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( Henrik Ibsen

,
Colecão EM CARTAZ volume 4
(
( CASA DE BONECAS
(

na mesma coleção
( TCHEKHOV Teatro I
(A gaivota,
O tio Vania)
TCHEKHOV Teatro II
(As três irmãs,
O jardim das cerejeiras)
MOLIERE As preciosas ridículas
STRINDBERG A dança da morte
Ai~TUNES FILHO Gilgamesh (adaptação teatral)
CONSUELO DE CASTRO Only you
(

(
(

( EM CARTAZ
(
Veredas
(

(
(
(
(
Titulo original (
ETT DUKKEHJEM
(1879)
(
Tradução portuguesa atualizada e corrigida por
Maria Cristina Guimarães Cupertino (
/
\

Preparação
Kátia de Almeida Rossini

Revisão
Lídia Furusato
(
Ilustração da capa
Edvard Munch
(
(
Ibsen, Henrik
Casa de bonecas
Tradução: Maria Cristina Guimarães Cupenino. São Paulo.
Editora Veredas. 2007. (Veredas Em Canaz)
1. Teatro norueguês J. Título. (
ISB1\ 85-88603-11-X

(
CDD 83982

Todos os direitos desta tradução reservados a


G. ARANYI UVROS
EDITORA VEREDAS
AJ. dos Bicudos, 360 - Alpes da Cantareira
07600-000 - Mairiporã - SP - Brasil
FonelFax: (11) 4485-1087 - e-mail: editoraveredas@hotmaiJ.com
2009

-- ..... ---", ..
L, 1
(
(

(
(
(

PRIMEIRO ATO
( PERSONAGENS
(
Sala mobiliada com conforto e bom gosto, mas sem luxo.
(
No fundo, à direita, a porta da saleta, à esquerda a do
TORVALDHELMER,advogado
escritório de Helmer. Entre essas duas portas, um piano.
NORA, sua esposa
( RM'K, médico Do lado esquerdo da cena, no meio da parede, outra porta,
( SENHORALINDE e mais perto da boca de cena, uma janela. Ao pé da janela
uma mesa redonda, poltronas e um divã pequeno. Na
KROGSTAD,advogado
parede da direita, um pouco recuada, uma porta, e mais à
Os três filhos pequenos de HELMER
M'NA-MARlA, a babá
frente uma estufa, diante da qual estão colocadas duas
(
HaENA, a criada
poltronas e uma cadeira de balanço. Entre a estufa e a
O ENTREGADOR porta lateral, uma mesinha, e nas paredes, gravuras.
Prateleiras com porcelanas e outras miuçalhas. Pequena
estante cheia de livros ricamente encadernados. O chão é
A ação se passa na residência de Helmer
atapetado. A estufa está acesa. Dia de inverno. Toque de
campainha na saleta; passado um instante ouve-se abrirem
a porta. Nora entra na sala cantarolando alegremente. Está
de chapéu e de sobretudo e traz muitos embrulhos que vai
colocando na mesa da direita. Deixa aberta a porta da
saleta, por onde se vê 11m entregador carregando uma
árvore de Natal e um cesto; o moço passa esses objetos à
criada que abriu a porta

NORA Esconda bem a árvore de Natal, Helena. Os meninos


só devem vê-Ia à noite, depois de enfeitada. (Ao entregador,
( tomando da carteira) Quanto é?
(
7
(
(
o ENTREGADORCinqüenta ore. NORA E que tem isso? Até lá podemos pedir emprestado.
NORA Aqui tem uma coroa. Está certo, guarde o troco. (O HELMER Nora! (Aproxima-se dela e puxa-lhe uma orelha,
entregador agradece e sai. Nora fecha a porta, e brincando) Sempre com essa cabecinha nas nuvens! Suponha
enquanto tira o chapéu e o sobretudo continua a rir que eu peça hoje mil coroas e você gaste tudo com o Natal e,
alegremente. Puxando do bolso um saco de bolinhos depois, na véspera do Ano Novo me caia uma telha na
de amêndoas, come dois ou três; depois encaminha-se cabeça, e...
na ponta dos pés até a porta do escritório do marido, NORA(tapando-lhe a boca com a mão) Psss! Não diga es-
pondo-se a escutar) Ah! está aqui. (Cantarola novamente, sas coisas horríveis!
enquanto se dirige para a mesa do lado direito) HELMERMas suponha que aconteça algo desse tipo ...
HELMER(do escritório) É a minha cotovia que está gorjeando NORA Se uma coisa terrível assim acontecesse ... nao sei se me
aí fora? importaria em ter dívidas ou não.
NORA(desamarrando animadamente os pacotes) É sim. HELMERE as pessoas para quem eu estivesse devendo?
HELMER Quem está saltitando aí é o meu esquilo? NORAEssas pessoas ... quem é que pensa nelas? são estranhos.
NORA É! HELMERNora, Nora! Só podia ser mulher! Falando sério, Nora;
HELMERE quando regressou o esquilinho? você conhece as minhas idéias a esse respeito. Nada de /
\

NORA Agora mesmo. (Guarda o saco de bolinhos de amên- dívidas, nada de empréstimos! Algo como um constran-
doas no bolso e limpa a boca) Venha cá, Torvald, venha gimento, um mal-estar sombrio se introduz em toda casa
ver o que eu compreI. erigida sobre dívidas e empréstimos. Até hoje temos sabido
HELMER Estou ocupado. (Um momento após abre a porta e, nos equilibrar, e assim continuaremos durante o pouco tempo
de pena na mão, percorre a sala com a vista) Você diz qúe de provações que nos resta.
comprou tudo isso? Então a minha cabecinha de vento NORA(aproximando-se da estufa) Está bem, Torvald; como
encontrou mais uma ocasião de esbanjar bastante dinheiro? você quiser.
NORA Mas, Torvald, este ano com certeza podemos gastar um HELMER(seguindo-a) Então, então, não quero a minha co-
pouco mais. É o primeiro Natal em que não somos obrigados toviazinha de asa caída. O esqui linho está amuado? (Abre a
a econom.lZar. carteira) Nora, sabe o que tem aqui dentro?
HELMER Concordo ... mas não devemos ser pródigos, sabe? NORA(virando-se vivamente) Dinheiro!
NORA Só um bocadinho, Torvald, um bocadiquinho. Ainda HELMERTome. (Dá-lhe algumas notas) Compreendo que há
mais agora que você vai ter um grande salário e finalmente muitas despesas numa casa, quando se está perto do Natal.
há de ganhar muito, muito dinheiro. NORA(contando) Dez, vinte, trinta, quarenta. Obrigada, Tor-
HELMER A partir do Ano Novo, sim - mas ainda falta um vald, obrigada. Você vai ver o que isto rende.
trimestre para que eu receba. HELMER É preciso, mesmo.

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(

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NORA· Pode ficar certo disso. Mas venha cá. Vou lhe mostrar NORA Bem sei, bem sei; é o estorninho. Mas faça o que peço,
o que comprei, e tudo tão barato! Olhe, um roupa nova para Torvald; assim terei tempo de pensar em algum objeto
Ivar e um sabre. Para Bob, um cavalo e uma corneta, e realmente útil. Diga-me, não é sensato'?
uma boneca com a sua caminha para Emmy. São muito HELMER (sorrindo) Seria, se você soubesse conservar o
( simples, porque ela logo escangalha tudo. E esses aventais dinheiro que lhe dou, e na realidade comprar o que quer que
e lenços para as criadas ... A babá na verdade merecia muito fosse para você; mas se ele desaparece nas despesas da casa
maIs ... e em mil futilidades, o certo é que tenho de novo de
(
HELMER E o que há neste pacote? desembolsar.
NORA(dando um gritinho) Não toque nele, Torvald; este você NORA Ah, Torvald, mas ...
( só verá à noite. HELMER Não negue, minha querida Nora! (Abraça-a pela
HELMER Bem, bem. Mas diga-me, minha perdulária, o que cintura) O estorninho é gracioso, mas exige tanto dinhei-
você mais gostaria de ganhar? ro! ... Você não acreditaria se lhe dissesse quanto um homem
(
1
NORA Oh, eu? Não quero nada para mim. tem de despender quando arruma uma ave canora como você.
HELMER Mas é claro que sim. Diga-me qualquer coisa ra- NORA Oh! não diga isso! Eu poupo o mais que posso.
zoável, que a tente. HELMER(rindo) Concordo. O mais possível. Mas o problema
NORA Pois bem, verdadeiramente não sei. Ou antes, olhe, é que você absolutamente não pode poupar.
Torvald ... NORA (cantarolando e sorrindo alegremente) Se você sou-
HELMER Vamos lá ... besse, Torvald, como nós, cotovias e esquilos, temos des-
NORA(brincando com os botões do casaco, sem olhar para pesas!
o marido) Se me quisesse dar qualquer coisa \"ocê podia ... HELMERVocê é uma pessoazinha extraordinária. Tal qual seu
podia ... pai. Com mil recursos para conseguir dinheiro, mas logo
HELMER Então ... que o agarra ele lhe escapa por entre os dedos, e nunca mais
NORA(de um só fôlego) Podia me dar dinheiro, Torvald. Oh! se sabe que destino ele teve. Enfim, há que aceitá-la tal como
Apenas aquilo de que você pudesse prescindir - e um dia você é. Está no sangue. Sim, Nora, essas coisas são
desses eu iria comprar qualquer coisa para mim. hereditárias.
( HELMER Mas, Nora ... NORA Quem me dera ter herdado muitas das qualidades de
NORASim, querido Torvald, sim, faça isso. Eu o embrulharia meu pai!
num lindo papel dourado para pendurá-Ia na árvore de Natal. HELMERE eu não gostaria que houvesse a menor mudança em
Você não acha graça? você, minha querida ave canora. Mas percebo agora que
(
HELMERComo se chama o pássaro que está sempre fazendo o você está um tanto ... um tanto ... como diria? .. que você
( dinheiro voar? tem o ar de quem fez alguma travessura hoje.

10 11
NORA Eu? você já se recolhia todas as tardes, até mais de meia-noite,
HE:L~R Sim, você. Olhe bem nos meus olhos. para confeccionar os adornos para a árvore de Natal e mil
outras surpresas ... Ah! não me recordo de época mais
NORA (encarando-o) E então?
aborrecida!
HELMER A minha gulosa não andou se regalando hoje na
cidade? NORA Eu não me aborreci nem um pouquinho.
HELMER
(sorrindo) Mas no final o que apareceu foi tão pouco!
NORA Não, por que diz isso?
NORA Ah! Não comece a caçoar de mim novamente. Acaso
HE:L~R Então a minha gulosa nem sequer deu uma olhada na
confeitaria? tive culpa se o gato entrou lá e deu cabo de tudo?
HELMERCoitadinha! De certo que a culpa não foi sua, minha
NORA Não, sinceramente, Torvald.
HELMER Nem sombra de doces? Norinha. O seu maior desejo era alegrar-nos, e isso é o
NORA Nem sombra. essencial. Em todo o caso, ainda bem que esses tempos
difíceis já se foram.
HaMER Nem ao menos mordiscou um ou dois bolinhos de
amêndoas? NORA É verdade; isso é de fato ótimo.
HELMER Agora já não fico aqui sozinho, aborrecido, assim
NORA Não, Torvald, não mesmo; garanto-lhe.
HaMER Bem, bem, naturalmente eu estava brincando. como você já não precisa estragar seus olhinhos tão lindos e
esses queridos dedinhos. (
NORA (acercando-se da mesa à direita) Eu seria incapaz de
NORA(batendo palmas) Não preciso mesmo, não é, Torvald?
fazer qualquer coisa que lhe desagradasse.
Nunca mais. Ah, é tão bom ouvir isso! (Toma o braço do
HEL'v1ER Eu sei; depois, você me deu sua palavra ... (Apro-
marido) Agora vou lhe contar como pensei que poderíamos
xima-se de Nora) Vamos, guarde seus segredos de Natal só
arranjar as coisas logo que passar o Natal ...
para você, minha querida Nora; logo eles nos serão reve1ados,
quando as velas na árvore forem acesas.
Toque de campainha na saleta
NORA. Você convidou o doutor Rank para jantar?
Ha.'v1ER Não, mas não há necessidade disso. Quando ele chegar,
Tocaram à porta. (Faz um pouco de ordem na sala) Alguma
convido-o. Encomendei vinho, e dos bons. Você não imacina.,
visita. Que aborrecimento!
Nora, como estou ansioso por esta noite!
HELMER Se for uma visita, lembre-se que não estou em casa
NORA Eu também - e como as crianças vão adorar, Torvald!
para ninguém.
HELMER Ah! Como é bom saber que chegamos a uma si-
A CRIADA(à porta de entrada) Madame, está aí uma se-
tuação estável, segura., e com uma bela remuneração. Pen-
nhora que quer vê-Ia. (
sar nisso nos dá muita satisfação, não é mesmo?
NORA Mande entrar.
NORA Oh, é maravilhoso!
A CRIADA(a Helmer) O senhor doutor também chegou.
HELMER Lembra-se do Natal passado? Três semanas antes

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12

---".~ 0:11;
(
r

( HELMER Está no meu escritório? SENHORALINDE E também muito envelhecida, Nora.


A CRIADA Sim, senhor. NORA Sim, um pouco, um pouquinho - mas não demais. (De
Helmer entra no seu gabinete. A criada introduz a senhora súbito interrompe-se, e, com voz grave) Oh! mas que
(
Linde, que traja um vestido de viagem, e fecha depois a estorvada que eu sou, me ponho a tagarelar ... Minha que-
(
porta rida, minha boa Kristina, perdoe-me ...
( SENHORA.
LINDE Não a compreendo, Nora.
SENHORALI0.TIE (timidamente, com certa hesitação) Bom NORA (meigamente) Pobre Kristina, você ficou viúva.
( dia, Nora ... SENHORALINDE Há três anos ...

( NORA (indecisa) Bom dia ... NORA Soube pelos jornais. Oh! Kristina, acredite que muitas
SENHORALu,mE Você não me reconhece? vezes pensei em lhe escrever naquela ocasião ... mas sempre
(
NORA Não sei ao certo, mas ... parece-me ... (exclamando) alguma coisa me impedia e eu adiava a ...
Kristina, é você? SENHORALINDE Compreendo bem isso, cara Nora.
( SENHOR-'\LnoiDE Sou eu, sim. NORA Não, Kristina; foi horrível de minha parte. Pobre amiga,
( NORA Kristina! E eu sem reconhecê-Ia! Mas como pude? .. como você deve ter sofrido. Ele lhe deixou com que viver?
(Mais baixo) Como está mudada, Kristina! SENHORALI!\'DE Não.
SENHOR-'\LI0.TIE É verdade. Já se passaram nove ... dez longos NORA E filhos?
anos ... SENHORALINDE Também não.
NORA. Hájá tanto tempo que não nos vemos? É verdade, acho NORA Absolutamente nada, então?
que sim. Ah, se você soubesse como tenho sido feliz nesses SENHORALI0.TIE Nem mesmo uma dessas saudades de partir
últimos oito anos! E agora você também veio para a cidade? coração ..
Quanta coragem, fazer uma viagem tão longa em pleno NORA (olhando-a incrédula) Ah, Kristina, isso não pode ser
inverno! verdade!
SEJo:HOR-'\
LIJo:DE Cheguei no vapor, esta manhã. SENHORALINDE (sorrindo amargamente e passando-lhe a
NORA Para passar as festas de Natal, naturalmente. Que bom! mão pelos cabelos) Algumas vezes acontece, minha Nora.
Como havemos de nos divertir! Mas tire o casaco. Não está NORA Sozinha no mundo. Como deve ter sido difícil! Eu tenho
sentindo frio, não é mesmo? (Ajuda-a) Pronto; agora vamos três lindas crianças. Por enquanto não posso mostrá-Ias a
(
nos sentar comodamente ao pé da estufa. Não, sente-se nessa você; saíram com a babá. Mas conte-me agora ...
I (
poltrona! Eu fico na cadeira de balanço, é o meu lugar. SENHORALINDE Depois, comece você.
(Toma-lhe as mãos) Agora já vejo o semblante de outros NORA Não, é a sua vez. Hoje não quero ser egoísta ... só quero
tempos ... foi só a primeira impressão ... No entanto, você pensar em você. Uma coisa, todavi~, vou lhe dizer já. Sabe
está um pouco pálida, Kristina ... e mais magra. que tivemos uma grande felicidade, há dias?

(
14 15
(

(
SENHORA
LINDE Não, que foi? espécie de ocupações suplementares e trabalhar de manhã
NORA Imagine, meu marido foi nomeado diretor do banco. até a noite. Caiu gravemente enfermo. Então os médicos
SENHORA
LIl\'DE Seu marido? Ah, que sorte! declararam que ele precisava ir para o sul.
NORA Não é mesmo? A advocacia é tão incerta como ganha- SENHORA LINDE É verdade; vocês passaram um ano inteiro na
pão, sobretudo quando se quer tomar conta apenas de boas Itália.
e belas causas! E era esse, naturalmente, o caso de Torvald, NORA Sim. E não nos foi nada fácil empreender essa viagem,
no que eu o aprovo inteiramente. Imagine como nos sentimos como você bem pode compreender. Foi por ocasião do
felizes! Deve tomar posse do seu lugar no princípio do ano, nascimento de Ivar. Mas claro, não havia outro meio ... Ah,
e terá então um alto salário e muitas comissões. Assim, de que linda viagem! que encanto! E salvou a vida de Torvald.
agora em diante poderemos viver de uma maneira muito Mas que dinheirão nos custou, Kristina!
diferente - da maneira como gostaríamos. Ah, Kristina, como SENHOR/I.LINDE Calculo.
me sinto feliz e de coràção leve! Naverdade é delicioso ter NORA Mil e duzentos táleres. Quatro mil e oitocentas coroas.
muito dinheiro, e nunca precisar se preocupar, você não Uma bela soma, não é?
acha? SENHORA
LINDESim, e num caso desses é uma grande sorte tê-
SENHORA LINDE Decerto. Em todo caso já não deve ser mau Ia.
ter-se o necessário. NORA Eu lhe digo; foi-nos dada por papai.
NORA Não, só o necessário, não, mas muito dinheiro, muito! SENHORA
LINDEAh! Parece ter sido exatamente no ano em que
SENHORALIl\'DE(sorrindo) Nora, Nora, então você ainda não ele morreu, não é?
se tornou mais sensata? Na escola você era uma grande NORA É verdade, Kristina, foi nessa ocasião. E eu sem poder
gastadeira. ir cuidar dele. Todos os dias à espera de que nascesse Ivar,
NORA(sorrindo meigamente) E Torvald afirma que ainda e o meu pobre Torvald morrendo, necessitando dos meus
sou. Mas (ameaçando-a com o dedo) "Nora, Nora" não cuidados. Querido, bondoso papai! Nunca mais o vi. Depois
é tão estouvada como julgam. Além disso, até hoje pouco que me casei, foi a minha maior dor.
tenho podido gastar. Ambos precisávamos de trabalhar. SENHORALINDE Você era muito ligada a ele, bem sei. Enfim,
SENHORA LINDE Você também? I foram para a Itália ...?
NORA Sim. Pequenas coisas, trabalhos manuais, rendas, bor- NORA Fomos. Tínhamos dinheiro, e os médicos nos aconse-
dados, etc. (Casualmente) E ainda outra coisa. Você sabe lhavam a não retardar a viagem. Partimos dali a um mês.
que Torvald saiu do ministério público quando nos casamos. SENHORA LINDE E seu marido regressou bom de todo?
Não podia esperar aumento de ordenado na repartição, e NORA Completamente.
precisava ganhar mais do que até então. No primeiro ano, SENHORALINDE Então ... e esse médico?
porém, trabalhou demasiado. Calcule, tinha de procurar toda NORA Não estou entendendo.

