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SEXTA-FEIRA, 15 DE OUTUBRO DE 2010 O ESTADO DE S. PAULO

ELEIÇÕES 2010. Diplomacia

Llosa vê ação ‘esquizofrênica’ de Lula


Prêmio Nobel de Literatura, escritor peruano lamenta que presidente ‘não tenha uma política internacional equivalente’ às realizações internas
Na primeira visita que faz ao Brasil “é visto como um exem- comentou. “Como vai legitimar der cubano Raul Castro, no exa- tinente “comece a recuperar o trou em sua vida, na semana pas-
Brasil depois de escolhido co- plo a ser seguido”. O presidente um tirano assassino que repre- to momento em que um dissi- tempo perdido”. Mas deixa uma sada.Disseterrecebidoumaliga-
mo o Prêmio Nobel de Litera- brasileiro, segundo ele, “teve senta uma forma anacrônica de dente, Orlando Zapata, morria advertência: “não se pode cair na ção – que imaginou, de início, ser
tura de 2010, o escritor perua- uma evolução notável” na políti- fanatismo?” Para Vargas Llosa, em greve de fome. “Por que um ingenuidade, porque pode haver um simples trote – anunciando
noMarioVargasLlosa,colabo- ca interna. “Há no Brasil um de- “há razões políticas, geopolíti- democrata no Brasil vai abraçar volta”. sua escolha e uma voz dizendo
rador do Estado, definiu co- senvolvimento que impressiona cas, mas não há razão ética ou um ditador repelente como o sr. que isso lhe seria oficialmente
mo “esquizofrênica” a condu- o mundo inteiro, conduzido por moral que justifique esse tipo de Castro no mesmo momento em Como zumbi. Antes da palestra comunicado dali a 14 minutos.
ta do presidente Luiz Inácio posições democráticas admirá- esquizofrenia na conduta de um que está morrendo um dissiden- de ontem, em Porto Alegre, o es- “Foram 14 minutos de ansieda-
Lula da Silva e lamentou que veis”. O Nobel ainda elogiou o governante.” te?”, cobrou ele. critor voltou a encontrar jorna- de”, resumiu, durante os quais
ele “não tenha uma política in- presidente brasileiro por ter res- Vargas Llosa falou ainda sobre listas e falar principalmente do sentiu-se “como um zumbi”.
ternacional equivalente” às peitado a democracia e aplicado ‘Desconcertado’. Às vésperas a situação da América Latina, re- modo como o Prêmio Nobel en- “Como se outras forças condu-
realizações internas. na economia fórmulas da social- de lançar no Brasil um novo li- gião que, segundo ele, evoluiu zissem meus movimentos.”
Vargas Llosa falou de política democracia. vro, O Sonho do Celta, o autor pe- bastante nos últimos anos, e na Depois de afirmar que buscou
e de literatura em São Paulo, Mas lamentou, segundo o site ruano, de 74 anos, falou também qual se registrou uma consolida- ● Outra vida aliteratura como forma deinter-
numencontrocom funcionários da BBC Brasil, que Lula “não te- de outros temas que lhe são ca- ção da democracia. “Hoje só te- Premiado com o Nobel, o escritor vir nas mudanças sociais, disse
da Editora Abril, antes de viajar nha uma política internacional ros–Cuba,odesmontedocomu- mos uma semiditadura, a de Hu- Vargas Llosa diz que sua vida ter mudado sua percepção. “Vi
para Porto Alegre, onde era con- equivalente” – referência à apro- nismo, o liberalismo, a literatu- go Chávez, que foi derrotada nas não será a mesma. “Minha priva- que a realidade não confirmava
vidado do seminário Fronteiras ximaçãoentreopresidentebrasi- ra. Disse sentir-se “desconcerta- últimaseleiçõesetem umfracas- cidade vai diminuir, terei dificul- essa possibilidade. A literatura
do Pensamento. Na palestra de leiro e o iraniano Mahmoud Ah- do, entristecido e indignado” so econômico enorme”. Esses dades de me isolar, o que é ne- tem efeito, mas é um efeito indi-
São Paulo, conduzida por Ricar- madinejad. “Lá estão atirando coma decisãodo presidentebra- avanços, diz o novo Nobel sul- cessário para escrever”, disse reto e que não pode ser controla-
do Setti, o escritor disse que o pedras em mulheres adúlteras”, sileiro de encontrar-se com o lí- americano,permitem que o con- do pelo escritor.”

