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DECISÃO: Trata-se de agravo cujo objeto é a decisão que inadmitiu o

recurso extraordinário interposto em face do acórdão do Tribunal


Regional Federal da 3ª Região, cuja ementa reproduzo a seguir:

“PROCESSUAL CIVIL. AGRAVO LEGAL. CPC, ART.


ART, 557, § 1º. APLICABILIDADE. PEDIDO DE REFORMA DE
DECISÃO. RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. FALÊNCIA.
DISSOLUÇÃO IRREGULAR NÃO CARACTERIZADA.
INEXISTÊNCIA DE RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA DO
SÓCIO.
1 – A utilização do agravo previsto no art. 557, § 1º, do
CPC, deve enfrentar a fundamentação da decisão agravada, ou
seja, deve demonstrar que não é caso de recurso
manifestamente inadmissível, improcedente, prejudicado ou
em confronto com súmula ou com jurisprudência dominante do
respectivo tribunal, do Supremo Tribunal Federal, ou de
Tribunal Superior.
2 – O Juízo a quo extinguiu a presente execução fiscal em
função do encerramento definitivo do processo de falência (fl.
140. 140/141 v.). A parte autora pretende o prosseguimento da
presente ação de execução fiscal em face dos corresponsáveis
sustentando que o não recolhimento das parcelas relativas ao
FGTS configura infração à lei, passível de responsabilidade
objetiva. Aduz, ainda, que a ausência do nome do sócio do
título não impede que a execução seja redirecionada a
contribuição devida ao FGTS e que, em função de sua natureza
trabalhista, é possível aplicar a teoria da desconsideração da
personalidade jurídica.
3 – “A falência configura forma regular de dissolução da
sociedade e não enseja, por si só, o redirecionamento da
execução” (STJ, AGA n. 767.383, Rel. Min. Castro Meira, jl.
15.08.06). A jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça é no
sentido de que a falência não caracteriza modo irregular de
dissolução da pessoa jurídica (STJ, Resp n. 824.914, RE. Min.
Denise Arruda, j. 13.11.07). “Com o trânsito em julgado da
falência e não havendo motivos para o redirecionamento da
execução, esta deve ser extinta sem julgamento do mérito (STJ,
Resp, n. 875,132, Rel. Castro Meira, j. 28.11.06). A ofensa à lei
que pode ensejar a responsabilidade do sócio (CTN, art. 135, III)
“é a que tem relação direta com o obrigação tributária”, de
modo que o descumprimento do dever legal do administrador
de requerer a autofalência (DL n. 7.661/45, art. 8º) não enseja a
responsabilidade tributária (STJ, Resp n. 856.266, Rel. Min. Teori
Albino Zavascki, j. 19.09.06; REsp n. 442.301, Rel. Min. Denise
Arruda, j. 17.11.05, REsp n. 644.093, Rel. Min. Francisco Peçanha
Martins, j. 13.09.05). Deve ser feita uma ressalva: a dissolução
irregular pode ocorrer antes da falêncai, como sucede quando
“a empresa não se encontrava em época muito anterior à
decretação da falência” (STJ, AGRAGA n. 690.633, Rel. Min.
Luiz Fux, j. 16.05.06). No caso de a empresa se extinguir por
falência, depois de exaurido seu patrimônio, a responsabilidade
tributária é inteiramente da empresa extinta, sem ônus para os
sócios (RESp n. 712.828, Rel. Min. Eliana Calmon, j. 17.08.06;
RESp n. 875.132, Rel. Min Castro Meira, j. 28.11.06, Bol. AASP
n. 2.525, p. 4.329).
4 – Agravo legal não provido.” (eDOC 3, p. 22-23).

Os embargos de declaração foram rejeitados (eDOC 3, p. 49-56).