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SENHORA LINDE O homem que chegou junto comigo. Creio ter SENHORA LINDE Engano seu, Nora; o que sinto é um vazio
ouvido a empregada dizer que era um médico. insuportável. Não ter mais nada por que viver!... (Ergue-
( NORA Ah! É o doutor Rank. Esse não vem como médico. É o se inquieta) De modo que não pude continuar sozinha
nosso melhor amigo; vem cá ver-nos uma vez por dia, pelo naquele canto insulado. Aqui deve ser mais fácil a gente
menos. Torvald nunca mais esteve doente desde que encontrar uma ocupação, distrair o pensamento. Se eu tiver
( sorte de arrumar um emprego, um trabalho de escritório ...
regressamos. As crianças também estão bem de saúde, e
( eu, como você vê. (Levanta-se de um salto, batendo NORA Mas que idéia! É tão fatigante! E você precisa tanto de
( palmas) Deus, Kristina, é bom demais viver e ser feliz! ... repouso! Melhor seria se você pudesse tirar umas férias.
Ah, estou insuportáveL. não falo senão em mim! (Senta- SENHORA LINDE(aproximando-se da janela) Eu não tenho
,/ se numa banqueta bem junto de Kristina, e coloca os um pai que me pague a viagem, Nora.
braços em seus joelhos) Não fique zangada comigo. Então NORA(erguendo-se) Ah, não se zangue comigo.
é verdade que você não gostava de,seu marido? Mas se é SENHORA Ln'mE (indo até ela) Você, querida Nora, é que deve
( me desculpar. A pior coisa que existe numa situação como
assim, por que se casou com ele?
( a minha é que as amarguras se acumulam na alma da
SENHORA Lu·mE Minha mãe ainda era viva, estava acamada e
( sem amparo. Além disso tinha meus dois irmãos menores gente. Não ter ninguém por quem trabalhar, e, contudo,
( para sustentar. Não me restou outra alternativa quando ele não conseguir relaxar. Enfim, é necessário viver!... Então a
gente se toma egoísta. Como agora, por exemplo: enquanto
( me pediu em casamento.
NORA Claro. Estou certa de que você procedeu bem. Nesse a ouvia falar sobre sua boa sorte fiquei mais satisfeita por
(
mim mesma do que por você.
tempo ele era rico, não?
. NORA Quê? Ah!. .. sim, compreendo. Veio-lhe a idéia de que
SENHORA Ln-mE Creio que estava bem de vida. Mas seu negócio
Torvald lhe poderia ser útil.
não era sólido. Com a morte dele tudo se desintegrou, não
sobrou nada. SENHORA LINDE Sim, foi isso que pensei comigo.
NORA E há de sê-lo, Kristina, deixe comigo. Vou preparar o
NORA E depois?
SENHORA
LINDE Tive de me livrar das dificuldades recorrendo terreno com muita delicadeza; inventarei algo para cativá-
10, que o deixe bem-humorado. Ah, gostaria tanto de ajudá-
a pequenos serviços, dando aulas, e tudo mais que aparecia. Ia!
Enfim, esses três últimos anos foram para mim um longo
SENHORA LINDE Como é bonito da sua parte Nora, mostrar
dia de trabalho sem descanso. Agora acabou-se, Nora.
tanto empenho ... você, que conhece tão pouco as misérias
Minha pobre mãe já não precisa de mim: morreu; e os dois e as contrariedades da vida.
meninos também não: estão empregados, já podem se NORA Eu? .. Você acha?
manter sozinhos.
SENHORA
LINDE(sorrindo) Ora, afinal foram só umas costu-
NORA Como você deve se sentir aliviada!
tinhas e outras coisas do gênero. Você é uma criança, Nora.

18 19
NORA (meneando a cabeça e atravessando a cena) Não também posso ser altiva e feliz. Fui eu que salvei a vida de
Torvald.
seja tão superior.
SENHORALINDE Como? SENHORALINDE Você salvou? Como foi isso?

NORA Você é como os outros. Todos julgam que não sirvo NORA Já falei da viagem à Itália, não é verdade? Torvald não

para nada sério ... escaparia se não tivesse podido ir para o sul.
SENHORALINDE E então ... SENHORALINDE Sim, e seu pai lhe deu o dinheiro de que

NORA Que não tenho nenhuma experiência do lado difícil da precIsavam.


vida ... NORA (sorrindo) Isso é que Torvald e toda a gente supõem,
mas ...
SENHORALINDE Mas, minha querida Nora, você mesma acaba
de me descrever todas as suas dificuldades ... SENHORALINDE Mas ...

NORA Ora! ... essas bagatelas! ... (Em voz baixa) Não lhe contei NORA Papai não nos deu sequer um centavo. Eu é que arranjei
o dinheiro.
o principal.
SE"<HORALINDE Que principal? O que você quer dizer? SENHORALINDE Uma quantia dessas? .. Você? ..
NORA Mil e duzentos táleres. Quatro mil e oitocentas coroas.
NORA Você também me trata do alto da sua grandeza, Kris-
tina, mas não devia fazer isso. Você se orgulha por ter tra- Que lhe parece?
SENHORALINDE Mas, Nora, como você fez isso? .. Ganhou a
balhado durante tanto tempo e com tanta dedicação por sua
mãe. sorte grande?

SE)''HORALINDE Não trato ningu~m do alto da minha grandeza; NORA (num tom de desprezo) A sorte grande ... (Com um

mas, é verdade que me sinto feliz e altiva ao lembrar-!TIe jeito de desdém) Que mérito haveria nisso?
SENHORALINDE Nesse caso, onde o foi buscar?
que, devido a mim, os últimos dias de minha mãe foram
serenos. NORA (sorrindo misteriosamente e cantarolando) Hum! trá-
lá-lá.
NORA. E também sente orgulho pelo que fez pelos seus irmãos.
SENHORALINDE Parece-me que tenho todo direito em sentir. SENHORALINDE Pedi-Io emprestado você não poderia.

NORA É também o que penso. Agora vou l!1e contar uma coisa, NORA Porque não?
Kristina. Eu também tenho motivo de alegria e de orgulho. SENHORALINDE Porque uma mulher casada não pode contrair

Sa-moRA LINDE Não duvido. O que é? empréstimo sem o consentimento do marido.


NORA Fale mais baixo. Se Torvald nos ouvisse ... Por nada NORA (meneando a cabeça) Ah, quando se trata de uma
deste mundo eu queria que ... Ninguém deve saber isso, mulher um pouco prática ... uma mulher que sabe ser hábil...
ninguém no mundo, além de você, Kristina. SENHORALINDE Não, não compreendo.

Sa-mORA LINDE Mas o que é então? NORA E nem precisa compreender. Ninguém disse que pedi
NORA Chegue aqui. (Puxando-a para si, no divã) Ouça ... eu emprestado esse dinheiro. Poderia tê-Io conseguido de ou-

21
20

~.;,.;;,.
(
( tra maneira. (Atira-se para cinUl do sofá) Poderia até havê- nesse ponto! .. E depois, eu feriria seu amor-próprio de
( 10 recebido de um admirador, ora! Com os meus atrativos ... homem! Que humilhação saber que me devia alguma coisa!
( SE'\HORALDiDE Você está louca! Isso teria modificado toda a nossa relação, e o nosso ado-
NoFt-\ Certamente você está morrendo de curiosidade! rável lar nunca mais seria o mesmo.
(
SP'HOR.ALr0iDE Diga-me, querida Nora, você não procedeu SENHORA
LrNDE Você nunca contará?
(
levianamente? NORA(refletindo, e num meio sorriso) Talvez ... com o tempo,
( NORA (endireitando-se) Será leviandade salvar a vida do mas não tão cedo. Só quando eu já não for tão bonita como
( marido? hoje. Não ria! Quero dizer: quando Torvaldjá não me amar
( SE'iHORALJ;\iDE Sem ele saber, julgo que o seja ... tanto, quando já não se deliciar tanto com o que eu recito ou
( NoFt-\ Mas era exatamente isso: ele não devia saber. Você não danço, e as fantasias que eu visto. Então, será bom ter um
( entende? Ele não devia conhecer nem a gravidade do seu trunfo à disposição ... (Interrompendo-se) Tolice! Esse dia
estado. A mim é que os médicos se dirigiram, dizendo que a nunca há de chegar. Então, Kristina, o que você tem a dizer
(
vida dele corria perigo, que só uma estada no sul podia salvá- do meu grande segredo? Eu também sirvo para alguma
( coisa ... Acredite, esse caso me deu muita preocupação. Na
10. Você pensa que não tentei disfarçar? Dizia-lhe que seria
( um grande prazer para mim ir fazer uma viagem ao verdade não me tem sido fácil efetuar o pagamento na data
( estrangeiro como as outras esposas jovens; chorava, su- pré-estabelecida. Eu lhe explico: nesses negócios há uma
( plicava, fazia-lhe ver que no estado em que me encontrava coisa que se chama juros de trimestre e outra ainda: a
ele se devia curvar aos meus desejos; dei-lhe a entender amortização; e tudo isso é terrivelmente difícil de arranjar.
(
que ele podia muito bem contrair um empréstimo. Se você Tive que econorrUzar um pouco aqui, um pouco ali. Da casa,
(
\·isse. Kristina, ele quase perdeu o controle. Disse-me que pouco podia tirar: era preciso que Torvald vivesse cóm certa
eu era frhola, e que o seu dever de marido era não ceder comodidade. E as crianças também não podiam andar mal
ao que, se bem me lembro, ele chamava de meus "capri- vestidas. Parecia-me que tudo quanto para eles eu recebia
chos e fantasias". "Bem", dizia eu comigo, "hei de salvá-Io, lhes pertencia de direito. Queridos anjinhos!
não importa como". Foi então que encontrei um modo. SENHORA LU'mE Então o dinheiro teve de ser economizado das
SE'-;'HORALn,mE E seu marido não soube por seu pai que o suas despesas pessoais? Pobre Nora!
(
dinheiro não provinha dele? NORA Naturalmente. De mais a mais, era justo. Todas as vezes
(
que Torvald me dava dinheiro para roupas novas, só gastava
( metade; comprava sempre o tecido mais barato e de qualidade
NORA Nunca.
em lhe O papai
revelar tudo, mo~eu dali aque
pedmdo-lhe dias._Eu
nao mehavia. pensado
tr31sse, mas r'
I.

ele estava tão mal... Aí não precisei dar esse passo. inferior. Sorte minha que tudo me cai tão bem, de forma que
SE"'BORA LJ]\,'DEE depois, você nunca contou para seu marido? Torvald nada suspeitou. Algumas vezes, contudo, custava-
( NORA Não, por Deus! Como eu poderia? Ele é tão rigoroso me; pois é tão bom andar elegante, não é verdade?
(
22 23
(
(

(
SENHORA
LrNDE É claro.
SENHORA
LINDE(erguendo-se) Está chegando alguém; quer
NORA E também tinha outros ganhos. No inverno passado, que me retire?
por sorte, consegui um monte de textos para copiar. Então NORA Não, fique; não espero ninguém; naturalmente é para
recolhia-me e escrevia até alta noite. Oh! às vezes sentia- Torvald.
me tão cansada! No entanto era tão divertido trabalhar para A CRIADA(da porta da saleta) Com licença, minha senhora;
ganhar dinheiro! Sentia-me quase como um homem. está ali um cavalheiro que pergunta pelo senhor advogado.
SENHORA
LrNDE E quanto você pôde pagar dessa forma? NORA Pelo senhor diretor de banco, você quer dizer... (
NORA Ao certo não posso dizer. Você não imagina quanto é A CRIADASim, minha senhora, pelo senhor diretor de banco;
difícil manter o controle dessas contas. O que sei é que mas como o senhor doutor Rank está lá ... não sei ...
paguei o mais que pude. Às vezes quase perdia o juízo. NORA Quem é?
(Sorri) Então cismava que um velho muito rico se apaixo- KROGSTAD(aparecendo) Sou eu, minha senhora.
nara por rrum. SENHORALINDE(estremece, perturba-se e volta-se para a
SENHORA
LIJ\"DEQuê? Que velho? janela)
NORA Tolices!. .. Morrera, e ao abrir o seu testamento, estava NORA(dá um passo para ele e, perturbada, diz à meia voz)
escrito em letras grandes: "Toda minha fortuna fica para a O senhor? Que sucedeu? Para que quer falar com meu
encantadora senhora Nora Helmer, e deve lhe ser entregue marido?
imediatamente, e em dinheiro vivo KROGSTADÉ a respeito do banco - até certo ponto. Tenho lá
SENHORA
LD>"DEMinha querida Nora ... que homem era esse? um empreguinho, e ouvi dizer que o seu marido vai ser nosso
NORA Oh, Deus, então não compreendes? O velho não exis- chefe ...
tia; era apenas uma idéia que sempre me aparecia quando NORA Ah. então é apenas ...
não via mais meio de arrumar dinheiro. Além disso, agora KROGSTADAssunto maçante, minha senhora, nada mais. I
tudo mudou. O velho enfadonho pode estar onde queira, NORA Queira então fazer o obséquio de entrar no escritório.
não me importo mais com ele nem com o testamento, pois (Cumprimenta-o com indiferença, fecha a porta da saleta
hoje estou sossegada. (Ergue-se vivamente) Oh! meu e volta-se, observando o fogo na estufa)
Deus! Que encanto pensar nisso, Kristina! Tranqüila! Po- SENHORALINDE Nora ... quem é esse homem?
der estar tranqüila, completamente tranqüila, brincar com NORA É o advogado Krogstad.
meus filhos, ter uma casa bonita, com gosto, como Torvald SENHORALINDE Então é ele mesmo?
a quer. Depois virá a primavera, o lindo céu azul! Talvez NORA Conhece-o? ~)
"

então possamos fazer uma viagenzinha. Tornar a ver o mar! SENHORALINDE Conheci-o há muitos anos. Foi algum tempo
Oh! como é adorável viver e ser feliz! auxilar de advogado na nossa região.
NORA É verdade.
Toque de campainha

24 25

(
i (

( SENHORA
Ln,mE Como está mudado! RANK É claro que quero. Mesmo miserável como sou, gos-
( NORA Creio que não foi feliz no casamento. taria de parmanecer aqui e sofrer durante o maior espaço
( SENHORALIl'<'DEE está viúvo?
de tempo possível. Todos os meus clientes têm esse desejo.
( NORA Está. Tem um monte de filhos. Bom, o fogo agora pe- E dá-se o mesmo com aqueles cujo mal é moral. Agora
gou. (Fecha a porra da estufa e afasta a cadeira de mesmo deixei junto de Helmer um homem que é moral-
(
balanço) mente inválido, e ...
(
SE:\HORALI:\DE Parece que se ocupa de negócios escusos. SENHORA
LINDE(com VOZ abafada) Ah!
( NORA Sim? É possível; não sei ... Mas não falemos de negó- NORA De quem o senhor está falando?
r cios; é tão enfadonho ... RANK Ah, falo desse advogado Krogstad, um homem que a
( senhora não conhece. Seu caráter está contaminado até os
Entra o doutor Rank, vindo do gabinete de Helmer
( ossos, mas a primeira coisa que disse - dando-lhe, pois,
( RAt"\lK(conversando, na porta entreaberta) Não; não quero uma grande importância - foi que precisa viver.
( atrapalhá-Io; vou por um momento fazer companhia à sua NORA É? Que negócios tem ele a tratar com Torvald?
esposa. (Fecha a porta e nota a presença da senhora RANK Para falar a verdade, não sei. Apenas ouvi dizer que se
( tratava do banco.
Linde) Oh! perdão! Também aqui sou importuno.
( NOR.A De modo algum. (Apresentando-os) O doutor Rank; a NORA Ignorava que Krog ... que esse advogado tivesse algo a
( senhora Linde ... ver com o banco.
( R,,-'\K Ah, um nome que se ouve com freqüência nesta casa. RANK Sim, tem lá uma espécie de emprego. (Dirigindo-se à
( Parece-me que ao chegar, passei pela senhora na escada? senhora Linde) Não sei se na sua região acontece o mesm9
SE:\HOR.A LI\'DE Sim; não gosto de escadas. Tenho de subir também, mas aqui há um tipo de gente que se dedica a fa-
bem devagar. rejar a corrupção moral. Mal a encontra coloca-a num em-
R.\.'\K Algum problema interno? prego onde possa vigiá-Ia. Os homens honestos serão dei-
( xados de fora, ao relento.
SE\110RALI\'DE Na realidade, só estou cansada.
( RA:\K Nada mais? Então, veio à cidade certamente para SENHORA
LINDE Devemos concordar em que os doentes é que
descansar fazendo visitas ... precisam ser cuidados.
I
( SEl\'HORA
LINDE Vim para procurar trabalho. RANK(encolhendo os ombros) Bonito! Esse tipo de ponto
( RAt,1<.Parece-lhe remédio eficaz contra o cansaço? de vista é que está transformando a sociedade num hospital.
SEl'mORALIl'mE É preciso viver, doutor. NORA(absorta nos próprios pensamentos, subitamente dá
(
RANK É a opinião geral: julga-se tal coisa necessária. t
r,
um riso baixinho e bate palmas)
SEl\'HORALINDE Oh! doutor, estou certa de que o senhor tam- RANK De que ri? Acaso sabe sequer o que é a sociedade?
( bém quer viver. NORA Que me importa a sua sociedade enfadonha? Estava
(
( 26 27

(
( )
rindo de outra coisa, engraçadíssima. Ora, diga-me, doutor ... RANK Que louquinha!
todas as pessoas empregadas no banco dependem, de hoje SENHORALINDE Então, Nora ...
em diante, de Torvald? RANK Olhe, diga agora; lá vem ele.
R"''''K E é isso que a diverte tanto? NORA(escondendo o saco de bolinhos) Pss! Pss!
NORA(sorrindo e cantarolando) Não faça caso. (Passeia HELMER(aparece na porta do escritório, de sobretudo no
pela sala) Sim, é agradável; custa-me crer que nós ... que braço e chapéu na mão)
Torvald tenha agora tamanha influência sobre tanta gente! NORA(dirigindo-se a ele) Então, Torvald querido, já se livrou
(Tira da algibeira o saco de bolinhos de amêndoas) dele?
Quer um pouco de bolinho de amêndoas, doutor? HELMER Já; foi-se agora.
R"""'1<: Quê? bolinho de amêndoas?! Julgava que isso fosse NORA POSSOlhe apresentar? É Kristina, que chegou hoje.
proibido nesta casa. HELMERKristina? .. Queiram desculpar, mas verdadeiramente
NORA E é, mas estas foram trazidas por Kristina. não sei ...
SE.'\'HORA
LINDE Eu?!. .. NORA A senhora Linde, meu querido, a senhora Kristina Linde.
NORA Não precisa se assustar. Você não podia adivinhar que HELMER Ah! muito bem! É provavelmente uma amiga de.
Torvald as tinha proibido. Sabe por quê? Porque receia que infância de minha esposa?
me estraguem os dentes. Mas, ora! ... uma vez só! Não é SENHORA LINDE Exatamente, somos velhas amigas.
verdade, doutor Rank? .. Olhe! (Mete-lhe um confeito na NORA Imagine que ela empreendeu essa comprida viagem para
boca) E você também, Kristina! Para mim só tiro uma lhe falar!
pequenina ... ou duas, quando muito. (Toma a andar pela HELMER Para falar-me ?
sala) Oh! Estou terrivelmente feliz! Só há neste mundo uma SENHORA
LINDE Não foi só esse o motivo ...
coisa que me apeteceria tanto. NORA É que Kristina é muito hábil em trabalhos de escritório,
R"""K Que será ... ? e deseja muitíssimo estar sob as ordens de um homem
NORA Uma coisa que eu gostaria imensamente de dizer diante superior e adquirir ainda mais experiência.
de Torvald. HELMER Tem toda a razão, minha senhora.
R"""K E por que não a diz? NORA Então logo que soube da sua nomeação para diretor do (
NORA Não me atrevo, é muito feio. banco - soube-o por um telegrama -, pôs-se imediatamente
SD'HORALINDE Feio? .. a caminho. E você, para me ser agradável... há de se empe-
RANK Se assim é, de fato, o melhor é não dizê-Ia; mas a nós nhar por Kristina, não é mesmo?
podia ... Que é então que lhe apeteceria dizer diante de HELMER Não é de todo impossível. Suponho que talvez a se-
Helmer?
nhora seja viúva?
NORA Tenho muita vontade de dizer: Caramba! SENHORA LINDE Sou.

