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Coleção Zero à Esquerda

Coordenadores: Paulo Eduardo.Arantes e Iná Camargo Costa


- Desaformnados - Os moedeiras falsos
David Snow e Leon Anderson José Luís Fiori
- Desorganizando o consenso - Poder e dinheiro: Uma economia po­
Fernando Haddad (Org.) lítica da globalização
- Diccionario de bolso do almanaque Maria da Conceiçdo Tavares e José Luís
philosophico zero à esquerda Fiori (Orgs.) Fernando Haddad
Pau{o Eduardo Nantes
- Terrenos vulcânicos

Em defesa do socialismo
- Os direitos do antivalor Dolf Oehler
francisco de Oliveira
- Os últimos combates
- Em defesa do socialismo Robert Kurz
por ocasião dos 150 anos do Manifesto
Fernando Haddad
- Geopolítica do caos Consefho Editorial da Coleçào Zero à
Ignacio Ramonet Esquerda

- Globaliz:ação em questão Otília Beatriz Fiori Arantes


Paul Hirst e Grahame Thompson Roberto Schwarz
Modesto Carone
-A ílusão do desenvolvimento Fernando Haddad
Giovanni Arrighi
Maria Elisa Cevasco
-As metamorfoses da quesrio social Ismail Xavier
Robert Castel José Luís Fiori

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Haddad, Fernando
Em defesa do socialismo : por ocasião dos 150 anos do Manifesto
/ Fernando Haddad. - Petrópolis, RJ : Vozes, 1998.

Ili
ISBN 85.326.1992-4

1. Sociafümo 2. Socialismo - História I. Tírulo. EDITORA


98-0908 CDD-320.531 V VOZES
Índices para catálogo sistemático: Petrópolis
1. Socialismo: Ciência política 320.531 1998
© 1998, Editora Vozes Ltda.
Rua Frei Luís, 100
25 689-900 Petrópolis, RJ
Internet: http://www.vozes.com.br
Brasil
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derá ser reproduzida ou transmitida por qualquer forma e/ou
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Gilberto M.S. Piscitelli, OFM

DIRETOR EDITORIAL
Avelino Grassi

EDITOR
Lídio Perctti
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DIRETOR INDUSTRIAL
José Luiz Castro

EDITOR DE ARTE
Omar Santos

EDITORAÇÃO
Editoração e organização literária: Renato Kirchner
Revisão gráiica: Revirec S/C
Projeto gráfico e capa: Mariana Fixe Pedro Fiori Arantes
Supervisdu gráfica: Valderes Rodrigues

ISBN 85 .326.1992-4
Este livro foi composto e impresso pela Editora Vozes Ltda. em março
d, 1998.
A Eugênio Bucci
SUMÁRIO

9 Prefácio

11 Em defesa do socialismo

13 I - O legado de Marx

37 II - Propostas de políticas socializantes

59 III - Perspectivas concorrentes

59 a) Welfare State nacional e mundial


60 b) Neonazismo
62 e) Fascismo
67 Agradecimentos
PREFÁCIO

Paul Singer

Em defesa do socialismo, de Fernando Haddad, lem­


bra o Manifesto Comunista de Marx e Engels muito
mais do que o subtítulo. Ele, de alguma maneira, cobre
o mesmo terreno do Manifesto: propõe um diagnóstico
do capitalismo atual, que chama de "superindustrial",
para sinalizar sua etapa contemporânea (superior à eta­
pa "industrial" da época de Marx e Engels); desenvolve
uma nova teoria das classes neste capitalismo, distin­
guindo uma classe proprietária e três classes não-pro­
prietárias; analis a diferentes inter-relacionamentos
destas classes para propor toda uma estratégia de luta
pelo socialismo que possa unir as classes não-proprie­
tárias nesta empreitada.
Alguns poderão achar que é muita pretensão elaborar
um novo Manifesto no final do século XX, mas (feliz­
mente) não faltou pretensão aos dois jovens intelectuais
alemães -Marx não tinha completado 30 anos e Engels,
28 - para escreverem um texto que mudou o curso da
9
história e a maneira de entendê-la. Fernando Haddad
tem capacidade para fazer o que se propôs e seu texto Em defesa do socialismo
poderá abrir um debate que já estava tardando. As suas
respostas são evidentemente discutíveis, mas não cabe
dúvida que ele se faz as perguntas certas.
Eu resumiria as questões centrais nos seguintes ter­
mos: o novo capitalismo mudou a organização da pro­
dução e os processos de trabalho. Que estrutura de
classes é determinada pelas atuais relações sociais de pro­
dução? Como se relacionam estas novas classes, ao redor
de que elas lutam? Que programa de revolução social
poderia unificar as classes não-proprietárias, dadas as
tendências excludentes da economia atual e alienante do
correspondente sistema de representação política?
Era necessário que alguém tivesse a audácia e a pre­
tensão de oferecer uma resposta articulada e consistente -'! O mundo administrado perdeu controle. De leste a
a estas questões. A resposta de Fernando Haddad tem oeste, de norte a sul. O Welfare State se desorganizou.
muito o caráter de hipóteses a serem verificadas por um O Sistema Soviético entrou em colapso. O Estado De­
': extenso programa de pesquisas. Seu mérito maior está senvolvimentista se desarticulou. Do ponto de vista ideo­
'
em demonstrar que é possível tratar destas questões em lógico, o ocaso dessas estruturas, associadas a práticas
conjunto e que é possível elaborar uma teoria da revo­ progressistas, sugere, à primeira vista, a vitória esmaga­
lução social socialista à guisa de resposta. Esta teoria não dora do pensamento conservador que desde sempre as
passa de um esboço, a ser usado como roteiro para a condenava ao fracasso. Contudo, deve-se reconhecer
discussão que os socialistas devem a si próprios. Marx e também que uma certa tradição marxista, muito pouco
Engels passaram as décadas seguintes ao Manifesto fun­ ouvida politicamente, mas a mais sofisticada teoricamen­
damentando as posições assumidas nele. Hoje em dia, o te, jamais imaginou a emancip ação humana como o re­
desafio do texto de Fernando Haddad delineia a ele e a sultado dessas experiências que ora naufragam. É bem
todos os interessados uma tarefa análoga. verdade que o descontrole da administração do mundo
não estava no horizonte dessa tradição. Mas não seria o
caso de também pensá-lo a partir da sua perspectiva e
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11
não só da perspectiva hoje hegemónica? Será que o pro­
cesso em marcha não traz em seu bojo a abertura de
I - O legado de Marx
brechas que tornam possível a reorganização - a partir
do zero, bem entendido - daqueles que crêem na supe-
ração positiva da ordem vigente?
_ _
Num momento de refluxo do movimento soc1ahsta,
Marx foi lembrado por um camarada de que, em uma
de suas obras, Hegel observa que imediatamente antes
que surja algo de qualitativamente novo, o antigo estado
recupera a sua essência originária, na sua totalidade sim­
ples, ultrapassando todas as diferenças que abandonara
enquanto era viável. Esse pode ser, precisamente, o caso
da "nova ordem" que aparece como a prova definitiva O principal defeito do movimento socialista até aqui
da superioridade de uma determinada formação social foi acreditar que, sob o capitalismo, o desenvolvimento
quando, na verdade, seria o s�mples anúncio de seu es­ das forças produtivas materiais entraria necessariamente
_ . em contradição com as relaçôes de produção vigentes.
gotamento histórico. Não sena por isso que Junto :'ºm
0 neoliberalismo surge uma apaixonada compulsao a
Em outras palavras, foi não perceber o quão elásticas são
. . , . as relações de produção capitalistas, o quão adaptável é
anunciar a morte do soc1ahsmo e do pensamento cntlco. )

Talvez tudo isso seja uma celebração, mas por que a pres­ ·.': o sistema, de modo que a dialética entre as relações so­
sa em encerrá-la, o nervosismo estampado no rosto dos ciais capitalistas e as forças produtivas da sociedade mo­
convivas? derna desdobra-se de uma forma completamente
diferente daq4ela do pré-capitalismo. No pré-capitalis­
mo, as relações de produção eram rígidas, as instituições
políticas e jurídicas eram quase imutáveis e se interpu­
nham como barreiras ao progresso material. Nesse con­
texto, sim, o desenvolvimento econômico provocava
freqüentemente fissuras no edifício institucional das so­
ciedades, abrindo caminho para eventuais rupturas, le­
vadas a cabo por indivíduos que encontravam terreno
fértil para sua pregação. Os socialistas incorreram em
12 13
erro ao promover uma indevida extrapolação dessa me­ tempo em que desnuda a lei tendencial de queda da taxa
cânica para a sociedade atual. Pois no caso do capitalis­ de lucro, admite sua evitabilidade pelo barateamento dos
mo, ao contrário, o desenvolvimento econômico, longe meios de produção conseqüente do progresso técnico.
de ameaçar, legitima o sistema, torna-o progressivamen­ Contudo, no plano institucional, esse teórico genial con­
te mais amoldável, amplia o grau de liberdade com que sidera toda evolução, do sufrágio universal à sociedade
seus gestores podem costurar acordos, alguns sólidos, por ações, como prenúncios da nova ordem socialista e
outros mais frágeis, mas ainda assim acordos, entre os não como aperfeiçoamentos que vêm dar uma capacida­
diferentes atores sociais. A luta de classes aguça, afrouxa, de ainda maior ao sistema de se adaptar às demandas de
recrudesce e se volatiliza numa arena que é tão maior, e ordem social e de ordem técnica. Essa deficiência, cer­
portanto pern1ite movimentos menos circunscritos, tamente, não se deve a uma limitação do pensamento de
quanto mais intenso é o grau de desenvolvimento da Marx ou do seu método de investigação, mas a uma li­
produção. Os limites do sistema são constantemente mitação do seu próprio tempo que não lhe permitiu com­
alargados. A liberdade de ação, por certo, sofre sempre provar em toda sua envergadura a negatividade da sua
o constrangimento do ciclo econômico, mas as crises dialética.
recorrentes, pelo menos até agora, não têm sido capazes O mesmo tipo de raciocínio se aplica à cbamada acu­
de romper o que parece ser o mau infinito da acumulação mulação primitiva de capital, "acumulação que não de­
capitalista. corre do modo capitalista de produção, mas é seu ponto
Curiosamente, no plano estritamente econômico, a de partida". Acertadamente, Marx previu que o capita­
teoria do maior pensador socialista era bastante flexível lismo destruiria até as muralhas da China, obrigando
ao formular as leis gerais do sistema capitalista. Toda lei todos os povos periféricos ao sistema a adotaren1, sob
econômica marxista admite contra tendências importan­ pena de perecimento, o modo burguês de produção. Mas
tes. Tomada em seu conjunto, a bbra de Marx, ao mesmo a forma como isso se deu nas diferentes regiões do pla­
l
tempo em que indica a tese da pauperização crescente 'i neta desrespeitou toda lei e toda lógica. Da mesma forma
das classes não-proprietárias, relativiza-a ao contemplar que os liberais americanos dos séculos XVIII e XIX foram
a possibilidade de que a luta de classes provoque efeitos capazes de conservar a escravidão com vistas a acumular
distributivos; ao mesmo tempo em que propõe a tese da o necessário para garantir as condições da futura ordem
[l,·
proletarização das antigas classes sociais, aponta para a capitalista, os stalinistas soviéticos do século XX foram
emergência e provável crescimento das camadas médias capazes de exacerbar o despotismo oriental com essa
como fruto do desenvolvimento do sistema; ao mesmo mesma finalidade. O capital se apropriou de todo pas-
í
'
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1
14

