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O LUGAR DE CRISTO NA ÉTICA DE DIETRICH BONHOEFFER

Luiz Felipe Xavier1

Resumo
O capítulo V da Ética de Dietrich Bonhoeffer é eminentemente cristológico. Nesse
capítulo, ele pretende estabelecer a relação entre Cristo, a Igreja e o mundo. No
presente artigo, o pesquisador analisará esse capítulo, lançando mão da pesquisa
bibliográfica ou revisão de literatura. Nessa análise, três divisões serão
estabelecidas: na primeira, introduz-se o conceito de realidade; na segunda,
desenvolve-se uma reflexão em duas esferas: a divina e a mundana; na terceira e
última, conclui-se com quatro mandatos éticos: o do trabalho, o do matrimônio, o da
autoridade e o da Igreja.

Palavras-chave: Cristo. Ética. Dietrich Bonhoeffer. Realidade. Duas esferas. Quatro


mandatos.

1
Luiz Felipe Xavier é doutorando em Teologia Bíblica pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e
Teologia, mestre em Teologia Dogmática e Filosofia da Religião pela Faculdade Jesuíta de
Filosofia e Teologia. Professor de Teologia na Faculdade Batista de Minas Gerais, e de
Teologia e Direito no Centro Universitário Metodista Izabela Hendrix.
1. INTRODUÇÃO

Este artigo discorre sobre o capítulo V, Cristo, a realidade e o bem, da obra


póstuma de Dietrich Bonhoeffer, intitulada Ética. Essa obra é um conjunto de
esboços, compilados, editados e publicados por seu cunhado e amigo Eberhard
Bethge. No prefácio de 9 de abril de 1948, Bethge (apud BONHOEFFER, 1985, p. 9)
diz:
Este livro não é a ética que Dietrich Bonhoeffer queria publicar. É a
compilação das partes salvas, das concluídas e inacabadas, das que
foram substituídas por novas idéias e das escritas como material
preparatório para a obra planejada. São os segmentos que, sem
ordenação ainda, puderam ser subtraídos do confisco e desterrados
dos esconderijos no jardim, também partes que, em 5 de abril de
1943, o dia do aprisionamento de Dietrich Bonhoeffer, já estavam
nas mãos da Gestapo. (...) Os presentes manuscritos surgiram de
1940 a 1943 em Berlim, no Convento Ettal e em Kieckow, sofrendo
interrupções por missões do Conselho de Irmãos da Igreja
Confessante, por viagens com tarefas políticas e, finalmente, pela
prisão.

O capítulo V, Cristo, a realidade e o bem, apresenta o lugar de Cristo na ética


de Bonhoeffer. Nesse capítulo o teólogo pretende estabelecer a relação entre Cristo,
a Igreja e o mundo. Para tal, estabelece três divisões: na primeira, introduz o
conceito de realidade; na segunda, desenvolve uma reflexão em duas esferas: a
divina e a mundana; na terceira e última, conclui com quatro mandatos éticos: o do
trabalho, o do matrimônio, o da autoridade e o da Igreja.

2. O CONCEITO DE REALIDADE

De acordo com Bonhoeffer, todo aquele que deseja entender a problemática


da ética cristã precisa desistir de duas perguntas: “Como me tornarei bom?” e “Como
farei algo de bom?”. Como Bonhoeffer considera essas duas perguntas
inadequadas, propõe que elas sejam substituídas por uma outra: “Qual é a vontade
de Deus?”. Esta substituição é marcante porque pressupõe uma decisão de fé.
Sobre isso, ele afirma:

Onde a problemática ética se manifesta essencialmente na pergunta


pela bondade própria e pelo fazer do bem, já aconteceu a decisão a
favor do eu e do mundo como realidade última. Toda reflexão ética
tem então o sentido de que eu seja bom e que o mundo se torne bom
através da minha ação. Quando descobrimos, no entanto, que esta
realidade do eu e do mundo está integrada numa realidade
derradeira e bem diferente, qual seja, Deus, (...) o problema ético
imediatamente toma feições bem novas. De maior importância (...) é
(...) que a realidade de Deus se manifeste em toda parte como
realidade última. (...) Todas as coisas aparecem distorcidas quando
não são vistas e entendidas em Deus. (BONHOEFFER, 1985, p.
107)

