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cadernos de teatro, ;:,.ao.

EXPRESSÃO CORPORAL . . . Nelly Laport


.MANIFESTO EXPRESSIONISTA':'" Paul Kornfeld
s -,
ASSASSINOJSPERANÇA DAS MULHERES - Oskar Kokoschka
..
AMORTE 1 ODEMôNIO -Frank Wedekind

DOS JORNÁIS
COMO VIVER >::

GROTOWSKI

É difícil falar aqui de algo que se chama "programa


- idéia básica de nosso trabalho" e assim por diante;
porque isto se coloca em categorias de pensamento abstra-
tas; oque fazemos está em relação apenas com aprática,
mas talvez ainda mais com um certo estilo de vida, de
busca das pessoas, de encontros. Falando francamente, é
uma questão que formalanos a nós mesmos: como a
gente poderia viver. Se o fazemos no terreno teatral, é
porque foi este o nosso começo. Em dado momento de
...l
nossa vida, encontramo-nos nessa enão em outra profis-
,.
r.
~~DgRN()S .DE; 'TEAJRO N. 66 são e, nesse terreno profissional, começamos abuscar uma
resposta para aquestão aque me referi: como se poderia
r julho/agosto/setembro-I 975 viver, se em lugar de representar, não se representasse;
n
sem em vez de se ocultar, a gente não se ocultasse -
justamente o inverso daquilo que se faz em teatro ... e
Publ!cação ~'O TABLADO patro~inado pelo
na vida. Mas se agíssemos em outro campo, procuraria-
ServIço NaCIonal de Teatro (MEC) mos igualmente uma resposta e para a mesma questão.
Acoisa não' está em relação com um terreno defi-
Redaçãa. e Pesquisa d'O TABLADO nido. Não posso dizer que no teatro existente universal-
mente - se se pode utilizar tal fórmula dado que ela é
mesmo assim muito diferenciada - que nesse teatro não
Dire/ar-respansável - .JoÃo SÉRGIO H.nnn. N
• 1 Y J 1 W f u t O UNES existam fenômenos que me envolvam à sua maneira. A
Dlretar-execu/iva - MARrA. CLARA MACHADO corrente condutora desse teatro me envolve? Não. Mas
Reda/ar-chefe - VIRGlNIA VALLI . também: o teatro como arte me interessa? In.dagando de
Dire/ar-tesoureiro - EDDY REZENDE NUNES. outra maaera: será ele básico, essencial? Não. Não posso
Secretário '.,-:-SÍLVIA Fucs. . .: dizer comu alguns: "amo o teatro". Não amo o teatro.
É apenas a área eolugar, e apenas me oferece olocal
.Redação: OTABLADü onde encontrar outros homens e fazer que se os amem.
Mas não que isso tenha um valor em si. Ohcmen busca
'. Ay. -Lineud~ Paüia Ma-cnadó;'795" ZC; 20' ." algo na vida. Não é? Em certo terreno. Há muitas dessas
Rip de Jaaeim - Brasil .. ' . . áreas. Epenso que cada um podia procurar em sua pró-
pria área, eque muitos buscam realmente amesma coisa,
mais ou menos concientemente, mas buscam. Essa busca
o: texto~ public~dos nosCiDERNOS-DE TEATRO pode se tomar um domínio em si. E\~dentemente há em
so pod - . mim um certo ceticismo em relação à corrente condutora
.erao se: representados lJlediante autorização
da SBATo (SocIedade Brasileira de AldorúTeatrais), do teatro, mas não é isso que decide o que fazemos..
avo -;A.-.Imlrante Barroso 97 R' 'd' T • •
. . ' '. /O e Janeiro.
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Obscrvo, não com prazcr mas antes com tristeza, que que era o efeito produzido no estrangeiro, sem dúvida
cada vez mais as possibilidades, eacontece cada vez mais embaixo da armadura, toda nossa peje está coberta enão
quase em toda parte no mundo cada vez mais há um não éexalo. Esse grande movimento de pessoas que nos

f
maior número de pessoas que vão ao espetáculo não na TIda que ele não pode fazer coisa alguma. Como isso podemos respirar, os pés esqueceram o contato com a
procuravam, nós já tínhamos no final do período de terra, orosto desaparece eohomem jaz em alguma parte
porque sintam nccessidade, mas pelo sentimento de "dever Opole esobretudo depois de nossa mudança para Wro- étriste. É como se fossemos divididos entre uma imagem
cultural". Diria que aquilo que buscamos é ele próprio de felicidade, vaga e confusa e um breve momento de sob tudo isto, esmagado. Talvez se pudesse começar outra
claw, isto é, antes de nossa primeira viagem ao estran- I coisa. Talvez fosse possível se descobrir? Sim, justamente,
um gênero de domínio, separado do teatro, e não sinto geiro. Essas pessoas podem ser definidas, classificadas prazer (ou aTIda "arrumada") - oque não é amesma
J1enhum desejo que esse domínio suplante os outros isto coisa. Assim como prazer efelicidade não são amesma fazer ooposto. Quem sabe épossível? Creio que éposí-
, ' em categorias do ponto de vista social? Não sei. Eram 1 veL E é nisto que se resume a nossa busca. Nisto está
c, odo teatro ou algum outro - digamos - fenômeno intelectuais? É o que se diz geralmente quando alguém coisa. Isso engrena mas não éamesma coisa. Egradual-
de vida. Não tenho esse desejo. mente, algo começa ase romper dentro de nós. Tenho o nossa finalidade eobjetivo. Porque acreditamos que épre-
nos ama ou nos aprecia, diz que são com certeza inte- ciso partir de algum começo cm alguma parte, num siste-
lectuais ou então a"elite intelectual eartística", equando sentimento de que muitas vezes a gente começa a se
apagar, que apartir de detenninado momento se começa ma, num grupo em que os outros nos dêm um sentimento
Quando eu ouvia alguém dizer que fazia teatro para , alguém não gosta de nós nem nos aprecia, diz que "são de segurança, porque édifícil agente se revelar como se
todos, que o teatro deve ser compreendido por todos, com certeza snobs". É esta a opinião média suas duas arenunciar amuitas coisas, começa-se aconsiderar mui-
que deve ser um teatro capaz de interessar a todos e
. '
vanantes. Elas não são verdadeiras, em todo caso do tas coisas fechadas enasce uma espécie de lassidão. Um é, de repente, sem saber diante de quem agente se des-
certo aprisionamento num único círculo, como em uma cobre. É uma coisa complicada e para poder começar,
assim por diante, tinha a impressão de que havia nisso ponto de vista informativo porque não se pode aplicar devemos ter o sentimento de que o outro é nosso pró-
um triste embuste e também uma espécie de íerrersno. em. re!a~ão às pessoas que nos são próximas categorias fortaleza, num ambiente. .. admite-se apenas um gênero
de reação, incessantemente repetido, sempre os mesmos ximo, não caçoará de nós, não nos tratará mal, não nos
Porque éisto que se diz no começo. Depois se distribuem soc~~I~gIc.as, como a educação por exemplo, que seriam criticará, que ele me aceitará tal como sou.
ingressos àforça, há uma caça aos estudantes, os jovens veriíicáeis. As pessoas que nos vsiíam rezularmente são rostos, não se descobrem novas pessoas, feam as velhas
cole~ais são forçados a ir ao teatro, -as pessoas são de meios diferentes, de diferentes níveis deinstrução. Não amizades que começam a se tornar aborrecidas, sempre
com as mesmas piadas. Ora, acho que em algum lugar No domínio daquilo que se considera como próximo
levadas àforça. Devemos convir que esse processo não se. pode definÍ-las absolutamente de maneira exata, que
(numa descrição muito imperfeita porque não quero obje- de nossa busca, no domínio do teatro, pensa-se antes em
é honesto. Não se devia evitar as falsas aparências? E seJ~m pO,r ~xemplo ~studantes universitários ou pessoas do
se o teatro é inútil aos homens, talvez as pessoas não tivar), há algo errado em algum lugar - se se pode representar, em armar-se, em ocultar-se. Como na vida.
men artlstIco. Que eque as une? Não poderia dar nenhu-
tenham necessidade de teatro, pelo menos a maioria. dizer assim. Entretanto, não é apenas um erro, é tam- Nós procuramos o inverso: se a gente não se armasse?
ma definição objetiva, acho que estão ligadas por algo
Porque não se havia de vê-lo dessa maneira? Talvez ele bém um processo de evolução natural que fez com que, Se não se representasse. Se tentássemos nos desarmar, nos
que nos é ~parentado - não, isso não basta - algo revelarmos inteiramente? Não no sentido como disse
seja apenas necessário à minoria e então essa minoria como uma grande comunidade humana, seguimos avoca-
que entre nós éfraternaL Eles prceuram sem dúvida uma ção do nosso gênero. Mas sem dúvida nós também come- alguém aqui, de uma "revelação espiritual", de um des-
talvez ~enha seus direitos? Quanto a nós, há anos que resposta àmesma questão. Primeiro, são entretanto, apa-
r~nunClamos a~ualquer forma de pressão sobre opúblico;
temos um grande erro no caminho. Algo como uma re- nudamento "espiritual". Mesmo se isso existisse, o que
ren~ement.e, pessoas muito diferentes. Segundo, são agora ~gnação inteiranlente inútil e sobretudo o fato de nos não creio porque para ser real arevelação deve ser tctal,
nao queremos ISSO. De resto, quando alguém diz "amo muno mas numerosas do que antes.
todos os homens", amará alguém realmente? Se se ama armarmos para viver no medo e na derrota. Arevelação plena do ser. Que quer dizer "corporal",
Acho que écansativo para todos nós - para cada "espiritual" etc.'? Essas divisões são uma fuga. Que se
todo mundo, éum amor mais ou menos grande eentão
um de nós - ter de continuar um jogo que nos foi Porque as observações das crianças são semprêSür: seja crente ou não, pouco importa, em todo caso enquanto
não se pode falar de sentimento; mas como se pode dizer
imp~sto na vida e que, entretanto, todos esperam que ohomem vive na terra, ele está encarnado. Eohomem
__ "amo todo mundo"? Amar todo mundo éum estado ideal- preendentes? Não são sempre engraçadas, às vezes são
contmuemos. Esse jogo universal é favorecido também reveladoras. Porque nos causam tanto espanto? É que pode não se ocultar, tal como é, inteiro. Então, olimite
mente indiferente porque esse "todo mundo" quer dizer
nin?ém e não sei se pode resultar alguma coisa disso. por uma pres~ão: como se ?e~e ser, como se comportar, atrás de seus propósitos, mesmo em seus erros, há alguma émuito estreito entre o que é avida e o que é a arte.
co~o CO~d?Zlr uma ~onferencIa - todas essas questões Porque éuma arte na qual se decide aquestão - como
Alem d~so, se verificarmos bem ahistória, quantos males coisa que éamensagem absolutamente direta desse homem
estao defmldas anteCIpadamente e conforme o comparti- viver.
foram feItos ~os outros por aqueles que anlavam todos os que tem - digamos - cinco anos. E mais tarde esse
outros equeriam imiscuir-se em sua \dda. mento em que nos colocaram, esperam que nós ofaçamos mesmo homem começa aarmar-se (por causa do medo e
dessa ou daquela maneira. Talvez isso seja natural mas da apreensão, o medo direto de outro homem, ele se
No início, as coisas para nós iam muito mal. Durante é. muito cansativo. Há diversos papéis a represent~ na protege, se mascara, se oculta, arma-se contra ele) por-
dois anos aqueles que procuravam nosso teatro eram oito, VIda. Uma pessoa se comporta em casa de uma maneira que tem medo de perder sua posição, seu lugar, de perder
sete, nove pessoas; ~ra necessário então acreditar profun- c~m os amigos de outra e ainda de outra quando estã~ oque copquistou. Quantos exemplos trá~cos de pessoas
damente que se continuávamos a viver, aevoluir dentro sos ou trabalhando. Esses papéis muitas vezes são incoe-
de nós ddxmdonos guiar não por uma coqueteria para que arriscaram sua vida, tudo arriscaram na luta por uma (*) Fragmentos das respostas dadas por JG numa confe-
r~ntes entre ~i, são como vozes misturadas que se sobre- coisa que consideravam essencial e, quando os anos pas- rência .realizada em 1971 no Teatro Ateneum, organizada pejo
com aqueles que queriam vir, mas pelo desejo de estar poem umas as outras, em algum lugar entre um e outro Centro Polonês do JIT e estenografadas, conservando-se o estilo
de acordo com o que faziancs, conosco, de renunciar a sam, algo neles se rompe e, então, têm medo de arriscar
papel; c,omeça-se amentir, não há coerência nos pontos característico em que foi pronunciada. Transcrito de The Thea·
fin~, as nossas pessoas nos encontrariam. Após dois anos
oseu salário. Não éassim? fre ia Polaa~ n, especial abril-maio/J975.
de c~ntato, mas omais importante ainda éque oindiví-
aind~ em ?pole,,deu-se aTIrada, onúmero de pessoas qu~ duo e esmagado por uma carga crescente não de coisas
Tudo isso junto é como amontoar armas, como o
2 quenam VIr anos de repente aumentpu. Se se diz agora amontoamento de coisas que podem nos proteger, somos Nos próximos cr, publicaremos o debate de Ryszard Cies-
que ele faz na TIda, mas de seus traços eele vê se fecharem
esmagados por isso, morremos sob isso, não há rosto Jak sobre o Projeto -Especial de Grotowski.
embora no teatro grego os personagens usassem máscaras,
A EXPRESSÃO CORPORAL sua idade e, com alguma prática, a sua classe social.
Tudo isto, éclaro, não em suas nuances eminúcias, mas vestimentas características ecoturnos destinados aaumen-
NA ARTE E NA VIDA de uma íorna bastante significativa esuficiente para nos
ajudar aorientar anossa própria conduta.
tar a estatura dos atares. Além disso, utilizavam-se de
instrumentos próprios para aumentar ovolume da voz,
A Expressão Corporal transcende os simples objeti- · sabendo-se que as representações eram feitas em recinto
vos práticos da nossa vida de relação. Ela éoresultado de · amplo e aberto. Essas práticas para facilitar avisão e a
NELLY LAPORT toda uma interação, de um conjunto de ações e reações, audição da platéia não podiam deixar de prejudicar as
do crescimento, do amadurecimento e da conscientiza- · nuances da Expressão Corporal do ator, que teria de
ção gradativa da pessoa humana em tomo de seus obje- : recorrer aos gestos largos eàs expressões mais óbvias.
I
tivos, de sua forma de encarar avida, da constrnção do , Mais tarde, com os mimos e as pantomimas, que
seu caráter. obtiveram enorne popularidade em Roma, a Expressão
Estudá-la é, porém, uma íorna de tomar conheci- Corporal atingiu grandes virtualidades. A queda do
AExpres$ão Corporal não foi inventada por ninguém. Império Romano eoadvento do cristianismo provocou a
Ela nem mesmo éprevilégio exclusivo do ser humano. O mento do seu significado, da sua importância, do lugar
que ocupa no relacionamento de todo o dia. Ese cada perseguição aos atares, principalmente os mímicas, que
arreganho furioso do gato diante do cão que oenfrenta; eram considerados instrumentos do demônio. AExpressão
osacudir alegre da cauda do cachon'o diante da chegada indivíduo, cada pessoa humana, assume no mundo um
Corporal voltou àcena com os funâmbulos, saltimbancos
do dono, são formas animais de Expressão Corporal. papel que lhe é designado pelos acontecimentos, pela
posição do seu nascimento, pela própria adoção consci- · e histriões, reaparecidos na Idade Média e atingiu novo
É que, COlilO um computador programado inteligentemente, i auge com a Commedia dell'Arte. Goldoni eMoliere foram
cada indivíduo em cada espécie animal carrega, desde o ente, então, a Expressão Corporal é muito importante
para que cada um assuma asua própria personalidade... · os continuadores mais importantes das conquistas cênicas
nascimento, as informações básicas que lhe permitem , dá CO/llmedia dell'Arle.
"reagir", comportar-se de maneira a garantir a sobre- É por isso que, quando procuramos nos conscientizar
vivência. do papel da Expressão Corporal, temos que primeiramente Oatar tornara-se novamente um profissional, tole-
rado mas ainda não muito benquisto pela sociedade. O
saber quem somos, o que somos, o que desejamos ser.
próprio Moliére, quando de sua morte, teve impedido seu
Em geral não devemos nos preocupar em desem- sepultamento em cemitério cristão;
AExpressão Corporal éuma dessas formas de reação, penhar um papel, a não ser que a nossa profissão seja
de eomportansnto do ser vivo em sua relação com os AExpressão Corporal continuava sua evolução atra-
justamente a de atar. Oque precisamos é desempenhar
outros seres, na intercomunicação não verbal e, portaaío, vés do modo de atuação dos atares, com suas caracterís-
onosso papel, aquele que nos cabe por herança familiar,
anterior àprópria existência da palavra. É portanto, uma ticas próprias no Classicismo de Racine, requinte para
por escolha e pelo esforço que realizamos para ser ou aristocratas; no teatro de Shakespeare, ecumênico social-
forma de comunicação. para nos transformarmos em algo melhor.
mente, pois tanto era levado na corte para a própria
Entre os seres humanos, algumas atitudes, algumas Apartir da consciência de si mesmo, do papel que
expressões denotam claramente o estado de ânimo do rainha, quanto para a plebe no Teatro Globo. Mas na
temos a desempenhar na vida e do desejo de constante Inglaterra da época ainda não se aceitava amulher como
indivíduo. Assim é que ombros caidos, cabeça pendente
aperfeiçoamento é que se pode tirar real proveito da atriz. Assim, as Julietas, as Desdêmonas e as Ladies
são sinais de desânimo, tanto quanto olhos brilhantes e
faces coloridas costumam denotar vivacidade edisposição Expressão Corporal. Macbeth eram interpretadas por homens.
alegre. No que diz respeito àExpressão Corporal no teatro, Depois alenta conquista de um statlls para aprofis-
Aprátic.a da observação adquirida na própria vida a sua função é importante e enriquecedora. Sua origem são eaevolução dos gêneros com Beaumarchais, Schiller,
de relação nos ensina adistinguir einterpretar cada 1!ma pode ser situada no proto-teatro, nas danças e represen- Victor Hugo eoRomantismo e a teorização do desem-
dessas expressões. : tações rituais dos selvagens. Abem dizer, a Expressão penho em Paradoxos sobre oAtar, de Diderot. Em 1837,
i Corporal no teatro precede mesmo àprópria palavra, ao oatar brasileiro João Caetano, em suas Lições Dramáti-
Mas Mtambém as várias f0l111aS de andar, de estar
de pé e de sentar-se. De falar, de gesticular, de olhar, próprio diálogo. Os rituais dos quais nasceu oteatro, em cas, chama a atenção para a importância da Expressão
de tonalidade da voz. Tudo que oser humano realiza na : muitos casos, dispensava apalavra. Corporal quando diz: "ninguém poderá conseguir dizer
i
realidade de todo o dia exige uma Expressão Corporal Mas, ao que sabemos, desde as primeiras manifesta- bem o papel que estudou sem que de antemão tenha
que pode denotar um especial estado de espírito. ções do que hoje se chama teatro e que, de acordo com aprendido todas as dificuldades do gesto". Econtinua com
Através da Expressão Corporal consegue-se, amaio- a.tradição, teria aparecido na Grécia, a Expressão Cor- uma série de observações sobre o uso do corpo como
ria das vezes, distinguir osexo do indivíduo. Muitas vezes poral sempre esteve presente na afllação dos atores, auxiliar da expressão dramática que, até certo ponto,
o que é resultado de estudo e treinamento adequados, o Os exercícios fí~cos são utilizados para a seguinte
podem ser consideradas surpreendentes na data em que oclima propício àintegração de cada um nos respectivos seu próprio auto-conhecimento égrandemente aumentado. finalidade:
foram feitas. Pois, André Antoine, ainda em 1903, quei· papéis. Em alguns casos esses trabalhos tendem a assu- Ele percebe quando está usando mais tensão do que a
xava-se da inexpressividade, da pomposidade, do uso de 1) Coordenação, flexibilidade, força e resistência:
mir oaspecto de psicodramas, realizados, entretanto, sem necessária ou quando, pelo contrário, aque está utilizando
padrões estereotipados na gesticulação dos atares daque- a assistência do terapeuta psicodramatista. Esses tipos de éinsuficiente. Também tem consciência de que sua postura 2) Aperfeiçoar apercepção cinestésica de forma que
la época, na França. Diz mesmo que tais atares apenas experiência podem, em certos casos, desencadear proces- reflete o estado de espírito que ele deseja representar: a pessoa passe ater consciência permarente das
usam dois instrumentos na atuação: voz e fisionomia. sos neuróticos e, até mesmo, psicóticos em personalidades suas ações egestos;
direita evencedora; de espectativa esuspense ou simples-
Oresto dos seus corpos não participa da ação. mais suscetíveis. Opscodrama éum processo de terapia mente relaxada. Se ele realmente treinou devidamente 3) Os exercícios físicos não devem ser encarados
Para Antoine, sem dúvida o fundador do teatro grupal que envolve problemas pertencentes a áreas com- todos esses movimentos de forma correta, relembrará como um divertimento ou uma tarefa. Não se
moderno, a movimentação do aíor é o seu mais intenso plexas que somente especialista com extenso pcríodo de quais aqueles que são adequados a determinada postura deve iniciar exercícios, executá-los por algum
meio de expressão. Foi o primeiro a enfatizar a consd- :treinamento está apto aenfrentar e resolver. eestará apto arecriá-los em sua essên.cia. Isto :an~~ém ~ tempo edepois esquecê-los. Os exercícios devem
entização da Expressão Corporal como 'um dos meios i Em resumo, em nosso entender, a Expressão Corpo- ajudará, quando em dificuldade emccicnal, POlS,.Jll tera ser considerados sempre como um desafio esti-
mais poderosos e intensos da linguagem interpretativa. ! ral no teatro tem afunção de denotar todas pecalaridsdes aprendido como se comporta oseu corpo ao expenmentar mulante. Todo. mundo pode sempre esticar-se
Com Stanislavski foi salientado otrabalho da depen-,físicas do personagem, criando uma realidade teatral ade- determinadas emoções. mais um pouco esaltar um pouco mais alto.
dência do corpo com respeito à alma. Na criação de um quada aos propósitos do espetáculo, de acordo com a Em todo caso, as seguintes perguntas são funda-
papel oaíor deveria trabalhar principalmente oseu fluxo ;concepção original do Diretor.
mentais:
interior que criaria a vida do personagem. Isto, é certo, Em caso de espetáculos exclusivanlente mímicos a
sem esquecer a configuração física externa, que deveria, técnica a seguir será, obviamente, outra, obedecendo a l) Sua respiração foi afetada pela emoção?
entretanto, reproduzir o resultado do trabalho criador critérios próprios desse gênero. Em princípio, porém, o 2) Qual é ocentro de tensão no seu corpo?
de suas emoções. treinamento básico, os exercícios físicos, destinados à 3) Aemoção ofez sentir-se descontraído e expan-
Por fim Meyerhold, anteriormente associado aSlanis- conquista de uma virtuosidade necessária àrepresentação, sivo ou fechado e concentrado?
são os mesmos.
: Javski no Teatro de Arte de Moscou, discordou do méto-
. do psicológico deste epreconizou um ouro que denominou Agora vamos passar a examinar alguns princípios Se oestudante estiver em condições de responder a
de bio·mecânica que tem como objetivo a suprema for- teóricos epráticos cujo conhecimento é indispensável ao estas questões, poderá, provavelmente, recriar essa emoção
mação física e social do ator. Amissão mais importante treinamento destinado à obtenção de uma Expressão Cor- quando quiser.
do ator seria odomínio absoluto eouso correto de todos :peral mais livre, espontânea e adequada auma persona- Em qualquer caso, para o ator ou p~a .0 estu~an~e
os movimentis do seu corpo. ;!idade autêntica. da técnica de Expressão Corporal, éda maior imporlãncn
Das experiências de Meyerhold eseus sequazes deri- saber como a emoção o aíeta fisicamente.
vam praticamente todas as correntes avançadas do teatro SENTIDO CINESTÉSICO (Percepção do movi-
contemporâneo, bastando citar, entre as principais, a de mento) POSTURA (Equilíbrio Corporal)
Erwin Piscaíor que.preparou oadvento do Teatro Épico}
Osenso cinestésico é aquele que lhe informa o que Ocentro de gravidade ou equilíbrio no corpo humano
de Bertolt Brecht; o Teatro Total americano einglês, que
seu corpo está realizando no espaço, através da sensação está localizado na região pélvica. As pernas são a estru-
tem em Peter Brook sua figura exponencial e, até mesmo,
ou percepção do movimento nos seus músculos, tendões e tura que suporta ocentro eos pés vêm aser abase desse
o Teatro do Absnrdo descendente das teorizações de
Antonin Artaud, articulações. Assim é que, se você estica o braço você suporte.
sabe que ele está estendido porque oseu senso cinestésico
Ultimamente onome de Jerzy Groto\Vski eseu Teatro lhe transmite essa informação. A posição ideal é quando se mantém cada parte
Pobre ganhou enorme dimensão. Suas teorizações têm móvel uma acima da outra para que a linha central de
Por outro lado a memória desses movimentos reali- gravidade e o sentido de gravidade passem pela perna
conquistado o aplauso de importantes personalidades do zados, de suas diversas formas, é muito mais sensorial,
teatro de todo o mundo. Entretanto a prática do seu cinestésica, do que própriamente intelectual. Desenvol- e pelos pés.
método de exercícios físicos, destinados a conquistar o vendo-se esse tipo de percepção, facilita-se amemorização Amanutenção de uma postura adequada pode ser
extremo domínio da Expressão Corporal, é, ao nosso dos movimentos porque alembrança cinestésica églebal conseguida através de um exercício consciente, da prática
ver, excessivamente complexa e extenuante. enquanto que a memória intelectual éfeita por partes, é constante dessa postura até que ela se transforme num
hábito e se incorpore definitivamente à maneira de ser,
Não podemos deixar de nos referir, também, acertos dividida em momentos.
física, da pessoa. Portanto, acarreção da postura depende
tipos de trabalhos preparatórios, de experiências de grupos Quando oestudante consegue perceber todas as infor- .... apenas de um esforço próprio. No próximo n.O: Rrpressão Corporal Jl
ck atores, denominados de Laboratório edestinados acriar mações que oseu senso cinestésico pode lhe proporcionar.
SENTIDO DO ESPAÇO - buscar, com a cabeça, o milximo de espaço:
ouvindo e vendo; Aplicação
~ apoiando-se numa perna, tentar, com a outra, ~ Chegar correndo, parar, olhar, escutar, no limite
atingir um objelo imaginário que se encontra de seu espaço "vegetal".
bem afastado, sem tocar o solo (os braços em (j) Reduzir as possibilidades de movimentos, as_pe:~
direção oposta, contrabalançando, assim, opeso nas permanecendo eretas, o tronco em posçao
oespaço para oatol' éopalco onde ele representa. da perna da frente); vertical acabeça imóvel. Somente os olhos fun-
Sua presença deve corresponder ti espcctativa da platéia. - levar o objeto imaginário o mais longe possível cionam: Imóvel, "encher-se" do espaço onde se
Ele deve, portanto, ocupar esse espaço, não esquecendo nas quatro direções, conservando o equilíbrio. encontra.
nunca que há outros atares que ocuparão, como ele, o Valiar as posições: de joelhos, de pé, com os
palco e que também terão por obrigação preencher o pés juntos.
dito espaço. Ê preciso, assim, que tudo se encadeie como
uma máquina bem regulada. 3. Espaço allimal
Antes de se representar num palco desconhecido _
o que sempre acontece quando se excursiona ~ o atol' Se quero maior espaço, sou obrigado acair, avançar,
tem por obrigação tomar cantata com o novo espaço, subir (andar, correr, saltar). Vejamos osalto.
percorrendo-o em todas as direções, com bastante calma, a) agachado, ir levantando-se, procurando aíingir
inteirando-se do novo espaço disponível. Deve, pois, fazer um teta imaginário, primeiro com uma das mãos,
uma espécie de "levantamento" para cada uma das dife- em seguida com ambas: queda (estando intei-
rentes cenas em que terá de agir. Saber de onde é visto, ramente RELAXADO);
de onde não oéetc.
b) o mesmo exercício de ambos os lados. Osalto,
Exercícíos no caso, é um meio de atingir alguma coisa,
estando a atenção apenas presa a um máximo
Para finalidade de treino, devemos distinguir os de espaço.
seguintes tipos de espaço:
espaço orgânico 4. Espaço sellsível
espaço vegetal Tomar posse do espaço que orodeia além do limite
espaço animal corporal.
espaço sensível.
a) expressar um "adeus".
1. Espaço orgâllico De pé, fazer um círculo bem grande com os
braços, tendo a sensação de que o gesto ultra-
De pé. Posição ereta. Ampla respiração. Sentir-se ir passa a mão, atingindo os que se vão. Fazer o
aumentando de volume, à medida que respira. Depois exercício lentamente.
dimiuuindo. Procurar ocupar o maior espaço possível b) De pé, imóvel, relaxado. Concentrar-se. Respirar
apenas com arespiração.
bem, enchendo asala ou opalco com sua pre-
sença, sentindo-se ao mesmo tempo ocupando
2. Espaço vegetal todos os lugares.
De pé. Pernas afastadas. c) Omesmo começo, mas fazendo abstração dos
Procurar tocar com as mãos omaior espaço possí- limites (estar só numa praia). Fazer lentamente.
vel, podendo mesmo flexionar as pernas, sem que os pés Fazer com convicção. Apenas oexecutante pode
se movam, como se estivessem enraizados. Lançar-se em saber se o exercício foi bem executado ou não.
todas as direçães de maneira a delimitar uma esfera (a d) Exercício combinado. Resumindo os quatro espa-
maior possível). Dentro desse mesmo princípio: ços de uma só vez.
(Cadernos de Tealro n. 11).
1913 mais ou menos afortunada da realidade física e da vida I
de todos os dias ainda que diluída em emoções, preceitos
tiante do que horrível. Mostrar como se morre équestão
de espírito de observação erelativa habilidade, mas mos-
morais ou aforismos. trar uma pessoa que morre éuma questão de vivência.
Se oator constrói as suas personagens inspirando-se Que oator proceda auma seleção dos atributos essen..
PAUL KORNFELD na sua experiência das emoções ou dos destinos que lhe ciais da realidade eseja apenas oexpoente das idéias, de
compete interpretar em cena, e,mediante gestos adequa- sentimentos ou do destino!
dos aessa experiência, em vez de se basear na recordação
de pessoas que tenha visto sentir essas emoções ou ser
EPílOGO PARA OATOR* !Vítimas desse destino; se oator abolir por completo essas
recordações da sua memória erenunciar atentar reprodu-
zi-las, observará com efeito que aexpressão de um sen-
timento que não for genuína etiver sido artificialmente
provocada émais pura, mais nítida emais forte do que
se um estímulo real a suscitar. Aexpressão real de um
num ~~~osel se e~tad ~ça alguma vez será representada ser humano nunca écristalina, porque ele próprio nunca
. . ~er a eeque ela foi escrita para oteatro é cristalino. Um ser humano nunca se reduz aum único
Senunca
uma' sebir acena, aceItareI
" todas as explicações menos.
sentimento e ainda quando se reduzisse, esse sentimento
·.asaber, que oseu estilo não éteatro Se a1gue'm único tornar-e-ia múltiplo em função das várias luzes
me dflsser.. qu enao~ 'd'
e Igna de ser oferecida. ao público sobre ele incidentes. Mesmo que julgue assumir uma expe-
~e requenta .os teatros; não concordo nem disco d
as protestarel energicamente se alguém afi r o. ,riência singular, há todavia inúmeros fatos psíquicos exis-
embora di d . umar que, tentes no seu âmago que contrariam determinados aspectos
• A •gua, e. ser representada, ela não corresponde às do seu conponanento. Asombra do circunstancialismo
eXIgenClas propnas do teatro.
presente incide sobre ele tanto como a sombra do seu
d ~to ~Plica que nem o encenador nem os atores passado. Muitas pessoas representam para si próprias; e
everao p~ a em cena de um modo que seja contrário contudo oator, que se limita a desempenhar um papel,
a? seu esplfItO. Mas cO,mo aarte do ator se tem desenvol- exprime-se com. mais verossimilhança do que muitos
DENIS BABLET: VIdo no decurso das ultimas décadas esse perigo eXISt'' daqueles que são vítimas de um destino efetivo. Aconsi-
num
de diridetenninad
. osen tido'.D'aI que eu 'smta
. anecessidadee
deração simultânea de várias coisas impede as pessoas, na
grr ao atar as segtllntes palavras. vida real, de se exprimirem completi1lllente; na sua memó-
ANTES DE SER UM ESTILQ, O EXPRESSIO- Que oatar, ao representar esta peça, se não com..
NISMO FOI ESSENCIALMENTE UM MOVI- ria, inúmeros fenômenos lançari1lll raízes, crazan-se den-
port~ ~omo se os pensi1lllentos e as palavras que tem a tro delas as radiações de milhares de acontecimentos. Por
MENTO· DE RUPTURA, UM FENÔMENO exprnrur houvessem nascido no seu espírito apenas no isso em cada momento elas são apenas uma soma variável
QUE SE SITUA DE MODO. EXATO NA exato momento em que ele os decIania. Se tiver d
em cena ~. . emorrer 1 de comporti1lllentos. Oator, porém, está livre de todas
HISTÓ~ DA SOCIEDADE E DO TEATRO , que nao VISIte previamente um hospital estas contingências; ele é aunidade que nada falseia; eis
DO SECULO 20. aprender "como se morre"; eque não vá auma ta~:~ porque só ele pode ser cristalino eretilíneo. Ecomo é a
para .ver como as pessoas se comporti1lll quando estão personificação da unidade, assume-a integral eesplendida-
embnagadas. Que ele não tenha pejo de abrir os abraços mente. Modelando ocaráter que lhe toca representar, o
atoda largur! e d~ falar como nunca tiver falado na vida ator descobre sem risco de extravio, o caminho condu-
re~ IQue nao seja um imitador nem procure os seus cente àre\tlação da sua essência. (*) Ao publicar, em 1913, o seu drama A SEDUçÃo, Paul
mo e~os num mundo estranho ao atar. Numa palavra,
Amelodia de um largo gesto possni uma eloqüência Kornfetd acrescentou-llle um posfácio que, embora imediata-
que n~o s~ envergonhe de estar representando; eque tenha mente alusivo à técnica de representação do novo teatro (carac-
conSClenCla desse fato. Que não renegue o teatro nem superior ao mais consumado naturalismo.
teri~ado pelo fraJlco replidio de toda e qualquer forma de
procure ~gir a realidade, primeiro, porque o resultado Que oator pense na óp'era, onde ocantor mon'bundo realismoj, constitui um verdadeiro manifesto da drama/urgia
nunca sena pleni1lllente satisf~tório' e depois ainda tem forças para soltar um dó de peito e com seu expressionista, que todavia em alguns pontos se aproxima (em-
10 EXPRESSIONISMO' 'essa contrafacção da, ~ealidade apena; se obtém ~!~:~ canto fala-nos melhor da morte do que esbracejando e bora com espítiro distintoj de certas proposições breclllianas.do
quando aarte dramatica se rebaixa ao nível da imitação ofegando. É mais importante saber que amorte éangus- teatro é p i c o ; ' '
Numa peça naturalista vemos os caracteres pelo lado de
fora, enquanto numa peça expressionista subordinamos, quando
não a pomos de parte, a realidade objetiva, procurando erprimir,
gana) (2), Fritz von Unruh (Uma família), Reinhard Goe-
ring (Batalha Naval), toqos de 1917, Hans Franck (escra-
l. HINKEMANN
antes de tudo, a vida interior dos caracteres. Uma radiografia vos livres), e Ernst Toller (TrallSformação) , ambos de
11M apresema qualquer semelhança com um ohjelo, tal como 191h que, depois da segunda guerra mundial, um poeta
exteriormente o vemos, mas revela·nos asna estrutnra ímima de pulmões esfacelados pela tortura e o longo cativeiro
como nenhuma fotografia seria capaz de o fazer.
nas prisões nazis, Wolfgang Borchert (1921-1947), faria
EUlER RIrE ressoar em Diante da parla (l947): odrama daqueles que
"voltam à casa eno entanto não aencontram, porque já
não têm casa: a sua casa é lá fora,na rua, à noite e à
chuva, diante da porta... "
Adolorosa experiência da guerra veio dar uma nova
19 QUADRO (III ATO)
o expressionismo não busca reproduzir, em sen- orientação à revolta expressionista: oprotesto individual
tido naturalístico, omundo, mas antes servir-se de todos de um Kokoschka, um Sorge, um Barlach, adquiriu resso-
os recursos da arte do teatro (palavras e gestos, luzes e nâncias sociais em Kaiser, von Unruth, Toller, cujo teatro
messianicamente anuncia oadvento de uma nova humani- ffiNKEMANN (sozinho) - Amanhã
sons, umas e outros levados ao seu grau de mais espas-
módica intensidade) para transmitir ao espectador uma dade. Hopla! estamos vivos!, de Ernst Toller (1927), é _ disse ele... Amanhã ... Como
visão própria do mundo. "Os artistas do novo movimento uma das obras que melhor traduzeni oestado de espírito se pudesse haver um amanhã...
- escreve Edschmid - não tiram fotografias: têm da época: Karl Thomas, seu protagonista, que lutara Agora vejo... Oh, os meus olhos,
visões "- ou, como diria Rimbaud, que foi aliás um dos "por que acabasse esta guerra e todas as guerras, por um os meus pobres olhos... Aluz...
mais diretos precursores da poética expressionista, illllni- mundo em que todas as crianças pudessem viverfelizes", Como doem os meus olhos ...
nações. E se essas visões tomaram, as mais das vezes, o é condenado por um crime que não cometeu eenforca-se .
aspecto de um alucinado pesadelo, isso deveu-se aque o na cela, momentos antes de lhe ser comunicada a anula- Desfalece. O que segue deverá
mundo que literal e figuradamente os cercava, se lhes ção da sentença- que injustamente ocondenara. desenrolar-se como um pesadelo do
mostrava hostil e agressivo, eriçado de contradições e Toller é, sem dúvida, o dramaturgo que mais exem-
,\'eu espírito conturbado. As persona-
re~do por leis absurdas. Assim aconteceu no teatro de plarmente assume oideário expressionista, asua estética,
gens cercá-lo-ão como para o opri-
Ernst Toller ede Karel Capek, nos filmes de Fritz Lang o seu espírito, as suas limitações também. Asinceridade mir edepois, reabsorvidas pela som-
e de Robert Wiene, nas telas de Kokoschka e de Max da sua revolta traduz-se em desesperados protestos, ao pé bra, afastar-se-ão~
Beckmann, nos desenhos de George Grosz ede Kirchner dos quais as interjeições mecânicas de Kaiser, os gritos De todos os lados, avançando em
- e no seu equivalente romanesco, que é a obra angus- convulsos de Arnolt Bronnen se desvanecem. Tragica- círculos concêntricos, aparecem inú-
. tiante egenial de Franz Kafka (1) mente dividido entre anecessidade de agir eum idealismo meros mutilados de guerra, llllS sem
Oexpressionismo nasceu, pois, de uma necessidade que o acompanharia até o fim da vida (como Stefan um braço, outros só com uma perna.
Zweig, como Hasenclever, como tantos outros seus com- Todos trazem ll1n realejo atira-colo
violenta e irreprimível de revolta contra uma realidade
adversa eodiada. Strindberg revoltara-se contra acinzenta patriotasj Toller suicidou-se no exílio), as suas peças, e
e cantam, indiferentes, uma canção
mesquinhez da quotidiana existência burguesa; \Vedekind em especial Homem-Massa, "drama da Revolução social
militar:
contra as suas interdições, os seus tabus, os seus precon- do século XX" (escrito em 1919 eencenado por Jurgen
ceitos asfixiantes. Os anos de guerra (antevista por Karl Feh1ing em 1921, no "Volksbú]me") e Hopla! estamos Vestiram-lhe um uniforme
Hauptmann, irmão de Gerhart em cuja esteira percorreu emandaram-no para aguerra,
vivos! (uma das melhores encenações de Piscator em
ederam-lhe por recompensa
os caminhos do naturalismo edo simbolismo antes de se
afastar dele em direção ao expressionismo num drama de
1913, intitulado premonitoriamente Guerra: UIII Te-DeuIII)
1927}, testemunham uma dolorosa desarticulação entre o
indivíduo e acoletividade, que se defrontam num esforço-
sobrehumano para se identificarem. Hinkemann (1923)
(~; t~a!ro, Kt~~s~e:eg ~~:a
Diretamentf.para o
breve ato de enigmatica e amblgua pro un a e.
: só quatro palmos de terra.