28 29

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(

(
(
( HELMER E tem prática em trabalhos administrativos? HELMER Venha, senhora Linde, aqui só uma mãe agüenta
( ficar.
SENHORA
LINDE Sim senhor, bastante.
( HELMER Então é muito provável que lhe arranje um lugar ...
( NORA(batendo palmas) Está vendo? O doutor Rank, Helmer e a senhora Linde descem a escada. A
( HELMER Chegou numa boa ocasião, minha senhora. babá entra na cena com as crianças. Nora também, depois
( SENHORA
LI1'.'DENão sei como agradecer-lhe! de fechar a porta
HELMER Oh! não falemos nisso! (Veste o sobretudo) Agora, NORA Como estão frescos e alegres! Ah, que faces coradi-
(
porém, queiram desculpar-me ... nhas! Parecem maçãs ou rosas!
(
RANK Espere; vou contigo. (Vai buscar o casaco de pele na
(
saleta e aproxinuz-se da estufa para aquecê-Io) As crianças falam-lhe todas ao mesmo tempo até o final da
( NORA Não demore, caro Torvald. cena
( HELMER Uma hora, quando muito.
NORA Você também já vai, Kristina?, Então brincaram muito? Mas isso é ótimo! Sério? Você puxou
(
SENHORA
LINDE(pondo o casaco) Preciso arranjar alojamento. o trenó com Emmy e Bob em cima? É impossível! Com os
(
HELMER Podemos ir juntos um pedaço. dois! Ah! você é um valentezinho, Ivar! Ah! deixe-a ficar um
(
NORA(ajudando-a) É pena estarmos tão apertados ... mas instante comigo, Anna-Maria. Minha querida bonequinha!
( é impossível... (Pega a filhinha e dança com ela) Sim, sim, a mamãe
SENHORA Lr:'-.'DEQue idéia, Nora! Até depois, minha querida, e também vai dançar com Bob. Quê? Fizeram bolas de neve?
( muito obrigada. Ah! quem me dera ter ido também! Não, deixe-me, Anna-
( NORA Até logo. É claro, à noite você volta. E o senhor também, Maria. Quero eu mesma tirar-Ihes os agasalhos. É tão
doutor. Quê? Se estiver disposto? Decerto que estará. Basta divertido! Entre, você parece gelada. Na cozinha tem café
agasalhar-se bem. quente.
(

( Saem conversando pela porta da entrada. Ouvem-se as A babá entra no quarto do lado esquerdo. Nora tira os
vozes das crianças na escada agasalhos e os chapéus dos filhos, espalhando-os pela sala,
:f (
1! enquanto deixa que as crianças falem ao mesmo tempo
NORA Ai vêm eles! aí vêm eles! (Corre a abrir; entra Anna-

:
Ii'l,
(
,
Maria, a babá, com as crianças) Entrem, entrem! (Curva-
se e beija-as) Oh! meus queridos! Está vendo, Kristina?
NORA Ah! Um grande cão atrás ·dos meus filhos? Mas não
mordia. Não, os cães não mordem bonequinhos lindos e tão
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;~

Não são umas gracinhas? queridos! Ivar, não abra os embrulhos. O que tem nesse aí?
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J ( RANK Não fiquem batendo papo na corrente de ar. Você não pode saber! Não, não é nada bonito. Ah, vocês
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I( 30 31

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querem brincar? De quê? De esconde-esconde? Está bem. NORA Hoje? .. Mas ainda não estamos no primeiro do mês ...
O primeiro a se esconder é o Bob. Eu? Então sou eu, está K.ROGSTADNão; estamos na véspera do Natal. Da senhora
bem. depende que este Natal lhe traga alegria ou pesar.
NORA Mas que pretende? Hoje é verdadeiramente impossí-
vel...
Nora e os filhos começam a brincar, gritando e rindo pelas
duas salas contíguas. Por fim, Nora esconde-se debaixo KROGSTADPor enquanto não falemos nesse assunto. Trata-se
de outra coisa. Pode conceder-me um momento?
da mesa. As crianças chegam em tropel e procuram-na sem
a encontrar. Ouvem-lhe o riso abafado; precipitam-se para NORA Posso, certamente, ainda que ...
a mesa, levantam o pano e descobrem-na. Gritos de alegria. KROGSTADBem. Encontrava-me no restaurante Olsen quan-
Ela sai com as mãos no chão, como para os amedrontar, do vi passar o senhor seu marido ...
NORA Ah!
novos gritos de alegria. Entrementes, alguém bate à porta
de entrada, sem que ninguém ouça. A porta entreabre-se e K.ROGSTAD Com uma dama.
NORA E então?
vê-se Krogstad. Espera um momento. O jogo prossegue
K.ROGSTADPermita-me uma pergunta. Essa dama não era a
KROGSTADPerdão, senhora Helmer. .. senhora Linde?
NORA (solta um grito surdo e ergue-se um pouco) Que NORA Era.
deseja? K.ROGSTADChegou hoje?
KROGSTADDesculpe-me; a porta estava entreaberta. Esque- NORA Sim, hoje.
ceram-se de fechá-Ia. KROGSTADEla é uma boa amiga da senhora?
NOR". (levantando-se) Meu esposo não está em casa, 'senhor NORA É, mas não percebo ...
Krogstad. KROGSTADTambém a conheci outrora.
KROGSHD Bem sei. NORA Sim, eu sei.
NOR". Então ... o que quer? KROGSTADVerdade? Então a senhora ouviu falar a respeito?
KROGSTADTrocar consigo algumas palavras. Bem me parecia. Nesse caso poderá dizer-me se a senhora
NORA Comigo? .. (Baixo, aos filhos) Vão ficar com Anna- Linde vai ter uma colocação no banco?
Maria. O quê? .. Não, O estranho não quer fazer mal a NORA Como ousa o senhor interrogar-me a esse respeito? O
mamãe ... Quando ele for embora vamos jogar outra vez. senhor, que é subordinado do meu marido! Mas, uma vez
(Acompanha as crianças até o compartimento da esquer- que está perguntando, vou satisfazer-lhe a curiosidade.
da e fecha a porta atrás delas) Efetivamente, a senhora Linde vai ser funcionária do ban-
NORA (inquieta, agitada) Deseja falar comigo? co. E foi devido a mim, senhor Krogstad. E agora já está
KROGSTADSim, minha senhora, consigo. sabendo.

32 33

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KROGSTADSim, é o que eu imaginava. KROGSTADQue coragem a senhora tem!


NORA(andando de um lado para outro da cena) Como vê, NORA Não o temo. Passado o Ano Novo, ficarei livre de si.
( ainda tenho alguma influência. Embora seja mulher, isso KROGSTAD
(contendo-se) Ouça, minha senhora: sendo ne-

( não significa ... Sim, quando se está numa situação subal- cessário, para conservar o meu emprego lutarei como se se
terna, senhor Krogstad, é preciso ter cuidado em não tratasse de um caso de vida ou morte.
(
molestar alguém que ... hum ... NORA De fato, é isso que parece.
KROGSTAD... que tenha influência? KROGSTADNão é apenas por causa do salário; isso é o de me-
( NORA Exatamente. nos. Há, porém, outra coisa ... enfim, vou lhe dizer tudo. A
( KROGSTAD
(mudando de tom) Senhora Helmer, a senhora senhora sabe, naturalmente, como toda a gente, que cometi
( seria boa a ponto de usar da sua influência em meu favor? uma imprudência muitos anos atrás.
( NORA Quê? Não compreendo. NORA Parece-me que ouvi falar ...
KROGSTADTeria a bondade de interceder para que eu conserve KROGSTADO caso não chegou aos tribunais; mas desde então
(
o meu modesto lugar no banco? todos os caminhos me foram fechados. Assim, eu passei a
( NORA Que quer dizer? Quem está tentando tirá-Ia do senhor? me dedicar àquela espécie de negócios que a senhora conhece;
( KROGSTADOh! Não é preciso simular diante de mim. Com- era necessário encontrar qualquer coisa, e posso dizer que
preendo muitíssimo bem que a sua amiga não sinta grande não fui pior que os outros. Mas agora quero livrar-me desse
( prazer em me ver, e agora sei a quem devo agradecer por tipo de coisa. Meus filhos estão crescendo; por causa deles
minha dispensa. quero recuperar, o mais possível, minha respeitabilidade de
NORA Mas afirmo-lhe ... cidadão. Esse lugar no banco era para mim o pn,meiro passo.
KROGSTADEnfim, em duas palanas: ainda é tempo, e acon- E agora o seu marido quer empurrar-me de volta à lama.
( NORA Mas, honestamente, senhor Krogstad, eu nada posso
selho-a a empregar a sua influência para evitar tal coisa.
( NORA Mas, senhor Krogstad, eu não tenho nenhum influência. fazer para auxiliá-lo.
( KROGSTADComo assim? Parece-me que ainda há pouco a ouvi KROGSTADIsso porque a senhora não quer. Mas tenho meios
( dizer... que a obrigarão a fazê-Ia.
( NORA Claro que não era nesse sentido. Como pode o senhor NORA O senhor, decerto, não irá dizer a meu marido que lhe
supor que eu tenha tamanho poder sobre o meu marido? devo dinheiro?
{
KROGSTADOh! Eu conheço o seu marido do tempo em que KROGSTADRum! E se assim fosse?
éramos estudantes. Não creio que o nobre diretor do banco NORA Seria indecoroso da sua parte. (Com a voz embarga-
(
seja mais inflexível do que os outros homens casados. da) Esse segredo de que tanto me orgulho, não gostaria
( NORA Se se referir de modo ofensivo a meu marido, expu l- que ele o soubesse dessa maneira feia e brutal... pelo se-
( so-o! nhor. Seria expor-me a grandes contrariedades.

(
( 34 35

(
(
i

:1

I KROGSTADSomente contrariedades?
! queria dizer que quem devia indicar a data da assinatura
i NORA (vivamente) Proceda como quiser: diga-lhe tudo. Quem
I era o seu pai. Recorda-se disso?
sofrerá mais será o senhor; meu marido verá então que
NORA Sim, efetivamente ...
espécie de homem é, e então pode ficar certo de que per-
KROGSTAD Então eu lhe entreguei a promissória que a senhora
derá o seu lugar.
tinha de remeter pelo correio a seu pai. Foi assim que tudo
KROGSTADPerguntei-lhe se receia apenas contrariedades na
sua vida doméstica. se passou, não é verdade?
NORA Foi.
NORA Se meu marido souber de tudo, naturalmente irá querer
KROGSTAD
E, claro, a senhora o remeteu imediatamente, pois
pagar logo; e então ficaríamos livres do senhor.
daí a cinco ou seis dias me apresentava a promissória com
KROGSTAD(dando um passo para ela) Ouça, senhora Hel-
a assinatura de seu pai. E a quantia foi-lhe entregue.
mer ... Ou a senhora não tem memória, ou então tem pouca
NORASim, e então? Não paguei minhas prestações com pon-
experiência em negócios. Preciso esclarecê-Ia um pouco.
tualidade?
NORA Para quê?
KROGSTADSim, com muita pontualidade. Mas, voltando ao
KROGSTADNa época da enfermidade de seu marido a senhora
que estávamos falando Aqueles tempos, decerto, foram
dirigiu-se a mim para lhe emprestar mil e duzentos táleres.
difíceis para a senhora .
NORA Não conhecia mais ninguém. ..
NORA Não nego.
KROGSTADPrometi conseguir-lhe essa quantia.
No!?,.",.E conseguiu. KROGSTADParece-me que seu pai estava acamado, muito
doente.
KROGSTAD Prometi obter-lhe essa quantia sob certas con-
NORA Ele estava morrendo.
dições. A senhora, porém, estava tão preocupada com a
KROGSTAD E não demorou muito, ele morreu.
doença de seu marido e tão empenhada em conseguir o
NORA Sim.
dinheiro da viagem que, julgo, não deu atenção aos deta-
KROGSTAD Diga-me, minha senhora, acaso se recorda da data
lhes. Eis a razão por que não acho demais repeti-Ias agora.
da morte de seu pai? Quero dizer, a que dia do mês ... ?
Pois bem! Prometi obter-lhe o dinheiro mediante um recibo
que eu elaborei. NORA Meu pai faleceu a 29 de setembro.
NORA E que eu assinei. KROGSTAD Exato. Estou informado. E por essa mesma razão é
que não consigo explicar ... (tira do bolso um papel) uma
KROGSTAD Bem. Mas, mais abaixo acrescentavam-se algu-
coisa curiosa ...
mas linhas pelas quais seu pai se tornava seu fiador. Essas
NORA Que coisa curiosa? Não sei ...
linhas deveriam ser assinadas por ele.
NORA Deveriam, diz o senhor? E ele assim o fez. KROGSTADO curioso, senhora Helmer, é que seu pai assinou a
promissória três dias depois de morto.
KROGSTADEu havia deixado o espaço da data em branco; isso
NORA Como assim? Não entendo.

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( KROGSTADSeu pai faleceu no dia vinte e nove de setembro. o senhor! Eu já não o podia suportar por causa de todos os
Mas veja. Sua assinatura é datada do dia dois de outubro. frios argumentos que me apresentava, sabendo que meu
(
Não é estranho isso? marido estava em perigo!
NORA (silencia-se) KROGSTADSenhora Helmer, vejo claramente que a senhora
KROGSTADTambém é e\'idente que as palavras: dois de outubro, não percebe a extensão da sua culpa. Mas vou lhe dizer
( assim como o ano, não são do punho de seu pai, mas têm uma coisa:
... o ato que arruinou a minha reputação social não
( uma caligrafia que me é conhecida. Enfim, é coisa que se era maIS cnmmoso que o seu.
( pode explicar. Seu pai teria se esquecido de datar a assi- NORA O quê? O senhor está querendo me fazer crer que
natura, e alguém o fez ao acaso, antes de ter conhecimento praticou uma ação corajosa para salvar a vida de sua
( mulher?!
da sua morte. Não há grande mal nisso. Aqui o essencial é
a assinatura. E esta é autêntica, não é mesmo, senhora KROGSTADAs leis não se preocupam com motivos.
( Helmer? Foi de faro, seu próprio pai quem escreveu aqui o NORA Nesse caso, são leis bastante más.
( seu nome? KROGSTADMás ou não ... se eu mostrar este papel à justiça,
( NORA(depois de breve silêncio, ergue a cabeça e encara-o segundo as leis a senhora será condenada.
com ar provocante) Não, não foi ele. Quem escreveu o NORA Não acredito. Então uma filha não terá o direito de
nome de papai fui eu. evitar a seu velho pai moribundo inquietações e angústias?
KROGSTAD Sabe, minha senhora, que essa confissão é pe- Uma mulher não terá o direito de salvar a vida de seu ma-
( rigosa? rido? Eu não conheço a fundo as leis, é claro; mas estou
NORA Por quê? Daqui a pouco o senhor terá o seu dinheiro. certa de que deve estar escrito em algurpa parte que tais
( KROGSTADPermita-me outra pergunta. Por que não enviou o coisas são permitidas. E o senhor não sabe disso? O senhor,
papel a seu pai? um advogado?! Parece-me pouco hábil como homem de
NORA Era impossível. Ele estava tão doente! Para lhe pedir a leis, senhor Krogstad.
assinatura eu tinha de lhe explicar a que se destinava o KROGSTADÉ possível. Mas de negócios como esses nossos ...
dinheiro. Mas eu não poderia lhe dizer, no estado em que se concorda que entendo, não é verdade? Bem. Agora proce-
encontrava, que a vida de meu marido corria perigo. Era da como bem entender; o que lhe posso afirmar é que se eu
impossível. for expulso pela segunda vez, a senhora me fará companhia.
KROGSTADNesse caso o melhor teria sido renunciar à viagem. (Cumprimenta e sai)
NORA De modo algum. Essa viagem devia salvar a vida de NORA (reflete por algum tempo; depois ergue a cabeça)
meu marido. Não podia renunciar a ela. Ora! Ele queria assustar-me! Mas eu não sou tão tola!
KROGSTADE a senhora não pensou que cometia uma fraude (Começa a apanhar as roupas dos filhos, mas detém-se
para comigo? passado um momento) Mas ... ? Não, é impossível! Se o
NORA Não podia nem pensar nisso. Que me importava a mim que fiz foi por amor!

38 39

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As CRIANÇAS(ã porta da esquerda) Mamãe, o estranho já HELMER É estranho. Vi Krogstad sair do prédio.
foi embora. NOR..\ Ah, sim, Krogstad me fez uma breve visita.
NORA Sim, sim, já sei. Mas não falem a ninguém sobre aquele HELMERNora, posso ver pela sua expressão que ele lhe pediu
estranho, entenderam? Nem mesmo ao papai. para interceder em seu favor.
As CRIANÇASNão, mamãe. Vamos agora brincar de novo? NORA Foi.
NORA Não, não; agora não. HEL\1ER E você tencionava fazer com que esse pedido pa-
As CRIANÇASMas você prometeu, mamãe ... recesse uma idéia sua. Eu não devia saber da visita dele.
NORA Agora não posso. Entrem no quarto. Vão-se embora; Não foi o que ele pediu?
tenho muito que fazer. Vão, meus filhinhos queridos ... NORA Foi, Torvald, mas ...
(Empurra-os meigamente e fecha a porta atrás deles. Sen- HEL"-1ER Nora, Nora! Como você se presta a esse tipo de
ta-se no sofá; pega num bordado, dá alguns pontos, mas coisa? Dar ouvidos a um homem como esse e comprome-
logo pára) Não! (Atira o bordado, ergue-se, vai à porta da ter-se com ele! E, ainda por cima, mentir para mim!
entrada e grita) Helena! traga-me a árvore. (Aproxima-se NORA Mentir?
HEL\1ER Então você não me disse que ninguém tinha vindo
dá mesa da esquerda e abre a gaveta; depois estaca) Não,
é absolutamente impossível! aqui? (Ameaçando-a com o dedo) Não faça mais isso,
minha ave canora. Uma ave canora deve ter o bico limpo
A CRIADA(trazendo a árvore de Natal) Onde a coloco, se-
nhora? para gorjear; e nada de notas desafinadas. (Passa-lhe o
NORA Ali; no meio da sala. braço pela cintura) Não é verdade? ... Eu sabia que era.
(Solta-a) E agora, nem mais uma palavra sobre o assunto.
A CRIADA A senhora precisa de mais alguma çoisa?
(Senta-se junto da estufa) Como está quente e acolhedor
NORA Não, obrigada; tenho tudo aqui: (Deixando a árvore
de Natal, a criada sai) aqui! (Fo lhe ia os papéis)
NoR.1>,
(ocupa-se guamecendo a árvore. Após um breve silên-
NORA(omamentando a árvore) Aqui, devem ficar umas
cio) Torvald!
velas ... ali, os adornos ... Que homem mau! Tolice! Tolice!
HELMERSim.
Isso tudo não tem importância. -Há de ficar linda a árvore
NORA Estou terrivelmente feliz pelo baile a fantasia que os
de Natal. Quero fazer tudo o que te traz alegria, Torvald;
Stenborg vão dar depois de amanhã.
dançarei para você, cantarei ...
HELMER E eu terrivelmente curioso em ver a surpresa que
HELMER(entra com uma pasta cheia de documentos sob o
você me prepara.
braço)
NORA Ah, essa história boba!
NORA Ah! Você já voltou!
HELMER O quê?
HELMER Já. Veio alguém?
NORA Não sou capaz de encontrar algo que dê certo; tudo é
NORA Aqui em casa, não.
tão tolo e insignificante.

