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JOÃO FERES JÚNIOR

Organizador

EDITORA UFMG
BELO HORIZONTE
2009
© 2009, Os autores
© 2009, Editora UFMG
Este livro ou parte dele não pode ser reproduzido por qualquer meio sem
autorização escrita do Editor.

Léxico da história dos conceitos políticos do Brasil / João Feres


C744c Júnior, organizador. - Belo Horizonte : Editora UFMG, 2009.
249 p. - (Humanitas Pocket)

Contém partes do Diccionario político y social iberoamericano:


conceptos políticos en la era de las independencias, 1750-1850,
sendo produto do projeto Iberconceptos.

Inclui bibliografia.
ISBN: 978-85-7041-737-4

1. Brasil - História. 2. América Latina - História.


I. Feres Júnior, João. II. Série.
CDD: 981
CDU: 981

Elaborada pela DITTI - Setor de Tratamento da Informação


Biblioteca Universitária da UFMG

ASSITÊNCIA EDITORIAL: Euclídia Macedo e Letícia Féres


EDITORAÇÃO DE TEXTOS: Maria do Carmo Leite Ribeiro
REVISÃO DE T E X T O E NORMALIZAÇÃO: Lira Córdova
PROJETO GRÁFICO: Cássio Ribeiro
REVISÃO DE PROVAS: Beatriz Trindade, Cláudia Campos,
Karen M. Chequer, Renata Passos e Renilde Silveira
FORMATAÇÃO E MONTAGEM DE CAPA: Robson Miranda (extraída de
www.laicidade.org)
PRODUÇÃO GRÁFICA: Warren Marilac

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Av. Antônio Carlos, 6.627 - Ala direita da Biblioteca Central - Térreo
Campus Pampulha - 31270-901 - Belo Horizonte/MG
Tel.: + 55 31 3409-4650 Fax: + 55 31 3409-4768
www.editora.ufmg.breditora@ufmg.br
SUMÁRIO

A HISTORIA C O N C E I T U A L D O BRASIL
N O M U N D O IBERO-AMERICANO 7

REFLEXÕES SOBRE O PROJETO IBERCONCEPTOS


João Feres Júnior 11

AMÉRICA/AMERICANOS
João Feres Júnior
Maria Elisa Máder 25

CIDADÃO
Beatriz Catão Cruz Santos
Bernardo Ferreira 43

CONSTITUIÇÃO
Lúcia M. Bastos Pereira das Neves
Guilherme Pereira das Neves 65

FEDERAL/FEDERALISMO
Ivo Coser 91
BEATRIZ CATÃO CRUZ SANTOS
BERNARDO FERREIRA

CSDADÃÓ

Na língua portuguesa, bem como na espanhola, a pa-


lavra cidadão tem uma significação mui particular, ela
designava o morador ou vizinho de uma cidade. Sabe-se
que pelo direito feudal as povoações, segundo que eram
cidades, vilas ou lugares, tinham assim diferentes direitos,
gozavam certos privilégios, liberdades, isenções (...) [O
cidadão], por isso, gozava diferentes direitos que não se
estendiam a todos os membros da sociedade; (...) isto
porém acabou.1

