeira parte. Designar corretamente as coisas permite aplicar a sanção. Sr. como fizeram os bancos. abram a boca. que sabe do que está falando.” Consequências dessa reforma: fortalecimento “dos poderes do ministério público e da polícia” e fim “dos escândalos político-financeiros”. especialmente em www. 19 Cf.independente. Elas teriam sido tiradas durante “festas” que transcorriam em “ambiente desinibido”. Committee of Government Oversight and Reform. pode acontecer que. Razão pela qual o autor agradece penhoradamente ao diretor da maior instituição financeira do mundo. os iates. esses escândalos serão encaminhados a um magistrado do Ministério Público. que depende diretamente do poder […]. Os mesmos odores sadeanos se desprendem das fotos tiradas na luxuosa villa de Berlusconi na Sardenha. vamos ater-nos à conversão recíproca da libido sentiendi e da libido dominandi. Loi et narration dans la philosophie de Sade. Cabe notar que os direitos de adaptação do livro acabam de ser comprados por Martin Scorsese.

32 Disponível em: http://www. 30 Entrevista com Tim Walker no Le Monde de 26 de julho de 2008. por exemplo. Edição portuguesa: Fundamentação da metafísica dos costumes. Flammarion. “como o excremento é seu primeiro presente.” Ela se caracteriza por ser “anticultivada”.” E o faz escorando-se no “repugnante mau gosto do . 116. Edições 70. PUF. Edição brasileira: O Seminário. Paris. Jorge Zahar. edição brasileira: A condição pós-moderna. Le Seuil. Soudain un bloc d’abîme. sua queda marcava a entrada na era pós-moderna (cf. 2002. Sade. Rio de Janeiro.-F. p. Paris. livro XVI [1968-1969].fr/videos/universal-forfait-bloque-au-lit.25J.” Isso significa que tudo seria selvagem na terra dessa hiperclasse? Não: “A nova superburguesia se pretende humanista. de que se tornava objeto passivo todo aquele que não as controlasse.. p. intitulado “Nascimento da hiperburguesia”. 2011. Le Divin Marché (Paris. Rio de Janeiro. quando Freud escreve: “As relações entre os complexos aparentemente tão disparatados do interesse pelo dinheiro e da defecação se manifestam profusamente”. citações extraídas de La Vie sexuelle. 2002. Paris. p. edição brasileira: O divino mercado.html. 207. psychose et perversion. no qual é analisada a maneira como os gregos consideravam as paixões. mais visível. 189 e seg. Lyotard. por exemplo. Para ele. “Ce que ‘ça’ veut dire”. De la jeunesse et des générations. 15 e seg. Paris. J. “Por quê? Porque. Ela cultiva um fascínio selvagem pelas formas ostentatórias do único valor de dominação: ter algo maior que o vizinho. universalista e multirracial. José Olympio. Le Seuil. 35. Lisboa. Garnier-Flammarion. 1968. Paris. as dos fotógrafos Steven Meisel e Terry Richardson. 1997. “o interesse centrado no excremento é transportado para o interesse pelo presente e depois pelo dinheiro”. 26Immanuel Kant. 1979). Pauvert. 33Cabe notar que a agência publicitária Saatchi & Saatchi ganhou o Grande Prêmio “Estratégias de marketing dos jovens 2008 — Televisão” por esse anúncio e outros do mesmo tipo. Minuit. o sociólogo Denis Duclos assim definia essa nova classe: “A hiperburguesia [privilegia um] sistema de valores centrado na predação rápida. 36 Jean-Claude Milner o explicou muito bem num livro intitulado Le Salaire de l’idéal — La théorie des classes et de la culture au XXe siècle. 28 O que se constata perfeitamente aqui. 2008. cf. Fondements de la métaphysique des moeurs [1785]. D’un Autre à l’autre. 37 Num notável artigo publicado no Le Monde diplomatique em agosto de 1998. dos ianomâmis aos pigmeus. 16: de um outro ao outro. Le séminaire.culturepub. 35 Devemos esse conceito de “grandes narrativas” ao filósofo Jean-François Lyotard. livro. 2008. La Condition post-moderne. Ela ostenta bons sentimentos e uma extrema generosidade em relação ao exotismo ameaçado. Companhia de Freud. 2009). Paris. 34Ver o implacável comentário de Bernard Stiegler em Prendre soin: Tome 1. infinitamente mais caro. Pretende ter superado a questão étnica. 29 Permito-me remeter a um fragmento de meu livro anterior. 2006. Denoël. a hiperclasse funcional recusa o que freia a mudança dos valores atribuídos pelos seres humanos a seus objetos […]. Sigmund Freud. PUF. de estética igualmente sadeana. 2004). Paris. mais bem protegido. Rio de Janeiro. etc. sendo o valor supremo a ação com capitais capazes de mudar a riqueza de continentes inteiros. e Névrose. Lacan. para citar apenas eles. [a criança] facilmente transfere o interesse dessa matéria nova que se lhe apresenta na vida como o presente mais importante”. p. 31Existem outras. 27 Annie Le Brun. tradução de Procopio Abreu. Paris.

2005. 2009). Assim é que. 43“Vítima”. p. Flammarion. essa liberdade política e cultivada de toda classe dirigente civilizada. Paris. Até Élisabeth Roudinesco. Mas ainda encontramos melhor que isso: Sade seria um patusco que nos faz . reunindo textos capazes de ofender o pudor dos leitores. Eles passam o tempo todo lançando uns aos outros. une histoire des pervers. tornou-se por demais presente” (cf. edição brasileira: A cultura do narcisismo: a vida americana numa era de esperança em declínio. 1970. Voltarei a esta questão viva na segunda e na terceira partes do trabalho.folha.” 38 O tema da proletarização do consumidor está na ordem do dia desde os trabalhos do sociólogo e filósofo Jean Baudrillard (La Société de consommation. A questão foi recentemente retomada e levada a novas consequências por Bernard Stiegler. On achève bien les hommes. foi retomado recentemente com extremo cuidado por Bruce Bégout. II: “A construção do grande Sujeito real”. 2006. mas aquele que antecipadamente lhes permite rejubilar-se pelas agressões que lhe infligirão. D. Albin Michel. o afirmou. Lisboa. Galilée.uol. de fortuna. tradução de Artur Mourão. 41 Um sinal recente aponta nessa direção: a vitória e reeleição nas eleições europeias de 2009. jornal Folha Online em www1. Rio de Janeiro. Paris. com o filme intitulado Na cama com Madonna (1991). 16 de março de 2005). Imago. Paris. Le Monde. Vendaval. 46 Dizer que o Divino Marquês passou a metade da vida na prisão por causa de ninharias é algo corrente hoje. num artigo lúcido e desabusado.-R.br). de grande difusão. 2008). 2 e 3. Denoël. Edições 70. 1983). Rio de Janeiro. 6 de julho de 2009. ao que parece. a historiadora da psicanálise. vemos a cantora lançar mão de uma garrafa e mostrar com grande empenho como pratica o blow-job (felação). 40 Ibidem. existe: é uma coleção de obras constituída no início do século XX. De la décence ordinaire. na nova língua sadeana dos jovens delinquentes. como adolescentes. 2008. não designa mais aquele que deve ser socorrido. tradução de Ernani Pavaneli. “Les Européens ont voté pour que la crise continue”). Paris. Court essai sur une idée fontamentale de la pensée politique de George Orwell. Edição brasileira: Suportar a morte de Deus. Jorge Zahar. entre outras proezas. 2006). do historiador e sociólogo americano Christopher Lasch (La Culture du narcissisme [1979]. Paris. numa feira do livro no Brasil em julho de 2008 (cf. O que levou Michel Rocard a dizer. Podemos ouvi-lo inclusive da boca de psicanalistas “esclarecidos”. O jornalista Luc Bronner revelou essa característica em sua reportagem sobre os ataques de jovens marginais contra os colegiais que se manifestavam nas ruas de Paris (cf. 39 Cf. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. 1998). das forças liberais que provocaram a crise. Nele. que “os eleitores europeus [pelo menos os que votaram] mostraram seu apego ao modelo do capitalismo financeirizado. e do sociólogo americano George Ritzer (Tous rationalisés — La macdonaldisation de la société [1993]. quando apresentava seu mais recente livro (La Part obscure de nous-mêmes. no prelo. 2007. cap. tradução de Carlos Correia Monteiro de Oliveira. A expectativa de lucros na bolsa. edição portuguesa: A sociedade de consumo. Dufour. nesse terreno. Le Monde. 44 Uma virada pornô foi dada. edição brasileira: A parte obscura de nós mesmos: uma história dos perversos. Elas são identificadas pelo prefixo na lombada: ENFER- [inferno].acumulador e ao mesmo tempo [na] fúria lúdica de abolir as preciosas aquisições do otium. provocações vulgares que os fazem morrer de rir. 2004-2006 (edição portuguesa: Descrença e descrédito — a decadência das democracias industriais. em Mécréance et discrédit 1. que voltou a ser honrado nos trabalhos de Jean-Claude Michéa.com. Paris. 45 O inferno da Biblioteca Nacional. 42 Este conceito orwelliano. 170 e seg. Paris. em plena crise financeira. Alban. Allia. Lisboa. Gallimard. vemos a cantora evoluir em meio a sua equipe artística. de fato.

para encenar uma adaptação teatral do texto de Sade A filosofia na alcova. Gallimard. Que contrassenso! Qualquer um que tenha lido Sade com seriedade jamais acreditou que fosse possível rir com a leitura de seus textos. .rir. Sade. em 2008. Foi o ponto de vista adotado por Christine Letailleur. no texto de apresentação. que “os personagens discorrem com leveza e damos boas risadas com eles”. Assim é que ficamos sabendo. Soudain un bloc d’abîme. 47 Refiro-me ao magnífico trabalho de Annie Le Brun. 1986. Paris.

DE PASCAL A SADE .1 O século XVIII A GRANDE REVIRAVOLTA DA METAFÍSICA OCIDENTAL: GENEALOGIA DO PRINCÍPIO PORNOGRÁFICO.

pois Agostinho é simplesmente o inventor do conceito de “pessoa”. de fato. foi por ser praticamente perfeita. 43 Se a alternativa de Agostinho prevaleceu durante muito tempo. foi por ser apenas quase perfeita. Santo Agostinho. baseados em dois amores muito diferentes: o primeiro procedendo do “amor de Deus levado até o autodesprezo” (Amor Dei usque ad contemptum sui). até o fim do mundo. para que o si mesmo abrace o si mesmo. ele negligencia um detalhe — que se revela no momento em que ele afirma a necessidade do “autodesprezo”. lugar de confronto de dois grandes reinos possíveis. É estranho. Portanto. ele deveria ter entendido que nenhuma confissão é possível se o si mesmo não ouve o si mesmo — “ouvir” no sentido de “compreender”. ou seja. Isso lhe havia permitido constituir. 28). é necessário que o si mesmo se ame suficientemente. Conhecemos. com sua interioridade. dizia que a Terra seria. de certa maneira. É esse “detalhe” que falta na elaboração agostiniana sobre o amor sui. E se acabou por se desfazer. Caso contrário. a história que o Pai da Igreja contava sobre si mesmo: ele dizia ter conhecido na juventude momentos de tormento e conflitos internos dos quais havia saído vitorioso. e mesmo uma religião: era necessário que a Terra se afinasse com as leis da Cidade de Deus. O si . e o segundo. através do magnífico texto de introspecção que são As Confissões. E. ela seria apenas a Cidade do diabo. do “amor de si mesmo levado até o desprezo de Deus” (Amor sui usque ad contemptum Dei). em outras palavras. “abraçar com o pensamento” . texto escrito no início da decadência do Império Romano. no Ocidente. uma convicção. um dos principais Pais da Igreja Latina. “tomar com”. que esteja sujeito ao amor de si mesmo.42 Em A Cidade de Deus (XV. Ora. por volta do ano 400.

A partir do momento em que for descoberto. que se compara. Eu diria. que a proposição disjuntiva de Agostinho (amor Dei versus amor sui) é justa… com a ressalva de um detalhe. pois esse sentimento. é necessário e basta. As Confissões. ainda que minúscula. é possível distinguir “as paixões suaves e afetuosas (que) nascem do amor de si mesmo e as paixões odiosas e irascíveis (que) nascem do amor próprio” (ibid. que diz respeito apenas a nós. cidadão de Genebra. que viria quatorze séculos depois corrigir o mestre. Freud faria posteriormente desse amor de si mesmo um elemento indispensável para a constituição subjetiva. . também exige que os outros nos prefiram a eles. subtrair ao polo do amor próprio o que diz respeito ao amor legítimo de si. não retornaria à toa em suas obras ao título famoso de Agostinho. o que é impossível”. portanto. será introduzida a paixão por si mesmo. Não cabe naturalmente a nós dar essa lição a Agostinho. aos poucos. criado por calvinistas na cidade de Calvino. Com essa condição. é indispensável. Jean-Jacques Rousseau. (que) fica satisfeito quando nossas verdadeiras necessidades são atendidas” e “o amor próprio. Uma parcela de amor de si mesmo. aos nos preferir aos outros. Só aos 58 anos. a remanejamentos consideráveis.mesmo não pode ser inteiramente objeto de desprezo. Disso se encarregou um outro agostiniano. é que ele introduziria o narcisismo na psicanálise. tal como definido por Rousseau. É verdade que também ele terá hesitado muito. chegando ao domínio do outro. quando grande parte de sua teoria já estava construída. Um detalhe que funcionará como calcanhar de aquiles em seu belo sistema.49 Lacan precisou apenas retomar e reelaborar o avanço freudiano: com o famoso estado do espelho é que ele assinará sua entrada na psicanálise. portanto.48 Em suma.). esse sistema será potencialmente derrubado: em nome do cuidado legítimo consigo. Para que a disjunção agostiniana funcione. Ele o faria para deixar claro que nem tudo no amor próprio é impróprio e que ele deveria ter distinguido entre “o amor a si mesmo. o que o obrigaria. quando a batalha entre amor Dei e amor sui estava no seu auge. não está contente e não poderia ficar. a oposição dos dois princípios é das mais esclarecedoras para entender as evoluções da aventura humana.

o outro é rival de Deus […]. que poderíamos qualificar de civilizacional. diz ele. invejoso. como não ver que essas duas expressões serão muito explicitamente reivindicadas. Essa preocupação. um. às vezes. Não podemos deixar de ver. denunciando. inclusive. que cada um desses dois princípios pode engendrar. no horizonte ocidental. para substituí-los por simples termos éticos que relançam o debate filosófico: si mesmo/outrem. pela simples força do pensamento e da dedução. o grande filósofo.”50 É naturalmente em observações dessa natureza que aparece. com antecipação de mais de mil anos. como diríamos hoje. Tão grande que é capaz de levar o teólogo a renunciar aos termos religiosos. manifesta-se claramente com dois outros termos pelos quais ele. algo parecido com uma formidável intuição do bispo de Hipona sobre nada menos que o destino do Ocidente. o caso Sade. nessa passagem. um dia. voltado para os outros [por este motivo é chamado de socialis]. um cuidado político que se manifesta. impuro. falar da oposição entre um amor socialis e um amor privatus. “um é santo. apesar de tão reverenciados. amor Dei versus amor sui amor socialis versus amor privatus 44 Se essa oposição entre amor Dei e amor sui importa tanto. um se preocupa com o bem de todos. Com efeito. o outro. por trás do teólogo e do religioso. às vezes. em vista de uma dominação arrogante. ele pode. “Desses dois amores”. um é amistoso. que pudesse aparecer um dia. o outro quer submeter o outro por seu próprio interesse. o outro. É. é porque Agostinho se preocupa com o tipo de socialidade ou de cultura. por volta do ano 400. por um certo Sade? Como se Agostinho tivesse concebido. No lugar da oposição entre amor Dei e amor sui. a “dominação arrogante” e a vontade de “submeter o outro por seu próprio interesse” que daí poderiam resultar. centrado em si mesmo [donde privatus]. o outro chega a subordinar o bem comum a seu próprio poder. um quer para outrem o que quer para si mesmo. um submete-se a Deus. o outro. a conversão da filosofia puritana em filosofia… puta 45 . substitui os da primeira oposição. se a expressão não fosse anacrônica.

enfim. Teremos então passado. baseando-se na concupiscência. entre 1643 (morte de Luís XIII) e 1795 (fim da Convenção). 46 É essa reviravolta que vamos acompanhar neste capítulo. moral e. que restaria apenas a Sade. Ela se faria nele de uma maneira extremamente contrariada e dolorosa. em que surgiu a ideia espantosa de que o mundo poderia ser rearranjado. para mostrar que a perversão ordinária e tudo que a acompanha hoje em dia (sadismo e pornografia ordinárias) não caem do céu. econômico. para melhor. Progressivamente. político. um princípio pornográfico que faria escola. se o remetermos a . extrair todas as consequências filosóficas e éticas dessa ênfase que passou a ser dada à concupiscência e ao amor de si. Mas o impulso será dado e não deixará mais de contribuir para a criação de novas convicções em todos os terrenos: religioso. o amor de si será tirado de sua proibição e reconsiderado. consubstancial ao amor de si.A solução agostiniana prevaleceu durante mais de mil anos. doloroso. com quem começa essa reabilitação. O que tende a confirmar a lei segundo a qual sempre chega o momento em que os filhos matam o pai — no caso. contra toda expectativa. um dos principais Pais da Igreja. Mostraremos. se assim se pode dizer. inicialmente os jansenistas (de obediência católica) e depois os calvinistas (de obediência protestante). É o que acompanharemos passo a passo a partir de Pascal. tal como foi construído na Europa por volta de 1700 — digamos. É notável que a questão tenha sido reaberta pelos meios agostinianos do século XVII. recalcado. o surgimento de uma Cidade perversa na qual devemos agora viver. reprovado. Isso resulta do desenvolvimento do programa liberal. Mandeville e. para ficar nos referenciais franceses. Trataremos assim de localizar esse momento surpreendente em que a filosofia puritana dá à luz. em seguida. como veremos ao acompanhar seu destino a partir dos seguimentos que Pierre Nicole. só podemos compreender o que nos acontece hoje. da filosofia puritana à filosofia puta. um século depois de Pascal. Acompanharemos a demarche pascaliana para localizar o momento furtivo. Adam Smith dariam a esse princípio. Em outras palavras. Pierre Bayle. mas efetivo. finalmente.

esse amor próprio se estendeu e extravasou para o vazio que o amor de Deus deixara. e a todas as coisas para si. depois. Do que dá testemunho este trecho de Pascal: Deus criou o homem com dois amores. resultando da chegada do amor de si ao primeiro plano. está presente em todos os agostinianos. a paixão dos sentidos e da carne e a paixão de dominar (libido sciendi. libido dominandi). infinitamente. pois o próprio princípio em que repousa essa metafísica é que foi então invertido. o outro por si mesmo. vejamos: antes. 47 No fragmento 458 dos Pensamentos. ele só seria concebível baseado no amor de si (amor sui). 48 A oposição entre dois amores.51 . mas nem por isso deixa de ser perfeitamente adequada. em consequência de seu pecado. vale dizer. libido sentiendi. sem nenhuma outra finalidade senão o próprio Deus. e que o amor por si mesmo seria finito e remetido a Deus. em detrimento do amor de Deus: a paixão de ver e saber. mas com a lei de que o amor por Deus seria infinito. e como o amor por si mesmo continuou sendo o único nessa grande alma capaz de um amor infinito. O homem nesse estado não só se amava sem pecado como não podia deixar de se amar sem pecado. o mundo só era possível baseado no amor de Deus (amor Dei). o homem perdeu o primeiro desses amores. Ele era natural a Adão e justo em sua inocência.esse momento de total reviravolta da metafísica ocidental. e assim ele amou só a si mesmo. o amor Dei e o amor sui. Desde então. mas se tornou criminoso e imoderado. A análise decorre em linha direta do livro X das Confissões de Santo Agostinho. Eis a origem do amor próprio. Se não. ou seja. Pascal enumera três concupiscências (“três rios de fogo que abrasam a terra”). que já mencionamos. com a chegada do pecado. A formulação pode parecer um pouco enfática. um por Deus.

toda vez que for retomada a questão dos dois amores. por volta de 1700. é necessário trocar uma peça para consertar uma avaria. não raro mais adequada.”52 Ela é assim enunciada. e que em . e assim sucessivamente. sem provocar uma grita geral. Permito-me acrescentar a seguinte variante: em nenhum porto é encontrada exatamente a mesma peça. Voltamos a encontrar aqui a velha questão conhecida desde os gregos. ou se são dois barcos diferentes. De tal maneira que no fim da longa viagem tudo terá mudado. 49 Bastará aqui identificar alguns desses pequenos deslocamentos entre os mais significativos para avaliar o caminho que terá levado fatalmente. se preferirem. Ele era natural a Adão. a cor terá mudado. mas efetiva. não poderemos ver a nuance. parecida. Mas o fato é que. Ela consiste em adicionar. do amor próprio. marcando assim sua fidelidade às posições agostinianas defendidas por Port-Royal. do branco ao negro. o amor próprio é rigorosamente condenado por Pascal. Em cada porto em que o navio dos argonautas ancora. um toque imperceptível de negro ao branco puro inicial. só depois — depois da queda — tornou-se criminoso. portanto. do primeiro ao último tempo. Mas podemos observar que essa proibição absoluta dissimula uma concessão importante do filósofo ao amor próprio. nada ou quase nada terá mudado. é saber se o barco do início e o da chegada são o mesmo. Se destaquei essa concessão menor e secundária. terá contribuído para conduzir a uma realização progressiva e insensível. em geral classificada em filosofia da seguinte maneira: “O problema do navio Argo. foi porque ela me parece significativa do próprio tipo de passo que. do amor Dei ao amor sui. o navio Argo 50 Existe um método infalível para passar do puro ao impuro ou. ou só muito pouco. A questão. por mais insignificante seja.Neste trecho. Assim. Da mesma forma do segundo tempo ao terceiro. mas outra. mas afinal de contas total. do primeiro ao segundo tempo.

vale dizer. e mesmo num outro completamente diferente. Mas hesito entre duas formulações possíveis: 1º Como foi que os agostinianos nos embarcaram na questão do amor próprio? 2º Como os agostinianos embarcaram eles próprios na questão do amor próprio? 51 A travessia começa. enunciar pela primeira vez o princípio do raciocínio por recorrência. Pascal redigiu Ensaio sobre as cônicas contendo o que viria a ficar conhecido pelo nome de “teorema de Pascal”. em 1634. Roberval. além de Descartes. cerca de trinta anos mais velho que ele. permitindo enfrentar a questão principal — dar continuidade à viagem. O grande filósofo e cientista está atormentado. O trabalho era de tal maneira precoce que Descartes. ele próprio cientista em constante intercâmbio com os principais cientistas da época. Parece-me que esse pequeno apólogo permite reformular nossa questão inicial. Essa variante permite fazer uma estranha constatação: é possível partir num barco e.todo caso pode substituir com vantagem a peça de origem defeituosa. conceber a mecânica dos fluidos e dela extrair imediatamente aplicações práticas tão decisivas para o futuro quanto a imprensa hidráulica e a seringa. hoje considerada o antepassado do computador. Pois é necessário ser sujeito a escrúpulos para compor. para inventar aos dezenove anos uma calculadora mecânica (conhecida como “Pascalina”). Desargues. Mydorge e Gassendi. julgou que fosse da autoria de seu pai. Pascal perverso? . chegar num outro. aos onze anos. lançar as bases (com Fermat) da teoria das probabilidades…53 De tal maneira que até os mais avisados se surpreenderam: aos dezesseis anos. contribuir para o desenvolvimento do cálculo infinitesimal. com Blaise Pascal. É possível mesmo que todo o seu gênio decorra desses movimentos da alma que o levariam constantemente ao exame e ao reexame. inventar a geometria projetiva. portanto. um Tratado dos sons dos corpos vibrantes e demonstrar a 32ª proposição do livro primeiro de Euclides. Mersenne. postular a existência do vazio e verificá-la experimentalmente. sem mudar de barco.

derrubar”). inverter”. e. é preciso estar constantemente discriminando. que vem de scrupus. portanto. Existe o calculus. como tal. Com a obsessão. “pedra pontuda”. no mundo do cálculo. desfaz as séries e causa embaraços. entre os pequenos seixos. A esse tipo de escrúpulo que . que remete ao “seixo que serve para contar”. são constantemente retomados para compor um enorme catálogo de ideias feitas. na medida em que está sujeito a uma bela perversão.52 Podemos aqui enunciá-lo de forma menos descritiva e mais analítica: o que Pascal pretende é subverter as massas. Em suma. Essa perversão o incita à subversão (o dicionário Robert atribui aos dois termos o mesmo significado: “perversão” vem de pervertere. neuróticas. e “subversão”. no sentido de que se sabe afetado por uma das três concupiscências sobre as quais tão bem escreveu: o desejo de saber. sobretudo. ele inverteria a metafísica ocidental. Não importa que todos esses conhecimentos se tenham tornado falsos ou estejam em falso: como tranquilizam os neuróticos. Talvez possamos entender melhor seus mecanismos se lembrarmos que “cálculo” pode ser dito de duas maneiras em latim. Vou então me alinhar. de não serem incomodadas. 53 Para assumir essa postura. Embora Pascal seja considerado um filósofo puritano por todo o planeta. que Pascal pagaria por essa postura subversiva ou perversa o preço de crises de angústia recorrentes. de subvertere. “inverter. que giram em círculos sem sair do lugar. a da libido sciendi. o fato é que ele se pensa perverso. é necessário que Pascal viva num outro mundo. “embaraço. em sentido figurado. aqueles que impedem a serialização. diferente do mundo comum: o mundo do cálculo. Sabe-se. não é possível fazê-lo sem estar sujeito a escrúpulos. a libido sciendi — para não falar das duas outras. E existe o scrupulum. que se organizam bem (em série) e existe a pedrinha pontuda que impede de caminhar. Na verdade. muito embora utilizem sempre o mesmo método escolástico superado e repitam ad libitum e ad nauseam as mesmas verdades aristotélicas obsoletas. contra o planeta inteiro. e isso em todos os terrenos. Ora. incômodo”. Eu o reconheço como um belo perverso. há séculos. “derrubar. com a posição pascaliana. naturalmente. Para bem calcular. existem os seixos.

aceitando o que é falso ou mentiroso. a vontade do homem sem a ajuda divina só é capaz do mal. Só a graça pode salvá-lo. cálculo e escrúpulo 54 Mas também é possível ser escrupuloso de uma outra maneira. o Discurso da reforma do homem interior (1628) e o Augustinus (1640). Essa graça é irresistível. pessoais…)”. desde que obedeça ao credo comum. desde a queda. cujas circunstâncias. O impulso para isso seria dado em 1646 por um encontro decisivo. remetendo o termo a uma “tendência a julgar com rigor o próprio comportamento (segundo critérios religiosos. como tal.obriga o estudioso a imaginar constantemente uma possível boa serialização. apesar de fortuitas. que acaba de deslocar uma das pernas. que raramente deixou o grande escrupuloso sem sofrimentos físicos e mentais. o escrúpulo pascaliano adquiriria uma configuração religiosa54. o amigo de Cornelius Jansen (Jansenius). mas não é concedida a todos os homens e depende apenas da vontade de Deus. que trata das questões da graça. parecem de certa maneira esperadas pelo jovem. a se levantar à noite para eliminar o escrúpulo. e conhece dois médicos jansenistas chamados à cabeceira de seu pai. Muito cedo. e não as baixas satisfações humanas. Pascal constantemente conversa com eles durante os três meses de duração do tratamento do pai. Ali se afirma que. a estar constantemente pronto para receber enfim a visão ou a intuição da bela série. a elevada vontade divina. Em suma. Pascal tem vinte e três anos. levando-o a preferir o deleite celeste aos pequenos prazeres terrestres. é preciso estar constantemente trabalhando para identificar e subverter todos os lugares do saber pouco escrupulosos. morais. vale dizer. A postura pascaliana permitiu magníficas infrações. Mergulha nos livros que lhe são emprestados. Os dois são discípulos do abade de Saint-Cyran. que pode ser bem circunscrita por esta definição do Robert. E se entusiasma com os textos de Cornelius Jansen. . provocada pelo pecado original. resultando num “mal nervoso” recorrente. sociais.

“purificar” e “reparar”. eis um verbo muito interessante. Le Robert) “pagar por…. 56 Uma vez efetuada essa conversão ao amor de Deus. Devemos entendê-la como uma conversão que o leva a passar do amor de si ao amor de Deus. quase sempre com um sentimento de culpa”. Ele existe desde o século XIV e significa ao mesmo tempo (cf. portanto. suas pernas e seus pés ficam constantemente frios. levado por essa forma de concupiscência ligada aos pequenos prazeres do espírito e da vã razão. 55 Acontece que essa conversão. A primeira exigência continua marcada pelo pecado do amor próprio do homem. que decide então entrar para a religião — projeto a que se opõe o pai. De fato. Mas assim que se manifesta a remissão. ele é acometido de enxaquecas e dores abdominais. Aposto que a boa compreensão deste verbo pode contribuir para decifrar processos neuróticos. o que precisa ser contornado com a ativação da circulação sanguínea. E o conseguirá com o brilho que o caracteriza: acometido de um ataque de paralisia. ele só consegue mover-se com a ajuda de muletas. Essas diferentes enfermidades o deixam suscetível a uma profunda . mas livrar-se das máculas da humanidade é outra. entre eles a irmã mais velha. mesmo bem-sucedida. Ele começa então a usar meias embebidas em aguardente. nos quais o pequeno sujeito se coloca sob o olhar do grande Sujeito. Só a segunda está verdadeiramente voltada para o amor de Deus. não apaga o pecado. Desse período data a “primeira conversão” de Pascal. Com isso. Pascal sente a necessidade de se distanciar da atividade científica. Esse continua sendo uma mácula que deve ser expiada. de expiar seu amor próprio excessivo. Pascal comunica seu entusiasmo aos parentes. sujeita à libido sciendi. Pascal terá. liberar a ciência do peso morto de Aristóteles e libertar a filosofia dos raciocínios escolásticos é uma coisa. Jacqueline. “Expiar”. sofrer as consequências penosas de…. muito mais exigente e exaltante.

E veio a morte. de um lado. e assim sucessivamente. sujeito a bruscos acessos de cólera. Examinemos rapidamente os detalhes. de vivenciar seus efeitos em si mesmo. de outro. E vice-versa. mas não chegaria a alcançar a compreensão da mecânica das pulsões e da mecânica do motor de dois tempos. prazeres fétidos 59 A saída do período expiatório ocorre em 1648. o vício inerente ao amor sui. um retorno ao que mais tarde viria revelar-se parte integrante dos “prazeres fétidos. E é bem o caso de dizer vice-versa.hipocondria que afeta seu temperamento e sua filosofia: ele se mostra irritável. Uma oposição tão dinâmica que poderia funcionar como um motor de dois tempos: o excesso de uma acarretaria o retorno da outra. Não só. ainda mais virtuosa. a alternância dinâmica entre amor Dei e amor sui foi perfeitamente respeitada. provocaria um desejo de vida mundana. Mas isso não o impediria. tornando-se um crítico virulento dos pequenos prazeres do ego. já que temos. 58 No caso de Pascal. 57 Pascal pode ter inventado a mecânica dos fluidos. entregando-se a todo tipo de cálculos matemáticos e experiências físicas. da glória e das . Ainda faltam dois séculos para que elas comecem a ser apreendidas. que por sua vez não poderia deixar de suscitar uma segunda conversão. algo viciosa. Ele empreende então uma outra reconversão. novamente. Pascal se transformaria no campo de uma franca oposição entre amor Dei e amor sui. O que pode ser dito de outra maneira: a primeira conversão de Pascal. Normal. vale dizer. como ainda lhe é necessário tentar esquecer suas dores. a virtude que procede do amor Dei e. ele cede a sua libido sciendi. Pascal volta ao mundo. muito pelo contrário. até a morte. eminentemente virtuosa.

Para isso. em 1651. Sua morte. E frequenta a sociedade. puderem ser exploradas e. Se não. Estranho que o pai esteja sempre envolvido nessas conversões e reconversões. É importante dar-se conta do alcance dessas atividades na época: é o capitalismo que está sendo inventado. que duraria até 1654. conclui um tratado sobre “a gravidade da massa de ar”. nomeado governador da região de Poitou. o havia atirado à religião. os quadrados mágicos. e compõe uma obra de epistemologia. Vamos encontrar apenas terrível depravação e perversões caracterizadas: Pascal efetua experiências sobre o vazio e as publica. E Pascal participa. perfeitamente audível na . o atirará ainda mais. a hidrostática. vamos encontrar o duque de Roannez. a geometria das cônicas. escreve a irmã caçula. amigo de infância. concebe a “grande experiência de equilíbrio dos licores”. Vai então se atirar numa vida mundana bem movimentada. a teoria dos partidos. vendidas. protesta e resiste. em 1651. para se recolher à vida religiosa. Mulheres. em 1646. mas acabará concordando. conduz vários trabalhos sobre a análise numérica. Os membros da sociedade. com vários criados. Gilberte. se interessam pelas excepcionais competências de Pascal em matéria de hidráulica. e a relata num tratado. Um investimento capaz de gerar benefícios substanciais quando as terras. O melhor ainda está por vir: ele aluga uma casa bem mobilada. Pascal. O espírito geométrico. aterradas. vejamos. com efeito. e se dirige a Paris numa carruagem puxada por quatro ou seis cavalos.56 A querida irmã tem razão. Em destaque entre os homens cultos. O duque o introduz numa sociedade que tem como objetivo nada menos que o aterro do enorme pântano da região. Vemos aqui o quanto esse capitalismo surge da libido dominandi relativa à vontade de poder e dominação. portanto. na qual formula as regras gerais da demonstração… Seria tudo? Não. seria necessário dotar- se de recursos financeiros novos — como os da sociedade por ações. conhecida hoje como “experiência de Puy de Dôme”. os lugares planos e sólidos. a perspectiva. inclusive sobre a natureza. “Foi a época de sua vida mais desperdiçada”.55 Essa virada é acentuada pela morte de seu pai em 1651.delícias” do amor sui. Jogadores. naturalmente. a três léguas de Paris. Homens cultos envolvidos em negócios. Pascal finalmente se vê só. naturalmente. garantia de sucesso dessa operação técnica de engenharia civil de dimensões inéditas para a época. montada pelo duque de Roannez. A irmã Jacqueline partiu para Port-Royal. O acidente do pai.

Denis Sanguin de Saint-Pavin. é preciso garantir o cotidiano. uma espécie de prospecto avant la lettre. a “pascalina”. fragmentos 553 e 887). Pascal aproxima-se. outros círculos ainda mais libertinos: o do senhor Des Barreaux. no Discurso do método: será necessário. na famosa Muse historique. por exemplo. Ora. Entenda-se. apregoando suas qualidades. que digam respeito aos costumes. Esse divertimento mundano. burgueses curiosos ou pequenos nobres. os libertinos. o libertino Damien Mitton (do qual haveria de tratar nos Pensamentos). entre as pessoas frequentadas por Pascal. que podem então ser postas para frutificar de outras maneiras. Escrevem. Praticam a arte da conversa refinada. Nessa oportunidade. por exemplo. interessadas em experiências variadas. grande epicurista e poeta — Pascal também falaria dele nos Pensamentos. por isso. conhecidos no círculo do duque de Roannez. além de seus atrativos imediatos. às vezes. Além disso. inventa técnicas audaciosas que prenunciam a publicidade moderna. nas pequenas sociedades financeiras geridas pelos amigos. assim. Instruem-se. Méré e Mitton também frequentam. a classe de pessoas abastadas. também se encontram. Em suma. em que Loret publica seus versos mal rimados. já agora.exortação formulada por Descartes. compra uma loja no Mercado do Trigo. Leem. por sinal. O comércio surge então como a solução para enfrentar esses problemas de tesouraria: Pascal tem a ideia de tentar comercializar sua máquina de calcular. do cavaleiro de Méré e seu amigo. Divertem-se. alguns anos antes. O duque de Roannez e os que frequentam seu palacete são “homens cultos”. oferece a vantagem de poder eventualmente gerar somas apreciáveis. E o cotidiano é a necessidade de sustentar um trem de vida bem oneroso. ao pensamento ou à busca de um maior bem-estar. conhecido como “príncipe de Sodoma”. que os homens se façam “senhores e possuidores da natureza” — um Descartes que também seria eventualmente acusado por Pascal de ter cedido à libido sciendi: ele “aprofunda demais as ciências” (Pensamentos.57 E. . Mas se trata de um bom investimento apenas a longo prazo. no lugar da atual Bolsa de Comércio em Paris. as partidas são tanto mais interessantes na medida em que são interessadas. Chega-se inclusive a falar dele nas gazetas mundanas. Alguns são apaixonados pelo jogo. Para isso. esse Des Barreaux é amante de um outro poeta libertino transgressor. “o maior libertino da época”. redigindo um “aviso necessário” sobre a máquina aritmética.

as amizades. Mas dá para sentir. os negócios. Como se o importante. . Os biógrafos são discretos a respeito. E. qualquer atividade. Para Mitton.”61 É provável que. É. de fato. o comércio. O que abre para Pascal um campo de pensamento considerável. presta-se perfeitamente a uma atividade mental de segundo nível. para sair vitorioso e aumentar os ganhos dos amigos. durante essa época mundana. do que veio a ser enunciado como “problema das partes”.58 mas também dados. assim. por exemplo. tampouco se joga sem esperar algum benefício. assim que Pascal o entende ao escrever um trabalho intitulado Alea Geometria. o elogio. se não se elogia sem interesse. “Geometria do acaso”. “como os jogadores devem dividir o bolo de apostas de acordo com as chances de cada um. que as mulheres não estão longe. mais difícil. às vezes. De modo que tudo converge e tudo se interpenetra nesse período mundano de Pascal: o pensamento. com efeito. pois ele encontra aí a possibilidade de estabelecer algumas leis a respeito de algo que parece não ter nenhuma: o acaso. de encontrar eventualmente um procedimento matemático. além de seu forte atrativo e seus possíveis interesses. o jogo. Se não como realização carnal. do qual surgiu o cálculo de probabilidades. pelo menos como preocupação tangível. ou seja. que os negócios do espírito são convocados pelo jogo. De modo que eles jogam: sobretudo o jogo de cartas da zanga (sobre o qual o cavaleiro de Méré escreve um livro). conseguir duas vezes seis? Ou então. gamão… Ora. estão mesmo bem perto. pois o mesmo acontece com os negócios pura e simplesmente. que consiste em compreender como apostar e conjeturar com maiores chances de possível ganho. o dinheiro. se tiverem de abandonar o jogo sem ter terminado?”60 — trata-se aqui. simplesmente. cento. Mas não só eles. com efeito. ainda que gratuita.59 Os problemas levantados são extremamente práticos. sobretudo. Por exemplo: “Em quantos lances se pode esperar fazer ‘banca’ com dois dados”. fosse não tocar na lenda do santo homem. deve poder render alguma coisa: “Os homens nunca elogiam gratuitamente e sem interesse. Parece evidente. É necessário que daí extraiam algum bem ou que a coisa custe algo àquele que se dispõem a elogiar. Trata-se. É exatamente o que afirma o amigo libertino de Pascal. as sociedades financeiras… Faltam apenas as mulheres. do tipo “double up”. o jogo.

Os espíritos têm suas ligações que. dando-lhe tempo para respirar em repouso. ao longo de cinquenta páginas. a presunção de um grande amor de Pascal pela senhorita de Roannez. considerando que nunca se deve deixar uma bela sem seu galanteador.62 Nelas. sobretudo. descasca. Charlotte. esteve em Clermont. E. fazem as do corpo. Jean Mesnard. deveria ter examinado. por sua própria preocupação de exaustividade. além disso. no período de 1665-1666. O bispo Valentin Esprit Fléchier. temos a menção de um ato jurídico de 1652 sobre um possível casamento de Pascal. o Discurso sobre as paixões do amor. muitas vezes. Inicialmente. e que era amada por pessoas que assim também eram consideradas. O Sr. e um outro estudioso estavam constantemente junto a essa bela estudiosa.63 . cerca de quinze anos antes. todas as fontes possíveis. Ele se aproveitava então dos momentos em que seus dois rivais não estavam junto a ela e vinha fazer-lhe a corte depois deles. Mesmo depois de a investigação parecer concluída. escrevendo a respeito em suas Memórias sobre os grandes dias da Auvergne. Talvez a prima de Charlotte. Marie Béraudin. que trata o amor-paixão como superação da razão — o que não deixa de evocar certos fragmentos desenvolvidos mais tarde nos Pensamentos. Temos também um texto ardente atribuído a Pascal sem provas concludentes. [Um terceiro apaixonado] julgou-se no direito de participar. contudo. o biógrafo. a propósito do amor divino. Fléchier evoca a certa altura a viva lembrança deixada por uma senhorita que. que morava no palacete dos Roannez. que certamente não é nenhum Bossuet. Pascal. Jean Mesnard dá a entender de repente que… se não fosse ela. achando que não se poderia ser considerado um espírito esclarecido sem amar uma senhora que também o era. E finalmente existe o boato que Jean Mesnard. talvez fosse outra. concluindo que… nada se sabe. que desde então ganhou tanta reputação. mas não deixa de ser um dos grandes predicadores do século XVII. era conhecida pelo belo codinome de “Safo da região”: Essa senhorita era amada por todos os espíritos esclarecidos. irmã do duque.

entre todas as coisas que podiam contribuir para fazê-lo amar o mundo. só pode regozijar sua irmã Jacqueline: Ele veio ver-me [em setembro de 1654] e se abriu a mim de uma maneira que me causou pena. que eram muitas. naturalmente. mas que. Sabemos. Pascal é então roído pela culpa — o que. ele era de tal maneira solicitado a deixar tudo isto. Jacqueline insiste no fato de que o irmão “manifesta há mais de um ano um grande desprezo pelo mundo e uma aversão quase insuportável a todas as pessoas que nele se encontram”. As diferentes perversões a que Pascal se entrega — é pelo menos o que ele pensa — constituem invocações do momento próximo e inevitável em que ele terá de sofrer as consequências penosas de seus atos. justamente.64 fogo 61 A expiação vem lá de dentro. assim como pela reprovação contínua que lhe era dirigida pela consciência. estava numa tão grande entrega a Deus que não sentia a menor atração por esse lado. que Pascal foi vítima de um grave . 60 Está tudo preparado para que o motor de dois tempos volte a ser ativado.Devo esclarecer que as experiências físicas conduzidas na Auvergne foram tão fortes que Pascal julgou-se na obrigação de escrever… um Relato da grande experiência de equilíbrio dos licores. que se via desligado de todas as coisas de uma tal maneira que nunca acontecera parecido […]. sob a forma de um acidente. confessando-me que em meio a suas ocupações. e às quais tínhamos motivo de julgá-lo muito apegado. Por exemplo. e também por uma aversão extrema que tinha às loucuras e divertimentos do mundo. por outro lado. mas também pode vir de fora.

A 23 de novembro de 1654.* Um pouco de história para situar o termo. começando com as seguintes palavras: “Fogo. Amém. para concluir com uma citação do Salmo 119-16: “Não esquecerei estas palavras. Pascal tem uma intensa visão religiosa que logo descreveria numa nota breve destinada a ser guardada em segredo. não [o Deus] dos filósofos nem dos estudiosos…”. Deus de Abraão. Mas o “sint-homem”. Leclaire. Nesse sistema. mas são muito coerentes com a dinâmica pascaliana de alternância entre o amor sui e o amor Dei.acidente no fim de 1654. dominadas por uma das três concupiscências. mas fica inconsciente durante quinze dias. costurando-o na bainha de seu manto. os cavalos mergulham por cima do parapeito da ponte de Neuilly. que . e à qual ele daria o solene título de Memorial. Submissão total e suave”. que puxa esse neurótico na direção do que ele considera perversas passagens ao ato. característico do neurótico. Pascal se salva. para que chegasse ao nosso conhecimento. Deus de Jacó. Nele. Foi necessário que um empregado descobrisse por acaso esse documento essencial. o famoso psicanalista. entre dez horas e meia e meia-noite e meia. Serge Leclaire. estando Pascal em sua carruagem com os amigos. que vem a ser? É uma invenção de Lacan. Num belo dia de 1992. 62 Começamos a conhecer os termos que se alternam no motor de dois tempos pascaliano. Num dia sombrio do início de novembro. 63 O santo homem. confidenciou-me que suspendera sua análise com Lacan no dia em que ambos se haviam dado conta de que era ele. tudo bem. e continuando assim: “Renúncia total e suave. o neurótico deve sofrer tanto quanto o perverso tiver gozado. Os fatos não foram comprovados (Jean Mesnard não tem certeza). é necessário que o santo homem seja submetido aos sofrimentos da expiação tantas vezes quanto o “sint- homem” tiver desfrutado de uma satisfação pulsional. após sua morte. ainda que sublimada. o amor Dei. Da mesma forma.” Ele esconde cuidadosamente o documento. O veículo fica equilibrado sobre a beira da ponte. alterna-se com o amor sui. e haveria de transferi-lo de uma roupa a outra até a morte. Deus de Isaac.

É perturbador vê-lo.”65 Esse fragmento aparece no momento em que a criação verbal de Lacan.66 Entre essas fulgurâncias. a teoria tomista da claritas afirma que o objeto revela sua essência ao se tornar a própria coisa — é isto a “epifania”. tentando dar língua às tripas. cultivam algumas repetições psitácicas). Para Lacan. com efeito. ocorrida durante o seminário sobre Joyce. Teríamos então de supor que Pascal-o-santo- .68 Lendo o seminário de Lacan. Esse sintoma transformou-se então em sinthome. isso permitiria distinguir Pascal-o-santo-homem de Pascal-o-sinthome. E. nós atados. corpo às palavras. no lugar do percebido. o santo homem (são Tomás). o “primeiro dos lacanianos”. para explicar que escrevia por “epifania” (aparição). de fato. tudo num ambiente de expressões que podemos temer definitivamente incompreensíveis (existem naturalmente aqueles que fingem entender tudo e que. poderosas fulgurâncias baseadas em jogos de linguagem. empenhado em continuar produzindo psicanálise. com clivagem. depois. assim. Não excluo. Com efeito.67 Lacan. retomando algumas de suas construções e de seus deslizamentos paronímicos. nunca deixou de fornecer fragmentos de análise de Lacan. jogou “à moda de Joyce”. pois Pascal. O que diz Leclaire a Lacan. em francês arcaico). seguindo as regras do jogo. para prová-lo. o que corresponde a uma espécie de “redenção pela obra de arte” — o que representa uma saída possível para os psicóticos. das quais Pascal bem poderia ser um caso prototípico. está dividido entre um santo homem (às voltas com o pecado) e um sinthome (no qual o pecado se inverte em efeitos de criação). Mas. marca da psicose) em obra de arte. vem socorrer Joyce para transformar seu sintoma (a forclusão do “Nome-do-Pai”.estava analisando Lacan. é o mal-entendido que domina. incluo sua declinação do “saint homme” como “sinthome” (“sintoma”. acabamos entendendo que a palavra “sinthome” é inferida a partir do santo homem são Tomás [saint homme saint Thomas] de Aquino. Leclaire. na época dos últimos anos de ensino deste último vale a pena: “Hoje você agarra com todas as mãos cordas e tripas para dispor dos nós com outras finalidades que não o estrangulamento das vozes. ao qual Joyce se referia muito. torna-se cada vez mais desconcertante: silêncios. em seus últimos seminários. O termo seria útil em Pascal. a possibilidade de que essa diferença possa servir para informar formas de perversão ordinárias. embora se trate de coisa muito diferente de uma criação tendo ao fundo a forclusão do “Nome-do-Pai”. de certa maneira. Tudo leva a crer que.

O de Pascal — é o sentido da análise que estamos levando a cabo. mas não se mencionou muito de que maneira esses irredutíveis inimigos também eram irmãos: os primeiros sofriam com a presença do vício na virtude. Pascal. no sentido de que elas surgem ao primeiro como marcadas pela passagem ao ato perverso.homem é aquele que sofre com as obras produzidas por Pascal-o-sinthome. em vigorosa luta interna. Ele tentará transformar sua solução de compromisso numa lei para a Cidade. mas total. antes de mais nada. O grande pensador. de um sujeito que em si mesmo é disputado pelo bem e o mal sem fim nem solução. O que designa. famoso diretor de teatro contemporâneo francês. . Acontece que Stéphane Braunschweig. É daí que data o início da reviravolta progressiva. enquanto o puritano suporta o perverso. vale dizer. O que corresponde perfeitamente a uma divisão entre um Pascal puritano e um Pascal perverso. da metafísica ocidental. um sujeito tal que o perverso por ele abrigado desfruta sadicamente do neurótico puritano. 65 A partir de 1660. Dois nomes próprios marcam essa virada. É esse sujeito dividido que se lançará à conquista do mundo por volta dessa virada de 1660. o perverso puritanismo 64 Vemos aqui estabelecer-se uma figura que terá um grande futuro: a do perverso puritano. está ligado ao mundo jansenista. A mais frequente consistirá em afirmar que o bem decorre do mal. o personagem apresentado pela primeira vez por Molière em 1664. portanto. O famoso personagem de ficção veio a ser identificado com os meios jesuítas. E o de Tartufo. terá início a conquista sistemática e metódica do mundo pelo perverso puritano. Mas a expressão também designa o sujeito que terá sido obrigado a encontrar uma solução de compromisso para aplacar esse conflito. Muito se escreveu sobre o confronto das duas correntes. dele desfruta masoquisticamente. Trata-se. os segundos batalhavam para tentar construir uma articulação inédita entre esses dois planos.

E decorre de um novo contato com Port-Royal-des-Champs (um retiro no início do ano de 1655). perfeitamente contemporânea. Isso significa que Sade também seria marcado pelo puritanismo? Sade perverso: todos reconhecem. o que mudou o curso de sua vida. Para constatar que estávamos trabalhando na mesma figura.72 Ora. não conseguiu escapar inteiramente do esquema cristão. Sade realizaria a inversão da metafísica ocidental concluindo esse ciclo. já que o novo convertido lá encontra “Senhores de Port-Royal”. Na melhor das hipóteses. a do perverso puritano — no fim das contas. Mas não saiu dele. Por quê? Simplesmente porque Sade. Mas puritano? E. Klossowski observa com razão que. 67 Voltemos a Pascal. por exemplo. no entanto. iniciado por volta de 1660. o martírio sem fim de Justine. exceto os grandes perversos. Foi uma grande intuição de Klossowski ter notado que o sadismo tinha a ver com “uma inspiração quase jansenista”. Ela é marcada por um abandono quase completo da sua libido sciendi matemática. decorre diretamente de um esquema cristão no qual o inocente pode (ou quer) sacrificar-se pelo culpado. já que os dois constantemente opunham o amor Dei ao amor sui. Klossowski o demonstrou perfeitamente ao dizer que o texto sadeano continua marcado pela oposição absoluta entre o bem e o mal.70 O que poderia ser dito de outra maneira: Pascal com Sade.71 particularmente Antoine Arnauld e Pierre Nicole. pela convergência perversa puritana. é muito provável. inverteu-o. não obstante seus meritórios esforços. grandes pensadores jansenistas. Cartas escritas [sob o nome] de Louis de Montalte a um provincial amigo e . 66 Pouco mais de um século depois. a virgem pura de virtude indefinidamente ultrajada. Pascal aceita desempenhar esse papel e publica regularmente.69 O que significa que estava na ordem das coisas que nos encontrássemos. A segunda conversão de Pascal ao amor Dei é radical. a partir do início de 1656. esses entram em choque com a Sorbonne dominada pelos jesuítas e procuram um defensor.trabalhava em sua fascinante encenação de Tartufo no momento em que eu escrevia estas linhas sobre Pascal.

em busca de apoio. a escola jansenista de Port-Royal seria condenada e fechada. Entretanto. Pascal hesita até o momento em que o acontecimento lhe surge como um sinal de que Deus aprova seu combate. aluna em Port-Royal. Como o milagre é contestado pelos inimigos de Port-Royal. Têm grande difusão nos meios religiosos e cultos. em 1670. Pascal começa por reunir notas sobre os milagres em geral. e o papa emitiria uma bula condenando os jansenistas como heréticos. com o simples objetivo de justificar proposições morais particularmente laxistas. 68 . a maneira de reconhecê-los e de discernir seu significado. apesar do anonimato. P. Esse trabalho ocupa os quatro últimos anos de sua vida. A Santa Espinha é aproximada do olho da doente. o jesuíta Fabri suspeita de que seria Pascal o autor das Provinciais. Escritas em cumplicidade com Arnauld e Nicole e apresentando informações muito precisas. P. jesuítas a propósito da moral e da política desses padres. Esse método particularmente popular entre os jesuítas é acusado de recorrer a raciocínios tão contorcidos quanto inúteis. Os médicos constatam a cura. Pascal desmonta a casuística com grande causticidade. Um acontecimento inesperado viria encorajá-lo nessa luta. Mas seu projeto transforma-se e adquire considerável amplitude: a reflexão de Pascal se estende ao conjunto da História Santa e ao estudo moral do homem. com o objetivo de construir uma apologia geral da religião cristã. A 24 de março de 1656. sob o título Pensamentos do Sr.aos R. que ordena em 1660 que o livro seja queimado. é levado a Port-Royal um relicário contendo uma “espinha da Santa Coroa”. Mas chocam Luís XIV. Os cirurgiões querem operar com fogo. Sua sobrinha. Em 1661. As Provinciais fazem belo uso da zombaria e da sátira. Marguerite Périer. inflamação gravíssima dos canais lacrimais. e só seria publicado depois de sua morte. R. Pascal sobre a religião e alguns outros temas. e horas depois o olho está curado. Dezoito cartas seriam publicadas até 1657. Nelas. mas os pais hesitam. Só em 1659. a luta seria dura para Pascal. é acometida de uma fístula lacrimal. A produção de pus provoca um mau cheiro tão terrível que obriga a “separar a doente de suas companheiras. que não podiam suportá-la”.

nas próprias palavras de Gilberte. por ironia da história. de acordo com sua irmã Gilberte. Entretanto. Como a passagem ao ato (suposto) perverso se fecha. Nos raros momentos de remissão. vem a organizar um desafio com prêmio. as polaridades não param de se inverter. ele vem a ser acometido por doenças diversas. de “um contínuo langor”. O autor das Provinciais vigia de perto o cientista. surge naturalmente a melancolia. Trata-se simplesmente de um grande concurso aberto a todos os cientistas da Europa. De tal maneira que.Como Pascal desconfia de que o detestável amor de si sempre tenha alguma participação significativa nos momentos em que ele se entrega a Deus. para a resolução da quadratura da cicloide. Naturalmente. assim. O . doente. Eis então que Pascal. Os quatro últimos anos de sua vida não passariam. O perverso entregue à libido sciendi se apaga cada vez mais diante do puritano. os mais importantes se inscrevem. que lança um desafio aos pares. o faz com o nome de Amos Dettonville — anagrama de Louis de Montalte. é preciso que ele continue expiando ainda e sempre. das superfícies planas e curvas”. entre elas a enxaqueca e as cólicas. ele passa então por “uma intensificação das grandes indisposições a que estava sujeito desde a juventude”. Por mais que tenha renunciado à publicação de seus tratados de física ou à difusão do Triângulo aritmético. Gilberte explica. entre elas a cicloide. Pascal encontra cada vez menos forças para cometer suas infrações eruditas e prazerosas. O motor pascaliano de dois tempos tomou impulso. escrita na forma de fragmentos esparsos. quando o pistão está na posição do amor sui. ele só consegue esquecer momentaneamente essas dores intensas entregando-se… à geometria. que só consegue superar suas terríveis dores de dente estudando certos “métodos para a dimensão e os centros de gravidade dos sólidos. Mas quando Pascal publica sua própria solução. Pascal dedica-se a sua Apologia da religião cristã. está em velocidade de cruzeiro. De tal maneira que. um langor contínuo 69 Todavia. o empreendedor duque de Roannez consegue convencê-lo a arriscar tudo.

por sua vez desdobrados também. que acaba de enveredar. se superpõem e giram um sobre o outro. quando se tem. a questão é mostrar que não há solução.texto que haveria de se transformar nos Pensamentos delibera sobre questões teológico-filosóficas que se apresentam na formas de alternativas: morte e vida. ele se inclinará mais a contemplá-los em silêncio do que a buscá-los com presunção. Diante delas. O pavor: “O silêncio eterno desses espaços infinitos me apavora” (fragmento 206). graças aos telescópios de Galileu. sentido e futilidade… Sempre as alternâncias. colocando frente a frente os dois infinitos: o da grandeza de Deus e o da pequenez do homem: [O universo] é uma esfera infinita cujo centro está em toda parte. considerando-se sustentado na massa que a natureza lhe deu. se não se escorando na humildade e na graça. pela exploração dos dois mundos. e creio que. transformando-se sua curiosidade em admiração. Que é um homem no infinito? […] Quem se analisar desta maneira se assustará consigo mesmo e. Daí resultam o pavor e a vertigem. em lugar nenhum […]. fé e razão. O motor tornou-se uma grande báscula vertiginosa na qual dois infinitos. e a circunferência. tremerá à visão dessas maravilhas. 70 O motor de dois tempos se ampliou para o universo inteiro. alma e matéria. do infinitamente grande e do infinitamente pequeno. Tudo se mistura: eis que aos dois infinitos da moral se superpõe o plano da ciência. A vertigem? Ela é relatada por Boileau: . Do que dá testemunho o famoso fragmento 185 dos Pensamentos. entre esses dois abismos do infinito e do nada. infinito e vazio.

o erro e a miséria. o problema que é necessário resolver para acalmar o pavor e aplacar a vertigem. O fragmento começa justamente com “Infinito — nada”. Por mais que seus amigos. É a única solução para estabilizar o infernal redemoinho que alcançou as dimensões do infinito. Examinemos então este ponto. Um ponto então foi resolvido. a verdade e o bem. Reproduzirei os principais trechos. e ali mandava botar uma cadeira para se tranquilizar. Como necessariamente se deve escolher. É o fragmento 397. Esse grande espírito [Pascal] julgava ver sempre um abismo do seu lado esquerdo. mas para que lado tenderemos? A razão nada pode de terminar aí […]. seu confessor. seu conhecimento e sua beatitude. Aquele que crê e o outro estão igualmente em falta. e duas coisas a comprometer. mas é necessário apostar.73 A única solução é estabilizar esse redemoinho apavorante: o homem deve contemplar em silêncio em vez de buscar com presunção. […] Você tem duas coisas a perder. Assim é que o puritano intima o perverso. Mas e a sua beatitude? Pesemos o ganho e a perda fazendo . Sim. É necessário um polo fixo e certo. e digamos: Deus é onde não é. a renunciar definitivamente a suas presunçosas obras. apostar em Deus 71 Eu disse bem: “apostar em Deus”. sem nenhuma restrição. que não passavam de alarmes de uma imaginação esgotada pelo estudo abstrato e metafísico. A aposta deve ser feita inteiramente do lado de Deus. presa da própria libido sciendi. ou seja. ele concordava com tudo isso e um quarto de hora depois voltava a cavar um precipício que o apavorava. seu diretor de consciência lhe dissessem que nada havia a temer. e sua natureza tem duas coisas a evitar. Eu sei da história de primeira mão. sua razão não será mais ferida escolhendo este ou aquele. […] o justo é não apostar. conhecido como a “aposta de Pascal”. sua razão e sua vontade.

de que. Mas existe uma outra maneira de entender o comentário: é admirável que essa “aposta total em Deus” cure instantaneamente Pascal de seu pavor e sua vertigem. da mesma maneira como a Santa Espinha curara a pequena Marguerite em Port-Royal. apesar de derradeiro. o que pareceu admirável pode. na verdade. trata-se de uma transferência bem-sucedida para o grande Sujeito. Tão detestável quanto o eu é detestável. que um argumento proveniente do mundo do jogo — esse prazerzinho fétido que encantava grandes libertinos como Mitton (o Mitton criticado nos Pensamentos) — serve para provar a existência de Deus. Em grego. uma conotação de alegria e encantamento. que esse argumento. O . Isto é admirável. além do mais. admirável. Em suma. no momento seguinte. apenas. e se perder. Eis. 72 Se o puro amor Dei decorre do impuro amor sui. O remate “admirável” diz tudo. É provável que depois de alguns períodos de calmaria o motor de dois tempos voltasse a funcionar com força ainda maior. Deus. e por mais admirável que pudesse parecer. O sentido evidente remete ao entusiasmo de Pascal — no sentido original da palavra. Isto se chama jogar Deus no gamão. fosse de natureza a curar Pascal por muito tempo. Pascal usou um argumento do mundo do jogo — e. Em outras palavras. esse tipo de apresentação dos problemas será retomado pelo que é hoje conhecido como a teoria dos jogos. no caso. assim. é admirável que o mundo finalmente seja estabilizado. para se curar. a escolha de que Deus é. Não se pode ter como certo. Consideremos esses dois casos: se ganhar. revelar-se detestável. portanto. portanto. não perde nada. Com a ressalva. você ganha tudo. É. Desde que seja entendido no sentido óbvio e no sentido oculto. enthousiasmos quer dizer literalmente “transporte divino” — movimento que apresenta. Aposte então sem hesitar que ele é.

amavelmente com todos. resultará uma nova forma de felicidade. mas não a injustiça. é sempre detestável. e assim continua sendo injusto e não só pode agradar aos injustos. Numa palavra. ele atribui a Mitton o papel de um de seus dois estados interiores.que vem a ser exatamente aquilo que Pascal recrimina em Mitton no fragmento 141. em busca da maximização de seus interesses. E assim não o torna amável àqueles que lhe detestam a injustiça: torna-o amável apenas para os injustos. Está em discussão com um pensamento que ainda não foi inteiramente formulado. — O eu é detestável: você. na medida em que se faz o centro de tudo. Você lhe retira o incômodo. não se detestarão mais — o que permitirá refundar a Cidade. que podemos reescrever da seguinte maneira: Quando cada um valorizar o próprio eu. pois os indivíduos. Com toda evidência. sabendo que provavelmente já perdeu. — Isso [seria] verdadeiro se detestássemos no eu apenas o desprazer que dele decorre. está lutando por antecipação. pois agindo como nós fazemos. por isso. não há mais motivo para nos detestar. . Mas se eu o detesto porque ele é injusto. na medida em que quer sujeitá- los. não o despe de modo algum. Isso só seria formulado claramente alguns anos depois. Em suma. por detestável que seja. Mitton. o encobre. mas cuja aproximação sente perfeitamente. o eu tem duas qualidades: ele é injusto em si mesmo. por se fazer o centro de tudo. Pois é nada menos que o pensamento liberal que está contido em germe no argumento de Mitton. pois cada eu é o inimigo que pretende ser o tirano de todos os outros. — De modo algum. Vemos aqui o debate interior que agita Pascal. em parte contra si mesmo. ele é incômodo para os outros. que nele não enxergam mais seu inimigo. ocupados com eles próprios. vou detestá-lo sempre. sabendo que uma harmonia social nova daí decorreria. Dir-se-ia então que era necessário apostar tudo no amor próprio dos indivíduos.

portanto.” O que se afirma aqui. é rejeitado como um desvio. o estabelecimento de uma autêntica política da língua. entre eles o da língua. de se diversificar em numerosas variações locais. O que fica tanto mais claro na medida em que. inventivo e impertinente. é o que se vê com clareza em certos fragmentos que devem ter causado muito sofrimento a Pascal. que deve ser normalizada para suster e conter os súditos do rei falando línguas vernáculas diferentes e capazes. Pois a desordem linguística é a indicação certa de uma desordem política por vir. admirável con-cul-pisse-sens** 73 E. O momento é de centralização monárquica. de que dá testemunho. Refiro-me particularmente a dois deles. E isso em todos os terrenos. a criação da Academia Francesa por Richelieu (1634) e a publicação por Vaugelas de suas Observações sobre a língua francesa (1647). é preciso saber que já no século XVII se havia observado que a palavra “concupiscência” trazia consigo toda uma série de sonoridades no mínimo suspeitas. de Richelieu a Mazarin. quando Pascal escreve seus grandes textos filosóficos. o mínimo necessário é que. recomendando a criação de um francês padronizado pela “maneira de falar da parte mais sadia da corte”. eis que aquele que tanto havia estigmatizado a pequenez do homem começa a refletir… sobre sua grandeza: “A grandeza do homem [é] ter extraído da concupiscência uma ordem tão bela. Essa bagunça linguística motiva. por sinal. repressão dos dialetos e adormecimento do latim. Para começar. Já a partir de 1650. Ora. numa monarquia pretendendo ao absolutismo. portanto. e depois de Mazarin a Luís XIV. em seguida. O francês vivo. a centralização e. os súditos do rei sinfonizem. de Rabelais e Montaigne. Em matéria de léxico. De modo que é efetivamente com Pascal que se empreende a grande reviravolta da metafísica ocidental que levou à criação de uma nova Cidade. e mesmo pessoais. é que a concupiscência pode fundar uma bela ordem… A afirmação é surpreendente e requer várias observações. é total a ruptura com as tendências livres do século . é consumada a separação entre a língua literária de origem aristocrática e as línguas vernaculares praticadas na França. o absolutismo se afirmam. por exemplo. além do mais. No fragmento 106.

observando melhor. mas um escrito sobre o obsceno). não deixou de causar impressão aos observadores. o grande puritano. Entretanto. Ora. que significa “desejar ardentemente”. fora empregado após o maravilhoso efeito de . ao que se diz — de serem “velho gaulês”.anterior. valer-se deste termo para fundar. é a grande guinada: eis então que a caridade decorre da concupiscência! Assim é que surge nessa obra extremamente piedosa. “bestialidade”. Dessa vez. então. como courtois e forcennerie. que vem a ser a “concupiscência”? A palavra vem do latim concupiscere. Pascal diz claramente que uma bela ordem pode sair da concupiscência. inclusive os obscenos. Ora.) Imagine-se.74 A promoção da língua clássica traduz-se na proibição de muitas palavras. acusadas — pelo próprio rei. o que se tem em mente são todos os atos sexuais possíveis. a primeira proposição decididamente pornográfica da história da filosofia: contempla-se a possibilidade de fundar uma bela ordem. O adjetivo “admirável”. Pascal reincide. com uma conotação misturando “carne”. como volta a dizê-lo. mergulhado em sua pequenez. já que se trata da possível fundação de uma nova ordem sobre a concupiscência. como sabemos. O que. sobre a concupiscência. a que cada um quiser atribuir-lhes75. Promove-se a perseguição das “palavras desonestas”. O perverso puritano encontrou sua solução de compromisso. por ter sabido extrair dela um regulamento admirável e dela ter feito um quadro de caridade”. pois não só ele o diz. que essa bela ordem também poderia ser “admirável”. além disso. mas em geral eles se limitaram a dizer que essa proposição refletia a ironia áspera de Pascal em relação ao homem. como convaincu e consistoire. por sua sonoridade cheia de ambiguidade (naturalmente. Afirma-se. “sensualidade extrema”. Devemos tomá-lo ao pé da letra. no fragmento 118. “con-cul-pissant” (concupiscente) e “con-cul-pisse-sens” (concupiscência)! O fato de Pascal. com efeito. para serem em seguida retomadas pela Revolução Francesa. uma bela ordem por vir não pode deixar de surpreender. a Apologia da religião cristã. que só voltarão a surgir no século XVIII. por sinal. “pecado”… Quando se “excita a concuspicência de alguém” ou se “olha alguém com concupiscência”. existe apenas uma maneira de caracterizar essa fala de Pascal: trata-se de uma afirmação pornográfica (no sentido literal da palavra: não um escrito obsceno. dizendo que “a grandeza do homem [está] em sua própria concupiscência. perene e caridosa. sobre o que ele denota e conota.

não só atingem algo admirável como ainda satisfazem a caridade (o amor do próximo). Ora. A inauguração das primeiras linhas é relatada por Gilberte: . os dois amigos decidem lançar-se num projeto comercial. o que contém em germe a proposição central do pensamento liberal. mas a negócios florescentes — o que faria do grande homem… um verdadeiro pioneiro do capitalismo? Vejamos. o outro Pascal se vê presa de uma autêntica libido dominandi. já que essa proposição não passa de uma pura e simples retomada e amplificação do argumento de Mitton desenvolvido no fragmento 141. conhecido pelo nome de caso das carruagens de cinco tostões. no caso. o puritano. Mediante pagamento de cinco tostões. entregando-se não mais às matemáticas. mas já é o princípio dos ônibus modernos. da assinatura de contratos e convenções. os passageiros podem ser transportados para qualquer lugar da cidade. segundo itinerários fixos prevendo paradas e baldeações. Será possível então que o mesmo entusiasmo seja gerado pela transferência bem-sucedida para Deus e por sua transferência fracassada? Se os homens. está envolvido. a botija maliciosa de Mitton. por que Deus? Pascal é apanhado aqui com a boca na botija. as carruagens de cinco tostões 74 Será então por acaso que no momento em que Pascal. O empreendedor duque de Roannez. então. do traçado dos itinerários. ele é reutilizado aqui a propósito da ordem decorrente da concupiscência ligada ao amor de si. No momento em que Pascal está pior. Pascal cuida ativamente da organização e do andamento da empresa.ordenamento obtido graças à aposta em Deus. entregando-se exclusivamente a sua concupiscência. tão precursor quanto o da Pascaline. O objetivo é criar em Paris uma rede de transporte coletivo usando nada menos que carruagens. dos veículos e da informação a ser transmitida por prospectos ao público potencial (o que se chama hoje de publicidade). Ainda não é o metrô. naturalmente. está mergulhado em grande apatia e próximo da morte.

às sete horas da manhã. Uma parte da terrível máxima 118 se confirmava: o homem alcançava a grandeza e uma organização superior a partir de sua concupiscência e de seu gosto do lucro. dez ou doze arqueiros da cidade e outros tantos homens a cavalo. Entretanto. Três foram mandadas para a Porte Saint- Antoine e quatro para a frente do Luxembourg. comportando inclusive várias mulheres. o lucro. onde também se encontravam dois comissários uniformizados do Châtelet. O serviço começou sábado. quatro guardas do Grande Preboste. 75 . a coisa foi tão bem-sucedida que já na primeira manhã foi grande a quantidade de carruagens cheias. dizendo tudo isso da parte do rei […]. Pascal morria de langor. pois sabemos que virá uma outra em meio quarto de hora. mas no fim da tarde a multidão foi tão grande que era impossível aproximar-se. exortaram os burgueses a prestar ajuda e declararam à gente miúda que se houvesse o menor insulto. Foram distribuídas as sete carruagens destacadas para esse primeiro percurso. Encontramos aqui o capitalismo em germe: temos uma ideia extremamente original — uma inovação — no sentido de desenvolver um novo bem ou serviço mercante. quando ela chega. os senhores comissários inauguraram o serviço e. de tal maneira que se pode ver por experiência própria que o maior inconveniente é ver toda aquela gente nas ruas esperando uma carruagem para entrar e. mas com brilho e pompa maravilhosos. mas sua empresa de carruagens de cinco tostões prosperava de tal maneira que o moribundo já pensava em organizar redes na província e mesmo no exterior. tendo reiterado sua utilidade. O que é uma pena. E no fim. e nos outros dias se deu o mesmo. financiamento à altura e mão de obra a preço vil para executar o projeto. está cheia. mas nos consolamos. a punição seria rigorosa. Quando tudo estava pronto.

Os outros. ou seja. em O mal- estar na cultura. são excluídos do quadro de caridade e do plano das estações: o acesso às carruagens. bastava ter pensamentos repreensíveis para se punir. sobretudo se levarmos em conta esta observação de Freud. que parece ter sido feita para ele: “[A consciência moral] comporta-se com severidade e desconfiança tanto maior medida em que o homem é mais virtuoso. Em apoio dessa tese. sendo assim obrigado a deixar a própria casa. com efeito. lacaios e outros trabalhadores braçais”. fazendo parte do que Gilberte chama de “gente miúda”. que basta aos neuróticos ter pensado no vício para se punirem severamente. é proibido aos “soldados. Seria esse um autêntico quadro de caridade? Pascal responde destinando uma parte dos lucros à manutenção do Hospício dos Pobres de Blois.Restava a outra parte da máxima: que isso constitua um belo quadro de caridade. acolhe em seus aposentos uma família cujos filhos são acometidos de uma varíola das mais contagiosas. nem mesmo os pensamentos. De tal sorte que acontece o que não poderia deixar de acontecer: eles reclamam. que mostra perfeitamente. interpelando-os em alto e bom som. antes de sua gênese social na e pela civilização. É verdade que o empreendimento presta um grande serviço ao público. será possível citar Freud. a punição será rigorosa. Ele morreria na casa da irmã algumas semanas depois. Mas certamente não é suficiente. ele se volta para o atendimento dos miseráveis que encontra nas ruas de Paris. em nome do rei: ao menor insulto. pajens. então. apenas à parte que pode dispor da soma de cinco tostões. que no neurótico o superego vê tudo: “Nada pode ser ocultado ao superego. Podemos concluir que era o que constantemente acontecia a Pascal. Mas a partir do momento em que essa instância foi interiorizada na forma do superego. Com tanta ênfase que é preciso calá-los. Por exemplo.”76 Quando não havia superego. era necessário passar ao ato para ser punido pelo chefe da horda. com efeito. 76 Sei que poderão objetar que Pascal permanece perfeitamente no contexto neurótico e que não é necessário recorrer ao contexto da perversão para entender seu destino. é claro. A toda a população? Não. com trinta e nove anos e dois meses. de tal maneira . Freud explica. Cada vez mais.

Sua vida é toda feita de transgressões múltiplas. obrigando-se a pagar muito caro pelas próprias transgressões. não devemos supor. como muito bem diz Lacan. “no perverso. E o foi com um gênio trágico fora do comum. O filósofo na origem da grande virada da metafísica ocidental. À sua maneira. 78 Pascal foi o primeiro dos perversos puritanos. Um grande perverso que. que logo viria a se impor ao mundo: o capitalismo. Pois o desejo é uma defesa. ao ato transgressor. como poderia bastar ao simples neurótico. estava constantemente. por sinal. O escritor irônico esquadrinhando com bisturi a alma humana apanhada entre o amor de Deus e o amor de si. acabou por sê-lo realmente. . que. uma proibição de ultrapassar um limite no gozo”. subvertendo as crenças. Não resta dúvida de que a graça era o que não lhe faltava. de fato.”77 Mas não devemos esquecer o essencial: Pascal não teve apenas pensamentos de transgressão. Por isso é que ele foi um grande perverso útil à civilização.78 77 De tanto se recriminar por ser perverso sujeito à libido sciendi. Pascal. E. como puritano. E o explorador de uma nova ordem “admirável” baseada na concupiscência. longe disso. o inconsciente fique a céu aberto. postulando que uma ordem admirável pode ser baseada na concupiscência. Ao longo de sua curta vida. neurótico. como tal. Nem todos os seus sucessores teriam o seu talento.que no fim das contas os que foram mais longe na santidade é que se acusam do estado de pecado mais grave. as ideias e os valores aceitos. ele constantemente passou ao ato. e. Ele foi o inventor da ciência e da técnica modernas. tanto nos métodos de pensamento (contra o que restava da escolástica) quanto nos conteúdos de pensamento (contra o que restava do aristotelismo). Tanto frente à autoridade religiosa (a Sorbonne e os jesuítas) quanto frente ao senso comum nos terrenos filosóficos e científicos. também ele se defende em seu desejo.

funcionava. e nas quais se obtinha a ataraxia (a tranquilidade da alma) através da moderação das paixões. trata-se mesmo do contrário. com o objetivo de fundar uma nova Cidade humana. por exemplo. bruscamente. bifurcou-se. não se trata de promover um controle e um domínio das paixões para não estar muito submetido a elas. como vimos. mas qualitativa. não diremos o . lhe custou muito caro. foi o devir humano do homem que subitamente. num texto muitas vezes considerado extremamente puritano que surge pela primeira vez na história da filosofia uma proposição manifestamente pornográfica. que inventou uma matemática não mais quantitativa. Aqui. mas no sentido de René Thom. que despertou grande interesse filosófico no século XX. sempre pagamos muito caro pelo fato de entrever algo proibido. que haveria de repercutir em seguida em todo o mundo. Eu diria aqui que. matemático especializado na topologia. o invisionável 79 É. depois de se valer da própria mãe como isca. Até o momento em que Catherine viu. Em nada ela se assemelha ao que era conhecido. mudou. Naturalmente. já que se fechou então numa doença de langor. Para Thom. de acontecimento desastroso. como. pois convém deixar a concupiscência (em todas as suas formas) alcançar suas finalidades. Isto é que é pornográfico: apostar na concupiscência. naturalmente. as proposições de tendência epicurista em que o prazer consistia na evitação do sofrimento físico e das perturbações da alma. também estamos aqui diante de uma questão de libido. por sinal. podemos nos remeter ao título tão eloquente da peça teatral de Tennessee Williams que rendeu esse fabuloso filme de Joseph L. Para avaliá-lo. No momento em que subitamente Pascal entrevê uma verdade proibida — o que. Trata-se de um momento catastrófico na história do Ocidente. portanto. Sebastian. De repente no último verão. no filme) ter visto o fim de seu amigo. a uma súbita descontinuidade num devir. mas dessa vez de libido sentiendi. o poeta Sebastian. “Catastrófico” não no sentido habitual do termo. uma “catástrofe” corresponde precisamente a uma mudança brusca de forma. remetendo ao desejo da carne. com o surgimento desse princípio pornográfico. Sabemos o quanto custa a Catherine (Elizabeth Taylor. Mankiewicz feito em 1959. E. valeu-se de Catherine para atrair rapazes — o que.

então. E. na Itália (o que antecipa uma situação pasoliniana).invisível. até o ponto em que ela se transformou em seu contrário. como excesso de escuridão. nas ruínas de um templo pagão. O que simplesmente priva Catherine da razão. Bayle. E. de repente. Sade. transformado em nome comum. Tanto mais que a época de Pascal aprecia essa figura: além de estar presente em La Rochefoucauld (onde o sol. me parece significativo que a locução adverbial “de repente” tenha ocorrido a Annie Le Brun quando ela fala de Sade em seu livro intitulado De repente um bloco de abismo. no caso. aquele em que repentinamente a escuridão torna-se luminosa. O invisionável é. de fato ela. O que eu gostaria de tentar mostrar aqui é que se a bomba explode efetivamente com Sade. É justamente o que surge. a Pascal. em sentido inverso. perseguido. que estabelecera em suas Máximas. de repente. de repente. mas antes o invisionável (neologismo remetendo ao que não deve ser visto). Partimos de Pascal. passando pelos nomes de Nicole. Ou. é cercado. como excesso de luz. no entanto… Entendemos que o excesso de clareza pode simplesmente cegar. La Rochefoucauld. e a morte. Ou. Mandeville e Adam Smith para . podemos encontrá-la em Corneille: “Essa obscura clareza que cai das estrelas. a clareza torna-se obscura. por sinal. na mesma época de que tratamos a propósito de Pascal. o momento em que Sebastian. uma clareza não pode ser obscura. explosivo. Proponho-me assim a percorrer as etapas dessa via-crúcis da metafísica ocidental. dilacerado e devorado vivo por um bando de jovens mendigos esfaimados. De modo que ver o invisionável tem um preço muito alto — e é por sinal o que havia compreendido outro amigo de Port-Royal. o momento em que.” Naturalmente. O que nos leva a pensar que a proposição de Pascal (extrair grandeza da concupiscência) poderia ser estudada em sua forma retórica. que “nem o sol nem a morte podem ser olhados de frente” (máxima 26). Tomemos esse momento em que. ainda. nem por isso deixa de ser verdade que a mecha foi acesa de repente por Pascal. se invertem). que vai progressivamente dinamitar todo o edifício da metafísica ocidental. E. a infinita pequenez do homem se recria como ordem (para retomar a palavra de Pascal) de uma imensa grandeza. até o surgimento do nome de Sade. se apresenta como um oximoro mobilizando valores opostos que repentinamente se transformam um no outro.

por sua inspiração agostiniana. na verdade. . aos protestantes. Pois o fato é que acabaram encontrando no fim de seu percurso. a lei que é aplicada aos indivíduos: o que foi recalcado no início pode voltar mais tarde. os jansenistas. afinal. Mas os caminhos para chegar a esse puro amor diferiam. levado os jansenistas a inventar o grande mercado. aquilo que tinham recusado no início: o mercado. a graça é algo que se tem ou não se tem. do amor próprio. O que comprovaria. É perfeitamente possível que os jansenistas tenham acabado por pagar muito caro sua recusa dos pequenos compromissos. 80 Uma observação. no fim do percurso. são categóricos. Pior ainda. precisamente o mercado e o que o acompanha. a compra pura e simples. de tentativas de seduzir ou subornar Deus para que conceda o que havia recusado: a graça. ao clero. antes de passar a Nicole. por exemplo. de indulgências que sirvam para a remissão dos pecados. as barganhas. Ora. tirará todas as conclusões da aposta inicial de Pascal sobre a concupiscência. que os haviam aceitado. Não pode ser comprada. até mesmo os próprios maus comportamentos. toda uma gama de belas ações ou exibindo um comportamento virtuoso. contra moeda sonante. às autoridades religiosas. mas na forma de um imenso e novo arranjo social. Ao contrário dos jesuítas. Pascal e La Rochefoucauld têm a satisfação de mostrar que decorrem. que. É bem verdade que para todos eles o ponto de partida era o mesmo: o cristão é aquele que deve optar pelo amor de Deus (puro) contra o amor de si (impuro). Para os jesuítas. as demonstrações muito ostensivas de virtude não passam. no nível do pensamento. em versão ampliada. ostentando. Quanto aos comportamentos supostamente virtuosos. não mais na forma de pequenos acertos com o Senhor e as autoridades. aparentados nesse ponto. por exemplo. a ponto de invadir tudo. Ou até mesmo. Não pode haver mercado nem barganha. De fato. o mais das vezes. Ora. tudo pode ser resgatado.chegar então a Sade. que dão muita importância às fraquezas do homem. De modo que é como se a recusa inicial tivesse. é que eles haviam recusado. se o resgate não bastar.

a passagem a outra coisa. Nicole e os Senhores 83 . o teólogo Pierre Nicole. e é ela o seu amigo. Tudo isso para dizer que. e o espírito de geometria. ou seja. E um acontecimento para os que assistem: eles terão tendência a se unir para conjurar o perigo e excluir aquele que atrapalha. a pelo menos uma pessoa. que permite ver o mundo. é sempre um acontecimento. De modo que é interessante para eles que um outro tenha ousado. 82 Pierre Nicole. no trabalho…). quando acontece de um outro efetuar uma travessia da repetição. tanto mais que. e que foi usada nas “Escolinhas” de Port- Royal. juntamente com Antoine Arnauld. pois faz bem àqueles que. o grande pensador jansenista. a travessia pascaliana fez bem. transpondo seu modelo para todos os outros terrenos do saber. poderão eximir-se das recriminações que acaso se fariam. com o Altíssimo. Mas também pode acontecer que a coisa os fascine. mais ou menos secretamente. que consistiria em acomodar o sensível no inteligível. escrita em 1667 para a educação do jovem duque de Chevreuse. como a travessia não foi feita por eles. Ela está toda voltada para um ideal de educação baseado numa linguagem racional. Ou repetir a mesma verdade dogmática sempre e em toda parte — o que aparentemente conjura a angústia.81 A paixão do neurótico — sabemos desde Freud — é repetir. é autor. dessa obra-prima intitulada Lógica de Port-Royal. cometer o ato perverso permitindo a transgressão. Essa Lógica baseia-se essencialmente nas matemáticas. Não estamos longe do espírito do Iluminismo. que permite compreendê-lo. com os próximos. Um acontecimento para aquele que o comete: ele poderá eventualmente recriminar-se severamente por isso — foi o que vimos com Pascal. a única capaz de conciliar o espírito de sutileza. Desse modo. Repetir o mesmo roteiro em todas as situações (por exemplo. começavam a se cansar de repetir sempre a mesma coisa. em sua intimidade.

a imensa maioria. como. que recebe os “Solitários”. no “deserto” de Port-Royal. 84 Além da Lógica. Não devemos confundir os “Senhores” com os “Solitários” de Port-Royal. Os “Senhores”. Os Ensaios são escritos para aqueles que optaram por não se retirar e por viver no mundo. no retiro (e provavelmente na melancolia. E a questão de fato é legítima: Deus. O projeto agostiniano de adaptar a Cidade dos homens à Cidade celeste é assim entregue aos homens santos. sob esta epígrafe bíblica tirada de Jeremias 29. quia in pace illius erit pax vobis (“Buscai o bem na cidade aonde vos enviei em exílio. o de Port-Royal. se predestinou santos (aqueles que têm a graça) a viver na virtude. não pode ter abandonado o resto da humanidade. desvencilhando-se de todo bem material. por sua vez. combatendo as paixões no silêncio e na oração. que precisam encontrar modalidades para viver juntos na paz. no entanto. ensinar nas Escolinhas e viajar a negócios. . Podem publicar trabalhos eruditos de filosofia e teologia. Assim é que ele coloca a parte dos seus Ensaios que trata explicitamente da vida na sociedade (“Dos meios de conservar a paz com os homens”). estão presentes no mundo. et orate pro ea ad Dominum.7: Quaeritate pacem civitas ad quam transmigrare vos feci. Para responder a esse desafio.Pierre Nicole é um dos “Senhores” de Port-Royal. Ele nada ignora deste mundo marcado pela queda e. os que são predestinados e poderão viver num “deserto”. Os “Solitários” isolaram-se voluntariamente do mundo. por exemplo. Nicole chegou inclusive a pensar que se ver jogado no mundo e nele buscar uma maneira de viver é uma missão imposta ao homem pela Escritura. com o objetivo de viver como os primeiros ascetas cristãos. questiona-se a respeito dos desígnios divinos em relação a essa humanidade corrompida. dedicando-se ao jejum e aos trabalhos manuais até o esgotamento. e rogai ao Senhor. como Pascal). embora ele esteja corrompido. Nicole é autor dos Ensaios de moral (1671). a sabedoria impõe que se comece por fazer uso daquilo que os homens têm: o amor próprio — e não mais reprová-lo. O que desde logo coloca o Senhor Nicole numa posição ambígua. O real problema é o destino dos outros homens. pois na Sua felicidade encontrareis a vossa felicidade”).

