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Robert Kurz

O FIM DA ECONOMIA NACIONAL

Que o capitalismo especulativo de simulação se encontrava em rápido processo de de-


composição e dissolução categorial em fins do século XX já está claro em muitos aspec -
tos. Não somente o contexto social se dissolve em uma atomização social jamais vista, e
não apenas partes inteiras do mundo experimentam uma queda civilizatória em grandes
colapsos econômicos; também a nação burguesa, uma categoria essencial da socializa-
ção capitalista, cambaleia. Se a nação foi inventada somente no curso da história da mo -
dernização capitalista, então, no fim dessa história, ela explodiu em seu próprio interior –
a economia fora de controle do capitalismo de crise, que faz explodir a “bela máquina”,
destrói seu próprio sistema de referência também nesse aspecto.
É claro que não se precisa derramar lágrima alguma pela nação. Ela foi, desde o prin-
cípio, um constructo manchado de sangue da concorrência capitalista, da repressão soci-
al e da exclusão em todos os sentidos. Essa forma distorcida de um falso “nós” serviu
sempre para a desorientação e domesticação dos movimentos sociais, a fim de vincular
as vítimas da “bela máquina” por uma lealdade irracional. No entanto, a retirada do Esta -
do, ou seja, a decomposição da nação em um cego “processo natural” do capitalismo de
crise, não leva à liberdade social, mas aos horrores da dessocialização. No lugar do des -
trutivo “nós” nacional não surge nenhuma forma social nova, mas apenas o regime de ter-
ror econômico da economia empresarial e suas consequências. A nação não desaparece
simplesmente, mesmo porque nenhuma estrutura mais desenvolvida ocupa seu lugar; em
sua ausência de estrutura, a sociedade se asselvaja.
A nação não é positivamente superada por meio de uma consciência social da socieda -
de mundial, explodindo em grande medida em face dos enormes choques em todos os ní-
veis sociais, como uma ruptura de barragens, um grande deslizamento de terra ou um ter-
remoto. Portanto, a assim chamada “globalização”, uma palavra-chave dos anos 1990,
descreve de fato um processo real no nível da manifestação; trata-se, no entanto, de um
falso conceito quando quer designar uma mera mudança estrutural no capitalismo “eter-
no”, quando, na realidade, a crise categorial da nação destrói a estrutura da moderniza -
ção. Pois o capitalismo não pode viver sem a coerência nacional que agora está sendo
dissolvida pela “mão invisível”; as várias explicações ingênuas de [seus] proponentes só
podem reconhecer um novo progresso burguês em um mundo supostamente “sem limi-
tes”: “Estudava-se outrora a ‘economia nacional’. O objeto desse estudo era um sistema
econômico isolado por moedas, impostos e políticas nacionais isoladas, cujas reações às
transformações no mundo exterior foram pesquisadas e compreendidas. A época da ‘eco-
nomia nacional’ chegou ao fim. Os economistas-nacionais se tornaram economistas-mun-
diais. […] O globalismo é o resultado necessário de uma economia de mercado ou de
uma sociedade capitalista. A economia de mercado não se deixa encerrar nas fronteiras
nacionais, espalhando-se como uma mancha de água. Ela atrai as indústrias e as moedas
nacionais e as repelem com as novas formas de manifestações da economia. Portanto, é
inevitável que as empresas alemãs e sua concorrentes em outros países se tornem global
players, que se fundam umas com as outras e assumam uma nova identidade supranaci-
onal. […] Assim, se a Daimler, a BMW, o Deutsche Bank e quase todas as grandes em-
presas alemãs procuram localizações fora das fronteiras alemãs, se, ao contrário, corpo-
rações estrangeiras fortalecem suas bases na Alemanha, se as moedas nacionais são
substituídas por um sistema monetário posicionado num patamar mais alto, então esse
cosmopolitismo da economia é o resultado previsível e desejável de um paradigma produ -
tivo mais elevado da política econômica, que, por si só, garante o progresso da humanida-
de” (Mundorf, 1999).
Essa argumentação fenomenologicamente limitada, que é apresentada aqui com inten-
ção apologética, encontra-se também, por sua vez, nos “alarmistas” superficiais e nos
críticos da globalização, que não querem reconhecer igualmente qualquer crise categorial,
mas apenas ler nas borras de café dos “mercados” os recém-chegados e os perdedores
no “futuro do capitalismo” (Thurow, 1996b). Em ambos os casos a essência da globaliza -
ção é inteiramente perdida pela falta de conhecimento teórico sobre a crise.
