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Myriam Szejer

com a colaboração de Hervé Bernard

Palavras para nascer


A escuta psicanalítica na maternidade

Tradução
Claudia Berliner
© 1999 Casa do Psi, Livraria, Editora e Gráfica Ltda.
© 1997 Éditions Gallimard, Paris
É proibida a reprodução total ou parcial desta publicação, para qualquer finalidade, sem autorização prévia por escrito dos editores.
2ª Edição
2006
Editor
Anna Elisa de Villemor Amaral Güntert
Editor-assistente
Sergio Poato
Revisão
Ruth Kluska Rosa
Editoração
Tarlei E. de Oliveira

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Szejer, Myriam

Palavras para nascer: a escuta psicanalítica na maternidade / Myriam Szejer; com a colaboração de Hervé Bernard;
tradução Claudia Berliner; [prefácio Joanna Wilheim]. – São Paulo: Casa do Psicólogo, 1999.

Título original: Des mots pour naïtre


Bibliografia.
ISBN 85-7396-

1. Psicanálise infantil 2. Recém-nascidos – Aspectos psicológicos I. Bernard, Hervé. II. Wilheim, Joanna. III.
Título.

99-3031 CDD-618.928917
NLM-WS 350

Índices para catálogo sistemático:


1. Recém-nascidos: Psicanálise infantil: Medicina 618.928917
Impresso en Brasil
Printed in Brazil

Reservados todos os direitos de publicação em língua portuguesa à

Casapsi Livraria e Editora Ltda.


Rua Simão Álvares, 1020
Pinheiros • CEP 05417-030
São Paulo/SP - Brasil
Tel. Fax: (11) 3034-3600
www.casadopsicologo.com.br
A todos os bebês,
recém-nascidos de ontem e
recém-nascidos de hoje.

A François.
Agradeço a René Frydman e a toda a equipe da maternidade Béclère por sua
confiança e pela qualidade de nossa colaboração.

Agradeço a Lucien Kokh pelo que me ensinou e por suas sugestões conceituais
que permitiram estabelecer minha prática.

Agradeço a Hervé Bernard a profundidade e a sensibilidade do trabalho


realizado.
Sumário

Nota preliminar

Prefácio à edição brasileira de Palavras para nascer

Introdução
Os três tempos da psicanálise

A causa dos bebês


Um percurso profissional
Uma direção indicada por Françoise Dolto
A maternidade Béclère
Um lugar para o psicanalista
Os recém-nascidos, uma especialidade?
O olhar e a voz
Alguns dias para escutar
Léa, a menininha a quem faltava um nome
O recém-nascido não é um objeto de estudo

Nasce-se pelo menos duas vezes


A criança agente e desejante
A sensorialidade do recém-nascido
Rafael, ou como dar sentido à sua vida
Um lactente sensível
A repetição
Uma coação inelutável
Do feto ao lactente, uma continuidade
Palavra e linguagem no recém-nascido
A palavra dirigida ao recém-nascido
A fala do recém-nascido
As disposições do recém-nascido para a linguagem
A memória
Uma memória criativa
O processo de memorização
Um protocolo psicanalítico
O enquadro
A demanda
A equipe mediadora da palavra
Do nascimento ao limbo da vida
Nascer para a vida
Um mal dos mais comuns
No limbo incerto
Para o feto, desejo e necessidade confundem-se
Baby blues, mummy blues, daddy blues
Nascer em segredo
A urgência de palavra
A viagem de Pierrette
Segredos de família, segredo de Estado
Nascer não é tudo
Nascer para a sociedade

A escolha de viver
Nota preliminar

Depois de muitos anos de prática e de reflexão com crianças em idade pré-verbal, pude trabalhar
na qualidade de psicanalista com recém-nascidos na maternidade. Essa clínica tão particular foi
pouco a pouco fazendo nascer em mim um desejo de testemunhar. A originalidade da abordagem e os
efeitos que pude constatar sempre me questionaram e orientaram minhas investigações em diversas
direções, descortinando as potencialidades da pluridisciplinaridade.
Hervé Bernard, psicanalista, decidiu empreender um longo trabalho comigo. Acompanhou-me
na maternidade, escutou-me e depois colaborou comigo, colocando a serviço deste livro sua escrita e
sua cultura.

Myriam Szejer
Prefácio à edição brasileira de
Palavras para nascer

Esta é a segunda oportunidade que tenho para prefaciar um livro de Myriam Szejer em sua edição
brasileira. Se na primeira atendi a um convite da Casa do Psicólogo, nesta não esperei ser
convidada: o meu entusiasmo por este livro me fez anunciar ao editor que fazia questão de prefaciá-
lo. Se por um lado me sentia com este direito em função de tudo que batalhara para conseguir que
fosse produzido em tempo recorde e útil para ser lançado por ocasião da presença da autora em mais
um evento da ABREP, por outro via nele uma contribuição ímpar: ele trata de um assunto
absolutamente inusitado – a psicanálise de recém-nascidos.
Nele a autora narra a sua experiência enquanto psicanalista de recém-nascidos – prática a que
se dedica, na condição de pioneira, desde o início da década de noventa – e a implantação deste
trabalho na maternidade. No dizer da própria autora: “Meu desejo neste livro é o de dar o testemunho
da minha experiência com os recém-nascidos junto dos quais intervim com a palavra falada quando
isto se fez necessário, e eles – apesar das crenças até então vigentes de que bebês não entendem o
que lhes é dito – deram evidências de que puderam aproveitá-la. Em um momento em que os
conhecimentos científicos sobre o feto e o recém-nascido, evoluem com a mesma velocidade que as
incertezas sobre as explicações teóricas, parece-me importante testemunhar a respeito daquilo que
constitui a eficácia do trabalho psicanalítico com os recém-nascidos. Este trabalho tem efeitos com
os quais eu mesma continuo a me surpreender: rápidos, fulgurantes.”
Graças à confiança que nela depositou o Prof. René Frydman – “pai” de Amandine, o primeiro
bebê de proveta francês, Chefe da Maternidade do Hospital Antoine Béclère, em Clamart, nos
arredores de Paris – a Dra. Szejer ganhou um espaço, que de há muito procurava, para colocar em
prática uma idéia surgida a partir de sua experiência quando trabalhava com bebês e crianças muito
pequenas na creche pública de Antony: bebês nascidos de “partos em segredo”1 faziam uma remissão
muito rápida de seus sintomas após intervenções verbais que davam sentido aos pedaços até então
esparsos e perdidos em sua história. Ao se dar conta que crianças abandonadas sofriam tanto daquilo
a que a autora denomina vazio de palavra, e que elas elaboravam seus sintomas quando esta palavra
lhes era oferecida, ocorreu-lhe que seria mais econômico intervir mais cedo, antes do aparecimento
dos sintomas.
A razão pela qual acho este livro fascinante e que me moveu a batalhar para que fosse
publicado em português, permitindo aos profissionais da área que acessassem seu conteúdo inédito e
inusitado, é que ele traz evidências do quanto o recém-nascido é uma pessoa, do quanto ele é um ser
de comunicação, do quanto necessita ser compreendido e que esta compreensão possa ser expressa
através da palavra – da palavra verdadeira – porque se refere ao real conteúdo e significado de seu
sofrimento.
Além de conter o relato de uma série de situações clínicas que ilustram tanto a linguagem a que
o corpo do recém-nascido recorre para expressar a dor de sua alma, quanto a forma verbal
empregada pela psicanalista para lhe fornecer a palavra certa com que poderá preencher o vazio de
palavra, este livro contém várias outras contribuições importantes. Destacarei algumas:
a) A visão que a autora transmite do bebê como um ser desejante, e nos ensina: “devemos
reconhecer sistemática e pacientemente o desejo irredutível do recém-nascido”. Considera
que o simples fato de ele ter nascido significa que ele foi movido por um desejo de vida e
que os sintomas que o enredam – nem sempre explicáveis pela medicina – estão aí para
dizer que o seu desejo humano irredutível está sendo contrariado. É amplo o espectro de
sintomas que o recém-nascido apresenta: ele vomita, regorgita, tem diarréias ou
constipação, cólicas; recusa o seio, fica anoréxico; apresenta bulimia, chora sem parar,
dorme em excesso ou fica acordado em demasia; apresenta problemas de pele, hipotonia,
não aumenta de peso, apresenta-se apático ou grita sem parar. Ele recorre a estes sintomas
como forma de comunicação; caberá ao psicanalista estabelecer as conexões existentes entre
estes sintomas e a história do bebê e de sua família. “Meu ofício é o de fazer lugar para a
palavra sofrida”, diz a autora.
b) quanto às contribuições na área da linguagem dos recém-nascidos, a autora afirma que
estamos diante de um terreno muito novo que está começando a ser desbravado. Afirma que
há várias tentativas de explicações científicas, nas quais se nota a incerteza quanto ao que os
recém-nascidos compreendem e o que eles dizem, “Mas” diz “nós sabemos que os recém-
nascidos não compreendem no sentido lingüístico do termo: sua semântica, sua fonética e
sua sintaxe não são iguais à nossa; por outro lado, a clínica – apoiada na escuta psicanalítica
– nos fornece a certeza de que eles compreendem e que eles dizem”, conclui.
c) a contribuição que traz das neurociências para o estudo da linguagem e da memória: através
das pesquisas dos neurocientistas Gerald Edelman e Jean-Pol Tassin, introduz o leitor aos
novos conhecimentos existentes neste campo, permitindo a compreensão de fenômenos até
então inalcançáveis.
d) finalmente, a autora ilumina o fenômeno do baby-blues que acomete de 70% a 90% das
parturientes: ela o vem estudando desde a década de 70 oferecendo agora ao leitor o fruto
de todos estes anos de dedicação e estudo.
Creio que, com o que acabei de alinhar, fica justificado o meu entusiasmo pelo livro e a
importância que lhe atribuo.

Joanna Wilheim

1 Designação dada a bebês nascidos de mães que, de antemão, decidiram dar o filho para adoção, não constando o nome da mãe nos
prontuários destes bebês.
Introdução

Há uma idade em que se ensina o


que se sabe; mas logo segue-se outra
em que se ensina o que não se sabe:
isto se chama pesquisar.

Roland Barthes

Existem certos dias em que nos sentimos pequenos em nosso ofício. De nada adianta gabar-se da
experiência de psicanalista, dos anos de psiquiatria com adultos e crianças, do ensinamento dos
mestres; é tudo inútil. Quando um paciente conta que toda a miséria do mundo pesa sobre suas costas,
fica-se mudo. Aliás, é o mínimo que se pode fazer. Calar-se permite, às vezes, entender. E, talvez,
falar em seguida.

Um mal-estar difuso

Faz alguns anos, ao chegar como todas as segundas-feiras de manhã à maternidade, senti um
clima estranho na ala das puérperas. Nada de grave, aparentemente, mas os pediatras, as parteiras,1
as enfermeiras e as puericultoras pareciam estranhamente preocupados com uma nova mãe, a Sra.
Lemercier. Dois dias antes, ela dera à luz o seu primeiro filho, um menino, a quem dera o nome de
Yvon. O parto transcorrera sem qualquer problema, e ela estava muito contente, sobretudo porque
três anos antes perdera um filho a quatro meses do termo normal da gravidez. Um único pequeno
detalhe criara na equipe o mal-estar difuso que mencionei há pouco: ao retornar para o quarto, a Sra.
Lemercier apagara escrupulosamente todas as luzes e fechara as cortinas. Desde então vivia
enclausurada nesse ambiente. Como ela não se queixasse de nada e não tivesse comentado suas
atitudes, ninguém sabia o que pensar disso e todos se abstinham de indagá-la a respeito. Só restava
esperar que aquela esquisitice fosse algo sem conseqüências. Contudo, os membros da equipe
estavam perplexos; eles, que costumam indicar-me mães que poderiam recorrer a mim, hesitavam em
me falar da preocupação que ela lhes causava. Em suma, todos pareciam inquietos, menos ela.
Naquela segunda-feira de manhã, no entanto, nova angústia, desta vez por parte da Sra.
Lemercier. Ela foi tomada de pânico diante da idéia de que seu filho, que tem portanto dois dias,
“ainda não tinha feito xixi”. Manda vir a pediatra, que, depois de dar de beber à criança, examina-a
na frente da mãe. Rapidamente, durante o exame, Yvon se põe a urinar, para grande alívio da mãe,
que assiste à cena. A pediatra tinha certeza de que a criança já tivera micções depois de nascer e
achava que a retenção urinária era antes da ordem de uma angústia fantasística da mãe. Com o
consentimento da parteira, decide explicar à Sra. Lemercier que nessa maternidade há uma
“psicanalista para os bebês” com quem poderia conversar, se desejasse falar dessas inquietações.
Como a Sra. Lemercier até então fora mais que discreta em relação ao que lhe acontecia, elas temiam
uma recusa. Mas, para sua grande surpresa, ela aceitou encontrar-se comigo.
Na verdade, era com uma psicanalista que ela deseja conversar. Logo ficarei sabendo por quê:
durante certo tempo recorrera à psiquiatria, e depois, aconselhada pela mãe (que, por sua vez, fora
pedir a opinião de um psiquiatra conhecido seu), fizera uma psicanálise de vários anos. Portanto,
agora ela não opõe qualquer resistência à idéia de falar com a psicanalista que eu sou.

Sofrimento de mãe, sofrimento de mulher, sofrimento de menina

Nem bem entrei no quarto e me apresentei, ela começou a me contar seus sofrimentos de mulher
e de mãe. Sofrimento de mulher através de uma amenorréia que aparecera quando tinha 12 anos,
pouco depois de suas primeiras regras, e que só cedera quando conhecera o marido, aos 18 anos.
Sofrimento de mãe quando, vários anos mais tarde, ela e o marido queriam ter um filho e
desesperavam consegui-lo. Ao perguntar-lhe se algo de particular ocorrera com a idade de 12 anos,
ela me relatou a seguinte cena: seu pai, personagem extraordinariamente respeitado por todos e por
ela mesma, certo dia pediu-lhe para buscar uma garrafa de vinho. Honrada pelo pedido e preocupada
em desempenhar bem sua tarefa, corre para a adega, cai na escada, quebra a garrafa escolhida e fere
gravemente o joelho. O ferimento é sério, ela seciona um tendão e uma intervenção cirúrgica se faz
necessária. Pouco depois da operação, a família Lemercier vai para a praia. Ela, que se diz excelente
nadadora, entra na água. Mas, subitamente, tem a sensação de que seu joelho machucado não
responde, que sua perna se paralisa e que ela vai se afogar. Pede por ajuda. Seu pai mergulha em seu
socorro, mas ele é vítima de uma hidrocussão. Agora é ela quem tenta salvar o pai: sente que
recupera o uso do joelho, tenta levar o pai de volta para a margem, mas o homem é pesado, ela não
agüenta. Ela grita de novo por ajuda, dessa vez para seu pai. Quando outras pessoas acodem para
resgatá-los e os retiram da água, seu pai já está morto. O negro que reina no seu quarto parece
celebrar o horror dessa lembrança. Estaria dessa forma realizando, sem ter consciência, o luto por
seu pai?

Primeiro tempo: a mocinha, que foi buscar uma garrafa a pedido do pai, cai e fere o joelho.
Esse simples relato condensa os mais variados elementos do romance familiar, constitui uma
verdadeira garrafa lançada ao mar cuja mensagem ela decifrará muitos anos depois, após o
nascimento de Yvon. Segundo tempo, a morte do pai. Tudo transcorre como se esse episódio
extremamente doloroso tivesse fixado por muito tempo o caráter dramático do primeiro, como se o
segundo ato do drama revelasse a posteriori a importância decisiva do primeiro, e não o inverso. Os
psicanalistas estão acostumados com esses efeitos só-depois. Duas cenas fortes, dois pedidos de
socorro, como mais tarde dois bebês.., e dois psicanalistas ligam o enunciado desse drama e sua
simbolização. Terceiro tempo, o nascimento do filho e sua angústia a propósito de suas micções.
Depois de também ficar sabendo da existência de um pesado passado de alcoolismo entre os avós
paternos, imagina-se que das garrafas quebradas ao sangue derramado do primeiro ato, da
hidrocussão à amenorréia do segundo ato, até a inundação tranqüilizadora do bebê no terceiro ato,
muita água (e sangue) correu debaixo das pontes. Com certeza. O problema era que essa água tivesse
secado. Com efeito, a amenorréia data do afogamento do pai, amenorréia esta que vem como que
secar o sangue da ferida: o corpo falhou em responder ao apelo do pai de ir buscar o vinho, o corpo
cala-se perante a morte do pai, que ele acredita ter provocado. A dor da Sra. Lemercier pela morte
desse pai amado foi uma dor muda, se é que se pode dizer. Ela entrou num estado de estupor durante
dois dias, ao final dos quais atirou-se em público do telhado da casa dos pais. Na verdade, ela
subira nele como freqüentemente fazia para brincar. Sua família, dado o contexto, alarmara-se ao vê-
la no alto. Não conseguindo fazê-la descer, chamaram os bombeiros, que apenas tiveram tempo de
chegar no momento em que ela saltou. Foi uma tentativa consciente de suicídio? Ninguém sabia dizer,
nem mesmo ela, que apagou totalmente esses três dias da memória, e reconstituiu a cena de acordo
com o que lhe disseram durante sua análise. Amnésica, portanto, mas não desligada. Ela mesma conta
como, na adolescência, provocava a mãe até ser esbofeteada, tendo na cabeça uma resposta pronta:
“Você bateu em mim porque matei o papai!”.

O lugar da criança

No lugar do luto do pai impossível de fazer, só havia culpa. Disso dá fé a amenorréia que se
seguiu. Além disso, esse sintoma pós-traumático desapareceu quando ela conheceu o marido aos 18
anos: reconciliada com a figura masculina, ela reconquistara parte de sua feminilidade. Mas então
deparou com o problema da esterilidade, alguns anos depois: mulher sim, mas mãe ainda não. De
fato, o nascimento de Yvon foi ainda mais saudado porque concluía uma longa seqüência de
sofrimentos ligados à espera de um filho. Alguns anos antes, a Sra. Lemercier havia solicitado a
ajuda de um ginecologista para tratar uma esterilidade confirmada. Os tratamentos empreendidos não
tiveram o sucesso esperado, e ela decidiu interrompê-los. Nas semanas seguintes, declarou-se uma
gravidez espontânea, que foi interrompida por um aborto tardio depois de vinte e três semanas de
gravidez. Esse primeiro filho, natimorto, recebeu o nome de Jean-Yves. Este nome reunia um nome
escolhido pelo pai, o outro pela mãe; este último encontrará eco no nome do segundo filho, que
portanto se chama Yvon. Ao aborto seguiu-se um período de esterilidade de mais de três anos, o que
levou a Sra. Lemercier a marcar uma consulta no hospital Béclère, a conselho de uma amiga cujas
opiniões respeitava. Tranqüilizada, ao que parece, pela idéia de ser acompanhada no hospital, ela
iniciou um novo tratamento para a sua esterilidade. O tratamento, pouco significativo, aliás, logo
desencadeou uma nova gravidez. Estava feliz com esse sucesso, e aliviada pela idéia de que
cuidassem dela no hospital Béclère. Foi nesse clima de confiança que Yvon nasceu.
O aborto talvez estivesse ligado à sua culpa, como se ele significasse: matei meu pai, os deuses
têm sede de vingança, e eles exigem o sacrifício da criança. Seja como for, tornar-se mãe exigia dela
transgredir a proibição ligada ao luto não realizado. Mais ainda, supunha que ela pudesse identificar-
se com a mãe. Para recuperar sua parte maternal, tinha de entrar em acordo com o único modelo de
maternidade que importa para uma jovem parturiente, o de sua própria mãe. Como ela me disse
durante nossa entrevista, tinha estima pela mãe, e essa estima incluía também sua vida profissional: a
Sra. Lemercier, como sua mãe, trabalhavam em meio médico. Vimos também que foi seguindo um
conselho da mãe que ela começou uma psicanálise. Considero que esses elementos de identificação
materna não são alheios à sua escolha do hospital para tratar da sua esterilidade e fazer o
acompanhamento da gravidez. Explicam em grande medida a tranqüilidade que ali encontrou. Foi no
hospital que ela pôde se tornar mãe, porque foi no hospital que ela pôde ser maternada.

Não cabe interpretar mais profundamente essa história, pois a narração desse trecho de vida já é
uma interpretação, porquanto está marcada pelo trabalho efetuado em análise pela Sra. Lemercier
durante vários anos. Em contrapartida, esse relato me obriga a definir o lugar que o filho vem ocupar.
Nesse caso, o recém-nascido vem ali onde o luto do pai pode ser feito; talvez ele seja aquele que
permite concluí-lo. Ele responde a isso, para além da demanda da mãe, pela micção. Aliás, ela me
dirá que teve a sensação de que seu filho só começou a viver depois desse xixi salvador; até então –
dizia ela –, para ele só houvera angústia e sofrimento.
Não há melhor maneira de representar a situação do que dizendo: a micção da criança, embora
recoloque a mãe na posição em que o drama a deixara, dá-lhe um novo destino. A «inundação» da
criança dá, pois, um sentido novo a esse líquido, essa água, esse mar, essa mãe que matou seu avô. É,
pode-se dizer, o significante de um novo batismo. A roda das mortes e dos nascimentos não tem fim,
mas ela se detém para a Sra. Lemercier pelo fato de que o vivo possa ser a ocasião de celebrar o
morto. Foi esse o sentido do ritual realizado no quarto da puérpera. Em contrapartida, para essa
mulher, cuja questão das relações com um pai admirado foi tão cruelmente regrada por sua morte, a
homenagem a um pai, dessa vez simbolicamente morto, é a ocasião para uma acolhida cheia de
esperança da criança viva. O «sintoma» da criança é como o grão de areia que faz a lógica mortífera
de sua mãe desgarrar-se, e propicia a ambos uma nova presença no mundo.

Da morte à vida

Que esse “bebê da análise” tenha escolhido viver, ao contrário de seu irmão mais velho, é em si
mesmo uma resposta viva à morte de seu avô, resposta de uma ordem distinta da do real do sintoma
que perpetuava o impossível e o horrível. Seu nascimento orienta a mãe para a significação da dívida
simbólica por intermédio do luto realizado: para ela, o pai simbólico é o pai morto, como Françoise
Dolto tanto insistia. O pai real, figura mítica na família da Sra. Lemercier, fora ele mesmo filho de
pais alcoólatras e agressivos. Aos 18 anos, fugira de casa e alistara-se no exército. Mais tarde,
conseguira ser nomeado tutor de seu irmão, e o fizera ser colocado numa instituição para protegê-lo.
Simultaneamente primogênito e tutor, quando não paterfamilias, efetuou assim um salto simbólico
importante. Não apenas simbólico, diga-se de passagem: no exército, crescera vinte centímetros em
dois anos! Conseguiu arcar sozinho com as necessidades de toda a sua família, e casou-se aos 38
anos com uma mulher de 18.

Para terminar o enunciado do drama com uma pitada de comédia, contarei o seguinte: esse bebê,
com sua vinda ao mundo, fará a mãe sair da prisão! Efetivamente, a Sra. Lemercier, depois de uma
formação em Administração Pública, conseguira um emprego em meio carcerário, onde seu marido
já trabalhava. Na época ficou muito feliz, pois, conforme me disse, ficava fascinada vendo o que era
uma prisão de mulheres. Acontece que durante sua segunda gravidez o marido foi transferido. Depois
da licença-maternidade, ela irá retomar o trabalho, mas fora de qualquer centro penitenciário. Feliz
coincidência com a vinda de Yvon.
Participar um luto pode, como nesse caso, juntar-se a uma participação de nascimento.
Participar um acontecimento que nos toca consiste em dirigir-se à sociedade, seja ela reduzida a um
grupo de amigos ou de conhecidos, para lhe pedir não tanto que com​par​tilhe da nossa dor ou da nossa
alegria, mas que a reconheça como aceitável. Supõe uma confiança no outro, chamado a ser
testemunha dessa dor ou dessa alegria, somada à esperança de que essa confiança permita seguir em
frente. Nesse sentido, para seguir em frente, todos temos necessidade de testemunhar o que constitui
nossa vida, de compartilhar com o outro o que nos é próprio. Isso é algo verdadeiro no âmbito de
uma entrevista psicanalítica: a Sra. Lemercier pôde dessa forma encontrar uma saída para esses não-
ditos que a reduziam ao silêncio. Também é verdadeiro no contexto de um livro como este, que
procura relatar uma experiência. É hora, portanto, de esclarecer a gênese dessa experiência.

Os três tempos da psicanálise


“Psicanalistas na maternidade, não é novidade; psicanalistas que falam com os bebês, isso sim é
novo”, dizia o professor René Frydman a uma jornalista que indagava sobre o meu trabalho no
serviço dele. Novo? Sejamos claros: Não existem psicanalistas de recém-nascidos, assim como não
existem psicanalistas de adultos ou de crianças: é uma comodidade de linguagem que, na nossa
profissão, permite evocar diferenças de técnica ou de experiência entre nós. Na verdade, existem
tão-somente psicanalistas. Se somos psicanalistas é antes de mais nada porque alguns sujeitos na sua
dor nos convocam a sê-lo, antes de qualquer referência a Freud e a seus sucessores.

O desejo irredutível do recém-nascido

O novo nesse assunto é tender a reconhecer sistemática, metódica e pacientemente o desejo


irredutível do recém-nascido. Primeiro, porque se ele nasceu foi porque a algo ele veio. Em seguida,
porque se ele está preso a sintomas que a medicina nem sempre explica, é muito provável que esse
desejo humano irredutível esteja sendo contrariado. Não se trata de uma suposição teórica, mas de
algo que eles mesmos me ensinaram.
Por exemplo, ainda jovem na minha prática com os bebês, recebo uma mãe devido a um baby
blues2aparentemente anódino. Ela inicia uma conversa tranqüila comigo, quando de repente o bebê –
que a mãe dizia estar mudo desde o nascimento –, ao escutar que o chamo por seu nome e que
começo a contar-lhe sua história, começa a se movimentar e a gemer. O tom da conversa muda
imediatamente, pois o nome ao qual a criança reagiu evocava de modo direto o lugar em que estava
enterrada sua avó. Para a mãe foi um choque tomar consciência disso, o que deu lugar a um trabalho
de elucidação de suas relações conflitivas com essa avó. A tristeza que sentiu após o nascimento do
filho tão esperado revelou-se estar fortemente ligada à decepção de não ter podido contar com a
presença da mãe ao seu lado.
Não estarei exagerando se disser que esse recém-nascido, como tantos outros, despertou em
mim minha função de psicanalista: escute-me – ele me fez saber em sua linguagem –, embora sua
razão lhe diga que eu não posso lhe falar. E saiba que eu a entendo, embora você me considere
idiota. Foi basicamente essa mensagem que renovou minha prática de psicanalista. E é dela que
quero dar testemunho neste livro. Pois, numa época em que os conhecimentos científicos sobre o feto
e o recém-nascido evoluem tão rápido quanto as incertezas sobre as explicações teóricas, acho
importante poder testemunhar aquilo que constitui a eficácia do trabalho psicanalítico com os recém-
nascidos. Esse trabalho produz efeitos que nunca cessam de me espantar, efeitos rápidos, quando não
fulgurantes.

Os três prisioneiros

Para poder dizer como é possível essa modalidade de prática, é preciso inspirar-se nos
princípios de ação empregados pelos psicanalistas e elaborados por um predecessor, por meio de um
conhecido jogo de lógica: o dilema dos três prisioneiros. O diretor do presídio pretende libertar um
dos três detentos que lhe parecem dignos disso. Seu direito de conceder a graça está limitado a
apenas um dos três detentos, mas, não conseguindo decidir em sã consciência qual dos três, apela à
sagacidade deles, dizendo-lhes o seguinte: “Vocês são três aqui presentes. Aqui estão cinco discos
que só diferem por sua cor: três são brancos e dois são pretos. Sem dar a conhecer qual deles terei
escolhido, prenderei em cada um de vocês um desses discos nas costas, isto é, fora do alcance direto
do olhar [...] A partir daí, estarão à vontade para examinar seus companheiros e os discos de que
cada um deles se mostrará portador, sem que lhes seja permitido, naturalmente, comunicar uns aos
outros o resultado da inspeção. [...] Pois o primeiro que puder deduzir sua própria cor é quem deverá
se beneficiar da medida liberatória de que dispomos”.3
A análise que Lacan faz dessa situação afasta-se daquela da lógica tradicional. Ele supõe uma
estratégia em três tempos. O que conta em primeiro lugar para o prisioneiro que quer vencer a prova
– diz ele, em essência – é o que é evidente, o que ele pode constatar sem refletir, antes de refletir: no
caso em questão, se os dois outros prisioneiros têm um disco preto nas costas, ele pode, sem hesitar,
deduzir que ele tem um disco branco nas costas; ergo, que pode sair imediatamente. Esse lado
imediato é o que o autor denomina o instante do olhar.
O segundo tempo da estratégia, ao contrário, supõe passar pela mediação do alter ego. Na
prática, o prisioneiro precisa de um tempo para compreender que a hesitação dos dois outros lhe diz
algo sobre a sua cor: se ele é preto, os dois outros rapidamente deveriam concluir que eles são
brancos e sair; caso contrário, eles hesitarão. É o tempo de uma análise “objetiva” da situação.
A decisão final, o momento de concluir, supõe, segundo o autor, uma pressa, ou seja, uma
decisão subjetiva do prisioneiro: ele tem de decidir qual a sua cor sem prova objetiva, pois uma
hesitação sua pode ser o pretexto para os outros dois o fazerem em seu lugar.

O contato com os recém-nascidos

Jacques Lacan via nessas três escansões, instante do olhar, tempo para compreender e
momento de concluir, um modelo da situação psicanalítica. Meio século mais tarde, elas iluminam o
movimento que temos de fazer no nosso contato com os recém-nascidos. Para mim, o instante do
olhar foi constatar o que era feito na França pelos bebês que nasciam em condições difíceis.
Deslocar-se para junto deles colocava toda uma série de problemas, práticos mas também éticos.
Relatarei como a experiência do atendimento de F. Dolto aos lactentes do abrigo provisório 4 de
Antony e minha própria experiência ao lado de Caroline Eliacheff deram origem a uma reflexão a
esse respeito. Falarei também da vida da maternidade dirigida por René Frydman, do movimento que
ele desencadeou e da formidável colaboração das equipes do hospital Antoine-Béclère de Clamart,
que me ajudaram a imaginar procedimentos de intervenção. Falarei, por fim e sobretudo, do que os
bebês me deram a ver e a escutar. Pois, diferentemente do protocolo psicanalítico clássico em que
paciente e analista escapam um ao olhar do outro, o trabalho com os bebês começa com o olhar. E,
no contexto da intensa emoção que representa muitas vezes o nascimento e os dias que a ele se
seguem, os bebês nos mostram de modo quase palpável as problemáticas que os agitam.

Ser psicanalista junto dos bebês tem suas regras: foi preciso reconstruir seus rudimentos, sem os
quais nenhum trabalho propriamente psicanalítico teria sido possível na maternidade. Um
psicanalista apóia-se na demanda de um sujeito, que ele diferencia da necessidade e do desejo. Se
um paciente não demanda nada, se está ali por conveniência ou por obrigação, o psicanalista não
pode, não deve operar. Como fazer então num serviço de maternidade em que, por definição, é
preciso deslocar-se para a cabeceira do paciente? Faz-se necessário um protocolo que garanta ao
bebê e a seus pais que será a sua demanda que será escutada, que só verão a psicanalista se o
quiserem, que não serão objeto de uma visita sistemática por algum motivo “psi”. Esse tempo para
com​preender mínimo é necessário para que o trabalho comece. Isso evidentemente só é possível em
função dos inúmeros avanços científicos que foram feitos nestes últimos anos sobre o conhecimento
dos fetos e dos lactentes, o que o torna ainda mais apaixonante. Pesquisadores em neurociências,
etólogos, psicanalistas, mas também pediatras, ecografistas, neonatologistas – é longa a lista
daqueles que produziram recentemente descobertas fundamentais e/ou experimentais. Sem fazer um
recenseamento exaustivo delas, o que excederia os limites deste livro, indicaremos aquelas que
ajudaram a assentar esse protocolo de trabalho psicanalítico.

O que não muda é este princípio ético primeiro que é o pivô da ação de um psicanalista: todo
ser humano é um ser de desejo, seja qual for sua idade. Na ausência desse postulado, não se é
psicanalista. Como dar conta desse desejo e da trama inconsciente na qual ele se desenrola? Por que,
sem esperar uma “palavra” do recém-nascido, somos levados pela prática psicanalítica a afirmar que
a criança tem um pensamento? Que esse pensamento está diretamente ligado à importância evidente
que ela atribui às palavras de seu meio quando estas, desde que lhe sejam diretamente endereçadas,
lhe permitem dar sentido ao que vive? Onde se situa a interpretação analítica, sua eventual urgência?
As respostas que minha posição de psicanalista me permite dar a essas questões, meu momento de
concluir, conduzem-me a certo número de hipóteses clínicas. Penso particularmente no período do
limbo e no do baby blues que a ele se segue, mas também nas respostas preventivas a serem dadas,
por exemplo nos casos de parto em segredo.5

Algumas pessoas – entre elas alguns psicanalistas – queixam-se da lentidão de certos


tratamentos psicanalíticos. Desse ponto de vista, é incontestável que o trabalho psicanalítico com
recém-nascidos seja gratificante porque muitas vezes provoca efeitos quase imediatos. Essa rapidez
entusiasma, pois confirma um psicanalista naquilo que o fez sê-lo: o tratamento psicanalítico é um
lugar de achados permanentes para aqueles que o empreendem, nesse caso para os psicanalistas.
Essa eficácia também intriga e precisa ser inter​rogada. Compreender algumas de suas razões permite,
entre outras coisas, entender nos tratamentos de adultos vestígios do “arcaico” até então mudos; à
medida que essa compreensão se afine, a eficácia da psicanálise de crianças maiores ou de adultos
decerto aumentará. Em todo caso, o encontro com os recém-nascidos quase sempre se dá num
contexto em que o potencial humano de emoções se revela em seu mais alto grau. Por isso esse
testemunho é urgente. Temos certeza de não ter de extravasar a emoção que nos causa compreender
que os recém-nascidos podem “conversar” conosco. Pois apostamos que os leitores reconhecerão
essa importante verdade como também sendo a deles.

1 No original sage-femme. Atualmente, na França, são profissionais que exercem uma profissão médica cuja competência se estende
ao acompanhamento da gravidez, ao parto normal e à sua preparação, bem como à assistência pós-natal da mãe e do recém-
nascido (N.T.)
2 Denominação da depressão normal que afeta a maioria das puérperas, em maior ou menor grau, a partir do 3º ou 4º dia do puerpério.
Ver mais detalhes ao longo do livro. (N.T.)
3 J. Lacan, “Le temps logique et l’assertion de certitude anticipée”, in Écrits, Seuil, 1966, p. 197-203. (Edição brasileira: Escritos,
Jorge Zahar, 1998, p. 197-203.)
4 Pouponnière: instituição pública que abriga crianças de até três anos que não estão sob a guarda dos pais. (N.T.)
5 Desde 1941, a lei francesa autoriza as mulheres a dar à luz sem revelar sua identidade. São os chamados partos em segredo, partos
anônimos ou partos sob o nome X. As crianças que nascem nessas condições estão destinadas à adoção. No Brasil, existia a
prática de “entregar o filho na roda”: do lado de fora dos conventos havia uma roda onde a mãe colocava o filho, a roda girava e a
criança entrava no convento sem que se soubesse quem era a mãe. (N.T.)
A causa dos bebês

Gente grande não entende nada


sozinha, e para as crianças é
cansativo sempre ter de lhes dar
explicações.

Antoine de Saint-Exupery

Como vai o bebê?


Fazer essa pergunta a um(a) amigo(a) é coisa corrente, mas responder a ela em escala social é
bem mais árduo. Nasce-se em melhores condições nesse fim de século do que no seu início, ou a
medicalização da gravidez e do nascimento reduz o bebê e sua mãe a seres sem alma? O bebê tem um
lugar mais aconchegante no ninho familiar do que há cem anos, ou é ele vítima da desagregação da
família nuclear? Houve algum ganho em proclamar que “o bebê é uma pessoa”, ou deve-se crer no
historiador Philippe Ariès que afirma que a idade de ouro da criança ficou para trás? O bebê levou
alguma vantagem com a redistribuição dos papéis na sociedade, com o trabalho das mulheres e com
o aparecimento dos “novos pais”? Ou ele não passa do gnomo dos desenhos de Claire Bretécher que
de manhã é pendurado pelos suspensórios no cabide de um maternal, à tarde no de uma creche e, à
noite, no de algum ateliê de sensibilização que esteja na moda?
As respostas a todas essas questões não são tão claras quanto parecem. É sempre uma questão
de opção pessoal. A mortalidade infantil sem dúvida diminuiu com os avanços da medicina, e
sobretudo graças aos higienistas e aos médicos sociais do século XIX. A febre puerperal não resistiu
à organização nos hospitais de estruturas dedicadas às parturientes e a seus filhos, e a introdução dos
antibióticos e da assepsia a erradicou. Desde então um longo caminho foi percorrido. Neste fim do
século XX, toda mulher tem a garantia de que sua maternidade se beneficiará de condições de
segurança particularmente desenvolvidas: higiene, atenção aos cuidados pré e pós-natais para ela e
para o bebê, prevenção... – pensando bem, a panóplia de intervenções existentes é bastante
diversificada. Para o bebê, os avanços são tão decisivos que retrospectivamente até parecem
evidentes: já se foi o tempo em que não se anestesiavam as crianças de pouca idade “porque elas não
sentem dor”. Os médicos sabem agora diferenciar os sinais de dor dos recém-nascidos, e geralmente
conseguem evitá-la. Melhor ainda, eles começam agora a reconhecer os sinais de dor do feto. O
nascimento nem por isso se tornou um ato anódino, nem do ponto de vista afetivo, é claro, nem
mesmo de um ponto de vista estritamente médico. Embora os progressos da obstetrícia sejam
impressionantes, continuamos à mercê de afecções e acidentes. Nesse sentido, a morte súbita do
lactente é o paradigma das várias mortes inexplicadas das crianças de baixa idade: ela impressiona o
grande público e preocupa, com razão, os profissionais. Para preveni-la, os pediatras de Béclère,
com base em estudos epidemiológicos internacionais, adotaram o costume de recomendar deitar os
bebês de costas. As parteiras e eu mesma, nas reuniões de sensibilização e de informação sobre
puericultura que organizamos para as mães que acabaram de dar à luz, insistimos nesse modo de
deitar os bebês. Isso é motivo de orgulho para nós, porque a taxa de mortalidade vem diminuindo em
proporções incontestáveis desde a aplicação dessa recomendação.
No plano médico, ginecológico e obstétrico, mas também pediátrico, os avanços fundamentais
são imediatamente aplicados na prática hospitalar. No que concerne à nossa profissão, há
progressos: psiquiatras, psicólogos e psicanalistas são chamados à cabeceira das parturientes nas
maternidades para dar assistência às mães. Todos esses recursos representam uma maior
responsabilidade da sociedade por cada um de seus novos membros que acaba de nascer.
Tudo isso é de conhecimento público, e as pessoas reconhecem as pontes que se estabelecem
entre o mundo frio da medicina especializada e a intimidade da família. O bebê não ocupa mais
apenas um lugar nos livros especializados classificados nas estantes empoeiradas da biblioteca sob a
letra P de puericultura, ele é objeto de inúmeras revistas de ampla difusão, umas mais atraentes que
as outras. O bebê interessa. Não passa um dia sem que se escute uma mãe lançar afirmações do
seguinte estilo: “cuido do meu bebê dessa maneira porque Dolto disse que...”, “disseram-me que se
deve aleitar ao seio porque o aleitamento artificial desumaniza o bebê”, “li que o bebê é sensível à
música, por isso todas às noites, antes de dormir, toco para ele a Pequena Música noturna” etc.
Muitas vezes é preciso relativizar essas interpretações um tanto apressadas e pessoais, mas elas
decerto manifestam um interesse novo pelos pequeninos.
Se o Congresso nacional é o reflexo digno de uma sociedade, também ali a criança vem
ganhando em estima. Nos últimos dez anos foi votado um florilégio de leis que a concernem: sobre a
adoção, o parto em segredo, os novos métodos de fertilização. A legislação sobre a criança, os
comitês de ética encarregados de refletir sobre o direito da criança e do recém-nascido em nossas
sociedades são outros tantos sinais que indicam que o bebê está de vento em popa.

Todos esses esforços para que o bebê «vá melhor» merecem nossos aplausos. Felizmente não
vivemos num país em que os bebês são objeto de comércio, nem num tempo – enterrado – em que
eles morriam sem cuidados por desconhecimento de seus sofrimentos. Façamos no entanto um
pequeno senão a essa homenagem, pois o bebê, por motivos evidentes, não diz ele mesmo como vai.
Formei-me em medicina e sei que o paciente nem sempre tem algo a dizer quando se trata de
diagnosticar e tratar seu distúrbio. Foi certamente por isso que me tornei psicanalista. Mas guardo a
nostalgia daqueles grandes clínicos que detectam os problemas escutando o paciente, e que de
alguma maneira sabem que nenhuma outra fonte é mais autorizada que o próprio paciente. Desde o
começo dos anos noventa, meus pacientes são principalmente bebês na maternidade do hospital
Antoine Béclère; mas precisei retroceder vários anos em minha prática para compreender por quê.

Um percurso profissional
Um desvio por meu percurso profissional explicará melhor que uma explicação científica como
os recém-nascidos podem dizer respeito à psicanálise. Desde meados dos anos setenta, após estudos
de medicina e o internato em psiquiatria, trabalhei com psiquiatria de adultos em diversos serviços
da região parisiense, e a partir dos anos oitenta tive uma prática de psicanalista em consultório. Nada
na minha vida profissional me predestinava a me interessar pelo recém-nascido. Nada conhecia
sobre ele, ou muito pouco. Tinha efetivamente feito uma parte de minha especialização médica num
serviço de psiquiatria infantil, e portanto eu era psiquiatra infantil, o que era mais uma qualificação
suplementar do que sinal de um interesse pessoal. Passados vinte anos, não renego essa ignorância
necessária, pois não há nada de mais terrível do que tomar-se por um especialista da infância.
Continuo não sendo uma especialista nesse sentido, e mantenho minha prática privada de psicanalista
aberta para os adultos. De que serve «saber» escutar uma criança se nos recusamos a entender no
adulto as palavras que cantam o verde paraíso da infância? Inversamente, como pretender dar
assistência a um recém-nascido sem imaginar o lugar simbólico de ser social que ele será levado a
assumir no mundo dos adultos?

O pouco que conhecia das crianças era por intermédio de suas mães, sobretudo pelos casos de
baby blues e de depressão pós-parto com que deparara na minha prática. Isso levou minha colega e
amiga Claudine Cohen (que dividia comigo o mesmo consultório) e eu a fundar um grupo de reflexão
sobre o baby blues. A esse grupo logo se juntaram alguns colegas psicanalistas homens, mas também
ginecologistas e pediatras. Fazíamos pesquisa bibliográfica sobre o tema do baby blues,
comparávamos nossas experiências... Elaboramos um questionário voltado para as mães. As
respostas ao questionário, difundido em consultórios particulares de ginecologia, eram apaixonantes.
Não tínhamos nenhuma pretensão estatística, mas a freqüência de certas respostas não deixou de
chamar nossa atenção. Assim, na pergunta: caso isso lhe fosse proposto, você aceitaria falar com um
profissional sobre os problemas que teve depois do parto?, o “sim” predominava de forma ampla nas
respostas provenientes de mulheres que eram mães. Essa resposta era particularmente chamativa
porque naquela época, como ainda hoje na maioria dos atendimentos públicos, não havia nada
previsto a priori para o acompanhamento das puérperas. Os problemas dos primeiros meses eram
sempre tratados na pediatria, quando se tratava da criança, e eventualmente em psiquiatria, no caso
de problemas da mãe. Mas na maternidade não existia nada específico nesse sentido. No entanto, a
demanda parecia existir.

Uma direção indicada por Françoise Dolto

Paralelamente a esse grupo de reflexão, dava consultas num centro médico-psicológico (CMP)
desde 1979. Lá recebíamos crianças com patologias que iam das dificuldades escolares menores às
psicoses mais graves. A maioria das crianças que eu atendia estava na “fase de latência”, com idades
oscilando entre 5-6 anos, e no começo da adolescência. Para dar uma imagem, digamos que estava
me tornando uma especialista do “xixi na cama”, visto que esse tipo de sintomatologia é freqüente
nessa idade. Mas as crianças muito pequenas me deixavam fortemente intimidada, não sabia como
ajudá-las.
Minha colega Caroline Eliacheff sugeriu acompanhá-la para assistir a uma consulta de F. Dolto.
Naquela época ela atendia, na rua Cujas, bebês que lhe eram encaminhados pelo abrigo provisório
de Antony, acompanhados de sua maternante. 1 Esses bebês, às vezes nascidos de um parto anônimo,
sempre se encontravam em situações sociais e psicológicas dramáticas. Eles tinham entre 8 dias e 3
anos de idade. Eu conhecia F. Dolto por intermédio da escola de psicanálise à qual ela pertencia, por
seus livros2 e por seus programas de rádio. Mas nunca me ocorrera a idéia de aprender meu ofício
com ela, embora a consulta que há pouco mencionei fosse aberta para uma dezena de psicanalistas de
adultos que procuravam ali uma formação para os problemas específicos das crianças. A pessoa dela
não despertava em mim nenhum interesse particular.
Logo tive, inclusive, razões para temê-la. Escrevi-lhe para dizer que desejava assistir sua
consulta: argumentei que queria aprender a entender o sofrimento dos bebês, para ter condições de
reconhecê-lo nos meus pacientes adultos. Recebi uma convocação para comparecer à rua Cujas.
Compareci na hora marcada, para escutar da boca dela que ela devia ter se enganado e que já havia
muitas mulheres na sua consulta. Soube que outra postulante fora rejeitada com a alegação de que sua
competência em psiquiatria infantil nada tinha a ver com a psicanálise. Amarga decepção. Tive de
dissimular minha impaciência e esperar que um «lugar de mulher» ficasse vago. Com efeito, ele ficou
vago seis meses depois. De uma hora para a outra, a impaciência que sua primeira recusa gerara em
mim transformou-me numa aluna supermotivada.
Todos aqueles que acompanharam aquelas consultas sabem que elas eram impactantes. Como
dizia um deles: “Ela acredita de verdade na psicanálise!”. Sua consulta era um lugar de formação
porque Dolto era uma clínica ímpar, com seu modo inimitável de falar com as crianças, que muitas
vezes lhe respondiam taco a taco. Mas também porque ela ensinava que a psicanálise não se ensina, e
que era preciso encontrar no próprio saber inconsciente de cada um a relação entre o que a criança
nos lança na cara e o que a teoria professa. Enfim, porque ela nunca perdia uma oportunidade para
sublinhar que a idade dita pré-verbal exprime, mais longe do que o arcaico de que a psicanálise
tradicional fala, algo de uma palavra falada. Ela falava muito com os bebês, ela achava que com eles
se trocavam palavras de forma mais direta do que com um adulto. Com os psicanalistas presentes,
ela também falava: comentava a sessão que acabara de se dar, perguntava o que tínhamos entendido.
Melhor ainda, ela se servia do que lhe respondíamos; agradecia ou criticava conforme o caso. Em
suma, um tipo de transmissão a que não fôramos acostumados nem em nossos estudos, nem em nossas
supervisões com psicanalistas renomados, nem em nossos congressos.
F. Dolto ajudou-me a adentrar um terreno em que pouco tempo antes eu não teria arriscado
penetrar. Passei a atender crianças pequeninas, e a constatar que seus sintomas podiam, como com
ela, regredir depois de algumas sessões. Essa eficácia súbita me espantava. Os psicanalistas estão
acostumados a pensar que a cura é um elemento acessório num tratamento, e que existem sujeitos que
não a desejam, ou para quem esse desejo... se eterniza. Ali, tudo era vivo e claro. Como sou
psicanalista e um psicanalista continua sendo um terapeuta, eu só tinha a ganhar: conseguir entender
algo dos pequeninos na minha prática, quando um ano antes eu não teria entendido nem uma palavra,
me deixava muito feliz. A paixão da transmissão de Dolto nos confortava nas nossas tentativas de
escutar esses pequeninos. Portanto, eu continuei; ela merecia!
Guardarei como lembrança pessoal de sua devoção à causa das crianças aquele dia, pouco antes
de sua morte, em que a levei de carro para casa depois de uma manhã inteira de consultas. Apesar da
fibrose pulmonar que a debilitava, apesar da morte que ela sentia próxima, ela continuava as
consultas com os recém-nascidos do abrigo provisório: era a única atividade que ela mantinha.
Naquele dia, como todos os dias fazia algum tempo, ela levava consigo seu balão de oxigênio móvel
e a sonda que a ajudava a respirar (“seus óculos de nariz” como ela dizia às crianças para banalizar
a horrível máquina). Saíra com muita dificuldade do carro, e, passo a passo, me arrastara até uma
mercearia pedindo que a ajudasse a carregar o balão. Eu resistia: “Não faz sentido, a senhora tem de
ir descansar...”.
– “Não, não, meus netos vão vir me visitar e eu preciso comprar uns doces de qualquer jeito.”
F. Dolto carregava isso no corpo: a paixão pelas crianças e a força de viver.

Depois da sua morte em 1988, as consultas tinham de continuar; era este o seu desejo, que foi
assumido pelo Assistência Social à Infância (ASE), órgão do qual dependia o abrigo provisório de
Antony. Caroline Eliacheff foi uma das que aceitaram levar adiante o empreendimento no CMP.
Quanto a mim, passei a atender crianças já colocadas em família de acolhida que o ASE me
encaminhava para consultas psicanalíticas. Também acompanhei Caroline Eliacheff durante alguns
meses, para continuar a aprender sobre e com os lactentes.
Embora F. Dolto tivesse me libertado de meus medos em relação às crianças pequenas, eu ainda
não sabia totalmente o que tinha a ver com elas. O que a consulta tinha de apaixonante era que
crianças muito pequenas, gravemente perturbadas, podiam livrar-se de seus sintomas no espaço de
algumas sessões. Ainda que esses sintomas fossem dos mais severos, eles sofriam uma remissão
quando as palavras ditas às crianças davam sentido aos pedaços até então soltos de sua história.
Isso era particularmente notório com crianças nascidas de um parto em segredo. Tal constatação
levou-me, certo dia, a perguntar a Caroline Eliacheff: se as crianças abandonadas sofrem de vazios
de palavra e em conseqüência disso elaboram sintomas, se nossa intervenção faz esses sintomas
perderem sua força, não seria mais econômico para todo o mundo que interviéssemos mais cedo, ou
seja, antes do aparecimento do sintoma?
As evidências redundaram numa resposta afirmativa. Com certeza precisávamos ter acesso a
uma maternidade. Era tentador, mas o problema era que jamais houvera algum serviço hospitalar da
França que aceitasse pagar uma psicanalista para trabalhar junto dos recém-nascidos. Quem seria
suficientemente ousado para tentar tal experiência?

A maternidade Béclère

A sorte me sorriu, e ela tinha a cara do professor Frydman. René Frydman já dirigia a
maternidade do hospital Antoine Béclère de Clamart, que por acaso estava sob a jurisdição da
mesma regional infanto-juvenil do CMP em que eu trabalhava e do abrigo provisório de Antony.
Muitas crianças acolhidas no abrigo provisório tinham nascido naquela maternidade. Mera questão
de proximidade? Não só. Falar com recém-nascidos em sofrimento supunha por definição três
elementos: bebês que expressassem uma dor psíquica, uma concepção psicanalítica da escuta e uma
instituição de ponta.
Béclère desfrutava de sólida reputação devido às inovações ali implantadas. Ali existia um dos
serviços pioneiros no campo da reprodução medicalmente assistida (PMA), um dos departamentos
mais especializados para as chamadas gestações de alto risco (GHR), associado a um serviço de
neonatologia. Mais tarde, esses serviços vieram a se tornar o centro de uma rede de equipamentos da
região parisiense que para lá encaminham as patologias mais difíceis. A equipe era das mais
reconhecidas. Era um centro experimental de todo tipo de inovação, e ali fora criada uma das
primeiras unidades canguru da França.
Essa “unidade de criação”, com propósitos mais humanistas do que sua denominação nos textos
dá a entender, tem por finalidade permitir que algumas crianças prematuras permaneçam em contato
com a mãe. Em caso de prematuridade, as crianças que necessitam de cuidados particulares são, em
qualquer outro hospital, enviadas para o serviço de neonatologia enquanto a mãe permanece na ala
das puérperas. (Se o hospital em questão não estiver equipado com um serviço de neonatologia, a
criança é transferida para um outro centro.) As mães têm maior ou menor liberdade de visitar os
filhos, conforme o regulamento de cada hospital e segundo o tipo de cuidados que a criança exige.
Mas elas não podem ter com eles um contato constante, e muitas vezes custa-lhes muito trabalho
chegar até o setor de neonatologia, sobretudo se o parto deixou seqüelas.
No hospital Béclère, mãe e filho são internados no mesmo andar. A idéia da unidade canguru
consiste, pode-se dizer, em deslocar os profissionais para perto dos bebês, e em manter as mães ao
lado deles.
Ela se aplica às crianças hipotróficas nascidas a termo, ou aos prematuros de baixo peso, ou
seja, pesando em torno de dois quilos e que não requerem cuidados que exijam técnicas sofisticadas.
O recém-nascido passa a noite na unidade, mas durante o dia fica no quarto da mãe. Às vezes
propõe-se à mãe colocar o filho em contato com a pele de seu corpo, e uma incubadora é colocada
no quarto para o caso de necessidade. A criança é retirada para cuidados especializados pelas
equipes, mas a mãe pode a todo momento vê-la, falar com ela e participar dos cuidados. Isto é
inclusive estimulado pelas puericultoras e enfermeiras, que têm por missão ajudar a mãe a cuidar de
seu bebê, visto que ela poderia se sentir incapaz dada a fragilidade da criança.
Em razão de seu sucesso no mundo inteiro, a unidade canguru é tema de muitas publicações3
destinadas a estudar seu impacto sobre o desenvolvimento das crianças prematuras. É incontestável
que os recém-nascidos que passaram pela unidade canguru se remetem rápido, e que as mães partem
tranqüilas e certamente mais “competentes”. Ao preservar as relações precoces mãe-filho, a unidade
canguru permite que a criança reencontre após o nascimento as percepções pré-natais que já conhece,
e portanto desenvolva-se em maior segurança. Como dizia F. Dolto, e como Catherine Dolto-Tolitch
sempre relembra na qualidade de haptoterapeuta, o recém-nascido encontra aí uma oportunidade para
se desenvolver na mesmidade de ser, sem que se dê um corte arbitrário entre o antes e o depois do
nascimento.

