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Francisco de Oliveira

A NAVEGAÇÃO VENTUROSA ;
Ensaios sobre Celso Furtado
-,
A NAVEGAÇÃO VEI:JTUROSA*

1. O teórico do su b d esenvo lvim ento


, . ,
A vasta, abrangente e diversificada obra intelectual de Celso Fu rt ado
representa um marco na hi stó ria e na produção das ciências sociais em
escala mundial. Nenhum outro autor contribuiu tanto para constituir
as econ om ias e so~iedades subdesenvolvidas em objeto específico de es'-
tudo. Para ser rigoroso, é preciso dizer que Raúl Prebisch, criador da
C om issão Econômica para a América
I
Latina
.
(Cepal) e mentor daque-
labrilhanre equipe de qu e Furtado foi um dos mais eminentes m em -
bro s, é, de certa forma, no famoso relatório d a Cepal de 1949, seu pre-
decessor mais im port ante. M as Prebisch jamai s alcançou a dimensão de
Furtado como cientista social, tendo-se restringido ao que se co nvencio no u
chamar "ciência econ ômica", e não podendo) pela sua condição de buro-
crata in ternacional; empreender sequer a crítica de sua própria produção.
No vácuo da produção marxista, que desde Leniri, com O desen volvi-
mento do capitalismo na Rússia ** - rigorosamente um estu do da form ação

* Introdução à obra Economia. (Coleção Grandes Cient istas So ciais - Celso Purrad o)
São Paul o, Ãt ica, 1983. .
** Vladimir I. Lenin. O desenvolvimento do capitalismo na Rússia: o processo de
formaç ão do me rcado inte rno para a grand e ind ústria. São Paulo , Abril Cultural.
1982 (Série O s Econ o mistas).
12 Francisco de Olivei ra A navegação vent urosa 13

de uma economia subdesenvolvida - , paro u e ficou repetindo velhas arengas, di namicamente quand o assim o favo rece a deman da ext erna, mas que
Furtado emerge nos anos 1950, a parrir d os esrudos da Cepal, inaugurando pela co rrt ín ua deterioração dos termos de intercâm bio vê ro ubada uma
·o q ue veio a ser chamado "m étodo hist órico-estrutural", adequado para ex- parre su bst ancial do excedente q ue prod uz, Essa ligação -roubo não dá
· plicar a formação dessas economias e sociedades no sisrema capirali sra para ao sero r ex po rtador um papel inrerno tra nsformado r d as esrruturas eco-
além da do m inação colonial. O nome dado ao ripo de análise, menos que nômicas e sociais. Ele se faz "moderno" em si mesm o, mas não se faz
um m érodo, é sim ulraneam ente uma denú nc ia da falência do mérodo atrasa O , rep resenrad o pe Ia Iarga pro - '
"m o d erno " para o outro seto r, o "atrasado"
neodássico, a-histórico, então soberano na análise econômica, e "um reco- dução agrícola de sub sistência, que na v ulgarização da teo ria foi d ep o is
n heci mento' da necessidade de histo ricizá-la, O vigor de sua contrib uição assimilado à agr icultu ra em geraL O sero r exporrador é esp ecializad o na
resid e pr ecisamente na tentativa de descobrir a especificidade da for ma ção produção de algu m as po ucas mercadorias primárias, que tanto pode m
dessas eco no m ias e sociedades subdesenvolvidas. Sua m arca caracrerística é ser o café, a carne o u o trigo , o u na pro dução mineral (caso, sobret udo,
o aba ndono do clichê do colon ialismo em que havia naufragado a reorização do C hile). E tanto ele qua nro as cid ades devem ser alimenr ados pela agricu l-
m arxisra dep ois do br ilhanre e definitivo esrud o desse auro r - abertura de tura de subsistência , o setor "atrasado" da economia, que tem dinâm ica
cam in hos teóricos - lido como "aplicação" da teoria marxista e parado xal- próp ria, in fensa ao que se passa no sero r "moderno", exportado r, Está de
menre um dos menos conhecidos e estu dado s trabal hos desse tema. Por pé o "dual-estruturalismo". .
outro lado , a teorização furradiana recusa tam bém O velho e surrado esq uem a A tese ce palino-furrad iana da dualidade distingue-se da co nsratação
da divisão inrernacional do trabalho comandada pelas "vanragens comparari- . geral e h isró rica do "desenvolvim en to desigu al e combinad o" da trad i-
· vas", de inspiração ricardiana e mal barararnenro neoclãssico 'e marginalisra. ção marxista (Len in e Trotski ) precis amenre porque para Furrad o e ·a
O esquema teórico furtadiano explica as economias e as sociedades C ep al o desenvolvimenro é desigual - ta nto pelas d iferenças de grau e
subdesenvolvidas m edianre um a inversão da reor ia da s vantagens com- ritmo de desenvo lvim ento quanto pelas difere nças q ua litativas entre se-
parativas. Estas convertem-se numa espécie de "desvantagens reiterativas": rores que se de sco nhecem entre si - , mas não é combinado. Os dois seto-
é a pa rrir da hisrória da América Larina - cuj a inserção n a divisão interna- r~s não têm relações articuladas:.o setor "atrasado" é apenas um obst ácu-
cio nal d o tra ba lho do capitalism o mercanril em exp ansão na Europa dos lo ao crescimento do setor "moderno", principa lmente porque, por um
séc ulos XVI e XVII funda as diversas economias latino-am ericanas - q ue lado , não cria mercado intern o e; por outro, não atende aos requi sitos
se produz a teo rização. A especialização dos países da América Larina na da demanda de alimentos. Nem sequer a clássica fun ção de "ex ército de .
pro d ução de bens primários converte-se em d esvan tagem na m edida em que reserva" o I'atrasado;' cumpre em relação ao "moderno": seria de supor
os países centrais do sistema capitalista passam a ser predom inan temente que os exce den tes po pulacio nais pr oduzid os pela lei interna de popula-
prod u ro res e exp ortad o res d e man ufat u rados. Por m eio d a de sigualda- ção do seror "atrasado" contribuíssem para, aumenrando a oferta de mão-
de n.a rela ção de trocas do com ércio internacional, instaura-se um mecanis- de -o bra no seror "m oderno", reb aixar os salários reais, o q ue lhe realçaria
mo de sucção d o excedente eco nô m ico lat ino -america no por parte das as fun ções na ac um ulação do "m odern o". M as a tese d ual-estruturalista
econom ias dos países centrais, que é ao mesmo tempo a reiteração, para postula que o atraso do "atr asado", ao elevar os preços dos alim ento s,
os primeiros, da condição' de produrores de ben s primários. contribui para elevar os salários do "moderno" e, por essa razão, conver-
Essa ligação-reiteração dos serores agroexportado res d as economias te-se em obstdculo à expansão do "m odern o".
latino-america nas depende, sem p re, da deman da dos p aíses centrais. D essa "contradição sem negaç ão" entre o "m ode rno" e o "atrasado"
Intername nte, o seto r exportador é o seto r "moderno", que se comporta n asce uma das mais importan tes teses cepa linci-furtad ianas: a d a in fla-
A navegação ven r u r c s ~
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ção estrutural, que é, por sua vez, uma das contribu ições ma is no táveis menta a oferta de.alimentos , desbloqueando a acumulação por impedir o
ao pensamento econômico. Esta , a inflação , é estrutural num dupl~ sen- aumento dos salários nom inais.
tido: em prim eiro lugar, a contínua deterioração dos preços de Inter- O du al-estruturalismo não é de modo nen h um uma teorização vul-
câmbio entre as econ omias centrais e as economias latino-americanas gar. Sua força residiu , sobre rudo, em apontar a emergência de pro cessos
ob riga estas a aumentare~ constantemente a produção em volume fí~i­ qu e não eram perceptíveis nem importantes para as ou tras vertentes teó-
co para co mpen sar a queda dos preços internacionais das me rcadorias ricas. A d ualidade "atrasado-moderno" escapa, por exemplo, tanto à a-his-
que exportam; em segundo lugar, a inelasticidade da oferta agrícola de toricidade do método neoclássico quanto ao mecanicismo das "eta pas"
alimentos produzidos pelo "atrasado" - uma concl usão fundada n um e dos modos de produção seqüenciais próprios do sralinisrno convertido
aspecto peculiar à economia chilena, o qual ocorr e conjuntura lmente em orácu lo do marxismo. Mas ele tam bém - in clusive porque teoriza
em alguns outros países latino-amer icanos - eleva os preços e instaura contemporaneamente os próprios processos que percebe - mascara os novos
uma corrida en tre preços e salários no setor "mo derno". interesses de classe que se põem .agora como "interesses da Nação". O prote-
O remédio _ a teorização cepalino-furtadiana faz-se em função da pro - cion ismo à List vem tarde dema is: as burg uesias e seus interesses, funcio-
posição de políticas - para sair do círculo vicioso do subdesenvolvimento é nando como estruturadore s de Esta dos nacion ais, são também um a
industrializar-se. Utilizando-se de um vasto e eclético arsenal , que vai des- construção dos séculos XVIII e XIX .
de um protecionismo à List - não o compositor-virtuo se, mas o doutrinador . Tendo em 'conta sua raiz keynesiana, decorr ente não apenas da utili- .
da car relizaçâo alemã do século XIX - até Lord Keynes - cujo multiplica- zação das contas nacionais, o esquema cepalino-furradia no já demons-
dor do emprego explica como a industrial ização gera maior quantidade tra, pelo menos, uma primeira inconsistência teórica. D ificilmen te se
e diversidade de empregos e, por isso, eleva a renda, pondo em ação um poderia esperar igual agregação de valor ent re a produção de bens prim á-
mecanismo realimentador -, a proposição de Furtado e da Ce pal converte- rios e aproduç ão de bens ma nu faturados. E é essa agregação diftrencia-
se na ma is poderosa ideologia industrialisra e, ao contrário do destino de da que fu nda, na aparência, essa "troca desigual". Do ponto de vista de
muitas ideologias, influencia e determina políticas c on cretas, agen das sua formalização, um exame ma is acura do levaria a não postular essa
de ação dos vários governos latino -ame ricanos. Co m a proposta de indus- apa rência, pois a base da teoria da conta bilidade social repousa exata-
trialização, Furta do pretende solucionar todos os problem as: por um lqdo, mente sobre a noção de valor agregado , e não seria de esperar q ue eco"
corta o nó górd io da relação que deteriora continuamente os preços de nom ias com divisões sociais do trabalho tão desiguais produzissem o
int ercâmbio, pois supõe - uma de suas falhas - que, se os países latino- mesmo valor agregado; os preços internac ionais e a relação de trocas
amer icanos passassem agora a exportar produtos manufaturados em vez deles decorrentes são, em parte, um fenômeno diretamente derivado dessa
de bens primários, a relação de intercâmbio se modifi caria favoravelmente difere nciação da divisão social do trabalho e da agregação de valor po r
a eles; por ou tro , põe fim à inflação estrutural qu e advém da insuficiência ela pro duzida.
dinâmica do setor externo , derivada precisamente da relação qe intercâm- A versão marxista, que desde logo não é a que postulam Furtado e a
bio desfavorável. Diante do problema da opos ição entre o "moderno" e o Cepal, a "troca desigual" de Samir Ami n e Argh iri Eman uel, é ainda mais
"arrasado", que enfraquece o me rcado interno e gera uma inflação de contraditória. Esses teór icos deveriam voltar a Marx, pois ele é explícito: o
custoS e preços desfavorável à expansão do "moderno" (que será agora a comérci o internacional, ou, em outras palavras, a estruturação pelo capi-
ind ústria), propõe-se a reforma agrária: ela é o elemento viabilizado r da talismo ind ustrial de uma divisão internacional do trabalho, não se dd
indu strialização, pois, ao mesmo tempo que cria mercado int erno, au- mediante troca desigual de valores. A famosa comparação entre o valor pro-
A n ave g ação Y~:; ,:1:: ; i
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duzido por um artesão chinês e o que resulta do emprego da força de capital estr angeiro , o qu e rigorosamente põe po r terra a teo rização sob re
tr;balho de um ope rário inglês é suficientemente clara a respeito. "troca desigual" via relação de trocas no com ércio internacional.
Tanto a ~ersão cepalino-furtadiana quanto a marxista de Amin-Emanuel Mas a contr ibuição furta diana é in ovadora precisamente ali onde ram-
não con rem plaram a possib ilidade teórica" que se deu n a prática, da bém comete equívocos, pois antecipa uma questão que somente vai ser
estrutu ração da divisão internacional do tra balho sob o capitalismo indus- perceb ida em suainteireza já correndo os anos 1960: 'n ão há nenhum a
trial. Em prime iro luga r, não perceb eram o fato inegável de que o estabe- "contradição antagônica" ent re paísesprodurores de maté rias-primas e países
lecim ento de colônias é, em si mesmo , um ato de rapina, de saque, pan e produtores de manufatu ras. No capitalismo moderno, a divisão intern a-
do amplo processo de acumulação primitiva que, ta nto nos futuros países cional do trabalho esrá esrru tu rada m uito m enos por uma "divisão entre
cent rais quanto nas suas colônias, esrá fundando o capitalismo. Ec: se- as nações" do que por uma "divisão in tern a do trabalho" entre as empresas
gundo lugar, tanto a fragilidadeda teoria monetária em sua versão cepalino- em escala internacional: estas são -as multinacionais que Srephen H ymer
furtadiana como a da versão ma rxista Amin-Emanuel não conseguiram , vai teori zar mais tarde, De algum modo, po is, ao escapa r d o clichê do
desvenda r o m istério da "troc a desigual": esta não se dá porque exista marxismo vulgar e dos epígonos de D avid Ricardo , a teo rização furta diana
desequilíbri o na relação de tro cas, senão porque é a hegemonia d~ capital enriquece e dá alguns passos adiante no aprofundamento de um a teoria
fina nceiro dos países centrais sob re a produção da "periferia ", como é o da divisão internacional do trabalho cujos alicerces estão na inremacio-
caso da Amé rica Latina , que estrutura o próprio,sistema de preços in terna - nalização prevista por Marx, na teori a leninista do imperialismo e n a pos-
cional, fazendo com que a mo eda no s países dependentes expre sse menos terio r teorização de H yme r sobre as empresas multinacionais. H avia-se
o valor da ho ra de rrabalho e mais sua função na circulação interna do superado, definitivamente, o mito das vantagens comparativas.
excedente e sua relação - a taxa cam bial - com a moeda hegemônica. A estrutura teórica do subdesenvolvim en to como dualidade é frág il.
Logo, te ntar medir p elos preços a relação desigual ent re as produções cen- Apesar dos esforços por hi storicizar, da recusa à asséptica análi se
trais e as das "periferias" não apenas não permite ent en der a ques tão como neoclássica, que é ma is de Furtado que da Cepal (pois nas análises p ro-
não faz nenhum. sent ido: Aqui, uma vez mais, o feriche do dinheiro tor - priamente cepalinas o setor "atra sado" é um dado do problema, en -
nou opaco o processo real. E vale lembrar que o cam inho aberto por Lenin quanto Furtado faz, principalmente em Form ação econômica do Brasil e
com a teoria do imperialismo for necia, pelo menos, as pistas teóricas ini- em Teoria e políti ca do desenvolvim ento econôm ico e no tratamento da
ciais para o ap rofundament o da que stão . Que a ve rsão cepalino-furtadiana "questão Nordeste'Luma teoria do "atrasado" como extensão do "m o-
não inco rporasse essas pistas é, até certo ponto , compre ensível, mas que as derno"), o problema não é resolvido teoricamente. As contradiçõ es entre
cham adas versões rnarxistas da "troca desigual" rambém não as ten ham o "atrasado" e o "moderno" não passam do nível de oposiç ões: apesar da
inco rpo rado é sim plesme nte lament ável. N este caso, a teoria do imperia- relação negariva que parece ligar os dois serores; não há realm ente relações:
lismo deu um passo atrás, tornan do-se um a versão pobre que não desven- e é aq ui, paradoxalmente, onde o dual-estruturalismo se aproxima de
dou os mecanismos reais, vol tando, mo nocordiamen te, aos chavões do po sições neoclássicas - ,não há propriamente uma teoria da acum ulação
coloni alismo e do neocolon ialismo. na constru ção teóri ca do "subdesenvolvimen to", há apenas um a teoria da
A rigor, por n ão ter incorporado a teorização de Marx sobre a formação do capital, e esta é a grande responsável pela in cap acidade de
internacionalização do capital, Fu rtado e a Cepal vão percebe r algum ente nder as articulações reais entre os dois setores e a forma dialética
rempo depo is que a in dustr ialização preco n izada foi realizada na grande dessa coexistên cia. Por ourro lado, p roblem a qu e Furtado perceberá de-
m aioria dos países latino -americanos por meio de associ ações com o po is em seu Subdesen volvim ento e estagnação na América Latina, a indus-
A navegação vent ur zss •
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rrializa ção. nas condições concretas do no sso contine nte, concentra a renda
Formação econômica do Brasil, pi êc« de r ésistance, formador de todas as
em vez de o pe rar sua mel ho r distrib uição , e não porque não crie empre- gerações de cientistas sociais desde 1956. Furtado converte-se - é forte o
termo - em demiurgo do Brasil. N ingué m , nes tes anos, penso u o Brasil a
go, mas po rque a sup osição de uma relação unívoca no modelo keynesiano
não ser nos termos furtadian os. Essa obra tem uma imensa sig nific;ção
entre os multi plicad ores da ren da e do em p tego era falsa. Aq ui também
na história brasileira . Coloca-se, seguram ente, ao lado de Casa-grande c:
a 'recusa a pensar este reo ti pada m ente vai ao ponto de abando nar co n cei-
to S de maior riqu eza teó rica, passívei s de utilização dent ro do ecletismo
senzala de G ilbe rto Freyre, RaízesdoBrasil de Sérgio Bua rq ue de H olanda
e Formação do Brasilcontemporâneo de Caio Prado j r." - o bras qu e expli-
f uriad iano.
A prod ução fur tadiana desse largo primeiro período, em q ue se fun - caram o Brasil aos brasileiros. A obra de Fu rtado, no en ta nto, vai além:
dam as bases da teoria do sub desenvolvim ento , é essencialmente otim is- não potque seja teo ricam ente superio r, senão po rque foi escrita in actione.
I .
En q uanto as anterio res exp licaram e "construíram" o país do p assad o , a
ta . Se u distanciamento polít ico ex p líc ito procura, à maneira dos
neocl ássicos, apresen tar um a teoria «econô mica" da economia, mas não de Furtado expl icava e "cons t ru ía" o Brasil do s seus dias: era c ónternpo-
à manei ra de Marx, em q ueas relaçõe s de prod ução constro ém a socia- rânea de sua própria "construção". N enhuma obra teve a importância
ideológic a de Formação econômica do Brasil em nossa recente hist6 ria
b ilidade geral; a rigo r, a política na teo ria do subdesenvolvimen to é um
epifenômeno. Se a relação centro-periferia reitera uma relação de de- social.
Teo ricam ente, Formação econômica do Brasil é um a leitura keynesiana
pe ndência, ela mesm a lan çará, sim ulta neamente, as bases de um m ercado
interno que se am pl ia e de um "po nto de estrangulam en to" da industria- da hist ória brasileira, O ecletismo cepalino também aí está p resente,
lização por escassez de divisas fo rtes, o que por sua vez reforçará, q uase mas a marca forte ~ keynesiana. Incorporando contribuições de variad~
em sen tido behaviorista, o movimento de industrializa ção , dando lugar procedência (algumas não muito explicitadas, beb idas no próprio Caio
ao que Maria da Conceição Tavares, di let a discíp ula , irá chamar de "subs- Prado j r.) , o forte do livro é a exp licação qu e apresenta d a transição da
t ituição de impo rtações". Paradoxalmente, a teo rizaçã o q ue m ais se ba- eco no m ia exportado ra de café pa ra a eco n omia ind ustrial que emerge a
seou no con hecimento empír ico das econ omias latino- americanas não partir da Segunda G uerra Mundial. Um engenhoso esquema keynesiano
chegou a alçar o vôo pata realizar a passagem do concreto ao abstrato , exp lica como, queimando o café, o governo brasileiro, sob Vargas, m an ti-
co m o que a pr ópria pesqu isa do e so bre o subdesenvolvim en to delimi- n ha os n íveis da renda intern a e, ao mantê-los, prep arava a tran sição
to u-se não s ó historicam ente como perdeu capacida de explicativa à me - para a industrialização. Esta ap arece como o resul tado convergente de dois
di da que a realid ad e afastou-se crescentemente das esperanças abertas processos: a manutenção do s níveis de renda int~rnos e a crise de divisas
pela teoria e pela prátic a - as agendas de ação - nela fundadas . fortes que, impedindo a im po rt ação de be ns m anufaturados, funciona~a
prat icamente como uma espé cie de barreira alfan degária que pro tegia os
nascentes (o u em ampliação) ramos ind ustri ais que su bst ituíam as impor-
2. O d emiurgo do Brasil tações na oferta interna. M as Furtado não explica co nvi ncentemente - e
o grave é que q uase ninguém co brou isso depois - como se dá a realização
. Já em seu primeiro livro , A economia brasileira, a ap licação da teoria
* Gilberto Freyre. Casa grande 6- senzala. Rio de Jan eiro , Record, 20 0 0. Sérgio
ce palin a ao caso do Brasil dava mo stras do qu e viria a ser. Reto m an do Buarque de H~ land a . Raizes do Brasil. 3' ed. São Paulo, Companhia das le-
basicamente os mesmos temas, com abrangê ncia e apro fundam en to histó - tras, 1997. CaIO Prado [ r. Formação d o Brasi! contemporâneo - co lôn ia. 24 1 ed.
ricos maiores, Furtado esc reverá, de poi s de um período em C ambridge , São Paulo , Brasiliense , 1996.
20 Francisco de Oliveira A n avegaç ão W'.::":::; ;'<'