O “paradigma altamente produtivo” da Terceira Revolução Industrial conduz de fato ao
“cosmopolitismo da economia” – mas apenas para a economia, ou dito de um modo mais
preciso: de certa parte da economia, que representa uma forma de decadência do todo. A
transformação que está ocorrendo não é o prolongamento de uma tendência secular, mas
uma ruptura estrutural. Não se trata de modo algum de uma simples expansão do comér-
cio internacional no mercado mundial, nem de um mero aumento quantitativo da exporta-
ção de capital entre as economias nacionais, mas, do fato da dissolução dessas mesmas
economias nacionais. Em outras palavras: o centro econômico desse constructo moderno,
a “nação”, é arrasado pela crise do capitalismo. Com a retração dos Estados ou a virtuali -
zação capitalista financeira da economia (e em paralelo), a globalização é, por um lado,
um produto imediato da Terceira Revolução Industrial e sua “racionalização das pessoas”;
por outro, porém, os três processos sucessivos de retração do Estado, virtualização e glo-
balização repercutem e colidem entre si, muito embora, nesse aspecto, a economia real
constitua somente um apêndice da dinâmica especulativa globalizada.
O que fazia o anterior espaço de referência da economia nacional diferir do mercado
mundial? Fundamentalmente, a forma da economia nacional consistia em um sistema de
filtros, em certa medida como uma espécie de “camada de ozônio” político-econômica,
que protegia cada espaço nacional duplamente, tanto para dentro quanto para fora: para
dentro, filtrou da “radiação pesada” da concorrência econômica interna e a racionalidade
econômica empresarial em um nível compatível com o sistema; para fora, da “radiação
pesada” de um mercado mundial essencialmente não regulado e não regulável. Tais filtros
foram, obviamente, em primeiro lugar, os sistemas nacionais tributários, jurídicos e soci-
ais, a moeda nacional e muitos outros mecanismos de regulação, que, como os agrega -
dos infraestruturais, eram todos garantidos pelo Estado nacional. A globalização não é se -
não uma consequência lógica do processo de desemprego estrutural em massa e da des-
regulação estatal desencadeado pela Terceira Revolução Industrial.
Estamos lidando aqui com um verdadeiro processo de escalada. Racionalização e au-
tomatização levam a uma nova qualidade de desemprego estrutural em massa e, com
isso, a uma redução do poder de compra e uma redução das receitas estatais. O Estado
reage a isso com restrições sociais, o que reduz ainda mais o poder de compra. As em-
presas, por sua vez, reagem a esse dessecamento do mercado interno com a “fuga para
frente” no mercado mundial. Uma vez que todos fazem o mesmo, ocorre, naturalmente,
uma concorrência de aniquilação recíproca, acompanhada de uma concentração global
do capital. O Estado reage, por sua vez, com uma espécie de pânico da desregulação a
fim de manter o capital na “localização” doméstica, o que, inversamente, leva as corpora -
ções a jogarem um Estado contra o outro e a perseguirem uma estratégia global de diver -
sificação na corrida pela redução de custos. Essa “decomposição” dos elementos da eco-
nomia empresarial para fora dos limites nacionais e continentais é, ao mesmo tempo, tor-
nada possível e impulsionada tecnologicamente pela mesma revolução microeletrônica,
que, por sua vez, automatiza o processo de produção e “racionaliza” a força de trabalho
humana. Já nos fins dos anos 1980, o ex-chefe da Volkswagen, Carl H. Hahn, assinalou
esse desenvolvimento: “São possíveis diferentes localizações para os subprocessos de
produção. Assim, por sua vez, uma série de vantagens para países específicos – como,
por exemplo, baixos salários, sindicatos cooperativos, uma menor densidade de regula -
ção ou isenção de impostos – podem ser combinadas com vantagens para firmas espe -
cíficas. No decurso do progresso técnico, os processos de produção da maioria dos bens
foram cada vez mais fragmentados, o que tornou possível uma mais ampla internacionali-
zação da produção. Isso foi facilitado pelo fato de que as modernas técnicas de comuni-
cação baratearam substancialmente o fluxo de informações no interior das empresas
transnacionais. A produção no exterior das grandes empresas industriais do mundo deve
representar um terço de todo o comércio mundial” (Hahn, 1989).
