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PRINCÍPIOS GERAIS DE OSTEOSSÍNTESE, FIXAÇÃO

BIOLÓGICA DAS FRATURAS, CONSOLIDAÇÃO


E CALO ÓSSEO

1. Introdução

Os princípios de osteossíntese tiveram na fundação do Grupo AO, nos anos


50, seu grande avanço nos conceitos que em sua maioria continuam aceitos até o
momento. Para tanto foram lançados quatro objetivos básicos, quais sejam:

a) Redução anatômica – Atualmente considera-se fundamental nas fraturas


articulares, haja vista que desvios maiores que 2mm cursam com maior índice de
osteoartrose pós-traumática. Quanto às demais regiões do osso, procuramos na grande
maioria dos casos um alinhamento anatômico e não mais redução anatômica, ou seja,
o objetivo consiste em restabelecer o alinhamento, rotação e comprimento ósseo. Faz-
se exceção aos ossos do antebraço, mesmo porque pela íntima relação entre o rádio e
a ulna, estas fraturas são tratadas como articulares.

b) Fixação estável – A estabilização das fraturas deve ser estável o suficiente para
suportar as demandas biomecânicas locais, podendo ser obtida a partir de várias
técnicas e tipos de implantes, desde que bem aplicados. Para tanto, esta fixação pode
ser de estabilidade absoluta, ou seja, aquela que não permite movimentação no foco
de fratura, ou relativa, que por outro lado permite tais movimentos. A primeira é
obtida a partir do princípio de fixação interfragmentária, que pode ser estática como
nos casos de parafusos de tração e placas ou dinâmica a partir das bandas de tensão. A
segunda possui nas osteossínteses com haste intramedular e placas em ponte, seus
maiores exemplos.

c) Preservação do suprimento sanguíneo – Este conceito está cada vez mais atual,
visto que a importância das partes moles na consolidação das fraturas é bastante
valorizada. Desta forma é fundamental a execução de uma técnica o mais atraumática
possível, no que tange aos tecidos perifraturários, evitando grandes dissecções e
manipulações dos fragmentos ósseos. Tais cuidados diminuem sobremaneira a
incidência de complicações como infecção, retardo de consolidação, pseudartrose,
deiscência de pele, etc.

d) Mobilização precoce – Uma vez que os princípios anteriores, em especial o da


fixação estável, tenham sido alcançados, o próximo passo consiste em permitir a
mobilização precoce do membro e consequentemente criar condições para o
restabelecimento rápido da função, diminuindo desta forma os efeitos deletérios da
chamada doença fraturaria, bem como ajudando na preservação da vida de pacientes
graves, como os politraumatizados e polifraturados.

2. Tipos de Osteossíntese

Atualmente dividimos as osteossínteses a partir do objetivo a ser alcançado, de


tal sorte que existem como citado anteriormente dois grupos, aqueles em que é visada
a estabilidade absoluta e outro que procura obter estabilidade relativa.

a) Estabilidade absoluta

É o método de escolha nas fraturas articulares, com exceção daquelas com


cominuição intensa cuja compressão implica em diminuição da extensão da
superfície, fraturas diafisárias dos ossos do antebraço, fraturas metafisárias e
diafisárias simples quando optado por redução direta. Sua principal característica
consiste em não permitir mobilidade no foco de fratura e portanto não há formação de
calo ósseo. A obtenção deste tipo de estabilidade é alcançada através de compressão
interfragmentária pelo uso de parafusos de tração, compressão axial com placas e
parafusos, banda de tensão ou associação destes com outros métodos, como se segue.

a.1) Parafusos de tração – Também chamados de parafusos de compressão


interfragmentária são considerados como um dos principais exemplos deste tipo de
estabilidade. Podem ser usados isolados ou associados a outros implantes O tipo de
parafuso depende da localização no osso, de tal sorte que na diáfise devemos usar
parafuso cortical e na metáfise parafuso esponjoso de rosca parcial.
Técnica diáfise: Na maioria das situações o parafuso deve ser colocado em posição
perpendicular à linha de fratura, enquanto que nos casos sujeitos à carga funcional
compressiva o mesmo preferencialmente é posicionado na bissetriz da linha de fratura
com a perpendicular ao eixo longo do osso. Faz-se um orifício com broca de diâmetro
igual ou levemente maior que o do parafuso a ser utilizado, seguido da introdução de
um guia no seu interior, através do qual faz-se o orifício na cortical oposta com broca
do diâmetro discretamente maior que o cerne do parafuso (quadro 1). Se o parafuso
for posicionado diretamente no osso (figura 1), há necessidade de escarificação da
cortical a fim de aumentar a área de contato entre a cabeça e o osso, bem como
diminuir o risco de fraturas no local, caso o seja através da placa não há necessidade
de tal cuidado, mesmo porque a placa cumpre este papel (figura 2).

