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Comentário à Ética a Nicômaco

de Aristóteles (i-III)

O Bem e as virtudes

Volume I

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Tomás de Aquino

Comentário à Ética a Nicômaco


de Aristóteles (i-iii)

O Bem e as virtudes
Volume I

Edição, tradução e notas


Paulo Faitanin e Bernardo Veiga

Instituto Aquinate

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coordenador do projeto “projeto comentário de tomás à ética a
nicômaco”
Bernardo Veiga

revisão
Instituto Aquinate

projeto gráfico, diagramação


Ilustrarte Design e Produção Editorial

logo do instituto aquinate


Wood engraving by Reynolds Stone, in Saint Thomas Aquinas, Selected writings,
New York: The heritage Press, 1971, p. 1.

Ficha Catalográfica

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sumário

Apresentação 13

Livro I
Da diversidade de fins.
Da felicidade, o fim que é a própria felicidade é o Sumo bem.
Da dupla parte da alma, da divisão das virtudes. 19

Lição 1 – Mostra acerca do que se trata a filosofia moral, qual


o seu sujeito, qual o fim, e qual é a diversidade de fins. 21

Lição 2 – Há nas coisas humanas algum fim que é o melhor,


cujo conhecimento é necessário e que pertence à ciência
mais principal, que é a Política. 31

Lição 3 – Como deve ser o aprendiz e o mestre desta ciência:


mostrando que nem o jovem, nem o que segue as paixões é
um seguro aprendiz desta ciência. 39

Lição 4 – O que alguns pensaram sobre a felicidade: e qual é


a diferença entre os sábios e os homens comuns que falaram
sobre o sumo bem; que o sumo bem é a própria felicidade, e
como deve estar disposto o discípulo da filosofia moral. 47

Lição 5 – Entre as diversas opiniões sobre a felicidade,


pergunta-se qual é a mais verdadeira, exclui-se o erro da
maioria, e examina-se se a felicidade existe na virtude. 54

Lição 6 – Impugna-se a opinião dos que propõem a felicidade


em um bem separado, e investiga-se se este bem existe. 63

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Lição 7 – O bem separado não é convenientemente definido
como bem em si; e expõe quanta conveniência há entre
platônicos e pitagóricos na definição do bem. 70

Lição 8 – Se houvesse a ideia de bem, ou do bem separado,


isto não seria por causa desta ciência que o investiga, porque o
seu estudo pertenceria a outra ciência. 79

Lição 9 – Investiga-se o que é a felicidade. Que a felicidade é


o fim último: e são postas as condições de acordo com o fim
último. 83

Lição 10 – Investiga-se a definição de felicidade, como todas


as verdadeiras partes da definição e, claro, o gênero e as
diferenças: e busca a operação própria do homem, que parece
ser a operação da virtude racional. 92

Lição 11 – Encontrada a definição de felicidade, mostra o


que resta ser feito e, claramente, mostra como o cooperador
da verdade deve adquirir o tempo e como também o conduz
ao esquecimento. 99

Lição 12 – Confirma que a definição de Aristóteles de


felicidade é verdadeira, com o testemunho de outros sábios,
que falaram sobre a felicidade, na boa fé deles, que comumente
são afirmados e ditos por todos. 105

Lição 13 – O deleite existe na operação da virtude e demonstra-


-se o que confere a felicidade; e, igualmente, discute-se em
que convém e em que falha, pela opinião de Aristóteles,
acerca da opinião dos outros que disseram ser a felicidade com
a deleitação da virtude, que faz distinguir suas opiniões, que
propunham que são requeridos bens externos para a felicidade. 113

Lição 14 – Investiga-se de qual causa a própria felicidade


procede, se da divina, da humana ou do acaso. 120

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Lição 15 – Questiona-se se nesta vida alguém poderia ser feliz:
e igualmente discute-se a opinião de Sólon, de que ninguém
se tornou nesta vida feliz; e questiona-se se, depois da vida,
alguns mortos possam se dizer felizes. 127

Lição 16 – Não se deve considerar que o miserável e o feliz


se encontram nas mãos da boa sorte, como o bem e o mal,
que se dirigem segundo a razão, o que muito pouco depende
da sorte. Demonstra-se, acima, que um virtuoso é feliz por
alcançar todas as boas sortes. 134

Lição 17 – Algo da fortuna dos amigos contribui para a


felicidade. E pergunta-se, como pelas vicissitudes dos amigos
se afetam os vivos, e como do mesmo modo são afetados
os mortos. Por fim, conclui-se que, se alguns mortos forem
afetados pelos infortúnios dos amigos, aquela afecção não será
do mesmo modo que possa mudar a condição deles. 143

Lição 18 – Se a felicidade conta-se entre o número dos bens


mais honrosos, e se determina que ela é louvável, pois parece
ser algo perfeito e melhor. O que se corrobora a partir dos
louvores humanos e divinos e considera a opinião de Eudoxo. 149

Lição 19 – Aristóteles começa o discurso sobre a virtude,


cujo conhecimento pode ser benéfico para a felicidade. Diz,
acima, que contemplar isso pertence à ciência sobre a virtude
e deve-se demonstrar tomando isso por fundamento, ou seja,
que o próprio desta ciência é contemplar e tratar de algumas
partes da alma. 156

Lição 20 – Divide a parte irracional da alma em nutritiva e


sensitiva, e demonstra que não pode ser a parte nutritiva da
alma humana, que de nenhum modo participa da razão;
mas a sensitiva, embora seja contrária, todavia, declara que,
de algum modo, participa da razão, desde que a mesma seja
regida e dominada pela razão. 162

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Livro 2

Da virtude no gênero, e sua essência. Onde são dispostos


o acordo do meio-termo entre os extremos e os vícios que se
opõem às virtudes, cujas prescrições são conduzidas para o meio. 171

Lição 1 – A virtude moral se faz pelo costume nos homens,


não por natureza, cujo exemplo parece ser que os homens
virtuosos realizam, com frequência, ações virtuosas praticadas
por eles, às quais no mínimo o homem estaria habituado se a
virtude existisse em nós por natureza. 173