do valor de uma mercadoria não vendida: o café que foi queimado. Por um 3 . Novos exe rcíc ios de demiu rgia: a questão N ordeste
lado, a funçã o de sustenta ção dos preços internacionais em violenta queda
não compensava, quer pela ma nutenção dos preços no patamar a que A trajetória intelectual de Celso Furtado, a parrir da segunda metade
haviam chegado, quer por uma mel horia desses mesmos preços, os custos dos anos 1950 , passa a confundir-se com sua trajetória doublé de adm i-
dos fatores internos que haviam sido con sumidos para pro duzir o café. nistrador público e político não-partidário . Sua temática vai voltar-se
Por outro, o papel do Estado, retendo uma porcentagerri do preço exter- para a que stão regio nal. Os estudos que Furtado con duzia à époc a, como
no para manter os níveis internos da rend a, é um a espécie de cachorro Diretor Regional do Ban co Nacional de D esenvolvim ento Econôm i-
mordendo o próprio rabo . A elegância do modelo, em 'q ue parece existir co (BND E) e economista do Grupo de Trabalho pata o Desenvolvi-
dialética, pois forças inconscientes de seu papel, ao lutarem por seus interes- mento do Nordeste (GT DN) , chegam a conclusões dramáticas no mesmo
ses stricto sensu, estruturam um processo não previsto} capturou tod os e mo me nto em que uma nova seca} a de 1958, colocava outra vez o N or-
até hoje não se conseguiu produzir nada que o substituísse teoricamente. "deste nas manchet es dos jornais. Kubitschek aproveita elança a "Opera ção \
A imporrância ideológica de Furrado e do seu keynesianismo que expli- Nordeste" no conjunto do seu Plano de Metas, criando o Conselho do
cava a transição será, nos anos 1950, e, por que não o dizer, aré hoje, o pano Dese nvolvimento do Nordeste (Codeno), já sob a batu ta de Furtado.
de fundo do "amor ao Estado" da burocracia econômica nacional. Essa "au- Em um brilhante documento '- que não po de ser creditado à sua
t~nomià' do gasto estatal, capaz de consrruir pirâmides que mantêm a renda bib liografia devido ao caráter oficial qu e ganhou -, "Um a política de
interna, formou gerações de cientistas sociàis e, principalmente) de econo- desenvolvimento para o Nordeste", Furtado resolve de form a admirável
misras cuja parricipação foi relevante na gestão da ~co nomia pelo Esrado a velha qu eixa regionalista do atraso do No rdeste em relação ao Centro-
durante todo o períod o pop ulista. A ideologia furta diana estava ancorada Sul, emol durando-a n um qu adro mais amp lo e racional izando-a: sim,
em bases incrivelmente reais, e foi aí que colheu forças para influenciar todo os nordes tinos tinham razão em suas queixas) mas eram outras as causas.
um estilo de gesrão econômica e estatal: estava ancorada de fato, embora a A causa princ ipa l, desde logo , residia na arcaica estru tura agrária, que
teorização furtadiana assim não o compreendesse, nas novas funçõ es do prod uzia sim ult aneamente exceden tes popula cionais que migravam para
Esrado no capitalismo dos oligopólios. Porque mesmo as torpes figuras dos o Centro-Sul e uma econ omia extrem am ente vulnerável no Polígono
"enrreguisras" clássicos, toda a laia que vai de Roberto Campos, passando das Secas, A economia do Nordeste era viável: sua contribuição ao orça-
por Lucas Lopes, Go uveia de Bulhões, até Delfim Netto, embora não co- mento de divisas, seu perma nente saldo de divisas q ue passaram a ser
mungassem ideolo gicam ente do love the government, eram ta m bém ut ilizad as pelo Centro-Sul para pagar as import ações o demo nstravam .
esratizanres, obedecendo à lógica do capiralismo oligopolisra, Mas estes últi- Reforçar a viabilidade da economia do Nordeste significava sim ultanea-
mos sempre pensam que a intervenção do Estado é passageira, apenas'prepa- mente atacar a estrutura agrária e promover um a vigorosa política de
ratória"da assunção, pela empresa privada, dos ramos e setores que o Estado industrialização, que seguia de perto, embora sem formali zação mede-
desbrava, enq uanto Furrado e as gerações que ele formou padeciam de um a lística, a "sub stituição de im po rta ções" válida para o conj unto da econ o-
fúria amoro sa pelo Estado: o primeiro, por ter descoberto keynesianamente m ia nac ional. -
a auto nom ia do gasto estatal em rela ção às imediatas condições concretas da Sem abu sar da expressão, seria necessário voltar a dizer que, desta
dema nda e da oferta agregadas, e, muitos dos segundos, misturando essa feita , Fu rtado tra nsforma-se no dem iur go do No rdest e. E o Nordeste
confusa noção com outra mais confusa ainda, de extração marxista vulgar, por ele pensa do tem a mesma força ideológica que o "seu" Brasil: numa
da esratiza ção ante-sala do socialismo. conjuntura particularm ente crítica, em que os signos d e afastamento do
22 Francisc o de Oliveir a A na vegaçã o venr urcsa