i
sado da humanidade, tomou suas instituições como cáp­ cultural ou comportamental é satisfeita, não com o re­
sulas vazias e lhes deu novos conteúdos, novas funções volucionamento dos hábitos e costumes sociais, mas com
e novos desígnios. Deu à luz a escravidão e o despotismo a oferta abundante de mercadorias e a reificação das
oriental modernos que dos seus antepassados guarda consciências. O caso mais eloqüente dessa mecânica tal­
a aparência sem deles ter herdado um único gene. Todos vez seja o movimento de libertação sexual que, "vitorio­
os caminhos levaram à Roma do capitalismo finalmente so", ao invés de gerar uma sociedade genuinamente
mundializado, mas cada nação adotou seu passo e sua erótica, deu ensejo a um duplo movimento de erotização
trilha, sendo que cada uma tem sua própria fábula para do consumo de bens e de objetivação das relações se­
narrar e deve fazê-lo sem esquecer, naturalmente, que a xuais, dessublimação repressiva que desemboca na in­
época de transformação pela qual passou não deve ser dústria pornográfica. E o que aconteceu com a sexua­
julgada a partir da sua própria consciência, mas sim a lidade é o paradigma para entender o que se passa com
partir das contradições e constrangimentos reais da vida o lazer, a espiritualidade, a ecologia a que correspondem
material. Pouco importa o que os Pais Fundadores e o a indústria do entretenimento, a indústria da salvação, a
Grande Irn1ão pensavam fazer se, na verdade, manti­ indústria do turismo. O tempo livre, a alma e, quem
nham os grilhões mesmo que em nome da liberdade. diria, uma prótese de primeira natureza, tudo é insumo
Sob o capital, os vermes do passado, por vezes pre­ precioso na busca do lucro. Sob o pretexto de satisfazer
nhes de falsas promessas, e os germes de um futuro que as necessidades humanas, a parafernália capitalista não
não vinga, tudo concorre para convalidar o presente, faz mais do que zelar pela sua perpetuação, rebaixando
enredado numa eterna reprodução ampliada de si mes­ os homens a meios de sua própria conservação. A saída
mo, e que, ao se tornar finalmente onipresente, pretende desse turbilhão capitalista, portanto, não passa por qual­
arrogantemente anular a própria História. Esse é o de­ quer tipo de reivindicação parcial, pelos chamados mo­
safio que se põe aos socialistas. A tarefa, 150 anos atrás, vimentos alternativos de protesto, que na melhor das
parecia bem mais fácil. Pensava-se poder contar com o hipóteses "civilizam" o sistema sem superá-lo. Hoje,
curso das coisas. Mas o curso das coisas só faz nos manter como antes, continua valendo a velha idéia de que "a
sob seu império. O processo chegou a tal ponto de tene­ história de todas as sociedades que existiram até nossos
brosa sofisticação que envolveu o plano da cultura e do dias tem sido a história das lutas de classes". Só que a
comportamento. A todo movimento social contestador essa história há que se acrescentar um novo capítulo.
de cunho particular corresponde o surgimento de uma
nova indústria. Toda demanda social de transformação

16 17
Poucas áreas do conhecimento alimentaram tantos que, aparentemente, não se verificou. Contudo, ela­
qüiproquós conceituais quanto as teorias de classes, de­ borar uma teoria mais complexa não permite declará­
senvolvidas ao longo do século XX. Os burocratas, es­ la per se mais fiel a uma realidade mais complexa; ela
tatais e privados, foram acusados de compor uma nova pode muito bem ser apenas mais confusa, se lhe falta
classe dominante. Assim se passou também com os ge­ o método adequado.
rentes, os trabalhadores qualificados e os intelectuais. O conceito de classe social em sentido pleno é cor­
Criaram-se novos conceitos: white collar, trabalhador retamente definido, dentro do discurso materialista, pe­
em escritório, nova classe média, tecnocracia, etc. Velhos las relações de distribuição que são expressão imediata
conceitos ressurgiram: casta, oli garquia, etc. A um só das relações de produção. Quando Marx refere-se às três
tempo, anunciaram a desqualificação e a qualificação de grandes classes, a dos trabalhadores assalariados, a dos
todo trabalho. Falou-se - às vezes o mesmo teórico em capitalistas e a dos proprietários fundiários, não quer
momentos diferentes de sua trajetória - de uma nova dizer que existam outras pequenas camadas dignas do
classe operária, composta por técnicos e engenheiros, nome classe. Embora, por vezes, Marx use esta denomi­
assim como de uma não-classe dos não-trabalhadores, nação para se referir a outros grupos distintos dos três
composta por aqueles que ocupavam posições precárias grandes, do ponto de vista da dinâmica do sistema, a ele
no mercado de trabalho. Uniram o lúmpen-proletariado só interessava estudar as tendências relativas ao compor­
ao exército industrial de reserva e apartaram-nos dos tamento daqueles grupos imediatamente ligados ao pro­
trabalhadores com emprego. Fundiram, cindiram, liqui­ cesso de reprodução material da sociedade. Esse é o
dificaram, reclassificaram, tudo à maneira positivista, ou motivo pelo qual Marx, apesar de prever o aumento
ti seja, ao bel-prazer do pesquisador. numérico relativo dos serviçais domésticos ou dos fun­
~ Tudo isso teve sua razão de ser. A realidade parecia
ter desautorizado a afirmação de que a época burguesa
cionários de Estado, não lhes dedica atenção especial.
Ainda que assalariada, essa camada não vende sua força
11 teria simplificado os antagonismos de classe. No pré-ca­ de trabalho diretamente ao capital, como é o caso dos
pitalismo, Marx constata uma escala graduada de con­ trabalhadores da indústria (da fábrica e do escritório),
\
dições sociais. Em Roma, patrícios, cavaleiros, plebeus do comércio e das finanças, e, como tal, não pertence
~!
~
e escravos. Na Idade Média, senhores, vassalos, mestres, nem constitui propriamente uma classe social.
companheiros. Já no capitalismo, Marx supunha que a Quanto aos limites de uma dada classe, superior e
1- sociedade se dividiria em apenas duas classes diametral­ inferior, aqui também o critério para defini-los não pode
mente opostas- a burguesia e o proletariado-; previsão ser outro senão o materialista. No limite superior, inda-
\'
18 19
ga-se até que ponto um trabalhador com alta qualificação dustrial de reserva; e colocava sob a rubrica de burguesia
e alta remuneração pode ser considerado membro do os capitalistas, a alta gerência e os proprietários fundiários.
proletariado. No plano inferior, indaga-se até que ponto
o desempregado pode ser considerado membro do pro­ Tudo andava conforme o previsto, até que um fenô­
letariado. Nos dois planos, a resposta só pode ser: até o meno da maior importância, que apenas se delineava no
limite em que a diferença entre essas camadas e o traba­ século passado, tornou conta do cenário, particularmen­
lhador simples empregado, determinada ou anulada pelo te após a Segunda Grande Guerra: a transformação da
processo real de produção, é de tal ordem que ela se ciência em fator de produção. É certo que Marx foi o
transforme em contradição. O gerente que é assalariado, primeiro economista a declarar que "a burguesia só po­
mas participa ativamente da gestão da empresa, da sua deria existir com a condi ção de revolucionar incessante­
política de cortes e contratações, da formulação do seu mente os instrumentos de produção". Na década de
organograma, da sua política salarial, etc., e que submete 1850, Marx foi muito mais além, ao ter afirmado que,
todas essas decisões ao princípio da maximização do lu­ à medida que a grande indústria se desenvolvesse, ainda
cro, esse indivíduo, não por suas disposi ções subjetivas, que a posição do trabalho social na forma da oposição
mas pelo lugar que ocupa no processo de produção, entre capital e trabalho permanecesse o último desen­
como funcionário do capital, ainda que não proprietário volvimento da relação valor, a criação da riqueza efetiva
dele, pertence à classe burguesa. Correlativamente, o de­ não guardaria mais relação com o tempo de trabalho
sempregado cuja força de trabalho não é mais útil ao imediato que custa a sua produção, mas dependeria cada
capital, ou seja, cujas habilidades tornaram-se uma mer­ vez mais da situação geral da ciência, do progresso da
cadoria sem valor, esse pobre diabo, por não ter o que tecnologia e da utilização da ciência na produção. No
vender, nem a si mesmo, não pertence ao proletariado. século XIX, nenhum outro economista, clássico ou neo­
O exército industrial de reserva, não obstante, pela ex­ clássico 1 insistiu tanto na idéia de que o progresso tec­
pectativa de seus membros de ainda poderem vender sua nológico era inerente à lógica de autovalorização do ca­
força de trabalho na fase expansiva do ciclo dos negócios, pital, ou melhor, era, a um só tempo, premissa e resultado
compõe a classe dos trabalhadores assalariados. Resumi­ da reprodução capitalista. E a superioridade da aborda­
damente, portanto, a teoria marxista de classe colocava gem de Marx era tamanha que esse crítico empedernido
sob a rubrica de proletariado a massa de trabalhadores do capitalismo foi aquele que projetou com maior pre­
que vendia sua força de trabalho diretamente ao capital cisão o que seriam as "conquistas materiais" desse modo
- industrial, com.ercial ou financeiro - e o exército in- de produção: o aperfeiçoamento dos instrumentos de