Conforme informações da UNCTAD, oito anos depois, em 1987, dois terços do comér -
cio mundial consistiam em transações desse tipo. A mesma empresa pode dividir seus ne-
gócios em nível global: a sede oficial da firma pode ser talvez em Frankfurt, os negócios
financeiros se encontrarem em Londres, a conta operacional realizada por um time barato
de processadores dados eletrônicos na Índia, os produtos preliminares podem ser feitos
por baratos “empregados por contrato temporário” na Hungria, as pesquisas (devidos aos
baixos impostos) operadas nos Estados Unidos, os lucros contabilizados em “paraísos fis-
cais” como a Irlanda etc. Estas podem ser parcialmente subfirmas de propriedade de uma
corporação, em parte fornecedores independentes dos “serviços” correspondentes no âm-
bito do assim chamado outsourcing. Antes da era da tecnologia da microeletrônica, tal ex-
ploração dos diferenciais de custo em escala mundial, que se mantém em permanente es-
tado “líquido”, teria sido inteiramente impossível. Isso mostra que uma grande e crescente
parte do mercado mundial não é mais em realidade um intercâmbio entre economias naci-
onais coerentes, mas parte de uma divisão de funções internas de corporações que agem
no plano imediatamente global. Essas empresas ou, antes, essas aglomerações de em-
presas agem não mais “internacionalmente” e também não mais se estruturam “multinaci-
onalmente”, mas pertencem a uma dimensão “transnacional” até agora desconhecida. A
economia empresarial que até agora se encontrava incorporada no espaço de regulação
da economia nacional, rompe-o e atua imediatamente no terreno do mercado mundial li-
vre de regulação, logo para além da economia nacional (transnacional).
Esse processo não é senão a consequência da radicalização microeconômica: o ponto
de vista macroeconômico não é simplesmente liquidado no interior do campo da econo -
mia nacional, mas é esse campo mesmo que é liquidado. Enquanto a destruição dos me-
canismos de filtragem da economia nacional aumenta ainda mais o desemprego em mas-
sa e desencadeia a extinção em massa de empresas, os colossos transnacionais se reú -
nem para a batalha em um mercado mundial sem filtros, onde a racionalidade empresari -
al, que agora se tornou desenfreada, abre o caminho. A economia empresarial é “degra -
dada”; o próprio espaço econômico encontra-se agora fora ou “além” da civilização bur-
guesa e suas instituições, no qual a vida começa a escapar. É precisamente nisso que
consiste a nova qualidade da globalização em relação aos anteriores desenvolvimentos
do mercado mundial, que, desde o século XIX, sempre tiveram como pressuposto os es -
paços coerentes da economia nacional.
Sobre esse nível da globalização dos negócios industriais encontra-se um segundo ní-
vel da globalização das finanças capitalistas, que realmente se encontra no comando. As-
sim, a virtualização da acumulação de capital por falta de substância trabalho adicional in-
verteu completamente a relação do fluxo de mercadorias e do fluxo financeiro em escala
mundial: o movimento das finanças globais não é mais a expressão dos respectivos fluxos
de mercadorias e serviços, mas, ao contrário, são precisamente os fluxos de mercadorias
reais (e, portanto, da reprodução material da humanidade) que consistem agora em uma
expressão, e mesmo em um subproduto, de uma autonomizada “acumulação fantasma”
do capital monetário especulativo. O fim em si capitalista ganha aqui sua forma mais pura,
mas também uma forma de irrealidade que parece dominar a vida real, enquanto
o crash ainda não tenha ocorrido nos centros ocidentais.
A simuladora acumulação fantasma da especulação de capital não apenas regula o flu -
xo de mercadorias segundo suas necessidades fantasmas; ela é também, logicamente, o
centro da globalização, pois, em sentido amplo, ela pode ser, do mesmo modo que a pro-
dução real de mercadorias, imediatamente global. Enquanto, de fato, as mercadorias e as
instalações produtivas permanecem sendo coisas tangíveis do mundo macro e, por isso,
não podem ser realmente “sem lugar”, mas devem permanecer em lugares ou se mover
através deles, os fluxos financeiros do dinheiro eletrônico são como as partículas subatô-
micas da física, cujos lugares não podem ser precisamente determináveis. Com ajuda da
tecnologia da comunicação, uma massa de dinheiro tão monstruosa como irreal se movi -
menta na velocidade da luz e em “tempo real”, explorando, 24 horas, as microvantagens
no dia das finanças do mundo. Não se pode falar em qualquer sentido usual de “investi-
mentos”. É precisamente aí que se revela a impotente dependência da economia real
ante os “complexos financeiro-industriais” transnacionais, cujos negócios industriais trans -
nacionais se formaram segundo sua imagem.