N ordeste em relação ao Centro-Sul que se in dustrializava rapidamente pois, as co ndições para a cristalização de um antagonismo , de um res-
são, a rigor, sim ultânea e contraditoriamente} indicadores de um pro- sentimento que o tem po sim plesme nte não resolverá. São inúmeros os
cesso d~ integraç ão latente e da mo rte d a burguesia region al, a proposi- exempl os na h ist ória dos países cap ita listas de "q uestões regionais"
ção de Furta do para o Nordes te tem ,' out ra vez, o condão de agradar irresol ut as, flan cos abertos na u nidade n acional desses países: a Irlan da e
quase a gregos e tro iano s. Uma po derosa coligação de forças, que incluía a In glaterr a, o Mezzogiorno e a Itália, o O ld Sourh e os Estados Un idos.
a p rópria burguesia industrial regional, a burguesia ol igopo lista interna- Contradições enrreregi ões podem transform ar-se em contradi ções entre
cion al-associada do Ce ntro-Sul , classes médias e inrelectualidade, Igre- classes - e, ironicamente, a principal delas seria entre os operários do
ja, trabalhadores e camponeses; além das Forças Arm adas, resul ta, no Centro-Sul e os im igrant es do Nordeste, pois a im igração maciça estava
apagar d as luzes do governo Kub itschek, na criação da Superintendên cia . m a ntendo baixos os salários reais n o Centro -Sul, e m ab sol uto
de D esenvolviment o do N ordeste (Sudene), organ ism o fundado pa ra descomp asso com os ganhos de produtivid ade do tr aba lho ob serváveis
implem entar a po lítica proposta po r Furtado para a região no rd estina. na eco nomia que tem São Paulo como epicen tro .
Todas as teses cepalinas estão de volta ago ra n a ~oldura nordestina. .' Teoricamente, a contribuição de Cels o Furt ado sobre a "questão re-
H á, exp lícita, um a deterioração dos term os de intercâm bio entre o NOr- gional" não é muito relevante . A p art e a construção do que se poderia
deste e o Centro-Sul , por me io de uma ope ração triangular: o Nordes te cha mar de "m od elo de equilíbrio" do complexo algo dão-pecuária, em
exporta para o exterior, e tam b ém para o Centro-Sul, bens pri mários, que a sobrevivência dos baixos padrões de produtividade é um me can is-
enquanto importa deste as manufat uras. O C entro-Sul gasta, n a im port a- mo endógeno de articulação entre a produção de subsistên cia e a produ-
ção de bens de capital e prod utos intermediá rios para sua industrialização , ção das m ercado rias ou dos p rodutos com ercializáveis - de u m lado ,
as divisas que o Nordeste pro d uz. Uma política nacional de co~é rcio po is, os produtos do latifund iário e, de outro , o fundo de subsistência
ext erio r pen aliza o Nordeste: as políticas cam bi al e tarifária impedem- dos parceiros, meeiros, posse iros, da vasta tipologia sem icampo nesa do
no de ter relações aut ônomas com os p aíses para os quais exporta açúcar, Nordeste - , não há out ra novidade teó rica na p rodução furtadian a sobre
sisal, algodão, COUtoS e peles, óleos vegetais. Aqui, a pro posição fur tadiana se o Nord este. Di ga-se de passagem qu e a teori zação sobre o complexo
esquece, esq uecen do-se a si m esma, de q ue no caso da América Lati n aa algodão-pec uária é extre mamente im portante para desvendar o segredo
relação direta com os países centrais n ão melhora a posição de barganha. da manutenção da arcaica estrutura agrária no Nordeste e me smo em
Estamos em plena euforia da industrialização kubitsche ki ana: também o outras regiões bras ileiras. Mas Fu rt ado n ão expl ora a fundo essa consta-
Nordeste somente conseg uirá sair da situação de "periferia", vencer o sub- tação. Seu int eresse reside apen as em mos trar como esse "equilíbrio do
desenvolvime nto , se se in dustrializar. Os interesses das classes sociais sertão" é avesso e antagôni co à industrialização.
nacion'aissão resolvidos em torno da industrialização: de fora, ap en as os Mais tarde, refletindo sobre sua experiência - d ívida que aliás Celso
latifundiá tios do Nordeste, e n ão precisam ente os barões- ladrões do açú- Furtado não pagou completamente e que todos esperam um d ia ver
car, m as os do complexo algodão -pe cuá ria, os "coron éis". quitada - , ele m igra pat a um a esp écie de "sociologia da resistê ncia às
Em A operação Nordeste, livro q ue re úne as conferênci as feitaS no mudan ças", exp licando o atraso do Nordes te e as próprias lutas tr avadas
Instituto Superior di: Est udos Brasileiros (Iseb) em 19 59 , Furtado assu- em torno da criação da Sudene - de que foi o primeiro e insuperável
m e a tesponsabil idade pela s teses inscritas no programa do G TDN , e as supe rintendente - pelo enrij ecimento das velhas estruturas sociais que
radicaliza:_o Nordeste é um problema de segurança nacional, seu atraso ficaram à m argem dos processos de tra nsformação em curs o na soci eda-
relativo im plica a' descontinuidade da unidade nacional; estão dadas, de brasileira. O q ue pod e pa recer à prim eira vista um a sim ples tau to logia
'2 4 Francisco de Oliveira A na vegaçã o venturosa 25

é, na verdade, um ã forma eufemística - muito usada po r Furtado para econô m ico e um Estado bastan te articula do , já tendo , até mesmo , avan -
n ão se s~bme ter aos cânones de qual quer escola - de in terpretar a luta çado subsrancialmente no campo do planejamento eco n ô m ico '- um
entre as oligarquias agrárias e a burguesia ind ust rial internacional-asso- Estado moderno, sem dúvida. Nessas condições, nenhuma reoolu çâo i
ciada do C en t ro- Sul, necessária e sua emergência pode arriscar todo o avan ço já conseguido.
É preciso demonstrar; porém, que o equívoco de um po ssível ··.:.a..tT?i-
nho soviético" provém da própria teoria marxista, É preciso avan çar nas
4 . Reformas antes que tarde reformas "antesque tarde"; a esquerda brasileirade então é não apenas "reror-
mis ta", mas, mais que isso, pensa dent ro dos esq uemas furtad ianos. Pa: a
o lema da Inconfidência Mineira, "liberdade ainda que tarde", é uma conservá-la como aliada, mas derrotar as alternativas q ue possa pro?or,
co ntradição: quando tarda, ela não vem jamais. No período que vai de é preciso d~rrotá-Ia em seu próprio terreno. É preciso derro tá- la. derro -
1959 a 1964, Celso Furrado trabalha ativamente: sua experiência doublé tando Marx. Talvez Furtado não suspeitasse que a esquerda brasileira da
de administrador público e político enriquece extraordinariamente o' pen- época conhecia muito pouco Marx . Há erros - ?- grosseiros na cr ítica a
sador - e somente muito depois de 1964 é q ue Furrado pode ser conside- Marx e um viés pos itivista em esperar que os sistemas fundados no "socia-
rado um acadêmico, no sentido de que sua? proposições não estão ligadas lismo da acumulação" - o sistema social soviético e dos países do "socialis-
à ação -, e este devolve àquele formulações de políticas e estratégias de trans- mo real" - pudessem ser confrontados com a visão marxista - Isto é, de
[armaç ão. A experiência e um agudo senso de observação ensinaram ao Marx _ das sociedades para além do capitalismo. Em outras palavras, Fur-
antigo cepalino que "há dores no parto": a sociedade bras ileira move-se tado não fez aos países do "socialismo real" a crítica de Ma~ ao "Programa
com extraordinária rapidez, e esse processo de rupturas, reformas, implan- de Gótha" . O empreendimento 'revela-se intelectualmente infeliz. E na-
tação de novas estruturas é, n um a palavra, um processo agudíssi!!,o na quilo que poderia ser um avanço em relação a Marx; no explorar as formas
luta de classes em todas as direções. Furrado produz Desenvolvimento e do capitalismo oligopolista, Furtado não avança um milímetro.
subdesenvolvimento, A pré-revolução brasileira e, como ministro do plane- A pré-revolução brasileira é um dos mais brilhantes ensaios de Furta-
jamento, o Plano Trienal do governo João Goularr. Esta é a tri logia de sua do, injustamente esquecido. Aqui ele abandona a postura do economis-
platafo rma de reformas: antes que tarde ... demais-. ta para alcançar as dimensões de um pensador político, numa linha que
DesenvoÍvimento e subdesenvolvimento é a sistematização da teoria do talvez n unca tenha retomado com o mesmo vigor. A pré-revolução é uma
subdesenvolvimento, que reaparecerá depois em Teoria e política do de- proposta 'de reformas de base. Contemporânea dos mesmos movirnen -
senvolvimento econômico, e é também um prelúdio antirnarxista da pla- ·tos que reclamavam a modernização das estruturas econômicas, sociais e
taforma de reformas. A Furtado parece que, no espectro de possibilida- políricas da nação,' difere na questão central posta,. e essadiftrença é essen-
des políticas que a agudização da luta de classes coloca, uma é certamen- cial: para Furtado, as reformas são necessárias para manter uma sociedade
te o caminho "soviético": Furtado trata de demonstrar que, em relação aberta e pluralista, que sobreviva às tensões de sua própria expansão/
ao nível alcançado pelo processo econômico, social e político brasileiro, transformação. O rema da liberdade é colocado de forma desassombrada,
qualquer revolução significará um retrocesso - isto ficará mais claro em A sem falsos pudores . Enquanto para a própria-esquerda da época impulsio-
pré-revolução brasileira. A sociedade brasileira caracteriza-se, já naquele nar as reformas de base é apenas uma estratégia de ampliação e consolidação
momento, por uma estrutura industrial diversificada e relativamente do capitalismo, muito ao figurino das "etapas" e seqüências de modos de
avançad a, uma estrutura social enriquecida pelo próprio crescimento produção do stalinismo, para F~rtado. as tensões da expansão/trans-
/
26 Franci sco de Oliveira A navegação ventu rosa

form ação, entregues à sua automaticidade, tendem ao fechamento da o Plano Trienal do Gove rno Goul~rt, qu e serviu de bandeira de luta
sociedade f, segundo a sua visão ) ao "modelo soviéti co". cont ra o parlam entarismo vigente em 196 1- 1962, após a renún cia-gol-
Suas proposras levavam, evidentemente, ' ao aperfeiçoamento do ca- pe de Jân io Quadros, é o Te Deum do presidencialismo pop ulista, uma
pitalism o, e seu ataque frontal ao '''espectro soviético" mostra aonde ele espécie de "visita da saúde" ao moribundo, e o requiem do ministro do
quer ir ou onde quer se manter. A atualidade desse ensaio persiste pela Planejamento. É a cristalização ptogramática dos conteúdos de Desen-
colocação da questão da liberdade, e nesse sentido o livro é até profético. volvimento e subdesenvolvimento e de A pré-revolução brasileira. É 'o tarde
Furtado e a esquerda da época se equivocam por não terem captado os das "reformas antes que tarde".
conteúdos int rinsecamente autorirários do capitalismo oligopolisra e,
mais concretamente, as form as que assume em soc iedades co mo a brasi-
leira. Equivo cam-se por não terem um a teoria do capital ismo contempo- 5. O desenvolvimentism o e seu espel ho: o estagnacionismo .
rân eo . N outr a linha teórica , analisando as tendênc ias à interna-
cionalização da economia brasileira, Fernando Henrique Ca rdoso, em o golpe militar de 1964 desfaz ilusões; se fossem apenas ilusões, ainda
trabalho que só seria pub licado nos albores de 1964 , Empresário indus- que lamentáveis... As tensões quase insuportáveis previstas por Furtado
trial e desenv olvimento econômico no Brasil *, aponta certeiramente para deslocam para a direita, e não para a esquerda, os regimes políticos que ,
os processos de associação da burguesia nacion al com o capital estran- presidem a expansão do capitalismo oligopolista. Furtado agora é um acadê-
geiro , p a ra a ausê~cia de um projeto nacional dessa classe e para a sua mico: seu trabalho não está voltado para propostas de ação, mas para a
discreta preferência - o "discreto charme da burguesia" bu üueliano - interpretação. Co mo os grandes economistas, sua tentativa de buscar as .ra-
po r um Estado forre ou sua nada' discrera indisposição para alianças zões estruturais que determinam o fechamento da expansão capitalista - na
com o proletariado. Esrava desfeito o ' ''pacto populista" que Furtado verdade, uma crise cíclica e não um "fechamento" da expansão - o cond uz
inte ntava reformar e a esquerda míop e, sem óculos, tentava etern izar. ao estagnacionismo , à estagnação como componente int rínseco, ~ão um
Ca rdoso acerta quanto às tendên cias, e sua competên cia revela-se pre- mom emo, mas uma determin ação para a qual tende sempre o sistema eco-
cisamente no uso do método marx ista. Enquanto Furt ado traba lha nômico . Estamos de volta a Smirh, Ricardo e, sobretudo, a Stuart Mil!.
co rretam ente no tracejar as te ndê ncias , sem entretan to concretizar os Sua produção desse pe;íodo é sintetizada em Subdesenvolvimento e
atores e age ntes das tran sfo rm a ções, o que é sua fraqueza teó rica, a estagnação na América Latina. Aqu i Furt ado está em seu apogeu de "eco-
esquerda da época tr abalha em termos de um teleologismo sem histó- nomista", mais rigoroso, mais establishme nt ecui êmico. A base do modelo
ria concreta, e Card oso estud a as tend ências tom ando os atore s e agentes é, de novo, o mu ltip licador keyn esiano do investimento e do emp rego,
conc retos das tr ansformações. Nis to reside a diferença. Longe do ."es- só que dessa vez as conclusões que ele tira são opostas: há um a ten dência
pecm:, soviét ico" e lon ge da "estatiza ção ante-sala do socialismo", o economizadora de mão -de-obra no pro cesso global de crescimento eco-
movimento militar de 1964 vai mos trar qual é a fó rma do regime po- nômic o, e econ om ias como a brasileira - que não geram seu próprio
lítico: vai di reto ao au tor itarismo e, nos períodos mais negros, à dita- progresso técn ico - ao importarem tecnolo gia estão impo rtando "fun -
dura sem disfarces. ções de produção" - diria um neoclássico - economizadoras de mão-de-
obra. Os clássicos problemas levantados desde a Cepal ressurgem , dessa
Fernando H enrique Cardoso. Empresário ind ustrial e desenvolv imento econ ôm ico vez com sinais contrários: a tendência crônica ao déficit do balanço de pa-
no Brasil. 2' ed. São Paulo , Direi, 19'72. gamento se instaura. ademai s do' efeito da deteriorado dos term os de
28 Francisco de Ol iveira A navegação ve n t u ro 5 ~

