Sie sind auf Seite 1von 183

,~

...
•...
·.· ,'4 :.'
~
Alaor Caffé Alves

• Dialética do Conhecimento - Massimo Canevacci


• A Fala dos Homens - Análise do Pensamento tecnocrático
- 1964-1981 - Maria de Lourdes M. Covre
• Filosofia da Ciência - Introdução ao jogo e suas regras -
Rubem Alves
• Introdução à Organização Burocrática - Fernando
Motta/Luiz Bresser Pereira
• Linhagens do Estado Absolutista - Perry Anderson
• Passagem da Antiguidade ao Feudalismo - Perry Anderson
• Sacerdotes e Burocratas - Introdução ao socialismo real -
Adolfo G11/y
• Socialismo ou Barbárie - Cornelius Castoriadis
• Sociedade e Estado na Filosofia Política Moderna -
Norberto Bobbio!Michelangelo Bovero
Estado e Ideologia
Aparência e realidade
Coleção Primeiros Passos
• O que é Burocracia - Fernando Motta Apresentação:
• O que é Direito - Roberto Lyra Filho Dalmo de Abreu Dallari
• O que é Direito Autoral - Eduardo Vieira Manso
• O que é Direito Internacional - José Monserrat F.0
• O que são Direitos da Pessoa - Dalmo Dallari
• O que é Ideologia - Marilena Chaui
• O que é Participação Política - Dalmo Dallari
• O que é Poder - Gerard Lebrun

editora brasiliense
DIVIDINDO DPINIOES MULTIPliCANDD CUlTIJRA

1 9 B7
(_).z 1
/J,!t2e_
CopyriJ:hl © Alaôr Caffé Alves

Capa :
· Ana Aly

Revisão:
Leila Nunes de Siqueira
Heloísa H.G . Lima

_,
Indice

Apresentação - Dalmo de Abreu Dallari . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 7


:~
Prefácio .... ...... ... .... . . .. .. .. ... .. . . _. . . . . . . . . . . . . . 11
Introdução .... . . .. ... .. ............. . ·:,:"!-:?.·:·· .. : .- .· . . . . . . 15
:i t ~....
. . ~

PRIMEIRA PARTE
QUESTõES SUBJACENTES E INSTRUMENTAIS
N° Reg. ..~ ...'.,. 4.. .r-
'--'"'---------
-
5ZO· Jn l
. ·~~~ -~ .

Aparência, realidade e ideologia ..................... ·: . . . .. . 23


.6 L\l L)~ Dialética e relação social ................... : ~-· . . : .... ·.... · 55
SEGUNDA PARTE
QUESTõES SUBSTANCIAIS

Estrutura social e relações intersubjetivas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. 89


O indivíduo e a prática social ................. .' :·. ........ 'í 15
As classes sociais . ...... .. ...... ... . ............ : . . . . . . . 135

TERCEIRA PARTE
QUESTÕES NUCLEARES

Poder, ideologia e legitimidade . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 169


Sociedade civil e Estado ..... .... ·. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 211

11
editora brasiliense s.a.
Coercibilidade jurídica e constrangimento econômico difuso . . . . 253
rua da consolação, 2697
Estado e relação estrutural capitalista . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 273
01416 - são paulo- sp.
Formalismo jurídico e mediação ideológica .................. 301
fone (011) 852-4013 Considerações finais . ..... . ....... .. .... . ........ .' . . . . . . 339
brasiliense telex: 11 33271 DBlM BR
Bibliografia ........................................... 347
"Toda ciência seria supérflua se a forma de
manifestação e a essência das coisas coin-
cidissem imediatamente. ( . .. ) A . verdade
científica é sempre um paradoxo, se julga-
da pela experiência cotidiana, que apenas
agarra a aparência efêmera das coisas."
K. Marx

"A aproximação dialética no conhecimento


da singularidade não pode ocorrer separa-
damente das suas múltiplas relações com a
particularidade e com a universalidade."
G. Lukács

"Será preciso ainda muito tempo para que


a infelicidade e a felicidade não sejam mais
o efeito de deuses mortos que não querem
morrer e jamais cessaram de se nutrir da
carne e do pensamento dos homens vivos,
de suas relações, de nossas relações."
M. Godelier
Apresentação

Existem pessoas que pensam que são a favor do Estado e


outras que pensam que são contra, simplesmente porque ainda
não perceberam o que o Estado realmente é. Essa é uma das
principais conclusões deste livro, que faz a crítica da própria
discussão sobre o Estado, com abordagens provocativas que par-
tem de indagações muito agudas e que, ao final, provocam novas
indagações.
O que se conhece do Estado, o que aparece como sendo
o Estado é diferente daquilo que o Estado realmente é? Se não
há coincidência entre realidade e aparência, isso quer dizer que
o Estado utiliza disfarces, deliberadamente, para ocultar sua ver-
dadeira natureza? Muitos dirão logo que sim, que o Estado é
essencialmente mau e que, no entanto, procura esconder essa
maldade atrás de uma enganosa máscara de promotor do bem
comum. Essa é uma das afirmações fundamentais deste livro.
Apesar da coerência teórica e do rigor que dão grande soli-
dez à veemente argumentação do autor, seu enfoque dos temas
é aberto, amplo, e por isso é possível questionar suas afirmações,
confrontando-as com as múltiplas razões de outros teóricos e da-
queles que, na prática política e social, reagem intensamente por
terem seus interesses imediata e fundamente afetados pelas ações
do Estado.
Antes de tudo, o espaço por excelência do Estado é a esfera
pública. Ainda que as decisões sejam tomadas na penumbra dos
subterrâneos políticos, sua execução é inexoravelmente pública,
evidente, e seus efeitos podem ser percebidos por qualquer obser-
de centro de poder político. E assim o Estado é produto de deter-
vador razoavelmente atento e que saiba ver a realidade. Isso, em minada espécie de sociedade, o que permitiria concluir que uma
princípio, permite questionar a afirmação de Alaôr Caffé Alves, profunda mudança social poderá levar à modificação substancial
que vê um contraste entre aparência e realidade e que argumenta do Ewulo Oll até mesmo ao seu desaparecimento.
como se ninguém pudesse ver além da aparência. Não seria mais Ora, se for verdadeira essa afirmação não é coerente respon-
próprio dizer que o Estado tem uma face má ou perigosa, que l.iClbilizar o Ustado por clesajustes e injustiças sociais, pois o Estado
procura manter oculta, e outra, favorável aos seres humanos e é o que a sociedade determina que ele seja. E do ponto de vista
à sua conveniência, ambas fazendo parte da mesma realidade e prático se torna irrecuiiável a conclusão de que os que procuram
sendo mais ou menos visíveis de acordo com o ângulo em que agir sobre o Estado para, através desse caminho, chegarem à me-
se posiciona o observador? lhoria da sociedade estão incorrendo numa equivocada inversão,
A par disso é preciso ter em conta que o Estado geralmente pois devem agir sobre a sociedade para que, por via de conse-
é avaliado segundo parâmetros estabelecidos pelos pressupostos qüência. o Estado melhore ou desapareça.
teóricos ou pelas conveniências de quem avalia. Existem teorias Essa discussão está presente no livro de Alaôr Caffé Alves
pró-Estado e outras anti-Estado e nas duas hipóteses os adeptos e contribuiu para tornar mais agudo seu caráter provocativo. É
são facilmente levados por preconceitos, acreditando ver clara- importante assinalar que o autor, além de ser um vigoroso argu-
mente apenas o que querem ver, mesmo que seja na face oculta mentador, tem a seu favor o amadurecimento teórico resultante de
do Estado, e não vendo o que não querem ver, ainda que agres- inúmeros trabalhos que já produziu sobre a temática do Estado.
sivamente expresso. Assim também ocorre que muitas -pessoas A par disso, sendo professor universitário ajeito ao diálogo, talvez
chegam · a uma opinião sobre o Estado observando-o pela ótica mesmo apaixonado pelo diálogo, tem tido oportunidade de testar
de suas conveniências de momento. Um oposicionista poderá ser suas conclusões como docente ou orientador de pesquisas. E ain-
contrário ao excesso de estatização, enquanto ' oposição, passando da se deve acrescentar sua experiência no exercício de funções
a ser favorável quando se tornar governo. Do mesmo modo, um públicas relevantes, o que lhe dá a condição de agente do Estado
empresário que tiver seus lucros exorbitantes limitados pelo Es- e talvez tenha influído bastante para que ele chegasse à conclusão
tado afirmará que os serviços prestados pelo Estado não passam de que, a semelhança da imagem platônica, muitos só conseguem
de disfarces de sua maldade intrínseca. Mas dirá que o Estado ver as sombras projetadas pelo Estado e por isso não avaliam
existe para realizar o interesse comum quando quiser que sejam corretamente a realidade, que seria bem diversa do que é sugerido
aumentados os investimentos públicos, especialmente se estes lhe pelas projeções.
propiciarem vantajosas contratações com o Estado. Concorde-se ou não com as afirmações e conclusões do autor,
Por tudo isso, é necessário ler este livro a partir de uma este livro é uma importante contribuição para a busca de com-
dúvida fundamental: será correto afirmar que existem uma apa- preensão do Estado, que, bom ou mau, tem papel fundamental
rência e uma realidade do Estado, não coincidentes, ou será mais como agente conservador ou transformador no mundo contem-
preciso dizer que a realidade é uma só, com partes mais e outras porâneo.
menos evidentes, e que as expressões do Estado são consideradas
falsas ou autênticas segundo as inspirações do interesse prático Dalmo de · Abreu Dallari
ou de convicções teóricas?
· Outra questão fundamental, antiga fonte de controvérsias a
que o autor deste livro não fugiu, é a relação entre sociedade e
Estado. É a sociedade que determina o Estado, estabelecendo seu
papel e suas características, ou é o contrário que sucede, sendo
o Estado o dominador e modelador da sociedade?
É freqüente nas obras de cientistas políticos e de sociólogos
:z afirmação de que cada sociedade gera uma forma característica
Prefácio

De longa data preocupam-me os efeitos deletérios do óbvio, do


cotidiano, do senso comum, enquanto vividos como se fossem a única
realidade. Nesse processo observo a profunda dissociação, promovida
e estimulada pelas forças sociais dominantes, entre a vida vivida e a
vida refletida, entre a prática e a teoria, entre o espontâneo e o ela-
borado, entre o aparente e o essencial. Em nosso país, as questões
políticas são tratadas como algo setorial, deixadas para os especia-
listas ou para os que exercitam certas práticas ligadas aos assuntos
do governo. Impressiona-me, nas práticas políticas, a presença hege-
mônica da ideologia dominante que mistifica o povo e o impede de
olhar para dentro das relações sociais e de ver sua autêntica expres-
são, as reais determinantes sociais e econômicas de sua miséria . e
opressão. A ação política dominante, utilizando-se de todos os meios
disponíveis, serve para "despolitizar" o povo, ou seja, serve para
mantê-lo cego às questões subjacentes de sua própria vida social e
econômica. Essa "despolitização" é uma forma alienada de subjugar
politicamente o povo, sem que as próprias forças opressoras tenham
disso clara consciência. Tudo soa como se fosse espontaneamente
natural, como se a prática social e política tivesse que fazer exata-
mente isso, não podendo correr outra via senão essa.
12 ALAOR CAFFÉ ALVES
ESTADO E IDEOLOGIA 13

Meu trabalho, que agora se publica, orienta-se na linha da busca, junto ao Departamento de Direito do Estado, tive a felicidade de con-
ainda que notoriamente incompleta, da transparência e da autentici- tar com a compreensão, cooperação e tolerância de inúmeros amigos,
dade daquelas práticas. A viabilidade desse escopo está fundamentada companheiros e familiares. Por isso, quero deixar expressos meus
no interesse de transformação sócio-econômica de nossa realidade, agradecimentos aos professores do Departamento de Direito do Es-
motivo pelo qual tenho a confiança de que surpreendo até certo ponto tado, especialmente ao Prof. Dalmo de Abreu Dallari, intelectual
parte da verdade, ~em o que não há como lutar contra os privilégios preocupado com os problemas de nosso país e de sua população em
odiosos de classe, cujo principal interesse é manterem-se, mesmo con- grande parte marginalizada, carente e oprimida. Deixo também, aqui,
tra o movimento da História. Para isso, tais interesses se exprimem meu profundo reconhecimento aos professores do Departamento de Filo:..
na linha de sustentação da consciência social alienada, atada ao ime- sofia e Teoria Geral do Direito, destacando os professores Tércio
diato, ao senso comum, ao espontâneo, precisam~nte para impedir a Sampaio Ferraz Jr. e José Eduardo Faria, que me encorajaram no
ação transformadora da teoria crítica do ser social. desenvolvimento e exploração temática deste trabalho, ao abrirem
Estou plenamente consciente de que meu empreendimento se perspectivas para novas direções na pesquisa e reflexão sobre as ques-
desenrola no âmbito abstrato do exame de alguns dos pressupostos tões sociais, políticas e jurídicas de nossa realidade. Cumpre destacar,
ideológicos relativos às práticas político-institucionais, ainda bastante ainda, o apoio dos professores Celso Lafer e Cláudio de Cicco, pelo
distante do equacionamento da ação concreta e adequada para se incentivo e atenção com que me agraciaram nesta empreitada. Final-
obter a referida transformação. Moveu-me, entretanto, essa abordagem, mente, não posso deixar de exprimir os sentimentos de profunda gra-
exatamente porque constatei, em largas camadas sociais e em grande tidão aos meus filhos e à minha esposa, companheira de todos os
parte dos segmentos orientados para a mudança progressista de nossa dias, que não mediram esforços para tornar minha tarefa menos
realidade econômico-social, a ausência da explicitação clara dos pres- penosa e mais gratificante.
supostos ideológicos da ação e da palavra, configurando uma situação
de confusão e de não-transparência dos princípios sob os quais inter- Alaôr Caffé Alves
pretamos nossa própria realidade e orientamos nossas práticas. Em- São Paulo, novembro de 1986
bora nem sempre nos demos conta disso, o esclarecimento explícito
dos níveis mais abstratos de nosso pensar, com base na práxis crítica
para a superação dialética do cotidiano e do empírico, é igualmente
importante para a concretização de práticas conscientes e apropriadas
à transformação do real. Isso não _quer dizer absolutamente que a
presente obra se en:tregue à pretensão utópica de esclarecer plenamen-
te os pressupostos ideológicos da ação social relativa à sociedade po-
lítica, ao Estado. Ela se define como uma tentativa para motivar o
diálogo político-institucional a se empenhar na elucidação crítica dos
elementos preliminares e originários que informam as bases de nossas
práticas sociais, com o objetivo de lograr maior atenção sobre esses
elementos no sentido de pô-los na ordem do dia e discuti-los perma-
nentemente.
Na elaboração deste trabalho, que foi apresentado como tese de
doutorado na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo,_
Introdução

O presente trabalho se colà:a no campo de investigação sobre o


Estado, na tentativa de captar sua aparência expressa e objetivada
em contraposição a sua essência oculta, com vistas a revelar-lhe a
autêntica realidade. Com ele, pretendemos oferecer uma contribuição
à i~vestigação, ~os fundamentos da~ _formas ideológicas pelas quai~ a
soctedade pohttca se mostra na prattca comum dos homens e obtem ·
sua justificação e legitimidade. Procuramos analisar o Estado sob o
ângulo de sua manifestação externa e visível, enquanto momento ·apa~
rente aberto ao senso comum, em contraste dialético com suas rela-
ções intrínsecas, enquanto momento velado que traduz suas conexões
orgânicas com a estrutura social básica. Limitamo-nos, contudo, a um
estudo dos fundamentos teóricos da relação entre o fenômeno da apa-
rência - explícita na experiência imediata e direta dos fatos cotidia-
nos e nos conceitos gerais descritivos desse fenômeno utilizados pela
teoria tradicional sobre o Estado e os aspectos essenciais estrutura-
dores da realidade social do sistema capitalista de produção. Nesse
sentido, deixamos de lado, entre parênteses, para uma retomada opor-
tuna, a investigação histórico-empírica articulada em razão das dimen-
sões concretas e específicas de cada formação econômico-social.
16 ALAOR C.AFFÊ ALVES ESTADO E IDEOLOGIA 17