É claro que as velhas instituições econômicas nacionais e, sobretudo, os Estados naci -
onais não estão simplesmente desaparecendo da cena. Mas foram tão enfraquecidos
como os sindicatos ou associações de empregadores. Assim, a “moeda”, a unidade mo-
netária de cada economia nacional, na maioria dos Estados do mundo ou já desapareceu
completamente ou afundou em um insignificante “pobre dinheiro das pessoas”, em uma
decaída submodea, enquanto a conexão real na economia global, onde ela ainda tem lu -
gar, há muito ocorre por meio de uma moeda estrangeira com elementos de uma função
de dinheiro mundial (dólar, marco, yen etc.). Mesmo o experimento kamikaze de política
monetária do Euro, na qual uma moeda transnacional artificial é colocada sobre todo um
espaço econômico-nacional inteiramente heterogêneo, com diferentes padrões de produti-
vidade, de sistemas legais etc., não passa de um fenômeno de dissolução da economia
nacional. Essas políticas monetárias de “fuga para frente” no interesse dos global pla-
yers europeus, que poupam os custos de transações em sua estratégia de flexibilidade
mundial por meio da abolição de diversos espaços monetários no interior da União Euro -
peia, ocorre às costas do restante das economias “subglobais”, com suas estruturas regi -
onais e suas relações de trabalho. Não apenas a política monetária, mas também em to -
dos os outros diferentes aspectos, a política, que, por definição, está limitada ao quadro
estatal-nacional, somente pode reagir de forma fraca e restrita ao modo invariavelmente
grosseiro da microeconomia transnacional. “Os managersmanifestam cada vez mais des-
prezo por seus governos eleitos. Uma nova atitude está se difundindo. Os autoproclama -
dos ‘global players’ do mercado mundial olham do alto os cada vez mais indefesos e im-
potentes chefes de governos nacionais. A globalização da economia torna as grandes em-
presas independentes do mercado doméstico e dos governos locais. Os managers fre-
quentemente veem a política como uma empresa de serviços […]. Como ‘hospedeiros’, os
Estados nacionais devem atrair para si o capital móvel, conforme o Instituto Kiel para a
economia mundial. Para os empresários, escreve a professora de Harvard Rosabeth
Moss Kanter, o mundo é apenas ‘um único grande corredor de lojas comerciais’. Estão ir-
ritados os representantes de todos os partidos. Mesmo o primeiro ministro bávaro, Ed-
mund Stroiber, criticou de modo severo e aberto a dupla moral dos managers, que ‘que-
rem jogar golfe na Alemanha e investir no exterior’. Alguns managers exibem abertamente
sua nova consciência do poder. Os especialistas em orçamento dos Bundestag ficaram
surpresos, por exemplo, com um jovial chefe da Daimler-Benz, Jürgen Schrempp, durante
uma excursão no fim de abril. Ele se gabava no jantar que sua empresa não pagaria um
centavo em impostos de renda até a virada do século: ‘vocês não vão receber mais nada
de nós’. Embaraçados, os deputados ficaram olhando para os pratos […] Mesmo quando
os empresários convidam os ministros, isso não dá qualquer garantia de que serão bem
tratados. Ingenuamente, a ministra do meio ambiente Angela Merkel foi a um painel de
discussão da associação dos atacadistas e comerciantes estrangeiros – e se encontrou
em um tribunal. Em vez de cláusulas ecológicas no mercado mundial, o chefe da associa-
ção, Michael Fuchs, debatia com a ministra o problema de localização. Ela podia remover
a maquiagem de seu ‘protecionismo com roupagens verdes’, o plano para o tratamento de
resíduos deveria ser igualmente esquecido. ‘Nunca havíamos sido escovados publica-
mente pela economia’, reclamou um assessor. ‘Não se humilha os convidados’. Leva al-
gum tempo para se acostumar com o estilo grosseiro” […] (Der Spiegel 26, 1996).
Ainda se reconhece nesse esboço de meados dos anos 1990 algum desconforto, e
mesmo certa espécie de “indignação democrática” em relação à autonomia do capital
transnacional. Tal comoção é tão inútil quanto inapropriada, pois a democracia não é se-
não um evento que, em princípio, dançou sob o apito do “quarto poder” econômico, assim
como, na forma sujeito, o cidadão fora inerentemente criado como sujeito econômico capi-
talista e escravo do sistema do mercado de trabalho. A economia empresarial transnacio-
nal do capitalismo de crise torna esses fatos claros para todos e ainda restringe drastica -
mente os processos eleitorais democráticos, tornando-os quase desprovidos de sentido.