ENTREVISTA

Mario Vargas Llosa, Prêmio Nobel de Literatura em 2010


JEFFERSON BERNARDES/AFP

‘Continente
consolidou
as democracias’
Com exceção de Venezuela QUEM É
e Cuba, América Latina teve
desenvolvimento político ✽ Jorge Mario Vargas Llosa,
extraordinário nos últimos escritor, jornalista, ensaísta e
30 anos, diz escritor peruano político peruano. Escreveu
mais de 30 romances, peças
Wálmaro Paz de teatro e ensaios. Recebeu
ESPECIAL PARA O ESTADO o prêmio pela “cartografia
PORTO ALEGRE das estruturas do poder e
mordazes imagens da resis-
Prêmio Nobel de Literatura des- tência, da rebelião e derrota
te ano, o escritor peruano Ma- do indivíduo”
rio Vargas Llosa afirmou ontem
em entrevista coletiva que a
América Latina teve um desen- uma forma partidária sobre es-
volvimento político extraordi- tas eleições.
nário nos últimos 30 anos.
“Houve uma consolidação das ● Seu fazer literário deve mudar
democracias no continente ape- depois do Nobel?
sar de ainda permanecer a dita- Não creio que o prêmio tenha
dura cubana dos irmãos Castro, influência sobre isso. Minha for-
a tentativa de ditadura da Vene- ma de escrever não vai melho-
zuela capitaneada por Hugo rar nem piorar por causa do No-
Chávez e os governos autoritá- bel. Tampouco vão mudar os te-
rios da Bolívia e da Nicarágua”, mas, que fazem parte da expe-
argumentou ele, em Porto Ale- riência de um escritor. Todos
gre, pouco antes de apresentar eles nascem de certas experiên-
sua palestra na Universidade Fe- cias chaves. As técnicas que uti-
deral do Rio Grande do Sul no lizo para narrar já fazem parte
ciclo anual de conferências do que sou. Mas a minha vida
Fronteiras do Pensamento. será um pouco alterada por cau-
sa da curiosidade, da falta da
● Quando o senhor recebeu o privacidade e da impossibilida-
Nobel disse que parou de pen- de de isolar-me.
sar. Por quê?
Recebi a chamada, esperei 14 ● Como o senhor analisa a políti- Populismo. ‘O caso da Argentina me parece um caso muito triste. Me dá muita pena’, afirmou o escritor Mario Vargas Llosa
minutos e a notícia se fez públi- ca dos governos latino-america-
ca. Às 6 horas da manhã, em nos, em grande parte de esquer- temos uma direita democráti- ● Por que o o senhor tem feito mãos do casal Kirchner. Paro das na vida, mas creio que seja
Nova York, minha casa havia si- da, e como avalia o governo ar- ca. Uma direita que não usa o críticas ao governo argentino? por aí... de forma indireta, através das
do invadida por 20 pessoas des- gentino? golpe de estado militar, que O caso da Argentina me parece consciências da sensibilidade
conhecidas, com câmeras, que Creio que na América Latina, se mantém a legalidade institucio- muito triste. Me dá muita pena. ● Suas ideias sobre política mu- que ajuda a formar. Mas de uma
me entrevistavam. Não tive a comparamos com o passado, nal no Chile, Peru e Colômbia. Hoje ninguém recorda que a Ar- dam, mas sobre a literatura o forma imprevisível que não se
tempo de pensar com essa inva- há um progresso considerável. São casos muito positivos por- gentina foi um país desenvolvi- senhor ainda pensa da mesma pode planificar nem programar.
são tão terrível dos meios de co- Quando eu era jovem a Améri- que, se queremos ter uma de- do na mesma época em que to- maneira que na sua juventude? Uma pessoa não pode afirmar
municação em minha vida. O ca Latina estava cheia de ditadu- mocracia arraigada, necessita- da a América Latina era subde- Seguramente minhas ideias mu- que escrevendo desta ou daque-
Nobel desperta uma curiosida- ras de um extremo a outro. O mos que existam esquerda e di- senvolvida. Ninguém mais se daram. Por exemplo, nos anos la maneira vai conseguir provo-
de frívola. O ganhador do prê- que havia era ditadura militar. reita democráticas. lembra que a Argentina foi um 50 quando estava na universida- car mudanças na sociedade. A li-
mio perde completamente a pri- Os governos civis e democráti- dos primeiros países do mundo de, seguia as teses de Sartre, so- teratura tem um efeito sobre a
vacidade, se converte em uma cos eram exceção à regra: Costa ● Quais são os problemas que o que acabou com o analfabetis- bre a literatura comprometida. sociedade. Um efeito que não é
figura pública, condicionado Rica, Chile, Uruguai e não havia senhor vê para esses governos? mo. A Argentina teve um siste- Fui seduzido pela ideia de que a dominado pelo escritor, mas
por forças que não controla. A muitos mais. Nesse sentido te- Sou muito otimista, mas ainda ma de educação que foi modelo literatura poderia ser um instru- provoca um desassossego, uma
