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Poesia- Fernando Pessoa Ortónimo

Não sei, ama, onde era,

Não sei, ama, onde era,


Nunca o saberei...
Sei que era Primavera
E o jardim do rei...
(Filha, quem o soubera!...).

Que azul tão azul tinha


Ali o azul do céu!
Se eu não era a rainha,
Porque era tudo meu?
(Filha, quem o adivinha?).

E o jardim tinha flores


De que não me sei lembrar...
Flores de tantas cores...
Penso e fico a chorar...
(Filha, os sonhos são dores...).

Qualquer dia viria


Qualquer coisa a fazer
Toda aquela alegria
Mais alegria nascer
(Filha, o resto é morrer...).

Conta-me contos, ama...


Todos os contos são
Esse dia, e jardim e a dama
Que eu fui nessa solidão...

1. Este poema apresenta características dramáticas e narrativas


1.1. Identifica os intervenientes no diálogo.
1.2. Caracteriza o espaço e o tempo evocados, recorrendo a passagens do poema.
2. Caracteriza a simbologia do “jardim” e da “ama”.
3. Comenta cada uma das quatro intervenções da ama.
4. Interpreta o recurso, nas três primeiras estrofes, ao pretérito imperfeito do indicativo.
5. Tendo em conta que um dos valores do condicional é a expressão da incerteza (probalidade, dúvida,
suposição) sobre factos passados, esclarece o sentido da quarta estrofe.
6. Prova que, apesar de todos os conselhos da ama, o sujeito poético não desiste.
7. As reticências têm grande destaque neste poema. Comenta a sua utilização, evidenciando os diversos
sentidos que este sinal de pontuação adquire nos contextos em que aparece.
8. Evidencia as características de Fernando Pessoa que encontras neste poema.

(Entre Margens)

O poema que se inicia com a abertura "Não sei, ama, onde era", é um poema ortónimo de Fernando Pessoa,
datado de 23 de Maio de 1916.
Trata-se de um diálogo entre uma senhora nobre (uma princesa?) e a sua ama. Claro que é um diálogo
imaginado, e quase se diria que um diálogo influenciado pelo então recém-falecido amigo Mário de Sá-
Carneiro (falecera em Abril de 1916, em Paris). Tanto Sá-Carneiro como Pessoa guardavam imagens das
suas amas. Veja-se por exemplo a seguinte passagem:
"Tenho frio de mais. Estou tão cansado no meu abandono. Vai buscar, O Vento, a minha Mãe. Leva-me na
Noite para a casa que não conheci. Torna a dar-me ó Silêncio imenso, a minha ama e o meu berço e a minha
canção com que dormia..."
Vemos que neste poema, Pessoa usa de um tom similar, e usa a mesma imagem poética da ama e da
princesa. Será a mera recordação de uma história contada na infância pela tal ama? Não o sabemos, mas é
o que parece. Aliás, será essa história que Pessoa depois parece contar para si mesmo, reproduzindo essa
mesma memória de infância, que o faz regressar.
Uma princesa, num Jardim de Primavera, olha o céu azul e pressente que está tudo bem com o mundo (o
uso do imperfeito do indicativo nestas referências, jardim, céu jardim e flores parece indicarem um desejo de
continuidade do passado no presente). A cena é de incrível serenidade, como convém numa história que se
conta a uma criança. O jardim está cheio de flores e toda a cena faz Pessoa chorar apenas por imaginá-la,
porque é uma cena ideal, que não pode ser real (veja-se que é isso mesmo que a ama lhe indica, que "os
sonhos são dores"). Os contos que a ama lhe contava eram isso mesmo, cenas ideais, que se opõem ao que
era para ele então a sua realidade presente. A interpelação final que ele faz à ama, pedindo-lhe: "Conta-me
contos, ama...", é quase um pedido de ajuda, para ele conseguir fugir ao presente, para se refugiar nesse
passado de criança, onde tudo era mais fácil, mais simples, onde ele se poderia imaginar nesse jardim
abandonado, sem problemas, sem preocupações.
A imagem do jardim e da "dama" é uma imagem tão ideal que Pessoa diz mesmo que "todos os contos são /
Esse dia, e jardim e a dama / Que eu fui nessa solidão...".
Claramente o poema pode resumir-se como sendo um dos poemas ortónimos que se insere no tema do
regresso à infância. A negatividade, o não acreditar no presente, a reflexão dura sobre esse mesmo presente
e a colocação da infância num pedestal inalcançável - são tudo marcas indeléveis dessa poesia ortónima,
que encontramos neste poema. Uma poesia que prefere o sonho à realidade, que prefere a reflexão sobre o
passado à constatação cruel do presente
O poema é composto por 24 versos agrupados em 5 estrofes. Estas estrofes são quintilhas apenas a ultima
é quadra. Os versos são redondilhas maiores pois tem 7 silabas métricas. A rima é cruzada em todo o poema.

