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POLÍCIA MILITAR DA BAHIA INSTITUTO DE ENSINO E PESQUISA CENTRO DE FORMAÇÃO E APERFEIÇOAMENTO DE PRAÇAS ESTABELECIMENTO DE ENSINO CEL PM JOSÉ IZIDRO DE SOUZA DIVISÃO DE ENSINO

CURSO DE FORMAÇÃO DE SOLDADOS

DIREITO MILITAR APLICADO

CURSO DE FORMAÇÃO DE SOLDADOS DIREITO MILITAR APLICADO Elaboração e atualização: Cb PM André Abreu de

Elaboração e atualização:

Cb PM André Abreu de Oliveira Baseada na Ementa de abril de 2018

2018

APRESENTAÇÃO

O objetivo da presente apostila é servir como material complementar às aulas ministradas pelos instrutores da disciplina Direito Militar Aplicado. Essa matéria, por sua vez, como já se infere de seu próprio título, trata do Direito Militar aplicado à atividade policial- militar, ou seja, daqueles institutos de maior incidência no dia a dia das instituições militares estaduais (Polícias Militares e Corpos de Bombeiros Militares), uma vez que estas apresentam algumas peculiaridades em relação às Forças Armadas. Serão enfatizados, mais precisamente, aspectos do Direito Penal Militar e do Direito Processual Penal Militar, visto que o Direito Disciplinar Militar, que também compõe o Direito Militar, é objeto de outra disciplina constante na matriz curricular do Curso de Formação de Soldados PM, no caso a matéria Legislação PM. Desse modo, o conteúdo deste material inclui o exame de certos aspectos fundamentais da chamada Teoria Geral do Direito Penal Militar, que trata das regras gerais de aplicação da lei penal militar, na qual será dada uma atenção especial ao estudo do conceito de crime militar. Além disso, no estudo da Parte Especial do Código Penal Militar, será feita a análise de alguns crimes militares em espécie, entre aqueles previstos para o tempo de paz. Compõe ainda esta apostila algumas noções de Direito Processual Penal Militar, especificamente aquelas relacionadas à denominada fase pré-processual ou investigatória. Nesse ponto, será realizada uma breve análise das regras relativas à prisão em flagrante delito por cometimento de crime militar e ao inquérito policial-militar (IPM). Em suma, espera-se que o constante neste material de apoio atinja sua finalidade, qual seja a de auxiliar, de maneira simples e objetiva, o novo Aluno do Curso de Formação de Soldados PM, servindo, ao menos, de estímulo para estudos mais aprofundados. Desejamos sucesso nos estudos e na vida profissional!

Salvador, 25 de abril de 2018.

Cb PM André Abreu de Oliveira ‒ Conteudista

Mestre em Segurança Pública, Justiça e Cidadania pela Faculdade de Direito da UFBA; Sócio Especial da Associação dos Magistrados das Justiças Militares Estaduais Pós-graduado em Direito Penal Militar e Processual Penal Militar; Pós-graduado em Ciências Criminais; Bacharel em Direito.

SUMÁRIO

 

DIREITO PENAL MILITAR

4

1

TEORIA GERAL DO DIREITO PENAL MILITAR

4

1.1

DIREITO PENAL MILITAR: CONCEITO E NOÇÕES INTRODUTÓRIAS

4

1.2

BREVE HISTÓRICO DO DIREITO PENAL MILITAR NO BRASIL

5

1.3

DEFINIÇÃO DE MILITAR PARA FINS DE APLICAÇÃO DO CPM

6

1.4

SITUAÇÃO ATUAL DO ANTIGO ASSEMELHADO

7

1.5

CONCEITO DE SUPERIOR FUNCIONAL

7

1.6

EQUIPARAÇÃO A COMANDANTE

8

1.7

EQUIPARAÇÃO A MILITAR DA ATIVA

9

1.8

ELEMENTOS NÃO CONSTITUTIVOS DO CRIME MILITAR

9

1.9

CRIME MILITAR

10

1.9.1

Definição de crime militar

10

1.9.2

Crime propriamente militar e impropriamente militar

11

1.9.3

Crimes militares em tempo de paz: análise do artigo 9º do CPM

12

1.10

ESTADO DE NECESSIDADE NO DIREITO PENAL MILITAR

18

1.11

MAIORIDADE PENAL NO DIREITO PENAL MILITAR BRASILEIRO

19

1.12

PENAS PRINCIPAIS NO CÓDIGO PENAL MILITAR

20

1.13

A JUSTIÇA MILITAR ESTADUAL

21

1.14

NÃO APLICABILIDADE DA LEI N.º 9.099/95 NA JUSTIÇA MILITAR

23

2

CRIMES MILITARES EM ESPÉCIE

23

2.1

CRIME DE VIOLÊNCIA CONTRA SUPERIOR

23

2.2

CRIME DE VIOLÊNCIA CONTRA INFERIOR

24

2.3

CRIME DE DESRESPEITO A SUPERIOR

25

2.4

CRIME DE RECUSA DE OBEDIÊNCIA

25

2.5

CRIME DE DESERÇÃO

27

2.6

CRIME DE ABANDONO DE POSTO

29

2.7

CRIME DE EMBRIAGUEZ EM SERVIÇO

30

2.8

CRIME DE DORMIR EM SERVIÇO

30

2.9

CRIME DE DESAPARECIMENTO, CONSUNÇÃO OU EXTRAVIO

31

2.10

CRIME DE PECULATO

32

2.11

CRIME DE CONCUSSÃO E CRIME DE CORRUPÇÃO PASSIVA

34

2.12

CRIME DE PREVARICAÇÃO

35

DIREITO PROCESSUAL PENAL MILITAR

36

3

PRISÃO EM FLAGRANTE DELITO NO CPPM

36

3.1

EFETIVAÇÃO DA PRISÃO EM FLAGRANTE DELITO NO CPP

36

3.2

ESPÉCIES DE PRISÃO EM FLAGRANTE DELITO NO CPPM

37

3.3

LAVRATURA DO AUTO DE PRISÃO EM FLAGRANTE DELITO

37

4

INQUÉRITO POLICIAL-MILITAR (IPM)

38

4.1

NOÇÕES GERAIS SOBRE INQUÉRITO POLICIAL-MILITAR

38

4.2

INVESTIGAÇÃO EM CRIME DOLOSO CONTRA A VIDA DE CIVIL

39

REFERÊNCIAS

40

4

DIREITO PENAL MILITAR

1 TEORIA GERAL DO DIREITO PENAL MILITAR

1.1 DIREITO PENAL MILITAR: CONCEITO E NOÇÕES INTRODUTÓRIAS

O denominado Direito Militar compreende o complexo de regras e princípios jurídicos atinentes às instituições militares Forças Armadas, Polícias Militares e Corpos de Bombeiros Militares e aos seus integrantes. Nesse conjunto, encontra-se inserido o direito penal militar, que possui particularidades e institutos próprios, diferenciando-o do direito penal comum em diversos aspectos. Nessa perspectiva, Cruz e Miguel 1 conceituam o direito penal militar como “um ramo do Direito Penal, especial, criado não com a finalidade de definir crimes para militares, mas sim de criar regras jurídicas destinadas à proteção das instituições militares e o cumprimento de seus objetivos constitucionais. Como se vê, o direito penal militar tem por finalidade proteger as instituições militares, sejam elas as Forças Armadas, sejam as Polícias Militares ou os Corpos de Bombeiros Militares, com o intuito de que estas cumpram suas missões constitucionais. Quanto a essas finalidades, de acordo com o caput do artigo 142 da Constituição da República, compete às Forças Armadas a defesa da Pátria, a garantia dos poderes constitucionais e, por iniciativa de qualquer destes, da lei e da ordem. Por seu turno, às Polícias Militares cabem a execução do policiamento ostensivo e a preservação da ordem pública; enquanto que os Corpos de Bombeiros Militares, entre outras atribuições definidas em lei, possuem a missão de executar as atividades de defesa civil, sendo ambas as instituições forças auxiliares e reserva do Exército, tudo nos termos do §§ 5º e 6º do artigo 144 da Carta Magna. Para isso, o direito penal militar assenta-se nos princípios da hierarquia e da disciplina, estes referidos expressamente na própria Constituição da República, em seus artigos 42 e 142. A hierarquia, conforme disposto no § 1º do artigo 3º do Estatuto dos Policiais Militares do Estado da Bahia, “é a organização em carreira da autoridade em níveis diferentes, dentro da estrutura da Polícia Militar, consubstanciada no espírito de acatamento à sequência de autoridade”. Por seu turno, consoante descrito no § 2º do artigo 3º do referido Estatuto, a disciplina “é a rigorosa observância e o acatamento integral das leis, regulamentos, normas e disposições que fundamentam o organismo policial militar e coordenam seu funcionamento regular e harmônico, traduzindo-se pelo perfeito cumprimento do dever por parte de todos e de cada um dos componentes desse organismo. Percebe-se, pois, que os princípios da hierarquia e da disciplina não são fins em si mesmos, mas tão somente meios para assegurar a normalidade das instituições militares, propiciando condições para que estas consigam alcançar os objetivos a elas destinados pela Constituição Federal de 1988. Além disso, da análise do conceito de direito penal militar apresentado, verifica-se também a especialidade desse ramo do direito, descrito como um direito penal especial. A consequência prática disso consiste na prevalência da norma especial em detrimento da norma de caráter geral, caso haja incidência aparente de ambas em determinada situação concreta. Sobre esse assunto, Toledo 2 ressalta que, “se entre duas ou mais normas legais existe uma relação de especialidade, isto é, de gênero para espécie, a regra é a de que a norma especial afasta a incidência da norma geral”.

1 CRUZ, Ione de Souza; MIGUEL, Claudio Amin. Elementos de direito penal militar: Parte Geral. 2. ed. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2008, p. 1.

2 TOLEDO, Francisco de Assis. Princípios básicos de direito penal. 5. ed. São Paulo: Saraiva, 1994, p. 51.

5

Quanto à especialidade, conforme ensina Lobão 3 , “o Direito Penal Militar é especial não só porque se aplica a uma classe ou categoria de indivíduos […], como também, pela natureza do bem jurídico tutelado”. No mesmo sentido, Neves e Streifinger 4 entendem que o “Direito Penal Militar é especial em razão do objeto de sua tutela jurídica: sempre a regularidade das instituições militares, seja de forma direta, seja de forma indireta ou mediata”. Por conta disso, Bandeira 5 , citando Vincenzo Manzini, esclarece que o crime militar é sempre, imediata ou mediatamente, um crime contra o serviço militar, pois em todo caso exigirá uma lesão aos interesses militares.

1.2 BREVE HISTÓRICO DO DIREITO PENAL MILITAR NO BRASIL

Inicialmente, o direito penal militar que vigorava no Brasil era o proveniente de

Portugal, destacando-se os denominados Artigos de Guerra do Conde de Lippe, datados de

1763. Essa legislação estabelecia penas extremamente cruéis, tais como o arcabuzamento

(fuzilamento), o enforcamento, a pranchada, que consistia em golpear o apenado com a espada em prancha, e o carrinho perpétuo, na qual eram utilizadas argolas de ferro presas às pernas do condenado. 6 Em seguida, por meio do Alvará de 1º de abril de 1808, D. João VI, à época Príncipe Regente, criou o Conselho Supremo Militar e de Justiça. Esse Conselho constitui o embrião do atual Superior Tribunal Militar (STM), marco da Justiça Militar brasileira, considerada a justiça mais antiga do país. Nesse momento, ao lado da legislação esparsa existente naquela época, ainda vigiam os supracitados Artigos de Guerra do Conde de Lippe. Posteriormente, através do Decreto n.º 949, de 5 de novembro de 1890, é editado o Código Disciplinar da Armada [denominação da Marinha nesse período], que vigorou por pouco tempo, sendo logo substituído pelo Código Penal da Armada, criado em 7 de março de 1891, por meio do Decreto n.º 18. Esse Código teve sua aplicação inicialmente restrita à Armada [leia-se Marinha], estendendo seu alcance ao Exército somente a partir de 29 de setembro de 1899, por meio da Lei n.º 612 7 . Passou também a alcançar a Aeronáutica desde a edição do Decreto-Lei n.º 2.961, em 20 de janeiro de 1941, responsável pela criação do Ministério da Aeronáutica.

Após isto, em 24 de janeiro de 1944, através do Decreto-Lei n.º 6.227, foi instituído o primeiro Código Penal Militar propriamente dito. Essa legislação penal militar era aplicável às três Forças Armadas Marinha, Exército e Aeronáutica [já existente nesse momento], tendo vigorado até o surgimento do atual Código Penal Militar, em 1969. Finalmente, o Decreto-Lei n.º 1.001, de 21 de outubro de 1969, estabeleceu o vigente Código Penal Militar (CPM), tendo sido decretado por uma Junta Militar, composta pelos então Ministros da Marinha de Guerra, do Exército e da Aeronáutica Militar [hoje, Marinha do Brasil, Exército Brasileiro e Aeronáutica]. Essa Junta Militar passou a exercer a Chefia do Poder Executivo após a declaração de vacância dos cargos de Presidente e de Vice-Presidente da República, conforme previa o artigo 3º do Ato Institucional n.º 16, de 14 de outubro de

1969. Por sua vez, o disposto no § 1° do artigo 2° do Ato Institucional n.º 5, de 13 de

dezembro de 1968, autorizava o Poder Executivo a legislar quando houvesse decretação de recesso parlamentar, que foi o que ocorreu nesse período.

3 LOBÃO, Célio. Direito penal militar. 3. ed. atual. Brasília: Brasília Jurídica, 2006, p. 48.

4 NEVES, Cícero Robson Coimbra; STREIFINGER, Marcelo. Manual de direito penal militar. 2. ed. São Paulo: Saraiva, 2012, p. 61.

5 BANDEIRA, Esmeraldino O. T. Direito, justiça e processo militar. 2. ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1919, v. 1, p. 19.

6 ASSIS, Jorge César de. Direito militar: aspectos penais, processuais penais e administrativos. 2. ed. rev. e atual. Curitiba: Juruá, 2007, p. 19.

7 COSTA, Álvaro Mayrink da. Crime militar. 2. ed. reescr. e ampl. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2005, p. 21.

6

Assim, com base nos dispositivos supramencionados, surgiu o vigente Código Penal Militar, estruturado em duas partes, assim como o Código Penal comum: Parte Geral e Parte Especial. A primeira Parte, que vai do art. 1º ao 135, composta de um Livro Único, traz a chamada Teoria Geral do Direito Penal Militar; enquanto que a segunda Parte, que vai do art. 136 ao 408, descreve os crimes militares em espécie. Essa última Parte Especial é subdividida nos Livros I e II, que contêm, respectivamente, os crimes militares em tempo de paz e os crimes militares em tempo de guerra. O art. 409 desse Código revogou expressamente o anterior Código Penal Militar de 1944, ao passo que o seu art. 410 estabeleceu que a nova lei penal militar entraria em vigor no dia 1º de janeiro de 1970. Ressalte-se ainda que, apesar de o Código Penal Militar de 1969 ter sido proveniente de um decreto-lei, espécie legislativa oriunda do Poder Executivo e não mais existente na atualidade, ele foi recepcionado com status de lei ordinária. Desse modo, qualquer alteração que se pretenda em seu texto só poderá ser realizada atualmente por meio de lei de competência privativa da União (art. 22, I, CF/88).

1.3 DEFINIÇÃO DE MILITAR PARA FINS DE APLICAÇÃO DO CPM

Código Penal Militar

Pessoa considerada militar

Art. 22. É considerada militar, para efeito da aplicação deste Código, qualquer pessoa que, em tempo de paz ou de guerra, seja incorporada às forças armadas, para nelas servir em posto, graduação, ou sujeição à disciplina militar.