20 21
trabalho, o constante progresso dos meios de comunica­ terior advento da Guerra Fria, a universalização do en­
ção e transporte, o surgimento dos grandes centros ur­ sino básico e, em seguida, nos países centrais, do ensino
banos e o esvaziamento do campo, a supressão da dis­ superior, público ou não, tudo isso preparou e adubou
persão dos meios de produção, concentrados e centrali­ o terreno dessa transformação radical do processo de
zados em grandes corporações, tudo foi visto e, de certa produção.
forma, antevisto por Marx, que poderia ser considerado Do ponto de vista estrito da teoria de classes, essa
um visionário, não fosse o rigor do método que lhe per­ transformação do processo produtivo não poderia dei­
f
·, mitiu tais descobertas. Décadas se passaram até que fi­ xar de trazer profundas conseqüências. A principal delas
nalmente um economista conservador se s entisse foi a emergência de uma nova classe social, uma classe
obrigado a reconhecer o óbvio, mesmo que adotando, é associada a um novo fator de produção - a ciência-, ou
claro, premissas diferentes das de Marx. seja, uma classe que, corno as outras, é expressão ime­
Contudo, como não poderia deixar de ser, foi esse diata das relações de produção: a classe dos cientistas,
mesmo economista que, na década de 1940, observou engenheiros, técnicos e consultores contratados pelo ca­
uma mudança na produção que viria a jogar um papel­ pital para promover um contínuo processo de inovação
chave na contemporaneidade. O processo de autovalo' tecnológica e administrativa interno às empresas. Sob a
rização do capital acaba por endogeneizar o processo de rubrica esdrúxula de capital humano, todo modelo teó­
produção da própria ciência e tecnologia, a partir da rico recente introduz como argumento da função de pro­
criação nas empresas capitalistas dos Departamentos de dução o fator que essa classe controla. Dirão os menos
Pesquisa e Desenvolvimento. Essa modificação, que pode atentos que se trata de empregados do capital cujo ren­
ser enfocada exclusivamente a partir de uma perspectiva dimento tem a forma de salário e que, portanto, perten­
interna à lógica do capital, contou, para seu pleno de­ cem à classe dos trabalhadores assalariados, ou seja,
senvolvimento, com fatores externos a ela, mas dela de­ trabalhadores qualificados que compõem o chamado tra­
rivados. A adoção de políticas keynesianas anticíclicas, balhador coletivo. Contudo, essa classe difere da cate­
que, contra o senso comum, permitiram o desentrave goria dos trabalhadores qualificados por várias razões.
completo do processo de concentração e centralização Em primeiro lugar, o rendimento de um agente
do capital, o acirramento das disputas interestatais por inovador, apesar da forma que assume, não é, a ri gor,
il matérias-primas e pelo capital financeiro que engordou salário. Esse rendimento, aliás, guarda algumas seme­
os orçamentos de pesquisa científica dos programas mi­ lhanças com a renda fundiária. Da mesma forma que
litar e depois espacial, beneficiados ainda mais pelo pos- a propriedade fundiária é, como seu pressuposto, o

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outro do capital, e a renda fundiária é a contrapartida
atividade de pesquisa e desenvolvimento se incorpora às
do monopólio da classe proprietária da terra, a ciência
mercadorias. Mas ela não é uma atividade produ ti va , no
como fator de produção é o outro do trabalho, e a renda
sentido exato da palavra. Ela não produz mercadorias,
do saber é a contrapartida da posse oligopolística de
embora funcione como promotora do aperfeiçoamento
conhecimento relativamente exclusível, para usar um
do processo de produção de mercadorias.
jargão dos economistas. O processo de inovação tec­
Em terceiro lugar, a atividade inovadora não tem
nológica que, nos tempos de Marx, podia ser visto
relação com o tempo de trabalho. Em outras palavras, o
como uma sucessão de pontos discretos relativamente
agente inovador, ao contrário do trabalhador qualifica­
visíveis, tornou-se, com a internalização da ciência
do, não tem jornada de trabalho. Ele pode até ser obri­
como fator de produção, um processo contínuo. Quan­
gado a bater o ponto, o gue em geral não acontece,
do um certo quantum de conhecimento relativamente
mas, a rigor, não tem jornada fixa. Isto só é possível
exclusível incorpora-se a uma nova mercadoria, ela
porque os agentes envolvidos com o processo de ino­
goza do mesmo grau de irreprodutibilidade daquele
vação exercem atividades de cunho teórico abstrato,
fator de produção que a concebeu. Até que esse co­
dos técnicos até os cientistas, passando pelos engenhei­
nhecimento relativamente exclusível deixe de sê-lo, os
ros e consultores. Essas atividades, como se sabe, não
preços das novas mercadorias sofrem uma distorção
têm hora. Se o trabalhador simples vende ao capital
na exata medida do saber que elas comportam. Dessa
força física e o trabalhador qualificado, força mental,
distorção apropriam-se os capitalistas proprietários ··,
os agentes inovadores vendem força anímica - criativa
dos meios de produção da ciência e os agentes mova­
- que, diferentemen- te, não está quase nunca sob seu
dores que os põem em marcha.
comando no seu "tempo livre".
Em segundo lugar, a atividade inovadora, ao contra­
Em quarto lugar, o padrão de reprodutividade dessa
rio do trabalho qualificado, não produz valor. A mter­
força produtiva guarda mais relação com o antigo vir­
nalização da ciência ao processo produtivo por meio da
tuose medieval do que com o trabalhador moderno. O
contratação, pelo capital, de agentes inovadores, fenó­
processo de sua reprodução já não é anônimo. A rigor,
meno estranho ao século XIX, não muda o fato de que,
o tipo ideal de agente inovador é o pós-graduado que se
por exemplo, o "custo de concepção" de um� nova m�r­
submeteu a uma orientação pessoal de alguém gue detém
cadoria não se confunde com o "custo", medido em tra­
uma parcela de conhecimento não totalmente socializa­
balho social, de reproduzi-la industrialmente, que é a
do (saber de fronteira), seja por conta do nível de pro­
única medida do seu valor. Sem dúvida, o resultado da
fundidade, seja por conta do grau de especialização. Há,

24
25
r
1
1
por certo, muitos agentes inovadores autodidatas ou que Hoje, essa classe, nos países desenvolvidos J Ja
· .- SO!llJ
• • ..
não contaram com um apoio pessoal à moda da relação milhões, Ainda que numericamente ela não p 05,. 'iJ.. .'iC-·r
mestre/aprendiz medieval ou, ainda, que não contaram comparada à classe do proletariado, mesmo se e on::.iue­
,
com nenhum apoio institucional, estatal ou privado, Esses rado o contingente científico de reserva alocado n:1s uni-
casos, não obstante, tendem a se tornar cada vez mais raros. versidades, onde ela se reproduz, seu modo de ser seus
Há quem queira, pelas particularidades dessa classe, hábitos e sua visão de mundo imprimem cada vez) ma.is
J,J defini-la como uma classe média, Certamente, a totali­ suas marcas na cultura conten1porânea; entre outras coi­
dade dos agentes inovadores merece a denominação de sas, porque seus valores e interesses, relativamente aos
i classe por deter aquilo que deixa de ser simples produto do proletariado, estão sobre-representados na míclia e,
social para se tornar mais um fator de produção, Como em parte, incorporados aos bens produzidos pelo mdC,s,
as demais classes, ela é a expressão imediata de novas tria cultural onde ela exerce um papel fundamental. Por
1 relações de produção, postas pelo capitaL Mas essa classe outro lado, sua participação no produto, somJ.(_i J aos
é simplesmente outra classe e, a título nenhum, encon­ lucros extraordinários que gera, aumenta continuamen­
tra-se no meio de quaisquer outras duas, Há outros que te. É uma das classes sociais que mais cresceu em termos
preferem classificá-la como uma das categorias que com­ absolutos e relativos. Não há uma única corporação im­
põem uma suposta nova classe trabalhadora, Essa classe, portante no mundo que não conte com uma pequena ou
contudo, é distinta da classe dos trabalhadores assalaria­ grande legião de pesquisadores, cientistas, engenhei ro s
dos pelo simples fato de não vender propriamente força e consultores, Em algumas indústrias de ponta, a renda
de trabalho - insumo que, ao contrário do que se afirma do saber supera o total dos salários pagos, Numa das
atualmente, não desaparece do processo de produção, A novas indústrias mais importantes, a indústria de soft­
relação que esta classe estabelece com a classe dos capi­ wares, encontramo-la em estado puro, cristalino. Nesse
talistas é de outra natureza: se, por um lado, ela envolve caso, temos uma indústria literalmente sem operários,
o conceito de alienação, tanto quanto a relação entre que, a rigor, não produz valor. O preço de um software
capitalistas e trabalhadores, pois esses agentes não co­ é pura renda do saber daqueles envolvidos na sua elabo­
mandam a utilização do saber de que dispõem, por outro, ração, renda que é rateada com o capitalista que adiantou
ela não envolve a noção de exploração, tanto quanto a os "salários" durante os meses ou anos que o projeto
relação entre capitalistas e proprietários fundiários, pois consumiu. Como o saber, assim corno a terra, só produz
sua atividade não produz valor, renda se seu uso for, por força de lei, excludente, pode-se
dizer que o correlato moderno da velha cerca de arame

26 27
.].·.\
....,.,,;-:,

farpado é a patente devidamente reconhecida e protegi­ inaudito das conquistas do movimento sindical. Ela ga­
da. Sem a patente, o preço de um software cairia a zero, rante, pela riqueza que produz, a margem de manobra
já que zero é a quantidade de trabalho socialmente ne­ ., necessária para um compromisso de classe. Chegou-se a
·~
cessário para reproduzi-lo. A patente, hoje mais do que ' imaginar que o capitalismo poderia, pelo menos nos cen­
nunca, assim como a cerca ontem são condições neces­ tros tecnologican1ente dinâmicos, erradicar a miséria e
1 sárias do capital. A elas o capital deve sua emergência e até mesmo a pobreza. Declarou-se, por conta da pacifi­
seu dinamismo. cação do conflito de classes operada pelo Estado social,
1 Ao esquema de Marx, que descreve as etapas de de­
senvolvimento da indústria capitalista, deve-se, portan­
que a teoria de classes teria perdido suas referências em­
píricas. Mas, a superindústria nesse período apenas es­
to, acrescentar um estágio adicional. No primeiro es­ boçava seus primeiros movimentos. Ao contrário das
tágio, a manufatura substitui a antiga organização feudal outras formas de organização da indústria, suas prede­
da indústria que, circunscrita a corporaçóes fechadas, já cessoras, a superindústria possui uma característica que
não podia atender à demanda que crescia com a abertura a torna o modelo por excelência o mais adequado ao
de novos mercados. Com a ampliação desses, a própria modo capitalista de produção. Enquanto todos os outros
manufatura tornou-se insuficiente para satisfazer as ne­ modelos tornam-se obsoletos com a ampliação dos mer­
cessidades que cresciam ainda mais. A grande indústria cados consumidores, no caso da superindústria há uma
supera a manufatura. Posteriormente, contudo, observa­ inversão dessa regra: os mercados (nacionais) é que se
se a emergência da superindústria capitalista, entendida tornam cada vez mais restritos para essa forma de orga­
como aquela que internaliza o processo de inovação tec­ .'
··;