Ou seja, segundo Bonhoeffer (Cf. 1985, p. 107-108), a compreensão de Deus


mesmo como a realidade última é o sim da fé à automanifestação de Deus, à sua
revelação. Isso porque é somente na medida em que a realidade última for
revelação que sua reivindicação tem fundamento. Logo, a decisão sobre a vida toda
acontece em relação com essa realidade última.
Aqui, pela primeira vez, Bonhoeffer menciona a pessoa de Cristo: “Mas como
Deus, qual derradeira realidade, é o mesmo que se manifesta, testemunha e revela
como Deus em Jesus Cristo, a pergunta pelo bem só pode achar resposta em
Cristo.” (BONHOEFFER, 1985, p. 108). Assim, para Bonhoeffer, a origem da ética
cristã é a realidade de Deus na sua revelação em Jesus Cristo, não a realidade do
próprio eu, a realidade do mundo, ou a realidade das normas e valores. Na pessoa
de Cristo, Deus pronuncia a sua palavra sobre toda decisão humana.
Bonhoeffer dá continuidade à sua argumentação relacionando a problemática
da ética cristã com a problemática da dogmática cristã. Assim como o problema da
ética cristã é a concretização da realidade reveladora de Deus em Cristo entre suas
criaturas, o problema da dogmática cristã é verdade da presença reveladora de
Deus em Cristo. Assim, a pergunta pelo bem transforma-se na pergunta pela
participação na realidade divina revelada em Cristo. Isto é, o bem é o próprio real, tal
como somente em Deus tem realidade. Em si mesmo, o bem não é um assunto
autônomo da vida, pois só é possível participar do bem participando da realidade.
(Cf. BONHOEFFER, 1985, p. 108).
Conforme Bonhoeffer, é necessário manter a unidade entre o bem e a
realidade. Para ilustrar isto, ele recorre às Escrituras Sagradas. O primeiro texto
citado é Mateus 7:17, no qual Jesus fala sobre a árvore e seus frutos. Somente
tomados juntos, em unidade, a árvore e seus frutos podem ser bons ou maus. O
segundo texto citado é Gênesis 1:31, no qual toda a criação é reconhecida pelo
próprio Deus como algo muito bom. Então, desde o início, a pergunta pelo bem
abrange o ser humano todo e a realidade toda que o circunda. Acerca disso,
Bonhoeffer (1985, p. 109-110) afirma:

O ser humano é um todo indivisível, não só como indivíduo em sua


pessoa e obra, mas também como membro da coletividade dos seres
humanos e das criaturas na qual está inserido. A pergunta pelo bem
visa esta totalidade indivisível, isto é, esta realidade fundamentada e
reconhecida em Deus; quanto à sua origem, esta totalidade
indivisível se chama “a criação”, quanto ao seu destino, “o reino de
Deus”. Ambos estão igualmente distantes e próximos de nós, pois
tanto a criação como o reino de Deus só estão presentes para nós na
auto-revelação de Deus em Jesus Cristo. O sentido da pergunta
cristã pelo bem é conseguir participar da totalidade indivisível da
realidade de Deus.

O teólogo segue contrastando a ética cristã da ética empírico-positivista. Se


esta diz que o bem é aquilo que é funcional, útil e serve à realidade, impossibilitando
a existência de um bem de validade universal, aquela afirma que a realidade é a
origem do bem, realidade que é o próprio Deus. Retomando e aprofundando a
noção de revelação, o autor declara:

Em Jesus Cristo, a realidade de Deus entrou na realidade deste


mundo. O ponto em que tanto a pergunta pela realidade de Deus
como aquela pela realidade do mundo acham resposta ao mesmo
tempo é designado unicamente pelo nome “Jesus Cristo”. Neste
nome estão incluídos Deus e o mundo. Tudo tem sua existência nele
(Cl 1.16). A partir daí não se pode falar adequadamente nem de
Deus, nem do mundo sem falar de Jesus Cristo. Todos os conceitos
de realidade que o ignoram são abstrações. Toda reflexão sobre o
bem na qual se joga o dever contra o ser ou vice-versa está
superada ali onde o bem se tornou realidade, ou seja, em Jesus
Cristo. (BONHOEFFER, 1985, p. 110).