Para isso.80 Um passo considerável acaba de ser dado em direção ao pensamento liberal. tentando torná-lo esclarecido. esse pensamento atribui a si. É precisamente neste lugar que a proposição pornográfica pascaliana (extrair uma ordem da concupiscência) será retomada a um novo preço: é possível e necessário reformar o mundo escorando-se no amor próprio: Para reformar inteiramente o mundo — ou seja. Eis que uma outra verdade agostiniana vem a ser abalada. Mais ainda. para dele banir os vícios e as desordens grosseiras. deixando o indivíduo incapaz de enxergar além de si mesmo. só pode trazer o bem. à falta da caridade. e para tornar os homens felizes já nesta vida —.). longe de pertencer à esfera do mal. o amor próprio era por definição uma força sem visibilidade. vale dizer. como projeto. Pascal partia de um oximoro: produzir admirável grandeza com pequena concupiscência. com efeito. E como é possível torná-lo esclarecido? Fazendo com que ele saiba distinguir seus verdadeiros interesses. Mas a partir do momento em que passa a seguir os passos de Pascal.79 O projeto é claro: trata-se pura e simplesmente de reformar inteiramente o mundo. Nicole . só se pode contar com o amor próprio. aqueles que só podem ser distinguidos pelo cálculo racional. como para dizer que o tempo do controle das paixões ficou para trás e que o amor próprio. o teórico inglês do liberalismo político. a conquista do mundo: “O amor próprio esclarecido poderia corrigir todos os defeitos exteriores do mundo e formar uma sociedade muito regrada” (ibid. Para Agostinho. O “amor próprio esclarecido” torna-se. dar a todos eles um amor próprio esclarecido. Nicole reafirma seu gesto subversivo. Eis como um teólogo agostiniano inventa o capitalismo. que traduziria os Ensaios de moral em 1680. Esse amor próprio esclarecido despertaria enorme interesse em John Locke. em sua tradução. bastaria. A transgressão de Pascal não para de gerar efeitos e exortar a sua reafirmação. harmless self-love (“amor próprio inofensivo”). que soubesse discernir seus reais interesses e voltar-se para eles pelos caminhos revelados pela reta razão.

prolonga o oximoro e sustenta a aposta: aqui. é auscultado. não. a questão será esclarecer-se com uma força sem visibilidade! 85 O que Nicole traz à luz é nada menos que o plano secreto de Deus. o qual trata de dar livre curso à concupiscência dos homens. sua flexibilidade não pode ser representada. dirão alguns: o plano secreto de Deus é de inspiração pornográfica. Deus meu! Pelo contrário. suas transformações superam as das metamorfoses e seus refinamentos. já agora central. amigo de Port-Royal. ele chega. apresenta-se. nada tão oculto quanto seus desígnios. e os tornaria tiranos dos outros se a fortuna lhes desse os meios. no pensamento e na socialidade. Nada é tão impetuoso quanto seus desejos. da parte de Nicole. é que se tornaria um analista desse novo personagem. de fato. para tirar o que lhe é próprio. esconde-se. Até o momento. e mesmo de maneira apressada. 87 Esclarecer-se com uma força sem visibilidade: seria isso. O que poderia ser dito de outra maneira. também ele. uma exoneração de Deus? Oh. É conhecida a esplêndida máxima que abre a primeira edição das Máximas (1664). ele torna os homens idólatras deles mesmos. os da química. 86 O amor próprio torna-se então um personagem filosófico: fala-se dele. é uma afirmação e mesmo uma ampliação de Sua força. como vimos. nada tão hábil quanto suas condutas. sai-se no seu encalço… La Rochefoucauld. ele jamais repousa fora de si e só se detém nos sujeitos estranhos como as abelhas nas flores. Nicole supôs um Deus pornógrafo. e de todas as coisas para si. a ação de Deus parava de . que ocupa duas páginas e começa assim: O amor próprio é o amor de si mesmo.

recriaram as artes e fundaram a ciência (geometria. usando seus defeitos para chegar de qualquer maneira. como bom lógico. na verdade. e. argumenta Nicole. que a vida social seja não só possível.certa maneira nos santos. Queiram ou não. que acabavam de ser descobertos (Leibniz. que se transforma em Hegel no da astúcia da razão e da astúcia da história. em suma. Para salvá-los.81 Deus se vale de astúcia com os homens. medicina. mas. Os outros eram joguetes do diabo. em Sua infinita bondade. Pois Deus. O que Nicole descobre é que essa virtude pode ser alcançada apesar da vontade dos homens. e mesmo entre os descrentes. o da astúcia divina. são conduzidos a uma outra parte. mas também florescente entre os pagãos. segurança e comodidade que se teria vivendo numa república de santos.). matemática. Deus. a Seus fins gloriosos. Brilhante e definitiva. sabe utilizar a força sem visibilidade que puxa os homens para conduzi-los a esse lugar aonde eles certamente jamais teriam aceitado ir: a virtude. não se deixa de viver com a mesma paz. o que demonstra sua natureza profundamente torpe. em Sua imensa sabedoria. através dos homens. ou os . Como se dá. por exemplo. Ora. Saibam ou não. eles julgam estar realizando seus pequenos objetivos de gozo. apesar deles. Vemos surgir aí um tema que dominaria o século seguinte. astronomia. faria questão de fornecer a prova de sua proposição escandalosa. apesar deles. Os chineses. vale dizer. o que interessa é mostrar que esses outros de modo algum estão excluídos do projeto divino. em todos aqueles que não sabem absolutamente ser virtuosos? Os gregos eram politeístas. etc. ela surge no capítulo 2 do livro Da caridade e do amor próprio: Nos Estados a que a caridade não tem acesso. persegue. no entanto. fala muito deles). Entregues à satisfação de sua concupiscência. uma meta que lhes escapa completamente. caridade bem ordenada…*** 88 Nicole. pois deles é banida a verdadeira religião. eles simplesmente edificaram a Cidade. e até mesmo entre os ateus.

o que.”82 Homens sem virtudes cristãs podem. na medida em que abraçam outros dogmas — o que Nicole negligencia. E até os astecas. é que realizam o impensável. que o pensamento agostiniano. mas não deixa de ser falho num ponto capital. e o de Nicole. que ele comparava então a Veneza e Granada. mas são de fato crentes. O raciocínio de Nicole é magnífico. mas muito “mais bela” e muito “maior”: “Uma ordem perfeita reina nessa cidade. não é o caso.maometanos. em particular. os do Império Otomano. em geral. voltada para a santidade. todos esses “descrentes” tinham fundado grandes civilizações. hoje Cidade do México. continuador de Pascal. afirmando que os vícios privados fazem a virtude pública. envia ao imperador Carlos V logo ao chegar a Tenochtitlán. mais um esforço. Bastará levar um pouco mais adiante o raciocínio para aproximar-se de Mandeville. cujos habitantes parecem sábios e polidos. ser virtuosos apesar deles mesmos. que tinham sido quase inteiramente exterminados — basta ler. Essas duas virtudes aparecem de repente sem relação. que desfechará o golpe fatal: franceses. então. a saber. O que se postula. . as cartas cheias de admiração que Hernán Cortés. evidentemente. portanto. e a virtude cívica na sociedade. constantemente afirmando a necessidade de seu controle sobre os indivíduos e as instituições temporais. o Conquistador. Descrentes constituindo uma república de santos — os termos são altamente desmoralizantes para os adeptos do dogma. é nada menos que o caráter potencialmente virtuoso de uma sociedade de não crentes. a separação entre a ética cristã do indivíduo. O que redunda numa proposição assim enunciada: não é necessário que os indivíduos sejam virtuosos para que a sociedade o seja. contra toda expectativa. a antiga capital asteca. como se dizia na época. permitindo supor que são regidos pelo amor próprio. virtuosa. e logo poderão ver que uma sociedade só pode ser virtuosa se os indivíduos não o forem. E empurrá-lo ainda um pouco mais para chegar a Sade. a esse respeito. Mas nem por isso deixa de ser verdade. O que só pode ser possível com uma condição: que eles sejam regidos por uma força que os supera. Esses habitantes de regiões distantes são descrentes no sentido de que não compartilham o dogma cristão.

89
Podemos dizer, assim, que esse pensamento eminentemente religioso levou a efeito,
por caminhos completamente diferentes, o que o pensamento secularizado de
Maquiavel começara a empreender um século e meio antes, com o advento de um
mundo político humano, mundano, independente de toda referência, tanto da
Cidade de Deus quanto da virtude dos indivíduos. Mas seria um equívoco analisar
esse movimento como uma saída da religião. Ele só é possível, pelo contrário,
porque é dito que Deus continua lá, lá em cima, e mesmo tão acima que não precisa
preocupar-Se como a virtude dos homens para que Seus desígnios sejam realizados.
De modo algum se trata, portanto, de uma saída da religião (o que seria muito
difícil para agostinianos), e sim, pelo contrário, de uma entrada na verdadeira lógica
divina. E mesmo mais: na ordem oculta de Deus — é onde devemos encontrar a
origem da famosa formulação de Adam Smith sobre a “mão invisível”.
Dispomos de diferentes provas de que é esta a posição sustentada nos Ensaios de
moral. Por exemplo, no capítulo I do livro “Da caridade e do amor próprio”, dos
Ensaios de moral, quando Nicole diz que é por vontade expressa (divina) que a
caridade e o amor próprio não podem ser distinguidos:

Embora nada haja mais oposto à caridade, que tudo remete a Deus, do
que o amor próprio, que tudo remete a si mesmo, nada pode haver de
tão semelhante aos efeitos da caridade quanto os do amor próprio. Pois
de tal maneira ele caminha pelas mesmas vias, que praticamente não
seria possível melhor identificar aquelas aonde a caridade nos deve levar
senão descobrindo aquelas que são tomadas por um amor próprio
esclarecido, capaz de reconhecer seus autênticos interesses e que se volta
pela razão para os fins que se propõe.

O capítulo XIII, intitulado “Que a ignorância em que nos encontramos quando
agimos por caridade ou amor próprio nos é útil por vários motivos”, é totalmente
dedicado à explicação do desígnio divino: Deus veio estabelecer o reino do céu na
Terra, o que só é possível se os indivíduos não souberem se são virtuosos ou
viciosos:

O desígnio de Deus no sentido de esconder o reino do céu que veio
estabelecer na Terra requer que as pessoas de bem sejam exteriormente
confundidas com os maus, e que deles não sejam distinguidas por
marcas claras e sensíveis.

Esse novo reino que Deus veio instaurar na Terra, anunciado por Pierre Nicole, tem
hoje um nome tanto mais conhecido, na medida em que seu advento efetivamente
teve lugar: foi o capitalismo. É um mundo de perversos puritanos que se encontram
na oposição de não poder distinguir o bem do mal:

É útil [para os justos] não se conhecerem e não ver neles próprios a sua
própria justiça. Esta visão poderia derrubá-los; o homem é tão fraco em
sua própria força que não seria capaz de sustentar seu peso; e por uma
estranha inversão que tem sua origem na corrupção do seu coração,
embora seu bem consista em possuir as virtudes e seu mal, em ser cheio
de defeitos, ainda assim lhe é mais perigoso conhecer suas virtudes que
seus defeitos. O conhecimento de sua humildade o torna orgulhoso e o
conhecimento do seu orgulho o torna humilde. Ele é forte quando se
sabe fraco e é fraco quando se julga forte.

Esse mundo, caracterizado pela indistinção entre o bem e o mal, é apresentado
como salutar:

Desse modo, essa escuridão que o impede de discernir claramente se age
por caridade ou por amor próprio, longe de prejudicá-lo, lhe é salutar:
ela não o priva de suas virtudes, mas o impede de perdê-las, mantendo-o
sempre na humildade e no temor, e fazendo com que ele desconfie de
suas obras e se apoie unicamente na misericórdia de Deus. É a grande
utilidade dessa semelhança exterior entre as ações do amor próprio e as
da caridade.

90
Pascal penava: no momento da transgressão, quando o perverso desfrutava
sadicamente do neurótico puritano, o puritano sofria com o perverso.
Nicole mantém-se calmo. É um perverso puritano que encontrou a solução de
compromisso capaz de aplacar o conflito. Ele é o primeiro a afirmar tranquilamente
não só que o bem decorre do mal, mas, sobretudo, que esse novo credo deve tornar-
se a lei da Cidade.

admirar a cupidez
91
Não devemos pensar que Nicole limitou-se a anunciar o novo reino do céu que
Deus viera instaurar na Terra. Ele não foi apenas o profeta da nova religião, foi
também o seu engenheiro-chefe, capaz de prever detalhadamente suas modalidades
de existência. Assim, por exemplo, foi capaz de anunciar aquilo que, no novo reino,
ocuparia o lugar da caridade no antigo. Trata-se simplesmente da cupidez:

Embora sejam esvaziados de caridade pelo desregramento do pecado, os
homens continuam tendo muitas necessidades, e dependem uns dos
outros numa infinidade de coisas. Assim é que a cupidez tomou o lugar
da caridade para atender essas necessidades, e o faz de uma maneira que
não pode deixar de ser admirada, e à qual a caridade comum não tem
acesso.83

Cabe notar que encontramos nessa passagem importante, zombando da caridade, a
linguagem pascaliana, “admirável”, aplicada à cupidez. Mas isso não é tudo. Esses
eus cúpidos, cegos e surdos ao outro, são capazes, sem saber nem querer, de fazer
uma outra coisa admirável: quanto mais o indivíduo visa apenas o próprio interesse,
mais se tornam uns dependentes dos outros, e mais resulta daí uma realidade
superior capaz de transcender a aposta de cada um. Dos trabalhos que cada um
realiza no seu canto, visando apenas o próprio interesse, resulta assim uma espécie
de colmeia humana de organização perfeita. É o tema da divisão do trabalho que

acaba de ser inventado — e que haveria de se transformar numa passagem
obrigatória dos estudos econômicos. Levado a novas consequências, vamos
encontrá-lo em Bernard de Mandeville e Adam Smith (cf. o famoso exemplo da
fábrica de alfinetes).84

O segredo da colmeia, organização perfeita para todos, é portanto a tola cupidez
de cada um — foi o que Bernard de Mandeville tão bem compreendeu, ao transpor
essa relação entre a idiotice de cada um e a perfeição do todo para uma colmeia, em
sua famosa Fábula das abelhas. Chegar a tanta perfeição com tão poucos meios só
pode ser obra de um projeto divino… ao qual será bom submeter-se sem demora.
Pois todo mundo teria a ganhar com isso. É o que afirma Nicole num trecho que
seria retomado e mesmo pilhado por Adam Smith em sua fábula do açougueiro e da
padeira, que só podem ser considerados amáveis porque agem por interesse próprio:

Em toda parte, no campo, por exemplo, encontramos pessoas dispostas
a servir aos que passam e que têm acomodações já preparadas para
recebê-los. É possível usá-las como bem aprouver. Pedidos são feitos, e
elas obedecem. Sentem-se agradecidas porque seus serviços são aceitos.
Jamais se eximem de prestar a assistência que lhes é pedida. Que poderia
haver de mais admirável que essas pessoas se fossem animadas pelo
espírito de caridade? Mas é a cupidez que as leva a agir, e o faz de tão
boa vontade que bem aceita lhe seja reconhecido como um favor ter sido
empregada para nos prestar esses serviços.85

92
A nova religião aposta: 1º na libertação das paixões concupiscentes; 2º na
constituição de um todo superior à soma das partes. Assim é que a Providência
divina atua: ela não permite, como temiam alguns, que as coisas se dispersem nos
gozos privados, ela produz, pelo contrário, uma ordem “admirável”.

93

Poderíamos supor que as posições de Nicole fossem marginais em sua própria
radicalidade. Mas assim não é, elas são perfeitamente consoantes com seu século. O
século XVII, com efeito, caracteriza-se por “uma revolução da condição humana”,
como Jean Rohou mostrou recentemente num belíssimo livro.86 Essa revolução
corresponde à passagem contrariada, com bruscos avanços e recuos intempestivos,
do amor Dei e da generosidade (esquecimento heroico de si) à promoção do amor
sui e à defesa egoísta dos próprios interesses. Rohou mostra que essa passagem do
amor Dei ao amor sui de modo algum é incompatível, muito pelo contrário, com o
contexto político da monarquia absoluta de Luís XIV. Simplesmente porque a
Corte constitui um meio privilegiado para a defesa egoísta dos interesses próprios,
na medida em que cada um deve valorizar-se para expor suas supostas qualidades
pessoais diante do rei.
É com um belo cinismo que Nicole, o rigorista, ofereceria como modelo ao
cristão… o cortesão:

É uma coisa muito útil estudar com cuidado de que maneira se pode
propor os próprios sentimentos de uma maneira tão suave, contida e
agradável que ninguém fique chocado. As pessoas do mundo o praticam
admiravelmente em relação aos grandes, pois a cupidez faz com que
encontrem os meios para isto. E nós seríamos capazes de encontrá-los
tão bem quanto elas se a caridade agisse tanto em nós quanto a cupidez
nelas, levando-nos a temer ferir tanto os nossos irmãos, que devemos
considerar nossos superiores no reino de Jesus Cristo, quanto elas
temem ferir aqueles que lhes interessa poupar a bem da sua fortuna.87

Cabe notar que, mais uma vez, aqui, a cupidez gera efeitos “admiráveis”.

94
Esses efeitos “admiráveis” paradoxalmente produzidos pela cupidez em ação na vida
da Corte (contenção, suavidade, civilidade) é que são sistematicamente estudados

pelo sociólogo Norbert Elias em sua tese sobre A sociedade de corte (1933).88 Ele
analisa a Corte como “uma espécie de Bolsa”:

“Como em toda “boa sociedade”, assistimos nela à formação de uma
“opinião” sobre o valor de cada um […]. O comportamento de cada um
deve ser cuidadosamente regulado em função do valor relativo dos
outros [junto ao Rei]; o menor equívoco, o menor passo em falso
diminui a cotação do culpado.”

A existência de um todo que supera a soma das partes implica, portanto, a formação
de um novo tipo de personalidade adaptado a essa dialética. O perverso puritano
constitui sua figura de proa: por um lado, ele aposta na liberação pulsional de suas
paixões concupiscentes e, por outro, é obrigado ao cálculo racional que o força a
investir apenas onde a perda for evitada, e o lucro, tão grande quanto possível.
O perverso puritano é o personagem que resulta dessa reconfiguração pulsional
de grande alcance estabelecida por essa nova religião que substituiu a igreja, ou o
templo, pela Bolsa — menos, no início, a Bolsa de valores econômicos do que a
Bolsa das pulsões vencedoras.

95

Jean de La Bruyère revelou-se, em Os caracteres, ou Os costumes deste século (1688),
um analista implacável dessa Bolsa das pulsões vitoriosas que foi a Corte. Para isso,
precisou desenvolver uma nova língua, de frases curtas, sacudidas, suspensas,
retomadas, interrompidas, destinadas a pontuar o discurso perverso puritano, de
maneira a revelar sua natureza profundamente antifilosófica, já que nele o parecer é
constantemente levado a triunfar em detrimento do ser.

Um homem que conhece a corte é senhor do seu gesto, dos seus olhos e
do seu rosto; ele é profundo, impenetrável; dissimula os maus
procedimentos, sorri para os inimigos, reprime o próprio humor,
disfarça suas paixões, desmente seu coração, fala, age contra seus
sentimentos. Todo esse grande refinamento não passa de um vício, que
se chama falsidade, às vezes tão inútil para o cortesão, a bem da sua
fortuna, quanto a fraqueza, a sinceridade e a virtude.89

O eu-sol
96
Isto foi lindamente dito por alguns autores: o século XVII é não somente o século
do rei-sol, mas também o “século do eu-sol”. Por isso é que é preciso ir vê-lo: ele
contém os dados do programa que hoje executamos.

97
“Os homens são quase invencivelmente impulsionados para o bem, e seus próprios
vícios, se souberem usar sua reflexão para resolvê-los, transformam-se em virtudes.”
Eis o que dizia, enrubescendo ligeiramente, a marquesa de Lambert, em 1702, em
seu salão literário, considerado a antecâmera da Academia e frequentado pelos Srs.
de Montesquieu e Marivaux. A pudica marquesa certamente não sabia que,
pronunciando esse tipo de frase proveniente em linha direta do jansenista Nicole,
ela se precipitava estouvada pela ladeira fatal, a ladeira sadeana. Terá bastado que
belas pessoas do seu tipo se deixassem levar por mais uns sessenta anos para se verem

ele dedica todas as suas forças a essa harmonia superior alcançada a partir de interesses privados que se ignoram uns aos outros.90 não querem saber absolutamente nada da origem teológica da economia liberal. existe uma “autoridade superior e geral”. de uma forma tão clara. Pierre Bayle foi o contrabandista que transmitiu aos calvinistas os ricos oximoros do pensamento jansenista. que. pois entre jansenistas e calvinistas. Assim é que Boisguilbert fala da “harmonia da República. Pela primeira vez. dizem que Boisguilbert é o precursor da ciência econômica moderna. todo mundo se entende. o que ele vem a ser. nascido protestante calvinista. Ora. no caso. poderíamos acrescentar.completamente nuas e de pernas para o alto. os oximoros jansenistas foram “requentados” no calvinismo. Ele é autor de um monumental Dicionário histórico e crítico. salvo exceção. convertido ao catolicismo. entre “primos irmãos”. Os economistas atuais. antes de tudo. é o profeta da nova religião. inicialmente. Para ele. vale dizer. que deve realizar o plano secreto de Deus. já que as proposições escandalosas saíram dos círculos especializados em que haviam sido geradas para se difundir. E. que mantém o equilíbrio nos mercados “à ponta de faca”91 — Adam Smith não está longe. seu aluno em Port-Royal. primos irmãos 99 A lição de Nicole também seria ouvida por Pierre Bayle.93 E vice-versa. O que teve consequências consideráveis. no laboratório que então era constituído pelas . O que é perfeitamente normal. Pratica esplendidamente o raciocínio paradoxal. o mercado aparece como a única forma possível do vínculo social. regida de maneira invisível por uma força superior”. na posição escabrosa de Eugénie sendo educada por Dolmancé. de fato. uma Providência. pois acontece que. que prefigura a Enciclopédia.92 Essas constantes transferências entre os dois grupos é que levaram as más línguas a dizer que os jansenistas não passavam de “calvinistas requentados”. reconvertido ao protestantismo em seu período de formação. 98 A lição de Nicole seria ouvida por Pierre Le Pesant de Boisguilbert.

Assim é que Bayle explica que uma sociedade formada de ateus movidos unicamente pelo amor próprio e a avareza seria muito mais forte e próspera que uma sociedade formada de pessoas que seguissem os preceitos da religião cristã. que pretendera valer-se do aparecimento de um cometa para afirmar que se tratava de um sinal divino manifestando a oposição de Deus aos progressos do ateísmo. Assim é que Bayle afirma simplesmente que Deus de modo algum formou os cometas para desviar os pagãos do ateísmo. O que geraria um famoso escândalo em toda a Europa esclarecida. a uma defesa do ateísmo — como se costuma dizer. Bayle responde positivamente porque o que interessa não é o que os indivíduos venham a mostrar em matéria de virtudes. não mais corrompidos que os idólatras. E aproveita para chegar a afirmar que os ateus não são necessariamente corrompidos ou. pois equivaleria à promoção da superstição por parte da Igreja. portanto. Foi. O que coloca a questão de saber se uma sociedade ateia pode ser virtuosa. Bayle tanto lê Nicole que não só lhe confere em seu dicionário o título de “uma das mais finas penas da Europa”94 como se apropria de sua tese sobre o caráter potencialmente virtuoso de uma sociedade de não crentes. a virtude pública. cujo paradoxo leva ao extremo. considerando-se que podem comportar-se tão bem quanto os cristãos e até mesmo melhor. de responder à Igreja Católica. até mesmo em certos círculos bem informados. Bayle combate essa afirmação expondo o seguinte argumento teológico: Deus. portanto. para esse protestante. que acabaram levando à grande virada da primeira Revolução Industrial. pelo menos. que vai até a utilização de seus vícios privados — e particularmente do amor próprio — para satisfazer ao soberano bem. não pode valer-se de prodígios que aumentariam a superstição das pessoas. Ele não procede. e depois na Inglaterra. trata-se. a Holanda. se existe. pois . mas o plano oculto de Deus a respeito deles.Províncias Unidas. Neste livro. Essa tese é exposta no livro de Bayle intitulado Pensamentos diversos sobre o cometa (1680). Ele conclui daí que uma sociedade de cristãos autênticos rapidamente seria subjugada por um vizinho poderoso. o início da conquista do mundo pelo perverso puritanismo. Diz simplesmente que o ateísmo não é um mal maior que a idolatria propagada pela Igreja Católica. O remédio contra o ateísmo seria pior que o ateísmo. nem mesmo para combater o ateísmo. Ora.

facilmente sair-se dessa situação. deixem as máximas do cristianismo como tema para os predicadores: guardem isso para a teoria e submetam a prática às leis da Natureza. marcada pela pleonexia (a avidez). Esse mundo espera Sade. na oração […]. o golpe fatal. como veremos. portanto. ligada à paixão de ver e saber. já foram reabilitadas por volta de 1700. definitivamente emigrado para Londres. é que dará o terceiro golpe. em compensação. em detrimento das riquezas. O caminho estará livre para que um espírito coerente comece a imaginar o que seria um mundo caracterizado pela liberação total das paixões e pulsões. podemos constatar que duas entre três concupiscências. a nos tornarmos mais ricos e de melhor condição que nossos pais. ligada às paixões dos sentidos e da carne. Se quiserem que uma nação seja suficientemente forte para resistir aos vizinhos. de origem francesa. o homem que confirmaria a reabilitação das duas primeiras concupiscências. […] na mortificação dos sentidos. acrescentando a terceira. Pascal reabilitou no sofrimento a libido sciendi. Bernard de Mandeville (1670-1733) é um calvinista holandês. que permite devolver olho por olho e nos incita a nos elevarmos acima do nosso estado. Ele . como tal proibidas por Agostinho. em 1691. precisamente. Mandeville. proibindo-lhe apenas o roubo e a fraude […]. Que nem o frio nem o calor nem nada mais possa deter a paixão de enriquecer. O Pai da antiga religião já está. na suavidade. a libido sentiendi. 101 Mandeville é. Uma sociedade de ateus movidos por um amor próprio clarividente poderia. Seus sucessores (Nicole e Bayle) reabilitaram a libido dominandi. O sermão conclui com esta poderosa exortação: “Guardem da avareza e da ambição toda a sua vivacidade. ligada à paixão de enriquecer e possuir sempre mais. [seus membros teriam] sido formados na paciência ante os insultos. dois terços morto.”95 100 A esta altura.

Encontramos uma prova desse desinteresse no fato de o seu Tratado das paixões histéricas e hipocondríacas (1711) não ter sido reeditado desde 1730 (data da segunda edição). Essa cegueira teórica. por sinal. portanto. portanto. é exatamente o que ele afirma em sua Fábula das abelhas: a liberação das paixões acarreta a opulência. E. É. portanto. Mandeville é mais conhecido por suas reflexões sobre a economia. sofrem por se sentirem aprisionadas nos corpos concupiscentes. que o transformaram. à filosofia das paixões. que leu Nicole. envolvendo a medicina da alma. embora essa relação me parecesse necessária. é. é por ter entendido perfeitamente que a riqueza global de uma comunidade humana pode ser consideravelmente alterada em função do grau de mobilização pulsional realizada. “médico das almas”. em meu livro anterior. a estabelecer uma continuidade não só biográfica. senão na forma de um fac-símile impresso nos Estados Unidos e muito difícil de encontrar hoje em dia — motivo pelo qual seria bom reeditá-lo. os economistas de hoje não querem saber do fato de que sua ciência só pode ter consistência se for integrada numa economia geral. leu Bayle. provavelmente é explicada por dois motivos. muitas vezes.nada ignora de La Rochefoucauld. entre o Mandeville médico e o Mandeville economista. as almas. geralmente é ignorado. além disso. Seu interesse pela carne decorre da coisa médica. embora seja essencial. para muitos economistas. o controle das paixões provoca a miséria. Em compensação. Por um lado. Por outro. Mas. Este aspecto da vida de Mandeville. restringindo-se. pois se Mandeville é o inventor que conhecemos em matéria econômica. a respeito de um autor da importância de Mandeville. Sua famosa Fábula das abelhas é regularmente reeditada e traduzida. Ora. inclusive de forma suntuária (na guerra. mas sobretudo lógica. . como se diz na época. Creio ter sido o primeiro. que vai da mobilização das pulsões à produção das riquezas — e mesmo (se nos mostrarmos sensíveis às teorias de Georges Bataille) até o gasto dessas riquezas.96 Parecia-me então muito estranho que esses dois aspectos de sua vida nunca tivessem sido relacionados. que leu Pascal. os especialistas da filosofia moral raramente tratam de economia. examina os corpos. da qual fez sua profissão. a lição mandevilliana que estão esquecendo. no grande precursor da ciência econômica moderna. Ele é médico e. por exemplo).

à maneira das fábulas de La Fontaine. Como me parece mais que nunca válido o que eu então propus sobre a correlação a ser estabelecida entre Mandeville médico e Mandeville economista. é o fato de falar que libera o paciente. e aproveitarei para fazer alguns esclarecimentos sobre pontos importantes que hoje se me afiguram com maior clareza. Foi por se ter dado conta de que podia aliviar seus pacientes fazendo-os falar que podemos afirmar. ele abordou. no dos homens. a fábula é apregoada nas ruas malcheirosas de Londres ao módico preço de meio tostão a folha — muito mais barato que uma passagem nas carruagens de Pascal. portanto. É para demonstrar essa resposta surpreendente que Mandeville se arrisca a escrever uma fábula. como sustentei em Le Divin Marché (capítulo 10). para levantar o recalque de certas paixões. os pacientes aliviados.98 A moral afirma que os vícios privados fazem o bem público e que a virtude condena uma grande cidade à pobreza . que Mandeville é um precursor da psicanálise. Ele conhece sua fatura e seu estilo. pela atividade de médico das almas de Mandeville. como acredita a maioria dos médicos da época. de preferência histérica no caso das mulheres. De reedição em reedição. a grande questão dos efeitos terapêuticos da fala. quase dois séculos antes de Freud. portanto. e não as purgas e sangrias. Ora. o indivíduo fica doente. Com efeito. Retomarei aqui apenas alguns aspectos pertinentes no contexto dessa investigação. da liberação das paixões à riqueza 102 Tudo começa. ela acaba por se intitular A fábula das abelhas. E dá a essa fábula o título de The Grumbling Hive or Knaves turn’d Honest (“A colmeia insatisfeita ou os velhacos tornados honestos”). descobrindo que a melhora de seus doentes decorria de uma liberação das paixões. Em 1704. melancólico e hipocondríaco. Muito bem. Se não forem liberadas essas paixões (o que ele chama de “espíritos animais”). pois foi seu tradutor na Inglaterra. Mas que é que se gera exatamente quando esses pacientes são soltos no mundo? A resposta de Mandeville é surpreendente: isto produz riqueza. publicando-a anonimamente. Mandeville. limitar-me-ei basicamente a remeter a esse estudo.97 Eis.

Essa ideia de Bernard Mandeville seria . acrescentando à anterior uma “Investigação sobre a natureza da sociedade” e um “Ensaio sobre a caridade e as escolas de caridade”. gosto do luxo.100 É quando explode o mais espetacular escândalo filosófico de toda a Europa do Iluminismo. e que é possível fazê-los ocupar o lugar das virtudes morais. seu livro é queimado em toda parte como obra do diabo. atração do lucro. o qual. pois assim estarão fazendo o melhor ao seu alcance pela prosperidade do seu país e a felicidade dos seus concidadãos. sua moral se expressa no segundo subtítulo da Fábula: “Sejam tão ávidos. comentando o poema verso a verso. um moralista “à antiga” que ainda considera que o bem é o bem e o mal é o mal. podem ser utilizados em proveito da sociedade civil. libertinagem. na humanidade depravada. para a coletividade. o caráter e os comportamentos considerados efeito desastroso no indivíduo de uma das três concupiscências ou libidos (paixão de ver. como sabemos.e à indigência. em 1727. prostituição…) encontram-se. Nela. egoístas e gastadores por seu próprio prazer quanto puderem.” O que poderia ser condensado como “é preciso dar liberdade aos egoísmos” [laisser faire les egoïsmes]. contendo vários discursos que mostram que os defeitos dos homens. trapaças. Mandeville é acusado de ser um espírito libertino e ateu. no qual defende a ideia de criar bordéis administrados pelo governo. Mandeville publica A fábula das abelhas. acrescentando ao texto de 1704 vinte “Observações”. no qual Mandeville denuncia as instituições caritativas e faz o elogio dos prostíbulos como possível fonte de prosperidade. ele publica. seu nome. em 1729. retomando passagens de Pierre Bayle. na origem da prosperidade geral e favorecem o desenvolvimento das artes e das ciências.99 No mesmo impulso. Mas o escândalo só viria com a edição de 1723. “o homem do diabo”. um livro intitulado Vênus a popular ou Apologia das casas de prazer. Mandeville adiciona à Fábula uma segunda parte composta de seis diálogos entre seu porta-voz (Cléomène) e um discípulo de Shaftesbury (Horace). gosto da destruição. é transformado em Man Devil. que por sua vez se legitimava através de Pascal. A antropologia liberal nasceu. corrupção. Mandeville. Em 1714. O título é bem claro sobre a intenção do autor: A fábula das abelhas ou Os vícios privados fazem o bem público. Mandeville esclarece e aprofunda seu pensamento. de saber e de poder. se inspirava por sua vez em Pierre Nicole. Finalmente. A tese principal da obra é clara: as atitudes. trem de vida dispendioso.

em suma — por Adam Smith. o Magnífico? Ou ainda na Índia. durante a qual foi escrito o primeiro tratado de economia política. até hoje sem resposta. desenvolvida e expurgada de todo diabolismo — normalizada. tendo por um lado uma mão de obra desenraizada e. A riqueza das nações. ou antes. em sua obra principal. finalmente nasceu na Europa por volta de 1700. amoral. Aí é que se encontra. a resposta a essa pergunta. A única resposta possível parece-me a seguinte: as condições materiais identificadas por Marx provavelmente estavam reunidas nesses diferentes lugares (acumulação primitiva. por exemplo. tanto mais que a primeira máquina a vapor. 103 A leitura de Mandeville permite entender o que muitos estudos econômicos não conseguem explicar. não estava. nos séculos XVII e XVIII? Ou ainda no apogeu do Império Otomano. no século IV antes de Jesus Cristo. ao passo que aqui foram . Quero dizer que nesses lugares as paixões eram contidas em sistemas simbólicos poderosos. intitulado Arthaçastra — Instrução sobre a prosperidade material? E ainda poderíamos mencionar muitos outros lugares. por exemplo. e não nos séculos de ouro do Império Romano. na época da dinastia Maurya. e por todos os pensadores da economia liberal que haveriam de se seguir a ele. nenhum se transformou em mercado liberal capitalista? Por que essa transformação ocorreu na Europa por volta de 1700. acabava de ser inventada por Héron de Alexandria? Ou ainda na China. no apogeu da dinastia Qing. sob a dinastia dos Antoninos. sob Solimão. mas a condição moral. a eolípila. e depois na Inglaterra? Por que. tendo amadurecido desde a Idade Média. se em tantos lugares existiam poderosos mercados tradicionais. Mandeville disse a verdade do liberalismo antes que Adam Smith se apressasse a ocultar essa verdade escandalosa. antes de mais nada.retomada. em minha opinião. Por que exatamente o capitalismo. por outro. a liberação das paixões/pulsões. concludente e constantemente reiterada desde Marx. Não teria sido possível o desenvolvimento do capitalismo sem a liberação das paixões. Bastaria a Adam Smith substituir a palavra “vício” (pejorativo) pela palavra self-love (melhorativo). nas Províncias Unidas impregnadas de calvinismo. O liberalismo é. fluxos de dinheiro). no século XVI.

a colmeia é uma ilustração perfeita do gênio do Criador da natureza. portanto. inaugurada por Pascal. podemos notar que não estamos longe da problemática da aposta. que consegue construir uma organização extremamente complexa. sobretudo. Se apostamos na virtude. Essa liberação das paixões ao longo dos séculos XVII e XVIII é que permitiu a entrada no capitalismo. Mais uma vez. Uma alegoria que contém uma parábola. Para começo de conversa. a colmeia representa uma comunidade humana. Espontaneamente eu o havia tomado. Com toda evidência. a sociedade é identificada a uma Bolsa de Valores pulsionais vitoriosos — o que La Bruyère já bem identificara no caso da Corte. a partir de uma única causa . o da fábula. como tantos outros. e as abelhas.liberadas. ganhamos — por assim dizer — a pobreza. não me dei conta suficientemente do que representava de fato o tema da colmeia. implicando a divisão do trabalho entre os homens. retomado explicitamente. de fato. Estamos em pleno tema perverso puritano por excelência: o mal acarreta o bem. na qual se esconde o ensinamento a ser transmitido. a rica colmeia como modelo 105 Em meu anterior estudo sobre Mandeville. por uma simples alegoria implicada pelo gênero que o autor havia escolhido para apresentar suas ideias. Se apostamos no vício. ele o era — ao mesmo tempo trazendo consigo formas absolutamente inéditas de alienação. Mas. E. uma narrativa encenando animais. ganhamos a riqueza. para todos os fins úteis. mas hoje me parece que o tema da colmeia contém algo mais. na moral da fábula. os habitantes dessa comunidade às voltas com uma alternativa: vício ou virtude? Quais as consequências de cada uma dessas escolhas? Tudo isso é verdadeiro. 104 Nessa condição amoral reside certamente o segredo da irresistível penetração do capitalismo em muitos sistemas tradicionais em todo o mundo: o capitalismo pareceu libertador a muitos dos povos ainda presos a severas cláusulas morais. E estamos no tema do jogo: a questão é fazer a boa aposta… como na Bolsa.

103 106 O que me parece analisar mais radicalmente a colmeia mandevilliana. Friedrich Hayek. explorou sistematicamente as proposições de Mandeville.102 Espontânea porque não foi determinada por ninguém na colmeia e decorre de uma auto-organização que de modo algum deve ser entravada (donde a palavra de ordem constante do liberalismo: laisser faire — deixar fazer). tão perfeita quanto a da colmeia. É pura e simplesmente o projeto cibernético. 107 . uma ordem perfeita que os transcende. é o castelo sadeano. que já está contido na ideia de colmeia. tal como viria a ser desenvolvido por Norbert Wiener. de certa maneira. uma religião imanente natural. sem precisar intervir com leis jurídicas ou regras morais. Existe aí uma espécie de astúcia do Criador. com esses homens incapazes de sair de uma total alienação aos seus vícios. Foi o que chamei de divino Mercado. Utilizando da melhor maneira possível este simples e mesmo estúpido amor próprio. a uma metáfora “admirável”. gerando todas as libidos possíveis. que também se organiza a partir de uma exploração sistemática de todas as paixões imagináveis e mesmo inimagináveis. Logo veremos de que maneira Sade. deixar realizar-se o plano divino oculto.101 Por outro lado. ao construir sua famosa teoria da ordem espontânea. no que ela tem de extremamente inquietante para a liberdade humana. que utiliza os defeitos dos homens para criar. que se escorou particularmente em Mandeville. Fica perfeitamente claro que só saímos aqui da religião transcendente antiga para entrar numa religião nova. já que ela é organizada de acordo com um programa perfeito de grande complexidade. na qual se trata de deixar fazer.muito simples: o amor próprio (chamado de self-liking por Mandeville). que resulta de subprogramas muito simples (comportando apenas algumas instruções) seguidos por cada um dos habitantes. podemos chegar. a possibilidade de construir essa “ordem admirável” não escapou ao grande teórico do liberalismo do século XX. apesar deles próprios.

de Louis Dumont.107 Dumont mostrava que. é o estabelecimento do que ele chama de ideologia econômica. por ele . Em outras palavras. representado na Europa pelo pensamento divino. por exemplo. uma grave lacuna a propósito dos estudos smithianos. ao qual era necessário submeter-se. transcendente. através do pensamento econômico. O primeiro diz respeito ao que se deve pensar da condenação sem apelação lançada por Adam Smith contra o que ele chama de “sistema licencioso” de Mandeville. e não seria possível decidir de maneira leviana nessas discussões. Investigação sobre a natureza e as causas da riqueza das nações. o outro grande economista austríaco do século XX. no sentido de empatia. teólogo. tínhamos saído por etapas do pensamento de um Homo hierarchicus para chegar ao pensamento de um Homo aequalis. em 1976. O que se dá nessa passagem. segundo Dumont. a partir do século XVIII. omitida e talvez até recalcada pelos comentaristas. desenvolvido na obra principal.105 das-Adam-Smith-Problem 108 François Dermange acaba de preencher. não sendo possível entender suas teorias econômicas sem referência a essa constante atividade de teólogo preocupado com a filosofia moral. antes de mais nada. havíamos saído de um mundo holístico. Limitar-me-ei a expor alguns argumentos em torno de dois pontos importantes. sob o nome de das-Adam-Smith-Problem: a suposta incompatibilidade entre o conceito de self-love (egoísmo). para entrar num mundo no qual o individualismo passaria a dominar.106 Ele frisa que Adam Smith era. Dermange traz à luz aqui uma dimensão frequentemente esquecida. Essa dimensão era. O segundo é relativo ao tema filosófico conhecido desde Joseph Schumpeter. num livro notável. dominado pela ideia de um todo. uma obra de grande repercussão intitulada Homo aequalis. totalmente ignorada no trabalho. desenvolvido na outra grande obra. com o significativo subtítulo de Gênese e desenvolvimento da ideologia econômica.104 e o conceito de simpatia. que publicou. construído sobre a autonomia dos atores ou dos agentes. correspondendo à capacidade altruísta de compreender o outro. a Teoria dos sentimentos morais. durante muito tempo considerado referência.Serei (quase) rápido a respeito de Adam Smith — pois realmente existem muitos debates antigos e atuais sobre o fundador da ciência econômica moderna.

mas ainda assim um sistema religioso. em Mandeville ou em Smith.examinada a partir de alguns grandes nomes.109 A observação é capital: a própria tese da saída do holismo e do advento do individualismo é que vem a ser desafiada. já que. Gauchet escreve o seguinte: “Não vamos aqui entrar na longa discussão que estaria a exigir uma questão tão espinhosa. que publicara. que é um grande pensador. Parece-me que Gauchet. se engana a seu respeito: ele não sabe que ainda se encontra num sistema religioso. depois da dispensa do Deus transcendente dos monoteísmos. não humanos: a natureza. como frisa Dumont. para a assimilação dos mecanismos sociais a mecanismos não sociais e. escreve: É verdade que. havendo antes a tendência para o oposto. marcado pela imanência. de Quesnay a Smith. De certa maneira. uma resenha crítica dos textos de Dumont. E com efeito. o Criador da natureza. Tanto mais que lemos logo em seguida que . percebeu perfeitamente a objeção que um dia lhe poderia ser feita. Um sistema religioso diferente do sistema da transcendência. a Providência… Ora. no fim das contas. novo.”110 O que é uma pena. O qual. resta um deus ex machina que rege o mundo humano: a natureza. em minha opinião. passando por Locke e Mandeville. que foi retomada por um pensador do tirocínio de Marcel Gauchet. pois mostra que Gauchet só faz algumas críticas a Dumont para melhor retomar sua intuição e dela fazer a própria base do seu sistema de pensamento: foi a economia que definitivamente emancipou a política da religião. A análise de Dumont teve tal repercussão. ele a havia previsto. pouco depois do lançamento. esta particularidade [a capacidade de decifrar o social] de modo algum aparece conceitualmente. E por sinal é esse o credo do liberalismo político. no momento em que seria o caso de saber muito mais sobre essa nova entidade que veio substituir o antigo deus.108 A leitura desse texto é muito interessante. no qual o plano divino se realiza sozinho.

E por sinal me parece que Gauchet percebe a dificuldade. especialmente em relação aos mais antigos de Dumont e Gauchet. Em boa lógica de argumentação. neste ponto. Mas não é possível dizer as duas coisas ao mesmo tempo. Onde o trabalho recente de Dermange nos revela muita coisa. ignorado pelos . tínhamos realmente saído da religião — o que seria perfeitamente verdadeiro se Gauchet tivesse dito que tínhamos saído não da religião. com efeito. Creio que. assinalando uma falha no discurso argumentativo. não é possível sustentar duas posições contrárias ao mesmo tempo: o radical desconhecimento em que se encontram os homens não pode permitir o reconhecimento por esses mesmos homens de seu poder sobre sua sociedade. apresentada convenientemente com o nome de “ciência econômica”. Eu sempre considerei extremamente pertinente a afirmação de Barthes de que a figura de retórica se manifesta num lugar de quebra do discurso. uma “ciência da mão invisível”. Por ter retomado e reiterado a leitura cega de Dumont sobre essa questão capital é que Gauchet afirma que. é preciso decidir: ou se diz que os homens dispõem já agora de todo poder na organização de sua sociedade. é ao mostrar que “a obra de Smith tem um alcance teológico que foi. a redução conceitual do automatismo social global a um mecanismo “natural” […] em nada diminui o alcance da cisão ocorrida entre o círculo consciente da atividade egoísta dos indivíduos e o processo “invisível” que estabelece e mantém a compatibilidade geral dos interesses. A linguagem empregada não mente. Significaria apenas construir nesse lugar uma teologia racional. em nada mudaria essa sujeição. nesse momento exato de invenção do Homo œeconomicus. Assim é que podemos ler com poucas linhas de distância essas duas expressões se alternando: “cisão” e “consistência própria” do social. pois o fato de analisá-la de modo algum significaria esquivar- se ao seu poder. explicar de maneira racional a “mão invisível”. ou então se diz que existem mecanismos invisíveis e poderosos regendo os fenômenos coletivos à revelia dos agentes. pois seu texto de repente é tomado por torneios e figuras retóricas tentando manter as duas proposições contrárias. Além disso. em grande medida. vale dizer. mas de uma religião… para logo entrar em outra.

à velha questão teológica. por um jogo de forças que repousa no princípio do interesse pessoal.comentadores”. o papel da atração na teologia científica de Newton. na teologia natural. expressão que. Adam Smith. Quando fazemos o cruzamento dos textos de Adam Smith como fez Dermange. esse alcance teológico. o universo humano é organizado. que nesse curso de teologia natural. O problema é que Smith destruiu a maioria dos manuscritos do seu curso de teologia. simplesmente a das provas da existência de Deus. o interesse desempenha. Sabemos a esse respeito. Em suma. E a resposta que dava era tentar tirar a religião da transcendência e fundar uma religião natural. “muitos ortodoxos sentiram [o trabalho de Adam Smith] como uma traição da Reforma” — consistindo essa traição em uma “substituição de uma teologia natural pelo princípio sola scriptura” —. estruturado por um jogo de forças que repousa no princípio da atração. Reunindo-se tudo isso. através de um aluno de Adam Smith chamado John Millar. percebemos que Adam Smith inscreve-se no amplo movimento contemporâneo de uma teologia científica de inspiração newtoniana. percebemos que Adam Smith tentou retomar e responder. abarcando sua história da astronomia. sem que os indivíduos o saibam. quando. de fato fora notado na recepção dos trabalhos de Adam Smith. Ela está presente em Adam Smith com o famoso nome de “mão invisível”: . tendo analisado os pontos fracos das provas da existência de Deus. Mas o principal interesse do livro de Dermange é tentar reconstituir o essencial deles. sua história da física dos antigos. em novos termos. Mas o que significa substituir o antigo princípio sola scriptura por uma teologia natural? Para sabê-lo. perguntava-se de que maneira refundar a religião. organizando um conjunto e ultrapassando. Ele o conseguiu fazendo o cruzamento de diferentes trechos disseminados pela obra de Adam Smith. seria necessário consultar o curso de teologia natural de Adam Smith.111 E. como afirma Dermange. em bom latim. De modo que Adam Smith longe está de acabar com a ideia de um desígnio divino. desastradamente esquecido. superando cada vontade individual. que fez um relato do seu ensinamento. no entanto. sua história da lógica e da metafísica. a exemplo do universo cósmico. Adam Smith postula que. significa “só pela Escritura” (ela fora muito utilizada por Lutero).

contudo. o fato de esse fim em nada entrar em suas intenções. mas também e. ele muitas vezes trabalha de uma maneira bem mais eficaz para o interesse da sociedade do que se realmente tivesse o objetivo de trabalhar nesse sentido. capaz de converter o mal no bem. ler os grandes tratados de economia do século XVIII. como por acaso. . pois uma mão invisível transfigura seus vícios privados em virtudes públicas. essa data corresponde exatamente à da Fábula das abelhas. Ao mesmo tempo que persegue apenas seu interesse pessoal. de Mandeville e Adam Smith. É o caminho escolhido por Deus. apesar deles. que. Devemos. no sentido a ela atribuído por Leibniz em 1710. e mesmo contra eles. visam e visarão sempre seus interesses egoístas.112 sair da religião… para melhor entrar nela 109 Se levarmos a sério as expressões smithianas “espírito oculto”. nisso. e nem sempre é isso o que há de pior para a sociedade. Em vez de reprimi-los. [O indivíduo] só pensa em se dotar pessoalmente de uma maior segurança. e estarão sempre buscando satisfazer seu orgulho e seu amor próprio. “mão invisível”. assim conduz os homens. como tratados de filosofia moral que explicam que sendo os homens maus. apesar do mal que reina entre os homens. portanto. entre outros. ele só pensa no próprio ganho. Ora. ao mesmo tempo que o renova profundamente. dela diferindo sensivelmente. no entanto — afirma que o mal. como em muitos outros casos. sobretudo. e ao dirigir esse empreendimento de maneira que o seu produto tenha o maior valor possível. em Sua infinita sabedoria. A palavra teodiceia deve ser tomada não só no sentido geral do que diz respeito à natureza e à existência de Deus. os vícios. trata da conversão dos vícios em virtude. fica muito difícil pensar que estamos saindo da religião. deve ser entendida como uma expressão particular da teodiceia. que se inscreve no espaço do pensamento onto- teológico. é preciso deixá-los fazer. é conduzido por uma mão invisível a atender a um fim que de modo algum está em suas intenções. Essa nova religião — que tem suas raízes na antiga. as paixões e as concupiscências servem definitivamente à realização do bem. em seus Ensaios de teodiceia: como justificar Deus. o qual. Dermange bem percebeu que a “mão invisível”.

Em suma. Esta explicação pela teodiceia confere. E como essa equação é respeitada. E esse melhor dos mundos possíveis é o único mundo visível. Deus faz o que pode com o que tem sob Sua mão (invisível): homens muito imperfeitos.na direção do soberano bem. ao contrário do que se afirma. quando os tinham. Cabe acrescentar que entre “liberalismo religioso” e “religião liberal”. ser chamado) evoluindo para Beruf (profissão). estamos no melhor dos mundos possíveis.113 escrevia: “Os defeitos aparentes do mundo inteiro […]. Algumas dessas expressões. na verdade. ao estigmatizar “a mania de sustentar que tudo está bem quando se está mal”. Ele tenta conseguir o melhor resultado possível com uma aposta fraca. são de Voltaire. leitor crítico de Leibniz. como ele.115 Limitar-me-ei a duas observações. precisando buscar a confirmação de sua vocação santa. o fato de ele se centrar no calvinismo como fonte do capitalismo o leva a subestimar o papel da outra corrente do agostinismo no século XVII.114 “liberalismo religioso”. Deus também sabe tomar o homens por seus maus aspectos. sentido a uma expressão muito habitual nos Estados Unidos. Em segundo lugar. . Assim é que. Muito pelo contrário. pois esse único mundo possível é o melhor dos mundos possíveis. Na religião antiga. em sua atividade profissional. não dá para destrinçar — em outras palavras. ele se vira para diminuir ao máximo os danos. que talvez não se tenha equivocado. Leibniz. não saímos da religião. em seus Ensaios de teodiceia. Isso está longe de ser falso — foi inclusive uma grande descoberta —. servem apenas. para revelá-la. grande leitor de Pascal e. e ainda menos utilizada. a de religious liberalism. o jansenismo. Deus tomava os homens por seus bons aspectos. Na nova. ao mesmo tempo se proibindo de desfrutá-la — Berufung (vocação. como se sabe. mas muito pouco conhecida na França.” Em outras palavras. longe de diminuir sua beleza. de sua predestinação. Em primeiro lugar. matemático. com o liberalismo. puritanismo ou perversão ao quadrado 110 Difícil aqui deixar de evocar a análise clássica de Max Weber. considero por demais sumária a explicação segundo a qual os fiéis calvinistas. transformaram sua vida em uma busca metódica de riquezas. espero. Em outras palavras. O que vem exatamente a calhar.

na qual o mal se converte em bem. “Nova” porque não devemos confundi-la com uma imanência antiga do tipo da que prevalecia. a do (divino) Mercado. Resta. promessa de felicidade. A partir do momento em que esse mecanismo de dupla face é identificado. A passagem da religião sola criptura (só a Escritura) para a religião natural corresponde à transformação radical da antiga transcendência numa nova imanência. é ainda mais confirmada pelo exame das obras da natureza. numa primeira abordagem: Primeira grande novidade. Uma nova religião. com a teodiceia leibniziana. com a mão invisível de Adam Smith. . o outro lado. Essa opinião. assim. senão a felicidade do homem. O que resulta num mecanismo muito mais sutil. religião liberal. parecendo todas previstas para promover a felicidade e afastar a miséria. que chamo de perverso puritano. no espaço grego arcaico. parece digno da sabedoria suprema e da benevolência divina que atribuímos necessariamente ao Autor da natureza. o exame do lado perverso. numa outra. por exemplo. do qual temos um perfeito exemplo com a conversão mandevilliana dos vícios em virtudes.mas se expõe à crítica de levar em conta apenas um lado das coisas. à qual somos levados pela consideração abstrata de suas perfeições infinitas. o lado puritano. realização do melhor dos mundos… sua forma mais digna de crédito: Nenhum outro fim. às escondidas.116 112 O que poderia ser dito de outra maneira: se saímos da antiga religião. que está em jogo desde o agostinismo do século XVII. foi para melhor entrar. cujas principais características aqui estão. impõe-se a pergunta: o puritanismo não seria uma corrente espiritual rigorista decorrente de uma perversão que se nega — o que então nos forçaria a pensá-lo como… uma perversão ao quadrado? 111 Adam Smith é que saberia dar ao sonho puritano misturando teodiceia.

depositada nas Escrituras santas. Voltaire…). isso permite que cada grupo e cada confissão permaneça livre para seguir seu culto próprio desde que juntos eles participem do bem comum prometido por essa nova religião natural.Não se trata de uma imanência dilacerada por forças múltiplas em possível contradição umas com as outras. por um Deus artista e matemático. por sinal. A vantagem manifesta dessa transformação da religião sola scriptura em teísmo ou deísmo. VI). já que basta. E. Nessa nova religião imanente. um Deus de que não pode mais apropriar-se nenhuma facção — o que constitui uma fantástica oportunidade de reconciliação.117 Trata-se. levar a cabo as atividades cotidianas. desde que lhe reste ainda um pouco de transcendência a saciar. exigindo-lhes o controle ou o domínio de suas paixões como condição prévia para o acesso ao reino celeste. depois de dois séculos de intensas disputas doutrinárias que acarretaram tantas guerras. em suma. à impossibilidade de decidir entre essas forças. Essa nova religião . d’Alembert. TSM. unificada no grande todo de uma natureza regulada como um relógio. é evidente. a promessa de felicidade não participa mais de uma revelação por Deus. é exatamente esse sistema que está em vigor desde então nos Estados Unidos da América. para alcançá-la. Além disso. Esse Deus não dirige mais os homens. O que esse Deus exige de nós é simplesmente a realização de nossa natureza. a exemplo do que encontramos em muitos autores do século XVIII (Hume. no bem próximo. está no concreto. Limitando-nos às regras espontâneas é que a “distribuição de nossos bons ofícios” (nossos atos cotidianos) pode ser mais útil. agora. de uma profunda transformação do cristianismo em teísmo ou deísmo. harmonizando-as. tantas perseguições e tantos assassinatos em toda a Europa. onde todos são vigorosamente exortados a participar juntos dessa religião natural. ou pelo menos não mais no distante. Transparece claramente nesta afirmação a admiração de Adam Smith pelo deus dos estoicos. a religião do Mercado. mas a partir do jogo espontâneo dessas. A felicidade. e é assim que podemos “descobrir a mesma Sabedoria infalível [que a] que regula cada aspecto do curso da natureza” (Adam Smith. enquanto individualmente cada um pode frequentar sua igreja própria. tal como a concebemos na vida comum. Temos aqui uma imanência absoluta. partindo da defesa de nossos próprios interesses. Segunda grande novidade. Apresenta-se aí um Deus universal. vale dizer. que podia apoderar-se dos indivíduos a qualquer momento e expô-los ao trágico.

o amor sui. especialmente na Holanda. Isso permite entender a enorme proximidade entre Adam Smith e Mandeville. Para os dois. pois praticamente tomou tudo dele — e o denuncia na TSM por ter gerado um sistema licencioso. isentado de culpa e mesmo transformado em eminente qualidade. permitiu também enfeixar as ciências econômicas e sociais num . não existe aí qualquer vício. Bastou rastrear todas as ocorrências da palavra “vício” e substituí-las pelas palavras “self-love” e “interesse próprio”. E. absolvido. mas no caso de Adam Smith já não é o caso de chamar de “vício” o que diz respeito ao amor próprio. por uma total reabilitação do amor sui. Esta função “Editar-Substituir” avant la lettre foi um excelente método para transformar sem dificuldades um Man Devil. pois é através dele que Deus pode agir no e sobre o mundo dos homens. Em consequência. que subitamente se torna a melhor via de acesso ao amor Dei. um “homem do diabo”. Essa nova religião não é mais trinitária. surge nessa época. é ler esse grande livro que Deus lhes entrega para ter acesso às equações que sustentam esse mundo. vem a ser exaltada como a força graças à qual esse novo Deus realiza seu plano para os homens: a preservação do indivíduo e a propagação da espécie com vistas à felicidade (tema que seria muito desenvolvido pelos utilitaristas). Se essa perspectiva permitiu que fossem dados passos gigantescos no terreno das ciências da natureza. Adam Smith encontrou o método perfeito para transformar um sistema licencioso num sistema virtuoso. começam a proliferar diversos movimentos antitrinitarianos ao redor da Reforma. essa paixão outrora suspeita. heresia unitarista do século IV que nunca chegara a desaparecer completamente. portanto. assim. mas também a reserva do primeiro em relação ao segundo. por sinal. é ao mesmo tempo unitarista (existe apenas um único Deus garantindo a unidade do conjunto do mundo) e binária (esse mundo pode ser expresso em linguagem matemática). por volta de 1700.caracteriza-se. que afirmam que o universo é um grande livro escrito em língua matemática. em um santo homem. O “vício” é. Esse declínio do trinitarismo deve ser relacionado à ascensão da teologia científica desde Galileu e Newton. de certa maneira. trata-se de visar a felicidade no mundo humano.118 O dever dos homens. Recebendo o bastão do arianismo. toda uma série de movimentos antitrinitarianos. Adam Smith de tal maneira quer se distinguir de Mandeville. na Inglaterra. Segundo Adam Smith. Terceira grande novidade. que sequer o menciona na Riqueza das nações — o que é o cúmulo.

Mas não se devia ficar preso a essa impressão desagradável. na história da humanidade. pois no fundo isso ocorrera para o bem deles: Nesse estado de coisas. e os dois milhões de sobreviventes seriam muito ingratos de não ver que foram substituídos por coisa muito melhor: animais da Europa! Uma mão invisível. parece impossível que um ou outro desses impérios pudesse ser tão civilizado ou tão culto quanto hoje. portanto. Essa nova religião estabelece um novo mecanismo sacrificial. Na nova religião imanente. sendo a coisa feita pelo bem comum e futuro da humanidade: “Nenhuma sabedoria humana é capaz de prever os benefícios ou os infortúnios que um ou outro desses dois acontecimentos preparam para os homens na continuidade . ser sacrificados. numericamente. ora. Um indivíduo ou um povo exótico podem. tratou de deixá-los na proporção justa em relação ao grau atingido por sua civilização. havia alguém. pretendendo a todo preço dobrar a realidade (social) para que ela se conformasse aos modelos matemáticos que supostamente provariam a harmonização dos interesses privados. a população de um país precisa necessariamente ser proporcional ao grau de sua civilização e de sua cultura. Naturalmente. do arado e da maioria de nossas artes foi introduzido neles. é interessante reler o que Adam Smith dizia dos grandes genocídios das populações do Novo Mundo — certamente os maiores. já que podem assim ganhar todo tipo de benefícios. o sacrifício não é realizado de uma vez por todas. ele deve realizar-se constantemente. quando são abundantemente providos de todos os tipos de animais da Europa. A esse respeito. que morrera de uma vez por todas para resgatar todos os demais.cientificismo. e quando o emprego do ferro. ele considerava algo triste o desaparecimento das populações incas do Peru e astecas do México.120 Vinte milhões de indígenas podem assim ter desaparecido em um século só no México.119 Quarta grande novidade. que sabe o que está fazendo. Na religião transcendente trinitária. No processo infinito de harmonização das paixões e dos interesses privados. mas que importa. um terceiro.

pelo contrário. publicadas um século antes. ao contrário do que diz a lenda. desde que eles . O que ocorreria sempre para grande desespero de Darwin. que Darwin encontrou sua ideia mestra. para que os mais adaptados sobrevivam e os menos adaptados desapareçam. “religar”. Referimo-nos. Essa nova religião segue. que pensava que as sociedades humanas não obedeciam (e. em concorrência selvagem com os outros. com efeito.121 De modo que o darwinismo social antecede o verdadeiro darwinismo. O grande paleontólogo e historiador das ciências Stephen Jay Gould demonstrou. a satisfação pulsional. nas obras de Adam Smith. com isso. Essa redução das regras que presidem a humanidade às que valem para a animalidade decorre de uma pura e simples naturalização das questões humanas — ora.122 Isso nos leva a pensar que Darwin não poderia ter adotado para as comunidades humanas o modelo da colmeia. que realizará tudo por seus filhos. a reabilitação total do amor sui implica. Ora. com efeito. descrevendo as relações entre os homens na teodiceia liberal. a natureza é uma mãe. Já notamos que essa religião não era mais trinitária. nas quais as condutas simbólicas são reduzidas a dados de natureza. mas uma de suas causas. não deviam obedecer) ao princípio de seleção existente nos reinos vegetal e animal. Nessa religião natural. Em suma. tanto mais por julgar poder fundamentar-se no darwinismo biológico. a lógica de um darwinismo social avant la lettre. é movido por um único princípio simples.dos tempos” (ibid. Ora. O Pai. o que deve ser entendido no sentido de que a figura do terceiro. a da seleção natural das espécies.). E também haveria de seguir- se a ele. era um proibidor que refreava as paixões individuais para possibilitar o vínculo social e religar os indivíduos — o que corresponde a uma das etimologias possíveis de “religião”: religare. no qual cada indivíduo. é pulverizada. uma boa mãe. sobretudo. a do Pai. Essa religião não é mais uma religião do Pai. ao discurso segundo o qual era o desígnio do Autor da natureza que os homens lutem entre eles. sem a limitação das proibições do Pai. portanto. Quinta grande novidade. o do interesse. É uma religião da Mãe. é exatamente o que vemos em ação nas ciências humanas e sociais atuais. Que só é inteiramente possível num contexto maternal. o darwinismo social não é uma consequência do darwinismo biológico. os sacrifícios realizados nada representam em vista da felicidade que a realização do plano secreto do Criador da natureza certamente proporcionará.

Mas nada impede que ela também exista em cada um. lavar o homem do diabo 113 Como vimos. 114 Adam Smith tratou de dissimular o princípio pornográfico que Mandeville não se cansara de afirmar. mas depois passa a ser um dinheiro neutro. uma mesma lógica está em ação na construção mandevilliana e na de Smith. É essa. E digo “lavar” como se diz “lavar dinheiro sujo”. Passamos de um governo dos indivíduos baseado no poder (paterno.a deixem fazer. Ele tem em Mandeville uma nítida conotação perversa. Mas o fato é que o texto de Mandeville é que diz a verdade do de Adam Smith. esse dinheiro tem origem mais ou menos criminosa. Adam Smith conseguiu lavar o sistema licencioso de Mandeville para torná-lo aceitável. Mandeville. a lei do gênero — foi o que vimos com Pascal e seus sucessores. E é absolutamente puritano em Adam Smith. O que. artificial. A exaltação perversa do vício em todas as suas formas deu lugar à afirmação puritana de um interesse pessoal ou abstrato como princípio. só pode gerar mudanças consideráveis no ser-si-mesmo e no ser-junto: passamos de um poder gerador de efeitos e posturas neuróticos a um prover que favorece a perversão polimorfa. natural. repousando na convenção e proibidor) a um reagrupamento dos indivíduos baseado no prover (materno. Antes da lavagem. E se eles a deixarem fazer. Só uma coisa difere: o vocabulário. a longo prazo. a partir do qual Deus move os homens. o ganho será automaticamente multiplicado. não . inclusive. 115 A cisão no pensamento perverso puritano pode ser feita a dois: Mandeville versus Smith. Assim é que os economistas liberais estão constantemente celebrando a neutralidade axiológica de Adam Smith. baseado na physis e incitador).

renunciando a toda a grandeza e à vaidade deste mundo. em sua obra. é um personagem cindido que. como dizia Lacan. É justamente nesses casos que o “discurso universitário”. eu preferiria uma pequena sociedade tranquila em que os homens. apesar de globalmente puritano. me perguntassem onde. que parte do amor próprio dos indivíduos como fundador da sociedade. em vez de uma vasta multidão abundante de riquezas e poder. não escapa à confissão de certas fraquezas puritanas caracterizadas. é a visão . em minha opinião. se contentariam em viver com o produto natural do lugar que habitam. neste trecho de seu prefácio geral: Se. Sobretudo. as duas principais obras de Adam Smith. Essa cisão pode ser facilmente percebida quando cotejamos a primeira e a terceira partes do curso de filosofia moral do ilustre professor de Glasgow. neste caso. que passaria o tempo fazendo conquistas sobre os outros exteriormente e se corrompendo pelo luxo interiormente. O AdamSmith-Problem remete precisamente à oposição sem solução. que é uma teoria da simpatia entre os homens na origem das sociedades.124 Mas podemos reduzi-las a duas grandes maneiras de proceder: ou se procura reduzir o amor próprio à simpatia (e o que domina. A teoria dos sentimentos morais (1759).obstante sua vigorosa enunciação perversa. vale dizer. e a Riqueza das nações (1776). sob uma aparência lisa. sem ser objeto de inveja ou estima do próximo. nas quais o calvinista rigorista volta a falar — por exemplo. e caridosos autores se esforçaram por salvar a coerência de Adam Smith. Adam Smith. desembesta.123 Da mesma forma. Diante desse hiato. nada de cisão — muito embora a força do pensamento esteja aí. entre o princípio altruísta e o princípio egoísta. Existem inúmeras contribuições que não pudemos examinar aqui. Ele intervém para tornar tudo liso e não contraditório. o que se tentou foi consertar os estragos. os homens têm mais chance de desfrutar de uma autêntica felicidade. permite que se manifestem eventualmente certas saliências perfeitamente perversas.

que dispõe perfeitamente cada um em seu lugar. que despertaram grande interesse de Marx. ligeiramente posteriores. Mas. ele permite dizer aos pobres que devem ser solidários dos outros. Por um lado.125 Vemos aqui para que serve realmente o princípio de simpatia. para amar a si mesmo. se me interesso pelo amor do outro. os ricos. inclusive das crianças. tendo como pano de fundo da miséria humana. no entanto. nunca é o rico que deve moderar seu amor próprio. Em suma. dá conta da “avidez dos patrões” — algo de que dão perfeitamente conta os romances de Dickens. Entretanto. percebemos que elas jamais se referem ao rico que deveria moderar seus apetites. a Inglaterra da primeira Revolução Industrial. Veja-se. É muito interessante notar que as duas soluções estão presentes em Adam Smith. quando examinamos de perto esse segundo tipo de fórmulas. Em primeiro lugar. por exemplo. encontramos formulações tendendo a mostrar que a simpatia pode corrigir um amor próprio excessivo. O princípio de simpatia é então muito útil para . mas o pobre. é porque isso lisonjeia meu amor próprio. em Adam Smith. para isso. serve para afirmar a força do projeto divino. Adam Smith conhece bem esse caso. o indivíduo precisa sentir a estima dos outros — aqui.idílica de uma simpatia generalizada) ou então se busca reduzir a simpatia ao amor- próprio. Ora. O que tende a indicar que a simpatia pelo outro só pode ser interessada. não devem pôr adiante o que evidenciaria um amor próprio deslocado. por outro lado. E. de tal maneira que nos encontramos no melhor dos mundos possíveis. 1. II). Em segundo lugar. pois em certos pontos de sua obra. por exemplo: “A parte mais importante da felicidade humana nasce da consciência de ser amado” (TSM. doentes ou vítimas de alguma calamidade. e que. deveríamos dar-nos por satisfeitos pelo fato de a ordem e a perfeição do universo [dirigidas pela Providência de um Deus sábio] exigirem que permaneçamos sempre nesta situação. este trecho: Se nós mesmos somos pobres. Adam Smith afirma que.

o puritano. da consciência. Adam Smith tornou-se “Doutor Adam e Mister Smith”126 — e essa alusão ao herói. extraído do primeiro capítulo da TSM. Adam. que expõe o princípio de simpatia mostrando por que ele está necessariamente presente em cada um: O que é que move constantemente os homens generosos e determina às vezes os que não o são a sacrificar seu interesse próprio pelos semelhantes? […] Um poder mais forte [que o amor de si mesmo] que se exerce independentemente de nós é que então nos arrasta: trata-se da razão. Nicole. foi um economista crítico que encontrou a expressão exata para designá-lo. merecer uma menção absolutamente especial: é um personagem biface.solicitar a cada um que não confunda o grande desígnio divino com suas miseráveis questõezinhas. Ele mostra eventualmente como funciona a cisão entre self-love e simpatia. Seus ilustres antecessores — Pascal. Ele será mais-que-cindido. 117 Por que é o pobre e não o rico que deve moderar seu amor próprio? O trecho a seguir. O problema só pode ser resolvido se postularmos que a oposição self-love/simpatia funciona como efeito da cisão. Inicialmente a palavra está com o Dr. O grande fundador da ciência econômica moderna parece-me. . ou egoísmo) e a simpatia (ou amor socialis. hate and love 116 Não poderíamos imaginar melhor ilustração da figura do perverso puritano que a do teólogo e economista Adam Smith. bifronte. dessa espécie de divindade que trazemos em nós. Bayle. Mandeville — eram cindidos. parece-me perfeitamente oportuna para avançar na resolução do Adam- Smith-Problem. dissociado do célebre romance de Stevenson. permite compreendê-lo. Na pena de Serge Latouche. cindido entre hate e love. Como se poderia esperar. cuja teoria procede inteiramente de uma cisão entre dois princípios antagônicos: o self-love (ou amor sui. ou altruísmo). portanto.

e nos lembra […] que dando a nós mesmos a preferência com tanta audácia e cegueira tornamo-nos objetos próprios do ressentimento. começaram a imaginar que existiria. Depois. . possíveis graças ao espectador imparcial”. de ordem psicológico-moral. é… para ganhar mais. da lei moral de Kant. aproximado por autores audaciosos da teoria do mestre interior de Agostinho e por outros. no mesmo texto. será necessário que essa condição moral seja absolutamente preenchida. porque ela leva a crer que existe “enriquecimento da sociedade” quando é o capitalista. Entretanto. representante da simpatia. da aversão e do ódio. escorar toda a economia num dado extraeconômico. ainda mais audaciosos. uma instância de regulação interior do self-love e de seus excessos passionais. Primeiro. que “o enriquecimento da sociedade é permitido pela frugalidade e a poupança do capitalista. não obstante esses indícios alarmantes. em sua própria intrepidez. em cada um dos agentes econômicos. quando estamos a ponto de perturbar a felicidade dos outros. de ordem moral. para… ganhar em dinheiro. ainda estamos na ideia de uma simpatia universal que une todos os agentes econômicos. se faz ouvir às nossas paixões mais violentas e mais presunçosas. A partir daí. Ficamos sabendo. porque revela que o capitalista só se submete aos ditames morais do espectador imparcial que existe nele. Deste modo é que muitos economistas liberais escoram todo o sistema econômico liberal na crença nessa instância extraeconômica. antes de mais nada. Aposto que essa crença tranquiliza muito os economistas liberais. o nome de “espectador imparcial”. É ela que.128 Há duas coisas estranhas nessa proposição.127 É a essa divindade que trazemos em nós que Smith dá. vale dizer. Ora — primeira surpresa —. através do aumento “pleonéxico” da sua libido dominandi. que enriquece. em self-love. esses autores. com efeito. que é o juiz e árbitro supremo de nossa conduta. que não gostariam — é perfeitamente compreensível — de ser acusados de sustentar um sistema pornográfico baseado na liberação das libidos. quando o capitalista submete-se a ela. Mas a questão que logo se coloca é de saber se realmente é possível. Se admitirmos que sim. em termos epistemológicos.

Teria antes a ver com a mônada de Leibniz. no entanto. de sua parte. o pobre. com toda a população. torna-se objeto do desprezo e do ressentimento dos semelhantes. portanto. o pobre é insistentemente convidado a se moderar. 118 Isso lembra estranhamente certos discursos contemporâneos nos quais. E nos quais. O rico. Muitos economistas liberais tratam rapidamente de esquecê-lo — e. o pobre é convidado a não dar a si mesmo uma injusta preferência. E. muito poucos comentários podem ser encontrados sobre este trecho. sendo cada mônada autônoma e diferente da outra por ser composta do . É exatamente neste momento que de fato se faz ouvir a voz de Mister Smith. A consciência do pobre lembra-lhe nessa circunstância que ele não vale mais que outro qualquer e que. mas para enriquecer a sociedade. 119 Entendemos aqui duas coisas. tendo o rico insistentemente exigido a privatização dos ganhos e amplamente se aproveitado dela. pela injusta preferência que dá a si mesmo. como também dos castigos que o seguem. Mister Smith não poderia dizê-lo com maior clareza: O pobre não deve nunca roubar nem enganar o rico […]. não para enriquecer a si mesmo.129 Aquele que deve moderar seus apetites e renunciar à injusta preferência que dá a si mesmo é. por sinal. o perverso: o espectador imparcial que exorta à moderação dirige-se antes de mais nada… ao pobre. participando generosamente. Primeiro. trabalha. o espectador imparcial nada tem a ver com a lei moral de Kant. como pretenderiam alguns. pois violou essas leis sagradas das quais dependem a tranquilidade e a paz em sociedade. enquanto o rico ganha em uma semana o que o pobre — eventualmente assalariado na empresa dirigida ou possuída pelo rico — ganha durante toda uma vida. do esforço de passar a esponja nas dívidas através da socialização maciça das perdas.

Como sua crítica extremamente precisa é muito pouco conhecida. Eis a . soube avaliar plenamente os estragos causados por um amor próprio empenhado na defesa permanente de seus interesses pessoais. conferem-lhes necessidades recíprocas de interesses comuns. O indivíduo pode assim ver-se numa fábrica de graxa aos dez anos. os crimes ainda não cometidos já estão no fundo dos corações 120 Jean-Jacques Rousseau. as leis e os outros vínculos que. cem mil talvez lhes serão opostos. mas no prefácio de uma peça de teatro da juventude. parece-nos útil citá-la longamente para dar a conhecer seus principais argumentos: Todos os nossos escritores consideram a obra-prima da política do nosso século as ciências. esse espectador não é na realidade muito imparcial. já que. o luxo. por não se encontrar num grande texto filosófico. É o que o torna um calvinista muito especial: ele seria um eminente crítico da problemática perversa puritana que requer o mal e os vícios privados para chegar ao bem. estreitando entre os homens os laços da sociedade através do interesse pessoal. e para ter êxito não existe outro meio senão enganar ou perder todas essas pessoas.conjunto das outras mônadas. estamos no melhor dos mundos possíveis. Depois. podemos descontar muita coisa das vantagens que elas inicialmente parecem apresentar. qualquer que seja. e isso não é grave. obrigando cada um deles a concorrer para a felicidade dos outros para poder fazer a sua. o comércio. as artes. para fazer com que cada um fique muito bem comportado em seu lugar social. para ficar com Leibniz. Essas ideias. deixam-nos todos em dependência mútua. exceto ela própria. face a dois homens de interesses convergentes. como nos romances de Charles Dickens mencionados anteriormente. entretanto. sem dúvida. examinando-as com atenção e sem parcialidade. por ter sido capaz de retirar do polo do amor próprio a parcela legítima necessária à constituição do sujeito (ver fragmento 43). pois invariavelmente já escolheu seu campo. são belas e apresentadas a uma luz favorável. [… Com efeito].

a época ainda apostava no amor Dei. está constantemente elevando a sua própria acima deles e à sua custa. das traições. Estranha e funesta constituição. na qual o homem de bem não tem meio algum de sair da miséria. não sem inquietações. vale dizer. perdemos a inocência e os costumes. derrubar”) da metafísica ocidental. dos inimigos da virtude e do senso comum. na qual é impossível para aquele que nada tem adquirir alguma coisa. Os crimes não cometidos já estão no fundo dos corações. por monstruosas que fossem. Em compensação. fingindo trabalhar para a fortuna ou a reputação dos outros. na qual as riquezas acumuladas facilitam sempre os meios de acumular outras ainda maiores. fonte funesta das violências. Por isso é que ele vem a ser aquele pelo qual se realiza uma “perversão” completa (de pervertere. Era preciso que fosse alguém. lançou-se. Com Sade. Assumiria inteiramente as profecias imprecatórias . dos ricos e dos cheios de razões. Que pudemos ganhar com isso? Muita tagarelice. na qual os mais velhacos são os mais honrados e na qual é preciso necessariamente renunciar à virtude para tornar-se respeitado!130 121 Sade é aquele que mostraria o estado do “fundo dos corações” gerado pela “obra- prima da política deste século”: esse fundo é saturado de “crimes não cometidos” — e assim ele exortaria a que fossem todos cometidos! Provavelmente por isso é que execraria Rousseau. A multidão rasteja na miséria. Todos são escravos do vício. Em seguida. das perfídias e de todos os horrores necessariamente requeridos por um estado de coisas no qual cada um. para o amor sui. que já antecipadamente o expunha. Sade seria aquele que efetuaria o movimento estabelecendo-se decididamente do lado do amor sui. e para a sua execução só falta a garantia da impunidade. a transformação do puritanismo em perversão explode à luz do dia. pois seria ele: e ele tiraria sem pestanejar as conclusões lógicas que se impunham. 122 Um século antes. “virar.

Havia. podemos dizer-nos um eterno adeus. ferimentos com arma branca e escarificações. como dizeis. minha liberdade terá de pagar o preço do sacrifício de meus princípios ou de meus gostos. em tudo extremado. como demonstra este autorretrato: Imperioso. porque no essencial sua pulsão é sublimada. o conde de Charolais. em duas palavras.132 como ainda hoje acreditam alguns imbecis. algumas violências “gratuitas” como chicotadas. é verdade. Sade escritor 123 A primeira coisa que nos vem à mente a respeito desse homem é sua perseverança. algumas orgias radicais em família. alguns estupros em prostíbulos. o amor sui seria rival de Deus. os bombons envenenados com cantárida que gostava de dar às prostitutas para aumentar sua excitação. Podemos achar abominável o seu sistema: o sadismo. asilos…) não o fizeram renunciar nem esmorecer. colérico. arrebatado. e não de obstinação no crime.131 Falo de coragem. o amor sui pretenderia submeter o outro por seu próprio interesse. alguns graves ultrajes em menininhas.feitas quatorze séculos antes por Agostinho em relação ao amor sui (ver fragmento 44): o amor sui subordinaria o bem comum a seu próprio poder. em vista de uma dominação arrogante. com perfeito conhecimento de causa. Vinte e sete anos de aprisionamento (prisões. Ele é um escritor. o amor sui exigiria tudo para si. . muitas violências verbais e físicas e certamente outras coisas abomináveis. Mas nem por isso deixa de ser verdade que ele ficou firme em sua posição. a exemplo de seu amigo de infância. se as tivesse. provavelmente refletindo uma forma de coragem. pois antes sacrificaria mil vidas e mil liberdades. eis-me aqui: matai-me ou me aceiteis assim. vale dizer. de um desregramento na imaginação sobre os costumes que não teve equivalente nesta vida. pois não mudarei […]. Se. desviada no que diz respeito ao objetivo: Sade não é apenas um vulgar perverso que passa de crime em crime.

detestável ignorante. e que é […] mais simples. Oh! Senhor Villeterque. literalmente). o amor de si mesmo. Não resta a menor dúvida de que Sade muito se deleita com a evocação complacente das monstruosidades que escreve — só que não é essa a boa questão. subversão e perversão da lei. 124 Ele não ocupa uma posição qualquer na literatura: é um escritor que leu muito toda a filosofia então em curso: a que diz respeito à filosofia moral e política. o egoísmo — ou qualquer que seja o nome escolhido — nos fundamentos (“nos fundos”. neste caso. uma consequência lógica desse posicionamento que consistiu em situar o amor sui. à filosofia das paixões. já que por ele se interessou a civilização: a literatura. fique sabendo que cada ator de uma obra dramática deve falar a língua estabelecida pelo personagem que interpreta. É acima de tudo. que então é o personagem que fala. e não o autor. do romancista. Assim foi possível impedir que a pulsão se realizasse em seus objetos de predileção. o amor próprio. E é verdade que ele teve ajuda: graças ao aprisionamento é que temos uma tal obra. que esse personagem. à filosofia da natureza. quando sabemos o amor dos narradores sadeanos por esse lugar privilegiado de inversão.mas há a obra. e antes de mais nada. diga coisas totalmente contrárias ao que diz o autor quando é ele próprio que fala. Simplesmente porque o privilégio do escritor. é pintar um personagem com todo rigor — pouco importando se adere aos pontos de vista e aos atos desses personagens. como o senhor é tolo!133 125 . E isso Sade sabia muito bem. pois deu esta notável resposta a um crítico bem pensante de sua época: Ouça. sendo desviada para um objetivo que se verificou superior. É aquele que tirou com a maior precisão possível as conclusões de um movimento iniciado mais de um século antes dele. absolutamente inspirado por seu papel.

126 Esse princípio — o egoísmo —. por que persistir em nos julgar movidos por leis diferentes? As plantas e os animais conheceriam acaso a piedade. a cujas leis melhor atendemos dando a nós mesmos preferência sobre os outros. Trata-se simplesmente de transformá-lo na “Lei suprema”. vamos encontrá-lo exposto em todas as obras de Sade. mas constantemente se remete a uma divindade superior. se não valemos mais que elas.Na medida em que ousou extrair metodicamente as consequências desse princípio. o amor ao próximo? E acaso vemos na natureza outra lei suprema senão a do egoísmo?134 O lugar atribuído a esse princípio é particularmente interessante. assim. não está no hábito dos grandes perversos reconhecer uma lei suprema. Se é verdade que nos assemelhamos a todas as produções da natureza. Sade é um autor “admirável”. embora ela esteja na natureza. os deveres sociais. qualquer lesão a esse respeitável próximo nos parece um grande mal. somos ridiculamente acostumados desde a infância a não nos atribuir importância nenhuma. que se trata de um princípio que realmente abarca tudo. a natureza. O que por sinal nos leva a concluir que Sade não é tão antirreligioso quanto gostaria de ser. A partir daí. em Juliette ou as Prosperidades do vício: A falsa ideia que temos dos outros é sempre o que nos detém em matéria de crime. Ele certamente se posiciona ferozmente contra a religião antiga. já agora estabelecido como fundamento da socialidade. a mais justa e a mais sagrada” (A Nova Justine. Devemos supor. capítulo III). a que decreta mandamentos de proibição. Ou assim: “Se o egoísmo é a primeira lei da razão e da Natureza. e atormentando-os para nos deleitar. pois jamais recuaria diante da exposição das repercussões pornográficas da generalização do princípio do qual parte. a que devemos obedecer em tudo que exige de nós. Por exemplo. O que é dito assim: “O egoísmo é a primeira das Leis da natureza. e toda a importância aos outros. se decididamente . o egoísmo. Pavorosamente admirável. Ora.

o egoísmo. em vez de aprender a recitar fúteis orações que se orgulharão de esquecer quando fizerem dezesseis anos. o egoísmo. ensinem-lhes a valorizar virtudes de que pouco lhes falavam outrora. permitiam a realização do plano secreto do Criador da natureza. E. pelo contrário. e essa lei que rege todos os homens será sempre a mais segura de todas. só devemos. ter como sagrado aquilo que nos deleita” (A Nova Justine. uma natureza. por sinal. eles serão pessoas honestas por egoísmo. portanto. também seria afirmado em A filosofia na alcova. e haverão de se tornar celerados apenas por julgarem que a religião que rejeitaram os proibia de sê-lo. bastam para a felicidade individual deles. a presença da voz mandevilliana no texto sadeano é constante. Esse princípio absoluto. convencidos de que. Estamos numa região conhecida: não era outra coisa o que diziam os filósofos liberais. sem as suas fábulas religiosas. assim que seus alunos tiverem reconhecido a futilidade das bases tratarão de derrubar o edifício.só vivemos e existimos para nós. eles sejam instruídos em seus deveres na sociedade. escorando-se no self-love. portanto. levem-nos a sentir que essa felicidade consiste em tornar os outros tão afortunados quanto desejamos sê-lo nós mesmos. que. Como não poderia deixar de ser. e que. a necessidade da virtude unicamente porque disso depende sua própria felicidade. Eis. como cometiam a loucura de fazer outrora. podendo ser identificada já no título dos grandes . com suas Leis sagradas. pois a questão que se coloca é saber de que maneira ter acesso à virtude e à honestidade republicanas: existe apenas um caminho.135 O fim do trecho evoca claramente as teses de Mandeville. que se realiza apoiando-se em nosso egoísmo. Se escorarem essas verdades em quimeras cristãs. Levando-os a sentir. capítulo XII). ele é posto em concorrência com o ensinamento da antiga religião: Substituam as tolices deíficas com que cansavam os jovens órgãos dos seus filhos por excelentes princípios sociais.

a viciosa. para referir a solidão radical do ser. como tal “sem porta nem janela”. vale dizer. sem precisar do semelhante. encontramos a palavra “isolismo”.136 O isolismo é um conceito que evoca muito a mônada leibniziana. mas no qual foi depositado um programa mínimo centrado na própria sobrevivência. por exemplo. A Fábula das abelhas poderia perfeitamente ter como subtítulo o par sadeano: As prosperidades do vício ou os Infortúnios da virtude. segundo Leibniz. não os civilizem.138 128 Sade. a não relação de simpatia pelo outro. figuras perfeitas da cisão. além de ser um notável romancista (apesar de um pouco repetitivo) e um filósofo esclarecido. sem relação de simpatia com o outro. nos quais cada um ignora o grande projeto que a divina Natureza está realizando. é um autor político de primeira linha. sua subsistência. Em vários textos. que inventou um neologismo para significá-lo na forma pura.romances de Sade sobre as duas irmãs. e absoluta que ele preconiza. a virtuosa. e cada um encontrará seu alimento.137 Se se permitir que esses autômatos naturais interajam. como colmeias. conjuntos complexos. isso acaba compondo. Assimilou tão bem os grandes princípios de economia política liberal. que eram desenvolvidos em sua época. Cada mônada pode ser pensada. Justine. o isolismo 127 Sade fazia tanta questão de afirmar o princípio egoísta. E por sinal a moral da fábula — “Os vícios privados fazem a virtude pública” — joga com a inevitável conexão entre o mal e o bem. por assim dizer. e Juliette. como um “autômato natural” ou uma “máquina da natureza”. Encontramos em Juliette esta definição: Todas as criaturas nascem isoladas e sem nenhuma necessidade umas das outras: deixem os homens no estado natural. que é capaz de aconselhar os políticos: .

em geral.139 De modo que. Não se trata (sobretudo) de amá-lo. é a . O sistema dos preços cumpre essa tarefa na ausência de qualquer direção central e sem que seja necessário que as pessoas se falem nem se amem. para o meu objetivo aqui. observar que esse tropo está presente nos discursos dos pensadores ultraliberais que se referem a Adam Smith: A fagulha de gênio de Adam Smith foi reconhecer que os preços que surgem das transações voluntárias entre compradores e vendedores são capazes de coordenar a atividade de milhões de pessoas. sobretudo. Ó vocês. não se haverá de opor resistência à realização do plano da divina Natureza. de que o anseio de perder um pouco de sêmen me vincule a uma criatura que eu jamais amaria? Qual a utilidade de que esse mesmo anseio acorrente a mim cem desafortunadas que eu mal conheço!?140 Em sua vontade de “dizer tudo”. no entanto. de tal maneira que a situação vem a ser melhorada. nada mais há a dizer. Sade continua — eis a frase imediatamente seguinte: Que necessidade haveria. cada uma das quais leva em conta apenas seu próprio interesse. A ordem econômica é uma emergência.142 É interessante. que se metem a governar os homens. deixem-na buscar ela própria o que lhe convém. Reconhecemos aqui o famoso “laisser-faire” caro à filosofia política liberal — o que será apresentado como um princípio essencial de democracia liberal. E. nem mesmo de lhe falar. eximam-se de amarrar qualquer criatura! Deixem que ela tome suas providências sozinha. Depois disso. Trata-se de um tropo do discurso sadeano.141 Sade mostra que esse princípio baseado no egoísmo implica uma não relação com o outro: o outro não passa de objeto do meu gozo. e logo haverão de se dar conta de que com isso tudo irá melhor. perguntarão os homens razoáveis.

sem que haja necessidade de se falar nem muito menos de se amar. Se os objetos que nos servem gozam. e. de maneira que não poderia ser mais positiva. Em outras palavras. pois “não existe homem que não queira ser déspota quando está de pau duro”. se eu não gozar. que o outro não goze. é necessário. a colmeia vibra e o castelo treme. trate apenas de nós. que eu efetivamente pus em primeiro lugar o princípio do egoísmo. a ideia de ver um outro gozar como ele o leva a uma espécie de igualdade que prejudica os indizíveis atrativos que nesse momento o . Como sempre. Não existe homem que não queira ser déspota quando está de pau duro: parece que ele tem menos prazer se os outros aparentam ter tanto quanto ele. desde logo. estarão. Por um movimento de orgulho perfeitamente natural. E essa coisa poderia perfeitamente ser o gozo do outro. isso é formulado em Sade de uma maneira radical: Que desejamos ao gozar? Que tudo aquilo que nos cerca cuide apenas de nós. é porque alguma coisa se opôs à plena e integral realização do meu egoísmo ou a impediu. tem apenas uma coisa a fazer: cuidar do próprio gozo. 129 O autômato. Meu gozo é aquilo através do qual se constata. em consequência. que exige que eu seja tirânico. O sistema dos preços funciona tão bem e com tanta eficácia que quase sempre sequer temos consciência de que está funcionando. Para que eu goze. pense apenas em nós. assim. ele gostaria de ser o único no mundo capaz de sentir o que sente. consequência não intencional e não desejada dos atos de um grande número de pessoas movidas apenas por seus interesses. e nosso gozo.143 Nós somos como “autômatos naturais” numa colmeia ou “máquinas da natureza” num castelo. portanto. mais certamente ocupados com eles próprios do que conosco. Isso vai de encontro à exaltação do meu egoísmo. será perturbado. simplesmente seguindo os próprios interesses e/ou o próprio gozo. nesse momento.

despotismo permite experimentar. uma sociedade composta de tiranos que procuram impor o próprio gozo e déspotas constantemente se enfrentando e se submetendo à escravidão quando podem. Eis a verdade com que Sade acena sobre as finalidades do plano secreto da natureza. Pois essa abjuração só existe para melhor proclamar uma adesão incondicional a algo a que ele se refere. é falso que exista prazer em dar prazer aos outros. pelo nome de “Lei sagrada” ou “Lei suprema” da natureza. e o homem em ereção está longe do desejo de ser útil aos outros.144 É aqui que Sade põe fim ao angelismo da bela obra divina se edificando sozinha. deixar realizar-se o plano secreto da divina Natureza é deixar construir-se um empreendimento demoníaco. Capaz de fazer declarações ferozes contra a antiga religião para melhor impor a sua. Fazendo o mal. ele sente todos os encantos de que desfruta um indivíduo nervoso na utilização de suas forças. aquela que finalmente é considerada verdadeira. 130 Eis o que os estudos sadeanos nunca dizem: Sade é religioso. em todos os seus textos. Ou seja. a religião das Escrituras — basta ler. sem recuar diante de meio algum para dizê-la. Tanto quanto um prosélito recentemente convertido a uma nova religião. Assim é que devemos entender as afirmações de Sade contra a antiga religião. . deixar fazer. E. por exemplo. Violentamente religioso. Laisser faire. Essa obediência às Leis sagradas da natureza é tão absoluta que pressupõe a apatia daquele em que se aplica. pelo contrário. E que diferença para o amor próprio! Não devemos acreditar que ele [o amor próprio] se cale neste caso. ele então domina. a nova religião. o Diálogo entre um padre e um moribundo (1782). Mas seria um erro grosseiro apresentar esse texto como o manifesto do ateísmo irredutível de Sade. deixar exultar o amor próprio. por sinal. A obra “admirável” que está sendo construída é na verdade um empreendimento aterrorizante. integralmente pornográfico: ficar de pau duro tiranicamente para satisfazer o amor próprio. é tirano. como dá a entender a fábula filosófica que se constrói progressivamente de Blaise Pascal a Adam Smith. isso significa servir-lhes.

e. Será. pois ele é afirmado por todos os heróis sadeanos. portanto.145 Nesse hino transbordante misturando amor. escravos de seus caprichos ou de suas necessidades. Até mesmo para Sade. ao projeto que a divina Natureza deve absolutamente realizar. nunca é pelo que eles nos fazem sentir que devemos regular nossos sentimentos por ela. fragmento 292). já que encontramos nele a mesma adesão religiosa. portanto. temor e confiança total. grande […]. sempre majestosa. mas sempre sublime. quaisquer que sejam os resultados. mais estranha do que é pintada pelos moralistas. a natureza é claramente situada em posição divina — encontramos até a resignação quase pascaliana do homem tão pequeno diante de desígnios que lhe serão para sempre desconhecidos. de nossos pincéis e de nossa respeitosa admiração. pois esses desígnios nos são desconhecidos. esses caminhos são impenetráveis — o que não é dizer pouca coisa… Por mais que Sade se exalte contra o teísmo do Ser supremo em “Franceses. terrível […]. sua energia. assim. irregular em seus efeitos. ele se encontra em outro lugar. e mesmo fanática. escapa a todo momento aos diques que a política deles gostaria de prescrever-lhe. de tal modo que ela pressupõe um laisser-faire incondicional. Está.Voltaremos a encontrar esse conceito (cf. por exemplo. este: A natureza. uniforme em seus planos. mais um esforço se quereis ser republicanos”. para que seja concretizada a reforma completa do mundo. Assim é que situo Sade com Mandeville e Smith. mas por sua grandeza. seu seio sempre agitado assemelha-se ao foco de um vulcão de onde são alternadamente projetadas pedras preciosas que servem ao luxo dos homens ou globos de fogo que os aniquilam. fielmente não ouvir o que ele está constantemente proclamando: o sagrado não está onde se julgava que estivesse. deixar de ler Sade. nem por isso deixa de se prosternar diante das Leis supremas da natureza. São inúmeros os trechos da obra de Sade que constituem um hino de amor a essa nova divindade. longe de ser tão ateu quanto gostaria. . sempre digna de nosso estudo.

