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LARGO DO DESTERRO

A vida eterna de Ramiro Taborda


JOSUÉ MONTELLO
Romance

Contracapa

'O romance é mais do que um passatempo, com o interesse que possa despertar na
sua leitura - é sobretudo uma forma de conhecimento do ser humano, tanto na
ordem
social quanto na ordem individual. Cada um de nós é um enigma. E é para decifrar
o nosso próprio mistério que vamos vivendo. Assim deve ser também o romance.
Cada
romance é um enigma que propomos ao nosso leitor. Sem esquecer que nós,
romancistas, mesmo que não o queiramos, somos seres de nosso tempo, a que
estamos presos.
Por isso mesmo, quando construímos a nossa ficção, ainda que supostamente
imaginada, ou estamos testemunhando, ou estamos acusando. Todo escritor -
notadamente o
poeta e o romancista - deve ser engajado. Mas engajado na própria verdade. Assim
entendo o meu ofício. E assim escrevi este Largo do Desterro."

J. M.

EDITORA NOVA FRONTEIRA


SEMPRE UM bom LIVRO

Orelhas:
Largo do Desterro
Se um de nós chegar a cem anos, a cento e dez, a cento e vinte, a cento e
cinqüenta, seria isto um bem ou um mal?
Josué Montello responde à nossa curiosidade, com este surpreendente Largo do
Desterro, cujo personagem central, o Major Ramiro Taborda, sobrevive a todos os
seus
contemporâneos, com o seu chapéu alto, a sua sobrecasaca e a sua bengala de
castão de ouro, lúcido, de passo firme e cabeça erguida. Conheceu Dom João VI e
o Presidente
Vargas. Assistiu à Comuna, em Paris, e à Segunda Guerra Mundial. Andou de
carruagem e de automóvel. Viu quando as mulheres ousadas só podiam mostrar a
ponta dos
pés e quando começaram a exibir-se com os primeiros biquínis. Ora a arregalar os
olhos espantados, ora a contrair intrigadamente as pálpebras, tem ele a
impressão,
ou de que os seus semelhantes endoideceram, ou de que o doido é ele, e assim
vive a sua experiência existencial com a sensação de que a morte o esqueceu.
com este romance, Josué Montello volta a dar dimensão universal à sua ficção,
sem prejuízo do retorno ao ambiente em que situou Os Tambores de São Luís, A
Coroa
de Areia, o Cais da Sagração, Os Degraus do Paraíso.
Saudado pela crítica nacional e estrangeira como um dos mestres da ficção
contemporânea, o autor de O Silêncio da Confissão - lançado por esta editora em
1980 -
nos dá, agora, com Largo do Desterro, o seu mais original romance, como tema e
como urdidura. A Nova Fronteira,
comprometida hoje com o lançamento de toda a obra romanesca de Josué Montello,
orgulha-se de publicar seu novo romance, com a plena convicção de que este livro
corresponderá plenamente à curiosidade do público de língua portuguesa.
Duas opiniões sobre Josué Montello
Geralmente ligamos o conceito de genialidade à desmesura, à força criadora que,
vindo da zona obscura do irracional, transborda de todos os limites. Nisto
continuamos
fiéis a uma ótica romântica. Mas também há uma espécie de genialidade que
consiste em dominar e exprimir o real em obras de arte que são construções
perfeitas, imperecíveis,
em que nenhum pormenor é supérfluo e tudo se concentra no lugar certo. Mestre do
romance de língua portuguesa, Josué Montello revela esse talento: sem atraiçoar
a riqueza da vida, subordina-a na escrita a um ideal de contenção, de
equilíbrio, de acabamento. Algo na literatura como os grandes quadros de
Velásquez.
Jacinto do Prado Coelho
Entre os nossos romancistas de todos os tempos, Josué Montello será, hoje, um
dos que, de modo mais completo e magistral, sabem traçar o plano de um romance.
Ou
antes, toda a gama da série de romances com que. a exemplo de José de Alencar,
vai abraçando, aos poucos, toda a realidade brasileira.
Alceu Amoroso Lima (Tristão de Athayde)

JOSUÉ MONTELLO
LARGO DO DESTERRO
A vida eterna de Ramiro Taborda
Romance
2 edição
EDITORA NOVA FRONTEIRA

©
1981 by Josué Montello
Endereço Telegráfico: NÍOTRONT ~ ^ 2*22 R'o de Janeiro - RJ
Capa
VlCTOR BüRTON
Revisão:
JORGE URANGA
CLARA RECHT DIAMENT

A Yvonne, minha mulher,


pelo muito que lhe devo
desde que nos encontramos,
E ao Horácio e ao Armando, como se também fossem meus filhos.
J. M.

FICHA CATALOGRÁFICA
CIP-Brasil. Catalogação-na-fonte.
Sindicato Nacional dos Editores de Livros, Rf.
Montello, Josué.
M7811 Largo do desterro : romance / Josué Montello. - Rio de
Janeiro : Nova Fronteira, 1981.
81-0628
1. Romance brasileiro I. Título.
CDD - 869.93 CDU - 869.0(81)-31

Yo no digo esta canción Sino a quien conmigo vá.


Romance del Conde Arnaldos
Non moins authentique est lê fameux paysan
norvégien J. Gurrington, qui, mort à l'age de
160 ans, aurait laissé de son dernier mariage
un fils de 9 ans, dont lê frère ainé en avait 108.
Jean Finot - La Philosophie de la Longevité - Paris - 1919.
Primeiro que ele, se apresentou o velho Matroá, todo curvado com o peso de 120
anos de idade e de crimes, arrastando uma longa espada.
D. J. Gonçalves de Magalhães - Memória Histórica da Revolução da Província do
Maranhão - Opúsculos Rio de Janeiro - 1865.
Logo ao chegarmos à aldeia de Coieup, visitando o Senhor de Rasilly as
choupanas, foi ter à casa de um velho chamado Su-assuac, dos principais e mais
antigos, pai
da mulher de Japiaçu, de quem já falei como sendo o maior morubixaba do
Maranhão. Este índio tinha cento e sessenta e tantos anos.
Claude d'Abbeville - História da Missão dos Padres Capuchinhos na Ilha do
Maranhão - tradução de Sérgio Milliet - São Paulo - 1945.

SUMÁRIO
I. No tempo do entrudo, 11
II. Um baile para Lorde Cochrane. 51
III. O retrato da Minervina, 69
IV. Caiu Malafaia, 97
V. Em busca da Zulmira, 121
VI. Na virada do século, 147
VII. Intermédio erótico, 161
VIII. Voltas do caminho, 159
IX. Longe do mundo, 211
X. A volta, 235
XI. A apoteose, 279
XII. A derradeira volta do caminho, 305

No tempo do entrudo
CAPÍTULO I
DOM XISTO ALBANO, que tinha os olhos pulados, deu a impressão de que os
aumentava por trás dos óculos, com o espanto a lhe tomar a cara escanhoada, logo
às primeiras
linhas da carta do Governador Colares Moreira. Virou rapidamente a folha de
papel de linho, leu-a até o fim, sempre de sobrancelhas franzidas, dobrou-a,
tornou a
metê-la no envelope, e olhou de frente a senhora de preto, cheia de carnes, que
se esparramava num dos cadeirões de couro da sala de visitas do Palácio
Episcopal,
a abanar-se com um leque de madrepérolas:
- Na igreja de Santaninha, no domingo de Carnaval?
- Sim, Senhor Bispo.
- Impossível, minha senhora. Totalmente impossível. Não há padre, aqui em São
Luís, que aceite celebrar missa nesse dia, naquela igreja. Nem eu daria ordem a
qualquer
deles, para que se expusesse ao risco de um vexame público, que atingiria ao
mesmo tempo o sacerdote, o bispado e a Igreja.
E levantando-se da imponente cadeira de espaldar tauxiado, como que feita de
propósito para a sua figura esguia:
- Eu, de minha parte, teria o maior gosto em atender a um pedido do Senhor
Governador, Mas não este. Sou muito grato às atenções de Sua Excelência, devo-
lhe substancial
ajuda para a construção deste palácio, mas tenho de levar em conta, em primeiro
lugar, no governo da Diocese, o respeito e a austeridade da missão eclesiástica.
Uma missa, na igreja de Santaninha, no domingo de Carnaval, seria mais do que
uma imprudência - seria um desatino, no meio de toda aquela loucura. E vou dizer
isto
mesmo, pessoalmente, ao Senhor Governador,
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na visita que espero fazer-lhe, ainda hoje, como prova de meu apreço.
Caminhou até uma das janelas da sala, sem ruído, como se apenas roçasse o soalho
de tábuas corridas, alongou a vista pensativa para a baía de São Marcos na
claridade
alta, que começava a estriar-se de tons róseos, e novamente se voltou para a
senhora de preto, que enxugava os olhos com um lencinho perfumado:
- Que significa esse choro, minha senhora?
- É o desespero de uma filha que não sabe mais o que há de fazer. Antes de falar
ao Senhor Governador, para que fizesse o pedido ao Senhor Bispo, falei com o
Padre
Cantuário, como vigário da igreja de Santaninha, e ele me disse o que o Senhor
Bispo acaba de me dizer. Falei com papai. Papai bateu o pé. Ou a missa vai ser
lá,
ou então não haverá missa.
Dom Xisto veio mais para perto, intrigado:
- E por que a missa tem de ser lá, e não na igreja do Desterro, que fica a dois
passos da casa de seu pai? Ou então na Sé, aqui ao lado do palácio? Ou na igreja
de São Pantaleão? Ou na igreja do Carmo? Igreja é que não falta. Temos ainda São
João, Santo Antônio, Rosário, Remédios. Diga ao Major que escolha. Em qualquer
delas,
a missa será rezada. Menos na igreja de Santaninha.
A senhora voltou a curvar o rosto congestionado, enxugando as lágrimas, enquanto
o Bispo estranhava, parado à sua frente, de braços cruzados, a cabeça inclinada:
- Qual a razão desse choro, minha senhora? - indagou, batendo seguidamente nos
braços com a ponta dos dedos. Veja bem que estou de acordo com a missa. Só não
estou
de acordo com o local da missa, na data escolhida.
E ela, sem levantar a vista, após um silêncio, com o lenço amarfanhado diante
dos olhos:
- Por mim, Senhor Bispo, eu escolhia a igreja do Desterro. Mas papai, como todo
velho, é teimoso, e não abre mão da igreja de Santaninha. Foi por isso que
apelamos
para o Governador, que é nosso amigo, e para Vossa Reverendíssima, que conhece
papai. Tem de ser na igreja de Santaninha e no domingo de Carnaval.
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O Bispo, já a ponto de exaltar-se, descruzou os braços:
- E por quê?
- Porque foi na igreja de Santaninha que papai foi batizado. Foi lá que foi
crismado. Foi lá que fez a primeira comunhão, foi lá que casou, foi lá que meu
irmão
e eu fomos batizados e crismados, e foi lá que eu me casei.
Dom Xisto Albano entrelaçou os dedos, estalou as juntas, deu mais brilho aos
olhos:
- Muito bem. E por que tem de ser no domingo de Carnaval? Sim, por quê?
- Porque nesse dia é o centenário de nascimento de papai. Dom Xisto ficou um
momento com a boca entreaberta,
deixando ver a fileira dos dentes miúdos no maxilar inferior, ao mesmo tempo em
que levantava a curva das sobrancelhas, aumentando os olhos por trás das lentes:
- Cem anos? O Major Taborda vai fazer cem anos? Não, não é possível! Cem anos?
Ele vai fazer cem anos?
E ainda espantado, voltou atrás:
- Sendo assim, diga ao Major Taborda que autorizo a missa na igreja de
Santaninha, no domingo de Carnaval. Mas que ele próprio providencie o padre para
rezá-la.
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CAPÍTULO II
PRIMEIRO o MAJOR Taborda falou ao Padre Fulgêncio. E este prontamente aquiesceu
em celebrar a missa. Era uma honra para ele. Se o Major chamasse outro padre,
magoava-se.
Não, não admitia, sobretudo considerando que se tratava de um centenário. Mas
quando o velho lhe disse que tinha de ser na igreja de Santaninha, o padre
saltou para
trás, horrorizado:
- O caso mudou de figura, Major. Por ali, no domingo de Carnaval, eu não
apareço. Sei o que é aquilo. Antes de tudo, tenho de zelar pela minha condição
de sacerdote.
A malta dos mascarados não respeita ninguém. Da janela da casa de meu padrinho,
na esquina da Rua dos Remédios, vi coisas inacreditáveis, que ainda hoje me põem
os cabelos em pé. Só não meteram Dom Cândido de Alvarenga numa tina de água
suja, besuntando-lhe a cara com pós de sapato, porque o Comandante do 5.°
Batalhão de
Infantaria, que estava no Quartel, acudiu com rapidez, tirando o nosso Bispo das
mãos dos celerados. E olhe que era Dom Antônio, de quem até o Diabo tinha medo
quando o via de cara amarrada.
O Major apelou, na mesma tarde, para o Padre Higino, para o Padre Fonseca, para
o Cônego Tavares, para o Arcipreste Robalinho, que lhe devia oito meses de
aluguel
de casa. E a reação foi a mesma, ao saberem da igreja e do dia da missa. O Padre
Robalinho chegou a admitir uma providência absurda, para sair de seu silêncio
contrafeito:
- Só se o Comandante do 5° Batalhão cercasse com soldados o Largo do Quartel,
proibindo ali o Carnaval. Mas ele próprio reconheceu:
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- Ia dar uma gritaria medonha. Que a Igreja estava contra o povo. Que as Forças
Armadas cediam a caprichos. Os jornais da Oposição caíam em cima de nossa pele,
e
era verso, e era caricatura, e era apelido, tirando-nos o sossego. Ninguém mais,
de batina, estaria livre de um desacato. E a coisa ia render. Acabaria no Rio de
Janeiro, na tribuna da Câmara e do Senado, e tanto eu, que dera a idéia, quanto
o senhor, que se beneficiara com ela, não teríamos um minuto de paz pelo resto
da
vida. Não, não teríamos.
O Major, ao despedir-se do padre, esteve para dar-lhe um aperto, lembrando o
atraso dos aluguéis. Mas, conseguindo conter-se, estendeu-lhe a mão mole, que
repelia
o cumprimento. Trombudo, deu dois passos na calçada, e parou:
- Padre Robalinho, a missa pelo meu centenário será celebrada na igreja de
Santaninha, no domingo de Carnaval. Tome nota do que acabo de dizer. Para mim,
agora,
é um ponto de honra.
O padre, para não se comprometer com as palavras que lhe saíssem da boca,
levantou as mãos, olhou o céu, depois baixou os braços, deixou cair as
pálpebras, a tempo
de ver a ponteira de bengala do velho marcando, rua acima, os seus passos
resolutos.
Zangado, pisando com raiva na cantaria da calçada, o Major parecia ter, no
máximo, sessenta anos, magro, seco, espigado, cor de cobre, os olhinhos
apertados pelo
leque das rugas, os pômulos salientes denunciando o sangue índio, o casacão à
altura dos joelhos, o chapéu de copa alta ampliando-lhe a estatura, a gravata
cobrindo
o papo da camisa, o colete atravessado pelo correntão de ouro do relógio.
Na Rua de Santana, pouco adiante da igreja, o velho parou na borda da calçada,
olhando no sentido da Rua da Cruz, já na descida da ladeira, a lembrar-se de que
o
Padre Pimenta, que havia algum tempo não encontrava, morava ali perto.
Ao estrondo das palmas fortes, no largo corredor atijolado que uma porta baixa
dividia ao meio, respondeu o latido agressivo de um cão, por cima de um alarido
de
crianças e do ruído de uma máquina de costura pedalada com vigor. Enquanto o
Major se punha em guarda, de bengala em riste, pronto para conter o cão, que
insinuava
a ponta do focinho
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pela claridade de uma fresta, uns passos moles, de chinelos arrastados,
ressoaram na direção da porta, que logo se descerrou, deixando passar a figura
gorda do
padre, metido nas calças caseiras, o busto protegido por uma camisa velha, que
lhe descia para os joelhos:
- É o senhor, Major? Bons olhos o vejam.
- O mesmo digo eu, Padre Pimenta. E o padre, abrindo mais a porta:
- Vamos entrando, Major. Não repare a casa. A Turíbia, sempre na máquina de
costura, vai gostar de ver o senhor. Há quanto tempo sem notícias suas, Major.
Nem parece
que moramos na mesma cidade e que São Luís é pequena. Turíbia, olha quem nos
aparece.
Antes que o Major descesse o degrau que ia dar na varanda espaçosa, em cujos
peitoris se abriam as largas folhas de vários pés de tinhorão, uma mulata velha
se levantou
por trás da máquina de costura, com duas covinhas laterais nas bochechas, o
cabeção de linho rendado por cima da saia:
- vou mandar soltar foguetes, Major.
E o Major, a meio caminho entre a máquina e o degrau do corredor, apoiando-se na
bengala:
- Estou aqui para merecer um favor especial do Padre Pimenta, e conto com a
senhora.
- Já está servido - respondeu a Turíbia, deixando-se abraçar. -
Padre Pimenta não vai deixar de atender ao senhor e a mim. O céu vinha
abaixo.
A bulha de seis meninos, cada qual com a sua máscara de papelão, ao fundo do
quintal arborizado, tinha atraído o cachorro, que se punha agora aos saltos,
ladrando
e sacudindo a cauda. E foi o padre quem gritou, ao ver a algazarra crescer com a
troca de cuias de água:
- Entrudo, não! Do contrário, vêm todos para dentro estudar de novo o catecismo!
E a Turíbia, para o Major:
- Não repare. com o Carnaval chegando, estes meninos perdem a cabeça. O dia
inteiro é essa gritaria medonha, que sempre termina com insultos e sopapos,
quando
chega a hora do entrudo. Padre Pimenta, nessa altura, dá um grito, e a
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brincadeira acaba. Fique à vontade, Major. Não se preocupe comigo.
O Major puxou as pernas das calças para cima, deixando ver o atilho das ceroulas
sobre o cano das meias, e deu um impulso à cadeira de balanço, enquanto o Padre
Pimenta sentava à sua frente, no banco de pau contra a parede, abrindo a
conversa:
- Às suas ordens, Major.
- Muito bem - aprovou o velho, sempre a se balançar -, Deus, na sua infinita
misericórdia, me concedeu uma graça especial, que poucas pessoas, neste mundo,
conseguem
alcançar: domingo que vem, estarei completando cem anos.
A Turíbia não se conteve:
- Cem anos, Major? E sozinho na rua, sem precisar da ajuda de ninguém?
E o velho, com orgulho:
- É como diz, Dona Turíbia. Deus quer que eu viva, e eu vou vivendo com muito
gosto. Tão cedo não pretendo me despachar deste mundo. Boa vista, bons
dentes,
boa saúde. A mesma disposição física e mental. Ainda não sei o que é dor de
cabeça. Enquanto estiver assim, vou levando o barco.
A Turíbia tinha ficado a ouvi-lo, de boca entreaberta, com o pé parado no pedal
da máquina. Padre Pimenta, por seu lado, balançava a cabeça, descansando as mãos
na borda do banco, com um ar de espanto na cara comprida:
- Levante as mãos para o Céu, Major.
- E é para isso que estou aqui, Padre Pimenta. Quero mandar rezar uma
missa de ação de graças, na mesma igreja em que fui batizado, e o sacerdote
escolhido
é o senhor.
Padre Pimenta, desconfiado de natureza, acertou em cheio, na resposta imediata:
- Na igreja de Santaninha, no domingo de Carnaval? E ao ver o velho mover a
cabeça, confirmando:
- Que é isso, Major? Logo eu, um padre carregado de filhos, que muita gente não
vê com bons olhos? Quem devia rezar a sua missa era o nosso Bispo. Dom Xisto
Albano,
pela autoridade de seu posto, pela cultura, pelo prestígio pessoal, é que é o
sacerdote adequado para transmitir a Deus o sentimento de gratidão de meu bom
amigo
pelo transcurso de seu
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centenário. Sim senhor: Dom Xisto Albano. Mais ninguém. Eu é que não.
Estou cheio de erros e pecados. O Major espalmou no ar as mãos enrugadas:
- O senhor vai me desculpar que eu discorde do senhor. Só o fato do meu caro
Padre Pimenta reconhecer os seus erros e pecados já é uma virtude, e virtude
que outros padres, aqui em São Luís, estão longe de possuir.
- Isso mesmo, Major - aprovou a Turíbia. - O senhor está certo. Certíssimo.
Padre Pimenta não esconde o que faz. Tem a sua casa montada, cria os seus
filhos, e assim
é que deve ser. Nada de fingimento. Fingir para que, se Deus está vendo?
O Major concordou:
- Perfeitamente.
Padre Pimenta atalhou, continuando:
- O dia de seu centenário, Major, é o grande dia do entrudo, e a
igreja de Santaninha, situada no próprio centro das loucuras do Carnaval, vai
ser profanada,
se for aberta à hora da missa. O que o senhor me pede não é possível. Em redor
da igreja, desde o sábado de manhã, estão reunidos os baralhos, os cordões de
sujos,
a caninha verde, os saruês, os blocos de dominós, o cruz-diabo, os bandos de
mascarados, e tudo pulando e cantando, numa verdadeira pândega de Satanás. Um
pandemônio,
Major! Um verdadeiro pandemônio! Quem lhe fala é a voz da experiência.
Lembra-se da casa de esquina, no canto da Rua de Santaninha com a Rua do Sol,
bem defronte
da igreja? Há tempos, exatamente num domingo de Carnaval, pela manhã, tive
de ir àquela casa, para dar a extrema-unção à Dona Maria Rosa,
viúva
do Comendador Meireles. Para que me respeitassem, já saí daqui com a estola,
acompanhado pelo sacristão. Até a Rua Grande, tudo correu bem, embora me
dissessem
de vez em quando uma pilhéria. Por todos os lados, eu só via bisnagas, seringas,
limões-de-cheiro e cabacinhas. No canto da Rua do Passeio, assustei-me com uma
tina de água suja. A cada momento, da janela de um mirante ou de um sobrado,
despejavam baldes de anilina em quem passava pela calçada. Muita gente
corria,
tentando escapar ao banho. Logo a malta dos foliões acudia, com sacos de
alvaiade e pós de sapato, cercando os fugitivos, e era mais quem
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dava gaitadas, divertindo-se com o pagode. Segurando as pontas da estola, sério,
lá ia eu, de coração apertado. Pensei que nada me aconteceria. Qual o que,
Major.
Já no Largo do Quartel, do lado da Rua de Santaninha, quatro mascarados me
agarraram, dois de um lado, dois do outro, e me deram um banho completo, de água
com
pó de sapato. Besuntaramme a cara de vermelhão, despentearam-me os cabelos. De
nada adiantou eu gritar e ameaçar de excomunhão os atrevidos. Quanto mais eu
ameaçava,
mais era bisnagado. Perdi a cabeça, e entrei a distribuir murros e bofetões. Foi
pior, porque, se dei, também apanhei, e muito. Quando consegui chegar a casa de
Dona Maria Rosa, eu estava irreconhecível, sem sapatos, uma orelha sangrando,
inteiramente molhado. Agora eu lhe pergunto: o amigo vai querer que eu passe
pelo mesmo
vexame, no próximo domingo? É isso, Major? E o Major, com rapidez:
- Não, não é isso, Padre Pimenta. Eu só quero que o senhor reze a missa
na igreja de Santaninha, no dia de meu centenário. O entrudo não é comigo.
Padre Pimenta olhou o velho durante alguns momentos, batendo com a ponta dos
dedos na borda do banco, até que a calma lhe voltou, e conseguindo falar
pausadamente,
senhor de si:
- De que o entrudo não é com o senhor, não tenho dúvida, como não tenho dúvida
de que também não é comigo. Mas as vítimas vamos ser o senhor e eu, além dos
amigos
que se afoitarem a aparecer na igreja, com a folia nas ruas. Sinto muito, mas
não conte comigo para celebrar a missa de seu centenário.
O Major enxugou o suor da testa, calado, comprimindo os maxilares, de vista
baixa. E de repente, erguendo o olhar magoado:
- Beirando os cem anos, é duro ouvir, da boca de um sacerdote, e de um sacerdote
que sempre tive como meu amigo, uma recusa tão categórica. Dói, Padre Pimenta.
Dói muito. Sei perfeitamente que o senhor, eu, os meus convidados, todos nós
vamos nos expor, saindo à rua para um ato religioso, no domingo de Carnaval.
Mas, se
o senhor e eu não reagirmos à canalha das ruas, caminhando até a igreja, para um
ato de
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fé, estaremos dando ganho de causa ao bando de moleques que fazem do Carnaval
uma afronta aos homens de bem. Não, essa situação não pode continuar. Além do
mais,
Padre Pimenta, não é por teimosia nem capricho que faço questão de que a missa
de meu centenário seja rezada na igreja de Santaninha. Não, não é. É que fiz uma
promessa.
- Eu o libero da promessa, com a minha autoridade de sacerdote - acudiu o padre,
num clarão de esperança.
- Mas eu é que não quero ser liberado - contraveio o Major. - De modo geral, os
centenários são celebrados com o centenariante debaixo da terra. Meu caso é
diferente.
Eu ainda estou aqui em cima, e no gozo da melhor saúde. Logo: tenho dobrada
razão para ser grato à bondade divina. Agora me diga, Padre Pimenta: só porque
há doidos
em São Luís, que perdem a cabeça com o bumbo do zé-pereira ou o remelexo das
negrinhas de baralho, devo abrir mão de minha promessa? Não, de modo algum.
Minha prece
de agradecimento chegará até Deus. Mas a zoada do Largo do Quartel, com a
loucura do entrudo, não! Deus não dá ouvidos às folias de Satanás!
Houve um silêncio. O vento do quintal curvou as folhas largas dos tinhorões no
peitoril da varanda. O relógio da parede pôs-se a dar as horas, após o ruído
áspero
da corda. Padre Pimenta alteou os ombros, sempre com as mãos na borda do banco.
Ao fundo da varanda, a Turíbia tinha parado de pedalar a máquina, com o debrum
da costura debaixo da agulha. E foi ela que desfez o silêncio, voltando-se para
o
velho:
- O senhor é que está com a razão, Major. Também penso como o senhor. Não se
preocupe mais com semelhante assunto. Nem saia daqui à procura de outro padre.
Padre
Pimenta irá à igreja de Santaninha, no domingo de Carnaval, rezar a sua missa.
Vá descansado.
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CAPÍTULO II
PADRE PIMENTA preferiu sair de casa com as últimas sombras da madrugada. Ainda
estavam acesas as luzes da cidade. E tanto nas portas e janelas fechadas quanto
nas
ruas sujas, com as sobras do entrudo da véspera, havia um ar de exaustão e
abandono, próprio das bebedeiras adormecidas. Tinas de água imunda nas esquinas;
restos
de cabacinhas e limões-de-cheiro; seringas quebradas; restos de anilina nas
pedras do calçamento; latas de lixo atulhadas de cacos de vidros, de garrafas
vazias,
de sobejos de comida, de trapos coloridos, de pedaços de papelão. Dois lampiões
apagados, na subida para a Rua Grande. E o rumor de uma carruagem, para os lados
da Rua da Paz, à altura da igreja de São João.
Conquanto houvesse protegido a batina surrada sob uma velha capa de chuva, que
apertava contra o corpo com as mãos nas axilas, Padre Pimenta ia assustado,
aligeirando
o passo no aclive da ladeira. Parecia-lhe que, na dobra da rua, ia receber sobre
os ombros e o chapéu de feltro a surpresa de um balde de água. E sempre que
passava
pelo cone de luz de um dos postes da iluminação pública, esgueirava-se rente à
parede, com o coração acelerado, sentindo que a claridade do bico de gás o ia
denunciando
e perseguindo, a cada novo lampião.
No alto da ladeira, parou um momento, ofegante, mas de pronto retomou a
caminhada nervosa, ao ver ao comprido da calçada, adiante da Rua das Flores,
dois foliões
adormecidos junto a um portal, um deles de braguilha aberta, o outro ainda de
máscara, este último com a seringa cheia por baixo da mão cabeluda.
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Olhando ao comprido da Rua do Sol, no sentido do Largo do Quartel, as duas orlas
de casas lhe davam a impressão de que se iam encontrar, confundidas pelas
últimas
sombras da madrugada. Somente alguns lampiões permaneciam acesos. Os demais, se
não estavam de todo apagados, reluziam um botão de luz pálido, prestes a
extinguir-se,
enquanto a claridade da manhã vinha apontando por cima dos telhados, tocada por
um
tom róseo levemente encardido.
com a viração úmida a bater-lhe no rosto, Padre Pimenta tateou o bolso da
batina, à procura do maço de cigarros:
- Será que a Turíbia esqueceu?
E logo deu com eles, junto à caixa de fósforos. Abrigado no primeiro vão de
porta, por baixo do balcão de um sobrado, acendeu o cigarro, chupou a fumaça,
sentindo
que a sua ira surda começava a desfazer-se. Só Deus sabia a raiva com que,
acordado pela companheira, pusera os pés para fora da rede, praguejando contra o
capricho
do velho Taborda, que não achara outro dia melhor para fazer cem anos, nem
igreja mais adequada para a missa de ação de graças do que a de Santaninha, bem
no meio
do furdunço!
À mesa do café, ainda resmungava:
- Não vai ninguém, Turíbia. O próprio Major e a filha não vão poder chegar até
lá. Tu vais ver. E se eu cair na tolice de mandar o sacristão abrir a porta da
igreja,
à hora da missa, estarei bem arranjado. O entrudo, que está lá fora, passa para
dentro. Aquele bando de bêbados, com o demônio no corpo, é bem capaz de profanar
os santos. E que é que eu vou fazer, contra um bando de malucos?
A Turíbia não se alterou:
- Uma coisa me diz, aqui por dentro, que tudo vai dar certo. Por que não havia
de dar? Vai, vai dar certo. Deus, lá em cima, está vendo o teu sacrifício. Pelo
sim,
pelo não, veste a batina velha. E sai daqui ainda no escuro. No mais, confia em
Deus.
Felizmente, até ali, na comprida Rua do Sol ainda sombria, tudo dera certo. com
cinco ou seis quarteirões a mais, alcançaria a igreja, são e salvo. O Major
teria
tido também a idéia de chegar cedo? Talvez já estivesse por lá, esperando a
igreja abrir. E o padre voltou a franzir a testa. Como iam fazer depois
24
da missa, com o Largo do Quartel repleto de mascarados? Aí é que a porca ia
torcer o rabo. Nem queria pensar.
De cigarro aceso no canto da boca, Padre Pimenta alongava o olhar para o fim da
rua, no mesmo passinho miúdo pela calçada estreita. Em poucos instantes, a luz
da
manhã desfizera as últimas sombras, e era uma claridade ainda sem brilho, com o
tom róseo do céu mais vivo, que se derramava sobre os telhados, restituindo o
colorido
dos azulejos e o rendilhado das sacadas de ferro.
O padre sabia que, daí a momentos, com a luz fulgurando nas fachadas,
estrondariam os bumbos do zé-pereira, e logo as janelas e as portas se
descerrariam, ao mesmo
tempo em que o pandemônio da véspera, no sábado gordo, voltaria a sacudir a
cidade com seus cantos, seus gritos, seus pandeiros, suas matracas de pau, seus
reco-recos,
seus tinidos de guizos.
E nisto, na esquina da Rua do Pespontão, um mulato gordo apareceu na borda da
calçada, de touca e camisola de bebê, uma chupeta pendente do pescoço, a seringa
na
mão:
- Padre Pimenta, bom-dia.
E curvou-se, respeitosamente, numa vênia exagerada, com a mão esquerda sobre o
peito. Depois, erguendo a cabeça, ao ver o reverendo atravessar a rua,
apressando
o passo:
- com a sua licença.
E apertou depressa o êmbolo da seringa. O esguicho saltou do bico, vermelho,
sangüíneo, descreveu uma curva de arcoíris entre as calçadas fronteiras e
apanhou Padre
Pimenta à altura das espáduas, respingando-lhe para a nuca e a aba do chapéu.
- Viva a pândega, Reverendo! Hoje é Carnaval!
A primeira reação do padre foi parar, voltando-se na direção do atrevido, de
punhos cerrados, a chamá-lo de bêbado. Mas, conseguindo conter-se, antes que o
outro
repetisse o esguicho, acelerou ainda mais o passo, rua abaixo, resmungando:
- Patife! Não sei onde estou que não te dou agora mesmo uma boa lição! Um bom
tabefe era o que merecias!
E a mão ainda lhe tremia no momento em que enfiou a chave na fechadura, na porta
lateral da igreja, depois de ter dado a volta pela Rua dos Remédios, para ver se
por ali não estavam o Major Taborda e a filha. Não os vendo, encolheu
25
os ombros. E cedeu ao frouxo de riso, ao dar com uma tina de água suja, na
esquina, rente à igreja, por onde os dois tinham
de passar, a luz do dia, quando vissem fechada a porta principal.
- Vão levar um bonito banho - vaticinou.
26
CAPÍTULO IV
QUANDO o MAJOR começou a preparar-se para a missa, já havia rebuliço na Rua da
Palma. Calmo, continuou a vestir-se, abotoando devagar os punhos da camisa de
peito
duro, já com as calças claras que lhe caíam por cima das botinas de polimento. A
gravata fofa, de gorgorão luzidio, cresceu-lhe no vão do colarinho, e ele se
olhou
no espelho da parede, sorrindo para o velho enrugado que lhe repetia os gestos e
movimentos, sempre a ouvir a animação da folia, que ia aumentando por baixo de
suas
janelas.
No correr de casas baixas, entre a Rua Nova da Cascata e a Rua da Caela, os
vizinhos se guerreavam desde cedo, com o estouro das cabacinhas e dos limões-de-
cheiro.
Por vezes a luta recrudescia ainda mais com o arremesso das latas de água suja.
E um senhor baixo e capenga, de rosto picado de varíola, peito nu, munido de uma
seringa imensa, comprazia-se em arremessar jatos de anilina em quem aparecia nas
sacadas próximas:
- Viva a pândega! - gritava.
E ia de uma calçada para outra, soltando sucessivos esguichos, que subiam sobre
o vão da rua, para cair em cheio na janela fronteira, quando não iam apanhar lá
adiante,
na volta da esquina, e mesmo no largo da igreja, um transeunte distraído.
Mal o dia amanhecera, o cruz-diabo assustava a meninada dos arredores, com seus
chavelhos pontudos e a sua máscara de olhos de fogo, a arrastar pelas pedras do
calçamento a cauda escarlate. Dava pulos medonhos, rugia, e investia, de
tridente
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em punho, correndo, gargalhando, a retinir os guizos do fofão vermelho:
- Eh, ê, eh, ê, eu sou o cruz-diabo!
A Celeste, já pronta, no seu longo vestido cintilante, foi buscar o pai,
assustada:
- Venha ver - dizia ela, trazendo-o pelo braço.
E entreabriu a janela para mostrar-lhe na esquina o barril de anilina que
abastecia a seringa do capenga, exatamente no momento em que um senhor, todo de
preto,
chapéu de feltro, era alcançado por um jato azul que o molhava da cabeça aos
pés.
O homem parou, levantou a bengala, cresceu para o capenga, mas este, impávido,
voltou a seringá-lo, mudando de calçada, enquanto um balde d'água despencava da
sacada
de um mirante, por cima do chapéu de feltro, completando o banho do senhor
exaltado, que ergueu os punhos, lívido, os olhos crescidos, em meio às
gargalhadas que
estoiravam à sua volta.
E a Celeste, apavorada:
- Vão fazer a mesma coisa conosco, pai!
O velho voltou para ela o olhar carrancudo; depois, sem nada dizer-lhe, passou à
peça contígua, e ali vestiu a sobrecasaca, tornando a olhar-se no espelho da
parede.
Assim preparado, passou à varanda, sentou na cadeira de embalo junto à janela,
após consultar o relógio.
Começava a impacientar-se. Tinha dito ao Chico Bento, dois dias antes, que
estivesse à porta do sobrado às nove horas em ponto. Chegara a repetir:
- Às nove em ponto, Chico Bento. - Nem mais um minuto, Major.
E às nove e quinze, sem ter ouvido o ruído da carruagem, o velho pôs na cabeça o
chapéu alto, voltou a sentar na cadeira de balanço, com a bengala atravessada
sobre
as pernas impacientes. Não era possível que o Chico Bento lhe faltasse. Tê-loiam
detido pelo caminho, com as 'arruaças do entrudo, quando tentava alcançar o
Largo
do Desterro? Ou algum gaiato o arrancara da boléia, tomando-lhe as rédeas, para
se divertir dando uma volta pela cidade?
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A Celeste, de chapéu desabado, bolsa da cor do vestido, sapatos altos, muito
espartilhada, os seios crescidos, saiu da alcova com ar inquieto:
- O senhor não acha que o carro já devia ter chegado? Estou com receio de que
tenham feito alguma malvadeza com o Chico Bento. No dia de hoje, tudo é
possível.
O Major não a deixou prosseguir:
- Não aumente a aflição do aflito. Vá olhar da sala. Se ele aparecer, venha me
avisar.
A Celeste pôs-se a rir, escondendo os dentes grandes por trás da bolsa:
- E eu sou maluca de me debruçar na janela, com aquele capenga lá embaixo, de
seringa na mão? Só espio pela fresta, e com todo cuidado.
E recolheu o riso ao ver que o pai, travando ainda mais as sobrancelhas
irritadas, volvia a olhar o relógio, batendo com os dedos nervosos nos braços da
cadeira.
Fora, na rua divertida, repetiam-se as risadas e o estoiro das cabacinhas e dos
limões-de-cheiro. E quando o vento soprava, vindo do outro lado da cidade, a
cantoria
dos baralhos se misturava ao acompanhamento das matracas.
Para entreter o Major, que rodava os polegares a olhar de vez em quando o
mostrador do relógio de parede, Celeste lhe perguntou:
- Será que vai aparecer alguém na igreja?
Ele encolheu os ombros magros para dizer que não sabia. Chegou mesmo a espichar
o lábio inferior e a aumentar os olhos. Ela foi franca, passados alguns
momentos:
- Muita gente foi convidada, mas não vai aparecer: só conte comigo e com o
senhor. Muitos dos convidados já se desculparam, mandando dizer que estão fora
de São
Luís, no Carnaval. Outros, que não se desculparam antes, vão se desculpar
depois. É melhor ir para a igreja com o espírito preparado.
O velho cortou-lhe a fala com o olhar duro:
- Quer calar essa boca?
- Já não está aqui quem falou. Desculpe.
Ela voltou à sala, elegante, quadris cheios, a cintura bem apertada, a cauda do
vestido a lhe cair do antebraço. E daí a
29
pouco, de volta à varanda, tornando a dirigir-se ao velho, que voltara a bater
com a ponta dos dedos nos braços da cadeira:
- Do Chico Bento, nem sinal. E o entrudo, aí embaixo, pelo visto, ainda está
pior.
Embezerrado, com o chapéu alto sobre as pernas, o Major enchia o peito, tornava
a esvaziá-lo. E se o Chico Bento não viesse? E decidiu-se:
- vou a pé até o Largo do Quartel, com a garrucha na mão, de dedo no gatilho, e
quero ver quem é que tem a coragem de me faltar com o respeito.
Por outro lado, riscaria de suas relações, para sempre, as pessoas que, a
pretexto do entrudo, se tinham esquivado de assistir-lhe à missa de ação de
graças. Cem
anos são cem anos. Se ele, que tinha essa idade, ia à igreja, por que os amigos,
que não eram tão idosos, não podiam ir? Desculpa frouxa, de mau pagador. Não
lhes
tiraria mais o chapéu nem lhes apertaria a mão. Ao passar por eles não os
enxergaria. Que enfiassem no rabo as suas atenções. E como muitos deles eram
seus inquilinos,
subiria os aluguéis, não admitiria o menor atraso de pagamento! Quem vivesse
veria!
E a Celeste, passado um silêncio: M - Muitos dos convidados mandaram flores.
- - Não precisavam ter mandado - cortou o Major.
Assim que o relógio da parede bateu pelas nove e meia, o velho se levantou,
conferiu as horas no relógio de algibeira, encaminhando-se para a escada.
A filha alarmou-se:
- Vamos sair assim mesmo?
- Não estou lhe pedindo que venha comigo. Fique. Eu sei o caminho.
Celeste ergueu as mãos preocupadas:
- O senhor pensou bem no que vai fazer? Isso é uma loucura. Daqui para o Largo
do Quartel, passando por baixo de uma infinidade de sobrados e mirantes, é o
mesmo que andar pela chuva. Ao chegar à igreja de Santaninha, todo
molhado e sujo, o senhor vai ter que voltar para casa, mais imundo do que se o
arrastassem
pela sarjeta. Pense um momento, Papai.
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Já no patamar, amparando-se no corrimão de madeira, o Major parou um momento,
com a impressão de ter ouvido tinir nas pedras do calçamento as ferraduras de
uma
parelha. E para a Celeste, que ia começando a sorrir:
Vamos descer. O Chico Bento está chegando.
31
CAPÍTULO V
Do BATENTE da porta, antes mesmo de sair à calçada para entrar na carruagem, que
parará junto ao meio-fio, o Major sentiu que o Chico Bento, àquela hora da
manhã,
já estava embriagado: sentado na boléia, com as duas mãos segurando as rédeas, o
cocheiro mantinha as pálpebras entrecerradas, cochilando, e equilibrava o corpo
magro e curvo, que pendia para um lado e para o outro, como se o carro oscilasse
nos desníveis do calçamento.
A Celeste, prendendo numa das mãos a cauda do vestido, chegou a consultar o pai
com os olhos assustados, para saber se tomaria o carro assim mesmo, e logo o
velho
lhe ordenou, impaciente:
- Suba, suba.
Ela correu, subiu, esparramou-se no banco, tratando de proteger-se com a cortina
de encerado, e pôs-se a dizer ao pai, que entrelaçava as mãos sobre o castão da
bengala, trombudo, como a querer intimidar, com o rosto fechado, os foliões da
rua:
- Cuidado! Feche a cortina! Depressa!
O capenga, de seringa pronta, tinha tomado posição na borda da calçada, à espera
do carro. E como este tardasse, com o Chico Bento dormitando na boléia, veio
vindo
ao seu encontro, pisando de leve, com um brilho de gozo nos olhinhos contentes.
E o velho, para o cocheiro, correndo a cortina:
- Vamos embora!
O Chico Bento sacudiu as rédeas, empunhou o chicote, a parelha se moveu, as
molas do carro rangeram com os primeiros
32
sacolejos, a carruagem pendeu para um lado, voltou a equilibrar-se, enquanto a
Celeste, tomada pelo frouxo de riso, via o capenga molhar o cocheiro pela frente
e
pelas costas, depois de ter conseguido alcançar o Major, que brandia a bengala,
ameaçando castigá-lo ao voltar para o sobrado:
- Esta o senhor me paga, pedaço de patife!
E tanto de um lado quanto de outro, ao comprido da Rua da Palma, os limões-de-
cheiro e as cabacinhas voavam para a carruagem, que ia agora correndo, levada
aos solavancos
pelo galope da parelha. Adiante, na volta da Rua de Santana, um balde de água
suja apanhou em cheio o Chico Bento, que não se alterou, seguro nas rédeas,
brandindo
o chicote.
Felizmente, depois da Rua Formosa, espaçaram-se os assédios do entrudo. Mas, em
toda a volta, sobretudo na direção do Largo do Quartel e da Rua dos Remédios,
crescia
o ruídos dos bumbos e das caixas de rufos, acompanhando a cantoria das caninhas
verdes, dos baralhos e dos blocos de mascarados.
O calçamento irregular, pontilhado de buracos, ameaçava o equilíbrio da
carruagem nas rodas finas e altas, porém os cavalos seguravam o carro nos
varais, e a traquitana
prosseguia, rua acima, com a Celeste forcejando para conter o riso solto. O
Major, agarrado ao castão da bengala, olhava em frente, trombudo. E para a
filha, que
voltara a rir:
- Pare com esse riso! - trovejou.
Ela conseguiu reprimir as gaitadas, com o leque aberto diante do rosto, e
ponderou ao velho, que insistia em cravar-lhe no semblante divertido o olhar
furioso:
- Não adianta o senhor se zangar. Hoje é Carnaval. Olhe como está o meu vestido:
todo respingado de anilina. Eu só estou pensando como é que vai ser na hora de
descer na igreja. Tomara que o Padre Pimenta tenha chegado lá. Duvido muito.
E com o braço estendido para a frente da carruagem:
- Olhe ali, olhe ali.
Um frade gordo, imensamente barrigudo, dançava à frente dos cavalos,
requebrando-se, a estalar os dedos, a sacudir para os lados as ancas
avantajadas, cantando:
33
Dingue, dingue, bum!
Dingue, dingue, bum!
Saía-lhe do bolso lateral do hábito cor de tijolo, que um grosso cordão prendia
na cintura, uma enorme bisnaga, que o frade de vez em quando acionava, molhando
os
curiosos que se debruçavam das sacadas para vê-lo dançar.
O carro diminuíra a marcha, com a parelha a passo para não atropelar o folião,
que ia agora aos pulos no meio da rua, e logo voltou a sacudir a bunda,
atirando-a
para a direita e para a esquerda, com o acompanhamento de um traque festivo,
estalado com a língua no céu da boca. De repente, parou.
E a Celeste, aos gritos, ao ver que os cavalos iam pisoteá-lo na arrancada do
galope:
- Pare! Pare! - ordenou ao Chico Bento.
Mas o cocheiro havia brandido o chicote, soltando as rédeas, e a parelha
arrancou, assustando-se, enquanto o frade tirava o corpo, saltando para a
calçada. Em redor,
após o silêncio do susto, estoiraram as risadas, e já o frade, mexendo as
nádegas, volvia a cantar:
Dingue, dingue, bum! Bum, bum bum!
Por trás da igreja da Conceição, a poucos passos da Rua de Santa Rita, o entrudo
parecia ter degenerado em pugilato, com dois grupos a trocarem pescoções, depois
de se medirem à base das latas de água, das seringas e dos banhos de tina.
Por eles passava agora a carruagem, entre o estoiro sucessivo das cabacinhas e o
esguicho dos limões-de-cheiro, com o Major calado, de cenho contraído, agarrado
rispidamente à bengala, e a Celeste repetindo as risadas, a espiar pela fresta
da cortina, de leque aberto defronte do rosto molhado. Na boléia, atingido pelos
baldes
de água, o Chico Bento se mantinha impassível, com a aba do chapéu escorrendo
anilina, a garrafa de cachaça no bolso lateral do casaco, sempre a segurar as
rédeas
e o chicote, os olhinhos entrefechados, quase a cair de sono.
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Os solavancos do carro tinham o dom de despertá-lo, e ele olhava em volta,
forcejando para erguer as pálpebras, a gritar para a parelha:
- Eh, ê. Eh, ô.
À medida que a carruagem avançava, crescia a animação da rua, com os barris e as
tinas de água suja na porta das casas ou nas esquinas. O estrondo dos bumbos,
agora
mais perto, comandava a animação do pandemônio, por cima da cantoria dos
ranchos, dos blocos de mascarados e dos baralhos. Da outra ponta da rua irrompia
um bloco
de dominós. Troavam as caixas de rufos. Um rancho de pastorinhas, que saía da
Rua do Mocambo, seguia para o Largo do Quartel, precedido por um vistoso
estandarte
de várias cores, que um mulato espadaúdo carregava.
Na Praça da Alegria, com exceção apenas de uma orla de casas baixas do lado da
Rua do Norte, as demais estavam em pé de guerra, trocando baldes de água, pós de
sapatos, cabacinhas e punhados de alvaiade, numa algazarra frenética, que só não
contagiava um mascarado de cabeça de burro, que se postara numa esquina, de
livro
sobraçado, ar circunspecto, cartola entre as orelhas empinadas, e que reprovava
de vez em quando os foliões com seus zurros estridentes.
E a Celeste, para o pai, mostrando o mascarado:
- Ali, ali, no canto da praça: o Burro-Doutor. E o velho, alto, para o Chico
Bento:
- Que é isso? Onde é que vamos?
A carruagem contornara a praça, seguindo para a Rua do Norte, levada pelo galope
da parelha. E a Celeste, noutro frouxo de riso:
- Por aí vamos dar no Cemitério, Seu Chico Bento gritou também - Vire, vire. É
para o outro lado. Para a igreja de Santaninha. Na direção do Largo do Quartel.
Chico Bento continuou dormitando, mal equilibrado na boléia, com as rédeas na
mão, o chicote do lado. Parecia não ter ouvido, tonto de sono. Mas, na esquina
da
Rua do Mocambo, puxou de lado as rédeas, gritando êh, ê, êh, ô, para entrar na
Rua do Passeio.
35
CAPITULO VI
EMBORA a batina estivesse úmida, Padre Pimenta tratou de vesti-la, assim que
olhou o relógio. Tinha-a posto a secar ali mesmo na sacristia. Graças à capa de
chuva,
o esguicho da seringa somente a molhara no colarinho, na barra e no alto do
peito. Entretanto, como o mesmo jato de água vermelha lhe atingira as meias e a
parte
inferior das calças, tivera de ficar descalço e em ceroulas, à espera de que o
vento da manhã também as secasse, entrando pela fresta da janela.
Nesses trajes sumários, deixara-se ficar largo tempo ao comprido de um banco de
pau, fumando, com o missal a lhe servir de travesseiro, atento à chegada do
sacristão,
que morava a duas quadras, na Rua dos Afogados. Cansando-se da posição, tornara
a sentar-se, com os braços esticados.
Já a luz do sol, insinuando-se pelas frinchas e pelos vãos do telhado, destacava
a pesada arca dos paramentos, com o livro grosso dos registros deixando ver o
marcador
de papelão. Adiante, ao lado da porta que abria para a nave, a velha cadeira que
vinha do tempo dos capitães-mores conservava o seu ar solene, a despeito do
assento
furado. E ao fundo da saleta, na quina da parede caiada, perfilava-se a estante
envidraçada, repleta de alfarrábios e cartapácios, que mais de um bispo
prometera
transferir para a biblioteca do Seminário de Santo Antônio, na primeira
oportunidade. E fazia menos de um mês que Dom Xisto Albano chegara a dizer,
arredondando
ainda mais os olhos pulados:
- Isto vale uma fortuna!
E o Padre Pimenta, voltando a lastimar os livros velhos, com o olho esquerdo
entrefechado pelo ardor da fumaça:
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- Dom Xisto vai acabar por esquecê-los aqui, exatamente como os outros bispos. E
quando alguém vier buscá-los, só encontrará as capas e as lombadas, porque as
traças terão dado cabo do resto. E é pena. Ali estão os Sermões de Vieira. E a
Nova Floresta, na primeira edição. Raríssima. Não tem preço.
Em contraste com a calma dentro da igreja, lá fora a balbúrdia se avolumava, com
o rebôo dos bumbos e o bater das caixas. Já não se distinguiam as palavras das
cantorias dos ranchos, dos baralhos e dos blocos. De vez em quando, em redor da
igreja, estrugiam gritos, risadas, insultos, palavrões.
E Padre Pimenta, ainda com a batina desabotoada, para ver se protegia a garganta
contra a umidade do colarinho, ia agora ao comprido da nave, entre as duas orlas
de bancos, nervoso, tornando a afligir-se. com aquela zoada em volta, como iria
celebrar a missa? Limitar-se-ia apenas a rezá-la por alto, com um trecho aqui,
outro ali, outro mais adiante? Ou teria de dizê-la toda? com certeza era isto
que o Major queria. E que iria dizer do púlpito, a título de
prédica, só para o velho
e a filha, com a igreja fechada, ouvindo ainda por cima aquela algazarra
infernal? E voltando-se para a imagem que dominava o altar-mor:
- A senhora está vendo que não é possível, minha Nossa Senhora. O que estava ao
meu alcance fazer eu fiz, a senhora está vendo.
E tratando de abotoar-se, ao reconhecer que a batina aberta o deixava em traje
ridículo, inadequado ao lugar sagrado e à sua condição:
- Perdão, Senhora - pediu, curvando-se.
Antes de pôr a batina, aventurara-se pelo corredor lateral da nave, descalço,
apenas em ceroulas. Se Cristo estava nu na cruz, apenas com um pano amarrado
sobre
as suas vergonhas, por que motivo ele, sacerdote de Cristo, não poderia estar
ali em ceroulas? Mas voltou à sacristia, intimidado pelas imagens das santas que
o
olhariam dos outros nichos, na meia luz da manhã que avivava em redor o colorido
dos vitrais.
Abotoada a batina até os pés, deixando aberto apenas o vão do colarinho, Padre
Pimenta tentou espiar a rua, no sentido do Largo do Quartel, por uma frincha da
porta
sobre o adro. A fresta era estreita demais, não lhe permitindo espaço para
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a visão, mesmo ajustando à réstia apenas a vista direita, que melhor enxergava.
E por que não ia olhar lá de cima, na abertura de um dos campanários? Dali veria
tudo, sem perigo de ser visto.
E deu por si às apalpadelas na empoeirada escada em caracol que levava ao
campanário do sino maior. Sentindo a sujeira do corrimão de metal, tocava-o
apenas com
a ponta dos dedos, pisando os degraus com cuidado, até que ouviu um tatalar de
asas assustadas por cima de sua cabeça. Adivinhou a sujeira que ia encontrar lá
no
alto:
- São os pombos, os terríveis pombos. Na Sé é a mesma coisa. Na igreja de São
João, também. E também na igreja de Santana e de São Pantaleão. Se se abrigassem
ali,
para nos lembrar o Espírito Santo, não deviam sujar tanto. E batendo na boca,
com receio de ter pecado:
- Perdão, Senhor. Vós conheceis as minhas fraquezas. Bem sabeis que
não há maldade no meu coração. A prova do que digo é que estou aqui. O bom
senso
mandava que eu ficasse em casa, lendo, olhando minhas plantas, conversando com
os meus meninos, fazendo companhia à pobre da Turíbia. Mas estou aqui. Rezarei a
santa missa, mesmo com o demônio solto em volta da igreja. Turíbia me convenceu
de que levaríeis em conta o meu sacrifício. Sei que tenho pecados. Muitos
pecados.
Preciso de vosso perdão.
Suspirou, sentindo crescer no patamar da escadinha o cheiro ativo da bosta dos
pombos, e contornou o sino, por entre sarrafos de madeira e restos de obras
recentes nas paredes laterais. Curioso: desde moço, assim que saíra do
Seminário, rezava missa naquela igreja, mas nunca lhe subira ao campanário. E de
pé, olhando
em volta, pelas quatro aberturas da torre, abrangeu toda a cidade, por cima dos
telhados escuros. Dali via o mar, no sentido da igreja de Santo Antônio. Mais
longe,
à sua esquerda, distinguia perfeitamente o zimbório da igreja do Desterro, e
outro pedaço de mar, e a curva do rio Bacanga. Do lado contrário, para trás, era
a mata
densa, com os caminhos para o interior da ilha. "E adiante, confrontando com a
mata, o braço do rio Anil, a Ponta da Areia, a Ponta de São Francisco, as
velas
dos igarités de pesca recortadas contra a claridade da manhã.
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- Que beleza! Eu nunca tinha admirado isto!
Mas toda essa visão durou apenas um relance. Porque, cá embaixo, em todo o Largo
do Quartel, a multidão dos mascarados e foliões pulava e cantava, numa sarabanda
de possessos, que lembraram ao Padre Pimenta umas velhas gravuras dos
endemoninhados da Idade Média. Toda a vasta área que vai da Rua da Paz à Rua do
Sol, da Rua
dos Remédios à Rua de Santaninha, com o velho chafariz colonial ao centro,
rebentava de povo, como se toda a gente pobre da Gamboa, do Codozinho, da Madre
Deus,
do Portinho, da Praia do Caju, do Cais da Sagração, do Caminho Grande, da Fonte
das Pedras, houvesse confluído para aquele trecho de São Luís, trazendo os
boêmios,
as raparigas, os pés-rapados, as gravatas-lavadas, as crioulas, as negrinhas de
baralho, e todos ali se misturavam numa algazarra solta, avançando o xiri,
remexendo
a bunda, sacudindo os peitos, exibindo as coxas, dando umbigadas, enquanto os
estandartes revoluteavam por cima das cabeças em movimento. A multidão pulava, e
os
bumbos iam batendo, batendo, batendo, por entre o tinir dos guizos e das
soalhas, o ré-ré-ré dos reco-recos e o sibilo das flautas, o estrondo das caixas
de rufos
e o sopro dos pistons.
E o padre, assombrado:
- Nem parece que há peste bubônica na cidade. Ou então esta gente pula e canta
para esquecer os seus mortos. Já não entendo mais nada. Está tudo doido.
E a loucura era ainda maior nos quatro cantos da pequena praça da igreja, todos
tomados por enormes
tonéis de água imunda, de que um grupo de foliões se servia para
encher as seringas do entrudo e agredir quem se aventurava a sair à calçada.
Nisto o padre ouviu uma gritaria mais forte para o lado da Rua dos Remédios.
Voltou-se e não quis acreditar nos próprios olhos. Seria possível que fosse
mesmo o
Comendador Zeferino das Areias que ali vinha, à frente de um bloco, vestido de
mulher grávida, em cima de uns sapatos de saltos altos, peitos imensos,
pingentes
nas orelhas, o mantelete a lhe cair para os ombros? Era ele, sim. E trazendo no
rosto gordo os mesmos óculos de aro de ouro, a abanar-se com um bonito leque,
requebrando-se,
a mão esquerda apoiada no quadril. Nem sequer raspara os
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bigodões respeitáveis com que, de segunda-feira a sábado, no seu armazém da
esquina da Rua Grande com a Rua da Cruz, atendia a seus fregueses, sério, grave,
de
poucas palavras. E Padre Pimenta, assombrado:
- Está bêbado. Não pode deixar de estar bêbado. O bloco dobrava agora a Rua do
Sol, como a buscar espaço para misturar-se à multidão do Largo do Quartel, com
dois
tocadores de bumbo ladeando o Comendador.
E o padre, curvando-se para a calçada, sempre a acompanhar o grave Zeferino, que
requintava o requebrado, enlanguidescendo o olhar, ainda com a mão na cadeira.
Daí a momentos ia passar na calçada da igreja, bem por baixo do campanário.
Padre Pimenta chegou a olhar em volta, como em busca de alguma coisa. E todo
curvado
para a calçada, vendo-lhe agora a cabeça, os ombros fortes, os quadris
sacudidos:
- Ah! se eu tivesse aqui à mão uma lata de água! Era um bom banho de água suja
que este Comendador merecia!
E ria sozinho, a balançar as banhas da barriga, dominado pelo gosto do castigo
gaiato, sempre a curvar-se sobre o vão do campanário, com risco de
desequilibrar-se
da borda da guarita e despencar para fora, quando reparou que, mais adiante,
junto a um dos
tonéis, dois rapazes espadaúdos, cada qual com o seu balde cheio, pareciam
esperar pelo Comendador, enquanto outros foliões, nas demais esquinas, se
divertiam com os transeuntes, cobrindo de alvaiade a carapinha de um mulato
velho e sacudindo
pós de sapatos num senhor de óculos, que reagia a pontapés, empunhando um
guarda-chuva. Em frente ao adro, quase a flanquear a porta central da igreja,
havia agora
duas tinas transbordantes.
Na calçada da igreja, nesse instante, a cena foi tão rápida que o Padre Pimenta
não lhe viu o começo, posto que estivesse de olho nos rapazes e no Comendador,
de
bruços para a rua, a ponto de sentir que ia escorregando. Segurou-se com força
na quina da parede, sem desviar a vista curiosa, e já o Comendador distribuía
murros
e cachações, todo molhado e sujo, até que conseguiu abraçar-se a um dos rapazes,
trazendo-o para junto do
tonel. Ali, sem deixar que o outro se desprendesse, vergou-o sobre a água suja,
que se esparramou para fora, enquanto a
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cabeça despenteada mergulhou tonel adentro, debaixo da grossa mão cabeluda que
lhe comprimia raivosamente a nuca.
- Vais morrer - ameaçou o Zeferino, ao ver que o rapaz sacudia as pernas, nas
ânsias da asfixia.
Mas antes que o Padre Pimenta, mais curvado sobre a calçada, lhe gritasse que
não fizesse isso, o próprio Comendador largou a cabeça aflita, e do
tonel saíram uns
olhos arregalados, umas sobrancelhas no meio da testa e uma boca a soprar
golfadas de água imunda, ao mesmo tempo em que o Zeferino volvia aos sapatos
altos e ao
leque, requebrando-se, abanando-se, rua abaixo, entre os dois bumbos
barulhentos, que batiam com mais força.
Padre Pimenta soltou a respiração, aliviado, sentando-se pesadamente na tábua
comprida que servia de banco ao sineiro, e ali ficou de pernas cruzadas, a olhar
o
pandemônio à sua volta. Só agora compreendia por que o Padre Ali pio Rodrigues,
ainda no tempo do cativeiro dos pretos, tinha subido àquele mesmo campanário,
numa
terça-feira de Carnaval, e pusera-se a tocar o sino, para depois gritar ao
povaréu que se aglomerava na calçada da igreja:
- O Diabo vai levar todos vocês para o Inferno! Ele está aí na praça, com seus
olhos de fogo! Saiam daí! Vão para as suas casas! Depressa! Antes que seja
tarde!
Padre Pimenta voltou a consultar o relógio. Quase dez horas! E o Major e a filha
que não chegavam! E por que não chegara também o sacristão? Tateou o bolso da
batina
à procura do maço de cigarros, e só então se lembrou de que o deixara sobre a
mesa da sacristia. Como ia fazer o Major para entrar na igreja, passando entre
as duas
tinas? Não se livraria dos limões-de-cheiro e dos baldes de água, a despeito de
seus cem anos!
E levantando-se para descer à nave:
- Ele e a filha vão chegar aqui como dois pintos molhados. E já descendo a
escada em caracol:
- Se chegarem.
CAPÍTULO VII
O MAJOR extravasou a sua fúria, batendo com os borzeguins molhados no capacho da
soleira, assim que entrou na igreja:
- Que significa esta porta fechada, Padre Pimenta?
E o padre, que tivera de ajudar o sacristão a torcer na fechadura perra a
imensa chave de ferro:
- O Major ainda pergunta? Não viu o pandemônio que nos cerca? E não viu também
como o receberam, sem respeitar o senhor e a sua filha?
O Major, de cara fechada, sacudia o lenço pela manga do casaco, tentando aliviar
a mancha vermelha do líquido que lhe escorria por todo o lado esquerdo e já
passava
para a perna das calças. E olhando o padre:
- Vi, vi - confirmou. - Mas uma coisa é a praça pública e outra coisa, bem
diferente, é o interior de uma igreja. Aqui é chão sagrado. Está no Direito
Canônico,
Padre Pimenta: quem desrespeitar este lugar está automaticamente excomungado.
E o padre, com um risinho de mofa:
- Bem arranjado estaria eu, se fosse invocar o Direito Canônico para esse bando
de doidos com o Diabo no corpo. Antes que acabasse de falar, já tinha tomado meu
banho, como o senhor tomou o seu.
O Major segurou a bengala com raiva:
- Me molharam, não nego, mas também apanharam. Nesta idade, louvado seja Deus, o
braço ainda está firme. E só me bisnagaram, sujando-me a roupa, porque a porta
da
igreja estava fechada. A pobre da Celeste, coitada, é que mais sofreu,
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com seu vestido cintilante. Era ela que batia na aldraba, enquanto eu dava
bengaladas.
E a Celeste, que se retraíra para junto da pia de batismo, do outro lado da
nave, sem conseguir ficar séria:
- As cabacinhas e os limões-de-cheiro voavam para cima de mim como se quisessem
me matar. Felizmente só dois limões me pegaram: um, aqui nas costas; outro, aqui
no peito.
E o Major, no mesmo tom exaltado:
- Como eu lhe disse, Padre Pimenta. Custava ter deixado a porta encostada? O
senhor mesmo, que veio ajudar o sacristão, teve dificuldade de abrir. E nós lá
fora
debaixo de pau, com um bando de moleques nos cercando.
Amarfanhou o lenço, atafulhou-o no bolso das calças. E ante o silêncio do padre,
que contraía os maxilares:
- com toda a certeza, é por isso que a igreja está vazia. Meus convidados devem
ter dado com a porta fechada e foram embora, pensando que a missa foi adiada. E
com que cara eu fico, Padre Pimenta? Saíram de casa a meu convite, sabe Deus com
que sacrifício, e deram aqui com o nariz na porta. Está direito? Não, não está.
O senhor sabe que não está.
Padre Pimenta caminhou até a primeira orla de bancos, de cabeça baixa, a bater
com as mãos impacientes. E de volta, não podendo mais conter-se:
- Não abri a porta, Major, e ela vai continuar fechada. Sou responsável pela
igreja, pelo menos enquanto aqui estiver. Se a porta tivesse ficado aberta, a
falta
de vergonha daqueles malucos, com as negrinhas dando umbigadas, acabava
aqui dentro. E São José, e Santo Inácio, e Santo Antônio, e São Francisco, e
Santa
Cecília, e Santaninha, e Nossa Senhora, e Nosso Senhor Jesus Cristo, que o
senhor está vendo nos seus nichos e nos seus altares, iam levar as suas
bisnagadas, como
Dona Celeste levou as dela, como o senhor levou as suas, e como eu também levei
as minhas, quando vinha para cá, antes do dia clarear.
E pondo fim à conversa:
- Não vamos falar mais neste assunto. O importante é que, no dia de hoje, com as
bênçãos de Deus, o senhor está fazendo cem anos, no gozo da melhor saúde, e eu
aqui estou, como seu velho amigo, para celebrar a missa em ação de graças pelo
seu
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centenário. Vamos ocupar nossos lugares. Já passam das dez horas.
Deu um passo largo, como a experimentar todo o vão da barra da batina, e
caminhou para o altar-mor, por entre as duas orlas de bancos, enquanto o Major
lhe perguntava,
tratando de acompanhá-lo:
- E se aparecer algum convidado e der com a porta fechada, Padre Pimenta?
O padre tranqüilizou-o, sem se voltar:
- Bate na aldraba com força, e o sacristão vai abrir. Já o sacristão tinha
acabado de acender as velas do altar. Um cheiro suave de incenso queimado ia-se
espalhando.
A luz da manhã alta, coada por dois vitrais coloridos, não dava para clarear de
todo a nave, deixando vãos de sombras nos nichos, nos altares laterais, no
mezanino
destinado ao coro, nas escadas que levavam às duas torres. Mas os bancos vazios,
no recinto fechado, com o altar à espera do celebrante, davam ao ambiente de
luz
mitigada um ar concentrado de recolhimento e mistério, sobretudo quando
Padre Pimenta saiu da sacristia nos paramentos solenes, trazendo a pátena sobre
o cálice,
acompanhado pelo acólito, que trazia o íncensório.
Lá fora, em redor da igreja, o Carnaval parecia ter chegado ao auge, com seus
tambores, seus clarins, seus reco-recos, seus pandeiros, suas flautas e seus
saxofones,
de mistura com cantos desencontrados e trilos de apitos e batecuns de
pandeiros, sem que esses ruídos confusos, que invadiam a nave pelos vãos
das portas
e dos telhados, conseguissem perturbar o celebrante, que se concentrava no seu
ofício, de frente para
o altar, com uma grande cruz doirada na velha capa negra que lhe escorregava dos
ombros.
Enquanto a Celeste se mantinha de pé, com o terço nas mãos, no primeiro banco,
olhando o altar, com as costas e os quadris molhados pelo entrudo do adro, o
Major
se voltava a cada momento para o fundo da nave, convencido de que alguns de seus
convidados iam bater na aldraba da porta, querendo entrar. Por fim, antes da
elevação,
acabou por convencer-se de que ninguém viria, e pôde acompanhar a missa com mais
atenção, batendo no peito, torcendo as contas do terço, fazendo o sinal da cruz.
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À hora da prédica, embora ele e a filha ocupassem o primeiro banco, defronte do
altar-mor, o Major puxou o corpo mais para a frente, para não perder uma só
palavra.
E Padre Pimenta, como se falasse para a igreja repleta, no púlpito da parede:
- Estarmos aqui, para este ato de fé cristã, enquanto lá fora o Demônio está
solto, tentando atrair as almas para a condenação eterna, diz bem de
nosso reconhecimento
pela graça de Deus, que permitiu ao Major Taborda assistir ao transcurso
de seu primeiro centenário. Digo assim porque a misericórdia de Deus não tem
limites.
Os patriarcas do Velho Testamento chegaram a seiscentos, a oitocentos, a
novecentos anos. E o nosso Major Taborda, pelo visto, e com a bênção de Deus,
vai pelo
mesmo caminho. O dia de hoje é de ação de graças para nós. Só o fato de nos
reunirmos neste templo, onde o Major Taborda foi batizado, casou, batizou seus
herdeiros
e aqui festeja o seu centenário de nascimento, agradecendo a Deus a graça
recebida, em companhia da filha que adotou e criou, diz bem de nossa fé em
Cristo e de
nosso reconhecimento. O ruído que vem da rua não me permite continuar esta
predica. O que já disse creio que basta para fazer sentir a Deus o quanto somos
reconhecidos.
Ao mesmo tempo que agradecemos a misericórdia divina, pedimos ao Senhor
pelos que estão imersos no pecado, sem ver a luz que leva à salvação.
Lá fora, no largo ensolarado, a confusão parecia ter crescido ainda mais, com os
gritos, as cantorias, o bater dos tambores. E todo esse rumor confuso alcançava
o interior da igreja, a ponto de impedir que o Major e a filha ouvissem por
vezes as palavras do Padre Pimenta, novamente voltado para o altar. O próprio
sacristão,
a cada momento, parecia distrair-se, mais interessado na rua do que na missa, e
isto obrigava o padre a olhá-lo com severidade por cima dos óculos.
O Major, de joelhos, continuava a torcer as contas de seu terço, batendo no
peito, contritamente, com a cabeça para o chão, enquanto a Celeste, sentindo a
água
do entrudo descerlhe pelo dorso, à altura da espinha, como a procurar-lhe a
junção das nádegas, alarmava-se com este pensamento:
- Só peço a Deus que esta roupa molhada não me ponha nua, grudando nas minhas
nádegas. Se isto acontecer, não sei o
45
que faça quando tiver de dar as costas ao Padre Pimenta, depois da comunhão.
E com a água continuando a escorregar-lhe por cima da espinha, sentia no rosto o
calor da vergonha, e logo tratava de reprimir o frouxo de riso por trás do
leque.
46
CAPITULO VIII
MAL A MISSA terminou, o sacristão livrou-se do roquete com incrível rapidez,
atafulhou-o no gavetão da cômoda, sempre de ar assustado, e disse ao Padre
Pimenta,
que começava a despir devagar os paramentos:
- Me desculpe eu ir embora correndo, sem falar com o Major. Minha mãe ficou de
joelhos, rezando, até eu voltar.
E atirou-se para o fundo da sacristia, sem esperar pelo consentimento do padre,
que mantinha os braços levantados, com a vista encoberta, tirando a capa da
missa.
Quando por fim o reverendo os abaixou, a porta bateu com estrondo.
- O Mundico nem esperou que eu concordasse - comentou o reverendo, querendo
achar graça, com a sensação instantânea de que o menino havia voado.
Novamente na batina surrada, já esgarçada nos cotovelos e na dobra dos punhos,
Padre Pimenta quase vestiu maquinalmente a capa de chuva - quando verificou que
havia
esquecido de trazer o pequeno farnel que a Turíbia lhe preparara para que
pudesse passar na igreja o resto do dia, ou lendo, ou dormindo num dos bancos da
nave,
até a hora de poder voltar para casa, já com o Largo do Quartel desimpedido
pelos foliões.
O jeito foi rir de si próprio:
- E agora, Padre Pimenta?
E ainda ia acabando de abotoar o colarinho da batina, quando o Major transpôs a
porta que ligava a nave à sacristia:
- O senhor não vai ficar aqui até a noite, como me disse, Padre Pimenta.
vou deixá-lo em casa. O carro do Chico Bento está lá fora, juntinho da igreja, à
minha espera.
Onde cabem dois, cabem três.
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E o padre, tirando do cabide o chapéu e a capa de chuva:
- Nesse caso, estou às suas ordens. Quando quiser, podemos enfrentar as feras,
que estão lá fora de bisnaga em punho e balde de água. Como vou para casa, o
banho
agora não me mete medo.
O velho confiou na sua força moral:
- Não vai acontecer nada. Deixe comigo.
Passou à frente, atravessou a nave. Mas foi o padre que entreabriu de manso a
porta sobre o adro, à espreita da ocasião mais adequada para saírem, enquanto a
Celeste,
com a cauda do vestido na dobra do braço, ainda de quadris molhados, tentava
reprimir o riso nervoso, vendo o pai de bengala em riste.
Pela fresta exígua, que alongava para dentro da nave um fiozinho de sol muito
vivo, entravam agora para o interior da igreja, mais fortes, mais confusos, os
tinidos
dos guizos, os gritos, as cantorias, a balbúrdia dos instrumentos
musicais desencontrados, o trilar sucessivo dos apitos, de mistura com
sapateados, batecum
de tambores, estrondo de bumbos, o silvo longo de um clarim, vozes em
falsete, e o estoiro repetido das cabacinhas e dos limões-de-cheiro, por entre
gritos e protestos.
O velho adiantou-se, com a bengala em programa de bordoada, o passo resoluto:
- Deixe eu passar, Padre Pimenta. A Celeste me acompanha. O senhor vem logo
atrás, para lhe dar proteção.
De bengala levantada, abriu mais a porta, saiu à rua, recebendo no rosto a
claridade da manhã alta, e tomou à sua esquerda, ofuscado pela luz excessiva
que parecia
quebrar-se por cima dos telhados. Felizmente, assim que contornou a
fachada da igreja, deu com a carruagem junto ao meio-fio. E onde estava o Chico
Bento?
A parelha, atrelada aos varais, escarvava o chão, tinindo as ferraduras
dianteiras nas pedras do calçamento, subindo e baixando a cabeça que as rédeas
ainda prendiam.
E o Major, curvando-se para o cocheiro, que jazia adormecido na calçada, junto
ao oitão da igreja, com a mão direita no gargalo da garrafa de cachaça:
- Chico Bento! - chamou-o.
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Mas foi em vão que lhe agitou o busto lerdo, gritando pelo nome do cocheiro.
Este, numa das vezes, conseguiu entreabrir os olhos, resmungando, com a baba a
lhe
descer pelo canto do queixo:
- Vá embora. Não estou para ninguém.
E tanto o padre quanto a Celeste, que logo acudiram, ficaram um momento
desorientados, entre o cocheiro e a carruagem, sem saber se subiam para o carro
ou voltavam
para a igreja.
- Para o carro! - gritou o Major, ao ver que dois foliões, levantando uma tina,
se preparavam para lançar sobre os três todo o resto da água suja.
O padre precipitou-se para o assento traseiro, puxando a Celeste pelo braço.
Esta ainda se atrapalhou na subida com a cauda do vestido. Mas já o Major tinha
saltado
para a boléia, desvencilhando-se da bengala e segurando o chicote. E quando os
foliões se aproximaram, retraindo os braços para o arremesso da tina, o velho
ziniu
no ar a chicotada firme, depois outra, mais outra, ao mesmo tempo em que
desprendia as rédeas, quase de pé.
- Eh, ô, eh, ô! - gritou para a parelha, estalando a língua no céu da boca, como
se fosse arremessar a carruagem sobre o pandemônio da rua.
Os cavalos arremeteram para a frente, com as patas dianteiras alteadas no
impulso do primeiro galope, e a traquitana se precipitou Rua do Sol abaixo, com
os foliões
saltando para um lado e para o outro, enquanto o Major continuava sacudindo as
rédeas e brandindo o chicote, a tempo de livrar-se do banho de água imunda, que
se
esparramou sobre a capota da carruagem, respingando-lhe no chapéu e na
sobrecasaca.
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II
Um baile para Lorde Cochrane
CAPITULO I
AFINAL, na quinta-feira, já noite fechada, apareceram no sobrado, sem qualquer
aviso, alguns dos amigos que o Major Taborda havia convidado para a missa de seu
centenário.
E a esses amigos vieram juntar-se, para maior surpresa do velho, o Bispo e o
Governador do Estado.
Por muito pouco o Major não foi apanhado no seu camisolão de dormir, com o gorro
da noite na cabeça. Tendo-se retardado na varanda, às voltas com a leitura da
Pacotilha, não se recolheu ao seu quarto e à sua rede à hora em que
habitualmente o fazia. Mas foi em chinelos que recebeu Dom Xisto Albano no
patamar da escada,
com o jornal na mão:
- Desculpe os trajes caseiros, Dom Xisto. Sei que, para o senhor, eu devia estar
de casaco e gravata. Mas, já que o senhor me fez esta surpresa, permita-me que o
receba assim mesmo, na maior intimidade, mas com todo o respeito.
E o Bispo, dando-lhe o anel a beijar:
- Faça-me este favor, meu caro Major.
E o velho, mostrando-lhe o caminho para a sala de visitas, depois de prevenir a
filha de que estava ali o Senhor Bispo:
- Por aqui, Dom Xisto. Não repare a desordem. Casa de velho cheira a mofo.
Na verdade, a sala aconchegada, com o sofá e as cadeiras resguardados pelas
capas de pano grosso, deixava sentir o toque e o zelo de mãos femininas, com a
limpeza
circundante, as coisas nos seus lugares, e os paninhos bordados que enfeitavam
os consolos. A um canto, como retraído e zangado, o piano. No espaço entre as
janelas,
os velhos espelhos doirados, já com o aço manchado e as molduras carcomidas. Na
parede
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em frente, a marquesa de palhinha, ladeada pelas cadeiras de braço. No chão, ao
pé da marquesa, duas vistosas escarradeiras de louça inglesa.
E o Major, solícito, passando à frente do Bispo:
- Deixe-me tirar a capa do sofá, Dom Xisto. Dom Xisto tentou interromper-lhe o
gesto, porém sem resultado, porque o Major já segurava a capa por um dos lados,
muito
ágil e expedito, descobrindo o móvel imponente, com leves frisos doirados na
madeira polida.
E o Bispo, alongando a vista por uma das janelas:
- Aqui em frente tem o amigo o nosso Largo do Desterro, com esta bela igreja.
Ali adiante, o rio Bacanga. A lua por cima dos telhados escuros. Mais longe, o
mar.
E este sossego, esta paz, este aconchego. Parabéns, meu caro Major. Agora
compreendo por que chegou aos cem anos, e ainda vai viver outro tanto, com a
proteção
de Deus.
O velho pôs a mão no peito, inclinou para o lado a cabeça reconhecida:
- Amém, Senhor Bispo.
Antes de sentar-se num dos cantos da marquesa, Dom Xisto olhou por alguns
instantes o retrato do Major ainda moço, e que pendia da parede em frente, por
cima do
móvel, preso a um gancho de metal por um grosso cordão de veludo em forma de V
invertido. Do outro lado da parede, outro gancho de metal, da mesma altura,
parecia
esperar pelo retrato que faria si; metria com o do Major e de que restara a
mancha retangular, por muito tempo, no papel pintado que revestira o reboco.
Dom Xisto aproximou-se do retrato, quase a ficar na ponta dos pés:
- Muito boa pintura, Major. Quem foi o pintor?
- Um inglês boêmio, que passou por São Luís há mais de meio século e de que não
guardei o nome.
O Bispo sentou, cruzou as pernas, as mãos entrelaçadas sobre o joelho,
com ares de entendido:
- Muito bom trabalho. O artista soube fixar a expressão enérgica de seus olhos,
o
tom de sua pele, os traços indígenas, o queixo voluntarioso. Uma bela obra. É
pena que não esteja assinada.
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E quando a Celeste entrou na sala, no mesmo vestido cintilante com que tinha ido
à missa, trazia consigo um senhor baixo e gordo, de ar afetuoso, e que ficou
parado
na moldura da porta, sorrindo para o Major.
- Meu caro Governador Colares Moreira! - exclamou o velho, indo ao seu encontro,
ao mesmo tempo em que Dom Xisto se levantava, com um ar cortês, sempre com os
dedos entrelaçados.
E durante alguns momentos o Major e o Governador ficaram abraçados no centro da
sala, enquanto a Celeste se postava ao lado do Bispo.
O Governador, repetindo o abraço:
- Já soube de tudo. Da missa na igreja de Santaninha. Do entrudo. Da bebedeira
do Chico Bento. E do meu caro Major, aos cem anos, na boléia da carruagem, de
chicote
em punho, conduzindo a parelha, Rua do Sol abaixo.
- É verdade, é verdade - confirmou o velho. - E ainda fui levar Padre Pimenta
na Rua da Cruz, perseguido pelas cabacinhas e os limões-de-cheiro. Por
fim,
aqui na Rua da Palma, tive de atirar chicotadas para um lado e para o outro,
quando um grupo de atrevidos se atravessou no meu caminho. Atirei os cavalos em
cima
deles, sacudi o chicote, e foi mais quem pulou de lado, para não apanhar.
Dom Xisto aprovou:
- Uma bela lição. Que merecia outra missa. Ou pelo menos uma doaçãozinha a mais
para as obras de meu Palácio. Perfeitamente. Eu não arrecado impostos, como o
nosso
Governador: faço as minhas obras com a caridade dos fiéis. E o nosso Major,
louvado seja Deus, tem sido um grande exemplo, nesta nossa São Luís de mãos
fechadas.
Devo muito ao nosso Major, Senhor Governador. E a Vossa Excelência também; mas
com menos largueza, com muita prudência.
O Governador enxugou no lenço dobrado a testa espaçosa. E a acomodar-se na outra
ponta do sofá:
- Sou obrigado a arrecadar, Dom Xisto. Do contrário, como custear as
obras públicas? Como pagar os funcionários? E como ajudar o meu Bispo, na bela
obra
de seu Palácio?
- Palácio da Cidade - corrigiu Dom Xisto.
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E enquanto os dois rasgavam seda, trocando amabilidades, a Celeste tratou de
acender outros bicos de gás, para dar mais vida à sala, e nisto viu o pai
esgueirar-se
pelo corredor, na ponta dos pés, para voltar pouco depois no seu traje de
passeio, com a gravata fofa sobre o peito duro, a sobrecasaca descendo para os
joelhos,
a pedir desculpas aos amigos por tê-los recebido de chinelos.
- Agora, sim, me sinto bem - confessou. E como outros amigos vinham chegando,
ouviu-lhes as vozes na escada, depois os passos no corredor, e foi recebê-los à
entrada
da sala, de mãos espalmadas à altura dos ombros, risonho, as pupilas mais
vivas, embora fossem apenas quatro, e todos eles seus inquilinos:
- Entrem, entrem. Por que foram se incomodar? Eram eles, por ordem de entrada na
sala: o Cristiano Maldonado, de cabelo preto repartido ao meio, bigode aparado
rente,
alto, suíças crespas, muito cheiroso; o Filogônio Gomes, imensamente calvo,
olhos fundos, pele clara, baixinho, rigorosamente de preto; o Cremildo
Laranjeiras, caladão,
gostando de rir, e o Onofre Sezefredo, conhecido na cidade por Onofre Simpatia,
permanentemente de olhos mortos e mão no peito, ensaiando um cumprimento
respeitoso.
À medida que o Major os ia abraçando, recordava o débito de cada um, de si para
si:
- Este Maldonado, assim cheiroso, não me paga desde setembro, com a
desculpa de que o Tesouro do Estado também não lhe paga. Vou-lhe dar mais dois
meses,
já que veio aqui. Errei com este Filogônio porque sou bom demais. Além de não me
pagar desde junho, fez uma horta no quintal da casa, e vende o que colhe no
Mercado.
vou deixar passar uns tempos e apertar com ele. Este Cremildo vive jogando alto,
e é por isso que não me paga. Vai pagar. Depois da Páscoa, aperto com ele. Aqui
está o Simpatia, com a mesma cara lavada, os mesmos olhos pendurados, tramando
um novo calote. Não só me deve como ainda me tomou dinheiro emprestado, para
pagar
no dia de São Nunca. E a casa em que ele mora, para os lados da Estação, não
podia ser melhor.
E o velho, perto do sofá, apresentando-os ao Bispo e ao Governador do Estado:
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- Quatro excelentes amigos.
Cada um deles inclinou a cabeça, e três tomaram o rumo da primeira janela:
somente o Simpatia permaneceu parado uns momentos, de mão reverente sobre o
coração, sorrindo
para o Governador e para o Bispo, até que o Major o fez andar:
- Vá também para a janela. Junte-se aos outros. Lá está mais fresco.
E o Governador, puxando o velho para seu lado, na marquesa de palhinha:
- Sente-se aqui. Tenho uma pergunta a lhe fazer.
Dom Xisto pediu licença para diminuir os bicos de gás, que começavam a chiar,
com uma luz azulada muito intensa, espalhando em volta um cheiro forte de
carbureto,
e a claridade da rua entrou na sala, refletindo-se nos espelhos e apagando-se no
cinza-pálido do papel das paredes.
Precedida por uma preta magrinha, muito seca, de cabeça toda branca, e que
trazia nas mãos uma bandeja repleta de copos quase transbordantes, a Celeste
voltou à
sala, e pôs-se a oferecer refresco às visitas:
- É a bebida de papai, Dom Xisto: gengibirra fresca, preparada pela Prudência,
que fez questão de trazer a bandeja. A Prudência já fez oitenta anos,
Governador.
- Oitenta e dois - corrigiu a preta. - Em véspera de fazer oitenta e três. E com
vontade de pegar Seu Major.
Riram todos. A bandeja falseou nas mãos da preta, e isso dobrou o riso da
Celeste, que se pôs a recolher os copos.
E o Governador, assim que as duas deixaram a sala, tornou a Voltar-se para o
Major, que se instalara agora numa cadeira de braços, cruzando as pernas:
- Diga-me uma coisa. O meu bom amigo viu com esses seus olhos, aqui em São Luís,
no tempo da Independência, o famoso Lorde Cochrane?
- Assim como estou vendo o senhor, Governador. Houve um silêncio. E Dom Xisto,
aproximando-se:
- Há quem diga que esse inglês era pessoa fina, de bom trato, um bonito homem.
Mas há também quem afirme que não passava de um cavalão, só pensando em defender
seus interesses pessoais. Na sua opinião, como era ele?
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O Major continuou recostado no espaldar da cadeira. E ora olhando o Governador,
ora olhando o Bispo:
- Eu já tinha feito vinte anos quando conheci o Marquês. Marquês, sim: Marquês
do Maranhão, por ato de Pedro I. Lorde era ele na Inglaterra. Dele se sabe, com
toda
a certeza, que raspou o ouro e a prata que pôde levar daqui, a pretexto de se
pagar do serviço que havia prestado ao Império, com a nossa Independência. Onde
houvesse
um português rico, em São Luís, lá estava o Marquês, com a sua sacola,
recolhendo os dobrões e os cruzados.
Dom Xisto deu mais luz aos olhos curiosos:
- E o tal dinheiro do Cofre dos Órfãos e Ausentes, que o Lorde teria levado, é
mesmo verdade? Ou tudo não passaria de mexerico do Largo do Carmo, igual aos que
circulam
de vez em quando a meu respeito, a propósito dos donativos para as obras do
Palácio Episcopal?
O Governador Colares Moreira, que ia acendendo o cigarro, permaneceu com o
fósforo na ponta dos dedos, a olhar o Bispo. E logo se voltou para o Major, que
se dirigia
a Dom Xisto:
- É verdade. Quis raspar o cofre. Mas encontrou pela frente um magistrado
corajoso, que sustou o assalto. Posso lhe adiantar ainda que o Marquês não se
limitou ao
dinheiro em ouro e prata que levou daqui. Quem não pôde pagar em dinheiro, para
não ter que ser deportado, pagou em alfaias, pagou em jóias, pagou em escravos,
pagou
até em santos de marfim que tirou do oratório. E houve quem desse as filhas.
Quem desse a mulher. Dom Xisto aumentou os olhos, bateu com as mãos nos joelhos,
recuou
a cabeça espantada:
- Deu mesmo? Para o Marquês levar?
- Para o prazer de uma noite, Dom Xisto - esclareceu o Major, cruzando as
pernas.
E depois, na mesma voz serena:
- Não se esqueça de que setenta e oito senhoras maranhenses, representando a
fina flor de nossa sociedade, foram a bordo do navio do Marquês entregar-lhe uma
representação,
assinada por todas elas, reconhecendo nele um enviado da Providência Divina para
pacificar o Maranhão. E voltaram encantadas com o Lorde.
58
Dom Xisto levantou-se de arremesso. E espalmando no ar as mãos bem tratadas:
- Não diga mais nada, Major. Por hoje, basta. Já sei que vou custar a dormir.
Voltou-se para o Governador Colares Moreira, que segurava o cigarro defronte da
boca, pensativo:
- Vai ficar, Excelência?
- Também me retiro.
O Major suspirou, após um silêncio. E erguendo o olhar para o Bispo, que o
observava, acrescentou:
- Entre as setenta e oito conterrâneas que visitaram o Marquês, estava aquela
que seria a minha melhor amiga: a Caiu Malafaia. Posso dizer que foi graças a
Cochrane
que eu a conheci. Por esse tempo, já a Caiu era casada com o Virgilinho
Malafaia, uma flor de criatura. E até hoje, há momentos em que sinto ciúmes dela
com o
Marquês. Sim, senhor: ciúmes. Mas também há ocasiões em que rio sozinho. Porque
a Caiu achava graça de tudo. E o Virgilinho não ficava atrás.
59
CAPÍTULO II
UMA A UMA, o Major experimentou as portas e as janelas, para ver se estavam bem
fechadas. Torceu aqui um ferrolho, ali outro, sacudiu de novo as rótulas.
Depois,
de narinas dilatadas, aspirou o ar à sua volta, certificando-se de que os bicos
de gás não precisavam ser apertados. E só então - mas ainda sem sono - se
recolheu
ao seu quarto.
Pela janela escancarada sobre o Largo do Desterro continuava a entrar a
claridade alvacenta do lampião da esquina, envolvendo a rede, a estante
envidraçada, a secretária
de tampo corrido, o guarda-roupa, a alta cômoda de argolões de bronze, com o
crucifixo de marfim na redoma de vidro, a vela espetada no castiçal, o bonito
candeeiro
de opalina, tudo esbatido na meia luz. Contra a parede branca, perto da rede, a
cadeira de braços em cujo assento de palhinha a Prudência punha sempre o
camisolão
do Major, e mais o seu gorro de dormir, com o par de chinelos no tapete.
Antes de despir a sobrecasaca, o Major acendeu o pavio do candeeiro, repôs-lhe
com a mão firme a manga de vidro. E já de chinelos, fechou a metade da janela,
atenuando
a aragem fresca que a noite umedecia. Pouco depois, vestindo a camisola, pôs-se
a dizer para si mesmo:
- Eu podia esperar tudo, menos que me entrassem pela casa, sem qualquer aviso,
para me abraçarem pelo meu centenário, o Governador e o Bispo. Quanto aos quatro
pilantras,
que são meus inquilinos, também podiam não ter vindo, embora estejam atrasados
com os aluguéis; mas vieram, foram atenciosos. Cada um deles, ao me abraçar,
me
disse uma palavra
60
gentil, mesmo o secarrão do Filogônio Gomes, que sempre teve o rei na
barriga.
E pondo o gorro, com a borla pendida para o ombro:
- Não é a qualquer um que Dom Xisto visita. Sei disso de fonte limpa. Muita
gente se queixa dele. Que não dá confiança. Que não sai de seu Palácio. Comigo,
sempre
foi atencioso. Quando o Padre Pimenta o consultou, sobre se podia dizer a missa
na igreja de Santaninha, deu-lhe carta branca: que fizesse o que fosse possível
para
me atender. Hoje, não precisava ter vindo aqui. Bastava mandar o Vigário Geral.
Ou o Mestre-de-Cerimônias da Sé. Mas veio ele próprio. Fiquei penhorado. Não
posso
deixar de ajudá-lo nos arremates do Palácio.
E na janela, olhando distraidamente a fatia de lua:
- Quem não prega prego sem estopa é o nosso Governador. Muito fino, muito
maneiroso, parecia que não queria nada. Mas, lá embaixo, na hora da saída,
assim
que Dom Xisto entrou na carruagem, deu um jeito de ficar a sós comigo, para me
dizer que desejava abrir uma rua, no Caminho da Boiada, passando por um terreno
meu,
e se eu concordava. Concordei. Que é que eu ia dizer? Que não concordava? Era
retribuir a gentileza dele com uma grosseria.
Suspirou:
- Vão-se os anéis, fiquem-se os dedos. Quando eu fechar os olhos, a Celeste já
tem com que viver. Não tenho filhos, não tenho a quem deixar. Que custa ajudar a
cidade?
E foi ainda ali, com os braços no poial da janela, que de repente se recordou do
sobrado da Rua do Egito que faz canto com o Beco do Couto, na noite do banquete
a Lorde Cochrane. Comentou, esquecendo os olhos no ar:
- Parece que foi ontem.
E ele via o sobrado iluminado, o movimento- da rua, os tapetes nas sacadas, os
salões enfeitados, as cadeirinhas chegando, e chegando também as carruagens, e
os
cavalos de sela, e os pretos altos na soleira da porta e ao pé da escada, os
archotes acesos, gente muita na calçada fronteira.
Embora esperassem pelo Lorde desde o cair da noite, somente por volta das nove
horas correu a notícia de que ele vinha a caminho, com alguns de seus oficiais
mais
graduados.
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Toda a Rua do Egito, entre o Largo do Carmo e a Rua do Poço, resplandecia de
lanternas coloridas, archotes, fachos, lampiões, com o casario iluminado. As
janelas
repletas, as calçadas atulhadas, e toda gente aguardando a passagem de Cochrane.
Ao mais leve rumor de um carro, para o lado da Rua do Sol, crescia o alvoroço
nas
sacadas, e era mais quem espichava o corpo e alongava a cabeça, até que o ruído
se perdia, desfeito pelo aviso que fazia rir:
- Rebate falso - repetiam.
No sobrado que ia receber o Lorde, já os músicos davam mostras de impaciência,
voltando a afinar os instrumentos: ouvia-se o ressoar de uma corda, o estalo
de uma cravelha, o sopro de uma clarineta, o gemido de uma flauta. O Professor
Toríno, que não sentava ao piano desde que enviuvara (e isto ocorrera dias antes
da
Independência), tinha por fim concordado em tocar e reger naquela noite, por se
tratar de uma homenagem ao pacificador do Maranhão. E mesmo ele, magérrimo, a
cabeça
calva, com uma barra farta de cabelos brancos rodeando-lhe o crânio luzidio,
não escondia o seu desagrado com a demora do Almirante: de vez em quando
ensaiava
uma nota no teclado, calcava os pedais, dava início a uma escala ou a um
prelúdio, ou então tratava de reprimir o bocejo com a costa da mão transparente.
Nas salas, nos corredores, na imensa varanda escancarada para a baía de São
Marcos, na escada, nos aposentos internos, crescia o falatório dos
convidados impacientes.
As cadeiras eram poucas para aliviar as pernas fatigadas. E todo mundo se
abanava, sacudindo os leques ou as próprias mãos, sentindo aumentar o calor do
sobrado,
como se o ar começasse a faltar. Ele, Ramiro Taborda, chegara cedo, no seu
redingote de veludo azul sobre a calça creme, ainda feito em Londres, e tratara
de acomodar-se num vão de janela, do lado do Beco do Couto. Dali podia receber a
aragem úmida que vinha do Cais da Sagração. E foi ali que o velho Inácio Corrêa
veio encontrá-lo, vermelho, suando muito, a abanar-se com as
mãos papudas:
- Você é o Ramiro, filho do desembargador Venâncio Taborda? Fui amigo de seu
pai. Amigo do peito. Não foi você que estudou em Londres? Logo vi que não me
tinha enganado.
62
Assim que vi você entrar, disse comigo: - É o Ramiro. Eu o vi menino, está um
homem, benza-o Deus. Veio também ver o Lorde? Eu vim para que não se diga depois
que
sou desmancha-prazer.
Consertou a garganta, tossiu forte, pigarreou. E aproximando-se mais do outro,
numa voz abafada:
- Se o Cochrane não vai embora daqui o mais depressa possível, não sobra moeda
de um real para a caixa das esmolas, nas igrejas. É o que estou lhe dizendo, meu
caro
Ramiro. Toda a prata e todo o ouro ele já meteu no bolso. Não há mais cruzado em
circulação, com toda certeza. Sei que não estou exagerando. E é assim que você
reencontra este nosso Maranhão, depois de cinco anos na Inglaterra. Imagino a
sua revolta, como moço. E os culpados de tudo quanto está acontecendo aqui
somos
nós, maranhenses. Primeiro, brigando uns com os outros; segundo, cada um, mais
esperto e mais velhaco, querendo passar o outro para trás, na hora da confusão.
Resultado:
vem o Lorde, de costas quentes, e faz de nós o que quer, cobrando-nos os olhos
da cara pelos serviços que nos teria prestado. E não pense que o Almirante se
limite
a dinheiro. Há muito chifre na cidade, na cabeça de muito marido, posto por ele.
Nesta mesma sala, sem sair desta janela, estou vendo alguns. Nas outras salas,
também.
Na escada, quando ia subindo, topei com um, que vinha aqui para cima com ar
feliz. Não sei como passou no vão da porta com o tamanho dos chavelhos. É o que
estou
lhe dizendo. Arregale esses olhos espantados. Os meus, veja bem, já os arregalei
tanto, como se fossem tomar o resto da cara.
Este Inácio Corrêa era um tipo atarracado, corpulento, vermelho, de colarinho
altíssimo a lhe suspender a cabeçorra chata, muito peludo, levemente estrábico,
e que
falava baixo e grosso, quase rosnando, a segurar o interlocutor pelo braço:
- Ainda bem que o Almirante já se prepara para ir embora. Bons ventos o levem. E
que nunca mais o devolvam a estas nossas plagas.
Já vai tarde. No começo, para restituir
as propriedades que havia tomado a título de indenização pelos serviços que nos
teria prestado, o Lorde tinha exigido, em cima da mesa, quatrocentos e vinte e
quatro
contos. Em dinheiro vivo. Tinindo. Depois, vendo que as tetas não davam tanto
63
leite de uma vez, reduziu a bolada a cento e seis contos, para serem pagos em
trinta dias. Amanhã termina o prazo. E eu fui informado de que a dinheirama já
está
no bolso do Almirante. Sim senhor. Agora, depois da bolada segura, ele está
chamando para os peitos, a bordo do seu navio, as melhores sirigaitas que foram
daqui
ao encontro dele para lhe pedir que pacificasse o Maranhão.
Riu baixinho, escondendo na concha da mão as falhas da dentadura, e novamente
aproximou o rosto gordo da orelha do Ramiro Taborda, com um resto de galhofa na
garganta:
- Pacificou, isto sim, o assanhaço delas. E ao ver que uma senhora morena, alta,
de olhos negros, atravessava a sala, caminhando para a sala contígua, de braço
com
o marido, que fazia contraste com ela, muito baixo e espigado, não conseguiu
conter-se por muito tempo:
- Conhece os dois, pois não? Ele é português, ela é brasileira. Nestes cinco
anos, enquanto você andou estudando na Inglaterra, muitas coisas curiosas
aconteceram
nesta nossa São Luís. Esse casal se juntou quando você estava fora. Ele é o
Virgilinho Malafaia, dono daquele armazém imenso da Rua do Trapiche, no canto da
Rua
da Calçada. Há quem diga que ele veio para o Maranhão passar dinheiro falso. Não
afirmo nem nego, porque não vi. O que posso afirmar é que esse Virgilinho, assim
miudinho, assim baixinho, enriqueceu da noite para o dia, e ainda se casou com
aquele pedaço de morena que parece nos convidar para a cama só em olhar para a
gente.
Chama-se Carolina. Não sei de quem é filha. Sei que só a chamam de Caiu. Caiu
Malafaia. Embora casada com um português, ela conseguiu se meter no meio das
setenta
e oito senhoras que foram se entender com o Lorde, no navio dele. O Almirante
ficou de beiço caído. Só olhava para ela. Tonteou. Mas, ao que parece, o inglês
ainda
não conseguiu enfeitar a cabeça do marido. Olhe como vai o Virgilinho: leve, na
ponta dos pés. E ela, justiça se lhe faça, é uma mulher e tanto. De mexer com a
gente. Eu, nesta idade, só em olhá-la de relance, já estou tinindo. E como se
caísse em si, preocupado:
- Você já fez vinte anos, Taborda?
- Vinte e um. E o velho Inácio, aliviado:
64
- Isso é outro falar. Nessa idade, já podemos falar de homem para homem.
Vinte e um anos? Teu falecido pai ia orgulhar-se de ti. Saíste um bonito homem,
com
essa barba fina, esse cabelo encaracolado, sem perder os traços índios, que te
ficam bem. Podias ter crescido um pouco mais. Podias. Mas, de chapéu alto, assim
fino,
tens uma boa estatura. E a estampa ajuda. Ajuda. Lembras-te de teu pai? Logo vi:
tinhas de te lembrar. Era do teu tamanho. Talvez um pouco mais baixo. Caboclo
forte.
Entroncado.
Mudou de tom, com os olhinhos acesos:
- Olhe a Caiu de volta. Repare no corpo dela, no modo de andar, na harmonia do
rosto com os seios, a cintura, os quadris. E o tamaninho dos pés, Taborda. Uma
mulher
como a Caiu Malafaia não podia ser de um único homem. Não, não podia. Tinha de
ser sorteada, todas as semanas, para dormir com o premiado uma noite e ser
devolvida
ao marido na manhã seguinte, cheia de jóias. Não ria. Estou falando sério.
E de súbito, com o clarão que se abriu lá fora, por cima dos telhados, correu a
boa nova:
- O Lorde já está a caminho. Agora, sim, é ele.
As janelas pareciam a ponto de estoirar, nos dois lados da rua, com as pessoas
que se apertavam e comprimiam nas sacadas, debruçando-se para ver a carruagem do
Almirante, que os fogos de artifício vinham acompanhando.
O Professor Torino pôs as mãos nervosas nas teclas, calcou os pedais com a ponta
das botinas de polimento, e esperou o sinal de que Lorde Cochrane ia começando
a subir a escada do sobrado. Os outros músicos, igualmente tensos, postaram-se
diante das partituras, com os seus instrumentos preparados, e entre os quais se
destacavam
a harpa e o violoncelo, ladeando o piano.
Ramiro conseguiu esgueirar-se por entre os convidados e veio postar-se no
corredor, a um passo do patamar, para ver o herói de perto, sob a claridade das
velas do
imenso lustre oscilante que iluminava a escada. Sentia as mãos geladas, um
arrepio de frio na espinha. E logo avistou a figura alta do Almirante, no seu
uniforme
solene, de espada e chapéu de plumas, as dragonas reluzindo sobre a túnica azul
de botões
65
doirados, a calça clara engolida pelas botas espelhantes, um topete de desafio
na cabeleira loura, suíças grisalhas, os olhos anilados. Pisava com firmeza os
degraus
de madeira, ladeado pelo Governador Civil e pelo Governador das Armas, ambos
fardados e tesos. Por duas vezes, no correr da subida, a ponta da bainha da
espada roçou
na quina do degrau, e o Lorde prontamente corrigiu a posição da arma na cintura,
com uma expressão severa no olhar e na mão crispada.
Taborda se sentiu tão emocionado ao vê-lo aproximar-se, crescendo de
imponência e tamanho, que prendeu a respiração, de lábios levemente
entreabertos, encostado
à parede, os olhos parados. Parecia-lhe uma aparição. E nisto ressoaram os
acordes do Hino da Independência, que o Professor Torino tocava e regia quase de
pé. No
sobrado, todos se levantaram. Silêncio. A aragem da rua tufou uma cortina. E o
Taborda deu com o Almirante perfilado no patamar, a pouco menos de um metro de
distância.
Sentia-lhe a respiração, distinguia-lhe os cílios imóveis, a mão no punho
da espada, a outra junto à coxa, o chapéu de plumas sobraçado. Teve receio de
desfalecer.
Mas reagiu, inspirando seguidamente, e viu que o Almirante, logo após a
derradeira nota do hino, quando as palmas estrondavam no sobrado, estendia a mão
direita
em sua direção, como se o reconhecesse. Ficou sem ação por um segundo, mas logo
adiantou o braço, sem poder falar.
E quando o Almirante passou, contornando o corrimão da escada, e entrou na
primeira sala, acolhido pelas palmas prolongadas, sentiu que o puxavam pela aba
do redingote:
- Já o conhecia? - perguntou-lhe o Inácio Corrêa, de novo ao seu lado, com
um lume de curiosidade mais viva nos olhos arregalados.
- Não. É a primeira vez que o vejo.
- Ele lhe falou como a um velho amigo. Deve ter confundido você com outra
pessoa. Eu, no seu caso, tinha-lhe dado a mão mole.
E tornando a segurar o braço do Ramiro, trouxe-o até a porta da sala, no passo
a passo que a aglomeração humana lhe permitia. Afinal, abriu espaço até uma das
janelas
sobre a Rua do Egito. E desabotoando o casaco, no esforço para refrescar-se:
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- A Caiu Malafaia já se apoderou do homem. Ou foi ele que se apoderou dela. Veja
ali. Do outro lado, perto da porta. O Virgilinho afastou-se para um lado.
Está falando com o Professor Torino. Isto quer dizer que as danças vão
começar. Prepare-se para ver o melhor da festa.
Apesar de gordo, bochechudo, mãos papudas, gestos lentos, o Inácio Corrêa era
agora outro homem, com um fulgor no olhar, a cabeça mais espichada, o andar
leve,
saltitante. Parecia na ponta dos pés, olhando por cima das pessoas que lhe
tomavam a frente. E como, mesmo espichado, a sua visão não lhe satisfazia,
arredou com
a mão as duas pessoas mais próximas:
- O bom amigo dá licença? Se não se incomoda. . . Obrigado. Assim está ótimo.
Deus lhe pague. Você não é o Anísio Siqueira? Logo vi que não me enganei. Pode
chegar
um pouquinho para a esquerda? Assim. E o senhor também, Comendador. Muitíssimo
obrigado ao bom amigo.
E de novo agarrado ao braço do Ramiro:
- Aposto o que você quiser: a Caiu Malafaia vai sair dançando com o
Lorde. O resto do mulherio está morrendo de inveja. A Caiu passou todas as
outras
para trás. E olhe como o Virgilinho também está feliz. São dois bem-aventurados.
Dois? Três, incluindo o Lorde, que já está entregando o chapéu e as luvas para o
ajudante-de-ordens. É agora, Ramiro. Olhe a Caiu como está: os olhos mais
brilhantes, os seios mais pontudos, as cadeiras mimosas. Meu Deus, que
maravilha! Isto
não é mais realidade - é sonho! Não é uma valsa que a orquestra está tocando?
É, é uma valsa. Foi isso que o Virgilinho foi pedir ao Professor Torino. Será
possível?
Uma valsa, em vez de um minueto? Onde estamos, meu caro Taborda? É o cúmulo. Lá
vai o Lorde com a Caiu. Parecem dois loucos, rodando, rodando. Valha-me Deus!
Estamos
perdidos! E olhe como o Virgilinho aplaude. Todo mundo abriu espaço para o par.
E eu vivi para assistir a uma loucura destas!
E a Celeste, com os cabelos nos papelotes, dirigindo-se ao Major, que ainda
continuava à janela, como a olhar embevecidamente a fatia de lua:
- O senhor sabe que horas são, papai? Já bateu uma hora. Uma hora da madrugada.
E o senhor na janela, como se fosse
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esperar o dia amanhecer, fumando esse cigarrinho de palha. Feche a janela. Trate
de se deitar.
O velho atirou longe a ponta do cigarro, fechou a rótula, torceu-lhe o ferrolho.
E já na rede, ao embalar-se de leve para chamar o sono, ainda via a Caiu
Malafaia
dançando.
III
O retrato da Minervina
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CAPITULO I
POR VÁRIOS ANOS, no papel pintado da sala de visitas, permaneceu a mancha
retangular de outro retrato, simétrica ao retrato do Major Taborda. E só
desapareceu dali
depois da proclamação da República, quando o velho papel de parede, importado de
Paris, foi substituído por outro, de
tom cinza, que deu mais vida aos espelhos
dourados, ao piano, à marquesa de palhinha, aos consolos, ao grupo francês, à
marinha inglesa representando uma cena da batalha de Trafalgar.
Desaparecida a mancha, não se desfez de todo a idéia do retrato que dali saíra,
porquanto continuou encravado na argamassa de pedra e cal o gancho de ferro que
o
segurava. Ainda ao tempo do Capitão Ananias, quis este retirá-lo dali; mas o
gancho resistiu às sacudidelas e marteladas, como se fizesse parte da própria
parede.
E foi a Celeste quem levou o marido a descer da escada:
- Estás perdendo teu tempo. É mais fácil derrubar a parede do que arrancar daí
esse gancho.
E para que o retrato do pai, na larga moldura dourada, não ocupasse, solitário,
um dos lados da parede, com o outro lado vazio, sugeriu ao Capitão que o pusesse
ao centro, por cima da marquesa, dominando a sala. Ananias aprovou-lhe a
sugestão. No entanto, ao fim de quase uma hora de marteladas rijas na cabeça de
um prego,
desistiu de cravá-lo em tão dura argamassa: a ponta do prego, a despeito das
pancadas firmes, que faziam a caliça projetar-se a boa distância, acabou
entortando,
sem conseguir segurar-se. E o Capitão, descendo da escada:
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- O melhor é que teu pai permaneça onde sempre esteve. O lugar do retrato
continua a ser esse mesmo. Por mim, ponto final. Cansei.
Por ocasião do centenário de nascimento do Major, a parede continuava a exibir o
mesmo gancho vazio, como à espera do retrato que faria simetria com o do Major,
e que este retirara dali, uma noite, em setembro ou outubro de 1879.
Pelo fim de maio desse ano, uma noite, já tarde, chovendo muito, Minervina tinha
acordado o Major, sacudindo-lhe com insistência os punhos da rede:
- Ramiro, minhas dores aumentaram. A luz do candeeiro, batendo em cheio na
figura alta, acentuava-lhe a lividez do rosto encovado. Os cabelos soltos, de um
grisalho
amarelado, caíam-lhe para as espáduas. Conquanto as dores lhe crispassem o
semblante, ainda restavam traços de beleza nos seus olhos, no risco de sua boca,
no queixo
dividido ao meio. As sobrancelhas unidas, com um vinco vertical a aproximá-
las, não conseguiam enfeiá-la, assim contraídas. E como era sobretudo
o ventre que lhe doía, retalhado pelas fisgadas sucessivas, ela trazia as
mãos sobre ele, contorcendo-se quando a dor aumentava.
E o Major, tateando com os pés o tapete do chão, à procura das chinelas:
- vou preparar as botijas. Volta para a cama. Minervina tornou a curvar-se,
mais pálida, gemendo, ao
mesmo tempo que, do quarto contíguo, vinha uma espécie de grunhido demorado,
seguido por estalos do leito metálico. Ela endireitou o corpo, pediu ao marido:
- Primeiro, vê meu filho.
- Não te preocupes: vai te deitar. Enquanto a água esquenta, olho também o
Filinto.
Minervina amparou-se na borda da cômoda, crispando ainda mais o rosto crispado,
lívida, contorcendo-se de dores. E quando pôde falar:
- Chama a Prudência para te ajudar. Ou então a Miúra. Qualquer uma serve.
- Não te preocupes. Deixe tudo comigo. Eu sei como faça. Elas precisam dormir.
Basta o que já fazem durante o dia. Volta para a cama. Na cama estás melhor.
72
Sem poder falar, prendendo a respiração, Minervina voltou à alcova, ora a
amparar-se nos móveis e nas paredes, ora a segurar o ventre alto, meio curva,
com o suor
a lhe descer das têmporas, enquanto se repetiam os grunhidos do Filinto, na peça
contígua. No esforço para vencer as dores, suspirou fundo, ouvindo o ruído de
panelas
na cozinha.
com alguma dificuldade, atrapalhando-se a cada momento, o Major conseguiu
acender o fogão, aproveitando as brasas debaixo das cinzas. E assim que a chama
aflorou,
alongando-se entre as barras da grelha, por baixo da chaleira de água, foi olhar
o Filinto, que parecia desassossegado, sempre grunhindo:
- Voltou a borrar-se - concluiu.
No quarto do filho, antes de curvar-se sobre o leito de ferro junto à parede, do
lado contrário à janela, torceu o pino do candeeiro para dar mais luz ao
aposento.
A claridade alongou-se até a cama revolvida, onde jazia um homem barbado, as
mãos torcidas, um fulgor desvairado nos olhos fundos. Andaria pelos trinta anos,