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l
nização da produção. Se a grande indústria criou o mer­
nológica, que, finalmente, exponencia o desenvolvimen­ cado mundial, a superindústria acaba por destruir as
to das forças produtivas e a ampliação dos mercados bases nacionais sobre as quais ele se assentava, e, com
numa escala nunca imaginada. elas, a base formal do próprio Welfare State que ainda
A cada etapa dessa evolução corresponde, como sa­ podia operar, por vários mecanismos de gestão, a socia­
bia Marx, uma etapa política distinta: manufatura e mo­ lização de suas "conquistas materiais".
narquia absoluta; grande indústria e Estado de direito A superindústria enseja, então, um processo peculiar
representativo moderno. Quanto à superindústria, numa de internacionalização da economia, a imprecisamente
primeira fase, nos chamados anos dourados do capitalis­ chamada "globalização". A base técnica dessa operação
mo, a ela corresponde o Welfare State. A superindústria, é a telemática, produto dileto do capitalismo superin­
.,\ '
inicialmente, é a base n1aterial que permite um avanço dustrial. A telemática, em primeiro lugar, faz crescer a
.·.
28 29
.
'
escala ótima de produção de uma infinidade de merca­ Diante disso tudo, a posição relativa de cada país no
dorias num ritmo muito superior ao crescimento dos cenário internacional muda a cada rodada de transfor­
mercados naciouais. A expansão do mercado interno dei­ mações conjunturais. O dinamismo tecnológico, a escala
xa de ser garantia de que uma dada economia possa ab­ de produção permitida pelo mercado potencial, o poder
sorver mais e mais plantas industriais de certos produtos. de cada Estado na disputa pelo capital financeiro inter­
A política interestatal de formação de blocos ou merca­ nacional, etc. são as variáveis que determinam o nível de
dos comuns bem como a política interempresarial de atividade e de competitividade de uma economia. Os
fusões e aquisições passam a ser um imperativo da pró­ governos neoliberais, expressão política dessa nova fase,
pria dinâmica da acumulação. Por outro lado, a telemá­ menos representativos e mais delegatários, disputam a
tica permite, pela capacidade de gerenciamento e tapa o título de melhor "comitê para gerir os negócios
monitoramento que propicia, a descentralização da pro­ comuns de toda classe burguesa". As múltiplas possibi­
duçfo dos componentes de um determinado bem por lidades de manipulação das variáveis-chave da economia
diversos países, reeditando uma nova versão da lei das implicam diferentes maneiras de inserção de uma eco­
·. vantagens comparativas, que favorece a terceirização e nomia nacional na ordem globalizada, algumas mais
i
a acumulação flexível internacionais, práticas que surgi­ ben1-sucedidas, outras nem tanto. Entretanto, no agre­
!!: ram no Extremo Oriente, na década de 1950, e que hoje gado, uma das conse qüências inevitáveis desse processo
se generalizam. Pode-se agora co.ncentrar a produção de é a emergência, em nível mundial, de um lúmpen-pro­
componentes menos sofisticados naqueles países ou re­ letariado de tipo novo, camada que não é mais "o pro­
giões que oferecem baixos salários e pouca proteção so­ duto passivo da putrefação das camadas mais baixas da
cial para seus trabalhadores, de modo que é muito con­ velha sociedade", como Marx a definiu, mas o resultado
veniente para o capital que a formação de blocos econô­ direto da nova forma de organização capitalista. Os des­
micos contemple a participação de países ou regiões com classificados pelo capital superindustrial, nesse sentido,
essas características. Por fim, a telemática, pela integra­ elementos heterônomos ativos da sociedade moderna,
ção total dos mercados financeiros do mundo, permite não podem mais ser vistos como uma categoria qualquer
um mais fácil e especulativo processo de financiamento e de somenos importância na ordem atual, mas devem
externo das dívidas públicas internas que custearam, no passar a ser encarados como uma verdadeira classe social,
período anterior, os gastos militares e sociais do Primeiro como as demais, entre outras coisas porque o não-ren­ '

Mundo e os gastos com a industrialização do Terceiro dimento dessa categoria, ou seja, seu rendimento extra­
Mundo semiperiférico. econômico oriundo da criminalidade, da mendicância,

30 31
.
dos desclassificados, de outro. As duas primeiras se be­
da pequena extorsão, da chantagem familiar, de favores
_ neficiam imediatamente do avanço tecnológico nos mol­
do Estado, etc., é também uma conseqüência 1med1ata
des capitalistas: a primeira, através da apreensão do lucro
das relações de produção - tanto quanto o salário - e se
extraordinário, e a segunda, através da estabilidade e dos
generaliza assim que o salário de mercado atmge um
privilégios (status, maior renda, etc.) que o processo con­
patamar inferior ao mínimo necessário, h1st?n�a� ente
. tínuo de inovação lhe garante. E muito comum, também,
determinado, para a reprodução matenal dos md1v1duos.
que muitos agentes inovadores não se encontrem exclu­
Tirante a burguesia, composta pelos proprietários e
sivamente nos departamentos de pesquisa e desenvolvi­
funcionários do capital, temos, portanto, três classes so­
mento, podendo ocupar, inclusive, postos de gerência,
ciais não-proprietárias. Durante o século XX, a cada uma
seja na área administrativa, seja na área produtiva, As
dessas classes isoladamente ou não, foi atribuído o papel outras duas categorias vêem nesse mesmo processo de
de liderar a r;volução das condições de existência. Mui­
inovação tecnológica, ou um estranhamento ou uma
tos continuaram confiando na capacidade do proletaria­ ameaça: quantos empregos uma nova máquina substitui­
do de romper a ordem estabelecida. Outros preferiram
rá?; que novos produtos serão dados à percepção, mas
acreditar em quem nada tinha a perder, sequer um en1-
não à fruição?; etc.
prego digno, como o lúmpen moderno. E um número
No nível prático-moral, há uma comunhão de valo­
expressivo de teóricos depositou suas esperanç�s na c�as­
� res entre a classe dos agentes inovadores e dos trabalha­
se dos agentes inovadores ou classe tecno-c1entif1ca.
dores assalariados, de um lado, e entre a classe dominante
Contudo nada no capitalismo superindustrial é tão sim­
e os desclassificados, de outro. No que se refere à liber­
ples assi�. O fato é que a condição de vida e a posição
_ dade, tanto os agentes inovadores quanto os trabalhado­
no processo produtivo dessas classes enseiam comporta­ res estão subsumidos intelectual e fisican1ente aos im­
mentos diversos que se articulam ironicamente de tal
perativos da acumulação de capital. A atividade criativa
forma que acabam por dar uma certa estabilidade ao
do cientista e do técnico não está livre desses imperativos.
sistema. Assim, o interesse particular de cada urna dessas
Muito menos o trabalho dos operários do processo de
classes isoladamente consideradas, não parece se con­
produção. Ao contrário, tanto a classe dominante quanto
fundir_, com o interesse universal que todas elas juntas a dos desclassificados gozam de uma certa liberdade. Es­
eventualmente teriam.
tes últimos, por não terem nada, não têm nada a perder.
No nível cognitivo-instrumental, há uma coalizão de Marx costumava dizer, com ironia, que o proletário é
interesses entre a classe dominante e a classe dos agentes livre em dois sentidos: livre para vender sua força de
inovadores, de um lado, e a classe dos trabalhadores e
33
32
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trabalho e "livre" dos meios de produção. Mas eles não parte mediada por um certo tipo de obra de arte. Embora
estavam "livres" de um emprego. Os desclassificados es­ arte e técnica não se confundam - não se pode desco­
tão "livres" até mesmo disso. De certa maneira, eles não : nhecer o valor posicional das ciências na realidade em­
têm problemas materiais porque não há solução para ·, pírica que visa o domínio da natureza -, deve-se re­
eles. A classe dominante, num outro sentido, está igual­ conhecer que tanto na arte quanto na técnica forças idên­
mente livre desses problemas, mas por estarem todos : ticas atuam em esferas não idênticas. Com a superindús­
solucionados. Trata-se de uma liberdade diferente, é cla­ tria, esse vínculo entre arte e técnica se fortalece. Os
~
:,

; ro. Não obstante, o resultado prático-moral da "liberda­ ; agentes portadores da ciência, pela primeira vez na his­
de" de que goza o lúmpen e da liberdade de que goza o tória, compõem uma classe, mas ao mesmo tempo, en­
burguês é o 1nesmo: um descompromisso, tanto quanto quanto classe, estão intelectualmente subsumidos ao
possível, com as regras jurídicas e morais que garantem •. capital. E se algumas obras de arte denunciam o caráter
a coesão social, particularmente as regras democráticas. ·, irracional da realidade capitalista, o comportamento dos
No nível estético-expressivo, há uma empatia entre ; desclassificados é a expressão dessa irracionalidade. Essa
a classe dos agentes inovadores e os desclassificados, de irracionalidade, imediatamente, amedronta e causa re­
um lado ' e a classe dominante e a dos trabalhadores, de
' volta em todas as camadas sociais, mas, uma vez mediada
outro. A positividade da atividade destes últimos prati- por certas obras de arte, ela aparece, aos olhos dos agen­
camente os exclui desta dimensão. No caso dos agentes tes inovadores, como uma espécie de reflexo no espelho.
inovadores e dos desclassificados, sua posição está afe­ Eles são capazes de se reconhecer nela.
tada de negatividade. Os desclassificados são forças pro­ A teoria de classes proposta, portanto, embora man­
dutivas que se transformam em forças destrutivas. Eles tenha, num plano mais geral, uma certa visão dicotômica
mimetizam os efeitos destrutivos da técnica ainda que que coloca proprietários, de um lado, e não-proprietá­
sem considerar o núcleo racional da mimese que, origi­ rios, de outro, não deixa de assinalar, entretanto, a he­
nalmente, no trato com a natureza, buscava resultados terogeneidade que envolve esses últimos, dividindo-os
produtivos. Por outro lado, no caso dos agentes inova­ em forças produtivas, forças destrutivas e forças criativas
dores, a negatividade da atividade técnica e científica cuja unidade de perspectivas, ainda que possível, não
está, em primeiro lugar, no seu efeito inegavelmente des­ está garantida automaticamente. E como nenhuma das
trutivo, conseqüência de seu caráter criativo. Mas não é classes não-proprietárias, na sua particularidade, carrega
só por esse caminho que os agentes inovadores aproxi­ consigo interesses universais, a única forma de constru­
mam-se dos desqualificados. Essa relação é em grande ção de um projeto alternativo de sociedade passa pela