Da mesma forma. onde Smith destaca sistematicamente o self-love. se ficar demonstrado que ele é perigoso por seus outros efeitos. e em quais motivos haveríamos de nos escorar para prolongar sua existência. que esse suplemento de freios imposto pela ideia de um deus é útil. É o que faz aquele que propõe a um outro uma troca. natural e imanente.146 No fundo. o sentido de sua proposta é o seguinte: Dê-me aquilo de que preciso e terá de mim aquilo de que precisa […]. De fato. tendendo a indicar que Sade efetivamente leu Smith: O homem [diz Adam Smith] tem necessidade quase contínua do concurso dos semelhantes. Sade sempre vai um pouco mais longe que Mandeville ou Smith. Desse modo. “não te peço nada… eu tomo” 131 Naturalmente. do vendedor de cerveja e do padeiro que . O que se traduz em afirmações quase idênticas de um a outro. ele é aquele que ousa desenvolver até as últimas consequências as implicações que permanecem ocultas no discurso dos outros. que leva os indivíduos fixados em seus interesses pessoais à troca (o que constitui por sinal uma parte essencial do plano divino). encontramos a mesma ideia em Smith e Sade: a ideia de uma nova religião. assim. e em vão haveria de esperá-lo apenas de sua benevolência. Por isso é que vem a ser um companheiro extremamente incômodo para muitos e um autor indispensável para nós. Sade afirma a necessidade de acabar com todo freio à satisfação pulsional: Se ficar provado. Terá muito maior certeza de alcançar êxito se se dirigir a seu interesse pessoal e convencê-los de que sua própria vantagem determina que façam o que espera deles. Sade retoma o modelo smithiano da divisão do trabalho. que deve substituir a antiga. Não é da benevolência do açougueiro. pergunto que finalidade pode afinal ter.

que a castidade deixará de ser uma virtude. a um rapaz ou uma mulher se tem vontade de diversão quanto o é. tratemos de abrir mão de nossos imbecis preconceitos a esse respeito. se quiser. Essa proximidade na afirmação confiante da troca consentida é realmente tocante. Mas o problema é saber se essa máxima diz tudo que é preciso saber ou se não oculta alguma cláusula secreta. Que se note bem: é quase sempre a tola importância que atribuímos a alguma coisa que acaba por transformá-la em virtude ou vício. podemos contar com Sade para revelá-la. da parte do meu que lhe pode ser agradável?148 “Dê-me aquilo de que preciso e terá de mim aquilo de que precisa. que ofensa cometo ao dizer a uma bela criatura. um crime. E naturalmente o celerado não resiste a desvendá-la: . mas a seu egoísmo. egoze. tenha notado antes que seus textos continham o mesmo argumento. se houver uma.” “Ceda-me a parte do seu corpo que pode me satisfazer um instante. temos aí uma prova textual mostrando que o sistema sadeano perverso e o sistema smithiano puritano repousam numa máxima idêntica sobre a qual deve fundar-se o mundo por vir. e verão que o preconceito cairá. Não nos dirigimos a sua humanidade. que seja tão simples dizer a uma moça. e o adultério.” É realmente preciso que não se queira saber nada da extrema proximidade de inspiração dos dois autores para que ninguém. da parte do meu que lhe pode ser agradável. mas do empenho por seus próprios interesses. solicitar meios de aplacar a fome ou a sede. e goze. Ei! que mal eu faço. quando a encontro: Ceda-me a parte do seu corpo que pode me satisfazer um instante. se quiser. que eu saiba. esperamos nosso jantar.147 Passagem que leva — é o caso de dizê-lo — de Smith a Sade: É tão ridículo [prossegue Sade] dizer que a castidade é uma virtude quanto seria pretender que o é também privar-se de alimento. numa casa estranha. Ora. por favor. O certo é que.

uma natureza implacável que quer o puro dispêndio. que traz a riqueza. Mas também aqui Sade desvenda. a boa natureza smithiana. e é por isso que Sade diz — está o verdadeiro mundo. Existe. como alguém se serve de um vaso para uma necessidade diferente. por um lado.149 O belo mundo do self-love e da troca consentida fica então reduzido à condição de conto filosófico para uso dos economistas liberais incumbidos de levar a boa nova puritana. Segundo a fábula puritana. de fato. na perversão. a boa mãe e a outra 132 Com isso. Mas por trás dessa boa mãe natureza existe uma mãe natureza arcaica que constantemente se enfurece. esta mãe do gênero humano” (A filosofia na alcova. essa mãe perversa do gênero humano. é que a reforma completa do mundo pode ser um pouco dolorosa. e não considero que do fato de me valer de um direito sobre ti resulte que eu tenha de me abster de exigir um segundo direito. Ele revela que existe natureza e… natureza — e. É a existência desta última que Sade constantemente recorda ao falar da “natureza. é um sentimento que nunca foi conhecido pelo meu coração. Não te peço nada… eu tomo. essa natureza é boa como uma boa mãe. A natureza nos dispensaria tão . tudo aconteceria exatamente como acontece […]. tomando tudo aquilo que bem quiser. o que Sade anuncia. naturalmente. Sirvo-me de uma mulher por necessidade. a que faz frutificarem as apostas. que faz aumentarem e se multiplicarem as populações. Confiar nas Leis da natureza está muito bem. não se deve confundi-las. o crime e a destruição. Essa mãe natureza arcaica quer a destruição: Ainda que não houvesse um único homem na terra. o desperdício. E por trás — não deveria ser dito. aquele em que o self-love se assume realmente como tal. Não existe qualquer amor no que faço. 5º diálogo) — querendo dizer. sobretudo.

mulher de um presidente de tribunal. e por isso é que: Os crimes são impossíveis para o homem. Vai. soube prudentemente afastar deles os atos que pudessem perturbar suas leis. a que destrói para melhor reconstruir. de quem ele se vingava imaginariamente pelos processos que ela constantemente movia contra ele. inculcando-lhes o irresistível desejo de cometê-los. A mãe morta é a boa mãe. mas da mãe arcaica. E. Fica a outra. visam à destruição. E esta é exaltada. e todos os celerados da Terra não passam de agentes dos seus caprichos. exigindo gozo dos filhos até na destruição: Como a destruição é uma das primeiras leis da natureza.151 Toda a obra de Sade está voltada contra a boa mãe — e assim foi que justificadamente se identificou em A filosofia na alcova a história de um matricídio. pode ter certeza de que todo o resto é absolutamente permitido e de que ela não foi absurda a ponto de nos dar o poder de perturbá-la ou atrapalhá-la em sua marcha. a mãe arcaica. O que parece por demais sumário. nada do que destrói poderia ser um crime. o da Sra. […] A destruição completa de [nossa] . não raro. meu amigo. Muitos viram nela uma substituta da Sra. Cegos instrumentos de suas inspirações. de Mistival. esses observadores concluíam que Sade matava a Mãe. A natureza. o único crime seria resistir. Pois as verdadeiras Leis da natureza são completamente diferentes. De modo que Sade está sempre numa religião da Mãe. que corresponde apenas ao que “os tolos chamam de leis da natureza” (ibid. à medida que seus desvios aumentavam. ainda que ela nos mandasse incendiar o universo. de Montreuil. facilmente quanto da classe das formigas ou das moscas. 3º diálogo). a sogra de Sade.).150 Essa mãe natureza arcaica quer acabar com a reprodução — e por isso é que Dolmancé ensina a Eugénie todas as “maneiras de foder” que evitam o que ele chama de “propagação” (A filosofia na alcova.

haveria de lhe restituir uma energia que lhe retiramos ao nos reproduzir 1. pois ambos denunciam as casas de caridade: . o da adicção.154 E. espécie. toda destruição é boa: Irei mais longe. por sinal. pois depois será necessário reconstruir.152 A mãe arcaica destruidora talvez esteja muito recalcada em Adam Smith. os combates marítimos. fazendo infinitamente mais mal que bem aos seus adeptos. Mandeville não se cansou de dizê-lo antes que Sade o retomasse. O incêndio de Londres foi uma grande calamidade. devolvendo à natureza a faculdade criadora que ela nos cede. as tempestades. mas nem por isso deixa de estar presente: toda destruição só pode ser boa para os negócios. é perfeitamente certo. bom para o comércio. os assédios e as batalhas constitui uma parte considerável do comércio. O que aparece também sem rodeios em várias passagens de Mandeville: Quantas fortunas não foram ganhas […] que imenso comércio não se faz graças […] ao hábito de apreciar e ao de fumar tabaco. a conivência entre Mandeville e Sade vai muito longe. […] Mas consertar o que foi perdido e destruído pelos incêndios. ambos. demonstrando a utilidade das perdas e das desgraças privadas para o interesse público […]. resultava de um processo altamente destruidor.153 Passagem em que podemos notar que não é de ontem que se entendeu que o aumento do consumo.

156 Mandeville e Sade estão perfeitamente de acordo: é preciso não só fechar as casas de caridade. de que não se devem queixar ou murmurar. [Isso] acostuma o pobre a ajudas que deterioram sua energia.158 . que é a sua verdadeira condição. muitas mulheres que poderiam prestar serviços meritórios ao público tornam-se inúteis para ele em pouco tempo. pois ela os torna para sempre incapazes de se entregar a um trabalho. e. Desse modo. abrir casas de tolerância: — As jovens desorientadas. e que numa sociedade civil. e quanto mais elas frequentarem essas casas. nelas lhes serão fornecidos todos os indivíduos de um e de outro sexo que elas possam desejar. empregaremos num ano tantas mulheres quantas serão necessárias para o serviço público. uma coisa levando a outra. e num cálculo modesto constata-se que perdemos em um ano mulheres virtuosas em número suficiente para servir à nação durante dez anos. sobretudo.157 — Haverá assim [diz Sade] casas destinadas à libertinagem das mulheres.155 — Desejam não ter pobres na França? [pergunta Sade] Não deem esmola alguma. sobretudo. — Denuncio [escreve Mandeville] a instrução dada aos filhos dos pobres [nas escolas de caridade]. sem experiência e que gostam de brincadeiras comportam-se [escreve Mandeville] com tanta leviandade em sua primeira paixão que invariavelmente são tomadas […]. mais serão estimadas. sob a proteção do governo. e. mas. como as dos homens. é o seu destino verdadeiro. As casas públicas [de tolerância] resolverão essa questão com tanta exatidão e precisão que. sem que haja uma única a mais ou a menos. acabem com as casas de caridade […]. qualquer que seja.

sem recuar diante de meio algum para dizê-la. que vai de Blaise Pascal a Adam Smith. tanto moral quanto físico. Deixar fazer. em seguida. um corpo cheio de órgãos para gozar 134 . confiná-lo ao inferno das bibliotecas para continuar não querendo saber nada disso. deixar exultar o amor próprio. A obra “admirável” que está sendo construída é na verdade de um empreendimento aterrorizante. que é o grande princípio que faz de nós criaturas sociáveis […]. senão totalmente dissolvida. Eis a verdade que Sade aponta no que diz respeito às finalidades do plano secreto da natureza. Vale dizer. mas aquilo que chamamos de mal do mundo. tão pornográfico quanto perverso. 133 Sade põe fim ao angelismo da bela obra divina que se constrói sozinha. Será necessário aprisionar Sade durante vinte e sete anos e.159 Fica claro que Sade retoma. uma sociedade composta de tiranos que procuram impor seu gozo (dimensão pornográfica) e de déspotas constantemente se defrontando e se submetendo à escravidão sempre que podem (dimensão perversa). deixar realizar-se o plano secreto da divina Natureza é deixar construir-se um empreendimento demoníaco. a sua maneira. as verdades que Mandeville já denunciara a propósito de um mundo inteiramente comandado pelo amor sui. Fora necessária toda a ciência de Adam Smith para aplacar as angústias que as descobertas de Mandeville haviam provocado em toda a Europa. a sociedade seria dispersada. com uma força literária e filosófica incomparável.Sade provavelmente concordaria com a conclusão da Fábula das abelhas — e este trecho parece mesmo ter inspirado diretamente certas passagens de Sade: Gabo-me de ter demonstrado que não são as qualidades amigáveis e os ternos afetos que são naturais ao homem […]. No momento em que o mal cessasse.

e em momento algum nossos cus ficavam desocupados. em primeiro lugar.160 . os cus se sucediam tão rapidamente quanto o desejo. nada pode ser deixado ao acaso. Por isso é que. Significa desfazê-lo como subjetividade independente capaz de se elevar no lugar de uma corporeidade específica. Eram as mesmas meninas que cuidavam de nós. uma vez esgotada. É necessário organizar-se e. organizar- se para desfazer o outro como lugar possível de um gozo. formavam ao nosso redor uma dança voluptuosa. pois sempre é necessário um mestre de cerimônias. os paus.Fazer exultar o amor próprio não é uma tarefa das mais fáceis. uma boca. [Francaville é o mestre de cerimônias. sem possível subjetividade. já que os corpos tornaram-se acéfalos e desmembrados]. dos quais se haverá de desfrutar mais rápido e da melhor maneira possível. […] Sob nossas bocas. mal os aparelhos que masturbávamos haviam descarregado. Cortá-lo. por outro lado. Um exemplo: Então Francaville deu o sinal. que depois de terem entregue às condutoras os paus que traziam. A melhor maneira de desorganizá-lo é desmembrá-lo. Desfazê-lo deve ser entendido no sentido absolutamente prático do termo. um número igual de magníficos rapazes. De modo que é necessário sujeitar o outro para que ele renuncie ao próprio gozo. essa formação logo é substituída por outras. uma boceta. nossas chupadoras se alternavam com a mesma rapidez. vemos primeiro que tudo são corpos desmembrados em órgãos. outros surgiam. e para isso é necessário desorganizar seu corpo. Desmembrá-lo em tantos órgãos quantos eu poderia utilizar para meu próprio gozo: o outro será então um rabo. um pênis… Não se trata de um corpo sem órgãos. Quatro virgens de quinze anos trouxeram. as bocetas. pelo pau. mas de órgãos sem corpo — e. mas os paus sempre eram conduzidos por quatro novas. portanto. cujos membros imediatamente nos foram introduzidos no cu. ao som de uma música fascinante que ouvíamos ao longe. Neste terreno. sem perda de tempo útil. em Sade.

a ideia da fábrica. entregues a eles mesmos e a sua própria destruição. tal como começa a existir na época da primeira revolução industrial. Ou bem será necessário que o corpo salte no verbo e se torne corpo-falante. em minha opinião. Não existe sem o verbo. de bom grado ou à força. privilégio do romancista. Temos assim. só existe em função de uma divisão do trabalho em que os diferentes ofícios cooperam. através do qual o grande projeto da natureza opera. esse corpo é decomposto em elementos simples. nesse lugar utópico. Ou bem será necessário que o verbo caia no corpo e encarne. A construção de um lugar utópico é. é necessário um lugar especial: entramos aqui na lógica do castelo sadeano — castelo que bem poderia dizer a verdade da colmeia mandevilliana e da teodiceia smithiana. 136 Para decompor os corpos. O castelo sadeano é um lugar utópico em que o princípio egoísta e o imperativo de gozo dele decorrente seriam integralmente aplicados. por outro. naturalmente. porque condensa (no sentido freudiano do termo) várias realidades efetivas numa só realidade ficcional. o corpo humano vem a ser integrado. Sem esse duplo movimento. no grande corpo produtivo.161 Finalmente. subdivisível em subfunções automáticas recombinadas. temos carnificina — ou seja. corpos fora da língua. o “dia 18 de dezembro” dos Cento e vinte dias… 135 O corpo é uma coisa séria no Ocidente. por exemplo. complexificado. vale dizer. o que é produzido pelos operários é consumido ali mesmo pelo . Depois. Para começar. é. uma encarnação do verbo. está presente no castelo. produzindo cada um o gesto necessário para a fabricação de um objeto que os transcende e serve ao gozo do senhor.Poderíamos encontrar o mesmo desmembramento dos corpos e as mesmas cadências infernais em muitos outros trechos. Mas se o que foi construído por Sade tem uma força especial. o autômato. O castelo. o que poderíamos chamar de uma verbigeração do corpo e. por um lado. Em função dessa integração. como veremos. Pois é precisamente a múltiplas carnificinas que assistimos em Sade. é. com efeito. ele próprio.

no convento das carmelitas. Por exemplo. com seus alçapões e suas passagens subterrâneas. capaz de submeter e levar a novas consequências os antigos lugares de poder espiritual. guindastes. 137 Não é por acaso se em Sade os lugares são saturados de máquinas. tal como era sonhado nos antigos castelos-fortes do feudalismo. a abadessa sacrílega e ímpia. em Paris. no fim das contas. assim. fábricas 138 Comecemos pelo convento. engrenagens nos quais os corpos dos produtores são encaixados de maneira a proporcionar. contaria detalhadamente sua internação no convento dos monges libertinos de . Justine. daí. O que bem poderia dizer algo de essencial sobre o funcionamento das sociedades capitalistas que então surgiam. dirigido pela Delbène. Partimos. com a metáfora do castelo. como o convento. a narrativa de Juliette começa com a descrição de sua educação libertina no convento de Panthemont. Em seguida. Estamos lidando. do lugar monacal ou do castelo feudal.senhor. A sociedade-fábrica sadeana de produção/consumo apresenta-se como lugar radicalmente novo. com um processo de produção e um processo de consumo do gozo. portanto. como o castelo feudal. Acredito que. Juliette retornaria regularmente ao convento para participar de orgias que a entusiasmam. e temporal. tal como prevalecia nos antigos conventos. por sua vez. o poder temporal. Sade tentou dizer o que seria uma sociedade-fábrica de produção/consumo do gozo. contexto habitual das orgias sadeanas. ao mesmo tempo. o gozo do senhor. por exemplo. castelos. É digno de nota que o castelo recicle os antigos lugares de poder: o poder espiritual. já que são emanação direta do sonho smithiano baseado no self-love. e depois no das monjas de Bolonha. mas chegamos a outra parte. conventos.

Sainte-Marie-des-Bois. tenha uma folha própria. da Clausura e do Silêncio. Tudo isso implica. Sade. voltado para a ascese. mas para a expectativa de um ponto limite. a recusa da célula familiar marcada pelo encontro homem/mulher. por sinal. O silêncio visa essencialmente a despsicologização das relações entre os indivíduos. que constituem uma ascese em vista da oferenda. define um território sagrado e secreto em relação a um território profano e público. a dos libertinos. apartamento por apartamento. podemos ler: Que. que se dotam de direitos definidos pelos privilégios que se concedem. a recusa de procriar. Marcel Hénaff demonstrou perfeitamente que esses atos são modelados nos rituais da vida religiosa monacal. as narrativas da Durand começam pela narração de sua depravação entre os monges do seu bairro. voltados não mais um para o outro.). que é o ponto em que a despsicologização é mais forte — o que remete ao gozo dos místicos. Finalmente. sobretudo. Todas essas regras envolvem o celibato. e na margem que ficar ao . assim como certas formas de gestão do espaço e do tempo monacal características das diferentes regras.162 Devemos entender regra no sentido forte da palavra (como ao dizer “regra de São Bento”. etc. Na última nota. deixou no manuscrito dos Cento e vinte dias… anotações em que conversa consigo mesmo se designando cerimoniosamente como Vós (o que tende a provar que não era ele que escrevia. São inúmeros os castelos na narrativa sadeana: castelos de Rolland. “regra de São Domingos”. E. o ponto de gozo. de Minsk. A clausura. assim. definidos como tais pelos três elementos monacais da Regra. mas também um puritano. de Brisa-Testa e. uma ritualização da vida e um desmembramento do dia. mas um outro nele — prática típica da cisão do perverso). Marcel Hénaff explica que o castelo funciona como signo nobiliárquico compartilhado por uma classe excepcional. que trabalhava muito seus textos. como tal. ver fragmento 292). da qual faz parte o ideal apático do herói sadeano (a este respeito. em Os cento e vinte dias…. a planta do castelo. é por esse motivo que Sade não é apenas um perverso. por sua vez. o castelo de Silling. 139 Outro lugar das orgias sadeanas: o castelo feudal. no caderno dos seus personagens.

vem a ser o oposto da austeridade obrigatória imposta aos internos. . como freio. o menos criminoso dos quais está conspurcado por mais infâmias que seria possível enumerar e aos olhos dos quais a vida de uma mulher — que estou dizendo? de uma mulher? de todas que habitam a superfície do globo — é tão indiferente quanto a eliminação de uma mosca. o que. como leis. dissolutos sem deus. mas introduz uma novidade muito interessante de ordem econômica: o incrível luxo que define o trem de vida dos quatro libertinos. dos parentes. uma inexpugnabilidade que põe o referido castelo à margem das leis humanas. devastadora. o que são. estão mortas para o mundo e já agora respiram apenas para o nosso prazer. naturalmente. E quais são os seres aos quais estão agora subordinadas? Celerados profundos e reconhecidos. Todos esses castelos são definidos por sua extraterritorialidade. luxo marcado pelo que Bataille chamava de despesas suntuárias. Estão fechadas numa cidadela impenetrável. o que permite o desenvolvimento de um estado de exceção política marcado pelo arbítrio dos senhores que buscam o gozo. ninguém sabe de sua presença aqui. mas se fazendo objetos do gozo de uma natureza pulsional. que insiste neles. sua depravação. além de montanhas escarpadas cujas passagens foram fechadas logo depois que as transpuseram. sem religião. e que essas reflexões as façam fremir.163 Sade retoma então aqui as características do feudalismo nos planos militar e político. no fundo de uma floresta inabitável. que define por sua vez uma obsidionalidade perfeitamente militar. o consumo ostentatório do excesso. Estão fora da França. lado descreva os tipos de coisas que promove neste ou naquele compartimento. É o discurso do duque de Blangis aos hóspedes de Silling: Examinem sua situação. vale dizer. que têm como deus apenas sua lubricidade. estão fora do alcance dos amigos. sem princípios. o que somos. sua devassidão. naturalmente.

Ora. para industrializar o gozo. vale dizer. da história de Juliette.Assim é que vemos nessa riqueza ostentatória uma subversão do modelo feudal pelo capital. corpos prontos para serem reduzidos a órgãos para o gozo. devendo servir apenas aos prazeres. . Acabamos de falar a respeito. o texto sadeano se empenha em mostrar a possibilidade da industrialização do gozo. em outras palavras. por sinal. é marcada pela referência constante. que funciona como um “mais-gozar” em reserva. Trata-se. são empreendimentos baseados na iniciativa de membros muito afortunados da alta nobreza ou da grande burguesia. o castelo da Sociedade dos Amigos do Crime. Essa subversão econômica do modelo feudal é claramente indicada em Os cento e vinte dias… pelo fato de que o castelo de Silling não pertence ao duque de Blangis. o grande e feroz mandante libertino. no texto. assim como outra mansão. permitindo-lhes alcançar a dimensão industrial. 140 Essa entrada do capital. mas ao banqueiro Durcet — o que indica facilmente o ponto a que conduz a intenção sadeana: o de uma retomada do feudalismo no e pelo capital. a um outro lugar além do convento e do castelo. prontos para serem des-organizados. portanto. a propósito do castelo de Silling e do banqueiro Durcet. É a fábrica. é necessário: 1) Um aporte de capital. com efeito. 2) Uma provisão de matérias-primas. indicados já na introdução de Os cento e vinte dias…: A sociedade havia criado um fundo comum alternadamente administrado por cada um de seus membros durante seis meses. mas os recursos desse fundo. que verdadeiramente pode transfigurar o convento e o castelo. eram imensos. E. então nascendo. no negócio sadeano. Silling. Sua enorme fortuna permitia-lhes coisas muito singulares a esse respeito. e o leitor não deve espantar-se quando lhe é dito que anualmente eram destinados dois milhões exclusivamente aos prazeres da boa mesa e da lubricidade. de um investimento que envolve modos de gestão muito precisos e.

141 O que vemos começar a funcionar é uma manufatura de um tipo especial. Entre outras coisas. Sade entendeu que a produtividade está diretamente ligada ao fator tempo (O Capital. 1º capítulo). mal os aparelhos que masturbávamos haviam descarregado. os paus. A ironia de Sade em relação aos templos smithianos (vale dizer. 3) Um pessoal de organização e intendência. que são engatadas no senhor e funcionam como substitutos de órgãos. molas e engrenagens. tenha pensado que o gozo podia industrializar-se. capazes de explorar da melhor forma essa matéria-prima e fazer funcionar uma tal máquina. em Juliette: “Sob nossas bocas.” O modelo antecipado por Sade é claramente o da cadeia de montagem industrial. além de capatazes. entre outras coisas. cada moça deve dar vinte e cinco chicotadas. outros surgiam” (Juliette. 1ª seção. grande anunciador da Cidade perversa. e no intervalo desses vinte e cinco golpes é que a primeira chupa e a terceira caga. 142 É notável que Sade. Reconhecemos aí a atitude assassina do descendente de uma velha família nobre que considera com desprezo as realizações de que tanto se orgulha a burguesia conquistadora. na qual os corpos são integrados em uma grande máquina de produção de gozo. máquinas masturbadoras ou chupadoras feitas de roldanas. como aqui. 5ª parte). por outro lado. Sessenta anos antes de Marx. as bocetas. Ou aqui. é feroz. em que se realiza o maravilhoso plano secreto da natureza. esse pessoal serve para cuidar das cadências. em Os cento e vinte dias…: “É preciso que a coisa ande muito depressa.desmembrados em órgãos. antepassados dos atuais sextoys. Por exemplo. . em condições de serem integrados pedaço a pedaço à indústria do gozo. graças. à inserção de algumas máquinas-ferramentas. os cus se sucediam tão rapidamente quanto o desejo. de tal maneira que. as empresas da primeira revolução industrial).

diz ele. “mãos à obra. conforme o gosto. um pau. é necessário que seja visível apenas a parte do corpo que fornece o gesto útil ao gozo (a mão. Um tapinha nas nádegas servirá de aviso para expelir. onde tudo pode ser explorado: “Vamos. uma boceta e mesmo um cu. suas mãos […] iam pousar no baixo ventre de dois homens que assim colocavam nas mãos da mulher uma máquina monstruosa que era a única coisa que se via: o resto do corpo.” Tendo-se então colocado o mais confortavelmente possível em relação ao objeto de seu culto. o pênis. o ânus): Então Francaville retirou um tecido de cetim rosa que recobria o otomano… Oh! Que assento se encontrava sob o tecido! […] [uma mulher podia ajoelhar-se]. eu a senti. ao fim de dois ou três minutos. masturbando um pau com cada uma das mãos. mas não a apresse. saboreia-o e. virando-o e revirando-o mil vezes na boca. De toda essa mecânica resultava que a mulher. penetrada por um consolo. vejo claramente que o engole. oculto por baixo de panos negros.164 143 Cabe notar que a sociedade-fábrica de produção/consumo do gozo de Sade é uma sociedade sem restos.quando os agentes humanos estão presentes. Uma nova mecânica muito mais singular era operada sob o ventre da mulher […]. minha criança”. oferecendo o cu ao pau bem real que vinha sodomizá-la e alternadamente chupando. chupada por uma jovem.165 . Minha operação é longa. mas que seja sempre aos poucos. a boca. sobre o sofá movido pelas molas adaptadas. ele cola sua boca e eu lhe entrego quase imediatamente um pedaço de bosta do tamanho de um pequeno ovo. mastiga-o. não era visto. lembre-se de cagar aos poucos e sempre esperar que eu tenha devorado um pedaço antes de expelir outro. Ele o chupa. nele era a princípio molemente estendida sobre o ventre. a merda está pronta.

seu regime ecológico perfeito. a mais- valia extraída também é uma reserva de fundos que podem ser incessantemente convertidos em gozos de toda natureza — o que Lacan muito justificadamente chamaria. em seu seminário de 1968-1969 intitulado De um Outro ao outro (livro XVI. sem restos. permite a constituição do capital. é exatamente onde os comentadores mais entusiásticos de Sade. pela acoplagem da máquina-boca. Um gozo proibido ao proletário produtor. nem mesmo da escola de Frankfurt. Paris. Se Marx tivesse lido Sade. por sinal. ficamos então sabendo algo essencial: o consumo é um gozo. à máquina-cu. de “o mais-gozar”. 2006). Não teríamos tido essa divisão altamente nociva entre Marx. Sade é o único que articulou a produção (pelos proletários) e o consumo (pelo senhor).166 Graças a Sade. não teria cometido um grave erro: não ter visto que toda a economia também é uma enorme questão passional e pulsional. 144 Marx fez uma análise impecável do processo de produção. mas apenas a soma necessária para a reprodução de sua força de trabalho. exceto a paixão pelo chefe. na economia libidinal — cisão equivocada desde o início. Em outras palavras.Estamos lidando com um sistema perfeito. Mas Marx não se aventurou na análise do processo de consumo. o mundo seria outro. que nenhum freudo-marxista. já que os dejetos são reciclados. Teríamos evitado a criação desses monstros frios que foram as economias socialistas suspeitando de toda paixão. e Freud por outro. para falar como Deleuze. na economia dos bens. O capitalista não paga ao proletário o produto de seu trabalho. com o tempo. . não aguentam mais. jamais foi capaz de resolver. como Maurice Heine. Mas estão errados. por um lado. E. poderíamos dispor de uma economia geral das paixões. de tal maneira que capta a diferença (a mais- valia) que. Le Seuil. O mundo poderia ter sido reformado de outra maneira. pois é aí que a sociedade-fábrica da produção/consumo encontra seu regime ideal. Se Marx tivesse lido Sade. Marx e Sade 145 Se Marx tivesse lido Sade.

desenvolvido de maneira incipiente no Capital. torna abstrata toda qualidade sensível e todo valor de uso — e é precisamente isso que leva a mercadoria a funcionar como fetiche. ao fetichismo do dinheiro. no regime capitalista. e que a “ciência” (marxista) enuncia assim: a mercadoria é apenas o tempo de trabalho socialmente necessário para produzi-la. ou seja. Por mais que eu admire seu empenho no sentido de salvar Marx contra os marxistas. o “fetichismo da mercadoria”. trabalho abstrato. a Anselm Jappe atualmente. remete apenas a relações sociais. Há os que pensam (os marxistas ortodoxos) que Marx tem razão de destacar o domínio do trabalho abstrato sobre o trabalho concreto e os que consideram (toda uma corrente crítica do marxismo ortodoxo) que Marx deplora e denuncia o trabalho abstrato. daí extraindo uma consequência radical: é necessário pôr fim ao trabalho assalariado. em oposição ao trabalho concreto. de Georg Lukács. que só poderiam levar ao mais lamentável dos fiascos. É possível percebê-lo lendo o mais recente trabalho publicado na França sobre a questão. Esse trabalho é considerado abstrato porque. Esse conceito. É longa a lista desses leitores críticos do marxismo ortodoxo. Esse conceito é apresentado num curto texto (algumas páginas) que constitui a quarta e última parte do primeiro capítulo do livro I do Capital. de fato. 146 Poderíamos responder que Marx não teve a menor necessidade de ler Sade. é por ocultar aquilo que é na realidade. essas tentativas não me parecem realmente convincentes. E. portanto.Teríamos evitado a captação e o desvio dos espíritos resistentes à teodiceia smithiana nas falsas alternativas ao capitalismo representadas pelas economias socialistas. é um importante ponto de confronto entre duas interpretações opostas. passando por Guy Debord e outros. escrevendo sobre a questão na década de 1920. o de Anselm Jappe. intitulada “O caráter fetiche da mercadoria e seu segredo”. o homem encara a mercadoria como o “selvagem” vê um ídolo: ela possui uma qualidade mágica. ele permite entender por que. a de poder ser trocada por qualquer outra mercadoria — e podemos ver aonde isso conduz. e. Se a mercadoria é fetichizada. que fornece em Les . pois desenvolvera um conceito que permite a análise do processo de consumo.

É verdade que a mercadoria é apenas tempo de trabalho socialmente necessário para produzi-la. a desencavar. Elas não abordam uma questão decisiva. joga com a dinâmica que vai da pulsão a sua satisfação. do erro e do horror dos marxismos reais. enunciando incansavelmente essa “lei” do trabalho socialmente necessário e esquecendo a outra. numa primeira edição. como ler nessas ausências o que permitiu o desenvolvimento. E. era fatal que o marxismo real engendrasse apenas monstros frios gerados pela “ciência”. Ora. Entretanto. no consumidor. A lei que. mas é precisamente a isso que não se dá a menor importância quando se desfruta de um objeto. força Marx a adotar uma posição que certamente nunca sustentou. e mesmo num Marx corrigido. esta segunda lei é ignorada por Marx. Pois nesse caso está em ação uma outra lei. permanecendo escoradas em Marx. na verdade. Pois sendo o consumo sempre frio e puramente utilitário em Marx. chegando às vezes. fundamentalmente ambíguo.168 E. por sinal. com as trágicas consequências que sabemos.Aventures de la marchandise167 [As aventuras da mercadoria] uma fascinante análise do conceito de fetichismo da mercadoria. também encontramos o que permitiu as interpretações marxistas ortodoxas posteriores comemorando o domínio do trabalho abstrato sobre o trabalho concreto. Mas o problema é que ele. Creio assim que é necessário não só conduzir o texto de Marx na direção de uma crítica radical do “fetichismo da mercadoria”. numa releitura desse breve texto de Marx. essas críticas. porra de Deus! 147 . com efeito. de certa maneira. E mais: desfrutar de um objeto também é subitamente abolir o trabalho socialmente necessário para sua produção. contra as habituais interpretações marxistas. O texto de Marx é. E todo o mérito dos trabalhos críticos está em decidir no lugar de Marx e propor. deparam-se com um considerável obstáculo. Foi precisamente o que permitiu as interpretações dos marxistas ortodoxos. Jappe se vê obrigado a mencionar várias vezes que os argumentos de Marx não são tão claros assim. uma frase que viria posteriormente a ser eliminada por Marx. para escorar sua argumentação. uma leitura radical do “fetichismo da mercadoria”.

169 148 Pascal teria ficado arrasado de saber que o ciclo de inversão da metafísica ocidental por ele iniciado. 149 Desse programa liberal/libertino nós nos aproveitamos. ao lançar a hipótese de que o amor sui poderia ser perene. como já acontecera com seu antepassado Don Juan: “Porra de Deus! Aqui estou no ponto em que queria estar. 150 Teremos então coragem de dizer. já o consumimos. provavelmente. deixem-me. Para o melhor e para o pior. aqui estou coberto de opróbrio e infâmia. Sabendo que o melhor.Sade acertara. preciso descarregar!”170 . Sade nos terá insistentemente avisado que a satisfação pulsional acarretava a destruição. e que essa reforma era pornográfica. e provavelmente por isso é que era preciso aprisioná-lo: as sociedades que colocarem o amor sui no posto de comando só podem tornar-se pornográficas. deixem-me. como o arauto de Sade no momento em que corre o risco de ser fulminado. Quanto ao resto. provocara uma reforma completa do mundo.

1965. Além disso. 277. in La Vie sexuelle. no qual são examinados e verificados todos os fatos da vida de Pascal que possam ser pertinentes. uma hagiobiografia. 51Blaise Pascal. Paris. redigida pelo Centro Internacional Blaise Pascal.) ** Do francês concupiscence (concupiscência): con (babaca) + cul (cu) + pisse (mija) + sens (sentido). Edição brasileira: “Sobre o narcisismo”. Trata-se de um trabalho admirável. O problema é que todos os fatos arrolados são colocados no mesmo plano. Rio de Janeiro. 51. Desclée de Brouwer. 1963. VII. p. tradução de Mario Laranjeira. São Paulo. 2003. Louis Lafuma. Émile ou De l’éducation. 49S. I e II. a caçula. Pascal et les Roannez.” Roland Barthes. in Oeuvres complètes. que se pronuncia como symptôme (sintoma). Edição brasileira: Pensamentos. (N. Edição brasileira: Pascal. do T. 19-20. “Pour introduire le narcissisme” [1914]. (N.) *** Trata-se da primeira parte de um provérbio que diz “Caridade bem ordenada começa por si mesmo”. Editora Abril Cultural. Gilberte Périer. São Paulo. 1969. Paris. tradução de Roberto Leal Ferreira. 1975. Rousseau formula essa distinção pela primeira vez no Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens (1755). Bibliothèque augustinienne. Cf. PUF. Retomo aqui a expressão que consta dos Pensamentos (no cap. Estação Liberdade. consultar o excelente e recente estudo de Francesco Paolo Adorno: Pascal. o evocava assim: “Os argonautas substituíam aos poucos cada peça [do navio]. da R. tradução de Sérgio Milliet. retomando-a em seguida em vários grandes textos. Nova Cultural. 54 A respeito de Pascal. 2008. Paris. Roland Barthes par Roland Barthes. IV (disponível no site dos clássicos das ciências sociais. Desclée de Brouwer. 56 Gilberte. São Paulo.T. 1989. o trocadilho é mais eficaz: saint homme → sinthome. Le Seuil. (N. La . Ver adiante. Paris. p.ca/classiques/). 1974. existe uma excelente biografia básica (cerca de vinte páginas) no site da Universidade de Clermont.) 48 Cf. 2004. 2000. livro XI. Le Seuil. 17 de outubro de 1651. depois de mortos.uqac. Nova Cultural. sem precisar mudar seu nome nem sua forma. Paris. v. 1973. Edição brasileira: A de Roland Barthes por Roland Barthes. dedicou ao irmão e à irmã. cap. tradução de Leyla Perrone-Moisés. São Paulo. “À Monsieur et Madame Périer”. trad. 50Santo Agostinho. Rousseau. consultei muito o monumental trabalho de Jean Mesnard. geômetra e físico. Freud. Coleção Os Pensadores. 53Sobre Pascal matemático. 1972. São Paulo. Imago. do T.Notas * Em francês. São Paulo. por sua vez. de tal maneira que acabavam com um navio completamente novo. Estação Liberdade. http://classiques. Edição brasileira: Os pensadores. edição Port-Royal de 1670. Edição brasileira: Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens. tradução de Jayme Salomão. Les Belles Lettres. De genesis ad litteram (A Gênese no sentido literal). Agaësse-Solignac. Martins Fontes. 2005. in Obras Completas de Sigmund Freud. online em 55 Wikisource). O que confere ao conjunto o aspecto de um trabalho enorme… e acéfalo. Edição brasileira: Emílio ou Da Educação. 52 Roland Barthes. 19. Paris.

72 Além de suas próprias obras. segundo as regras do jogo. p. Le Seuil. .. e 2. 2007. texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. se apodera de tudo. 62 Disponível em Gallica. Jacques Lacan. Pascal et les Roannez. op. 70 Pierre Klossowski. e continua em uso com regras muito semelhantes com o nome de tresillo na Espanha. 64Carta de Jacqueline citada por Jean Mesnard. 1844. 1992. nos quais Pascal afirma que a guerra da razão contra as paixões gera duas seitas: “Alguns quiseram renunciar às paixões e tornar-se deuses. Mitton. Bouquins. 63Victor Cousin comenta essa passagem em Des pensées de Pascal. 2005. 449. Edição brasileira: O seminário. cit. foi apresentado no Théâtre de l’Odéon de Paris em outubro de 2008. p. La Table Ronde. p. homônimas à exclusão de um ou dois fonemas. Paris. 87. 99. 373. cit. tradução de Sérgio Laia. (em psicologia) à “repetição mecânica de palavras. 65 Serge Leclaire. 1998. p. 370. Sade mon prochain [1947]. na encenação de Stéphane Braunschweig. seguido de La Vie de Jacqueline Pascal.. disponível em Google books. I: “La rupture de Pascal avec le monde (1654)”. Brasiliense. in Pensamentos. Nicole e Arnauld são coautores de La Logique ou l’Art de penser. 1967. 1994. sem que o sujeito as compreenda”. frases ouvidas. livro 23: O Sinthoma. cit. Le Sinthome. e aquele que jogou a carta mais forte. Mas nem estes nem aqueles foram capazes. tradução de Armando Ribeiro. op. seminário XXIII. segundo o Robert: 1. São Paulo. Edição brasileira: “A vida de Pascal”. 57 Trata-se dos fragmentos 412-413. Le Seuil. Demeures de l’ailleurs. Cf. Rio de Janeiro. 66 Vale lembrar que o psitacismo remete. Paris. Paris. ao “fato de raciocinar sem ter em mente as ideias expressas pelas palavras (repetir como um papagaio)”. Edição brasileira: Sade meu próximo. Edição brasileira: Escritos clínicos. Foi muito jogado na França no século XVII e no início do século XVIII. 71 Sobre o que são os “Senhores de Port-Royal”. 2001. Jorge Zahar. hombre [como na França] na Dinamarca e tridge na Inglaterra. 4ª parte. 68 Fala-se de parônimo quando se trata de palavras foneticamente vizinhas. Rio de Janeiro. Jorge Zahar. outros quiseram renunciar à razão e tornar-se animais embrutecidos (Des Barreaux). “Pensées sur l’honnêteté”. Le Seuil. in Moralistes du XVIIe siècle. Paris. de que falaremos adiante. 60 Esses dois problemas são expostos por Pascal em carta a Fermat. 59 Jean Mesnard. Paris. Paris. citada por Jean Mesnard..” 58 A zanga é provavelmente o primeiro jogo de cartas feito para levar a melhor (tipo de jogo no qual os jogadores mostram alternadamente uma carta na mesa. p. Pascal et les Roannez. 67Ela se encontra em seu seminário 1975-1976 sobre Joyce. 61 Cf. Écrits pour la psychanalyse 1. 2005.Vie de Monsieur Pascal. op. cap. 1985. Didier. 69 Tartuffe. abrindo e fechando as cartas). São Paulo. Nova Cultural. ver fragmento 83.

“Subversion du sujet et dialectique du désir”. Les Passions et les Intérêts [1977]. sur différents sujets de morale et de piété. Paris. in Escritos. Le XVIIe siècle. 1988. 79 Citarei os Essais de morale. 2002. B. embora em outras um mesmo operário desempenhe duas ou três. 1737. 2002. PUF. livro primeiro. 2010. 84 “Um operário estende o arame no cilindro. o capítulo XII do livro VII das Confissões. La Découverte. Dominique Julia. um quarto faz a ponta. Volume XVIII. no banco de dados textuais Frantext do Institut National de la Langue Française (InaLF). Gallimard. em sua jornada de trabalho. Nova Cultural. O importante trabalho de fabricação de um alfinete é dividido em dezoito operações distintas ou aproximadamente. e de forma muito documentada. a irresistível ascensão da ideia que viria a colocar o interesse em posição de motivação universal. as quais. […] Dez operários podem fabricar mais de 48 mil alfinetes num dia […]. com base na edição antiga disponível online. VI. 78Jacques Lacan. L&PM. 83 Essais de morale. 82 Hernán Cortés. 74 Cf. Rio de Janeiro. 86Jean Rohou. sendo obra de Deus. Rio de Janeiro. Ver “Histoire du lexique français” no site da Universidade de Arras (Unidade de Ensino e Pesquisa de Letras 75 Modernas).” Edição brasileira: Confissões. volume 18: O mal-estar na civilização e outros textos. in Écrits. em determinadas fábricas. cf. Mas se todos tivessem trabalhado separadamente e de maneira independente uns dos outros […]. 2007. Le Seuil. cit. Paris. 1926-1930. São Paulo. p. tradução de Jurandir Soares dos Santos. cap. PUF. São Paulo. Ver. Adam Smith. Edição brasileira. . um quinto é empregado para afiar a ponta para receber a cabeça […]. Paris. Jorge Zahar Editor. livro De la charité et de l’amour-propre. Edição brasileira: “Subversão do sujeito e dialética do desejo”. La Conquête du Mexique [1519]. p. Paris. Record. talvez nem mesmo um só. 1998. contendo estas palavras: “Pois tudo que é é bom. 6. Jacques Revel e Michel de Certeau. tradução de Vera Ribeiro. Porto Alegre. tradução de Paulo César de Souza. e talvez não a quadrimilionésima oitocentésima parte do que têm hoje condições de fazer.73 Lettres de M. 825. La Politique de la langue: la révolution française et les patois. op. um terceiro corta. Vozes de Bolso. outro o alisa. são executadas por igual número de mãos. de Pierre Nicole. 2002. 85 “De la grandeur”. CNRS. Edição brasileira: A conquista do México. Edição brasileira: As paixões e os interesses: argumentos políticos a favor do capitalismo antes do seu triunfo. 2011. em virtude de uma divisão e de uma combinação convenientes de suas diferentes operações”. livro “De la grandeur”. 312. 1996. vale dizer. 81A imensa bondade de Deus é um grande tema agostiniano. São Paulo.Hirschman.. 77 Ibidem. Edição brasileira: Obras completas. cap. Paris. p. cada um deles certamente não teria feito vinte alfinetes. Oeuvres complètes. Rohou explora metodicamente. 11. Companhia das Letras. A riqueza das nações: investigação sobre sua natureza e suas causas. une révolution de la condition humaine. certamente não a ducentésima quadragésima parte. 1980. por exemplo. 76 Sigmund Freud. 1975. 90. Recherche sur la nature et les causes de la richesse des nations. cap. 80 Sobre a passagem do amor próprio ao interesse. remeto ao livro de Albert O.

2001. 98 A fábula está disponível online no site da Biblioteca Nacional da França em http://expositions. Calmann-Lévy. 99 Mandeville. tradução de Procópio Abreu. visa sua própria satisfação. inteiramente dedicado à questão das paixões em Mandeville. Rio de Janeiro. extraído de Comptes rendus de l’Académie des inscriptions et belles-lettres. 92 Muitos autores do século XVII. cit. online no site do Institut de France. 2002. homme d’église”. p. Histoire du libéralisme en Europe. Paris. “La ‘liberté du commerce’ et la naissance de l’idée de marché comme lien social”. 1722. Poderíamos dizer que Lacan acrescentaria um terceiro axioma: essa limitação se apresenta como coação à fala.htm.bnf. 93 Por exemplo. Tentei expor em que poderia consistir essa continuidade no capítulo 10 de Divin marché. Uytwerf. Companhia de Freud. tradução de Pedro Süssekind. Ver também “De la charité et de l’amour-propre”. eu sustentava em Le Divin Marche (cap. Edição brasileira: A sociedade de corte. Edição brasileira: O divino mercado. 91Remeto ao excelente estudo de Gilbert Faccarello. La Société de cour. in Philippe Nemo e Jean Petitot. Eu me apressava a demonstrar que Freud acrescentara um segundo axioma que faz toda a diferença: todo gozo extraído da satisfação da pulsão não pode deixar de ser limitado. 2006. 95Pierre Bayle. fasc. para preservar a coesão do grupo social. não estabelece qualquer relação entre Mandeville médico e Mandeville economista. Carrive. Rio de Janeiro. IV. 10) (edição brasileira: O divino mercado. pois os dois campos se interessam pela economia libidinal. 2009) que existe um axioma comum ao liberalismo (voltado para a economia mercante) e a psicanálise (voltada para a economia psíquica) — o que não surpreende. PUF. Companhia de Freud. op. cap. cap. “Des moyens de conserver la paix avec les hommes”. 90 Penso em Serge Latouche. nem sempre bem-intencionados. nov. 97 Por isso. H. Esse axioma é o seguinte: a pulsão é egoísta. vertus (Paris. a revolução cultural liberal. P. 1990. Vrin. um dos raros economistas que exploraram essa questão. IX. falam dos agostinianos encontrados nos dois campos opostos do cisma como “primos irmãos”. 2005.fr/utopie/cabinets/extra/textes/constit/1/18/2. La Fable des abeilles I e II. Rio de Janeiro. 1969. 89 Les Caractères. Paris.-dez. p. A citação que se segue é extraída de La Dynamique de l’Occident [1939]. “Mazarin. Paris. 1985. 88 Norbert Elias. vices. Albin Michel. 2009. Vrin. a revolução cultural liberal. em L’Invention de l’économie. 205 e seg. fr. Paris. o estudo extremamente documentado de Paulette Carrive. Flammarion. Continuation des pensées diverses sur la comète. 2. Amsterdã.87 Essais de morale. Paris. 16 volumes. trad. 96 Por exemplo. Mazarin. tradução de Procópio Abreu. o artigo “Pierre Nicole” do monumental Dictionnaire historique et critique de Pierre Bayle. online em Google books. Ver o artigo de Jean Delumeau. 94Cf. 1820-1824. edição de Adrien-Jean-Quentin Beuchot. Bernard Mandeville: passions. Jorge Zahar. VII. 1980). e L. 240. “De la cour”. 100 O livro é imediatamente traduzido para o francês e impresso em Londres. .

Paris. Genebra. 2 (o itálico é do autor). “Hayek. 1774. 109 Ibidem. tradução de José Leonardo Nascimento. Le Dieu du Marché — Éthique. Paris. Em 1966. é interessante ler a dissertação de Erwan Bomstein-Erb. Le Seuil.101Ver o fascinante estudo de Céline Lafontaine.google. 2005. in Individualism and Economic Order.com/.erwan. 1974. cit. Genèse et épanouissement de l’idéologie économique. São Paulo. intitulado “Onde se sustenta que a invenção do Mercado por Adam Smith é da esfera da teologia”. 34 112Cf. Politics. 1982). Vale a pena consultar. “Pascal et Leibniz: l’infini comme principe de réforme”. 105 Adam Smith. p. 104 Disponível no site “Les classiques des sciences sociales”. 103 Permito-me remeter ao estudo que apresentei no capítulo 3 de Le Divin Marché. Recherches sur la nature et les causes de la richesse des nations. Hayek pronunciou. tradução de Blavet. 1999. E também online em http://books. L’Empire cybernétique — Des machines à penser à la pensée machine. 422. Adam Smith.. Hayek reconhecia em Mandeville um pensador decisivo da divisão do trabalho e o pai de uma abordagem antitradicionalista destinada. 8-9). ou seja. 2003. a dominar o pensamento anglo-saxônico. com indicação do capítulo. 107 Louis Dumont.ca.uqac. disponível on-line. “De l’avènement de l’individu à la découverte de la société” [1979]. Londres e Henley. 2000. jun. 113 A esse respeito. Londres. Em 1945.net/philosophie. segundo ele. o artigo de Éléonore Le Jallé. Martins Fontes. Edição brasileira: A riqueza das nações: investigação sobre sua natureza e suas causas. Nela. Nova Cultural. diante da British Academy. Le Dieu du Marché. Labor et Fides. Lisboa. 110 Ibidem. Uma abordagem em que “o homem não é um ser superiormente racional e inteligente. Hume. EDUSC. “Lecture on a Master Mind” [1945]. publicado por Valade. Paris. Melbourne e Henley. p. PUF. p. mas um ser altamente irracional e falível”. 2004. in Astérion. Edição brasileira: Homo aequalis: gênese e plenitude da ideologia econômica. Gallimard. 2004. disponível em http://www. nº 1.uquebec. op. économie et théologie dans l’oeuvre d’Adam Smith. 1988. Hayek demonstrou que Mandeville tinha posto em evidência a existência de uma classe de fenômenos capazes de resistir à tradicional dicotomia do “natural” e do “artificial”. “Individualism: True and False” [1945]. Paris. Instituto Piaget. Ferguson”. Edição portuguesa: O império cibernético. tradução de Michaël Biziou. Gallimard. São Paulo. Théorie des sentiments moraux. salvo pelo fato de ser movido por um processo que o transcende e que pode progressivamente levá-lo à… organização perfeita da colmeia (Hayek. IV. 1976 (o livro retoma uma série de conferências pronunciadas em Princeton em 1973). 422 111 François Dermange. Homo aequalis. . lecteur des philosophes de l’ordre spontané: Mandeville. 108Marcel Gauchet. Edição brasileira: Teoria dos sentimentos morais. Routledge & Kegan Paul. http://www. Os trechos citados serão acompanhados da menção “TSM”. Economics and the History of Ideas. 106François Dermange. a classe de fenômenos que Adam Ferguson descreveu mais tarde como “resultantes da ação do homem mas não de seu desígnio” (Hayek. p. 102 Hayek retornaria várias vezes a Mandeville. reproduzido em La Condition politique. tradução de Lya Luft. uma conferência dedicada ao master mind Bernard Mandeville. 1999. 2003. São Paulo. in New Studies on Philosophy. Routledge & Kegan Paul.

cit. Temple University Press.eleves. É notável que essa crítica radical do amor próprio e de seus efeitos seja feita a propósito de uma peça encenando . 124 Algumas dessas soluções são propostas em David Wilson e William Dixon. “Das Adam Smith Problem. publicado no site da Universidade de Viena. por exemplo. p. XXIV. Rousseau. I. 1973. p. La Fable des abeilles I. 118 Cf.III.fr. 126 Serge Latouche. “Das Adam Smith Problem: Its Origin. Le Dieu du Marché. Vol. 1990. traducão de Lya Luft. cit. “Marchandisation du soin et évction du sujet: les effects paradoxaux d’une surdose de neutralité dans le libéralisme”. 2000. Damien Ientile. Le Seuil. a proposição principal das Philosophia naturalis princpia mathematica de Galileu: “A filosofia é escrita neste vasto livro constantemente aberto diante de nossos olhos (refiro-me ao Universo). disponível em: http://www. p. 115 Max Weber. 129 TSM. 10-11 de abril de 2008. 128 Cf. 2003. Prefácio de Narcisse.ens. “Quel est l’agent économique d’Adam Smith?”. 211. Ver também Leonidas Montes. Ora. I. Veja-se. and One Implication for our Understanding of Sympathy”. Companhia das Letras. ele é escrito [por Deus] em língua matemática. Gallimard. Vrin. nº 25.-J. Estrasburgo. Abril Cultural. São Paulo. Áustria. 121 Stephen Jay Gould. dissertação no 2º colóquio de psicopatologia e psicanálise do vínculo social. 2003. 27. 130 J. cf. Edição brasileira: Teoria dos sentimentos morais. nova tradução de J.-P. 1999. Grossein. São Paulo. II. Paris.htm. tradução de José Marcos Mariani de Macedo.net/rousseau/theatre&poesies/narcisse.” 119 Ver a esse respeito os trabalhos da economista Ingrid France. in Os pensadores. 1979).. Comme les huit doigts de la main. Paris. Paris. 116TSM. L’inventiion de l’économie.III. seção intitulada “Causas da prosperidade das colônias novas”. Prefácio. Bannister dedicados ao social-darwinismo (Social Darwinism — Science and Myth in Anglo-American Social Thought. São Paulo. 2004. 169. A Critical Realist Perspective”. Journal of the History of Economic Thought. VII. 122 O que fica demonstrado nos trabalhos do historiador Robert C. a recente organização na Universidade de Princeton de uma mesa-redonda intitulada “American Religious Liberalism.114 O religious liberalism foi tema de muitos debates e publicações nos Estados Unidos. op. III. a ser publicado. 117 O que é confirmado por Dermange. 120 Riqueza das nações. op. e não podemos compreendê-lo se antes não aprendermos a conhecer a língua e os caracteres com os quais é escrito. livro IV. 123 Bernard de Mandeville. Filadélfia. Edição brasileira: Prefácio de Narciso ou O amante de si mesmo. disponível em http://gallanar. Martins Fontes. por exemplo. Retrospect and Prospect”. 127 TSM. L’Éthique protestante et l’esprit du capitalisme [1904-1905]. tradução de Louders Santos Machado. 125 TSM. ou l’amant de lui-même. 15 e 16 de março de 2008. Edição brasileira: A ética protestante e o espírito do capitalismo. the Stages of the Current Debate.

p. irmão do grande Condé. jornalista. São Paulo. 143Milton e Rose Friedman. Nova York. O que lhe valeu esta resposta do rei: “Senhor. noivo de Angélique. se apaixona por um retrato que o representa como mulher). Harcourt Brace Jovanovich. Michel Delon. já que remete à justificação da existência de Deus apesar da existência do mal ou mesmo graças a ela. e que não só não é necessário amar para gozar. 138 Em L’Ère de l’individu (Paris. é um dos grandes defensores da doutrina da “mão invisível”. O mal como solução: seria essa exatamente a posição sadeana. in A filosofia na alcova. matando com seu mosquete operários que trabalhavam nos telhados de Paris ou burgueses que cruzavam o seu caminho. 139 Juliette. encore un effort si vous voulez être républicains”. “Français. setembro de 1783. Quando era apanhado. Les Vies de Sade. 142 Vamos encontrá-lo nesta passagem: “Parece-me. . Cf. que introduz uma questão que vamos encontrar no cerne do pensamento liberal. 8º capítulo). 135La Philosophie dans le boudoir. São Paulo. Alain Renaut expõe a forte homologia existente entre a teoria monádica de Leibniz e as de Mandeville e Smith baseadas no amor sui (ver os interessantíssimos parágrafos intitulados “La monadologie comme analytique de l’individualité” e “Monadologie et théories du marché”). mais uma vez. ver fragmento 43). Lisboa. Edição brasileira: A monadologia e outros textos. Textuel. 132 O conde de Charolais. ele não chega a estabelecer uma relação desses aspectos com a teoria leibniziana da teodiceia. príncipe de sangue. gostava de se divertir entre uma orgia e outra esmagando os monges com sua carruagem. Friedman. tradução de Fernando Luiz Barreto Gallas e Souza. 131 Carta de Sade a sua mulher. 2000. Hedra. 1979. in A filosofia na alcova. mas de mais bom grado haveria de concedê-la àquele que lhe fizer o mesmo. edição portuguesa: A era do indivíduo. 2000. Edição brasileira: “Franceses. Infelizmente. 1801. 5º diálogo. 2000). Iluminuras. mais um esforço se quereis ser republicanos”( 5º diálogo). primeira parte. 7º capítulo. 134 Juliette. 2007. mais um esforço se quereis ser republicanos”(5º diálogo). como a maioria dos economistas formados na “escola de Chicago”. Vª parte. Iluminuras. Paris. Graças a essa teoria é que foi possível entender o mal (decorrendo dos vícios privados) não mais como o problema a ser resolvido. mas basta gozar para não amar” (Juliette. 140 Ibidem. 1989). Free to Choose. 2009. 133 O autor de “Crimes do amor” a Villeterque. A filosofia na alcova. 141 “Talvez considerem nossas ideias um pouco fortes: e daí? Não conquistamos o direito de dizer tudo?” Sade. 13-14.o amor de si mesmo (Valère. São Paulo. 5º diálogo. mas como a própria solução.” Sade cita esta frase em A filosofia na alcova. São Paulo. O que bem demonstra que Rousseau distinguia perfeitamente esses dois amores (sobre esta distinção. Instituto Piaget. a graça que solicita deve-se a sua posição e a sua qualidade de príncipe de sangue. Gallimard. 136 Juliette. Edição brasileira: “Franceses. que amar e gozar são coisas muito diferentes. Iluminuras. 137Proposição 64 de A Monadologia. corria para o rei Luís XV para evitar a condenação. Edição brasileira: A filosofia na alcova. 2000.

cit. 154Ibidem. (Agradeço a Laurent Jaffro. II. em 1744. 3. 61. L’invention d’un corps libertin. 7º diálogo. José Álvaro Editor.144Dolmancé dirigindo-se a Eugénie no 5º diálogo de A filosofia na alcova. DIFEL. 155 Mandeville. “Digressão sobre o trabalho produtivo”). São Paulo. 5º diálogo. cit. A ideia vem de Descartes e de sua carta de março de 1638 sobre o “animal-máquina”. Edição portuguesa: O homem-máquina. encore un effort…” 159 Mandeville.) 158 “Français. 157 Mandeville. Recherche sur la nature de la nature de la société — Addition à la seconde édition (1723) de La Fable des abeilles. p. .. diretor da Maison des sciences de l’homme de Clermont- Ferrand. Paris. 156 A filosofia na alcova. 3º diálogo.. 5º capítulo. anexos. 1998. p. 149Os infortúnios da virtude. Edição brasileira: Os infortúnios da virtude. I. Lisboa. 233. mais um esforço se quereis ser republicanos”( 5º diálogo). 162 Marcel Hénaff. que fabricou. Iluminuras. Recherche sur la naturede la société — Addition à la seconde édition (1723) de La Fable des abeilles. op. São Paulo. p. 1969. 1982. 1727. resmunga e nada. Cabe notar que Marx cita este texto nas Teorias sobre a mais- valia (livro IV do Capital. 3º diálogo. 150Aline e Valcour. 2000. 74 (tradução revista). tradução de Rubem Rocha Filho. Vénus la populaire ou Apologie des maisons de joie [traduzido do inglês por Mandeville]. Moore. 145 Idée sur les romans. 152 Ibidem. 160 Juliette. Mandeville refere-se ao grande incêndio de 1666. 146 A filosofia na alcova. Já no século XVIII se conjectura que os homens não passam de amontoados de matérias e órgãos que por isso se tornam isoláveis e funcionalizáveis em função de finalidades a serem determinadas. p. Iluminuras. 153Mandeville. que considera. que consumiu maior e mais bela parte de Londres. em O homem-máquina. A. in A filosofia na alcova. 151 A filosofia na alcova. op. 97-98. in La Fable des abeilles I. o acesso a esse texto difícil de ser encontrado. 147 A riqueza das nações. Londres. Edição brasileira: O Capital. que o espírito não passa de um efeito da organização sofisticada da matéria. Rio de Janeiro. livro 4: Teorias da mais valia. Sade. cf. PUF. 148 Juliette. 161 Sade acompanha o seu tempo. Edição brasileira: “Franceses. “Essai sur la charité et les maisons de charité”. 1974. e de La Mettrie (que Sade leu). p. tradução de Manuel João Gomes. v. 1978. Estampa. juntando várias funções separadas. 2001. “Face II/Économique”. 60. São Paulo. Edição brasileira: Aline e Valcour. tradução de Reginaldo Sant’Anna. Tradução modificada pelo autor para ser mais fiel à crueza do texto original de Sade. um pato que defeca. primeira parte. Actes Sud. de Vaucanson.

de que maneira Sade antecipa “a mercantilização moderna da emoção voluptuosa”. 167 Anselm Jappe. Antígona. 1992. 168 Ibidem. 164 Juliette. Klossovski mostra. Paris. 5ª parte. 166 Observação de passagem: é muito interessante que. Le Aventures de la marchandise. . Lisboa. 165 Os 120 dias…. 2003. tradução de Ari Roitman. Iluminuras. 1991). a fabricação do simulacro) a preço baixo”. ou. São Paulo.163 Les Cent Vingt Journées de Salome.. texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. “o princípio da produção desenfreada exige um consumo desenfreado” (La Monnaie vivante [1970]. nos castelos-fábricas sadeanos. Edição portuguesa. tal como seria praticada quando “a exploração industrial tornar-se capaz de padronizar a sugestão (vale dizer. p. A Escola da Libertinagem. livro 17: o avesso da psicanálise. Paris. 40 e seg. 2006. Rio de Janeiro. 169 Num estudo fascinante. 2006. Règlement”. Paris. Edição brasileira: O seminário. o de 1969-1970 intitulado O reverso das psicanálise (livro XVII. 23º dia. As aventuras da mercadoria: para uma nova crítica do valor. em seu seminário seguinte. e que logo tenha relacionado isso ao “discurso do capitalista”. Pierre Klossovski observa com razão que. 170 Os 120 dias…. § “L’abstraction réelle”. Jorge Zahar. Rivages). 12º dia. nesse texto. Lacan tenha relacionado esse “mais-gozar” a um “gozo outro”. Le Seuil. Denoël. Edição brasileira: Os 120 dias de Sodoma e Gomorra.

2 1929-1960 SADE. O RETORNO .

Forçando um pouco. e a metafísica. um sistema que.171 Ao passo que. em seguida. Essas duas correntes se distinguem num ponto capital: o do modo de regulação moral a ser posto em prática na ação — vale dizer. De bom grado. Adam Smith retomou.151 Naquilo que se convencionou chamar de “Iluminismo”. quando Mandeville opôs-se a esses filósofos moralistas para construir. como vimos. contemporâneos quase exatos. era absolutamente necessário regular — a moral deve ser baseada no imperativo categórico consistindo em se impor a si mesmo uma lei na vida prática —. pelos filósofos Shaftesbury e Hutcheson. terão sido perfeitos irmãos inimigos. Neste ponto. limitando-se a escoimá-lo das formulações mais “licenciosas”. existem na verdade duas grandes fontes. reconhecemos que nem tudo é negro nesse Iluminismo negro. sobretudo. no caso de Adam Smith. E a corrente inglesa. deixar fazer [laisser faire]. de que Kant é a expressão mais perfeita. Pode-se dizer que essa apresentação em Iluminismo branco e Iluminismo negro negligencia o fato de que existiu uma forte corrente moralista escocesa no início do século XVIII. poderíamos falar do Iluminismo branco da corrente alemã e do Iluminismo negro da corrente inglesa. para Smith cabia. Partindo da necessidade de ajustar seus respectivos objetivos em função da ciência newtoniana — a física social. dá o que se convencionou chamar de liberalismo. Postulada essa distinção entre os dois Iluminismos. O que não impede que a escuridão tenha vencido. representada. fica mais fácil indicar o que distingue a modernidade da pós-modernidade. Esses dois mundos não devem ser confundidos: a corrente alemã produz o transcendentalismo. Smith e Kant. no de Kant. para Kant. e mais precisamente escocesa (entre outros. sobretudo. A modernidade é o equilíbrio instável . eles chegaram a duas conclusões perfeitamente opostas. vale dizer. tudo que diz respeito à razão prática. desregular — o que conduz logicamente a Sade. com Hume no aspecto político e Adam Smith no aspecto econômico).

entre os dois. e outra. do ponto de vista do ser-si-mesmo e do ser-junto. se apropriou dessas teses liberais. um Montesquieu. e se encontrava a ponto de conhecer seu momento de glória política. que deduziu de maneira espantosa todas as consequências lógicas da posição liberal. a sua escolha. por exemplo. Terá durado um século e meio. assim. o século XVIII. Hoje. afastar-se das interpretações tão frequentes quanto anacrônicas que pretendem considerá-lo arauto perfeito dos sistemas fascistas. Nela encontramos um Rousseau inspirador de Kant. em proveito do princípio liberal. levando- as a suas últimas consequências e mostrando. que a filosofia francesa se distinguisse não só por sólidas contribuições a cada uma dessas duas correntes. na . da moral egoísta contra a moral altruísta. mas uma dignidade” (Kant). de uma forma que tendo a considerar irretocável. no fim da década de 1970. é urgente empreender uma genealogia da pós-modernidade (já que é a época em que vivemos) para entender: 1º o que diferencia teoricamente o liberalismo do transcendentalismo. podemos conceber Sade como aquele que. quando o processo liberal já estava bem adiantado nos planos econômico e cultural. A pós- modernidade é o recuo cada vez mais acentuado da zona transcendental que remete ao que “não tem preço.entre essas duas correntes opostas. é. Era preciso. segundo o qual tudo tem um preço (Smith). Com efeito. E ela o fez com Sade. essa cena oscilou durante muito tempo entre os dois Iluminismos.172 152 Dizer que a cena filosófica do século XVIII foi esclarecida por duas grandes fontes (uma correspondendo à corrente alemã. no fim do século. 2º como funcionou o equilíbrio conflitante entre os dois Iluminismos. Basta pensar. constantemente reiterada ao longo de seus textos. Fazer de Sade um homem-chave do seu século. por sinal de maneira extremamente sadeana. à corrente inglesa) permite situar a zona francesa: em sintonia com a situação geográfica. com o advento da dupla Reagan-Thatcher. mas também de outras maneiras. e um Helvétius liberal. aonde conduz. 3º o que explica e como se manifestou o progressivo abandono do transcendentalismo em proveito do liberalismo. portanto. Cabe lembrar que o conceito de pós-modernidade foi introduzido no campo filosófico por Jean-François Lyotard.

foi um jovem prostituto romano de dezessete anos. devemos entender o liberalismo como um sistema bifronte. passar por cima de uma questão pungente: será que as circunstâncias de sua morte… não desmentiriam sua tese? Pois ele foi morto. indissociavelmente ligada. com efeito. representada pelo “segundo filho” de Mandeville. mas limitados no tempo e no espaço. Sade (op. Não podemos. Em outras palavras. vale dizer. que em seu livro Soudain un bloc d’abîme. bon vivant. Concordo. O mínimo que se pode dizer é que essa morte sadeana de Pasolini não comprova sua tese da necessária ligação do sadismo com o fascismo. Sade. de maneira extremamente sadeana. Situar Sade dessa maneira permite adiantar que o liberalismo tem duas faces: uma face puritana. pelo que sabemos. foi o último filme de Pasolini: ele seria assassinado após o lançamento. cada vez mais frequentes depois de 1968.) via nessas comparações com o fascismo uma má leitura de Sade. na vanguarda dos movimentos de liberação pulsional que surgiram depois da década de 1960. trágicos. Com isso. mas por jovens extremamente liberados. e uma face perversa. Como sabemos. Pois Pasolini é sadeanamente morto nas mãos de jovens. representada pelo “primeiro filho” de Mandeville. tão liberados que não tinham controle de suas paixões e pulsões. tenha pretendido reagir a esse absoluto contrassenso. é corrente — tão corrente quanto o liberalismo desde o século XVIII. a cidade do norte da Itália onde Mussolini se refugiara no fim da Segunda Guerra Mundial para fundar uma república fascista. cit. como um conjunto perverso-puritano. que o matou a cacetadas no dia 1º de novembro de 1975. Adam Smith. nessa questão. como é o caso dos fascismos do século XX. A morte trágica de Pasolini nos faz pensar. . um dos que eram frequentados por Pasolini. Sade revela algo que. de um Sade simpático. perto de Roma. já que. vale dizer. com o ponto de vista de Annie Le Brun. à Janus. alvo de perseguições dos obscurantistas de sua época. lançado no fim de 1975. não por fascistas. É provável que Pasolini. para em seguida esmagá- lo várias vezes com seu próprio carro na praia de Ostia. irritado com as visões. situou a ação de Os cento e vinte dias… em Salò.posição assumida por um autor tão estimável quanto Pasolini no filme intitulado Salò ou Os cento e vinte dias de Sodoma. uma leitura que falhava na percepção de Sade ao ligá-lo de maneira anacrônica ao horror surgido especificamente na Europa do século XX. longe de poder ser remetido a esses momentos de intensidade máxima.

George Sand. marcados pela enorme crise que se sabe. das belas bibliotecas particulares. Gustave Flaubert. 1929 corresponde ao momento em que a famosa mão tornou-se mais que invisível. Lorde Byron. exposto apenas à crítica devoradora dos ratos e camundongos.174 como. é a seguinte: Sade diz a verdade do liberalismo e por esse motivo é que foi necessário aprisioná-lo durante toda a vida e atirá-lo no inferno após a morte. seria interessante voltar à de 1929. A esse inferno das bibliotecas. se espalhava pelo mundo. Ninguém sabe se Deus então perdeu a mão ou adormeceu sobre os próprios louros durante a realização do seu plano secreto de reforma do mundo. prometido pela teodiceia puritana de Adam Smith. isto é. logicamente em 1929. a época em que vivemos ainda hoje. 154 Se quisermos entender os tempos atuais. na verdade. O que poderia ser dito assim: o liberalismo é Smith com Sade. no país ocidental mais puritano do Novo Mundo. sem saber se ela está para se concluir ou para recomeçar com a crise atual. não tanto por ser o modelo do gênero. São as estantes de François René de Chateaubriand. por exemplo. o grande autor do que se costuma chamar graciosamente de “estante de trás”. Théophile Gautier. Alfred de Musset. Sade terá sido. Eugène Sue e alguns outros. ou seja. por trás das estantes da frente.173 Lá. dirigidos por homens que passaram à história como os robber barons. portanto. no sentido em que já não harmoniza mais nada. 153 A tese que defendo. Ela viria. enquanto o conto da harmonização dos interesses privados pela mão invisível. inoperante. ele aguarda sua hora. Charles Baudelaire. escondido. Andrew Carnegie. é que Sade foi recolhido e escondido por alguns eruditos durante dois séculos. da Carnegie . mas por inaugurar uma época. os “barões ladrões”. Mas as receitas smithianas não foram em vão: levaram ao surgimento de empresas e trustes cada vez mais poderosos. que aplicou literalmente as recomendações de Adam Smith: os Estados Unidos. escondida.

Rockefeller. sua análise da especulação de terras na Flórida na década de 1920.Steel. Sade na Quinta Avenida 155 É precisamente em 1929. historiador e cientista político americano. aproveitam para provocar greves e conflitos que tendem a se multiplicar à medida que os senhores lhes confiscam todo gozo. 1919… e 1929. fome e morte às pessoas do povo. dando ouvidos apenas à “injusta preferência que têm por si mesmos”. Não só praticou o teatro durante toda a vida. Ele se lembra de ser um homem do palco. quando a grande crise inelutavelmente vai sendo gerada. que seria a retomada ampliada das crises anteriores. Cornelius e William Vanderbilt. como também veio a se . frequentemente invocada pela análise marxista. das ferrovias homônimas…175 A lógica pleonéxica por eles seguida levou-os a fenômenos de concentração de capitais e à formação de quase-monopólios em nome da eficácia e da rentabilidade. as consequências são idênticas: uma série de funestos efeitos econômicos. Limitar-nos-emos assim a duas explicações. indica em seu livro mais conhecido.176 E.177 O grande economista keynesiano dá ênfase ao excesso de vendas a crédito. mas gerando crises econômicas repetidas: 1873. em tempo de paz ou em tempo de guerra. acontecimento considerado o desencadeador da crise atual). os Vanderbilt. O professor Howard Zinn. Uma história popular dos Estados Unidos. sociais. que Sade sai do inferno. como encenador e escritor. naturalmente. Não faremos aqui uma enésima análise da crise de 1929. criando bolhas especulativas que não poderiam deixar um dia de desinflar (cf. John D. enquanto os Astor. A outra. em tempo de crise ou em tempo de crescimento”. é então que os pobres. Uma foi destacada por John Kenneth Galbraith em A crise econômica de 1929. que não deixa de evocar o que aconteceu com os famosos subprimes. em nossa opinião complementares. dá ênfase à produção: o capitalismo passa por crises regulares de superprodução que fazem com que os bens produzidos não encontrem escoadouro. da Standard Oil. os Rockefeller e os Morgan prosseguem em sua ascensão. 1907.178 Crise do crédito ou crise de superprodução. que essas crises levam “frio. 1893. Por um bom motivo: seria afastar-nos demais do nosso campo de competência. financeiros.

quando se é fabricante de cigarros. as mulheres. é certo que fumar em público expõe uma mulher ao opróbrio geral (é o puritano que fala). Assim é que Sade organiza um desfile de mulheres excitadas perto do Central Park em Nova York. por ter acreditado nas virtudes terapêuticas da arte para as doenças mentais. pediu que essas mulheres batizassem seu fetiche. Por outro. Sade exulta. brandido no ar para ser em seguida gulosamente aspirado. o fato é que seu espírito certamente presidiu a sua concepção. como declarava em “Franceses. Sade. graças ao fetiche.tornar. que para eles falta à mulher. também poderia corresponder ao tipo de fetiche adorado pelos perversos — o que constitui um possível substituto para o falo. Perde-se com isso muito . de Coulmier. além do mais. é por ter conseguido vários efeitos de sentido ao mesmo tempo: a afirmação de uma forma de gozo que nega “a propagação” e a Lei da diferença sexual. remexe-se alegremente no túmulo. o Sr. é lamentável. muito adiantado para sua época. na apoteose da representação. não resta dúvida de que Sade se teria regozijado tanto mais diante de um tal acontecimento pelo fato de se dar na capital espiritual do império puritano. 156 Se Sade obviamente não é o organizador em carne e osso desse desfile. Vejamos agora de que maneira a necessidade desse acontecimento perverso se impôs num contexto tão puritano. Se se sente nas nuvens. mais um esforço…”: “É preciso que as mulheres tenham liberdade de gozar. A imprensa é convocada. Um objeto que. De qualquer maneira. no hospício de Charenton — onde foi internado nos treze últimos anos de vida —. chupando com a boca gulosa um objeto arredondado e longo. ele sabia que o viriam buscar.” Por isso é que. Por um lado. que a metade da humanidade. não tenha direito de fumar em público. já que. com o nome de “tocha da liberdade”. Realizou um de seus desejos mais caros: liberar à sua maneira as mulheres. desperta do seu longo sono egótico. o organizador póstumo desse desfile. Por que misturar Sade com isso? Simplesmente porque essas belas mulheres exibem uma atitude ostensivamente felatória. essas mulheres estão “tendo” [um pênis]. o organizador de festas teatrais que encantam o diretor. juntamente com seus amigos. os loucos.

o que alimenta a crise em formação. representando estátuas da liberdade — o que em Nova York não é qualquer coisa. conquistar esse novo mercado. está muito distante. na medida em que . havendo tanto tabaco por vender nesse ano de 1929. No dia seguinte. que. (proprietária das marcas Lucky Strike. e mesmo exortá-las nesse sentido — no caso. é que George Washington Hill. Ele gostaria de consultar o tio. durante a New York City Easter Parade (o desfile de Páscoa). decide. Não é bom para a economia. Hill contrata um certo Edward Bernays. em 1929. fumariam. e decide então procurar um de seus discípulos. elas acendem suas tochas da liberdade: cigarros. a 31 de março de 1929. O comércio poderia. presidente da American Tobacco Co. tomando antes o cuidado de avisar à imprensa que as belas jovens haveriam de acender torches of freedom. É assim que. especialista do que os americanos chamam desde então de Spin — manipulação de notícias. as mulheres. Mandeville já dizia: “Um enorme comércio é feito graças […] ao hábito […] de fumar. dos afetos e outros elementos da doxa. que faz muito mal aos que o cultivam” (cf. fragmento 132). da opinião pública. é necessário acabar com a ideia de que as mulheres que fumam em público são umas desavergonhadas. Bernays decide organizar um desfile de um grupo de jovens manequins na famosa Quinta Avenida. e para a riqueza da nação americana que as mulheres não fumem. Cabe assim permitir-lhes fazer o que os homens fazem. no entanto. Elas estariam. Pall Mall…). portanto. ser duas vezes maior se a outra metade da humanidade tivesse acesso a ele. dos sentimentos. em geral. Com base em tais considerações.dinheiro. Para isso. dos meios de comunicação. A associação ilusória do cigarro com a emancipação da mulher é um enorme sucesso. e as mulheres começam a fumar com tanto maior empenho. Diante da multidão de fotógrafos. portanto. o acontecimento é comentado em todo o território dos Estados Unidos e no mundo inteiro. de posse dos seus próprios “pênis”. um dos primeiros a exercer essa estranha profissão nos Estados Unidos. considerável. Acontece que Bernays é duplamente sobrinho de Freud179 — o que não é propriamente indiferente. Brill explica a Bernays que o cigarro é um símbolo fálico representando o poder sexual do macho: se fosse possível ligar o cigarro a uma forma de contestação desse poder. o psicanalista Abraham Arden Brill. fundador da New York Psychoanalytic Society. a fumar. e obedecendo a um sinal de Bernays.

produto adictivo por excelência. sob o efeito da presidência do republicano ultraliberal Calvin Coolidge (que não era um presidente de passagem. Seria interessante. ocorreu dias depois de 4 de março de 1929. eventualmente inconsciente. a partir de 1923). a oferta só será realmente interessante para ele se puder provocar uma autêntica dependência. que tudo tenha começado com o cigarro. o dia da posse de Herbert Hoover (candidato do Partido Republicano) como trigésimo primeiro presidente dos Estados Unidos da América. Ainda se estava. portanto. e algumas continuam acreditando. Todo o espírito do novo capitalismo do consumo pode ser lido nesse ato inaugural de Bernays. portanto. com o objetivo proclamado de restringir o tamanho e a influência do governo federal em nome da doutrina do “laisser-faire”. muitas acreditaram nisso. segundo se diz.180 158 Cabe notar que esse acontecimento cultural. Coolidge foi o presidente que assinou a lei diminuindo drasticamente o imposto de renda e os direitos alfandegários. Entretanto. 157 Eis então as mulheres liberadas — e.acreditam ter conquistado sua liberdade ao subtrair aos homens o pequeno falo portátil que até então era sua marca exclusiva. assim. É verdade que com isso elas também se viciam numa droga — leve. mas por interesse. que preconiza . apresentada como algo que atenderia a uma demanda. tanto mais que sua dinâmica foi transposta para outros produtos a partir do momento em que se descobriu quais as outras adicções industrialmente passíveis de serem exploradas eles poderiam acarretar — o que resultou no estabelecimento de uma especialização adictiva em que a publicidade desempenhou um papel essencial. Mas isso é um detalhe: a liberação não tem preço. como o industrial que propõe seu objeto não age por filantropia. Constatamos que ele começa por uma oferta de liberação feita ao consumidor. já que seu poder foi exercido durante dois mandatos. Não surpreende. por sinal. com valor de sintoma. estudar mais atentamente as estratégias utilizadas pela indústria do cigarro com vistas ao estabelecimento da dependência.

. vale dizer. 160 Deveríamos considerar o 31 de março de 1929 data de nascimento da era perverso- puritana. a título de curiosidade. para proporcionar-lhe um objeto manufaturado que supostamente garantiria sua satisfação ou sua liberação. Pois desde então somos sadeanos mais ou menos “gazeados” em função do momento. do cigarro ao trombone 159 Acreditou-se a partir de 1929 que só havia uma solução para tirar o capitalismo da crise de superprodução que poderia acabar com ele: recorrer (sem dizê-lo. Cabe notar também que esse retrato voltou à Casa Branca na presidência de Reagan. de jogar com o desejo de cada um em seu valor bruto.a livre concorrência. mas também é deixar ver.181 Em suma. para “todos os sexos” (como diz Sade) e subsexos o equivalente do que foi feito para as mulheres com o objetivo de libertá-las definitivamente do jugo masculino: fumar. se as belas jovens da Quinta Avenida chuparam suas torches of freedom. antes de mais nada. para todos os grupos e subgrupos. tratava-se de fazer para todas as classes e subclasses. podia-se imaginar que. que o retrato de Calvin Coolidge foi retirado da Casa Branca em virtude de sua responsabilidade direta na grande depressão de 1930. A partir daí. É verdade que foi necessário travestir — Sade chamava isso de “pôr gaze”. ou por outra. por exemplo. já que cada um de nós é considerado. a pulsão. com a ajuda de roupas leves. é velar. e provavelmente sem querer sabê-lo muito) a Sade para liberar todas as paixões. naturalmente. no próximo desfile. para quem Coolidge representava simplesmente um modelo. Sua palavra de ordem é tão eloquente quanto suas invenções ultraliberais: “Menos Estado nos negócios e mais negócios nos estados!” Podemos acrescentar. em suma. cripto-sadeano. Tratava-se. em Sade. tornando-se sadeano. “Gazear”. considerando-se o puritanismo reinante. O capitalismo só foi capaz de superar a grande crise de 1929 democratizando o gozo. na qual vivemos há quatro gerações. um consumidor potencial. elas iriam “tocar trombone”. um candidato à liberação de uma paixão ou à satisfação de uma pulsão.

mesmo não podendo consumir tudo. Foi esse o trabalho dessas indústrias que desde Adorno são chamadas de indústrias culturais. já que. em troca de um alívio da proletarização do produtor. concebida. no contexto do capitalismo. Em suma. naturalmente. se Marx tivesse lido Sade. Foi exatamente o que aconteceu a partir da crise de 1929. O que. fornecendo-lhes objetos de identificação e realização fantasmática múltiplas. teria entendido que esse último tinha o poder de salvar o capitalismo. A democratização do gozo foi. Teria compreendido que a crise de superprodução provocada pela pleonexia do capitalista. . seria a oportunidade de uma reorganização do capitalismo. como quisera acreditar. Se Marx tivesse lido Sade. Assim foi que passamos. procedeu-se à proletarização do consumidor — o que foi conseguido através do fornecimento de objetos libidinalmente formatados. certamente teria entendido que o capitalismo dispunha de uma reserva fantástica: a democratização do gozo do objeto. fornecendo a um número sempre maior de pessoas um número sempre maior de objetos de consumo que esgotam as matérias-primas e poluem o mundo. Pouco importa que isso destrua o planeta. democratizar o gozo do objeto 161 Se Marx tivesse lido Sade. mudou tudo. como demonstra perfeitamente Christopher Lasch em La Culture du narcissisme182 [A cultura do narcisismo]. nesse caso. Um aggiornamento de tal ordem que o capitalista seria simplesmente obrigado a abandonar um pouco do gozo que havia confiscado. Pouco importa que isso destrua os indivíduos. como proletarização do consumidor. portanto. que nunca quer compartilhar seu gozo. teria entendido que era pouco provável que o capitalismo morresse de superprodução. multiplicando os processos de adicção. incumbidas de explorar industrialmente a libido dos consumidores. já que é para o gozo dos egos. de um capitalismo essencialmente de produção a um capitalismo privilegiando o consumo. Uma parte do gozo confiscado ao produtor foi progressivamente devolvida ao consumidor.