intercâ mbio, pela pre ssão da demanda de importações para a industria- e a teorização sobre a crise típica das economias subdesenvolvidas já pre-
lização sobre uma receita cambial inel ástica, A importação de bens de sente em Subdesenvolvimento e estagn ação na América Latina. Há uma bri-
cap ital com tecnologia tipo capital-intensiue, determ ina da não apenas lhan'te exposição das diferenças históricas entre a formação das economias
por ser a tecnologia disponível no mer cado inte rnacional, mas por ela centrais e a das economias subdesenvolvidas. O esquema diferenciador
aumentar acelerada mente a prod utividade do trabalho e o excedente , gira em torno da transformação tecnológica, originária e autônoma nos
instala uma crescen te desp roporção' entre o aumento do produto e o países centrais e imposta às econo mias subdesenvolvidas. Essa diferença faz
aumento do emprego. Produ zem-s e simultaneamente crescim ento e con - com que para as economias subdesenvolvidas se exporte m apenas as rela-
centração da renda . O mercado estreit a com a expansão, em vez de - ções técnicas stricto sensu, mas não as relações sociais} que são sua "alma}'.
com o perdão d a redundância - 'expan d ir, O s ciclos sucessivos e O efeito sobre as economias subdesenvolvidas é o de um m ultiplicador
reforçado res desse mecanismo levam à estagnação: o progresso técni co é o ' keynesiano funcion ando em senti do inverso (para economizar mão -de-
elemento central da tendência à esragnação. Estamos mai s próxim os de obra) e o de um "consumismo" imp osto econômica e culturalmente (o
David Ricardo e de Stuart Mil!. qual lhes dep rime o coeficiente de poupança, por um lado, e obri ga a
O co r ~ l á ri o de sse "fech am en to" do mercado é um a crise de sofisticar a tecnologia, por outro). t. o círculo vicioso do subdesenvolvi-
subco nsurno e de superacumulação que - pelos efeitos depressivos sobre mento, sem possibilidade de sua "negação".
a taxa de excedente produzido pela ocio sidad e do capital, por uma rela- O planejamento nas economias subdesenvo lvidas , na ausência de
ção capital - trabalho em alta - desemboca n uma crise de subacum ulação. mecani sm os de mercado q ue funcio nem como nas econo mias centrais
O modelo elabo rado por Furtado talvez tenha sido o mais rigoro so que capitalistas, tem a fun ção de téc nica de alocação de recursos. O plane-
ele pro duziu. U ma vez m ais, a recusa em utilizar os con ceitos de "explo- jame nto é uma técnica neu tra: esta é uma das teorizações mai s ideo ló-
ração" e de "mais-valia" revela o flanco teórico da construção fu rtadiana: gicas d o esq uem a cepalino-fur tadiano, a qual projetou negativa in -
não é que a utilização desses conceitos supra o trabalho teórico-prático, fluência sobre gerações de cien tist as sociais . A ausênc ia de m ercado
mas nas mãos de Furtado certa mente sua utilização poderia ter sido bem nas econo m ias subdesenvolvidas é insufi cien tem en te expli cada, assim
rica. Uma crise dramática é confund ida em suas causas e Furtado não como a teo rização sobre o próprio mercado nas ec onomias cen trais é
' percebe sua "ut ilidade", que é a de acelerar o processo de concentração de reduzid a às funções sim bó licas de orientação pa ra a alocação de recur-
cap ital na econ omi a brasileira. Não percebe , a rigor, qu e se estava fe- sos. O p laneja mento faz, portanto, as vezes do mercado: aqu i a
chandopara semp re a breve, etapa do capitalismo concorrencial no Brasil, reo rização furtadiana não aproveita seq uer sua raiz keyne siana, poi s no
cujas leis diferem das do'capitalismo oligopolísta e cujas formas políticas capitalismo oligopolisra, rigorosame nte, não há mercado no sentido •
so mente por mi lagre não seriam distintas. Estamos em pleno ano de em q ue seria válido falar no co ntexto e sob as leis de rep rodução do
1966, a ape nas um ano ou pouco mais do começo ?e um febril período capiralismo concorren cia!.
de expansão, conseguido à custa, entre outras causas, do arrocho salarial- . A obra furradi ana, fiel às suas raízes cepalinas, continu a a expor seu
e a previsão de Furtado era a de estancam ento . "calcanhar-de-aquiles": o tratamen to da questão monetária simplesm ente
Teoria epo lítica do desenvolvimento econômico é a obra de sistema tização inexiste, o u, melhor dizen do, os preços são reduzidos a uma mera fun-
mais acabada na bibliografia furtadian a, E~;ão aqui as idéias já expostas ção simbólica, e o dinheiro e a moeda são apenas equ ivalentes da produção
em Formação econômica do B rasil, o aproveitamento do que restou de De- físic a. t. evide nte o' empobrecimento da teo ria m onetária na s mãos
senvolvim ento e subdesenvolvi;"ento, principalmente do capítulo sobre Marx, dos estrut uralistas, com o Furtado. Os preços não são valores, mas ape nas
30 Francisco de Oliv eira A navegação venrur J ; '<'

uma tradução das quantidades físicas da produção. Essa absoluta in ca- per íodo ma is recente, quando ele começa a tra nsitar da econ omia para l
pacidade de lid ar com as questõ es mo netárias já havia provado sua ine- filosofia , fazendo, ao invers o, o caminho de Marx. Um projeto par,z o
ficácia teórica e prática em toda a h istória p ós-ce pa lina da infl ação nos Brasil é a utopia do consurnis mo po pu lar, po is não apr esenta um a exp li-
países da América Latina, quando a frágil teo ria da inflação estru tural cação adequada de como, sem transferência do poder ou mudanças fun -
reduzia o fenômeno inflacionário a uma desestruturação entre oferta e damentais na sua estrutura, sem mudanças na estrutura de classes - que
demanda físicas, longe de comp reender as com plexas determinações do só é entendida como a pirâmid e de distrib uição da renda -, sem m udan-
que é o real n o sistema ,capitalista - onde o d in he iro desem pen h a nã o ças na estrutura de apro priação e propriedade do excedente econômico, '
apen as uma fun ção cruc ial, mas é a pró pr ia síntese de um sistema que se para n ão falar do capi tal, po de oco rrer uma industrialização voltada para
estrutura sobre a produção de valor. os interesses po p ulares,.para o consumo popular. A teo rização de maior
fôlego de Furtado h avia negado preci samente a possibilidade de existên-
cia entre nós de um capitalism o capa z de alargar fun da mentalmente' a
6 . R efo rm as sem refo rmadores produção para as grandes massas populares, em razão do mecani sm o
que instaura uma relação desfavorável entre crescimento do p rod uto e
No Brasil, o regime pós-I964 e seu "êxito" eco nôm ico (conseguido crescimento do emprego .
à custa da repressão polí tica e do arrocho salarial), red efinindo as fu n- A Análise do "modelo brasileiro" pa rte da concentração da renda, que é
ções do Estado na sustentação e na produção de valor, h aviam p osto por . explicada por mei o dos mesmos meca nismos que susten tavam , em Sub-
terra to das as teorizações estagnacionistas, incl usive e fundamental- desenvolvimento e estagnação naAméricaLatina, a teorização sobre o "fe-
mente a cepal ina e a fu rt ad iana, versões de um mesmo n úcleo central. chamento" do mercado; dessa feita, a concentração da renda expli cá a
Em vez do "fech amen to" do mer cado , uma inu sitada expa nsão deste ; expa nsão do mercado de bens duráveis de cons umo e.os efeitos reiterativos
em vez d a corre ção dos im passes do cap italismo su bdesenvolvido pel as entre essa expansão e a própria conce ntração da renda. O fet ich ism o do
"reformas de base", uma expans ão sustentada precisam en te em anti - consumo, já assin alado , lastreia a proposição teórica: a impo rtaç ão de
reformas. Era preciso "explicar" teo ricam ente aquele "sucesso". Furt a- "estilos, de cons umo , intern acionalizados pelos modernos me ios de co-
do também não resiste a essa seduçã o e tenta 'man ter-se ainda no terre- municação via mass media, induz à industrialização interna dos be ns
no do "economista": pro duz Umprojetopara o Brasile Análise do "modelo duráveis de consumo e, em última análise, à concentração da renda.
brasileiro". . . Aqui, ao querer ser "economista", Furtado m igra par~, a rigor, colo-
Um projeto para o Brasil, pro duzido no calor das esperança s h avidas car COm o d ad a a forma específica da expansão capi talista no contexto
com o "veran ico" C osta e Silva, pré-t~ rro r do AI-s, é a pro posição de de um a economi a su bdesenvolvida ; sua teo ria da internacion alização
um conjunto de reformas, chamadas "medidas", que gravitam em to rno dos estilos de cons umo é claram ente insu ficien te para tanto. Dessa
d a mudança do perfil da dem an da global como motor de um a nova form a, sua proposição é política no ar, pois a transiçãopolítica para um
exp ansão in dustrial e mecanismo COrreto r do s "desvios" do deseÍlVolvi- no vo est ilo de expansão industrial não tem expl icação econômica: a
mento anterior, os q uais hav iam conduzido à paralisia recessiva dos anos eco nomia política de Furtad o resvala.ide man eira im percep tível, tal-
1963-1967 . A interação entre essa expa nsão in dustrial e o consumo po- vez co rno nunca em sua pr odução teórica, para aproximar -se, parado-
pu lai é, elamesma, a melh oria d a distribuição da ren da. Fu rtado anteci- . xalment e, dos neocl ássicos. I .