vieram desvendar uma outra face - cruel esangrenta _ Tlíl1llllo. . al' Bruscamente, imobilizam-se. E de
éomomento mais alto do seu teatro: opobre diabo que (2) Animados do mesmo espírito anti-belicista, e .atu l-
dessa realidade. E aquela necessidade de revolta exacer- repente, l1In após outro, epor fim em
regressa· da frente de batalha privado de sua virilidade, zando também mitos clássicos, outros dramas se p~blicara:
boa-se, tomou-se .tanto moral como fisicamente mais que não consegue adaptar-se ao mundo que aguerra lhe 1
contemporâneamente ao de Hasenclever, como s TrOianas, A coro, gritmn:
imperiosa, até explodir no grito desesperado, quase.inuma- legou, é bem a cruciante metáfora de uma Alemanha Franz Werfel (1915), leremias, de Stefan Zwe~g (1917) B~lia
2 no, dos dramas anti-bélicos de Walter Hasenclever (Jlll/í. mutilada, vítima dos próprios mitos que forjou. ,.
.i
Paz de Lion Feuchtwanger (1918), a que Eurípeles, a
• AnotAi.n._, sarvirarn, resnectívamenle. de paradIgma. Tocou a reunir!
Mas nenhum se afasta para dar
passagem aos outros. Etomam agri-
Acena é invadida por vendedores rio de todas as academias do mundo UMA VELHA VENDEDORA DE Do- central é que sabem tratar-lhes da que começaram abaixar com os pri-
de iornais. c agraciado pelo papa! CES _ Não diga mal dele; meu . sàúde... põem-lhes um revólver na meiros acordes da marcha militar,
tar em coro:
SÉTIMO VENDEDOR DE JORNAIS ~ senhor! Ele éonovo Messias, oque mão, e ai deles se não metem logo extinguem-se gradualmente. AmlÍsica
Areunir! PRIMEIRO VENDEDOR DE JORNAIS Últimas notícias! Aqueda do dólar! nos há de salvar a todos. Para e~~ uma bala nos miolos Deutsch/and, afasta-se. Hinkemmlll levanta-se len-
- Edição especial! Ogrande acon- Baixa na Bolsa de Nova-Iorque! Des- vai toda a minha esperança, e ja Deutchland IIber alies Acanalha tamente.
tecimento do dia! Inauguração de um valorização da moeda! sinto aproximar-se a Terra prome- tem de ser ensinada. .. Achicote,
A[guns segundos de silêncio. Afê novo cabaré! Mulheres nuas! Jazz- tida. se for preciso... HINKEMANN - Epor cima de mim
que, como se obedecessem a uma OITAVO VENDEDOR DE JORNAIS ., aeteruidade do céu, ., Aeternidade
ordem, sentam-se todos no chão, can-
band! Champagne! Bar americano! Últimas notícias! Aaposta mútua para UM CLIENTE - E entretanto vai HOMEM COM LANÇA-CHAMAS ~ É
roubando as suas economias! uma tolice prendê-los... Omelhor do céu...
tando e tocando os realejos. Depois SEGUNDO VENDEDOR DE JORNAIS as classes pobres! Cem por cento de
[evantanlrSe e põem-se em marcha :- Edição especial! Notícias da últi- dividendo! A questão social resol- AV ELHA - Que importa odinhei- sistema ainda é este: dar uma volta
ma hora! Massacre de judeus em vida! I
ro, meu senhor, o dinheiro é pape com ees do um pon. . Obsculidade total.
I num SI'ti'oreti'ra,
llllS contra os outros, como se se pre-
parassem para tomar de assalto uma Galícia! Asinagoga incendiada! Mil TODOS (em coro) - Edição espe- que se amarrota... E uma velha tapé no cu e um tiro .na nu~~ .. ,.E
barricada, cantando etocando fulio- pessoas queimadas vivas! cial! Últimas notícias! Últimas notí- como eu tem porventura alguma coisa . depois p~rtiêipa,se que o·pm;9.nerro. " .
aperder? As desgraças d~ste mundo.· fOi abatido' ao tentar por-oe em.
samente os realejos: UMA Voz - Bravo! Morram os cias! já não me afligem. Passei por todas . fuga ..:
judeus!
odiabo leve oKaiser, elas eagora aminha alma anseia por
TERCEIRO VENDEDOR.DE JORNAIS Desaparecem enquGllIo dois velhos lilertar-se, Esei que omeu Salvador De todos os lados acodem prosti-
leve odiabo ao Czar, ftldeus atravessam acena.
- Últimas notícias! Iria-Irei, amais não me abandonará... tutas.
o diabo leve Lloyd George,
bela de todas as estrelas de cinema!
eme leve amim também.
protagonista do sensacional filme de PIuMEIRO JUDEU - É sempre a Passmn. Um camelô aproxima-se APRIMEIRA - Se ele quiser pode
aventuras "A Mu[her-Vampiro"! Um mesma história, Arrancaram-nos da de um burguês de co/alinho engoma- vir dormir comigo. Tragam-no para
Os realejos entrechocam-se com um filme brutal que sacode os nervos!
ruído vio[enlo. O choque obriga-os cama em plena noite, bateram-nos, do e monóculo. omeu quarto. Dar-lhe-ei vinho para
QUARTO VENDEDOR DE JORNAIS _ levaram nossas mulheres e nossas reanimá-lo.
a reCUQ1~ m1ançmu[0 de novo em se-
Últimas notícias! Peste na Fmlândia! filhas ... Amão do Senhor abateu-se
guidfl Ims contra os outros. Entram, sobre nós! OVENDEDOR - Aúltima desco- ASEGUNDA - Não, não, levem-
correndo, válios agentes da polícia As mães afogam os filhos! Apopula- berta da medicina contra aimpotên- no antes para aminha casa!
militar, que gritam: ção revolta-se! Onosso goveruo en- SEGUNDO JUDEU - E chamam- cia: Cantaróides! A TERCEIRA - Para a minha!
via tropas para manter a ordem! nos aRaça Eleita! Eleita para osofri-
OBURGUÊS - Obrigado. Eu uso Para aminha!
Ordem! Ordem! QUINTO VENDEDOR DE JORNAIS _ mento epara adesgraça, sim! Damianox. A QUARTA - Isso querias tu,
Velhos combatentes! Últimas notícias! Oemocionante filme OVENDEDOR - Damianox?!á velha bêbeda vidosal Nem sequer
Apátria precisa de vós! religioso A paixão de Nosso-Senhor! Passam
não se fabrica. Provou-se que nao tiraste alicença! Preci~~vas qu~ eu te
Meia volta, volver! O despertar do sentimento moral! dava resultado. Vendem-se agora os . denunciasse! Põe-te Ja daqUi para
Uma superprodução que custou du- UMA JOVEM PROSTITUTA - Ele restos como pomada para engraxar . fora!
Silêncio absoluto à voz de coman- zentos milhões de marcos! Completa era tão simpático, tão meigo ... Etão sapatos.
do. Como impelidos por uma mo[a, o programa uma sensacional repor- novo ainda... por isso deixei-me A3g ea4g prostitutas lutam. Bor-
os mutilados peljilam-se, fazem meia- tagem do jogo de box entre Dempsêy ficar com ele a noite inteira... borinho. De repente estalam os acor·
volta regulamentar evão saindo em Passam.
e Carpentier! pagou-me só quatro marcos, era to- des de uma marcha militar muna rua
passo de marcha, conservando entre do o dinheiro que tinha...
si as respectivas distâncias, enquanto SEXTO VENDEDOR DE JORNAIS ~ DIVERSAS VOZES - Caíu um próxima: flautas e tambor&, depois
cmllam acompanhando-se ao realejo: Últimas notícias! Amaior descoberta OSEU COMPANHEIRO - Quatro homem ao chão! - Teve um ataque! trombones e cometas.
do século XX! Omilagre da técnica! marcos! Apróxima vez que tornares _ Chamem apolicia! - É ohomem
Omais poderoso de todos os gases afazer-me uma dessas encho-te acara da feira, aquele que engole ratos As QUATRO - Os soldados! Vêm
Avitória será nossa! asfIxiantes! Uma esquadrilha de de bofetadas... Talvez assim te pas- aí os soldados! Hipl hip! hurrah!
Esmagaremos a França! vivos! - Ah) então não admira que
aviões capaz de destruir uma cidade se amania do sentimentalismo. se tenha sentido mal!
Será essa anossa ~ória,
4 a nossa maior esperança!
inteira, com todos os seus habitantes!
Oinventor foi eleito membro honorá-
1 HOMEM COM UM CASSETETE - É A cena esvazia-se rapidamente.
um vermelho. na certa... Na Prússia Hinkemann fica sozinho. As luzes,
fazer de cada elemento cênice, do ator, do cenário ou supérfluo decorativo como rejeita a cópia da realidade.
EXPRESSIONISMO sonho (Traumbilder) ede apresentar as coisas não comd , de parte deste, da luz e da música, um "elemento de Sua arte éuma arte de "visão" direta da obra dramática,
choque", um elemento "que age", portador do "grito da visão que deve concordar com a do diretcr. Como já
são mas como poderiam ser, e em vez das próprias coi-
sas, asua siguificação. Ela é criadora neste sentido que, r, alma" ou da idéia. É bastante significativo que o ano dissemos, ele deseja "desnaturalizar" o palco e, deixar
rejeitando a passividade, se apoia sobre aexpressão, mo- de 1905 tenha sido testemunha da fundação do primeiro lugar ao drama. Mas os recursos que emprega diferem
vimento do interior para o exterior que, de acordo com salão expressionista, em Dresde, o Brücke, do apareci- conforme ele materializa essa visão, conforme a figura
Diebold, "modela a natureza graças à atividade espiri- mento da Arte do Teatro, de Gordon Craig. Pela sua em um cenário, ou construa um espaço cênico arquite-
tual do eu". Chega até a substituir "a expressão formal rejeição do realismo, pela sua promoção, do símbolo turado, deixando a alguns elementos, à evolução dos
DIREÇÃO E CENOGRAFIA , da emoção do artista pela representação do objeto que como recurso artístico, por sua condenação do atar na- atores, ao jogo de luz o cuidado de evocá-lo no espírito
É incontestável que o movimento expressionista" pode fazê-la nascer." Tenta exprimir a emoção pelos turalista e sua teoria da Supermarioneta, GC anunciava do espetador. No primeiro caso,' o cenário permanece
reação violenta contra orealismo eonaturalismo, "grito meios pictoriais independentes da realidade física do oexpressioqismo, do mesmo. modo que opreparava qaan- pictural, no segundo ele é antes de mais nada organiza-
da alma" contra as aparências da realidade material, objeto pintado". Essa arte, que nasce da inquietude do do escrevia: ção do espaço cênico.
conheceu exageros e prolongamentos anárquicos. Mas hcnen, tend,e para aabstração e o símbolo. Repele os Será necessário dizer que as dramatizações excessi-
tende-se a confundir isto com os fundamentos que, o' ,proc,essos c1ás~cos, ~ perspectiva, as regras da anatoniía; "A arte do teatro não énem o jogo do ator, vas do cenário pictural, as perspectivas voluntariamente
provocaram eos meios de que usou. Quaisquer que sejam' a simetria, recusa a descrição, 'a' 'ilusão: '''O 'müüdo' ãl nem a peça, nem a direção nem a dança; ela deformadas, os elementos truncados, a substituição das
seus excessos, sua contribuição para o teatro moderno ésta,.d!z Edschmid - seria absurdo repeti-lo; buscar sua éformada dos elementos que os compõem: do verticais pelas oblíquas, o gosto da linha chamada "ex-
permanece considerável. substância, criá-la de maneira nova, esta é a tarefa pri- gesto que é a alma do jogo; das palavras que pressiva", as 'dissÍU1etrias propositadas, em uma palavra,
mordial da arte." , são o corpo da peça; das linhas e das cores, o caos organizado com finalidade de expressão, são em
A ATITUDE EXPRESSIONISTA Ahistória do teatro prova que as revoluções pictó- que são o próprio cenário; do ritmo, que é a grande parte responsáveis pelas críticas diri~das ao ex-
ricas prefiguraram sempre as revoluções cênicas. Oex- essência da dança." presionismo? Em seu desejo de ultrapassar as realidades
Após a guerra de 1914-18, a Alemanha sofreu pressionismo não escapou àregra. Enquanto a produção habituais, de traduzir a emoção. que o drama provoca
uma das crises mais graves de sua história. Os sonhos dramática do expresionismo se desenvolveu desde antes Do mesmo modo, Appia itsistia na importância. da, nele e de projetá-la sobre .o ,espectador, o'cenógrafo
imperialistas desmoronaram, ainflação cresceu, oEstado' acrescenta à peça elementos que apenas a "teatralizam"
da guerra de 1914, énecessário esperar a crise do após- luz, fator vital do teatro. ,
ficou arruinado, ogoverno foi levado àfalência. Aguerra eque conduzem oespectador aum fantástico muitas ve-
-guerra para que se aíirne como estilo teatral, com as Dessa revolta brutal contra onaturalismo eoimpres- zes artificial e até arbitrário.
destruiu todas as ilusões. Diante do confornlismo bur-
direções de Jessner e de Karl Heinz Martin em Berlim, sionismo, os diretores expressionistas mobilizam diversos
guês, da submissão ao naturalismo, oexpressionismo apa- Sievert, falando. dos, esboços para" Tambores. da
de Weichert em Frankfurt, de Falkenberg em Munique,' recursos proporcionados pela arte e pelo equipamento
rece então como uma súbita expressão da alma alemã, ' Noite, assÍnl explica sua inspiração:
uma recusa da realidade exterior, uma arte de diversão de Hartung em Darmstadt ou de Fehling. Ele ganhará a técnico moderno para "desnaturalizar" a cena. Cada um
e de liberação. Não se trata mais de repetir ou reprodu- Europa central, aAustria, a Checoslováquia, a Polônia, com sua técnica própria, mas o objetivo permanece co-
"As paredes permanecem durante toda a pe-
zir omundo das aparências, mas de criar a imagem da a Iugoslávia; algumas realizações russas e italianas se mum. Trata-se de desembaraçar a cena de todo caráter
ça como símbolos de caos e de revolução. Uma
aproximarão, os diretores ecenógrafos americanos scíre- , descritivo, de toda inútação realista para exprimir aí "a
vida interior: "Como sentimento do mundo, onovo espí- atmosfera carregada de tensão e de força. Não
rito siguifica uma revolta contra l1S fórnmlas mortas do rão sua influência. Raros são os países que oignorarão: essência do drama", pelo jogo antinaturalista do ator,
aFrança éum deles. se pode imaginar um começo nem ver aí um
tempo atual. É a nostalgia por um aprofundamento da osimbolismo do objeto, da 'linha, da cor eda iluminação fim. .. Em outras cenas, loucura de uma noite
vida." (Bernaard Diebold) cênica. Poderá parecer paradoxal que uma arte que con- durante a revolução... Uma flamejante visão
, Esse novo espírito se manifestara desde 1905 no OS COMPONENTES DO EXPRESSIONISMO NA dena a este ponto a realidade exterior faça antes apelo de vermelhos e amarelos, e sempre acima de
domínio da pintura. Aarte de Kokoschka, de Marc de CENA a meios visuais; mas sua utilização deve permiíir ao es- tudo a lua como um olho injetado de sangue.
Kandinsky, de Javlensky e de Beckmann é uma re~cão Tem-se dito e repetido que o expressionismo não pectador, não captar o lugar de uma ação, seu quadro, Acontecimentos reais num mundo real estiliza-
contra o impressionismo que érejeitado por se ver ;ele era um estilo definíve~ mas uma tendência do espírito, mas o"acontecimento", arealidade profunda do drama: do na realidade lírica da balada edo sonho".
a arte de um~ época passada eincapaz de criar. uma atitude, um "subjetivismo apaixonado", uma "ten- "Nós dominamos oimpressionismo exterior, nós osubs-
Oinlpressionista é definido como um ser passivo, são da alma". Suas manifestações são de fato contraditó- tiíuinos pelo evento expressivo, que se deve apresentar
Tal concepção conduz auma ilustração exterior vã,
cujo "olho físico" só pode captar a realidade terrestre rias: alguns diretares, como Falkenberg em Tambores de maneira atual por meio de indicações concentradas."
, aum engurgitamento supérfluo, auma dispersão da aten-
e a 'casca' das coisas. A esse "olho físico" se opõe o lI(i Noite, de Brecht, utilizam um cenário' completo, en- (Jessner) ção do espectador. Os cenários de Reigbert para ames-
"olho interior" do expressionista, que penetra até oinvi- quanto outros, como Jessner, conservam apenas o essen- ma peça dirigida por Falkenberg em Munique, em 1923,
sível, até o "âmago" e que permite ao artista descobrir cial. Mas a contradição é apenas aparente. EXPRESSIONISMO E CENÁRIO correspondem aesse espírito. As formas, aí também, são
as profundezas do "eu", a "fisionomia latente" dos. obje- Oobjetivo do diretor expressionista, quer apresente Ocenógrafo expressionista não tenta dar à peça um distorcidas, mas Reigbert se esforça para criar no plano
tos além do "despedaçamento atônúco" proposto pelo uma peça de Kaiser ou uma de Shakespeare, éde tornar quadro histórico exato, criar um meio social verdadeiro, posterior a visão de uma capital fria, mecanizada, de
impressionismo. A nova arte se esforça por traduzir o o drama infeiramente eficaz, de assegurar-lhe "expressi- nem mesmo uma aímcsíera um tanto real. Ele recusa o uma cidade caótica dominada, aqui também, por uma
6 mundo do pensamento, a inlaginação, as imagens de vidade" má.\Íma, de atincir diretamente o oúblico. de
lua manchada de sangue) imagem simbólica da Berlim interior cria sua própria imagem, às vezes mais bela, mais em outras hipóteses e que deve, tanlbémse manifestar clara. Mas ela possue prindpalmente um poder dramá-
da Revolução. impressionante, mais verdadeira, mais natural, mais ine- no teatro de maneira significativa". tico inegável. Admirável recurso de expressão, ela é
Essas deformações, essa truncagem voluntária d~s diata que aque u~ ?hetor cri~ria no espa~o I!mitad? da Jessner eseus cenógrafos (Pirchan para Ricardo III "alegre-graciosa, atraente, apaixonada,.. ardente, cheia
proporções que fizeram afama de Gabinete,do dr. Ca!l. cena. ~eç~ que oVIZinhO me d;g,a apenas ollldlsp~nsave~: e ale/o. Klein para Napoleão) recusam qualquer apelo de alegria". Ovennelho da roupa do Cristo no quadro de
gari, têm sua explicação, Descjando trsduzir a emoçao cas~, jardin, sala, m~, plamcle) flo~esta, .. Nao vCJo ao naturalismo ou ao impressionismo de um Reinhardt. Rubens (Ressurreição de Lázaro) não éuma impressão
que experimenta, o cenógrafo a inscreve na forma re- I cO:Jas) veJo f1ores~a, smío omar) nspro aíerra. :. ~ao Muito se falou do "espaço dinâmico" ou do "espaço rit- colorida, é uma "força de fogo", o "poder ardente da
criada de uma janela, de uma porta, de uma parede, veJo um drama, VIVO odrama .. , Aluz do olho Intenor mico" (esta noção mais cara a Appia e a Jaques Dal- vida". Jessner, como a maioria dos diretores erpresio-
Além disso os elementos são traçados tal como spare- que penetra qualquer sombra) possue um poder de per- croze). As produções de Jessner são sua realização prá- nistas, recorrerá freqüentemente à cor como fator dramá-
ceriam ao espírito do personagem principal (d. cenários cepçio ede criação mais forte emais variado que odos tica. Recusando a ilusão, Jessner e seu cenógrafo cons- tico) não só na iluminação colorida do ciderama, cuja
de Klein para Da Aurora ri Meia-noite de Keis~r): Essa olhos ff~icos.". Emmel, comentando esse t~xto,. acrescen- troem para cada peça uma arquitetura que se adapta ao tonalidade se modifica durante a ação e se adapta às
atitude corresponde, igualmente~ a certas ,tendencms .da ta que e p,reclso ,dar ~ov~ente ao ,olho m~eno~ do ,es- ritmo da ação, cujas linhas dominantes são valorizadas. diversas cenas, como na coloração do dispositivo (escada
mística expressionista. Lotte Elsner escre:e a respeito pectad?r) a sua lIlla~açao) o~ meios de . ver': dai a Trinta anos antes, a organização do tablado anuncia os vermelha de Ricardo III) e a simbolização das roupas
em Tela Demoníaca: "Não se deve subestimar opoder necesidnle de reduzir ocenário ao essencial, de mode- dispositivos do TNP. Praticáveis, podiums, inclinados e que se tornam uma .espécie de uniforme psicológico e
da abstração oue se acrescenta à visão expressionista. lar oespaço cênico) de jogar fora todo esse amontoado .r
escadas permitem uma mise-en-scene tridimensional (o dramático: Ricardo III inicia por um monólogo de Ricar-
Para uma defo~ação selecionada acriadora, ensina-nos decorativo, de reencontrar a"essência do teatro". Acena movimento da frente para trás ou de daníe para trás, se do vestido de preto sobre um fundo preto) Riehmond ter.
Georg Karzinsk)' em seu livro Método do Expressionis- se torna freqüentemente um "vazio" eas cortinas negras ele é mantido por um plano inclinado ou por uma esca- mina apeça vestido de branco sobre um fundo de tapeça-
mo (1921) oartista dispõe de recursos que lhe permi- são utilizadas com afinalidade de criar um espaço deter- da, adquire um valor sugestivo muito maior), clarificam rias brancas; nas cenas de batalha os soldados de Ricar-
tem represe~tar a complexidade psíquica com a intensi- minado) que deixe àimaginação do espectador seu poder a ação, ajudam o atar) "diferenciam" os personagens do estão de preto) as tropas de Richmond de branco. Esse
dade: ligando-a auma complexidade ótica, ele pode re- de criação. (determinado atar subindo do fundo da cena echegando simbolismo pode parecer muito primário, mas não deixou
produzir a vida interna de um objelo, a expressão de Ojovem movimento expressionista de A Tribuna, ao meio da cena, tomará uma posição dominante) e os de libertar aroupa do dscoraíiriano, conferindo-lhe um
sua "alma". Os expressionistas apelam apenas para as fundado em Berlim em 1919, declara, igualmente) em opõem com mais nilidez, Os degraus de Jessner não valor de signo.
imagens depositadas na memória, desse modo chegam seu manifesto, que "a revolução teatral necessária deve "ligam" mas "separam") isolam, criam uma distância dra- As diferenças entre os cenários picturais de um Sie-
naturalmente aessas paredes oblíquas que não têm rea- começar por uma transformação do espaço cênico", e mática entre um grupo eoutro. Há aí um poderoso ins- ver! eos co~untos plásticos de um Pirchan são, assim)
lidade estática, É uma das características das "imagens pelo estabelecimento de uma nova relação entre opalco trumento de simbolização, Quando se pensa em Ricardo consideráveis: sua oposição reside mais nos meios que
imaginadas" - de representar os objetos de viez, vistos eoauditório. Rejeita os equipamentos técnicos modernos, III: cortando acena) uma parede que domina uma plata- eles empregam esuas conseqüências do que em seus fins
do alto, captados em mergulllO; este ponto de vista fad- o ciciarama, as cenas ~atórias etc. Sua finalidade é
lita uma apresentação exata do conjunto." "revelar a alma e os sentimentos". É no podium nu de
forma e à qual conduz uma escada de muitos patamares
que se incorporam à ação, materializará a ascensão e a
essenciais. Todos dois querem desnaturalizar acena) mas
oprimeiro muda apenas oaspecto exterior da antiga téc-
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~':;...a.