De início, é necessário estabelecer quem é considerado militar para fins de aplicação da lei penal militar, uma vez que ela se destina principalmente a essa categoria, por conta do seu contato mais próximo e diário com os bens e valores das instituições militares. Da análise do artigo 22 do CPM, observa-se que há menção tão somente aos incorporados às Forças Armadas (FFAA), sendo bastante restrita a definição do militar destinatário da norma penal militar. Assim, esse dispositivo legal, além de parecer restringir sua aplicação aos integrantes das FFAA, menciona apenas aqueles militares que ingressaram através de incorporação. Ocorre que a incorporação consiste em apenas uma das maneiras de ingresso nas Forças Armadas, pois, conforme previsto no artigo 10 da Lei n.º 6.880/80 (Estatuto dos Militares): “O ingresso nas Forças Armadas é facultado, mediante incorporação, matrícula ou nomeação, a todos os brasileiros que preencham os requisitos estabelecidos em lei e nos regulamentos da Marinha, do Exército e da Aeronáutica(grifo nosso). Os militares oriundos das diversas escolas de formação militar, por exemplo, como é o caso da Academia das Agulhas Negras, ingressam nas Forças Armadas por meio de matrícula. No entanto, como o Estatuto dos Militares está no mesmo plano hierárquico do Código Penal Militar e é posterior a este último, conclui-se que houve uma ampliação daquela definição de militar prevista no CPM. Incluiu-se, portanto, os militares das Forças Armadas provenientes das diversas modalidades de ingresso constantes no Estatuto dos Militares e já referidas anteriormente. Além disso, o § 3º do art. 142 da Constituição Federal de 1988 prevê que “os membros das Forças Armadas são denominados militares”, não fazendo distinção na forma de ingresso destes. Por outro lado, cumpre deixar claro que os policiais militares e os bombeiros militares, consoante expresso no artigo 42 da Constituição Federal, especialmente depois da Emenda

7

Constitucional n.º 18/98, são militares dos Estados, do Distrito Federal e dos Territórios. 8 Logo, como militares que são, estão sujeitos ao Código Penal Militar (CPM) e podem cometer, nessa qualidade, os crimes militares ali previstos. Assim, atualmente, para fins de aplicação da lei penal militar, são considerados militares tanto os integrantes das Forças Armadas, independentemente de sua forma de ingresso na corporação, quanto os membros das Polícias Militares e dos Corpos de Bombeiros Militares. Deve-se lembrar ainda que os alunos dos cursos de formação militar, a exemplo do Aluno do Curso de Formação de Soldados PM, também são considerados militares, havendo plena incidência dos dispositivos do CPM aos integrantes que se encontram nessa condição. Esse é o entendimento já consolidado no Supremo Tribunal Federal, conforme se constata em decisões proferidas por essa Corte (v. STF, RHC 80.122-6-SP, 2ª Turma, Rel. Min. Celso de Mello, j. 06/06/2000, DJ 04/02/2000).

1.4 SITUAÇÃO ATUAL DO ANTIGO ASSEMELHADO

Código Penal Militar

Assemelhado

Art. 21. Considera-se assemelhado o servidor, efetivo ou não, dos Ministérios da Marinha, do Exército ou da Aeronáutica, submetido a preceito de disciplina militar, em virtude de lei ou regulamento.

Anteriormente, existia a figura do assemelhado, que era o servidor civil, efetivo ou não, pertencente aos quadros dos extintos Ministérios da Marinha, do Exército e da Aeronáutica (transformados nos atuais Comandos da Marinha, do Exército e da Aeronáutica, que estão subordinados ao atual Ministério da Defesa). O assemelhado era submetido aos regulamentos disciplinares da instituição militar a que estivesse vinculado, bem como ao Código Penal Militar, nesse último caso equiparando-se ao militar para efeito de aplicação da lei penal militar. É justamente a esse servidor civil que faz menção o artigo 21 do CPM. Acontece que, como assevera Lobão 9 , “ao ser editado o diploma penal castrense, em 1969, há quase três décadas não mais existia qualquer servidor de Ministério militar sujeito à disciplina militar”. Isto porque os servidores civis, incluindo aqueles vinculados às Forças Armadas, às Polícias Militares e aos Corpos de Bombeiros militares, passaram a ser regidos por estatutos civis, não estando mais sujeitos aos regulamentos disciplinares militares. Esses servidores civis também não se equiparam mais aos militares para fins de aplicação da lei penal militar. Conclui-se, pois, que o assemelhado hoje é figura extinta.

1.5 CONCEITO DE SUPERIOR FUNCIONAL

Código Penal Militar

Conceito de superior

Art. 24. O militar que, em virtude da função, exerce autoridade sobre outro de igual posto ou graduação, considera-se superior, para efeito da aplicação da lei penal militar.

8 OLIVEIRA, André Abreu de. Qualquer crime cometido por PM de serviço é crime militar? Jus Navigandi,

Teresina, ano 16, n. 2944, 24 jul. 2011. Disponível em: <http://jus.com.br/artigos/19608>. Acesso em: 10 maio

2014.

9 LOBÃO, Célio. Direito penal militar. 3. ed. atual. Brasília: Brasília Jurídica, 2006, p. 110.

8

Considera-se superior hierárquico aquele militar que, em sua posição na escala hierárquica da corporação a que pertence, detém um maior grau em relação a um outro militar, este último denominado subordinado nessa relação. É o caso, por exemplo, do sargento PM em relação ao soldado PM, sendo, nessa hipótese, o primeiro considerado superior e o segundo, subordinado. Essa é a chamada superioridade hierárquica. Não é da superioridade hierárquica, no entanto, que trata o artigo 24 do Código Penal Militar, como se poderia pensar pela leitura de sua rubrica ou indicação marginal, que é aquela expressão acima do artigo. Na verdade, o art. 24 do CPM prevê a hipótese da denominada superioridade funcional, que é uma condição de autoridade advinda de certas funções que o militar pode exercer na caserna, as quais lhe trazem precedência funcional sobre outros militares de igual posto ou graduação. Nesse caso, para fins de aplicação da lei penal militar, o militar ocupante de tal função será excepcionalmente considerado superior em relação a outros militares de mesmo posto ou graduação que estejam subordinados funcionalmente àquele. Ex.: um subtenente PM na função de oficial de dia, conforme possibilita a Portaria n.º 069-CG/2011, será considerado superior a outro subtenente de sua unidade policial-militar que não esteja no exercício dessa função, ainda que mais antigo que o primeiro. Assim, este último poderá incorrer, por exemplo, no crime militar de desrespeito a superior (art. 160 do CPM), caso pratique esta conduta delituosa contra o primeiro.

1.6 EQUIPARAÇÃO A COMANDANTE

Código Penal Militar

Equiparação a comandante

Art. 23. Equipara-se ao comandante, para o efeito da aplicação da lei penal militar, toda autoridade com função de direção.

Atualmente, na estrutura organizacional e funcional da Polícia Militar do Estado da Bahia, além daqueles militares que exercem função de direção sob o título de comandante, a exemplo dos comandantes das Companhias Independentes de Polícia Militar (CIPMs), há outros que exercem funções de comando, porém com outras denominações, tais como os diretores, chefes e coordenadores. De outro lado, o Código Penal Militar tratou de forma mais rigorosa algumas condutas tipificadas como crime militar quando elas forem praticadas contra o comandante da unidade a que pertence o agente, pela maior repercussão negativa que o fato terá no seio da tropa. É o caso, por exemplo, do crime de desrespeito a superior (art. 160 do CPM), que se for cometido nessa hipótese referida terá sua pena aumentada de metade. Diante disso, para possibilitar a aplicação desses dispositivos legais também nas situações em que aquelas condutas supracitadas sejam praticadas contra outros dirigentes que não tenham a designação de comandante, o Código Penal Militar equiparou a este último toda autoridade que exerça função de direção, a exemplo dos diretores e chefes. É isso que prevê o artigo 23 do CPM. Assim, a título de ilustração, se um soldado PM praticar o crime de desrespeito a superior (art. 160 do CPM) contra o diretor de uma unidade policial-militar, servindo ele nesse estabelecimento, terá sua pena aumentada de metade, do mesmo modo que aconteceria se a unidade fosse dirigida por um comandante.

9

1.7 EQUIPARAÇÃO A MILITAR DA ATIVA

Código Penal Militar

Equiparação a militar da ativa

Art. 12. O militar da reserva ou reformado, empregado na administração militar, equipara-se ao militar em situação de atividade, para o efeito da aplicação da lei penal militar.

O Código Penal Militar, em seu artigo 12, equiparou o militar na inatividade, quando empregado na administração militar, ao militar da ativa, para fins de aplicação da lei penal militar. Esse militar inativo, por sua vez, pode estar na condição de militar da reserva remunerada ou de militar reformado, sendo que em ambas as situações deverá ser considerado como se militar da ativa fosse, sempre que estiver empregado na administração militar, nas hipóteses de caracterização de crime militar. Ressalte-se ainda que essa equiparação valerá tanto nos casos em que ele seja sujeito ativo de um delito militar quanto nas situações em que se encontre como sujeito passivo. Isto porque, como será examinado em momento oportuno, existem diversas circunstâncias em que o crime militar dependerá da existência de pelo menos um militar da ativa envolvido (como sujeito ativo ou passivo) para sua ocorrência. O dispositivo ora analisado terá aplicação, por exemplo, na hipótese do artigo 18 do Estatuto dos Policiais Militares do Estado da Bahia, que prevê a convocação de militar da reserva remunerada, em caráter transitório e mediante aceitação voluntária, para emprego na administração militar. Nesse caso, esse militar da reserva remunerada será equiparado a militar da ativa para efeito de aplicação do Código Penal Militar.

1.8 ELEMENTOS NÃO CONSTITUTIVOS DO CRIME MILITAR

Código Penal Militar

Elementos não constitutivos do crime

Art. 47. Deixam de ser elementos constitutivos do crime:

I - a qualidade de superior ou a de inferior, quando não conhecida do agente; II - a qualidade de superior ou a de inferior, a de oficial de dia, de serviço ou de quarto, ou a de sentinela, vigia, ou plantão, quando a ação é praticada em repulsa a agressão.

Conforme inciso I do artigo 47 do Código Penal Militar, a qualidade de superior ou de subordinado deverão ser conhecidas pelo agente para que se configure qualquer crime militar que dependa dessas condições para sua caracterização. Essas qualidades são classificadas como elementares ou elementos constitutivos do delito militar, devendo ser, então, desconsideradas caso sejam desconhecidas do agente que pratica a conduta delituosa. Desse modo, o crime de desacato a superior (art. 298 do CPM), por exemplo, só restará caracterizado se o subordinado souber dessa condição do superior. Da mesma maneira, só haverá crime de violência contra inferior (art. 175 do CPM) se o superior tiver conhecimento dessa condição do subordinado. Já o inciso II do mesmo dispositivo legal expressa que também deixará de ser elemento constitutivo do crime militar a qualidade de superior ou a de subordinado, a de oficial de dia, de serviço ou de quarto, ou a de sentinela, vigia, ou plantão, mesmo conhecidas do agente, todas as vezes em que a ação for praticada em repulsa a agressão sofrida. Para

10

ilustrar o assunto em tela, Lobão 10 cita o seguinte trecho de decisão proferida pelo Superior Tribunal Militar (STM): “Militar que agride, com um tapa, superior que lhe dirigia palavras de baixo calão, não comete o crime de violência previsto no art. 157 do CPM. A qualidade de superior deixa de ser elemento constitutivo do crime, quando a ação do inferior é praticada em repulsa a agressão. Inteligência do inc. II do art. 47 do CPM. A agressão referida compreende a física e a moral. Nesse caso, o inferior foi ofendido moralmente pelo superior”.

1.9 CRIME MILITAR

1.9.1 Definição de crime militar

Constituição Federal

Art. 5º. […]

LXI - ninguém será preso senão em flagrante delito ou por ordem escrita e fundamentada de autoridade judiciária competente, salvo nos casos de transgressão militar ou crime propriamente militar, definidos em lei; (grifo nosso).

Art. 124. À Justiça Militar compete processar e julgar os crimes militares definidos em lei. (Grifo nosso).

Art. 125. […]

§ 4º Compete à Justiça Militar estadual processar e julgar os militares dos Estados, nos crimes militares definidos em lei e as ações judiciais contra atos disciplinares militares, ressalvada a competência do júri quando a vítima for civil, cabendo ao tribunal competente decidir sobre a perda do posto e da patente dos oficiais e da graduação das praças. (Redação dada pela Emenda Constitucional n.º 45, de 2004) (grifo nosso).

A partir dos destaques nos dispositivos constitucionais acima elencados, percebe-se que a Constituição Federal de 1988 utilizou um critério específico para definição de crime militar. Ao determinar que o crime militar será definido em lei, fica evidente que o texto constitucional elegeu o denominado critério legal, ou critério ratione legis (do latim: em razão da lei), para definição da infração penal militar. Segundo esse critério, crime militar será aquela conduta estabelecida em lei como tal pelo legislador ordinário. No entanto, a despeito da adoção do critério legal (ou ratione legis) pela Constituição Federal e pelo próprio Código Penal Militar, outros critérios também foram utilizados de forma concomitante na legislação penal militar em vigor. São eles: critério ratione loci (do latim: em razão do lugar), critério ratione personae (do latim: em razão da pessoa), critério ratione temporis (do latim: em razão do tempo), conforme se depreende da análise do artigo 9º do Código Penal Militar (CPM), que será examinado adiante. De qualquer modo, nessa definição de determinados comportamentos como delito militar, deverão ser respeitados os diversos princípios jurídicos que norteiam a atividade legislativa, muitos destes presentes na própria Constituição da República, sendo muito mais rígidos os requisitos para edição de uma lei penal incriminadora. Por exemplo, o Código Penal Militar, logo em seu artigo 1º, traz expressamente o princípio da legalidade penal,

10 LOBÃO, Célio. Comentários ao Código Penal Militar: Parte Geral. Rio de Janeiro: Forense, 2011, v. 1, p.

177.

11

segundo o qual, pelo seu aspecto da reserva legal, somente a lei em sentido estrito, oriunda do Poder Legislativo, é que poderá definir condutas como crimes. Dessa maneira, a existência do crime militar dependerá do preenchimento de determinados requisitos legais estabelecidos na lei penal militar, que atualmente consiste no Código Penal Militar. Anteriormente, para se analisar se certa conduta era crime militar, dever-se-ia verificar, antes de mais nada, se ela constava tipificada na Parte Especial do Código Penal Militar. A denominada Parte Especial é aquela que traz o rol dos crimes em espécie. Assim, caso a conduta examinada não tivesse previsão na Parte Especial do CPM, descartada estava a hipótese de ocorrência de crime militar. Isso, entretanto, mudou a partir da Lei n.º 13.491, de 13 de outubro de 2017, que alterou o CPM. Agora, a ocorrência do crime militar não mais se restringe àqueles comportamentos definidos na Parte Especial do Código Penal Militar. Desde a edição da Lei n.º 13.491/2017, é possível a caracterização de crime militar a partir da prática de condutas tipificadas nas diversas leis penais comuns, tais como o próprio Código Penal comum e de leis penais especiais comuns, ainda que não haja previsão desses comportamentos no Código Penal Militar. Mas, para isso, deverá haver incidência de alguma das hipóteses do artigo 9º, incisos II e III, da Parte Geral do CPM, dispositivos que serão estudados adiante, realizando-se o chamado juízo de tipicidade indireta. Essa complementação pela Parte Geral do CPM será necessária porque é nela que se encontrará as circunstâncias gerais de ofensa aos bens jurídicos das instituições militares. E não se pode esquecer que o direito penal militar só terá incidência quando restar caracterizada essa afetação às instituições militares de alguma forma. Preenchido, portanto, esse requisito, poderá haver crime militar mesmo que a conduta praticada somente esteja prevista em uma lei penal comum. Assim, poderá ocorrer, por exemplo, com o crime de porte ilegal de arma de fogo, conduta que não tem previsão legal na Parte Especial do Código Penal Militar. Caso o policial militar seja flagrado portando uma arma de fogo com a numeração adulterada (art. 16, parágrafo único, IV, do Estatuto do Desarmamento), estando de serviço (hipótese prevista no inciso II do art. 9º do CPM), responderá atualmente por crime militar. Igualmente haverá crime militar nas situações em que o militar de serviço praticar as condutas tipificadas como crime na Lei n.º 9.455/97 (Lei dos Crimes de Tortura) e na Lei n.º 4.898/65 (Lei dos Crimes de Abuso de Autoridade), as quais não têm previsão no CPM. Por conta disso, após a Lei n.º 13.491/2017, não tem mais aplicação a Súmula n.º 172 do Superior Tribunal de Justiça (STJ), que tem a seguinte redação: “Compete à Justiça Comum processar e julgar militar por crime de abuso de autoridade, ainda que praticado em serviço”.