pa o fetichis mo do con sumo, que vai dom inar sua ob~a teórica até o
,

32 Franc isco de Oliveira


A navegação venturosa 33

7 . Da economia para a filosofia "pauperização absoluta", nem a revolução nos países capitalistas mais
im po rta ntes acon tece u nem o proletariado n esses países foi a classe
A mais recente fase da produção intelectual de C elso Furtado pode revolucio~ária. M uito ao co ntrário , o pro letariad o alcançou n íveis de
' ser chamada de "filosófica". Como para todos os gran des economistas, o vida bastante sim ilares aos das classes não-proletárias - as classes médias,
campo estritamente técnico-teórico da ciên cia econô mi ca revelou-se es- po r exemplo - e ch egou a ser part e das estruturas de pode r nos p aíses
tr eito para um int electu al do seu porte, co m sua cara cterística ab ert ura e europeus mais desenvolvid os.
inegável criatividade. Seguindo' uma tradição que entre os economistas Em Criatividdde e dependência na civilização industrial, Furtado dis-
vem , pelo me nos, desde Sm ith , um "filósofo m or al", Furtado empreen - cut~ a origem da crença na razão e a ciência como técnica da razão ,

de ago ra uma ampla incursão pelo terreno da discussão das próprias apontando para a influên cia que o neoplatonism o de G alileu reve n a
prem issas científicas, do arcabouço teó rico da economia e de sua capac i- est ruturação de um m o do de pensar que privilegiou a formalização e a
dade para dar resposta aos grandes pro blemas contemporâne os. Produz qua ntidade co m o expressões da realid ade; a ciência seria apenas a lei-
o Prefiício à nova economiapolítica; depois, Criatividadeedependência na tura dessa razão interior do m undo das co isas; a ciência é a rnatern ãtica
civilização industrial; e, já agora em 1980, Pequena introdução ao desen- porque a realidade é matemática. Sua tarefa é, pois, semelha nte à próp ria
volvimento - enfoque interdisciplinar. façan ha de Galileu: basta ap erfeiçoar os instru m entos da percepção, os
O Prefácio revela muito da pre tensão furtad iana: o arcabouço teó rico pesos e 'as medidas, o telescópio . O ob jeto está lá, mudo , sere no e
da ciência econômica deve'ser radicalmente repensado , pois os esquemas imperturbável, à espera de sua revelação ao descobridor, que somente o
que remo ntam a Smith, permanentes até nossos dias, são insuficientes para descobrirá se for capaz de const ru ir teori as e in strumentos iguais à nat u-
descrever e interpretar o mundo de hoje. A realidade consolidada das reza do objeto: matematizáveis, quan tificáveis.
empresas multinacionais, a convergência antes qu e antagonismo entre as Essa razão-ciên cia ocidental, ao privilegiar a quantidade , acoplou-se,
du as grandes potências, Estados Unidos e União Soviética, que simbolizam em relação de causa-efeito-causa, a um sistem a de produção que tin ha po r
os siste mas capitalista e socialista, derrotou ~ todos, marxistas e não-marxis- eixo a acumulação, fundada em extração 'de valor. A sociabilidade do m odo
tas de to dos os matizes. Furtado em preende uma crítica histórica dos funda- de produção capitalista é uma sociabilidade do valor qu antificável. Nesse
mentos da economia, mostrando a tem poralidade da construção conce itual processo, ~anto O sistem a capitalista qu anto sua razão-ciência aba nd on a-
e, po rtanto, seus limites e sua inadequação para explicar um mundo radical- ram , desvalorizaram o outro lado: o lado da qualidade, som ente recuperá-
mente tra nsformado . A crítica à economia neocl ássica é particularmente vel pelas ru pturas que o não-qu antificável im põe a essa sociabilidade: pela
interessant e, pois desven da como um artifíc io red ucionista, que em algu m arte, qu e recupera a criativida de, in fensa à quantidade: pelos moviment os
momento da história foi pert inent e, foi elevado à categor ia de abstra ção não-políti cos que postul am o não -pod er sobre as estruturas fun dad as no
universal, sem fro nte iras de tempo e espaço. Já na crítica ao marxismo, valo r - o movimento ecol ógico, o movimento das m ulheres.
tarefa teór ica imprescind ível até para o pró prio marxis mo, Furtado deixa-se Vale a pen a ressaltar, de passagem , que a própria noção de ciên cia
levar por um velho preconceito: M arx é reduzido às proporções de um "dis- como técnica da razão , que Furtado combate, há muito foi superad a,
cípu lo de Sismondi" (Simonde de Sismondi), o que é evidentemente um No terreno das ciências da natureza e da própria matem ática, a ciên cia
a
despropósito. Furtado não aprove ita ocasião, por exem plo, de uma crítica não é mais a "leit ura" de um objeto dado: a interação suj eito-objeto é
à teoria da formação da taxa de lucro, para deixar-se levar pelo camin ho da posta claramente já na noção einsrein iana de espaço-tem po, e n a mate-
contestação fácil de qu e, ao contrário da previsão marxista, não houve a mática o estu do do s conju ntos e da prob abilidad e recu pe ram a q ualid a-
34 Francisco de Oliv~ ira A navegação ve n ru t csa

- de, reiteram a individuação com o mediadora da pr ópri a quantidade. A me nte pelos seguidores do s pa rtidos com unistas - , mas levaram tam -
lingüística e a sem iologia, ao procederem à desestruturaç ão do discurso bém ao viés quase po sit ivista de que todo conhecim ento é orientado
e à in teração do significante e do sign ificado, exploram exatamente a para solucionar algu m a questão . A obra furradiana é uma o bra para a
individuação no ·contexto, como qualida de di feren ciadora. ação . U m certo ziguezague é determinado por essa obsessão de produzir
Por outro lad o, à pa rte o m ateri alismo vulgar t ravestido de marxismo conhe cimento que se transform e em ação.
n a longa letargia stalini sta , é pos sível defender para o m arxism o uma A originalidade da ob ra de Furt ado t;asce dessa con tradição . Como
proposta de ciência com o não-leitu ra da natureza: a dial ética da essên cia qualq uer produ ção científica , ela é socialmente determ inada, e essa dete r-
e da aparência, a qu estão do fet iche, o conceito de-valor, central no minação é perceptível. M as dizer que ela é soc ialm ente determ in ad a n ão
marxism o, não apenas se afastam, senão que negam a transparência!da é dizer t udo: to das as suas contemporâneas também o foram , n o ent an-
realidade - esta não é qu an tificável , ne m tem um a m edida, um pe so, to poucas chega ram ao nível da ob ra furtadiana e nenhuma teve a sua
um metro, im u"táveis e alheios à relação sujeito-objeto. I ronicame nte, im portância ideológico-p ráti ca. A obriga to riedade de entrar em contato
essa impossibilidade de med ir o valor - modernidade de Marx, at ualidade com a realidade de outros países da América Lati na abriu as p o rtas para
de M arx, antecipação de M arx - . foi sempre posta pelos seus críticos, a percepção de que havia algo mai s além do s chavões do "colonialisrno"
Furtado incluído entre eles nas pegadas de Jo an Robinson, com o a prova e das "vantagens comparativas" da divisão internacional do tr abalho. O
da n ão-cien tificidade do m éto do marxista , e o conc eito d e valor jogado conceito de subdesenvolvimento é isso: se bem o termo tenha sido usa-
ao limbo de uma metafísica. in inteligível. do antes, e de fato seu aparecimento coincide com a p resença na cena
. internacional d e novos países, criados pela liquidação do colonialismo
. como seqüela da Segu n da Guerra Mundial - a dete rminação .social da
8. A eco n om ia política de Celso Furtado produção intelect ua l-, a produção cepalino-furtadiana é que vai erigi-
lo em algo mais que um n eologism o da nova linguagem d iplomática "à'
Furtado é, simultân ea e contradito riam ente, o menos clicherizado Nações Unidas". O conhecimento das economias e sociedades latino-
dos intel ectuais bras ileiros de seu tem po e o m ais ideológico de todos. J á am ericanas re~elou-se vital para a produção desse conceito: tratava-se de
se anotou 'suat'rebeldia" aos padrões impostos tanto pelo pensamento paíse s secularmente indep endentes do ponto de vista po líti co, 'de al-
m arxista , nã o muito produtivo na América Latina antes do s anos 1970 , gu ns p aíses que havia m alcançado alta participação na divisão internacio-
quanto pela ortodoxia neoclássica em estado falimentar. E, entretanto, nal do trabalho do per íodo de ouro do imperialismo - tan to a Argentina na
se assinala sua produção como sen do ideológica. Talvez tenha contri- produção e no comércio de trigo e carne quanto O Brasil na produção e
buído muito para essa "ideologização" do pensamento furtadiano o ter no comércio de café - e que , portanto, co ntavam com enormes quanti-
tr abalhado na C epal, cuja função pr incipal era a de estu da r as economi- dades de excedente econômi co rein vertfvel. N o entanto, permaneciam
as lat ino-american as e recomendar prá ticas de planejam ento e políticas numa relação de subord inação dentro de uma divisão internacional do
de desenvolvimento. Esse contato com a reali dade multiforme e ao me s- trabalho cap italista já diferente . Forço so é dizer que os esquemas teóri -
mo tem po homogênea da Amé rica Lat ina , por um lado, e, por outro , a cos do colonialisrno não exp licam essa realid ade. Por outro lado, a histó-
necessid ade de recom endar políticas produziram a obrigação de conhe- ria d a ascensão ao rankingdos desenvolvidos via alta especialização com o
ce r, uma imensa vantagem sob re u m a teorização que já conhecia produtores de bens p rim ários na pretérita divisão internacional do tra-
ap riorisricam ente a verdade - a marxista vul gar; produzida principa l- balh o, façanha alcançada por Austrália e Nova Zelândia e nunca rep eti-
36 Franc isco de Oliveira A navegação ventur osa 3-

da depois, desme ntia tam bém a teor izaç ão sobre a vantagem das "vanta- procurando escapar das lim itações e da rigidez pr oduzidas pela ausência
gens compar ativas'". de teorização original sobre as economias e sociedades latino-americanas,
O novo da pro dução furtadiana , princ ipalmente de sua fase "cepalina", e especialm ente sobre a br asileira, a obra de Fur tado transforma-se ela'
é essa síntese : rigorosamente, a prod u ção intelectual de Celso Furtado é mesma n uma ideologia; se esse é um critério pelo qual se pod e medir o
a pro dução do conceito de subdesenvolvimento. Como síntese, seus ele- alcance de sua influência, é também um critério pelo qu al se pode ajuizar
me n tos são ecléticos, vindos p rinc ipalme nte da fusão de uma visão his- a tem poralidade de sua obra. Durante algumas década s, pelo menos no s
tórica - imposta mesmo pelo fato de que as economias e soci eda des últimos vinte e cinco anos , os economistas brasileiros podiam ser divid idos
latino-ame ricanas nã o haviam nascido ontem - com os elementos teóri- "entre "furtadianos " e "an tifurtadianos", e essa influência, já se assin alo u,
co-instru ment ais keynesian os. Esse é seu n úcleo p rincip al. Nesse senti- extrapolo u e atingiu ou tras áreas das ciênc ias sociais. Essa transformação
do , o uso dos conceitos te óricos pr inc ipa is é redefi n ido no interio r da em ideologia terminou por infecun dar as p róprias gerações por ela in.
cons truçã o funadiana. Um a leitura escolástica e exegética da ob ra de fluenciadas: a ob ra de Fur tado é uma referência obrigatória para todos
Furta do é não ape nas míop e, mas também , e principalmente, perde o que estudam o subdesenvolvimento, a América Latina e o Brasil mas ,
sentido de síntese teórica do conceito de sub desenvolvime nto. no período em que suas teses para a ação já ru íam pela dem onstração
Por outro lado, o conhecimento como forma de supon ar, in formar a contrária - e esse é um dos fon es handicaps de qualquer. ideologia - ,
ação , como planejamento, é tam bém determinado pela n ecessid ade de tanto a nova situação econômica, social e política do Brasil n ão podia
apontar políticas, prime iro par a o conj unto dos países da Am érica Lati- , ser entendida à luz da teorização funadiana quanto, o q ue é mais grave,
na e depo is para o Brasil. Contraditoriament~, o conhecim~nto como elas não de ram lug ar a nenhuma pesquisa q ue pudesse tentar conhecer a
planeja me nto é altamente lim ita tivo na teorização funadia na, aparecen- n ova situação. A obra de F~nado corre o risco de ser apenas citada, o que
.do como uma n ecessidade ditada pela obrigatoriedadede acelerar o cres- é, sem dúvida, um lamentável resultado do no sso m odismo cultural.
cimento - em ausência ou não se'podendo esperar pelo nascimento epela Como se a "questão nacional", que no fun do ' é a questão pos ta pelo
consolidação dasformes de mercado - e nu nca como um sina l dos p ró- conceito de subdesenvolvimento, já n ão tivesse ne nhuma relevância nem
prios ptoces sos de concentração e centralização do capi tal. O planeja- pertin ência , para citar apenas a pri ncipal.
mento é racional na teorização furtadiana, é uma questão de ade q uação Estas no tas introd utórias à leitura do que de mai s exp ressivo co n-
entre fin; e meios. E o conhecim ento como planej amento será o respon- té m a ob ra de C elso Furtado, seleção certamente in flue nc iada pelas
sável pela sua enorme infl uência, pela demiurgia fuccadi an a. Sur gido em minhas própr ias p referên cias, não se pa recem com balo fas laudações
condições de gestação de uma nova divisão internacional do trabalho usu ais ne sse tipo de apresentação. Elas talve z pareçam mais críticas do
capitalista, em q ue as antigas cont radi ções entre imperialism o e in dus- que deveriam ser. A ob ra de Fur tado é, ela mesma, uma recu sa ao
triali zação das pe riferias estava m se trans formando em seu contrário, o "jeiti n ho" brasileiro ; a críti ca de sua ob ra ta m bém deve recusar essa
pen samento fuccadiano logr ou um raríssimo acoplamento n a história "ação entre amigos" em qu e se' de senvolve boa pane da prod ução inte-
da produç ão intelectual: entre esta e o mo vime nto de transformação da s lectual n acio n al. De mais a mais , não se co nhe ce nenh um o ut ro autor
estruturas de produ ção. Esta é a sua força e a explicação de seu inusitado contemporân eo cuja influênci a no Brasil ,tenha alcan çado os ní veis
sucesso até hoje. que a obra de Furtado alcan çou.
Essa produção para a ação é a economia política de Cels o Furtado e Sobre a pessoa Celso Fur rado , sua autobiografia intelectual, que abre
também sua m ais s éria limitação. Tendo começad o seu roteiro teórico a presente antologia, fala eloqüentem ente:
38 Francisco de Olivei ra

Personalizando, por mi nha vez, estas notas introdutórias, devo dizer


que aprendi com C elso Furtado não ape nas tudo aq uilo que esta int ro-
dução assinala, mas sobretudo u ma lição de di gnidad e, austerid ade no
trato da coisa pública, da res publica, inco rruptível decência polí tica, que
é o pri vilégio de quem pôde privar de sua lideran ça e de sua am izade .
. ,
CELSO FURTADO E O PENSAMENTO
ECO NÓMICO BRASILEIRO*