As “disputas políticas” ficaram, assim, deploravelmente esquálidas e chatas, uma vez que
a política, em antecipada obediência de uma economia nacional que “mendiga” ante a
economia empresarial transnacional, não pode mais formular qualquer alternativa, mesmo
na forma previamente podada pelo sistema.
Tal como a chamada política externa, a política não tem mais uma grande relevância, a
tensão social passou dos mercados financeiros e de seus atores para o circo midiático.
Tem fracassado miseravelmente toda tentativa de transformar a função e a esfera da po -
lítica em algo que vá para além da estrutura dos Estados-nacionais e conceber as respec-
tivas instâncias globais como contrapeso para a economia empresarial transnacional. O
papel da ONU, que não mais representa a soma de todos Estados-nações do mundo, se
tornou menor, e não maior. Nos últimos anos, nada tem sido mais ridículo que a retórica
de uma desarmada crítica social da intelligenzia esquerdista-verde de 68 sobre a assim
chamada “política interna do mundo” ou de uma “democratização” das instituições econô-
micas internacionais como o Banco Mundial ou o FMI. Depois que o governo “vermelho-
verde” assumiu o projeto, de todo modo pouco claro, de uma “reforma ecológico-social da
sociedade industrial” – da energia atômica à gestão de resíduos, passando pelos requisi -
tos legais de proteção ambiental -, se dissolveu não após um período legislativo, ou den -
tro de alguns meses, mas em umas poucas semanas. Sob o ditame da economia empre -
sarial transnacional, acelera-se de mês a mês a autodestrutiva corrida de concorrência
estatal e regional das “localizações” em todo tipo de dumping social, tributário e ecológico.
Uma “política interna mundial” pressupõe sempre, em todos os domínios, um “Estado
mundial”; e isso não é senão má utopia, pois os Estados, em sua própria essência, do
mesmo modo que as empresas capitalistas, só podem existir no plural. Um “Estado sem
fronteiras” seria uma contradição em si como o seria uma “economia empresarial social-
mente geral”. Acordos bilaterais e multilaterais entre instâncias concorrentes jamais po-
dem produzir, porém, um marco obrigatório para todos, uma meta-instância socialmente
geral (agora: socialmente mundial). Com a Terceira Revolução Industrial, macroeconomia
e microeconomia se tornam incompatíveis e desmoronam, do mesmo modo que (em suas
consequências lógicas) se comportam a economia empresarial e a política. A política, que
deve representar o todo, e confrontar a esfera da economia empresarial transnacional, de-
generou em um sujeito particular da concorrência; a economia empresarial, que represen-
ta os interesses empresariais particulares, atua agora em um nível mais elevado, como
“interesse geral” (em termos capitalistas e não em vista do interesse econômico-nacional
do Estado-nacional). Essa paradoxal reversão mostra claramente que não se trata aí de
uma nova estrutura com capacidade de reprodução, mas de uma ruptura da polaridade
estrutural entre mercado e Estado, economia e política, microeconomia e macroeconomia,
indivíduo e sociedade etc., que torna o capitalismo possível como um todo.
O sujeito burguês, em si mesmo esquizofrênico, que é constituído, por princípio, na
forma contraditória do “burgeois” (burguês) e do “citoyen” (cidadão), não pode mais, por
fim, integrar sua contraditória identidade de Doutor Jekyll e Senhor Hyde em uma “pessoa
total” razoavelmente viável. O indivíduo totalmente abstrato é “socialmente incapaz”, e o
“burguês” transnacional não é mais mediado pelo “citoyen” estatal-nacional. A “cisão da
personalidade” da ratio capitalista manifesta uma nova qualidade, que não pode encontrar
qualquer saída nas formas capitalistas.
O sujeito da economia empresarial transnacional, cada vez mais dissociado de sua ci-
dadania, não representa mais qualquer “progresso” capitalista. Essa última forma da “mo-
dernização” é, ao mesmo tempo, autodissolução e autodestruição da modernidade, como,
em muitos aspectos, desumanização, que está caindo atrás das sociedades arcaicas, e,
portanto, de seus próprios padrões civilizatórios. Por isso, a globalização não pode ser re-
clamada e apropriada por uma crítica social anticapitalista com algum “legado do progres -
so”; ela é o desmentido desse velho marxismo, que assume, em termos gerais, o constru-
to filosófico burguês do esclarecimento. Na globalização, o capitalismo não alça a qual-
quer novo estágio de desenvolvimento, mas leva uma vida aparente além dos limites de
sua própria vida; muito parecido com o “Woldemar” da história de Edgar Allan Poe, que foi
hipnotizado como moribundo e permaneceu desse modo, por muito tempo, no limite entre
a vida e a morte, até que, despertado do sono da hipnose, desintegrou instantaneamente
como massa informe de carne putrefata. Não são “cosmopolitas” alegres e joviais que atu-
am como atores da economia empresarial transnacional, mas antes fantasmas de um de-
senraizamento social irreal, que corresponde ao desenraizamento do capital monetário
eletronicamente simulado. “Os membros dessa nova classe de jogadores globais, na qual,
à propósito, se reúnem também acadêmicos jet-set e um certo grupo de atletas de elite,
especialistas midiáticos e artistas de entretenimentos, que se concentram principalmente
naquilo que Marc Auge chama de não-lugares do sistema de comunicação global: aero -
portos, cadeias de hotéis, áreas-VIP, supermercados duty-free e trens de alta velocidade.
