You are on page 1of 23

COPYRIGHT © Octávio Ianni, 1995

CAPA

Evelyn Grumach
PROJETO GRÁFICO
Evelyn Grumach e João de Souza Leite
PREPARAÇÃO DE ORIGINAIS
Edson Agostinho de Souza
EDITORAÇÃO ELETRÔNICA
Art Line
PARA
ANTONIO
ANA
CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA FONTE CATARINA
SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ
CLARA
Ianni, Octávio, 1926- FRANCISCO,
U7 t Teorias da globalização / Octávio Ianni. - 9" ed. - Rio de ANUNCIANDO O SÉCULO XXI
9« j
e( Janeiro: Civilização Brasileira, 2001.
228p

Inclui bibliografia
ISBN 85-200-0397-4

1. Civilização moderna - Século XX. 2. Relações


econômicas internacionais. 3. Globalização. 4. Sociologia.
I. Título.

CDD 303.4
98-1834 CDU 316.42

Todos os direitos reservados. Proibida a reprodução, armazenamento ou


transmissão de partes deste livro, através de quaisquer meios, sem a prévia
autorização por escrito.

Direitos desta edição adquiridos pela BCD União de Editoras S.A.


Av. Rio Branco, 99 / 20° andar, 20040-040, Rio de Janeiro, RJ, Brasil
Telefone (21) 263-2082, Fax / Vendas (21) 263-4606

PEDIDOS PELO REEMBOLSO POSTAL


Caixa Postal 23.052, Rio de Janeiro, RJ, 20922-970

Impresso no Brasil
2001
Prefácio

A globalização está presente na realidade e n o pensamento, desafian-


d o grande n ú m e r o de pessoas em t o d o o m u n d o . A despeito das vi-
vências e opiniões de uns e o u t r o s , a maioria reconhece que esse p r o -
blema está presente na forma pela qual se desenha o n o v o m a p a d o
m u n d o , n a realidade e n o imaginário.
Já são muitas as teorias e m p e n h a d a s em esclarecer as condições
e os significados da globalização. Umas são u m t a n t o tímidas, a o
passo que o u t r a s , bastante audaciosas; algumas vezes desconhecem-
sc m u t u a m e n t e , noutras, influenciam-se. M a s todas abrem perspecti-
vas para o esclarecimento das configurações e movimentos da socie-
dade global.
Vale a pena mapear as principais teorias da globalização. Permi-
tem esclarecer n ã o só as condições sob as quais se forma a sociedade
global, m a s t a m b é m os desafios que se criam para as sociedades na-
cionais. O s horizontes que se descortinam com a globalização, em
termos de integração e fragmentação, p o d e m abrir novas perspecti-
vas p a r a a interpretação d o presente, a releitura d o passado e a ima-
ginação d o futuro.
O s problemas da globalização naturalmente implicam u m diálo-
go múltiplo, c o m autores e interlocutores, em diferentes enfoques
históricos e teóricos. Em larga medida, esse diálogo está registrado
neste livro, nas referências e citações.
Alguns temas foram apresentados em debates, geralmente em
ambientes universitários. E alguns capítulos publicaram-se em ver-
sões preliminares: "Metáforas d a Globalização", Idéias, a n o I, n°. 1,

ix
T E O R I A S DA GLOBALIZAÇÃO

U n i c a m p , C a m p i n a s , 1994; " A Ocidentalização d o M u n d o " , s o b o


título " A M o d e r n i z a ç ã o d o M u n d o " , Margem, n°. 3 , P U C , São
P a u l o , 1 9 9 4 ; "A Aldeia Global", sob o título "Globalização e Cul-
t u r a " , O Estado de S. Paulo, 30 de o u t u b r o de 1994; "Sociologia d a
Globalização", sob o título "Globalização: N o v o Paradigma das
Ciências Sociais", Estudos avançados, n°. 2 1 , USP, São Paulo, 1 9 9 4 .
F o r a m esses m o m e n t o s importantes de diálogo múltiplo, polifónico,
que me permitiram aprimorar tal reflexão e sua n a r r a ç ã o .
CAPÍTULO 1 Metáforas da globalização
OCTAV]

X
A descoberta de que a terra se t o r n o u m u n d o , de que o globo n ã o é
mais apenas u m a figura astronômica, e sim o território n o qual t o d o s
encontram-se relacionados e atrelados, diferenciados e antagônicos —
essa descoberta surpreende, e n c a n t a e atemoriza. Trata-se de u m a
ruptura drástica nos m o d o s de ser, sentir, agir, pensar e fabular. U m
evento heurístico de amplas proporções, a b a l a n d o n ã o só as convic-
ções, mas t a m b é m as visões d o m u n d o .
Ocorre que o globo n ã o é mais exclusivamente u m conglomerado
de nações, sociedades nacionais, Estados-nações, em suas relações de
interdependência, dependência, colonialismo, imperialismo, bilatera-
lismo, multilateralismo. Ao mesmo t e m p o , o centro d o m u n d o n ã o é
mais voltado só a o indivíduo, t o m a d o singular e coletivamente c o m o
povo, classe, g r u p o , minoria, maioria, opinião pública. Ainda q u e a
nação e o indivíduo continuem a ser muito reais, inquestionáveis e
presentes t o d o o tempo, em t o d o lugar, p o v o a n d o a reflexão e a ima-
ginação, ainda assim já n ã o são "hegemônicos". Foram subsumidos,
real o u f o r m a l m e n t e , pela sociedade global, pelas configurações e
movimentos da globalização. A Terra mundializou-se de tal maneira
que o globo deixou de ser uma figura astronômica para adquirir mais
plenamente sua significação histórica.

13
T E O R I A S DA G L O B A L I Z A Ç Ã O M E T Á F O R A S DA G L O B A L I Z A Ç Ã O

D a í nascem a surpresa, o encantamento e o susto. D a í a impres- gentes e idéias, interrogações e respostas, explicações e intuições, in-
são de que se r o m p e r a m m o d o s de ser, sentir, agir, pensar e fabular. irrpretações e previsões, nostalgias e utopias.
Algo parecido c o m as drásticas rupturas epistemológicas representa- O problema da globalização, em suas implicações empíricas e m e -
das pela descoberta de que a Terra n ã o é mais o centro d o universo todológicas, ou históricas e teóricas, pode ser colocado de m o d o ino-
conforme Copérnico, de que o h o m e m n ã o é mais filho de Deus se- vador, propriamente heurístico, se aceitamos refletir sobre a l g u m a s
g u n d o Darwin, de que o indivíduo é um labirinto p o v o a d o de incons- metáforas produzidas precisamente pela reflexão e imaginação desa-
1
ciente de acordo com F r e u d . É claro que a descoberta que o pensa- liadas pela globalização. N a época da globalização, o m u n d o c o m e -
m e n t o científico está realizando sobre a sociedade global n o declínio çou a ser taquigrafado c o m o "aldeia global", "fábrica g l o b a l " , "ter-
d o século X X n ã o apresenta as mesmas características dessas o u t r a s r a p á t r i a " , " n a v e espacial", " n o v a Babel" e o u t r a s expressões. São
descobertas m e n c i o n a d a s . M e s m o p o r q u e são diversas e antigas as metáforas razoavelmente originais, suscitando significados e implica-
instituições e indicações mais ou m e n o s notáveis de g l o b a l i z a ç ã o . ções. Povoam textos científicos, filosóficos e artísticos.
Desde que o capitalismo desenvolveu-se na Europa, apresentou sem-
pre conotações internacionais, multinacionais, transnacionais e m u n - Chama a atenção nesses textos a profusão de metáforas utilizadas
diais, desenvolvidas n o interior da acumulação originária d o mercan- para descrever as transformações deste final de século: "primeira re-
tilismo, d o colonialismo, d o imperialismo, da dependência e da inter- volução mundial" (Alexander King), "terceira onda" (AlvinToffler),
dependência. E isso está evidente nos pensamentos de A d a m Smith, "sociedade informática" (Adam Schaff), "sociedade amébica" (Keni-
David R i c a r d o , H e r b e r t Spencer, Karl M a r x , M a x Weber e muitos chi Ohmae), "aldeia global" (McLuhan). Fala-se da passagem de uma
o u t r o s . M a s é inegável que a descoberta de que o g l o b o t e r r e s t r e , economia de high volume para outra de high value (Robert Reich), e
c o m o já disse, n ã o é mais apenas uma figura astronômica, e sim his-
da existência de um universo habitado por "objetos móveis" (Jacques
tórica, abala m o d o s de ser, pensar, fabular.
Attali) deslocando-se incessantemente de um lugar a outro do plane-
Nesse clima, a reflexão e a imaginação n ã o só c a m i n h a m de p a r ta. Por que esta recorrência no uso de metáforas? Elas revelam uma
em p a r c o m o multiplicam metáforas, imagens, figuras, p a r á b o l a s e realidade emergente ainda fugidia ao horizonte das ciências sociais. 2

alegorias, destinadas a dar conta d o que está acontecendo, das reali-


dades n ã o codificadas, das surpresas inimaginadas. As metáforas pa-
recem florescer q u a n d o os m o d o s de ser, agir, pensar e fabular mais H á metáforas, bem c o m o expressões descritivas e interpretativas
o u m e n o s s e d i m e n t a d o s sentem-se a b a l a d o s . É claro q u e falar em fundamentadas, que circulam combinadamente pela bibliografia so-
metáfora pode envolver n ã o só imagens e figuras, signos e símbolos, bre a globalização: " e c o n o m i a - m u n d o " , " s i s t e m a - m u n d o " , "shop-
m a s t a m b é m p a r á b o l a s e alegorias. São múltiplas as possibilidades ping center global", "Disneylândia global", "nova visão internacional
abertas a o imaginário científico, filosófico e artístico, q u a n d o se des- d o t r a b a l h o " , " m o e d a global", "cidade global", "capitalismo g l o b a l " ,
cortinam os horizontes da globalização d o m u n d o , envolvendo coisas, " m u n d o sem fronteiras", " t e c n o c o s m o " , "planeta T e r r a " , "desterri-
t o r i a l i z a ç ã o " , " m i n i a t u r i z a ç ã o " , "hegemonia g l o b a l " , "fim da geo-
1
Sigmund Freud, Obras completas, 3 tomos, tradução de Luis Lopez-
Ballesteros y de Torres, Editorial Biblioteca Nueva, Madri, 1981, tomo 2
Renato Ortiz, Mundialização e cultura, Editora Brasiliense, São Paulo,
III, cap. CI: "Una Dificultad del Psicoanálisis". 1994, p. 14.