C o meço invertendo a tr adicional form a de exposição em qu e se


aborda a obra intelectual de um auto r, neste caso Celso Furt;do, par a
me referir in icialmente à pessoa, uma rara figura de intelectual e ho-
mem de ação. Essas duas qualidade s poucas vezes vêm juntas, e no
Brasil infelizmente essa coincidência é ainda mais escassa . Alguns n o-
táveis estruturadores do pensam ento social brasileiro ou não exp eri-
m entaram pôr erruaç ão sua doutrina ou não tiveram essa chance; de
outro lado , a maioria do s h omens públicos bra sileiros não tem do u tri-
n a _ são apenas político s profissionais, un s mais florentinos, ourros
mai s malufado" quase todos o avesso do avesso: pensam-se heróis, e
são anti-heróis; como o person agem M acuna írna, têm em comum ape-
nas a falra de caráter.
No caso de Celso Fu rtado essa referência pessoal não é nenhuma
louvação , aliás desne cessária,.mas serve para dar o gan cho que dá senti-

• Capítulo elaborado para a obra -Inteligência brasileira. o rganizada por Reginaldo


Mo raes. Ricardo Antunes e Vera B. Perranre. São Paulo, Brasiliense, 1986 .
econô mic o brasileir o 4j
Celso Furtado e o pensame nto
40 Franc isco de Ol iveira
,
de Celso Fur tado? Ele não pod e
na Co mo nasce a pro duç ão intelectual
a dou trin a e a ação que é específica um dos ma is brilhantes mem bros
no
do a sua obr a. É essa ligação entr e ser descolado da Cep al, da qual foi
ou o fun dad or da mo der na eco no- que ina ugu ra um a refl ex~ o sob as re
ob ra de Cel so Furt ado , e qu e o torn o começo dos anos 1950 , e é a Cepal
ent o volt ado para a ação, o que nã mar "su bdesenvolvid as'" , que é) sem
mia pol ítica bras ileira. É um pen sam - eco nomias que começaram a se cha
pen samento mais abstrato, não preo ico original dos latino -americanos
à
qu o< dizer que não tem os méritos do a. ufa nismo brasileiro, um apo rte teór
nsfo rme m em regras de con duta par soc iais em escala mu ndial. Furta-
cupado que suas p rop osições se tra é hist ó ria e ao pen sam ento das ciências
nom ia política de Celso Fur tado à forma mais rad ical, no sen tido
de
a soc iedade; tam bém os tem . A eco . do foi que m levou essa con cep ção la
sob retu do isso, uma pro pos ta para
a ação. mes mo , den tro desse elenco da esco
es dele ' não há nen hum gra nde
a explicá -la e de apr ofu ndá-la. Ele é l
• Ser ia desnecessário dize r q ue ant ort ante deles. É discípu lo de Raú
cepalina, seg ura me nte o 'ai ais imp
I nea men te, sim bior icar nen te, um a ntino fun dad or da "esca lá ' Cep al,
figura que te nha for mu lad o sim ulta o, Preb isch ", o gra nde eco no m ista arge
ia pol ític a. A figu ra de Caio Prad
I teo ria e um a pro pos ta de eco nom
que é, por sua vez, o fun dad or da
teo ria da hist ória eco nôm ica bra si- mas a'm eu ver Fur tado é mais abe
para além dos limites em .q ue o eco
rto, alargando o cam po de reflexã
nom ista tra balha . '
o

i leir a, sob ressai, ali me nta ndo incl


usive os estu dos de ' Fur tado , mas
o Prado , inscreve ndo -se n um a ver-
a
- Em que consiste essa reflexão, essa
teoriz ação sob re eco nom ias sub-
tiva às du as con cep çõe s, duas verten-
I dife rença é que as pro posiçõ es de Cai
tent e teó rica , o mar xismo , evi den
tem ent e recus ada pel as classes do-
desenvolvidas? Ela cria uma alterna
ent ão pre dom ina vam . A prim eira
, no
tes te óric as-e dou trin árias que até
m te r se tra ns fo rma do em pau ta ica neo clássica e ma rginal ista que
m ina nte s no Brasil, jam ais pod eria o:am po da eco nom ia, a verte nte teór
con trário parte da am pla cult ura de de o fina l do sécu lo XIX, ten do sofr
i-
de ação 'para a burguesia, sen do ao sua dom in a as ciên cias eco nôm icas des
ar. E, salvo do pon to de vista de nte a par tir dos anos 1940 , com
a
esq uerda que com eça va a se form do apenas um a mu dan ça imp orta
com o arti culado r d o deb ate in te- cláss ica e mar gin alista, ess ~ ver ten
te
m ili tân cia po lític a e de seu pap el revo lução key nesiana . As teor ias neo
Revista Brasiliense , C aio Prad o Jr. icas no mo me nto m esm o em que
o ca-
lect ual-p ol íric o tam bém através da a que venceu nas ciências eco nôm
bin ar reflexão teó rica e age nda par ou-se o sistema social de pro dução
não teve a opo rtu nid ade de com pitalism o a part ir do sécu lo XIX torn
o Est ado e a burgue sia. ina nte tam bém na sua periferia; a
dom ina nte nos países cen trais e dom
de um pen sam ent o par a a ação é, ema cap italista de pro dução tinh a
fi-
Essa ~ ing u lari dade, essa con junção é par tir do mo me nto em qu e o sist
a do pen sam el)to de Fur tado . Ela or feuda l e as classes operárias não
ao mesmo tem po, a força e a fraq uez nalm ente venci do seu gra nde con tend
sob re o que lhe é con tem por âne o, países soc ialistas, inv erter o and a-
forç a por qu e Furtad o teor iza sem pre conseg uira m desde entã o, salvo nos
seto r púb lico imp lem entand o as teo-
e, sen do alguém que trab alho u no
conferi u um a eno rme proemi nên-
rias que const ruía /defend ia, isso lhe Ros ensrein-
cenárid teó rico e político do Brasil.
A istas. como H ans Sing er e Paul
Ant es da Ce pal, algu ns eco nom
cia e um a eno rme visibilidade no de
1
econ omi as "sub dese nvo lvid as" da Europa
s da derro ta polít ica de sua s tese s, Rodan , avançaram no estu do de
tal pon to que, passados vinte ano Oc iden tal, so bretudo Esp anh a.
Portugal. Gré cia. A Cep al mesma
utilizou -se
ua a ser uma voz que é o uvid a, um aram a faze r "escola"
sua escola - a cepalina - , ele co ntin . que enrr eran ro não cheg
n- de algu ns ap ortes desses estu dos ção da
transfo rma r-se em ação e, certa me da Cep al, nem cent rara m a aten
pen sam enr o que busca meios pat a nem tinh am a abrangência da obra divisão inte rnac iona l do
Brasil, voltará a ter influência, se não oo.s mecanism os da
gênese do "sub desenvo lvim ento "
te, r:a nova qu adr a que se abre no do onal, com o o fez a Cep al. .
uadro de forças é bastante dist into trabalho e do comércio internaci
nos níveis ant eriores, posto que o q a 198 6 . (No ta redi gida por ocasião
da revisão
rá ent re os form ulad ores da pol ític Raú l Prebisch faleceu em abril de
de vin te anos atrás, segura me nt e esta
2
o de 198 6.)
do texto da co nferência. em mai
eco nôm ica no Brasil.
Erancisco de Oli veira Celso Furtado e o pensamenm econôm ico brasilei-c

men ro da históri a. A corrente neoclássica é também um pensamen to teó- m enro pelo qual passarão as economias subdesenvo lvidas até chegarem
rico com raízes e determinações sociais m uiro precisas, embora se ap resenre a ser econom ias capitalistas desenvo lvidas. Isto qu e é tão simples de afir-
com o ererno. Depois da suá vitó ria, durante sua longa hegem onia, ficou mar é em si mes m o um a ino vação teórica radical: o subdesenvolvim enr o
um pe nsame nro a-histór ico, que não tem data, não tem tem poralidade, é uma pro dução histórica d o capitalismo, um a espécie de "~vo de
n ão tem especificidade espacial: por isso os economistas, no Brasil como . Colombo" , tão óbvio para nó s hoje .
nos Esrados Unidos, usam os mesm os insrrumenros e supõem que esres O pensamento de Furrado, nessa linha teórica, vai articular de novo
tratam da mesma realidade. Esse pen samenro a-hi stórico não podia dar economia e história, vai escapar da asséptica teori a neocl ássica, para quem
conra de histórias específicas que se formaram evidentemente denrro do a história não conra absolutamente nada. Seu primeiro passo é recuperar a
cap italismo, m as que nem por isso deixam de gua rdar sua espec ificidade. história, retornando à economia política, e nega ndo tanto as economias
~ \
Do outro lado havia o campo teórico marxista, muito mais rico, muito subdesenvolvid as como criaçõ es a partir de suas próp rias forças quanro
m aiscapaz de apreender a realidade e a partir dela criar ou recriar os conce itos, ;;' rem apenas uma eta pa do dese nvolvim ento. É a partir da história que
mas que infelizmenre tam bém naufragou do ponro de vista da inrerpretação se verifica q ue as economi as subdesenvolvidas n ão eram uma etap a, mas
do que era específico na periferia do sistem a capitalista. Depois de Lenin, um produto específico do sistem a cap ital ista, desde a sua formação , isro
com O desenvolvimento do capitalismo na Rússia' , que na verdade rigorosa- é, desde a expansão mercanrilista d a Europa em d ireção às colônias. E
mente é a primeira obra teórica que -tenta entender a formação de uma ap esar de essas economias, de form a geral, estarem insertasno p rocesso
periferia no sistem a capitalista, um livro bastante conhecido, mas geralmente internacional e, portanro, delas poder-se dizer que são também eco no-
m al lido, o marxismo empobreceu, pelo menos do ponro de vista de encarar m ias capitalistas, constitu em um a diferença no inrerio r do capitalismo.
o desafio de um a reflexão sobre a especificidade das econo mias subdesenvolc Esta forma sim ples de enunci ar é um enorme avanço teó rico, po sto que
vidas. No banho stalinista, o marxismo transtor mou-se num a espécie de . .. recuperar as diferenças é mais importante qu e assina lar as semelhanças.
teleologia, e os p aíses subdesenvolvidos ou atrasados - nunca chamados Essa marcação de 'um a diferença den tro do me smo cam po capitalista
sub desenvolyidos - são apenas uma etapa para chegar a ser desenvolvidos. entre economias que têm graus di feren tes de de senvo lvimento , por pro-
Grosso modo, essa era a post ulação denrro do campo teórico marxista, algo cessos e percursos diversos, pedia urgenremenre um aparato teórico que
assim como a criança que é apenas um caminho para a pro dução do adulro, tratasse essa diferença. Esta é outra grande contribuição à história do
que a psicologia felizmenre já rejeitou há muiro. pensamento social mundial, estabelecer um modo próprio de nascim enro,
É denrro desse vazio teórico, das d uasc orren tes princip ais, n ão só n a de gênese e de dese nvolvimenro dessas econom ias nascidas na periferia
eco nomia, mas na interp retação geral do mundo, que o pen sam enro da do siste ma cap italista . Celso Furtad o é um au to r bastan te eclét ico , lan-
C epal emerge. Seu próprio campo teór ico é muito eclético, e se consti- çando mão de vários esq uemas teóricos parciais para co nstr.u ir es~ a nova
tui to m ando emprés tim o s d e vários camp os teóricos, ta nto do idenridade real, hi stóri ca, construir um novo sujeiro h istórico na cional. .
neoclassicismo quanro sobretudo do keynesianism o e mesmo do m ar" Essa é a gênese do chamado pensamenro cepalino e de Furtado, sendo .
xismo, mas os empréstimos são redefinidos em um a nova globalidade, evidente também qu~ é preciso estabelecer a determinação social desse
que é inreiram enre original. O pressuposro é que o subdesenvolvim enro pensamento , estabelecer quais são as âncoras do real que possib ilitaram
não é ape nas um a etapa de um processo linear e evolucionista de cresci- a formação dessa teoria. Por que n asce a teoria do subdesenvolvimenro,
quais são as cond ições sociais precisas que dão cap acidade, possibilid ade
* Op . cir. a que essa teoria nasça e se afirme ? Provavelm ente, anres dos an os 1950
44 Francisco de Oliveira Celso Furtado e o pensamento econômico br asileiro 45