Consequentemente, de acordo com Bonhoeffer, em Cristo, o ser humano


depara-se com a proposta de participar, simultaneamente, da realidade de Deus e
da realidade do mundo, uma não sem a outra. Isso porque, em Cristo, ambas as
realidade encontram sua reconciliação. Este é o mistério da revelação de Deus no
homem Jesus Cristo. Portanto, a ética cristã pergunta pela concretização da
realidade de Deus na realidade do mundo. Trata-se de ter parte hoje na realidade de
Deus e do mundo em Jesus Cristo. (Cf. BONHOEFFER, 1985, p. 110-111).
3. A REFLEXÃO EM DUAS ESFERAS

Segundo Bonhoeffer, existe na ética cristã tradicional um impedimento à


reconciliação entre a realidade de Deus e a realidade do mundo. Esse impedimento
é concepção básica dominante da colisão de duas esferas: uma esfera é divina,
santa, sobrenatural, cristã; outra esfera é mundana, profana, natural, não-cristã.
Logo, o todo da realidade é decomposto em duas partes e o empenho ético refere-
se à correta relação dessas duas partes. Por mais que se considere a realidade em
Cristo, ela permanece sempre uma realidade parcial ao lado de outras realidades
parciais. Pior, esta divisão cria a possibilidade de existência em apenas uma das
realidades. Sobre essa divisão, Bonhoeffer (1985, p. 11-112) diz:

Enquanto Cristo e o mundo forem imaginados como duas esferas


que colidem e se repelem reciprocamente, só resta ao ser humano a
seguinte possibilidade: renunciando à realidade global, ele se
posiciona em uma das duas esferas; deseja Cristo sem o mundo, ou
este sem Cristo. Em ambos os casos engana-se a si mesmo. Ou
então, quer estar simultaneamente nas duas esferas, tornando-se,
com isso, o ser humano do eterno conflito.

Para Bonhoeffer esta reflexão em duas esferas é contrária tanto à concepção


bíblica (especialmente neo-testamentária) quanto à concepção da Reforma
Protestante. Assim, o autor enfatiza que não há duas realidades, mas uma só
realidade: a realidade de Deus, revelada em Cristo, na realidade do mundo. Todo
aquele que participa de Cristo está, simultaneamente, na realidade de Deus e na
realidade do mundo. Isso porque a realidade de Cristo engloba a realidade do
mundo. Ou seja, o mundo não tem uma realidade independente da revelação de
Deus em Cristo. Uma vez que a realidade do mundo já está incorporada em Cristo e
nele resumida, é a partir deste centro e em direção a ele que marcha o movimento
da história. (Cf. BONHOEFFER, 1985, p. 112).
Criticando a reflexão em duas esferas, Bonhoeffer (1985, p.112) afirma:

O mundo, o natural, o profano e a razão são de saída incorporados


em Deus; tudo isso não existe “em si”; é real apenas na realidade de
Deus, em Cristo. Faz parte do verdadeiro conceito do mundano que
seja visto sempre na dinâmica do ser e estar aceito por Deus em
Cristo. Assim como em Cristo a realidade de Deus entrou na
realidade do mundo, da mesma forma o cristão só existe no
mundano, o “sobrenatural” no natural, o sagrado no profano e o
revelacional apenas no racional.