34 35

.
~·-..,...:..·,.··

elaboração de um discurso comum que contemple as


peculiaridades de cada uma, mas que as lance para além
II - Propostas de políticas
delas mesmas. O socialismo, para despertar o entusiasmo socializantes
desses atores sociais, não pode ser regressivo em nenhu­
ma das três dimensões mencionadas. Caso contrário,
nunca será possível isolar a classe dominante num pólo
e as demais classes no outro, condição necessária da su­
peração da ordem capitalista. Enquanto isso não se dá,
o neoliberalismo nos coloca à mercê de governos tecno­
cráticos, autoritários ou fascistas, dependendo das forças
sociais que a classe dominante consegue congregar. Po­
rém, uma coisa é certa: a idéia de um congraçarnento
universal de classe nos novos marcos políticos do capi­
talismo parece, a essa altura, pura fantasia.
A riqueza das sociedades onde domina o capitalismo
superindustrial aparece como imensa acumulação de
mercadorias e imensa oferta de bens públicos. Excluídas
as transações internacionais, o produto nacional esgota­
se com os gastos públicos, o investimento e o consumo.
Numa democracia representativa, os gastos públicos se­
riam supostamente definidos por um governo eleito pelo
conjunto dos cidadãos e, portanto, deveriam refletir as
preferências individuais desses cidadãos por este ou
aquele bem público: educação, saúde, segurança interna,
defesa externa, administração da justiça, etc. Os investi­
mentos, por sua vez, seriam definidos pela burguesia,
mas seu sucesso ou fracasso seria supostamente decidido,
em última instância, pelos consumidores, pois o dinhei­
ro, no mercado, funcionaria como um voto para conse­
guir que fossem feitas as coisas que se desejam, pre-
36 37
/,--;,::.::

miando o empresário eficiente, O consumo, por sua vez, mem, e a riqueza, o objetivo da produção. À luz da in­
reger-se-ia também pelas curvas de preferências indivi­ versão promovida pelo capitalismo, aqueles estágios pas­
duais de cada consumidor que procuraria maximizar sua sados adquirem uma aura de superioridade moral, pois
satisfação. Nesse reino fantástico onde o indivíduo seria tinham a satisfação das necessidades humanas como fim.
r
i'• 0 senhor absoluto, até problemas como o desemprego Essa sensação só se esvai quando consideramos o enorme
rf são vistos como uma opção, no caso, uma opção do tra­ incremento que o capitalismo representou no intercâm­
[:
li balhador que não aceitaria sujeitar-se a um salário menor bio universal entre homem e natureza. Nos estágios an­
li compatível com sua produtividade. Alguns teóricos che­ teriores, dada sua técnica rudimentar, a satisfação das
!l gam a explorar alguns paradoxos do sistema, mas no necessidades humanas era limitada. O capitalismo supera
geral concedem que o capitalismo seria o reino da liber­ esse constrangimento. Contudo, o domínio da natureza
dade política e da liberdade econômica. Uma vez que a patrocinado pela técnica capitalista se dá à custa da total
distribuição do produto é dada pela produtividade mar­ alienação do fim, os homens, em benefício da lógica da
1: ginal dos fatores, a única acusação que se poderia fazer acumulação. E isso porque a ordem capitalista, para so­
à burguesia é a de consumir supérfluos ou entesourar no breviver, apóia-se num padrão tecnológico que cri a mai s
lugar de investir produtivamente, o que provoca crises necessidades do que satisfaz, transformando-se no reino
e evidencia a desigualdade social. Contudo, mesmo da insatisfação.
quando o ciclo dos negócios provoca exclusão social até O processo de criação de necessidades respeita a se­
o limite do coletivamente suportável, haveria sempre o guinte lógica: o consumo põe idealmente o objeto da
mecanismo de redirecionar os gastos públicos, por meio produção como necessidade; mas quando o consumo se
do sistema eleitoral, no sentido de minimizar os efeitos liberta da sua rudeza primitiva e perde seu caráter ime­
de u1na retração econômica. diato, o próprio consumo é mediado pelo objeto e a
Assim, o projeto socialista, nos dias que correm, apa­ necessidade que sente deste objeto é criada pela percep­
rece como algo mesquinho, fruto de ressentimento, que ção do mesmo. Assim, a produção não cria somente um
pretende tirar a liberdade dos mais capazes. Um exame objeto para o sujeito, mas também um sujeito para o
mais atento da sociedade capitalista revela, entretanto, objeto. Isso significa que aqueles que decidem o que será
uma realidade oposta da apregoada. Numa passagem im­ produzido pela sociedade decidem também o que será
portante de sua obra, Marx afirma que, nos estágios pré­ desejado por ela, ainda que de diferentes modos pelos
capitalistas, o homem era o objetivo da produção en­ indivíduos isoladamente. A decisão do que produzir, por
quanto, no capitalismo, a produção é o objetivo do ho- sua vez, leva em conta o padrão de distribuição do pro-

38 39
duto pelos indivíduos, mas a articulação da distribuição massa da população vai admirar, muitas vezes sem poder
é inteiramente determinada pela articulação da produ­ comprar, o belo incorporado aos produtos lançados pela
ção. A própria distribuição é um produto da produção, indústria, o que não deixa de ser uma forma sublimada
pois o modo preciso de participação na produção de­ de consumo-aquilo que não pode ser comprado é "con­
termina as formas particulares da distribuição. O pa­ sumido" como "obra de arte"-, e uma estética "erudita",
drão de distribuição, por fim, circunscrito pelo modo na qual o feio é incorporado à grande arte, como reflexo
de produção, contempla mesmo assim inúmeras pos­ da sempre reposta indigência social.
sibilidades. Uma melhor distribuição, resultante da Marx era de opinião que a nacionalização ou a so­
luta entre as classes, onenta a produção no sentido de cialização dos meios de produção e distribuição alteraria
uma maior satisfação das necessidades. Mas isso não por si o quadro. A organização e a direção de todo apa­
resolve o problema de que, sob o capitalismo, dada a rato produtivo pelos produtores imediatos organizados
gestão privada do processo de inovação tecnológica, a em comunas hierarquizadas de forma piramidal intro­
correspondência entre a percepção e a possível fruição duziriam uma modificação qualitativa no padrão tecno­
não acontece, e a própria luta de classes é alimentada lógico capitalista, a saber: produção visando à satisfação
pelo desejo insatisfeito de todos. de necessidades individuais livremente desenvolvidas. O
Rigorosamente, a correspondência entre percepção planejamento econômico e a democracia direta comunal
e fruição não está completamente desaparecida, ela per­ serian1 os mecanismos que garantiriam um processo so­
manece confinada na dimensão estética. Diante de uma cializado de satisfação e criação de necessidades dentro
obra de arte, percepção e fruição coincidem, a necessi­ de uma ordem racional imune a crises. Os investi men­
dade da obra é simultânea ao prazer que ela proporciona. tos seriam democraticamente redirecionados para a
Já no âmbito da reprodução material da vida, muitos produção dos bens que viessem a satisfazer as necessi­
percebem e são carentes daquilo de que só alguns usu­ dades mais prementes, antes de criar novas, ao mesmo
fruem. Nesse processo, o gozo de poucos perverte-se: tempo que a abolição da propriedade privada geraria
acaba tendo menos a função de saciá-los e mais a finali­ uma distribuição do produto social de tipo novo, que
dade de acender o desejo dos demais, submetidos a uma teria como único critério o trabalho prestado pelos
privação que é afinal o que de fato faz com que os poucos membros da comunidade. Novas necessidades seriam
gozem. Não é por outro motivo que o capitalismo supe­ criadas somente por decisão coletiva dos produtores,
rindustrial "pacifica os espíritos" por meio de uma dupla reconciliando-se os momentos da produção e da satis­
estética: uma estética de "feira de exposi ção", onde a fação, da percepção e da fruição.

40 41
Desde que esse quadro foi pintado, a intervenção aparato político e econômico e da liberdade formal dos
estatal planificadora na economia e as formas de demo­
indivíduos.
cracia direta ou participativa têm sido defendidas pelos A subversão da lógica do capital passa pelo mercado
socialistas como mecanismos progressistas de atenuar as
assim como a subversão da lógica da democracia burgue­
mazelas do livre-mercado e os problemas da democracia sa passa pela representação política, numa articulação
representativa. E enquanto formas negadas do mercado
que não simplesmente faz de um o limite do outro por
e da representação política, esses mecanismos têm cum­ meio de contrapesos e compensações, mas numa articu­
prido, por vezes, quando utilizados limitadamente, uma lação por meio da qual eles se interpenetram, subverten­
importante função reguladora na ordem capitalista. Mas do-se. As tarefas são as seguintes: no plano econômico,
quando, na luta pela superação do livre-mercado e da trata-se de reorientar a produção e a distribuição da ren­
democracia representativa, essas práticas são levadas ao da no âmbito do mercado; no plano político, trata-se de
paroxismo, a quantidade se transforma em má qualida­ democratizar a definição da pauta política e a informação
de: elas acabam por se interverter em instituições regres­ a ela pertinente no âmbito da representação.
sivas que configuram o que se pode chamar de des­ Ao invés de tomar o mercado como um provedor de
potismo moderno. Essa de-formação, que padece de uma sinais que indica ao capitalista o que os indivíduos dese­
contradiç ão interna de curto prazo, se teve algum caráter jam, visão fantasiosa do processo real, os cidadãos, atra­
progressista, do ponto de vista estritamente econômico, vés de seus representantes, devem encontrar uma forma
foi em sociedades muito atrasadas onde o capitalismo de sinalizar os bens que desejam que sejam objetos de
mal se formara, no sentido de alavan�ar o processo de desejo. Isso implica "politizar a economia" de uma ma­
acumulação primitiva. Prosperou na Asia, cujo passado neira particular. A realização prática dessa proposta passa
político-econõmico facilitou sua implantação, e foi im­ pela democratização da política tributária. A principal
posta, por razões militares, em quase todo Leste Euro­ função do sistema tributário é a arrecadação, respeitada
peu, causando os estragos conhecidos. Ruiu em boa hora, a capacidade contributiva dos cidadãos e das empresas.
tirando dos ombros dos socialistas um fardo político des­ Por meio dos tributos, o Estado se habilita a prover aque­
comunal, mas lhes impõe, ao mesmo tempo, a tarefa les bens públicos materiais e culturais indispensáveis à
absolutamente imprescindível de repensar os estágios, a reprodução da sociedade. Uma função subsidiária, mas
estratégia e as políticas que nos conduzirão para fora da não menos importante, é a utilização dos impostos como

l
lógica do capital sem abrir mão da funcionalidade do mecanismo de alocação de fatores de produção escassos,
ou seja, como um emissor de sinais orientadores da pro- • 1