40 41

~a
~,
HELMER Ah, então a minha pequena Nora chegou a essa NORA Não teria sido levado a isso pela necessidade?
(
conclusão? HELMER Pode ser... ou, como tantos outros, por simples
( NORA(por detrás do cadeira do mnrido, com a mão no en- imprudência. E eu não sou tão cruel a ponto de condenar
( costa) Você está muito atarefado, Torvald? um homem por um único deslize.
HELMER Estou ... NORA Você não faria isso, não é, Torvald?
( NORA Que papéis são esses? HELMERMuitos homens se reabilitam moralmente, mas para
( HELMER Negócios do banco. isso é preciso que confessem sem rodeios seu crime e que
NORA Já? aceitem a punição.
(
HELMER Sohcitei dos antigos diretores plenos poderes para NORA A punição?
(
empreender as mudanças necessárias no pessoal e nos HELMER Mas Krogstad não quis seguir esse caminho. Pro-
(
negócios. Vou empregar a semana do Natal nesse trabalho. curou escapar da situação recorrendo a diversos expedien-
( Quero ter tudo em ordem para o prinCípio do ano. tes e à habilidade; foi o que o arruinou.
( NORA Então foi por isso que o pobre Krogstad ... NORA Então você acredita que ...
HELMER Hum! ...
( HELMER Ora, imagine como, depois de um delito desses, o
NORA (cun·a-se um POllCO para a frente e passa a rnão pelos indivíduo tem de passar a mentir e a ser hipócrita todo o
cabelos de Helmer) Se você não estivesse tão ocupado eu tempo. Ele é obrigado a dissimular até com os que lhe são
( lhe pediria um enorme favor, Torvald. mais próximos e caros: a esposa e os filhos. Sim, até com
( HELMER Vamos ver. O que é? os filhos ... e isso é o mais terrível, Nora.
( NORA Ninguém tem mais bom gosto que você, e eu queria me NORA Por quê?
( apresentar bem no baile ... Você não poderia se ocupar um HELMERPorque uma atmosfera mentirosa contagia e envenena
pouquinho comigo e ajudar a escolher a minha fantasia? a vida daquele lar. De cada vez que os filhos respiram naque-
HELMER A-há! A minha mulherzinha obstinada está em di- la casa, absorvem os germes do mal.
ficuldades e quer que alguém a socorra? NORA(aproximando-se) Tem certeza disso?
NORA É verdade, Tor\'ald, nada posso resolver sem você. HELMERComo advogado já vi isso muitas vezes, querida. Quase
i (

HaMER Bem, bem; pensaremos nisso, e decerto encontraremos todos os jovens que se voltaram para o crime tiveram mães
alguma coisa. mentirosas.
( NORA Ah? como você é amável! (Volta à árvore de Natal. NORA E por que exatamente mães?
Silêncio) Como estas flores vermelhas ficam lindas! Tor- HELMER Quase sempre a falha é da mãe, mas, é claro, o pai
( vald, o que Krogstad fez foi tão terrível assim? pode influir no mesmo sentido. Todos os advogados reco-
HELMER Falsificou assinaturas. Você compreende o que isso nhecem isso. E certamente esse sujeito, Krogstad, durante
( significa? anos vem envenenando os próprios filhos com mentiras e

42 43
11
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dissimulação. Por isso eu o considero um homem
~ moralmente perdido. (Estende-lhe a mão) E por isso a
minha pequena e querida Nora precisa prometer não
interceder mais em seu favor. Dê-me a sua palavra. Mas o
que é isso? Estenda-me a mão. Assim. Está decidido.
AfIrmo-lhe que me seria im-possível trabalhar com ele. Sinto,
SEGUNDO ATO
literalmente, um mal-estar físico junto de pessoas assim.
NORA(retira a mão e vai se colocar do outro lado da árvo-
re) Como está quente aqui! Além disso eu tenho ainda
Mesma cena. A árvore de Natal desnudada e desgrenhada
muita coisa para fazer.
com os cepos das velas queimadas está à um canto, junto
HELMER(levanta-se e reúne os papéis) . Sim, eu também.
do piano. Sobre o sofá, ao acaso, o chapéu e a capa de
Tenho de examinar isto antes do almoço. Depois pensarei
Nora. Nora, sozinha, anda de um lado para o outro, agi-
em sua fantasia. Pode ser que eu também tenha qualquer
tada; por fim detém-se junto do sofá e pega a capa
coisa para dependurar na árvore, num papel dourado.
(Coloca-lhe a mão sobre a cabeça) Oh! minha querida
NORA(largando a capa) Chegou alguém! ... (Dirige-se á
avezinha canora! (Entra no escritório e fecha a porta)
porta e põe o ouvido à escuta) Não, não é ninguém. Não,
NORA(baixo, após um breve silêncio) Ah! não pode ser.
não; ainda não é para hoje, dia de Natal; para amanhã
Isso não é possível. Não pode ser possível!
também não ... Mas, quem sabe ...? (Abre a porta e olha
BABÁ (à porta da esquerda) As crianças querem entrar
para fora) Nada; a caixa de correspondência está vazia.
para ficar com a senhora; estão pedindo de um modo tão
(Vem para afrente) Que besteira! Aquela ameaça não era
engraçadinho!
a sério! Tal coisa não pode acontecer. .. é impossíveL. te-
NORA Não, não, não, não os quero aqui. Fique com elas, An-
nho três fIlhinhos.
na-Maria.
BABÁ Está certo, senhora. (Fecha a porta)
A babá, carregando uma grande caixa de papelão, entra
NORA(pálida de pavor) Perverter os meus filhinhos!. .. En-
pela porta esquerda
venenar o meu lar!. .. (Breve silêncio, ergue afronte) Não
é verdade! Não pode ser verdade. Nunca, nunca!
BABÁ Até que enfim encontrei a caixa com as fantasias.
NORA Obrigada, ponha-a na mesa.
BABÁ(obedecendo) Naturalmente precisa ser arrumada.
NORA Ah, meu desejo é rasgá-Ia em mil pedacinhos.

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44
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iJ B.~Á Ah! isso não! Pode ser consertada logo; é preciso só NORA E se os meus filhinhos também não tiverem outra; bem
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um pouquinho de paciência.
11 sei que você ... Bobagem, bobagem! (Abre a caixa) Vá
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,( NORA Sim, vou pedir à senhora Linde que venha me ajudar. ficar com eles, eu agora preciso ... você vai ver como fica-
j,

I' ( B.~Á Sair outra vez? Com esse tempo?! A senhora pode rei bonita amanhã.
I apanhar um resfriado ... e cair de cama. BABÁ Tenho certeza de que no baile todo não haverá ninguém
:t\ORA Há coisas piores que isso ... Como estão as crianças? tão bonita como a senhora, dona Nora. (Sai pela porta da
(
BABÁ Coitadinhas, estão brincando com seus presentes de esquerda)
(
Natal, mas ... NORA(abrindo a caixa, mas logo atirando tudo para lon-
( NORA Perguntam muito por mim? ge) Se eu me atrevesse a sair ... Se estivesse certa de que
B.~Á Elas estão muito habituadas a ficar com a senhora. não aparecerá ninguém ... Se soubesse que nada acontece-
NORA Decerto, Anna-Maria; mas, olhe, daqui por diante não ria até a minha volta ... Que tolice! Preciso parar de pensar
( posso estar tantas vezes junto delas.· nisso. Ninguém virá. Vou escovar o regalo. Que lindas lu-
B.~Á Está bem, elas acabarão se acostumando. vas, que lindas! Não vou pensar, não vou. Um, dois, três,
(
:t\ORA Você acha? Se eu as deixasse para sempre, você acredi- quatro, cinco, seis ... (Solta um grito) Ah! aí vem ... (Quer
(
ta que me esqueceriam? se encaminhar para a porta, mas fica indecisa)
BABÁ Para sempre? ... Deus nos livre disso! SENHORA LINDE(entra, depois de deixar o casaco e o chapéu
:t\ORA Ouça, Anna-Maria ... quantas vezes tenho pensado nisso, na saleta)
me diga como foi que "ocê teve coragem de confiar o seu NORA Ah, é você, Kristina? Não há mais ninguém lá fora? ..
filho a estranhos? Que bom você ter vindo! •
BABÁ Assim foi preciso, para criar a minha pequena Nora. SENHORALINDE Soube que você esteve me procurando.
:t\ORA Sim, mas como você pôde tomar a decisão? NORA É verdade, passei pela sua casa ... Queria lhe pedir que
BABÁ Quando é que eu teria uma colocação tão boa? Era uma me ajudasse. Sente-se aqui no sofá, ao meu lado. Olhe,
sorte muito grande para uma moça que dera tão mau passo ... amanhã há um baile a fantasia no andar superior, na casa
E o tratante não queria saber de mim. do cônsul Stenborg. Torvald quer que eu me disfarce de
NORA A sua filha a esqueçeu, sem dúvida. pescadora napolitana e dance a tarantela que aprendi em
B.~Á Não, não esqueceu. Escreveu-me quando foi crismada Capri.
e depois quando se casou. SENHORA LINDE Sim, senhora, você vai dar um espetáculo!
NORA(lançando-lhe os braços ao pescoço) Minha velha e NORA É Torvald quem quer. Está aqui a roupa; ele me mandou
(
,
boa Arma-Maria, você foi uma boa mãe para mim quando fazê-Ia ainda lá no sul. Mas está tão estragada que não
sei ...
eu era pequena.
B.~Á Pobre pequena Nora, não tinha outra mãe, senão eu. SENHORA
LINDE Isso se arranja depressa. Só os babados é que

46 47
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estão descosturados em alguns pontos. Dê-me linha e uma NORA Pelo contrário. Que idéia foi essa?
agulha. Ótimo, tem tudo Oque preciso. SENHORA
LINDEOntem, quando você nos apresentou, ele afirmou
NORA Como lhe agradeço! que já ouvira muitas vezes o meu nome nesta casa; ora,
SENHORALINDE(costurando) Então você vai se fantasiar depois eu percebi que seu marido não tinha nenhuma idéia (
amanhã. Sabe de uma coisa, virei aqui para vê-Ia fantasia- de quem eu era. Como foi então que o doutor Rank pôde ... ?
da. Olha! Já estava me esquecendo de agradecer-lhe pela NORAVocê tem razão, Kristina. Torvald me adora; e quer que (
noite agradável de ontem. eu só viva para ele, como ele próprio diz. Nos primeiros /
I

NORA (erguendo-se e atravessando a cena) Oh, ontem ... tempos ficava enciumado quando eu mencionava alguma
Pareceu-me que não se estava tão agradável como de cos- pessoa querida que me rodeava antigamente. Assim, acabei
tume. Você devia ter se lembrado dessa viagem há mais por censurá-Ias na minha conversa. Mas com o douror Rank
tempo, Kristina ... É verdade que Torvald tem o grande dom posso expandir-me, pois ele até gosta de me ouvir falar delas. (
de tomar a casa animada, aprazível. SENHORA LINDE Ouça bem o que lhe digo, Nora; sob muitos
SENHORALINDE E você também, Nora ..: creio eu ... a digna aspectos você é como se ainda fosse uma criança: eu sou
filha de seu pai. Mas, diga-me, o doutor Rank está sempre um pouco mais velha e tenho também um pouco mais de
assim soturno como estava ontem? experiência. Vou dar-lhe um conselho, quanto ao doutor
NORA Não, ontem estava mais desanimado. Atacou-o uma Rank: é necessário parar com isso.
terrível doença: sofre de tabe, o coitado. O pai dele era um NORA Parar com o quê?
libertino. Tinha amantes ... e compreende ... a conseqüência SENHORA LINDE Bem ... Com as duas coisas, acho. Ontem vo-
disso foi o filho já nascer assim doente. cê me falou de um rico admirador que lhe iria conseguir di-
SENHORALINDE(repousando no colo 6 trabalho que está fa- nheiro. (
zendo) Mas, minha querida Nora, quem é que lhe conta NORA Falei; mas não existe ... infelizmente! Mas o que tem
essas histórias? isso?
NORA(andando) Ora!. .. Quando já se tem três filhos ... re- SENHORA LINDE O doutor Rank é rico?
cebe-se a visita de certas senhoras que são meio médicas e NORA É, tem fortuna.
que nos contam coisas ... SENHORA
LINDE E ninguém que dependa dele?
SENHORA LINDE(continua a costurar; breve silêncio) O doutor NORA Não, mas ... (
vem aqui todos os dias? SENHORA
LINDE E vem cá todo santo dia?
NORA Todos. É o melhor amigo de infância de Helmer, e é meu NORA Você sabe que sim.
amigo também. O doutor Rank é, por assim dizer, de casa. SENHORA LINDE Como pode esse homem delicado ser tão ...
SENHORA LINDE E será homem absolutamente sincero? Quero NORA Não compreendo absolutamente nada do que você está
dizer. .. não é dado a dizer coisas só para agradar? dizendo.

48 49
SEl'<'HORALI'\'DE Não finja, Nora, pensa que eu não advinhei SENHORALINDE Desde ontem pela manhã alguma coisa
(
quem lhe emprestou os mil e duzentos táleres? aconteceu com você. Diga-me: o que foi, Nora?
NORA Você perdeu o juízo? Como pode pensar numa coisa NORA(virando-se para ela ) Kristina! (Apurando o ouvido)
dessas? De um amigo que vem cá todos os dias! Seria uma Pss! Torvald chegou. Olhe, vá para o quarto das crianças.
situação tenivel. Torvald não tolera ver costuras. Diga à Anna-Maria que a
SENHORA Lr~TIE Então, de verdade, não foi ele? ajude.
NORA Não, asseguro-lhe. Isso nunca passou pela minha ca- SENHORALINDE(juntando uma parte dos enfeites e utensÍ-
beça, nem por um instante. Além de tudo. naquela época e- , lios de costura) Está bem; mas não vou embora enquanto
(
le nada podia emprestar; só depois é que recebeu a herança. não conversarmos tudo francamente. (Sai pela porta da
SENHORA Lr~TIE Então, querida Nora, foi uma sorte para você esquerda; ao mesmo tempo Helmer entra pela da saleta)
que tenha sido assim. NORA(indo ao seu encontro) Esperava-o com impaciência,
NORA Não, nunca passaria pela minha cabeça pedir ao doutor caro Torvald!
Rank ... No entanto estou certa de que se eu lhe pedisse . HELMER Era a costureira?
SENHORAL~TIE ... coisa que, naturalmente você não faria . NORA Não, era Kristina; está me ajudando a consertar a roupa.
NORA Não, claro. Nem prevejo essa necessidade. Estou bem Você verá que sensação farei!
certa, porém, de que se eu falasse ao doutor Rank ... HELMERSim, não foi uma idéia brilhante, essa minha?
( SENHORA LI'\'DE Sem que seu marido soubesse? NORA Uma ótima idéia. Mas também não foi gentil de minha
NORA Preciso sair dessa outra situação - essa sim, ignorada parte seguir a sua sugestão?
por ele. Isso tem de terminar. HELMER(afagando-lhe o queix@) Gentil por obedecer ao seu
SE?\'HORA LI~TIE Era o que eu estava lhe dizendo ontem, mas ... marido? Vamos, minha tontinha, bem sei que não foi isso
NORA(andando de um lado para o outro) um homem des- que você quis dizer. Mas não vou importuná-Ia. Sei que
vencilha-se melhor desses negócios que uma mulher... você está querendo experimentar a roupa.
(
SENHORA LemE Se for seu próprio marido, sim! NORA E você, vai trabalhar?
NORA Toljces! (Detendo-se) Depois de uma conta paga en- HELMERVou. (Mostrando papéis) Está vendo? Fui ao banco.
tregam-nos uma nota promissória quitada, não é assim? (Dirige-se para o escritório)
( SENHORA LI'\'DE Sem dúvida. NORA Torvald.
NORA E podemos então rasgá-Ia em mil pedacinhos, queimá- HELMER(parando) Quê?
Ia ... Papel nojento! NORA Se o seu esquilinho pedisse muito graciosamente uma
SENHORALll\'DE (olha-a fixamente, depõe o trabalho, e le- coisa?
vanta-se devagar) Nora, você me esconde alguma coisa. HELMER Qual?
NORA É tão óbvio assim? NORA Você a faria?

50 51
(
(
HELMER Em primeiro lugar precisaria saber do que se trata. daS as calúnias que lhe impingiram. Creio que o teriam demi-
NORA Se você fosse amável e dócil, o esquilinho saltaria e tido se o ministério não tivesse enviado você para proceder
faria todo tipo de gracinhas. à sindicância e se você não tivesse se mostrado tão bem
HELMER Diga depressa. intencionado e pronto para ajudar-lhe.
NORA A cotovia trinaria e a sua canção encheria a casa in- HELMERMinha pequena Nora, há uma grande diferença entre
teira. mim e seu pai. Seu pai não era um funcionário inatacável.
HELMER A cotovia não faz outra coisa. E eu sou e espero continuar a sê-lo enquanto conservar a
NORA Seria uma fada e dançaria para você sob a luz do luar, minha posição.
Torvald. NORA Ah! Você não pode imaginar o que as más línguas po-
HELMER Nora ... não me diga que se trata do assunto a que dem inventar. Poderíamos viver tão bem, tão tranqüilos, tão
você fez alusão esta manhã? felizes, no nosso doce ninho, você, eu e os nossos filhinhos!
NORA(aproximando-se) Sim, Torvald ... eu lhe peço. É por isso que eu suplico ardentemente ...
HaMER Surpreende-me que você volte {falar nisso. HELMER Mas é exatamente pedindo por ele que você torna
NORA Sim, Torvald, sim, é preciso consentir, é preciso que impossível conservá-Io. No banco já se sabe que devo des-
Krogstad conserve o seu lugar no banco. pedir Krogstad. Se agora viessem a saber que o novo dire-
HELMER Minha querida Nor~ destinei esse lugar à senhora tor mudou de idéia por influência da mulher. ..
Linde. NORA Que mal haveria? ...
NORA Agradeço-lhe, mas você pode despedir outro empregado HELMERNenhum, é claro - contanto que prevaleça a opinião
em vez de Krogstad. de uma mulherzinha obstinada! Não é assim? Realmente,
HELMER Isso é uma teimosia qúe excede todos os limites! Só você crê que eu vá me tornar ridículo perante todo o
por ter feito uma promessa irrefletida ... você queria que ... pessoa1? ... Demonstrar que dependo de toda espécie de (
NORA Não é por isso, Torvald ... É por você. Você mesmo disse influências estranhas? Pode estar certa de que breve sentiria (
que esse homem escreve na mais baixa imprensa ... Quanto as conseqüências disso. E há ainda uma outra razão que
mal ele não pode lhe fazer! ... Estou simplesmente morta de impossibilita a permanência de Krogstad no banco enquan-
medo dele .. to eu for o diretor.
NORA Qual é?
(
HaMER Oh! compreendo; são antigas reminiscências que a
assustam. HELMER Talvez em caso de necessidade eu não desse tanta
NORA O que você quer dizer? importância à sua falha moral.
"
'1.