1.9.2 Crime propriamente militar e impropriamente militar

Todo crime militar classifica-se em crime propriamente militar ou em crime impropriamente militar, sendo que essa distinção tem uma grande importância prática. Isto porque a Constituição Federal, em seu art. 5º, inciso LXI, prevê que: “ninguém será preso senão em flagrante delito ou por ordem escrita e fundamentada de autoridade judiciária competente, salvo nos casos de transgressão militar ou crime propriamente militar, definidos em lei” (grifo nosso). Desse modo, quando se tratar de crime propriamente militar, também chamado de crime militar próprio, poderá, excepcionalmente, ocorrer a prisão de quem o praticou mesmo fora dos casos de flagrante delito ou ordem judicial. Ex.: prisão cautelar efetuada pelo encarregado de inquérito policial-militar (IPM) com base no artigo 18 do Código de Processo Penal Militar. Além disso, conforme a regra prevista no inciso II do artigo 64 do Código Penal comum, não serão considerados os crimes militares próprios (ou propriamente militares) para efeito de reincidência. Assim, se determinado indivíduo é condenado, após o trânsito em julgado, por cometimento de um crime propriamente militar, a

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exemplo do delito de embriaguez em serviço (art. 202 do CPM), e, tempos depois, pratica um crime comum, será ainda considerado réu primário. Como se vê, a par dessas implicações práticas, faz-se necessário estabelecer uma conceito de crime propriamente militar, uma vez que nem a Constituição Federal nem o Código Penal comum trazem essa definição, apesar de se referirem expressamente a ele. Da mesma maneira, o Código Penal Militar, mesmo sendo a legislação específica sobre direito penal militar, também não conceitua crime própria ou impropriamente militar. Diante disso, esse conceito acaba sendo extraído da doutrina e da jurisprudência especializadas, como este idealizado por Lobão 11 : “Como crime propriamente militar entende- se a infração penal, prevista no Código Penal Militar, específica e funcional do ocupante do cargo militar, que lesiona bens ou interesses das instituições militares, no aspecto particular da disciplina, da hierarquia, do serviço e do dever militar”. Ex.: abandono de posto (art. 195 do CPM).

Dessa definição de crime propriamente militar, que é bastante aceita pelos estudiosos do tema, pode-se inferir duas consequências lógicas. A primeira delas é que, sendo o crime propriamente militar aquele específico e funcional do ocupante do cargo militar, somente poderá ser praticado por sujeito militar. A segunda, pelo mesmo motivo, é que o crime propriamente militar deverá necessariamente estar previsto na lei penal militar. Por outro lado, o crime impropriamente militar é aquele que, estando previsto na lei penal militar mas não sendo inerente à condição de militar ou estando previsto na legislação penal comum, ofende de alguma forma as instituições militares. Dessa maneira, tanto pode ser praticado por militar como por civil. Exemplo dessa espécie de crime militar é o furto (art. 240 do CPM) de armamento militar por civil em quartel das Forças Armadas. Perceba-se que o furto não é um delito essencialmente militar, porém, nessa situação hipotética narrada, acaba atingindo bens jurídicos de instituição militar, o que justifica o seu tratamento como crime militar.

1.9.3 Crimes militares em tempo de paz: análise do artigo 9º do CPM

Como já dito anteriormente, determinada conduta somente será definida como crime militar quando ela ofender de alguma forma os bens e valores jurídicos das instituições militares. Mas como se constata essa ofensa no caso concreto? Essa é a função primordial do artigo 9º do Código Penal Militar (CPM), dispositivo que elenca as circunstâncias genéricas de ofensa aos bens jurídicos das instituições militares. Desse modo, para caracterização de determinada conduta como delito militar, deverá haver a ocorrência de uma das situações elencadas no artigo 9º do CPM, perfazendo-se o denominado juízo de tipicidade indireta. Quanto a esse procedimento, Mirabete explica 12 : Nem sempre a adequação do fato típico penal se opera de forma direta, sendo necessário à tipicidade que se complete o tipo penal com outras normas contidas na parte geral dos códigos. É o que se chama de tipicidade indireta […]”. Por conseguinte, além da adequação da conduta a um fato típico previsto na lei penal militar, ou mesmo na legislação penal comum, esse comportamento também deverá amoldar-se a uma das hipóteses do artigo 9º do Código Penal Militar. Assim sendo, faz-se imprescindível o estudo desse dispositivo da Parte Geral do CPM, que será analisado neste tópico.

11 LOBÃO, Célio. Direito Penal Militar. 3. ed. atual. Brasília: Brasília Jurídica, 2006, p. 84.

12 MIRABETE, Julio Fabbrini; FABBRINI, Renato N. Manual de direito penal: parte geral. 26. ed. São Paulo:

Atlas, 2010, v. 1, p. 101.

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Código Penal Militar

Crimes militares em tempo de paz

Art. 9º. Consideram-se crimes militares, em tempo de paz:

I - os crimes de que trata este Código, quando definidos de modo diverso na lei penal comum, ou nela não previstos, qualquer que seja o agente, salvo disposição especial;

O inciso I traz dois casos distintos de crimes militares em tempo de paz: os delitos tipificados no Código Penal Militar e também na lei penal comum, porém definidos diferentemente nesta última legislação, e aqueles outros tipificados com exclusividade no Código Penal Militar. Como exemplo dos primeiros pode ser citado o crime de incêndio (CPM, art. 268), que igualmente é previsto na legislação penal comum (CP, art. 250), porém de forma diversa; ao passo que, dos segundos, o crime de deserção (CPM, art. 187), que só existe na legislação penal militar. Em regra, nos crimes militares deste inciso I, qualquer pessoa, militar ou civil, poderá ser sujeito ativo. Contudo, se a lei dispuser de outra forma, só haverá o crime militar para determinado sujeito. Por exemplo, no crime militar de deserção o sujeito ativo deverá ser necessariamente o militar, pois assim a lei exige. Já no crime militar de insubmissão (art. 183 do CPM) o sujeito ativo só poderá ser o civil, já que a lei assim também estabelece. Vale ressaltar que, no âmbito da Justiça Militar estadual, por restrição expressamente prevista na Constituição Federal, o civil não cometerá crime militar, restringindo a aplicação desse dispositivo aos militares dos Estados. Essa restrição não existe na Justiça Militar da União, já que civis podem cometer crimes militares perante as instituições militares federais.

Código Penal Militar

Crimes militares em tempo de paz

Art. 9º. Consideram-se crimes militares, em tempo de paz:

[ ]

II - os crimes previstos neste Código e os previstos na legislação penal,

quando praticados: [Redação dada pela Lei n.º 13.491, de 2017]

a) por militar em situação de atividade […] contra militar na mesma

situação […]; b) por militar em situação de atividade […], em lugar sujeito à administração militar, contra militar da reserva, ou reformado […] ou civil;

c) por militar em serviço ou atuando em razão da função, em comissão de

natureza militar, ou em formatura, ainda que fora do lugar sujeito à administração militar contra militar da reserva, ou reformado, ou civil;

d)

por militar durante o período de manobras ou exercício, contra militar

da

reserva, ou reformado […] ou civil;

e)

por militar em situação de atividade […] contra o patrimônio sob a

administração militar, ou a ordem administrativa militar;

Na definição do crime militar, o inciso II diz respeito tanto aos crimes previstos na Parte Especial do Código Penal Militar (CPM) quanto aos delitos dispostos na legislação

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penal comum, a exemplo do Código Penal comum ou de qualquer lei penal especial nesse último caso. Em sua redação original, o inciso II do artigo 9º considerava como crime militar tão somente aquelas condutas previstas na Parte Especial do CPM, ainda que esses comportamentos tivessem idêntica definição na lei penal comum. Enquadrava-se nessa hipótese, por exemplo, o homicídio, previsto no Código Penal Militar (art. 205) e também no Código Penal (CP) comum (art. 121), ambos os delitos com redação idêntica. No entanto, esse panorama mudou a partir da Lei n.º 13.491, de 13 de outubro de 2017, visto que essa lei incluiu os crimes previstos na legislação penal comum no rol dos crimes militares. Desse modo, para caracterização do crime militar, além das condutas tipificadas no Código Penal comum com idêntica previsão na Parte Especial do CPM, passaram a ser considerados também os delitos do CP comum sem correspondência no CPM e os previstos na legislação comum especial. Exemplos destes últimos são os crimes relacionados na Lei n.º 9.455/97 (Lei dos Crimes de Tortura), na Lei n.º 4.898/65 (Lei de Abuso de Autoridade) e na Lei n.º 10.826/2003 (Estatuto do Desarmamento). Em todos esses casos referidos, o que vai caracterizar a infração como delito militar é a incidência de uma das situações das cinco alíneas do inciso II do artigo 9º do CPM. Perceba-se que em todas as hipóteses desse inciso ora analisado o sujeito ativo será sempre o militar da ativa, incluindo-se aqui o militar da reserva remunerada ou reformado quando empregado na administração militar, que equipara- se, por isso, ao militar em situação de atividade ativa (art. 12 do CPM). Pela alínea “a”, vai ocorrer crime militar sempre que o delito, previsto na legislação penal militar ou comum, seja praticado por um militar da ativa contra outro militar também da ativa, ainda que isso ocorra fora de serviço. Ex.: homicídio (art. 205 do CPM) praticado por militar da ativa contra outro militar da ativa. Saliente-se que, conforme posicionamento do Superior Tribunal Militar (STM) e de grande parte da doutrina especializada (nesse sentido, entre outros, Célio Lobão, Ione Cruz e Claudio Miguel e Ricardo Giuliani), haverá crime militar ainda que os sujeitos envolvidos não saibam da condição de militar um do outro no momento da prática do delito. Na alínea “b”, existe a previsão de crime militar quando a conduta delituosa, tipificada na legislação penal militar ou comum, ocorrer em local sujeito à administração militar e contra militar da reserva, contra militar reformado ou contra civil. São exemplos de lugares sujeito à administração militar: quartéis, hospitais e colégios militares, bases comunitárias de segurança (BCS), unidades e postos policiais-militares, ainda que instalados em edificações particulares locadas pela instituição militar. Nesse ponto, vale lembrar que a casa não será considerada lugar sujeito à administração militar, mesmo que ela se encontre dentro de vila militar, isto em decorrência da inviolabilidade domiciliar prevista na Constituição da República (art. 5º, inciso XI). Já pelo disposto na alínea “c”, haverá crime militar nas quatro hipóteses a seguir:

quando o delito for praticado por militar de serviço, ou que estiver atuando em razão da função, ou em comissão de natureza militar ou em formatura. No primeiro caso, comete crime militar o policial militar que, realizando policiamento ostensivo, pratica alguma conduta prevista na Parte Especial do CPM ou na legislação penal comum. Já a segunda situação relaciona-se ao dever legal de agir do policial militar. Exemplo dessa última hipótese é o do policial militar que, estando fora de serviço, intervém em um roubo contra terceiro, lesionando o infrator, configurando-se, em tese, crime militar. Por outro lado, a jurisprudência tem entendido que não haverá crime militar quando a investida se dá contra o próprio PM, agindo este em autodefesa. Por exemplo, quando o PM é a própria vítima do roubo e reage, lesionando o bandido, situação na qual haverá, em tese, crime comum. Claro que nessas situações hipotéticas o militar estará provavelmente acobertado por alguma excludente de ilicitude. Todavia, ainda assim, é necessário que se saiba em tese se há crime militar ou crime comum, até mesmo para definição da investigação a ser realizada. Se, em tese, houve

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crime militar, deverá ser instaurado inquérito policial-militar (IPM); mas, caso seja hipótese de crime comum, deverá ser promovido inquérito policial comum. Ainda conforme a alínea “c”, ocorrerá crime militar quando a infração penal for praticada por militar da ativa em comissão de natureza militar ou em formatura, ou seja, situações em que, em última análise, também estará de serviço. Em todos esses casos, mesmo fora de lugar sujeito à administração militar, o delito militar estará caracterizado. O sujeito passivo, por sua vez, será o militar da reserva, o militar reformado ou o civil. A alínea “d” prescreve que haverá crime militar quando o delito for praticado por militar da ativa, durante o período de manobras ou exercício militar, contra militar da reserva, militar reformado ou civil. Nessa hipótese, incluir-se-á, por exemplo, o crime praticado por policial militar contra um civil durante a realização de uma corrida com a tropa pelas ruas da cidade com vistas ao adestramento físico dos militares. Segundo o descrito na alínea “e”, vai haver crime militar quando o militar da ativa praticar a conduta delituosa contra o patrimônio sob a administração militar ou contra a ordem administrativa militar. Ressalte-se que o patrimônio não precisa necessariamente pertencer à administração militar, mas basta que esteja sob sua administração. Quanto à ordem administrativa militar, lecionam Cruz e Miguel 13 : “A ordem administrativa militar diz respeito às infrações que atingem a organização, existência e finalidade das Forças Armadas [e igualmente das Polícias Militares e Corpos de Bombeiros Militares], bem como o prestígio moral da administração militar.”

Código Penal Militar

Crimes militares em tempo de paz

Art. 9º. Consideram-se crimes militares, em tempo de paz:

[ ] III - os crimes praticados por militar da reserva, ou reformado, ou por civil, contra as instituições militares, considerando-se como tais não só os compreendidos no inciso I, como os do inciso II, nos seguintes casos:

a) contra o patrimônio sob a administração militar, ou contra a ordem

administrativa militar;

b) em lugar sujeito à administração militar contra militar em situação de

atividade […] ou contra funcionário de Ministério militar ou da Justiça Militar, no exercício de função inerente ao seu cargo;

c) contra militar em formatura, ou durante o período de prontidão,

vigilância, observação, exploração, exercício, acampamento, acantonamento ou manobras;

d) ainda que fora do lugar sujeito à administração militar, contra militar

em função de natureza militar, ou no desempenho de serviço de vigilância, garantia e preservação da ordem pública, administrativa ou judiciária, quando legalmente requisitado para aquele fim, ou em obediência a determinação legal superior.

O inciso III do artigo 9º do Código Penal Militar elenca as hipóteses em que o sujeito ativo do crime militar contra as instituições militares será o militar da reserva, ou o militar reformado ou o civil. O dispositivo em análise dispõe que serão considerados crimes contra as

13 CRUZ; MIGUEL, 2008, p. 47.

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instituições militares tanto aqueles compreendidos no inciso I como os do inciso II do artigo 9º do CPM, desde que praticados nas circunstâncias elencadas nas alíneas do inciso III. Em consequência, a partir da alteração realizada no inciso II pela Lei n.º 13.491/2017, deverão ser considerados tanto os delitos previstos no Código Penal Militar como também aqueles da legislação penal comum, sendo necessário, entretanto, que coexista uma das situações das alíneas do inciso III. Quanto à possibilidade de cometimento de crime militar nas hipóteses do inciso III por militar estadual da reserva remunerada ou reformado, a jurisprudência tem entendido pela competência da Justiça Militar estadual para processo e julgamento. Nesse sentido, confira-se decisão do Tribunal de Justiça Militar do Estado de Minas:

Ementa: Major reformado da Polícia Militar que, em entrevero com guarnição da Polícia Militar, exercendo função de natureza militar, ofende, desrespeita, injuria e vilipendia os militares, sem razão, com palavras chulas e de baixo calão, deprimindo-lhes a autoridade - o que contraria seu dever - comete o crime militar de desacato a militar (art. 9º, inc. III, letra “d”, do CPM). (TJMMG, Apelação nº 2.253, Rel. Juiz Cel PM Jair Cançado Coutinho, j. 04/11/2003, p. 02/12/2003).