essa teo rização di ficilmente en contraria eco , encontraria au ditório , Uruguai, Venezuela, Colômbi~ - se defronta vam com a nova divisão
encontraria resp aldo social. O subdesenvàlvimento se dava em na- inte rnacional do trabalh o que se gesto u após a crise dos anos 1930 e
ções politicamente independente s, pelo q ue elas não pod eri am - nem após a Segunda Guerra Mundial. T inha m sido econ omias que havi am
eram real e teoricamente - ser rraradas co mo co l ônias.q ue haviam se resistido de forma d iferente às crises dos anos 1930, enquanto outras,
consti ruído como uma extensão da expansão mercantilista do capitalis- como as da Amé rica Central e do Caribe, permaneceram atadas aos es-
mo europeu. Nações que em determ inado momento da história haviam quemas pretéritos ; e por isso seus processos de rransfo rrnação tardia a
ganho sua independência política, e, embora um certo marxism o vulgar que assist imos hoje ~ão lhes abrem mais o passo a soluções dentro do
ten ha reduzido as nações politicamente independentes ao mesmo esta - sistema capitalista, mas o ultrapassam, e Cuba é o primeiro caso , N ica-
tuto d as colô ni as, o pensamento da Cepal deu-se conta disso, dando rágua é o segundo , e provavelmente os demais países da América Cen-
lições ao próprio marxismo : a independência política não se passa sem tral se encami nhem para o mesrpo tipo '.
modificações no estatuto da economia, sem modificações no seu com- A teoria do subdesenvolvimento vai nascer como um desafio dessas
po rtame nto ; em termos marxistas, como pensar modificações tão im - economias que haviam resistido de forma diferente à crise dos ano s 1930 .
portantes na superestrutura sem modificações na infra-estrurura? Do Em outraspalavras, elas tinham procurado se indu strializar, sair da crise
ponto de vista do método , isto é extremamente importante : ao contrário do períod o não voltando ou perm anecendo na velha divisão internacio-
da vertente neoclássica, que apl ica curvas de indi ferenç a entre os nal do trabalho - por um lado, prod utores de matérias-prim as,ou subdesen-
bantus da África e Os hab itantes de Nova York co mo se fossem o mes- volvidos, por outro, pro du tores de manufaturas, ou desenvolvidos - , mas
mo suj eito - o bjet o t eór ico ; ao contrá rio ta m bém d a 'verten t e avançan do no sen tido da indusrrialização; esta é a segunda dete rm ina-
. empobreced ora do marxism o, que dizia que sob a in depe ndência poll- .ção social precisa do nascimen to da teoria do subdesenvolvimento.
rica os países: continuavam sendo colônias, numa visão estanque, como se D izendo de outra forma, o nascimento, a gênese da teoria do subdesen-
en t re as independênci as, apolítica e a eco nô m ica, as co isas tivessem se volvim ento responde tamb ém ; certas dete rmin ações que adv êrn de in-
passado sem se realirnentarern, sem redefi nirem o campo do real e o teresses que estão sendo postos, ou seja, ela é um a teoria soci almente
campo do teórico. determinada. Como é qu e Celso Furtado ou Prebisch mentalizaram esse
A teoria do subdesenvolvimento ganha foros de legitimidade devido processo objetivo, não sabemos, e não vamos acreditar no psicologi smo
ao grande movim ento de descolonização no segundo pós-guerra, colo- vulgar de que Furtado nasceu na Paraíba, portanto esteve sempre de cara
cando pro blemas novos, questões de que a teorização neoclássica e a e em contato com o subdesenvo lvimento, como ele mesmo o disse. Não
reorização das colônias não pod iam dar conta. É nesse momento histó- é assim que as coisas se passam .. H á der erminações sociais que criam a
rico que a teor ização cepalina ganha a possibilidade de respo nder a esse possibilidade de uma teoria ser efetiva e ganhar respaldo : a de Marx, que
des afio posto pela descolon ização, o q ue é pa radoxal , posro q ue a . é uma das mais bril hantes construções teóricas nas ciências sociais, por
teor ização cepa lina se refere sob retudo a eco nomias e sociedades q ue mais que o seja, não tem o menor respaldo entre as classes dominantes.
já eram politicamente independentes havia mais de cem anos . De q ual- De que adv êrn essa força e o fato de que faz eco e torna-se "pauta para a
q ue r fo rma, é importante anotar, é nesse co ntexto que nasce a teoria do ação"? Por que a grande força da teor ização cepalina e da obra de Furta:
sub desenvolvimento . Outro ponto para buscar essa determinação social do ? Possivelmente advenham do fato de que essas economias esta vam se
da teoria é que ela vai nascer, em termo s latino-americanos, precisarnen- industrializando adversamente à divisão internacional do rrabal ho vi-
te qu ando as principais economias - Brasil, México, Chile, Argentina, gente. Esse embate de forças requer ia uma explicação teórica.
46 Francisco de Ol iveira Cel so Furtado e o pensame nto eco nô mico brasileiro 47

Q uando Furtado reconstrói a hisrória brasileira, por exemplo, ele converteram-se numa arm a ideológica poderosa a serviço da nova burgu e-
encontra um a espécie de política keynesiana avant la lettre nos anos 1930 sia ind ustrial emergerite no Brasil e em outros países daAmérica Latina.
no Brasil. A obra mais importante de Keynes é de 1936, A teoriageraldo Ela vai fundamentar teoricam ente aquelas tentativas de erro e acert o, de
emprego, do ju ro e da moeda", e só com eçou a ser con hecida no pós- sair da cam isa-de-força, de ind ustrializar-se contra a vontade dos países
guerra. Vargas nos anos 1930 fez rigo rosame nt e aq uilo que depois ia ser mais industrializado s, e nem de longe as cham adas empresas multinacionais
cham ado um a po líti ca keynesian a anricíclica. Para não pensarmos tinham a perspectiva furt adiano-cepalina, buscando localizar-se no Brasil.
/ q ue ho uve uma espécie de inversão, à maneira da grafologia espírita, que Tratava-se de uma luta de interesses em escala internacional, e a teoria da
Furtado e os cepalinos cop iaram aquilo que Keynes ainda não havia Cepal vem dizer "vocês estão certos, é po r aí mesmo", e estruturou um
escrito, é preciso pen sar nas determinações sociais que fazem possível o arcabouço teórico que se transformou numa arma ideológ ica importante,
nascimento de um a teor ia daquele tipo . Eram interesses bastante con- que pautou a ação de cada governo latino-americano, liberal, conservador
cretos, lu tando por escapar à cam isa-de-fo'rça da divisão internacional . ou progressista; todos fizeram a mesma coisa.
do trabalho: o Brasil queima café em 1932-1 933 para sustentar preços e E sendo assim , se não estamos aqui para fazer exerdcios ingênuos.
rend as, pro cedimento tipicamente keynesiano, irão d izer depois os ma- nem colocar nos altares os "santos cep alinos" ante s que a Santa M adre
nu ais de histór ia. Porque havia classes sociais aqui , interesses econômi- , Igreja o faça, é evidente que essa ideol og ia recobria ta mbém , como é
cos luta ndo por não se submeterem à crise dos ano s 1930, D isso decor re próprio de to da ideologia, antago nismo s de classe e de inte resses qu e,
a força da teoria cepalina , e o fato de ela se converter realmente n uma ou não in teressava exp licitar, ou ficavam submergidos no int eresse
ideologia das classes'soci; is dominantes, cujo problema real era aqu ilo ma ior, mais globa l, que era o do desenvo lvimento econômico. Em
que a teoria cepalina vinha tentando explicar, de como sair da camisa- outras palavras, interesses de camponeses, de tra balhadores e de op erá-
de-força da divisão in ternacional do traba lho dos anos anteriores a 1930 , rios, dentro da construção ideológica, da construção teórica 'cepalina e
industrializar, expandir-se. Os homens agem , apesar de às vezes não sa- de Furtado, nã o encontram lugar. Ela não está feita pa ra sus tentar esse
berem por que agem , parafraseando Marx. , tipo de proposição, ne m seus pres supostos teóricos acolhem os confli-
Ao se converter numa ideologia, numa pauta de ação, a teoria cepalina- tos sociais; e, sendo uma teorização para a ação, ela opera a submissão
furtadiana se desnuda, abrindo os flancos para sua contesração. É seu lado dos interesses de o utras classes sociais aos interesses ma iores das classes
fraco, em pleno apogeu. Faço um parê ntese para dizer, desde logo, que soc iais predominantes . Não apar ece na pro dução teórica de Furtado
'não pratico a redução simpl ista de que Furtado esrava a serviço das classes nem da Ce pal; como problemas do crescimento econô m ico, nenhum
dominantes, redução vulgar mu ito freqüente e que empobrece a histó ria do s antagonismos sociais de que qualquer formação social, não escapan-
das relações ent re ciência, sociedade e persona lidades. Aliás, se valem os do disto as da América Latin a, é consrituída. E é assim que ela se faz
depoimentos pessoais, devo dizer, por ter trabalh ado co m ele durante cin- forte e se faz fraca, exatamente porque uma teoria desse port e, realm ente
co anos, que é um dos homens públicos bra~ileiros mais independentes orig ina l, uma contribuição inovadora do pensamento latino-americano,
dos pode res econômicos. Entretant o, realmente sua .teoria e a da Cepal tem entretanto fragilidades teóricas do tipo assinalado . Puxan do para o

John Mayanard Keyn es. .rh~ General Theory ofEmployment. Interest and M oney.
- Brasil, o programa de metas do governo Juscelino Kubitschek na meta-
de dos ano s 1950 é decalcado , qua se por inteiro, de um trabalho q ue o
próprio Furtado havia feito para a Cepal e o então BNDE. O plano de
N ova Yo rk, Ha rcou rt, Brace, 19 3 5 . (Edição brasilei ra: tradução de Mario Ri-
bei ro da Cruz. São Paulo, Atlas, 1992 .1
metas ) com os erros e ace!'tos que a hist ória já registrou. torna mais claro
48 Francisco de Olive ira Celso Furrado e o pensamenro econô mico brasileiro 49

que o desenvolvimento econôm ico logrado exacerbo u o con fliro soci al e a industrialização será o novo mo to r da divisão social do tr abalho; e é
em rodas as dimensões, desd e o antago n ismo proletar iado-b urgúe siá aré uma específica classe social, no caso a burguesia industr ial brasileira, que
os confliros urbanos, agrá rios, interb urgueses, que a teoria fur rad iano - roma as rédeas da política econômica, que vai influir poderosamente na
cepalina amalgamava sob o rótulo dos " interesses nacion ais». implantação da política eco nô mica , o que é radi calm ente diferent e de
Furtado ganha proe minência no conjunt o dos pensadores sociais brasi- hoje. A Ce pal sem pre tra balho u, posro que esse era o problem a nos anos
leiros por juntar teoria e prática, doutrina e proposição; por out ro lado , sua pós-guerra, no suposto de um comportamento adverso das econom ias
teorização era contemporânea dos processos que teor izava, realím entando- cap italistas mais desenvolvidas em relação às chamadas economias subde -
se, calibrando-se por eles. E não porque ele pessoalmente fosse um servo senvo lvidas, dando alm a ao corpo do nacionalismo do s anos 1950 . A in-
da classe dominante - um a injusti ça desleal que lhe poderia ser imputada- .dustrialização de qualquer país da América Latin a, e do Brasil in clusive,
mas po rque ocorre precisame n te no m om ento em que frações da classe 'sem pre apareceu aos olhos dessa teorização como algo que contrariava as
domin ante estão em conflito com os capitais esrrangeiros, ele transfor- leis da divisão internacional do tra balho e contrariava o compor tam ent o
mou-se numa espécie de "criador" do Brasil, de suas m ãos nascendo o dos agentes econôm icos das classes sociais, em escala int ernacional . H oje,
pensam ento sobre o Brasil moderno , o qu e é um a eno rm e responsabilida - evidentemente, não é mais assim, a burguesia brasileira é associada ao
de. Se não tivesse a cabeça tão boa quanto sei que tem, ele já esta ria no capi ral internacional, 'sem esquecer que isso coloca novas contrad ições,
hospício há muito tempo , dando urn a de Na poleão. Todo mundo que com novos signos e significados . O próprio capita l intern acional, a part ir
pensou o Brasil depois de Furtado pensou -o à sua m aneira: ain da hoje, do Plano de Metas de Juscelino e sobretudo depois de 196 4 , não vê m ais
vint e anos depois do golpe de 1964 , vint e anos depois da provisór ia derro- a expa nsão de um a economia como a brasileira com o algo que lhe é adverso,
ta do pop ulisrno, vê-se na discussão sobre a econom ia brasileira - que é sen ão que aproveit a a política econôm ica implem entada para localizar-se
radicalmente diferente da economia brasileira dos anos 1960 - os postu la- aqui também , como é bem o caso das multinacion ais.
e
dos cep alinos furt adi anos o rientando de novo o debate. Pensa-se em No final dos an os 1950, Furtado é feito supe rinten den te d e uma
autonom ia nacion al, pensa-se em defesa do mercado para Prot eger a in- agência especial para o desenvolvimento do N ordeste, e disso sai um a espé-
dústria da in for mática, pensa-se em políti ca industrial no sentido de ror- cie d e subideologia nacion al, que é a preocupação com o N ordeste, e o
nar o pa ís auto-suficien te, mesmo na discussão da dívida exrerna, que é modelo de resolução do su bdesen volv im ento esp ecífico de ssa região ,
colocada sem pre com o se fossem os banqueiros internacionais contra o no contexro do subd esenvo lvime nto brasileiro, é clar amente cep alin o.
Brasil, é a visão nacionalista dos ano s 1950 que preside o debate . É a rigor N a Suden e, ele produz um a teoria do Norde ste. É preciso enten de r
um debare regido por fant asmas; posro que as con dições sociais que presi- que essa pe rsonifica ção em .Fu rt ado constitui um p roblema na teoria
d iram a gênese da teoria furtadiano -cepalina não m ais existem . das ciências, posro que o probl ema da regiã o é o surgime nto d e um
A dívida externa,. por exem plo , deveria ser t ratada com outra aborda- processo de transform ação de sua econ om ia, integrando-se à econo -
gem , posto que a discussão esconde que um país que tem 100 bilhões de mi a já tr ansformada pelos efeitos do que a Cepal teorizou. É toda um a
dólares de dívida não é m ais devedor, senão que é sócio do sistema capi ta- conjunção d e forças soc iais que vai negar o p redo mínio das antigas
lista in tern acional. Essa teorização que tem data 'm arcada, do ponto de oligarquias fundiárias do Nordeste , resolvendo a qu estão do atr aso re-
vista de sua gênese social, de sua prevalência enquanto pa uta de ação, gional , mais uma vez, pOt aquele cam in ho que a C epal já h avia apon - ,
enquan to agenda de ação para governo e classes sociais, ela é válida para os rado para os país es lati no-am erican os: pela industrialização . E Furt ado
anos entre 1945 e 1964 , quando se recusa i morte na crise dos anos 1930 , transfo rma-se
. por sua vez no "de m iur go", do Nordeste: rodos pe nsa m
SO Francisco de Oliveira Celso Furtado e o pensamento eco nômico brasile iro ;1