HELMERÉ evidente que você lembrou-se de seu pai. NORA Você não poderia fazer isso, Torvald?
NORA Lembrei-me, é claro. Você se recorda de tudo quanto HELMERTanto mais que me afiançaram ser um bom emprega-
essa gente infame escreveu sobre papai nos jornais ... e to- do.É, porém, um antigo conhecido. Um desses conhecimen-

52 53
NORA(com a voz estrangulada) Torvald, para quem é aquela
tos dos tempos de rapaz, contraidos levianamente, e que
carta?
mais tarde nos pesam na existência. Enfim, tratamo-nos
HELMER Para Krogstad, despedindo-o.
por você. E ele é um indivíduo tão desprovido de tato que
NORA Não a deixe ir, Torvald! Ainda é tempo! Chame-a,
nem sequer muda esse tratamento na presença de outras
Torvald! Faça isso por mim por você próprio, pelos seus
pessoas. Julga-se até no direito de usar um tom familiar
filhos! Atenda-me, Torvald não deixe ... você nem sabe o
comigo, e a cada instante diz: você, Helmer, isso aqui, você,
Helmer, aquilo lá ... Juro que tal procedimento me desagrada que aquela carta pode causar a todos nós ...
( HELMERÉ muito tarde.
ao extremo. Acabaria por tomar intolerável a minha situação
NORA Sim ... é muito tarde.
( no banco.
NORA Você não acredita em uma palavra do que está dizendo, HELMER Querida Nora, perdôo-lhe essa angústia, apesar de
(
Torvald. que no fundo ela seja para mim uma ofensa. Sim, é uma
HELMER Acredito, sim. E por que não hei de acreditar? ofensa. Que outra coisa será julgar-me temeroso da vingan-
ça de um escrevinhador miserável? No entanto perdôo-a,
NORA Porque seria um motivo mesquinho.
HELMERO quê? mesquinho?! Você me acha mesquinho?!! porque isso é uma prova do grande amor que você me de-
dica. (Toma-a nos braços) É preciso, minha adorada Nora.
NORA Não, pelo contrário, meu querido Torvald: e é por isso
I( mesmo ... Aconteça o que acontecer. Nos momentos graves você verá
HELMER Tanto faz. Você diz que as minhas razões são mes- que tenho força e coragem e saberei chamar a mim todas as
(
responsabilidades.
( quinhas,nesse caso é porque eu também o sou. Mesquinho?!
Com efeito! ... é preciso acabar com isso. (Dirige-se à porta NORA(apavorada) O que você quer dizer?
da saleta e grita) Helena! HELMERResponsabilizo-me por tudo, já disse.
NORA(recompondo-se) Nunca, nunca você fará isso!
NORA O que você vai fazer?
( HELMER(remexendo entre os papéis) Tomar uma decisão. HELMERBem; então as partilharemos, Nora ... como marido e
( mulher. Como se deve. (Afagando-a) Você está satisfeita,
A criada entra agora? Vamos, nada de olhos de pombinha assustada. Tudo
isso são puras fantasias. Vá ensaiar a tarantela e exercitar-
se com o tamborim. Eu vou me encerrar no escritório do
l
I
HELMER Olhe, esta carta é para ser entregue imediatamente.
Arranje um mensageiro para levá-Ia ao destinatário. Mas fundo, fechando a porta intermediária, assim nada ouvirei.
Ir Você pode fazer o ruído que quiser, (vira-se da porta) e
! depressa. O endereço está ai. Tome o dinheiro.
A CRIADA Está bem, meu senhor. (Sai, levando a carta) quando Rank chegar, diga-lhe onde estou. (Faz-lhe um
i(
!

HELMER(juntando os papéis) Pronto, minha mulherzinha aceno com a cabeça, entra no escritório, levando con-

( teimosa! sigo os papéis, e fecha a porta)


(
55
54
NORA (semi-morta de angústia, fica como pregada ao chão NORA (aliviada) Trata-se do senhor? ..

e murmura) Ele é capaz de fazer isso. E o fará, apesar de RANK De quem havia de ser? Para que hei de mentir a mim
mesmo? Sou o mais desditoso de todos os meus pacientes,
tudo. Ab, nunca, isso nunca! Qualquer c'oisa menos isso!
minha senhora ... nestes últimos dias tenho me dedicado ao
Alguma fuga ... um caminho salvador...
Toque de campainha exame geral do meu estado. É a falência. Antes de um
mês, talvez, eu esteja apodrecendo no cemitério.
o doutor Rank! ... prefiro qualquer outra coisa! Tanto NORA Ah, não! É horrível falar assim!
faz!(Passa a mão pela fronte, procurando se acalmQJ; e RANK É que o caso também é diabólicamente horrível. O pior,
vai abrir a porta de entrada.) todavia, são todos os horrores que haverão de precedê-Io.
Só me falta um exame. Tão logo o faça, saberei mais ou
Vê-se o doutor Rank pendurando o casaco. Devagar vai menos quando começa a derrocada. Por isso quero lhe dizer
caindo o crepúsculo, durante a cena seguinte uma coisa: Helmer, com o seu delicado temperamento, tem
pronunciada aversão por tudo quanto é feio. Não o quero à
NORA Boa tarde, doutor Rank. Reconheci-o pelo toque da
minha cabeceira.
campainha. Mas não entre agora no escritório de Torvald;
NORA Ah, mas, doutor Rank!
parece-me que ele está trabalhando.
RANK Não o quero lá. Sob nenhum pretexto. Fecho-lhe a porta.
RANK E a senhora?
Logo que tiver a certeza do pior, vou enviar-lhe um cartão
NORA (entra na sala e fecha a porta) Ah, bem sabe que ... de visita marcado com uma cruz preta: ficará sabendo que
para o senhor sempre disponho de um momento.
começou o horror da desintegração.
RANK Obrigado. Vou aproveitar essa gentileza o máximo do
NORA Hoje o senhor está de fato insuportável. E eu que de-
tempo que me resta.
sejava tanto que estivesse de bom humor.
NORA Que quer dizer com "o máximo do tempo que me res- RANK Com a morte diante dos olhos!. .. e pagando pelo pe-
ta"?
cado de outra pessoa! Será isso justo? E pensar que de um
RANK Isso a assusta?
modo ou de outro em todas as famílias existe uma desforra
NORA É uma expressão inabitual. Está acontecendo alguma
implacável desse tipo!
coisa?
NORA (tapando os ouvidos) Pss! Ânimo, ânimo!
RANK Sim ... algo que há muito eu previa. O que não imagi-
RANK De fato, o caso é motivo para piada. Minha coluna.
nava é que chegasse tão cedo.
pobre inocente, tem de pagar pela vida alegre que o meu pai
NORA (apertando-lhe o braço) O que foi? O que lhe disse-
levou quando era umjovem militar.
ram? O senhor precisa me contar, doutor.
NORA (ao pé da mesa à esquerda) Era excessivo apreciador
RANK (sentando-se junto da estufa) Cheguei ao fim da jor-
de aspargos e de foie gras, não é verdade?
nada. Nada há a fazer.

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RAc"'X Era; e de trufas. NORA Foi só para consertar a minha fantasia. Ah, meu Deus,
NORA Ah! sim, de trufas; e de ostras também? hoje o senhor está de tão mau gosto! (Sentando-se no sofá)
RAc'-JKSim, de ostras, de ostras; é evidente. É preciso ser razoável, doutor Rank. Amanhã verá como
( NORA E tudo regado com vinho do Porto e champanhe ... é vou dançar graciosamente, e pode pensar que só em sua
honra ... e na de Torvald, é claro. (Tira várias coisas da
( pena que todas essas boas coisas afetem a coluna.
caixa de papelão) Doutor Rank, sente-se aqui, quero
RAc"'K Mormente quando afetam uma desditosa coluna que
nunca as saboreou. mostrar-lhe algo.
( RANK (sentando-se) Então, o que é?
NORA Sim! É esse o aspecto mais triste do caso!
NORA Primeiro veja ... olhe!
RAc"'X(observando-a atento) Hum!. ..
RANK Meias de seda!
NORA (após um momento de silêncio) Por que sorri?
NORA Cor da pele. Não são bonitas? Agora já está escure-
RAc"<'XA senhora é que sorriu.
cendo, mas amanhã ... não, não, não; só se deve ver a par-
NORA Não, doutor, afirmo-lhe que foi o senhor.
te dos pés. Está bem, pode ver mais acima ...
RAc"'X(erguendo-se) É mais esperta do que eu supunha. RANK Rum! ...
( N ORA Hoje estou tão disposta a dizer loucuras!
NORA Por que o senhor tem esse ar de critica? Acha que não
RAc"'K Bem se vê.
me ficarão bem?
NoR.A.(pousando ambas as mãos nos ombros de Rank) Que-
RANK Acho que não posso lhe dar opinião sobre isso.
rido, querido doutor Rank, não quero que morra, não quero NORA(olhando-o um instante) Ah, o senhor devia se enver-
que nos deixe, a mim e a Torvald! gonhar disso. (Fustigando-lhe de leve a orelha com as
RAc"'K Depressa se consolarão dessa ausência. Quem parte, é meias) O que o senhor merece ... (Guarda-as outra vez
logo esquecido. na caixa)
( NoR.A.(olhando-o, inquieta) Acha que é assim? RANK Que maravilhas falta-me ainda ver?
RAc"'K Criam-se novas relações e depois ... NORA Nada mais há de ver, já que é tão indecoroso. (Remexe
NORA Quem é que cria novas relações? nos objetos, cantarolando)
RAc'\'K A senhora e Helmer, ambos o farão depois de eu de- RANK(após um curto silêncio) Quando aqui me encontro
saparecer. Parece-me que a senhora já começou a fazê- com a senhora, tão familiarmente, não posso conceber ...
( Ias. Por que a senhora Linde veio aqui ontem à noite? sim, não posso conceber, o que teria sido de mim se não
NORA Ah!. .. não vá agora ter ciúmes da pobre Kristina. freqüentasse essa casa.
RM.'K Tenho, sim senhora. Ela ocupará o meu lugar nesta ca- NORA(sorrindo) Acho que realmente o senhor se sente em
sa. Quando eu me for, talvez essa senhora ... casa conosco.
NORA Pss! Não fale tão alto. Ela está aqui ao lado. RANK(baixando a voz e olhando fixamente à sua frente) E
RM'K Hoje também? Está vendo? ter de deixar tudo isso ...

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NORA Bobagem. Não vai deixar. NoR.-\(erguendo-se, simples e tranquilamente) Com licen-
RA,''K (como acima) E não poder deixar o menor sinal de ça.
agradecimento ... somente uma saudade passageira ... nada RANK (afasta-se para ela passar, mas conserva-se sentado)
mais que um lugar vago que poderá ser ocupado pelo pri- Nora!
melro que aparecer. NORA (à porta da entrada) Helena, traga a luz! (Encami-
NoR.-\ E se eu lhe pedisse ...? Não ...? nhando-se para a estufa) Oh! caro doutor Rank, o que o
RA:\'K Se me pedisse o quê? senhor fez foi horrível.
NoR.-\ Uma grande prova da sua afeição. RANK(levanta-se) Amá-Ia mais profundamente que qualquer
RA,''K Sim, então? um ... isso é hOrrlvel?
NoR.-\ Ou melhor, um favor grande demais. NORA Não; mas me dizer, sim. Não havia nenhuma necessi-
RA,''K Quer me tomar feliz, uma vez pelo menos? dade de fazer isso.
NoR.-\ Quero; mas nem sequer sabe do que se trata. RANK O que quer dizer? Que já o sabia ...?
AA''X Vamos, diga.
NoR.-\ Não, não posso, doutor Rank; é algo realmente enorme. A criada entra com a lamparina, coloca-a sobre a mesa,
Não é apenas um conselho ou uma ajuda; é realmente um e sai
grande favor.
AA'\'K Quanto maior, melhor. Não imagino o que possa ser; RANK Nora ... senhora Helmer ... pergunto-lhe se já sabia ...?
mas diga. Não confia em mim? NORA Ah, o que vou dizer? Na verdade, não tinha idéia do que
NoR.-\ Como em mais ninguém. O senhor é meu melhor e sabia ou não. Ah, doutor Rank, como pôde ser tão desastrado!
mais fiel amigo, bem o sei. E é por isso que lhe vou dizer Tudo corria tão bem ...
tudo. Pois bem: há uma coisa que me deve ajudar a evitar, RANK Pelo menos, agora tem certeza de que estou à sua
doutor. Bem, sabe como Torvald me quer; nem por um ins- disposição, de corpo e alma. Diga-me, então.
tante ele hesitaria em dar a vida por mim. NoR.-\(olhando-o) Depois do que aconteceu?
AA'\'K(curvando-se para ela) Nora ... julga que apenas ele o RANK Por favor, conte-me o que é.
faria? NORA Acabou-se! O senhor nada saberá.
NoR.-\ (com um pequeno movimento de recuo) O quê? .. RANK Oh! Não me castigue assim. Permita-me que eu faça:
RM'K Que ele é o único que daria a vida pela senhora? pela senhora tudo o que é possível fazer.
NoR.-\ (triste) Realmente? NORA Agora já não pode fazer mais nada em meu favor. ..
RM'X Jurei a mim mesmo confessar-lhe isso antes de desa- Além do mais, eu certamente não irei precisar de ajuda. O
parecer. Não poderia achar melhor ocasião. Sim, Nora, senhor verá; isso não passa de pura fantasia, nada mais. É
agora já sabe. Equiv.a1e a dizer que pode confiar em mim claro! (Senta-se na cadeira de balanço e contempla-o
como em mais ninguém.
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sorrindo) É verdade, o senhor é um cavalheiro muito NORA De modo algum; é a minha nova roupa.
amável, doutor Rank. Não se envergonha agora, com a luz RANK Como pode ser isso? Sua roupa está ali.
acesa? diga ... NORA Sim, aquele; mas tenho outro, que eu encomendei ...
R-\NK Para dizer a \"erdade, não. Mas talvez deva me retirar ... Torvald não deve saber disso.
para sempre? RANK Ah! é esse então o grande segredo.
NORA De modo algum. Virá natúralmente, como até agora. NORA Pois é; vá depressa para junto dele. Está no escritório
( Bem sabe que Torvald não pode passar sem o senhor. do fundo; não o deixe vir aqui ...
( R-\NK Sim, e a senhora? RANK Pode ficar sossegada, não vai escapar de mim. (Entra
NORA Eu? Sinto-me muito alegre quando o senhor está aqui. no escritório de Helmer)
R-\NK Foi isso exatamente que me levou à pista falsa. A se- NORA (à criada) Ele está esperando na cozinha?
nhora é um enigma para mim. Quantas vezes me pareceu A CRIADA Está; subiu pela escada de serviço.
I (
vê-Ia tão alegre junto de mim como ao lado de Helmer. NORA Não lhe disse que eu estava com uma visita?
NORA Aí está; há pessoas que amamos e pessoas cuja com- A CRIADA Disse sim, minha senhora; mas foi o mesmo que
panhia nos agrada. nada.

( R-\NK Tem algo de verdade nisso. NORA Não quis se retirar?


NORA Quando eu era solteira, naturalmente amava meu pai A CRIADA Não, minha senhora; disse que não vai embora sem
(
acima de tudo: mas o meu maior prazer era ir escondida ao falar com a senhora.
(
quarto das criadas: lá nunca me faziam sermão, e conta- NORA Pois bem, mande-o entrar; mas sem ruído, Helena, e
( vam-se sempre histórias tão divertidas! não diga a'ninguém. É uma surpresa para meu marido.
( R-\NK Ah! Foi emão a elas que substitui. A CRIADA Sim, minha senhora, compreendo ... (Sai)
NORA (erguendo-se l'ivamente e correndo para ele) Meu NORA Oh, isso é medonho ... está para acontecer. Não, não,
caro doutor Rank. não foi isso que quis dizer. Pode, no en- não! Não pode ser! Não deve acontecer! (Dirige-se à porta
tanto, compreender que sucede com Torvald o mesmo que de Helmer e puxa a trava)
sucedia co1'1.1meu pai.
A criada introduz Krogstad e fecha a porta. Ele apresenta-
( Criada vindo da saleta se de casaco de viagem, longas botas e gorro de pele
(
A CRIADA Minha senhora! (Fala-lhe ao ouvido e apresenta- NORA (caminhando para ele) Fale baixo, meu marido está
(
lhe um cartão) em casa.
( NORA (olhando para o bilhete) Ah! (Guarda-o na algibei- KROGSTAD E daí?

( ra) NORA O que o senhor quer?


RANK Alguma contrariedade? KROGSTAD Um esclarecimento.

(
62 63
(

(
NORA Diga depressa. O que é? KROGSTAD Como quer a senhora impedir que ele o saiba?
KROGSTADSabe muito bem que fui despedido. Acaso pode saldar o seu débito?
NORA Não o pude evitar, senhor Krogstad. Lutei por sua causa NORA Já, já, não.
até o fim, mas nada consegui. KROGSTADEncontrou meio de obter o dinheiro por esses dias?
KROGSTAD Pouco amor lhe tem o seu marido! Sabe o que NORA Não. A minha tentativa falhou ...
pode acontecer, e apesar disso ousa ... KROGSTADDe nada lhe serviria, aliás. A senhora poderia me
NORA Como o senhor pode crer que ele o saiba? oferecer uma soma fabulosa que eu não lhe restituiria a sua
KROGSTADDe fato, nunca pensei isso. Não condiria nada com promissória.
o nosso digno Torvald Helmer mostrar tanta coragem. NORA Explique-me então como tenciona servir-se dela.
NORA Senhor Krogstad, exijo que respeite o meu marido. KROGSTADQuero simplesmente conservá-Ia, tê-Ia em meu
poder. Nenhum estranho terá conhecimento dela.Assim,se
KROGSTADClaro. Trato-o com todo o respeito que ele merece.
Mas, visto que a senhora põe tanto empenho em ocultar de a senhora está pensando em alguma resolução desespera-
da ...
seu marido esse caso, permita-me supor que está melhor
NORA Pensei.
informada sobre a gravidade do ato que cometeu.
KROGSTAD... ou em abandonar tudo e fugir...
NORA Muito melhor informada do que o seria pelo senhor.
KROGSTADNão admira, um tão péssimo jurista como eu ... NORA Também pensei.
KROGSTAD... ou ainda em qualquer coisa pior...
NORA O que quer de mim?
NORA Como o senhor sabe isso?
KROGSTADNada. Apenas ver como passa. Pensei na senhora
KROGSTAD... desista dessas idéias.
todo o diâ. Até mesmo eu, um agiota, um escrevinhador ...
NORA Como o senhor sabe que eu pensei naquilo?
em suma, um indivíduo como eu, não deixo de ter um pouco
KROGSTADNo começo essa idéia passa pela cabeça de quase
do que se chama "sentimento", sabe?
todo mundo. Eu também pensei nisso, mas faltou-me a
NORA Prove-o; pense nos meus filhinhos.
coragem.
KROGSTADE a senhora ou o seu marido pensaram nos meus?
NORA(com voz surda) Também a mim!
Mas, pouco importa. Somente lhe quero dizer que não leve
KROGSTAD (aliviado) Não é verdade? À senhora também,
o caso tanto para o lado trágico. Por enquanto não apre-
lhe falta a coragem?
sentárei queixa contra a senhora. NORA Também.
NORA Não apresentará? Eu tinha certeza disso.
KROGSTADE, afinal, isso seria uma estupidez. Uma vez passa-
KROGSTADPode-se muito bem resolver esse assunto ami-
da a primeira tormenta conjugal ... Tenho aqui no bolso uma
gavelmente. Não é necessário torná-Ia público. Ele pode
carta para o seu marido ...
ficar entre nós três.
NORA Onde lhe diz tudo? \
NORA Meu marido não deve saber de nada.
KROGSTADCom expressões tão atenuadas quanto possível.
!