42
43

l
·········:···': ····

dução no sentido de aumentar o bem-estar social. Os Essa medida, entretanto, que altera o padrão da ofer­
estudiosos de finanças públicas vêm dando ênfase cres­ ta de bens, teria um efeito prático bastante limitado se
cente a esse aspecto da questão. Contudo, a chamada o padrão da demanda não fosse igualmente alterado por
Welfare Economics padece de um vício fundamental: to­ uma melhor distribuição da renda. No quadro atual, de
mando as preferências dos consumidores como um dos acirramento da competição e da corrida ao corte de cus­
critérios de formulação tecnocrática de uma política tri­ tos, isso só pode ser obtido por meio de uma modificação
butária ótima, ela negligencia o fato de que, ao menos daquilo que os economistas chamam de dotação inicial
potencialmente, a interação dos cidadãos na esfera pú­ de fatores, ou, dito de outra forma, por meio da socia­
blica pode modificar as preferências desses mesmos agen­ lização da propriedade privada, mantendo-se, pelos mo­
tes reveladas no ato de consumo na esfera privada. Por tivos já expostos, a independência gerencial das unidades
isso, a pergunta "o que quero que seja produzido?" deve produtivas, ou seja, mantendo-se o mercado. A realiza­
ser respondida, evidentemente que em linhas gerais, tam­ ção prática dessa proposta passa por algo próximo (e vai
bém naquela esfera. Essa questão, até agora, tem sido além) da chamada propriedade cooperativa, algo que
insuficientemente politizada. O critério para distinguir difere da propriedade estatal e da propriedade privada
o necessário do supérfluo deve ser, antes de mais nada, e que tem chamado a atenção de importantes economis­
produto da interação social. Isso implica uma discussão tas e cientistas políticos contemporâneos. Sem perda de
pública que antecede a definição da política tributária eficiência e de competitividade, a propriedade coopera­
que, como toda lei, deve submeter-se ao julgamento tiva, por razões óbvias, ensejaria uma melhor distribui­
prévio dos cidadãos. Dessa forma, a aplicação de um ção de renda que traria em seu bojo o resultado eco­
imposto sobre superfluidade dos bens, que todo sistema nómico de modificar o padrão da demanda e o resultado
tributário contempla sob diferentes denominações, político de fortalecer a democracia.
deixaria de respeitar uma lógica burocrática, sujeita a A transição do atual capitalismo de sociedade por
toda ordem de arbitrariedades; ao contrário, a aplica­ ações para uma espécie de capitalismo cooperativo exi­
ção a um só tempo mais radical e mais transparente de giria: 1) estímulo à cooperativação dos não-proprietá­
um imposto como esse daria aos cidadãos condições rios, por meio da implantação de novas unidades
de regular democraticamente o processo de criação de produtivas sob esse regime, do estímulo técnico e finan­
novas necessidades e de redirecionar o processo de ino­ ceiro para que os trabalhadores das empresas em crise
vação tecnológica no sentido da satisfação das neces­ assumam seu comando, da democratização da gestão dos
sidades mais prementes. fundos de pensão, públicos ou não, orientando seus re-

44 45
cursos para o financiainento de projetos dessa natureza, trabalhadores que assumiram o controle ac10náno de
de estímulos fiscais; 2) imposto progressivo sobre a pro­ pequenas, médias e grandes empresas. Há também exem­
priedade e sobre sua transmissão intervivos e causa mor­ plos de grandes empresas que foram originalmente or­
tis; 3) centralização progressiva nas mãos do Estado ganizadas sob o regime de cooperativa, por vezes fi­
democrático do processo de intermediação financeira, nanciadas por bancos populares instituídos com o fim
garantindo-se, por meio do controle do crédito, recursos específico de estimular tais iniciativas. Contudo, deve-se
para a cooperativação dos não-proprietários e condições observar que não há precedente histórico de um governo
de monitoramento do ciclo dos negócios para o qual as que tenha adotado uma política nacional deliberada de
políticas keynesianas clássicas se mostram ineficazes. estímulo à cooperativação, mantidos o mercado e a de­
Sem que seja necessário expropriar quem quer que mocracia representativa. Isso foi apenas esboçado em
seja, o crédito se mostra um mecanismo eficiente de so­ países escandinavos, mas nunca implementado.
cialização. A cooperativa por ele financiada, seja agríco­ Uma iniciativa dessa natureza, sem dúvida, contaria
la, comercial ou industrial, conta com grandes vantagens com o apoio das três classes sociais não-proprietárias sem
competitivas em relação à sociedade por ações. Embora o que o sucesso do empreendimento estaria comprome­
ela tenha que pagar os juros à agência financiadora, tanto tido. Um dado eloqüente é o apoio dado pelos não-pro­
quanto esta última tem que distribuir dividendos, ela prietários de uma maneira geral a um movimento tido
pode dispor daquilo que seria o "lucro do empresário" como radical como o Movimento dos Trabalhadores Sem
para amortizar o "capital", para investir, ou para aumen­ Terra (MST). Trata-se de um movimento que mudou
tar os salários, que seriam móveis tanto quanto a jornada completamente a pauta clássica de reivindicações: ele
de trabalho. Aliás, a escala móvel de salários e a escala não reivindica maior remuneração ou menor jornada,
t móvel de jornada de trabalho tornariam-na mais apta a não reivindica igualmente favores do Estado, seja renda
1 concorrer con1 a sociedade por ações principalmente em mínima ou seguro-desemprego, ainda que tudo isso seja
i,,. épocas de crise durante as quais a flexibilidade é um muito justo. Revolucionariamente, o MST quer crédito,
trunfo imbatível. apoio técnico e autonomia para organizar suas coopera­
Há muitos casos recentes de cooperativação a serem tivas. Apesar do seu escopo limitadíssimo e ainda não
estudados, uns bem-sucedidos, outros não. Quem quer muito nítido, as demandas do MST têm caráter universal,
que denuncie o caráter retrógrado de um tal empreen­ aplicável a todo ramo de atividade econõmica, em pe­
dimento simplesmente não sabe o que se passa no mun­ quena e em grande escala. São iniciativas dessa natureza,
do. Em vários países desenvolvidos há exemplos de progressivas em todas as dimensões da vida social, que

46 47
devem sempre chamar a atenção dos socialistas e lhes inclusive transnacionalmente, concorrendo para a supera­
servir de inspiração para sua conduta política. Pois são ção do sistema produtor de mercadorias em escala global.
elas que congregam as três classes não-proprietárias e
isolam a classe dominante de uma forma cristalina e po­ O mesmo desenvolvimento teórico feito no plano da
liticamente profícua. economia pode ser transposto mutatis mutandis para o
Na perspectiva proposta, portanto, numa primeira plano da política, embora as condições nesse caso não
fase do projeto socialista conviveriam propriedade so­ sejam absolutamente simétricas. As modernas teorias
cializada e mercado. Mas, para que este não pusesse a burguesas da democracia encaram-na como um método
perder a marcha do cooperativismo, nem aquela pusesse de seleção de líderes que manufaturam as vontades de
a perder a funcionalidade do mercado - o que implica a uma massa apaixonada ou como um método de seleção
autonomia das unidades produtivas e a concorrência en­ de plataformas políticas por cidadãos racionais orienta­
tre elas-, far-se-ia necessário garantir que a propriedade dos pelo auto-interesse. A manipulação e a persuasão,
dos meios de produção das empresas cooperativas per­ num e noutro caso, seriam possibilidades oriundas, res­
tencesse a um fundo público não-estatal: público por ser pectivamente, ou da própria irracionalidade do eleito­
vedado aos trabalhadores cooperativados reprivatizar rado no seu conjunto ou da falta de plena informação
tais meios de produção; não-estatal por ser vedado à derivada dos altos custos a ela associados. Apesar disso,
autoridade do Estado ferir a autonomia da sua gestão, os liberais insistem que a democracia burguesa garantiria
que traria consigo ainda todos os vícios burgueses: ma­ a absoluta igualdade de condições de divulgação e a ab­
ximização do "lucro", poderes ilimitados aos gerentes - soluta liberdade de formulação de programas políticos.
ainda que pudessem ser escolhidos pelo coletivo dos tra­ Essas visões pueris do moderno processo político não
balhadores-, divisão autoritária do trabalho, etc. Numa levam em conta justamente o fundamental. O ocorrido
segunda fase do projeto socialista, caso todos nós apren­ com a esfera pública, desde o seu surgimento com a as­
dêssemos, tal como os artistas, a inovar ou criar sem a censão do Terceiro Estado, revela, aqui também, uma
necessidade de estímulos pecuniários extraordinários, outra realidade: a igualdade e a liberdade mencionadas
poder-se-ia conceber a hipótese de superação do merca­ eram reais quando o acesso à esfera pública era restrito
do, não pelo planejamento burocrático, seu oposto, mas ao círculo dos proprietários; a ulterior ampliação desse
por uma decorrência até certo ponto natural do proces­ acesso aos não-proprietários por meio do sufrágio uni­
so: sob o comando dos não-proprietários, as cooperati­ versal ocorre com o surgimento quase que concomitante
vas, progressivamente, passariam a cooperar entre s1, dos modernos meios de comunicação de massa, sem os

48 49
quais a política moderna é impensável. E esses meios, ganhar qualidade crítica é perder mercado e definhar. A
possuídos pelo círculo dos proprietários, são geridos se­ oferta de uma hierarquia de produtos "qualitativamen­
gundo a lógica privada que vai definir, em última instân­ te" distintos tem menos a ver com o conteúdo do que
cia, a pauta política em discussão numa esfera pública com a estratégia comercial para que nenhum consumidor
que, na modernidade, está toda ela contida na própria de informação escape, reduzindo-o a mero material es­
mídia no lugar de abarcar-lhe. tatístico. Nos canais abertos de TV, a coisa se complica
A primeira conseqüência da lógica do mercado nesse ainda mais, pois se a mídia escrita se vale de um uni­
campo, fruto imediato da concorrência entre os diversos verso conceitua] empobrecido para reportar, a mídia
meios de comunicação de massa, é justamente o baratea­ televisiva se vale de um arsenal pré-conceituai. Seu pa­
mento da informação. Só que esse barateamento não diz drão de comunicação é dado pelo seu sustentáculo ma­
respeito unicamente ao preço, mas' particularmente ao terial, a publicidade, cuja especialidade é provocar o
conteúdo da informação: esse é o aspecto relevante. Em maior efeito psicológico no telespectador no menor
busca de escala de produção, as empresas de comunica­ lapso de tempo. Nesse processo, a palavra se converte
ção esforçam-se por conceber um produto padronizado de veículo substancial do significado em signo desti­
e prazeroso. Para tanto, o produto não pode exigir gran­ tuído de qualidade, fechando-se completamente ao
de esforço do consumidor que quer se informar. Deve novo. Retroativamente, a mídia impressa também aca­
mover-se nos trilhos das associações habituais por meio ba sendo afetada e, finalmente, mesmo a política tem
de urna busca compulsiva de clareza. Isso só é possível que se render ao marketing, convertendo o chamado
se se isola a informação do processo social em seu todo, "líder " num produto manufaturado.
o que impõe aos meios de comunicação de massa o mero O correlato de um imposto sobre a superfluidade
registro dos fatos, ou seja, "a duplicação parcelada do dos bens materiais seria um imposto sobre a superficia0
mundo com imparcialidade", uma contradição em ter­ !idade dos bens culturais produzidos em massa. Isso po­
mos que se interverte em divinização da realidade tal ' :,;:, rém está fora de cogitação num Estado democrático, pois
: ;.
como ela é. A ilusão do jornalismo "progressista" está faltaria à maioria política o critério de aplicação. Uma
\
em querer romper essa lei de ferro, ouvindo "o outro política cultural que, por exemplo, favorecesse a arte
lado" de urna estória ou se permitindo comentários crí­ erudita em detrimento da arte popular, ou vice-versa,
ticos, sem perceber que o produto atrofia e inibe a ima­ seria uma completa aberração. Se, na esfera material,
ginação e a espontaneidade do consumidor em virtude quase todos têm a medida da sua própria carência, na
de sua própria constituição objetiva. A única maneira de esfera cultural, quase ninguém tem a medida da sua es-

