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Cada filósofo produz a filosofia que lhe cabe.

Por isso, a filosofia tende sempre a dois caminhos


opostos: uma acredita na universalidade e outra, na relatividade do bem. A estes dois,
digamos, tipos de filosofia, correspondem dois perfis de filósofos: os que defendem a
relatividade do bem e do mal são sujeitos que levam a vida com alguma dose relevante de
casualidade, livremente, avessos às punições e controles de qualquer espécie; os que arrogam
a universalidade do bem e do mal tendem a ser sujeitos mais controlados, temerosos das
adversidades futuras, precavidos, e dão demasiada importância a questões de segurança.
Dentro desses dois polos existe, evidentemente, um vasto espectro de variações.

Um policial, disfarçado, frequentou por um tempo a casa de Marx e relatou que este não tinha
hora para dormir nem para comer, que às vezes passava noites em claro lendo e escrevendo e
à tarde dormia no sofá da sala enquanto muita gente ia e vinha todo o tempo sem perturbar o
seu sono. Um indivíduo que, como ele, passou miséria a maior parte da vida e mesmo assim
jamais procurou se tornar um trabalhador assalariado, e que, além disso, dedicava a maior
parte do seu tempo ao trabalho que lhe dava prazer (os estudos e a política), apesar das
péssimas condições, sem perder a confiança no valor daquilo que fazia, só podia ter inventado
uma filosofia cujo valor universal fosse a plena liberdade relativa de cada um poder fazer o que
bem lhe sirva para estimular suas capacidades criativas. Por isso, a melhor definição de uma
sociedade comunista é aquela segundo a qual os seus cidadãos, caso assim o desejem, podem
pesquisar a cura do vírus da AIDS pela manhã, caçar rãs à tarde e escrever uma epopeia à
noite.

Reza a lenda que o glorioso Platão, quando jovem, queimou todas as suas tragédias e
abandonou uma promissora carreira na poesia para dedicar-se à filosofia. A partir de então,
nunca mais deixou de opor a imaginação ao intelecto, a ficção à verdade. Conta-se também
que ele nunca teve que se preocupar com dinheiro, pois era de família rica e herdou o
sustento até para mais de uma vida. Assim, em vida, ocupou-se mais de garantir o que tinha e
legou para a pós-morte a conquista do que vivo jamais poderia obter: a certeza do que são as
coisas. Sua República representa uma sociedade imóvel, dividida em castas rígidas, definidas
por formas universais, sustentada na base por escravos que, naturalmente, deveriam suprir as
necessidades de uma casta de poucos filósofos ocupados apenas em legislar. É claro que, em
uma sociedade assim, os filósofos é que deveriam ser chamados de escravos, pois, a fim de
manter a ordem das coisas, não teriam nenhuma liberdade de pensar, enquanto que, entre os
escravos, de fato, poder-se-ia surgir filósofos, pois apenas quem não tem nada a perder e nada
a controlar pode fruir da verdadeira liberdade de pensar.

Espinosa, que viveu sem dever nada a ninguém, disse que cada um deseja para os outros
aquilo que julga bom para si. Psicologia simples e impecável. Ciente disso, pôs-se a buscar uma
filosofia que desvendasse o caminho pelo qual alguém, sempre que desejasse algo, pudesse
fazê-lo igualmente desejável a todos, e chegou à conclusão de que o objeto de tal desejo
deveria ser sempre tão acessível quanto gratuito a todos. Dito de outra maneira, quis ele dizer,
através de argumentos e belas demonstrações, que o melhor é dedicar-se com alegria à
própria vida e deixar o vizinho igualmente viver a sua. Provavelmente ele sabia que sua
filosofia não iria nunca se alastrar mundo afora e que em todo lugar vizinhos estarão sempre à
espreita para roubar o sossego do próximo; o que fez, então, ao escrever a sua Ética, foi
encontrar um jeito de convencer-se de que estava certo em viver à sua própria maneira e em
não sentir culpa por isso, apesar de todas as exigências e recriminações contrárias de todos os
lados.

Após a morte de Espinosa, um certo Colerus entrevistou aqueles com quem o filósofo
conviveu, com o objetivo de poder divulgar a torto e a direito a personalidade demoníaca do
ex-judeu, na forma de uma biografia verídica. Feitas as entrevistas, ele de fato escreveu um
livrinho contendo vários dados sobre o modo de vida e sobre a personalidade de Espinosa,
sem deixar de avisar o leitor, na introdução, do quão detestável era o sujeito objeto de sua
atenção. Felizmente, esse Colerus era um homem de reais boas intenções, fiel à tarefa que se
impôs, e acabou por nos legar, em total contradição à sua opinião inicial, o retrato de um
homem simples, amigável, tranquilo, amado e feliz.

A maior parte dos filósofos defensores da liberdade irrestrita era pobre: Epicuro, Bruno,
Espinosa, Marx... Filósofos abastados tendem a enxergar a vida de cima e se preocupam
demais com a limpeza dos pés, e se tivessem o poder de arrancá-los sem que lhes fizessem
falta, não pensariam duas vezes, pois têm o luxo de desprezar a terra que nunca deixará de ser
propriedade sua.

O bispo Berkeley não hesitou em privar de matéria a realidade inteira a fim de encontrar
matéria para a sua filosofia – no fim das contas, tudo o que ele queria, era ser percebido.

No mínimo, é de se desconfiar o fato de que todas as aparições de Maria tenham ocorrido


entre aquelas pessoas que Marx chamava de “lupemproletariado”. Se deles não se pode
esperar nenhuma contribuição para as ações revolucionárias, ao contrário, muito eles podem
contribuir para a conservação da Igreja, já que perpetuam a crença de que a miséria é sagrada
e a fome, o caminho para a salvação. Por isso, deve-se considerar que o jejum voluntário dos
padres, em vez de ser um exemplo de virtude, é, em realidade, um luxo, ao lado das privações
involuntárias dos famintos.

Antes um pássaro voando do que dois na mão.