Lição 2 – As ações de virtude são geradas pelo hábito, que deve


estar de acordo com a reta razão, e elas se corrompem, seja
por escassez, seja por excesso, mas são salvas pelo meio-termo,
que se demonstra por uma comparação entre as virtudes e as
ações corpóreas e as ações e virtudes da alma. 181

Lição 3 – Sinal de uma virtude já gerada é a alegria ou a


tristeza que sobrevém às ações: o que se prova pelo estudo dos
homens que tendem para a virtude, e pela matéria da virtude,
pela pena que se chama medicina da alma, e pela corrupção
da virtude. 188

Lição 4 – As virtudes não são comparadas às artes, porque as


virtudes são princípios das ações, mas as ações que se fazem
segundo a arte têm em si mesmas o que convém para a arte ser
boa. 196

Lição 5 – Para chegar à definição de virtude, toma por


fundamento que há três coisas na alma: a saber, as paixões,
as potências e os hábitos e demonstra que as virtudes não são
paixões, nem potências, mas as coloca no gênero dos hábitos. 202

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Lição 6 – Declara-se como a virtude é um hábito, onde se
põe certas condições comuns da virtude, e torna manifesta
suas próprias diferenças, tanto como propriedade das ações,
quanto da natureza mesma da virtude. 210

Lição 7 – Coloca-se a definição de virtude, cujo próprio é


consistir num meio-termo, como o excesso e a escassez
ocorre acerca dos extremos e dos pecados, por isso que o mal
(como dizem os pitagóricos) pertence ao infinito. Enfim,
demonstra-se como a própria virtude também poderia ser
uma extremidade. 218

Lição 8 – Manifesta-se a definição de virtude, mostra-se que


em cada uma das virtudes o meio-termo é bom e louvável,
mas o extremo é detestável e vicioso: o que prova distinguindo
cada uma das virtudes e vícios. 226

Lição 9 – Prossegue-se com as virtudes das honras, tanto as


grandes como as pequenas e trata, em sua maior parte, da
declaração das virtudes e dos vícios, isto é, como se lhes têm
nos extremos e nos meios-termos, o que faz tanto com as
virtudes referentes aos atos humanos, quanto em algumas das
paixões louváveis. 233

Lição 10 – Entre as virtudes e os vícios encontra-se dupla


oposição: uma dos vícios entre eles, mas outra dos vícios em
relação às virtudes. Prova-se, então, que é mais importante a
oposição entre os vícios de uns com outros, do que dos vícios
com as virtudes; e que um dos extremos é mais contrário à
virtude do que o outro. 242

Lição 11 – De que modo se pode adquirir uma virtude. Para a qual


estabelece três modos, embora seja difícil para o homem tornar-
se virtuoso: um, afastar-se dos extremos; dois, considerar aquilo
para o qual somos por natureza propensos; e três, precaver-se dos
prazeres. 249

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Livro 3

Do voluntário e involuntário, e das coisas que seguem o voluntário,


da fortaleza, da temperança, das suas espécies e dos seus
extremos. 257

Lição 1 – Trata do voluntário e do involuntário: é primeiro do


próprio involuntário que do voluntário, mostrando o que seja
involuntário por violência, e como é por ignorância. 259

Lição 2 – Aos atos voluntários se devem louvor e censura,


honra e pena. Às ações feitas por medo, não se deve louvor,
mas apenas perdão. 266

Lição 3 – Trata do involuntário da parte da ignorância, onde


estabelece três diferenças acerca da própria ignorância, que se
referem às diversas ações feitas por ignorância. 273

Lição 4 – Demonstra-se o que é espontâneo ou voluntário e


define-se como aquilo cujo princípio está no próprio agente
com ciência das circunstâncias. 282

Lição 5 – Trata da escolha, que coloca no gênero do


voluntário e mostra que a escolha não é desejo, nem impulso,
nem opinião e investiga a diferença que há entre escolha e a
vontade, pois a própria escolha parece próxima à vontade. 287

Lição 6 – Prossegue-se a discutir que a eleição não é o mesmo


que a opinião, nem mesmo se a opinião for sobre as ações
praticadas por nós. 295

Lição 7 – Propõe-se a questão sobre a deliberação, a saber, se


é sobre todas as coisas; são excluídas as eternas, as uniformes,
as que são feitas por muitos, as casuais, as mais remotas, das
quais não parece haver deliberação. 300

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Lição 8 – Não há deliberação dos fins, mas dos meios relativos
ao fim: que apesar de ser o primeiro na intenção, é, todavia, o
último na realização. 308

Lição 9 – Compara-se nesta lição, a escolha com a deliberação,


onde mostra como de algum modo é o mesmo e como de
outro modo um precede ao outro. 314

Lição 10 – Responde a certa questão com duas partes: que foi


da opinião de alguns de que a vontade não se dirige senão ao
bem por si, e a de outros que o bem é apenas aparente. 317

Lição 11 – Virtude e vício estão em nossa capacidade, tanto


nas ações, quanto nos hábitos. 322

Lição 12 – Suprimem-se as raízes da opinião dos que dizem


ninguém ser voluntariamente mal e demonstra-se que os
hábitos da alma, pelos quais se diz que o homem é injusto
ou negligente, são voluntários enquanto gerados nele, não,
porém, por serem gerados depois. 329

Lição 13 – Disputa contra os que negam haver em nós uma


potência cognitiva do bem, e destrói os seus fundamentos e
razões, tal como ocorreu mais acima, contra os que afirmavam
não haver alguma maldade no voluntário. 335

Lição 14 – Já inicia a tratar da coragem, que parece ser o


meio-termo da audácia e do medo: e diz que os objetos são as
coisas más e terríveis, mas não todas. 343

Lição 15 – Declara-se que o que é terrível não é do mesmo


modo para todos, mas, o que é terrível para a criança não o é
para o homem virtuoso, que inclusive teme como o homem,
mas por medo não se afasta do reto juízo da razão. 352