Este discurso de Pedro Araújo Lima na Assembleia


Constituinte de 1823 faz parte do debate sobre o artigo do
projeto de constituição que definia quem eram os brasilei-
ros. O artigo foi objeto de uma discussão acalorada, pois,
no momento em que o deputado faz o seu discurso, não
só a palavra cidadão assumia um novo significado, mas a
própria ideia de brasileiro era nova. Entretanto, na edição
de 1823 do Diccionario da lingua portugueza, as mudanças
apontadas por Araújo Lima permaneciam ignoradas. O
cidadão era "o homem que goza dos direitos de alguma
cidade, das isenções, e privilégios, que se contêm no seu fo-
ral, posturas", ou "o vizinho de alguma cidade", ou, ainda, o
"homem bom". No Novo diccionario critico e etymologico da
lingua portugueza, de 1836, cidadão é alguém "apto para os
cargos municipais". Todas estas definições pertencem a um
quadro de referência de fundo hierárquico, que, aos olhos
de Araújo Lima, havia ficado para trás. Não por acaso, na
sequência da sua fala, ele insistia que "deve ser extensa esta
denominação [de cidadão] a todos os indivíduos, porque
seria odioso que conservássemos uma diferença, que traz
sua origem de tempos tão bárbaros".2
Entre o final do período colonial e as décadas iniciais
do Brasil independente, o vocábulo cidadão sofreu trans-
formações no seu significado cujo resultado foi o estabe-
lecimento de um conceito novo. Sob alguns aspectos, essas
transformações são tributárias dos rumos assumidos pelo
conceito de cidadão na história europeia. Isso implicou a
passagem de uma compreensão hierárquica da cidadania
para um entendimento igualitário. Nesse sentido, a his-
tória do conceito de cidadão no Brasil, entre 1750 e 1850
acompanha e atualiza a sua trajetória no mundo europeu.
No entanto, a separação que o constituinte estabelece entre
dois tempos claramente distintos precisa ser matizada. Para
que a natureza das transformações mencionadas possa ser
apreendida na sua complexidade, é preciso associá-la a
dois outros aspectos sem os quais o quadro permaneceria
incompleto e simplificado. Referimo-nos ao papel que o
conceito irá desempenhar na definição das fronteiras de
pertencimento à coletividade em uma sociedade marcada,
por um lado, pela sua condição colonial e, por outro, pela
permanência de relações escravistas.
Quando Araújo Lima fazia o seu discurso na Cons-
tituinte, ele punha em evidência uma associação muito ,
comum no Antigo Regime português. A condição de ci-
dadão e a de vizinho não raro se confundiam. Em ambòs
os casos, estava em jogo um estatuto jurídico-político que
definia o pertencimento de um indivíduo à comunidade
local em termos de privilégios, deveres, isenções, costumes.
Portanto, ainda que nos diferentes dicionários o cidadão
e o vizinho apareçam vinculados à habitação mais ou me-
nos permanente em um lugar, esta é apenas uma parte da
definição. A vizinhança, como pode se ler em Ordenaçoens
do Senhor Rey D. Manuel (1514-1521), estava associada ao
gozo de "privilégios e liberdades de vizinho, quanto a ser
isento de pagar os direitos reais, de que, por bem de alguns
forais e privilégios dados a alguns lugares, os vizinhos são
isentos".3 O estatuto do vizinho é inseparável de um "di-
reito de vizinhança",4 que distingue uma comunidade local
como um corpo privilegiado. As prerrogativas do vizinho
se referem em primeiro lugar a esse corpo privilegiado e
é como membro do grupo, e não a título subjetivo, que o
indivíduo desfruta delas.
Segundo o jurista português Pascoal José de Melo Freire,
no livro Instituições de direito civil português, de 1789, entre
a cidadania e a vizinhança seria possível estabelecer uma
diferença, já que os direitos do cidadão teriam um alcance
maior do que os referentes aos vizinhos, fundamentalmente
dirigidos ao âmbito municipal.5 A despeito dessa provável
diferença, importa salientar que os dois estatutos remetem
a uma mesma lógica concreta e particularista, segundo a
qual a integração do indivíduo a res publica é concebida
em termos de uma diferença baseada em privilégios. De
maneira geral, o estatuto de cidadão se refere a um con-
junto de prerrogativas, que está vinculado aos cargos da
administração local, principalmente da câmara. O cida-
dão é o "homem bom", que se distingue dos demais por
uma posição superior, garantida pela hereditariedade ou
alcançada por mecanismos de enobrecimento. Assim, a
definição de cidadão, embora não se confunda com a de
nobreza, se aproxima dela, identificando-se a uma série
de marcas que distinguem aqueles que buscavam ser
reconhecidos como os "principais da terra" ou os "homens
principais".6 Na sociedade colonial, o estatuto de cidadão
tem, entre outros pré-requisitos, a ideia da "pureza de
sangue" - ou seja, a ausência da mácula que contamina a
descendência das "raças infectas", judeus, mouros, negros,
indígenas, ciganos7 - e a inexistência de qualquer "defeito
mecânico" - isto é, de qualquer vínculo com atividades
manuais, os ofícios mecânicos.8 Nesse contexto, cidadão e
povo são noções diversas. Em uma representação de 1748
do Senado da Câmara da cidade do Rio de Janeiro sobre
a procissão de Corpus Christi, os vereadores cobram a
presença dos "Cidadãos", da "Religião" (ordens religiosas),
das "Irmandades e Confrarias" e do "mais Povo".9 O povo
aqui não se confunde com o conjunto dos cidadãos, mas
designa os ofícios mecânicos (artesãos), que exerciam fun-
ção simbólica relevante nas cerimônias régias e que haviam
tido participação política por um certo período de tempo
em algumas cidades do reino e da América portuguesa.10
Na verdade, essas noções de cidadão e de vizinho têm
que ser compreendidas no horizonte das concepções
corporativas que marcaram as representações teológico-
-políticas da sociedade e da monarquia portuguesa no
Antigo Regime. Para tais concepções, a hierarquia social
era pensada como a expressão de uma ordem mais geral
do mundo, na qual cada coisa encontra a sua razão de ser
no desempenho de uma função e na ocupação de um lugar
que lhe são próprios. O todo é o resultado da articulaçãp
entre as suas diferentes partes, cada uma cumprindo o
papel que lhe compete em vista do bem comum. Em termos
das relações políticas, a perspectiva corporativa impõe o
reconhecimento de uma organização da vida coletiva que
precede a vontade humana e que requer a preservação da
autonomia e da diferença dos corpos sociais em relação
à sua cabeça, o rei. Este último tem como principal
incumbência a preservação da harmonia do todo através
da realização da justiça, entendida como a atribuição a
cada qual daquilo que lhe compete.11 Esta compreensão de
origem medieval será reatualizada na época moderna com
a difusão no mundo português das doutrinas políticas
corporativas da Segunda Escolástica, cuja influência se
manteve na América portuguesa até o final do século
XVIII, resistindo aos esforços de reforma empreendidos
pela Ilustração. Para os autores da Segunda Escolástica, a
ordem política apresenta um duplo caráter: ela decorre de
uma ordenação natural das coisas que escapa ao arbítrio
humano; simultaneamente, é pactuada, porque resulta
da transferência ao governante de direitos que residiam
originariamente nos corpos da República.12
Nesse quadro, a ideia de constituição remete, em pri-
meiro lugar, a uma estruturação natural da sociedade, antes
de ser o resultado de um ato de vontade dos cidadãos de
um Estado. A precedência da constituição e do direito
sobre a livre escolha dos membros da coletividade está na
base do estatuto do cidadão. Este último é inseparável da
ideia de que a comunidade política é produto da articula-
ção entre corpos sociais que são por natureza diversos e
desiguais em direitos. Por isso, a constituição é a condição
dos pactos dos quais os cidadãos tomam parte, e não o
oposto.13 Da mesma forma, as palavras nação e pátria não
eram portadoras de um significado político vinculado à
ideia de direitos à cidadania. A pátria, em geral, designava
o lugar de origem dentro dos domínios portugueses.14
Nação, quando compreendida em termos políticos, era,
antes de tudo, a "nação portuguesa", sinônimo de Estado
português e, portanto, expressão de uma unidade que se
imaginava resultante da submissão e da fidelidade de todos
os súditos à monarquia.15
No contexto do Antigo Regime português e da socie-
dade colonial das décadas iniciais do século XVIII, o esta-
tuto de cidadão apresenta-se como o resultado de uma
concepção partilhada do poder, segundo a qual o exercício
do governo local é compreendido como uma prerrogativa
de alguns corpos sociais e indivíduos e, ao mesmo tempo,
como um serviço cuja merecida contrapartida deveria ser
a ampliação dos privilégios. Sendo assim, não é de se
espantar que, em 1655, os oficiais da câmara da cidade
de São Luiz do Maranhão demandassem junto ao rei os
mesmos privilégios que distinguiam os cidadãos da cidade
do Porto desde 1490. Tampouco surpreende que o rei
atendesse à reivindicação, alegando que o fazia em retri-
buição aos serviços prestados pelos súditos fiéis e na
expectativa de que a fidelidade já demonstrada viesse a
se renovar.16 Como o estatuto do cidadão pressupõe o
reconhecimento prévio de uma determinada ordem da
vida social, toda disputa em torno dele se dá dentro de
limites muito precisos, que são aqueles colocados pela
própria compreensão hierárquica e, por extensão corpo-
rativa e estamental, da sociedade. É possível disputar sobre
os critérios de acesso aos privilégios que definem a cida-
dania, mas não sobre a sua condição privilegiada.
Ao longo do século XVIII, esse quadro tendeu a se