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Resta saber se essa forma de expressão não conduz ATribuna que Karl Heinz Martin apresenta, em outubro queda de Ricardo. No fim do drama, ele tropeçará de ruca decorativa no sentido de que) se transforma oespaço
fina1me~te a um impressio~ismo ampliado) tendendo à de 1919, A Metamorfose de Toller, cujo herói - um degrau em dregau até ser afinal abatido no d~positivo cênico de um ponto de vista ilustrativo e abandona a
abstraçao..Essas def.o.rmaçoes ~. tornaram uma .moda, patriota entusiasmado pela guerra _ se torna revolucio- inferior. descrição realista, não revoluciona os dados fundamen-
uma. soluçao de fadlidsde, frequenteme?te repetida. É . nário.'Os cenários de Neppach são constituidos de ele- Esta simbolização) que não deL'{a de ter relações . tais: permanece fiel à tradição "representacional", se bem
prec./SO, entr~tanto) reconhecer que essa fonnula de ceno- mentos pintados com contornos angulosos que se desta- com as idéias de Craig, está na utilização e'escolha do que seus cenários sejam por assim dizer paródia daquela.
graíia ,?e hberav~ o~ ele;nentos. de sua ordem natu~a1 cam sobre o fundo de tapeçaria. Servem apenas para elemento cênico. Não se trata de "representar" atorre de Osegundo, ao contrário, retoma os princípios fundamen-
(o cenano expresslolllsta e a maor parte do tempo n- situar aação Apalavra é ddrada ao atar Londres ou o quarto de Desdêmona, mas de dar-lhe a tais de Craig ede Appia, modifica-lhes a direção e cria
completo: ausência de teta, elementos não ligados enm ., . . I ' •
"idéia", o sinal essencial. As sugestões de uma parede
si e distribuídos na cena vazia eíc.) para escolher os Esse espmto amda e mais acentuado.na obra de um. novo espaço cênico. Para os expression~tas ocená-
cinza esverdeada com uma porta ora visível eora oculta rio deve "jogar com" (mitspielen)'; em Sievert) ele é
mais expressivos, constituiu um poderoso recurso de luta Jeseer, de quem apenas de ,fala como .0 ~ventor das por uma escada, bastarão para criar olocal dramático de
. contra o espírito decorativo) as tendências pseudo-rea- famosas escadas-Jessner. Na epo~~ da cnaçao de Meta- "mitspielend" porque "dubla" o atar (Sievert não diz
Ricardo III. Um elemento, um leito, uma coluna, cuja que aatmosfera que ele cria é um "segundo eu" para o
listas, eajudou apromover um cenário "significante". morfose. pela Tn'buna, ~essner dlflge o Te~tro Estadual .fonna se aproxima da abstração, oângulo de uma casa se atar); na obra de Pirchan, ele oécomo suporte "dinâ-
Essãiendência representa apenas um dos aspectos d~ Berlim. Apresenta a, ent~e outras, Gllllhenne Tell, destacam. sobre ofundo convencional de um ciclorama) mico" da ação.
do expressionismo cênico e muitos teóricos) entre eles Ricardo III, Otelo, oNapoleao de Grabbe) e Macbeth. um duplo podiul/I olímpico, nada mais énecessário para
Felix Emmel (O Teatro Estático, 1924)) condenam todo .Aorganização cênica tradicional não pode convir a acentuar a ação de Otelo.
cenário que freie o"desdobramento dinâmico do drama". Jessner: "Fora com o naturalismo pictural das paisa- EXPRESSIONISMO E ILUMINAÇÃO CÊNICA
Mas à brancura do leito .se oporá em violento con-
Emmel volta à noção do "olho interior"; cita aexperiên- gens suíças (sobre G. Tell) em cuja realidade nenhum traste orosto do Mouro. É af que aparece osimbolismo Quer pinte um estado d'alma) uma paisagem onde
cia do cego Kurt Kuchler: "Independentemente da ima- espectador civilizado pode crer; fora com todo oamon- das cores usado pelos dramaturgos expressionistas e de inscreve sua emoção ou um "grito", como ofez Munch,
gem exterior, do proscênio, do buraco do ponto, dos ce- toado teatral das perspectivas) das coxias! Isto pertence que Emmel se torna ardente defensor: acor éuma tona· precursor da pintura expressionista, apartir de 1895, o
nários, das roupas e dos rostos maquilados, mell olho auna era passada, vivemos nl1m tempo novo que se apoia lidade afetiva, pesada ou leve) triste e doce, mística e pintor só dispõe de uma luz ['{a. Por suas deformações,
seu quadro ainda que pareça se anImar, prolonga-se no relações com o mundo exterior, os outros personagens,
tempo, aluz, uma vez projetada sobre a tela, permanece para isolá-lo num momento extático. revelar situações, mas de traduzir estados de alma con- rado" de "fora da moda" ou de "germânico" quando não
.. constante. No teatro, ao contrário,'as possibilidades de forme uma transposição simbólica, de sublinhar as carac- o condenam com uma única palavra: "Estética 1920".
Ailuminação cênica, que toma um valar ainda mais
variação de intensidade, de cor, de direção da luz, de terísticas fundamentais dos personagens e dos momentos Não se trata de fazer aqui opanegírico, c muito menos
significativo nas realizações plásticas de Jessner, aparece,
união ou de luta de iluminações difusas e diretas, são assim, como um equivalente do dispositivo. cênico: cria essenciais da ação, donde este fenômeno de amplia~o desejar que aníaadcres voltem ao expressionismo dos
exploradas ao máximo pelos diretores expressionistas. Van rupturas, relações enlre os personagens. Segue aação não que ultrapassa consideravelmente as leis habituais da ótica anos 25 impondo-o h* ao teatro: seria uma insensatez.
Gogh escrevia: "Em lugar de reproduzir exatamente oque teatral. Oator expressionista, ao qual odispositivo cênico Antes de ser um estilo, o expressionismo foi essencial-
como uma ilustração, mas como um intérprete que repre-
tenho sob os olhos, sirvo-me da cor mais arbitrariamente traz uma espécie de pedestal, representa fisicaml?llte. O mente um movimento de ruptura, um fenômeno que se
senta as fases essenciais (a preocupação de destacar as
para me exprimir fortemente". É também para exprimir. movimento reencontra um valor que perdera: gestos brus- situa de modo exato na história da sociedade e do. teatro
fases essenciais corresponde à construção dramática das
-se fortemente que os realizadores como Jessner eFehling cos tendendo para aabstração, que exprimem as articula- do século 20, eque não corresponde mais nem aos dados
estações dramáticas. de que falava Guarnier). Parece ao
usarão arbitrariamente da luz. ções do drama e a "tensão" do personagem; gestos que nem às necessidades atuais. Não se trata também de vol-
mesmo tempo. dirigi-la eser diri~do por ela. Como ofazia
Não se trata mais para eles de imitar 'a natureza ede podel)l até não se concluir, bastando um esboço para tar aos seus exageros. Adoutrina do "01110 interior", a
acor, explica um estado de alma ou um caráter (os pro-
dar ao espectador aimpressão de que aluz vemde fontes indicar·lhe osentido (em Ricardo 111), o,início do gesto "visão" da "essência do drama" eram outros tantos ele-
jetores iluminam aentrada de um personagem considera·
naturais, porque, igualmente nesse domínio eles recusam do "bom"). do' assassino "indicou o assassinato de. Clarence se!U que mentos suscenveis de.orientar uma arte pára osconstran:
ailusão. Ailuminação lhes permite concentrar.a atenção, nenhumcontáto físico ilusionista venha efetivá·lo". Ira-' .gínientos de um idealismo individualista que pôdhi'con;
Acena será mantida ora na penumbra, ora risada ta-se antes de convencer do que representar; Falou-se duzir e que conduziram em certo ponto a iJin teatro pu.
articnlar a ação, acentuar a tensão, e isto colorindo a por feixes luminosos, ora animada por violentos ccníras-
emoção do público. Aluz, também, é um elemento de mnitas vezes de staccato apropósito do teatro expressio- ramente "estético", a uma arte desligada da realidade' e
tes, modlíicando-se as cores. "Acompanhamento arbitrá- nista: o termo corresponde justamente ao jogo do ator, repousando sobre um jogo de .associações fictícias. .
"jogo com" do teatro expressionista. Se eles utilizam o rio" da ação - diriam. Abritrário, se nos colocamos em
ciclorama, como Jessner em Otelo, ora deixando-o na seqüência de é/ans e de rupturas. Aestilização excessiva Mas que certos pintores expressionistas tenham pre-
relação àrealidade habitual, mas ló~co do ponto de vista do movimento corresponde à deformação dos cenários e
sombra, ora iluminando-o ecolorindo-o, não épara suge- da técnica cênica expressionista. Aí também é necessário - gado uma volta à realidade procurando, como Georg
rir um céu de inverno ou uma manhã de primavera, mas às modificações bruscas da luz. Osimbolismo das cures Grosz, uma "nova objetividade", isto é um sinal signifi-
denunciar os abusos, as rupturas demasiado violentas, e encontra no jogo seu equivalente: é o sinbolisno das
para criar um fundo neutro, equivalente colorido de tal cativo. Oexpressionismo não podia ser um fim. Arte de
afalta de gosto pronunciada, particularmente nas ihmi- atitudes. Ocorpo humano, forma evolume, se adapta ao .
ou qual momento dramático, que se inserirá no espírito diversão, de liberação, de crise, sofria de suas próprias
nações coloridas (Jessner coloria às vezes seu ciclorama estado de alma, tornando-se sua tradução plástica. E é
do espectador elhe comunicará oestado de alma do prin- contradições: como podia ao mesmo tempo recusar a
de amarelo, de salmão), mas é preciso não esquecer de pelo movimento abstrato, fora de toda verossimilhança realidade exterior e se fazer o acusador público de uma .
cipal personagem. Se aluz da lua parece penetrar por uma
substituir essa concepção do papel da luz no seu contexto . naturalista; que ele recria a"tensão da alma"; As atitudes sociedade?.Arte de transição; destruia certos princípios
janela, como num cenário de Sievert para Tambores na
histórico: odiretor expressionista quer antes de mais nada de KOfÚler, principal ator expressionista, são significati- do teatro burguês do final do século 19 e do início do
Noite, não é tanto para evocar um luar como para defor-
a eficácia dramática, a "essência do drama". Sua busca vas a esse respeito. 20, e esboçava os meios que deviam dar lugar ao nasci-
mar os ob~tos, projetar sombras sobrenaturais eaumentar
não éformal. Adramatização excessiva é ainda oresul- Apesar do "delusionamento" certo, a arte do ator mento de uma nova dramatargia ede uma nova fórmula
atensão patética. Asombra permite aumentar essa tensão,
lado de uma vontade de "desilusionamento" levada ao permanece como o elemento mais contestável do teatro de apresentação cênica. São esses princípios'novos, esses
mas como ocenógrafo revolucionava omundo dos obj»
extremo e oexagero provem do fato de que oexpressio- expressionista. Asimplificação abstrata, as quebras abusi· meios inéditos que permanecem válidos hoje com acon-
tos, ele ampliava as sombras até os limites do gigantesco,
nismo não é uma arte estabilizada, mas um movimento vas, os rictus levam freqüentemente a uma teatralização dição de serem orientados não conforme necessidades
iluminando ator ou objeto por baixo (o que também é revolucionário.
.um meio de desnaturalizá-lo) ou dos lados. Que se veja convencional emelodramática. . metafísicas do olho interior, mas a fim de reencontrar
aesse respeito amaqueta de Cesar Klein para Hõlle, /Veg, uma realidade mais profunda e expressá·la mais total·
Erde de Kaiser: opersonagem está isolado, destaca sobre OEXPRESSIONISMO E OATOR . CONTRIBUIÇÃO DO EXPRESSIONISMO mente.
uma primeira massa de um branco brilhante imensamente Simbolização, acentuação, concentração - tais as . É graças ao expressionismo que uma arte de revela-
sombreada que oarranca ao universo dos objctos mergu- Seria interessante analisar as realizações expressio- ção pode se substituir auma arte de encarnação. Ela pre-
características essenciais da arte expressionista, que se nistas fora da Alemanha, na Europa e na América, ede
lhados na sombra. Para Otelo e Ricardo III, Jessner encontram na técnica dQ atorque não é mais tanto um gou a união de todos os recursos cênicos, que nada tem
empregará freqüentemente as sombras que se tornam para discernir as diferenças de estilo nascidas de situações his- a ver com a·"obra de arte total" de Wagner ou com a
intérprete como o "portador" de idéia. "O atar, para tóricas, ecooômieo-sociais, artísticas e morais bem defini-
o personagem um segundo "eu". Fehling, em Masse responder ànova vontade da arte, deve se liberar da rea- noção do teatro total cara aalguns de nossos animadores,
Mensch, de Toller, as utilizará também, massas imensas e das. Mas gostariamos de sublinhar as características essen- porque essa união não é aadição ou asucessão de efeitos
lidade, ese separar dos atributos desta, para ser apenas o ciais, destruir preconceilos e tirar do expressionismo as
móveis, formas abstraIas, símbolos de ameaças desconhe- representante do pensamento e do destino". (Kornfeld) ou de agentes cênicos (ator, cenário, luz etc.) mas sua
cidas. lições que ele ainda pode dar ao teatro. Por iso limita- interpenetração em vista da transcrição da ação dramá-
Em uma época em que os animadores fundavam suas bus- mos nosso estudo à Alemanha, que é a inicJadora do
À iluminação geral, odiretor prefere uma iluminação cas na volta às tradições profundas da arte do cemeli- tica, mas aparticipação de cada uma delas no desenvol-
movimento. vimento dessa ação que se acha dessa forma explicitada.
por zonas, por manchas, por. fTashes q.ue, no moment.o ante, oteatro expressionista modela oator: ametamorfose
crucial prende um ator num feire de proietores que oreIL· do comediante em herói de tragédia é rejeitada: não se Muito mal se tem falado na França desse estilo que Seu simbolismo se situava ao nível da idéia; era possível
~O ram b:uscamente do universo que o cerca, suprime suas . trata mais de encarnar esse ou aquele personagem, de pouco se conhecia. Foram vistos seus excessos (fantás- orientá-lo de maneira diferente e de elevá-lo ao nível da
tico fácil epatético barato) ehoíe équalificado de "sane- realidade. .
· .Afim de que os princípios fundamentais do espns-
ASSASSINO, culo à sua volta, gritando em cres- mem e a Mulher encontram-se ao
cendo. centro, diante do portão de ferro.
siomsmo permanecessem fecundos, era necessário libertá-
lo de suas contradições. Ele recusava oilusionismo tradi-
ESPERANÇA DAS Pausa.
CORO DOS GUERREIROS - Nós
cional, mas aniscava atornar-se um ilusionismo da vida
interior: era essa arte que era preciso rejeitar. Duas vias
MULHERES* éramos odisco flamejante à tua vol- AMULHER (observa-o fascinada;
ta, o disco flamejante à tua velta, para si) - Quem éeste estrangeiro
eram possíveis e asituação do teatro alemão contempo- assaltante da fortaleza inexpugnável! cujos olhos pousaram em mim?
r~Deo éoreflexo d:~sa dupla possi~ilidade. Uma que se
.sItua no plano estetlco e conduz as realizações de um de
Sellner em Darmstadt edos netos de Richard Wagner em Seguem-no hesitantemente COI/lO Ocoro feminino reune-se no pros-
Bayreuth. Aoutra se situa no plano de um teatro não OSKAR KOKOSCHICA numa procissão que ele conduz, le- cénio.
alienado: o expressionismo conduzia aBrecht. À idéia vando à sua frente um homem de
A presença' de um pintor (Kokoschka) e de um
à. "~s:ência do drana", Brecht substitui~ pela realidad~' archote aceso.
e~cu!tor (Barl~ch) e~~e os primeiros dramaturgos erpres- Tradução de LU MULHER DO CORO (reconhe-
~~t~~ca.p~~fu.n.da). o.Gl}m.dge~!~! ;Ew.nw9~.dp.m~ç~sio­ cendo-o, num grito) - A sua irmã
slOmstaspenmte- verifiear as origens plásticas do nioVi~ CORO DOS GUERREIROS - Homem
~~mo tudo que oprendiRa4lda auma .te~l!'aljzação ene- LUIS FRANCISCO REBELLO
m~nto, ~ 'que diretamente se ligam as atividildes dos grupos morreu de amor!
nor, eacresceiltou~lhe apotência desmistificadora fazendo do rosto pálido, sê o nosso condu-
~le ~mcke (1905) eDer Elalte Reiter (1911), em ciijo a
2. MULHER - Ó melodia do
um princípio de revelação da realidade social; coloc~u a tor!
ambJt.~ e~preend~ram Kandinsky ePaul Klee as primeiras tempo, flores que ningném viu.
síntese dos recursos cênieos aserviço do teatro de equipe:
erpeneacas de pmtura abstrata, que uma década após o