Já em relação ao civil, cabe lembrar que, por disposição constitucional que será analisada mais adiante, ele não cometerá crime militar perante às instituições militares estaduais (Polícias Militares e Corpos de Bombeiros Militares). Reforça esse entendimento a Súmula de n.º 53 do Superior Tribunal de Justiça (STJ), que dispõe: “Compete à Justiça Comum Estadual processar e julgar civil acusado de prática de crime contra instituições militares estaduais”. Assim, quando se fizer referência aqui ao civil como sujeito ativo do crime militar, estar-se-á referindo ao cometimento de delito no âmbito das Forças Armadas, nunca em relação às instituições militares estaduais. A alínea “a” do inciso III traz a hipótese de crime militar quando a infração penal for praticada por militar da reserva, por militar reformado ou por civil contra o patrimônio sob a administração militar ou contra a ordem administrativa militar. Por exemplo, quando um civil danifica propositadamente uma viatura do Exército. Ressalte-se, novamente, que não é necessário que o patrimônio em questão pertença à instituição militar, bastando que ele esteja

sob administração desta. Por outro lado, se um civil danificar uma viatura da Polícia Militar, será responsabilizado pelo cometimento de crime comum, pelos motivos já expostos anteriormente.

Já pelo disposto na alínea “b”, haverá crime militar quando o militar da reserva, o

militar reformado ou o civil, em local sujeito à administração militar, praticar o delito contra

militar da ativa ou contra funcionário de Comando Militar (da Marinha, do Exército e ou da Aeronáutica) ou da Justiça Militar, todos no exercício de função inerente ao seu cargo. Na alínea “c”, há previsão de ocorrência de crime militar quando o delito for cometido por militar da reserva, por militar reformado ou por civil contra militar em formatura, ou durante o período de prontidão, vigilância, observação, exploração, exercício, acampamento, acantonamento ou manobras. Dessa maneira, existirá crime militar, por exemplo, se um militar reformado agredir um militar da ativa em formatura, prestes a participar de desfile militar.

A alínea “d” prevê a caracterização de crime militar quando a conduta delituosa for

praticada, mesmo que fora de local sujeito à administração militar, por militar da reserva, militar reformado ou civil contra militar em função de natureza militar, ou desempenhando serviço de vigilância, garantia e preservação da ordem pública, administrativa ou judiciária, quando legalmente requisitado para aquele fim, ou em obediência a determinação legal superior. Quando se tratar de militares das Forças Armadas, estes deverão estar

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desempenhando suas funções típicas, pois a jurisprudência não tem considerado crime militar, por exemplo, o delito cometido por civil contra militar do Exército, de serviço, mas atuando no trânsito. Já no caso dos policiais militares, são consideradas atividades típicas dos militares estaduais o policiamento ostensivo e o policiamento ostensivo de trânsito. Porém, como já dito, os civis não cometem crime militar no âmbito das instituições militares estaduais.

§ 1º Os crimes de que trata este artigo, quando dolosos contra a vida e

cometidos por militares contra civil, serão da competência do Tribunal do Júri. [Redação dada pela Lei n.º 13.491, de 2017]

§ 2º Os crimes de que trata este artigo, quando dolosos contra a vida e cometidos por militares das Forças Armadas contra civil, serão da competência da Justiça Militar da União, se praticados no contexto:

[Incluído pela Lei n.º 13.491, de 2017]

I do cumprimento de atribuições que lhes forem estabelecidas pelo Presidente da República ou pelo Ministro de Estado da Defesa;

II de ação que envolva a segurança de instituição militar ou de missão militar, mesmo que não beligerante; ou

III

de atividade de natureza militar, de operação de paz, de garantia da

lei

e da ordem ou de atribuição subsidiária, realizadas em conformidade

com o disposto no art. 142 da Constituição Federal e na forma dos

seguintes diplomas legais:

a) Lei n.º 7.565, de 19 de dezembro de 1986 - Código Brasileiro de Aeronáutica;

b) Lei Complementar n.º 97, de 9 de junho de 1999;

c) Decreto-Lei n.º 1.002, de 21 de outubro de 1969 - Código de Processo

Penal Militar; e

d) Lei n.º 4.737, de 15 de julho de 1965 - Código Eleitoral.

Inicialmente, o artigo 9º do Código Penal Militar foi acrescido de um parágrafo único, incluído por meio da Lei n.º 9.299/96, que deslocou a competência da justiça militar para a justiça comum em casos de crimes dolosos contra a vida de civis mesmo naquelas circunstâncias em que se configuraria o crime militar. Tempos depois, esse novo parágrafo único foi modificado pela Lei n.º 12.432/2011, ratificando-se a competência da justiça comum nessas situações referidas, mas excepcionando os delitos praticados em ação militar realizada na forma do artigo 303 do Código Brasileiro de Aeronáutica, que voltariam ser processados e julgados na justiça militar. Essa hipótese do artigo 303, incluída no Código Brasileiro de Aeronáutica pela Lei n.º 9.614/98 (Lei do Abate), permite a destruição de aeronave que ingresse clandestinamente em espaço aéreo brasileiro, classificada como hostil, depois de cumpridos rigorosos requisitos previstos em regulamento. Após isto, houve nova alteração no supracitado parágrafo único, desta vez por meio da Lei n.º 13.491/2017, substituindo-o por dois novos parágrafos. O parágrafo primeiro, com redação bastante semelhante ao antigo parágrafo único, prevê a competência da justiça comum, especificamente do Tribunal do Júri, para os crimes tratados no artigo 9º do CPM quando forem dolosos contra a vida e cometidos por militares contra civis. Quanto a isso, em relação à Justiça Militar estadual, cumpre salientar que a própria Constituição Federal, após modificação realizada pela Emenda Constitucional n.º 45/2004, passou a prever no § 4º do seu art. 125: “Compete à Justiça Militar estadual processar e julgar os militares dos Estados, nos crimes militares definidos em lei e as ações judiciais contra atos disciplinares militares,

18

(grifo nosso)”. Dessa

maneira, quando se tratar de crime doloso contra a vida de civil praticado por policial militar, mesmo que o fato se dê naquelas circunstâncias previstas no artigo 9º do CPM, a competência será da justiça comum, mais especificamente do Tribunal do Júri. Por outro lado, o novo parágrafo segundo trouxe algumas exceções para a regra

supramencionada, mas somente com incidência em relação aos militares das instituições militares federais. Para esses integrantes das Forças Armadas, a regra continua sendo a competência da justiça comum quando se tratar de crimes dolosos contra a vida de civis, porém, excepcionalmente, a competência será da Justiça Militar da União quando a ação ocorrer em determinados contextos relacionados às funções desses militares. São exemplos dessas exceções trazidas pela Lei n.º 13.491/2017: o crime doloso contra a vida de civil praticado por militar federal no contexto de operações de garantia da lei e da ordem (GLO) ou praticado por militar federal no contexto de atividade de natureza militar, entre outras elencadas nos incisos I a III do novo § 2º do art. 9º do CPM. Por fim, cabe ressaltar que, mesmo naquelas situações referidas de crimes dolosos contra a vida de civis nas hipóteses do art. 9º do CPM, no âmbito da investigação policial, esta deverá ser realizada pela autoridade de polícia judiciária militar. Com essa finalidade, deverá ser instaurado inquérito policial-militar (IPM), que posteriormente será remetido à Justiça Militar, sendo que esta terá a incumbência de reencaminhá-lo, se for o caso, para a justiça comum. Isto porque, desde a alteração também promovida pela já mencionada Lei n.º 9.299/96, o Código de Processo Penal Militar, passou a dispor em seu novo § 2º do artigo 82:

“Nos crimes dolosos contra a vida, praticados contra civil, a Justiça Militar encaminhará os autos do inquérito policial militar à justiça comum”.

ressalvada a competência do júri quando a vítima for civil [

]

1.10 ESTADO DE NECESSIDADE NO DIREITO PENAL MILITAR

Código Penal Militar

Estado de necessidade, com excludente de culpabilidade

Art. 39. Não é igualmente culpado quem, para proteger direito próprio ou de pessoa a quem está ligado por estreitas relações de parentesco ou afeição, contra perigo certo e atual, que não provocou, nem podia de outro modo evitar, sacrifica direito alheio, ainda quando superior ao direito protegido, desde que não lhe era razoavelmente exigível conduta diversa.

Estado de necessidade, como excludente do crime

Art. 43. Considera-se em estado de necessidade quem pratica o fato para preservar direito seu ou alheio, de perigo certo e atual, que não provocou, nem podia de outro modo evitar, desde que o mal causado, por sua natureza e importância, é consideravelmente inferior ao mal evitado, e o agente não era legalmente obrigado a arrostar o perigo.

O direito penal militar, assim como o direito penal comum, prevê as denominadas causas excludentes de ilicitude, dentre estas o estado de necessidade. Ocorre que o direito penal militar trata o estado de necessidade de forma diferenciada, pois nem sempre ele excluirá a ilicitude da conduta. Da análise dos dispositivos legais acima destacados, observa- se que o Código Penal Militar, em relação ao estado de necessidade, adotou teoria diversa daquela utilizada no Código Penal comum. A teoria aqui acolhida foi a chamada teoria diferenciadora, segundo a qual o estado de necessidade ora vai excluir a culpabilidade (art. 39 do CPM), ora vai excluir a ilicitude (art. 43 do CPM). Na primeira hipótese, de excludente de

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culpabilidade (ou exculpante), o agente, para proteger direito seu ou de quem esteja ligado por

estreitas relações de parentesco ou afeição, sacrifica direito alheio de igual ou maior valor que

o direito protegido. Nesse caso, contanto que não lhe seja razoavelmente exigível outro

comportamento que não aquele nas circunstâncias concretas. Já na segunda hipótese, de excludente de ilicitude (ou justificante), o agente, para salvaguardar direito seu ou de outrem,

sacrifica direito alheio de valor consideravelmente menor que o direito protegido. Por outro lado, o Código Penal comum acolheu a chamada teoria unitária, segundo a qual o estado de necessidade sempre será excludente de ilicitude.

1.11 MAIORIDADE PENAL NO DIREITO PENAL MILITAR BRASILEIRO

Código Penal Militar

Menores

Art. 50. O menor de dezoito anos é inimputável, salvo se, já tendo completado dezesseis anos, revela suficiente desenvolvimento psíquico para entender o caráter ilícito do fato e determinar-se de acordo com este entendimento. Neste caso, a pena aplicável é diminuída de um terço até a metade.

Equiparação a maiores

Art. 51. Equiparam-se aos maiores de dezoito anos, ainda que não tenham atingido essa idade:

a) os militares;

b) os convocados, os que se apresentam à incorporação e os que, dispensados temporariamente desta, deixam de se apresentar, decorrido o prazo de licenciamento;

c) os alunos de colégios ou outros estabelecimentos de ensino, sob direção

e disciplina militares, que já tenham completado dezessete anos.

De acordo com os dispositivos acima, constata-se que o Código Penal Militar de 1969 estabelecia regras diferenciadas para a inimputabilidade penal dos menores de dezoito anos, equiparando-os, em diversas hipóteses, aos maiores de dezoito anos. Todavia, essas regras não foram recepcionadas pela atual Constituição Federal de 1988, que dispõe, em seu artigo 228, de forma taxativa: São penalmente inimputáveis os menores de dezoito anos, sujeitos às normas da legislação especial.Logo, no direito penal militar atual, os menores de dezoito anos, em todo e qualquer caso, são penalmente inimputáveis, tendo havido revogação tácita daquelas disposições no CPM. Assim, por exemplo, se um aluno do Colégio Naval, que é militar na condição de praça especial, menor de dezoito anos, incorrer em alguma conduta tipificada como crime

militar, responderá por ato infracional. Isto porque, de acordo com o artigo 103 do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), “considera-se ato infracional a conduta descrita como crime ou contravenção penal”. Nesse caso, sendo apreendido em flagrante, deverá ser encaminhado

à delegacia especializada para lavratura do Auto de Apreensão em Flagrante por Ato

Infracional, nos termos do artigo 172 do ECA, estando sujeito às medidas previstas nessa legislação específica.

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1.12 PENAS PRINCIPAIS NO CÓDIGO PENAL MILITAR

Código Penal Militar

Penas principais

Art. 55. As penas principais são:

a) morte;

b) reclusão;

c) detenção;

d) prisão;

e) impedimento;

f) suspensão do exercício do posto, graduação, cargo ou função;

g) reforma.

As espécies de pena previstas no Código Penal Militar, que vêm elencadas em seu artigo 55, trazem algumas particularidades em relação àquelas do Código Penal comum. A primeira delas, a pena de morte, a mais gravosa das penas da lei penal militar, só tem previsão em tempo de guerra e é executada por fuzilamento, conforme disposto no artigo 56 do CPM. A Constituição Federal de 1988, em seu artigo 5º, inciso XLVII, alínea “a”, reafirmou a existência dessa espécie de pena, mantendo a excepcionalidade do caso de guerra declarada. Entre as penas de reclusão e de detenção, praticamente não há diferença no direito penal militar, a não ser o fato de a primeira ser destinada aos crimes mais graves, enquanto que a segunda é prevista para os delitos de menor gravidade. Além desse, outro ponto de diferenciação vem no artigo 58 do CPM, segundo o qual: “O mínimo da pena de reclusão é de 1 (um) ano e o máximo de 30 (trinta) anos; o mínimo da pena de detenção é 30 (trinta) dias e o máximo de 10 (dez) anos”. Faz-se necessário estabelecer esses valores porque, diferentemente do Código Penal comum, o CPM nem sempre estabelece um mínimo de pena

aplicável a alguns delitos. No crime militar de furto simples (art. 240 do CPM), por exemplo,

a pena estabelecida é a de reclusão de até seis anos, sem definição de uma pena mínima no

dispositivo legal. Nesse caso, com base no disposto no supracitado artigo 58, o juiz deverá aplicar uma pena de no mínimo um ano. Já em relação à pena de prisão, a diferença está no rigor de seu cumprimento, que é mais brando do que o da pena de reclusão ou detenção. É o que se conclui da redação do artigo 59 do Código Penal Militar, que prevê:

A pena de reclusão ou de detenção até 2 (dois) anos, aplicada a militar, é

convertida em pena de prisão e cumprida, quando não cabível a suspensão

condicional:

I - pelo oficial, em recinto de estabelecimento militar;

II - pela praça, em estabelecimento penal militar, onde ficará separada de

presos que estejam cumprindo pena disciplinar ou pena privativa de

liberdade por tempo superior a dois anos.

De outro lado, a pena privativa de liberdade, quando superior a dois anos, deverá ser cumprida em penitenciária militar e, na falta dessa, como é o caso do Estado da Bahia, em estabelecimento prisional civil, conforme a regra do artigo 61 do CPM. Nessa última hipótese,

o recluso ou detento ficará sujeito ao regime da Lei de Execuções Penais, fazendo jus aos

benefícios e concessões previstos nessa legislação. De qualquer forma, enquanto o policial

militar conservar essa condição de militar estadual, não poderá permanecer preso em

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estabelecimento prisional civil, devendo ser encaminhado para estabelecimento militar, consoante prerrogativa disposta no Estatuto dos Policiais Militares do Estado da Bahia. A pena de impedimento, conforme o artigo 63 do Código Penal Militar, sujeita o condenado a permanecer em recinto de unidade militar, submetido, ainda, à instrução militar. Essa espécie de pena, segundo o disposto no item 8 da Exposição de Motivos do Código Penal Militar, foi introduzida no CPM para o condenado por crime de insubmissão (art. 183 do CPM). Quanto à pena de suspensão do exercício do posto, graduação, cargo ou função, o próprio Código Penal Militar, em seu artigo 64, traz o conceito, ao dizer que esta “consiste na agregação, no afastamento, no licenciamento ou na disponibilidade do condenado, pelo tempo fixado na sentença, sem prejuízo do seu comparecimento regular à sede do serviço”. Nessa espécie, o CPM deixa claro que o tempo de cumprimento da pena não será computado como tempo de serviço. Por fim, a pena de reforma, consoante disposto no artigo 65 do CPM, sujeita o condenado a passar para a inatividade. Nessa situação, o militar não poderá receber mais de um vinte e cinco avos do soldo, por cada ano de serviço, nem mais que o valor do soldo no total.