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Lição 16 – Trata de alguns atos de fortaleza, que parecem
de fato convirem com a fortaleza, que são atos de fortaleza
política e militar, porque estes de fato parecem semelhantes
aos fortes. 361

Lição 17 – Trata do terceiro gênero não verdadeiro de


fortaleza, que parece ser certo furor, que impele o homem ao
ato de fortaleza. 369

Lição 18 – A propriedade da fortaleza não se tem igual à dos


medos e audácias: mas se diz mais louvável quando retamente
se tem acerca das temíveis. Demonstra como, ao cessar de fato
a tristeza e o prazer, se gera a fortaleza, sendo o prazer do forte
mesclado de tristeza, e a tristeza de prazer. 376

Lição 19 – Trata da temperança, que se encontra na potência


concupiscível: que parece ser o meio-termo dos prazeres: cuja
especial matéria embora seja o prazer, considera-se, porém, o
prazer do animal. 382

Lição 20 – Dirige-se primeiro à sua declaração, que foi dita, a


saber, que a temperança e a intemperança são dos sentidos do
tato e do gosto, porém mais do tato do que do gosto. 391

Lição 21 – Forte, temperante e intemperante, declara-se


como se tem o cessar das tristezas, dos prazeres, e das
concupiscências: demonstra-se quais estão longe da natureza
humana, quais são insensíveis, e quais e como são prazerosas,
o que deseja o temperante. 400

Lição 22 – Compara-se a timidez à intemperança, que é mais


espontaneamente percebida que a timidez, por isso se diz
que se é mais detestável pela timidez. Demonstra-se como é
espontânea, tanto no vício da intemperança, como no pecado
da timidez: enfim, coloca-se que a comparação seja entre a
intemperança e os delitos das crianças. 405

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Apresentação

Tomás de Aquino [1225-1274], filósofo e teólogo dominicano, es-


creveu diversas obras — e muitas delas são efetivamente grandiosas,
não apenas em quantidade, mas em tamanho. Desenvolveu muitas
outras atividades intelectuais nas Universidades e nas Instituições,
seja na docência ou na produção de obras, como as Sumas, as Ques-
tões Disputadas e os Comentários de alguns textos das Sagradas Es-
crituras. Mas, ademais dos inúmeros opúsculos, sem dúvida, uma
das maiores tarefas de repercussão acadêmica, para além de sua
época, com grande influência e importância histórica quanto ao
método e por ter sido o próprio Tomás o principal expoente desta
atividade em seu tempo, foi a tarefa a que se dedicou e que o tornou
conhecido como Comentador de Aristóteles. Com uma metodolo-
gia original, ordenada, comparativa, analítica, crítica e elucidativa,
coerentemente conectado ao sentido, significado e referência dos
termos do texto, diferenciada da tão difundida paráfrase, enorme-
mente válida em sua época, os seus comentários puderam ganhar
status, para além da Escolástica, perdurando do Renascimento aos
nossos dias.
Não raro, em razão dos títulos que tais atividades obtiveram de-
pois da sua morte e pelas reiteradas edições, especialmente as mais
conhecidas, Leonina, Parma, Vivès e Marietti, podemos defini-las
sob aspectos diferentes, mas complementares: o estilo de comentar
por Paráfrase, Sentenças ou/e Exposição, embora estas maneiras de
ler e explicar o texto não se desvinculem do gênero literário comen-

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tário1, em seu sentido geral. Se tais comentários se tornaram im-
portantes para Tomás e, consequentemente, uma das mais célebres
contribuições do Aquinate para o ulterior estudo da obra e do pen-
samento do filósofo grego Aristóteles [384-322], isto, sem dúvida, se
deveu a três fatos: a grande influência do seu Mestre, Alberto Magno
[1206-1280], que via neste labor um modo de entender e de divulgar
o pensamento filosófico aristotélico não dissociado da teologia e da
ciência; o fato mesmo da proliferação de exposições árabes da obra e
do pensamento aristotélico, nem sempre condizentes com a própria
obra e com o pensamento do referido autor e, contundentemente,
opostas à fé cristã; e, por fim, mas não sem importância, o exímio e
destacado valor da contribuição de Guilherme de Moerbeke [1215-
1286]2 para este projeto, ao propor, ademais de revisar as traduções
antigas e novas ou mesmo propor inteiramente as suas, encetar um
estilo analítico, preciso, literal e de estrita observância semântica de
produzir suas versões latinas para o uso de quem as pediu, tendo em
vista os dois fatos acima referidos.
Os comentários de cada obra são estabelecidos segundo a di-
visão argumentativa, que o Aquinate entende que é apresentada e
desenvolvida pela obra de Aristóteles, em cada Livro, como uma
unidade separada, mas complementar ao todo, se assim podemos
dizer, em relação à atual análise crítica que se faz da unidade do
todo de algumas obras de Aristóteles, quanto à possível ordem dos
livros. Retomando a questão dos métodos, alguns opinaram que To-
más comentou dividindo a obra, segundo os Livros, em lições, ou-
tros, porém, admitiram que ele seguiu a divisão capitular, segundo

1
Cfr. San Tommaso d’Aquino, Commento all’Etica Nicomachea di Aristotele. Te-
sto latino di S. Tommaso e traduzione italiana. Volume 1. [Libri 1-5]. Bologna:
ESD, 1998, pp. 20-22.
2
Um breve estudo clássico sobre a vida e o labor de tradução de Moerbeke ver em:
Grabmann, M. Guglielmo di Moerbeke O.P. il tradutore delle opere di Aristotele.
Miscellanea Historiae Pontificiae, 11. Pontificia Universitas Gregoriana. Roma:
Università Gregoriana Editrice, 1946.