com mechas de cabelos brancos na barba cerrada e nas têmporas, o peito hirsuto.
Na testa, na risca da cabeleira, nas maçãs do rosto, tinha muito da mãe,
sobretudo
nos olhos esverdeados, que brilhavam agora na luz avermelhada do candeeiro.
- Já vou, já vou - disse o Major, começando a impacientar-se com a repetição dos
grunhidos.
Das três escravas que tinham restado no sobrado, após o casamento da Celeste -
que levara para a fazenda a mãe preta e dois moleques - somente a Delmira,
gorda,
os olhos pulados, sempre risonha, sabia cuidar do Filinto com a necessária
paciência; mas esta, um mês antes, tinha morrido de repente. E tanto a
Prudência, por
ser moça velha de muito respeito, quanto a Miúra, que alegava ser fraca do
peito, resistiam a cuidar do doente, que era na realidade um homenzarrão, com as
vergonhas
para quem quisesse ver, e não falava nem andava, defecando no leito, trocando o
dia pela noite, comendo a toda hora, e só vivendo pelos olhos hostis e pelos
sons
irados que conseguia emitir.
Sentindo o mau cheiro exalar-se do colchão, o Major ergueu o lençol que cobria
as pernas do filho, e constatou que este havia urinado e defecado. com álcool e
algodão
tratou de fazer-lhe
73
a limpeza, atento ao ruído da água no fogo. E já havia mudado o lençol quando o
Filinto voltou a urinar forte e a defecar.
Redobrando de paciência, não conteve a pergunta, que o filho não saberia
responder:
- Que é isso, Filinto? Assim também é demais - reagiu, tornando a molhar o
algodão na boca da garrafa de álcool.
Depois, ouvindo o borbulhar da água na panela, tirou do gavetão da cômoda outro
lençol, recompôs o leito, compadecendo-se mais uma vez da figura forte, peluda,
sangue
de seu sangue, seu único filho, e que somente saía daquela cama, para ser
postona rede, nos dias mais quentes.
Tudo quanto estava ao seu alcance para ver se melhorava a situação do Filinto,
ele o fizera. Levara-o ao Rio de Janeiro, depois a Paris, a Londres e a Lisboa,
e
ainda a Berlim, para consultar sumidades médicas, e voltara a São Luís
com o mesmo prognóstico do Dr. Silva Maia, ali no Maranhão, logo depois do
nascimento
do menino. O Maia não o iludira:
- Poderá morrer cedo, mas também poderá durar muitos anos, com uma vida
meramente vegetativa. Agora, só resta ao senhor e à sua senhora terem paciência.
Deixem
o caso nas mãos de Deus. Eu, com a minha ciência, nada posso fazer.
E o próprio Major, daí a tempos, para atenuar o desespero da mulher, que
atravessava períodos de choro constante, sempre a olhar o filho inválido,
trouxera-lhe a
Celeste, rechonchuda, rosada, com um mês de idade, ainda por batizar:
- É nossa, Minervina. A mãe dela morreu de parto, não se conhece seu pai. Foi a
freira da Santa Casa que me deu a menina. Vamos criá-la. É sadia e perfeita.
com o casamento da Celeste, que se mudara para a fazenda '- do Itapecuru,
depois de ter passado ali a lua-de-mel, tudo piorara no sobrado: a Minervina
doente,
a Delmira morta, e o Filinto mais irritado, de barba cerrada, como se tivesse
por missão, assim inválido, preso ao leito, dar cabo de toda a família. E o
Major,
terminando de espichar na cama o lençol limpo:
- Agora, vê se te aquietas pelo resto da noite. Eu preciso dormir e tua mãe
também.
Da alcova, pela porta entreaberta, chegavam até ali os gemidos da Minervina,
suando frio, contorcendo-se na cama de
74
casal, à espera da botija. Não podendo mais conter-se, chamou por ele, após um
gemido lancinante:
- Estou piorando, Ramiro. Não te demores.
- Já vais melhorar - animou ele, passando à cozinha.
E daí a pouco, com a botija enrolada na toalha de felpo, sentou-se na borda da
cama:
- Isso passa. Daqui a alguns minutos, não sentes mais nada. com o favor de Deus.
Tem um pouquinho mais de paciência.
Acomodou a botija sob o lençol, de modo a reter-lhe o calor por mais tempo no
ventre dolorido. Minervina aquietou-se por alguns momentos, e o Major aguardou
que
as dores espaçassem.
- Já estão melhorando - afirmou, convicto.
- Não, não estão melhorando - replicou ela, apertando a mão do marido. - Uma
coisa me rasga por dentro. É melhor chamar o médico. Estou a ponto de gritar.
O Major enfiou depressa as calças, atirou para os ombros um velho capote, pôs o
chapéu na cabeça, e desceu à calçada, Rua da Palma acima, até o Beco do Quebra-
Costa,
e por ali entrou, galgando a ladeira, no sentido do Largo do Carmo, perseguido
por um piano, que tocava a polca da moda no sobrado da esquina. Lá no alto, na
calçada
do sobrado do Virgilinho Malafaia, parou um momento, ofegante. E logo atravessou
a rua, na direção de uma carruagem de aluguel, parada junto ao meio-fio, com o
cocheiro dormitando no banco traseiro.
Sacudiu o homem pelo braço:
- Preciso de ti, Nicanor. Vamos ao Largo do Palácio, à casa do Dr. Pierrelevée.
- Agora mesmo, Major - assegurou o cocheiro, saltando para a boléia, de chicote
em punho.
A traquitana se moveu, puxada pela parelha sonolenta; contornou a praça, para
entrar na Rua de Nazaré, à luz dos espaçados combustores. Adiante, passou pelo
Largo
João do Vale, como que adormecido à sombra compacta da catedral.
E menos de meia hora depois, deixando o Largo do Palácio, para seguir pela Rua
da Palma, ladeira abaixo, dizia o Dr. Pierrelevée ao Major, por entre os
sacolejos
de carruagem:
- As dores de Dona Minervina vão se agravar, de agora em diante. Pelos meus
cálculos, é até um milagre que elas tenham
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tardado tanto. A marcha da moléstia é essa mesma. Infelizmente só podemos
contar com a misericórdia divina.
Sentindo um arrocho na garganta e os olhos úmidos, o Major deixou passar um
silêncio, depois indagou:
- E ela vai sofrer muito, Doutor?
- Vamos pedir a Deus que não. O sofrimento final costuma ser terrível, a ponto
de levar ao delírio. Mas eu estarei aqui para fazer o que for possível.
CAPÍTULO II
76
ELA LHE PEDIU, por entre a respiração ofegante:
- Diminui a luz.
Ele se acercou da cama, torceu o pino do candeeiro, diminuindo a chama na manga
de vidro. Em seguida, ainda com a mão no pino, perguntou-lhe:
- Está bem assim?
Minervina disse que sim com a cabeça. E chamando-o para perto, com um gesto da
mão lívida, esperou que o marido sentasse na beira da cama. De pálpebras
descidas,
como se lhe incomodasse a leve claridade que roçava o rosto encovado:
- Tenho uma confissão a te fazer, Ramiro. Não quero morrer sem que me
ouças. Estou convencida de que Deus não me perdoa, se antes não me
perdoares. Sem
teu perdão, sei que continuarei a ser castigada no outro mundo. Mais do que já
fui neste aqui.
O Major tentou acalmá-la, sentindo-lhe o desespero nos olhos aflitos, nas mãos
molhadas que se torciam nas suas, no semblante torturado, cor de cera:
- Acalma-te. Não precisas me dizer nada. Faz de conta que já me disseste tudo o
que querias dizer e que eu te perdoei. Agora, trata de descansar. Esse esforço
te
faz mal.
Ela entrelaçou a mão desesperada na mão do marido:
- Preciso me confessar, Ramiro. Só assim morrerei em paz. Não posso guardar
comigo o meu pecado. Um pecado terrível. Não me podes perdoar sem saber qual foi
o meu
erro. Tenho de te dizer tudo. Do contrário terei o castigo eterno, como já tive
o castigo neste mundo.
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Toda ela tremia por baixo do lençol amarfanhado. As mãos úmidas não tinham
sossego. E apontando para a fechadura da porta:
- Passa a chave.
Ele lhe propôs, já de pé:
- Não preferes te confessar ao Padre Lemos? É melhor. Ele mora por trás da
igreja, aqui em frente. Dou um pulo lá, agora mesmo, e ele te ouve em confissão.
Ela recusou com a cabeça e a mão aflita. Depois, insistiu:
- Não. O perdão do padre não me tranqüiliza. Quero o teu. Eu não devia ter feito
o que fiz. Mas fiz. E fui castigada. Mas o castigo deste mundo é pouco para o
tamanho
de meu pecado. Passa a chave na porta. Vê se a Prudência não está por perto. Se
estiver, ralha com ela. Ela ou a Miúra.
Já fazia mais de dois meses que Minervina não se erguia da cama, muito branca,
os lábios roxos, o nariz afilado, a pele espichada, os olhos febris. Todos os
dias,
de manhã e de tarde, o Dr. Pierrelevée vinha vê-la. E ao sair, despedindo-se do
Major, repetia o prognóstico:
- Talvez não passe de hoje. Mas a natureza tem os seus mistérios. E nós,
médicos, curvamos a cabeça.
E a despeito do vaticínio trágico, a Minervina ali estava, gemendo,
contorcendo-se, cada vez mais branca, os olhos espantados, só pele e osso. Já o
praticante da
Farmácia Normal, que lhe aviava as receitas, tinha morrido de repente, ao
preparar uma nova fórmula do Dr. Pierrelevée para a doente. Morrera também um
frade do
Convento do Carmo a quem ela dava esmolas, e um professor do Liceu Maranhense,
que tinha sido seu namorado. E o próprio Major, que sempre gozara de boa saúde,
começava
a ressentir-se das longas noites maldormidas e dos dias sobressaltados, ora a
olhar a mulher, ora a olhar o filho, sem tempo para cuidar de si mesmo. Por
vezes,
esquecia-se de aparar a barba e o cabelo. E ao sentar à mesa, para o almoço ou
o jantar, a comida tinha de voltar ao fogo, por ter esfriado à sua espera, no
descanso
da toalha.
À noite, o estado da Minervina se agravava. E como também o Filinto aumentava os
grunhidos, o Major terminou por obter do médico que lhe desse um calmante para o
filho, e este jazia no leito, com um fio de baba no canto da boca, mole,
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sonolento, até passar o efeito da cápsula, já com o novo dia querendo clarear. E
a mãe, assustada:
- Que tem o Filinto, que não geme?
Agora, entretanto, bendizia-lhe o sossego, enquanto o marido dava a volta na
chave, cerrando a porta.
- Pronto, já fechei - disse ele, tornando a sentar na borda da cama, ouvindo o
vento da noite sacudir de novo as rótulas, para o lado da Rua da Palma.
Ela, descontraindo as mãos:
- Tu crês em Inferno, Ramiro? Eu creio. Sei que existe. Tudo quanto se faz se
paga. E não paga apenas aqui, paga lá.
O dedo lívido apontava para o teto, enquanto os olhos amedrontados cresciam,
empurrando as sobrancelhas para a testa, nos haustos da respiração ofegante.
Ele redobrou de paciência:
- Não penses nisso. Pensa em Deus. Deus é misericórdia, é perdão, é bondade. Já
sofreste muito.
Ela ergueu de leve a cabeça despenteada:
- Achas que já sofri muito? É mesmo verdade? Ou estás dizendo isso para me
acalmar? É que não sabes o tamanho de meu pecado. Agora, que estou para me
apresentar
diante de Deus, tenho medo. Muito medo. Deus não me perdoa, se tu, antes, não me
perdoares. Preciso de teu perdão. Sem teu perdão, prefiro continuar sofrendo
nesta
cama.
O Major prendeu-lhe uma das mãos, compadecido de seu desespero. E com os olhos
úmidos:
- Já te disse que, por mim, estás perdoada.
As dores voltaram a aguilhoar Minervina, e ela prendeu a respiração,
contorcendo-se, à espera de que as fisgadas passassem. Nessas ocasiões, tornava-
se mais branca.
E com o suor a lhe descer pelo cavado do rosto, indagou:
- Mandaste vir a Celeste? E o Ananias também?
- Chegam hoje. O mais tardar, pela madrugada, com a nova maré. A qualquer
momento, estão chegando.
Ela suspirou, como se a notícia da chegada da filha e do genro a desoprimisse, e
ficou um momento quieta, de olhos semicerrados, parecendo esquecida de sua
aflição.
E daí a instantes, tornando a erguer as pálpebras:
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- Não me podes perdoar sem conhecer o meu pecado. Não, não podes. Sei que não
podes. Tenho de te contar tudo.
E ele, reprimindo o bocejo com a costa da mão, ao mesmo tempo em que a olhava,
com pena de sua ruína:
- Conta. Estou te ouvindo.
Ela tentou subir mais o corpo, acomodando a cabeça no travesseiro e esquivando-
se da luz que lhe roçava o rosto. E num fiozinho de voz, que obrigou o marido a
inclinar-se
para a frente, redobrando de atenção:
- Eu te traí, Ramiro. Há mais de trinta anos. E nunca desconfiaste de mim.
Nunca. E isso aumenta o meu pecado. Além de te enganar, dissimulei minha
conduta. Fazias
de mim um juízo, e era outro que eu merecia. Pensavas que eu era uma mulher
honesta. Não, não era. Juro por Deus que não era. Nossa Senhora está me olhando,
ali
do oratório, e sabe que estou dizendo a verdade. E voltando a cabeça para o
outro lado da alcova:
- Fecha também aquela porta. A chave. Não quero que me ouçam. Tenho vergonha. Só
tu. Mais ninguém.
E assim que o Major voltou a sentar à sua frente, de sobrancelhas unidas,
estalando as mãos entrelaçadas:
- Tu te lembras que, no começo de nossa vida, eu passei quase três anos à espera
de um filho. E o filho não vinha. De repente, fiquei grávida. Nunca me esqueci
de
tua alegria. Mandaste comprar o enxoval do bebê em Paris. Compraste uma escrava
em Alcântara, só para cuidar do neném. Quando o menino nasceu, quiseste dar a
ele
o teu nome, e eu não deixei. Sabes por quê? Vais saber agora: o Filinto não é
teu filho. Não podia se chamar Ramiro Taborda Filho. Foi por isso que não
deixei.
Tive de chorar, teimei contigo. Qualquer nome, menos o teu. E escolheste
Filinto. Aceitei logo.
O Major entreabriu a boca, atônito, as mãos nos joelhos, os ombros caídos, e
via agora a Minervina voltar a contorcer-se, com as mãos no ventre, gemendo
alto.
E sem esperar que ela tornasse a aquietar-se, chegou mais para a frente:
- E quem é o pai do Filinto?
Ela continuou com as pálpebras descidas, mesmo depois que lhe veio o intervalo
da nova crise. E ele voltou a perguntarlhe, no impulso da ira cega:
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- Responde: quem é o pai?
- Espera. Eu conto tudo. Sou eu que quero contar. Levei anos e anos com isto
guardado, sem me abrir com ninguém.
E ela tornou a cerrar os dentes, com as mãos espalmadas no ventre crescido,
enquanto o marido a fitava, sempre de sobrancelhas travadas, imóvel na borda da
cadeira.
A viração da madrugada insistia em bater as rótulas no caixilho das janelas. E
como o vento atravessava a frincha das portas e rótulas, fazia oscilar, por cima
da
cômoda, a luz do candeeiro.
A respiração ansiada subia e baixava o lençol, à altura do busto de Minervina, e
ela prosseguiu, de olhos fechados:
- Eu não tinha quinze anos quando casei. Era uma bobinha, sem maldade, sem
experiência da vida. Me casei contigo porque me disseram que eu tinha de casar.
No começo
- tu te lembras disso - chorava muito. Chegaste a ralhar comigo. Um dia, cansado
de meu choro, tu deixaste eu ir a Lisboa acompanhando papai e mamãe, com a
promessa
de que irias me buscar. Lá conheci um afilhado de papai, oficial de Marinha. De
repente senti que estava gostando dele. Quando foste me buscar, eu já estava
grávida.
Foi por isso que o Filinto nasceu antes do tempo. Não, não é verdade: nasceu
no prazo normal, mas não era teu filho. Foi por isso que não deixei que
batizasses
o Filinto com teu nome. Não. De modo algum. Seria demais. E o Filinto, assim que
nasceu, me deixou atordoada. Vi que ele não era normal, e tomei isso como um
castigo.
Pensei em te contar tudo, mas me faltou coragem. Guardei meu segredo. Só mamãe
desconfiou, e assim mesmo quando viu que o Filinto, aqui no pescoço, tinha o
mesmo
sinal do afilhado de papai, e a mesma cor morena, e o mesmo formato de rosto.
Mas mamãe morreu logo depois, e papai também. Fiquei só, com o meu filho doente.
Tinhas
os teus negócios, vivias mais para eles. Mas fizeste o que foi possível para
curar o Filinto. Fomos ao Rio, a Paris, a Lisboa, a Berlim, e eu só fazia
chorar: chorava
de emoção, vendo o teu cuidado com o menino que não era teu, e chorava com a
consciência de meu erro, sabendo que a doença do Filinto era o castigo de Deus
por
eu te ter enganado. E o pior, Ramiro, é que, em Lisboa, me encontrei com o pai
do Filinto, que foi ao hotel conhecer o filho. Chegou a me propor
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para ficar com ele. Eu disse que não. Preferia voltar para o Brasil contigo. E
fiz bem. Dois meses depois, num desastre de navio, morria o afilhado de papai,
de
modo estúpido, e eu vi que ele também tinha sido castigado. Mas o castigo maior
era o meu, vendo o menino crescer, sem sair da cama, e tu a te desvelares por
ele,
como se o filho fosse teu. Agora, esta doença terrível, que me tortura dia e
noite. Sei que vou morrer. Deus está me esperando. Mas não quero ser condenada.
Preciso
do teu perdão. Me perdoa, Ramiro.
E estendeu para o marido a mão ossuda, que tremia por cima do lençol, enquanto
as lágrimas lhe escorregavam dos olhos fundos, que se fixavam no marido. O Major
se
vergara sobre as mãos espalmadas, com os cotovelos nos joelhos, e também tremia,
no esforço para dominar-se.
Ela voltou a implorar-lhe:
- Me perdoa, Ramiro. Não deixes que Deus continue a me castigar. Já sofri muito.
Estou me acabando.
Ele tateou o bolso, à procura de um cigarro, sem querer olhá-la, os lábios
secos, ainda confuso. E o que sentiu, de relance, foi a mão do Dr. Pierrelevée
no seu
braço, por entre os solavancos da carruagem, a lhe dizer: "O sofrimento final
costuma ser terrível, a ponto de levar ao delírio." E se fosse delírio o que
acabara
de ouvir? E se fosse tudo verdade?
Levou o cigarro ao meio da boca, não conseguiu acendê-lo. E ao riscar o novo
palito de fósforo, deu com os olhos molhados que o fitavam ansiadamente.
- Estás perdoada - conseguiu dizer-lhe, com muito esforço.
E sacudiu o cigarro e o fósforo pelo vão da janela, que abriu de golpe, num
repelão. Durante quase uma hora, olhou a noite estrelada por cima do zimbório da
igreja,
ouvindo o lento rolar das águas do rio Bacanga a se confundir com o sibilo do
vento. Ao voltar-se de novo para a cama, deu com a Minervina imóvel, de olhos
parados.
E pôs-se a chorar, assim que lhe desceu as pálpebras, enquanto o Filúito volvia
a grunhir, impaciente.
CAPITULO III
A MISSA de sétimo dia pela paz da alma da Minervina foi rezada na igreja de
Santana, de acordo com a vontade da morta. A manhã de chuva, com as ruas
alagadas,
serviu para explicar os poucos amigos que ali tinham aparecido. Mas, de volta ao
Largo do Desterro, na carruagem do Nicanor, em companhia da Celeste e do Capitão
Ananias, o Major deu outra explicação, quando a filha se queixou de tão pouca
gente na igreja:
- Muitos dos nossos amigos já estão também no Cemitério. Pensando bem, há mais
amigos lá do que aqui. Foi nisso que estive pensando na hora da comunhão,
quando
só eu e tu comungamos.
Também o enterro, na esplêndida manhã de sol, tivera escasso acompanhamento. E
menos de vinte pessoas rodeavam a sepultura quando as pás de terra começaram a
esconder
o caixão, com a Celeste a chorar e o marido a ampará-la, enquanto o Major, de
cabeça baixa, lembrava a tarde em que vira a Minervina entrar na igreja de
Santaninha,
no seu vestido de noiva, levada pelo pai.
Apertados no banco exíguo, com as cadeiras da Celeste esparramadas ao centro do
assento de molas frouxas, os três seguiram calados até a entrada da Rua da
Palma.
Assim que a carruagem virou, tomando a direção do Largo do Desterro, o Capitão
preveniu ao sogro que voltaria à fazenda, na companhia da mulher, pelo cair da
tarde,
aproveitando o vapor que ia sair:
- Quero assistir à colheita do algodão, que começa depois de amanhã -
justificou-se.
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De noite, ao se ver só na casa vazia, foi debalde que o Major tentou distrair-se
na leitura de um jornal, ouvindo a chuva fina bater nas vidraças, do lado do
Largo
do Desterro. As duas escravas já se tinham recolhido, o Filinto continuava
quieto, adormecido pelo calmante. E ele, na cadeira de balanço da varanda, sem
ruído de
vozes e passos à sua volta, não conseguia fixar-se na leitura: esquecia-se do
jornal, abandonava as mãos no regaço, e dava por si pensando na morta, com os
olhos
no ar.
- Pobre Minervina - suspirou, enquanto o jornal resvalava para o chão. - Sofreu
muito, sofreu demais.
E descansou a cabeça no espaldar de palhinha, balançando-se, com cenas esparsas
de sua vida
conjugal a lhe aflorarem à consciência. A despeito de tantos desencontros
de gosto, hábitos e temperamentos, no correr de trinta e tantos anos no mesmo
sobrado, sentia a falta da companheira, e disso começara a dar-se conta assim
que se
despedira da Celeste e do Ananias, vendo a carruagem do Nicanor se afastar,
descendo a Rua da Palma.
Tornara à varanda, depois à sala, olhara a rua pela fresta da janela, alongara a
vista para o rio Bacanga, com o coração apertado. Tanto a Prudência quanto a
Miúra
afofavam os passos nas tábuas do soalho, falavam baixo, retraíam-se para a copa
e a cozinha. com o genro e a filha ali, a imagem da morta se desfazia na
comunhão
da mesa do almoço e do jantar, nas conversas da sala de visitas, na ocupação de
cada um, nos rumores que enchiam a casa. De repente, com o silêncio e as luzes
da
noite, a morta como que tinha volvido ao sobrado, apoderando-se do pensamento do
Major, que parecia senti-la à sua volta, como se fosse dar com ela no vão da
porta,
ao levantar os olhos no sentido da alcova.
Procurando dominar-se, reconheceu:
- Sinto a falta dela, por que vou dizer que não? Sinto, estou sentindo. Agora
mesmo tive a impressão de ouvir-lhe os gemidos, e me emocionei. Vivemos juntos
durante
muitos anos. Não temos culpa se não fomos feitos um para o outro. Deus nos deu a
invalidez do Filinto para que nos uníssemos nos mesmos cuidados e
desapontamentos.
Assim é a vida.
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Nas semanas finais da enfermidade da Minervina, e agora nos dias subseqüentes ao
seu enterro, não tivera oportunidade de encontrar-se com a Caiu Malafaia,
ocupada
agora em dar toda a sua atenção a um vago primo do marido, recém-chegado de
Lisboa, e que o Virgilinho fizera questão de hospedar na própria casa, cercando-
o de
agrados e finezas, como se fosse alguém da família real. A conversa com a velha
amiga lhe fazia falta, sobretudo ao se ver só, no silêncio do sobrado vazio. E
quando
iria voltar a estar com ela?
Uns dez dias antes da morte da Minervina, tinha ido ao sobrado da Caiu, na Rua
Formosa, a um passo do Largo do Carmo, enquanto esperava que o praticante da
Farmácia
Normal aviasse uma nova receita do Dr. Pierrelevée, e dera com aquele intruso,
de bochechas sangüíneas, ares possessivos, e que lhe perguntara, no meio da sala
de visitas, com o dedo polegar na cava do colete:
- Quem é o senhor?
E o Major, devolvendo-lhe a pergunta:
- E o senhor?
O outro sorriu, torceu as guias do bigodão negro:
- Filomeno Soares, primo do Virgilinho e seu hóspede. Vim a São Luís a
negócios, e estou adorando esta terra e esta gente. A Caiu, que eu não conhecia,
tem
sido inexcedível comigo. Já estou há três semanas, e vou passar mais um mês,
pedindo a Deus que o meu vapor atrase, para ficar mais um pouco. Isto aqui é um
paraíso.
O Filomeno já teria ido embora? com certeza ainda estaria no sobradinho da Rua
Formosa, cercado de atenções e conforto, com a Caiu contente e o Virgilinho
também
contente. Ele, Taborda, não gostara do tipo, muito loquaz, batendo-lhe no ombro,
a querer saber se todas as senhoras de São Luís eram dadas como a Caiu, e
falando
alto, e pisando forte, e rindo com espalhafato, e dando palmadas nas escravas, e
pigarreando, e soprando a fumaça do charuto. Decidiu-se, um tanto amuado:
- vou ficando por aqui, até o gajo voltar para Portugal. Novamente na alcova,
o Major alongou o olhar para a
cama, e repôs ali a morta, de olhos entrefechados, ainda com a dobra do lençol
na mão direita. Ele próprio a vestira, sem dar atenção ao Filinto, que insistia
nos
seus grunhidos impacientes,
85
e por fim lhe cruzara as mãos, e entrelaçara os dedos, à luz dos dois castiçais
que ladeavam o crucifixo sobre a cômoda. Depois, sentado na borda do leito,
curvara a cabeça, pedindo a Deus que desse paz à Minervina, e dali somente saíra
quando ouviu o bater repetido da aldraba da porta. Desceu devagar a escada,
apoiando-se
no corrimão, e cedeu à crise de pranto quando abraçou o genro e a filha:
- Acabou tudo - conseguiu dizer-lhes. E agora, apoiando as mãos numa das hastes
da cama de casal, sentia as lágrimas descendo pelas rugas do rosto, enquanto
recordava
a noite em que a despira naquele rnesmo leito, arisca, bravia, não
querendo entregar-se. E ele próprio a despira pela última vez, já velha, imóvel,
para
vestir-lhe o hábito com que seria enterrada. Fora ali, ainda aos prantos,
apoiando-se naquela mesma haste, que o Dr. Pierrelevée o encontrara,
dizendo-lhe,
para tentar consolá-lo diante da morta:
- Ela descansou, meu bom amigo. Não era possível fazer mais nada. Tanto eu
quanto o senhor cumprimos o nosso dever.
E ele, curvando-se sobre as mãos molhadas:
- Tal como o senhor previu, ela delirou um pouco, antes da agonia. Mas cerrou os
olhos, e morreu.
Tudo isso ficara para trás, entregue ao desgaste do tempo. Ao termo dos anos
sucessivos, sobraria a lembrança da cena final, talvez despojada de suas
emoções. E
assim era a vida.
Desviando a vista para o fundo do aposento, tentando afastar da memória a
recordação da morta no leito vazio, o Major deu com os olhos na pequena
secretária de
pés torneados, encimada pela jarra azul que a Minervina florira todas as manhãs,
durante anos seguidos, e que exibia agora uma rosa seca e negra, vergada sobre o
gargalo.
Foi até lá, lembrando-se que ali a Minervina guardava os seus papéis. Assim que
abriu uma das gavetas do móvel, encontrou medalhinhas e estampas de santos,
estas
últimas com a mesma súplica manuscrita na costa da figura: "Pelas bentas
chagas, ajudai meu filho Filinto a ficar bom." Noutro maço, de estampas mais
recentes,
o pedido era mais patético, numa letra trêmula: "Já que Deus não me quis ouvir,
curando meu filho, que ao menos o chame à sua glória, antes de mim." E por fim,
numa
estampa maior de Nossa Senhora da Conceição, este
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apelo desesperado, ao pé da imagem: "Quem cuidará de meu filho, depois de minha
morte? Chamai-o ao Céu, bendita Mãe de Deus!"
Ainda a olhar a estampa, com os braços na quina da gaveta, o Major revia a cena
da manhã, depois da missa, quando a velha Prudência lhe disse, à entrada da
varanda:
- Seu Major, eu não limpo mais o Filinto. Sou moça velha de respeito. Enquanto
Sinhá Minervina era viva, e estava doente, eu fazia da tripa coração, e limpava
ele
e dava banho. Mas sou fraca, não agüento o rojão. Isso mesmo eu já disse a Dona
Celeste e ao Capitão Ananias. O senhor tem de arranjar um homem para cuidar de
seu
filho. Só um homem dá conta dele.
O velho se limitou a olhá-la, sem nada lhe dizer. Mas, como estava vestido, pôs
o chapéu na cabeça, desceu à Praia Grande, foi direto à Casa da Praça, a ver se
encontrava
à venda um preto forte e jeitoso, ainda moço.
E o Nicolino Peçanha, que tinha fama de só negociar com pretos de boa qualidade,
aumentou os olhos vesgos, entrelaçando os dedos cabeludos por cima do balcão:
- Preto forte e jeitoso, Major? Já não há mais pretos para vender. Primeiro,
deram liberdade aos filhos dos negros; depois, aos negros velhos. Vem agora aí,
com
toda força, o fim do cativeiro. Mudei de ramo. E ainda levei um bonito prejuízo,
com a leva de pretos que comprei em Alcântara, ano passado, ao David Cohen:
fugiram
todos, a nado, diante do meu nariz, quando iam descer na Rampa de Palácio.
Fiquei na beira do cais, com cara de besta, vendo a negralhada nadando. Um deles
nadava,
nadava, e me dava uma banana. É o que estou lhe dizendo.
A Celeste e o Ananias tinham ficado de procurar na fazenda alguém que pudesse
cuidar do Filinto. Encontrariam? E se não encontrassem? Ele, como pai, teria de
olhar
pelo filho, até quando Deus quisesse.
Lá fora, a um sopro mais forte da ventania, a chuva tornara a recrudescer,
forçando as janelas.
Ouvindo o relógio da varanda bater pelas onze horas, o Major pensou em cerrar a
gaveta e deitar-se. Ficaria a embalar-se na rede, acompanhando o ruído da chuva.
Mas abriu a
87
seguir outra gaveta, repleta de frascos de remédios e latinhas de pomadas;
passou à gaveta de baixo, e ali encontrou alguns romances de Joaquim Manoel de
Macedo,
outros de José de Alencar, outros mais de Camilo Castelo Branco, todos eles com
pequenas marcas de leitura. Na outra orla de gavetas, achou fotografias,
cadernos
de estudo e um estojo de madeira com incrustações de madrepérola, que ele
próprio tinha dado à Minervina, em Lisboa, para os seus petrechos de costura.
Quis abri-lo;
estava fechado. Não lhe encontrando a chave, forçou a lingüeta de metal com a
ponta de um canivete, e deu com o retrato de um oficial de Marinha, de pé, a mão
direita no espaldar de uma cadeira. Leu-lhe a dedicatória, sentindo que seu
coração se acelerava, depois de uma síncope instantânea, que lhe gelou a ponta
dos dedos:
"À minha querida Minervina, com todo o meu amor - José Paulo." E o Major,
lívido:
- É ele, é ele.
Cerrou depressa a gaveta, emborcou sobre a mesa o conteúdo do estojo, e viu
cartas, fotografias, flores murchas, uma mecha de cabelo, tudo a confirmar a
revelação
da companheira. Ficou uns momentos sem ação, com o suor a lhe escorregar das
têmporas, e esta certeza cruel, que o apunhalava: o Filinto não era mesmo seu
filho!
CAPÍTULO IV
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LARGO TEMPO o Major permaneceu na cadeira giratória, com as costas no espaldar,
atônito, desfigurado, sem ouvir a chuva caindo, sem perceber o clarão dos
relâmpagos,
sem contar as horas que se repetiam. Era como se o sobrado, o largo, a cidade, o
mundo inteiro, de repente, houvesse desabado sobre a sua cabeça, e ele ainda
respirasse,
debaixo das paredes desfeitas, não sabendo como desvencilhar-se das lajes de
granito que o esmagavam. Que ia fazer de toda aquela miséria?
Quando conseguiu levantar-se, tinha na boca um gosto de fel. E apanhando de cima
da cômoda a vela de um dos castiçais, resto ainda do velório da Minervina,
acendeu-a
por cima de um pires e queimou, um por um, os papéis do estojo, sem dar ouvidos
ao Filinto, que insistia agora com o seu grunhido.
Quase ao fim do último papel, antes de sacudir-lhe as cinzas pela janela do
largo, gritou para o quarto:
- Já vou, já vou. Não pode esperar?
Por um momento, debruçado da janela, esperou que a água do beiral lavasse o
pires. E para si mesmo, cerrando a rótula, com a mão no ferrolho:
- E eu não desconfiei de nada, durante tantos anos seguidos, debaixo do mesmo
teto, falando com ela todos os dias. Agora vejo que até luto ela vestiu quando o
amante
morreu. E que ainda se encontraram em Lisboa, no Hotel da Europa, quando levei o
Filinto para ser examinado em Paris, em Londres, em Berlim. Eu aflito, acima e
abaixo,
com o filho alheio no braço, e ela a me enganar, com aquele ar submisso,
chorando, falando baixinho. De noite, quando eu a procurava na
89
cama, não me queria: alegava a tristeza do filho inválido, ou insistia em dizer
que era fria. Depois, à hora de morrer, conta-me tudo. E ainda me deixa o filho,
e as provas de sua miséria!
Novamente gritou para o quarto, a ponto de perder a paciência, exaltando-se:
- Espere, espere. Estou indo.
À soleira da porta, deu com os olhos hostis que o esperavam, ao mesmo tempo em
que lhe entrou pelas narinas o cheiro das fezes no colchão. Durante um momento
sustentou
o olhar irritado, em seguida foi apanhar o vidro de álcool e o pacote de
algodão. Por fim, cedendo ao impulso de bondade instintiva, tornou à beira da
cama, pôs-se
a esfregar no corpo do homenzarrão imóvel o algodão molhado, com uma expressão
de nojo a lhe desfigurar o rosto, dizendo:
- Tenho de arranjar uma pessoa para cuidar de ti. Já passei dos setenta e cinco
anos, preciso me poupar. Só eu sei como estou aqui. Acaba com esse grunhido. Do
contrário, deixo-te no quarto, passo a chave na porta.
E depois de um instante, arrependido do desabafo:
- Não, não vou fazer isso. Até o fim, cuidarei de ti. Não tens culpa do que
aconteceu. Mas, por favor, sossega. Tenho os nervos esticados, estou a ponto de
estoirar.
E a Prudência, com ar de espanto, aparecendo na porta:
- Seu Major, o senhor ainda não deitou? Já passa de quatro horas da manhã. Daqui
a pouco está amanhecendo. Esqueça o que eu lhe disse ontem, na hora da raiva. Eu
limpo o Filinto. Só não faço é virar ele no colchão, porque não tenho forças:
seu filho pesa muito. Pesa, e não ajuda, coitado. Mas a Miúra me ajuda. Vá
dormir,
Major. O senhor está cansado. Vá deitar.
Ele lhe respondeu que estava bem. Estivera lendo, já ia para a rede. Ela
é que precisava descansar:
- Vai para teu quarto. Se precisar de ti, eu chamo.
- Chame mesmo, Seu Major.
Ele encostou a porta do quarto, passou à alcova, depois à sala, pôs-se a fumar
na janela sobre o largo, sem encontrar um lenitivo para a sua revolta. Contraía
as
mãos, cerrava os dentes, enchia devagar o peito, e toda a sua ira se concentrava
na fresta do olhar, com as pálpebras quase cerradas.
90
parecia-lhe agora que a Minervina, depois de morta, se desforrara de todos os
desencontros da vida
conjugal com a revelação brutal que lhe fizera. E interrogava-se:
Não bastava ter-me deixado o filho do outro, como um
suplício diário? E que é que eu vou fazer do Filinto, depois de saber a verdade
sobre ele? Limpar-lhe a bosta e o mijo? Dar-lhe o calmante? Dar-lhe a comida?
Mudar-lhe
a roupa? Trocar-lhe o lençol da cama? Mudar-lhe o colchão? E até quando, Santo
Deus?
E não podia descarregar em ninguém o seu ódio! E tinha de permanecer calado! E
ainda receber os pêsames pela morte da Minervina! E também agradecer as
condolências!
Contaria tudo à Celeste? E ao Ananias? Para quê? Talvez falasse à Caiu Malafaia.
Mas como, se a Caiu tinha agora hóspede em casa, com ares de dono do sobrado,
muita
brilhantina nos cabelos, os bigodões encerados?
- O infortúnio é covarde - reconhecia. - Nunca vem só: quando vem um, outros o
acompanham. O jeito é agüentar calado, esperando o tempo passar.
E de pronto se viu de chicote em punho, numa estrada dos arredores de Lisboa, a
atirar-se contra o governador que humilhara seu pai.
Dom Francisco Manoel da Câmara chegara a São Luís no começo de 1806 para suceder
ao Capitão-Geral Saldanha da Gama, no Governo do Maranhão. Era um tipo moreno,
quase
preto, cheio de si. Não viera de Portugal para administrar, mas para mandar e
ser obedecido. Ali na Capitania, era o próprio Rei. Ou mais ainda do que o Rei.
Nas
ruas, quando ele passava, toda gente se imobilizava, reverente, de chapéu na
mão. Defronte do Palácio do Governo, entre a Sé e o Baluarte, mesmo ausente o
Governador,
os homens só podiam passar de cabeça descoberta, qualquer que fosse o seu cargo
ou condição: desde a Sé, ou desde o Baluarte, tinham de vir com o chapéu à
altura
do peito, enquanto as senhoras, com ar assustado, mantinham os olhos baixos,
segurando a cauda dos vestidos, ainda que fossem fidalgas. E para que ninguém
deixasse
de obedecer ao capricho de Dom Francisco, dois soldados faziam a ronda do Largo
do Palácio, dia e noite, empunhando um vergalho.
91
ia
Aconteceu que o Desembargador Venâncio Taborda vinha distraído na sua carruagem,
depois de passar a Sé, no sentido do Baluarte, quando um dos guardas ergueu o
chicote
para o cocheiro:
- Pare, pare - ordenou.
E para o Desembargador Taborda, que declinou imediatamente a sua condição de
magistrado:
- Ciente, Excelência. Mas tire o seu chapéu, por ordem do Governador.
- Já lhe disse que sou o Desembargador Venâncio Taborda.
- Já sei, já sei - replicou o soldado, de vergalho em riste. - Mas a
ordem do Governador é que ninguém passa aqui com a cabeça coberta, seja quem
for.
Logo outras pessoas acudiram, o outro soldado também se aproximou com ar
agressivo, e durante alguns minutos o cocheiro hesitou, não sabendo se
continuaria parado
ou se atiçaria os cavalos, largo acima, quando o próprio Dom Francisco apareceu,
maneiroso, sorridente, para saber o que se passava.
E o Desembargador, que descera da carruagem:
- Um fato sem importância, Senhor Governador. Este soldado quer
obrigar-me a tirar o chapéu, defronte do Palácio, a mim, o Desembargador
Venâncio Taborda.
Dom Francisco se voltou para o soldado: - Você disse ao Desembargador que
tirasse o chapéu? - Disse, Excelência. Foi a ordem que recebi.
O Governador tornou a voltar-se para o Desembargador, ao mesmo tempo em que, com
um gesto, ordenava ao cocheiro que levasse dali a carruagem:
- Já que o meu soldado disse a Vossa Excelência que tirasse o chapéu,
Vossa Excelência tem de tirar o chapéu. E eu sugiro a Vossa Excelência, para
maior realce de seu gesto, que Vossa Excelência faça a reverência de modo
diferente. Em vez de tirar o chapéu e ir largo acima, até o Baluarte, o Senhor
Desembargador
Venâncio Taborda dá um passo e põe o chapéu na cabeça; dá outro passo e tira o
chapéu; dá mais outro passo e põe o chapéu, até o fim da rua. Desse modo, Vossa
Excelência
atende aos dois caprichos: ao meu, descobrindo-se diante do Palácio, e ao de
Vossa Excelência, cobrindo-se. E os dois
guardas vão acompanhar o Senhor Desembargador, um de cada lado, para
que os nossos caprichos sejam atendidos.
E com um movimento de cabeça, sempre sorridente, despediu-se do magistrado, que
dilatou os olhos, lívido:
- com a sua licença, Desembargador. Muito boa-tarde.
E como o Desembargador Taborda pusesse o chapéu na cabeça, disposto a seguir
assim o seu caminho, um dos guardas ergueu o vergalho, o outro logo o imitou. E
enquanto
as vergalhadas caíam em cheio nas espáduas e nas costas do Desembargador
Taborda, este, de cabeça coberta, foi andando no seu passo medido até o paredão
do Baluarte.
Ali, quando ia começar a descer a ladeira, as forças lhe faltaram, e ele caiu
para a frente. Os soldados acudiram, o cocheiro se aproximou, e este disse aos
soldados,
que recuaram, com os olhos crescidos:
- Os senhores mataram o Desembargador Taborda.
E o Governador, daí a momentos, ao inteirar-se do desfecho da cena, gritou ao
secretário que lhe dera a notícia:
- Ponha os dois soldados no calabouço. E providencie um enterro de grande pompa
para o Desembargador Taborda. Eu irei, eu irei. De chapéu na cabeça.
E somente em Londres, quando já completara dezoito anos, Ramiro Taborda veio a
saber as circunstâncias em que seu pai havia morrido. Já Dom Francisco Manuel da
Câmara
tinha voltado a Portugal, recolhido a uma quinta, nos arredores de Cintra. E em
setembro, pelas férias, Ramiro foi a Lisboa. Não lhe foi difícil saber onde
morava
o ex-governador. Passou ali duas semanas, fez amigos, encontrou colegas, e uma
tarde apareceu em Cintra, num bonito cavalo castanho. Na estalagem, inteirou-se
onde
era a quinta de Dom Francisco e como era ele. O velho ferrador, que acabara de
reforçar os cravos de sua montaria, não demorou a resposta:
- É aqui perto, no caminho para o Castelo da Pena. Vez por outra, Dom Francisco
está por aqui. Conhece-o? É um senhor moreno escuro, de poucas falas, e que
puxa
um pouco da perna esquerda. Gosta de andar a pé, apoiado na bengala.
E erguendo a vista contente:
- É aquele que ali vai, na volta da estrada.
Ramiro saltou para a sela, firme nas rédeas e nos estribos, Pagou largamente a
despesa:
93
- Obrigado, amigo.
Foi indo a trote lento. Passou por Dom Francisco, diminuiu um pouco a marcha. Lá
adiante saltou, prendeu as rédeas na sela, e veio vindo a pé, a bater com a
ponta
do chicote no cano da bota. E diante de Dom Francisco, ergueu rápido o braço,
apresentando-se:
- Eu sou o filho do Desembargador Taborda, que o senhor mandou chicotear em São
Luís. E estou aqui para lhe devolver as chicotadas que mataram meu pai.
Dom Francisco olhou em volta, à procura de quem lhe acudisse, e ergueu a
bengala, tentando defender-se. Mas já o rapaz voltava a crescer para ele,
descendo o chicote.
Apanhou-lhe em cheio o rosto, uma vez, duas vezes, enquanto o velho recuava para
a borda da estrada, com a mão diante dos olhos, gritando:
- Socorro! Aqui d'El Rei!
E outra vez o chicote desceu firme, alcançando-lhe a cabeça, os ombros, as mãos,
de tal modo que todo ele agora sangrava, sem que Ramiro interrompesse o castigo:
- Mais esta! Mais esta! Mais esta! - gritava, repetindo as chicotadas rijas, que
derrubaram Dom Francisco.
Depois, ao vê-lo caído, correu para o cavalo, saltou para a sela, cravou as
esporas nas ilhargas da montaria e galopou para Lisboa, já com a tarde a
desfazer-se.
Na outra semana, novamente em Londres, no seu quarto de hotel da Sloan Square,
escreveu à mãe, em São Luís: "Venho-lhe dizer que já posso voltar ao Maranhão.