Tudo isso era para mim indício de que a aventura poderia ser tentada naquele hospital. Se a isso
somarmos a personalidade do professor Frydman, compreender-se-á que o indício transformou-se em
esperança. Não era a primeira aventura dele. Ele passara pela guerra! Na verdade, a da Nicarágua, a
da Palestina, acompanhando os Médicos Sem Fronteiras ou a Cruz Vermelha Internacional. Mas
também a do direito ao aborto, para a qual dera sua contribuição como médico. Mais ainda a guerra
pela inseminaçãoin vitro, pois ele é um dos “pais” científicos de Amandine, o primeiro bebê de
proveta francês. Mais que como pioneiro de todas as novas técnicas de reprodução erroneamente
denominadas de artificiais, ele era conhecido como uma das pessoas que mais fazia avançar a
reflexão ética a propósito das reproduções medicalmente assistidas (PMA). Portanto, eu podia tentar
convencer um homem para quem o nascimento parecia obrigar a tentar uma experiência inédita.
A aproximação foi paulatina. Primeiro um convite para ir falar com a direção do serviço sobre
um projeto de trabalho em maternidade. Depois, uma carta propondo que eu me juntasse a um grupo
de reflexão dos psiquiatras e psicólogos do hospital. Por fim, a convocação para uma entrevista com
ele sobre a possibilidade de ajudar os recém-nascidos por meio da palavra, na qual se concluiu que
valia a pena fazer uma experiência por um período de três meses. René Frydman logo decidiu
transformar essa tentativa em profissão, a fim de implantar oficialmente minha prática no serviço. Ele
achava que a aposta valia a pena: embora ainda não tivesse tido tempo de se convencer da validade
de minhas afirmações, pelo menos o que os funcionários lhe transmitiam a respeito lhe parecia
favorável. No entanto, a guerra ainda não fora ganha, pois era preciso encontrar financiamento, e a
Proteção Materna e Infantil (PMI) se recusara a subvencionar essa atividade. A política das tutelas
era, sem dúvida, menos ousada do que a do hospital. Basicamente diziam que os recém-nascidos não
precisavam de nada, e que, aliás, eles não tinham pedido nada! Num primeiro tempo, foi portanto
como médica transferida da regional de psiquiatria infantil que fui trabalhar em Béclère. Além da
minha prática clínica, organizava ali reuniões com os membros do serviço com o objetivo de
sensibilizá-los para a especificidade da minha intervenção. Pouco depois, a regional houve por bem
cortar meu salário, e foi a maternidade que o assumiu.

Um lugar para o psicanalista


Que vemos todos os dias nas maternidades, tanto em Béclère como em qualquer outro lugar?
Mulheres que conversam com seu filho recém-nascido. Pensa-se, por certo, nos vagidos dos lactentes
em resposta aos afagos maternos, mas, mais longe, pode-se também evocar o baby blues. Ele afeta
quase todas as mães, de modo mais ou menos pronunciado. Descobri ao longo de meu trabalho na
maternidade que não apenas a presença do bebê desencadeava o baby blues, mas também que o baby
blues chamava o bebê para a linguagem. Em outras palavras, contrariando a prática consagrada, um
psicanalista não pode escutar a mãe sem escutar o bebê, nem falar com a mãe sem falar com o bebê.
Isso será mais amplamente discutido no capítulo dedicado ao baby blues. Mas já se pode afirmar que
mãe e filho vão de par. Embora eu tivesse compreendido, graças ao meu grupo de reflexão sobre o
baby blues, que havia uma demanda das mulheres para falar, embora, por outro lado, eu tivesse visto
os efeitos benéficos de uma escuta psicanalítica sobre crianças muito pequenas, a solução agora era
juntar as duas pontas. Era preciso ter acesso a ambos sem separá-los. É verdade que um dia é
preciso que mãe e filho se separem para não permanecerem num vínculo patológico: que cada qual
viva a sua vida! Mas para aquelas que justamente encontram dificuldades para estabelecer um limite
entre elas e o pedaço de carne que o filho delas é a seus olhos, trata-se enquanto isso de que elas
possam negociar a interdependência dos primeiros dias.

Os recém-nascidos, uma especialidade?


Uma das fraquezas de que sofrem as profissões ligadas à saúde mental é recortar a história dos
indivíduos em fatias: temos a psiquiatria infanto-juvenil, que diferencia a psicopatologia da criança
da do adolescente (e que acrescentaria um ramo lactente e uma subseção recém-nascido se o
permitíssemos), uma psiquiatria do adulto, uma geronto-psiquiatria... Certos psicanalistas ainda
insistem em marcar sua especificidade como analistas de crianças ou de adultos, como já disse.
Decerto é preciso adequar-se a todos os gostos dos profissionais, bem como aos gostos de todos os
públicos de “doentes”, mas não ao preço de esquecer o continuum de uma vida de ser humano. Com
as crianças de muito pouca idade, é impossível separar o dizer da criança do da mãe, e tampouco,
aliás, do dizer do pai. Béclère carrega uma marca dessa situação, que, embora seja formal e benigna,
nem por isso deixa de ser real: o departamento de acompanhamento das puérperas depende
administrativamente do serviço de obstetrícia do professor Frydman, ao passo que a unidade canguru
bem como todos os pediatras da maternidade dependem do serviço de neonatologia.
Administrativamente falando, uma mãe e seu filho competem portanto a duas unidades diferentes.
Nada de grave nisso, pois geralmente serão internados juntos no mesmo andar; mas a separação
continua inscrita. Já faz muitos anos que os psicanalistas trabalham em hospitais. No entanto, até
então seu objetivo era apenas trabalhar no antes e no depois do nascimento. Antes, para ajudar as
mulheres com gestações difíceis ou para as PMA; depois, para os problemas que surgiam em
neonatologia e em pediatria. Nada para os partos «normais». A prioridade era ocupar-se das mães,
não dos bebês. Muitas vezes, essa prioridade incluía, como condição subentendida, que o sintoma do
bebê era de outra alçada, médica e pediátrica: não se deve misturar alhos com bugalhos, nem as mães
sofredoras com os bebês que supostamente nada têm a dizer, e muito menos as coisas sérias com os
médicos da alma. E eis que agora chega alguém que pretende falar com os bebês... Na verdade, eu
apenas propunha aplicar o que F. Dolto me havia ensinado com bebês de algumas semanas aos
recém-nascidos de alguns dias. Tratava-se de psicanálise, ou seja, de uma insistência em dar palavra
– como se diz “dar na mosca” – a todo sintoma articulado que representa sua parte de verdade
inconsciente. Quanto a isso, a psicanálise não indaga os sujeitos sobre sua idade ou seus motivos.
Mas ela exige um protocolo particular, que a diferencia da psiquiatria e da psicologia. Não
exatamente o do consultório de um psicanalista, pois é preciso deslocar-se para o leito das pessoas
que sofrem, mas com certeza um enquadro que responda a critérios psicanalíticos.

Para compreendê-lo, tomemos a lista dos males com que deparamos numa maternidade. Os
recém-nascidos sofrem de distúrbios digestivos os mais variados: vomitam, regurgitam, têm
diarréias ou prisões de ventre, têm cólicas – alguns em proporções alucinantes, que os colocam em
perigo. Fazem anorexias, rejeitam obstinadamente o seio. Fazem bulimias, ou, mais exatamente,
exigem sem parar. Choram ininterruptamente, noite e dia. São vítimas de hipersonia, ou acordam com
demasiada freqüência. Têm distúrbios cutâneos. Têm distúrbios respiratórios, leves ou dramáticos.
São hipotônicos, têm uma curva de peso que não volta a subir passados três dias, como é normal, são
anormalmente “apagados”, gritam, são hiperagitados...
As mães reagem como podem em função de seu estado e de sua constituição. Os profissionais
tranqüilizam. Sem fraquejar. Que faz o psicanalista?

O olhar e a voz
O psicanalista deve abrir os ouvidos e tentar entender o bebê, sua mãe e seu pai. Dizer isso
ainda não explica nada se não esclarecermos que ele recorre aos seus olhos como ajuda. Quando
entro num quarto de uma mãe que mandou me chamar para ela ou para seu bebê, começo por arrumar
o espaço de maneira a poder ver ambos os protagonistas, ou os três, se o pai estiver presente, e a
poder ser vista por eles. O dispositivo é diferente daquele a que estamos acostumados com adultos
em consultório, onde o analisando deitado no divã furta-se ao olhar do analista e vice-versa. O
primeiro órgão da fala, nesse caso, será o olho. Trata-se de instalar com o olhar essa cena em que o
recém-nascido é incluído no espaço de fala que se cria. Trata-se de ser testemunha. Olhar a mãe,
olhar a criança, ser olhado. O termo «olhar», que acrescenta um prefixo de repetição a “guardar”,4
deriva do termo germânico wardôn, que significa “esperar”, “cuidar”. É justamente disso que aqui se
trata.
Diz-se que o recém-nascido não vê nada, por uma deficiência devida à imaturidade dos
receptores retinianos. Convido o leitor a ler os trabalhos experimentais sobre o olhar do lactente.5 Lá
encontra-se demonstrado que a criança lê de certa maneira os lábios, que ele entende melhor o que
vê. Ver-se-á também que ela sabe imitar um adulto puxando a língua e abrindo a boca, que copia as
expressões de seu rosto sorridente ou severo. Simples conduta reflexa? Ou será que o bebê entende
que ao franzir o cenho sua mãe mostra sua inquietude, ao passo que seu sorriso é de melhor augúrio
para ele? Tudo indica que essa conduta pressupõe na criança uma representação simbólica para além
do olhar. Por qual outro motivo os pesquisadores insistiriam em dizer que uma criança vê um novo
objeto como algo já visto? Será porque existe uma vida antes do nascimento, porque o recém-
nascido tem uma história? Deixemos que cada um se indague e contentêmo-nos por enquanto em
acre​ditar no olhar dos recém-nascidos.

O psicanalista deve tentar deixar que as vozes se expandam. A sua, a do bebê, a da mãe. Tenho
razões pessoais para pensar isso, pois uma formação em canto me permitiu compreender de que
maneira a voz é realmente um corpo nascente: uma glote, cordas vocais, caixas de ressonância,
músculos e um fole, mas também um corpo que vai além de si, que vai em direção ao outro que
escuta. Mas, avancemos.
Como demonstra o psicanalista Denis Vasse, quando o umbigo se fecha, a boca se abre: é o
momento mesmo da vinda à vida. Quando o cordão é cortado e o umbigo é levado a se fechar, chega
para a criança o tempo de viver de seu próprio corpo. Muitas vezes este é também o instante de seu
primeiro vagido.
Quando surge a voz do outro, é uma dimensão outra que se abre: “dali em diante o corpo-a-
corpo com a mãe se encontra mediado pela voz, tanto a do bebê como a da mãe ou a do pai. É nela
que vêm se significar o contato ritmado dos cuidados, simultaneamente com as inflexões mais
inconscientes que esse contato provoca no coração dos pais".6 Em outras palavras, a voz é aquilo por
meio do que o bebê é simbolizado no Outro, porquanto ele é representado, falado, vocalizado em
relação ao outro. Pela voz de outros homens, o recém-nascido deixa de ser apenas um corpo, e passa
a ser um ser inserido no simbólico. A voz é essa cesura significante mais apta a levá-lo à vida do que
o corte do cordão umbilical. Ela é o que nomeia, distingue e celebra o corpo da criança.
Essa capacidade da voz, na medida em que é escutada e entendida pela criança desde seus
primeiros instantes, vincula-a desde então e para o resto da vida a duas ordens que se conjugam: seu
corpo e a história que ele veicula – é o “momento” umbilical – e a humanidade, o conjunto daqueles
que falam, a sociedade – é a nomeação. Portanto, é como força de vida que cabe considerar a voz na
entrevista com o lactente.

Sobre esse tema do olhar e da voz, citaremos um caso clínico de F. Dolto, que evoca um
problema que se origina no imediato do pós-nascimento. Trata-se de uma criança abandonada ao
nascer, Frédéric, que se recusa a aprender a ler e a escrever. Nos desenhos que executa para a
analista, pinta uma multidão de figuras que se parecem com a letra A. Françoise Dolto se espanta e se
pergunta: será a inicial do nome de alguém da família? De uma maternante? A pesquisa parece não
dar em nada até que a mãe de Frédéric revela que o nome da criança antes da adoção era Armand. F.
Dolto explica então a Frédéric que é a dor da separação precoce que se encontra garatujada nos A de
seus desenhos. Mais uma vez, não obtém nenhum efeito. É então que ela tem a intuição de chamar a
criança pelo nome como se estivesse falando com as paredes, com uma voz impessoal, “sem olhar
para ele, ou seja, sem me dirigir à pessoa presente por meio de seu corpo diante de mim, mas com
uma voz alta, de tom e intensidade diferentes, minha cabeça virando para todos os pontos cardinais,
para o teto, para debaixo da mesa, como se eu chamasse alguém localizado no espaço, que eu não
soubesse onde está: ‘Armand...! Armand...! Armand...!’”. 7 De um jeito que lembrava uma das vozes
de maternantes desconhecidas que ele devia ter escutado nos corredores do abrigo provisório antes
de ser adotado. De repente a criança volta a orelha para cada canto da sala, sem olhar para Dolto
assim como ela não olha para ele, até que os olhares deles se cruzam e ela lhe diz: “‘Armand, era seu
nome quando você foi adotado’. Nesse momento, percebi em seu olhar uma excepcional intensidade.
Denominado, o sujeito Armand pudera re-amarrar sua imagem do corpo à de Frédéric. [...] Foi esse
reencontro na transferência comigo, sua psicanalista, de uma identidade arcaica, perdida desde os
onze meses, que lhe permitiu superar, na quinzena que se seguiu, suas dificuldades para ler e
escrever”. Olhar e voz: é nos primeiros contatos com o recém-nascido que algo se dispõe a se
desamarrar.

Alguns dias para escutar

O primeiro trabalho na maternidade é perceber o que acontece ali. Não é ainda um trabalho de
psicanalista, mas um trabalho preliminar: tentar compreender as constantes dentro do leque de
situações. Ora, o que acontece? Na medida em que «as coisas não vão bem» e que uma mulher
convoca o analista para escutá-la, ele constatará que ela chora, que ela pensa, que ela chama, que ela
demanda, que ela se enfurece, em suma, que ela fala. Nenhum temor do “psi” se opõe a esse afluxo; é
a confirmação da resposta das parturientes ao questionário de que falamos há pouco. Quando as
puericultoras e as parteiras sentam por um momento com as parturientes para falar um pouco, elas
sempre saem perdendo: às vezes não conseguem mais sair do quarto de tanto que as mães são
tagarelas. Por sorte, elas recebem uma recompensa, porque a humanização de sua relação com as
mães torna a comunicação mais fácil e o trabalho mais eficaz; mesmo assim, elas gostam que um
analista tome o lugar delas quando a necessidade se faz sentir. Esse reservatório de palavras cujas
torneiras se abrem é, na verdade, mais uma questão de qualidade do que de quantidade. As histórias
evocadas por essas mulheres, a intimidade e a carga de dor que elas transmitem, provam que nesse
momento algo de inconsciente aflora e se revela ou insiste com força.
Isso coloca um problema prático e cruel: falta tempo para escutá-las. Uma maternidade como a
de Béclère, embora flexível, mantém internada uma parturiente por quatro dias no máximo, sete em
caso de cesariana. Ora, é no terceiro ou quarto dia que mãe e filho começam realmente a efetuar
trocas. Muitas vezes é no quarto dia que começa um baby blues. Geralmente é nesse momento que
conflitos aparecem, por ocasião de uma visita dos pais ou porque o leite não desce com facilidade...
Nessas condições, às vezes é impossível trabalhar de maneira eficiente, mesmo admitindo-se um
prolongamento da internação “por motivos médicos”, mesmo que a mãe ou o bebê possam ser
atendidos na cidade depois da alta. Antigamente, as mulheres ficavam duas semanas na maternidade
“para descansar”, agora elas têm menos de quatro dias para se reerguer. É verdade que há o perigo
do déficit da Seguridade Social, mas será essa a mais inteligente das reformas que o progresso
médico produziu?
Em termos mais gerais, gostaria de sensibilizar os responsáveis para a idéia de um
acompanhamento do pós-parto nas maternidades. Existe uma demanda importante das mulheres nesse
sentido. Ofereço como prova o sucesso de um atendimento do pós-parto que acabamos de inaugurar
em Béclère faz alguns meses. Esse atendimento, reembolsado pela Seguridade Social, destina-se a
pais e bebês em dificuldade nos meses que se seguem ao nascimento. Ele visa justamente a paliar o
efeito das altas precoces demais e a tratar as dificuldades vividas pelas famílias depois do
nascimento, que não foram tratadas antes por falta de tempo. O importante é que esse atendimento
seja aberto na maternidade, a fim de evitar que os pacientes tenham de formular uma demanda em
serviços especializados de pediatria ou de psiquiatria infantil. É imprescindível que se tome
consciência de que o parto é um princípio e não um fim, e que se deve garantir um acompanhamento
posterior.

Léa, a menininha a quem faltava um nome

Para além do olhar e da voz, à margem do momento intenso que são os dias posteriores ao parto
para uma mãe, o mais importante é a palavra que se possa dirigir a um recém-nascido. Vim trabalhar
em Béclère para responder à pergunta: as intervenções junto de um recém-nascido têm algum efeito?
Ou, para tomá-lo sob um ângulo estratégico: como criar condições para que elas o tenham? Como
encontrar a brecha para falar com o bebê? Antes mesmo de dizer o por quê e o como, é preciso
verificar se é possível.
Gostaria de citar um exemplo atípico, pelo fato de que ele não se apresenta sob a aparência
abrupta de um sintoma maciço, da mãe ou da criança. Esse caso, no entanto, provocava um mal-estar
evidente: não só para o casal de pais, mas também para a equipe encarregada. Quanto à criança,
embora nada dissesse, sabia-se que ela não poderia consentir com o que estava sendo decidido.
Era uma mulher que acabara de dar à luz por cesárea em circunstâncias um tanto perturbadas.
Ela fizera o acompanhamento da gravidez, uma gravidez gemelar espontânea, numa outra
maternidade. Descobriu-se durante a gravidez uma malformação muito grave em uma das gêmeas. O
prognóstico limitava-se à esperança de uma pequena sobrevida após o nascimento. De qualquer
maneira, a hospitalização era indispensável. Os médicos haviam prescrito aos pais tomarem a
decisão de interromper in utero a vida da criança ou deixar as coisas como estavam. O casal,
transtornado, não sabia o que pensar. Conversaram com amigos que já tinham enfrentado um dilema
parecido. Estes lhes contaram o inferno que foi para eles o fato de ver o filho sobreviver algumas
semanas nas piores agonias. Horrorizado, o casal se resignara a pedir um feticídio seletivo para a
gêmea malformada, e isso quinze dias antes do final da gravidez. O ato foi portanto praticado
tardiamente. Quanto ao parto, expressaram o desejo de que ele não se desse no mesmo local. Ele
ocorreu, agora em Béclère, quinze dias mais tarde. A mãe pediu uma cesárea e conseguiu. Ela temia,
com um parto natural, ficar face a face com a criança morta.
A cesárea foi portanto praticada. É preciso dizer que, em caso de feticídio tardio, o feto morto
permanece no útero até o nascimento. Para evitar qualquer toxicidade para o segundo feto, não se
aplica peridural. A escolha possível, portanto, é entre parto por via baixa sem anestesia e cesárea
sob anestesia geral. A mãe não tinha nenhuma vontade de acrescentar à dor moral a do parto. Além
disso, o feto morto seria o primeiro a se apresentar, e como eu já disse ela tinha medo de vê-lo. O
pedido de cesárea era, pois, justificado.
No entanto, o mal-estar permanecia entre a equipe responsável. Eles não julgavam essa mãe,
pois aprenderam a tolerância no contato com dramas que tantas vezes viram se desenrolar no
nascimento. Mas, sem poderem criticar o casal, eles sentiam a necessidade de transmitir o que
sentiam crescer neles, e que eu formularia assim: “O que acontece com essa senhora que exige uma
cesariana e que não quer saber nada de seu filho morto? O que acontece com esse casal que decide
um feticídio imediatamente antes do termo previsto? Não podiam deixar chegar até o fim?”. Logo
chamei a atenção deles para o que me parecia o mais importante como medida preventiva: era
preciso que eles pudessem dizer para a gêmea viva que sua irmã estava morta e que ela não a
reencontraria mais.
Eles estavam reticentes, não consideravam que entre suas funções estava a de ter de falar com o
bebê. Eu não tinha como intervir, pois na qualidade de psicanalista só posso comparecer a pedido, e
nem os pais nem o bebê não me pediam nada. Então, que fazer? O bebê, a partir do que sei sobre os
efeitos de choques pré-natais, podia estar em perigo; os pais, embora não se quei​xassem abertamente,
viviam em plena negação e desamparo; a equipe responsável pela unidade canguru não conseguia
trabalhar com serenidade com eles. Se alguma intervenção era possível, era junto do bebê, pois só
ele não podia mascarar o problema: tinha atrás de si vários meses de companheirismo com sua irmã
gêmea, e esta de repente ficara inerte, e depois desaparecera por completo de seu contato. No
entanto, eu estava proibida de interferir sem um chamado da família.
Outro problema, aparentemente de menor importância, surgiu. Os pais não conseguiam se
resolver por um nome, mas era necessário fazer o registro da criança. A situação ganhava outro
rumo, pois os pais manifestavam dessa maneira que não conseguiam sair do impasse em que eles
mesmo se tinham colocado. Eu podia, portanto, ver nisso um apelo da parte deles. Propus então que a
parteira mencionasse a minha existência e propusesse minha ajuda nesse assunto do nome. Eles
aceitaram. Eu achava que eles não conseguiam nomear a criança por não terem podido nomear a
irmã. Essa morte era uma morta “a viver”, se é que posso dizer, e era preciso que eles nomeassem os
dois bebês.
Não tive de lhes dizer isso. Entre o momento em que eles solicitaram minha vinda e aquele em
que cheguei, apenas uma hora passou. Esse tempo foi suficiente, e o problema foi resolvido: eles
tinham dado à filha morta o nome de Sophie, e à sua irmã viva o nome de Léa. Léa, embora tivesse
nascido um pouco antes do tempo, tinha o aspecto de uma grande prematura. Foi a ela que me dirigi
em primeiro lugar:
“Sua irmã Sophie, que estava ao seu lado no ventre da sua mãe e cujos movimentos você sentia,
morreu. Foi por isso que antes de você nascer você sentiu que ela não se mexia mais. É também por
isso que você não a vê mais agora, e que você não a verá nunca mais. É claro que você pode guardar
a lembrança viva dela no seu íntimo, mas ela nunca mais estará ao seu lado”. A mãe levou um susto
ao meu ouvir falar dessa maneira com o bebê. Antes da IMG (interrupção médica de gravidez), ela
perguntara aos médicos se a criança perceberia o que iria acontecer, mas a resposta evasiva deles a
deixara perplexa. Garanti a ela que ela certamente percebera sensações relativas a esse
acontecimento, e que por isso mesmo era preciso colocar palavras sobre suas percepções.
Quando voltei a vê-los três dias depois, a situação estava tensa. Léa tinha emagrecido muito.
Fora preciso amamentá-la à força com o leite da mãe, mas ela regurgitava sem parar e todos estavam
inquietos. No entretempo, eu ficara sabendo pela pediatra que ela apresentava uma sindactilia, dois
dedos de seu pé estavam colados um ao outro... Malformação visível e incômoda, mas facilmente
tratada por meio de uma intervenção cirúrgica praticada posteriormente.
No momento da segunda entrevista, Léa não estava no quarto, estava sendo alimentada na
unidade canguru. Propus aos pais irmos ao encontro dela, e eu lhe disse:
“Léa, tenho a impressão de que você tinha vontade de nascer mas que você ainda não decidiu
totalmente viver, por isso você hesita em comer. Para viver, é preciso comer. Você tem uma
malformação no pé, mas isso de forma alguma tem a mesma gravidade que a malformação de sua
irmã. Você não vai morrer disso; simplesmente será operada mais tarde, e então terá um pé normal”.
Em seguida dei alguns conselhos quanto à forma de cuidar da criança.
Sugeri às puericultoras que fizessem Léa experimentar o leite da mãe na xícara. Fazer um
recém-nascido beber na xícara é um “truque” que se utiliza com os prematuros que não conseguem
ainda sugar o seio. No caso de Léa, o intuito era que ela pudesse experimentar o leite da mãe na sua
presença. Propus à mãe deitá-la sobre sua barriga contra a sua pele para que ela pudesse escutar as
batidas de seu coração, reencontrar seu calor e seu cheiro. Como nos ensinam os haptoterapeutas, fiz
a mãe deitar a criança sobre o lado esquerdo com a mão sob o sacro, de modo a lhe dar um
sentimento de segurança que lhe permitisse beber em confiança.
Léa estava profundamente deprimida, não conseguia se pensar viva devido à morte de sua irmã
gêmea. Era preciso que ela voltasse a encontrar suas referências pré-natais – o cheiro e o gosto da
mãe nesse caso – para que ela pudesse estabelecer uma continuidade apaziguadora entre o antes e o
depois do nascimento. Isso era ainda mais indispensável porque a cesariana sob anestesia geral a
tinha privado dos primeiros instantes com a mãe, e porque ela não pudera ser assistida pela mãe na
sua descoberta do desconhecido. Apenas reencontrando essas sensações que a separação em relação
à mãe a fizera perder brutalmente é que ela poderia se pensar viva. A esse preço, Léa podia fazer do
luto da irmã uma «coisa da vida», e não se identificar a ela num impulso mortífero.
No dia seguinte, Léa decidiu “salvar a pele”: começou a mamar sozinha e em grande
quantidade, o que era impressionante, considerando-se a sua prematuridade. Duas semanas depois,
ela saía da maternidade, o que foi motivo de espanto, dado seu peso inicial. Era evidente que ela
recuperara o controle da situação. Esse auto-salvamento aliviou toda a equipe, que, até então,
estivera muito inquieta; também sobre os pais produziram-se efeitos. Estes continuavam, sem dúvida,
vivendo uma forma de negação: “Infelizmente, tudo o que está acontecendo é normal, é porque ela é
prematura!”.
Mas eles tinham encontrado novas energias para cuidar de Léa. Eu tinha de respeitar essas
defesas, que os protegiam de uma culpa grande demais. Se eu tivesse questionado essa recusa em ver
a gravidade da situação, poderia ter comprometido todo o novo equilíbrio desses pais e de sua filha.
De fato, não é banal esperar dois filhos e só ter um. Agora que Léa os fizera reencontrar uma nova
segurança, ela tinha o futuro pela frente...

Essa confrontação com Léa foi decisiva para a equipe e para mim. Era pegar ou largar. Eu não
tinha trabalhado como de costume, eu não tinha evocado com eles a história dos pais como costumo
fazer. Tinha me centrado apenas nas palavras ditas à criança a propósito do que lhe era dado viver, e
no seu entendimento. Pois se o silêncio de Léa fazia tanto barulho, era preciso conseguir tomá-lo ao
pé da letra. Era uma questão de vida ou morte. Mas impor o levantamento do véu sem ser convidado
a fazê-lo era correr o risco de não ser compreendida. No caso dessa menininha, como não
conseguiam chamá-la, chamaram a mim.

O recém-nascido não é um objeto de estudo

Assim foi o começo de minha prática em Béclère. Eu vira com meus próprios olhos, se posso
dizer, os efeitos da palavra sobre os recém-nascidos. E outras pessoas tinham testemunhado comigo.
Os médicos que tratam da infância sempre ficam espantados ao ver uma psicanalista aplicar seus
conhecimentos ao mundo dito pré-verbal. No entanto, é preciso que eu o diga claramente, é ao mundo
da pesquisa e ao da medicina clínica, mais que ao da psiquiatria tradicional, que devo o fato de ter
podido dar seqüência a esses estudos. Por isso quis criar uma associação, A Causa dos Bebês, em
que esses mundos possam trocar seus pontos de vista com os da psicanálise. Nessa associação,
pediatras, parteiras, puericultoras, psicólogos, psiquiatras, assistentes sociais, mas também
neurobiólogos, psicofisiólogos, obstetras, historiadores e epistemólogos, expõem suas práticas e o
produto de suas pesquisas. Todos têm em comum em seu trabalho o interesse pela sensorialidade e
sensibilidade do bebê, antes e depois do nascimento. Todos questionam a reificação da criança vista
como uma espécie de objeto virtual não identificado, objeto de todas as encenações experimentais e
de todos os voyeurismos favorecidos por certas pesquisas. Todos, em suma, tratam a criança na sua
dignidade de sujeito.
A psicanálise muitas vezes deu a impressão de se manter afastada da ciência, e de mostrar com
essa distância seu desprezo pelo corpo humano. Há trinta anos, nos primórdios da cibernética,
acusava-se os psicanalistas de pretender conhecer o funcionamento psíquico sem aceitar escutar a
caixa preta do cérebro, onde se encontrava a chave, como faziam os cientistas. Hoje criticam-na por
negar a origem orgânica, ou mesmo genética, de tal ou qual doença mental, e a acusam de não querer
ver as descobertas da bioquímica. Há nisso certo mal-entendido. A psicanálise não volta as costas
para a ciência. Ela simplesmente não acha que seja conseqüente considerar o ser humano um objeto,
nem mesmo um objeto de estudo. Ela não pode compreender que o sujeito humano seja reduzido ao
sujeito abolido da ciência que Lacan condenou ao comentar Galileu, ou seja, a um sujeito destituído
de qualquer desejo. Questão de perspectiva. Aliás, pelo menos depois de Einstein, que se imaginava
um encanador “se tivesse de fazer tudo de novo”, os cientistas sabem que eles mesmos não estão
destituídos de desejo. No entanto, os psicanalistas demonstrariam má vontade se se queixassem.
Pois, pelo menos no que concerne à perinatalidade, o mundo científico é um dos apoios mais seguros
para as suas postulações teóricas. Quer se trate da sensorialidade do feto e do recém-nascido, da
aquisição da linguagem, da memória, do vínculo entre o corpo e o pensamento, as esperanças do
pensamento científico moderno juntam-se às da psicanálise. Além disso, os cientistas lhe permitem
questionar de uma maneira nova as hipóteses que ela considerava suficientemente definidas. É esse
esforço de compreensão que a ciência exige de nós, e para isso ela nos dá sua contribuição, que
agora evocaremos.
1 Designação dada ao profissional que serve eletivamente de substituto materno para crianças em instituição. (N.T.)
2 A importante bibliografia de F. Dolto comprova sua contribuição à psicanálise. Todos sabem que ela era generosa em suas palavras;
o problema para o leitor consistia em situar-se numa obra marcada pela profusão de anotações clínicas. Um dos trabalhos mais
completos que permite compreender a inovação e a coerência teórica dessa obra é, a nosso ver, o de Gérard Guillerault, Le corps
psychique, Ed. Universitaires, 1989.
3 Cf. sobretudo Charpak et al., “Rey-Martinez Kangaroo Mother Program: an alternative way of caring for low birth weight infants?”,
in Pediatrics, v. 14, nº 6, dez. 1994, p. 804-10.
4 Em francês se diz regarder (re-garder) para “olhar”. (N.T.)
5 Ver D. Stern, Le monde interpersonnel du nourrisson, PUF, 1984, em particular p. 69-90.
6 D. Vasse, L’ombilic et la voix, Seuil, 1974, p. 18. [Edição brasileira: O umbigo e a voz, Loyola, 1977.]
7 F. Dolto, L’image inconsciente du corps, Seuil, col. “Points”, p. 47-8. [Edição brasileira: A imagem inconsciente do corpo,
Perspectiva, 1992.]
Nasce-se pelo menos duas vezes

Não há liberdade sem lei [...]. Um


povo livre obedece, mas não serve;
ele tem chefes e não senhores; ele
obedece às leis, mas só às leis, e é
pela força das leis que ele não
obedece aos homens.

Jean-Jacques Rousseau

A criança agente e desejante


1905: Sigmund Freud publica em Viena seus Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, 1 em
que traz à luz a sexualidade da criança. Ele a faz surgir de uma maneira tal que a torna inaceitável
para muitos, pois atribui à criança de pouca idade o papel ativo de um ser já independente, mesmo
não sendo autônomo.
“A criança é um perverso polimorfo”, escreve ele. A expressão fez sucesso. Por um lado, a
criança concentra sua sexualidade nas diferentes zonas erógenas tentando manter o estado de
excitação dessas zonas num nível suportável – a boca, o ânus, o pênis: é a famosa teoria das fases.
Por outro, suas “respostas” sexuais a essas excitações fazem pensar em comportamentos que seriam
chamados de perversos num adulto: a criança pré-púbere pode ser alternadamente voyeur,
exibicionista, até mesmo fetichista, cruel ou, ao contrário, masoquista etc. Freud descreve o
onanismo do lactente de modo incrivelmente preciso para alguém que reconstruiu suas teorias a
partir dos depoimentos e lembranças de adultos que ele analisou. A isso associa certo número de
distúrbios da primeira idade – distúrbios da sucção e da regurgitação, distúrbios intestinais etc. –
nos quais vê um meio masturbatório que a criança tem para acalmar a excitação das zonas erógenas
correspondentes, respectivamente, à boca e ao trato digestivo. Em todas essas situações, a criança é
vista como uma pessoa «agente» de sua sexualidade, e não apenas como o joguete passivo de
desordens corporais ou de influências do meio familiar. Aliás, ao falar do onanismo Freud não deixa
de descrevê-lo como “a realização da fantasia, esse reino intermediário que se inseriu entre a vida
segundo o princípio de prazer e a vida segundo o princípio de realidade”.2 Para ele, o que tem
primazia é a fantasia subjacente, é a elaboração feita pela criança de suas sensações, e as teorias
sexuais que ela esboça. Pouco importam os erros existentes nessas teorias – diz ele –, são elas que
permitem à criança dar sentido a excitações corporais ou a percepções de que não dá conta. Mais
exatamente, é seu modo – diz Freud – de responder à pergunta: de onde vêm os bebês?

Entenda-se que isso se refere a crianças com pelo menos três anos, e portanto não deveria
concernir ao nosso tema. Mas para além desse problema de idade, do conteúdo dessas duas teses e
das controvérsias que elas suscitaram, depreende-se o princípio intangível que desde o começo ele
afirma, qual seja, que a criança reflete, elabora, age sua vida, e em primeiro lugar sua sexualidade.
Ela é ativa e desejante nesse assunto, e não reconhecê-lo é pior do que tomar o caminho errado: é
não ir a lugar nenhum. Nesse sentido, todos os psicanalistas são anões postados sobre os ombros de
um gigante. As formidáveis descobertas daqueles que depois de Freud se ocuparam das primeiras
idades – Anna Freud, Melanie Klein, Donald Winnicott, Françoise Dolto, para citar apenas os mais
conhecidos – não teriam sido possíveis se não tivessem seguido essa exigência primeira de Freud. O
passo que nos cabe dar agora é reconhecer que o recém-nascido já nasceu antes de nascer, mais
precisamente, que sua vida começou cerca de nove meses antes, que ele o sabe à sua maneira, e que
isso é portador de sentido para ele desde o primeiro dia.

A sensorialidade do recém-nascido

Rafael, ou como dar sentido à sua vida

Eis a seguir um exemplo, dentre os mil que chegam aos meus ouvidos na maternidade, de que o
recém-nascido dá sentido à sua vida com os meios de que dispõe, e de que a primeira exigência para
um psicanalista é a de reconhecê-lo.
Rafael, com apenas três dias de vida, sofre de diarréias dolorosas. Trata-se de algo freqüente
entre os lactentes, cujo sistema digestivo ainda não está maduro nos primeiros tempos da vida. Mas
essa diarréia resiste aos tratamentos. Ela o deixa num estado de dor, de choros e de gritos
insuportáveis até mesmo para os funcionários do hospital, que já viram outras, e sua curva de peso
desce perigosamente.
“Não tenho nada para dizer, tudo está bem com exceção dessa diarréia!”, comenta a mãe, que,
no entanto, pediu para me ver. Por um certo tempo ela tivera episódios anoréxicos, e a gravidez
provocara nela algum desespero. Regimes draconianos, náuseas, fantasias de provocar aborto,
qualquer coisa servia para manter aos seus próprios olhos um certo ideal de ventre achatado. Chegou
a maldizer em certos momentos essa criança que a deixava “enorme”, apesar do desejo e do desvelo
que tinha por esse futuro bebê. Minha discussão com ela trouxe à tona seus próprios problemas de
identificação como mulher e possível mãe, mas o que importava sobretudo era fazer da criança
testemunha.
Basicamente, eu disse a Rafael que, embora sua mãe tivesse pensado de alguma maneira em
evacuá-lo, ela tinha renunciado a esse desejo; que ela inclusive parecia particularmente feliz de ter
podido superá-lo para acolhê-lo. E que, portanto, para ser plenamente aceito por ela, ele, Rafael, não
precisava corresponder a esse desejo “evacuando-se” a si mesmo por seus próprios meios, como se
apenas fosse um dejeto da mãe e não um bebê. Essa mensagem não basta por si só para explicar o
fato de que seu sintoma tivesse desaparecido naquele mesmo dia, pois a entrevista trouxe outros
elementos. Mas ela foi o contato que permitiu ir mais longe: sem esse reconhecimento prévio do
sentido que ele dava à sua presença e à sua existência precárias, o diálogo talvez não tivesse se
estabelecido.
A base da prática com os recém-nascidos é esta: o bebê tenta dar sentido ao que vive, sejam
quais forem as condições de seu nascimento, num momento em que tudo é novo para ele nesse meio
aéreo em que ainda lhe custa deslanchar.
Como dar a esse sentido a oportunidade de ser entendido quando ninguém vem reconhecê-lo?
Como fazer para que ele encontre fiador quando este vem a faltar? Como dar asilo a essas tentativas
de comunicação do recém-nascido, quando o meio imediato não pode fornecê-lo pelas mais diversas
razões?
A resposta não é simples, ela é inclusive sempre provisória, dada a evolução extremamente
rápida dos conhecimentos científicos sobre o feto e o lactente nos últimos 20 anos. A pesquisa levou
a novas descobertas fundamentais que, por si mesmas, favoreceram o surgimento de novas técnicas,
que, por sua vez, favoreceram a emergência de novas hipóteses teóricas. No que tange ao feto, isso é
particularmente claro: ali onde havia tão-somente conjeturas nos anos 70, a evolução da embriologia
e da genética propiciou o desenvolvimento de novas abordagens pré-natais, a ecografia modificou
completamente os procedimentos diagnósticos e o acompanhamento das gestações, as pesquisas em
psicofisiologia do feto e do recém-nascido favoreceram novas medidas preventivas, as técnicas de
assistência médica à reprodução revolucionaram o destino de muitos casais estéreis...
Na maternidade Antoine-Béclère somos ao mesmo tempo testemunhas e atores privilegiados
desses avanços. O paradoxo é que esses progressos complicam as coisas no pós-parto. Quanto mais
se sabe no plano médico sobre os fetos, os recém-nascidos e as parturientes, mais seus cuidados no
hospital são medicalizados, maior é o risco de que não sobre lugar para suas palavras. Não quero
com isso cair no exagero de dizer que o meio hospitalar infantiliza os pacientes. Não é verdade. Ao
contrário, a reflexão a esse respeito tem avançado muito na França e posso garantir que em Béclère
vários médicos, parteiras, enfermeiras e puericultoras desempenham suas tarefas fazendo apelo à
dignidade das parturientes e dos bebês. O problema é mais difícil de abordar por​que é institucional.

Prematuros com falta de mãe

Tomemos o exemplo dos partos prematuros. Os prematuros nascidos depois de 26 semanas de


gestação são muitas vezes viáveis do ponto de vista médico, mas evidentemente necessitam de
cuidados permanentes que não podem ser ministrados no serviço que cuida dos pós-partos
“normais”. Portanto, eles são separados de suas mães e colocados no setor de reanimação do serviço
de neonatologia, que se encontra em outra ala do hospital. O peso deles pode ser pequeno (às vezes
de até 400 gramas), a maturação de seu sistema pulmonar e neurológico ainda é insatisfatória,
precisam de uma assistência constante num serviço onde tudo é feito para que eles prossigam sua
maturação fora do ventre materno. E as mães? As mães esperam, sozinhas nos seus quartos da
maternidade. Às vezes elas nem mesmo sabem exatamente quem elas esperam, porque deram à luz
sob anestesia geral e a criança foi transferida para a neonatologia sem que elas a vissem. Nesse caso,
elas passam e repassam diante dos olhos a Polaróide desgastada do filho. Dubitativas ou inquietas,
elas tentam relacionar essa imagem de um ser virtual, invadido por estranhos tubos, com o fruto
esperado de sua carne. É claro que poderão visitar o filho, mas para isso terão de esperar que o
estado dele seja considerado aceitável. Por enquanto, elas esperam o pior ou o melhor, conforme
suas disposições. Quando se recebe mães de grandes prematuros para uma entrevista, é
impressionante ver o quanto sua preocupação materna primária – empregando a expressão do
psicanalista D. Winnicott3 –, o quanto o desvelo que têm pelo filho é forte, mas cai no vazio. Elas
imaginam, freqüêntemente com razão, os cuidados particulares que a situação de seu filho exigiria da
parte delas. Mas, por não poderem efetivamente propiciá-los nesses instantes de separação, elas
desistem e ficam deprimidas.
“Sou uma mãe ruim, incapaz de ajudá-lo no momento em que ele mais precisa de mim. A
senhora, que é psicanalista, sabe como os primeiros instantes são decisivos...”, dizia uma com uma
voz embargada por soluços de impotência.
“Nem mesmo fui capaz de levá-lo a termo... é tudo culpa minha”, indignava-se outra.
“De que adianta ir vê-lo e falar com ele? Disseram-me que ele está com tubos na boca e no
nariz, como é que ele vai conseguir me reconhecer desse jeito?”, queixava-se uma terceira.
“Só vou atrapalhar”, dizia outra mulher que tentava se desculpar por seu amor materno, “aliás,
me disseram que eu mesma estou muito fraca. As enfermeiras da reanimação farão isso melhor do
que eu”.
A essas mulheres e a outras, destituídas de sua preocupação materna primária por força da
técnica médica, eu respondia, no princípio da minha prática, a partir do que eu sabia da situação dos
prematuros. Fazia “medicina da educação”, como dizia F. Dolto. Explicava que essas crianças
prematuras, mais ainda que as outras, precisavam da presença da mãe e do pai. Que mais ainda que
as outras seriam sensíveis a essa presença e a reconheceriam. Contava a elas como fora provado que
o recém-nascido reconhecia a presença e a voz da mãe entre outras cem,4 por que ele tinha uma
memória do timbre e da freqüência baixa da voz paterna, o quanto discernia o odor corporal da mãe,
o sabor de seu leite... Explicava-lhes de que maneira as palavras que elas davam ao seu bebê faziam
nexo para eles, como era importante que elas pudessem nomeá-lo, falar-lhe de seus irmãos e irmãs,
contar-lhe o contexto particular de seu nascimento e da gravidez, em suma todos aqueles significantes
necessários para que a criança se construa.
É claro que em condições normais elas teriam dito tudo isso ao filho. A criança teria sido
embalada pelas palavras da mãe, nos seus diálogos cotidianos ou durante as visitas da família. Aqui,
infelizmente, isso não era possível. Por mais que os pais o desejassem, a separação imposta pela
necessidade médica ameaçava criar um vazio de palavras, um buraco de linguagem em torno da
criança. Propunha-lhes, então, exceto em caso de contra-indicação médica, ir visitá-lo com a maior
freqüência possível para suprir essa falta; falar com ele, cantar para ele se lhes desse vontade,
acariciá-lo, já que não podiam ministrar-lhe cuidados. Ensinava-lhes a perceber quando o bebê abria
os olhos e buscava a comunicação, quando, ao contrário, ele manifestava que estava cansado e que
podia-se ficar ao lado dele sem incomodá-lo... Em suma, tentava dar-lhes o máximo de elementos
para poder apreciar e respeitar as possibilidades de concentração de seu filho, que apesar de tudo
são pequenas ainda que sejam intensas.

A criança imaginária
Essa assistência de palavra ao recém-nascido prematuro não agrada a todos. Alguns
psicanalistas trabalham em neonatologia pensando ser mais urgente ajudar as mães a fazer o luto de
sua “criança imaginária”, sem o qual a separação em relação ao filho real ser-lhes-ia insuportável.
Insistem em nos explicar a necessidade de re​nun​ciarmos assim à nossa pretensão de suprir a qualquer
preço o irreparável dano causado pela prematuridade. Não é certo que o debate tenha de se situar
nesse nível. Para o psicanalista, a prioridade deveria ser o recém-nascido: é para ele que a
separação é portadora dos mais graves danos. A função de serviços como o da unidade canguru vai
no sentido de evitar essa situação de fato. Os atendentes procuram deslocar-se para junto dos recém-
nascidos, enquanto que, num serviço de neonatologia clássico, é o contrário que acontece. Procuram
favorecer a proteção do vínculo mãe-filho, e para isso privilegiam tudo o que possa amenizar para a
criança o estado de pri​va​ção sen​sorial patogênico no qual uma separação prolongada a mergulharia.
Quanto a essa idéia de que a mãe deva fazer o luto de uma criança imaginária, qual o sentido
disso? Não se poderia dizer, ao contrário, que a criança imaginária nunca morre? É dela que um pai
ainda poderá dizer, quando estiver desolado com o fato de que sua progênie agora adulta esteja
menos próxima de suas esperanças do que ele sonhara: “Sabe, mesmo quando você tiver 60 anos,
continuará sendo o meu bebê!”.
É essa criança ideal, essa criança que deve de antemão responder às mais caras esperanças que
nela se depositam, que servirá de guia educativo para os pais. Serão eles afáveis ou tirânicos? Será
de seu próprio ideal do ego no sentido freudiano que dependerá sua maior ou menor abertura para as
surpresas que seu filho real não deixará de lhe trazer. Portanto, sejam quais forem os avatares de seu
rigor pedagógico, a aceitação do filho real não pressupõe a morte da criança imaginária. Quanto a
ela, ela «se fará um nome» graças a – ou a despeito de – esse rótulo que lhe tiverem aposto.
Aplicando secamente o discurso psicanalítico a um problema que é de todos, poder-se-ia dizer: tudo
se ordenará em função de como a criança distribuirá, nas identificações constituídas por seu ego
ideal e nas fantasias que regem seu ideal do ego, o que é da ordem da Lei simbólica e da dívida de
transmissão e o que é da ordem do princípio moral abusivo e fantasístico.5

Retomando os conselhos que eu dava às mães de grandes prematuros, apenas raramente eu era
testemunha do efeito que eles podiam ter sobre os bebês, pois só excepcionalmente tinha acesso a
eles. Na melhor das hipóteses, escutava o que as mães me relatavam quando porventura as revia. O
que em contrapartida eu via o tempo todo era o rosto radiante delas no fim de nossas conversas, seu
alívio por encontrar uma justificação viva para sua solicitude materna. Acabei dizendo para mim
mesma que esse tipo de intervenção não era apenas pedagógico e que eu não devia me limitar a
responder a demandas particulares.
Se o problema desses pais era: como ser mãe (ou pai) de prematuros? como fazer uma
maternagem e uma paternagem identificadas?, então era um trabalho de prevenção sistemática que
cabia empreender, sem deixar de observar os princípios da psicanálise.
Não só para narcisar mulheres que não se sentiam perdendo importância na vinda de seu filho.
Não só para estimulá-las a exercer sua preocupação materna primária quando elas não sabiam mais
a qual bebê se dedicar. Mas também e sobretudo para a própria criança, para não privá-la dos
elementos primordiais que garantem seu crescimento, e isso longe de qualquer consideração médica.
Agora, com o consentimento das equipes, vou sistematicamente ver em seu quarto as mães cujo filho
está na reanimação. Faço, por assim dizer, informação preventiva, tanto mais necessária, acredito eu,
no serviço de neonatologia de Béclère, pois ali os casos desse tipo não são raros.

Um lactente sensível

Só é possível combater o efeito iatrogênico da separação dos recém-nascidos de suas mães


graças à segurança que nos dá o trabalho dos cientistas sobre o pré e o pós-natal.6 Desse ponto de
vista, seus resultados são mais que estimulantes. Para eles, quer se seja prematuro ou não, “a cama já
está feita” no nascimento. A base da sensorialidade fetal já está pronta para acolher o mundo novo.

O re-conhecimento da voz

Os recém-nascidos reconhecem a voz da mãe como sendo a mesma que eles escutaram, filtrada
pela parede abdominal e portanto deformada, durante a gravidez. Também reconhecem a voz do pai
ou do homem presente ao lado da mãe, desde que esse homem tenha falado perto do ventre da mãe,
ou que ele tenha se dirigido de forma diferente a um e à outra durante a gravidez. Desde T. B.
Brazelton, pioneiro no campo da pesquisa sobre a hipersensibilidade dos recém-nascidos, há um
consenso a esse respeito. M.-C. Busnel, para fornecer um critério pertinente de verificação,
comprovou a desaceleração dos ritmos cardíacos das crianças enquanto a mãe fala e – resultados
ainda mais comprobatórios – quando a mãe lhes fala. Outros fiaram-se no aumento dos reflexos de
sucção não provocados pela fome nas mesmas circunstâncias. Outros, ainda, referem-se à freqüência
de suas respostas motoras à fala da mãe (virar a cabeça na direção da emissão da voz, abrir os olhos,
mexer os braços).
Todos chegam à mesma conclusão: a criança de poucos dias reage aos estímulos de linguagem
mais que a outros tipos de estímulos, apesar de supostamente não entender nenhuma palavra. Quando
ainda era feto, ela aprendeu a distinguir a voz da mãe do ruído de fundo uterino, de outras fontes de
barulhos externas e mesmo das vozes de outras pessoas. Recém-nascida, ela reconhece essa voz
entre as de outras mulheres, prefere-a e reconhece-a como proveniente daquela mesma mulher que
ela escutava in utero. Além disso, depois do nascimento, a criança reconhece a língua falada por sua
mãe e não reage a uma língua que nunca escutou durante a gravidez. Que é que isso quer dizer?
Demonstrou-se, para sermos precisos, que o feto discrimina as sílabas da língua materna. É como se
o recém-nascido tivesse à sua disposição um estoque de fenômenos dessa língua escutada durante a
gravidez, e, ao nascer, estivesse como que «pré-moldado» por essa língua. Essa pré-moldagem
prepondera por cerca de seis meses, período durante o qual ele mantém essa preferência por sua
língua materna. O termo “materna” para designar essa língua deve ser tomado ao pé da letra. Isso
evidentemente não impede a manutenção da faculdade de aprender um grande número de línguas, mas
a preferência se mantém.
Isso quer dizer que ele fala a nossa linguagem? De forma alguma, e nenhum psicanalista nem
qualquer pesquisador aventurar-se-ão a afirmar tal coisa. Ele fala, diremos nós num ímpeto,
remetendo esse debate para um capítulo posterior deste livro, ele fala pelo menos como um surdo!
Duas pesquisadoras oriundas de outro campo, duas psicolingüistas,7 demonstraram que os bebês
surdos profundos de nascença, filhos de pais também surdos e que, portanto, utilizam a língua dos
sinais, começam a tagarelar com as mãos antes de dominar a língua dos sinais. Elas compararam as
atividades manuais de dois bebês surdos e de três outros que não eram surdos, com idades entre 10 e
14 meses. Tomaram o cuidado de diferençar seus gestos ordinários (por exemplo, esticar os braços
para ser pego no colo) de sua “tagarelice manual”, ou seja, de gestos sem motivação aparente.
Resultado: essa tagarelice manual representa mais da metade da atividade das crianças surdas contra
apenas 10% da das outras, e, percorrendo as mesmas etapas, conduz ao aparecimento dos primeiros
sinais-palavras. Os recém-nascidos, surdos ou não, não são, pois, mudos, no sentido de que desde
que entram no nosso convívio têm um repertório mínimo, e no sentido de que estão aptos para gerar,
construir uma linguagem. Para dizê-lo de outra maneira, eles falam antes de saber falar, tentam
tagarelar antes de ter um repertório semântico e lexical ad hoc. Não digamos que eles compreendem
o que fazem, nem o que lhes dizemos: essa é uma árdua tarefa! Mas contentemo-nos por enquanto em
constatar que eles têm com que entender e emitir mensagens, e que estas talvez tenham um sentido.
Cabe a nós descobri-lo!

O paninho que tem o cheiro gostoso da mamãe

Embora a base sensorial já exista antes do nascimento, embora os fetos e os recém-nascidos já


tenham uma vivência sensorial importante, nem por isso os dados estão lançados, pois o recém-
nascido precisa dos pais para fazer a ligação entre suas sensações de antes e de depois do
nascimento. A menor ruptura dessa ligação demonstra a contrario a dificuldade de se construir sem
ela.

A Sra. Perrier me é indicada certo dia porque ela não consegue parar de chorar há vários dias, e
quer falar disso comigo. É uma mãe primípara, e seu choro não diminui sua alegria de ter esse
primeiro filho. Ela não se queixa de nada no que a ela concerne. Acontece que sua filha, Maria, tem
uma leve icterícia que exige um tratamento fototerápico. O tratamento consiste em expor a criança a
fortes lâmpadas durante sessões de quatro horas, tantas vezes quanto for necessário para que o
“amarelo” desapareça. Ela é colocada, nua e com os olhos vendados, sobre uma espécie de rede, e
ali é deixada sob o calor dessas lâmpadas. Nada de violento em si, exceto o ambiente luminoso sem
dúvida um pouco desnorteante para uma menininha que acaba de passar nove meses numa relativa
escuridão. A aparelhagem é um pouco impressionante, a nudez e a vendagem dos olhos causam certa
insegurança. Às vezes os bebês manifestam o desconforto de sua posição, embora o tratamento seja
indolor e relativamente banal. Ora, Maria acha esse tratamento insuportável. Seus gritos e choros têm
por efeito provocar pânico na mãe, que, desarmada, encontra como única solução chorar junto com
ela. O conjunto é suficientemente perturbador para que as atendentes tenham proposto à mãe
encontrar-se comigo. Essa criança esta separada daquela que ela primeiro conheceu. Também aí,
basta eu me lembrar dos protocolos experimentais para compreender que lhe falta algo que faça a
ponte com todas as novas sensações provenientes de pessoas desconhecidas e de situações inéditas.
Não, a Sra. Perrier não está exageradamente “sensível” ao mal-estar de sua filha quando chora sem
cessar. Não, Maria não é estatisticamente anormal ao reagir mal ao tratamento da icterícia. Sim, ela
tem necessidade de reencontrar sensações que conhece para enfrentar situações que não conhece. Foi
para Maria e sua mãe que tive de inventar um procedimento de separação, de tal modo que ela possa
usar sua sensibilidade natural como referência, em vez de, sem dizer uma palavra, deixar que ela se
torne uma fonte de angústia. Propus que ela avisasse a filha da chegada do tratamento, que lhe
explicasse a razão dele e seu desenrolar, que lhe dissesse o nome da atendente a quem ela seria
entregue, permitindo que a menina identificasse sua voz, que lhe dissesse que a reencontraria em
quatro horas.
Agora costumo aconselhar esse procedimento para todas as mães temporariamente separadas de
seu recém-nascido com quem eu cruze. De que serve saber que os ritmos cardíacos e respiratórios
dos recém-nascidos se modificam apenas por escutar a voz materna no meio de várias outras
mulheres, de que serve saber que eles procuram essa voz abrindo os olhos e virando a cabeça, se não
fizermos uso disso em situações profiláticas simples como essas?
A Sra. Perrier foi ver Maria e, como eu lhe sugerira, colocou um lenço com seu cheiro perto do
rosto da filha. Conhecemos a importância do olfato no recém-nascido desde, pelo menos, os anos 50.
O fundador da etologia moderna, Konrad Lorenz, o teorizou entre os animais, o psicanalista René
Spitz o evocou a propósito dos casos de hospitalismo, F. Dolto já o praticava durante a guerra,
Schaal o provou experimentalmente no fim dos anos 80: os recém-nascidos têm um olfato
particularmente desenvolvido, cuja acuidade perderão mais tarde. Além disso, têm uma memória
olfativa importante, e a presença junto deles de um lenço impregnado do cheiro de sua mãe é um
potente meio de tranqüilização no caso em que ela esteja ausente. Maria pôde portanto sentir esse
lenço junto dela, até mesmo se enrolar nele. Essa menininha, que quatro dias antes ainda batia contra
as paredes do ventre da mãe, encontrava-se agora no vazio sob essas lâmpadas, sem contato com
nada, sem referência. Ora, ela não está numa idade em que se tenha uma percepção clara dos limites
do próprio corpo. Esse simples lenço pôde certamente lhe servir de borda, como as bordas de um
berço servem para o lactente se “escorar”. Em todo caso, a Sra. Perrier veio me ver uma hora
depois, radiante, para me dizer que a sessão do dia transcorrera de forma magnífica e que Maria
dormia tranqüila na sua rede.
Por que o olfato tem tanta importância para o lactente? Sem dúvida devido a um substrato
cortical particularmente desenvolvido nesse momento da vida dele. A importância do rinencéfalo,
que regredirá mais tarde, faz temporariamente do lactente um superdotado do olfato. Aliás, do ponto
de vista neurofisiológico, trata-se de um pequeno enigma. Expressêmo-lo assim: qualquer um pode
ter tido sonhos contendo imagens mais ou menos fantásticas, músicas enlevantes, contatos físicos
mais ou menos agradáveis ou degustações de iguarias estranhas. Mas não se conhece ninguém que
acorde e evoque a lembrança de uma cheiro particular em seu sonho, sua delicadeza ou sua aspereza,
sua força, sua suavidade... Na verdade, parece que, diferentemente das outras sensações, o olfato não
é tratado e memorizado por meio do tálamo, essa estrutura considerada o principal suporte de uma
certa memória afetiva.
Como fazem, então, os bebês que, como se sabe, ao mergulharem no seio da mãe buscam tanto
satisfazer a fome quanto aspirar o odor materno, aquele de seu corpo e de seu leite? Terão eles
memorizado esses cheiros que “provavam” ao engolir o líquido amniótico durante sua vida intra-
uterina? O cheiro da mãe, e os sabores do que ela come, realmente passam para o seu sangue e para o
líquido amniótico. Será que os recém-nascidos se comportam como narizes, esses profissionais que
elaboram perfumes e conseguem estocar na memória duas ou três centenas de perfumes diferentes, de
uma maneira ainda incompreensível para a ciência? Poder-se-ia até, como o romancista Patrick
Süskind, ver nessa hipersensibilidade a marca de uma vida e de seu gênio? Recordemos o fabuloso
Jean-Baptiste Grenouille de seu romance O perfume,8 nascido numa peixaria cujo fedor mal cobria o
cheiro de cadáver do cemitério des Innocents! Todos conhecem o destino desse personagem
perdidamente apaixonado pelo cheiro das mulheres e pela essência dos seres que esse nascimento
particular lhe prometeu por meio da fantasia do escritor.