64 65
(

NORA(vivamente) Ele não deve ler esta carta. Rasgue-a. NORA Não consegue me atemorizar.
Arranjarei o dinheiro. KROGSTADNem a senhora a mim. Essas coisas não se fazem,
KROGSTAD Desculpe, minha senhora, mas acho que já lhe minha senhora. E para que serviria isso? Helmer continuaria
( disse há pouco ... da mesma forma.nas minhas mãos.
( NORA Oh! não falo do dinheiro que lhe devo. Diga-me quanto NORA Mesmo quando eu já não existisse?
exige do meu marido. e eu lhe darei essa quantia. KROGSTADEsquece que a sua lembrança estará nas minhas
KROGSTADEu não exijo dinheiro de seu marido. mãos?
NORA O que exige, então? NORA(olhando-o, em silêncio)
KROGSTADDir-Ihe-ei, minha senhora. Eu quero subir, quero KROGSTAD Bom, está prevenida. Nada de tolices! Quando
chegar a ser alguém: e para isso seu marido tem de me Helmer receber a minha carta, espero a sua mensagem. E
auxiliar. Durante ano e meio não cometi nenhuma desones-
lembre-se de que foi o seu marido quem me obrigou a pro-
( tidade; durante todo esse tempo debati-me nas mais mi- ceder assim. Jamais lhe perdoarei isso. Adeus, minha se-
seráveis dificuldades. Sentia-me contente de subir de novo,
( nhora. (Sai em direção à saleta)
passo a passo. Agora sou expulso por eles, e já não me NORA(entreabrindo com precaução a porta da saleta e
(
basta cair de novo nas suas graças. Quero chegar a ser apurando o ouvido) Retirou-se. Não vai pôr a carta na
( alguém, já lhe disse. Quero voltar para o banco ... em melho- caixa. Não, não, é impossível. (Abre a porta pouco a pou-
( res condições que ames: seu marido tem de arrumar um lu- co) O que é isso? Deteve-se. Estará em dúvida? .. (Ouve-
( gar para rrum.
se cair uma carta na caixa do correio, depois os passos
( NORA Ele nunca fará isso.
de K"rogstad, cujo ruído vai desaparecendo à medida
KROGSTAD Há de fazê-Ia: conheço-o ... nem pestanejará. E
que ele desce a escada. Nora reprime um grito e
depois de eu lá estar, vai ver. Antes de um ano serei o
atravessa a cena correndo até a mesa colocada junto
braço direito do diretor-geral. Será Nils Krogstad, e não
ao divã. Um momento de silêncio) Ele a pôs na caixa!
Torvald Helmer quem dirigirá o banco.
(Dirige-se pé-ante-pé à porta da saleta) Está lá! ... Tor-
NORA Eis uma coisa que nunca há de acontecer.
vald, Torvald, agora estamos perdidos!
KROGSTADPrefere talvez ...
SENHORA LINDE(entra pela esquerda, trazendo a fantasia)
NORA Agora sinto-me com coragem.
Foi o que pude fazer. Você quer prová-Ia?
KROGSTAD Ah, isso não chega a me assustar. Uma dama
delicada e mimada como a senhora ... NORA(baixa, com a voz estrangulada) Kristina, chegue aqui.
SENHORA LtNDE(atirando a roupa para cima do sofá) O que
NORA Verá, verá!
você tem? Está desfigurada.
KROGSTADSob o gelo, talvez? No fundo das águas negras e
NORA Venha cá. Está vendo aquela carta? Ali na fenda da
frias? E na primavera reaparecer à superfície, desfigura-
caixa atrás do vidro?
da, com os cabelos em desalinho?

66 67
SENHORALINDE Sim, vejo. SENHORALINDE Houve um tempo em que faria o impossível
NORA Aquela carta é de Krogstad. para me agradar.
SEr..'HORALINDE Nora!. .. Foi Krogstad quem lhe emprestou o NORA Ele?
dinheiro? SENHORALINDE Onde é que mora?
NORA E agora Torvald vai saber de tudo. NORA Sei lá!. .. Ah, sim. (Remexe no bolso) Está aqui o
SENHORALINDE Acredite, Nora; é o melhor para ambos. bilhete dele. Mas a carta, a carta!
NORA Mas você não sabe de tudo; falsifiquei uma assinatura. HELMER(do gabinete, bate na porta de comunicação) Nora!
SENHORALINDE Céus! ... O que você está dizendo? NORA (com um grito de angústia) O que é? O que você
NORA Pois bem ... ouça uma coisa, Kristina! Ouça o que lhe quer?
digo: preciso que você me sirva de testemunha. HELMER Está certo. Não precisa se alarmar, não vamos en-
SENHORALINDE Testemunha de quê? Diga. trar; você trancou a porta, está provando ...
NORA Se eu enlouquecer. .. o que pode muito bem acontecer... NORA Estou, estou provando a roupa. Vou ficar tão linda,
SE!\'BORALINDE Nora! Torvald!
NORA Ou se me acontecer qualquer coisa ... e eu não estiver SENHORALINDE (depois de olhar para o bilhete) Mora aqui
aqUJ para ... perto, depois da esquina.
SENHORALINDE Nora, Nora, você está delirando! NORA Sim, mas de que serve isso? Estamos perdidos. A carta
NORA Se houvesse então alguém que quisesse assumir toda a está lá.
responsabilidade do meu ato ... sim ... você compreende . SENHORALINDE E seu marido é que tem a chave?
SENHORA.LINDE Sim, mas como você pode acreditar que ? NORA Sempre.
Nolt-'\ Nesse caso você deve testemunhar que é falso. Kris- SENHORALINDE Krogstad pode reclamar a carta antes de ser
tina. Não perdi a cabeça; estou no meu juízo perfeito e lida. Pode fazê-Ia sob um pretexto qualquer.
digo-lhe: ninguém soube disso; fiz tudo sozinha, só eu. NORA Mas é exatamente a hora em que Torvald costuma ...
Lembre-se disso. SENHORALINDE Entretenha-o. Vá para junto dele. Eu venho o
SENHORALINDE Está bem. vou me lembrar. Mas não com- mais depressa possível. (Sai rapidamente pela porta da
preendo. saleta)
NORA E como poderia compreender? .. O que vai acontecer NORA (aproxima-se da porta de Helmer, abre-a, e olhando)
é um milagre. Torvald ...
SENHORALINDE Um milagre? HELMER (do escritório do fundo) Bom; posso entrar nova-
NORA Sim, um milagre. Mas será tão terrível, Kristina, que mente em minha própria sala. Venha, Rank, vamos ver ...
não pode acontecer. De modo algum. (Aparecendo) Ma.<;,que quer dizer isso?
SENHORALINDE Vou já falar com Krogstad. NORA O quê, querido Torvald?
NORA Não vá à sua casa. Ele poderá maltratá-Ia.

68 69

Ii!;.
.",

HELMIR Rank preparou-me para uma grande cena em traje HELMER(dirigindo-se para ela) Mas você tem tanto medo
na:fX)litano... assim, cara Nora?
RANK(aparecendo) Foi O que entendi; parece que me en- NORA Ah, um medo terrível. Deixe-me ensaiar já; ainda te-
ganeI. mos tempo antes do jantar. Sente-se aqui, querido Torvald,
NORA. Decerto; ninguém me verá no meu esplendor senão e toque para mim. Corrija-me, aconselha-me, como você
amanhã. costuma fazer.
HELMIR Mas, minha querida Nora, que aspecto tão fatigado! HELMERCom prazer, com muito prazer, se você assim o deseja.
Você esteve ensaiando? (Senta-se ao piano)
NORA Não; nem uma só vez. NORA(abre uma caixa, tira de dentro um tamborim e um
HELMIR Pois é preciso. xale matizado: envolve-se nele rapidamente e de um
( NORA Sim, Torvald; é preciso. Mas não quero dar um único salto coloca-se no meio da sala, exclamando) Pronto!
( passo sem você. Esqueci tudo. Toque! Quero dançar.
( HELMERAh, logo vamos dar um jeito nisso.
( NORA Sim, por favor me ajude, Torvald! Promete? Sinto-me Helmer toca, Nora dança e Rank conserva-se por detrás de
inquieta. Aquela gente para quem nos apresentaremos ... Esta Helmer, seguindo-a com a vista
(
noite acabaram-se os negócios, não mais tocará na pena.
( Sim? Será assim, meu Torvald querido? HELMER(tocando) Mais devagar, mais devagar.
( HELl'-IEH.Prometo-lhe. Esta noite estou inteiramente à sua NORA Só sei fazê-Io dessa forma.
( disposição ... minha pobre criatura desamparada. Ah, é HELMERMenos entusiasmo, Nora!
verdade, primeiro quero ver uma coisa. (Dirige-se para a NORA É exatamente o que é preciso.
( pona da saleta) HELMER(pára de tocar) Não, não ... assim não está bom.
NORA O que você vai fazer? NORA (rindo e agitando o tamborim) Que dizia eu?
(
HELMER Apenas ver se chegaram cartas. RANK Deixe-me sentar ao piano.
NORA Não, Torvald, não faça isso. HELMER(erguendo-se) Sim, acompanhe; assim posso dirigi-
HÊLMER Porquê? Ia melhor.
NORA Porque peço-lhe, Torvald ... Está vazia.
( HELMER Deixe-me ver. (Faz um movimento para a porta) Rank senta-se ao piano e toca. Nora executa uma dança
( NORA(ao piano, toca os primeiros compassos da tarantela) cada vez mais arrebatada. Parece não ouvir as observações
HELMER(pára na porta) Ah! que de quando em quando lhe faz Helmer, junto da estufa.
NORA Não poderei dançar amanhã, se hoje não ensaiar com Seus cabelos se desprendem e espalham-se pelos
você. ombros. Ela não dá por isso e continua a dançar

70 71
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.•,'••....•..,...•.•.. ~.,....•..• ~."

(
(
(
Entra a senhora Linde A CRIADA(aparecendo á porta da direita) O jantar está na
(
mesa.
SENHORALINDE(detendo-se petrificada junto à porta) Ah! NORA Sirva champanhe, Helena. (
NORA(no meio da dança) Ah, Kristina, isso está muito di- A CRIADASim, minha senhora. (Sai) (
vertido. HELMER Ora, ora, temos um banquete, ao que parece!
HELMERMas, minha querida Nora, você dança como se nisso NORA Ceia com champanhe, que vai durar até amanhã ...
empenhasse a vida. (gritando à criada) e bolinhos de amêndoas, Helena; mui-
NORA E é isso mesmo.
'?r

j (
t tos. Só uma vez na vida.
;f~
HELMER Pare, Rank. Isso é um delírio. Pare, já lhe disse. "~

HELMER(segurando-lhe as mãos) Ora, ora, ora. Não se deixe


l
>
(Rank pára de tocar, e Nora estaca subitamente) j';
..-
arrebatar tanto. Acalme-se. Volte a ser a minha coto via-
HELMER(a Nora) Eu nunca pensei. Você esqueceu tudo o 4
~,
zinha. (
que lhe ensinei .. "" NORA Sim, Torvald, sim. Mas vá para a sala de jantar, e o
NORA(atirando o tamborim para longe) Está vendo? senhor também, doutor Rank. Você, Kristina, ajude-me a
HELMER É preciso muito ensaio. prender o cabelo.
NORA Sim. Agora você vê de quanta atenção eu preciso. RANK(em voz baixa, passando à sala de jantar) Então não
(
Você tem que me ensinar até o último minuto. Você me existe nada para se preocupar?
promete, Torvald? HELMERAbsolutamente, meu caro. É apenas aquela agitação
HELMER Pode contar com isso. pueril de que lhe falei. (Saem pela direita)
NORA Nem hoje nem amanhã você deve ter outro pensa- NORA Então?
mento que não seja para mim; não deve abrir cartas ... nem SENHORALINDE Foi para o campo.
caixa de correspondência ... NORA Percebi isso na sua fisionomia, quando você entrou.
HELMER Bem! Ainda tem receio daquele homem! SENHORALINDERegressa amanhã à noite; deixei-lhe um bilhete.
NORA Sim, sim. Também isso. NORA Ah, antes você tivesse deixado as coisas correrem ....
HELMER Nora, leio-o no seu semblante; com certeza está ali não devia ter tentado deter seu curso. No fundo é maravi-
dentro uma carta dele . .lhoso esperar pelo milagre.
NORA Pode ser, não sei. Em todo caso não quero agora essas SENHORA LINDE O que você está esperando?
leituras. Nem uma nuvem deve se interpor entre nós antes NORA Ah, não compreenderia. Junte-se a eles; vou já.
de tudo isso acabar.
A senhora Linde se dirige à sala de jantar
RANK(em voz baixa, a Helmer) Não a contrarie.
HELMER(rodeando-lhe a cintura com o braço) Bem, crian- (Permanece imóvel uns instantes a fim de se recuperar,
ça, faça-se a sua vontade. Mas amanhã à noite, depois do enquanto isso, consulta seu relógio) São cinco horas.
baile ...
Daqui até a meia-noite faltam sete. Depois vinte e quatro
NORA Você estará livre.
73
72

I
(
(
horas até a outra meia-noite! Então estará terminada a
tillantela. Vinte e quatro mais sete? Tenho trinta e uma horas
( de vida.
( HELMER(à porta da direita) Mas o que foi feito da minha
( coto\'ia?
TERCEIRO ATO
NORA (lançando-se em seus braços) Ei-la aqui.

(
A mesma cena. A mesa que estava ao lado do divã, assim
I~
como as cadeiras, foram transportadas para o centro da
sala. A lámpada na mesa está acesa. A porta da saleta
está aberta. Do andar de cima chegam à cena os sons de
{ música de dança. A senhora Linde, sentada à mesa, fo-
lheia distraidamente um livro. Esforça-se para ler, mas

( vê-se que não consegue se concentrar. De tempos


em tempos lança um olhar para a porta de entrada, e
(
escuta, atenta
(
( SENHORALINDE ('.'endo o relógio) Está demorando. Já não há
muito tempo. Espero que ele ... (toma a escutar) Ah! aí
vem ele. (Sai para a saleta e abre de mansinho a porta
de entrada; ouvem-se na escada passos cautelosos. Ela
(
sussurra) Entre, estou sozinha.
(
KROGSTADRecebi um bilhete da senhora. Que significa isso?
SENHORALINDE Preciso muito falar-lhe.
( KROGSTAD Verdade? E tem de ser aqui, nesta casa?
( SENHORALINDE Em minha casa não podia recebê-Io; meu quarto
( não tem entrada independente. Venha, estamos sós: a criada
está dormindo, e os Helmer foram para o baile no andar de
CIma.
II KROGSTAD(entrando) O que ouço?! Os Helmer em um baile,
I~( esta noite?! Verdade?
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N (
74 75

I":~; (
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SENHORALINDE Sim. E por que não? SENHORALINDE Talvez a salvação esteja por perto.
KROGSTAD De fato. E por que não? KROGSTAD Estava, até a senhora chegar e se pôr no meu
SENHORALINDE Krogstad, precisamos conversar. caminho!

KROGSTADAcaso ainda temos alguma coisa a nos dizer? SENHORALINDE Eu não sabia, Krogstad. Só hoje tive co-
SENHORALn'rDE Temos, e muito. nhecimento de que era ao senhor que ia substituir no ban-
co.
KROGSTAD Não imaginava.
SENHORALINDE É que o senhor nunca me compreendeu bem. KROGSTAD Acredito. Mas agora que o sabe, não renuncia a

KROGSTAD Não era difícil compreendê-la; casos desses vê- esse lugar?
SENHORALINDE Não, pois isso de nada lhe valeria.
em-se todos os dias: uma mulher sem coração recusa um
KROGSTAD Ora essa! ... Eu, no caso da senhora, renunciaria,
homem quando aparece um partido mais vantajoso.
apesar disso!
SENHORALINDE Então o senhor crê que eu não tenha coração?
SENHORALINDE Aprendi a proceder com sensatez. A vida e a
E crê também que o rompimento foi fác'il para mim?
KROGSTAD E não foi? amarga necessidade me ensinaram.
KROGSTAD E a mim, a vida ensinou-me a não me fiar em
SENHORALINDE Krogstad, realmente pensa isso?
frases feitas.
KROGSTAD Se assim não fosse, como a senhora poderia es-
SENHORALINDE Nisso ela lhe deu uma lição sábia. No entanto, . (
crever o que escreveu?
as ações mereCem a sua confiança, não é verdade?
SENHORA LINDE E não poderia proceder de outra forma.
KROGSTAD Que quer dizer?
Querendo romper, o meu dever era arrancar do seu coração
SENHORALINDE O senhor disse há pouco ser um náufrago
tudo quanto o senhor sentia por mim.
agarrado a um destroço.
KROGSTA(esfregando as mãos) Foi isso então? Tudo o que a
KROGSTAD Tenho bons motivos para falar assim.
senhora fez foi só pelo dinheiro?
SENHORALI:'rDE Também eu sou, como o senhor, uma náufraga;
SENHORALINDE Lembre-se que eu tinha de sustentar minha
não tenho ninguém que necessite de mim.
mãe e dois irmãozinhos. Não podíamos esperá-lo, o senhor
KROGSTAD Foi a senhora quem optou por isso.
nessa época estava sem perspectiva de melhoria. SENHORALINDE Não havia outra opção.
KROGSTAD Admitamos isso; em todo caso a senhora não tinha
KROGSTAD Onde quer chegar?
o direito de me repelir para aceitar outro. SENHORALINDE Krogstad ... que tal se nós, os náufragos,
SENHORALINDE Não sei. Muitas vezes perguntei isso a mim pudéssemos juntar nossas forças?
mesma. KROGSTAD Como?
KROGSTAD(mais suavemente) Quando a perdi, foi como se o SENHORALINDE Dois no mesmo barco é melhor do que cada
chão me faltasse debaixo dos pés. Olhe para mim: sou um um lutando por seu lado.
náufrago agarrado aos destroços da embarcação. KROGSTAD Kristina!

76 77

A.
"""""~'L~""" L íL.P'· ••••

SENHORALrJ\'DE Por que pensa que eu tenha vindo para cá? obrigado ... agora trata-se de me reabilitar aos olhos do
KROGSTAD Por minha causa, talvez? mundo, e eu o saberei fazer. Ah, mas esquecia ...
(
SENHORALP.\'DE Preciso de trabalhar para sobreviver. Que me SENHORALINDE (pondo o ouvido à escuta) Pss! A tarantela!
( lembre, todos os dias da minha vida transcorreram no Retire-se depressa!
( trabalho. Tem sido a minha maior e única alegria. Mas agora KROGSTAD Porquê?
( que estou só no mundo sinto uma solidão, um vácuo SENHORALINDE Ouve essa música lá em cima? Acabada a
( medonho. Não há alegria no trabalho quando ele serve apenas dança, é arriscado eles nos encontrarem aqui.
a nós mesmos. Vamos, Krogstad, deixe-me possuir algo - KROGSTAD Bem, já me retiro. Tanto mais que nada posso
e alguém - por que trabalhar. fazer; a senhora ignora, é claro, a minha tentativa contra os
(
KROGSTAD Não me convence; isso não passa de um senso Helmer.
(
exacerbado de nobreza, próprio de mulh~r, que se sacrifica SENHORALI!\TDE Engana-se, Nils: estou a par de tudo.
{ à toa. KROGSTAD E tem coragem de ...
( SENHORALemE Uma única vez o senhor percebeu algum SENHORALINDE Sei bem aonde o desespero pode levar um
exagero em mim? homem como o senhor.