15
ACSS,
/V V\
( £ Biblioteca j= '
T E O R I A S DA G L O B A L I Z A Ç Ã O
METÁFORAS DA G L O B A L I Z A Ç Ã O \ . /

grafia", "fim da história" e outras mais. Em parte, cada u m a dessas e pacotes de informações, entretenimentos e ideias. Em vista^Ua-iss^
o u t r a s formulações a b r e problemas específicos t a m b é m relevantes. tantaneidade dos novos meios de imagem e de som, até o jornal é
Suscitam ângulos diversos de análise, priorizando aspectos sociais, lento. 3

econômicos, políticos, geográficos, históricos, geopolíticos, demográ-


ficos, culturais, religiosos, lingüísticos etc. M a s é possível reconhecer A metáfora torna-se mais autêntica e viva q u a n d o se reconhece
que vários desses aspectos são contemplados por metáforas c o m o " a l - que ela praticamente prescinde da palavra, t o r n a n d o a imagem p r e d o -
deia global", "fábrica global", "cidade global", "nave espacial", " n o - minante, c o m o forma de c o m u n i c a ç ã o , informação e fabulação. A
va babel", entre outras. São emblemáticas, formuladas precisamente eletrônica propicia não só a fabricação de imagens, d o m u n d o c o m o
n o clima mental aberto pela globalização. Dizem respeito às distintas um caleidoscópio de imagens, m a s t a m b é m permite jogar c o m as
possibilidades de prosseguimento de conquistas e dilemas da moderni- palavras c o m o imagens. A m á q u i n a impressora é substituída pelo
dade. Contemplam as controvérsias sobre modernidade e pós-moder- aparelho de televisão e outras tecnologias eletrônicas, tais c o m o ddd,
nidade, revelando c o m o é principalmente a partir dos horizontes d a telefone celular, fax, c o m p u t a d o r , rede de computadores, t o d o s atra-
modernidade que se pode imaginar as possibilidades e os impasses da vessando fronteiras, sempre on Une everywhere worldwide ali time.
pós-modernidade n o novo m a p a do m u n d o .
"Aldeia global" sugere que, afinal, formou-se a comunidade m u n -
N o próximo século, a Terra terá a sua consciência coletiva suspensa
dial, concretizada com as realizações e as possibilidades de comunica-
sobre a face do planeta, em uma densa sinfonia eletrônica, na qual
ção, informação e fabulação abertas pela eletrônica. Sugere que estão
todas as nações — se ainda existirem como entidades separadas —
em curso a harmonização e a homogeneização progressivas. Baseia-se
viverão em uma teia de sinestesia espontânea, adquirindo penosa-
na convicção de que a organização, o funcionamento e a m u d a n ç a da
mente a consciência dos triunfos e mutilações de uns e outros. De-
vida social, em sentido amplo, compreendendo evidentemente a glo-
pois desse conhecimento, desculpam-se. Já que a era eletrônica é
balização, são ocasionados pela técnica e, neste caso, pela eletrônica.
total e abrangente, a guerra atômica na aldeia global não pode ser
Em pouco tempo, as províncias, nações e regiões, bem c o m o culturas 4
limitada.
e civilizações, são atravessadas e articuladas pelos sistemas de infor-
m a ç ã o , comunicação e fabulação agilizados pela eletrônica.
Nesse sentido é que a aldeia global envolve a idéia de c o m u n i d a -
N a aldeia global, além das mercadorias convencionais, sob for-
de m u n d i a l , m u n d o sem fronteiras, shopping center global, Disney-
m a s a n t i g a s e a t u a i s , e m p a c o t a m - s e e v e n d e m - s e as i n f o r m a ç õ e s .
lândia universal.
Estas são fabricadas c o m o mercadorias e comercializadas em escala
mundial. As informações, os entretenimentos e as idéias são produzi-
dos, comercializados e consumidos c o m o mercadorias. 3 Marshall McLuhan, "A Imagem, o Som e a Fúria", Bernard Rosenberg
e David Manning White (organizadores), Cultura de massa, tradução de
Octávio Mendes Cajado, Editora Cultrix, São Paulo, 1973, pp. 563-570;
Hoje passamos da produção de artigos empacotados para o empa-
citação das pp. 564-565.
cotamento de informações. Antigamente invadíamos os mercados 4 Marshall McLuhan e Bruce R. Powers, The Global Village,
estrangeiros com mercadorias. Hoje invadimos culturas inteiras com Oxford University Press, Nova York, 1989, p. 95.

17
T E O R I A S DA G L O B A L I Z A Ç Ã O M E T Á F O R A S DA G L O B A L I Z A Ç Ã O

Em todos os lugares, tudo cada vez mais se parece com tudo o mais, adquirida em pouco tempo... Terceiro, o desenvolvimento das técni-
à medida que a estrutura de preferências do mundo é pressionada cas de transporte e comunicações cria a possibilidade, em muitos
5
para um ponto comum homogeneizado. casos, da produção completa ou parcial de mercadorias em qualquer
lugar do mundo; uma possibilidade não mais influenciada por fato-
7
"Fábrica g l o b a l " sugere u m a transformação quantitativa e quali- res técnicos, organizacionais ou de custos.
tativa d o capitalismo além de todas as fronteiras, subsumindo formal
o u realmente t o d a s as outras formas de organização social e técnica A fábrica global instala-se além de t o d a e qualquer fronteira, arti-
d o t r a b a l h o , d a p r o d u ç ã o e r e p r o d u ç ã o ampliada d o capital. T o d a culando capital, tecnologia, força de trabalho, divisão d o trabalho so-
economia nacional, seja qual for, torna-se província da economia glo- cial e outras forças produtivas. Acompanhada pela publicidade, a mídia
bal. O m o d o capitalista de p r o d u ç ã o entra em u m a época p r o p r i a - impressa e eletrônica, a indústria cultural, misturadas em jornais, revis-
m e n t e global, e n ã o apenas internacional o u multinacional. Assim, o tas, livros, programas de rádio, emissões de televisão, videoclipe, fax,
m e r c a d o , as forças produtivas, a nova divisão internacional d o t r a b a - redes de computadores e outros meios de comunicação, informação e
l h o , a r e p r o d u ç ã o a m p l i a d a d o c a p i t a l desenvolvem-se em escala fabulação, dissolve fronteiras, agiliza os mercados, generaliza o consu-
m u n d i a l . U m a globalização que, progressiva e c o n t r a d i t o r i a m e n t e , mismo. Provoca a desterritorialização e a reterritorialização das coisas,
subsume real ou formalmente outras e diversas formas de organização gentes e idéias. Promove o redimensionamento de espaços e tempos.
das forças produtivas, envolvendo a p r o d u ç ã o material e espiritual. Logo se vê que a fábrica global é tanto metáfora c o m o realidade.
Aos poucos, sua dimensão real impõe-se a o emblema, à poética. O que
Já "é evidente que os países em desenvolvimento estão agora ofere- se impõe, c o m força avassaladora, é a realidade da fábrica da sociedade
cendo espaços para a lucrativa manufatura de produtos industriais global, altamente determinada pelas exigências da reprodução amplia-
6
destinados ao mercado mundial, em escala crescente". da d o capital. N o âmbito da globalização, revelam-se às vezes transpa-
rentes e inexoráveis os processos de concentração e centralização d o ca-
Isto se deve a vários fatores, entre os quais destacam-se os seguintes: pital, articulando empresas e mercados, forças produtivas e centros de-
cisórios, alianças estratégicas e planejamentos de corporações, tecendo
Primeiro, um reservatório de mão-de-obra praticamente inesgotável províncias, nações e continentes, ilhas e arquipélagos, mares e oceanos.
tornou-se disponível nos países em desenvolvimento nos últimos sé- " N a v e espacial" sugere a viagem e a travessia, o lugar e a dura-
culos... Segundo, a divisão e subdivisão d o processo produtivo estão ção, o conhecido e o incógnito, o destinado e o transviado, a aventu
agora tão avançadas que a maioria destas operações fragmentadas ra e a desventura. A magia da nave espacial vem junto com o destino
pode ser realizada com um mínimo de qualificação profissional desconhecido. O deslumbramento da travessia traz consigo a tensão
d o que p o d e ser impossível. O s habitantes d a nave p o d e m ser levados
5
Theodore Levitt, A imaginação de marketing, tradução de Auriphebo
Berrance Simões, Editora Atlas, São Paulo, 1991, p. 43.
6
Folker Frobel, Jurgen Heinrichs e Otto Kreye, The New Internatio- 7 Folker Frobel, Jurgen Heinrichs e Otto Kreye, The Netv International
nal Division of Labour (Structural Unemployment in Industrialised Division of Labour, citado, p. 13. Consultar também: Joseph Grunwald
Countries and Industrialization in Developing Countries), tradução de e Kenneth Flamm, The Global Factory, The Brookings Institution,
Pete Burgess, Cambridge University Press, Cambridge, 1980, p. 13. Washington, 1985.

¡8 19
T E O R I A S DA G L O B A L I Z A Ç Ã O M E T Á F O R A S DA G L O B A L I Z A Ç Ã O

a u m a sucessão de perplexidades, reconhecendo a impossibilidade de Aí está u m a c o n o t a ç ã o surpreendente da m o d e r n i d a d e , n a época


desvendar o devir. tia globalização: o declínio d o indivíduo. Ele p r ó p r i o , singular e cole-
tivamente, p r o d u z e reproduz as condições materiais e espirituais d a
Organizar uma entidade que abarca o planeta não é uma empresa sua subordinação e eventual dissolução. A mesma fábrica da socieda-
insignificante... Propor uma assembléia que representasse todos os de global, em que se insere e que ajuda a criar e recriar c o n t i n u a m e n -
homens seria como fixar o número exato dos arquétipos platônicos, te, torna-se o cenário em que desaparece.
enigma que tem ocupado durante séculos a perplexidade dos pensa- Ocorre que a tecnificação das relações sociais, em todos os níveis,
8
dores.
universaliza-se. N a mesma p r o p o r ç ã o em que se dá o desenvolvimen-
to extensivo e intensivo d o capitalismo n o m u n d o , generaliza-se a ra-
A metáfora da nave espacial pode muito bem ser o emblema de c o -
cionalidade formal e real inerente a o m o d o de operação d o m e r c a d o ,
m o a modernidade se desenvolve n o século X X , prenunciando o X X I .
da empresa, d o aparelho estatal, d o capital, d a administração das coi-
Leva consigo a dimensão pessimista embutida n a utopia-nostalgia es-
sas, de gentes e idéias, t u d o isso codificado nos princípios d o direito.
condida na modernidade. Pode ser o p r o d u t o mais acabado, p o r en-
Juntam-se aí o direito e a contabilidade, a lógica formal e a calculabi-
q u a n t o , da razão iluminista. Depois de seus desenvolvimentos mais n o -
lidade, a racionalidade e a produtividade, de tal maneira que em t o d o s
táveis, através dos séculos XIX e X X , a razão iluminista parece ter al-
os grupos sociais e instituições, em todas as ações e relações sociais,
cançado seu m o m e n t o negativo extremo: nega-se de m o d o radical, ni-
ilista, anulando toda e qualquer utopia-nostalgia. E isto atinge o p a r o - tendem a predominar os fins e os valores constituídos n o â m b i t o d o
xismo na dissolução d o indivíduo como sujeito da razão e da história. mercado, d a sociedade vista c o m o u m vasto e c o m p l e x o espaço de
trocas. Esse é o reino da racionalidade instrumental, em que t a m b é m
A crise da razão se manifesta na crise do indivíduo, por meio da qual o indivíduo se revela adjetivo, subalterno.
se desenvolveu. A ilusão acalentada pela filosofia tradicional sobre o
indivíduo e sobre a razão — a ilusão da sua eternidade — está se dis- A razão universal supostamente absoluta rebaixou-se à mera racio-
sipando. O indivíduo outrora concebia a razão como um instrumen- nalidade funcional, a serviço do processo de valorização do dinheiro,
to do eu, exclusivamente. Hoje, ele experimenta o reverso dessa auto- que não tem sujeito, até a atual capitulação incondicional das chama-
deificação. A máquina expeliu o maquinista; está correndo cegamen- das "ciências do espírito". O universalismo abstrato da razão ociden-
te pelo espaço. N o momento da consumação, a razão tornou-se irra- tal revelou-se como mero reflexo da abstração real objetiva d o
cional e embrutecida. O tema deste t e m p o é a autopreservação, dinheiro. 10

