You are on page 1of 2

Introdução e Objetivos:

Esse artigo tem como objetivo geral questionar a aplicabilidade do conceito de Estado em
Burdeau à realidade do chamado “estado paralelo”, de forma curta e sucinta, a partir de uma
reflexão bem embasada com base numa pergunta a ser formulada a seguir:
Questão:
Podemos com embasamento no pensamento jurídico relacionar o conceito de Estado
apresentado em Burdeau àqueles territórios das periferias das grandes cidades ou dos sertões
onde sob a mira do poder de coronéis traficantes e milicianos uma população encontra-se
vivendo constantemente a parte dos direitos garantidos pela constituição? Se o Estado está
em todos os lugares está também nas favelas? Em que medida?
Resposta:
Para Burdeau, fundamentalmente “Os homens inventaram o Estado para não obedecer aos
homens.”, quer dizer, para não se submeter a um poder imediato da lei do mais forte,
“Fizeram dele a sede e o suporte do poder cuja necessidade e cujo peso sentem todos os dias,
mas que, desde que seja imputada ao Estado, permite-lhes curvar-se a uma autoridade que
sabem inevitável sem, porém, sentirem-se sujeitos a vontades humanas. O Estado é uma
forma de Poder que enobrece a obediência.” Aqui já vemos que alguma regiões dentro do
nosso país onde impera a soberania de um poder que não aquele constituído pelo pacto social
da constituição cidadã teriam dificuldade em se conformar a esse conceito.
Então ele ainda define a razão de ser primordial do estado como sendo a de “fornecer ao
espírito uma representação do alicerce do Poder que autoriza fundamentar a diferenciação
entre governantes e governados sobre uma base que não seja relação de forças.”
Sem dúvidas esse impressionante trecho, não deixa de ser isento de possibilidades de críticas e
questionamentos, mas de acordo com esse conceito de Estado, aqui colocado, ele não estaria
presente, onde houvesse uma anomia das relações de poder numa situação de brutalidade e
política da força bruta e das armas análogas ao estado de selvageria ou violência em Hobbes.
Nas favelas, sertões e florestas reina a lei da selva desse estado pré civilizatório e poucos são
os direitos, garantias e deveres (como o de participação política!!!!) que chegam em alguma
medida a essa população tão carente, que certamente não poderíamos chamar Estado a
organização que sustenta o poder que traficantes milicianos e coronéis exercitam direta e
brutalmente sobre a população.
Conquanto não possamos chamar esse poder de estado, em havendo de fato relações de
poder como chamaríamos? O Conceito de “Estado de não-Direito”, entra aqui, tal qual
definido pelo jurista português José Joaquim Gomes Canotilho como sendo: “ um Estado
que decreta leis arbitrárias, cruéis ou desumanas; onde o direito se identifica com a ‘razão do
Estado’ imposta e iluminada por ‘chefes’; é um Estado pautado por radical injustiça e
desigualdade na aplicação do direito” (CANOTILHO, 1999, p.12)
Voltando para nossa definição de Estado, é dito que “em sua essência profunda, o Poder é a
encarnação dessa energia provocada no grupo pela ideia de uma ordem social desejável.” Ou
seja a legitimidade vem de baixo, afinal, “é uma força nascida da consciência coletiva e
destinada ao mesmo tempo a assegurar a perenidade do grupo,” como bem indica a palavra
Estado, em sí mesma, além de buscar conduzir a “busca do que ele considera seu bem e capaz,
se necessário, de impor aos membros a atitude exigida por essa busca.” Esse trecho, descarta
de vez a existência de uma legitimidade do que agora chamamos de Não Estado.
Este, se apoia na urgência de sobrevivência e nas violências geradas pela carência e não pelo
pacto positivo de um bem viver.
“A regra de direito se mostra tão necessária para a realização do objetivo social que reclama
uma inteligência que a precise e a formule, uma vontade que a imponha, uma coerção que a
sancione. O Poder é a um só tempo essa inteligência, essa vontade e erra coerção.” Quer dizer
sem toda a estrutura normativa garantindo a lei da favela, e sendo que lá a lei é ditada pelo
traficante e não pela constituição temos esse “não-estado” acessório, que embora esteja
contido no estado é sua antítese.
“O Estado é limitado pelo direito porque seu poder é juridicamente condicionado pela ideia de
direito que o legitima. O Estado não se limita; nasce limitado.”
E aqui em claramente não havendo limites ao poder paralelo uma vez que nem mesmo
intervenções militares ou policiais conseguem impor o pacto coletivo a essas áreas
terminamos por dizer que categoricamente podemos afirmar a existência de um não estado
dentro do próprio Estado, que não aparece na obra de Burdeau mas se manifesta na realidade.