transformar como resultado da incorporação de uma
linguagem referida a um novo sujeito do direito: o indi-
víduo. Tal fato foi o produto da difusão de duas retóricas
nem sempre convergentes, ainda que ambas tributárias
do jusnaturalismo moderno: a retórica igualitária dos di-
reitos subjetivos e a da soberania popular. A repercussão
no ultramar do ideário das Luzes, da independência das
colônias inglesas e da Revolução Francesa foi a principal
responsável pela assimilação dessas novas retóricas. No
entanto, a acolhida das novas ideias no mundo português
se deu dentro de limites muito claros, buscando conciliar
a preservação de estruturas sociais e políticas do Antigo
Regime e um programa de'reformas modernizantes ins-
pirado no racionalismo do século XVIII. Além disso, a
vigilância e a censura sobre as noções que se chocavam com
as instituições da monarquia e a proibição das tipografias
na América portuguesa impunham limites à circulação da
palavra impressa. A disseminação de novas ideias ocorria
sobretudo por intermédio de alguns impressos, manus-
critos e pela comunicação oral e não sob a forma de uma
reflexão de cunho mais sistemático e livresco. A formação
de um novo conceito de cidadania será essencialmente
clandestina e ganhará a luz do dia com as vestes da sedi-
ção, nos movimentos de contestação da ordem colonial
que ocorrerão nos anos finais do século XVIII e início do
XIX. Portadores de projetos políticos distintos e, muitas
vezes, marcados por diferenças internas, alguns desses
movimentos trouxeram a público noções que punham em
questão a ordem do Antigo Regime e, com ela, a concepção
hierárquica e estamental da cidadania.
A Conjuração Baiana de 1798 é, nesse sentido, exem-
plar. Expressão da crise do Antigo Regime, ela foi um
episódio cujo alcance permaneceu pontual e localizado.
No entanto, permite vislumbrar desdobramentos possí-
veis da assimilação na sociedade escravista de uma ideia
de cidadão como titular de direitos de caráter igualitário.
Projeto abortado de revolução contra o que se designava
como o "despotismo" e a "tirania" da Coroa portuguesa, a
Conjuração Baiana de 1798 tem entre seus traços distinti-
vos a assimilação do ideário da Revolução Francesa. Como
proclamavam os pasquins afixados nas ruas da cidade de
Salvador, seria chegada a hora dos "homens cidadãos", dos
"povos curvados e abandonados pelo rei" levantarem "a
sagrada bandeira da liberdade".17 Ao incorporar o ideário
francês, o discurso dos conjurados atingia as bases esta-
mentais da sociedade colonial e as concepções de direito
que lhe eram próprias e, ao mesmo tempo, transformava
a igualdade de direitos em condição de pertencimento à
comunidade política. Na nova ordem, as distinções de
estatuto entre os homens livres seriam abolidas e o governo
seria a expressão da soberania do povo. Como observava
outro pasquim dirigido ao "poderoso e magnífico povo
bahinense republicano", "será maldito da sociedade nacio-
nal todo aquele ou aquela que for inconfidente à liberdade
coerente ao homem".18 Dessa forma, em movimento similar
ao que se verificava contemporaneamente na América do
Norte e na Europa, a legitimidade do exercício do poder
se transferia do trono para o povo. Compreendido agora
como um conjunto de indivíduos juridicamente iguais, o
povo deixava de ser uma das ordens da sociedade para se
transformar no titular dos direitos de soberania: é o povo
que, na linguagem dos pasquins, "quer", "manda", "ordena"
fazer uma revolução, abrir os portos, elevar a remuneração
dos soldados, criar um "novo código", punir os oponentes
do movimento.19 Se a nação no vocabulário político dos
insurgentes continua a ser sinônimo de Estado, ela já não
se identifica mais com a unidade da Coroa, mas remete à
vontade coletiva do povo.20
Na Conjuração Baiana, a noção de "liberdade coerente
ao homem" e a concepção abstrata de direito que lhe é
correspondente encontraram expressão em uma expecta-
tiva de eliminação das distinções fundadas nas diferenças
de cor. Como antecipava um pasquim: "Cada um soldado
é cidadão, mormente os homens pardos e pretos que vivem
escornados e abandonados, todos serão iguais, não haverá
diferença, só haverá liberdade, igualdade e fraternidade."21
A abolição da escravidão não figurava entre as reivindica-
ções dos revoltosos, apesar de ter sido vocalizada por
alguns deles. Ainda assim, a bandeira de uma cidadania
que eliminasse as diferenças de cor trazia consigo um
potencial de questionamento não só das desigualdades
estamentais e dos estatutos de pureza de sangue a elas
associados, mas também da própria ordem escravocrata.
Esta ameaça, no final do século XVIII, ganhava contornos
ainda mais nítidos em função das notícias da rebelião de
escravos iniciada em 1791 na colônia espanhola de São
Domingos.
A possibilidade - entrevista na Conjuração Baiana e
que se reproduzirá em outras ocasiões - de que o ideal
de uma cidadania igualitária se disseminasse como uma
demanda pela abolição das discriminações de cor e, em
último caso, como um grande conflito social imprimirá
uma tônica particular aos debates políticos sobre o conceito
de cidadão que se inauguram à época da independência.
As controvérsias em torno da amplitude dos direitos de
cidadania ocorridas na Constituinte brasileira de 1823 são
um momento importante desse debate.
A discussão na Constituinte de 1823 está marcada pela
necessidade que então se colocava de fundar um novo
corpo político após a separação de Portugal. Dessa forma,
a definição sobre o cidadão brasileiro implicou a determi-
nação das fronteiras que separariam este último dos não-
-cidadãos, isto é, de todos aqueles que não participariam do
"pacto social" sobre o qual se fundava o Estado nascente.
A linguagem é, em grandes linhas, a do jusnaturalismo
moderno. A sociedade é criada pelos indivíduos tendo
em vista a preservação dos seus direitos. Serão cidadãos
aqueles que, por meio do seu consentimento, estabele-
cerem um poder comum para a sua própria segurança e
conservação. No entanto, a determinação da natureza do
pacto social brasileiro se deparava com duas grandes difi-
culdades. A instituição da nova ordem se dava a partir de
uma secessão no interior da antiga "família portuguesa":
como diferenciar os cidadãos do Estado que se formava
em relação aos membros do antigo reino português? Ou
ainda: dado que até então todos eram igualmente membros
da "nação portuguesa", como distinguir a partir de agora
brasileiros e portugueses? Além disso, uma outra questão
se colocava: quais dos membros da sociedade brasileira
poderiam ser considerados parte efetiva do pacto social?22
Nas palavras de um dos constituintes: "Por ser heterogê-
nea a (...) população" brasileira, seria preciso diferenciar
aqueles que poderiam reivindicar o título de cidadão dos
demais, evitando "confundir as diferentes condições de
homens por uma inexata enunciação".23 /
Às vésperas do rompimento com Portugal, "brasileiro"
não indicava uma identidade política diferenciada. Com
efeito, "até o início de 1822, nascer brasileiro significava
ser português'; com isto designava-se apenas o local de
nascimento dentro da nação portuguesa".24 A palavra podia
ser igualmente utilizada para apontar os que, nascidos em
Portugal, tinham residência fixa ou interesses mais per-
manentes no mundo americano.25 Em fevereiro de 1822,
Hipólito José da Costa, no seu jornal Correio Braziliense,
ainda acreditava ser necessário diferenciar "brasiliense"
("o natural do Brasil"), "brasileiro" ("o português europeu
ou o estrangeiro que lá vai negociar ou estabelecer-se")
e "brasilianos" ("os indígenas do país").26 Em 1823, nos
debates da Constituinte, brasileiros e portugueses passam
a ser concebidos como membros de nações diferentes. Em
parte, essa distinção se baseará no critério da naturalidade,
já que os cidadãos brasileiros se definirão, entre outras
coisas, pelo fato de terem nascido no território da nova
nação. Mais do que o critério da naturalidade, porém, será
a adesão, tácita ou explícita, à causa da independência,
isto é, o engajamento no novo pacto social, que, para os
constituintes, estabelecerá a diferença entre brasileiros e
portugueses. Ponto de vista semelhante fora defendido
por Frei Caneca, em texto do início de 1822, publicado no
ano seguinte. Segundo ele, "pátria não é tanto o lugar em
que nascemos, quanto aquele em que fazemos uma parte
e somos membros da sociedade".27 Seria preciso distinguir
a "pátria de lugar" ("efeito do puro acaso") da "pátria de
direito" ("ação do nosso arbítrio").28 Esta, e não aquela, seria
a verdadeira "pátria do cidadão". De modo similar, dizia
José Martiniano de Alencar na Constituinte, "é cidadão
brasileiro tanto o nascido em Portugal como o nascido
no Brasil, contanto que entrassem de princípio no novo
pacto social".29 No momento que se desenham os contornos
do novo Estado, o que define o cidadão brasileiro é, em
primeiro lugar, o seu consentimento.
O fato de que o português seja concebido como não-
- cidadão, ainda que o converta em estrangeiro, não afeta o
seu estatuto jurídico de homem livre. O mesmo já não se
pode dizer quando foi preciso definir "para dentro", e não
mais "para fora", as fronteiras da cidadania, separando as
diferentes "condições de gente" que compunham a sociedade.
Isso implicou uma tentativa de estabelecer uma distinção
entre os que pactuariam para a formação da sociedade civil
e os que não possuiriam títulos jurídicos para participar
dela, os negros escravos e os índios. Daí a necessidade de
diferenciar entre o brasileiro e o cidadão brasileiro. Nos
termos do deputado Francisco Carneiro de Campos:

O nosso intento é determinar quais são os cidadãos


brasileiros e, estando entendido quem eles são, os outros
poder-se-iam chamar simplesmente brasileiros, a serem
nascidos no país, como escravos crioulos, os indígenas,
etc., mas a constituição não se encarregou desses, porque
não entram no pacto social: vivem no meio da sociedade
civil, mas não fazem parte dela.30
Os índios estariam excluídos, porque, embora livres e
nascidos no país, sequer reconheceriam a existência da
nação brasileira e de suas autoridades, vivendo inclusive
em "guerra aberta" contra elas.31 Já os escravos, nascidos
ou não no Brasil, a sua situação é outra, uma vez que o seu
estatuto de não-cidadão será pensado com referência a
uma condição jurídica precisa: o fato de que não são donos
de si mesmos, o seu estado de privação de liberdade. Os
escravos, observava Francisco Gê Acaiaba Montezuma, em
relação "ao exercício de direitos na sociedade, são consi-
derados coisa, ou propriedade de alguém". O seu estatuto
jurídico os tornava incapazes de serem membros da socie-
dade civil brasileira, pois, como insistia Montezuma, "este
nome só pode competir, e só tem competido a homens
livres".32 Dessa forma, se estabelece uma clara demarcação
entre cidadãos - que por serem livres podem reivindicar
a "qualidade de pessoa civil"33 - e os escravos - que, mesmo
quando naturais do país, não são livres e não são senhores
da sua própria vontade, não podem tomar parte do pacto
social, "não passam de habitantes no Brasil".34
Havia, no entanto, uma condição adicional de homens
em relação à qual o estatuto de cidadão precisou ser defi-
nido. Uma condição ambígua, já que livre, natural do país,
habitante do seu território, integrada à ordem política
do Império e, no entanto, marcada pela condição servil:
os escravos libertos. O lugar dos libertos no interior da
sociedade política colocava no centro do debate a questão
sobre a amplitude tolerável de uma noção de direitos de
cidadania baseada na ideia de uma "liberdade coerente ao
homem". Em outros termos, dada a continuidade da ordem
escravista, qual o grau aceitável de abstração do conceito
de cidadão em relação às desigualdades que organizavam
mestiços contra os brancos. A simetria dos pontos de
vista remete, no entanto, a um mesmo pano de fundo: a
tensão entre o novo conceito de cidadania consagrado na
Constituição e a continuidade das relações escravistas.
No debate político dos anos 1830 e 1840, duas respos-
tas opostas e polares buscam fazer face a essa tensão. Em
linhas gerais, elas foram expressão do antagonismo entre
liberais e conservadores e encontraram na Constituição de
1824 o quadro de referência da sua argumentação.44 Desde
os debates da Constituinte, a discussão sobre a igualdade
jurídica se restringia à esfera dos direitos civis. Como
observava Pedro Araújo Lima, "a palavra cidadão não
induz igualdade de direitos".45 A Constituição outorgada
consagrará esse ponto de vista. Segundo Pimenta Bueno,
principal comentador da Constituição imperial, os direi-
tos políticos seriam um atributo daqueles que, além de
membros da "sociedade civil ou nacional", participariam
da "ordem ou sociedade política".46 No debate político
brasileiro do século XIX, a diferenciação entre cidadãos
portadores de direitos políticos e aqueles apenas titulares
de direitos civis será elaborada a partir da distinção entre
cidadão ativo e passivo, originária do constitucionalismo
francês. O primeiro, nos diz Pimenta Bueno, desfruta de
uma liberdade relativa a "tudo quanto não lhe é proibido
pela lei"; já o segundo possui a liberdade política que
"decreta essa lei".47 O exercício dos direitos políticos, diz o
mesmo autor, seria "uma importante função social", antes
de ser "um direito individual ou natural". Para possuir
tais direitos, seria preciso "oferecer à sociedade certas
garantias indispensáveis",48 sob a forma de "capacidades e
habilitações".49
Na Constituição de 1824, a diferenciação entre cida-
dão ativo e passivo foi instituída com base em critérios
censitários, que também estabeleciam diferentes graus no
exercício dos direitos políticos. Nos debates políticos dos
anos 1830 e 1840, o princípio que sustentava os critérios
censitários da Constituição - a ideia de que a propriedade
é a condição para o exercício independente dos direitos
políticos - não será, em linhas gerais, questionado. á o
entanto, duas alternativas opostas serão derivadas do texto
constitucional, visando conciliar escravidão e cidadania.
Do ponto de vista dos liberais, as qualificações censitárias
não negariam a igualdade fundamental dos cidadãos
perante a lei, apenas estabeleceriam distinções fundadas
em critérios adquiridos, e não herdados. Nesse sentido, o
acesso aos direitos políticos dependeria apenas dos talentos
individuais. A escravidão estaria justificada pelo direito de
propriedade e não por quaisquer diferenças qualitativas
entre os indivíduos. Não haveria razão, portanto, para a
existência de categorias intermediárias entre os cidadãos
e os escravos.50 Como afirmava um jornal radical dos anos
1830, "entre nós não há mais do que povo e escravos; e
quem não é povo já se sabe que é cativo".51 Entre os con-
servadores - "partido" que se torna hegemônico a partir da
década de 1840 -, prevalecerá a ideia de que seria preciso
demarcar as diferenças entre os membros da sociedade,
atualizando e legitimando na nova ordem as prerrogativas
que haviam organizado o Antigo Regime português. A
preservação da ordem escravocrata se torna sinônima da
conservação e reprodução de hierarquias tradicionais,
que podiam ser lidas agora à luz das exigências censitárias
do texto constitucional. Dessa forma, a associação entre
cidadania, liberdade e propriedade se torna a referência
das desigualdades que deveriam existir entre livres e pro-
prietários (os cidadãos ativos), livres e não-proprietários
(os cidadãos passivos) e não-livres e não-proprietários (os
não-cidadãos).52