é bem verdade. aos poucos. Trata-se da pin-up. O calendário feito por George Petty para as ferramentas Rigid. para entender um pouco o capitalismo sadeano. inclusive por alicates e limadores. Nesses diferentes quadros. a partir da crise de 1929. de alavancas a serem esfregadas.* Elas. as realizadas por George Petty para os cigarros Old Gold. depois da guerra. Vimos. de um elemento essencial para a compreensão de uma época. é preciso olhar e mesmo contemplar uma pin-up numa das numerosas situações sadeanas soft em que o personagem passou a ser jogado. Esse personagem da pin-up com toda evidência não foi inventado por acaso na crise de 1929. Em outras palavras. mas ainda assim muito ousado para a época. E é exatamente o que . Trata-se. através de um sistema complexo de bombas aspiradoras e repulsoras. que um dos primeiros empregos oferecidos a essa pin-up tenha sido vender cigarros — remeto o leitor interessado às célebres ilustrações e vinhetas que mostram magníficas pin-ups fumando com a mais perversa das inocências. por exemplo. que as máquinas inventadas por Sade deviam levar sem falha ao gozo. podemos ver o ponto de articulação. Mas também devemos falar de um personagem cultural que foi inventado já no início da crise de 1929. Ver. de tubos que são enfiados em orifícios e buretas que deixam escorrer preciosas gotas de lubrificante. da série máquina ou ferramenta industrial/corpo humano. transformado em corpo produtivo e gozoso. no qual máquinas e ferramentas industriais da sugestiva marca Rigid são acoplados ao corpo feminino. ao mesmo tempo. Não causará espécie. têm e são o pênis — e mesmo o falo. Temos então quadros lindamente perversos. foi posto em prática na virada libidinal do capitalismo. sempre e sempre. Já falamos de Bernays e suas belas desavergonhadas exibindo e chupando seu objeto. em que vivemos há três gerações. é eloquente a esse respeito:183 estamos num espaço pornográfico soft e “gazeado”. depois do que acabamos de dizer. nos quais podemos ver esplêndidas moças magnificamente montadas. escrever o capítulo que falta em Mitologias 162 Podemos concluir dessas premissas que o programa sadeano é que. pelo contrário. de espírito extremamente sadeano. o ponto G por assim dizer. Mas não qualquer gozo: um gozo repetido ad libitum. criada pelos desenhistas americanos George Petty e Alberto Vargas. no capítulo anterior. viradas e reerguidas em diferentes posições.

através da formatação e exploração industrial de sua energia libidinal. nega a diferença sexual pondo no lugar do que falta à mulher o que costuma ser chamado de fetiche. Assim é . cronista. 163 O personagem da pin-up não foi uma moda passageira.adora o perverso. uma grande família. O sucesso atual da estrela pornô em nossas sociedades (podendo também funcionar como apresentadora de programas de TV supostamente culturais. como já assinalei. Se esta análise tem alguma pertinência. ou diante dele. bonecas infláveis sexuais. é pelo papel que esse personagem mitológico desempenhou na salvação do capitalismo. drag- queens… — em suma. com isso mudando o curso do mundo. Na qual também encontramos agora a estrela pornô. A estrela pornô é uma herdeira da pin-up. como anunciara Marx. que verdadeiramente salvou o capitalismo da crise de 1929.184 Se esse capítulo deve ser escrito. revelando-se capaz de erotizar furiosamente qualquer objeto manufaturado a ser comprado em massa pelos consumidores. As duas se assemelham pelo fato de permitirem vender algo investido por elas de um grande valor libidinal. com efeito. muito usada no texto de Sade (cf. grandes atrizes hollywoodianas. uma pin-up excitante. Com ela vieram também suas irmãs: figuras interminavelmente apresentadas nas revistas. Mitologias. na medida em que foi esse personagem cultural sadeano. Por isso é que falta um capítulo essencial no famoso livro de Roland Barthes. militante de causas diversas…) naturalmente revela algo de essencial sobre os rumos pornográficos que cada vez mais impregnam o espaço público. representado no caso pela ferramenta do operário — no sentido evidentemente indecente que pode ter a palavra “ferramenta”. Este. os muitos empregos da palavra em expressões como “Ele mostra sua ferramenta”). vítima de uma crise grave de superprodução. tornado mítico. pompom girls… E depois suas filhas: podemos encontrá-las já agora na forma de bishôj japonesas dos mangás pornôs. cabe então tirar as consequências: devemos imediatamente constituir a pin-up como objeto filosófico da maior importância. deveria ter morrido então. que. escrito em 1957. por sinal. Assim foi que o mercado se transformou praticamente num pornógrafo: havia por trás de cada objeto. Mas a pin-up chegou e relançou progressivamente a máquina.

portanto. uma pin-up é que veio a se tornar a primeira-dama da França — mas isso é uma outra história. que retoma em novas condições a de 1929. perfumes. residências suburbanas. durante a crise de 1929. 165 Fica evidente. O efeito cultural dessa bela aliança é a criação da pin-up. Por isso é que a invenção logo passaria ao cinema. de preferência extrema. casacos de pele.) erotizando-o.que a pin-up permite vender um objeto qualquer (cigarros. etc. castelos na Espanha. Ela mesma mostrada em alguma passagem ao ato sexual. tudo e coisa nenhuma… Provavelmente seria interessante perguntar-se por que motivo. sonhos. com seu cérebro de pardal. lingeries sugestivas. em plena crise atual. se ainda restar algum. e que foi então criada para fazer a junção entre a economia libidinal e a economia mercante. carros. vale dizer. fadado a ter um destino fora do comum. Quanto à estrela pornô. com aquela que haveria de se tornar a mais célebre das pin-ups. Esse personagem estava. através da América. não vende nenhum outro objeto. Ela e todas as irmãs seriam constantemente mobilizadas para vender tudo e coisa nenhuma: cigarros. o puritano. heroína dessa cultura pornô soft que facilmente resvala para o hard. o perverso.185 Fiquemos por enquanto com a volta de Sade. tratores. dirige-se aos dois sexos: o objeto de que o homem é convidado a se . ferramentas. viagens. senão ela mesma. internet. portanto. ferramentas. como a pin-up salvou o capitalismo 164 Os militantes de esquerda intransigentes. perfumes. reproduzida à saciedade pelas indústrias culturais (DVD. que chamaram em seu socorro Sade. uísque.). acabou levando a melhor sobre Marx e todas as outras grandes cabeças pensantes que haviam condenado esse sistema a uma morte irremediável. pois foram os adeptos de Adam Smith. portanto. etc. que salvou o capitalismo e. que se dá. mas terão de entender: foi a pin-up. como eu disse. vender um objeto qualquer mais ou menos grosseiramente erotizado. que permite. A pin-up. portanto. que o perverso puritanismo agiu com extrema sutileza. provavelmente acharão que não é fácil de admitir. caminhões. Marilyn Monroe.

e é notável que ele cruze o pensamento sadeano: a satisfação pulsional é prometida pelo primeiro. exigida pelo outro. do meio ambiente…) postos a serviço dos negócios. O sadismo extraordinário é. adquirindo uma amplitude cada vez maior com o passar do tempo. uma reserva de compra que só podia ser mobilizada dando ênfase a todas as formas da satisfação pulsional. Mas se trata. São estes os que me parecem mais concludentes: 1) Era absolutamente necessário relançar a economia americana. 166 O perverso puritanismo mais uma vez funcionou a toda. quanto por uma mobilização do consumo. O sadismo ordinário é um sadismo democratizado. 2) Assim como existe uma perversão extraordinária e uma perversão ordinária (cf. da mulher sexualmente perfeita. certamente exige alguns argumentos. a hipótese de que Sade voltou através da América. destruindo tudo com um desembaraço assustador. apesar de tudo. Como a conjectura é extremamente nova. já que nada mais pode construir. que certamente só poderia ser inventado pela América. Naturalmente. Existia. sexualmente desejável. já sufocadas pela superprodução. então. tendo os seus aspectos destrutivos (destrutivos do vínculo social. extrema nos dois casos. foi aí que o sonho americano se construiu. no momento da crise de 1929. O que não foi conseguido tanto pelo estímulo às indústrias de base. pois Sade. foi chamado em socorro por Adam Smith. Os economistas liberais. da relação com o outro. o de Sade. existe um sadismo extraordinário e um outro que é ordinário. são ingratos: têm enorme dificuldade para reconhecer que Sade salvou o capitalismo. vale dizer. o perverso. ou seja. nas populações. portanto. os trabalhos do psicanalista Jean-Pierre Lebrun). 167 Levanto aqui. entoando a teodiceia smithiana. o objeto apresentado pela pin-up e comprado pela mulher permitirá a essa mulher tornar-se pin-up por procuração. . de sadismo. naturalmente. o puritano.apropriar faz as vezes metonimicamente da pin-up. É o último rebento de uma velha família da nobreza que afirma uma última vez seu poder. A carga sexual é.

os filhos. uma das características principais da nova religião natural do Mercado. de pequenas narrativas edificantes. sem qualquer falta. A boa é a que garante o provimento generalizado a indivíduos que nunca deixam de ser seus filhos. Essa forma será particularmente eficaz nos confrontos ideológicos com as grandes narrativas existentes: estas serão facilmente desqualificadas como formas de propaganda e doutrinação que impedem a plena e total realização dos egoísmos — e foi essa jogada constantemente aplicada durante a guerra fria. sendo então a imagem da mãe natureza sadeana. portadora de ódios indefectíveis pelo que não é ela. constantemente difundidas desde a mais tenra idade dos indivíduos.186 Essas pequenas narrativas. a exemplo das grandes narrativas teológicas (como nas religiões da Escritura) ou políticas (como na grande narrativa fascista do povo superior ou na grande narrativa político-religiosa marxista de resgate através do proletariado). pré-edipiana. Essa religião da Mãe é que vemos em ação no que se convencionou chamar de “matriarcado americano”. fragmento 127). que funcionam nas vinhetas publicitárias e tomam conta do espaço público. graças às novas indústrias culturais. contendo ao mesmo tempo o pai. Mas essa boa mãe pode transformar-se a qualquer momento na mãe arcaica. o falo. Cabe notar que o . os seios. 3) Esse sadismo ordinário não se propaga através de uma grande narrativa. Só que daí em diante esta será realizada por meios industriais. cada vez menos simplórias e cada vez mais elaboradas. Todas essas pequenas narrativas prometem a realização pulsional em todos os terrenos e alimentam o sonho tipicamente americano do self-made-man que conquistou por conta própria o seu poder e apregoa no espaço democrático aquilo que o isolismo sadeano afirmava no momento do desmoronamento do Antigo Regime (cf. elementos com os quais fusiona. Esse sadismo ordinário funciona basicamente pela propagação incessante. Impossível fugir ao seu domínio. alternam com uma narrativa política a minima: a narrativa da democracia reduzida a um espaço aberto à afirmação dos egoísmos múltiplos que a percorrem — a combinação desses dois tipos de narrativas é conhecida pelo nome de democracia de mercado. os excrementos. portanto.na medida em que se estabelece firmemente no princípio do egoísmo absoluto e da realização pulsional. Essa Mãe é. 4) Esse sadismo ordinário é congruente com o que já identifiquei pelo nome de religião da Mãe. Essa Mãe oscila entre a boa mãe e a mãe arcaica.

que ganhou o Award 2002 do documentário. Le Siècle de Freud [O século de Freud]. amplamente difundida com grande efeito. do sadismo. essa psicanálise fornece. mas tem acesso a ela através de Freud. para quem o sadismo (e o masoquismo) nunca deixou de ser um objeto de trabalho. cujo verdadeiro sentido seria: manipulação dos desejos com o objetivo de explorá-los industrialmente. é um campo que começa a ser explorado. a um estudo especial sobre o papel da psicanálise americana. freudismo e modernidade” mostra que “o freudismo . Ora. mas ele sempre reconheceu que ela não passava de um eufemismo. O filme mostra perfeitamente a utilização decisiva da chamada teoria das public relations de Bernays. pulsões. Isso fica claro já a partir dos Três ensaios sobre a teoria da sexualidade (1905) e vai até O mal-estar na cultura (1929). Cabe notar que a expressão public relations foi inventada por Bernays em virtude de sua neutralidade. desde que se deparou com esses conceitos na obra do psiquiatra austro-húngaro Richard von Krafft-Ebing (Psychopathia sexualis. duplo sobrinho de Freud inspirado por seu tio através de Brill. Seria necessário proceder. do falo. do pênis. Essa psicanálise americana com certeza não conhece diretamente a obra sadeana. O primeiro estudo a abrir esse caminho é o magnífico filme de Adam Curtis produzido para a BBC. Isso fica evidente no fato exemplar que evoquei: Bernays consultando o psicanalista Brill para confirmar que o cigarro é um símbolo fálico — daí tirando imediatamente todas as consequências para a construção de sua pequena narrativa publicitária perversa. na salvação do capitalismo. na medida em que gera efeitos econômicos fantásticos. no projeto político liberal americano. como tanto desejava Sade.progressivo estabelecimento dessa religião da Mãe seria perfeitamente compatível com a concomitante multiplicação dos discursos contra o patriarcado. que no capítulo “Fordismo. e se difunde com tanto maior facilidade. Felizmente. Passa-se a falar de paixões. The Century of the Self. do masoquismo — uma série de termos que contribuem para dissipar a “gaze” puritana. difundindo esse sadismo ordinário. 1886). portanto. no contexto puritano americano.187 5) Esse sadismo ordinário tem relação com o aumento do poder do discurso psicanalítico americano. analidade. O segundo estudo é o de Eli Zaretsky. oralidade. A ênfase da psicanálise americana no ego e em suas satisfações pulsionais está evidentemente muito ligada ao surgimento desse sadismo ordinário. genitalidade. uma quantidade de termos crus que entrarão para a cultura geral da época.

deixando entrever o efeito cultural da psicanálise. na qual venho insistindo aqui. assim como o freudo-fordismo. tal como era definido por um pequeno grupo de “homens esclarecidos” que deviam tornar-se capazes de explorar racional e industrialmente essas forças. Premissa da qual julgaram poder extrair a conclusão de que era absolutamente necessário conferir ao homem um “eu forte” (donde o nome egopsicanálise). Além do “lado Bernays”. de tal maneira que foi possível abrir um caminho alternativo para evitar esse declive fatal. adaptando o eu aos ideais do momento para proporcionar-lhe todas as satisfações . na reconfiguração psíquica operada pelo liberalismo. que já depois da guerra posicionou-se por uma condenação e uma danação da egopsicanálise americana. A respeito da egopsicanálise. até onde sei. à Bernays. não deixa de derrubar uma porta importante. Como em Proust. psicanálise e capitalismo 168 Espero que meu estudo seja. embora extremamente conciliador em relação ao que acabo de chamar de nova religião da Mãe. cada um deles apoiado por um descendente de Freud. entre outras coisas. existiam de fato dois lados. Existe um bom motivo para essa situação: a França foi poupada desse contágio por Lacan. houve o “lado Anna”.188 Esse livro. útil aos psicanalistas franceses. eles aparentemente nada sabem a respeito: o nome de Bernays é pouco conhecido. manipulando o indivíduo para impor-lhe aspirações de acordo com “o progresso”. na medida em que. O que pôde ser feito de maneira hard. O que aparentava os dois lados era a crença na ideia de que o homem está sujeito a forças irracionais extremamente poderosas que não consegue dominar. cuja influência foi considerável junto aos psicanalistas dos Estados Unidos. nome da filha e herdeira de Freud. à Anna Freud. em sua versão americana. E também foi possível fazê-lo de maneira mais soft. apesar de estar longe de desvendar verdadeiramente a questão.penetrou profundamente na estrutura mítica da cultura fordista [e que] o freudismo e o consumismo estão irremediavelmente interligados”. é preciso lembrar que na época ela não se apresentava apenas na forma da “psicanálise aplicada à indústria”189 representada por Edward Bernays.

Já seria o momento então de se dar conta de que a psicanálise.possíveis — o que podia passar pela imposição de modelos. especialmente o da personalidade do psicanalista! Naturalmente.” Pois ela dá a entender que não só nada poderia acontecer à psicanálise. por sinal. assim. que reestruturou o mundo. como também que no fundo ela era necessariamente incorruptível — o que seria de uma grande ingenuidade num mundo que se tornou de tal ordem que tudo pode ser vendido. Todavia. que. então? Seria suficiente ter razão sozinho contra o resto do mundo? Não parece nada certo.190 169 . já que foi precisamente essa egopsicanálise. ter razão não basta. por mais drástico e eficaz. simplesmente porque esse remédio. Logo se vê. com Lacan. Em suma. em sua pior versão (aquela que se transformou em psicologia social). é necessário também entender de que maneira um erro pôde tomar conta do mundo. incluindo a análise do mal- estar atual na civilização… que em grau não negligenciável decorre da difusão dessa egopsicanálise na cultura. No mínimo porque esse erro estrutura hoje uma quantidade de sujeitos. A única saída possível parece-me ser desdobrar essa alternativa de tal maneira que ela dê continuidade ao programa freudiano. em sua versão americana. senão para constituir ilhas de pensamento claro nas quais o texto sadio é religiosamente posto em circulação por monges. não podemos deixar de observar imediatamente que isso não é suficiente. de resistir a essas formas de decadência ou desvio da descoberta freudiana. Que fazer. de vez em quando saltam uns no pescoço dos outros. já que esse mundo voltou-se maciçamente numa outra direção. que não podemos absolutamente limitar-nos a repetir a anedota de Lacan relatando a suposta declaração de Freud a Jung quando chegaram a Nova York em 1909: “Eles não sabem que lhes estamos trazendo a peste. a condenação desdenhosa e ligeiramente enojada de modo algum é suficiente. envolveu-se numa história das mais suspeitas: a da salvação e relançamento do capitalismo através do consumo. Em outras palavras. foi apenas local e não impediu o desenvolvimento da doença. não podemos deixar de nos regozijar pelo fato de a via francesa ter sido capaz.

O próprio Marx enveredara por esse caminho já nas primeiras páginas do Manifesto do partido comunista. enferrujadas. A preservação imutável do antigo modo de produção era. o incessante abalo de todas as condições sociais. A burguesia não pode existir sem revolucionar permanentemente os instrumentos da produção. Ele é o único marxista que tratou desse problema de maneira consequente. todas as relações novas caem em desuso antes de terem tido tempo de se esclerosarem. logo. ela pisoteou as relações feudais.191 Revolução passiva remete à formidável capacidade de iniciativa do capitalismo. pelo menos de uma revolução tal como prevista por Marx. A burguesia desempenhou na história um papel eminentemente revolucionário. patriarcais e idílicas […]. assim. Em 1928. de tal maneira a análise continua impregnada de forte atualidade na época da globalização. a insegurança e a agitação perpétua distinguem a época burguesa de todas as épocas anteriores. o conjunto das relações sociais.” o capitalismo é revolucionário 170 Esse conceito de “revolução passiva” é esclarecedor. a primeira condição de existência de todas as classes industriais anteriores. capaz de prevenir qualquer revolução ativa provocada pelos adversários do capitalismo.Gramsci tentou entender a ausência de revolução. logo. Onde quer que conquistasse o poder. Entendemos melhor. as condições da produção. Toda hierarquia social e toda ordem estabelecida se . É importante citá-las longamente aqui. ele escrevia nas masmorras mussolinianas que o capitalismo fordista promovia uma “revolução passiva” e utilizava o freudismo para alcançar seus objetivos. escrito com Engels em 1848. Todas as relações bem estabelecidas. explorando industrialmente os terrenos sexuais e pulsionais. pelo contrário. As constantes transformações da produção. por que o procurador fascista que solicitou seu encarceramento havia declarado: “É preciso impedir que esse cérebro pense. com seu cortejo de ideias e concepções ultrapassadas e veneráveis são dissolvidas.

volatilizam. e da multiplicidade das literaturas nacionais e locais nasce uma literatura mundial. a burguesia se espalha por toda a Terra. por toda parte estabelecendo suas relações. As antigas necessidades satisfeitas pelos produtos nacionais são substituídas por necessidades novas cuja satisfação exige produtos das paragens e climas mais distantes. de tal maneira se revelam premonitórias. As antigas indústrias nacionais foram aniquiladas e continuam a sê- lo a cada dia. O exclusivismo e a estreiteza nacionais tornam-se cada vez mais impossíveis. até mesmo as mais bárbaras. O antigo isolamento de localidades e nações que se bastavam dá lugar a relações universais. sua base nacional. a burguesia conferiu um caráter cosmopolita à produção e ao consumo de todos os países. E o que se aplica à produção material aplica-se também à produção intelectual. Elas . Elas são desalojadas por indústrias novas cuja introdução torna-se uma questão de vida ou morte para todas as nações civilizadas […]. suas relações mútuas. a uma interdependência universal das nações. que se tornam infinitamente mais fáceis. a burguesia arrasta brutalmente à civilização todas as nações. Pressionada pela necessidade de escoadouros sempre mais amplos para seus produtos. É necessário que ela se implante em toda parte. Através da exploração do mercado mundial. Graças ao rápido aperfeiçoamento dos instrumentos de produção. chegando até a prever o que chamamos hoje de globalização. sob os pés da indústria. graças às comunicações. ela solapou. Essas páginas de Marx e Engels são impressionantes. Para grande contrariedade dos reacionários. Os produtos do espírito das diversas nações tornam-se bem comum. tudo que é sagrado é profanado e os homens finalmente se veem obrigados a encarar com frieza sua posição na vida.

chinês ou interplanetário. É justamente a essas teses que Gramsci opõe o conceito de “revolução passiva”. não foi capaz ou não quis sustentar completamente sua tese. Como explicar. Essa renúncia foi tanto mais influente por ter sido aprovada posteriormente por Lênin. para quem o capitalismo. mas não depois disso. A leitura de Gramsci mostra que Marx não soube. A prova disso é que.deixam claro que não nos devemos enganar: é por ser revolucionário que o capitalismo se impôs em toda parte — ao mesmo tempo trazendo com ele formas totalmente inéditas de alienação. sempre constituiu um “processo em movimento”. ele logo tratou de limitá-la. pelo fato de se inaugurar então um período de “decadência ideológica da burguesia” (restaria ainda avaliar a influência de Engels nessa virada). por exemplo. que reconhece a necessidade nova [decorrente da incessante revolução passiva . ‘animalidade’ e industrialismo”. uma descendência. As observações de Gramsci podem ser muito finas. então. quando ele fala. apesar de ter sido capaz de tanta perspicácia? Uma das principais causas decorre do fato de o próprio Marx ter acabado por abrir mão de sua tese. o fiasco do marxismo. É o caso. Ora.192 É no momento dessa crítica a Marx que Gramsci inventa o que poderíamos designar como um marxismo ocidental vivo. uma vez enunciada. como fenômeno ocidental. sufocado no nascedouro pelos marxismos prussiano. Podemos identificar nessa ruptura o momento em que a lúcida análise crítica se inclinou diante do mito quase religioso do resgate que se aproximava por parte do proletariado — mito tão flamejante que acabou por se consumir. pois acabaria dizendo que ela se aplica até… 1848. falando da “putrefação” e do “desmoronamento” próximos do imperialismo. precisamente dessas supostas “decadência ideológica da burguesia” e “putrefação do imperialismo” é que duvidava fortemente Gramsci. portanto. que haviam desistido de entender o destino do Ocidente na medida em que esse tinha seu destino ligado ao do capitalismo. Desnecessário dizer que esse marxismo ocidental infelizmente nunca teve um autêntico espaço nem. russo. de “conflito íntimo entre a ideologia ‘verbal’. publicado em Textos (1917-1924). no capítulo “Sexualidade. aberto à análise das mudanças introduzidas pelo capitalismo.

Gramsci mostra assim que o capitalismo só pode continuar existindo se atender a certo número de reivindicações. as camadas populares são obrigadas a observar a “virtude” [ao passo que] aquele que a prega não a observa. Elas ficam parecendo concessões aos sindicatos. enquanto também ele não tiver sido racionalizado. Por que totalitária? Nas outras situações. Já era uma maneira de falar da reformatação libidinal operada pelo capitalismo após a crise de 1929. a verdade é que o novo tipo de homem exigido pela racionalização da produção e do trabalho não pode se desenvolver enquanto o instinto sexual não tiver sido regulamentado de acordo com essa racionalização.introduzida pelo capitalismo]. em seguida. Ora. no contexto de um fenômeno mais amplo que aqui tem sido designado como o da redistribuição do gozo. é verdade. em última análise. de que maneira essa crise pode ser resolvida: É necessário proceder à […] criação de uma nova ética. ‘animal’. e a prática real. não pode durar e deve conduzir a uma crise de libertinagem. pela instalação de suas famílias. Cabe observar que os industriais (e particularmente Ford) se interessaram pelas relações sexuais dos que estão sob sua dependência. nesse caso. que impede os corpos físicos de adquirir efetivamente novas aptidões”. de tal maneira que a hipocrisia é parcial. o que poderíamos chamar de uma situação de hipocrisia social totalitária. de maneira geral.193 Gramsci explica. Elas conduzem . Ele então indica: Constitui-se. as aparências de “puritanismo” assumidas por esse interesse (como no caso da “lei seca”) não nos devem enganar. ao mesmo tempo que lhe presta homenagem em palavras. é exatamente a isso que Gramsci dá o nome de “revoluções passivas”. Essa situação. e. e não total. mas devem ser entendidas.

Podemos senti-lo lendo o livro que Henry Ford escreveu em 1930. como o reformismo. mover-se: “mexer na empresa”. o adultério… Exatamente como se fosse necessário que a libido se voltasse exclusivamente para o consumo de . Ford aposta no aumento do poder aquisitivo dos operários para estimular a demanda de bens de consumo. “Ir em frente” ou “Avançar” (o título ainda hoje é extremamente atual.a reconfigurações substanciais da hegemonia do capitalismo.” Ford explica por que foi necessário elevar o salário diário mínimo de 2 para 7 dólares. Encontramos no livro esta frase que por si só praticamente poderia resumir nossa tese sobre o reequilíbrio do capitalismo de produção pelo capitalismo de consumo: “Um operário bem remunerado é um excelente cliente. obtidas graças a movimentos bem identificados por Gramsci. com o objetivo de dar a conhecer a todos. Quanto mais era estimulado o consumo. ao mesmo tempo estabelecendo uma redução do tempo de trabalho. Ora. criou em sua empresa um enorme serviço de publicidade (sediado em Detroit). o jogo. Moving Forward. Assim foi aqui que 15 milhões de unidades do famoso Ford T vieram a ser fabricadas em dezenove anos — transformando a geografia humana da cidade e do campo. mais eram proibidos os outros excessos. Esse estímulo ao consumo foi acompanhado de uma intrusão maciça de Ford na vida privada dos empregados. ele deu mostra de clarividência. e naturalmente lhe valeu críticas de muitos outros industriais e de Wall Street. pois com isso a produtividade aumentou rápida e consideravelmente. como a bebida. “mexer na universidade” e mesmo simplesmente “mexer-se”). os novos produtos da empresa. pois o que constantemente nos estão dizendo hoje em dia é que é necessário ir. Moving Forward relata o desenvolvimento da Ford Motor Company e expõe suas teorias sociais e industriais. Paralelamente. o fordismo e o freudismo — um freudismo revisto e corrigido para ser aplicado em grande escala. símbolo dessa revolução passiva. limitado a quarenta horas por semana — o que era uma grande novidade. passíveis de financiamento através do crédito. 171 Um dos pontos de mira de Gramsci era justificadamente o fordismo. fossem agricultores ou citadinos. o taylorismo.

transforma “NF”. administrado de maneira subliminar. a história começa em Londres no ano 632 da era NF.objetos rentáveis para “Nosso Ford”. condicionados durante a infância. É dessa maneira que as castas superiores aprendem a desprezar sem remorso as castas inferiores e estas são condicionadas a admirar a elite da sociedade. para que nada nessa força fosse perdido em objetos inúteis. além disso. a incitação à satisfação pulsional constantemente relançada pelas pequenas narrativas. com a construção de uma estranhíssima aliança entre Ford e Freud — um Freud. naturalmente. ou seja. ou seja. Trata-se. em seu grande romance premonitório. inventor do campo das public relations. 172 Pouco depois de Gramsci. americanizado à força. ao . Aldous Huxley. É isso a formatação libidinal. e. As sociedades tradicionais antigas foram destruídas por um conflito generalizado conhecido pelo nome de “guerra de Nove Anos”. a reprodução sexual desapareceu completamente. de uma sociedade que transformou em tabu o regime da reprodução sexual. Nessa nova sociedade. à família. que paralisa seu desenvolvimento). Admirável mundo novo (1932). “Nosso Ford” e paralelamente “Nosso Freud”. Não hesito em considerar Admirável mundo novo um dos grandes romances que ajudam a pensar aquilo em que se transformou nosso mundo. a imensa maioria dos seres humanos vive no Estado mundial — só um pequeno número de “selvagens” se vê confinado em reservas. na figura bicéfala do messias dos novos tempos. De tal maneira que qualquer alusão à maternidade. preconizada por um lado. os seres humanos são fecundados em laboratórios e. O tratamento recebido pelos embriões durante seu desenvolvimento determina sua futura posição na hierarquia social (por exemplo. em seguida. Os jovens recebem um ensinamento de tipo hipnopédico. e do qual o sobrinho. que se sustenta. os embriões das castas inferiores recebem uma dose de álcool. Estamos aqui na situação exata descrita por Gramsci ao falar do conflito entre a virtude. Estamos diante da construção de uma situação social que pode ser analisada em termos de perverso-puritanismo. vem a ser o emblema. por baixo do pano. por outro. Nesse mundo.194 Resumidamente.

tanto os jovens quanto os adultos. Ele jamais aceitou fazer uma segunda viagem aos Estados Unidos. . a sexualidade tornou-se um simples divertimento: cada indivíduo tem simultaneamente vários parceiros sexuais (se possível. O Soma é consumido em comprimidos distribuídos no trabalho no fim do dia. A solidão é uma atitude extremamente suspeita. sendo obrigado a participar da vida social. Não podendo ter Freud. 3º a satisfação pulsional. As mulheres utilizam vários meios de contracepção (chamados de “exercícios malthusianos”) para contornar a “propagação”. menos crítico. eles se consolaram com o sobrinho de Freud.amor ou ao casal faz qualquer um enrubescer de vergonha. Nesse mundo. todo mundo no Estado mundial faz uso do Soma. vale dizer. Cada um dos membros dessa sociedade é condicionado (é patente a crítica do behaviorismo) para ser um bom consumidor. ordenada em torno de dois imperativos: um gozo corporal desvinculado da diferença sexual e um gozo consumidor de objetos que supostamente satisfazem às apetências freudianamente definidas. O Soma é uma droga capaz. graças ao qual cada elemento da sociedade pode ser feliz e nada reivindicar. qualquer risco de reprodução que fugisse à regulamentação dos nascimentos. que se tornou qualquer coisa. que a publicidade buscava compreender. de mergulhar aquele que a ingere num sono nirvânico. apesar das enormes somas que as novas indústrias culturais do cinema queriam oferecer-lhe para contribuir para a redação de roteiros de filmes ou ser consultado pelas empresas a respeito do “desejo” das massas. em doses fortes. Enfim. 173 Lúcido. Existem assim três elementos garantindo a coesão dessa sociedade e a perenidade da era NF: 1º o ensino. Freud sempre se preocupou muito com os desvios da psicanálise americana. 2º o consumo do Soma. vários por semana) e a duração de cada relação não deve ultrapassar algumas semanas.195 sobrinho de… 174 Mas não se pode ignorar a tenacidade dos americanos. já que remete ao condicionamento hipnopédico inicial.

“Sobrinho de…” deve ter sua importância, já que o sobrinho de Freud seria
como o sobrinho de Rameau (cf. a obra “O sobrinho de Rameau” de Diderot):
aquele que preconiza, à maneira sadeana, a manipulação, canta o cinismo e eleva o
ouro à condição de únicas verdades admissíveis.
E, naturalmente, para agradar aos americanos, o sobrinho de Freud freudizava a
torto e a direito. Em seu prefácio à tradução francesa do livro de Edward Bernays,
Propaganda, Normand Baillargeon insiste: “Scott Cutlip, o historiador das relações
públicas, lembra que ‘quando uma pessoa encontrava Bernays pela primeira vez, não
precisava esperar muito até que Tio Sigmund fosse introduzido na conversa. Sua
relação com Freud estava constantemente no centro de seu pensamento e de seu
trabalho de consultor’. Irwin Ross acrescenta: ‘Bernays gostava de se considerar um
psicanalista das corporações [empresas] em dificuldades.’”196
Assim foi que os americanos apostaram no sobrinho de Freud. E, desse modo,
como bons perversos puritanos capazes de transformar o vício em virtude e a merda
em ouro, eles conseguiram transformar a doença fatal trazida por Freud, a peste, em
remédio universal.

pélvis
175
Foram necessários quinze anos para que esse regime realmente fosse instaurado. As
grandes invenções culturais datam da década de 1920, com a apoteose de 31 de
março de 1929. As experiências, diretamente tomadas sob a responsabilidade de um
Estado reconstruído por Roosevelt (cf. o “New Deal”), remontam à década de 1930.
E sua aplicação em grande escala ocorreu já a partir do imediato pós-guerra. Essa
amplificação corresponde ao aumento da influência de Bernays — não surpreende
que a revista Life o tenha apresentado como um dos cem americanos mais
importantes do século XX.197
Mas os efeitos máximos se fariam sentir nas crianças dessa geração. Daí resulta,
na juventude das décadas de 1950-1960, uma “crise de libertinagem” (cf. Gramsci,
anteriormente), levando de roldão o puritanismo subsistente dos anos anteriores. O
sinal mais patente é que essa geração inventou o rock’n roll para desferir o golpe
fatal, o requebro erótico pélvico decisivo contra as atitudes straight atribuídas às

inibições sexuais resultantes do patriarcado e da heterossexualidade198 — e não por
acaso Elvis Presley, desde suas primeiras apresentações, veio a ser chamado de
“Pélvis”!
Se o advento do rock reflete uma certeza, é a de que os remédios para a crise de
1929, iniciada vinte anos antes, deram frutos. A revolução cultural liberal necessária
para o relançamento do capitalismo terá conseguido não só relançar a economia,
mas também redefinir completamente o ser-junto e o ser-si-mesmo. De fato, o rock
pode ser pensado como resultante cultural de uma época em que surgem ao mesmo
tempo a casa suburbana (um certo William Levitt começa na década de 1950 a
construir por toda parte as suas Levitt towns, com casas acessíveis à maioria); o
supermercado (em 1953, um certo Eugene Ferkauf compra um terreno de plantação
de batatas perto de Nova York e recebe a visão de um centro permitindo comprar
tudo no mesmo lugar, o shopping center); o fast-food (os irmãos Dick e Mac Donald
inventam o fast-food à base de hambúrguer em San Bernardino em 1940); a
generalização do automóvel (graças a NF); a pílula anticoncepcional (inventada por
Gregory Pincus em 1955); a total tomada do poder, da manhã à noite, pela
televisão; e, last but not least, a imprensa “liberada”: 1º a revista Playboy, fundada em
1953, em Chicago, por Hugh Hefner, e cuja tiragem logo atingiria vários milhões
de exemplares, apresenta fotos de mulheres nuas — sendo a primeira Marilyn
Monroe — acompanhadas de artigos de grandes autores contemporâneos como Ian
Fleming, Vladimir Nabokov ou Margaret Atwood; 2º os relatórios Kinsey,
vendendo quase um milhão de exemplares, rompem as proibições puritanas ao
revelar ao grande público a realidade do comportamento sexual humano em dois
livros — Sexual Behavior in the Human Male, publicado em 1948, e Sexual Behavior
in the Human Female, publicado em 1953 — e abrem um imenso debate sobre
temas até então tabu.199
A cultura “rock” se identificaria no personagem de “Johnny”, líder de um bando
de motoqueiros, interpretado por Marlon Brando em O selvagem (filme de Laszlo
Benedek realizado em 1953), transformando-o em seu primeiro herói.200 É também
a época em que surgem os bandos de jovens que gostam de se dizer sem medo de
nada ou de ninguém — em West Side Story, Leonard Bernstein captura tão bem essa
característica que transporia para dois bandos de Nova York, os Jets (americanos) e
os Sharks (portorriquenhos), o Romeu e Julieta de Shakespeare.

Seria o caso de refletir muito mais, nas ciências humanas, sobre esse
personagem-chave da cultura do século XX: o roqueiro. Por dois bons motivos: 1º
ele é produto das revoluções ocorridas na cultura depois de 1929; 2º é o lugar onde
se origina a continuação. Uma continuação que teve duas etapas: o roqueiro (que só
conhece a própria lei) logo ganharia um irmãozinho, o hippie (que só conhece o
próprio prazer), dividido entre a dissidência radical (pacifismo, protoecologismo,
comunismo utópico, artesanato contra indústria, luta contra a propriedade privada e
o consumo) e o convite a um gozo generalizado (especialmente através da droga, ou
seja… a mais cara e mais viciante das mercadorias). E alguns de seus filhos haveriam
de se tornar os yuppies (que só conhecem seus próprios interesses). A revolução
passiva do capitalismo acabou, portanto, dando à luz esses últimos, jovens
ambiciosos e cínicos, obcecados com o dinheiro e o sucesso. Exatamente aqueles
que, a partir de 1980, assumiriam a direção do mundo.

176
Acabamos de explorar o universo perverso-puritano próprio do capitalismo
moderno, aquele que progressivamente foi construído a partir das revoluções
passivas, para retomar esse conceito de Gramsci, empreendidas a partir de 1929 para
tirar o capitalismo da crise.
Uma observação, contudo, a respeito desse conceito: a expressão “revolução
passiva” só faz sentido se emparelhada com “revolução ativa”. Ora, a “revolução
ativa” nos países capitalistas desenvolvidos é algo por que continuamos esperando.
Por isso é que, retrospectivamente, a expressão “revolução cultural liberal” parece-
me mais adequada.
Vimos que essa revolução conferia amplo espaço às problemáticas sadeanas, já
que a solução freudo-fordista para a crise do capitalismo dá ênfase à liberação
pulsional. Por esse motivo, ela pode ser qualificada de solução pornográfica, na
medida em que implica a exibição pulsional com vistas a sua exploração industrial.
Exatamente esse devir pornográfico é que já estava contido no acontecimento de 31
de março de 1929 a que tenho dado destaque, quando Bernays, num gesto
altamente sadeano, mobilizou belas jovens para se exibirem numa atitude felatória
na Quinta Avenida de Nova York.

pornografias concorrentes
177
Naturalmente, não podemos mencionar essa solução sem lembrar que na época
houve uma outra, que podemos qualificar de solução nazista. Sabemos hoje que esta
última tomou emprestadas algumas de suas melhores receitas à solução pornográfica
democrática: Joseph Goebbels, ministro da Propaganda do regime nazista e segundo
na hierarquia depois de Hitler, apreciava muito os textos de Bernays — o que não
era ignorado por este, que fala a respeito em suas memórias.201 Se essa solução foi
eminentemente pornográfica, foi porque no fundo ela postulava que “a multidão era
mulher” e, como tal, seria necessário submetê-la num louco abraço. O que deriva
diretamente de Gustave Le Bon, caro igualmente a Freud, cuja Psicologia das
multidões, de 1895, fora lida e relida por Hitler. Esse estudo, portanto, repousa
sobre uma proposição principal: a multidão é mulher. Para isso, será necessário
dominá-la — o que requer uma aptidão especial. Será possível compreendê-lo lendo
o livro de um certo Hermann Rauschning, alto dignitário nazista arrependido que,
de certa maneira, se considerava o analista de Hitler.202
Muito significativamente, seu primeiro trabalho intitula-se Hitler me disse
(1939).203 Nele, Rauschning relata e analisa as declarações que Hitler lhe teria feito
em algumas conversas particulares. É perfeitamente possível, como sustentam certos
observadores, que Hitler não tenha dito grande coisa a Rauschning e que este o
tenha encontrado muito menor número de vezes do que afirma. Mas pouco
importa, ainda que Hitler nada tenha dito, Rauschning não deixou de ouvir tudo.
Quero dizer com isso que Rauschning certamente entendeu alguma coisa da
pornografia nazista ligada à realização e exibição da relação sexual monstruosa entre
o Führer e a multidão. “A multidão é mulher”, dizia Hitler, que sabia de cor o seu
Gustave Le Bon. Ele dizia adivinhar “com uma intuição infalível os sentimentos da
multidão […] Tratava-se, segundo dizia, de um dom que se tinha ou não”. Hitler
afirmava tê-lo de nascença, em tal grau que ninguém poderia superá-lo. Mas o dom
não bastava. Era necessário também ter domínio absoluto dos próprios recursos. A
condução das massas era uma arte — uma arte eminentemente pornográfica, em
nosso entendimento. Como nas outras artes, de qualquer maneira, a virtuosidade só
pode ser alcançada com trabalho duro:

Meus adversários me olharam com desprezo. Cheios de inveja,
perguntavam-se: “Como é que esse homem alcança tal sucesso com as
multidões?” Esses socialistas, esses comunistas, consideravam que a
massa era seu monopólio. Eles detinham as salas de reunião e eram os
senhores da rua. E eis que de repente um homem chegou e imediatamente
nasceu um grande movimento popular. Seria uma questão de sorte ou
de falta de tirocínio por parte das massas? Que esses senhores me
perdoem: estão enganados. Nós tínhamos alguma responsabilidade
nisso, nós, nosso esforço e nossa técnica. A ausência de espírito crítico da
massa certamente é uma explicação, mas não no sentido em que
pretendem nossos marxistas e nossos reacionários embrutecidos. A massa
possui seus órgãos de crítica. Simplesmente, eles funcionam de maneira
diferente do que no indivíduo. A massa é como uma mulher [variante: a
multidão é um animal] que obedece aos seus instintos. Para ela, a lógica
e o raciocínio não contam. Se eu consegui desencadear o movimento
nacional mais poderoso de todos os tempos, foi pelo fato de nunca ter
agido em contradição com a psicologia das multidões nem chocado a
sensibilidade das massas. Essa sensibilidade pode ser primitiva, mas tem
o caráter permanente e irresistível de uma força da natureza.

Esse trecho, impregnado de autossatisfação, poderia inspirar várias observações
irônicas. Limitemo-nos a esta: se a multidão é mulher e Hitler fode a multidão, não
surpreende que Hitler nunca se tenha mostrado muito interessado por mulheres de
verdade… Normal, pois já estava bem servido.
Falando mais sério, essas declarações permitem afirmar que o nazismo também
seria suscetível de uma análise pornográfica. Para isso, seria necessário mostrar
detalhadamente o abraço monstruoso, a horrível cópula entre Hitler e a multidão —
o que, naturalmente, não é nossa intenção no momento. O que pretendemos, em
compensação, é indicar que toda crise, na medida em que resulta da desvinculação
entre as pulsões e as ficções que prevaleciam antes de serem pulverizadas por uma
violenta volta do real, só pode provocar uma nova busca de satisfação pulsional. No
Ocidente, houve duas a partir de 1929, duas revoluções culturais. Essas duas

revoluções deram lugar a duas pornografias concorrentes: a pornografia democrática
e a pornografia nazista. Cabe lembrar sempre que, quando uma fracassa, a outra
pode apresentar-se como solução alternativa.
Isso permite levantar uma questão atual, já que, com a crise que hoje
conhecemos, encontramo-nos na situação em que a solução pornográfica
democrática em curso desde 1929 depara-se com seus limites, a ponto quiçá de estar
sendo derrotada. Podemos apostar que se uma solução fracassar, a das sociedades
espetaculares mercantes pornográficas, será naturalmente a outra, pior, a se
apresentar ou se representar, mesmo com outra aparência. E, por sinal, sabemos
muito bem que na Europa, nas diferentes variantes de populismo, não falta quem já
ensaie os gestos sumários capazes de congregar as massas desorientadas.
Devemos ter sempre em mente que toda crise, na medida em que libera paixões
e pulsões errantes, soltas, também deve ser analisada como momento de busca de
uma nova vinculação das pulsões às ficções… que então pode perfeitamente dar
numa nova solução pornográfica pior que a anterior.

178
Desde 1929, há cada vez menos gaze. O capitalismo atual reivindica cada vez mais
abertamente seu funcionamento de tipo sadeano. O momento é de cinismo
descomplexado, de ostentação do egoísmo como valor supremo e de difusão maciça
das lições de perversão. No lugar do discurso tranquilizador derivado da teodiceia
smithiana, aparecem comportamentos autodestrutivos, tipicamente sadeanos,
tendendo a solapar, no fim das contas, as próprias bases da vida em sociedade, e
mesmo da vida na Terra.
Não surpreende, assim, que Sade tenha voltado oficialmente, alguns anos depois
de ter sido sub-repticiamente reintroduzido para ajudar na exploração industrial das
pulsões.

179
Isso nos levará a examinar a outra modalidade da volta de Sade. Teremos para isso
de mudar de continente e voltar à França, pois é nela que Sade voltará pela porta
principal, à luz do dia, não graças a uma subpsicanálise à Bernays, mas graças aos

melhores intelectuais, que, como se pode supor, provavelmente eram sensíveis a essa
virada sadeana do capitalismo.
Dizendo sensíveis, quero dizer que eles deviam perceber alguma coisa a seu
respeito. De que modo? Trata-se de uma pergunta delicada, na medida em que pode
assumir dois valores opostos. Em primeiro lugar, eles podem ter-se dado conta de
que Sade estava de volta ao mundo e, portanto, que chegara o momento de parar de
esconder Sade nas estantes dos fundos, para finalmente lê-lo com seriedade. E lê-lo
com seriedade era acabar com os empregos de segunda ou terceira mão que serviam
para ostentar um Sade de algibeira, servindo apenas para comprometer o bando ou
os rebanhos de consumidores. Da mesma forma, lê-lo com seriedade era fazer um
balanço sobre a atualidade de Sade, pois tanto o nazismo quanto o capitalismo
americano, cada um de uma maneira muito diferente, tinham posto a questão
sadeana na ordem do dia. Não é o primeiro aspecto que me interessa aqui, mas o
segundo, correspondendo ao momento em que se coloca a questão da exploração
industrial das pulsões, que repentinamente faz passar do discurso soft, derivado da
teodiceia smithiana puritana, aos discursos hard, de aspecto extremamente sadeano,
reivindicando o egoísmo como valor supremo. Em segundo lugar, a esse primeiro
modo possível da volta de Sade entre os intelectuais, podemos acrescentar um
segundo. Esses intelectuais puderam dar-se conta de que Sade os incomodava… na
medida em que podem ter-se sentido tentados a explorar o fundo sadeano podendo
existir em todo homem — o que Annie Le Brun muito justificadamente chama de
bloco de abismo possivelmente presente em cada um de nós. Nesse caso, a coisa
remete à maneira como cada um pode sentir-se intimamente perturbado por Sade.
Terá sido então sob o signo de uma ambiguidade fundamental (Sade está no
mundo e/ou Sade está em mim) que Sade impôs-se como tema necessário.

pom-pom girls de uma outra estatura
180
Nessas condições, é estranho que tão pouco nos questionemos sobre a data da volta
de Sade à França. De fato, por que se terá ido buscá-lo depois da guerra e por que
ele passou a ocupar tanto lugar ao longo da década de 1960? Que eu saiba,
praticamente não existem estudos sobre a questão.204 Tudo se disse sobre Sade, tudo

constantemente reescrita e completada desde a primeira edição de 1948 até a quarta e última versão publicada em sua vida. impressos — para citar o editor — “às custas dos bibliófilos assinantes”. a primeira transcrição rigorosa de Os cento e vinte dias…. aposto que se Sade retorna. é porque a época se reconhecia nele. publicando em 1991 a terceira grande biografia do marquês de Sade. em 1931. assim como a primeira versão de Justine ou os Infortúnios da virtude. conduzido por Gilbert Lely com base em trabalhos pioneiros. tivemos a reintrodução oficial. que faria importantes descobertas nos arquivos da família. certamente.206 assim como . Nos Estados Unidos. Em outras palavras.205 Foi também ele que solicitou ao descendente de Sade. A ele devemos a primeira grande biografia de referência. onde. edição tão confidencial que se limitou a uma tiragem de 360 exemplares. em 1948. após a reprodução oficiosa. de Maurice Heine. mas pouco conhecidos. no caso. e depois os Contos. escrito por Sade na prisão de Vincennes. Elas continham a correspondência escrita na masmorra de Vincennes e na Bastilha. Maurice Heine (1884-1940) é um seguidor dos surrealistas que dedicou a vida ao conhecimento e à edição de Sade. através das pin-ups felatórias. obras de juventude. La Vie du marquis de Sade. Vem em seguida — quando o clima já era muito mais tranquilo — Maurice Lever (1935-2006). Um trabalho biográfico sobre o Divino Marquês. dois romances e peças de teatro. mas nada ou quase nada sobre sua reaparição. De minha parte. De modo que. Gilbert Lely (1904-1985) é o herdeiro de Maurice Heine. nesse momento. em 1982. desde 1815. naquilo que os americanos chamam de French Theory. Ele publicou. o conde Xavier de Sade. Mas na França tivemos pom-pom girls de uma outra estatura: nossos intelectuais. que explorasse os arquivos do castelo de Condé-em- Brie. e reservados ao círculo surrealista. que se deu nos círculos mais informados do pensamento puro.e o contrário. ele abriu duas caixas fechadas. com um cordão vermelho. mesmo sem saber por quê. sua volta era apoiada pela American Tobacco Co. após dois séculos de proscrição quase total. Maurice Heine descobriu e publicou o Diálogo entre um padre e um moribundo. Depois da guerra é que foram enfrentadas na França três tarefas principais: Primeira tarefa de fundo. portanto. E desencavou as atas dos processos de Arcueil e Marselha. na medida em que retomou sua missão de editar e de fazer a biografia de Sade. historietas e fábulas. cabe formular uma hipótese.

uma intensa reflexão filosófica e literária. Cartas preciosas. As armadilhas da . Ele foi o primeiro editor da obra integral de Sade. sua mãe. o que ela produz é uma outra completamente diferente. Numa dessas cartas. paralela à primeira: a saída do inferno das bibliotecas. sendo por isso constantemente levado à prisão. que lhe valeu um processo sob a acusação de desmoralizar a juventude. Como se se quisesse dizer. meu amante. já a partir da publicação. que tentava tranquilizar a época. Bataille. não. graças ao apoio de intelectuais e editores como Jean Paulhan. ser para sempre só sua…” Precisamente isso é que “a Presidenta”. de 1947 a 1949. ao ser apanhado com a mão na botija…: “Não. botava-se gaze em cima. Lacan… não é o que vocês estão pensando… 181 Mas também houve “gaze” na França. levada a efeito pelos melhores pensadores de então: Klossowski. nunca aceitou.obras ainda inéditas. não é em absoluto o que vocês estão pensando. A prova é que se começou então a usar a torto e a direito a expressão soft “erotismo”. canonisa secular beneditina. Pois ao mesmo tempo que se entrava na obra hard de Sade. vale dizer. podemos ler: “Juro ao Sr. tendo por isso movido infindáveis processos. Blanchot. promovida por homens corajosos como o editor Jean-Jacques Pauvert. marquês de Sade. Segunda tarefa de fundo. A suspensão de seus direitos cívicos não o impediu de concluir seu empreendimento em 1955 e vencer o processo em instância de recurso. Mas o que uma época pensa a seu próprio respeito é uma coisa. Anne-Prospère de Launey. tão devotada a Sade quanto a irmã. pois mostram aos que ainda acaso duvidassem que Sade tinha o espírito tão aberto que era capaz de amar toda a sua família sem exclusividades. Terceira tarefa de fundo a respeito de Sade na época. da História de Julieta. sua mulher… e a irmã dela. deixando claro logo de entrada que se estabelecia uma distância em relação à feia pornografia. a Sra. de Montreuil. é muito mais sutil que isso…” E efetivamente o era. especialmente cartas trocadas entre o marquês e a irmã de sua mulher. a fiel Renée Pélagie. de tal maneira que em 1958 o tribunal declararia que “Sade é um escritor digno desse nome”.

a poesia. sem esquecer o hinduísmo e seu Kama-Sutra. passando pelo século XVIII. O que Michaux já pressentia ao falar de “Miseráveis milagres”. Cabe lembrar o que aconteceu com a exploração do chamado mundo dos “paraísos artificiais”. Essa geração do pós-guerra. deveria ter advertido para o risco e a impossibilidade de se limitar ao que eu chamaria de “erotic attitude”. dos vasos gregos com “figura vermelha com cenas eróticas” a Balthus. Artaud e alguns outros). iniciada no século XIX. de onde sairiam males novos. pode acontecer que o que aparece então não seja mais muito bonito de ver: assim é que a busca de sensações vivas provocando pensamentos fortes quase sempre dá lugar às miseráveis rotinas e rituais do consumo adictivo. De maneira geral. a poesia e o pensamento sobre o humano ganham com essas explorações arriscadas de novos mundos. dizia na época Roland Barthes). e depois Pierre Louÿs. Assim é que o belo e sutil erotismo do início transformou- se nessa feia e pesada pornografia industrial de hoje. curiosa. de um compêndio intitulado Amor-erotismo no cinema. a pintura. do romano Marcial a Baudelaire. título de um de seus livros. julgando explorar um mundo novo. nem os refinamentos chineses revistos e corrigidos por Robert Van Gulik… . autor. em 1957. rapidamente se espraiando pela Terra. inclusive Sade. André Pieyre de Mandiargues e Georges Bataille. A leitura de Sade. mas essa geração quis acreditar que estava reinventando o mundo ao lhe proporcionar esse erotismo capaz de alcançar e reinventar todos os terrenos da atividade humana: a moda (“O erotismo é quando a roupa boceja”. de tal maneira que muitas delas alcançaram resultados exatamente contrários aos que eram visados. segundo Ado Kyrou. que então voltou à moda. passando por Henri Michaux. o cinema. Mas é preciso dizer que quando o acesso a esse mundo cai no domínio público e as experiências-limite se massificam. da qual só podemos sair doentes.história atingem indiferentemente todas as gerações. Masson e Picasso. Essa nebulosa dos estados de consciência modificada foi sistematicamente investigada pelos artistas (de Thomas de Quincey e Charles Baudelaire à Beat Generation americana. que não podia deixar de ser erótico. O que se viu na exploração dos paraísos artificiais também valeu na exploração dos mundos da carne em todas as suas manifestações: passamos em uma geração das sutis buscas eróticas às triviais práticas pornográficas. sobre as experiências com a mescalina. não sabia que ao mesmo tempo estava abrindo uma autêntica caixa de Pandora.

no pensamento. mesmo sozinho. abriria o mundo à pornografia vindoura — que. Na pornografia. ocorrendo. nos dois casos. extremamente sadeana. portanto. entretanto. que começava a comprar salas de cinema de bairro cada vez mais desertas. nas conversas correntes. Em suma. do erotismo à pornografia passamos da significação e da representação à ação e à apresentação. sem querer. De fato. com o surgimento da televisão. Resta apenas acompanhar o movimento. ver o fragmento 263). e mesmo à mostração e até à monstruosa mostração. com a nascente indústria pornô. e se houver alguém mais. dar conta ao mesmo tempo dessa diferença e dessa continuidade. no cinema. que tem uma qualidade específica: ela se dirige ao outro tentando seduzi-lo. . Quer isso dizer que. pois se vê tudo. com efeito. devemos compensar a falta de visibilidade com um acréscimo de discurso — donde essa discursividade poética ou literária. uma pequena diferença que gera grandes efeitos. que naturalmente existe. sendo mesmo maciça. mas que provavelmente é mais séria do que parece: poderíamos dizer que o erotismo é quando é vago. ao passo que a pornografia é quando é nítido. Podemos propor várias fórmulas para assinalar essa relação. nos romances. que o erotismo está para os poetas assim como a pornografia para os voyeurs. é muito mais simples: simplesmente não há mais nada a dizer. Cabe. que não deixa de existir por parecer lamentável.** Ou que o erotismo está para a pornografia assim como o desejo para o gozo. É o que podemos tentar fazer numa proposição que talvez pareça divertida. mas comprometê-lo… antes de metê-lo (sobre essa estratégia de comprometimento do outro. Essa geração não sabia que dessa maneira. Poderíamos dizer. no erotismo. começava então a se espraiar a toda velocidade nos muros da cidade. Mas essa defasagem de princípio não deve ocultar uma continuidade histórica entre o erotismo e a pornografia. da boa utilização do vago e do nítido 182 Fazer essa observação não significa pôr em dúvida a distinção entre erotismo e pornografia. olhamos na mesma direção. não será necessário seduzi-lo. por sinal.

Ou ainda que o erotismo é adulto. depois de retornar à vida laica. pois antes da guerra frequentara a revista esotérica Acéphale de Bataille. ainda e sempre — e mesmo mais até que os bons cristãos. a misericórdia dos carolas não tem limites. O universo sadeano. será encontrada sob uma . com efeito. lendo as obras do Divino Marquês. Assim é que Klossowski buscaria identificar “a monstruosidade integral” de que se vangloria constantemente Sade como um ato de arrependimento do assassinato de Deus. Klossowski conclui que. É quando se revela mais uma vez que. durante a guerra. à entrada espiritual nos conventos-castelos sadeanos. Cabe lembrar que esse dominicano-limite já estava escolado em leituras blasfemas. Em Sade mon prochain (op. o ressentimento da humanidade em relação a um Deus ausente. quando querem realmente salvar crentes e ovelhas desgarradas. para Klossowski. Cabe lembrar que estamos no pósguerra. Klossowski. cit. por isso entregue a si mesma. traduz. cheio de criminosos. é a alma danada de Sade. ela muitas vezes é pré-edipiana). que o pusera em contato com Maurice Heine. do princípio do amor Dei ao do amor sui. a coletânea que publica com grande repercussão em 1947. Como a salvação das almas e o apostolado estão no cerne da missão dos dominicanos. e que o tema tem consonância com a época: a ideia de um Deus ausente que abandonou a humanidade. que passa uma parte do seu noviciado. que com ele passou. Sade no reino de Deus 183 O retorno oficial de Sade à França começa com um estranho dominicano. tenta o impossível. se existe uma alma a ser salva mais que qualquer outra. em um século. É possível que a regra de Santo Agostinho seguida pelos dominicanos tenha sido propícia. ao passo que a pornografia é adolescente (e. de certa forma.). vale dizer. Pierre Klossowski. no caso de Klossowski. o primeiro biógrafo de Sade. Sade efetuara uma total reviravolta na metafísica ocidental. Klossowski abraça a missão de re-revirar Sade e mostrar que ele pertence ao reino de Deus. depois da descoberta dos campos de concentração.

A questão é outra: queiramos ou não. essa negatividade radical seduzia Debord. Sade é trazido de volta ao bom e velho regaço perverso puritano em que o próprio Klossowski (como seu irmão. Por isso é que. redunda em negar a negatividade que Sade afirmara com veemência: algo tão impossível de ser ouvido pelo gênero humano que ele fora encarcerado para sempre. a se superar e triunfar como escritor (cf. em 1947. como um urro contra o tratamento cristão compassivo aplicado por Klossowski a Sade — que. expressa por Klossowski. Pois de qualquer maneira ele é inaceitável. intitulado In girum imus nocte et consuminur igni: “Existia na margem esquerda do rio […]. que inspirou tantos intelectuais após a publicação de seu livro-culto La Société du spectacle [A sociedade do espetáculo] (1967).207 184 O primeiro filme de Guy Debord. um dos fundadores da Internationale Lettriste e depois da Internationale Situationiste (IS). e mesmo derrubado. pela esfera religiosa representada mais ou menos contra a vontade por um emissário muito especial. Ora. a trilogia romanesca Leis da hospitalidade). o pintor Balthus) viria. antes de mais nada. já que nega (como bem demonstrou Annie Le Brun em seu mencionado estudo) a formidável negatividade de Sade.208 como demonstra este trecho de seu famoso filme de 1978 sobre Paris e sua destruição em tempos de paz. O problema não é saber se o que diz Klossowski sobre Sade é ou não aceitável hoje. escrito nessa mesma época. Intitula-se Hurlements en faveur de Sade [Urros em favor de Sade]. Essa tentativa. Vejo esse título. nos dois sentidos da palavra. seu texto inaugural deve ser lido: só ele foi capaz de identificar o jansenismo invertido. Com efeito. por inútil que fosse a intenção de trazer Sade de volta ao seio religioso. com Klossowski. em seguida. Sade voltou à França em primeiro plano.forma completamente diferente — pós-teológica e tragicômica — no Esperando Godot. foi realizado em 1952. apesar de fadada ao fracasso. de Beckett. nem por isso deixa de designar a alternativa amor Dei/amor sui como o lugar de onde tudo partiu e de onde Sade sai. na verdade. de Sade.”209 . incumbido de trazer de volta ao bom caminho o absoluto desviante. um bairro onde o negativo estava em casa.

para poder julgar por si mesmo. Ou bem ele sabe com o que está lidando. A menção desses dois nomes obriga-me a fazer uma advertência direta ao leitor que me acompanhou até aqui. e nesse caso convido-o a pular os dois fragmentos seguintes. uma ode à negatividade. a coisa girava em torno da ideia de um homem assumindo sua soberania. Ele dura sessenta e quatro minutos. durante as quais são enunciadas em voz off frases extraídas do Código Civil e citações diversas (de filmes. portanto. eram grandes e autênticos intelectuais que. saber alguma coisa a respeito. 185 O que se manifesta já nos primeiros tempos do retorno de Sade é que muitos intelectuais franceses da época se empenharam em trazê-lo de volta ao mundo. de vinte e quatro minutos. dedicados a Blanchot e Bataille. Mais vale. Blanchot lido pelas palavras 187 .210 como se dizia na época para designar os que vão “t-à-la” missa. pois aí estão dois de cuja leitura não saímos ilesos. da literatura. uma. Podiam até ser de polos opostos — vale dizer. podiam ser tala. estavam de acordo no sentido de lutar no bom campo de batalha para fazer com que fosse ouvido o que o mundo antigo não queria ouvir de Sade. qualquer que pudesse ser o custo para os outros. vejamos. 186 E o que é que não se queria de modo algum ouvir de Sade? Segundo Blanchot e Bataille. E termina com uma sequência totalmente negra e silenciosa. Se não. Ou então tem apenas uma vaga ideia. De duas. É composto de sequências com a tela branca. O filme de Debord é. e neste caso meu dever é insistir para que leia os dois fragmentos seguintes. pouco importa. por opostos que fossem entre eles. alternando com sequências com a tela negra totalmente silenciosas.*** ou ser ateus —. em sua própria forma. da filosofia…).

assim como os grandes textos de sua época. para tentar transformar-se num daqueles que poderiam “conferir um sentido mais puro às palavras da tribo”. Pierre Klossowski. para mim. Rilke. recursão ou súbita inversão do sentido. Heidegger. Blanchot permanece praticamente desconhecido do grande público. hoje superada. Pois Blanchot também é uma imagem branca — e não surpreende que o respeitoso . girando em torno de formas retóricas cativantes. antes de mais nada. Cabe lembrar que era então a época. Antonin Artaud. de figuras antilógicas e antifrásticas como o quiasma. Henry James. Louis-René des Forêts. Nietzsche. do nada pelo tudo. Robert Antelme. Entretanto. Blanchot é o mestre fascinante e secreto da última geração para a qual essa questão foi central. em que o ideal de uma geração era tornar-se sujeito da literatura. Ou seja. Assim é que Blanchot lê Hegel. Hölderlin. e mesmo sujeito do poema. que são textos de crítica literária procurando capturar a coisa que ordena a literatura. podemos dizer que é. que sempre provocam um momento fascinante de suspense. Isso já se manifesta a partir das duas primeiras coletâneas de Blanchot. da ausência pela presença… a exemplo da figura de estilo da filosofia medieval em que o totum podia converter-se em nihil. como escreve Mallarmé com tanta precisão em “O túmulo de Edgar Poe”. e seus amigos ou congêneres como Jean Paulhan. Henri Michaux. O que. Samuel Beckett. uma geração que saiu da filosofia do exercício estritamente filosófico e da literatura do exercício estritamente literário para fazê-las encontrar-se no lugar onde convergem em texto.De Maurice Blanchot. ao mesmo tempo que exerce esse fascínio. com efeito. Sade. Jacques Derrida. tem a ver com a sustentação virtuosística do que chamei. Essa coisa desenha o que ele próprio chama de “espaço literário”. Emmanuel Levinas… As páginas de Blanchot terão fascinado tanto mais os candidatos a escritor de sua geração na medida em que ele forjara uma escrita muito densa. aquele que percorreu todo o repertório clássico. retirado num silêncio inatingível. Yves Bonnefoy. em trabalhos anteriores. René Char. Faux Pas e La Part du feu. o oximoro ou o encadeamento sintático. na qual encontramos filósofos-escritores como Roland Barthes. Terá sido ele. Marcel Proust. e mesmo o grande leitor do século XX. Michel Foucault. um leitor. Marguerite Duras. Kafka. Paul Celan. de figura unária211 — figura das mais estranhas que permite a troca do tudo pelo nada. Philippe Jaccottet. Virginia Woolf. Georges Bataille. Edmond Jabès. Mallarmé.

L’Expérience intérieure. estranhos e fascinantes. até a obscenidade. a filosofia. a sociologia e a história da arte. longe de se afastar. um pouco diferente do que acontece agora. de certa maneira. durante muito tempo. Tanto a pequena morte do prazer textual quanto a grande morte que nos espera a todos. Sua escrita joga com saltos inesperados e passagens intempestivas: ela está constantemente circulando de um plano a outro. intitulado Thomas l’Obscur [Thomas. sabendo que nesses diferentes níveis se encontram a literatura. Ambos se olhavam. partenaire invisible [Maurice Blanchot. julgando-se ainda um leitor profundo. quando é absolutamente necessário mostrar-se.crítico que teve a ideia sacrílega de escrever uma biografia de Blanchot tivesse de intitulá-la Maurice Blanchot. Blanchot era leitor. no lugar da morte. a antropologia. cuidadosamente desorganizada. As palavras. Junto a cada signo. intensa como se pode constatar no livro que responde a Thomas l’Obscur de Blanchot. o erotismo como experiência-limite vem. recusando-se obstinadamente a afastar o olhar. os que liam Blanchot nunca tinham visto uma foto dele e não conheciam o seu rosto. o obscuro]. que ele bem define o perigoso exercício da leitura. ele estava na situação em que se encontra o macho quando o manto religioso vai devorá-lo. mas também escreveu alguns romances e narrativas. e é justamente num de seus romances. ele empenhou toda a sua força no sentido de apreendê-lo.212 A tal ponto que. saídas de um livro que adquiria uma força mortal. A obra de Bataille é múltipla. quando as palavras já se apoderavam dele e começavam a lê-lo. amigo de Blanchot.216 . mas também um santo e talvez um louco. dizendo a seu próprio respeito que “pensa como uma moça tira o vestido”.214 Percebemos nesse trecho a importância e a presença da morte em Blanchot. […] Frente a um texto tão bem defendido. o primeiro. parceiro invisível]. a economia.215 Georges Bataille se considerava um filósofo. exerciam sobre o olhar que as tocava uma atração suave e relaxante. o plano de Bataille para enfim se comunicar**** 188 Em Bataille.213 Em suma. Thomas ficou lendo em seu quarto […].

Bataille inscreve-se diretamente contra várias ideias então em voga. aqueles por onde se colocam fora da comunidade. comunicamo-nos pelas vias através das quais não nos comunicamos: pelo riso. e os raros estudos sobre a questão ainda são muito insatisfatórios. afirmar possível “a comunidade daqueles que não têm comunidade” é o mesmo que dizer que os homens realmente se comunicam… pelos caminhos pelos quais não se comunicam. seria necessário programar-se para tentar estabelecer um paralelo entre a comunicação habitual com os processos secundários e o fato de nos comunicarmos pelas vias pelas quais não nos comunicamos. pela morte. mas não. pelo gozo… Para Bataille.219 As consequências filosóficas dessa postura batailliana são consideráveis.Também ele. ele procurava construir uma sociedade secreta para criar. com os processos . pela blasfêmia. e aqui eu cito. Que quer dizer isto? Simplesmente. todos esses lugares são lugares sagrados (de modo algum um sagrado transcendente ou religioso ou teológico. o do anel de Möbius ou da garrafa de Klein. a-religioso e a-teológico). no limite. mas um sagrado imanente. Jacques Derrida e mesmo. o Lacan lógico do paradoxo. não nos comunicamos “por cima”. o que constantemente o leva a se defrontar com certos efeitos paralógicos. ao lado de Roger Caillois e Michel Leiris. no sentido em que se coloca assim a literatura como aquilo que deve resistir à lógica. por exemplo — um campo ainda mal explorado. vale dizer. o seguinte: acreditamos comunicar-nos pelo discurso. pelo erotismo. antes da guerra. “a comunidade daqueles que não têm comunidade”. poderíamos dizer. por exemplo.218 e também uma resistência literária à lógica. Sabendo-se que o sagrado muitas vezes não passa de uma transfiguração do horror (dizem que Bataille mostrava a quem quisesse ver a foto do rosto sorridente e extasiado de um chinês esquartejado). sobretudo duas delas. Bataille joga. terá exercido considerável influência em escritores e pensadores como Michel Foucault. pelo sofrimento. Jacques Lacan. É uma resistência política à suposta necessidade de engajamento do escritor. ou seja. ou pensa. Assim.217 Ao adotar essa postura paradoxal. inclusive o Lacan para-lógico. diz Bataille. mas “por baixo”. pelo choro. logo voltaremos a isto. Philippe Sollers. Para entender melhor. Em suma. então doutrinada por Sartre.220 Nem é preciso dizer que essa problemática interessaria muito a Lacan. nos chamados anos do Collège de Sociologie. dos quais sempre me pareceu querer fazer uma ciência exata. apesar de pouco conhecido do grande público.

é por aí que volta o nome de Sade.primários (vale dizer. Mas a problemática de Bataille baseada nessa proposição “comunicarmo-nos pelas vias através das quais não nos comunicamos — riso. de Bataille. E. já em 1949. seria soberano aquele que ousa ir olhar lá. blasfêmia. a negação da . nesses lugares abjetos ou sagrados. Não surpreende. aqueles mesmos que ignoram a contradição. num texto inaugural sobre Sade: “A originalidade de Sade parece-nos estar na pretensão […] de basear a soberania do homem num poder transcendente de negação. a que é discutida entre Bataille e Blanchot. que certos textos de Bataille respondam perfeitamente a textos de Sade. que essa pretendida negação. pelo Outro. a questão da soberania.”221 Ele o reiteraria vários anos depois: “O centro do mundo sádico é a exigência da soberania se afirmando por uma imensa negação. L’Abbé C. podemos supor que Lacan deu ouvidos à problemática de Bataille ao fundar sua teoria do Outro: pois se nos comunicamos pelas vias através das quais não nos comunicamos. sofrimento. antes de mais nada. A coisa começa quando Bataille especifica. assim. E. choro. por sinal. funcionando de maneira paralógica e unária). Por exemplo. que. Os dois concluem com o comprometimento final do religioso com a corrupção da natureza. a soberania 189 E. que ele não conseguia explicar. vale dizer. responde ao famoso Diálogo entre um padre e um moribundo. erotismo. almejada pela soberania é. Sade foi um dos únicos a abordar. Isso permite apreender a grande questão da época. por sinal. de uma forma que seria muito “politicamente incorreta” hoje em dia. à sua maneira. Pois o mínimo que se pode dizer de Sade é que ele ousou ir aonde ninguém ousara ir. gozo…” permite-lhe outra coisa: a edificação de uma teoria da soberania. Nesse sentido. é o que afirma Blanchot. de Sade.223 da qual muitos aspectos dizem respeito a Sade..”222 Não entraremos aqui na infinita discussão entre Blanchot e Bataille. morte. naturalmente. mas nos limitaremos a indicar alguns pontos decisivos em nossa opinião. lá onde não se ousa ir ver. quer isso dizer que nos comunicamos por uma zona outra.

conhecida e reconhecida por eles. Para ele. afirma Blanchot. de tecer loas ao homem sádico — ele sabia perfeitamente do que se tratava. Ora. mas jubilatória. o que poderia ser um homem livre. mas cada vez mais confirmada na sociedade moderna. na busca do homem soberano. A diferença entre os dois está no fato de que aquele que Klossowski busca é o ser teológico enfim realizado. A perspectiva não é exatamente a mesma no caso de Blanchot. ao passo que o de Bataille é decididamente ateológico. existem todas as chances de que seja o homem “sádico a fazer desse impasse uma saída”. nessa veia sado-nietzschiana. desassujeitado. “mobiliza um ciclo de servidão [no qual] o homem em geral [se vê privado] de seus momentos soberanos. Do que constitui prova o último capítulo do livro intitulado A amizade. que foi o primeiro a explorar de forma não mais trágica. não será possível fazê-lo desaparecer isolando Sade nem proibindo a publicação de suas obras. confinando Sade. pois se isso não acontecer.225 Trata-se no caso. pois vinha dos meios de direita da “velha França” e só conseguiu livrar-se disso com o teste do nazismo. Esta tem a ver. não se trata. implicando um sagrado sem deus. de saber o que fazer com a verdade extremamente embaraçosa que Sade nos revelou em primeira mão: a existência de um homem sádico. soberano. foi a pior das soluções. se esse homem sádico existe realmente. Bataille empurraria assim o homem soberano de Sade ao encontro do super-homem de Nietzsche. Uma verdade da qual nada se quis saber durante dois séculos. pelas experiências-limite. Essa problemática eminentemente inteligente é . também explorada por Klossowski. já que não permitiu entender o que quer que fosse desse homem de que Sade revelou a existência não só possível. essa separação fundamental a partir da qual o que separa torna-se relação”. não hesita em escrever Bataille. para Blanchot. com “a distância infinita. assim. nem sequer queimando todos os exemplares de todas as suas obras.solidariedade dos homens entre eles: “O respeito dos homens uns pelos outros”. naturalmente.”224 Fascinado. dedicado a Bataille e contendo uma teoria da amizade. Ele buscava aí. como vimos. Para Blanchot. O que. trata-se de fazer com que “o homem normal possa enfeixar o homem sádico num impasse”. a condição do homem após a morte de Deus. Essa diferença. é por sinal a base de sua amizade. E isso com facilidade tanto maior na medida em que esse homem sádico leva sobre o homem “normal” a vantagem de saber muito mais que ele sobre a verdade da pulsão. ou ainda proibindo para sempre o seu nome.

os filmes B…) para transformá-las em autênticas armas ideológicas. pois outros meios começavam a identificar o fenômeno: os situacionistas. Esses intelectuais de vanguarda não viram a que ponto Sade já estava em ação naquilo que combatiam. televisão. caso contrário esse homem faria de seu impasse a única saída possível. O que significa que são amigos apenas aqueles capazes de suportar que a verdade venha antes da amizade. voltando-as ironicamente contra ele. os quais. que a magnífica atividade teórica desses pensadores só tem equivalente. Mas o que esses brilhantes pensadores não viram devia ser visível. diante da maneira sadeana como funcionava cada vez mais o capitalismo de então na Cidade: mobilizando as pulsões graças às indústrias culturais da época (cinema. da penetração da subcultura americana com seu sadismo e sua pornografia ordinários.226 Para que a soberania do homem tenha sentido. Blanchot e Boulogne-Billancourt 190 A amizade filosófica na qual me encontro. Eles nada viram ou. pelo menos.227 era necessário que Blanchot entendesse o que era o homem sádico. de maneira a explorá-las industrialmente através dos objetos supostamente destinados a satisfazê-las. a literatura barata das histórias em quadrinhos. com os pensamentos extremamente agudos e misturados de Bataille e Blanchot. tal como foram maciçamente introduzidos na França e em outros países no pós-guerra. para que os projetos de emancipação sejam sustentáveis. ao redor de Guy Debord e alguns outros. Bataille. nada disseram. o capitalismo de sua época. publicidade…). eu diria. não se cansavam de se apropriar das armas do inimigo (por exemplo.que leva Bataille a dizer que foi o pensamento de Sade que levou o de Blanchot a sua realização. Haviam imaginado o . obriga-me a lembrar a definição de amizade extraída da Ética a Nicômaco. Na qualidade de amigo. Mal sabia ele como estava certo. ao passo que foi o de Blanchot que realizou o de Sade. portanto. de Aristóteles — e que eu resumiria assim: a verdade antes dos amigos. em sua total cegueira. os slogans publicitários. por exemplo. Como se nada pudesse atingir a alta cultura literária e filosófica em que se encontravam.

bairros de exclusão. com seu barulho. produziu gigantescos enclaves fechados: centros urbanos. Ou então que tomassem o metrô para chegar a Boulogne-Billancourt (uma única baldeação a partir do Odéon). autêntico fundamento da democracia. por exemplo. não foram destruídas pelo automóvel individual que separa os bairros. a começar por Paris.228 escoadouro urbano destinado a receber o fluxo de automóveis.aparecimento do homem sádico no nazismo. subúrbios. zonas urbanas encravadas ao redor de entroncamentos e pistas de alta velocidade. Pois um dos sinais mais manifestos da satisfação pulsional conferida ao egoísmo por meios industriais é o automóvel individual — magnífico objeto democrático sadeano que permite a cada um afirmar sua força egótica. condenando progressivamente a perambulação dos indivíduos. que logo haveria de separar definitivamente a capital do subúrbio. conjuntos habitacionais… Em suma. os habitantes e expulsando as crianças das ruas? Quantas paisagens urbanas ou rurais não foram para sempre desfiguradas? O que veio a ser ameaçado foi o conceito de espaço público. sabemos o importante papel que ele ocupa no imaginário freudo-fordista americano de afirmação do ego. poluindo o ar. Esse instrumento de liberdade também é um instrumento de grande destruição. no grande bastião da classe operária de Paris.229 A essa destruição do espaço público devemos acrescentar as vidas humanas regularmente pagas em tributo ao automóvel. parques de lazer. supunham que fosse possível no comunismo de Stálin. condomínios residenciais. seus aterros etc. aprofundando sua defasagem. zonas comerciais. exatamente onde estava em ação diante dos seus olhos.. atordoando. a ponto de invadir sua bela Cidade clássica. o das fábricas Renault na ilha Seguin. E. teria sido desejável que deslocassem as reuniões de seu fraternal grupinho comunista utópico da rua Saint-Benoît. Submergindo o mundo. E o fato de o automóvel desencadear um ciclo de destruição exponencial: qual será o estado do planeta quando todos os chineses e. por sinal. todos os africanos tiverem o seu automóvel? A percepção desse sadismo democrático . para fazer. tendo partido dos Estados Unidos para chegar até a China. Para que se dessem conta disso. com seus elevados periféricos. mas não o viam no liberalismo. arruinando a antiga socialidade. Quantas cidades. no coração do Quartier Latin de Paris. um pequeno desvio psico-geográfico na direção do elevado em construção em torno de Paris. depois. a circulação automobilística. de acesso livre e gratuito.

na qual ainda apostavam. Talvez os intelectuais da época a tivessem alcançado se pelo menos se houvessem questionado sobre a enorme contradição que podia existir no fato de a grande narrativa de emancipação comunista. Blanchot e os outros falavam muito bem de Sade. 193 Essas pequenas narrativas acabaram por deixar muito mais traços que os cursos da escola do Partido contando a grande narrativa de emancipação do Proletariado. e mesmo por submergi-lo. 191 O que realmente aconteceu foi o seguinte: um belo dia.ordinário da era industrial é que foi desastradamente perdida na época do retorno oficial de Sade. fragmento 127).230 192 Bataille. os operários da Renault deixaram de lado a leitura do “fetichismo da mercadoria” em O Capital e se foram de carro. E pela televisão. Mas não foram capazes de ver que a penetração cultural do impasse sadeano estava em ação na multiplicação das pequenas narrativas que lisonjeavam o ego e prometiam a satisfação pulsional na e pela mercadoria. Guy Debord parece-me o único a se ter dado conta disso. como demonstra esse precioso fragmento mostrando de que maneira o isolismo caro a Sade (termo que Debord traduziria como isolamento) é obtido: . ser religiosamente cultivada pelos operários de Billancourt. os mesmos que fabricavam os modelos baratos (como os fuscas) que permitiriam ao bom povo alienar-se definitivamente na mercadoria. De carro. 194 Coloquemos então assim a coisa: foi de carro que Sade voltou para disseminar o isolismo (cf.

Dispomos. Parece-nos que essa passagem seria viável se se articulassem várias proposições.231 195 A esta altura. O sistema econômico baseado no isolamento é uma produção circular de isolamento. O isolamento alicerça a técnica. Assim é que gostaríamos de ser úteis propondo uma possível solução. proporia a seguinte sequência: 1º a soberania remete ao que permite ser tirano (o ideal sadeano). O espetáculo sempre reencontra mais concretamente suas próprias pressuposições. A priori não. . Pior ainda: o problema ficou plantado como uma faca no coração do pensamento contemporâneo. todos os bens selecionados pelo sistema espetacular também são suas armas para reforçar constantemente as condições de isolamento das “multidões solitárias”. mas vários é realmente esmagador. Ele é o perfeito exemplo do objeto sadeano moderno. De minha parte. 4º entre esses objetos figuram particularmente os novos “meios de comunicação” (no sentido de que todo mundo deve usá-los): o automóvel e a televisão. que na época preocupava muito Debord. Situação insustentável: um só Sade já é bastante pesado. 196 Comecemos pelo automóvel. cuja atualidade foi perfeitamente identificada por Bataille e Blanchot. Por quê? Porque permite alcançar sem dificuldades o ideal sadeano (já exposto no fragmento 129): ser tirano. Até hoje. pois eles não têm nada em comum. temos nas mãos vários Sade: ainda que afastássemos o Sade cripto- cristão de Klossowski. com efeito. Coloca-se então a questão de saber se podemos reuni-los ou pelo menos passar de um a outro. restam o de Bataille e Blanchot e o de Debord. 2º a realização do estado tirânico pode ser alcançada por meios tecnológicos que o capitalismo do século XX tratou de oferecer. 3º esses meios foram postos ao alcance de todos graças à difusão de certos objetos técnicos que garantem o gozo tirânico. essa questão da passagem de um a outro ainda não nos parece resolvida. e o processo técnico isola. e de um Sade propagador do “isolismo”. Do automóvel à televisão. em contrapartida. de um Sade da soberania.

É um gozo formidável muito difícil de dispensar. Causa espécie de que tão pouca literatura crítica tenha sido dedicada a esse fenômeno decisivo. Tanto mais se acrescentarmos a seguinte passagem: Não é necessária uma inteligência luminosa ou um conhecimento comprovado da alma humana para perceber o fetichismo do automóvel e seu significado fálico. Ela é uma experiência que cada um pode vitoriosamente opor a todas as situações frustrantes nas quais precisou limitar-se e se conter diante da lei. no caso. Tudo depende de uma sensação muscular. Por isso é que a “estrada” pode garantir todas as funções de compensação. pronto. impune e tão frequente quanto fácil. na potência oculta sob o . Este tornar-se “senhor da lei” ligado à atividade de dirigir um automóvel tem naturalmente caráter extremamente sadeano. Jean-Jacques Delfour. com efeito. Ninguém se priva. e. pois sou o senhor da lei. E é precisamente esse o motivo pelo qual é necessário falar a respeito. um quase nada. a considerar que “nós” (em geral) não nos orgulhamos muito desse triunfo do automóvel que “nos” deu acesso “democraticamente” ao ideal sadeano. no entanto. uma ínfima demora na freagem e. Pequeno espaço fora da lei que nos proporcionamos a qualquer momento.233 Assim é que ele explica: Na condução do automóvel. O discurso publicitário e a fala comum insistem constantemente na sensualidade das formas. passar a palavra a um dos raros filósofos que estudaram a questão. do tipo de proeza sobre o qual se prefere em geral calar. A simples atividade de dirigir constitui uma descarga afetiva agradável. a relação com a lei é imediata e carnal. uma vez experimentado. Trata-se. Em um lapso de tempo extremamente curto. eu desobedeço à lei. transgredi a lei. Uma ligeira pressão no acelerador. Essa depende inteiramente da minha vontade todo- poderosa.232 Seria ele evidente demais para que espíritos esclarecidos percam tempo tornando manifesto o que já o está? Tendo. invisível.

O velho da novela de Lafferty conta que o bonde finalmente levou a melhor. Essa predição é de extraordinária lucidez.234 197 Que o automóvel permite facilmente ser tirano é algo que se sabe desde 1900. Veríamos gigantescas cidades serem criadas como cânceres. subúrbios residenciais de falsa opulência. um campo de paisagens arruinadas. em Interurban Queen. Um famoso futurólogo dessa época já se havia dado conta: Se um dia o uso do automóvel se generalizar. Isso transformaria cada homem num tirano. narrando as lutas ferozes entre os . humor e desespero certos mundos paralelos que poderiam (ou deveriam) ter existido. com três ou quatro gerações compartilhando o mesmo lar. na forma aerodinâmica sempre “cientificamente” calculada para facilitar a penetração do automóvel nas massas de ar. no prazer de dirigir. justamente. fazendas industriais especializadas. pois foi extraída de um livro de ficção científica escrito na década de 1960. grande apreciador de uísque e autor de estranhas novelas em que descreve com extrema lucidez. desempenhando um papel compensatório extremamente útil. de onde foi extraído esse pequeno trecho. completados por um bonde de linhas interconectadas nas cidades. isto causaria um terrível egoísmo no ser humano. socialmente. Acarretaria uma violência em proporções que jamais vimos: seria o fim da família tal como a conhecemos. capô. portanto. Aniquilaria nossas relações com a vizinhança e a própria ideia de comunidade. são apresentadas as lembranças de um velho rememorando que em 1900 deu-se na população um enorme debate para decidir se seria de bom alvitre optar pelo automóvel ou pelo trem no campo. Esse fetichismo fálico garante. Por exemplo. se outras escolhas tivessem sido feitas pelos homens. aglomerações cercadas por fábricas prejudiciais à saúde. O único problema é que não chegou a ser feita. um espaço de expressão para as inúmeras frustrações da vida social. por um certo Raphael Aloysius Lafferty.

durante 3 a 4 horas por dia. em média. a vulgaridade. Esse mau emprego da televisão começa cada vez mais cedo: existem atualmente estações para bebês. George Bush pai. a estupidez e. Introduzida na França na década de 1960. a derrota daqueles e a assunção de um mundo liberado da tirania. “divertimento” — e voltamos aqui a Pascal —. Desde a década de 1950. um verdadeiro achado. a agressividade.237 É declaradamente nesse sentido que ela é utilizada por nossos dirigentes políticos e econômicos. a obscenidade. nos Estados Unidos. Um acontecimento já hoje bem conhecido vem confirmá- lo: em 1995. políticos (entre eles o ex-presidente da URSS.236 Hoje. basicamente a programas de divertimento que se caracterizam pelo voyeurismo. a insignificância. a recomendação adotada foi a proposta por Zbigniew Brzezinski. que consiste em fornecer um “coquetel de divertimento embotante e alimentação suficiente que permitam manter de bom humor a população frustrada do planeta”.235 televisão. a feiura.automobilistas e os outros. a televisão. cada vez mais. surgido nessa mesma época. tetas… 198 O outro objeto sadeano por excelência. qualquer indivíduo no mundo assiste. Margaret Thatcher) e personalidades da esfera econômica (entre outras os dirigentes das maiores empresas do planeta).239 A palavra tittytainment é extremamente interessante. a incultura. Ela combina as palavras entertainment. e de 1960. reuniram-se num “clube” chamado Trilateral238 para encontrar soluções para os problemas do planeta. totalizando quinhentos dirigentes políticos e econômicos de altíssimo nível. E quando esses programas são interrompidos por alguns momentos é para dirigir as apetências dos telespectadores para objetos de cobiça que prometem a satisfação pulsional. na França. o narcisismo. Mikhail Gorbatchev. é a televisão. foi cada vez mais maciçamente utilizada para a “redução de cabeças”. ex-assessor do presidente Carter e fundador da Trilateral: o tittytainment. Ao ser colocada a questão da governabilidade dos 80 por cento excedentes da humanidade em relação às necessidades previstas pela economia liberal. e . a televisão tornou-se cada vez mais uma arma de destruição simbólica e cultural maciça. que poderia ter tido outros usos.