Bonhoeffer continua dizendo que a unidade da realidade de Deus e da


realidade do mundo, estabelecida em Cristo, repete-se ou concretiza-se sempre de
novo nos seres humanos. Porém, é importante deixar claro que o cristão não é
idêntico ao mundano, o sobrenatural ao natural, o santo ao profano e o revelacional
ao racional. Ambos só encontram sua unidade na realidade de Cristo, isto é, na fé
nesta realidade última. (Cf. BONHOEFFER, 1985, p. 112).
Conforme Bonhoeffer, esta reflexão em duas esferas é, do ponto de vista
teológico, legalista. Ele afirma:

Onde o secular tiver existência e espaço autônomos, nega-se o fato


do mundo ter sido aceito em Cristo, bem como a fundamentação da
realidade do mundo na realidade da revelação, e, com isso, o
Evangelho que vale para o mundo todo. (...) Onde, por outro lado, o
cristão se apresenta como ser autônomo, nega-se ao mundo a
comunhão que Deus firmou com ele em Jesus Cristo. (...) Como todo
legalismo, no entanto, acaba em ilegalidade, o nomismo em
antinomismo, o perfeccionismo em libertinagem, assim acontece
também aqui. (BONHOEFFER, 1985, p. 113).

Tendo apresentado os problemas da reflexão ética em duas esferas,


Bonhoeffer propõe uma solução: a superação desta reflexão ética a partir da fé na
revelação da realidade última em Jesus Cristo e diz que:

(...) isto significa que não há verdadeira vivência cristã fora da


realidade do mundo, nem verdadeira secularidade fora da realidade
de Jesus Cristo. (...) Cada tentativa de esquivar-se do mundo cedo
ou tarde será paga com pecaminosa dependência dele. (...) Quem
reconhece na realidade de Jesus Cristo a revelação de Deus,
reconhece, no mesmo gesto, a realidade de Deus e do mundo, pois
encontra Deus e o mundo reconciliados em Cristo. É exatamente por
isso que o cristão não é mais o ser humano do eterno conflito (...)
Sua secularidade não o separa de Cristo, como sua condição de
cristão não o separa do mundo. Pertencendo totalmente a Cristo, ele
está, ao mesmo tempo, com os dois pés no mundo. (BONHOEFFER,
1985, p. 113).

Uma vez proposta a solução para os problemas da reflexão em duas esferas,


Bonhoeffer tenta responder duas perguntas. A primeira pergunta é: Será que não há,
realmente, opostos estáticos últimos e, com isso, espaços que estão definitivamente
separados? Para responder essa primeira pergunta, ele recorre ao ensino do Novo
Testamento. De acordo com Bonhoeffer, não há dúvida que no Novo Testamento
encontram-se afirmações sobre a Igreja que correspondem à noção de espaço. Ela
é a comunidade visível de Deus na terra, o espaço no mundo onde se proclama e
testemunha o senhorio de Jesus sobre o mundo todo. Bonhoeffer declara:

A Igreja é o lugar onde se testemunha e se leva a sério que em


Cristo Deus reconciliou o mundo consigo, que Deus amou o mundo
de tal maneira que por ele deu o seu Filho. O espaço da Igreja não
existe para disputar uma parte do território do mundo, mas para
testemunhar a este que pode ser o que é: o mundo amado e
reconciliado por Deus. (...) A Igreja só pode defender seu espaço
próprio lutando não por ele, mas pela salvação do mundo. Do
contrário a Igreja se transforma em “sociedade religiosa” que luta em
causa própria e, com isso, deixou de ser a Igreja de Deus e do
mundo. Assim, a primeira incumbência daqueles que pertencem à
Igreja de Deus (...) é (...) ser testemunhas de Jesus Cristo no mundo.
Para essa tarefa o Espírito Santo equipa aqueles a quem se dá. (...)
Com isso se exclui todo raciocínio em termos de esfera como algo
prejudicial para a compreensão da Igreja. (BONHOEFFER, 1985, p.
114).