NOTAS
1 DAC, 24/09/1823, p. 106.
2 DAC, 24/09/1823, p. 106.
3 ORDENAÇOENS, Livro II, Título XXI.
4 FREIRE, 1789, Livro II, Título II, § 7.
5 Cf. FREIRE, 1789, Livro II, Título II, § 5.
6 BICALHO, 2003, p. 146.
7 CARNEIRO, 2005.
8 BICALHO, 2003, p. 143.
9 Apud SANTOS, 2005, p. 114.
10 SCHWARTZ, 2004; SANTOS, 2005.
11 HESPANHA; XAVIER, [s.d.], p. 122-125.
12 HESPANHA, 2000; HESPANHA; XAVIER, [s.d.], p. 127-133.
13 HESPANHA; XAVIER, [s.d.], p. 122-125; HESPANHA, 2000.
14 BERBEL, 2003, p. 348.
15 JANCSÓ; PIMENTA, 2000; CHIARAMONTE, 2003.
16 Cf. Alvará de 15 de Abril de 1655. In: ANDRADE E SILVA, 1856,
p. 226.
17 MATTOSO, 1969, p. 149.
18 MATTOSO, 1969, p. 155-156.
19 MATTOSO, 1969, p. 158-159.
20 JANCSÓ; PIMENTA, 2000, p. 147.
21 MATTOSO, 1969, p. 157.
22 Cf. SLEMIAN, 2005.
23 DAC, 23/09/1823, p. 90.
24 RIBEIRO, 2002, p. 46.
25 RIBEIRO, 2002, p. 46.
26 Apud PIMENTA, 2006, p. 78-79.
27 CANECA, 1823, p. 98.
28 CANECA, 1823, p. 80.
29 DAC, 26/09/1823, p. 118.
30 DAC, 24/09/1823, p. 106.
31 Cf. DAC, 23/09/1823, p. 90.
32 DAC, 23/09/1823, p. 90.
33 DAC, 30/09/1823, p. 106.
34 DAC, 23/09/1823, p. 135.
35 Cf. MATTOS, 1987, p. 113; GRINBERG, 2002, p. 184.
36 Cf. MATTOS, 2000; BERBEL; MARQUESE, 2006.
37 MATTOS, 2000, p. 13.
38 DAC, 30/09/1823, p. 136.
39 DAC, 23/09/1823, p. 93.
40 DAC, 30/09/1823, p. 139.
41 MATTOS, 2000, p. 22.
42 MATTOS, 2000; MARQUESE, 2006; BERBEL; MARQUESE, 2006.
43 DAC, 30/09/2006, p. 136, 138.
44 Cf. MATTOS, 2000, p. 33-35.
45 DAC, 24/09/1823, p. 106.
46 BUENO, 1857, p. 526.
47 BUENO, 1857, p. 550.
48 BUENO, 1857, p. 553.
49 BUENO, 1857, p. 551.
50 MATTOS, 2000; GRINBERG, 2002.
51 Apud BASILE, 2004, p. 165.
52 GONÇALVES; MATTOS, 1991, p. 17-18.
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LÚCIA M. BASTOS PEREIRA DAS NEVES
GUILHERME PEREIRA DAS NEVES

CONSTITUIÇÃO

Se a análise de um conceito consiste em distinguir "as


diversas significações que estão vivas na língua, mas que
obtêm uma determinação mais restrita em cada contexto
do discurso",1 compreender o significado do termo cons-
tituição, no mundo luso-brasileiro da segunda metade do
século XVIII em diante, pressupõe um recuo temporal
até a Restauração de 1640, momento de refundação da
monarquia portuguesa.2 Rompido o pacto estabelecido nas
Cortes de Tomar de 1580 com Felipe II de Espanha, coube
à nação portuguesa em 1640 o direito de aclamar um novo
soberano, ato insurrecional legitimado pela reunião em
Cortes, nas quais o duque de Bragança viu-se aclamado
como D. João IV (1640-1656).3 Realização máxima de uma
reflexão sobre o poder e a sociedade com profundas raízes
nos séculos anteriores,4 a que não eram estranhas certas
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M A R C O A. P A M P L O N A

NAÇÃO

Falar de nação, ou dos demais conceitos congêneres,


implica atenção às várias camadas de tempos superpostos
que carregam e às composições bastante específicas desses
muitos tempos que em diferentes momentos costumam
expressar.
O período que nos interessa aqui - de 1750 a 1850
- mostra-se particularmente rico para demarcarmos as
sutis mudanças de ênfase entre os distintos significados
que comporta o vocábulo. As profundas transformações
políticas e sociais experimentadas entre 1760 e 1830 -
associadas ao ciclo das revoluções modernas, iniciado nas
colônias com a Revolução Americana, seguido pelas Revo-
luções Francesa e do Haiti e ampliado com as revoluções
liberais desencadeadas nas metrópoles ibéricas e com as
independências das suas colônias americanas - intervieram
radicalmente. Ao longo desses anos, novos, diferentes
e acelerados processos de mudanças semânticas foram
caracterizando o termo. Em especial, tratou-se de redefinir
a conotação política que já então particularizava a palavra
nação e ampliá-la, ajustando-a a diferentes conjunturas.
Assim, ainda que a inicial polissemia característica do
vocábulo fosse mantida, com seus conhecidos aspectos
de natureza étnica e cívica, a identificação com o político
fortaleceu-se e ganhou novos contornos.
Num espaço de tempo não superior ao de duas gerações,
novos conteúdos se afirmaram e ressignificaram progres-
sivamente o termo. Mesmo quando os velhos significados
permaneciam (é o caso do conteúdo étnico que sempre
acompanhou o termo natio, identificando-o à descendência
ou à gens), eram os vínculos entre nação e Estado, ou
nação e ordem política, os que marcariam as vozes mais
representativas desse embate cultural no período.
Observamos isso, inicialmente, por meio da análise do
léxico político e do seu registro nos dicionários de época. O
Vocabulário Portuguez e Latino, do padre Raphael Bluteau,
publicado em 1716, já definia nação como um "nome cole-
tivo, que se diz da Gente, que vive em alguma grande região
ou Reino, debaixo do mesmo Senhorio". E, acrescentava:

Nisso se diferencia nação de povo, porque nação com-


preende muitos povos, & assim Beirões, Minhotos,
Alentejões, & c. compõem a nação Portuguesa; Bávaros,
Saxões, Suábios, Hamburguenses, Brandenburguenses,
& c. compõem a nação Alemã; Castelhanos, Aragoneses,
Andaluzes, & c. compõem a nação Espanhola.1