( KROGSTAD A senhora quer realmente fazer isso? Conhece o KROGSTAD Oh! se eu pudesse mudar o feito por não feito!
meu passado? SENHORALINDE Pode: a sua carta ainda está ali na caixa.
( KROGSTADTem certeza?
SENHORALIJ\"DE Conheço.
(
KROGSTAD Não ignora a minha reputação e o que se diz de SENHORALINDE Certeza absoluta; mas ...
( .
lll1m ....
')
KROGSTAD(encarando-a, com olhar indagado r) Foi por isso,
SENHORALIJ\"DE Se compreendi o que disse ainda há pouco, então ... ? Quer salvar a sua amiga a todo o custo. Seria
( parece-me que eu poderia tê-Io redimido. melhor que me dissesse francamente. É isso?
( KROGSTAD Tenho certeza. SENHORALINDE Quando já nos vendemos uma vez para salvar
SENHORALr:-mE E isso não seria possível agora? uma pessoa, não tomamos a fazê-Io.
KROGSTAD Kristina! A senhora refletiu bem sobre o que disse? KROGSTAD Vou pedir de volta a minha carta.
Refletiu ... bem vejo ... Teria, pois coragem ... ? SENHORALINDE Não, não!
( KROGSTAD Por que não? Espero a chegada de Helmer, digo-
SENHORALINDE Preciso de alguém para quem eu possa ser
( mãe, e seus filhos precisam de mãe. Quanto a nós, tudo nos lhe que quero reaver a minha carta ... que ela só diz respeito
impele um para o outro. Tenho fé no que está oculto no ao meu emprego ... que ele não precisa lê-Ia ...
fundo do seu coração, Krogstad ... com o senhor, nada SENHORALINDE Não, Nils; não a peça de volta.
temerei. KROGSTAD Mas não foi por isso que me chamou aqui?
KROGSTAD(tomando-lhe as mãos) Obrigado, Kristina, SENHORALINDE ..Foi, no primeiro momento de susto; mas já

78 79
/

decorreram vinte e quatro horas, e durante esse tempo vi NORA Ah! peço-lhe, Torvald, suplico-lhe ... só mais uma hora!
acontecerem coisas inacreditáveis nesta casa. É preciso HELMERNem mais um minuto, minha doce Nora. Sabe o que
que Helmer saiba de tudo: deve-se esclarecer esse segredo combinamos. Vamos, entre aqui ou você vai se resfriar. (
lamentável. As coisas têm que ficar às claras entre eles,
basta de viver em meio a dissimulações e subterfúgios. Nora opõe-se. H elmer a traz gentilmente para dentro da
sala
KROGSTADBem, se a senhora tem essa coragem ... há porém
uma coisa que posso fazer e que é necessário fazer já. SENHORA
LINDE Boa noite.
SENHORALINDE(escutando) Depressa! Saia! Acabou a dança:
NORA Kristina!
já não estamos mais seguros por nenhum momento.
HELMER É a senhora Linde? Aqui, a esta hora?!
KROGSTADEspero-a lá embaixo.
SENHORA
LIl>.TDEDesculpe-me; queria tanto ver Nora fantasiada!
SENHORA LINDE Sim, espere; poderá me acompanhar até a
NORA E você ficou todo esse tempo à minha espera?
porta de casa.
KROGSTADNunca me senti tão feliz. SENHORA LrNDE Fiquei; infelizmente cheguei muito tarde, você
já tinha ido para cima, mas não quis me retirar sem vê-Ia.
Dirige-se à porta de entrada. A porta entre a saleta e a HELMER(tirando de Nora o xale) Então veja-a bem. Creio
sala a partir daí conserva-se aberta que vale a pena. Está linda, não é verdade, minha senhora?
SENHORA LINDE Lindíssima.
SENHORA LIl>.TDE(compõe um pouco a sala e prepara a capa HELMERIncrivelmente linda, heim? Era também esta a opinião
e o chapéu) Que reviravolta! Que reviravolta! Tenho alguém de todos lá em cima. Mas que teimosia a desta criaturinha!
por quem trabalhar, por quem viver, um lar para tomá-Io Que se há de fazer?! Acredita que quase tive de empregar a
acolhedor. Ah, como me vou dedicar! Tomara que venham força para ela sair do baile?
logo! (Escutando) Aí vêm. Rápido as minhas coisas .. (Põe NORA Ah, Torvald! Você há de se arrepender de não me ter
o chapéu e a capa) concedido sequer meia hora.
HELMER A senhora compreende. Ela dançou a sua tarantela,
Ouve-se a voz de Helmer e de Nora, um ruído de chave
teve um êxito louco e bem merecido, se bem que talvez tenha
que gira na fechadura, e Helmer faz entrar Nora, quase à
se mostrado demasiado espontânea, quero dizer, um pouco
força. Ela está vestida de italiana, e envolve-a um grande
mais do que o que é compatível com as exigências da arte.
xale preto; ele, num dominá preto aberto, mostrando a
Mas, enfim, o principal é que alcançou êxito, um êxito
roupa de gala que usa por baixo
colossal. Devia deixá-Ia ficar depois disso? Teria diminuído
NORA (ainda na entrada, resistindo) Não, não, não, não
o efeito todo. Muito obrigado! Dou o braço à minha linda
quero vir para casa; quero ir lá para cima, ainda é muito
cedo. mulherzinha de Capri - da minha caprichosa mulherzinha
HELMER Mas, querida Nora! de Capri, poderia dizê-Io; damos uma rápida volta pela sala;

80 81
"--------·--r- ,
HELMER Ao passo que fazer tricô ... não se pode evitar de ser
cumprimentos para todos os lados, e então, como se diz nos
romances ... "a bela visão" esvaneceu-se. O efeito é sempre feio. Veja: os braços colados ao corpo ... as agulhas num

necessário em todos os finais, minha senhora; mas é isso movimento contínuo de cima para baixo e de baixo para
cima ... tem algo de chinês ... Ah, que fino champanhe nos
que eu não consigo fazer Nora compreender. Ai, que calor serviram!
faz aqui! (A.tira o dominó sobre uma cadeira e abre a
SE:-;HORA
LINDE Boa noite, Nora, e não continue a ser teimosa.
porta do escritório) O que é isso? Estamos às escuras?
HELMER Bem dito, senhora Linde.
Ah, é verdade. Perdão. (Entra no escritório e acende
Se-iHORALINDE Boa noite, senhor diretor.
algumas velas)
HELMER(acompanhando-a até a porta) Boa noite, boa noi-
( NoR.-'. (muito baixo. precipitadamente) Então?
SEl'HOR.-'.LINDE ( baixo ) Falei com ele! te. Desejaria acompanhá-Ia ... mas é tão perto ...

NoR.-'. E ... ?
( Depois da saída da senhora Linde, fecha a porta e volta
SE:--''HOR.A.
LINDE l\ora ... é preciso dizer tudo ao seu marido.
para a cena
( NoR.-'. (com vo:::desfalecida) Eu bem sabia.
( SEN'HOR.-'.LINDE Você nada tem a recear de Krogstad, mas Muito bem; até que enfim ela se foi. É prodigiosamente
( precisa falar. tediosa, essa mulher.
NoR.-'. Não falarei. NORA Você não está muito cansado, Torvald?
(
SEl'HOR.-'.LINDE Pois a carta falará por você. HEL\1ER Não, nem um pouco.
(
NoR.-\ Obrigada. Kristina: agora sei o que me resta fazer. Pss! NORA E também não tem sono?
(
HEL\!ER (entrando l1uvamente) Então, minha senhora, já'a HELMER Nenhum; pelo contrário, sinto-me até animadíssimo.
admirou à \'ontade? E você? Tem um ar de estar cansada e com sono.
SE~HORALINDE Já; e agora desejo-Ihes boa noite. NORA É verdade; estou cansadíssima. Já vou me deitar.
HEL\lER Retira-se? É seu este tricô? HEL\1ER Está vendo? Tinha razão em não a deixar ficar mais
LINDE (pegando-o) Muito obrigada; ia-me esquecendo.
SE:--''HOR.A. tempo.
HEDfER A senhora tricota, então? NORA Você sempre tem razão no que faz.
SEJ\'HORALINDE Sim. HELMER (beijando-a a testa) Agora a minha cotovia está
HEÜfER Pois seria bem melhor se bordasse. começando a falar como ser racional. Mas, você reparou
SS...•
'HORALINDE De fato? E por quê? na alegria do doutor Rank, esta noite?
HEL'.1ER É muito mais bonito. Repare: pega-se no bordado NORA Ah é? Não cheguei a falar com ele.
com a mão esquerda, assim, e move-se a agulha com a HELMER Eu também mal estive com ele, mas há muito não o
mão direita., neste sentido ... observe esta curva que se forma, via de tão bom humor. (Contempla-a um instante, depois
longa e elegante; não concorda? aproxima-se) Hum! ... como é bom, afinal, estar na nossa
LINDE É bem possível.
SE:N'HORA

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82
(

casa, e só contigo ... Ah, que linda, que inebriante mulher- HELMERO que quer dizer isso? Então a minha pequena Nora
zinha você é! resolveu brincar comigo. "Não quero". Sou seu marido, não
NORA Não olhe assim para mim, Torvald! sou?
HELMER Então, não hei de contemplar o meu mais querido Batem à porta de entrada
';il
li tesouro? Esse esplendor. que é meu. só meu, todo meu!
II NORA(estremecendo) Você ouviu?
n: NORA(fugindo para o outro lado da mesa) Esta noite não
HELMER(dirigindo-se para a saleta) Quem é?
quero que você me fale dessa forma.
RASK Sou eu. Vocês me dão licença?
HELMER(seguindo-a) A tarantela ainda está no seu sangue,
HELMER(baixo, num tom aborrecido) O que será que ele
pelo que vejo. E assim você ainda é mais sedutora. Está
quer, agora? (Alto) Espere um pouco. (Dirige-se para lá e
ouvindo? São os convidados que se retiram. (Mais baixo)
abre a porta) É uma grande amabilidade sua não passar
Nora, daqui a pouco todo o prédio estar~,em silêncio.
pela nossa porta sem bater.
NORA Assim espero.
M'-'K Pareceu-me ouvir sua voz e pensei em entrar um ins-
HELMER Não é verdade, minha pequena Nora adorada? Ah,
tante. (Num relancear de olhos pela sala) Ei-Io, este lugar
quando nos encontramos numa reunião, como a desta noi-
tão querido, tão familiar) Vocês são felizes, aqui é agradá-
te ... sabe por que me conservo longe de você, contentando- vel e acolhedor.
me em envolvê-Ia num rápido olhar? Sabe por quê? Porque
HELMER Parecia-me que lá em cima também não se aborre-
faço de conta que entre nós há uma paixão secreta, que cIa.
estamos noivos sem que ninguém saiba disso.
RA\'K De fato, diverti-me muito. E por que não? Por que não
NORA Sim, sim, bem sei que todos os seus pensamentos são
se há de gozar tudo neste mundo? Ao menos quanto e pelo
para mim.
tempo que for possível. O vinho era delicioso!
HELMER E ao nos retirarmos, quando pouso o xale nos seus
HELMER E sobretudo a champanhe.
delicados ombros juvenis, à volta da maravilhosa nuca,
AA'-'K Você também observou? É incrível o quanto eu bebi!
imagino que você é minha jovem noiva e que, terminada a
NORATorvald também bebeu muita champanhe esta noite.
festa do casamento, eu a conduzo pela primeira vez para R"'-'<K Sério?
casa, onde, enfim, vamos ficar a sós ... vou ficar a sós com
NORA É verdade, e quando isso acontece ele fica muito en-
você, com sua jovem e palpitante graça. Durante toda a graçado.
noite não desejei senão isso. Quando a vi na tarantela,
R~NK Pudera) E por que a gente não haveria de passar uma
atraente e leve ... senti ferver-me o sangue, não pude mais
boa noite depois de um dia bem empregado?
dominar-me, e foi por isso que a arrastei para baixo tão HELMER Bem empregado?! Infelizmente hoje não posso me
logo ... vangloriar disso.
NORA Agora vá, Torvald. Deixe-me. Não quero ... RANK(batendo-lhe no ombro) Mas eu posso!

84 85
(

NORA Doutor Rank, o senhor dever ter feito hoje alguma HELMERQue brincadeira!
análise científica.
R'ANKHá um chapéu muito grande e negro ... Ainda não ouviu
( R-\..'\l< Exato! .
falar de um chapéu que toma uma pessoa invisível? Basta
( HaMER Oh! Oh~ a minha pequena Nora falando de análises colocá-Io na cabeça para ninguém nos ver.
científicas!
( HELMER(reprimindo um sorriso) Bem, bem, acredito.
NORA E podemos felicitá-Io pelo resultado? RANK Mas estou me esquecendo do motivo que me trouxe
R-\..'\K Indubitavelmente.
aqui. Helmer, dê-me um charuto, um dos seus havanas es-
( NORA Portanto, o resultado foi bom? curos.
R-\..'\K O melhor possível, não só para o médico, como para o HELMER Com prazer. (Apresenta-lhe a charuteira)
( enfermo: a certeza.
RANK(tirando um charuto e cortando-lhe a ponta) Obrigado.
NORA(vivamente, perscrutando-o com o olhar) A certeza? NORA(acendendo umfósforo) Consinta que eu lhe ofereça o
R-\..'\K A certeza absoluta. Depois disso não tinha direito a fogo.
uma noite bem passada? RANK Obrigado. (Ela aproxima o fósforo; ele acende o
( NORA Fez bem, doutor Rank.
charuto) E agora, adeus.
( HELMERTambém penso assim; contanto que não lhe saia caro HELMERAdeus, adeus, meu caro amigo.
( amanhã.
NORA Durma bem, doutor Rank.
( R';SK Não se recebe nada de graça nesta vida. RANK Agradeço-lhe.
(
NORA Doutor Rank, o senhor deve apreciar mui to os bailes de NORA Deseje-me a mesma coisa.
máscara.
( RANK A senhora? Está bem; se assim o quer... Durma bem. E
R-\..'\K Sim; quando há muitas fantasias divertidas. obrigado pelo fogo. (Cumprimenta-os com um gesto de
( NORA Ora, diga-me: de que nos havemos de fantasiar, no cabeça e sai)
( próximo baile? HELMER(a meia voz) Bebeu demais.
HELMERLouquinha! Já está pensando no próximo baile! NORA(distraída) Pode ser.
R-\..'\K Nós dois? Eu lhe digo: a senhora de mascote. HELMER(tira do bolso um molho de chaves e dirige-se para
(
HELMER Ah, se encontrar o traje adequado. a saleta)
(
RAi'fK Basta apresentar-se como a vemos todos os dias.
( NORA Torvald, o que você vai fazer?
HaMER Essa foi uma sugestão acertada. E você, já pensou HELMERVou esvaziar a caixa do correio; está transbordando;
( no seu traje? amanhã os jornais não cabem lá.
RANK Quanto a isso, meu caro amigo, não tenho mais ne- NORA Você vai trabalhar esta noite?
nhuma dúvida.
HELMER É claro que não ... O que é isso? Mexeram na fe-
HaJ\.1ER Vamos ver.
chadura.
RA..NXNo próximo baile de fantasias eu vou ser invisível. NORA Na fechadura?

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\{
(

HELMERCom toda a certeza. O que significa isso? Não creio licidade ... Enfim, talvez seja melhor assim. Pelo menos pa-
ra ele. (Detendo-se) E quem sabe se também para nós,
que as criadas ... Uma fivela de cabelo quebrada. Nora, é
uma fivela sua. Nora. Agora nos dedicaremos exclusivamente um ao outro.
(Aperta-a nos braços) Ah! minha querida, sinto como se
NORA (rápido) Talvez tenham sido as crianças ...
HELMER Realménte, estão precisando de uma advertência. só assim eu pudesse mantê-Ia suficientemente resguardada.
Hum, enfim consegui abri-Ia! (Tira o conteúdo da caixa Sabe, Nora ... às vezes eu gostaria de vê-Ia ameaçada de
e chama) Helena! Helena! Apague a luz do vestíbulo. um perigo, para poder expor a vida, dar o meu sangue,
arriscar tudo, tudo para protegê-Ia.
(Entra novamente na sala e fecha a porta da saleta)
NORA(soltando-se de seus braços com voz firme e resolu-
HELMER(segurando as cartas) Olha, que quantidade! (Fo-
ta) Agora leia as suas cartas, Torvald.
lheia-as) Que será isto?
HELMER Não, esta noite, não ... Quero ficar com a minha
NORA(virando-se à janela) A carta! Não,
.'~ não, Torvald!
HELMER Dois cartões de visita: de Rank. mulherzinha querida ...
NORA Do doutor Rank? NORA Pensando na morte de seu amigo?
HELMER(examinando-os) Rank, doutor em medicina. Esta- HELMERVocê tem razão, isso nos comoveu. Interpôs-se entre
vam sobre as cartas. Pôs na caixa quando saiu. nós um espectro sombrio: a idéia da morte e da dissolução.
NORA Têm alguma coisa escrita? Tentemos libertar-nos dele. Até lá ... que cada um vá para o
seu quarto.
HELMER Só uma cruz negra encimando o nome. Ora, veja!
NORA(lançando-se ao seu pescoço) Boa noite, Torvald ...
Que idéia de mau gosto! É como se estivesse participando
boa noite!
a própria morte.
HELMER(beijando-a na testa) Boa noite, minha avezinha
NORA É, na realidade é o que está fazendo.
HELMER Quê? Acaso sabe ... Ele lhe disse alguma coisa? .. canora. Durma bem, Nora. Eu vou ler a correspondência.
NORA Sim. Esses bilhetes significam uma despedida. Quer se (Dirige-se para o escritório, levando as cartas, e fecha
a porta)
afastar para morrer.
HELMER Pobre amigo! Eu sabia que tinha os seus dias con- NORA(tateando em torno de si, com olhar desvairado, pe-
tados. Mas assim tão cedo ... E vai se esconder como um ga o dominó de Helmer e nele se envolve, dizendo em
animal ferido! sussurros rápidos, entrecortados e roucos) Nunca mais
o ver! Nunca mais ... nunca .. nunca!. .. (Põe o xale na
NORA Se não tem remédio, de que servem consolações? Não
é verdade, Torvald? cabeça) E os meus filhos: nunca mais vê-Ios, também a
eles! Nunca, nunca ... Oh! a água gelada, negra!. .. e tão
. HELMER(andando de um lado para o outro da sala) Era
profunda!. .. Ah! se tudo já houvesse terminado ao menos!
como se fosse da fa:rm1ia.Não posso me imaginar sem ele.
Está abrindo-a ... lê ... Não, ainda não. Adeus, Torvald, ade-
Com os seus padecimentos, e com sua solidão, como que
constituía um fundo de sombra contra o brilho da nossa fe- us, filhinhos!

89
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(

Quer correr para a porta de entrada. No mesmo instante uma coisa dessas iria acontecer. Devia tê-Io previsto. Com
abre-se com violência a do escritório e Helmer surge com os princípios levianos de seu pai ... princípios que você
uma carta aberta na mão herdou! Ausência de religião, ausência de moral, absoluta
ausência do senso de dever... Ah, como estou sendo casti-
( HELMER Nora!
gado por encobrir o procedimento dele ... Foi por você que
( NORA(soltando um grito agudo) Ah! o fiz, e é essa a minha recompensa.
( HELMER O que é isto? .. Você sabe o que esta carta contém? NORA Pois é.
NORA Sei, sei ... Deixe-me ir embora! Deixe-me sair!
HELMERAgora você destruiu a minha felicidade, aniquilou o
HELMER(retendo-a) Aonde você vai?
( meu futuro. Não posso pensar nisso sem estremecer. Eis-me
NORA(tentando soltar-se) Você não poderá me salvar, Tor-
nas mãos de um homem sem escrúpulos: pode fazer de mim
vald!
o que quiser, mandar, ordenar à sua vontade, que eu não me
HELMER(recuando) Então é verdade?! Esta carta diz a ver-
atreverei a balbuciar uma palavra sequer. E assim me vejo
dade?! Que horror! Não, não, é impossível, não pode ser!
reduzido a nada, rebaixado pela inconseqüência de uma
( NORA É verdade. O meu amor foi superior a tudo! mulher.
HELMEROra, não me venha com essas desculpas esfarrapadas! NORA Quando eu deixar este mundo você ficará livre.
/
NORA(dando um passo para ele) Torvald!
( HELMER Ah, nada de grandes frases! Seu pai também tinha
HELMERInfeliz~ O que você ousou fazer?
uma grande provisão delas. De que me serviria isso? Sim,
NORA Deixe-me ir embora. Você não terá de suportar o peso
de que me ·serviria a sua partida d~ste mundo, como diz?
da minha falta, não será responsável...
De nada. Ele poderia divulgar o caso da mesma forma, e
( HELMER Basta de melodrama! (Fecha a porta da saleta)
sendo assim, talvez chegasse a julgar-me cúmplice da sua
( Fique aqui e se explique. Você se dá conta do que fez? ação criminosa. Até poderiam crer que fui eu o instigador.
Responda! Yocê percebe? que eu é que a levei a isso. E tudo isso eu devo a você - a
(
NORA(fixa-o com uma expressão enrijecida) Sim, agora
( quem, no entanto, só ofereci carinho, durante toda a nossa
começo a compreender a realidade. vida em comum. Agora você compreende o que fez comi-
C
HELMER(caminhando, agitado, pela sala) Ah, que terrível go?
( despertar! Oito anos! ... Durante oito anos você foi a minha NORA(serena e fria) Compreendo.
I
i:

alegria e o meu orgulho ... e agora vejo que é uma hipócrita,


r HELMER Isso é tão inacreditável que ainda não consigo en-
uma impostora ... pior ainda, uma criminosa! Que abismo tender direito. No entanto, é preciso tentar corrigir. Tire esse
/ de torpezas! Ah, que horror!
xale, tire-o, já disse. Tenho de contentá-Io de alguma forma.
NORA (muda, continua a olhá-Ia fixamente)
O principal é abafar o caso, de qualquer forma. E, no que
HELMER(parando em frente a ela) Eu devia ter sabido que
diz respeito à nossa vida íntima, tem que parecer como se
(