Q_ Est~do _é_ produto e a~ I!!es~ tempo garantia das relações de conformidade com as condições objetivas de cada época histórica?
~ciais C2{litalistas de E_!9dução. Na atual fase monopolista, amplia Como se especificam e se configuram esses elementos no período h1s-
sua intervenção sobre a sociedade não só para atender às necessidades tórico em que predomina o modo de produção capitalista? O Direito
diretas do capital, mas também para assumir interesses das classes e o Estado fazem parte desse processo?
a
subalternas, com o objetivo de assegurar reprodução adequada da Se o conflito social é inerente à própria estrutura social do capi-
forÇj! de trabalho, em níveis compatíveis com as exigências da eco- talismo, visto ser esta sociedade composta de forças antagônicas em
nomia e da cultura em determinada época e lugar. Entretanto, o apoio razão da desigualdade das relaÇões econômicas básicas, como é pos-
direto e indireto do Estado ao capital em geral, ~ não aos capitalistas sível a existência de uma força de coesão, que parece ser autônoma,
privados, aumenta na medida em que estes vêem diminuídas suas na figura do Estado, sem se recorrer a idéias transcendentes impostas .
possibilidades específicas para exercerem diretamente a dominação do exterior à sociedade; isto é, sem fundamento nela mesma? Mas,
social. Como conseqüência, há o progressivo crescimento das funções de modo oposto, sendo resultado e produto da sociedade essencial-
e atividades do Estado, acarretando, correlativamente, o aumento do mente antagônica, como é possível o Estado se revelar exatamente
grau de dependência relativa de cada setor social em face do Estado. como o seu contrário, isto é, como unificador e como condição de
' A expansão, desenvolvimento e fortalecimento da atividade do Estado,
reprodução dessa mesma sociedade? Que estranha contradição esta
através de suas inúmeras agências públicas, representam o aumento
que remarca profundamente o se~ social, onde o Estado é a um só
<tts mediaçõ~ estrutur~s que lhe propiciam maior grau de autonomia
tempo o produto das relações antagônicas e seu gestor independente!
relativa. Esta se traduz .1!9 reforço da aparência ideolÓgica do Estado
B essencial à existência do Estado a forma autônoma e neutra de
como agente social neutro, como gestor eqüidistante e indiferente das
que se reveste em face dos antagonismos sociais? Se o Estado não é
co ntradições estruturais da sociedade de classes, das quais ele mesmo
expressão instrumental da classe dominante - pois, neste caso, não
é também produto. Esse processo, seguido da ~iciência burocrática,
teria autonomia - e não é a representação de uma idéia transcen-
racionalização dos meios de intervenção e formalização jurídica, tende
~amplü~·r -~s bases de legitimação do poder, como resposta às crises dente que se impõe à socie.dade "por fora '' - e neste caso teria auto-
nomia absoluta-, como é possível então sua autonomização relativa?
sociais e econômicas cada vez mais agudas, originadas do aprofunda-
Como é possível a neutralidade e a autonomia relativa do Estado
mento das contradições para cujo mascaramento concorre esse mesmo
(do político) em face dos conflitos das classes sociais? A aparência
esforço de legitimação hegemônica. Para comprovar essa tese, torna-se
de autonomia e de neutralidade nesse sentido revela algo acidental ou
indispensável o desdobramento de questões articuladas e orientadas
· essencial para a vida do Estado? Não há realidade do Estado senão
no sentido da desmistificação do Estado como ente político indepen-
em e através de seu modo fenomênico de aparecer; entretanto, esse
dente da sociedade civil.
seu modo de aparecer já é também fundamento de sua própria rea-
A desigualdade social é patente. Ela é a expressão de uma socie- lidade? Como é que a realidade estatal pode ser ocultada e ao mesmo
dade em conflito consigo mesma, mediante a diferenciação desta em tempo revelada em razão da maneira pela qual ela mesma aparece?
classes sociais antagônicas. Mas se os homens são socialmente desi- Como se realiza esse disfarce e desmascaramento simultaneamente?
guais, e isso é notoriamente condenável, de onde provém a tolerância Enfim, qual é a realidade do Estado para além de sua aparência ime-
para que este estado de coisas perdure? Essa desigualdade existe; mas diata? Eis as questões mais expressivas que devem nortear nossas
com ela é possível? Quais são as condições de possibilidade dessa pesquisas e demonstrações no sentido de comprovar a tese segundo
inequação social? Como é possível que seja ao mesmo tempo conde- a qual o modo de aparecer do Estado, ao mascarar as contradições
nada e tolerada? Quais os fatores e os mecanismos sociais que per- sociais das quais este se origina, é a forma pela qual o próprio Estado
mitem esse efeito? Como esses fatores e mecanismos se diferenciam encontra os meios de sustentação e sobrevivência legitimada, tornando
ESTADO E IDEOLOGIA 19
18 ALAOR CAF'Fl!l ALVES

unidades conceituais em função da descoberta e exame da diversidade


possível a reprodução garantida das relações antagônicas que caracte-
de seus elementos constitutivos. Começamos com as questões subja-
rizam o sistema social capitalista.
ccn lc!l c lnsll'umcntais, onde analisamos de modo crítico os pressu-
Nossa abordagem situa-se estritamente no campo da teoria geral poHioMcpl!;tcnlológicos da investigação sobre o Estado, com inevitáveis
do Estado, entendida não como teoria de toda e qualquer forma his- I'Cpcrcussões no pluno metodológico em razão da articulação dialética
tórica de organização política, mas como conhecimento das relações de múlti plas ca tcgoriHS, como "aparência", " essência", " realidade",
específicas de poder que perfazem a sociedade política no interior "i deologia", " relação", etc. Daí passamos para as questões substan-
da formação econômico-social capitalista. Neste contexto preliminar, ciais, já numa linha em que os conceitos sociológicos e econômicos
convém frisar que nosso objetivo é caracterizar fundamentalmente as predominam. Tais questões são mais concretas e indispensáveis à
bases estruturais do Estado, na tentativa de captá-lo e explicá-lo pre- compreensão crítica da sociedade política, embora possam não ser
cisamente como organização política específica de qualquer formação a esta referidas de forma imediata ou específica. Assim, tratamos da
social onde predominam as relações capitalistas de produção. Esse estrutura social, das relações econômicas e relações intersubjetivas ,
propósito, portanto, é orientado com vistas à determínação essencial do indivíduo em face da práxis social e, ainda, das classes sociais.
de um foco teórico instrumental para possibilitar, cremos, melhor Finalmente, abordamos o grupo das questões nucleares, particulari-
compreensão, no plano das pesquisas empíricas e históricas, das múl- zado em razão da estreita associação com as relações especificamente
tiplas manifestações fenomênicas relacionadas com os diversos regi- políticas e jurídicas, onde analisamos o poder e .sua legitimidade, o
mes políticos existentes ou passados, de países desenvolvidos ou vínculo dialético entre sociedade civil e Estado, a coação, a coercibi-
subdesenvolvidos cujos sistemas sociais se enquadrem na perspectiva Jidade e o constrangimento econômico difuso, a garantia estatal às
da formação capitalista. relações estruturais capitalistas, os Estados de transição e as mediações
Exatamente porque a presença do Estado é o produto e ao mesmo jurídico-ideológicas entre Estado e sociedade civil.
tempo determinante das relações estruturais que tipificam o modo de Todas essas questões são analisadas dentro de uma perspectiva
produção capitalista, não vemos como estudar esse tipo de organiza- de totalidade dialética segundo a qual o universo social é uma uni-
ção política, em busca de sua verdade, sem apelar para um complexo dade que se realiza, no movimento histórico, pela diversidade contra-
de proposições interdisciplinares, onde as. mediações sociológicas, eco- ditória de elementos que se implicam e se excluem mutuamente . Por
nômicas, políticas, jurídicas, antropológicas e filosóficas precisam ser isso, no plano da sociedade política, nossa demonstração se concentra
identificadas e operadas para a compreensão desmistificada dessa rea- na tese de que o Estado aparece, no mundo fenomênico, precisamente
lidade. É por esse motivo que, a nosso ver, o enfoque não pode ser como aquilo que ele não é; porém, esse modo negativo de aparecer,
de caráter predominantemente jurídico, ainda que as relações apreen- esse modo de não ser, é fundamental e necessário para que o Estado
didas segundo esse enfoque setorial sejam de extrema importância seja o que ele realmente é; ao ocultar sua essência, ele perfaz sua
para explicar as objetivações institucionais do Estado. O Estado e o própria realidade na exata medida em que a oculta. Estamos, pois,
Direito não podem se explicar por si mesmos e, por isso, sua verdade convencidos de que essa revelação crítica do Estado "em" e "pelo"
exige uma progressiva visão integrada do todo social, dentro da qual seu não-ser conduz à ruptura epistemológica indispensável ao trata- ·
ganha sentido e consistência. mento de sua verdade . É o que pretendemos demonstrar.
Para esse objetivo, desenvolvemos nossa investigação e análise
em três segmentos de abordagem teórica que traduzem progressiva-
mente a passagem dos conceitos mais abstratos e gerais aos mais con-
cretos e particulares, não no sentido analítico-dedutivo, mas no sentido
do movimento dialético consignado pelo enriquecimento crescente das
Aparência,
realidade e ideologia

A forma de abordagem de um objeto de conhecimento já faz


parte da constituição desse mesmo objeto. Tal forma traduz a con-
dição histórica e social do sujeito cognoscente, tanto na sua realidade
presente, retratada pelos múltiplos fatores que a singularizam aqui e
agora, quanto na expressão de uma determinada estrutura obtida pela
sedimentação de práticas sociais ao longo da História.
Isso significa que o objeto de nossa consideração - o Estado
- não pode ser captado como algo externo ao modo como o consi-
deramos, quer na vida prática cotidiana, quer no plano da reflexão
teórica. Vale dizer que nele inserimos os elementos constitutivos de
nossa subjetividade, correspondentes ao modo ideológico de apreen-
dermos nossa própria realidade, à situação existencial, à carga de
interesses emergentes dessa situação, aos hábitos mentais, aos estratos
de formação teórica e ao enquadramento institucional a que estamos
sujeitos. Esse objeto, portanto, não pode ser neutro, não corresponde
a uma realidade em si e por si, entendida como algo universal inde-
pendente das condições que singularizam histórica e socialmente o
momento da pesquisa. 1

1 A relação dialética sujeito-objeto não permite a captação do objeto "em s1 ,


independ~nte da subjetividade ativa, da práxis subjetiva. " . . . nem o signifi-
24 ALAOR CAFFÉ ALVES
ESTADO E IDEOLOGIA 25

Essa questão, entretanto, se levada a uma postura absoluta, su- A visão especulativa dessas manifestações, na verdade, encobriu e
geriria a impossibilidade de apreender de alguma forma o objeto de ainda continua a encobrir o propósito implícito, sob o manto da ideo-
nosso estudo, subsumindo-o a esquemas puràmente inventivas ou me- logia, .da justificação dos sistemas políticos caracterizados pelos anta-
ramente justificadores de certas posições. Nesse sentido, ao denun- gonismos das classes sociais.
ciarmos nossos compromissos com a ideologia, acabaríamos por re- A ruptura epistemológica, com vistas à superação do empirismo
duzir todo o esforço de pesquisa ao plano do relativismo subjetivo, social, remete-nos à crítica das generalizações elaboradas a partir de
inventor de uma realidade imaginária, destinada antes a satisfazer of!.!ervações dos fatos singulares. Na perspectiva contemporânea da
nossos interesses pessoais ou de grupo, do que a exprimir o caráter crítica da ciência, já se demonstrou de forma inequívoca que as hipó-
da realidade. Se, de alguma forma, acreditamos que ao fazer ciência teses científicas não resultam diretamente da observação e da gene-
realizamos um esforço para surpreender a realidade como tàl, é por- ralização indutiva; tal estratégia não proporciona uma adequada versão
que esta nos preocupa e de certo modo nos conduz a admiti-la de da estrutura do conhecimento científico. Por esse motivo, a constru-
alguma maneira, sobretudo tendo em vista o êxito da prática social ção de uma perspectiva destinada a obter uma aproximação com
no plano do domínio da natureza. respeito à realidade do Estado, segundo nosso modo de entender, não
Considerando o âmbito de nossa abordagem, esperamos empreen- se coaduna com sua simples concepção jurídica, vinculada predomi-
der um trabalho analítico e ao mesmo tempo crítico das relações entre nantemente à tutela teórica do descritivismo jurídico-formal. Essa
a aparência e a essência do Estado, configurando a realidade estatal em tutela teórica, produzindo uma saber acrítico, imediatista, que acre-
função do jogo entre as correspondentes formas de .aparição existen- dita apenas na superficialidade do fenômeno, calcado no procedimento
cial, base de sua justificação ideológica, e suas conexões subjacentes da observação e generalização, conduz tão somente à sistematização
com as demais dimensões sociais e históricas da formação econômico- daquilo que é apreensível pelo senso comum, ao processo antes des-
social capitalista de produção. crito ordenadamente do que à sua explicação. Não se explica o Es-
Nesse sentido, a pesquisa realizada questiona não só os produtos
teóricos do juridicismo ao qual quase sempre esteve sujeita a investi-
gação sobre o Estado no âmbito do Direito, como igualmente proble-
----
.
tado, suas manifestações como sociedade política, suas relações com
-
a sociedade civil e com a estrutura econômica, suas funções opera-
- - . .
tivas _para ~anter a ~eproduç_!o j as relações . sociais emergentes d~
--
-
matiza o instrumental de captação e construção dessa mesma realidade. formação econômico-social capitalista, se o reduzirmos a uma expres-
Essa linha de consideração leva-nos inicialmente a ponderar sã o ~e~mente legalista ou institucioo.àl, assegurada constitucionaÍ-
sobre a necessidade de apontar a ~streiteza da tradição empirista no mente, afastando-nos assim da complexa integração entre o Estado, o
âmbito da investigação sobre a origem, natureza e função do Estado. direito e a sociedade?
Sabe-se o quanto de prejuízo para a ação política causou a busca da
mera regularidade empírica nas manifestações da sociedade política . 2 É expressivo nessa linha o grito de alerta de Michel Miaílle: "Na verdade,
pensam que a ciência jurídica vai analisar as relações que mantêm o imaginá-
rio e o real e, a partir desse trabalho, explicar simultaneamente o funciona-
cado, nem a imagem refletem uma realidade em si e estabelecida de maneira mento da imagem e o da vida social real? Nada disso! Por mais aberrante que
definitiva, pois a relação cognoscitiva do ser humano com seu meio implica a isso pareça, a ciência jurídica vai tomar como certa a imagem que lhe trans-
ambos reciprocamente em um processo dialético de interação em que os ter- mite a sociedade e tomá-la pela realidade. A sociedade afirma-nos que o Estado
mos 'interior' e 'exterior' constituem os pólos de uma relàção dinâmica na qual é a instituição encarregada do interesse geral? A ciência jurídica responde em
ambos se apóiam e se contrapõem sem cessar". Cf. Francisco Meix Izquierdo, eco com uma teoria inteiramente fundada na noção de interesse geral". cf.
La Dialéctica Del Significado Linguístico, Salamanca, Ediciones Universidad de Michel Miaille, Une lntroduction Critique au Droit, Paris, François Maspero,
Salamanca, 1982, p . 15. Ver, nesse sentido, Theodor W. Adorno, Dialéctica
1976, p. 54. Ver na mesma .obra "O funcionamento do Estado e funcionamento
Negativa, Madri, Taurus, 1975, pp. 176-180.
do direito", pp. 149-154. Dentro da mesma concepção geral, porém com orien-
ESTADO E IDEOLOGIA 27
26 ALAOR CAFFÉ ALVES

Rejeitando a idéia de que os modelos idealizadores explicativos lise, progressivamente, e nos limites de sua elasticidade, à medida que
não são 9 produto de generalizações indutivas de dados empíricos, se realiza a verificação do modelo teórico originaL3
os resultados da Ciência Política, como proposições que exprimem leis A forma pela qual o pensamento se apropria do real procede
de tendência, são distinguidos como relacionados com a essência do pela ·gradual elevação do abstrato, considerado quer como singular
fenômeno "Estado". A explicação, portanto, não consiste em subsumir isolado; quer como universal abstrato, para o concreto, considerado
tal fenômeno sob proposições gerais e abstratas, relacionadas com o como universal determinado ou, como ainda se pode dizer, sob a ca-
tegoria da particularidade dialética pela qual o real é reproduzido
direito ou com as instituições sob as quais transparece. O Est~_9,
como concreto pensado. 4 Nesse sentido, "o objetivo do conhecimento
como fenômeno, ~ -explica mediante_ ~ revelação de sua essênci~ ~.!P
é o conhecimento do real, do concreto; mas, apesar disso, não se
~ções internas apropriadas, mostrando simultaneamente como esJ a
deve pretender eludir a abstração, não se deve querer que o concreto
mesma essência se manifesta através das especificações singulares 2}0
nos seja dado imediatamente em sua vida. Para apreender o concreto,
plano da existência fenomênica. Isso implica que o Estado não se
é preciso passar pela abstração. A riqueza concreta que um pensa-
esgota na sua expressão jurídica e institucional; tal abordagem com-
mento apreende pode ser medida pelas etapas por que passa, pelos
preende também a necessidade de reformulação da base teórka a seu graus de abstração atravessados e superados no curso do seu esforço.
respeito, a partir de uma posição epistemológica de caráter crítico, A fome de concreto, se assim podemos nos expressar, não deve pre-
onde os pressupostos devem ser sempre considerados como objeto de tender uma satisfação apressada. O método do conhecimento não con-
contínua verificação, transformação e até mesmo de possível substitui- siste em começar pelo "mais alto", pelo concreto, porém em buscar
ção por outros mais adequados à captação explicativa desse fenômeno. "o verdadeiro como resultado", ou seja, "em começar pelo começo,
A apropriação cognoscitiva da realidade do Estado envolve um pelo abstrato". 5
encaminhamento do abstrato ao concreto, visto que supõe aproxima-
ções sucessivas com a prévia construção de modelos ideais abstratos 3 Ver Carlos Pereyra, El Sujeto de la Historia, Madri, Alianza Editorial, 1984,
pelos quais se procura dar conta da ocorrência de certas variáveis que, p. 114. Para uma visão aprofundada, ver Thomas A. McCarthy, Geschwister
por hipótese, se consideram essenciais, sem interferência de todos os School Instituí Universidade de Munique, e Karl G. Ballestrem, Friburgo de
aspectos singulares e determinações referentes à circunstância do fe- Brisgovia, Ciencia, in Marxismo y Democracia, Filosojía 1, Madri, Rioduero,
1975, pp. 67-119.
nômeno tal como se manifesta. Esses aspectos são incorporados à aná-
4 É de grande valor para a compreensão da categoria da particularidade dialé-
tica a obra de Georg Lukács, Prolegómenos a una Estética Marxista, Sobre la
tação totalmente diversa, Jellinek trabalha o conceito de Estado na linha não- Categoría de la Particularidad, México, Grijalbo, 1965, especialmente o item 111
exclusivamente jurídica. Dá, entretanto, ao Direito um campo de realidade que da primeira parte, pp. 83-130. Ver J. Chasin, "Lukács: Vivência e Reflexão da
não se funde nos fatos empíricos; isso decorre da irredutível dicotomia kan- Particularidade", in Ensaio, São Paulo, Livraria Escrito, 1982, ano IV, n.• 9,
tiana entre o mundo do "ser" e do "dever ser", manifesta também e com maior pp. 55-69.
intensidade na doutrina do Direito de Kelsen. Jellinek afirma: "Por isto, me- 5 Cf. Henri Lefebrve, Lógica Formal, Lógica Dialética, Rio de Janeiro, Civ.