Diâmetro Broca para o Cerne Broca para o Macho de Passo de


furo de rosca furo deslizante rosca rosca
4,5 3,2 3,0 4,5 4,5 1,75
3,5 2,5 2,4 3,5 3,5 1,25
2,7 2,0 1,9 2,7 2,7 1,0
2,0 1,5 1,3 2,0 2,0 0,8
1,5 1,1 1,0 1,5 1,5 0,6
Quadro 1 – Características dos parafusos corticais em mm, necessárias para a execução da técnica do
parafuso de tração.

Figura 1 – Desenho esquemático de parafuso de tração demonstrando a compressão interfragmentária.


Figura 2 - Radiografia em AP do úmero direito, mostrando osteossíntese
com parafusos de tração associados a placa de neutralização.

Técnica metáfise: Assim como anteriormente, o parafuso também deve ser


posicionado perpendicular ao traço de fratura. O primeiro orifício tem que ser feito
com uma broca do mesmo diâmetro do parafuso, enquanto que o segundo (cortical
oposta) com broca do levemente maior que o diâmetro do cerne (quadro 2). O
tamanho da rosca do parafuso depende basicamente do tamanho do fragmento a ser
tracionado, de tal sorte que para se ter o efeito desejado, a rosca deve ultrapassar a
linha de fratura. Se o parafuso for colocado diretamente sobre o osso a utilização de
uma arruela é fundamental para aumentar a capacidade de compressão, visto que a
cortical da região é mais fina e portanto não resiste a grandes forças de tração. (figura
3)

Diâmetro Broca para o Cerne Haste lisa Macho de


furo de rosca rosca
6,5 3,2 3,0 4,5 6,5
4,5 3,2 3,0 3,0 4,5
4,0 2,5 1,9 2,3 3,5
Quadro 2 – Características dos parafusos esponjosos de rosca parcial em mm,
necessárias para a execução da técnica do parafuso de tração.
Figura 3 - Fratura da metáfise proximal da tíbia tratada com parafusos de tração.

a.2) Parafuso de tração associado a placa de neutralização – Esta associação pode


ser feita com o parafuso passando ou não pela placa e tal definição depende
basicamente do traço da fratura, ou seja, uma vez que o parafuso de tração deve ser
posicionado perpendicular a linha de fratura e esta localização não pode ser alterada, é
fundamental determinar se esta face do osso é passível de aceitar uma placa, caso seja
este parafuso deve ser colocado através da placa, caso contrário não.
Técnica do parafuso fora da placa: Nesta situação inicialmente realizamos a
colocação do parafuso, cuja técnica segue a anteriormente citada. Posteriormente a
placa é posicionada, tendo-se o cuidado de que seus parafusos sejam todos cêntricos,
a fim de que haja prejuízo na compressão obtida pelo parafuso de tração.
Técnica do parafuso através da placa: Inicialmente a placa deve ser posicionada de
tal forma que o seu centro fique sobre o foco de fratura, sendo que o primeiro
parafuso é cêntrico e deve ser colocado cerca de 3mm do ponto em que a fratura
atinge a cortical sobre a qual a placa está sendo aplicada. O segundo parafuso é
excêntrico, porém em posição oposta a do primeiro. O terceiro é o de tração seguindo
a técnica já descrita. Em seguida os demais parafusos são todos cêntricos, sendo
colocados alternadamente de um lado e do outro, do centro para a periferia da placa.
(figuras 4 e 5)
É importante lembrar que os orifícios das placas de compressão dinâmica permitem
uma angulação dos parafusos de no máximo 30º.
7 5 2 3 1 4 6

Figura 4 – Desenho esquemático de parafuso de tração através de uma placa.