a q uestão até hoje posta nos mesmo s termos em que ele a colocou no Na reflexão e pauta para O desenvolvimento do No rdeste, Fu rt ado,
fina l dos anos 195 O. que é um tip o extremamente sofisticado, raramente deixando O rabo
O que vem depoi s pertence.à história, isto é, se o projeto de desen- fora da toc a para a gente pux á-lo - m as dá pra puxar, o bicho é esperto,
volvimento doNo rdeste seguiu as pautas do pensamento furta d iano ou mas o caçado r às vezes é mais -, dizia prec isamente q ue um dos grandes
não . Assinalando algumas diferenças, principalme nte o fato do golpe de riscos do atraso do Nordeste transformava-se em im perativo da seguran -
1964, a verdade é que o regime autorirário leva ao exagero as proposi- ça nacional, posto que os trabalhadores do Centro-Sul não cons eguiam
ções da Sudene em 1959; as diferenças são import antes, para não se aumentar sua parte na d istribuição da renda nacional ou no s gan hos de
pensar q ue tanto vale uma democracia quanto um a ditadura para o de- produti vidade da ind ústria qu e crescia acelerada mente em São Paulo
. se~volvimento da economia . Entretanto, é possível dizer que, em geral, porque os mi grantes nordestinos rebaixavam o salário real. Isto está es-
o prog rama de integração do N;'rdeste seguiu as pautas das proposi ções crito e mostra como a questão contraditória das classes sociais em qual-
or iginais, à frente das qua is estava Furta do. De novo aqui as eno rmes qu er proce sso de expansão capitalista era colocada de m aneira falsa ou
lacunas teór icas da teorização furradiano -cepalina comparecem . Em pri- pelo menos equívoca . Furtado aq ui també m foi original, inventou "luta
meiro lugar, o encobrimento dos antagonismos sociais: o desenvo lvi- de classes entre trab alhadore s", mas o que verbalmente é uma brincadei-
mento não é pensado com o um proce sso de luta social, de luta de clas- ra denuncia insuficiências teóricas da produção cepalino-furtadian a.
ses, como um processo co nflitivo. Ao contrá rio) é pensa do em termos Portanto, algo do que ocorreu nas econ omias brasileira e nordestina, se
exclusivos dos interes ses proeminentes em escala nac ional. Essa falha vistas de outro campo teórico, não seria tão surpreendente assim. Os
teórica vai cobrar pesados juros, não tão pesados quanto os da dívida germes de certos prob lemas agudo s que a economia e a sociedade br asi-
externa, mas bastante pesados do ponto de vista teórico e social. leira enfren tam hoje estavam, de certo mo do, nas p ostula ções teori ca-
Hoj e nos surpreendemos com a enorme desigu aldade social no Bra- m ente equi vocadas essenciais de Furtado e da Ce pal. Evid entemente,
sil, com a enorme concentração de renda. Tudo isso nos aparece hoje - não foram os propositore s de política econôm ica os autores disso, foi' a
como se fossem (perversões" do crescimento) atribuídas exclusivamente relação entre as classes sociais em luta, o poder de uma grande burguesia
ao regime autoritário e às multinacion ais - o que não os absolve, desde associada ao grande capital internacional, de Um lado , e, de out ro, a
logo, de parcela da respon sabilidade. Mas é preciso reconhecer qu e, na falta de poder das classes trabalhadoras em geral do operariado indus- e
matr iz teór ica da forma de pensar o Brasil e o Nordeste, esses problemas trial. Mas as lacunas teóricas existentes nas proposições, sobretudo do
já estavam lá. Não é que a economia se desenvolveu segundo a teor ia, autor de qu e se está tratando, tiveram aquele "efeito -teoria" de que fala
cobrança eq uivocada qu e geralme nte se faz, e se faz até em nível mais Bou rd ieu - como s empre, e como é com um entre acadêm icos e homens
alto, poi s a críti ca mais vulgar da direita é que é a obra de Marx a respon- públicos, eles jamais dão a mão à palmatória. M as ~ u rtado vai se dar
sável pelo que ocorre .na U nião Soviética. Para não fazer essa cobrança , conta de alguns equívocos quando passar a criticar a política econôm ica
bastante bana l, de q ue O culpad o é Furt ado ou a CepaI, é preciso reco- pós-1 964: na sua form ulação an terior, sobretudo em Teoria epolítica do
nhecer, tanto no que concerne aos problemas da pesqu isa científica quant o desenvolvimen to econômico, seu livro teórico mais consis tente, ele usava o
no que tem que ver com a luta polí tica, que a ideologia decorrente da mu ltip licador keynesiano de emprego para afirm ar que, atr avés desse
teorização cepalino-furradiana encobria o aspecto contraditório de qual- efeito, aumentaria o em prego, e a distribuição da rend a ten deria a me-
qu er desenvolvi mento capitalista; há, corno d isse Bou rdieu , um "efeito- . lho rar. Em período sub seq üente Fu rta do se dá conta de que a economia
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52 Francisco de Olive ira Celso Furtado e o pensamen to eco nômico brasileir o

m ultiplicador keynesiano de em prego par a explicar a estagna ção , po is me desafio teór ico , ch eia de lacu nas, cheia de in consistên cias. Não se
inve rsões sofisticadas e int ensivas em capital imped iriam a criação de eleva ao mesmo nível de abstra ção e de rigor paradigmático , tal com o a
novo s em p regos à altura do crescimento da população economicamente teo ria m arxista e mesm o a teoria neoclássica ; sua un iversalid ade é menos
ativa e da força de trabalh o ' à disposição, por esse lado aparecendo a abra ngente, sem dúvida, mas ela permanece como um a das co nstruções
concentração da renda. ma is originais do pensamento econômico da segu nda metade do sécu lo
M esm o sua "particular" revisão apontava de novo para suas insufi- XX. H á que ressaltar qu e os trabalhos de C elso Furtado e os da Ce pal
ciências teó ricas: a previsão de estag nação é feita em 19 67, um ano antes vêm dar conta e coloca r de pé com rigor inusitad o a chamada "questão
de a economia entrar em novo desenvolvime nto acelerado, chamado o na cional " . Pois há um a questão nacion al no interior da d ivisão in tern a-
"milagre brasileiro ". A base teórica cepalin o-fu rtadiana faltou sempre cional do tra balho, que constitu i ain da um desafio teórico-prático. O
uma reoria da acumulação , que não pode ser con fun dida com a form a- qu e quer dizer uma nação no sistem a capitalista internacional, do po nto
ção de capi tal, e o período pós-autoritário gestou formas de acumulação, de vista de sua auto no m ia, do ponto de vista de polít icas autônomas,
como o con fisco salarial, que na matriz keyn esiana, fonte de muitos questão que se coloca agor a com todo o rigor ecom toda a força? O que
"em préstimos" da C epal, apen as se' expres sa n uma queda da demanda qu er dizer uma econom ia nacional, ou será que isto é um conceito e
dos consumi dores. Esse esquema não percebe que, mesmo em condi- uma realid ade já ultrapassados?
ções de não-crescimento do emprego , o processo de acumulação podia Fina lm ente, o pen sam ento furrad iano-cepa lin o nã o devia estar ape-
se dar, po sto que esta não oco rre pela criação de empregos, mas pela nas, como hoj e, em cursos de história econômica, como ~I go que já foi e
extração de um excedente econômico retirado d a força de trabalh o. Esse q ue se estuda como um mo vimento 'do. passado , senão que pela sua
conceito teórico é suficiente p ara da r conta de certos impasses a q ue a prevalência, pela força e pelo arr aigamento que en controu n a lura social
teoria de Furtado e da Cepal chegaram, n ão pe rcebendo qu e, mesmo no ele deve ser en carado como um desafio teórico e pr ático de pr imeira
int erior de sua formu lação, q uan do há crescimento do emprego, não ne- grandeza. Eu não sei de faculd ades de economia e mesmo de ciên cias
cessariame nte a rend a tende a se redistribuir se o mecan ismo básico de socia is que levem a sério um curso sob re a teo ria do subdesenvolvimen-
sua form ação é a extra ção de mais-valia, ou , em ou tras palavras , que a to . Depois do ano de 196 4 a pr aga dos Ph .D . de C hicago se im plant ou
econo mia está aume ntando mais a explo ração do trabalho do qu e a re- no Bras il, sob a égide do ministro Delfim Netto, e n os currícu los das
m une ração deste, coisa qu e em qualquer economia se dá e sempre se escolas de economia não existe um curso de teor ia do subdesenvolvi-
deu, historicamente comprovado. mento. Ao subdesenvolvimento some nt e se recorre quand o não se sabe
Apesar disso tudo , é inegável que a const ru ção teórica da Cepàl e,
s- explicar po r ou tras vias; quando se d iz que o Brasil está frente à p ressão
de mo do especial, a de Cel so Furtado - é a mais original e a mais rica do s banq ueiros internacio nais, então se recorre às "econo mias subdesen -
contribuição em ciên cias sociais que se produziu na América Latina e volvidas" e a ladai nh a se repete, tal co mo a Santa M adr e Igreja mandava
sobre tudo no Brasil. Ela n ão deve ser despre zada mesmo se incorr eu em . recitá-Ia décadas atrás, e não surt ia nenhum efeito . É preciso levar a
tant os equ ívocos e mesmo que ten ha encoberto confl itos de grande pon- sério , e as faculda des de econom ia no Brasil deveriam ter cur sos de teo-
-dera ção no que se chama o "desenvolvimen to"; sua p rova histórica é que ria do subdesenvolvimento, n ão como expli cação ad hoc, uma explica-
ch egou a ser um instru ment o de luta social, O que poucas teo rias podem ção que se dá quando no s falta a explicação central. Para testá-la como
se creditar; sua prova teórica é que abriu novas pistas pa ra a p rópr ia um paradigma cien tífico nas ciências sociais, verificar sua validade, veri-
pesqu isa. A obra da Ce pal e de Celso Furtado continua sendo um enor- ficar as leis de sua gên ese social, a qu e fenômenos histó ricos esteve ligada,
54 Francisco de Oliveira

e se responde ainda a interesses reais, sociais, concretos . Qualquer cam-


1'0 reó rico-científico produz um a certa visão de mundo que se incorpo-
ra ao nosso modo de ser, como a física, em todo seu desenvolvime nto,
de Ar ist óteles a Galileu, deste a N ewto n, passando por Einstein, e agora
com a fís ica qu ân tica, mo ldou nossa visão cósmica. M as no caso da s
ciênc ias sociais esta visão de m undo que toma corpo e que se tr~ns fo rm a
n uma ideologia é muito mais cotidian a, porque ela atua mais do que
qualquer visão cósmica, at ua no cotidiano da lu ta de classes e das classes RETRATO DE FAMfLIA*
soc iais. É por isso q ue não se pode to mar o. pensam ento cepa lino -
furtadiano como um a coisa já vista e co mo algo que deve figurar no
museu da história da teoria econômica.

Retrato d a família, feito nos idos dos 1950.


A imagem já não é a mesma, mas os traços de família estão lá. Do
retrato de 1959, o que permanece, além desses queixos quadrados, desses
perfis dir-se-ia talhados à foice, à imagem e semelhança de seu demiur go '
To m ados ao pé da letra, p ouco s textos parecem tão exitosos. Co mo
no programa de dez pontos de Lenin para a fase do soc ialismo , q ue
algumas déc adas depois pareci a haverem sido alcançados e mesmo ultra-
passados nos grandes países capitalista s desenvolvidos, no caso do docu-
men to do GTDN (G rupo de Trab alho do Desenvo lvime nto do N ordes-
te) , três décadas teri am sido suficientes para cum pr ir.o programa quase
/ quim érico - visionário, disse Assis C hateaubri and em solenidade no
Recife de 1959 - de Cels o Furtado .Ó :

A industrialização se fez, sem so mbra de dúvidas . Uma ver dej ante


Nova Califórn ia expo rt a so l em m an gas, uvas e mel ões d as margens
outro ra in óspitas , visitadas pelas carr anc as escalavradas n a proa dos
barcos, q uem sabe para meterem medo à seca que che gava, de safor ad a,

* Apresentação à o bra O GTDN· da p rop osta à realidade - ensaios sob re a ques-


tão regio nal. Editora da Un iversidade Federal de Pernambuco, 19 94 .