diante os conceitos jurídicos, não se chega a conhecer um ser real, como já Brasileira, 1975, p. 113. Ver Mitrofan N. Alexeiev, Dialéctica de Las Formas
foi dito, senão normas que hão de realizar-se mediante os fatos humanos ... del Pensamiento, Buenos Aires, Platina, 1964. Ver Georg Lukács, História e
Ao conceito de Direito como tal não corresponde, fora de nós, realidade al- Consciência de Classe, Porto, Publicações Escorpião, 1974. Ver Jindrich Zeleny,
guma; fora de nós não há mais que corpos materiais, não coisas em sentido La Estrutura Lógica de "El Capital" de Marx, Madri, Grijalbo, 1974. Ver
jurídico ... " Cf. Georg Jellinek, Teoría General del Estado, Buenos Aires, Jean-Marie Brohm, Qu'est-ce que la Dialectique, Paris, Savelle, 1979. Ver tam-
bém Georg Lukács, Ontologia do Ser ·social, Os Princípios Ontológicos Fun-
Albatros, 1970, p. 120. No plano constitucional, ver José Afonso da Silva,
damentais de Marx, São Paulo, Ciências Humanas, 1979, especialmente as
Aplicabilidade das Normas Constitucionais, São Paulo, Revista dos Tribunais,
"Questões Metodológicas Preliminares", pp. 11-34.
1968, pp . 9-34.
E STADO E IDEOLOGIA 29
28 ALAóR CAFFÉ ALVES

l' t•x plltu pot• si mesmo, _s~.a realidad_ti deita raízes sobre a sociedade
Essa fórmula metodológica afasta-se radicalmente do empirismo t•lvl l du q11 ul promana e na gual te_!!l sua razão de ser. 7
generalizador. Sua adoção fundamenta-se também no fato de que a I MMU 11110 quer dizer, e é bom observar com rigor, que devemos
observação enquanto tal não permite distinguir, no exame da reali- 11 u E~ t udo enquanto forma aparente, como se essa forma não
dade, ~tre fatores e~nciais e secundários, nem a conexão inteligível tl plll'll' de sua realidade. Puro engano; a teoria que visa explicar
entre eles. Em face dessa questão, é indispensável ultrapassar o empi- n•rw lunómcno deve dar conta dessa aparência e de suas conexões
rismo estreito, adotando-se uma perspectiva metodológica segundo a n1111 11 l'NHÚncio subjacente, em função da qual aquela aparência se
qual ~-Jzrática científica consiste exatamente em penetrar a ~parência llllllllfl:Niu l'Omo aparência. O processo que envolve a busca da gene-
.tenomênica e captar; em conexão com essa apa_rência, a essê!1_ciq_dps llil ldudll l'Oncreta (ou determinada) para captar essa realidade, ao ser
rocessos. q11ullflrudo como científico, deve compreender uma visão crítica que
Assim, a representação teórica nessa abordagem conduz a uma H' lll)(l', t•m lermos de superação dialética, à simplicidade do senso
transcendência dos dados da experiência, numa tentativa de ·apreendê- t'llltlll lll, o qual, por ser acrítico e imediatista, acredita haver pleni-
los ao nível âe uma trama conceitual compreensiva, abrangente e tudu e uxuustão do saber no conhecimento calcado apenas na super-
aiativa, .elaborada com futl.damento em relações de "práxis" crítica fklnlidudc do fenômeno. Nesse sentido, "toda ciência seria supérflua
que superam ·a simples descrição dos fatos ou a generalização de base se u forma de manifestação e a essência das coisas coincidissem ime-
meramente empírica. Nessa linha metodológica, consideramos suspei- dlalamente".8 "As formas fenomênicas se reproduzem imediatamente
to o conhecimento científico a · respeito do Estado que corresponda por si mesmas, como formas correntes do pensamento, mas o seu
exatamente às mesmas qualidades do saber cotidiano, isto é, sem so- fu ndamento oculto tem de ser descoberto somente pela ciência" .9
lução de continuidade entre o saber comum da experiência diária e A questão, em sua linha justa, não é afastar o senso-comum como
ó conhecimento que a prática científica produz. Em nosso entender, lnopcrn nle e indesejável para a explicação científica, mas superá-lo
~onhecil!!ento -~ientífico não se reduz a UI!!_<liê..Clli:§O que apel!!!_S pr.o- ''" st•ll iltlo C'rft ico, fazendo ver que a espontaneidade natural na con-
longa, em outro nível de _precisão, o ~ber e~~ntâneo~ Consideramos rh• l u~Htt doMfu loH colidio nos da vida política não é suficiente nem
que o cofihecimento científico .se produz mediante uma ruptura com t'N fllllll u uulwrNo dus ClHHliçóes metodológicas para aquela explicação.
esse saber.6 Neste contexto, o Estado não se reduz às formas de sua
objetivação, através das instituições pelas quais se destaca concreta- " A l ~t• t dt• pt•cciMn t· cnfrcuto r o enigma de sua auto-instituição, a sociedade
mente na vida cotidiana e do ordenamento jurídico que regula sua hiHhhktt pn•ciNu cnfrcn lar o problema do advento do poder político como um
manifestação racional-formal e burocrática. Partimos da hipótese de pólo ~o pumdo do social e que, no entanto, nasceu da própria ação social.
I! forçuda, portanto, a compreender como o poder nasce em seu interior e
que esse fenômeno da vida política dos povos não pode ser compreen-
como dele se destaca , indo alojar-se numa figura visível que parece pairar fora
dido em toda a sua dimensão real atendendo-se tão somente à expres- e acima dela: o Estado." Cf. Marilena Chaui, "Crítica e Ideologia" , in Cultura
são de suà aparência para o senso comum. Na verdade, _o Estado nã~ e Democracia, o discurso competente e outras falas, São Paulo, Moderna, 1981,
p. 18. Uma análise histórico-política de grande valor para exemplificar essa
relação entre Estado e sociedade civil é feita por Karl Marx em O 18 Brumário
6 Ver Carlos Pereyra, op. cit., pp. 155-157. Ver, nesse sentido, Michel Miaille, de Luís Bonaparte, São Paulo, Paz e Terra, 1978. Ver nesse sentido, Antonio
op. cit., pp. 38-48. Com muita propriedade Bachelard afirma que "o espírito Gramsci, Maquiavel, A Política e o Estado Moderno, Rio de Janeiro, Civ. Bra-
científico é essencialmente uma retificação do saber, um alargamento dos qua- sileira, 4.' ed., 1980, pp. 141-151. Ver também, Karl Marx e Friedrich Engels,
dros do conhecimento. Julga seu passado histórico, condenando-o. Sua estru- La Jdeología Alemana, Buenos Aires, Pueblos Unidos, 1973, pp. 94-97.
tura é a consciência de suas faltas históricas. Cientificamente, pensa-se o ver- 8 Karl Marx, O C~pital, 111, sec. VII, cap. XLVIII, lll, São Paulo, Abril Cul-
dadeiro como retificação histórica · de um longo erro, pensa-se a experiência tural, 1983, p. 271.
como retificação da ilusão comum e primeira". Cf. G . Bachelard, Le Nouvel n Karl Marx, op. cit., I, sec. VI, cap. XVII , p. 131.
Esprit Scientifique, Paris, PUF, 1966, p. 147.
ALAOR CAFF'l!: ALVES
ESTADO E IDEOLOGIA 31
30

Se atendermos à perspectiva do · empirismo ingênuo, não adotando A práxis espontânea e reiterativa do dia-a-dia exige a visão do senso
uma atitude crítica quanto aos obstáculos e condições epistemológicas comum de "familiaridade" e "segurança" a respeito dos dados que
da prática científica, para o conhecimento do Estado, fatalmente se- lhes são ofertados pelos sentidos, tendo e~ vista a busca e o alcance
remos vítimas da ilusão de que, com generalizar, classificar e siste- do êxito imediato. Em razão da manipulação prático-utilitária desses
matizar os dados do senso comum, a respeito da sociedade política, dados, a sua regularidade, trivialidade, imediatismo e evidência sen-
estaremos fazendo verdadeira ciência do Estado. Por esse motivo, di- sível acabam por impregnar a consciência dos suieitos•. tomando a
ríamos que o mundo de nossa manipulação cotidiana no plano da forma de única re~lidade com feição independente, fragmentária e
sociedade política não é em si mesmo um obstáculo epistemológico, natural. O mundo político assume um aspecto singular, povoado de
a não ser que o tomemos como única base para a explicação exaustiva elementos, indivíduos, ações, decisões, organizações, instituições, etc.,
do Estado. Essa questão é de extrema importância, visto que uma que não guardam outra relação entre si senão a de serem referenda:
perspectiva estreitamente empírica a seu respeito pode nos levar aos dos obséuramente a uma relação imediata de poder, de supremacia ou
descaminhos da ideologia mistificadora. Isso exige alguns desdobra- comando e de sujeição ou impotência. Esse mundo não aparece como
mentos a seguir. algo humanamente construído, ele se apresenta como algo natural do-
Neste trabalho, nossa maior preocupação será a de estabelecer, tado de uma estranha necessidade. 11
quanto à realidade do Estado, a relação orgânica entre o visível e o Nessa linha, onde a alienação social se faz presente, a unidade
invisível, entre a aparência e a essência, entre o fato como momento entre as formas fenomêniéas pelas quais o Estado aparece e se repro-
explícito de existência e o complexo ou totalidade das relações em duz imediatamente na consciência dos agentes sociais e sua essênci~
que esse fato se insere e ganha realidade e significação. Isso pressupõe recôndita, illvisível à primeira abordagem, não é compreendida, nem
uma linha de partida que considera fundamental a comunhão de ele- mesmo considerada como possível. Isso significa que no plano da
mentos opostos numa unidade que os separa e os une ao mesmo tempo. consciência espontânea, a essência do fenômeno não se manifesta di-
Entretanto, se aquela preocupação se mantém, a tarefa de buscar a reta e imediattmumte através de sua aparência; ao contrário, a prática
unidade pressupõe que, de certo modo, os elementos dela constituin- cotidiana da vida política, considerada tanto em sua vivência subjetiva
tes sejam também apreendidos de forma separada, ou ainda que apenas pelo agente político, quanto em suá expressão como dado meramente
um dos pólos seja considerado como a plena realidade. (:mpírico ao observador comum, longe de mostrar a essência ou lei
No mundo da vivência política, onde o Estado transparece em interna do fenômeno, o que faz é exatamente ocultá-la.12 Veremos,
sua forma concreta, o~ melhor, pseudoconcreta, os atos de decisão posteriormente, o quanto essa questão influi na construção ideológica
ou as instituições estatais e jurídicas consideradas estáveis constituem do Estado. O que é preciso, entretanto, reter aqui é o fato da predo-
o ambiente cotidiano, imerso numa atmosfera de práxis utilitária da minância do fenômeno, da existência positiva, da mera representação
vida humana comum. Nesse ambiente, o que conta como "real" é a figurativa ou descritiva na atividade prática cotidiana dos indivíduos.
expressão do dado imediato, espontaneamente apresentado à consi- A necessidade de alcançar objetivos e atetas de caráter prático-utili-
deração ordinária dos sujeitos sociais, prescindindo de maior verti-
calização em busca de suas raízes de formação e estruturação. 10 11 Ver, nesse sentido, uma excelente reflexão sobre a relação entre domínio
e poder social estranho, gênese e dinâmica da coisificaçãp em Emílio Lamo de
· lONesse sentido, Karel Kosik afirma que "no mundo da pseudoconcreticidade Espinosa, La Teoria de la Cosificación: De Marx a la Escuela de . Frttncfort,
o aspecto fenomênico da coisa, em que esta se manifesta e se esconde, é con- Madri, Alianza Editorial, 1981, pp. 43-49.
1 2 Ver, nesse sentido, Adolfo Sánchez Vázquez, Filosofia da Práxis, Rio de
siderado como a essência mesma, e a diferença entre o fenômeno e a essência
desaparece". Cf. Karel Kosik, Dialéctica de lo Concreto, México, Grijalbo, Janeiro, Paz e Terra, 1968, pp. 5-7. Ver também Guido David Neri, Prassi e
1967, p. 28. Conoscenza, Milão, Giangiacomo Feltrinelli, 1966, pp. 91-111.
32 ALAOR CAFFÉ ALVES
ESTADO E IDEOLOGIA
33
'
tário, na realidade dà vida cotidiana, acarreta uma atitude "normal"
diante dos fatos da vida social e política, tornando a atividade prática :;IRnlficnnft~N pOI' tll mesmos, os instituições da sociedade política assu-
ordinária algo explicável por si mesma, apresentada como simples lnt•m nuhu11unln frente uo sujeito, retratando um mundo já pronto,
dado que não demanda outra elucidaÇão senão a de compô-lo ao nível um "'"""" oh/t•lo tft• mmli ptllaçao e onde os homens igualmente são
fllilfllftttltttf'-'" ~ HNNt• unlvtnHo envolve intensamente os indivíduos em
1
dos nexos de coerência externa com outros dados para a plena com-
preensão do senso comum. Ao não precisar exigir -explicação quanto 111111 pnWu, rrdtrr11tlvn, mtldlnun t• rotineira, ocupando-os pragmatica-

às relações imanentes e transcendentes à realidade do dado, o sujeito lllciJthl Nl' lll qunlq11r1 u•llt•xho HOlli'C suo própria obra social ao nível
comum, na manipulação cotidiana dos fatos, julga estar numa relação dn totulldnd,•; ,,,,,.,.,, M'f' 11111 /1/tiiHLo natural e não um produto de sua
direta e imediata com a própria realidade autêntica, não sentindo ne- '''"'r•lt' ltt.\ltlt IC'o ,\lwlal. 111
cessidade de romper o véu dos convencionalismos, das rotinas, dos Hnt~t•fnnto, t· ]H ccl~o considerar que as manifestações empírico-
costumes, dos preconceitos, das trivialidades, no qual encarna signi- utlllttldnit dnN ntlvldudcs sociais, econômicas e políticas, nessa atmos-
ficativamente sua prática diária. 13 lrl'll d11 tntldlunt>, embora mistificadas e mistificadoras, têm seu pró-
No mundo prático-utilitário, a superfície é identificada com o pilo t•Nfufu to enquanto expressão fenomênica pela qual a essência
subterrâneo; tudo o que é essencial já está à vista, pronto para o Wl ll'Npondentc se realiza concretamente. Isso quer dizer que o mundo
tráfico dos homens. Nesse mundo, a prática reiterativa condiciona a du práxis utilitária não é um mundo de puro engano, ele inclui tam-
reprodução das relações sociais dominantes; ao caracterizar essa prá- bém, e necessariamente, a verdade de sua essênciaY Tendo um duplo
tica como forma de manipulação dos objetos prontos, da assume a sentido, a expressão aparente do Estado, por exemplo, através de suas
feição de uma prática fetichizada que se movimenta numa esfera de mstituições e ordens de imposição normativa, aponta para sua essên-
condições naturais, onde os sujeitos sociais não reconhecem os objetos
e instituições como produtos de sua atividade histórico-social. 14 1 ~ Ver Marx Horkheimer, Crítica de la Razón Instrumental, Buenos Aires,
No âmbito da ação política cotidiana, as instituições existem em Editorial Sur, 1973, pp. 15-68. Ver Karel Kosik, op. cit., pp. 86-87.
1
o "O indivíduo se move em um sistema formado de aparelhos e equipamen-
si e pela significação prática enquanto satisfazem necessidades ime-
tos que ele próprio determinou e pelos quais é determinado, mas já há muito
diatas de indução e orientação da sociedade. Entretanto, tal signifi- tempo perdeu a consciência de que este mundo é criação do hómem ". Cf. Karel
cação prática apresenta-se, na consciência comum, como_imanente às Kosik, op. cit., pp. 86.
1
próprias instituições, como se estas fossem independentes dos atos 7 A unidade dialética entre a essência e o fenômeno (aparência) é traduzida