dias, em Portugal, cortei a chicote a cara do miserável que matou meu pai."
Voltou ao Maranhão no ano seguinte, assim que soube da independência de sua
pátria. Não encontrou mais a mãe, já recolhida ao jazigo da família, ao lado do
marido,
nem também a Marieta Parga, com quem pensara casar-se, no regresso a São Luís.
Agora, estava ali, velho, só, destroçado, sem poder vingar-se da humilhação que
o
esmagava. E reconheceu, vergando a cabeça:
- Desta vez não posso fazer nada. E ainda tenho que cuidar do filho que
não é meu.
94
Apertou a cabeça entre as mãos, vendo crescer devagarinho a claridade do novo
dia à sua volta. De repente atravessou a sala, trepou numa cadeira, e com as
duas
mãos resolutas suspendeu do gancho da parede o retrato da Minervina. Baixou dali
com o retrato sobraçado; atravessou a alcova, entrou no corredor, desceu a
escada
que levava ao pavimento térreo. Em vez de tomar a direção da porta da rua,
contornou a escada por baixo, abriu o quarto dos trastes velhos, e atirou o
retrato para
cima de um monte de tapetes esfiapados. Em seguida bateu a porta com força, deu
duas voltas na chave.
95
IV
Caiu Malafaia
CAPITULO I
EMBORA A MODA já houvesse mudado, a bonita velha ainda conservava as roupas do
meado do século, com a vasta saia rodada, uma gola de rendas que descia para o
meio
do busto, entremostrando as rugas dos seios caídos - os belos seios
incomparáveis que teimavam na memória do Major, com a pele fresca, de um moreno
levemente rosado,
e os dois mamilos escuros, quase a lhe saltarem do corpo despido.
Ele lhe confessara, mais de uma vez, ainda ao tempo do Virgilinho, o
inconfundível Virgilinho:
- Não és perfeita, Caiu: és mais que perfeita, como tempo de verbo na gramática
do Sotero dos Reis.
Era. E ela sabia. Gostava de despir-se, exibindo a nudez sobre a colcha azul,
que lhe realçava o
tom da pele, bem ao centro do grande leito de metal doirado. com
a cabeça levemente alteada no travesseiro, os cabelos soltos, o sorriso a lhe
cavar as covinhas dos cantos da boca, esperava que o desejo crescesse nos olhos
do
Ramiro e que todo ele se alvoroçasse, querendo vir ao seu encontro, na ânsia de
possuí-la. Sabia contê-lo:
- Devagar. O melhor da festa é esperar por ela.
Por vezes, sabendo que ela se dava a outros homens, queria tê-la só para si, e
propunha-lhe:
- Largas o Virgilinho, eu largo a Minervina, e vamos viver um para o
outro, longe daqui.
Ela ria, alvoroçava-lhe os cabelos:
- Sair de São Luís? Nunca! Deixar o Virgilinho, o melhor dos maridos? Nunca!
E chamando o Ramiro para a borda da cama:
99
- Senta aqui perto de mim, mas com as mãos sossegadas. Assim. E agora me ouve.
Quando me queres com muita vontade, como hoje, eu não sou tua? E quando sou tua,
não és o homem mais feliz deste mundo? E então, Ramiro? Se eu te faço esperar,
retardando estes encontros, é porque sou mulher, e sou astuciosa: quero que
venhas
para mim com mais ardor, com mais ansiedade. Hoje, estiveste incomparável.
Queres que eu seja franca contigo? Foste mais ardente que o Virgilinho. E viste
como
me desmanchei nos teus braços? Não foi melhor assim? Nada de drama. Nem de
comédia. Tudo simples, tudo natural. Por que complicar a vida, meu amor?
Puxou-o pelo braço, vendo-o desfazer a ruga entre as sobrancelhas, a observá-la
pelo canto dos olhos:
- Há dias em que me tranco neste quarto, sem querer receber ninguém. Nem o
Virgilinho. Se ele entra aqui, para me dar uma palavra, ou buscar alguma coisa,
entra e sai na ponta dos pés. Fico de olhos fechados, me lembrando da vida que
já vivi. É o meu modo de agradecer a Deus. Semana passada, num desses dias, me
lembrei
muito de ti. Fiquei rindo sozinha, como uma doida. De repente, me vi num
daqueles bailes famosos de Donana fansen, no sobrado da Rua Grande com a Rua do
Teatro.
Foi nesse dia que eu fiz o Virgilinho me aproximar de ti. Estou vendo meu bom
marido, com ar de espanto, a me perguntar: - Aquele rapaz, que está ali na
janela,
fumando? - E eu, teimando: - Esse mesmo. - E vais querer virar a cabeça dele,
Caiu? - vou. - Ele foi, e te trouxe. Vinhas vermelho com um camarão. Foi aí que
eu
te perguntei por que nunca me havias tirado para dançar. E saí dançando um
minueto do tempo de minha avó. Como dançavas mal, Ramiro! Tive de usar de
muita paciência
contigo. No fim, te perguntei por que não ias me ver, no dia seguinte, de tarde,
na minha casa. Usei a velha fórmula, que sempre dava certo: - Meu marido está na
Praia Grande, cuidando de seus negócios, e eu preciso conversar com amigos como
você. Me apareceste no dia seguinte, muito- perfumado, de mãos frias. E eu
pude verificar, mais aliviada, que tu, se não sabias dançar, eras um excelente
parceiro, nesta mesma cama. Nunca mais te larguei, mesmo depois que te casaste
com
a lambisgóia
100
da Minervina, atochada de dinheiro, com uma belezinha enjoada que não ia muito
comigo. Deus lhe fale n'alma.
E obrigando-o a estender-se ao comprido do leito rangente, com as pupilas
acesas:
- Me ama de novo. Mas não como gafanhoto. com alma de artista: devagar,
devagarinho, até eu pensar que o mundo ficou para trás e que vou indo pelo
espaço, em pleno
céu.
O sobrado da Rua Formosa, na esquina da Ladeira do Quebra-Costa, olhava para o
Largo do Carmo. Dali, sem precisar sair de sua cadeira de embalo, com os pés num
tamborete, Caiu Malafaia dominava a Rua Grande, quase todo o Largo do Carmo, a
igreja, o Convento, as árvores verdes, o bondezinho que vinha do Largo do
Palácio,
puxado pela parelha de burros. A idade, se lhe embranquecera a cabeleira bonita
e riscara de rugas o seu rosto moreno, não lhe desfizera de todo a beleza
sensual,
que os olhos negros ainda retinham, com um brilho extremamente vivo, sobretudo
no momento em que a velha os entrefechava, coando-lhe o fulgor por entre os
cílios
longos.
Freqüentemente, ao sair do cavaco habitual na Farmácia do Policarpo Pinheiro, no
Largo do Carmo, o Major Taborda ia vê-la. Primeiro, do lado da Rua Grande,
olhava
na direção do sobrado: se lhe via a cabeça branca, acima da janela, atravessava
a rua, subia os lanços da escadinha de madeira, e ia encontrá-la na cadeira de
balanço,
entretida com um livro, um jornal ou um bordado.
Era sempre uma festa quando se abraçavam:
- Bons olhos te vejam, Seu Desaparecido.
E ele, deixando o chapéu e a bengala no cabide do corredor, lembrava-lhe:
- Eu estive aqui ontem, Caiu.
Ela lhe abria os braços, parada no limiar da sala:
- E não achas que, de ontem para hoje, já faz quase um século? Pois faz. Fica
sabendo que faz. Ou pensas que, por teres a patente de Major da Guarda Nacional,
tens
também o direito de me tratar assim? Já me queixei ao Virgilinho, e o Virgilinho
me deu razão. Estás muito soberbo.
E enquanto ele sentava na poltrona orelhuda, com o peito cheio e cruzando as
pernas, ela ria alto, ria sempre, com todo o corpo feliz, repetindo-lhe a sua
velha
proposta:
101
- Já te disse que devias te mudar do Largo do Desterro para esta minha rua,
Ficavas aqui perto, num desses bonitos sobrados. Para eu te ver, bastava que
chegasses
à janela. Eu dava um assobio, e tu aparecias. Ou então assobiavas, e quem
aparecia era eu. Tudo tão simples, tudo tão fácil. Mas moras longe, no cafundó
do Largo
do Desterro, e eu que agüente este abandono.
E uma tarde, no começo de 1880, ao entrar na Farmácia Normal para comprar uma
caixinha das famosas pílulas contra estupor, encomendadas pela Prudência, o
Major sentiu
que o Policarpo Pinheiro estava à sua espera, com uma novidade na ponta da
língua. E a prova de que não se enganara é que o velho amigo veio correndo ao
seu encontro,
sem nem ao menos acabar de abotoar a bata:
- Sabe quem morreu? O Virgilinho Malafaia. Acabo de vir de lá. Se você não me
aparecesse agora, eu lhe ia mandar um recado, pelo moleque, no seu sobrado.
E a Caiu, no corredor, perto da escada, assim que ouviu os passos do Major nos
degraus de madeira:
- É verdade, Ramiro. Lá se foi o Virgilinho. Morreu como queria: de repente,
sem dar trabalho a ninguém. Conversava comigo, fazendo planos de uma viagem a
Lisboa,
e nisto levou a mão ao peito, como quem sente uma dor, e caiu para um lado da
poltrona, dizendo meu nome. Corri para ele, tratei de sacudi-lo, mas o pobre do
Virgilinho
já não era mais deste mundo. Mandei chamar o Policarpo, que subiu estas escadas
de dois em dois degraus, acompanhado pelo Dr. Santos Jacinto, e os dois só
fizeram
confirmar o que eu já sabia: que era uma vez o meu marido. Está na sala de
visitas, na marquesa de palhinha, esperando o caixão, já vestido e penteado.
Ela trouxe o amigo para a varanda. E de costas para a ladeira, reconheceu:
- vou sentir falta dele, e muita. Como ele, ninguém. O melhor marido do mundo.
Tirei a sorte grande, sozinha. Malafaia foi meu, de mais ninguém. Sessenta e
dois
anos de vida feliz. De fazer inveja. De fazer muita gente arregalar os olhos
vesgos. Agora, ponto final. Não vou me descabelar. Não. Não sou disso. Quando vi
que
ele estava morto, fui ao meu quarto, me ajoelhei defronte do oratório, agradeci
a Deus os muitos
102
anos de felicidade que me deu. Não senti a vida passar. Malafaia fez todas as
minhas vontades. Todas. Rigorosamente todas. Tive nestes braços os homens que
quis,
e ele ria, achava graça. Não que eu fosse uma vagabunda. Bem sabes que isso eu
não fui. Gostava de variar, de mudar. Muita mulher gosta de mudar de jóia, de
vestido,
de chapéu. Eu quis sentir na minha carne outros homens. Todos são filhos de
Deus. Mas a verdade é que, quando chegava a vez do Malafaia, era toda dele.
Toda. Inteirinha.
Até tu, Ramiro, eras posto para trás. Não vou te mentir. Malafaia fazia de mim
um violino. Um verdadeiro Stradivarius. Afinadíssimo.
E com os olhos molhados, abriu o sorriso:
- Não vou me descabelar como viúva histérica. Não, não vou. Tudo tem seu fim.
Não me revolto, não me ponho a berrar. Não. Em vez de gritar, agradeço.
Agradeço
a Deus o que recebi.
E como a emoção lhe subiu de novo aos olhos, deixou que duas lágrimas grandes
lhe escorregassem pelo rosto. Logo as enxugou, voltando a sorrir. E amparando-se
no
braço do Major:
- Agora, passou. Malafaia nunca deixou que eu chorasse. vou continuar fazendo a
vontade dele.
E na semana seguinte, de volta ao sobrado da Rua Formosa, após a missa de sétimo
dia na igreja do Carmo, o Major reencontrou a Caiu contente, expansiva, cheia de
vida. E aludindo ao Malafaia, sentada na mesma sala que lhe servira ao velório:
- Assim que voltei do enterro dele, tratei de me convencer de que tinha ido
deixá-lo no Cais da Sagração para uma viagem a Portugal. Tudo do Malafaia, aqui
em casa,
vai ficar como ele deixou: as roupas no cabide, os sapatos na sapateira, a
bengala e o chapéu no cabide do corredor. Até o livro que ele estava lendo vai
continuar
na mesa de cabeceira, com o mesmo pedacinho de papel entre as folhas, no ponto
da leitura interrompida. Na casa toda, os retratos dele. Retratos alegres,
vivos,
que me façam bem. E nada de luto: as janelas abertas, as cores vivas, os
pássaros cantando, o sol dentro de casa. Quando voltei do enterro, subi
rindo os degraus
da escada, e até chamei por ele, distraída. Sabes para quê? Para comentar com
ele o cheiro de naftalina de toda aquela gente atrás do
103
caixão. Um horror, meu filho. O Barão de Grajaú, que vinha do meu lado, fedia
tanto que me deixou tonta. Devia ser proibida a naftalina nos guarda-roupas.
Noutra
encarnação, devo ter sido traça. Não agüento aquele cheiro.
Fez uma pausa, suspirou. E entristecendo a voz:
- Ontem, sonhei com o Malafaia. E me zanguei com ele. Fiquei a olhá-lo, durante
uns minutos, depois não me contive: "O que você fez comigo não se faz. Não se
deixa
uma mulher viúva na minha idade. Deixa-se mais nova, para ela dar algumas
cabeçadas. Agora, com oitenta e um anos, que é que eu vou fazer de mim,
Virgilinho? Viajar,
não viajo. Casar, não caso. vou ficar na companhia de três pretas velhas,
fazendo uma força danada para não falar sozinha quando a língua
me encher
a boca. Isso é direito, Virgilinho?" E ele sumiu, Ramiro, Acordei chorando.
Sentei na cama, rezei até o dia clarear. Pobre Malafaia. Levando carão da
mulher
depois de morto. Mesmo nos meses de inverno, com as chuvas copiosas lavando a
cidade, o Major descia a Rua da Palma, entrava na Rua de Santana, tomava a Rua
Formosa,
e ia ver a sua velha amiga. Não precisava bater palmas. Ainda ia em meio da
escada e já a Caiu o chamava, reconhecendo-lhe os passos leves nos degraus. E
logo depois:
- Para cá, para cá - insistia, chamando-o para a sala, assim que ele deixava o
chapéu na chapeleira.
E enquanto as cordas da chuva batiam nas vidraças circundantes, com o vento da
noite a uivar no Largo do Carmo, ficavam os dois conversando, um defronte do
outro,
e riam, e falavam alto, até que uma das pretas velhas, a ferônima, trazia o
chocolate e os sequilhos para a mesa da varanda. Ela se instalava à cabeceira,
no cadeirão
de couro; ele se acomodava à- sua direita, e ali permaneciam horas seguidas,
como se esperassem pelo novo dia, repetindo as chávenas, mastigando os
sequilhos, que
estalavam e se desfaziam, sempre preparados ao forno por outra preta, a
Genoveva.
Foi no seu último Natal, após a Missa do Galo, que a Caiu contou ao Major:
- O Cochrane é uma de minhas saudades. Que homem! Eu já te disse uma vez e agora
repito: há horas em que tenho saudade de meus pecados. Deus sabe que estou sendo
sincera.
104
A esta altura da vida, por que mentir? Não é mistério para ti que foi por
interesse que me casei com o Malafaia. Foi. Mas, em pouco tempo, ele me
conquistou. Adivinhava
meus pensamentos. Vivia para fazer minhas vontades. E eu já gostava dele quando
vi o Lorde, a bordo da nau Pedro Primeiro, no dia em que um grupo de senhoras
maranhenses
foi fazer um apelo ao Almirante para acabar com as lutas de nossa terra. Se eu
tivesse me encontrado com ele alguns meses antes, teria largado tudo, para
seguir
atrás do Lorde, ainda que fosse para lavar-lhe a roupa e cozinhar para ele. Amor
verdadeiro é assim: um fogo, um arrebatamento. Um cativeiro a que a gente se
submete,
feliz. Fiquei transtornada. E ele também. Mas eu já gostava do Malafaia. Foi a
minha salvação. Fiquei caída, mas não a ponto de querer deixar meu marido. Não,
isso
não: o Virgilinho em primeiro lugar.
Suspirou, alteando os seios. E segurando uma das mãos do Major, que batia com os
dedos ciumentos nos braços da cadeira:
- Ah, Ramiro, não imaginas o orgulho com que dancei com o Almirante, no
sobrado da Sinhazinha Lobato, na Rua do Egito. Ninguém mais dançou a primeira
valsa:
só ele e eu, rodopiando pela casa. Ainda sinto a mão do Lorde aqui na minha
cintura. Dei os primeiros passos com um tremor nas pernas. Depois, mais firme,
me empolguei
pela valsa, e saí rodopiando, rodopiando, esquecida de tudo. Nessa noite,
quando voltei para casa, quase deixei maluco o pobre do Malafaia, no ardor com
que me
dei ao meu marido, pensando no Cochrane. E aqui para nós, sem que a chuva nos
ouça: o Virgilinho, magrinho, sequinho, nervoso, era muito homem
'para derrubar
uma mulher. Me derrubou. Depois de tudo, caí num sono profundo. Dormi o resto da
madrugada, entrei pela manhã, entrei pela tarde, só voltei a mim no começo da
noite,
com a impressão de que o baile, a noite, o Almirante, tudo tinha sido um sonho.
Um grande sonho.
E à mesa da varanda, esperando o chocolate esfriar:
- Dois dias depois, à tarde, eu tinha saído do banho, fresquinha, só
com a roupa de casa em cima do corpo, os cabelos soltos, cheirosa, quando a
Jerônima
veio me dizer, de olhos arregalados, que estava no patamar da escada,
105
querendo falar comigo, um homenzarrão vermelho, de fala atravessada. Voei para
lá, assim como estava, adivinhando que era o Lorde. E era. Ele mesmo. De
uniforme,
chapéu
de plumas, botões doirados, espada na cintura. Atirei-me nos braços dele. Louca.
Arrebatada. Sem enxergar mais nada na minha frente. E quando dei por mim, já ele
estava ali na alcova, ajoelhado aos meus pés. Ajoelhado, Ramiro. Já sem a
túnica, começando a desabotoar o meu vestido. O resto eu não preciso te contar.
Só te digo
é que eu já vi o Céu, aqui na Terra. E não só nos braços do Almirante. Também
nos teus, Ramiro. E nos braços do Virgilinho. Do meu sempre lembrado Virgilinho.
O Major, que segurava um sequilho na ponta dos dedos, com a mão esquecida
defronte da boca, perguntou-lhe, interrompendo o silêncio:
- E o Malafaia, de volta da Praia Grande, não te apanhou na cama com o Cochrane?
A Caiu abriu o sorriso:
- E algum dia tiveste de pular da minha cama, com o Virgilinho na porta da
alcova? Bem sabes que ele nunca teve o mau gosto de me aparecer quando seria
demais.
Eu, por meu lado, sempre fui cautelosa. Na hora em que o Virgilinho
estava para chegar, fiz o Cochrane voltar para bordo. Noutra ocasião, o Cochrane
esperou
por ele na sala, em grande uniforme, depois de me ter ajudado a compor de novo a
cama. E os dois tiveram uma longa conversa sobre o Maranhão. Tão longa que o
Lorde
ficou para jantar. Não tardaram a aparecer, aqui em casa, as cartas anônimas. Eu
lia umas, achava graça. O Malafaia lia outras, também achava graça. Bons
tempos.
Saudosos tempos. Hoje, já não me ligam. Já faz muitos anos que não recebo uma
carta anônima. E eu tinha gosto em recebê-las. Pelo mistério. Pelo ódio com que
eram
escritas. Uma pessoa que nos odeia já traz em si o seu castigo. A vesícula
trabalha mal; o fígado, também.
E ao fim da chávena, quando apanhou o guardanapo para enxugar os cantos da boca,
a Caiu voltou a sorrir:
- Eu, assim que deixar este planeta, hei de dar uma boa risada, ao me encontrar
com Deus. Deus vai me olhar, eu vou olhar para Deus. E se Deus me perguntar se
estou
arrependida de meus pecados, direi que não. Pelo contrário: tenho
106
saudade deles, e muita. Aposto que Deus vai achar graça. Vai. Deus gosta de cara
alegre. Quem gosta de cara triste
é o Demônio. Deus, não: Deus é alegria, é perdão,
é beleza, é bondade. Por isso mesmo tenho certeza de que vou me sentir no Céu
como na minha casa, e com o Virgilinho junto de mim o tempo todo para fazer
minhas
vontades. Também irás para lá, Ramiro. E como eu vou na tua frente (o meu dia já
está chegando), vais encontrar-me à tua espera, para o nosso chocolate e estes
sequilhos.
CAPÍTULO II
NA VÉSPERA do Ano-novo, embora o Capitão Ananias e a Celeste tivessem vindo da
fazenda para a consoada no sobrado do Largo do Desterro, o Major se deixou ficar
no
sobrado da Rua Formosa, até depois da meia-noite, em conversa com a Caiu.
Ela própria lhe pedira, ao vê-lo chegar por volta das dez horas, limpando a sola
das botinas no capacho do patamar:
- Hoje vais esperar o Ano-novo comigo. Me sinto muito só. E estou com a suspeita
de que esta data, para mim, não se repetirá. Desde ontem estou tendo os meus
avisos.
Pusera o seu melhor vestido, as jóias mais finas, o colar de pérolas a enfeitar-
lhe o busto enrugado, dera aos cabelos brancos um leve
tom azul. E desvanecida,
olhando-se mais uma vez no espelho da sala, assim que o Major lhe beijara o
rosto:
- Não achas que estou hoje uma bonita velha? O espartilho, com as finas talas de
baleia,
adelgaçara-lhe a cintura, tufando-lhe os seios para cima. E como pusera
um sapato de salto alto, com o bico cintilante a aparecer por baixo da barra do
vestido, dava a impressão de que ia a alguma festa. Daí o espanto do Major:
- Vais sair, Caiu?
- Não. Estou assim para esperar o Ano-novo, aqui em casa, em tua companhia.
E por volta das onze e meia, chegou também ali o Professor Torino Filho, já de
cabelos grisalhos, alto como o pai, acompanhado de um mulato calvo e gordo, que
sobraçava
um violino. Este último subiu a escada com dificuldade, amparado pelo
108
outro, que também iniciara cedo a comemoração pela passagem do ano.
O Major não conseguiu ficar sério por muito tempo:
- Que idéia foi essa, Caiu? Os dois já estão bêbados. Esse Torino, ao piano, não
chega aos pés do pai. E o outro, de olhinhos apertados, é capaz de não saber
para
onde vai o arco, no momento de tocar. Dá um conhaque a mais para cada um, e
manda os dois embora.
Mas a Caiu insistia em ter um pouco de música naquela noite. Parecia-lhe que não
veria outra noite de Ano-novo. E pouco antes de se abrirem os penachos dos fogos
de artifício, sobre as árvores do Largo do Carmo, com os sinos repicando em
todas as igrejas, os dois músicos executaram um minueto e uma gavota, depois se
curvaram
no meio da sala, desejando ao Major e à Senhora Caiu um feliz 1885. Em seguida,
encaminharam-se para a escada, um amparando o outro, enquanto se repetiam no vão
das janelas os clarões coloridos.
A velha Caiu os acompanhou até a escada. Deu a cada um uma garrafa de conhaque,
pôs-lhes no bolso do paletó uma cédula dobrada, e os despediu com um movimento
da
mão canhota:
- Agora, vão embora.
Na sala, após fechar o piano, o Major tinha acendido um charuto, que conservava
entre os dedos da mão direita, o rosto envolto na fumaça de uma nova baforada. E
ao ver a Caiu voltar do corredor, livre dos sapatos:
- Por que a gavota? E o minueto?
E ela, após um silêncio, como se tentasse dissolver no riso a emoção que lhe
umedecia os olhos pensativos:
- A gavota e o minueto que eu dancei aos quinze anos, no meu primeiro baile, na
despedida do Ano-velho.
Ele se emocionou:
- Se eu soubesse, tinha te tirado para dançar.
A Caiu sentou pesadamente na primeira cadeira de braços, esparramando no assento
os quadris moles e as pregas da saia. Suspirou, abanou-se. E sacudindo a cabeça:
- Foi para dançar contigo que chamei os dois músicos. Mas as pernas falharam.
Vi que ia fazer má figura. Coitada da Caiu Malafaia.
109
E pôs-se a rir mais alto, com o leque aberto defronte do rosto, sentindo que o
Major lhe afagava a cabeça branca com a mão trêmula, e também se emocionou.
Mais tarde, ao fim da pequena ceia, a que não faltou o espocar da rolha de uma
garrafa de champanha, ela lhe disse, em
tom tranqüilo,, sempre sorrindo:
- Sei que esta cena não se repetirá. Ano que vem, não estarei mais aqui. Espera:
não me interrompas. Já te disse que tenho tido os meus avisos. E estes avisos
nunca
falharam.
Apertou a mão do Major por cima da mesa:
- vou sentir falta de ti. E tu, de mim.
Ao voltar para o Largo do Desterro, no seu passo lento e firme, com a bengala
sobraçada, as mãos para as costas, o Major se isolou da alegria circundante,
como
se não visse os sobrados iluminados nos dois lados da rua, na primeira madrugada
do Ano-novo. Seria possível que não teria outra noite como aquela, na companhia
da Caiu? E aonde iria quando ela lhe faltasse? Nos últimos meses, tinha ido ao
enterro de cinco velhos companheiros: o do Nhozinho Carvalhosa, com quem jogava
gamão; o do Agostinho Tavares, que lhe fazia as sobrecasacas pelos modelos de
Londres; o do Tião Rosado, que sempre lhe vinha pedir dinheiro para ajudar
na fuga de um escravo nos barcos do Pertinho; o do Padre Castorinho, que dizia
ter tido ultimamente proveitosos colóquios com o Diabo, a quem estava
convencendo
a arrepender-se de todas as suas maldades; e por fim o do Tarcísio Espinheira,
que dera para interromper a missa das dez horas, aos domingos, na Sé, com
vivas à República.
Já na Rua da Palma, a duas quadras do Largo do Desterro,
o Major viu que havia luzes na sala de seu sobrado:
- O Ananias e a Celeste ainda estão à minha espera. O resto da rua longa, que
subia em ladeira, tinha o ar
sonolento do cansaço da madrugada, com os lampiões querendo
apagar, as casas fechadas, um ou outro transeunte nas calçadas estreitas.
Sem pressa, no mesmo passo contido, o Major venceu o primeiro quarteirão, venceu
o segundo, sempre com o pensamento na Caiu, e empurrou a porta do sobrado.
E a Prudência, no alto da escada:
110
- Gente, é Seu Major que está chegando. Ora viva, Seu Major. Já a gente estava
aflita com a demora do senhor. Eu é que disse à Sinhá Celeste e ao Capitão
Ananias
que tivessem calma, que Seu Major já ia chegar.
E ao notar-lhe o rosto contraído, à luz do bico de gás da
varanda:
- Alguma coisa com o senhor, Major?
- Nada, Prudência.
Ele pendurou o chapéu e a bengala no cabide, tirou a sobrecasaca, bateu palmas
chamando o genro e a filha. Ambos apareceram com ar estremunhado, e foi a
Celeste
quem falou primeiro:
- O senhor se esqueceu da gente? Ficamos à sua espera até agora, com a mesa
posta. Cheguei a dormir no sofá da sala, esperando o senhor. E o Ananias também.
E o Capitão:
- Eu disse à Celeste que não se preocupasse. Que o senhor estava bem
acompanhado, na casa de Dona Caiu.
O velho não deixou o genro prosseguir:
- Mas já estou aqui, e vamos sentar à mesa. Instalou-se à cabeceira, e só fez
tomar dois goles de chá, em
silêncio, os olhos distraídos, enquanto a Celeste tentava animar a conversa, por
cima do tinido das xícaras e do ruído dos passos da Prudência, que andava em
redor
da mesa, com o bule na mão, sem perder de vista o Major. E foi ela quem de
repente observou:
- No tempo de Sinhá Minervina, o dia de hoje era outra coisa. O senhor se
lembra, Capitão Ananias? Foi num dia como o de hoje que o senhor pediu a mão de
Dona Celeste.
Eu ganhei vestido novo, a Miúra também. Depois que Sinhá Minervina morreu, este
sobrado mudou muito. O Major não gosta que eu diga estas coisas, mas eu, quando
dou
por mim, já tornei a dizer. Desculpe, Seu Major. Falei sem querer. Velha é assim
mesmo. Acho que já começo a ficar caduca.
Riu, mostrando os dois caninos que lhe mordiam o lábio inferior, e voltou a
encher a xícara do Capitão Ananias, que de vez em quando alongava o olhar para o
sogro,
sentindo-lhe o ar pensativo, com as mãos distraídas torturando o guardanapo.
111
E até quase de manhã, no sobrado em silêncio, rodeado de janelas fechadas, sem
ruído de passos nas calçadas longas, o velho acompanhou o bater das horas no
relógio
da varanda, sempre a pensar que, ao tornar a subir a escada do sobrado da Rua
Formosa, não voltaria a encontrar a intensa luz dos grandes olhos negros da Caiu
Malafaia.
A Celeste espantou-se, à mesa do café, assim que viu o pai deixar o quarto, já
preparado para sair:
- Onde o senhor vai? A Praia Grande está deserta, hoje o comércio não abre.
E o Capitão, para a mulher:
- Deixa teu pai dar o seu passeio. É sempre bom andar. Principalmente na idade
dele.
A Celeste insistiu:
- Mas papai quase não dormiu esta noite. Acordei duas vezes pela madrugada,
sempre ouvindo a rede dele ranger nos armadores. Papai precisa descansar.
O velho olhou a filha, olhou o genro, e apanhou no cabide do corredor o chapéu e
a bengala.
Aqui fora, na cidade estremunhada e quieta, ainda de casas fechadas, com um ou
outro transeunte, o sol se abria por cima dos telhados, escorregando pelas
fachadas
lisas, cintilando nas pedras do calçamento, refulgindo nas vidraças.
À porta do sobrado na Rua Formosa, o Major bateu com força a aldraba de bronze.
E enquanto esperava o rumor de passos, ficou mais apreensivo. Impaciente, voltou
a bater. E quando viu a janela da sala se descerrar, por cima da porta da rua,
quase não pôde falar, olhando para o alto.
- Caiu, sou eu - conseguiu dizer, quando a velha se debruçou para a calçada,
tonta de sono, com os olhos empapuçados.
E ela, muito espantada:
- Tu? A esta hora? E me assustando? Que é que se passa? Depois, lá no alto, ao
saber que ele não dormira preocupado
com ela, a velha pôs as mãos emocionadas nos seus ombros, olhando-o de frente:
- Eu também pensei que não ia mais te ver, Ramiro, senão no outro mundo. Quando
me deitei, já estava preparada para a última viagem: no meu melhor vestido, bem
penteada, só
112
faltando calçar os sapatos. Estirei-me na cama, depois de acender as velas dos
castiçais, com o Cristo defronte de mim. Cerrei os olhos, cruzei as mãos no
peito,
e fiquei esperando a hora de aparecer diante de Deus. Quando dei por mim, foi
ouvindo bater a aldraba da porta.
Riram os dois, abraçados. E ela, caminhando para a varanda, amparada no braço
dele:
_ Deus ainda não me quis, Ramiro. E não sabe o que está perdendo. Não, não sabe.
Se soubesse, já eu estaria animando o Céu com a minha alegria.
113
CAPÍTULO III
SEM UMA CARTA, sem uma só palavra de amargura ou tristeza à mulher e ao sogro,
em meio à madrugada, o Capitão Ananias deixou a rede onde dormia, abriu a gaveta
superior
da cômoda, na alcova iluminada pela débil chama do candeeiro, tirou dali o seu
revólver, apontou a arma contra o peito largo, e caiu para a frente, com uma
bala
atravessada no coração.
O Major, que estivera lendo até depois da meia-noite, acordou com o estampido,
que supôs ter sido na rua. Abriu a janela, olhou para fora, e viu que dois
vizinhos,
nas casas fronteiras, olhavam para o sobrado. Intrigado, fechou a janela,
caminhou para a alcova, apenas com um pé no chinelo. E antes de sair do quarto,
ouviu
o grito da filha:
- Papai, aqui, depressa! O Ananias se matou!
com esforço, ajudado pela Celeste, conseguiu trazer o corpo para a cama, ainda
com o sangue a correr por cima do chambre, à altura do peito. A arma tinha caído
ao chão, com uma única bala detonada. E todo o soalho, entre a cômoda e a cama,
estava manchado pelo sangue, sob a luz do candeeiro, que parecia ter aumentado
dentro
da manga de vidro.
E a Celeste, com as mãos na cabeça, depois de sacudir o marido, no desesperado
esforço para fazê-lo voltar a si:
- Por favor, não me deixes sozinha! Olha para mim: sou eu que estou aqui. Eu,
tua mulher. Vê como eu estou. Não me abandones. Eu, sozinha, não sou ninguém.
Por favor,
acorda! Ah, meu Deus! Ah, minha Nossa Senhora! Ajudai-me!
O Dr. Santos Jacinto, que o Major foi buscar no Largo do Palácio, admitiu a
hipótese de uma crise de sonambulismo, sobretudo depois que a Prudência lembrou
que o
Capitão,
114
dias depois de casado, apareceu fardado na varanda, exatamente pela
madrugada, dizendo que ia para o Quartel.
Ela, que preparava os doces para a festa dos setenta anos do Major, estranhou a
hora:
- Agora, Capitão, quando os galos ainda não estão cantando? É muito cedo.
E como ele passou, calado, sem responder-lhe, a caminho da escada, a Prudência
tratou de chamar a Sinhá Celeste, que veio buscá-lo aqui embaixo, no momento em
que
o Capitão forcejava para tirar a tranca da porta da rua, com o ar
ausente de quem estava fazendo tudo sem dar acordo de si, E só veio a despertar
quando a Celeste o sacudiu pelos ombros, repetindo-lhe o nome, e ele a olhou com
uma expressão de espanto, sem compreender por que estava ali. E o Dr. Santos
Jacinto,
que já conhecia o caso:
- Agora, o Capitão teve outra crise. Não há outra explicação. Ele estava bem de
vida, à frente da fazenda, gozando saúde, licenciado na Polícia, sem problemas,
um bonito homem, em paz com a mulher. Talvez tenha despertado com o estampido da
bala, mas já era tarde: estava morrendo.
O corpo jazia ao comprido da cama, e tinha também um ar atônito na desarrumação
que o cercava, com os olhos parados, o desalinho nos cabelos e no chambre
manchado
de sangue e a mulher ao seu lado, curvada sobre si mesma, as mãos no rosto
desfigurado, a chorar convulsivamente.
O Major ia e vinha pelo aposento; entrava na sala, saía da sala; olhava o morto,
levava as mãos à cabeça:
- E assim de improviso, transtornando tudo. Moço, com a vida pela frente, e tudo
a seu favor, Já estava com a passagem de volta para a fazenda, na companhia da
Celeste. De repente faz isto, sem um motivo, sem uma explicação. Não dá para
entender. E por que não sou eu o morto, eu que já fiz oitenta anos? Há momentos
em que
a vida é absurda, não faz sentido. Deus se distraiu? Ou tinha de ser assim
mesmo?
Um novo problema surgia com o mistério da morte. O Senhor Bispo concordaria em
dar ao sepultamento do Ananias a assistência da Igreja? Ou recusaria essa
assistência,
admitindo que ele se matara?
115
O próprio Dr. Santos Jacinto se ofereceu para falar a Dom Antônio de Alvarenga,
na residência episcopal, às primeiras horas da manhã. E por volta das dez horas,
já com o morto na essa armada, no centro da sala de visitas, o médico voltou ao
sobrado, juntamente com o vigário da igreja do Desterro, que torcia as mãos
cabeludas,
como se estivesse com frio. E disse ao Major:
- Dom Antônio relutou, chamou o vigário geral, chamou o chefe-de-cerimônias,
ouviu Monsenhor Mourão, e acabou concordando em que seja dada a
assistência
da Igreja, mas com a condição de que o saimento se fará sem o sacerdote
precedendo o cortejo fúnebre, nem o sacristão irá à frente, de cruz alçada. Uma
simples
formalidade. Foi o que pude arranjar. Dom Antônio acha que, correndo a notícia
de que o Capitão se matou, fica difícil explicar a presença do padre. O
essencial
é que o corpo será encomendado. E aqui o nosso vigário já tem instruções para
isso.
- É como diz o Dr. Santos Jacinto - confirmou o vigário, curvando-se um pouco,
de mão no peito - Deus, que tudo vê lá no alto, está vendo que a solução é boa.
Foi
a melhor que se pôde encontrar.
E pouco depois do meio-dia quem apareceu no sobrado, toda de preto, no vistoso
vestido que reservara para seu próprio enterro, foi a Caiu Malafaia. Uma
carruagem
a trouxe da Rua Formosa ao Largo do Desterro. Vinha cheirosa, muito empoada, os
cílios curvos, os olhos pintados, um colar de pérola na abertura do
decote,
amparando-se na bengala de castão de prata. Ao descer do carro, esperou que
o Chico Bento lhe desse a mão. Depois, para subir o degrau da porta, ainda se
valeu
da mesma ajuda. Mas já na escada, amparou-se no corrimão e conseguiu galgar cada
degrau, sempre com o apoio da bengala. Um grupo de oficiais da Polícia Militar,
antigos companheiros do Capitão, já ali estava, guardando-lhe o corpo: uns,
menos graduados, perfilados como os tocheiros acesos; outros, de
semblante
pesaroso, sobraçando o boné do uniforme, ocupavam o vão das janelas, misturados
a outros amigos, que desde cedo tinham confluído para o sobrado, trazidos pelo
dobre
dos sinos. À cabeceira do marido, junto ao crucifixo de prata que dominava o
ataúde entre dois castiçais acesos, a Celeste intervalava
116
as crises de pranto convulsivo com os suspiros de desespero, agarrada ao terço e
ao lenço amarfanhado.
Era debalde que a Miúra e a Prudência, desde cedo, tinham tentado levá-la a
alimentar-se. A Prudência insistia, já no começo da tarde abafada, de pouca
viração:
- Sinhazinha, a senhora ainda tem seu pai, que precisa de alguém que olhe por
ele. A senhora é a única filha. Felizmente já Deus levou o pobre do Filinto,
que dava
tanto trabalho, coitado. Seu pai está velho. E só eu e Miúra não damos conta do
Major. Venha tomar seu café. Deus é grande.
Nesse momento, amparando-se no braço do Major, a Caiu Malafaia surgiu na porta
do corredor, vistosa, o cabelo branco a escorrer por baixo do chapéu largo, de
aba
levantada na frente, um grande alfinete atravessado na copa.
E olhando na direção da Celeste:
- É a viúva, Ramiro? - perguntou ao Major. - Já fazia muito tempo que eu não a
via. Era magrinha, agora está gorda, forte, cabelos grisalhos. A última vez que
me
encontrei com ela foi na Rua de Nazaré, na porta da Notre Dame, ainda ao tempo
de tua mulher, que estava com ela.
E sempre a amparar-se no braço do Major, acercou-se do ataúde. Sentindo que
todos os olhares da sala se voltavam em sua direção, ergueu mais a cabeça,
retardou mais
o passo, encolheu a barriga, alteando os seios, e acomodou o olhar de tal
maneira que recolhia a surpresa e a admiração à sua volta, sem desviar a vista
para os
lados, como a interessar-se apenas pelo morto.
Antes de dirigir-se à Celeste, desprendeu-se do braço do Major, pôs a mão
esquerda na borda do ataúde, persignou-se, e ficou a rezar, sem deixar de
observar o defunto,
que jazia coberto de rosas vermelhas, ainda belo na imobilidade da morte. E após
persignar-se novamente, deu dois passos na direção da Celeste, apoiando-se no
Major:
- Quero abraçar tua filha.
Voltara ao seu ar teatral, direita, espigada, encolhendo a barriga, levantando
os seios. Primeiro beijou a Celeste no rosto; depois atraiu-a para os seios,
apertou-a
contra si. E erguendo a voz por cima do burburinho circundante:
117
- Sei o que este momento significa. Já passei por ele. Mas é preciso que nos
curvemos à vontade de Deus. Confia no tempo. Não há lágrimas que o tempo não
enxugue.
A Celeste cedeu a nova crise de pranto. E por entre soluços, com o lenço nos
olhos vermelhos:
- As minhas durarão o resto da vida, Dona Caiu. Não foi só meu marido
que morreu. Eu também acabei. Tudo terminou para mim.
A Caiu olhou para o Major, em seguida baixou os olhos, vendo que o velho se
mantinha sério. E pondo a mão direita no ombro da Celeste:
- Senta, senta. Eu também vou me sentar.
E foi acomodar-se do outro lado da sala, a um canto, de modo que dali, sentada
ao lado do Major, via o esquife, a porta sobre o corredor, as duas portas da
alcova,
a cabeça da Celeste, uma nesga de céu, o zimbório e a torre da igreja.
A tarde límpida, de muito sol, bafejada pela viração constante que vinha do mar,
por cima dos telhados fronteiros, avivava ali na sala o aroma e o colorido das
flores.
Por vezes parecia espevitar a chama dos tocheiros e as velas dos candelabros que
ladeavam o crucifixo de prata.
Sabendo que a olhavam, a velha Caiu mantinha-se espigada na cadeira, com as
nádegas tomando toda a extensão do assento folgado. De vez em quando assestava o
lornhom
para um ângulo da sala, séria, mas como se fosse rir, e correspondia a um
cumprimento, ou ensaiava cumprimentar alguém, tufando mais os seios.
E foi com o lornhom assestado para a última janela à sua direita que perguntou
ao Major, assim que este voltou a sentarse ao seu lado:
- Conheces aquele Tenente, de costas para o largo? Não te lembras da Marieta
Parga? Uma alta, de olhos azulados, que casou com o Cipriano Parga? É filho dela
com
o Cipriano.
O Major firmou a vista:
- Tem os olhos dela - reconheceu..
E enquanto a Caiu continuava a olhar o Tenente, como a examiná-lo de alto a
baixo através das lentes do lornhom:
- Sabes que foi também por causa da Marieta que voltei
de Londres? Foi. Voltei para casar com ela. Aqui, ao chegar,
118
tive a notícia de que, dias antes, ela havia casado, na igreja de São João, com
o Cipriano. Éramos namorados desde meninos. Tínhamos rompido por uma tolice. De
Londres mandei-lhe várias cartas. Respondeu às primeiras, depois se retraiu.
Continuei a escrever-lhe, sempre sem resposta, durante mais de ano. Quando
decidi voltar
a São Luís, na época da Independência, quis fazer esta surpresa à Marieta: pedi-
la em casamento, no mesmo dia de meu regresso. E foi então que soube que ela já
estava casada. Só fui revê-la, alguns anos depois, num baile em casa de Donana
Jansen. Contei-lhe o meu projeto e o meu desapontamento. Ela ficou uns momentos
calada,
depois me confessou que lhe tinham dito que eu vivia em Londres com uma inglesa
bonita e que ia vir com essa inglesa para São Luís. Diante disso, e antes que eu
voltasse, casara-se com o Cipriano. A Caiu bateu-lhe de leve com a ponta do
lornhom:
- Fizeste mal em não trazer para cá uma bonita inglesa. As inglesas, quando
moças, são as moças mais bonitas do mundo. Metias a Marieta num chinelo.
O vento esvoaçou a cortina de uma janela, em seguida deixou que a cortina
tornasse ao seu lugar.
E o Major, como esquecido do morto, que se mantinha imerso no seu sono eterno,
longe do mundo:
- Ainda na casa de Donana Jansen, eu disse à Marieta que estava inclinado a
permanecer solteiro. Na verdade, para ser franco contigo, eu estava certo de
que, andando
o tempo, acabaria por me casar com ela. É verdade. O Cipriano, nessa época, era
uma criatura pálida, magra, olhos fundos. Não devia durar muito. Mas quem morreu
foi ela, alguns meses depois de ter tido aquele filho. O Cipriano, por seu
lado, deitou corpo, ficou parecendo um pote, de barriga e papada, calvo, os
olhinhos
apertados pelas banhas, maior embaixo que em cima. Morreu no Rio, ano passado.
A velha voltou a assestar o lornhom para o fundo da sala, como a inventariar o
público do morto. E sempre olhando, sem interromper a conversa:
- Foi por isso que só te casaste depois da morte da Marieta. Quem me deu notícia
de teu namoro com a Minervina foi o Virgilinho, que andava a par de tudo. Ele
e eu fomos da mesma opinião: casando-te com ela, ias dar uma bonita
119
cabeçada. E deste. A Minervina, que era uma sílfide, infernou-te a vida, além de
ter enfeiado até dizer chega, com aquele nariz comprido e aquele buço azul.
E sorrindo, a apertar-lhe o braço carinhosamente:
- Coitado do meu Ramiro. Ainda bem que eu apareci na tua vida, graças à bondade
de Deus e à compreensão do Virgilinho. Levanta as mãos para o Céu.
E o Major só voltou a encontrar a mesma expressão divertida no semblante da
velha amiga quando deu com ela morta, meses depois, no seu grande leito de
metal. Já
as duas pretas lhe haviam vestido o belo traje negro com que a Caiu Malafaia
queria ser enterrada. E como era noite alta, pouco antes do Carnaval, ouvia-se o
bater
do bumbo e das caixas de rufo, no último ensaio dos baralhos e das caninhas
verdes, para os lados do Pertinho, da Madre Deus e da Praia Grande.
Em busca da Zulmira
120
CAPÍTULO I
QUERENDO ENCONTRAR um bom lugar para a sua rede, o Major apareceu a bordo do São
Luís antes do cair da tarde, acompanhado por um preto alto e espadaúdo, que lhe
trouxe a mala e o saco de viagem. O Comandante Ribas já estava à sua espera:
- Não vai precisar armar aqui fora a sua rede, Major. Reservei-lhe um espaço
no meu próprio camarote.
Pela manhã, depois de uma volta pela Praia Grande, à procura de um mimo de
mulher nas lojas de miudezas, o velho passara pela sede da Companhia de
Navegação, na
Rua da Estrela, para saber a hora certa da saída do vapor. E já ia embora, de
volta ao Largo do Desterro, com a informação de que o São Luís partiria no
começo
da noite, com a saída da lua, quando o próprio Diretor da Companhia, Dr.
Francisco de Vilhena, veio lhe falar:
- Vai à fazenda, Major?
- Um pouco mais adiante. Desta vez vou a Caxias. E o outro, apertando-lhe a mão
ossuda:
- Tem negócios por lá, Major?
- Não. Nada de negócios.
E com a mão no peito, à altura do coração:
- Sentimentos. vou visitar uma velha amiga, que não vejo há mais de trinta anos.
Para tratar de negócios, nesta hora de confusões, com essa tal de República sem
saber o que veio fazer neste país, eu não me abalaria a sair do lugar
apropriado, que é o Largo do Desterro, e com vista para a igreja. Esta nossa
pátria está entregue
a malucos, Senhor Doutor Francisco de Vilhena. Sim senhor. Escreva o que estou
dizendo: malucos.
123
Mandaram embora o velho Imperador, que tinha bom senso e experiência de governo,
e puseram à frente da Nação um bando de meninos, que andam a dar com os burros
n'água. Não sei onde isto vai parar se não aparecer um homem forte, que tome as
rédeas do governo. Até eu, que sempre fui sereno, já estou perdendo a paciência.
Desculpe o desabafo.
O Dr. Vilhena, que estivera ao lado do Dr. Paula Duarte, na hora em que a Junta
Governativa tomou conta do Palácio, com o fim da Monarquia, procurou mudar de
assunto:
- E a fazenda vai bem, Major?
- E o que é que vai bem nesta República, meu caro Dr. Vilhena? Fui até lá, assim
que o cativeiro acabou. Encontrei tudo de pernas para o ar, como se houvesse
soprado
um furacão. Os pretos, pensando que liberdade é pagode, dançavam e cantavam o
dia inteiro. Pus ordem no que foi possível. Gritei, ameacei. Felizmente, com
meus
gritos, voltou a paz. Deixei a fazenda entregue a um dos pretos, com a ameaça de
pôr todos eles de lá para fora se as coisas não entrassem nos eixos. Ano que
vem,
na hora da colheita do algodão, se ainda estiver vivo (aos noventa anos não se
pode ser ambicioso demais), apareço por lá, para ver onde param as modas.
Sinceramente:
estou torcendo para aquilo dar certo. Mas tenho minhas dúvidas.
E o Comandante do São Luís, passando à frente do velho para lhe mostrar o
caminho do camarote:
- Por aqui, Major. Faça favor.
O Major subiu a escadinha do convés superior, lépido, ligeiro, sem apoiar-se no
corrimão de metal, depois de recusar a mão solícita que o Comandante lhe
estendia.
Na semana anterior, unicamente para atender a um pedido da Celeste, tinha estado
no consultório do Dr. Santos Jacinto, para que este o examinasse. Foi logo
avisando
o médico:
- Não estou sentindo nada, Doutor. A filha é que anda cismada comigo. Que eu
tinha de vir aqui para o senhor me olhar. Me olhar para quê, se o senhor já me
conhece?
Afinal, como a ladainha dela no pé de minha prelha já estava ficando cansativa,
aqui estou. Só me queixo de uma coisa: durmo pouco. Mas o sono não me faz falta.
A princípio, me preocupei com minhas insônias. Depois cheguei à conclusão de que
Deus tinha sido generoso comigo. Por que dormir demais, se o sono eterno
124
está sempre no fim de nosso caminho? Assim, de olho aceso, vendo, ouvindo, vivo
mais.
Na verdade, de vez em quando ressentia-se das longas horas em claro, com o
sobrado adormecido, a rua em silêncio, e só o vento da noite assobiando lá fora,
a trazer
de longe o sussurro do mar e das águas do rio. Nessas ocasiões, parecia-lhe
estar só no mundo, sobretudo depois que morrera a Caiu Malafaia. Cedo, a Celeste
ia deitar-se.
E ele ficava à mesa da varanda, jogando a sua paciência, ou lendo o seu jornal.
Ultimamente, tanto na rede quanto na cadeira de balanço, indo e vindo,
orientava
a memória para cenas distantes de seu passado, e com isto se distraía, até que o
sono lhe cerrava mansamente as pálpebras, e ele despertava ao fim da madrugada,
com o canto dos primeiros galos nos quintais vizinhos. E quando a Celeste
levantava, já o encontrava na roupa caseira, a cabeça agasalhada por um velho
boné de
pano, caminhando ao longo do sobrado, com as mãos para as costas, à espera de
que lhe servissem o café da manhã.
Já fazia duas semanas que, à mesa do jantar, de repente, a Celeste lhe havia
perguntado se era verdade que ele tinha uma filha que morava em Caxias. E ao ver
o pai
pensativo, acrescentara:
- Há muitos anos, antes de eu me casar, minha mãe me falou dela, debaixo de
muito segredo.
O Major tardou a resposta, permanecendo com as sobrancelhas contraídas, como no
esforço para avivar as lembranças. E depois de longo silêncio:
- Por volta de 1850, quando foi inaugurada a linha de vapores do rio Itapecuru,
fui até Caxias, onde fiquei durante dois meses. Ali conheci uma moça muito
simpática,
bonita, com quem fiz amizade, e que se havia hospedado na mesma pensão que eu.
Passado algum tempo, essa moça me escreveu uma carta, aqui para casa, dando-me a
notícia de que estava grávida e que o filho era meu. Eu me encontrava na Europa,
com a tua mãe, às voltas com o problema do Filinto, quando a carta chegou. Mas
só tomei conhecimento dela, na minha volta a São Luís, dois anos depois. Escrevi
para Caxias, a um amigo de toda a confiança, e vim a saber por ele que a moça,

mãe de uma menina, tinha se mudado para Maceió, na
125
companhia de um engenheiro, com quem estava casada. Nunca mais tive notícias
dela, até que, um belo dia, contei o caso à Caiu Malafaia. A Caiu pôs-se a rir:
a
moça tinha um vago parentesco com ela, havia ficado viúva, e estava de novo em
Caxias. Por esse tempo, tua mãe já andava muito doente, e eu, às voltas com ela
e com o Filinto, não tive cabeça para tentar saber da viúva e da filha. O amigo
a quem recorri na primeira vez já havia falecido. Pensei em ir a Caxias tirar o
caso a limpo; mas fui adiando a viagem, ora por um motivo, ora por outro, até
que, hoje, me reavivaste a memória, lembrando-me que existiu na minha vida uma
moça
chamada Zulmira, com quem tive uma filha que nunca vi.
Agora, interrogava-se: - Como seria essa filha? E a Zulmira, de lindos cabelos
negros repartidos ao meio, como estaria?
126
CAPITULO II
NA MARÉ BAIXA, já as águas iam subindo, a engrossar os canais entre as coroas de
areia, e por ali passavam os barcos lerdos, deslizando na direção da Praia do
Jenipapeiro.
Na luz macia, que se desmanchava por cima dos telhados escuros, destacavam-se as
torres ameadas da igreja de Santo Antônio, os campanários da Sé, as torres da
igreja
do Carmo.
Tanto no convés inferior quanto no superior iam-se sucedendo as redes, à medida
que subiam os passageiros. E todo um confuso rumor de vozes e malas arrastadas
crescia
em redor, no tombadilho repleto, enquanto o Major, com as mãos para as costas,
perlongava a amurada, de cabeça baixa, a considerar que havia conhecido outra
cidade,
calma, iluminada à noite pelos lampiões de azeite, com largos espaços vazios,
sem a orla do Cais da Sagração.
E nisto percebeu que vários passageiros se debruçavam na amurada do convés,
olhando no sentido da escada. Debruçou-se também. E viu que uma senhora de rosto
comprido,
grandes olhos pestanudos, vestido estampado, a cabeça branca protegida pelas
rendas de uma fina mantilha que o vento esvoaçava, vinha subindo para o portaló,
trazida
numa cadeira que dois marinheiros carregavam. Num sotaque espanhol, que lhe
engrossava as veias do pescoço, ela gritava para os dois pretos:
- Por favor, cuidado! Yo non sei nadar!
Pela voz rouca e pelo espalhafato, identificou a famosa Juanita Pereda, com quem
tivera um caso tempestuoso, já fazia mais de meio século, ali mesmo em São Luís.
127
Curvado para a escada, a segurar com uma das mãos o boné de pano na cabeça, pôs-
se a dizer para si mesmo, de olhos arregalados:
- É ela. É, é ela. Conheci pela voz de taboca rachada. E eu que pensava que
aquela maluca já estivesse reduzida a pó, no Cemitério do Gavião! Valha-me Deus!
E deu por si no Largo de São João, entrando no gabinete do Chefe de Polícia, que
se levantou da mesa, ao vê-lo transpor a porta de vaivém:
- Que é que se passa, Major?
- Volto a precisar do senhor, Dr. Costa. A doida tornou a me infernar a
paciência. Antes que eu perdesse a cabeça, corri para cá. Desta vez ela ameaça
ficar nua
em pêlo, no Largo do Carmo, defronte da igreja, à hora da procissão de Santa
Filomena, se eu cumprir a promessa de abandoná-la. E eu a larguei de uma vez,
Dr. Costa.
Já não agüento mais. Nunca uma mulher me deu tanto trabalho. Dei-lhe dinheiro,
dei-lhe jóias, dei-lhe casa, tudo, e ela diz que, sem mim, prefere se matar. Mas
que
só se mata depois de fazer um escândalo medonho, que há de ser falado nos
jornais do mundo inteiro. Doutra vez foi aquele inferno no Largo do Desterro, na
porta
do meu sobrado, a berrar que eu a tinha tomado do marido, prejudicando-lhe a
carreira.
O Dr. Santos Costa, de monóculo entalado no olho direito, pôs-se a rir, fitando
o Taborda, que ia e vinha ao comprido da sala, de casacão aberto, passando a mão
nervosa pela barba:
- E não tomou, Major? Tomou. E não prejudicou? Prejudicou. O senhor
desencaminhou a cômica. Na véspera da moça embarcar, já com data marcada para a
companhia de
zarzuelas estrear em Belém, a Juanita desapareceu da cidade. E só voltou a
aparecer na semana seguinte, de casa montada pelo senhor, na Rua do Alecrim. Não
se falou
noutra coisa, aqui em São Luís. E só eu sei o trabalho que tive para pôr água na
fervura por todos os lados. O senhor se recorda que os protestos choveram. O
diretor
da companhia de zarzuelas quis mover um processo contra o senhor, alegando que a
Juanita era a primeira estrela do conjunto e que, sem ela, ia tudo por água
abaixo.
com esforço, falando aqui a um, falando ali a outro, conseguimos que os jornais
e os pasquins se calassem.
128
O Major parou no meio da sala, com as mãos espalmadas à altura das orelhas
quentes:
- E a que preço, Dr. Costa! E a que preço! Felizmente a Minervina fez vista
grossa, ou não soube de nada, e o senhor foi meu anjo da guarda
naquela cabeçada
inacreditável. Agora, por favor, veja o que pode fazer por este seu amigo. Já
ameacei, já gritei, já cresci para a doida, mas ela, com o sangue quente das
espanholas,
não se intimidou com meus gritos. Pelo contrário: ficou mais furiosa!
E abrindo os braços patéticos, de costas para a janela sobre o largo:
- Salve-me desta enrascada, meu bom amigo. Prometo nunca mais lhe
dar trabalho. Nunca mais.
Os dois ficaram a olhar um para o outro, como em busca de uma saída: o Taborda
estalando os dedos entrelaçados; o Chefe de Polícia segurando o trancelim do
monóculo.
Este, por fim, pôs-se a andar, de cabeça baixa, olhando a biqueira das botas de
polimento, com.uma das mãos para as costas, a outra ajustando o monóculo na
órbita.
Ao voltar do fundo da sala, , parou defronte do outro, com uma luz mais viva nos
olhos carregados:
- Tive agora uma idéia. Não haverá escândalo nenhum. Atalharemos o mal pela
raiz. Tenho o homem para a situação. É o Alferes Lobato. Bonito, jeitoso,
mulherengo,
nasceu para desatar nó apertado. Não volte à casa da espanhola. De jeito nenhum.
O Alferes Lobato vai lá e entende-se com a Juanita. Tem lábia, ela é bonita, e
de olhos assanhados. Juntamos o fogo e a pólvora. Depois, quando o fogo
pegar, despacho o Lobato para uma missão longe daqui, e desorientamos a
Juanita,
que acabará tomando o navio de volta a Madri, com a falsa notícia de que o
Lobato seguiu às pressas para a Suíça, a conselho médico. Faz-se uma
trapalhada,
como nos teatros. E a cômica vai cair no laço como um passarinho.
Ao despedir-se do Dr. Costa, para descer a escada da rua, o Taborda parou no
patamar:
- Dr. Costa, a Juanita é muito esperta. Não vai ser fácil iludi-la. E quando
sentir que estamos querendo enganá-la, ficará uma fera. De arrebentar
o que encontrar pela frente.
129
O Dr. Costa tirou o monóculo, aproximou as sobrancelhas, grave, olhar fechado:
- Nesse caso, meto-a no xadrez, como qualquer mulher à-toa. E não adianta
gritar. Quanto mais gritar, mais tempo fica.
E na primeira noite da festa dos Remédios, ao sair da igreja em companhia da
Minervina e da Celeste, o Major deu de frente com a Juanita Pereda, de longo
vestido
brilhante, chapéu de palha atravessado por imenso alfinete de ouro, a abanar-se
com um leque preto adornado de vidrilhos - de braço com o Alferes Lobato!
Chegara
a parar, de respiração suspensa, e nunca a achou tão bonita, com seus negros
olhos rasgados, os lábios carnudos, a pele muito alva, como nessa noite de
estio, no
largo pontilhado de bandeiras e barraquinhas de sorte. E ela passou à sua
frente, muito agarrada ao Alferes, que torcia uma das guias do bigode retinto,
tinindo
as esporas na cantaria da calçada, enquanto a Juanita se requebrava, de saia
muito justa, com tremuras nas nádegas felizes. De si para si, rosnou,
despeitado:
- Grande vaca!
E alegando cansaço e dor de cabeça, num começo de gripe, voltou mais cedo ao
Largo do Desterro, sem que a Minervina tivesse visto a queima dos fogos de
artifício
por cima da ermida, de que tanto gostava:
- Foi pena - suspirava. - Fica para o ano que vem. Se até lá eu estiver viva.
Passado um mês, o Alferes e a Juanita estavam casados, com o Chefe de Polícia a
servir de padrinho, casa montada na Rua do Mocambo, carruagem na porta. E ao
sobrevir
a Guerra do Paraguai, lá se foi o Lobato, no seu belo uniforme de Capitão, para
voltar dois anos depois, numa urna de chumbo, coberta com a bandeira nacional, e
que foi enterrada no Cemitério do Gavião, ao som do toque da corneta, seguido
por salvas de artilharia.
Antes de aliviar o luto, já a Juanita estava grávida do Justiniano Sereno,
senhor de escravos e muitas terras para os lados de Coroatá. Em menos de cinco
anos, enterrou
o fazendeiro, lá mesmo na fazenda, e passou a viajar, e a dar grandes festas, e
a ostentar carruagens novas, de cocheiro de
libré. Agora, já usada e velha, muito pelancuda, a papada a
130
derramar-se para o peito, uns fios de cabelo doido a lhe descerem do queixo
pontudo, os 'olhos empapuçados, sempre muito pintada, escorando-se numa bengala
de castão
de ouro, quase sem poder equilibrar o corpanzil nas pernas moles, parecia uma
ruína disforme, sem nada da beleza de outrora. E o Major, vendo-a chegar ao topo
da
escada:
- Está irreconhecível! E dizer-se que perdi a cabeça por essa velha maluca! De
que me livrei, meu Deus!
E erguendo os braços, com os olhos no céu:
- Obrigado, Senhor, por esta misericórdia. Tiraste aquela megera do meu caminho!
Obrigado! Obrigado!
No entanto, volvidos alguns momentos, ao retomar a caminhada pelo convés, na
fresca da tarde, com a luz a esmorecer por entre tons azuis e escarlates, tornou
a
ver a Juanita no palco do Teatro São Luís, graciosa, esguia, floreando uma
bengalinha pelintra, de calça e paletó, bonezinho de lado, a mecha de cabelo no
meio da
testa, sapato fino e alto, a encher a sala com a sua voz muito bem afinada, que
a orquestra harmoniosamente acompanhava, por entre o bater dos címbalos, o sopro
das flautas e o gemido dos violinos. Jamais esqueceria aquela noite.
E batendo com as mãos, à altura dos quadris:
- E é ela que está ali embaixo, naquela cadeira, com aquela papada,
aquelas orelhas imensas! Como é possível isso, meu Deus? Um monstro! Um
verdadeiro
monstro!
Depois, ao descer para o jantar à mesa do Comandante, no convés inferior, perto
da proa, passou de vista baixa pela velha, com a pala do boné para os olhos, e
ouviu-lhe
a voz rouca, e sentiu-lhe o cheiro forte de água-de-colônia e pó-de-arroz,
gritando para a filha e o genro, que a olhavam com ar submisso:
- Toquem o sino, toquem o sino - ordenava, sentada na rede, no meio do convés, a
bater no chão com a ponta da bengala.
E a moça magra, de discreta beleza, que a acompanhava, segurando-lhe a mão:
- Minha mãe, a senhora não está na fazenda - está a bordo do vapor. Pare de
bater.
Mas a velha insistia, subindo o tom da voz imperativa:
131
- Toquem o sino. Chamem os pretos. Quero todos aqui, em volta de mim, de
joelhos, com o terço na mão.
Desta vez foi o genro que se inclinou para ela, com uma expressão solícita:
- Dona Juanita, a senhora está viajando. Deixe o terço para a fazenda, Não se
exalte. A exaltação não lhe faz bem.
A velha recuou a cabeça aborrecida, aumentou os olhos pulados, mais feia, mais
desfigurada:
- E com que autoridade o senhor me dá conselhos? O senhor não passa de um pobre-
diabo. Casou com minha filha de olho no meu dinheiro. Recolha-se à sua
insignificância.
Mande tocar o sino. Chame os pretos. Todos. Todos aqui, de joelhos, me
acompanhando.
E na mesma voz forte com que outrora dominara o Teatro São Luís, pôs-se a
recitar o Padre Nosso, enquanto o Major, curvado sobre o prato de sopa, à mesa
do Comandante,
ia levando a colher à boca, sem perder de vista o rosto empoado, de papada
caída, olhos empapuçados, e que de vez em quando o fitava como se quisesse
reconhecê-lo.
132
CAPITULO III
SENTADO NO BANCO de ferro, na proa do vapor, o Major se embevecia com o lento
avanço da quilha, rio acima, por entre as margens verdes, que o sol da manhã
ainda
dourava, refletindo-se nas folhas orvalhadas que se debruçavam sobre as águas.
E ao ver o Comandante, todo de branco, o rosto queimado sob a pala escura do
boné:
- Amanhã em Caxias, Comandante?
- Por volta das dez horas.
O Major se alvoroçou, como se já fosse ver a Zulmira e a filha. De pernas
cruzadas, com as mãos entrelaçadas nos joelhos, alongou o olhar pensativo para a
curva
do rio barrento, que se estreitava mais adiante, quase a fechar-se, não querendo
dar espaço para a passagem do vapor.
As árvores iam-se aproximando, quer de um lado, quer do outro, à feição de uma
alameda. E o São Luís continuava o seu caminho, com as pás das rodas laterais
revolvendo
a corrente cor de terra: à medida que a embarcação avançava, as barrancas das
margens pareciam abrir-se, intimidadas, e lá ia ela rasgando o rio ao meio com a
ponta
da proa, afagada pelos galhos que se alongavam em sua direção.
E o Comandante, enrolando o fumo na mortalha do cigarro:
- Felizmente já estamos livres de Dona Juanita. E que luta para ela
descer no porto de lenha. O senhor, que se meteu no camarote para dormir a
sesta, não
viu o pagode. A velha dizia, aos berros, que isto aqui era a sua fazenda e que
daqui não saía. Xingou a filha, xingou o genro, gritou com alguns passageiros, e
até eu, que me aproximei para tentar acalmá-la,
133
entrei na dança. Dona Juanita, que viaja comigo desde os tempos do marido, agora
não me conhece mais. Deu-me ordens, mandou-me tratar do gado. E como eu
esboçasse
rir, dizendo não ser quem ela presumia, a velha cresceu para mim, de bengala em
punho, aos gritos: - Não pense que, por ser branco, deixa de apanhar. Apanha.
Apanha
como os pretos. - E enquanto ralhava, exaltadíssima, ficava ainda mais feia, com
as pelancas sacudindo, os olhos pulados. O Major deixou passar um silêncio.
- E ela já foi linda, Comandante. A cômica mais bonita que passou por este
Maranhão, no tempo em que passavam por aqui as grandes companhias italianas,
espanholas
e portuguesas. Um amor de mulher. De corpo, de rosto. Perfeita. Hoje, mete medo.
E além de meter medo, só diz bobagem. Ontem, pela manhã, depois do café, quando
passei por ela, estava soltando traques, sentada na rede. com esforço, caindo o
corpo para um lado, levantava a perna, soltava um pum, e dizia: - Este é para
Sua
Excelência o Senhor Governador da Província. Soltava outro, mais fraco: - Este é
para o Padre Jovino, que fede muito a rape. - Depois, com um pum mais forte,
pôs-se
a rir: - Este é para Sua Majestade o Rei da Espanha. - Não pude deixar de rir,
Comandante.
Riu baixinho, como para si mesmo; por fim, ergueu o olhar, com um resto de riso
nos cantos da boca:
- Por que é que Deus permite que o tempo nos maltrate, destruindo a beleza
das mulheres, perturbando-nos o juízo, enrugando-nos a cara, tirando-nos a
vitalidade?
Não seria melhor que todos nós morrêssemos de repente, sem a provação da
velhice? A velhice, em casos como o da Juanita, é uma humilhação, um castigo
abjeto, uma
tortura implacável. A Juanita não merecia aquele fim de vida.
Ficou a balançar o pé suspenso, em silêncio, de testa contraída, a olhar a
biqueira do borzeguim. E quando tornou a erguer o olhar:
- Eu, a rigor, no meu caso pessoal, não posso me queixar. É certo que estou com
o rosto muito enrugado, mas tenho o cuidado de só me olhar no espelho na hora de
aparar a barba. De vez em quando, passo a mão nesta papada, para ver se já virou
roupa na corda. Ainda bem que me sinto forte, com o
134
vigor que tinha há quarenta ou cinqüenta anos. Tenho boa vista, as pernas
firmes, bom apetite. Durmo pouco, mas velho é assim mesmo: o sono curto, na
minha idade,
é uma forma de alongar a vida. Subo e desço uma escada sem me sentir ofegante. E
continuo a ter o gosto da vida, o que é muitíssimo importante.
O Comandante veio mais para perto:
- O senhor já fez oitenta anos, Major?
- Já passei dos noventa, e vou indo em frente, com vontade de chegar aos cem, se
Deus não mandar o contrário.
O Comandante demorou o olhar na figura do velho, como a examiná-lo com atenção.
E após balançar a cabeça pasmada:
- Noventa anos, Major?
- Já perto dos noventa e um.
- Meus parabéns, Major. E nunca teve doença grave?
- Umas tonturas malucas, com a vista escura, ali pelos setenta anos; mas
passaram logo. Nunca tive dor de cabeça. Nem palpitações. Ou dores no fígado. E
tenho a mão tão segura que sou capaz de enfiar uma linha no buraco de uma
agulha, só com a luz do luar.
O Comandante apertou o lábio, maravilhado. Sacudiu duas vezes a cabeça, tornou a
alongar o lábio úmido. E curvando-se sobre o velho:
- Posso-lhe fazer uma pergunta reservada, só para nós? Garante-me que não me
levará a mal? Se a pergunta lhe parecer importuna ou inconveniente, não me diga
nada.
De acordo? De amigo para amigo? Olhe lá.
E baixando a voz, quase em sussurro:
- E quanto à vida sexual, Major?
- Normal. Como aos quarenta ou cinqüenta anos. E esse é que tem sido o meu
problema, nos últimos tempos. Tomam-me por velho gaiteiro, atrás de saias,
quando a
verdade é que tenho minhas funções em ordem. Até hoje nunca fiz má figura. Mas
já devia ter feito. Já. E porque não fiz, tenho de obedecer às imposições da
natureza,
visto que não fiz voto de castidade. Assim enrugado, de cabeça branca, com
noventa anos, não é fácil encontrar uma parceira, na hora da cama. Não, não é,
Comandante.
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Suspirou, apalpou o bolso do casaco à procura do cigarro. E sem desviar a vista
do rosto do Comandante, esteve para lhe dizer, no impulso da confidencia que
conseguiu
calar:
- É exatamente por isso que estou aqui. vou em busca de uma criatura que conheci
há bom tempo e com quem tive uma filha. Não sei o que é feito dela, como também
não sei o que é feito da filha. vou com a esperança de achar as duas, que
suponho morarem em Caxias. Se as achar, volto com elas.
Depois que o Comandante se foi, deixando-o só no banco da proa, o Major contraiu
mais a testa, preocupado. E se a Zulmira estivesse como a Juanita? Não, não
podia
estar. Era mais nova que a espanhola. com outro gênio. com outro modo de vida.
E estalando os dedos, com as mãos entrelaçadas:
- Deus não ia me pregar esta peça, sabendo que estou aqui com a melhor das
intenções. Minha filha precisa de mim, devo uma reparação à pobre da Zulmira. Eu