14 • Comentá rio à Éti c a a Ni c ômaco ( I- III )

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a divisão estabelecida pela edição que teve em mãos em sua época.
Mas, de um modo geral, prevaleceu, nas diversas edições e nas mais
importantes, a didática divisão por Lições, bem próximo ao giro argu-
mentativo do Estagirita. As lições são literalmente leituras, mas não
meramente ‘leituras’, mas uma leitura atenta, que procura entender,
dividir as argumentações, analisar os argumentos, compará-los com
outros do mesmo autor em outras obras, ou com os de outros autores
que comentaram a mesma obra, ao mesmo tempo em que busca
fundamentá-los com outros argumentos próprios, outros exemplos
para, assim, explicar o sentido dado pelo autor com o intuito de sin-
tetizar a ideia contida no argumento e de propor uma conclusão que
seja a mais clara possível e de modo coerente, correspondente com a
ideia original do autor. De fato uma original análise hermenêutico-
semântica, ou seja, uma crítica interpretativa dos diversos sentidos
dos termos apresentados no texto.
O Instituto Aquinate, em parceria com a Mutuus Editora, ini-
cia a empreitada de publicar uma série de textos inéditos, editados
em vernáculo, em edição simples, acessível, com breve apresentação
e notas à tradução, com o intuito de pouco ou quase nada interferir
na obra, deixando o leitor com o mínimo necessário para ele mesmo
ir diretamente ao texto de Tomás. A intenção é divulgar não só entre o
público acadêmico, mas entre os diversos admiradores do aristotelismo
e tomismo, as principais ideias desses autores contidas nos referidos
textos. Neste espírito, no âmbito da filosofia moral, nasce o Projeto Co-
mentário de Tomás à Ética a Nicômaco. Este projeto é coordenado
por Bernardo Veiga (Instituto Aquinate), doutorando em filosofia pela
UFRJ (bolsista Capes). Este volume é uma edição e tradução do pro-
fessor Dr. Paulo Faitanin (UFF), junto com Bernardo Veiga.
Para esta edição e tradução foram utilizadas as seguintes edições
para o texto da Ética de Aristóteles: texto grego da edição de Bywater3;

3
Aristotelis, Ethica Nicomachea. Recognovit brevique adnotatione critica in-
struxit. I. Bywater. Oxonii: E Typographeo Clarendoniano, 1894. Disponível em:

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texto latino da edição Leonina de Gauthier4. Cotejamos com diver-
sas outras traduções: portuguesa5, espanhola6, francesa7 e inglesa8.
Já para a edição e tradução do texto latino do comentário de Tomás
utilizamos a edição de Alarcón no Corpus Thomisticum e compara-
mos a nossa tradução com outras traduções: espanhola9, francesa10,
italiana11 e inglesa12. Quanto às notas da nossa tradução, valemo-nos,
quando se fez necessário, seja para confrontar, conferir ou comple-

http://www.perseus.tufts.edu/hopper/text?doc=Perseus:text:1999.01.0053 O texto
da ética foi provavelmente escrito por volta de 335 a.C., quando da época do
Liceu. Forma parte dos estudos éticos de Aristóteles, além da Ética a Nicômaco,
a Ética Eudêmica.
4
Sancti Thomae de Aquino, Sententia libri Ethicorum. Libri I-III. [Opera omnia
iussu Leonis XIII P. M. edita ..., t. 47/1: Praefatio]. Romae: Ad Sanctae Sabinae,
1969. Disponível em: http://gallica.bnf.fr/ark:/12148/bpt6k9498r.r=.langEN.swf
Segundo Gauthier, o texto que Tomás de Aquino teve em mãos para comentar
não foi nem a tradução latina de Grosseteste, nem a tradução revista de Moer-
beke, mas uma de um anônimo. SANCTI THOMAE AQUINATIS, In decem
libros Ethicorum Aristotelis ad Nicomachum expositio. Editio tertia. Cura et studio
P. Fr. Raymundi M. Spiazzi, O. P. Taurini: Marietti, 1964. Utilizamos esta obra
como base para a tradução dos títulos dos livros e das lições.
5
Aristóteles, Ética a Nicômacos. Tradução, introdução e notas por Mário da
Gama Kuty. São Paulo: Unb. 4ª ed. 2001.
6
Aristóteles, Ética Nicomáquea. Traducción y notas por Julio Pallí Bonet. Ma-
drid: Gredos, 1998.
7
Aristote, L’Éthique à Nicomaque. Traduction et notes par Jules Tricot. Biblio-
thèque des Textes Philosophiques Paris: Vrin, 1990.
8
Aristotle, The Nicomachean Ethics of Aristotle. Translated by W.D. Ross. Lon-
don: Oxford University Press, 1925.
9
Aristóteles, Comentario a la Ética a Nicómaco de Aristóteles. Traducción por
Ana Mallea. Pamplona: EUNSA. 2000.
10
Saint Thomas d’Aquin, Commentaire de saint Thomas d’Aquin aux dix livres de
l’Éthique à Nicomaque d’Aristote. Traduction par Yvan Pelletier. 2e. Ed. Corri-
gée. Laval : Faculté de Philosophie. 1999. Edition numérique http://docteurange-
lique.free.fr
11
San Tommaso d’Aquino, Commento all’Etica Nicomachea di Aristotele. Testo la-
tino di S. Tommaso e traduzione italiana. Volume 1. [Libri 1-5]. Bologna: ESD,
1998, pp. 37-393 [Livros 1-3].
12
Thomas Aquinas, Commentary on the Nicomachean Ethics by Thomas Aquinas. 2
volumes. Translated by C. I. Litzinger, O.P. Chicago: Henry Regnery Company,
1964. Disponível em: http://josephkenny.joyeurs.com/CDtexts/Ethics.htm