No recurso extraordinário, interposto com base no art. 102, III, “a”,
da Constituição Federal, aponta-se ofensa aos arts. 5º, XXII e LIV; 7º, III; e
97 do Texto Constitucional, bem como à Súmula Vinculante 10 do STF.
Nas razões recursais, sustenta-se o desrespeito à cláusula de reserva de
plenário, uma vez que o juízo a quo teria afastado a aplicação do art. 4º,
§2º, da Lei de Execução Fiscal (eDOC 3, p. 92-93).
A Vice-Presidência do TRF da 3ª Região inadmitiu o recurso com
base na jurisprudência do STF (eDOC 4, p. 7-8).
É o relatório. Decido.
A irresignação recursal não merece prosperar.
Inicialmente, ressalto que o Tribunal de origem não declarou a
inconstitucionalidade de dispositivo normativo, mas apenas interpretou
norma legal. Assim, a jurisprudência do STF é firme no sentido de que é
necessário que a decisão de órgão fracionário fundamente-se na
incompatibilidade entre a norma legal e o Texto Constitucional para
caracterizar violação à cláusula de reserva de plenário, o que não se
verificou no caso concreto. Confiram-se, a propósito, os seguintes
julgados: AI-AgR 848.332, de relatoria do Ministro Dias Toffoli, Primeira
Turma, DJe 24.4.2012, e ARE-AgR-ED 736.780, de relatoria do Ministro
Gilmar Mendes, Segunda Turma, DJe 22.5.2015.
Do mesmo modo, considero que o acórdão recorrido não divergiu
da jurisprudência do Supremo Tribunal Federal, segundo a qual o
responsável tributário só pode ser chamado a responder por tributo na
hipótese de descumprimento de deveres próprios de colaboração para
com a Administração Tributária, estabelecidos na regra matriz de
responsabilidade tributária, além disso esse agente deve ter contribuído
para a situação de inadimplemento pelo contribuinte. Cito a ementa do
RE-RG 562.276, de relatoria da Ministra Ellen Gracie, DJe 10.2.2011:

“DIREITO TRIBUTÁRIO. RESPONSABILIDADE


TRIBUTÁRIA. NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO.
ART 146, III, DA CF. ART. 135, III, DO CTN. SÓCIOS DE
SOCIEDADE LIMITADA. ART. 13 DA LEI 8.620/93.
INCONSTITUCIONALIDADES FORMAL E MATERIAL.
REPERCUSSÃO GERAL. APLICAÇÃO DA DECISÃO PELOS
DEMAIS TRIBUNAIS. 1. Todas as espécies tributárias, entre as
quais as contribuições de seguridade social, estão sujeitas às
normas gerais de direito tributário. 2. O Código Tributário
Nacional estabelece algumas regras matrizes de
responsabilidade tributária, como a do art. 135, III, bem como
diretrizes para que o legislador de cada ente político estabeleça
outras regras específicas de responsabilidade tributária
relativamente aos tributos da sua competência, conforme seu
art. 128. 3. O preceito do art. 124, II, no sentido de que são
solidariamente obrigadas “as pessoas expressamente
designadas por lei”, não autoriza o legislador a criar novos
casos de responsabilidade tributária sem a observância dos
requisitos exigidos pelo art. 128 do CTN, tampouco a
desconsiderar as regras matrizes de responsabilidade de
terceiros estabelecidas em caráter geral pelos arts. 134 e 135 do
mesmo diploma. A previsão legal de solidariedade entre
devedores – de modo que o pagamento efetuado por um
aproveite aos demais, que a interrupção da prescrição, em favor
ou contra um dos obrigados, também lhes tenha efeitos comuns
e que a isenção ou remissão de crédito exonere a todos os
obrigados quando não seja pessoal (art. 125 do CTN) –
pressupõe que a própria condição de devedor tenha sido
estabelecida validamente. 4. A responsabilidade tributária
pressupõe duas normas autônomas: a regra matriz de
incidência tributária e a regra matriz de responsabilidade
tributária, cada uma com seu pressuposto de fato e seus sujeitos
próprios. A referência ao responsável enquanto terceiro (dritter
Persone, terzo ou tercero) evidencia que não participa da
relação contributiva, mas de uma relação específica de
responsabilidade tributária, inconfundível com aquela. O
“terceiro” só pode ser chamado responsabilizado na hipótese
de descumprimento de deveres próprios de colaboração para
com a Administração Tributária, estabelecidos, ainda que a
contrario sensu, na regra matriz de responsabilidade tributária,
e desde que tenha contribuído para a situação de
inadimplemento pelo contribuinte. 5. O art. 135, III, do CTN
responsabiliza apenas aqueles que estejam na direção, gerência
ou representação da pessoa jurídica e tão-somente quando
pratiquem atos com excesso de poder ou infração à lei, contrato
social ou estatutos. Desse modo, apenas o sócio com poderes de
gestão ou representação da sociedade é que pode ser
responsabilizado, o que resguarda a pessoalidade entre o ilícito
(mal gestão ou representação) e a consequência de ter de
responder pelo tributo devido pela sociedade. 6. O art. 13 da Lei
8.620/93 não se limitou a repetir ou detalhar a regra de
responsabilidade constante do art. 135 do CTN, tampouco
cuidou de uma nova hipótese específica e distinta. Ao vincular
à simples condição de sócio a obrigação de responder
solidariamente pelos débitos da sociedade limitada perante a
Seguridade Social, tratou a mesma situação genérica regulada
pelo art. 135, III, do CTN, mas de modo diverso, incorrendo em
inconstitucionalidade por violação ao art. 146, III, da CF. 7. O
art. 13 da Lei 8.620/93 também se reveste de
inconstitucionalidade material, porquanto não é dado ao
legislador estabelecer confusão entre os patrimônios das
pessoas física e jurídica, o que, além de impor desconsideração
ex lege e objetiva da personalidade jurídica, descaracterizando
as sociedades limitadas, implica irrazoabilidade e inibe a
iniciativa privada, afrontando os arts. 5º, XIII, e 170, parágrafo
único, da Constituição. 8. Reconhecida a inconstitucionalidade
do art. 13 da Lei 8.620/93 na parte em que determinou que os
sócios das empresas por cotas de responsabilidade limitada
responderiam solidariamente, com seus bens pessoais, pelos
débitos junto à Seguridade Social. 9. Recurso extraordinário da
União desprovido. 10. Aos recursos sobrestados, que
aguardavam a análise da matéria por este STF, aplica-se o art.
543-B, § 3º, do CPC.”