50 51

·-1;~ ·-· :. - :::· -, .. :-:-.·


tultice. Nesse plano tudo concorre para que a "reprodu­ seja muito importante. Restaria entregarmo-nos ao mar­
ção simples do espírito não leve à reprodução ampliada". keting, mas, nesse caso, é a forma que contaminaria a
Além disso, um mecanismo desse tipo no âmbito da cul­ compreensão do conteúdo libertário de um programa
tura poderia representar uma grave ameaça ao direito radical. Ainda que o marketing seja uma exigência in­
da minoria. Uma coisa é o corpo de representantes dos contornável da moderna política de massa, ele só deveria
cidadãos, por meio de uma política tributária democra­ ser utilizado sob a condição de se sujeitar a imperativos
tizada, orientar a utilização dos fatores de produção num de outra ordem que não os dele mesmo.
sentido oposto à da criação daquelas necessidades que Os períodos eleitorais têm sido vistos como períodos
só uma minoria com recursos poderia ver satisfeitas, ou­ de agitação ideológica nos quais os políticos se dão a
l
tra coisa é esse mesmo corpo atribuir-se poderes para conhecer, esforçando-se por conquistar as simpatias dos
!,·
·n restringir o campo de ação e persuasão de minorias po­ eleitores. O processo é coroado pela eleição, entendida
i:
lítico-culturais sem vez ou voz. A socialização dos meios como um método de seleção. Contudo, o que escapa a
de comunicação, a partir da criação de cooperativas de essa concepção de democracia é o fato de que o período
jornalistas e artistas, autônomas frente ao Estado, sem eleitoral é um momento riquíssimo no qual o eleitor não
dúvida, alteraria esse quadro substancialmente. A refor­ somente conhece as plataformas dos candidatos, mas
mulação do ensino básico e a universalização do ensino principalmente se vale de toda sua dinâmica para, num
i
superior também. Essas duas medidas sem dúvida eleva­ certo sentido, conhecer a si mesmo e se fazer conhecer.
·'· riam o patamar cultural da sociedade. Contudo, para os O marketing político, entretanto, guiado pelas concep­
socialistas a questão prévia que se coloca é a de como se ções rasteiras do eleitor-consumidor, só oferece as co_n­
apresentar perante as três classes não-proprietárias e con­ dições para que ele confirme o juízo que tem de si e
quistar-lhes a confiança para articular todas aquelas suas reafirme suas convicções e preconceitos. Os impulsos
iniciativas que concorrem para a superação da ordem, libertários permanecem adormecidos no inconsciente:
tanto no plano material como no cultural. Por tudo o todos saem do processo como entraram. Uma revira­
que se disse no primeiro capítulo, não nos bastaria con­ volta política exigiria, portanto, urna forma de discur­
fiar na consciência de classe dos não-proprietários, es­ so que deslocasse os sujeitos de suas posições habituais
pontânea ou trazida de fora por uma vanguarda, nem mesmo que no interior de um universo lingüístico mais
tampouco, pelo que se disse nesse capítulo, confiar uni­ estreito, permitindo-lhes trazer à consciência esses seus
camente num bom programa de transição, divulgado por impulsos. Nesse ponto, temos todos muito a aprender
militantes aguerridos, em campanha cívica, embora isso com a psicanálise.

52 53
A recepção da psicanálise pelos socialistas foi bastan­ tradição, ela é entendida "idealisticamente" como me:o
te conturbada. Inicialmente as tentativas de conciliar a reaprendizado de uma gramática, como recomposiçao
psicanálise com o marxismo foram ridicularizadas. Fal­ ossível de um inconsciente gramat1Calmente detenora­
taria ao freudismo, principalmente, a compreensão do �o, perdendo-se dessa forma todo potencial materialista
caráter histórico da repressão sexual, impossibilitando-o de crítica social.
de vislumbrar as possibilidades de mudança social. Mas O que parece não ter sido suficientemente explorado
alguns socialistas não tardariam a perceber o potencial ainda é o potencial emancipador da forma discursiva da
crítico da nova ciência. O caráter materialista da teoria psicanálise em política como contraponto do marketing.
da libido e o desmascaramento da unidade da persona­ Embora a teoria crítica jamais tenha deixado de reco­
lidade permitiam uma leitura dialética da estrutura psí­ nhecer o caráter individual da psique, rejeitando o es­
quica dos indivíduos em term os de aparência (a forço revisionista de sociologizar o indivídu_o, ela nu nca
consciência) e essênci a (o inconsciente), tal como a teoria , .
perdeu de vista que tanto a força das erupçoes psiqmcas
crítica tratava os fenômenos sociais. A psicanálise viria como seu próprio conteúdo estavam cond1cwnados pela
assim suprir, no seio do marxismo, o degrau faltante lógica da reprodução material. Sempre reconheceu que
entre base econômica e superestrutura ideológica. Além uma seleção de traços, o núcleo essencial da estrutura
disso, a psicanálise poderia ajudar a explicar a estabili­ psicológica da maioria dos membros de um grupo, de­
dade da ordem capitalista num momento em que sua senvolve-se como resultado de experiências básicas e do
necessidade objetiva já havia passado. Numa outra chave, modo de vida comum. A rigor, o indivíduo, para o mar­
procurou-se extrair dessa teoria sua força crítico-utópi­ xismo nem sequer chegou a se constituir historican1ente,
ca, malgrado o pessimismo expresso pelo seu fundador, pois 0' caráter de classe da sociedade fixou cada um no
enfatizando-se aqueles elementos que efetivamente pro­ estágio do mero ser genérico. O marketing, de certa for­
jetavam-se para lá do sistema presente, na direção de ma reconhece isso, mas como "psicanálise deteriorada"
uma civilização erótica. Tanto na versão crítico-resi gna­ qu� se preocupa com o "bem-estar do cliente" e não com
da como na versão crítico-utópica da recepção marxista a sua "cura". Uma mudança radical dessa postura passa­
da psicanálise, a terapia jamais foi plenamente aceita pois ri a por tomar os eleitores não-proprietários c�mo sujei­
sempre esteve associada à idéia de que seria impossível ao tos ativos que, na sua particularidade, estão d1Spos:os a
indivíduo alcançar a cura numa sociedade irracional como fazer conhecer e dar vazão a impulsos emanopatonos
a capitalista. Quando, finalmente, a terapia é reconsiderada que, em grande parte, são comuns O desafio está :m
pelo membro mais importante da segunda geração dessa :
encontrar a forma discursiva que unifica essa d1spos1çao,

54 55
respeitadas as diferenças existentes entre as três cl asses dele que se encontrará o caminho de eliminação de todo
dominadas. mecanismo de coerção estatal sobre a sociedade: esse é
O Partido dos Trabalhadores, nos anos 80, conse­ o único significado plausível para a expressão Estado
guiu, em parte, essa proeza. Sem um programa definido, evanescente. Enquanto isso, cabe aos socialistas revitali­
num país semi-analfabeto, pela simples forma como se zar a combalida democracia representativa que, no pre­
apres entava ao eleitorado, conheceu um crescimen to sente contexto, é a melhor forma de defesa das classes
vertiginoso e um prestígio social espantoso. Não vinha não-proprietárias e de acomodação dos seus discrepantes
com fórmulas prontas, mas observava o movi men to so­ interesses. Mas, tudo dando certo, tão logo a coerção se
cial mais arrojado, organiz ava sua pauta e eventual mente mostrasse desnecessária, a própria representação política
dava caráter geral a reivindicações particulares. Onde poderia ser superada, com a redução do Estado a um
havia um sopro de vida social criativa, lá estava o PT, mero ofertante de bens públicos, materiais e culturais,
aprendendo a ouvir. Com método, extraía das experiên­ desprovido de todo conteúdo político, caso em que não
cias de que participava aquilo que tinha força transfor­ seria mais um corpo destacado que paira por sobre a
madora. Mesmo sem ter conseguido elaborar uma sociedade, mas como algo que se confundiria com ela.
plataforma política verdadeiramente socialista, quase Nesse caso, no lugar dos atuais Estados nacionais con­
chegou ao poder pelo voto. Ninguém sabe ao certo como correntes, ter-s e -ia, finaln1ente, o advento de uma ver­
teria sido um governo nacional petista em caso de vitória dadeira comunidade internacional.
eleitoral, mas o PT, mais pela forma do que pelo conteú­
do do seu discurso, obteve apoio crescente no seio das
três classes não-proprietárias que iam, através dele, en­
contrando compatibilidades de perspectivas. Nos anos.
90, o PT equivocadamente resolveu atribuir às suas vir­
tudes a responsabilidade pelo seu fracasso eleitoral.
Hoje, infelizmente, o partido que funcionou como uma
espécie de "psicanalista social" é que está precisando de
uma boa terapia.
Os socialistas jamais deveriam desprezar a experiên­
cia petista dos anos 80. E mesmo um governo socialista
não deveria abrir mão desse aprendizado, pois é através

56
57
III - Perspectivas Concorrentes

a) Welfare State nacional e mundial

O socialdemocrata, regra geral, é um sujeito de boa


alma. O socialdemocrata de tipo nacionalista quer de­
sesperadamente ressuscitar o status quo ante, recompon­
do a base formal do seu paraíso. O socialdemocrata de
tipo internacionalista, cético em relação às pretensões
do colega, quer estender os tais direitos sociais para toda
população do planeta. O primeiro tem base político-so­
cial, mas o conteúdo do seu programa é retrógrado. O
segundo não tem base político-social, mas o conteúdo
do seu programa é "utópico", daí o interesse que des­
perta. Ambos compartilham a idéia de que é possível dar
feição humana para o capitalismo sem macular o sagrado
direito de propriedade. Ambos desconhecem que o Wel­
fare State é produto de uma conjunção de dois fatores:
o dinamismo tecnológico, que gera um aumento da pro­
dutividade do trabalho doméstico e um fluxo de lucro
59