(
90 91
(

(
.,~~

nada tivesse mudado entre nós. Só aos olhos do mundo, é Deixe-me ver ... (Lança um rapido olhar à nota
claro. Você continuará aqui na minha casa - não preciso promissória) Não, nada quero ver; foi um mau sonho que
dizê-Io - mas eu não lhe permitirei educar as crianças ... tive; acabou-se. (Rasga as duas cartas e a nota
não me aventuro a confiá-Ias a você. Ah, ter de falar assim promissória, lança tudo na estufa e contempla os papéis
àquela que tanto amei e que ainda ... MaS isso acabou. De a arderem) Pronto! tudo desapareceu. Ele dizia na carta
agora em diante não se trata de salvar a felicidade, mas o que desde a véspera do Natal, você ... Ah, três dias! O que
li
! que sobrou dela ... destroços ... aparências ... você deve ter passado, Nora!
NORA Durante esses três dias eu vivi um conflito terrível.
Tocam à porta de entrada
HELMERE chegou a se desesperar; não via outra solução a não
(Estremecendo) O que será? A esta hora! Será que o pior... ser a... Não, não, não vamos recordar essas coisas odiosas.
Já? ... Esconda-se, Nora. Diga que está doente. Agora podemos gritar de alegria e repitamos: acabou-se,
NOR-A.(não se move) acabou-se! Mas escute, Nora, parece, que você não
HEL\lER(vai abrir a porta) compreende: acabou-se! O que significa essa rigidez? Ah,
A CRlADA(de camisola, na saleta) Uma carta para a senhora. minha pobre Nora, compreendo ... Você pensa que eu não (
HEL~!ER Dê-me. (Agarra a carta e fecha a porta) Logo vi lhe perdoei tudo. Bem sei que o que você fez foi por amor a
que era dele. Vou lê-Ia eu mesmo. num.
NOR-A.Leia. NORA É verdade.
HED1ER (à luz da lamparina) Falta-me Goragem. Ela pode HELMER Você me amou como uma mulher deve amar o ma-
significar a nossa ruína ... Não; preciso certificar-me. (Abre rido. Somente os meios você não conseguiu julgar êlireito.
rapidamente a carta, percorre algumas linhas, examina Mas pensa que o fato de você não saber agir por conta
o papel anexo e solta um grito de alegria) Nora! própria me faz querê-Ia menos? Não, não, confie em mim:
NOR-.l" (interroga-o com o olhar) eu a orientarei, serei seu guia. Deixaria de ser homem se
HEL\!ER Nora! ... Espere, deixe-me ler outra vez! É isso ... essa sua falta de capacidade feminina não a tomasse du-
Estou salvo, Nora! Estou salvo! plamente sedutora aos meus olhos. Esqueça as palavras
NORA E eu? rudes que pronunciei nos primeiros momentos de temor,
HEL\illZ Você também, é claro. Ambos estamos salvos. Olhe. quando acreditei que tudo ia desmoronar sobre mim. Eu a
Ele lhe devolveu a nota promissória. Diz que lastima, que se perdoei, Nora; juro que a perdoei.
arrepende que um feliz acontecimento lhe transformou a NORA Obrigada pelo perdão. (Sai pela porta da direita)
existência Ah! pouco me importa o que ele diz. Estamos HELMER Não vá embora ... (Segue-a com a vista) Por que
salvos, Nora! Já ninguém nos pode prejudicar. Ah! Nora, você está indo para o quarto?
Nora ... mas primeiro destruam-se essas coisas repugnantes. NORA(do quarto) Para tirar a fantasia.

92 93
(

(
( HELMER(junto da porta, que ficou aberta) Bem, tire-a, tente HELMER Nora, o que é isso? Essa expressão rígida em seu
( se acalmar, refazer-se dessa inquietação, minha avezinha rosto .. ?
( amedrontada. Descanse tranqüila, tenho amplas asas para NORA Sente-se, vai ser demorado. Tenho muito a dizer...
protegê-la. (Andando de um lado para o outro, sem se HELMER (sentando-se em frente a ela) Você está me in-
afastar da porta) -Ah, como o nosso lar é tranqüilo e en- quietando, Nora ... Não a compreendo.
(
cantador, Nora! Aqui você está segura! Eu a guardarei como NORA Sim, é isso mesmo: você não me compreende. Também
(
a uma pomba que foi ~colhida depois de ser retirada sã e eu ... nunca o compreendi ... até hoje à noite ... ; não me
( salva das garras do -âbutre. Saberei aquietar o seu pobre interrompa. Ouça o que lhe digo. Precisamos acertar as
coração palpitante. Conseguirei isso pouco a pouco, acre- contas, Torvald.
( dite, Nora. Amanhã você verá as coisas sob outro aspecto. HELMER O que você quer dizer com isso?
Tudo voltará a ser como antes. Não precisarei dizer-lhe
NORA (após um instante de silêncio) Não chama a sua atenção
continuamente que a perdoei. Você sentirá isso em seu o fato inusitado de estarmos sentados aqui face a face?
(
coração. Como pode supor que seria capaz de rejeitá-la, ou HELMER O quê?
( mesmo de a censurar? Ah, você não sabe o que é um NORA Há oito anos que somos casados. Reflita um momento:
( verdadeiro coração de homem, Nora. Para o homem é algo
não é esta a primeira vez que nós dois, tal como somos,
( indescritivelmente doce e prazeroso saber que no íntimo marido e mulher, conversamos a sério um com o outro?
( perdoou a mulher - perdoou-a completamente, de todo o
HELMER A sério ... o que você quer dizer com isso?
coração. É como se ele tivesse criado o seu duplo; como se NORA Oito anos se passaram até mais, se contarmos desde
(
a tivesse dado à luz. Em certo sentido ela se torna igual-
o nosso primeiro encontro sem que nunca trocássemos
mente mulher e filha. Assim a considerarei no futuro, pobre
uma palavra séria sobre um assunto sério.
( criaturinha assustada e desamparada. Não se inquiete, Nora;
H EL:Yl
ER Você acha que eu deveria envolvê-la sempre nas
( seja apenas franca comigo e eu serei a sua vontade e a sua
minhas preocupações em relação às quais você nada pode-
consciência. - O que significa isso? Você não se deitou? ria fazer?
Tomou a se vestir?
( NORA Não me refiro a preocupações. Quero dizer que nunca
NORA (que acaba de envergar seu traje habitual) É verda-
( nos sentamos para tentar sermos sérios e nOs aprofundar
de, Torvald, tomei a me vestir.
( sobre o que quer que fosse.
HELMER A esta hora ... para quê?
HELMER Mas, minha querida Nora; o que isso lhe traria de
NORA Esta noite não pretendo dormir. bom?
HELMER Mas, minha querida Nora ...
NORA É esse o ponto. Você nunca me compreendeu. Tenho
( NORA (consultando o relógio) Ainda não é muito tarde. Sente-
sido tratada muito injustamente, Torvald; primeiro por pa-
se, Torvald. Temos muito que dizer. (Ela senta-se no outro
pai, e depois por você.
lado da mesa)

94 95

(
(
HELMER o quê? Por nós dois? Mas quem é que a amou tanto engraçado que eu os levante e brinque com eles. Eis o que
I como nós? foi o nosso casamento, Torvald.
NORA(meneando a cabeça) Vocês jamais me amaram, ape- HELMER Descontando o exagero, há alguma verdade no que
nas lhes era divertido se encantar comigo. você diz. Mas para o futuro tudo mudará. O tempo de recreio I(

HELMER Nora, o que você está dizendo? passou, agora chegou o da educação.
NORA É assim mesmo, Torvald; quando eu estava em casa, NORA A educação de quem, a minha ou a das crianças?
papai me expunha as suas idéias, e eu as partilhava. Se HELMER Uma e outra, querida Nora.
acaso pensava diferente, não o dizia, pois ele não teria NORA Ah, Torvald, não, você não é o homem indicado para
(
gostado disso. Chamava-me sua bonequinha e brincava me ensinar a ser uma verdadeira esposa.
comigo, como eu com as minhas bonecas. Depois vim mo- HELMERE é você quem diz isso? (
rar na sua casa. NORA E eu ... de que maneira estaria preparada para educar (
HELMER Você emprega umas expressões-singulares para'fa- meus filhos?
lar do nosso casamento. HELMER Nora!
NORA(imperturbável) Quero dizer que das mãos de papai NORA Não é o que você dizia ainda há pouco ... que essa
passei para as suas. Você arranjou tudo ao seu gosto, gosto tarefa você não ousaria me confiar?
que eu partilhava, ou fingia partilhar, não sei ao certo; tal- HELMERDisse num momento de irritação. Você não deve dar
vez ambas as coisas, ora uma, ora outra. Olhando para trás, atenção a isso.
(
agora, parece-me que vivi aqui como vive a gente pobre, NORAAh, mas você estava absolutamente certo. É uma tarefa
que mal consegue ganhar o seu sustento. Vivi das gracinhas superior às minhas forças. Primeiro quero cumprir uma outra.
i que fazia para você, Torvald; mas era o que lhe convinha. Devo tentar educar a mim mesma. E você não é o homem
!
11
Você e papai cometeram um grande crime contra mim. Se indicado para me ajudar nessa tarefa. É algo que eu devo
I
t
eu de nada sirvo, a culpa é de vocês.
empreender sozinha. E para isso eu vou deixá-Io.
, HELMER Como você é injusta, Nora, e ingrata! Não foi feliz
HELMER(erguendo-se de um pulo) O que você está dizendo?
aqui?
NORA Preciso estar só, para avaliar a mim mesma e a tudo
NORA Nunca. Julguei que sim, mas nunca fui.
HELMER Não foi ... nunca foi feliz?! .
quanto me rodeia. Pbr isso não posso continuar a viver com
você.
NORA Nunca; era alegre, nada mais. Você era tão amável HELMER Nora! Nora!
comigo! Mas a nossa casa nunca passou de um quarto de
NORA Quero me retirar .' sta noite ficarei na casa de
brinquedos. Fui sua boneca-esposa, como fora boneca-fi- Kristina.
lha na casa de meu pai. E os nossos filhos, por sua vez, têm
HELMERVocê está delirando. jOSSO deixar. Eu lhe proibo.
sido as minhas bonecas. Eu achava engraçado quando você
NORA De agora em diante voe .. ; tão pode me proibir nada.
me levantava e brincava comigo, como eles acham

96 97
-(
/
i
:(
I
I
(
Levo tudo que me pertence. De você nada quero, nem agora, NORA Ah, Torvald! A religião, nem sei bem ao certo o que ela
{ nem nunca. é.
( HELMER Mas que loucura é essa? HELMER O que você está dizendo?
NORA Amanhã parto para casa ... Quero dizer, para o lugar NORA Dela só conheço o que me ensinou o pastor Hansen ao
onde nasci ... Lá encontrarei mais facilmente algum trabalho. preparar-me para a crisma. A religião é isso, é aquilo ...
(
HELMER Oh, criatura cega e inexperiente! Quando eu deixar tudo isso aqui e me encontrar só, quero
{ NORA Tenho que fazer o possível para adquirir experiência, pensar também sobre esse assunto. Saberei se o pastor
Torvald. Hansen dizia a verdade, ou, pelo menos, se o que disse é
HELMER Abandonar o seu lar, seu marido, seus filhos! Você verdadeiro para mim.
não pensa no que dirão as pessoas.? HELMER Ah, isso é inaudito, uma jovem mulher como você!
NORA Não posso pensar nisso. Sei unicamente que para mim Mas se a religião não pode conduzi-Ia ao bom caminho,
isso é indispensável. deixe-me sacudir a sua consciência. Você deve ter algum
( senso moral. Ou estou errado? Talvez você também não o
HELMER Ah! É revoltante! Você seria capaz de negar a tal
( ponto seus deveres mais sagrados? tenha.
( NORA E quais são meus deveres mais sagrados, no seu pa- NORA Talvez fosse melhor nem responder, Torvald. Nem
recer? saberia fazê-Io. Essas coisas estão confusas na minha ca-
( HELMER E sou eu quem precisa dizer isso? Não serão os que beça. Só uma coisa sei: é que minhas idéias divergem
você tem para com seu marido e seus filhos? inteiramente das suas. Também fiquei sabendo que as leis
(
NORA Tenho outros tão sagrados cqmo esses. não são o que eu julgava que fossem, mas que essas leis
HELMER Não tem. Quais poderiam ser? são justas, é algo de que ninguém me poderá convencer,
( NORA Meus deveres para comigo mesma. Então uma mulher não teria o d.ireito de evitar um desgosto
( HELMER Antes de mais nada, você é esposa e mãe. a seu velho pai moribundo ou de salvar a vida do marido!
NORA Já não creio nisso. Creio que antes de mais nada sou Eu não acredito nisso.
um ser humano, tanto quanto você ... ou pelo menos, devo HELMERParece uma criança falando. Você não entende nada
tentar vir a sê-Io. Sei que a maioria lhe dará razão, Torvald, da sociedade de que faz parte.
(
e que essas idéias também estão impressas nos livros. Eu NORA Não, nada entendo. Mas quero chegar a entender e
(
porémjá não posso pensar pelo que diz a maioria nem pelo certificar-me de qual de nós tem razão: se a sociedade ou
li( que se imprime nos livros. Preciso refletir sobre as coisas se eu.
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I· por mim mesma e tentar compreendê-Ias. HELMER Você está doente, Nora, tem febre: quase me con-
{ HELMER É seu dever compreender em primeiro lugar o papel venço de que perdeu o juízo.
que você tem nesta casa. Você não tem um guia infalível NORA Sinto-me esta noite mais lúcida e mais segura de mim
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í. nestas questões? Sua religião? do que nunca.
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HELMER E é com essa firmeza e em perfeita lucidez que você convencida de que você iria chamar a si a responsabilidade
abandona seu marido e seus filhos? de tudo e diria: sou eu o culpado. (
NORA Sim. HELMER Nora! (
HELMER Isso só tem uma explicação possível. NORA Você acha que eu teria aceitado tal sacrifício? É claro (
NORA Qual? que não. Mas de que valeriam as minhas afirmações contra (
I HELMER Você já não me ama.
NORA Sim. É isso mesmo.
as suas? Pois bem! Esse era o milagre que eu esperava, cheia (
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de temor. E para evitar isso é que eu queria terminar com a
ili HELMER Nora! ... Como você pode dizer isso? minha vida.
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li! NORA Custa-me muito, Torvald, porque você sempre foi mui- HELMERNora, por você eu trabalharia alegremente dia e noite.
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to bom para mim. Mas nada posso contra isso: já não o amo Suportaria tudo, preocupações e provações; mas não há
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maIs. ninguém que sacrifique a sua honra pelo ente que ama. (
HELMER(esforçando-se para manter-se calmo) Disso tam- NORA Milhares de mulheres têm feito isso.
bém você está clara e seguramente convenci da? HELMER Ah, você pensa e fala como uma criança insensata. (
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NORA Sim, é absolutamente claro e certo. E é por essa razão NORA Talvez. Você, porém, não pensa e nem fala Como o
que não quero permanecer mais tempo aqui. homem a quem eu possa me unir como companheira. Uma
HELMER E você pode me explicar como perdi o seu amor? vez tranqüilizado, não sobre o que poderia acontecer comigo,
NORA Sem dúvida! Foi esta noite, quando não vi realizar-se o mas sobre o risco que você corria - e quando não havia
milagre esperado. Então vi que você não era o homem que mais perigo, pelo menos no que se referia a você, você fez
eu imaginava que fosse. como se nada tivesse acontecido. Eu tornei a ser uma
HELMER Explique-se: eu não a entendo. avezinha canora, a sua boneca, que você passaria a proteger
NORA Durante oito anos esperei tão pacientemente! Pois eu com muito mais cuidado, pois percebeu quanto era delicada
bem sabia que milagres não acontecem todos os dias. E e frágil! (Erguendo-se) Ouça, Torvald: nesse momento
(
então me invadiu essa coisa angustiante, e eu tinha toda a tornou-se evidente para mim que vivi oito anos nesta casa
certeza do mundo de que chegara a hora do milagre. En- com um estranho, a quem dei três filhos ... Ah, nem vou (
quanto a carta de Krogstad estava na caixa, nem por um continuar falando para não ter que lembrar disso. Tenho
instante pensei que você poderia se curvar às arbitrarieda- vontade de partir-me em mil pedaços.
des desse homem. Acreditava firmemente que você lhe HELMER(triste) Sim. Estou percebendo. Abriu-se entre nós
diria: Vamos, publique tudo ... E quando isso acontecesse ... um abismo - mas Nora, não seria possível transpô-Io?
HELMERBem, o que você queria? Que eu a tivesse lançado na NORA Tal como sou agora, não posso ser sua mulher.
vergonha e na desonra ... HELMER Eu poderia mudar.
NORA ... quando isso acontecesse eu estava plenamente NORA Talvez ... se a sua boneca for afastada de você.

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HELMER Mas, separar-me ... separar-me de você! Não, Nora! melhor que eu. Amanhã Kristina virá embalar tudo quanto
(
Não posso aceitar essa idéia! eu trouxe quando vim para cá. Desejo que me remetam
( NORA(dirigindo-se para a porta da direita) E é exatamente essa mala.
( por isso que eu tenho de ir embora~ (Sai e toma a entrar HELMER Está tudo acabado! Você nunca mais vai pensar em
( com o sobretudo, o chapéu e uma maleta de \'iagem que mim, Nora?
( coloca sobre uma cadeirinha ao pé da mesa) NORA Vou pensar muitas vezes em você, é claro, e nos meus
HELMERAinda não, Nora, ainda não! Espere até amanhã. filhos, e na casa.
(
i~ NORA(pondo o sobretudo) Não posso passar a noite sob o HELMER Posso lhe escrever, Nora?
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teto de um estranho. NORA Não! Nunca. Proibo-o de fazer isso.


(
HELMERMas não podemos viver juntos como irmão e irmã? HELMER Ah, mas decerto posso lhe enviar algo.
( NORA(prende com gestos finnes o chapéu) Você bem sabe NORA Nada, nada.
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que isso duraria pouco. (Atira o xale sobre os ornbros) A- HELMER Ajudá-Ia, se você precisar.
( deus, Torvald. Não quero ver as crianças. Sei que estão em NORA Não, já lhe disse. Não aceito nada de estranhos.
( melhores mãos que as minhas. Assim como sou, por HELMER Nora ... nunca passarei de um estranho para você?
enquanto ... não posso ser uma mãe para elas. NORA(segurando a maleta) Ah! Torvald, para isso seria
( preciso o maior dos milagres.
HELMERMas algum dia, Nora ... algum dia?
( NORA Como posso responder-lhe? Não sei nem o que será de HELMERE qual seria o maior dos milagres?
( rrum. NORA Seria preciso transformarmo-nos os dois a tal ponto ...
( HELMER Mas você é minha 'mulher; como é agora e como o Ah, Torvald! Já não mais acredito em milagres.
( que quer que venha a ser. HELMER Eu, porém, quero crer neles. Diga. Deveriamos nos
transformar a tal ponto que ...
( NORA Ouça, Torvald. Quando uma mulher deixa a casa de
seu marido, como eu estou fazendo agora, as leis - segun- NORA ... que a nossa união se transformasse num verdadeiro
(
do ouço dizer - absolvem o marido de qualquer obrigação casamento. Adeus. (Sai pela porta da saleta)
ií para com ela. De qualquer modo, eu o deixo livre de agora HELMER(caindo numa cadeira junto à porta e cobrindo o
.! (
:1 I em diante. Inteira liberdade de parte a parte. Olha, aqui rosto com as mãos) Nora! Nora! (Ergue a cabeça e olha
está o seu anel: devolva-me o meu. em tomo de si) Está vazia, ela não está mais aqui! (Com
Ii (
HELMERAté o anel? um vislumbre de esperança) "O maior dos milagres!"
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H NORA Até.
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HELMER Tome. Ouve-se, vindo de baixo, o bater do portão.
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li NORA Obrigada. Agora tudo acabou. Deixo aqui as chaves.
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" ( Quanto à direção da casa, as criadas estão a par de tudo ...
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