9
embora não exista mais um eu a ser preservado.
N a metáfora da nave espacial esconde-se a da "torre de Babel". A
8 Jorge Luis Borges, El libro de arena, Alianza Editorial, Madri, 1981, nave pode ser babélica. U m espaço caótico, t ã o babélico que os indiví-
pp. 26-27; citação de "El Congreso". duos singular e coletivamente têm dificuldade para compreender que se
9
Max Horkheimer, Eclipse da razão, tradução de Sebastião Uchoa acham extraviados, em declínio, ameaçados ou sujeitos à dissolução.
Leite, Editorial Labor do Brasil, Rio de Janeiro, 1976, p. 139. Consultar
também: Theodor W. Adorno e Max Horkheimer, Dialética do esclare-
cimento (Fragmentos Filosóficos), tradução de Guido Antonio de Al- 1 0
Robert Kurz, O colapso da modernização, tradução de Karen Elsabe
meida, Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 1985. Barbosa, Editora Paz e Terra, São Paulo, 1992, p. 239.

20
T E O R I A S DA G L O B A L I Z A Ç Ã O M E T Á F O R A S DA G L O B A L I Z A Ç Ã O

N o início tudo estava numa ordem razoável na construção da Torre dej inglês é o empréstimo lingüístico. O inglês se impõe a todas as línguas
12
Babel; talvez a ordem fosse até excessiva, pensava-se demais em sinali- com as quais entra em c o n t a t o .
zações, intérpretes, alojamentos de trabalhadores e vias de comunica-
ção, como se à frente houvesse séculos de livres possibilidades de tra- De repente, nessa nave espacial, uma espécie de babel-teatromún-
balho. (...) O essencial do empreendimento todo é a idéia de construir di, instala-se u m pathos surpreendente e fascinante. Arrasta uns e ou-
uma torre que alcance o céu. Ao lado dela tudo o mais é secundário. tros n u m a travessia sem fim, c o m destino incerto, arriscada a seguir
Uma vez apreendida na sua grandeza, essa idéia não pode mais desa- pelo infinito. Algo inexorável e assustador parece ter resultado d o em-
parecer; enquanto existirem homens, existirá também o forte desejo de penho d o indivíduo, singular e coletivo, para emancipar-se. A razão
construir a torre até o fim. (...) Cada nacionalidade queria ter o aloja- parece incapaz de redimir, depois de tanta promessa. Mais que isso, o
mento mais bonito; resultaram daí disputas que evoluíram até lutas castigo se revela maior que o pecado. A utopia da emancipação indi-
sangrentas. Essas lutas não cessaram mais. (...) As pessoas porém não vidual e coletiva, nacional e mundial, parece estar sendo p u n i d a c o m
ocupavam o tempo apenas com batalhas; nos intervalos embelezava-se a globalização tecnocrática, instrumental, mercantil, consumista. A
a cidade, o que entretanto provocava nova inveja e novas lutas. (...) A
mesma razão que realiza o desencantamento d o m u n d o , de m o d o a
isso se acrescentou que já a segunda ou terceira geração reconheceu o
emancipá-lo, aliena mais ou menos inexoravelmente t o d o o m u n d o .
sem sentido da construção da torre do céu, mas já estavam todos mui-
11
Vistas assim, c o m o emblemas da globalização, as metáforas des-
to ligados entre si para abandonarem a cidade.
vendam traços fundamentais das configurações e movimentos da so-
A Babel escondida n o emblema da nave espacial p o d e revelar ain- ciedade global. São faces de u m objeto caleidoscópico, d e l i n e a n d o
d a mais nitidamente o que há de trágico n o m o d o pelo qual se d á a fisionomias e m o v i m e n t o s d o real, e m b l e m a s d a sociedade global
g l o b a l i z a ç ã o . N e s t a a l t u r a d a h i s t ó r i a , p a r a d o x a l m e n t e , t o d o s se desafiando a reflexão e a imaginação.
entendem. H á até mesmo uma língua c o m u m , universal, que permite A metáfora está sempre n o pensamento científico. N ã o é apenas
u m mínimo de comunicação entre t o d o s . A despeito das diversidades u m artifício poético, mas u m a forma de surpreender o imponderável,
civilizatórias, culturais, religiosas, lingüísticas, históricas, filosóficas, fugaz, recôndito o u essencial, escondido na opacidade do real. A me-
científicas, artísticas e outras, o inglês tem sido a d o t a d o c o m o a vul- táfora combina reflexão e imaginação. Desvenda o real de forma poé-
gata d a globalização. N o s q u a t r o cantos d o m u n d o , esse idioma está tica, mágica. Ainda que n ã o revele t u d o , e isto pode ser impossível,
n o mercado e na mercadoria, na imprensa e na eletrônica, n a prática sempre revela algo fundamental. Apreende uma conotação insuspeita-
e n o pensamento, na nostalgia e na utopia. É o idioma d o m e r c a d o
d a , u m segredo, o essencial, a a u r a . T a n t o assim que ajuda a c o m -
universal, d o intelectual cosmopolita, da epistemologia escondida n o
preender e explicar, a o mesmo t e m p o que capta o que há de d r a m á t i -
c o m p u t a d o r , d o Prometeu eletrônico.
c o e épico n a realidade, desafiando a reflexão e a imaginação. Em cer-
t o s casos, a metáfora desvenda o pathos escondido nos movimentos
O inglês tem sido promovido com sucesso e tem sido avidamente
d a história.
adotado no mercado lingüístico global. Um sintoma d o impacto d o

1 1 1 2
Franz Kafka, " O Brasão da Cidade", tradução de Modesto Carone, Robert Phillipson, Linguistic Imperialism, Oxford University Press,
Folha de S. Paulo, São Paulo, 3 de janeiro de 1993, p. 5 do caderno Oxford, 1992, p. 7. Consultar também: Claude Truchot, L'anglais dans
"Mais". le monde contemporain, Le Robert, Paris, 1990.
T E O R I A S DA G L O B A L I Z A Ç Ã O M E T Á F O R A S DA G L O B A L I Z A Ç Ã O

Talvez se possa dizer q u e as metáforas produzidas nos horizontes inquietações sobre o presente e ilusões sobre o futuro, compreenden-
d a globalização e n t r a m em diálogo u m a s c o m as outras, múltiplas, do muitas vezes o passado. A utopia pode ser a imaginação d o futuro,
plurais, polifónicas. U m a desafia e enriquece a outra, conferindo n o - assim c o m o a nostalgia pode ser a imaginação d o passado. Em t o d o s
vos significados a todas. É t a m b é m assim que a sociedade global ad- os casos está em causa o protesto diante d o presente, o u o estranha-
quire fisionomia e significados. Desde u m a realidade complexa, p r o - mento em face d a realidade.
blemática e caótica, desencantam-se o s sentidos, desvendam-se as Em geral, a utopia e a nostalgia florescem nas épocas em que se
transparências. acentuam os ritmos das transformações sociais, q u a n d o se multipli-
D e metáfora em metáfora chega-se à fantasia, que ajuda a reen- cam os desencontros entre as mais diversas esferas da vida sócio-cul-
carnar o m u n d o , produzindo a utopia. Além d o q u e tem de p r ó p r i o , tural, bem c o m o das condições econômicas e políticas. São épocas em
intrínseco, significado e significante, a utopia reencanta o real proble- que os desencontros entre o contemporâneo e o n ã o - c o n t e m p o r â n e o
mático, difícil, caótico. M a s a utopia n ã o é nem transcrição nem nega- acentuam-se, aprofundam-se. Esse é o contexto em que a reflexão e a
ç ã o imediatas d o real problemático. Exorciza o caótico pela sublima- imaginação jogam-se na construção de utopias e nostalgias.
ção. Sublimação d o que já se acha sublimado na cultura, n o imaginá- M a s umas e outras n ã o se apagam de um m o m e n t o para o u t r o .
rio, polifonia das metáforas que p o v o a m as aflições e as ilusões de uns Ao contrário, permanecem n o imaginário. Transformam-se em p o n -
e outros. tos de referência, marcas n o m a p a histórico e geográfico d o m u n d o .
Esse é o horizonte e m q u e se formam e conformam as utopias flo- Inclusive p o d e m recriar-se c o m novos elementos engendrados pelas
rescendo n o âmbito da sociedade global, de m o d o a compreendê-la e configurações e movimentos da sociedade global.
exorcizá-la. Podem ser cibernéticas, sistêmicas, eletrônicas, pragmáti- Esse é o horizonte em que as mais diversas utopias e nostalgias
cas, prosaicas o u tecnocráticas. T a m b é m p o d e m ser românticas, nos- constituem-se c o m o u m a rede de articulações que tecem a história e a
tálgicas, desencantadas, niilistas ou iluministas. geografia d o m a p a d o m u n d o . "Atlântida" n ã o é u m lugar na geogra-
Faz t e m p o q u e a reflexão e a imaginação sentem-se desafiadas fia nem um m o m e n t o da história, mas u m a alegoria da imaginação.
para taquigrafar o que poderia ser a globalização d o m u n d o . Essa é Ela se m a n t é m escondida na rede de utopias e nostalgias que p o v o a m
u m a busca antiga, iniciada há muito t e m p o , c o n t i n u a n d o n o presen- o m u n d o . M u d o u de n o m e , adquiriu outras conotações, transfigurou-
te, seguindo pelo futuro. N ã o termina nunca. São muitas as expres- se. M a s continua um emblema excepcional d o pensamento e da fabu-
sões que d e n o t a m essa busca permanente, reiterada e obsessiva, em lação. "Babel" t a m b é m n ã o é um lugar na geografia nem um m o m e n -
diferentes épocas, em distintos lugares, em diversas linguagens: civili- to d a história. Flutua pelo tempo e o espaço, a o acaso de imaginação
zados e bárbaros, nativos e estrangeiros, Babel e h u m a n i d a d e , paga- de uns e o u t r o s , p o v o a n d o as inquietações de muitos. Diante dos de-
nismo e cristandade, Ocidente e O r i e n t e , capitalismo e socialismo, sencontros que atravessam o t e m p o e o espaço, q u a n d o se acentuam
ocidentalização d o m u n d o , Primeiro, S e g u n d o , Terceiro e Q u a r t o as n ã o - c o n t e m p o r a n e i d a d e s , q u a n d o de repente t u d o se precipita,
M u n d o s , n o r t e e sul, m u n d o sem fronteiras, capitalismo m u n d i a l , a b a l a n d o q u a d r o s d e referência, t r a n s f o r m a n d o as bases sociais e
socialismo mundial, terrapátria, planeta T e r r a , ecossistema planetá- imaginárias de nosso t e m p o , dissolvendo visões d o m u n d o , nessa épo-
rio, fim d a geografia, fim d a história. ca até m e s m o a alegoria babélica permite a ilusão de um mínimo de
São emblemas de alegorias de t o d o o m u n d o . Assinalam ideais, articulação.
h o r i z o n t e s , possibilidades, ilusões, u t o p i a s , nostalgias. E x p r e s s a m