O etnólogo fala de salas de transito, onde eles, familiarizados há tempos com as máqui-
nas automáticas e os cartões de crédito, seguem os gestos do trânsito silencioso. Como
um lugar é caracterizado pela identidade, relação e história, um espaço que é toda parte e
lugar algum e que se caracteriza por não ser nem relacional nem histórico é definido
como um não-lugar. Estruturalmente, uma World-Traveller-Suit, como minibar, Pay-
TV e Manager-Magazin ilustradas, não difere de um campo de refugiados segundos os
padrões estabelecidos pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados. Em
ambos os casos, trata-se de um domicílio provisório, que nos faz sentir sós, mas igual aos
outros. Um é somente luxuoso e o outro, abominável” (Bude 1995).
Não se pode falar de uma “cultura mundial” em tal contexto; pois cultura, mesmo a cul-
tura de massa capitalista, precisamente em seu entendimento como interpenetração re-
cíproca, como amalgama criativo e como criação de novas formas de expressão, está
sempre ligada à localização, à relação e à historicidade.
Nem o espaço social desacoplado da economia empresarial globalizada é ilimitado. Os
espaços de trânsito sem-lugar da economia empresarial transnacional que se encontra
em estrito isolamento do mundo realmente social, cultural e mesmo geográfico, atraves-
sam-no como as paisagens são cortadas pelas rodovias, cabos de fibra ótica, gasodutos
ou trechos de trens de alta velocidade. Assim como os vagabundos da miséria são rigoro-
samente encerrados em campos de asilos, de deportação ou de refugiados, os vagabun -
dos de luxo da economia empresarial globalizada vivem do mesmo modo em lugares
igualmente demarcados e salas quase que hermeticamente fechadas. Mas é precisamen -
te ai, onde se encontram os bloqueios entre a moribunda e dissolvente coerência do mun-
do da reprodução econômico-nacional e estatal-nacional, entre as regiões de colapso hor -
rendamente descivilizadas e os não-lugares da economia empresarial globalizada, que se
encontra um novo tipo de demarcação que é mais decisiva hoje do que em todas as fron-
teiras políticas anteriores. Por exemplo, em seu Future manifesto, o exegeta do Zeit-
geist pós-moderno e “trend researcher” Matthias Horx, que pretende sinalizar a “saída da
cultura da reclamação”, deixa claro o significado da “abertura cosmopolita”: “Qual é o qua-
dro de referência de nosso conceito de igualdade? O nosso confortável bem-estar nacio -
nal? Ou um planeta em que há um denso fluxo de mercadorias, ideias e trânsito, onde há
miséria (!), mas também vitalidade (!), criatividade e vontade de ascender? Temos de es-
colher em algum momento. Entre um modelo de igualdade, que, na melhor das hipóteses,
equivale a ‘autoprovincialização’ […] e um modelo aberto, mais contraditório, mas também
mais “honesto”, apenas em escala planetária […] Quem aceita a globalidade, deve reco-
nhecer que isso aumenta a desigualdade na sociedade. Se deixarmos os pobres no país,
eles podem também se tornar criminosos e execráveis (!). Ou nos superar […] Nossa cul-
tura e nossa sociedade pode se engajar em uma utopia (!), que vai de mãos dadas com a
perda da segurança e a ameaça de velhas reivindicações e implicações? […] Uma certa
quantidade de desigualdade ‘dinâmica’ é como um sopro de vento numa sala asfixiante
ou um fluxo de água fresca em uma lagoa estagnada” (Hox, 1999, 241).