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tar, das referências do aparato bibliográfico das edições pesquisadas,
grega e latinas dos textos e das respectivas versões que consultamos
para a produção do texto em vernáculo.
Propomos uma tradução o quanto possível literal do texto latino
da edição Leonina, mas frequentemente indo ao texto grego para co-
tejar com o texto latino para, assim, apresentar uma versão íntegra e
literal. Em seguida, na busca de uma terminologia adequada para os
lusófonos, recorreu-se aos recursos propostos por outras versões para
outros idiomas. Desta maneira, a metodologia da tradução consistiu
em primeiro lugar em verter do latim direto para o português, sem-
pre recorrendo ao texto grego nos casos em que faltava ou sobrava
algo no texto latino em relação ao texto grego da edição válida ou
para procurar direto do grego uma versão para o português adequada
e coerente não só com a ideia aristotélica, mas, em especial, com o
comentário de Tomás.
Em segundo lugar, para ambos os textos, tanto o da Ética de Aris-
tóteles quanto o do Comentário de Tomás, foi de suma importân-
cia recorrer a outras versões para consultar suas respectivas soluções
para as passagens de difícil compreensão e tradução. De antemão,
reconhecemos nossas limitações de oferecer uma mais apurada
e atenta revisão textual, de não poder pesquisar outras fontes que
efetivamente melhorariam muito a nossa proposta de tradução de
ambos os textos. Somos conscientes de tudo disso. Portanto, ao caro
leitor-pesquisador, ademais da compreensão para estas questões que
obviamente aparecerão nesta primeira edição, pedimos, sobretudo,
que proponham críticas e sugestões para uma futura edição, se esta
for digna e meritória de crédito e de continuidade.
Neste volume apresentamos a edição e tradução inédita do Co-
mentário à Ética a Nicômaco de Aristóteles: o Bem e as Virtudes, Li-
vros I-III. Esta obra é autêntica13 e data da estada de Tomás em Paris,

13
Cf. Mandonnet, P. O.P. Des écrits authentiques de S. Thomas d’Aquin. Seconde
édition revue et corrigée. Fribourg (Suisse): Imprimerie de l’oeuvre de Saint-
Paul, 1910, p. 104; Grabmann, M. Die Werke des hl. Thomas von Aquin. Münster

A pr e s e n tação • 17

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provavelmente, em 1271-127214. É uma obra composta de 10 livros.
O Livro I trata do fim da ação humana e da felicidade. O Livro II
considera a virtude e o vício. O Livro III analisa a ação humana vo-
luntária e as virtudes da fortaleza e da temperança.

Paulo Faitanin e Bernardo Veiga.

Westf.: Aschendorffsche Verlagsbuchhandlung, 1949, p. 284; Michelitsch, A.


Thomasschriften. Untersuchungen über die schriften Thomas’ von Aquin. Graz und
Wien : Verlagsbuchhandlung ‘Styria’, 1913, p. 178.
14
Cf. Torrell, J.-P. O.P. Iniciação a Santo Tomás de Aquino. Sua pessoa e obra. Tra-
dução Luiz Paulo Rouanet. São Paulo: Edições Loyola, 1999, p. 399; Weisheipl, J.
A. O.P. Friar Thomas D’Aquino, His Life, Thought & Works. Washington, D.C: The
Catholic University of America Press, 1983, p. 399.

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livro I

Da diversidade de fins.
Da felicidade, o fim que é a própria felicidade é o Sumo bem.
Da dupla parte da alma, da divisão das virtudes.

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lição 115
Mostra acerca do que se trata a filosofia moral, qual o seu sujeito,
qual o fim, e qual é a diversidade de fins.

texto de Aristóteles

capítulo 1

[1094a] [1] Toda arte e toda indagação, assim como toda


ação e todo propósito, visam a algum bem.
Por isso, foi dito acertadamente que o bem é aquilo a que to-
das as coisas visam.
Mas nota-se uma certa diversidade entre os fins; alguns são
atividades, outros são produtos distintos das atividades [5]
de que resultam.
Onde há finalidades distintas das ações, os produtos são por
natureza melhores que as atividades.
Mas, como há muitas atividades, artes e ciências, suas finali-
dades também são muitas; a finalidade da medicina é a saúde,
a da construção naval é a nau, a da estratégia é a vitória, a da
economia é a riqueza.

15
Utilizamos a numeração de Bekker para identificar o texto de Aristóteles. Quando
apenas aparecer a numeração, sem referência a uma obra, será relativa à Ética a Nicô-
maco. A lição 1 é referente ao trecho 1094a1-a18.

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Onde, [10] porém, tais artes se subordinam a uma única
aptidão – por exemplo, da mesma forma que a produção de
rédeas e outras artes relativas a acessórios para a monta-
ria se subordinam à estratégia, de maneira idêntica umas
artes se subordinam sucessivamente a outras.
As finalidades das artes principais [15] devem ter precedên-
cia sobre todas as finalidades subordinadas; com efeito, é por
causa daquelas que estas são perseguidas.
Não haverá diferença alguma no caso de as próprias ativida-
des serem as finalidades das ações ou serem algo distinto
delas, como ocorre com as artes e ciências mencionadas.

Comentário de Tomás de Aquino

1. Tal como diz o Filósofo no princípio da Metafísica16, é próprio


do sábio ordenar. O motivo é que a sabedoria é a mais elevada
perfeição da razão, cuja finalidade é conhecer a ordem. De fato,
ainda que as potências sensitivas conheçam algumas realidades
de modo absoluto, conhecer, porém, a ordem de uma coisa em
relação à outra é próprio apenas do intelecto ou da razão. Con-
tudo, há dois tipos de ordem nas coisas. Uma é a ordem das par-
tes de algum todo ou de alguma pluralidade das partes entre si,
como a das partes de uma casa, que se ordenam umas com as
outras; outra, porém, é a ordem das coisas em relação ao fim. E
esta ordem é mais importante do que a primeira. De fato, como
diz o Filósofo no livro XI da Metafísica17, no exército, a ordem

16
Aristóteles, Metaphysica, I, 2, 982 a 18. As indicações das obras de Aristóteles serão
iniciadas pela referência ao livro da obra, depois à lição de Aristóteles e logo em segui-
da à referência de Bekker.
17
Aristóteles, Metaphysica, XII, 12, 1075 a 13 ss.