,
pense-se em Mãe Coragem, na degradação do curso do PERSONAGENS: Quando estão prestes a demlbar OHOMEM (surpreendido; o cor-
Teatro da Bauhaus procurou tomar extensivas à arte dra-
tempo, durante ocurso da guern, dos elementos cênicos
mática. Aliás, oteatro exerceu um pronunciado fascínio OHOMEM ocavalo, ogmpo das mulheres sobe tejo conduzido por ele para) - Sou
pela esquerda, conduzido por lima eu por ventura real? Oque disseram

I
e das roupas. Do simbolismo Brecht fez um instrumento AMULHER
sobre os pintores abstratos, que viam no espaço cênico
de sugestão realista (o emblema da Mãe Coragem aéor mulher alta, vestida de vermelho, ca- as sombras? (Erguendo orosto para
o"

uma equivalência do. espaço cósmico, onde as linhas, os CORO DE GUERREIROS E MULHE-
uniformemente cinza das roupas eíe.), Aluz, p~lo seu belos louros caídos sobre os ombros. ela) Olhaste para mim? Olhei eu
volumes eas cores, evoluindo sob aação transfignradora RES para ti?
poder dramatizante, era oagente cênico mais delicado a
ser manejado:. g~~dou dela as possibilid~des de acompa-
nhamento arb.ttrano no quadro do "eferto- de distancia-
mento" (mudança de luz nas cenas das canções) edesen-
volveu seu poder desnaturalizante tomando emprestado
ao construtivismo russo aforma da visibilidade das fontes
da luz se unem à palavra e ao som para criar aimagem
abstrata emovente do homem no mundo: recordem-se os
projetos de Kandinsky para vários espetáculos de teatro
e ba!lado eoseu artigo acerca Da Composição Cênica,
publicado em 1912, os estudos cenográficos de Mondrian
Céu noturno. Urna torre cujo por-
tão é uma grade .vermelha de ferro.
A iluminação édada apenas por ar-
A MULHER (alto) - A minha
respiração faz tremer o disco ama-
relo do sol. Os, meus olhos agarram
o entusiasmo -dos homens. A sua avançar!
balbuciante luxúria rasteja como um
jo
mem
AMULHER (dividida entre odese·
e o medo) - Quem é este ho-
de rosto pálido? Não odeixem