24 25
CAPITULO 2 As economias-mundo
A história moderna e contemporânea pode ser vista c o m o u m a histó-
ria de sistemas coloniais, sistemas imperialistas, geoeconomias e geo-
políticas. Cenário da formação e expansão dos mercados, da indus-
trialização, da urbanização e da ocidentalização, envolvendo nações e
nacionalidades, culturas e civilizações. Algumas das nações mais p o -
derosas, em cada época, articulam colônias, protetorados ou territó-
rios em conformidade com suas estratégias, geoeconomias e geopolí-
ticas. As guerras e revoluções povoam largamente essa história, reve-
lando articulações e tensões que emergem e desdobram o jogo das for-
ças sociais " i n t e r n a s " e " e x t e r n a s " nas metrópoles, nas colônias, nos
p r o t e t o r a d o s , nos t e r r i t ó r i o s , nos e n t r e p o s t o s , nos enclaves e n a s
nações dependentes.
É claro que a história moderna e contemporânea está pontilhada
de países, sociedades nacionais, Estados-nações, mais ou menos de-
senvolvidos, articulados, institucionalizados. Ao longo da história,
conforme ocorre depois da Segunda Guerra Mundial, a maioria dos
povos de t o d o s os continentes, ilhas e arquipélagos está filiada a Esta-
dos nacionais independentes. E esta tem sido uma constante nas ciên-
cias sociais: a história moderna e contemporânea tem sido vista c o m o

29
T E O R I A S DA G L O B A L I Z A Ç Ã O AS E C O N O M I A S MUNDO

u m a história de sociedades n a c i o n a i s , o u E s t a d o s - n a ç õ e s . M u i t o s a c o m base na primazia d o econômico, na idéia de q u e a história


cientistas sociais dedicaram-se e continuam a dedicar-se às relações ie constitui em u m c o n j u n t o , ou sucessão, de sistemas e c o n ô m i c o s
internacionais, diplomáticas, colonialistas, imperialistas e às descolo- mundiais. Mundiais n o sentido de que transcendem a localidade e a
nizações, às dependências e interdependências. M a s n o p e n s a m e n t o província, o feudo e a cidade, a nação e a nacionalidade, criando e re-
d a maioria tende a predominar o emblema d o Estado-nação. O s p r o - m a n d o fronteiras, assim c o m o fragmentando-as ou dissolvendo-as.
blemas com os quais se preocupam, aos quais dedicam pesquisas, in- Eles lêem as configurações da história e da geografia c o m o u m a suces-
terpretações e debates, relacionam-se principalmente c o m a forma- são, ou coleção, de economias-mundo. Descrevem atenta e minucio-
ção, organização, ascensão, ruptura ou declínio d o Estado-nação, sob samente os fatos, as atividades, os intercâmbios, os mercados, as p r o -
seus diversos aspectos. duções, as inovações, as tecnificações, as diversidades, as desigualda-
Cada vez mais, n o entanto, o que preocupa muitos pesquisadores des, as tensões e os conflitos. A p a n h a m a ascensão e o declínio das
n o século X X , em particular depois da Segunda Guerra M u n d i a l , é o economias-mundo. M o s t r a m como Veneza, H o l a n d a , Inglaterra,
conhecimento das realidades internacionais emergentes, ou realidades Trança, Alemanha, Estados Unidos, J a p ã o e os demais países o u cida-
propriamente mundiais. Sem deixar de continuar a contemplar a socie- des, cada u m a seu t e m p o e lugar, polarizam configurações e movi-
d a d e nacional, em suas mais diversas configurações, m u i t o s e m p e - mentos mundiais. Permitem reler o mercantilismo, o colonialismo, o
nham-se em desvendar as relações, os processos e as estruturas que imperialismo, o bloco econômico, a geoeconomia e a geopolítica em
transcendem o Estado-nação, desde os subalternos aos d o m i n a n t e s . termos de economias-mundo. Reescrevem a história d o capitalismo,
Empenham-se em desvendar os nexos políticos, econômicos, geoeconô- c o m o n o caso de Wallerstein, ou a história universal, c o m o n o d e
micos, geopolíticos, culturais, religiosos, lingüísticos, étnicos, raciais e Braudel, em conformidade com a idéia de economia-mundo.
todos os que articulam e tensionam as sociedades nacionais, em âmbi- Vale a pena precisar u m pouco os conceitos, nas palavras de seus
to internacional, regional, multinacional, transnacional ou mundial. autores. Logo se evidenciam as originalidades de cada u m , bem c o m o
A idéia de " e c o n o m i a s - m u n d o " emerge nesse horizonte, diante as recorrências recíprocas.
dos desafios das atividades, produções e transações que ocorrem t a n - Vejamos inicialmente o conceito de " e c o n o m i a - m u n d o " d e acor-
t o entre as nações c o m o p o r sobre elas, e além dessas, mas sempre en- d o c o m Braudel:
volvendo-as em configurações mais abrangentes. Q u a n d o o pesquisa-
dor combina o olhar d o historiador c o m o d o geógrafo, logo revelam- Por economia mundial entende-se a economia do mundo globalmen-
se configurações e movimentos da realidade social que transcendem o te considerado, " o mercado de t o d o o universo", como já dizia
feudo, a província e a nação, assim c o m o transcendem a ilha, o arqui- Sismondi. Por economia-mundo, termo que forjei a partir d o alemão
pélago e o continente, atravessando mares e oceanos. Weltwirtschaft, entendo a economia de uma porção do nosso plane-
O conceito de " e c o n o m i a - m u n d o " está presente em estudos de ta somente, desde que forme um todo econômico. Escrevi, já há mui-
Braudel e Wallerstein, precisamente p e s q u i s a d o r e s q u e c o m b i n a m to tempo, que o Mediterrâneo no século XVI era, por si só, uma (...)
muito bem o olhar d o historiador com o d o geógrafo. É verdade que economia-mundo, ou como também se poderia dizer, em alemão (...)
Wallerstein prefere a noção de " s i s t e m a - m u n d o " , a o passo que Brau- "um mundo em si e para si". Uma economia-mundo pode definir-se
del a de " e c o n o m i a - m u n d o " , mas a m b o s m a p e i a m a geografia e a his- como tripla realidade:

30 :-. i
T E O R I A S DA G L O B A L I Z A Ç Ã O AS ECONOMIAS-MUNDO

• Ocupa um determinado espaço geográfico; tem portanto limites, Cabe agora refletir sobre o conceito de " s i s t e m a - m u n d o " , a p a r -
que a explicam, e que variam, embora bastante devagar. De tempos r das expressões de Wallerstein:
a tempos, com longos intervalos, há mesmo inevitavelmente ruptu-
ras. Foi o que aconteceu a seguir aos Descobrimentos do final do sé- Um sistema mundial é um sistema social, um sistema que possui limi-
culo XV. E foi o que aconteceu em 1689, quando a Rússia, por mer- tes, estrutura, grupos, membros, regras de legitimação e coerência. Sua
cê de Pedro, o Grande, se abriu à economia européia. Imaginemos vida resulta das forças conflitantes que o mantêm unido por tensão e o
uma franca, total e definitiva abertura das economias da China e da desagregam, na medida em que cada um dos grupos busca sempre
U.R.S.S., hoje (1985): dar-se-ia, então, uma ruptura dos limites d o reorganizá-lo em seu benefício. Tem as características de um organis-
espaço ocidental, tal como atualmente existe. mo, na medida em que tem um tempo de vida durante o qual suas
• Uma economia-mundo submete-se a um pólo, a um centro, repre- características mudam em alguns dos seus aspectos, e permanecem
sentado por uma cidade dominante, outrora um Estado-cidade, hoje estáveis em outros. Suas estruturas podem definir-se como fortes ou
uma grande capital, uma grande capital econômica, entenda-se (nos débeis em momentos diferentes, em termos da lógica interna de seu
Estados Unidos, por exemplo, Nova York e não Washington). Aliás,
funcionamento. (...) Até o momento só têm existido duas variedades
podem coexistir, e até de forma prolongada, dois centros numa mes-
de tais sistemas mundiais: impérios-mundo, nos quais existe um único
ma economia-mundo: Roma e Alexandria, no tempo de Augusto, e de
sistema político sobre a maior parte da área, por mais atenuado que
Antônio e Cleópatra, Veneza e Gênova, no tempo da guerra pela pos-
possa estar o seu controle efetivo; e aqueles sistemas nos quais tal siste-
se de Chioggia (1378-1381), Londres e Amsterdã, no século XVIII,
ma político único não existe sobre toda ou virtualmente toda a sua ex-
antes da eliminação definitiva da Holanda. É que um dos centros aca-
tensão. Por conveniência, e à falta de melhoi termo, utilizamos o termo
ba sempre por ser eliminado. Em 1929, o centro do mundo passou
"economias-mundo" para definir estes últimos. (...) A peculiaridade
assim, hesitante mas inequivocamente, de Londres para Nova York.
d o sistema mundial moderno é que uma economia-mundo tenha
• Todas as economias-mundo se dividem em zonas sucessivas. Há o
sobrevivido por quinhentos anos e que ainda não tenha chegado a
coração, isto é, a zona que se estende em torno do centro: as Pro-
transformar-se em um império-mundo, peculiaridade que é o segredo
víncias Unidas nem todas, porém, quando, no século XVII, Amster-
dã domina o mundo; a Inglaterra (não toda), quando Londres, a par- da sua fortaleza. Esta peculiaridade é o aspecto político da forma de
tir de 1780, suplantou definitivamente Amsterdã. Depois, vêm as organização econômica chamada capitalismo. O capitalismo tem sido
zonas intermédias à volta do eixo central e, finalmente, surgem as capaz de florescer precisamente porque a economia-mundo continha
2