Para os neurofisiólogos, a solução desse enigma ainda não foi encontrada. Para um psicanalista,
cabe considerar o olfato do recém-nascido como um dos primeiros vínculos com a mãe, junto com o
da sucção/deglutição ao qual ele está associado. É ali, na intimidade corporal entre ela e ele, que ele
começa a se construir. Ao seio-fonte de prazer está ligado seu próprio corpo: do cheiro dessa mãe
depende sua própria idéia de seu corpo, de sua boca que chupa e que emite sons, de seu nariz que
cheira, de seus lábios que mamam, de seus ouvidos que escutam a voz familiar... Se a mãe
desaparece sem explicação, a própria segurança de seu corpo próprio é posta em xeque. Por isso é
indispensável que palavras venham paliar essa ausência, seja qual for a razão dela. No caso de
Maria foi fácil, e o efeito, rápido porque foi a própria mãe que pôde explicar à filha a razão de sua
ausência temporária. Há casos em que isso não é possível, nas circunstâncias que envolvem um parto
em segredo, ou quando a mãe sofreu um acidente ou morreu. Não era nisso que F. Dolto pensava ao
evocar uma “ferida na relação do sujeito com seu corpo próprio, porque a imagem do corpo está
amputada de uma zona erógena que partiu com a mãe, e que era o olfato, a deglutição do bebê? Essa
imagem do corpo pode lhe ser devolvida se lhe trouxerem de volta, digamos, material ou sutilmente,
o cheiro da mãe que ficou em suas roupas. O que recupera vida então é seu corpo. É sua imagem de
base, de corpo próprio; é a imagem de funcionamento, a possibilidade de sucção; antes, sem o cheiro
da mãe, ele não sabia mais, por exemplo, nem sugar nem engolir”.9 Compreende-se, portanto, a
necessidade de garantir para a criança uma “continuidade olfativa”.

Em caso de separação

A Sra. Perrier ficou tão satisfeita com o meu conselho e com os efeitos de sua intervenção junto
a Maria, que ela queria muito seriamente que eu retornasse antes de cada sessão do tratamento.
Evidentemente declinei o pedido, pois isso teria feito ela acreditar num efeito “mágico” de tais
intervenções, e o objetivo era ela perceber que ela podia ter a mesma eficácia.
Isso porque uma paciente deve esperar menos da pessoa do psicanalista que do funcionamento
do enquadro psicanalítico. Pode esperar que as leis, os procedimentos aplicados, as regras de
funcionamento, libertem da obediência aos homens (nesse caso, à pessoa do psicanalista) para poder
obedecer apenas às leis, como dizia Rousseau. A isso se deve a importância de tal procedimento.
Esse procedimento poderia parecer um detalhe ou um ritual para alguns. Não é essa de qualquer
forma a opinião das pessoas da equipe médica, que recolhem diretamente seus efeitos benéficos, e os
relatam. Segundo o psicanalista Lucien Kokh, cuja reflexão teórica foi de grande ajuda para a
elaboração dos pontos cruciais de minha prática, um procedimento desse tipo é “a condição sine qua
non para tornar a palavra presente”. Sem ela, fica difícil restabelecer essas pontes interrompidas na
comunicação entre o lactente e sua mãe. O enquadro psicanalítico existe para permitir que a mãe se
lembre, caso queiram que ela esqueça, que falar é o meio de comunicação humano por excelência:
por que privar-se disso sob o pretexto de que seu filho ainda não estaria maduro? Porque a
acusariam de entregar-se a um monólogo insensato?
No caso das visitas sistemáticas que faço às mães de crianças prematuras, só nos resta
orgulharmo-nos do efeito vivificante que esse procedimento pode ter. É raro que depois dessas
visitas elas continuem deprimidas; caso isso aconteça, outras causas mais profundas estão em jogo.
Geralmente, elas recuperam uma euforia que é até preciso refrear quando elas querem
intempestivamente adentrar pela neonatologia para ver seu bebê, sendo que seu estado exige, apesar
de tudo, precauções (particularmente no caso de mulheres que passaram por cesariana). É esse
desejo de vida reabilitado nelas que sustentará o do bebê prematuro nas dificuldades que tem de
enfrentar.
O tratamento da icterícia evoluiu um pouco desde a aventura da Sra. Perrier. Foram criados
dispositivos móveis de insolação colocados nos quartos das mães; a mãe está presente e os
problemas se atenuam. Mas o procedimento permanece válido para outros cuidados que exigem a
separação da criança em relação à mãe.
Esses procedimentos são de fato exceções ao protocolo geral de tratamento da demanda de que
falaremos mais adiante. Aqui, intervenho sistematicamente; ali, intervenho a pedido. Em ambos os
casos, o objetivo é manter a possibilidade dessa relação sensorial intrapsíquica que existia entre mãe
e filho antes do nascimento. E impedir que por razões de funcionamento normal de um serviço
hospitalar crie-se um obstáculo para que palavras da mãe possam completar essa sensorialidade do
recém-nascido.
Quando se fala de procedimento, de protocolo ou de metodologia no terreno científico, logo se
evoca a avaliação de que eles são objeto. O procedimento é passível de reprodução? Os critérios
considerados são pertinentes? Existe uma correlação suficiente entre o objeto que se estuda e os
procedimentos considerados, entre esses procedimentos e os resultados obtidos? Essas indagações
destinam-se a evitar falsas conclusões, ou hipóteses de trabalho mal formuladas. A recusa a se
submeter a elas poderia produzir interpretações funestas ou irônicas que compõem o grosso do
repertório das piadas estudantis.
Um psicanalista precisa proceder a avaliações dos procedimentos que ele emprega para evitar
tais erros? É muito tentador pensar que sim num meio hospitalar em que a precisão das metodologias
é a garantia da melhora do estado dos doentes. E, com toda delicadeza, não deixaram de nos fazer
essa observação. Respondamos de imediato para eliminar qualquer ambigüidade. Ao intervir junto
dos bebês na maternidade, o psicanalista não é um homem de ciência: é um praticante da palavra.
Permanece fiel ao fato de que a psicanálise é, como se dizia no tempo de Freud, uma talking cure.
Ou, para retomar as palavras de Lucien Kokh, extraídas de um comentário pessoal: “aquele que
ocupa uma posição de praticante da palavra, aquele que exerce sua concepção de uma tese na prática
da palavra não pode ser a mesma pessoa que efetua uma avaliação. No contexto do inconsciente, não
se pode estar ao mesmo tempo dentro [isto é, à escuta do que é não dito no que nos é dito] e fora [isto
é, tentar avaliar se esse não-dito tem motivos para ser dito ou se inexiste]”. É lógico: não se estuda
um objeto sobre o qual é preciso dizer algo, escuta-se um sujeito falando. Não é o mesmo ofício.
Dessa forma, não se deve esquecer o que a psicanálise deve à criação artística. Pensemos na frase de
Malraux pronunciada por ocasião de sua entrada no Panteão: “Não é a paixão que destrói a obra de
arte, é a vontade de provar”.
Por que o psicanalista não poderia tentar exercer o ofício de cientista que não é o seu, e
quantificar os resultados que descreve? Porque perderia assim a possibilidade de escutar esse não-
dito que supera o sujeito a todo momento e a oportunidade de suscitar as palavras que faltam. Em
suma, é pela mesma razão que lhe alegam: porque a melhora do estado de seus pacientes depende
disso.
Se nos afastássemos desse princípio básico, incorreríamos no erro de querer, tal como
Penélope, desfazer com uma mão o que se faz com a outra. Não seria possível escutar os sofrimentos
de que lhe falam sem ao mesmo tempo perguntar-se se eles são válidos ou se seria melhor não
escutá-los. O psicanalista não está à escuta de verdades factuais, mas de palavras verdadeiras.
Isso não elimina o interesse pelas pesquisas científicas mais recentes sobre os fetos e os
lactentes, muito pelo contrário. Elas são apaixonantes e permitem fortalecer ou modificar a
abordagem psicanalítica. As descobertas recentes da neurologia sobre a memória e o tratamento das
informações pelo cérebro humano nos darão um exemplo disso. O que nos aproxima dos
pesquisadores em neurologia é a curiosidade. O que nos separa é a idéia de que o respeito pelo
conhecimento predomina sobre o respeito pela pessoa. Remetemos o leitor para as declarações,
definitivas a esse respeito, de André Green, escritas em resposta a um artigo do professor Jean-
Pierre Changeux.10

A repetição
“Sabe, sinto-me muito bem de viver assim!”, me diz a Sra. Cohen caindo no choro.
Estas são suas primeiras palavras depois de ter me cumprimentado. Ela aceitou me ver porque
um de seus filhos está constipado, e nenhum tratamento consegue vencer essa constipação.
Aparentemente ela não se sente tão bem assim, e ela logo me fala de sua vida nos últimos meses. Faz
uma semana ela deu à luz gêmeos. Quando soube que sua gravidez era gemelar, reagiu violentamente:
“Um filho dá para agüentar; dois...”. Ela mesma é gêmea e sofreu muito com a preferência dada à sua
irmã, que seus pais sempre elogiavam, ao passo que ela era sempre denegrida. A história parecia se
repetir, e isso ela não suportava. Pedira, pois, um aborto. Depois de refletir, mudara de idéia, voltara
à primeira posição, hesitara novamente. Finalmente – terá sido por causa de uma ecografia? – ela
decidira ficar com as duas crianças. E, por excesso de rigor, também decidira que, já que fizera essa
escolha, tinha de ficar feliz. Daí o conteúdo de sua declaração contraditória: choro mas estou muito
bem.

Palavras em eco

Ocorreu-me que a criança constipada em questão nada mais fazia senão repetir essa denegação
da mãe colocando em jogo o próprio corpo, que é nesse momento seu meio privilegiado de
expressão. Com efeito, ela se encontrava muito serena, apesar do desconforto que devia lhe causar
sua constipação refratária a qualquer tratamento; aí, também, tudo estava bem. De repente, também
tomada de um espírito de decisão que nada abalava, ela se recusava a beber e a dar suas fezes.
Disse-lhe então:
“Sua mamãe diz que ela se sente muito bem vivendo assim e ao mesmo tempo ela sofre. Você
também parece nos dizer a mesma coisa: você está calmo, está bem, mas recusa qualquer troca com
sua mãe. Você não lhe pede nada quando tem fome, não lhe dá nada quando está saciado”.
Com essas palavras a mãe percebe de imediato que, para alimentar esse filho, ela nunca espera
que ele lhe peça para beber. Quando o irmão reclama, ela o alimenta, e aproveita para acordá-lo e
lhe dar de mamar sem dizer uma só palavra e sem que ele tenha pedido nada. Essa situação é
freqüente com gêmeos – é muito cansativo para uma mãe levantar duas vezes a mais à noite – mas
nem por isso ela desencadeia um sintoma, como ocorre nesse caso.
Que faz essa criança? Ele se apaga, como sua mãe teve de se apagar outrora. Não só toma para
si a denegação da mãe, como reatualiza o desejo de aborto que ela manifestara no começo da
gravidez. Só é possível o desejo por um filho único, portanto, ele cede seu lugar. Ele sobrevive, mas
não pede ou dá nada; ele existe, mas tão pouco, ele não engorda. É algo desta ordem que acontece
com ele, acho eu: “Sua mãe teve medo no começo da gravidez de ter dois filhos e não um. Durante
certo tempo ela pensou em não ficar com os dois. Mas isso não durou, ela mudou de idéia. Foi por
isso que você nasceu, você não precisa se apagar... Talvez você queira fazer como sua mãe com a
irmã dela? Mas você não é a irmã da sua mãe, você é o filho dela”. Segue-se a verbalização de
outros elementos de sua história familiar, que me absterei de relatar. O principal é que elas permitem
desenhar para ele os contornos de seu espaço familiar, distinguindo-o assim das fantasias parentais
ligadas à gemelaridade.
A criança evacuou uma hora depois. Sem qualquer consideração pelos fabricantes de suco de
ameixa utilizado para colocar em andamento a motricidade intestinal dos recém-nascidos, e cuja
administração não dera resultado nesse caso!
Resultados tão evidentes impressionam. Mesmo depois de ter visto muitos desse tipo, eles
sempre nos deixam boquiabertos. Ainda assim, restam questões inquietantes. A primeira concerne à
ligação entre a vida psíquica antes e depois do nascimento. Sabemos tratar-se do mesmo ser «antes»
e «depois», mas a questão é saber se ele mesmo traz marcas desse saber. Ou seja, se acontecimentos
pré-natais que lhe dizem respeito fazem parte de sua bagagem pós-natal. Depois de ter dito que o
filho da Sra. Cohen reatualizava, por seu sintoma, o desejo da mãe de que ele se apagasse, é preciso
esclarecer o mecanismo dessa repetição.

Uma coação inelutável

A repetição, essa “mesma invariável queixa [que] noite e dia se escuta o vento repetir no
mesmo tom”,11 é um problema que assombra a história da psicanálise, e os consultórios daqueles que
a praticam. Ela explica o estranho fato de que as pessoas em análise teriam tendência para voltar aos
mesmos impasses, aos mesmos comportamentos ou aos mesmos discursos que motivaram seu pedido
de análise e que as incomodam.
Aquele homem, que não conseguia explicar para si mesmo o mal-estar altivo e distante que
sentia, a contragosto, em relação ao filho, contará que considerava um dever receber todo sábado de
modo protocolar cada um de seus filhos no seu escritório. Sem perceber, repetia uma cena
memorável de sua infância em que seu próprio pai o desconsiderara diante de seus irmãos e irmãs,
no seu escritório. Esquecia apenas um ingrediente, que a análise da repetição o ajudou a reencontrar:
era a palavra “desprezo” que seu pai empregara naquele dia referindo-se a ele, e a quarentena que se
seguira, proibindo-lhe por um certo tempo de participar das brincadeiras com seus irmãos e irmãs.
Daquele desprezo e daquela quarentena que ele sofrera, subsistia, como um eco abafado, a postura
altiva e distante que ele manifestava para como seu próprio filho. Uma mulher passa seu tempo
esquecendo as chaves do apartamento, até que uma pergunta de seu analista a faça lembrar-se de
súbito que nasceu no hospital Trousseau há muito tempo e que lhe contaram que ficou “extraviada”
nos serviços durante alguns minutos!
Os exemplos mais engraçados e mais trágicos ilustram esse fenômeno de repetição. É como se
essas pessoas tropeçassem em algo. Elas não sabem de onde provém essa compulsão repetitiva e, em
vez de se lembrar do que possa tê-la motivado, atuam um roteiro que lembra por elas. Freud via
nessa insistência um automatismo, uma coação (Wiederholungszwang). Seu caráter coercitivo é
ainda mais marcado pelo fato de que esse retorno da lembrança na repetição pode ser imposto pela
lógica e pelo automatismo da própria língua. Por isso, a associação chaves perdidas – Trousseau
[trouxa] – extraviada12 indica um caminho pré-imposto... que revela a chave do enigma. Pense-se
nas situações cotidianas em que quanto mais se procura esquecer uma idéia, mais as palavras
empregadas a impõem.13 É isso o automatismo de repetição.
Mas a repetição é também resultante de um encontro infeliz. O encontro com um real
insuportável, com um dado inassimilável como tal pelo sujeito. O encontro desconcertante com um
pai no seu escritório, por exemplo. De forma mais geral, porquanto Freud ligava a repetição à pulsão
de morte, o encontro com um fantasma que se insinua furtivamente no horizonte das lembranças
esquecidas. Introduzimos a repetição com as palavras de Sôren Kierkegaard, o filósofo que fez dela
um conceito atribuindo-lhe a figura alegórica do vento. Deixemos o escritor Claude Simon explorar a
mesma metáfora para nos fazer perceber o horizonte que ela descortina: “Logo [o vento] sopraria
como tempestade sobre a planície (...), força desenfreada, sem objetivo, condenada a se enfraquecer
infinitamente, sem esperança de fim, gemendo à noite numa longa lamúria, como se ela se lamentasse,
invejasse os homens adormecidos, as criaturas passageiras e perecíveis pela sua possibilidade de
esquecer, de paz: o privilégio de morrer”.14

O “relógio orgânico”

Essa tese de um inassimilável retomado através do sintoma é muito útil na prática. Ela permite
compreender uma idéia sugerida a F. Dolto por sua clínica e pela leitura de Ferenczi, e que, ao que
tudo indica, encontra poucos ecos na literatura científica. É a idéia da repetição cronológica, ou seja,
a idéia de que o sintoma de um recém-nascido num tempo Tn de sua vida pós-natal possa
corresponder a um acontecimento traumatizante do tempo correspondente Tn de sua vida pré-natal.
Como se a criança se lembrasse de um acontecimento ocorrido por exemplo no segundo mês de
gravidez e, como um relógio, manifestasse um sintoma que evoca essa lembrança no segundo mês de
sua vida pós-natal. É claro que esse acontecimento desencadeante tem de lhe dizer respeito, quer ela
o tenha percebido diretamente por intermédio de sua mãe ou que ele tenha sido indiretamente gerado
por seu pai.
Idéia aceitável? A razão diz que não: nenhuma verificação experimental a confirma. No entanto,
a prática diz que sim, e o número de coincidências desse tipo, embora possam parecer ilusórias para
alguns, nem por isso são menos patentes. F. Dolto dava alguns exemplos extremamente precisos de
“crianças-relógios orgânicos” desse tipo. Enquanto os cientistas não se interessarem por essa tese
para eventualmente corrigi-la, é insensato descartar um indício desse tipo se dele temos
conhecimento: na maioria das vezes isso implicará perder a oportunidade de livrar o recém-nascido
de uma repetição que o ameaça. Da mesma maneira, pode-se dizer que as ausências de palavras que
marcam um recém-nascido podem reaparecer como um «chapéu claque» (expressão de F. Dolto) na
adolescência . A escuta psicanalítica dos recém-nascidos é também um método de prevenção dos
distúrbios da adolescência.

Do feto ao lactente, uma continuidade


Alguns psicanalistas, como Bernard This, pedem que se pare de chamar de “feto” o que para
eles são simplesmente bebês humanos antes de nascer. This vê nisso um risco de desrespeito pelo ser
humano que eles são, risco este reforçado pelo álibi de um discurso tecnicista. É um lembrete
importante, pois sugere de modo inequívoco a continuidade de substância e de existência do sujeito
humano desde sua concepção. Vimos que isso era verdade no nível da sensorialidade. Procuraremos
mostrar que isso também é pertinente no que tange ao vínculo estabelecido pela criança com sua mãe.
No entanto, continuaremos falando aqui de feto, pois, não nos esqueçamos, o nascimento não é uma
simples mudança de hábitat ecológico.
Sem recorrer à clínica psicanalítica, pode-se discutir as repetições pré/pós-natais com base nas
observações de fetos e de lactentes. Ao contrário do que se pensa, o bebê in utero e sua mãe não
fazem um só corpo. Trofoblasto e placenta, uma parede os separa. Trata-se apenas de uma tênue
diferença, da espessura de uma folha de papel de cigarro? Com efeito, não menos espessa que o
limite que separa o erro da verdade!

A pretensa fusão

Já temos elementos suficientes para rever algumas idéias preconcebidas. Não existe fusão entre
mãe e filho, nem física durante a gravidez nem psíquica depois do nascimento. Nada do que é dito
nesse sentido baseia-se em alguma realidade. No final da gravidez, aliás, o feto e a mãe não vivem
mais no mesmo ritmo.15 Se no começo da gravidez são os hormônios ovarianos que mantêm o feto, a
partir do terceiro mês a placenta está suficientemente madura para cumprir essa função. Como a
placenta faz parte da unidade corporal da criança, ela implica um primeiro esboço de autonomização
da criança em relação à mãe. O feto passa a secretar por conta própria os hormônios necessários ao
seu crescimento. Tanto isso é verdade que é possível para uma mulher sem ovários levar adiante uma
gravidez, desde que lhe tenham dado durante os três primeiros meses um tratamento hormonal
substitutivo; depois disso, a placenta agora funcional assume a direção das operações.
O bebê-feto já tem sua parcela de autonomia. Um estudo sobre esse assunto, que infelizmente
ainda não foi traduzido para o francês, foi feito pela psicanalista de origem italiana Alessandra
Piontelli. Esse trabalho denso, apaixonante, ainda inacabado, gira todo ele em torno das relações de
continuidade entre a vida intra-uterina e a primeira infância. Terapeuta de crianças e professora na
famosa Tavistock Clinic de Londres, professora convidada do departamento de psiquiatria infantil da
universidade de Turim, trabalha como psicanalista em Milão. Além desse trabalho, ela deu início a
um programa de observação e de pesquisa sobre o antes e o depois do nascimento. Na tentativa de
encontrar meios novos e eficazes de levar adiante esse estudo, escolheu acompanhar as mesmas
crianças utilizando a técnica da ecografia durante a gravidez e o método de observação mãe-filho de
Esther Bick durante os cinco anos posteriores ao nascimento.16 Seus trabalhos estão repletos de
anotações e de revelações extraordinariamente desconcertantes para nossos espíritos cartesianos.
Limitar-nos-emos a chamar a atenção para dois temas desenvolvidos por ela que vão ao encontro de
nossa indagação sobre a repetição pré/pós-natal: o fenômeno tão mal explicado da amnésia infantil e
o estudo dos gêmeos.
Ela explica seu interesse por gêmeos, a quem dedica particular atenção em seu estudo, por uma
curta terapia que realizou muito tempo antes de suas pesquisas, e que a marcou profundamente.
Tratava-se de um menino de 18 meses, inteligente e sensível, trazido pelos pais porque dormia muito
pouco e não parava quieto durante o dia: ele os deixava loucos.
No consultório, A.Piontelli logo percebeu que ele começou a remexer em todos os cantos da
sala, visivelmente à procura de algo que não encontrava. Os pais confirmaram que ele passava o
tempo todo em casa em semelhantes investigações, de dia... e de noite! Acrescentaram que, a cada
novo movimento que a criança conquistara – sentar, engatinhar etc. –, ela parecia tê-lo feito com um
intenso pavor, como se, diziam eles, tivesse medo de “deixar algo para trás”.
A. Piontelli notou um outro comportamento repetitivo por parte da criança, que consistia em
sacudir diversos objetos que se encontravam na sala, como se sacode alguém para acordá-lo. Ela
decidiu falar diretamente com o menino para lhe dizer o que ela sentia: que ele parecia tentar
desesperadamente encontrar um objeto perdido. A criança – diz ela – interrompeu bruscamente sua
movimentação e a olhou fixo por muito tempo. Ela aproveitou sua inabitual atenção para dizer-lhe
que tinha a impressão de que ele sacudia os objetos como se temesse que estivessem mortos. Ao
escutar essas palavras, os pais começaram a chorar, explicando que essa criança de 18 meses, Jacob,
na verdade era gêmea de um pequeno Tino, morto in utero quinze dias antes do termo. Portanto,
Jacob procurava sempre Tino, sem deixar qualquer canto inexplorado! Será que ele tinha sacudido
Tino na barriga da mãe da mesma maneira como empunhava os objetos do consultório? Não o
sabemos. Mas A. Piontelli explica que uma mudança muito intensa operou-se em Jacob a partir
daquele momento, e que ela só precisou de algumas sessões para falar com ele daquela intensa culpa
pela morte do irmão que acompanhava cada um de seus atos. Quanto aos pais, tiveram por fim a
oportunidade de fazer o luto de Tino. Eles tinham feito questão de lhe dar um nome, sinal de que
apesar de sua morte precoce eles lhe atribuíam uma existência singular a seus olhos. Mas até aquele
instante não suspeitavam da intensidade da dor e da culpa que haviam sentido com sua morte. Como
no caso da Sra. Lemercier citado no começo deste livro, a criança-anterior-à-linguagem apontava
para a falta de palavras que traspassava os pais e a condenava a uma busca sem esperança e sem
descanso.
Estranha redundância esta, entre o cruel acontecimento que afeta uma gravidez e a fuga para
adiante à qual se condena a criancinha. A. Piontelli guardou disso uma pungente lembrança e passou
a se dedicar em suas pesquisas a notar cuidadosamente os movimentos dos fetos, gêmeos ou não. De
suas observações, que decerto se referem a um número limitado de casos, surgem constatações muito
claras. Em primeiro lugar: a motilidade das crianças já existe antes do nascimento. Movimentos dos
braços, da cabeça, cruzamento das pernas, sucção do polegar, e até observações de certa atividade
sexual aparecem entre a nona e a vigésima semana de gravidez, e são do mesmo tipo dos que serão
praticados depois do nascimento. A iniciativa e a escolha desses movimentos em resposta a
estímulos também já estão presentes na oitava semana, e serão idênticas depois do nascimento. Nada
muda depois do nascimento, exceto a qualidade e a precisão desses movimentos, provavelmente pela
influência de uma gravidade maior. Em segundo lugar: os movimentos in utero de um gêmeo em
relação ao seu alter ego são visíveis e podem fazer pensar em comportamentos organizados. As
atitudes gerais constatadas numa sessão de ecografia são reencontradas depois do nascimento:
tendência de um a proteger o outro, atitude de imitação de um dos dois em relação ao seu compadre
etc. Se é costume dizer que a vida começa com a descoberta do outro, os gêmeos (trigêmeos...)
seriam então seres privilegiados. Na verdade, nada indica que eles sejam mais precoces ao nascer
do que recém-nascidos “normais”. Mas, embora não possa prová-lo com toda a certeza, A. Piontelli
acha que em ambos os casos pode-se falar de sensibilidade e de respostas emocionais, e que estas
podem depender em certos casos dos estados psíquicos da mãe. Em terceiro lugar: as crianças,
particularmente os gêmeos, reencontram em suas brincadeiras e, depois, quando já falam, nas suas
trocas verbais pedaços inteiros de sua vida pré-natal. Entre dois e quatro anos isso se torna quase
uma obsessão, como se sua identidade presente dependesse desses pedaços de vida pré-natal. Para
ela, não se trata de simples reprodução desse passado, como o seria uma fita de vídeo, nem de uma
repetição compulsiva. Trata-se de uma reconstrução desse passado, de um esforço para lhe associar
emoções e lhe dar um sentido. Em suma, de uma elaboração, de um progresso simbólico.

Para além de sua contribuição ao estudo da repetição, destacaremos nesses estudos a idéia de
continuidade pré/pós-natal. O que parece primordial na prática psicanalítica com bebês é preservar
vínculos. Vínculos com a mãe, é claro, com o pai genitor ou aquele “que faz função de pai”, vínculos
com a sociedade (por exemplo, nos casos de parto em segredo), mas também vínculos com o antes do
nascimento. A criança nasce num vínculo sensorial com o outro que preexiste ao seu nascimento: F.
Dolto o ensinou, a ciência experimental incita a pensá-lo, e a observação de A. Piontelli ou de outras
pessoas de que falaremos mais adiante tendem a prová-lo. É nesse sentido que, verdadeiramente, o
bebê é uma pessoa. Existe uma pré-história, até mesmo uma proto-história da criança, como afirmei
num livro meu já publicado.17 O filhote de homem nasce de um projeto cujo destino é contrariado em
maior ou menor medida, ele vive simbolicamente de um banho de linguagem no qual ele se constrói.
Tudo isso é verdade. Resumamos as coisas dizendo que a criança já está construída no vínculo, e que
é da preservação desse vínculo ao nascer que depende sua “eclosão”.

A contribuição da haptonomia

Quando queremos manifestar a outrem o vínculo que temos com ele, nem que seja por pura
convenção, nós o tocamos: apertamos sua mão, beijamos seu rosto, ou seus lábios, se formos
russos... É a pele que faz contato. O tocar e a sensibilidade cenestésica são justamente uma das
primeiras qualidades sensoriais que aparecem na embriogênese.
Bem antes de haver um sistema auditivo funcional – para isso é preciso esperar o terceiro
trimestre da gravidez –, a criança consegue reconhecer e discriminar as vibrações acústicas
repercutidas pelo líquido amniótico. Os haptoterapeutas dizem às vezes que ela “escuta com a pele”.
Essa “pele inteligente”, como diz Catherine Dolto-Tolitch, permite por exemplo que o feto se
aproxime do lado de onde vem uma voz conhecida e apreciada como a de seu pai; que responda aos
convites “internos” (sem contato manual) da mãe; que reaja ao toque, venha ele da mãe, do pai ou do
haptoterapeuta, quer se acrescente ao toque um chamado verbal ou não. O balé uterino... espantoso ao
qual o feto convida constitui, mais que um “envoltório sonoro do eu”,18 uma primeira abertura do
corpo para a linguagem.
Falar de “pele inteligente” não é um simples modo de dizer; supõe uma visão mais ampla do ser
humano. A haptonomia, 19 tal como se desenvolveu depois da guerra a partir dos trabalhos do
holandês Frans Veldman, aborda de maneira original os problemas da sensorialidade fetal, da
memorização precoce e da relação genitor-filho antes do nascimento.
O acompanhamento praticado pelos haptoterapeutas durante a gravidez leva a descobrir que
todo acontecimento físico, afetivo, psíquico ou emocional vivido pela mãe tem uma repercussão
imediata sobre o ambiente da criança. A criança reage ao que lhe concerne “autenticamente”. A mãe
encontrará nisso a possibilidade de uma relação extremamente sutil com o filho. O pai, se a mãe a
isso o convidar, também poderá entrar em contato e estabelecer com o filho um vínculo “afetivo”,
tátil e vocal ao mesmo tempo. Com os gestos e acalentos que oferecer à mãe, é também a criança que
ele englobará indiretamente numa relação em que ela será convidada a se manifestar como sujeito
desejante.
Nessa relação a três (ou mais, em caso de gravidez múltipla) estabelecida com a ajuda do
haptoterapeuta, a criança mostra muito claramente seu prazer ou desprazer, sua vontade de contato ou
sua necessidade de descanso e de tranqüilidade. Os haptoterapeutas dizem que a criança, graças à
“confirmação afetiva” que recebe, desenvolve um sentimento de segurança básica que perdurará
muito tempo depois do nascimento. Em troca, com suas respostas, ela “confirma seus pais
afetivamente”: sinal de uma dinâmica muito particular na tríade parental, e entre os gêmeos quando é
o caso. A criança não só se interessa pelo mundo exterior, reage às vozes familiares e se desloca
para se aproximar delas desde a vida intra-uterina, como se manifesta em função do contexto afetivo.
Sem que haja explicação por enquanto, ela parece inclusive memorizar movimentos de balanceio que
propõe em circunstâncias precisas. Também nesse caso, não há nenhuma fusão entre mãe e filho: o
reconhecimento de seu lugar de autêntico ator modifica a vivência da gravidez e do parto para a
própria criança e para seus pais.
A haptonomia, que concebe a criança como alguém em busca de sentido e de comunicação
desde a vida intra-uterina, tem um objetivo preventivo. Por exemplo, é fato comprovado que as
crianças “contatadas” durante a gravidez pela abordagem haptonômica são muitas vezes mais
presentes que a média depois do nascimento. Algo da ordem de um despertar foi antecipado para
elas por essa forma de diálogo pré-natal a três. No caso de gestações patológicas, de doença ou de
morte da criança, a haptonomia propicia aos pais um acompanhamento totalmente diferente da dor da
criança, pelo simples fato de que ela é retirada de seu lugar de vítima potencial passiva. Da mesma
forma, a criança presente por meio de suas manifestações em eco modifica as eventuais rejeições,
ambivalências, interditos e dramas que alteram a relação entre os pais e ela.

No nascimento, a manutenção do contato “auditivo-tátil” é primordial. Ele nem sempre é


possível por motivos técnicos, mas continua sendo necessário. Se o recém-nascido tinha em meio
aquático a liberdade de se deslocar em direção a um som que ele percebia, a tarefa é bem mais árdua
ao ar livre. Existem sem dúvida observações que mostraram que um bebê, nas quatro primeiras horas
subseqüentes ao nascimento, procura a voz do pai, e consegue virar a cabeça na direção dele, se ele
falar. É verdade que um estudo feito pelo mesmo laboratório mostra que um recém-nascido colocado
sobre o ventre da mãe ao nascer chora significativamente menos que um bebê levado diretamente
para seu berço, sejam quais forem os cuidados atenciosos que lhe forem dedicados. Apesar disso
tudo, ele está muito desprotegido.
Aliás, nos dois exemplos citados, a criança só se encontra por intermédio da percepção que tem
de pessoas conhecidas, seus pais no caso. Em outras palavras, quando nos perguntávamos há pouco
se a criança “antes” e “depois” era o mesmo ser e se sabia que o era, é preciso responder que “sim”,
desde que o continuum sensorial com a mãe e seu companheiro se mantenha. Essa é a condição de
um conforto necessário para que o nascimento não seja uma violência para a criança que nasce.
As parteiras de Béclère sabem muito bem disso. Elas têm o cuidado, uma vez constatado que
depois da expulsão tudo corre bem, de se afastar o mais rápido possível, se, é claro, as
circunstâncias e os pais o permitirem. É claro que elas estão prontas para intervir a qualquer
momento, mas ficam à distância. Sabem o quanto esses momentos que se seguem ao nascimento
pertencem a seus três (ou dois) protagonistas, e que seu dever enquanto profissionais de assistência
médica é de não interferir de modo intrusivo.
Às vezes também assisto a nascimentos. Lembro-me, numa das primeiras vezes em que tive de
fazê-lo, de ter ficado impressionada com o desamparo do bebê separado de sua mãe para os
primeiros cuidados. Para amenizá-lo, propus ao pai falar com seu bebê segurando sua mão para fazer
borda, para lhe dar o limite tranqüilizador de seu calor. O fato de então ter visto aquele bebê
manifestar e procurar o pai “pela voz”, ao mesmo tempo em que ficava totalmente insensível à minha
e à da parteira, me intrigou. Depois disso vi esse fenômeno repetir-se inúmeras vezes.
Peço que não se espantem muito com minha sensibilidade à violência do pós-parto: os
profissionais mais indiferentes têm a mesma em seu histórico. Os primeiros cuidados podem ser
muito agressivos para a criança. Quer se trate de desobstruir as cavidades nasais, de aspirar os
resíduos de líquido amniótico e o muco, nenhum gesto é anódino. É preciso todo o tato e a
competência dos profissionais para efetuar “com delicadeza” a limpeza (anal, nasal, auricular,
umbilical). Por certo é preciso prática e destreza para pesar a criança, medi-la esticando bem os
membros ainda dobrados como dentro do útero, instilar produtos mais ou menos irritantes nos olhos
e no nariz..., sem que esses cuidados não se transformem em agressões na vivência da criança. Se
agressão há, ela é relativamente benigna. Mas suas repercussões para a criança serão maiores se for
efetuada quando ela está separada da mãe. Afastada de sua principal fonte de percepções conhecidas,
ela perde qualquer meio de se tranqüilizar.
Ora, o bebê procura o já conhecido. Para que reencontre esse já conhecido, costumo aconselhar
as mães que vejo nos dias seguintes ao nascimento a pegarem seu bebê «pele contra pele», quando o
fio entre eles me parece rompido ou danificado. É o caso das mulheres que o baby blues deixa
desarmadas. A idéia é simplesmente que o bebê possa descansar nu sobre o peito da mãe enquanto
ela eventualmente lhe fala. Assim, ele fica em contato pelo toque, a audição, o olfato e a visão com
esse outro corpo que ele já conhecia e que agora reconhece. Essa proximidade sensorial é
estruturante, pois reatualiza o vínculo pré-natal. Mas esse pele contra pele, preconizado às vezes
pela unidade canguru e por mim, só é recomendável se a mãe sente vontade de praticá-lo. Caso
contrário, forçar a mão só pode ser prejudicial para ambos os protagonistas. Por que fazê-lo, por
outra parte: existem tantas maneiras de ser mãe, cabe a cada uma elaborar a sua!
O objetivo é manter o vínculo sensitivo entre mãe e filho, e geralmente isso é suficiente para
proteger um recém-nascido dos efeitos de depressões leves e passageiras de sua genitora. Em casos
mais severos, é uma oportunidade para a mãe começar a falar de sua história, por mais dolorosa que
seja. De qualquer maneira, a manutenção desse vínculo é necessária e proveitosa para ambos.

Manter os vínculos

Da pediatria nos chega, pela generosa obra de Marie Thirion, um discurso similar sobre o
vínculo mãe-filho. “Para viver depois do nascimento – escreve ela – exatamente da mesma forma
como nos primeiros dias depois da fecundação em que sua nidação uterina condicionava de modo
imediato sua sobrevivência ou sua eliminação, um recém-nascido precisa se enraizar em algo que
vive, tem de se implantar numa relação humana.”20 A observação é sedutora, ela concorda com o que
acabamos de dizer. Alguns capítulos depois, a autora acrescenta: “O bebê brutalmente separado da
mãe no momento do nascimento, afastado de seu cheiro, de sua voz, das carícias sobre seu corpo não
pudera criar vínculos [sublinhado por ela]. (...) quando ela o pegou nos braços falando-lhe dela e
dele, e não mais se dirigindo a alguma outra pessoa ao pé da cama, a criança, esgotada, adormeceu.
Ela criara o vínculo...”. Um psicanalista poderia dizer o mesmo, modificando um único detalhe,
mudando completamente de direção: não se trata de criar vínculos mas de mantê-los. Não se trata de
um novo apego no sentido que lhe dava René Zazzo e a psicologia francesa, nem do engrama ou do
vínculo no sentido de Boris CyruInik e dos etólogos, mas de manutenção e de reatualização de um
substrato perceptivo e linguageiro preexistente.

Empregando metáforas próprias ao palco, diremos que a vida intra-uterina é um ensaio geral: a
ele assistem pelo menos a mãe como diretor, e um público seleto que faz parte da companhia,
primeiro o pai, se estiver por ali, um companheiro ou pessoas próximas. O repertório sensorial foi
revisto, as diferentes vozes escutadas, e a intriga inicial já está armada. O nascimento é uma pré-
estréia aberta ao público desconhecido, e é uma aventura sobre a qual ninguém sabe, os
“produtores” em primeiro lugar, quanto durará e o sucesso que terá. O que é certo é que o sucesso
inicial da peça depende dos vínculos estabelecidos durante os ensaios. Resta agora saber como os
atores infans entendem e falam o texto da peça, como o memorizam, e que “repetidor” pode lhes ser
útil para se situar no caso de haver problemas.

Palavra e linguagem no recém-nascido


A segunda questão que surge nas entrevistas com os recém-nascidos, a mais evidente, é a da
compreensão que o recém-nascido pode ter de nós, e nós dele. Descartemos de imediato todas as
pistas falsas: o recém-nascido não compreende a língua como uma pessoa que já fez a aquisição da
linguagem. Ninguém, cientista ou não, perderia seu tempo pensando nisso. Assim como não se
poderia acreditar num terapeuta que pretendesse que o recém-nascido, embora não compreenda o
sentido do que ele lhe diz, ainda assim obedecesse aos seus votos de que ele melhore para agradá-lo.

A palavra dirigida ao recém-nascido

E pur si muove! E no entanto ela gira! Apesar de tudo, a entrevista psicanalítica com o recém-
nascido tem efeitos sobre seu corpo. Sobre o do psicanalista também, aliás, pois a supressão do
sintoma pode ser fonte de energia, ao passo que as complicações esgotam. Então, o que pensar disso
mesmo sem compreender?
F. Dolto mostrava grande tranqüilidade de espírito a esse respeito quando dizia: “Essa ferida só
pode ser reparada ou melhor superada com palavras verdadeiras, ditas por alguém que a criança
sabe estar de acordo com sua mãe e com seu pai, e que lhe fala da provação que elas viveram, ela e
sua mãe. (...) A palavra pode, por ela mesma, de maneira simbólica, restabelecer a coesão interna da
criança (...) As crianças, bebês, lactentes, compreendem as palavras – é incrível, não sabemos como
– quando elas são ditas para lhes transmitir uma verdade que concerne a elas; palavras que relatam o
que se sabe dos fatos, sem julgamento de valor”.21
Não sabemos como, é verdade. Mas sabemos. Não é necessário ser psicanalista para constatar
que as mães e os pais falam com seus bebês. Atribuem sentido aos diferentes balbucios e grunhidos
de seus filhos, quando não a seus gestos. Se isso fosse uma imbecilidade, a saúde mental da
humanidade inteira correria perigo.
Pode-se contestar que um recém-nascido não compreende a língua, e que o que ele percebe de
nossas intervenções é, no limite, nossas intenções: o timbre de nossa voz, a sedução de nosso sorriso,
o tom que empregamos. Por que não? Esses elementos denominados pelos lingüistas de prosódicos –
ênfase, tom – somados à compleição física dos interlocutores – a começar por seu sexo – fazem parte
da comunicação. No entanto, temos outros indícios que nos levam a pensar que o que não
compreendemos existe. Pa​rece-me que já temos várias pistas de investigação.
A primeira pista a seguir é... magnética. Sabe-se que F. Dolto afirmava que uma criança em
idade pré-verbal pode funcionar como uma fita magnética. Ou seja, ela é capaz de registrar fonemas
e até palavras e frases que não compreende stricto sensu. Consegue engramá-las, armazená-las em
sua memória, de tal modo que essas palavras e essas frases podem reaparecer vários anos mais
tarde, em circunstâncias e com uma pertinência psicologicamente significativas para ela. Lembremo-
nos da menção que ela faz de uma de suas alunas analistas, caso particularmente comovente porque
junta numa única imagem o começo e o fim de uma vida.
Essa mulher sofria de um câncer incurável na época, mas ainda levava adiante sua vida
profissional e social. Naquela que veio a ser sua última sessão, ela contou um sonho de felicidade
indizível que, dizia ela, a teria consolado de tudo se fosse duradouro: “Essa felicidade provinha de
sílabas que eu escutava [no sonho], sílabas que não querem dizer nada”.22 Três dias mais tarde, ela
ficou paraplégica. A morte a levou pouco depois.
Essa mulher, de origem inglesa, vivera na Índia entre um e nove meses de idade. Ficara sob os
cuidados de uma jovem hindu que a mantinha o tempo todo no colo e a embalava. A despedida,
conforme o que lhe contaram posteriormente, foi extremamente dolorosa. F. Dolto intuiu que as
sílabas incompreensíveis do sonho podiam ser palavras pronunciadas por aquela mulher. Depois de
pesquisar, descobriu-se que aquela era uma frase que todas as babás daquela região diziam aos
bebês: “minha queridinha cujos olhos são mais lindos que as estrelas”. Esses fonemas, “que tinham
vindo acompanhados daquele prazer narcísico indizível que tem o nome de felicidade”, tinham
servido de viático para aquela menininha que perdia sua babá portadora, suas pernas, poderíamos
dizer. Ressurgindo anos mais tarde, elas anunciavam a perda das próprias pernas, dessa vez, e um
adeus ao mundo.

Limitemo-nos por enquanto a guardar desse exemplo que uma criança que ainda não adquiriu
nenhuma língua entende, compreende e memoriza pedaços de linguagem semântica e sintaxicamente
pertinentes. Com-preender deve aqui ser escutado no sentido etimológico de “prender com”: a
criança leva consigo uma mensagem codificada cuja chave desconhece, e essa mensagem faz corpo
com ela. Ou melhor, a despeito da própria criança, ela tem efeitos sobre seu corpo. No caso dessa
mulher, é como se seu corpo lembrasse: ela sonha com isso. Ela sonha com isso num momento em
que, como diz F. Dolto, aparece o mesmo tipo de ruptura de seu esquema corporal que sucedeu no
primeiro acontecimento. Outrora, era o momento de ela se ver como um corpo autônomo às vésperas
de andar: ela ia ser separada desse corpo-babá que estava como que colado a ela, que andava para
ela e com ela. Agora, era o anúncio da paraplegia e da separação do mundo vivo. Sonho
premonitório? É mais interessante pensar no fato de que o corpo tenha memorizado a frase
enigmática, de que o próprio corpo é de certa forma o lugar da linguagem. Mas, visto que a
mensagem é indecifrável enquanto tal e ainda assim o corpo se lembra dela, é porque a mensagem
está acompanhada de um sentido esquecido ou, melhor, rejeitado, forcluído. Nesse caso, o corpo é
como um palimpsesto, um pergaminho cujo texto encobre o sentido apagado.

Pode-se falar de uma semântica do recém-nascido?

Já dissemos que o recém-nascido é sensível à voz da mãe. É preciso ir mais adiante,


procurando saber a que ele reage ao escutá-la. M.-C. Busnel, pesquisadora do INRA em fisiologia
acústica, tem realizado nos últimos 20 anos inúmeros estudos sobre o efeito da voz da mãe sobre o
filho. Em alguns desses estudos, ela observou a freqüência e a variabilidade dos ritmos cardíacos:
no feto, no recém-nascido, no bebê prematuro. A idéia era interpretar essas flutuações como
respostas aos estímulos da voz da mãe, eliminando, é claro, todos os artefatos de outra ordem
presentes na mãe. Sem entrar nos detalhes desses protocolos, lembremos que ela provou pelo menos
quatro pontos fundamentais.
Em primeiro lugar, o bebê reconhece preferencialmente a voz da mãe: ele manifesta que «a
entende» melhor do que entende outras pessoas. Em segundo lugar, o bebê reage mais quando a mãe
lhe fala do que quando ela fala com outras pessoas, os experimentadores no caso. Em terceiro lugar,
o bebê assim como o feto reagem quando a mãe pensa neles e se comunica com eles... pelo
pensamento, mesmo que em proporções ínfimas! Em quarto lugar, e aí se abre um campo imenso: não
só o bebê reage bem mais a uma história ou a uma música conhecida do que a outras que ele escuta
pela primeira vez, mas sua manifestação é tanto maior quanto mais emoções o que lhe for contado
provocar nele ou na mãe.
Cabe a cada um decidir se isso significa que o recém-nascido tem uma semântica e que é dotado
de uma (boa) memória. M.-C. Busnel não se dá o direito de fazer o salto que consistiria em dizer que
as reações da criança significam que ela compreende em sentido estrito. Mas é evidentemente uma
diferença essencial em relação ao que a psicanálise diz.
Por outro lado, é também uma indicação de prevenção, pois M.-C. Busnel mostra que uma
sobre-estimulação dos fetos anula o efeito esperado, quando não é prejudicial para a criança. Eis
algo que irá decepcionar os defensores do treinamento intensivo desde os primeiros tempos da
gravidez. Alguns momentos musicais com o feto não prejudicam, é claro. Mas, como ela lembrou
recentemente, é uma obrigação ética dos cientistas dizer que a aplicação sistemática de uma
aprendizagem sobre o feto é odiosa e inútil.23
Para ilustrá-lo, ela evocou a célebre experiência realizada pelo americano Gilbert Gottleib com
patos. Sabe-se que o patinho tem uma necessidade vital de aprender desde a gestação a reconhecer a
voz da mãe. Com efeito, assim que sai do ovo irá segui-la pela voz, se não quiser morrer. Procurou-
se, pois, saber se, reproduzindo de maneira artificial, diretamente no ovo, os estímulos da vida aérea
necessários para o patinho, facilitar-se-ia a aprendizagem do patinho. Abriu-se alguns ovos e fez-se
o feto escutar a voz de sua mãe ao mesmo tempo em que lhe iluminavam o olho. Resultado:
catastrófico! Os patinhos nada aprenderam, como se as duas estimulações tivessem se anulado em
vez de se somar. Como a visão aparece cronologicamente mais tarde, é provável que seja ela a
responsável pela anulação das capacidades de aprendizagem auditiva. Quando os dois estímulos
eram fornecidos de modo alternado, os patinhos tinham uma aprendizagem muito retardada em
relação à normal. Quando o olho era iluminado sem que a voz da mãe fosse ouvida, o efeito era nulo.
Portanto, não há nenhuma necessidade de sobre-estimular “nossos queridos patinhos”!

A fala do recém-nascido

Quase todos os neurobiólogos aceitam agora a idéia de que não há aquisição nem memorização
possíveis sem participação «emotiva», isto é, sem o concurso do sistema límbico e do córtex
cingular anterior. Alguns vão mais longe e permitem pensar que “engramando” uma percepção
engrama-se a emoção correspondente. Cada informação estocada soma-se à informação emotiva que
lhe concerne. É este o sentido da hipótese dos marcadores somáticos de A. Damasio, 24 para quem
cada estratégia de tomada de decisão é influenciada por estados gerais do corpo que informam o
cérebro sobre a conduta a seguir. Esses marcadores do corpo funcionam como sinais de perigo: por
exemplo, o fato de que se salive ao pensar em comer foie gras ou que se tenha dor de barriga ao
imaginar um prato de topinambo. As estruturas que sustentam esses marcadores somáticos são, por
um lado, o córtex pré-frontal, que organiza a classificação dos dados que concernem ao mundo
exterior e os acontecimentos particulares da vida de cada indivíduo, por outro, o córtex somato-
sensorial, que trata todas as informações de que falamos nos capítulos precedentes. É delas que
depende nossa aprendizagem da vida. Em outras palavras, tomando emprestado o título de um de
seus capítulos: Sem corpo, nenhuma representação mental!

Karina ou o medo de viver

Citamos esses poucos dados sobre a ligação entre a linguagem, a emoção e o corpo porque os
recém-nascidos que me cabe escutar só me falam disso. Sem dúvida Damasio diria que eles ainda
não tiveram tempo de fabricar esses marcadores somáticos, mas o corpo desses bebês de 3 dias é o
sítio de todos os perigos: transtornos de ordem respiratória, distúrbios do sistema digestivo,
anormalidades da curva ponderal, distúrbios do sono, anorexia do lactente, rejeição do seio,
infecções..., tudo se diz ali. Linguagem de órgãos, como se diz? Na verdade, não. Se fosse verdade,
eu não teria como explicar por que minhas palavras podem ter um efeito direto sobre esses males do
corpo.
Karina é uma menininha de dois dias, hipotônica, que não come e cuja perda de peso é
alarmante. Uma parteira chegou a descrevê-la como moribunda! Quanto aos pais, dizem-me que é
como se estivessem paralisados, sem outra reação que um sofrimento impotente ante as desgraças de
sua filha. Vou até a cabeceira dela.
“Entenda-me, senhora, perdi meu filhinho há cinco anos durante o parto, foi horrível; e agora,
Karina...”
Essa mulher sofrera por muito tempo de uma esterilidade, e, após vários tentativas de
fecundação in vitro no hospital Béclère, conseguiu finalmente engravidar. A criança esperada, um
menino, morrera antes de nascer.
“... Preparamos tudo direitinho, pode ter certeza. Um berço, um carrinho de rodas altas, um
assento para o carro, brinquedos... A roupa de batizado estava pronta. E não adiantou nada! Jogamos
fora todas as roupas, exceto aquelas que tínhamos recebido emprestadas, tive de dar o carrinho para
a minha sobrinha, porque ela pelo menos é jovem, ela conseguirá fazer filhos.”
Ela tem 44 anos, e essa pequena Karina que se anunciou é seu primeiro bebê vivo. Ela a
colocou no seu lugar na cama e a vela como se vela um morto, sentada aos prantos ao seu lado. Via
nela apenas o filho morto, o destino de Karina estava ligado ao de seu irmão mais velho: como se ter
um filho vivo fosse algo proibido para ela. “E agora Karina que não quer comer, ela está morrendo a
olhos vistos, não é possível... Meu marido e eu não somos supersticiosos, mas desta vez juramos
fazer de tudo para que aquilo não recomece. Quase não compramos nada para ela, para não dar sopa
para o azar. Só o necessário, um pijama, algumas mamadeiras. Nem isso adiantou. Dá para ver que
ela está sofrendo.”
A mãe, imigrante, me fala do isolamento em que se encontra, e se põe a evocar o projeto de ir
apresentar a filha aos avós, que moram no exterior. Algo de vivo começa a aparecer ali, e aproveito
para falar com Karina desse luto não feito do primeiro bebê que parece lhe barrar a inscrição na sua
filiação:
“Seus pais ficaram com tanto medo de que você não conse​guisse viver, como seu irmão, que não
sabem o que fazer e pensar. Mas você é diferente de seu irmão e você decidiu nascer. Não sei se
você já decidiu viver. Se você quiser viver, precisa comer para poder crescer. A escolha é sua, mas
saiba que seus pais estão dispostos a tudo para ajudá-la”.
Nenhuma reação da criança. Aconselho a mãe a pegar Karina no colo “pele contra pele” para
restabelecer o vínculo com ela, que parece tão frágil quanto a fé que tem na sua vida. Explico-lhe que
dessa forma Karina poderá reencontrar o apoio e a segurança de que necessita, e em seguida me
despeço.
No corredor, encontro a pediatra e a puericultora que cuidam de Karina. A primeira considera
uma urgência vital fazer a criança engordar, e pensa em alimentação forçada. A segunda propõe dar a
mamadeira longe da presença da mãe antes de forçar a alimentação. Acrescenta que a mãe está tão
mal que corre o risco de transmitir sua angústia à filha e de, por assim dizer, cortar-lhe o apetite.
Ambas insistem quanto à urgência.
Sem desconsiderar a necessidade de intervir rápido, peço-lhes no entanto que esperem algumas
horas. Considero de primeira importância que a própria Karina escolha se alimentar, e que acerte
isso com sua mãe. Alimentar Karina longe da mãe seria correr o risco de confirmar, nessa mãe de
narcisismo tão frágil, um sentimento de incompetência que agravaria as coisas.
A pediatra aceita esperar. Três quartos de hora mais tarde, Karina pediu e engoliu 50 ml de
leite, dados pela mãe. Ela recuperou peso nos dias seguintes, e os pais vieram me contar seu alívio
no momento da partida.