22 • Comentá rio à Éti c a a Ni c ômaco ( I- III )

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das partes entre si é, por causa da ordem de todo o exército, em
relação ao general. No entanto, a ordem se relaciona com a ra-
zão de quatro modos. Com efeito, há certa ordem que a razão
não faz, mas apenas considera, como é a ordem das coisas natu-
rais. Há outra ordem, porém, que a razão faz no próprio ato ao
considerá-lo, por exemplo, quando ordena seus conceitos entre
si e os significados dos conceitos, que são as vozes significativas;
terceiro, é a ordem que a razão estabelece nas operações da von-
tade ao considerá-la; quarto, porém, é a ordem que a razão faz
nas coisas exteriores ao considerá-las, e a razão é a própria causa
da ordem das mesmas, como a da arca e a de uma casa.
2. E porque pelo hábito da ciência se aperfeiçoa a investigação da
razão, conforme essas diversas ordens que a razão particularmen-
te considera, existem as diversas ciências. De fato, à filosofia na-
tural convém considerar a ordem das coisas que a razão humana
considera, mas não faz. Assim, abaixo da filosofia natural, com-
preendemos a matemática e a metafísica. Contudo, a ordem que
a razão faz no próprio ato ao considerá-lo pertence à filosofia
racional, que consiste em considerar a ordem das partes entre
si, e a ordem dos princípios nas conclusões. Mas, a ordem das
ações voluntárias pertence à consideração da filosofia moral. A
ordem que a razão faz nas coisas exteriores constituídas pela ra-
zão humana ao considerá-las pertence às artes mecânicas. Dessa
forma, portanto, é próprio da filosofia moral, a qual se ocupa a
presente intenção, considerar as operações humanas, enquanto
são ordenadas entre si e para o fim.
3. Digo, porém, operações humanas, as que procedem da vontade
do homem, segundo a ordem da razão. Na verdade, as operações
que se encontram no homem, que não são sujeitas à vontade e à
razão, não se dizem propriamente humanas, mas naturais, como
é evidente nas operações da alma vegetativa, que, de nenhum
modo, caem sob a consideração da filosofia moral. Dessa forma,
portanto, o sujeito da filosofia natural é o movimento, ou a coisa

li v ro I, li ção 1 • 23

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móvel, assim, também, o sujeito da filosofia moral é a operação
humana ordenada ao fim, ou, também, o homem enquanto é
agente voluntário em razão de um fim.
4. Contudo, deve-se saber que, porque o homem naturalmente
é um animal social, pois necessita de muitas coisas para a sua
vida, as quais ele por si só não pode assegurá-las, consequen-
temente, o homem por natureza é parte de uma multidão de
homens, da qual se lhe provém o auxílio para viver bem. De
fato, necessita de duplo auxílio. Primeiro, para as coisas que
são necessárias para a vida, sem as quais não pode transcorrer
na vida presente. E, para isso, o homem é auxiliado pela fa-
mília, da qual é parte. De fato, qualquer homem recebe dos
seus pais a geração, a nutrição e a disciplina e, de modo se-
melhante, também, os demais indivíduos que formam parte da
família doméstica, que se ajudam entre si para o necessário à
vida. Segundo, o homem é ajudado pela sociedade, da qual é
parte, para a perfeita suficiência da vida, a saber, para que o
homem não apenas viva, mas para que viva bem, tendo todas
as coisas suficientes para a vida. E, assim, o homem é assistido
pela sociedade política, da qual ele mesmo é parte, não apenas
quanto às coisas corporais, a saber, enquanto na cidade há mui-
tos bens artificiais, às quais a família não alcança sozinha, mas
também há o relativo às coisas morais, por exemplo, em relação
aos jovens insolentes, aos quais a admoestação paterna não é
suficiente para corrigi-los, na medida em que são refreados por
medo das punições do poder público.
5. Mas, deve-se saber que este todo, que é a sociedade civil ou a
família, tem apenas a unidade de ordem, na medida em que não
é algo uno por si mesmo. E, por isso, uma parte desse todo pode
ter operações que não são operações do todo, tal como o soldado
no exército pode ter uma operação que não é a de todo o exér-
cito. Contudo, esse mesmo todo tem alguma operação que não
é própria de alguma parte, mas do próprio todo, por exemplo,

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um conflito de todo exército. Do mesmo modo, a tração do na-
vio é uma operação dos tripulantes que conduzem o navio. Há,
porém, um todo que tem uma unidade não só de ordem, mas
de composição, ou conexão, ou, também, de continuidade, na
medida em que a unidade é algo uno essencialmente. E, por
isso, não há operação da parte que não seja do todo. Com efeito,
o movimento contínuo é o mesmo movimento do todo e da par-
te e, de modo semelhante, no composto ou no que está unido,
a operação da parte é principalmente a do todo. E, por isso, é
necessário que à mesma ciência pertença a consideração desse
todo e de suas partes. No entanto, não pertence à mesma ciência
considerar tudo o que apenas tem uma unidade de ordem e de
suas partes.
6. E é por isso que a filosofia moral se divide em três partes, das
quais a primeira considera as operações de um único homem
ordenado para um fim, chamada monástica18. A segunda, porém,
considera as operações da sociedade doméstica, chamada econô-
mica19. A terceira, considera as operações da sociedade cívica,
chamada política20.
7. Portanto, Aristóteles, ao começar a ensinar a filosofia moral, na
primeira parte do seu livro, que se chama Ética, isto é, Moral,
propõe um proêmio, onde trata de três pontos. Primeiro, mos-
tra, pois, qual é a sua intenção. Segundo, o modo como tratará,
onde diz: ‘Deve ser dito, porém, se certamente será suficiente’21
etc. Terceiro, como deve ser o estudante dessa ciência, onde diz:
‘Ora, cada um julga bem os assuntos que conhece’22 etc. Acerca
do primeiro faz duas afirmações: primeiro, destaca certas coisas
necessárias para mostrar a tarefa proposta. Segundo, manifesta

18
Moral individual.
19
Moral familiar.
20
Moral social.
21
Refere-se ao início da Lição 3. Aristóteles, Ethica Nicomachea, I, 3, 1094 b 11.
22
Igualmente, indica a Lição 3. Aristóteles, Ethica Nicomachea, I, 2, 1094 b 26.