humanos que lhes conferem essa significação. Ao aparecerem como por Hegel assim : ·A existência é a imediaticidade do ser, na qual a essência
se estabeleceu. Esta imediaticidade é em si mesma a reflexão da essência em
si ( ... ). A existência é esta imediaticidade refletida, porquanto nela mesma é
1<1 Ver Adolfo Sánchez Vázquez, op. cit., pp . 8-11. Uma interessante aborda- a absoluta .negatividade ( ... ). Por conseguinte, a aparência é antes de tudo a
gem crítica da relação genético-filosófica do espírito em face da escamoteação essência em sua existência; a essência se acha de modo imediato nela . . . Há
do real pode ser colhida em K. Marx e F. Engels, La /deología Alemana, somente aparência no sentido de que a existência como tal é só algo posto,
Buenos Aires, Pueblos Unidos, 1973, pp. 131-142. não um ~er existente em si e por si. O que constitui sua essencialidade é o
14 Ver Karel Kosik, op. cit., p. 27. "O homem prático, cuja imagem tem diante seguinte: o ter em si mesma a negatividade da reflexão, a natureza da essência.
de si a consciência comum, vive, num mundo de necessidades, objetos e atos Não se trata de uma reflexão estranha, extrínseca, à qual pertença a essência
'práticos', que se impõe por si mesmo como algo perfeitamente natural, e ao e que, por meio de sua comparação com a existência, explique a esta como
qual não é possível subtrair-se a menos que se queira tropeçar como trope· aparência. Esta essencialidade da existência, isto é, do ser aparência, é a pró-
çam a cada instante os teóricos, particularmente os filósofos" . Cf. Adolfo pria verdade da existência. A reflexão, por cujo meio ela representa isso, per-
Sánchez Vázquez, op. cit., p. 14. Ver também K. Marx, O Capital, I, sec. I, tence·lhe como própria" . Cf. G. W. F. Hegel, Ciencia de la Lógica, tomo II,
cap. I, n.• 4, ·O caráter fetichista Ja mercadoria e seu segredo", São Paulo, Buenos Aires, Hachette, 1956, p. 149. Ver, também, G. W. F. Hegel, Enci.clo-
Abril Cultural, 1983, pp. 70-78. pedia de las Ciencias Filosóficas; segunda sección de la lógica, §§ 112, 113,
114, 115 ; 123, 131 e 32, México, Porrua, 973, pp. 66-69, 72 e 75.
34 ALAOR CAF'Fl!: ALVES ESTADO E IDEOLOGIA 35

cia e, ao mesmo tempo, a oculta. As relações internas explicativas da t'1(111d11 comum, se pode tratar o mundo jurídico, por exemplo, no
sociedade estatal se manifestam de certo modo no fenômeno de sua lttlllt'lm de uma textura conceitual dogmática, com relativo êxito prá-
existência concreta, embora de forma inadequada à apreensão ime- 111 11, lendo em vista as funções utilitárias do mundo cotidiano, aten-
diata e direta da própria essência~ A aparência é sempre aparência de "' '11!10 apenas aos critérios da descrição e generalização das aparências
algo que se esconde em sua autenticidade; ela aponta para algo que ,. da consistência lógico-formal de seus elementos constituintes, sem
não é ela mesma; ela se afirma como tal exatamente .enquanto mani- descer às raízes essenciais explicativas desse mesmo mundo. Eviden-
festação de seu contrário, daquilo que ela não é, mas sem o que ela temente, na perspectiva da práxis transformadora e não meramente
não seria aparência. 18 De modo inverso, a essência não se reduz a si rciterativa, essa forma de abordagem é insuficiente; ela apenas ganha
mesma; ela exige, no plano da existência, sua representação em significação enquanto possa ser, para a consciência crítica, a expressão
"outro" que não ela mesma; por isso a aparência não é mera aparên- teórica de uma vivência espontânea que revela e ao mesmo tempo
cia ou um não-ser; ela é a expressão de uma essência que só pode oculta a estrutura essencial subjacente.
exatamente existir como aparência, como forma singular de exis- Nesse sentido, existe unidade dialética entre aparência e essência,
tência.19 integrada por uma relação onde esses termos são respectivamente
Assim, a essência do Estado flão se . apresenta de forma imediata identificados um em razão do outro, conservando sua essencial co-
ou direta, e sempre se manifesta em algo distinto daquilo que é, me- nexão e identidade a par de sua essencial distinção e oposição. Assim,
diante os múltiplos aspectos de sua existência. Esses aspectos feno- o fenômeno do Estado não pode ser algo empírico radicalmente dife-
mênicos possuem uma ordem própria, uma certa legalidade que pode rente de sua essência, e esta não é um elemento constituinte de uma
ser descrita e configurada dentro de uma determinada coerência ex- ordem completamente diversa da daquele fenômeno. Portanto, essên-
tema, formal, mas nem por isso diretamente reveladora da estrutura cia e aparência não estão numa relação externa reciprocamente indi-
essencial de sua realidade. 20 É por essa razão que, ao nível da cons- ferente; existe aí uma integração dialética. Essa integração exige a
rejeição da idéia de considerar aqudes termos de forma isolada, de
18 Ver Nicola Abbagnano, verbetes "aparência· e "essência·, Dicionário de tal sorte que não se pode admitir a completa ou maior realidade de
Filosofia, São Paulo, Mestre Jou, 1962. um em relação ao outro. Isso significa que a realidade do Estado não
19 Ver, nesse sentido, Herbert Marcuse, Razão e Revolução, 2.• ed., Rio de se circunscreve quér ao fenômeno pelo qual empiricamente se mani-
Janeiro, Paz e Terra, 1978, pp. 95-120. Ver também G. W. F. Hegel, Fenome- festa, quer à essência pela qual ganha significação e consistência ra-
nología del Espiritu, México, Fondo de Cultura Económica, 1966, pp. 82-104.
cional. Se cada momento, seja o empírico, seja o racional, for apre-
Ver Hannah Arendt, La Vida del Espiritu: El pensar, la voluntad y el juicio
en la filosofía y en la política, Madri, Centro de Estudios Constitucianales, 1984, ciado com exclusão do outro, a realidade resultará insanavelmente
Primeira Parte, I, "La Aparencia", pp. 31-84. Consulte-se Theodor W. Adorno, mutilada, com inequívocos prejuízos à compreensão total do objeto.21
op. cit., pp. 169-173. Ver Jean-Marie Brohm, op. cit., pp. 80-84. Em conseqüência, "o procedimento que se tem de seguir na investi-
20 A extensão desse formalismo epidérmico compromete não só o conteúdo gação científica não pode ser o de reunir múltiplos casos como apoio
de cada corpo científico mas também a conexão entre os diversos campos do
saber relacionados com uma mesma temática e vice-versa, "Pensemos até que
ponto tem sofrido, a problemátia científica do Estado moderno, as conseqüên- 1977, pp. 68-69. Ver, nesse sentido, Eugene Fleischmann, "Ligação formal e
cias da puntual separação entre uma filosofia do Direito, uma doutrina jurí- relação dialética em Marx", in A Lógica em Marx, org. Jacques d'Hondt, Lis-
dica do Estaoo (em suas diversas articulações), uma ~ histÓria das doutrinas boa, Iniciativas Editoriais, 1978, pp. 33, 52.
políticas e uma ciência política (à qual se pode até acrescentar uma sociologia ~1 "A realidade é a unidade do fenômeno e da essência. Por isso, a essência
política). Confinamentos desse gênero, já formalistas de por si, não podem pode ser tão irreal quanto o fenômeno, e o fenômeno tanto quanto a essência,
mais que perpetuar os formalismos internos das disciplinas". Cf. Umberto no caso em que se apresentem isolados e, em tal isolamento, sejam considera-
Cerroni, Introducci6n a la Ciencia de la Sociedad, Barcelona, Editorial Crítica, dos como a única ou "autêntica realidade". Cf. Karel Kosik, op. cit., p. 28.
36 ALAOR CAFFÉ ALVES ESTADO E IDEOLOGIA 37

a uma tese particular, senão o de reconstruir o processo de gênese de permite e orienta de certo modo a produção de juízos, opiniões, cren-
qualquer desses múltiplos casos, dissolvendo-o em seus elementos sim- ças e explicações acerca do mundo. Esse complexo tem por base,
ples e indispensáveis a sua existência, demonstrando o ' porquê' de normalmente, as condições estruturadoras de grupos sociais, tais como
cada um deles e recompondo o todo como resultado da combinação partidos políticos, classes sociais, estratificações estamentais, raças,
desses elementos simples. Desta forma obteremos um conhecimento comunidades isoladas, etc., não excluindo o fato de que tal complexo
das causas, do 'porquê' de um Estado e não simplesmente de que de idéias faz parte inerente dessas mesmas cóndições estruturadoras.
tal Estado existe" .22 Por essa linha, rejeitamos a perspectiva do empi- A ideologia, neste sentido, pode ser considerada como cosmovisões
rismo por considerar que o conhecimento científico não pode se limi- alternativas através das quais o homem toma consciência do mundo
tar a mostrar muitos casos de um fenômeno, a compará-los uns com e em razão das quais esse mesmo mundo torna-se inteligível. Numa_
outros e a fixar seus elementos coincidentes ; na verdade, o que im- segunda acepção, o termo "ideologia" traduz um estado de subjeti-
porta é chegar à lógica do fenômeno, às suas leis internas, às condi- vidade social, com fundamento objetivo, a respeito do qual se avalia
ções necessárias de sua existência. o correspondente complexo de idéias sob o ângulo do conteúdo de
Contudo, no plano da vida política, a consciência espontânea, verdade ou falsidade que elas possam comportar e na medida em que
ao apreciar e emitir opiniões a respeito da ação estatal, mesmo sob a elas possam formar uma falsa representação que induz ao engano em
forma de juízos '_'científicos" com a pretensão de exprimir a realidade relação a determinadas situações sociais, escamoteando-as de maneira
do Estado, confunde a aparência contingente daquela ação com sua justificada. Nesse sentido, qualificar como ideológicas certas proposi-
essência, na crença de que há uma identidade imediata entre essência ções significa considerá-las sob o ângulo de uma avaliação crítica.
e existência; parte do pressuposto de que o dado empírico imediato "Geralmente, ambos os usos do termo ideologia - descrição de um
é a manifestação da plena e última realidade023 Como já foi antes corpo ou conjunto de idéias, por um lado, e valoração sobre a validez
considerado, esse processo, sem o crivo da reflexão crítica, conduz-nos deste conjunto, por outro - se confundem e desse modo fica formado
irremediavelmente à mistificação ideológica. o sentido mais comum: conjunto de idéias de cuja validez se duvida
Neste momento, devemos explorar outra vertente de nossa abor- em razão das bases sociais sobre as quais s~ edifica. Desta forma, o
dagem metodológica: a que se refere às questões ideológicas. O termo conceito de ideologia denota um campo de idéias determinado, de-
"ideologia" é polissêmico, prestando-se a múltiplos usos nem sempre fine um corpo objetivo e conota uma valoração epistemológica do
suficientemente caracterizados de modo a evitar confusão. Podemos mesmo." 24
apontar especialmente para duas significações a respeito das quais há
um relativo consenso entre os teóricos . Primeiramente, o termo con-
24 Cf. Rafael del Aguila Tejerina, Ideología y Fascisriw, Madri, Centro de
signa um conjunto de idéias através das quais se toma consciêncià da
Estudios Constitucionales, 1982, pp. 24-25. Ver sobre a temática Ferruccio
realidade, formando uma totalidade mais ou menos estruturada que Rossi-Landi, Ideologia Barcelona, Labor, 1980; Lucio Colletti, Tramonto
Dell'Ideologia, Roma, Laterza, 1980; Karl Marx e F. Engels, La Ideologia
Alemana, Buenos Aires, Pueblos Unidos, 1973; Karl Mannheim, Ideologia e
22 Cf. Javier Perez Royo, Introducción a la Teoría del Estado, Barcelona,
Utopia, Rio de Janeiro, Zahar, 1972; Eugenio Trias, Teoría de las Ideologías,
Blume, 1980, p. 95. Para uma reflexão a respeito das explicações histórico-
Barcelona, Península, 1975; Theodor Geiger, Ideologia y Verdad, Buenos Aires,
empírica e lógico-racional, ver Hegel, Princípios de Filosofia do Direito, Lisboa,
Amorrortu, 1972; diversos autores, Irving Louis Horowitz (org.) , Historia y
Guimarães Editores, pp . 19-54.
Elementos de la Sociologia del Conocimiento, 2 vols., 3.• ed., Buenos Aires,
23 Herbert Marcuse abrange o tema nesse sentido, dizendo que "o senso co-
Universitaria, 1974; Max Weber, Sobre a Teoria das Ciências Sociais, Lisboa,
mum confunde a aparência ·acidental das coisas com sua essência, e persiste
Presença, 1974; G. D. Neri, Prassi e Conoscenza, Milão, Giangiacomo Feltinelli,
na crença de que há uma identidade imediata entre a essência e a existência".
1966; Leszek Kolakowski, Tratado sobre la Mortalidad de la Razón, Caracas,
Cf. H. Marcuse, op. cit., p. 55.
Monte Avila, 1969; diversos autores, Da Ideologia, organizado pelo Centre for
38 ALAOR CAFF'É ALVES
ESTADO E IDEOLOGIA 39

A ideologia se caracteriza, basicamente, pelo empenho mais ou nh~cimento e nossa atividade prática para uma linha de maior inte-
menos consciente ou mesmo inconsciente de justificação a respeito de resse. Esse processo pode induzir à eventual deturpação da realidade
uma realidade social e que toma a forma de uma expressão teórica em prol do ponto de vista defendido, compreendendo uma posição
ou de uma determinação prática. O discurso ideológico sobre o Estado, predominantemente partidária sob um discurso aparentemente neutro,
assumindo a expressão de uma argumentação teórica, a par da pos- isento de valoração. No âmbito da teoria do Estado, o conhecimento
sível veracidade de seu conteúdo, também oculta o esforço mais ou
não pode escapar ao julgamento de valor, ao posicionamento político,
menos consciente ou inconsciente com vistas a obter a convicção, a
manifesto ou latente. É evidente que a interpretação da realidade so-
adesão, a defesa da questão em foco. Esse discurso, sob a capa da
cial é sempre realizada por uma consciência interessada. Neste plano,
explicação teórica, encobre formas prescritivas que dirigem nosso co-
o sujeito cognoscente faz parte do objeto estudado. Portanto, a depu-
ração das inclinações ideológicas, no campo específico das ciências
Contemporary Cultural Studies da Universidade de Birmingham, Rio de Ja- sociais, só pode ser relativa. Nessa linha, devemos considerar não ser
neiro, Zahar, 1980; Michel Debrun, Ideologia e Realidade, Rio de Janeiro, possível um conhecimento científico do Estado contraposto externa-
Ministério da Educação e Cultura-ISEB, Textos Brasileiros de Filosofia, 1959 ; mente à sua justificação ideológica. Entretanto, por não poder ser
Nelson Werneck Sodré, A Ideologia do Colonialismo, Rio de Janeiro, Minis-
tério da Edúcação e Cultura-ISEB, Textos Brasileiros de Sociologia, 1961;
contraposto externamente àquela justificação, não significa que o
Marilena Chaui, O que é Ideologia, São Paulo, Brasiliense, 1980; da mesma conhecimento científico a respeito das questões sociais ou políticas
autora, Cultura e Democracia, o discurso competente e outras falas, São 'Paulo, não possa ser expresso por Üm discurso objetivo.
Moderna, 1981; Roger Bourderon, Fascismo. Ideología y Prácticas, Madri,
Neste passo, é conveniente notar que a expressão "discurso
Narcea, 1982; Carlos Henrique Escobar, Ciência da História e Ideologia, Rio
de Janeiro, Graal, 1979; Lia Zanotta Machado, Estado, Escola e Ideologia, objetivo" não equivale a "discurso livre de valores". A neutralidade
São Paulo, Brasiliense, 1983; Angelo Broccoli, Ideología y Educación, México, valorativa não é um critério de objetividade, visto que a parcialidade
Editorial Nueva Imagen, 1977; Pedro Lyra, Literatura e Ideologia, Petrópolis, ideológico-valorativa não desvirtua necessariamente a verificabilidade
Vozes, 1979; Liana Salvia Trindade, As Raízes Ideológicas das Teorias Sociais, ou o potencial transformativo (da realida~e) da explicação; além disso,
São Paulo, Atica, 1978; Clarêncio Neotti (org.), Comunicação e Ideologia, São
Paulo, Loyola, 1980; Roberto S. C. Moreira, Teoria da Comunicação. Ideolo- a "neutralidade valorativa" é consignada exatamente para dar maior
gia e Utopia, Petrópolis, Vozes, 1979; Cid Seixas, O Espelho de Narciso, I, credibilidade a uma posição ideológica inconfessável. A introdução de
"Linguagem, Cultura e Ideologia no Idealismo e no Marxismo", Rio de Janeiro, posições ideológicas ou esquemas valorativos em um discurso cancela
Civ. Brasileira, 1981; Maria de Lourdes M. Covre, A Fala dos Homens, Aná- a imparcialidade, porém não necessariamente a objetividade.'2 5 Essa
.lise do Pensamento Tecnocrático, São Paulo, Brasiliense, 1983; Vera Rudge
Werneck, A Ideologia na Educação, Petrópolis, Vozes, 1982; Simon Schwartz-
objetividade, entretanto, não deve, em nosso entender, ser considerada
man, Ciência, Universidade e Ideologia, a Política do Conhecimento, Rio de como referente a um objeto tomado em si e por si, independentemente
Janeiro, Zahar, 1981; A. Sedas Nunes, Questões Preliminares sobre as Ciên- do sujeito cognoscente. "O sujeito não é um ente passivo que possui
cias Sociais, Lisboa, Editorial Presença, 1977; Caio Navarro de Toledo, ISEB: como único atributo o de ser espelho da realidade. O sujeito não vê,
Fábrica de Ideologias, São Paulo, Atica, 1982; João Paulo Monteiro, Teoria,
senão que aprende a ver, e este processo de aprendizagem não se pode
Retórica, Ideologia, São Paulo, Atica, 1975; Alcantara Nogueira, Filosofia e
Ideologia, São Paulo, Sugestões Literárias, 1979; Maurício Tragtemberg, Buro- desligar de sua relação com o objeto mesmo. De nenhum modo se
cracia e Ideologia, São Paulo, Atica, 1974; Marilena Chaui e 1\laria Sylvia C. pode manter a ficção de que no curso da História sucederam-se diver-
Franco, Ideologia e Mobilização Popular, Rio de Janeiro, Paz e _Terra, 1978; sas estruturas econômicas, dinastias nasceram e foram abolidas, revo-
Miriam Limoeiro Cardoso, Ideologia do Desenvolvimento, Brasil: JK, JQ, 2."
luções triunfaram, e que, no entanto, a faculdade humana de fotogra-
ed., de Janeiro, Paz e Terra, 1978; Pierre Ansart, Ideologias, Conflitos e Poder,
Rio de Janeiro, Zahar, 1978; Robin Blackburn (org.), Ideologia na Ciência
Social, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1982. 25 Ver Carlos Pereyra, op. cit., p. 161.
ESTADO E IDEOLOGIA 41
4Q ALAOR CAFFI!: ALVES