O Menino de Sua Mãe


No plano abandonado

Que a morna brisa aquece,

De balas trespassado

— Duas, de lado a lado —,

Jaz morto e arrefece.

Raia-lhe a farda o sangue.

De braços estendidos,

Alvo, louro, exangue,

Fita com olhar langue

E cego os céus perdidos.

Tão jovem! que jovem era!

(Agora que idade tem?)

Filho único, a mãe lhe dera

Um nome e o mantivera:

«O menino da sua mãe».

Caiu-lhe da algibeira

A cigarreira breve.

Dera-lha a mãe. Está inteira

E boa a cigarreira.
Ele é que já não serve.

De outra algibeira, alada

Ponta a roçar o solo,

A brancura embainhada

De um lenço... Deu-lho a criada

Velha que o trouxe ao colo.

Lá longe, em casa, há a prece:

«Que volte cedo, e bem!»

(Malhas que o império tece!)

Jaz morto, e apodrece,

O menino da sua mãe.

1. Divide o poema em três partes lógicas e sintetiza o conteúdo de cada uma delas.
2. Transcreve três palavras e/ou expressões que remetam para a atividade exercida pelo elemento
humano aí descrito.
3. Identifica três adjetivos que descrevam o jovem, motivo central do poema.
4. Entre os versos 2 e 5 da primeira estrofe estabelece-se uma antítese. Explicite um dos sentimentos
que essa figura de estilo pode despertar.
5. Indica três palavras que estejam semanticamente relacionadas com a morte.
6. Refere os elementos que conferem a este poema um carácter narrativo.
7. Faz o levantamento dos principais recursos linguísticos que conferem ao poema um tom emotivo e
justifica a tua resposta.
8. Explica o valor simbólico da “cigarreira” (v.17) e do “lenço” (v.24)
9. Explicita o valor expressivo da hipálage do verso 17.
10. Justifica o uso alternado do presente do indicativo, do pretérito imperfeito do indicativo, do pretérito
mais-que-perfeito do indicativo.
11. Do verso 5 (“jaz morto, e arrefece”) para o verso 29 (“Jaz morto, e apodrece”), a natureza trágica do
acontecimento evolui até atingir o seu clímax. Justifica esta afirmação.
12. Relê a última estrofe. De entre as propostas que se seguem, escolhe as hipóteses da coluna B que
completam o sentido da coluna A.
A. B.
1. O contraste entre as expetativas da a. …transmite uma ideia de ternura e,
“mãe” e da “ama” e a realidade… simultaneamente, contribui para
2. A mensagem do poema… acentuar um sentimento de revolta e
3. A utilização de parênteses… de injustiça.
4. O facto de o último verso terminar b. … acentua o dramatismo do poema.
com a expressão “O menino da sua c. … constitui um comentário àquilo que é
mãe”… afirmado.

Entre Margens, página 43

A Expressividade do Título:

O título expressa aquilo que o poema quer transmitir, um soldado que morre pela pátria mas que, para
sempre será o «menino da sua mãe». Pode relacionar-se o título à vida de Fernando Pessoa que sabe ser
impossível o regresso ao conforto maternal, devido à infância perdida. Esta ideia relaciona-se com a
temática pessoana “a nostalgia da infância”.
Fernando Pessoa agora consciente, tem consciência que em criança era inconscientemente feliz,
inocente, apenas já não pode viver toda essa inocência/felicidade, toda essa época de ouro, uma vez que
esta se trata agora de uma memória. Essa memória provoca-lhe uma certa saudade, nostalgia, brotando
assim no sujeito poético a sensação de desconhecimento de si próprio, ou seja, a perda de identidade.
O poema divide-se em 3 partes:
1º Momento
Descrição realista do cenário – a planície e o soldado
O cenário descrito é uma planície abandonada «Que a morna brisa aquece», onde jaz um cadáver de um
jovem. Ou seja, é transfigurada uma situação de extrema solidão, onde está abandonado um cadáver de
um jovem soldado. A figura do cadáver deste jovem vai sendo ao longo do 1º momento, sugerida e
caracterizada progressivamente, como se pode verificar nestes versos «De balas trespassado», «Alvo,
louro, enxague». Ao identificarmos aquele jovem que «Jaz morto, e arrefece» como «menino de sua mãe»
é incutir à situação um enorme dramatismo. Não há nada mais dramático e triste, que um filho morto, e
ainda por cima, longe do colo de sua mãe. Filho que não tem nome, e que será sempre o «menino» de
sua mãe.
O poema «menino de sua mãe» é no fundo a descrição extremamente dramática de um jovem soldado
que morreu a lutar pela pátria, longe de casa, longe de tudo, longe de sua mãe. Pode ver-se na figura do
jovem morto, a representação de Fernando Pessoa, que tal como o jovem «menino», o regresso ao colo
de sua mãe, à infância é impossível.
Valor expressivo do presente do indicativo
O poeta ao compor/escrever tem duas dores, sentimentos, que este sente no momento da escrita, ou
seja, a sua dor própria, e a dor que o sujeito poético apresenta. Por outro lado, o leitor apresente as
dores/sentimentos antes da leitura e do conhecimento da obra e uma outra após a leitura. Desta forma,
ao usar o presente do indicativo do verbo, permite ao leitor ter uma “dor” mais próxima de ti pois sente
o que o próprio sujeito poético transmite, sentindo-a assim como sua.
Adjetivação descritiva forte

No primeiro momento do poema (primeiras duas estrofes), podemos observar que a utilização de
adjetivos por parte do sujeito lírico é bastante frequente. «abandonado», «morna», «traspassado»,
«morto», «estendidos», «Alvo», «louro», «exangue», «langue», «cego» e «perdidos» são os adjetivos
utilizados em apenas duas estrofes, o que nos dá logo uma ideia de como e densa a adjetivação. Contudo,
os objetos que estão a ser caracterizados não são sempre os mesmos.
Esta primeira parte do poema serve apenas para uma descrição intensiva do cenário onde se encontra o
jovem morto, remetendo para conceitos como a solidão, abandono, tristeza, e, sobretudo, para a ideia
de perda.
A circunstância de morte e descrita minuciosamente, onde podemos constatar nos versos «brisa morna»
e «jaz, morto e arrefece», recorrendo de uma antítese para contrastar as diferenças de temperatura do
cadáver.
É ainda de notar, que, a pontuação utilizada nas duas primeiras estrofes são os pontos e as vírgulas, o que
nos permite afirmar que esta parte do poema e meramente descritiva: porque a função do ponto é a de
expressar uma ideia da qual se tem uma certeza.
2º Momento
Discurso emotivo e valorativo
O discurso Emotivo/Valorativo, pode ser verificado pela utilização do ponto de exclamação como por
exemplo no primeiro verso da 3ª quintilha “Tão jovem!”, o ponto de exclamação usa-se no final de
qualquer frase que exprime sentimentos, emoções, dor, ironia e surpresa.
Neste caso é também utilizado para fazer enfâse do quão jovem ele era.
Frases exclamativas, interrogação retórica, uso dos parênteses e das reticências
As frases exclamativas em “Tão jovem! Que jovem era!” servem para reforçar a efemeridade da vida do
menino, ou seja, o quão curta foi a vida do menino que morreu tão jovem na guerra.
Os parênteses servem como um aparte do poema, como um pensamento que o sujeito poético transmite
ao leitor sendo a sua opinião pessoal, como podemos observar em “(Malhas que o império tece!)” ou
“(Agora que idade têm?). Esta última inclui também uma pergunta retórica que chama a atenção do leitor
para o quão novo era o jovem que foi para a guerra que já não tem noção de quanto tempo passou.
As reticências são usadas como uma suspensão do pensamento, para reflexão, demonstrando desta
forma também, a emoção.
Simbologia da cigarreira e do lenço
A expressão «menino de sua mãe» é muitas vezes utilizada para representar a inocência de uma criança
e o apoio maternal que este ainda possui, pois onde podemos sempre contar com carinho e suporte é
nos laços maternais. Contudo, este menino que é descrito em todo o poema não e mais uma criança. Esta
expressão utilizada pelo narrador serve para enfatizar a existência dessa afetividade entre o jovem e as
pessoas que o criaram, que, mesmo não sendo criança, ainda era muito novo.
É por esta razão, pelos afetos que ainda existiam com a sua mãe e criada, que entram dois elementos
fundamentais neste poema: a ”cigarreira” e o “lenço”. A cigarreira foi-lhe dada pela mãe e o lenço pela
criada. É com esta simbologia que o sujeito poético consegue fazer desvinculação familiar entre o soldado,
a mãe e a ama, pois como e evidenciado no poema, tanto a “cigarreira” como o “lenço” caem-lhe do
bolso, ou seja, separam.se dele.
Tanto o adjetivo «breve» como a expressão «Está inteira», querem significar que o jovem morreu
prematuramente, um tempo de vida curto, pois ainda nem sequer tinha sido utilizada, e o adjetivo breve
significa «curto».
Passando para a parte do lenço, ela remete para a criada e não para a sua mãe, mas a ideia da separação
está na mesma incutida.