A questão é saber que forma de nova demarcação é mais asquerosa: o chauvinismo
de bem-estar e o nacionalismo de deportação sinistramente xenófobo da “maioria silenci-
osa” reacionária ou a ideologia de terror econômica desse “novo centro” dos vencedores
da globalização. Deve-se permitir um ingresso rigorosamente dosado dos pobres das re-
giões devastadas de colapso da economia de mercado global apenas para forçar a acei -
tação social do “aumento da desigualdade”, inclusive a “miséria” como um fato natural, e
lançar as pessoas umas contra as outras como concorrentes de sua própria existência. O
que se advoga aqui é a “igualdade de oportunidade” da luta de gladiadores.
O que se festeja alegremente é a velha diferença entre o racismo coletivo europeu-
continental e o racismo individualista anglo-saxônico no contexto da globalização. Em am -
bos os casos, tanto o pressuposto quanto o resultado é a doutrina malthusiana de que,
medido por critérios capitalistas, há “pessoas demais”, e que é preciso haver uma seleção
existencial, que sempre traça novamente um intransponível cordão social.
Nem todos os filtros econômico-nacionais ou estatal-nacionais foram removidos, mas a
pressão da economia empresaria transnacional desregulamentada não para de aumentar.
A tagarelice dos políticos democráticos acerca da “falta de alternativas” de suas medidas
restritivas e antissociais mostra apenas que eles há muito tempo já chegaram ao fim com
o seu latim e que são impulsionados por poderes que se movem para além das institui -
ções burguesas. Visto de um modo superficial e, segundo a maneira tradicional, nas cate -
gorias meramente sociológicas (ao invés de críticas do sistema), parece que Estado e po-
lítica foram degradados a “garçons do capital” (Der Spiegel 26/1996). Mas assim apenas
se confirma o ponto de vista do antigo marxismo de que o Estado-nacional não é senão o
“comitê executivo da burguesia”. No entanto, no sentido de um sujeito-classe socialmente
coerente, essa “burguesia” não existe mais. Enquanto sujeito formal econômico capitalis-
ta, enquanto “homo oeconomicus” e “empresário de sua força de trabalho”, o “bourgeois”,
conforme o estrito conceito de proprietário do capital da totalidade dos membros da socie-
dade, inclusive dos assalariados, se volatizou. Até a Terceira Revolução Industrial se po-
deria ainda falar de Estado nacional como “capitalista total ideal” (Marx), se não da totali -
dade sociológica dos proprietários do capital, mas como a instância do sistema produtor
de mercadorias que sintetiza formalmente todos os sujeitos formais da economia. É preci-
samente essa função sistêmica que o Estado nacional perde na globalização como con-
sequência da Terceira Revolução Industrial. Ele não pode mais ser o “capitalista total ide-
al”.
É claro que esse desenvolvimento também se deixa descrever no nível sociológico: as
elites funcionais dividem-se mais uma vez em todos os níveis da reprodução capitalista
em uma dimensão nova e adicional. Pois as elites da economia empresarial transnacional
nem podem desenvolver um interesse econômico comum com o restante dos manage-
ments tradicionais centrados na economia nacional (nos antigos termos da sociologia de
classe: a “burguesia nacional”), nem sustentar um interesse político-estratégico comum
com a “classe política” nacional-estatal. O momento “estratégico” não apenas passou da
política para os mercados financeiros transnacionais, ele não produz mais nesse nível
qualquer instância sintetizadora [zusammenfassende], mas coincide imediatamente com o
cálculo microeconômico da economia empresarial, que opera agora para além de toda an-
tiga instância “sintetizadora”. Internamente, o Estado-nacional deixa de ser, enquanto ins -
tância reguladora, o “capitalista total ideal”, assim como deixa de ser o sujeito estratégico
externamente. “Interno” e “externo” não são mais claramente definíveis, uma vez que se
dissolve o sistema de referência dessas relações.
Isso significa também o fim do antigo imperialismo nacional, que já havia declinado na
era da “Pax Americana” ocidental após a Segunda Guerra Mundial; na medida em que o
caráter totalitário do capitalismo na fase tardia da Segunda Revolução Industrial havia
passado da política para a economia, recuava a luta dos Estados-nacionais pelo controle
de “zonas de influência”. Em vez disso, os Estados Unidos, com o apoio dos poderes se-
cundários ocidentais, assumiram o papel de “polícia mundial” em nome dos princípios ge-
rais capitalistas e (mesmo assim) de um mercado mundial “livre”. Na Terceira Revolução
Industrial, a globalização faz agora da luta dos Estados-nacionais pela “partilha do mun-
do” algo inteiramente anacrônico. O “capitalista total ideal” não é apenas excluído em sen-
tido econômico-social enquanto instância de agregação estratégica de interesses, mas é
o campo de referência das estratégias imperiais que deixa de existir em um mundo domi-
nado pela economia empresarial transnacional. Na esfera dissociada do “não-lugar”, a do-
minação territorial não faz mais sentido, seja qual for a sua forma. Onde os interesses es-
tratégicos microeconomicamente orientados só podem ainda existir estando “presentes”
em toda parte e em lugar algum, o mundo territorial deixa de ser um objeto estratégico
para se tornar um mero local no qual as cenas se desenrolam.