nem me lembrava dela. Foi a Celeste quem, de repente, me reavivou a memória. E
eu tomei isso como um aviso de Deus.
E para animar-se, voltando a caminhar ao comprido do convés, com as mãos para as
costas:
- Tudo vai dar certo. Vai. Por que não havia de dar? Vai, vai dar certo. com o
favor de Deus.
E como ia fazer para descobrir a Zulmira e a filha? Aos poucos, sempre
caminhando, foi recordando os amigos que deixara em Caxias, nas duas vezes em
que lá estivera:
o Américo Louzada, seu vago parente, em cuja casa estivera para hospedar-se; a
Isabel das Dores, dona da pensão da Rua dos Remédios, onde conhecera a Zulmira;
o
Cristino Cruz, agente da Companhia de Navegação; o Policarpo Souza, intendente
da cidade. E mais o Chico Pedro, e o Nuno Pires, e o Costa Pinto, e o Leodegário
Rocha,
seus companheiros de dama e dominó, nas noites de chuva, e também o gordíssimo
Padre Filipinho, que passava o dia na varanda da casa ao lado da igreja,
refestelado
num cadeirão de embalo, a empanturrar-se com os famosos bolinhos queimados que
as devotas lhe traziam. Um deles saberia dar-lhe uma pista pára localizar a
Zulmira.
Caxias era pequena demais para que as pessoas se desconhecessem. Àquela hora, no
dia seguinte, já ele estaria com a Zulmira e a filha.
136
E traçando o seu plano:
- Amanhã, assim que descer no trapiche, vou tratar de ver o Padre Filipinho. Em
dois tempos ele me desmancha a charada. Não preciso recorrer a mais ninguém.
E já manhã alta, vendo a cidade aproximar-se, permaneceu na proa do São Luís, de
olhar atento, com o vago pressentimento de que, de repente, por um desses acasos
que só a bondade de Deus explica, ia dar com a Zulmira, assim que descesse na
cidade. Ia. com certeza. E por que não?
Na luz viva, que reluzia no verde das folhas e no lume do rio, Caxias veio
vindo, à medida que o vapor se aproximava, enquanto o Major contraía as
pálpebras, quase
a fechá-las, no esforço para firmar a vista no trapiche apinhado de povo. E se o
tempo houvesse desfigurado a Zulmira? Não, de modo algum. Deus não permitiria
essa
crueldade. Mas uma ansiedade viva subiu aos olhos do velho, e ele resvalou a
vista inquieta pelos rostos que iam crescendo, mais nítidos, com o avanço
vagaroso
da proa na correnteza cor de barro. Viu primeiro um senhor alto, de chapéu de
palha; depois um grupo de negros; uma senhora ruiva e duas crianças; um padre
moreno,
um tanto amulatado. Por fim, não pôde mais deter-se numa ou noutra pessoa,
porque muitas outras afluíram, atravancando o trapiche, a partir do momento em
que o vapor
deu aviso de sua chegada com três apitos sucessivos.
E o Comandante, ao lado do Major:
- Vai demorar-se aqui?
- Talvez - replicou o velho, a lutar com o vento que lhe queria tirar o chapéu.
CAPITULO IV
O PADRE PEIXOTO, entrançado, de pescoço curto, nariz de castanha, testa
estreitíssima, cabelos muito negros, não conteve o espanto, assim que o velho
lhe perguntou
pelo Padre Filipinho, E com um gesto, oferecendo-lhe a cadeira ao seu lado:
- O Padre Filipinho morreu há mais de trinta anos, meu caro senhor. Depois dele,
vieram o Padre Gomes e o Padre Pinto, que também já morreram. Agora, o pároco
sou
eu, e espero que a Providência Divina me deixe ficar no posto por muitos anos.
Ou então que me transfira para uma paróquia melhor, aqui ou na capital.
Juntou os pés, espichou a batina à altura dos joelhos:
- Vim para Caxias assim que terminou o cativeiro. Ainda alcancei os pagodes dos
pretos, embriagados de liberdade.
Na sala espaçosa, de poucos móveis, com duas janelas amplas sobre a imensidão da
praça, as duas cadeiras pretas, ladeando o sofá de palhinha, por baixo de uma
imagem
de Santo Antônio, tinham também um ar de beatas velhas, como que intimidadas
diante do reverendo de fala fanhosa, que ocupava o meio do sofá, com os sapatões
firmados
num couro de onça.
E o padre, passado um momento:
- Era só com o Padre Filipinho? Se eu lhe puder ser útil, com os meus fracos
préstimos, estou às suas ordens.
O Major tirou do bolso interno do casaco uma caderneta preta, abriu-a sobre o
joelho. E com o- dedo indicador interposto nas folhas manuscritas:
- O senhor saberia me informar se ainda vive, aqui em Caxias, a Dona Isabel das
Dores, que tinha uma pensão no Largo dos Remédios, defronte da igreja?
138
O padre deixou os olhos no ar, enquanto apertava o lábio inferior, de
sobrancelhas aproximadas. E repetindo, para chamar as lembranças:
- Isabel das Dores. . . Isabel das Dores. . . Nunca ouvi falar nesse
nome. Se ainda vive, eu desconheço.
E com as mãos nos joelhos, para levantar-se:
- Talvez a minha cozinheira, que é antiga na casa, tenha alguma lembrança dessa
senhora.
Desapareceu para o fundo da casa, roçagando nas passadas rápidas o cetim da
batina, e não demorou a voltar pelo mesmo corredor atijolado, trazendo pela mão
uma velha
gorda, de muito peito, óculos redondos, e que cheirava a alho e cebola, sorrindo
à-toa, com uma covinha no meio do queixo:
- Vamos ver se a Bibiana se lembra.
Mas a Bibiana, de mão no queixo, também não se lembrava. De repente, porém, sua
memória se iluminou:
- Espere um momento. Isabel das Dores? Não seria a Isabel do Coronel
Marcelino? Uma bonitona, de olhos grandes, muito falada? Era ela, sim, era
ela:
tinha uma pensão no Largo dos Remédios. Isso mesmo. Uma morada inteira, com
barra de azulejos. Era ela. A Isabel do Coronel Marcelino.
E dando mais brilho aos olhos parados, com as lentes voltadas para o rosto do
Major:
- Está no cemitério, e já faz muitos anos. Me lembro do enterro dela. Um
enterrão. Me lembro também de que o Padre Gomes não queria encomendar o corpo.
Foi preciso
o próprio Coronel Marcelino vir aqui e ralhar com ele. E ele acabou pegando a
estola e o livro, danado da vida, com o Coronel atrás dele, ainda discutindo.
O Padre Peixoto tinha voltado a ocupar o meio do sofá, com o rosto voltado para
a Bibiana, que agora resplandecia, sentindo-se admirada pelo reverendo.
E o Major, ao vê-la calar-se:
- E não tem idéia de uma moça chamada Zulmira, que morava com ela?
- Não. Dessa eu não me lembro. Só me lembro de Dona Isabel, que até quis me
levar para a pensão dela, pagando muitíssimo bem. Mas como o Padre Gomes sabia
me tratar,
139
fui ficando por aqui, e disso não me arrependo. Aqui, estou perto de Deus.
Padre Peixoto aprovou:
- Muito bem, Bibiana. Obrigado, pela parte que me toca. Deus, lá em cima, gostou
de te ouvir.
E como a velha fazia menção de voltar à sua cozinha, o Major a deteve, com um
gesto, ao mesmo tempo em que consultava as indicações do caderno:
- Um momentinho só. Tem alguma lembrança do Cristino Cruz? Um senhor magro, de
barbicha, meio vesgo?
A Bibiana abriu o sorriso:
-- Como não, moço? Era amigo do Padre Pinto. Vinha sempre aqui. Por sinal que
morreu na cadeira em que o senhor está sentado. Isso mesmo. Aí. Deu uma dor
nele, aqui
em riba do peito, e soltou um ai. Quando o Padre Pinto me chamou, já Seu
Cristino estava com Deus: tinha passado desta para a melhor. Era um homem muito
alegre.
Gostava de rir. Ria à-toa. E sempre trazia um agrado para o Padre Pinto. Às
vezes trazia também para mim. Um bom homem. Deus lhe fale nalma. Deixou uma
filharada
imensa. Imensa.
Na Pensão Caxiense, onde se havia hospedado assim que saíra do vapor, o Major
tinha sabido notícias do Américo Louzada e do Professor Chico Pedro, por
intermédio
de um farmacêutico, que ali fazia as refeições. Ambos também estavam mortos.
E agora, erguendo os olhos do caderno, voltava a encarar a Bibiana, que
torturava a dobra do avental:
- Conheceu o Nuno Pires, que tinha um armarinho perto da Matriz? Um moreno,
quase negro?
A Bibiana olhou para o teto, depois para o chão da sala, com a mão no queixo. E
em
tom pesaroso:
- Só conheci Seu Nuno Xavier, que puxava de uma perna e era muito namorador.
Gostava de tocar violão. Por sinal que tinha uma bela voz. As mulheres iam atrás
dele.
Não sei por quê. Era feio como a necessidade. E muito debochado. Desse outro que
o senhor falou, eu não me lembro. Se me lembrar depois que o senhor for embora,
digo ao Padre Peixoto.
O Major tornou a olhar o caderno, tornou a olhar a Bibiana. Estaria morto também
o Nuno Pires? E o Costa Pinto? E o
140
Leodegário Rocha? Tardou a pergunta sobre os dois últimos, embora voltado para a
velha, e acabou por dirigir-se ao padre:
- Tenho ainda dois amigos, que gostaria de saber se estão vivos: Felisberto
Costa Pinto e Leodegário Rocha. O senhor terá notícia de algum deles, Padre
Peixoto?
- Sim, sim - confirmou o padre. - Dos dois. Perfeitamente: dos dois. O
Costa Pinto, muito esquecido, trocando nomes, dizendo muita tolice, foi para
Floriano,
no Piauí, levado daqui por um filho, que é criador de gado para aquelas bandas.
E quanto ao outro, lamento dizer que rezei missa de mês, por alma dele, na
semana
passada.
O Major fechou devagar o caderno, devagar o recolheu ao bolso interno do casaco,
suspirando. E depois de olhar o padre em silêncio por alguns instantes:
- Mortos, todos mortos - lamentou. - E os que não morreram estão caducos.
Dói, Padre Peixoto. Mas isto é a vida.
- É a vida - confirmou o reverendo, baixando a cabeça pensativa.
A Bibiana suspirou também, soltando a barra do avental:
- Não precisa mais de mim, Padre Peixoto? Então, com licença - pediu,
dirigindo-se ao velho.
O Major corrigiu o vinco das calças, subiu para o colarinho o laço da gravata. E
olhando a bengala e o chapéu, que deixara no consolo à entrada da sala:
- O senhor é padre, pode ouvir o que lhe vou dizer. Há quarenta e tantos anos,
quando se inaugurou a linha de navegação para Caxias, passei aqui duas semanas,
entre
um vapor e outro. Conheci então uma jovem caxiense e desse conhecimento resultou
uma filha. Sei que mãe e filha foram daqui para Maceió, depois voltaram. Vim de
São Luís para ver se as encontrava. E estou vendo que não vai ser fácil. Estão
vivas? Estão mortas? Já começo a duvidar. Da mãe, sei bem o nome. Da filha,
desconheço-o.
E nunca a vi. Queria vê-la agora.
De pé, com o chapéu e a bengala, estendeu para o padre a mão desanimada:
- Teria algum conselho a me dar?
- Tenho uma pergunta a lhe fazer.
- Faça - autorizou.
E o reverendo, já na porta da rua:
141
- Por que levou tanto tempo para procurar sua filha? E também a mãe de sua
filha?
O Major alteou os ombros, deixou-os cair, sem desfilar o padre. Em silêncio, pôs
o chapéu na cabeça:
- Passe bem, Padre Peixoto.
- Obrigado.
Atravessando a praça em diagonal, debaixo do sol forte, que reluzia na areia
solta do chão, o Major parou de repente, com uma expressão preocupada:
- E esta minha viagem, arranjada do pé para a mão, à procura da Zulmira e da
filha, não será o indício de que eu também já estou de parafuso frouxo? É
possível.
E por que não?
Sobraçou a bengala, ergueu um pouco o chapéu, enxugou o suor da testa, e tratou
de tranqüilizar-se, continuando a atravessar a praça deserta:
- Se fosse parafuso frouxo, eu próprio não teria esta desconfiança. Não, não
é. Estou cumprindo um dever. Se a Zulmira estava casada, por que
havia
eu de ir atrás dela? Fiz bem em deixá-la em paz. O marido dela não perfilhou a
menina?
Perfilhou, com certeza. Se perfilhou, ponto final. Agora, com o marido da
Zulmira morto, e ela velha, e eu velho, a história é outra. vou dar à minha
filha aquilo a que tem direito. É sangue de meu sangue. E também dar a mão à
Zulmira.
Por que não? Pode estar necessitada. Antes tarde do que nunca. E como vou
descobri-las, com a Dona Isabel morta, o Padre Filipinho morto, e mortos ou
caducos os
amigos daquele tempo? Não posso é ficar bestando, a procurar agulha em palheiro.
A Zulmira, pelos anos transcorridos, tem de ser uma velha.
Quando
eu a conheci, já não era menina: andava perto dos trinta. com mais quarenta,
são setenta. Aos setenta anos, tem de ser uma matrona. E que é que, nessa idade,
ela
vai fazer comigo, quando eu tiver estes meus assanhaços? Não vai poder fazer
nada. Eu próprio vou ter em breve de arriar a mochila. Tudo tem seu tempo. A
Zulmira,
se viva, estiver, só me pode fazer companhia em casa, para me cerrar os olhos
quando Deus achar que chegou a minha hora. Mais nada. E dará certo com
a
Celeste? Duvido muito. Mulher, depois de certa idade, não se amolda mais a
ninguém. Só quer que os outros se
142
amoldem a ela. Vão acabar brigando. E minha filha também vai brigar, quando
souber que a Celeste é apenas filha de criação. Achará que tem mais direitos
dentro de
casa. E sou eu que vou comprar essa briga, buscando sarna para me coçar? Não O
melhor que faço é pedir ao Dr. Silva Maia ou ao Dr. Jauffret que me dêem um
remédio
para estes meus ardores de velho. Já é tempo de apagar o fogo.
E nisto, na calçada da rua estreita, já ao dobrar a esquina para entrar no Largo
de São Benedito, cresceu a frente do Major um tipo comprido, extremamente magro
e
ossudo e que parecia ainda maior com o sovado chapéu de copa alta que
lhe alongava a cabeça.
- É o Major Taborda? - perguntou o outro, com um semblante alvissareiro. -
Não está me conhecendo? Olhe bem para mim. Sou o Filogônio Pereira. O Filo. Que
teve
a honra de vender-lhe um terreno na Trisidela. Um terrenão. Andamos acima e
abaixo, nesta nossa Caxias. Não se lembra? Eu quando o vi, me lembrei logo. E há
quanto
tempo foi isto, Filo? Vinte anos? Quarenta anos. Sei lá. O tempo não interessa.
O que interessa é que o senhor está vivo e eu também. Já perdi a conta dos anos
que
tenho. E o senhor também? Ótimo! Contar para quê? Sei que sou do tempo em que
este país andava com a cabeça no lugar. Agora, é o descalabro que estamos
vendo.
Isto é que é República? Podiam limpar as mãos na parede, b foi para isso que
tiraram de São Cristóvão o velho Imperador? Que horror! E eu contribuí para
isto, meu
caro Major Taborda. Conspirei, fiz discursos, fiz conferências, e eis
aí no que deu. Antes a Princesa Isabel, com aquele marido de língua atravessada
só pensando
em ganhar dinheiro. Há poucos dias, com raiva de mim por ter ajudado a derrubar
a Monarquia, sabe o que fiz? Não vai acreditar. Diante do espelho,
dei em mim mesmo, com raiva, umas boas bofetadas. Era o que eu merecia. O senhor
já deu bofetadas em si mesmo, Major? Devia dar. Não imagina o alívio que a gente
sente. O senhor,
que é bem mais velho do que eu, devia fazer isso pelo menos uma vez por dia.
Estou convencido de que, se tomarmos essa providencia aqui na Terra, com o maior
rigor,
não seremos metidos nas caldeiras de breu fervendo, com o Diabo à nossa frente,
a nos olhar com seus olhos de fogo.
143
E segurando o Major pelo braço:
- O senhor não tem medo do Diabo? Eu tenho, e muito. Por que havia de mentir?
Vivo apavorado. Cada dia que passa, meu medo aumenta. Qualquer hora destas, lá
vou
eu para o outro mundo, nu, com os meus pecados. Quando o medo vem, tranco-me no
banheiro, e entro nas bofetadas. Dou com força, para encher a cara. E saio dali
parecendo um galo que acabou de brigar. Olhe para mim. O senhor tem uma cara
excelente para bofetadas. Essas bochechas estão a pedir uns bons tabefes. Se o
senhor
não quiser dar, por uma questão de escrúpulo ou pena, deixe o caso comigo: eu
dou, e dou com força, como deve ser dado. Encho-lhe a cara.
O Major segurou a bengala pelo meio, pronto a atirar no Filo umas rijas
bengaladas:
- Deixe-se de novidades, homem. Em mim o senhor não toca.
E sacudiu o braço, para atirar de si a mão cabeluda que o segurava. Porém o
outro, sem se melindrar, abriu o sorriso:
- Se o senhor prefere ajustar as suas contas depois de morto, não está mais
aqui quem falou: seja feita a sua vontade, assim na Terra como no Céu. Eu, por
meu lado,
trato de me dar tabefes, sempre que posso. Enquanto a cara agüentar, vou pagando
o meu débito. E não escolho local e hora. Antigamente, metia-me no banheiro,
trancava-me
num quarto, para me dar bofetadas. Agora, não. Já me livrei desse preconceito.
Qualquer lugar me serve, esteja onde estiver. Aqui mesmo, vou levar pancada, por
ter
me metido com a vida alheia. Eu não devia ter dito ao senhor o que disse. Fiz
mal. Fiz mal. com licença, Major.
E ali na rua, diante do Major atônito a lhe seguir os movimentos com os olhos
arregalados, esbofeteou-se repetidas vezes, e com tanta raiva e força que a
cabeça
lhe dançava para um lado e para o outro, ao sabor da mão exaltada que não parava
de esbordoar o rosto vermelho, quase a ponto de deixá-lo em sangue.
O Major gritou-lhe, alarmado: - Pare com isso! Deixe-se de tolices!
144
O Filogônio ainda se flagelou por mais alguns minutos, ríspido, exaltadíssimo. E
deixando cair o braço cansado, com os olhos cheios de lágrimas:
- Desculpe, Major. Quando sinto necessidade de me esbordoar, não sei me conter.
Só assim consigo ficar aliviado. Vamos embora. Quer que o leve a algum lugar?
Sem perceber que desorientara o Major, suspirou alto, tufando o peito, a enxugar
o suor do rosto escarlate. E volvendo a travar-lhe do braço, foi subindo o resto
da rua:
- Lembra-se quando o deixei no Largo dos Remédios, na porta da pensão de Dona
Isabel das Dores? Não se lembra? Lembro-me eu perfeitamente. Como se estivesse
vendo.
Morreu a Dona Isabel. Morreu o Filismino Troncha, que lhe arrastava a asa. E
também a bela Zulmira. Lembra-se dela? Fiz-lhe muita serenata. Nesse tempo, eu
ainda
tinha uma bela voz. A Zulmira casou com um engenheiro que passou por aqui
contando mundos e fundos, e foi daqui para Alagoas, já com uma filha nos
braços. Voltou
viúva, muitos anos depois. Não era mais a mesma. Nem a filha saiu à mãe:
apagadinha, miudinha, feinha. A Zulmira, já de cabelos brancos, ainda era um
pancadão.
Mas depois foi murchando, murchando, de cara encovada, e morreu. A filha também
morreu, um mês depois. Sabe como? Atropelada por um cavalo. Um cavalo doido,
que
ia subindo a rua quando ela saía da igreja. Ajudei-lhe a fazer o enterro. É o
que estou lhe dizendo. Mãe e filha. A linda Zulmira. Não repare se voltei a
suspirar.
Quando me comovo - ou choro, ou suspiro. Agora, suspirei. E suspirei fundo.
145
VI
Na virada do século
CAPÍTULO I
ELE SE ASSUSTOU quando deu com a velha Prudência, de lenço estampado na cabeça,
arrimada a uma bengala, e que lhe perguntou, em
tom agressivo, já de braço levantado:
- Quem é o senhor?
E foi uma luta para acalmar a preta, que não o reconhecia, impedindo-lhe a
passagem:
- O senhor não é o Major Taborda coisa nenhuma. A mim o senhor não engana.
Ponha-se daqui para fora, antes que eu chame a Polícia.
E mesmo depois que a Miúra acudiu, perguntando à velha o que era aquilo e se
estava doida, a Prudência ainda teimava, com o mesmo ar decidido, segurando a
bengala
com as duas mãos:
- Este velho atrevido quer por força me convencer que é o meu senhor. Aqui ele
não fica. Se ficar, dou-lhe na cabeça com este pau. Ponha-se na rua, seu velho
apresentado.
Debalde a Miúra tentava chamá-la à razão:
- É o Major, sim, Prudência. Que foi que te mordeu, criatura? Estás
desconhecendo Seu Major?
A preta recuou, ainda de bengala levantada:
- Tu também queres caçoar comigo, Miúra? Vê bem. Olha que eu te dou também uma
lição. Deixa de deboche. Acaba com isso, senão quem apanha és tu.
Mas a outra insistiu sem exaltar-se, e a Prudência acabou por inclinar a cabeça,
meio em dúvida. Afinal soltou um muxoxo, baixou a bengala, e foi andando na
direção
da cozinha. Lá adiante parou, voltou-se para a varanda:
149
- Quer passar por Seu Major, pensando que eu sou boba? Morda aqui. Era só o que
faltava. com essa cara cheia de rugas? Essa pele caída? Eu vou é dar queixa à
Polícia!
Seu Major, com esse beiço pendurado? Só assim eu me ria. Olhe aqui, seu
apresentado, fique sabendo que meu senhor é um bonito homem, forte, corado, bem
disposto,
cabelos pretos. Fez muita moça bonita virar a cabeça, aqui no Maranhão, mesmo
depois de casado. No estrangeiro, nem se fala. Era mulher assim atrás dele.
E
ainda hoje, já maduro, muita dona suspira por ele. E é o senhor, enfezadinho,
encolhidinho, apertadinho, e cortado de rugas, que vem dizer agora que é Seu
Major?
O senhor não se enxerga?
Ao fim do corredor, à entrada da cozinha, tornou a se voltar, com outro muxoxo,
o dedo apontado na direção do Major, que também a olhava, penalizado:
- Seu Major, assim velho e acabado, com essa cabeça branca? A mim,
você não tapeia. vou falar com o Chefe de Polícia. Quero ver você sair daqui
preso.
Posso garantir que não vai demorar.
E por mais que visse o Major no sobrado, nos dias subseqüentes, como dono da
casa, continuava a considerá-lo um impostor, querendo passar pelo outro. Não se
cansava
de observá-lo. E depois de olhá-lo com dobrada atenção, balançava a cabeça,
decidida a ir mesmo falar ao Chefe de Polícia. Pelo fim do dia, ao vê-lo sentado
na
cadeira de balanço da varanda, a ler os jornais, vinha de manso, amortecendo os
passos, e batia-lhe no braço, mandando-o embora:
- Saia daqui. Não tome o lugar do outro. Estou cansada de lhe dizer. Já começo a
perder a paciência. Não seja fingido. Seu Major está viajando com Dona Celeste.
A qualquer momento eles estão chegando. E aí, como é que vai ser? Quem me avisa
meu amigo é. O Major é brabo e perde a estribeira por dá cá aquela palha. E vai
crescer para você com um chicote de cavalo. Aí eu começo a rir. Começo a rir
porque avisei em tempo. A Polícia agarra vocêa dá-lhe muita pancada, e atira
você
no xadrez.
Pacientemente o Major olhava a preta com a vista pensativa, por vezes divertido
com as barafundas da velha, enquanto dizia a si mesmo, apiedado dela:
150
- Coitada da Prudência.
Não era a primeira vez que ela ficava confusa. Certa vez, durante quase um ano,
tinha desconhecido a Celeste. E de vez em quando a olhava com atenção, como em
dúvida.
Agora, chegara a vez do Major. E este, compreensivo:
- É ter paciência.
Debalde, na cozinha, ou no antigo quarto das escravas, a Miúra procurava
clarear-lhe o espírito:
- Dona Celeste foi à fazenda, no Itapecuru, assistir ao casamento de um
afilhado; Seu Major ficou aqui, não viajou. Quem viajou com Dona Celeste foi a
comadre
dela. Você está misturando as coisas, Prudência.
A velha ouviu calada. Depois, erguendo a cabeça:
- Pára com isso. Deixa de dizer besteira. Se eu estou dizendo que o Major está
viajando, é porque eu vi Seu Major sair daqui. Ele e Dona Celeste. Depois,
chegou
aqui esse outro apresentado, querendo passar por Seu Major. Tu sabes disso. Ou
tu também estás de combinação com esse falso Major? Olha que eu também dou parte
de ti. Te cuida. Abre o olho.
E mais de uma vez, à hora das refeições, quando vinha trazendo a comida para a
mesa, a velha parou, encarou o Major, e voltou com os pratos na bandeja. Da
última
vez, exaltou-se:
- Não, não sirvo aquele velho. Está acima de minhas
forças fazer o papel de palhaça, nesta idade. Se quiseres, vai
servir. Eu não sirvo. Só se Deus descer do Céu e me mandar. A Miúra, sem perder
a paciência, voltou com a bandeja, serviu o Major, que ocupava a cabeceira da
mesa,
com o jornal dobrado ao meio, de vista baixa, sem perceber o que se tinha
passado, enquanto a Prudência, na cozinha, junto à janela, sentada num mocho de
pau, falava
sozinha, com a mão esquerda segurando a testa:
- Esta vida tem mesmo cada uma. Quem havia de dizer que um estranho ia se meter
neste sobrado, se fazendo passar por Seu Major, e a andar pela casa dando
ordens,
tossindo, arrotando, soltando traques, sem ninguém fazer nada. Até eu, que devia
pôr a boca no mundo, estou aqui no meu canto, sem mexer uma palha. É direito?
Sei
que não é. E por que não tomo uma providência? Não quero armar escândalo. Sempre
151
gostei de ficar no meu canto. Foi por isso que não casei. E havia gente que me
queria. Sim, havia. Para me passar para os peitos, ficando em cima de mim, me
enchendo
de filhos. Ah, isso não. Para sem-vergonhice, bastam as negrinhas de
baralho, aqui em São Luís. Sempre fui uma preta de muita vergonha. E assim hei
de morrer.
Agora, me pergunto: por que é que só eu estou tomando as dores de Seu Major? A
Miúra, para não se incomodar, vai fingindo que acredita que o falso Major é o
Major
verdadeiro. Será que ela tem alguma coisa com ele? É capaz. Mulher, quando vira
a cabeça, faz tudo o que o homem quer. Se ele diz: mata! ela diz: esfola! Não,
não
é possível. Eu estou exagerando. A Miúra é pessoa de respeito. E por que é que
ela diz que esse homem é Seu Major? Não entendo. O melhor que eu faço, para não
ficar
doida, é ir fumar o meu cachimbo, no meu quarto.
Dias depois, ao puxar o gavetão da cômoda para tirar uma ceroula, o Major não
pôde abri-lo: estava fechado a chave, e esta não se achava no seu lugar -
exatamente
como havia acontecido, dias antes, com a chave do guarda-roupa.
Na varanda, dirigiu-se à Miúra, que vinha da rua, e perguntou pela chave, em
tom irritado. E exaltando-se, aos gritos, ante a resposta evasiva:
- Agora, aqui em casa, deu para sumir tudo. Somem as chaves, some o meu chinelo,
some o meu jornal.
A um canto, aproveitando melhor a claridade da janela, a Prudência cerzia um pé
de meia. E logo interveio, com uma expressão gaiata na carinha lustrosa:
- Só não quero que pensem que a culpada sou eu.
E guando a Miúra voltou do quarto da velha, com a chave na mão, mostrou-a à
Prudência, antes de entregá-la ao Major:
- Quem foi que pôs esta chave por trás de teu São Benedito? Hem? Quem foi?
A velha continuou o seu trabalho, sem levantar a vista:
- Estava lá? Para mim é novidade. Não fui eu que levei ela para o meu quarto. Só
se foi você. Ou então voou. Aqui no 'sobrado, de uns tempos para cá, só dá
mistério:
Seu Major sumiu; outro dia, sumiu a chave do guarda-roupa; hoje, sumiu a chave
da cômoda. Só peço a Deus para eu mesma não sumir.
152
De um dia para outro, na semana seguinte, desapareceram da cozinha e da despensa
todas as vassouras. A Miúra entrou no quarto da Prudência, que estava sentada ao
meio da rede, com os pés no chão, a embalar-se, pitando o cachimbo:
- Onde estão as vassouras, Prudência?
A velha permaneceu uns momentos com o beiço inferior caído, o olhar inocente. E
como a outra insistisse, a sacudir-lhe os punhos da rede, já em
tom arreliado,
também se agastou:
- E eu sei lá de vassoura! Vê lá onde andas com a cabeça. Quem mexe com vassoura
aqui no sobrado, és tu, não sou eu. Se as vassouras sumiram, isso é contigo.
Me deixa em paz.
E quando a Miúra encontrou as vassouras nos baixos do sobrado, e subiu com elas
para a varanda, a Prudência compôs uma cara de espanto, como se quisesse rir:
- Achaste? Ora viva! E onde estavam?
- Onde estavam? Ainda me perguntas? Olha bem para mim, Prudência. Quem foi
que pôs as vassouras por trás da porta?
A velha firmou o olhar, abrindo a risada:
- Fui eu, sim, fui eu - confessou. - Gente estranha, dentro de casa, sem querer
sair, só há um meio de botar para fora, quando está demorando: é a vassoura por
trás
da porta. Daí a pouco vai embora. É o santo remédio. Fiz isso uma porção de
vezes, a mando de Sinhá Minervina, quando a Dona Zezé Limeira vinha aqui estudar
piano.
Ultimamente, nem precisava Sinhá Minervina me fazer um sinal: bastava eu ouvir o
piano. Pegava logo a vassoura, punha por trás da porta. Dentro de cinco minutos,
no máximo dez, o piano parava, e Dona Zezé Limeira achava o caminho da porta.
E a Miúra, forcejando para se manter irritada:
- E agora, que a Dona Zezé Limeira não vem mais aqui, nem aparece outra doida
para tocar piano, por que escondeste as vassouras, Prudência?
A velha riu; depois respondeu:
- E você não sabe? Quem é que está demais aqui, Miúra? Quem é? É esse velho, que
teima em querer dizer que é o Major. Até você dá corda nele. Será possível que,
neste sobrado, só eu ainda estou com a cabeça no lugar?
153
Por esses dias, sempre que alguém batia palmas à porta da rua, procurando pelo
Major, e era a Prudência quem atendia, ouvia a mesma resposta:
- Está viajando. Mas vai voltar.
E se o Major, ao ver a Prudência voltar da escada, queria saber quem havia
batido, ela se fingia de surda, ou replicava:
- Para que quer saber? Não é da sua conta.
Contendo o impulso da irritação, o velho acabou por achar graça na preta,
compadecido de seu miolo mole. No entanto, de repente, uma tarde, tornou a
perder a paciência,
e atravessou a varanda com os pés nos chinelos, já de sobrecasaca. Foi
diretamente ao quarto da velha, vermelho, fora de si:
- Prudência, onde estão minhas botinas?
- Suas botinas? Eu sei de minhas chinelas, que estão nos meus pés, e de meus
sapatos, que estão ali no meu armário. De suas botinas, não sei nem quero saber.
Ele atravessou de ímpeto a porta e pôs-se a revolver o quarto, enquanto a velha,
assustada, se encolhia contra a parede, de cabeça baixa, olhando-o com uma
expressão
de medo, com as mãos reunidas à altura do sexo.
E o Major, segurando no ar o par de botinas, endireitou a cabeça, com um brilho
de raiva nos olhos aumentados:
- E o que é isto, Prudência?
A velha deu à voz um tom de surpresa:
- Uai! Elas estavam por trás do meu baú? Isso para mim é novidade, e da boa.
Vivendo e aprendendo.
154
CAPÍTULO II
ERA PRECISO redobrar de paciência, sofreando a ira quase irreprimível, ao ver
que todas as suas camisas e ceroulas haviam desaparecido dos gavetões da cômoda.
Dias
antes, tinham sumido as meias e os lenços, e mais os dois suspensórios.
Debalde, no vão da porta que abria para a varanda, ele gritou para a Miúra,
depois de ordenar-lhe que vasculhasse o sobrado para saber onde a Prudência lhe
escondera
as roupas:
- Você, que passa o dia em casa, não devia permitir estas maluquices. Já não
agüento mais.
A Miúra, aflita, a tremer:
- Eu tive de ir ao mercado para fazer as compras de casa, Major. Na minha
ausência, ela ficou sozinha e remexeu tudo. Agora, até nos meus vestidos ela
mexe.
E a Prudência, no seu canto, calma, embalando-se na cadeira, com a carinha
risonha e os olhos contentes:
- Lá vêm vocês com a mesma ladainha. Desta vez que foi que eu fiz? Falem mais
alto, que não escuto bem do meu ouvido direito.
O Major deu mais um passo:
- Onde estão minhas ceroulas, Prudência? E minhas camisas? Quero saber.
A velha levantou os ombros magros, soltou um muxoxo:
- Lá vem o senhor com a mesma cantiga. Sei lá de camisa. Sei lá de ceroula.
Acabe com essa mania. Estou cansada desta chuva miúda. Tudo quanto se passa aqui
vai
logo para a conta da Prudência. E eu que agüente. Irra! O que eu sei dizer (e
alteou um pouco mais a voz acusativa) é que não fui eu que tomei o lugar de Seu
Major.
Nem sou eu que durmo na rede
155
dele. Nem sou eu que ando por aí, todo lampeiro, nas roupas de Seu Major.
Deixou passar um silêncio, sempre de vista fixada no Major, que também a olhava
com ar de espanto. E no mesmo
tom veemente, sacudindo a mão direita:
- Dê graças a Deus eu ainda não ter chamado a Polícia para botar o senhor daqui
para fora. Mas não vai demorar. Não, não vai. Já começo a desconfiar que o
senhor
deu sumiço em Seu Major, assim como o maluco do Desembargador Pontes Visgueiro
deu sumiço na pobre da Mariquinhas, enterrando a coitada no quintal da casa
dele,
na Rua de São João. Já disse ao senhor: não se meta comigo. Quero ficar
sossegada no meu canto. Não estou caduca. Sei que estou no meu juízo. Me deixe
em paz.
E o Major, novamente senhor de si:
- Fica quieta no teu canto, Prudência. Vai para teu quarto fumar o teu cachimbo.
Ela reagiu no mesmo instante:
- Cale essa boca. Quem é o senhor para me mandar para meu quarto? vou, se
quiser, e quando quiser, fique o senhor sabendo. Só quem manda em mim é Seu
Major. E o
senhor não é Seu Major. Nem aqui nem na China.
De volta ao quarto, o Major terminou por descobrir as ceroulas e as camisas, que
tinham sido postas por baixo do colchão da cama, à altura dos travesseiros. E
enquanto
se vestia, lembrou-se de Dona Eponina Serra, espigada, seca, sempre de
chapeuzinho de palha, a percorrer as ruas da cidade na sua bonita carruagem, em
visita às
amigas de juventude. Uma tarde, para rever a Pequetita Lisboa, sua companheira
no Colégio Nossa Senhora da Glória, bateu palmas em casa do Comendador Lucas
Lisboa,
a perguntar por ela. E o viúvo, sem disfarçar o espanto:
- A Pequetita morreu há vinte e dois anos, Eponina. E a velha, atordoada:
- Morreu? Mas ninguém me disse nada, Torquato. Você, com a sua falta de tato,
meteu um punhal no meu peito. Isso não se faz.
156
Na casa do João Seabra, no Largo do Quartel, foi a segunda mulher deste, já
cheia de filhos, que lhe abriu a porta da sala. A velha olhou em volta, à
procura de
outra amiga:
- Onde está a Lucinda? Diga à Lucinda que eu estou aqui. Vim lhe fazer
esta surpresa. Se ela não vai me ver, venho eu ao encontro dela. Quem é vivo
sempre
aparece.
E a outra, com os olhos aumentados:
- A Lucinda já morreu, Dona Eponina. Hoje, a mulher do João Seabra sou eu. E
não é de hoje que estamos casados.
A velha firmou o olhar através das lentes do lornhom, com a mão firme segurando-
lhe a haste de ouro:
- Lucinda morreu? Tem certeza do que está me dizendo? Hoje em dia não se pode
mais confiar em ninguém. Está aí no que dá. Ninguém me avisa, ninguém me diz
nada.
Resultado: saio para visitar minhas velhas amigas, e só ouço a mesma resposta: -
Morreu - Ora bolas! Morreu. Morreu. Isso é brincadeira? Ou minhas amigas estão
me
fazendo de boba?
E dando as costas à senhora estupefacta, que entreabrira a boca miúda, tomada de
espanto, saiu corredor afora, pisando forte as lajotas do chão. Desceu os
degraus
da porta, bateu com força a cancela de ferro, saltou para a carruagem. E dali,
debruçando-se da janelinha da portinhola, enquanto o cocheiro sacudia as rédeas
para
fazer andar a parelha, gritou para a mulher do João Seabra, que saíra ao
corredor, ainda espantada:
- Diga à Lucinda que não repita a graça!
O Major empurrou o gavetão da cômoda, girou a chave, tirou-a da fechadura. E deu
com a Prudência, de boca pintada, uma rosa vermelha nos cabelos secos, parada no
vão da porta, a lhe sorrir, com os dois caninos mordendo o lábio inferior:
- Dê o fora daqui, já lhe disse. Meu senhor está para chegar. E quando ele
chegar, vosmecê vai apanhar muito. Conheço Seu Major. É uma seda. Macio que só
ele.
Mas, na hora da raiva, fica cego. O senhor vai ver.
Riu, em seguida recolheu depressa o riso:
- Será que o senhor está usando as ceroulas de Seu Major? Moço,
não faça isso. Ceroula é roupa íntima, que só o dono pode usar. O senhor já
passou
da conta.
O Major ficou a olhá-la em silêncio, apiedado da pobre velha. E numa voz
serena, quase suplicante:
157
É
- Prudência, vai cuidar de ti. Por que não vais à igreja, que fica aqui em
frente? Vai. Trata de rezar. Te agarra com teu São Benedito. Pede a ele que olhe
por
ti.
A velha pôs a mão direita no quadril:
- E quem é o senhor para dizer o que é que eu devo fazer? Alto lá. Não invente
modas, além das que já inventou, tomando o lugar de Seu Major neste sobrado. Eu
sou
muito mulher para agarrar um pedaço de pau e crescer para o apresentado que se
meter a gritar comigo. Fique onde está. Não me faça o sangue ferver.
Cá embaixo, na calçada da rua, sobraçando a bengala, com as mãos para as costas,
o Major continuou a ver a Prudência, que ainda lhe gritara do patamar da escada,
no momento em que ele vinha descendo:
- E pare de andar atrás de mim, com o seu assanhaço de bode velho, como se eu
fosse mulher à-toa. Não sou rapariga. Sou moça velha de muito respeito. Nunca
ninguém
me tocou. E não admito que me toque. Ou o senhor está pensando que eu não sei
que, na noite passada, quis forçar a minha porta? Sei. Perfeitamente. Percebi
tudo.
Mas eu estava com a tranca na mão, pronta para lhe dar uma cacetada bem no meio
da cabeça. Me deixe em paz. Não se meta comigo. Não me faça o sangue ferver.
Nasci
virgem, sou virgem, e virgem hei de morrer, com o favor da Virgem Maria.
Aonde iria a pobre velha, na barafunda de sua insanidade? A cada dia parecia
pior. De noite, alta madrugada, punha a balançar-se na rede, cantando
acalantos de outrora.
E mais de uma vez, após acender as luzes da varanda, batia palmas, gritando:
- Isto é hora de se dormir? Vamos acordar, minha gente! Chega de preguiça!
E a despeito das sombras circundantes, punha a mesa do café, acendia o fogo na
cozinha, botava a chaleira de água sobre a trempe, até que a Miúra aparecia, no
seu
camisolão machucado, e gritava com ela:
- Vem te deitar, Prudência. Já para teu quarto. Que maluqueira é essa? Não estás
no teu juízo, criatura. Trata de dormir. Estou cansada de te dizer que isto
não é hora de café. Vem, vem comigo. Deixa de bobagem.
158
E ajudava-a a deitar-se. A velha a olhava com ar sério, o cachimbo no canto da
boca, a modos de amuada. Soltava um muxoxo, balançava-se na rede. De manhã, não
se
lembrava do que tinha feito. E de novo instalava-se na cadeira de balanço, ao pé
da janela, a olhar de longe o Major, que tomava o seu café à cabeceira da mesa,
dividindo a atenção entre a PacotiIha e a torrada.
Na rua longa, por onde o sol se espreguíça, reluzindo nos azulejos das fachadas,
o Major Taborda passa a bengala para o outro braço, sempre de rosto pensativo. E
de repente contrai a testa, chegando mesmo a diminuir o ritmo do passo lento,
enquanto olha o sobradinho da Caiu Malafaia, ali ao lado, no topo da ladeira,
transformado
agora num bazar de miudezas, com a tabuleta vistosa por baixo das sacadas de
ferro.
Parado na borda da calçada de pedra, esperou que a sua respiração se
normalizasse, após o esforço da subida. E com a mão no cabo da bengala e o
chapéu levantado
para o alto da testa, deteve o olhar no renque de janelas sob o beiral do
telhado, como à espera de ver surgir ali a sua velha amiga.
- Grande Caiu. Querida Caiu.
Haveria outra mulher com o mesmo gênio, a mesma alegria, a mesma comunhão
humana, neste mundo tão complicado? Não, não podia haver. E pôs-se a recordar a
incomparável
Caiu, como se tornasse a vê-la à sua frente, estuante de graça, falando com os
olhos, as mãos, os lábios, a rir de tudo, e a sorrir para tudo, sempre inclinada
à bondade e à ternura. O vestido longo descia-lhe até os pés. O decote largo
mostrava-lhe os seios altos e morenos, ainda rijos. E ela lhe disse,
olhando-o de frente,
buscando-lhe as pupilas:
- Adivinha quem me apareceu hoje, pelo meio da tarde? Não adivinhas? A Jô.
Lembras-te dela? É dois anos mais moça do que eu e parece que já tem um século.
Está um
caco, coitada. E dizendo bobagem. De dar pena. Quase chorei. Veio me contar que
tinham prendido, na manhã de hoje, no Quartel do 5.° Batalhão de Infantaria, a
Baronesa
de Grajaú. Eu lhe disse que não podia ser. Que a Baronesa já não pertencia
mais a este mundo. E a Jô, muito séria: - "Posso te assegurar que ela está de
novo aqui
em São Luís. Voltou hoje. E assim que desceu na Rampa de Palácio, foi presa. A
tropa a cercou e
159
a levou para o Quartel. Eu vi. com estes olhos. Estava lá. Ninguém me contou.
Ainda tenho as mãos frias."
E a Caiu, prendendo nas suas as mãos do Major, continuou a olhá-lo nos olhos:
- Que é que eu ia dizer? Que lamentava muito. A Jô queria que eu fosse com ela
ao Quartel, para tirar de lá a Baronesa. Prometi que ia. Mas não hoje.
Noutro
dia. Ela concordou. Pobre Jô.
O Major sente que a Caiu lhe dá o braço, e o traz para a sala. Vêm os dois para
a janela. Aquela primeira janela sobre a Rua Formosa, olhando para a Rua Grande.
E é então que ela lhe diz, numa voz serena, segurando a borla da cortina:
- A esta altura da vida, depois do muito que ouvi e testemunhei, estou
convencida de que só a morte nos livra da degradação e da loucura. Não devemos
ir ao encontro
dela, mas aceitar com serenidade que ela venha ao nosso encontro.
Quando tiver de vir, que venha. Tudo tem seu termo. Ninguém morre gritando. Aos
gritos, entra-se na vida. Mas sempre se morre em silêncio. É a lei de todos.
Antes a morte, com a graça de Deus, do que continuar vivendo humilhada pela
própria
vida. Vida, só com saúde e lucidez. Como a da Jô, não.
Permaneceu séria, olhando o Major, que também a olhava, com a fisionomia grave.
Mas não tardaram a rir, assim que ela desfez o semblante sisudo, sempre a olhar
o velho:
- Eu, quando moça, não pensava assim. Meu ideal era viver sempre, viver
muito, mesmo como essas porcas velhas, muito gordas, que não podem mais se
mexer. Por
esse tempo, minha maior admiração era o porco, com aqueles olhinhos espertos
e aquele rabinho contente. E dizia que, na hora da morte, em vez de morrer
calada,
ia fazer como o leitão, que morre berrando. Berraria o mais que pudesse.
Protestando com todas as minhas forças. Para chamar a atenção da rua e abalar o
quarteirão.
Hoje, quero morrer como um passarinho: quietinha no meu canto, de asa encolhida,
o biquinho fechado. Ou então rindo, para o anjo de Deus rir também quando vier
me
buscar.
VII
Intermédio erótico
160
CAPITULO I
DEBALDE PROCUROU, no chão à sua frente, a trilha que levava ao braço de rio,
entre a moita de juçareiras e o renque de buritizeiros. Todo o terreno,
escorregando
suavemente para a correnteza, estava coberto pela grama inclinada que as
margaridas e as primaveras pontilhavam. Adiante, outra moita de juçareiras
fechava o caminho,
só dando passagem por uma nesga de terra batida entre dois tufos de mato, mas
sem deixar ver a curva do rio.
E nisto o Major ouviu o baque de um corpo na água. Parecia ter saltado de um
trampolim. Quem estaria a banhar-se, àquela hora alta do dia? Na casa da farinha
prosseguia
o ruído uniforme da bolandeira. Do outro lado, no canavial, as duas levas de
agregados continuavam a cortar as hastes maduras, com que iam enchendo os carros
de
bois. E alguns destes carros vinham vindo pela estrada de terra, lentos,
pesados, gemendo sob o sol forte.
Antes de atravessar a estreita abertura entre os tufos de mato bravo, o Major
concluiu que, àquela hora, devia ser o filho mais novo da Leovegilda que estava
a banhar-se.
O diabo do menino, já taludo, fugia sempre do canavial, ora no lombo de um
cavalo, ora na cauda de um carro de bois, e ia vadiar pelos arredores, só
aparecendo pelo
fim da tarde, sujo, com uma mentira fresca na ponta da língua. Que se tinha
perdido dos companheiros. Que havia caído desmaiado.
- É ele que, em vez de ajudar a mãe a cortar cana, está aqui em cima se banhando
- reconheceu o Major, convicto.
E à luz intensa, que parecia concentrar-se naquele recanto da fazenda, sob a
proteção das palmeiras e das árvores
163
esparramadas que o circundavam, deu com a Sinhá Inácia, nua, saindo das águas.
Era ela? Sim, era. Vira-a dias antes, na varanda da casa-grande, a oferecer à
Celeste
uma toalha bordada, que era mesmo um primor. E por sinal que a filha, já pronta
para voltar a São Luís na tarde seguinte, encomendara mais outra, que ele,
Major,
se comprometera a levar no começo do mês.
Ao vê-la pelada, surpreendia-se com o contraste entre a velha de cabeça branca,
de rosto enrugado, que exibia a toalha na luz da tarde, sentada no banco do
alpendre,
e a mulata lépida, de corpo molhado, que subia a ribanceira e parecia ter agora
quarenta anos, com a pele fresca e lisa, os seios grandes, as coxas volumosas,
como
se a nudez a houvesse repentinamente remoçado.
- Uai! - exclamou o velho, com um lume mais vivo nos olhos miúdos, sentindo que
todo o seu corpo se alvoroçava.
Não era bonita, com aqueles peitos enormes, aqueles quadris imensos, aquele sexo
ostensivo. Os ombros estreitos, desproporcionados às ancas, tiravam-lhe a
harmonia
do conjunto. No entanto, desse todo disforme resultava um corpo sensual, que
ainda fremia, excitando-se ao sol e à água, como em busca do parceiro que o
apaziguasse.
A viração matinal arrepiava-lhe a epiderme molhada, e todo o corpo pingava,
sacudindo de si a água excessiva, refulgíndo na luz que o destacava.
Enquanto ela se aproximava, torcendo os cabelos, descendo as mãos pelos ombros,
o Major se imobilizara, com os olhinhos frementes à tona das órbitas pregueadas,
a boca entreaberta, as mãos ao comprido do corpo.
E a velha, assustando-se, ao dar por ele:
- Ai, Seu Major, se eu sofresse do coração, tinha morrido agora mesmo. Por
favor, não me olhe assim, que me deixa nervosa. Que é isso, gente? Nem sei o que
diga.
O velho vinha-se acercando, à feição do felino que afofa os passos, e sem tirar
os olhos da nudez de Sinhá Inácia, que já lhe sentia agora as narinas crescidas:
- Tenha juízo, Seu Major - rogou a velha, a empinar os seios, com todo o sexo à
mostra, encolhendo de leve as coxas molhadas, a contorcer-se.
E o Major, meio trêmulo:
164
- Você ainda está uma bonita mulher, Siá Inácia. Estou gostando de ver. Um
mulherão. Um mulherão
- repetiu.
A velha, envaidecida:
- O senhor acha mesmo, Major? Ou está tòmando gosto comigo? Olhe que eu estou
cheia de netos. Não sou mais menina.
E baixando a idade:
- Já fiz sessenta anos. Quero sossego. Antigamente, sim, era levada. Não
enjeitava quem me queria. Mas agora não. Sossegue o juízo. De vez em quando
vem a vontade,
e eu me agarro com meus santos, até sentir o foguinho passar. Não sopre as
cinzas, Seu Major. Me deixe no meu canto.
Já o Major, junto da velha, procurava tatear-lhe os seios e o ventre, enquanto
Sinhá Inácia negaceava, contorcendo-se, com os olhos faceiros, os mamilos
endurecidos,
as mãos escondendo e mostrando a enorme vulva pentelhuda, que a mão excitada do
velho queria insistentemente afagar.
E ela, a ponto de entregar-se:
- Tenha jeito, Seu Major. Olhe que pode chegar gente. Que é que vão dizer de
mim e do senhor? Se o senhor não pode mais se agüentar, vamos mais para ali, por
trás
da moita.
É mais seguro.
E foi ela que, com os pés nus, amaciou a grama rasteira, arrancando-lhe as
pontas, e ali se deitou, com as mãos nos olhos, à espera de que o velho a
cobrisse.
Parecia resplandecer, com vontade de rir. Seus seios enormes acomodaram-se-lhe
no busto cheio, e ela ficou mais nova, com o rosto escondido. A própria papada
dispersou-se-lhe
na base do pescoço. E as suas ancas imensas, que os dezenove partos sucessivos
tinham avolumado, ampliaram-se ainda mais, esparramadas no leito de grama verde.
Ansiosa, esperou que o Major atirasse para o chão as calças, as ceroulas, a
camisa engomada, as botas de couro. E logo o chamou, como no temor de que a
virilidade
lhe faltasse:
- Venha, venha. Aproveite a hora, Major. Na nossa idade, é uma graça alcançada.
Venha. Depressa.
E o Major também parecia sôfrego, no temor de que o ardor lhe escapasse. Mas não
falava: calado, sério, desvenciIhava-se das roupas com incrível rapidez, sem
perder
de vista
165
a nudez de Sinhá Inácia, e essa visão lhe atiçava o sexo, acelerava as pancadas
do coração, atordoava o seu olhar, até que se precipitou para a velha, quase a
atrapalhar-se
no momento em que lhe buscou a vulva oferecida. Sinhá Inácia tratou de ajudá-lo:
- Aí, Major. Pronto. Agora. Fique calmo. E a despeito dos longos cabelos
brancos, dos perigalhos, da carne mole a bambear-lhe os braços, das rugas que
a
desfiguravam, a mulata velha ajustou-se ao frenesi do parceiro, possuída por um
calor nervoso que a restituía aos bons tempos em que se entregava sucessivas
vezes
aos seus amantes. Suspirava, gemia, remexia-se, agitava os braços e os quadris,
empinava o sexo, retraía-o, e era de novo a Sinhá Inácia que nenhum
homem
conseguia saciar, ao passo que o Major Taborda, em silêncio, ofegante, tratava
de expandir-se a seu modo, sem se dar conta de sua situação gaiata, assim
despido,
com o sol quase a pino a reluzir por cima de suas costas, como a festejarlhe as
nádegas impacientes. Parecia um gafanhoto gigante, consciente de sua força, a
dominar
a presa que se debatia sob as suas patas implacáveis.
E a velha ainda se mexia, no auge da excitação lasciva, de olhos semicerrados,
gemendo, suspirando, quando subitamente se imobilizou, com as pálpebras muito
abertas,
tentando apoiarse nos cotovelos, no esforço para levantar-se; mas não contagiou
com o seu assombro o companheiro, que resfolegava mais depressa, com as
narinas muito abertas, sem ver que, na orla da clareira, na fresta da moita, o
preto Veridiano havia parado, sem ação, não querendo acreditar nos próprios
olhos.
Esses olhos aumentados, com as pálpebras exageradamente suspensas, continham o
espanto e o riso no brilho fixo das pupilas, e todo o negro era pouco para a
estupefação
com que assistia à cena, imóvel, preso ao chão, as bochechas infladas na
iminência do riso irreprimível. Conseguindo conter a gargalhada, endureceu os
músculos
do rosto, mas as palavras lhe saltaram da boca:
- É o senhor mesmo que eu estou vendo, Major? Antes de voltar-se para o capataz,
erguendo primeiro a cabeça, logo a seguir o ventre e as pernas, o velho
continuou
a movimentar-se, subindo e descendo, até que se foi aquietando, com um suspiro
demorado. E de pronto se levantou, com
166
extraordinária agilidade. E como se não estivesse nu, com o membro a pingar
ainda túrgido, ergueu para o Veridiano o olhar severo:
- Sim, eu mesmo - confirmou o Major. - E por quê? Que é que está fazendo aqui?
Já consertou a moenda? Providenciou a calha nova para as águas da chuva? E pôs
óleo
na roda da bolandeira?
E enquanto o Veridiano ia respondendo, sem saber o que fazer do chapéu de
carnaúba nas mãos atrapalhadas, Sinhá Inácia tratara de pôr em cima do corpo a
saia e o
cabeção, ao mesmo tempo em que se afastava, de vista baixa, espiando a cena pelo
rabo do olho, a estalar gravetos e folhas caídas, por entre as moitas do
juçaral.
O Major enfiou as ceroulas, depois as calças e a camisa, sempre sério, de testa
franzida. E enquanto se vestia, continuava dando ordens:
- É preciso apressar o corte da cana, Seu Veridiano. E não esqueça de dar ração
para os bois de carro. Outra coisa: lubrifique as roldanas da polia, que estão
muito
barulhentas. E fique de olho nos cortadores de cana, que estão nos enganando. O
finado Rufino já não estava dando conta do recado. Vamos ver se o senhor não me
desaponta. A fazenda, hoje, é mais dos senhores do que minha. Pode ir.
O Veridiano balançou a cabeça obediente:
- Sim, Seu Major. com sua licença.
Antes que o preto desaparecesse, passando pela abertura das moitas, o velho lhe
fez esta advertência:
- O senhor não viu nada do que se passou comigo e a Sinhá Inácia. Nada.
Absolutamente nada, Seu Veridiano.
E o preto, de costas:
- Não vi não, Seu Major.
167
CAPÍTULO II
SINHÁ INÁCIA apareceu no alpendre da casa-grande na hora em que a Jesuína
acendia o candeeiro de cima da porta, à entrada do corredor. Deixou que a outra
descesse
da escada. Só então se aproximou da rede em que o Major se balançava devagar,
esperando a lua sair.
- Seu Major, preciso lhe dar uma palavra.
E ficou parada no meio do alpendre, assim que a Jesuína passou ao corredor.
E o velho, continuando a balançar-se:
- Pois então aproveite e fale, Sinhá Inácia.
A luz do candeeiro, levemente avermelhada, caía sobre a figura gorda, que havia
posto a sua melhor saia e o seu melhor cabeção rendado para a entrevista com o
Major.
Ao natural, com as vastas ancas por baixo da saia de muito pano, dava a
impressão de estar de anquinhas. As mãos sob os seios tinham-se entrelaçado. E
embora alta,
parecia atarracada, com o cabelo enrolado em bombochas a cada lado da cabeça
branca.
E o velho, sentindo-lhe a palavra presa:
- Fale, Sinhá Inácia - voltou a ordenar-lhe.
Ela deu outro passo, recebendo mais luz no rosto enrugado. E perguntou, mantendo
os olhos submissos:
- É verdade que Seu Major vai voltar para São Luís?
- No próximo vapor, Sinhá Inácia. O mais tardar, na próxima semana já estarei
viajando.
A mulata inclinou a cabeça, ameígou mais os olhos suplicantes, e enternecendo a
voz cantada:
- Seu Major, aqui na fazenda eu não posso mais viver. Depois do que houve comigo
e com o senhor, na beira do rio,
168
não tenho coragem de erguer os olhos para ninguém. Só Deus sabe o que eu tenho
sofrido. Até ando com uma dor no peito. O velho parou de balançar-se, firmou os
pés
zangados nas lajotas do chão:
- Não vá me dizer que o Veridiano deu com a língua nos dentes. Eu disse a ele
que ficasse calado.
A velha suspirou, deixou passar um silêncio.
- E ele ficou, Major. Quem falou fui eu. O Major apoiou as mãos nos joelhos:
- A senhora?
- Eu - confirmou a velha. - Fui eu que andei a contar a todo mundo. Não nego,
Major. Se quiser me castigar, me castigue.
O velho ficou de pé:
- E por quê? - indagou, exaltando-se.
Sinhá Inácia pôs-se a torcer a barra da saia, sempre de vista baixa, a cabeça
inclinada:
- Não tive forças para guardar um segredo tão bom, Seu Major. Quando dei por
mim, já tinha contado tudo. Contei para a Adriana, para a Benedita, para o
Neco
Vaqueiro, para o Bonifácio, para o Ora Veja, para o Torquato da Marcolina, para
a própria Marcolina. Cheguei a contar para uma roda de amigos, na porta de minha
casa.
O primeiro impulso do Major foi ceder à vontade de segurar a velha pelos ombros
e sacudi-la, gritando-lhe:
- A senhora não podia fazer semelhante estupidez, Sinhá Inácia. Ou será que está
caduca? É por isso que todo mundo aqui está me olhando com cara de riso. E eu a
fazer o papel de idiota, rindo também, sem saber que o palhaço sou eu.
Mas conseguiu conter-se. Caminhou até a outra ponta do alpendre, com as mãos
para as costas, contraindo os maxilares, sem reparar que, mais adiante, por cima
do
cômoro onde se alteava a capela, a lua vinha subindo, redonda, grande,
amarelada, e ia esmaecendo o
tom escuro dos telhados, o verde das árvores, o leque das palmeiras.
Também Sinhá Inácia, a dois metros da rede, havia sido envolta pela mesma luz
suave, que atenuava a claridade avermelhada do candeeiro.
Quando o Major passou novamente por ela, a velha caiu de joelhos, com as mãos
postas acima da cabeça:
169
- Me perdoe, Major. Pelas chagas de Cristo. Pela paixão de Nossa Senhora. Pelo
cativeiro do povo de Deus. Errei, reconheço. Mas nunca mais hei de falar. Aqui
não
posso ficar. E daqui não me levanto enquanto o senhor não prometer que me leva
daqui.
Na semana seguinte, quando o São Luís atracou no trapiche da fazenda, na volta
de Caxias, o Major Ramiro Taborda, de sobrecasaca, chapéu alto, colarinho duro,
bengala
de castão de prata, subiu pela prancha, dispensando o amparo do marinheiro que
viera ao seu encontro, e foi apertar a mão do Comandante Ribas, já à sua espera,
e
que lhe disse:
- É por isso que, quando se fala em construir uma estrada de ferro para
Caxias, passando pelo Itapecuru, continuo a dizer que sou contra. Nada
como uma
viagem pelo rio e com passageiros como o Major Taborda.
E o velho, descobrindo-se, com uma vênia demorada:
- Obrigado, Comandante. Mesmo que construam a ferrovia, continuarei preferindo o
seu navio. Na minha idade, não há mais tempo para mudanças. Sempre fui fiel aos
meus amigos.
O preto Veridiano, que viera deixá-lo a bordo, acompanhado pelo mulato espadaúdo
que trazia a mala e o saco de viagem do Major, curvou-se muito, como se fosse
beijar
a mão do velho, mas este retraiu o braço, pondo-o no seu lugar:
- Não, Veridiano. Você, agora, além de ser um preto livre, é o feitor de minha
fazenda. Levante essa cabeça. Me olhe de frente. Assim. Fique com Deus.
Subiu a escadinha para o convés superior. Dali do alto, à entrada do camarote do
Comandante, já sem chapéu, no paletó de lustrina com que se sentia mais a gosto
nas viagens, sentado na cadeira de vime que estalava com os movimentos "de seu
corpo, ficou a lembrar a cena do alpendre, com a Sinhá Inácia a prometer que se
mataria se ele a deixasse na fazenda:
- Não tenho coragem de levantar os olhos para ninguém, Major. Só Deus sabe o que
estou sofrendo. Prefiro me jogar no rio e sumir. Ou então meto a cabeça numa
corda,
e me enforco. Viva é que não posso ficar.
E ele:
- Você não vai fazer nada disso.
170
- Faço. Juro pelo que há de mais sagrado que faço. Quero ficar cega, se não
fizer. Faço. E o senhor é o culpado. Pelo amor de Deus, me tire daqui. Me leve
para São
Luís.
Ao fim de alguns minutos, ele cedeu:
- Está aqui o dinheiro da passagem. Mas não fale comigo na viagem. Para todo os
efeitos, não sei quem é a senhora.
Mas outra idéia lhe acudiu:
- E por que não vai para Caxias? Vá; passe lá uns tempos, depois volte. Tudo se
esquece.
A velha permaneceu de cabeça baixa, torcendo a barra do cabeção de renda:
- vou pensar, Major - prometeu-lhe.
E agora, olhando o caminho torcido que ia dar na fazenda, o velho reconhecia,
aliviado, que não fora debalde o seu alvitre. Sinhá Inácia, pelo visto,
concordara
em ir para Caxias. Pensando bem, sentir-lhe-ia a falta, nas ocasiões em que, de
repente, o seu corpo reclamasse uma companheira. Sinhá Inácia, embora velha,
ainda
era mulher, e bem mulher. Mas a melhor solução era mesmo aquela: ele para um
lado, ela para outro.
Logo endireitou o busto, avivando o olhar para o fundo do trapiche, na curva em
que o caminho se fechava com o tronco de uma sumaumeira gigante. Por ali vinham
vindo umas vinte pessoas, acompanhando a figura grotesca que abria o cortejo com
um turbante branco, saia estampada, cabeção branco, cordão de ouro, pulseiras de
ouro, brincos de ouro, segurando na mão direita as sandálias, enquanto prendia
na outra as pontas de um pano-da-costa.
- É a Inácia! - exclamou o Major, alarmado.
E foi identificando, uma por uma, as pessoas que a seguiam: o Cipriano, a
Pinduba, o Frederico, a Rosalva, o moleque Tiúba, o Leovegildo, a Rosa, a
Teresona, todos
eles com ar festivo, inclusive o Benedito Boca Larga, que trazia na cabeça o
imenso baú tauxiado de Sinhá Inácia.
com as mãos entrelaçadas no cabo da bengala, adivinhou:
- O diabo desta mulata vai me dar trabalho. É a pior coisa que me podia ter
acontecido. Nesta idade, vim buscar sarna para me
coçar. Era só o que me faltava.
171
E pôde ver, mais alarmado ainda, que Sinhá Inácia estava em plena glória. No
começo do trapiche, parou; pôs as sandálias nos pés; compôs o pano-da-costa por
cima
do ombro; começou a despedir-se dos amigos com apertos de mão, beijos, abraços;
aos moleques, dava a mão a beijar, e entregava uma moedinha. Por fim, com um
lencinho
de seda que cintilou ao sol, caminhou para o navio, ocupando o meio do trapiche,
espaçosa, jogando as ancas e os braços, com as mãos afastadas do corpo, as
pulseiras
a lhe subirem pelos punhos, tilintantes, sem dar importância aos apitos do vapor
e à impaciência do marinheiro que a esperava para puxar a âncora. Duas vezes,
antes
de subir a prancha para alcançar o portaló, ela se voltou para trás, acenou com
os dois braços, emocionada - sempre acompanhada pelo Benedito Boca Larga, que
ria
à-toa, exibindo a dentadura muito clara, orgulhoso de levar-lhe o baú.
E o Major, ao vê-la adiantar a ponta da sandália de cetim para pisar na prancha,
ajudada pelo marinheiro:
- Vim buscar lã e saí tosquiado. Dei com os burros n'água.
172
CAPÍTULO III
DURANTE TODA a viagem o Major teve o cuidado de manter-se a distância de Sinhá
Inácia. Via-a de longe, sempre vestida com espalhafato e sentada num tamborete,
dura,
para não amassar a larga saia estampada. A princípio, ali a bordo, supuseram que
estivesse de anquinhas. O próprio Comandante, à mesa do almoço, pensou assim,
falando
ao Major. Mas este logo
esclareceu:
- Não, não está de anquinhas, Comandante. Essa mulata é assim mesmo. Tem
cadeiras demais.
E o Comandante, disfarçando o riso no guardanapo:
- Nesse caso, é a maior bunda do Maranhão.
O velho conservou a fisionomia grave, um pouco mais endurecida e ríspida:
- É. Penso que é.
E somente na baía de São José, quando o navio entrou a jogar, deixando a foz do
Itapecuru, foi que Sinhá Inácia subiu ao convés superior, acercando-se do Major.
Ele deu por ela quando Sinhá Inácia apareceu à sua frente, com ar humilde, as
mãos entrelaçadas, a cabeça branca inclinada para a direita, a voz suplicante:
- Seu Major, posso-lhe falar?
- Já está falando - replicou o velho, em tom de reprimenda. - Diga o que quer, e
volte para o seu lugar.
A voz da velha melhorou:
- Onde é que fica a nossa casa, Major? Preciso saber, agora que já estamos
no fim da viagem. Muita gente me pergunta, e eu não sei responder.
O velho juntou o espanto à rispidez, no semblante agastado:
173
- Espere: a senhora está pensando que eu a vou levar para a minha casa? É isso?
Pois então pensou errado. Na minha casa, não. Na minha casa moramos eu e minha
filha,
e mais duas criadas.
Sinhá Inácia ameigou a fala cantada:
- Me ponha no quarto das criadas, Seu Major. Eu pensei que ia para o quarto do
senhor. Depois do que houve entre nós, imaginei que tinha esse direito. Estou
vendo
que o senhor me trouxe para São Luís, mas não me quer. A vontade que eu tenho,
neste desapontamento, é me atirar ao mar e morrer aqui mesmo.
O Major exaltou-se, sem altear a voz:
- Lá me vem a senhora com o seu velho truque. Fique sabendo que, se se atirar
aqui, pensando que vão socorrê-la, está muitíssimo enganada. Aqui a senhora
morre
na mesma hora, devorada pelos tubarões. Vá para seu lugar, já disse. Na hora do
desembarque, desça na frente, com seu baú. E me espere no cais. Lá eu lhe direi
para onde a senhora vai. Por enquanto, ainda não sei.
Ela levou o lenço aos olhos, ameaçando:
- Major, eu me atiro no mar. Mas, antes de me atirar, digo a todo mundo que o
culpado é o senhor.
O Major crispou as mãos no cabo da bengala:
- Pois então diga, se quiser. Eu é que não a levo para a minha casa. Tire essa
idéia da cabeça. Desça, já lhe disse.
E ao descer na Rampa de Palácio, no Cais da Sagração, já a velha mulata estava
dócil, submissa, perto do coreto, junto ao seu baú, à espera do Major. Mas, a um
passo
dele, ensaiou insistir:
- Me leve para o seu sobrado, Major. O senhor é viúvo, eu sou desimpedida. Não
lhe peço que case comigo, embora eu tenha esse direito diante de Deus. Não quero
é
ficar sozinha, longe de tudo, numa cidade onde não conheço ninguém. Pelo menos
uns tempos. Até eu me acostumar. Não me faça enlouquecer. Daqui a pouco me ponho
a
gritar, me sentindo abandonada e perdida.
O Major, com as veias do pescoço puladas, um fulgor de ódio nas pupilas, acenou
para o cocheiro de uma tipóia, do outro lado da rua. E quando o homem se
aproximou,
soqueando
174
a rédea, com o olhar dividido entre o velho, a mulata e os cavalos:
- Suba - ordenou à Sinhá Inácia, mostrando-lhe o banco traseiro.
E para o cocheiro, que ainda permanecia na boléia:
- O senhor acompanha aquela outra tipóia, que eu vou tomar.
O homem saltou na calçada no momento em que Sinhá Inácia, formalizando-se, com o
punho esquerdo na cintura, indagava ao Major:
- E eu vou sozinha? Que é que tem o senhor me acompanhar? Ou será que está com
vergonha de mim? Se está, pode me deixar aqui mesmo na rua.
Porém o velho, aumentando o passo, atravessou depressa a rua larga, sem lhe dar
resposta. Entrou na tipóia, ordenou ao cocheiro que o levasse à Rua dos
Remédios:
- Perto do Largo. Não vá depressa. Aquela outra tipóia nos acompanha.
No relance do olhar, tinha visto Sinhá Inácia no meio do banco, tufando a saia,
com o semblante trombudo. E disse a si mesmo, com a bengala por cima das pernas,
no momento em que a tipóia se afastou do meio-fio, acompanhando a muralha de
pedra do Cais da Sagração, no sentido da Praia do Caju:
- Eu estava mesmo de muito azar quando me meti com essa mulata caduca. vou ter
muito trabalho com ela. Quando moço, consegui livrar-me da Juanita Pereda, que
era
jovem e bonita; agora, já velho, caio na esparrela de me assanhar com o diabo
desta Inácia, que só vai me dar dor de cabeça. Isso só a mim acontece.
Cruzou com esforço as pernas magras, sentindo o balanço da tipóia, e foi debalde
que tentou interessar-se pela tarde à sua volta - com a maré a subir, cobrindo
as coroas de areia, e os mirantes abertos para a claridade viva, que se ia
ensangüentando para os lados da Ponta do Bonfim.
E imaginando o tropeço que tinha de vencer:
- O difícil vai ser convencer o Marques.
Mas tinha de tentar. Na situação em que se achava, tentaria tudo. Àquela hora o
velho Marques estaria sentado na cadeira preguiçosa, à porta de sua loja de
secos
e molhados, ao fim
175
da Rua dos Remédios. Em redor, as prateleiras vazias. Por trás do balcão, uma
saca de arroz, outra de feijão-mulatinho, outra de milho quebrado. Pendente do
teto,
um arame grosso segurando o rolo de fumo de corda. Ao fundo, baixa, atarracada,
a burra de ferro, com uma águia de bronze por cima. No alto da parede, de frente