L .-,,~~------,··"?:·--.,==-----
extraordinário da periferia e da semiperiferia para o cen­ alcance e sentido não raro colidem com os originais. Tal­
tro; e o endividamento público, que é o mecanismo pelo vez o neonazismo se nos apresente corno mais um caso,
qual o Estado socializa esses ganhos sem a necessidade uma vez que seu fundamento material, psicológico e ex­
de taxar o capital ou o trabalho, postergando indefini­ istencial difere radicalmente daquele em que se apoiou
damente o acerto de contas entre as classes sociais. Por o movimento nazista, ainda que os skinheads adotem
não compreender os limites desse mecanismo de socia­ como símbolo a suástica, como ídolo, Hitler, e, como
lização, dado pela capacidade de endividamento do Es­ doutrina, a tese do espaço vital.
:·: ::1 tado, o socialdemocrata nacionalista pensa ser possível No período pós-1945, a manutenção de uma situa­
n1anter, nas condições atuais, o mesmo padrão de socia­ ção internacional confortável para as economias cen­
bilidade dos anos de ouro do capitalismo. Por não en­ trais tinha pelo menos dois pressupostos: 1) um mais
tender o caráter desigual e combinado do desenvol­ ou menos livre trânsito de mercadorias e 2) a inexis­
vimento tecnológico de cada Estado nacional, o social­ tência, tanto quanto possível, de um fluxo de pessoas.
democrata internacionalista pensa ser possível, sob o ca­ Se a mercadoria deixa um crédito no país de origem
pitalismo, a constituição futura de um Estado mundial que será tanto maior quanto mais "ciência" ela tiver
ou a adesão dos Estados nacionais a regras universais que em si incorporada, o imigrante desqualificado leva
garantam o bem-estar. Os socialdemocratas logo perce­ consigo um débito, uma vez que seu trabalho exceden­
berão as limitações desses projetos e se dividirão entre te será, muito provavelmente, menor do que os bene­
aqueles que aderirão ao ideário neoliberal, tido como fícios que receberá do Welfare State.
alternativa única de inserção das economias nacionais na Num momento em que este último perde sua base for­
ordem globalizada, e a causa socialista, cuja forma é na­ mal como conseqüência da própria lógica de acumulação
cional, mas cujo conteúdo é internacional, e que se apre­ de capital, é justamente em relação a este segundo pressu­
senta como o caminho alternativo que concilia de­ posto que o discurso neonazista encontra o seu eixo. O
senvolvimento econômico e universalização de direitos. neonazismo assume integralmente o que o neoliberalismo
não diz, mas pratica com reservas. E aí encontra-se o pri­
meiro traço distintivo fundamental entre nazismo e neo­
b) Neonazismo
nazismo. Se o primeiro é sintoma da "pobreza" (alemã) em
meio à afluência, o segundo é sintoma da afluência (ame­
É fato comum na História dos povos que formas
ricana e européia) em meio à pobreza. Disso decorre a
dessubstancializadas sirvam, como invólucros, de habi­
diferença entre as concepções nazista e neonazista de es-
tação para discursos e práticas inteiramente novos, cujo
60 61
paço vital: o conceito nazista implica a expansão do es­ acima do lucro médio proporcionado pelas atividades
paço vital e, neste sentido, ele é totalizante; o conceito rotineiras. Contudo ) o que poucos economistas obser­
neonazista implica a delimitação do espaço vital e, neste vam é que, do mesmo modo que se supõe que as inova­
sentido, ele é simplesmente excludente. O neonazismo'
ções orientadas para o lucro extraordinário e seus efeitos
em contraponto ao nazismo, pretende mais preservar o
se agrupam no tempo, por força da concorrência inter­
igual do que eliminar o diferente. Prefere expulsá-lo' o
capitalista, o que explicaria a alternância de longas fases
que é outra coisa, por sutil que seja.
de prosperidade e depressão, poder-se-ia supor que essas
Uma conseqüência marcante disso tudo é que o neo­
inovações também se agrupam no espaço, por força da
nazismo não exige necessariamente a figura do líder ca­
concorrência interestatal, o que explicaria a divisão da
rismático. A mera delimitação do espaço vital pode ser
economia mundial em núcleo orgânico e periferia. Como
feita de forma dispersa e, em grande parte, anônima. A
essa segunda hipótese violava as leis do modelo de equi­
ausência do Führer é sintomática. A estatização da di­
n1ensão estética promovida pelo irracionalismo nazista líbrio geral walrasiano, transposto para o plano interna­
lhe dava ares "pós-modernos". O neonazismo, ao con­ cional, os economistas negli genciaram completamente
trário,. é mais moderno, mais técnico, mais mesquinho essa possibilidade. Pregaram que as economias nacionais
e, por isso, mais "inofensivo". Ele não poderia provocar convergiriam run10 ao seu paraíso liberal e, quando os
a morte de 60 milhôes de seres humanos a bala. Sua dados lhes negavam crédito, os acusados eram os gover­
defesa intransigente da ordem econômica vigente poderá nos e os povos dos países atrasados e não suas sacrossan­
provocar a morte d� um número ainda maior de pessoas, tas leis econômicas.
mas de fome. Por fim, é preciso salientar que o neona­ Assim, deixaram de perceber o óbvio. Quando as
z1smo não é nem será um fenômeno localizado. Ele é .1 empresas de uma determinada jurisdição política come­
possível onde quer que populaçôes relativamente abas­ 1 çam a inovar, elas acabam fortalecendo indiretamente o
tadas convivam com a pobreza etnicamente delimitável ' poder político onde operam que, por sua vez, terá maior
seja em São Paulo ou Berlim. liberdade para criar um ambiente jurídico-institucional
e de infra-estrutura econômica mais favorável para a ati­
e) Fascismo :i vidade inovadora, gerando um processo circular e cu­
mulativo. Dito de outra maneira, o processo de inovação
Os economistas sabem que as atividades de "destrui­ não só gera lucros extraordinários para as empresas,
ção criativa", que são a essência do capitalismo, são aque­ como também, através de uma relação simbiótica com o
las que proporcionam ganhos extraordinários muito Estado, gera as externalidades que o retroalimentam. Os
62
63
.,
.t .,. .
!t . ,_ _.,.;... ~- 0 7 ~ ~·. " " ··'
países capitalistas pioneiros formam então um núcleo valeceu na URSS e no Leste Europeu. A primeira preser­
orgânico que goza de uma riqueza "oli gárquica" não uni­ vou as extremas desi gu aldades de distribuição da riqueza
versalizável. Ao contrário, as tendências d o processo im­ e aceitou desempenhar funçôes subordinadas nos pro­
plicam uma polarização crescente da economia mundial cessos globais de acumulação de capital. A segunda con­
nun1a zo�a periférica e numa zona de núcleo orgânico sisti u n o contrário: numa mais ou menos completa
_ .
de cuia ng1dez raríssimos países conseguem escapar. distribuição de riqueza e numa recusa em desempenhar
Tudo faz lembrar um fenômeno físico elementar: soltem­ o tipo de papel subordinado nos processos globais de
se dois corpos ladeira abaixo, um imediatamente após 0 acumulação de capital. Ambas as estratégias implicaram
outr?, e se perceberá que, quanto maior a distânci a per­ o uso da coerção sobre o crescente proletariado que
cornda pel os mesmos, maior a distância que os separa. emergia dos processos de industrialização, e ambas as
A observação das trajetórias das economias periféri­ estratégias, por razões diferentes, entraram em crise no
cas, entreta ?to, revela ª existência de países que compõem presente n1omento histórico.
_ , .
um grup� mte rmed1ano relativamente estável que con­ O colapso do Sistema Soviético e a desarticulação do
_
segum a te aqm res1st1r à tendência de periferização, em­ Estado Desenvolvimentista podem trazer graves conse­
_
bora nao tenha conseguido acumular forças para qüências políticas para as sociedades semiperiféricas do
_ planeta. Aquelas sociedades que não aceitam os efeitos
supera-la. Esses Estados semiperiféricos, de alguma for­
ma, conseguem !Solar as atividades inovadoras localiza­ nefastos da periferização podem inclinar-se para a ado­
das dentro de suas jurisdiçôes das pressões competitivas ção de práticas do velho fascismo, adequando-as à sua
_
mun ?-1a1s, mas, ao fazê-lo, privam-nas de possíveis eco­ posição na hierarquia mundial. A hostilidade étnica ou
nom1as de escala e daquele ambiente competitivo mais religio Sa contr a países vizinhos ou contra minorias den­
_
agressp10 que favorece a continuidade do processo de tro das suas próprias fronteiras acirr a-se, bem como o
1novaç�o. Dessa forma, os países semiperiféricos conse­ terrorismo, não raramente apoiado por governos da se­
guen1 industrializar-se sem se desenvolver, conseguem mi periferia contra cidadãos do núcleo orgânico. O mun­
cres�er, mas apenas ?ara perm anecer no mesmo lugar, do pensou que não mais conviveria com atrocidades
relativamente aos paises do núcleo orgânico. iguais às cometidas na Segunda Guerra Mundial. A guer­
As duas estratégias de "desenvolvimento" semiperi­ ra civil decorrente da desintegração da ex-Iugoslávia
, . mostrou-nos que o mundo s e enganou.
f nco que marcaram o século foram a estratégia pró-sis­
'.'
tem1ca, expenmentada pelos países da América Latina e
do Sul da Europa, e a estratégia anti-sistêmica, que pre-

64 65

·.. ..._
Agradecimentos

A primeira versão deste texto, escrita em agosto de


1997, foi amplamente discutida numa reunião da qual
participaram vários intelectuais: Airton Paschoa, Cícero
Romão Araújo, Cilaine Alves Cunha, lná Camargo Cos­
ta, Isabel Maria Loureiro, Jorge Mattos Brito de Almei­
da, Leda Maria Pau lani, Marc elo Coelho, Marcos
Barbosa de Oliveira, Maria Elisa Cevasco e Ricardo Mus­
se. Posteriormente, encontrei-me com Eugênio Bucci 1
Maria Paula Dallari Bucci e Maria Rita Kehl, que não
·I puderam estar presentes na primeira rodada de debates.
Finalmente, revi o texto ponto a ponto com Paulo Eduar­
do Arantes. A todos eles agradeço profundamente, sem
.! atribuir-lhes, naturalmente, responsabilidades sobre o
resultado final.

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1