Mathieu, o pequeno delator

Haverá quem diga, como o professor Lebovici, que ler a lista telefônica para esse bebê teria
tido o mesmo efeito. A objeção tem algum peso, mas é difícil de admitir vindo de um psicanalista
dessa qualidade. Em todo caso, ele é um bebê a quem isso teria feito berrar. Esse bebê se chama
Mathieu.
Conheci-o no quarto 37 da maternidade, porque sua mãe estava angustiada pensando nos
problemas que a esperavam ao sair da maternidade. Nós três tivemos uma longa conversa. De
passagem, ela me explicou que morava na casa de um “senhor” que lhe emprestava dois cômodos em
seu próprio apartamento, em troca de pequenos serviços. Ele lhe fazia uma espécie de gentileza, mas
evidentemente isso não deixava de causar problemas de comodidade prática e de intimidade para
essa mulher. Esses acessos de bondade de qualquer forma logo terminariam, pois a vinda do bebê
era menos do gosto do “senhor” em questão.
A conversa dirigiu-se para outras paragens, quando de repente ela voltou a falar desse
«senhor», mas dessa vez dando-lhe um nome: «Sr. X». E, nesse momento, Mathieu berrou. Quando,
no fim da entrevista, a mãe me sussurrou: “confidencialmente posso lhe dizer, mas não conte a
ninguém: o Sr. X é o pai de Mathieu”, não foi difícil responder-lhe que eu já imaginava isso porque
Mathieu o indicara. Coincidência?
Talvez ele estivesse sonhando com a lista telefônica...
Em todo caso, ele reagiu como um homem singular a esse lugar-comum da psicanálise dos
últimos anos: que cabe à mãe nomear o pai para a criança. O lugar do nome do pai deixava de estar
vago a partir daquele instante para Mathieu. Se um ou outro dos pais se sentir incomodado com isso,
apostamos que o inconsciente de Mathieu, por exemplo por meio de uma amnésia infantil típica,
poderá mais tarde cobrir pudicamente sua estátua. Um esquecimento diplomático é algo que acontece
tão rápido!...
Também haverá quem diga que a única circunstância em que pode ser útil falar com o bebê é
quando se pretende tocar indiretamente pais que não suportem escutar certas coisas ex abrupto. O
comentário é elegante e hábil, e em certos casos é isso o que faríamos. Mas não será desrespeitoso
ater-se a esse «truque»? Desrespeitoso não para com os pais, nem para com o bebê, mas para com a
verdade?
Pois embora um profissional possa julgar supérfluo falar com um recém-nascido, ele não ignora
que às vezes a criança entende algo do que lhe dizem os pais. Se entende deles, porque não
entenderia dele? Quanto aos experimentadores que gravam em vídeo a entrevista deles com um bebê,
dirigindo-se a ele para sensibilizar mais a mãe, e que depois passam a fita para ela para que
“entenda” do que se trata, o que eles fazem? Eles provam a validade de suas hipóteses para a mãe, e
sem dúvida também para nós, leitores. E demonstram que sabem convencer. Todos aplaudimos tanta
perspicácia desenrolando-se diante de nossos olhos. Mas já não nos encontramos no campo da
psicanálise; estamos no da pedagogia, que não parece particularmente apropriada para o trabalho em
maternidade.
Sempre que possível, é melhor dar a César o que lhe pertence: se os pais são o centro do
problema, é com eles que se deve falar. Se for a criança, dirijamo-nos a ela. Afinal de contas, é ela o
paciente!

Maurice e o marabuto

Inversamente, ocorre de eu falar com uma mãe para que seu filho entenda. É o caso dos bebês
prematuros e, também, o de Marie Perrier, que já mencionei. Falo com a mãe deles por não poder
dirigir-me diretamente a eles, na esperança de que a mãe o faça, pois sei que isso não deixará de ter
efeitos. Posso também dirigir-me à mãe ou ao pai em presença do bebê, como no caso em que a
solução depende evidentemente deles. Foi este o caso de Maurice.
Maurice, já com seis dias, também tinha um problema de peso. O problema dele, porém, era não
conseguir manter a linha. Digo isso com um sorriso nos lábios, mas a velocidade com que engordava
era algo perigoso para ele. Ninguém compreendia por que ele inchava daquela forma, como a rã da
fábula. Nem os membros da equipe nem seus pais. Era o quinto da fratria, filho de pais africanos
extremamente joviais, com uma mãe mais terna e atenciosa do que seria possível sonhar. Mas o
marabuto que os pais consultaram durante a gravidez dissera que ele era “diferente”. Essa palavra
sobre o destino da criança deixara o pai num estado de intenso pânico. Este último contou-nos com
um tom muito calmo os pesadelos assustadores que tivera com a criança nos últimos tempos, o que
teve por efeito imediato acordar Maurice em sobressalto e fazê-lo gritar. (Esta criança pelo menos
escutava e entendia o pai, mesmo se não me entendesse! Mais uma coincidência, sem dúvida, que faz
com que ele reaja com susto à voz familiar de um pai que fala com toda a serenidade dos mais
horríveis sonhos.) Percebi durante a entrevista que a mãe compartilhava da inquietação do marido,
mas de um outro modo. Sempre que o bebê se manifestava, fosse como fosse, ela ficava com medo,
pensando na sua inquietante “diferença”. Quando isso acontecia, ela sistematicamente o punha no
seio. Aliás, como ela me disse, empregava a mesma estratégia para “acalmá-lo” fazia uma semana.
Por isso ele engordava. Acreditando “acalmá-lo”, ela tranqüilizava a si mesma. Como Maurice era
tolerante e um filho inteligente, ele mamava alegremente. Dessa maneira tranqüilizava a mãe,
mostrando que não tinha medo algum dos pesadelos do pai, mas que, como ela imaginava, tinha fome.
Em todo caso, quando tranqüilizei os pais explicando-lhes que talvez ele viesse a ser “diferente” no
futuro, mas que por enquanto cabia a eles protegê-lo e não o contrário, ele parece ter deixado de ter
tanta fome. Nos dois dias seguintes, as coisas entraram nos eixos e a curva de peso de Maurice
voltou a ter um aspecto normal.

As disposições do recém-nascido para a linguagem

Adquirir a linguagem é uma coisa, ter as disposições para fazê-lo é outra. Assim como
compreender uma língua é uma coisa e falá-la, um outro assunto. Sobre esses dois pontos, psicanálise
e neurobiologia concordam: o bebê humano não adquiriu a linguagem, mas possui mecanismos que
lhe permitem fazê-lo, diferentemente dos outros bebês primatas. Esta é pelo menos a opinião de um
dos grupos mais importantes e mais inovadores em neurociências. Num livro recente,25 Edelman
expõe teses sobre a linguagem que, embora possam inicialmente causar aversão para um leigo, dão o
prazer de descobrir algo novo.
Resumamos sua demonstração. Para falar e compreender a linguagem, e para construir em nós
uma linguagem, são necessárias pelo menos duas etapas, diz ele. Primeiro, ter uma consciência – que
ele denomina de consciência primária das coisas –, isto é, sermos capazes de seriar nossas
percepções em função de nossas experiências passadas e dos “custos” que elas acarretaram
(satisfação ou desprazer). Trata-se de reagir às informações que a realidade do presente venha a nos
apresentar, e de fazê-las passar pelo crivo de nossa memória. Sem essa faculdade, torna-se
problemático falar. Pode-se citar a esse respeito o exemplo do que se chama “o cego que vê”
(agnosia visual). O cego que vê é uma pessoa que sofreu uma lesão do córtex visual primário, que
ainda vê muito bem, mas que diz que não vê! Por exemplo, ele pode perfeitamente pegar um garfo e
usá-lo de forma adequada, mas, se lhe perguntarem o que se encontra sobre a mesa na frente dele, ele
responderá: “não vejo nada”. Essa consciência primária faz intervir uma primeira presilha (Edelman
diz um primeiro bootstrapping perceptivo) entre dois tipos de estruturas nervosas diferentes: o
sistema límbico e o tronco cerebral, que tratam lentamente as informações em função do prazer
sentido, e o sistema tálamo-cortical, que analisa rapidamente o que pode aprender da nova situação.
Até aí nada de muito complicado, e em última instância nós não somos nisso muito diferentes de
nossos confrades chimpanzés. Nesse sistema, estamos submetidos apenas à tirania das experiências
do presente, e estamos limitados em nossas perspectivas.
A segunda fase consiste naquilo que Edelman chama uma consciência de ordem superior,
consciência esta que seria a principal característica do humano, e portanto intimamente ligada à
linguagem. Ela consiste, graças à linguagem, em tornar nossas as sensações às quais nossa
consciência primária atribuiu este ou aquele valor, em “encarná-las”. Falávamos há pouco dos
narizes dos perfumistas, pode-se também citar os degustadores de vinhos. Segundo Edelman, o
talento deles “pode ser considerado como resultante de uma paixão baseada em sensações que se
tornam cada vez mais refinadas graças à linguagem”. Do ponto de vista neurofisiológico, essa
consciência de ordem superior é o produto de uma segunda presilha (bootstrapping semântico) entre
as áreas corticais da linguagem, graças às quais elaboram-se e memorizam-se as palavras e as frases,
sua ressonância, sua significação e sua sintaxe, e o córtex pré-frontal, responsável pela classificação
das idéias. Com efeito, para falar é preciso emitir sons, mas sons relacionados com idéias que têm
um sentido. O interessante é que Edelman estabelece uma equivalência entre essas capacidades e –
cito – uma memória simbólica. Ou seja, não se fala apenas porque se quer dizer alguma coisa, mas
fala-se porque se inventa, porque ao falar imagina-se, e porque se fala de si perante o mundo ao falar
da chuva e do tempo. Evidentemente essa perspectiva compraz o psicanalista, porque, para além da
explicação que se possa dar dos funcionamentos cerebrais, ela chama a atenção para a singularidade
de cada um. A criação na linguagem é uma assunto pessoal! É o feito de cada ser diante das questões
que espreitam sua vida, é seu perfume, se se pode dizer! Como psicanalista, tem-se um interesse
apenas distante pela questão de saber se a fala é uma competência adquirida (pela influência da
comunidade à qual se pertence) ou se o dispositivo de aquisição da linguagem é inato. Importa mais
dizer que a linguagem, como as sensações, constrói-se com o outro, e acrescentar graças à prática
com os bebês que essa construção é mais precoce que o aparecimento da própria linguagem falada.
Como diz Edelman: “A atribuição de significação aos símbolos não se dá de modo formal; ao
contrário, supõe-se que as estruturas simbólicas têm um sentido desde o princípio”.26 E mais adiante:
«O que importa compreender é que os modelos cognitivos idealizados recorrem à encarnação
conceitual e que esta se efetua graças a atividades corporais anteriores à linguagem”.27
Ainda mais interessante é escutar Edelman explicar que, “quan​do os símbolos [empregados] não
correspondem diretamente ao que existe no mundo, os seres humanos utilizam metáforas e
metonímias para estabelecer relações”.28 Eis algo que vai ao encontro de toda uma parte da
teorização psicanalítica sobre os temas da condensação e do deslocamento no sonho, traduzidos por
outros no plano da metáfora e da metonímia. Este não é o lugar para retomá-los; citaremos apenas a
tirada de Lacan a propósito da criatividade da linguagem: se a metáfora é tomar uma palavra por
outra, então os erros das crianças são criativos. «O gato faz au-au, o cachorro faz miau-miau... Eis
como a criança soletra os poderes do discurso e inaugura o pensamento.”29

D4: o momento de se fazer entender30

Portanto, o cérebro humano estaria programado para a fala. Pelo menos para emitir sons. Um
bebê, na maternidade ou em outro lugar, chalra, grita, chora, sorri. Será isso linguagem? Seja como
for não se pode negar a evidência de que é uma tentativa de comunicação. A prática cotidiana com os
bebês decerto mostra que isso não é uma comunicação com um alvo como um diálogo de teatro. É
mais da ordem de jogar lenha na fogueira, de falar com as paredes: para bom entendedor, meia
palavra basta!

Na maternidade, evidentemente escutam-se primeiro os choros, pois esse é o modo de


expressão vocal favorito dos recém-nascidos. Às vezes, o nível sonoro ou lacrimal ultrapassa o
limiar de tolerância dos adultos, e então pede-se que intervenhamos. Lembro de ter conseguido
interpretar para um bebê de quatro dias os motivos de seus choros, incessantes desde seu nascimento.
Uma das puericultoras da noite me contou que depois disso não mais o escutara. Ela tinha
acrescentado: “Se eu soubesse, teria avisado antes; isso teria me poupado três noites extenuantes!”.
Para ele também, sem dúvida... Se essa puericultora tivesse me avisado dessa criança, isso prova
que ela sabia que a criança dizia alguma coisa, e que um psicanalista talvez pudesse entendê-lo.
Escutam-se também choros e palavras de alegria nos serviços. Como aqueles daquela obstetra,
que saltitava pelos corredores que ligam as salas de trabalho, de tamanco e roupa de cirurgiã,
pulando e gritando entre dois soluços que ela “tinha feito um bebê do jeito que gostava”. De forma
geral, um serviço de maternidade às vezes se parece com uma sala de ensaios em que cada um afina
seu instrumento antes do concerto: limpam-se as gargantas ou o colofônio dos arcos, afinam-se,
tocam-se as escalas, fazem-se vo​calises, tudo isso na mais estrita independência do vizinho.
Também se grita nos quartos da maternidade. No melhor dos casos, chalreia-se! É algo comum,
aliás, e que dá muita energia para todo mundo. Não é algo anódino. É inclusive uma das pistas a
seguir para falar da linguagem, da mesma ordem que a hipótese de F. Dolto sobre a repetição
cronológica e as hipóteses das neurociências. A escutar Boris CyruInik, o etólogo especialista em
comportamentos humanos, gritos e chalreadas são mesmo como um embrião de fala. A prova?
Cyrulnik gravou gritos de recém-nascidos que estudou no analisador de freqüências. Percebeu que os
histogramas desses gritos não tinham a mesma forma conforme fossem “entre eles“ e se
“respondessem” de berço para berço, ou houvesse adultos entre eles conversando. Em suma, num
caso era cacofônico, no outro, a partir do quarto dia, a coisa ganhava uma aspecto nitidamente
melódico.31 A experiência é decisiva. Ela prova que, como as sensações de que falávamos há pouco,
a fala (de um, o bebê) precisa da fala (do outro, o adulto).
Esse argumento me ajuda a compreender o baby blues, que, como se sabe, aparece por volta do
terceiro-quarto dia. Durante os primeiros dias, tudo ocorre como se os bebês só produzissem a título
de sons gritos que são igualmente ecos fônicos de seu estado. Um discurso frio e realista, em suma.
Gritam para constatar sua falta: “tenho fome”, “tenho frio”, “estou com sono e tem barulho demais”,
ou então “estou mal-instalado”, “estou com dor de barriga”. É uma simples constatação do que
sentem, uma espécie de salmodia que traduz suas sensações. Depois, de repente, um outro mecanismo
íntimo e delicado se instala entre mãe e filho, pelo fato de que a criança se dá conta de que é ela que
provê suas necessidades. Uma nova espécie de modulação linguageira se faz escutar, que varia em
função da mãe e se dirige a ela.
Se essa nova comunicação vocal fracassar, por exemplo devido a uma depressão muito intensa
da mãe, o recém-nascido poderá se resignar a um sintoma: aparecerão, por exemplo, no lugar dos
choros, uma forma de cólica do recém-nascido, ou então regurgitações, ou ainda vômitos. Nesses
momentos, pode-se inclusive entrar num verdadeiro jogo de pingue-pongue entre a criança e a mãe,
como os pediatras bem sabem.
Foi esse o caso daquela mulher cujos dois filhos tinham sofrido de cólicas do lactente. Era tão
difícil para ela suportar que eles digerissem mal, que o momento de alimentá-los tornava-se um
suplício para ela. Ela ficava angustiada porque eles tinham dor de barriga, e é fácil supor que em
troca eles tinham dor de barriga de sentir a angústia da mãe; era como um poço sem fundo. Passados
três ou quatro meses, felizmente seu sistema digestivo amadureceu e eles encontraram sozinhos uma
outra maneira de funcionar, pararam de regurgitar e de ter dor de barriga, e tudo entrou nos eixos. Na
verdade, essa mãe sentia-se culpada por não ter aleitado, e atribuía ao leite artificial as cólicas de
seus filhos. Esclareçamos que esse argumento é falacioso e que os leites artificiais comercializados
são extremamente bem tolerados hoje em dia. Mas para ela, essa era a verdadeira razão. Até o dia
em que seu pai, vendo-a angustiar-se com os espasmos digestivos de seu segundo filho a quem ela
dera uma mamadeira, disse-lhe inocentemente: “... Com você era igual; eles se parecem com você.
– Como assim, mas eu mamei no seio?!?
– É verdade, mas você tinha o tempo todo dor de barriga. No começo, eu e a sua mãe não
sabíamos como aliviar a sua dor. Lembro bem; a gente revezava a noite inteira embalando você!”
Ela começou a pensar que era possível ser uma boa mãe mesmo dando mamadeiras! Essa
mulher ficou aliviada. Os próximos filhos que ela vier a ter ficarão ainda mais à vontade: talvez eles
te​nham menos dor de barriga, ou talvez ela se autorize a amamentá-los...

O banho de linguagem e o primeiro sorriso

E os sorrisos? Ah, a beleza de um primeiro sorriso... Pois bem, não; segundo CyruInik é uma
ilusão de ótica! O primeiro sorriso é conseqüência da secreção de um neuropeptídio, e seria um
contra-senso da mãe interpretá-lo como um agrado. Esse truísmo já foi respondido com uma simples
pergunta: onde está o contra-senso? Na mãe, que está pouco se lixando com qual secreção cerebral
está em jogo, ou o pesquisador que acha que a alegria da mãe não passa de uma conseqüência
acessória da biologia? Mas acompanhemos CyruInik. Ele toma o contra-exemplo do baby blues, ou
seja dessas mulheres deprimidas que ficam frias como pedra quando seu bebê sorri. Elas criam em
torno da criança o que ele chama de um “mundo sensorial frio” e comprometem como isso seu sono,
e portanto seu futuro crescimento.
Esse é com certeza o risco nas depressões graves. Mas não se observa isso no baby blues
clássico, nessa depressão normal se não necessária que afeta a maioria das parturientes, em maior ou
menor grau. Ao contrário, a lassidão dessas mães – “não sei cuidar dele, nunca vou conseguir” –,
essa depressão leve parece ser um apelo necessário à criança para que ela reaja como um humano.
Sua resposta marcará o começo da comunicação oral.
Essa tese precisa ser fundamentada em exemplos clínicos, e, por uma questão de clareza,
reservamo-nos o direito de fazer uma explicitação mais detalhada no capítulo dedicado ao limbo.
Afora essa pequena divergência com CyruInik, também estamos persuadidos da necessidade do
banho de linguagem que a clínica demonstra todos os dias. Talvez CyruInik veja nisso uma fidelidade
nossa ao que ele enuncia mais adiante: “Para que se abra o acesso à linguagem são necessários não
só pré-requisitos neurológicos, mas também pré-requisitos afetivos! O sistema comportamental que
sustenta a fala e a faz surgir supõe a presença em torno da criança de algum outro ser com quem
falar, para quem falar; é preciso que à fala própria responda uma outra fala”. 32 Cyrulnik demonstra a
existência desse banho de linguagem a propósito do processo de designação, que ele considera o
pródromo do acesso ao simbolismo e à linguagem. Com efeito, diferentemente dos outros primatas, o
homem aprende espontaneamente a apontar com o dedo para mostrar um objeto, e a compreender o
que um outro lhe aponta com o dedo. Adquire essa habilidade com mais ou menos 1 ano, segundo as
observações de CyruInik. Essas observações foram objeto de gravações em vídeo, e examinando
essas fitas ele percebeu que o surgimento do comportamento de apontar com o dedo numa criança
vem invariavelmente acompanhado de um outro comportamento: a criança começa a olhar o pai, a
mãe ou o adulto que se encontra com ela no local da “experiência” e tenta articular uma palavra
dirigida a eles. É por isso que o etólogo pode dizer que «a linguagem (...) se instaura não num face-a-
face da criança com a coisa que ela designa, mas por meio de uma dupla referência afetiva à coisa e
à pessoa significativa”.33

A disposição para silabar

Mais algumas palavras sobre a comunicação do e com o lactente. Tomá-las-emos emprestadas


da neuróloga e fisióloga Gisèle Gelbert, cuja teorização inaugurou uma nova abordagem clínica dos
distúrbios da linguagem de extraordinária eficácia.
Para ela, é porque falamos com a criança que ela mesma irá falar. No princípio era o verbo?
Não, no princípio era o pensamento, apoiado por essa “estrutura que a criança já traz consigo antes
de qualquer palavra exterior”.34 O cérebro humano é programado pela fala, a criança tem uma
“disposição para silabar”. Mas, entre entender ou discriminar sons e reproduzi-los, falta um passo;
entre reproduzi-los e criá-los, outro. Segundo Gisèle Gelbert, é o aparecimento de “proposições
orais exteriores” (da mãe, por exemplo) que, por intermédio de modelos internos complexos que ela
define, permitirá que a criança tenha “proposições orais próprias”. Essa fala que a criança escuta
“vai simultaneamente ser ouvida e analisada”. A língua escutada virá a se tornar sua língua.
Gisèle Gelbert escolheu excluir de sua demonstração qualquer contexto psicoafetivo, preferindo
delegar essa tarefa a outros. Os psicanalistas dirão portanto que não existe psíquico sem afetivo, e
que o segundo estrutura o primeiro. Retenhamos das afirmações dessa neuróloga que a criança fala
porque falam com ela. Não se trata de mero truísmo, pois isso implica, por um lado, que a língua dita
materna se constrói – com – a mãe, depois do nascimento, e, por outro, que ela se apóia sobre algo
de psíquico que existe – antes – do nascimento.

No que se refere a esse problema de «linguagem» dos recém-nascidos, percebe-se que o terreno
ainda não foi explorado. É fácil ver, nas tentativas de explicações científicas, a permanência de
incertezas sobre o que eles «compreendem» e o que eles «dizem». Em que língua eles falam? Não
sabemos. Sabemos que eles não compreendem no sentido lingüístico do termo: sua semântica
(semiótica), sua fonética e sua sintaxe não são as nossas. Por outro lado, a clínica, apoiada na escuta
psicanalítica, fornece a certeza de que eles “compreendem” e que eles “dizem”. Como eles falam?
Em versão original, singular, sem legendas. Não temos outro modo de justificá-lo senão pela
exposição dessa clínica, tentando fazer entrever a emoção que um psicanalista pode sentir quando
uma criança se dirige ou responde a tal ou qual de suas intervenções. Pretender dizer mais seria
presunção, seria correr o risco de cair num “estado bem perigoso: acreditar compreender”,35 como
dizia Valéry. “O espírito claro faz compreender o que ele não compreende”, acrescentava ele. É a
esse ideal que devemos tentar nos agarrar. É apenas uma maneira dentre outras de aprender na escola
dos recém-nascidos que sofrem. Pois, o que fazem esses bebês senão tentar fazer compreender a
quem quiser escutá-los o que eles não compreendem, e que lhes fere na carne?

A memória
Edelman falava de “consciência primária” e de “consciência de ordem superior”... Quid do
inconsciente em tudo isso? Curiosamente, a preocupação com o inconsciente nos vem, nesse fim de
século, de pesquisadores que se interessam pela memória. Na verdade, nenhuma surpresa, se
partirmos do princípio de que tudo de que falamos, ou seja, a sensorialidade fetal e precoce, a
repetição, a linguagem, tem a memória como condição comum.

Com sua descoberta do inconsciente, Freud acreditava estar dando início a uma revolução,
assim como Copérnico e Darwin. Com Copérnico, dizia ele (embora não seja ele exatamente o
primeiro responsável), a Terra perdia o privilégio de ser o centro do mundo. Darwin fizera o homem
perder sua primazia de espécie. E ele, Freud, vinha anunciar que “o ego não é senhor em sua própria
morada”, e que a consciência podia ser superada por um pensamento desconhecido. Pensava ele que
essa ferida no orgulho da raça humana significava o despertar de uma nova era? Ele ficaria
decepcionado, pois vivemos numa época que parece virar as costas para essa verdade, e para a força
do simbólico. É uma pena. Ela sem dúvida deteria sua corrida atrás da imagem rainha, do dinheiro –
comandante supremo – e do príncipe midiático.
É certo que a literatura do século XX continua a dar lugar ao inconsciente; suas mais belas
obras o comprovam, bem como as confidências desses escritores que encontram uma nova força no
fato de que a escrita supera seu autor. A filosofia é mais tímida quanto a esse assunto, apesar da
singularidade de vários filósofos franceses. Ainda recentemente Derrida denunciava a ilusão de
acreditar que “uma vez assimilada ou domesticada, a psicanálise poderia ser esquecida. Ela se
tornaria uma espécie de remédio antigo no fundo de uma farmácia. Sempre pode servir em caso de
urgência ou de falta, mas já existem outros melhores”.36 Ele vê nisso uma “denegação inventiva ou
arrogante”, em que a psicanálise teria sua parte de responsabilidade, mas essa é uma outra história...
Em todo caso, felizmente para ela, a psicanálise não é um remédio! O método científico é dos mais
exigentes em relação à “verdade”, pois tem por princípio experimentá-la e verificá-la. No entanto,
custa-lhe interessar-se pela verdade inconsciente, pois esta contradiz o ideal de controle que o
caracteriza. Citamos Edelman, cuja vontade de edificar uma epistemologia fundamentada na biologia
e que integrasse o inconsciente é corajosa embora não satisfatória. Sua tentativa é preciosa para o
mundo do pensamento. Embora sua prudência e sua humildade sejam louváveis, no que concerne ao
inconsciente é difícil conceber como essa tentativa poderia ser bem sucedida quando ele diz: “[os]
mecanismos inconscientes bloqueiam e perturbam aquilo que consideramos seqüências de
pensamentos transparentes e evidentes”. Para um psicanalista, o inconsciente não é um bloqueio ou
uma perturbação em si, menos ainda uma doença. O que bloqueia e perturba, e faz o sintoma, é deixar
de levá-lo em consideração. O inconsciente é inclusive a condição de “pensamentos transparentes e
evidentes”. Por que então querer fazer do inconsciente uma entidade neurobiológica, quando Freud
deveu sua descoberta e sua invenção do inconsciente justamente ao luto que fez de suas pesquisas
biológicas e neurológicas?

Apesar de tudo, é das neurociências que atualmente parece vir um apoio possível para as
posições de Freud. O psiquiatra e psicanalista Daniel Stern, um dos pioneiros da observação dos
lactentes, lembra que a memória garante para o lactente a permanência de si, que ela dá ao recém-
nascido um sentido para a vontade de “continuar a ser”, como dizia Winnicott. Embora as conclusões
clínicas que D. Stern tire de suas hipóteses nem sempre obtenham um consenso unânime, esse novo
desenvolvimento é ainda assim particularmente interessante. Para ele, a memória se constrói com o
outro, de acordo com as modalidades do que ele denomina as representações de interações
generalizadas (RIG). Com sua mãe, o bebê aprende a distinguir, categorizar e memorizar “os
episódios específicos de sua vida (por exemplo, ‘aquela vez em que mamãe me pôs na cama, ela
estava perturbada e cumpriu os rituais de ir dormir com a cabeça em outro lugar, e eu estava
cansadíssimo, e ela não conseguiu fazer eu adormecer’) e os episódios generalizados (‘o que
acontece quando minha mãe me faz adormecer’)”.37 A base da memória é por esse motivo tanto
afetiva como perceptiva. Tudo indica que agora a neurobiologia esteja demonstrando essa tese. Se o
leitor não tiver aversão à exposição de teorias científicas, encontrará mais adiante alguns apanhados
esclarecedores sobre elas.

Uma memória criativa

De que memória estamos falando? De uma memória bem singular, fiel e incorreta ao mesmo
tempo: humana, humana demais. Por isso, existem alguns acontecimentos que não costumamos
esquecer, como as mortes daqueles que nos são próximos. Os recém-nascidos tampouco esquecem.
Mencionamos a criança que A. Piontelli atendeu e que procurava por toda parte seu irmão gêmeo
morto in utero. Infelizmente encontrei muitos casos similares em Béclère, onde o número de
gestações gemelares ou triplas é bem superior à média. Isso se explica pela particular qualificação
do serviço do professor Frydman em matéria de reproduções medicalmente assistidas, que ainda
geram muitos nascimentos múltiplos. Acrescente-se a isso a estruturação da rede hospitalar que faz
dessa maternidade um pólo de referência capaz de acolher gestações de alto risco – geralmente
gestações múltiplas – transferidas de outras maternidades.

Entre os gêmeos que passaram por essa funesta aventura e que me foram indicados porque
choravam demais, não comiam ou porque sua mãe estava deprimida, praticamente todos recuperam
seu equilíbrio quando se fala com eles e com seus pais do luto a fazer do irmão ou da irmã
desaparecidos. Tanto isso é verdade que passou a ser motivo de prevenção sistemática nos casos dos
nas​cimentos prematuros ou das separações em relação à mãe. Aliás, em casos espinhosos como esses
as parteiras vêm espontaneamente e me dizem: “A Sra. X teve um filho cujo gêmeo morreu a um mês
do termo. Ele chora sem parar. O que devemos fazer?” ou “Essa senhora tinha uma gravidez tripla,
mas um dos três morreu”.
Em geral, os pais informam espontaneamente o filho da dor que estão sofrendo. Contudo, às
vezes um sintoma nos indica que talvez eles tenham necessidade de uma pequena ajuda.
Essa ajuda consiste mais uma vez em falar com os recém-nascidos. Por que falar com eles?
Porque, mais uma vez, é uma maneira de fazer a ponte entre as sensações dessas crianças que, como
se sabe, viveram a morte de seu companheiro de gravidez, e o sofrimento, que é como o eco
desesperado dessa vivência, depois do nascimento. O luto perinatal deve sempre ser levado em
consideração.
Na verdade, é como se esses recém-nascidos rememorassem o acontecimento em falso, mas não
equivocadamente. Em falso porque seus sintomas podem parecer insensatos, sem limite «razoável».
Mas de modo certeiro no sentido de que a dor pós-natal da qual provêm é plenamente motivada. Se
tomarmos como exemplo o caso extremo dos recém-nascidos que não só recordam um luto, mas um
luto que não é seu, compreender-se-á por que falamos de lembrar-se em falso, mas não
equivocadamente.

A dama de preto

Tratava-se de uma mulher que passara pela dor de perder sua irmã e depois, no transcurso de
sua gravidez, a mãe. Chamemo-la de a dama de preto, pois no seu leito de puérpera ela ainda parecia
estar envolvida na horrível mortalha. «Economia, economia!» Para ela como para Hamlet, “os
assados das exéquias enfeitaram com carnes frias as mesas nupciais”. Essa mulher estava
extremamente triste, mas ela tentava mostrar-se alegre para a filha. A relação que ela estabelecia
entre a morte e esse nascimento consistia na sua desolação pelo fato de que sua mãe não pudesse ver
a netinha Eva. Também a criança chorava, mas choros terríveis, guturais, insustentáveis. Eu, que
gosto de ópera, escutava neles o grão de voz que faz de um grito uma dor encarnada. Ela chorava de
sofrimento, embora não lhe faltasse nem sono nem alimento, nem cuidados nem consolo: era algo
para além da falta e da necessidade. Falo de ópera porque seus choros eram públicos: ela
praticamente fagocitara a reunião com as novas puérperas que organizamos naquele dia. Ela chorara
sem cessar durante essa reunião, e as espectadoras, longe de ficarem irritadas, tinham sido ganhas
pelo penar que essa criança salmodiava.
Diz-se que os choros de um recém-nascido desencadeiam na mãe a descida do leite.38 Mais
adiante darei minha opinião sobre essa questão. Em todo caso, durante a entrevista que ela teve
comigo, a dama de preto queixava-se de não ter leite, e via nisso o motivo dos choros de seu bebê.
Na verdade, ele não estava realmente morto de fome, e é por isso que a equipe hesitava em lhe dar
um substituto do leite materno com medo de bloquear a descida de leite. Ela tivera de fato uma
descida de leite um pouco atrasada; mas daí a inferir que ela fazia sua filha morrer de fome, como ela
pensava... O leite veio nas duas horas que se seguiram à nossa entrevista, o que, embora
correspondesse ao prazo esperado, leva a pensar que essa entrevista teve um efeito catártico.
Por outro lado, quanto mais sensível ficava aos choros da filha, mais se sentia impotente.
Achava-a inconsolável. Era ela que estava inconsolável. Como já disse, a mãe dessa mulher morrera
enquanto ela estava grávida. Suas relações com ela sempre tinham sido difíceis, e se alguma vez
houvera ternura materna nessa família, fora a da própria dama de preto, que cuidou da irmã como se
fosse sua filha. No entanto, quando a gravidez foi confirmada, sua mãe se aproximara dela. Num
momento de ternura como ela nunca conhecera, ela lhe afirmou sua certeza de que ela seria uma boa
mãe. Ela a tinha apoiado, amparado, assistido, como nunca fizera antes. Como dizia a dama de preto:
“Tinha por fim uma mãe!”. Era dessa nova mãe que a dama de preto levava o luto: essa mãe por fim
encontrada, e logo perdida, que lhe dava confiança. Ao perdê-la, perdia também a segurança de
poder ser uma “boa mãe”, e até de ter leite suficiente para alimentar sua filha. Ela imaginava que seu
bebê estava pagando a conta.
Acho que o bebê não pagava nada; ele contava os pontos. Registrara as mudanças «humorais» e
o estresse da mãe quando do anúncio da morte da avó, memorizara-os, e também chorava essa morte,
mas sem saber realmente por quê. Sua mãe estava tão tomada pelo luto, custava-lhe tanto dar vida,
que não encontrara tempo para lhe falar. A criança chorava porque acreditava ser a causa da dor da
mãe. Como se sentia incapaz da consolá-la, chorava ainda mais: era uma maneira de “ocupá-la”. Era
esse círculo infernal que me cabia romper, dizendo ao bebê que era bem possível que se lembrasse
da dor sentida pela mãe durante a gravidez, mas que ele não era responsável por isso; à mãe, que a
morte de sua própria mãe não era um mau oráculo que faria dela uma mãe incapaz de criar a filha.
Era pouco, era o suficiente: os choros da criança cessaram, e a descida de leite que se deu nas horas
seguintes acabou por tranqüilizar a dama de preto e sua filha.

Os mapas neuronais

Vão nos acusar de tomar o efeito por causa, de confundir um distúrbio emocional com a
disfunção cerebral ou somática que o engendrou. É mesmo? Falemos então do cérebro e de sua
memória.
Primeiro ponto: nenhum ser humano tem o mesmo cérebro que o seu vizinho, nem que este fosse
seu gêmeo. Portanto, não existe fatalidade genética absoluta na espécie. Por quê? Porque, como
explica Rosenfield,39 a diferenciação das células durante o desenvolvimento embrionário não é a
simples aplicação de um programa genético. Para que uma célula se torne um neurônio, uma célula
hepática ou dérmica tudo depende também... da localização dessas células e de seu movimento
durante a embriogênese. Corolário: não há um grande arquiteto gênico que tivesse desenhado o
sistema de organização cerebral de antemão. O que existe são pedaços que ocupam um lugar, se
mexem, se ajustam uns em função dos outros. Esses “pedaços” são grupos de células ligadas por um
cimento que Edelman denomina CAM (Cell Adhesion Molecules, moléculas de aderência celular).
Por exemplo, N-CAM específicas dos neurônios que se agregarão a outras N-CAM cuidando de não
se ligar indevidamente a CAM específicas de células do fígado ou da pele: a cada um seu território!
São essas CAM que definem os limites de junção ou de separação dos diferentes conjuntos. Portanto,
por um lado existe um background genético que garante a todos os cérebros humanos um ar familiar.
Construídas sobre esse background, as CAM, em função da topologia celular, de seu percurso e de
seus acasos, são a garantia das variações individuais. E essas variações são em grande medida
tributárias do contexto.
Segundo ponto: o sistema de organização neuronal estabelece-se durante a embriogênese,
somente o grau das conexões mudará depois do nascimento, em função dos estímulos externos. Essas
variações desembocam, segundo Edelman e Rosenfield, em verdadeiros mapas neuronais, eles
mesmos compostos de subgrupos neuronais tais como definidos acima.
Terceiro ponto: no interior desse sistema, a memória não é, propriamente falando, um processo
localizado. Por certo, as lembranças têm de ficar estocadas em algum lugar no cérebro, mas por que
às vezes nos custa tanto reavivá-las? Será porque não conseguimos reencontrar suas áreas de
estocagem? É mais provável que a memória possa ser considerada, desde os trabalhos de D. Marr,
um processo inventivo. Ou seja, que, como mágicos, reinventamos nosso passado. Ou, para dizê-lo
como Frederic Bartlett citado por Rosenfield: “A rememoração não é uma reativação de inúmeras
mar​cas ina​ni​ma​das e fragmentárias. É uma reconstrução ou cons​tru​ção ima​gi​na​tiva, baseada em nossa
atitude perante uma globalidade ativa, composta de reações passadas ou de experiências, em relação
a um pequeno detalhe que se destaca e que geralmente aparece sob forma de imagem ou através da
linguagem. Por isso, só raramente a lembrança é fiel, mesmo na sua expressão mais elementar, em
que o que é repetido foi aprendido de cor, e pouco importa que assim seja”.40

O processo de memorização

Com pequenas diferenças de estilo, esses são os mesmos argumentos que defendíamos há pouco
a propósito da repetição. Apenas raramente a lembrança é fiel... Para aqueles que duvidavam disso,
tomaremos o exemplo do sonho, em relação ao qual ninguém contesta que ele recorre à lembrança
mas que no mínimo ele a deforma. Já na segunda metade da gravidez, o feto sonha. Pode-se inclusive
dizer que, para ele, memorizar é sonhar. Ele alimenta seus sonhos com as informações percebidas
durante suas raras horas de vigília, e seus sonhos lhe servem de certa forma para interpretar esses
dados sensoriais, e para conservá-los conforme lhe convenha. Para CyruInik, é isso que assinala o
nascimento da vida psíquica intra-uterina.41 Mas como ele armazena suas informações via sonho?
Sabê-lo é ainda mais importante, haja vista que os neurofisiólogos apenas conseguem explicar por
enquanto a memória a curto prazo, ou seja, aquela que se mantém entre alguns minutos e três dias.
Ora, o sonho é um lugar em que as lembranças são «estabilizadas» de modo a poderem se manter a
longo prazo.

Tratamento mnemônico lento e rápido

Esquematizando, digamos que a hipótese atual mais audaciosa afirma que a informação a
memorizar envereda por duas estradas principais. Ela passa por um primeiro circuito somato-
sensorial, que para atingir as áreas perceptivas primárias do cérebro (áreas visuais, auditivas...)
atravessa a rotatória do tálamo, tálamo este que distribui os diversos dados perceptivos entre as
áreas cerebrais capazes de tratá-los. É a estrada obrigatória no caminho da memorização. É tão
obrigatória, como a estrada que leva para as praias no começo do verão, que fica bastante
congestionada: sozinha, representa cerca de 99% do trânsito das informações a memorizar. Apesar
disso, todo mundo tenta andar rápido: o tempo de passagem de uma ponta à outra da cadeia, através
das sinapses dos neurônios, é inferior a 300 ms. É o circuito do tratamento rápido da informação.
Em paralelo, a informação toma um segundo circuito neurovegetativo, cujo eixo central é o
hipotálamo, que coloca em correspondência o córtex pré-frontal (lugar da “consciência de ordem
superior” de Edelman) com o sistema límbico (“sítio das emoções”). Esse eixo secundário é bem
menos freqüentado, e nele os limites de velocidade são mais respeitados: ele representa apenas 1%
do trânsito total, e a duração de viagem da informação é superior a 400, até 500 ms. É o circuito do
tratamento lento da informação.
Aí está o nó do problema. Pois esse segundo eixo, aparentemente menos importante, é decisivo.
Imaginemos que estamos na estrada que leva para as praias e que estejamos sendo o tempo todo
seguidos numa via secundária por uma viatura da polícia que nos obrigasse a frear sempre que
ultrapassássemos a velocidade permitida. É o que acontece com esse circuito de tratamento lento da
informação. Por uma modificação enzimática e não mais elétrica, ele controla a velocidade de
circulação da informação, e pode dar ordem de mudar de rota e desacelerar. Em seguida ele
desaparece, deixando a informação voltar para a estrada principal. Esse jogo de “pare ou siga” é
regulado pelos neurônios moduladores monoaminérgicos (neurônios que liberam a dopamina, a
serotonina ou a noradrenalina), dos quais se começou a falar a propósito da doença de Parkinson e
cuja função moduladora é utilizada por vários produtos psicotrópicos. Esses neurônios estão
encarregados de desacelerar a informação, ou melhor, de extrair informações oriundas do primeiro
circuito para tratá-las de modo mais pausado. Como se nossos policiais nos convidassem a passar
para a via deles de velocidade limitada o tempo necessário para... refletirmos. Recomendamos, para
uma compreensão mais precisa e menos metafórica desses fenômenos, os artigos de Jean-Pol Tassin,
neurofarmacólogo do Collège de France e autor de trabalhos sobre essa questão.42 Deixemos a
palavra do artista fazer eco ao discurso do cientista, a do romancista Pascal Quignard, nesse caso:
“Verifica-se que a dificuldade que a função da memória oferece não é a do armazenamento do que se
imprimiu na matéria do corpo. É a da escolha, do levantamento, da evocação e do retorno de um
único elemento dentro do que foi armazenado em bloco. Esquecimento não é amnésia. O
esquecimento é uma recusa do retorno do bloco do passado sobre a alma”.43 Freud já o dissera: o
artista precede sempre o cientista no desvelamento da psique.

A memória do sonho

Uma boa ilustração do papel dos neuromoduladores é o sono. Ao adormecimento corresponde


uma relativa inibição dos neuromoduladores, mas o sonho é, ao contrário, o momento em que eles
são reativados de maneira intensa, embora breve.
Já nos anos setenta os trabalhos de Jouvet sobre o sonho interessaram tanto a comunidade
científica quanto o grande público. Jouvet mostrou a correlação entre uma fase de atividade elétrica
do cérebro, que ele denominou “sono paradoxal”, e o sonho. Como as pessoas que ele despertava em
pleno sono paradoxal contavam um sonho, ele concluiu que o sono paradoxal era o centro do sonho.
Depois disso avançou-se um pouco mais. Mostrou-se que existiam fases de microvigília durante o
sono lento, ou seja, entre as diferentes fases de sono paradoxal. Esses períodos de microvigília
correspondem ao momento em que os neuromoduladores são de repente terrivelmente ativados, eles
que até então estavam em repouso. Toda informação era até então objeto de um tratamento rápido
durante o sono, e subitamente os neuromoduladores fazem-na passar para o tratamento lento.
Bruscamente, ao chegar à vigília e à consciência, o cérebro desacelera a informação e fabrica um
sonho em 300 ms, mesmo que se precise de meia hora para relatá-lo. É esse sistema “lento” de dar
coerência às informações que permite a organização do relato. Para dizer as coisas tal como elas
são, afirmemos com J.-P Tassin: sonhamos porque somos despertados!

Os tanques atratores da memória

Retomemos nosso percurso. O tratamento rápido da informação pode ser considerado


analógico: ele consiste em selecionar elementos salientes análogos e em memorizá-los sob a forma
d e tanques atratores. Esses tanques “atraem” para si todo novo elemento perceptivo similar aos
elementos que constituem sua memória. Logo o comparam com seu estoque. Feita essa verificação, o
elemento novo é identificado por extrapolação à forma global conhecida. Por isso, quando num
piscar de olhos reconhecemos um rosto, é porque inconscientemente reparamos em três ou quatro
elementos salientes no rosto. Depois, a partir desses poucos elementos, reconstituímos num lampejo
o rosto. Da mesma maneira o lactente reconhece o rosto da mãe, esteja ele sorridente ou triste,
crispado ou relaxado. Consegue também reconhecer o perfil de um rosto do qual só viu três quartos
(experiência de Fagan citada por D. Stern). Esse tratamento é rápido, e é fonte de erros por esse
motivo. Se nos apresentarem dois rostos que têm as mesmas características salientes embora sejam
diferentes, é possível que os confundamos, a não ser que eles nos sejam muito familiares: ambos
serão atraídos para o mesmo tanque e serão confundidos. Se nos apresentarem um tabuleiro de damas
no qual uma das casas brancas foi pintada de preto, ainda assim “reconheceremos” o tabuleiro de
damas sem que essa pequena diferença incomode. Ao contrário, o tratamento lento é um tratamento
cognitivo, lógico. No exemplo do tabuleiro de damas, ele permitirá manter o tabuleiro na memória,
para em seguida constatar, analisando cada um de seus elementos, que há um que ficou preto.
Na opinião de J.-P Tassin, o tratamento rápido, ou pelo menos o equilíbrio incessantemente
alterado entre tratamento rápido e tratamento lento, poderia ser comparado à base neurobiológica do
que Freud denominou o inconsciente. Quem sabe?... A hipótese é corajosa, sobretudo vindo de um
cientista de alto nível. Ele acrescenta que o feto e a criança anterior à linguagem têm acesso
primordialmente ao tratamento rápido, sobretudo devido à imaturidade de seu córtex pré-frontal; o
tratamento lento só aparece mais tarde, paralelamente ao desenvolvimento cognitivo.
Seria no entanto possível pensar que ao falar com os bebês no contexto do pós-parto estaríamos
lhes entregando um tratamento lento “já pronto”, visto que sozinhos eles não podem fabricá-lo? É a
hipótese proposta por Tassin para explicar as constatações da clínica. Nada em suas teses parece se
opor à nossa afirmação de que o recém-nascido pode tratar de forma analógica uma informação de
tipo cognitivo que se lhe dê, e estar mais tarde habilitado para dar-lhe um novo tratamento, dessa vez
cognitivo. Confiamos na sagacidade dos cientistas para verificar experimentalmente a veracidade
dessa tese.
Extrair e desacelerar a informação

O problema continua sendo o da pertinência dos termos: que é memorizar? Para J.-P Tassin, é
extrair a informação de seu tratamento rápido para desacelerá-la. O que é que decide extrair? Ele
não sabe. Mas ele afirma que desacelerar a informação não permite armazená-la. Cada vez que se
tem acesso a algo, poder-se-á analisá-lo, mas em seguida será necessário voltar a armazená-lo sob
forma analógica. O tratamento cognitivo vai assim modificar seu próprio estoque analógico, e
favorecer a emergência de novos tanques atratores. Nesse momento haverá portanto,
paradoxalmente, acontecimentos ao mesmo tempo “rápidos” e “lentos”, elementos cognitivos no
estoque analógico. Essas informações que passaram por um tratamento cognitivo e foram novamente
armazenadas como analógicas constituem para J.-P Tassin o inconsciente psicanalítico: teoricamente,
pode-se ter acesso a elas e reativá-las, a não ser que certos elementos dolorosos, ou agradáveis
demais, a elas se incorporarem. Nesse caso há recalcamento ou negação. Recalcamento aliás
necessário, pois sem recalcamento cai-se no inferno da hipermnesia. Como aquele paciente descrito
por Luria, que não conseguia esquecer estritamente nada do que vivia: atado às lembranças auditivas
e visuais de seus primeiros anos, era totalmente incapaz de viver o presente, a fortiori de imaginar
projetos de futuro.

A amnésia infantil

Parece extremamente difícil rememorar lembranças da primeira infância. Todos sofrem desse
fenômeno tão mal explicado da amnésia infantil. Algumas pessoas que fizeram uma psicanálise
afirmam ter reencontrado lembranças chaves de seus dois primeiros anos. Outras pessoas, que
voltaram do coma e da “morte”, dizem ter visto desfilar as imagens dessa época. Os neurofisiólogos
retrucam que no melhor dos casos trata-se de lembranças encobridoras, e no pior, de construções
imaginárias. J.-P Tassin o diz à sua maneira: não é possível reativar conscientemente, ou seja, em
tratamento lento/cognitivo, sistemas precoces que só foram tratados de forma rápida/analógica,
porque os elementos salientes retidos para a discriminação mnemônica eram demasiado primários.
Conseqüentemente, um recém-nascido que só trabalha de modo analógico não poderia
«desacelerar» seu modo de tratamento no sentido de que ele não é capaz de comunicá-lo. Em outras
palavras, ele não sabe falar, e não é útil falar-lhe. O círculo se fecha. A partir daí, como interpretar
nem que sejam os choros da filha da dama de preto? Como explicar a hipermnesia descrita por
Luria? Como compreender a segurança de A. Piontelli que afirma em suas observações que as
emoções pré-natais recalcadas nem por isso deixam de ter efeitos para além da amnésia infantil?

Como já dissemos, A. Piontelli completou suas investigações pré-natais feitas através de


ecografias com entrevistas com as mesmas crianças nos cinco anos posteriores ao seu nascimento.
Tudo lhe prova que as crianças entre dois e quatro anos reproduzem seu passado pré-natal por meio
de seus jogos. É fácil admitir que o filhote humano é um animal social, seus jogos o demonstram.
Como diz D. Stern, o outro é para o lactente um “outro regulador de si”, é através dele que a criança
constrói sua subjetividade. Mas, ao reencenarem seu passado pré-natal nos jogos, as crianças de que
A. Piontelli fala procuram dar-lhe um sentido e exprimir as emoções a ele ligadas. Não repetem
simplesmente esse passado, elaboram-no. Ela menciona o desenho que Fabrizio fez de um
travesseiro que tinha uma boca e dois olhos, e que ele comentou assim: “Os travesseiros são uma
coisa que se mexe. Nunca tive paz nem mesmo à noite”. A alusão era transparente para quem
«conhecia» sua vida intra-uterina, pois acontece que ele tinha compartilhado com seu irmão gêmeo
Giorgio a mesma bolsa amniótica. Essa singularidade tivera por conseqüência que ele de fato tivera
como travesseiro um irmão com uma boca e dois olhos, e que esse travesseiro se mexia sem parar.
Por volta dos 4 anos e meio sobrevém a amnésia infantil. Ao que parece, nessa época as
brincadeiras ou as histórias dessas crianças ainda refletem as experiências pré-natais, mas de forma
indireta, sem que tenham em momento algum consciência disso. Conformam geralmente mitos em que
se misturam as lembranças pré-natais, reduzidas a lapsos ou atos falhos, e as projeções de sua vida
atual. Assim era com Marisa e Beatrice, essas gêmeas que tinham o costume, antes e depois do
nascimento, de bater uma na outra. Depois dos seus cinco anos, a lembrança de seu combate
ancestral só passava sob a forma de desenhos; e ainda, sem qualquer aparência de contato. Uma
representava sua casa registrando escrupulosamente nela os nomes de todos os membros de sua
família, com exceção, é claro, do da irmã gêmea. A outra desenhava uma casa onde estava escrito
“sai da minha casa!”, e uma outra casa que ela dizia ser a sua, esclarecendo que ela só podia conter
uma criança.
A fortiori, concluía Piontelli, as lembranças precoces quando não pré-natais reencontradas por
adultos em análise decorrem antes da reconstrução do que da realidade histórica. Por amor ao rigor,
ela depositava sua esperança no refinamento das técnicas ecográficas para reconstituir essas
lembranças.

Não iremos até o ponto de compartilhar essa esperança e ficaremos com seus esclarecimentos
clínicos sobre o fato de que, se existe trauma pré-natal, ele permanece inconsciente. Se existe no
recém-nascido uma memória não dita, analógica se quisermos, é preciso que ela possa ser dita: pelos
pais e avós ou pelos amigos, se possível; pelo psicanalista, se essa fala estiver interdita. O papel de
um psicanalista que trabalha com recém-nascidos é nomear essa memória, caso ela não o tenha sido,
é colocar palavras ali onde só há um sentido não dito, um «buraco de linguagem». As palavras ditas
à criança, ou a interpretação feita à criança dos conteúdos inconscientes de seus pais que entravam
seu desenvolvimento, justificam-se pelo fato de que liberam algo que permanecia estagnado no
sintoma pós-natal.

Todos sofremos de falta de palavras. Quando elas vêm a faltar, é na história que se pode
encontrá-las. A história precisa ser dita a alguém, de preferência por seus protagonistas. Antes
mesmo de pensar em falar com os bebês num contexto psicanalítico, é preciso organizar um espaço
para que essa história possa ser dita a um outro, no caso o ou a psicanalista. Nesse sentido, a
interpretação nem sempre é necessária: a simples presença do psicanalista pode às vezes bastar para
permitir que no lugar dos buracos de linguagem surjam palavras, por parte da mãe, por exemplo. Mas
isso só será possível por meio de um dispositivo que garanta essa possibilidade: as sessões
psicanalíticas.
Um protocolo psicanalítico
Certo dia um parteiro – pois efetivamente tínhamos em Béclère um homem que desempenhava
essa função, 44 e era dos mais competentes – manda-me chamar durante um parto.
O trabalho já durava tanto tempo que ele achava que um bloqueio psíquico impedia a mãe de
dar à luz. Naquele momento eu estava ocupada e só cheguei no momento da expulsão, que parecia
difícil. Depois dos cumprimentos habituais, dirigi-me imediatamente à parturiente: “Bom dia, venho
ajudá-la a acolher da melhor maneira possível seu bebê”. Ela me olhou com olhos bem abertos e...
pariu no mesmo instante!
Diz-se que certas candidatas à gravidez que padecem de esterilidade podem engravidar no
mesmo dia em que conhecem o chefe do serviço. Essa história é inclusive objeto de piada em nosso
meio. Mas assim mesmo, uma virada tão súbita da situação! Não sou nem homem nem chefe e eu
nunca tinha visto aquele casal mais gordo, seria o caso de dizer. No entanto, o obstetra confirmou que
toda a dinâmica do parto mudara desde o momento em que entrei na sala. A parturiente forneceu o
motivo dessa mudança: “A senhora me estomagou! A senhora não sabia nada dessa história e chegou
assim, como uma mosca na sopa, para cuidar de um bebê que nem tinha saído ainda!”. Considero sua
fala uma interpretação literal do que aconteceu. Pois, se algo minha chegada e minha curta frase
desencadeou, foi a possibilidade de também ela sair de seu regaço. Eu estava de fora do assunto, e
permiti que ela viesse parir do meu lado, se assim posso dizer, isto é, que pudesse se subtrair desse
círculo interior que a unia a seu filho. Dessa forma, «visto de fora», seu filho podia aparecer-lhe
como um ser diferente dela, e ela então podia deixá-lo pôr o nariz para fora.
Vê-se aí que não basta vigiar a tela do monitor para prever a iminência do parto, também é
preciso recorrer a limites e referências, e demarcar a função de cada um: ao bebê cabe entrar na
vida, à mãe, sair da gravidez!