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o propósito, onde diz: ‘se há, pois, algum fim’23 etc. Acerca do
primeiro, faz duas afirmações: primeira, propõe a necessidade
do fim; segunda, compara os hábitos e os atos humanos com
o fim, onde diz: ‘Mas, como há muitas atividades’ etc. Acerca
do primeiro, faz três afirmações: primeira, propõe que todo ser
humano se ordena para um fim; segunda, mostra a diversidade
dos fins, onde diz: ‘Mas nota-se uma certa diversidade entre os
fins’ etc.; terceira, compara os fins entre si, onde diz: ‘onde há
finalidade distintas das ações’ etc. Acerca do primeiro faz duas
afirmações: primeira, expressa o que intenciona. Segunda, mos-
tra o propósito, onde diz: ‘por isso, foi dito acertadamente’ etc.
8. Acerca do primeiro, deve-se considerar que dois são os princípios
dos atos humanos, a saber, o intelecto, ou razão, e o apetite, que
são princípios que movem, como se diz no terceiro livro Sobre a
alma24. No entanto, no intelecto ou na razão, consideram-se os
princípios especulativos ou os práticos. Mas, no apetite racional,
consideram-se a eleição e a execução. E tudo isto é ordenado
para algum bem como para um fim, pois o verdadeiro é o fim
da especulação. Logo, quanto ao intelecto especulativo, põe a
doutrina por meio da qual se transmite a ciência do mestre ao
discípulo. De fato, quanto ao intelecto prático, põe a arte que é a
reta razão do fazer, como está no livro VI dessa obra25; e, quanto
ao ato do intelecto apetitivo, põe a eleição. Quanto à execução,
põe-se o ato. No entanto, não faz menção à prudência, que está
na razão prática, como também a arte, porque pela prudência
se dirige propriamente a eleição. Logo, diz que cada um deles
apetece claramente algum bem como fim.
9. Depois, quando diz: ‘por isso, foi dito acertadamente’ etc., ma-
nifesta, então, a intenção, pela definição de bem. Deve-se con-

23
Não foi possível identificar esta citação nesta lição. Aristóteles, Ethica Nicomachea,
I, 2, 1094 a 18.
24
Aristóteles, De anima, III, 15, 433 a 9.
25
Aristóteles, Ethica Nicomachea, VI, 4, 1140 a 10-11.

26 • Comentá rio à Éti c a a Ni c ômaco ( I- III )

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siderar que o bem se enumera entre as primeiras realidades de
tal modo que, segundo os platônicos, o bem é o ente primeiro.
Ora, segundo a verdade das coisas, o ente e o bem são convertí-
veis26. No entanto, as primeiras coisas não podem ser conhecidas
por algo anterior, mas são conhecidas pelos posteriores, como a
causa é conhecida pelos próprios efeitos. Contudo, como o bem
é propriamente o motivo do apetite, descreve-se o bem pelo mo-
vimento do apetite, como costuma se manifestar a força motriz
pelo movimento. E, por isso, diz que os filósofos adequadamente
enunciaram que o bem é o que todos apetecem.
10. Não há objeção de que alguns desejam o mal, pois não dese-
jam o mal senão em razão do bem, a saber, enquanto o estimam
como sendo um bem. E, assim, a intenção deles, por si mesma,
se diz em relação ao bem, mas, por acidente, cai sobre o mal.
11. Assim, quando Aristóteles diz-se que o bem é o que todos apete-
cem27, não se deve entender apenas para os que têm conhecimen-
to, que apreendem o bem, mas também para os que carecem do
conhecimento, que tendem ao bem por um apetite natural, não
enquanto conheçam o bem, mas porque são movidos ao bem por
algum cognoscente, a saber, pela ordenação do intelecto divino28,
ao modo como a flecha tende ao alvo pela direção do arqueiro.
Mas o próprio tender ao bem é apetecer o bem e, por isso, disse
que o ato apetece o bem, enquanto tende ao bem. Não é, porém,
um único bem ao qual todas as coisas tendem, como foi dito aci-
ma. E, portanto, não se descreve aqui um único bem, mas um
bem considerado em comum. Porque nada é bom a não ser en-

26
Segundo alguns dicionários, por exemplo, o Houaiss, ‘convertível’ significa o que se
pode converter; conversível, e ‘conversível’ significa o que se pode converter; convertí-
vel. Portanto, podem ser tomadas como sinônimos neste contexto.
27
Aristóteles, Ethica Nicomachea, I, 1, 1094 a 2.
28
Ordenação no sentido de orientação por iluminação e não por mandato que seja con-
trário à liberdade, pois a liberdade mesma é um dom de Deus. Por isso, esta ordenação
cumpre a própria orientação para a qual tende a liberdade.