far o mundo não se tenha alterado desde a antiguidade até hoje." 2-G revolucionário são nocivos ao conhecimento sociaJ.2 9 Nesse sentido,
" Assim como o objeto não só existe sob a forma de uma situação equipara-se o desejo de conservar com o desejo de transformar, ou
seja, enquanto desejos e vontades, ambos são igualmente extrateoré-
dada, mas também como parte da atividade de múltiplos sujeitos in-
ticos, estranhos ao processo cognoscitivo e, portanto, suas influências
dividuais e coletivos, e em geral como atividade humana em processo,
resultam falseadoras do mesmo. Entretanto, como a relação de poder
igualmente o sujeito, tanto histórico como do conhecimento, é pro-
se realiza no interior de um processo que abrange avanços e recuos
cesso e se realiza a si mesmo nesse processo." 27 de todas as forças sociais em jogo, não se pode afirmar que o falsea-
E preciso, pois, fazer a distinção entre o conteúdo de um dis- mento ideológico na elaboração teórica dependa deste ou daquele setor
curso e a questão das condições de sua elaboração e aceitação. A ou classe social, mas sim das circunstâncias históricas decorrentes do
confiabilidade de um discurso quanto ao seu valor de verdade, ou dinamismo das classes em luta, do empenho dos agentes coletivos
seja, à sua adequabilidade ao real a ser transformado, é algo diferente com interesses divergentes ou antagônicos na linha da transformação
das questões relativas aos fatores pessoais e determinações sociais que da realidade social. Por isso, a ideologia se instala com mais força.
tornam possíveis a construção desse discurso e seu grau de aceitação. quando a consciência de classe se mostra não como consciência crí-
0
Assim, segundo nosso modo de entender, a eficácia explicativa de tica, senão como consciência justificadora do existente."
uma teoria do Estado não aumenta à medida que nos afastamos das Bm face da complexidade dessa questão, convém sublinhar e
valorações ideológicas a seu respeito e, ao mesmo tempo, não é incom- esclarecer certos pontos para se evitar mal-entendidos. Consideramos
patível com sua utilização no jogo das ações políticas. Se é certo que a ideologia como um fator prático-valorativo que caracteriza, a nível
um discurso teórico de tal natureza pode ter sua contrastabilidade de da "práxis" teórica, o modo operacional como se manifesta um
discurso. Esse discurso pode apresentar-se como um saber teoricamen-
certo modo alterada pelo embate político-social, não menos certo que
te válido, fundado em exame crítico-epistemológico e em termos de
contribui extraordinariamente para esclarecer aspectos ocultos da rea-
seu poder para a transformação social, ou apresentar-se como não
lidade social, invisíveis fora dessa contrastabilidade.28
possuindo tais predicados, afirmando-se como mera hipótese (abstrata)
Nesta linha, a verdade de um discurso teórico-social passa a ainda a ser verificada, ou como um "conhecimento" de mera con-
depender das condições que ele preenche para orientar a ação no vicção sem fundamento explícito no âmbito da prática científica, ser-
sentido da transformação da realidade social. Assim, seu falseamento vindo apenas como apoio ou justificação da ação social. Como já
não se verifica, a nosso ver, em razão do "amor ao poder" ·por uma vimos, no âmbito das ciências sociais, ao conhecimento pode-se atri-
classe social, de modo indiferente, tanto na medida em que aquele buir um caráter de objetividade - o qual não exclui a subjetividade
ainda não tenha sido conquistado quanto pelo esforço em conservá-lo
após a conquista. Equivocamo-nos, portanto, quando consideramos 29 Nesse sentido, K. Mannheim, ao definir a ideologia como falsa consciência
apenas o "interesse pelo poder", seja para obtê-lo, seja para conservá- sustenta "que, para além das fontes de erro comumente reconhecidas, devemos
admitir igualmente os efeitos de uma estrutura mental deformada. Reconhece
lo, e não "as relações de poder em si mesmas", o determinante do
( .. . ) que, na mesma época histórica e na mesma sociedade, possam existir
falseamento ideológico. E exatamente neste equívoco que incide K. vários tipos deformados de estrutura mental interna, uns por ainda não haverem
Mannheim ao postular que tanto o interesse conservador quanto o chegado ao presente, outros por já se encontrarem além do presente. Em qual-
quer dos casos, entretanto, a realidade a ser compreendida se acha deformada
l dissimulada, pois esta concepção da ideologia e da utopia trata de uma
2 ·6 Cf. Karel Kosik, op. cit., p. 149. realidade que se desenrola somente na prática efetiva". Cf. Karl Mannheim ,
27 Cf. Rafael del Aguila Tejerina, op. cit., pp. 42-43. fdeologia e Utopia, Rio de Janeiro, Zahar, 1972, p. 123.
28 Ver Carlos Pereyra, op. cit., p. 164. ll f\ Ver Rafael Del Aguila Tejerina, op. cit. , pp. 49-53.
ESTADO E IDEOLOGIA 43
42 ALAóR CAFFÉ ALVES

- perfeitamente compatível com sua utilização para fins práticos, em crítica constante, porque também estão sob influxo ideológico - , não
função de interesses determinados, parcelares ou mesmo antagônicos, haveria como dissolver a identidade entre conhecimento verdadeiro
da coletividade a que tal conhecimento corresponde. Não é porque e aparência de conhecimento verdadeiro. Tudo seria relativo, sem a
uma formulação teórica a respeito da realidade sócio-política possa possibilidade de fundamentação última. A prática científica não pas-
servir a uma parcela da sociedade, e até mesmo ser utilizada para saria de um jogo descompromissado, segundo o qual se poderia dizer
justificar sua ação de conformidade com seus interesses, que essa for- e aceitar arbitrariamente o que bem entendesse.
mulação deva possuir necessariamente um caráter somente ideológico. Contudo, é preciso que se note que tal contraposição, na esfera
Neste caso, o ideológico pode assumir, como fundamento de sua pró- das ciências sociais, não se apresenta nunca no plano de uma relação
pria força de justificação, o conhecimento válido, verificado de con- reciprocamente externa, ou seja, não se pode, com exceção do apon-
formidade com os critérios de apuração controlada da prática cientí- tamento da distinção ao nível da consciência crítica, contrapor, em
fica para a transformação do real. A contraposição crítica entre o termos de separação, o saber em sua expressão puramente científica
discurso ideológico e o discurso científico, portanto, é sempre possí- ao discurso puramente ideológico, um ao lado do outro. Se houver
vel; essa contraposição será, porém, de caráter interno, visto que não conhecimento autêntico, ele será sempre interessado e por isso per-
há conhecimento científico desinteressado, e isso se revela de modo meado ou sobredeterminado pelas funções ideológico-valorativas jus-
especial no plano das ciências sociais. Naturalmente, essa contrapo- tificadoras das posições assumidas pelos agentes cognoscentes. Mas,
sição crítica decorre de uma posição prático-social que compreende neste caso, mediante análise específica e permanente de caráter crí-
nossa progressiva conscientização da relação entre os elementos do tico, pela aplicação e revitalização constante de critérios prático-
discurso que elaboramos e o contexto das variáveis psicológicas e sociais orientados para a transformação da sociedade, se poderá
sociais condicionantes dessa mesma elaboração. Nesse curso de análise consignar· o valor veritativo desse conhecimento, discriminando-o do
crítica, encontra-se também o exame dos fundamentos e critérios de mero desejo ou interesse que norteiam sua utilização prescritiva.
nossa perspectiva em contraste com os de outras perspectivas a res- Até aqui, a questão não passa de um aproveitamento instrumental
peito das mesmas questões. A contrastabilidade teórico-prática, sem da teoria verificada segundo determinados termos, para a consecução
dúvida, é um dos meios para se ganhar a auto-consciência de nossas de certos fins da ação social. A própria teoria é veículo e suporte da
posições particularizadas.'11 Porém, esse meio é insuficiente, visto que ação prescritiva. Não há, neste ponto, proposições científicas e pro-
a superação ideológica não é uma questão meramente pessoal; ela posições de caráter puramente ideológico; neste caso só há proposi-
compreende fundamentalmente a relação teórico-prática de caráter ções científicas engajadas numa linha indiretamente justificadora de
social. uma certa posição. Somente a análise crítico-epistemológica e o con-
Cumpre-nos estabelecer a função e os limites dessa contraposição trole prático-social permitem realizar a distinção, mas não a separação,
crítica para aclarar melhor este ponto. Se não fosse possível haver a entre o momento do discurso teórico autêntico e o momento da ten-
contraposição entre o saber científico e a ideologia, ocorreria a invia- dência parcial manipuladora daquele discurso.
bilidade da distinção entre conhecimento verdadeiro e conhecimento Por outro lado, no sentido da mistificação, a ideologia pode se
pautado na consciência justificadora com aspirações prescritivas. Sem manifestar na ausência de um suporte teórico autêntico, ao aparecer
a contraposição, possível apenas pelo exame crítico-epistemológico com na forma de um "saber" que se vende como científico, mas cuja ver-
fundamento na práxis transformativa e mediante a aplicação de cri- dadeira finalidade é exercer uma função puramente racionalizadora.
térios empíricos de contrastabilidade e controle - que demandam uma Sob proposições aparentemente científicas, com pretensões objetivas
e universais, escondem-se diretivas que representam inconfessáveis
31 Ver K. Mannheim, op. cit., p. 129.
interesses parciais. Neste caso, o discurso ideológico fica órfão de
44 ALAOR C~ ALVES ESTADO E IDEOLOGIA 45

fundamento teórico-objetivo e reveste-se com uma sofisticada aparên- salizar e "naturalizar" pensamentos e pautas de ação prática que têm
cia de confiabilidade científica exatamente para escamotear seu ver- por fim legitimar, através de motivos aparentemente racionais e obje-
dadeiro propósito e função mistificadora. Aqui, as proposições são tivos, atitudes sociais favoráveis aos interesses inconfessáveis de uma
apenas de caráter ideológico expressivo, visto que manifestam apenas determinada classe social. Neste sentido, a ideologia é um meio de
interesses e necessidades de uma classe social; elas tomam o corpo e dominação de classe. Assim, por exemplo, o liberalismo político pro-
feição de um discurso pretensamente verdadeiro para veicular a in- pugnado pela burguesia revolucionária do século XVIII, ao pretender
dispensável respeitabilidade do saber científico, visando com isso ao e acreditar ser imparcial, com a criação de um Direito justo e uni-
mascaramento simultâneo de uma realidade que não se quer ver des- versalmente válido, não era senão a expressão de uma ideologia que,
nudada e de uma orientação prática, subjacente à formulação pseudo- sob o manto da liberdade e igualdade formais, nada mais fazia do
teórica, para manter a ação dos agentes sociais nos limites daquela que ocultar as profundas desigualdades econômicas imperantes na so-
mesma realidade. Nesse segmento da ideologia mistificadora, a con- ciedade civil. Os magistrados julgavam com consciência, com lisura
traposição crítica destina-se especialmente a denunciar a lacuna exis- e retidão, mas sua consciência era "falsa", porque o Direito aplicado
tente em relação ao pretenso saber científico; pretende-se, com a era um Direito que em última instância legitimava e garantia a desi-
análise crítica e a ação social correspondente, filtrar, por dentro do gualdade material, isto é, a pretensão dos proprietário§ economica-
próprio discurso ideológico, os elementos reveladores de sua falsa mente poderosos, detentores dos meios e condições da produção sociaL
composição teórico-objetiva. A ideologia na acepção de "falsa consciência" implica dois mo-
Neste ponto, é preciso fazer algumas considerações a respeito da mentos interdependentes. Em primeiro lugar, pelo lado subjetivo,
ideologia tomada como falsa consciência. Segundo essa concepção, a cumpre ressaltar que a ideologia não é fantasia, ficção imaginária ou
ideologia designa um conjunto de crenças socialmente difundidas que invenção arbitrária; ela se manifesta como uma ilusão, isto é, como
exprimem pseudo-realidades, fundadas em interesses cuja origem de falsa representação que provém não dos próprios dados da sensação,
classe não é diretamente apercebida pelos sujeitos sociais. Há, neste senão do modo como os interpretamos e com eles nos relacionamos
caso, um jogo de generalizações abstratas e inversões de idéias que praticamente. O exemplo paradigmático é extraído da óptica, no que
se traduz numa dissimulação inconsciente da realidade social; a ideo- se refere ao estudo da refração da luz; esta é responsável por uma
logia dominante empreende uma função de ocultação, de mascara- série de fenômenos ópticos, como o fato de uma colher parecer que-
mento, sem que haja consciência desse processo; seu fim é escamotear brada quando mergulhada na água e de a profundidade de uma
"inocentemente" as contradições da sociedade real.~ 2 Assim, os inte- piscina parecer menor do que realmente é. Segundo Kant, numa
resses recônditos da classe dominante impulsionam a elaboração, ma- perspectiva idealista, a verdade ou a ilusão não estão no objeto, mas
nutenção e transformação dos complexos ideológicos, representados no juízo sobre ele; os sentidos não podem errar exatamente porque
por idéias religiosas, filosóficas, políticas, estéticas, jurídicas, etc.; não podem julgar. Entretanto, na posição dialético-realista, elas não
esses interesses de classe não se retratam manifestamente à consciên- estão nem na mera aparência do objeto, nem no puro julgamento teó-
cia e, mascarados por representações imaginárias ou expressivas das rico do sujeito, mas na relação prática sujeito-objeto; descobre-se a
aparências fenomênicas, permanecem como base dinâmica das racio- verdade ou a ilusão não por um simples afrontamento teórico-abstrato
nalizações ideológicas dos próprios sujeitos que delas se beneficiam. do sujeito perante o objeto, mas por uma atividade crítico-prática
A ideologia, neste caso, se apresenta como um esforço para univer- 33
desveladora da relação entre aparência e essência.