Esses quinhentos indivíduos sub-sadeanos. na vanguarda nesse gênero. Mas nem por isso deixam de se comportar diante do mundo inteiro como Blangis. mergulhando o mundo numa obscenidade generalizada. a obscenidade e a perversão ordinárias. Mas a incessante bolinação das “tetas” da mãe também é conotada por esse termo — o que fica perfeitamente evidente na televisão berlusconiana. Tudo isso já se pressentia na década de 1960. a pornografia. equivalendo a tetas. a preconizar para a maioria da população. como vimos. Elas se baseiam no conceito de “teleintimidade”. caracterizada pela perversão polimorfa do adulto. naturalmente. de facto. nostálgica e visionária. Numa obra divertida. como uma religião materna. mas no leite extraído do peito de uma mãe que aleita. Ginger e Fred. convindo perfeitamente às formas da subjetividade atual. A referência à mãe que aleita os filhos. Só no início da década de 1980 é que a evidência se impôs. 199 Ainda seria possível duvidar do sadismo que a televisão põe em prática em seus usos atuais? Eis algumas linhas do filósofo Jean-Jacques Delfour — o mesmo que já havia instruído o processo do automóvel. está presente — o mercado funciona. Durcet e seus amigos diante de seus pensionistas. constituem efeitos diretos do aprofundamento da revolução liberal que apoiam. A palavra evoca precisamente o clima obscenizante e infantilizante que se deve criar.tits. . são patéticos por também serem escravos do sistema a que servem tão zelosamente: o sadismo. séculos de arte e cultura estavam escorrendo pelo esgoto num cenário postiço de niilismo mercantil. que se veem obrigados. Mas só em parte têm razão. entendido como mecanismo de “sujeição consentida […] de pessoas a outras pessoas que as observam e desfrutam dessa submissão a um imperativo de desnudamento”. Fellini mostrou que. gíria que designa os seios. É verdade que os quinhentos dirigentes reunidos em 1995 no hotel Fairmont de San Francisco não têm o terrível e devastador brio dos quatro celerados reunidos no castelo de Silling. A maioria dos observadores afirma que Brzezinski não pensava em sexo. mamas. planejando então mergulhar as populações do mundo na obscenidade. mas então se queria acreditar que seria possível contorná-lo graças à fervilhante militância da época. com a televisão.

que se valiam de procedimentos extremamente violentos. os poucos que aceitam expor-se. excluir regularmente um dos membros da casa. O que Jean-Jacques Delfour comenta da seguinte maneira: “Genialidade desse dispositivo. lenitivas e desbrutalizadas. intimar os pais a explicar as eventuais falhas do rebento”. são olhados os pequenos. na posição perversa do voyeur/escrutador”. nenhum assassinato real é cometido. um dispositivo em que os milhões que estão diante do aparelho olham. hoje (em programas do tipo Big Brother). foi no momento em que os imperativos sadeanos “Goze!” e “Seja tirano!” puderam concretizar-se amplamente. Mas o dispositivo é o mesmo: Loft Story***** limitou-se a concretizar o dispositivo escópico característico da televisão. isolados uns dos outros. Mas seria esquecer que a televisão consiste desde sempre num dispositivo escópico em que se trata fundamentalmente de olhar sem ser visto.sobre o qual se aplica “uma mercantilização da intimidade no modo de prostituição”. não dizendo respeito ao que era na década de 1960. Delfour indica que “nele se desenrola uma atividade sádica múltipla: decifrar seus fatos e gestos sob o olhar profissional dos escrutadores psicológicos. E prossegue: Loft Story faz eco à pornografia dos campos de concentração: o sadismo permanente da situação é análogo ao sadismo infinito das práticas concentracionárias europeias. Com a diferença de que essa pequena rede formada por um campo televisivo único e uma infinidade de mirantes não mata ninguém: nenhuma gota de sangue é derramada. Ele enxerga aí uma autêntica “máquina de desnudamento psíquico”. querendo ou não. graças a esses dois objetos .240 Poderíamos objetar que isso remete àquilo em que a televisão se transformou ao longo dos trinta últimos anos. escrutando seu ser. Ainda está por escrever a história que conduz sociedades totalitárias nazistas e stalinistas. Basta olhar para ser objetivamente colocado. E as vítimas consentem. a essas formas contemporâneas. 200 Como que por acaso. Mais precisamente. eram olhados os grandes (à espera de um acidente).241 Antigamente.

ainda desconhecida. eles eram postos na posição de ousados descobridores acima dos preconceitos do comum dos mortais. Ele se explica a respeito. por exemplo. segundo o próprio editor. do meado da década de 1950.****** confessemos que nos parece propício — e logo veremos por quê. Algo desconhecido e desconcertante nasce. Para Bataille.tecnológicos decisivos. num texto. deve ser situada numa relação de Lacan com Bataille. que Sade retornou. aos tabeliães. a transgressão das leis ou regras comuns permite desembocar numa região “desconhecida” que lhe interessa muito. o gozo. intitulado “A festa ou a transgressão das proibições”. sem gaze. A eles cabia descobrir os benefícios que poderiam obter ao aceitar acanalhar-se um pouco com a leitura em primeira mão dessa literatura suspeita. Em suma. o excesso. destinadas. Que promoção de uma só vez! Com isso. Uma parte significativa do trabalho de Bataille diz respeito à questão da transgressão. mas essa negação é o meio de conferir-lhe um outro valor. Bataille com Lacan 201 Poderíamos apresentar as observações que se seguirão sob o seguinte título: “Bataille com Lacan. farmacêuticos. Para resumir em poucas palavras. Quanto ao efeito de sentido belicoso gerado pela expressão “Bataille com Lacan”. médicos e mesmo aos bispos. que já não é . tratava-se de fazer com que Sade fosse aceito pela burguesia meio reprimida da província naqueles anos de 1960. em nossa opinião. o êxtase. Lacan é que foi incumbido de escrever o prefácio de A filosofia na alcova para as edições do Cercle du Livre Précieux. em edições cada vez menos confidenciais.” Gostaríamos assim de imitar a própria forma sintática do título do texto de Lacan sobre Sade (“Kant com Sade”) para indicar que uma das intenções desse texto. Sade foi difundido inicialmente nas coleções acima de qualquer suspeita para os leitores dos meios abastados. a morte… são atos de negação do limite em que cada um se encontra: Um elemento é negado.

Essa possibilidade de transgressão é às vezes posta em dúvida por Blanchot. em Le Pas au- delà:******* “A transgressão não transgride a lei. simplesmente a natureza. para Bataille. É precisamente esse Sade batailliano. as leis humanas. Toda a vida se viu obcecado por ela. “Kant com Sade”. que já no título dá a entender que o sábio filósofo de Königsberg. L’Expérience intérieure [A experiência interior]. Ela a leva consigo. justamente. que por sua vez tampouco deixou de escrever constantemente sobre a transgressão e sobre o passo além — sendo esse sintagma o título de um belíssimo livro de Blanchot escrito em forma de fragmentos. em Blanchot. a existência dos sexos. pelo riso. que está constantemente transgredindo tudo. pelo excesso. Ele escreveria um texto. quando ele escreve. pelo êxtase… Essa figura de linguagem é um dos lugares privilegiados da discussão entre Bataille e Blanchot. E esse passo adiante institui possivelmente uma outra modalidade de discurso e de comunicação entre os seres. em Bataille) constitui um dos pontos-chave da discussão. como. se falamos de transgressão. é difícil deixar de falar de Sade: se existe alguém. De maneira geral. já que então começamos a nos comunicar por onde não nos comunicamos: pelo choro. e o gozo. numa dessas frases tipicamente blanchotianas. 202 . como diante da morte. em nossa opinião. e o grande malvado aprisionado pela metade da vida por delitos diversos e múltiplos nunca deixaram de obedecer à lei. aqui. é efetivamente. Sade. a existência do outro… e isso até a náusea. e isso até o ponto em que o limite se torna intransponível. mas a natureza transfigurada. esse homem problematicamente soberano. que constantemente afirma a lei. mestre em transgressões.” O que leva a pensar que a transgressão limita-se a deslocar o limite.242 Bataille considerava muito importante sua descoberta. dedicando aquele que.243 A natureza do limite a ser ultrapassado (de preferência a morte. que Lacan pretende discutir.244 Ora. o sagrado. a esse tipo de experiências que permitem ao sujeito tentar ir além. por exemplo. é seu mais belo livro. o que é sagrado é precisamente o que é proibido. com efeito.

Não tentaremos aqui um levantamento dos motivos que levaram Lacan a entrar em luta com Bataille. por sinal. do artigo “Função e campo da fala e da linguagem”. sobretudo. tudo que se apresenta como subversão do simbólico não passa de um efeito do simbólico. Entre eles. em 1953. podemos afirmar. uma certa concepção do Outro…) e de que seu nome só é citado uma vez (na nota 1 da página 583) entre as centenas que constam em seus Écrits. de um simbólico postulado como insubmersível e insubversível. É bem conhecida sua arte da rasteira e da réplica cortante. no qual o sintoma é apresentado como um sentido a ser decifrado. já que esses significantes se organizam sempre em função de uma casa vazia. o interesse pelo discurso dos místicos. inclusive aqueles aos quais regularmente tomava empréstimos para seus próprios textos. e Lacan participara de várias reuniões da sociedade secreta “Acéphale”. a partir do momento em que “o sintoma […] é estruturado como uma linguagem cuja fala deve ser liberada”. Mesmo sem mencionar as questões masculinas dos dois em relação ao papel de Sylvia. sem muito medo de errar. nem sempre mencionando a origem. O que pode facilmente ser observado no fato de lhe ter tomado de empréstimo muitas ideias (o real como impossível de simbolizar. que depois se tornou esposa de Lacan. daquilo que sua época produzia de mais significativo — e mesmo de fazer-se analista de seus amigos. devendo “resolver-se inteiro numa análise de linguagem”. sempre pode sair um sentido . É o desejo de Lacan de se fazer analista de sua época e.246 Ora. esposa de Bataille. como no jogo “do taquin”. de maneira muito clara já na redação. bela mulher e atriz de teatro e cinema de qualidade.245 203 Restringiremo-nos aqui à ideia que na época devia preocupar Lacan: que Sade fosse transformado em emblema da transgressão. Limitar-nos-emos a indicar um deles. Bataille. que Bataille foi um problema para Lacan. vale dizer.Lacan e Bataille se conhecem desde a década de 1930: ambos haviam frequentado o seminário de Kojève sobre Hegel. na época em que ele próprio afirmava a primazia do simbólico. publicados em 1966 — e ainda assim o nome de Bataille só aparece no índice da grande coletânea de textos de Lacan. de onde. um efeito dos significantes que organizam esse sistema. no sentido filosófico do termo. perfeitamente verossímil. que lhe permitia enfrentar os contemporâneos.

trata-se de um dos textos mais sobrescritos de Lacan. enquanto falante. isso pensava”.249 Sollers tem razão: “Kant com Sade” é de fato um dos textos mais sobrescritos de Lacan — o que. em dizer que é preciso acalmar-se quanto à transgressão. ao passo que se limitavam a aplicar a lei. um texto que por sinal jamais seria realmente concluído. A editora Cercle du Livre Précieux. prevendo reeditar Sade e antecipando as reservas que encontraria. Cabe notar que essa avaliação de escrita excessiva foi formulada em relação a Lacan por um autêntico escritor. ao mesmo tempo reconhecendo que “ ali. mas como o próprio trabalho da metáfora em ação na linguagem: “A metáfora situa-se no ponto preciso em que o sentido se produz no não sentido. outra de 1966). E. a lei da linguagem. Ficamos então esperando a demonstração dessa posição extremamente firme e pertinente. nunca subverteu nada — nem mesmo Sade. prefácios e posfácios para acompanhar os escritos diabólicos . para concluir. sujeito à lei. inclusive pelos melhores aliados de Lacan. e… nada acontece. Lacan vê a manifestação de sentido não como efeito de alguma transgressão. evidencia “uma espécie de embaraço em relação à escrita”. a respeito do qual podemos pensar o que bem quisermos. Assim. Dispomos de vários exemplos do banimento desse texto. a lei do significante envolvido.novo. melhor ainda. Por isso é que foi de facto rejeitado. na medida em que ninguém. em outro texto central. mas que não pode ser acusado de não saber o que está dizendo quando fala de escrita. é um dos textos mais incompreensíveis de Lacan. Isso resulta nesse texto.”247 A rasteira lacaniana em relação a Bataille consiste. intitulado “Kant com Sade”. Nela podemos ver o analista gozando da rasteira que dá em seus contemporâneos que se haviam julgado muito espertos e subversivos. no caso. já em 1957. O texto de Lacan perde sua força demonstrativa e se perde em fórmulas falaciosas no exato momento em que ele profere sua lição magistral sobre Sade não transgressivo e mesmo. intitulado “A instância da letra no inconsciente”. nos jogos metafóricos e metonímicos. Trata-se de Philippe Sollers. segundo o escritor. um dos raros entre seus contemporâneos a ousar discutir Lacan e mesmo escarnecer dele. mas fazendo bem as contas podemos enumerar quatro. Dele conhecemos duas versões principais (uma de 1963. solicitara aos grandes intelectuais da época que redigissem introduções.248 A ideia é fascinante. portanto. E por sinal. O primeiro vem do editor para o qual foi redigido.

o arauto do Iluminismo alemão. que tanto quebrava a cabeça com Sade. Masson. Smith. que devia constar — como dissemos — como prefácio de A filosofia na alcova. como contraponto de Sade. O único que realmente enveredou por esse caminho.250 204 Arriscamos aqui uma hipótese pior que a de Sollers: esse texto é. Mandiargues. não raro. Barthes. seu outro contemporâneo. Enfim. sobre Sade em 1977 (nº 12-13). Guyotat. Lely. Sollers… todos profundos conhecedores de Sade e. nunca engoliu. mas por razões de pensamento. O texto de Lacan não inspirou qualquer comentário a Bataille. Faye. o psicanalista Jean Allouch. Esse texto quase nunca é citado pela crítica erudita da época. Klossowski. Paz. que não entenderam. O que Lacan. Heine. confunde desejo e gozo em Sade. 205 É provável que o problema encontrado por Lacan não seja estranho à sua decisão de privilegiar. o inventor da solução transcendental. Lacan tropeçou em uma questão que não foi capaz de resolver.de Sade. ilegível. Robbe-Grillet. por exemplo. naturalmente. isenta Sade de toda perversão e acaba por questionar não só a existência do sadismo como também da perversão. não por motivos de escrita. Paulhan. num verdadeiro tour de force. Ora. como logo demonstrarei — nem pelos numerosos comentadores de Lacan vinculados a diversas sociedades e associações psicanalíticas lacanianas. o inventor da solução imanente. Bourgeade. Breton. . ele praticamente nunca é citado pelos inúmeros repetidores de expressões lacanianas — exceto por um dito espirituoso. seu contemporâneo Kant. e não o arauto do Iluminismo inglês. O segundo diz respeito a seu destino marginal. já que nada diz sobre Kant. Basta pensar. num enorme número especial da revista Obliques. na realidade. no belo plantel de intelectuais que escreveram. foi recusado por alguém no Cercle du Livre Précieux. Blanchot. pois ambos não passariam de “construções”. o texto de Lacan. leitores de Lacan.

ou seja. começando por situá-lo em relação ao abismo que separa o Iluminismo alemão do Iluminismo inglês. devemos voltar ao lugar de Sade na metafísica ocidental. Sade e o professor Mascomo 206 Existem apenas duas coisas perfeitamente legíveis no “Kant com Sade” de Lacan. mesmo esclarecido. sabendo que sempre há o que ganhar. egoze. Entretanto. que comenta em A ética da psicanálise. mas não é certo que o pensamento crítico possa satisfazer-se apenas com este elemento. no entanto. Lacan poderia ter feito uma outra escolha se tivesse se dado conta de que a formulação de Sade. o início e o fim. talvez não seja ilegível para um lacaniano impenitente.251 “Dê-me a parte do seu corpo que pode me satisfazer um instante. Entre os dois. “Dê-me aquilo de que preciso e terá de mim aquilo de que por sua vez precisa”. Como nada foi jamais dito sobre esta última questão. sem dúvida por ignorância da obra de Adam Smith. hoje em dia. Não foi apenas a necessidade de debater com os grandes veteranos que nos obrigou a isso.253 O que é uma pena. um mundo pornográfico. que todas as vezes que tentei ler esse texto centrado em dois topoï que me .252 decorre em linha direta de Adam Smith. de tal maneira que esse lugar torna-se de repente um mundo onde já não existe a necessidade de se falar nem de se amar. mas também o lado sadeano do liberalismo contemporâneo que se foi afirmando a partir de 1929. ele perde o bonde. se quiser. pois dessa maneira uma dimensão muito diferente teria sido conferida a sua análise: teríamos percebido que Sade aplica as leis do mercado à troca dos corpos. teria sido necessário mostrar que Sade tinha mais a ver com o transcendentalismo do Iluminismo alemão do que com o imanentismo do Iluminismo inglês. contra a vontade. Para entendê-lo. como demonstramos no capítulo anterior. para realmente sustentar o enunciado “Kant com Sade”. Lacan. o ponto do qual Lacan pretende partir e aquele aonde quer chegar. Devo confessar. E. mas o é para o leitor normalmente constituído. daquela do meu corpo que lhe pode ser agradável”. vale dizer. seria realmente necessário que alguém se arriscasse um dia a escrever um “Smith com Sade”. Em suma. Podemos imaginar que fechar o bico de Bataille com um peremptório “Kant com Sade!” deve ter dado prazer a Lacan.

Mas quem era o professor Mascomo? Era um homem adorável que ensinava física e química aos pirralhos entre os quais eu me encontrava na década de 1960. incapaz de entender patavina: “Ninguém a me acompanhar…” Se me lembro do comportamento do professor Mascomo ao ler “Kant com Sade”.” . E o fim. deixando o infeliz se enrolar até não poder mais. ele finalmente apresentava a boa solução. Às vezes. o início. e por sinal parecia com Lacan. Depois de convocar um de nós ao quadro-negro. em meio a uma nuvem de farinha. Parecia-nos que ele fazia toda uma série de operações — chegando às raízes quadradas — para alcançar o resultado que já sabia ser certo. mas dá para imaginar que ela poderia então se elevar e lançar um tonitruante “Mas como é possível ser tão burro!” Examinemos então aquilo que entendemos. ele nos deixava cozinhando com problemas de força. Quando lhe perguntávamos como havia chegado ao resultado. realmente! Mas como se pode ser tão burro?” Nunca entendemos por que era tão necessário multiplicar por dois e dividir por três. de tal maneira que escrevia o enunciado do problema… e a solução. ele era extremamente lacaniano. não entendemos nada. ele ficava indignado. por que o senhor multiplicou por dois e dividiu por três?” Ele então ficava ainda mais indignado. o título “Kant com Sade” e as primeiras linhas do texto. impedância. trovejava: “Mas como é possível ser tão burro! Vamos arrumar nossas coisas em silêncio e não vamos esquecer de trazer a solução desse problema infantil na próxima semana!” Sem sabê-lo. Ou seja. é por se tratar da mesma coisa: o início e o fim são claros. massas. ótica e sei lá mais o quê. Mas. muitas vezes. Quando chegava o momento das experiências de física. se indignava com a plateia. que. Entre os dois. a mãe permanece proibida. dizendo: “Mas como não sabem? Mas como não entendem? É tão simples. basta multiplicar por dois e dividir por três! Ora. Kant e Sade. Falta apenas a voz de Lacan.interessam no mais alto grau. esta conclusão a peremptória: “V…ada e costurada. É confirmado nosso veredito sobre a submissão de Sade à lei. perdia o fio da meada da demonstração. professor Mascomo. muitas vezes. limpava os óculos e. enxugava o rosto com um pano cheio de pó de giz. um de nós tomava coragem: “Mas. para serem resolvidos. as proezas do professor Mascomo me vieram à mente.

Lucrécio teria raciocinado muito melhor se conhecesse esse fluido. numa palavra. a convenção — o que remete à velha distinção filosófica. diremos que ela dá a verdade da Crítica. Assim é que Lacan. depois de ter visto que com ela se harmoniza. vale dizer. Ele não repete o erro de Adorno e Horkheimer. que ainda por cima teria estado presente no nazismo. essa excelente ideia não leva muito longe. logo de entrada. nós demonstrarmos que também a completa. É absolutamente verdade. ele é o centro da dor e do prazer. mas não extrai disso nenhuma consequência. Sade pende nitidamente para o lado da natureza: ele assume plenamente os fluidos naturais que nele correm e que fazem dele um objeto entre tantos outros da natureza. marca um ponto contra aqueles (Bataille) que afirmam que Sade transgride. e. Lacan o sabe. puxada na direção de uma mãe natureza arcaica destruidora). não é possível qualquer discussão sobre questões éticas se essas duas leis não forem distinguidas. o lado da lei. Se.254 Lacan sabe que a lei de Kant e a lei de Sade não são a mesma. portanto. A lei de Sade diz: “Goze!”. a Lei da natureza (tal como revista e corrigida por Sade. por um lado. do mesmo lado. Temos. Naturalmente.” Kant e Sade estão. Lacan afirma que Kant e Sade se submetem à lei: “A filosofia na alcova vem oito anos depois da Crítica da razão prática. entre physis e nomos. que vinte anos antes tinham tentado mostrar que os personagens de Sade obedeciam a um imperativo categórico kantiano. o contrário. sem chegar a apreendê-la. Ora.207 O início de “Kant com Sade”. Simplesmente porque Sade e Kant não estão sujeitos à mesma lei. pois todos os seus princípios giravam em torno dessa verdade. por exemplo: Dá-se o nome de espíritos animais255 [escreve Sade] ao fluido elétrico que circula nas cavidades de nossos nervos. a única alma reconhecida pelos filósofos modernos. e a de Kant diz algo como: “Sobretudo não se escravize a suas paixões!” — ou seja. por outro. não há em nós sensações que não nasçam dos abalos causados a esse fluido. como se lhe bastasse a posição marcada contra Bataille.256 . é. como aqui. Ora. a lei dos homens. derivada dos gregos. O que pode ser ilustrado da seguinte maneira.

a que remete às pulsões. Sade optou pela obediência incondicional às paixões (que desde Freud chamamos de pulsões). no entanto. Ele perde então sua liberdade. E o que Sade quer é poder pulverizar a lei simbólica. por uma séria mancada que torna seu texto ilegível. o noûs. no mesmo ano em que Sade publica A filosofia na alcova. e a primeira alma. sobre aquele que escolheu o egoísmo. Da mesma forma. pelo lado bom — teria sido fácil demais. Não. não obstante o título. herdeiro dos Antigos. com efeito. sede das paixões concupiscentes na alma. como escreve na Crítica da razão prática (V. à maneira de um moralista. das pulsões.Entre aquilo que os gregos chamavam de épithumia. a única instância capaz de mantê-las sob rédeas. Sade provavelmente concordaria com a seguinte afirmação de Kant: . claro. o amor incondicional de si mesmo. ceder incondicionalmente às paixões é a pior coisa que pode acontecer a um homem. Kant conclui naturalmente — e Sade certamente estaria de acordo — que “o amor de si mesmo adotado como princípio de todas as nossas máximas é a fonte de todo mal”. pois parece que nele Kant discute o caso Sade. vale dizer. Mas mostrando que não se pode opor nada a alguém que escolha o mal. E.257 Ele chega inclusive a considerar a épithumia “a única alma”. foi retomado na primeira parte de um ensaio mais amplo intitulado A religião nos limites da simples razão. o noûs. a terceira alma. intitulado Ensaio sobre o mal absoluto. como Sade não se cansa de pregar. Para isso. ele precisaria ter entrado um pouco mais na problemática kantiana. Seria possível porque existe um texto extraordinário de Kant escrito em 1795. Ao passo que Kant. a liberdade que consiste em poder “viver uma vida independente da animalidade”. vale dizer. mal aflorada nesse texto. que não ignora as paixões. optando de maneira voluntarista. Ele se questiona. o elemento racional. com efeito.258 É um texto perturbador. Essa diferença fundamental de lei não é realmente abordada por Lacan — e ele pagaria caro por isso. O que Kant quer é que a lei simbólica seja um artifício suficientemente poderoso para manter as rédeas da suposta superioridade natural da lei natural. 77 f). ou seja. soltando as rédeas das leis da natureza. seria possível explorar o problema. Para Kant. interpõe a elas a outra alma. sobre aquele que escolheu outros princípios e outras máximas que não os da moral. ter liberdade de deliberar sobre as intimações de suas paixões. Esse texto. contudo.

pois perverte a ordem moral em relação às motivações de um livre-arbítrio. Temos aí então material para um debate entre Kant e Sade. longe de ir de encontro a Bataille com uma nova interpretação vinculando a transgressão à lei. por ser impossível. Para dizer de outra forma: não houve nem jamais haverá relação textual entre Kant e Sade. A maldade (vitiositas. Kant reconhece. como o Dr. Ela também pode chamar-se perversidade (perversitas) do coração humano. com isso. já em 1795. Temos aí o que desde Lyotard é chamado de diferendo — que se caracteriza por não permitir qualquer encadeamento discursivo entre duas posições. a tal ponto que considerava impossível destruí-la. pois se trata de um efeito possível do seu livre-arbítrio. reduzi-la ou simplesmente contradizê-la. como afirmam certos bons textos dentre os raríssimos que ousam enfrentar a questão. Se é verdade. pois. (…) a maneira de pensar é assim corrompida em sua raiz e o homem é. Basta ler o Ensaio sobre o mal absoluto para entender que Kant não precisou esperar Lacan para discutir com Sade.260 Aqueles que no meado do século XX tentaram reunir novamente Kant e Sade deveriam ter começado por se lembrar do fiasco absoluto e definitivo desse primeiro (e último) encontro.261 que “o objetivo principal de Lacan [na época de “Kant com Sade”] era demonstrar de que maneira a Lei moral é incapaz de anular o desafio do discurso perverso”. com efeito. Lacan. O “mau” de Kant é simplesmente o “celerado” assumido por Sade — aquele que consente com suas pulsões sem levantar objeções. imaginou a possibilidade da posição sadeana. Kant teria ficado muito surpreso de constatar que um grande especialista das “doenças da cabeça” no século XX. melhor seria dizer claramente que. de tal maneira os interlocutores se aferravam a premissas rigorosamente antagônicas. pravitas) […] é a inclinação do livre-arbítrio para máximas que subordinam as motivações extraídas da lei moral a outras motivações [o egoísmo]. que nada pode ser objetado a alguém que escolha o mal. De modo que o encontro entre Kant e Sade efetivamente ocorreu… em 1795. tanto mais apaixonante por não ter solução. E logo se verificou… que ele não poderia realmente ocorrer. marcado como mau. Lacan limita-se .259 viesse um dia a criticá-lo por não ter contemplado a perversão.

O professor Mascomo multiplicou por dois.262 Se fizermos o balanço dessa parte de “Bataille com Lacan”. A frase remete. nobres damas.a arrombar uma porta… aberta desde 1795 pelo próprio Kant. naturalmente. que. Por que tanta “gaze”. 208 Fim de “Kant com Sade”. parece de fato que exatamente onde se julgava à frente é que Lacan estava atrasado. Deixemos de lado a estranha precaução de Lacan. Blanchot parte. Lacan exulta. A questão passa a ser então saber o que fazer com esse homem sádico. ordenada segundo um quiasma tipicamente blanchotiano — e eu a reformulo da seguinte maneira: se o homem normal não confina o homem sádico num impasse. podemos supor. deu-se perfeitamente conta. à Sra. atrasado na problemática crítica. calculou raízes cúbicas e finalmente chegou ao bom resultado: “V… ada e costurada. que descobrira a existência irremediável do mal absoluto ao lado da lei moral. por ordem de Dolmancé. como logo veremos.” Em nossa opinião. ainda por cima. dividiu por três. a mãe permanece proibida. em A filosofia na alcova. de Mistival. especialmente tratando-se de apresentar um texto de Sade. da mesma constatação que Kant: existem homens sádicos que jamais poderão ser convencidos a deixar de sê-lo. com efeito. mas é um ponto fraco. Conhecemos a esplêndida resposta de Blanchot. pois com isso se caracterizava sua incapacidade de se fazer o analista dos dois. Com isso. propositalmente contaminada com a sífilis pelo valete Lapierre. é o homem sádico que fará desse impasse uma saída. na medida em que é um dos nossos possíveis ou mesmo em que está em cada um de nós. trata-se de uma verdadeira mancada de Lacan. quando as palavras “violação” ou . No caso. Ela é consecutiva a sua não distinção precisa das duas leis. É confirmado nosso veredito sobre a submissão de Sade à lei. a mãe de Eugénie. notaremos que Lacan pode ter marcado um ponto contra Bataille. pois ele logo perderia sem apelo para Blanchot — algo de que. que acaba de ser violada por todo o bando de celerados — incluindo viscondes e marqueses. de Blanchot em relação a seu amigo Bataille. valetes e a mocinha — e. de encobrir o termo “violada”. escrevendo “V… ada”. teria sérias consequências. verdadeiramente pós- kantiana e pós-sadeana.

a porta continua fechada” — não há truque que possa transformá-la numa proposição sustentável. sobre o fato de “V… ada” também poder significar variolada (“sifilítica”). que. Mas deixemos por enquanto em suspenso essas questões. por sinal. Violar só pode significar derrubar a proibição. Quanto a “costurada”. às vezes. De fato. sabemos que é uma referência ao fato de a Sra. sem se dar conta de que não havia relação entre “violada” e “proibida”. depois de violada e variolada. que tantas vezes não hesita em sacar termos bem apimentados. paronímia. inversão. o qual. proibida” é pior ainda. poderia com razão ser em parte apagado num texto filosófico e literário. a única coisa que muitas vezes retêm do texto. O que não impede muitos lacanianos de repetir essa frase de efeito — por sinal. nas décadas de 1950. exceto para zombar da . Cabe estranhar que nenhum comentador se tenha questionado sobre esse excesso de decoro de Lacan. graças à qual podemos passar sem problemas de qualquer significante a qualquer outro. só pode ser porque esta não é mais proibida simbolicamente. cortando os significantes indefinidamente. Sartre se veria obrigado a escrever “p…”. resulta em explicações divertidas: repete-se com toda seriedade a fórmula capenga e se comenta com muita arrogância e preciosismo um ínfimo detalhe. O que. Mas “costurada. nem. proibida. assim como existem duas leis. Se a filha viola sua mãe. sendo realmente um termo familiar. ter sido costurada “na boceta e no cu” por sua filha Eugénie e por Dolmancé. logo. transliteração. O sintagma “Kant com Sade” já não era sustentável. permutação.. mas constativos existentes no campo jurídico? Nada a ver com “puta”. Parece então que o espírito de Lacan foi assaltado por uma evidência: costurada. Não se pode violar e voltar a violar alguém e dizer que continua proibido. Ora. resultando A P… respeitosa. a outra no real. Há inclusive certos audaciosos que a comentam. Mistival. termo grosseiro e insulto. e vimos por quê. etc. Uma no simbólico.263 Rapidamente chegamos então ao ponto em que o pensamento se transforma numa prática cabalística: precisamente a da témoura (ou arte de permutar as letras). logo.“violada” não constituem insultos. a mãe permanece proibida” é tão carente de sentido quanto se disséssemos: “Aberta. por interpolação. a expressão “V… ada e costurada. existem duas proibições.

em vez de venerar um grande rei em sua glória. Quando isso acontece. bela mamãe. com ser proibida porque costurada? E. na cabeça de cada um. e tudo isso numa moça que só hoje é desvirginada!… Quantos progressos. pois o que foi destruído. falaciosa. sendo. Ele é um pouco mais grosso [o consolo] que o do seu esposo. Dolmancé. sodomita. mas na posição do fantoche estraçalhado. que. como afirma Lacan. como se diz. É exatamente o que acontece à mãe. A única solução. ao contrário. Ora. não é mais apresentada como proibida. mas “violada”. desconstruída no exato lugar onde se apresentava como proibida. O que significa que o rei não é mais o que era: voltou a ser um indivíduo comum que já não é objeto de qualquer proibição. E não o faz por inadvertência. Eugénie de fato viola sua mãe. será . no entanto. sendo aplaudido. Caberia supor que Lacan. “em algum lugar”. vai entrar… Ah! você grita. nu. “Costurada”. minha querida? Não importa. exatamente como se. ele fosse levado a dançar no meio de seus súditos. adúltera. é precisamente porque ela não é mais proibida simbolicamente. não é mesmo. porque essa não pode se concatenar com “proibida”. e é a revolução. o sabe? Será talvez por isso que evita o corpo da palavra “violada”. diz-se que o rei está nu. você grita. com isso. que eu lhe sirva de marido. a imunidade simbólica da mãe. proibida. mas sabendo perfeitamente o que está fazendo. com uma pluma no cu. minha mãe. será transformado em objeto de zombaria ao ser exibido. da mãe. a intocabilidade compartilhada. não. venha. já que declara: Venha. a mãe não está mais na posição proibida da mãe. sim. meus amigos!…264 A brincadeira não para por aí. lamentável e tristemente risível que todo mundo arrebentou de todos os lados. me enraba!… Eis- me assim ao mesmo tempo incestuosa. quando sua filha a fode!… E você. Como é que o grande pensador do simbólico que Lacan é nessa época pôde confundir o fato de ser proibida. em seus trajes de aparato e condecorado com suas insígnias de poder e autoridade. é perfeitamente claro que se é necessário costurá-la no real. Ao ser solta.proibição.

O que se assemelha muito a uma renegação perversa: “Eu sei que ela acaba de ser violada. pelo menos numa primeira etapa. de Mistival continua proibida embora acabe de ser violada. como Lacan não o fez. ou seja. um sintoma preocupante aparece nesse texto: ele proclama. pelo menos circunscrever seu campo de pertinência. a respeito de Sade. levando em conta apenas a forma em que uma voz. do método do professor Mascomo. despertará sobressaltado para dizer que o que se perdeu nessa operação foi “iol”. 210 Esperamos que tenha ficado claro que até aqui estávamos meio emburrados. O texto de Lacan realmente é muito pouco legível. para que “Kant com Sade” funcionasse. que nada imaginou do que acabamos de ver. E é aí que o nosso cabalista lacaniano. que Lacan distinguisse as duas leis e as duas modalidades opostas da proibição. O clínico sutil que é Lacan aparece de fato em seu papel quando observa. qualquer que seja. a palavra “lei” invertida — e. Mas fazer essa opção clínica implica um preço a pagar: será necessário esquecer os conteúdos eminentemente diferentes dessas vozes.265 tudo tende a voltar aos trilhos. nesse caso.transformá-la numa palavra vazia. Optando-se por dizer que ele é muito mais clínico que filosófico. Entretanto. ele terá razão!******** eu sei que ela acaba de ser violada. que a Sra. Allouch. no coração de seu texto. mas ainda assim continua proibida… 209 Teria sido necessário então. que tanto o imperativo kantiano quanto o imperativo sadeano se impõem ao sujeito por uma voz que intima a seguir um mandamento. mas se realmente se quisesse seria possível. Assim se explicaria a estranha escrita de “violada” com reticências. começa . com efeito. se não explicar tudo. mas ainda assim continua proibida…” Poderíamos ficar por aí… a menos que isso sirva para esclarecer algumas questões até agora sem resposta: sobre o Sade dos intelectuais franceses na década de 1960 e sobre o preço que a psicanálise francesa teve de pagar para a utilização.

266 É então da voz do mandamento. segundo Lacan. é preciso dizer claramente: esse texto decepciona. se reconhecermos que ele fala de questões clínicas precisas: entre outras. perversos ou psicóticos —. Se Lacan se tivesse limitado a conferir a seu texto um simples alcance clínico. Como se sabe. embrulha tudo. não raro de maneira intempestiva. contemplar a hipótese de que esse texto não decorra apenas de uma preocupação clínica. no caso. E ela pode ser. Até pelo contrário: mais ainda que o neurótico ou o psicótico. Ora. tal como se dirige ao sujeito. de explicar esse texto para justificá-lo filosoficamente até em suas contradições. a que expressa a lei simbólica (kantiana) e a que expressa a lei (sadeana) da natureza. seus aspectos obscuros ou seus silêncios. misturando essa posição ao seu exato contrário. à ascendência do Outro que ordena. portanto. uma voz interior (Lacan menciona então os “fenômenos da voz. portanto. poderíamos ficar por aí e reconhecer sua contribuição. em nossa opinião. como. E desse ponto de vista podemos de fato dizer que tanto Kant quanto Sade. na voz de Hitler). Não só não toma o cuidado de mostrar bem a especificidade da posição kantiana. de qualquer maneira. Não seria o caso. pois parece então afirmar a identidade de duas vozes absolutamente diferentes. Pois é efetivamente de lei que se trata nesse texto. naturalmente. uma “voz no rádio” (pensamos. podem ser submetidos a esse tipo de voz. especialmente quando abordava a questão da lei. Mas se ele for forçado num sentido filosófico. contendo também uma intenção filosófica ou mesmo resultando dela. Nesse caso. e mesmo além . que se impõe então ao sujeito.a dar ordens ao sujeito. Tanto mais que. Devemos. no entanto. como tantas vezes se acredita. É então evidente o interesse clínico para a questão da perversão: o perverso não escapa. sobretudo tratando-se de lei. invariavelmente sobrevêm graves consequências — o que logo examinaremos. sobretudo. a da voz imperativa que fala no sujeito. o bom doutor nunca se eximiu de entrar no debate filosófico. o perverso é aquele que pode fazer-se objeto do Outro e mesmo objeto do gozo do Outro — a apatia sadeana encontraria aí uma possível explicação. especificamente os da psicose”) ou ainda a “voz da consciência”. ele gera efeitos filosóficos. De modo que esse texto de Lacan só se sustenta. evocada com excessiva rapidez. logo perde sua consistência. qualquer que tenha sido a intenção. que se trata então. quando se misturam as coisas. como muitos outros — neuróticos.

de qualquer equipamento retórico — não será aos psicanalistas que vamos explicá-lo. com todos os outros autores encontrados pelo caminho. no gênero demonstrativo. mais tarde. no “Kant com Sade”. Ora. Proceder dessa maneira. Ora. portanto. não se discute. através . que de fato apresenta certos aspectos benéficos. coloca-se na posição de forçar o outro a reconhecer uma contradição na sua fala ou um argumento contrafactual. como tentaram alguns (muito poucos). basta partir do fato comprovado de que todo texto propõe. Aquele que pretende demonstrar o indemonstrável. pretender explicar tudo. calar-se. Lacan “sadiza”. mesmo e.”268 Em suma. sobretudo. Calar-se no bom momento faz parte. Se quisermos permanecer nesse modo. em vez de responder. E o único método possível consiste então em aplicar a regra do contra negantem principia non est disputandum — que poderíamos traduzir assim: “Diante da negação do princípio. segundo seu gênero. ao qual logo voltarei. Philippe Mengue. Fazer essa opção seria mesmo redibitório. seria na verdade a maneira mais certa de cair na rede. isso impede o funcionamento correto da objeção. a partir de um estudo muito percuciente do início de Os cento e vinte dias…. Que rede? Simplesmente a rede sadeana. opor-se a essa maneira de fazer. portanto.267 Estaríamos simplesmente entrando na esfera do pior dos discursos universitários aplicado à psicanálise. vejamos! Para isso. Pois esse texto sobre Sade bem que poderia revelar-se mais ou menos sadeano. de maneira a fazê-lo cúmplice do que nele é afirmado ou mostrado. mostra muito bem que o texto sadeano funciona como uma artimanha para captar o leitor à força em seu dispositivo narrativo. assim por diante. exatamente como em suas teses sobre Joyce. base de todo bom discurso crítico.disso. É oportuno lembrar aqui que forçar o outro — inclusive na leitura — é justamente uma estratégia que Sade praticou muito. fragmentos 63) — e provavelmente “platonizaria”. “cartesianaria” e. será necessário. Não podemos rejeitar sistematicamente o método. de Mistival continua proibida quando acaba de ser violada. pois então já não se questiona o escrito do exterior.269 Contemplo assim a hipótese de que. que este pode aceitar ou recusar. um contrato implícito com o leitor. não se haverá de querer demonstrar-nos o indemonstrável: que Sade e Kant estão no mesmo lado da lei e/ou que a Sra. o incompreensível. com efeito. haveria de “joycizar” (cf. Se não.

o funcionamento importado do texto original. Vemos aí ser gerado o nó no qual. precisamente ao extraordinário seminário de Lacan sobre A ética da psicanálise. pura e simplesmente. Já não é o que acontece com a moral kantiana: “A passagem é dada por Kant”. com o risco de assumir por conta própria. me compele a considerar o outro um meio para realizar meus fins. mas do interior. Lacan parte daquela que está no cerne da tradição moderna: a lei moral kantiana. opostas termo a termo: a lei kantiana. estaríamos apenas imitando. “quando postula que o imperativo moral não se preocupa com o que se pode ou não se pode. os efeitos de sadização sobre o leitor. não universitário. aquilo que ele nega logo de entrada. devemos voltar alguns anos antes. em dado momento. Peço vênia então para recusar-me a discutir ainda mais esse texto. uma moral pragmática funcionando caso a caso. pois isso pressuporia a aceitação dessa sadização. no caso. Recomendava a prudência.” Era. E mesmo muito bem. pelo contrário. caso contrário. mas demonstrativo (“apofântico”. Como se poderia esperar. Mas isso impõe a retomada. através de efeitos de mímese que revelam o trabalho específico do texto (como no trabalho analítico). Parece evidente que Lacan começa bem. o próprio Lacan se deixaria apanhar. E começa muito justamente por observar que ela se distingue fortemente da moral tradicional: “A moral tradicional se instalava naquilo que se devia fazer na medida do possível. ao ultra-hermético “Kant com Sade”.de conceitos (como no discurso erudito). no caso. sabendo-se que existem duas delas. no qual é encetada (no último capítulo) a discussão sobre Kant e Sade. diz Lacan. ao que me parece. alguns anos depois. Como são discutidas questões de ética. 211 Para entender algo do erro de “Kant com Sade”. que. a discussão volta-se naturalmente para questões de leis. que me obriga a considerar o outro um fim em si mesmo (e não um meio para realizar meus fins). para comentá-lo. que se começasse por compreender. antes de se atirar nesse texto como se fosse a boca do lobo. do discurso. O testemunho da obrigação. leis morais. em nossa opinião. portanto. e que infalivelmente haveria de levar. na . como se diz no campo filosófico). e a lei sadeana (aquela que diz: “Goze!”).

mas que é indispensável ao funcionamento eficaz dessa razão prática: é “nesse lugar”. Em suma. escolhamos o seguinte. da melhor estratégia. ao contrário do que se acredita. terei de me submeter. portanto. minha liberdade. teria sido mais difícil para ele perder-se em seguida. como se costuma dizer a propósito de Kant. devo ipso facto aceitar ser eventualmente instrumentalizado pelo outro. “[que] podemos. Parece certo que se Lacan tivesse tentado demonstrá-lo. já que. Para que este toma-lá-dá-cá seja possível.medida em que nos impõe a necessidade de uma razão prática. se não quisermos seguir o mesmo caminho que ele. existe uma “topologia do desejo”: ele deve ser situado no vazio da definição kantiana. aquela que se formula da seguinte maneira: “Considere o outro um meio para realizar seus fins. Não se trata. da máxima sadeana. quaisquer que sejam suas tendências ou suas aversões em matéria de caridade. Em suma. de algo que não é dito no texto de Kant. É exatamente o que faz Lacan quando completa a máxima kantiana em relação ao outro (o outro como fim e não . A análise de Lacan é notável. Em consequência. Suponhamos que partimos do inverso. vejo-me na situação anterior e caio em seu poder. mais vale passar por essa demonstração. inclusive em relação a mim. reconhecer [o do] o desejo”. no e pelo gozo do outro. caso contrário. não é uma síntese máxima paracristã. que nos parece concludente: a demonstração pelo absurdo. conclui Lacan. Existem provavelmente vários caminhos possíveis. essa moral delimita o lugar de um vazio. se ele passar ao ataque. Ele começa por indicar que a máxima de Kant. deverei reconhecer que o outro também possa adotá-la. ou seja. não é uma simples máxima de caridade. Devo então admitir que venha eventualmente a perder. mas uma fórmula lógica. Para evitar essa perspectiva desagradável é que tenho interesse em adotar a máxima kantiana. portanto.” Se adotá-la. é preciso necessariamente que o outro possa ver-me diante dele como alguém que assume realmente seu desejo. se o outro for mais forte que eu. aplicando-se como tal a cada um e a todos. aquilo que mais prezo. A única solução possível. na qual ofereço ao outro considerá-lo um fim em si mesmo.” Ora. se for o caso. se a adoto. analistas. é um Tu deves incondicional. contudo. é escolher a máxima altruísta em primeiro lugar e completá-la com uma máxima egoísta enxertada em meu próprio desejo. esperando que isso o induza a adotar por sua vez a mesma máxima altruísta em relação a mim. nós.

longe disso. ela é transformada. Abre-se assim o debate sobre uma possível refundação da ética através de uma articulação inédita da máxima altruísta com a máxima egoísta. Com isso. é necessário articular… Kant com Sade. já que a escolha do amor privatus destrói o amor socialis — o amor de si mesmo levado até o desprezo pelo outro.” A posição de Lacan revela um ponto capital: a partir do momento em que a máxima sadeana é sustentada. devendo dialetizar-se com a máxima kantiana. que leva apenas a um outro impasse. E isso nos tira da alternativa sadeana. na ética. sufocava o amor privatus — o amor ao outro levado até o desprezo por si mesmo. ou seja. não por si mesma. desde Santo Agostinho. pois tira a filosofia moral da esfera da psicologia — extremamente duvidosa. De modo que a discussão sobre a ética da psicanálise. Não assimilá-los. ou então: “Não cederás em teu desejo. não é apenas uma discussão sobre a ética na psicanálise. mas como complemento. optando pelo amor socialis. Esta segunda máxima é formulada da seguinte maneira no último capítulo da Ética da psicanálise: “Agirás de acordo com teu desejo”. o dilema dos prisioneiros 212 A intervenção de Lacan é muito importante. O que poderia ser dito de outra forma: para se entender. pois repousa integralmente no amor próprio e mesmo no egoísmo. Com efeito. pois encontrou o limite que o outro pode opor- lhe. conduzida por Lacan. mas articulá-los. esta segunda máxima é de essência sadeana. Ora. já que pressupõe indivíduos a priori bons (como Rousseau) ou maus (como Hobbes) na sua essência — para transformá-la num autêntico problema lógico. Não é todo dia que encontramos o complemento necessário à máxima kantiana. simplesmente saímos do impasse que prevalece há quinze séculos. Trata-se de uma esplêndida descoberta de Lacan. ela não pode mais expressar-se como lei do celerado (aquele que obedece às intimações de suas pulsões).como meio) com uma máxima em relação a si mesmo. do ponto de vista científico. mas como lei do desejo. . o qual.

A e B.271 Um caminho extremamente inovador é aberto aqui. desenvolvendo seus aspectos lógicos.273 Cabe lembrar que esse problema foi enunciado pela primeira vez dessa forma. porque é lógico. aquele que denuncia será libertado e outro será condenado a dez anos. A coisa vai do “dilema dos prisioneiros”. a partir da década de 1950.270 a seu interesse pela cibernética. 2º Nenhum dos dois denuncia o outro. 3º Apenas um dos dois denuncia o outro. já que enriquece a discussão sobre a ética e a escolha das máximas (egoísta ou altruísta) com as contribuições da teoria dos jogos. Haveria. que costuma ser enunciada da seguinte maneira: Suponhamos dois prisioneiros. Neste caso. tal como expresso não na versão complexa de Lacan. Neste caso. para colocá-la a serviço de sua reflexão sobre os eternos impasses da ética e as possíveis superações que a reflexão psicanalítica acaso permitiria. ao considerar que a escolha das máximas depende de um “você deve” que só pode ser incondicional. por pesquisadores da RAND Corporation. cada um será condenado a dois anos. E. cada um deles será condenado a cinco anos de prisão. já em 1945. que ele havia comentado.274 Este problema logo provocou inúmeras discussões científicas. O juiz propõe a cada um deles a seguinte barganha: denunciar o outro em troca da suspensão da pena. Lacan propôs a primeira articulação possível entre as duas máximas. detidos em celas separadas. cúmplices de um crime. se Lacan tivesse ido um pouco mais longe nesse terreno. Neste caso. três possibilidades: 1º Ambos se denunciam. na década de 1950. assim.272 Kant abriu o caminho nesse terreno. teria podido valer-se de suas ruminações sobre a lógica. tendo sido estudado de forma sistemática . aquelas mesmas que despertavam o seu interesse nessa época. mas numa versão simplificada. Vieram em seguida as discussões sobre a escolha das máximas a partir de uma reflexão sobre o famoso dilema dos prisioneiros. por sinal. sem possível comunicação.

em função do que o outro fará. portanto. Lacan. Se fosse necessária uma confirmação da pertinência da orientação de nossa investigação. Ou seja. É possível chegar a essa posição instantaneamente.277 Assim é que a dedução transcendental. especialista americano em ciências políticas. ainda que ele não a use. precisamente. poderíamos encontrá-la no fato de que precisamente essa máxima está em discussão há trinta anos num dos mais importantes think tanks americanos. de que não deve infligir nem se sujeitar. revela que a máxima altruísta deve ser completada por uma máxima egoísta — o que poderia ser dito de outra forma: a minha máxima kantiana deve. A solução ideal (assim considerada quando beneficia o maior número possível de indivíduos). que. ou seja. em seguida. portanto. O único problema é que ele nem desconfia em que medida pode ter razão. indo diretamente aos resultados. tem razão. esta máxima derivada da reviravolta da metafísica ocidental. Em outras palavras. suscetível de ser usada não como estratégia primeira. essa dedução transcendental pode ser feita inconscientemente: ela surge então como a posição espontânea que permite a regulação ideal da relação com o outro. portanto. consciente ou não. alcançada depois de uma série de cálculos teóricos. Aqui poderíamos nos perguntar se uma dedução transcendental extremamente complexa seria necessária para chegar a essa posição e nela se manter na ação prática. de tal maneira que os participantes guardam na memória os encontros anteriores. de Pascal a Sade. “toma-lá-dá-cá”).275 É esse problema.na década de 1980 por Robert Axelrod. que aos poucos se impôs. que introduziu uma variante suplementar.276 Farei aqui como o professor Mascomo. o que significa propô-la ao outro. que vamos encontrar no cerne dos estudos que permitem avaliar a pertinência da escolha da máxima egoísta nas e pelas sociedades liberais. deverá estar preparado para um recuo imediato a uma máxima egoísta. necessariamente. mas como recurso. como tentamos demonstrar. advertindo o sujeito. Creio que não. antes mesmo que ele pense a respeito. deve estar pronta. ser completada por uma máxima sadeana. sabendo que. o tempo: o jogo é repetido. Não vê em que medida sua solução permite entender os . para ver. é obtida quando o jogador adota inicialmente a estratégia altruísta (chamada tit for tat. experiências práticas e simulações em computador.

esquecendo que encontrou o limite do outro. conseguiu. por sinal. Em outras palavras. Assim é que a segunda máxima viria a recalcar a primeira: uma virada sadeana. Desde então. Sade é onde Lacan enguiça. à exclusão da outra? É como se Lacan estivesse tão feliz com sua descoberta sobre a utilidade da máxima sadeana que esquecesse que ela não se sustenta sem referência à de Kant. cada um quer dotar-se de um lindo superego sadeano. onde Lacan enguiça 213 Lacan conseguira tirar a ética-da-psicanálise da ética-em-psicanálise. de uma máxima que diz: “Não . não pode deixar de voltar a ser a lei do celerado (aquele que só obedece às intimações das próprias pulsões). a referência ao desejo desapareça da nova máxima lacaniana. o próprio Lacan reconduz suas descobertas ao campo da ética-em-psicanálise. articulando. Ele teria dois efeitos principais: 1º o erro de “Kant com Sade”. Ora. pegar Lacan por trás. Revela-se assim que exatamente onde Lacan pensou ter colocado Sade no bolso é que Sade. que decorrem em linha direta das máximas antigas do amor socialis e do amor privatus. no qual este e aquele se veem simplesmente alinhados no mesmo campo. E. é significativo que. de forma original. Mas qual ética. com efeito. mostrando que a reflexão psicanalítica podia dizer algo que só ela era capaz de sustentar a respeito da cultura e da civilização. Ora. nessa oportunidade. Esse impasse decorre diretamente da cegueira de Lacan em relação a sua própria descoberta. cada vez mais presas da máxima sadeana. o da lei — o que desfaz qualquer possibilidade de articulação e autoriza todo tipo de confusão. Passamos. já que a máxima sadeana é que será promovida por ele. pela força incomparável de seus textos. a lei sadeana. as máximas kantiana e sadeana concorrentes.problemas contemporâneos nas sociedades liberais. inclusive do tipo: “Os nazistas eram kantianos”. 2º a irrupção na psicanálise de um sintoma perverso. a partir do momento em que não é mais dialetizada com a lei kantiana. impondo sua máxima egoísta em detrimento da máxima altruísta kantiana. como grande perverso. derivadas de Santo Agostinho.

um princípio: só o próprio psicanalista se autoriza a si mesmo. Isso haveria. De tal maneira que. Esse princípio é o seguinte. saber onde isto se escreve. Um princípio único derivado diretamente da máxima egoísta sadeana. portanto. apesar de não ser coerente com sua própria descoberta. Lacan menciona. vale dizer. apenas um princípio. a 9 de abril de 1974 (inédito). de se tornar a marca de sua escola. E esse enguiço durará muito tempo. na ocasião. acrescentando. seus próprios escritos. Só que ninguém sabe exatamente quem são esses outros. e eu acrescentaria: “… e alguns outros também”. no prosseguimento da sessão. haverá de se limitar a nomear os postulantes a integrá-lo pelo princípio do passe assumindo o risco de que não o haja. e não dois.” Temos. quando Sade ronda). o que permite um retorno à pulsão. encontramos logo no início do texto: “Antes de mais nada. desde então. não digo no lugar do Outro. Seria o Outro? Aparentemente não. aquela que viria a ser aplicada na formação do analista isenta-se de fazê-lo. nem é preciso dizer. à altura da primeira redação de “Kant com Sade”. mas acabamos entendendo que a coisa tem a ver com… o que se escreve. já que. imediatamente depois de fazer essa retificação decisiva: “Qual é o estatuto desses outros. assim é melhor. Se a máxima que se aplicava ao analisando na cura fazia menção ao desejo. Lacan declara. Ufa! respira a comunidade. se quiser me ouvir. que situa na continuação da… fórmula da cicloide de . senão que é em algum lugar. pois o mestre se prende a essa posição. quando não funciona (vale dizer. dizendo: “Tu te conferes autoridade” — a referência ao desejo simplesmente desapareceu. É exatamente aí que Lacan enguiça diante de Sade. fundada após a saída do IPA em 1963. Só o próprio analista se autoriza a si mesmo. que eu disse nestes termos. suas “fórmulas quânticas da sexuação”. citando a si mesmo: “Só ele se autoriza a si mesmo”. Ele haveria de reiterá-lo ao se dirigir ao grupo italiano em 1973: “O grupo italiano. Na “Proposição de 9 de outubro de 1967 sobre o analista da Escola de Jacques Lacan”. suas fórmulas dos “quatro discursos”.cederás ao teu desejo” a uma outra. entre outros. pois Lacan acrescenta. o complemento que deveria resolver tudo: “… e alguns outros também”. inclusive.” As afirmações que deveriam esclarecer essa reconversão ética são extremamente cifradas. não comprometida pela máxima altruísta kantiana.”278 Será que é tão evidente assim? Nem tanto. todos repetem incansavelmente a fórmula mágica. em algum lugar que devemos bem situar. na décima primeira sessão do seminário “Les non-dupes errent”.

fórmulas de aspecto matemático ou topológico que supostamente formalizariam a experiência clínica). o princípio aplicado após a retificação daria no seguinte: a máxima sadeana mais as fórmulas de Lacan. Mas não devemos perder as esperanças: julgo saber que começam a surgir certas iniciativas que vão nesse sentido. o mestre diz às suas tropas mais ou menos o seguinte: aferrem- se ao seu egoísmo e… entrem em confronto… brandindo as mesmas fórmulas. ainda que sejam os de Jacques Lacan. até o esfacelamento da escola Jacques Lacan — e mesmo depois. não é naturalmente para escurecer o quadro da psicanálise atual. mas exatamente pelo contrário: para fazer saber aos psicanalistas que precisamos do inusitado.279 O que é auspicioso. Ora. assim. Pois o verdadeiro corte está aí: entre a repetição ad lib das mesmas fórmulas e a invenção de novas fórmulas. adequadas ao desdobramento historial da aventura humana. permitindo pensar as formas atuais do mal-estar na civilização. E. Ora. ainda estamos longe disso. É possível. Como ela nunca foi realmente corrigida. de tal maneira que lhe vem a vontade absurda de dizer aos psicanalistas: reúnam-se apoiando-se nas antigas fórmulas apenas para melhor produzir outras. portanto. é exatamente o que aconteceu. seguiram-se muitos efeitos devastadores a longo prazo.Pascal. é porque o filósofo hoje carece dessa contribuição insubstituível. pois não estimula a invenção psicanalítica no momento em que o pensamento crítico atual tanto precisaria. não podemos deixar de constatar que a produtividade teórica de semelhante dispositivo institucional é fraca. assim. Se insisto nesse ponto. as minhas! Por estranho que possa parecer à posteridade. Não estou em condições de avaliá-los todos. que esses “alguns outros” não sejam ninguém em particular. Se recrimino. pois ainda nos encontramos diante dos efeitos da mancada do mestre. No fim das contas. pois não é possível repousar eternamente nas mesmas fórmulas e nos mesmos louros. que só pode ser dado a ouvir por um pensamento psicanalítico vivo. para pensar o mundo atual. mas dois pelo menos me parecem evidentes: . mas… matemas (vale dizer. com efeito. Ao promulgar esse novo princípio. mesmo se doravante em escolas ou sociedades concorrentes. eles continuam a se enfrentar brandindo as mesmas fórmulas.

— O segundo efeito mobiliza justamente essas microssociedades em relação ao resto da sociedade. Assim é que algumas se viram tentadas a se transformar em laboratórios. parece- me útil interessar-me um pouco por essas microssociedades. a ordem social em curso. por sinal: não faria sentido que os autênticos perversos quebrassem a cabeça para justificar suas posições em relação ao lacanismo. contra as diferenças sexuais e/ou geracionais. enquanto isso. Felizmente. Acrescentava que havia “uma microssociedade transparente em sua ordem incestuosa que se revela rica de ensinamentos para todos aqueles que se questionam sobre o mal-estar em nossa civilização”. mas a apoiar as práticas mais avançadas da Cidade perversa em construção: todas aquelas que mobilizam uma máxima sadeana (contra o poder do pai. em afastar todo debate que pudesse contestá-la e tentando utilizar em proveito próprio as transferências bloqueadas.280 Por isso é que. Como os contextos teóricos da psicanálise são por demais contrários à plena aceitação desse horizonte. Num curto e magnífico texto intitulado “Io”. pelo prover da mãe. Algumas das novas comunidades psicanalíticas começaram não só a acolher os sujeitos (o que naturalmente é normal). foi necessário hibridá-los com filosofias pós-modernas. deixando de analisá-la. Em suma. que implica o debate crítico com o outro). cada facção. a psicanálise. O que agrava o diagnóstico de Leclaire: essas microssociedades não se limitam hoje a repetir a ordem social. reproduz. que caracteriza a ordem social. que a prática da terapia não deixa de suscitar (o que naturalmente não é bom para a libido sciendi. ele se questionava sobre o fato de que “a psicanálise. estando entre “todos aqueles” que o mal-estar de nossa civilização interroga. começou a reproduzir em seu seio a virada sadeana. trabalhando na construção da Cidade perversa — o mais das vezes sem grande êxito. pela aceitação da perversão polimorfa…). mas procuram adiantar-se a ela. outros psicanalistas enfrentavam a única questão que realmente interessa: como se livrar da ideologia patriarcal sem . em sua história e sua prática”. de que muito havíamos falado. exortando à construção dessa Cidade: assim é que encontramos hoje várias variedades de foucauldo-deleuzianismos aplicados ao lacanismo. — O primeiro é interno à instituição psicanalítica. Refere-se à transformação da “sociedade psicanalítica” numa multiplicidade de microssociedades opostas entre elas por rivalidades declaradas ou potenciais — preocupando-se. Permito-me inscrever essas observações no seguimento das que Serge Leclair fez em 1978. em vez de analisá-lo.

********* Serge Leclaire muitas vezes me falou do lado patético desse homem. Dessas terras distantes é que ele às vezes se dirigia aos contemporâneos. É para extrair o máximo dele. Ele é. um filósofo que.281 cuidava das almas e. não para repeti-lo. Lacan desenvolveu um discurso poderoso e proliferante pelo qual. fazer a triagem naquilo que ele generosamente transmitiu à .quebrar a função paternal — aquela que exorta cada um que chega ao mundo a conter um pouco suas pulsões egoístas? 214 É claro que não desenvolvo esses pontos críticos para sobrecarregar Lacan. Lacan constantemente filosofava. Pelo contrário. como sabem tão bem fazer os “asnalistas”. ele próprio o sabia. produzindo efeitos de sentido cujas implicações ele próprio nem sempre podia captar. e não para que se repetisse o que dizia. Por isso é que devemos dizer a respeito de Lacan o que se costuma dizer da guerra e dos generais: trata-se de uma questão séria demais para ser deixada apenas nas mãos dos psicanalistas. Nesse sentido. por sinal. E. como tantos filósofos desde a Antiguidade. por sinal. Epimênides… praticando e fazendo praticar a anamnèsis (a reminiscência). refugiado em uma cena distante em que ele parecia discutir com os grandes mortos. de bom grado esquecendo os vivos que o cercavam. às vezes. Pitágoras. foi ele próprio superado. Se falava assim. no sentido de que muitas vezes se viu em posição de sint-homem (ver definição no fragmento 63). impressionou muita gente. passou a hora das adulações (nas quais tudo é repetido) ou das aversões (nas quais tudo é rejeitado). Precisamos começar a ouvir Lacan.282 Trinta anos depois da morte de Lacan. A ênfase que dava à primeira fala ritualística de suas sessões de seminários dá testemunho disso: o “… Estão me ouvindo?”********** lançado durante o trivial teste de microfone dava a ouvir uma solicitação e uma queixa emergindo de uma profunda solidão. sua criação é impressionante — e. pois decidira falar para todos. Empédocles. antes de mais nada. o que quer que dissesse. a todos aqueles que acreditam que esses “achados lacanianos” também podiam ser-lhes endereçados. era para que um dia se ouvissem seus “achados” e finalmente se discutisse com ele. mas para começar a discutir com ele. terçando armas com os maiores. Cabe.

feitos a cada passo por Lacan. logo depois da discussão sobre as duas máximas. parece-me ter relação com a incapacidade da psicanálise de se apropriar da nova forma adquirida pelo ser-junto e o ser-si-mesmo no regime liberal. danem-se. sempre foi a mesma. em qualquer circunstância. Que o trabalho não seja interrompido. A moral do poder. em toda incidência. como a de Hitler chegando a Paris? O preâmbulo pouco importa — Eu vim libertá-los disto ou daquilo. Lacan afirma o seguinte: Quanto ao que se relaciona com o desejo. Concatenando-se essas frases. O que significa — Que fique bem claro que não se trata de modo algum de uma oportunidade de manifestar o menor desejo. Quanto aos desejos. com sua organizaçãoe sua desorganização. Lacan não viu a que ponto sua solução de articulação entre as duas máximas teria permitido uma fina análise das novas formas assumidas pelo poder nas sociedades liberais. 215 O principal efeito da mancada de Lacan. histórica ou não. Que fique bem claro que não se trata de modo algum de uma oportunidade de manifestar o menor desejo. temos: “Eu vim libertá-los. no que tem de mehor e de pior. qualquer . Que o trabalho não seja interrompido. cada vez mais assujeitadas à máxima sadeana. que o impediu de extrair todas as consequências da descoberta realizada em A ética da psicanálise. danem-se. O essencial é isto — Continuem a trabalhar. Qual é a proclamação de Alexandre chegando a Persépolis. Seus êxitos e seus fracassos podem ajudar-nos a entender. qualquer que seja. sem os comentários. do serviço a ser prestado aos bens é — Quanto aos desejos. a posição do poder. Esse erro revela-se significativamente no primeiro capítulo de A ética….posteridade.” Isso é formulado como uma afirmação matemática sobre o poder. de alguma forma. no sentido de que se pressupõe valer sempre e em qualquer lugar: “A posição do poder. ou seja. Que eles esperem. o mundo atual. Continuem a trabalhar.

Digo ilusão porque não se viu que se aproximava uma modalidade completamente diferente de funcionamento do poder. relegando à margem da história o antigo capitalismo (mais para patriarcal). pelo contrário. que o estão tomando. podem vir logo. como sempre. quanto ao trabalho. a culpa é dos pobres. é globalmente apanhada na ilusão da época.que seja. Lacan reitera: “Uma parte do mundo orientou-se decididamente para o serviço dos bens. Em outras palavras. é um poder que não dirá mais: “Continuem a trabalhar.” O serviço dos bens é definido assim: “Continuem a trabalhar.” Cinco páginas adiante. em toda incidência. prometendo a satisfação pulsional generalizada e apostando nela). toda organização (vale dizer. que consiste em opor o desejo ao poder. e que nele podiam ser lidas coisas muito interessantes sobre a diferença entre a repressão das paixões (necessária) e a sobrerrepressão. histórica ou não. Se refletirmos um pouco. dirá: “Do desejo nós cuidamos. portanto. A tradução francesa data de 1958. Podemos ver também que essa oposição poder/desejo cheira a Maio de 68. a pulsão. temos como satisfazê-los em grandes proporções e mesmo além. a esse respeito. esse discurso não está tão distante das posições freudo- marxistas da escola de Frankfurt e das posições marcusianas em particular — basta lembrar. A qual logo alteraria consideravelmente a situação. em sua forma bruta.” Mas que. baseada na extorsão da mais-valia (opressiva). nas sociedades liberais. que é necessário acabar com essa ideia da sublimação freudiana dos desejos (que segundo ele tinha a ver com a sobrerrepressão). O que se forma. e diz: “Quanto ao desejo. a questão para o poder consiste em retirar. a questão do poder nas sociedades em que o “serviço dos bens” é importante.” . ou seja. que pode fornecer-lhes tudo. graças ao mercado. sempre foi a mesma. pouco antes do seminário de Lacan. danem-se. Marcuse acreditava. portanto. vale dizer. danem-se.” Esse poder entendeu. danem-se. a lição sadeana. o que permitiria colocar o desejo em posição revolucionária. dez anos antes. todo apoio) ao desejo e assim deixá-lo desorganizado.” Lacan aborda. Quanto ao trabalho. e quanto ao desejo.” E o desejo define-se assim: “E quanto ao desejo. essa proposição de Lacan. para finalmente gerar um novo capitalismo (esse capitalismo “sadeano”. assim. rejeitando tudo que diz respeito à relação do homem com o desejo. que Eros e civilização data de 1955. se não houver mais. portanto. Segundo ele. em qualquer circunstância.

Os freudo-marxismos poderiam ter recebido o bastão. de que maneira a coisa terminou. tanto mais que começam a analisar os processos de consumo. Quanto ao trabalho… danem-se. a pulsão. E a psicanálise não sabe o que fazer com suas descobertas éticas. podemos oferecer-lhes um objeto manufaturado. que poderiam ter-lhe permitido entender e superar o impasse sadeano. entretanto. “Desejem tudo que quiserem. iniciada na França na década de 1960. Ele não imagina que o capitalismo seja capaz de empreender uma tal conversão que passe a funcionar não mais na repressão do desejo. Sabemos. a partir da qual o pleno emprego se afastou cada vez mais e um índice cada vez maior de desemprego se instalou como constante. O marxismo permanece limitado aos processos de produção. que supostamente podem satisfazer todas as suas apetências pulsionais. encontramos uma exortação a acabar com as proibições do gozo. O que é responsável por essa cegueira é também o marxismo da época.” Essa transformação do poder. Essa confusão transformaria 1968 num momento complexo e contrariado. Foi. revolta contra o mundo sadeano em formação e exortação entusiástica a esse mundo. que se tornou o discurso do poder desde a década de 1960. amplamente difundido pelas indústrias culturais. ele não se dá conta da revolução cultural liberal em preparação. Por um lado. Este aspecto. e não é capaz de prever nada. como acabamos de ver. encontramos aí uma poderosa revolta espontânea contra o que está ocorrendo a respeito da exploração industrial do desejo em sua forma bruta. sem notar que o poder está utilizando o desejo. do desejo em seu valor bruto. em seu proveito. um serviço comercial. assim rebaixado ao gozo. Em outras palavras. na pulsão. Por outro. é que acabou triunfando: a questão era acabar com a necessidade da integração simbólica de uma subtração de gozo. . que impregna todo o pensamento contemporâneo. não raro. ficam presos na oposição clássica poder/desejo. mas. ao mesmo tempo. mas ele não é o único. mas na exaltação do desejo. coexistem nos mesmos indivíduos. do marxismo político aos freudo- marxismos. primitivo e não elaborado. portanto. parceiros em forma de objetos sexuais limpos. Duas tendências opostas que. um fantasma sob medida. é exatamente o que Lacan não soube prever. vale dizer. acompanhada de uma exortação a promover o gozo. o exato contrário do que diz Lacan. É o que explica o lado indecidível de 1968.

Mas o erro não seria completamente corrigido: o mais-gozar ficaria marcado por suas origens marxianas. Para achar o caminho. estamos mais que nunca nesse discurso. Seja como for. repousando numa análise do processo de produção e ignorando o processo de consumo. fica difícil identificar etapas diferentes no desenvolvimento do capitalismo. levou a melhor junto aos franceses.garantida pelas diferentes instituições. de maneira a liberar o mercado daquilo que limita seu desdobramento generalizado. O ponto máximo foi atingido na eleição presidencial francesa de 2007. derivado diretamente do conceito de “mais-valia” de Marx. Terá sido necessário 1968 para que Lacan se liberasse parcialmente dessa representação do poder. Ganhar mais para quê. o slogan “Trabalhar mais para ganhar mais!” mereceria por si só um estudo. se não for consumir mais e assim gozar mais? Cabe notar que o trabalho assim definido não serve mais para produzir nenhuma obra. Com efeito. será necessário partir das bases: um processo de produção baseado na extorsão da mais-valia.283 Digamos simplesmente aqui que o mais-gozar corresponde ao fato de que a mais-valia extraída também é uma reserva de gozo. nas quais o que é produzido pelo trabalho é imediatamente consumido. . A coisa passa pela invenção do conceito de “mais-gozar”. que prometia ganhar em todas as frentes — desde o trabalho até o gozo —. mas apenas para gozar mais — deve ser isso que eles chamam de reabilitação do trabalho. 2º ganhar mais. quando o discurso de Sarkozy. acompanhado de um processo de consumo baseado no gozo do objeto. uma mancada de Lacan 216 Se essa articulação do processo de produção com o processo de consumo é mal pensada. Nesse sentido. Limitemo-nos aqui a dizer que ele dava a entender que seria possível: 1º trabalhar. Aspecto que hoje seria o momento de levar em consideração. isso serve para nos aproximar muito das sociedades-fábricas de produção/consumo de Sade.

pensável sob o modo da proletarização do produtor (com a passagem da extorsão da mais-valia para a do maisgozar). uma exaltação do desejo em sua forma bruta. nesse caso. Para corrigir o tiro. uma máxima sadeana. o único lugar de onde poderia ser disparado o alerta não funcionou. devemos. em benefício do desempenho de uma tarefa parcelar que impede toda realização da obra. adictivos e depressivos. 2º ele é amputado da obra produzida quando era operário. que não terá direito apenas à reprodução de sua força de trabalho. Mais precisamente. Como a psicanálise lacaniana fizera sua. em grande medida comprometida com essas novas formas de alienação. já que. O que. mas compreender que existe também. 217 Se insisto tanto na mancada lacaniana a respeito de Sade. e sobretudo. naturalmente. porque essa psicanálise é a única disciplina com um discurso coerente sobre a relação do . mas também. parar de pensar que existe apenas uma repressão do desejo pelo poder. expondo-o a funcionamentos perversos. a do consumidor. Depois. Significa isso dizer que devemos virar a página? Certamente que não. é porque ela não permitiu enxergar de que maneira nosso mundo se tornava sadeano. Na antiga forma do capitalismo centrado na produção. a algumas parcelas de gozo. Primeiro. em seu próprio funcionamento institucional. ser proletário significava três coisas: 1º o indivíduo recebe apenas o que permite a reconstituição de sua força de trabalho. vale dizer. esse gozo do objeto era globalmente confiscado ao produtor que o havia produzido. a pulsão. pela proletarização do consumidor. Desse modo. mostrou-se. o desenvolvimento do capitalismo passa não só pela proletarização do produtor. Na nova forma do capitalismo. alguma coisa do gozo do objeto é concedida ao produtor. portanto. e sobretudo. insensível ou cega à propagação do princípio sadeano no mundo. muda tudo. pois também fora atingido pelo mal. 3º o objeto que ele produziu com seus semelhantes destina-se ao senhor. mas também ao consumo. a quem caberá fornecer objetos libidinalmente formatados. formatada para ser explorada industrialmente — o que conduz a uma proletarização nova. porque a psicanálise lacaniana foi a única a se opor à onda da ego-psicologia. em grande medida.

muitos sujeitos se veem bloqueados num funcionamento pulsional. O que assinala um descolamento. uma letra. até se ver obrigado a fechar as portas. E ele também estaria errado porque. Nos funcionamentos normais. Surge então um sofrimento psíquico inédito. o quantum de energia libidinal é extraído sem produzir inscrição psíquica. encontrará cada vez mais sujeitos sofrendo da exploração industrial de suas pulsões. um entalhe. que isso não lhe interessa. de maneira apática. Devemos simplesmente conduzi-la diante de uma nova questão: que é um objeto num processo de consumo que se tornou industrial? O psicanalista poderia dizer. . para entender o seu destino hoje. Mas estaria errado. mas em se remeter à lei da natureza. uma dissociação da pulsão. o que não deixa de ter relação com a apatia sadeana já evocada.sujeito com o objeto. para Freud. Ele não pode mais agir como se a linguagem e o funcionamento simbólico que pressupõe se impusessem naturalmente. pois ele só cuida dos objetos singulares de que se apropria este ou aquele sujeito. e o sujeito vê então o seu corpo. somática e psíquica (ver definição no fragmento 299). Simplesmente porque esses objetos oferecidos profusamente à cobiça geral podem obstruir de forma inédita a relação do sujeito com seu próprio objeto. Mas. Será conveniente então que o psicanalista se lembre de que. fragmento 292). a exemplo do sujeito sadeano. Hoje. digamos uma “engramagem” que se pode articular com outras e formar discurso. a pulsão apresenta-se como uma lâmina de dupla face. é bem verdade. com certeza. que voltaremos a encontrar (cf. na exploração industrial. o psicanalista terá muitas chances de que eles acabem levando seus sofrimentos a outros profissionais. Será então forçado a reconvocar o velho conceito freudiano de pulsão. pondo em jogo poderosos mecanismos de des-subjetivação e des-simbolização. E se não se interessar por isso. existe uma espécie de bombeamento direto da pulsão. consistindo não mais em inscrever-se na lei da cultura. a descarga energética inscreve-se psiquicamente. sob a forma de uma marca mnésica registrando o prazer ou desprazer — digamos que a coisa funcione como um corte no cabo da faca que serviu para matar o animal. Em outras palavras.

jogando com mateur (voyeur) e amateur (amador. (N. 1861-1901 (reedição: Harvest Book. da R. por exemplo. (N.) 171 Permito-me remeter. Companhia de Freud.T.) *** Em “vont à la messe” (vão à missa). (N. ******** Violée/violada: loi = lei. 172 Isso constitui. 2009). intitulado “No qual se verá de que maneira o equilíbrio instável dos dois últimos séculos entre regulação e desregulação ‘moral’ foi recentemente rompido em favor desta última”. ** No original. do T. (N. Mas a grande literatura dessa época não foi a única a acolher Sade nas “estantes escondidas”. produzindo a sonoridade “talá”. O Pornocratès mostra assim uma mulher cegada. do T. 173 Se Sade foi acolhido pelos românticos. alegoria da Cidade. deixando-se guiar completamente por seus instintos e pulsões. O porco é então considerado uma criatura do diabo: ele traz os olhos fixos no chão e tem fama de copular pelo prazer. 174A expressão ficaria famosa com o livro de Matthew Josephson publicado em 1934: The Robber Barons: The Great American Capitalits. Brace & World.) **** Trocadilho com a palavra “batalha” (“bataille” em francês) que daria o sentido de plano de batalha ou de guerra.T. nessa questão. Alguns pintores se deixaram conquistar por essa aura sadeana.) ***** Título da adaptação do programa Big Brother na França. o “t” final do tempo verbal francês emenda na pronúncia com a preposição “à”. Esse veio pode ser identificado. da R.T. Rio de Janeiro. vestida apenas com meias e luvas pretas e pisoteando com raiva as artes antigas. amigo de Baudelaire. ao capítulo 4 de meu livro Le Divin Marché (op. da R.) ********* Lacan fazia um trocadilho com as palavras “âne” (asno) e “analyste” (analista): âne-à-liste.). (N. . ******* Em francês. do T. (N. indiferente aos apelos de três anjinhos adejando ao seu redor. (Edição brasileira: O divino mercado.) ********** Em francês. cit. Nele. publicados por Poulet-Malassis na década de 1860.). aquele que ama). da R. um trocadilho: (a)mateurs.Notas * Trocadilho com a expressão popular francesa “limer” que significa fazer sexo. 1962). na verdade. desenhista do frontispício de Épaves e ilustrador de Fleurs du mal.T. Ele é manifesto no quadro intitulado Pornocratès (1878).T. da R.). guiada por um porco. do T. o programa de pesquisa que empreendi no Collège International de Philosophie. vemos uma mulher de olhos vendados. em Félicien Rops (1833-1898). Ele zombava dos analistas e de suas listas de espera. Harcourt.) ****** Trocadilho com o nome do escritor e a palavra francesa “bataille” que produz o sentido de “batalha com Lacan” (N. foi porque o ideal do marquês — tornar-se enfim “celerado” — não deixava de ter relação com a busca dessa geração interessada na parte maldita do homem. Nova York. o verbo “entendre” significa “ouvir” e “entender”. (N. pode-se entender de duas maneiras opostas: “dar um passo além” ou “não existe além”. (N.

óleo. de Michael Mann. 71. 2001. contém muitos ensinamentos. 2006. É evidente que revelar esse escândalo era uma questão de saúde pública. Une histoire populaire des États-Unis: de 1492 à nos jours. 1999). Winston…). Ver a análise de Philippe Mengue a respeito. um dos grandes fabricantes de cigarros dos Estados Unidos (Camel. La Crise écnomique de 1929 [1955]. 178 Uma das primeiras crises do gênero foi a “crise da tulipa” em 1637. 1972. p. 2009. Anna. ex-presidente da Nasdaq. Edição brasileira: A cultura do narcisismo: a vida americana numa era de esperanças em declínio. Rio de Janeiro. Em 1637. op. 177 John Kenneth Galbraith. nua. Publicações D. Entre 1634 e 1637. Rio de Janeiro. Payot. acarretando a falência de vários fornecedores de tulipas. Ele mostra de que maneira a empresa Brown & Williamson. O calendário inteiro pode ser consultado na internet. tradução de Rita Buongermino e Pedro Souza. na ciência que tem o belo nome de mercadologia.175 Hoje. “Carla Bruni. La Culture du narcissisme [1979]. dizia Sade nas notas de releitura de Os 120 dias…. Gente. Mythologies. Montreal/Marselha. Bertrand Brasil. 179 Edward Bernays é filho da irmã de Freud. Edição brasileira: Mitologias. não se fala mais de robber barons. Edição brasileira: Da euforia ao pânico — Uma história das crises financeiras. fala-se de “fidelização do cliente”)? 181 Uma história “não deve ser gazeada demais”. a demanda aumentou tão rapidamente que os preços dispararam de forma exponencial. em L’Ordre sadien. grafite de chumbo) representando a mulher do presidente. na venda intitulada Pin-up!. Lisboa. 1983. cit. cit. antigo esteio de Wall Street. tradução de Leonardo Abramowicz. Quixote. lia-se num jornal de 15 de maio de 2009. pode ter efeitos adictivos (na linguagem eufemística da técnica. 2008. Zinn. 184Roland Barthes. 2005. Martha. que faz com que a nicotina chegue mais depressa ao cérebro) para aumentar a dependência dos fumantes. é nesse terreno a figura de proa. valeu-se deliberadamente de aditivos químicos perigosos (como o amoníaco. analisada por Charles P. as tulipas eram tanto mais apreciadas por conferirem uma certa posição social. eles alcançaram níveis tão elevados que a demanda diminuiu e acabou ruindo. 281. op. 1957. Saiu perdendo aquele que não se retirou do mercado com suficiente rapidez. Mas será que com isso a questão terá sido resolvida. Le Divin Marché. Os jornais anunciavam que no dia seguinte seria leiloada uma tela (colagem de fotos. os que criaram o sistema dos hedge funds para especular na baixa e na alta. 182 Christopher Lasch. Edição portuguesa: A crise econômica de 1929. cit. Na época. Valor. Imago. onde ela . 183Uma reprodução encontra-se na capa do meu livro anterior. 176H. op. de frente e tatuada. Mas tem muitos cupinchas: todos aqueles que emprestaram dinheiro que não tinham e depois “titularizaram” esses créditos podres para revendê-los. Kindleberger em sua Histoire des crises financières. Lux/Agone. A muitas pessoas próximas elas pareciam exageradas e desnecessariamente irreverentes. etc. com o objetivo evidente de se transformar no mega-fornecedor industrial de nicotina. mas de banksters — Bernard Madoff.. É o responsável pelo maior golpe de todos os tempos: 50 bilhões de dólares. Paris. para seu uso pessoal. Mas eu precisava apenas esperar: a grande imprensa veio em meu socorro. São Paulo. p. 180 O filme The Insider (O informante. capaz de proporcionar a cada quarto de hora a dose que se empenhou em tornar necessária para dezenas de milhões de pessoas em todo o país. e do irmão de sua mulher. 185 Essas linhas foram escritas no início de 2009. sabendo-se que todo produto. a ser realizada no Hôtel Drouot. uma pin-up leiloada”. baseado em fatos reais. Paris. Paris. tradução de Ernani Pavaneli. Le Seuil.

1989.estaria junto a 500 obras licenciosas. Paris. celebrizada em Admirável mundo novo (1931). tradução de Luiz Mário Gazzaneo. do liberalismo ao “comunismo crítico”. 190 O que não significa acusar a egopsicanálise americana em bloco de corrupção: suas margens imprecisas permitiram algumas brilhantes explorações singulares. e posteriormente Fahrenheit 451 (escrito em 1954). a pedido das indústrias americanas de exportação de banana. Mille et une nuits. tradução de Tereza Otoni. Erich Fromm. de Aldous Huxley. disponível em http:www. a pin-up americana que ficou famosa por suas fotos fetichistas. Éd. 188Eli Zaretsky. três narrativas absolutamente fascinantes que ajudam a pensar o destino do mundo às voltas com suas revoluções passivas.marxists. São Paulo. Uma distopia é uma narrativa de ficção que se desenrola numa sociedade imaginária que. de Ray Bradbury. 189 E mesmo pior: Bernays vendeu seus serviços à CIA. Cabe notar que essa forma literária. em 1954. Une histoire sociale et culturelle de la psychanalyse [2004]. Rio de Janeiro. entre elas 250 lotes assinados por Aslan. tradução de Serrano Vidal. Paris. Gramsci: du libéralisme au communisme critique. 186 Ver o livro de François Flahault. tanto mais que corresponde ao estabelecimento de um novo tipo de alienação. 2009. em vez de apresentar um mundo perfeito. 194 Admirável mundo novo é um romance de ficção científica considerado distópico. 2006. 1983. Civilização Brasileira. venerada por Ronald Reagan. cuja análise ainda está por se fazer. de Antonio Gramsci. Posiciono-me claramente contra esse mundo e me regozijo muito com a melhora da condição das mulheres no século XX. Edição brasileira: Maquiavel. Paris. gerou em seguida o célebre 1984 (escrito em 1948). sur la politique et sur le Prince moderne. disponível em http://classiques. especialmente em função dos romances de grande sucesso de Ayn Rand. . Rio de Janeiro. propõe o pior dos mundos possíveis. Rio de Janeiro. 2006. Cultrix. 2007. Mas nem por isso me calo sobre o matriarcado. como as de Helene Deutsch. tradução de Cid Knipel.ca/classiques. tradução de Heloisa Jahn e Alexandre Hubner. 2006. Revan. 192 Pode-se consultar a esse respeito a notável análise do filósofo italiano Domenico Losurdo. Mas não é o caso. Le Crépuscule de Promethée (Paris. foram publicados pela Gallimard (Paris. que analisa essa figura do self-made-man. Vale dizer. 2009. 193 Antonio Gramsci. Syllepse. Globo. Globo.htm. de George Orwell. 1991). já que pretendia que… os produtores dessa fruta recebessem a sua parte. contra o governo eleito da Guatemala. Textes (1917-1924) — edição eletrônica do texto de Gramsci publicada pelas Éditions sociales. Edição brasileira: Segredos da Alma: uma história sociocultural da psicanálise. Edição brasileira: Admirável mundo novo. Le Siècle de Freud. 2008. p. Edições brasileiras: 1984. vale dizer. o golpe de Estado conduzido pelo governo americano. tradução de André Tosel. a Política e o Estado Moderno. Fahrenheit 451. 2008). como na u-topia. Bruno Bettelheim. para justificar a operação militar. São Paulo. extremamente popular na direita ultraliberal americana.org/francais/gramsci/works/1933/machiavel. São Paulo.uqac. Albin Michel. 179-209. e fotos de Betty Page. 187 Um leitor apressado poderia deduzir desta observação uma suspeita cumplicidade com o mundo do patriarcado. Edição brasileira: Antonio Gramsci. Harry Stack Sullivan… 191 O conceito de “revolução passiva” é desenvolvido especialmente no capítulo 12 (“O conceito de revolução passiva”) de Notes sur Machiavel. Os Cahiers de prison. tratando de heróis solitários em luta contra o conformismo de sua época. considerado excessivamente radical por Washington. Companhia das Letras. o ilustrador da revista Lui e autor de cartazes para o cabaré Crazy Horse.