Figura 5 - Radiografia de mostrando fratura oblíqua da fíbula tratada com parafuso


de tração colocado através de placa de neutralização.

a.3) Parafusos de tração associados a placa de suporte – Esta associação visa


exercer compressão através dos parafusos e suportar forças de cisalhamento através
da placa. É uma boa indicação para as fraturas articulares parciais da tíbia proximal e
distal e fêmur distal, e fraturas marginais do punho do tipo Barton volar, nas quais as
forças de cisalhamento são fortes e não seriam suportadas adequadamente com uso
apenas de parafusos. É importante salientar que estas placas de suporte podem ser
usadas isoladamente.
Técnica: A placa deve posicionada respeitando a anatomia local e assim como no
item anterior, o primeiro parafuso é cêntrico e colocado a 3mm do foco fraturário. O
segundo é o tração pela fratura, em seguida os demais são cêntricos.(figura 6)
2

1
3

Figura 6 – Parafuso de compressão através de placa de suporte em fratura por cisalhamento de uma
representação de platô tibial. Note que a placa exerce um efeito anti-deslizante ao fragmento fraturado,
funcionando como uma escora.

a.4) Placa de compressão – Nesta técnica a compressão é axial, sendo promovida


mediante a colocação de parafusos excêntricos pelos orifícios da placa (figura 7). O
parafuso excêntrico causará compressão no traço fraturário imediatamente abaixo da
placa, porém com possível abertura do córtex oposto (figura 8). Isto poderá ser
evitado com a pré-moldagem da placa, através de uma angulação junto ao foco da
fratura de 1 a 2 mm, o que promoverá compressão da cortical oposta ao apertarmos os
parafusos. (figuras 9 e 10)
Técnica: A placa deve ser centralizada sobre a fratura, o primeiro parafuso é centrico
e próximo ao foco. O segundo é excêntrico, localizado no outro lado da fratura. Caso
seja necessário o terceiro parafuso pode também ser excêntrico, sendo colocado
alternadamente como descrito anteriormente.

Figura 7 – Desenho esquemático mostrando compressão axial com o uso de parafusos excêntricos em
placa do tipo DCP. Note que a compressão ocorre essencialmente na cortical próxima à placa.
Figura 8 – Desenho mostrando compressão da cortical próxima à
placa evidenciando abertura da cortical oposta

Figura 9 – Desenho mostrando compressão de ambas corticais após o pré-tensionamento da placa.

Figura 10 - Fratura transversa da ulna tratada com


compressão axial pela placa.

a.5) Banda de tensão – Esta técnica também proporciona estabilidade absoluta,


porém diferentemente das anteriores, esta é obtida de maneira dinâmica. Baseia-se na
conversão de forças de tensão em forças de compressão, com a utilização de um
dispositivo com a função de tutor, como fios de Kirschner e parafusos, associado a
um fio normalmente de aço em forma de oito sobre a fratura.
Técnica olécrano: Uma vez reduzida a fratura, são colocados dois fios de Kirschner
2.0 paralelos no terço posterior, indo em direção à cortical anterior. Em seguida
confecciona-se um orifício distal ao foco de fratura, em sua cortical posterior, por
onde é passado o fio de aço sob a forma de oito sobre a fratura em direção às
extremidades proximais dos fios de Kirschner. Finalmente promove-se tensão no fio
de aço a partir de dois pontos, um de cada lado através de sua torção simultânea sob
tração. (figura 11)

Figura 11 - Radiografia em perfil do cotovelo, mostrando banda


de tensão para tratamento de fratura do olécrano.

Técnica patela: Suas diferenças básicas são o fato de que os fios de Kirschner são
passados paralelos no terço anterior, não havendo a necessidade portanto de fixação
na cortical e o fio de aço é contorna as extremidades proximais e distais dos fios de
Kirschner, logo este não transfixa o osso. (figura 12)
Figura 12 - Radiografia em perfil do joelho, mostrando banda
de tensão para tratamento de fratura de patela.

a.6) Placa em banda de tensão – Assim como no item anterior, nesta técnica a
estabilidade também é obtida de forma dinâmica. As placas exercem tal função
quando colocadas na face de tensão do osso, como na face lateral do fêmur, ântero-
medial ou ântero-lateral da tíbia, posterior do úmero, posterior da ulna e dorso-lateral
do rádio. São importantes principalmente nos ossos cujo eixo de carga difere do eixo
anatômico e são submetidos a forças axiais, como é o caso em especial do fêmur. Nas
fraturas do membro superior, do úmero e ossos do antebraço, os quais não são
submetidos a intensa carga axial e sim rotacional, eventualmente podem ser colocadas
nas demais faces mesmo não sendo as de tensão. (figura 13)
Figura 13 – Desenho de placa colocada na face lateral do fêmur funcionando como banda de tensão,
ocorrendo tensão lateral compressão da cortical medial.