32 Ver a respeito comentário singularmente interessante feito por José M. Ro- 33 "Por existir, no interior da sociedade capitalista, uma espécie de ruptura
driguez Paniagua , Marx y el Problema de la ldeología, Madri, Tecnos, 1972, interna entre as relações sociais e o modo pelo qual são vivenciadas, o cientista
pp. 69-83. dessa sociedade vê-se frente à necessidade de construir a realidade contra as
-IOESTk
Ca ., ~n T]tf Toletl!
....... .-,7 .,,__,..._ ...
46 ALAOR CAPFÉ ALVES ESTADO E IDEOLOGIA 47

Vê-se, então, num segundo momento, pelo lado objetivo, que o quanto proposições formais reveladoras de simples conexões de coe-
engano é cometido a partir de uma "aparência objetiva", visto que rência; eles devem compreender a necessária adesão afetiva e prática
mesmo que nos certifiquemos, com a prática, não ser o caso, o fenô- da consciência, num plano de convicção fundado em interesses domi-
meno continua ali, embora nossa consciência possa já estar armada nantes particulares transfigurados na forma de interesses gerais, indu-
pela atividade crítica para não "se iludir". A ilusão só pode desapa- zindo o sentimento de que são "lógicos", "evidentes", "sensatos" e
recer em termos efetivos quando, pela prática social transformadora de que expressam uma realidade "em ordem", perfeitamente "natural"
da própria realidade, alteramos as condições objetivas que determinam e legítima.35
o fenômeno. Ainda nessa linha de consideração, percebe-se que a ideologia
Desse modo, a ideologia, . mesmo concebida como um discurso deve ter, para sua consistência como ideologia no sentido de falsa
apenas expressivo, não pode ser confundida com uma espécie de consciência, um fundamento no real, uma base subjetiva de aparência
"alucinação coletiva", onde as imagens são constrangedoramente im- que não permite, a nível da sociedade como um todo, a consecução
postas aos sujeitos a partir tão-somente de processos ocorridos neles do "desengano" mediante eventual esclarecimento promovido pelas
próprios. A ideologia, ao contrário, expressa uma aparência que não consciências críticas; isso significa que, sem práxis transformadora do
cessa quando reconhecida como tal. Entretanto, neste caso, ao reco- real, a mistificação ideológica não desaparece. Esse fato se dá porque
nhecer a aparência como aparência que oculta e ao mesmo tempo a realidade, como já dissemos antes, consiste de uma unidade dialética
desvela relações essenciais distinguíveis daquela mesma aparência e entre aparência e essência, e ela só pode ser desvelada na sua auten-
pela qual ganham existência fenomênica, estaremos no caminho crí- ticidade através da atividade da práxis transformadora, com a negação
tico-prático para a superação da ideologia mistificadora, da falsa crítico-prática da experiência imediata do cotidiano. Enquanto se per-
consciência.'34 manece ligado à feição externa e imediata do mero fenômeno, tal
A ideologia como ilusão consiste em integrar dados dos sentidos, como se oferece à nossa experiência direta, como algo dado, · feito
do pensamento e da voQtade em determinadas condições que permi- ·e acabado, o real social ou natural se nos apresenta irremediavelmen-
tem elaborar e cristalizar, ao nível social, juízos falsos estruturadores te como um aglomerado de fatos fixos, isolados e sem história, isto
de concepções, crenças e práticas que impedem a compreensão clara é, como um conjunto de elementos abstratos que podem ser apenas
da realidade social, de suas contradições e antagonismos, de modo a descritos, classificados, ordenados e sistematizados e nunca realmente
evitar práticas transformadoras que resultem na destruição dos pri- explicados. A ideologia, portanto, ao não ter por função explicar os
vilégios das classes dominantes. É preciso compreender, entretanto, vínculos internos da realidade, a conexão entre aparência e essência,
que não basta, para as estruturações ideológicas, a existência desses completa os dados da aparência mediante representações que lhes
juízos observados apenas sob sua forma meramente lógica, isto é, en- emprestam relações externas de coerência formal, exatamente para
ocultar as lacunas de compreensão da própria realidade, as quais não
podem ser preenchidas sob pena de se desnudar como ideologia.
aparências". Cf. Norman Geras, "Marx e a Crítica da Economia Política", in Assim, ela trabalha com abstrações, com o mundo das aparências,
Robin Blackburn (org.), Ideologia na Ciência Social, Rio de Janeiro, Paz e
apenas com os dados direta e imediatamente oferecidos na prática
Terra, 1982, p. 264.
34 Nesse sentido, Norman Geras destaca "aquelas aparências, ou formas de
utilitária dos homens, numa sociedade fragmentada e dividida pelos
manifestação que são expressão das relações sociais e que não são mistificadoras antagonismos de classe.
ou falsas em si mesmas, na medida em que correspondem a uma realidade
objetiva; tornam-se mistificadoras apenas quando consideradas como produtos
da natureza ou das intenções subjetivas dos homens" . Cf. Norman Geras, op. 35 Ver Clodovis Boff, "Sobre Ideologia", in Clarêncio Neotti (org.), Comuni-
cit., p. 268. cação e Ideologia, São Paulo, Loyola, 1980, pp. 29-32.
ESTADO E IDEOLOGIA 49
48 ALAóR CAFFÉ ALVES

tes na consciência ingênua, tal como ocorrem na experiência empírica


Como decorrência dessa manipulação abstrata e cotidiana do
mundo das aparências e da atitude de considerar os objetos reais imediata.
como coisas significantes por si mesmas, não admitindo uma distân- Através desse processo, os mecanismos de poder são retratados
cia entre o pensar e a realidade e descon_hecendo esta como processo, por fatos, condutas e instituições com os quais lidamos na faina diária
como História, a ideologia toma o mundo aparente como o único e que são considerados, em seu conjunto, com a própria realidade do
mundo existente, reproduzindo um real invertido. Assim o resultado Estado. Assim, as repartições e funcionários públicos e suas diuturnas
de um processo passa a ser considerado seu começo; o falso aparece funções disciplinares e administrativas; os juízes e suas sentenças; os
sob a forma de verdade; a aparência apresenta-se como essência; o governantes e suas decisões de interesse público; o "diário oficial" e
produto humano se torna algo natural; o que é transitório e contin- suas comunicações de atos da administração e das leis; a polícia e sua
gente transforma-se em definitivo e necessário; os efeitos são tomados presença nas ruas; o exator e sua cobrança de tributos; as assembléias
como causas; o criado como criador; a idéia como realidade; o que legislativas e seus deputados eleitos; as forças armadas e seus aparatos
é histórico como algo eterno, e assim por diante. Esse procedimento de violência, etc., são as formas "autênticas" pelas quais o Estado
ilusório, mediante a abstração e a inversão da realidade, fundamenta habitualmente aparece aos olhos da consciência espontânea. As siste-
um consenso social a respeito da aparente unidade e harmonia de matizações relativamente coerentes das representações dessas aparências
uma sociedade estruturalmente conflitiva; nele as diferenças e os an- colhidas e organizadas em função de critérios relacionados ao bem
tagonismos de classe são apagados através da manipulação incons- comum, julgado este como fundamento da unidade política suprema,
ciente de padrões significativos com funções universalizantes, tais induzem à construção de edifícios teóricos que não alteram essencial-
como "cidadão", "humanidade", "liberdade", "bem comum", "nação", mente em nada a espontaneidade da intuição imediata. Neste plano, a
"Estado", etc." 6
teoria do Estado ortoçloxa move-se no contexto da descrição, classi-
Por essa manifestação ideológica, facilmente se verifica a tendên- ficação e ordenament6 dos dados da política utilitária, cuja credibili-
cia de 1'teorizar" a realidade política mediante a descrição generali- dade e "bom senso" se amparam na segurança da consciência comum
zadora e o decalque puro e simples das instituições sob o prisma garantidora da verdade por todos sentida como "evidente". Essa
formal de sua expressão técnico-utilitária. Na esfera da vida cotidiana,
teoria, ao julgar que traça as categorias que tornam possível o autên-
a conduta prática conduz à incontornável economia de esforço na
tico exame das relações internas explicativas do poder e das organi-
compreensão dos fenômenos políticos; isso leva à normal utilização
zações políticas, realiza na verdade uma inversão ilusória, pois apenas
de certas categorias, instituições e instrumentos para os efeitos prag-
espelha nessas categorias o sistema político que acredita analisar, e
máticos da ação política. Até aqui nada seria especialmente relevante
tudo resulta num grande esforço cujo fim', entretanto, não é outro
se não houvesse, numa postura acrítica, a incorporação direta dessas
categorias, instituições e instrumentos à "teoria política", sem ne- senão o de participar inconscientemente na reprodução desse mesmo
nhuma alteração. O fenômeno político, neste caso, não é senão algo sistema.37
refletido apenas em sua aparência; porém, é julgado como se fosse
toda a realidade, numa inversão ideológica inequívoca. Obviamente, w; "Tanto o politicismo 'prático' como o apoliticismo por motivos 'práticos'
essa atitude "científica" não leva à explicação da lei interna dos fe- satisfazem as aspirações e os interesses do homem comum e corrente, do
nômenos políticos, mas sim à mera e mais sofisticada reprodução des- homem 'prático', mas, na verdade, só servem para afastá-los de uma verdadeira
atividade política e, especialmente, de uma práxis revolucionária". Cf. Adolfo
Sánchez Vázquez, Filosofia da Práxis, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1968, p. 13.
Ver, nesse sentido, Michel Miaille, Une lntroduction Critique au Droit, Paris,
36 Ver, nesse sentido, Marilena Chaui, O que é Ideologia, ~ão Paulo, Brasi-
liense, 1980, pp. 102-115. Francois Maspero, 1976, pp. 25-48.
ALAOR CAFFÉ ALVES ESTADO E IDEOLOGIA 51
50

Ao problematizar o Estado em seu tratamento empírico, oferecido e participante de todas as suas contingências existenciais condicionadas
como dado singular ou generalizado, através de suas instituições e do historicamente.39
ordenamento jurídico, questionamos de forma crítica a correspondência Desse modo, o conhecimento da essência não provém tão-só de
entre as proposições que traduzem aquele modo de tratá-lo e as um contato direto com as coisas do mundo externo, não corresponde
múltiplas .formas de sua manifestação em nossa experiência. Entre- a uma leitura_ do imediato oferecido aos sentidos . Por isso não pode
tanto, o objetivismo empirista da teoria ortodoxa propõe a descrição haver objeto significativo para o homem que se entregue plenamente
dos dados que acredita imporem-se ao sujeito. O Estado, nessa linha, como algo já acabado externamente; ao se mostrar em seu sentido
apresenta-se como totalidade em sua aparência e nessa aparência ele objetivo, a coisa já se define como construção humana e, ao se definir
é proposto como se revelasse sua inteira realidade, não comportando como construção humana, se mostra necessariamente dentro de uma
outras relações subjacentes. Ele se impõe como um dado pleno e textura histórico-social determinada. Se o homem a que nos referimos
exaurido. não é o "homem em geral", o objeto de seu conhecimento fatalmente
Por outro lado, no curso de uma linha oposta, em sua caracteri- se reveste da singularidade que especifica seu modo de ver o mundo
zação extrema, corremos o risco de cair no relativismo subjetivo ao em decorrência de sua posição existencial dentro da sociedade de
vincular nossa pesquisa a uma estruturação espontânea do real, num classes. E por esse motivo que todo objeto de conhecimento se deve
esforço de invenção arbitrária. Essas duas posições se prestam facil- caracterizar como algo precário e histórico, exigindo continuamente
mente à construção de ideologias mistificadoras a respeito do Estado. sua retificação diante das dúvidas formuladas pela práxis. 40 Por aí
Ou ele já está aí, diante dos nossos olhos, ou é produto da aplicação se compreende o obstáculo epistemológico que representa o excesso
de critérios convencionais. Entretanto, a realidade do Estado não de clareza e de certeza do conhecimento ao nível da consciência es-
pode ser reduzida nem à sua manifestação empírica imediata nem a pontânea; a evidência da vida cotidiana acaba por ofuscar o lado
representações imaginárias ou ideais, ou seja, tanto não pode ser construído do conhecimento, impedindo freqüentemente o indispen-
imposta pelos fatos de nossa experiência cotidiana quanto não pode sável distanciamento em relação à prática utilitária, reiterativa e
ser a expressão de um esforço simplesmente inventiva. rotineira, com vistas à consecução do autêntico saber científicoY
'
Finalizando esse quadro de considerações, cumpre frisar que
39 Ver Carlos Henrique Escobar et alii, Epistemologia e Teoria da Ciência,
nossa linha de abordagem representa uma ruptura com a concepção
Petrópolis, Vozes, 1971. Ver também Carlos Henrique Escobar, Epistemologia
de que o conhecimento científico está associado ao desinteresse, como dás Ciências Hoie, Rio de Janeiro, Palias, 1975. Ver Della Volpe, "Cenno
se fosse o resultado de uma razão contemplativa, receptora e passiva, Sommario di un Metodo", in Rousseau e Marx, Opere, Roma, Editori Riuniti,
que parte do pressuposto de que a teoria não é uma forma da prática 1973, vol. V, pp. 357-365. Ver Gyorgy Markus, Teoria do Conhecimento no
social..as Por essa razão, propugnamos pela tese oposta segundo a Jovem Marx, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1974.
40 Numa perspectiva mais abrangente, inovadora e caracterizada segundo uma
qual o conhecimento é produto de uma "construção" e não se constitui
função paradigmática, J. Kuhn considera que "a transição de um paradigma
pela apreensão do real mediante meras "representações" em cuja em crise_ para um novo, do qual pode surgir uma nova tradição de ciência
gênese não intervém a atividade subjetiva; como uma forma da prática normal, está longe . de ser um processo cumulativo obtido através de uma
social, o conhecimento não pode ser o reflexo passivo da realidade; articulação do velho paradigma. :E: antes uma reconstrução da área de estudos
ele se caracteriza por ser uma construção do sujeito social, considerado a partir de novos princípios, reconstrução que altera algumas das generalizações
não abstratamente, mas em sua realidade concreta, como ser integrado teóricas mais elementares do paradigma, bem como muitos de seus métodos e
aplicações". Cf. Thomas S. Kuhn, A Estrutura das Revoluções Científicas,
2.• ed., São Paulo, Perspectiva, 1978, p. 116.
as Ver Carlos Pereyra, El Suieto de la Historia, Madri, Alianza Editorial, u Ver Miriaril Limoeiro Cardoso, Ideologia do Desenvolvimento, Brasil: /K, JQ,
1984, p. 169. op. cit., pp. 32-33.
ESTADO E IDEOLOGIA 53
52 ALAOR CAFFJ!: ALVES

A compreensão da realidade do Estado se perfaz então de con- cristalizadas a respeito da realidade do Estado. A tese, portanto, supõe
formidade com uma estrutura em construção. Essa estrutura pressupõe uma construção teórica não para de imediato resolver problemas, mas
a perene tarefa de construção e mesmo de reconstrução, sempre vin- paradoxalmente para criá-los, na confiança de que é possível oferecer
culada à idéia de processualidade. Como construção, o saber a res- algumas soluções apenas à medida que se levantem novos problemas.
peito da sociedade política parte de elementos cuja estrutura não
depende do arbítrio do sujeito cognoscente, mas compreende igual-
mente não só a seletividade segundo critérios de referência conjecturai,
como também o ordenamento criativo desses mesmos elementos, visan-
do a edificação do conhecimento que dê conta daquela realidade.
Entretanto, a "realidade construída" do Estado, sob qualquer que
seja o ângulo de seu enfoque, ao nível da teoria, é sempre uma certa
forma de desconhecê-lo, visto que o reduzimos ao tamanho da teoria,
ou seja, a uma dimensão até certo ponto precária e parcial. Apesar
dessa limitação, o esforço de construção é ao mesmo tempo um esfor-
ço para conter a subjetividade dentro de certos limites. O empenho
em direção à objetividade no conhecimento do Estado é para garantir
que a correspondente meta de veracidade seja permanentemente con-
servada, embora nunca possa ser plenamente alcançada; é preciso que
a conservemos para assegurar que o Estado construído não seja um
Estado inventado. 42
Essa direção metodológica parte do princípio de que a adequação
entre sujeito e objeto é um processo aberto, caracterizado pela idéia
de que a teoria não é jamais um modelo encerrado ou finalizado,
não é uma mera cópia da realidade. Daí não se poder olhar o Estado
real face a face, na sua expressão original. Ao nível da teoria não
temos dele uma réplica fotográfica, mas uma construção que o ilumina
e sem a qual não nos aproximamos de sua realidade. 43 Aliás, somente
existe o discurso teórico do Estado, em processo, porque dele não se
consegue obter a captação direta. Por isso sua realidade não se apre-
senta de forma pura, direta e imediata, mas apenas numa construção.
B nesse quadro de referência crítico-epistemológico que preten-
demos desenvolver as bases de nosso trabalho, numa tentativa de
contribuir para a dissolução de algumas questões tradicionalmente

42 Ver Pedro Demo, Metodologia Científica em Ciências Sociais, São Paulo,


Atlas, 1980, p. 19.
43 Ver Rubem Alves, Filosofia da Ciência, Introdução ao Jogo e suas Regras ,
São Paulo, Brasiliense, 1981 , pp. 36-52.
Dialética e relação social

O conhecimento do Estado implica um complexo de relações que


exprime o modo e os objetivos em razão dos quais ele é experimentado.
Se essa experiência, sob o ângulo político-social, é fragmentada, em
virtude de convergências ou divergências inerentes à própria estrutura
da sociedade, tais objetivos ou modos de encarar a sociedade política
variarão sensivelmente, de grupo para grupo, de classe para classe,
codificando diferentes relações práticas, que se refletirão inevitavel-
mente no próprio conhecimento dessa realidade e na maneira de
enfocá-la com vistas à sua manutenção ou transformação.
Essas relações, portanto, podem estar distintamente referidas tanto
à esfera gq conhecimento do Estado, compreendendo proposições
teóricas a seu respeito, não deixando, neste caso, de envolver direta
e imediatamente o corresP.ondente plano da ação prático-ideológica,
quanto à esfera da realidade ontológica do "ser do Estado", com-
preendido na sua dimensão histórica . Como, entretanto, não podemos
captar este "ser do Estado" senão dentro de uma relação teórico-prática,
seu aspecto ontológico pode ficar comprometido se não houver a
56 ALAOR Ci\FFÉ ALVES
ESTADO E IDEOLOGIA 57