1.13 A JUSTIÇA MILITAR ESTADUAL

Constituição Federal

Art. 125. Os Estados organizarão sua Justiça, observados os princípios estabelecidos nesta Constituição. […]

§ 3º A lei estadual poderá criar, mediante proposta do Tribunal de Justiça,

a Justiça Militar estadual, constituída, em primeiro grau, pelos juízes de

direito e pelos Conselhos de Justiça e, em segundo grau, pelo próprio Tribunal de Justiça, ou por Tribunal de Justiça Militar nos Estados em que o efetivo militar seja superior a vinte mil integrantes. [Redação dada

pela Emenda Constitucional n.º 45, de 2004]

§ 4º Compete à Justiça Militar estadual processar e julgar os militares dos

Estados, nos crimes militares definidos em lei e as ações judiciais contra atos disciplinares militares, ressalvada a competência do júri quando a vítima for civil, cabendo ao tribunal competente decidir sobre a perda do posto e da patente dos oficiais e da graduação das praças. [Redação dada

pela Emenda Constitucional n.º 45, de 2004]

§ 5º Compete aos juízes de direito do juízo militar processar e julgar,

singularmente, os crimes militares cometidos contra civis e as ações judiciais contra atos disciplinares militares, cabendo ao Conselho de Justiça, sob a presidência de juiz de direito, processar e julgar os demais crimes militares. [Incluído pela Emenda Constitucional n.º 45, de 2004]

Como se vê, a Constituição Federal autoriza a criação da Justiça Militar estadual, através de lei estadual e mediante proposta dos tribunais de justiça, sendo que, na atualidade, todos os estados já o fizeram inclusive o Distrito Federal. Por outro lado, a partir da Emenda Constitucional (EC) n.º 45, promulgada em 30 de dezembro de 2004, ocorreram algumas modificações significativas no âmbito da Justiça Militar estadual. Hoje, os julgamentos na

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primeira instância da Justiça Militar estadual podem acontecer de duas maneiras: pelo juiz de direito do juízo militar, antigo juiz-auditor militar, de forma isolada, ou pelo Conselho de Justiça, sob a presidência do juiz de direito do juízo militar. De qualquer forma, a Justiça Militar estadual só é competente para julgar os militares dos estados, nunca civis. Em relação ao Conselho de Justiça, este é composto pelo juiz de direito do juízo militar, que agora o preside, e por quatro juízes militares, que são sorteados dentre os oficiais das Polícias Militares e Corpos de Bombeiros Militares. Cada um dos cinco membros do Conselho tem direito a um voto, não havendo prevalência entre o voto do juiz de direito e dos demais. O juiz de direito será o primeiro a votar e em seguida os juízes militares, por ordem inversa de hierarquia. Desse modo, se o Conselho for composto por um tenente-coronel, um major, um capitão e um tenente, a ordem de votação será a seguinte: primeiro votará o tenente, depois o capitão, a seguir o major e, por fim, o tenente-coronel. Esses Conselhos de Justiça podem ser de duas espécies: Conselho Permanente de Justiça e Conselho Especial de Justiça. O primeiro é competente para processar e julgar as praças pelo cometimento de crime militar. Ele será composto por quatro oficiais sorteados, que nele funcionarão como juízes militares pelo período de três meses consecutivos. Já o segundo é competente para processar e julgar os oficiais pelo cometimento de crime militar. Também será composto por quatro oficiais, porém estes serão sorteados para atuarem como juízes militares em cada processo específico. Nesse caso, deverá ser observada a precedência hierárquica dos juízes militares sobre o acusado. Ambos os conselhos de justiça serão presididos pelo juiz de direito do juízo militar. Por sua vez, o juiz de direito do juízo militar será competente para julgar e processar singularmente os crimes militares cometidos contra civis e as ações judiciais contra atos disciplinares militares. Nessas situações, atuará sozinho, sendo que, nos demais casos, incidirá a regra do processo e julgamento pelo Conselho de Justiça. Acerca da competência para processar e julgar as ações judiciais contra atos disciplinares militares no âmbito da Justiça Militar estadual, isto consiste em outra novidade trazida pela Emenda Constitucional n.º 45/2004. Antes disso, a Justiça Militar Estadual somente detinha competência criminal, isto é, para processo e julgamento de delitos militares, assim como ainda acontece na Justiça Militar da União. Desse modo, houve uma ampliação da competência na Justiça Militar Estadual, que passou a julgar ações cíveis, como a do mandado de segurança relativo a atos disciplinares militares. Nos demais casos, será competente para processo e julgamento o Conselho de Justiça.

Além disso, como visto anteriormente, o novo texto constitucional trazido pela referida EC n.º 45/2004 dispôs que os crimes dolosos contra a vida de civis serão de competência da justiça comum, mais especificamente do Tribunal do Júri. Na verdade, conforme também já mencionado, essa regra veio ratificar aquilo que havia sido estabelecido no parágrafo único do artigo 9º do Código Penal Militar, inserido pela Lei n.º 9.299/96, definindo-se a competência da justiça comum nos crimes dolosos contra a vida e cometidos contra civil, mesmo quando a conduta se amoldasse às hipóteses de crime militar. Por fim, a Justiça Militar estadual será constituída, em segundo grau, pelo próprio Tribunal de Justiça ou pelo Tribunal de Justiça Militar, nos Estados que instituírem este último. Para isso, é necessário que o efetivo de militares estaduais seja superior a vinte mil integrantes. Atualmente, apesar de existirem Estados com efetivo superior a esse número, como é o caso do estado da Bahia, somente três deles criaram Tribunal de Justiça Militar:

Minas Gerais, Rio Grande do Sul e São Paulo. Por outro lado, como já dito, para os estados que não instituírem o Tribunal de Justiça Militar, o Tribunal de Justiça será a segunda instância da Justiça Militar estadual, que é o que ocorre em quase todos os estados atualmente, inclusive na Bahia.

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1.14 NÃO APLICABILIDADE DA LEI N.º 9.099/95 NA JUSTIÇA MILITAR

Com o advento da Lei n.º 9.099, de 26 de setembro de 1995, que instituiu os Juizados Especiais Criminais, muito se discutiu acerca de sua aplicabilidade na Justiça Militar. O Supremo Tribunal Federal entendia que se aplicava, por exemplo, o instituto da suspensão condicional do processo penal, previsto no artigo 89 da Lei n.º 9.099/95, mesmo na Justiça Militar. Entretanto, foi promulgada a Lei n.º 9.839, de 27 de setembro de 1999, a qual acrescentou o artigo 90-A à Lei n.º 9.099/95, com a seguinte redação: “As disposições desta Lei não se aplicam no âmbito da Justiça Militar”. Assim sendo, atualmente, a Lei n.º 9.099/95 não se aplica à Justiça Militar, por expressa disposição legal em seu texto.

2 CRIMES MILITARES EM ESPÉCIE

2.1 CRIME DE VIOLÊNCIA CONTRA SUPERIOR

Código Penal Militar

Violência contra superior

Art. 157. Praticar violência contra superior:

Pena - detenção, de três meses a dois anos.

Formas qualificadas

§ 1º Se o superior é comandante da unidade a que pertence o agente, ou oficial general:

Pena - reclusão, de três a nove anos.

§ 2º Se a violência é praticada com arma, a pena é aumentada de um terço.

§ 3º Se da violência resulta lesão corporal, aplica-se, além da pena da violência, a do crime contra a pessoa.

§ 4º Se da violência resulta morte:

Pena - reclusão, de doze a trinta anos.

§ 5º A pena é aumentada da sexta parte, se o crime ocorre em serviço.

O crime militar de violência contra superior, delito propriamente militar, é conduta que atenta contra a autoridade e a disciplina militar, sendo estes os bens jurídicos protegidos pela norma penal militar em questão. Essa infração penal militar, para sua configuração, exige que a violência seja praticada por um subordinado em relação a um superior hierárquico. Lembrando-se, contudo, da regra trazida no artigo 24 do CPM, que prevê a denominada superioridade funcional, segundo a qual é considerado superior, para fins de aplicação da lei penal militar, aquele militar que, em virtude de determinada função, exerce autoridade sobre outro militar de mesmo posto ou graduação. Dessa maneira, o militar que pratica violência contra outro militar de mesmo grau hierárquico, mas estando este último no exercício de uma daquelas referidas funções, incorre na infração penal em comento. Em todo caso, de acordo o estabelecido no artigo 47, inciso I, do CPM, o militar deverá conhecer a condição de superior daquele que sofre a violência.

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Na lição de Loureiro Neto 14 , “violência em Direito Penal Militar quer dizer a violência física (vis corporalis), consistente em tapas, empurrões, rasgar roupas, puxão de orelha, pontapés e socos, que podem ou não provocar lesões. Há necessidade de contatos físicos diretos ou através de instrumentos, também físicos”. No entanto, se essa violência for praticada com emprego de arma, que pode ser uma arma própria, como um revólver, ou uma denominada arma imprópria, a exemplo de um pedaço de pau, incidirá uma causa de aumento de pena correspondente a um terço (art. 157, § 2º, do CPM). A violência exigida para configuração do delito de violência contra superior, como se vê, não implica necessariamente em lesão corporal. Logo, nem sempre será exigido o exame pericial para prova da ação violenta praticada contra o superior, mas tão somente naqueles casos em que, dessa violência, resultar algum tipo de lesão. Nessa última hipótese, nos termos do § 3º do artigo 157 do CPM, a pena relativa à lesão (por exemplo, a pena do crime militar de lesão leve, de detenção, de três meses a um ano) será somada à pena do crime de violência contra superior. Por outro lado, se da violência resultar a morte do superior hierárquico agredido, a pena será de reclusão, de doze a trinta anos, em uma forma qualificada do crime em análise, conforme estabelecido no § 4º do artigo 157. Ainda, se o crime de violência contra superior ocorrer em serviço, consoante dispõe o § 5º do artigo 157 do CPM, haverá aplicação de uma causa de aumento de pena de um sexto. Sobre essa majorante, Neves e Streifinger 15 explicam: “Para o tipo penal, tanto faz estarem em serviço o autor, o ofendido ou ambos, pois o fato em questão prejudicará o serviço em qualquer dessas hipóteses, sem contar a eventual presença de outros militares, o que faria a repercussão do evento ser maior, promovendo danos mais sensíveis à disciplina e à autoridade". Agora, se o superior agredido for um oficial de serviço, o crime será outro, no caso o delito de violência contra militar de serviço, previsto no artigo 158 do Código Penal Militar, que é mais específico e possui uma pena mais gravosa. De outra parte, caso a violência seja praticada contra superior que exerça o comando da unidade a que pertence o agressor, incidirá uma forma qualificada do delito, com pena própria de três a nove anos de reclusão. Essa qualificadora tem previsão no § 1º do artigo 157 do Código Penal Militar. Por fim, consoante regra do artigo 88, inciso II, alínea a, do Código Penal Militar (CPM), e do artigo 617, inciso II, alínea a, do Código de Processo Penal Militar (CPPM), não haverá concessão do benefício da suspensão condicional da pena no crime de violência contra superior. Além disso, conforme dispõe o artigo 270, parágrafo único, alínea b, parte final, do CPPM, o indiciado ou acusado por essa infração penal militar não fará jus à liberdade provisória. Ainda, de acordo com o artigo 97 do CPM e com o artigo 642, parágrafo único, do CPPM, o livramento condicional somente será concedido depois de cumpridos dois terços da pena, enquanto que, para os delitos em geral, seria necessário o cumprimento de metade da pena pelo condenado primário.

2.2 CRIME DE VIOLÊNCIA CONTRA INFERIOR

Código Penal Militar

Violência contra inferior

Art. 175. Praticar violência contra inferior:

Pena - detenção, de três meses a um ano.

14 LOUREIRO NETO, José da Silva. Direito penal militar. São Paulo: Atlas, 1992, pp. 125-126.

15 NEVES, Cícero Robson Coimbra; STREIFINGER, Marcelo. Manual de direito penal militar. 2. ed. São Paulo: Saraiva, 2012, p. 772.

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Resultado mais grave

Parágrafo único. Se da violência resulta lesão corporal ou morte é também aplicada a pena do crime contra a pessoa, atendendo-se, quando for o caso, ao disposto no art. 159.

O crime de violência contra inferior, delito propriamente militar, como é evidente, exige a condição de superior do sujeito ativo, com a ressalva da superioridade funcional do artigo 24 do CPM, quando também poderá excepcionalmente ser praticado por militar de mesmo grau hierárquico do agredido. Como leciona Chaves Júnior, 16 “a lei pune o emprego de meios violentos não compatíveis com a vida militar, tanto mais quando empregados pelo superior hierárquico, tal a condição de sua responsabilidade profissional”. Esses meios violentos podem consistir em tapas, socos, chutes, empurrões, entre outros. Em que pese alguns autores defenderem que o crime em análise tanto engloba a violência física quanto a moral, prevalece o entendimento de que essa infração penal somente se caracteriza pelo emprego de violência física. Ressalte-se que, para que haja o delito em comento, a condição de inferior deve ser conhecida pelo superior. Também, não sendo necessário que haja lesão corporal para ocorrer o crime de violência contra inferior, o exame de corpo de delito é dispensável, a não ser que exista efetivamente lesão. Nesse último caso, consoante disposto no parágrafo único do artigo 175, será aplicada a pena de ambos os crimes. Do mesmo modo, se da violência resultar morte, o agente responderá pelo crime de homicídio e violência contra inferior, com a soma das penas. No entanto, essa segunda pena será reduzida de metade, se ficar evidenciado que o agressor não quis esse outro resultado nem assumiu o risco de produzi-lo.

2.3 CRIME DE DESRESPEITO A SUPERIOR

Código Penal Militar

Desrespeito a superior

Art. 160. Desrespeitar superior diante de outro militar:

Pena - detenção, de três meses a um ano, se o fato não constitui crime mais grave.

Parágrafo único. Se o fato é praticado contra o comandante da unidade a que pertence o agente, oficial-general, oficial de dia, de serviço ou de quarto, a pena é aumentada da metade.