para as duas portas sobre a rua, o letreiro vistoso, já um pouco desbotado:
Grande Armazém Marques. E o velho, de boné de pano na cabeça, rodando os
polegares.
Se um freguês aparecia, mandava-o embora:
- Não estou aqui para maçadas. Já trabalhei demais. Faça favor de não me
aborrecer. Dinheiro de freguês não me faz falta.
No entanto, de uma hora para outra, fazia-se prestativo e solícito. E ia pesar o
quilo de arroz ou de feijão, sorridente, amável. Recebia o pagamento, dava o
troco,
levava o freguês até à calçada:
- Sempre às ordens. Apareça.
Naquela tarde, como estaria? Trombudo? Conversável? E o Major, no banco da
tipóia, pedia a Deus que o Marques estivesse de boa paz, inclinado a ajudá-lo. E
suspirava,
tambo rilando com os dedos no banco do carro:
- Tenho de me livrar desta enrascada. Não sei onde estava com a cabeça
quando fraquejei com o choro desta Sinhá Inácia. Caí como um pato. E
agora estou
aqui sem saber como desatar o nó. Mas desato. Desato. Nem que tenha de sacudir o
Marques pelos ombros, gritando com ele. Nessas ocasiões é que se conhecem os
amigos.
E assim que a tipóia saiu da Rua da Tapada, entrando na Rua dos Remédios, o
Major avistou de longe o Marques, com seu bonezinho branco na cabeça, sentado na
cadeira
preguiçosa, de boca encolhida - assobiando. Animou-se. E saltando na calçada,
daí a momentos:
- Só você pode me tirar de uma dificuldade, amigo Marques. O Marques afastou as
mãos:
- Se é dinheiro, faça de conta que não me encontrou. As décimas subiram, acabei
de raspar o fundo da burra. Estou vendo a hora em que vou ficar na porta da
igreja
do Carmo, de mão estendida, apelando para a caridade pública.
176
- Pelo contrário: venho lhe oferecer dinheiro, amigo Marques. Eu ajudo você,
você me tira de uma dificuldade. Uma mão lava a outra.
E o Marques, com o ar finório:
- Isso é outro falar. Vamos por partes. Aceita um charuto? Estes são da Bahia.
Artigo superior. Veja como são cheirosos.
E enquanto aproximava do nariz do Major os dois charutos que tirou do bolso do
casaco, redobrava de atenção para a tipóia que vinha parando por trás da outra,
junto
à calçada, com a Sinhá Inácia refestelada no banco traseiro, amuada.
- Não fumo mais - respondeu o Major, retraindo a cabeça, sem agastar-se.
E o outro, ainda a observar a mulata velha:
- Não sabe o que perde, Taborda. Um bom charuto, depois de um bom
negócio ou de uma fornicação em regra, é a melhor coisa do mundo. Dou-lhe a
minha
palavra de honra.
E com um charuto entre os dentes, a tatear o bolso do casaco à procura da caixa
de fósforos:
- Diga lá a sua dificuldade. Não há ninguém perto para nos escutar. Fale à
vontade.
O Major segurou o outro pelo braço, levou-o até o meio da loja, apoiando-se no
balcão:
- Sem querer, por mal dos meus pecados, dei outra cabeçada, a esta altura da
vida. E é com você que eu conto para desatar este nó.
O Marques, que já havia riscado o fósforo para acender o charuto, apagou-o com
um sopro rápido e ficou a olhar o Major dentro dos olhos:
- Não vá me dizer que toda essa agonia é por causa daquela mulata velha.
- É como diz, amigo Marques - confirmou o Major. Assombrado, o outro velho
escancarou os olhos, entreabriu
a boca, mudo.
E o Major, continuando:
- A carne é fraca. Vi aquela velha nua, tomando banho no rio da fazenda, e
quando dei por mim já estava em cima dela, com um fogo de rapaz. Ela, depois
disso, se
grudou a mim como um carrapato, e ali está, decidida a morar aqui em São Luís.
Não posso levá-la para o sobrado, no Largo do Desterro,
177
porque lá mora também a minha filha viúva. E não vou deixar a mulata na rua,
porque seria uma crueldade. Nalgum canto tenho de acomodá-la.
O Marques, com o charuto entre os dedos, continuou de olhos crescidos, fitando o
Major:
- E onde é que eu entro, em todo esse pagode? Não me venha dizer que pretende
deixá-la aqui. Aqui, não. Tenho duas filhas solteiras, a rua inteira me conhece
e me
respeita, e tenho juízo bastante para não abrigar contrabando debaixo de minhas
telhas, mesmo um contrabando como aquele, que só um tarado como você tem
estômago
para apreciar. Amigo Taborda, volte para a sua tipóia. O que tínhamos de falar
já falamos.
O Major espalmou no ar a mão aflita:
- Um momento, amigo Marques. Não ferva com pouca água. Ainda não lhe
disse o que quero de você. Posso falar?
E quando o Marques assentiu:
- A casa da Rua do Coqueiro, onde morou a sua amiga Sebastiana, já foi alugada?
Se não foi, tenha pena de mim.
O velho Marques começou por acender o charuto. Depois, soprou a fumaça sobre a
brasa, até vê-la escarlate. E levantando a vista esperta para o Major:
- E as suas casas, Taborda?
- Estão todas alugadas.
O velho Marques chupou outra fumaça, lentamente, regaladamente; soprou-a para o
alto, com o lábio inferior espichado. E deixando no ar os olhos distraídos:
- Essa casa da Rua do Coqueiro é um pedaço de minha vida, Taborda. Ainda não
tirei de lá os trastes e os pertences da Sebastiana. Faltou-me coragem. Sinto
que estas
pernas vão fraquejar. A morte da velha amiga foi para mim um baque muito grande.
A Sebastiana me deu alguns anos de felicidade perfeita, que não recebi da
mulher
legítima. Enfim, passou, como tudo passa neste mundo. Nesse ponto, sou um
homem conformado e reconhecido: cumpriu-se a vontade de Deus. Nos últimos meses,
só eu
sei o que gastei com a doença da finada.
Suspirou alto, olhando a cinza crescer sobre a brasa do charuto. E sem mudar a
direção da vista, voltando à sua condição de homem prático:
178
Só alugo a casa a quem me comprar os trastes e os
pertences que lá estão, e isso você não vai querer, Taborda. O Major não
hesitou:
- Compro tudo, amigo Marques. E por que não? As pupilas do velho Marques
fulguraram:
- E me paga as décimas da casa? E uma pintura geral? E o conserto do telhado? E
repõe os azulejos? E muda as tábuas do soalho? Pois então a casa é sua, amigo
Taborda.
E momentos depois, ao entregar-lhe a cambada das chaves, na calçada da rua,
tornou a alongar os olhos para a mulata velha, que rodava os polegares, sempre
amuada,
na outra tipóia. Parando à porta da loja, esperou que os carros partissem. E
comentou, antes de voltar a ler o seu jornal:
- Aquilo não é paixão - é bruxaria. Viraram a cabeça do Taborda. Como é que se
traz para São Luís um bagulho daqueles? A mulata é medonha. Parece mais velha do
que
ele.
179
CAPÍTULO IV
NA SEMANA seguinte à da missa de seu centenário, o Major Taborda voltou a ver o
velho Marques, para a visita do fim do mês, levando-lhe o aluguel da casa da Rua
do Coqueiro. Encontrou-o à porta da loja, na cadeira de palhinha, tossindo, com
a calva protegida pelo boné de pano. E o velho, ao ver o Major à sua frente:
- É você mesmo, Taborda? Bons olhos o vejam. Pensei que só nos íamos encontrar
de novo no outro mundo. Quase embarco desta para a melhor, com uma gripe de
todos
os diabos. Felizmente arribei. Até o Padre Pimenta foi chamado às pressas para
me recomendar a Deus. Cheguei a receber a extremaunção. Na hora final, a morte
me
afrouxou, e aqui estou eu, ainda tossindo.
Pôs-se a rir. E conseguindo falar:
- Padre Pimenta, depois que me deu a extrema-unção, me fez rir quando me contou
que você, no dia de seu centenário, dirigiu o calhambeque do Chico Bento, em
pleno
Largo do Quartel, fugindo dos mascarados que lhe queriam dar um banho. Ele riu,
eu ri também. A pagodeira deve ter sido grande. Até a sua filha estava no carro.
- É verdade - confirmou o Major, correndo o lenço pela testa, com o chapéu sobre
as pernas, na cadeira em frente ao Marques.
E este, após novo acesso de tosse:
- Cem anos. Parece mentira você ter feito cem anos. Eu também chego lá, com o
favor de Deus. Hei de quebrar a castanha na boca dos parentes que torcem por
minha
morte. com você deve passar-se a mesma coisa. Nunca imaginei que tivesse
180
de me defender da cupidez de minha própria família. Fique sabendo que não tenho
feito outra coisa. À mesa, no momento de me servir, primeiro fico olhando para
ver
se minhas duas filhas e meus três sobrinhos, que se servem dos mesmos pratos que
eu, não estão dando mostras de envenenamento: depois, quando vejo que não há
sinais
estranhos, é que me sirvo. Cheguei a este ponto: eu mesmo preparo o meu café.
Até a água que eu bebo sou eu que tiro do filtro. Não confio em ninguém. Todos,
aqui,
estão à espera de minha morte, para trocarem bofetões, assim que eu fechar os
olhos. Um horror. Um verdadeiro horror. Eu, por meu lado, vou tratando de
espichar
a vida. Ah, é a minha morte que vocês querem? Pois sim. E vou vivendo. De noite,
quando me deito, passo a chave na fechadura, ponho a tranca na porta, e me rio
sozinho,
com o novo dia que consegui viver. E rezo. Rezo muito. Para ter mais vida, e
olhar na cara das filhas, dos sobrinhos, dos afilhados, o desapontamento por
minha
saúde. Querem transformar minha missa de sétimo dia em missa em ação de graças.
Não conseguirão. Enterro todos. Lembra-se da Tia Marta, ali no Largo dos
Remédios?
Os parentes queriam vê-la na cova, e ela enterrou boa parte deles. Quando lhe
abriram o testamento, tinha deixado toda a fortuna para a Santa Casa da
Misericórdia.
O caso ainda rola pela Justiça. O meu também vai rolar. com que direito querem o
meu dinheiro? As despesas da casa sou eu que faço. Querem luxo, pagodeiras,
viagens?
Que trabalhem, como eu trabalhei, como você trabalhou. Nosso dinheiro
devia ser enterrado conosco. Ficava em nossa cova, junto de nosso esqueleto. O
Governo devia
pensar nisso. A herança é um desaforo, amigo Taborda. Um verdadeiro desaforo.
Sou contra.
E ao ver o ar de riso do Major:
- Você acha graça? Não é caso para isso. A morte é séria, é trágica. Somos
enterrados para apodrecer. Nessa hora, que é que se passa com os nossos
herdeiros? Estão
contentes, estão felizes, estão se banqueteando à nossa custa. Você já observou,
nas missas fúnebres, a cara de contentamento dos parentes dos defuntos ricos? A
felicidade é geral. Todo mundo está contente e todo mundo finge que está triste.
Minha vontade, nessas ocasiões, é pegar num chicote e sair pela igreja a dar c
181
chicotadas. Você fez bem em chegar aos cem anos. Continue vivo, Taborda. Siga em
frente. Eu vou fazendo a mesma coisa.
Chegou a cadeira mais para perto da cadeira do Major. E baixando a voz, com uma
luz mais viva nos olhinhos castanhos:
- Vou-lhe contar a partida que preguei à minha filha Cotinha. Lembra-se dela? É
a mais velha, a nariguda. Deu para meter as mãos nos meus bolsos, quando eu
estou
dormindo a sesta, para levar-me os trocados. Sabe o que fiz? Vou-lhe contar.
Aqui no armazém sempre entra dinheiro falso, principalmente moedas de cruzado e
de mil
réis. Eu tenho na burra uma gaveta cheia desse dinheiro. Não vale nada. Guardei
tudo como lembrança. E tive uma idéia. À hora da sesta,
abasteço-me de dinheiro falso,
e fico esperando o momento da Cotinha entrar na alcova. Ela entra, espia para
ver se estou dormindo, e vai direta ao meu paletó. Pela fresta das pálpebras,
vejo-lhe
a mão comprida, de ave de rapina. Ela mergulha a mão nos bolsos, tira as moedas,
mete-as no bolso do vestido, e vai embora, radiante. Sai rindo e eu fico rindo.
Não é formidável? Quero ver a cara dela, quando verificar que todo aquele
dinheiro é falso. Falsíssimo. Ela é capaz de ser presa. Você já pensou? Se ela
tiver um
colapso, na hora da raiva, vai para a cova antes de mim. E é bem feito.
Muitíssimo bem feito.
Meteu a mão no bolso superior do casaco, tirou dali uma moeda enrolada em papel
de seda. E abrindo o papel, com a moeda reluzindo ao sol na concha da mão:
- Veja esta moeda. Ouro puro. Parece feita de sol. Como se fosse a luz da manhã
solidificada. Isto sim é dinheiro. Dinheiro. Que dá gosto pegar. Vem do tempo da
Monarquia, quando ouro era ouro. Na nossa idade é que se sabe apreciar o
dinheiro. Dinheiro é poder, é vida, é vingança. Se passar por aqui um homem
qualquer, com
ares importantes, e eu lhe disser: - Tire as calças, tire as ceroulas, e fique
com a bunda para a rua, tomando fresco, que eu he dou esta moeda de ouro, ele
tira
as ceroulas, tira as calças e exibe a bunda. Às vezes, sozinho, com a mão em
cima do bolso, apalpando esta moeda, fico rindo comigo, a imaginar o que eu
poderia
fazer com ela.
182
Pôs-se a rir alto, e o riso lhe sacudia a barriga, sacudia a pala do boné,
sacudia a cabeça contente. E com o riso a iluminar-lhe a cara enrugada:
- Devia haver uma lei estabelecendo que só as pessoas maiores de
sessenta anos podiam se utilizar do dinheiro. Antes não. Só os velhos sabem o
que o dinheiro
vale. Tenho assistido a muita loucura, com o dinheiro posto fora na mão de gente
moça. O Código Penal tinha de estabelecer penas severíssimas para quem
gastasse
dinheiro à-toa. Pensando bem, há o esforço de gerações sucessivas de seres
humanos, nesta rodelinha de ouro. E vem um pintalegrete qualquer, e gasta isto
em
bebidas, em babacas de vagabundas, em apostas nas mesas de jogo. A pena devia
ser de trinta anos de cadeia. Daí para cima.
com método, dobrou novamente o papel, recompondo o embrulho, e tornou a recolhê-
lo ao bolso do casaco:
- Você não vai acreditar no que lhe vou dizer. De noite, antes de recolher esta
moeda à gaveta da burra, dou-lhe um beijo. Perfeitamente. Um beijo. De
amor.
De carinho.
Abaixou mais a voz, quase em sussurro:
- Aqui para nós, tenho muitas iguais a esta. E quero ter mais. Muito mais. Cada
moeda que eu meto na burra é uma vitória gostosa, que me reanima, que me enche
de
vida. Sinto que vou chegar aos cem anos, como você, Taborda. E agora me diga:
foi também assim que você chegou a essa idade? Ou você se valeu de outro
expediente?
Diga a verdade. Só para mim. Eu não passo adiante.
O Major, que se limitara a sorrir, com as mãos entrelaçadas por cima do castão
de bengala, continuou sorrindo:
- Para lhe falar com franqueza, não sei por que cheguei até esta idade. Ou a
morte me esqueceu, ou Deus não se lembrou de mim.
E o velho Marques, com o dedo em riste diante da boca:
- Fale baixo, fale baixo. Essas coisas não se dizem. Houve um silêncio. O vento
da tarde descia a rua longa,
trazendo até ali o ruído das palmeiras do Largo dos Amores. E o Marques,
firmando os braços nos braços da cadeira:
- Hoje, cedo, dando minha volta no quarteirão, encontrei Sinhá Inácia. Me disse
que passou seis meses no Itapecuru,
183
doente. Eu não sabia. Você não me disse nada. Voltou bem disposta, corada.
Grande mulata. Velha, feia, mas de qualidade. Devia ter os quadris mais
modestos. Sempre
impliquei com aquelas ancas de tanajura. Tirando-lhe a bunda, e a cara enrugada,
é simpática, com um sorriso bonito. Na vizinhança da Rua do Coqueiro, todo mundo
gosta dela. Alegre, prestativa. Me disse um vizinho, que vem aqui de vez em
quando dar um dedo de prosa comigo, que Sinhá Inácia é madrinha de muito menino,
aqui
em São Luís. Onde há doente, lá está ela, com seus chás e as suas rezas. Você
fez bem em
trazê-la para São Luís.
Tornou a rir:
- Estou me lembrando dela, amuada, no banco da tipóia, a rolar os polegares, e
você nervoso, a querer que eu lhe alugasse a casa. Para outra pessoa eu não
alugava.
Aluguei por ser para você. E também para ver o que é que você ia fazer com
aquela mulata velha, aqui em São Luís.
O Major bateu com os dedos na copa do chapéu, sacudindo a cabeça branca:
- E o que você não sabe é que, no dia seguinte, quando fui vê-la, ainda a
encontrei com a roupa da véspera, sentada na tampa do baú, chorando. Quase perdi
a paciência.
E foi só quando eu quis mandá-la de volta, pelo mesmo vapor que a tinha trazido,
que ela enxugou o rosto, e resolveu se aquietar. Ficou uma seda. Mas levou muito
tempo a insistir para que eu a levasse para o sobrado do Largo do Desterro. Até
que tirou esse absurdo da cabeça. Hoje, vive a fazer doces, é amiga de todos os
vizinhos,
já tem o seu pé de meia, vai à fazenda e volta quando quer, e é uma boa amiga,
que eu visito todas as semanas. Estava sentindo a falta dela.
O Marques endireitou a cabeça, ao receber o aluguel da casa:
- Diga-me uma coisa, Taborda. Como é que você, com toda a consideração que
tem por Sjnhá Inácia, consente que ela more numa casa alugada? Dinheiro não
falta
a você para lhe dar um teto e um pedaço de chão.
E o Major, passado um silêncio:
- E você me venderia a casa onde ela está?
184
O Marques inclinou a cabeça, como a refletir. Espichou o lábio inferior, tornou
a encolhê-lo. E ainda pensativo, de mão no queixo:
- Você faria um bom negócio. Não digo que comprasse a casa no nome dela. Não,
isso não. Mas, no seu testamento, deixaria a casa para a Sinhá Inácia. É melhor
assim.
Mais seguro. Dá e não dá.
E em meio da semana seguinte, no Largo do Carmo, nos baixos do sobrado onde o
Firmino Cunha tinha o seu cartório, ali apareceu, à hora marcada para a venda da
casa
da Rua do Coqueiro, o velho Torquato Marques, apertado num jaquetão de oito
botões, a perguntar pelo Major Taborda.
O Firmino Cunha olhou-o por cima dos óculos:
- Ainda não chegou. Mas está chegando. Faça o favor de sentar aqui perto de mim.
Estou acabando de lavrar a escritura.
O velho sentou, mas ficou sem saber o que faria de si mesmo, enquanto a pena do
escrivão ia cobrindo as linhas do grosso livro que se esparramava na cabeceira
da
mesa, ao fundo do cartório. Olhava o Firmino Cunha, olhava a pena, olhava o
tinteiro bojudo, olhava a claridade das duas portas sobre a calçada, e volvia a
olhar
o relógio da parede, desassossegado na cadeira giratória. Por fim, levantou-se:
- Já volto, Firmino.
E foi olhar o Largo do Carmo. O safardana do Taborda iria roer-lhe a corda,
depois do negócio discutido e assentado? Ou teria notado que a cumeeira da casa
devia
ser mudada, antes que o telhado viesse abaixo? E ao ver o Major atravessar a
rua:
- Pensei que tinha esquecido a hora do cartório.
O Major exibiu o relógio, tirado do bolso de algibeira:
- Nem adiantado nem atrasado.
E ambos ficaram à espera do Firmino Cunha, um em frente ao outro, na vasta mesa
retangular atulhada de livros e processos, acima dos quais emergia a cabeça
pontuda
do escrivão. Pareciam observar-se. O Major entrelaçara os dedos, descansando os
punhos por cima do embrulho em que trazia o dinheiro, enquanto o velho Marques,
impaciente,
ora olhava o
185
Firmino, ora olhava o Taborda, sem encontrar posição na cadeira de
palhinha.
O escrivão levantou-se, empurrou para o outro lado da mesa os processos e livros
mais próximos, abrindo espaço à sua frente, e só então pareceu dar pela presença
do Major, a quem estendeu a mão suja de tinta. Em seguida, tornando a sentar,
chamou os dois para perto, ofereceu-lhes as cadeiras vazias, ao mesmo tempo em
que
ia lendo corridamente a escritura, no tom cantado de quem recita a ladainha, sem
levar em conta o movimento à sua volta. Por fim, como se continuasse lendo,
perguntou
a um e a outro, mudando a direção do olhar entre o começo e o fim da pergunta:
- De acordo?
E sem esperar pela resposta, no impulso do mesmo açodamento, indicou aos dois,
com a unha do indicador, as linhas em que deviam assinar:
- Aqui, aqui.
E o Marques, recusando a caneta que o Firmino lhe oferecia, de pé, inclinado
sobre a mesa:
- Assinar sem antes receber o dinheiro? Não, Firmino. Nem para o meu pai.
Nem para a minha morta mãe.
Mas já o Major tateava o laço do cordão para desatar o embrulho, começando a rir
do temor do outro velho. Suas mãos centenárias, torcidas como raízes, pareciam
rir
também, tardando a encontrar as pontas do barbante. O Marques, por sua vez, dava
a impressão de ter parado de respirar. E como o Taborda demorasse a desfazer o
embrulho,
alongou as mãos nervosas, querendo ajudá-lo:
- É dinheiro vivo? - indagou, impaciente.
O Major puxou as pontas do cordão, abriu as dobras do papel grosso, e dali saiu
um saco de pano amarrado ao meio.
O velho Marques ensaiou levantar-se, com as mãos aflitas na borda da mesa:
- O dinheiro está todo aí, Taborda?
E ele próprio abriu o rosto, dilatou os olhos, com uma cintilação mais viva nas
pupilas, ao ver o Major tirar do saco de pano, uma a uma, sucessivas moedas de
ouro,
que ia pondo do outro lado da mesa, defronte do Marques. Este, de lábios
entreabertos, com um fio de baba nos cantos da boca, sorria
186
apalermado, pegando aqui uma moeda, pegando ali outra, aproximando-as de si,
como no temor de que lhe escapassem, e nisto curvou-se mais para a frente,
batendo com
o rosto sobre o dinheiro, que se esparramou para todos os lados.
187
VIII
Voltas do caminho
CAPITULO I
ELE AGUARDOU um momento, sufocado pela poeira, antes de entrar no quarto dos
trastes velhos. Já fazia muitos anos que não vinha até ali. Dez? Vinte? E ficou
parado
em frente à porta, enquanto a aragem de fora atenuava o cheiro de mofo que se
desprendia do aposento cerrado. O bafio pareceu atenuar-se, passados alguns
momentos,
e o Major deu o primeiro passo para dentro do quarto, guiado pelo fio de luz que
se recortava na fresta das duas portas sobre o Largo do Desterro. Logo
descobriu,
no assento de uma poltrona quebrada, o retrato da Minervina, que parecia esperar
por ele, voltada para a entrada da cafua.
- Não foi por tua causa que vim aqui - disse ele, como a querer explicar-se. -
Vim à procura de uma maçaneta de cristal para substituir a da porta da sala, que
a
Miúra quebrou.
E ia fechar de novo a porta, quase sufocado pela morrinha do aposento, quando
voltou a dar com a Minervina em cima da poltrona. Olhou-a por alguns minutos,
impressionado
com a perfeição e o colorido do retrato. Por que não o repunha na sala? Não
tinha mais amor ou ódio pela companheira; porém um sentimento aberto de simpatia
e compreensão
afetuosa, que dissipava em seu íntimo as velhas amarguras. Chegou a sorrir-lhe,
soprando a poeira que o manchava. E seu colorido se fez mais vivo, como se a
pintura
houvesse recebido uma camada nova de verniz.
- O tempo desmancha tudo. Vamos embora.
E segurou o retrato pela cabeça da larga moldura dourada. Lá no alto, sacudiu
sobre ele a pluma do espanador, e a moldura voltou a cintilar na claridade da
tarde,
ao mesmo
191
tempo em que o óleo se reavivava ainda mais. Na sala, ao pendurá-lo no gancho da
parede, teve a impressão momentânea de que o rosto sorria na luz profusa que
entrava
pelas duas janelas sobre o Largo do Desterro.
Assim que desceu da escada, olhou o retrato do outro lado da sala. A parede
pareceu-lhe reposta no seu equilíbrio harmonioso, com os dois retratos a dominá-
la,
por cima da marquesa de palhinha. Uma emoção pura afluiu-lhe à consciência,
quase a aguar-lhe os olhos imóveis, e ele tratou de guardar a escada, forçando
um começo
de assobio. No último sábado, ao fim do enterro de seu amigo Marques, relanceara
a vista à sua volta, querendo lembrar-se do lugar exato da sepultura da
Minervina.
Só tornara a ver-lhe o túmulo por ocasião do enterro do Filinto. Ficaria por
trás da capela? Ou na alameda à sua direita? E nisto reparou que a sepultura à
sua frente,
com uma imagem de Santo Antônio em pedra-sabão, era precisamente a da mulher e
do filho. Sentiu o coração apertar. E levou alguns instantes a recompor o
epitáfio
sobre a lousa, reconhecendo que o velho rancor contra a Minervina estava
agora desfeito no seu coração experiente:
- Que Deus te dê a paz. A ti e ao pobre do Filinto.
Ao voltar à sala, depois de guardar a escada, ouviu os passos da Celeste,
aproximando-se. Ficou num vão de janela, de costas para o largo, para ver a
emoção da filha,
quando visse o retrato da Minervina no seu antigo lugar. E ela, assim que olhou
a parede:
- Que alegria o senhor me deu. Felizmente mamãe voltou ao seu canto. Olhe como
estou emocionada.
E exibiu-lhe as lágrimas copiosas que lhe escorregavam pelo rosto, acompanhando
a curva das bochechas. Os anos transcorridos, tirando-lhe a cintura fina,
tinham-lhe
arredondado mais as nádegas e tufado os seios. Dava a impressão de não caber
mais nos vestidos.
Ele acendeu os bicos de gás do lustre, e a sala ganhou outra harmonia, com o
realce das arandelas do piano, as sombras que se fechavam sobre a rua e o largo,
o
reflexo dos espelhos, e o destaque dos dois retratos a óleo, na simetria das
mesmas molduras.
E a Celeste, tornando a emocionar-se:
192
- Veja como a mamãe está contente. E o senhor também. E foi a Celeste que,
anos depois, ainda mais gorda, de
olhos empapuçados, um fio de cabelo doido a lhe sair pela ponta do queixo, deu
ao Major a notícia de que ia acabar em São Luís a iluminação a gás: em breve,
haveria
iluminação elétrica na cidade, com bondes elétricos, lampiões elétricos, as
casas iluminadas a eletricidade.
O Major, mais seco, mais espigado, limitou-se a comentar:
- Conheci esta nossa São Luís no tempo dos primeiros lampiões, quando as
ruas, à noite, eram iluminadas a óleo de peixe. Em seguida, vieram os lampiões a
álcool. Por fim, os combustores a gás. Nunca pensei ver a luz elétrica, de que
tanto se fala. Agora, só se puserem um sol no espaço, para as horas em que o
outro
se recolher.
E quando a luz elétrica chegou, arregalando no topo dos postes compridos o
brilho das lâmpadas acesas, o Major estava a esperar por ela, na sacada de seu
sobrado,
olhando o lampião solitário no meio do Largo do Desterro. A Celeste postara-se
ao seu lado, atenta. E ambos viram quando o clarão se abriu sobre a praça,
destacando
a fachada da igreja, o zimbório, o campanário, a grade de ferro que fechava o
largo, a esplanada sobre o mar.
No mês seguinte, apareceram dois homens no sobrado; trabalharam durante todo o
dia, estendendo fios por salas, quartos e corredores, sob o olhar desconfiado da
Prudência,
que se mantivera na cadeira de balanço da varanda, séria, de boca encolhida, a
espioná-los. Ambos voltaram pelo fim da tarde, para atarraxar as lâmpadas nos
bocais
das corolas de vidro, enquanto o Major, no seu escritório, relia as aventuras de
Pickwick, na velha edição ilustrada que trouxera de Londres.
De vez em quando, o velho saía à porta, com o dedo interposto nas folhas do
livro, e indagava à Celeste, que andava entre a sala e a varanda, na ponta dos
pés:
- Como vai a bruxaria?
Ela oscilava a mão espalmada:
- Nos arremates.
E apesar de um começo de quebranto, que lhe pesava mais o corpo gordo, não
conseguiu permanecer na alcova, deitada na rede: veio também para a varanda, e
ali aguardou,
em silêncio,
193
na companhia do Major, que um dos homens ligasse a chave da luz, enquanto o
outro, com o alicate e a chave de fenda, permanecia no corredor, pronto a
corrigir
qualquer defeito.
Em redor, as sombras da noite. Lá fora, uns restos de luz. E a escuridão a
concentrar-se nos aposentos do sobrado. Na parede, o relógio oitavado a contar o
tempo.
De repente, a um estalo seco do interruptor, a claridade intensa se abriu por
toda a casa. A Miúra gritou, assustando-se, e a Prudência, com a mão em pala por
cima
dos olhos:
- Apaguem, apaguem - exigia, retraindo a cabeça. Porém ela própria, após ajustar
as pupilas à intensidade da
luz, sorriu para a lâmpada acesa, sorriu para os dois homens, sorriu para a
Celeste e para o Major, não conseguindo conter-se:
- Gente, isso é coisa do Capeta. E tratou de persignar-se.
Depois, mais confiante, baixou a mão, olhou de frente a lâmpada acesa, sempre
sorrindo:
- com uma luz assim, as galinhas descem do poleiro. Parece dia. Não falta
inventar mais nada. Quem havia de dizer que a Prudência ia ver tudo isto?
E novamente séria, com os olhos no Major:
- E onde anda Seu Major? Não pense que me esqueci do sumiço que o senhor deu
nele. Não, não esqueci. Agora, com essa luz forte, muda tudo: sou capaz de
apostar
que Seu Major vai aparecer de uma hora para outra. E olhe o senhor no ora veja.
vou dar muita gaitada com seus apertos. Ora se vou.
Na manhã seguinte, com uns restos das sombras da madrugada, o Major entrou às
pressas na carruagem do Felisberto Ventura, que fazia ponto no mesmo lugar de
seu
tio Chico Bento, e disse ao cocheiro, ainda ofegante com o esforço para subir
depressa a Ladeira do Quebra Costa:
- Você sabe onde mora o Dr. Luna?
- O médico gordo, de óculos? Como não, Major? É ele que trata de minha família.
Não quero outro. É Deus no Céu e ele na Terra.
E o Major:
194
- Vamos lá. com urgência.
A carruagem entrou na Rua da Paz, levada pelo galope da parelha, no momento em
que começava a dobrar o sino da igreja do Carmo. Conquanto segurasse as rédeas e
o
chicote, o Felisberto tirou o chapéu, sem diminuir a velocidade do carro.
E repondo o chapéu na cabeça chata:
- O senhor não vai sair de São Luís, Major? Quem tem para onde ir está saindo.
Eu, se pudesse, já estava longe, com a mulher e os sete filhos.
Firmando o corpo no banco com as duas mãos enérgicas, para evitar que o sacolejo
do carro o atirasse contra as costas do banco da boléia, o Major alteou a voz
por
cima do ruído das rodas e do tinido das ferraduras no calçamento:
- Sair de São Luís por que, Felisberto?
- O senhor ainda não soube o que está acontecendo? A gripe espanhola, que
começou no Rio de Janeiro, já chegou aqui. A peste não poupa ninguém. Rico ou
pobre, é
a mesma coisa. Começou há dois dias, com três casos. Ontem, subiu para quinze.
Hoje, ouça o dobre dos sinos. Estão dobrando em Santo Antônio, em São
Pantaleão,
em Santana, em São João. Agora mesmo começou a dobrar na igreja dos Remédios.
Está ouvindo o tinido lento, aqui de minha esquerda? é de lá. Conheço aquele
sino.
O Major, aflito, renovou a ordem:
- Para a casa do Dr. Luna, Felisberto. E entra pela Rua dos Remédios, para
chegarmos mais depressa.
Pareceu-lhe, de repente, que a Celeste havia contraído a gripe, com o corpo
mole, a febre alta, e sempre a pedir água, sem forças para abrir os olhos
ardentes.
Seria possível? E nisto o velho sentiu, passando em frente ao casarão do Quartel
do 5.° Batalhão de Infantaria, que também o sino da igreja de Santaninha
começava
a dobrar. Alarmado, perguntou ao cocheiro:
- Não estamos indo devagar, Felisberto?
O cocheiro sacudiu no ar o chicote, e este roçou a anca dos cavalos, quase ao
mesmo tempo o galope aumentou, enquanto a traquitana oscilava nos
paralelepípedos da
rua, como se fosse desfazer-se com os solavancos repetidos. Mas, em pouco, já
195
no Largo dos Amores, contornando a igreja, seguiu pela ruazinha à sua direita,
na descida para a Praia do Jenipapeiro, e parou junto à calçada do chalezinho
escondido,
que as árvores e as trepadeiras protegiam com os seus ramos floridos.
E como o Major repetisse as palmas, sem que ninguém saísse a atender, o cocheiro
lhe sugeriu entrar na casa:
- Entre, Major. O Dr. Luna costuma deixar a porta da rua encostada, e o portão
do jardim também.
Na varanda do chalé, o velho repetiu mais uma vez as palmas, por fim torceu a
maçaneta da porta, e esta cedeu, abrindo para a sala ampla que as janelas
fechadas
escureciam. Voltou a chamar pelo Dr. Luna. E acabou por descobri-lo adormecido
numa bonita rede, na varanda que abria para o rio Anil. O sol banhava-lhe o
rosto,
sem que ele despertasse, tão profundo era o seu sono.
O Major sacudiu a rede pelos punhos, e o médico entreabriu os olhos
estremunhados, forcejando para erguer a cabeça.
E o velho:
- Dr. Luna, preciso do senhor, com a maior urgência. Minha filha
Celeste não passou bem. A febre continua. Ontem parecia melhor. De repente
piorou. Quase
que eu vinha buscá-lo pela madrugada, quando ela perdeu os sentidos. Felizmente
consegui reanimá-la, e foi ela que não me deixou sair.
com pouco, cheirando uma bolinha de naftalina, que sempre trazia na ponta dos
dedos, o Dr. Luna saltou para a carruagem, ainda com a barba por fazer, a
gravata
a cair-lhe para o peito, com o laço frouxo. Apenas molhara o rosto para aliviar
o sono. Mesmo assim, por duas vezes cedeu ao cochilo invencível. Saltou à porta
do sobrado com a bolsa de ferros na mão, e passou à frente do Major, que ia
subindo devagar, apoiado no corrimão, com a súbita desconfiança de que era mesmo
grave
o estado da Celeste:
- É capaz de ser a gripe.
E com medo da certeza, tardou o passo.
Lá no alto, a Prudência embalava-se na cadeira, atenta aos movimentos da casa.
Ao ver o médico deixar a escada, assomando à entrada da varanda, parou de
embalar-se:
- Veio ver Dona Celeste? - perguntou-lhe. - Não vai bem não, Doutor. Olhei ela
há poucos minutos, dali na porta,
196
e não gostei do nariz dela. Nariz afilado, querendo ficar roxo, não é bom sinal.
Aprendi isso com minha mãe, no tempo do cativeiro, e nunca vi uma coisa mais
acertada.
E enquanto o médico entrava na alcova, voltou à cadeira, após olhar de frente o
Major: deu a este as costas, com um muxoxo, e ficou a resmungar, falando
sozinha:
- Não está direito este homem continuar aqui, sempre a dizer que é o Major.
Principalmente agora, com Dona Celeste doente. Não é de hoje que vivo querendo
abrir
os olhos de todo mundo. E todo mundo a se fazer de surdo, ou então a não dar
atenção ao que vivo dizendo. Este velho deu sumiço no Major e conseguiu tomar o
lugar
dele, aqui no sobrado, sem ninguém reclamar. Só a mim ele não enganou. A mim,
uma pobre preta analfabeta, que só tenho Deus no Céu a olhar por mim. Às vezes,
finjo
que me esqueci. Mas estou bem lembrada. Muito bem lembrada.
E quando o Major deixava no cabide o chapéu e a bengala:
- Seu velho descarado, vá embora daqui. Você, agora, finge que não
me ouve nem me vê. Pode fingir, mas eu continuo falando, porque sei
que
você está me escutando. Volte por onde entrou. Vá embora daqui. Pensa que eu
não vi o senhor entrando de mansinho, como um gato ladrão, no quarto de Dona
Celeste?
Vi, com estes olhos. E fiquei por trás da porta, prestando atenção. Se ela
gritasse, eu punha a boca no mundo, pedindo socorro aos vizinhos. Felizmente o
senhor
não tentou abusar da moça. Veja bem que ela é uma senhora, quase uma velha. Tem
de ser respeitada. Não pense que estou de braços cruzados. Não. Ninguém me
apanha
dormindo. Já preveni os vizinhos. Ao menor sinal, eles vêm aqui. Vêm, e botam o
senhor para fora do sobrado a pescoção.
O Major olhou a Prudência com tanta fúria, demoradamente, fixamente, que ela se
aquietou na cadeira, de olhos baixos, em silêncio, as mãos entrelaçadas,
enquanto
o velho caminhava pelo corredor, entre a sala e a varanda, cabisbaixo, com as
mãos para as costas, rangendo as botinas.
Passados uns dez minutos, empurrou de leve a porta, entrou na alcova. E de lá
saiu, ao fim de outros dez minutos, mais apreensivo, com os olhos molhados,
seguido
pelo Dr. Luna,
197
que ainda trazia na mão úmida a seringa com que acabara de aplicar uma injeção
de emergência.
O Major não reteve por mais tempo a pergunta:
- Há esperança, Doutor?
- Enquanto há vida, há esperança - sentenciou o Luna, lavando as mãos na bacia
de louça.
E quando o velho lhe entregou a toalha:
- Em poucos dias, a cidade foi tomada pela gripe. Há mais de duzentos casos em
São Luís. O Governo fez um apelo à imprensa para não alarmar a população. Mas a
verdade
é que, ontem, já havia dificuldade para enterrar os mortos. Até de madrugada
os coveiros trabalharam. Eu próprio, assim que saí da Santa Casa,
tive
de levar dois cadáveres ao Cemitério. Depois é que fui para casa, já caindo de
cansaço e de sono. Deitei-me às cinco horas.
Ouvindo a Celeste gemer, o Luna tornou à alcova, e ali ficou por espaço de meia
hora. Quando voltou à varanda, em mangas de camisa, não precisou falar ao Major:
olharam-se em silêncio, e o velho compreendeu que só lhe cabia chorar.
198
CAPITULO II
O MÉDICO, ao vê-lo calado, no banco da carruagem, apertou-lhe a mão fria, na
ponta da calçada:
- Tudo acaba neste mundo, Major, Vá para casa descansar. Daqui a pouco temos um
novo dia.
E quando o Felisberto Ventura contornou a igreja dos Remédios, para seguir na
direção do Largo do Quartel e dali seguir pela Rua do Sol, no sentido do Largo
do Desterro,
o velho lhe recomendou que retardasse a volta ao sobrado:
- Não precisa correr.
Embora afeito a ficar em casa apenas com duas criadas velhas, parecia-lhe agora,
ante a certeza de que nunca mais teria a companhia da Celeste, que o sobrado
ficara
vazio para sempre. E a imagem da filha morta volvia-lhe à consciência, tornando
mais pungente a desolação que o oprimia. Como pudera desaparecer, de um momento
para
outro? E seus olhos, e seu rosto redondo, e sua figura gorda, e seu riso, e sua
voz, por entre os sacolejos da carruagem, refluíam-lhe ao espírito, enquanto o
casario
fechado se sucedia, nos dois lados da rua, sob a vigilância espantada das
lâmpadas elétricas, prestes a apagarem.
A cidade assustada dava a impressão de ter ficado repentimente deserta. Já os
carros funerários tinham recolhido os mortos à porta das casas, para que a manhã
não
os encontrasse insepultos, apenas envoltos num lençol. De vez em quando, uma
rótula parecia entreabrir-se, e um rosto amedrontado espiava, atraído pelo
toque-toque
das ferraduras dos cavalos nas pedras do calçamento.
E o cocheiro, entrando na Rua do Sol:
199
- Felizmente tudo deu certo, Major.
O Major permaneceu em silêncio, como se viesse cochilando. Mas logo lembrou toda
a sua luta, no correr do dia e de parte da noite, até conseguir o caixão de
pinho,
sem forro nem adorno, em que tinha conseguido enterrar a Celeste, graças
sobretudo aos empenhos do Dr. Luna. Apesar da noite fechada, aparecera um padre
no Cemitério,
à hora do sepultamento, para encomendar o corpo, trazido também pelo médico.
- E eu continuo vivo - suspirou o velho.
Agora, com quem conversaria, nas noites de chuva? A quem contaria as suas
alegrias, se ainda as tivesse? Ou suas dores, quando estas fossem fortes demais,
pedindo-lhe
um confidente? Seus parentes estavam mortos; seus amigos também. E o sentimento
opressivo da solidão absoluta, que de repente se fechara em seu redor, deu-lhe a
impressão de que somente ele subsistia na cidade abandonada. Ninguém residia
mais naquelas casas. E quando o sol raiasse, batendo nos mirantes e nas fachadas
de
azulejos, as ruas continuariam desertas, mesmo no Largo. do Carmo e na Praia
Grande.
Não compreendia por que Deus o poupava, alongando-lhe indefinidamente a vida. E
até quando viveria? Entre tantos mortos que a gripe ia levando, por que não era
um
deles? Devia ser. E por que não? Já vivera bastante. Vivera demais. Era tempo de
sair do mundo. Que ficava fazendo ali? Sentia-se um inútil, com a sua
longevidade
excessiva. E ele próprio escondia agora a sua idade, com receio de que as
pessoas se espantassem ao sabê-lo tão velho.
Ao gerente do London Bank, que lhe perguntara se já havia feito cem anos,
limitara-se a responder de modo vago:
- Ando perto, ando perto.
A morte não o queria. Pensara em matar-se, num impulso de desespero, dias depois
de saber que o Filinto não era seu filho, e lançara-se ao mar, na Ponta da
Areia,
mas uma onda mais forte o restituíra à praia, como se o mar também o rejeitasse.
Agora, ali ia, sem amigos nem parentes, no banco de couro de uma carruagem fora
de moda, aos solavancos, rua abaixo, sem saber ao certo o que faria de si mesmo,
no novo dia que se abria por cima dos mirantes e dos telhados.
- Será o que Deus quiser.
200
Já ele sabia que é por falta de interlocutor que todo velho recorre ao monólogo.
Ele próprio, quando se via só, cansado de suas longas leituras, dava por si
conversando,
a um canto do quarto, ou a um canto da varanda. Tarde da noite, se a sua velha
insônia o mantinha desperto, ia para a janela sobre o Largo do Desterro, com o
cigarrinho
apagado na ponta dos dedos, e ali ficava monologando, até que as pálpebras lhe
pesavam.
A Caiu Malafaia tinha-lhe dito, na semana seguinte à da morte do Virgilinho:
- Já comecei a falar sozinha, Ramiro. Hoje, quando levantei, despejei a água da
jarra na bacia de louça para banhar meu rosto. E ali, curvada sobre a bacia,
enquanto
lavava a cara, contei meu sonho da madrugada. Um sonho colorido, como há
muito tempo eu não tinha. Antigamente, assim que eu acordava, contava meus
sonhos
ao meu marido. Na falta do Virgilinho, contei tudo à água da jarra.
E ria alto, deliciada com a novidade.
Sinhá Inácia, por sua vez, ainda fazia melhor: conversava com as galinhas, os
marrecos, o galo, os pintos, o gato, o canário e o corrupião. O peru replicava-
lhe.
E o papagaio também. Na cozinha, defronte do fogão aceso, conversava com o fogo
e com as panelas. E na cadeira de embalo da varanda, às voltas com o seu tricô,
falava e ria com a agulha e a linha. Ouvindo-lhe a voz, no corredor da entrada,
o Major tinha a impressão de que Sinhá Inácia estava com visita. E antes de
entrar,
compunha o laço da gravata, abotoava a sobrecasaca, segurava com elegância a
bengala, punha o chapéu alto junto ao peito. Entrava, e abria o sorriso:
- É com a agulha e a linha que vosmecê continua conversando, Sinhá Inácia?
Ela confirmava:
- Sozinha, neste casarão, Seu Major acha que eu vou viver calada?
Deus me livre. Se eu não falar, sufoco. Fico tonta. com falta de ar. Graças a
Deus,
passo o dia falando. E é por isso que estou viva.
Pobre Sinhá Inácia, de nádegas imensas, ombros estreitos, doceira como poucas,
querendo ajudar todo mundo. Já fazia três anos que jazia no chão da capela da
fazenda.
Ela própria,
201
ao sentir que o coração lhe doía, tirando-lhe o ar, reconheceu que ia morrer:
- Minha avó acabou assim, minha mãe também, e também minhas duas irmãs. Vou-me
embora para a fazenda. Ali nasci, ali quero acabar.
E dias depois, no trem que passava pelo Itapecuru ao meiodia, mandou-se para a
fazenda, levando consigo a bicharada.
Ao fim da ladeira da Rua Sol, já com a claridade do dia a cintilar no alto das
árvores do Largo do Carmo, o Felisberto Ventura puxou as rédeas da parelha,
diminuindo-lhe
a marcha, e perguntou ao Major:
- Pela Rua Formosa ou pela Rua da Palma?
- Pela Rua da Palma.
A carruagem atravessou a Praia Grande na claridade da manhã de estio, quando as
casas de comércio principiavam a descerrar as portas. com pouco começaria o
alarido
dos vendedores ambulantes, por entre o estrondo das carroças de carga.
No entanto, ao longo da Rua da Palma, a maioria das casas permanecia de janelas
fechadas. Longe, ressoava o dobre de um sino, talvez em São Pantaleão. E em
redor,
no silêncio compacto, o mesmo ar assustado do resto da cidade, nas rótulas
levemente entreabertas, no andar apressado dos raros transeuntes, no gato preto
que saltava
para a calçada fronteira, na ausência dos pregões matinais em redor da Casa da
Praça.
Adiante, na orla do cais, à margem do rio Bacanga, alguns barcos atracados, com
os mastros nus, imobilizados pela maré baixa nos cômoros das coroas de areia.
Dezenas
de urubus na cumeeira dos sobrados. E uma ou outra gaivota, de asas lentas,
voando por cima das águas serenas que o mar puxava para fora da barra.
À altura do Convento das Mercês, o Major avistou a Prudência numa das sacadas do
sobrado, fumando o seu cachimbo. Parecia feliz. Chupava a fumaça,' soprava-a
para
cima, com o lábio inferior espichado, os olhinhos radiantes. Tornava a chupar,
tornava a soprar, e ria baixinho, com a cabeça do cachimbo na concha da mão.
202
E foi assim que o Major a encontrou, entrando na sala. A velha, voltada para
ele, tornou a rir, soltou outra baforada. E de costas para a janela:
- Uai! - exclamou. - O senhor de novo por aqui? Pensei que tinha dado o fora.
Cadê Seu Major? Não pense que botou terra nos meus olhos. Não, não botou. Sou
muito
viva. Às vezes fico calada, parecendo esquecida. Já faz muitos anos que estou
observando. Se o senhor voltou ao sobrado com intenção de ficar aqui, depois do
enterro
de Dona Celeste, eu dou o fora neste minuto. Minha trouxa está arrumada na
varanda. Já tenho para onde ir. Um senhor, aqui mesmo da Rua da Palma, me leva
para o Asilo. Mil vezes o Asilo. com o senhor, aqui, eu não fico. Nem que me
peçam de joelhos. Não fui moça falada, quando era mais nova, não quero agora ser
velha
falada. Tinha graça.
E quando o Major lhe perguntou pela Miúra:
- Está no quarto dela. Ferrou no sono. Primeiro, gemeu que foi um horror, se
queixando de dor de cabeça, de dor nas costas, de dor no peito. Fui preparar um
chá
para ela. Quando voltei, Miúra estava dormindo. Dormindo como uma pedra.
No quarto, enquanto tirava a sobrecasaca, sentindo em seu redor o sobrado vazio,
o Major teve um pressentimento instantâneo, e atravessou depressa a varanda e o
corredor, para bater com força no quarto da Miúra, chamando por ela.
E a Prudência, que a distância o seguira:
- Chamar não adianta. Cansei de chamar.
O Major torceu a maçaneta, impeliu a porta para dentro do quarto, e deu com a
Miúra na rede, com os olhos vidrados, a boca entreaberta, o braço direito caído
para
fora. Segurou o braço frio, tateou-lhe o peito. E para a velha, que o olhava do
vão da porta:
- Miúra está morta, Prudência.
Prudência riu alto, mostrando as gengivas nuas. Depois rodopiou, repetindo a
risada. E rindo, e rodopiando:
- Eu cansei de dizer à Miúra que ela ia morrer primeiro do que eu. Ela se danou
comigo, me dizendo: "Pra lá com a tua boca, vaca velha." Agora, está aí a prova.
Mortinha da silva. E eu aqui, no meu bem-bom.
203
CAPÍTULO III
MAIS DE UM mês o Major empregou no preparo de seu ato final. A própria vida, com
a solidão à sua volta na casa deserta, sem um só amigo ou companheiro a quem
contar
o seu desespero, o impeliu ao remate extremo, que o ia libertar da angústia em
que se debatia. Dos amigos que o tinham visitado no seu centenário, nem um mais
restava:
estavam todos mortos. E nas duas ocasiões em que tinha procurado falar ao Dr.
Luna, para ver se podia abrir-se com o novo amigo, encontrara-o tão exausto das
noites
em claro, ainda às voltas com os derradeiros casos fatais da gripe espanhola,
que preferira nada dizer-lhe, ao vê-lo cabecear de sono, deixando cair ao chão a
bolinha
de naftalina. Sentia-se sem forças para continuar lutando. E lutar para quê?
Para continuar sozinho, a falar consigo próprio, caminhando à-toa pela cidade
estranha,
que apenas o via passar com seu chapéu alto e a sua bengala, indiferente às
aflições que o atormentavam no abandono do sobrado? Era demais. Tinha de acabar
com
aquilo. E Deus, com a sua infinita misericórdia, saberia perdoar-lhe o gesto de
desespero.
- Ele está vendo que não tenho outra saída. Estou cansado da vida e não faço
falta a ninguém.
Depois do insucesso da Ponta da Areia, com o rebojo da onda a devolvê-lo à
praia, não se lançaria mais ao mar. Desta vez iria matar-se sem possibilidade de
fracasso.
Antes de ir ao encontro da morte, tratou de pôr em ordem tudo quanto o ligava ao
mundo e à vida. Não queria deixar a perplexidade e a confusão, depois de seu
enterro.
Estivera no London Bank, e ali deixara dois envelopes lacrados, com esta
justificativa:
204
- vou passar uns tempos fora de São Luís. Talvez no Rio, talvez em Lisboa. Ainda
não me decidi. Sei apenas que vou viajar. E como a viagem é longa, quero ir
descansado.
Na minha idade, convém estar preparado para a morte. Se morrer na viagem, deixo
as recomendações fundamentais que devem ser cumpridas. Tenho um vago parente no
Rio,
com uma filha, e outro mais no interior de Minas Gerais. Da família é o que me
resta. Não me esqueci deles. Quanto aos meus inquilinos, não preciso dizer muita
coisa, porque é o Banco que, há muitos anos, se entende diretamente com eles. Só
desejo fazer uma recomendação. Não quero que os senhores os apertem neste
período.
A gripe desorientou muita gente. Quem pagar, pagou. Quem não pagar, pagará
depois. Um destes envelopes destina-se ao Senhor Bispo; o outro, ao Dr. Luna,
que o senhor
conhece. Também pode ocorrer que eu morra antes da viagem. E por que não? Também
já tomei as providências necessárias. E tanto numa hipótese quanto noutra, vim
também
aqui para apertarlhe a mão, muito reconhecido.
Mr. William, pouco inclinado a sentimentos, desta vez cedeu à emoção: além de
ficar vermelho, com o pescoço a crescer-lhe na volta do colarinho engomado,
sentiu
que não podia falar, e deu duas sacudidelas enérgicas no braço do Major, no
momento de apertar-lhe a mão. Por fim, conseguiu dizer:
- Muito obrigado, Major Taborda.
No começo do ano, na sua costumeira visita à sepultura da Caiu Malafaia, tivera
a boa surpresa de encontrar à venda o túmulo ao lado do túmulo de sua velha
amiga,
e esta parecia abrir-lhe mais o sorriso, no vistoso retrato esmaltado que lhe
adornava a lápide negra, em forma de medalhão.
E o velho, dando uma boa gorjeta ao coveiro:
- Era o que eu mais desejava, meu bom amigo. Não sei como lhe agradeça a boa
notícia.
E na mesma tarde, ao sair do Cemitério, já a sepultura estava paga, com a nova
lápide encomendada. Ao lado da Caiu Malafaia, esperaria assim o Dia do
Juízo. Do
outro lado, estava o Virgilinho. Todos juntos, como nas saudosas reuniões do
sobrado da Rua Formosa.
Mr. William, ao trazê-lo à porta do London Bank, fez-se mais vermelho, dizendo-
lhe:
205
- Ontem, esteve aqui o administrador do Cemitério. Pagamos a reforma da
sepultura que o senhor comprou. A lápide também está pronta. Ontem mesmo mandei
um funcionário
do Banco até lá, para ver se tudo está em ordem. Está.
O dia esplêndido, de muita luz, céu escampado, com urubus voando alto, avivou-
lhe o sentimento de melancolia com que olhava os sobrados, os mirantes, as
sacadas,
as fachadas lisas, o braço de ferro dos lampiões, sabendo que não voltaria a ver
tudo aquilo, assim que a noite fechasse.
Existiria mesmo uma outra vida? E mais uma vez lhe refluiu ao lume da
consciência a figura risonha da Caiu Malafaia:
- Hoje, tenho um assunto sério a tratar contigo. Esta madrugada, acordei o
Virgilinho para lhe fazer uma pergunta:
- "Me diz uma coisa, Virgilinho: e se o outro mundo, de que tanto se fala, for
mesmo este?" - Virgilinho se assustou. Pelo visto, tu também agora te
assustaste,
Ramiro. Estou falando sério. Não rias não, querido. Por que este mundo não seria
o outro? Pode ser. Pode. A gente, nesse caso, apenas viveria para conhecer as
maravilhas
de Deus; depois voltaria ao pó, e tudo se acabaria. Quando pensei nisso, assim
que acordei, não consegui mais dormir. Muito cedo, fui ver o dia nascer. Eu, que
sempre tomo o meu chá de erva-cidreira para dormir, deixei de tomar. Quero viver
muito, e de olhos acesos, para testemunhar a obra de Deus o mais que puder.
E o Major, olhando a luz desfazer-se sobre São Luís, travou as sobrancelhas, com
o coração apertado. A vida não seria unicamente um testemunho efêmero, que se
desfaria
com a morte. Não, não podia ser. Ou seria?
De volta ao sobrado, sabendo que não tinha sequer a companhia da velha
Prudência, que saíra de casa levando a sua trouxa de roupa e sempre a ameaçá-lo
de queixar-se
ao Chefe de Polícia, começou a preparar-se para o remate de seu destino. Se
houvesse uma outra vida, Deus lhe perdoaria o desespero. Não tinha culpa de
haver sido
esquecido pela morte. E não queria que a degradação e a loucura, viessem ao seu
encontro na derradeira volta do caminho. E alteando a voz:
- Não! Isso não!
Mais de uma hora andou a vagar pelo sobrado, entre a sala e a cozinha,
gesticulando, monologando. Parava defronte de
206
um quadro, de um móvel, de um retrato, de um vão de janela, e reprimia com
esforço o pranto que insistia em forçar-lhe as pálpebras. A pequena aquarela,
representando
um pedaço de rua londrina, com a torre pontuda de uma igreja por cima de um
telhado coberto de neve, deprimiu-o ainda mais, e ele voltou a lembrar-se de que
morara
naquela rua e era aquela a sua igreja.
Escurecia. A primeira viração da noite entrava pelo sobrado. E as plantas que a
Celeste regava todas as tardes, nos jarros de cerâmica enfileirados no peitoril
de
uma janela, agitaram as folhas ressecadas, como a implorar um pouco de água.
Ficou no ar um cheiro acre de mato calcinado, de mistura com o olor da maresia.
E enquanto
despontavam as primeiras estrelas, no céu ainda claro, um pirilarnpo atravessou
a varanda, para sair pela janela fronteira, deixando no espaço a repetida
cintilação
de sua luz azul.
Quando a noite fechou, o Major acendeu todas as luzes do sobrado e escancarou as
janelas sobre a Rua da Palma e o Largo do Desterro. A casa parecia em festa. Já
ele havia escrito uma carta ao Chefe de Polícia, explicando seu gesto: "Estou
só, e já vivi demais. Não tenho mais parentes nem amigos. Espero que Deus me
perdoe,
se não tive paciência para aguardar o seu chamado."
Depois, apoiando-se no corrimão da escada, desceu-lhe os dois lanços até a porta
da rua, puxou o trinco, deixou-a apenas encostada. Desse modo, quando os
vizinhos
a vissem entreaberta, já manhã alta, com as janelas da rua escancaradas e as
luzes do sobrado acesas, logo suspeitariam de que algo de anormal ali se
passara, e
não tardariam a subir até o escritório, onde o encontrariam pendente da escapula
da rede.
Temendo acovardar-se, voltou depressa ao escritório. com esforço, lutando para
reprimir o tremor das mãos, conseguiu armar o laço da corda, experimentou-lhe o
nó.
Parecia extremamente cansado, com as rugas do rosto bem cavadas, os vincos da
boca repuxando-a para baixo, a barba apontando em toda a volta do queixo - mas
conservava
no olhar um brilho resoluto, que mais se acentuou no momento em que retirou do
gancho de metal o punho da rede e ali amarrou a ponta da corda, com o laço
aberto.
Em seguida, empurrou para perto
207
do gancho a cadeira a que ia subir para enfiar a cabeça no laço e deixar cair o
corpo.
Sentia as pernas trêmulas, por vezes o sangue parecia refluir ao coração,
resfriando-lhe as mãos e os pés, ao mesmo tempo em que experimentava uma
sensação repentina
de vazio na cabeça. Descalçou os chinelos, trepou na cadeira. Tinha agora a
cabeça à altura do gancho, com o laço à sua espera. Mais uma vez temendo
fraquejar,
ajustou depressa a corda em redor do pescoço, sempre com as pernas e as mãos a
lhe tremerem, e num impulso, como quem se lança no espaço, soltou o corpo no ar,
impelindo para longe a cadeira com o arremesso dos pés.
De início a corda o sufocou, apertando-lhe o pescoço, e ele se debateu no ar,
sacudindo os pés, como em busca do apoio da cadeira, enquanto levava as mãos por
baixo
do queixo, na tentativa de se desvencilhar do laço que o apertava, por entre
ânsias de dor e asfixia. Seus dedos seguravam a corda, prestes a afrouxarem, e
seu rosto
se avermelhava, com o sangue preso pelo laço apertado, enquanto seus olhos se
exorbitavam, como se fossem saltar para fora do rosto.
O espelho da parede, inclinado para o chão, defronte do gancho da rede, parecia
ter sido pendurado ali para acompanhar todos os movimentos do velho - que
continuava
a agitar-se, com as mãos em garra tateando a corda acima da cabeça, os olhos
esbugalhados e a língua a lhe crescer dentro da boca.
Nisto a corda estalou, um palmo acima do laço, e o corpo do Major tombou
pesadamente no soalho. Um minuto ou dois o velho permaneceu caído, sem mudar de
posição,
respirando angustiadamente. Depois a respiração ofegante abrandou, e ele
levantou o olhar para a escapula da rede, de onde pendia o outro pedaço da
corda. Sempre
com os olhos muito abertos, afrouxou mais o laço, desvencilhando o pescoço
lacerado, que começava a sangrar. E ergueu de novo a vista, agora na direção do
espelho,
que lhe reproduzia o ar espantado e os movimentos. Teria forças para levantar-
se? Suas pernas não estariam quebradas? Não teria fraturado a bacia? Ainda
atordoado,
começou a apalpar-se. Teve a impressão de que estava inteiro, embora começassem
a doer-lhe os quadris e as costas, à altura da espinha. Num relance, olhando-se
no
espelho, sentiu-se ridículo. Enco-
208
lheu as pernas, procurou o apoio da parede, no esforço para ficar de pé. Afinal,
com os braços para trás, firmou-se no chão, conseguindo alcançar a cadeira, e
levantou-se
devagarinho, a apalpar as costas, reconhecendo que havia tombado pesadamente
sobre as nádegas e que ambas lhe doíam.
Ficou parado uns momentos, sempre a apoiar-se no espaldar da cadeira. Depois,
manquejando, com a mão esquerda na ilharga, ensaiou os primeiros passos. E foi
fechando
as janelas e apagando as luzes, fechando as janelas e apagando as luzes.
209
J
IX
Longe do mundo
CAPÍTULO I
ERAM MAIS de vinte cães a latir na ladeira da rampa, correndo na direção da
charrete, e esta vinha subindo, com um homem segurando as rédeas e outro ao seu
lado,
bem vestido, a pala do boné xadrez caindo para os olhos.
O Major, no alpendre da casa-grande, protegendo a vista com a mão por cima das
sobrancelhas, disse à menina loura que brincava perto do batente de pedra com
uma
bruxa de pano:
- Tininha, vá avisar sua mãe que está chegando uma visita. Pelo jeito, deve ser
gente de São Luís.
E enquanto a menina corria pelo corredor, sempre ouvindo o latido dos cães e o
tinido dos guizos do cavalo da charrete, o velho veio para perto do batente da
entrada,
ainda intrigado. Mas não tardou a reconhecer no charreteiro o Venâncio
OreIhinha, com seu chapeirão de carnaúba, a camisa fora das calças, e um sorriso
permanente,
que lhe abria dois sulcos verticais ao lado da boca e destoava do revólver de
cano longo que trazia na cintura, por baixo da camisa.
Foi ele quem disse ao velho, a poucos metros do alpendre, começando a puxar as
rédeas para encostar a charrete junto aos degraus da escadinha de pedra:
- Estou lhe trazendo uma visita, Seu Major. E foi o Prefeito que me mandou vir
aqui.
E ainda o Major olhava o outro homem, vestido num costume cinzento, com a camisa
esporte abrindo o colarinho por cima da gola do paletó, a pasta de couro sobre
os joelhos, o cabelo grisalho escorrendo por baixo da volta do boné, quando
0 desconhecido subiu ao alpendre, apresentando-se:
213
- Sou o João Cândido, Major.
E o velho, segurando-lhe a mão fina e bem tratada, a olhá-lo demoradamente nos
olhos claros:
- O foão Cândido, do London Bank? Mas isto é um prazer dobrado, meu bom amigo.
Pois ora viva! Seja bem-vindo a esta sua casa! Não imagina o prazer que me dá.
E continuando a olhar o outro, que também lhe sorria:
- Então é mesmo o João Cândido? Agora, me diga, com toda a franqueza. Veio me
visitar, como amigo? Ou está a serviço do Banco, para saber se é verdade que
continuo
vivo?
- As duas coisas, Major. As duas coisas. Mas o importante, para mim, não é a
segunda, de que eu não tinha dúvida; é a primeira, que me importa muito mais.
Afinal
de contas, já faz alguns anos que nos correspondemos, com uma carta que vem de
lá e outra que vai daqui. Mas conhecimento postal é uma coisa; conhecimento
pessoal,,
assim como estou vendo o senhor, e depois de ter a honra de apertar-lhe a mão, é
outra, bem diferente. Por isso aproveitei a dúvida do Banco, na hora em que
recebemos
uma boa proposta para a venda de um terreno do senhor no Tirirical, ao lado do
aeroporto, e vim até aqui
- tanto para lhe apresentar a proposta do Governo, quanto para ter a alegria e a
honra de conhecer o mais antigo cliente do meu Banco.
O velho ofereceu-lhe a cadeira de vime, perto da rede do alpendre:
- Faça favor de sentar, João Cândido.
E ao ver a Tininha de volta, de calcinha suja de terra, nua da cintura para
cirna, chamou-a:
- Vem cá, vem. Vem apertar a mão do moço, que é meu amigo. Mas vai pôr um
vestidinho. com tua idade, já não deves andar assim, diante das visitas. E diz
à tua
mãe que este moço janta comigo.
E para o João Cândido, que louvava a beleza da menina:
- É a filha mais nova de minha caseira. A mãe é morena, e ela, quando nasceu,
era uma espiga de milho, lourinha, lourinha. Agora, está queimada de sol, mas
tem aqueles
olhos azuis, como se fosse filha de inglês ou de alemão. Muito viva. Já está
lendo tudo. E não se mistura com os outros agregados. De manhã, corre para cá,
fugindo
da casa da mãe, na beira do rio.
214
E às vezes dorme aqui, se está chovendo. Não incomoda: é calada, quase não se
ouve a voz dela. Gosta de ficar num canto, com aquela bruxa de pano, ou sentada
à
mesa da varanda, folheando as revistas que mando vir de São Luís todas as
semanas.
João Cândido alongou o olhar para o interior da casa-grande, depois para um
trecho do quintal, e reparou na capelinha minúscula, alteando-se na crista de um
cômoro,
com seu galo de metal na fachada e seu cruzeiro de pedra:
- Por aí fora, não se tem uma idéia do que é a sua fazenda, Major. Um primor de
casa. E tudo em ordem. Até as árvores parecem arrumadas. Chão varrido. Tudo
limpo.
Mas tive medo desses cães, quando os vi correndo para a charrete. Só fiquei
tranqüilo quando o senhor gritou daqui de cima, e eles pararam de latir.
E demorando o olhar no velho, que se sentara na mureta do alpendre, de costas
para a rampa, reluzindo na claridade alta da tarde o seu paletó de alpaca:
- O senhor está ótimo, Major.
O velho entrelaçou as mãos no cabo da bengala:
- Eu, por mim, vou vivendo como Deus é servido. Vim para cá há quase trinta
anos, pensando que não demoraria a ser enterrado no chão daquela capelinha. E
ainda continuo
aqui em cima da terra, à espera do chamado de Deus. Em 1931, ou
32, fui a São Luís, pensando em passar um mês no meu sobrado do Largo do
Desterro. Regressei para cá no dia seguinte. Sabe por quê? Andei por toda a
cidade e não
encontrei ninguém do meu tempo. Na minha rua, meus vizinhos eram outros. O bar
onde eu entrava para comprar o meu cigarro e tomar a minha gengibirra tinha
outro
dono, que não sabia quem eu era. Uma parte do meu sobrado tinha caído.
O João Cândido atalhou:
- Mas está restaurado, de acordo com as suas instruções. Praticamente ficou
reduzido à metade. A outra parte foi transformada em porta e janela,
aproveitando-se
as paredes antigas.
E o Major, continuando:
-- O amigo me disse isso, numa de suas cartas. E eu agradeci, em tempo, o zelo
do London Bank. Nesse tempo, já o
215
antigo gerente, Mr. William, tinha voltado para a Inglaterra.
Tem notícias dele?
- Já morreu.
- E foi substituído por Mr. Brown - acrescentou o Major. E o João Cândido, no
impulso da novidade:
- Também voltou para Londres, e também já faleceu.
O velho retraiu a cabeça, dando mais luz aos olhos aumentados, de frente para o
João Cândido:
- Já morreu, já morreu, já morreu. É só o que ouço, de uns tempos para cá. Os
amigos a quem deixei duas cartas com Mr. William, para o caso de eu vir a
falecer,
também já morreram? Aqui mesmo na fazenda, ouço também o mesmo estribilho. Já
morreu. Já morreu. Felícia, onde anda teu marido? Já morreu, Seu Major. E teu
compadre
Augusto? Já morreu. Venâncio, cadê teu filho mais velho? Já morreu, Seu Major.
Até parece que as pessoas à minha volta não têm outra coisa para me dizer. Já
morreu,
já morreu.
E voltando-se para a Tininha, que tornara ao alpendre, num vestidinho azul, com
uma fita a apanhar-lhe os cabelos para trás, à altura da nuca:
- Onde anda teu pai, Tininha?
- Já morreu.
- E teu tio Augusto?
- Já morreu.
E o velho, para o João Cândido, que abrira o sorriso:
- Está vendo? Até a Tininha me diz a mesma coisa. Ali as cabras, quando berram,
me dizem também: - Morreeeeu.
- É verdade, meu caro amigo. Só eu continuo vivo. E por quê? Não sei. Posso-lhe
assegurar que Deus não me quer. Minha vida é como esses velhos folhetins, que
antigamente
os jornais publicavam em rodapé: todos os dias têm um continua. Sou um folhetim
de Deus.
E riu alto, deliciado com as próprias palavras. Depois, levantando-se, segurou o
outro pelo braço:
- Venha comigo. Quero mostrar-lhe a casa. Eu, quando aqui cheguei, decidi
dar ordem a isto, para ter em que me ocupar. Lá embaixo, por trás daquele
juçaral,
corre um rio largo; ali adiante, um riacho. Na descida, no sentido do rio, estão
as casas de meus agregados. Agregado é um modo de
216
dizer. É como se fossem a minha família. Pretos que ficaram aqui, depois da
Abolição. Brancos que vieram para cá, atraídos pelo padrão de vida que dou aos
que trabalham
na fazenda. No correr do tempo, pretos e brancos se misturaram, e raros são os
pretos puros, como esse que vai ali, de enxada no ombro, assobiando. Ouço choro
de
criança nova, mas também ouço choro de enterro. Ainda bem que, de noite, há
batuques e danças naquele terreiro, defronte da antiga senzala. Deste lado,
adiante da
orla de buritizeiros, é o canavial, que se derrama por ali afora, acompanhando
as voltas do rio. Do outro lado, é a lavoura de algodão. Nos alagados, são as
roças
de arroz. A terra é ótima, e dá o que se planta. Tenho ali o engenho; ao lado, a