202 Uma palavra sobre Hermann Rauschning. 207Não me cabe aqui glosar a espantosa obra de Pierre Klossowski. especialmente escrevendo vários livros em que procurava mostrar a natureza niilista do movimento dirigido por Hitler. 2007. ex-top-model). 205 Gilbert Lely. cf. Simon and Schuster. Fayard. La Découverte. dos reis. “para preparar sua campanha contra os judeus da Alemanha”. 1965. Para Klossowski. 200 Cabe lembrar a famosa fala do personagem de Johnny no filme. 199 Essa revolução cultural é bem escrita por David Halberstam em Les Fifties.com/2010/03/08/o-pen-samento-hetero-e-a-existencia-lesbiana/. Biography of an Idea: Memoirs of Public Relations Counsel. Jean-Jacques Pauvert. correspondente de guerra americano autorizado na Alemanha. 204 À exceção do texto literário de Bernard Noël intitulado Le Retour de Sade (Paris. O enredo não deixa de ter consonância com minha tese: Sade está de volta. nº 30. fazendo rir do poder. Monique Wittig. dos presidentes… ou mesmo de um deus”. La Découverte.000 dólares da época. 206 Maurice Lever. é uma mulher (por sinal. 2007. Edição em português: O pensamento hetero. em 1933. Mas devo dizer ao menos duas palavras. que. Paris. Paris. Propaganda. 1991. Edição brasileira: Segredos da Alma: uma história sociocultural da psicanálise. Le Seuil. os palhaços preparam a queda. cit. trata-se . Era um político conservador alemão que entrou para o partido nazista e se tornou presidente do Senado de Danzig. Paris. na França e depois nos Estados Unidos. Uma jovem: “Ei. Mas com isso se esquecem que. marquis de Sade. exilando-se na Suíça. Paris. assim. Johnny. 2001. “o morto-vivo [Sade] continua se tomando por um autor escandaloso. op. Paris. ela gira inteiramente em torno da busca dos meios (dos “simulacros”) que supostamente permitiriam a recuperação do gozo. Bernays afirma ter tomado conhecimento. 203O título inglês também é digno de nota: The Voice of Destruction. e que esta pode levá-los a tomar o lugar dos papas. La Pensée straight [1992]. onde se tornou um opositor do regime nazista. Como indica o autor. Le Siècle de Freud. Agradeço a Bernard Noël por não ter dito tudo: isso me permite mostrar a atual utilização de Sade na lógica do divino Mercado. por uma questão de paridade. Comment manipuler l’opinion en vi démocratie. já que este de fato só intervém na medida em que o sujeito que o experimenta perde consciência (ver a este respeito o fragmento 247 deste livro). segundo Eli Zaretsky. Balland. Paris. ao passo que os vivos-vivos se divertem com seus livros como grandes palhaçadas. acabou se demitindo dessa função em 1935 e fugiu da Alemanha. do qual foi extraída uma peça de teatro (encenada por Charles Tordjman em 2005). Nova York. Bernays et la propagande”. conhecido por suas entrevistas com Hitler e outros dignitários nazistas. “Edward L. 197Cf. de que Goebbels lhe dissera usar seu livro. contra o que você se rebela?” Johnny: “O que você propõe?” 201 Edward Bernays. 8 de março de 2010. através de Karl von Weigand. Cultrix.195Até 100. chamado pelo novo papa. Feminismo é a verdadeira revolução.wordpress. disponível em http://antipatriarchy. 1995. Em minha opinião. 198 Cf. São Paulo. Crystallizing Public Opinion. o artigo de Sandrine Aumercier. 2006. o prefácio de Normand Baillargeon: “Edward Bernays et l’invention du ‘gouvernement invisible’”. 2004). tradução francesa publicada pela Hachette em 2005. la révolution américaine des années 50. Léo Scheer. Vie du marquis de Sade. Donatien Alphonse François. in Revue du Mauss. 196 Edward Bernays. 1952-1957.

Gallimard. 1403. 213 É a marca de Blanchot. Essa frase tinha tudo para encantar o antigo beletrista adorador da negatividade.-R. Debord a comenta em seu filme: “Mas nada traduzia esse presente sem saída nem repouso como a antiga frase que se volta integralmente sobre si mesma. Paris. Paris. p. Apresentado de uma forma estética. Paris. Cécile Defaut. Paris. 1992.” 211 Permito-me remeter a D. Ática. O título do filme é extraído de uma frase em palíndromo de Virgílio. na qual o “sim” e o “não” se invertem e confundem. como. em mostrar uma imagem em que aparece um personagem mostrando a mesma imagem menor. 2008. revista Konstellations de 2005 (disponível online no site da revista). Rio de Janeiro. etc. por exemplo. 1973. p. 1996). com a seguinte definição: “Gíria da Escola Normal. Dufour. A pesquisa dava continuidade ao texto escrito por Sartre em 1947. Edição brasileira: A experiência interior. “De Walter Benjamin à Guy Debord: le travail du négatif dans la modernité”. 1998. o unário geralmente provoca uma perturbação aperceptiva física. 28). escrevem para não ter mais rosto” (L’Archéologie du savoir. Edição brasileira: A arqueologia do saber. Paris. p. Gallimard. Oeuvres complètes. 1371). Remeto ao trabalho de Hervé Castanet. não binária) uma definição tautológica. Existe aí uma problemática do olhar (que levaria Klossowski a desenvolver uma atividade pictórica) e um posicionamento teológico: o ex-dominicano será levado a pensar que a verdade da teologia encontra-se em última análise… na pornografia. Gallimard. Esse conceito tem a ver com a ideia kantiana de “julgamento analítico”. 200. critique et histoire après Walter Benjamin. sendo construída letra a letra como um labirinto do qual não é possível sair. Magali Montagné e Antonio Ceschin. Thomas l’Obscur (nova versão). tradução de Carlos Felipe Moisés. tradução de Luiz Felipe Baeta Neves.de se ver (ou de ver sua esposa…) como só Deus os poderia ver. la mort à l’oeuvre. “In girum imus nocte et consuminur igni”. onde se perdem as noções de antes e depois. 209 Guy Debord. São .” 210 O termo “tala” consta do dicionário Robert. 217 Georges Bataille. Aluno católico na Escola Normal Superior. Sempre mobiliza um procedimento recursivo consistindo. 1970. O que provoca um efeito abissal de vertigem. Actes du colloque sur le legs benjaminien. Georges Bataille. p. que por sua vez retoma a mesma imagem ainda menor. Quarto Gallimard. 2006. Paris. tomo 12. p. no início da década de 1950. por exemplo. 27-28. Gallimard. “Situação do escritor” (em Qu’est-ce que la littérature?. uma enquete sobre as relações entre literatura e política. p. espelhada. Pierre Klossowski — la pantomime des esprits. Forense Universitária. Gallimard. de tal maneira que ela combina à perfeição a forma e o conteúdo da perdição” (ibid.. Nantes. 16. Paris. 1992. edição brasileira: O que é a literatura?. essai sur la figure unaire (Paris. 1950. 216 Georges Bataille. 215 Ver o livro de Michel Surya. Champ Vallon. Coutinho. Gallimard. pois é traduzida assim: “Nós damos voltas na noite e somos devorados pelo fogo. partenaire invisible. Éd. na qual o predicado não passa de uma repetição do sujeito da frase. Pensée. que também pode ser obtido quando uma história é retomada numa história. Folie et démocratie. no enunciado “Deus é o Ser”. Paris. ou um filme num filme. de aqui e ali. 208 Ver a esse respeito o interessante texto de Alexandre Trudel. Qualifico de unária (ou seja. que devemos reconhecer na famosa frase de Foucault: “Não poucos. certamente como eu. ou um quadro num quadro… 212 Christophe Bident. 218 René Char lançara. São Paulo. 214 Maurice Blanchot. in Oeuvres. tradução de Celso L. Maurice Blanchot. 2007. L’Expérience intérieure [1943]. Gallimard.

p. e em Bataille. uma contradição. Paris. 223A expressão remete. Lautréamont et Sade. E. 16 e seg. ao título do livro de M. Paris. nº 7. é. Marguerite Duras. “L’Histoire de l’érotisme”.. Blanchot. 149.. Paris. p. a incompatibilidade dos contrários. tradução de João Moura Jr. 1971. Oeuvres complètes.Paulo. se parece ser de outra forma. portanto. Edgar Morin. Gallimard. Minuit. 40. 169-170. naturalmente. segundo a qual o escritor devia estar a serviço do socialismo. Gallimard. p. Este pode ser enunciado da seguinte maneira: se o barbeiro é aquele que barbeia os homens que não se barbeiam. Blanchot. que obriga. E a isso Bataille parece responder aqui: em lógica. Companhia das Letras. ele pertencerá à classe dos homens que não se barbeiam. São Paulo.. cit. 1994). que a frase “a comunidade daqueles que não têm comunidade” é estruturada como “a classe dos elementos que não têm classe” — o que evoca muito diretamente os trabalhos de Bertrand Russell. em consequência. p. Nunca um homem engajado escreveu algo que não fosse mentira ou que superasse o engajamento. 1993. com efeito. Esse grupo estaria na origem do Manifesto dos 121. “L’Histoire de l’érotisme”. 2007.. p. Escuta. p. e. Fayard. p. é porque o engajamento em questão não é resultado de uma escolha que atendesse a um sentimento de responsabilidade ou de obrigação. 224 Georges Bataille. in Oeuvres complètes VIII. precisamente. propondo sua chamada teoria “dos tipos” para resolver os paradoxos lógicos gerados pela teoria dos conjuntos de Frege. Encontramos aqui. é preciso excluir que uma classe seja membro dela própria. mas em literatura. 36. op. Jacques Lacan. Adrien Borel (fonte: Elisabeth Roudinesco. Bataille. 1993) no qual ele desenvolvia a ideia do “engajamento”. 221 Maurice Blanchot. 226Essa discussão é levada a cabo em Blanchot.” Assim se constitui “a comunidade daqueles que não têm comunidade”. publicada na revista Contre-toute-attente. Sade et Restif de La Bretonne. afirmando que um sistema axiomático não pode ser ao mesmo tempo coerente e completo. Éditions Complexe. publicado na década de 1930. Paris. cit. ele pertencerá à classe dos homens que se barbeiam. 219 Note-se. Robert Antelme. não. Cabe lembrar que o teorema da incompletude de Gödel. acabava de causar problemas à solução russelliana. edição brasileira: Jacques Lacan: esboço de uma vida. Para evitar esse tipo de paradoxo. e. Nos dois casos. um eco dos decisivos trabalhos da época no terreno da lógica pura. L’Entretien infini. segue-se a questão de saber se esse barbeiro se barbeia. em Bataille. constituir a classe (ou a comunidade) daqueles que não têm classe (ou comunidade). Em caso afirmativo. Duas respostas possíveis. Ática. . 220 Essa foto lhe teria sido dada por seu analista. 222 Maurice Bataille. história de um sistema de pensamento. Dionys Mascolo. 1976. 225 M. Robert Antelme…. ele próprio não se barbeia. Paris. 328. intitulado “Declaração sobre o direito à insubmissão na guerra da Argélia”. tomo 12. inspirado por Blanchot. sim. 1949. 1969. Edição brasileira: A conversa infinita. e reproduzida in G. um dos fundadores da lógica contemporânea. p. de um insuperável desejo. Resposta à enquete sobre as relações entre a literatura e a política intitulada “Y a-t-il des incompatibilités?”. 153. 1986. A resposta de Bataille é cortante: “A incompatibilidade entre a literatura e o engajamento. Não se pode. 227 Refiro-me aqui ao comunismo radical e não bolchevista de Blanchot. portanto. segue-se. Lautréamont et Sade. que nunca permitiram real escolha. como o chamado paradoxo “do barbeiro”. Por volta de 1960. todos tendo deixado o Partido Comunista em 1956. São Paulo. op. portanto. 48-49. do qual faziam parte. em consequência. e o encontraremos também em Lacan. ele se barbeia. op. ele pertencia ao “grupo da rue Saint-Benoît”. Gallimard. cit. L’Amitié. Paris. Esse teorema. mas efeito de uma paixão. segundo Russell. além de Maurice Blanchot. causará forte impressão. Em caso negativo.

231 Guy Debord. 234 Jean-Jacques Delfour. (op. in La Voix du regard. graças a uma rede de influências de múltiplas ramificações na alta finança. le capitalisme et la prostitution”. Rio de Janeiro. Erès. 2004. 230 Era precisamente esse o objetivo do freudo-fordismo: “O símbolo do novo regime [freudo-fordista] era que ‘cinco dólares por jornada de trabalho’ permitiam aos operários comprar o ‘Model T’ que fabricavam. La Villete. não raro publicados na grande imprensa. “La Fée interurbaine”. op. 229 Ler. tradução de Sandra Regina Felgueiras. na política. de novembro de 2002. p.” Cf. dirigida por mim.. 13. 773-774. “La délinquance routière.. 237 Permito-me remeter a nossos estudos sobre a televisão e a função simbólica. outubro de 2005. Contraponto. 2007) e praticado pelos situacionistas nas décadas de 1950 e 1960. em textos curtos e incisivos. Eli Zaretsky. in Oeuvres. L’Art de réduire les têtes.fr/philosophie/jjd.-A. Rio de Janeiro. Anthologie de la SF. La Société du spectacle. 1983. in Histoires de la quatrième dimension. a narrativa de André Breton. in Libération. 2009. op. Cultrix. in Marianne. fragmento 28. revista do Collège International de Philosophie. São Paulo. tradução de Procópio Abreu. os sintomas de nossas maneiras contemporâneas de fazer. Edição brasileira: O divino mercado. 238Criada em 1973. 239 Ver Hans-Peter Martin e Harald Schumann.htm#tlv. 2011. “Recyclage et télévision — remarques sur la ‘télé-intimité’. 2005. 235R. Consiste em partir ao acaso na cidade e (eventualmente com a ajuda do álcool) ver e anotar tudo. Poche. Dufour. 1997. cit. p. Companhia de Freud. 1997. na sociedade civil e na ciência. 232 Mais uma prova do vazio abissal da reflexão filosófica sobre o automóvel: encontramos muitas excelentes análises no número 63 de Rue Descartes. Ed. Companhia de Freud. A citação que se segue foi extraída de “L’automobiliste. coisas nunca antes percebidas nem concebidas. cit. cit. publicados em L’Art de réduire les têtes (op. la morale et la loi”. a Comissão Trilateral continua muito ativa. La Ville franchisée: formes et structures de la ville contemporaine. op. mas sem nada especificamente sobre o automóvel. 233 Jean-Jacques Delfour revela com grande perspicácia.) e Le Divin Marché. Edição brasileira: A arte de reduzir as cabeças: sobre a nova servidão na sociedade ultraliberal. Lafferty. 4-10. o trabalho do arquiteto e urbanista David Mangin. pp. nº 18. 240Jean-Jacques Delfour.-R. São Paulo. ed. Arles. Paris. bagnole et autres prothèses du sujet moderne. Tolouse. Le Siècle de Freud. Nadja. Le Piège de la mondialisation. intitulado “Droit de cité” e dedicado à cidade. soupape sociale”. Solin-Actes Sud. p. cap. 236 Permito-me remeter a D. Depois disso. edição brasileira: Nadja. cit. I. na coleção Humus Philosophie. Cosac Naify.). 180. 16 de julho de 2001. os itálicos são do autor. . interrogando comportamentos de tal maneira enraizados que já não os percebemos mais. de maneira a deixar surgirem comparações inesperadas. Edição brasileira: Segredos da Alma: uma história sociocultural da psicanálise. 2006. menos badalada que o fórum de Davos. Paris. a esse respeito. cit. Rio de Janeiro. Jean-Jacques Delfour publicou o livro Télé.228O desvio psico-geográfico é um método de pensamento herdado dos surrealistas (cf. Essai sur la jouissance technologique. Seus textos podem ser encontrados no site: http://pedagogie.ac- toulouse. nº 3783. nº 289. Edição brasileira: A sociedade do espetáculo. A percepção e a leitura desses sintomas permitem ativar uma clínica social.

livro 7: a ética da psicanálise. incumbido por Lacan de fazer o índice de seus Écrits (cf. Imago. 1948. une machine totalitaire”. Lacan même. 2005. 1991. intitulado Transgressions — Bataille.. 2009 [online]. Estranha observação que mergulha o leitor em grande perplexidade: o que não seria construção discursiva no homem? Caberia. por exemplo. Edição brasileira: O seminário. Jean-Jacques Delfour. por meio de algumas rápidas evocações do “Kant com Sade” de Lacan. 19 de maio de 2001. 1986. p. De tal maneira que esse estudo sobre a transgressão. 246Lacan. Oeuvres complètes VIII. Rio de Janeiro. Ágora. tradução de Paulo Neves. Écrits. nesse texto. vol. 248 O livro recente de Silvia Lippi. Rio de Janeiro. Paris. Paris.. cf. Essa eliminação das diferenças entre Lacan e Bataille é feita em detrimento de Bataille. . Mas não poderá deixar de decepcionar os que esperam uma exploração sistemática dos posicionamentos diferentes de Lacan e Bataille a respeito da transgressão. 1998. O esquecimento do nome de Bataille poderia perfeitamente ser um ato falho. casada com Georges Bataille quando do nascimento de sua filha). Refiro-me à nota 9 da página 15. L’éthique de la psychanalyse. n. cit. Paris. sua mãe. já que Jacques-Alain Miller estava para se casar com a filha de Lacan. p. Gallimard. Le Seuil. não altera o sentido. Jacques Lacan. 2001. consiste numa exploração das relações da transgressão com o gozo.. Le Pas au-delà. Não só Sade é exonerado de toda perversão. 427. nascida Judith… Bataille (já que Sylvia Bataille. São Paulo. Edição brasileira: Os percursos da transgressão (Bataille e Lacan). Gallimard. Blanchot. Rio de Janeiro. tradução de Pedro Henrique Bernardes Rondon. ainda estava. por sinal. p. Com efeito. muito pelo contrário: nele podem ser encontradas muitas observações perspicazes sobre a lógica paradoxal da transgressão. Jorge Zahar. o livro ignora completamente Sade. 243 Maurice Blanchot. como a própria perversão (palavra por sinal escrita entre aspas) não passaria de uma construção. história de um sistema de pensamento. Jorge Zahar. cit. Paris. 80 e seg. p. op. livre VII. Érès. edição brasileira: Jacques Lacan: esboço de uma vida. Edição brasileira: Escritos. Edição brasileira: Pena de morte. p. 2. e as coloquei no presente do indicativo para fazê-las concordar com o tempo da frase seguinte — o que. que foi o motivo das duas leituras opostas da transgressão efetuadas por Lacan e Bataille. 250 Jean Allouch. Companhia das Letras. 2008). Élisabeth Roudinesco. desacreditar a ideia de “neurose” pelo fato de não passar de uma construção discursiva de Freud? 251Jacques Lacan. cas de Sade. senão de maneira muito indireta. 245 O tropeço teria sido cometido por Jacques-Alain Miller. Épel. cit. 12. Navarin. Paris. tradução de Vera Ribeiro. reduzido assim ao papel de simples precursor do lacanismo. 508. apesar de separada. veda-se à menor transgressão em relação à leitura lacaniana da transgressão… O que não é muito transgressor. tradução de Ana de Alencar. Os itálicos são do autor. op. 244É toda a problemática desse romance espantoso: M. 242Georges Bataille. 237 e seg. Rio de Janeiro. tradução de Antonio Quinet. naturalmente. 249 Ver a este respeito o livrinho que maliciosamente se chama Sollers. L’Arrêt de mort. 247 Ibid. fazendo o elogio da transgressão. No original. na qual podemos ler que “a ‘perversão’ não foi menos uma construção que o sadismo”. 237. O livro não é destituído de interesse clínico. as duas primeiras frases estão no imperfeito. o próprio nome de Sade — questão central nas décadas de 1950-1960 — nem sequer chega a ser citado no livro. Lacan (Tolouse. in Le Monde.241Para esta citação e as seguintes. 1973. 1988. Assim como a citação seguinte.. Ça de Kant. 1994). “Loft Story. E. op.

1985) Cf. 1962. disponível em http://leportique. José Álvaro. “espíritos animais”. Edição brasileira: Escritos. Gallimard. Rio de Janeiro. Edições brasileiras: A República. Ela foi proferida pela última vez por Michel Onfray em Le Songe d’Eichmann. tradução de Enrico Corvisieri. 256Aline et Valcourt. já não pode sê-lo hoje. carta trigésima quinta. tomo II. Edição brasileira: Aline e Valcour. in Savoirs et clinique. Rio de Janeiro. por sinal. Edição brasileira: O seminário. Zizek tampouco toca na questão principal: a lei de Kant e a lei de Sade não são a mesma. em geral. Mal temos coragem de citá-los. Rio de Janeiro.ca/. 255 Cabe notar que essa expressão. Jorge Zahar. que “as grandes teses de Kant são compatíveis com a mecânica do III Reich”. Escritos. A riqueza das nações. 1992. 253 E. L’Envers de la psychanalyse (Paris. os comentários sobre “Kant com Sade” (edição brasileira: “Kant com Sade”. 92-127. Porto Alegre. Se não o entendermos. in Essaim. professor de metafísica na Universidade Marc Bloch de Estrasburgo. 257 Cabe lembrar que. 2008. 258 Disponível on line no site “Les classiques des sciences sociales”. o nome de Adam Smith não é citado nos Écrits. . p.uqac. Lemos que se trata no caso da “lei do gozo”. O autor afirma.252 A quantidade de comentários medíocres a respeito dessa formulação chega a ser aflitiva. 2009/01. Fedro. 1997. Érès. ele aparece apenas uma vez em toda a obra de Lacan: no seminário XVII de 1969-1970. “Juliette ou Raison et morale”. pergunta-se por que os economistas sempre falam da riqueza das nações e nunca… da riqueza dos ricos. constitui o elemento irascível. sessão de 11 de fevereiro de 1970. Rio de Janeiro.revues. São Paulo. Que eu saiba. Trata-se. 1974 (edição brasileira: A dialética do esclarecimento. Mas Lacan comenta apenas o título da obra principal de Adam Smith. “Kant avec (ou contre) Sade”. tradução de Ari Roitman. 81-93). Podemos encontrar um magnífico comentário sobre esse texto num artigo de Jacob Rogozinski. nº 4. em plena crise de um pensamento alemão que buscava em sua história os motivos do surgimento do nazismo. indo de encontro a Hannah Arendt. neste caso. passível de coragem. p. ou que se trata de uma formulação “forjada por Lacan”. Rodrigo Toscano. o que permite ainda mais colocar Mandeville com Sade. Se o erro poderia ser perdoado em 1944. intitulado “De la Loi à l’Ego”. ele toma). o thumos. tradução de Jorge Paleikat. “Lacan avec Sade: objet a et jouissances sadique et masochiste”. tradução de Vera Ribeiro. livro 17: o avesso da psicanálise. por exemplo. exposta. Kant com Sade. tradução de Vera Ribeiro. ou pior ainda. é rigorosamente idêntica à que encontramos no Tratado das paixões hipocondríacas e histéricas de Mandeville. La Dialectique de la raison [1944]. Nova Cultural. 2004/1). ou se colocar a serviço do noûs. Sade não troca. de forma extremamente apressada e superficial. http://www. Com efeito. 1969. sendo então passível de arrebatamento e cólera. Não daremos maior atenção aqui a um texto de Slavoj Zizek que discute paralelamente os textos de Adorno e Horkheimer e de Lacan sobre Kant e Sade (cf. Muito a propósito. Rio de Janeiro. Jorge Zahar. Jorge Zahar. 254 Theodor Adorno e Max Horkheimer. Globo. tradução de Guido Antônio de Almeida. Jorge Zahar. Le Seuil. 1991). 1998. sob uma perspectiva puritana (pois. Ele pode tender para o lado da épithumia (é o que pretende Sade).uquebec. a segunda alma. sendo. O que não o impede de ser repetido à vontade e de se tornar assim uma verdadeira tolice. Paris. na verdade. nº 22.org. ainda por cima. 1998) tornam-se ainda mais obscuros do que o texto que pretendem esclarecer (ver. que havia demonstrado que Eichmann nada tinha entendido de Kant. Galilée. como no herói. segundo as teorias gregas expostas por Platão em Fedro e A República. Paris. texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Cf. in Diálogos. da fórmula da lei da troca dos bens no mercado enunciada por Smith e desviada por Sade para a troca dos corpos.

com quem tive a oportunidade de conversar de maneira frutífera — e quero aqui agradecer-lhe isso. 772. 197-13.info/article). p. Lacan. cf. Muito diretamente. Eis o que acontece quando os significantes são cortados indefinidamente: pode-se dizer qualquer coisa e o contrário dela. cit. 1949). tradução de Vera Ribeiro. São Paulo. que saibamos: Jean Allouch. op. op. as partes “Le savoir du narrateur” e “La stratégie du narrateur”. a ponto de ser capaz de ajudar o homem normal a se entender ele próprio. bem fundamentada filosoficamente. Essa questão da artimanha será retomada adiante. explica que o V de “V… ada” representa a parte de baixo do “punção”.259 Refiro-me.. “Kant avec Sade?”. in Escritos. . “Le temps logique et l’assertion de certitude anticipée”. op. nº 6. dois. publicado em Essaim. 260 J. nº 10. por exemplo. Toulouse. cas de Sade. Paris. em Ça de Kant. 271 J. in Écrits.. signo que em Lacan serve para a escrita do fantasma: $ ◊ a. Érès.. op.-F. p. “La raison de Sade” [A razão de Sade]. Lacan. L’Art d’avoir toujours raison [1830]. 1998. L’Ordre sadien. 262 O artigo inaugural de Blanchot sobre Sade conclui com esta proposição: “Entre o homem normal que confina o homem sádico num impasse e o sádico que transforma esse impasse numa saída. Rio de Janeiro. Le Différend. Rio de Janeiro.wikisource. p. e mal chega a mencionar a decisiva distinção entre as duas leis. é este último que conhece melhor a verdade e a lógica de sua situação e tem a inteligência mais profunda.. in Les Temps moderns. 261 Penso no estudo de Vladimir Pinheiro Safatle. p. Edição brasileira: “Kant com Sade”. “Kant avec Sade”. 268 Cf.cairn. Jorge Zahar. tradução de Eduardo Brandão e Karina Jannini. e Thierry 267 Marchaisse. “L’acte au-delà de la loi: Kant avec Sade comme point de torsion de la pensée lacanienne”. cf. Maurice Blanchot. Entretanto. Schopenhauer. da razão em geral. 2003. Infelizmente. Paris. Edição brasileira: A arte de ter razão. cit. Minuit. entre eles Jean-Pierre Winter. também ignora o Ensaio sobre o mal absoluto. 136-138. tenha sido um dos motivos que levaram Lacan a excluir essa razão sadeana. recém-descoberta. cas de Sade. “A la rencontre de Sade”. no qual Kant enceta sua reflexão sobre o transcendental a partir da relação entre as “doenças da alma” e a faculdade de conhecer. Minuit. nº 25.. Le Seuil.org. fino conhecedor desse texto. Escritos. 1966. cit. 265É a sábia opção de alguns psicanalistas. Paris. É possível que o novo título desse artigo. Lyotard. Podemos apostar que um dia alguém venha nos dizer que esse V representa uma orelha — invertida — do animal favorito do “homem dos lobos”… 264 A filosofia na alcova. in Littoral. 1998. 124-137. outubro de 1947. causa do não encontro (ou do encontro fracassado) entre Kant e Sade. in Écrits. 7º e último diálogo. Ça de Kant. Martins Fontes. p. 2002 (disponível em http://www. 1982. 263 Jean Allouch. 266Lacan. “Le séminaire sur La Lettre volée” [1955]. op. tradução de Vera Ribeiro. que objeta à afirmação de Lacan sobre uma lei moral que pretendesse reduzir o discurso perverso. cit. naturalmente. ajudando-o a modificar as condições de toda compreensão”. cit. 11-64. nada no artigo de Blanchot indica que possamos equiparar razão sadeana e razão kantiana. Jorge Zahar. 270 J. adotado em 1949 (quando da reedição em Lautréamont et Sade. 1983. in Écrits. O autor conduz uma autêntica discussão. ao Ensaio sobre as doenças da cabeça (1764). disponível em http://fr. 269Philippe Mengue. sobre as bifurcações do pensamento de Lacan nessa época. muito pelo contrário. Edição brasileira: “O tempo lógico e a asserção de certeza antecipada”.

Mises en actes: une affaire de mots”. Se eles aplicassem os resultados alcançados ao conjunto de uma sociedade. escrito por quatro psicanalistas de escolas diferentes. Érès. 1981. 235 e seg. Quero aqui agradecer-lhe vivamente. matemático e fino conhecedor do campo psicanalítico. que não deixa de ter relação com nossa tese. ver Jean-Pierre Vernant. Edição brasileira: Alain Didier Weill. Companhia de Freud. filósofo. p. funciona como uma autêntica instituição (formações. entre outros. seguida de uma longa discussão. cf. Maspero. Ramonville. esses estrategistas limitam os benefícios da máxima altruísta adotada como primeira intenção à teoria da decisão (do tipo “você tem interesse em tentar cooperar primeiro. 2007. . Rompre les charmes — Recueil pour des enchantés de la psychanalyse. Paris. o caminho tomado pelo Círculo Psicanalítico do Rio de Janeiro merece ser mencionado. Pascal Lamy (atual diretor da OMC). ni altruisme: don et théorie des jeux”. Paris. preocupada em situar o inconsciente na cultura e no social. 281 Jean-Pierre Vernant mostrou que os primeiros filósofos gregos devem ser considerados magos e médicos das almas. Une théorie du comportement coopératif [1984]. Paris. le fantasme de l’homme auto-construit. fundada depois de 1968.). in Ce qui circule entre nous. definida como forma de moralidade natural manifestando-se antes de qualquer educação ética. 259-276. grupos de estudos…). antes de entrar em guerra”). 273 Uma formulação ligeiramente diferente desse dilema. Le Seuil. parece-me derivar muito precisamente dessa dedução transcendental inconsciente que necessariamente afeta todo sujeito… desde que ele viva numa Cidade não perversa. cit. Denoël. Donald Rumsfeld. InterEditions. seriam os maiores contestadores das sociedades liberais que dirigem (a esse respeito. naturalmente. 278 Esses dois textos estão disponíveis online. 282 Algo de que Serge Leclaire também fala numa entrevista no filme de Emil Weiss. 279 Do que dá testemunho o livro intitulado Ce qui est opérant dans la cure. um dos pais da bomba atômica) e muitas outras personalidades de destaque. 274 A RAND Corporation (acrônimo de Research and Development) foi fundada em 1945 e tem como objetivo o aperfeiçoamento da política e dos processos decisórios. Quartier Lacan (1996). A esse respeito. A versão completa dessa entrevista pode ser encontrada num livro igualmente intitulado Quartier Lacan (Paris. 275 Robert Axelrod. Edição brasileira: Mito e pensamento entre os gregos: estudos de psicologia histórica. tradução de Haiganuch Sarian. Odile Jacob. Le Seuil. p. 280 Serge Leclaire. op. Francis Fukuyama. 1992. análises. supervisões. John von Neumann (matemático. Godbout. Quartier Lacan. Mythe et pensée chez les Grecs: études de psychologie historique. Passaram pela RAND. 2008. muda muito em relação ao morno horizonte das transferências bloqueadas. Le Seuil. mas uma máxima altruísta. Rio de Janeiro. 277A decência comum de que fala Orwell. lacaniana ou winnicotiana) — o que. Ver o mais recente livro lançado por Olivier Rey (Une folle solitude. mas admite desde a sua fundação a dupla filiação (os membros do Círculo podem pertencer a sociedades de orientação freudiana. “Ni egoïsme. 1999. 2006). Godbout. “Io. e Paris. 2001). que chamou nossa atenção para essa questão. 1966. Paris. 276 Na verdade. ver Jacques T. Rio de Janeiro. é encontrada em Jacques T.272 Foi Olivier Rey. fóruns. Paz e Terra. Ce qui circule entre nous. tradução de Procópio Abreu. 1990. 2007. Condoleezza Rice. Essa associação. promovendo não o self-love smithiano em primeiro lugar. Paris. Donnant-donnant.

que surge. . sem parar. 2008). livro 16: De um outro ao outro. Jorge Zahar. ao contrário dos outros quatro discursos. Le Seuil. Rio de Janeiro. que. tradução de Ari Roitman. que eu saiba. 1992). texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. intitulado L’envers de la psychanalyse [O reverso da psicanálise] (livro XVII. logo passando a relacionar o conjunto ao “discurso do capitalista”.283 É no seminário de 1968-1969. Le Seuil. tradução de Vera Ribeiro. livro 17: O avesso da psicanálise. Paris. pela primeira vez. Lacan estabeleceria uma relação desse mais-gozar com um “gozo outro”. o “mais-gozar” em Lacan. 2006. Rio de Janeiro. 1991. edição brasileira: O seminário. cada vez mais depressa. intitulado D’un Autre à l’autre [De um outro ao outro] (livro XVI. gira em torno de si mesmo. Jorge Zahar. No seminário seguinte. o de 1969-1970. Paris. edição brasileira: O seminário.

3 Hoje: A cidade perversa .

Significa isso dizer que todos os habitantes dessa Cidade tornam-se perversos? Não.218 Este estudo centra-se. já que Platão a ela dedicou dois estudos decisivos: A República e As Leis. O que também pode ser dito de maneira moderna: o funcionamento pulsional será então privilegiado. vimos já no prólogo que uma Cidade pode tornar-se perversa sem que os indivíduos que a compõem necessariamente sigam o mesmo caminho. e que os outros acreditem. A respeito da Cidade clássica. podemos deduzir a da Cidade perversa: é uma Cidade que trata de trazer ao primeiro plano as leis da natureza. poderíamos dizer que se trata de uma Cidade que obedece a leis criadas pelos homens para escapar às leis da natureza — a questão é tão essencial que desempenhou um papel central desde o início da filosofia. baixar a cabeça. como se terá visto. Todas as eventuais incoerências do senhor serão consideradas mistérios inacessíveis ao comum. mas ninguém deve sabê- lo — por isso é que existe in-consciente. Basta. Podemos dizer aqui. Para que isso funcione. no sentido literal de Un-bewust: “in- sabido”. O que poderia ser dito de outra forma ainda: o senhor é louco. Ele é louco. segundo estão convencidos. com efeito. que a Cidade mobilize uma “seleção natural” dos habitantes mais aptos a seguir esse caminho. pois essa reviravolta entra atualmente numa fase decisiva. Dessa definição da Cidade clássica. vale dizer. em nossa opinião. na transformação da Cidade clássica em Cidade perversa — questão urgente. A pressão . é necessário e suficiente que pelo menos um se tome pelo que não é: o senhor. de maneira muito mais moderna e mesmo freudiana: uma Cidade clássica é composta de neuróticos que acreditam que existe um senhor ao qual precisam obedecer e ao qual devem a sua existência. na medida em que se toma por aquele diante do qual os outros devem ajoelhar-se. Mas como definir essas duas Cidades em sua relação recíproca? Será esse o objeto desta última parte. em detrimento do funcionamento simbólico.

Nesse sentido. 219 Acabamos. Com efeito. Essa observação leva a supor que na Cidade perversa podem existir (numerosos) neuróticos com comportamentos perversos. mas por cultura. podem ser apanhados.284 E começamos a nos dar conta de que. percorremos as diferentes posições subjetivas possíveis. o baixíssimo e o Altíssimo 220 Não se é nada disso por natureza porque a natureza é aquilo que a nós. se elas servem para caracterizar o ser-si- mesmo. eles serão obrigados a adotar comportamentos perversos. imaturidade pós-natal do sistema nervoso piramidal. de forma mais erudita. formas discursivas nas quais os sujeitos. Mais exatamente. assim. neurótica ou psicótica — vale dizer. de encontrar três termos: neurótico. podem também ser muito úteis para descrever o ser-junto. perverso e louco ou. Para os que não acreditam. tal como se revela na Cidade dos homens. Não se é nada disso por natureza. que não se é — no sentido de que não se nasce — perverso. em outras palavras. Com esses três termos. Tentemos então diferenciar bem essas três posições. portanto. tal como são enunciadas desde Freud. caixa craniana não fechada (o que explica a moleira). ver-se prisioneiros. Comecemos do seguinte ponto: aqueles que aqui nos interessam não são perversos.sobre os demais indivíduos será então tão forte que. neuróticos ou psicóticos em si ou por natureza. pelo simples fato de falarem. . psicótico. nascemos prematuros. O que nos interessa são as enunciações perversa. mesmo não perversos. eis aqui algumas provas da prematuração do homem ao nascer: paredes cardíacas não fechadas. insuficiência dos alvéolos pulmonares. homens. podemos dizer. neurótico ou psicótico. até serem desalojados da posição que julgavam ser obrigatoriamente a sua. por um período mais ou menos longo. mais falta.

que remete ao desamparo originário do homem. percorrendo toda a civilização ocidental. É digno de nota que esse conceito cintile ao longo de toda a extensa elaboração freudiana. incapaz de se virar — vou chamá-lo aqui de o baixíssimo. numa segunda natureza. com um ser incapaz e incompleto. portanto. o remédio para a Hilflosigkeit humana. Ele teria sucessivas definições. deve completar-se em outro lugar que não a primeira natureza. Indica que existe apenas uma solução para a sobrevivência do homem: que ele supra essa falta de primeira natureza com uma segunda natureza. Tentei demonstrar num trabalho anterior285 que existe uma grande narrativa. incapaz de atingir seu desenvolvimento germinal completo e. para se referir a essa prematuração. portanto. propõe aqui o termo da Hilflosigkeit humana. mas também por . Mais ainda. cada vez mais precisas. O único remédio possível. sabe-se hoje que toda a metafísica ocidental. ou seja. A cultura é. sem o qual os outros não teriam surgido. Freud. O ser humano é. baseada nesse inacabamento originário do homem.286 221 É. o que poderá… tornar-se mais tarde uma experiência dolorosa. da ausência extremamente lamentável de osso peniano ao nascer.circunvoluções cerebrais mal desenvolvidas. os antropólogos falam. a cultura. fez do desamparo do homem ao nascer e na primeira infância o ponto de partida da aventura humana. normalmente transitórios nos outros animais. É bem verdade que não se trata de um conceito-estrela como o Édipo. Aquele que permite ao homem sair de seu estado marcado não só por esse inacabamento originário. ao contrário dos outros animais. Acontece que essa narrativa das origens baseia-se numa razão no real: desde o início do século XX. ausência de sistema piloso. sujeito a uma longuíssima maternagem. como o ego/id/superego ou como o recalque. inacabado. Não foi apenas a nossa época que se deu conta dessa fraqueza do homem. ausência de polegar posterior opositor. um ser de nascimento prematuro. da neotenia do homem. mas nunca seria abandonado. aí que tudo começa. seja ela proveniente de Atenas ou de Jerusalém. geralmente chamada cultura. mas é um conceito de fundo. capaz de se reproduzir e de transmitir seus caracteres de juvenilidade. nos homens. Resulta disso que esse estranho animal. no entanto. por sua vez. ausência de dentição de leite ao nascer — para não falar. de certa maneira.

e falar é fabular. um sujeito mal barrado* 222 Acontece que é muito cansativo criar seres de sobrenatureza. aquele que é “posto sob”. a sobrevivência do homem. o Altíssimo. Melhor ainda: a arte é a arte de criar grande Sujeito. apesar de não existirem. revelam-se dotados de uma poderosa eficácia simbólica. A partir do momento em que esse grande Sujeito é estabelecido. dizia ele na Metafísica. mas de que eu preciso para viver. O grande Sujeito atende então a essa definição de Aristóteles: “Ele é aquele pelo qual tudo mais se ordena”. Nada. Em outras palavras. a arte (narrativas. artes plásticas…) serve para criar grande Sujeito. conseguir supor um ser infinito em relação ao qual eu me coloque em posição de tudo dever. uma figura.sua finitude no tempo (eu não sou para sempre. vale dizer. mas aqui. o grande Sujeito. supor esse ser é algo que eu posso. será necessário re-presentar. Ora. ser tão mal acabado no tempo e no espaço. Em suma. portanto. música. tudo pode e tudo vê para que finalmente encontre o meu lugar. um dia. como sujeito desse ser. portanto. por não ter presença. numa espécie de prisão domiciliar). uma história. Haverá remediação se eu. a Ele. colocado debaixo. necessário e suficiente que eu conjeture um grande sujeito que supostamente tudo sabe. É necessário. uma residência a esse grande Sujeito que. isto vai acabar) e por seu fechamento no espaço (eu não estou em toda parte. animal neotênico. obtém-se a estrutura fundamental da subjetivação. É. É esse o trabalho da cultura: ele permite simplesmente a subjetivação. inclusive sob a forma do irrepresentável. visual e narrativa para dar um aspecto. ou seja. por isso carente de natureza. seres de cultura que. ou seja. mobilizar todas as capacidades de representação sonora. Pois se o suponho. impede-me de inventar o que não existe. de fato. uma voz. passa pela criação de seres de sobrenatureza. que pode ser representada assim: . poderei então me “sub-por” como seu sujeito — e é exatamente o que significa a palavra “sujeito”: o subjectum em latim significa o “submisso”. já que falo.

A relação entre s e S resulta assim numa estrutura muito interessante de dois termos. que farão do sujeito um indivíduo apanhado numa enunciação neurótica. por este ou aquele deus. o lugar do Outro. Quero lembrar que s é barrado por duas razões: 1ª uma razão ontológica (ele é finito no tempo e no espaço). não se trata de uma estrutura no sentido em que os estruturalistas a entendiam outrora. quando falavam das estruturas binárias de tipo cru/cozido (derivadas da cibernética de então. antes mesmo de examinar os posicionamentos que induz. para falar um pouco a língua lacaniana. Para começar. essa estrutura é suficientemente estranha para que nela nos detenhamos um pouco. o s minúsculo barrado de baixo (s) representa o pequeno sujeito (ou seja. o grande Sujeito — vale dizer. Nessa estrutura que. perversa ou psicótica. e 2ª uma razão ôntica ou antropológica (ele certamente é finito. no social. 223 Entretanto. para simplificar. Quem sabe eu ousaria dizê-lo da seguinte forma: s é barrado. este ou aquele indivíduo) e o S maiúsculo de cima. inacabado em sua própria natureza). Ela passa pela suposição do Outro. em outras palavras. geralmente ocupado. poderíamos apresentar como s/S. mas mal acabado. e logo veremos que ela é portadora dos posicionamentos discursivos possíveis. e mesmo tão mal barrado que não pode deixar de ir ver em outro lugar se está ali? O estranho é que funciona: dá-se a isso o nome de assunção subjetiva. funcionando com base num algoritmo binário de .

pois recusa o consolo tão buscado e prolonga a inquietação. em Sua própria perfeição. existem verdadeiros ateus. Em qualquer dos casos. a menos que… A menos que a praxis (que. um pressupõe o Outro. resultando como tal de uma decisão. com efeito. Muito simplesmente porque a estrutura funcionará tanto melhor na medida em que o sujeito ignorar que foi ele que inventou o grande Sujeito (ou seu substituto). sair dele. de fato. Trata-se aqui de uma outra estrutura de tipo circular. O que implica romper a circularidade e reintroduzir uma causalidade. Cioran — e eis aí alguém que rangia muito —. que sabia conferir ao seu desespero essa forma polida que vem a ser o humor. O único problema é que um círculo remetendo indefinidamente de s a S e de S a s corre o risco de muito rapidamente tornar-se cansativo. na qual. É uma escolha mais rara. pois tranquiliza o ser desamparado que é o homem.287 Muito bem. que “sub-põe” o um. foi criado pelos homens… essencialmente para acalmá-los em suas angústias.forma 0/1 ou sim/não) que entusiasmavam Lévi-Strauss e seus amigos dessa época: Jakobson. vale lembrar. dizia: “Se existe alguém que tudo deve a Bach. é chamado de um “laço estranho” derivado de uma “hierarquia emaranhada”. Estamos assim diante daquilo que. e é precisamente esse não saber que necessariamente fará dele um ser sujeito ao inconsciente. É uma escolha frequente. Lacan e alguns outros.”288 Uma forma elegante de afirmar que Deus. por exemplo. pois vicioso. Poderíamos aqui perguntar-nos se. Impossível. Não é possível. em última análise. não é certo. venha a provocar o engatamento temporal. que pode então ter início de duas maneiras diferentes: — partindo de S. significa “ação” entre os gregos). ficar dando voltas por toda uma eternidade como um hamster na estrutura circular da subjetivação. forçando as coisas. é Deus. ele deverá dar mostra de ignorância. Por isso é que o ateu com frequência range — ao mesmo tempo tentando dar uma forma aceitável a esse rangido: o humor. O que. no caso. assim reconfortado por se imaginar procedendo de algum deus.289 . desde o audacioso teórico da inteligência artificial Douglas Hofstadter. o grande Sujeito — será essa a escolha do crente. Será necessário começar por uma das pontas. — ou partindo de s — e será essa a escolha do ateu. com efeito.

na medida em que pretendem impor uma decisão no lugar do que é rigorosamente impossível de decidir. seria necessário imaginá-lo como o que resulta da interação dessas duas instâncias. sobretudo. existe apenas um infrassujeito (que falta a ele próprio) e um sobressujeito. incapazes de jamais nos encontrarmos. Nietzsche bem que tentou. mal acabado e. perdemo-nos no Outro. o Outro. Esse remédio simbólico para o desamparo real do homem tem a ver com o que Platão chamava de pharmakon: um remédio e um veneno. dar uma nova forma. pois no exato momento em que poderíamos nos encontrar.224 É evidente. 225 Outro traço característico dessa estrutura estranha: ela permite afirmar que. O psicanalista Alain Didier-Weill encontrou as palavras mais simples e precisas para dizer essa cisão originária: “Assim que o sujeito fala. Se realmente se quisesse que houvesse um sujeito. dizendo que havia morrido por nós — e isso se chama cristianismo. significando-se numa fala . contudo. esse grande Sujeito que não existe.291 A divisão subjetiva é o que faz de nós seres cindidos. Os dois. num texto tão breve quanto decisivo. 226 Essa estrutura s/S permite. o homem é um ser beckettiano: finito. e sabemos o que lhe custou. como o sujeito é esperto. ao que me parece. divisão subjetiva (a Spaltung). é de grande ajuda… até que se torne extremamente embaraçoso. mantêm uma relação de implicação recíproca. falando estritamente.290 Em suma. ao que Freud havia denominado. um de seus últimos. o baixíssimo e o Altíssimo. Com isso. que essas duas maneiras de começar são igualmente ruins. no entanto. não existe sujeito. Na verdade. indo além da clínica individual. Em suma. um belo dia tomou a frente. ficou difícil matá-lo… pois ele já está morto — e. Por isso é que estamos constantemente matando nosso salvador. sempre necessariamente começando mal. Entretanto. cabe supor que o remédio para o desamparo humano venha a ser bem pior que o mal. Em tais condições.

insignificável pela fala.que decide e distingue.293 É verdade que. o insabido que preocupa Lacan […] é o que o recalque originário institui como incógnito radical. é imemorável. Ele pode ser facilmente situado em meu esquema como aquilo que cai no momento da transferência de s para S. retira-se daquilo que foi significado e cai como que velada. pois permite passar do programa freudiano de exploração de todas as formas do recalque secundário (operação pela qual o sujeito rejeita algumas de suas pulsões e moções consideradas desagradáveis) para o programa lacaniano de exploração do recalque originário (operação pela qual o sujeito renuncia ao objeto em proveito do significante. falando. nas próprias primícias de sua derradeira descoberta. alienando-se assim à linguagem) — o que Alain Didier-Weill expõe com precisão: Enquanto o insabido a que se vincula Freud é o do recalque secundário.”292 227 Se Lacan foi um autêntico continuador de Freud. ao passo que aquele. Essa retomada está carregada de consequências. a-histórico. A esse objeto definitivamente perdido é que Lacan dará o nome de objeto a. o Outro e seus avatares 228 . como tal rondando todo discurso. A principal diferença entre o que é escondido pelo recalque originário e o que o é pelo recalque secundário está no fato de que este é rememorável enquanto situado na história do sujeito. é por ter retomado essa questão da divisão subjetiva exatamente onde o fundador da psicanálise foi detido pela morte. uma parte dele. mas ao preço da perda do objeto. ganha-se.

é saber se Lacan levou a cabo seu programa. se corre o risco de sequer vê-lo. Tanto mais que é exatamente nessa direção que Lacan parece induzir-nos. Existe a estrutura e existe a história. mas não fui eu que me coloquei ali. sobretudo. mas engajar-se numa historicização das figuras do Outro. Nesse sentido. Lacan foi homem do seu tempo. é preciso tirar Lacan da prisão estruturalista em que muitas vezes é aprisionado por seus alunos. É claro que não pode haver estrutura sem referência à história. por uma neurose extremamente impregnada de perversão.A questão. numa conferência pronunciada em 1968: “Vocês sabem da grande tolice inventada recentemente. inclusive à história que está sendo feita através de uma renovação permanente da figura do Outro. E não porque só eventualmente abordou o estudo dos efeitos específicos da variação histórica do Outro. até o ponto em que possam efetuar-se mutações. não significaria repeti-la. homem dos tempos estruturalistas que privilegiaram a sincronia e negligenciaram a diacronia. vale dizer. É absurdo. o Outro só pode ser realmente percebido em sua complexidade se forem compreendidos. 229 . o Outro. a que ele dá o nome de “perversão ordinária”. portanto. que não se limita a repetir com exatidão o discurso do mestre. Ora. como diz o psicanalista Jean-Pierre Lebrun. fui colocado — supostamente cospem na história. hoje.295 Dar continuidade a essa parte do programa de Lacan. Eu responderia sim e não. quando dizia. Para isso. como na época de Freud. não será possível entender por que entramos numa fase em que o ordinário da condição subjetiva não é mais constituído. contudo. Se não for dado esse passo. vale dizer.297 Não só não se haverá de entender como. identificados e enumerados os diferentes avatares294 através dos quais ele constantemente se apresenta na história. da neurose. Sim porque Lacan explorou sistematicamente os efeitos de recalque produzidos pelo confronto do sujeito com o grande Sujeito. mas.”296 Não há estrutura sem referência à história. As pessoas colocadas no pote da estrutura — entre elas eu.

tão exorbitantes ambas que eu jamais seria capaz de reembolsá-las. Por exemplo. quando é Ele que confere ao pequeno sujeito aquilo que ele não tem: um apoio sobre o qual se fundar? Aquilo que chamo de solução neurótica consiste: 1º em acreditar. Por quê? Porque o aforismo de Cioran manifestamente inverte aquele que deve ser. neste mundo no qual ao que tudo indica eu caí. e a outra. é o Outro que dá e eu lhe devo tudo. Se a histeria constitui o protótipo da neurose. será provavelmente por ser ainda um bravo neurótico. etc. de um grande homem. E se. 230 A neurose resulta da dívida simbólica contraída em relação ao Outro. que “existe algo. É o lugar de um nó psíquico importante. por genial que seja. Ele/ela amará o Outro detestando-o ou o detestará amando-o. simbólica (a linguagem). uma real (a vida). Registrou como uma impertinência essa afirmação e se descarregou dessa tensão sorrindo. para você. que faz as delícias do histérico: seduzir o Outro — sob a figura de Deus. reproduzido anteriormente. além de normalmente neurótico. — ao mesmo tempo escapando-lhe. . é porque o(a) histérico(a) é aquele(a) que venera o Outro por lhe ter tudo dado e ao mesmo tempo o detesta por tê-lo(a) posto na situação de tanto e tudo lhe dever. esta. que havia distinguido três patologias fundamentais. é possível sair de três maneiras: pela neurose. De modo que só posso culpabilizar-me. você for também mais ou menos crente. e eis que de repente vem alguém dizer que Deus é que deve ao homem.Dessa estrutura circular em que o um (s) supõe o Outro (S) que “sub-põe” o um. Mas como é que Deus pode dever alguma coisa a um homem.298 2º reconhecer que. em vez de nada”. Dirigindo-me diretamente ao leitor atento poderei talvez prová-lo: se você sorriu com o dito espirituoso de Cioran sobre Deus em dívida para com Bach. como dizia Leibniz. pela perversão ou pela psicose. terá acaso rido ou sorrido meio amarelo. o efetivo sentido da dívida. O que retoma em novas condições a intuição de Freud. Você estava convencido de que o homem é que devia a Deus. no qual constantemente se remotiva o conflito neurótico em todas as suas formas possíveis. de um mestre. Em particular duas doações.

através de outrem. na verdade. na qual uma velha religiosa. leitor real de Francisco I. exatamente lá onde o gesto autofundador é mais forte. então posso fundar a mim mesmo. é por levar a entrar em concorrência com o gesto divino. Com efeito. o mais das vezes através de uma voz imperiosa que ocupa o sujeito.231 A solução psicótica é mais onerosa. Guillaume Postel. lá. é eleita como o segundo messias. vale dizer.” Assim é que a solução psicótica leva a pensar que. imitando-o. que me espiona e me persegue. Se a solução psicótica é onerosa. E ser “posto sob” é não ser. no sentido de tomar posse dele. como tal perseguida: existe um Deus que está constantemente querendo roubar meu ser. o messias feminino. chamado a salvar o . então eu não sou. radical: vai-se apresentar como um combate sem trégua com Deus. essa potência manifesta-se como sobrenatural. Basta pensar nos casos do presidente Schreber ou do presidente Wilson. Ou pensar em qualquer desses grandes delirantes portadores de uma moção crística. encontrada em Veneza. Ela diz que se Deus é. que fizeram as delícias de Freud. ainda que Deus dê o melhor de Si para salvar os pequenos sujeitos. é designada “a mãe do mundo”. Pois ser como sujeito é ser como tal submetido. A solução psicótica será. Pois significa ser por delegação. vale dizer. mais uma vez. pondo em jogo Deus. na maioria das vezes. de se apoderar dele. os grandes psicóticos gostam de jogar de igual para igual com Deus. “posto sob”. por exemplo. trata-se de tomar medidas para salvar o mundo. uma nova civilização está para surgir. Assim é que os psicóticos haverão de inscrever seus delírios. uma nova escrita. Perdeu-se a conta dos delírios que remetem mais ou menos diretamente às questões divinas — aqui. enquanto “a nova Eva”. em outras palavras. Uma forma paranoica. sempre haverá entre eles alguns que contestarão Sua grandeza e Sua força em Seu próprio terreno. portanto. sou eu. E uma forma esquizofrênica e triunfante: Deus. E o gesto divino por excelência é o da autofundação. Um combate que pode assumir duas formas opostas e complementares. mais adiante. submisso. que desenvolveu uma fantástica teologia delirante muito erudita. Nos dois casos. uma nova Lei. lá onde se veem diretamente às voltas com a autofundação. lá. Se eu sou Deus. assim como o Deus da Bíblia se fundou nessa enunciação circular: “Eu sou aquele que sou. madre Jeanne. é deixar ser raptado o seu ser por um Deus ladrão de identidade.

De fato. pelo menos aquele que tiver dado mostra de maior rigor.299 Afirmativa que o psicótico está constantemente provando: por isso é que. no qual um rei muito enfraquecido pela gravíssima revolta da Fronda (1648-1652). bastará representá-lo. que não se cansava de dizer que havia morrido no Gólgota há dois mil anos e que Deus era ele. 234 Tanto mais que a mania de grandeza às vezes funciona. declarando: “O Estado sou eu. e não um Alguém qualquer. em trajes de caça. para ocupar o lugar do Outro. rendeu-se. nem um único voluntário em suas fileiras para desempenhar esse papel eminente de forma digna de crédito. que. a psicose é uma “cura de rigor”. número 14 da série dos Capeto. mostra que o povo constituído de neuróticos em desamparo pode tomar como senhor. se não o primeiro louco que aparecer. especialmente para evocar esses casos. A narração pode assumir o posto. expressava-se assim: “mania de grandeza”. diante do Parlamento. não é grave. como dizia Lacan. Considero um episódio psicótico bem caracterizado esse decisivo momento da história da França. que imaginar da frequência que não poderiam ter num contexto onde não houvesse mais nada para ocupar esse lugar? 233 Considero extremamente justa a expressão popular. 235 Quando o povo de neuróticos não tem ninguém à mão. É precisamente para isso . se não se apresenta nenhum grande Sujeito. datado de 13 de abril de 1655. 232 Observação: se esses delírios transcorriam no contexto onde já havia Alguém. como tantos outros.” Esse caso. hoje quase esquecida.mundo. Pode-se dar um jeito. Ou ainda pensar em Artaud.

os pivôs de toda enunciação possível: “eu”. Acontece que esse momento chegou. porém mais completa. Des Cartes justificava seu nome: não botava todas as cartas na mesa ao mesmo tempo. Os seres humanos nunca se eximiram dessa função fabuladora que lhes cai tão bem. igualmente simples. Jogava sempre guardando em reserva algum trunfo secreto. Depois de muito frequentar os escritos de um gigante do século XX. precisamente. à situação do homem na língua. assim. acabei dando à enunciação. esta definição extremamente simples: falar é dizer eu a um tu a respeito de ele. transformar minha primeira estrutura circular de dois termos numa segunda estrutura. ou seja. para explorar a terceira e última saída possível dessa estrutura circular na qual o um (s) supõe o Outro (S) que “sub-põe” o um. Só depois desse aperfeiçoamento é que eu poderei dar conta do terceiro e último tipo de enunciação que pode caber a um sujeito falante: a enunciação perversa. o linguista Émile Benveniste. “tu” e “ele”. devo. que ele é louco por nós** 236 Espero aqui que o cavaleiro filósofo René Des Cartes (de acordo com a antiga ortografia) perdoe-me por me revestir por um momento de sua famosa máxima: Larvatus prodeo — “eu avanço mascarado”. sabendo que chega sempre o momento oportuno de abrir o jogo.300 Não hesito em afirmar que nessa definição extremamente trivial está contida toda a condição humana enquanto marcada pela discursividade.que servem as grandes narrativas. É simplesmente a estrutura da enunciação. Um cartesiano militante como eu. portanto. não pode avançar sem dissimular algumas cartas. sempre circular. a solução perversa. Para dar um passo a mais. O que se poderá notar sem dificuldade é que essa estrutura é de aspecto trinitário. vou deixar cair a máscara. Deste modo. O . mas de três termos — aqueles que constituem. A estrutura simples que montei não passava de um anteparo — que espero tenha sido heurístico — dissimulando uma outra estrutura. de Deus.

é porque põem em jogo uma autêntica gramática enunciativa que diz a essência da condição humana. por sinal. para falar é necessário ser pelo menos dois. “Ehyeh ascher ehyeh” (mais ou menos bem traduzidas como “Eu sou aquele que sou”). Com efeito. Pois “eu” sem “tu” não é possível. em busca de um apoio terceiro para. Quanto ao “s” da minha primeira estrutura. é também o único ser que pode figurar como referência soberana para os sujeitos em desamparo. depois que Deus é designado na primeira pessoa por estas palavras famosas. com efeito. E. que YHWH (“Ele é”) retoma o ehyeh (“eu sou”) de Ehyeh ascher ehyeh. Essa passagem do “eu” ao “Ele” é altamente instrutiva: ela mostra. e depois cuidaremos de s. é muito simples: o que convém é o “Ele”.que em nada invalida o que eu disse sobre a estrutura circular que conduz de s a S: ela continua sendo suficiente para a exploração das duas primeiras enunciações possíveis. Essa transformação ocorrerá em duas etapas: examinaremos inicialmente o que se deve pôr no lugar de S. Assim é que se esclarece a enunciação eu falo a ti a propósito dele: ela significa que “eu” e “tu” têm a incumbência de “alucinar” esse terceiro que lhes . é o que nos diz o próprio texto bíblico. “ser”. em geral. “Ele é”. encontraremos a mesma designação do Outro na terceira pessoa no islã. O Outro. 14-18. justamente. no episódio fundador relatado no Êxodo. com um “eu” que fala a um “tu”. a neurótica e a psicótica. Considera-se. Acontece que huwa corresponde ao mesmo tempo à terceira pessoa do pronome pessoal e ao verbo de ligação que faz as vezes de verbo ser na língua árabe. No caso de S. como tentei demonstrar em outro contexto. Em suma. que representa o pequeno sujeito. já em Êxodo III. em Êxodo III.301 YHWH é a terceira pessoa do verbo hyh. 14. por sinal. e no início de Êxodo VI esse Deus volta a ser “YHWH”. atual ou virtual. os textos de fundação não o são à toa: se se sustentaram durante milênios. pode ser designado como “Ele”. mas não é capaz de dar conta da enunciação perversa. o que significa. que Deus. Assim. por sua vez. sendo o único capaz do prodigioso mistério da autofundação — é o exato sentido da expressão Ehyeh ascher ehyeh — . hayah. já que Deus é normalmente designado como huwa huwa. deve ser substituído pelo circuito “eu-tu”. E. se fundarem também.

é conjuntamente suportada por “eu” e por “tu”. representando o conjunto dos falantes. e podendo ser representada assim: Esta figura apresenta características extremamente interessantes. cerne de todos os conflitos. Essa figuração mostra também que. porém mais completa. repete de maneira recursiva o circuito principal. obtemos uma outra figuração possível da estrutura da subjetivação. será necessário observar esta particularidade: existem dois circuitos de forma idêntica. na solução psicótica. a recusa de se submeter ao Outro (já que. diante do “tu”. Feitas essas duas substituições. Ela permite entender que o que está em jogo no grande circuito enunciativo (com o “Ele”) vem a atuar no pequeno. o grande. a dívida simbólica. o Outro encontra-se aí em forclusão) leva o “eu” do pequeno circuito a se colocar na posição do “Ele” do grande circuito — o que o excluiu de toda interlocução com “tu”. que permitirão entender de que maneira funciona a enunciação perversa. de tal maneira que o “eu” ocupe. para encontrar o remédio a seu desamparo. Com a ressalva de que esse esquema permite ver melhor que. Quanto à enunciação perversa. Para tal. o fazem trocando periodicamente de posição: aquele que fala torna-se aquele que ouve e vice-versa. o primeiro. Nada muda nas duas saídas (neurose e psicose) que já havíamos assinalado. na solução neurótica. Exclusão constatada prática e empiricamente por todos aqueles que realmente tentaram falar com um verdadeiro louco: ele não se interessa. a posição . geralmente. ela se esclarece nesse esquema. intrincados um no outro. análoga à anterior. O segundo circuito. o que relaciona o polo “(eu-tu)” ao polo “Ele”. segundo a formulação de Lacan. E.falta. ligando o “eu” ao “tu”.

essa proposição só pode ser realmente entendida mobilizando-se as teorias da enunciação baseadas na análise da relação de lugar entre as três pessoas verbais: “eu” (o um). compensada por um inchaço da pequena. como se ele ocupasse diante de seu alter ego o lugar do Outro. Mas seria um equívoco. aparando-lhes as unhas e cuidando de sua toalete íntima. exigindo delas uma limpeza perfeita. na posição do Outro. às vezes deploráveis. Tomo essa expressão emprestada ao grande cineasta português João César Monteiro. 237 Diante do parceiro. o perverso coloca-se. diante de todo outro. que já havia criado em filmes anteriores. seus pelos pubianos depositados na banheira. a quem compara a madonas venezianas das quais seria o deus. em 1995. depois de levá-las a tomar banhos de leite que servem para fabricar seus sorvetes incomparáveis. o perverso representa A comédia de Deus. Ele reina em meio às vendedoras. Monteiro interpreta o personagem de João de Deus. um filme extraordinário. O que. com esse título. pois ela encontra e confere sentido à maneira como Lacan definia o perverso: “O perverso imagina ser o Outro para garantir seu gozo. Esses pelos é que serão por ele classificados minuciosamente. provavelmente. A perversão surge então como uma negação da grande estrutura.eminente que o “Ele” ocupa em relação a todo sujeito falante (“eu” e “tu”). e que desta vez tem uma profissão: inventor de sorvetes com aromas incomparáveis. A definição poderá ser estranhada. quem paga suas dívidas enriquece? 238 . irresistivelmente burlesco e inquietante. Poderíamos falar aqui de uma translação do que está em jogo na estrutura principal para a estrutura secundária. num precioso álbum a que dá o título de “o Livro dos pensamentos”. como se essa estrutura secundária pudesse e devesse suportar sozinha o que está em jogo na grande. Nesse filme. “tu” (o outro) e “Ele” (o Outro). colecionando.”302 De fato. que realizou. Em suma. explica a seriedade com que o perverso maquina suas encenações. nos momentos de abandono.

o perverso não deve nada. 240 Podemos constatar que não é grande a distância entre a enunciação perversa e a enunciação psicótica. trata-se de ocupar a posição do mestre — mestre do grande circuito na enunciação psicótica. ou o novo Messias. Tudo lhe é devido. portanto. Podemos deduzir que o perverso é um louco que não conseguiu ir até o fim de seu projeto de domínio — caso contrário. a geração anterior. 239 Constatamos hoje uma inversão do sentido da dívida. do pequeno na enunciação perversa. intimam aqueles que os puseram aqui a assumir seus atos. Para isso. estamos na enunciação psicótica. Se o “Ele” vem como “eu”. o surgimento de francos delírios. o sujeito tenta ocupar a posição de Deus na estrutura principal. E. Problema: trata-se de um anteparo frágil. no caso. Se o “eu” escapa no “Ele”. ao passo que antes elas estavam em posição de dívida. estamos na enunciação perversa. nos dois casos. seria psicótico. podemos observar com frequência. esmagado por uma dívida simbólica impossível de ser paga. . Mas. Desse modo. em que o louco nos explica que não é louco. Pois eles não devem nada a ninguém e muito menos ao Outro. Os clínicos da adolescência falam de crianças que doravante declaram aos pais que não pediram para vir ao mundo. do circuito principal para o circuito secundário. Na enunciação perversa. por exemplo. a translação se faz no outro sentido. pois aqui temos crianças na posição daqueles a quem tudo se deve. naturalmente grotescas. Na enunciação psicótica. Essa inversão é uma séria indicação de que está ocorrendo uma mutação histórica. quando as encenações do perverso dão errado. coagido ao sentimento de culpa. Napoleão. retira-se do pequeno circuito para se projetar no grande. com efeito. O que resulta em todas essas cenas. O que pode ser dito de outra maneira: a perversão constitui o último anteparo antes da psicose.Ao contrário do neurótico. mas um personagem muito importante.

nesse movimento circular. o verdadeiro. Donde o suposto aumento. Ora.305 Que vem a ser. que nunca deixa de ser acompanhada de tentativas de domínio do outro. projeta-se além de si mesmo.303 Mas como então situar a outra grande forma de fracasso na subjetivação. De tal maneira que o perverso é aquele que poderia dizer: consegui. é aquele que. o depressivo efetua um trajeto centrípeto de fechamento no interior do círculo e o perverso. pois a melancolia tem mais a ver com a psicose. assim. Com o devido respeito. quando o perverso vai além de si mesmo. Poderíamos dizer que. como explicava Freud. a bondade do carneiro 241 Ocupar a posição do senhor não é fácil. Em suma. dos casos de perversão e de psicose dita social. um depressivo? É um sujeito que não consegue enfrentar a autofundação que lhe é requerida. tão específica da hora pós-moderna: a depressão. Fica então aquém de si mesmo. sendo. com efeito. um deles fica aquém de si mesmo. Lanço. O que significa conjeturar que os depressivos são sujeitos que poderiam perfeitamente ter sido perversos… se dispusessem de meios para isso. um delírio especial. sua outra face. eles . Enfrentar essa aporia é o preço a ser pago para se libertar das grandes narrativas que sustentavam uma figura possível do Outro. por ele qualificado de “delírio de pequenez”?304 Vou aqui fazer uma proposição clínica: considero que a depressão pode ser pensada como o inverso da perversão. ao passo que o outro. exatamente onde o depressivo fracassou (e fracassei onde o psicótico teve êxito). um movimento centrífugo de saída do círculo. Pois o senhor. no movimento circular da autofundação. a hipótese de que a depressão é o contrapeso da perversão. Ou ainda: o depressivo é um perverso que não o sabe. a queda da referência divina clássica (transcendente) em nossas sociedades leva o indivíduo pós-moderno a se defrontar cada vez mais com a aporia da autofundação. o perverso. Isso poderia ser dito de outra forma: o depressivo é um sujeito que não consegue tornar-se perverso. hoje em dia. consegue se autofundar. valendo-se disso para afirmar uma espécie de enfatuação subjetiva. a exemplo de Deus. muitas vezes posta em relação com a melancolia — o que é um equívoco.

com o qual convivo diariamente. é conduzido para a posição que deverá assumir em função da configuração. sempre ou quase. 1ª Verifica-se de fato uma ascensão dessa configuração — e a prova pode ser vista no desenvolvimento atual dos “estados-limite”. que facilmente se mostra culposo e preocupado com tudo: que pensar de cada uma dessas enunciações? E se o outro. as três saídas imagináveis. naturalmente. psicótica ou perversa. Já o disse: não posso botar todas as minhas cartas na mesa ao mesmo tempo. considero preferível voltar a envergar a máscara por algum tempo. um . as três enunciações possíveis que cabem ao sujeito falante no processo de subjetivação: neurótica. 243 Estabelecemos. Por quê? É o que logo veremos. Em suma. sempre específica. feita essa delimitação. Mas permito-me sugerir ao leitor impaciente que a resposta encontra-se na figura 2 do esquema da subjetivação. portanto. não seria acaso um pouco psicótico ou um pouco perverso? Ora. articulando as duas estruturas análogas. em que se encontra. fosse um grande neurótico ou um perverso lendário ou um psicótico ainda não declarado? E eu. pelo menos de maneira consciente. rapidamente se apresenta a questão subsidiária. mesmo. na verdade. mas esse consentimento nem por isso deixa de ser. vale dizer. É evidente que. não existe naturalmente nada a ser julgado dessa maneira moralizante. só podem prosperar nesse terreno. tendo chegado a este ponto. 242 Significa isso que assistimos a um recuo da neurose e a uma ascensão dessa configuração depressivo-perverso-psicótica? Devemos aqui responder em duas etapas. Simplesmente porque nunca é o sujeito que escolhe. Que ele deva ter consentido na escolha que finalmente se impôs é altamente provável. mas apenas porque não tem como ser lobo.estão na posição do… carneiro. especialmente no neurótico médio. Aquele a cujo respeito as más línguas dizem que não é bom por natureza. a sua posição: cada um. 2ª Mas essa ascensão talvez não signifique o recuo da neurose.306 que. de tal maneira que a segunda é recursivamente imbricada na primeira. com o possível rigor.

Ora. ele se submete. a respeito dos pobres neuróticos vivendo constantemente no sentimento de culpa. recusa-a. Para julgar. muitas vezes trouxeram a liberdade a sistemas neuróticos sufocantes fechados em dogmas impossíveis de demonstrar. perverso ou psicótico é nulo ou fora de propósito. que foi tudo culpa de Hitler. Sobre os malvados perversos. capazes de matar de inveja muitos neuróticos.consentimento inconsciente à possibilidade que se apresentou de maneira mais evidente. “existe algo. mesmo que se prejudique. Ao passo que o perverso. alguns chegaram a ter vidas fora do comum. muitas vezes. ouvimos dizer.307 Quanto aos perversos. deles que pretendo falar aqui. não. Quanto aos psicóticos. por tranquilizarem os neuróticos. em vez de nada”. basicamente. Em ambos os casos. passam a instrumentalizar os loucos para valer-se dos seus delírios em proveito próprio. seria necessário que o sujeito tivesse deliberado e optado com toda responsabilidade. 244 O que distingue o perverso do neurótico é. neles projetando o que eles próprios não ousavam dizer — o que não impede que depois venham a dizer. esses julgamentos são falsos. sobretudo. sua vida lhes foi injustamente roubada. naturalmente. é verdade. finalmente. pelo menos na época em que não eram apagados com neurolépticos. Por isso é que o julgamento moralizante sobre o fato neurótico. Artaud. por exemplo. que não têm sorte. tendo sido capazes de criações de uma audácia inusitada (basta lembrar os nomes de Hölderlin. que mereceriam sofrer aquilo que fazem os outros sofrer. mas que sua situação poderia ser ainda pior. Van Gogh e muitos outros). Os neuróticos não são (nem sempre) pobres pessoas dignas de piedade: em sua busca de um senhor. Ele desrespeita a lei. Satisfeito ou não (e quase sempre é “não”). já que é. mas incansavelmente repetidos. por livre e espontânea vontade ou à força. Mas nem por isso o julgamento moralizante deixa de ser frequente. a questão da relação com a lei. Muitas vezes. o que. mas enquanto o neurótico . O neurótico é aquele que se submete à lei. Sobre os infelizes psicóticos. nunca é o caso. como se não tivessem votado nele.

no terreno político. Especialmente para não ser apanhado pelo rebanho. Sejam aqueles denunciados por Kant quando. nem César. por ‘bondade’. definido como irredutivelmente crítico. o perverso considera que a lei é sempre a lei dos outros obedecendo ao Outro. que procede por infração e abre brechas nos sistemas murados. no resto do tempo. no da ciência. em Que é o Iluminismo? (1784).considera dever obedecer à lei que supostamente rege esse algo. de fato. Eles são necessários nos regimes trancados na sujeição e na submissão. propõem-se a velar por eles” e “com isso tornam estúpido esse rebanho […] cujas pacíficas criaturas não devem ousar dar o menor passo fora do parque onde estão presas” (parágrafo 2). Seja no terreno das artes. nunca a sua lei. ou daqueles que. belo. Mas também precisamos dele em nossas democracias. do rebanho de neuróticos. é aquele que se permite ir olhar ali onde é proibido. jogar água no moinho daqueles que se aferravam a uma definição radical do pensamento. o que podia colocá- .308 São duas formas clássicas de rebanhos de neuróticos às quais o perverso foi capaz de se opor em ato. o perverso se importava simplesmente com sua paixão pela imposição de sua própria lei. ou seja. constantemente se reformando. nem tribuno”. ao criticar a paixão democrática pela igualdade. adverte os que se colocam sob a proteção dos “guardiões que. com efeito. no do governo dos homens ou da relação entre os homens e as mulheres. Sua paixão de evitar a lei comum pôde inclusive. o perverso? 245 Podemos facilmente deduzir que o perverso pode revelar-se um personagem extremamente útil para a civilização. e os insubmissos são necessários. Por quê? Porque a perversão. apostavam nos estimulantes “nem deus nem senhor” e/ou “nem deus. sem limites. livres do “distúrbio de pensar”. cria insubmissos. Eu disse “vez por outra” porque. Ou os lastimados por Tocqueville. vez por outra. a única que interessa. O perverso. que pode “reduzir cada nação a ser apenas um rebanho de animais tímidos e industriosos”.

os homens e as mulheres. portanto. não me colocam na posição do celerado sadeano. criminosa. Assim. uma outra natureza. Em suma. Mas essas duas esferas são de fato regidas por leis. ignorar que o sexo também é uma questão de natureza. que remete às Leis da natureza. e dividido em dois sexos. mas na do “tolo” — o que de bom grado assumo. entre convenção e natureza. diante dessa questão antropológica capital. o mundo das amebas é unissexuado e marcado pela reprodução por cissiparidade. como eminente perverso. Ao passo que. Cuidado. Pois ele vai mais longe. O perverso. entre nomos e physis. a renegação perversa não visa apenas a lei. ele terá de . para entender. segundo ele. Ou quais deveriam ter sido seus pais.309 sexionado. Ou qual deveria ter sido o do outro. das leis da physis. na qual o sexo deve renegar ou desafiar a divisão sexual. com l maiúsculo. que diz respeito à lei dos homens. é necessário retomar aqui a distinção feita pelos gregos. para não confundir a lei. Sade. ou seja. que já utilizamos em outro contexto. em suma. se caiu do lado homem (o que pode ser lamentável).lo em qualquer posição — inclusive a do lobo solitário rondando o rebanho para atacar presas mais frágeis. por outro. Volta-se também para a Lei. De fato. Isso para dizer que a negação perversa também quer atingir a Lei. quer decidir como será o tempo. com efeito. é. Ou qual deveria ter sido seu sexo. De natureza no sentido em que o gênero ao qual pertencemos. vale dizer. Podemos avaliar toda a diferença entre o neurótico e o perverso. com a Lei. embora se trate das leis do nomos por um lado e. Quer. igualmente para sofrer com isso. se permitirem a expressão. por exemplo. 246 Que o perverso renegue a lei dos homens é o que acabamos de dizer. aquela a que todo neurótico como tal se submete. regido pela Lei da reprodução sexuada. Vou ilustrar essa distinção com um exemplo muito simples: o governo pode decidir que as férias ocorrerão no mês de agosto. tais como as invoco aqui. quando o neurótico se diz que. o gênero humano. comparando seus enunciados. execrava essa natureza que permite a “propagação” (exaltada. em suma. pelos “tolos [que] chamam [isto] de leis da natureza”) para melhor exaltar. Mas isso não basta. já vista anteriormente. com l minúsculo. mas não pode decidir como será o tempo nesse mês. É evidente que as “Leis da natureza”.

metendo neles. o ânus. a vagina) e existem apêndices (como a língua e a “pica” — e aqui retomo apenas os termos de Beckett. Na verdade. para . o perverso preferirá crer que essa Lei da natureza não passa de uma simples convenção humana que ele pode contestar. Para abordar essa questão. ele só pode manter em suspenso sua adesão a tudo. nos corpos. é verdade. e vice-versa. os cadáveres. O que pode servir a muitas causas. boas e más. Ele quer ver para saber o que não se pode saber. Isso quer dizer pelo menos duas coisas: primeiro. E então ele talvez tivesse consentido.310 Os apêndices servem para foder. pois essa questão lhe diz respeito em primeiríssimo lugar. Quando os corpos tombam. no centro dos quais os que servem à reprodução da vida. certos buracos e apêndices do corpo. que falava da “obscena protusão da língua [e da] tumefação da pica”). parece-me indispensável dirigir-me diretamente ao leitor. impunemente. E. mas não tanto quanto se julga. Pode parecer que falar dos “buracos e apêndices que servem à reprodução da vida” redunda em enfatizar indevidamente estes em detrimento dos outros. mas como as coisas não aconteceram assim. Assim. na medida. Em primeiro lugar. em segundo lugar. precisamos do outro. em geral. se tiver prestado atenção. Essa menção não seria algo suspeita. existem buracos (como a boca. exatamente. mas por enquanto é assim. digamos. os homens. queiramos ou não. Polinices. Vale dizer. sua opinião deveria ter sido consultada antes de jogá-lo no mundo. você terá notado que. do outro sexo.aceitar que não é uma mulher. aqueles que podem ser fodidos. 247 O que interessa ao perverso é ir olhar exatamente ali onde é proibido. em que é necessário recorrer a sua experiência e sagacidade. querem que eles tombem na tumba e não ao lado dele — é o que sabe desde sempre o teatro. duas coisas. nós vivemos numa espécie sexuada — o que certamente é extremamente lamentável. e mesmo reacionária? Um pouco. Foder onde e o quê? Justamente os buracos dos outros corpos. que devem ser sepultados. Em suma. pois é precisamente este problema que Antígona procura resolver a propósito de seu irmão morto. E o que é proibido ver? Aquilo que normalmente não se mostra. como mais uma vez provavelmente se terá notado ao prestar a devida atenção.

não é o caso. alguns dos quais acabarão por se tornar pais diante de filhos. A morte que encara cada um de nós com seus enormes olhos de betume. é preciso esconder aquilo por onde passa a vida nos corpos sexuados e aquilo em que esses corpos se transformam quando cumpriram sua função: cadáveres. pelo menos até o momento. Podemos. nos divertir dando umazinhas na direção errada. separando-nos de nós mesmos por cissiparidade. Por enquanto. enquanto seus filhos serão destinados a viver. viveríamos eternamente. contudo. Pais destinados a morrer. a bela vida. ou utilizar o buraco certo. E que é precisamente aquilo que o perverso quer ver. Em outras palavras. Com efeito. é escandaloso que a vida. Podemos. no entanto. por sua vez. no sentido de que a sobrevivência da espécie implica a morte dos indivíduos. Na melhor das hipóteses. na medida em que derivam da reprodução sexuada. contudo. Essas duas considerações — morre. homens e mulheres. a terrível morte. mas não muda grande coisa no problema de fundo. Por que isso é considerado obsceno? Porque não se quer saber nada a respeito do que foi descoberto nesse lugar: o fato de que a vida e a morte estão entrelaçadas. de boa vontade ou à força (por exemplo. não haveria problema. Tudo isso é ob-scenus. ou por outra. no sentido apontado no início deste estudo. Levanto a hipótese de que é precisamente isto que é preciso esconder. A demonstração dessa implicação.prolongar a farsa humana ou a tragédia humana (à escolha) em mais uma geração. Basta enfiar perversamente o apêndice sexual no buraco errado. o outro sexo. Se fôssemos amebas. nos divertir com a possibilidade de desmontar essa fatalidade. mas com o apêndice errado. essa pequena perversão é divertida. promove uma imensa revolução. a Lei a que estamos submetidos: nós somos seres para a morte. implique a morte. mas se pretendermos fazer a roda das gerações dar uma volta. é que eles morrem. . é simples. existe morte porque nossa vida transcorre nas condições da reprodução sexuada. será necessário passar pelo outro. Talvez a coisa venha a mudar com a clonagem humana e as manipulações genéticas. ainda estamos no antigo regime. antes de se tornarem eles próprios pais e. Mas essas pessoas deveriam desiludir-se. correspondendo a “o que não deve ser mostrado em cena”. Isso quer dizer uma segunda coisa: que a característica dos indivíduos. existe vida porque existem dois sexos. naturalmente. é sexuado — permitem identificar uma lei. pelas provetas). agindo assim. Com efeito. de fato. Aparentemente. Há quem queira acreditar que.

É por não se querer saber essa triste verdade a nosso respeito que. Você não é mais sujeito. é a partir daí que podemos entender a provocação de Lacan ao dizer que não existe relação sexual. Pois no momento em que se entra realmente em relação com o outro. pode parecer estranho e. geralmente. o que nos acontece é uma outra coisa. o outro que eu estou encontrando. apreendo a espécie como sucessão de indivíduos sujeitos à morte. É então vivenciada a verdade miserável. Porque essa presença da morte na vida é perigosa. De perder toda noção de nós mesmos. se você for simpático e trepar para encontrar o outro. nas profundezas. Algo que tem a ver com o fato de que é nesse instante. apêndices de foder. mas o Outro. dolorosa. ficamos sabendo. ou buracos para receber o arrombamento. a recondução da vida depende do encontro com um representante do outro sexo. sabemos. se esconde o que vem a ser descoberto nesse lugar. Vivenciando a experiência da ausência. Na ausência de mim diante de mim. Somos prevenidos de que vamos morrer… a partir do momento em que nos aconteça um dia de gozar usando esses utensílios. vale dizer. portanto. Com isso — entendemos por que nem sempre acontece de gozarmos. Por quê? Porque quando usamos nossos órgãos sexuais. dá-se a desconexão — a perda momentânea de consciência. Assim expresso. no seu caso. que eu tenho a experiência da minha humanidade. é assim mesmo: quando gozamos. De um só golpe — vertigens do amor e da morte — . De modo que existe vida e morte porque. no instante em que “eu” desapareço. Pois é no momento exato em que finalmente pode encontrá-lo no seu ser ou na sua carne que sobrevém a pequena síncope que precisamente o impede de encontrá-lo ou encontrá-la. Em minha opinião. já exige que um dia eu . risível do indivíduo na espécie. É chato porque. eu entendo que a espécie exigirá. no entanto. ou seja. O que pode ser dito de outra maneira: no exato momento em que eu gozo. em suma. só posso fazê-lo desaparecendo de mim mesmo. elevo-me a dez mil pés acima da condição individual. completamente diferente. mas objeto. E. grandiosa. já que só gozamos com a condição expressa de não estar mais ali. ridícula. Essa morte que nos é trazida à lembrança. enfiar ou arrombar. é porque não há mais ninguém para gozar. É realmente chato. eu tenho a oportunidade de fazer a experiência da minha condição de ser mortal. marcadas pela sexão. no entanto. em nossa espécie. estará num beco sem saída. Não é. Realmente muito malfeito. É inclusive um verdadeiro segredo de polichinelo. justamente.morrerem. É o destino das espécies sexionadas em duas. Com isso.

eu entendo. que fascina o perverso. Essa experiência. desorientados. Quando eu gozo. É a razão pela qual as sociedades humanas. Com essa pequena morte eu me antecipo à outra morte. precisar morrer para experimentar a vida — o que Bataille enunciava da seguinte maneira em A Suma ateológica: “Quem não ‘morre’ [da pequena morte] por ser apenas um homem nunca deixará de ser apenas um homem. desde que consiga voltar a mim. transformando-se no seu contrário. esse ponto cego da vida. É a possibilidade de ver esse lugar. é porque hoje os órgãos sexuais e os cadáveres são mostrados. definia o próprio erotismo: “Ele é a aprovação da vida até na morte. uma arte. a contrario. podemos voltar da pequena. mostrando o lugar ocupado pelo obsceno e a pornografia na Cidade perversa. compostas de neuróticos. E.”312 Quanto à grande. não existe relação sexual porque.morra como indivíduo. Sobre os órgãos sexuais. portanto. mas em exposições que percorrem as grandes cidades do mundo e . para Bataille. Muitas vezes.”313 A diferença entre a grande e a pequena. que é minha única certeza e cuja experiência jamais poderei ter. portanto. em princípio. sobre isso que os homens não querem saber. São exibidos. mas também. preferindo ignorar o ensinamento ou a advertência que recebemos. é que. O lugar dos mortos não é mais no cemitério. para produzir. pois ao morrer perdemos o benefício do ensinamento que ela poderia nos dar. portanto. Ao gozar. um saber (por isso é que Bataille pronunciava conferências sobre o “não saber”). também ela passou a ser exposta. o que interessa ao neurótico é esconder esse lugar. que não passo de um joguete da espécie que goza em mim dizendo-me a que está destinado esse miserável eu que se julgava vivo… Temos aí o que desde Bataille se chama de pequena morte.”311 Estranha condição. aí mesmo. ocorre a pequena morte. portanto] nada ensina. a espécie que desfruta em mim de um prazer que nada tem em comum com as dimensões do meu indivíduo. esse ponto em que ela se inverte. de entender sua posição na espécie é aceitar todas as implicações da pequena. a grande. e sobretudo. Pior ainda: a única maneira de ter a experiência da grande e. Quanto à morte. A exibição da violência e dos corpos estraçalhados tornou-se não só um lugar comum. Bataille a abordava num comentário da segunda parte do prefácio à Fenomenologia do espírito de Hegel: “A morte [a grande. Se se pode conjeturar que alguma coisa deve ter acontecido no mundo. Em suma. no momento da relação. é. estivemos constantemente falando neste estudo. escondem os cadáveres e os órgãos sexuais — ou pelo menos os escondiam.

anima. na medida em que aquele que o adota abjura. A única expressão que vem ao caso aqui é pornografia da morte. E. como sempre.atraem centenas de milhares de espectadores. ela se apresenta com ares lúdicos e pedagógicos: “Bem-vindo a Bodywood!”. 249 Sabe-se. . Thoreau é o autor de A desobediência civil. “ao que excita. na década de 1960. Thoreau sustenta a tese da necessidade de uma resistência individual a todo governo como tal. encoraja. É verdade que esse texto e o posicionamento que defende foram úteis. de Gunther von Hagens. o inventor da plastinação. nega e renega tudo que venha a ser lei comum. Acontece que é perfeitamente possível considerar esse posicionamento significativo de uma atitude perversa. pode-se ler no alegre cartaz à entrada. ouvimos esta instrução perversa comprometendo tanto quanto era capaz de fazê-lo a voz sadeana: “Venham admirar a sublime dissecção desses corpos. de 1849. o maravilhoso suplício dessas carnes envenenadas!” 248 A expressão “aguilhão da civilização” parece-me boa para designar a ação do perverso. como veremos no fragmento 254. a magnífica cancerização desses órgãos. incita a agir” e ao “ferrão afilado e retrátil. com efeito. a uma parte da juventude americana. o inspirador de Nietzsche. Mas sabemos também que esse texto foi usado de outras maneiras. procedimento que substitui os fluidos dos corpos por resinas plásticas. por exemplo. coercitivo e opressor. que se opôs à iníqua guerra conduzida no Vietnã por sucessivos governos do país. na extremidade do abdômen de certos insetos” (Le Robert). constantemente louvado por gerações de americanos — entre elas a dos hippies da década de 1960. Por baixo do pano. Ralph Emerson. do prestígio desfrutado nos Estados Unidos por um escritor como Henry David Thoreau. o admirável esquartejamento desses membros. em geral com uma glândula venenosa. Em A desobediência civil. amigo e discípulo do pai da filosofia pragmática americana. Basta lembrar dos “eventos culturais” intitulados Körperwelten ou Body Worlds ou À corps ouverts. lei coletiva. O que permite mostrar corpos mortos ou órgãos estabilizados e solidificados em posições “artisticamente” escolhidas. A palavra remete.