Tal percepção - ao associar a Nação ao Reino, à auto-


ridade de um mesmo Senhorio, à Monarquia - via-se
ainda relacionada ao contexto do Antigo Regime. Junto
a ela, outros sentidos prévios do termo continuam sendo
lembrados, mantendo-se a associação a etnias, castas, a
uma mesma língua, ascendência ou origem comum. Há
inclusive referências ao que Bluteau chamou de "Nações
de extraordinário e monstruoso feitio de que fazem men-
ção Autores antigos & modernos". Dentre esses estranhos
grupos, destacam-se os Masuyüs, uma nação do Grão-Pará
mencionada pelo padre Simão de Vasconcellos, no seu livro
Notícias do Brasil, sobre os quais afirma, fantasiosamente,
serem "casta de gente que nasce com os pés às avessas".
Também os Curinqueans são citados como habitantes das
terras do Grão-Pará, com "dezesseis palmos de alto, aos
quais todos os outros têm muito respeito".2 Tácito, falando-
-nos de Gentiles nationes, os da mesma nação, ou Cícero,
mencionando a Gentilia sacrificia, também são citados. Aí
estão, enfim, as nações associadas a vários grupos étnicos,
a vários "outros", definidos de inúmeras maneiras, mas,
especialmente, em função do seu lugar de origem. Assim, as
nações, continuavam a designar o modo como na Antigui-
dade os romanos se referiam aos "bárbaros" que habitavam
o Império, vindos de diferentes regiões; ou como eram
classificados os estudantes, de forma a atribuir-lhes uma
identidade nas universidades medievais - por exemplo,
os da Universidade de Paris, representando a fidèle nation
de Picardie ou a honorable nation de France, entre outras.3
Também o Dicionário da língua portuguesa de Antonio
de Moraes Silva, ao longo de várias edições - como na sua
quarta edição, de 1831 - , registrava o significado "antigo"
do vocábulo, associando-o a atributos etnoculturais e ao
estrangeiro - ao não igual ou "outro" - e, sobretudo, àquele
que não podia ser reconhecido como par, ou cidadão. Daí
a expressão "Gente de Nação". O Dicionário de Moraes
Silva registrava esse último termo, identificando-o aos
"descendentes de Judeus, Cristãos novos. Raça, casta, espé-
cie". Observamos, entretanto, que o significado antigo não
era o primeiro a vir anunciado no verbete. Uma definição
principal e mais ampla em geral o precedia, tal como no
dicionário de Bluteau. Em ambos os léxicos, o primeiro sig-
nificado do termo nação vinha referido a civitas e descrevia
sobretudo "a gente de um paiz, ou região, que tem Lingua,
Leis e Governo á parte". Como exemplos concretos desses
grandes aglomerados de gente, politicamente organizados,
vinham citadas a "Nação Francesa, Espanhola, Portuguesa".
Tidas como modernas, nelas valorizava-se, sobretudo, a
ordem política, ainda que fossem admitidas a unidade de
língua e o território como expressões importantes para
particularizá-las.
Na 5a edição do Dicionário de Moraes Silva, de 1844, o
termo nação manteve os mesmos significados da edição
anterior de 1831. O registro da etimologia de algumas pa-
lavras - por exemplo, "Nação" (do latim natio, onis) - era
a única novidade apresentada. Foi apenas com a 6a edição
do Dicionário, em 1858, que as grandes transformações
semânticas observadas previamente apareceram consoli-
dadas. Reproduzamos na íntegra o verbete nela presente
para melhor comentá-lo.

Nação, s. f. (do Lat. natio) A gente de um país, ou re-


gião, que tem lingua, leis, e governo à parte: v. g. a nação
Francesa, Espanhola, Portuguesa. §. Gente de Nação;
i. e. descendente de Judeus, Cristãos novos. §. Nação; fig.
raça, casta, especie. Prestes.
+ (Nação, Povo. Sin.) No sentido literal e primitivo. A
palavra nação indica uma relação comum de nascimento,
de origem; e povo uma relação de número, e de reunião.
A nação é uma dilatada família; o povo é uma grande
reunião de seres da mesma espécie. A nação consiste nos
descendentes de um mesmo pai, e o povo na multidão de
homens reunidos em um mesmo sitio. Em outra accepção
a palavra nação compreende os naturais do paiz; e o povo
todos os habitantes. Um povo estrangeiro que forma uma
colônia em país longínquo, continua ainda a ser Inglês,
Português, Espanhol etc. é-o por nação, ou de origem.
Diversos povos reunidos, ligados por differentes relações
comuns em um mesmo paiz, formam uma nação; e uma
nação se divide em vários povos, diversos uns dos outros
por differenças locais e físicas, ou políticas e morais. A
nação está intimamente unida ao paiz pela cultura, ela
o possui; o povo está no país, ele o habita. A nação é o
corpo dos cidadãos; o povo é a reunião dos reinicolas.
Uma nação divide-se em muitas classes; o povo é uma
delas; é a parte mais numerosa de que a nação é o todo.4