O enquadro

Na maternidade como na cidade, nem todo o mundo tem de recorrer à psicanálise. Não que os
psicanalistas não possam enfrentar a exposição dos sofrimentos de seus contemporâneos, mas só
podem responder àqueles que o peçam. Regra arbitrária, dirão alguns? Regra arbitrária de fato, mas
salutar e pensada. Um terapeuta tem sempre o direito, se tiver a força física, de se tomar por um
“SOS-saúde psíquica” e de correr em socorro de todos os acamados. No entanto, brincar de bom
samaritano quando as famílias nada pedem incorre no risco de produzir o efeito inverso. Com efeito,
situar o lugar do desejo inconsciente que rege um sujeito é algo que só pode ser feito em função da
demanda e de seus efeitos: é o bê-á-bá do trabalho do psicanalista.
Às vezes, chego a ler o prontuário médico de um recém-nascido como o faria na qualidade de
psiquiatra ou psicóloga; no entanto, evito fazê-lo sempre que possível. Não se trata de inconsciência
profissional, mas de não submeter a escuta «neutra e benevolente» que devo ter de um paciente aos
dados obtidos previamente de um dossiê. Em 99% dos casos, os elementos que figuram no prontuário
encontram-se no relato feito pelo pessoal paramédico. Há uma grande diferença entre escutar dizer e
ler num prontuário, pois no primeiro caso já se trata de uma palavra viva, carregada de todos os
efeitos que a demanda do paciente produziu na pessoa que sobre ela me fala.
O caso dos recém-nascidos é um tanto particular. Eles estão sob tutela e sua demanda passa
pelo reconhecimento que seus pais fizerem ou não dela. Se eles se recusam a comunicar o sofrimento
de seus filhos, não posso intervir. Essa demanda talvez venha a se repetir, em outros lugares e num
outro tempo, e conseguirá então ser entendida: não se deve fechar a porta para essa eventualidade
impondo-se durante o pós-parto.
Para aqueles que considerarem esse raciocínio “cruel”, tentarei responder como o faço para os
membros da equipe que ficam aborrecidos se não intervenho quando eles encontram um caso que
consideram alarmante, mas em que os pais nada pedem: é preciso aceitar não poder interferir na vida
das pessoas nem em seus dramas. Imiscuir-se sem seu consentimento seria pior que a indiferença.
Seria uma falta de respeito, irresponsável e de qualquer forma votada ao fracasso, pois consiste em
não levar em conta desde o princípio o que motiva o sofrimento dos sujeitos: o desejo inconsciente.
A lista dos que “fazem isso para o seu bem”, “que só querem o seu bem”, é negra demais para que
um psicanalista aceite nela se inscrever. Esta é uma das particularidades de sua prática.
Em suma, é a demanda dos pais, apoiada pelos membros da equipe, que me colocará em
posição de psicanalista. Uma vez que meu ofício é dar lugar à palavra sofredora, é só a ela que devo
responder, sejam quais forem as necessidades reais ou imaginárias do serviço.
Portanto, essas intervenções precisam de um limite. Um limite semelhante a essa linha que foi
traçada entre as duas salas da Maison Verte,45 linha esta que as crianças estavam proibidas de cruzar
de bicicleta ou carrinhos com pedais. A linha de separação em questão destinava-se a proteger os
menores do barulho e de encontrões. Mas, enfim, por que traçá-la num lugar e não em outro?
Ninguém sabia mais: o regulamento era igualmente idiota e inexorável, conforme palavras da própria
F. Dolto. Na sua arbitrariedade, esse limite tinha no entanto uma função de humanização de primeira
importância para essas crianças. Primeiro, enunciar-lhes a regra e permitir que a discutissem
permitia... que a compreendessem. Óbvio? Nem tanto. Para uma criança que nem mesmo imagina que
quando sobe num triciclo é ela quem dirige – fica perplexa quando lhe dizem que ela ultrapassou a
linha porque seus pés a levaram até lá –, compreender é uma revelação; este diálogo de F. Dolto com
um pequenino, extraído de um vídeo inédito, ilustra isso:
– “Essa linha é porque do outro lado os bebês estão no chão engatinhando... Se seu papai vier
com sua moto ou seu carro, ele também não terá o direito de ir para a outra sala.
– Terá sim, se o papai vier, ele virá com seu carro e passará para lá.
– Ah, você acha? Eu não acho. Fale disso com ele hoje à noite”.
– “E no dia seguinte:
“– E aí, você falou com ele sobre aquilo?
– Ele disse que não vai vir de carro. Mas a mamãe disse que em casa eu podia ir para a sala de
jantar com meu triciclo.
– Na sua casa é diferente. Aqui é a Maison Verte , e aqui não pode. Isso vale para você, mas
também vale para mim, para sua mamãe e para todas as pessoas que vêm aqui.
– ...”
A humanização da criança, nesse caso, é também o prazer de brincar com a regra, de fingir
transgredi-la e de morrer de rir quando percebe que ela foi entendida, dar marcha a ré porque, em
última instância, o que mais conta para ela é a Maison Verte e o fato de gostar de ficar lá. Em suma,
desde que ela seja assistida nesse jogo, que se preste atenção à sua pessoa, o prazer da transgressão
transforma-se em cumplicidade.

É com o mesmo espírito que desde o começo estabeleci um limite para o meu trabalho em
Béclère. Pois “com o limite, diz Denis Vasse, ninguém reprime, ninguém se protege, ninguém mete
medo. Com o limite, fala-se”.46 É esse o objetivo do protocolo geral da demanda que instituí: ele foi
elaborado para que se possa falar, não apenas para cuidar. Cuidar, na minha posição, seria julgar-me
responsável pelo comportamento dessas mães e desses bebês, e gratificá-los com meus bons
conselhos ou minhas prescrições, em detrimento dessa história que eles poderiam contar. Pode ser
útil em caso de urgência, mas geralmente há coisa melhor para fazer.

Khader e o mau olhado

Tumulto no primeiro andar da maternidade: uma voz de homem que vocifera, que grita e que
esbraveja não é algo comum nesses lugares. A voz é forte e sonora, todo o andar está ao par. O
marido da paciente da quarto 32 está ali faz uns quinze minutos pondo todo o mundo em sobressalto.
Chama a mulher de todos os nomes; o bebê está aterrorizado, berra e chora copiosamente, o que é
pouco comum aos quatro dias de vida. Além do mais, o pai sai do quarto e admoesta todos os
passantes: parteiras, puericultoras, médicos, jovens mães. É preciso a intervenção de um enfermeiro
para que as coisas se normalizem. Dá-se um jeito de acalmar o pai, o bebê é tranqüilizado com
palavras doces, a mãe é reconfortada. A vida retoma seu curso tranqüilo naquele andar, mas o quarto
32 tremeu. No dia seguinte, uma das parteiras relata-me as emoções da véspera e me propõe ver o
bebê, para quem, diz ela, isso faria bem; a mãe está de acordo. Vou portanto para o quarto 32.

“– Bom dia, chamo-me Myriam Szejer, disseram-me que a senhora pediu para me ver a
propósito de seu filho? Que aconte​ce?
– Sabe, ele chora o tempo todo. Está doente: teve icterícia, e desde hoje de manhã está com
conjuntivite. Comigo é diferente, choro porque estou cansada.
– Como se chama seu filho?
– Ele se chama Khader. Na verdade não, ele se chama Azzedine, mas os pais de meu marido
acham melhor para um bom muçulmano chamar-se Khader.
– Eles são religiosos?
– São, sobretudo minha sogra. Dão muita importância a esses detalhes, eles não brincam com a
tradição. No meu país de origem é assim, é a família do marido que decide; e é melhor não contrariá-
los. No entanto, prefiro Azzedine como nome.
– Foi sempre assim com eles?
– Foi, aliás eles não gostam de mim, nem da minha família. Dizem que meu irmão e meu pai são
gente que não vale nada, que não saberei criar meus filhos como uma boa muçulmana...
– E seu marido?
– Eu adoro ele. Ele também, como está desempregado, o pai dele diz que ele não vale nada e
que tem de escutá-lo e fazer o que ele manda. Mas não é verdade. Meu sogro é tradicional. Quanto à
minha sogra, ela é muito possessiva: meu marido é seu único filho, a senhora pode imaginar... Acabei
me enchendo, e saí da casa dos meus sogros. Meu marido estava de acordo. Agora, tenho medo de
que eles peguem Khader para educá-lo na tradição do país. Mas meu marido e eu não queremos,
queremos ficar com ele.”
Khader parece dormir. Dirijo-me a ele para lhe falar de seus nomes e do problema familiar e
cultural, se não político, que ele representa. Khader se agita. Falo-lhe então da cena da véspera:
“Acho que ontem você ficou agitado e com muito medo quando seu pai gritou...
– Não, não, meu filho não ficou com medo, mesmo que meu marido tenha gritado um pouco alto.
Um bebê não tem medo”.
Ao escutar essas palavras, Khader tem um espasmo violento e enrijece seus quatro membros.
Acaba relaxando e adormece de novo. Registro a simultaneidade de ambos os fenômenos, e prossigo
com a mãe:
“– Que aconteceu ontem?
– Pois bem, meu marido veio, mas trouxe dois amigos, apesar de saber que durante o primeiro
mês não se pode mostrar um recém-nascido a estranhos, porque isso atrai mau olhado sobre ele. No
meu país cobrimos os bebês com um lençol quando saímos, porque caso contrário corre-se o risco de
lhe trazer desgraças. Então eu fiquei zangada, disse ao meu marido que ele devia ter me avisado e
que eu teria escondido a criança dos seus amigos. Foi a vez dele de se zangar, e aí a coisa
degringolou”.
Penso imediatamente na conjuntivite que só afeta o olho direito de Khader, e dirijo-me a ele:
“– Khader, você não precisa carregar o mau olhado no seu corpo. Você nasceu na França, como
seus pais desejaram. E, aqui, visitar um recém-nascido é uma honra para ele, e não uma desgraça.
Seu pai e sua mãe respeitam as tradições da família, mas acham normal praticar os mesmos costumes
das pessoas daqui. Como seus pais, você também pode se submeter às mesmas regras sem se sentir
obrigado a ficar doente.
– A senhora tem razão, mas tem outra coisa: Khader dorme o tempo todo e nunca pede para
comer. Não entendo por quê”.
Khader não deixou a mãe terminar a frase. Pôs-se a se mexer nesse preciso instante, acordou e
começou a mamar no seio da mãe.
“– Veja, ele ainda sabe pedir o que precisa...
– Ainda bem que eu me enganei...
– Seja como for, ele entendeu o que a senhora disse!”.
Terminei a entrevista nesse momento, e saí um tanto atônita com essa história de olho que chora
e de mau olhado. Era uma questão de crença, de superstição ou de tradição? Eu estivera certa em
ligar o sintoma da conjuntivite de Khader ao do mau olhado que assustava a mãe? Eu devia tê-lo dito
à criança diante da mãe, que só via no marido o elo de uma família persecutória? Afinal de contas,
não compartilho de suas tradições; quem era eu para me meter nesse assunto? Fui embora de Béclère
não muito tranqüila naquele dia, um pouco acossada por minhas próprias lembranças desses jogos de
criança em que se lançavam “de brincadeira” maldições entre companheiros de infortúnio.
Por sorte, a pediatra, de mesma origem que eles, pôde conversar longamente sobre esse assunto
com a mãe. Ela conhece bem o meio cultural dos pais de Khader, e dizem que a conversa foi bastante
calorosa. De volta ao serviço dois dias mais tarde, fui vê-lo de novo. Tinham me dito que Khader
estava melhor e que sua mãe mudara de tom.
“É incrível, doutora, Khader não tem mais problemas nos olhos. Não chora mais, está com os
olhos secos, e não grita mais. É incrível!”
A mãe acaricia Khader e lhe fala no ouvido durante alguns minutos.
“– Falei com a pediatra, ela disse que tudo está em ordem novamente. Conversamos um pouco,
ela é muito gentil.
– Ela tranqüilizou a senhora?
– Sim, ela me contou como foi para ela quando teve seu primeiro filho na França, como era
difícil explicar à família que seu marido cuidava dele...
– Um pouco como para a senhora, não é?
– Sim, mas vamos dar um jeito. Meu marido está construindo um trocador para Khader,
mostrou-me o desenho, inclusive me explicou que ao montá-lo era preciso prestar atenção em... em
não sei mais o quê, não entendi nada, mas foi engraçado. Os pais dele, bem, são os pais dele. Mas
ele me ajuda muito. Quando voltar para casa, vou arrumar tudo porque conheço ele, a casa não deve
estar nenhum brilho. Enquanto eu estiver fazendo isso, ele cuidará de Khader. E, depois, a gente faz a
festa.”

Tudo voltava de fato a uma certa ordem. Khader não chorava mais e comia. Sua mãe não estava
mais inquieta e dava um novo lugar para o marido; ela tinha encontrado alguém digno de falar com
ela sobre o país e as dificuldades da expatriação; ela se sentia pronta para proteger o filho como ela
mesma conseguira se proteger até então. Seu pai afainava-se. E eu esquecia meus medos de criança
na brincadeira de lançar maldições! Ou seja, o importante era voltar a pôr em circulação a palavra,
aquela mesma que surgia como uma erupção da garganta do pai, e que se toldava no olho do filho.
Esse recolocar em circulação da palavra possibilitava uma redistribuição dos papéis: “você é o pai
e você não é apenas o representante e a vítima de sua família”; “você é a mãe e cabe a você proteger
seu filho”; “você é o filho de seus pais, e os temores deles não devem impedi-lo... de ver com
clareza!”.
A demanda

Para que tais palavras surjam é preciso um protocolo que permita que elas sejam realmente
entendidas, e não apenas lançadas com estardalhaço nos corredores ou anotadas num prontuário
médico. É preciso uma qualidade de escuta que possibilite um diagnóstico por parte dos membros da
equipe, acrescida ao enquadro de uma sessão psicanalítica que possibilite escuta e interpretação, e
além disso é preciso levar em consideração o contexto, nesse caso, cultural. A clarividência das
parteiras, o ofício das puericultoras, o talento dos pediatras, a interpretação do psicanalista: nada
disso é suficiente para garanti-lo. É da colaboração que um efeito realmente sanativo pode surgir.
Também para regrar essa colaboração é preciso que os papéis estejam claros. O protocolo funciona
como um monitor ou um roteiro que se consulta no estúdio de televisão para não se perder; mais que
um apontador, portanto – não se aponta um texto para uma pessoa que sofre e que é a única a ter a
memória dele –, o protocolo é um registro, uma partitura que faz lembrar quem é quem e em que
momento da ação os atores se encontram. Disse que tive de batalhar para conseguir que esse
protocolo fosse aceito. É lógico. Minha idéia era transpor minha prática de psicanalista em
consultório para o hospital, inspirando-me no trabalho imaginado por F. Dolto com o abrigo
provisório de Antony. Era algo novo em Béclère, ninguém tinha motivos para compreender a priori a
necessidade desse protocolo, e eu tive de explicar. As reuniões preliminares com cada categoria de
profissionais foram a ocasião para falar a respeito.

Com os debates, construímos algo, pois tudo aquilo era inédito. Até então, como todos os
psicanalistas, eu recebia, na cidade ou no CMP, demandas de pessoas que tinham condições de
formulá-las, e que faziam o esforço de separar uma parte de seu orçamento para seu tratamento. Que
essas demandas sejam ou não passíveis de ser recebidas, que as pessoas tenham ou não tenham tido a
oportunidade de descobrir o desejo inconsciente que as mascarava, é uma outra história. Mas elas
era os autores dessa demanda que me faziam. No CMP e no meu consultório, recebia também
crianças colocadas em família de acolhimento encaminhadas pela Assistência Social à Infância. É
claro que nesses casos a responsabilidade, para melhor dizer, a tutela em causa era da instituição, e
não mais do demandante. Mas, no hospital, não se tratava mais nem de tratamento psicanalítico
particular nem de consulta no CMP, mas de uma consulta psicanalítica dentro da instituição. Para
estruturar um enquadro em que a fala pudesse ser entendida de modo analítico, enfrentava agora um
duplo problema: por um lado, quem era demandante na maternidade? E quem, no serviço, podia
servir de mediador para esses sujeitos demandantes, como a ASE servia de intermediária para as
crianças colocadas em família de acolhimento?
Qual demanda devo escutar, ou, se preferirem, quem devo ir ver? O bebê, ou a mãe e o pai?
Digo: os três, pelo menos a mãe e o filho, se o pai não estiver lá. Não posso dirigir-me a um sem
falar com o outro, não posso entender um sem escutar o outro. Minha resposta não é sibilina, como
poderia parecer, quero simplesmente dizer que as coisas estão intricadas de maneira muito íntima
nesse espaço da perinatalidade e do pós-parto.
O lugar do sintoma é tripartite, como vimos na história de Khader. O pai grita, é o sinal de
alarme; o menininho tem uma conjuntivite, é o sintoma, estritamente falando; a mãe está totalmente
metida num conflito familiar e cultural, é o nó do problema. O lugar do sintoma pode ser a criança, a
mãe, o pai, ou os três ao mesmo tempo. Quando me é feita uma indicação, tudo se passa na
intimidade dos três. Falei diretamente com Khader e isso teve por efeito fazer desaparecer seu
sintoma, mas também mudar a posição da mãe em relação ao seu marido e ao seu filho. No caso de
Karina, primeiro falei com a mãe, permitindo que ela se identificasse com a própria mãe e se
tornasse mãe por sua vez, fazendo cair o interdito. Terá sido o efeito dessa fala sobre a mãe que
permitiu que a criança mamasse, ou foram as palavras dirigidas à criança e escutadas pela mãe? Não
posso nem quero responder a essa questão, como insistem que eu faça. Há, no entanto, uma exceção a
essa indeterminação, é o parto em segredo. Aí, só importam as palavras ditas à criança, ainda que
essas palavras sejam as da mãe: seja porque ela as diga diretamente, seja porque, recusando-se a ver
a criança, ela me peça para transmiti-las. Considero que o sintoma funciona na tríade pai-mãe-filho.
Às vezes ele afeta a integridade do corpo do filho, mas pode igualmente se expressar pelos choros de
uma mãe, por um pai que quebra a perna ou que tem uma crise nervosa. A criança também pode ser
men​cio​nada como uma criança que não come, que chora etc.

“Psicanalista para os bebês”

Claro, sou a “psicanalista para os bebês”, é assim que às vezes me apresentam para as mães.
Mas, como insisti em mostrar, trabalho com os recém-nascidos tendo em mente o continuum afetivo
e sensorial no qual eles se encontram ao nascer. Dito isso, os profissionais me atribuem vários
rótulos quando falam de minha existência para as mães. Essas denominações são mais ou menos
justificadas, conforme sejam empregadas por funcionários novos ou por membros da equipe que me
conhecem bem. Ora sou “a psiquiatra”, ora “a psicóloga”, ou então “alguém que se chama Myriam
que poderia ajudá-la”, “a pedopsi”... Eles têm certa resistência a simplesmente falar de
“psicanalista”, porque na cabeça deles isso teria uma conotação de tratamento de longa duração ou
de loucura confirmada (“a gente não vai dizer para elas que elas ou o bebê delas estão loucos!”).
Porém, as mães ficam no máximo uma semana na maternidade, eu só vou duas vezes por semana a
Béclère. Podem acontecer no máximo uma, duas ou três sessões. Não digo que a mãe e a criança
sempre saiam de nossas entrevistas com o coração leve, mas de uma a três sessões muitas vezes é o
suficiente para que todos saiam de algo que comprometia o futuro desde o nascimento. Qualquer um
tem a liberdade de em seguida fazer uma psicanálise, caso na maternidade se revelem problemas
estruturais muito comprometedores. Costumo encaminhar os pais que me fazem esse pedido para um
dos analistas em quem confio. O importante, na verdade, é que sua demanda possa se reformular num
outro âmbito, fora da maternidade.

A equipe mediadora da palavra

Quem pode preencher essa função de mediação entre o demandante e o psicanalista, como as
tutelas institucionais fazem no âmbito das consultas de crianças? As parteiras, as puericultoras, os
pediatras, as enfermeiras, as assistentes sociais, os obstetras ou ginecologistas, ou seja, todos
aqueles que estão em contato permanente com os bebês. São eles que “indicam”, que sentem, que
verificam a pulsação dos internados para saber se “está tudo bem” ou se é preciso dizer aos pais que
posso ajudar o bebê deles que sofre, e que me transmitem o desiderato desses pais. São eles os
guardiães do protocolo.

As sondas vivas

Diferentemente dos guardiães das portas da lei do Processo de Kafka, eles estão lá para
facilitar o acesso à palavra. Quando eles me interpelam para me dizer que a Sra. Fulana concorda em
me ver, vou ver a Sra. Fulana. Quando, coisa rara, eles me dizem que a senhora do quarto 8
precisaria, na opinião deles, de meus serviços, mas que ela não quer me ver, eu não vou. O mesmo
ocorre quando alguém de fora me indica um bebê ou uma mãe, mas nenhum membro da equipe
considerou conveniente fazê-lo: só me desloco depois de ter tomado a precaução de mandar
perguntar à mãe se ela deseja me encontrar. Eles e eu estamos ligados, não há nenhuma hierarquia
que interfira nessa troca entre nós. Eles o sabem e, se nessa troca a necessidade é a lei, a confiança
que existe entre nós é a condição de nossa colaboração.
É claro que esse eixo essencial de meu trabalho não funcionou desde o primeiro dia como se
fosse natural. Tive de sensibilizar as pessoas para o que eu tinha vontade de fazer. Meu discurso era
novo para elas, às vezes incômodo, porque havia quem pudesse imaginar que teria de “brincar de
psi” além de sua carga de trabalho cotidiana. Mas a fineza de seus critérios me impressionou. Tinha
medo, no começo, de que eles me encaminhassem mães que não precisassem de fato, ou que o
fizessem a contragosto, ou, pior ainda, que não encaminhassem ninguém. Por isso, instituí
inicialmente duas etapas de encaminhamento: eles me falavam dos bebês que achavam que eu devia
ver, e eu arbitrava para dizer se era da minha alçada ou não; somente depois disso, eles propunham
às mães minha visita. Logo eliminamos uma etapa, pois eles avaliavam as necessidades com muita
habilidade. Compreenderam suficientemente o que me dizia respeito para se autorizarem a perguntar
diretamente às pessoas se elas queriam me ver. Chego de manhã, dizem-me que fulano ou fulana me
espera, e eu vou. Excepcionalmente ocorre de me indicarem alguém para quem isso era claramente
desnecessário; nesse caso, tenho por princípio ir, a fim de respeitar a demanda das mães que pediram
para me ver. Existe também o problema da rotatividade do pessoal: periodicamente é preciso re-
explicar o sentido desse trabalho; discussões pessoais, conversas de corredor com os “antigos” ou
alguns textos em geral são suficientes para integrar os “novos” à nossa equipe.
As parteiras preferem em geral trabalhar na sala de parto a trabalhar no acompanhamento das
puérperas, pela emoção que isso traz, pelo espírito de responsabilidade, quando não pelo lado
“esportivo” que isso suscita. A alegria de pôr no mundo uma criança de fato não tem equivalente, e a
riqueza de emoções que isso suscita nunca se esgota. No entanto, muitas das que fizeram esse
protocolo funcionar junto comigo declararam que elas encontravam um prazer diferente nesse novo
trabalho com as puérperas. Suas intervenções têm um não-sei-quê de humano que torna seu trabalho
mais leve e mais interessante. Da humanidade e da eficiência de que elas dão prova dependem a
minha eficiência e o bem-estar dos recém-nascidos. Nesse sentido, elas (e eles, pois também temos
alguns profissionais de sexo masculino) são verdadeiras sondas vivas trabalhando junto dos
pacientes, como diz Lucien Kokh.

A inteligência do contexto
Essa função de mediação exige o talento e a sensibilidade de cada um. Ela só funciona graças à
inteligência que as pessoas da equipe têm do contexto. Pois, para fazer uma triagem entre o que é
sofrimento anormal e o que é depressão passageira devido à fadiga, é preciso mais do que “faro”. É
preciso compreender, como eles o fazem, que o desamparo do baby blues é estruturante, porque
permite a instalação da relação mãe-filho: que é preciso, portanto, respeitá-lo e escutá-lo se ele pede
para sê-lo. Eles sabem discernir o baby blues anódino das situações em que a coisa “complica” para
o lado do recém-nascido ou dos pais.
Eles também sabem, como disse acima, que existem casos em que não irei intervir sob nenhum
pretexto, por exemplo quando a mãe rejeita minha intervenção. Que quer dizer o fato de que ela
rejeite? Certamente não significa que lhe tenham explicado mal o sentido de minha intervenção, pois
os membros da equipe estão muito seguros a esse respeito. Os pais têm sempre bons motivos para
não quererem me ver depois de isso lhes ter sido proposto: seja porque simplesmente não seja esse o
momento, seja porque querem inconscientemente que o bebê fique no lugar do sintoma. Cabe então
aos pediatras intervir para aliviar a criança; cabe a mim aliviar a equipe e fazê-los entender que sua
demanda não é necessariamente a do paciente.
Tudo isso exige muita constância e tenacidade por parte de todos, considerando-se as
resistências que se pode provocar. Pode acontecer, por exemplo, que um médico de um serviço
vizinho, que não está ciente dessas práticas, se diga consternado: ele pediu para eu ir ver uma
parturiente, e eu recuso porque a paciente não o deseja. Dá para imaginar os qüiproquós. Além disso,
num caso como esse, é melhor não ver a paciente em questão, para que ela não tenha de padecer
conflitos de competência e de poder com os quais ela não tem nada a ver. A mais simpática das
resistências, porque é a mais inteligente, é a que se desfaz pelo humor. Foi o que aconteceu com
aquele obstetra que, cruzando comigo um dia no serviço, pediu para eu ir ver uma de suas pacientes
de 50 anos. Foi evasivo quanto aos motivos desse pedido, explicando que essa mulher beneficiara de
uma inseminação in vitro na Inglaterra e voltara para dar à luz aqui. Tudo transcorrera perfeitamente,
ela estava radiante e relaxada e a criança estava bem. Isso ocorreu na época das primeiras
intervenções na mídia do Dr. Antinori – «como, esse médico inescrupuloso que faz avós terem
filhos!» -, e esse tipo de parto cheirava a enxofre. Meu colega se fazia um monte de perguntas sobre
essas parturientes de um novo tipo, e sem dúvida propunha-se a esclarecê-las pedindo para eu ver
sua paciente “a título iconográfico”. Esse colega é unanimemente respeitado no hospital Antoine-
Béclère por sua competência e seu gosto pela pesquisa, e eu também o tenho em alta estima. No
entanto, recusei educadamente ir ver sua paciente, argumentando que seu estado parecia excelente de
acordo com o que eu ficara sabendo pela equipe, e que era evidente que ela não precisava de nada.
Como também conheço o senso de humor desse homem, perguntei-me em voz alta na frente dele se
não era ele o demandante. Acrescentei que, se fosse esse o caso, estava à sua inteira disposição. Ele
riu do fundo do coração.
A inteligência do contexto também inclui o contexto sociocultural no qual cada um dos que
intervêm está imerso. E nisso, nenhuma neutralidade pseudopsicanalítica é aceitável. Cada qual tem
sua competência e sua especificidade, é claro, mas é importante não mascarar o tipo de laço social
no qual cada um se inscreve se se pretende ajudar a inscrever crianças num laço social nascente. As
discussões entre nós são sempre informais. Não convoco nenhuma reunião, prefiro os corredores,
onde, como nos congressos, sempre se dizem as coisas mais importantes. As colocações pessoais
nunca são recusadas em nome de sabe-se lá que discrição profissional. As demandas de alguns sobre
tal ou qual de seus problemas pessoais tampouco.
Esta é uma condição mínima, de bom senso e de boa convivência, para que uma colaboração
possa servir aos recém-nascidos. Posso, pois, afirmar que, no caso de Khader, foi a colaboração da
pediatra e da psicanalista que permitiu que cada membro dessa família voltasse a ocupar o seu
devido lugar.

No âmbito da maternidade, é pelo viés do protocolo que a psicanálise opera. O primeiro efeito
notável, que surpreende todo o mundo no serviço, a começar por mim, é, como já disse, a quantidade
impressionante de material que aparece entre as puérperas. Nenhuma das mulheres que com elas
trabalhava imaginava a avalanche de confidências que receberiam se se dessem o tempo de escutar:
cada vez que se sentam cinco minutos num quarto, não conseguem mais ir embora. Algumas pouco a
pouco se deram conta de que esse material as fascinava tanto quanto as agredia. Elas o temiam, mas
elas não se sentiam com força para dar um basta. Logo se sentiram aliviadas ao entender que iriam
poder me passar a bola quando atingissem o limite de sua disponibilidade e de sua competência.
Muitas delas só viam vantagens no fato de essas mães em sofrimento não ficarem ali plantadas sem
que suas palavras encontrassem eco, e de poderem encaminhá-las para mim: da curiosidade inicial,
elas passaram à cooperação.

Talvez agora se entenda melhor por que este livro é um testemunho. Ele pretende ser uma
memória do que foi construído com as equipes de Béclère, e que tornou possível um real exercício
da psicanálise em maternidade. A conjunção de seu know-how e de sua inteligência do contexto por
um lado, e minha compreensão dos trabalhos científicos e minhas exigências éticas de psicanalista
por outro, possibilitaram uma experiência inédita com os recém-nascidos. As trocas, até mesmo as
«transferências de know-how» entre nós (como se diz transferência de tecnologia), mantêm a
vivacidade dessa experiência. Elas não podem ser objeto de uma teorização unívoca: pretendê-lo
seria pura ficção. São vínculos de qualidade humana que condicionam para cada um seu tempo para
compreender, e possibilitam todos os dias o exercício da psicanálise via protocolo. Não tenho
nenhuma verdade a impor às suas colocações, mas sim uma homenagem a lhes prestar. Elas me levam
naturalmente ao meu próprio momento de concluir sobre o que a prática psicanalítica com os recém-
nascidos traz. Quando e por que a interpretação pode ser feita, qual é a sua urgência e quais são seus
efeitos sobre o baby blues, sobre a prevenção, nos partos em segredo? Quando e por que se pode
dizer que o bebê é um sujeito? O que essa prática com os bebês traz para a psicanálise de adultos?
São essas as questões às quais nos cabe responder agora.

1 S. Freud, Trois essais sur la théorie da la sexualité , Gallimard, 1962. [Edição Brasileira: Três ensaios sobre a teoria da
sexualidade, vol. VII da Standard Edition, Imago, Rio de Janeiro.]
2 S. Freud, “Pour introduire la discussion sur l’onanisme”, in Résultats, idées, problèmes 1, PUF, 1984, p. 183. Ver também «Les
théories sexuelles infantiles», in La vie sexuelle, PUF, 1969, p. 14-27. [Edição brasileira: respectivamente, Contribuições a um
debate sobre a masturbação (1912), vol. XII da Standard Edition; Sobre as teorias sexuais das crianças (1908), vol IX da
Standard Edition, op. cit.]
3 Por “preocupação materna primária” Winnicott designava a sensibilidadeaumentada da mãe no final da gravidez e depois do
nascimento. Esse grau agudo, até mesmo “anormal”, de adaptação às necessidades do bebê vai diminuindo à medida que a mãe se
desidentifica de seu bebê, permitindo pouco a pouco que a criança diferencie a mãe de seu “self”. Cf. D. Winnicott, “La
préoccupation maternelle primaire”, in De la pédiatrie à la psychanalyse, Payot, 1969, p. 168-74.
4 Ler a esse respeito M.-C. Busnel, F. Morel. Le langage des bébés, ed. Jacques Grancher, Paris, 1993, e particularmente o
depoimento de F. Morel, “Écoute, mon bébé, c’est ta maman”, p. 96-8, bem como o artigo de M. Couronne, “Le prématuré, un bébé
à part entière”, p. 130-8. Ver também J.-P. Lecanuet, C. Granier-Deferre, M.-C. Busnel, “Sensorialité foetale. Ontogenèse des
systèmes sensoriels, consequences de leur fonctionnement foetal”, in Médecine peri-natale I, Paris, 1989, p. 201-25.
5 Para Freud, o ego ideal constrói-se conforme o modelo do narcisismo infantil: ele se constitui a partir da imagem do corpo próprio
no espelho. O ideal do ego, primeira exigência moral superegóica, forja-se sob a férula dos modelos parentais. Ambos concorrem
para as identificações que presidem à constituição do ego. Embora a gênese, ou, mesmo, a função dessas duas instâncias sejam
facilmente confundidas, ainda assim sua natureza deve ser distinguida: imaginária no primeiro caso, simbólica no outro.
6 Da enorme bibliografia científica sobre esse tema, será proveitoso consultar, dentre as mais recentes publicações: J .P. Lecanuet,
“L’expérience auditive prenatale” e C. Fassbender, “La sensibilité auditive du nourrisson aux paramètres acoustiques du langage et
de la musique”, in Naissance et développement du sens musical, organizado por l. Deliège e J. A. Sloboda, PUF. 1995, p. 7-38 e
p. 63-99; J. Mehler et al., “Discrimination de la langue maternelle par le nouveau-né”, in C. R. Acad. des Sciences de Paris, t. 303,
série Ill, nº 15, 1986. Em inglês: M.-C. Busnel, “Pre- and Perinatal audition and the relationship between mother and baby”, C.R.
Acad. Sc., Nova York, 1992, e “ls there prenatal culture?”, in Gardner et al, The Ethological Roots of the Culture, Kluwer Acad.
Publish, Dordrecht Netherlands, 1994, p. 285-314.
7 L. A. Petitto, P. F. Marentette, “Babbling in the manual mode: evidence for the ontogeny of language”, Science, março de 1991, vol.
251, p. 1.493-6.
8 P. Süskind, Le parfum, Fayard, 1986.
9 F. Dolto, op. cit., p. 212-3.
10 A. Green, “Un psychanalyste face aux neurosciences”, in La Recherche, nº 247, vol. 23, outubro de 1992, p. 1.166-74.
11 S. Kierkegaard, “La répétition”, Oeuvres complètes, ed. de l’Orante, 1972, vol. 5, p. 27.
12 Nesse caso, é a língua francesa que impõe essa associação, pois o nome do hospital (Trousseau) também quer dizer trouxa,
pacotinho. (N.T.)
13 Para uma versão humorística dessas situações, pode-se ler ou reler Raymond Devos, “Les oublis”, in Matière à rire , ed. Olivier
Orban, 1991, p. 379-82.
14 C. Simon, Le vent, ed. de Minuit, 1975.
15 B. Cyrulnik, Les nourritures affectives. ed. Odile Jacob, 1993, p. 59 sg.
16 Sua metodologia e seus resultados encontram-se descritos na sua obra prínceps: A. Piontelli, From Feto to Child – an
Observational and Psychoanalytic Study, Tavistock/Routledge, Londres, 1992. [Edição brasileira: De feto a criança, Rio de
Janeiro, Imago, 1995.]
17 M. Szejer, R. Stewart, Ces neuf mois-là, Robert Laffont, 1994. [Edição brasileira: Nove meses na vida da mulher, São Paulo,
Casa do Psicólogo, 1997.]
18 Título de um célebre artigo do psicanalista Didier Anzieu.
19 As reflexões que se seguem devem muito a C. Dolto-Tolitch, uma das pessoas que mais contribui para a defesa e a ilustração da
haptonomia na França. Aqueles que quiserem conhecer melhor a haptonomia podem consultar seus artigos: «Haptonomie pre- et
postnatale», in Journal de pédiatrie et de puériculture, nº 1, 1991, pp. 36-46; «Génération, espoir et souffrance», Actes du
colloque «Souffrances, quel sens aujourd’hui?», Eres, 1992, p. 111-2. De Frans Veldman, pode-se ler: Haptonomie – Science
de l’afféctivité, PUF, 1989.
20 Marie Thirion, Les compétences du nouveau-né, Ramsay, 1986.
21 F. Dolto, op. cit., p. 213.
22 F. Dolto, Séminaire de psychanalyse d’enfants, t. II, Seuil, col. “Points essais”, p. 174 sg.
23 M.-C. Busnel, intervenção no lV Salão internacional de Psiquiatria e sistema nervoso central, Paris, 19 de outubro de 1996.
24 A.R. Damasio, L’erreur de Descartes – la raison des émotions , ed. Odile Jacob, 1995. [Edição brasileira: O erro de Descartes
– emoção, razão e o cérebro humano, São Paulo, Companhia das letras, 1996.]
25 G. M. Edelman, Biologie de la conscience, ed. Odile Jacob, 1992. Ver em particular o capítulo 12, “Langage et conscience
d’ordre supérieur”, e o epílogo, “L’esprit sans la biologie: postface critique”.
26 G. M. Edelman, op. cit., p. 315.
27 Ibid., p. 322.
28 Ibid., p. 315.
29 J. Lacan, op cit., p. 891. [Edição brasileira, p. 905.]
30 Recorremos aqui ao hábito profissional de soletrar pela abreviação os dias que se seguem ao nascimento: D1, D2 ..., Dn.
31 B. Cyrulnik, La naissance du sens, Hachette, 1991.
32 B. Cyrulnik, op cit., p. 57 sg.
33 Ibid., p. 55.
34 G. Gelbert, Lire, c’est vivre, ed. Odile Jacob, 1994.
35 P. Valéry, Tel quel, Gallimard, “Pléiade”, p. 497.
36 J. Derrida, Résistances, ed. Galilée, 1996.
37 D. Stern, Le monde interpersonnel du nourrisson, PUF, 1989, p. 227.
38 Sobre a questão da relação entre o bebê e a mãe durante a mamada, ler A. Naouri, “La bouche et le vœu tu”, in Revue de
Médecine psychosomatique, set. 1987.
39 I. Rosenfield, L’invention de la mémoire, ed. Eshel, 1989.
40 I. Rosenfield, op. cit., p. 177.
41 B. Cyrulnik, Les nourritures affectives, ed. Odile Jacob, 1993, p. 61.
42 J.-P. Tassin, “Peut-on trouver un lien entre l’inconscient psychanalytique et les connaissances actuelles en neuro-biologie?”, in
Neuro-Psy., vol. 4, nº 8, 1989, p. 421-34. “Schizophrénie et neuro-transmission: un excès de traitement analogique?”, in
L’Encéphale, 1996, suplemento III, p. 91-8.
43 P. Quignard, Le nom sur le bout de la langue, POL ed., 1993.
44 A profissão de sage-femme (parteira, ver nota da p.17) começou a receber homens faz pouco tempo, mas o termo que os designa
continua sendo usado no feminino. É verdade que tantas palavras que denominam médicos especialistas não têm feminino em
francês...
45 Lugar de acolhida para as crianças pequenas e seus pais, criado por Françoise Dolto. Essa “Casa” propunha-se a preparar as
crianças pequenas para a entrada na escola. A freqüentação do local era livre; era um local de trocas tanto para os adultos como
para as crianças e contava sempre com a presença de um psicanalista. (N.T.)
46 D. Vasse, Se tenir debout et marcher, Gallimard, col. “Sur le champ”, 1995, p. 248.
Do nascimento ao limbo da vida

Todos os que me conheceram, todos


sem exceção crêem-me morto. Minha
própria convicção de que existo tem
contra si a unanimidade. (...) só isso
basta – decerto não para me matar –
mas para me empurrar para os
confins da vida, num lugar suspenso
entre céu e inferno, no limbo, em
suma.

Michel Tournier

O período de três ou quatro dias que se segue ao nascimento é um período incerto, porque nele
deve se decidir o nascimento para a vida simbólica. Chamemo-lo de período do limbo, para
significar a espécie de limiar sobre o qual ele mantém a criança na borda da vida. Ele é, como
veremos, o momento de uma escolha para o recém-nascido e também para os pais. Escolha de dar
lugar ao seu desejo inconsciente para a criança, escolha de reconhecer essa criança desejante e
singular para os pais. Quando, por algum motivo particular, os pais não estão mais lá logo depois do
nascimento, alguém tem de dizer para a criança que reconhece a sua história como sua para que ela
possa assumir seu desejo. Esse momento crítico do limbo revela-se em toda sua clareza clínica
através do baby blues e do parto em segredo. Embora o primeiro seja tão freqüente quanto o
segundo é raro, ambos levantam a questão crucial do vínculo e da comunicação entre o novo ser e
aqueles que o engendraram. Essa questão contém em germe toda a problemática da aceitação da vida
pelo ser humano.

Nascer para a vida


A criança nasceu, a criança está lá. Dois, três dias se passaram desde o parto. A mãe se
recupera lentamente de suas emoções e de seu cansaço. O pai diminui seu consumo de cigarros. As
eventuais cicatrizes (episiotomia, cesariana) ainda doem um pouco, mas a presença do bebê ajuda a
suportá-las. O bebê é uma maravilha, a gente não se cansa, mesmo grogue, de olhar para ele. Ele
perde um pouco de peso, mas os médicos dizem que é normal.
De repente, por um nada, sem saber por quê, a gente não suporta mais. Ou melhor, muda de
humor a todo momento. Durante uma hora a gente está feliz, e depois, subitamente, tudo vai mal: a
gente sente as dores decorrentes da descida do leite e logo pensa que “não vai dar conta do recado”;
o bebê está incomodado com um problema de digestão ou de regurgitação, e a gente vê nisso um sinal
de que é incapaz de cuidar dele; a gente pensa que tem “tudo para ser feliz”, e esse simples
pensamento deixa desesperadamente triste. Então a gente chora. Não uma lagrimazinha: uma
cachoeira! O bebê, sensível às contrariedades da mãe, põe-se a fazer eco. Ela, acreditando ver
confirmada sua idéia de que realmente faz de tudo para que ele não fique bem, chora mais ainda. Em
suma, a gente está com o blues, e o canta em solo e em duo.
Esse baby blues, o pessoal o conhece bem. No turno da manhã, escuta-se regularmente frases do
seguinte tipo: «tenho nove que choram, mas fora isso nada de grave». Ou então, vêm-me dizer: “A
Sra. Dos Santos chora demais”, “a Sra. Durieux chora de um jeito particular”, “O comportamento da
Sra. Taulay com o filho me faz pensar que as coisas não estão muito bem, ela não reage de fato em
função das demandas do bebê” etc.

Um mal dos mais comuns

Nada disso é de fato alarmante. Direi mais, e me explico: é legítimo de um ponto de vista
fisiológico, e sem dúvida até desejável. O baby blues “padrão” é muito freqüente em todo caso, afeta
de 70 a 90% das puérperas, conforme as estatísticas. Além disso, ele sempre aparece por volta do
terceiro ou quarto dia.
Por que nesse momento? Provavelmente porque ele corresponde a um ritmo, a um ciclo humano
natural: do lado do bebê, é o momento em que o tipo de comunicação que ele tem com a mãe muda.
Seus gritos, que até então pareciam uma reação imediata a suas percepções internas, tornam-se um
esboço de diálogo: a observação de CyruInik que relatamos no capítulo precedente o prova. Ele já se
dirige, senão a um outro constituído, pelo menos a entidades diferentes dele mesmo, e diferentes
entre si. A mãe, por sua vez, teve tempo de constatar que esse filho não é realmente parte dela
mesma. Se ela ainda esperava isso por meio de suas palavras amorosas – “meu pequeno”, “meu
bebê”... –, os cuidados que lhe são prodigalizados, as palavras da família e dos amigos que lhe são
reservadas, tudo isso pode lhe dar a impressão de ser posta um pouco para escanteio. Portanto, ela
está prestes a reconhecer que seu filho e ela fazem dois! Essa verdade, que ela decerto sabe
intelectualmente, deprime-a porque tem de vivê-la em seu corpo, em suas percepções e em seus
pensamentos. Aliás, a transformação de seu corpo, e particularmente a descida do leite que também
aparece por volta do terceiro dia, se dá na relação com seu filho. Também esse é o princípio de uma
troca.

Esse baby blues comum se resolve sozinho, e o pessoal interfere pouco, apenas facilitando um
contato íntimo entre a mãe e o filho. Não se deve, no entanto, confundir esse baby blues com
depressões mais acentuadas.
Psiquiatricamente falando, é o caso da depressão pós-parto em sentido estrito, que aparece mais
tarde. Ela costuma aparecer depois que a mãe volta para casa, embora, curiosamente, tudo estivesse
bem na maternidade. Também pode ser um baby blues clássico que se eterniza. É também o caso da
psicose dita puerperal, estado melancólico grave da mãe, com tonalidades delirantes, que também
pode aparecer sem qualquer relação com um baby blues aparente, ou, ao contrário, ser a degradação
inquietante de um baby blues. Observa-se com mais freqüência em sujeitos já conhecidos por sua
fragilidade, mas pode se declarar por ocasião de um primeiro parto, ou constituir como que uma
recaída num segundo nascimento. Sua freqüência tende felizmente a diminuir graças à maior
precocidade dos tratamentos medicamentosos e psicológicos.
Depressão melancólica, psicose puerperal, psicose do desmame são casos extremos que podem
estar relacionados com um drama da mãe: sua história e seu passado de sofrimento estão em questão,
muito mais que o presente do recém-chegado. Contudo, podem predispor a criança a entrar ela
mesma na psicose. Como disse F. Dolto, tal descompensação por parte da mãe é para o recém-
nascido “um fantástico apelo para que devolva sua própria vida (à sua mãe) para, mais tarde, sentir-
se no direito de largá-la e de ir embora. (É) um círculo vicioso do qual só conseguem escapar os
psicóticos, porque, para escapar, primeiro precisam reencher a mãe. Uma vez feito isso, ficam
fusionalmente atados a ela sem poder mais se separar (...) Se se pudesse explicar aos recém-nascidos
o que aconteceu, com eles, com seus genitores, eles não fariam uma depressão”.1 O psicanalista pode
intervir para que essa história entre a mãe e a criança seja minimamente explicada, e começar a
desfazer esse vínculo patógeno.

Poder-se-ia dizer: a cada um seu baby blues? Ou, para formular de outra forma a pergunta:
existe alguma mãe que não faça um baby blues? Sem dúvida existe, mas porque provavelmente são
mães que o anteciparam e preveniram durante a gravidez.
Os antropólogos nos dizem que em muitas sociedades africanas esse fenômeno não existe.
Nessas sociedades em que existe um ritual altamente simbólico de acolhida do nascimento e de
assunção da maternidade, o baby blues não existiria. Notemos que são sociedades que, por um lado,
levam o tabu do incesto muito a sério e de modo muito concreto, e nas quais, por outro lado, a
socialização é marcada por ritos de iniciação muito rigorosos, particularmente para os homens. A
idéia do que é o laço de parentesco é portanto transmitida nessas sociedades de maneira bem
diferente do que na nossa, e o enquadramento social desempenha nelas um papel estabilizador não
mais reconhecido na França.
Assim, dá-se uma importância particular aos irmãos, às irmãs e aos pares do clã em geral na
educação de um caçula. A coisa é menos freqüente sob nossos céus. No entanto, ela dá para a criança
uma dimensão identificatória totalmente diferente daquela que propicia o campo de batalha
individualista em que às vezes chafurdamos: quando a ideologia do “cada um por si” se impõe às
“meninas-mães”, como se dizia outrora com desdém, elas se encontram sozinhas contra todos, e seus
filhos têm como único referencial os prepostos da Caixa de salário-família!
Também é corrente na África negra que uma mulher carregue o filho até que ele atinja a idade
de dois anos; se as circunstâncias o impossibilitarem, outra mulher do clã materno a substituirá. A
criança é constantemente carregada, fala-se com ela o tempo todo, ela é inevitavelmente menos
vítima desses «buracos de palavra» que afetam tanto os pequeninos. Ao contrário, numa família
francesa de nosso fim de século, vê-se muito menos mulheres, parentes ou amigas, assistirem as
paridas. As solidariedades de antanho parecem menos presentes. As mães se «voltam» então para
seus companheiros, que, nem mais nem menos que outrora, sem dúvida não sabem lidar com os
problemas de uma puérpera.
Os homens, que decerto estão bem mais presentes nos primeiros momentos, na verdade só são
recebidos nas maternidades como maridos ou companheiros das mães, não como pais. Nos serviços
tudo é feito para as mães, sua barriga, suas cicatrizes, seus seios..., e toda abordagem do recém-
nascido só é tolerada em função delas. A paternidade só nascerá de fato no retorno à casa, quando as
mães lhes pedirão para se aproximar do bebê, trocá-lo etc.: são elas, e o bebê, que os farão pais.

Não se pretende negar que o baby blues possa estar ausente nesta ou naquela mãe, e que isso se
dê graças a uma assistência particularmente solidária do meio. Resta a questão de que esse baby
blues, tão freqüente, sobrevém num momento fundamental para os três parceiros – pai, mãe e filho -,
e que ele lhes coloca uma questão essencial sobre o que é a filiação. Às vezes isso extrapola a
intensidade normal. Ou seja, um dos três manifesta que sofre demais, e que não consegue resolvê-lo
sozinho. Pode ser a mãe ou a criança, mas também pode ser o pai, pois o pai pode fazer um baby
blues. É nesses casos que, via protocolo, peço aos pediatras, às parteiras, enfermeiras e
puericultoras para lhes propor um encontro comigo. Se nossa disponibilidade de tempo não
coincidir, poderão marcar uma hora no ambulatório.

O bebê dá o “lá”

Para descrever os choros sem pés nem cabeça das mães no quarto dia, fala-se de baby blues, de
blues do bebê. Deve-se entender isso em sentido subjetivo ou objetivo? Trata-se de blues ao bebê,
ou de blues que ele desencadeia? Em outras palavras, trata-se de uma depressão da mãe ou de uma
depressão do bebê? Pode-se responder num primeiro tempo: essa depressão tem a ver com os dois.
Não é suficiente. É preciso acrescentar: é o recém-nascido que desencadeia o baby blues na mãe. Da
mesma maneira como a descida do leite é suscitada pelos choros da criança, pelo menos por sua
presença, a depressão do baby blues é provocada pela criança.
Consideremos agora o caso em que a mãe não está com o filho perto dela. Essa ausência lhe
evita o baby blues? Tomemos as mulheres cujo filho foi transferido logo depois de nascer para a
reanimação neonatal a fim de receber cuidados particulares. Essas mulheres não fazem baby blues no
quarto dia. Elas ficam inquietas e deprimidas por causa da situação, pelo menos tristes com essa
separação imediata. Elas ficam deprimidas por ter de fazer o luto do que elas tinham imaginado ser
os primeiros contatos com seu filho, primeiros contatos estes que não puderam ter lugar depois do
nascimento. É uma depressão reativa no verdadeiro sentido do termo, uma depressão em reação a
uma situação difícil que lhes foi imposta. Mas isso não tem a mesma qualidade de depressão que o
baby blues, e não tem nem a sua tonalidade nem o seu “gosto”. Essas mulheres não dizem como no
baby blues: “estou chorando sem saber por quê, no entanto tenho tudo para ser feliz, mas não sou
capaz de cuidar do meu filho”. Elas dizem que é aflitivo estar separada do que foi sua carne e não
poder fazer nada para ajudá-lo quando ele sofre, porque as circunstâncias a impedem de fazê-lo. A
rigor, elas podem recriminar-se de não serem capazes de alguma coisa, de não ter feito um filho
sadio, coisa de que uma mulher em pleno baby blues só se recriminará excepcionalmente.
Tranqüilizemos o leitor: mesmo as mulheres cujo filho foi transferido para a neonatologia depois de
nascer fazem um baby blues, mas mais tarde. Elas esperarão... o reencontro! Geralmente, essas
mulheres põe-se a chorar, e não só de alegria, quando o filho volta para perto delas. A presença do
filho as desperta para a necessidade de festejar esse reencontro com um baby blues como manda o
figurino. Tampouco o bebê deixará de se manifestar, pois, lembremos, demonstrou-se numa recente
estatística que um bebê que foi imediatamente separado da mãe ao nascer chora muito mais em
quantidade do que aquele que pôde ser colocado sobre o ventre da mãe. No caso em que o bebê é
colocado sobre o ventre da mãe, ele trava conhecimento do mundo exterior – com ela –, o que é
totalmente diferente da situação em que ele foi afastado por alguns instantes para receber os
primeiros cuidados. No primeiro caso, ele tem menos motivos para chorar.
Da mesma maneira, conhece-se bem o caso dessas mulheres adotantes que, três ou quatro dias
depois da chegada em casa da criança adotada, começam a chorar e a entoar a tão conhecida
lamúria: “Não sei por que estou mal. É uma idiotice, fico chorando embora tenhamos esperado tanto
tempo por esta criança e a tenhamos desejado tanto, mas ainda assim não consigo parar de chorar.
Não venha me dizer que ele é uma gracinha, sei muito bem disso e isso me faz chorar mais ainda...”.
O baby blues não é apenas uma questão de hormônios, como crêem alguns. Esse estado decerto
encontra reforço no cansaço e na desestabilização hormonal, mas nem por isso trata-se de um sintoma
médico.

O baby blues é a história de um pequeno ser de carne e osso organicamente inacabado e


dependente, considerado imaturo em muitos planos, que no entanto decide que é a vez dele de
brincar. A vez de ele desencadear por sua presença um processo de troca com a única mulher que
conhece bem, sob a forma do que as pessoas maduras, mentalmente independentes e de grande
cultura, denominam o baby blues da mãe. Ele é, se não a causa, pelo menos a condição dessa
depressão. Sem ele ao lado da mãe, não há depressão. Deve-se ver a depressão da mãe como um
movimento seu de aspiração da necessidade ativa de comunicação do filho. Ao fazer isso, e em
troca, ela o solicita nesse lugar especificamente humano de ser um outro que ela tenta reconhecer,
nem que seja com alguns choros e ranger de dentes. Esta é uma dimensão especificamente humana, e
o momento do baby blues é um de seus primeiros passos. A maneira como a criança irá responder à
depressão da mãe marcará o começo da comunicação ativa. Até esse momento, repitamos, o bebê
chorava para exprimir sem mediação seu mal-estar corporal. Uma salmodia vocal sem comentários,
como a leitura das páginas de um anuário. Era dessa forma que outrora ele era entendido nas
maternidades. Os choros serviam de advertência, de intérprete automático e simultâneo de sua saúde;
para verificar se um lactente estava bem ao nascer, batia-se de leve nas suas nádegas para fazê-lo
chorar. Desde então evoluiu-se. Com o baby blues, a salmodia torna-se intencional e é «recitada»
nas nuanças dessas emissões moduladas de que falávamos antes. Se essa tentativa de comunicação
fracassar, todo o corpo passará a ser lugar da linguagem, via seus sintomas.

Essa tentativa de comunicação se dá por exemplo em torno da lactação, ou seja nessa zona de
apoio das pulsões orais sobre a satisfação das necessidades de alimentação de que Freud falava. Em
se tratando da lactação e do baby blues, diz-se: quando o moral cai, o leite desce!2 Basta lembrar da
dama de preto de quem falei no capítulo precedente. Tinham-me indicado essa mulher por causa da
tristeza inconsolável que a invadira, mas o apelo podia igualmente ter vindo de sua filha Eva que
chorava de sofrimento. Sua mãe relacionava sua culpa com a descida do leite que não ocorria – “nem
mesmo sou capaz de alimentar meu bebê”. Na verdade, o importante era colocar palavras no que
estava em jogo entre o luto, o nascimento e a ausência de leite. Essas palavras podiam provocar a
descida do leite e fazer cessar os choros porque endireitavam uma comunicação que se estabelecera
de modo “atravessado” entre Eva e a dama de preto. Depois de ter finalmente podido dar lugar à
filha como outro, ela que até então estivera oculta por trás da lembrança onipresente dos mortos, a
dama de preto pôde (re)encontrar a si mesma como mãe provedora, e Eva pôde ser acolhida.

O lugar tripartite do sintoma

É muito freqüente que o recém-nascido aponte o pai ou a mãe como aquele ou aquela com quem
é preciso falar. Este é um claro sinal de que o recém-nascido é ativo no desencadeamento do baby
blues. É de certa maneira o equivalente do que se vê nas crianças mais velhas com o pagamento
simbólico.3 Aconteceu de eu receber no meu consultório uma criança de menos de dois anos que
estava com seu pagamento nas mãos, mas que no entanto se recusava a entrar na sala. Aceitei, é
claro, que ela não tivesse sua sessão, desejo este que ela manifestava de forma enviesada, e me
voltei para a mãe para comunicá-lo a ela. Mal eu começara a lhe falar e ela se pôs a chorar,
encetando uma longa narrativa de seus próprios problemas... A criança, de certa forma, recusou o
pagamento simbólico para que eu escutasse a mãe e não ela. Transposto esse “obstáculo”, o trabalho
com a criança voltou ao seu curso normal nas sessões seguintes.