Valor expressivo da hipálage

As hipálages neste poema são notáveis nos versos “A cigarreira breve” e em “A brancura embainhada”.
Sabemos então que a hipálage a figura de estilo definida pela inversão de sentido em que se transfere
para uma palavra uma característica que, na realidade, pertence a outra. Desta forma, “A cigarreira
breve” significa a brevidade da vida do menino que não tem tempo de vida suficiente para chegar a usar
a cigarreira que a mãe lhe deu pois morreu na guerra. Quanto a “A brancura embainhada” têm a ver com
o lenço bordado pela criada/velha que criou o menino que foi depois obrigado a ir para guerra.
Alternância entre o Presente e o passado:
No segundo momento do poema, existe uma intermitência entre o presente e o passado:
«Caiu-lhe da algibeira
A cigarreira breve.
Dera-lhe a mãe. Está inteira.
E boa a cigarreira
Ele é que já não serve.»
«Da outra algibeira, alada
Ponta a roçar o solo,
A brancura embainhada
De um lenço… Deu-lho a criada
Velha que o trouxe ao colo.

Primeiramente começa por utilizar o presente para relatar a ação, e utiliza depois o passado para voltar
atrás no tempo, e recordar os únicos momentos em que o “menino” alguma vez fora feliz. (Momento em
que a Mãe lhe oferecera a cigarreira; Momento em que a criada lhe oferecera o lenço branco)
3º Momento
Dramatismo criado pelo desfasamento entre a realidade e as expectativas expressas na prece da mãe
e da criada
No início da última estrofe são mostradas preces criadas pela Mãe do jovem e pela Criada, contudo, estas
Preces não iriam corresponder à Realidade, pois as preces seriam “Que volte cedo, e bem!”, e a realidade
era que ele não voltaria cedo (pois nem voltaria), nem bem sendo que já estava morto!
Identificação da responsabilidade da tragédia e intemporalidade da mensagem sugeridas pelo verso 28
Já próximo do final do poema, o narrador atribui a culpa de todo o sucedido aos governantes, que estão
representados no poema como o «Império», no verso 28 «Malhas que o Império tece!».
É de reparar que o verso acaba comum ponto de exclamação, sendo por isso reconhecido por transmitir
a emoção e a dor do narrador. É feita ainda uma analogia entre o soldado e o império, pois tal como o
corpo que jaz morto e apodrece, assim era também a situação do nosso império que se encontrava numa
fase de degradação.
Intensificação, no verso 29, do realismo contido no verso 5 pela substituição do verbo “arrefece” por
“apodrece”
Primeiro que tudo é de notar que o verbo arrefece nos remete para um corpo morto, ainda quente mas
que devido à morte, ia arrefecendo lentamente e que o verbo apodrece já indica o inicio da decomposição
desse mesmo corpo, e esta substituição mostra-nos o contraste entre o que a guerra trás de mau, e a
única coisa que a guerra nos trás de bom.
O que a guerra nos trás de mau, é a morte como é óbvio, e após a morte a única coisa boa que resta será
a decomposição do corpo.