preocupação cautelar de postular uma permanente ação crítico-episte- não é possível consignar o fato enquanto tal, ou seja, como puro fato
mológica no processo de sua apreensão cognitiva. 1 sem referendá-lo imediatamente à sua forma significativa.3 Assim,
Antes de desenvolvermos as linhas básicas da mencionada refe- esses dois aspectos aparecem como momentos inseparáveis - o objetivo
rência lógica e ontológica a respeito da sociedade política, cumpre-nos e o subjetivo - de uma mesma realidade. Para maior aproximação
traçar algumas considerações sobre a nossa forma de compreender a ainda do significado dessa relação entre os momentos objetivo e su~­
categoria de "relação", e por conseqüência a de "totalidade", cuja jetivo, no processo cognitivo, é preciso apontar que a referida relação
utilização é nuclear no âmbito da nossa investigação e exposição é de caráter teórico-prático, compreendendo as contingências histórico-
temática.2
sociais em que são engendradas. 4 Por esta razão, o complexo conceitual
Dentro de uma consideração epistemológica mais abrangente, dominante referente ao Estado deve refletir e, ao mesmo tempo e de
entendemos que os elementos específicos de um dado pensamento só certa forma, construir em parte as relações reais que o encarnam.
ganham significação dentro de um contexto determinado, configurado Os termos, regras e noções a respeito das relações estatais não
não só por uma trama conceitual a respeito de uma dada situação, são seus meros "reflexos" a posteriori, mas componentes · de sua
mas também pelas ações ou elementos reais que perfazem a referida própria existência. O conhecimento da sociedade política não a põe
situação. Para suscitar, porém, uma compreensão mais aproximada do como um objeto indiferente; isso significa que, . distintamente dos
que queremos dizer, convém sublinhar que das ações e elementos objetos naturais, as idéias a respeito das questões estatais de algum
reais de uma dada situação faz parte inerente a própria tecitura con- modo contribuem para manter ou transformar a própria .realidade
ceitual que lhe demarca o significado. Por isso, a situação real encarna dessas qwistões. 5 Entretanto, se neste caso há um potencial ativo e
concretamente o significado prático-subjetivo e o faz de tal modo que
3 "O defeito principal de todo o materialismo passado - incluído o de Feuerbach
1 - consiste em que o existente (a coisa), a realidade, o sensível, só é concebido
Esse processo cautelar pressupõe uma suspensão da alienação com base na
práxis social: "Em uma práxis que faz .Penetrar, tão profundamente como sob a forma de objeto ou de intuição (contemplação), porém não como ativi-
seja possível, na aparente contingência dos fatos e no destino que a reificação dade humana sensível, como práxis, não subjetivamente". Cf. K. Marx "Primeira
tornou opaco, o processo de produção e as .relações humanas que esse processo Tese Sobre Feuerbach", incluída como apêndice da obra La Ideología Alemana,
K. Marx e F. Engels, Buenos Aires, Pueblos Unidos, 1973, p. 665.
põe em marcha. A dialética, assim concebida; tem que resignar-se a não seguir
4 "Não vê (Feuerbach) que o mundo sensível que o rodeia não é algo direta-
sendo o procedimento com que se abordam as coisas a partir do exterior". Cf.
Ernest Bloch, Sujeto-Objeto, El Pensamiento de Hegel, México, Pondo de mente dado desde toda uma eternidade e constantemente igual a si mesmo, mas
Cultura Económica, 1983, p. 384. Ver Georg Lukács, La Crisis de la Filosofía sim o produto da indústria e do estado social, no sentido de que é um produto
Burguesa, Buenos Aires, La Pleyade, 1975, pp. 153-187. Ver, do mesmo autor, histórico, o resultado da atividade de toda uma série de gerações, cada uma
Os princípios Ontológicos Fundamentais de Marx, São Paulo, Ciências Huma- das quais se ergue sobre os homens da anterior, continua desenvolvendo sua
nas, 1979. indústria e seu intercâmbio e modifica sua organização social com relação a
2 novas necessidades. Até os objetos da "certeza sensorial" mais simples lhe são
A categoria da .!otalidade, em nossa concepção, adquire no plano ontológico
dados apenas pelo desenvolvimento social, a indústria e o intercâmbio comer-
um significado dinâmico e integrador; com isso rejeitamos a concepção do todo
cial". Cf. K. Marx e F. Engels, La Ideología Alemana, op. cit., p. 47.
como generalidade abstrata "O verdadeiro é o todo. Porém, o todo é somente 5 Essa consideração se estampa, num plano teórico mais geral, com grande
a essência que se completa mediante seu desenvolvimento. Do absoluto, deve-se
propriedade em Jean-Paul Sartre, quando afirma: "Para que a realidade se
dizer que é essencialmente resultado, que só no fim é o que é na verdade".
desvele é preciso que . o homem lute contra ela; em uma palavra, o realismo
Cf. Hegel, Fenomenologia del Espiritu, México, Pondo de Cultura Econ6mica,
revolucionário exige igualmente a existência do munc!o e da subjetividade;
1966, p. 16. Ver, no mesmo sentido, o excelente estudo de Lukács, A Falsa e a
melhor ainda, exige uma correlação tal entre um e outro que não se pode
Verdadeira Ontologia de Hegel, São Paulo, Ciências Humanas, 1979, pp. ,65-112.
conceber uma subjetividade fora do mundo nem um mundo que não seja
Ver também Lucien Goldmann, Origem da Dialética, A C~munidade Hu~af!a e
aclarado pelo esforço de uma subjetividade". Cf. Jean-Paul Sartre, Matérialisme
o Universo em Kant, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1067, pp. 41-49.
et Révolution", in Situations, I, Paris, 1957, p. 213 . Ver também Alfred Schmidt,
58 ALAóR CAFFli: ALVES ESTADO E IDEOLOGIA 59

construtivo das representações ou teorias com respeito às relações tais, embora essa relações estejam de igual modo fundadas nas funções
efetivas da realidade da qual pretendem dar conta, é preciso não olvidar prático-subjetivas dos agentes sociais. Nesse sentido, comunhamos com
que essa realidade é em si mesma muito mais complexa do que seus a idéia de que a experiência é também fundante do sistema de relações
componentes ideais. Isso, naturalmente, só pode ser compreendido sob pelo qual explicamos a realidade do Estado. Portanto, a categoria de
o ângulo da "práxis", onde a realidade não se subsume a um simples "relação", como a entendemos, não se identifica com a concepção kan-
esquema lógico. 6 As relações que compreendem a realidade do Estado tiana que a vê como uma espécie de atividade do espírito que se
não se reduzem aos seus diversos componentes ideais, mas não podem impõe aos fatos, enquanto apenas ordena os dados da sensibilidade
existir sem eles. Assim, aquelas relações nascem e existem simulta- ao nível do entendimento.9
neamente no pensamento e fora dele, contendo desde a origem uma ·Essa categoria implica também uma questão extremamente sig-
parte ideal que corresponde à ativa interpretação da realidade do nificativa no que diz respeito aos momentos dela integrantes: os
Estado. Esse componente ideal, portanto, não é seu mero reflexo a termos da relação. A experiência imediata afirma primitivamente ter-
posteriori, mas uma condição necessária ao seu aparecimento. 7 Por mos, e entre termos percebe relações. Porém, progressivamente se dá
essa razão, as representações da sociedade política existem não so- conta de que os termos não existem independentemente das relações. 10
mente como conteúdos de consciência, mas também como aspectos Posso conceber, por exemplo, "o mais alto mandatário de um Estado"
de ordem prática constituintes das ·próprias relações sociais corres- como um termo de certo modo isolado, porém, num exame mais
e
pondentes e que fazem delas relações de significação. preciso subli- analítico de sua realidade, passo a compreender que ele não se constitui
nhar que o pensamento, ao interpretar a realidade do Estado, organiza por si mesmo, mas precisamente em razão das condições jurídico-
ao mesmo tempo as práticas sociais sobre essa realidade e, por conse- políticas originárias de sua situação, do contexto de poderes real e
guinte, contribui para sua reprodução ou transformação. Dessa forma, constitucionalmente consagrados, ·da ação política que exerce em face
se o Estado é produto de relações sociais determinadas, é preciso sem- de outras pessoas que em conjunto com ele realizam o governo, da
pre ter em conta que elas não podem existir senão sob esse duplo posição que assume frente à dinâmica dos grupos e classes sociais,
aspecto, ou seja, como realidade ao mesmo tempo material e ideal. 8 das medidas normativas e executivas que vai engendrando ao longo
Vê-se, por essa abordagem, que propugnamos por uma perspec- de seu mandato, etc. Igualmente esses novos termos são detectáveis
tiva que não exclui o aspecto ontológico a respeito das relações esta- em função de outras relações, como as consignadas pelas múltiplas
e variadas ações sociais e econômicas decorrentes da dinâmica histórica
El Concepto de Natureza en Marx, México, Siglo XXI Editores, 1976, da sociedade considerada, e assim por diante.U
pp. 127-140. Para uma compreensão aprofundada da relação dialética entre a
práxis teórica e a realidade por ela transformada, ver Adolfo Sánchez Vázquez,
Filosofia da Práxis, Rio de Janeiro, Paz e T~~a, 1968, pp. 137-182. 9 Ver Wolfgang Rõd, La Filosofia Dialéctica Moderna, Pamplona, Ediciones
H Ver, nesse sentido, K. Marx, Miséria da Filosofia, Rio de Janeiro, Leitura, Universidad de Navarra, 1977, pp. 65-81. Ver também, Georges Gurvitch,
1965, pp. 104-105, 178-179, 187-188. Dialéctica y Sociologia; Caracas, Universidad Central de Venezuela, 1965, pp.
7 "A atividade prática humana é tal, propriamente, quando transcende desse 53-59. Ver V. I. Lenin, Materialismo y Empiriocriticismo, Montevidéu, Pueblos
aspecto subjetivo, ideal, ou, mais exatamente, quando o sujeito prático trans- Unidos, 1959, pp. 210-222.
forma algo material, exterior a ele, e o subjetivo se integra assim num processo lO O axioma das "relações internas" pode formular-se da seguinte forma: "As

objetivo ( ... ) (o sujeito) é prático na medida em que se objetiva, e seus relações que enlaçam termos são parte integrante dos termos que relacionam".
produtos são a prova objetiva de sua própria objetivação." Cf. Adolfo Sánchez "No universo, tudo está enlaçado em uma rede de relações que não são distintas
Vazquez, op. cit., pp. 241-242. das coisas que relacionam e que penetram em seu ser e as fazem ser o que são".
s Ver, nesse sentido, Maurice Godelier, "Infra-Estruturas e História", in "Gran- Cf. C. E. M. Joad, Guia de la Filosofía, Buenos Aires, Losada, 1967, pp. 361-362.
des Cientistas Sociais", 21, Antropologia, Edgard de Assis Carvalho (org.), 11 Pode-se afirmar, portanto, que nenhuma coisa particular é inteiramente
São Paulo, Atica, 1981 , pp. 182-184. real, visto que envolve um contexto. De certo modo, quanto mais isolada é a
ESTAlX> E IDEOLOGIA 61
60 ALAOR CAFFÉ ALVES

Vê-se por esse desenvolvimento que sem outras ponderações nos


Todas as referências relacionais do citado exemplo parecem veríamos compelidos a considerar somente as relações. Porém, estas,
explicar não só a situação aparente do mais alto mandatário, mas por sua vez, não se podem conceber de modo substantivo, indepen-
também sua própria realidade. As qualidades ou atributos que o dentemente de seus termos. "Podemos portanto dizer que se a relação
constituem são integrados por relações, e nos veremos levados a dizer exclui a especificidade de seus elementos componentes, e portanto
que o mais alto mandatário mesmo é, todo ele, uma estrutura de desfaz e anula esses elementos que se tornam simples termos de
relações que, por sua vez, se converte em base de novas relações. uma relação em função da qual eles passam a existir, nem por isso
Desse modo, a idéia com respeito a esse agente político, tomado em a relação independe dos mesmos elementos, no sentido de poder
sua identidade singular, desaparecerá diante de nossas vistas; se trans- subsistir sem o seu concurso, e menos ainda no de se constituir sem
formará na afirmação de que há um certo grupo de relações a que eles. A relação resulta e se constitui dos elementos que para ela
chamamos "o mais alio mandatário de um Estado". Esse mesmo concorrem, e depende portanto de sua presença, seja embora essa
agente político, por outro lado, passará também a ser um dos elementos presença unicamente virtual. A relação se alimenta pois permanente-
das múltiplas e complexas relações que perfazem a idéia e a realidade mente, embora de maneira indireta, da especificidade que seus ele-
muito mais abrangentes que designamos "Estado". Quanto mais refle- mentos componentes têm fora da relação." 14 Assim, por exemplo,
timos sobre essa questão, tanto mais veremos, sem dúvida, os elementos na relação de "paternidade" os elementos (seres humanos) devem
serem dissolvidos, nas relações que os constituem como termos, per- persistir dentro da relação, mas é por ela, e somente por ela, que
denao aos poucos sua. especificidade originária. 12 "É por isso que esses elementos passam a se qualificar como termos da relação, como
podemos falar em ' relacionamento', que não é simples justaposição, pai e filho (não há filho sem pai e vice-versa), termos os quais, fora
ligação exterior ou associação de elementos, e significa sim ci desva- daquela relação, não podem subsistir como tais. O "ser humano",
necimento desses elementos na relação para a qual eles concorrem. nesta relação, perde parte da sua especificidade para dar lugar à
Na relação, e como relação, o que conta não são mais esses elementos, qualificação mais rica que aquela relação lhe atribui; entretanto, apesar
que nela se desfazem, e entram para ela com perda de sua especifici- dessa perda de especificidade, não se pode conceber um pai ou um
dade e individualidade; e conta sim o sistema relaciona! que com filho que não sejam seres humanos. O mesmo princípio cabe ser
eles se constitui. No plano da sensibilidade, ilustramos isso com ca refletido na relação que exprime o capital, na relação entre o capita-
representação sensível de uma linha, cuja figura, que dá a representa- lista e o proletário. 15 No plano do mundo ·natural, ocorre idêntico
ção, pode ser formada de quaisquer outras figuras elementares (pontos, processo, como, por exemplo, a perda da especificidade dos elementos
pequenos traços, etc.), e não é assim específica de nenhuma delas." 13 oxigênio e hidrogênio, cujas propriedades se alteram quando combi-
nados numa certa proporção da qual se origina a água.
coisa, tanto "menos realidade" significativa tem, dado que se pode considerar A tentativa, portanto, de absorver completamente os termos nas
que o todo é "mais real" nesse sentido do que as partes tomadas separadamente. relações que os integram, sem considerar a subsistência dos elementos
Em termos de estrutura de sentido, somente o todo é completamente real. que eles implicam, acarreta a absolutização das proposições lógicas,
1 2 Ver, nesse sentido, Jean Wahl, Tratado de Metafísica, México, Fondo de
com a inevitável redução da realidade aos seus predicados, no interior
Cultura Económica, 1960, pp. 155-174.
13 Cf. Caio Prado Júnior, Notas Introdutórias à Lógica Dialética, 2.• ed., São
daquelas mesmas proposições. O mundo, neste caso, se torna uma
Paulo, Brasiliense, 1961, p. 105. "O mesmo se verifica no caso mais complexo expressão das relações lógicas, onde o sujeito só ganha realidade me-
dos contextos da linguagem discursiva, onde o que dá o "sentido" próprio das
expressões não são elas, e sim aqueles contextos em que se incluem como 14 Cf. Caio Prado Júnior, op. cit., p. 106-07.
termos da relação estruturados nos mesmos contextos. A especificidade de tais 15Ver, nesse sentido, Caio Prado Júnior, Dialética do Conhecimento, 5.• ed.,
expressões, o seu "sentido" específico, se desfaz no "sentido" de conjunto que t. li, São Paulo, Brasiliense, 1969, pp. 544-563.
o contexto em que figuram lhes concede" . Idem, p. 106.
62 ALAOR CAFFÉ ALVES ESTADO E IDEOLOGIA 63

diante a conexão dos predicados, com evidentes prejuízos idealistas. real, e outra, em estudar seu conceito ou definição. A primeira é uma
Por outro lado, considerar as relações como algo externo aos próprios questão ontológica e a segunda, uma questão meramente lógico-formal.
termos, sobrepondo-se a eles de "fora", implica povoar o mundo com O problema agora se circunscreve às seguintes indagações: Para além
entidades absolutamente discretas, incluindo as próprias relações, fi- da definição do Estado, é possível um conhecimento da realidade do
cando-nos a impossível tarefa de explicar de que modo e sob que leis Estado em si mesma, ou tal como ela é em si? Pode sustentar-se esta
atuam umas sobre as outras. Nesta linha, reduzimos a realidade a um dualidade? Essa diferença, na perspectiva dualista ora examinada, se
substancialismo tão formal quanto aquele propugnado pelo puro rela- deve à distinção entre fato e conceito; na experiência política, um
cionalismo. Isso nos sugere a pobre perspectiva de um empirismo de aspecto são as situações reais do Estado, suas manifestações concretas,
meras impressões fenomênicas fragmentadas, válidas por si mesmas, seu ser, e outro, os conceitos, as representações e idéias a ele relacio-
cujas leis se definem pela descrição e generalização dessas impressões nada, a expressão lógica acerca do próprio ser. Realmente, a questão,
captadas através da experiência sensoriaP6 A solução dessa questão, nesse plano, consiste em saber se é possível distinguir o problema do
a nosso ver, não se pode restringir ao campo do formalismo teórico, que seja a realidade substancial do Estado e o conceito ou definição
visto que o conhecimento, na sua contrastabilidade teórico-prática, dessa mesma realidade. Essa questão se coloca até certo ponto com
aponta inequivocamente para uma realidade que transcende os esque- legitimidade porque pode ocorrer a suposição de que o Estado, em
mas puramente lógicos. Para melhor atentar sobre este ponto e consi- seu ser fundamental, só possa entregar-se apenas mediante seu con-
derar com maior amplitude suas conseqüências, desdobraremos algumas ceito, tornando ilusório o problema ontológico. Portanto, é lícito inda-
linhas a seguir. gar se, além daquilo que o conceito nos diz acerca desse objeto, este
A visão crítica a respeito da realidade do Estado, como já obser- é em si mesmo algo distinto ou algo'maisP
vamos, não pode deixar de levar em conta a relação integrada entre Nesse ponto, retomamos a questão das relações predicativas que
seus aspectos lógico e ontológico. Num plano analítico, porém, cons- logicamente constroem nosso objeto de investigação. O Estado se
tatamos a possibilidade de realizar a distinção entre o ser do Estado apresenta mediante situações específicas de poder político, manifesta-
e o conceito de Estado. Apesar da organicidade dialética desses mo- ções institucionais e organizacionais apropriadas a viabilizar o contexto
mentos, a abordagem clássica desse fenômeno político não raras vezes das relações sociais dominantes, através das atividades jurígenas,
houve por bem considerá-los separadamente. Por exemplo, se uma coisa administrativas, judiciais e de intervenção no âmbito sócio-econômico,
é a realidade fática "Estado" e outra o conceito "Estado", uma questão sempre referenciado a uma sociedade territorialmente delimitada. Essas
consistirá em estudar como é essa realidade em si, como é seu ser formas pelas quais o Estado se manifesta são representadas logica-
mente por meio de predicados que se atribuem ao sujeito "Estado".
Hl É óbvio que a questão assim colocada pode resultar num empobrecimento Porém, que será o Estado substancialmente fora da simples relação
dos possíveis desdobramentos que ela comporta, especialmente quando aponta- lógica, ou seja, além de ser a expressão teórico-representativa de um
mos para o questionamento oposto. Se alertamos para esse fato é porque não é
poder político centralizado, de um aparelho administrativo e jurisdi-
nosso propósito aprofundá-lo neste trabalho, Apenas para abrir uma fresta
considere a afirmação de um notável filósofo: "Evidencia-se ass~ que a cional e de uma sociedade territorialmente delimitada? Essa questão
mesa real (se acaso existe) não é o de que temos imediata experiência, pela se justifica porque se origina de um e mesmo objeto chamado Estado.
vista, pelo tato, pelo ouvido. A mesa real (se acaso existe) não pode ser conhe- Assim, por conseqüência, indaga-se: que é o Estado como objeto real
cida de maneira imediata, senão que há de ser tão somente inferida daquilo que
conhecemos imediatamente. Promanam daqui dois difíceis problemas, e que
são os seguintes. Primeiro: existe de fato uma mesa real? Segundo: se existe, 17 Ver, nesse sentido, Juan Manuel Teran, Filosofía dei Derecho, México,
que espécie de objeto pode ela ser? Cf. Bertrand Russel, Os Problemas da Porrua, 1971, pp. 22-24. Ver também Arturo Enrique Sampay, lntroducción a
Filosofia, 3.• ed., Coimbra, Armênio Amado Editor, 1974, p. 35. la Teoría dei Estado, Buenos Aires, Bibliográfica Argentina, 1964, pp. 30-41.
64 ALAOR CAFFÉ ALVES
ESTADO E IDEOLOGIA 65

unitário, além daquelas característi~as a ele logicamente atribuíveis?