A criança pode apontar precisamente no discurso do pai ou da mãe “o lugar onde dói”. Certo
dia pediram-me para ver uma mulher porque a gravidez fora particularmente difícil. Essa mulher
caíra num estado depressivo no segundo mês de gravidez, e tivera rubéola no sexto mês, colocando
em perigo a saúde do filho. A razão de seu desmoronamento no segundo mês era a seguinte: ela
percebera que o homem com quem tinha concebido essa criança não era “feito para ela”: em poucas
palavras, ele estava “abaixo da crítica”. Compreendera naquele momento que vivendo com ele ela
tinha renunciado a tudo o que faz de uma mulher uma mulher: todas as suas aspirações à sedução, ao
gozo sexual, à cumplicidade tinham sido frustradas, contou-me ela. Por outro lado, pouco tempo
depois de ter ido embora para descansar, sua mãe, a avó da criança, fizera uma tentativa de suicídio.
Tentativa que minha paciente logo interpretara como um medo da avó de que sua filha, depois de ter
um filho, se afastasse dela. Essa avó parecia com efeito onipotente, exigindo tudo e mais um pouco
da filha, e considerando-a como o seu “bebê”. A mãe se entristecera, e sentira-se ainda mais
desamparada com o ato da avó: ela tinha de escapar à tutela da própria mãe, ela não podia mais ser
seu «bebê» se quisesse ser a mãe do seu. Logo em seguida falou-me de seu pai: um “bunda mole”, um
“imprestável”, incapaz de dar alegria a quem quer que fosse...
Cada vez que fazia um elogio desse tipo ao seu pai, o filho dela pontuava sua fala com um
gemido. O bebê reagia à idéia que a mãe fazia de seu avô como que para indicar onde a ferida doía!
O mais engraçado é que ele tinha razão, e sabia do que se tratava. A mãe, provavelmente entendendo
o que ele dizia, ficou pasma:
“– Quer dizer que estou tratando meu marido como meu pai? O bunda mole é meu pai, não meu
marido?
– Seria importante a senhora poder dar um lugar para esse pai que escolheu para seu filho...
– É isso, não o lugar do meu pai!”
Na verdade, o pai nada tinha do avô, longe disso. O “bunda mole” e personagem “abaixo da
crítica” impressionara os membros do serviço como o cúmulo da virilidade ostensiva e da
autoridade brutal quando ele ali comparecera por ocasião das ecografias. Preocupado com tudo, não
aceitando nada sem algum senão, chegando inclusive a vir a uma consulta no lugar da mulher,
parecera antes um super-homem conquistador, conforme palavras dos funcionários. Mas, para essa
mulher, o homem que ela tinha escolhido só podia ser semelhante ao pai em tudo, apesar das
evidências em contrário.
Quando revi pela segunda vez essa mulher a pedido dela, o peso da repetição tornara-se
perceptível para ela, e a condenação transformara-se em queixa: “Que fazer com um marido que não
assume concretamente sua paternidade?”. Esse homem com efeito não tinha qualquer paixão por
trocar fraldas ou dar mamadeiras, e parecia pouco interessado nos cuidados da criança. O desalento
revelado por sua queixa contrastava com a sedução estampada em seu modo de vestir e no deleite
que lhe dava relatar seus recentes sucessos profissionais. Ao vê-la assim recuperada e capaz de
assumir as coisas, aconselhei-a a transigir com o marido e dar-lhe tempo para se tornar pai. Ela
desejara essa filha, ele na verdade não. Era preciso contar com essa filha para fazer dele um pai,
agora ou mais tarde. Quanto a si mesma, ela estava convencida da necessidade de fazer um trabalho
próprio, e me pediu a indicação de um analista. Talvez ele a tenha ajudado a superar a constatação
que ela fez sobre seu marido no final de nossa entrevista: “É um homem à moda antiga, como meu
pai...”.

O recém-nascido, sua mãe e seu pai podem, pois, alternadamente, estar no centro do
questionamento induzido pelo baby blues. A questão que então se coloca é: se o lugar do sintoma é
tripartite, com quem falar? No que me diz respeito, eu nunca falo com um sem falar com o outro:
como os pais dificilmente estão presentes, falo pelo menos com a mãe na frente da criança, e com a
criança na frente da mãe. No caso de Karina, que se recusava a mamar, primeiro me dirigi à mãe
para aconselhar-lhe o pele contra pele com a filha. A irmã mais velha de Karina morrera quatro dias
após o nascimento, e seus pais, para afastar o azar, não tinham querido prever nada para a chegada
da caçula. Devo acrescentar um elemento que ainda não evoquei. Ao falar dessa criança “interdita”,
a mãe evocou uma coincidência que Karina logo sublinhou com movimentos ruidosos de sucção:
Karina é a caçula, assim como sua mãe é a última de sua fratria. A mãe percebeu que nunca havia
falado na frente da filha de seus próprios pais que moravam na Hungria e não tinham podido vir ver
Karina. Nossa entrevista consistiu a partir de então em simplesmente contar os assuntos de família,
tornando Karina testemunha do fato de que não estava limitada à sua família nuclear, mas provinha de
uma linhagem. Ela não estava mais no lugar da criança interdita, mas fora recolocada na cadeia de
seus ascendentes. Assim foi mais fácil para a mãe ter acesso a essa identificação com a própria mãe
necessária para as mães primíparas: é o identificar-se com a própria mãe que permite tornar-se mãe,
por sua vez, e essa identificação era ainda mais difícil no seu caso, pois se vira complicada por um
longo passado de esterilidade. Foi somente depois disso que me dirigi diretamente a Karina para lhe
dizer que, diferentemente de seu irmão mais velho, dependia apenas dela poder viver, se ela
decidisse se alimentar.
Falar com o bebê, falar com a mãe: as duas coisas me parecem necessárias, e não vejo nenhum
motivo a posteriori para mudar de posição. Com efeito, deve-se considerar, como F. Dolto, que «as
crianças falam seus pais e, inversamente, elas estão dentro dos pais». O sintoma funciona na tríade
mãe-filho-pai. Quando acontece de ele afetar a integridade do corpo da criança, isso pode se dar
através dos choros da mãe, ou de uma irritação do pai no quarto da maternidade. A criança também
pode ser mencionada como uma criança que não come, que não acorda, que rejeita... Em todos os
casos em que intervenho, procuro fazer com que possam ser atribuídas palavras a conteúdos do
inconsciente, com que eles circulem entre os três protagonistas e permitam que a fala deslanche.

Essa necessidade de um bem-dizer e de uma circulação da fala começa por uma denominação
correta dessas três pessoas. Como chamá-las? Em certas maternidades, chama-se as mulheres que
deram à luz de “mamãe”: fala-se da mamãe “do 15”, da mamãe do “pequeno Gregório”, “essa mamãe
que chora tanto”. Ninguém reclama, porque a intenção não é má. Mas uma puérpera é uma mulher
antes de ser mãe; quanto a ser “mamãe”, é aos filhos delas que está reservado o privilégio de chamá-
las assim. A menos que ao chamá-las de “mamãe” os funcionários estejam pensando na própria mãe!
Comentemos rapidamente o caso de pacientes mais velhas para quem as denominações dão mais um
passo na direção da inconveniência: “a vovó do 12”, por exemplo. Essas coisas sem dúvida não
seriam ditas se deixassem os pais estarem mais presentes nas maternidades. Infelizmente, não se dá a
eles um lugar digno de sua posição. Quando os pais podem dormir na maternidade, quando se lhes dá
o direito de vir a qualquer hora do dia e da noite, eles passam a ter aos olhos de todos um outro
papel, além de ser aquele que leva a roupa suja para casa. Eles têm mais tempo para fazer às suas
companheiras esses elogios que eles tanto gostam de fazer, para trazer flores que perfumam mãe e
filho tanto quanto embelezam o pai. O regulamento de muitas maternidades proíbe isso com
demasiada freqüência. É claro que um hospital não é um hotel, ao contrário do que seu sentido
etimológico poderia dar a crer. Mas será preciso alugar trailers nos estacionamentos do hospital para
esses pais cujas mulheres estão hospitalizadas há várias semanas em GHR (departamento das
gestações de alto risco), e depois na unidade canguru durante outras longas semanas, após o
nascimento?
Se o pai for reconhecido como homem não apenas pela mãe, mas também pela equipe
hospitalar, ele poderá nesse momento reintroduzir a feminilidade no pós-parto dessa mulher cujo
corpo foi mais ou menos maltratado. Pensemos num exemplo anódino: desde Leboyer, uma das
tarefas dos homens é dar o banho depois do nascimento. Muito bem. Infelizmente, acaba-se
esquecendo de pedir a opinião deles. Também eles ficam intimidados, muitas vezes podem ter
reticências em tocar o bebê. Alguns desempenham essa tarefa, vale dizer, a despeito do bom senso.
Mas será que alguém lhes esclareceu que o objetivo da operação não é lavar o bebê, mas associá-los
ao banho de corpo que começou sem eles?

O modo como nos apresentamos e nomeamos é de suma importância. Tive uma vez uma
estagiária que, no Brasil, de onde ela vinha, acompanhara um bebê desde os 10 dias até 1 ano,
segundo o método anglo-saxão de Esther Bick. Esse método prescreve ver a criança regularmente,
uma hora por semana, e respeitar escrupulosamente uma regra de «presença silenciosa» junto dela,
de modo a não induzir deformações no discurso do querubim. Com 1 ano, o garotinho a acolhera com
um “Vovó”. Ela me contava isso com um prazer nostálgico, como se se tratasse do triunfo de uma
transferência positiva. Permiti-me dizer-lhe que esse menino era bem educado, ou então que tinha
boas defesas, como ela preferisse. Pois se ele tivesse a idade para fazê-lo, em vez de perguntar-lhe
dessa forma se ela era sua avó, ele também poderia ter-lhe dito diretamente: “Mas quem é você,
afinal de contas, e porque você fica me olhando desse jeito?”. Esses são efeitos da sacrossanta
“pre​sença silenciosa” que abomino. Fui um pouco dura com ela, mas sei agora que ela já desconfiava
da minha resposta: ela não teria vindo de tão longe fazer um estágio comigo se não fosse por isso.
Para a criança que não fala, tenho certeza, é preciso articular alguma coisa. Pois, se você não
sabe disto, ela o sabe: ela já está na linguagem. É por isso que, por mais fútil que possa parecer,
nunca deixo de me apresentar quando entro num quarto. Não é uma mera questão de cortesia. Digo
quem sou e por que vim, aos pais e às crianças.

Para um psicanalista, falar às vezes leva a interpretar. Aqui, as feridas da criança serão sua
referência: aquelas que concernem ao comprometimento do corpo próprio e que estão vinculadas a
amputações das percepções sensoriais anteriores ao nascimento; mas também aquelas que concernem
à perda da relação interpsíquica entre o lactente e a mãe. A partir daí, a interpretação consiste em
palavras verdadeiras, em palavras apostas à história calada de um nascimento: essas palavras podem
ser as do analista, em função do que ele pôde escutar dessa história, mas podem também ser as dos
pais, suscitadas pelo enquadro psicanalítico da entrevista. O importante é que ela forneça uma saída
para o problema que a psicanálise tenta resolver desde sua origem: que a história de um sujeito
precisa ser pensada e dita a alguém. E que ela permita desviar a trajetória da repetição que leva o
sujeito para o impasse do sintoma.

A interpretação

A interpretação pode ser endereçada aos pais ou à criança, conforme o caso; de qualquer forma,
os dois (ou três) a terão escutado e entendido. É preciso insistir na presença do recém-nascido, no
sentido em que se diz que um ator tem presença. A criança pode reagir a uma palavra que a toque
com um movimento de cabeça, um espasmo, um grito...

Bem. Mas, e quando a criança está dormindo? Ela não está menos presente. Deve-se sempre
cuidar de falar da ou com a criança da mesma maneira como quando ela parece acordada. Pode-se
fazer barulho (comedidamente!) e falar perto do bebê sem perturbar seu sono, mas ele é incomodado
se o provocamos, por exemplo inclinando-nos sobre seu berço para lhe falar. Em outros termos,
quando nos dirigimos a ele, ele sempre responde presente! Sem comparar mais do que o necessário
ambas as situações, pode-se evocar a esse propósito o relato que F. Dolto fez das sessões analíticas
com uma pessoa em coma.4 Psicanálise não é reeducação, diz ela em suma a respeito desse caso
estranho e perturbador, e nossa vantagem é poder trabalhar como psicanalistas com pessoas que
dormem em coma. Essas pessoas, na passividade de seu coma, são extremamente receptivas, embora
evidentemente não se expressem. Elas têm um lembrança onírica do conteúdo da sessão, quando
conseguem sair do coma. O motivo disso, diz ela, é que para além da pessoa física “o sujeito do
desejo, o sujeito de sua história estão bem presentes”. Isso também me parece válido para os recém-
nascidos. A fortiori para a mãe deles: durante um parto cesariano sob anestesia geral, sugiro às
equipes que falem com a parturiente, que a informem da chegada da criança. Faço questão de ficar
cega aos risinhos que tal sugestão sempre provoca, pois sei que pelo menos a jovem mãe, ao
despertar, se sentirá menos frustrada ao saber que lhe permitiram participar dessa maneira. Tenho um
amigo cirurgião ortopedista, agora aposentado, que nunca deixava de falar com seus pacientes
adormecidos durante uma intervenção porque, dizia ele, isso os ajudava a se recuperar melhor e mais
rápido. Esse homem é não só alguém são de espírito, mas uma eminência em seu campo e
reconhecido como tal; talvez seu único defeito fosse ter se casado com uma psicanalista, e ter se
interessado pela relação entre a psique e o corpo...
A interpretação no contexto do pós-parto é antes de mais nada preventiva. Vejo essas crianças
em crises agudas, e a princípio não costumo revê-las fora do lapso de tempo que passam na
maternidade. Como já disse, esse tempo será de quatro dias para um parto normal, de sete em caso
de cesariana. Em tão pouco tempo, a interpretação feita à criança dos conteúdos inconscientes da
mãe ou do pai que afetam sua evolução visa a libertá-la do sintoma. Do mesmo modo, a interpretação
feita à mãe ou ao pai do que a criança questiona neles tende a permitir que eles reencontrem uma
harmonia entre sua história e sua maternidade (paternidade). Trata-se então de certa forma de
redistribuir as cartas embaralhadas pela nova cartada que é o nascimento. Pois, embora a partir daí
eles estejam em condições de iniciar uma nova partida ao sair da maternidade, nada garante que isso
seja tudo o que eles pedem ao analista. Aconteceu, por exemplo, de um casal e o bebê deles pedirem
para me ver quando eu estava ausente do hospital. Deram-lhes, pois, o endereço do meu consultório,
e foi lá que eles vieram me consultar. A demanda deles dizia respeito ao filho... e foi o pai que em
seguida acompanhei num trabalho psicanalítico.

O trabalho com o recém-nascido permite reexaminar o problema da interpretação. Com um


recém-nascido temos de nos perguntar de modo mais freqüente do que de costume: o que interpretei,
ou, o que interpretou quando ele abandona seu sintoma muito rapidamente? O que o psicanalista sabe
certamente importa, desde que ele esqueça seu saber: cabe a ele permitir que as palavras dos
protagonistas expliquem os nós que os apertam, no sentido latino do termo, ou seja, que os estendam,
os desdobrem. Quando há interpretação, pode ser a do analista, mas também pode ser a fala de uma
mãe ou de um pai que se revela por si mesma quando é testemunhada. Quando se diz que se
interpreta, pronunciêmo-lo à antiga:5 entre-presta-se, uma fala se entre-presta entre aquele que pede
ajuda por meio de seu sintoma, aqueles a quem esse sintoma se endereça, e o psicanalista que
mantém a exigência de fazer circular essa fala. Ouvi alguns testemunhos concretos disso por parte de
mulheres que vi com vários anos de intervalo, em vários partos sucessivos.

Vi a Sra. Ormani por causa de um baby blues subseqüente ao nascimento de sua primeira filha
Elsa. Essa criança estava internada na unidade canguru devido ao seu peso insuficiente, e ela não
manifestava nenhum apetite, para grande desespero da mãe. O parto fora difícil, em decorrência de
uma hemorragia da dequitadura. Sabe-se que F. Dolto via na hemorragia da dequitadura uma ameaça
para a criança, como se o intuito fosse “jogar fora a criança junto com a água do banho”. Esse
sofrimento do parto reavivara nela a lembrança das violentas crises abdominais em função das quais
fora hospitalizada aos 8 anos de idade, no mesmo momento e no mesmo hospital em que sua mãe
dava entrada... depois de um aborto. Ele também a lembrava a cesariana sofrida um ano antes para
pôr no mundo seu filho Alexandre, morto dez dias depois do nascimento. No dia de nosso encontro, a
Sra. Ormani conseguiu falar disso para a sua filha tomando-me como testemunha. Elsa sorriu ao
escutar seu relato, e logo depois pediu para comer. A Sra. Ormani ainda se lembrava disso três anos
mais tarde, quando a encontrei por ocasião de um novo nascimento: “Elsa está em perfeita forma,
sabe. Cada vez que houve algum problema, pensei de novo na nossa entrevista e no sorriso dela. Fiz
como fizemos naquele momento: contei-lhe o que estava acontecendo, e tudo entrava nos eixos.
Quando fui hospitalizada dois anos e meio atrás, expliquei-lhe que ela ia ficar na casa da tia dela na
Itália porque eu não estava bem. Contei a ela por que estava mal, e que iria me encontrar com ela
quando estivesse melhor. Ela entendeu e não houve qualquer incidente”.
Elsa estava melhor, mas a Sra. Ormani ainda corria perigo. Um trabalho sobre seu estado
depressivo quando do nascimento de Elsa possibilitou que, três anos depois, ela desse à luz em boas
condições, e na alegria, um filho, Guillaume. Como se vê, o que a psicanálise tem de apaixonante é
que seus progressos interessam tanto ao paciente como à análise: as interpretações se dividem (aqui
entre a Sra. Ormani e mim), e seus efeitos tanto podem ser imediatos (para Elsa) como a posteriori
(para a Sra. Ormani e, indi​retamente, para Guillaume).

Para falar do que é a interpretação psicanalítica, Alain Didier-Weill emprega uma preciosa
metáfora musical. Para tanto forjou o termo nota azul [note bleue], derivado da blue note cara aos
jazzmen. Essa nota azul é aquela que o ouvinte espera no auge de seu prazer de escuta, quando ela o
“leva a esperar o apelo de uma certa nota que ainda não está lá, mas cuja tensão, produzida pelo
encontro entre a harmonia e as notas melódicas já tocadas, (o) faz supor que não é vão esperá-la”.6 É
o silêncio que se segue a uma obra de Mozart e que ainda é Mozart, segundo a famosa expressão.
Não se trata apenas, como para aquele que tem noções de história da composição, do prazer de
terminar uma frase de Verdi ou de Louis Amstrong que eles não escreveram, “à maneira de”. Pois,
afinal de contas, isso seria mais difícil com Bach ou Coltrane. Trata-se antes dessa nota esperada e
ainda assim inesperada que, ao ser escutada, “me faz transpor um limiar que, sem ela, eu sem dúvida
não teria ousado transpor – limiar de um mundo cuja novidade extrema deve-se ao fato de que, nele,
reina o poder do inaudito: poder de me despertar, mostrando-me que tudo o que eu podia ouvir de
sensato até então estava, sem que eu soubesse, sob o ascendente do inaudito”. Essa esperança, esse
inaudito, essa espera são o que o recém-nascido grita para quem quiser escutar, e não resistimos a
traçar o paralelo entre o blues do bebê e a nota azul [bleue]. A psicanálise é eficaz, paradoxalmente,
porque não deixa de ser uma arte. Quer ela tenda para a poesia, como esperava Lacan, ou para a
música, como sugere Didier-Weill, a interpretação, tal como a nota azul, tem de se condensar num
“significante despojado de todo sentido, junto do qual todas as outras notas articulavam o sujeito que
eu ignorava ser”. Ela possibilita o acesso a esse limiar de que se falou acima, ele mesmo eco desse
passo transposto pelo recém-nascido no baby blues: o limbo da vida.

No limbo incerto

Para o feto, desejo e necessidade confundem-se


A ética do feto, dizia F. Dolto, é o vampirismo: primeiro viver e crescer, por todos os meios!
Ele aspira o líquido amniótico e ao mesmo tempo sensações. Nele, desejo e necessidade confundem-
se, não estão desintrincados. Essa hipótese é ligeiramente diferente daquela que os psicanalistas
aprendem a distinguir em seus pacientes mais velhos que já aprenderam a língua, ou seja, a
necessidade, o desejo e a demanda.
A história do pensamento humano não se resume à questão ontológica, mas nosso campo ficou
marcado pela questão da alma e do corpo, mais recentemente do inato e do adquirido. Habituamo-
nos a distinguir a máquina humana e suas necessidades do ser de linguagem com seus desejos,
mantendo um fosso que os separa. À ciência, à técnica e à medicina caberiam o estudo e a
codificação das necessidades humanas, que fazem do corpo uma imagem definível, reprodutível
quando não digitalizável: dos clones à ecografia, o embrião e o recém-nascido representam nesse
sentido um campo de investigação dos mais avançados. Para o resto, isto é, para o ser humano na sua
singularidade e em seus desejos, o século XIX inventou as ciências humanas: cabe a elas, no
formigar de suas diferenças, quando não de suas contradições, encontrar as pequenas diferenças, as
exceções, os desvios das regras de escrita enunciadas por “a” ciência. Entre ambas, sobra
desdenhosamente um deserto para as especulações filosóficas ou teológicas.
Ora, para um psicanalista que trabalha com recém-nascidos e também se interessa pela vida
pré-natal, corpo e linguagem, desejo e necessidade, são uma coisa só. Não se pode separar
ficticiamente um do outro. O corpo da criança nasce para várias articulações da linguagem. Por um
lado, ele vem no banho de linguagem constituído pelas gerações que o precedem: o projeto de filho
de seus ascendentes diretos, os ditos e não-ditos que presidem à sua concepção, mas também as
eventuais pendências que remontam a gerações antecedentes. Em relação a isso, nota-se que a
história dos baby blues está repleta de alusões ligadas a uma tia, um avô etc. As indagações dessas
alusões, remanejadas em cascata nos sucessivos elementos da linhagem, confluem para os choros do
baby blues, manifestando o buraco de palavra que até então servia de resposta. Mas, por outro lado,
quando essa própria criança adquirir a língua dita materna, apropriar-se-á ao mesmo tempo desse
espaço potencial de linguagem, conforme as palavras de Lucien Kokh, isto é, de um espaço de
linguagem que já estava em conversação entre pelo menos três gerações.

O problema surge quando essa confusão entre necessidade e desejo perdura depois do
nascimento, porque nenhuma fala dos pais veio reiterar o corte fisiológico do cordão umbilical. É
nesse momento que as pulsões orais canibais do lactente poderiam se desencadear. É de extrema
importância significar para o lactente a diferença entre desejo e necessidade, para que a psicose não
se instale. F. Dolto citava em relação a isso o exemplo daquela criança que, embora fosse
maravilhosa, mordia tudo o que se encontrava ao seu alcance. Não era aceita nas instituições, nas
lojas, nos parques etc., porque, apesar da sua viva inteligência, ela constituía um perigo público.
Dolto explica que ela entendeu o que acontecia com aquela criança ao ver a mãe amamentar o irmão
caçula. Ela o alimentava em silêncio, e em vez de lhe falar beliscava e manipulava todas as partes de
seu corpo, sem parar. Em suma, ela criava nele bocas por todo o corpo, ela o sugava, o canibalizava
pelo toque. A mãe não distinguia entre o que era a necessidade de alimento da criança e o prazer da
sucção, aprisionava-o numa “violência amorosa” que F. Dolto resumiu numa frase dirigida à criança:
“Ela tinha necessidade de tocar você e você achava que isso estava certo; e você achava que, quando
se gosta dos outros, deve-se mordê-los e comê-los”.7 Não se trata evidentemente de desencorajar as
mães que acariciam seus bebês enquanto os alimentam, ao contrário. Trata-se de sublinhar quão
importantes são as palavras de amor com que elas acompanham as mamadas na maior parte do
tempo.

Há quem diga, baseando-se numa similaridade com uma fusão da vida pré-natal que não existe,
que o problema do baby blues é desfazer a fusão entre a mãe e seu filho. Como há fusão entre feto e
matriz, poderia haver fusão entre determinado recém-nascido e sua mãe quando ela estivesse
próxima demais dele por seus afagos, suas confidências, sua proximidade imaginária com ele. Já nos
referimos à fusão feto-mãe, apenas voltaremos ao tema com uma observação: desde o momento em
que a placenta assume a manutenção da gravidez pelos hormônios placentários, a fusão entre mãe e
filho já se desfez. Ou seja, no quarto mês depois da concepção. Nos primeiros dias, trata-se
simplesmente de uma multiplicação das mitoses de células; mas a partir do quarto ou quinto dia
aparece a primeira diferenciação celular, e o ovo migra para o útero. É a nidação no útero dessa
mórula, desse pequeno ovo fecundado, que provocará na semana seguinte o aparecimento do
trofoblasto e das vilosidades coriais. O trofoblasto, esse precursor da placenta fabricado pela
criança a título provisório, já é um intermediário entre o feto e a mãe. E se há intermediário, é
porque há troca entre a mãe e a criança: em nenhum caso há fundamento para dizer que eles fazem
apenas um. É por essa “boca placentária” que a criança respira, se alimenta e toca a mãe.
Outros ainda traduzem essa idéia de fusão dizendo, tal como o professor Lebovici num
programa de televisão: “Bebê, eu só conheço nos braços da mãe”.
Com isso querem dizer que ambos estão ligados em suas sensações. Eles se baseiam numa
realidade clínica inegável: o bebê, nos primeiros dias, faz coro com as emoções da mãe, mas essa
hipersensibilidade regride progressivamente. A intensidade desses ecos enfraquece-se
progressivamente, sem que jamais desapareça por completo. Mas isso é suficiente para dizer que
eles fazem apenas um? O baby blues aí está para permitir que afirmemos, ao contrário, que são as
palavras pronunciadas ao bebê que lhe dão sua autonomia. Dando sentido a suas emoções, essas
palavras e os desejos que elas veiculam permitem que ele as “pense”. Dessa forma, instauram a
criança na sua dimensão de sujeito desejante autônomo, decidido a enfrentar seu próprio futuro.

Gérard, um recém-nascido enlutado

Se o feto tem algum desejo, é o de viver. Ele o realiza para além de toda esperança: Marie
Thirion, pediatra, notava que 950 crianças em cada 1.000 nascem normalmente constituídas. Taxa
excepcional, se pensarmos bem. Ela supõe que isso só é possível graças a uma troca, uma
comunicação forte com a mãe: “Para viver depois de nascer, exatamente como nos primeiríssimos
dias após a fecundação em que sua nidação uterina condiciona imediatamente sua sobrevivência ou
sua eliminação, um recém-nascido tem de se enraizar em algo que vive, tem de se implantar numa
relação humana”.8
O parto, porém, modifica essa relação, fisiologicamente é claro, mas também psiquicamente.
Ele representa uma ruptura radical e ao mesmo tempo um salto no desconhecido. Basta dizer que a
eventual angústia de uma mãe não se transmite da mesma maneira que no período pré-natal, fosse
apenas porque a resposta do recém-nascido modifica mais facilmente o comportamento da mãe. Diz-
se que o recém-nascido é indefeso, que está nu diante da vida. O que chama a atenção é sobretudo o
fato de ele não oferecer resistência ao que vem de fora. Isso se nota particularmente no modo como
ele recebe as interpretações. Não que ele seja mais ou menos permeável que uma criança mais velha,
mas ele não oferece praticamente nenhum obstáculo a essas interpretações.
Há quem se espante com o efeito radical e fulgurante das interpretações, e fala-se de magia. Não
há nada de magia na reviravolta desses recém-nascidos que conseguem abandonar em algumas horas
o sintoma que os ameaçava, às vezes em suas funções vitais. É preciso pensar que, na psicanálise de
adultos, o trabalho de rememoração é mais longo porque as «camadas» a atravessar são inúmeras.
Alguns adultos gravemente neuróticos são nesse sentido como mutilados da troca e do pensamento. A
história deles é feita de palavras infelizes, de palavras faltantes, de estratos que equivalem a muros
contra os quais eles vieram se chocar no sentido quase corporal do termo. Desenvolveram, portanto,
certo número de defesas, de formações reativas contra suas próprias capacidades de troca e de
pensamento que os levaram ao sofrimento de que padecem. Perdidos nos estratos de sua história,
precisam de tempo para reencontrar a confiança na palavra do outro, e portanto na deles próprios.
No entanto, mantêm uma sensibilidade intacta para a articulação quase corporal de seus distúrbios. O
problema é conseguir atingir essa sensibilidade.
Ela é mais rapidamente acessível no recém-nascido, pois os estratos não são tão numerosos.
Mas eles existem, pois o recém-nascido de 3 dias não é de hoje: ele tem um passado de quase nove
meses atrás dele! Seu sintoma, quando ele existe, pode revelar-se como sendo o a posteriori de um
acontecimento anterior ao nascimento: uma patologia fetal ou um choque pré-natal, por exemplo. Mas
o recém-nascido entende mais rápido o que lhe permite ingressar na vida simbólica.

Aprendi isso graças a um menino como Gérard, que passara suas primeiras 48 horas de vida
chorando na sua incubadora da unidade canguru. Esses choros eram de fato inquietantes, pois a
médica responsável, que geralmente recorre pouco à minha ajuda, veio pedir minha intervenção, para
ele e para sua mãe, a Sra. Ruyckert, que parecia sofrer muito. Propusera portanto à Sra. Ruyckert a
minha intervenção, e a pedido da mãe conversei com ela e com Gérard.
Nessa entrevista, ela me falou primeiro de sua gravidez, uma gravidez gemelar espontânea e
desejada: uma menina e um menino (nosso Gérard) tinham sido concebidos. Os Ruyckert tinham
“dividido” de antemão seus filhos entre si: para a senhora, a menina, o menino para o senhor. Cada
um tinha escolhido o nome do «seu». A Sra. Ruyckert chamava a filha de “minha filhinha” e seu filho
de “o outro”. Mas logo fora detectado um retardo de crescimento intra-uterino da menininha,
exigindo um acompanhamento rigoroso desde então. O moral da Sra. Ruyckert não fora muito
afetado, pois ela nada quis saber do risco existente: se o monitoramento estava bom, tudo daria certo.
Ela simplesmente acariciara bastante sua barriga no lugar em que se encontrava a filha, para
confortá-la. Quando a paciente finalmente tivera de ser hospitalizada no setor de GHR (gravidez de
alto risco), descobriu-se que a menininha morrera in utero aos sete meses e meio de gravidez. Em
caráter de urgência, os médicos praticaram uma amniocentese para tentar compreender o motivo
dessa morte. O exame revelou um líquido amniótico escurecido, que pode fazer pensar numa
infecção, perigosa para a saúde da criança sobrevivente. Os médicos, que não queriam correr
nenhum risco com essa segunda criança, logo fizeram uma cesariana na Sra. Ruyckert. Foi assim que
Gérard nasceu, com um peso de nascença que justificava sua admissão na unidade canguru e a
colocação em incubadora.
“Nada poderá me consolar, me diz ela, era a minha filha, ela está morta para sempre. O outro
também chora, mas ele não tem como saber o que isso representa para mim.” Durante a sessão,
oriento essa mulher a falar sobre sua linhagem materna. Fico sabendo que a bisavó de Gérard, a avó
da Sra. Ruyckert, também era gêmea. Essa mulher logo ficara viúva com quatro filhos, sem muitos
recursos, e os criara de maneira muito dura. A Sra. Ruyckert chegou a falar de maus-tratos sofridos
por sua mãe. Para essa avó, tudo estava destinado às crianças de sexo masculino. Somente os
meninos tinham de estudar, e as meninas tinham de servi-los. Logicamente, sua mãe foi trabalhar de
empregada doméstica com muito pouca idade, para sustentar a família. O dono da casa, que tinha
perdido a mulher, seduziu-a e a engravidou. Essa criança, que o pai reconheceu, era a própria Sra.
Ruyckert. Logo depois veio um filho, que foi adulado, enquanto a Sra. Ruyckert passava para
segundo plano. A primeira parte de sua vida de adulta foi pura instabilidade afetiva e conflitos com
sua mãe, até que ela conheceu e se casou com o Sr. Ruyckert, de novo um homem “de outro meio”.
Antes mesmo de comentar esse destino digno de um Dickens, considero indispensável e urgente
explicar as coisas para Gérard:
“Você nunca mais verá sua irmã que estava com você na barriga da sua mãe, o que você pode é
guardá-la em seu coração. Ela não nasceu viva, ao passo que você escolheu nascer e viver”.
Se falo assim com a criança do luto a fazer de sua irmã é porque as coisas que acontecem sem
que se fale delas levam às vezes a funestas confusões. Que Gérard chore a sua irmã é algo
concebível, mas que ele esteja inconsolável só se explica se imaginarmos que a tristeza vem de outro
lugar e espera ser nomeada.

O ser humano é feito de tal modo que no mais profundo luto ele deve encontrar repouso. É
preciso um tempo para comer, um tempo para dormir, “talvez para sonhar”, com o desaparecido, por
exemplo. Numa palavra, é preciso viver para chorar o morto, a não ser que se caia na melancolia.
Essa sem dúvida é uma das duras leis do espetáculo da vida: “The show must go on! O Rei está
morto, viva o Rei!”. A dificuldade para Gérard de se persuadir disso é ainda maior porque ninguém
lhe contou o que tinha acontecido.
Vi uma criança da minha família, que eu acompanhei ao enterro do avô, assistir imperturbável à
cerimônia, e depois chegar no ouvido da mãe e lhe dizer: “Foi triste. Espero que a próxima vez que a
gente vir o vovô, seja em casa!”. Na dor do momento, simplesmente tinham esquecido de lhe explicar
o caráter definitivo da morte. Como poderia um recém-nascido se situar, se uma criança mais velha
pode passar ao largo de verdades subentendidas?
Na minha prática, sempre que possível intervenho esclarecendo os dados para as crianças que
nasceram depois de uma morte. Vejo nisso, inclusive, uma importante questão de prevenção nos
casos de morte in utero, de redução embrionária, de antecedentes de morte súbita do lactente, até
mesmo de IVG ou de IMG (interrupção voluntária de gravidez / interrupção médica de gravidez), de
luto não feito de um filho morto ou de aborto espontâneo. Geralmente, os próprios pais falam com
seu filho. Mas às vezes eles se abstêm, seja porque sua dor os deixa mudos, seja porque sejam
pudicos (“não queria lhe contar para que ele não sofresse”), seja simplesmente porque não pensam
em fazê-lo. Nesses casos, é preciso que um terceiro intervenha: uma parteira ou um pediatra que
conheça bem a família e se sinta forte o suficiente para fazê-lo, por exemplo. No entanto, o tato é
imprescindível, pois não se trata de passar “por cima” da vontade dos pais. Mas, sensibilizando-os
para a importância da explicação dada à criança, ou aproveitando um eventual sintoma que exigisse
uma resposta desse tipo, pode-se dar à criança a possibilidade de sair de um silêncio que pode ser
patógeno.

Mas retomemos o fio da conversa entre a Sra. Ruyckert e mim. Disse-lhe que a sua filha, tão
privilegiada, me parecera ter sido investida por ela da tarefa de vingar e reparar o dano causado às
duas mulheres desprezadas das gerações precedentes. Acrescento uma brincadeira em forma de um
desejo em relação a ela: sendo seu mais velho um menino, a filha que ela pudesse ter no futuro
certamente estaria livre da carga de conjurar a maldição das filhas mais velhas da família! Ela
parece gostar da interpretação, e termina a entrevista com uma interrogação: o que fazer com o corpo
do feto morto? Ela só teria pensado em enterrá-lo ou cremá-lo se o bebê tivesse nascido vivo e
tivesse morrido rapidamente. Mas, e agora? Ela tinha mandado registrar o nome da criança, mas isso
não resolvia o problema que lhe colocava esse corpo.
Tenho notícias dela alguns dias depois. Não obstante esse resto de não-pensado sobre o lugar
da criança morta, Gérard e sua mãe estão radiantes. Para mim, restam algumas perguntas. Em meu
foro interior, pergunto-me se a gêmea não morreu pela enormidade desse peso que pesava sobre ela:
terá ela se sacrificado no altar da neurose familiar? Que desejo de vida do feto, submetido aos
significantes da história materna, foi afetado ao ponto de não conseguir nem crescer suficientemente
nem nascer? Se a ética do feto é viver, o que acontece com aqueles que renunciam no meio do
caminho? Não disse nada disso àquela mulher. Isso só teria por efeito reavivar uma culpa que a
entrevista tentava justamente conter, essa culpa que vem com a maioria das mortes in utero e dos
partos prematuros, e que faz as mães dizerem: “Não consegui levá-lo a termo!”. Essa culpa que
encobre uma idéia de onipotência materna, que submete a vida e a morte do filho a seus próprios
acasos conscientes e inconscientes. Formular como postulado a existência do desejo do feto e
expressá-lo à mãe pelo menos permite que essa onipotência opere um compromisso que possibilite o
luto.

Do nascimento à vida simbólica, um passo tem de ser dado, e esse passo tem de vir
acompanhado de palavras. Pois, depois do parto vem o nascimento do sujeito. É o momento crucial
do baby blues.
O momento de o recém-nascido se tornar sujeito depende certamente dele. Mas também depende
de seus pais e do momento em que eles podem autorizá-lo a ser ele mesmo. Até então, a criança se
encontra numa situação incerta: o real do nascimento ocorreu e a abalou; digamos que ela ainda não
se recuperou. Quase todas as crianças, observem-no, são relativamente boazinhas e calmas até esse
momento. Dormem e se restabelecem de suas emoções. É um período de limbo: “não estou mais
dentro da minha mãe, mas ainda não estou totalmente entre vocês; dêem-me um tempo”. Elas estão
ali, mas ainda estão alhures. Aparecem o baby blues, a descida do leite e choros, as modulações
fônicas da criança, e é o a posteriori do nascimento que as desperta para uma nova vida. Lembremos
de Karina, que tinha tanto medo de nascer: ela ficava no limbo de um nascimento não realizado por
falta de sustentação na segurança parental.
É certo que cada criança tem sua personalidade, e algumas abrem bem os olhos, curiosas que
estão do que acontece em volta delas. Outras, ao contrário, manterão os olhos fechados por algum
tempo, preferindo sem dúvida não saber demais do que se diz «fora». O fato é que esse período
indeterminado do limbo, esse momento do ser adormecido que precede o baby blues, é clinicamente
observável.

Baby blues, mummy blues, daddy blues

A ação que vem consagrar o baby blues é da ordem da castração, precisamente do que F. Dolto
chamava a castração umbilical (ela às vezes também dizia castração fetal). É no momento do
despertar da criança e dos choros da mãe que pode se operar essa reiteração do corte do cordão que
ocorreu três ou quatro dias antes.

Castração fetal

Esse corte, simbólico dessa vez, afeta a criança porquanto ela depende dos pais. É na medida
em que essa castração umbilical se inscreveu para eles, na medida em que eles possam reconhecer o
recém-nascido como alguém que não se reduz a ser apenas o fruto de sua carne, que eles possibilitam
a essa criança o acesso à metáfora paterna: “você é o filho nascido de nosso desejo, como cada um
de nós foi o de nossos pais, e assim por diante até o começo dos tempos. Sua vida está marcada por
essa história, agora cabe a você afastar-se dessa marca, honrando-a sempre, para dela fazer uma vida
singular e inédita: a sua”.

Isso pressupõe por parte dos pais a aceitação de uma perda irreversível, que nem sempre é
fácil. Quando ela não é possível, a criança o paga com sua saúde psíquica: ela fica então no lugar do
sintoma, como “apêndice do gozo dos pais”, segundo a expressão de Lucien Kokh. É como se os
pais, em vez de inscrevê-la no simbólico, preferissem que o corpo da criança continuasse da ordem
do real. No no man’s land do limbo, o recém-nascido está no espaço intermediário entre o real de
seu nascimento e seu advento simbólico. À espera da afirmação primeira de seu ser-entre-os-outros
(Freud falava de Bejahung, enunciado afirmativo), ele fica como que à mercê de um julgamento
salomônico, nascido mas ainda não outro aos olhos de seus ascendentes.
Para retomar o continuum que vai do nascimento ao baby blues, direi que há dois momentos
princeps. O cataclismo do nascimento em primeiro lugar: além da violência da chegada à vida aérea,
é a brutalidade da passagem das percepções pré-natais para novas percepções de um mundo
desconhecido. É este o drama da dequitadura placentária. Segundo tempo: por volta do terceiro ou
quarto dia, no baby blues, é a castração umbilical que vem desfazer o peso desse cataclismo. É uma
castração simbolígena, no que ela tem de linguagem e no fato de que faculta o acesso a uma
comunicação com o outro. Ela é um esforço de nomeação – «é um menino», “é uma menina!” – e ao
mesmo tempo o reconhecimento do lugar singular da criança numa linhagem que vai além de seus
pais. São essas palavras ditas em relação ao nascimento, conotadas da alegria ou da inquietação que
elas veiculam, que a criança registra como uma fita magnética. Essa castração contém em si mesma
uma outra castração, imaginária, dos pais, “não, esse filho não é uma coisa nossa ou nosso objeto,
nem uma bonequinha falante”. Essas duas castrações são a fonte do poder de simbolização da
criança, elas condicionam sua liberdade futura. Como o resumia F. Dolto: “É da falta de palavras
que ela sofre. É falando ao seu filho desse vínculo [entre ela e ele] que a mãe vai conseguir parar de
olhar para ele como um objeto parcial dela mesma, e concebê-lo como um outro real. Trata-se,
portanto, de dar a castração do lado da criança e do lado da mãe. É a castração que permite que a
criança se identifique ao indivíduo de mesmo sexo exclusivamente, dando acesso ao Édipo”.
Falamos de nascimento simbólico no momento do baby blues. A criança imaginária, como
dissemos, pode perfeitamente coabitar com a criança real de carne sem ameaçá-la. Nenhuma
necessidade de fazer o luto dela. Se algum luto há a fazer para a mãe é o do feto e da gravidez, e sua
“substituição” por uma nova relação mãe-filho referida ao pai e ao seu nome. É o que as palavras de
uma mãe, no mais profundo de sua depressão, dizem: “Antes, era tudo para mim. Agora, é tudo para o
bebê”. Elas vivem a si mesmas como o dejeto, o resto de uma divisão no sentido algébrico. A mãe é
confrontada com algo que a supera por todos os lados: de real, a criança se torna simbólica, e essa
distância é difícil de transpor.
O começo da utilização da voz com fins de comunicação, no quarto dia, é uma simbolização,
uma realização, como diria Bion, do espaço potencial de linguagem de que falávamos. As
modulações da criança são expressões concretas que correspondem a uma estimulação e um
despertar do cérebro, realizações fônicas. À medida que se dá a realização fonatória do lactente, a
conformação de seus gestos e seu funcionamento corporal são mentalizados. São dois funcionamentos
paralelos: por um lado ele reage mentalmente aos sons, palavras, falas, potencialmente carregados de
sentido que são trocados entre ele e seu meio; em primeiro lugar aos de sua mãe, de quem ele é o
enxerto de corpo primeiro. Por outro lado, o funcionamento de seu corpo reproduz a expressão oral.
Isso provoca confusões, como a de reservar à linguagem oral do ser humano o lugar de uma
expressão bruta, enquanto a linguagem escrita seria o asilo natural dos conceitos e do pensamento.
Isso contradiz o que escutamos dos recém-nascidos. Não esqueçamos as palavras de Gisèle Gelbert
sobre a primazia dos circuitos que levam ao “proposto oral próprio” no humano; para ela, também, é
o oral que condiciona a potencialidade do escrito. O lactente, filho da linguagem, é um pensador: ele
reage em função do modo como as coisas reagem em torno dele. Suas emoções-sensações não são
simplesmente afetos, mas as primeiras modalidades de suas capacidades de pensar. Inversamente,
notava F. Dolto, nos lactentes precocemente separados da mãe e a quem nenhuma palavra foi dita em
relação ao nascimento, observam-se um «retardo e defeitos de linguagem, enganches da língua no
palato que tornam impossível toda pronúncia ou parte da pronúncia dos fonemas. São gritos que são
expulsões contínuas de sons, ou, ao contrário, a ausência total de sonorização por falta simbólica da
laringe na qualidade de lugar de prazer ativo para as modulações de comunicação».

Castração da mãe

Do lado da mãe, a castração consiste em aperceber-se de que ela tem diante de si um


verdadeiro ser humano, um sujeito bebê. Ela sem dúvida deve se sentir na situação de um prestador
de serviços a quem se agradece com um sorriso pelo fantástico trabalho realizado, mas a quem
depois se agradece secamente, e sem sorriso, porque não se tem mais necessidade dele. É para ela o
momento de perceber que, embora seja a autora de seu filho, não é a única. O corpo do filho era
locatário do seu, mas nem por isso ela é sua proprietária. Ela precisa de certo tempo para mentalizar
essa distância entre ela e o filho. É o tempo do limbo, e o do baby blues que o encerra.
Isso exige dela uma renúncia, pois ela já não pode deixar de reconhecer que o futuro do filho a
ele lhe pertence. É claro que ela vai influenciar seu desenvolvimento, mas ele já terá começado a
construir um lugar para si. Que ela possa reconhecer esse lugar que ele ocupou depende daquele que
lhe tiver sido outorgado na sua primeira idade. Terão ou não terão permitido que ela se situasse
como outro, como individualidade singular na sua linhagem? Muitas vezes é essa a questão que
ganha a frente da cena por ocasião do baby blues.

Esse problema de lugar a ocupar pelo bebê tem uma dimensão física para os recém-nascidos
que não conseguem recuperar o peso após alguns dias. É muitas vezes como que o eco do lugar
inencontrável da mãe depois do seu próprio nascimento. É por isso que um baby blues tantas vezes
cede a partir do momento em que se possa falar das relações da mãe com sua própria mãe.
Penso naquela mulher que encontrei por ocasião de seus dois partos – de seu primeiro filho,
Joseph, e de sua caçula, Laure, no ano seguinte. Quando teve o primeiro filho, estava desesperada,
achando que não conseguiria amamentar. Esse desejo contrariado provinha para ela da obrigação
inconsciente que se impunha de não seguir o exemplo materno: sua própria mãe não amamentara
nenhum de seus cinco filhos, e era uma opositora ferrenha do aleitamento ao seio. Pouco depois do
nascimento, o casal quis fazer do batizado uma grande festa familiar. Péssima idéia, pois a festa
converteu-se na exibição dos dramas familiares. O irmão menor dessa mulher recusara-se a
comparecer à recepção e sua mãe fizera a mais velha pagar pela defecção do caçula, pondo uma cara
de enterro pouco apropriada à circunstância. Ao contar-me isso, essa mulher percebeu que ela fora
relegada em proveito do irmão durante toda sua infância, fato esse que sempre quisera ignorar. Cada
um tira proveito de seus infortúnios para obter um pouco mais de esperança, e essa mulher encontrou
nisso ocasião de se aproximar do pai, sobretudo após a separação dos pais. Foi certamente essa
atenção à imagem paterna e masculina que a ajudou mais tarde a encontrar um bom parceiro. Mas
esse problema de ciúmes continuava sendo central, e apareceu sob a forma de uma extrema agitação
e de nervosismo quando do nascimento de sua segunda filha. Ela não suportava a idéia de que
pudesse haver ciúmes entre seus dois filhos. Sua agitação provinha de ela ficar o tempo todo
imaginando estratégias para evitar de antemão um hiato: será que ela tinha de tirar o mais velho da
creche para que ele soubesse que lhe dedicavam tanta atenção quanto ao recém-nascido, será que era
preciso moderar os carinhos dados à menor para não incomodar o mais velho etc.? Sem deixar de
privilegiar Joseph, ela evidentemente resistia mal à pulsão de repetição que a fazia adotar com seus
dois primeiros filhos a mesma posição que a de sua mãe com ela e seu irmão. Sua mãe, na sua
onipotência, sem dúvida não previra a possibilidade de que sua filha mais velha um dia viesse a ser
mãe, por sua vez. Para consegui-lo, sua filha tinha de passar por três transgressões sucessivas.
Primeiro, poder dar à luz, o que já era um desafio a essa onipotência materna: ela aliás voltara atrás
três vez, pois três abortos espontâneos tinham precedido ao nascimento de Joseph. Em segundo lugar,
poder amamentar, contra a opiniões professadas pela mãe: isso foi o centro de seu baby blues no
primeiro nascimento. Aceitar, no seu lugar, a caçula como uma igual do mais velho: esse era o
problema, mal resolvido, que a chegada de Laure lhe colocava. Três castrações, em suma, que não
estavam inscritas para ela.

Um lugar pequeno demais para Anne

Anne é uma criança cuja própria vida está condicionada pelo lugar que ela tem de ocupar na sua
linhagem. Essa questão é crucial para ela, bem como para seus pais. Para eles, a questão tem
múltiplas ressonâncias: que lugar aceitamos que nosso novo filho ocupe? Mas também, para a mãe:
que lugar eu mesma pude ocupar entre meus irmãos e irmãs? E por fim, como um último produto
dessa questão: qual é o lugar da psicanalista, em que medida sua função de mediação está autorizada
e é útil? Veremos que não há uma resposta simples e unívoca para essas questões. Pois, na dor do
parto que uma criança tem de fazer de si mesma, a única resposta possível é singular.
A Sra. Rigaud pediu para me ver certa manhã porque chora muito. Ela é mãe de trigêmeos:
Anne, que foi encaminhada para o serviço de neonatologia, porquanto pesa apenas 600 g, Maxime e
Nathalie que estão internadas junto com a mãe na unidade canguru, por causa de uma leve
prematuridade. Ela se inquieta com razão com o sofrimento de Anne que está intubada, pois na época
em que a conheci não existia ainda protocolo anti-dor no tratamento dos prematuros. Mas seus choros
não diminuem faz dois dias, apesar das visitas que fez a Anne e a garantia de que o prognóstico não é
muito desfavorável no momento.
Sou recebida no quarto pelo Sr. e pela Sra. Rigaud, bem como por Nathalie e Maxime que estão
em suas incubadoras. Como observa a Sra. Rigaud: “Aqui dentro desse quarto tem tanta gente quanto
ele pode conter, mas ainda falta gente”. A história que ela me conta desse nascimento triplo é cheia
de meandros. Seis anos antes, o casal teve uma primeira filha, Maud; o nascimento desencadeou na
Sra. Rigaud uma depressão pós-parto que durou seis meses. Seguiu-se um período de esterilidade de
cinco anos. Foi feito um tratamento dessa esterilidade em Béclère e, ao fim desses cinco anos, uma
inseminação artificial resultou numa gravidez. Quando o casal ficou sabendo, já na segunda semana
de gestação, da presença de três embriões, acreditou compreender que lhes prescreviam uma redução
embrionária. Essa intervenção consiste numa operação visando a aniquilar in situ um dos embriões,
a fim de reduzir a gestação a uma gravidez gemelar e aumentar as chances de sobrevivência dos
embriões. É um gesto delicado que sempre causa algum mal-estar nos médicos: embora a seleção do
embrião que desaparecerá não seja mera loteria, nem por isso deixa de colocar problemas de
consciência. Foi por isso que a reflexão ética conduzida pelo professor Frydman e sua equipe impôs,
desde o aparecimento dessa técnica, uma dupla exigência: a redução só é considerada em Béclère
para gestações pelo menos quádruplas, e ela tem de ser proposta aos casais, nunca imposta. No caso
da Sra. Rigaud, cuja aventura se deu em outro estabelecimento, criou-se um mal-entendido. Achando
que a redução embrionária lhe estava sendo prescrita como tratamento médico, ela caiu em
depressão, e o casal antecipou o luto desse embrião. Quando, depois de uma discussão mais
aprofundada, esclareceu-se aos pais que a opinião deles era necessária, eles recusaram a redução e
decidiram levar a termo a gravidez tripla.
Depois de escutar isso, propus à Sra. Rigaud ir ver Anne na reanimação e explicar-lhe esse
imbróglio. Era preciso que Anne pelo menos escutasse da mãe que o luto e a depressão do começo
da gravidez não correspondiam ao desejo de seus pais de livrar-se de um de seus filhos; que ela
soubesse que eles não exigiam que ela ocupasse o lugar da vítima de um sacrifício não desejado por
eles. Que ela também escutasse de sua boca os motivos do tratamento e de seu sofrimento.
Revi-a três dias depois e fiquei sabendo que, algumas horas depois que os pais falaram com
Anne, foi possível desintubá-la e deixá-la respirar sozinha durante doze horas. A Sra. Rigaud, cujo
marido dessa vez está ausente, me fala de sua depressão na primeira gravidez. Fora muito difícil para
ela constatar, por ocasião desse nascimento, o comportamento da família do marido. Até então eles a
adulavam, mas, de repente, todas as atenções se voltaram para Maud, e ela passou a ser considerada
apenas como uma mãe de aluguel.
Depois ela associou sobre seu próprio nascimento: quarta criança de sua fratria como sua filha
Anne, ela sabe que não foi desejada e que, como se não bastasse, teriam preferido que ela fosse
menino. Seu nome já estava pronto – Paul –, e a decepção dos pais foi tal que só encontraram um
nome para ela depois de três dias. Sua reação fora claríssima e determinara seu futuro por muito
tempo: ela se tornou uma criança boazinha, fez de tudo para não incomodar e ser aceita! Depois de
adulta, considerara um dever mostrar seu valor; prova disso era seu sucesso profissional. Esse
sucesso também estava dedicado à sua família, visto que, desde então, a Sra. Rigaud se
responsabilizava pelo sustento material dos seus. O nascimento de sua primeira filha, e o
comportamento da família do marido, que de certa forma exigia que ela se apagasse de novo,
reavivou a lembrança desse lugar que nunca era o seu – «há o mesmo tanto de gente quanto de lugar,
e no entanto falta». Como felizmente ela já não era mais tão boazinha como antes de ser mãe, só lhe
restavam seus olhos para chorar o nascimento de sua filha e seu próprio nascimento. Para pontuar
essa segunda entrevista, aconselho essa mãe a contar tudo isso para sua filha Anne, que também
parece estar se apagando para não incomodar: dizer-lhe quem ela é na sua fratria e na sua linhagem,
qual o lugar dela. Revemo-nos para uma terceira entrevista em que me confirmam que Anne está
melhor, que ela pesa agora mais de um quilo e bebe o leite da mãe, que Maxime e Nathalie puderam
sair da incubadora e que a Sra. Rigaud recuperou o gosto pela vida. Mas agora é a vez do Sr. Rigaud
ficar deprimido e fragilizado. Ele não agüenta mais visitar Anne com sua mulher e nem falar com ela,
a tal ponto que sua mulher diz esconder dele certas coisas, acrescentando que ele se comporta como
se fosse seu quinto filho. Enquanto a mãe fala de seu pai, Maxime comenta intensamente a entrevista.
Proponho então conversar com o pai, mas ela garante que ele não vai querer, pois já achou um abuso
eu ter me metido na vida deles. Ela acrescenta que se sente responsável por isso, pois tomou todo o
cuidado de não informá-lo de nossa primeira entrevista. Compreendo melhor por que ele se espantou
com minha «intrusão». Proponho então escrever para esse pai, a fim de esclarecer esse qüiproquó, o
que ela aceita de bom grado. Na carta, afirmo para o Sr. Rigaud que eu jamais me teria permitido
intervir junto a eles sem o seu consentimento e tampouco sem que ele fosse avisado. Cinco dias
depois, o pai lerá a carta diante de sua esposa sem fazer qualquer comentário; ele melhora de forma
evidente e pode novamente ir até a cabeceira de Anne com a mulher.
Anne, por sua vez, ainda corre perigo. Tem espasmos da laringe cada vez que tentam desintubá-
la; intubada, ela respira tranqüilamente, sem ventilação. Vorreï e non vorreï :9 Anne continua
ambivalente. Sem muito pensar, lembro-me do calendário e aconselho a mãe a dizer para a sua filha:
“Estamos agora na data em que você teria chegado normalmente se tivesse nascido a termo. Se
isso tivesse acontecido, você teria respirado sozinha, sem a ajuda de nenhuma máquina. Entendo que
você gostaria que eu a embalasse, que eu a acariciasse e alimentasse, mas enquanto essa máquina
estiver ligada não posso fazê-lo. Logo que isso for possível, eu o farei com prazer. Também vou lhe
dar um lenço que usei para que você sempre tenha meu cheiro perto de você, e virei vê-la e
conversar com você para ajudá-la até que estejamos reunidas”.
Eu achava que esse tubo podia ser para Anne um equivalente do cordão umbilical que a ligava a
uma placenta perdida, e que ele agora substituía a mãe obrigatoriamente ausente demais. Tinha ou
não tinha razão? Não sei, o tempo foi insuficiente para poder afirmá-lo. A Sra. Rigaud, Maxime e
Nathalie saíram do hospital muito rápido. Algumas semanas depois, Anne pôde prescindir desse
tubo, e reuniu-se a eles em casa.
Muito tempo depois fiquei sabendo que outros problemas apareceram em seguida, exigindo
várias hospitalizações. Anne parou de lutar no fim de seu primeiro ano de vida. A análise não dá
conta de tudo; de qualquer forma, desejo que ela tenha podido atenuar a dureza de sua vida.