Da mesma forma que o delito analisado anteriormente, o crime de desrespeito a superior atenta contra a autoridade e a disciplina militar, bens jurídicos tutelados pela incriminação da conduta descrita no tipo penal militar do artigo 160 do Código Penal Militar. Também, o delito militar de desrespeito a superior é crime propriamente militar, vez que é infração penal militar específica e funcional de quem detém a condição de militar. A conduta do crime em comento, por sua vez, consiste em desrespeitar superior na presença de outro militar. Nas palavras de Loureiro Neto 17 : O desrespeito pode manifestar-se através de gestos, atitudes e palavras. Assim, um gesto de desaprovação, de crítica, obsceno, pode considerar-se uma atitude desrespeitosa. Uma palavra de crítica, de menosprezo, pode constituir-se,

16 CHAVES JÚNIOR, Edgard de Brito. Direito penal e processo penal militar. Rio de Janeiro: Forense, 1986, p. 177.

17 LOUREIRO NETO, 1992, p. 128.

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conforme as circunstâncias, ofensa a autoridade do superior”. De qualquer modo, para caracterização do crime de desrespeito a superior, o comportamento desrespeitoso deverá ocorrer diante de, ao menos, um outro militar. Como se percebe, esse delito militar somente pode ser praticado por um subordinado contra um superior hierárquico, valendo aqui também o disposto no artigo 24 do CPM. Assim sendo, o militar que venha a desrespeitar outro militar, ainda que de igual posto ou graduação, mas na execução de função que exerça autoridade sobre outros militares de igual posto ou graduação, cometerá o crime militar de desrespeito a superior. De todo modo, o agente que pratica o desrespeito deverá necessariamente conhecer a condição de superior hierárquico do militar desrespeitado para que haja configuração do crime em questão. Saliente-se ainda que a infração penal militar de desrespeito a superior consiste em delito subsidiário. Isso é o que se depreende da expressão se o fato não constitui crime mais grave, disposta na parte final da pena a ele cominada, que é de detenção, de três meses a um ano. Nessa relação de subsidiariedade, “a norma secundária só é aplicável na ausência de outra norma a norma primária , já que esta última envolve por inteiro a primeira”. 18 Logo, se a conduta se amoldara outro crime mais grave, como o delito de desacato a superior (art. 298 do CPM), que possui pena de até quatro anos de reclusão, por este último é que responderá o agente. Valendo lembrar que, consoante explicam Neves e Streinfinger 19 , “[…]

o desrespeito consiste em uma falta de consideração mais branda por essa razão é crime

subsidiário , enquanto que o desacato traduz-se em franca agressão ao superior, de modo mais agressivo, ofendendo-lhe a própria dignidade, o decoro etc.” Além disso, o crime militar de desacato a superior está incluído entre os crimes contra a administração militar, sendo este

o bem jurídico penal militar tutelado pela criminalização de sua conduta. Ainda, caso o delito de desrespeito a superior venha a ser cometido contra o comandante da unidade a que serve o agente ou contra oficial de dia ou de serviço, a pena sofrerá um aumento de metade, conforme prescreve o parágrafo único do artigo 160 do Código Penal Militar. Em última análise, o crime de desrespeito a superior impossibilita a concessão do benefício da suspensão condicional da pena, segundo prevê o artigo 88, inciso II, alíneas ae b”, do CPM, e o artigo 617, inciso II, alíneas “a” e “b”, do CPPM. Já pelo disposto no artigo 270, parágrafo único, alínea b, parte final, do CPPM, o indiciado ou acusado por essa infração penal militar não fará jus à liberdade provisória.

2.4 CRIME DE RECUSA DE OBEDIÊNCIA

Código Penal Militar

Recusa de obediência

Art. 163. Recusar obedecer a ordem do superior sobre assunto ou matéria de serviço, ou relativamente a dever imposto em lei, regulamento ou instrução:

Pena - detenção, de um a dois anos, se o fato não constitui crime mais grave.

O delito de recusa de obediência, crime propriamente militar, constitui uma das espécies de insubordinação, esta que dá nome ao Capítulo V do Título II (Dos Crimes contra Autoridade ou Disciplina Militar). Conforme a descrição do artigo 163 comete o crime em

18 TOLEDO, Francisco de Assis. Princípios básicos de direito penal. 5. ed. São Paulo: Saraiva, 1994, p. 52.

19 NEVES; STREIFINGER, 2012, p. 1.327.

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questão aquele que se recusa obedecer a ordem de superior, logo é delito que só pode ser cometido por um subordinado em relação a um superior hierárquico. Todavia, convém lembrar a regra do artigo 24 do CPM, segundo a qual poderá ser considerado superior, para fins de aplicação da lei penal militar, aquele que, em virtude de determinada função, exerce autoridade sobre outro militar de mesmo posto ou graduação, por exemplo, um sargento na função de sargento-de-dia. Nessa hipótese, ainda que a ordem parta de um militar de mesmo grau hierárquico daquele que a recebe, mas que esteja no exercício de função de comando, poderá restar configurada a infração penal em comento. Em todo caso, o militar deverá conhecer a condição de superior de quem emite a ordem. Por sua vez, a ordem emanada deve consistir em assunto ou matéria de serviço, ou, ainda, ser relativa a dever imposto em lei, regulamento ou instrução. Acerca da ordem relativa a assunto ou matéria de serviço, conforme Loureiro Neto, “significa que ela deva ter relação com as atribuições funcionais do militar, visando, portanto, o interesse da corporação a que pertence e não interesses particulares. Assim, não pode ser considerado assunto ou matéria de serviço a ordem dada por um oficial a seu subordinado no sentido de que este limpe seu veículo” 20 . Também a ordem dada deve ser legal, pois, de outro modo, sendo o descumprimento relativo a uma ordem ilegal, não haverá crime de recusa de obediência. No entanto, se a ilegalidade da ordem não for manifesta, executando-a o subordinado, não responderá este, mas, sim, o superior que a ordenou, isto segundo a regra do artigo 38 do CPM. Ainda, conforme leciona o autor supracitado, a ordem deve ser pessoal, o que “significa que deve ser dirigida a um ou mais inferiores determinados; as de caráter geral não são ordens desta natureza e seu não cumprimento constitui transgressão disciplinar” 21 . O crime de recusa de obediência, de acordo com o disposto no artigo 88, II, alínea a, do CPM, e no artigo 617, II, alínea a, do CPPM, impede a concessão do benefício da suspensão condicional da pena. Do mesmo modo, pelo artigo 270, parágrafo único, alínea b, parte final, do CPPM, o indiciado ou acusado por esse delito não terá direito à liberdade provisória. Por fim, vale lembrar que só haverá o delito de recusa de obediência caso o fato não constitua outra infração penal de maior gravidade. Por exemplo, se a recusa for realizada por dois ou mais militares reunidos, não existirá o crime em questão, mas o de motim ou, se os militares estiverem armados, o de revolta, infrações penais estas mais graves em relação ao delito de recusa de obediência.

2.5 CRIME DE DESERÇÃO

Código Penal Militar

Deserção

Art. 187. Ausentar-se o militar, sem licença, da unidade em que serve, ou do lugar em que deve permanecer, por mais de oito dias:

Pena - detenção, de seis meses a dois anos; se oficial, a pena é agravada.

O crime de deserção é crime propriamente militar, uma vez que somente pode ser praticado por quem detém a qualidade de militar, abrangendo os militares estaduais, no caso policiais militares e bombeiros militares. Além disso, conforme sustentam Cruz e Miguel 22 , também é crime tipicamente militar, pois, como todo delito propriamente militar, só possui

20 LOUREIRO NETO, 1992, p. 131.

21 LOUREIRO NETO, 1992, p. 131.

22 CRUZ, Ione de Souza; MIGUEL, Claudio Amin. Elementos de direito penal militar: Parte Geral. 2. ed. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2008, p. 24.

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previsão legal no Código Penal Militar. O crime militar de deserção inclui-se naquelas infrações penais militares que atentam contra o serviço militar e o dever militar, sendo estes os bens jurídicos que se almeja tutelar com a criminalização da conduta em questão. Conforme expõe Teixeira 23 , “desertar é abandonar definitivamente esse serviço enquanto está ainda obrigado, ou fugir ao cumprimento dele por prazo que a lei presume o abandono, ou ainda não se apresentar para prestá-lo dentro de tal prazo, ou finalmente agir fraudulentamente para se isentar do cumprimento dos deveres decorrentes do mesmo serviço”. Esse prazo legal em que se presume o abandono é aquele superior a oito dias, nos termos do artigo 187 do Código Penal Militar. Dessa maneira, se o militar ausenta-se, sem licença, da unidade em que serve, ou do lugar em que deve permanecer, por um período de até oito dias, não comete o delito de deserção. Esse lapso de oito dias, quando ainda não há consumação do crime de deserção, é chamado de prazo de graça. Como explica Assis 24 , “prazo de graça, portanto, é o período de oito dias da ausência do militar. Antes desse prazo não haverá desertor e sim, o ausente, a quem são aplicadas as sanções disciplinares”. Logo, se o militar ausente apresentar-se ainda nesse período de graça, somente será responsabilizado no âmbito administrativo disciplinar militar. Saliente-se que, consoante dispõe o § 1º do artigo 451 do Código de Processo Penal Militar (CPPM), a contagem dos dias de ausência do militar será iniciada a zero hora do dia seguinte ao que for verificada a sua falta injustificada. Ao realizarem interpretação dessa regra do CPPM, Miguel e Cruz 25 explicam: “O prazo para consumação inicia-se no dia seguinte à ausência, e não no primeiro dia útil, e completa-se no primeiro instante do nono dia, ou seja, basta somar nove para se chegar ao momento consumativo”. Ademais, discute-se ainda sobre a natureza do delito de deserção em relação a uma das classificações dos crimes em geral, isto é, se seria um crime permanente ou um crime instantâneo de efeitos permanentes. Acerca dessa classificação, Hungria 26 ensina: “Não é de confundir-se o crime permanente com o crime instantâneo de efeitos permanentes (homicídio, furto, bigamia), pois se, no primeiro, a permanência depende da continuidade da ação ou omissão, já o mesmo não acontece no último”. Aceitando, pois, que a deserção é crime permanente, aplica-se a regra do artigo 244, parágrafo único, do CPPM, segundo a qual: “nas infrações permanentes, considera-se o agente em flagrante delito enquanto não cessar a permanência”. Sob esse ponto de vista, enquanto perdurar a ausência do militar em tempo superior a oitos dias, estará ele em estado de flagrância, o que autorizará a sua prisão mesmo no interior do domicílio, já que o flagrante delito inclui-se nas exceções à inviolabilidade domiciliar (art. 5º, inciso XI, da CF/88). De outro modo, entendendo-se que se trata de um crime instantâneo de efeitos permanentes, passado o momento consumativo, não restará estado de flagrância. Desse modo, não será permitida a prisão do desertor no interior de domicílio, a não ser mediante autorização judicial e somente durante o dia. No entanto, fora do domicílio, poderá ser empreendida a captura do desertor a qualquer momento, conforme estabelecido no artigo 452 do CPPM. Esse dispositivo legal menciona que “o termo de deserção tem o caráter de instrução provisória e destina-se a fornecer os elementos necessários à propositura da ação penal, sujeitando, desde logo, o desertor à prisão(grifo nosso). O referido termo de deserção é o documento lavrado pelo comandante da unidade, ou autoridade correspondente,

23 TEIXEIRA, Silvio Martins. Novo Código Penal Militar do Brasil: Código penal militar explicado. Rio de Janeiro: Freitas Bastos, 1946, p. 313.

24 ASSIS, Jorge Cesar de. Comentários ao Código Penal Militar. 6. ed. rev. e atual. Curitiba: Juruá, 2008, p.

380.

25 MIGUEL, Claudio Amin; CRUZ, Ione de Souza. Elementos de direito penal militar: Parte Especial. São Paulo: Método, 2013, p.120.

26 HUNGRIA, Nelson. Comentários ao Código Penal. 5. ed. Rio de Janeiro: Forense, 1978, v. I, t. II, p. 44.

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ou ainda autoridade superior, imediatamente após a consumação do crime de deserção, segundo previsão do artigo 451 do CPPM. Nessa última situação, a prisão, mesmo fora dos casos de flagrante delito ou de ordem judicial, seria possível por ser a deserção um crime

propriamente militar, sendo, assim, abrangida pela exceção contida na parte final do inciso

LXI do art. 5º da Constituição Federal.

Por fim, a pena em abstrato cominada para o crime de deserção é de seis meses a dois anos de detenção, sendo agravada para o oficial. De acordo com o previsto no artigo 88, inciso II, alínea a, do CPM e no artigo 617, inciso II, alínea a, do CPPM, a suspensão condicional da pena não se aplica ao crime de deserção. Além disso, na esfera disciplinar militar, a Lei Estadual n.º 7.990/2001 (Estatuto dos Policiais Militares do Estado da Bahia), em seu artigo 57, inciso II, alínea i, prevê a pena de demissão para o policial militar que incorrer no crime de deserção.

2.6 CRIME DE ABANDONO DE POSTO

Código Penal Militar

Abandono de posto

Art. 195. Abandonar, sem ordem superior, o posto ou lugar de serviço que lhe tenha sido designado, ou o serviço que lhe cumpria, antes de terminá- lo:

Pena - detenção, de três meses a um ano.

O artigo 195 do CPM incrimina o abandono de posto, crime propriamente militar, que

se perfaz quando o militar, sem ordem superior, deixa o posto ou lugar de serviço para o qual

havia sido designado ou o serviço que lhe competia, antes de terminá-lo. Na lição de Neves e de Streifinger 27 , “[…] no abandono de posto ou de lugar de serviço, há sempre uma área geográfica delimitada, com menor (posto) ou maior (lugar de serviço) amplitude. Pode ocorrer, todavia, que a atividade desempenhada pelo militar não tenha uma delimitação espacial ou, se o tiver, essa delimitação não é tão importante para o desempenho da função

confiada ao militar”. Por exemplo, quando o PM é escalado na guarda do quartel, esta consiste em um posto; já quando é designado para o policiamento ostensivo a pé em uma

determinada rua, esta constitui o seu lugar de serviço; por seu turno, quando assume a função de rondante, esta missão compõe o serviço. Assim sendo, três são as situações em que existirá

o crime de abandono de posto: quando o militar deixar o posto, o lugar de serviço ou o

serviço propriamente dito. Vale lembrar que, em relação ao serviço para o qual o militar tinha sido designado, conforme ensina Chaves Júnior 28 , “entende-se por serviço qualquer um que se enquadre nas atribuições do agente, não só as peculiares da profissão de militar, como também as de outra natureza, indispensáveis ou necessárias à tropa, tais como preparo de alimentação, serviço de

limpeza, burocrático etc.”. Ressalte-se ainda que, por ser um crime de perigo abstrato, o delito de abandono de posto não exige a ocorrência de qualquer risco concreto de dano ocasionado

pelo abandono, havendo na própria conduta uma presunção desse perigo.

De outro lado, não há necessidade de um grande lapso temporal fora do posto, lugar ou serviço para se configurar o delito em comento. É o que ensina Badaró 29 : “Na caracterização do crime de abandono de posto basta a ausência momentânea, não autorizada

27 NEVES, Cícero Robson Coimbra; STREIFINGER, Marcelo. Apontamentos de direito penal militar: parte especial. São Paulo: Saraiva, 2008, v. 2, p. 305.

28 CHAVES JÚNIOR, 1986, p. 21.

29 BADARÓ, Ramagem. Comentários ao Código Penal Militar de 1969. São Paulo: Juriscredi, 1972, v. 2, p. 64.

30

ou não justificada do militar em lugar ou ocasião em que deveria estar presente, por dever militar e em razão de ordem de serviço” (grifo do autor).

2.7 CRIME DE EMBRIAGUEZ EM SERVIÇO

Código Penal Militar

Embriaguez em serviço

Art. 202. Embriagar-se o militar, quando em serviço, ou apresentar-se embriagado para prestá-lo:

Pena - detenção, de seis meses a dois anos.