O que. não consegue mais retirar a pata. além disso. cria um engodo no qual a subversão — esse valor civilizatório decisivo — transforma-se em comédia. os dogmas. nesse caso não só ela não subverte mais nada. com o mesmo vigor do peixe que morde a isca presa ao anzol ou do macaco que é apanhado furtando a avelã cobiçada. quando o animal agarra a isca. Um buraco tão estreito que. como. de modo algum é incompatível com a criação de um novo tipo de rebanho pós-neurótico e perverso-compatível. aferente à perversão. a utilidade da perversão só se verifica nas épocas de prevalência da forma neurótica.315 252 . já que na verdade nada mais é proibido.314 no qual cada um se julga livre ao satisfazer suas apetências. Como é incapaz de largar o objeto. já que não se dialetiza mais com a neurose. Uma ambiguidade de tal natureza que a missão civilizatória pode transformar-se em seu contrário. presa no objeto manufaturado que pegou. além do mais. em suma. quando os neuróticos se reúnem em torno de seu grande Sujeito favorito. valores e outras verdades “eternas”. disposta numa caixa. normas. com um pequeno buraco por onde pode passar a pata do macaco. capturar um homem hoje 251 Eis o procedimento mais eficaz para capturar um macaco.250 Isso nos leva a pensar toda a ambiguidade ligada a essa posição de aguilhão da civilização. se a subversão perversa torna-se norma. Na verdade. O que tentei analisar em Le Divin Marché. ao passo que é apanhado com a mão na botija. Coloca-se uma noz numa caixa ligada ao solo por uma corrente. códigos. nos quais cada um só pensa em impor sua dominação sobre o outro. o animal está preso. Mas se essas sociedades de neuróticos são dispersadas e substituídas por agregados improváveis de ego. usando como identificação o nome de rebanhos ego-gregários. repetindo ad lib.

não consegue mais retirar a mão. por algo mais perverso que ele. Se o objeto o excitar. na década de 1970. individual ou coletivo. Neste caso. O processo de aculturação é brutal. em suma. desenvolveu a chamada política de “contato forçado” para obrigar os indígenas a abandonar seus mitos. ele se julga livre. Em ambos os casos. identificado por Marcel Mauss. é muito simples. enquanto sua aldeia é destruída. são consideráveis. Basta mostrar-lhe objetos numa caixa chamada televisão. abrigos rudimentares de folhas. destruidor e extremamente rápido. Assim apanhado com a mão na botija. ele fica contente (adiante veremos por quê): julga ter agarrado o objeto de sua cobiça. Apanhado por aquilo que julgava apanhar. Ao contrário dos indígenas. basta um clique do mouse. Quando o índio agarra a isca. . É capturado como um pervertidozinho que se deixa apanhar quando julga estar simplesmente gozando. onde acabará alienando sua liberdade e se vendendo ao(s) novo(s) senhor(es). Foi apanhado na engrenagem fatal das trocas mercantes. os índices de suicídio. aos quais são presos “presentes”. ritos e crenças. não consegue mais retirar a mão. o Estado brasileiro. ele precisará apenas dar um pulo até o supermercado próximo. foi agarrado pelo que apanhou. já que. mais terrivelmente eficiente: são construídos tapinis. Variante: também se pode mostrar-lhe o objeto numa caixa ligeiramente diferente chamada computador. ele é transferido para um “campo de atração indígena”.318 253 Para capturar um homem comum vivendo no início do século XXI. Apanhado. então em poder dos militares.317 Nesses campos de atração indígenas. na verdade.316 A técnica de abordagem é simples. implicando uma reciprocidade baseada no ciclo simbólico dar-receber-devolver. Ele ainda não sabe que. Isto se chama adicção. o resultado é o mesmo: quando o homem agarra a isca. Em algumas semanas são destruídos milhares de anos de socialidade dita primária. ele pode ser conduzido aonde bem se quiser. condição necessária e suficiente de sua submissão. tendo agarrado o objeto de sua cobiça. Assim apanhado.Quando da construção da rodovia Transamazônica no Brasil.

255 Quando estávamos numa época de prevalência da neurose. esse aguilhão o coloca na posição daquele que traz em si uma glândula venenosa que o leva a entrar em competição com os outros. Em outras palavras. Ela está no cerne dos processos perversos que permitem criar os novos rebanhos egogregários. na medida em que se entregam aos bons cuidados da Providência divina. Acontece que exatamente esse mesmo texto. o aguilhão em poder do perverso o colocava na posição daquele que excitava e incitava a agir. em seu contrário da “missão” de aguilhão da civilização desempenhada pela perversão. tanto mais selvagens uns em relação aos outros. para permitir a instalação da competição permanente entre os indivíduos. independente. se fosse aplicado stricto sensu. Um . Ele exasperava os neuróticos. — Difícil sair-se melhor na parada de sucessos da perversão contemporânea. muito seu. esses liberais extremistas que sonham em romper toda lei humana. que supostamente produz a riqueza global. também devem. que acabo de mencionar como tendo sido tão útil para escapar ao conformismo agressivo americano das décadas de 1950 e 1960. nas quais o ego e suas satisfações pulsionais são valorizados para serem industrialmente explorados. é hoje muito apreciado pelos que costumam ser chamados de libertários. por sua vez. considerada opressiva. caracterizadas pelo patriotismo maccartista dos tempos de guerra fria. trata-se de uma autonomização da perversão. A partir do momento em que passamos a uma época de prevalência da perversão. 254 A transformação. Ela tende a perder seu papel de “outro” da neurose e a criar um novo mundo. assim colocados em posição de calculadores racionais. dos consumidores ou das “pride parades” de todas as tendências. pode perfeitamente ser ilustrada com um outro emprego desse texto de Thoreau. já que esse projeto. dotar-se de glândulas venenosas. constantemente avaliando os ganhos e lucros de seus atos. seria um dos melhores para efetuar a transformação de toda sociedade humana em selva cheia de predadores em disputa. que foi a bíblia dos contestadores há uma geração. dos mais sadeanos. desse modo. Vale dizer. que.

está fora de questão que eu me deixe impedir por sórdidos detalhes materiais. qualquer que seja o real da minha sexuação. como tais descomplexadas. apesar de se ter tornado muito comum. mas ainda assim… 256 Quanto mais deixamos para trás um mundo marcado pela prevalência da neurose para entrar num outro.320 O “mas ainda assim” significa que. posso decidir aquilo que quero. destinadas a convencer os últimos neuróticos a finalmente se sentirem autorizados. Não nos devemos enganar: esse tipo de formulação.319 ao passo que a chefia do Estado (cf. não será mais definido como lugar acima dos interesses privados. Sarkozy. tanto as dos homens quanto as da natureza. Berlusconi…) poderá empenhar-se em dar lições de perversão. do governo dos homens. O terreno científico será caracterizado pelo relativismo e o subjetivismo nas ciências humanas. mesmo. cada qual vai afirmar seu ego — será então a civilização do tudo para o e(s)go(to). já que de qualquer maneira o que tenho na cabeça é mais importante do . sobreinvestido pelos interesses privados. O governo. eu sei. contando histórias destinadas a dar prazer aos que o escutam — esse governo deve ter como método o storytelling management. mas um lugar que comunica. a mesma que havia sido detectada por Octave Mannoni em sua famosa fórmula destinada a expor o mecanismo da renegação.mundo do qual apresentamos aqui alguns traços característicos: no terreno das artes. mas na minha cabeça sou uma mulher” ou “Eu sou uma mulher num corpo de homem”. mas ainda assim (eu sou uma mulher). é moldado na retórica perversa mais manifesta. pela redução sistemática dos fenômenos simbólicos a dados de natureza nas ciências sociais (cognitivismo e ciências neuronais) e pelo pragmatismo em filosofia. mais ouvimos formulações levantando objeções à Lei da espécie. pois o perverso é aquele que faz objeções às leis. central na perversão: eu sei (que sou um homem). a sexion. Normal. assim. O terreno político. O que gera o seguinte tipo de formulação: “Eu sou um homem no meu corpo. Em outras palavras. não será mais uma instância que decide em função do interesse geral. marcado pela preponderância da perversão. mas como lugar investido e.

as quais. pois naquilo em que o primeiro parte. Vejam bem. Todos os arranjos possíveis serão então da ordem do imaginário (vale dizer. é uma solução pelo gênero na qual o indivíduo é livre para exercer sua sexualidade como deseja sem negar. Ela parte da constatação de que muitos indivíduos hoje em dia se apegam a esse tipo de formulação. Mas é preciso observar que aqueles que por ela são investidos podem desenvolver duas atitudes muito diferentes.que aquilo que o meu corpo é. no caso. diante do fato de terem caído do lado da sexuação que não lhes convém. classificados e quantificados com toda neutralidade axiológica. A primeira. corte no meu corpo aquilo que faz objeção a minha afirmação ou que. seu livro recente. por . sustento inclusive que ninguém nada tem a dizer de um ponto de vista normativo. para melhor legislar ou organizar as instituições. homem biológico e genético. mulher biológica e genética. intitulado La Distinction de sexe — Une nouvelle approche de l’égalité [A distinção de sexo — uma nova abordagem da igualdade]). Ou bem eles se recusarão a dar um jeito imaginário e exigirão uma solução simbólica (que a lei dos homens me reconheça juridicamente como aquilo que decidi ser) ou uma solução real (que eu. eu lhe acrescente o que lhe falta para sustentá-la). do que é para ele um dado. e não mais negando-o. senão para reconhecer que ela existe. É aí que pode ser avaliada a diferença entre o trabalho do sociólogo e o do filósofo. já que é sua profissão. porém. e examina os dispositivos jurídico-sociais que podem ser contemplados levando-se em conta esse fato sociológico. não sendo “naturais”. mas ainda assim (sou uma mulher) — tenha motivado o trabalho de uma pessoa séria e informada como Irène Théry (cf. merecem análise. sou uma mulher. o que é normal. da ordem do imaginário. Logo. dados sociais identificados. a realidade do seu sexo. as múltiplas maneiras e ficções que permitem tomar-se por algo que não se é).321 É digno de nota que esse tipo de formulação em forma de renegação — eu sei (que sou um homem). Isso se chama simplesmente subverter a Lei. As duas últimas consistem em impor as preferências do gênero à realidade do sexo. não contesto nem julgo em absoluto essa paixão de ser um outro que pode insistir em todo ser humano. pois na realidade — uma realidade de que não quero mais saber — sou um homem. repertoriados. Ou bem eles darão um jeito. ao ponto de renegá-lo.322 A autora comporta-se como socióloga. mas culturais. como puderem.

324 A parrhesia. eu tentaria tomar o meu parecer pelo meu ser. No primeiro. no fim das contas. na qual aléthéia é o contrário de léthéia — a a-léthéia (a verdade) significando literalmente “não esquecimento”. embora cada pessoa que me tenha conhecido como homem saiba perfeitamente que eu sou um homem. Não demorou — e provavelmente era esta a intenção de Foucault — e as “minorias sexuais” da pós-modernidade quiseram considerar que era necessário afirmar “sua” verdade diante do mundo. O que então se manifesta. pois a parrhesia remete à oposição clássica racional falso/verdadeiro. e não à oposição arcaica mítica anterior verdade/esquecimento. Acontece que se trata manifestamente de uma interpretação equivocada. não significa apenas dizer a verdade de seu gênero. deste último ponto de vista. a coisa levará a tentar sustentar uma relação mentirosa consigo mesmo no que se refere ao sexo.323 que o parrhesiastes era aquele que ousava corajosamente dizer ao soberano “sua” verdade pessoal e singular. No segundo. . Muito poderíamos refletir a respeito dessa virada pós-moderna do significado da parrhesia. mas também dizer a verdade de seu sexo. assim. com efeito. depois das conferências pronunciadas por Michel Foucault em Berkeley em 1983. que não pode deixar indiferente o filósofo. eventualmente assumindo riscos. é que a solução jurídico- simbólica (mudar a lei para que eu seja reconhecido como aquilo que decidi ser) e a solução real (refazer meu corpo de maneira que se assemelhe àquilo que decidi ser) configuram igualmente uma relação problemática com a verdade.exemplo. exortando o cidadão a não mentir com verdades que o transcendem. é interessante destacar que esse termo deu margem recentemente a graves mal-entendidos. num sentido mais igualitário. E isso. o segundo interroga esse fato como uma construção cultural que nada tem de evidente. não parece muito viável em futuro previsível. Ora. Pois. Os gregos davam a esse “dizer a verdade” o nome de parrhesia. no próprio interior da filosofia. eu obrigaria todo mundo a dizer que sou uma mulher. nos dois casos. muito embora seja compartilhada por muitos indivíduos e mesmo pela maioria. Pois o meu ser — o que quer que diga a lei dos homens ou que pareça o meu corpo — será sempre o mesmo que antes: a escrita do gene chamado “SRY” (Sexdetermining Region of Y chromosome) que me define não terá sido minimamente alterada por essas operações. Julgou-se válido considerar.

filhos abandonados 257 O que corrobora esse julgamento (que. lei filogenética. é pelo fato de haver diferença sexual que existe morte dos indivíduos (esse fenômeno. Nessa ótica. pois a ontogênese (o desenvolvimento do indivíduo) perde todo sentido a partir do momento em que não integra mais as Leis filogenéticas que presidem ao desenvolvimento da espécie. nos dispõe a ser constantemente afetados pela angústia. pais liberados. abre um abismo. Revela-se assim um conflito filo-ontogenético grave.” Mas a partir do momento em que a Cidade torna-se perversa (esquece ou nega a Lei). E. os jovens. decorrendo de uma relação mentirosa consigo mesmo e com os outros no que concerne ao sexo. a vida da espécie implica a morte dos indivíduos. mais uma vez.325 O que pode resumir-se assim: estamos às voltas então com uma Cidade que se tornou perversa. não se impõe mais aos indivíduos. Em outras palavras. dos mais lamentáveis. E a Cidade a cumpre através da educação. Refiro- me aqui à diferença geracional. que só pode então definir-se. Com efeito. afirmando que não existe uma geração que se sustente. para falar da maneira de Heidegger). é necessário permitir que os indivíduos façam as . ela aceita que a distinção sexual. e o nascimento de outros. sejam de tal maneira disseminadas hoje em dia no corpo social só pode significar uma coisa: a Cidade não busca mais a verdade. num ponto tão capital quanto aquele ao qual nos conduz a perenidade da aventura humana. O que. lei central da espécie. pois o indivíduo se dissocia de sua espécie. os velhos. é lógico e não moralizante) é que a consequência direta da divisão sexual também vem a ser questionada. Disso decorre uma outra tarefa para a Cidade. ou mesmo não quer mais sintonizar-se com a verdade. portanto. consistindo em harmonizar os indivíduos com essa Lei da sucessão das gerações. A diferença geracional é. até nova ordem. Que essas soluções. uma consequência da diferença sexual. só pode mandar às favas essa regra. naturalmente. por este teorema: “É preciso que a geração anterior faça a educação daquela que se segue. como perfeitamente enunciou Kant em seu Tratado da educação. de fato.

sequências exibindo possíveis objetos de cobiça). a televisão. e mesmo ao seu quarto. . pois passa a rimar com satisfação pulsional. estimulá-los a ceder constantemente a tudo que prometa a satisfação pulsional apresentada como realização do indivíduo (lembro que uma criança americana vê em média 40. caso contrário estaria fora de questão aspirar ao governo dos outros. mas. pelo contrário. de consumir — direito extremamente teórico. Falou-se a esse respeito. uma perversão suplementar. vinculada ao mercado. inseparável do desenvolvimento de um discurso liberal que promete uma ampliação dos direitos do indivíduo fundamentalmente vinculados a uma promessa de satisfação pulsional sempre maior. tragada pela promoção do simples direito. assim “liberados”. os que acima de tudo não querem ver que isso constitui um desvio. esse terceiro pai que rapidamente tornou-se mais poderoso que os outros dois. zelosamente cultivado. Essa pseudoliberação dos filhos é. por sinal. país do liberalismo triunfante. um novo senhor muito mais temível.326 Na verdade. a democracia era o que devia permitir aos indivíduos ter acesso ao governo de si mesmos. em nossa época. pois os filhos. bruscamente desvinculados de seu tradicional dever de educação da nova geração. para todos. São muitos. Ora. de “liberação dos filhos”.000 anúncios publicitários por ano. a expressão é enganosa. constitui a maior garantia de desenvolvimento da Cidade perversa. em outras palavras. Com efeito. na medida em que foi trazido ao espaço familiar. de maneira muito inadequada. não o permaneceram por muito tempo.experiências às quais os conduz sua natureza — o que é exatamente o discurso das filosofias pragmáticas da educação que surgiram nos Estados Unidos da América. já que o discurso democrático é assim completamente invertido ou derrubado. a democracia torna-se o exato contrário disso. Esse equívoco a respeito da democracia. portanto. E. caberia não dissociar essa pretensa liberação de uma demissão dos pais. Esse novo senhor foi incumbido de proporcionar uma nova educação: não mais preparar os filhos para abrir mão dos múltiplos pequenos gozos e se dedicar ao essencial. no fim das contas — . uma capacidade de se governar a si mesmo para ocupar seu lugar na Cidade. implicando um controle das próprias paixões.

até prova em contrário. o indivíduo sozinho com suas paixões. que os grandes livros de Sade se pretendem tratados de educação. o projeto perverso 259 Pode-se avaliar sem dificuldade que a consequência direta dessa perversão. desde que queira saber algo de suas próprias paixões. que se tornou comum. com efeito. vejamos: A filosofia na alcova. E por que não?. é que o indivíduo é trazido a primeiro plano. Porque não. naturalmente. de educação para a perversão. precisamente. na verdade. com o subtítulo Os professores . como se entregou a um extraordinário proselitismo para promovê-la. O que. Pois. haverão de me perguntar. ela se libertou e isentou os indivíduos das Leis que governam toda natureza. que não só a construiu (literária e filosoficamente) com uma impressionante constância lógica. Alguns dos mais bem-sucedidos — bem-sucedidos no que pode haver de insustentável na perversão levada a seus limites extremos — apresentam-se já no título como tratados de educação. no fim das contas. já que. pois a única coisa que está em jogo é satisfazê-la. não é o caso quando se trata da perversão. Se não. a chegada dessa personalidade perversa é anunciada há mais de dois séculos por Sade. Por esse motivo é que hoje em dia são dadas tantas lições de perversão. Ele é que interessa promover. e reorganizou as grandes instituições nesse sentido. vale dizer. cabe a cada um decidir… desde que esteja informado. 260 Esse “projeto perverso” foi longamente preparado. as da diferença sexual e da diferença geracional. Não devemos esquecer. não se quer que os indivíduos recuem para a velha solução neurótica que poderia pôr a perder o “projeto perverso”.258 Não significa fazer um julgamento moralizante afirmar que vivemos hoje numa Cidade perversa. Como pudemos mostrar.

imorais, Os cento e vinte dias de Sodoma, com o subtítulo A escola da libertinagem, ou
ainda A história de Juliette ou as prosperidade do vício, apresentado como um grande
romance de formação.

o “dom” da extrema perversão

261
Estima-se em aproximadamente três por cento por geração o número de indivíduos
que apresentam um dom particular para as matemáticas. Da mesma forma, existe
provavelmente um índice incontornável de indivíduos evidenciando aptidão especial
para a extrema perversão. Aqueles que puderam expressar socialmente esse “dom”
tornaram-se lendários com nomes de ogros, bichos-papões ou lobisomens. A lista
desses perversos lendários é longa. Vai da envenenadora romana Locusta, que, no
século I a.C., matou muitas vítimas pelo simples prazer e a beleza do gesto, a Marc
Dutroux, passando por Gilles de Rais, o conde de Charolais, que já encontramos
aqui, Marie de Brinvilliers, Jeremiah Johnson, Jack o Estripador, Albert DeSalvo, o
chamado “Estrangulador de Boston”, Peter Kürten, o “Vampiro de Düsseldorf”,
sem esquecer nossos queridos Émile Louis e Michel Fourniret.327
Como este trabalho não se propõe a ser um estudo sobre o bom uso dos dons,
nada direi a respeito daqueles que são afetados por essa disposição para a extrema
perversão. A não ser o seguinte: o advento recente da Cidade perversa constitui
muito provavelmente um contexto particularmente favorável para o
desencadeamento da sinistra moção que habita esses indivíduos.328 Assim, por
exemplo, a darmos crédito às estatísticas a respeito dos Estados Unidos, a polícia
registrava, entre 1900 e 1959, uma média de dois “assassinos em série” por ano em
todo o país. A partir de 1969, as autoridades contavam seis casos por ano. Na
década de 1970, o número triplicou. Nessa época é que deve ter sido criada a
expressão “serial killer” para designar essa realidade. Desde 1985, registra-se uma
média de três matadores em série por mês. O número de assassinos em série nos
Estados Unidos chegaria hoje perto de 500, em potencialidade ou em atividade.329
O terreno do assassinato em série tornou-se, portanto, uma atividade de grande
futuro. E, com efeito, é muito provável que venha a dar muito trabalho aos setores

da polícia e da justiça no século XXI.

262
Essas estatísticas, naturalmente, são sujeitas a verificação, pelo menos por um
motivo: quanto mais se fala de assassinos em série, maiores são as chances de
encontrá-los. Mas nem por isso se deve negligenciar a hipótese de que o aumento de
fato seja real. Não podemos escapar à questão de saber se o fortalecimento da
Cidade perversa não poderia constituir um fator desencadeador da moção perversa
eventualmente presente num indivíduo.
De fato, cabe razoavelmente conjeturar que os Dutroux e Fourniret sejam
particularmente sensíveis ao violento conflito pulsional que está no cerne da nossa
vida social, desde as revoluções culturais liberais empreendidas depois da crise de
1929, para salvar o capitalismo. Esse conflito caracteriza-se pelo fato de que o
“Nosso Ford” e seus asseclas, como vimos, ao mesmo tempo incitavam e proibiam,
prescrevendo os “bons” objetos e proscrevendo os “maus” (aqueles que não lhes
renderiam nada). Temos uma outra expressão desse mesmo conflito a partir de
outras contradições, entre as quais esta: o momento em que, como vimos
detidamente, Bernays mobilizava suas belas numa atitude lindamente felatória na
Páscoa, o momento em que George Petty e Alfredo Vargas desenhavam suas pin-ups
para erotizar todo objeto manufaturado, até as chaves de boca — o que, devemos
reconhecer, é uma autêntica proeza — , era também, como sabemos, a época da lei
seca, que durou até 1933.

o bordel puritano

263
Esses modos de funcionamento apresentam uma estranha aliança de puritanismo e
perversão ante a qual devemos deter-nos, simplesmente porque ela continua a valer
atualmente — eles são os sintomas manifestos do que veio a ser chamado de
perverso-puritanismo engendrado pelo liberalismo. Em outras palavras, o
empreendimento de perversão necessário à saída da crise de 1929 desenrolou-se

contra um pano de fundo puritano que não só não desapareceu como assumiu hoje
uma nova forma, que deve ser compreendida.
No fundo desse conflito, está a contradição entre o vício da incitação à satisfação
pulsional, constantemente relançado pelas pequenas narrativas publicitárias, e a
virtude, pregada de tal maneira, que a libido se volte unicamente para o consumo de
objetos rentáveis, para “Nosso Ford” e seus amigos, para que nada nessa força se
perca em objetos vãos.
Essa contradição leva a pensar que vivemos cada vez mais numa espécie de
grande bordel puritano em que duas exigências contraditórias devem ser atendidas
ao mesmo tempo. Os dilaceramentos contraditórios desse tipo podem ser descritos
pelo conceito de double bind (“dupla coação”, em português). O double bind, cabe
lembrar, é uma noção proposta na década de 1950 pelo grande antropólogo
Gregory Bateson, tendo sido posteriormente retomado pela escola de Palo Alto e os
antipsiquiatras ingleses Laing e Cooper. Bateson dava muitos exemplos de dupla
coação, entre os quais o seguinte, muito eloquente. É a situação em que se encontra
a criança que ouve a mãe repetir constantemente “Vem beijar mamãe!” e a vê
contrair-se de aversão e recuar de medo toda vez que a beija.
Em 1956, depois de um longo estudo sobre a comunicação nos esquizofrênicos,
Bateson escreve com seus alunos um artigo intitulado “Por uma teoria da
esquizofrenia”,330 no qual mostra que o esquizofrênico é aquele para o qual
convergem exortações paradoxais — o que o transforma numa “vítima emissária”
que deve, de certa maneira, assumir a falta de comunicação, e mesmo ser a sua
encarnação. A vítima vem a ser, portanto, o membro “esquizofrênico” do sistema, e
a duplicação da personalidade, característica da esquizofrenia, apresenta-se então
como um mecanismo de defesa que resulta dessa dupla exortação. Em outras
palavras, o esquizofrênico é aquele que assume a falta de comunicação do seu
ambiente emparedando-se no mutismo, verbal ou postural, ou produzindo uma
“algaravia” esquizofrênica, que naturalmente pode ser extremamente bem-sucedida
— basta pensar, por exemplo, em Jeanne Tripier, para não falar de Artaud.
No nível do discurso, chega-se ao silêncio ou à verbigeração. E, no nível
pulsional, chega-se a situações literalmente explosivas, na medida em que é como se
fosse necessário acelerar e frear ao mesmo tempo. Ora, acelerar e pôr para roncar o
motor pulsional não pode deixar de aquecer a máquina. Assim como frear e, ao

mesmo tempo, pôr-se de pé sobre o freio queima um pouco a lona. Mas acelerar a
toda e frear abruptamente, ao mesmo tempo, não pode deixar de provocar algumas
explosões em pleno voo, a intervalos regulares.
Não sei se ainda podemos falar hoje de esquizofrenia, de tal maneira a
esquizofrenia não parece suscetível de ser reduzida a dados sociais, mas é
perfeitamente possível que a análise de Bateson continue sendo interessante para
descrever casos de psiconeurose (para retomar uma expressão freudiana) e de
perversão sociais, no sentido de que essas patologias parecem ser causadas por uma
cultura que dá ênfase à exortação a gozar, acompanhando-a de uma autêntica
proibição.
Tanto mais que essa dupla coação assumiu, hoje em dia, proporções colossais.
Se não, vejamos: é impossível folhear uma revista ou ver as capas expostas nas bancas
ou nos muros da cidade sem se deparar com uma quantidade de fotos mostrando
mocinhas muito jovens, parecendo ter doze ou quatorze anos no máximo, em
posições extremamente sugestivas, vale dizer, muito provocantes, como mulheres
que soubessem perfeitamente usar seus encantos, a ponto de parecerem prontas para
receber e assumir propostas extremamente diretas, e mesmo para fazê-las.
Isso quanto ao lado perverso. Mas o lado puritano não fica longe. Pois se
alguém tivesse a má ideia de ficar olhando ou mesmo de sorrir gentilmente ou até
inocentemente para uma mocinha de doze anos na rua, não demoraria muito para
ser identificado como um perigoso pedófilo de plantão, podendo ser impedido de
causar danos por um pelotão de mamães iradas prontas para lhe cair em cima ou
chamar a polícia. Em suma, gostar das mocinhas e tirar fotos delas ou oferecerlhes
brinquedos, como Lewis Carroll ou Pierre Louÿs, em outros tempos, levaria hoje em
dia o indivíduo que se entregasse a semelhante depravação a ser submetido à
obrigação judiciária de cuidados, instituída na França pela lei de 17 de junho de
1998, para autores de agressões sexuais.
Ora, estamos na época da cisão: fotos provocantes de Lolitas podem ser
encontradas em toda parte. São tantas que já nem são vistas mais. Elas estão
constantemente emitindo incitações sadeanas diretas, no sentido de que se dirigem
àquele que as contempla aquecendo-o, ou seja, enviando-lhe um mandamento que
diz: “Goze!” E, no entanto, o espectador deve frear com toda força para resistir à
tentação. Em suma, ele deve meter na cabeça que a foto é apenas para que compre a

revista e eventualmente presenteie a namorada com a blusa excitante usada pela
mocinha. Mas nada mais que isso.
Ora, todo um circuito pulsional é naturalmente mobilizado. Um circuito
pulsional ativado de maneira extremamente sadeana. Existem belos estudos sobre a
questão, entre eles o de Philippe Mengue, publicado em L’Ordre sadien.331 O autor
mostra muito bem de que maneira funciona a narração em Sade: ela visa a incitar o
leitor a consentir com esse mandamento de gozo. Uma rigorosa demonstração é
feita com o estudo do início de Os cento e vinte dias…, o romance mais terrível de
Sade. Mengue pergunta-se

com que elementos o narrador conta para realizar esse programa de
perversão de maneira que fique inteiramente assegurado do efeito de seu
livro? […] O texto sadeano, funcionando como uma maquinaria de
desejo, uma astúcia, com o objetivo de captar o leitor à força num
processo de gozo pervertidor, exige um minucioso estudo narrático.
[…]332
Essa maquinaria narrativa implica um “interessar” do outro. […]
No início da narrativa, o narrador toma de empréstimo o suposto
código ideológico de seu leitor, frisando sua desaprovação em relação às
cenas que descreverá e às condições de injustiça social que as tornaram
possíveis, como indicam as primeiras linhas. A utilização de termos
infamantes para se distanciar da conduta dos personagens é uma técnica
eficaz. […] [Mas se] prepara prudentemente a inversão do código
tomado de empréstimo, que insensivelmente resvala, passada a primeira
página. São pequenos passos que “aos poucos” — a terrível lentidão
sádica, logo seguida de uma aceleração e precipitação, quando se tem
certeza de que tudo foi arriscado — fazem avançar o processo de
captação que diz respeito, em primeiro lugar, ao progressivo
desvendamento do rosto do narrador. […] O emprego do possessivo na
primeira pessoa do plural tem como efeito pôr os personagens em
“comunidade” com o narrador e seu narratário. 1º nível: “nossos quatro
personagens” (XIII, 3): perfeitamente neutro e exteriorizante; 2º nível:

“nossos quatro heróis” (XIII, 4), mais acolhedor; 3º nível: “nossos
quatro amigos” (XIII, 4). […] Essa minuciosa gestão do tempo
[permite] investir sobre o leitor para incluí-lo na categoria dos libertinos,
dos quais tornar-se-á “amigo”.333

Essa análise permite entender de que maneira o mandamento sadeano se realiza:
pelo comprometimento do leitor, cuja conivência é arrancada. O procedimento de
comprometimento é o mesmo no caso do espectador vendo as imagens das Lolitas
das revistas. Em todos os casos, o comprometimento desencadeia, portanto, um
processo que, uma vez iniciado, deve chegar a termo. É aqui que, nesse “sadismo
aplicado ao consumo”, intervém uma segunda astúcia: a Lolita prometida é
substituída pelo produto que apresenta a mocinha (a revista) e/ou o produto que
porta a mocinha (seu pulôver, seus jeans ou sua lingerie…). No fim das contas, um
processo bastante perigoso é que vem a ser ativado, mobilizado e lançado: ele
pressupõe, com efeito, que o espectador possa contentar-se, ao cabo desse processo
destinado a interessá-lo e comprometê-lo, com um expediente, uma consolação
destinada a baixar a tensão.
É precisamente aí que a Cidade perversa, saturada desses processos sadeanos,
pode constituir um fator desencadeador da moção perversa, eventualmente presente
num indivíduo. Basta, com efeito, que esse indivíduo comprometido recuse o
expediente e queira a coisa prometida para que o acidente sobrevenha. Em outras
palavras, cabe temer que alguns, sobre-excitados, não consigam parar no meio do
caminho, limitando-se a comprar a revista que mostra a mocinha ou sua calcinha.
Pois o que querem não é nem uma coisa nem outra, mas a mocinha.
Podemos assim conjeturar que os Dutroux, Fourniret e outras grandes figuras
perversas atuais, dignas dos Dolmancé, Durcet e outros heróis sadeanos, não saem
de um lugar qualquer, como por acaso, ao contrário do que se pretenderia acreditar,
ao incluí-los na cota incontornável de perversos lendários que nascem
aleatoriamente numa geração. Isso não quer dizer que essa cota não exista e que os
perversos lendários não existam, mas nem por isso deixa de ser verdade que as
passagens ao ato de alguns deles podem ser perfeitamente compreendidas hoje em
dia, no sentido de que são suscitadas. São suscitadas pela “cultura” pornográfica de

sua época, muito embora se quisesse fazer crer que a cultura nada tem a ver com
isso, e a sua natureza, tudo. Pois é sempre a mesma ladainha depois de cada
passagem ao ato perversa: não se entende o que aconteceu. É um caso isolado,
provavelmente estava inscrito nos genes, esse homem (ou essa mulher) é uma
aberração da natureza. Em suma, trata-se de um lamentável acidente isolado,
ninguém podia fazer nada. Mas não, não se trata de um acidente da natureza, mas
de um puro produto da cultura, um puro produto das revoluções culturais
produzidas pelo capitalismo para sobreviver a si mesmo.
É bem verdade que poucos sucumbem a isso. Mas, como já vimos, a coisa põe
em movimento um processo pulsional que precisa encontrar alguma forma de
resolução.

crises de masturpêniscite

264
E é aqui que vemos o lado sublime da produção capitalista, capaz de transformar as
atividades mais tolas em objetos rentáveis. Com efeito, ele propõe uma saída
pulsional derivada aos processos que está constantemente lançando. Foi o filósofo e
matemático Olivier Rey, já mencionado, que me sugeriu a ideia recentemente, ao
chamar minha atenção para o fato de que o capitalismo é o único regime no mundo
capaz de transformar uma atividade tão inútil, quanto a masturbação, em atividade
rentável.
Examinemos esta questão. Se a mocinha exibida esquentou a pulsionalidade
daquele que a contempla, de duas, uma. Ou bem ele dispõe de possíveis
desaguadouros substitutivos, e nesse caso consegue se virar. De que maneira? Muito
simples. Devemos partir aqui de uma proposta de Lacan — minha posição de
filósofo não me autoriza, como já vimos, a considerar favas contadas tudo que o
grande psicanalista disse e escreveu, é mesmo o contrário que sucede, mas ela me
obriga a reconhecer como notáveis muitas de suas teses. Trata-se aqui da famosa
proposta em que ele afirma que “não existe relação sexual”. A expressão certamente
tem muitos significados — examinamos anteriormente um deles — , mas também
um outro, no qual vou deter-me aqui. É o seguinte: quando temos relações sexuais

ou várias. terá de se virar sozinho — bastando-lhe então escorar-se em outros apoios fantasmáticos. . senão as que não rendem nada. entrevistado para o jornal da rede France 2. a mais apreciada das atividades pré-edipianas. pagando 2. ou bem aquele que olha a mocinha dispõe de um desaguadouro. por exemplo. levemente constrangido: “Ehh… sim!” Nova pergunta: “Mas será que você realmente entendeu tudo?” E o menino responde: “Ehh… sim. quando você acabar de ler este trecho de frase em itálico. a… masturpêniscitação. ainda por cima.258 internautas terão espiado alguma estrela pornô.334 Ora. ela define a pornografia como “um objeto de divertimento que tem como finalidade a masturbação”335 — em outras palavras. para que serve um site pornô? Basta perguntar a uma especialista. na fantasia. como dizia. É aí que nos damos conta de que existe algo de sublime na produção capitalista: ela conseguiu tornar altamente rentável uma atividade tão inútil quanto a masturbação. O que ficou patente num delicioso lapso cometido por uma criança.com alguém. pelos quais. Assim. difundindo lições de perversão. não sabemos em absoluto com quem exatamente o outro está trepando. É então que se pode ver até certos programas se voltarem para a promoção dessas atividades. terá de pagar. um menino de nove/dez anos.” O menino disse a verdade dessa exposição: ela dava uma aula de “masturpêniscitação”. pode perfeitamente ser com a mocinha da revista. A partir do momento em que podem render algo. O entrevistador pergunta: “Então. 28. De modo que. Muito judiciosamente. mas não entendi muito bem o que é a… masturpêniscite… ehh. Pois a masturpêniscitação é sempre a solução que permite encontrar uma saída para o aquecimento da pulsão. não. exatamente como fazem os programas atuais de educação sexual. na saída de uma exposição montada em La Villette em 2008. gostou da exposição?” Resposta do menino. ou então não dispõe dele.304 euros aos sites que as exibem. sabendo- se que. em plena ação na internet. a proibição tende a cair. E é aí também que entendemos que não existem atividades proibidas. O que não deixa de acontecer. neste caso. intitulada “Zizi sexuel” (“Pipi sexual”). E. e o outro nunca sabe com quem nós mesmos estamos trepando. a antiga estrela pornô Tiffany Hopkins.

aqui. Seu funcionamento é extremamente simples. que ela foi um dia uma solução gratuita. no contexto cultural pós-sadeano em que vivemos. aplicáveis a todos os lugares possíveis do corpo nos quais seja possível obter algum gozo. um iPod que vira iBod (junção de “iPod” e “body”). característica do perverso-puritanismo atual. Cabe notar. Trata-se de um masturbador masculino de dezesseis centímetros de comprimento. provavelmente. Já se tornou habitual que as revistas femininas ofereçam às leitoras um vibromassageador como brinde. um lugar extraordinariamente promissor para o desenvolvimento de um novo mercado: o de uma pornografia finalmente clean. antes de mais nada.*** ligado à exibição pornográfica de mocinhas nas revistas. Acontece que a junção do clean com o extremo. constitui. São objetos elétricos ou eletrônicos. aos homens às voltas com suas fantasias. É verdade que. do tipo Oh. oh.” Os sextoys estão tão disseminados que podem ser encontrados nas lojas de lingerie (foi a famosa estilista Sonia Rykiel que teve a ideia). pois pressupõe: 1º uma pedagogia. se sentirão tentadas a crer que o campo percorrido aqui diz respeito. ou de “fourniret- ização”. e as senhoras precisam saber disso. Existe até. Mas que fiquem tranquilas: estão cuidando delas. essas aulas de masturpêniscitação são extremamente úteis: permitem diminuir o índice médio de “dutrou-ização”. de todas as formas possíveis (do patinho ao assento porno-ergonômico de ação simples ou dupla. . my gode**** 265 Muitas mulheres. Basta lembrar de tudo que se desenvolve em torno da indústria em pleno crescimento de brinquedos sexuais (sexual toys ou sextoys). pois também encontramos os Onanicups de Tenga. mas se torna cada vez mais uma solução paga. O iBod é apresentado da seguinte maneira pelo fabricante: “Um novo tipo de vibromassageador que se liga ao seu iPod e vibra com o ritmo e a intensidade da sua música favorita. desenhados pelo antigo engenheiro de automóveis Koichi Matsumoto. 2º o apoio dos conteúdos difundidos pelas indústrias culturais. my gode(s)!). convertido em designer. hoje em dia. Mas existe disponibilidade para todos os sexos.

Três botões permitem acionar as almofadas de silicone para regular as cadências. o Air Cushion Cup. finalmente. Alemanha). com uma infinidade de Candy Girls asiáticas extremamente suaves e realistas (Orient Industry. que “geme quando acariciada”. líder das vendas de objetos eróticos pela internet. um “duro” e outro “mole”.73 metro” e “boca. inspirada na de uma topmodel cujas formas anatômicas mais salientes tivessem sido reforçadas. Assim é que podemos encontrar na Internet Brigitte (que não deixa de lembrar a ex-primeira-dama francesa). e Loly. graças a um programa informático de reconhecimento de formas (First Androids. é um tubo pneumático reforçado com cápsulas de ar comprimido. cada vez menos. com “esqueleto de alumínio articulado”. para sensações vertiginosas de deslizamento. Também aqui as mulheres estão na frente: segundo pesquisa encomendada por SexyAvenue. O objeto é reutilizável. dotada de cabeça intercambiável e cujos olhos “veem”. Japão). O objeto está chegando à Europa. e um espesso. São vendidos 100. e nele se insere o pênis. Ou Andy. ligeiramente aumentado para corresponder às medidas do pênis gaulês.Pega-se o sextoy. cheio de almofadas. . vagina e ânus funcionais” e “grande flexibilidade e grande resistência dos seios” (Mechadoll. o Double Hole Cup oferece pela frente e por trás dois orifícios. Três tipos de gel lubrificante (um muito líquido.000 exemplares por mês no Japão. ao passo que apenas 7 por cento dos homens declaram ter coragem de tratar do assunto com os outros. 22 por cento das mulheres afirmam discutir as respectivas vantagens dos sextoys com as amigas. Os japoneses não ficam para trás. segundo se diz. que nada mais têm a ver com a antiga boneca inflável. “peito 44” (“com a opção de aumentar o peito em 30 por cento”). um normal. branco) são oferecidos. um tema tabu: cerca de metade dos usuários declaram falar do assunto com amigos próximos. o Roling Head Cup simula o movimento de balanço feito por uma mulher quando está por cima do homem. o grande best-seller. “altura de 1. o Inside Deep Throat. Devemos mencionar também a indústria das love dolls. reproduz fielmente as sensações de sucção características de uma felação dos sonhos. que. o uso do sextoy é. Procurando bem. Os criadores competem em sua engenhosidade para conferir a essas bonecas de silicone de tamanho natural a aparência mais realista. Existem cinco modelos: o Soft Tube Cup corresponde a uma penetração genital frente a frente. Atualmente. e. França). vermelho. negro. que é aberto em dois. Basta lavá-lo com água depois do uso.

. em outubro de 2007. Tudo sem problemas psicológicos (o que não exclui. sobretudo. através de computadores ligados à net. pesquisador britânico no terreno da inteligência artificial. desempenho sexual a toda prova. essa parceria poderia ser programada à vontade. trocas padronizadas em caso de curto-fluido fatal. as pesquisas permitirão desenvolver roupas “especiais”. na Universidade de Maastricht (Holanda). um belo homem de pele morena. Mas isso não é nada diante do que prevê David Levy. naturalmente. e mesmo mais.336 Prevê-se que essas bonecas. “Relação íntima com um parceiro artificial”. dotado de um pênis de tamanho “médio” capaz de funcionar em várias modalidades (RealDoll. Essas pesquisas deverão permitir o desenvolvimento de ilusões hápticas — um terreno na expectativa de explorações muito próximas. De modo que tudo se faz para que essa prática do safe sex (“sexo seguro”) pornô. muito a propósito. possa desenvolver-se. juventude eterna. demonstrando iniciativa. além do mais. tão promissoras quanto as ligadas às ilusões de ótica. derradeira solução para uma pornografia sempre mais intensa e sadia: o amor à distância. campeãs do safe sex.337 Finalmente. como empatia… qualquer que seja o tratamento recebido. bom humor constante.338 Muito em breve. A tese por ele sustentada. algumas frases programáveis do tipo “Eu te amo. sintonizada “no “modo aprendiz”” ou no “modo professor”. aspecto “à la Obama”. logo sejam capazes de mover-se “naturalmente”. David Levy garante que muito se teria a ganhar com esse tipo de companhia: fidelidade absoluta. que tanto convém aos perversos puritanos. responde às derradeiras perguntas diante das quais nos encontramos a respeito da pornografia “sadia” que ainda virá. que possam pronunciar. evidenciem (bons) sentimentos. Estados Unidos). dominando “as posições e técnicas eróticas do mundo inteiro”. o defeito eletrônico) nem dores de cabeça (pelo menos no parceiro adquirido).pode-se até encontrar Charlie. Bastará então vestir essa pele “inteligente” e se conectar ao ciberespaço para emitir e receber as sensações táteis que se quiser. me agarra onde quiser!” (para ficar numa esfera mais polida) e. recobrindo com perfeição a pele. E. Esse campo cheio de futuro decorre de um vasto programa de pesquisa sobre as chamadas tecnologias “hápticas”. remetendo a tudo que simule as sensações ligadas ao tato. cobertas de microscópicos captores-simuladores.

339 Pedimos vênia para considerar aqui que o sociólogo do colégio da Santa Trindade não ousou ir até o fim de seu audacioso pensamento. Cabe notar aqui que esse dispositivo não põe em jogo uma discursividade crítica (tal como ocorreria num jogo de perguntas/respostas ou de propostas/objeções). Pois se elas fossem apenas tão satisfatórias quanto as que já conhecemos desde sempre. e. Essas considerações nos levam a pôr em dúvida a opinião do sociólogo James Hugues. Ele considera que essas técnicas podem. como vimos na análise da introdução a Os cento e vinte dias… de Sade. por que valeria a pena dar-se todo esse trabalho… para obter apenas aquilo que já temos? a retórica do duplo sentido 266 No cerne desses dispositivos narrativos de incitação à perversão encontra-se. que essas técnicas podem permitir-nos desfrutar de relações sexuais muito mais satisfatórias que relações de tipo clássico. mas uma discursividade narrativa capaz de tornar caduca ou antiquada essa ordem linguística crítica. Como funciona ela? Essa armadilha aciona. Levantaremos aqui a hipótese de que a conivência. uma vez iniciado o processo. O que poderia ter um nome: estaríamos lidando com uma armadilha para neuróticos que permita passar de sua resistência a seu consentimento. Provavelmente ele quis dizer. o comprometimento do espectador. na verdade. Em outras palavras. duas astúcias: 1º a captação do interesse. permitir-nos desfrutar dos prazeres de uma relação sexual eletrônica “tão satisfatória quanto se fosse carnal”. cujo interesse deve ser despertado antes de arrancar sua conivência. primeira etapa do consentimento. 2º a substituição do objeto no momento decisivo. portanto. de um indivíduo capaz de resistir para chegar a um indivíduo que deve consentir. é atualmente arrancada pelo que se convencionou chamar de duplo . Esta outra discursividade apresenta-se assim como uma metalinguagem capaz de romper ou superar o nível crítico. em breve. Parte-se. do Trinity College de Hartford (Connecticut). diretor da Associação Mundial de Trans-humanismo. essa armadilha permite fazer com que neuróticos adotem comportamentos perversos. como vimos.

com ar entendido: “Você sabe o que quero dizer…” Ainda que o outro não veja nem entenda nada. é uma virtude. mas se o tomarem no segundo. na verdade. aquele que me ouve. portanto. provocar é saber que se está dizendo… aquilo que não se deve dizer. não se torna mais nível de objeção. portanto. Notemos. virtude. terá todo interesse em responder: “Mas é claro!” Caso contrário. . se estará excluindo do grupo daqueles que sabem e… colocando-se na posição do imbecil — aquele que não entende nada e não merece a oferta que lhe foi feita de entrar para o cenáculo dos iniciados. não só não posso ser criticado por isso como. instituo um lugar onde puxo o outro. a um lugar onde aparentemente estamos à vontade entre nós. ao contrário do espaço público. Com isso. puxado para esse lugar. sobretudo. portanto. o narratário. Mas como eu sei (que não deveria dizê-lo). já que sustenta que. desde logo.340 Vejamos agora como essa retórica procede para se impor. É exatamente como quando alguém diz a outra pessoa. dizendo sem rodeios aquilo que ninguém deve dizer. Aquele que não aceitasse jogar esse jogo haveria de excluir-se do círculo dos emancipados a que acaba de ser introduzido. marcado pelas diferentes inibições. ao meu nível. basta que o narrador faça uma provocação.***** É graças ao duplo sentido que a fala escapa ao questionamento crítico. A provocatio. fica difícil para o outro. Para atingir esse suposto segundo sentido. no fim das contas. eu chamo o outro a me seguir. um lugar restrito a espíritos superiores desinibidos onde tudo se pode dizer. enquanto baseado na oposição entre o verdadeiro e o falso. esse discurso funcionou como uma máquina de destruir o discurso crítico. Nesse sentido.” Que mais está dizendo ele. desafiando-o a ousar me seguir. em latim. senão isto: o que vocês tomam por vício é. todos os referenciais e anula todo pensamento demonstrativo: ele pretende poder afirmar tudo e o contrário de tudo. que essa retórica habita o próprio cerne do discurso liberal. Quando faço uma provocação. em outras palavras. vale dizer. posto a par. será vício. já encontrado aqui: “Os vícios privados fazem a virtude pública. o branco é negro e o falso é verdadeiro — exatamente como nos discursos perversos. É o que ocorre com o enunciado fundador de Mandeville. ou seja. Ou então: se o considerarem no primeiro sentido. é o chamado e às vezes também o desafio. Desde a origem. Esse discurso confunde.sentido. com efeito. recusar a marca distintiva que lhe foi proposta.

já agora. os objetos apodrecidos. seu laboratório de pesquisa. as Pietà. não é publicidade. O que atesta a transformação da arte em laboratório de pesquisa para a publicidade é o fato de a arte ter-se tornado um lugar onde são buscados e rebuscados todos os meios possíveis e imagináveis de comprometer o outro. Jan Fabre acaba de ser recebido por um dos maiores e mais famosos museus do mundo. aquelas onde se encontram as Crucificações. como o empresário François Pinault. mas também na arte contemporânea — e não por acaso. Rembrandt. em cristal de Murano. à frente de muitos objetos ditos de arte contemporânea. sabem o que quero dizer?”. proprietário do Palazzo Grassi. capaz de fazer e acontecer no mercado da arte. por Andy Warhol. naturalmente. Com efeito. em Veneza. o flamengo Jan Fabre e o americano Jeff Koons. os Martírios e Ceias dos mestres do Norte (Memling. Basta pensar. Rubens. o Louvre recentemente instalou. Mickey-lângelo e o flamingo rosa 267 Essa receita narrativa é aplicada atualmente não só na publicidade. sabem o que eu quero dizer?” O que poderia ser dito de outra forma: a arte contemporânea tornou-se hoje uma base avançada da publicidade. um continuum. nas obras de dois dos artistas mais reputados de nossa época. que esse setor seja controlado hoje por grandes industriais e financistas. passamos sem hiato da publicidade à arte contemporânea e da arte contemporânea à publicidade. “Eu mostro a lata de sopa Campbell. mas. pois esses dois terrenos constituem. mas naturalmente não é a lata de sopa Campbell que estou mostrando. Isso foi tornado manifesto já a partir da década de 1960. o espectador. macabros ou insidiosamente . assim. no sentido de que pode fazer e desfazer cotações (inclusive as de seus objetos). os cocôs de pombo extremamente realistas. Não surpreende. por exemplo. Van Eyck e outros). De fato. Não faltam exemplos. de quem se viu recentemente uma grande retrospectiva no Grand Palais em Paris. Vermeer. em trinta e nove salas. destinados a cagar as sancas e remates das salas belas em demasia. o Louvre. Van der Weyden. as caveiras mordendo ratos mortos. ou: “Eu faço publicidade para a Campbell.

costuma ser chamado de Mickey-lângelo. depois. — Os irmãos Jake e Dinos Chapman apresentando. muito semelhantes a vulgares brinquedos de praia de plástico inflável (poodles gigantes. recebeu Jeff Koons. mais uma vez. seu Bezerro de ouro: um bezerro de verdade. diretor do estabelecimento público que gere o Castelo de Versalhes. perto de Nova York. no verão de 2008. onze aquarelas de Adolf Hitler da época da Primeira Guerra Mundial. para não falar das ejaculações. instalado num aquário cheio de formol. depois. coelhos…). antigo operador da Bolsa em Wall Street. Por isso é que Jeff Koons. de porra e de xixi-cocô. e. o flamengo. A esses dois artistas pós-modernos podemos acrescentar alguns nomes muito apreciados pela hiperburguesia financeira atual.rastejantes de Jan Fabre. grande fornecedor de objetos disneylandescos. lagostas. que na época era presidente do Centro Georges Pompidou e se tornou. François Pinault. graças a seu grande amigo. Jeff Koons não realiza nenhuma de suas obras por si mesmo. com os chifres e cascos dourados a ouro fino e trazendo no pescoço um disco de ouro de 18 quilates (18 milhões de euros na Sotheby’s). lançado pelo já mencionado empresário François Pinault. como: — Damien Hirst. Ele foi nomeado cavaleiro da Legião de Honra da República Francesa por indicação de Jean-Jacques Aillagon. ministro da Cultura e logo. possuidor de várias de suas obras. entre outras. de 18 meses. E Jeff Koons é o artista neo-pop mais caro do mundo. Não deixa de ser interessante saber. retocadas por eles com . para que fossem expostos. que Jeff Koons também é ex-marido da ex-estrela pornô Cicciolina. joia da arquitetura clássica francesa. excreções e excrementos do próprio senhor: seus furiosos rabiscos de sangue. num dos monumentos mais frequentados do mundo. seus objetos kitsch-disneylandescos (vários deles de propriedade de François Pinault). com. Nessas condições é que o castelo de Versalhes. e que se lançou na arte considerando que ela seria “um vetor privilegiado de merchandising”341 — valendo lembrar que o merchandising tem a ver com as técnicas que visam favorecer a circulação comercial de um produto mediante um trabalho em torno de sua apresentação e sua recepção. elas são executadas por seus colaboradores e técnicos (em torno de uma centena) numa oficina situada em Chelsea. entre outras obras. para nossa finalidade aqui. diretor do Palazzo Grassi de Veneza e. por sinal. um flamingo nada cor de rosa.

que lhe valeu o famoso prêmio Turner. e também por nunca fabricar pessoalmente suas obras. um produto. o exemplar na Sotheby’s) … Paremos por aqui. nas teorias da comunicação. 2º tomar todo cuidado para nunca produzir nenhum significado. provocando assim o pretendido efeito de buzz. revistas. composta de sua própria cama desarrumada. com o objetivo de gerar um ciclo especulativo a partir do “produto” considerado provocador. — Maurizio Cattelan. seus cavalos empalhados e pendurados no teto (2 milhões de dólares. portanto. conhecido como “o bufão dos ricos”. deve ser reduzido ao mínimo. Vale lembrar que o buzz (onomatopeia que significa “zumbido” em inglês) é uma estratégia de marketing que tem como objetivo promover uma ação. um serviço.342 Cabe lembrar aqui que o “ruído”. No caso que examinamos. concedido pela Tate Gallery (ela vende anualmente algo em torno de um milhão e meio de euros em objetos). 3º isso para provocar o máximo de “buzz” (zum-zum nos meios de comunicação). entre outros. My Bed. . — Tracey Emin. utilizando na mídia modos de propagação que mobilizem todas as formas clássicas de comunicação (jornais. uma pessoa ou um acontecimento. A obra dos irmãos Chapman é emblemática: o principal é não questionar o material de partida. não quer dizer nada e. televisão…) e as tecnologias de comunicação eletrônica capazes da chamada difusão “viral” (e-mail. sabendo que seria o caso de acrescentar todos os artistas que aplicam a seguinte receita milagrosa: 1º provocar da maneira mais cínica possível para afirmar que é possível dizer e fazer tudo (o que redunda em se dizer “isento de tabus”). em detrimento da mensagem. apresentando. na qual os consumidores replicam exponencialmente a mensagem inicial. pois a obra foi vendida em duas horas ao preço de 815.algumas manchas coloridas. além de preservativos usados e roupas íntimas manchadas de sangue. rádio. que ficou célebre com sua instalação de 1999. remete inicialmente ao que ocasionalmente seja acrescido à mensagem.000 euros na FIAC de Paris de 2008). blogs…). mas apenas usar o nome de Hitler para elevar os preços nos leilões (operação bem-sucedida. trata-se pelo contrário de fazer com que o ruído ocupe todo o espaço.

” Basta lembrar obras radicais como as de Bram Van Velde. Uma vez lançado o “ruído” por esse acontecimento originário. a depuração do sentido. com o riso salutar. Essa nulidade à segunda potência nada tem a ver. realmente podem alcançá-lo. trata-se de outro riso. No caso aqui. muito pelo contrário: é uma mediocridade à segunda potência. Paul Rebeyrolle e muitos outros. E Baudrillard acrescentava então esta assassina estocada definitiva: “Mas a coisa é tão nula e insignificante no segundo nível quanto no primeiro. que assim sai do limbo. resulta para a obra uma cotação diretamente vinculada ao tempo dedicado pelo patrão ao “produto”. em artigo de grande repercussão publicado no jornal Libération. salvo notáveis exceções. portanto. justamente por nunca ambicionarem o desaparecimento do sentido. portanto. e ainda mais forte. o desafio vitorioso ao sentido. Trata-se de obras que. aquele que permite acabar com tudo. A coisa tem a intenção de ser nula. mas para melhor refazer. A coisa foi muito bem percebida. Acontece que o primeiro “ruído” capaz de lançar um processo viral no terreno da arte contemporânea é constituído pelo tempo (avaliado em segundos) que um grande protagonista do mercado de arte. a arte do desaparecimento do sentido — é uma qualidade excepcional de algumas obras raras. É. que nunca o pretendem. aquele que desfaz um sentido mais ou menos especioso para obrigar a refazer outro. já em 1996. A passagem ao nível estético não salva nada. como o bilionário François Pinault. passa diante de uma obra. o riso cínico e niilista que afirma que pouco se está importando para os valores e a . Goran Music. “a arte contemporânea é uma nulidade”. caso contrário. por Jean Baudrillard. melhor construído. Pois o riso salutar é isto: aquele que permite desfazer o sistema fonológico. a sanção será dupla: continuar rindo. Jean Dubuffet. o filósofo explicava que “toda essa mediocridade pretende sublimar-se passando ao nível segundo e irônico da arte”. Baudrillard era frequentemente invocado pelos adeptos dessa chamada arte “de duplo sentido” — . que. Ela diz: ‘Eu sou nula!’ — e realmente é de uma total nulidade. as regras sintáticas e as nuances lexicais.343 Nesse artigo corajoso — na medida em que.” Baudrillard enxergava nessa nulidade à segunda potência um autêntico aviltamento da negatividade de que a arte é portadora: “A insignificância — a verdadeira. que declarou. na época.

no entanto. pois considera que nada há a buscar além da potência que autoriza a dizer que se trata de arte. E mesmo que vale mais que qualquer outro. Pose de esquerda ou de direita. na ponderação de que é impossível distinguir um objeto realmente artístico de um objeto qualquer. tendo renunciado à re-presentação. com efeito. como. a uma merda ou uma ejaculação — a dignidade do objeto artístico. Será necessário decifrar esse antidiscurso se não quisermos ser sua vítima — estou pesando minhas palavras. muito em voga hoje em dia. o criticismo. pois ele repousa numa premissa hiperdemocratista. pouco importa. sempre pressupõe em algum momento um tribunal da razão. pois seja de que lado for pode-se concluir que impor valores arbitrários é algo que fica sob suspeita de uma tendência mais ou menos confessa para a ordem. um funcionamento narrático de uma eficácia que não só nada fica a dever à eficácia da narração sadeana como a leva a novas consequências. na medida em que se pressupõe que ele tem o mesmo valor que qualquer outro. vale dizer. porém muito cara 268 Sinto-me assim bastante tentado a incluir essa arte que repousa no buzz entre as artes pornográficas ou pós-pornográficas contemporâneas. que. Essa arte funciona à base de performatividade: trata-se de apanhar o espectador com um antidiscurso. de fato. sustentadas pelo que se costuma chamar de hiperburguesia. para alguma forma de totalitarismo político. ou então se brande a ameaça do totalitarismo filosófico. já que. Agita-se então o espectro do fascismo ou do stalinismo. verdadeira merda. muito difundida na doxa pós-moderna.344 Esse raciocínio permite conferir a um monte de esterco — ou melhor. ele apresenta . Esse discurso escora-se. pois permite assumir uma pose de “esquerda”): fala-se então da imposição arbitrária de um arbítrio cultural. Acrescenta-se que introduzir uma hierarquia seria impor valores arbitrários. Mas acontece que é terrivelmente difícil desmascará-lo. logo. pelo motivo de que seria então necessário introduzir uma hierarquia. A coisa poderia inclusive ser dita à maneira de Bourdieu (o que é ainda melhor.busca axiológica. por exemplo.

diretamente a pulsão. pentes desdentados. mediante alquimia liberal. seja a do artista. vale como e vale tanto quanto qualquer outro. mesmo deteriorado. é porque entramos num mundo em que. Existem oito versões dessa obra. é o que está em jogo na arte no regime ultraliberal. A primeira é uma enorme máquina de doze metros de comprimento. Por isso é que é pornográfico. tudo pode ser trocado. contendo líquidos de coloração marrom . bonecas quebradas. Se o objeto apresentado. pois se afirma que é possível apresentar merda. residual (como nas exposições de arte contemporânea. estantes capengas. É a troca generalizada. que se apresenta como um tubo digestivo humano gigante e funcional. Para se ter a derradeira prova da “pertinência” dessa teoria. bastará fazer com que esses dejetos “dialoguem” com obras até então consideradas sublimes e zelosamente conservadas em nossos grandes museus há gerações — e poderíamos aqui nos alongar em exemplos de declarações sobre esse “diálogo”. por Pinault e cia. é uma criação extremamente irônica do artista belga Wim Delvoye (2000). como qualquer coisa vale qualquer coisa. se deve ser capaz de tudo constituir em objeto. transmutável em ouro. rebaixado. como tudo se transformou em objeto de troca. seja aquela através da qual foi investido como objeto artístico. Ela é composta de seis recipientes de vidro. rodas de bicicleta torcidas…). ou seja. É o caso de nos perguntarmos por que o curador da exposição Jeff Koons não teve a ideia de estabelecer um diálogo entre os quatro cavalos do chafariz de Apolo em Versalhes e o crustáceo gigante de plástico vermelho de Mickey-lângelo — que belo diálogo não teria sido! uma nova trituradora de chocolate****** 269 A mais bela metáfora desse sistema que tem por objetivo produzir merda. em produto vendável. três metros de largura e dois de altura. sobretudo. O que é uma maneira de afirmar que se pode e. intitulada Cloaca. no qual o objetivo é mostrar que uma merda pode valer alguns milhões de dólares. sublime. montes de carvão. porém cara. mas merda cara. tantas vezes compostas de roupas velhas.

o velho fóssil negacionista Faurisson (o “grande pensador” excluído de todas as universidades. Como deixar de perceber que esse ultrademocratismo é exatamente o que pode conduzir à tirania — e.2ºC) e digere alimentos fornecidos por comerciantes (e. na esperança de que se transforme em sólida base de uma espiral especulativa. por sinal. ácidos. a extensão da tolerância em relação à insignificância. são embalados a vácuo e identificados com um logotipo que imita os da Ford e da Coca-Cola. canos e bombas. exatamente em nome da liberdade de expressão. entre os quais um certo Jean-Marie Le Pen. grandes chefs) com o objetivo de produzir. 270 Essa tolerância da arte contemporânea pelo vale-tudo não é assim tão indiferente como pode parecer. inclusive o intolerável. leva à necessidade imperativa de tudo tolerar.saturados de enzimas. entre elas a Turbo (digestão rápida) e a Mini (para pouco apetite) ou ainda a Personal Cloaca (vegetariana). para lhe conferir diante de 5. Especialmente no plano político.000 espectadores. a máquina é mantida na temperatura do corpo humano (37. excrementos que. Cada merda produzida é vendida. Aqui.000 dólares o exemplar. ao fim de um ciclo de aproximadamente um dia. totalmente desacreditado. o “prêmio […] da insolência”. Esses recipientes são interligados por tubos. bactérias. Controlada por computadores. sabemos que essa conversão da democracia em tirania é possível desde os livros VIII e IX da República de Platão. no palco do Zénith. entregue por…………… um figurante trajado de . que afirmava que “as supostas câmaras de gás hitleristas e o suposto genocídio dos judeus constituem uma mesma e única mentira histórica”). preconizada pela arte contemporânea. não foi por acaso que o “humorista” Dieudonné apresentou. Com efeito. Existem atualmente oito máquinas. em nome da arte contemporânea. etc. às vezes. Nem é preciso dizer que os compradores mais perspicazes tratam de preservar zelosamente sua titica. Assim foi que ele levou ao palco esse velho negacionista. em Paris. no fim do ciclo da grande máquina cloacal. em seguida. É uma estratégia retórica ardilosa que a Cidade perversa pratica com brilhantismo: em minha opinião. por algo em torno de 1. as propostas mais intoleráveis terão de ser aceitas sem pestanejar.

é arte contemporânea. Com efeito. ela se assume como arte contemporânea. […] Vamos ver como é que chupa quando eu te deslocar as mandíbulas. Você não passa de uma porca. quero que morra lentamente Quero que fique grávida e perca a criança. para se tornarem aquilo que Sade chamava de “celerados”. É assim que se pode levar um povo de neuróticos a adquirir comportamentos perversos.346 Em todo lugar.deportado judeu com uma estrela amarela no peito. Muita. . que deu o que falar: Você só serve para ser arrombada pelo ânus Mesmo que dizesse coisas inteligentes teria um ar de babaca […] Eu te detesto. a serem aplicados no espaço público. Por um lado. merece um lugar no abatedouro […] Vou te emprenhar. funcionando como uma espécie de passaporte. Por outro. o referido “humorista” orgulhosamente declarou: “É a minha maior estupidez […]. depois da representação. no plano das pequenas narrativas publicitárias. Como nesta bela canção de amor. por exemplo. a coisa se pretende de duplo sentido. que se transformou em lugar de pesquisa em ato e mesmo em passagem ao ato. Qual a relação com a arte contemporânea? Poderiam perguntar. que têm como função aquecer os corpos dos consumidores e convidá-los à descarga pulsional. E te fazer um aborto no canivete. da hiperburguesia. sua puta imunda. 271 A jogada do duplo sentido é praticada por toda a cultura pós-moderna. uma performance humorística.”345 Temos aí então mais um que entendeu perfeitamente esse funcionamento atual da arte contemporânea. de cima a baixo. em lugar de experimentação de novos funcionamentos narráticos sadeanos possíveis. o mesmo “humor” é invocado. à “escória” que faz rap e que derrapa. aquela que leva Pinault aos pináculos.

da qual devemos destacar a riqueza das rimas. contrário à democracia. no primeiro sentido. protestando contra a opressão e esse insuportável atentado à liberdade de expressão. festival de “músicas atuais”. os defensores da liberdade de expressão se indignaram. certamente existem. indivíduos que literalmente. como isso poderia ser considerado um julgamento moral. Os dirigentes políticos da Região Centro tiveram a péssima ideia de ameaçar os responsáveis pela Primavera de Bourges. intitulada “Puta imunda” [“Sale pute”]. Esse público é composto basicamente daqueles que. muitas vezes apresentado como o Eminem francês. na arte e na cultura de nossa época.”348 E aos que apesar dessa evidente boa vontade ainda duvidassem de que o acesso ao segundo sentido estivesse garantido a todo o seu público. ridicularizando as boas intenções educativas: “Será que as pessoas nunca vão entender? A gente pode ajudá-las.347 Convidado a justificar sua criação. Orelsan acrescentava então: “Os que dizem que ‘os jovens não entendem o segundo sentido da canção’ se enganam redondamente. edição 2009. poderíamos chamar de non-dupes (“não otários”). a do duplo sentido: “Não é misoginia. humor. é preferível dizê-lo de maneira analítica: esses indivíduos se encontram simplesmente numa autêntica posição sadeana. com base em Lacan. ou seja. para evitar mal-entendidos. 272 Ouço uma objeção: bufões do duplo sentido.” Restava-lhe apenas ir até as últimas consequências. Orelsan naturalmente recorreu à incontornável jogada. Melhor teria sido que se calassem: de todas as partes.Devemos a letra dessa delicada canção. vale dizer. . […] Nós [os jovens de 15 a 35 anos] conhecemos perfeitamente o duplo sentido!” Orelsan provavelmente nem sabe o quanto tem razão nesse ponto: essa geração realmente foi “criada” no duplo sentido. Poderíamos dizer que eles se encontram num cinismo absoluto. mostrando no clip pompom girls segurando cartazes com o aviso ‘duplo sentido’. ao rapper Orelsan. apenas duplo sentido. com uma redução de parte da subvenção pública nos próximos anos se o rapper não fosse excluído da programação. Entretanto. não se deixam enganar. Tanto que se tornou incapaz de compreender o primeiro sentido. mas seria desejável não confundi-los com autênticos artistas. De tal maneira que o público dessa cultura pós-moderna só conhece na realidade o segundo sentido.

o estatuto de um objeto ready-made. nos quais produzem fórmulas para bem especular na Bolsa (e os melhores deles podem até ser recompensados com o prêmio que se reividica como “Nobel” de Economia). Em outras palavras. Indefinidamente reproduzido. do da produção capitalista. Ora. quando os artistas começaram a reproduzir o gesto não reprodutível de Duchamp. Esse gesto era altamente subversivo. verdadeiramente inspiradas. pois questionava tudo: o estatuto do objeto industrial. É o que ocorre em todos os meios nobres (caracterizados pela elevação intelectual e moral) e desinteressados: eles podem vir a ser amplamente contaminados por um princípio perverso. os três ou quatro por cento de matemáticos em potencial que geralmente podem ser encontrados em determinada categoria etária são. Mas nem por isso é menos verdade que a pressão do mercado de arte sobre a própria arte tornou-se considerável. o primeiro ready-made: um urinol-padrão batizado de Fonte. a arte nos Estados Unidos. esse sublime “falso” da economia capitalista pautada por uma única Ideia: a riqueza ou a força infinitas. o que só podia levar à “comoédia” da subversão (a expressão é de Philippe Muray) que hoje conhecemos e que transformou a arte no lugar de pesquisa de subversões aplicáveis à publicidade — o que bem dá a ideia do alcance dessas subversões. Desse modo. desviados para estudos financeiros. decorrendo da liberação descontrolada da libido dominandi.353 a função de uma exposição e o que mais se quiser.352 o sexo dos objetos. e ainda hoje continua a sê-lo. doravante. para eles. a título de exemplo. o estatuto do gesto criador. remontando à época em que ele expôs no Salão da Society of Independent Artists de Nova York. em outro contexto. saímos da autenticidade e entramos na era do “como se”.350 Tentei demonstrar. em 1917.351 que nas artes plásticas as coisas provavelmente evoluíram mal a partir da década de 1960. . esse gesto único foi reproduzido. De modo que saímos do ato subversivo e entramos na cópia indefinidamente duplicada do ato subversivo.sempre em busca de um autêntico sublime… muito diferente.349 A objeção é tanto mais ponderável na medida em que esses excessos na direção do “vale-tudo” elevado à categoria de arte oficial não podem deixar suscitar diferentes oposições.

manifestamente. depois da exposição de 1917. Duchamp dera tão pouca importância ao urinol-padrão. Arroyo e Recalcati. desviavam o gênero menor do romance e do filme noirs para inseri- lo no gênero maior do pensamento crítico. que guardou o objeto… e depois nunca mais se lembraria onde o havia posto — de tal maneira que sequer voltou a encontrá-lo quando se mudou. é. portanto. Não havia lugar. hoje. dando testemunho. a revolução duchampiana nunca significou mais que conferir uma nova vida à clássica “exaltação do caráter todo-poderoso” do artista. entre outras. pintado por Duchamp. A Fonte. O manifesto que acompanhava a primeira exposição desses quadros zombava descaradamente da grande revolução duchampiana… que. Segundo Aillaud. por sinal. nunca chegou a enganar completamente o próprio Duchamp. que foi exposta no Pasadena Museum of Art de Los Angeles. assim. para nenhuma confusão entre o primeiro e o segundo sentido: Aillaud. que. na época ainda vivo. a demanda foi de tal ordem. rebatizado de Fonte. E. são motivo de orgulho dos maiores museus do mundo. em 1913). jogando-o do alto de uma escada (assim parodiando o famoso Nu descendo a escada. Nela. A obra mostra. Tivemos recentemente uma bela ideia a respeito com a exposição no Grand Palais de Paris. na década de 1960. Digamos simplesmente que os contrapesos foram criados já a partir da década de 1960. Arroyo e Recalcati. E. de 1965. provavelmente. . intitulada Vencer e deixar morrer ou o fim trágico de Marcel Duchamp. em 2008. Eduardo Arroyo e Antonio Recalcati. Aillaud. da mais notável das escolas francesas da década de 1960. a da chamada “figuração narrativa”. julgam e assassinam o criador do ready-made e da arte conceitual. aqui. de sua vontade de agir. o deixou com um dos curadores. podíamos ver. sem nunca chegar a romper com “a idealidade do ato criador”. a “comoédia” da subversão 273 Não cabe aqui explorar as muitas alternativas que se apresentam felizmente para escapar desse destino funesto no qual vem a ser indefinidamente representada essa “comoédia” da subversão. com consumada ironia. como os três pintores torturam. uma falsificação… assinada “Duchamp” por Duchamp. por sinal. que. em 1963. que Duchamp teve de assinar cerca de vinte outros urinóis. uma obra em oito quadros de Gilles Aillaud.

reduzindo as inúmeras repetições desse ato à “comoédia” da subversão e à inautenticidade. levaria diretamente à grotesca sacralização do ato… impostor a que assistimos hoje. Se pelo menos esse grotesco fosse reconhecido pelos que o praticam. o atirado escada abaixo. transformado em religião artística. . e com isso revela o que realmente é: simplesmente pornográfico. além de três pintores parisienses de “vanguarda” apanhados em flagrante tentando imitar seus mestres.Arroyo e Recalcati. muito bem informados nessa década rica de 1960 do que estava em jogo na arte viva. Arroyo e Recalcati provavelmente produziram o único ato autenticamente duchampiano desde a exposição de Fonte em 1917 — de um só golpe. todos os perversos são parecidos. Fomos levados. os verdadeiros perversos e os neuróticos de comportamento perverso. Aillaud.354 274 Surpreendo-me aqui pensando que Aillaud. Warhol e Rauschenberg). vistos de perto 275 De longe. mais numerosos. O humor era feroz: o caixão de Duchamp estava envolto na bandeira estrelada americana e era carregado por três artistas pop nova-iorquinos (entre eles. foram os primeiros a se dar conta de que o duchampismo. se se assumisse rabelaisiano… Mas não! Ele se leva a sério. Os abomináveis perversos lendários ainda podem ser encontrados — e talvez até sejam. em seguida. já que o “dom” excepcional ao seu alcance tende a ser desencadeado com mais facilidade em nossa cultura pós-moderna. contudo. a enumerar até agora (sob reserva de um inventário mais detalhado) três variedades: os perversos lendários. depois de o terem submetido a um interrogatório violento e. como vimos. em nossas explorações. No último quadro de sua série. Arroyo e Recalcati mostravam o enterro de Duchamp. Mas de perto. os perversos. a coisa se complica.

problemática e desesperada — de se colocar na posição do incastrável. eles mudaram de estatuto quando da passagem de um mundo marcado pela prevalência da neurose para a Cidade perversa. marcada pela passagem de uma economia do gozo a uma economia do desejo. Com isso. de certa forma. sem ficções que sustentem esta ou aquela figura do grande Sujeito. ser belo. não se trata mais de alguém que recusou que “a coisa” lhe fosse cortada. quase sempre neuróticos de comportamentos perversos. era por ser aquele que. vale dizer. Os verdadeiros perversos ainda podem ser encontrados. Se ele ainda a tem. implicando uma reorganização fálica do discurso. que não teve um encontro conflitivo com o nome do pai. Ora. na medida em que certo número deles é encontrado em seus divãs — remeto aqui aos importantes trabalhos de Jean-Pierre Lebrun sobre a questão. com efeito. Em seguida temos os perversos comuns. A perversão ordinária de hoje resulta de outro funcionamento. é porque já não havia mais ninguém para fazer o que cada vez mais se revelava como o trabalho sujo. pois. não pode haver função paterna. contra a neurose. especialmente seu livro mais recente. a da neurose. La Perversion ordinaire. através do que os psicanalistas chamam de castração. sob certas condições. na qual o sujeito se submete. em suma. Essa perversão verdadeira tende então a perder seu papel de “outro” da neurose e a se tornar um mundo integrado. Ela decorre do fato de que a função paterna. o trabalho simbólico.357 O . revelava uma certa coragem da parte daquele que tinha então de sustentar essa posição contrária à inclinação comum. à ordem paterna de renunciar à mãe.356 Aqui. Embora essa escolha fosse basicamente inconsciente.355 Se o perverso extraordinário de outras épocas podia. nesse caso. não estamos mais lidando com um incastrável. não mais sendo sustentada pelas grandes narrativas. esses perversos são nitidamente menos belos. E. não pode mais ser exercida. que começam tanto mais a despertar o interesse de certos psicanalistas. Isso pode ser analisado como a generalização do que Freud chamava de perversão polimorfa da criança. quando impediam que os neuróticos ficassem dando voltas sem sair do lugar — motivo pelo qual a civilização podia prestar-lhes homenagem. havia optado pela perversão. mas tendem a ser menos belos que em outros tempos. mas com um simples incastrado. eventualmente. Em suma. a palavra se interpõe entre a pulsão e sua satisfação. Esse perverso fazia então a opção — bela.

no mundo. esses pacientes irão buscar ajuda em outro lugar: já existe toda uma gama de terapias perverso-compatíveis. Algo de que dá muito bem conta a palavra-valise adulescência (“adolescência” + “adulto”).que. já que os tempos não giram mais em torno da neurose. mas acredito. portanto. que a relação com a psicose também está evoluindo: também ela se torna menos extraordinária e mais . que se tornou ordinária. até onde posso ver. É verdade que a ideia começa a penetrar o mundo psicanalítico. muitas vezes. como ajudas diretas ao gozo solicitado. um perverso polimorfo prolongado. É bem verdade que a perversão se torna ordinária. do surgimento em breve. Caso contrário. naturalmente. publicado em 1996. antes que as sociedades psicanalíticas acabem um dia por fechar as portas por não terem sido capazes de entender o que acontecia. elaborar um novo contexto conceitual capaz de dar conta dos sintomas que se lhe apresentam em sua prática. como na época de Freud. passando cada vez mais a girar em torno do sol negro da perversão. como evidenciam as reações ao livro recente de Jean-Pierre Lebrun anteriormente mencionado. Se o que interessa a Lebrun é. como sustento desde Folie et démocratie.358 em outras palavras. perversão e psicose — é que pode perfeitamente estar mudando. de minha parte quero tentar entender como funciona hoje a Cidade pós-moderna. prontas para recebê-los. a esse respeito. ou seja. de um novo adulto que nada mais seria que uma “criança generalizada”. manifestando-se através de sintomas novos apresentados pelos pacientes que vinham falar em seus consultórios. e seria desejável que seus colegas se disponham a ouvir o que ele tenta dizer-lhes: que existe algo de novo e que seria bom dar-se conta disso antes que seja tarde demais. em 1967. não deixa de ter relação com a previsão feita por Lacan. E restarão aos psicanalistas apenas os dinossauros de nossa cultura: os bons e velhos neuróticos de outros tempos. Parece-me. 276 Cabe. que toda a relação entre as três grandes afeições psíquicas apreendidas por Freud — neurose. pois se apresentam. esperar que o mundo psicanalítico seja capaz de uma nova revolução coperniciana. A mim parece que seu trabalho produz nada menos que uma pequena revolução no pensamento psicanalítico. não sem provocar muitas resistências. surgida há poucos anos.

com a ajuda de um caso. Uma indicação: é precisamente em torno da celebração do cu que se desenrolam as maiores manifestações celebradas ultimamente nas grandes cidades do mundo pós- moderno: 700.-L. O que procurarei fazer mais adiante. em 2006… O slogan usado em Paris. em 2008. Qual cu?. direta. houve o Renascimento e agora entramos na civilização do cu” (J. em 2008. Mas se permanece. 3 milhões em São Paulo. observamos uma virada na direção de certas formas psicóticas. Exatamente aquele que pode escapar a toda captura na diferença sexual. Ora. em 2007. Mas um deles. ou pré- psicóticas. a lei da diferença sexual. E quando a barreira não se sustenta. não raro denominadas casos-limite. é. grande especialista da psicologia do desenvolvimento. naturalmente. filósofo e fundador da psicologia francesa: “A discriminação é o fundamento de nossa inteligência” — o que viria a ser amplamente confirmado pelos trabalhos de Jean Piaget. mas qual? Todos. 1966) 277 Uma das características da perversão é. Quanto à neurose.ordinária. é precisamente no lugar dessa contestação que ressurge a questão pornográfica. Foi o que resultou nesta regra enunciada pelo grande Théodule Ribot. “Por uma escola sem . Muito bem. articulando-se com essa nova perversão. muito provavelmente. poderão perguntar. não desapareceu. no caso. como tantas vezes ocorre. como já disse. ou para-psicóticas. em particular. Ora. Penso. que nos aproximamos de uma banalização dos fenômenos psicóticos. confirma o que eu já disse sobre a difusão de lições de perversão. na Cidade.000 pessoas na Gay Pride de Paris. naturalmente. como já disse. “Houve a civilização ateniense. O demônio das onze horas. do órgão sexual. especialmente em ação. com efeito. E eu respondo: o cu no sentido amplo e no sentido estrito. simplesmente porque a perversão constitui. devemos tomá-lo ao pé da letra. se entendemos por isso a apresentação crua. contestar a Lei. Resta tentar perceber como. o último anteparo contra a psicose. existe um em particular: o cu. O que pressupõe o conhecimento do sentido original de “discriminar”: saber distinguir entre dois objetos diferentes. Era o seguinte: “Por uma escola sem nenhuma discriminação!” Para entender bem esse slogan. Godard. um milhão em Colônia.

para educar as crianças na renegação da diferença sexual. ou simplesmente triunfalmente expostas — graças ao “fio dental”. encontrando enorme sucesso mundialmente em todos os sexos. tão complexo. sexualmente marcado. Mas não estou interessado nesse tipo de acusação. pois eles atuam simplesmente no senso comum. Tudo isso para exibir um cu em sua nulidade de cu. que as crianças são exortadas a não mais distinguir os dois sexos! Esse slogan ocupa. entre os reacionários. exigem a adesão cega e entusiástica ao seu credo. Pois trabalho aqui como um etnólogo que não precisa acreditar nos mitos que estuda para relatá-los. literalmente. portanto. que oculta a parte anterior e exibe quase inteiramente a posterior. já que um cu não passa de um pobre buraco. ou seja. Essa afirma. mais uma vez: não sou contra nem a favor. usado universalmente. tão pouco buraco e tão cheio de surpresas. já que eles. julgando- se revolucionários. exaltadas. Como se explica. vibrantes. O que o autor destas linhas não pode naturalmente admitir. ornamentadas com plumas e enfeites diversos. particularmente. já na mais tenra infância. o cu que vem a ser posto em destaque. assim. as nádegas: elas são mostradas. um lugar de honra entre as lições de perversão constantemente transmitidas hoje em dia. o do mercado e da doxa. ou seja. Os brasileiros contribuíram muito para a civilização pós- moderna ao inventar esse famoso biquíni. Sei perfeitamente que essa abstenção será suficiente para que os novos idólatras me enquadrem entre seus inimigos. Que não me interpretem mal. incapaz da mais elementar comparação com o outro buraco. E se pratico a suspensão do julgamento. Pois é. um buraco do cu. de fato. Um simples buraco. ou por outra.nenhuma discriminação!” quer dizer. o do órgão feminino. transformando-o em seu órgão predileto? 278 . que uma época possa convergir para um órgão tão nulo. como dizia Proust. traje de combate das gay prides. modeladas. é para realmente me questionar sobre o que significa essa nova celebração do cu nas grandes cidades pósmodernas. o cu e seu entorno. tão perdidamente belo quanto uma orquídea Cattleya. assim. que convém começar cedo.

somando 243. todo mundo tem um cu.******* Resumindo: se nos ativermos aos seres humanos. Quando se sodomiza. que seja humano ou não. para no primeiro dia do terrível mergulho na exploração das seiscentas paixões. à qual retornaremos. é.359 No fim das contas. porque o cu suscita hoje em dia um culto que faz as vezes de cultura? 279 Existem duas possíveis explicações complementares. Ou o famoso discurso do duque de Blangis. lembrem-se de que essa parte infecta que a natureza só foi capaz de formar perdendo a razão é sempre aquela que mais nos repugna. a diferença sexual que vem a ser negada pelo ato de enrabar. Ora. como Sartre demonstrou ao relatar uma cena das mais rabelaisianas da Infância de um chefe. pouco importa. Mas fiquem tranquilos. pouco importa a identidade sexual daquele que é enrabado. é claro que não estou esquecendo as moscas — embora essa continue sendo uma especialidade quase exclusivamente reservada aos intelectuais. tinha compreendido que isso viria um dia a ocorrer. A segunda é que o cu nega a diferença sexual. devemos ter em mente que isso é característico de um posicionamento sadeano. A primeira é que não se pode imaginar que outro órgão poderia ter sido escolhido num contexto de perversão polimorfa triunfante. já que essa mobiliza precisamente uma economia muito apropriadamente denominada (por Freud) sádico-anal. as crianças ou mesmo as cabras e até os patos. inclusive. Basta lembrar as diversas declarações de Dolmancé em A filosofia na alcova (esta. seja homem ou mulher. em seu gênio visionário. às mulheres no castelo de Silling. ofereçam-se sempre muito pouco de frente. até onde sabemos. em Os cento e vinte dias…. muito simplesmente porque. na qual um protagonista prende a cabeça de um pobre volátil dessa espécie numa gaveta para infligir-lhe os piores ultrajes. Ele acaba de fazer a exaltação do cu e conclui dizendo-lhes: “De maneira geral. por exemplo: “Sou sodomita por princípio”) e o número de ocorrências da palavra “cu” — nós as contamos. com efeito. Estou querendo dizer que todo mundo é enrabável. Quero dizer que Sade. Provavelmente por esse motivo é que tanto podem ser enrabados os homens quanto as mulheres. portanto.” .Em outras palavras.

com efeito. Esses perversos ordinários seriam. relatado por uma amiga psicanalista no Brasil — excelente lugar. De modo que é perfeitamente possível que esses perversos ordinários sejam. eles perturbavam a ordem das coisas habituais. E os de Leclaire o eram. Ao passo que hoje participam do senso comum.”360 281 O sadismo de hoje. para a grande precisão clínica. assim como a perversão contemporânea e a pornografia atual. tentando prescrever uma nova norma que.280 Que vamos encontrar. Em outros tempos. apesar de enorme. experimentadas por Sade página após página. para enfrentar o mestre é preciso ser capaz. como sempre. dos lacanianos franceses que se permitiu enfrentar a recusa implícita do mestre no que dizia respeito à escrita de casos (e. Vou sem mais demora tentar demonstrar essas afirmações com a ajuda de um caso que me parece bem exemplar. Entretanto. na verdade. neuróticos que tentam vulgarizar-se. O único. mas de esplêndidos casos. capaz do manejo das mais finas nuances. Foi o último psicanalista na França que não nos ofereceu a leitura de simples vinhetas clínicas. em seu notável livro sobre Sade. no seu caso. escrever casos realmente magníficos. afinal. porque a bela escrita literária. nos livros de Sade? A confusão dos sexos. de certa maneira. O jurista e filósofo François Ost. porque aquilo que em cada . ou quase. devem ser situados sob o signo do ordinário. para observar certos aspectos da construção da Cidade pós-moderna perversa. no sentido de que fazem tudo para esquecer que são neuróticos. Em outras palavras. é norma. antes de mais nada. contribuía. Por um lado. seria o caso de dizer 282 Serge Leclaire nos faz falta. afirmou claramente: “O tribadismo das heroínas e a pederastia passiva dos heróis são figuras frequentes da confusão dos sexos. não encontramos um único caso digno do nome nos milhares de páginas de textos e seminários de Lacan). Por outro. neuróticos de um novo tipo.