LU MULHER DO CORO (recuando,


.1
luminosaS. Seria também interessante ver como autiliza- Uger, Picasso, Moholy-Nagy, as marionetes de KJee. '
chotes acesos. Ochã9 énegro, sobe bicho à minha volta. num grito estridetite) -.Porque lhe
ção das máscaras em Círculo de Gis Caucasiano retoma em degraus do proscênio até atorre, permitiram que entrasse? Este é o
"o simbolismo expressionista tomado instrumento de suges- Luiz Francisco Rebello
dando a impressão de as persona- ~s mldheres que aseguem sepa- que estrangnla amínha irmã quando
tão da realidade social.
gens aparecerem em relevo. ram-se dela. Só depois notam apre- reza no templo.
Arealidade deve ser criada por nós. Não devemos sença do cavalheiro armado. 1.0 GUERREIRO (dirigindo-se à],a
Denis Bablet "contentar-nos com ofato observado que se julga verda-
OHomem, de rosto branco, amw- mulher do coro) - Viao-lo atra-
deiro. Aimagem do mundo deve ser refletida em toda a La MULHER DO CORO - Mulher! vessar o fogo, e os seus pés nada
dura azul, um lenço cobrindo uma
sua pureza eautenticidade. Mas é apenas dentro de nós Oseu hálito cola-se-lhe! sofreram.
ferida,. rodeado por um gmpo de
que ela existe. Os fatos não têm importância senão na 1.0 GUERREIRO (aos outros) - 2.° GUERREIRO - Torturou ani-
guerreiros de aspecto selvagem, per-
medida em que oartista apreende, através da sua forma Onosso chefe écomo alua que des- mais até à morte, com apressão das
nas nuas, trajes brancos, pretos e
externa, oque se oculta por detrás deles. Uma casa não ponta no oriente. suas coxas matou as éguas que relin-
castanhos, le/iços cinzentos everme-
é apenas·um objeto: há que sJlrpreender-lhe a sua mais a
lhos, brandindo os archotes acesos, 2. MULHER (desviando a vista) chavam.
íntima essência, captar-lhe a sua forma mais profunda.
murmurando confusamente; com mo- - Quando é que eles se enlaçarão 3.° GUERREIRO - Cegou os pás-
Assim também ohomem deixa de ser um indivíduo, ligado
vimentos lassas procuram deter a jubilosamente? saros,que voavam diante de nos, afo-
ao dever, àmoral, àsociedade eàfamí1i~ para ser unica-
marcha do cavaleiro e da ~Ia mon- gou peixes vermelhos na areia. .
mente oque há de mais sublime emiserável ao illesmo
tada e derrubá-la; mas o Homem Os dois coros dispersam-se em OHOMÊM (irritado, {eciiado) -
tempo: 1Il1l homem.
segue em freme eeles abrem um dr- grupos, ao longo do palco. O Ho~ Quem éesta criatura que orgnlhosa.
2 tThédire Populaire - n. 221janeiro 1957) Kasimir Edschmid
morrer; como ele está pálido! (Ron- o HOMEM (abre a boca para aproxima o seu fim, muna tensão
mente, como um animal, se apascen- ela, dominando-a; então um velho, da o portão como uma pantera. falar, mas não se ouve nenhum que depois de atingir o paroxismo
ta no meio do seu rebanho? . com um ferro em brasa, rasga-lhe o som). decresce num grito estrangulado. A
Agarra-se lascivamente às grades;
1.0 GUERREIRO - Ela adivinha vestido emarca-a. inscreve uma grande cruz branca no
Mulher cai e, na sua queda, arrasta
o que os outros não entendem. consigo o archote aceso do guia do
AMULHER (solta um grito con- 11luro; grita.) Abri este portão; Que- Os galos cantam. coro masculino. O archote apaga-se
2.0 GUERREIRO - E aprende o ro estar com eleL (sacode com deses-
vu/oso de dor) - Afastai de mim e uma chuva de ceutelhas inunda o
que ninguém viu nem ouviu. : estes homens - cadáveres devoran- pero as grades.) A MULHER (tremendo) - Não palco. O Homem está no degrau
3.0 GUERREIRO - Dizem que até , tes! CORO DOS GUERREIROS E DAS Mu- morres?! . superior; os guerreiros eas mulheres
os pássaros mais tímidos se acercam LHERES (enlaçados num 11lurnllí/io OHOMEM (com força) - Estre- numa tentativa de fuga, acabam por
dela e deixam-se agarrar. : Precipita-se sobre o Homem com confuso) - Perdemos a chave. Va- Ias e Lua! Mulher! Em sonhos ou se lançar no caminho gritando:
ta MULHER DO CORO (ao mesmo uma navalha, ferindo-o 110 flanco. O mos procurá-Ia. Quem atem? Quem acordado, vi uma criatura inundada
tempo que os guerreiros) ...... Senha" ~ Hoinem cai.' ' aviu? Aculpa não énossa. Não sa- de luz que cantava. Respirando, as CORO DOS GUERREIROS EDAS Mu-
Ia, vamo-nos embora! bemos quem ele é... coisas escuras tornam-se claras para LHERES - Odemônio! Dominai-o!
a
2. MULHER - Fujamos, senho- CORO DOS GUERREIROS - Liber- mim. Mãe.... Assim me perdes! Salvem-se! Salve-se quem puder!
ra! tai este .homem possesso, tirai-lhe o As vozes dissolvem-se. Um galo AMULHER (cobre-o com seu cor- Tudo está perdido!
3. a MULHER - Que ele não seja demÔnio do corpo! Ai de nós ino- canta, uma pálida luz desponta ao po; depois separa-se e através da
nosso hóspede nem respire o ar que centes! Ê preciso enterrar o con- fundo. grade abre lentamente oportão; mur- O Homem caminha sobre eles,
respiramos. Que não partilhe anos- , quistador. Já não o conhecemos. mura em voz maixa) - Não me ma/mldo-os como moscas e deixando
sa habitação. Oseu aspecto causa- OHOMEM (em convulsões, san- AMULHER ( passa um braço atra- esqueças ... um rastro de sangue atrás de si.
-nos pavor. .. grando da ferida, canta) - Fome vés das grades e arranha-lhe aferida, OHOMEM (esfrega os olhos).- Muito ao longe os galos cantam.
sem sentido de horror para horror! sibilando como uma serpente) - Opensamento do ferro em brasa não
Os guerreiros, Tlesitmltes, avan- Insaciáveis rotações no vácuo! Oh, Rendes-te, homem de. rosto pálido? me sai da idéia.
çam. As mulheres assustadas agm- ingrato mundo! Extinguiram-se os Ê medo que sentes? Ou estás apenas AMULHER (abre aboca como se
pam-se aum canto. AMulher apro- louvores que me dirigiam. adormecido? Estás acordado? Ouves- fosse falar).
:lima-se do Homem apassos lentos, CORO DOS GUERREIROS - Não -me?
cautelosos, como 11I11 caçador atrás oconhecemos; Poupai-nos! (Às mu- OHOMEM (respirando ofegante- OHOMEM (para si mesmo)..-
da sua presa. lheres) Vinde celebrar as nossas mnte, levanta com dificuldade aca-
Tenho medo! * Escrita em 1907, representada em
AMULHER - Vampiro, não te Viena no ano seguinte (e tulllullllOSame!ile
núpcias no seu leito de angústia. beça; depois move úma das mãos, acolhida), publicada em 1910 nii revista
P MULHER - Pouca sorte a CORO DAS MULHERES - O seu ergue-se lentamente; cantando cada deixarei viver, aos poucos vais-me "Der Sturm", convertida em ópera por Paul '
devorando, roubando-me as forças. Hindemith em 1921, Mõrder, Hoffllllllg der
dele! . aspecto enche-nos de terror. Antes vez mais alto) - Vento que va- . Amaldição caia sobre ti. Hei de ma- Frauen é considerado, historicamente, o
1.0 GUERREIRO - Pouca vergo- da vossa· vinda, já vos amávamos. guejas, tempo que repete o tempo, primeiro drama expressionista. Apesar da
tar-te. Acorrentas-me - tu que eu
nha adela! solidão! Orepouso e a fome con- venci e encarcerei, tu que me pren- sua "inconsistência literária" (sublinhada
AMULHER - Porque me pren- . Três homens mascarados apare- fundem-se! Mundos que rodopiam, por Bernhard Diebold), delineiam-se nela
des agora. Larga-me. Não me pren- os temas e o estilo próprios do teatro
des homem com o teu olhar fixo? , cem no topo do muro epor meio de ar parado! Tempo longo como anoi-
" .
Luz devoradora que obscurece anu- cordas descem um caixão; oHomem te!
das. Oteu amor aprisiona-me como expressionista na sua primeira fase: atrans-
posição metafísica da luta dos sexos, umo
se fossem cadeias de ferro. Sufoca-
nha chama! Vida devastadora que ferido, quase inerte, é encerrado na AMULHER (começa ater medo) -me. Solta-me! socorro! (desprende- exaltação místico-pagã ainda não inteira-
me avassala! Arranca-me a minha torre. As mulheres e os guerreiros - Quanta luz a escorrer da ferida mente desprendida de sugestões simbolis-
-se das grades, agita-se em convul- tas, a abstração das personagens, o tom
terrível esperança! retiram-se para uma zona escura do aberta! Quanta força a.desprender-. sões .como um animal mortalmente visionário, extático, do diálogo, elll que o
OHOMEM (enraivecido) - Com- palco. O' velho levanta-se e fecha à -se do cadáver em que ele se tornou! ferido). grito eo canto se substituem à linguagem
panheiros, marcai-a agora com o chave oportão. Escuridão total, cor- (As~llSta-se de novo, tremendo. 9 falado o predomínio dos elementos plásti-
cos e' visuais sobre os valores literários
meu ferro; gravai-lhe o ferro em , tada apenas por um archote que, 110 Homem levantou-se lentamente, en- O Homem agora está de pé, abre propriamente ditos. A versão aqui apresen-
brasa na sua carne rubra! alto da torre, espalha uma luz azul. costou-se às grades. Amulher, escar- tada baseia-se em parte nUllla livre. adap-
ninha). Encerrei nesta jaula um eni- oportão de ferro, com os dedos toca
na mulher - que recua rigidmnente, tação iuglesa de Michael Hamburger.
Os. guerreiros executam aordem. A MULHER (gelnendo, em tom mal selvagem. Ê afome que te faz (Nola do tradutor)
mortalmente pálida, sentindo que se
~4 Brandindo os archotes, lutam com . vingativo) - Não pode viver nem . Imlrar?
Quanto tempo terei ainda de espe- . nesta casa! Sei que está ainda aqui!
A MORTE rar! (outra pausa longa). Quanto Confessou-mo a... senhora que me os seus altos prop6sitos, deverá satIs- zeres sensuais e das piores deprava-
ções. Ecu, tão estúpida que não via,
anúncios, cescreveu uma carta muito
correta, oferecendo-se para ocupar o
fazê-la a severa fiscalização que
EODEMôNIO tempo terei ainda de esperar! (de-
pois de nova pausa, levanta-se, des-
atendeu sem quaisquer rodeios. Efez
mais: prometeu-me que mandava vir somos obrigados a exercer. com os meus vinte e oito anos,que lugar falsamente indicado nesse
na manhã seguinte a rapariga tinha anúncio. Foi desta maneira que a
pe o casaco pondo-o sobre uma a esta sala a rapariga, de modo a ELFRIDA - Sou membro da nossa
o aspecto de quem passara a noite conheci.
poltronGj e tira o chapéu, que põe poder conversar tranquilamente com Sociedade há já quase três anos. Cha-
sobre o casaco. Em seguida percorre ela asós. Ê por ela que espero. Não mo-me Elfrida von Ma1chus. em claro! Em toda a minha vida, ELFRIDA - Eatreve-se adizer-me
duas vezes a cena, visivelmente agi- . tenho vontade nem vejo motivo de nunca soube o que era passar uma isl0 com esse cinismo?
de .' ,'\ CASTI-PIANI - Elfrida vcn Mal- noite sem dormir! E quando entrava
tada. Parando). Quanto tempo terei suportar um segundo interrogatório. CASTI-PIANI - Sim, minha senho-
FRANK W~~~I~::: l/i·lil· \~\(( . chus?! de manhã no meu escritório,'nem
de esperar! .
CsATI-PIANI- Peco-lhe,minha se- ELFRlDA - Sim, Elfrida von sequer perguntava a mim mesma
ra, atrevo-me a contar-lhe isto com
toda aobjetividade.
nhora, que não se enerve. Arapari- Malchus. Conhece omeu nome? como podia haver uma tão grande
Tradução de Às suas últimas palavras, entra ga deseja apresentar-se decentemen- CASTI-PIANI - Leio todos os anos ~~~?r~~~ :e~~e os meus papéis!
ELFRlDA (muito excitada, de pu-
pela porta central o marquês Casti- te vestida. A ... "senhora" que a o' relatório. da vossa Sociedade. ·:Se nllOs cerrados na Slla direção) -
Lurz FRANCISCO REBELLO -PiaI/i. É um homem de elevada atendeu, receando que os seus nervos CASTI-PIANI.:-::-::..1\ JaPari.ga,~y Aquele. monstro que atirou arapari-
não estou em erro,.fei ·0:ano passa- não estou em.erro,.~ entrado-ao
estatura, ·com oçrânio calvo ,a fron- a arrastassem aqualquer ato irrefle- do uma conferência na reunião~.an~~ ga para adesgraça éentão osenhor?
te alta, grandes olhos negros melan- tido, pedui-me para lhe vir dizer isto, serViço dós 'seus pàis, para p'equenos
de Colônia, não é verdade? . CASTI-PIANI (sorrindo com melan-
cólicos, nariz marcadamente aquilino a fim de atenuar quanto possível o trabalhos ças~~os? colia) - Se a senhora desconfiasse
ELFRlDA .; Por desgraça minha!
PERSONAGENS: e fartos bigodes negros wendentes. desagrado que deve causar-lhe ter de Durante dois anos inteirosnâo fiz
ELFRlDA - Sim, por infelicidade quais são verdadeiramente as causas
Enverga um casaco preto, um colete esperar num lugar destes! mais do que escrever efalar, falar e sua! Tanto aminha mãe como omeu da sua tremenda excitação, teria tal-
OMARQUÊS CASTI-PIANI de fantasia escuro, calças cinzentas ELFRlDA (enquanto nervosamente pai esetavam encantados com a sua vez ainteligência suficiente para não
ELFRIDA VON MALCIlUS escrever, sem descobrir em mim a
escuras, sapatos de verniz, gravata caminha de um lado para outro da coragem para combater diretamente educação, asua modéstia. Para meu se assnstar com o monstro que eu
LISISKA preta com llIn alfinete de brilhantes~ cena) - Peço-lhe que me poupe a pai, que é funcionário ministerial e lhe pareço.
KÕNIG o comércio das mulheres, até que
sua conversa de salão. Aatmosfera burocrata até à medula, a sua pre- ELFRlDA (seca) - Não percebo.
TRÊs RAPARIGAS este negócio infanle encontrou final-
CASTI-PIANI ' ». '. UI vênia) - que reina aqui nada tem de novo mente a sua vítima debaixo do meu sença era como um raio de luz. Que quer dizer?
Que deseja, m .ora? para mim. Quando entrei pela pri-
próprio teto,na minha própria famí- Quando ela, de repente, fu~u de nos-
meira vez numa casa destas, tive de sa casa, os meus pais deixaram de CASTI·PIANI - A senhora... 6
ELFRlDA (ÚbJa) - Ainda há lutar contra um verdadeiro mal-estar li a.l chamar àminha atividade de associa- ainda. .. virgem?
Uma sala com duas poltronas ver-
melhas, uma em frente da outra, e pouco disse à seLhora que me aten- físico. Só nesse dia tive consciência CASTI-PIANI - As causas dessa da uma mania de velha solteirona, ELFRIDA (ofegante) - Com que
cujas janelas têm os cortinados cor- deu, tão claramente quanto éhuma- de que era preciso vencer-me amim desgraça, se estou bem informado, declarando-a abertamente um delito direito me faz uma pergunta des~
ridos. No proscênio, àdireita eàes- namente possível, a razão' porque mesma se quisesse vir a ser um não foram asua correspondência, os perigoso! sas?! .
querda, há de cada lado uma peque- estou aqui. membro ativo da nossa Sociedade. seus livros, as revistas que não soube CAsrrcPIANI - E quem é que,
esconder da rapariga por cuja salva- CASTI-PIANI - A. rapariga é filha
na parede de hera, atrás das quais é CASTI-PIANI .; A senhora disse- Ao princípio, as nossas aspirações natural de uma lavadeira? Por ven- em todo ouuiverso, me proibe de a
possível uma pessoa esconder-se das -me, com efeito, porque está aqui. E . eram para mim um simples passa- ção se encontra agora aqui? fazer? Mas deixemos isso. Em todo
tura sabe quem era opaí?
restantes personagem sem que deixe disse-me também que pertence àSo- tempo, no qual eu tomava parte SÓ ELFRlDÁ - Tem perfeitamente o caso, não é casada. Tem, como
razão! Desgraçadamente não oposso ELFRlDA - Não, nunca lhe per-
de ser vista pelos espectadores. ciedade Internacional da Luta con- para não me tornar uma criatura inú- guntei. Mas afinal quem' é osenhor? disse há pouco, vinte eoito anos. Es-
Atrás de cada uma dessas paredes, tra aProstituição. til, quando envelhecesse. contradizer! Noite após noite, en- tes fatos demonstram-lhe suficiente-
quanto eu, satisfeita comigo e com Ecomo sabe tudo'isto?
há uma pequena poltrona vermelhaI ELFRIDA - Exatamente: sou CASTI-PIANI - As suas palavras mente que em confronto com as
omundo, me deitava na minha cama CASTI-PIANI - Bem. .. a rapari- outras mulheres, mesmo sem falar
Porta centra/. Portas laterais. membro da Sociedade Internacional despertam em mim um profundo in-
para um sono de dez horas, que ga tinha lido um relatório da vossa naquela criatura por causa de quem
EIMda von Malchus está sentada da Luta contra a Prostituição. Mas teresse. Conceda-me todavia ahonra Sociedade que nos jornais diários se
numa poltrona. Nota-se que não está ·mesmo que o não fosse, não teria .de provar-me que pertence à Socie- nenhum instinto humano perturbava, aqui veio, a senhora possui uma
aquela criatura de dezessete anos, publicavam certos anúncios, mediano quantidade mínima de sensualidade.
à vontade. Veste um traje austero, podido evitar esta caminhada, por dade Internacional da Luta contra a te os quais os comerciantes de rapa-
maís que ela me custasse. Há nove Prostituição. Sei, por experiência, sem que eu tivesse amenor suspeita, ELFRlDA - Nesse ponto adJnito
com chapéu, casaco e luvas. rigas, com hábeis subterfó~os, atra-
meses que ando no rasto desta infe- que muita gente tem em mira esse entrava no meu escritório e alimen-
íam a si as jovens para as conduzir que tenha razão.
ELFPJDA - Quanto tempo terei liz criatura. Sempre que eu chegava emprego com um objetivo bem diver" tava a sua ima~nação sequiosa de
ao mercado do amor. Arapariga pro- CAsrrcPIANI - Estou muito lon-
de esperar! (longa pausa, durante a
qual permanece sentada e imóvel).
a um sítio, tinham acabado de a so da salvação das raparigas perdi-
levar para outro. Mas agora está das. Se pretende alcançar seriamente I amcr com os meus livros que ilustra-
vam aluta contra aprostituição com curou então no primeiro jornal que
lhe veio parar às mãos um desses
ge de lhe atribuir tendências anor-
mais. Mas a senhora sabe de que
.I· as maís sedutoras descrições dos pra-
conduzida sabe Deus para ,onde! Isto nhosa de todas as profissões, as mu- reito inato da mulher! Um filho
maneira conseguiu calar, por muito diz! Não foi por sensualidade insatis- tão pródiga em atas insensatos, lheres de sociedade preferem entre- natural é considerado uma vergonha
é, sei muito bem: para um sítio onde
débeis que fossem, os seus instintos feita que vendeu esta rapariga, mas acumulou dores e angústias sobre o gar-se gratuitamente a um homem quase tão grande como opróprio co-
a Sociedade Internacional da Luta
sensuais? por avidez de dinheiro! Sim, ven- sexo mais frágil! Contra aProstituição não conseguirá do que fazer-lhe pagar os seus favo- mércio do amor! Chama-se prostitu-
ELFRIDA - De que maneira? deu-a apenas para fazer um bom mais encontrá-la! Agora sei o que res! É assim que elas desonram o ta àmãe de um filho natural, exata-
CASTI-PIANI - Nesse ponto, mi-
CASTI-PIANI - Entrando para a negócio! próprio sexo, tal como um alfaiate mente como a uma rapariga desta
nha senhora, somos os dois da mes- resta fazer!
Sociedade Internacional da Luta CASTI-PIANI - Um bom negócio! ma opinião!. .. Eagora quer roubar desonra o seu ofício ao fornecer casa! Oque sempre me fez nojo no
contra a Prostituição! Sem dúvida! Mas os bons negócios às suas infelizes irmãs oúnico privi- Pega ochapéu eo casaco. gratuitamente os ternos aos seus vosso movimento feminino, foi amo-
ELFRIDA (com ira contida) - são aqueles que dão vantagens aam- légio que... Ainsensata providên- clientes! ralidade que enxertaram nas vossas
Qucm é o senhor?! Eu vim aqui bas as partes! Eu só me ocupo de cia lhes concedeu perante ohomem, educandas antes de as iniciar para a
CASTI-PIANI (sorrindo) - Se ELFRIDA (ainda entonlecida) -
para libertar das garras do vício uma negócios vantajosos! Todos os outros isto é, o privilé~o de poder, em caso vida. Mas a senhora acreqita que o
soubesse, minha querida senhora, Não percebo uma só palavra do que
criatura infeliz. Não foi para ouvir são imorais! '" Ou pensa talvez de extrema necessidade, vender o comércio do amor teria sido procla-
quanto esse acesso de ira embeleza tem estado a dizer-me! Entrei para
seus discursos de mau gosto! que onercalo do amcré um mau seu amor? Êassim que julga defen- mado aos quatro ventos como um
o seu rosto burguês, não teria tanta a escola aos seis anos elá fiquei até
negócio para amulher? der os direitos da mulher?! escândalo, se ohomem pudesse fazer
CASTI-PIANI - Nem supus nun- pressa em se irembora. aos quinze. Três anos depois fiz o concorrência à mulher! Inveja, des-
ca uma coisa dessas. Mas partindo ELFRIDA _. Que quer dizer com ELFRIDA (quase em lágrimas) - A neu exame de professora. Enquanto
ELFRIDA - Deixe-me sair! Não peito, enada mais! Anatureza con-
deste ponto de vista, estamos mais isto? possibilidade de nos vendermos pesa era nova, freqüentavam a casa de
tenho tempo a perder! cedeu àmulher oprivilégio de nego-
perto um do outro do que poderia CASTI-PIANI - Apenas isto: não sobre o nosso sexo como uma des- meus pais os senhores da melhor so-
CASTI-PIAt'H - Onde tenciona ir ciar o seu 'amor, e por isso a
sonhar oseu orgulho de burguesinha sei se neste moinento se encontra graça indizível, uma eterna maldi- ciedade. Um deles, que tinha herda-
virtuosa. A natureza dotou-a com agora? burguesia, que é diri~da pelos ho-
em condições de me ouvir com uma ção! do uma propriedade de vinte milhas mens, compraz-se em apresentar esse
uma sensualidade quase inexistente. certa 'atenção. ELFRIDA -,-- Sabe-o tão bem como quadradas, e que teria ido atrás de
CASTI-PIAt'lI - Mas se o comér- comércio como omais depravado de
Em mim as tempestades da vida ELFRlDA - Poupe-me, por cari- eu! mim até ao fim do mundo, pediu-me
criaram há muito um deserto terrí- cio do amor grava como que uma todos os crimes!
dade, esse prefácio! CASTI-PIANI - (Agarra Elfrida em casamento. Mas eu senti que não
vel. Mas o que para a sua sensuali- maldição eterna sobre o sexo íemi- ELFRlDA (/evanfa-se, despe ocasa-
pelo pescoço, aperla-lhe a Iraquéia, podia amá-lo. Talvez tivesse errado.
dade é a luta contra a prostituição, CASTI-PIANI - Em suma, o meu nino, Deus sabe que a culpa não é co que põe sobre acadeira; andando
e obriga-a asenlar-se numa poltro- Talvez me faltasse apenas aquele mí-
é justamente o comércio das mulhe- raciocínio éeste: quando um homem nossa! Oideal para nós, comercian- de 1/111 lado para 01/11'0) - Não pos;
na) - Deixe-se ficar aqui! Tenho nimo de paixão que para casar é
res para a minha sensualidade, se se encontra em estado de necessida- tes, seria que omercado do amor se so, neste momento, digo-lhe sincera-
ainda umas coisas a dizer-lhe! Eex- sempre necessário.
ainda quiser reconhecer em mim de, muitas vezes não lhe resta outra desenvolvesse publicamente, sem mente, verificar até que ponto as
perimente gritar, se acha que vale a CASTI-PIANI- Considera-se final-
qualquer coisa desse gênero. solução qu não seja roubar ou mor- perturbações, como qualquer outro pena! Aqui estamos habituados ato- suas afirmações estão certas ou erra-
ELFRIDA (indignada) - Não seja rer de fome. Quando, porém, se trata negócio honesto! Onosso único fito mente vencida? das. .. Mas como é possível a um
da a espécie de gritos humanos!
hipócrita! Julga talvez que me ilude de uma mulher, resta-lhe ainda a é atin~ no mercado os preços mais Vamos, grite omais alto que puder! ELFRlDA - Explique-me ainda homem com asua cultura, asua po-
com as suas charJatanices sentimen- possibilidade de se vender a si pró- altos. Atire as suas censuras à cara (/argando-a). Quero ver se sou ca- uma coisa: se arapariga, com avida sição social, asua superioridade inte-
tais de aventureiro, a mim, que há pria. Eisto porque, vendendo oseu da sociedade burguesa, se quer com- pai de lhe iluminar o cérebro, antes que leva, tem um filho, quem toma lectual, passar a vida entre os ele-
quase um ano sigo o rasto desta amor, não precisa de experimentar bater a opressão do seu sexo infeliz! que saia daqui para se queixar à conta dele? mentos mais indignos da sociedade
rapariga dum antro de vício para ou- nenhum sentimento. Desde que o Se quer defender os direitos naturais polícia! humana? Foi talvez a brutalidade
mundo émundo amulher tem feito das suas irmãs, comece por comba- CASTI-PIANI - É a si e às suas
tro! Eu, neste momento, não sou ELFRIDA (ofegallle e sem voz) - colegas da associação' que compete dos seus argumentos que me levou
membro da Sociedade Internacional uso deste privilé~o. Mesmo que se ter aSociedade Internacional da luta a tomá-lo asério. Mas sinto que me
É a primeira vez na minha vida que pensar nisso! Mas então as senhoras,
da Luta contra aProstituição! Estou ponha todo o resto de parte, o ho- contra a Prostituição! obrigou a pensar em várias coisas,
mem é por natureza incomparavel- suporto uma violências destas! que reclamam os direitos das mulhe-
aqui como uma criminosa, que, sem ELFRIDA - Não lhe consinto que res, têm alguma coisa de mais im- coisas em que eu, sozinha nunca teria
mnte superior àmulher, pela simples CASTI-PIANI - A senhora tem
saber, atirou uma jovem indefesa à procure iludir-me com esses sofis- portante a fazer neste mundo? En- sonhado em pensar! Há três anos que
razão de que ela tem de sofrer para feito, na sua vida, tantas coisas inú-
miséria e ao desespero! Não descan- mas! Estou absolutamente convenci- quanto houver na terra uma mulher ouço todos os invernos entre doze a
dar àluz. , teis para a redenção moral das mu-
sarei até ao fim dos meus dias en- da de que não pensa um só instante" que receia ser mãe, a emaucipação vinte conferências, proferidas pejas
lheres de prazer! Faça ao 'menos
quanto não tiver arrancado esta ELFRIDA - Mas é essa amais evi- em dar a liberdade a essa rapariga! feminina não passará de um mito! maiores autoridades femininas emas-
qualquer coisa de útil para a reden-
pobre rapariga àruína que aesprei- dente de todas as contradições! Sem- Eeu, tão estúpida, que me deixo fi- Amaternidade épara amulher uma culinas sobre amatéria. Não me lem-
ta! Quer fazer-me acreditar que uma ção moral do prazer! E verá então
pre otenho dito! Dar filhos ao mun- car aqui a ouvir os seus discursos, necessidade da, natureza, tal como bro de ter ouvido nunca uma palavra
curiosidade doentia me arrasta para que as pobres criaturas deixarão de
do é tortura e sofrimento; criar enquanto a pobre é metida à força dormir erespirar. Aburguesia éque que fosse tão ao fundo da questão
8 esta casa?! Osenhor é um mentiro- lhe despertar compaixão! Como essa
filhos éconsiderado um passatempo! numa carruagem, levada àestação do tem barbaramente diminuido este di- como as que hoje lhe ouvi dizer!
so! E nem se quer acredita no que éconsiderada amais abjeta evergo-
A benigna providência, que aliás é caminho de ferro mais próxima e
CASTI-PIANI (destacando as pala- mim! Para onde quer que vá, eu hei tuições culturais nascem para ser Não espero felicidade maior do que ELFRlDA - Ecom essa horrorosa de professores porfiavam em atirar
r
vras) - Nós, minha querida senho- de precedê-lo! Se for para uma casa ultrapassadas. Ahumanidade há de estar ajoelhada a seus pés, ouvindo comparação quer o senhor explicar- sobre o meu pobre corpo indefeso,
r~, devemos partir sempre do princí- de correção, irei à sua frente! Se o ultrapassar ocasamento como ultra- as suas palavras! -me a união desinteressada e indis- não eram nada comparados às bofe-
po de que andamos como os sonâm- levaram da prisão ao patíbulo, irei passou aescravidão. Olivre mercado CAsn-P.!ANI (sem aolhar)- - Já solúvel entre ohomem e a mulher? tadas, aos murros eaos pontapés que
bulas à beira dum telhado e de que à sua frente! Não deixe fugir esta do amor, em que triunfam apenas alguma vez perguntou a si mesma o Meu Deus, por que experiências deve o destino se encarniçou em desferir
toda a ~úbita iluminação nos pode ocasião! Case comigo, suplico-lhe! os tigres, baseia-se nas eternas leis que éocasamento? ter passado! contra aminha alma indefesa!
fazer can de repente... Case comigo! Assim nada poderá da natureza. Que orgulho sente a ELFRIDA - Até agora nunca ti- CASn-PIANI - Ohomem só com ELFRlDA (beija-o) - Se tu sou-
ELFRlDA (olhando-o com os olhos . atin~r-nos! mulher, ao conquistar o direito de nha tido essa curiosidade. (Levan- uma mulher é economicamente m~s besses como eu te amo por todas
muito libertos) - Que quer dizer CASTl-PIANI (acarieia-lhe os cabe- se vender pelo preço m~s alto que talldo-se) Mas diga-me o senhor! forte do que sem nenhuma. Mas é essas coisas horríveis!
com isso? Que enormidade vai dizer- los sem aolhar) - Que você, meu ohomem lhe oferece! Os filhos natu- Farei tudo para amoldar-me às suas também economicamente mais forte
-ne ainda? CASTI-PIANI - Avida humana é
brªvo animalzinho, me ame ou não; rais ficam melhor ao pé da mãe do exigências! porque não tem que pensar em duas morte dez vezes pior do que amorte!
CASTI-PIAm (muito tranqiiilamen- é-me completamente indiferente. Não que os le~timos ao pé do pai. E CASTl-P.!ANI (sentando-a IIOS joe- ou mais mulheres. Esta éapedra sn- · E não só para mim. Para si, para
te) - Digo isto apenas em relação imagina sequer quantos milhares de como soa triunfalmente a palavra lhos) - Venha cá, minha pequeni- guiar do casamento. todos os homens! Para um homem
às suas opiniões, das quais até há vezes tive de suportar as mesmíssi- "prostituta"! Na história do paraíso na! Eu explico-lhe. (Como Elfrida ELFRlDA - Osenhor afinal éum simples, avida éfeita de dores, sofri-
po~co se sentia tão segura que não mas explosões sentimentais. Não é está escrito que o céu concedeu à hesita um momento.) Não se assus- pobre homem, digno de compaixão! · mentos e torturas que o seu corpo
hesllava em as distribuir auns eou- que eu desvalorize oamor. Longe de mulher aforça da sedução. Amulher ,", . te! Teve alguma vez um lar? Uma mãe · tem de sofrer. Ese ohomem, lutando
tros, como se tivesse recebido de mim tal idéia! Pena é porém que o seduz quem quer equando ~uer. Não
ELFRlDA - Nunca me sentei nos que otratasse quando estava doente, na esperança de fugir às torturas ;\0
Deus o encargo de julgar o gênero amor tenha de servir de justificação espera o amor. Asociedade burgue-
sa combate esse perigo infernal para joelhos de um homem! que lhe lesse histórias durante acoa- corpo, alcança uma existência mais
humano. a tantas mulheres· que satisfazem valescença? A qual' pudesse confiar alta, então avida representa para ele,
unicamente a sua sensualidade sem nossa sacrossanta cultura, criando a CASTI-PIANI - Dê-me um beijo! :;,:
ELFRIDA (sem deixar de fitá-lo) mulher numa atmosfera de nebulosi- quando alguma coisa lhe pesava no dores, sofrimentos e torturas que a
- Que grande homem! ... Que ho- pretenderem amínima compensação, coração, e que o ajudasse sempre, sua alma tem de sofrer e ao pé das
e que com a sua indigna ofeita nos dade artificial. As adolescentes' são E/frida beija-o.
mem superior! sempre, mesmo quando desesperava quais as torturas do corpo chegam a
arruinam onegócio. mantidas cuidadosamente na igno-
CA?TI-PIANI - As suas palavras rância do que seja ser mulher. Do já de encontrar algum auxílio no ser suaves ... Aprova mais evidente
reabmam a ferida mortal que eu ELFRlDA - Case comigo! Está contrário seria subversão de todas as CASTI-PIAN· - Obrigado. (repe-. mundo? de que avida humana éum martírio .~