Assim, sobretudo quando a depressão se instala e se torna crônica, remontamos com freqüência
a um problema ligado aos avós de um lado ou do outro. O contexto do nascimento da mãe, ou do pai,
volta à superfície. Na verdade, a criança é a realização concreta das linhagens tanto paternas quanto
maternas da mãe (e também do pai, aliás). Na lembrança de seus ascendentes figuram, em filigrana,
os vivos e os desaparecidos, o que deles se diz e o que é omitido, a homenagem prestada ou não aos
mortos da família. A criança presentifica tudo isso de forma abreviada. Ela é o resultado tanto da
potencialidade dessa mulher para ser mãe no âmbito dessas linhagens, como de sua aliança com um
homem-pai e sua própria linhagem. Cabe a ela renunciar pela castração a considerar o filho apenas
como fruto de suas entranhas. É essa castração da mãe que torna possível a castração simbolígena da
criança. É fácil perceber que essa castração é um movimento positivo: ela concerne à inscrição da
criança nas linhagens, e portanto vai além do processo de nomeação da criança (dizer o sexo, o nome
escolhido, convocar as testemunhas etc.). É nesse sentido que o baby blues, a despeito do momento
difícil que ele constitui, tem por efeito libertador aspirar a criança para a vida.

Castração do pai

E os pais? Os pais estão em êxtase, mas não há alegria que não tenha seu preço. Concedamos a
palavra ao professor Frydman, ao mesmo tempo marido, pai e obstetra. A cena se desenrola no café
La Bonbonnière – café de nome predestinado, como ele mesmo diz. Sua mulher está prestes a dar à
luz, e ele marcou um encontro com ela ali.
“Chamam-me ao telefone:
‘Sua mulher está dando à luz, o senhor tem de vir para cá.’
Chego em Port-Royal, procuro, pergunto:
‘O senhor não viu uma Sra. Frydman, ela deve estar no comecinho do trabalho?
– Vi sim, está tudo muito bem, é um menino, o senhor quer vê-lo?’
(...) trazem-me logo em seguida uma espécie de homenzinho. Tive uma angina durante três
dias.”10

Um pai pode fazer uma angina, mas ele também pode chegar a fazer um baby blues, do jeito
dele. Os homens choram menos nessas circunstâncias, é verdade, mas acusam o choque à sua
maneira: um ataque de cansaço inexplicável, não comparecimento a compromissos, condutas
inadequadas e acidentes mais ou menos graves a caminho da maternidade. Muitas piadas foram feitas
sobre a síndrome da couvade, que faz referência ao comportamento desses pais africanos a quem se
reconhece o direito, depois do parto da mulher, de ficar na cama inativos e afastados do convívio do
grupo durante certo tempo. Em nossas sociedades pós-industriais tolera-se menos esse tipo de
comportamento ritualizado. Mas, como não faltam recursos para o ser humano, descobrimos entre nós
equivalentes que, desse ponto de vista, colocam uns e outros no mesmo plano.
De que se trata? É o mesmo baby blues para um pai e para uma mãe? Não exatamente. Para ele,
a situação é difícil: até aquele momento ele talvez tivesse a impressão de não ter muita importância
para o desenvolvimento uterino do filho, e, agora, eis essa coisinha que exige todas as atenções. Isso
sem falar que, em certos casos, ele foi posto de lado no momento do nascimento, porque “é um
assunto de mulheres”, ou porque é um assunto de médicos; como se não bastasse, agora ninguém lhe
dá atenção... Ele até começa a ter dúvidas: mater certa, pater incertus! Seja como for, ele ainda não
está em posição de ser plenamente reconhecido como pai. Supõem que ele seja “o pai feliz”, sem
dúvida, mas a mãe não teve realmente tempo de confirmá-lo como tal junto ao filho deles. Talvez ele
manifeste certa contrariedade. E não chegue a tempo na maternidade para “o feliz acontecimento”.
Tem uns probleminhas, como se diz: uma gripe forte, o carro quebra... Mas ninguém nunca sabe
aonde levam os probleminhas. Do engraçado ao trágico é só um passo, e nunca se sabe se o pior já
aconteceu.
Foi assim que, indo ver uma parturiente no seu quarto onde ela me esperava, encontrei na cama
um marido, engessado da coxa até os dedos do pé, com a mulher sentada à sua cabeceira para assisti-
lo. Sem dúvida o quadro mais inesperado que me foi dado ver numa maternidade! Fato é que esse
homem levara um tombo feio no dia do nascimento. Tivera de ser hospitalizado, e portanto foi de
ambulância que ele veio visitar a mulher e o filho.

Aliás, ele não era o único a estar brutalmente abalado com esse nascimento, pois a mãe tivera
de passar pelo setor de gestações de alto risco no sétimo mês de gravidez, devido a uma ameaça de
parto prematuro. Essa hospitalização provocou muitas reflexões por parte dessa mulher durante nossa
entrevista, e parece ter feito ela decidir iniciar um trabalho psicanalítico no futuro. Além disso, ela
manifestava um forte baby blues, complicado pelo fato de sua filha ter tido de ser colocada na
unidade canguru devido a distúrbios respiratórios. Estava-se justamente procurando elaborar um
parecer médico para saber de que se tratava.
O diálogo que ocorreu entre nós evidenciou a importante transgressão que representou o
nascimento dessa criança. Fora preciso enfrentar os interditos familiares mais brutais para poder dar
à luz com mais de 40 anos, e nesse sentido a gravidez era quase uma passagem ao ato. É cabível
pensar que foi assim que essa mãe o entendeu. Disse ter tomado consciência disso ao me falar do
quanto esses interditos pesavam sobre seus ombros de pais, e mais ainda sobre os de sua filha. Via
agora os sintomas da filha como um apelo que ela lançava aos pais para que cuidassem dela. Como
se, dizia ela, a filha lhes pedisse para pôr uma pá de cal sobre as brigas de família e, com ela, criar
uma nova célula familiar.
O pai reagiu às palavras da mulher... como um só homem, como um só pai que ele se tornara
graças a elas duas. Pegou a criança nos braços e deu-lhe a mamadeira, lentamente, delicadamente,
num silêncio cheio de uma intensa emoção que envolveu os três protagonistas. Diria até os quatro,
pois fiquei muito tocada de ver esse pai, deitado na cama da mulher, dando pela primeira vez a
mamadeira à filha deles, e deixando as lágrimas correrem.
O problema desses “acidentes” é que eles levam esses pais a uma autêntica regressão infantil
em seus corpos. Infecções passageiras, gripes-anginas-resfriados, torsões, fraturas, até mesmo
apendicite ou cólicas renais provocam a hospitalização – qualquer coisa serve para colocá-los numa
posição de criança de quem é preciso cuidar, num momento em que uma outra criança real absorve a
atenção da mulher deles. A castração consiste para eles em se desfazer da imagem de sua própria
mãe a quem estão ligados. Também eles podem ser levados a evocar seu próprio nascimento e o
lugar que lhes foi dado.
Se nos limitarmos ao nascimento do filho deles, é incontestável que pouco se faz em nossas
sociedades para apoiá-los. No entanto, eles se encontram num momento de fragilidade potencial,
pois, embora certamente sejam considerados genitores do filho, ainda não são considerados pais no
sentido pleno do termo. Muito raramente há irmãos, primos, aliados da comunidade em torno deles,
como é o caso em outros tipos de organização social. Talvez os sinais de sofrimento desses pais que
fazem um baby blues não sejam suficientemente levados a sério.

O nascimento de uma criança deve-se a um pai, a uma mãe e a algo mais. Esse algo mais que
tem a ver com a palavra e o simbólico surgirá desde que a criança possa se reconhecer como um ser
de desejo independente, desconsiderando-se qualquer questão de maturidade fisiológica e de
autonomia social. Nesse parto de si mesmo que virá a se operar, o mais importante é o vínculo com o
outro – nomeadamente a mãe e a transmissão que ela fará do nome e da função do pai junto dela.
Esse vínculo se reata na vida pós-natal a partir da renúncia que a mãe venha a fazer da criança como
pedaço de carne que seria a continuação dela mesma. Não é difícil imaginar que essa castração seja
uma provação para ela, o que o baby blues demonstra. No entanto, é importante que ela saiba que
essa provação é salvadora para ela, para o recém-nascido e a posteriori para o pai da criança.
Na verdade, trata-se aí do desenvolvimento simbólico do sujeito-bebê. A alguém que fazia
objeção a suas teorias sobre a aquisição da linguagem e da memória, o neurobiólogo Edelman certo
dia declarou: “Lembrem-se de que é pouco provável que um bebê francês, por mais bem dotado que
seja, proclame Penso, logo existo”. Edelman tem razão. No entanto, é isso o que se escuta no baby
blues. Para um psicanalista, que não pode ignorar Descartes, o bebê fala, logo ele existe; mas
também ele existe, logo ele pensa, ele pensa, logo ele fala. É para esse círculo que nos leva o baby
blues.
O bebê nasce com uma história que lhe é imposta, que está pré-arranjada para ele: a de sua
linhagem e do desejo parental. Nesse sentido, ele vive sua vida como algo agido fora dele e por
outros. É a essa história que se situou fora dele que a psicanálise lhe permite ter acesso quando as
coisas não foram ditas, nem nele nem em torno dele. Esse dado básico e seus acasos, ele terá de falá-
lo para dele se afastar se quiser inventar sua própria história. O a posteriori do parto lhe permite
aceitar essa história e ao mesmo tempo dela tomar distância: “ninguém escolhe os próprios pais,
portanto aceito a história da qual nasci tal como ela se apresenta; mas deve-se honrar o desejo de
transmissão deles, por isso tenho agora de secretar minha própria história”. Seu corpo, de puro real
que era para os outros, torna-se nesse momento a encarnação, o lugar mesmo da linguagem: vagidos,
gritos modulados, choros, movimentos da boca, das mãos ou do corpo em direção à mãe são as
primeiras manifestações com destinatário de um ser independente. Paradoxalmente, ele só poderá
tomar sua vida nas próprias mãos graças ao apoio do outro: a mãe ou o pai, em princípio; na falta
deles, aqueles que ocupam seu lugar e o criam. Pois, se existe castração simbolígena, é de uma voz
de fora que ele a receberá. É com uma outra voz, a sua, que ele escuta ao mesmo tempo que a deixa
dizer, que ele demonstrará que recebeu bem a mensagem, e que ali está, vivo e diferente, sujeito à
parte.

Nascer em segredo

Existem recém-nascidos que não têm a sorte de compartilhar com a mãe esses estranhos
problemas de baby blues. São as crianças nascidas de um parto em segredo, entregues pela mãe aos
cuidados de uma instituição que irá criá-las desde o nascimento até que uma família adotiva as
acolha. É certo que, diferentemente do baby blues, o parto em segredo é raro: entre 500 e 700 casos
por ano na França, conforme as diferentes avaliações. No entanto, ele é igualmente representativo
dessa necessidade de palavra rela​cionada com o período do limbo.

Se nos permitirmos sorrir por um instante, diremos que as crianças nascidas de um parto em
segredo têm a sorte de não ter de lidar com as expectativas e projeções imaginárias daqueles que as
conceberam: “eu queria que meu filho fosse um menino e é só uma menina..., minha filha vai ter o
meu nariz e estudará belas-artes como a mãe... etc.”. Isso pode ajudá-las. F. Dolto chegava mesmo a
dizer que isso as colocava de imediato em situação de análise: “A partir do momento em que nós
(analistas) temos de estabelecer uma relação com uma criança que não tem mais seus pais de
nascimento (...) podemos lhe dizer que ela é em si mesma seus pais. Ao ter de representar por conta
própria a cena primitiva, ela está, de fato, numa situação de sujeito; (...) se quiser trabalhar conosco,
ela estará, no seu lugar de sujeito, bem mais liberada que as outras crianças (...)”.11 Em se tratando
de recém-nascidos, acrescentemos que os efeitos dessa posição de sujeito conquistada desde o início
são espetaculares: ela muitas vezes promete um bom começo, desde que, e somente desde que, sua
história lhes seja dita. Pois, embora não tenham mais os pais para influenciá-las, elas os têm no
coração (os pais interiores de que falava F. Dolto), e a falta deles é cruel. Desde a época das
consultas na rua Cujas, vi muitas crianças nascidas de um parto em segredo em grave estado de
desamparo.
Já contei por que, por esses dois motivos – sua dor extrema, sua capacidade extraordinária de
sair dela –, decidi trabalhar em maternidade. Foi graças a elas que fui convencida de que um
psicanalista tinha de ir escutar os recém-nascidos e falar-lhes. É a elas que devo o fato de pensar que
a um bebê podem faltar palavras a tal ponto que ele morra por isso. São elas que me levam a
testemunhar hoje.
Eu me perguntava se era possível – muito cedo, logo ao nascerem – fazer com que as crianças já
pudessem escutar um depoimento sobre a “vida delas de antes” (da separação) quando todos os
representantes de sua história (pai, mãe...) não mais estavam presentes para contá-la. Se algum
interesse havia em ir à maternidade falar com os recém-nascidos com dificuldade de viver, era
primeiro para esses que nunca tinham tido nenhum vínculo com seus genitores nem com sua linhagem.
Essas crianças, por não poderem situar sua curta história passada de modo “transgeracional”, não
podiam dar um sentido presente ao futuro de sua vida, e era preciso tentar intervir para ajudá-las a
fazê-lo.
O parto em segredo representa uma exceção ao trabalho habitual de um psicanalista. Primeiro
porque ele felizmente representa apenas uma parte minoritária dos pacientes recém-nascidos. Em
segundo lugar, porque ele envolve uma urgência de palavra.
Um psicanalista não está acostumado com a urgência; antes, desconfia dela como de uma cilada
que o impediria de escutar que o inconsciente não tem tempo. No entanto, é preciso intervir em
caráter de urgência no caso do parto em segredo. É certo que essas crianças abandonadas necessitam
de cuidados adaptados a elas, e as instituições hoje em dia preocupam-se com isso de maneira mais
ou menos feliz. Mas, mais que isso, elas necessitam de uma verdadeira acolhida linguageira para
poder se desenvolver. É preciso agir, o mais rápido e melhor possível, para nomear as coisas e
possibilitar que essas crianças conquistem sua humanidade; está mais do que provado de que uma
negligência a esse respeito, somada à dor da separação, às vezes as leva a perdê-la.

De X a Xisete

Nomear o humano deve ser tomado aqui ao pé da letra. Assim, no começo de minha prática na
maternidade, cruzo com uma auxiliar de puericultura carregando, como é freqüente, um bebê “no
canguru”, isto é, apertado contra seu peito por meio de um avental, para manter com ele um contato
constante. Ela se dirige a mim:
“– Apresento-lhe Xisete!
– Xisete? É o nome dela?
– Bem... Ela nasceu sob o nome X há quatro dias, e como ela ainda não tem nome, por enquanto
chamamos ela de Xisete”.

Xisete? Como podia-se aceitar numa maternidade de ponta que um recém-nascido, sozinho sem
a mãe num serviço, seja chamado dessa forma? “X...” em relação ao registro: a quem isso não evoca
o horror dos campos de concentração? “...ete” em relação ao sexo, pouco mais que um indivíduo do
sexo feminino! Que tipo de sociedade suportaria tal violência simbólica?
Comecei a indagar e descobri que a mãe não quisera dar um nome a essa criança. Como é
costume nesses casos, é a parteira que lhe atribuíra um: Sandra. Diante disso, o escritório de registro
civil ordenara retirar-lhe esse nome, argumentando que a parteira não tinha o direito de dar um nome
a essa criança. Daí esse nome improvisado, Xisete, à espera da próxima decisão municipal12 ...
Acontece que essa intervenção “legal” era não só involuntariamente violenta, mas também ilegítima
aos olhos dos textos de lei da época. Ela foi rapidamente revogada, a nosso pedido, por uma carta do
procurador, pois baseava-se numa confusão. Esse “erro” decerto tinha sua lógica, mas nem por isso
era menos “louco”: a administração municipal apoiava-se no fato de que só ela tinha o direito de
“atribuir nomes às crianças cuja filiação é desconhecida”. Ora, uma criança cuja filiação é mantida
em segredo não é uma criança cuja filiação é desconhecida! Alguns telefonemas foram suficientes
para pôr as coisas nos seus devidos lugares e devolver a Sandra seu nome.

Em seguida, dei um jeito de recuperar o pouco que se sabia de sua história, e convidei a auxiliar
de puericultura a me acompanhar para falar com esse bebê. “Você se chama Sandra...”, comecei, e
depois contei-lhe sua vida. Enquanto durou essa curta exposição, ela reagiu fisicamente com uma
expressão que nunca esquecerei: ela abria e fechava a boca como se engolisse o que eu dizia. Fiquei
emocionada com essa “resposta”, e no fim da entrevista a auxiliar de puericultura me disse:
“Obrigada por ela!”. O que ali acontecia não era um mero reflexo de sucção, mas uma incorporação
física das palavras, e, de nossa parte, uma sensação igualmente física de sermos escutadas. Para
entender o que sentimos, basta imaginar atores que dizem pela primeira vez em cena um texto e que,
graças ao público, percebem que não imaginavam todos os efeitos que ele produzia.
Para a eventualidade de eu me imaginar vítima de alguma pieguice nova que eu desconhecia, a
repetição dessas expressões em inúmeros recém-nascidos abandonados teria feito calar meu susto.
Agradeçamos à história da psicanálise, que produziu conceitos tais como a incorporação da fase oral
ligada à identificação, ou noções como as de alimentos simbólicos... Eles permitem compreender que
o sujeito pensa, “monta” conceitos, e que esses conceitos são, em primeiro lugar, do corpo. Nesse
caso particular, é a boca em forma de meia-lua nessa criança que se põe a sorrir para a vida que ela
conquista, e, para a puericultora, a inteligência da situação dessa criança a partir de sua barriga em
contato com ela.

De separação em separação

Desconheço o destino dessas crianças nascidas sob o nome X. Mas o futuro das crianças
nascidas de um parto em segredo é, antes mesmo da eventual adoção, a separação repetida e a
espera.
Separação da mãe ao nascer, é claro. Mas também saída do hospital para um abrigo provisório,
para uma família de acolhida provisória ou para uma assistente materna;13 ruptura também quando é
preciso juntar-se a uma família adotiva. Todos esses cortes em relação aos sucessivos meios
reatualizam para a criança a primeira separação. Foi dessa constatação que parti: os sintomas
apresentados por alguns desses bebês remetiam a vínculos criados com aqueles que cuidaram deles
nos primeiros dias de sua vida no hospital. A falta de simbolização desses vínculos e da inevitável
separação que fatalmente punha fim a eles fazia com que o corte reaparecesse no sintoma clínico.
Portanto, é preciso esclarecer para essas crianças os limites desses vínculos, dizer-lhes que eles são
apenas provisórios, que as puericultoras não são a mãe delas, mas pessoas pagas para cuidar delas.
É preciso acrescentar que a separação em relação a elas não é um pedaço de história que se repete,
mas uma etapa importante e uma partida para uma nova instituição onde seu futuro estará sendo
preparado: um futuro de adoção, por exemplo, mas também qualquer outro tipo de futuro que se
constitua a partir de um laço social, e não a fatalidade de uma separação sempre repetida.

Partir é morrer um pouco, diz o provérbio. Partir, para um recém-nascido separado de sua mãe
e vagando do hospital para a instituição à espera de adoção, é, às vezes, ficar tão pouco ligado à
própria vida, ao ponto de submeter-se a ela sem a menor vontade. Em toda a literatura relacionada
com a separação precoce, as mais diversas síndromes foram descritas. Diversas teorias surgiram
para explicá-las, a mais famosa sendo a do attachement, com que, como já dissemos, não
compartilhamos. Mas, sejam quais forem as opções adotadas, esses seres, para quem uma infância
passada em instituição e até uma adoção foram problemáticas, são todos eles crianças para quem não
pôde ser feita uma elaboração simbólica do que eles viveram confusamente de modo perceptivo ao
nascer, ou antes.

A situação da lei

Deixemos de lado a adoção, e voltemos nossa atenção para a sua principal origem: o abandono.
Outrora se falava de abandono. A lei baniu esse termo, que ela considera pejorativo na quase
totalidade dos casos. Empregou-se, então, sucessivamente, os termos de parto anônimo, de parto
“sob o nome X” e, faz pouco tempo, de parto em segredo.
Por meio de uma lei específica, nossa sociedade, com efeito, permite que mulheres dêem à luz
um filho sem que ninguém possa declarar legalmente que essa criança é filho daquela mulher.
“Ninguém” designa tanto a autoridade executiva ou qualquer representante da sociedade, quanto o
pessoal médico que tenha ajudado no parto, e a própria criança. Num prazo máximo de três dias, a
criança é obrigatoriamente afastada da mãe e confiada a uma instituição privada ou pública com
vistas à adoção.
O segredo do parto é registrado num dossiê enviado ao DASS [Departamento de Ação Sanitária
e Social] e contém, no melhor dos casos, as menções toleradas ou proibidas pela mãe do nome do
pai biológico, das circunstâncias do nascimento e de uma palavra eventualmente endereçada por ela
ao filho. A isso se acrescenta a declaração de abandono, assinada pela assistente social. Não pela
mãe. A criança, ao atingir a maioridade, pode obter permissão para consultar esse dossiê e
descobrir, em princípio, o tanto de segredo que a mãe tiver aceito confiar a ela. Se os pais adotivos
concordarem e a acompanharem, poderá inclusive consultar esse dossiê já aos 13 anos.
A mãe pode voltar atrás de sua decisão e pedir para recuperar o filho num prazo de dois meses,
depois do qual nada mais, a priori, pode impedir uma separação definitiva. Eis o estado bruto das
coisas, sem mais comentários, revisto pela lei nº 96-604 de 5 de julho de 1996 relativa à adoção.
Assim redigida, essa lei supõe uma excelente colaboração entre os diferentes parceiros que dela
têm ciência: assistentes sociais, pessoal do hospital, instituições públicas e privadas que cuidam da
adoção e administrações competentes. Nem sempre é esse o caso, mas, desde a experiência levada a
cabo por F. Dolto há trinta anos, as relações entre a ASE, o abrigo provisório de Antony e os “psi”
foram particularmente sadias e profundas. Na rua Cujas, F. Dolto recebia as crianças em sofrimento
para a sua consulta e retomava a história delas a partir do sintoma e do material que elas traziam
para a sessão. Nesse mesmo sentido, ela elaborara com os representantes da ASE um sistema
destinado a manter as crianças diretamente ao par do andamento do dossiê delas. Os representantes
das organizações vinham regularmente ver as crianças na maternidade e depois no abrigo provisório
de Antony, e lhes descreviam a situação dos procedimentos: “estão buscando uma família para
você”, “encontraram uma”, “há um problema para encontrar uma porque você está doente” etc. Esse
sistema continua existindo e possibilita uma excepcional colaboração entre o abrigo provisório e o
DASS ou a ASE. No entanto, logo surge o problema da urgência. Com efeito, embora os
representantes da ASE venham ao hospital assim que são informados do parto em segredo, qualquer
período de férias ou de desorganização dos serviços compromete sua vontade de intervir
rapidamente. A demora pode chegar a várias semanas, demora durante a qual ninguém fala com os
bebês. Portanto, é absolutamente necessário impedir que tal falha no funcionamento deixe essas
crianças sem ajuda durante tanto tempo; é preciso encontrar um meio de garantir a elas palavras em
caráter de urgência. O que exige de mim um esforço de reflexão compartilhado com todos, com as
equipes do hospital e com os diversos outros parceiros.
Outro problema de demora surge no hospital. Deve-se proibir as mães de ver o filho que elas
decidiram abandonar enquanto ele estiver hospitalizado, ou tolerá-lo? Em Béclère, para respeitar a
decisão da mãe, afastamos a criança, colocando-a no serviço de pediatria. No entanto, deixamos a
mãe ir visitá-la se ela quiser, desde que esteja acompanhada de uma assistente social ou de uma
parteira que garanta que ela é mesmo a mãe. Nenhum texto o proíbe expressamente. O pessoal do
serviço de pediatria tampouco se sente autorizado a impedir que ela dê banho no filho ou cuide dele.
Em contrapartida, explicamos a ela que não terá mais acesso ao filho depois que ele sair do hospital.
É assim que interpretamos a imprecisão jurídica nessa matéria.

Na maternidade, o que intriga em primeiro lugar é o efeito do parto em segredo sobre os


funcionários em geral. O parto em segredo está envolto numa aura de drama, e por isso mobiliza
comportamentos pessoais carregados de emoções descontroladas, quando não de reflexos de cidadão
ou de eleitor: é-se a favor ou contra, há quem se alegre e quem fique desolado, quem gostaria de
impedi-lo ou de fazer alguma coisa para que tudo dê certo... É extremamente difícil manter uma
neutralidade mínima, que no entanto seria desejável caso não se queira ver mãe e filho atirados de
um lado para o outro por questões morais ou ideológicas que vão muito além deles. Houve muitos
deslizes na maternidade, e também nesse caso foi preciso “legiferar”, isto é, instituir um protocolo
particular para conter os efeitos incontroláveis de impulsos pessoais. Esses deslizes levaram vários
membros da equipe a reações que a posteriori eles julgaram estranhas aos seus hábitos, embora
fossem bem reais...

Uma pediatra da maternidade, talentosa tanto por sua seriedade profissional como por sua
abordagem sensível das “pessoas-bebês”, certo dia teve de acompanhar uma criança nascida de um
parto em segredo até o serviço de pediatria situado na outra extremidade do hospital, onde ela
esperaria até ser transferida para um abrigo provisório. Era uma criança de mesma origem que a
pediatra, e ela ficara revoltada com a idéia do infeliz destino que a esperava. Durante o trajeto entre
os dois serviços, ocorreram-lhe pensamentos estranhos e incontroláveis – que ela mesma me relatou
depois. Ela enfiara na cabeça a idéia de levar o bebê para casa e criá-lo com seus próprios filhos.
Tomada dessa idéia, ela lhe falava internamente: “Coitadinho, vou levá-lo para a minha casa, criar
você com os meus filhos, para que você possa ter uma boa família...”.
Esse pensamento, irresistível, apossara-se dela ao longo dos corredores, e ela estava prestes a
modificar toda a sua vida num ímpeto. Mas, disse-me ela depois, algo muito íntimo no seu corpo –
terá sido sua blusa branca de médica? – a impediu e a intimou a correr até o serviço de pediatria
para encontrar seus colegas e recuperar a razão. Foi o que ela fez, feliz de escapar ao seu primeiro
impulso. Mas como os ímpetos mais irresistíveis são muitas vezes os mais tenazes, e ninguém cala o
inconsciente com um «exame de consciência», ela deixou uma pequena marca de sua primeira
vontade: contrariando os princípios de segurança básicos de sua profissão, que ela é a última a
negligenciar, esqueceu de avisar seus colegas que a mãe da criança era diabética, e que portanto era
necessário vigiar a glicemia do bebê! Por sorte, o esquecimento foi reparado, e reparado
rapidamente, e a criança foi tratada como era necessário.

Que faz com que os profissionais mais aguerridos possam sair de sua função? Enquanto estão no
hospital, os filhos “do segredo”, afastados de sua mãe, encontram-se num no man’s land , como que
levitando no terreno das fantasias de potencialidades parentais despertadas em cada um. Todo o
mundo pode se sentir como que chamado a ser o pai ou a mãe dessas crianças. Não digo que esse
sentimento seja necessariamente consciente. Pode ocorrer, porém, que se ceda por um instante a esse
apelo imaginário. Nem por isso as reações são necessariamente «generosas». Muitas vezes são
negativas e de rejeição, geralmente moralizantes.
Um dia, é uma mãe que, tendo dado à luz em segredo, recusa-se a ver o bebê. Um interno da
mesma origem que ela, não tolerando a idéia de que uma mulher de sua comunidade pudesse
abandonar o filho, precipita-se na sala de parto e coloca à força o bebê em seus braços. E lhe diz que
a criança é maravilhosa, e que ela tem de olhá-la e segurá-la contra si. Outra vez, é um anestesista
que, julgando uma jovem parturiente anônima rude demais para compreender a evolução de um parto
sob peridural, avalia portanto não dever prescrever-lhe esse tipo de anestesia! Tinha ela
obrigatoriamente que sofrer para pagar o abandono? Eu mesma pedi a uma parteira para intervir
nesse caso, para conseguir o que qualquer outra mulher teria obtido num contexto diferente daquele
do parto em segredo, e a peridural foi aplicada.
Outra vez, ainda, é um oficial do registro civil que decide recusar o nome de Mohamed dado
por uma parturiente anônima, porque esse nome era típico demais e “a pobre criança já tinha
problemas suficientes”! Ou então, mais amena, uma enfermeira que chamava o tempo todo de “meu
coitadinho” a um bebê abandonado sob sua responsabilidade: quanta dificuldade o “coitadinho” teria
para vir a se tornar grande e feliz?
É difícil escapar desse tipo de reação inadequada, ou pelo menos da atribuição de segundas
intenções àquelas que pedem o parto em segredo. Foi também para aliviar os membros da equipe do
peso angustiante ou desesperador que, pouco a pouco, elaborei um procedimento de acolhida dos
pedidos de parto em segredo.
A urgência de palavra

A viagem de Pierrette

O caso de Pierrette é bastante exemplar do tanto de dom que há no abandono para que mereça
ser relatado aqui. Esse caso me fez refletir muito sobre um procedimento de acolhida respeitosa
dessas mulheres aflitas.

Pierrette, com 13 anos, compareceu certo dia em Béclère grávida de pouco mais de sete meses,
para dar à luz e expor sua situação. Ela estava acompanhada da mãe. A pedido de Pierrette, recebi-as
juntas.
Elas pareciam muito ligadas; no entanto, elas ainda se conheciam pouco. Pierrette só vira os
pais esporadicamente até os três anos, e depois não os vira mais até aquele momento. Originária da
África negra, a mãe de Pierrette viera estudar na França com o marido quando Pierrette tinha três
meses, e tivera de confiá-la à sua irmã, no país de origem. Três anos depois do nascimento do bebê,
o pai foi proibido de voltar ao país por ser um opositor do regime vigente. Irmãos e irmãs
encontraram então asilo na França, mas Pierrette ficou na África aos cuidados da tia. Pouco tempo
antes de nossa entrevista, o pai morrera de uma parada cardíaca. Nessa ocasião, a mãe por fim
obteve autorização, até então recusada, para reunir a família. Foi para o luto de seu pai que Pierrette
reencontrou a família: veio então para França.
Ora, ao fazer o exame médico para a imigração, diagnosticou-se a gravidez de Pierrette. Ela
disse não ter percebido nada na época. Aliás, ela só menstruara fazia pouco, e dizia ignorar tudo a
respeito da sexualidade. Teria sido o irmão de uma amiga que a violentara. Em todo caso, sabendo
estar grávida, ela desembarcara na França e ali reencontrara a mãe. Quando esta ficou sabendo da
gravidez, decidiu acompanhá-la a Béclère. Diante dessa situação, expus-lhes os dados do problema e
as diversas soluções possíveis: a adoção simples, a instituição, a família de acolhida, a
eventualidade de a criança ser criada pela avó, o parto em segredo... E propus a elas refletir sobre
tudo isso e marcar uma outra entrevista. Foi o que fizeram.
Na segunda entrevista, a resposta estava pronta, e elas a pronunciaram em uníssono: “Vamos dá-
lo!”.
Belo presente, de fato, ainda mais precioso por ser anônimo. Depois, cada uma apresentou suas
razões. A mãe de Pierrette explicou que pesara os prós e os contras: “Eu mesma gostaria de criar a
criança. Se meu marido estivesse vivo, isso certamente teria sido possível. Mas estou muito abalada
por esse luto, é recente demais para que eu me sinta capaz de criar essa criança”.
Pierrette foi mais lacônica:
“Tenho 13 anos e não posso ser mãe. Quero ir para a escola”.
Decidiu-se, portanto, confiar a criança à ASE. O futuro da criança foi discutido por sua mãe e
sua avó. A mãe não quis vê-la, mas prometeu fazer para ela “uma prece”. A avó, por sua vez, insistiu
em transmitir algo: propôs, com o consentimento da filha, estar presente no nascimento, dar-lhe
nomes e uma medalha. Raramente um dossiê de parto em segredo foi tão preciso. Depois do
nascimento, a avó e eu fomos falar com a criança. Pierrette pedira-nos que disséssemos tudo, exceto
o relativo à violação e sua identidade. O bebê era maravilhoso. A avó, em lágrimas, segurou-o nos
braços durante todo o encontro. Nós duas pudemos lhe contar o que se sabia de seu pai e o fato de
que ele ignorava seu nascimento, a ausência de história de amor que presidira à sua concepção, a
esperança que sua mãe tinha, por outro lado, de que ela encontrasse amor numa outra família. A avó
acrescentou a isso todos os votos carinhosos de que seu coração generoso era capaz. A criança foi
transferida para a pediatria, e depois acolhida num abrigo provisório.

Como se vê, abstive-me voluntariamente de qualquer conselho ou de qualquer avaliação. Eles


de nada servem na acolhida das mulheres que pedem para parir em segredo. Nessas entrevistas,
nunca julgo nem estimulo. Contento-me em permanecer firme quanto ao procedimento:
“Nada será decidido sem vocês, no sentido estrito do termo. Estamos aqui, a assistente social e
eu, para esclarecer-lhes quanto às possibilidades que a lei lhes outorga e sobre a importância da
participação de vocês para a criança. Estou aqui para acolher seus desejos e lhes dar força de lei.
Mas a decisão é de vocês”.
O percurso comovente dessas duas mulheres durante essas duas entrevistas é, assim espero, uma
defesa eloqüente dessa neutralidade ativa. Pierrette sem dúvida é ainda uma criança, e é na
qualidade de criança que ela quer livrar-se sem outra preocupação de seu bebê. Ela talvez repita
assim o abandono de fato de que foi vítima aos três meses. Esse “presente” decerto oculta algo que,
embora ela se recuse a admitir, ela jamais poderá ocultar de fato. Mas esse presente é realmente um
dom, tanto quanto um abandono: ele foi discutido e conversado entre Pierrette e sua mãe.

Acompanhar o parto em segredo

Para permitir que sujeitos desamparados progridam, foi preciso pensar um procedimento global
que permitisse ao mesmo tempo escutar essas mães, respeitando sua dor, apoiá-las e acompanhá-las
na urgência que comandava sua situação, e falar com os filhos delas.

Quando cheguei, era costume que as mães que pediam o parto em segredo fossem recebidas por
uma das duas assistentes sociais. Criamos, junto com elas, um grupo de reflexão sobre o tema. O
objetivo era trocar experiências e trabalhar com as pessoas da maternidade, bem como com os
responsáveis pelo abrigo provisório de Antony, que recebia a maioria dos bebês confiados à ASE.
Às reuniões compareciam os membros da maternidade e do serviço de pediatria que se sentiam
envolvidos, sem distinção de funções. A eles se somavam, como que vindo de fora: representantes do
abrigo provisório de Antony, responsáveis de alto nível da ASE e dos serviços de adoção, alguns
membros de associações da circunscrição; Simone Chalon, responsável pela Família Adotiva
Francesa (instituição privada que muitas vezes colocamos em contato com as mães quando elas não
querem recorrer à ASE), e suas colaboradoras; as pessoas do serviço Moïse (que acompanham as
mulheres grávidas em dificuldade que querem abandonar) e as do serviço Illithye (que administram
apartamentos onde as mulheres grávidas que querem parir em segredo podem ir viver sua gravidez e
ser sustentadas). Essas reuniões, bimestrais, eram intensas porque apaixonadas. Tudo era abordado,
do nome aos textos de lei em vigor: o que se podia e não se podia fazer, o que ficava ambíguo ou
impreciso... Em certo momento, as discussões voltaram-se para a necessidade de falar com os
recém-nascidos e de fazê-lo em caráter de urgência, e para os meios que tornassem esse objetivo
realizável. Apesar da vontade de cada um de colaborar em nome da idéia que tinham do que era bom
para a criança, minha prática foi contestada por alguns, sob a alegação de que cabia ao Conselho de
Família, a instância tutelar legar, selecionar o que devia ser dito à criança em função de “seu bem”, e
não a um interventor direto. Não me detive nessa contestação, pois sabia que o tempo necessário
para a constituição desse Conselho tinha por conseqüência a manutenção da criança – talvez por
muito tempo – numa situação indeterminada.
No que tange à urgência a considerar, avisei que podiam inclusive me chamar durante o fim de
semana para um bebê nessa situação de parto em segredo, e que eu viria falar com ele. O objetivo
era intervir o quanto antes possível, em função da idéia de que havia perigo de ruptura total: nesses
casos, a criança, ao nascer, está em completa disjunção de todas suas percepções pré-natais; era
preciso estar presente para nomeá-las, dar-lhes sentido, fazer uma ponte entre esse passado intra-
uterino, o presente e o futuro da criança.
É uma urgência relativa, ou, melhor dizendo, «preventiva»: ela visa antes a prevenir o dano do
que a remediá-lo, o que, em matéria psíquica, seria absurdo e apenas constituiria uma passagem ao
ato por parte de um psicanalista. Mas é uma urgência. É preciso às vezes falar com um recém-
nascido que está doente, que se suicida ou se deixa morrer, que quer voltar para trás: trata-se então
de uma urgência de palavra convocada pelo sintoma. Mas, no caso do parto em segredo, o sintoma é
social; e é porque se sabe disso que é preciso agir rápido. Caso não se intervenha, os “verdadeiros”
sintomas, clínicos agora, podem aparecer.
A certeza de que a coisa será levada a sério, e rápido, tem por outra parte efeitos sobre outras
pessoas além das crianças e suas mães. Primeiro sobre os funcionários. Meus colegas relatam
experiências por eles vividas em outros lugares, em que não se sabe onde colocar essas crianças nem
o que fazer com elas; em Béclère a situação é mais sadia: sabe-se o que se pode fazer e o que não se
pode fazer. Desaparece a indecisão e o mal-estar entre as equipes diante da simples idéia de cuidar
de uma parturiente anônima, pois sabe-se que é uma urgência e que é preciso chamar a psicanalista.
O estresse diminui e é possível trabalhar de modo mais eficaz. Isso se comprova nos dois serviços
envolvidos (maternidade e pediatria), nos quais intervenho especificamente nos partos em segredo
com o consentimento dos dois chefes de serviço.
Nesse mesmo sentido, quando conto aos bebês a vida deles, não evito esclarecer-lhes quem
cuida deles e a que título:
“Fulana cuida de você, ela está aí para consolá-lo quando você está triste, para dar-lhe
comida... Ela está aí para isso, é a profissão dela. Um dia você vai ter de se separar dela, mas
sempre haverá outras pessoas como ela para cuidar de você até que encontrem uma família adotiva
para você...”
Para essas mulheres, essas palavras simples e evidentes têm a vantagem de eliminar o caráter
dramático das coisas: pelo fato de serem referidas como pessoas substituíveis, elas não se assumem
como “mãe” substituta, com todo o peso afetivo que isso pressupõe. Por outro lado, falo com elas
sobre o que faço e por quê. Isento-as do que não é função delas, para que elas me ajudem a cumprir a
minha, tudo em proveito do recém-nascido. Por meio dessa reflexão comum evita-se colocar as
diferentes equipes em situações paradoxais.
Na época em que não existia nenhum procedimento específico, colocava-se as crianças nascidas
sob o nome X na unidade canguru, com o argumento de que era o único lugar em que se tinha tempo
de mimá-las. Aliás, era o que acontecia, e os membros dessa equipe rivalizavam ainda mais do que
de costume nos cuidados. Traziam-se para esses bebês muitas fitas e laços para enfeitá-los,
colocavam-nos em bebês-conforto último modelo no meio de bichinhos de pelúcia e roupas
bordadas; todos paravam para falar com eles, fazer um agrado; eles eram o bebê “deles”. No entanto,
o mal-estar não diminuía na mesma proporção. Para que ele fosse reabsorvido, foi preciso refletir
mais uma vez sobre a definição da unidade canguru, que é uma unidade mãe-filho: que faziam então
recém-nascidos abandonados numa unidade destinada a reforçar o vínculo entre uma mãe e seu filho?
Decidiu-se, portanto, que as crianças nascidas sob o nome X iriam para a neonatologia, se
precisassem de cuidados intensivos, ou para a pediatria, em caso contrário.

A propósito de Pierrette, eu disse que a consulta (comigo) das candidatas ao parto em segredo
era obrigatória. Nem sempre foi assim, e também nesse caso o procedimento permitiu tomar uma
decisão. Até então, eu via muito pouco as mulheres com projeto de abandono durante a gravidez
delas, apesar de meu desejo de fazê-lo, porque eu pedira às assistentes sociais encarregadas de
recebê-las que lhes propusessem vir ver-me se considerassem conveniente. Com freqüência as mães
não queriam se encontrar comigo, e acabei compreendendo que os motivos dessas recusas decorriam
geralmente de um mal-entendido: aparentemente, elas imaginavam que eu iria pedir explicações!
Quando as duas assistentes sociais com quem eu compartilhava a aventura foram embora para
exercer seus talentos em outros lugares, dei continuidade ao procedimento com suas sucessoras.
Acontece que, na mesma época, aceitei ir falar do parto em segredo14 num colóquio dos médicos
da Proteção Materna e Infantil (PMI). No auditório encontrava-se Sophie Marinopoulos, psicóloga.
Essa mulher, que era a responsável por uma associação de adultos abandonados durante a infância,
montara com sua colega assistente social Sylvie Babin uma consulta especializada dentro da
maternidade de Nantes, destinada às mães em dificuldade. Uma atenção particular era concedida às
mães com projeto de abandono, para acompanhá-las durante a gravidez e permitir que
amadurecessem esse projeto: ajudá-las a parir, ajudá-las a transmitir.
Por não ter formação psicanalítica, ela não se perguntava se era preciso esperar um pedido para
se autorizar a escutar essas mulheres: a consulta era sistemática, independentemente da opinião das
postulantes. Quero homenageá-la aqui, pois devo a ela o ter compreendido o que estava em jogo.
Graças a ela, também me autorizei a praticar uma consulta obrigatória, considerando que nessa
situação de urgência eu não era uma psicanalista stricto sensu, mas uma especialista com formação
psicanalítica, no âmbito de uma demanda formulada ao hospital – e não a mim, psicanalista.
Portanto, quando uma mulher se dirige à maternidade para um parto em segredo, agora lhe
respondem: “Se a senhora quer parir em segredo no hospital Béclère, precisa ir falar com a
assistente social e depois com a Dra. Szejer”. Ao contrário do que acontece em Nantes, onde elas
trabalham em dupla, vejo as mães sozinha, as assistentes sociais as encontram num outro momento.
Quanto a Sophie Marinopoulos e Sylvie Babin, elas aproveitaram de nosso intercâmbio a idéia da
necessidade de falar com a criança, e desde então praticam-no sistematicamente. Em suma, esse
procedimento inédito de acolhida das parturientes anônimas é fruto de nossa colaboração.

Essa entrevista é uma oportunidade para um trabalho de escuta e de acompanhamento do


projeto. Ela se dá com a garantia de um sigilo profissional que vai além do sigilo médico, ou seja,
não transcrevo seu teor no protocolo médico, com exceção das respostas da paciente às
especificações legais. Meu objetivo é estar suficientemente segura do que deve ser transmitido para a
criança, sobretudo quando a mãe não quer vê-la, pois sou eu quem irá falar com essa criança. É
melhor escutar esse conjunto de informações de sua fonte mais autorizada. As surpresas são muitas
vezes grandes, pois, embora possa acontecer de eu ter algum preconceito contra um determinado
pedido de parto em segredo que considero estar sendo formulado de forma leviana, não houve
nenhum caso em que eu não mudasse de opinião no decorrer da entrevista. A sinceridade dessas
mulheres, e a descoberta que muitas vezes elas fazem durante a própria discussão dos motivos
irrefutáveis de seu pedido, predomina sobre qualquer outra consideração.
Não sou a única a ficar surpresa, nem a única a mudar de opinião. Isso também aconteceu com
aquela jovem que durante uma entrevista me contava seu desejo de dar à luz em segredo. Ela não
queria o filho de forma alguma, explicando-me que ela e o namorado viviam juntos e tinham feito
esse bebê, mas que ela achara o namorado pouco amoroso e rompera com ele. Ele não sabia que ela
estava grávida. Ela tampouco queria que sua família soubesse. A criança, dizia ela, estaria melhor
numa verdadeira família do que com ela, que estava “na pior”, sem trabalho. Ao escutar isso,
ocorreu-me espontaneamente dizer-lhe:
“Mas afinal de contas vocês quiseram esse bebê!”
Eu não sabia muito bem o que estava dizendo; só sabia que tinha entendido que eles tinham
concebido aquela criança com conhecimento de causa (não tinham usado nenhum método
anticoncepcional). Quando a vi arregalar os olhos e aquiescer como se afinal de contas fosse isso
mesmo que ela achava, eu soube que minhas palavras eram da ordem de uma interpretação, de um
desvelamento do desejo inconsciente.
Enquanto tais, elas surtiram seu efeito, e, na consulta seguinte, ela decidira ficar com a criança.
Ela voltou para essa segunda entrevista acompanhada de uma de suas amigas em quem confiava, e
com quem eu lhe propusera falar sobre nossa conversa. Dizer que ela estava transformada é pouco:
ela estava radiante com a barriga para a frente, e dizia sentir-se num conto de fadas. Voltara a falar
com seu companheiro, tendo entendido que não estava obrigada a compartilhar sua vida com ele para
dar um pai à criança. Pelo que ela tinha compreendido, ele não estava propriamente entusiasmado
com a idéia desse bebê. Concordamos que o bebê talvez viesse a fazer o necessário quando já
estivesse lá para fisgá-lo na sua rede; que, caso isso não acontecesse, ele seria forte o suficiente para
se adaptar ao seu destino, pois teria sido avisado. Ambos, com certeza, teriam a ajuda da família,
que, feliz de acolher esse recém-chegado, prometera seu apoio.
A propósito, o relato dessa entrevista me permite denunciar algumas idéias preconcebidas. A
primeira é que o parto em segredo serviria para algumas de paliativo para o aborto. Não tenho a
impressão de que seja este o caso na realidade, de qualquer forma nunca o constatei. Essa jovem
nunca teria abortado, mas ela não via como garantir uma vida para essa criança em termos materiais.
A segunda supõe que o fato de explicar a essas mulheres as modalidades de adoção serve de
estímulo ao abandono. Esse exemplo prova o contrário.
Esse tipo de entrevista também tem um fim informativo. Com as mães, juntas, de modo muito
rigoroso, montamos um dossiê. Repito para elas os direitos que a lei lhes dá, pergunto-lhes o que
desejam transmitir ao filho e de que maneira: uma carta, objetos, palavras dirigidas diretamente à
criança? Pensamos juntas o que será dito, o que será calado, a menção que será ou não feita do pai...,
tudo isso conforme o desejo delas. Em Nantes como em outros serviços hospitalares e abrigos
provisórios, acrescenta-se a esse dossiê um pequeno livro ilustrado com fotos, no qual o pessoal
responsável pela criança lhe conta seus primeiros dias de bebê. Sophie Marinopoulos e Sylvie Babin
receberam inclusive um prêmio que lhes permitiu confeccionar álbuns encadernados muito bonitos. A
equipe pediátrica de Béclère também confecciona um livrinho onde se escrevem frases simples, que
concernem a essas crianças em primeiro lugar: “Você mamou bem hoje...ontem, você chorou o dia
inteiro... a psicanalista veio vê-lo, contou-lhe a sua história, e desde então você tem dormido
bem!...”. Esses livrinhos são para essas crianças o equivalente do que são para outras os álbuns de
fotos que a mãe monta com tanto cuidado. Por isso, são tão importantes. Os adotados os consideram
“a menina de seus olhos”; não tendo mãe para lhes contar seus primeiros momentos, esse livrinho é o
único testemunho desse tempo.
Apoiar as mães é uma coisa, falar com as crianças, outra, igualmente fundamental. A criança
viveu uma separação que ainda não tem sentido para ela, e que para os outros é tabu. É necessário
que, de uma maneira ou outra, alguém lhe diga algo a respeito: sua mãe, um psicanalista, se lhe for
dado encontrar com um, pelo menos uma pessoa que ocupe o lugar de terceiro e que possibilite que
palavras sejam postas sobre as percepções pré-natais memorizadas. Embora esses elementos que
possibilitam a um recém-nascido situar-se nos primeiros momentos de sua vida estejam perdidos
para sempre – o cheiro, o calor, a voz da mãe e a língua materna, eventualmente a voz do pai, o
ambiente familiar, mas também o relato das “histórias de família”... –, é preciso supri-los. Qualquer
pessoa que se sinta em condições de falar com a criança, que conheça através da mãe sua história ou
que saiba o que os pais desejaram lhe transmitir, tem por missão intervir. Pois a única coisa que fará
laço são as palavras que ela vier a dirigir a ela e que virão a dar sentido ao que lhe foi dado viver.
Essa pessoa é por assim dizer um go-between, um mensageiro entre a mãe e a criança. Ela é quem
enuncia, e não quem consola (a equipe do hospital está mais apta para fazê-lo). Ela pode falar com a
criança porque ela o faz a pedido da mãe. Nos casos mais problemáticos, em que a mãe não deixou
qualquer vestígio, também é preciso falar com a criança, nem que seja para descrever-lhe as
circunstâncias de seu nascimento.
Nunca será bastante insistir para dizer o quanto o que pode parecer uma formalidade de minha
parte é essencial, pois a separação definitiva é uma provação para um recém-nascido. A lei reduziu o
prazo de retratação de três para dois meses; mesmo que tivesse sido reduzido para seis semanas,
ainda seria demais para um recém-nascido mantido sem lastro num espaço simbólico não definido.
Para que um ser humano possa se pensar humano, é preciso haver esse corte de que falávamos a
propósito do baby blues. Para um criança nascida nas circunstâncias de um parto em segredo, é
preciso que uma palavra externa realize esse corte, constituindo dessa forma uma espécie de
talagarça psíquica necessária para seu desenvolvimento. Essa fala não deveria de forma alguma ser
seqüestrada em seguida, como veremos que pode acontecer, para que a criança possa crescer sem
tropeçar nos buracos do segredo. A partir daí ela pode vir a ocupar seu lugar nessa história tão
particular que a precede e atravessa.
Todos os princípios desse procedimento são simples. O mérito deles é, na minha opinião,
informar as futuras mães que muitas vezes não o foram, e permitir que elas decidam com
conhecimento de causa. Escutar, acompanhar, preparar o abandono, se esta for a decisão tomada,
elaborá-lo, falar com a criança, tudo isso permite minimizar o mal-estar criado pelas leis em vigor, e
aplicá-las respeitando as crianças e seus pais. É um peso a menos sobre os ombros da futura criança,
e para a equipe é uma garantia saber que as coisas serão faladas e que não será necessário «reparar»
um destino infeliz com passagens ao ato inconseqüentes. Pois, enfim, um segredo não é uma desdita
ocultada, e é necessário um mínimo de serenidade para respeitá-lo.

A situação dos lugares

No entanto, é de dor que se trata aqui. O parto em segredo, é fácil imaginar, segue-se muito
freqüentemente a um drama social: estupro, incesto, miséria material ou psíquica, pressões
psicológicas, quando não físicas do meio, a lista das circunstâncias de um parto em segredo é
dolorosamente constante.
Em certos países, crianças morrem porque foram “mal previstas” (fora do casamento, no
adultério etc.): não recebem os cuidados a que têm direito ao nascer. As pressões são tamanhas que
as mães também correm risco de vida: levam-nas a pensar que, para elas, melhor seria estar mortas
que desonrar a família.
Há alguns anos, mulheres originárias desses países vinham dar à luz em segredo na França. O
parto em segredo, tal como está previsto na lei, na verdade só existe na França e em Luxemburgo.
Elas diziam vir porque sentiam-se ameaçadas, bem como seus filhos, por vinganças familiares: sua
gravidez “ilegítima” não tinha perdão. Elas falavam de isolamento, de rapto, de bebês deixados sem
cuidados... Elas pediam de certa forma asilo político para o filho por nascer, e por isso queriam dar
à luz anônimas. Hoje em dia praticamente não se vêem mais casos como esses. A política de
restrição de vistos de nosso país fechou-lhes a porta desse asilo. Quem ganha com isso: essas
mulheres, seus filhos, os serviços de imigração?
Recebem-se agora mulheres que, vivendo nos meios integralistas em Paris, escondem a
gravidez, dão à luz em segredo e voltam para sua família como se nada tivesse acontecido. Elas
vivem a si mesmas como clandestinas de fato, mesmo se não o são de direito, e não vêem qualquer
possibilidade de criar um filho. Qualquer outra escolha afora o parto em segredo lhes é quase
proibida. Admitindo-se que elas abandonassem sua comunidade de origem e aceitassem as ajudas
sociais que o Estado lhes propõe para ficar com o filho, não estariam colocando a própria vida ou a
de seu bebê em perigo se um membro da família os encontrasse? Em qualquer um dos casos, elas
continuam sendo párias. Será que se deve, em nome do respeito pelas outras culturas e da submissão
às decisões sobre a imigração de nossos parlamentares, esconder fatos tão recorrentes? Isso não é
possível.
Caso não haja drama social, quase sempre há drama psicológico no parto em segredo. Quando
se fala de contexto dramático, não se trata de fazer o apanágio do quarto-mundo ou de populações
submetidas a condições extremas (miséria, guerra): todas as categorias sociais estão representadas
no leque dos pedidos de parto em segredo.
Felizmente existem contra-exemplos para esses dramas, e quase se pode falar em certas
ocasiões de parto em segredo por consentimento mútuo! Evocarei o exemplo daquela mulher de 45
anos recebida no setor de urgências do hospital devido a dores abdominais agudas. O interno a
examinou e depois, pensando num fibroma, enviou-a para o setor de urgências da maternidade para
um parecer; ali constatou-se... que ela estava simplesmente em trabalho de parto. Portanto, ela
descobriu que estava grávida ao dar à luz! Eu estava presente no serviço quando ela se encontrava na
sala de pré-parto, e pediram-me para vê-la porque ela estava completamente transtornada, como se
pode imaginar. Os médicos e as parteiras, conscientes da brutalidade da situação que ela vivia,
infelizmente tinham de cuidar de outras urgências, e portanto coube a mim dar-lhe apoio.
Ela então me contou que já tinha três filhos e que esse nascimento chegava num momento em que
a relação do casal estava por um fio. Ela achava que o fato de estar tão infeliz junto do marido
impedia seus três primeiros filhos de se desenvolverem bem, e não gostaria de acrescentar ainda
mais sofrimento com o quarto. Disse que o marido era alcoólatra, violento, e a maltratava, e isso já
era o suficiente. A situação era terrível para ela, e, vale dizer, ela falava de modo pungente de seu
dilema: reconhecia esse filho e ao mesmo tempo achava que não podia assumi-lo, temendo impor-lhe
sua própria infelicidade. A solução que lhe parecia a melhor era “que ele pudesse crescer numa
família alegre, com uma mãe feliz que fosse capaz de transmitir felicidade”. Portanto, ela deu à luz
em segredo e abandonou o filho com vistas à adoção. No dossiê que preparamos juntas, ela deixou
uma carta com suas coordenadas, esperando que ele pudesse tomar conhecimento delas quando o
desejasse. O pai, informado, concordou.