A única coisa que podemos dizer é que. É evidente que todos esses receios são perfeitamente justificados. por sinal. com sua sistematicidade. e. Naturalmente. leitores que eram dos casos de Leclaire. E. sob grande suspeita de se revelarem um pouco cômodas demais para serem realmente “honestas”. avesso à utilização do que chamava de “carta forçada da clínica”. resulta muitas vezes em emprego intempestivo. Essa carência de “material clínico” é tanto mais lamentável na medida em que foram feitas. como os recursos ao meu dispor. como sustentar essas hipóteses sem apresentar caso algum? É essa terrível carência que tentarei enfrentar. nesse momento de exploração. Se acrescentarmos a essa reserva que a ausência de verdadeiros casos.um dos casos se enunciava como singularidade absoluta foi capaz de ir ao encontro da época e explicá-la. ainda que em caráter provisório. algumas características.361 Ele temia dois efeitos “perversos”. durante jornadas de estudos ou seminários. tentarei suprir a ausência de . no sentido habitual da palavra: um relativo ao redator do caso. como filósofo que aprendeu muito com a leitura de casos (de Freud e de Leclaire). sabendo. pode suscitar no destinatário efeitos imaginários de todos os tipos. Ora. não podemos decidir no lugar dos psicanalistas. 2º estaria necessariamente isento da produção de efeitos imaginários. nos últimos anos. Mas caberia então perguntar em que o discurso teórico ou metapsicológico puro que elimina a apresentação de casos: 1º seria mais capaz de escapar ao risco de querer demonstrar o que pretende demonstrar. Esses recursos serão filosóficos. Por um lado. Em outras palavras. ao destinatário. Para eles. e outro. por outro. era uma maneira privilegiada de ter acesso ao desdobramento historial da aventura humana. que estas terão sempre de estar abertas à interpretação. Deleuze e outros) foram capazes de enxergá-lo. no momento em que avançamos em terreno pouco conhecido e quando se faz necessário fixar. é certo. eles nos fazem falta hoje em dia. teremos de reconhecer que a questão da apresentação de casos não pode ser decidida com facilidade. de vinhetas clínicas ad hoc mais ou menos alusivas. um caso sempre pode ser apresentado de tal maneira que venha a justificar tudo aquilo que o redator pretende demonstrar. importantes propostas tendendo a corroborar a ideia de que houve mutação antropológica e de que passamos a uma nova economia psíquica. os grandes filósofos das décadas de 1960 e 1970 (Derrida. como o fascínio ou a repulsa. Podemos. entender a posição de Lacan. com efeito. naturalmente.

Como a maioria dos participantes das raves . ela inicialmente ingeria álcool. 283 Existem três maneiras de fazer filosofia na alcova. ou antes. Angélica gosta de participar de rave-parties nos fins de semana. Como tantos de seus amigos e amigas. pela prática sexual pornográfica. Para conseguir dançar horas seguidas.362 Esta última maneira é que adotaremos aqui. uma psicanalista. para se estimular. mas depois veio a descobrir o ecstasy. com vistas a sua contemplação ativa. Depois de consultar médicos e em vão tentar tratamentos medicamentosos (ansiolíticos e antidepressivos). por recomendação de um amigo. A primeira é a maneira sadeana. A terceira consiste em decifrar as paixões que compõem e recompõem constantemente o mundo. decide procurar um psicanalista. que consiste em dizer as paixões e encenar. o caso Angélica 284 É Angélica que vou deitar primeiro que tudo nesse divã filosófico. A situação é sempre a mesma. E esta pergunta como se manifestam as crises. como se espera em tais circunstâncias. Não sem antes acrescentar que essas três maneiras provavelmente não deixam de se inter-relacionar — mas isso é uma outra questão. será necessário deitar-se num divã. Angélica. Angélica é uma estudante de medicina que vem consultar-se por causa daquilo que ela mesma diagnosticou como “crises de pânico”.casos clínicos introduzindo um caso filosófico que pode ser bastante significativo dessa nova Cidade. poderoso estimulante do sistema nervoso central com características psicodélicas. que consiste em dizer as paixões e impedir sua realização imediata (o que poderia sobrevir na terapia analítica valendo-se da transferência) de maneira a permitir uma resolução adiada e deslocada em seu objetivo (na qual a pulsão é sublimada como desejo). pós-moderna e perversa. A segunda é a maneira freudiana. sua imediata resolução. Nos três casos.

Até que sobrevêm certos episódios marcados por uma forte desinibição. o que caracteriza essa posição é jogar nas duas situações. até então desconhecidos. à espera da próxima rave-party. assim. com um ou vários parceiros.363 E ela. exceto através da fantasia. de todas as maneiras possíveis. Para ela.consome esse produto. sem ter realmente decidido. O que ela chama de “crises de pânico” ocorre em geral na semana que se segue a esses atos. passa para o lado da perversão e/ou uma perversa quando se apresenta a oportunidade. mas que. E Angélica vê o seu corpo como se não lhe pertencesse mais. Sente-se então desdobrar. nos quais ela acaba. eventualmente várias vezes seguidas. em As prosperidades do vício. ela também passa a ingerir um deles regularmente. como se assistisse às proezas empreendidas por seu corpo. recua para a neurose mais clássica. mas como possível paradigma. é uma neurótica clássica. às vezes. 285 Não examinaremos esse caso em sua evolução clínica — não é o nosso papel —. tampouco. investido por forças que a superam. em seguida. neste sentido exemplar desse lado da perversão ordinária que desemboca na pornografia. se comporta como Juliette. de tal maneira que nada impediria que participasse de um desses grupos evangélicos que não faltam no Brasil. De modo que ela não é perversa no sentido de estar assumindo certos atos de puro gozo. muitas vezes vendido no próprio local. . fazendo amor ao longo da noite. já que é periodicamente chamada à ordem por violentas crises de angústia. pois se permite investigar exatamente lá onde o neurótico médio jamais se aventuraria. e durante a semana vive como uma neurótica média. O que nos leva a pensar que se Angélica deve ser incluída na categoria dos perversos ordinários. revela-se igualmente impossível colocar-se na perversão clássica ou refugiar-se numa forma neurótica caracterizada. assim como a sua repetição. provavelmente pudica e preocupada com a impressão que pode causar nos professores. Ela seria exatamente uma neurótica que. quando Angélica volta muito comportadamente a frequentar suas aulas. a música techno e sua cadência binária obsessiva parecem um poderoso convite ao ato sexual com o primeiro que aparecer. nos fim de semana. Pois aqui temos uma estudante que. Sob o efeito do produto ingerido.

recalcando a sua própria. e. “Prostitution” [Prostituição].364 287 Existe uma solução para o conflito entre uma vida de neurótico pouco apto a passar ao ato e uma vida de perverso pornógrafo. cantora. de tal maneira que esse indivíduo acaba tendo de assumir uma vida dupla. puritana por um lado. naturalmente. Essa solução tem a seu favor a aparência da lógica. e à noite stripper gênero drag-queen cantarolando numa boate — é o que vemos. (provavelmente estou meio atrasado na programação). Aqui. não parece absurdo que se apresente a qualquer sujeito nessa situação. que eventualmente a tivessem estimulado a se drogar. levando uma vida de família “normal”. ele pode ser um juiz muito macho e incorruptível. Para resolver o conflito entre essas duas vidas. ex-cantora. “Vie privée. O sujeito se vê então simplesmente (uma simplicidade que. . Por exemplo. Devemos supor que esse sintoma é tão espetacular quanto congruente com a época. em “C’est mon choix” [É a minha opção]. não se tenha revelado pertinente. no qual um jovem juiz durão chamado Dominguez transforma-se no travesti conhecido muito apropriadamente como Letal. vida pública]. “Bas les masques” [Abaixo as máscaras]. com efeito. muito embora. Em suma. Desse modo. pode ser muito complicada de assumir na prática) na incapacidade de se decidir — o que pode ou não render-lhe alguns benefícios. ela atribuiria a passagem ao ato ao outro. bastaria que fosse dar queixa… junto ao juiz Dominguez. vem a embarcar numa outra história de amor (com um homem ou uma mulher) que pode durar um tempo indefinido. Não me refiro apenas à situação velha como o mundo em que um homem ou mulher. vie publique” [Vida privada. etc. de dia. pois encontramos uma quantidade de “sujeitos de vida dupla” em muitos programas de televisão dos últimos anos. que Angélica considerasse ter sido vítima de agressões sexuais por parte de desconhecidos. perversa por outro. objeto do afeto de uma mulher carente de mãe. portanto. muito significativamente. no filme de Almodovar De salto alto. bastaria. Por exemplo.286 Jogar nas duas situações pode perfeitamente levar a ser precipitado numa situação de vida dupla. no caso em apreço. estamos lidando com outra coisa: uma situação perfeitamente nova em que duas vidas sem qualquer relação e mesmo incompatíveis são levadas pelo mesmo sujeito. “Ça se discute” [Cabe discussão].

Watt. Considero a esse respeito notável que o grande romance anunciador da pós- modernidade. David Lynch e Samuel Beckett 288 Podemos perceber aí de que maneira a perversão ordinária. na qual ele associava a personalidade múltipla ao ataque histérico. Malone. na qual remetia esses “casos misteriosos. como os de David Lynch intitulados Lost Highway e Mulholland Drive. ditos de múltipla personalidade” a “identificações […] demasiado numerosas. Mahood. Murphy.365 nem a de 1923.366 É necessário invocar uma outra explicação. Isso talvez permita entender melhor por que a Cidade perversa de hoje está cheia de vítimas: existem as vítimas dos predadores e as vítimas… de sua própria passagem ao ato. de Beckett. A esse respeito. pondo em jogo uma tal cisão. . tal como o havia observado no trabalho com Charcot. no ponto em que a perversão ordinária resvala para os estados-limite. E não podemos deixar de mencionar os grandes filmes espetaculares. que encenam personagens sujeitos a essa tão atual “personalidade múltipla”. L’Innommable. aqui. encenasse muito precisamente um personagem apanhado em tantas personalidades que se transformou num inominável — e lembro aqui os nomes daqueles que o narrador becketiano chamava de sua “galeria de estropiados”: Molloy. pode desembocar na chamada síndrome “de personalidade múltipla”… cujos casos estariam em considerável aumento nos Estados Unidos. como sempre na vanguarda — embora muitos psicanalistas franceses nada queiram saber a respeito. não podemos ater-nos às análises de Freud. incompatíveis entre elas [e provocando] uma dissociação do Eu”. Nem a de 1908. e mesmo para a psicose. Worm… Encontramo-nos precisamente. ainda que tenhamos dificuldade de entendê-los. Ela só pode sair do contexto da neurose ordinária e projetar-nos no da perversão ordinária. demasiado intensas.

discutir com outros avatares. Mas o site de encontros com nome suposto ou pseudo era apenas a pré-história de um mundo virtual ainda por vir. as personalidades múltiplas comportam-se bem. O objetivo é dar a qualquer um a possibilidade de viver uma nova vida inteiramente virtual. “pseudos”. está ao alcance de qualquer um. viajar. suas proporções. Chama-se. textuais…). dispor de um ou vários avatares não é mais algo reservado aos deuses (ver a definição de “avatar” no fragmento 228) ou aos loucos. manda seu avatar fazer um reconhecimento. com a possibilidade de modificá-la a qualquer momento. mas quando quer aventurar-se em terras desconhecidas para “ter uma experiência”. este mundo chegou. que podem ser constantemente modificados em seu tamanho.. seu sexo. expor suas criações digitais (musicais. sua aparência. gráficas. O usuário. é bem verdade. nesse universo paralelo. Esse aplicativos têm um sucesso exponencial: o número de usuários (10 milhões no fim de 2008) praticamente duplica de dois em dois anos — para não falar da onda que está para chegar de milhões de chineses da rede Shanda. eu lhe apresento meu avatar 289 Notemos de passagem que. Nesse mundo digital em três dimensões. etc. vale dizer. mas seus avatares. Qualquer pessoa pode dispor de avatares capazes de viver todas as duplas vidas virtuais que desejar. comprar um terreno. Ora. acessível pela internet a partir de um computador. evoluem permanentemente centenas de milhares de avatares. Especialmente desde que a internet generalizou o uso de nomes supostos. Second Life. organizar eventos… . escolhendo sua aparência dos pés à cabeça. É prático: a pessoa continua a ser ela mesma — pelo menos é o que se diz —. comerciar. duplos de forma humanoide telecomandados por usuários reais. construir sua casa. desse mesmo tipo. sua idade. pode movimentarse como bem quiser. seu nome. com a ajuda de programas de informática de animação. Graças à internet. significativamente. Agora. ter encontros de toda natureza. de uma forma não psicótica. de tal maneira que não são exatamente eles que têm esse encontro. É assim que florescem os sites de encontros. Os indivíduos se encontram por trás dos “pseudos”.

ou bem se afirma que não têm o direito. A liberação da atividade pulsional pode levar longe: em 2007. aparentemente. a prostituição ou a transa virtual… A atividade pulsional do usuário projetada no avatar transforma-se. os jogos de desempenho de papéis. cassinos. depois de Deleuze. A economia do Second Life repousa numa moeda virtual. na energia de que se alimentam as atividades mercantes no universo virtual. Report Mainz. esse tipo de coisa pode acontecer (not in the first life. provocou grande comoção na Alemanha. o dólar Linden. e neste caso será necessário fechar o site — solução pavorosa. A vida do avatar desenvolve-se num universo encantado de atividades mercantes. envolvidos numa infinidade de aventuras tórridas. discotecas. uma reportagem realizada por um programa de informação da rede alemã ARD. chamam sua mulher de “mamãe” e levam uma vida de loucuras no Second Life. jogos de vídeo. basta criar uma conta e pagar quando se quiser alugar ou adquirir um apartamento. comprar roupas. Chegamos assim a um mundo em que a polícia investiga com a maior seriedade avatares e sua vida sexual. but in the Second). criança ou animais… . e. of course. O que levou a uma investigação da polícia alemã! Encerrada a investigação. inclusive crianças. imóveis e arquitetura. como os aposentados muito bem comportados que diariamente vão passear com o cão às 18 horas. voltada para a celebração. sendo as mais usuais as lojas de roupas. acessórios. transformados em grandes amantes do risco. O Second Life vem-se impondo como um verdadeiro maná para milhões de pessoas. um automóvel… para o seu avatar favorito. revelou-se que os dois usuários eram… um homem de 54 anos e uma jovem de 27 (não se sabe quem era o avatar de quem). É exatamente aí que começa um belo exemplo de quebra-cabeça para a profissão (cheia de futuro) de especialista em ética na internet: ou bem se afirma que adultos têm o direito de se passar por quem bem quiserem. E isso com o objetivo de estabelecer jurisprudência. assim. De tal maneira que. capaz de lançar em desespero toda a humanidade pós-moderna. Ela mostrava um avatar do sexo masculino. da fluidez subjetiva e do “devir” mulher. Para fazer uso de todas as possibilidades do aplicativo. tendo uma relação sexual com um avatar de aparência infantil. adulto. que pode ser convertido em dólares americanos em bolsas de câmbio geridas pela Linden Lab ou independentes. nesse caso. começa a causar preocupação o número de divórcios reais provocados pelos avanços da cornoficação virtual.

As Galeries Lafayette oferecem jogos-concursos para o lançamento de seus novos produtos. enquanto os jesuítas declararam. vale dizer. A França não fica para trás. São preparados atualmente outros mundos virtuais (alguns dos quais serão “reservados aos adultos”.369 Faltava apenas o departamento de Seine-Saint-Denis. assim como viagens para lugares de sonho e dólares Linden.367 Ufa! Realmente estávamos preocupados. urbi et orbi. seus futuros modelos de automóveis e vende os últimos lançamentos. E. abrindo lojas virtuais no Second Life. Foi o que.95 dólares. Por exemplo. depois. assim. Mas não se preocupem. A L’Oréal de Paris organiza desfiles de Miss L’Oréal Glamour. pois “sempre se encontra onde estão seus clientes”. no Second Life. feudo histórico da esquerda. segundo a previsão de um especialista. título invejado entre os avatares. O Crédit Agricole está presente. Dell e IBM apresentam os computadores de amanhã aos avatares de hoje. o Second Life já constitui um extraordinário terreno de experiências para as empresas em busca de um marketing sempre mais vinculado à decifração imediata das pulsões que animam os indivíduos reduzidos ao papel de consumidores potenciais. Além dessa propriedade imobiliária. naturalmente. há também as inevitáveis success stories: a chinesa Ailin Graef pilotou tão bem seu avatar Anshe Chung que. pornôs) e. que pretendem evangelizar o Second Life. ela está na posse de milhões de dólares Linden (que podem ser convertidos em dólares americanos . A Toyota testa. tendo começado sua Second Life em 2004 com 9. para fornecer-lhes uma variedade cada vez maior de produtos destinados a satisfazer todas as suas apetências. a resposta já é conhecida: e é. que finalmente comprou e criou a sua “ilha” para promover e valorizar sua imagem junto aos “investidores”. em suas lojas virtuais. A Fox projeta seus filmes em pré-estreia. está hoje à frente de um império de 36 quilômetros quadrados no valor de um milhão de dólares. através do Second Life) seus últimos modelos. rapidamente. mas no fim das contas tudo vai bem: será possível. ser ao mesmo tempo puritano (no Second Life)368 e perverso (no futuro Third Life). enquanto os internautas podem encomendar (e pagar. técnica. Enquanto isso. entenderam as empresas. para recebê-los em casa sem demora. A maioria das grandes marcas mundiais se faz atualmente presente. “cabe supor que amanhã os avatares poderão transportar-se de um mundo a outro”. Os partidos políticos estão tratando de se implantar rapidamente nesse mundo virtual.

Ninguém sabia então que o capitalismo. um pacote de ações na Bolsa de Second Life e várias redes de lojas — virtuais. calar o neurótico que existe nele. permite-nos esclarecer essa tensão. Como é que tudo isso funciona? Levanto aqui a hipótese de que esses universos virtuais (chamados de metaversos. com o nome de dissociação. a exemplo do posicionamento perverso clássico. com base nessa patologia. o que o leva na direção da perversão. A respeito desse tipo de sujeito. pois essa passagem é marcada pelo uso intensivo da pulsação e da cadência hipnótica da música techno das raves. ele deve. trabalhava no Hospital Salpêtrière com Charcot. “Enunciação e estrutura da subjetivação”. ou por outra. naturalmente. tum-tum 291 Para resolver o primeiro problema. ou “meta-universos”) põem em jogo e corporificam o que foi identificado.verdadeiros). poderíamos dizer que funciona como um neurótico no grande circuito “Ele”/“(eu-tu)” e que. na década de 1880. Mas se haverá de constatar que isso não é tudo. portanto. de vez em quando. Se efetivamente é assim. tão característica da perversão ordinária. realiza uma categorização que o conduz ao pequeno circuito “eu”-“tu”. 290 O esquema da página 295. essa cisão. seria capaz de criar vastos mundos virtuais ligando o pulsional à economia mercante “real”. Esse fluxo sonoro . pelo psicólogo Pierre Janet. que. na direção da perversão polimorfa. apresentam-se então diante dele dois momentos delicados: 1º quando salta do grande para o pequeno circuito. importando então para o “eu” a eminência do “ele”. na época. que desmonta as nosologias habituais.370 retomada posteriormente (e de outra maneira) por Freud e seus herdeiros com o nome de cisão. 2º quando volta do pequeno circuito para o grande. O que fará tomando substâncias destinadas a adormecer a lendária vigilância superegoica do neurótico — álcool e/ou drogas.

Desse ponto de vista pornográfico. ao que me parece. A pulsação de bate-estaca pode assim tornar-se pulsão e. por sinal. se ainda não foi proposta até hoje. por sinal. na maioria das vezes. Acredita-se. podem resultar sequelas orgânicas irreversíveis. Assim é que a mistura explosiva (droga mais “tum-tum”) serve — literalmente — para “rasgar” a cabeça ou estourar a cabeça e ter acesso ao gozo — e devemos assim tomar essas expressões (criadas pelos amadores de techno e das raves. para. Mas não é o caso. numa utilização mais ou menos direta do ritmo.371 E. fotos. Não é por acaso que as pride parades de todos os tipos estão saturadas dele. como se sabe. é por isso que ele é tão usado na Cidade perversa. O que aqui afirmo a respeito do “tum-tum” permite. característico dos atos masturbatórios e copulatórios. construir uma hipótese que. de maneira a conferir um “beat” de bate-estaca chegando de 120 a 140 batidas por minuto e provocando acelerações-limite do ritmo cardíaco. se disseminarem amplamente entre os jovens) ao pé da letra. a techno-rave das jovens classes médias e o gangsta rap dos jovens pobres. do que. já que se trata de lançar pelos ares um lugar de onde talvez pudesse provir um julgamento destinado a manter o corpo dentro de certas regras.enorme resume-se. daí. É essa explosiva mistura droga + “tum-tum” (não ousamos dizer “música” para não nos indispor com nossos amigos músicos) que torna o sujeito literalmente surdo (ensurdecido) às repreensões superegoicas. é a música tum-tum enormemente amplificada que incita o sujeito a fazer fuc-fuc sem parar. para dizer sem rodeios. aliás. em geral.372 Elas servem para que os sujeitos fabriquem para si mesmos. em seguida. um corpo pornográfico. que só as imagens (desenhos. são absolutamente equivalentes. filmes) ou os textos podem ser pornográficos. sabemos que certos indivíduos literalmente colam as orelhas nessas poderosas caixas de som e mesmo põem lá dentro a cabeça quando são ocas. Cabe notar que ele não faz essa passagem sem submeter o próprio corpo ao pulso batido e oscilatório que também é. moção batida. por um lapso de tempo. as duas músicas que costumam ser opostas. já deveria ter sido levantada há muito tempo: a música (pelo menos esse fluxo sonoro techno) pode ser pornográfica. a exemplo das que podem ser observadas nos testes de resistência. permitindo-lhe passar para o lado perverso.373 . E. o sonoro também pode sê-lo. Ou ainda.

é uma obaudientia. Cabe lembrar aqui o que Pascal Quignard escreveu em seu magnífico livro La Haine de la musique [Ódio à música]: “O som invade. em latim. com efeito. colocar- se em situação de obedecer incondicionalmente ao que exige essa pulsação massacrante enorme destinada a se tornar pulsão massacrante. a sua lição a Juliette: “Muito bem. começando a viver sua vida separadamente. é. eis então os princípios que me levaram a essa tranquilidade.” Colocar-se nessa posição com uma música tão imperiosa. 292 Como deixar de mencionar que esse devir de autômato sexual apático corresponde exatamente ao sonho do herói sadeano? Que não está em busca da exaltação. por sinal. por sinal. na segunda parte de História de Juliette ou as prosperidades do vício. Ela atinge o ponto em que seu corpo torna-se um autômato. Obaudire derivou em francês na forma de obéir [obedecer]. o que Sade não se cansa de proclamar em seus textos. a esse estoicismo que me permite agora tudo fazer e tudo sustentar sem emoção. As orelhas não têm pálpebras […]. mas da apatia. um autômato sexual. quando a heroína discute com o carrasco de Nantes. Delcour. Em suma. Por exemplo. é obaudire. Ele é violador […]. exprimindo-se através do vai-e-vem incoercível. o que indica Angélica ao dizer que vê o seu corpo agindo como se se tratasse do corpo de outra pessoa. no caso. E. por sua vez. E é. Escutar.” Ou. Ouvir é obedecer. pois ela age no sujeito antes mesmo que ele tenha dado seu consentimento. em A filosofia na alcova. quando os sons de base são muito poderosos. novamente.” Ou ainda em Juliette. E ele lhe responde dando-lhe uma clara . já não os ouvimos mais pela cabeça. quando o celerado Dolmancé faz a educação de Eugénie: “Eugénie. infinitamente mais marcial que uma música militar. Juliette. o corpo trata então de escapar. portanto. pela voz dos seus arautos. saiba que os prazeres que nascem da apatia têm o mesmo valor que os que lhe são proporcionados pela sensibilidade. vale dizer. uma obediência. Audição é audientia. É. como acreditam os amadores. quando a libertina Clairwill dá. diretamente no corpo. sentindo-os no abdômen. convencida de que ele procede a suas execuções sob o efeito da exaltação. a esse repouso das paixões. pelas orelhas.

alcançar a mais complexa e derradeira aspiração do herói sadeano. é que Angélica. permaneceria muito bem comportada em seu corpo. inclusive se estimulando. literalmente não há ninguém para gozar. do “extremo sangue-frio” de que é investido nesses momentos. O notável. Como todo bom neurótico que acredita e espera que um dia vai gozar. É o que se costuma chamar. Angélica goza. portanto. é o que consegue Angélica. Morremos um pouquinho quando deixamos que a natureza goze em nós. de pequena morte. Essa natureza sombria. e assim. é preciso morrer para si mesmo para realmente gozar. por sinal. Simplesmente porque. da qual é possível que não se consiga voltar tão facilmente. Pois gozar não está ao alcance de qualquer um. Exatamente aquela que normalmente exige dele toda uma ascese. pois fala. Com efeito. tão exaltada por Sade. pelo contrário. pelo discurso. quando gozamos. de um ponto de vista lógico. adormecer o neurótico para despertar o perverso . O gozo. Ora. eventualmente. a um novo mundo. através da mistura explosiva a que recorre. não é possível tornar-se sujeito do próprio gozo. portanto. o problema de Angélica: ela ocupa a posição sadeana. O gozo nada mais é que a experiência da morte. O que dá testemunho de que ela realmente goza é o fato de perder seu corpo de vista. implica a perda momentânea de consciência. desde Freud e Bataille. perca a cabeça. por exemplo. O que é a própria condição do gozo. Trata-se de uma prova incontestável. correndo atrás do gozo. Esse corpo tornou-se completamente autônomo em relação ao discurso. o que ele não sabe é que nunca é ele próprio. Pois se ela não gozasse. Eis. num piscar de olhos. pode.lição de apatia. como sujeito. para gozar. como tão bem se costuma dizer. basta ver um filme pornô para constatar que não é necessário falar. é porque ainda não chegou lá. Ora. que exige a destruição para dar lugar. É necessário que aquele que goza. geralmente transmitida por via iniciática. E. que consiste em ver o próprio corpo como um autômato. que goza. Enquanto você estiver presente. Mas não pode suportá-lo. Ela não pode suportar a lição de perversão que dá a si mesma. de tal maneira que desaparecemos de nós mesmos. nem muito menos se amar. com efeito.

examinar uma infinidade de variantes. Vale dizer. é claro. foi exatamente o que ele fez: dar drogas a todos. como terá ficado claro. será que justificam dez anos de Bastilha?”375 Passou a ser de bom-tom repetir essa frase a qualquer pretexto. De fato. servem para adormecer o velho neurótico que persiste em cada um. um método que foi desenvolvido e experimentado por Sade. mas a dinâmica global continuará sendo a mesma: “rasgar” a própria cabeça para tornar-se um autômato sexual. . tornar-se realmente sadeano. em seus raros momentos de liberdade. Quem deu o tom. É muito significativo para o nosso objetivo aqui que esse episódio seja considerado. aplicar a si mesmo o seu sistema. que. Mas as moças caíram doentes (a cantárida medicinal é. que supostamente excitariam. provavelmente a ele próprio e às moças do bordel. na junção entre a economia do gozo e a economia mercante. perfeitamente emblemático da propensão para a perversão ordinária que. poderemos entender uma boa parte dos problemas atuais da Cidade perversa. quando aconteceu de o homem Sade querer. hoje em dia. Nesse sentido. liberando os ardores.293 O caso Angélica parece. Se entendermos como essa utilização funciona hoje em dia. O resultado é conhecido: o parlamento da Provença condenou o marquês e seu criado. A esse respeito. o mais das vezes. à pena de morte. É exatamente esse movimento que vamos encontrar na atual utilização das drogas. foi Jean Paulhan: “Simples bombons de cantárida […]. temos notícia do caso de Marselha. nossa época segue um método sadeano. com extrema leviandade. foragidos na Itália. inclusive nos meios psicanalíticos voltados para o foucaldismo. para ainda maior libertinagem. ocorrido em junho de 1772. com certeza. em outras palavras. hoje em dia. por envenenamento e sodomia. em 1951. como se esse “método” não devesse ser analisado. afeta a Cidade pós-moderna. Sempre será possível. o sadismo. extremamente tóxica).374 O marquês deu a suas quatro parceiras pastilhas de cantárida. de fato. Os dois foragidos teriam suas efígies queimadas. para dar livre curso ao pequeno perverso polimorfo que constantemente procura impor-se no jogo — não é à toa que a droga transformou-se numa das grandes questões de nossa época. Quero crer que é justamente esse o motivo pelo qual ele deve absolutamente sê-lo. Sade foi o primeiro a entendê-lo. em seu gênio visionário. acrescentar ou matizar.

Pois não é assim tão fácil inventar os procedimentos que permitem a passagem ao ato perverso. eventualmente acompanhadas de um baseado. pós-moderna. Além do fato de não nos ajudar a entender o quanto Sade pode ser útil igualmente para ler a perversão atual. Até produtos tradicionais podem ter seu uso desvirtuado. com a finalidade de baixar o nível médio das inibições. ou nos bottelones originados na Espanha. E Sade foi. e menos ainda de degustá-lo. por exemplo. na atual utilização do álcool nas festas adolescentes ou estudantis na França ou em seus apéro géants. quando as mulheres entram em cena 294 . conhecida como Smirnoff) para ingerir uma grande quantidade de álcool e “rasgar” a cabeça. um pioneiro. com a cantárida. conhecida como Calimucho na Espanha. ou nas parties de estudantes nos Estados Unidos. É verdade que hoje dispomos de coisas infinitamente melhores que a cantárida. não raro seguidas de coma etílico ou de bacanais que certamente poderiam satisfazer Dolmancé. que se propagam pela Europa. Mas não é o caso aqui: a questão é beber a maior quantidade possível no menor tempo possível. de praticar um uso festivo do álcool. o “professor imoral” de A filosofia na alcova. se o Divino Marquês não tivesse amargado vinte e seis anos de prisão. Já não se trata mais. ou cerveja + vodca. com qualquer mistura (coca + vinho. do álcool. como antigamente. É necessário refletir muito. Existe uma quantidade de produtos para “rasgar” a cabeça e se transformar num autômato sexual. entre outras coisas. Precisamente esse rigoroso isolamento é que lhe terá permitido criar uma obra literária e filosófica tão coerente e esclarecedora para nós. festas públicas promovidas por jovens para beber excessivamente. especialista em perversões sexuais e comportamentos criminais os mais variados. podem constituir excelente aperitivo para os festins amorosos. provavelmente não teria tido alternativa senão tornar-se um vulgar psicopata. a compaixão atual por Sade não entendeu em que medida os anos de encarceramento de Sade foram a nossa chance! Com efeito. Todo mundo sabe que algumas taças de champanhe. É o que fica claro. como evidencia a atual utilização.

a Durand… Um mundo novo para o qual nos encaminhamos. Angélica não é uma exceção. Sabemos hoje que a prática das “despedidas de solteira”. aqui. com a ajuda de smooth operators estilo chippendale. as “boates” transformaram-se no lugar privilegiado dessas passagens ao ato pornográfico cada vez mais ousadas. pudemos ver em ação as premissas dessa dinâmica. que podem facilmente ser registradas e postas on-line pelos . Mas isso não é suficiente para se livrar tão facilmente do problema. Basta lembrar a marquesa de Saint-Ange. Mais uma vez. de tal maneira a pornografia tende a ser apropriada pelas mulheres empenhadas em compensar o “atraso” em relação aos homens. pois a dinâmica em jogo é sempre a mesma: “rasgar” a cabeça e dotar-se. com utilização de álcool ou outros produtos. Juliette. na época. Restaria saber. Sade revela um novo mundo ao fazer de certos personagens femininos heroínas em matéria de libertinagem. quando foi inventado o strip-tease masculino (o chamado fenômeno das Chippendales).376 Finalmente. como ajudou as mulheres da geração anterior a terem acesso a sua “liberação”… graças especialmente ao cigarro. por sinal. é bastante significativo que tenhamos sido incitados na direção da perversão ordinária e da pornografia contemporânea a partir do caso de uma jovem. Quando as mulheres entram em cena. de “superar os homens como celeradas”. Admitamos. Como o liberalismo mercante funciona na base da liberação e da exploração industrial das pulsões. por que as mulheres podem se interessar tanto pela(s) fantasia(s) masculina(s). que. dizia ele. na medida em que. era um atributo quase que inteiramente masculino (o episódio foi relatado e analisado no fragmento 156). a ponto de adiantar-se a ela(s). assim. de que tudo será feito para criar um mercado feminino de pornografia tão vasto quanto o dos homens. não há qualquer motivo para que a libido feminina escape dele. de um corpo pornográfico funcionando como autômato sexual. Há vinte ou trinta anos. pelo menos por comodidade. por um lapso de tempo. hoje em dia. Clairwill. E. Eugénie de Mistival. são capazes. o mercado haverá de ajudá-las. a passagem ao ato pornográfico de fato é muitas vezes feminina. Não resta dúvida. a Dubois. por sinal. com efeito.Os espíritos esclarecidos gostam de imaginar que a pornografia feminina não passa pura e simplesmente de uma fantasia masculina. muitas vezes serve de pretexto para exibições que poderiam ser classificadas como “pornô amador”. o caro Sade foi um visionário. E.

em 2001. 295 Nesse sentido. sufocada diante da grosseria das imagens em primeiro plano. autora de Jour de souffrance [Dia de sofrimento]. pelo qual desfilavam “pessoas de verdade”. em setembro de 2008. O meio literário só falava de um romance: Le Marché des amants [O mercado dos amantes]. foi altamente estimulante. La Vie sexuelle de Catherine M. revistas. se ele voltasse. que se dispunha. por sinal especialista em arte contemporânea (diretora de Art Press). com seus nomes verdadeiros: Christine Angot. ao longo de páginas e páginas. E digo “lições” porque a brava mocinha neurótica e cheia de culpa que vê esses vídeos só poderá pensar uma coisa: “Se eles fazem. ela explicava a seu companheiro. e um rapper sarkozista. a mencionada Catherine Millet. fã. o início da temporada literária francesa. para aquele que certamente deveria antes responder pelo nome de Doc Procto. não faltam sites especializados para receber e difundir essas novas lições de perversão. chamado Doc Gynéco. que partira em busca de novas aventuras. naturalmente. A heroína deixava claro. a autora. Angot. segundo a escritora. bastará que se volte para o gênero nobre da literatura. nada apropriadamente. o relato de Catherine Millet. Não será provavelmente por acaso que o espaço da literatura pornográfica feminina de qualidade (com uma história ou situações construídas e uma língua. se não mais. de sodomia e. O que nos levou a um questionamento ontológico de aspecto extremamente shakespeariano: “Errar…” ou “Não errar… de buraco!” — this was the question! . Nesse livro. programas de rádio e televisão com espaço literário organizaram tórridos debates entre a rainha da autoficção. Assim foi que todos os jornais.telefones celulares ou outros aparelhos digitais — e. a consolá-lo praticando todos os buracos — tanto quanto no golfe. por que não eu?” É exatamente esse o objetivo da menção “pornô amador”. que no momento crucial precisava gritar. e Millet. se me permitem a expressão) desenvolveu-se tanto nos últimos anos — com o apogeu que representou. E se a mocinha recuar. para entender qual devia ser a boa súplica dirigida pela mulher pós-moderna ao homem pós-moderno. que não fosse se enganar no caminho: “Não vai errar de buraco!” Esse início de temporada deu lugar a um confronto com outra porno-estrela escritora.

a exemplo daqueles títulos de filmes pornôs irônicos. mas faça com camisinha. de tal maneira entalada numa pornografia literal. que tinham o mérito de zombar de si mesmos. — que as mulheres escritoras estão na linha de frente dessa pornoização da literatura. num macio leito de embalagens de preservativos vermelhos parecendo suaves como pétalas de rosa. e se quiser certas coisas especiais. em lugar de um autêntico mercado pornográfico. Assim é que desenvolvem uma autêntica política de prevenção. uma tomada do alto mostra um jovem nu repousando. — que o romance transformou-se. Ça glisse au pays des merveilles. um cartaz publicado pelo Ministério da Saúde brasileiro — e existem equivalentes em todo o mundo pósmoderno. A preocupação demonstrada revela-se .” E no canto superior direito: “Use sempre gel lubrificante à base de água. O fato de a questão que se colocava num início de temporada literária ser de tal intensidade mostra: — que a literatura atual é não só egótica como também estupidamente pornoizada. sobretudo. lubrificar bem 296 Mas podemos nos tranquilizar: os poderes públicos estão atentos e acompanham com atenção a generalização das práticas pornográficas. Nesse cartaz. como L’arrière-train sifflera trois fois. como demonstra. A imperiosa voz do Ministério da Saúde é impressa no alto do cartaz. por exemplo. A prova: ele gera disputa entre veneráveis editoras… que dizem buscar exclusivamente a qualidade do texto — que. em posição quase crística. que é incapaz de praticar a ironia. dizendo: “Faça o que quiser. Happy Peloteur******** — e por aí vai. devemos ler essas mensagens literalmente: elas recomendam que cada um faça exatamente o que quiser. às vezes.” Mais uma vez. que o faça com um bom lubrificante — o que faz alusão diretamente às práticas ligadas ao enrabamento (sodomia. Mort sur bite.377 espalhado por todo o Brasil. fist-fucking e outras). pode existir. depois das artes plásticas.

Permito-me então recomendar ao leitor curioso que proceda — com a finalidade do conhecimento. 297 Sabemos que o puritanismo pode chegar à recusa do contato com um outro indivíduo. naturalmente. Será possível assim constatar. abluções. purificações. Trata-se de fazer amor com alguns(mas) americanos(as). evidentemente não está entre suas atribuições evitar as possíveis “crises de pânico” e outras sequelas psíquicas ou sociais que poderiam ser acarretadas por sua exortação a fazer de tudo (certamente porque o ministério já sabe a solução: tomar ansiolíticos). grande país puritano. mas clean! Donde se deduz que a perversão pornógrafa pode perfeitamente adaptar-se ao puritanismo. muito desenvolvido nos Estados Unidos. desinfecções e proteções necessárias. De modo que a pornografia é validada pelos poderes públicos… desde que seja limpa. como os anteriormente mencionados. em A noite do iguana. Em suma. Isto que. se trata de uma busca que pode revelar-se tão apaixonante quanto efetuar uma investigação etnográfica sobre as práticas xamânicas dos povos do Grande Norte. Se. seja um perverso pornógrafo. naturalmente — a uma experiência determinante. esse puritanismo pode representar um obstáculo insuperável no momento de passar ao ato sexual. de Tennessee Williams. faz parte da missão do Ministério da Saúde a louvável preocupação de prevenir a transmissão da Aids e outras doenças sexualmente transmissíveis. por sinal. O número de duchas. merece o nome de fobia de contato está. seria muito menos uma função sua avaliar em que a sua exortação contribui para transformar irresistivelmente o espaço público em Cidade perversa. mas para quem “nada do que é humano é estranho”. Nada é dito sobre o problema que essas práticas poderiam representar em outros planos. que. condenada à castidade por sua fobia de contato físico. supera .de natureza puramente higienista. Naturalmente. muitas vezes. em geral. onde encontramos um dos mais belos personagens femininos criados por Tennessee Williams: Hannah. e mais ainda se for pornográfico. E. afinal. sem margem de dúvida. de tal maneira que os aspectos ligados ao fenômeno revelam-se muito presentes em certas obras importantes da literatura desse país — penso. naturalmente. por exemplo.

como gostam de mostrar certos filmes americanos (a série dos Alien. mas nem por isso deixe de ser puritano! E: Seja puritano. ele o designa como Sorgenbrecher. Seria melhor dizer: serve para adormecer o neurótico e permitir que o perverso se revele. Citando Goethe. continuar clean. Ora.378 Sabendo-se que entre os dois — o clean e o radical — muitas vezes se intercala a necessidade de ingestão de produtos entorpecentes — no sentido literal da palavra. Qualquer contato mais próximo — mesmo suscitado. sobretudo. hoje. escrevia ele em Mal-estar na civilização (II. de entorpecer para atravessar a barreira entre a neurose habitual e a perversão pornógrafa. Angélica passa para o lado do gozo — . 299 Resta apenas um problema. mas que somos levados a colocar pelo caso Angélica. a qualquer momento. mas nem por isso deixe de ser perverso! Pois o objetivo é efetuar as experiências mais radicais possíveis e. 298 Isso leva a pensar que a função do entorpecente mudou muito desde Freud. já não serve mais apenas para esquecer. pelo contrário. esquivar-se ao fardo da realidade e refugiar-se num mundo próprio. Mediante mistura explosiva. pedido e mesmo ardentemente exigido — ficará sob suspeita da possibilidade de transmissão de uma quantidade de doenças.qualquer possibilidade de entendimento. por enquanto não resolvido. uma quantidade de vírus ou bactérias está à espreita. A mensagem. “destruidor de problemas”: “Bem sabemos que com a ajuda do ‘destruidor de problemas’ é possível. podendo transformar-se em animais microscópicos e mesmo em monstros gelatinosos proteiformes e capazes de infectar instantaneamente todo o universo. como no caso de Angélica. Pois se trata sempre. inversas e complementares: Seja perverso. é clara: a pornografia deve ser limpa! O que pode traduzir-se em duas palavras de ordem. reservando melhores condições para a sensibilidade”. Por trás de cada ato. por exemplo). “Religião e busca da felicidade”). se quisermos considerá-lo sob seu aspecto “crise de pânico”. para realizar. o entorpecente. cada uma mais incurável que a outra. solicitado. mas. portanto.

como dissemos. Ora. náuseas. como estudante de medicina. deixar o pequeno circuito perverso a que se transportou. é exatamente aí que reside o problema. É fácil entender o porquê quando lemos esta explicação dada por Freud em Neurose. para Angélica. o da neurose habitual. que também passa para o lado do gozo mediante utilização de objetos sexuais clean e eventuais produtos entorpecentes. quando se foi tão longe? Não é fácil. que Angélica deve conhecer perfeitamente. passando por suor. em vez das definições empíricas do DSM. por um lapso de tempo. Como então voltar. sensação de vertigem ou desmaio. a crise de pânico é descrita como um período de medo e desconforto extremos. náuseas. a prova de que gozava. psicose e perversão: O mecanismo da neurose de angústia deve ser buscado na derivação da excitação sexual somática à distância do psiquismo e numa utilização anormal dessa excitação. Os sintomas vão desde calafrios a palpitações cardíacas. Se admitirmos que o caso Angélica é paradigmático. podemos então dizer que a questão para o sujeito é voltar a si mesmo. hiperventilação. uma des-realização ou des-personalização (impressão de estar desvinculado de si mesmo). Avento aqui a hipótese de que a crise de angústia de Angélica é o protesto da neurose que entra em pânico e subitamente rejeita o corpo pornográfico que forjou. manifestando-se de maneira brutal e durando de alguns minutos a várias horas. depois de tão bem ter saído.379 .constituindo a apatia sadeana alcançada. para voltar ao grande circuito. O movimento é idêntico no caso do puritano. impressão de formigamento (parestesia). tratando-se de um gozo forte demais para eles. sensação de sufocamento. considerado estranho a ela própria. Preferimos empregar o conceito freudiano de “crise de angústia”. Voltar a si mesma é. tal como o vemos representado no esquema “Enunciação e estrutura da subjetivação” da página 295. No Manual diagnóstico e estatístico dos distúrbios mentais (DSM). medo de perder todo controle e de enlouquecer. Cabe notar que a crise de pânico nutre-se de um círculo vicioso: os sintomas psíquicos e físicos se agravam reciprocamente.

que normalmente se apresenta como uma entidade de dupla face: uma somática. como medida da exigência de trabalho que é imposto ao psíquico em consequência de sua ligação com o corporal. a outra psíquica. É. gerador de uma angústia que se manifesta por crises paroxísticas. já visto anteriormente. em Angélica. justamente. pelo fato de que o dilema (objetal) entre retenção e evacuação da merda pode ser expresso na forma de uma escolha entre recusa e doação do objeto no qual o sujeito pode imprimir sua marca subjetiva: ele dará… se quiser. Mas isso não é tudo. o conceito de Spaltung (“cisão” ou “dissociação”). Voltamos a encontrar aqui. portanto. de uma dissociação da pulsão. Tratase. Essa caracteriza-se. uma série de sintomas (que parecerão tanto mais pertinentes na medida em que se dispuser das moléculas para eliminá-los). É precisamente esta alternativa “eu dou se quiser”/“eu retenho se quiser” que instala a criança na posição sádico-masoquista .Todo o gênio de Freud está aí: ele não se limita a constatar. como o DSM. como sabemos. A superioridade de Freud é que ele explica: existe uma causa e existem efeitos. enumerando. como um enigma carregado de ameaças surdas. E o efeito é a crise de angústia. a pulsão se tivesse dissociado durante sua bem- sucedida passagem para a perversão: a face somática viu-se então autonomizada por ocasião do uso do corpo pornográfico que ela confeccionou sem que houvesse qualquer correspondência com o plano psíquico. como o representante psíquico das excitações saídas do interior do corpo e que chegam ao psiquismo. no caso. uma cisão entre o soma e a psique que provoca a crise. É.380 A coisa se dá como se. A causa é uma excitação sexual: 1º distanciada do psiquismo. Em “Pulsões e destino das pulsões”. com outra formulação. 2º utilizada intensamente. Essa travessia em direção à perversão é tanto mais bem- sucedida na medida em que reatualiza a organização chamada. Freud fornece a seguinte definição: O conceito de pulsão (Trieb) surge como um conceito-limite entre o psíquico e o somático. “sádico- anal” da primeira infância. essa face somática que se manifesta ao sujeito que voltou a si. portanto.

da reviravolta ocorrida na metafísica ocidental no século XVIII e rematada no século XX. titular como tal de um poder de domínio sobre o outro. 301 Resta-me dizer que Angélica é um puro produto. uma perversa ordinária. toda passagem ao ato perverso não poderá deixar de pagar o preço de um masoquismo secundário que resulta da repercussão sobre o sujeito do momento sádico que se permitiu. Resultará daí que.381 É. A criança será sádica quando utilizar esse poder contra o outro. E será masoquista quando não conseguir apanhar ninguém em seu jogo e se vir obrigada a voltar esse poder contra si mesma. Com um preço “modesto” a ser pago: fortes crises de angústia. 300 O caso Angélica tende a provar que é possível forjar para si um belo corpo puramente pornográfico. como tal. para Angélica. como para qualquer perverso ordinário. é acometida dos sintomas da perversão polimorfa. Ela não é uma autêntica perversa que fez a escolha da perversão contra a neurose.que a define como perverso polimorfo. já que podemos gozar tanto de um como de outro: do sadismo ou do masoquismo. Com isso. Com a ressalva de que esses sintomas são agravados pela dissociação pulsional que ela mesma buscou. ao lado de tantas outras figuras perversas puritanas atuais. pois a acoplagem sádico-masoquista pode ser contaminada por essa dissociação. o que acontece a Angélica. É apenas uma perversa ocasional. quer gozar. mas entra em pânico uma vez tendo gozado. Mas pouco importa. . que. precisamente.

trocadilho com Alice no país das maravilhas. Podemos ter uma boa ideia do “laço estranho” contemplando o célebre desenho de Escher de 1948. Interéditions.) ***** Aqui traduzida como duplo sentido. (N. que na França teve o título de Le train sifflera trois fois [O trem apitará três vezes]. 1952.T. 2011. (1915-1923) na qual figura. da R. M. Bach: um entrelaçamento de gênios brilhantes. 1952).-R. p.) 284 Ver os diferentes textos de Freud reunidos no volume Névrose. escreve Douglas Hofstadter. Cioran. Gödel. (N. Paris. Rio de Janeiro. Civilização Brasileira. Brasília.T. Dufour.) ******* Alusão à expressão francesa “enculer les mouches” (enrabar as moscas). do T. “quando aquilo que julgamos serem níveis hierárquicos bem delimitados nos surpreende.) **** Trocadilho com God (Deus. falo artificial. Universidade de Paris.) ******** Respectivamente. significando “arrière-train” traseiro. On Achève bien les hommes. Gödel. 1999). Douglas Hofstadter. concepts et interprétation de l’hypothèse néoténique dans les sciences humaines. remete a conteúdos que podem ir além do que é denotado. de Fred Zinnemann. 286 Remeto à tese sustentada sob minha orientação por Marc Levivier em novembro de 2008: Manque et puissance — Généalogie.T. cf. (N. trocadilho com “morte súbita” e caralho (bite). UnB.T. rabo…. O elemento de surpresa é importante. Escher. (N. dois serial killers pedófilos dos anos 2000 na Europa. da R. 2001). amontoando-se uns nos outros e ignorando a hierarquia. Escher. a expressão francesa second degré.T. da R. que desenha a mão direita… 288E. 285D. 287 “Existe uma hierarquia emaranhada”. .Notas * Trocadilho do autor entre a expressão familiar francesa “être mal barré” ( que se diz de alguém que começou mal e não vai muito longe) e o conceito psicanalítico de sujeito barrado. que se diz daqueles intelectuais que se dedicam a pesquisas tão inúteis quanto impossíveis. até mesmo o contrário do que se disse. Rio de Janeiro.) ****** O autor se refere à obra que Duchamp considera sua obra-prima: A noiva despida por seus celibatários (La mariée mise à nu par ses célibataires). (N. VIII. sendo glisser deslizar. por ironia ou antífrase. p. Paris. (N. tradução de José Viegas Filho. conotando. Rocco. referência a Matar ou morrer (High Noon. tradução de José Thomaz Brum. da R. Bach — Les brins d’une guirlande éternelle. 2005. Paris. na parte inferior uma “trituradora de chocolate” (“broyeuse à chocolat”). PUF. do T. (N. edição brasileira: Suportar a morte de Deus. no qual vemos a mão direita desenhando a mão esquerda. 778 (edição brasileira. Denoir. psychose et perversion (Paris. do T. da R. por causa dele é que vim a batizar os laços estranhos”.) ** O autor reproduz aqui a sintaxe dos títulos dos antigos ensaios e tratados. “Feliz Bolinador”. no prelo. sendo peloter bolinar.) *** Trocadilho com Dutrou e Fourniret. em francês). Syllogismes de l’amertume. Gallimard. (N. acariciar intimamente. que não tem um correspondente usual em português. 1985. em inglês) e gode (consolo. Edição brasileira: Silogismos da amargura. 119-120. Mãos se desenhando.

frisa Freud. Edição brasileira: Meu ensino. Jorge Zahar. 139. Érès. de uma expressão frequente na psiquiatria francesa. Imago. 2000. La Perversion ordinaire. Antonin Artaud. 302J. Jorge Zahar. Rio de Janeiro. p. Hanns. Edição brasileira: Princípios da natureza e da graça fundados na razão (1714). Le sinthome. Leibniz. p.fr/philo/textes/Leibniz-Principes. Escritos. é verdade. 82. XL. Companhia de Freud. Edição brasileira: Os mistérios da trindade. 1987. Dufour. 2003. 87-88. 297 Jean-Pierre Lebrun. A expressão alemã Spaltung vem a ser a tradução. tradução de A. op. Buda era um avatar de Vishnu. minha mãe…” 300 Cf. Edição brasileira: O seminário. 1972. pode consistir apenas em supor o Nome-do-Pai. Freud. Gallimard.htm. a introdução de Éd. Lacan. Martins Fontes. cit. Les Mystères de la trinité. é Deus.. 825. Rio de Janeiro. tradução de L. Rio de Janeiro. Dhorme. tradução de Procopio Abreu. sou meu filho. Obras Completas.-R. 2005. Le Séminaire.” J. op. Rio de Janeiro. 2003. Ramonville-Saint-Agne. disponível em http://www. 299 Permito-me remeter ao meu estudo sobre Artaud. 298 G. mas também uma “linguística diacrônica”.ac- nice. um avatar é uma das formas possíveis na qual pode encarnar-se a divindade suprema (Vishnu) para os homens. Edição brasileira: “Subversão do sujeito e dialética do desejo no inconsciente freudiano” (1960). “Subvertion du sujet et dialectique du désir”. Ver a respeito Roland Chemama. Lila et la lumière de Vermeer: la psychanalyse à l’école des artistes. tradução de André Telles. p. Jorge Zahar. tradução de Sérgio Laia.lu/articles/FreudScission. Le Seuil. 1956. La Scission du moi dans le processus de défense [1938]. livro 23: O sinthoma. Paris. C. meu pai. Gallimard. O conceito também é expresso em francês pelo termo “clivage” [cisão].289 É exatamente o que afirma Lacan ao dizer: “A hipótese do inconsciente. W.. que viam em Ferdinand de Saussure seu mestre. 2004. Bonilha. p. por Freud. 301 La Bible I. remetendo. “dissociação”. 2007. 291 S. Denoël. Edição brasileira: “A cisão do ego no processo de defesa (1937)”. Paris. Paris. parágrafo 7. 2005. 293 Ibidem. “La pharmacie de Platon”. in Écrits. texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. ao passo que a abordagem diacrônica se interessa pela história da língua e estuda sua evolução. . Paris. Edição brasileira: A perversão comum: viver juntos sem o outro. Lacan. 1998. Cf. Le Seuil. 2008. ao que Pierre Janet chamava de “dupla consciência”. Cabe lembrar que a abordagem sincrônica interessa-se por uma língua ressaltando suas estruturas em determinado momento de sua história. cf. Por exemplo. 292 Alain Didier-Weill. Mon enseignement. fizeram quase todos questão de ignorar que seu Curso de linguística geral não continha apenas uma “linguística sincrônica”. Dany-Robert Dufour. São Paulo. em D. tradução de Vera Ribeiro. Paris. Denoël.psychanalyse. cit. 2006. Companhia de Freud. 295 Fato significativo: os estruturalistas. 290Remeto naturalmente à leitura do Fedro de Platão por Jacques Derrida em La Dissémination. Principes de la nature et de la grâce fondés en raison [1714]. Rio de Janeiro.2: “Eu. 294 No hinduísmo. III. entre outras coisas. Le Seuil. 296Jacques Lacan. 1990. Clivage et modernité. Paris. On achève bien les hommes.htm. disponível em http://www. Paris. p. Rio de Janeiro. cap. 2007. livre XXIII. Supor o Nome-do-Pai.

de Martin Provost. p. cit. Bataille. Paris. tradução de João de M. Raphaël Lonné. la grande névrose contemporaine. Jules Leclercq.-R. Gallimard.com/articles. Theo Wiesen. Paris. artista “prauletária”. a grande neurose contemporânea. 1. pintora dita ingênua. tradução de Cláudia Fares. São Paulo. Ramonville. 67. 312 G. Edição brasileira: “Uma criança é espancada: uma contribuição ao estudo da origem das perversões sexuais”. L’Érotisme. cit. lançado em 2008. Edição brasileira: A arte de reduzir as cabeças: sobre a nova servidão na sociedade ultraliberal. Bibliothèque de la Pléiade. de Émile Josome Hodinos…). Gallimard. A essa lista podemos acrescentar Séraphine Louis. 1. com Yolande Moreau. 310 Samuel Beckett. 1992. P. Le Divin Marché. Bataille. Rio de Janeiro. Edição brasileira: Depressão. Ver sobre esta questão o trabalho inaugural de Jean Bergeret. op. de Albuquerque. D. Gallimard.303 Sobre essa questão. Rio de Janeiro. in Névrose. p. p.2. cit. ou pela psiquiatra e psicanalista Lise Maurer (é o caso de Jeanne Tripier. ou ainda pela coleção L’Aracine (caso de Henri Darger. Payot. Gallimard. Companhia de Freud. Paris. Editora Nacional. 314Cf. 1996. Edição brasileira: Democracia na América. tradução de J. p.freud-lacan. p. disponível em http://www. in Oeuvres complètes VIII. 2009. que. situando-se na fronteira. 2007. Margarethe Held. 10/18. .. Carlo Zinelli…). 311G. Salomão. tradução de Procopio Abreu. Arx. Paris. Imago. 1991. cap. 2005. 127. “Le déni de la ‘sexion’”. Érès. Kurt Wanski. op. 1969. Auguste Forestier. op. 1976. enxergou aí apenas uma invenção da psiquiatria. 3. 306 São assim designados os distúrbios mentais que não dizem respeito à neurose nem à psicose. 304 Freud. que inspirou o filme Séraphine. in Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Fayard. Dufour. 840. Émile Ratier. “Un enfant est battu” [1919]. 179 e seg. Magde Gill. L’Art de réduire les têtes. 1953. Paris. conferência de 8 de maio de 1952. Minuit. Bataille. Dépression. durante muito tempo. Algumas de suas obras podem ser vistas na internet. 1973. Porto Alegre. 305 Finalmente começam a aparecer alguns estudos sobre a depressão no campo psicanalítico. v. conhecida como “de Senlis”. Edição brasileira: O divino mercado. 2006. psychose et perversion. 1957. 316 Ver o notável documentário de longa-metragem de Yves Billon sobre os índios parakanãs. 17. Guillaume Pujolle. Paris. 315A armadilha para macaco é apresentada pelo cientista político Benjamin Barber em Comment le capitalisme nous infantilise. Cf. Edição brasileira: O erotismo. De la démocratie en Amérique [1840]. os revelados pela Compagnie d’art brut criada por Jean Dubuffet.. 2007. CMC. 309Cf. L’Experiénce intérieure. La Guerre de pacification en Amazonie. Oeuvres II. 199. L’Innommable. tradução de Conceição Beltrão Fleig. 308 Alexis de Tocqueville. 307 Por exemplo. Hélène Reimann. tradução de Sandra Regina Felgueiras. Paris. Dany-Robert Dufour. Companhia de Freud. 2004. Roland Chemama. 313 G. “L’enseignement de la mort”. La Dépression et les états limites. p. São Paulo. Les films du village. ver o artigo de Marcel Czermak “Peut-on parler de psychose sociale?”. Alexandre Lobanov. 1943 e 1954. cap. Rio de Janeiro.

H. “Don. cf. 1967). apeados do poder. 1969. Amorim. 2007. 320 Cf. La Libération des enfants. Storytelling. Instituto Piaget. Ver o devastador documentário da FUNAI (Fundação Nacional do Índio). Behavioral Science. 1956. démontrer… survivre. Jackson. 2007. Bateson. Haley e J. Paris. 1988. 331 Philippe Mengue. op. 330 G. Raconter. Le Seuil. 2008. 1994. e os militares. extração e revenda de sangue dos indígenas. Paris. “Vers une théorie de la schizophrénie”. A. 323Ver o seminário de Foucault que retoma abreviadamente o conteúdo de suas conferências em Berkeley. Paris. I. Elas retomaram as mesmas técnicas. Renaut. Paris. no artigo “Lista de matadores em série”. Rio de Janeiro. 2002. Bateson. tradução de Carlos Alberto Paes de Almeida. biopirataria de sementes…). Dufour. mostrando de que maneira a Cidade pós-moderna caracteriza-se pelo declínio dos dois grandes regimes de verdade (narrativo e lógico) e pela ênfase numa forma de saber. Cf. Vozes. reproduzido em G. . 1980. contribution philosophique à une histoire de l’enfance. M. 327Uma lista bastante completa dos mais recentes pode ser encontrada na Wikipedia. 318 Hoje. por exemplo.com/group/etnolinguistica/attach. Jorge Zahar. cit.3. Petrópolis. D. Maspero. Le Complexe du loup-garou: la fascination de la violence dans la société américaine. sequestro e revenda de crianças para adoção. Paris.. ligada ao Ministério da Justiça brasileiro. 321 Essa diferença fundamental entre sexo e gênero foi aprofundada em D. a Jocum (Jovens com uma Missão). nº 4. Marcel Detienne. 326Cf. disponível em http://groups. Paris. Le Seuil. 325 Remeto aqui aos trabalhos de Marilia Amorim. semelhante ao que os gregos antigos chamavam de mètis. Bayard- Calmann-Lévy. D. La Découverte. Formes de savoir et formes de discours dans la culture contemporaine. 2002. 329 Estatísticas disponíveis no site (bem documentado) http://www.org. de Platão ao estoico Epíteto. Paris. Denöel. Edição brasileira: Antropologia do dom. L’individu qui vient… après le liberalisme. Lisboa. 324Essa oposição de fato já não vigorava na época em que. Octave Mannoni. capítulo “Parecer uma mulher é um direito do homem”. Missão: o veneno lento e letal dos Suruwahá. 319Cf. cap.tueursenserie. Foucault. Érès. Les Maîtres de vérité dans la Grèce archaïque. La Machine à fabriquer des histoires et à formater les esprits. vol. Vers une écologie de l’esprit. a rodovia Transamazônica foi abandonada. ver os trabalhos de Alain Caillé. Clés pour l’imaginaire. loi et narration dans la philosophie de Sade. sobre as atividades da missão evangélica norte-americana.google. Edição brasileira: Os mestres da verdade na Grécia arcaica. 2007. L’Ordre sadien. 2004. o de Denis Duclos. O Terceiro Paradigma. La Découverte. F. J. 2011. 322 Publicado por Odile Jacob. Weakland. especialmente Anthropologie du don. mas chegaram as missões evangélicas fundamentalistas. I. 2007. Le Seuil. Ramonville-Saint-Ange. Paris.317Sobre a socialidade primária. se fala da parrhesia (cf. 328 Existem excelentes estudos sobre os matadores em série. Edição portuguesa: A libertação das crianças. socialité primaire et socialité secondaire”. Christian Salmon. M. escondem tráficos diversos (desflorestamento e revenda de madeira. Sob a capa da evangelização. Paris. Le Gouvernement de soi et des autres [1982-1983]. na qual a mentira e a simulação tornam-se a norma. Paris. La Découverte.-R.

la fabrique de Jeff Koons”. O evento ocorreu a 26 de dezembro de 2008.000 dólares por dia — 100. a respeito do desuso do logos e do uso da astúcia (Marilia Amorim. mas imperativa. pois apenas 30 por cento das buscas são femininas). voltada para o público jovem e atenta às questões atuais (edição de 30 de abril de 2007). 334 Manter um site pornô é um negócio suculento. Buzz marketing. Paris.com/bibli/stats-pornographie. cit. 335 Ver a entrevista “J’arrête le X” na revista Technikart. inversão de “racaille” (escória. Le Complot de l’art. Trata-se de uma reedição do artigo publicado com o mesmo título em Libération de 20 de maio de 1996. Não surpreende que os fundos de investimento se interessem muito de perto pelas indústrias do sexo. Raconter. na revista Le Débat. gentalha).psycho-ressources. De fato. HarperCollins. que remetem às diferentes vozes entrelaçadas no texto. 1997. de Wavrin. com o título Love and Sex with Robots. rentabilidade de 24 por cento sobre o investimento… enquanto o Ave Maria Fund (fundo de pensão americano obedecendo aos princípios da Igreja Católica romana) perdia quatro por cento. 336 Ela foi transformada em livro. armas e sexo) e AdultVest (sexo). 341 T. Beaux-Arts éditions. Versailles. 22 de abril de 2008. elas vão no mesmo sentido do que ela ressaltou em seu trabalho fundamental sobre a cultura contemporânea. com efeito: 1º — uma demanda sólida e mesmo dura: um quarto das buscas feitas na internet são de caráter pornográfico (existe uma margem de manobra considerável. “L’humoriste Dieudonné dérape une nouvelle fois”. o site de James Hugues: “Cyborg Democracy”. Éditions d’Organisation. por exemplo. p. alcançou. 337Remeto aqui ao excelente artigo de Catherine Vincent. 346 Os grupos marginais mais ou menos violentos se identificam na França como “caillera”. apostas. publicado em Le Monde.html. 124 e seg. Fonte: http://www. Le 345 Monde de 28 de dezembro de 2008. nº 150. in Jeff Koons. 333 Ibidem. 340 Permito-me endereçar essas observações a Marilia Amorim. [Em compensação. 2007. 343Jean Baudrillard. 342 Ver Karim B. de David Levy. em 2007. art contemporain: l’impossible ‘débat’”. “Atelier de Chelsea.). ela] está infinitamente mais bem integrada ao sistema capitalista do que as populações indígenas e .000 no caso dos de melhor desempenho). “Faire l’amour en 2050”. 2002. Stambouli e Éric Briones. “Art moderne. Deve ser distinguida das vozes narrativas. Existem. Nova York. démontrer… survivre.332 A voz narrática é a voz impessoal. 2º — consideráveis perspectivas de lucro (um site pornô pode lucrar entre 10. 344 Pode-se ler a esse respeito o excelente artigo de Aude de Kerros. Formes de savoir et formes de discours dans la culture contemporaine. 339 Cf. que emana de um texto. se me permitem a expressão. Segundo Jean-Claude Michéa. Sens & Tonka. como é o caso de Vice Fund (álcool. 338 Ver o artigo extremamente instrutivo sobre a “háptica” na Wikipédia. “a caillera não está integrada à ‘sociedade’. Cf. Paris. de. 2008.000 e 15. Vice Fund. The Evolution of Human-Robot Relationships. Boulogne- Billancourt. op.

imigradas que controla e explora nesses bairros experimentais cuja gerência o Estado lhe confiou”. Cf. Jean-
Claude Michéa, L’Enseignement de l’ignorance, Castelnau, Climats, 1999.

347 Cabe acrescentar que somos insistentemente convidados pelas autoridades a considerar as descargas de ódio
de Orelsan como grande arte. O próprio ministro da Cultura de Sarkozy, Frédéric Mitterrand, o declarou logo
depois de assumir o cargo, durante a garden party realizada no Palácio do Eliseu, por ocasião da festa nacional do
14 de julho, em 2009: “Não vejo nada chocante nem repreensível na maneira como ele canta […] Rimbaud
escreveu coisas muito mais violentas.”

Que fique bem claro, portanto: Orelsan navega no mesmo barco (bêbado) que Rimbaud! Quanto
aos que acaso insistam em ouvir este sem ter de suportar aquele, são pura e simplesmente convidados a
se considerar perigosos partidários da “censura”. Que seja. Mas cabe notar aqui que não se pode adotar
esse raciocínio sem mudar o sentido das palavras. Com efeito, ainda ontem “censura” significava
“pretender calar os que dizem aos poderosos verdades incômodas”. Ao passo que hoje é possível acusar
de “censura” aquele que não aceita que o espaço público (ainda por cima subvencionado) seja usado por
qualquer um para descarregar suas vociferações individuais e suas execrações privadas, e até seus apelos
pessoais ao homicídio. Para acreditar que exista uma “censura” de Orelsan, é preciso, portanto, ter
adotado, sabendo-o ou não, a novlíngua liberal pós-moderna que autoriza a alteração do sentido das
palavras (permito-me aqui remeter ao capítulo 7.2 de meu livro anterior, Le Divin Marché: “De la
novlangue — en ses six caractéristiques”.

Esse poder de mudar o sentido das palavras já havia sido identificado por Lewis Carroll em Alice no
País das Maravilhas: “Quando utilizo uma palavra — diz Humpty Dumpty — ela quer dizer exatamente
o que eu quero que ela queira dizer… nem mais nem menos [pois] a questão está em saber quem é que
manda, e ponto final.” Hoje, é evidente que quem manda no sentido não é mais aquele que sublima as
paixões num ritmo e numa versificação tão rigorosos que ainda não foi possível esgotar os sentidos,
como em Rimbaud (reler, por exemplo, “O barco bêbado”), mas aquele que escarra suas pulsões cheias
de ódio como Orelsan, em versos idiotas, sustentados por um ritmo pesado de bate-estaca.

348Cf. entrevista de Orelsan na editoria “Cultura” do Journal du Dimanche de segunda-feira, 6 de abril de
2009: “Não vou me autocensurar.”

349 Inspiro-me aqui nas propostas de J.-F. Lyotard, formuladas em L’Inhumain (op. cit., “Le sublime et l’avant-
garde”, p. 115 e seg.), a propósito da arte contemporânea, justamente.

350 Foi assim que a “Escola de Chicago” (grupo informal de economistas liberais adeptos da teoria neoclássica
dos preços, do livre mercado libertário, do monetarismo e firmemente opostos ao keynesianismo) abiscoitou
cerca de metade dos “prêmios Nobel” de economia nos trinta últimos anos.

351No 9º mandamento de Divino Mercado (op. cit., cap. 9), que no terreno da arte é assim enunciado:
“Arrombarás indefinidamente a porta já aberta por Duchamp!”

352Beatrice Wood, amiga de Duchamp, escrevia que “as únicas obras de arte produzidas pela América são seus
encanamentos e pontes”. Cf. Beatrice Wood, “Marcel”, in Marcel Duchamp: Artist of the Century, Cambridge,
M.I.T. Press, 1990, p. 14.

353Duchamp gostava desta tirada: “Temos como fêmea apenas o urinol, e on en vit” (trocadilho de Duchamp
com on en vit (“vive-se disso”) e vit (“pênis”), citado em The Marcel Duchamp Studies Online Journal.

354 Por exemplo, em The Crying Body, coreografia de Jan Fabre apresentada no Théâtre de la Ville em Paris em
2005, viam-se mulheres urinando de pé no palco, um dançarino chapinhando na poça de maneira a respingar
nos espectadores da primeira fila e algumas cenas coletivas de masturbação fingida. Ou seja, um grande
espetáculo pornô, do gênero xixi-cocô, que grande parte dos espectadores adorou.

Bis repetita com L’Orgie de la tolérance, no Festival de Avignon de 2009. A obra, mais uma vez,
transcorre abaixo da cintura: masturpeniscite aguda e mesmo crônica, orgasmos a granel… E sempre a
mesma receita: o golpe do duplo sentido. O que levou a crítica do Monde Rosita Boisseau a dizer que
“Jan Fabre se apresenta como crítico e denunciador da obscenidade e do cinismo que reinam
atualmente, mas naturalmente se serve das mesmas ferramentas […], também se refestela nelas” (Le
Monde, 3 de abril de 2009). Poderíamos imaginar que os espectadores acabarão se cansando do eterno
golpe do duplo sentido, mas não, ele funciona melhor do que nunca: “Por mais provocante e sujo que
seja, o espetáculo causou sensação no Théâtre de la Ville. Nenhum escândalo, como se poderia esperar,
mas risos regulares e calorosos aplausos, prova de que o limiar de tolerância do espectador é cada vez
mais alto” (ibid.).

Não é apenas a cena experimental que se torna pornográfica, a cena clássica também é
contaminada. A recente apresentação de Armida, de Gluck, na Komische Oper de Berlim, dá o tom:
Gluck com Sade! O libreto de Quinaud (que também foi usado na Armide de Jean-Baptiste Lully)
mereceu uma cenografia e atuações dos atores, quase sempre nus, dignas de A filosofia na alcova. E, por
sinal, o encenador, Calixto Bieito, não hesitou em falar dos pensamentos fortes que o inspiraram: “a
moderação mata o espírito”, “a cólera e o ódio podem ser uma força motivadora útil”, “o animalismo é
perfeitamente são”, “só podemos entender alguém do nosso próprio sexo”, etc. É, portanto, com esse
tipo de lembrete sadeano barato que cada vez mais são abordadas hoje as obras clássicas.

355 Jean-Pierre Lebrun, La Perversion ordinaire, Paris, Denoël, 2007. Jean-Pierre Lebrun é um amigo. Nós
trocamos muito e ele me transmite tantos dados psicanalíticos, especialmente clínicos, quanto eu lhe passo dados
filosóficos (nos terrenos da filosofia política, moral e da metafísica). Edição brasileira: A perversão comum: viver
juntos sem o outro, tradução de Procopio Abreu, Rio de Janeiro, Companhia de Freud, 2008.

356 Permito-me remeter à análise que, a esse respeito, desenvolvi na parte intitulada “Fictions et fonction
paternelle” de Le Divin Marché, p. 314 e seg.

357 Refiro-me aqui a uma conferência do professor de psicologia clínica e psicanalista Regnier Pirard, numa
jornada de estudos sobre “Les perversions ordinaires” (Nantes, 9 de abril de 2005). Nessa conferência, intitulada
“Clinique de la banalité: perversions ordinaires”, ele dá o nome de “neoperversão” a essa “‘perversão ordinária’
generalizada [que] evoca a passagem ao limite, na cena do social, da sexualidade polimorfa, característica da
criança dita pré-edipiana”. Disponível em: http://1libertaire.free.fr/PerversionsOrdinaires.html.

358 Lacan, Autres Écrits, “Allocution sur les psychoses de l’enfant” [1967], Paris, Le Seuil, 2001, p. 369. Edição
brasileira: “A locução sobre as psicoses da criança”, in Outros escritos, Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2003.

359Foi o que Pierre Klossowski muito bem identificou em “Sade ou le philosophe scélérat”, in Tel Quel, nº 28
(“La pensée Sade”), p. 13.

360 François Ost, Sade et la loi, Paris, Odile Jacob, 2005, p. 51.

361 Jacques Lacan, “Subversion du sujet et dialectique du désir”, in Écrits, op. cit., p. 800.

362 Lembro aqui que a palavra “teoria” vem do grego theorein, “contemplar”. Existem três tempos na dialética
platônica do conhecimento. No tempo um, é através da dialética ascendente (anagogia) que o pensamento
remonta de conceito em conceito até os princípios primeiros. No tempo dois, é na dialética da contemplação, ou
noésis, que o espírito pode perceber o essencial por intuição e produzir conceitos novos que se encadeiam e
tomam o lugar dos antigos. No tempo três, é pela diairésis que o pensamento volta a descer ao mundo sensível
com vistas a uma atividade moral (sobre o indivíduo) e política (sobre a Cidade).

363 Logo se verá por que prefiro usar essa expressão freudiana, “crise de angústia”, no lugar da expressão
derivada das classificações do DSM (em francês, “manual diagnóstico e estatístico de distúrbios mentais”).

364 Cabe notar aqui que o cinema pode ser um excelente fornecedor de casos clínicos: o magnífico filme A bela
da tarde, de Luis Buñuel, filmado na década de 1960, já apresentava uma situação de vida dupla, com uma
mulher puritana, por um lado, e, por outro, perversa.

365 “Num caso que pude observar”, escreveu Freud, “a doente segura o vestido preso contra o corpo (como
mulher) ao mesmo tempo que tenta arrancá-lo (como homem).” Cf. Freud, “Les fantasmes hystériques et leur
relation à la bisexualité [1908]”, in Névrose, psychose et perversion, Paris, PUF, 1973, p. 155.

366 Sigmund Freud, “Le moi et le ça” [1923], in Essais de psychanalyse, Paris, Payot, 1968 (edição digital
disponível em: http://bibliotheque.uqac.uquebec.ca/index.htm).

367Declaração de Fabrice Tron (diretor da empresa Actengo, que tem um departamento especializado em
aconselhamento, acompanhamento e construção de universos no Second Life) no site da associação de
comunicação empresarial, a Ujjef.com.

368 O moderador do site escreveu no blog do Second Life: “A Linden Lab adotou uma política de tolerância
zero com relação a tudo que tenha a ver com pornografia infantil no Second Life. Ficamos indignados com as
imagens mostradas pela rede ARD. Colaboraremos sem reservas com as autoridades que investigam os
indivíduos envolvidos em atividades dessa natureza.”

369Na edição do outono de 2007, um artigo publicado em La Civiltà cattolica, revista dos jesuítas italianos,
impressa sob o controle da Secretaria de Estado da Santa Sé, propõe a evangelização do universo virtual no
Second Life.

370 E, por sinal, o conceito de “dissociação” interessava Lacan de tal maneira que ele o utiliza evocando
brevemente um caso (ver a primeira versão de “Fonction et champ de la parole et du langage en psychanalyse”,
publicado em La Psychanalyse, nº 1, 1956).

371Não quero dizer apenas que a música pode ser pornográfica indiretamente, através das letras (como no rap
ou no porno-funk americano, brasileiro ou de outras procedências), mas também diretamente, pelo ritmo (como
na música techno das raves).

372 Podem existir, naturalmente, músicas techno e músicas rap muito mais elaboradas e assim candidatas a um
reconhecimento artístico. Mas não são, salvo exceção, as que costumam ser ouvidas nas pride parades e nas raves.

373 Não me refiro apenas aos nomes dos grupos, aos títulos ou às letras, quando existem; falo do domínio que o
pulso binário mais grosseiro exerce sobre o corpo. Esse pulso, sem nenhum contratempo ou jogo rítmico,
aprisiona o corpo (contrariamente às infinitas sutilezas do ritmo que encontramos, por exemplo, no jazz).

374 O episódio é relatado em diferentes biografias de Sade, a de Lely e a de Lever.

Jean Paulhan, Le Marquis de Sade et sa complice ou les Revanches de la pudeur [1951], Paris, Éditions
375
Complexe, 1987, p. 32.

376Ver o interessante relato do stripper Tony Prado, que trabalha no Clube de Mulheres da Praça Quinze no
Rio de Janeiro (jornal O Globo, segundo caderno, 22 de setembro de 2008).

377 Disponível em http://www.paradadadiversidade.org.br.

378 E, por sinal, em inglês, não se tem uma experiência, mas se “experiencia” alguma coisa (to experience
something). Podemos deduzir daí que, em francês, a experiência é exterior ao sujeito (que pode assim,
posteriormente, voltar a si mesmo), ao passo que, em inglês, o sujeito se vê diretamente exposto e transformado
pelo fato de “experienciar” algo. Se Benveniste tinha razão ao dizer que a forma do verbo “ser”, em grego, é que
permitiu o surgimento da filosofia, parece-me que devemos contemplar a possibilidade de que a forma transitiva
direta desse verbo inglês é que terá permitido o desenvolvimento da filosofia pragmática anglo-americana.

379Freud, “Qu’il est justifié de séparer de la neurasthénie un certain complexe symptomatique sous le nom de
névrose d’angoise” [1895], in Névrose, psychose et perversion, Paris, PUF, 1992, p. 31.

380 Freud, “Pulsions et destin des pulsion” [1915], in Métapsychologie, Paris, Gallimard, p. 18-21.

381Remeto naturalmente, aqui, ao texto de Freud intitulado Trois Essais sur la théorie sexuelle [1905], Paris:
Gallimard. Edição brasileira: “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade” (1905), in E.S.B., Rio de Janeiro,
Imago,1972.

Epílogo

A OBSCENIDADE DESNUDADA

O perigo já se havia manifestado a Platão na origem do mundo ocidental: a possível
transformação da democracia em tirania (livros VIII e IX de A República). Se essa
análise é hoje mais atual que nunca, é por se ter estabelecido um novo tipo de
tirania. Das tiranias declaradas, tivemos experiências trágicas ao longo do século XX:
os fascismos, o nazismo, o stalinismo. Definitivamente afastados esses riscos,
julgamo-nos, por um momento, livres do sofrimento. Mas, infelizmente, não é
assim. O liberalismo triunfante projeta uma pesada ameaça sobre o ser-si-mesmo e o
ser-junto: a assunção de um homem sadeano afirmando seu egoísmo e obedecendo a
um mandamento supremo: “Goze!” Podemos retomar aqui a expressão forjada por
Hannah Arendt com outra finalidade, quando falava, em Crise da república, do
surgimento de uma “tirania sem tirano”.382 Em nossas democracias ultraliberais, a
função tirânica é democraticamente repartida, pois cada um age em função de uma
interiorização individual da lei do mercado, procedendo de um descrédito de toda
instância terceira entre os indivíduos, na busca desenfreada de satisfações pulsionais
que a economia global trata imediatamente de lhe fornecer. O ideal sadeano, “ser
tirano”, afeta então a maioria, e a Cidade torna-se perversa.
Se ainda restarem alguns sábios (ou alguns loucos) obstinados em salvar a
democracia do grande perigo que a ameaça hoje em dia — ser preemptada pelo
ideal sadeano —, vou aqui permitir-me, na conclusão deste estudo, sugerir-lhes que
tenham em mente as seguintes considerações:

1) É preciso apreender todas as implicações da reviravolta da metafísica
ocidental, que em três séculos passou da primazia do amor socialis à do amor
privatus. Essa reviravolta mudou o mundo: teve como efeito direto a liberação das
três libidos, a libido sentiendi, envolvendo as paixões da carne, a libido dominandi,
relativa à avidez, e a libido sciendi, correspondendo a um saber que se pretende capaz
de refazer a vida, a matéria e o mundo.
2) Essa liberação das paixões transformou todas as economias em que os
homens interagem: mercante, política, estética, simbólica, semiótica, psíquica,
ecológica. Essas economias, hoje, estão doentes.
3) O que ocorre hoje na economia psíquica, a ascensão da “perversão
ordinária”, é um efeito da reorganização do capitalismo a partir de 1929. Após a
proletarização do operário, desapossado de sua obra ao longo das diferentes
revoluções industriais, deu-se uma proletarização do consumidor, derivada de uma
bombagem direta da pulsão, redirigida para objetos formatados. Esse processo foi
possibilitado pelo desenvolvimento das indústrias culturais, incumbidas de
apresentar constantemente novos objetos de satisfação pulsional. Essa proletarização
desenfreada do consumidor provoca o que poderíamos denominar, para imitar a lei
identificada por Marx, de queda tendencial da taxa de subjetivação, devida à
exploração racional da libido por meios industriais, que esgota a energia que a
constitui.
4) O atual vínculo social apresenta-se, em forma inédita, ego-gregária,
caracterizada por um arrebanhamento de consumidores constantemente levados na
direção das supostas fontes de felicidade. Trata-se de um rebanho organizado como
cadeia sadeana de gozo. Quanto mais a satisfação pulsional é garantida, mais vem a
ser, tal como acontece em todos os mecanismos de adicção, frustrada e, portanto,
reiniciada. Resulta daí que a aspiração social (e, portanto, a demanda social) não é
mais estruturada por uma busca do fim da opressão, mas por uma exigência de gozo
generalizado. Uma vez faltando essa dinâmica, sobrevém a depressão.
5) É preciso avaliar plenamente a atual mudança de religião: passamos de uma
religião do Pai a uma religião da Mãe, no sentido da mãe natureza sadeana arcaica,
que exalta a pulsão em detrimento do verbo. O que pretende essa mãe natureza
arcaica nos foi advertido por Sade: “A destruição completa de [nossa] espécie,

conferindo à natureza a faculdade criadora que ela nos cede, voltaria a lhe conferir
uma [nova] energia.”
6) É necessário reconsiderar a questão da pulsão de morte na civilização: ela foi
suposta por Freud e, posteriormente, questionada por Lacan. Paul Valéry resolveu o
impasse ao dar a palavra à própria civilização, em prosopopeia: “Nós, as civilizações,
sabemos agora que somos mortais.”
7) Nossas grandes narrativas são obsoletas, mas ainda dispomos da voz do poeta
perdido neste século. Ao ocupar a cena com seus loucos, ele mostra à Cidade
perversa seu verdadeiro rosto e previne os homens sem vergonha: “Eles serão
tomados pelo medo./ Em todos os rostos, haverá vergonha…/ Eles jogarão o
dinheiro nas ruas/ E seu ouro se transformará em imundície./ Prepara uma corrente
porque/ O país está cheio de assassinos/ E a cidade foi tomada pela violência.”383
Bastou que Pippo Delbono e seus loucos evocassem o livro de Ezequiel384 para que
viesse a lembrança das antigas narrativas de fundação do Ocidente. Por um lado, as
narrativas gregas diziam que Némésis, que poderíamos traduzir como
“Vergonha”,385 castigaria o orgulho excessivo e puniria todo hybris (excesso). Por
outro, as narrativas bíblicas anunciavam que as paixões humanas seriam desnudadas
e a destruição do mundo em que elas haviam proliferado seria anunciada por sete
toques de clarim.
8) Toques de clarim… Mas que toques? Nosso mundo, que é puro ruído e
furor, não ouve mais nada. Já perdeu a conta das advertências que lhe foram
endereçadas. Estaríamos ainda no primeiro, no terceiro ou mesmo no décimo?
Ninguém sabe mais.
9) Façamos então como se o primeiro clarim dos tempos pós-modernos tivesse
soado em 1929, no momento em que Sade retornou ao mundo.
10) A crise dessa época atirou o mundo num braseiro; um novo toque foi
ouvido no momento em que apareceram terríveis palhaços que vociferavam o
nascimento de uma nova raça de homens, valendo-se dos recursos industriais para
atirar a metade da humanidade no fogo.386 Os nazistas, esses sinistros imbecis foram
destruídos porque não tinham entendido que era necessário utilizar a indústria de
uma forma muito mais proveitosa: explorando racionalmente as três libidos —
sentiendi, dominandi e sciendi. Essa vitória não bastou, foi necessário transmitir a
ideia de força: uma nova clarinada foi ouvida a 6 de agosto de 1945, quando se

para impedir que esse homem transforme sua funesta solução na única saída possível? . Mas sabemos que um dia chegaremos lá. Mas nós tentamos não ouvi-lo: fingimos acreditar que só era atingida a economia dos bens. e. três dias depois. ficamos surdos e cegos para o que nos era anunciado por nossas antigas narrativas. A única certeza é que o tempo urge. embora a economia das pessoas desmoronasse. aparecei. réplica de 1929. exatamente como previra Sade. Será que ainda resta tempo para que os homens mais ou menos normais. se decidam finalmente a cercar o homem sadeano num impasse. até a obscenidade. Vergonha… — de qualquer maneira. 11) O novo regime funcionou tão bem que se acabou por explorar essas três libidos sem limites. Foi no ano de 2008. se existirem. ouviu-se um novo toque de clarim. No auge desse processo. a de Nagasaki. 13) Soai.julgou necessário demonstrar que seria o caso de reagir ao genocídio com o “globicídeo”. trombetas. apagando do mapa a cidade de Hiroshima. 12) Os novos toques de clarim já são anunciados pelos sábios: sabemos que infecções virais inéditas estão para se propagar387 e que num dia que está próximo uma parte do mundo será varrida pelas ondas.

386 A se dar crédito a seu último texto. ele vê apenas uma única catástrofe. 385 É a tradução de Paul Mazon em Les Travaux et les Jours. “loucos” (Gianluca Ballaré. in Walter Benjamin. 434. constantemente amontoando ruínas sobre ruínas e atirando-as aos seus pés. São Paulo. Oeuvres III.theatre-contemporain. Essa tempestade o impulsiona irresistivelmente para o futuro. mendigo apaixonado por dança. mas também artistas de rua. Edição brasileira: Os trabalho e os dias. com síndrome de Down. que significa “desnudamento” ou “retirada do véu”. Pasolini. A exemplo de Caravaggio. quando ainda efetuava trocas com Gershom Sholem. 1977). p. in Walter Benjamin: obras escolhidas. Iluminuras. onde vivia havia quarenta anos). tese IX do texto intitulado “Sur le concept d’histoire” [publicado por Adorno em Los Angeles em 1942]. 1972. . http://www. Belles Lettres. p. Du mensonge à la violence. enquanto o amontoado de ruínas à sua frente se eleva até o céu. Nelson Lariccia. Paris. Pippo Delbono trabalha com “pessoas escolhidas na vida”. Segundo Pippo Delbono. 2000. hoje. ao qual ele dá as costas. Edição brasileira: “Sobre o conceito de história”. Bobò. 387 Podem acreditar ou não: essas linhas foram escritas exatamente assim no mês de abril de 2009. prontas para explodir a qualquer momento no mundo. então considerada inevitável pelos especialistas. Ele o percebeu diante de um quadro de Paul Klee intitulado Angelus Novus: “[Esse quadro] representa um anjo que parece a ponto de se afastar de algo que contempla com o olhar. tradução de Sérgio Paulo Rouanet. mas como uma experiência fundamental [de] sobrevivência” (cf. microcéfalo e surdo-mudo encontrado no asilo psiquiátrico de Aversa. despertar os mortos e juntar o que foi desmembrado. 384 O livro de Ezequiel trata da queda de Jerusalém e está entre os grandes textos apocalípticos — cabendo lembrar que a palavra grega apokalupsis aparenta-se ao hebraico nigla. São Paulo. Ele tem os olhos arregalados. a boca e as asas abertas.” Cf. Onde nós enxergamos uma sucessão de acontecimentos.Notas 382 Hannah Arendt. de Hesíodo (Paris. Calmann-Lévy. Mas essa presciência não corresponde (felizmente) a qualquer dom profético: na época eu simplesmente estava pensando na gripe aviária. “eles não vivenciam a arte como uma profissão.net/biographies). atores. pouco antes de pôr fim a seus dias. 1985. Paris. basta um pouco de lógica para deduzir que as gigantescas criações industriais de animais funcionam. E. Fellini. apresentado em Paris. 1990. sim. Mas do paraíso vem uma tempestade que alcançou suas asas. Brasiliense. em 2005. foi provavelmente esse toque que Walter Benjamin ouviu em 1940. uma semana antes de se tomar conhecimento do início da epidemia de “gripe suína” (A-H1N1). Essa tempestade é o que chamamos de progresso. Gallimard. de fato. 383 Essas palavras são tiradas do impactante espetáculo de Pippo Delbono Il Silenzio. Ele gostaria de se demorar ali. Hannah Arendt e Theodor Adorno. Seu rosto volta-se para o passado. É assim que deve ser o Anjo da História. como lugares de fabricação de verdadeiras bombas virais. 138. com tal violência que o anjo não consegue mais fechá-las.

A. .Este e-book foi desenvolvido em formato ePub pela Distribuidora Record de Serviços de Imprensa S.

php? noticia=14190_Lancamento-do-livro-A-Cidade-Perversa-.br/mostraNoticia.html Wikipedia do autor http://fr. A cidade perversa Nota de lançamento do livro na UFRJ http://www.org/wiki/Dany-Robert_Dufour .wikipedia.ufrj.