margens vastíssimas que, na divisão do trabalho que caracteriza uma dentro dos seus limites não um, mas múltiplos sistemas políticos.
economia-mundo, mais do que participantes são subordinadas e
dependentes. Nestas zonas periféricas, a vida dos homens faz lembrar Fernand Braudel, O Mediterrâneo e o mundo mediterrâneo na época de
freqüentemente o Purgatório ou o Inferno. E isso explica-se simples- Felipe II, 2 vols., Martins Fontes Editora, Lisboa, 1984; sem indicação
mente pela sua situação geográfica. 1
do tradutor. A primeira edição do original em francês é de 1966. Fernand
Braudel, Civilisation matérielle, économie et capitalisme, XVe-XVIIIe
Siècles, 3 vols., Librairie Armand Colin, Paris, 1979.
1
Fernand Braudel, A dinâmica do capitalismo, tradução de Carlos da 2
Immanuel Wallerstein, El moderno sistema mundial (La agricultura
Veiga Ferreira, 2'. edição, Editorial Teorema, Lisboa, 1986, pp. 85-87. A capitalista y los origines de la economia-mundo europea en el siglo XVI),
primeira edição do original em francês é de 1985. Consultar também: tradução de Antonio Resines, Siglo Veintiuno Editores, México, 1979.

32
33
T E O R I A S DA G L O B A L I Z A Ç Ã O AS ECONOMIAS-MUNDO
j

É claro que o pensamento de Braudel e Wallerstein distinguem-se Bem além desse segundo recitativo, situa-se uma história de respira-
s o b vários aspectos, t a n t o n o que se refere a o universo empírico como ção mais contida ainda, e, desta vez, de amplitude secular: a história
n o relativo a o enfoque teórico. Braudel p r o p õ e uma espécie de teoria de longa, e mesmo, de longuíssima duração. (...) Além dos ciclos e
geral geo-histórica, contemplando as mais diversas configurações de interciclos, há o que os economistas chamam, sem estudá-la, sempre,
economias-mundo. E está influenciado pelo funcionalismo originário a tendência secular. Mas ela ainda interessa apenas a raros economis-
de Durheim e desenvolvido por Simiand e outros, c o m b i n a n d o histó tas e suas considerações sobre as crises estruturais, não tendo sofrido
ria, sociologia, geografia, antropologia e outras disciplinas. Ao passo a prova das verificações históricas, se apresentam como esboços ou
que Wallerstein debruça-se sobre o capitalismo m o d e r n o , a p o i a n d o - hipóteses, apenas enterrados no passado recente, até 1929, quando
se em recursos metodológicos muitas vezes semelhantes aos d o estru- muito até o ano de 1870. Entretanto, oferecem útil introdução à his-
turalismo marxista. tória de longa duração. São uma primeira chave. A segunda, bem
As análises de Braudel são principalmente historiográficas e geo- mais útil, é a palavra estrutura. Boa ou má, ela domina os problemas
gráficas. C o n t e m p l a m os acontecimentos, macro e micro, locais, pro- da longa duração. Por estrutura, os observadores do social entendem
vinciais, nacionais, regionais e internacionais, tendo em conta as dinâ- uma organização, uma coerência, relações bastante fixas entre reali-
micas e diversidades de espaços e tempos. A noção de "longa dura- dades e massas sociais. Para nós, historiadores, uma estrutura é, sem
ç ã o " é bem expressiva das preocupações e descobertas de Braudel. A dúvida, articulação, arquitetura, porém mais ainda, uma realidade
longa duração é algo que se apreende nas temporalidades e cartogra- que o tempo utiliza mal e veicula mui longamente. Certas estruturas,
fias articuladas nas tendências seculares. por viverem muito tempo, tornam-se elementos estáveis de uma infi-
nidade de gerações: atravancam a história, incomodam-na, portanto,
A história tradicional, atenta ao tempo breve, ao indivíduo, ao even- comandam-lhe o escoamento. Outras estão mais prontas a se esface-
to, habituou-nos há muito tempo a sua narrativa precipitada, dramá- lar. M a s todas são, ao mesmo tempo, sustentáculos e obstáculos.
tica, de fôlego curto. A nova história econômica e social põe no pri- Obstáculos, assinalam-se como limites (envolventes, n o sentido
meiro plano de sua pesquisa a oscilação cíclica e assenta sobre sua matemático) dos quais o homem e suas experiências n ã o p o d e m
duração: prendeu-se à miragem, também à realidade das subidas e libertar-se. Pensai na dificuldade em quebrar certos quadros geográ-
descidas cíclicas dos preços. Hoje, há assim, ao lado do relato (ou do ficos, certas realidades biológicas, certos limites da produtividade,
"recitativo" tradicional), um recitativo da conjuntura que põe em até mesmo estas ou aquelas coerções espirituais: os quadros mentais
questão o passado por largas fatias: dez, vinte ou cinqüenta anos. também são prisões de longa duração. 3

pp. 489-491. Consultar também: Immanuel Wallerstein, El moderno sis-


tema mundial (II. El mercantilismo y la consolidación de la economia-
3
mundo europea 1600-1750), tradução de Pilar López Mañez, Siglo Fernand Braudel, Escritos sobre a História, tradução de J. Guineburg e
Veintiuno Editores, México, 1984; Imannuel Wallerstein, The Modern Tereza Cristina Silveira da Mota, Editora Perspectiva, São Paulo, 1978,
World-System III (The Second Era of Great Expansion of The Capitalist pp. 44 e 49-50; citações do ensaio "História e Ciências Sociais: a Longa
World-Economy, 1730-1840s), Academic Press, Nova York, 1989. Duração", pp. 41-78.
T E O R I A S DA G L O B A L I Z A Ç Ã O AS ECONOMIAS-MUNDO

A o passo que Wallerstein focaliza prioritariamente a a n a t o m i a e mobilização e para seu exercício do poder no Estado. (...) Uma das
a dinâmica das realidades econômicas e políticas d o capitalismo m o - forças dos movimentos anti-sistema era o fato de que chegaram a o
d e r n o , que denomina de capitalismo histórico. São realidades vistas poder em grande número de Estados. Isso alterou as políticas vigen-
em â m b i t o nacional e internacional, compreendendo colonialismos, tes n o sistema mundial. M a s essa força foi também uma fraqueza,
imperialismos, dependências, interdependências, hegemonias, tensões visto que os chamados regimes pós-revolucionários continuavam a
e conflitos. Esse o contexto das guerras e revoluções, destacando-se funcionar como se fosse para a divisão social do trabalho d o capita-
em especial os movimentos anti-sistêmicos. Vejamos, pois, a dinâmi- lismo histórico. Operavam aí, a contragosto, sob as pressões inflexí-
4
ca d a economia-mundo, conforme escrevia Wallerstein em 1 9 8 3 : veis da direção para a acumulação interminável d o capital.

O capitalismo histórico funcionava numa economia-mundo, mas Note-se que para Wallerstein a " e c o n o m i a - m u n d o " está organi-
não num Estado-mundo. M u i t o pelo contrário. C o m o vimos, as zada c o m base n o que ele próprio denomina "capitalismo histórico",
pressões estruturais militaram contra qualquer edificação de um 0 que M a r x havia d e n o m i n a d o simplesmente "capitalismo" o u " m o -
Estado-mundo. Neste sistema, sublinhamos o papel decisivo dos do capitalista de p r o d u ç ã o " e Weber d e n o m i n a r a "capitalismo m o -
múltiplos Estados — estruturas políticas as mais poderosas e, a o d e r n o " . A sua originalidade está em reconhecer que o capitalismo ex-
mesmo tempo, como poder limitado. Por isso, a reestruturação de pandiu-se c o n t i n u a m e n t e pelas mais diversas e distantes p a r t e s d o
determinado Estado representava, para a força de trabalho, o cami- m u n d o , o que desafia o pensamento científico n o século X X , particu-
nho mais promissor para melhorar sua posição e, ao mesmo tempo,
larmente nas ciências sociais. Ainda que n e m sempre contemple as
um caminho de valor limitado. Devemos começar com o que enten-
interpretações que haviam sido desenvolvidas p o r M a r x e Weber, n o
demos por movimentos anti-sistêmicos. A expressão implica algum
que é a c o m p a n h a d o por Braudel, oferece sugestões importantes p a r a
impulso coletivo de uma natureza mais que momentânea. De fato, é
a análise das características d o capitalismo c o m o e c o n o m i a - m u n d o :
claro que ocorreram protestos ou levantes um tanto espontâneos da
força de t r a b a l h o , em todos os sistemas históricos conhecidos.
N a história moderna, as reais fronteiras dominantes da economia-
Serviam como válvulas de escape para uma raiva contida; ou, por
mundo capitalista expandiram-se intensamente desde as suas origens
vezes, um pouco mais eficazmente, como mecanismos que colocavam
no século XVI, de tal maneira que hoje elas cobrem toda a Terra. (...)
limites mínimos aos processos de exploração. Mas, falando generica-
Uma economia-mundo é constituída por uma rede de processos pro-
mente, a rebelião como técnica só funcionava às margens da autori-
dade central, e principalmente quando as burocracias centrais esta- dutivos interligados, que podemos denominar "cadeias de merca-
vam em fase de desintegração. (...) Q u a n d o as duas variantes de dorias", de tal forma que, para qualquer processo de produção na ca-
movimentos anti-sistema se difundiram (os movimentos trabalhistas- deia, há certo número de vínculos para adiante e para trás, dos quais
socialistas, a partir de poucos Estados fortes para todos os outros, e o processo em causa e as pessoas nele envolvidas dependem. (...)
os movimentos nacionalistas, de poucas zonas periféricas para todo
o resto), a diferença entre os dois tipos de movimento tornou-se cada 4
Immanuel Wallerstein, O capitalismo histórico, tradução de Denise
vez mais indistinta. Os movimentos trabalhistas-socialistas descobri- Bottmann, Editora Brasiliense, São Paulo, 1985, pp. 55-56, 60 e 60-61.
ram que os temas nacionalistas eram decisivos para seus esforços de Note-se que a primeira edição em inglês data de 1983.