b) Estabilidade relativa

A estabilidade relativa tem sido cada vez mais usada, mesmo porque esta
normalmente implica em abordagens menos invasivas, sendo preferida classicamente
nos casos de fraturas cominutivas, porém com a evolução das técnicas e implantes tais
indicações abrangem atualmente as fraturas metafisárias e diafisárias do esqueleto,
mesmo de traços simples. Sua característica principal consiste em permitir mobilidade
no foco e desta forma estimular a formação de calo ósseo, logo não há necessidade de
que seus pontos de fixação estejam próximos ao foco. Seus principais exemplos são:

b.1) Fixação externa – Apesar dos diferentes tipos de fixadores e montagens, estes
implantes na maioria dos casos proporcionam estabilidade relativa. O padrão de
rigidez é definido por vários aspectos, como:
- Pinos de schanz: Número, disposição ao longo do osso, proximidade do foco de
fratura e diâmetro.
- Barras: Número, proximidade ao osso.
- Montagem: uniplanar, biplanar, circular.
Sua aplicabilidade é bastante ampla e versátil, com especial destaque para os
politraumatizados, polifraturados, infecção associada e nas fraturas com grandes
lesões de partes moles. Podem também ser usadas para ligamentotaxia, bem como
para reconstruções, transportes e alongamentos ósseos. (figura 14)
Figura 14 - Radiografias em AP e perfil da perna, revelando fratura exposta
da tíbia tratada com fixador externo biplanar.

b.2) Hastes intramedulares – Apresentam-se como o método de escolha para a


grande maioria das fraturas da diáfise do fêmur e da tíbia. Sua introdução no canal
medular, que coincide com o eixo anatômico do osso constitui uma grande vantagem
biomecânica do método. Podem ser flexíveis, rígidas, bloqueadas ou não, fresadas ou
não. Atualmente a preferência na maioria dos casos tem sido para as rígidas,
bloqueadas e fresadas. (figura 15)

Figura 15 - Radiografia em AP da coxa esquerda, mostrando osteossíntese


intramedular bloqueada para tratamento de fratura de fêmur.
c.3) Placa em ponte – Constitui um método cada vez mais usado, funcionando como
as hastes porém em uma localização extramedular. Possui basicamente as mesmas
indicações dos dispositivos intramedulares, sendo superior nas fraturas metafisárias,
pela menor incidência de desvios angulares. A estabilidade da fixação pode ser
controlada pelo comprimento da placa utilizada, número de parafusos colocados e
proximidade dos parafusos com o foco de fratura. Atualmente existem placas mais
modernas, com parafusos de angulo fixo (rosqueados na placa), cuja principal
aplicabilidade está nos pequenos fragmentos metafisários e ossos osteoporóticos, tais
como nas fraturas do úmero e tíbia proximais, e úmero, rádio, fêmur e tíbia distais.
(figura 16)

Figura 16 - Radiografia em AP da perna mostrando


osteossíntese da tíbia com placa em ponte.

3. Fixação biológica das fraturas

Ao longo dos anos o alto índice de complicações relacionado a desvitalização


dos fragmentos ósseos, como infecção, deiscência de sutura, retardo de consolidação,
pseudartrose e outros, gerou a necessidade do desenvolvimento de novos métodos,
cujo principal objetivo é o minimizar a agressão aos tecidos, tendo portanto uma
preocupação mais biológica. Ademais o conceito da necessidade de estabilidade
absoluta obtida através de redução anatômica de todas fraturas, deu vez ao da
estabilidade relativa com alinhamento anatômico, que consiste no restabelecimento do
eixo, comprimento e rotação, porém sem a necessidade de abordagem direta à fratura.
Tais métodos têm demonstrado resultados melhores, provavelmente por
proporcionarem um maior equilíbrio entre os aspectos mecânicos e biológicos.
Seguindo tais princípios, temos:

3.1 – Hastes intramedulares – Podem ser utilizadas basicamente em todos os ossos


longos, porém sua alta eficácia é declaradamente comprovada nas fraturas diafisárias
do fêmur e tíbia, além das fraturas transtrocanterianas instáveis e supracondileanas do
fêmur. Podem ser retrógradas ou anterógradas, dependendo do osso e localização da
fratura, de tal sorte que nas fraturas proximais e diafisárias do fêmur, da tíbia como
um todo e da ulna são preferencialmente anterógradas, enquanto que nas distais do
fêmur e diafisárias do rádio, retrógradas.