Na maioria das vezes, porém, os pedidos de parto em segredo não são espontâneos, e as
postulantes nem sempre conhecem essa possibilidade legal. Elas são reveladas no decorrer de uma
consulta médica durante a gravidez, ou logo depois do parto. Temos, portanto, a missão de informar e
de explicar, para permitir que essas mulheres escolham.
Quando a decisão de parir em segredo é tomada, todas as mulheres que encontrei ficam
fortemente comovidas, mesmo aquelas que não queriam ficar com a criança, mesmo aquelas que viam
nessa possibilidade oferecida pela lei um dom outorgado à criança.
Algumas acabarão mudando de idéia no prazo de dois meses que lhes é dado. Mas estas são
raras, e a verdade obriga a dizer que, na maioria dos casos, essa mudança de opinião tem
conseqüências desastrosas. Com efeito, é muito freqüente que, mesmo tendo decidido ficar com o
bebê, elas não venham vê-lo, ou muito pouco. O resultado disso é provavelmente o pior que se
possa imaginar para a criança: ela é abandonada de fato, quando não de direito, mas não pode ser
adotada enquanto seus pais continuarem visitando-a, mesmo que esporadicamente. Enredada nessa
situação, ela será criada numa instituição. Em outros casos, as mães ficam com as crianças, mas as
maltratam. Esses maus-tratos, na quase totalidade dos casos, são o eco de sevícias de que elas
mesmas foram vítimas.
Algumas vezes oscilam por muito tempo, sem se decidir claramente. Um dia dei assistência a
uma mulher, a quem perguntei, como sempre faço, se ela queria que fôssemos juntas falar com seu
filho ou se ela preferia que eu fosse sozinha. Ela me pediu para acompanhá-la e, ao vê-lo, declarou:
“Não vou abandoná-lo!”. Imaginem minha perplexidade, pois o termo “abandono”, mesmo suprimido
dos textos legais, pode ser utilizado, como nesse caso, em toda a sua ambigüidade: que quer dizer o
fato de declarar que se vai abandonar e dizer “não vou abandoná-lo”? Ela queria ou não queria
entregar o filho para adoção? Ela estava dizendo que estava voltando atrás de sua decisão ou
simplesmente que guardaria o filho em seus pensamentos? A segunda solução na verdade era boa,
caso desconsiderássemos sua ambivalência, que perdurou até o final do prazo que a lei lhe concedia.
A história desse vaivém voltou aos meus ouvidos pouco tempo depois. Acontece que essa
criança foi novamente internada depois do nascimento no serviço de pediatria por causa de
distúrbios respiratórios. Revi-a nessa ocasião, e propus-lhe uma interpretação que trouxe frutos.
Sugeri que com seus distúrbios ela tentava recuperar um modo de comunicação umbilical, ou seja,
um modo de comunicação «pré-respiratório»:
“Voltando ao hospital é como se você procurasse a sua mãe ali onde ela deixou você. Mas ela
não está mais aqui, e ela não mudou de idéia: ela confiou você ao abrigo provisório enquanto se
procura uma família para adotá-lo. O que você pode reencontrar à vontade, e o que você nunca
perderá, é a lembrança dela: você pode guardá-la para sempre no fundo de seu coração”.
Os distúrbios regrediram e a criança pôde voltar ao abrigo provisório. Pouco tempo depois, a
mãe voltou ao hospital procurando o filho, e lhe disseram que ele se encontrava no abrigo
provisório. Ela esperou mais de três meses depois do parto, mais precisamente um dia além da data
de expiração do prazo fatídico, para... pedir de volta a criança! Uma parte dela desejava o abandono,
a outra o recusava, mas a segunda era menos forte e ela deu um jeito de chegar depois do prazo e
fazer a primeira triunfar.
O pessoal do abrigo provisório, vendo a criança presa na oscilação de desejos contraditórios
da mãe, decidiu enviá-la para uma consulta com um dos psicanalistas conveniados. Queriam saber se
a criança estava psicologicamente pronta para ser adotada. Pelo que me disseram, parece que estava.

Segredos de família, segredo de Estado

Ao nos referirmos a esses partos, falamos de segredo, e a palavra dá conta da situação para
além da compreensão imediata. O segredo, em latim o que é secretus, é com efeito o que está
“separado”, “dissolvido” (de secernere, separar, distinguir). O que segrega algo, uma secretio,
segundo a mesma etimologia, é o fato de pôr de lado. Ora, se é preciso “segregar segredo” em
relação a esses partos, se é preciso pôr de lado algo que concerne à separação nesses nascimentos
particulares, geralmente é a propósito da relação fecundante. É bastante provável que esse segredo
venha a se tornar, para a criança adotada e para as gerações seguintes, um segredo de família. Nisso,
aliás, a criança nascida de um parto em segredo não escapa ao destino comum a todas as crianças do
mundo.

Segredos de família e romances familiares

Afastemo-nos por um instante do campo restrito do parto em segredo, e examinemos esses


segredos de família que são o quinhão de cada qual. Que são os segredos de família? Nem mais nem
menos que o que alimenta todos os romances familiares, e portanto o Édipo. Aliás, esses segredos
não precisam ser conhecidos para operarem; basta que existam. São eles que podem vir à tona no
baby blues, por exemplo, nesse momento posterior ao nascimento que produz essa abertura do
inconsciente de que falamos. Na verdade, muitas vezes é nesse momento que os segredos de família
são pronunciados, concepções “ilegítimas” e outros “cadáveres no armário”. Os avós, as tias “de
visita”, soltam a língua por ocasião dos nascimentos.
O recém-nascido, tenha ele sido ou não afetado por esse segredo durante sua vida pré-natal,
beneficia-se então de sua revelação. É preciso empenhar-se para que isso aconteça na frente dele,
ajudar os pais a falar, a dizer as coisas que não teriam dito em outro lugar, às vezes até a se darem
conta do alcance desses segredos que eles mantinham ocultos. Com isso, espera-se garantir à criança
que, além das circunstâncias mais ou menos difíceis de sua concepção ou de seu nascimento, ela não
tenha de carregar o peso da culpa ligada ao segredo.
Os segredos de família podem pesar sobre o recém-nascido, até mesmo sobre o feto. Catherine
Dolto-Tolitch, numa reunião da associação A Causa dos bebês, dizia que quando, durante uma sessão
de haptonomia, o casal revelava um segredo de família, ela sentia o feto reagir. Compartilharia ele
do segredo? Assim como pudemos falar da sensorialidade pré-natal, gostaríamos de dizer que a
criança sabe algo a respeito, mas que não sabe o quê. Quando C. Dolto-Tolitch diz que a revelação
do segredo de família afeta o feto... via a mulher grávida, deve-se compreender que ele memoriza
percepções, que poderá ou não ligar a palavras depois do nascimento.
A característica desses segredos de família, constituídos pelas famílias e transmitidos na forma
de não-ditos, é a de transmitir um hiato que atravessa as gerações. Isso não concerne apenas ao feto
ou ao recém-nascido, mas também ao homem ou à mulher no transcurso de sua vida, e até mesmo aos
seus descendentes. Remeto aos episódios de vida relatados por Serge Tisseron em suas obras, para
ilustrar o que o segredo de família envolve.15
Um dos mais conhecidos até hoje, graças a ele, é o de Hergé, o criador de Tintin. O pai de
Hergé e seu gêmeo na verdade são filhos de pai desconhecido, e apenas devem o patronímico de
Remi a um casamento por conveniência. A avó manteve segredo sobre seu amante, dando livre curso
às mais românticas suposições de seu neto: talvez seu avô fosse de alta estirpe, o rei dos belgas,
quem sabe? Toda a fantasmagoria do menino Georges, pois é este seu nome, elaborou-se em torno
dessa questão do segredo. George Remi, depois de adulto, criará a conhecida obra sob o pseudônimo
de Hergé, RG16 para os íntimos (Remi George). Ora, diz Tisseron, Hergé teria feito uso de uma obra
de ficção tanto como modelo explicativo de seus próprios segredos familiares quanto como fonte de
inspiração para sua obra. Essa obra de ficção não é anódina do ponto de vista do que aqui nos
interessa, pois trata-se de Sans famille [Sem família] de Hector Malot. Hergé tinha motivos
particulares para ver nela uma obra-prima. O herói da história, recordemos, chamava-se Rémi, um de
seus irmãos chamava-se Alexis, como o pai de Hergé, e uma de suas irmãs, Lise, ou seja, apenas uma
letra de diferença com o nome da mãe de Hergé (Lisa). As origens nobres de Rémi, afastado dos pais
para ser criado por uma família mais modesta, não podia deixar de afetar Hergé. Quanto aos
personagens de Tintin, são sempre evocações dos de Sans famille, como Tisseron demonstra de
forma generosa: até o castelo de Moulinsart que evoca Milligan (mill quer dizer “moinho” em inglês
[moulin, em francês]), o castelo dos ancestrais do Rémi de Hector Malot.

Segredo e anonimato: o ponto de vista da lei e o do psicanalista

Os livros falam com os livros, a acreditar nesse exemplo, e os sujeitos encontram tudo o que os
define nesse percurso significante que os representa. Os segredos de família atravessam as gerações.
Os não-ditos da história familiar criam como que uma voragem que chama os sujeitos para a ela
voltarem. Aqui, é em prol da sublimação, para felicidade dos “tintinófilos”. Esses segredos de
família são, a bem dizer, a falta em estado puro, o buraco na trama que nenhum remendo consegue
tapar. Esse hiato é constitutivo de todas as famílias, nenhuma escapa. Nem por isso ficamos todos
loucos, porque sempre podemos recorrer imaginariamente, da forma mais deformada que seja, às
histórias de nossos ascendentes, às fundações de nossas linhagens. Se pensarmos no parto em
segredo dessa ótica, veremos que tal recurso imaginário é extremamente dificultado.

Sempre que possível, a lei francesa embaralha as cartas um pouco mais. Ela considera
transmissíveis e não submetidos ao segredo os elementos “não identificadores”: peso da mãe, altura,
cor dos olhos e da pele etc. Afora isso, ela se reserva o direito de proibir toda transmissão do que,
no entanto, dá o sentido de uma vida. Além do anonimato das mães, que ela preserva, ela corre o
risco de negar aos filhos delas o direito às suas origens.
Pelo direito ao anonimato que ela concede às mães, a lei em nosso país dá seguimento à sua
vocação de terra de asilo: ela salva vidas humanas, as das mulheres em perigo de que falávamos há
pouco, por exemplo. Mas ao selecionar dentre os elementos não identificadores o que bem lhe
parece, ela impede aos adotados, por falta de origem, um acesso permanente e incondicional à sua
história. A criança está em busca do relato que lhe possibilitará responder à pergunta: por que eles
me abandonaram? Essa resposta é ainda mais necessária para as bases de sua existência do que saber
quem a abandonou. Poder responder a essa pergunta tornará mais fácil, também para a criança,
adotar uma família, sua história e a identidade que ela lhe propõe.
Na prática, a lei a obriga a se conformar à imposição de ignorar o que, de fato,
inconscientemente, ela sabe. O que de fato acontecerá com essa criança depois do nascimento? Sem
amarras, oscilando ao sabor das projeções fantasísticas parentais de cada um, ela será geralmente
confiada à tutela do poder executivo e à supervisão do conselho geral, que, por intermédio da
Assistência Social à Infância e do Conselho de Família, assume a responsabilidade até a adoção.
Essas instâncias tutelares outorgam-se o direito de selecionar na sua história o que é bom ou ruim
transmitir “no interesse da criança”. Dessa forma, autorizam-se a censurar certas informações
fornecidas pelas mães que elas julguem não terem pertinência para a criança. Essas informações são
pretensamente censuradas no interesse da criança, mas geralmente é o interesse ou a reputação dos
pais adotivos que está em questão. Frente a essa situação, como os pais adotivos não cederiam à
tentação de apagar essa história infeliz anterior à adoção? Ainda que eles resistissem a essa tentação,
como a criança poderia se achar nela? Com essa censura, sob alegações pedagógicas ou morais,
essas instituições idealizam uma certa visão da maternidade e da parentalidade. Essa visão não serve
para a criança, que eu saiba, pois, digamo-lo com todas as letras: ela cria laços coletivos de
silêncio incontestáveis. Esses segredos em proveito da sociedade criam órfãos de palavra e fabricam
crianças adotáveis “demais”, crianças exteriores às linhagens, filhos de todo o mundo e de nin​guém.

É muito freqüente que as mulheres que pensam em dar à luz em segredo queiram criar um
segredo de família sobre a questão da relação fecundante, sobretudo em casos de estupro ou incesto.
Elas não querem que nada disso seja transmitido à criança. Às vezes desejam até que nada seja
transmitido sobre o pai biológico. São exigências que teriam de ser respeitadas, pois emanam da
mãe. Mas é preciso esclarecer no dossiê: “Por motivos particulares, a Sra. X não deseja falar do pai
biológico nem das condições da concepção dessa criança, porquanto considera que isso se refere à
sua vida privada”. Uma frase como essa pode mudar tudo, porque o pai biológico foi mencionado
como existente: não há forclusão.
A situação é completamente diferente quando uma assistente social, porque tem conhecimento
do fato, escreve no dossiê “estupro ou incesto”, e essa informação lida pelo Conselho de Família é
censurada por ele. Está-se aí em plena loucura, que tende a fazer do segredo de família um segredo
de Estado. Como se o Conselho de Família, previsto por lei, se tomasse pela família. Esse Conselho
deveria, ao contrário, ratificar essas informações e transmiti-las integralmente à família adotiva. Se a
família adotiva censura temporariamente alguns elementos, em função de suas exigências
pedagógicas, ainda assim terá condições de educar a criança pelo que ela é.
Uma família adotiva, que tem conhecimento de um segredo de família comunicado pela mãe de
nascimento, pode mantê-lo por conta própria dizendo para a criança: «não sabemos de nada, porque
sua mãe de nascimento quis que não soubéssemos nada». Isso difere radicalmente da censura estatal,
pois o futuro é preservado.
Tomemos o caso das mulheres originárias da ex-Iugoslávia. É de conhecimento público a
política de estupros programados no âmbito da limpeza étnica, assim como se tomou conhecimento
das experiências eugênicas do III Reich alemão. Algumas mulheres bósnias deram à luz em segredo
na França. Foi a forma de ajudar para que, da dor indizível que as acometeu, viesse à luz do dia algo
de humano como resposta viva à barbárie que o tinha engendrado. Suponhamos agora que uma
família adote uma criança bósnia sabendo de suas origens. Ao não dizer nada à criança, mesmo com
a intenção de evitar que sofra, ela de certa forma lhe pediria para se conformar a um modelo de
criança que ela não é. Também ela tem uma memória, inconsciente em todo caso, e não seria de
espantar se ela não se sentisse muito à vontade nessa roupa que modelaram para ela, pois não é a
sua! Não é a adoção em si mesma que pode criar dificuldades para essas crianças, é a maneira como
ela é negociada.
Às vezes, crianças adotadas manifestam mais tarde um sintoma ligado aos segredos que pesam
sobre elas. Elas terão então pelo menos a possibilidade de procurar penetrar nesses segredos, fazer
suas pesquisas, até onde puderem, como quiserem... Não é porque descobre o segredo que o sujeito
necessariamente ficará livre de um eventual sintoma (embora isso aconteça freqüentemente), mas
pelo menos pode usá-lo como quiser. Portanto, cabe sempre às famílias – adotivas e biológicas –
gerenciar a trajetória do segredo, certamente não ao Conselho de Família. Elas têm a liberdade de
calar uma coisa ou outra em função do que julgarem bom que a criança saiba em tal ou qual idade.
Será então um segredo temporário, que reflete um cuidado pedagógico por parte delas, e não mais
rasura definitiva, uma escotomização, a ablação de uma parte do que constitui o vivo da criança. Os
serviços de adoção concordam agora em aconselhar as famílias a criar a criança na verdade. Para
isso é preciso que essa verdade não tenha sido adul​terada previamente!
Deve-se garantir o segredo sobre as origens ou o anonimato dos genitores? A lei tende a impor
o primeiro, os especialistas esclarecidos17 exigem exclusivamente o segundo. Da minha parte,
proponho uma solução intermediária na aplicação da lei. Como psicanalista, parto do princípio de
que todo discurso formulável contém enunciados faltantes. A situação de uma criança nascida de um
parto em segredo não constitui exceção. No entanto, na sua prática, ninguém deve se dar o direito de
fazer uma triagem, para representar essa falta de que o inconsciente está repleto. Simplesmente peço
para a sociedade, ou seja, para as instituições que são sua armadura, que respeite essa regra, e que
não manipule os elementos não identificadores a seu bel prazer. Na prática, a realidade é variada, e
cada problema tem sua solução. A ASE oferece a garantia do segredo mais hermético. É uma
instituição confiável e responsável, que consegue assegurar a quem o peça que nada ou quase nada
será dito. Ela será a melhor garantia para aquelas que manifestem um desejo de ruptura total, por
exemplo não vendo a criança ao nascer, não lhe deixando nem carta nem objeto ou pedindo para
calar tudo o que concerne ao pai.
No caso das mulheres que, ao contrário, desejam receber notícias do filho adotado, ou daquelas
que esperam que lhe transmitam as cartas ou objetos que elas lhe deixaram, algumas instituições
privadas serão mais adequadas. Nelas procura-se mais transparência.
Existem casos de uma liberalidade ainda maior. Assim, na Polinésia Francesa está-se mais
perto de uma tradição de “doação de filho”. Ali, a adoção funciona por um transferência de
autoridade parental durante dois anos. Durante dois anos (e dois meses, pois soma-se a esses dois
anos o prazo de retratação), a criança vive com seus pais adotivos. Passado esse tempo, caso
persista o acordo entre pais biológicos e adotivos, a adoção plena é pronunciada. Às vezes pessoas
da metrópole vão buscar uma criança no Taiti, travam conhecimento com a família de origem e obtêm
a delegação de autoridade parental. De volta à metrópole com a criança, permanecem em contato
com a família de origem por meio de cartas, fitas de vídeo e fotos. Quando a adoção se dá, tudo
transcorre geralmente, ao que parece, na mais santa paz, e o reconhecimento é mútuo. Conseqüência
inesperada, embora lógica, desse sistema: a contracepção é pouco praticada, pois, quando se tem um
bebê em excesso... ele é dado!

Ninguém contestará a necessidade de legislar sobre a matéria, e menos ainda o belo trabalho
realizado pela ASE e pelas instituições privadas para tornar essa lei eficaz. Depois da roda, prática
estimulada por São Vicente de Paula para combater o infanticídio, o esforço de reconhecimento
daquelas que «fraquejaram» e de seus recém-nascidos lentamente produziu seus frutos. A roda
consistia em deixar a criança nascida no opróbrio na porta do asilo, ao amanhecer e
dissimuladamente. Sucederam-se a oficialização dessa prática pelas leis napoleônicas de 1811, o
reconhecimento da “agência de abandono” em 1904, os adendos ao Código da Família de 1911, a
modificação do artigo 55 do Código da Família e da Assistência Social em 1943, a abolição do
termo abandono em 1984, por fim a lei sobre a adoção de 1996.
Um detalhe picante: o artigo 55 votado no governo de Pétain tinha por objetivo não revelado
salvar a honra dos prisioneiros, mais tarde dos homens do STO18 e dos maridos daquelas que foram
“tosquiadas”. É uma justa reparação pensar que essa lei serve atualmente para salvar a vida das
mulheres em perigo, violentadas pelos homens e pela guerra, bem como a de seus filhos, e não
apenas para salvaguardar a reputação dos homens.

Tanto no passado como no presente, a lei revela seus méritos, mas também seus limites. Seus
méritos, porque promove na sociedade um melhor reconhecimento simbólico e ético dos membros
que a constituem, mesmo se a reflexão que a fez nascer seja minoritária (pensemos na votação da lei
sobre a abolição da pena de morte); seus limites, pois ela não consegue evitar uma inclinação a
salvaguardar ao mesmo tempo o conservadorismo que solapa sua aplicação.
Um exemplo? Pela lei de 1996, a sociedade reconhece como insuportável que possam existir
indivíduos sem nome dentro dela: ela prefere Sandra a Xisete, para retomar o caso que evocamos.
No entanto, ela não garante a uma criança o direito à sua história, nem reconhece a uma mãe que dá à
luz em segredo o caráter positivo de seu ato; ela age como se preferisse defender um resto de
civilidade pueril e honesta. Como se devêssemos dar razão àqueles que vêem nisso uma vergonha
evidente ou oculta, e que poderiam dizer: “A ação ou a intenção dessa mãe é confusa, melhor calá-la
definitivamente”, ou então: “o Sr. ou a Sra. Fulano abandonaram o filho, por isso estão à margem da
ordem social; quanto ao resto, não nos cabe indagar enquanto as formas de amor forem respeitadas”.
No entanto, respeitar (e desejar) o direito não quer dizer amar a coisa arrumadinha. Um
psicanalista pode ser ver diante da situação de afirmar que uma mulher que abandona/doa um filho
talvez esteja realizando um ato de amor. Que, inversamente, uma mulher que entope o filho de comida
não esteja necessariamente realizando um ato amoroso. Em outras palavras, embora a intenção da lei
seja boa, sua interpretação dá lugar à confusão, se não se tomar cuidado. Apenas uma formação
adequada do pessoal responsável que lida com esses problemas pode fazer com que essa lei se
aplique no interesse da criança, de sua mãe e de seu pai.

Samia não se sente forte o suficiente

Outro exemplo? Quando a sociedade propõe a essas mulheres um lar para mãe e criança
desabrigadas, uma ajuda financeira para mães solteiras, ou alguma outra ajuda, sua intenção é boa.
Mas será que nos damos conta de que no mesmo movimento anula-se o que se oferece, quando se
contrapõe a exigência de uma renúncia por parte da mãe: renúncia ou ruptura em relação ao seu pai,
sua mãe, seus irmãos e irmãs, em relação ao amante que desapareceu de circulação, à tradição, à
cultura, às festas...? Que tipo de lugar lhes damos, que tipo de futuro, de ideal para ser mãe e criar o
filho? Samia encontrou-se diante desse dilema. De origem árabe, ela ficou grávida de um rapaz
francês que ela conhecia há muito tempo e com quem morava. Eles não tinham feito nada para
impedir a gravidez, sem dúvida eles até a esperavam.
Nenhuma das duas famílias aprovava a união. A família dele era adepta das “teses” da Frente
Nacional; na dela havia uma visão islâmica das coisas. Essas famílias apenas toleravam o casal, e
nunca perdiam a oportunidade de acrescentar às proposições racistas o destino dos “da casa em
frente”.
No quarto mês de gravidez, quando esta começou a ficar visível, o pai subitamente declarou não
desejar a criança. Não conseguindo (se) convencer por meio de palavras, ele começou a bater em
Samia. Ela estava a ponto de ter medo, não só por ela, mas também por seu bebê. Abandonou,
portanto, a casa deles e encontrou refúgio na casa de uma parente. Alguns meses depois, tendo
levado a termo a gravidez, ela veio dar à luz em Béclère e expressou sua vontade de abandonar a
criança.
Por que esse rapaz, contra todas as expectativas, dado seu comportamento pregresso, reagiu de
modo tão violento? Levanto a hipótese de que, confrontado com o racismo do próprio pai, ele não se
sentiu forte o suficiente para ele mesmo ser pai de uma criança concebida com uma mulher árabe,
quando essa gravidez ficou evidente para todos, inclusive para seu pai. Ela, escutando sua família
dizer que era por ter escolhido um francês que ela se encontrava nessa situação dramática, sentia-se
frágil demais para lutar contra essas duas forças de intolerância. A ambos faltou força:
financeiramente, a situação deles era boa o bastante para poderem acolher esse filho que tinham
desejado, mas teriam de romper com a família, e isso era demais. Quem poderia condená-los? Eu
não, em todo caso, pois sei por experiência que a maioria daqueles que abandonam um filho são
pessoas que não têm mais forças.
Acompanhei, portanto, Samia na sua decisão de dar à luz em segredo sem ver a criança. Com
isso, ela desejava evitar a ruptura com sua família, e a violência de seu companheiro para com ela ou
o filho deles. Ela deu nomes para o filho e pediu que eu lhe contasse toda a história deles. Em
seguida, redigiu uma carta dando suas coordenadas para que ele pudesse encontrá-la se assim
desejasse, conforme as modalidades legais que lhe indicamos. Por fim, pediu que a criança fosse
confiada a uma instituição privada, para ter certeza de que essa carta lhe fosse entregue, sem censura.

Ousemos dizer, para concluir, que um procedimento como aquele que empregamos é um
complemento indispensável à lei. Antes da entrevista com Samia, meu humor era daqueles que
possibilitava todo tipo de deslize. Conhecendo apenas o que constava do dossiê, eu me perguntava
por que ela tinha vindo, sem ter feito o acompanhamento prévio da gravidez. Nenhum motivo me
parecia justificar sua demanda, e eu estava prestes a repetir a ladainha sobre a decência que quer que
não se abandone um filho simplesmente porque se tem vontade. Ela era uma moça que não só não se
«sentia» mãe, mas que tampouco queria correr qualquer risco de vir a ser? É certo que o instinto
materno não existe, como Elisabeth Badinter insistiu em dizer, mas assim mesmo... Estava quase
interpretando sua demanda antes de escutá-la, rememorando casos similares passados: haveria nela
essa forma de violência que consiste em não dar oportunidade a um filho de fazer com que você se
torne mãe, porque não se suporta renunciar à própria mãe, nem à condição de filho? Estava me
entregando a pressupostos que só me levariam às disfunções que denunciei acima em alguns membros
da equipe do hospital.
Naquele dia eu também estava mexida por causa de uma outra parturiente muito jovem que eu
atendera pouco tempo antes, e que abalara minhas certezas. Tampouco ela tinha nada “contra” a
criança. Ela conseguira esconder a gravidez da sua família – é incrível ver como uma mulher que
quer negar ou dissimular a gravidez consegue alcançar seus fins. E então, no fim da noite, sem
acordar ninguém, ela dera à luz o filho, e o depositara no lugar onde se coleta o lixo. Digo
“depositara”, deveria ter dito “dispôs”: ela não se livrara da criança como se poderia pensar, mas a
envolvera numa toalha e realmente a tinha instalado no local de seu imóvel destinado ao lixo. Por
fim, ela saíra para ir à escola. Policiais encontraram o bebê e logo identificaram a mãe, que foi
encaminhada para o hospital, onde ficou detida para interrogatório. Foi lá que nos encontramos.
Animada dos mesmos preconceitos, eu lhe perguntei:
“O que você pensou que aconteceria com essa criança no lixo?”.
Ela me respondeu de modo muito lógico que ela sabia que a coleta do lixo era iminente e que
portanto a criança logo seria encontrada; em seguida, aconteceria o que tinha da acontecer, ela não
poderia fazer nada. Nenhum indício em seu discurso de desdém pela vida da criança, tratava-se
simplesmente de uma incapacidade de se pensar a mãe desse bebê.

Nesse caso, como no de Pierrette, a entrevista, pela obrigação que eu tinha de escutar, me fez
mudar radicalmente de posição. Ela me devolveu à minha função de psicanalista. Sem essas
entrevistas, a aplicação brutal da lei não teria nenhum sentido, nem para ela nem para mim.
Do meu lugar de psicanalista, sou obrigada a comprovar a veracidade do adágio: dura lex, sed
lex, a lei é dura, mas é a lei. A lei existe, e é melhor assim; ela se presta à confusão, é uma pena. Mas
para além dos dossiês e das declarações que a lei prescreve, cabe a nós, psicanalistas, médicos e
paramédicos e representantes das instâncias tutelares, velar por suas modalidades de aplicação para
garantir aos recém-nascidos que não faltem páginas demais no texto de sua vida.

Nascer não é tudo


Baby blues e parto em segredo estão ligados nesse capítulo, embora um seja freqüente e o
outro, raro. O primeiro põe em cena a mãe e a criança, ao passo que o segundo as separa. Num caso,
trata-se de um vínculo difícil de manter, no outro, de um vínculo difícil de desfazer. Por que fazer
deles um mesmo objeto de interesse para o psicanalista?

É que ambos marcam o passo decisivo que vai do nascimento à humanização, e caracterizam a
dificuldade desse período de limbo. Quem diz limbo, diz borda ou limiar: a criança está na borda do
remate de seu nascimento aos olhos daqueles que a acolheram. Qual a natureza dessa borda, dessa
suspensão entre real e simbólico? Para a criança, será o tempo da espera angustiada, o da esperança,
ou um espaço de tempo incompreensível? A etimologia fornece uma versão otimista: no latim
eclesiástico do século XIV, o limbo ( limbi) é a “estada celeste situada na borda do paraíso”. É o
lugar em que as almas dos justos, que morreram antes da vinda de Cristo, esperam sua libertação. O
uso deriva para designar a estada das almas das crianças mortas antes de terem sido batizadas na
religião católica.
As crianças nascidas de um parto em segredo talvez estejam mais próximas do inferno do que
do paraíso. É preciso falar-lhes para permitir que saiam do limbo. Às vezes escutam-se pessoas
associar essas crianças abandonadas aos suicidas. Ambos são sentidos como inconvenientes e
persecutórios, incomodam e deixam em torno de si um cheiro de erro. Em todos os tempos, como
lembra a historiadora Yvonne Knibiehler, procurou-se pelos procedimentos legais de abandono dar à
“filha pecadora” um meio de apagar seu “erro”: pensava-se que ela “não podia sentir nenhum afeto
pelo filho, motivo de vergonha, e que a própria criança apenas poderia sentir desprezo e
ressentimento por aquela que lhe infligira tal vida. Uma filha não poderia ser mãe (...) O que o saber
histórico estabelece é justamente que o desejo de filho nas mulheres jamais pôde se exprimir
livremente. (...) O problema é o de sua humanização, de sua inserção e de seu funcionamento a
serviço de sociedades humanas civilizadas”.19

Crianças nascidas em segredo ou crianças apanhadas no baby blues da mãe, todas elas têm de
sair do limbo para nascer para o simbólico. Será que o nascimento não é algo tão natural?

Nascer para a sociedade


Na maternidade, tudo começa com o nascimento. Obviedade, apenas contradita pelo trabalho
realizado no mesmo serviço do hospital com as gestações de alto risco e as reproduções
medicalmente assistidas. O objetivo primeiro continua sendo o nascimento. É o primeiro ato natural
da vida, dizem.

De um ponto de vista médico, nada permite contentar-se com tal afirmação. A experiência dos
médicos de uma maternidade está repleta de fatos inexplicáveis, de nascimentos que “goram” sem
motivo, de mortes in utero imprevistas, de tratamentos profiláticos que fracassam inexplicavelmente,
de mortes súbitas inevitáveis... Cabe então não colocar obstáculos ao curso natural das coisas e
atribuir tudo isso à fatalidade? Para o obstetra, isso não é possível: compreender é o fundamento de
sua pesquisa, de sua cultura, de seu poder e de sua paixão.

Para o antropólogo, o nascimento é uma questão de cultura antes de ser um simples fato
biológico. Lembremos as afirmações de Françoise Héritier, segundo as quais nenhuma sociedade
parece confundir filiação e engendramento.20 Como diz um provérbio samoano no qual ela se inspira:
“É a palavra que faz a filiação, é a palavra que a retira”. Sem uma nomeação pela comunidade na
qual ela entra por seu nascimento, a criança não é só banida da sociedade, ela não existe.
Para os membros dos comitês de ética e todos aqueles que são levados a debater, como se fez
recentemente, novas técnicas de assistência à reprodução (1985), o parto em segredo (1996), a
adoção (1996), o nascimento é também um problema eminentemente social. A começar por sua mera
eventualidade. Quem dirá, por exemplo, se toda pessoa ou casal estéril tem direito a um filho sob o
pretexto de que técnicas novas podem lhes proporcionar um? Pode-se tirar partido do direito da
criança (que ainda não existe) a nascer para aplicar essas técnicas em quaisquer condições? Como a
lei deve decidir, arbitrar, determinar no final das contas quem é o pai de uma criança, quando seu
genitor presumidamente morto reaparece depois que a mãe voltou a se casar uma vez terminado seu
“luto”? E quando uma mãe de aluguel reclama direitos de educação sobre uma criança com o
argumento de ter assinado um contrato nesse sentido com os pais (isso nos Estados Unidos, por
exemplo, pois na França a lei proíbe essa prática)? Seja qual for a jurisprudência, importante nessa
matéria, o problema é constante: quem é filho ou filha de quem, em virtude de que intervenção da
sociedade uma lei de parentesco vai decidir sobre a existência de um recém-nascido?
Do nascimento ao reconhecimento

O legislador decidiu: para ele, nascimento acarreta reconhecimento. Os pais declaram o


nascimento, o oficial do registro civil o constata – ou, como em algumas grandes maternidades, seu
representante no hospital: “hoje nasceu Jean/Jeanne, filho/filha de Maurice Gendron e de Julie, sua
esposa, nascida Jarniguet; o que nós, representantes da lei, constatamos neste dia etc.”. Se os pais
não declaram, alguma outra pessoa tem de fazê-lo: um funcionário do governo, no caso de uma
criança encontrada ou quando algum nome não foi notificado pelos pais; a parteira, no caso de um
parto em segredo. Segue-se a declaração de reconhecimento: ele é automaticamente adquirido
quando os pais são casados; caso contrário, será necessário o deslocamento da mãe e eventualmente
do pai até o órgão do governo. Em caso de não-reconhecimento por um dos dois ou de retratação, a
situação se complica um pouco mais. É por exemplo o caso previsto por lei do “reconhecimento
antes do nascimento”: nos casais não casados, a mãe pode reconhecer o filho antes do nascimento;
ele levará então seu sobrenome. Depois do nascimento, o pai também poderá reconhecer o filho:
nesse caso, os dois sobrenomes serão apostos. A intervenção da sociedade no nascimento exerce-se
ainda de outras maneiras. Mesmo em se tratando de uma tolerância muito pouco utilizada em nossos
dias, o estado civil ou, a pedido seu, o procurador, podem rejeitar um nome “no interesse da criança”
(artigos 276 a 284 da Instrução geral relativa ao estado civil de 21 de setembro de 1955). Pode-se
chegar até a pedir uma investigação sobre o parentesco biológico etc. Os registros de estado civil
não têm mais de dois séculos de existência, os registros de batismo que outrora cumpriam esse papel
eram notoriamente incompletos: em suma, a preocupação estatística da sociedade é uma exigência
moderna, mas nem por isso nascia-se menos antes. O que não impede que essa intervenção da
sociedade não tenha conseqüências para o recém-nascido, às vezes de maneira absurda. Assim,
enquanto o prazo de três dias concedido pela lei para declarar o nascimento não transcorreu, o
recém-nascido não tem qualquer existência legal. Enquanto permanece na maternidade, ele
simplesmente não existe, exceto para sua família e para os funcionários. A única coisa que pode
fazer a criança sair dessa situação ubuesca de estar vivo sem existência é ela ser hospitalizada num
outro serviço para algum tratamento particular, na pediatria, por exemplo: apenas nesse momento ela
será declarada com seu nome. Até lá, apenas a mãe internada na maternidade era reconhecida pela
administração do hospital. Teria ela introduzido ilegalmente um passageiro clandestino?

A nomeação

O nascimento é o aparecimento de um ser concebido por dois outros seres humanos, que perdeu
sua dependência fisiológica exclusiva para com aquele dos dois que o carregou em seu ventre, e que
é reconhecido como membro da comunidade humana. É, pois, um assunto de nomeação. Não é algo
óbvio, ou melhor, não é algo que nem se precise dizer. Fosse ele o filho das selvas ou Kaspar
Hauser, ainda assim é preciso que uma criança seja reconhecida por seus pares para ela mesma se
reconhecer viva. Para o psicanalista, é pois um assunto de linguagem e de corpo, de palavra ligada
ao corpo: um recém-nascido que não está inscrito de uma maneira ou de outra pelos humanos que, se
supõe, devam acolhê-lo é, de certa maneira, pouco diferente de um OVNI. À pergunta sobre a
situação da criança entre o parto e sua declaração de nascimento, um psicanalista responde que sabe
que ela está viva pelos desejos que a trouxeram até ali; mas que também sabe que o não-
reconhecimento de seu desejo pode significar para ela a morte, pelo menos simbólica. Entenda-se
bem, a nomeação não é no caso um simples problema de declaração legal nem mesmo de atribuição
de nome. É também uma questão de enunciação indispensável da história da criança. É preciso que a
criança escute dizer um mínimo sobre sua história e sua inscrição na linhagem parental (isto é, seu
pai e sua mãe, mas também os ascendentes deles, se possível). É aí que, isso não sendo possível por
parte dos pais, um terceiro pode intervir. De outro modo, esse impensado pode fazer sintoma.

O nascimento não é nem um fato natural nem uma história simples. Ele talvez seja mais difícil
de pensar que a morte, porque não é inevitável: vimos como alguns bebês podem escolher morrer
antes de nascer. Somos como aquele personagem do romance de Umberto Eco, que “se pôs a pensar
em seu nascimento, sobre o qual sabia menos ainda que sobre sua morte. Dizem que pensar sobre as
origens é o próprio do filósofo. Para o filósofo é fácil justificar a morte: que cada qual tenha de se
lançar nas trevas é uma das coisas mais claras do mundo. O que obceca o filósofo não é o natural do
fim, mas o mistério do começo. Podemos desinteressar-nos da eternidade que virá depois de nós,
mas não podemos evitar o angustiante enigma da eternidade que nos precedeu (...)”.21
A morte é, como todos sabem, a condição da vida, e a presciência da morte, a condição do bem
viver.
Por isso é que a resposta à pergunta “estamos aqui para viver o mais felizes que pudermos?” é o
desafio da saída do limbo. Em suma, o que está em jogo nos três ou quatro primeiros dias da vida
enuncia-se em termos simples: “Nascer não é tudo, é preciso viver bem!”.
O coro dos recém-nascidos logo faz eco: “É tudo o que queremos!”.
No entanto, parecem existir algumas notas dissonantes nesse coro, pois alguns bebês
comportam-se como se isso não fosse nem um pouco evidente.
1 F Dolto, Séminaire de psychanalyse d’enfants, t. 1, Seuil, col. “Points”, p. 170. [Edição brasileira: Seminário de psicanálise de
crianças, Zahar, 1985.]
2 Em francês, diz-se que o leite “sobe”. (N.T.)
3 O pagamento simbólico é uma prática instituída por F. Dolto, e que consiste em pedir a crianças que ainda não têm condições de
prover sua própria vida material que paguem sua sessão com uma bala, uma pedra, em suma, com algum objeto sem significação
particular que possa ocupar o lugar de dinheiro. Dessa maneira, apesar de sua dependência financeira, ela passa a ter condições de
exprimir seu desejo de ter uma sessão ou de recusá-la, não pagando.
4 F. Dolto, Séminaire de psychanalyse d’enfants, t. l, op. cit., p. 114 sg.
5 Em francês, a raiz de interpréter é homófona a prêter, emprestar, prestar. (N.T.)
6 A. Didier-Weill, Les trois temps de la loi, Seuil, 1995.[Edição brasileira: Os três tempos da lei, Jorge Zahar, 1997, p. 250-1.]
7 F. Dolto, Dialogues québécois, p. 71-2.
8 M. Thirion, op. cit., p. 37.
9 “Quero e não quero.” Célebre réplica do duo Zerline – Don Juan na ópera de Mozart Don Giovanni, libreto de Da Ponte.
10 R. Frydman, op. cit., p. 41.
11 F. Dolto, Séminaire de psychanalyse d’enfants, t. Il, op. cit., p. 98-9.
12 Na França, os registros civis são da alçada da administração municipal. (N.T.)
13 Famílias de acolhida são famílias com filhos próprios que acolhem por um determinado período uma criança, recebendo
remuneração por isso. Assistentes maternas são mulheres selecionadas pelos serviços de assistência social, que recebem formação
específica e cujos domicílios são supervisionados pelo Estado para poderem receber várias crianças e servir-lhes de mãe substituta
até serem adotadas. (N.T.)
14 Comunicação no congresso da ABREP (Associação brasileira para o estudo do psiquismo pré e perinatal) em São Paulo, em 1993,
retomada por ocasião do congresso das PMI. Ver: M. Szejer, “Silence, on adopte”, in Profession sage-femme, out. 1996. As
noções de “órfãos de palavra”, de “urgência de palavra”, de “laços coletivos de silêncio”, e todos os desenvolvimentos
subseqüentes que lhes dei datam dessa época.
15 S. Tisseron, Secrets de famille mode d’emploi, Ramsay, 1996.
16 Assim se pronunciam essas duas letras em francês. (N.T.)
17 G. Delaisi, P. Verdier, Enfant de personne, ed. Odile Jacob, 1994.
18 Serviço de Trabalho Obrigatório. Durante a Segunda Guerra Mundial, o governo de Vichy enviava jovens franceses para trabalhar
na Alemanha. (N.T.)
19 Y. Knibiehler, “Désir d’enfant”, in Études freudiennes, nº 32, nov. 1991, p. 143-57.
20 F. Héritier, Masculin/Féminin, ed. Odile Jacob, 1996.
21 U. Eco, L’île du jour d’avant, Grasset, 1996, p. 420.
A escolha de viver

A palavra é o homem, sua memória e


seu devir.

Edmond Jabès

No hospital e nas instituições públicas, a psicanálise não é realmente bem-vinda como ela o foi nos
anos setenta: roga-se-lhe que seja discreta. Meu caso não constitui exceção à regra, pois meu
movimento da psiquiatria para uma prática realmente psicanalítica em instituição foi um dos motivos
de indeferimento de meus requerimentos junto ao CMP (Centro Médico-Psicológico) e à PMI
(Proteção Materna e Infantil).
Foi-se o tempo da colaboração entre psiquiatria e psicanálise. Se a psiquiatria oficial não vê
mais na psicanálise uma referência, muitos psicanalistas, por sua vez, assistiram com tristeza ao
abandono do ideal da setorização que animara a psiquiatria e a reforma dos estudos de psiquiatria,
que já não reserva mais qualquer lugar para a especificidade do sintoma psíquico. O debate entre
eles, estéril de todos os lados, precisa avançar. É possível concordar em um ponto: para além de
suas respectivas posições e éticas, psiquiatras e psicanalistas têm um dever social para com aqueles
que os consultam.

O que impulsiona a modernidade da psicanálise é a concepção de que esse dever não seja
exercido como uma violência contra os clientes, isto é, que ele vise antes a reconhecer a verdade de
cada ser do que a reduzi-lo a seu sintoma. É essa exigência ética que impõe à psicanálise renovar sua
ação por meio da descoberta de novos campos, de novas práticas e de uma nova eficácia.
No domínio da perinatalidade que nos interessa, um dos novos campos é o do limbo: o baby
blues, sobre o qual insistimos, escapa por essência ao tratamento psiquiátrico padrão. Ele não está
classificado como uma patologia específica, e não é «tratado» enquanto tal no momento em que
surge. Ao contrário, o psicanalista, que vê nele um momento princeps de constituição do sujeito,
dedicar-se-á a lhe conceder uma escuta atenta. Mais que isso, ele terá de penetrar nos terrenos não
explorados pelas assistências terapêuticas existentes, nos quais, porém, constrói-se a vida dos seres
humanos: o pós-parto, o apoio aos lactentes e aos pais em dificuldade, mas também a ajuda no
nascimento e a consideração da vida pré-natal sobre os quais há tanto para dizer e para descobrir, de
um ponto de vista psicanalítico.
No plano das práticas, a primeira das inovações necessárias para o psicanalista poderia ser a
de sair de seu consultório e deslocar-se até o paciente: na maternidade, no hospital, em todos os
lugares onde sua escuta permita modificar o curso das patologias. Isso suporia estabelecer
protocolos de inspiração psicanalítica precisa, quer se refiram à prevenção ou ao tratamento geral da
demanda: foi o que aconteceu a propósito do parto em segredo, da prevenção para os prematuros ou
os recém-nascidos cuja história estava marcada por lutos anteriores, mais genericamente a propósito
do modo de reconhecer e de tratar as demandas dos pais e/ou das crianças. Isso teria por
conseqüência transmitir um testemunho e possibilitar aos estagiários formarem-se a partir dessa
experiência. A mais urgente e a mais atual das necessidades é repensar a transposição do enquadro
psicanalítico para a prática institucional. A demanda evolui sem cessar, e num sentido que, nesse
tempo de crise social, torna a escuta difícil. Os psicanalistas precisam adaptar-se para encontrar uma
saída para essa demanda. Nesse esforço, eles mantêm intacta sua capacidade de resposta humana a
essa demanda. Numa época em que se protesta que é preciso se ocupar dos problemas mais urgentes
diante do afluxo de dramas sociais, os psicanalistas podem manter a exigência de escutar a dor como
uma prioridade em muitos casos.
No plano da eficácia, que, como em qualquer empreendimento social, mede-se pelo tempo,
trata-se em primeiro lugar de novas capacidades operatórias. Embora o baby blues não seja levado
em conta pelos psiquiatras nos três ou quatro dias posteriores ao nascimento, a depressão que às
vezes se segue e perdura por não ter sido prevenida é um motivo freqüente de consulta nos
consultórios. Quanto maior for o tempo transcorrido desde o baby blues, mais longo será seu
tratamento. Não seria mais “econômico” estar presente mais cedo, antes de ter de responder a uma
síndrome caracterizada? Lembremos que foi igualmente esse o argumento que nos motivou no caso
do parto em segredo. Mas, para outras idades e em outras situações problemáticas, ele também pode
ser interessante. Ele apenas verifica uma das constantes de nossos ofícios: o efeito da interpretação
mede-se menos por sua pertinência que por sua capacidade de intervir a tempo. Ela segue a mesma
lógica do testemunho que, na introdução, dizíamos que guiaria este livro. A interpretação é um
assunto de escansão, e a abordagem nova dos recém-nascidos talvez introduza o primeiro momento
em que se tem de decidir por uma ação: “passado o tempo para compreender o momento de concluir,
é o momento de concluir o tempo para compreender”.1

Ao insistir sobre o período do limbo, nada mais fazemos que tentar amenizar o custo psíquico,
social e financeiro de distúrbios precoces na criança. Esse papel de prevenção, no caso
desempenhado pelo psicanalista, é bem recebido pelas equipes de Béclère, mesmo que possa
parecer estranho às necessidades de sua prática. Pode mostrar-se útil em muitos outros lugares.
A ASE, que encaminha alguns lactentes para o consultório de um psicanalista com a rubrica de
«tratamento não reembolsável», tem a coragem de manifestar dessa forma que o custo da psicanálise
nem é indevido nem excessivo em comparação com o que ela propicia. Com isso, na qualidade de
tutor responsável que ela é dessas crianças, ela consagra a função terapêutica preventiva e também
sintomática da escuta psicanalítica das crianças de pouca idade.
Muitos dos pais que consultam um psicanalista também têm essa opinião. Quando em algumas
sessões eles conseguem reencontrar dentro de si o recurso de falar com seu recém-nascido, mesmo
no mais profundo sofrimento que os assola, eles se felicitam por evitar-lhe os distúrbios que até
então estragavam a vida de todo o mundo: a do bebê, a deles, quando não a das pessoas próximas.
O caráter intricado dos sintomas, especialmente na criança e no recém-nascido, torna o
diagnóstico geralmente difícil. Às vezes eles parecem precisar de uma ajuda psicoterapêutica,
quando na verdade sofrem de uma disfunção orgânica. Com mais freqüência ainda, o que se
manifesta como uma desordem fisiológica de tratamento incerto revela-se através da escuta
psicanalítica ser de ordem psíquica.
Uma criança de três anos me foi encaminhada por seu pediatra, que estava preocupado porque
ela dormia muito mal e sua insônia era rebelde a todos os tratamentos. Ela tivera direito a todos os
exames funcionais possíveis e imagináveis, o aparelho de tomografia não tinha mais segredos para
ela. Nada adiantava, não se chegara a nenhum diagnóstico, e a criança continuava insone. Tudo o que
ela conseguira fora uma sólida repulsa pela medicina e pelos hospitais, próxima da fobia. Depois de
um mês de consultas no meu consultório, como às vezes acontece, o sintoma tinha desaparecido.
Que pensar das muitas otites ou rinofaringites de repetição que diminuem quando as crianças
que delas padecem iniciam um tratamento psicoterapêutico? Por que essas crianças, que passaram
anos ingurgitando antibióticos, renunciam ao seu sintoma, que às vezes já dura vários anos, em alguns
meses de psicoterapia? É um fato clínico comprovado. Pode-se tirar ou não tirar conclusões dessa
relação entre ambos, é uma questão de consciência profissional; mas como negá-la?
Também tive a oportunidade de ver uma asma rebelde desaparecer durante uma psicanálise. Era
um menininho de sete anos. Sua vida e a de sua família estavam regidas por tratamentos termais que
lhe eram prescritos em todas as férias escolares. Consultara um alergologista de grande reputação,
que, cansado de um sintoma que resistia ao seu tratamento, diante da pergunta dos pais sobre sua
opinião a respeito da conveniência de uma psicanálise, acabou soltando o seguinte: “Se vocês têm
tempo e dinheiro para perder, então mandem seu filho!...”.
Talvez ele tenha perdido alguns meses, talvez um ano, até levantar todos os problemas
familiares que o afligiam. Até então seus pais tinham tentado protegê-lo desses problemas, e nem
imaginavam em que situação irrespirável isso colocara o filho. Em todo caso, tendo perdido todo
esse tempo com constância e aplicação, o pequeno paciente perdera sua asma.

Se o psicanalista preza os poderes terapêuticos de sua abordagem, ele não deve intrometer-se
em territórios que não sejam o seu. Ele tampouco deve se tomar por um parteiro quando trabalha na
maternidade, nem que fosse um parteiro de palavras, não deve agir como médico se não quiser deixar
de ser psicanalista. Se ele for psiquiatra e psicanalista, terá de escolher entre suas duas funções. Na
maternidade, ou bem eu medico e dou o endereço de um colega psicanalista que os pacientes
decidirão ir ver ou não; ou desempenho meu ofício de psicanalista, e abstenho-me de medicar. O
efeito terapêutico de uma escuta psicanalítica tem esse preço. Inversamente, um médico será tanto
mais eficaz quanto não brincar de “psi”. Seu senso clínico, isto é, sua inteligência técnica e seu
senso do humano podem ajudá-lo a acompanhar o paciente até uma demanda de assistência
psicoterapêutica que não é da sua alçada. Geralmente, o “psi” intimida quem nunca recorreu a ele, e
explicar ao paciente que seu mal é psíquico mais que fisiológico e que ele deve consultar um
especialista seria brutal demais. Mas ajudar o paciente a superar seu medo até chegar ao psicanalista
já é terapêutico: isso humaniza o sofrimento em vez de tecnicizá-lo. Os trabalhadores do corpo só
têm a ganhar quando pensam em recorrer ao especialista da psique não como um fracasso a eles
imputável, mas como a esperança de uma sinergia proveitosa para todos.
Ao falar de um período crucial de três ou quatro dias posteriores ao nascimento, fingimos
ignorar a estranha correspondência que ele apresenta com o período de três ou quatro dias que
sucede à concepção. No pré-natal, no quarto dia ocorre a migração do ovo para o útero, o que indica
o começo da vida; no pós-natal, trata-se de um nascimento simbólico. Seria isso uma variante do
«relógio orgânico» de F. Dolto?
Metaforicamente, em todo caso, ela evoca perfeitamente a dimensão de palavra e de
codificação simbólica que interessa à psicanálise. O real existe, ele é incontornável, mas ele só é
apreensível pelo vínculo com a profusão imaginária que ele engendra e a tessitura simbólica que ele
propicia a cada um. Esperamos tê-lo mostrado pelo sofrimento dos recém-nascidos no limbo. É algo
que se constatará em toda situação médica de urgência em que a humanização das práticas pode
ajudar a encontrar uma saída. Toda estrutura em que a escolha entre viver e morrer está em jogo, no
serviço de reanimação, por exemplo, pode se beneficiar da contribuição da ajuda psicanalítica. Não
se trata de assistência aos moribundos, mas de às vezes ajudar a identificar o que no “se-deixar-
morrer” pode ser do registro inconsciente.
Um de meus pacientes pediu que eu fosse ao hospital onde ele acabava de ser operado depois
de um infarto do miocárdio. Ele se encontrava num estado depressivo profundo, que o levava a
querer morrer, embora a intervenção parecesse coroada de sucesso. Conversando comigo,
compreendeu que sua depressão podia ter motivos que não suspeitara num primeiro momento.
Compreendeu que, embora dissesse querer morrer, essa vontade não era sua mas efeito de um outro
desejo inconsciente. Que, caso se deixasse morrer, seria para se conformar ao ódio que sua mãe lhe
tinha, que ele resumiu de modo surpreendente: “Dada sua idade canônica, vejo apenas uma
explicação para sua longevidade: o que a mantém viva é ainda não ter me visto morto!”.
O motivo dessa observação abrupta, mas carregada de subentendidos relacionados com a
história familiar, a origem desse vínculo não liberto das questões imaginárias que mantinham atado
ao desejo da mãe o fio de sua própria vida, o não-advento simbólico que disso resultava e o fazia
tender para a morte por não ter “nascido”, não são do âmbito deste livro. Mas meu paciente
reconquistou sua liberdade de viver. Aproveito esse exemplo para dizer que, em casos medicalmente
graves ou até desesperadores, a escuta psicanalítica pode ter sua importância.

Seu efeito é da mesma ordem que aquele que opera para os recém-nascidos: restituir-lhes sua
palavra, o acesso à sua história e a possibilidade de escolher entre a pulsão de morte que os corrói e
o desejo de vida que descobrem ter. É essa a lição de humanidade que os bebês nos dão. Mostram-
nos dessa forma o horizonte de trabalho do psicanalista: possibilitar que cada qual nasça e renasça
sem cessar para a vida, de acordo com seu desejo.
1 J. Lacan, op. cit., p. 197-213.