-~1
trouxe ~omigo ao mundo e que há ainda atempo de começar uma vida instituições do Estado! Aburguesia lindo-a) Quer então saber o que é CASTI-PIANI - O que me acen- está no fato de os homens se terem ...•
.: -..!
s.
de ser amda a causa da minha more nova! Ocasamento fará de si uma não hesita diante de nenhum golpe ocasamento? Diga-me primeiro qual teceu em pequeno não sucede a ne- visto obrigados a inaginar um Ser
te. (Deixa-se cair sobre uma pollra- pessoa regrada. Pode vir a ser reia- baixo, quando é a sua defesa· que émais forte: ohomem que tem um nhuma criatura humana sem lhe des· que é só bondade e amor, e que \+

na.) Eu sou... um moralista! tor de jornais socialistas, deputado, está em jogo. Omercado do amor cão ou o homem que não tem ne- truir ogosto de viver até ao fim dos imploram todos os dias, a todas as
que sei eu! Casando comigo ficará a aumenta na razão direta do progres- nhum? seus dias.. Ima~a o que seja um horas, para suportar a vida!
ELFRIDA. - E queixa-se de que
lhe tenha SIdo dado opoder de tór- saber ao menos uma vez na vida, de so cultural. Quanto mais inteligente ELFRlDA - O homem que tem rapaz de dezesseis anos aquem ainda ELFRIDA (acariciando-o) - Se nos
nar outras pessoas felizes? (Depois quanto sacrifícios sobre-humanos é é omundo, mais vasto é omercado um cão, evidentemente. batem porque não lhe.entra na cabeça casarmos, todas as torturas do corpo
capaz amulher com oseu amor sen dp amor. E a nossa tão apregoada eda alma terão fIm! Não terá que ~e
duma ,breve luta interior, a/ira-se-lhe
aos pes). Case-se comigo por amor limites! cukura deixa, em nome damorali- f· CASTI-PIANI - E agora diga-me'
ainda qual ê mais forte: o homem
atábua de logarítimos?! Equem me
batia era o meu pai. E eu devolvia- preocupar mais com todas essas ter-
de Deus! Nunca tinha imaginado a CASn-PIANI (acarieiroldo-lhe os dsde, que milhões de prostitutas que tem só um cão, ou o que tem lhe as pancadas! Batia-lhe com ode- riveis questões! Aminha mãe possui
possibilidade de me entregar a um cabelos, sem aoUlar) - Os seus sa- morram de fom~, ou então priva-as dois? sejo de omatar! De uma vez, tanto um patrimônio privado de sessenta
homem antes de o ter conhecido! da honra, do direito .à vida, e atira- ELFRlDA - Penso que é aquele lhe bati que omatei! Asenhora sabe mil marcos, de que o meu pai nem
crifícios sobre-humanos causar-me-
Nunca tinha pressentido, até agora, -as para o reino. dos animais! Tudo que tem uasó, porque deis cães tor- quem são as criaturas que aqui vivem sequer suspeita, apesar dos seus vinte
-iam náuseas na melhor das hipóte-
qual fosse o significado da palavra isto em nome da moral! Há .quantos nam-se ciumentos um do outro. comigo. Pois nunca ouvi de nenhuma e cinco anos de felicidade conjugal.
ses! Os únicos animais que eu fui
"~or". É junto de si que pela pri- séculos dura esta imoralidade, que delas os insultos que na minha infân- Não lhe agrada a perspectiva de ter
capaz de amar foram os tigres; ao pé CASTI-PIAN - Isso seria ainda o
mera vez o compreendo! O amor grita aos céus vingança, epor quan- cia ouvi diri~ à minha mãe, eque de repente sessenta mil marcos à sua
das cadelas sentia-me sempre como menos. Arazão é outra. É porque
enaltece ohomem para além do seu to tempo encherá ainda omundo de tem de dar de comer a dois cães, se . ela justificava, dia após dia, com disposição?
um pedaço de madeira. Só me ccn-
próprio ser desgraçado! Eu sou uma sola aidéia de que ocasamento, que estragos, em nome da moral! não fu~am-lhe, ao passo que um só . novas indignidades. Mas tudo isto são CA8n-PIANI(empurrando-a, nervo- .
. mulher medíocre evulgar, mas omeu a senhora exalta com tanto entusias- ELFRlDA (gemendo, sem voz) - cão pensa em si próprio e no seu coisas sem importância. As bofeta- samente)" - Asenhora não sabe Q
amor por si torna-me tão livre e mo epara oqual se criam as cadelas, Case comigo! Ê a primeira vez que dono, e, se for necessário, defende-o das, os murros, os pontapés que o que éuma carícia! Comporta-se como
ousada que nada éjá impossível para é uma instituição cultural. As insti- ofereço a minha mão aum homem! ainda dos assaltos dos ladrões. meu pai, a minha mãe e uma dúzia um burro que quise.sse parecer um
cãozinho de luxo, As suas mãos cau- .
sam-me dor! Bem se vê que não
CASTI-PIANI - Não, minha se-
nhora, não acredito! Tire daí o sen-
neste mundo se não aadoração desin-
teresssda desta felicidade que enche
t<'
receio em tingir com bofetadas, o
meu rosto pálido e exangue. Para
IzerKONlG - Tu estás saciada de pra-
intenso e esperas ocansaço pro-
Mas isto é exatamente o contrário
daquilo que eu sempre ima~nei!
aprendeu coisa nenhuma. Aservidão tido! de alegria e compensa o homem de
amorosa da sociedade burguesa cnn- todas as torturas da existência com uma prostituta, isso é ainda uma vacada pelas dores e pelas lágrimas; CASTI-PIANI ([lara si, 110 seu escon-
ELFRlDA - Estou tão profunda- honra... Lamentos, soluços e gemi- só assim alcançarás um profundo
tamina todos os seus gestos. O seu oprazer dos sentidos. derijo, com pavor) - Oh diabo! Oh
mente convencida da importância dos não devem sequer impressioná-lo. repouso, que nem de dia nem de noite
corpo não tem raça. Falta-lhe a sen- ELFRlDA - Parece-me que vem diabo! Isto é exatamente o contrário
moral de tudo oque me diz, que scei- Acumule sem piedade tortura sobre acalma o teu desejo ardente!
sibilidade necessária! Asensibilidade taria sem uma hesitação omaior sacri- alguém! daquilo que eu sempre imaginei sobre
eopudor! Falta-lhe osentimento da tortura! •Mesmo que os seus punhos. LISISKA - Se eu adormecesse oprazer dos sentidos!
fício que me fizesse vencer omeu sen- CASTI-PIANI - Deve ser Lisiska? me partissem a cara, o meu desejO . '
efícácia das carícias; aquele senti- d t • f . .d .d pedia-te que me acordasses com mm LISISK - Não me abandone!
tido burguês emesquinho da existêJl- ELFRlDA - Lisiska? Quem éLisis- ar en enao icana am a saca o. boea
f t da.
menta que toda a criatura de raça Escute-me! Eu era uma criança ino-
traz consigo ao mundo desde que cia! ka? KÕNIG - Confesso que não vinha KONlG - Otom éfalso! Ovidro cente ecomecei avida com seriedade
nasce! .CASTI-PIANI - Não, não, não me CASTl-PIANI - É aquela rapariga preparado para tais palavras ... e com o sentido do dever! Muitas
ELFRlDA (levantando-se, indigna- deixo iludir com esse estratagema! A que estudou em sua casa os livros tem uma racha! Podes desprezar a
As~mse desejam as ~oas-vindas a vezes ouvia os meus professores, .e
da) - E atreve-se a dizer-me isso vida já é suficientemente horrível! consagrados à luta contra aprostitui- felicidade, e até'a íua própriá vida!
um hóspede? Falas c6mose o pur- até os meus irmãos, falarem de mim
nesta casa?! Não, minha senhora! Não queira spa- ção! Agora pode ver, pelos seus pró- Musa sono? Não, isso seria uma
gatório fosse já para ti um prazer... em voz baixa com todo orespeito, e
gar o único raio de luz dívina que príos olhos, se eu exagerei ou não! blasfêmia!
CASTI-P1ANI (levantando-se por LISro - Ao contrário! A vclú- os meus pais diziam: "Tu serás uni
sua vez) - Atrevo-me a dizer-lhe penetra na noite medonha da nessa Aqui estamos, por scne preparados LISISKA - Eu não sou propriedade dia aalegria da nossa velhicel" Ecis
martirizada existência terrestre! Por- para estas ocasiões. (Leva-a até o pia, esse monstro, a~ta-se eterna-
isto nesta casa! mente como uma fúria no meu peito. sua! Osenhor não émeu tutor! Por que, de repente, um belo dia, tudo
que vivo eu afinal? Não, não, aúnica proscênio da direita). Sente-se atrás isso não esteja a poupar com tanto isto se desvaneceu! E oprazer, uma
ELFRlDA - Que me falta a nees- flor pura que existe ainda no denso Julga que eu, pasto dos demônios,
desta parede de hera. Daqui poderá cuidado os meus bens terrenos! Não vez acordado venceu todos os obstá-
sária dclicadeza de sentimentos? Que matagal encharcado de suor ede san- teria jamais vindo para esta casa se
observar o amor sem véus de duas tente consolar o meu coração com cnlos, dominou todos os meus pensa-
me falta o pudor recessirio? ! gue que é avida, não deve ser espe- me pudesse libenar da alegria atroz
criaturas unidas pelo prazer dos sen- sentimentos de humanidade! Eu res- mentos, passou por cima de todos os
CAsn-PIAN! - Que lhe faltam o zinhada. Acredite-me: se acima das do bater do coração?! Aalegria eva-
tidos! peito sobretudo quem me bate sem sentimentos. Fiquei tão surpreendida
pudor e a necessária delicadeza de lágrimas desesperadas e dos gemidos pera-se como uma gota de água sobre
sentimentos! Atrevo-me a dizer-lhe a pedra quente! E a volúpia insatis- dó nem piedade. Pergunta-me se ainda com o que me estava a acontecer e
que brotam das dores do parto, das Elfrida senta-se na poltrona que sou capaz de corar? Bata-me, eterá tão intensamente me deslumbrava, .
isto nesta casa de má nota! Conven- dores da existência e da tortura da feita, qual esfomeada imagem da
ça-se, de uma vez para sempre do está junto ao proscênio da direita. desolação, lança-se atodos os abismos a resposta! que não vi o relâmpago cair-me ao
morte, não brilhasse esta única e re-Casti-Piani vai à porta central, dá lado, nem ouvi o trovão à minha
tato com que estas mal afamadas fulgente estrela, há meio século que para encontrar amorte! Se osenhor KONlG - Correm-me arrepios pela
raparigas exercem o seu ofício! A uma olhadelrr para fora edepois sen- não for cruel comigo, pior para si. espinha e pelo peito. Deixa-me ir beira. Acreditei então que avida nos
teria metido uma bala na cabeça! ta-se atrás da parede da esquerda. tivesse sido dada para fi gozarmos
mais humilde rapariga desta casa Que lhe importam os meus gritos embora. Ao vir aqui, esperava colher
conhece a alma humana melhor do ELFRlDA - Não consigo, por mais Kiinig e Lisiska entram pelo centro. da planta odoce fruto. Em vez disso infinitamente.
quando me bater!
que omais célebre professor de psico- que me esforce, adivinhar o sentido Ele tem vinte ecinco anos, veste um disso ofereces-me apenas os espinhos. KONIG - E essa esperança orgu-
das suas palavras. Que raio de luz terno esporte daro, calções curtos. KÕNIG - Se em ti éinato oimpu!-
logia. Eu reconheço à primeira vista '"I so negro de desceres de abismo em Como é que conseguiste passar do lhesa não se verificou? Mas eu estou
a mulher que é feita para o amor, é esse que penetra na noite de sua Lisiska veste um simples vestido bran- caminho florido para omatagal cer- afalar-te como um cego que falasse
existência? Que flor é essa que não co que lhe chega ameio da perna, abismo, então sinto remorsos de ter
porque as linhas do seu rosto irra- haver escolhido, a ti, entre todas as rado? de cores ...
diam inocência e felicidade. (Obser- deve ser calcada aos pés? meias pretas, sapatos decotados de.
tuas companheiras ... Mas havia nos LISISKA - Não deixe insatisfeito LISISKA - Não, foi apenas oins-
vando atentamente Elfrida). Nos tra- CASTI-PIANI (tomando Elfrida [leIa vel'11iz preto, fita branca nos cabelos
teus ollios uma luz de inocente feli- o meu desejo! Não se afa~te com tinto infernal, que não deixou tenha-
ços do seu rosto, minha querida mão esegredando-lhe misteriosameu- soltos.
cidade que deslumbrou os meus senti- tamanha crueldade! Julga que este ma alegria atrás de si.
senhora, não se lê a felicidade nem te) - É oprazer dos sentidos, minha dos ... desejo ardente nasce porque estamos KõNIG - Quantas raparigas mor-
a inocência. senhora! O trumfante prazer dos .KONIG - Não venho aqui passar presas nesta casa? Não! Só a avidez
LISISKA - E entretanto o tempo reram de amor! E em todas elas o
ELFRIDA (hesitando) ~ portanto sentidos, iluminado pelo sol! Opra- voluptuosamente o tempo na prisão torturante dos sentidos nos prende
vai passando sem que a fúria dos desejo ficou insatisfeito? Como épos-
não acredita que eu possa ainda zer dos sentidos é o raio de luz, a dos teus encantos; e ficar-te-ei reco- aqui! Mas até esse cálculo éfeito sem
nossos sentidos encontre os caminhos sível então que as mulheres se lancem
aprender, com aminha força de von- flor sem par, porque éaúnica felici- nhecido se puder sair daqui sem em- pensar. Noite após noite, eu vejo com
por onde se há de escoar. .. Lá em aos milhões no mesmo caminho que
tade, com a minha energia, com o dade que nada perturba, aúnica ale- briaguez. uma nitidez maior que até nesta casa
cima, com os estatutos e o reló~o tu escolheste? Oh, cala-te, caJa-te! A
meu enorme entusiasmo por tudo o gria pura egenuína que se oferece à LISISKA - Não me fale com tanta os sentidos não encontram paz.
em punho, está sentada atia Adélia; palidez do teu rosto deixa ver clara-
nossa existência terrestre! Creia q~e delicadeza. Aqui, éosenhor odono,
;2
que ébelo, adelicadeza de sentimen-
tos em que falava? desde há meio século nada me retém é o senhor quem manda. Não tenha • conta ecalcula sem tréguas os minu- ELFRIDA (para si, 110 seu esconde-
rijo, com estupefação) - Meu Deasl
mente que a juventude fugiu-te com
a rapidez do vento, E quando per-
tos da nossa felicidade.
deste assim a tua inocência, aquele onde veio eescreva com um sorriso aalma se une aoutra alma, assim ttl ''\v' ELFRIDA (precipita-se para fora do meu valor! E comprometo-me sob I mais do que sensualidade insatisfeita!
que te roubou deixou-te na miséria? o meu nome na sua agenda... Ea me pertences! Só assim eu sou teu! seu esconderijo; apaixonadamente) juramento a não oenvergonhar aos Mas juro-lhe que a minha sensuali-
LISI5KA - Não, mas veio outro mim. .. Amim resta-me a horrível Das íomnas infernais subiste ao céu, - Que foi isto? Como éque eu pude olhtls dos seus clientes! dade não é fraca! Exija-me provas!
imaginar, no meu cérebro árido, o Quer que obeije como louca?
que encontrou prazer e sofrimento. maldição, oinstinto infernal que não ejá não ouves omarulhar dos dese- CASTI-PIANI (quase louco) -
Jurei sempre eterna fidelidade atodos deixa atrás de si nenhuma alegria! jos do amor. Será isto que eu devo prazer sensual? Avida nesta casa é Orem me impede de dar um tiro na CASTI-PIANl (no auge do deses-
esscs jovens ingênuos. Esperava que a KaNlG (milito sério) - Não acre- dizer aos homens. Em poemas casto~, sacrifício de si próprio, ardente mar- cabeça? Quem me ajuda a suportar pero) - Eoque são esíes gritos aos
minha torlura desaparecesse com os dito no que ouço! É uma declaração darei aconhecer ao mundo os sofri· tírio! Eeu, na minha falsa arrogância, estes arrepios gelados de morte?! meus pés, que me dilaceram os ouvi-
outros. Eera sempre aamargura que de amor que me estás afazer?! Que mentos do amor que se vende. Juro-o no meu estúpido orgulho vittuoso, dos?! Estes gritos de desgraça, que
em nome dos eternos astros celestes, considerava esta casa um antro de ELFRIDA - Ajudo-o cu! Venda-
eu encontrava, sem nunca achar dss- horror! Desprezado pelas mulheres, uivam pelas dores do parto, pelas
da luz mais brilhante que ilumina a depravação! me! Efieará salvo!
canso, porque era somente um insíin- quantas noites passei achorar perdi- dores da existência e pelas torturas
to infernal que não dei,ava atrás de damente! E agora é uma prostituta nossa noite! Dá-me uma prova econ- CASTI-PIANI - Estou aniquilado! CASTI-PIANI - Mas quem é a mortais! Não posso mais suportá-los!
si nenhuma alegria. que me balbucia,pela prineira vez na fessa-me eom 'inteira sinceridade: o senhora? Não posso mais tolerar os gritos das
amor alguma vez te deixou satisfêita? ELFRIDA - Gastei miseravelmente
KaNlG' - Assim acabaste por vir vida, palavras dê amoi:!Não"te.êntre~ aminha juventude, que océu fez tão ELFRlDA - Quero encontrar a dores humanas!
ter aesta casa, onde levas uma exs- gas' a qui, seláescolher, àqueles 'que te LISISKA (fá-lo levantar-se) - As rica de sede e de capacidade para morte no prazer dos sentidos! Quero ELFRlDA (torcendo as mãos) - Se
tência de brilho efêmero! Ressoa a escolliem? Eéamim que pedes cen- minhas palavras não poderiam ser amar, no lodo escuro da estrada que ser massacrada no altar ensanguenta- quiser, sacrifico-lhe a minha isccên-
música, o espumante corre sobre as solação?! Se eu estivesse mais junto outras, ainda que me quisesses matar. sufoca aalma! do dos amores sensuais cia! Se quiser, dou-lhe a minha pri-
mesas, rebentam gargalhadas em cada de ti, omeu destino encher-me-ia de Apenas encontrei oinstinto infernal, meira noite de amor!
pavor! que não deixa atrás de si nenhuma CASn-PIANI (atordoado) - Esta CAsn-PIANI - Asenhora? Veil-
alvorada que desponta. Olongo dia é a luz, clara como o dia, que sem dê-la ... asi?! CAsn-PIANI (gritando) - Era só
de trabalho só conhece o rumor de LISISKA - Não acredite no meu alegria... Assim é de resto nesta
casa: todos aqueles para quem oamor se esperar atira por terra o sonâm- ELFRIDA - Quero morrer como o que faltava! (Ouve-se um tiro de
línguas escaldantes, que murmuram amor! Aqui, éum dever fin~r que se bulo que anda na beira do telhado! pistola. Elfrida solta um grito que
palavras de amor. Ao pé de ti, sober- ama. Quer que eu jogue consigo a é tortura infinita e desejo insaciado mártir, morrer como, aquela rapariga
aqui se encontram. E não tomamos ELFRIDA (apaixonadamente) - que há pouco aqui esteve! Não tenho trespassa aalma. Casti-Piani vacila,
ba rainha do prazer, sinto-me um vul· este jogo maldito? Que, em troca do na mão direita segura orevólver ainda
gar mendigo! Vim ao teu encontro seu prazer, eu sinta apenas repulsa? asério os outros visitantes que entram Esta é aluz, clara como odia! porventura os mesmos direitos huna-
e saem. Homens como tu são raros, nos, exatamente como os outros?l fumegante, apertando o peito com li
para comprar com omeu dinheiro uns Mas se maltratar omeu corpo com as CASTI-PIANI - Que faço eu ainda mão esquerda. Cai sobre uma pol-
instantes de prazer. Ah, como eu gos- suas mãos fortes erijas, isso poderá porque não contam, como nós, que neste mundo, se até o prazer dos CASn-PIANI - Deus me livre!
somos comparadas aos animais irra- trona). Per... doe... Isto ... isto
taria de te mancar raivosamente os unir-nos até que a morte me arran- sentidos não émais do que um mas- (Num esgar forçado). Isto - isto que
cabelos! Uma ânsia obscena de prazer que de si! cionais. Mas aceitas consolar este não ... foi ... ele... gente... da
sacre infernal de carne humana, como vê - isto éoriso infernal de escár-
te mantém agarrada àvida! Só pode meu desejo selvagem? mi ...nli .. parte...
toda a existência terrestre? E éeste nio que acompanha a minha queda
ser teu amigo quem se divirta a de- KaNJG - Vestes a túnica branca ELFRlDA (levantando-se de um sal~
KaNJG - Embora sejam obscuros o úuico raio de luz que penetra na no abismo!
prezar os limites da humanidade! Eu da inocência... Nem mesmo esta to ecurvando-se sobre ele) - Deus
casa conseguiu violar-te a alma. Os os caminhos pelos quais atua mão me ' noite tenebrosa da nossa vida mani- ELFRIDA (deixa-se cair aseus pés)
procurava apenas refrescar-me, respi· guia, uma estrela resplandece no alto rizada! Ah! Porque não meti eu, há do céu! Feriu-se?!
rar o vento puro das montanhas, e meus olhos estão deslumbrados com
enos acompanha.
T meio século, uma bala na cabeça?
- Venda-me! Venda-me!
a tua pureza, omeu coração não se CASTI-PIANI - Não ... me...
não sinto vontade de me afogar no Ter-me-ia sido poupada esta vergo- CASTI-PIANJ - Diante dos meus
cansa de mirar atua imagem. Entre- LrSISKA (abraça-o e beija-o) - grite. .. tão... tão alto... aos ...
lodo mais sórdido deste mundo! nhosa bancarrota da minha almal ~Ihos desfilam os temp.os mais hcrrí-