casa de farinha. O gado anda solto e pasta longe daqui, para os lados da
cabeceira
do rio, em terras que também me pertencem.
E voltando-se para o interior da casa:
- Quando aqui cheguei, isto era um pardieiro. Até os porcos andavam
pela varanda, fuçando. Mudei telhado, consertei paredes, caiei tudo, e
providenciei
móveis adequados, que andei comprando aqui mesmo pelo sertão, nas velhas casas
de fazenda. Veja aqui meu escritório. Já não há mais espaço para livros.
Felizmente,
nesta altura da vida, ainda leio sem óculos. Leio muito, principalmente os
velhos livros de minha juventude. Muita coisa fiz vir diretamente da Inglaterra.
Deus
tira o sono aos velhos para nos aumentar a vida. De noite, se não fico a me
embalar na rede, esperando o sono chegar, varo as horas com um livro na mão. Não
sei
o que seria de mim sem estes livros. O Ramos de Almeida, em São Luís, tem ordem
de me mandar os livros novos, de meu interesse. Mas prefiro as coisas antigas.
Estão
mais perto de mim. Sou do começo do outro século.
Mostrou a lâmpada que pendia do teto:
- Está vendo? Até luz elétrica eu tenho. Fiz vir um gerador, que me fornece
energia para iluminar a casa e fazer funcionar aquele rádio inglês, com que ouço
até
a BBC. No tempo da guerra, acompanhei por ele a batalha da Inglaterra. Por esse
tempo, quase abandonei os livros: vivia junto do rádio, dia e noite, a ouvir as
notícias das frentes de batalha. E aqui neste fim de mundo, ao pé do rádio,
ouvindo as transmissões de
217
Pernambuco, do Rio e de São Paulo, vibrei com as vitórias dos nossos pracinhas,
na campanha da Itália. E eu sou do tempo da guerra com o Paraguai, meu bom
amigo.
E também da Balaiada, aqui no Maranhão. E estava em Paris, por ocasião da
Comuna. Sim senhor. É o que estou lhe dizendo. O senhor tem razão em ficar de
boca aberta,
me olhando com ar de espanto. Eu, quando me olho no espelho, também fico assim
de olhos arregalados. Sou eu mesmo que estou aqui? Ou não passarei de um
fantasma?
Estou vivo? Ou já morri?
E quando tornaram ao alpendre, com a luz da tarde esmorecendo por cima das
árvores mais altas, o velho indagou ao João Cândido, antes de lhe oferecer
novamente
a cadeira de vime:
- É mesmo verdade que o Presidente Vargas foi deposto? E o senhor não acha que
isso foi um erro? Eu, no lugar dele, tinha ido para São Borja, antes que me
mandassem
embora. Eu me vou, em vez de eu me vá. Para mim, é a regra. Mas eu sou eu, como
o senhor é o senhor. Faça o favor de sentar.
Ele próprio mudou de assunto:
- E as minhas apólices? E o dinheiro empregado em Londres? E os meus aluguéis? O
último relatório que recebi do Banco já tem dois meses. De lá para cá houve
alguma
mudança?
Muito pouca, Major. Mas tenho boas notícias a lhe dar,
quanto às cinco sepulturas do Cemitério do Gavião. Estão todas restauradas: a de
sua mulher com seu filho; a de seu genro com sua filha; a de seus pais; a que
está vazia, com seu nome, e a grande, de mármore preto, com o retrato de uma
senhora no medalhão esmaltado.
- A da Caiu Malafaia - adiantou o velho.
- Essa mesma. Pois saiba o senhor que cortamos uma volta para encontrar quem
restaurasse o medalhão. Afinal, o fotógrafo Pantoja, que é também nosso cliente,
concordou
em fazer o serviço, e o trabalho saiu perfeito.
A tarde começava a escurecer. Os primeiros pirilampos reluziam nas sombras que
iam
baixando. Os cães, quietos em volta da casa, já não latiam. E o chiado distante
de um carro de bois, que vinha vindo pelo caminho do canavial, como que se
ajustava à claridade que se desfazia.
E o João Cândido, maravilhado:
218
- Nada como este silêncio, esta paz - comentou.
- Bem se vê que o meu amigo é moço. Na minha idade, esta paz quer dizer solidão.
E a solidão deprime os velhos. Prefiro o ruído a minha volta.
Uma cabocla alta, de meia-idade, com uma flor vermelha no cabelo grisalho
apanhado para trás, entrou no alpendre com um candeeiro aceso, descalça, e em
silêncio
o pendurou na parede.
- É a Sinhá Libânia, minha caseira - esclareceu o velho, assim que ela
desapareceu no corredor. - Mãe da menina. Apareceu aqui numa leva de retirantes,
trazida pela
seca de 1920 ou 22. Hoje já não é o que era. O tempo estraga tudo, meu bom
amigo. O tempo, nosso inimigo. Às vezes, também, nosso aliado.
E ora como aliado, ora como inimigo, rodou o tempo, um ano sucedeu a outro ano,
com outros nascimentos, outras mortes, novos verões passaram, passaram novos
invernos,
e só o Major permanecia magro e rijo, de cabeça branca, de bigode branco, vendo
crescer a Tininha, vendo a Sinhá Libânia envelhecer, e sempre de mão firme e
vista
clara, sem precisar de óculos para ler e dispensando a bengala para andar pela
casa.
E uma tarde, depois de ler a correspondência que chegara de São Luís, o Major
perguntou à Sinhá Libânia, que ia começando a pôr a mesa para o jantar:
- Você se lembra de um senhor de cabeça grisalha, que veio aqui na charrete
do Venâncio Orelhinha e passou na fazenda uma semana, em vez de voltar
no
dia seguinte?
Sinhá Libânia deixou os olhos no ar, depois os fixou nos olhos do Major:
- Moreno, cheio de corpo? Sim, estou me lembrando. Veio de São Luís, mandado
pelo Banco. Seu João Cândido?
- Esse mesmo - confirmou o velho.
E dobrando a carta para recolhê-la ao envelope:
- Já morreu, Sinhá Libânia. De repente, no próprio Banco. Moço. Quase um
menino. Tinha acabado de fazer cinqüenta anos. :.i
219
CAPÍTULO II
EMBORA já houvesse passado a época das grandes chuvas, estas continuavam caindo
pelo sertão, com o céu perenemente cinzento, as aves assustadas, os cães
retraídos
para o alpendre, e aquele enxame teimoso de mariposas rodeando a manga do vidro
dos candeeiros, mal a noite caía, cortada pelo farfalhar dos ramos e das palmas
na
ventania enfurecida. Em agosto, nunca isso havia acontecido.
Ainda bem que o engenheiro eletricista, que tinha vindo de Caxias para consertar
o gerador, conseguira pô-lo em ordem; porém o mau tempo constante interferia na
corrente elétrica, obrigando Sinhá Libânia a valer-se, mais uma vez, dos velhos
candeeiros, para iluminar a casa. O pior eram os estalos e ruídos no rádio do
escritório,
atrapalhando as transmissões: no melhor de um programa de música ou de um
noticiário importante, o aparelho entrava a crepitar, por entre estalidos altos,
e a música
ou a voz do locutor se perdia, abafada pelas descargas repetidas.
O outro rádio, ainda novo, mandado vir de São Paulo, por avião, não chegara a
funcionar, a despeito das válvulas acesas e da imensa antena que se perfilava
numa
das extremidades da cumeeira da casa-grande, a dois passos do pára-raios. O que
obrigou o Major a voltar ao velho rádio inglês, grande, pesado, em forma de
ogiva,
que já havia aposentado. Ligou-o, já noite alta, e logo reconheceu que, ali na
fazenda, eram os mais velhos que gozavam de melhor saúde: aquele rádio e
ele. . .
Na festa dos dezesseis anos da Tininha - que nesse dia ficou noiva do Bibiano
Cearense, viúvo de outra filha de Sinhá Libânia - o velho não saiu de seu
escritório,
fechado a chave,
220
sempre junto ao rádio, a tentar ouvir as transmissões do Rio, de São Paulo ou de
Pernambuco, por entre as descargas do mau tempo. E foi pelo noticiário de
Londres,
já depois da meianoite, que ouviu a confirmação do suicídio do Presidente
Vargas. Pôs-se a dizer, atarantado:
- Será possível? É mesmo verdade? Agora só falta ouvir também que o Papa se
matou.
E ficou a olhar o aparelho, com as mãos trêmulas nos joelhos, sem saber o que
pensar de um mundo estranho e maluco em que até os Presidentes de República
metiam
uma bala no coração. Passados uns momentos, levantou-se, tomou um pouco de água
para diluir a emoção violenta, e decidiu sair à varanda, para cumprimentar os
noivos.
Já o resto da casa estava às escuras. Ninguém mais ali. Riscou um fósforo,
erguendo a chama acima da cabeça, e viu que nada restava da farta mesa de doces
e salgados,
a não ser os pratos por lavar e as compoteiras vazias. Fora, o mau tempo
prosseguia, com a chuva a descer dos beirais em fios longos; o vento torcia as
árvores
e sacudia as moitas do juçaral, na claridade dos relâmpagos.
Devia estar chovendo em toda a redondeza, no rumo do sertão. O rio Itapecuru,
avolumado, roncava em corredeira barrenta, misturando ao estrondo dos trovões o
ruído
constante das águas crescidas. O terreno em volta da casa era um lençol de
enxurrada. E como as rajadas da ventania derrubavam palmas e ramos, numa fúria
cega, repetiam-se
os baques dos galhos caídos, como se as árvores e as palmeiras da fazenda
estivessem a ser destroçadas pela tempestade. O Major não se lembrava de uma
chuva igual.
E voltando ao escritório, cerrou a porta, experimentou o ferrolho das janelas:
- Até a natureza ficou maluca. Não estou entendendo mais nada. Agora, sim, é o
fim do mundo.
Pela manhã, ainda continuava chovendo. Sinhá Libânia, ao tentar alcançar a casa-
grande, quase havia sido levada pela enxurrada. E assim que conseguiu chegar ao
alpendre,
onde o Major a esperava com apreensão e impaciência, tratou de desabafar,
nervosa, torcendo a barra do vestido, que lhe escorria pelo corpo molhado:
221
- Só vim para não deixar o senhor me esperando. Mas só eu sei as voltas que tive
de dar para chegar até aqui, com este aguaceiro. E não é que, com toda esta
chuva,
o maluco do Bibiano, que ontem ficou noivo, selou o cavalo e se atirou para
Pirapemas, dizendo que tem lá um negócio que não pode perder? A pobre da
Tininha, coitada,
ficou lá em casa a se agarrar com Santo Onofre e São Damião, para que nada
aconteça com aquele maluco. O senhor já viu uma coisa dessas, Seu Major? Ontem,
noivo,
aqui na sua casa; hoje, com este temporal, em cima de um cavalo, galopando. Não
é para a noiva perder a paciência? Eu, que tive a experiência de meu finado
marido,
estou com o coração me martelando dentro do peito, como se uma coisa ruim fosse
acontecer. Nem quero pensar.
E pelo fim da tarde, com uma luz alvacenta querendo escurecer, Sinhá Libânia
voltou a descer os degraus do alpendre, para enfrentar de novo o mau tempo,
depois
de dizer ao Major, que lhe recomendava cuidado com a força das águas:
- Não posso ficar aqui não, Seu Major. A Tininha está me esperando. Ela prometeu
que vinha aqui de tarde me buscar, assim que a chuva passasse, e não veio: estou
preocupada.
E o velho, debaixo do boné de pano que lhe protegia a cabeça:
- Estou cansado de dizer à senhora que venha para cá com a Tininha. Quarto é que
não falta. Que lhe custa morar aqui? Convença a Tininha. A Tininha
cresceu
aqui, Sinhá Libânia.
Sinhá Libânia parou no segundo degrau, preparando-se para abrir o guarda-chuva:
- E a língua do povo, Seu Major? Toda gente, aqui, é minha amiga, me faz muita
festa, está sempre me agradando, a me chamar de Sinhá Libânia pra cá, Sinhá
Libânia
pra lá; mas todo mundo tem inveja de mim. Vão falar de mim com o senhor, Seu
Major.
O velho se pôs a rir:
- De mim, nesta idade, Sinhá Libânia?
- E o senhor pensa que ainda hoje não se fala no chamego de Seu Major com Sinhá
Inácia, a quem Deus tenha na sua santa paz? Pois fala, Seu Major. Fique o senhor
sabendo que
222
fala. Fala. É melhor prevenir que remediar. O senhor na sua casa e eu
na minha.
E nisto ambos ficaram sérios, olhando na direção da capela, por onde um cavalo
castanho vinha vindo a galope, com ar assustado, a chapinhar na enxurrada cor de
terra.
- É o cavalo do Bibiano, Seu Major - reconheceu Sinhá Libânia, alarmada. -
Valha-me Deus! Minha Nossa Senhora!
- É ele, sim - confirmou o velho.
E ainda falava, olhando o cavalo que se aproximava, quando Sinhá Libânia começou
a enfrentar mais uma vez o aguaceiro, tentando segurar com força o guarda-chuva
que uma pancada da ventania queria tomar-lhe das mãos aflitas.
223
CAPÍTULO III
No ALPENDRE molhado, à primeira claridade do dia fosco, o Major parou no batente
da porta, ao fim do corredor, e alarmou-se com o rio a galgar o aclive da rampa,
grosso, barrento, alastrado de folhas, ramos e gravetos, a poucos metros da
casa-grande.
A correnteza já se estendia ao pé das árvores, cobrindo-lhes as raízes nuas, e
ia subindo, tronco acima, a um palmo do chão, na parte baixa do terreno. A chuva
caía
sempre, ora branda, ora mais intensa, despencando do céu plúmbeo em cordas
verticais que o vento inclinava. Para o lado em que as terras resvalavam em
depressão
mais profunda, com o verde da mata cobrindo fossos e resvaladios, tinha-se a
impressão de que tudo ali agora era mangue denso aflorado no charco. Os galhos
bracejavam,
sacudidos pela força das águas. Longe, no sentido do rio, só se viam os leques
das palmeiras.
E à medida que o lençol d'água crescia, a bicharada buscava as terras altas,
desentocando-se das luras e abrigos, e eram lagartos, cobras, gambás, pacas,
tatus,
mucuras, ao mesmo tempo em que os animais da fazenda também subiam, deixando os
currais, os chiqueiros e a cavalariça, mugindo, zurrando, balindo, como a
interrogarem
o Major e os agregados sobre a subversão da natureza. Que significava tudo
aquilo? E os porcos eram os mais nervosos, berrando, gritando, com o rabinho
aflito,
os olhinhos levantados.
O Major voltou pelo corredor comprido, saiu na varanda, e dali abrangeu com o
olhar inquieto o outro lado do terreno, por onde as águas vinham também
avançando
e subindo, a fechar o cerco à casa-grande. Lá adiante, na depressão do
224
terreno, o bananal erguia as largas folhas para o alto, à feição de braços de
afogados. E essa impressão se acentuava com o sopro constante do vento que as
fustigava:
as bananeiras menores tinham desaparecido, só as mais altas ainda resistiam,
dilaceradas pelas rajadas sucessivas.
O Mané Quirino, com uma estopa na cintura, o dorso nu, as mãos nas axilas, saiu
por trás da casa, com o chapéu de carnaúba a lhe esconder a gaforinha branca:
- Eh, eh, Seu Major, a coisa está ficando preta - disse o negro velho,
descobrindo-se. - É água por todo lado. Eu quis sair, para ajudar os amigos lá
embaixo, mas
a correnteza não deixou: me puxou com força, e quase me leva. Minha sorte é que
eu me agarrei naquela jaqueira, e nadei para cá com quantas forças tinha. Não
sei
como escapei.
E com o braço estendido, sob o abrigo do beiral:
- Olhe acolá, Seu Major.
Um bacurizeiro esguio, que dominava as outras árvores na direção do igarapé da
Paciência, parecia oscilar, como o mastro de um navio, e não era apenas o vento
que
o sacudia: por baixo do lençol d'água, suas raízes se desprendiam da terra
molhada, e ele ia se curvando, sempre castigado pela ventania, até que a
oscilação aumentou,
e o tronco infletiu, completando a curva, para cair por cima de uma jaqueira. A
água saltou, espadanando-se, e toda a galharia verde flutuou, ainda presa pelas
raízes
mais profundas, enquanto um macaco saltava, tentando salvar-se.
E o Mané Quirino:
- Eu bem que disse à Sinhá Libânia que ficasse por aqui, ontem de noite. Ela
teimou comigo. Que tinha de ver a Tininha. E também a filha casada, e mais os
netos,
e o genro. Agora, coitada, deve estar cortando uma volta, se é que não desceu
com a enxurrrada para o meio do rio. Naquelas bandas, a coisa deve estar feia.
O
terreno é baixo, cercado de barrancos. Olhe a bicharada subindo. Nasci e me
criei aqui e nunca vi um despropósito igual. Parece o dilúvio, Seu Major. E o
pior é
que, pelo jeito, não vai parar de chover. Veja como o céu está escuro, para o
lado do nascente.
Não eram apenas os bichos que se aproximavam em busca do abrigo da casa-grande:
vinham também o Sipaúba, com uma
225
filhinha nos braços, e o Corta-Orelha, e o Afonso Mulato, e o Neco, e a
Benedita, e o Totó Perereca, e o Nhozinho da Candoca, e a própria Candoca, que
boiava na
correnteza, gorda como um balão. O Militão Marceneiro, que só tinha um braço,
apoiava-se numa vara comprida, seguido pelo filho mais novo, que bracejava no
rebojo
das águas, tratando de esquivar-se de uma jibóia imensa.
Da casa de farinha, por trás do engenho, só restava o telhado. E ali no alto, na
agulha da cumeeira, refugiara-se a família do João Sabino: ele, a mulher, as
quatro
filhas, a sogra, e ainda uma cabra, que não tardou a resvalar pela inclinação
das telhas, desaparecendo na água barrenta.
A casa do engenho, já em parte destelhada pelas rajadas da ventania, mostrava
parte da moenda através do vão da janela desmantelada que não cessava de bater.
Ao
lume d'água boiavam os bagaços da cana, e sobre eles mais de um bicho se
equilibrava, sobretudo ratos e lagartixas.
O Major, que desaparecera da varanda por alguns momentos, voltava agora de botas
altas, casaco de couro, chapéu de couro. Mas o
Mané Quirino não o deixou passar
do batente da porta:
- Que é que o senhor vai fazer, Major? E o velho, decidido:
- Ajudar os outros - replicou, de pé no batente.
- Um momento, Major. Não faça isso. Deixe a ajuda conosco. Não se molhe nessa
idade. Fique aqui mesmo dando ordens. No meio da água, a correnteza leva o
senhor.
E o Mané Quirino, acompanhado pelo Afonso Mulato, o Totó Perereca e o Nhozinho
da Candoca, com a linha d'água à altura do pescoço, iam dando a mão aos
companheiros
que se debatiam no rebojo da torrente, debaixo de novas pancadas de chuva.
Passou a manhã, depois a tarde escura, por fim a noite, e sempre a água a
aproximar-se da casa-grande. Como a enxurrada tinha invadido a casa de força,
toda a iluminação
da casagrande eram agora os velhos contraventos enfumaçados nos ganchos das
paredes, espalhando em volta um clarão vermelho.
Foi preciso fechar com firmeza a varanda para evitar que os bichos a invadissem.
Mas, do lado do alpendre, de repente, um boi conseguiu saltar para dentro da
mureta,
e já ali estavam porcos e cabras, por entre os cães assustados, que tinham
deixado de latir.
Na claridade dos contraventos só se distinguiam silhuetas esbatidas, que se
tinham acomodado como podiam, em cima da mesa de jantar, nas cadeiras, no
peitoril das
janelas. De vez em quando, no intervalo das estiadas, assim que o sibilo do
vento abrandava, ouviam-se gritos de desespero, pedidos de socorro. O clarão dos
relâmpagos,
abrindo-se de repente, mostrava o medo e o espanto nos semblantes parados, que
olhavam a noite escura. O rumor da correnteza solta havia crescido, e era agora
um
ruído cavo, constante, que parecia crescer a cada momento, dando a impressão de
que o mundo inteiro ia sendo arrastado pela fúria do temporal. Logo os trovões
estrondavam,
ora por cima da casa-grande, ora para os lados do rio, e tudo ali estremecia,
sacudido pelo raios que tinham estalado longe, esbraseando uma palma, um galho,
um
tronco, no incêndio repentino que a chuvarada se encarregava de apagar.
A Candoca, ajoelhada numa das pontas da varanda, com o rosário nas mãos
suplicantes, insistia, apavorada, por entre as orações repetidas:
- É o fim do mundo. Agora não há mais salvação.
E voltava ao padre-nosso, à salve-rainha, à ave-maria, batendo no peito,
apelando para a misericórdia divina, contando alto os seus pecados:
- Sou uma pobre pecadora, reconheço. Não devia ter feito o que fiz, meu Jesus.
Perdoai-me. Menti, levantei falso testemunho, sei que não valho nada. Mas estou
aqui
de joelhos, arrependida de meus pecados. Perdoai-me, pelas bentas chagas.
E foi ela quem avisou, levantando-se, no começo da madrugada, sempre a ouvir a
chuva caindo:
- A água está invadindo a varanda. Agora vai tudo. Ai, meu Deus! Ai, meu Cristo!
Ai, minha Nossa Senhora! Que é que vai ser de mim, de meu marido, de meus
filhos?
Seu Major, nos acuda!
Porém o velho, que se mantivera acordado, imediatamente saltou, procurando
sustar-lhe o pânico, numa voz enérgica:
- E adiantam alguma coisa esses seus gritos? Cale-se. Todos nós estamos correndo
o mesmo risco.
226
227
- Mas o senhor já viveu muito, Major. E eu ainda preciso viver. Eu tenho meu
marido. Eu tenho meus bichos. E a água vai levando tudo. Ai, minha Nossa
Senhora! Ai,
meu São José de Ribamar!
Foi preciso o velho ameaçá-la:
- Ou você se cala ou vai embora daqui!
Só então o marido acudiu para conter o desespero da mulher, que ia de um lado
para outro, chapinhando a água do chão:
- Espera. Tem paciência. Seu Major tem razão. Cala essa boca. Chega de lamúria.
Gritar não adianta.
Na claridade escassa do contravento que ainda permanecia aceso, pendente da
parede da varanda, as silhuetas se iam gradativamente esbatendo, como se as
sombras fossem
apagá-las, enquanto o lençol d'água crescia dentro da casa-grande, querendo
afogá-las.
O Major, com as pernas começando a pesar-lhe, tinha-se sentado numa cadeira de
braços, no batente da porta do corredor, e dali acompanhava, pela lucilação dos
relâmpagos,
a destruição do mundo à sua volta. Iria morrer ali, com os agregados que lhe
restavam? Ou sobreviveria àquele dilúvio? E como permanecia atento, ouvindo
gritos
de socorro nos silêncios espaçados, de repente se levantou, vendo de volta o
Mané Quirino, a trazer nos ombros a Tininha, que parecia morta ou desacordada.
228
CAPÍTULO IV
O MAJOR firmou os olhos intrigados na Tininha, que havia baixado as pálpebras,
torcendo as mãos, de pé à sua frente:
- E por que essa pressa em ir embora daqui?
- Se eu ficar, me mato, Seu Major. Já lhe disse: me mato. Me mato - repetiu,
resoluta.
Sentado à cabeceira da mesa, ele a observou em silêncio. E ao ver a Tininha
curvar-se sobre a palma das mãos, numa explosão de choro:
- Eu não lhe disse que não a levo. Só lhe pedi que esperasse um pouco. Por que
essa pressa? Tudo tem a sua hora. Não há desespero que resista ao tempo.
Aqui,
você ainda tem sua irmã, seu cunhados, seus sobrinhos; todo mundo a conhece.
Em São Luís, não tem ninguém, a não ser eu. Mas eu sou um velho, posso morrer de
uma hora para outra. Aliás, já devia ter morrido; nem sei mesmo o que ainda
estou fazendo neste mundo. Chegou a sua vez de enfrentar a vida. Tenha calma.
E como a Tininha redobrasse o choro, sempre com as mãos no rosto, levantou-se,
fê-la sentar noutra cadeira da mesa. E voltando a ocupar a cabeceira:
- Quando você chegou aqui, trazida pelo Mané Quirino, só falava em morrer. Que
não podia viver sem seu noivo nem sua mãe. E pôde. Felizmente achamos o corpo de
Sinhá
Libânia e o enterramos na capela, como se fosse de minha família. Não achamos
seu noivo; mas noivo, na sua idade, e assim bonita, não lhe faltará, aqui mesmo
na
fazenda. Estou lhe pedindo: pare de chorar. Não quero fazer com você o que fiz
com a Candoca, quando entrou a berrar, na hora em que tivemos de passar para a
capela,
com a água da enxurrada a nos dar na
229
cintura, e eu fui obrigado a gritar com ela. Ainda bem que ela acabou se
calando, e ainda nos ajudou a consolar você. O velho riu baixinho, com as mãos
em cima
da mesa:
- Estou me lembrando que tivemos de vestir você com uma de minhas camisas
porque não havia um só vestido, aqui na casa-grande. E a camisa que se achou na
gaveta
da cômoda, ainda não atingida pelas águas, tinha peito frisado e colarinho duro.
Não foi assim que você entrou na capela, segurando no meu braço, já com o dia
amanhecendo?
Nunca mais me esquecerei disso. Enxugue esses olhos, Tininha. Estou-lhe pedindo,
mais uma vez.
Após semanas inteiras de chuva e névoa carregada, o sol rutilava nas árvores,
refletia-se na água das lagoas e dos charcos, excitava o canto dos bem-te-vis.
Mas
essa luz vespertina, que revivificava a natureza, dando mais viço às folhas
tenras, exibia na claridade plena a devastação da cheia, com as árvores
tombadas, os
socavões escancarados, as casas destelhadas ou destruídas, as cercas tombadas, o
barro grudado às máquinas, às paredes, às árvores sobreviventes. Do canavial
cerrado,
que ondulava nos cômoros e nas grotas, avançando na direção do rio, só restava o
chão revolvido.
Nas primeiras horas de estiagem, logo que as águas principiaram a baixar,
retraindo-se para o leito do Itapecuru, o Major havia descido à casa-grande,
ainda chapinhando
na enxurrada, seguido pelo Mané Quirino e pelo Sipaúba. Os três ficaram parados
ao meio da rampa, olhando a fazenda devastada, com os bichos mortos, alguns bois
mugindo, os corpos que iam afluindo na correnteza que se retraía. Parte da mata,
no sopé da ladeira, tornava a aparecer, depois de submersa durante tantos dias.
E mostrava os galhos quebrados, as folhas murchas, os ramos sujos de barro. De
vez em quando o vento voltava a soprar, como a querer ajudar na limpeza dos
escombros;
mas não tardava a parar, como se as forças lhe faltassem, e só ficava um leve
arrepio ao lume do lençol de água cor de terra.
O Sipaúba não se conteve:
- Dá vontade de chorar, Major. Vai levar muitos anos para consertar o que
a chuva estragou em poucos dias. Olhe
230
lá embaixo o que restou de minha casa: a parede da frente, com as janelas
arrancadas. Perdi tudo, Major.
Mas foi somente pelo meio da tarde, quando pôde entrar na casa-grande, que o
Major sentiu que seus olhos se umedeciam. Estacou na soleira da sala de visitas
- ampla,
com a marquesa de palhinha, os cadeirões altos, os consolos, os espelhos na
parede - e só viu a terra enlameando tudo, com um porco apodrecendo ao lado da
marquesa.
As janelas de guilhotina, com as rótulas arrancadas dos caixilhos, tinham um ar
de órbitas vazias. Uma cobra, ainda viva, enroscava-se na perna de um consolo,
cujo
adorno central - um belo jarro chinês, que vinha do século XVIII - jazia em
pedaços, na lama do chão.
Enquanto o Sipaúba matava a cobra, o Major atravessou a alcova, pisando no chão
molhado, a olhar de passagem os destroços da cama de jacarandá e do guarda-
roupa,
e parou no limiar do escritório. As duas altas estantes de carvalho, onde se
enfileiravam os clássicos portugueses nas edições rolandianas, guardavam apenas
blocos
úmidos de papel velho compactado. Abriu uma delas, e o fio de água resvalou pela
inclinação da prateleira. Logo reconheceu, de coração apertado, com os olhos
cheios
de água:
- Daqui não se salva nada.
Um cheiro de bafio e mofo alastrava-se por todo o aposento, a despeito da janela
escancarada que olhava para o cair da tarde. E esse mesmo olor se desprendia da
secretária de tampo corrido e da papeleira correspondente. Nem sequer a soberba
imagem de Santana, que encimava a papeleira, tinha escapado à fúria das águas,
que
lhe haviam destruído as cores da encarnação: parecia agora um bloco de madeira
inexpressivo, sujo de lama. Adiante, ao pé da janela, a cadeira austríaca dava a
impressão
de ter entortado, com a palhinha desfeita no recosto e no assento.
Mané Quirino abriu mais a janela, balançou a cadeira:
- Só mesmo outra, Major. Esta tem de ir para a fogueira. E já na manhã seguinte,
o próprio velho deu o exemplo,
apesar do muito que sofria com os destroços da casa que fora de seu pai e de seu
avô, e que por mais de um século permanecera
231
em seu poder: pôs-se a limpar-lhe a lama e o barro, ao mesmo tempo em que, fora,
defronte do alpendre, o fogo ia comendo os móveis antigos que não podiam ser
restaurados.
A Tininha, que na véspera ainda dormira num dos bancos da capela, cedo passou
também à casa-grande, e foi ela quem estendeu ao sol as redes, as roupas, os
lençóis,
as toalhas, enquanto a Candoca se encarregava da cozinha. Também foi ela quem
serviu a mesa, à hora do almoço, e ficou parada à porta da cozinha, de orelha
atenta,
quando ouviu o Major dizer ao Mané Quirino:
- Quirino, vou deixar você tomando conta da fazenda. Não tenho mais idade
para restaurar o que a água estragou. Isto agora é de vocês. vou voltar para São
Luís. Já vi que não tenho força nem paciência para lutar contra as loucuras da
natureza.
E à noite, assim que o Major sentou à cabeceira da mesa, à luz do candeeiro de
querosene, para conferir o dinheiro que escapara à injúria das águas, no
interior
da burra de ferro, a Tininha saiu do vão de sombra em que se retraíra a espionar
o velho:
- Posso lhe falar, Major? - perguntou, junto da mesa. E ele, a olhá-la com ar de
surpresa, depois de dar mais
luz ao candeeiro:
- Não está falando?
- Tenho um pedido a lhe fazer, Major. O senhor vai mesmo embora para São Luís?
Então me faça uma caridade: me leve com o senhor. Não quero ficar aqui. Se
ficar,
me mato.
Antes de replicar-lhe, com uma fisionomia de espanto, o velho olhou com atenção
a figura aflita que a claridade do candeeiro abrangia, destacando-lhe o tipo
miúdo
e harmonioso, os cabelos caídos para os ombros, os seios firmes por baixo do
vestido de chita. E logo se recordou da Sinhá Inácia, ali mesmo na casa-grande,
a fazer-lhe
igual pedido, fazia mais de meio século. Embora a mulata velha não tivesse o ar
de pavor com que a Tininha agora torcia as mãos, de cabeça baixa, o
tom suplicante
era idêntico, e com idêntica ameaça.
E foi ela quem rompeu o silêncio, levantando a vista amedrontada, sempre a
torcer as mãos:
232
- O senhor não vai se arrepender de me levar para São Luís. Juro por Deus e por
Nossa Senhora. vou servir o senhor, Major. Limpo a casa, cozinho, olho por sua
saúde.
O Major entrecerrou as pálpebras, sempre a observá-la, franzindo a testa. A
aflição não a desfigurava: tornava-a mais frágil e mais bonita, com um
tom rosado no
cavado do rosto, um brilho mais vivo nas pupilas.
E ele, olhando-a nos olhos:
- Tininha, você é menor. É quase uma menina. Ainda não fez dezessete anos. Eu
sou um velho, que há muito tempo já passou dos cem anos. Estava pensando em
levar daqui
a Maria Rosa, que ficou sem o marido e o filho.
A Tininha veio mais para perto:
- Eu também perdi minha mãe e meu noivo, Major. E o que a Maria Rosa pode fazer
para o senhor eu também posso. Além disso, já lhe disse: se eu não sair daqui,
me
mato. E quero sair depressa. Aqui eu não fico. Não, não fico.
E agora que Tininha estava sentada à mesa, com as mãos espalmadas no rosto
molhado pelo pranto, ele se compadeceu dela, como se compadeceria de uma filha,
quase
a ponto de levantar-se para afagar-lhe os cabelos alourados, que cintilavam na
luz do candeeiro:
- Olhe bem para mim, Tininha. Enxugue esses olhos. Não a quero ver chorando.
Choro, em rosto de mulher, mesmo nova como você, faz criar rugas. E as rugas
envelhecem.
Não queira ser velha.
Ela deixou passar um momento, com o busto imóvel, como a debater-se com o seu
desespero. Depois, ainda curvada sobre a palma das mãos:
- Não fico aqui, Major. Tenho vergonha. Quero ir embora. Me leve. Pelo amor de
Deus.
Ele alongou o braço, atraiu para perto de si a mão molhada que ela deixou cair
sobre a mesa:
- Mas por que essa pressa em deixar a fazenda onde você sempre viveu? Deve haver
um motivo muito forte, que você ainda não me contou.
Tininha descobriu o rosto desfigurado:
- Posso dizer tudo ao senhor, Major? O senhor não se zanga comigo? Eu estou
esperando um filho do Bibiano. Ele
235
prometeu casar comigo, se eu me entregasse. No dia de meu noivado, eu disse a
ele que estava grávida. No dia seguinte, debaixo daquela chuva, o Bibiano selou
o
cavalo, cedo, foi para Pirapemas, e sumiu.
E voltando a chorar:
- Não quero que ninguém, aqui na fazenda, ria de mim. Não, não quero. Antes a
morte, Major.
X
A voLTa
A PRIMEIRA IMPRESSÃO do Major quando o trem parou na Estação foi que não havia
chegado a São Luís. Cochilara um pouco, entre Rosário e o Campo de Perizes, e
agora
só via pessoas desconhecidas, no tumulto da plataforma: umas falando alto, sem a
menor compostura; outras correndo; outras a se beijarem na boca, debaixo do
clarão
das lâmpadas - enquanto os carregadores iam recebendo maletas, sacos e embrulhos
pelo vão das janelas.
Ainda em dúvida, perguntou ao senhor alto, de bigodinho negro, que viajara no
banco ao lado:
- Já estamos em São Luís?
- Em São Luís - confirmou o outro, tentando abrir caminho no espaço estreito
entre as duas orlas de bancos.
E o Major, para a Tininha, que olhava para um lado e para outro, com ar de
espanto feliz, querendo ver tudo:
- Vem comigo - chamou-a, dando-lhe a mão.
No trajeto entre a Estação e o Largo do Desterro, contornando a orla do Cais da
Sagração e atravessando a Praia Grande, a Tininha tratou de segurar-se no banco
do
automóvel, com uma sensação de frio no ventre, sem deixar de olhar os sobrados,
os mirantes, as luzes sobre as águas, os barcos ancorados.
Na outra ponta do banco, o Major não se cansava de observar-lhe as reações de
surpresa contente, ao mesmo tempo em que se via observado pelo motorista mulato,
que
a cada momento o olhava pelo espelho retrovisor. E foi este que, antes de
atravessarem a Praia Grande, na altura da Rampa de
237
Palácio, de repente perguntou ao velho, impressionado com seu chapéu alto e a
sua sobrecasaca:
- Desculpe a curiosidade. O distinto é do Maranhão?
- E mais do que o amigo, porque sou muito mais velho. Nasci aqui, me criei aqui.
Mas já fazia mais de vinte anos que eu não vinha a São Luís. Estou estranhando.
Muita gente nas ruas, muita zoada. Conheci isto no bom tempo em que se andava de
carruagem. Era outra coisa.
E o mulato, risonho, abrindo muito a dentadura:
- O progresso é o progresso. Agora, temos o automóvel. Mais rápido, sem precisar
da parelha de cavalos. Veja o desembaraço com que este meu carrinho desce uma
ladeira.
E olhe agora como sobe. Tudo fácil. Basta calcar o pedal, lá embaixo. Uma
beleza. Uma verdadeira maravilha.
O Major fingiu um começo de sonolência, deixando cair ostensivamente as
pálpebras, com a cabeça a oscilar, e a verdade é que passou por um cochilo, de
que voltou
a si com o motorista a lhe dizer, no Largo do Desterro:
- Estamos no sobradinho branco, como o distinto ordenou. Agora, é só descer e
tirar a bagagem. A mocinha desce também? Ótimo. Faça favor. Não quer uma ajuda?
Estou
aqui para isso.
E enquanto o Major ia à frente, de chapéu na cabeça, a bengala sobraçada,
levando a sua maleta de couro, a Tininha vinha logo atrás, seguida pelo mulato,
este a
trazer as duas malas pelas alças, pisando firme os degraus da escada.
Lá no alto, o velho continuou à frente, acendendo as luzes do sobrado. A
Tininha, na soleira da varanda, parecia hesitar, esperando a volta do Major,
cujos passos
repetidos continuavam ressoando nas tábuas do soalho. Olhava o relógio parado à
sua frente, o guarda-louças repleto, o aparador empoeirado, os cadeirões de
couro
rodeando a mesa do jantar, uma folhinha de 1918 balançando na parede com o vento
que começara a soprar.
E o mulato, junto das malas:
- Bonita casa. Mas precisando de vassoura e espanador. Levou fechada muito
tempo. Aquela folhinha, pela data, é mais velha do que eu. Este lugar, para quem
veio
do interior,
238
não podia ser melhor: muito quieto. Nem parece que estamos em São Luís. Largo do
Desterro. Bonito nome.
Já o Major estava de volta, com a sobrecasaca aberta, a risca do chapéu
marcando-lhe a testa com um traço circular vermelho. Pôs o chapéu e a bengala no
cabide,
pagou a corrida do automóvel, foi levar o motorista até o patamar da escada. E o
mulato, muito risonho, despedindo-se:
- Sempre às ordens, Major. Quando precisar do Demóstenes, é só chamar. Faço
ponto no Largo do Carmo, junto da igreja, bem defronte do relógio. Não tem
errada.
E o velho, parado no patamar:
- Quando sair, bata a porta.
- Perfeitamente - concordou o mulato.
A porta abriu, bateu com força, e novamente o silêncio se alastrou pelo sobrado,
pela praça deserta, pela rua longa. Longe, o sussurro do vento. Depois, as notas
de um piano.
Quando o Major tornou à varanda, já a Tininha não estava ali. Quis chamá-la, mas
preferiu atravessar a alcova, sair na sala de visitas. E deu com ela a olhar de
perto, com a cabeça espichada, o retrato da Minervina.
- Sua mulher, Major?
Ele confirmou com a cabeça. E desviando-lhe o olhar para o outro retrato:
- E ali sou eu, quando moço.
Tininha passou para o outro lado da parede, olhou o retrato com igual atenção,
sempre a alongar o pescoço. E voltando-se para o Major, que a observava de
costas
para a janela, confrontou o rosto do velho, cortado de rugas, com o rosto da
pintura, ainda liso, de um moreno carregado:
- Está parecido - concluiu, procurando dar à voz um tom convicto. - Hoje,
ninguém lhe dá mais de sessenta anos. No máximo, sessenta e cinco. É verdade.
Não
estou dizendo isso para ser amável. Digo o que estou sentindo.
Ele sorriu, e o sorriso o fez mais velho, cavando-lhe o vinco das rugas. E ela,
novamente voltada para o retrato:
- A gente vê logo que é mesmo o senhor, com esse jeito de índio que o tempo não
lhe tirou e que lhe fica bem. Até parece que o retrato está me olhando, como se
tivesse vida.
239
O velho tirou a capa de uma das cadeiras, e sobre o móvel dourado caiu em
cheio a claridade do lustre, destacando o vermelho do espaldar e os pés em
garra.
E a Tininha, com a mão diante da boca:
- Que maravilha, Major. É toda dourada. E o resto da mobília é assim?
Nunca vi uma coisa igual.
E relanceou a vista pelo piano, pelos quadros, pelo espelho de cristal que
ocupava o espaço da parede entre as janelas. Correu a ponta do dedo pela camada
de pó
que cobria o mármore de um dos consolos:
- vou fazer uma limpeza em regra e deixar tudo espelhando
- prometeu, retraindo o braço.
O Major, no vão de uma das janelas:
- Da fazenda escrevi ao gerente do Banco que trata dos meus negócios para que
mandasse fazer uma limpeza em regra no sobrado. Ele me telegrafou dando a
notícia de
que a limpeza tinha sido providenciada. Estou vendo que limparam tudo como a
cara deles.
E trazendo a Tininha pela mão:
- Venha olhar a rua daqui da janela.
Ela deu uns passos de costas, depois se voltou para o velho, que ainda a puxava.
E ao debruçar-se na sacada da janela, ele sentiu que o seio da Tininha lhe
roçava
o braço.
- Deste lado - disse ele, após um silêncio - é a Rua da Palma. Vai até a Avenida
Maranhense, com sobrados de um lado e de outro. À minha esquerda é o Largo do
Desterro.
Não é bonita a pracinha, com a igreja ali defronte, e esta paz, e este silêncio?
A Tininha ergueu a vista, extasiada:
- Olhe a lua nova no meio do Largo, Major. É um bom sinal. Minha mãe, quando
tinha uma coisa importante a fazer, esperava pela lua nova. Foi bom que eu
chegasse
hoje a São Luís com o senhor. O senhor não acredita que a lua influi na vida da
gente? Eu acredito. O Bibiano, quando prometeu casar comigo, foi no quarto-
minguante.
Fiquei cismada. E não deu certo. Não podia dar.
O velho segurou a Tininha pelo braço, trouxe-a novamente para dentro da sala,
fechou a janela:
240
- Aqui em São Luís não é como na fazenda: cada família vive para a sua casa, sem
intimidade com os vizinhos. Eles lá, nós aqui. Quando muito, bom-dia, boa-tarde.
Sempre fiz assim, sempre deu certo.
E depois que mostrou o resto do sobrado, o Major voltou à varanda. E dando corda
ao relógio:
- A casa não é grande, mas precisamos ter uma empregada. Você, sozinha, não dará
conta de tudo, mesmo que eu a ajude, no que me for possível.
E ela, decidida:
- Não precisa empregada não, Major. Minha mãe me ensinou a trabalhar. Deixe a
casa comigo. Fique descansado: nada lhe vai faltar. Até meu filho nascer, cuido
de
tudo. Só vou precisar de uma pessoa para me ajudar nos dias de resguardo de meu
parto. Depois, torno a cuidar da casa. Foi isso que eu lhe prometi. E é isso que
vou fazer. Sei o que estou dizendo.
Ele esperou completar a corda do relógio. E ao balançar-lhe a pêndula, continuou
a olhar por mais alguns momentos o mostrador das horas, sentindo que a sua vida
começava a ser outra. E quando tornou a olhar de frente a Tininha, pareceu-lhe
que não era mais a menina-moça que vira crescer na casagrande, porém a mulher
feita,
capaz de ocupar ali o lugar da Celeste.
E orientando-se no sentido da alcova:
- Não é naquele quarto pequeno, onde dormiam as criadas, que você vai ficar.
Empurrou a porta, acendeu a luz:
- Vai ficar aqui. No quarto ao lado, fico eu. À noite, se precisar de mim, basta
bater na porta. Tenho o sono leve. Neste guarda-roupa estão as antigas roupas da
Celeste. Tudo fino, do melhor tecido inglês. Veja as que pode aproveitar. Como
você sabe costurar, é só ajustá-las ao seu corpo. A máquina de costura eu já lhe
mostrei
onde está. Aqui nesta cômoda, na gaveta de baixo, estão as redes. Ali na parede,
os ganchos de metal. Escolha a que melhor lhe convier, e arme-a no canto de seu
agrado. Nas outras gavetas estão os lençóis e as camisolas. Se quiser
dormir na cama, durma; na outra gaveta, estão as fronhas e as colchas. Devem
estar cheirando
a alfazema, porque a Celeste gostava de pôr alfazema em todas as gavetas.
241
Emocionada, a Tininha permanecia imóvel defronte da penteadeira, com as mãos
entrelaçadas, sem poder falar. E foi pelo espelho que o Major percebeu que seu
lábio
inferior tremia, quase no ponto de chorar.
- Agora, vamos dormir - disse ele, tentando controlar-se.
- Depois das emoções da viagem, já está na hora de deitar.
Os olhos dela pestanejaram, e o fio das lágrimas veio descendo no rosto
descoberto. O velho sorriu, passou por ela, fechou de manso a porta. E já estava
deitado
quando percebeu que a Tininha, do outro lado da porta, começava a despir-se para
trocar de roupa. Aguçou o ouvido, com o coração acelerado. E tratou de ficar
quieto,
prendendo a respiração, a adivinhar-lhe a nudez.
242
CAPÍTULO II
ELE NÃO consentiu que ela se levantasse. E como fazia quase um mês que estavam
no sobrado, já sabiam o que competia a cada um, nos hábitos da casa. Desceu à
porta
da rua, e trouxe dali o leite e o pão. Mas na cozinha, não sabendo ao certo como
fazer para acender o fogão, demorou algum tempo a riscar fósforo sobre fósforo,
sem que o carvão esbraseasse. Por fim, ajudou a chama com um pedaço de jornal
velho, e viu, contente, que o carvão se avermelhava, ardendo nas primeiras
labaredas.
Assim que pôs a chaleira a ferver, tornou à porta da alcova, bateu de leve:
- Já a água do café está no fogo. Você melhorou?
Ela lhe respondeu que sim. As náuseas tinham diminuído; no entanto, ainda sentia
um pouco de tontura, como se o sobrado estivesse rodando à sua volta. Ele
procurou
tranqüilizá-la:
- É assim mesmo. Mas daqui a pouco, vou buscar um médico amigo para te ver.
E ainda cedo, depois que lhe levou o chá na alcova, e ele próprio tomou o seu
café à mesa da varanda, meteu-se na sobrecasaca, no colarinho de ponta virada e
no
chapéu alto, sobraçou a bengala e saiu à rua, para tomar no Largo do Carmo,
perto da igreja, em frente ao relógio, o carro do Demóstenes.
E para o mulato, que de longe o reconheceu:
- Vamos ao Largo da Cadeia, por trás da igreja dos Remédios. Sabe onde é a Rua
do Navio? É logo na descida para a Quinta da Vitória.
Foi sobressaltado. Duas vezes, pela madrugada, escutara os gemidos da Tininha,
que se queixava de dores no ventre,
243
irradiando para o estômago, e muitas náuseas. Deu-lhe um pouco de elixir
paregórico. Seria o santo remédio. E ficara a esperarlhe o efeito, andando ao
comprido do
corredor.
Agora, ali estava, sem olhos para a manhã de sol, no banco do automóvel. Mas não
tardou a sentir-se confiante. O Luna daria jeito nas dores da Tininha. Talvez
nem
precisasse medicá-la. Bastaria a presença dele, calma, gorda, os olhinhos
empapuçados, a fala suave, para que ela deixasse a rede, com outra cara.
E mandando o Demóstenes parar, assim que contornaram a igreja dos Remédios:
- É aqui. Estou reconhecendo a casa.
Saltou, bateu duas palmas fortes. E quando esperava que, do vão da porta
entreaberta, fosse sair o Dr. Luna, mais velho, a cabeça grisalha, os mesmos
olhos tranqüilos,
surgiu um senhor alto, de grande nariz vermelho, testa estreita, o cabelo em
escova, a face encovada, e que parou na soleira da varanda, com ar de espanto,
ao ver
na calçada da rua aquele senhor pequeno, magro, muito enrugado, num paletozão
que lhe descia para os joelhos, e com um chapéu alto na cabeça.
E o velho:
- Desejo falar ao Dr. Luna.
- Aqui? Aqui quem mora sou eu, Elias Nagibe. Esse Dr. Luna morou aqui? Não, não
pode ser. Eu moro aqui há mais de vinte anos. Espere um momento. O senhor está
se
referindo a um médico? Ouvi falar dele. Era um tipo esquisito,
mãoaberta, e que tratava de graça todo mundo. É ele? Esse Dr. Luna já morreu há
mais de vinte
anos. Eu não sabia que ele tinha morado aqui.
De novo no automóvel, o Major se lembrou de outro amigo, o Dr. Santos Jacinto. E
ordenou ao Demóstenes:
- Vamos à Rua do Egito.
Mas também ali, na casa de esquina da Rua dos Afogados, o morador era outro. O
senhor moreno que o atendeu contraiu as sobrancelhas crespas, intrigado. Santos
Jacinto?
Sim, sim, fora médico de seu pai! Por sinal que muito bom médico. Mas já havia
morrido.
Novamente no carro, o Major mandou seguir para o Largo do Palácio. No caminho,
rodando os polegares, pôs-se a
244
conjecturar se também o Dr. Afonso Saulnier de Pierrelevée já havia falecido. E
não tardou a ter a certeza, na voz descansada da preta gorda, de olhos redondos,
pele
lustrosa, que o atendeu na cancela da porta, com ar de riso nas bochechas
aumentadas:
- Hoje quem mora aqui é o neto dele.
Seguiu para a Rua das Violas, à procura do Dr. Silva Maia. Também já havia
morrido. Na Rua Grande, na antiga casa do Dr. Ricardo Jauffret, nem precisou
descer: a
senhora morena que tomava fresco na janela pôs-se a rir, assim que ele lhe
perguntou pelo médico, na porta do automóvel.
- Para o senhor falar com ele, só na sessão espírita. Esse Dr. Jauffret foi
namorado de minha avó. Há muitos anos que ele se mudou para o Cemitério do
Gavião.
Antes que ela acabasse de falar, quase resvalando do riso para a gargalhada, o
Major mandou seguir para a casa do Dr. Correia Leal, no Largo de Santo Antônio.
Também
já falecera. E assim o Dr. Thomas Hall, que morava na Rua da Cruz. E o Dr. Faria
de Matos, que residia num sobradinho de mirante, na Rua da Palma. Todos mortos.
E agora, a quem recorrer?
Parecia-lhe que toda a São Luís de seu tempo se havia mudado para o Cemitério.
Nas várias vezes em que saíra do Largo do Desterro para dar um passeio nas ruas
próximas,
não encontrara um único conhecido. Eram outros, agora, os vizinhos de seu
sobrado. Debalde ia ao Largo do Carmo, em busca de um tipo, uma cara, uns olhos
de outrora.
Não reconhecia ninguém. Até os vendedores ambulantes, que repetiam os velhos
pregões nas mesmas ruas da cidade, haviam desaparecido dali. À noite, no
silêncio circundante,
apurava o ouvido, com a mão em concha na orelha, para ver se escutava, na Rua da
Palma ou na Rua do Giz, o grito do moleque que vendia pamonhas, e só ouvia o
sibilo
do vento.
Fora debalde também que, à noite, dera uma volta lenta pelas ruas escuras dos
arredores do Largo do Ribeirão, tentando encontrar, por cima de uma porta, a
lanterna
vermelha das quitandas de peixe frito. Onde as pilhas de melancia da orla do
Cais da Sagração? E as cadeiras nas calçadas, nas noites de luar? Os amigos,
mortos;
os costumes, mudados. Em vez das carruagens douradas, que tilintavam os guizos
de seus cavalos,
245
por entre o tinido das ferraduras, rolavam nas pedras das ruas os automóveis
barulhentos, que enchiam o ar de ruído e de fumaça. Que fora feito dos
seresteiros
de outrora, que cantavam com tão bonita voz "A gentil Carolina era bela"? Tudo
acabado, tudo esquecido. E por quê?
Em 1931, quando por ali voltara, tinha ficado apenas dois dias, na Rua Grande,
no desconforto de um quarto de hotel, por estar em obras o seu sobrado. Logo
regressara
à fazenda, atordoado com a zoada em seu redor. Não tinha mais idade e paciência
para aturar tanta confusão. Doíam-lhe nos ouvidos as buzinas dos automóveis. As
carroças estrondavam nos paralelepípedos do calçamento. Parecia-lhe que toda
gente falava aos gritos. Num café do Largo do Carmo, sentiu-se zonzo com o bater
das
xícaras, o tinido dos copos, o tom da fala dos fregueses e dos garçons. Pedira
uma gengibirra. Não, tinha. Pedira um refresco de cajazinha. Também não tinha.
Por
fim, haviamlhe oferecido um guaraná, que não aceitara. Na manhã seguinte,
retornara à fazenda, convencido de que nada tinha a fazer naquele torvelinho.
Agora, pelo jeito, o tumulto urbano era bem maior. Ainda bem que, no remanso de
seu sobrado, com a paz e o silêncio do Largo do Desterro ao pé da porta, podia
fugir
dos gritos, das buzinas, do estrondo das rodas, do apito dos guardas, longe do
tumulto que o afligia e atormentava.
E ainda na Rua da Palma, depois de saber que também o Dr, Faria de Matos tinha
morrido, mandou que o Demóstenes voltasse ao Largo do Carmo:
- À Farmácia Normal - acrescentou.
Mas já não existia a Farmácia Normal. Tampouco souberam dizer-lhe o que fora
feito do filho do seu proprietário, o bom amigo Pergentino Pinheiro. Seria
possível?
Pediu ao Demóstenes que desse a volta à praça. E ao ver a tabuleta da Farmácia
Sanitária, já na Rua do Sol, disse ao motorista que parasse:
- Aqui, aqui - ordenou, já com a mão no trinco da porta. Saltou depressa,
lépido, acercou-se do balcão. Olhou em
volta, como à procura de alguém; alongou a vista para o interior da botica.
Nenhum conhecido. E para o praticante que veio atendê-lo, visivelmente
impressionado
com o seu chapéu alto, a sua sobrecasaca e a sua bengala de castão de ouro:
246
- Diga-me uma coisa, por obséquio. Onde poderei encontrar, perto daqui, um bom
médico, para ver uma doente na minha casa?
E o outro, alongando o beiço caído na direção de um senhor forte, de rosto
retangular, que acomodava amostras variadas de remédios no fundo de uma bolsa de
couro,"
na outra ponta do balcão:
- Ali está um, e dos melhores.
O velho aproximou-se do médico, com a bengala sobraçada, segurando na mão
direita cortesmente o chapéu. Deteve-se a dois passos, vendo-o ainda ocupado com
a bolsa
e as amostras. Notou-lhe o tipo forte, de rosto corado, com o semblante enérgico
suavizado pela doçura dos olhos vivos. Sua roupa azul, de quatro botões, parecia
apertada na cintura com o traspasse do jaquetão, acentuando-lhe a robustez.
Sentia-se-lhe a mão fina e leve.
O Major, ao vê-lo erguer a cabeça:
- Pode dar-me um momento de atenção, Doutor? Acabo de saber, ali pelo
praticante, que o senhor é médico, e excelente médico. E é de um bom médico que
estou precisando
para uma pessoa de minha família. Moro aqui perto, no Largo do Desterro, e estou
com um carro à minha disposição, para leválo comigo, caso o Doutor possa ver
minha
doente, neste momento. Não me diga que não.
E no automóvel do Demóstenes, daí a momentos:
- Imagine o senhor que se trata de uma mocinha, quase uma menina. Tem pouco mais
de dezesseis anos, e está grávida. Desde ontem à noite que não está passando
bem,
com muitas náuseas, fortes dores no ventre. Piorou muito pela madrugada. De
manhã, não teve ânimo para levantar. Fiquei preocupado. É gente do povo, mas
fina,
inteligente, muito bem-educada. Considero-a como de minha família. Cedo, saí de
casa à procura de um médico. Mas tive esta surpresa: os médicos de meu tempo já
morreram. O Dr. Silva Maia, o Dr. Jauffret, o Dr. Santos Jacinto, o Dr. Correia
Leal, o Dr. Luna. Todos. Todos.
O Doutor sorriu, e ponderou-lhe:
- Os médicos também morrem, meu amigo. Na hora suprema, Deus não distingue
médico e paciente. Somos frágeis, como os nossos clientes.
247
Em silêncio entraram na Rua Formosa. Lá adiante, quando o carro entrou na Rua de
Santana para alcançar a Rua da Palma, o Major se voltou novamente para o médico:
- Doutor, ainda não sei seu nome.
- Carlos Macieira.
O velho repetiu o nome, olhando o outro nos olhos, com um semblante pensativo. E
apertando a mão que o médico lhe estendia:
- Sinto que já somos amigos.
248
CAPITULO III
POR VONTADE do Major, o passeio teria sido feito pela manhã, com o sol ainda
fraco, e ali por perto, na direção da
rua Formosa, até o Largo do Carmo. Mas a Tininha
argumentou que primeiro precisava pôr a casa em ordem, com tudo limpo e a comida
preparada. E sugeriu, em
tom de decisão:
- Vamos de tarde, logo que o sol quebrar. O Dr. Carlos Macieira disse que tanto
podia ser de manhã como de tarde. O essencial é que eu dê minhas caminhadas a
pé,
para ajudar o desenvolvimento da criança. E como o senhor também deve andar,
para manter as pernas firmes, vamos juntos. Assim o senhor me mostra a cidade, e
eu
não corro o risco de me perder.
E à tarde, depois da sesta, quando ele saiu do quarto, ainda a compor o laço
fofo da gravata, já a Tininha estava à sua espera, na cadeira de balanço da
varanda.
Conquanto ainda não houvesse saído à rua, para uma volta a pé pela cidade, já o
Major lhe tinha mostrado São Luís, no carro do Demóstenes. Mas essa visão de
relance,
embora repetida, só a deixara confusa. Queria conhecer São Luís a pé, para olhar
aqui um sobrado, ali uma rua, mais adiante uma janela gradeada, o braço de ferro
de um velho lampião, e sobretudo ver as pessoas andando nas ruas, cada qual
seguindo o seu rumo, sem que uma se importasse com outra.
Fazia dois anos que, em companhia da irmã, tinha passado uma semana em Caxias.
Ali, entretanto, a vida lhe parecera pacata, sem a confusão que o Major agora
atribuía
à vida em São Luís. Não tardara a sentir o exagero do velho. Da janela do
sobrado, alongava o olhar para a Rua da Palma, no sentido do Convento das
Mercês, e podia
ver que o movimento de
249
carros e transeuntes estava longe de constituir um turbilhão. Pelo contrário:
por vezes a rua permanecia deserta, sem carros no passeio, sem pessoas nas
calçadas,
apenas com uma ou outra velha na sacada das janelas, enquanto os meninos
tentavam empinar curicas e papagaios de papel.
O vestido simples, que ela adaptara a seu corpo, já havia perdido o cheiro de
alfazema com que a Celeste impregnara o guarda-roupa e os gavetões da cômoda.
Reformara-o
a seu modo, guiada pelo figurino que o velho lhe trouxera da Livraria Moderna.
Ao vê-la no traje singelo, que se ajustava harmoniosamente ao seu tipo miúdo de
menina-moça,
o Major não pôde deixar de aplaudi-la:
- Nunca pensei que você, com esse ar de menina, fosse tão perfeita no fogão
quanto na máquina de costura. Parabéns.
E ela, descendo devagar a escada:
- O melhor o senhor ainda não viu: já comecei a preparar o enxoval de meu filho.
Modéstia à parte, está ficando ótimo. De meter num chinelo muito enxoval de
menino
rico.
Na rua calma, assim que pôs os pés na calçada, precedida pelo Major, sentiu que,
por trás das rótulas, e na fresta das janelas, estava sendo espionada. O velho
também
percebeu. E ordenou-lhe:
- Me dê o braço.
Ela se apoiou no antebraço solícito que se adiantou em seu auxílio, esperou que
o Major acabasse de fechar a porta. Ele avançou o primeiro passo, antecedido
pela
ponteira da bengala na pedra do chão, e ela o acompanhou, com a sensação de que
a claridade alta da tarde a ofuscava. Iam devagar. E o Major, avivando-lhe a
memória:
- Não se esqueça da recomendação do Dr. Macieira. Não precisa correr. Pise com
todo o corpo, e com calma. Devagar se vai ao longe. Hoje, não precisamos andar
muito.
Meia hora, quarenta minutos. Amanhã, anda-se mais um pouco.
Os sapatos de salto baixo, que, o médico também recomendara à Tininha, tornavam-
na ainda mais baixinha. Já a gravidez lhe ia arredondando o ventre, denunciando-
se
na frente do vestido. E seu andar era bem o andar da mulher grávida - cauteloso,
firme, balanceado.
250
E o Major, reprimindo o alvoroço com que lhe sentia no braço prestimoso o roçar
do seio firme, à medida que os passos se repetiam:
- Infelizmente, neste nosso bairro, só aquele pequeno trecho do nosso sobrado,
incluindo as casas vizinhas e o Largo do Desterro, é familiar. O resto, até
quase
a Praia Grande, principalmente na Rua do Giz, envolvendo o quarteirão do
Convento das Mercês, onde está o Quartel da Polícia, é totalmente intransitável:
ali fica o meretrício mais baixo de São Luís.
A Tininha espevitou os olhos curiosos:
- Em que direção, Major?
O velho fez um gesto impreciso e circular, e logo tratou de apressar o passo à
sua direita, entrando na volta da Rua da Saúde:
- Por ali, por ali. Só gente ordinária. E tudo depravado. Na rua mesmo, como
cães. Fuja dali.
O chapéu alto, o colarinho de ponta virada, a sobrecasaca e a bengala do Major
continuavam a atrair a atenção da rua. Muita gente vinha à janela, debruçava-se
nas
sacadas, curvava-se para a calçada estreita, por onde o velho continuava a
seguir, sempre de braços com a Tininha. Esta, envolvida pelo espanto com que o
velho
era acompanhado, procurava distrair-se e apressar o passo; porém o Major, sem se
dar conta do pasmo que provocava, erguia a bengala, chamava a atenção da
companheira
para uma grade, um beiral, um tipo de azulejo, uma sacada de ferro.
- Veja aquele ali. Você não vai acreditar no que lhe vou dizer. Vi construírem
essa casa. Ainda me lembro bem do português bigodudo e calvo que colocou
esses
azulejos. Muita gente parava para vê-lo trabalhar. Agora, repare naquele
sobradão da esquina. Pertenceu a um amigo meu: o Pereira Cunha. Está
vendo esta
rua? É a Rua Formosa. Lá embaixo, na direção do porto, ficava a Casa Emílio
Lisboa. Nunca ouviu falar nessa casa? Tinha de tudo: roupas, brinquedos,
ferramentas,
artigos de cama e mesa, papel de parede, tudo. E tudo vinha da França, da
Inglaterra, dos Estados Unidos, da Alemanha. Uma maravilha. Como, hoje, não
há outra
igual.
E dando à voz um tom circunspecto:
251
- Estou assombrado com a falta de pudor das mulheres. A princípio, assim que
saímos do sobrado, pensei que esta falta de vergonha era das meretrizes, nossas
vizinhas.
Estou vendo que me enganei. Estão todas nuas, minha filha. As honestas e as
vagabundas. Um horror. Nunca pensei que chegaríamos a este ponto. E eu que sou
do tempo
em que nem o pé as mulheres mostravam.
E de si para si, com o coração acelerado, uma chispa mais viva no olhar:
"Estamos voltando à Roma antiga, na época da devassidão mais desenfreada. Ou aos
tempos
de Sodoma e Gomorra. Quem ia achar graça desta pouca-vergonha era a Caiu
Malafaia. Era capaz de vir para a janela, de binóculo, olhar esta exibição de
peitos e de
coxas. Havia de dar boas gargalhadas. Os peitos vão ficar na janela dos decotes,
daqui a poucos anos. Tudo de fora, inclusive o umbigo. Eu, se me contassem que
estes
meus olhos iriam ver tanta perna e tanto sovaco, não teria acreditado. O mundo
está de pernas para o ar, minha gente!" E para a Tininha:
- Não sei onde vão parar estas liberdades de trajes. Nossas conterrâneas
deixaram as roupas em casa: saíram à rua para tomar fresco. Imagino o que vai
pelas praias.
Não falta mostrar mais nada. Acabou-se o recato. Era uma vez o pudor. Até parece
que voltamos ao tempo em que as índias andavam por aqui com as vergonhas à
mostra.
A tanga vai tornar a ficar na moda.
A volta lenta pelo Largo do Carmo, no momento em que levas e levas de empregados
no comércio subiam da Praia Grande, chegou a tontear a Tininha, que se prendeu
ainda
mais ao braço do Major, tornando à Rua Formosa:
- Cansei um pouco. Mas gostei de tudo.
Na descida da Rua da Palma, antes de avistarem o Largo do Desterro, acenderam-se
as lâmpadas da iluminação pública. As sombras circundantes refugiaram-se nos
portais,
no Beco do Precipício, na ladeira por trás da igreja, no fundo dos corredores.
Na calçada do sobrado, o Major tateou o chaveiro, procurando a chave da porta.
Abriu-a, acendeu a luz da escada. E quando a Tininha começava a subir:
252
- Vai devagar. Tenho receio dessa escada. No tempo do cativeiro, uma das nossas
escravas, a Maria Fidélia, deu um passo em falso, ao descer do patamar: quando
chegou
aqui embaixo, já não dava mais acordo de si, com as pancadas que levou na cabeça
rolando os degraus. Portanto, sobe com cuidado, para veres onde pisas. E nunca
deixes de te apoiar no corrimão. Precisas ter cuidado com a tua vida e com a
vida de teu filho. Me espera. Eu subo contigo.
CAPÍTULO IV
SEMPRE APOIADA no braço do Major, a Tininha conheceu a Praia Grande, o Largo do
Palácio, o Pertinho, o Cais da Sagração, o Largo de Santo Antônio, e já o seu
ventre
cheio lhe erguia a frente do vestido, enquanto seu rosto se arredondava,
diminuindo-lhe os olhos.
Pela manhã, após o café, o Major ia ao armazém e ao Mercado para as compras da
casa. Voltava de lá carregado de embrulhos, e sempre com uma surpresa para a
Tininha:
uma peça a mais para o enxoval do bebê, um utensílio novo para a casa, um queijo
de São Bento, ou a garrafinha do licor de jenipapo, que ela gostava de tomar,
aos
poucos, devagarinho, nas noites de chuva.
De tarde, se ia até o Largo do Carmo, nunca deixava de lhe trazer também uma
lembrança, comprada na Rua Grande ou na Rua Formosa. E eram sandálias, meias,
sabonetes,
perfumes, peças de roupa, cortes de fazenda.
Ao sentir-lhe os passos na escada, já a Tininha se preparava para o mimo que ia
receber. Parava o balanço da cadeira na varanda, suspendia o movimento da agulha
de crochê ou das agulhas de tricô, e ficava de olhos no ar, sorrindo, à espera.
Por vezes, vendo-o parado à sua frente, a revolver os bolsos, como esquecido de
alguma
coisa, não se continha por muito tempo:
- Hoje, que foi que me trouxe? E ele, com as mãos para as costas:
- Nada.
E logo lhe entregava uma pulseirinha, um cordão de ouro, um anel, um broche, um
simples atracador de cabelo, que
254
pechinchara ao fundo de uma loja, com alma de namorado. As antigas jóias da
Celeste e da Minervina, que ia trazendo do cofre do London Bank, passavam pouco,
a pouco
à posse da Tininha, que por vezes se mostrava contrafeita:
- Que é isso, Major? Assim eu me zango com o senhor. Basta o que já fez por mim.
Por favor, não me dê mais nada.
Ele sorria, com um fulgor mais vivo nos olhos felizes, e todo o seu ser
resplandecia, vendo-a corada e contente. Se não lhe desse aquelas jóias antigas,
a quem
iria dar? Depois de ter vivido o que já vivera, podia morrer a qualquer momento.
Morrendo, não levaria para a sepultura aquelas placas, aqueles adereços, aqueles
anéis, aqueles brincos, aquelas pulseiras. Portanto, ficando com ela, Tininha,
ficavam em boas mãos.
Tininha acabava concordando:
- O senhor não deixa de ter razão. Mas eu é que não me sinto bem com tantos
presentes. Não sou interesseira. Deus me livre. Agora, não aceito mais nada.
E como ela o beijava, atraindo-o para si, ele se sentia regiamente recompensado
com a pressão dos seios dela. Abraçava-a, afagando-lhes os cabelos, retendo a
cabeça
que ela abandonava no seu ombro. De leve, com a ponta dos dedos, coçava-lhe a
nuca, deslizava a ponta da unha no seu pescoço.
Nos dias em que a Tininha se sentia indisposta, sem ânimo para levantar-se, ele
a ajudava a estender-se na cama, experimentando uma delícia nova, que procurava
dissimular:
a de sentar-se à cabeceira do leito, segurando-lhe uma das mãos, com direito a
resvalar o olhar distraído para o abandono da camisola, à altura dos seios
túrgidos
que a gravidez principiara a avolumar. Uma sensualidade quase pura - despojada
da ansiedade de se deitar com ela - alvoroçava-lhe os sentidos, aguçava a sua
pupila
com um brilho mais intenso, dava-lhe mesmo um certo tremor nos braços e nas
pernas. E ele se deixava ficar ao seu lado, sem limite de tempo, até que ela
insistia
com o Major para que a deixasse. Já então lhe havia passado a excitação
momentânea, e o velho corrigia o lençol, ajeitava o travesseiro, e encostava de
manso a
porta, depois de olhar de longe a Tininha, embevecidamente. Para ele, nada se
comparava àquele sono de menina-moça que ia ter um filho.
255
E punha-se a imaginar o choro de criança nova no silêncio das madrugadas, dando
outra vida ao aconchego do sobrado.
No dia seguinte, passada a indisposição natural, o Major ainda insistia com a
Tininha para continuar deitada. E ia ao Largo do Carmo, e entrava no carro do
Demóstenes,
e providenciava o almoço e o jantar no Hotel Central, e subia a escada do
sobrado na ponta dos pés, sério, prestativo, atencioso, à espera de que ela
própria se
decidisse a voltar aos passeios a pé, nas velhas ruas de São Luís, que ele
conhecia como ninguém.
E foi ele quem lhe propôs, quando a Tininha já estava bem mais cheinha, com os
olhos levemente arredondados, os braços roliços, as pernas mais grossas:
- Hoje, vais conhecer a igreja em que fui batizado, em que me casei, em que a
Celeste foi batizada, e em que foi rezada a missa de ação de graças pelo meu
centenário.
Ao descerem à calçada da rua, ela notou que o velho parecia mais emocionado.
Tinha posto um cravo vermelho na lapela, e era mais lustroso o gorgorão de sua
gravata.
Adiante, na esquina da Rua Direita, ele a ajudou, ainda mais solícito, a tomar