Após as quatro primeiras linhas, em que são repro-


duzidas definições presentes em edições anteriores, nos
deparamos com acréscimos, de fato, novedios. Primeira-
mente, está a apresentação de nação como sinônimo de
povo, não mais a sua soberania repousando no Monarca ou
no Reino, indicando-nos que o jusdivinismo progressiva-
mente cedera lugar ao jusnaturalismo. Em segundo lugar,
ressignifica-se uma distinção fundamental entre esses
dois termos. A nação, inicialmente associada à origem e à
relação comum de ascendência, vem agora descrita como
"uma dilatada família" que "...consiste nos descendentes de
um mesmo pai". E, o povo, inicialmente, identificado a uma
mera relação de número, uma reunião; é agora a "multidão
de homens reunidos em um mesmo sítio". E, enquanto a
primeira expressão compreende apenas "os naturaes do
paiz", a segunda diz respeito a "todos os [seus] habitantes".
Tais diferenças e redefinições se dão a partir do sentido
novo e fundamental que a palavra nação começou a revelar
nos anos que se seguiram ao vintismo, no mundo ibérico
- nos referimos ao sentido de separação, de distinção de
um povo em relação a outro. Uma tal dimensão que não
escapou absolutamente a Moraes Silva. Assim, quando o
autor nos diz, por exemplo, que "(uni) povo estrangeiro que
forma uma colônia em país longínquo, continua ainda a
ser Inglês, Português, Espanhol etc. é-o por nação, ou de
origem", ele está entendendo o "nacional" como algo que se
situa na base do "internacional"; e, simultaneamente, como
o oposto ao estrangeiro. Em suma, o adjetivo "nacional"
passou a significar não só o que é "relativo à nação", mas o
que é "relativo à nossa nação", com a exclusão das outras.
E é nessa última acepção, com a particularização agora de
uma dada nação entre as outras, que passamos a assistir ao
desenvolvimento dos muitos nacionalismos que marcaram
o século XIX.
No mundo luso-brasileiro, a diferenciação conceituai
mais importante entre os dois termos tratados deu-se
à época do vintismo e foi, a saber, aquela que acabou
identificando a nação ao "corpo dos cidadãos". Assim,
enquanto o vocábulo povo permaneceu associado ao
conjunto maior dos habitantes do reino, à "reunião dos
reinicolas", a relação entre nação e civitas viu-se reforçada
ou enfatizada. Nação tornou-se indissociada, no léxico
político do período, da ideia de uma dada ordem política,
ou de uma "república" (do latim respublica, res e publica,
a coisa pública); ou o "que pertence, e respeita ao público
de qualquer Estado". E, segundo a definição bastante clara
de Moraes Silva, nação referia-se não a todos, mas apenas
aos que eram cidadãos, aos que gozavam de direitos e
privilégios em algum foro, aos que habitavam cidades ou
vilas e, em suma, aos que, por se encontrarem nessa con-
dição, como pertencentes a uma particular "vizinhançá",
ou compondo um dado "corpo de cidadãos", passavam a
poder reivindicar a sua representação na nação moderna
que se afirmava. As definições de cidadão e de cidade que
predominaram a partir dos anos de 1820, e que nos são
dadas por Moraes Silva nesta mesma edição, bem como as
de povo, reiteram essa perspectiva. É a nação que, como
"conceito fundamental",5 se faz combinar a esses outros de
similar importância - povo, cidadão etc. - redefinindo,
informando e direcionando o conteúdo político e social
da própria língua.
Cidadão (do latim civis) referia-se ao homem que
gozava dos direitos de alguma cidade, de isenções ou pri-
vilégios que a condição de "vizinho" em uma cidade lhe
conferia. Era no Brasil sinônimo de "homem bom". Com
a frase "faziam um juiz cidadão da cidade, ou vila, e outro
fidalgo", Moraes também deixa claro que cidadão não se
confundia com fidalgo. Sua definição é melhor precisada
quando analisamos a descrição que ele mesmo faz de cida-
de (do espanhol ciudad, do latim civitas). Primeiramente,
a cidade é descrita apenas como "povoação de graduação
superior às Vilas. Antigamente deram este nome a vilas,
ou Concelhos, e povoações grandes." E sua definição plena
se dá quando Moraes afirma que "a Cidade por excelência
se entende daquela onde estão os que falam". As gentes da
cidade ou da vila opõem-se, pois, às da corte. Os cidadãos
são já votantes e eleitores e é nessa condição que poderão
passar a representar a nação.
A representação da nação, em suma, não se fazia por
indivíduos quaisquer e não podia ser o somatório numé-
rico daqueles, tomados isoladamente. Ela era a represen-
tação de "um certo tipo de gente", de "uma dada condição
de gente" - daqueles que pertenciam a corpos (políticos)
específicos. O "cidadão" era, pois, sinônimo de "pessoa
honrada" ou "vizinho de alguma cidade"; correspondia, via
de regra, aos homens de propriedade e posição no conjunto
da população do Império brasileiro; representava a "boa
sociedade" naquela ordem, no dizer de limar Rohloff de
Mattos.6 O "cidadão" vinha identificado às muitas polities
anteriores - associadas quer às vilas, comunidades de sú-
ditos, e vizinhanças - , em especial àquelas profundamente
enraizadas nas instituições coloniais do passado e que
puderam parcialmente sobreviver. Nessas comunidades, os
significados se sobrepuseram uns aos outros, misturaram-
-se tradição e modernidade, no dizer de François-Xavier
Guerra. Ainda que restritos ao caso do México, os seus
estudos mostraram como essa relação, ao mesmo tempo
de oposição e complementaridade, e de permanente ambi-
guidade entre tradição e modernidade, contribuiu para
manter a polissemia de alguns desses conceitos - tais conio
cidadão, soberano, povo etc. — abusivamente empregados
ao longo do século XIX.7
A chamada regeneração vintista portuguesa e seus
imediatos desdobramentos no ultramar representaram
uma primeira e importante inflexão para o processo de
transformação semântica do vocábulo nação e das demais
expressões a ele diretamente relacionadas. A singularidade
luso-brasileira, entretanto, começou antes - nos anos de
1808 e 1815. O fato de Portugal ser uma monarquia com-
pósita e um agregado de reinos não impediu o caráter uni-
tário do Estado de prevalecer. Diferentemente da Espanha,
a monarquia plural que produziu "nações" hispânicas de
seus fragmentos, durante a ocupação,8 o Reino português
e seus domínios foram mantidos. Contribuíram para isso,
primeiramente, a transmigração da Corte para o Rio de
Janeiro em 1808; em segundo lugar, a criação do Reino
Unido de Portugal, Brasil e Algarves, em 1815.
Durante os anos iniciais da década de 1820, entretanto,
constrangimentos vários, de natureza estrutural e conjun-
tural, criaram circunstâncias particulares que acabaram
redirecionando as ações políticas dos principais agentes.
É desse período a profusão de "atos de fala"9 enunciados
no interior de comunidades argumentativas específicas
(nos referimos, por exemplo, aos debates em jornais,
constituintes, cortes e assembleias). É no interior desses
espaços, dependendo sempre de variáveis temporais e de
lugar, e referido a meios sociais determinados, que o sen-
tido convencional de um dado termo começa a mudar, ora
mais rápida, ora mais lentamente. É observando tais "atos
de fala" que podemos perceber como e quando os velhos
significados passam a perder o seu peso, misturam-se
com novas conotações e começam a atribuir positividade
a expressões antes tidas como derrogatórias; ou mesmo
a condenar aquelas antes consideradas corretas. Quando
antigas designações se mostram inadequadas à realidade
ou incompatíveis com as novas ideias professadas, elas
costumam ser redefinidas. O resultado final apresentado
pelos dicionários é importante, mas encontra-se já crista-
lizado. O léxico não nos permite a percepção do embate
mais vivo, captar todas as tensões que a fala em ato carrega,
com sua intencionalidade e emoção, e que, num ou noutro
momento específico, sofre transformações.
Para captarmos um pouco dessa dinâmica, cabe pro-
cedermos a uma rápida análise de certas falas que foram
marcantes na conjuntura cambiante dos anos que se
seguiram ao vintismo. Para uma periodização desses anos
cruciais do ponto de vista da afirmação do Estado-nação
moderno na América portuguesa, sugerimos a diferenciação,
grosso modo, de dois momentos de inflexão chave. Um
primeiro momento, associado ao debate em torno do
constitucionalismo (1821-1822), contempla tanto a defesa
de um governo constitucional ainda nos marcos do reino
de Portugal, como a opção pelo governo constitucional
com a separação e criação do Império do Brasil. Assim,
reconhecer-se "brasileiro", entre 1820 e 1822, não signifi-