O delito de embriaguez em serviço, crime propriamente militar, apresenta-se, na verdade, em duas condutas: a de embriagar-se o militar, quando em serviço, e a de se apresentar o militar embriagado para o serviço. Na primeira, o militar assume o serviço estando sóbrio, mas, durante o seu transcorrer, embriaga-se; enquanto que, na segunda, o militar já se apresenta embriagado para assunção do serviço. Em qualquer caso, essa embriaguez poderá ser resultante de álcool ou outras substâncias análogas, sendo que, se o militar for flagrado com a substância entorpecente nas dependências de unidade policial- militar, consumindo-a ou prestes a consumi-la, responderá pelo delito do artigo 290 do CPM, independentemente do estado de embriaguez em que poderá encontrar-se 30 . Ainda, o crime de embriaguez em serviço, assim como o delito de abandono de posto, é crime de perigo abstrato, não exigindo, por conseguinte, prova da ocorrência de qualquer situação de risco concreto decorrente da embriaguez do militar. Por seu turno, a prova da embriaguez não necessita de constatação por meio de teste de alcoolemia (exame de sangue) ou do etilômetro (bafômetro), ainda que possa ser provada por esses meios. Isto porque o crime de embriaguez em serviço, em sua descrição típica, não prevê qualquer nível alcoólico mínimo por litro de sangue, somente exigindo a prova da ebriedade do militar, independentemente da quantidade de álcool que tenha ocasionado essa embriaguez. Entretanto, vale aqui a regra da não autoincriminação, pela qual ninguém poderá ser compelido a produzir provas contra si mesmo, podendo, então, o militar negar-se a realizar os testes de alcoolemia e do etilômetro. Destacando-se aqui que o Código de Processo Penal Militar, em seu artigo 296, § 2º, traz esse princípio de forma expressa, nos termos seguintes:

“ninguém está obrigado a produzir prova que o incrimine, ou ao seu cônjuge, descendente, ascendente ou irmão”. De qualquer maneira, será apto a comprovar a embriaguez o exame clínico, sendo que o militar não terá direito a recusar-se estar na presença do médico-perito, o qual poderá atestar seu estado de ebriedade.

2.8 CRIME DE DORMIR EM SERVIÇO

Código Penal Militar

Dormir em serviço

Art. 203. Dormir o militar, quando em serviço, como oficial de quarto ou de ronda, ou em situação equivalente, ou, não sendo oficial, em serviço de sentinela, vigia, plantão às máquinas, ao leme, de ronda ou em qualquer serviço de natureza semelhante:

Pena - detenção, de três meses a um ano.

30 NEVES; STREIFINGER, 2008, v. 2, p. 333.

31

O delito do sono, como também é conhecido o crime de dormir em serviço, ocorre

quando o militar dorme, em serviço, em qualquer das situações acima elencadas. Esse delito, além de crime propriamente militar, é também crime de perigo abstrato, sendo, pois, desnecessária a prova de perigo concreto advindo do comportamento do militar que dorme em serviço. O policial militar, no cumprimento de sua missão institucional, já frequentemente exposto ao risco dela decorrente, ao dormir em serviço, torna esse perigo, a si próprio e aos

que tem o dever de proteger, potencialmente maior. Todavia, só é criminalizada a conduta daquele militar que dorme em serviço intencionalmente, não havendo qualquer previsão da forma culposa do delito, mas tão somente a sua modalidade dolosa.

O artigo 203 traz ainda a descrição de algumas funções, no exercício das quais, caso o

militar durma, haverá o crime de dormir em serviço. No entanto, aquelas situações são apenas exemplificativas, uma vez que o dispositivo faz referência a situação equivalente à função de oficial de quarto ou de ronda e, especificamente em relação às praças, a qualquer serviço de natureza semelhante ao serviço de sentinela, vigia, plantão às máquinas, ao leme e de ronda.

Por conta disso, Neves e Streifinger 31 lembram que “é perfeitamente possível a ocorrência do delito no serviço de policiamento ostensivo das Polícias Militares, uma vez que, se Oficial, como já postulamos, enquadrar-se-á na figura do Oficial de Ronda, e, se Praça, estará em serviço de natureza semelhante ao de ronda. Note-se que o Policial Militar que realiza o patrulhamento em determinada região, em verdade, vigia a área sob o prisma da preservação da ordem pública”.

E esses mesmos autores supracitados colocam que, por serem sempre de vigilância as

situações previstas no delito em análise, não o cometerá aquele militar que dormir na

execução de atividade administrativa 32 . De qualquer forma, esse militar deverá ser responsabilizado na esfera administrativa disciplinar.

2.9 CRIME DE DESAPARECIMENTO, CONSUNÇÃO OU EXTRAVIO

Código Penal Militar

Desaparecimento, consunção ou extravio

Art. 265. Fazer desaparecer, consumir ou extraviar combustível, armamento, munição, peças de equipamento de navio ou de aeronave ou de engenho de guerra motomecanizado:

Pena - reclusão, até três anos, se o fato não constitui crime mais grave.

Modalidades culposas

Art. 266. Se o crime dos arts. 262, 263, 264 e 265 é culposo, a pena é de detenção de seis meses a dois anos; ou, se o agente é oficial, suspensão do exercício do posto de um a três anos, ou reforma; se resulta lesão corporal ou morte, aplica-se também a pena cominada ao crime culposo contra a pessoa, podendo ainda, se o agente é oficial, ser imposta a pena de reforma.

Infelizmente, tem sido cada vez mais comum a perda ou extravio de arma de fogo pertencente à Corporação por parte de policiais militares. A grande maioria dessas ocorrências deve-se a situações de caso fortuito ou força maior, nas quais o PM não tem culpa alguma, ou

31 NEVES; STREIFINGER, p. 337.

32 NEVES; STREIFINGER, loc. cit.

32

a circunstâncias em que o policial militar atuou com culpa, ou seja, com imprudência, negligência ou imperícia. Acontece que, nessa última hipótese, em que restar comprovada a culpa do PM, ele responderá pelo crime de desaparecimento, consunção ou extravio, em sua modalidade culposa (art. 265 c/c art. 266, ambos do CPM). Nesse sentido, é o teor decisão judicial citada por Assis 33 a seguir:

Ementa: Condenação por extravio de revólver pertencente à Brigada Militar, art. 265 c.c. o art. 266, ambos do CP Militar. Age com culpa stricto sensu, na modalidade de negligência, policial militar que, após várias horas de trabalho, sem que tenha despendido qualquer esforço físico, perde, do coldre, o revólver com o qual executava o serviço. Alegações de defeito no coldre fornecido pela administração se mostram incapazes de elidir a responsabilidade do militar, de vez que lhe incumbia examinar o equipamento antes de utilizá-lo. Apelo improvido. Unânime. (TJM/RS Ap. Crim. 2.957/97 Rel. Juiz Cel. João Vanderlan Rodrigues Vieira J. em 11.06.1997 Jurisprudência Penal Militar, jan./jun. 1997, p.

148).

Além da situação acima descrita do extravio de armamento, que é a mais comum, também caracteriza o delito a conduta daquele militar que faz desaparecer, consome ou extravia combustível, munição, peças de equipamento de navio ou de aeronave. Por outro lado, se ficar comprovado que o PM, em qualquer uma das hipóteses supramencionadas, agiu de forma dolosa, intencional, será responsabilizado pelo disposto no artigo 265, que é a forma dolosa da infração penal em comento. Vale ainda destacar que o delito de desaparecimento, consunção ou extravio é crime impropriamente militar.

2.10 CRIME DE PECULATO

Código Penal Militar

Peculato

Art. 303. Apropriar-se de dinheiro, valor ou qualquer outro bem móvel, público ou particular, de que tem a posse ou detenção, em razão do cargo ou comissão, ou desviá-lo em proveito próprio ou alheio:

Pena - reclusão, de três a quinze anos.

§ 1º A pena aumenta-se de um terço, se o objeto da apropriação ou desvio é de valor superior a vinte vezes o salário mínimo. Peculato-furto

§ 2º - Aplica-se a mesma pena a quem, embora não tendo a posse ou

detenção do dinheiro, valor ou bem, o subtrai, ou contribui para que seja subtraído, em proveito próprio ou alheio, valendo-se da facilidade que lhe

proporciona a qualidade de militar ou de funcionário.

Peculato culposo

§ 3º - Se o funcionário ou o militar contribui culposamente para que

outrem subtraia ou desvie o dinheiro, valor ou bem, ou dele se aproprie:

Pena - detenção, de três meses a um ano.

33 ASSIS, Jorge Cesar de. Comentários ao Código Penal Militar. 6. ed. Curitiba: Juruá, 2008, p. 596.

33

O crime de peculato está previsto tanto no Código Penal comum quanto no Código Penal Militar, sendo este último um crime impropriamente militar. Tendo previsão em ambas as legislações, o que irá determinar a sua caracterização como delito militar são as regras do artigo 9º do CPM, já estudadas anteriormente. Desse modo, o policial militar que, estando de serviço, incorrer nas condutas descritas no crime de peculato, que serão vistas a seguir, cometerá crime militar do artigo 303 do CPM, e não o crime do artigo 312 do CP, isto com base no artigo 9º, inciso II, alínea c, do CPM. Predomina, nesse caso, a especialidade do direito penal militar, afastando a incidência da norma penal de conduta idêntica do Código Penal comum. Vale dizer que o delito em questão tem como sujeito ativo tanto o militar quanto o funcionário civil da Administração Militar, porém, como o civil não comete crime militar na esfera militar estadual, só será feita referência ao militar. O caput do artigo 303 traz duas espécies de peculato: o peculato apropriação e o peculato desvio. O primeiro, consiste na apropriação de dinheiro, valor ou qualquer outro bem móvel, público ou particular, de que o militar tenha a posse ou detenção por conta do cargo que exerce, em proveito próprio ou alheio. Ex.: um policial militar, servindo na sala de meios da unidade policial-militar, se apropria de alguns cartuchos de que tem a posse em razão dessa função.

Nessa hipótese, comete o crime de peculato apropriação. Já no segundo caso, o militar, nas mesmas condições da modalidade anterior, ao invés de apropriar-se, desvia o dinheiro, valor ou qualquer outro bem móvel. Em qualquer uma das modalidades, a pena é de três a quinze anos de reclusão. Além disso, caso o valor do objeto apropriado ou desviado indevidamente seja superior a vinte salários mínimos, incidirá uma causa de aumento de pena de um terço, conforme disposição expressa no § 1º do artigo 303 do CPM. Como exposto acima, o bem apropriado ou desviado pode ser público ou particular, desde que esteja na posse do militar em razão do cargo. É a situação descrita na seguinte decisão judicial, trazida por Assis 34 : “Ementa: Peculato. Configuração. Comete o crime de peculato policial militar que se apropria de arma apreendida em virtude de detenção de civis que praticavam roubo contra transeuntes. Caracterizado, na situação, infidelidade contra a Administração Militar. Unânime. (TJM/SP Ap. Crim. 4.271/96 Rel. Juiz Lourival da Costa Ramos J. em 10.02.1998 Ementário de Jurisprudência 1994-1997)”. Agora, se o militar, não tendo a posse ou detenção do dinheiro, valor ou bem, o subtrai, ou coopera para que seja subtraído, em proveito próprio ou alheio, utilizando-se da facilidade proporcionada por sua qualidade de militar, comete o crime de peculato furto, previsto no § 2º do artigo 303 do CPM. De igual modo, a pena será de três a quinze anos de reclusão. Exemplo dessa conduta é a do policial militar que, aproveitando-se do livre acesso à seções da unidade policial-militar em que serve, subtrai algum objeto ali utilizado. Por outro lado, se o policial militar contribuir culposamente, por exemplo, por negligência, esquecendo a porta da seção que trabalha aberta, permitindo, assim, que alguém subtraia ou desvie o dinheiro, valor ou bem, ou dele se aproprie, cometerá o delito de peculato culposo. Essa infração penal está elencada no § 3º do artigo 303 e tem pena prevista de três meses a um ano de detenção.

34 ASSIS, 2008, p. 663.

34

2.11 CRIME DE CONCUSSÃO E CRIME DE CORRUPÇÃO PASSIVA

Código Penal Militar

Concussão

Art. 305. Exigir, para si ou para outrem, direta ou indiretamente, ainda que fora da função ou antes de assumi-la, mas em razão dela, vantagem indevida:

Pena - reclusão, de dois a oito anos.

Corrupção passiva

Art. 308. Receber, para si ou para outrem, direta ou indiretamente, ainda que fora da função, ou antes de assumi-la, mas em razão dela vantagem indevida, ou aceitar promessa de tal vantagem:

Pena - reclusão, de dois a oito anos.

Aumento de pena

§ 1º A pena é aumentada de um terço, se, em consequência da vantagem

ou promessa, o agente retarda ou deixa de praticar qualquer ato de ofício ou o pratica infringindo dever funcional.

Diminuição de pena

§ 2º Se o agente pratica, deixa de praticar ou retarda o ato de ofício com infração de dever funcional, cedendo a pedido ou influência de outrem:

Pena - detenção, de três meses a um ano.

Assim como no peculato, os delitos de concussão e de corrupção passiva, que são crimes impropriamente militares, têm previsão tanto no Código Penal comum quanto no Código Penal Militar. Conforme a regra do artigo 9º, inciso II, alínea c, do CPM, o policial militar, quando de serviço, se incorrer nas condutas neles descritas, cometerá os crimes de concussão e de corrupção passiva, respectivamente, dos artigos 305 e 308 do CPM crimes militares. Prevalece, nessa situação, a especialidade do direito penal militar em detrimento do direito penal comum, que é considerado geral. Na concussão (art. 305 do CPM), o militar exige, para si ou para outrem, direta ou indiretamente, mesmo que fora da função ou antes de assumi-la, mas em razão dela, vantagem indevida. Já na corrupção passiva (art. 308 do CPM), o militar, nas mesmas condições anteriores, ao invés de exigir, recebe essa vantagem indevida ou aceita promessa de recebimento desta. É importante lembrar que, em ambos os crimes, não é necessário o efetivo recebimento da vantagem para sua consumação. Assim, a diferença entre um e outro delito encontra-se tão somente na ação de “exigir” vantagem indevida na concussão e na conduta de “receber” ou “aceitar promessa” de vantagem indevida na corrupção passiva. Ainda, como destaca Assis 35 , “a corrupção passiva militar exige sempre a iniciativa do corruptor, já que o corrompido apenas recebe a vantagem indevida ou aceita a promessa de tal vantagem, jamais a solicita”. Por exemplo, cometerá crime de concussão um PM que, ao efetuar uma abordagem, ordenar a um condutor inabilitado que lhe entregue, para não autuá-lo, determinada quantia em dinheiro. Por outro lado, nesse mesmo exemplo, se o condutor, ao ser abordado, antes de

35 ASSIS, 2008, p. 675.

35

qualquer manifestação do PM, oferecer a este uma quantia, para que não seja autuado por ele, caso o PM receba essa vantagem, incorrerá no delito de corrupção passiva. Agora, se o policial militar solicitar a vantagem indevida, não cometerá o crime do artigo 308 do CPM, mas, sim, o crime de corrupção passiva prevista no artigo 317 do Código Penal comum. Isto porque, diferentemente desse delito correspondente na lei penal comum, a descrição típica do crime militar de corrupção passiva não traz a conduta de solicitar, mas tão somente a de receber e a de aceitar promessa de vantagem indevida. De qualquer forma, se o militar praticar essa conduta do artigo 317 do Código Penal comum durante o serviço policial-militar, também haverá caracterização de crime militar pela nova regra do inciso II do artigo do CPM, após alteração pela Lei n.º 13.491/2017. Além disso, na corrupção passiva, existe a previsão de uma causa de aumento de pena em um terço no caso de o agente retardar ou deixar de praticar qualquer ato de ofício ou praticá-lo infringindo dever funcional, por conta da vantagem ou da promessa de seu recebimento. Essa majorante encontra-se prevista no § 1º do artigo 308 do Código Penal Militar. Já o § 2º do artigo 308 do CPM traz a denominada corrupção passiva privilegiada. Nesta, o militar pratica, deixa de praticar ou retarda o ato de ofício com infração de dever funcional, cedendo a pedido ou influência de outra pessoa, e não em consequência da vantagem ou promessa. Esse será o caso, por exemplo, do policial militar que, atendendo a pedido de um colega seu, libera um condutor de veículo que não tinha habilitação para dirigir e havia sido flagrado por ele em uma operação PM.

2.12 CRIME DE PREVARICAÇÃO

Código Penal Militar

Prevaricação

Art. 319. Retardar ou deixar de praticar, indevidamente, ato de ofício, ou praticá-lo contra expressa disposição de lei, para satisfazer interesse ou sentimento pessoal:

Pena - detenção, de seis meses a dois anos.