gando-te a todos os excessos, suici- Então vem, meu amorl Conheço há veis da minha vida. Vendi uma vez no meus ouvi... dos... por... por
LISISKA (suplicando) - Fique! Se das-te sem tréguas elutas com aalma muito uma re~ão da maior voluptuo- ELFRIDA - Quer que lhe diga o [a... vor...
me abandona, faz-se outra vez noite asangrar de dores jamais pressenti- mercado do amor uma criatura que
sidsde, onde orepouso é eterno e que pode fazer ainda neste mundo? Ê
à minha volta! Não se vá embora! das, com amorte no rosto, eocora- não tinha sido feita para isto! Por ELFRIDA (recna at~rrada, levando
nada jamais o pertuba. Ah, se eu negociante de mulheres, não éverda-
Cada palavra que sai dos seus lábios ção a transbordar de um ódio esal- de? Egaba-se de oser! De qualquer causa desse delito contra a natureza as mãos à cabeça e fixando Casti-
pudesse morrer às tuas mãos! passei atrás de uma grade seis anos Piani. Num grito) - Não! Não! Não!
magoa-me como se fosse uma cbico- dante por toda avã felicidade deste modo, mantém as melhores relações
tada e atiça o meu desejo ardente. mundo! (Ajoelha-se em frente dela). com todas as praças importantes em inteiros da minha vida!
Mas eu desejaria que me odiasse com Deixa-ne ser o teu amigo, o teu ' Saem os dois à direita. matéria de tráfico de mulheres. Pois ELFRIDA (abraçando-o pelos joe· Depois do tiro disparado en/ra-
taI intensidade que em vez de me irmão! Adádiva do teu corpo está bem: venda-me! Suplico-lhe: venda- lhos) - Suplico-lhe por tudo, pela ram pelas três portas da sala três
ferir com os lábios me agredisse com muito abai'lo de nós. Tão alto coase- CASn-PIANI (precipitmldo-se para me a uma casa como esta! Comigo minha própria vida: venda-me! O raparigas jovens e magras, vestidas
os punhos eenchesse omeu corpo de guiste elevar-me! Posso jurar-te que, fora do seu esconderijo; desmlimado) .. pode fazer um bom negócio!Eu nun- senhor tinha razão! Aminha atividade como Lisiska. Olham curiosamente à
34 dores. Uma vez saciado, volte para deste momento em diante, assim como - Que foi isto?! ' ca amei, mas isso em nada diminui o na luta contra aprostituição 'não era sua volta. Depois de lima hesitação,
avançam até junto de Casti-Fiani e, torrente de lágrimas). De certo nunca "r
I
FRANK WEDEKIND DOS JORNAIS
trocando sinais mudos entre si, pro- sonhaste que fosse uma virgem a
curam discretamente socorrê-lo na fechar-te os olhos! (Fecha-lhe os (1864./1918)
sua luta contra amorte. olhos e cai aos seus pés chorando
desesperadamente) .
CASTl-PIANI (vendo as raparigas)
- Quem... são estes... estes ... BÁRBARA HELIODORA
espíritos ... de vingança... espíritos
de vingança?.. Não... não! ...
FW nasceu em Hanover (Alemanha), filho de um
médico liberal que, desgostoso com o fracasso da revo-
DOUTORA EM SHAKESPEARE
Esta... esta é... Mariella! ... lução de 1848, deixou a Alemanha para' se refugiar na
Bem... bem vejo ... que és tu! ... América. Filho de uma antiga cantora de ópera alemã
Esta. .. éEufemia!. .. E esta. .. é que acabou cantando vaudeville em S. Francisco. Em
Teófila!. .. MmieIla ... MarieIla!- 1872, afamília de FW sai da Alemanha por motivos polí-
Beija-me. .. Mariella!... (A mais ticos, para viver na Suíça. Em 1884 parte para Munique
esbelta das três raparigas curva-se ,"" JAN MICHALSKI
para estudar direito. Em 1885 Wedekind já tem vários
sobre Casti-Piani e beija-o na boca. trabalhos literários (poemas e peças) em que rejeita o
Casti-Piani, aterrado) - Não, naturalismo, apesar de se dar com os escritires socialistas
não ... não! - Assim não! - Bei- naturalistas. Perseguido e condenado à prisão por suas Pela primeira vez, oRio tem um Doutor em Teatro:
ja-me... beija-me ... doutra manei- idéias eseus escritos, escreveu as seguintes obras, algumas Bárbara Heliodora defendeu, na Escola de Comunicações
ra!. .. (A rapariga volta a beijá- proíbidas pela censura: Arte ek1ammon e Despertar de e Artes da Universidade de São Paulo, a sua tese de
o. Asslm....
I) . I A' . I
sSlm. .. assIm.... EIÍlI, OMundo Novo, ODespertar da Primavera (1880), doutoramento intitulada A Expressão Dramática do
per. ..doem-me. .• Eu... enganei- Fritz Schll'igerling (1892), OEspírito da TeITa (1895), Homem político em Shakespeare, tendo sido aprovada com
as!... O... prazer... dos senti- Rei Nicolau, Marquês de Keith, Hidalla Caixa de Pan- distinção e com nota 9,6 pela banca integrada pelos pro-
dos... tortura humana... servidão dora (1904), A Morte e o Demónio (1905, final da tri- fessores Antônio Cândido, Jacob Guinsbnrg, Célia Berret-
humana ... eenfim... a... a... a lega Lulu), iV1úsica, Censura (1907), Daha e outras. tini e Paulo Vizioli e presidida pelo professor Frederic
rendenção!. .. (Está rigidamente Suas peças, a princípio, são inviáveis como repre- Lííto, orientador da tese. Até hoje apenas alguns especia-
direito, os músculos contraídos, os sentação, pois o naturalismo domina os teatros. Toca listas de São Paulo haviam alcançado, através de traba-
olhos desmesuradamente abertos). n guitarra, canta em cabarés, e representa fazendo alguns lhos dedicados ao teatro, o título máximo da carreira
preciso... é preciso... receber... papéis de suas principais peças quando consegue firmar-se acadêmica. O acontecimento é significativo, na medida
de pé... o... o... o Senhor... em que coloca oficialmente no mapa universitário do
(Cai morto). * Tod und Teufel, "dança macabra em como ator.
três cenas", escrita por Wedekind em 1905
ELFRIDA (chorando, às raparigas) e representada pela primeira vez em 1912,
r F\V é um dos primeiros autores que recusam o
tempo como elemento dramático em favor da exposição
Brasil o quantitativamente modesto scholarship teatral
carioca. Por outro lado, oacontecimento étambém signi-
- E agora? Nenhuma de vocês tem étemáticauma das peças mais características da
e do estilo do grande dramaturgo
de um tema. Nele surge, igualmente, uma das primeiras ficativo no sentido de que coroa uma carreira de pes-
coragem? E no entanto foram, para alemão. O fogo gelado que, de extremo a personagens do te"lro contemporâneo: o indivíduo iníe- quisas eestudos caracterizada por uma obstinada eapsixo-
este homem, muito mais do que eul extremo, a percarre, o tom polêmico que grado (teatralmente) num grupo. nada dedicação aum assunto sagradamente teatral: aobra
(As três raparigas, recuam sacudindo nela a denlÍucia do farisaísmo burguês "O expressionismo, que dominará os palcos europeus de William Shakespeare. Dedicar-se ao estudo de Shakes-
acabeça, com uma expressão gelada, assume, a violêncio da luz que derrama
sobre (Jj raízes físicas epsíquic(Jj do amor,
e sobretudo alemães depois da grande guerra, o expres- peare no Brasil ealcançar nesse terreno um prestígio inter-
hesitante emedrosa. EI/rida volta-se, a crueza com que as relações entre o sionismo, movimento cultural que trouxe para o teatro nacional, enfrentando aconcorrência - se é que se pode
soluçando, para o cadáver de Casti- homem eamulher são desfibradas epostas não só alibertação da conceituação dramática do íeatro usar este termo - de milhares de especialistas estran-
a nu, o desenho exasperado d(Jj persona,
Pianê). E tu perdoa-me, perdoa a gellS, naturalista, como oherói simbólico ou alegórico, acons- geiros esuperando as dificuldades de acesso às fontes de
as bruscas, por vezes contraditórias, ciência do cenário como siguo, a parábola da intriga, a pesquisa, virtualmente inexistentes entre nós, éum engaja-
esta pobre miserávell Eu sei que, no mutações do seu comportamento, - tudo
consciência de uma moral social; a consciência de que o mento profissional que exige boa dose de coragem ecoe-
mais fundo da tua alma, me despre- isto, que em AMorte eoDiaba éevidente,
teatro espetáculo éuma arte (irmã da pintura eda poesia; rênda, e ao qual Bárbara Heliodora tem permanecido
zavas! Mas perdoa-me se me atrevo marca uma ruptura deliberada com adra- fiel desde asua juventude. Oque não aimpediu, é bom
maturgia naturalista, então dominante, e começam afundamentar-se as noções de encenação) ede
aaproximar-me de ti! (Beija-o desvai- anuucia o alvorecer, 110 teatro, do expres. "ll
que se diga, de diversificar ao máximo as Suas alividades
36 que éuma arte social (moralizadora eproblemática)".
radamentenlT boclT, rompendo numa sionismo. (Nota do tradutor.)
ligadas ao teatro, que abrangem a cótica jornalística oestudo de Shakespeare tem sido para mim praticamente métodos especificamente shahspearianos da expressão O que o homem político de Shakespeare teria a dizer
'''r
(inclusivc, durante vários anos, no JB), acrítica ensaística ininterrupto, com períodos endêmicos e períodos epidê- I dramática: o que mais me fascina é sua caracteóstica ao homem político brasileiro de 1975?
(em várias revistas nacionais eestrangeiras), uma atuação micos, naturalmente. básica de autor popular, sua inacreditável capacidade de
marcante como diretora do Scrviço Nacional de Teatro encontrar caminhos fáceis, acessíveis, para conduzir o BH - Provavelmente que todo indivíduo deve
(de 1964 a 1967), a encenação de vários espctáculos COI/IO teve a idéia de apresentar a sua tese? Visou a espectador às mais complexas e profundas visões ima~- estar sempre alerta, para poder ter consciência do con-
(shakespearianos ou não), dezenas de conferências e atender com isso alima necessidade concreta? Por que nativas de uma imensa gama de expsriêacias humanas. texto político, sempre cambiante, em que ele se insere.
cursos avulsos, além de uma permanente atuação no ersi- em São Paulo enão no Rio? Por outro lado, considero que o que coloca Shakespeare Foi por esse tipo de aguda consciência do que acontecia
no. Atualmente, Bárbara leciooa Literatura Dramática e muito acima de todos os seus contemporâneos (e da asua volta que Shakespeare pode escrever suas peças bis-
História do Teatro na Escola de Teatro da FEFlEG, e BH - Aidéia de fazer o doutoramento por tese grande maioria de todos os outros autores) é ofato dele tólÍcas, e dar-lhes significação tão grande, ao contrário
ministra cursos monográficos em nível de pós-graduação partiu de Fred Litto, oprimeiro ame convidar para ensi- de seus contemporâneos, que de modo geral ficavam no
criar universos sócio-políticos reconhecíveis em todas as
na Universidade de São Paulo, sendo que o curso deste nar na Universidade de São Paulo, eque foi omeu orien- suas obras, enquanto os outros ficam no plano da obser- cronológico eno anedótico. E, creio, deve ser ressai tada a
semestre étotalmente dedicado ao Rei Leal', como odo tador. Foi ele que insistiu que eu tinha de me doutorar, vação psicológica (na qual ele é igualou melhor que preocupação do poeta com aapresentação do problema do
semestre anterior foi dedicado a Hamlet. Bárbara já teve já que estava ensinando e as exigências de titulação são bem-estar da comunidade, tão mais importante por estar
qualquer outro). Por esse caminho enveredei pelas pe-
também algumas cxperiências como atriz, aprimeira.das cada vez mais rigorosas. Todos nós que ensinamos na presente não só nas chamadas peças políticas, como tam-
ças históricas inglesas e nelas procurei identificar as si-
quais altamente sintomática: muito jovem ainda ela fez a Escola de Teatro da FEFlEG estamos há anos enfren- bém em todas as outras, sempre associada ao problema
tando esse problema. Ê extremanlente complexa aquestão ,..,. tuações colocadas em termos dramáticos. Do que verifi-
sua estréia no elenco do Teatro do Estudante do Brasil, do bom e do mau Governo.
de exigência de titulação para os professores de Teatro, quei nesse.estudo pani para uma tentativa de identifica-
interpretando de saída nada menos do que aRainha de
Hamlet, papel posterionnenteassumido por Cacilda pois só agora aprópria Escola de Teatro foi reconhecida ção do desenvolvimento do pensamento político do pró-
prio autor que pudesse ser considerado como motivador Muitos trabalhos teóricos sobre Shakespeare abrirani
Becker. Embora não goste muito de relembrar asua car- pelo Conselho Federal de Educação; os professores vie- caminho auma revisão das encel'llações shakespearianas.
reira de intérprete, écom uma justificada ponta de orou- ram do teatro, porque não havia escolas reconhecidas e, daquele constatado por meio dos textos dramáticos. Parti
das primeiras influências, que ele receberia da família, Acha que asua tese pode conduzir aexperiências cêni-
lho que Bárbara constata ter sido provavelmente aúnica agora, as exigências do magistério superior são muito difí- cas apoiadas !las idéias que você expõe?
atriz ater tido Cacilda como substituta... ceis de se atender. Na USP, que eu saiba, já houve três da escola eda igreja (a frequência era obrigaíéria}, ele-
doutoramentos na área do Teatro: Clóvis Garcia, Miroel mentos todos ligados àmais estrita ortodoxia Tudor. De- BH - Basicamente algumas de minhas idéias po-
Silveira e Jacob Guinsburg (Décio de Almeida Prado e pois, nessa sequência, viriam as influências de Plutarco, dem condicionar algumas alterações de linhas interpre-
Quando ecomo começou oseu interesse por Shakespeare? Sábato Magaldi defenderam suas teses na Faculdade de Innocent Gentillet (que usei como símbolo da ddorma- tativas de certos personagens. Ê claro que qualquer alte-
Desde então oseu estudo do assunto tem sido ininterl'llpto? Letras). Oproblema é que são todos da área teórica, ea ção do pensamento de Maquiavel, em função de ter ele ração interpretativa tem de ter consequências na encena-
BH - Não posso dizer com muita precisão, mas área prática, direção einterpretação, continuam sem solu- esoito uma obra que se tornou muito popular, com o ção; porém creio que há menor contribuição para uma
devia ter uns 12 ou 13 anos quando minha mãe me deu ção. Quanto aprocurar aUSP para omeu doutoramento, título de Le Contre-Machiavel) e, finalmente, o préprio linguagem cênica propriamente dita nesta tese do que em
um volume com as obras completas de Shakespeare. creio que foi uma coisa ló~ca, já que a área de teatro Maquiavel. um aJtigo que publiquei na Inglaterra sobre Otelo, há
Claro que omeu iuglês não dava para mais do que ciscar, está tendo todo esse apoio e desenvolvimento por lá. E Ê praticamente impossível dizer assim em poucas alguns anos. Mas éclaro que toda nova visão crítica ím-
um pouco de leve, por trechos famosos e. coisas assim. como venho dando cursos na USP desde 73, a questão palavras, o que está na tese. Quanto ao qJie considero plica nova linguagem cênica; acontece apenas que,para
Mas a vantagem de me llabituar desde o princípio aler da necessidade de cantata constante com oorientador não mais olÍ~al, além da identificação de VIDaS recursos escrever sobre otema que escolhi, meu enfoque não foi
Shakespeare no original foi tremenda. Aqui, na antiga apresentava problemas. Confesso que sinto muito orgulho T dramáticos caracteósticos do autor, creio que devo men- plÍoritatiamente cênico.
de ter obtido meu título lá; confesso também que gestara cionar dois pontos, sendo o prineiro uma interpretação
Faculdade Nacional de Filosofia, tive dois ótimos profes-
de ver aFEFlEG com seus problemas resolvidos eafere-
sores ingleses, os lendários Miss Hull e Mr Church, que cendo pós-graduação aqui no Rio. nova para a inversão da ordem cronoló~ea dos reis na
dentro de um programa panorãmico, me puseram no bom composição das duas tetralogias histólÍcas. O segundo
caminho. Mas foi nos Estados Unidos, aonde fui com uma ponto é a proposta da influência de Maquiavel na obra
bolsa-de-estudos, que comecei a descobrir realmente o Qual foi o seu processo na elaboração da tese? Como de Shakespeare ,que tem sido ignorada ou contestada.
mundo shakespeariano. Tive a sorte incrível de estudar poderia resumir as idéias principais do seu conteMo? Hoje em dia estou totalmente persuadida de que, depois
com Dorothy Bethurum Loomis, do melhor tipo de Quais as hipóteses originais que você levanta?
de aceitar por algum tempo a versão de Gentillet, ele
scholar. Basicamente medievalista (ela me ensinou Chau- BH - Aelaboração foi dolorosa, como é normal chegou a conhecer e compreender com considerável ela-
cer, também) ela éuma shakespeatiana excelente etem em toda tese. Talvez valha a pena dizer que a minha reza li Príncipe e, provavelmente, I Discorsi, de Maquia-
aquela capacidade excepcional de professor, a de tomar tendência inicial foi a de não mexer com Shakespeare, vel. Não creio que tenha aceito totalmente oque leu, mas
oestudo excitante e desafiador. Comecei aler cótica, a mas Fred Litto acabou me convencendo de que eu possivelmente terá identificado o sucesso político dos
descobrir os prazeres da apreciação devidamente (ou pelo tinha de me testar no campo que sempre tinha estudado. ,.", Tudors com alguns aspectos básicos do pensamento do
~8 menos um pouco mais) informada. Realmente, desde então
Já fazia algum tempo que eu vinha me interessando pelos autor florentino. (Do lomal do Brasil 30.8.75)
De um Debate sobre Censura, Visão - Por que exatamente o fim dos anos 50? Que
houve de especial nesse momento? '-I
PUnia Marcos - É hora sim. Essas coses qúe o
Paulo disse são mais importantes para a classe teatral
do que para acensura, porque aclasse realmente se aco-
nais do teatro, da música, do cinema estava falando mais
ou menos a mesma linguagem. Como não havia a pres-
são da censura, havia um movimento de libertação cultu-
promovido pela revista VISÃO . Paulo POIli:S - Exatamente porque essa luta para modou. São poucos os homens da classe teatral que po- raL Desde omomento em que a censura se restabelece,
Impor durante séculos Ulll teatro nacional e popular se dem raciocinar em termos tão brilhantes como o Paulo restabelece-se com ela o colonialismo cultural. Acensu-
tem travado no seio da classe média. Quando, por volta fez. Além do mais, entraram para o teatro, a partir de ra é um braço do colonialismo cultural, é um agente.
de,1955, depois de uma década de democratização, o 1968, muitos empresários que ainda não têm compro-
pas começava a se revolver, a cultura e, palticularmen- misso com o espetáculo-idéia. Oproblema deles é bilhe- Plínio Marcos - Ocolonialismo cultural é a ex-
teria e ganhar subvenção. Esses caras não vacilam em pressão da dominação econômica. Omaior exemplo disso
te, o teatro sentiram os reflexos. E criou-se aqui uma
Paulo Autran - Oque não entendo são as relações nenhum momento em mpcrtar cultura e não arriscam são os Bob Wilson que vieram. Quando nó ano passado
do teatro com a censura no Brasil. É absolutamente in- dranaugia voltada para a análise dos problemas brasi-
um tostão numa peça perigosa, isto é, que possa ser proi- a temporada do teatro em S. Paulo estava caindo pelas
compreensível a gente sentir que uma parte do governo leiros. Aquela luta pela implantação do teatro popular bida pela censura. Isto tudo tem que ser alertado neste tabelas, eles resolveram financiar um festival de nível
fala em amenizar acensura - éverdade que não se fala atingiu oponto mais alto nesse momento e, pela primeira momento. Esse negócio de que agora não devemos falar, internacional. E então vieram espetáculos em língua es-
em abolir - enquanto outra parte trabalha para estabe- vez, teve-se a certeza: é preciso criar um nexo forte en- não. trangeira e alguns falados em língua nenhuma. É o que
kcer maior rigor. Outro paradoxo é que o teatro não tre acultura da classe média eacultura do povo para se eles usam para abalar a existência de mais de quatro-
existe oficialmente no Brasil, não há profissão de ator. fazer um teatro autenticamente popular. Não era uma Paulo Pontes - Não estamos em desacordo. Acho centas peças nacionais proibidas.
'·""'1