36 37
T E O R I A S DA G L O B A L I Z A Ç Ã O AS ECONOMIAS-MUNDO

Nesta cadeia de mercadorias, articulada por laços que se cruzam, centro de outra economia-mundo regional, não só no contraponto
ptodução está baseada no princípio da maximização da acumulaçãi Japão-Rússia, mas t a m b é m interferindo no jogo de interesses de
5
d o capital. outras economias-mundo regionais já presentes na Ásia, como a nor-
te-americana e a européia. Naturalmente essas economias-mundo
É óbvio q u e a economia-mundo capitalista está permeada de eco regionais encontram-se em diferentes estágios de organização e dina-
n o m i a s - m u n d o menores ou regionais, organizadas em moldes colo mização; inclusive interpenetrando-se às vezes amplamente. O Japão
niais, imperialistas, geoeconômicos e geopolíticos. Ao longo d a histó tem investimentos em outras regiões, assim como na Europa e nos
ria d a economia-mundo capitalista houve e continua a haver a aseen Estados Unidos. N a s últimas décadas do século XX, os contornos
são e queda de grandes potências, c o m o centros dominantes de e c o n o das economias-mundo regionais estão mais ou menos esboçados,
m i a s - m u n d o regionais. mas não parecem consolidados. 6

Desde o século XVI, sucedem-se economias-mundo de maior ou me Essa impressão revela-se ainda mais acentuada devido a o fato de
n o r envergadura e d u r a ç ã o , centradas em t o r n o de Portugal que desde o término da guerra fria, q u a n d o se desagrega a economia-
Espanha, Holanda, França, Alemanha, Rússia (em algumas décadas m u n d o socialista, o m u n d o c o m o um t o d o deixou de estar rigidamen-
d o século XX também União Soviética), Inglaterra, Japão, Estado! te polarizado entre bloco soviético ou comunista, p o r um l a d o , e blo-
Unidos. Aliás, nas últimas décadas do século XX já se prenunciam co norte-americano ou capitalista, por o u t r o .
outros arranjos de economias-mundo regionais, no âmbito da econo- T o d o esse cenário, u m pouco real e um pouco imaginário, obvia-
mia-mundo capitalista de alcance global. Nesta época já se esboçam mente é t a m b é m u m cenário de confluencias e tensões, acomodações
economias-mundo regionais polarizadas pelas seguintes organiza- e contradições. São processos que já se esboçam em alguns recantos
ções ou nações: União Européia, com alguma influência n o leste desse n o v o e surpreendente m a p a d o m u n d o em formação desde o tér-
europeu e ampla ascendência sobre a África; Estados Unidos, com mino da guerra fria; um m a p a d o m u n d o em que se estão d e s e n h a n d o
ampla influência em todas as Américas, do Canadá ao Chile, natural- várias economias-mundo regionais n o âmbito de uma economia-mun-
mente compreendendo o Caribe; Japão, com ampla influência nos d o capitalista global.
países asiáticos d o Pacífico, compreendendo também a Indonésia e a M a s a e c o n o m i a - m u n d o capitalista, seja de alcance regional, seja
Austrália; a Rússia, polarizando a Comunidade de Estados Indepen-
de alcance global, continua a articular-se com base n o Estado-nação.
dentes (CEI), ainda muito mobilizados na transição de economias
Ainda que reconheça a importância das corporações transnacionais,
nacionais com planejamento econômico centralizado para econo-
Wallerstein reafirma a importância do Estado-nação soberano, mes-
mias nacionais de mercado aberto. É provável que a China se torne o
m o q u e essa s o b e r a n i a seja l i m i t a d a pela i n t e r d e p e n d ê n c i a d o s

5
Immanuel Wallerstein, The Politics of the World-Economy (The States, 6
Jacques Attali, Milênio, tradução de R. M. Bassols, Seix Barrai, Barce-
the Movements and the Civilizations), Cambridge University Press, lona, 1991; Lester Thurow, Head to Head (The Coming Economic Battle
Cambridge, 1988, pp. 2-3; citação do cap. 1: "World Networks and the Among Japan, Europe and America), William Morrow and Company,
Politics of the World-Economy". Nova York, 1992.

38 39
T E O R I A S DA GLOBALIZAÇÃO AS ECONOMÍAS-MUNDO

Estados nacionais e pela preeminência de um Estado mais forte sobre un me* abalados em suas prerrogativas, t a n t o que se limitam drastica-
o u t r o s . Cabe reconhecer, diz ele, que p, o u simplesmente a n u l a m , as possibilidades de projetos de capi-
i .le m o nacional e socialismo nacional. Acontece que o capitalismo,
a superestrutura da economia-mundo capitalista é um sistema de t ni|u.iiito m o d o de p r o d u ç ã o e processo civilizatório, cria e recria o
Estados interdependentes, sistema esse no qual as estruturas políticas l itiulo nação, assim c o m o o princípio da soberania que define a sua
denominadas "Estados soberanos" são legitimadas e delimitadas. . IH ia. Ainda que esta entidade, isto é, o Estado-nação s o b e r a n o ,
Longe de significar total autonomia decisória, o termo "soberania" | H i nianeça, o u mesmo se recrie, está m u d a n d o de figura, n o â m b i t o
na realidade implica uma autonomia formal, combinada com limita- . I r . < onfigurações e movimentos da sociedade global. Aliás, n ã o é p o r
ções reais desta autonomia, o que é implementado simultaneamente li uso que se multiplicam os estudos e os debates acerca d o Estado-
pelas regras explícitas e implícitas do sistema de Estados interdepen- ii i.,.i<>, e n q u a n t o processo histórico e invenção, u m a realidade persis-
dentes e pelo poder de outros Estados do sistema. Nenhum Estado no i. nu r problemática; e que se encontra em crise n o fim d o século X X ,
8
sistema, nem mesmo o mais poderoso em dado momento, é total- Quando se dá a globalização d o capitalismo.
mente autônomo, mas obviamente alguns desfrutam de maior auto- Wallerstein utiliza c o m mais freqüência o conceito de "sistema-
nomia que outros. 7
niundo", em geral implícito t a m b é m nas expressões "sistema m u n -
dial", " e c o n o m i a - m u n d o " , "capitalismo histórico" e outras. Alguns
.Ir M U S seguidores, o u mesmo críticos, referem-se a o " p a r a d i g m a " de
Cabe reconhecer, n o entanto, que a soberania d o Estado-nação
Wallerstein c o m o u m a construção baseada n o conceito de sistema-
n ã o está sendo simplesmente limitada, m a s abalada pela base. Q u a n -
inmido. Ocorre que às vezes ele utiliza t a m b é m o conceito de "econo-
d o se leva às últimas conseqüências " o princípio da maximização da
mia m u n d o " em termos semelhantes aos de Braudel. H á m e s m o m o -
acumulação d o capital", isto se traduz em desenvolvimento intensivo
mentos de suas reflexões em que os dois conceitos revelam-se inter-
e extensivo das forças produtivas e das relações de p r o d u ç ã o , em esca-
lambiáveis. Estão fundamentalmente apoiados na análise de relações,
la mundial. Desenvolvem-se relações, processos e estruturas de domi-
processos e estruturas econômicos. Mais u m a vez relembram as refle-
n a ç ã o política e apropriação econômica em â m b i t o global, atraves-
xões de Braudel. Isto n ã o significa que t a n t o um c o m o o o u t r o a u t o r
s an d o territórios e fronteiras, nações e nacionalidades. T a n t o é assim
deixem de contemplar aspectos sociais, políticos e culturais. Ao con-
que as organizações multilaterais passam a exercer as funções de es-
n.irio, esses aspectos d a s " e c o n o m i a s - m u n d o " , o u "sistemas-mun-
truturas mundiais de poder, ao lado das estruturas mundiais de p o d e r
d o " , nas palavras de Wallerstein, são amiúde levados em conta. Em
constituídas pelas corporações transnacionais. É claro que n ã o se apa- suas linhas gerais, n o e n t a n t o , as reflexões de Wallerstein e Braudel
gam o princípio da soberania nem o Estado-nação, mas são radical- priorizam os aspectos econômicos, em âmbito geográfico e histórico.

7 8 Joseph A. Camilleri e Jim Falk, The End of Sovereignty f (The Politics


Immanuel Wallerstein, The Politics of the World-Economy, citado, p.
14; citação do cap. 2: "Patterns and Prospectives of the Capitalist World- of a Shrinking and Fragmenting World), Edward Elgar Publishing,
Economy". Consultar também: Immanuel Wallerstein, The Capitalist Hants, Inglaterra, 1992; Bernardo Kliksberg, Cómo transformar al
World-Economy, Cambridge University Press, Cambridge, 1991, esp. Estado? (Más Allá de Mitos y Dogmas), Fondo de Cultura Económica,
parte I: "The Inequalities of Core and Periphery". México, 1993.