Igualmente, convém reproduzir o assentado pelas instâncias de


origem:

“Ademais, não é possível o redirecionamento do presente


feito contra os sócios da empresa falida, uma vez que a falência
é forma regular de dissolução da sociedade, não incidindo, por
inocorrência de ato ilícito, norma de atribuição de
responsabilidade tributária (arts. 134 e 135 do Código
Tributário Nacional), bem como o mero inadimplemento da
obrigação não é infração à lei hábil a ensejar a responsabilização
dos sócios. É nesse sentido jurisprudência dominante do C. STJ
(…). ” (eDOC 2, p. 69)

Visto isso, constato que eventual divergência em relação ao


entendimento adotado pelo juízo a quo demandaria o reexame da
legislação infraconstitucional aplicável à espécie, o que inviabiliza o
processamento do apelo extremo, tendo em vista a vedação contida na
Súmula 279 do STF.
A esse respeito, vejam-se as ementas dos seguintes julgados:

“AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO


EXTRAORDINÁRIO COM AGRAVO. TRIBUTÁRIO E
PROCESSUAL CIVIL. EXECUÇÃO FISCAL. SÓCIO-
GERENTE. POLO PASSIVO. ALEGADA DECLARAÇÃO
INCIDENTAL DE INCONSTITUCIONALIDADE DO ARTIGO
8º DO DECRETO-LEI 1.736/79 EM DESRESPEITO AO ART. 97
DA CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA. INVIABILIDADE.
OFENSA REFLEXA. INTERPRETAÇÃO DE NORMA
INFRACONSTITUCIONAL. AGRAVO REGIMENTAL
DESPROVIDO. 1. A violação reflexa e oblíqua da Constituição
Federal decorrente da necessidade de análise de malferimento
de dispositivo infraconstitucional torna inadmissível o recurso
extraordinário. Precedentes: RE 596.682, Rel. Min. Carlos Britto,
Dje de 21/10/10, e o AI 808.361, Rel. Min. Marco Aurélio, Dje de
08/09/10. 2. O Tribunal de origem não declarou a
inconstitucionalidade do dispositivo legal indicado (art. 8º do
Decreto-Lei n. 1.736/1979), simplesmente ofereceu a correta
prestação jurisdicional ao caso, por interpretação dos
dispositivos estabelecidos em norma infraconstitucional, o
Código Tributário Nacional. 3. Agravo regimental desprovido.”
(ARE 731497 AgR, Rel. Min. LUIZ FUX, Primeira Turma, DJe
1º.8.2013)

“TRIBUTÁRIO. RESPONSABILIDADE DO
ADMINISTRADOR DE PESSOA JURÍDICA. VIOLAÇÃO DA
LEI, DE ESTATUTO OU DE CONTRATO SOCIAL. MERO
INADIMPLEMENTO. FALÊNCIA. PROCESSUAL. EXCEÇÃO
DE PRÉ-EXECUTIVIDADE. AGRAVO REGIMENTAL. Os
princípios do contraditório, da ampla defesa e do devido
processo legal são plenamente aplicáveis ao ato administrativo
de constituição do crédito tributário, que é plenamente
vinculado. Tal como posta a questão nestes autos, toda a
discussão se resume ao exame do cabimento da exceção de pré-
executividade para discussão da validade da atribuição de
responsabilidade tributária. Autos do processo administrativo
ausentes. Falta de prequestionamento e necessidade de reexame
de fatos e de provas e da interpretação da legislação
infraconstitucional (Súmulas 279, 282 e 636/STF). Agravo
regimental ao qual se nega provimento.”
(AI 718320 AgR, Rel. Min. JOAQUIM BARBOSA, Segunda
Turma, DJe 18.9.2012)

Ante o exposto, nego seguimento ao presente recurso extraordinário


com agravo, nos termos do art. 21, §1º, RISTF.

Publique-se.
Brasília, 03 de agosto de 2016.

Ministro EDSON FACHIN


Relator
Documento assinado digitalmente