E, no entanto, é justamente contra essas pessoas sem aliança estética, em que o artista da classe média se co- que o teatro brasileiro, comprometido com toda uma
profissão que o governo exerce um controle descabido. loca como um oportunista, tirando do povo suas íormas corrente de pensamento que foi golpeada, esse continuou Visão - Pelo que disseram, pode-se chegar àconclusão
exóticas de cultura. Não. . resistindo. Cometeu muitos equívocos, às vezes se deses- de que o colonialismo cultural é o elemento
Orlando Miranda - Embora oproblema da censu- Antes de ser uma aliança política entre aclasse mé- perou, em alguns momentos se omitiu, em outros tentou estrutural eacensura oconjuntural?
rn aíete toda uma política que o SNT possa pretender dia e o povo, compreende-se nas mesmas contradições deboche, se autodebochou, tudo como manifestação de-
traçar, quero deixar bem claro qne oproblema da censu- e encontrando-se para superá-Ias. Oque se golpeou nos formada de sua impossibilidade de se exprimir. Mas hoje, Paulo Pontes - A censura já' se transformou em
ra é do Ministério da Justiça e não nosso. anos 60 foi toda uma frente política que se refletiu na depois do desespero, depois da importação de vanguar- elemento estrutural também. Desde Anchieta o teatro
cultura, quando a classe média e o povo se juntaram da, depois da omissão e do autodeboche, acho que está tem sido censurado e colonizado. Ocolonialismo é,' na
Plínio !'vIarcos - Acensura égrave, mas para mim para formar aqui um projeto nacional. Opovo não era, demonstrado que só há uma saída para teatro brasileiro: verdade, a expressão da dominação econômica. Quando
o mais grave é que muitos artistas estão acomodados, como se pensava, um rebanho de marginalizados. Era évoltar a se ligar aos problemas do povo brasileiro. eram os portugueses, a luta do dramaturgo brasileiro
fazendo textos medíocres e culpando a censura. uma coisa ideologicamente mais complexa. Era todo cosistia em tentar impor aprosódia brasileira nos palcos;
grupo, pessoa ou classe social interessado efetivamente Plínio Marcos - Certo. Mas como é que você vai quando eram os ingleses, a cultura era inglesa. Porém,
Pontes - Oacomodamento, se há, é resultante da na emancipação econômica do país enão comprometido concorrer com espetáculos testados na Broadway, que mais grave do que a transposição de espetáculos ou pe-
censura. O problema não depende do nosso arbítrio. com as classes espoliadoras do processo de criação de vêm precedidos de uma tremenda propaganda, que en- ças teatrais éaimportação de padrões de crIação. Trazer
Vamos refletir mais profundamente sobre oproblema da riqueza do país. Isso é que foi golpeado. Tentou-se im- tram aí esmerilhando? uma peça dos Estados Unidos para cá não importa tan-
censura, que não é apenas da nossa época e nem só to; oque importa é que a estética nascida naquele país,
por ao povo um movimento inverso àquele. Em vez de 1"
referente a uma divisão do Departamento de Polícia Visão - Paulo Pontes disse que um dos maiores obstá- os padrões de criação se transpõem para aqui, eoartista
Federal. Vamos aproveitar esta mesa redonda para ver fazer uma frente com o povo, a classe média se une
culos ao desenvolvimento. de 11111 teatro nacio- brasileiro vira um braço do colonialismo cultural. Por
como se tem travado aluta para fazer um teatro nacional agora aos interesses dos exploradores e tenta criar um
nal epopular tem sido acensura eocolonia- ex.emplo, que significação tem para nós toda essa esté-
epopular, que encontrou sempre dois inimigos: acensura modelo que, aliás, já se está escoando. Neste momento,
Usmo cultural. Qual arelação entre um e 01111'0 tica desesperada que se importou para oBrasil em nome
eocolonialismo cultural. Aí está aluta de João Caetano o que está sendo golpeado é a aliança de setores mé- do vanguardismo, quando o vanguardismo de ua país
dios com o povo para criar um projeto nacional. Neste fator?
para tentar fazer uma companhia brasileira quando só subdesenvolvido tem de nascer das necessidades mais in-
havia companhias portuguesas aqui; aí está opadre Ven- momento não adianta culpar os burocratas da censura, portantes e profundas da própria sociedade?
que obedecem aordens. Oproblema éqne há uma orien- Plínio Marcos - Um serve ao outro, mas o colo-
tura, nosso primeiro empresário, com o pecado de ser
tação geral que diz: essa estética, essa cultura, essa visão nialismo é picr.O empresário oportunista - falo com •••••••• " •• ' •• ,1, •• , •• , 1 1 1 ••••• , •• , ' •• , •• , •••

crioulo e brasileiro, dentro do Brasil, tentando empresar ressalvas, porque realmente há os preocupados com a
teatro; e a luta do ator Vasques tentando representar do país são enfoques que não nos interessam politica-
mente. Diante disso tudo, começar a questionar qual foi censura - e a censura são dois braços do colonialismo. Rangel - É evidente que há contradições inerentes
como ohomem brasileiro, do jeito que ele era; aí temos ao Governo, mas estas existem até dentro do Govemo
a luta dos comediógrafos da década de 30 para impor o artista que vacilou, qual foi o pobre coitado que teve
Range/- OPaulo Pontes já falou muito bem disso, da China. EntendemoE essas contradições e estamos dis-
a prosódia brasileira aos povos brasileiros. O desfecho de sobreviver, qual foi aquele mais próximo de sua sen-
sibilidade, pegou aqui, alugou ali, não tem omenor sen- mas gostaria de acrescentar que o que aconteceu a par- postos inclusive não apenas adialogar, como até a cola-
desse processo éaquele sobre oqual todos concordamos: .'"
tO foi no fim dos anos 50. tir de 1955 éque um número mnito grande de profissio- borar com aqueles que lutam pela distensão. Aprópria
tido. Não acho que seja ahora.
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parada de lcalro~ aqui em S. Paulo não foi um ato de minha, tenho de passar a viver de expedientes: me
provocação, nm ao contrÍlrio um ge~to em basca do diÍl- agarrar em fio desencapado, trepar em pé de vento etc. ' ' i'.' magando a,nossa forma de defesa. É.~m.maI muito gran- • SERVIÇO NACIONAL DE TEATRO
logo. de que esta varrendo a nossa corscenoa do palco bra-
sileiro. Agente não fica bravo quando se reune um grupo
Visão - Esses prejuizos estariam afastando prováveis
Plínio Marcos - Ao mesmo tempo, quando você de pessoas para produzir Shakepeare, porque ele acres-
investidores ou deslocando seu interesse para
fala cm contradições dentro do governo, a gente tem de outro tipo de teatro? centa algo à cultura do povo brasileiro. Mas para vender
ter cuidado também com mmobrs; androginia, hippy e todos esses modismos, combato sim,
Por exemplo: 11e~te momento em que o Abajur Lilás até as últimas consequências. RESUMO DAS RESOLUÇÕES DO l.0 ENCONTRO
fuea de Oliveira - A insegurança e o pânico de
provoca um debate, aparecem memgros do partido do que é tomado o teatro afastam qualquer investidor. O NACIONAL DE PROFESSORES DE ARTES
governo querendo transferir a censura do Minstêrio da teatro tornou-se uma aventura de pânico. Paulo Pontes - Como disse oJuca de Oliveira, é CÊNICAS
justiça para oMinistério da Educação, como se os dois um fenômeno contraditório. Não ésó negativo.Vai haver
ministérios fossem de outro governo. Não achamos que realmente melhores condições de trabalho para um setor
, Paulo Pontes - Oque está acontecendo no mo- da classe teatral. Mas odado fundamental éque ofenô-
a censura feita por um policial seja diferente da censura mento, agravado pelas dificuldades da censura é que co- O 1.0 Encontro Nacional de Professores de Artes
feita por intelectual. Estão querendo dar dignidade à meno vai expropriar das fontes de produção do teatro no
meça a se criar em S. Paulo e no Rio um bolsão com Brasil os artistas e autores que mais têm contato com a Cênicas, realizado em Brasília nos dias 11, 12 e 13 de
censura, coisa impossível, porque censura é sempre cen- excessivo poder aquisitivo: Uma porção de novos ricos, julho de 1975, sob opatrocínio do Serviço Nacional de
sna Não queremos Conselho Superior de Censura, pois, realidade, e oprejuizo cultural vai ser grande.
como resultado da concentração de riqueza. Gente que Teatro com o apoio do Programa de Ação Cultural do
como disse Milor Fernandes, se écensura, não pode ser Mas se estavamos vivendo a Idade Média e chega Departamento de Assuntos Culturais do Ministério da
há dez anos fumava Hollywood sem filtro e agora está
superior. ocapitalismo, não vamos ficar lamentando: "Ai que sau- Educação eCultura, da Secretaria de Educação e Cultura
fumando Rothmans com ponta dourada; comprava fusca
e está com projeto de comprar Galaxie e botar chofer. dades da Idade Média". Onegócio é arealidade que se do Distrito Federal e da Fundação Educacional do Dis-
Visão - Plínio, você tem fama de ser um autor meio No mercado de diversões, não havia um produto àfeição impõe. Asaída eu acho que édisputar esse bolsão.
trito Federal com aparticipação de representantes de 15
zangado, mas oFlávio se referin às suas an- desse novo consumidor. Agora esse bolsão de poder aqui- Estados e mais do Distrito Federal, teve como objetivo,
danças em Brasília em busca de aprovação ~itivo começa a impor também o seu gosto e os seus Plíllio kJarcos - Nós tentamos disputar, com o olevantamento da situação do Teatro na Educação nas
para sua peça. Com quem você conversou? padrões de consumo ao mercado de diversão. E aí entra Abajur, efomos esmagados. várias re~ões do país e oencaminhamento de sugestões
o empresário oportunista de que falou Plínio, alicerçado que equacionassem soluções para os problemas existen-
Plínio - Fui do mais humilde censor aos escalões nesse problema de base que é a excessiva concentração Paulo Pontes - Está bem, Plínio, mas por termos tes.
mais altos, sem queimar etapas. Em todos consegui um de riquezas num setor da população. Mas aquele empre- apanhado não vamos voltar para casa chorando. Em face Segundo o depoimento dos representantes dos vá-
tratamento do mais alto nível de respeito humano. Só sário tradicional, o que escolhia a peça para montar, desse problema, está começando asurgir aseguinte men- rios Estados, verificou-se que aLei que estabelece aobri-
que nenhum tinha condições de tomar decisão para li- esse vai acabar. Em seu lugar vai ~urgir o especulador, talidade: vamos criar um circuito paralelo, um mercado gatoriedade da Educação Artística no sistema de ensino
berar, só decisão para proibir. Oque chamam diálogo como já está surgindo. Evão naser neste país, que é junto ao estudante etc. Acho que mercado paralelo é dos 1.0 e 2.° graus, não está sendo aplicada ou, nos
parece ser a paciência que eles têm de ouvir os nossos medieval no nordeste epre-capitalista em Minas, aBroad- coisa importante, mas aluta principal épara defender o casos de aplicação, funciona de forma precária.
argumentos para fazer prevalecer odeles. Culminou com way eaoff-Broadll'ay. palco brasileiro como centro de nossa atividade. Se sur- A precariedade dessa aplicação manifesta-se espe-
uma audiência marcada com oMinistro da Justiça, que giram no Rio 200 mil espectadores, temos que disputá- cialmente pela carência de recursos humanos suficiente-
não me recebeu e mandou um chefe de gabinete que 1" -los. Vamos tentar criar um espetáculo para essas 200 mente preparados e pela ausência de condições que im-
Juca de Oliveira - Mas nós não nos vamos colocar
fazia questão de declarar a todo momento: "Não estou
contra a existência de uma indústria de espetáculos. Isto I mil pessoas. Fugir delas éirpara omarginalsmo, que é pulsionem o seu desenvolvimento.
aqui para falar, estou aqui para ouvir". E ouviu, ouviu, apior solução.
éauspicioso, até mesmo para acultura brasileira. Aexis- Diante do quadro de carência, do interesse das au-
ouviu. Conclusão, só eonversei com pessoas que não po- .. , . toriedades responsáveis e da grande demanda por parte
diam tomar decisão. tência de uma Broadll'ay não éum mal, éexcelente, mes-
mo porque não seria lícito argumentar com os atores de educandos eeducadores, aAssembléia do I Encontro
...................................... - . que esses espetáculospagam bons salários, mas não são Nacional de Professores de Artes Cênicas julgou oportu-
bons. no recomendar:
Visão - Quanto l'ocê chegou aínvestir l1a peça?
Plínio Marcos - No momento em que agente não 1. ampla difusão de diretrizes, objetivos e critérios
Plínio Marcos - Não fui eu. Oprejuizo quem teve tem condição de defender onosso mercado de trabalho, metodológicos relativos à inserção das artes cênicas no
foi oAmérico Marques da Costa, uma pessoa ligada ao coloco-me contra. Recebo muitas cartas dizendo: "Plínio, quadro das atividades docentes;
teatro que produziu apeça animado com apossibilidade você que é a favor da liberdade de expressão, por que
de uma abertura. Ele gastou quase 200 mil cruzeiros. O 2. valorização da atividade nas propostas curricula-
combate a andro~nia, aimportação de cultura? Elas não
12 meu prejuizo ésimples: cada vez que proibem uma peça têm direito de se expressar?" Não, porque elas estão es- res com aprevisão de lima carga horária suficiente para
(De Visão,29/6/1975) um trabalho eficaz;
3. esclarecimento junto aos diretires dos estabeleci- ,
"'!"14': TEATRO DULCINA TEATRO IPANEMA TEATRO MESBLA
mentos de ensino, para que sejam criadas condições ao (Tel. 232-5817) (Te!. 247-9794) (Te!. 242-4880)
pleno exercício das atividades de artes cênicas;
4. conscientização dos educadores quanto ao po- Tudo na Cama, de Jean Hartog. Testemunhas da Criação, de Do- A Venerável Mme. Goneau, de
tencial globalizador das atividades teatrais na ação edu- Direção de Derci Gonçalves. Com mingos de Oliveira. Direção de João Bethencourt, direção do autor.
cativa, independentemente de áreas de estudo e discipli- MOVIMENTO TEATRAL Derci Gonçalves, Angelo e Leda Domingos de Oliveira. Preço 30,00. Com Hildegard Angel, Milton Morais,
nas pedagógicas; Amaral. Preço 40,00. Corpo aCorpo, de O. Viana Filho. Ivan Cândido eoutros. Preço 50,00.
5. concretização, em todo o país, da licenciatura OAuto da Compadecida, de Aria- Direção de Aderbal Júnior, com Gra- Oh, Carol! de José Antônio de
cm Educação Artística com possibilidade de habilitaçãó no Suassuna. Dircção de Agildo cindo Júnior e Daise Poli. Preço Sousa. Direção de J Soares. Com
ô

em Artes Cênicas, na forma da lei; Ribeiro. Com Agildo Ribeiro, Marcia 40,00. Teresa Raquel, Sandra Brea eoutros.
(JULHO-AGOSTO-8ETEMBRO-1975)
6. adoção de critérios mais f1exiveis no aproveita- Windsor, Dirce Migliaccio, Ivan Sena, Preço 50,00.
mento de pessoal credenciado por uma experiência com- Roberto Azevedo, Domido Costa,
provada no setor, enquanto não se dispuser de um sufi- I . Edson Guimarães e outros. Preço
40,00.
TEATRO JOÃO CAETANO
ciente número de professores legalmente habilitados; \ (Tel. 221-0305)
TEATRO DE BOLSO ,,,, ~

7. utilização, pela sua importância, das manifesta- TEATRO MAISON DE


ções culturais brasileiras, a nível regiorial e local, nas (Tel. 287-0871) Um Grito Parado no Ar, de Gian- FRANCE (Tel. 252-3456)
atividades de artes cênicas com osentido de preservar e TEATRO GINÁSTICO francesco Guarnieri. Direção de Fer-
revitalizar as raizes de nossa cultura como condição in- Família Pouco Família, de Gerard (Tel. 221-4484) nando Peixoto. Com Othon Bastos,
dispensável a atingir a integração nacional; Marta Overbeck, Miriam Mehler, A Cantada Infalível, de Feydeau.
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8. articulação dos diversos orgãos públicos, fede- Sueli Franco, Milton Carneiro, André
rais, estaduais e municipais, aos quais cabe o compro- Heloísa Helena, Betty Saddy, Vera Direção de João Betheaccurt, com Preço 10,00.
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misso de assumir a responsabilidade de evitar que se Brito e outros. Preço 40,00.
dispersem e se ff~gmentem iniciativas isoladas de real la, Mário Jorge eoutros. Preço 40,00. Castro. Direção de Fernando Peixoto.
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Tônia Carrero, Rogério Freis, Rosita I Ferraz, Ginaldo de Souza, Érico de donça, com Maria Pompeu, Haroldo
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ABarca d'Ajuda, de Benjamin San-


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II
(Te1. 245-5527)
AMulher de Todos Nós, de Henri
Becque. Direção de Fernando Torres.
17' TEATRO OPINIÃO
(Te1. 235-2119)

tos. Direção do autor, com Edgar Com Fernanda Montenegro, Suzi Rudá, de Francisco Pereira da SiI·
Ribeiro, Atenodoro Ribeiro, Marcia I
....;.o.. Arruda, Eduardo Tornaghi e outros. va. Direção de J. Wilker. Pelo Grupo
\4 Cisneiros e outros. Preço 30,00. Preço 50,00. Reló~o Emocionado. Preço ]5,00.
----

TEATRO DA PRAIA Lapsky, Com Costinlm e outros. Bingo, oCoelho Xerife, de Brigite ....I À venda na Secretaria d'O TABLADO
(Tel. 227-1083) Preço 40,00. Blair, no Teatro Miguel Lemos.
As Aventuras de um ReizinflO
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Direção de Antônio Pedro. Com Teresa Raquel.
Débora Duarte, Paulo César Pereira OUTROS ESPETÁCULOS
e outros. Preço 50,00. OGato, oRato eaPantera cor de
Abóbora, de Elíseu Miranda.
Em outros teatros foram apresn-
talos os seguintes espetáculos: O Burrinho Avançado, de Jair
TEATRO PRINCESA ISABEL Pinheiro, no Teatro Galeria.
(Tel. 236-3724) ALiberdade está lá fora, de Flávio OQuati Papa Ovo, de João Ama-
Peixoto, no Teatro Duse. do.
Feira de Adultério, de diversos Os Peixes da Babilônia, de Miguel
autores. Direção de Jô Soares. Com Oniga, na Sala Moliere. Os Três Porquinhos, de Ricardo
Mauro Mendonça, Resanaria Murti- Lavalas. "1

nho, Arlete SaJes e outros. Preço Um Homem, uma Mulher, no Iea-


tro Jaime Costa. A História do Espantalho, no
50,00.
Miguel Lemos. NO PRóXIMO N.o:
OFilho Pródigo, no Teatro Pedro
Jorge. Alice 110 País das Maravilhas, de
TEATRO SANTA ROSA Jair Pinheiro, no Teatro de Bolso. Grol'owski - Pmjeto especial
O Atol' Cara de Bolacha versns
(Tel. 247-8647) Mimi Flaflu, de Marcilio Morais, pelo AGata BD/ralheira, de Jair Pinhei- Martins Pena - Inglês Maquinista
Grupo Ensaio, no Teatro da Divina 1'0, no Teatro de Bolso. Autor: MARIA CLARA MACHADO Cervantes - Retábulo das Maravilhas
Os Portugneses, poemas de diversos Providência.
Formiguinha Fofoqueira, de Carlos
autores. Direção de Luis Carlos Ma-
Nobre, no Miguel Lemos. Títulos: Pluit OFantasminfw (conto) ...... 25,00
ciel. Com Valmor Chagas. Preço
40,00, Como Fazer Teatrinho de Bonecos .,. 20,00
Maroquinhas Frufl1l, de MCMa-
cbado, direção de Wolf Maia, pelo A Menina e o Vento, Maroquinhas
ESPETÁCULOS INFANTIS Fruf1'll, A Gata Borralheira eMaria
Gmpo Expressão, no Teatro Opinião.
TEATRO SENAC Minhoca ..................... 30,00
Papo de Anjo, de Ricardo Filguei- Brmlca de Neve eos 7 Anões, de
(Tel.(256-2746) Roberto Castro, pejo Carrossel. ".& Pluft o Fantasminha, O Rapto das
ras, no Gláucio Gil.
t Cebolinhas, Chapeuzinho Vermelho
A Noite dos Campeões, de Jason Era ullla vez ullla Ilha, de Paulo Quem Quer Casar com D. Barati- O Boi eoBun'o eABrrLYinha que
Miller. Direção de Ceci! Thiré. Com Afonso de Lima, no Museu de Arte nha, de Roberto Castrq. era Boa ........ ·············· 30,00
Sér~o Brito, Halo Rossi, Carlos Moderna. Com Isolda Cresta, João ChapéuzinllO Vermelho, de Reter- OEmbarque de Noé, AVolta de Cama- CADERNOS DE TEATRO - assinatura anual
Kroeber, Otávio Augusto e Zanone Carlos Barroso, Teresa Barroso e to Castro, pelo Carrossel. leão Alface eCamaleão na Lua .,. 30,00 (4 números) - 50,00.
Ferrite. Preço 50,00. outros.
Peteleco-Eco, de José Roberto ODiamante de Grão Mogol, Tribobó
Dr. Baltasar, oTalentoso no Mun- tro Senac. City eoAprendiz de Feiteiceiro .. 30,00
do da Imaginação contra oDr. Drás-
TEATRO SERRADOR tico, de Luis Gonzaga Jr. e Neila Os Músicos de Brenien, de Grimm, Cem logos Dramat/cos
r ,»
............ 10,00
Estas publicações poderão ser pedidas à Secretaria
(Tel. 232-8531) Tavares, no Teatro da Praia. no Iearo João Caetano. Pluft (gravação) ................. 20,00 d'O TABLADO mediante pagamento com cheque
Margarida Curiosa visita aFloresta Zé Vagão da Roda Fina esua Mãe Embarque de Noé (música-gravação) 20,00 visado em nome de Eddy Rezende Nunes - O
Veludo oCostureiro das Dondocas, Negra, espetáculo de bonecos pelo Leopoldina, de Sílvia Ortof, no Tea- TABLADO, pagável no Rio de Janeiro.
46 de Jorge Murad. Direção de Olga Carreta, no Teatro Casa Grande. . tro Opinião. Tribobó (gravação-musical), ........ 20,00
.
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Textos àdisposição dos leitores na Secretaria d'O TABLADO

Anan-Ieun oGuarda dos Pássaros 64


Anônimo (séc. 15)
Andrade Oswald
Todomundo
A Morta
62
52
I'
I!
Arrabal Fernando Piquenique no Front 54
Guel'llica .,., ... , ,', ,.. ,.. " , 50
Brandão· Raul O Doido e a Morte 63
Brccht Bertolt A Exceção e II Regra 61
Cervantes O Tribunal dos Divórcios 63
ORetábulo das Maravilhas ., ,..... 66
Coctcau Jean Édipo Rei , ,............... 58
Checov Anton O Urso 29
O Jubileu ., ,.,........................ 46
Os Iv/ales do Fumo 49
França Júnior Maldita Parentela 55
Labiche Eugcne A Gramática 47
Macedo J Manuel O Novo Otelo 43
Machado de Assis Lição de Botânica , , , , 61
Machado MC Os EmbmlllOs 47
As Inleijerências 56
Um Tango Argentino 57
Marinho Luiz A Derradeira Ceia 59
Martins Pena As Desgraças de uma Criança " ". 45
Maeterlinck A fntl'llsa "." ,., .. ,.. ,... 65
Qorpo-Santo Eu Sou a Vida 45
Mateus & Maleusa 65
Souto Almeida OJogo da Independência ,.. , ,. 54
Synge JM A Sombra do Desfiladeiro , 51
Tardieu Jean Conversação Sinfonieta , , ,........•. ,. 48
Um Gesto por Outro 64
Yeats O Único Ciúme de Emer ,.. , ,.. 43

Acham-se esgotados os seguintes ns, dos CADERNOS: JJ.. IGmRPAF:eICAsso porEDITORA DO LIVRO LIDA
48 D,o 1/16-19/23-30/42.
\ Rio de Janeiro, Brasil '
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