41
T E O R I A S DA G L O B A L I Z A Ç Ã O AS E C O N O M I A S MUNDO

Cabe acrescentar, n o que se refere à noção de "sistema", o u "sis i ni.ules e multipolaridades, ciclos, épocas e tendências seculares das
t e m a m u n d i a l " , que já se acha incorporada a teoria sistêmica das rela ptonomias-mundo. A articulação principalmente econômica d o con-
ções internacionais e da sociedade mundial. A "teoria sistêmica" d t r i t o de e c o n o m i a - m u n d o está presente inclusive e m b o a p a r t e d o s
m u n d o , ou a visão sistêmica das relações internacionais, d o transna comentadores, seguidores e críticos de Wallerstein e Braudel.
cionalismo ou da mundialização, corresponde a u m a a b o r d a g e m fun
cionalista de base cibernética, na qual sobressaem atores individuai^ As economias nacionais têm-se tornado crescentemente interdepen-
coletivos ou institucionais, compreendendo opções e decisões racioj dentes, e os correlatos processos de produção, troca e circulação
nais c o m relação a fins, objetivos o u valores definidos e m t e r m o a d q u i r i r a m alcance global. M u i t a s indústrias de t i p o t r a b a l h o -
pragmáticos, relacionados à definição de posições, conquista d e van intensivas têm sido realocadas em regiões com estruturas de custos
tagens ou afirmação de hegemonias. Trata-se de um enfoque prioritaj de t r a b a l h o relativamente baixas. Embora as novas tecnologias
riamente sincrónico, compreendendo o cenário internacional ou munu enfatizem a disponibilidade de força de trabalho altamente qualifi-
dial em termos de agentes concebidos c o m o atores em u m t o d o sistê cada, elas favorecem os desenvolvimentos recentes da capacidade
mico. Assim, é u m a conceituação distinta daquela presente nas noçõe produtiva em países industrialmente avançados. Esta reestrutura-
de " s i s t e m a - m u n d o " ou " e c o n o m i a - m u n d o " c o m as quais trabalh ção das atividades econômicas beneficia-se de dois fatores atuando
Wallerstein. Por isso, p o d e ser conveniente priorizar o conceito d conjugadamente: a rápida mudança tecnológica e a crescente inte-
" e c o n o m i a - m u n d o " , q u a n d o se focaliza as contribuições desse autor. gração financeira internacional. A conseqüente divisão internacio-
Inclusive p o d e ser c o n v e n i e n t e r e s s a l t a r a s c o n v e r g ê n c i a s e n t r nal do trabalho pode beneficiar-se das variações regionais da infra-
Wallerstein e Braudel, distinguindo-os d a a b o r d a g e m sistêmica, n estrutura tecnológica, condições de mercado, relações industriais e
q u a l e s t ã o presentes e são f u n d a m e n t a i s c o n c e i t o s o r i g i n á r i o s d a clima político para realizar a produção global integrada e as estra-
9
cibernética. tégias de marketing. A corporação transnacional é o mais conspí-
Além d o mais, as contribuições de Wallerstein e Braudel conferem cuo, mas não o único, agente significativo nesse processo. C o m o
importância especial à economia política d a mundialização. Distin- Immanuel Wallerstein e outros observaram, o que estamos testemu-
guem, de m o d o particularmente atento, as peculiaridades e complexi- n h a n d o é o u t r o estágio n o desenvolvimento de um " s i s t e m a -
dades das tecnologias, formas de organização da p r o d u ç ã o , intercâm- m u n d o " , cuja característica principal é o escopo transnacional d o
bios entre organizações econômicas nacionais e internacionais, pola- capital. (...) Para Wallerstein, a "economia-mundo" é agora uni-
versal, no sentido de que todos os Estados nacionais estão, em dife-
rentes graus, integrados em sua estrutura central. (...) Uma caracte-
9
Klaus Knorr e Sidney Verba (editores), The International System rística importante do sistema unificado de Wallerstein é o padrão
(Theoretical Essays), Princeton University Press, Princeton, 1961; Robert
de estratificação global, que divide a economia mundial em áreas
O. Keohane e Joseph S. Nye, Power and Interdependence, second edi-
tion, Harper Collins Publishers, Nova York, 1989; George Modelski, centrais (beneficiárias da acumulação de capital) e áreas periféricas
Long Cycles in World Politics, University of Washington Press, Seattle e (em constante desvantagem pelo processo de intercâmbio desigual).
Londres, 1987; Karl Deutsch, Análise das relações internacionais, tradu- O sistema de Estados nacionais, que institucionaliza e legitima a
ção de Maria R. Ramos da Silva, Editora Universidade de Brasília,
divisão centro-periferia, t a m b é m concretiza, p o r meio de u m a
Brasília, 1982.

42 43
T E O R I A S DA G L O B A L I Z A Ç Ã O AS ECONOMIAS-MUNDO

intricada rede de relações legais, diplomáticas e militares, a distri- comentaristas, seguidores ou críticos, conferem especial a t e n ç ã o às
10
buição d o poder n o c e n t r o . > ondições n ã o só econômicas c o m o também sociais, políticas, d e m o -
r a íicas, geográficas, culturais e outras, em âmbitos local e nacional.
Para alguns, dentre os quais destaca-se Wallerstein, "hegemonia I >isiinguem e valorizam as diversidades e as hierarquias das formas
envolve u m a situação em que os p r o d u t o s de d a d o Estado nacional nodais de organização d o t r a b a l h o e da p r o d u ç ã o . Reconhecem as
são produzidos t ã o eficientemente que se t o r n a m largamente c o m p e - dimensões sociais, políticas e culturais, além das econômicas, na p r o -
titivos até mesmo em outros Estados centrais, o que significa que esse dução e reprodução das condições de vida na cidade e n o c a m p o , com-
d a d o Estado nacional será o principal beneficiário d o cada vez mais preendendo a cultura material e espiritual, a realidade e o imaginário.
11
livre m e r c a d o m u n d i a l " . N o limite, Braudel está fascinado pelo lugar que a França p o d e
Note-se, n o e n t a n t o , que o conceito de " e c o n o m i a - m u n d o " , o u ocupar n o m u n d o . Em t o d a a sua longa viagem pela geografia e histó-
e c o n o m i a m u n d i a l , sistema m u n d i a l , sistema econômico m u n d i a l e i i.i mundiais, procura o lugar e o destino da França. Passa pelos desa-
capitalismo histórico, conforme inspiram as pesquisas e as interpreta- lios representados pela cidades e nações dominantes, centrais, metro-
ções de Wallerstein e Braudel, está sempre relacionado c o m o emble- politanas ou pólos de economias-mundo: Veneza, Amsterdã, Ingla-
m a Estado-nação. Ainda que seja evidente o e m p e n h o em desvendar itrra, Alemanha, Estados Unidos e outras. Reconhece o m o m e n t o e a
as realidades geográficas, históricas e econômicas d a mundialização,
importância de c a d a u m a , c o m o centro de e c o n o m i a - m u n d o . M a s
o Estado-nação aparece t o d o o t e m p o , c o m o agente, realidade, p a r â -
continua a procurar o lugar e o destino da França nessa viagem sem
metro ou ilusão. Esses autores acham-se, t o d o o t e m p o , c o m p r o m e t i -
hm: "Eu o digo de uma vez p o r todas: a m o a França ~om a mesma
dos c o m a idéia de sociedade nacional, ou Estado-nação, c o m o emble- 12
paixão, exigente e complicada, de Jules M i c h e l e t " .
m a d a realidade e d o pensamento, ou d a geografia, da história e d a
N o limite, Wallerstein está empenhado em esclarecer o segredo da
teoria. É claro que reconhecem que a sociedade nacional n ã o é capaz
primazia dos Estados Unidos da América d o N o r t e n o m u n d o capita-
de conter as forças d a economia, política, geografia, g e o e c o n o m i a ,
lista, conforme ela se manifesta a o longo d o século X X , particular-
geopolítica, história, demografia, cultura, m e r c a d o , negócios etc. Re-
mente desde a Segunda Guerra Mundial. Está rebuscando pretéritos,
conhecem que as fronteiras são contínua ou periodicamente rompi-
antecedentes ou raízes de sistemas imperialistas. Q u e r esclarecer o
das, refeitas, ultrapassadas ou dissolvidas. Sabem que a n a ç ã o é u m
fato histórico e geográfico, um processo que se cria e recria continua- vaivém das grandes potências, c o m o metrópoles de sistemas ou eco-
mente. M a s priorizam o p o n t o de vista nacional, o emblema Estado- n o m i a s - m u n d o . D e b r u ç a - s e s o b r e o tecido e c o n ô m i c o , p o l í t i c o ,
n a ç ã o , c o m o universo empírico e teórico. demográfico, militar, tecnológico, cultural e ideológico que funda-

T a n t o é assim que Braudel e Wallerstein, bem c o m o muitos de seus menta a primazia deste ou daquele sistema ou economia-mundo.

Deus, parece, abençoou os Estados Unidos três vezes: no presente, no


1 0
Joseph A. Camilleri e Jim Falk, The End of Sovereignty? (The Politics passado e no futuro. Digo que assim parece porque os caminhos de
of a Shrinking and Fragmenting World), Edward Elgar Publishing
Limited, Hants, Inglaterra, 1992, pp. 77-78.
1 1
Joseph A. Camilleri e Jim Falk, The End of Sovereignty?, citado, 1 2
Fernand Braudel, L'identité de la France, 3 vols., Arthaud-Flamma-
p. 89. rion, Paris, 1986, vol. I, p. 9.

44 45
T E O R I A S DA G L O B A L I Z A Ç Ã O AS ECONOMIAS-MUNDO

Deus são misteriosos, e não pretendo estar seguro de entendê-los. As! cientemente dos regimes políticos e das culturas nacionais. Reconhe-
bênçãos de que falo são estas: no presente, prosperidade; no passado cem que elas criam novos desafios a governos, a grupos sociais, a clas-
liberdade; no futuro, igualdade. (...) O problema é que essas bênção ses sociais, a coletividades, a povos, a nações e a nacionalidades, im-
têm seu preço. (...) E nem sempre é óbvio que aqueles que recebem asj pregnando seus movimentos sociais, partidos políticos, correntes de
bênçãos têm sido os que pagam o seu preço. (...) A América sempre; opinião pública e meios de comunicação. Inclusive reconhecem q u e as
se acreditou excepcional. E eu aderi a essa crença ao concentrar-nr novas características d o capitalismo mundial, c o m o economias-mun-
nas três bênçãos divinas. Entretanto, não só a América não é excep do ou sistemas-mundo, suscitam problemas teóricos novos ainda n ã o
cional, mas a excepcionalidade americana não é excepcional. N ã equacionados, a g u a r d a n d o conceitos e interpretações. D e i x a m t r a n s -
somos o único país na história moderna cujos pensadores têm procu parecer que as noções de soberania nacional, projeto nacional, impe-
J
rado provar que o seu país é historicamente único, diferente da m a s rialismo e dependência, entre outras, n ã o d ã o conta d o que vai pelo
sa dos outros países no mundo. Já encontrei franceses excepcionalis- mundo.
tas, assim como russos. Há hindus e japoneses, italianos e portugue- M a s t a n t o Samir Amin c o m o André G u n d e r Frank c o n t i n u a m in-
ses, judeus e gregos, ingleses e húngaros excepcionalistas. O excep-| terpretando as configurações e os movimentos da sociedade global a
cionalismo chinês e egípcio é uma verdadeira marca do caráter nacic^ partir da perspectiva d o Estado-nação. O seu pensamento continua a
nal. E o excepcionalismo polonês compete com qualquer outro. O inspirar-se pela tese de q u e , n o limite, p o d e m realizar-se p r o j e t o s
excepcionalismo é o tutano dos ossos de praticamente todas as civili- nacionais, movimentos de liberação nacional ou anti-sistêmicos, d e
13
zações que o nosso mundo tem p r o d u z i d o . modo a realizar-se a emancipação p o p u l a r . 14