cava necessariamente abrir mão do sentimento de perten-
cimento político à "grande família lusitana". Entretanto, o
termo politizava-se crescentemente, com a adesão à "causa
do Brasil", e transitava da defesa da "paridade de direitos
entre os Reinos" para a adesão à independência e à unidade
do novo Império brasílico, após o setembro de 1822.
Isso ficou bastante claro em algumas das vozes mais
representativas dos embates culturais à época, e que foram
veiculadas pela imprensa que apoiava a separação do Brasil
de Portugal. Assim, juntamente com as discussões de A
Malagueta, de Luís Augusto May, os debates apresentados
no menos exaltado Revérbero Constitucional Fluminense ao
longo desses anos revelaram magistralmente essas muitas
tensões. O primeiro número do Revérbero, por exemplo,
não poupou elogios ao "memorável 24 de Agosto de 1820",
que desferira, afirmava o hebdomadário, um golpe mor-
tal ao absolutismo. Ele era dirigido aos "portugueses de
ambos os Mundos!", "de um e outro hemisfério", e os dois
brasileiros responsáveis pelo jornal - Joaquim Gonçalves
Ledo e o cónego e poeta Januário da Cunha Barbosa -
intitulavam-se "amigos da nação e da pátria". A epígrafe
que se repetiria em todos os próximos números - Redire sit
nefas ("Voltar atrás é crime") - lembrava o compromisso
coletivo de conservar "intacta, inviolável, e sagrada a santa
e augusta obra da nossa regeneração política", associada
ao 24 de Agosto de 1820. Tratava-se, diziam eles, de não
deixar apagar "o sagrado fogo da Liberdade, que accen-
dido no Doiro, inflammou-se no Téjo, e generalisou-se
do Amazonas ao Prata". Finalizavam o primeiro número
com o brado: "Avante, Amigos da Nação e do Rei; unidos
triunfaremos, e divididos voltaremos ao nada."10
Maior ressignificação dos sentidos dessas e de outras
expressões em uso no período - brasileiro, brasílico, por-
tuguês, corcunda, nação, reino, império, pátria etc. - ficaria
por conta da nova conjuntura, após a separação efetivada
em 1822. Há uma maior politização dos termos utilizados.
Assim, nos anos seguintes (1823-1824), o eixo do debate
viu-se deslocado para outras direções. No novo cenário,
o anticonstitucionalismo acabou se confundindo com
o apoio ao português. Foi essa a sutil mudança operada
também em relação ao corcundismo, como nos lembra
Lúcia Bastos em seu trabalho.11 O epíteto de "corcunda",
inicialmente conferido aos defensores do absolutismo,
passou a ser aplicado àquele que apoiava o interesse por-
tuguês em geral. Em contrapartida, a partir de meados de
1822, especialmente na imprensa local, a "causa brasíli-
ca" associou-se à luta contra "a revoltante agressão" dos
portugueses e ao movimento pela independência e pela
edificação de um Império brasílico, como alternativa ao
Império luso-brasileiro. A reunião em junho do mesmo
ano de uma Assembleia Geral Constituinte e Legislativa,
composta de deputados das muitas províncias brasílicas,
serviu para reforçar mais ainda essa conotação. A expres-
são corcunda passou a designar, de forma pejorativa, o
antibrasílico, agora aqui entendido como aquele que se
opunha à causa da separação do Brasil.12
A partir de 1823, com os debates da Constituinte e após
a Constituição outorgada, em 1824, seriam deslanchadas
novas discussões sobre os poderes das províncias brasílicas,
dando início às discussões sobre as autonomias provinciais.
O segundo momento de inflexão que assinalamos para
o período é aquele marcado pela tensão entre a Corte e os
governos provinciais e locais, pela disputa entre centrali-
zação e federalismo, disputa essa fortemente acirrada na
década de 1830. Ao projeto de unidade sob a direção do Rio
de Janeiro, acalentado por grupos articulados ao aparato
político lá instalado desde 1808, opunha-se a resistência
daquelas elites provinciais mais ciosas de sua autonomia.
Cabe lembrar que séculos de colonização haviam engen-
drado unidades político-administrativas que mantinham
fracos vínculos entre si e demandavam maior autonomia
para gerir seus interesses, sem a interferência de governos
a elas externos, fosse o de Lisboa, fosse o do Rio de Janeiro.
Parece que a arquitetura de poderes no Portugal do Antigo
Regime deixara suas marcas, pois, como insiste em afirmar
Nuno Gonçalo Monteiro, uma das peculiaridades do reino
era "a inexistência de poderes formalizados em âmbito
regional". A instância de poder local privilegiada era a
municipal - com conselhos municipais, marcadamente
"a-regionais e antirregionais" - não a provincial.13
Por outro lado, os desafios à manutenção da ordem
escravista, a transferência da Corte para a colônia e os acon-
tecimentos a ela subsequentes advindos com o vintismo
haviam introduzido no panorama político a alternativa de
unidade da América portuguesa em um único Estado. A
tensão entre a proposta de unidade capitaneada pela Corte
e a autonomia das províncias acabaria por marcar a histó-
ria das décadas de 1830 e 1840. A unidade sob a direção
de um Estado com capacidade de defender os interesses
escravistas só era aceitável para as elites provinciais se
lhes fosse garantida autonomia suficiente para gerir suas
províncias e alguma participação na condução da, agora,
política nacional.
A partir das reformas liberais da década de 1830 e,
em especial, do Ato Adicional de 1834, ensaiou-se algo
do novo modelo. Estabeleceu-se a divisão constitucional
das respectivas competências do governo central e dos
governos provinciais. Tratava-se de impedir que tendências
centrífugas retalhassem a antiga Colônia em diversas uni-
dades políticas autônomas, reclamadoras de soberania. Isso
implicava a construção de um aparelho institucional, no
qual as elites provinciais pudessem defender seus interesses
específicos e, ao mesmo tempo, influenciar a política geral
- o que se daria por meio das representações na Câmara
dos Deputados.
De 1831 a 1837, abriu-se um quadro de enorme insta-
bilidade política, que se fez acompanhar do sufocamento
de insurreições de norte a sul em um território ainda em
consolidação. Tais conflitos aceleraram a tentativa de
institucionalização, por parte do Império, das chamadas
instâncias de poder provinciais. Com a abdicação de
D. Pedro, as reivindicações localistas recrudesceram e
foram a principal marca das décadas de 1830 e 1840. Em
diferentes momentos, três províncias proclamaram sua
independência: no norte o Pará, no centro a Bahia e no sul
o Rio Grande. Cinco grandes revoltas se seguiram ao Ato
Adicional: no Pará a Cabanagem (1835-1840), na Bahia a
Sabinada (1837), no Maranhão a Balaiada (1838-1841) e
as mais controladas revoltas de São Paulo e Minas Gerais
(1842). Em meio à Farroupilha, na província do Rio Grande,
proclamou-se uma República independente e, por dez anos
(1835-1845), manteve-se uma guerra fratricida na região
contra o poder central.
Ao longo do último decênio de lutas (1840-1852), con-
solidou-se a chamada direção Saquarema, logo simbolizada
pela famosa "trindade" - Eusébio de Queiroz, Joaquim José
Rodrigues Torres (futuro visconde de Itaboraí) e Paulino
Soares de Souza (futuro visconde do Uruguai). Tecendo
seus interesses a partir da Corte e passando pela província
fluminense, os Saquaremas conseguiriam se espalhar pelas
demais regiões abrangidas pelo Império.14
A discussão, pois, de quem deveria ser cidadão na
nova ordem e a formação mesma da nação como efetiva
comunidade de cidadãos caracterizaram esses anos de
drásticas mudanças. A adoção do princípio mesmo da
"soberania do povo" iniciou uma transformação mais
profunda da moldura normativa existente até o momento
para a legitimação do poder político.
Época de profunda ressignificação do vocabulário
político e das linguagens em uso, os anos que se seguiram
ao vintismo podem ser vistos como um período, acima de
tudo, inventivo. É quando - diríamos - os contemporâneos
passaram a explorar, talvez pela primeira vez, o significado
mais radical de uma linguagem de direitos. Entretanto
esses homens e mulheres de carne e osso, que certamente
atuaram e sofreram, o fizeram a partir das instituições e
organizações às quais estavam vinculados, a partir das
unidades políticas e sociais de ação que conheciam e nas
quais se viam inseridos naquele tempo de mudanças. /

NOTAS

1 BLUTEAU, 1716, p. 658.


2 BLUTEAU, 1716, p. 658.
3 GREENFELD, 1992; HABERMAS, 1996.
4 SILVA, 1858. Grifos do autor.
5 KOSELLECK, 2004, p. 35.
6 MATTOS, 1999.
7 GUERRA, 2001 e 2003.
8 GUERRA, 2003, p. 60.
9 POCOCK, 2003.
10 RCF, 1821, n. 1, p. 3, 12.
11 NEVES, 2003.
12 NEVES, 2003, p. 138-139.
13 MONTEIRO, 1993, p. 309.
14 MATTOS, 1999, p. 190.