o bonde que vinha da Praia Grande. Como o Major já tornara a popularizar-se na
cidade,
com a sua sobrecasaca e o seu chapéu alto, poucas pessoas se voltavam agora para
trás, espantadas com aquele homem velho, que ainda conservava o traje obsoleto
do tempo de Dom João Charuto, com a bengala de castão de ouro. E algumas o
cumprimentavam. Ele, todo ancho no banco espaçoso, com a Tininha a dar-lhe o
braço,
alteava levemente a voz firme para pedir-lhe que reparasse nos sobradões de
pedra e cal que abriam alas à sua passagem:
- Conheci tudo isto quando era mato cerrado. Sim senhora. Mato cerrado. Hoje as
casas novas de ontem são sobrados velhos. Velhos e firmes. Como eu.
A Tininha, sentada na ponta do banco, acomodava as mãos por cima da saliência do
ventre, e toda ela reluzia no regalo da maternidade. Mais uns meses, e o filho
estaria
a sacudir no berço os braços e as pernas que ela sentia agitar-se nas suas
entranhas. E como seria ele? Parecido com ela? Ou sairia ao calhorda do pai, que
sumira
mesmo, levado pela enxurrada?
- Deus sabe o que faz.
256
E O Major, SOlícitO:
- Depois dessa curva longa, por entre casas baixas, entramos na Rua do
Passeio. Descemos na esquina da Rua da Paz. E dali seguimos a pé. Do
lado direito
é o Quartel do 24. No meio da praça, há um chafariz monumental. Logo depois, do
outro lado da Rua do Sol, é a igreja de Santaninha, toda branca, pequena, com
dois
campanários. Uma jóia de igreja.
E quando desceram na parada do bonde, o Major voltou a oferecer o braço à
Tininha, deu alguns passos, e parou na borda da calçada, com uma expressão de
espanto
e assombro, a procurar à sua volta o casarão do Quartel:
- Era aqui, tenho certeza, entre a Praça Gomes de Castro e a Praça Silva Maia,
com o portão central aberto para o largo e mais de vinte janelas na fachada.
Ter-se-ia equivocado? Não estaria sendo vítima de um lapso da memória, com a sua
idade avançada? Atravessou a rua em silêncio, de sobrancelhas travadas; passou
para a outra calçada; alongou para a Rua dos Remédios o olhar aflito. Terse-ia
esquecido também do local exato da igreja de Santaninha? A verdade é que também
a
igreja não estava ali.
E enquanto a Tininha, encantada com a amplidão do largo, admirava o espaço
aberto, a orla de casas que o circundava, as velhas árvores de copa derramada, o
Major
continuava a olhar em redor, nervoso, intrigado:
- Era ali, tenho certeza de que era ali.
E não via o Quartel, nem o chafariz, nem a igreja. Lá adiante, no sentido do
Campo de Ourique, um prédio de linhas gregas, com a orla de colunas dianteiras
sobre
o patamar da escadaria. Cá embaixo, uns bustos escuros sobre colunas pequenas,
desproporcionadas aos bronzes que deveriam destacar. Umas tantas palmeiras
mirradas
emergindo da cerca de madeira quebrada que deveria protegê-las. E um ar de
abandono na grama falhada e no cimento quebrado. Pelas janelas abertas do prédio
viu que
se tratava de uma biblioteca pública. Estaria ali no lugar do Quartel. E a
igreja de Santaninha? E o chafariz?
A Tininha veio ao seu encontro, sentindo-lhe o semblante aflito:
- Que é que se passa, Major?
257
- Estou desorientado - confessou ele, deixando cair o corpo exausto
num banco de ferro. - Aqui havia uma igreja, um quartel e um chafariz, e os três
sumiram.
A Tininha ergueu mais o busto, endireitou a cabeça:
- A igreja também, Major? A igreja de Santaninha? Não é possível! Aqui? Como é
que podem sumir uma igreja, um chafariz e um quartel? O senhor deve estar
enganado,
Major.
E sem saber que o atordoava ainda mais com seu riso, ela ria alto, e olhava-lhe
o semblante aflito, e voltava a rir, enquanto ele insistia, querendo agarrar-se
às lembranças que começavam a baralhar-se na sua consciência:
- Naquela esquina. Tenho certeza. Era ali a igreja. Nela foi rezada a missa de
ação de graças pelo meu centenário. Foi. Ou estarei enganado? Não, não estou.
Por
sinal que, na saída, para fugir do entrudo, eu mesmo dirigi a carruagem do Chico
Bento, por esta Rua do Sol abaixo, segurando as rédeas, sacudindo o chicote. Era
ali. Tenho certeza. Uma bonita igreja.
A Tininha teve uma inspiração repentina, ao ver sair de uma das casas, do outro
lado da Rua dos Remédios, uma mocinha alta, com a blusa branca e a saia azul do
uniforme da Escola Normal. Chamou-a com um aceno. E perguntou-lhe:
- Você mora naquela casa? Sempre morou? E sabe me dizer se havia uma igreja
naquela esquina?
- Igreja? Naquela esquina? Não. Nunca vi igreja aqui na praça. Há uma, lá
embaixo, ao fim da rua, no Largo dos Remédios.
E a Tininha, para o Major, que tinha um ar ainda mais aflito no semblante
desfigurado:
- O senhor se enganou, Major. A igreja é no fim da rua. Vamos lá.
Ele reagiu:
- Essa é outra. É a igreja dos Remédios. A daqui é a igreja de Santaninha.
Uma não tem nada com a outra. Sei o que estou dizendo. Ou então estou muito
mal. E baralhei tudo.
Desorientado, com as mãos entrelaçadas no cabo da bengala, os olhos atônitos, o
Major parecia abismado na sua angústia, com a certeza de que, de repente, toda
a sua lucidez se esvaíra
258
e que, agora, continuaria a confundir tudo - nomes, datas, lugares, até sobrevir
a noite que o esmagaria.
Tininha, com um lenço, enxugou-lhe o suor da testa:
- Acalme-se. Major. Não vá se amofinar por uma tolice. Daqui a pouco o senhor
volta a se lembrar.
E nisto veio vindo um preto velho, apoiado na muleta tosca, a cabeça branca
agasalhada num chapéu de feltro furado. A dois passos, estendeu para o Major a
mão suplicante:
- Tem aí um trocadinho para o seu patrício, meu branco? O Major ficou uns
momentos parado, a olhá-lo, como se
não entendesse o que o preto lhe dizia. A Tininha repetiu-lhe a pergunta. Só
então o Major meteu a mão no bolso da sobrecasaca, tirou dali umas moedas de
níquel,
deu-as ao preto.
- Deus lhe acrescente, meu patrão. E o Major, ao vê-lo afastar-se:
- Escuta aqui, meu velho. Ali não havia uma igreja?
- Sim senhor, meu patrão - confirmou o preto. - A igreja de Santaninha. Botaram
abaixo. Não sei por quê. E não foi só ela. Botaram também abaixo a igreja da
Conceição,
na Rua Grande. O pobre do Padre Chaves, que era o vigário de lá, caiu doente,
de desgosto. E nunca mais se levantou. Também botaram abaixo o Quartel do 24,
que
era ali. E levaram daqui o chafariz de bronze, onde eu lavava o rosto e até
me banhava.
O Major pôs-se a rir alto, com o rosto iluminado. A Tininha também ria. E o
Major, pondo na mão do preto uma cédula alta, a mais alta que trazia no bolso:
- É tua. Me deste uma grande notícia.
259
CAPÍTULO V
NÃO FOI FÁCIL encontrar rosas vermelhas. Ou mesmo de outra cor. Pela manhã
poderia tê-las comprado à porta do Cemitério. Mas já ao meio da tarde, com o sol
começando
a quebrar para os lados do Bacanga, foi preciso voltar à Rua do Passeio, e ali
conseguiu o bonito ramo com que seguiu pela alameda central até o túmulo da
Celeste.
Dividiu-o ao meio, dispondo uma parte sobre a lápide negra que cobria o túmulo
da filha adotiva e do Capitão Ananias, de modo que algumas rosas se alongaram
para
a lápide contígua, que revestia o túmulo da Minervina e do filho.
com a outra parte do ramo nas mãos, justificou-se:
- Quem descobriu que hoje fazias ano foi a Tininha. Como ela soube, não te sei
dizer. Na certa, mexendo nos teus papéis. Ela, agora, conhece mais a casa do que
eu.
Mulher é assim mesmo. Desde Eva. Foi a Tininha também quem me sugeriu, à mesa do
almoço: - "Já que hoje eu prefiro ficar em casa, andando aqui mesmo, vá levar
umas
flores para a sua filha, Major." - E eu vim. Achei boa a lembrança. Umas rosas
são para ti e teu marido. Tua mãe ficou com três. Ela e o Filinto. Não sou homem
de rancores. O rancor é uma forma de estupidez. com o tempo, já a perdoei. O
tempo apaga tudo. Minervina, coitada, sofreu muito. Sobretudo vendo o filho
naquela
cama, sem falar, sem andar. Deus sabe o que faz. vou daqui ao túmulo da Caiu
Malafaia. Estas rosas são para ela. Tinham de ser.
E acercando-se do túmulo da mulher:
- A verdade é que foste uma artista. Não podias ter feito melhor o teu papel.
Mesmo na cena final. Afinal de contas,
260
tu me enganaste, eu também te enganei, e também com algumas de tuas melhores
amigas: estamos quites.
E ao dar com o riso da Caiu Malafaia, no medalhão esmaltado sobre o granito
negro, riu também para a velha amiga, como se voltasse a conversar com ela, de
mãos
dadas, no leito
revolvido:
- Estou repetindo o que me disseste muitas vezes: o tempo apaga tudo. Mesmo as
nossas revoltas, mesmo os nossos pecados. Perdoei a Minervina. Perdão
total.
Absoluto. Até achei graça de meu papel de bobo, que tanto fel me custou. Ficou
tudo para trás. Como se não fosse comigo. Aos poucos voltei a me acostumar com
São Luís. Até o barulho e o movimento já não me atordoam. A cidade, por seu
lado, parece que também já se acostumou comigo. Até há pouco, os moleques ainda
assobiavam
quando me viam. Felizmente não me botaram apelido. Cheguei a me preocupar. E
quase troco esta sobrecasaca por um paletó. Fui mesmo ao alfaiate, mandei
fazer
o paletó. Mas quem disse que, na hora de vesti-lo, eu me sentia bem? Qual o quê.
Deus, na sua infinita misericórdia, continua a me proteger. Nem sequer
posso
me queixar da solidão. A mocinha que eu trouxe da fazenda, para ter
o filho aqui, não me deixa falar sozinho. Quando não estou no meu canto, com os
meus livros (acabo de reler todo o Eça de Queirós), ela está perto de mim, com
seu novelo de lã e a sua agulha, e me obriga a conversar. Boa criatura.
Inteligentíssima.
Querendo saber tudo. Até inglês ela quer que eu lhe ensine. Vivíssima. Para
mim, nesta idade, caiu do Céu. De uma vez, graças a ela, tive filha, neta,
bisneta,
trineta, tetraneta - além da companheira. Sem ela, não sei o que seria de mim,
sem conhecer mais ninguém em São Luís. Todos os meus amigos estão aqui no
Cemitério.
Todos. Rigorosamente todos. A Tininha me enche a vida. Faz tudo em casa. Não
quer saber de empregada. Para a época do parto, concordou em admitir por uns
dias,
para o período do resguardo, uma tia do motorista que nos serve. O Demóstenes.
bom crioulo. Espertíssimo. Está me convencendo que devo pôr telefone no sobrado.
Diz ele que é o progresso. com o telefone eu não preciso ir ao mercado, à
quitanda, à farmácia. Até para chamar por ele, quando eu precisar do carro,
basta discar.
A Tininha
261
se entusiasmou, achando que, com o telefone, pode chamar, na hora das dores do
parto, o Dr. Carlos Macieira. Ainda não me decidi. Estou vendo em que param as
modas.
Vivo de pé atrás com essa conversa de progresso. Em nome do progresso,
substituíram as carruagens pelos automóveis que peidam fumaça pelo cano de
descarga. Ainda
prefiro os cavalos empinando o rabo e deixando a bosta na rua. Não fedia, e
servia de estrume. Estás achando graça? Eu também. Sinto saudade das velhas
carruagens.
Do nosso Chico Bento.
Examinou atentamente o túmulo, viu que não precisava de reparo nem mão de tinta.
E levantando para o alto da testa a aba do chapéu, já com a tarde quebrada,
despediu-se:
- Agora, vou voltar para o sobrado. Gosto de ir a pé, descendo por estas velhas
ruas. Perna de velho precisa de exercício. Todas as vezes que venho aqui, me
lembro
que conheci este terreno com bonitas árvores, os restos da antiga chácara, uma
pedreira lá para o fundo, perto do mar. Hoje, quase não há mais espaço para os
novos
mortos. Felizmente já tenho aqui o meu túmulo, ao lado do teu, debaixo da sombra
desta casuarina. E com as mesmas rolinhas e os mesmos bem-te-vis cantando.
Adiante, o preto de óculos de aro de prata, todo de branco, que vinha saindo da
capela, ao fundo da alameda, recordou ao Major o Professor Damião, de quem fora
amigo.
O velho líder negro, que morrera no mesmo dia em que lhe morrera a companheira,
devia estar enterrado ali perto. Lembrava-se do rebuliço da cidade quando o
filho
do professor, recém-chegado da Inglaterra, aparecera assassinado no bar da
esquina da Rua Grande com a Rua do Passeio. Encontrara-o na capela, à hora do
enterro
do rapaz. E dele ouvira estas palavras sofridas:
- O golpe, nesta idade, foi muito forte para mim, Major. Só continuo vivo porque
ainda tenho minha mulher. Sem a Benigna, a vida não me interessava mais.
E o certo é que o professor morrera pela manhã, e ela, horas depois, para serem
velados na mesma capela e enterrados na mesma sepultura. Agora, via-os juntos,
mais uma vez, na inscrição latina que um de seus discípulos do Liceu Maranhense
mandara colocar na lápide do túmulo modesto, por trás da capela: Hic jacent
Professor
Damianus a Sylva ejusque
262
uxor digníssima Benigna a Sylva, hac urbe ambo mortui Idibus Mau A. D. MCMXIX.
Damianus a Sylva eximius Latine Catedraticus in Maranhense Lyceo totam nobili
Nigrorum
libertatis causae vovit vitam. Suae laudabili memoriae Honos sit semper. E o
Major, após traduzir a inscrição, completando-lhe as letras falhadas:
- Grande negro. Tão grande quanto os maiores. E merecendo esta Benigna, que não
lhe ficava atrás. Nem a morte os separou.
Em vez de contornar a capela para sair na alameda do portão, o Major deixou-se
levar pelas pernas ociosas, lendo aqui uma lápide, ali outra, sem reparar que a
tarde
continuava a cair, com a luz a mesclar-se de tons róseos sobre o verde escuro
das casuarinas. Sujeitos que deixara no Largo do Carmo, sentados nos bancos de
ferro,
ou discutindo à borda da calçada, estavam ali, debaixo da laje tumular. Outros,
a quem tirara o chapéu, jaziam na gaveta das catacumbas. Quantos teriam sido
jogados
à vala comum? Alongando o olhar por cima dos sepulcros, podia ver um pedaço da
praça em frente ao Cemitério e uns meninos jogando com uma bola de pano. Também
eles
passariam pelo mesmo portão, em busca de seu pedaço de terra. Homens de bem ou
trapaceiros, heróis ou poltrões, cada qual teria ali uma palavra de piedade e
louvor,
no retângulo de uma lápide.
Nisto reparou no mausoléu aparatoso que uma grade de lanças pontudas protegia.
Por que aquilo? E sacudiu melancolicamente a cabeça, quase a deixar cair o
chapéu:
- Logo vi que era ele.
Ali estava o Comendador Sezefredo Aguirre, que passava pelas ruas de São Luís
montado no seu cavalo castanho, de chapéu na cabeça, sem se descobrir para
ninguém.
Nem mesmo diante das igrejas ensaiava um cumprimento. Só abria uma exceção: ao
passar pela igreja de Santana, onde estavam as relíquias de Santa Severa, que o
tinham
curado de uma caxumba, uma erisipela e uma espinhela caída. Mas não chegava a
descobrir-se: tocava na aba do chapéu, e ia embora no passo mole do cavalo, de
rebenque
a pender do braço cabeludo, cara fechada, intratável. Depois de morto,
continuava distante, com aquelas grades agressivas à sua volta. Não se teria
misturado
263
ao pó do chão, como toda gente? E por que não? As últimas chuvas tinham cavado
um fosso por trás do mausoléu, e ali ainda se acumulavam as águas da enxurrada,
desnivelando
o túmulo, que parecia prestes a desabar.
Mais adiante, o Major parou em frente à sepultura de Dona
Corina Fernandes, com quem tanto havia dançado nos bailes
de Donana Jansen. Ao vê-la pela última vez, de repente, na
Rua Grande, fingira não reparar na meia que lhe caía para os
sapatos nem na manga puída de seu vestido preto. O rosto, de
sobrancelhas unidas, tinha umas olheiras tão roxas que mais
pareciam manchas de pancada, e ela lhe sorria, assim disforme,
como se ele ainda fosse tirá-la para dançarem a bonita valsa que
começara a tocar.
- Ah, tempo! Ah, vida!
E estava agora ali, na sepultura de bordas quebradas, sem lápide, apenas com seu
nome num retângulo de mármore branco de dois palmos, e esta inscrição
evangélica:
"Aquele que crê em mim, ainda que esteja morto, viverá."
Foi andando, com as mãos para as costas, a bengala atravessada, sem pressa, ora
olhando um lado, ora olhando o outro, e ia unindo os nomes das lousas aos mortos
que ali jaziam. Ou então passava por eles, sem saber quem eram ou o que tinham
sido. Vicente Soares? Leovegildo Espinheira? Quintiliano Rodrigues Sá? Adriana
Joana
Souza? E de repente, parando:
- Pequetita Fontes Lobato - leu em voz alta. E deu por si na varanda do sobrado,
com o Filinto Lobato à sua frente, de olhos vermelhos de ira e nojo, andando ao
comprido da varanda, a sacudir os punhos, no impulso da revolta:
-- É o que estou lhe dizendo. Esta Pequetita, que o senhor viu na igreja de São
João, de vista baixa, batendo no peito, é uma miserável. Apanhou o marido
submisso,
depois de uma doença grave, e o obrigou a cometer toda sorte de maldades contra
a família dele. Uma miserável. Gentinha. Acabou na merda. Tinha de acabar. O
marido,
coitado, dizia-se Marquês. Terminou fardando um preto velho, que o chamava de
Excelência, e a quem dava a mão a beijar, quando chegava da rua. A Pequetita,
por seu
lado, intitulava-se Viscondessa do Codó. Não me canso de odiar os dois imbecis.
264
O Major ofereceu-lhe um pouco de água:
- Beba. Vai lhe fazer bem. Há pessoas que começam a apodrecer antes da morte.
Essa Pequetita foi uma delas. Conheço-lhe a crônica. Espere com paciência. O
tempo
lhe deu o merecido castigo. A esta altura da vida, depois do muito que vi e
testemunhei, posso-lhe dizer que só o gosto da perfeição e da bondade nos redime
de nossa
miséria física. Tive uma amiga, a Caiu Malafaia, que rezava na latrina. Dizia
ela que, sentindo o cheiro da própria bosta, reconhecia o pouco que valemos e a
podridão
que carregamos. Em compensação, nas outras horas, tratava de ser alegre e boa,
rindo, divertindo-se, ajudando os outros.
Olhando o túmulo sem reboco, de lápide partida, com um castiçal de latão
azinhavrado preso à pedra, um traço branco de excremento de urubu sobre a data
do nascimento
e da morte da Pequetita, o Major não se conteve:
- E então? Já ajustaste as tuas contas com o pó? Acabaste sozinha, sem ter quem
te limpasse. Não soubeste aproveitar a vida. Pelo que vejo, há muito tempo que
ninguém
aparece por aqui, nem ao menos para desentortar este castiçal.
E ele próprio tentou desamolgá-lo, depois apanhou numa sepultura próxima um coto
de vela, puxou-lhe o pavio e o acendeu. Logo o vento soprou e apagou a chama com
extrema rapidez.
O Major deu de ombros, afastou as mãos. E tornando a pôr os braços para as
costas, com a bengala atravessada, deu um passo, mais outro, para retomar a
caminhada
lenta. Antes de prosseguir, olhou mais uma vez a sepultura:
- O vento não quer que eu ilumine o teu caminho, Pequetita. Paciência. Faz-se o
que se pode.
Pouco depois, diante de uma sepultura baixa, muito limpa, caiada de novo e
adornada com uma imagem de Santo Antônio, sentiu de repente os olhos úmidos. E
leu, emocionado:
"Aqui jaz o Padre Inácio Porciúncula Pimenta, servo de Deus, afilhado de Santo
Antônio, à espera do perdão divino para os seus erros e pecados, que ele próprio
confessa
neste epitáfio, rogando ao Senhor Jesus e à Virgem Maria que o perdoem. Sua boa
amiga Turíbia Vicentina Morais comprou-lhe esta sepultura perpétua, juntamente
com
seus filhos, que o Padre Pimenta lhe
265
ajudou a criar e a orientar no caminho do dever e da fé. Paz à sua alma."
- Paz à sua alma - repetiu o Major, enxugando os olhos, ainda com o coração
apertado.
Já a luz se retraía, com uma claridade leitosa por cima dos túmulos. O
tom esbraseado do horizonte, na direção do Bacanga, tinha-se diluído: de longe,
na luz esmaecida,
levemente rósea, as árvores se recortavam em tons de silhuetas esverdeadas.
- É hora de voltar para o sobrado - reconheceu.
Do ponto em que se achava, divisou o largo em frente ao Cemitério. Já uma das
folhas, no portão de ferro da alameda central, estava fechada. O zelador, do
lado de
fora, na calçada, parecia à sua espera, sem pressa, balançando o chaveiro
enorme, pronto para fechar a outra folha.
E nisto o Major voltou a parar, atraído pela singularidade de uma sepultura à
sua direita. A lápide negra, de mais de dois metros, em vez de ter sido colocada
em
sentido horizontal, subia verticalmente do chão, encravada noutra pedra, fazendo
cintilar na claridade lívida esta inscrição fosforescente: Aqui descansa,
protegido
pela graça de Deus e da Corte Celeste, o sempre pranteado João Nepomuceno
Rodrigues Pinto, que muito lutou pelo progresso desta cidade, como um de seus
ornamentos,
e onde teve a felicidade de nascer. Caminhante que aqui te deténs, ora por ele!
O Major não conteve o sorriso. Não seria o Pintinho Caloteiro que estava ali?
Sim, era o próprio! O famoso Pintinho, que até dele, Major Taborda, havia tomado
bom
dinheiro, com as famigeradas quotas do Crédito Mútuo!
- E ainda queres me tomar um padre-nosso e uma avemaria? Pois não. Que é que me
custa?
E passando do sorriso à risada franca, que tratou de abafar no lenço, o Major
lhe viu a figura gorda, de bochechas rosadas, um olho mais alto que o outro,
bem-vestido,
bengala de castão de ouro, sério, a tomar dinheiro de quase toda a Praia Grande,
sempre com grandes planos para São Luís e que se caracterizavam pela
inviabilidade.
Mesmo assim, conseguia que fossem aceitos, graças à sua lábia macia e
obsequiosa, numa voz persuasiva verdadeiramente notável.
266
Um de seus planos mais espetaculares - de que o Diário do Maranhão se ocupou em
página inteira, com o texto ilustrado por um mapa da cidade e o respectivo
traçado
- consistia em drenar novamente para o interior da ilha os rios Anil e Bacanga,
de modo que as águas respectivas não corressem para o mar. Deu-lhe um nome
engenhoso,
que imediatamente se popularizou: o Bacanil.
E dizia, em tom convicto:
- Mar precisa das águas destes pequenos rios? Não, não precisa. Se não precisa,
para que jogá-las fora, dia e noite? É desperdício. E desperdício absurdo. O mar
não precisa de água doce. A água doce, para nós, é vital.
Para acabar com o desperdício, ali no Maranhão, o Pintinho Caloteiro havia
criado a Companhia das Águas do Bacanil, acenando com uma transformação urbana
que faria
de São Luís uma outra Londres, uma nova Paris. E argumentava, catequizando os
capitalistas da Praia Grande, que sempre o acolhiam de boa sombra, interessados
em
ouvir-lhe a palavra imaginosa:
- O amigo não gostaria de ter um rio defronte de sua casa, como os
londrinos, em Londres, ou os parisienses, em Paris? Pois é isso que vamos lhe
proporcionar
agora, com o projeto do Bacanil. E os ingleses vão nos imitar, fazendo com que o
Tâmisa não seja lançado ao mar. E os franceses também, fazendo a mesma coisa com
as águas do Sena.
com um fulgor vivíssimo nos olhos aumentados, a fronte espaçosa reluzindo, as
narinas dilatadas, o Pintinho Caloteiro erguia ainda mais a voz eloqüente:
- O Bacanil vai ser a maravilha do século. E as apólices da Companhia, que hoje
estão a preço de banana, amanhã serão disputadas a sopapo, ali na Praça do
Comércio.
Até a Caiu Malafaia, que sempre se recusava a empregar dinheiro nas aventuras do
Pintinho Caloteiro, acabou concordando em ir com ele ao Baluarte, no Cais da
Sagração,
ao pé do Palácio do Governo, e ali se distraiu com a lábia do espertalhão, que
ia de um lado para outro, com dois dedos da mão direita no bolso do colete,
erguendo
ainda mais a sobrancelha levantada, enquanto ela o acompanhava com o olhar
divertido,
267
sentada num dos canhões que ali restavam, nas ruínas da fortificação colonial.
O Pintinho Caloteiro recebia em cheio, no rosto inspirado, a claridade do sol no
ocaso. E expunha:
- Veja bem, minha querida amiga e conterrânea. Ali está o Anil, ali está o
Bacanga. Neste ponto, à nossa frente,
juntam-se as águas dos dois rios. E para quê? Para
se misturarem às águas do mar. Águas doces com águas salgadas. Está direito?
Não, não está. A senhora bebe água salgada? Não. Eu também não bebo. E é a
preciosa
água doce que é posta fora, diante dos nossos olhos, sem que movamos um dedo
para impedir o absurdo da natureza. E que é que me proponho fazer, com o projeto
do
Bacanil? Aproveitar, na sua totalidade, as águas dos dois rios! Como? Aí é que
está: um verdadeiro ovo de Colombo, minha querida amiga e conterrânea!
E baixando a voz, quase em segredo,, com os olhos castanhos imensamente
arregalados:
- Em vez de deixar que elas se lancem ao mar, num verdadeiro suicídio
hidráulico, vou orientá-las novamente para o interior da ilha!
E a Caiu Malafaia, interessada:
- Mas como, Seu Pintinho?
- Gostei da pergunta. E vou lhe dar a resposta imediata e satisfatória. Ali, no
ponto em que as águas do Bacanga se lançam ao mar, vou erguer um dique
monumental;
ali adiante, na foz do Anil, ergo outro, de pedra e cal, solidíssímo. Ao mesmo
tempo, faço cavar um novo leito, quer para um rio, quer para outro, até juntar
os
dois, num ponto ideal, que ainda não está em tempo de revelar. Nesse ponto,
abriremos um leito mais largo: daí em diante o Bacanga e o Anil correrão
abraçados, como
um só rio - um rio belo, límpido e majestoso. E a obra é fácil. Facílima. Basta
abrir o começo do novo leito: a própria força das águas se encarregará de
abrir
o resto, favorecida pelas inclinações do terreno. E daí então esta nossa São
Luís será uma nova Londres, uma nova Paris, com um belíssimo rio a dividir a
cidade
em duas margens, como a capital da França, que o mundo inteiro
celebra em prosa
e verso!
268
E o Pintinho Caloteiro deu um passo para um lado; depois outro passo para o
outro:
- Aqui, margem direita; ali, margem esquerda. Ou, como dizem os franceses, com
tanto e justificado orgulho: rive droite; rive gaúche.
A Caiu Malafaia ficou séria, com as duas mãos gordinhas no cabo de prata do
guarda-sol:
- Reserve cem apólices para mim, Seu Pintinho.
- Só cem, Dona Caiu? Quinhentas, no mínimo quinhentas. E olhe que só estou
vendendo as apólices para os amigos do peito.
- Duzentas, Seu Pintinho. E ponto final.
De volta à Rua Formosa, ainda na carruagem, ela reconheceu que já era tarde para
desfazer o mau negócio. E à noite, ao contar tudo ao Major Taborda, sorriu para
o amigo, de cabeça inclinada, quando este lhe disse, com uma cara de assombro:
- Como é que você, depois que lhe contei a vigarice desse malandro comigo, foi
cair na lábia dele, Caiu? Não, não é possível. Você está pilheriando
comigo.
E ela, alargando as bochechas no riso espalhado:
- Não, não estou pilheriando, Ramiro. Caí no conto como uma pata. Mas não estou
arrependida. Afinal de contas, assisti ao trabalho de um grande artista. O
Pintinho
Caloteiro é um artista genial, Ramiro. E com esta novidade: tem dois tons de voz
quando está trabalhando. Um, grosso, de homem, ao expor o negócio, para
engabelar
os tolos como nós; outro, fino, depois que a tratantada está feita.
Quando cheguei aqui, já estava "achando graça. Ri o resto da tarde. E ainda
agora
estou rindo. Um artista, o Pintinho Caloteiro. Um grande artista. Um artista
genial.
Esse mesmo Pintinho Caloteiro - inventor da Companhia das Águas do Bacanil, do
Crédito Mútuo Prosperidade e Segurança, da Empresa Maranhense de Bananas
Recheadas
- era agora, ali no Cemitério, em letras fosforescentes, o pranteado João
Nepomuceno Rodrigues Pinto, que tanto havia lutado pelo progresso de São Luís.
Como seria
a cara dele, no dia do Juízo
269
20
CAPÍTULO VI
COMO AS PERNAS começassem a doer-lhe, o Major decidiu voltar ao sobrado no bonde
que havia parado no fim da linha, à sombra de uma figueira, defronte do portão
do
Cemitério. Posto que tivesse de dar uma volta longa, pouparia a caminhada. E
tratou de acomodar-se numa ponta de banco, de braços cruzados por cima do peito,
a bengala
presa entre os joelhos, as pálpebras entrefechadas, dando a impressão de que ia
cochilar.
Fosse pelo cicio de uma cigarra, que não tardou a calar-se; fosse pela primeira
viração da noite, leve, macia, sussurrante; fosse por uma nova impressão das
emoções
da tarde, o Major se voltou para si mesmo, cedendo ao sentimento de melancolia
que o invadiu e dominou, a ponto de não ter percebido quando o bonde se pôs em
movimento,
no sentido do Largo do Quartel.
- É verdade: já vivi demais - suspirou.
Embora não sentisse, em seu íntimo, a acumulação do tempo que havia vivido,
podia ajuizar-lhe a extensão com os mortos que deixara no seu caminho. Meninos
que vira
nascer, amigos, companheiros, simples conhecidos, mulheres que tivera em seus
braços, presidentes de província, colegas da Guarda Nacional, professores,
deputados,
senadores, advogados, médicos, jornalistas, poetas, sacerdotes, salafrários,
ladrões, assassinos, comerciantes, todos eles estavam agora por trás do portão
de ferro
que o zelador do Cemitério tinha acabado de fechar. Só ele, Major Ramiro
Taborda, nascido ainda ao tempo da Colônia, permanecia do lado de fora,
condenado à vida.
Iria viver para sempre, como o judeu errante que escarnecera do Cristo? Ou
aquele cansaço das pernas já seria indício de que seu fim
271
também se aproximava? Assustou-se, ergueu as pálpebras. Precisava viver alguns
anos mais, pelo menos para poder encaminhar, ali em São Luís, a pobre da
Tininha, e
a criança que ia nascer. Sem ele, que iam fazer mãe e filho, na cidade que a
Tininha ainda mal conhecia?
E o condutor, de pé no estribo, daí a momentos, depois de receber o dinheiro da
passagem:
- Vi que o senhor saiu do Cemitério. Veio trazer algum amigo? Ou só deu um
passeio?
O Major esboçou o sorriso:
- Vim sondar o ambiente. Pelo tempo, eu já devia estar ali, com uma lousa por
cima.
E o outro, aumentando os olhos avermelhados:
- Fale baixo. A morte pode estar perto e tomar nota. com essas coisas não se
brincam. Sobretudo na sua idade.
Corrigiu a pala do boné, passou para o banco seguinte, após piscar o olho
esquerdo, enquanto o Major alongava o olhar para a fileira das lâmpadas da
iluminação pública
que tinham acabado de acender, à borda das calçadas. A luz se fizera mais lívida
por cima dos telhados. E duas estrelinhas brilhavam para os lados, do Campo de
Ourique.
com certeza, a Tininha estaria na janela do sobrado, do lado da Rua da Palma,
para vê-lo chegar. Talvez começasse a afligir-se, sentindo-o demorar-se. E o
Major,
consultando o relógio de algibeira:
- Seis e quinze - disse consigo. - De fato eu já devia estar em casa. Doutra vez
chego mais cedo.
E olhando as casas, o colorido dos azulejos, o recorte dos beirais sobre as
calçadas, as pessoas que iam, as pessoas que vinham, e as que se debruçavam das
janelas,
deu razão à luz que se apegava a tudo aquilo, lutando com as sombras que se
adensavam sobre a cidade. Não queria apagar-se, e só aos poucos, devagarinho,
cedia
aqui, ali, mais adiante, e mesmo ao desfazer-se, misturada às primeiras trevas
da noite, tinha ainda uma beleza própria, que lhe realçava de tons arroxeados a
claridade
desmaiada.
Quando o bonde começou a contornar o Cais da Sagração, depois de descer a
ladeira da antiga Praia de Santo Antônio, a noite ainda não tinha desabado sobre
o mar.
Uma barra
272
cor-de-rosa, muito pálida, subsistia sobre a Ponta do Bonfim. Mas as velas dos
barcos e igarités, que vinham voltando na maré alta, recortavam-se contra essa
luz
derradeira, que se desfez antes que o bonde entrasse na Rua do Trapiche, na
travessia da Praia Grande.
fá o comércio ia fechando e só se ouvia o bater de portas e rótulas e o ranger
áspero de ferrolhos, enquanto as calçadas se enchiam de pessoas apressadas -
umas
a correr para apanhar o bonde; outras a desaparecer nas ruas próximas.
Adiante, na volta da Rua Direita, logo que desceu na borda da calçada, o Major
estendeu o olhar para o fim da Rua da Palma, certo de que a Tininha estaria na
sacada,
com ar inquieto. Mas só viu o sobrado às escuras e as janelas vazias. Logo
imaginou a Tininha na cadeira de embalo da varanda, de ouvido atento ao ruído de
seus
passos nos degraus da escada. Quis andar mais depressa; porém manteve o passo,
sentindo que, pela fresta das rótulas, nas casas próximas, os vizinhos o
espreitavam.
Assim que abriu a porta, assustou-se. Por que estavam apagadas todas as luzes do
sobrado? A Tininha teria adormecido pelo fim da tarde, sem se dar conta da
noite?
Tateando a parede, o Major encontrou o interruptor da luz, girou-o com rapidez.
Na claridade instantânea, que o levou a contrair os olhos, subiu depressa,
apoiando-se
no corrimão. Lá no alto, olhou em volta, tateou novamente a parede, acendeu a
lâmpada do corredor, chamou pela Tininha, e passou à alcova, atordoado, sem
saber o
que pensar.
Ao ver a cama vazia, a rede armada a um canto, os chinelos sobre o tapete,
passou à sala, tomado agora de um pressentimento repentino, que mais o atordoou.
Se os
chinelos estavam ao pé da cama, só havia uma explicação: a Tininha havia saído.
E saído para onde, se nunca andara só pelas ruas de São Luís, a não ser para
atravessar
o Largo do Desterro, entre a porta do sobrado e a porta da igreja? Por outro
lado, por que não fechara as janelas da sala?
Sem ao menos tirar o chapéu ou deixar a bengala no cabide do corredor, o velho
entrou na varanda. Também ali as janelas sobre o largo estavam abertas, e uma
delas
batia, com o ferrolho solto, empurrada pela viração da noite.
273
Haveria novena na igreja? E o Major correu para a janela, com o coração mais
apressado. A igreja estava fechada. No largo deserto, somente a luz da lâmpada
elétrica,
à feição de um olho irônico e arregalado.
- E esta! E esta! - pôs-se a dizer o velho, passando à cozinha, atravessando de
novo a copa, tornando à varanda, com a sobrecasaca aberta, a ruga vertical a lhe
subir pelo meio da testa, os olhos aflitos.
Parado no meio da varanda, de costas para o relógio, chamou pela Tininha.
Silêncio. Em seu redor, o sobrado tinha agora um ar de espanto geral, com todas
as luzes
acesas e o vento a correr pelos aposentos, como se estivesse também a procurar
pela Tininha. E novamente o Major percorreu toda a casa, repetindo o chamado,
mais
nervoso, tomado de pânico.
- Ela não podia ter saído de casa sem me deixar ao menos um aviso qualquer!
E pôs-se a olhar por cima dos móveis, a ver se encontrava uma carta, um simples
bilhete. Teria recebido algum chamado da fazenda? Não, não podia ser: no estado
em
que se achava, ela não voltaria para lá. E voltar para quê? E por quê?
Atirou a bengala para cima da mesa, pôs-se a bater com os dedos atarantados na
costa da mão, tentando lembrar-se de tudo quanto haviam conversado, quer à mesa
do
café, quer à mesa do almoço. Ter-lhe-ia dito alguma coisa que a melindrara? Não,
não ocorrera nada entre eles. Pelo contrário: deixara-a contente. Ela própria
viera
trazê-lo ao patamar da escada, recomendando-lhe que tivesse cuidado na travessia
das ruas. Dissera-lhe mesmo:
- Peça ao Demóstenes que o leve.
Fora ele que preferira ir a pé até a Rua Formosa, e ali tomara o bonde que o
deixara defronte do Cemitério. Por que ir de automóvel, se o bonde era muito
mais barato?
Dar-se-ia o caso de que ela, cansada de estar só no sobrado, havia saído à rua,
para uma compra na Praia Grande ou na Rua Formosa? Também não podia ser: naquele
momento já o comércio estava fechado. E se ela, não conhecendo a cidade,
estivesse perdida? Também não podia ser: a Tininha era desembaraçada, e saberia
informar-se
para encontrar sem dificuldade o caminho de volta.
274
E mais nervoso, voltando a segurar a bengala, o Major tornou à escada, decidido
a andar por toda a cidade, à procura da Tininha - já agora tomado pelo pavor de
que
um carro a houvesse apanhado ao atravessar a rua. Lá embaixo, abriu mais os
olhos, com uma sensação de frio na espinha e nas
mãos:
- E se foram as dores do parto? Pode ter sido. E por que
não? Há partos fora do prazo.
Abriu a porta com um repelão, saiu à calçada. Tão atordoado estava, na
desorientação de sua angústia, que ficou um momento parado, sem saber que
direção tomar, ao
mesmo tempo em que, nas casas vizinhas, as rótulas pareciam entreabrir-se,
deixando passar uma réstia de luz e uma cabeça curiosa.
Defronte, na meia morada de janelas verdes, a senhora morena, de olhos pulados e
redondos, não se limitou a entreabrir a rótula: escancarou-a toda, debruçou-se
no
peitoril, com a vista voltada para o velho, que logo atravessou a rua. Nem
sequer tirou o chapéu para lhe perguntar de sopetão:
- A senhora terá visto sair de casa, esta tarde, a mocinha que mora comigo?
E a senhora, de olhos ríspidos, já em tom acusativo:
- Uma que está grávida?
- Essa mesma - confirmou o Major.
- É sua filha?
- Não.
- Neta? Não tem parentesco algum?
- Também não.
- E vive com o senhor? - indagou a vizinha, alteando a voz espantada e
desencostando da janela, os duros olhos fixados no semblante do velho.
E o Major, alcançando-lhe a intenção acusativa:
- Não estou aqui para dar satisfação de minha vida nem para dar explicação sobre
a pessoa que mora no meu sobrado
- replicou logo a seguir, subindo o tom da voz arreliada. Fiz-lhe uma pergunta
simples, e a senhora entendeu que devia me confessar.
A senhora recuou um passo para dentro da sala, com a mão segurando a rótula,
como se fosse fechá-la:
275
- Não estou confessando o senhor, que eu não sou padre. Mas tenho o direito de
querer saber, como uma mulher honesta e que mora defronte de seu sobrado, se o
senhor,
que é um velho, e muito velho, abusou da honra de uma menor, que está de
barriga. Só isso.
E batendo com a rótula, quase ao mesmo tempo que lhe torcia o ferrolho:
- E passe bem!
Mas já o Major subia a rua, com a sua fúria, a sobrecasaca aberta, o chapéu para
os olhos, pisando forte, a retinir nas lajes da calçada a ponteira da bengala.
Adiante, sem esperar que o bonde parasse, subiu-lhe ao balaústre, saltou na Rua
Formosa, foi até o Largo do Carmo, meteu-se no primeiro carro de praça
disponível,
ordenou ao motorista:
- Pronto-socorro.
De lá foi ao Hospital Geral. Depois, ao Hospital Português. Por fim, à Santa
Casa. E tornou ao Largo do Desterro, correndo de vez em quando a mão desesperada
no
rosto desfigurado, a perguntar a si mesmo, sem se importar com o motorista
louro, que de vez em quando o observava pelo espelho retrovisor:
- Onde se meteu o diabo desta menina? E fazer isto comigo, depois de tudo quanto
fiz por ela? Eu devia ter aprendido, com a experiência da Minervina, que em
mulher
não se pode confiar. Agora, aí está. Depois do afago, o coice. E é bem feito,
Ramiro. Bem feito. Para não seres burro. Na tua idade, pelo menos isso devias
ter aprendido.
.
E o motorista, parando o carro:
- Estamos no Largo do Desterro.
O Major saltou, esquecendo de pagar. Mas o motorista o chamou, pedindo
desculpas, e ele meteu a mão no bolso, tirou fora um maço de cédulas:
- Leve tudo. É seu. Não precisa troco.
E não reparou que, dos dois lados da rua, os vizinhos o olhavam pela fresta das
rótulas. Dois deles, em mangas de camisa, tinham saído à calçada, e assobiavam,
enquanto
o velho tentava encontrar o orifício da fechadura, tateando-a com a ponta da
chave.
com a mesma raiva, com a mesma aflição, subiu a escada, como se quisesse abalar
cada degrau com o peso de seu corpo.
276
Subiu de cabeça baixa, resmungando. E lá no alto, antes de erguer o olhar, ouviu
a voz da Tininha, que veio vindo ao seu encontro, perguntando-lhe:
- Isso é coisa que o senhor faça comigo, Major? Fiquei como uma doida a
procurar o senhor por toda a cidade. Fui ao Pronto-socorro, fui à Santa Casa,
fui ao Hospital
Geral. Até ao Cemitério eu fui, com receio de que lhe tivesse acontecido alguma
coisa. Onde o senhor se meteu?
Ele acabou de subir, ofegante. Olhou-a de frente, ainda sem poder falar, vendo-
lhe a aflição nos olhos nervosos. E ela, recebendo-lhe o chapéu e a bengala:
- Pelo amor de Deus, não me faça outra. Eu, neste estado, não posso levar susto.
Graças a Deus, não houve nada com o senhor.
277
XI
A apoteose
CAPITULO I
ELE INSISTIU, dando-lhe a mão para ajudá-la a descer:
- É preciso. O Dr. Carlos Macieira disse que é preciso. Sobretudo na tua idade.
És quase uma menina. Andando, fortaleces os músculos do abdome e
facilitas
o parto. Vamos embora.
Agora, todas as tardes, e por vezes de manhã, ele a obrigava a preparar-se para
a caminhada lenta. Ao dar-lhe o braço, na calçada ao pé da porta, erguia mais a
cabeça,
sempre de chapéu e bengala, a sobrecasaca a lhe dar nos joelhos. Ela se queixava
do peso no ventre, da vontade de ficar deitada, dos movimentos da criança. Por
seu
gosto ficaria deitada, olhando o pedaço de céu por cima do zimbório da igreja,
no retângulo da janela. Mas acabava por trocar de roupa, e lá ia, rua abaixo,
rua
acima, nas faixas de sombra, apoiando-se no braço do Major.
Numa dessas ocasiões, descendo a Rua da Palma, no mesmo passo calmo e digno, ele
ouvira rosnar, por trás de uma rótula:
- É o cúmulo da pouca vergonha. Só cadeia para um caso desses: este velho
indecente a exibir a menor que ele desencaminhou. E isto o Governo não olha. Só
olha as
décimas, que não param de subir. A Justiça tarda mas não falha. É só esperar.
E o Major, para Tininha, como se não tivesse ouvido:
- Já está em tempo de pensar no carrinho para teu filho. Semana que vem, vamos
ver isso. Criança nova precisa de sol. E tu, todas as manhãs, vais levá-la para
tomar
sol no largo. Para isso, nada como um carrinho. Já passei pela loja que os
vende: fica na Rua do Sol quase no canto com a Rua do Teatro. Não quero escolher
sozinho.
Quero que vás comigo.
281
Ela lhe apertou o braço contra o seio alto, emocionada. Chegou mesmo a contrair
os olhos úmidos.
Na volta do passeio, a provocação se repetiu, com as mesmas palavras, por trás
da mesma rótula.
E a Tininha:
- O senhor ouviu, Major? Desde ontem estão dizendo a mesma coisa: ontem, foi uma
voz de mulher; hoje, foi uma voz de homem. Vamos embora. De que lhe adianta
segurar
a bengala como se fosse brigar? O senhor não está na idade das valentias. Fique
quieto. Era só o que faltava. Vamos embora.
E enquanto o velho, de bengala levantada, ia andando meio de lado, como se
fosse revidar à grosseria, a Tininha continuou a impeli-lo para a porta do
sobrado. Foi
ela quem enfiou a chave na fechadura, ao ver que a mão do Major não encontrava o
orifício.
- Fique calmo - recomendou-lhe.
E nesse instante, saindo por trás da igreja, um mulato alto, de bigode muito
fino, pôs-se a acionar uma máquina fotográfica, repetindo os flagrantes da
Tininha e
do Major à entrada do sobrado. Ela o viu, mas conseguiu conter-se, para evitar
que o velho também o visse. E para o Major, fazendo-o passar à frente no vão da
porta:
- Não admito que o senhor perca a cabeça. A humanidade é assim mesmo. E o senhor
sabe disso mais do que eu. A provocação de hoje é antiga. Não sei se o senhor já
reparou que tenho evitado ficar na janela, à tarde, do lado da Rua da Palma.
Bateu o trinco da porta, passou-lhe a chave. E já no degrau da escada, começando
a subir:
- Mal eu me debruçava na sacada, começavam as indiretas da senhora que mora em
frente, na meia morada de janelas verdes. E como não brigam dois quando um não
quer,
preferi ficar na janela do lado do Largo do Desterro. Ganhei com a troca. Dali
posso ver o mar na hora em que o sol vai desaparecendo. Não conheço nada mais
lindo;
Principalmente quando vão voltando os barcos dos pescadores.
Lá no alto, embora ofegante com o esforço da subida, Tininha ajudou o Major a
trocar a sobrecasaca pelo paletó de lustrina. Depois, sempre solícita, trouxe-o
para
a varanda, já
com os pés aliviados nos chinelos de pelica, fê-lo sentar na cadeira de
balanço, entregou-lhe os jornais:
- Leia um pouco enquanto aqueço o jantar. Desmanche essa ruga do meio da
testa. Ninguém merece o nosso ódio.
E à noite, quando terminou de enxugar a louça e arrumar a cozinha, trouxe a sua
cesta de costura para perto do Major, sentou-se na cadeira de braços, recomeçou
o
casaquinho de malha para o filho, ouvindo o vento correr pelo sobrado, por entre
o tinido leve da pulsação do relógio na parede.
De repente, sem levantar os olhos da malha que a ponta da agulha ia puxando, ela
se pôs a contar:
- Hoje, ao fim da missa em nossa igreja, o Padre Murtinho veio me dizer que, uma
noite destas, quer vir aqui conversar com o senhor sobre um assunto importante.
Perguntei o que era; não quis me dizer. Só adiantou que se trata de assunto
particular, de meu interesse. Fiquei intrigada. Agora estou
juntando a
conversa dele com a provocação dos vizinhos e cheguei à conclusão de que
o pretexto de tudo sou eu, com esta barriga.
E entristecendo a voz, passado um silêncio:
- O senhor me desculpe, Major.
O relógio começou a dar as horas, que iam ressoando alto por cima dos ruídos
circundantes, sem pressa, gravemente.
O Major, assim que o relógio voltou a contar os segundos, firmou a vista na
Tininha, que se mantinha de cabeça baixa:
- Desculpar por quê? Você tornou a dar sentido à minha vida. Sou eu que lhe sou
agradecido. Sem você, que é que eu estava fazendo neste mundo? Estava bestando,
sozinho
neste sobrado, à margem de tudo. Não é só você que está esperando o nascimento
de seu filho: eu também estou, e com a maior ansiedade, a imaginar as alegrias
que
ele vai me dar.
Ela continuou de cabeça baixa, com os olhos na linha que a ponta curva da agulha
puxava e enlaçava. Parou um instante, sem completar o laço, como se o pensamento
apreensivo lhe sustasse o movimento da mão habilidosa. E ele, querendo adivinhar
o que ela pensava:
- Você já pensou como é que vai ser, na hora do registro de seu filho? Filho de
quem?
- Meu, Major.
283
- Sem o nome do pai?
O velho aproximou as sobrancelhas, apertando nas mãos convulsas os braços da
cadeira. E por fim, parando o embalo:
- E se eu lhe desse o meu nome, Tininha?
Tininha ergueu para ele o rosto espantado. Queria ficar séria, queria rir, e o
duplo esforço lhe repuxava os cantos da
boca, com os olhos crescidos e parados. Por
fim, ela cedeu ao riso - um riso frouxo, desatado, que se lhe derramava dos
lábios úmidos, enquanto um fulgor novo lhe reluzia nas pupilas:
- O senhor, Major? Dar nome ao meu filho? Como se fosse pai dele? Foi isso
que o senhor quis dizer?
Ele confirmou com a cabeça. E completou:
- Foi isso, sim, Tininha. Quero fazer dele meu herdeiro. E de você também. Para
isso, estou pensando em me casar com você.
Ela riu mais alto, com a mão espalmada diante da boca, e seu busto ia e vinha,
como a balançar-se na cadeira fixa. E era um riso histérico, ora com o semblante
crédulo, ora com o semblante desconfiado, enquanto o Major permanecia sério,
sempre a olhá-la de frente, buscando-lhe os olhos.
O casaquinho caiu das mãos da Tininha, e também a agulha, e mais o novelo de
linha azul. E o Major sempre a fitá-la, com os pés firmados nas tábuas do
soalho, as
mãos contraídas nos braços da cadeira, o busto desencostado do espaldar de,
palhinha, a cabeça hirta.
E a Tininha, tentando reprimir o riso:
- com que idade o senhor está, Major? E eu?
Sem esperar que o riso dela se desfizesse, o velho respondeu, no mesmo
tom grave:
--Há muito tempo que já não digo minha idade para que não riam de mim. Pela
ordem natural das coisas, eu já devia ter morrido. De meu corpo, do que ainda
sou, somente
o pó restaria. Sou um sobrevivente. Meus contemporâneos se foram, e eu fiquei.
Mas, a qualquer momento devo morrer, não posso deixar de morrer. Hoje mesmo, de
volta
de nosso passeio, assim que chegamos ao patamar da escada, não foi você que se
amparou no meu braço, fui eu que me amparei no seu. Se não fosse isso, eu tinha
caído.
Pensei que tinha chegado a minha hora.
284
Tininha recolheu depressa o resto do riso, olhou de frente o velho, apreensiva,
um ar de pavor nos olhos. Veio mais para a frente, com o mesmo semblante
preocupado:
- Major, o senhor não pode morrer agora. Não, não pode. Sem o senhor aqui, eu me
sentiria perdida em São Luís. Eu e meu filho. Para a fazenda eu não quero
voltar.
Ele concordou, movendo a cabeça.
- Sei disso. E é por isso que só vejo uma saída: me casar com você, e antes do
nascimento de seu filho. Dou-lhe meu nome, deixo-lhe minha fortuna. Se não
deixar
para você o que tenho, a quem hei de deixar? A uma vaga parenta, que mora no Rio
de Janeiro, filha do irmão bastardo de um sobrinhoneto? Não, não tem sentido.
Quero
assegurar a sua vida e a vida de seu filho. E quanto tempo vai durar este
casamento? Uns meses? Um ano? No máximo um ano. Ao fim de um ano, você será
uma viúva
rica, casará com uma pessoa de sua idade, criará seu filho nos melhores
colégios, e eu já terei cumprido a vontade de Deus, misturando-me ao pó do
chão.
Casada, os vizinhos estranharão, arregalarão os olhos, mas não poderão rir de
você. Porque você será a Senhora do Major Ramiro Taborda.
CAPÍTULO II
O JORNAL DOBRADO tinha sido posto por baixo da porta, às primeiras horas da
manhã. De modo que, ao abri-la, ainda cedo, para recolher o leite e o pão, o
Major também
recolheu o Diário do Povo. Levou o leite à cozinha, despejou-o na leiteira para
ferver, e foi acomodar o pão na cestinha de vime, com um guardanapo de linho por
cima. Já a água do café tinha começado a borbulhar na panelinha de estanho,
sobre a grelha do fogareiro.
Daí a momentos chegou a Tininha, com o penhoar estampado escondendo a camisola,
os cabelos apanhados para trás pelo atracador de tartaruga:
- Deixe isso, Major - disse ela, parando em frente ao fogareiro. - Vá ler o
seu jornal. Depois me conte as novidades.
Parecia mais gorda, com os olhos empapuçados pela noite de sono. E seu andar era
meio engraçado, com o ventre alto e saliente, os braços roliços afastados dos
quadris, os pés nas chinelinhas de cetim azul e que arrastavam nos ladrilhos do
piso, dando a impressão de que as pernas inchadas lhe pesavam.
E ela ainda coava o café para o bule, esperando o líquido acabar de escorrer,
escuro, fumegante, quando o Major voltou à cozinha, muito pálido, gaguejando, a
lhe
mostrar a primeira página do Diário do Povo, quase toda tomada por um clichê:
- Veja isto, Tininha. Uma miséria contra você e contra mim. Só a chicote,
Tininha. Sou acusado de ter seduzido você. E você é apresentada como uma vítima
de meus
baixos instintos. Um horror.
E exibindo a página aberta, com a mão a tremer, leu devagar o cabeçalho da
notícia:
286
- Bode velho do Largo do Desterro deflora menor. Depois, ainda pálido, mostrou
com o dedo o clichê:
- Aqui está você, com uma tarja no rosto, para não ser identificada, e aqui
estou eu, de cara descoberta. A fotografia é de ontem, Tininha. E foi tirada
na
porta daqui de casa, quando voltávamos do passeio. vou à redação deste
pasquim. Não posso deixar de retalhar a chicote a cara do miserável que
escreveu isto.
E ainda lhe movo um processo.
Tininha segurou o jornal, aproximou-se da janela, buscando uma luz melhor. E
rasgando depressa a folha que segurava com as duas mãos, atirou as tiras ao
fogo, antes
que o velho lhe detivesse o gesto. As labaredas cresceram por entre os vãos da
grelha, e ficaram a arder, espiralando rolos de fumaça.
E para o Major, que a olhava, atônito:
- Vamos tomar nosso café.
Passou à frente, levando o bule e a cesta de pão, enquanto o velho trazia a
leiteira e o pote de geléia, logo atrás.
Ela sentou, esperou que ele sentasse. E tornando a levantar, ofereceu-lhe o
rosto:
- Beije aqui. Agora, mude de assunto.
Porém o Major, instalado na cabeceira da mesa, ainda não se tinha refeito da
ira: continuava pálido, mordendo os maxilares. E só depois que se pôs a
mastigar, estalando
nos dentes a primeira fatia do pão, foi que as cores lhe voltaram. A mão pôde
segurar com firmeza a xícara, sem a ajuda da outra.
E Tininha, senhora de si:
- Muito bem - aprovou. - O senhor não podia se entregar ao desespero. Desespero
por quê? Não senhor. A maldade humana é assim mesmo. Jornal dura um dia; amanhã,
o assunto é outro. E tudo se esquece. Ponha uma pedra em cima dessa miséria.
Quem tinha razão para se sentir incomodada era eu, que sou a causa de tudo. Eu.
Mais
ninguém. Se eu não viesse para cá, neste estado, o senhor estaria sossegado no
seu canto, com os vizinhos a lhe sorrirem, o senhor a tirar o chapéu para os
vizinhos,
e tudo ia bem. Fui eu que perturbei tudo. Sei disso. E só há um meio de eu não
me afligir, com toda esta miséria: é o senhor ficar acima dela.
O Major, de testa contraída, esfarelava miolo de pão na toalha, com o braço
apoiado na borda da mesa:
287
- Você tem razão, Tininha. Mas há momentos em que a gente perde a cabeça.
Cheguei a entrar no meu quarto, à procura de uma arma. E vi que, aqui em casa,
não há
um revólver, uma pistola, uma simples espingarda. Só a minha navalha de barba. E
a faca da cozinha. Mais nada. As armas que tinha, em casa - quase todas do
marido
de Celeste - eu as levei para a fazenda. Aqui, não tenho sequer uma pistola de
brinquedo, para intimidar ninguém. Fiquei ainda mais desesperado. Porque eu
queria
sair à rua, e ir diretamente à redação do Diário do Povo, para matar seu
diretor. Sim, ele. Era o que merecia. O canalha não se limitou a dar a notícia
infame, que
me achincalha, que arrasta você pela rua da amargura. Fez mais: me denunciou, em
carta aberta, ao Juiz de Menores. A denúncia é pública, Tininha. Vai ter
andamento.
Não posso ficar de braços cruzados. Tenho de agir.
Levantou-se, num começo de exaltação:
- Não posso ficar de braços cruzados, sabendo que vão me aborrecer com esta
maldade. Felizmente você não leu a notícia do jornal nem a carta do canalha do
Pretextato
ao Juiz. Fiquei sem fala, Tininha, com o coração a me querer sair pela boca. Até
o caso de uma preta velha caduca, que foi minha escrava e já morreu há
muitíssimos
anos, foi desenterrado pelo miserável, que me acusa do que nunca fiz: ter
violentado a velha, como se eu fosse um tarado. Nem a Sinhá Inácia, uma mulata
minha amiga,
que eu trouxe da fazenda, e a quem dei casa e sustento, antes da Primeira Grande
Guerra, escapou ao mar de lama em que jogaram a mim e a você. Pensei que eu ia
ter
alguma coisa. Mesmo agora, meu coração ainda não se regularizou, e eu sinto um
gosto de fel na boca, sem saber ainda o que vou fazer. Preciso urgentemente
ouvir
um advogado. Se for preciso, vou ao Chefe de Polícia, vou ao Governador do
Estado, vou ao Presidente da Assembléia. Ou então mandamos tudo às favas e vamos
embora
daqui.
Caminhou para perto da mesa, com a intenção de ajudar a Tininha, que ia
recolhendo a louça do café - quando ambos pararam, voltados para a sala, ouvindo
o ruído
ressoante de uma vidraça partida.
E o velho, ainda sem ação:
288
- Foi aqui, Tininha. Jogaram uma pedra no vidro da janela. A perseguição
começou.
Os dois seguiram para a sala, com ar assustado, pisando de leve, e pararam na
soleira da porta, no limite da alcova, a olhar a vidraça desfeita, do lado da
Rua
da Palma, e os farelos de vidro espalhados no chão. O velho deu alguns passos,
chegou a segurar o ferrolho da rótula, mas a Tininha acudiu:
- O senhor ia abrir a janela, Major?
- Para ver quem foi que fez isto. Ela redobrou de energia, puxando-lhe o braço:
- Não seja criança. E que é que o senhor ia fazer, se visse alguém com outra
pedra, na calçada da rua? Nada. Absolutamente nada. Espere. Isso tem de passar.
Use
a sua cabeça. Vamos tratar de proteger o resto da casa.
E ela própria cerrou as duas portadas, logo passando às outras janelas, enquanto
o Major contraía os maxilares, novamente pálido, o semblante desfigurado.
- Que é que vamos fazer, Tininha? - indagou ele, ainda atônito, no calor e na
penumbra da sala fechada.
E novamente prenderam a respiração, ouvindo o ruído de outra pedrada, agora do
lado do Largo do Desterro, logo seguido por uma voz de menino, que desafiava o
Major:
- Sai para fora, Bode Velho. Põe a cabeça na janela. Ou então vem para a rua.
Outra pedrada vibrou, novamente do lado da Rua da Palma, desta vez acompanhada
por um sussurro de vozes e de risos. E a Tininha, tratando de cerrar as outras
portadas:
- Venha fechar também. Não fique assim, sem ação. Nessas horas, temos de agir. E
agir com a cabeça no lugar.
Ele correu à outra janela, mas suas mãos se atrapalhavam, sem saber torcer
direito o ferrolho, e já outras pedradas ziniam, estrondavam, desfaziam as
vidraças, nos
dois lados do sobrado. Parecia a Tininha e ao velho que, lá embaixo, agora, as
pessoas eram muitas.
E o Major, na varanda, com a bengala na mão:
- Eu vou correr daqui esses miseráveis, Tininha. Não posso admitir semelhante
desaforo.
Ela lhe tomou a bengala:
289
- Calma, Major. Eu, neste estado, estou me controlando. Por que é que o senhor
não pode se controlar? Pode. Não se precipite. Que é que o senhor ia conseguir,
saindo
na calçada com esta bengala? A primeira pedrada que acertasse em cheio no senhor
podia lhe ser fatal. Calma, calma,
já lhe disse.
O vozerio crescia, e o mesmo grito se repetia:
- Bode velho, bode velho.
E o Major, atarantado, alongando o braço para reaver a bengala, mais pálido, os
lábios arroxeados:
- Você está ouvindo? É a mesma miséria do jornal. E isso partiu de nossa rua.
Foram nossos vizinhos que nos denunciaram, propalando a mesma miséria contra
mim.
Como as pedradas houvessem parado, parecia que a fúria da malta se tinha
atenuado. Mas logo estrondaram pancadas fortes na porta da rua, como se
estivessem a tentar
arrombá-la. Tininha levou a mão ao peito, no esforço para conter o coração
acelerado. E o velho, de bengala em riste:
- Você está vendo que eu só tenho um caminho: é descer e correr daqui esses
pulhas.
Chegou a alcançar o patamar da escada; porém Tininha, mais uma vez senhora de
si, tornou a contê-lo. E ambos ficaram ali um momento, olhando para baixo,
enquanto
as batidas fortes se repetiam, mais freqüentes, mais intensas, sem que a velha
porta de bacuri cedesse à pressão das pancadas.
E nisto ouviram a voz fanha do Padre Murtinho, gritando no meio da praça:
- Vão embora daqui. Isso não se faz. Acabem com essa estupidez. Saiam, saiam.
Não admito essa loucura.
atio
CAPÍTULO III
PADRE MURTINHO não acreditava no que estava vendo:
- O senhor nasceu em 1804, Major? É do tempo da Colônia? Do tempo da
Independência? Do tempo da Guerra do Paraguai? O senhor assistiu à Abolição e à
República?
E o Major, confirmando com a cabeça:
- É como diz, Padre Murtinho. Em fevereiro fiz 151 anos. Nasci aqui em São Luís.
Fui batizado na igreja de Santaninha, que não existe mais.
O padre espalmou a mão no ar, erguendo da certidão de nascimento os olhinhos
espantados:
- Os livros da igreja de Santaninha estão no arquivo da Cúria. O senhor vai me
permitir que eu confira este batistério hoje mesmo, com os livros da igreja.
Cento
e cinqüenta e um anos são muito tempo, Major. Mais de século e meio. Preciso
ver. Preciso verificar. São
Tomé fez a mesma coisa com Nosso Senhor Jesus Cristo, e
foi bom que tivesse feito. Acabou com as dúvidas sobre a ressurreição de Nosso
Senhor. Eu também sou como São
Tomé. O senhor me desculpe, Major. Mas Deus me fez
assim, assim tenho de ser. A tarde, ou à noite, volto aqui.
Uma hora antes, serenado o tumulto da rua, não lhe tinha sido fácil entrar no
sobrado. Esmurrara a porta com ambas as mãos, chamando pelo Major, dando-lhe seu
nome.
E quando descerrara a pesada folha de bacuri lavrado, o velho recuara de bengala
em riste, a faca de cozinha na outra mão, protegido pelas sombras da escada. ,
Lá de cima, no patamar, a Tininha o chamara:
- Suba, Padre Murtinho.
291
E o Major, baixando os braços agressivos:
- Perdoe, Padre. Fiquei com receio de que alguém da malta, aproveitando a
entrada do senhor, entrasse também.
Subiram os dois, um ao lado do outro, depois de passado o trinco da porta. O
padre, vermelho, ainda exaltado, limpava o suor que lhe escorria para o
colarinho da
batina, enquanto o velho, pisando com força, continuava a explicar-se:
- Quase perco a cabeça, Padre Murtinho. Ainda bem que o senhor apareceu na hora
exata. Não sei o que seria de mim e da Tininha sem a sua intervenção
providencial.
Foi Deus quem o mandou aqui. Não pode deixar de ter sido.
A Tininha, sempre solícita, entreabriu uma das janelas, depois a outra, para dar
mais luz ao aposento. E oferecendo ao padre a cadeira de balanço:
- Sente aqui, Padre Murtinho. Faça o favor.
E para o Major, que parara junto à mesa, apoiando-se no espaldar de uma das
cadeiras de couro:
- Vá tomar um pouco de água, Major. O senhor não quer também, Padre Murtinho? É
bom.
E o padre, assim que repôs o copo na salva de prata, já com o lenço aberto para
enxugar o suor que lhe escorria pelo pescoço, em toda a volta do colarinho:
- Nossa sorte é que eu me atrasei na sacristia, acabando de passar para o livro
da igreja os dados de um casamento, depois de ter rezado a missa. Se não fosse
esse
atraso, os malucos tinham acabado por arrombar a porta do sobrado.
O velho, instalado na cadeira de braços, ergueu a cabeça, com o ódio e o medo
nas pupilas:
- Garanto-lhe que ia correr sangue, Padre Murtinho. E olhe que eu sou um
homem pacífico. Mas há coisas que ultrapassam a nossa paciência. Que fizemos
nós
àqueles patifes? Nunca me meti com vizinhos. Sempre vivi para dentro de minha
casa. A Tininha, por seu lado, e embora moça, só vive para a casa, sem querer
saber
de ninguém. De repente, sem que nem mais, desaba um temporal de infâmias sobre a
nossa cabeça. Viu o Diário do Povo, Padre Murtinho? E leu a carta do canalha do
Pretextato ao Juiz de Menores?
O padre respondeu com rapidez:
292
- Vi o jornal e li a carta. Já eu estava esperando que, mais dia, menos dia,
este caso viesse a público. Nesta nossa terra, fala-se de tudo, meu caro Major.
De tudo.
Nem os padres escapam. Nem os padres. Até hoje não sei como ainda não disseram
nada de mim. Não sei. Mas vão dizer. Vão. E por que havia eu de ser poupado, se
não
poupam ninguém? E olhe que o Pretextato, sempre que me vê, vem para mim, de
braços abertos. A senhora dele me ü'stingue muito. E a filha casada também. Mas
não estou
seguro. Um belo dia, quando eu menos esperar, levo o meu pontapé nos quartos.
Levo. Sei que levo. E já estou preparado.
E chegando o corpo para a ponta da cadeira, firmou os olhos miúdos nos olhos do
velho, ao ver a Tininha entrar na alcova:
- Por que é que o senhor não toma a iniciativa de tapar a boca do povo, Major?
Tape. Em vez de ser forçado a casar com a mocinha por determinação do Juiz de
Menores,
case por sua própria iniciativa. é um gesto nobre. Um gesto superior. Sei que
ela é de família humilde. Cristo também foi. Mais de uma vez, na igreja, ao fim
da
missa, conversei com a Tininha. Só não tratei do problema do filho porque o
assunto é delicado: esperei que ela própria me falasse. Como não falou,
fiquei
calado. Falo agora, na minha qualidade de sacerdote. A vizinhança toda reclama.
Principalmente quando vê o senhor, um homem rico e idoso, de braço com a
Tininha,
todas as manhãs. Os vizinhos acham que é uma provocação de sua parte. Não
sei se a Tininha lhe disse que eu estava querendo vir aqui falar com o senhor.
Disse?
Está vendo? Eu devia ter falado antes. Mas não pude. De repente, o caldo
entornou, com o escândalo do jornal. O Pretextato não se emenda. Quer fazer
zoada para
vender o Diário do Povo, sem medir as conseqüências. Graças a Deus pude acudir
em tempo.
Pôs as mãos cabeludas nos joelhos, sem desfitar o velho. E dando energia à voz
baixa, do fundo da garganta:
- E estou disposto a chamar o Pretextato à razão, dê no que der. Se for preciso,
recorro ao Senhor Arcebispo. Ou então ao Governador Eugênio Barros, que me ouve
muito. Agora, já passou dos limites. vou sair daqui diretamente para a casa do
Pretextato. O caso não é mais do senhor, Major: é meu. Meu.
293
E bateu no peito magro. Deixou a cadeira ir para trás, trouxe-a de novo para a
frente. E tornando a segurar os joelhos:
- Mas tudo vai depender da orientação que eu levar daqui. Preciso ter força para
enfrentar a fera. E essa força não depende de mim: depende do senhor, Major. Em
querer aceitar a solução que lhe propus. Sem essa solução, que é que vou dizer
ao Pretextato? Ponha-se no meu lugar, Major.
E enquanto olhava o velho, esperando-lhe a resposta, que o Major retardou, de
semblante carregado, voltou a enxugar o pescoço, depois a testa e as têmporas,
sem
desviar a vista. O Major, por fim, decidiu-se:
- Padre Murtinho, eu não gosto de fazer nada debaixo de pressão. Não, não gosto.
Sempre fui assim. Não quero que se diga que eu fiz isto ou aquilo porque fui
obrigado.
Não, não quero. E já vivi bastante para achar que já não é mais tempo de mudar
minha natureza.
O padre deixou cair a mão no regaço, segurando o lenço. E dando ao olhar uma