N ã o se trata de negar os fatos que expressam as realidades locais,


Ainda que formuladas em linguagens diversas das a d o t a d a s porj nacionais, regionais ou multinacionais, envolvendo continentes, ilhas
Braudel e Wallerstein, inclusive p o r q u e utilizam-se mais a m p l a m e n t e e arquipélagos. O nosso século p o d e ser visto c o m o u m imenso m u r a l
de noções provenientes d o m a r x i s m o , Samir Amin e André G u n d e r de lutas populares, guerras entre nações, revoluções nacionais e revo-
Frank t a m b é m p o d e m situar-se na mesma corrente. Estão e x a m i n a n - luções sociais. E t u d o isso continua vigente e fundamental n o fim des-
d o as características das economias-mundo, c o m p r e e n d e n d o sistemas te século X X , n o limiar d o XXI. O dilema consiste em constatar se es-
geopolíticos, imperialismos, dependências, trocas desiguais, lutas p o r tá ou n ã o havendo u m a ruptura histórica em grandes proporções, em
liberação nacional, revoluções socialistas. As contribuições desses au-
tores são fundamentais para o m a p e a m e n t o das novas características
4

d a economia e política mundiais. Reconhecem que as transnacionais 1 Samir Amin, Giovanni Arrighi, André Gunder Frank, Immanuel Wal-
lerstein, Le grand tumulte? (Les Mouvements Sociaux dans l'Économie-
desenvolvem-se além das fronteiras geográficas e políticas, indepen- Monde), Éditions La Découverte, Paris, 1991; Samir Amin, La
Déconnexion (Pour Sortir du Système Mondial), Éditions La Découverte,
Paris, 1986; Samir Amin, L'Empire du Chaos, Éditions L'Harmattan,
1 3
Immanuel Wallerstein, "America and the World: Today, Yesterday Paris, 1991; Andre Gunder Frank, Crisis: In the World Economy, Heine-
and Tomorrow", Theory and Society, n°. 21,1992, pp. 1 e 27. Também: mann Educational Books, Londres, 1980; Andre Gunder Frank, Critique
Immanuel Wallerstein, "The USA in Today's World", Contemporary and Anti-Critique (Essays on Dependence and Reformism), The MacMil-
Marxism, n°. 4, San Francisco, 1982. lan Press, Londres, 1984.

46 47
T E O R I A S DA G L O B A L I Z A Ç Ã O AS ECONOMIAS-MUNDO

â m b i t o global, assinalando o declínio d o Estado-nação e a emergência vii c intensivo d o capitalismo, compreendendo as forças produtivas,
de novos e poderosos centros mundiais de poder, soberania e hegemo- I n - . (orno o capital, a tecnologia, a força de trabalho e a divisão d o
nia. Nesta hipótese, o Estado-nação continua vigente, mas c o m signi- trabalho social, sempre envolvendo as instituições, os padrões sócio-
ficados diversos dos que teve por longo t e m p o n o pensamento liberal i iiliurais e os ideais relativos à racionalização, produtividade, lucrati-
e n o p e n s a m e n t o d e a l g u m a s c o r r e n t e s m a r x i s t a s , sem e s q u e c e r viil.ulc, quantidade.
sociais-democratas, neoliberais, fascistas e nazistas. Sob vários aspectos, as interpretações de Braudel e Wallerstein
O c o r r e que a e c o n o m i a - m u n d o , o u sistema-mundo, e m t o d a a contribuem decisivamente para o conhecimento das configurações e
sua complexidade n ã o só econômica, m a s t a m b é m social, política e movimentos da sociedade global em formação n o final d o século X X .
cultural, sempre transcende t u d o o que é local, nacional e regional. í verdade que seus escritos, bem c o m o os de seus seguidores, freqüen-
Repercute p o r t o d o s os cantos, perto e longe. O s colonialismos e im- temente priorizam os sistemas coloniais e os sistemas imperialistas,
perialismos e s p a n h o l , p o r t u g u ê s , holandês, belga, francês, a l e m ã o , distinguindo as grandes potências, em suas relações c o m as colônias e
russo, japonês, inglês e norte-americano sempre constituíram e des- os países dependentes. Descrevem o c o n t r a p o n t o centro-periferia, o u
t r u í r a m fronteiras, soberanias e hegemonias, compreendendo tribos,
desenvolvimento-subdesenvolvimento. Focalizam a constituição, os
clãs, nações e nacionalidades. São muitos os que reconhecem que os
desenvolvimentos e as crises dos centros hegemônicos, m o s t r a n d o co-
Estados nacionais asiáticos, africanos e latino-americanos foram dese-
mo esses processos afetam n ã o só as metrópoles mas o conjunto dos
n h a d o s , em sua quase totalidade, pelos colonialismos e imperialismos
povos colonizados e dependentes. Assinalam o jogo das relações que
europeus, segundo os modelos geo-histórico e teórico, ou ideológico,
associam, tensionam e conflitam metrópoles emergentes e d o m i n a n -
configurado n o Estado-nação que se formou e p r e d o m i n o u n a Eu-
15
tes, envolvendo suas colônias e dependências. Ficam mais ou menos
ropa.
nítidas as linhas mestras d a emergência, transformação e crise dos sis-
O emblema Estado-nação sempre teve as características simultâ- temas polarizados pelos países metropolitanos, tais c o m o Portugal,
neas e contraditórias de realidade geo-histórica e ficção. N a época da Espanha, H o l a n d a , França, Alemanha, Bélgica, Itália, Rússia, J a p ã o ,
globalização, e provavelmente de forma m u i t o m a r c a n t e , t o r n a - s e Inglaterra e Estados Unidos. Algumas das linhas mestras da história
mais ficção. Tal emblema está atravessado p o r relações, processos e dos grandes descobrimentos marítimos, continuando pelo mercanti-
estruturas altamente determinados pela dinâmica dos m e r c a d o s , d a lismo, colonialismo, imperialismo, transnacionalismo e globalismo
desterritorialização das coisas, gentes e idéias, e n q u a n t o a r e p r o d u ç ã o
revelam-se mais ou menos claras, articuladas e dinâmicas. Nesse sen-
ampliada d o capital se globaliza, devido a o desenvolvimento extensi-
tido é que as interpretações de Braudel e Wallerstein, juntamente c o m
as de seus seguidores, contribuem decisivamente para o conhecimen-
u Hugh Seton-Watson, Nations & States, Methuen, Londres, 1977; Da- to das configurações e movimentos da sociedade global.
wa Norbu, Culture and the Politics of Third World Nationalism, Rou- C o m Wallerstein e Braudel estamos n o âmbito da geo-história. As
tledge, Londres, 1992; Eric R. Wolf, Europe and the People Without
History, University of California Press, Berkeley, 1982; Peter Worsley, realidades locais, provinciais, nacionais, regionais e mundiais são vis-
The Third World, The University of Chicago Press, Chicago, 1964; tas c o m o simultaneamente espaciais e temporais. Envolvem relações,
Roland Oliver, A experiência africana, tradução de Renato Aguiar, Jorge processos e estruturas sociais, econômicos, políticos e culturais, m a s
Zahar Editor, Rio de Janeiro, 1994.
sempre focalizados em sua dinâmica geo-histórica. O s movimentos de

48 49
T E O R I A S DA G L O B A L I Z A Ç Ã O AS ECONOMIAS-MUNDO

p o p u l a ç õ e s , m e r c a d o r i a s , técnicas p r o d u t i v a s , instituições, p a d r õ e mundo, t u d o isso constitui o fundamento d a dinâmica progressiva e


sócio-culturais e idéias, bem c o m o os c o n t r a p o n t o s c i d a d e - c a m p o errática que se t o r n a m nos ciclos de longa d u r a ç ã o , assinalando o nas-
a g r i c u l t u r a - i n d u s t r i a , m e t r ó p o l e - c o l ô n i a , centro-periferia, Leste cimento, a t r a n s f o r m a ç ã o , o declínio e a sucessão d a s e c o n o m i a s -
Oeste, Norte-Sul, Ocidente-Oriente, local-global, passado-presente mundo.
esses e outros c o n t r a p o n t o s sempre são descritos e interpretados e À medida que se d e s d o b r a m os significados geo-históricos d a teo-
t e r m o s geo-históricos. ria das economias-mundo, em suas implicações empíricas e m e t o d o l ó -
É n o â m b i t o da geo-história que se inserem os fatos da geoecono gicas, logo se evidenciam as continuidades e as rupturas entre o nacio-
mia, d a geopolítica, d o ciclo econômico de longa duração, dos movi nal e o mundial, o p r ó x i m o e o r e m o t o , o passado e o presente, o espa-
m e n t o s seculares. São fatos que se desdobram uns nos o u t r o s , concre ço e o t e m p o . É c o m o se o horizonte aberto pela globalização e m cur-
tizando-se em realidades locais, provinciais, nacionais, regionais so n o final d o século X X abrisse possibilidades novas e desconhecidas
mundiais, envolvendo continentes, ilhas e arquipélagos, p r o d u z i n d o sobre as formações sociais passadas, próximas e distantes, recentes e
configurações e movimentos das economias-mundo, sempre em mol- remotas. Uns buscam continuidades e rupturas, outros descontinuida-
des geo-históricos. des e multiplicidades, n o curso da geo-história, d o c o n t r a p o n t o espa-
Em boa medida, a dinâmica das economias-mundo tem uma d ço-tempo. É c o m o se muito d o que é passado adquirisse n o v o sentido,
suas raízes nas diversidades e desigualdades com as quais se constitui ao m e s m o t e m p o q u e o u t r o t a n t o d o q u e t a m b é m parece p a s s a d o
essa totalidade geo-histórica, implicando sempre o social, o político e tomasse significado de presente. Realidades e significados q u e p a r e -
o cultural, além d o econômico. C o m o em toda configuração social, ciam irrelevantes, secundários, esquecidos o u escondidos, reaparecem
em sentido lato, o t o d o geo-histórico inerente à e c o n o m i a - m u n d o é sob nova luz. E t u d o isso p o r q u e a ruptura geo-histórica que desven-
u m t o d o em movimento, heterogêneo, integrado, tenso e antagônico. da a globalização d o m u n d o , n o final deste século, prenunciando con-
É sempre problemático, atravessado pelos movimentos de integração figurações e movimentos d o século XXI, revela-se n ã o só u m evento
e fragmentação. Suas partes, c o m p r e e n d e n d o nações e nacionalida- heurístico, mas u m a ruptura epistemológica.
des, grupos e classes sociais, movimentos sociais e partidos políticos,
conjugam-se de m o d o desigual, articulado e tenso, no â m b i t o do to-
d o . Simultaneamente, esse t o d o confere outros e novos significados e
m o v i m e n t o s às partes. Anulam-se e multiplicam-se os espaços e osi
tempos, já que se trata de uma totalidade heterogênea, contraditória,
viva, em movimento.
Em síntese, é n a p r ó p r i a d i n â m i c a d a s e c o n o m i a s - m u n d o q u e
emergem e se desenvolvem os processos que configuram os ciclos geo-
históricos de longa, média e curta durações. O mesmo jogo das forças
produtivas, a mesma dinâmica das lutas pelos mercados, o m e s m o
e m p e n h o de inovar tecnologias e mercadorias, esses processos que se
desenvolvem c o n t i n u a m e, periodicamente n o bojo das economias-

50 51