3.2 – Placas em ponte – Devem ser feitas, sempre que possível com acessos
segmentares, que com a evolução e maior domínio da técnicas, estão cada vez
menores, tanto que recentemente tem sido utilizado o termo “placa percutânea“,
correspondendo a acessos realmente pequenos para introdução da placa, associados a
pequenos orifícios, suficientes para a introdução dos parafusos. Para tanto são
necessárias placa maiores, a fim de permitir maior movimentação no foco de fratura e
melhor distribuição das forças ao longo do implante. Uma vez que o método visa
estabilidade relativa, a utilização de placas largas e portanto mais rígidas, com
exceção do fêmur, deve ser evitada. O número e disposição dos parafusos é outro
fator que deve ser considerado nesta método, de tal sorte que no fêmur, considera-se
que três parafusos de cada lado são suficientes. Enquanto que no úmero e na tíbia dois
parafusos alternados nas extremidades têm mostrado bons resultados, embora existam
alguns autores que defendam a introdução de um terceiro parafuso.

3.3 – Fixador externo – Sua colocação normalmente é feita percutaneamente e a


redução de maneira indireta. Podem ser aplicados para o tratamento provisório ou
definitivo.

3.4 – Parafusos e Fios percutâneos – São usados isolados ou associados a outros


métodos. Os parafusos são indicados sobretudo nas articulares e metafisárias sem
desvio, além das fraturas do colo femoral sem desvio ou reduzidas incruentamente.
Os fios são aplicados principalmente em fraturas de ossos esqueleticamente imaturos,
como as articulares e metafisárias de um modo geral, bem como das diafisárias do
rádio e da ulna. Nos adultos, tais indicações resumem-se às fraturas distais do rádio,
proximais do úmero, maléolo medial, falanges, ossos do carpo, metacarpo e
metatarso. (figura 17)

Figura 17 - Radiografias em AP do punho esquerdo, antes e após fixação


percutânea com fios de kirschner.

3.5 – DHS percutâneo – Consiste na osteossíntese de fraturas transtrocanterianas


com o consagrado método do parafuso deslizante, todavia com uma abordagem
menos agressiva através de acessos muitas vezes de até 5cm, sem a abordagem direta
à fratura, havendo a necessidade da colocação de no máximo três parafusos na placa.
(figura 18)
Figura 18 - Fotografia (esquerda) e radiografia em AP (direita) de paciente submetido a
osteossíntese de fratura transtrocanteriana esquerda com DHS percutâneo.

4. Consolidação e calo ósseo

A consolidação é definida como a restauração da integridade do osso após


uma fratura, havendo necessidade de uma capacidade biológica, lembrando que
aspectos biomecânicos controlam a atividade das células e de mediadores envolvidos
em tal processo. É considerada como um processo único nos vertebrados, visto que
durante a cura do tecido ósseo não há formação de cicatriz fibrosa, o que diferencia-o
dos demais tecidos. Possui três fases bem definidas, que acontecem quase que
simultaneamente, porém de forma didática e seqüencial, dividimos em:

a) Fase inflamatória: É a mais curta, correspondendo há aproximadamente 10% (1 a


7 dias) do tempo total, iniciando imediatamente após a fratura com a formação de um
hematoma dentro do canal medular, entre os fragmentos ósseos lesados e sob o
periósteo. Este comprometimento vascular local, impede que os capilares cheguem
até os osteócitos das bordas, que por conseguinte morrem até a junção com os canais
vasculares colaterais. Tais células mortas liberam juntamente com as plaquetas,
mediadores inflamatórias, gerando dilatação dos vasos e conseqüente liberação de
exsudato, e em última instância, edema local. Neste momento há migração de células
inflamatórias, incluindo polimorfonucleares, seguido de macrófagos e linfócitos. À
medida que a inflamação regride, há reabsorção do exsudato e células necróticas,
enquanto os fibroblastos começam a produzir matriz nova.
b) Fase de reparação: Ocupa cerca de 40% de todo processo. A organização do
hematoma é considerado o primeiro passo na reparação, o que é comprometido nas
fraturas expostas e nas tratadas por redução aberta, pelo fato de haver violação do
mesmo, apesar de que o fechamento dos tecidos sobre a fratura possibilita a
reorganização do hematoma. Este forma um arcabouço de fibrina, fibrilas de
reticulina e fibrilas de colágeno que facilitam a migração de células de reparação,
através da produção de fatores de crescimento e proteínas. No início os vasos
periosteais são os principais responsáveis pela consolidação, o que em uma fase mais
tardia é assumida pelos vasos endosteais. Quanto mais jovem for o indivíduo, maior a
contribuição do periósteo, haja vista que com o passar dos anos ele vai ficando mais
delgado. Há proliferação de células mesenquimais que diferenciam-se em tecido
ósseo trançado, cartilagem e tecido fibroso, constituindo o chamado calo ósseo, que
quando desenvolve-se na periferia da reação inflamatória por formação
intramembranosa denomina-se calo duro, ao passo que aquele originado em zonas de
baixa tensão de oxigênio, no centro da reação inflamatória, constituído principalmente
por cartilagem é chamado calo mole, que gradualmente é substituído por calo duro
por meio de ossificação endocondral. A formação do calo mole, clinicamente é
traduzida pela diminuição da dor e edema, mesmo porque há diminuição dos
movimentos no foco de fratura, o que ocorre por volta de três semanas e o final deste
estágio implica em manutenção do comprimento, porém ainda com possibilidade de
desvio angular. A mineralização do calo ocorre a partir da sintetização de matriz com
alta concentração de fibrilas colágenas tipo I, seguido de deposição de cristais de
hidroxiapatita cálcica, o que culmina com a formação do calo duro, onde os
fragmentos estão firmementes unidos, por volta de 3 a 4 meses.

c) Fase de remodelação: É a maior fase , respondendo por aproximadamente 70% do


total. Pode levar de meses até anos. Inicia durante a fase anterior, com substituição de
osso trançado por osso lamelar associado a reabsorção de calo ósseo desnecessário.
Este processo sofre influências de vários fatores, como por exemplo de campo
elétricos que alteram durante a aplicação de forças, de tal forma quando submetido a
estresse ocorre eletropositividade que aumenta atividade osteoclástica na superfície
convexa e eletronegatividade na côncava, que por sua vez gera atividade
osteoblástica. Isto explica a conhecida Lei de Wolff, pois esta considera que “a
remodelação do osso ocorre em resposta a estresse físico ou à ausência deles, assim o
osso é depositado nos sítios sujeitos a estresse e reabsorvido onde este ocorre menos”.

4.1 Tipos de consolidação


Com o início da fixação interna com estabilização absoluta, observou-se um
novo tipo de consolidação chamado de espontânea, de contato, direta, primária ou por
primeira intenção, enquanto na presença de estabilização relativa a consolidação
denomina-se indireta, secundária ou por segunda intenção.
a) Primária – Este tipo de consolidação difere da convencional por ultrapassar as
etapas descritas anteriormente, saltando direto para remodelação interna nas zonas de
contato. Em função disto nenhuma quantidade relevante de calo, especialmente de
calo fazendo ponte torna-se visível radiologicamente (figura 19). Não há reabsorção
nas extremidades dos fragmentos. O ambiente mecânico gerado pelo sistema de
fixação, em conjunto com o suprimento sanguíneo disponível interfere no tipo de
tecido que se forma na fratura em consolidação, esta é a teoria da tensão
interfragmentar, deformação relativa ou strain, segundo a qual deformações entre as
fragmentos maiores que 100% formam tecido granuloso, se em torno de 10% tecido
cartilaginoso e para formação de tecido ósseo tal deformação deve ser de apenas 2%,
pois acima disto o tecido se rompe. Todavia esta teoria apresenta limitações, como
por exemplo o fato de que se não houver nenhum tipo de esforço no foco de fratura,
não haverá consolidação.

Figura 19 - Radiografias em AP e perfil do antebraço, mostrando consolidação


primária do rádio.
b) Secundária – É a que acontece naturalmente, durante o tratamento incruento e na
presença de estabilidade relativa. As três fases da consolidação (inflamação,
reparação e remodelação) estão presentes e há formação de calo ósseo que ultrapassa
os limites da cortical, mostrando-se muitas vezes com imagem radiográfica
exuberante. (figura 20)

Figura 20 - Radiografias em AP da coxa esquerda, evidenciando consolidação


secundária do fêmur.

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