Imediatamente após a resposta da primeira pergunta, Bonhoeffer passa à


segunda: A oposição de reino de Cristo e de reino do diabo não justifica o raciocínio
em duas esferas? Para responder essa segunda pergunta, ele recorre à relação
entre Cristo e o diabo, seu opositor. Bonhoeffer afirma que eles são opostos que se
excluem reciprocamente. Todavia, o diabo, contra sua vontade, tem que servir a
Cristo, mesmo querendo o mal. Assim sendo, o espaço do diabo sempre é sob os
pés de Cristo. Uma vez que o mundo mau está reconciliado com Deus em Cristo, ele
tem sua última e verdadeira realidade em Cristo, não no diabo. Ou seja, o mundo
não está repartido entre Cristo e o diabo, pois é total e completamente de Cristo.
Então, Bonhoeffer (1985, p.115) diz:

O mundo deve ser interpelado com vistas a esta sua realidade em


Cristo; assim deve ser destruída a falsa realidade que ele supõe ter
em si mesmo como no diabo. O mundo mau e tenebroso não deve
ser entregue ao diabo, mas reivindicado justamente para aquele que
o adquiriu por sua encarnação, morte e ressurreição. Cristo não abre
mão de nada do que conquistou, antes o mantém firme em suas
mãos. A partir de Cristo torna-se, por conseguinte, impossível uma
divisão em um mundo endemoninhado e em um mundo cristão. Toda
delimitação estática de um setor que pertence ao diabo de um setor
que pertence a Cristo nega a realidade de que Deus reconciliou
consigo o mundo todo em Cristo.
Segundo Bonhoeffer, a mensagem central do Novo Testamento é que Deus
em Cristo amou e reconciliou o mundo todo consigo mesmo. Como essa iniciativa é
do próprio Deus, o mundo não pode fazer nada por si mesmo. Resta à comunidade
de amados e reconciliados com Deus comunicar ao mundo o amor e a reconciliação
providenciados por esse Deus a ele. Para tal, essa comunidade não pode refletir em
termos de duas esferas, sob o risco de comprometer sua tarefa. (Cf. BONHOEFFER,
1985, p. 115).
Aqui, Bonhoeffer propõe a substituição da reflexão em duas esferas pela
revelação de Jesus Cristo, encarnado, crucificado e ressuscitado. Ele afirma:

No corpo de Jesus Cristo Deus está unido com a humanidade, a


humanidade toda está aceita por Deus e o mundo está reconciliado
com ele. No corpo de Jesus Cristo Deus assumiu o pecado de todo o
mundo e o carregou. Não há um pedaço deste mundo, por mais
perdido e ímpio que seja, que em Jesus Cristo não tenha sido aceito
e reconciliado com Deus. (...) O mundo pertence a Cristo e só em
Cristo ele é o que é. Ele necessita, portanto, nada menos do que o
próprio Cristo. Estaria tudo estragado se quiséssemos preservar
Cristo para a Igreja, concedendo ao mundo apenas uma lei qualquer,
de caráter cristão, talvez. Cristo morreu para o mundo e só em meio
ao mundo Cristo é Cristo. Querer dar ao mundo menos do que Cristo
nada mais é do que incredulidade. (BONHOEFFER, 1985, p. 116).

Para Bonhoeffer, como no Novo Testamento o conceito de corpo de Cristo é


transferido à comunidade, esta tem a tarefa de testemunhar o amor e a reconciliação
de Deus com o mundo, através da palavra e da vida. Ele diz: “A única coisa que
separa a comunidade do mundo é que ela aceita em fé a realidade da aceitação de
Deus, válida para todos, e, justamente aceitando-a em fé, a proclama como válida
para todo o mundo.” (BONHOEFFER, 1985, p. 116). Portanto, embora no mundo, a
comunidade dos amados e reconciliados é diferente do mundo e é necessário que
assim seja.