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quanto é certa semelhança e participação do sumo Bem, o mesmo
sumo Bem que é, de algum modo, apetecido em todo bem. E,
assim, pode-se dizer que é um único bem o que todos apetecem.
12. Depois, quando diz: ‘Mas nota-se uma certa diversidade entre os
fins’ etc., mostra, então, a diferença dos fins. Acerca disso, deve-
se considerar que o bem final ao qual tende o apetite de cada
coisa, é a sua perfeição última. Contudo, a primeira perfeição
se possui pelo modo da forma. A segunda, porém, pelo modo
da operação. E, por isso, é necessário existir a diferença dos fins,
que alguns fins sejam as próprias operações, e que outros sejam
as próprias obras, isto é, certas produções que estão para além
das operações.
13. Para evidência disso, deve-se considerar que há dois tipos de ope-
ração, como foi dito no livro IX da Metafísica29: uma, que perma-
nece no próprio operante, assim como ver, querer e entender; e,
desse modo, a operação se diz propriamente ação; outra, porém,
é a operação que transita para a matéria exterior, que se chama
propriamente fazer e, esta, se divide em duas: às vezes, pois, se
toma alguma matéria exterior só para usá-la, como o cavalo na
equitação e a cítara para a música. Às vezes, porém, se toma
a matéria exterior para mudá-la, segundo alguma forma, como
quando o artífice faz uma cama ou uma casa. Portanto, a pri-
meira e a segunda destas operações30 não têm algo feito que seja
o fim, mas ambas são o fim delas mesmas; a primeira, porém, é
mais nobre do que a segunda, enquanto permanece no próprio
operante. Entretanto, a terceira operação31 é como certa geração,
cujo fim é a coisa gerada. E, por isso, nas operações desse terceiro
tipo as próprias obras são os fins.

29
Aristóteles, Metaphysica, IX, 8, 1050 a 23 ss.
30
A primeira exemplificada por ver, querer e entender, a segunda por fazer algo na ma-
téria exterior.
31
A exemplificada por fazer uma cama ou uma casa.

28 • Comentá rio à Éti c a a Ni c ômaco ( I- III )

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14. Depois, quando diz: ‘onde há finalidade distintas das ações’ etc.
expõe, então, a terceira, que diz que em tudo que é feito, que está
para além das operações como fins, é necessário que, nisto que é
feito, a obra seja melhor do que a operação, assim como a coisa
gerada é melhor do que a geração. O fim é, pois, melhor do que
as coisas que estão para o fim. De fato, as coisas que são para um
fim têm razão de bem pela sua ordenação para o fim.
15. Depois, quando diz: ‘Mas como há muitas atividades’ etc., com-
para, de fato, os hábitos e os atos, com o fim. E acerca disso, faz
quatro afirmações. Primeira, evidencia que as coisas que são diver-
sas estão ordenadas a diversos fins. E diz que, como são muitas as
operações, as artes e as ciências, é necessário que seus fins sejam
diversos, pois os fins e as coisas que são para o fim são proporcio-
nais. O que, de fato, evidencia por isto, que na arte da medicina
o fim é a saúde, na arte da construção de navios, são os navios, na
arte militar, a vitória, na economia, isto é, na administração domés-
tica, é adquirir as riquezas, o que, de fato, confirma a opinião de
muitos. Prova, porém, isto, no primeiro livro da Política32, ao dizer
que as riquezas não são o fim da economia, mas os instrumentos.
16. Segundo, onde diz: ‘Onde, porém, tais artes se subordinam a
uma única aptidão’ etc., estabelece a ordem dos hábitos entre si.
Com efeito, ocorre que um hábito operativo, que chama virtude,
depende de outro. Assim como a arte que faz os freios está su-
bordinada à arte da equitação, porque aquele que deve cavalgar
instrui o artífice sobre a forma de fazer o freio. Do mesmo modo,
assim é com o arquiteto, isto é, o principal artífice em relação
a isso. E a mesma razão em relação às outras artes, que fazem
outros instrumentos necessários para a equitação, por exemplo,
a sela, ou outras coisas semelhantes. A equitação, porém, é orde-
nada à arte militar. Com efeito, os soldados, diziam os antigos,
não são apenas cavaleiros, mas um homem que luta pela vitória.

32
Aristóteles, Politica, I, 6, 1256 a 1 ss.

li v ro I, li ção 1 • 29

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Por isso, sob a arte militar não está apenas a equitação, mas toda
arte ou virtude ordenada para as operações bélicas, assim como
a fabricação de flechas, de catapultas ou de qualquer coisa seme-
lhante. E, do mesmo modo, outras artes subordinam-se a outras.
17. Terceiro, onde diz: ‘as finalidades das artes principais devem ter
precedência’ etc., propõe a ordem dos fins, segundo a ordem
dos hábitos. E diz que em todas as artes ou virtudes há uma ver-
dade corrente de que os fins das artes principais33 são absoluta-
mente mais desejáveis do que os fins das artes ou virtudes que
dependem das artes mais importantes. Prova-o deste modo: os
homens perseguem, isto é, buscam, estes, a saber, os fins das artes
ou virtudes inferiores por causa daqueles, isto é, por causa dos
fins superiores. Contudo, o texto é oclusivo e assim deve ser lido:
“Onde, porém, tais artes se subordinam a uma única aptidão (...)
as finalidades das artes principais devem ter precedência sobre
todas as finalidades subordinadas” etc.34
18. Em quarto, mostra que não difere quanto à ordem dos fins, se
o fim for a obra ou a operação. E diz que nada difere enquanto
pertence à ordem, que os fins delas são as operações, ou algo
feito além da operação, como aparece na doutrina já exposta. De
fato, o fim da fabricação dos freios é a operação do freio. Ora, o
fim da equitação, que é mais importante, é a operação, a saber,
cavalgar. Mas o inverso se tem na arte medicinal e na arte de
fazer exercícios, pois o fim da medicina é produzir algo, isto é, a
saúde. Contudo, o fim do exercitar-se, que está contido nela, na
medicina, é a operação, isto é, o exercício.

33
O termo latino ‘architectonicarum’ [architectura] tem o sentido aqui de arte principal,
portanto das artes que são as mais importantes. Não tem o sentido de ‘arquitetura’ tal
qual se toma este termo em nossos dias. Em nossos dias, a arquitetura [lat. arquitectura,
do gr. arché que significa ‘primeiro (a), principal’ e téchne que significa ‘arte’, mas tam-
bém, ‘produção’, ‘construção’], é a arte ou a técnica de projetar e edificar ambientes,
seja para a habitação humana ou para fins subalternos a estes, como para a projeção e
contrução de praças, túneis etc.
34
Aristóteles, Ethica Nicomachea, I, 1, 1094 a 14-17.

30 • Comentá rio à Éti c a a Ni c ômaco ( I- III )

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