expressão severa:
- Major, antes que o senhor continue, deixe-me fazer-lhe uma pergunta. Não há
outra pessoa nesta varanda; faça de conta que está no confessionário, diante do
sacerdote.
Diga-me uma coisa, com toda a franqueza: não é seu o filho que a Tininha tem no
ventre?
O velho pigarreou forte, baixou os olhos. E tornando a levantar a vista:
- Padre, se eu lhe disser que não é, o senhor pode duvidar; se eu lhe disser que
é, o senhor também pode duvidar, levando em conta a minha idade avançada.
Portanto,
o melhor que eu faço é deixar que o senhor mesmo faça a sua suposição como
melhor lhe parecer.
E voltou a pigarrear, mais forte, mais demorado, erguendo-se da cadeira e
voltando logo a sentar.
Padre Murtinho balançou a cabeça, apertando com o polegar e o indicador a ponta
do lábio:
- Compreendo, compreendo. E como o senhor deixou a suposição a meu critério,
adianto-lhe que há exemplos na Bíblia que abonam perfeitamente a sua
paternidade. Além
disso, há as provas circunstanciais: seu carinho pela moça, o cuidado com que
sai a passear com ela, a atenção dela para
294
o senhor, e do senhor para ela, e mais o fato de morarem sozinhos neste sobrado,
tudo isso confirma a suposição de que, não tendo havido casamento entre ambos e
estando ela à espera de um filho, estamos diante de um concubinato, que precisa
acabar. E que é que os dois estão esperando para legalizar esta situação? Ponha
de
lado a idéia de que o estão pressionando para casar, Major. O senhor, pela sua
inteligência, pela sua situação pessoal, pelo seu coração bem-formado, está
acima
da murmuração dos vizinhos e do estardalhaço de um jornal. Faça de conta que não
houve nada. O culpado sou eu que devia ter vindo aqui antes, e só agora pude
vir.
Olhe bem para mim, no fundo dos olhos, sabendo que está diante de um ministro de
Deus, e decida-se.
- Já me decidi, Padre Murtinho - replicou prontamente o velho, sustentando o
olhar. - Eu, por mim, caso com a moça. E ontem mesmo disse isso a ela.
O padre adiantou-lhe a mão espalmada, com uma fisionomia radiante:
- Meus parabéns, Major.
- Ela é que ainda não me disse se está disposta a casar comigo. Não depende mais
de mim: depende dela.
O padre ficou de pé:
- Nesse caso, vá falar com ela. Eu espero. Sei que tudo vai dar certo. Quando
voltar, traga-me as duas certidões de idade: a dela e a sua.
E agora, depois de dobrar a certidão da Tininha, Padre Murtinho volvia a ler o
batistério do Major, ainda espantado, novamente na cadeira de balanço. Olhou o
velho,
olhou o papel amarelado, como a refletir, como a argumentar consigo mesmo, e
outra vez ficou de pé:
- vou tratar disto agora, meu caro amigo. Agora. Saio daqui, vou à casa
do Pretextato. Saio da casa do Pretextato, vou à Cúria. De tarde, estou de novo
aqui.
E pelo meio da tarde, já com o sol começando a declinar, quem ali apareceu,
antes do Padre Murtinho, foi um senhor baixo, gordinho, o cabelo crespo colado
ao crânio
com muita brilhantina, metido num costume azul reluzente:
- Sou amigo do Padre Murtinho. E trago-lhe um recado dele, Major. Pode abrir sua
porta, sem receio. Sou de paz.
295
O Major, que olhava o outro na janela sobre a porta, demorou um momento a
observá-lo, em seguida cerrou a rótula, sem lhe dar resposta, e encaminhou-se
para a escada,
enquanto a Tininha corria a fechar-se na alcova, para tornar a deitar-se.
E o senhor gordinho, assim que o Major entreabriu a porta:
- Padre Murtinho manda dizer-lhe que está à espera do Senhor Arcebispo para
obter de Sua Excelência Reverendíssima a dispensa dos banhos para o casamento.
Enquanto
ele espera, corri para cá. Trago-lhe a grande nova: tudo confirmado. Não foi
fácil encontrar o livro de batismos da igreja de Santaninha. Mas, por fim,
molhando
a mão do padre que toma conta do arquivo, tudo se arranjou. O livro estava
defronte dele, na primeira prateleira do primeiro armário. Só o padre arquivista
não o
via. Acabou vendo.
E já subindo a escada, precedido pelo Major, que ainda não lhe tinha dado uma só
palavra:
- Estamos diante de uma notícia sensacional. A mais sensacional dos últimos
tempos. Abafa a da morte do Getúlio. Abafa a da subida do Café Filho.
Abafa
as manobras do Governador de Minas Gerais para ser candidato à Presidência
da República. Tudo. Absolutamente tudo.
Lá no alto, antes de apresentar-se, parou, olhou o velho na melhor incidência da
luz:
- E ainda firme e bem-disposto. Benza-o Deus, Major. Fique sabendo que o senhor
não é apenas o homem mais velho do Maranhão ou do Brasil. Não. Suba. É o homem
mais
velho do mundo. Já passei a notícia sensacional para as grandes agências
telegráficas, antes de vir para cá. A esta hora, já o Cabo Submarino está
buzinando
o acontecimento no Rio de Janeiro, em Londres, em Lisboa, em Roma, em Nova
Iorque. E eu estou aqui, não apenas para cumprimentá-lo, em nome da imprensa,
estou
aqui para me penitenciar, de joelhos, pela miséria estúpida que hoje saiu no
Diário do Povo.
E o Major, com o semblante carregado:
- E quem é o senhor?
- Pretextato Nunes, diretor do Diário do Povo. Amanhã, meu jornal inteiro, da
primeira à última página, será consagrado ao senhor. O senhor é uma glória do
mundo,
meu caro Major! Um patrimônio da humanidade!
296
CAPITULO IV
O ARCEBISPO tinha chegado primeiro, na companhia do Padre Murtinho. Chegou
depois o Professor Luís Rego, com uma comissão de alunos do Colégio São Luís.
Chegou
em seguida o Presidente da Assembléia. E a todos o Pretextato recebia no patamar
da escada, com ares de dono da casa, muito maneiroso, muito expedito:
- Por aqui, Excelência.
Na vez do Professor Luís Rego, lembrou:
- Sou seu ex-aluno, Professor.
- Como quase todos os maranhenses - replicou o mestre, com orgulho. - E
todos eles sempre fazendo boa figura, como o querido e apreciado amigo.
De repente o Pretextato se fez mais vivo, mais animado, a olhar para o pé da
escada. E logo anunciou, saltitante, ar de mistério:
- O Governador Eugênio Barros.
Não se limitou a esperar por Sua Excelência no topo da escada: desceu alguns
degraus, baixando a cabeça, com a mão mesureira a completar a vênia ao Poder
Executivo:
- Eu tinha a mais absoluta certeza de que o querido e bravo Governador não
deixaria de vir. E fiquei aqui de propósito para ter a honra de ser o primeiro a
apertar-lhe
a mão. Como tem passado, Excelência? E a Excelentíssima? Tudo bem. É o
que se quer.
E como o Governador vinha acompanhado pelo Ajudante de Ordens, muito elegante na
sua farda bem-talhada e engomada, o quepe sobraçado, os botões do dólmã
reluzindo
297
na claridade do lustre, estendeu-lhe também a mão reverente, numa voz
menos efusiva:
- E o nosso querido Tenente José Otávio? Cada vez mais bonito. Sempre mais
simpático. E ainda indeciso quanto à escolha da conterrânea com quem irá ao
altar?
Olhe que já há protestos.
Tornou a voltar-se para o Governador:
- Venha comigo, Excelência. Aqui, hoje, sou tudo. Organizei a festa, fiz os
convites, felizmente tudo está saindo de acordo com o figurino. Nosso Major está
na
sala de visitas recebendo os cumprimentos. Fiz o possível e o
impossível para pôr no peito dele uma comenda da Ordem da Rosa, mas o velho
recusou. Não quer
saber de crachás. Mesmo assim, estou encantado com ele. Um espírito finíssimo,
de vastíssimo saber. Um poço de experiências. Um poço? Digo mal: um
oceano.
Um oceano de experiências.
Retardou o passo, segurando o braço do Governador:
- Quando a gente pensa que este nosso Maranhão não dá mais nada, aparece-
nos uma surpresa como a deste Major: o homem mais velho do mundo é nosso! E
lúcido.
E lembrando-se de tudo, meu Governador. Memória de pontaria. Certeira. Sem um
erro, sem um engano. Viu Dom João VI. Não na pintura a óleo ou na fotografia:
em carne
e osso, de beiço pendurado. Como viu Pedro I. O próprio. O da Independência. O
do grito. Podia ter apertado a mão de Napoleão Bonaparte. Já pensou? Conheceu
Lorde
Cochrane, e esteve com ele, num sobrado da Rua do Egito, assim como eu estou com
o Governador Eugênio Barros, neste sobrado do Largo do Desterro. Retardou mais
o passo, quase parando:
- Chega amanhã a São Luís um repórter do Times, de Londres, só para ouvir o
Major Taborda. Ontem estiveram aqui dois jornalistas alemães, um italiano e um
espanhol. A idade do Major já foi objeto de um debate na Academia Nacional de
Medicina, provocado por nosso conterrâneo Deolindo Couto. E vem aí
um grupo de médicos querendo examiná-lo. Até um Prêmio Nobel de
Medicina, de nome atrapalhado, já mandou dizer que vem olhá-lo. Sucesso
absoluto, meu caro
Governador. E não vai ficar por aí. Os jornais e revistas do mundo inteiro estão
se ocupando dele. E as
298
propostas que fazem ao velho? Nem queira saber. Já era rico, vai ficar podre de
rico. Ganhará o que quiser. O que quiser. Além da vida eterna, dinheiro a dar
com os
pés. O rio corre mesmo para o mar.
E antes de entrarem na sala, ouvindo o burburinho das conversas:
- E o nosso Maranhão, que homenagem vai prestar ao Major? O nome
numa praça? Ou uma estátua? Uma estátua, certamente. E por que não uma bela
avenida?
Por favor: nada do nome dele em asilo de velhos!
Ao fundo da sala, na marquesa de palhinha, por baixo do retrato a óleo da
Minervina, o Major tinha acabado de cruzar as pernas, na velha casaca dos dias
solenes,
que vestira especialmente para a dupla cerimônia do casamento. Ao seu lado, num
vestido branco debruado de rendas, a Tininha parecia mais volumosa, com os seios
crescidos, a barriga alta e cheia, sorrindo muito, sorrindo sempre, não sabendo
o que fazer do lequezinho de madrepérolas que trazia nas mãos rechonchudas.
Para conter a curiosidade pública - que se aglomeraria no interior das mais
vastas igrejas, derramando-se pelo adro e pelas ruas laterais - o Padre Murtinho
celebrara
o casamento ali mesmo no sobrado, no pequeno altar improvisado ao fundo da
varanda. Momentos antes, o Juiz realizara a solenidade civil na sala de visitas,
com
a presença de meia dúzia de convidados: o Dr. Carlos Macieira e a Senhora, como
padrinhos da noiva, e o Pretextato e uma irmã do Padre Murtinho, como padrinhos
do
noivo, além do gerente do London Bank e do próprio padre, já paramentado para o
ato religioso.
O Demóstenes, que deixara o carro perto da porta do sobrado, para qualquer
necessidade urgente, e mais a tia, a velhusca Maria Antônia, que afinal
aparecera para
cuidar da casa até a Dona Tininha ter o filho, limitaram-se a assistir à
cerimônia de longe, no vão da porta, consoante a recomendação do Pretextato:
- Não se aproximem. Os dois não podem figurar nas fotografias, que vão sair na
Manchete e no Cruzeiro. Entendeu, Demóstenes? Entendeu, Maria Antônia?
Esta Maria Antônia, com a sua touca branca e o seu avental de criada, era
baixinha, miudinha: tinha os olhos redondos de
299
quem nascera para ter inveja, e agora, na sala apertada de convidados, parecia
dançar em redor do Arcebispo, a oferecerlhe os salgadinhos que trazia na
bandeja,
enquanto um garçom moreno, emprestado pela mordomia do Palácio dos Leões, servia
gengibirra e cajazinha, depois do champanha francês que o Pretextato trouxera de
casa, como cortesia do seu jornal. E não lhe fora fácil convencer o velho, que
relutara em admitir na reunião bebidas alcoólicas. Afinal, argumentara:
- Casamento sem champanha nunca dá certo, Major. Nessas coisas, segue-se a voz
do povo. Vá por mim.
E lá vinha o Pretextato, tentando abrir caminho para o Governador, a arredar a
Maria Antônia para um canto da sala: ela voltou pelo lado contrário, com a
bandeja
na ponta dos dedos, como em desafio, empinando as nádegas miudinhas, a esticar-
se na ponta dos pés. Mas logo se esqueceu do desafio e da ira, e toda ela se
concentrou
nos olhos aumentados, ao reparar "na atenção demorada que a Tininha parecia dar
ao Ajudante-de-Ordens do Governador.
E a Tininha, nesse momento, para o Tenente:
- Eu tive um primo muito parecido com o senhor. O mesmo formato de
rosto, os mesmos olhos, o mesmo cabelo crespo. Eu devia ser muito criança quando
vi
esse primo, mas fiquei com ele na lembrança. Assim que o senhor entrou na sala
com o Governador, eu me assustei. Pensei comigo: será ele? Depois, quando o Dr.
Pretextato nos apresentou, dizendo o nome do senhor, vi que estava enganada. Meu
primo é Roberval. Nunca vi duas pessoas tão parecidas.
A sala pequena parecia ter diminuído de tamanho com as pessoas que ali se
comprimiam. Para aumentá-la, a Tininha fizera escancarar as duas portas sobre a
alcova,
deixando ver a cama de metal com cortinados. A seguir, outras duas portas abriam
para o escritório onde o Major tinha a rede, a mesa de tampo corrido e a estante
atulhada de livros encadernados. E o Pretextato, para o Arcebispo:
- Já disse ali ao nosso Governador que estou espantado com o Major, Dom Delgado.
É realmente um fenômeno. Um assombro. Conversei com o Deputado José Sarney, que,
embora muito moço, vive a mexer em livros velhos, e ele me assegurou que, aqui
no Maranhão, no tempo dos franceses,
300
eram comuns os velhos de cento e cinqüenta, cento e sessenta anos. Quer isso
dizer que há precedentes. Fiquei de queixo caído. Vossa Excelência
Reverendíssima
o que acha? Dom Delgado, meio sonolento, afastou as mãos:
- Para a misericórdia de Deus, nada é impossível. O Velho Testamento está cheio
de macróbios, bem mais velhos que o Major Taborda. De seiscentos, de
setecentos
anos. Até de novecentos.
E o Pretextato, junto à orelha do prelado, a acompanhar com os olhinhos
entusiasmados os movimentos do velho:
- Excelência, repare no desembaraço do Major conversando com o Governador
Eugênio Barros. Ouvido perfeito, vista perfeita, movimentos perfeitamente
coordenados,
mente clara, memória admirável. E ali a noiva carregando um filho dele, já perto
de descansar. Sublime. Nunca se viu uma coisa igual. Em lugar nenhum. Na hora do
casamento civil, até que foi engraçado. Eu botei os óculos, o Dr. Carlos
Macieira pôs os dele; o gerente do London Bank, idem. E também o Padre
Murtinho. Só quem
escreveu no livro de assentamentos sem precisar da cangalha no nariz foi o
Major. Os outros, todos de óculos. Mandei bater uma fotografia. Dom Delgado vai
me perdoar,
se eu estiver dizendo um disparate: mas Vossa Excelência não acha que seria o
caso de celebrar-se uma missa campal de ação de graças? Pense nisso. Eu daria a
necessária
cobertura no meu jornal. Todos os sinos tocando. Vossa Excelência Reverendíssima
fazendo um de seus maravilhosos sermões. As rádios transmitindo a missa. E
o povo do Maranhão a rezar, reconhecido pela vida do Major, batendo no
peito, com as cabeças inclinadas. Um espetáculo de fé como nunca se viu.
Meteremos
num chinelo (me perdoe a expressão) a tão falada Primeira Missa no Brasil, do
Vítor Meireles. Que me diz desta idéia, Dom Delgado?
O Arcebispo levou a costa da mão à boca, reprimindo o bocejo, de pálpebras
contraídas:
- vou pensar - respondeu, evasivo.
E o Pretextato, concordando com a cabeça e as mãos:
- Prefeitamente, Excelência. Eu, para a merecida glorificação deste nosso
conterrâneo, tenho feito o que está ao meu alcance. Desde que soube da idade
dele, pelo
Padre Murtinho,
301
não tive um minuto de descanso. Edições inteiras do Diário do Povo. Avulsos
pelas ruas. Cartazes nas paredes. Tudo. E badalando a notícia para fora, noite e
dia.
Devo ter perdido uns cinco quilos, neste corre-corre. Agora, veja Vossa
Excelência o outro lado da medalha. No meio do júbilo geral, há sempre um
desmancha-prazer.
Olhe ali na janela o Dr. Domingos Vieira Filho cochichando com o Dr.
Pedro Neiva de Santana (todo de branco, como sempre). O Dr. Domingos, um moço
culto,
inteligente, bom advogado, excelente escritor. Sou o primeiro a
reconhecer e proclamar. Anteontem, eu procurei o Dr. Domingos em casa, na Rua do
Sol,
com uma bonita idéia. Uma idéia estupenda. Mas não quis levá-la adiante sem
primeiro ouvir o Dr. Domingos, que entende do riscado. Pensei em tornbar o Major
Taborda.
Tombar. Dom Delgado endireitou a cabeça:
- Tombar como?
- Inscrevendo o Major Taborda no Livro do Tombo, como monumento nacional -
replicou o Pretextato, sério, com rapidez, olhando o Arcebispo de frente. - Como
a Praia
Grande. Como a Capela das Laranjeiras. Como o Largo do Carmo. Nada mais justo.
Nada mais apropriado. Pois o Dr. Domingos foi contra. Redondamente contra. Que
não.
Isso não. Era ridículo. Iam rir da proposta. Esfriei. E eu, que já estava
pensando na festa para o dia do tombamento, fiquei de nariz comprido, com uma
bruta dor
de cabeça. Nesse dia, nem fui ao jornal. 'No dia seguinte, conversei sobre o
assunto com o Dr. Pedro Neiva de Santana, que é também um homem culto, muito
lido.
Riu também. Riu no meu nariz. Mas o mais grave eu ainda não contei a Vossa
Excelência Reverendíssima. vou contar. Conhece o Morais? Quem é que não
conhece?
É filho de um grande amigo meu. E que foi meu mestre. Meu saudoso mestre. Pois
este Morais - que é inteligente e estudioso - anda dizendo por aí, com seu
vozeirão
reboante, que o caso do Major Taborda é uma invenção minha para vender jornal.
Sim senhor. Um embuste deste seu criado. Que o velho não nasceu em
1804. Que tudo quanto tem sido publicado a respeito do Major é
mentira. E mais: que não existe o livro de batismos da igreja de Santaninha no
arquivo
da Cúria. E que eu estou mancomunado com a Cúria e com o Major. Que o Major
nunca
302
foi Major. Nem é Ramiro nem Taborda. Já pensei em abotoar o Morais, um dia
destes, no Largo do Carmo. Mas mudei de idéia. Não, nada disso. É isso que ele
quer. Fazer
barulho à minha custa. Quem tem a perder sou eu. Isso não. Também sou vivo. Tive
outra idéia, na hora da raiva: ouvir o Professor Rubem Almeida, que sabe tudo,
leu
tudo e tem na cabeça tudo o que leu. Fui à casa dele, na Rua dos Afogados, para
que me desse a sua opinião sobre o Major. Cheguei lá de manhã. O Professor
começou
falando dos Tabordas na Península Ibérica, no tempo dos godos e visigodos. Tudo
na ponta da língua. Taborda que não acabava mais. Taborda isto, Taborda aquilo.
Às
três horas da tarde, sem almoço, morto de fome, pedi ao mestre que parasse. Eu
voltava mais tarde. Vossa Excelência voltou? Nem eu. O Professor Rubem Almeida
sabe
demais. Tão cedo eu não passo na Rua dos Afogados. Levei um esfrega que quase me
deixou de cama. E ao ver o Arcebispo levantar-se:
- Já vai, Excelência? Parece que o Governador também já vai. O Professor Luís
Rego saiu de mansinho com a delegação de seu colégio. Parecia um gato pisando de
leve. Viu? Atrás dele foi o Presidente do Tribunal de Justiça. Pelo que vejo, a
debandada agora é geral. Eu também vou dar o fora. Quem casa quer ficar só. A
noite
é dos noivos. Só fazemos atrapalhar. Perdoe, Dom Delgado, se eu disse outra
inconveniência. O que vale é que Vossa Excelência Reverendíssima já me conhece.
E tanto ao Arcebispo quanto ao Governador e ao Presidente da Assembléia o Major
fez questão de vir deixá-los cá embaixo. Debalde o Pretextato tentou impedir o
velho
de descer a escada:
- Pode deixar, Major, que eu acompanho as Excelências até a porta.
- Eu também desço - teimou o velho.
E no batente da porta da rua, suspirando
- Se não fosse a sua proteção, meu caro Governador, mandando estes
guardas vigiarem a entrada de meu sobrado, não sei o que seria de mim. Há horas
em
que tenho vontade de sumir. No começo, eu abria na mesma hora as cartas e os
telegramas que recebia, com as propostas mais absurdas, para
303
uso de meu nome em tipos de farinha, em marcas de cigarro, em alimentos para
velhos, em leite para crianças, em vitaminas, em roupas íntimas. Agora, a
correspondência
fica fechada dias e dias. Preciso de paz, quero sossego. Já não posso andar a pé
nas ruas de minha cidade, como sempre andei. Nem ao menos para atravessar este
Largo
do Desterro e assistir à missa naquela igreja.
E o Pretextato, eloqüente
- Major, eu já lhe disse, mais de uma vez, e torno a repetir: o senhor não se
pertence; é, agora, um patrimônio nacional. Não lhe assiste mais o direito de
arriscar
a vida, saindo a pé pela cidade, como um cidadão comum. Há invejosos por toda
parte, à espreita, vigiando seus passos.
- É verdade, Major, é a pura verdade - confirmou o Governador, tornando a
apertar-lhe a mão.
Depois que bateu a porta, o velho encaixou a tranca no suporte de ferro, deu a
volta à chave. Antes de começar a subir, descansou o pé no primeiro degrau da
escada,
apoiou-se no corrimão. E de olhos cerrados, apenas por um momento, sentiu
saudade do ermo da fazenda e até mesmo do ruído repentino das mudanças de tempo,
quando
o vento torcia os ramos das árvores, em redor da casa-grande, e entrava a
rasgar, enfurecido, as folhas das bananeiras.
Lá no alto, a Tininha ainda acompanhou a manobra do carro do Governador no Largo
do Desterro, para subir pela Rua da Palma. Ardiam-lhe os pés, pesava-lhe a
barriga.
Só tinha agora um desejo: afundar na rede, cerrar as pálpebras. Não precisava
pensar no seu futuro nem no futuro de seu filho: estava casada com o homem mais
vellho
do mundo, e tudo dele era seu e da criança que ia nascer. No entanto, a despeito
da sensação de amparo e segurança que o casamento lhe propiciava, pareceulhe que
tudo aquilo não passava de um capricho momentâneo da sorte, comparável ao
movimento da folha de papel de seda que a viração da noite fazia girar no Largo
do Desterro,
defronte da janela escancarada.
XII
A derradeira volta do caminho
304
CAPÍTULO I
EMBORA ESTIVESSE chegando ao fim a estação das grandes chuvas, o tempo
continuava limpo, com pequenas pancadas de água, trovões espaçados, um ou outro
raio, sem
o rigor das tormentas que despencavam em fios longos, sacudindo o sobrado.
Padre Murtinho sentenciava, à direita do Major, na farta mesa do almoço,
descansando no pires a xícara de café:
- Este ano não teremos mais inverno.
E a verdade é que, para o Major, os belos dias desafogados, sem rajadas ásperas,
o céu sereno debruçado sobre a foz do Bacanga e a alongar-se para a amplidão da
Barra, oprimiam-no ainda mais, na reclusão das mesmas salas, quartos e
corredores. Até mesmo a leitura, que por quase toda a vida havia sido o seu
refúgio e a sua
fuga, já agora o entediava. Os livros novos, que o Ramos de Almeida e a Livraria
Moderna lhe mandavam, não tinham tido o dom de atraí-lo. Que interesse podia ter
com os cangaceiros do Nordeste, os funcionários públicos de Maceió, os pretos da
Bahia, os retirantes do Ceará? E novamente mergulhava no Dom Casmurro, nos
Maias,
nos Fidalgos da Casa Mourisca, nos discursos de Rui Barbosa, nas crônicas
históricas de João Francisco Lisboa e Alexandre Herculano, quando não volvia ao
Dickens,
que em parte sabia de cor.
Desabafava com o Pretextato, que vinha vê-lo à noite, todos os sábados:
- Já não se escreve como antigamente. Falta assunto, falta estilo. E é sempre a
mesma coisa. A mesma denúncia. O mesmo protesto. E a complicação para
atrapalhar
o leitor. Dão-me bocejo os autores novos, mesmo os estrangeiros, que chegam
307
aqui depois de fazerem lá fora muita zoada. O mundo é outro. Mudou muito.
As manhãs e as tardes de sol, convidando-o a vestir a sobrecasaca e a pôr na
cabeça o chapéu alto, boliam-lhe com os nervos, avivando o sentimento de sua
solidão.
À frente da casa, a Tininha passava na rua boa parte do dia, a fazer compras, a
ver obras, a pôr a correspondência no Correio, a entender-se com a gerência dos
Bancos, a pagar os impostos, sem esquecer as horas obrigatórias do cabeleireiro,
da modista e da massagista. Quando voltava ao sobrado, exausta, mal tinha tempo
de olhar o filho, agora entregue à gorda Gertrudes, que protegia a criança com
seus grandes peitos e seus grandes braços, muito preta e contente.
Mais de uma vez, na ausência da Tininha, que monopolizava o Demóstenes e o
automóvel, o Major tivera ímpetos de sair à rua, como sufocado pela reclusão.
Chegara
a vestir-se. Mas detivera-se no alto da escada, depois de olhar a rua longa,
imaginando os bustos que se debruçariam repentinamente daquelas sacadas, e a
multidão
a segui-lo, curiosa, interessada. E acabou por deixar o chapéu e a bengala no
cabide do corredor, tornando à calça de brim e ao paletó de lustrina, sem jeito
para
se inclinar sobre a cama do Paulinho, tentando distrair o menino com o maracá
enfeitado e o ursinho de pelúcia.
Debalde, nos últimos três meses, a Tininha havia transformado a casa, mudando as
cortinas, substituindo móveis, írocando quadros, pondo na escada uma passadeira
vermelha, substituindo lustres e espelhos, para dar a tudo um ar novo e moderno.
De início ele reagira. Por que mudar, se tudo estava tão bem, com seu ar antigo
e bem composto? Aqueles móveis eram ingleses, as cortinas tinham vindo de Paris.
E era de Paris também o papel das paredes, com seus desenhos firmes, que ainda
conservavam as cores primitivas. Mas a Tininha insistira, ameaçando amuar-se, e
ele afinal cedera, para ver se, mudando o recheio da casa, acabaria por sentir-
se
menos entediado e mais feliz.
Nos primeiros tempos de seu casamento, quase não lhe sobrara um minuto para
pensar em si mesmo. Como deixar de atender aos jornalistas e fotógrafos, que
vinham de
longe para vê-lo e ouvi-lo? Ou por que recusar a visita dos jovens
308
estudantes do Sul e do estrangeiro, que desejavam o seu depoimento sobre fatos
capitais da história humana, como a queda de Napoleão e a Revolução Industrial?
Cineastas,
médicos, sociólogos, políticos, escritores, com as indagações mais complexas ou
com as perguntas mais idiotas, ele os acolhia de igual modo, mostrando o mesmo
semblante tranqüilo, com a compenetração de que, de sua verdade e de seu
testemunho, poderia resultar algum proveito para a humanidade. Noutras ocasiões,
tinha
de redobrar de paciência para não correr do sobrado os impostores que pretendiam
usar seu nome para os fins mais calhordas. Um deles queria usá-lo no peito de
camisas
de malha, enquanto outro, mais atrevido, descia o letreiro para o fundilho de
calças esportivas. Polidamente mandava-os embora. E proibia o Pretextato de
voltar-lhe
ao sobrado com salafrários da mesma laia.
E o Pretextato, desculpando-se:
- Todos eles lhe propõem participação nos lucros, Major. E o americano das
calças foi mais longe: comprometeu-se a construir uma rede de asilos para
velhos, em
todas as capitais brasileiras. Foi só por isso que concordei em trazê-lo aqui.
Ainda bem que as visitas importunas acabaram por espaçar-se, desestimuladas pelo
desinteresse do Major. Mais senhor de seu tempo, ele pôde dormir em paz a sesta
de todas as tardes. Mas ainda não se aventurava a sair sozinho à rua, com receio
da curiosidade popular. Também o carteiro, que no início reclamava o volume da
correspondência para o sobrado, agora se mostrava mais cordato:
- Carta demais acaba cansando, não é, Major?
- Sobretudo quando temos a obrigação de dar-lhe uma resposta - concordava
o velho.
Já a Tininha deixara de se queixar de que não tinha liberdade para andar à
vontade na própria casa, quer de dia, quer de noite. E o próprio Pretextato, que
não perdia
vaza para aparecer no sobrado, passava dois, três dias, às vezes mais, sem bater
com força a aldraba da porta, a anunciar-se nos degraus da escada:
- Aqui estou, aqui estou.
E quando um jornalista alemão, Hans Fuchs, acompanhado de um fotógrafo, ali
chegou para entrevistar o Major, não veio
309
trazido pelo Pretextato. Surgiu de improviso no sobrado, e era um homenzarrão de
cabelo fino e louro que falava português. O Major, de início, não queria recebê-
lo.
Que tinha a dizerlhe, depois do que dissera, meses antes, aos seus colegas da
França, da Itália, da Inglaterra, dos Estados Unidos, do Canadá, da Espanha, e
da própria
Alemanha? Mas o gerente do Hotel Central interveio em favor do jornalista, com
muito empenho, e ali estava o Hans Fuchs, alto, espadaúdo, paletozão aberto,
cachimbo
na concha da mão, a pedir-lhe desculpas pela maçada. Viera de muito longe, e ia
perder o emprego se não fizesse aquela entrevista. E ria forte, mostrando os
dentes
grandes, rangendo sob os pés as tábuas firmes do soalho.
- Já vi que fiz bem em insistir para vir aqui entrevistar o senhor. Eu
imaginava encontrar um velhinho surdo, na cadeira de rodas, falando
pouco, e
estou vendo que o Major está ótimo, com mais saúde do que eu. Parabéns. Estou
cansado de dizer que não quero ser velho. Mas depois de ver o senhor, já mudei
de
opinião. Velho assim até que vale a pena.
E olhando em volta, como à procura de alguém:
- E a sua senhora? Gostaria de bater uma fotografia sua com ela. Dizem que é
muito moça e muito bonita. Parabéns.
- Minha mulher saiu. Deve voltar pelo fim da tarde.
- A fotografia é importante. Faço questão. Vai ser a capa de minha revista. Para
circular no mundo inteiro.
E com o Major na cadeira de balanço e o Hans Fuchí a andar de um lado para
outro, no escritório do sobrado, por entre os cliques sucessivos dos
instantâneos que
o fotógrafo ia batendo de vários ângulos, o jornalista parou um momento,
curvando-se para a frente, enquanto repunha o fumo no cachimbo:
- Depois de viver cento e cinqüenta e dois anos, Major, o senhor deve ter algum
conselho a dar aos mais novos, como eu. Que conselho o senhor me daria, com a
sua
longa experiência?
E o velho, sem hesitar:
- Eu não dou conselho a ninguém. Não, não dou. E por uma razão simples: cada
vida é uma aventura pessoal. O que calha bem para este, para aquele não serve.
Que
cada um viva a sua vida como puder. Só lhe posso adiantar um pouco
310
do que fiz, para meu uso e proveito, e o senhor ajuíza se a experiência lhe
serve. Tive iras e rancores, como toda gente: é o resto da fera primitiva que
permanece
conosco. Mas sempre me recusei a ser estivador de ódios. Cedo, anistiei meus
desafetos. Sempre que um inimigo se irritava, à simples enunciação de meu nome,
eu achava
que ele fazia muitíssimo bem, porque estava a flagelar-se, à minha custa. Já
estão todos no Cemitério, reduzidos a pó, como eu próprio ficarei também, quando
Deus
for servido. Quando moço, tirei minhas forras. Mas depois vi que o melhor era
ter paciência e esperar: o tempo é um carrasco implacável, que distribui
castigos a
frio. A morte não é a tortura final: é a grande anistia. Morremos serenos,
aceitando o último sono: ao despertar, estamos diante de Deus.
Hans Fuchs tirou do canto da boca o cachimbo fumegante:
- E o senhor acredita em Deus, Major Taborda?
- Por que não havia de acreditar? Ou o senhor pensa que eu me presumo ser
geração espontânea? Para a compreensão do Universo, estamos limitados por nossos
sentidos.
Se eu tenho um defeito de visão, vejo duas coisas em vez de uma, ou não vejo
nada. Isto não quer dizer que as coisas deixem de existir, ou que existam
conforme eu
as veja. O próprio cérebro humano, tão bem guardado na caixa craniana, não tem
percepção para tudo, por mais genial que seja. Onde está o mundo? Para onde vai
o
tempo? Se não consigo ter uma noção exata dessas idéias essenciais, mesmo com as
fórmulas matemáticas mais transcendentes, devo baixar a cabeça, com humildade,
e admitir que há uma inteligência superior à do homem, que conduz o equilíbrio
do Universo e que também me criou, como criou o senhor. Essa inteligência é
Deus.
Não o Deus que ameaça e castiga implacavelmente, mas o Deus que se comunica com
o homem mais rude e primitivo na hora de suas aflições. Um Deus que perdoa os
meus
erros. Há na Bíblia um versículo que jamais esqueci. É o que nos diz, num dos
Salmos: "Aquele que fez o ouvido, não ouvirá? Aquele que formou o olho, não
verá?"
O senhor dirá que são idéias simplistas. São. Mas Deus também é simples. A
simplicidade é a grande lei do Universo. Só a achamos complicada quando ela nos
escapa,
ou por estupidez, ou por ignorância, ou por orgulho besta. Depois de cento e
cinqüenta e dois anos neste mundo, é o que tenho de mais
311
importante a lhe dizer. Não é muita coisa, reconheço. Mas não creio que, pelo
fato de ser hoje o homem mais velho do mundo, eu tenha de ser também o mais
sábio.
Hans Fuchs, de costas para a janela, fez um sinal ao fotógrafo para que
estivesse atento às próximas chapas. E sem tirar o cachimbo do canto da boca,
com as mãos
no rebordo do poial de madeira, esperou que o olhar do velho se encontrasse com
o seu:
- Muito bem, Major. Não fiquei convencido, mas gostei da resposta. O senhor se
importa que eu lhe faça uma pergunta política? Posso fazer? Muito bem. Entre as
duas
forças que hoje dividem o mundo, com a Rússia soviética de um lado e os Estados
Unidos do outro, para onde pende o senhor?
O Major sorriu, balançou a cadeira. E parando o balanço:
- Estou velho demais para me meter em polêmicas. Mas não vou deixar o senhor sem
resposta. De tudo quanto testemunhei, nesta minha longa vida, só lhe posso dizer
que sou contra a sociedade injusta em que nos debatemos: de um lado, tiramnos a
liberdade; do outro, tiram-nos a oportunidade de progredir. Uns têm demais,
outros
não têm nada. Democracia não é apenas o direito de escolher a representação
política. É o direito à vida, com as oportunidades fundamentais para a
dignidade
desse direito. Não é só a liberdade de pensar e dizer em voz alta. É o direito a
não morrer de fome, e a ter teto, ter assistência social, poder educar os filhos
e encaminhá-los, ser amparado na doença e na velhice, e a escolher livremente o
sistema de governo de sua pátria, sem que nação alguma ou povo algum interfira
nessa escolha.
Hans Fuchs moveu a cabeça, aprovando, enquanto o fotógrafo continuava a fixar os
flagrantes do velho, que orar se exaltava, ora se coibia, muito compenetrado e
veemente.
E o jornalista, balançando no ar o dedo em riste:
- E o senhor fez alguma coisa por essas idéias, Major?
- Fiz mais, meu caro amigo. Lutei pela independência de de meu país, reagi
contra o despotismo, lutei pela extinção do cativeiro. E agora mesmo, na
entrevista que
estou dando ao senhor, estou dizendo o que penso, na hora em que já podia estar
calado.
312
E como Hans Fuchs insistisse com outras perguntas, mais diretas, mais objetivas,
o velho se pôs em guarda, encostando a cabeça no espaldar da cadeira:
- O senhor, agora, não está querendo saber, está querendo me comprometer. E
nessas horas, aqui no meu sobrado, é hora de mandar servir o café.
Levantou-se, bateu palmas chamando a criada. E a Sebastiana veio do fundo do
sobrado, com a bandeja de prata e as três xícaras, muito risonha, de touca
branca e
avental.
Hans Fuchs sorveu o café com rapidez. E depois de consultar o relógio:
- Sua senhora já terá chegado?
- Se tivesse chegado, teria vindo aqui, pelo menos para ver o rebuliço de seu
fotógrafo, que andou a desarrumar-me o escritório para me fotografar de todos os
modos
e feitios replicou o velho, começando a repor as cadeiras e os objetos nos seus
lugares, ajudado pelo jornalista.
E este, ao ver que tudo já estava na antiga ordem:
- Eu tenho agora uma entrevista marcada com o Governador no Palácio dos Leões.
Meu fotógrafo pode voltar aqui, amanhã, para fazer a foto do senhor com a sua
senhora?
- Perfeitamente.
E depois que ambos se foram, o Major olhou o relógio da varanda, num começo de
preocupação. A Tininha já devia ter voltado. Mas logo pensou nas lojas da Rua
Grande
e da Rua Formosa, e justificou-lhe o atraso, disposto a tornar à sua cadeira de
balanço para continuar a leitura de um sermão do Padre Antônio Vieira, quando a
campainha
da porta reuniu com força.
Da janela sobre a porta, olhou para baixo e deu com o sacristão do Padre
Murtinho, com ar aflito e ofegante:
- Padre Murtinho mandou dizer ao senhor que o Dr. Pretextato acaba
de morrer. Morreu de repente.
Apesar de tantas mortes no seu caminho, o velho ficou imóvel, siderado. Como
admitir que tanta vida, tanto movimento, tanta agitação tivessem o seu termo
instantâneo,
com tanta brutalidade? Dois dias antes, o Pretextato estivera ali, trazendo-lhe
revistas e jornais do Rio, cheio de projetos, estuante de vida, a queimar o seu
imenso charuto. E como não podia deixar
313
de ir vê-lo, o Major tratou de vestir a sua sobrecasaca, e ficou a andar entre a
sala e a varanda, à espera da Tininha, que viria no carro do Demóstenes.
Passaram-se cinco minutos, dez, quinze, e o relógio bateu uma pancada forte, que
ficou ressoando no silêncio do sobrado, enquanto o velho conferia as cinco e
meia
no mostrador das horas de seu relógio de algibeira. Por que não ia com seus pés
à casa do Pretextato? Não ficava longe dali, embora tivesse de atravessar o
Largo
do Carmo, à hora de maior movimento, para alcançar o sobradínho da Travessa do
Teatro. Ficou uns momentos indeciso, perto do cabide do corredor, à escuta, sem
ouvir
o ruído do automóvel. Depois, decidindo-se, pôs o chapéu na cabeça, segurou a
bengala, e tratou de descer a escada, antes que voltasse a intimidar-se com a
claridade
do dia e o movimento das ruas.
314
CAPITULO II
DEBALDE o MAJOR insistia, junto à porta da alcova, para que a Tininha viesse
posar para o fotógrafo.
Já de sobrecasaca, o chapéu na mão, chegara ao requinte de descobrir
numa de suas gavetas o par de luvas da última viagem à Europa, e ali estava,
soleníssimo, a teimar com a mulher, que se recusava a sair:
- Mas é preciso, Tininha. O jornalista precisa da nossa fotografia para a capa
da revista.
E ela, peremptória, de dentro da alcova:
- Já lhe disse que não, Major. Daqui não saio enquanto esse fotógrafo não for
embora.
O velho tornou à varanda, com ar desolado. E para o fotógrafo louro, muito
vermelho, que o aguardava com impaciência, já com o flash preparado:
- Nada, meu amigo. Mulher é assim mesmo. Quando não quer, não quer, e acabou-se.
O jeito é o senhor se contentar com a minha cara, assim encolhida, Desculpe.
Diga
ao seu colega que fiz o que era possível.
E quando posou para o fotógrafo, ao fundo de seu gabinete, com a janela aberta
sobre o zimbório da igreja, ainda conservava o semblante aborrecido que o flash
não
conseguiu atenuar. Por fim, ao deixar o rapaz na descida da escada, tentou
sorrir, apertou-lhe a mão:
- Não pense que minha mulher é sempre assim. Pelo contrário: é boníssima e
adivinha as minhas vontades. Sem ela, não sei o que seria a minha vida. Diga ao
Hans Fuchs
que, em vez de pôr o meu retrato na capa da revista, ponha o retrato de meu
filho, que o senhor também tirou. Uma criança bonita agrada sempre.
315
Parado no patamar, esperou que o fotógrafo acabasse de descer a escada. Ouviu
bater o trinco da porta. Só então foi repor no cabide o chapéu e a bengala.
Tornando
ao quarto, sentou na cadeira de balanço. Uma onda de invencível melancolia lhe
ia envolvendo a consciência, deprimindo-o. E toda a sua vontade era ficar
sentado
ali, esquecido das horas, com as mãos nos braços da cadeira.
No entanto, ao voltar do Cemitério, por volta das onze horas, depois da longa
caminhada a pé acompanhando o enterro do Pretextato, tinha imaginado sair à
tarde com
a Tininha, após a sesta, para uma volta pela Rua Grande, de braço dado, como ao
tempo em que davam a volta no quarteirão, na época da gravidez.
À mesa do almoço, ele lhe tinha contado:
- Felizmente já deixei de ser novidade. Voltei à condição ideal de cidadão
comum. Nada como o tempo. Há poucos meses, eu ainda não podia pôr os pés na
calçada da
rua. Ontem, quando atravessei o Largo do Carmo, para alcançar a casa do
Pretextato pela Rua da Paz, só eu sei como ia meu coração: de tanto bater,
parecia querer
saltar-me pela boca, e eu tinha as mãos frias, e um tremor nas pernas, com
receio do povo. Quando vi que as pessoas só faziam me cumprimentar, criei alma
nova.
Hoje foi a mesma coisa. Graças a Deus. Quer isso dizer que terminou minha
reclusão neste sobrado.
E no momento do café, após a sobremesa, propôs à Tininha o passeio da tarde. Ela
retraiu a cabeça, com os olhos' crescidos:
- De braço com o senhor, Major? De modo algum. Mulher tem um gosto, homem tem
outro. Eu quero olhar à vontade as lojas de modas. E ir ao cabeleireiro, à
manicura,
à joalheria. Não preciso que ninguém me acompanhe. Faça como eu: dê sozinho o
seu passeio. Vá à Biblioteca Pública. Vá ao Grêmio Lítero Português. Vá ao Largo
do
Carmo. O senhor precisa ter a sua roda de amigos. Para conversar. Para jogar
sinuca. Para se distrair.
Agora, aquela recusa desabrida para-se deixar fotografar ao seu lado. E por que,
se era sua mulher? E quantas mulheres dariam tudo para ser capa de uma revista
na
Alemanha? A verdade é que seu casamento ia de mal a pior, à revelia de
316
todas as boas aparências. Aliás, ele sabia que não começara bem.
Lembrava-se de ter subido devagar a escada, após deixar na calçada da rua o
Arcebispo e o Governador, com um problema a preocupá-lo. Onde iria dormir, agora
que
estava casado? No seu quarto, junto à alcova? Ou na alcova, com a mulher? Na
alcova. Não podia deixar de ser na alcova. A própria Tininha, como sua mulher,
podia
estranhar que ele, seu marido, continuasse a dormir no quarto contíguo. E para
dar naturalidade ao caso, tratara de levar para a alcova o seu chambre, o seu
par
de chinelos e a sua rede.
A Tininha sustara-lhe a mudança:
- Não, Major. Fique no seu canto. Sei que sou sua mulher no padre e no juiz, mas
tenho vergonha de me deitar no mesmo quarto que o senhor, assim grávida, quase
na
hora de descansar. Dê tempo ao tempo. É cedo. Tudo tem a sua hora. Primeiro
preciso me acostumar. Ainda não estou acreditando que sou sua mulher.
Dera-lhe razão. Ele próprio não se sentia à vontade. Era melhor aguardar o
nascimento da criança. Que lhe custava esperar um mês, um mês e meio? E ao
voltar do Cartório,
com a certidão de nascimento que dava o Paulinho como seu filho, apertara contra
si a Tininha, sentindo-lhe os seios túrgidos, assim que lhe entregara o
documento.
Entretanto, à noite, ao pretender entrar na alcova, já a porta estava fechada a
chave. Quis forçá-la, torcendo-lhe a maçaneta, sacudindo-a no caixilho, e logo a
Tininha reagira:
- Já estou deitada, Major. Por favor, me deixe em paz: não acorde o menino, que
custou a dormir.
Era admissível essa repulsa? Não. não podia ser. Por mais contido que fosse, com
o tirocínio da vontade e a experiência da vida, temia descontrolar-se. Conquanto
cedesse de longe em longe a arroubos de sensualidade, que lhe davam saudades da
nudez feminina, levando-o a recordar com intensidade lindos seios e vulvas
ardentes,
logo se lhe desvaneciam essas exaltações extemporâneas, para apenas restar no
seu espírito o sentimento da mais pura afeição pela Tininha, mesmo quando a
surpreendia
amamentando o filho. E este, voraz, bochechudo,
317
sugava-lhe o peito redondo com uma avidez excessiva, a que ele, marido, não
tinha o mais vago direito.
Esperou com paciência que o Dr. Carlos Macieira substituísse, a rogo da Tininha,
o leite materno pelo leite em pó. E viu-a elegante, de seios firmes, cheinha, o
rosto rosado, muito bem vestida no costume claro, os quadris alteados pelos
finos sapatos da Sapataria Popular, e todo ele se exaltou na ânsia repentina de
conhecer-lhe
a nudez e acarinhá-la. Mas, novamente, à noite, após cerrar as janelas do
sobrado, deu com a porta da alcova fechada, e ouviu a mesma recusa bravia, que o
humilhava,
que o enraivecia. Pensou em abrir-se com o Padre Murtinho. Mas temeu parecer
assanhado e ridículo aos olhos do bom amigo, que sentava com freqüência à sua
mesa,
e ali almoçava, e ria, e pilheriava, contando-lhe pequenas coisas gaiatas da
vida de São Luís.
A recusa da fotografia para a capa da revista, somada à recusa para sair em sua
companhia, dava-lhe agora a certeza de que seria sempre assim, na repulsa ao
convívio
ostensivo a que estava naturalmente obrigada como sua mulher. E exaltando-se,
com o sangue a tingir-lhe o rosto:
- Bolas! Nesta idade, estou fazendo o papel de bobo! Não bastara, à sua sorte
adversa, o papelão que fizera ao
tempo da Minervina? E ia novamente reproduzir-se a humilhação que o destroçava?
Antes que a ira instantânea mais uma vez se desfizesse, serenando-lhe a
exaltação,
por força de seu feitio compreensivo e cordato, o Major foi bater novamente na
porta da alcova:
- Tininha, sou eu. Podes vir ao meu escritório? vou para lá, e estou à tua
espera. Preciso ter uma conversa contigo.
Ela demorou a vir. E quando veio, encontrou o marido de sobrolho franzido, na
cadeira de balanço, batendo com os dedos impacientes na costa da outra mão. Ao
vê-la
aproximar-se, ele abriu o rosto, menos exaltado.
- Senta - propôs, oferecendo-lhe a cadeira. E passados alguns momentos:
- Tininha, basta te olhar para saber que não estás feliz. Eu, por mim, tenho
feito o que está ao meu alcance para que nada te falte. Até mesmo os gastos
desnecessários,
que fui obrigado a fazer para dar uma nova apresentação ao sobrado,
318
eu os fiz de boa vontade, para ver se melhoravas. Quando me pediste que eu te
trouxesse da fazenda, porque te matarias se te vissem grávida do Bibiano, eu te
trouxe.
Viste em que deu. Casei-me contigo, dei nome a teu filho como se fosse meu; fiz
de ti minha herdeira, e de ti, até agora, nada realmente recebi, a não ser as
atenções
formais, que até as criadas têm para os patrões. Minha mulher mesmo, com a
intimidade de qualquer casal, nunca foste. De minha parte, embora contrafeito, e
mesmo
revoltado, nunca forcei essa intimidade. E Deus sabe que muitas vezes perdi o
sono, embalando-me na rede, até madrugada alta, para distrair meus
desapontamentos.
Achas isso direito?
Tininha, que tudo ouvira de cabeça baixa, levantou os olhos úmidos:
- Não, Major.
- E de quem é a culpa?
- Do senhor, Major.
E ante a expressão de surpresa e espanto com que ele a encarou, desencostando-se
do espaldar da cadeira:
- Sim, do senhor - confirmou Tininha, sem levantar o tom da voz decidida. -
Quando o senhor me falou em casamento, me disse que era por pouco tempo. Que,
sendo
já bastante velho, só duraria uns meses, talvez um ano. Disse mais que tudo
quanto era seu seria meu e de meu filho. Nada lhe pedi. Nem pediria. Bastava o
que o
senhor já tinha feito por mim. O senhor deu porque é bom, é humano. Porque quis
dar. Mas o tempo passa, e o senhor continua com boa saúde, e a enterrar seus
amigos.
Agora, enterrou o Pretextato. O senhor mesmo me disse que todos os seus amigos
estão no Cemitério. E eu já começo a pensar que, assim como o senhor já enterrou
tanta
gente, vai enterrar também a mim e ao meu filho, sem que eu possa ter meu
marido. Porque meu marido - marido mesmo - o senhor não pode ser, Major: eu, com
18 anos,
e o senhor, com 152. Impossível. A distância entre nós dois é muito grande. Eu,
por meu lado, não posso ser sua mulher. Me sinto constrangida. Não tenho
jeito.
O senhor, por seu lado, não pode ser meu marido. Meu homem. O ser que me
completa. A quem eu tenha orgulho de dar o braço na rua, para fazer sentir que é
com
ele que me deito. Não, não pode.
319
Nem eu quero exibir o senhor como uma curiosidade. Seria uma torpeza de minha
parte. E isso eu não faria nem fiz. Sou agradecida ao senhor, Major.
E curvou-se sobre as mãos espalmadas:
- Sou, sou agradecida - repetiu.
Ele ficou a olhá-la, de lábios levemente abertos, vendo-a sacudida pelos
soluços. Levantou-se, parecendo que ia afagarlhe a cabeça inclinada. Mas retraiu
as mãos,
outra vez de frente, ao mesmo tempo em que ela descobria o rosto molhado. E
perguntou-lhe de chofre, como se tivesse adivinhado repentinamente o seu drama:
- Você está gostando de alguém, Tininha?
- Eu não vou mentir para o senhor, Major: estou.
- Posso saber quem é?
- Para que, Major?
- Para lhe abrir os olhos, se for o caso. Porque eu também sou reconhecido a
você, Tininha. Você atenuou a minha solidão neste sobrado. Passei a me ocupar de
você.
A gostar de você.
Ela tardou a resposta, sem desviar os olhos. E como se viesse à tona de
si mesma, decidindo-se:
- O senhor conhece, Major: é o Tenente que esteve aqui com o Governador, no dia
de nosso casamento.
E redobrando o choro:
- Eu contei a ele a conversa que o senhor teve comigo, ali na alcova, no dia em
que o Padre Murtinho aconselhou o Major a se casar, depois da reação dos
vizinhos
e do escândalo do jornal. E ele e eu combinamos que eu só serei dele depois que
o senhor morrer. Antes não. Não traí o senhor, como sua mulher, juro por
Deus.
Pelo que há de mais sagrado. Respeito o nome do senhor, Major. Quando me
encontro com José Otávio, ou é na Sé, ou na igreja do Carmo. Sei que não posso
enganar
o senhor. Não tenho dormido direito. Ando nervosa. Queria lhe contar tudo. Mas
achei que era melhor eu me calar. Porque o senhor mesmo me disse que" ia viver
pouco.
Mas o tempo passa, e o senhor não sente nada: nem as tonteiras de antigamente,
nem a vista escura, nem uma dor de cabeça, nada. E vai ser assim até quando,
Major?
Ponha-se no meu lugar. Até quando?
320
Ela se havia curvado ainda mais, com as mãos desesperadas cobrindo o rosto
devastado, e todo o seu corpo tremia, como se os soluços a vergastassem,
enquanto o velho,
de pé, se compadecia de seu desespero, com as mãos atarantadas querendo atraí-la
para si, sem saber como haveria de confortá-la.
E num impulso, segurou-a pelos ombros, de frente:
- Tininha, olha para mim. Eu sou teu amigo, volto a te dizer. Gosto de ti. E
muito. Gosto mesmo. Tem um pouco mais de paciência. Espera. vou ver que solução
dou
a isto.
E à noite, quando se recolheu, levou largo tempo a olhar a noite estrelada,
deitado na rede, sempre a pensar que, em todo aquele drama, a culpa era mesmo
sua. A
Tininha estava com a razão: ele já devia ter morrido. Aos cento e cinqüenta e
dois anos, o que fazia neste mundo? Simples curiosidade universal? Que utilidade
tinha
ele agora, como ser vivo, em benefício de seus semelhantes e em benefício de si
mesmo? Por que Deus tardava tanto em chamá-lo, se já chamara todos os seus
contemporâneos?
E um sentimento mais vivo de solidão absoluta aguçou-lhe a sensibilidade, dando-
lhe a impressão de que ele era no mundo um intruso, ou um retardatário, que já
devia
ter ido embora. Sentia-se isolado, no ermo de uma extensão infinita. E era em
vão que olhava em seu redor, buscando um amigo de outrora, querendo achar um
companheiro.
Todos eles jaziam no Cemitério, e eram apenas pó, misturados ao pó do chão.
Somente ele permanecia em cima da terra, fora dos muros do campo-santo,
esquecido, olhado
agora como uma extravagância, festejado como uma aberração.
Várias vezes, no correr da noite imensa, o Major chegou à janela, insone,
alongou a vista para o Largo do Desterro, para a igreja fechada, para o lampião
aceso,
para a noite enfeitada de estrelas, sempre a dizer a si mesmo que a Tininha
tinha razão.
Pela manhã, com a sensação depressiva da longa noite em claro, o Major se vestiu
cedo, pensando muito na Caiu Malafaia. A velha amiga haveria de compadecer-se de
seu desespero. E imaginou-a a dizer-lhe, com ar de riso e a mão no seu ombro:
- Estás num beco sem saída, Ramiro. A morte não te quer e tu não sabes
o que fazer da vida. Mas tua mulher só
321
espera que morras para se deitar com o homem de quem gosta. Pensando bem, ela
não deixa de ter razão. Coitado do meu Ramiro.
Ele passou pelo cabide, pôs na cabeça o chapéu alto, pendurou no antebraço a
bengala de castão de ouro. A sobrecasaca fora de moda tornava-o mais digno, na
sua solenidade
natural, e ele tratou de afofar os passos na passadeira, alcançando sem ruído o
patamar. Ali, após um momento imóvel, deu um passo largo e resoluto, pisando com
força: todo o seu magro corpo pendeu para trás, como se a cabeça lhe pesasse, e
foi resvalando pelos degraus, após a pancada na nuca, com o chapéu a rolar para
um lado e a bengala a escorregar para o outro, enquanto a Sebastiana gritava,
chamando a patroa:
- Dona Tininha, aqui, depressa! O Major caiu na escada!
Quando a maca da Ambulância o recolheu, com um dos médicos a procurar-lhe o
pulso enquanto o outro lhe aplicava atarantadamente uma injeção, o Major ainda
se debatia
no torvelinho das emoções que lhe afluíam à tona da consciência, ao mesmo tempo
em que seus braços ainda tentavam encontrar o corrimão para amparar-se na queda.
Mas logo esses mesmos braços seguraram as rédeas da parelha, e ele deu por si na
boléia da carruagem do Chico Bento, que despencava pela ladeira da Rua do Sol,
perseguida
pelas bacias de água suja e pelo espoucar das cabacinhas:
- Trate de segurar-se, Padre Pimenta! - gritou para trás; E sacudiu no ar o
chicote, sem largar as rédeas, ouvindo a
cantiga de um baralho e os guizos de um mascarado, enquanto a Caiu Malafaia,
sentada ao seu lado, ia para trás e para a frente, de meia máscara negra, rindo
alto,
na explosão das gargalhadas.
Rio de Janeiro, 6 de julho de 1981.
322
BIBLIOGRAFIA DE JOSUÉ MONTELLO
I. ROMANCES
Janelas fechadas, 1941.
A luz da estrela morta, 1948.
O labirinto de espelhos, 1952.
A décima noite, 1959.
Os degraus do paraíso, 1965.
Cais da Sagração, 1971. •}
Os tambores de São Luís, 1975;
A noite sobre Alcântara, 1978.
A coroa de areia, 1979.
O silêncio da confissão, 1980.
Largo do Desterro, 1981.
II. ENSAIO
Gonçalves Dias, 1942.
Histórias da vida literária, 1944.
O Hamlet de Antônio Nobre,
1949. Cervantes e o moinho de vento,
1950. Fontes tradicionais de Antônio
Nobre, 1953.
Ricardo Palma, clássico da América, 1954. Artur Azevedo e a arte do conto,
1956.
Estampas literárias, 1956. Caminho da fonte, 1959. A oratória atual do Brasil,
1959. O Presidente Machado de Assis,
1961. O conto brasileiro: de Machado
de Assis a Monteiro Lobato,
1967. Santos de casa, 1968.
Uma palavra depois de outra,
1969.^
Un maitre oublié de Stendhal (publicado em Paris), 1970. Estante giratória,
1971. Riiy, o parlamentar (de colaboração com Américo Lacombe, Pedro Calmon,
Pinto de
Aguiar e Luís Viana Filho), 1977. Literatura para professores do 1° grau, 1980.
in. HISTÓRIA
História dos homens de nossa história (de colaboração com Nélio Reis), 1936.
Os holandeses no Maranhão, 1946.
Theremin, 1949.
História da Independência do Brasil, 4 v. (Introdução, Planejamento e Direção
geral da obra),
1972.
Pedro I e a Independência do Brasil à luz da correspondência epistolar, 1972.
IV. BIOGRAFIA
Ford, 1960.
V. HISTÓRIA LITERÁRIA
Pequeno anedotário da Academia Brasileira, 1963.
323
Na Casa dos 40, 1967. Anedotário geral da Academia
Brasileira, 1973. Aluísio Azevedo e a polêmica d"'O
mulato", 1975. A polêmica de Tobias Barreto com
os padres do Maranhão, 1978.
VI. DISCURSOS
Discurso na Biblioteca Nacional,
1948.
Discurso de posse na Academia
Brasileira, 1956.
Discurso de saudação a Cândido Motta Filho na Academia Brasileira, 1961.
Discurso de saudação ao Presidente Manuel Prado na Academia Brasileira, 1962.
Discurso de Reitor, 1972. Discurso de saudação a fosé Sarney na Academia
Brasileira,
1981.
XI. NOVELAS
O fio da meada, 1955.
Duas vezes perdida, 1966.
Numa véspera de Natal, 1967.
Uma tarde, outra tarde, 1968.
A indesejada aposentadoria, 1972.
Glorinha, 1977.
Um rosto de menina, 1978.
VII. ANTOLOGIA
Aluísio Azevedo, 1963. Machado de Assis, 1972. Gonçalves Dias, 1973. José de
Alencar, 1973.
VIII. EDUCAÇÃO
O sentido educativo da arte dramática, 1937.
Reforma do ensino normal no Maranhão, 1946.
IX. EDUCAÇÃO CÍVICA Oi feriados nacionais, 1965.
X. CRÔNICAS
Os bonecos indultados, 1973. ;,
324
XII. TEATRO
Precisa-se de um anjo (representada em 1943).
Escola da saudade, 1946.
O verdugo, 1954.
O anel que tu me deste, 1959.
Através do olho mágico, 1959.
A miragem, 1959.
Alegoria das Três Capitais (de colaboração com Chianca de Garcia), 1960. A
baronesa, 1960.
XIII. BIBLIOTECONOMIA
Curso de organização e administração de bibliotecas, 1943.
Problemas da Biblioteca Nacional,
1948.
XIV. LITERATURA INFANTIL
O tesouro de Dom José, 1944. , As aventuras do Calunga, 1945. O bicho do
circo, 1945. A viagem fantástica, 1946. A cabeça de ouro, 1949. As três
carruagens,
1979. ,
Fojão, Antena e o Vira-Lata inte* Vigente, 1980.
XV. PREFÁCIOS
Mais de trinta obras foram prefaciadas por Josué Montello, def-
tacando-se entre esses "Prefácios", por sua extensão: In: ficção Completa
de José Lins do Rego (Nova Aguilar, 1976). Cartas do próprio punho,
de Gilberto Freyre (Conselho Federal de Cultura, 1978). O fruto de vosso ventre
- romance de Herberto Sales, na sua tradução japonesa publicada em Tóquio.
XVI. ANTOLOGIAS
R. Magalhães Júnior: O conto do Norte, 1959.
R. Magalhães Júnior: O conto da vida burocrática, 1960.
José de Barros Martins: 30 anos,
1966.
Jerônimo Monteiro: O conto fantástico, 1969.
João Alves das Neves: Mestres do conto brasileiro, 1972.
Ivan Cavalcanti Proença: O melhor do conto brasileiro, 1979.
XVII. TRADUÇÕES
Para o inglês: Coronation quay.
Londres, 1975. Para o castelhano: Muelle de Ia
Consagración. Buenos Aires,
1979. Para o francês: Lês tribulations
de Maitre Severino. Paris, 1981.
XVIII. LIVRO FALADO
Por iniciativa da Fundação para o Livro do Cego no Brasil (em São Paulo), o
romance Cais da sagração de Josué Montello foi gravado em cassetes, 1976.
XIX. CINEMA
Duas novelas de Josué Montello foram transpostas para o cinema, em filmes de
longa-metragem, ambos dirigidos por William Cobbett:
Uma tarde, outra tarde, 1976. O monstro, 1978.
Araken Távora dirigiu um filme sobre Josué Montello, para a série "Os Mágicos",
programa da TV Educativa - Canal 2.
Renato Bittencourt dirigiu um filme de curta-metragem sobre Josué Montello, para
a Agência Nacional.
Pedro Braga dos Santos dirigiu um filme sobre Josué Montello, em São Luís do
Maranhão.
Entrevista a Roberto D'Avila para a série "Um nome na História", programa da TV
Educativa - Canal 2.
XX. TELEVISÃO
O velho diplomata - Conto de Josué Montello adaptado por Jorge de Andrade, em
cinco capítulos, para o programa inicial do "Teleconto", da TV Educativa de São
Paulo.
1981.
325
ESTUDOS SOBRE JOSUÉ MONTELLO PUBLICADOS EM LIVROS
Adonias Filho. "O labirinto de espelhos". In: Modernos ficcionistas brasileiros.
Rio de Janeiro, O Cruzeiro, 1957. p. 79-84.
. . In: Dicionário crítico
do moderno romance brasileiro. Belo Horizonte, Grupo Gente Nova, 1970. p. 292-
93.
Alves, Henrique L. Josué Monteilo e "Janelas fechadas". In: Ficção de 40. Rio de
Janeiro, Liv. São José, 1976. p. 87-96.
Anselmo, Artur. Um romance de cisão: "Os tambores de São Luís". Rio de Janeiro,
Gráfica Olímpica, 1977. 41 p.
Arquivos (Rev.) Rio de Janeiro, Serviço de Documentação do MEC, 1968. N. 15,
out./dez., p.
23-31.
Ataíde, Austregésilo de. "Pequeno anedotário da Academia Brasileira". In: Alfa
do Centauro. Rio de Janeiro, Edições "Jornal do Comércio", 1979. p. 201-203.
Ataíde, Tristão de, pseud. [Lima, Alceu Amoroso] "O Presidente Machado de
Assis". In: Meio século de presença literária. Rio de Janeiro, J. Olympio, 1969.
p.
208-209.
. Um romancista de raízes
protestantes [estudo crítico em forma de Prefácio]. In: Monteilo, Josué. Os
degraus do paraíso. 4. ed. Rio de Janeiro, Nova Aguilar, 1976. p. 9-12.
Bandeira, Manuel. Faixas e faixas [crônica de elogio ao discurso de Josué
Montello na ABL, em homenagem a Manuel Prado, Presidente do Peru]. In:
Andorinha, andorinha.
Rio de Janeiro, J. Olympio, 1966. p. 154-
55.
Barbosa, Rolmes. "Duas vezes perdida". In: Dicionário crítico do moderno romance
brasileiro. Belo Horizonte, Grupo Gente Nova, 1970. p. 293-94. Belleza, Newton.
"Cais da sagração" de Josué Montello. In: Subsídios para julgamento de uma obra
de arte. Rio de Janeiro, Emebê, 1978. p. 103-106. Bruno, Haroldo. "Cervantes fí
o
moinho de vento". In: Estudos de literatura brasileira (1. série). Rio de
Janeiro, Edições "O Cruzeiro", 1957. p. 175-86.
: . "Estampas literárias". In:
Estudos de literatura brasileira. (2. série). Rio de Janeiro, Editora Leitura,
1966. p. 127-34. Bruno, Haroldo. "A luz da estrela morta". In: Anotações de
crítica.
Recife, Departamento de Documentação e Cultura, 1954. p.
95-101.
-«-. O romancista Josué Montello ' "A luz da estrela morta" '. In: Estudos de
literatura brasileira (1. série). Rio de Janeiro, "•• Edições "O Cruzeiro",
1957. p.
194-97.
326
Cabral, Antônio Maria Santiago. Josué Montello, o artista literário. Ensaio que
representou o melhor trabalho do Concurso Literário "Josué Montello: o homem e a
obra", realizado em São Luís em 1977 e promovido pelo Departamento de Assuntos
Culturais da Pró-Reitoria de Extensão e Assuntos Estudantis da Universidade
Federal
do Maranhão.
Capa de Stênio Mendonça Apresentação de Mário Célia. Focaliza o estilo de
Josué Montello nos seguintes romances: O labirinto de espelhos. 3. ed. São
Paulo,
Liv. Martins Ed., Brasília, INL, 1973. p. 152. Os degraus do paraíso. 4.
ed. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1975. p. 368-69. A décima noite. 5. ed. Rio
de Janeiro, Nova Fronteira, 1976. p. 310.
Caetano, Manoel. Josué Montello [estudo biográfico e crítico]. In: A literatura
no Brasil; direção de Afrânio Coutinho [2. ed.]. Rio de Janeiro, Editorial
SulAmericana,
1970. v. 5, p. 396-
402.
. O romance contra o mito:
"Os tambores de São Luís". São Luís, Edições SIOGE, 1978.
31 p.
Estudo crítico reunindo dois artigos: I) Largo painel do Maranhão no tempo da
escravatura. jornal de Letras, Rio de Janeiro, Jul. 1977; II) Gente, usos e
costumes
de São Luís de outrora. Jornal de Letras. Rio de Janeiro, ago., 1977.
Castro, Silvio. Josué Montello [estudo crítico]. In: A revolução da palavra.
Petrópolis, Vozes,
1976. p. 216-17.
Costa, Dante. Josué Montello no Peru. In: Os olhos nas mãos. Rio de Janeiro, J.
Olympio,
1960. p. 132.
Cunha, Carlos. "A Polêmica de Tobias Barreto com os Padres do Maranhão". In:
Moinhos da Memória - 2. ed. São Luís, Mirante, 1981, p. 59-62.
. "Noite sobre Alcântara".
In: Moinhos da Memória. 2. ed. São Luís, Mirante, 1981. p. 62-
66.
Cunha, Fausto. "Cais da sagração". In: Caminhos reais, viagens imaginárias. Rio
de Janeiro, Comp. Brasileira de Artes Gráficas, 1974. p. 34.
. "O labirinto de espelhos".
In: Caminhos reais, viagens imaginárias. Rio de Janeiro, Comp. Brasileira de
Artes Gráficas, 1974. p. 33-34.
Cunha, Fernando Whitaker da. A fonte e o labirinto [estudo sobre Josué Montello
e sua obra literária]. In: Sentimento e culpa. Rio de Janeiro, Academia Carioca
de
Letras, 1980. p. 69-71.
Fisher, Almeida. De São Luís a gás aos esplendores de Paris ["Os tambores de São
Luís"]. In: O áspero ofício: terceira série. Rio de Janeiro, Cátedra; Brasília,
INL, 1977. p. 47-51.
. Estudos de literatura brasileira. ["Estante giratória"]. In: O áspero ofício.
Brasília, Ebrasa-Editora de Brasília, 1972. p.
109-10.
Fisher, Almeida. Estudos de literatura brasileira ["Uma palavra depois de
outra"]. In: O áspero ofício. Brasília, Ebrasa-Editora de Brasília, 1972. p.
154-56.
. Romance do mar ["Cais da
sagração"]. In: O áspero ofício. Brasília, Ebrasa-Editora de Brasília, 1972. p.
120-25.
. Uma novela típica ["A inde-
sejada aposentadoria"]. In: Montello, Josué. A indesejada aposentadoria.
Brasília, Ebrasa-Editora de Brasília, 1972 [Nota crítica na orelha da capa].
327
Freyre, Gilberto. Gonçalves Dias reinterpretado por Josué Montello.
'Pronunciamento no Conselho Federal de Cultura, na sessão de 6 de agosto de
1980, a propósito
do artigo de Josué Montello "Ordem e Progresso: um problema para positivistas",
publicado no Jornal do Brasil
19.7.1980'. In: Boletim do Conselho Federal de Cultura. Rio de Janeiro, MEC,
1980. Ano 10, n. 40, jul./ago./set. p. 45-47.
. Um escritor maranhense ["A
décima noite"]. In: Vida, forma e cor. Rio de Janeiro, J. Olympio,
1962. p. 22-23. Garcia, Oton M. ["A décima noite"]. In: Comunicação e prosa.
Rio
de Janeiro, Fundação Getúlio Vargas, 1971. p. 123, 131-32. Gomes, Danilo.
Josué Montello: "A literatura é como a casa de Deus que tem muitas moradas"
[estudo
sobre Josué Montello, acompanhado de Entrevista]. In: Escritores
brasileiros. Belo Horizonte, Ed. Comunicação; Brasília, INL, 1979. p. 231-
40. Jobim,
Renato. "A décima noite". In: Crítica. Rio de Janeiro, Liv. São José, 1960. p.
83-85. fozef, Bella. Josué Montello, uma saga maranhense. In: O jogo
mágico.
Rio de Janeiro, J. Olympio, 1980. p. 114-18. Inclui dois estudos: "Os tambores
de São Luís", p.
114-16.
"A noite sobre Alcântara", p.
116-18.
Kubitschek, fuscelino. "Os de-
• graus do paraíso" [carta e crítica literária apresentada como
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Digitalizado e revisto por Virgínia Vendramini


em março de 2008