4. OS QUATRO MANDATOS

Tendo apresentado o conceito de realidade e a reflexão em duas esferas,


Bonhoeffer apresenta os quatro mandatos. Partindo do pressuposto que o mundo é
criado e sustentado por Cristo (Cf. Jo. 1:10; Cl. 1:16), quer saiba ou não, ele está
relacionado a Cristo. Este relacionamento concretiza-se em quatro mandatos que
Deus dá ao mundo. Isto é, Deus deseja que haja no mundo trabalho, matrimônio,
autoridade e Igreja, e deseja tudo isso por intermédio de Cristo, em função de Cristo
e em Cristo, cada qual a seu modo. Deus colocou os seres humanos sob esses
quatro mandatos e o aprendizado da vida cristã só é possível sob eles. Logo, tratam-
se de mandatos “divinos” em meio ao mundo (Cf. BONHOEFFER, 1985, p. 116-
117).
Contudo, os quatro mandatos são divinos apenas por sua relação original e
final com Cristo. Isso quer dizer que trabalho, matrimônio, autoridade e Igreja
existem porque são ordenados por Deus, não o contrário. Assim, só são mandatos
divinos na medida em que sua existência submete-se, consciente ou
inconscientemente, à incumbência divina. Vale ressaltar que, conforme Bonhoeffer,
lapsos em relação à essa incumbência não descaracterizam esses mandatos como
divinos. Ou seja, os erros isolados devem ser corrigidos, não tomados como pretexto
para destruir o que está ordenado. (Cf. BONHOEFFER, 1985, p. 117).

4.1. Mandato do trabalho

Partindo das Escrituras Sagradas, Bonhoeffer afirma que o mandato do


trabalho é dado ao primeiro ser humano. Este recebe a tarefa de cultivar e guardar o
jardim do Éden (Cf. Gn. 2:15). Mesmo depois da queda, o trabalho continua sendo
um mandato da disciplina e da graça divina (Cf. Gn. 3:17-19). Com o suor do rosto o
ser humano retira o seu sustento da terra. Aos poucos, o trabalho abrange quase
tudo, incluindo a economia, a ciência e a arte (Cf. Gn. 4:17). Conforme Bonhoeffer
(1985, p.117):
No trabalho, que tem sua origem no paraíso, trata-se de uma
atividade humana que participa da criação. Através dele cria-se um
mundo de coisas e valores destinados à glorificação e ao serviço de
Jesus Cristo. Não é uma criação a partir do nada, como foi a criação
de Deus, mas é um criar de coisas novas com base na primeira
criação de Deus. Nenhum ser humano pode esquivar-se desse
mandato. Pois, naquilo que o ser humano aqui faz por incumbência
divina nasce aquela imagem do mundo celestial que, para todos
quantos conhecem Jesus Cristo, lembra aquele mundo.

Assim sendo, através do mandato divino do trabalho deve surgir um mundo


que, ciente disso ou não, espera por Cristo, orienta-se em direção a ele, abre-se a
ele, serve a ele e a ele glorifica.
4.2. Mandato do matrimônio

Semelhantemente ao mandato do trabalho, Bonhoeffer diz que o mandato do


matrimônio também é dado ao primeiro ser humano. No matrimônio, dois tornam-se
um perante Deus, assim como Cristo torna-se um com sua Igreja. Sem dúvida, este
é um grande mistério (Cf. Ef. 5:31ss.). Aos dois que tornaram-se um, Deus dá a
bênção da fertilidade, da geração de vida nova. De acordo com Bonhoeffer (1985, p.
118):
Através do matrimônio são geradas pessoas para a glorificação e o
serviço de Jesus Cristo e para a ampliação do seu reino. Isso
significa que o matrimônio não é apenas o lugar para gerar, mas
também para educar os filhos para a obediência a Jesus Cristo. Os
pais são para a criança representantes de Deus em sua qualidade de
genitores e educadores por incumbência de Deus.

Então, assim como no mandato do trabalho, no mandato do matrimônio são


criados novos seres humanos para o serviço de Jesus Cristo.

4.3. Mandato da autoridade

Dando um passo adiante, Bonhoeffer afirma que o mandato da autoridade


pressupõe os mandatos do trabalho e do matrimônio. Isso porque a autoridade em si
não é criadora, não pode produzir pessoas e valores. Seu propósito é proteger o que
foi criado, estabelecendo leis em reconhecimento aos mandatos divinos e fazendo
valer essas leis com o poder da espada. Segundo Bonhoeffer, “o matrimônio não é
realizado pela autoridade, mas diante dela. As grandes áreas do trabalho não são
administradas pela autoridade, mas estão sujeitas à sua supervisão e, dentro de
certos limites (...) à sua direção. (BONHOEFFER, 1985, p. 118). Consequentemente,
por meio da legislação e do poder da espada, a autoridade preserva o mundo para a
realidade de Jesus Cristo.