pessoa se converte num zumbi, mos um progresso considerá- há muitos problemas. A cor- para o mundo. Se tivesse segui- mento para transformar a socie- espécie de mal-estar, e sempre
uma espécie de autômato que vel. Hoje temos poucas ditadu- rupção é uma praga que se es- do esse rumo, seria hoje um dade. O ensaio de Sartre, cha- resulta em atitude crítica. Creio
atua por movimentos determi- ras. Além de Cuba, há uma semi- tende por todo o continente. dos países mais avançados do mado O que é a Literatura, im- que a literatura estimula muito
nados por forças externas. ditadura que é a de Chávez e go- Temos o problema do narco- planeta, mas não é. As razões pressionou-me muito e deu um a crítica frente a todos os aspec-
Mas, mesmo assim, fiquei mui- vernos que são um pouco popu- tráfico, uma indústria muito são puramente políticas: pelos grande alento à minha vocação. tos da realidade, e essa é a ra-
to contente é uma experiência listas, com vocação autoritária, poderosa economicamente e maus governantes, pelos dema- Eram ideias estimulantes para zão por que todos os regimes
surpreendente. como Nicarágua e Bolívia. Mas que pode competir com o Esta- gogos e também pela ditadura um jovem. Eu via que, além de autoritários e totalitários esta-
o resto da América Latina tem do de igual para igual. Isso militar, que muito contribuiu ser uma arte, a literatura era beleceram sistemas de censura,
● O que o senhor está achando governos democráticos, nasci- acontece porque o narcotráfi- para essa ruína. O governo também uma maneira de inter- de controle da literatura. Por-
das eleições no Brasil? dos de eleições. Há pluralismo co tem uma enorme força cor- atual da Argentina parece que vir na vida pública, defendendo que viram nela um perigo. Na
Alegro-me que haja eleições no político, com liberdade de ex- ruptora. São problemas que te- tocou o fundo da demagogia, as melhores opções. Porque as verdade, ela é um perigo para
Brasil. Espero que sejam muito pressão. São democracias im- mos de combater, mas o mar- do populismo e da falta de inte- tarefas criativas eram uma ar- qualquer ditadura porque esti-
livres e autênticas. Desejo que perfeitas, porém democracias. co está cada vez mais adequa- gridade moral. É uma crítica ma política para lutar contra a mula uma atitude crítica frente
os brasileiros votem com inteli- Temos fenômenos muito inte- do: democracia política e eco- carregada de tristeza, mas tam- injustiça. Eram ideias exalta- ao mundo, à realidade. Assim
gência, com acerto. Para que o ressantes, o que não existia no nomia de mercado. Podemos bém de solidariedade com um das, mas logo vimos que não fo- eu mudei muito. A partir de um
governo eleito mantenha este passado. Temos uma esquerda sair do subdesenvolvimento e, país que, em certa época, já foi ram confirmadas pela realida- momento, descobri o humor,
processo de desenvolvimento, democrática em países como ao mesmo tempo, diminuir a o mais culto da America Latina. de. O próprio Sartre deixou de que eu achava não ser literatu-
de modernização, que leve a ca- Uruguai e Brasil. É uma esquer- violência e criar igualdade de Era o país por onde conhecía- fazer literatura para escrever en- ra. Descobri o humor com a no-
bo o Brasil e que impressionou da que respeitou a democracia oportunidades. Essa é a boa di- mos a literatura mundial, com saios políticos ou filosóficos. vela chamada Pantaleão e as Visi-
o mundo inteiro. E que corrija e, no campo econômico, renun- reção que afortunadamente já suas editoras, suas revistas co- Por outro lado, ficou evidente tadoras. Eu vi que o humor po-
também os possíveis erros que ciou às velhas receitas socialis- foi tomada pela maioria dos mo Sur. Por isso, é triste pen- que a literatura não produz mu- deria ser uma forma riquíssima
este governo possa ter cometi- tas e começou a utilizar políti- países latino-americanos. Se sar que o país de Jorge Luis Bor- danças históricas imediatas e de contar algumas histórias.
do. Não posso falar mais, não cas liberais e da social-democra- compararmos com 20 ou 30 ges, de Vitorio Ocampo, da re- não pode ser convertida em ins- Mudei muito, só não mudei o
estou informado dos detalhes e cia que foram muito proveito- anos, há um progresso extraor- vista Sur, das editoras Losada, trumento de ação política. A li- pensamento de que a literatura
seria irresponsável opinar de sas para esses países. Também dinário na América Latina. Sudamericana, hoje esteja nas teratura deixa marcas profun- é imprescindível.