Havendo previsão do crime de prevaricação no Código Penal comum e no Código Penal Militar, deverá ser aplicada a regra do artigo 9º, inciso II, alínea c, do CPM, para o policial militar em serviço. Logo, nessa situação, se a conduta do PM amoldar-se a do crime de prevaricação, que é a mesma nos dois Códigos, cometerá o delito impropriamente militar, do artigo 319 do CPM, e não a do artigo 319 do CP comum. Valendo-se, mais uma vez, da lição de Assis 36 , “o delito se consuma de três maneiras. Na primeira, o agente retarda (protrai, delonga); na segunda ele deixa de praticar (omissão) e; na terceira ele pratica (ação) contra disposição legal o ato de ofício (aquele que se compreende nas atribuições do servidor; que está na esfera de sua competência, administrativa ou judicial)”. Em todo caso, o agente é motivado pela satisfação de interesse ou sentimento pessoal. Comete esse delito, por exemplo, o policial militar que, ao efetuar uma abordagem e constatar que o licenciamento do veículo de um motorista está atrasado, libera o condutor sem autuá-lo porque ficou compadecido pela sua situação financeira.

36 ASSIS, 2008, p. 704.

36

DIREITO PROCESSUAL PENAL MILITAR

3 PRISÃO EM FLAGRANTE DELITO NO CPPM

3.1 EFETIVAÇÃO DA PRISÃO EM FLAGRANTE DELITO NO CPPM

Código de Processo Penal Militar

Pessoas que efetuam prisão em flagrante Art. 243. Qualquer pessoa poderá e os militares deverão prender quem for insubmisso ou desertor, ou seja encontrado em flagrante delito.

Este dispositivo do Código de Processo Penal Militar (CPPM) refere-se especificamente, além da prisão nas situações de insubmissão e deserção, à ocorrência de flagrante delito nos crimes militares. Tanto é assim, que os militares das Forças Armadas, com fundamento nesse artigo 243, não estão obrigados a prender em flagrante delito quem comete crime comum, mas somente quem for surpreendido no cometimento de crime militar. Ocorre que, no caso das Polícias Militares, os integrantes destas, além de militares dos Estados, também são policiais, logo ficam obrigados não só pelo artigo 243 do CPPM, como também pelo artigo 301 do Código de Processo Penal comum, que estabelece: “qualquer do povo poderá e as autoridades policiais e seus agentes deverão prender quem quer que seja encontrado em flagrante delito”. Esse último dispositivo legal diz respeito justamente à prisão em flagrante nos crimes comuns. A prisão em flagrante delito, a qual os militares das Forças Armadas são obrigados a efetuar nos crimes militares e os PMs tanto nos crimes militares quanto nos comuns, é conhecida como flagrante compulsório. Já a prisão em flagrante realizada por civis, ou por militares das Forças Armadas nos crimes comuns, uma vez que não têm o dever de efetuá-las, é denominada de flagrante facultativo. Na hipótese de flagrante compulsório, o militar deverá efetuar a prisão independentemente de quem esteja nessa situação de flagrância, ainda que se trate de superior hierárquico. Nesse ponto, vale conferir a redação do artigo 223 do CPPM, segundo o qual: “a prisão de militar deverá ser feita por outro militar de posto ou graduação superior; ou, se igual, mais antigo”. Porém, como ensina Costa 37 , “neste aspecto, verifica-se que o regramento do artigo 243 do Código de Processo Penal Militar é mais específico em relação à prisão em flagrante delito que a previsão do artigo 223 do mesmo Codex, considerando-se que neste são tratadas as prescrições gerais das modalidades de prisão provisória, aplicáveis à prisão preventiva, à detenção, etc., não se coadunando entretanto com a previsão do artigo 243.” Desse modo, a regra do artigo 223 do CPPM não tem aplicação em caso de flagrante delito, visto que o militar possui o dever legal de prender quem seja encontrado nessa situação flagrancial, independentemente de se tratar de superior hierárquico. Consoante disposto no artigo 230, alínea a, do CPPM, em caso de flagrante, a captura se fará pela simples voz de prisão do executor. Ainda, na execução da prisão em flagrante, com base no artigo 234, o policial militar estará autorizado ao uso da força estritamente nos casos em que houver desobediência, resistência ou tentativa de fuga por parte do preso. Poderá também empregar força em relação a terceiros, se houver resistência por parte destes.

37 COSTA, Alexandre Henriques da. Manual prático dos atos de polícia judiciária militar. São Paulo:

37

3.2 PRISÃO EM FLAGRANTE DELITO NO CPPM: ESPÉCIES

Código de Processo Penal Militar

Sujeição a flagrante delito

Art. 244. Considera-se em flagrante delito aquele que:

a) está cometendo o crime;

b) acaba de cometê-lo;

c) é perseguido logo após o fato delituoso em situação que faça acreditar

ser ele o seu autor; d) é encontrado, logo depois, com instrumentos, objetos, material ou

papéis que façam presumir a sua participação no fato delituoso.

Infração permanente

Parágrafo único. Nas infrações permanentes, considera-se o agente em flagrante delito enquanto não cessar a permanência.

Os dois primeiros casos, daquele que está cometendo o delito e daquele que acabou de cometê-lo, são chamados pelos autores de flagrante próprio ou propriamente dito. Na primeira situação, o agente é surpreendido ainda na execução do crime, por exemplo, efetuando disparos contra a vítima. Já na segunda, o delito acabou de ser consumado, como na hipótese em que o sujeito descarregou completamente sua arma, atirando contra a vítima. A terceira situação, quando alguém é perseguido logo após o fato delituoso em situação que faça acreditar ser ele o seu autor, é denominada de flagrante impróprio ou quase flagrante. Aqui, conforme lecionam Távora e Alencar 38 , “a crença popular de que é de 24 horas o prazo entre a prática do crime e a prisão em flagrante não tem o menor sentido, eis que, não existe um limite temporal para o encerramento da perseguição”. A última hipótese, daquele que é encontrado, logo depois, com instrumentos, objetos, material ou papéis que façam presumir a sua participação no fato delituoso, é conhecida como flagrante presumido ou ficto. É o caso, por exemplo, do indivíduo que é achado, logo depois de um homicídio, nas proximidades deste, tentando esconder uma faca e bastante sujo de sangue.

Por fim, o parágrafo único do artigo 244 do Código de Processo Penal Militar trata da prisão em flagrante nos chamados crimes permanentes. Nestes, consoante o dispositivo, o estado de flagrância prolonga-se enquanto não for cessada a permanência do delito, sendo autorizada a prisão em todo esse período. São crimes permanentes, por exemplo, o sequestro e cárcere privado, a posse ilegal de arma de fogo, algumas condutas do tráfico de drogas, entre outros.

3.3 LAVRATURA DO AUTO DE PRISÃO EM FLAGRANTE DELITO

Código de Processo Penal Militar

Lavratura do auto

Art. 245. Apresentado o preso ao comandante ou ao oficial de dia, de serviço ou de quarto, ou autoridade correspondente, ou à autoridade judiciária, será, por qualquer deles, ouvido o condutor e as testemunhas

38 TÁVORA, Nestor; ALENCAR, Rosmar A. C. R. de. Curso de direito processual penal. 2. ed. Salvador:

Juspodivm, 2009, p. 448.

38

que o acompanharem, bem como inquirido o indiciado sobre a imputação que lhe é feita, e especialmente sobre o lugar e hora em que o fato aconteceu, lavrando-se de tudo auto, que será por todos assinado.

A prisão em flagrante delito, quando da sua ocorrência naquelas situações acima examinadas, deverá ser formalizada por meio do Auto de Prisão em Flagrante Delito (APFD). De acordo com o caput do artigo 245 do Código de Processo Penal Militar, a autoridade competente para lavratura do auto será o comandante da unidade, o oficial de dia, de serviço ou de quarto, bem como outra autoridade correspondente. No auto, ficarão registrados o local, a data e a hora dos fatos, assim como a descrição minuciosa do ocorrido, com a qualificação e oitiva de todos envolvidos.

Designação de escrivão

§ 4º Sendo o auto presidido por autoridade militar, designará esta, para exercer as funções de escrivão, um capitão, capitão-tenente, primeiro ou segundo-tenente, se o indiciado for oficial. Nos demais casos, poderá designar um subtenente, suboficial ou sargento.

Quando o auto for presidido por autoridade militar, ou seja, nos casos de prisão em flagrante por crime militar, já que nos crimes comuns a autoridade competente será o delegado de polícia, aquela autoridade militar designará um escrivão. Segundo as regras do § 4º do artigo 245 do CPPM, no caso específico da PMBA, se o indiciado for oficial, deverá ser designado, para exercer as funções de escrivão no APFD, um capitão PM ou um 1º tenente PM. Por outro lado, sendo o indiciado praça ou praça especial, a designação recairá em um subtenente PM ou em um sargento PM. Como expõe Saraiva 39 , o “escrivão é o responsável pela confecção do auto de prisão em flagrante, exercendo, por conseguinte, destacada função em serviço da persecutio criminis”. Assim, o subtenente PM ou o sargento PM, quando no exercício das funções de escrivão na lavratura do auto de prisão em flagrante, deverá elaborar as peças que o compõem, seguindo as orientações do presidente do APFD.

4 INQUÉRITO POLICIAL-MILITAR (IPM)

4.1 INQUÉRITO POLICIAL-MILITAR: NOÇÕES GERAIS

Código de Processo Penal Militar

Finalidade do inquérito

Art. 9º. O inquérito policial militar é a apuração sumária de fato, que, nos termos legais, configure crime militar, e de sua autoria. Tem o caráter de instrução provisória, cuja finalidade precípua é a de ministrar elementos necessários à propositura da ação penal.

Em consonância com o disposto no artigo 9º do CPPM, Saraiva 40 define: “O Inquérito Policial Militar (IPM) é, portanto, o conjunto de diligências efetuadas pela Polícia Judiciária Militar, destinado a reunir os elementos de convicção referentes à autoria e à materialidade de

39 SARAIVA, Alexandre José de Barros Leal. Inquérito policial e auto de prisão em flagrante nos crimes militares. São Paulo: Atlas, 1999, p. 74. 40 Ibid., p. 14.

39

um crime militar, a fim de que o Ministério Público Militar possa exercer a ação penal”. Observa-se, pois, que o destinatário final do inquérito policial-militar será o promotor de justiça que atua na Justiça Militar, o qual se valerá do que ali foi apurado para intentar a ação penal militar, ainda que, para propositura desta, não seja indispensável o IPM. Nos termos do artigo 20 do CPPM, o prazo para conclusão do inquérito policial- militar será de 40 dias (contados da data se sua instauração pela autoridade de polícia judiciária militar), prorrogáveis por mais 20 dias, caso o indiciado esteja solto. Por outro lado, se o indiciado estiver preso, o prazo do IPM será de 20 dias, contados da efetivação da prisão, não havendo prorrogação nessa última hipótese. Vale ainda ressaltar que, como o inquérito policial militar tem caráter de instrução provisória, ou seja, “seu conteúdo não é suficiente para a condenação do indiciado” 41 , não há que se falar em réu ou acusado nesta fase de sua instauração, havendo, sim, investigado ou indiciado. O artigo 10 do CPPM elenca, em suas alíneas, as situações em que se iniciará o inquérito policial-militar, sendo que, em todas elas, a instauração propriamente dita ocorrerá a partir de Portaria do Comandante. Uma dessas hipóteses, a da alínea f, prevê a instauração de IPM quando, de sindicância feita em âmbito de jurisdição militar, resultar indício da existência de infração penal militar. Em conformidade com esse dispositivo, o artigo 60, inciso IV, da Lei n.º 7.990/2001 (Estatuto dos Policiais Militares do Estado da Bahia), dispõe que da sindicância poderá resultar instauração de inquérito policial-militar. Acerca desse assunto, Saraiva 42 chama a atenção para o fato de que “não é incomum a abertura de sindicâncias em situações em que ab initio está demonstrada a ocorrência de crime militar. […] Destarte, cabe ao Ministério Público coibir referida ilegalidade, promovendo a responsabilidade penal da autoridade que se absteve de praticar o ato de ofício que lhe era exigido: instaurar o IPM”. Assim, uma coisa é a instauração de sindicância quando somente havia indícios de transgressão disciplinar e, no decorrer desta investigação, surgirem vestígios de cometimento de crime militar, instaurando-se, após a sua conclusão, o devido IPM; outra situação é, já existindo indícios suficientes da ocorrência de crime militar, instaurar-se sindicância, ao invés do adequado IPM, o que constitui ilegalidade perante o Código de Processo Penal Militar.

4.2 INVESTIGAÇÃO EM CRIME DOLOSO CONTRA A VIDA DE CIVIL

Como já visto em outro momento, após a Emenda Constitucional n.º 45/2004, a Constituição Federal de 1988 excepcionou da competência da Justiça Militar Estadual os crimes dolosos contra a vida de civis praticados por militares. Nesse sentido, a Constituição Federal passou a prever no § 4º do seu art. 125: “Compete à Justiça Militar estadual processar e julgar os militares dos Estados, nos crimes militares definidos em lei e as ações judiciais contra atos disciplinares militares, ressalvada a competência do júri quando a vítima for

(grifo nosso)”. Na mesma direção, depois da modificação realizada pela Lei n.º

13.491/2017, o Código Penal Militar estabelece no § 1º do seu artigo 9º: Os crimes de que trata este artigo, quando dolosos contra a vida e cometidos por militares contra civil, serão da competência do Tribunal do Júri.” Em que pese essa alteração da competência criminal para os crimes dolosos contra a vida de civis praticados por militares, cabe esclarecer que a atribuição para investigação nesses casos permanece com a polícia judiciária militar. Para isso, deverá ser instaurado

inquérito policial-militar (IPM) pela autoridade de polícia judiciária militar, que

civil [

]

41 VIOLA, João Carlos Balbino. Manual de investigação criminal militar. Belo Horizonte: Líder, 2005, p. 51.

42 SARAIVA, 1999, p. 26.

40

posteriormente será remetido à Justiça Militar, ao passo que esta terá a incumbência de reencaminhá-lo, se for o caso, para a justiça comum. Isto porque, desde a alteração promovida pela Lei n.º 9.299/96, o Código de Processo Penal Militar (CPPM), passou a dispor em seu novo § 2º do artigo 82: “Nos crimes dolosos contra a vida, praticados contra civil, a Justiça Militar encaminhará os autos do inquérito policial militar à justiça comum”. Esse § 2º do artigo 82 do CPPM já teve sua constitucionalidade questionada algumas vezes perante o Supremo Tribunal Federal. Porém, em todas elas, o STF reafirmou a constitucionalidade desse dispositivo, legitimando, assim, a investigação dos crimes dolosos contra a vida de civis por meio do inquérito policial-militar. No julgamento de medida liminar na Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) n.º 1.494-3, por exemplo, o Supremo Tribunal Federal assim se manifestou: “O Pleno do Supremo Tribunal Federal vencidos os Ministros Celso de Mello (Relator), Maurício Corrêa, Ilmar Galvão e Sepúlveda Pertence entendeu que a norma inscrita no art. 82, § 2º, do CPPM, na redação dada pela Lei n.º 9299/96, reveste- se de aparente validade constitucional.” Em outra decisão, ao julgar o Recurso Extraordinário n.º 260.404-6, assim deliberou o STF: “O Tribunal, por unanimidade, não conheceu do Recurso Extraordinário e declarou a constitucionalidade do parágrafo único do artigo 9º do Código Penal Militar, introduzido pela Lei n.º 9.299, de 7 de agosto de 1996.” Assim, mesmo em casos de crimes dolosos contra a vida de civis praticados por militares, a investigação se dará por meio de inquérito policial-militar (IPM), que, depois de concluído, será encaminhado para a Justiça Militar Estadual. Essa Justiça especializada, por sua vez, é que decidirá, por primeiro, se o delito contra a vida investigado é doloso ou não; remetendo os autos do IPM para a Justiça comum se entender que se trata de crime doloso (nesse sentido, STF, RE n.º 804.269).

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