4.4. Mandato da Igreja

Diferentemente dos três mandatos anteriores, o mandato da Igreja diz


respeito à concretização da realidade de Jesus Cristo através da pregação, da
ordem eclesiástica e da vida cristã. Diz respeito à salvação eterna do mundo todo. É
importante deixar claro que o mandato da Igreja estende-se a todos os seres
humanos e inclui todos os outros mandatos. Para Bonhoeffer (1985, p. 118-119):

O ser humano é ao mesmo tempo trabalhador, cônjuge e súdito; os


mandatos se sobrepõem na pessoa humana e exigem cumprimento
simultâneo. Desta maneira, também o mandato da Igreja interfere em
todos esses mandatos, assim como, por outro lado, o cristão é, ao
mesmo tempo, trabalhador, cônjuge e súdito. Qualquer divisão em
espaços separados é proibida aqui. O ser humano inteiro está diante
de toda a realidade terrena e eterna, como Deus a preparou para ele
em Jesus Cristo. Só na resposta completa ao todo da oferta e da
exigência o ser humano pode corresponder a esta realidade.

Portanto, a Igreja deve testemunhar que em todos os outros mandatos não se


trata de divisão e de dilaceração do ser humano. Antes, trata-se do ser humano todo
diante de Deus, o Criador, Reconciliador e salvador. Apesar de tão variada, a
realidade, no final, é uma só: Deus encarnado, em Jesus Cristo.

5. CONCLUSÃO

Bonhoeffer conclui sua reflexão sobre Cristo, a realidade e o bem,


sintetizando tudo o que disse. Para não correr-se o risco de perder algum detalhe,
vale a pena lê-lo, diretamente:

Afirmamos, no início, que no lugar da pergunta pelo ser bom e fazer


o bem deve surgir a indagação pela vontade de Deus. A vontade de
Deus, no entanto, outra coisa não é do que a concretização da
realidade de Cristo entre nós e em nosso mundo. A vontade de
Deus, portanto, não é uma idéia que clama por realização; antes, ela
mesma já é a realidade na auto-revelação de Deus em Jesus Cristo.
(...) é uma realidade que quer concretizar-se sempre de novo no
existente e contra ele. A vontade de Deus já foi cumprida por Deus
mesmo, ao reconciliar o mundo consigo em Cristo. (...) Depois da
vinda de Cristo, o assunto da ética pode ser um só, ou seja, ter parte
na realidade cumprida de Deus. Mas também esta participação só é
possível em virtude do fato de também eu já estar incluído no
cumprimento da vontade de Deus em Cristo e, conseqüentemente,
reconciliado com Deus. (BONHOEFFER, 1985, p. 119)

Logo, qual seria o lugar de Cristo na ética de Dietrich Bonhoeffer? O papel de


Cristo é o de revelar e cumprir a vontade de Deus, vontade esta que abrange o todo
da realidade (Cf. Cl. 2:9; 1:19-20; Ef. 1:23). Por fim, cabe destacar que, embora não
tenha sido citado diretamente, o texto bíblico que está por trás de toda esta reflexão
é o seguinte: “Tudo isso provém de Deus, que nos reconciliou consigo mesmo por
meio de Cristo e nos deu o ministério da reconciliação, ou seja, que Deus em Cristo
estava reconciliando consigo o mundo (...)” (2 Co. 5:18-19a).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BARCALA, Martin. Cristianismo arreligioso: Uma introdução à cristologia de


Dietrich Bonhoeffer. São Paulo: Arte Editorial, 2010.

BETHGE, Eberhard. Dietrich Bonhoeffer: A Biography. Minneapolis: Fortress


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BONHOEFFER, Dietrich. Ética. São Leopoldo: Sinodal, 1985.

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MILSTEIN, Werner. Dietrich Bonhoeffer: Vida e pensamento. São Leopoldo:


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SLANE, Craig. Bonhoeffer, o mártir. Responsabilidade e compromisso cristão


moderno. São Paulo: Vida, 2007.