Evidentemente, enquanto provedor de serviços da economia empresarial transnacio-
nal, os Estados-nacionais são adequados apenas de forma condicional e temporária. Uma
vez que, nesse desenvolvimento, os dois polos da socialização capitalista em crise colap-
sam em todos os níveis e dimensões, não podem mais ser reunidos em um mesmo deno-
minador, tornando obsoleta a ideia de um papel novo e duradouramente reduzido do Es -
tado-nação como “novo Estado-comercial” (Rosecrance 1987) ou “Estado de concorrência
nacional” (Hirsch 1995). Tal conceituação continua inserida no interior de uma mudança
estrutural do capitalismo ou de um processo de transformação tomado como uma nova
etapa de desenvolvimento de uma “eterna modernização”, enquanto, na verdade, há mui-
to tempo se trata de uma crise categorial da forma social capitalista enquanto tal, que
marca o fim definitivo da “modernização”. Nesse sentido, a economia empresarial transna-
cional não constitui, nem em sentido sociológico nem em sentido estrutural, uma nova ins-
tância de poder econômico, que representa uma outra era da história capitalista e que
apenas subordina o Estado-nacional de um outro modo. A globalização é antes uma for -
ma de manifestação da própria crise, e os “tomadores de decisão” das elites funcionais
transnacionais dissociadas e sem-lugar são eles próprios dirigidos.
É visível que o esforço estatal de gestão de crise na concorrência de “localizações” na-
cionais restringe-se às infraestruturas e outras condições estruturais, de forma pontual e
“insular”, requeridas pelo capital globalizado, enquanto nas partes desoladas e economi-
camente dissociadas de cada território, as mesmas, da água à polícia, sofrem um proces-
so de abandono. Os espaços nacionais se decompõem em regiões (ainda) acopladas e
regiões-párias, onde se agravam os velhos e novos desníveis de desenvolvimento. Tam -
bém é visível o esforço do “Leviatã democrático unido”, sob a direção da “polícia mundial”
dos Estados Unidos com ações militares conjuntas para conter as guerras civis que irrom-
pem em todas as regiões de colapso. Não se trata mais de “zonas de influência” ao velho
estilo, mas de uma espécie de “imperialismo de segurança”; o objetivo não é a conquista
e sim a “tranquilização”, para que os circuitos da economia empresarial não sejam pertur-
bados.
Mas os Estados-nacionais estão cada vez menos aptos para todas essas demandas. O
capital globalizado, para o qual eles devem servir, retira com ferocidade crescente os mei-
os necessários de suas mãos, enquanto, ao mesmo tempo, os pontos problemáticos se
multiplicam a passos largos. A cada novo colapso financeiro, se aproxima o fim da econo-
mia monetária, que, por suposto, em última análise, também tomará o espaço transnacio-
nal sem-lugar do capital. E a economia empresarial industrial global, com suas dispersas
ilhas de produtividade, certamente não opera em um novo nível viável, mas seu próprio
espaço de manobra se reduz a cada impulso da globalização. A concentração sem prece-
dentes de capital, que foi forjada nos espaços transnacionais no curso da “fuga para fren-
te” da economia empresarial, anuncia um canibalismo econômico no mercado mundial
sem regulação. Os supostos novos senhores do mundo, em sua caça pelo decrescente
poder de compra global e pela rentabilidade, podem apenas se devorar mutuamente e,
desse modo, destruir as “sobrecapacidades” econômicas reais, fazendo desaparecer des-
te mundo os últimos vestígios da “normalidade” capitalista.

Robert Kurz (1943-2012), viveu em Nuremberg como publicista autônomo. Foi fundador e
editor da revista teórica Exit! Crise e Crítica da sociedade da mercadoria.
Capítulo do Schwarzbuch Kapitalismus [Livro negro do capitalismo], 1999. Livros
Tradução André Villar Gomez
Fonte: https://blogdaconsequencia.com/2018/11/05/o-fim-da-economia-nacional/
http://www.obeco-online.org/
http://www.exit-online.org/

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