Evidentemente, sob o ângulo teórico meramente especulativo,
Vê-se, então, que uma coisa é o aspecto lógico, o conceito do que seja
não é possível extrair a realidade fática do Estado apenas do complexo
Estado, e outra, a sua realidade ontológica, substancialmente tomada
de conceitos a ele referido. Ao ·nível da pura expressão teórica, não
na experiência. Tem, portanto, sentido falar de uma realidade do Estado
se pode compreender muito acerca do Estado existente em nossa
existente concretamente enquanto fundada em efetivas relações sociais,
experiência, embora nos refiramos sempre a alguma determinação
além do que se contém em seu próprio conceito. Entretanto, é bom que
parcial dele, mediante atribuições predicativas de caráter lógico. Sua
se diga, essa linha de enfoque ultrapassa o mero equacionamento
realidade existencial específica, resistente, agressiva e espessa, demar-
teórico-formal, de caráter idealista, ao desbordar o problema da pura
cada pelas forças sociais contraditórias e historicamente constituídas,
descrição lógico-atributiva em que somente a referência a uma estrutura
escapa-nos definitivamente na medida em que absolutizamos sua uni-
de sentido tem importância.
dade simplesmente lógica, reduzindo a sociedade política à dimensão
~ara que essa última colocação tenha sentido é preciso fazer um puramente teórica.
desdobramento. O aspecto lógico do Estado está referido a sua repre-
Fica, entretanto, a questão de se saber como a unidade de relação,
sentação ideal, isto é, à representação enquanto objeto de relações
representada pelo sujeito lógico que se exprime pelo termo "Estado"·,
cognoscitivas (plano epistemológico) em que esse objeto é expresso
o qual unifica uma série de manifestações ou elementos, é ou pode ser,
pelo sujeito constante de múltiplos juízos (plano lógico) encadeados
por sua vez, um elemento subsistente em si mesmo, irredutível ao
e unificados progressivamente. Isso significa que, sob o ângulo lógico,
esquema lógico-formal das proposições singulares pelas quais o pen-
o objeto de nossa consideração epistêmica, ou seja, o Estado, se
samos. Nesta questão vemos novamente despontar o problema do
reduz ao movimento ideal de sucessivos juízos em que ocorre a determi-
relacionamento através das seguintes indagações: Essa unidade de enla-
nação predicativa, com a incorporação consecutiva de predicados diver-
ce pode ser concebida ou caracterizada sem os elementos enlaçados?
sos ao mesmo sujeito lógico, permitindo a realização significativa da
O que seria o Estado sem uma função de dominação, uma ordem
unidade desse objeto e ao mesmo tempo a ampliação de seu caráter
normativa, sem um aparelho administrativo ou jurisdicional, sem uma
inteligível. Fora dessas n;lações nada se poderia entender; logo, nada
coletividade ou sem um território? Parece que fora dessas conexões e
existiria. Assim, por exemplo, o Estado, inicialmente, é sujeito lógico
de outras possíveis o Estado como tal desapareceria. Em certa medida,
de um juízo determinado: "o Estado" é "povo"; depois, o sujeito
entretanto, parece que pode ser concebida uma função de dominação,
lógico "Estado", incorporando em seu conteúdo o predicado "povo",
uma ordem normativa, a existência de um aparelho administrativo
passa a fazer parte de outros juízos sucessivos, onde novos predicados ou jurisdicional, de uma coletividade ou de um território de forma
lhe são atribuídos: o "Estado", além de incluir "povo", é também separada cada um; porém, neste caso, não se trata precisamente do
"poder", "território", "ordem jurídica", e assim por diante. Neste objeto Estado, senão de cada elemento tomado na especificidade que
caso, a corporeidade e substancialidade do Estado só se objetiva quando o singulariza. Então, ao nível lógico, somente a reunião desses dados
é cientificamente determinada em seu conceito progressivamente mais ou fatores em uma unidade de relação constitui o que se chama
amplo e rico de determinações. 18 Em última instância, dentro dessa Estado. Assim, nesse mesmo nível, a unidade de relação que perfaz a
concepção idealista, a realidade substancial do Estado se reduziria ao idéia Estado não pode ser caracterizada sem referência aos termos
pensamento que dele se possa ter. enlaçados. 19 Porém, ainda que assim se considere, permanece a questão
a respeito do que efetivamente determina aquela unidade de relação
18 Sobre esse modo de ver idealista, sugerimos a leitura dos ensaios de Fausto ou aquela unidade de sentido expressa pelo termo "Estado".
E. Vallado Berrõp, incluídos como àpêndices em sua Teoría General del
Derecho, México, U.niversidad Nacional Autónoma de México, 1972, pp. 213-247. 1
9 Ver, nesse sentido, Juan Manuel Teran, op. cit., pp. 28-29.
66 ALAOR CAFFÉ ALVES ESTADO E IDEOLOGIA 67

A questão como foi posta acima induz a uma delicada situação, por conexões associativas de ordem psicológica e não por relações
onde o balanceio dos elementos apontados, segundo este ou aquele propriamente lógica. Isso significa que o Estado é apenas um "nome"
enfoque, caracteriza posições filosóficas bem diferenciadas, seja a do que não serve para indicar realidade substancial alguma; refere-se
idealismo objetivo, seja a do empirismo em suas versões subjetivista apenas a uma forma de dizer economicamente e por razões operacionais
ou positivista. as propriedades ou qualidades pelas quais enunciamos descritivamente
Se a tendência for levada de modo extremo para o lado do determinadas experiências. Já para o empirismo em sua versão posi-
predicado, iremos ressaltar os aspectos universais do sujeito Estado, tivista, o conhecimento não se fundamenta em meras conexões sub-
perdendo este a substancialidade existencial e singular que o caracteriza jetivas, de natureza psíquica, mas também não admite seu embasamen-
como ser real e concreto . Que é o Estado? Será preciso responder, to num mundo concebido como um depósito de leis absolutas e prede-
neste caso : o Estado é ... poder político; o Estado é ... povo; o Es- terminadas. Com essa concepção, o Estado é resultante de um conjunto
tado é . .. bem comum; o Estado é . . . território delimitado; o Estado de fatos; e estes fatos, para entrar no sistema teórico-científico, devem
é . . . ordem jurídica, etc. Assim, o Estado passará a ser o resultado ser controlados experimentalmente. Ao registrar os fatos políticos, o
da conexão lógica dos termos considerados em sua universalidade e cientista social não ganha a estatura de um "legislador" do universo,
cuja expressão final não pode deixar de ser senão uma "idéia". Aqui, mas a de explorador de uma pequena porção do mundo, com vistas
ele será uma hipóstase, um ser abstrato ao qual se confere realidade a compor relações constantes ou leis gerais, sempre com base na expe-
existencial, uma projeção no mundo dos fatos de uma idéia logicamente rimentação puntual daqueles fatos .'2° Para o empirismo, portanto, a
construída. Sua efetiva realidade histórica e contingente e sua espessura substantivação do Estado nada mais é do que a projeção mistificada
imediata e concreta como ser de experiência política vivida se estio- para fora do sujeito de uma unidade apenas subjetivamente construída
lam, se esfumaçam no plano das referências puramente teóricas ou por associação de experiências, a respeito da qual não se pode encontrar
inteligíveis. O Estado ou sociedade política, nessa ordem de concepção, nenhuma realidade existencial correspondente. Nessa ordem de idéias,
se reduz somente ao que dele se pensa, a uma idéia ou a um sistema os elementos que representam ou venham a representar subjetivamente
lógico de conceitos, com irreparável perda do que dele se experimenta o Estado são considerados reciprocamente extrínsecos. Aqui, por der-
efetivamente na totalidade de nossa própria contingência existencial, radeiro, são os termos que se relevam como elementos discretos e
ou seja, no plano de nossa prática histórico-social. Portanto, o Estado
isolados e cujas conexões se dão " por fora ", ao sabor de experiências
se resumirá à idéia hipostasiada que temos dele e, por essa mesma
controladas ou particularizadas e habituais de cada um. 21
linha, o perderemos como realidade substancial singular e imediata,
Pelo desdobramento que realizamos acima, vê-se claramente a
engendrada pelas relações sociais efetivamente existentes, das quais
somos fautores e ao mesmo tempo produtos. Em última análise, são tendência para reduzir o Estado ou a um esquema substancialmente
as relações (lógicas) que se destacam e se tornam por si mesmas subs- lógico, no âmbito da concepção idealista, perfazendo-o como " idéia"
tantivas, em detrimento da especificidade de seus respectivos elemen- hipostasiada, ou a uma série de referências empíricas, no âmbito da
tos, os quais se debilitam de forma extrema ou até mesmo passam a
existir apenas em função da totalidade das relações do universo. 20 Ver, a respeito, Norberto Bobbio, "Ciencia del Derecho y Análisis del
Lenguaje", in Contribución a la Teoría deZ Derecho, org. Alfonso Ruiz Miguel,
Por outro lado, numa perspectiva empírico-subjetiva, o termo
Valência, Fernando Torres, Editor, 1980, pp . 178-184.
"Estado" se mostra apenas como uma expressão nominal que não
2 1 Ver. G. Bachelard, Epistémologie, 2." ed., Paris, PUF, 1974. Ver também
aponta para nenhuma existência substantiva, seja de caráter ideal, John Hospers, An Introduction to Phi/osophica/ Analysis, Nova Jersey, Prentice-
seja de caráter material. Sob esta concepção, os predicados estão Hall, 1967, pp. 287-348. Consulte-se o excelente trabalho de Leszek Kolakowski,
reunidos em função da experiência empírico-subjetiva, particularizada Tratado sobre la Mortalidad de la Razón , Caracas , Monte Avila, 1969, pp . 63-98.
68 ALAOR ÚAFF'É ALVES ESTADO E IDEOLOGIA 69

concepção empirista, configurando-o como experiência de dados asso- lativa, geralmente obtida a partir de uma certa distância em relação
ciados em função dessa mesma experiência. ao objeto analísado. Assim, embora não possamos ter experiência plena
Consideramos que essas concepções escamoteiam a questão essen- e direta da totalidade, como ainda veremos, o Estado só pode ser
cial relativa à substancialidade teórico-prática do Estado. A sociedade compreendido no âmbito de uma totalidade concreta de que estamqs
política não é nem uma relação de idéias, nem uma série de dados a
fazendo parte e respeito da qual não podemos ter apenas uma persp;c-
empíricos. Entretanto, não pode existir nem ser compreendida sem tiva à distância de caráter lógico-representativo. Nossas relações com
idéias e sem os dados da experiência. Esses ~!ementas são também a sociedade política são antes de tudo relações práticas e quaisquer
constitutivos de sua realidade; . porém, esta realidade não se reduz idéias que dela fazemos não só refletem tais relações como também
àqueles elementos. h preciso ter em conta, portanto, que as relações são de alguma forma determinantes dessa mesma experiência relaciona/.
não subsistem sem os termos que as integram e lhes dão o caráter h preciso, entretanto, consignar com muita clareza a questão
específico; contudo, os próprios termos conservam sua qualidade nas ontológica, visto que ela compreende, segundo nosso entendimento, o
e pelas relações que os interligam. Assim, não há Estado sem domínio mundo em sua realidade ôntica e axiológica. Essa linha de abordagem
político, sem poder territorialmente delimitado ou sem povo. Mas é de extrema importância para esclarecer as questões relacionadas com
cada um desses elementos só pode ter existência e sentido em razão o Estado enquanto objeto de determinações históricas, econômicas,
da totalidade das relações em que está inserido. Como é possível sociais, etc., configurado no mundo do ser, e o Estado como expressão
existir um poder político sem delimitação territorial ou sem uma do mundo ético, especificamente do mundo jurídico, da dimensão do
coletividade sobre a qual ele se exerce? Para que existiria o domínio dever-ser~ Não nos anima o enfrentamento da questão posta sob o
político se não houvesse contradições que dilacerassem o corpo social? ângulo da diferenciação absoluta entre o ser e o dever-ser, visto que, em
Tal processo se caracteriza por uma liTJha metodológica de aproximação nossa compreensão, esse ângulo rejeita a orgânica e dialétiCa unidade
dialética. Assim, este processo se determina, antes de tudo, pelo fato sujeito-objeto, cuja reflexão mais aprofundÍlda faremos logo a seguir.
de começar por determinações simples, e as seguintes são cada vez Por conseqüência, nos parece inválida a proposição que dissocia o
mais ricas e concretas. Em cada grau das ulteriores determinações se Estado como forma jurídica e como forma histórico-social. Mesmo os
levanta todo o conjunto de seu conteúdo precedente e, por seu processo grandes esforços teóricos para essa ·distinção, conservando o realismo
dialético, não só não perde nada nem deixa nada atrás de si, senão sociológico, como é o caso de Jellineck, estão fadados ao malogro,
que leva consigo tudo o que foi antes adquirido e se enriquece e se visto que partem da concepção kantiana do dualismo irredutível entre
faz mais denso em si mesmo. 22 os dois mundos, o do ser e o do dever-ser.2 3 A nosso ver, é insustentá-
Cumpre, entretanto, salientar o aspecto ontológico dessas relações vel tanto a redução do Estado ao mundo do ser, entendido de forma
e dos respectivos termos. Consideramos que tais relações e termos, unilateral, como algo exterior ao sujeito e subordinado a. determinações
especialmente porque se referem a objetos das ciências sociais, não causais, gerando o que foi conhecido como economicismo ou sociolo-
podem ser captados na sua autenticidade se não forem também pen- gismo estatal, quanto sua assimilação total ao mundo do dever-ser, ao
sados como envolventes de nossa própria existência aqui e agora, campo espiritual, também entendido de modo unilateral, como algo
enquanto escrevo ou sou lido. h preciso senti-los ao nível da vida externo à realidade histórico-social e caracterizado essencialmente pelo
afetiva e ao mesmo tempo experimentá-los no plano da vida prático- princípio à liberdade, engendrando o "normativismo estatal" de caráter
volitiva, isso tudo naturalmente além da compreensão lógico-represen- absolutamente autônomo.

22 Sobre esse processo, no plano da atividade cognoscitiva, ver G. W. F.


Hegel, Enciclopedia de las Ciencias Filosóficas, México, Porrua, 1973, §§ 223 23 Ver, a esse respeito, Georg Jellinek, Teoria General del Estada, Buenos
a 244, pp . 110-116. Aires, Albatros, 1970, pp. 19-38, 53-92, 101-135.
70 ALAóR CAFFÉ ALVES ESTADO E IDEOLOGIA 71

É preciso considerar que o dever-ser na perspectiva ortodoxa se de modo irredutível. Essa dicotomia está também presente na concepção
funda no plano axiológico, no plano dos valores: o que vale, exata- formal-normativista do Estado, como ocorre no pensamento de Kelsen,
mente porque vale, deve ser. Segundo a tradição kantiana, é corrente que se fundamenta no "axioma da oposição da natureza ao espírito,
afirmar-se que do mundo do ser não se passa para o do dever-ser; de segundo o qual a noção de 'realidade', no sentido próprio do termo,
um fato verificado como "é" não resulta que ele "deva ser". 24 Essa se refere à natureza compreendida como necessidade; e a noção de
linha recobre também a posição culturalista de Miguel Reale, por ideal se refere à sociedade entendida como liberdade e como espírito.
exemplo, quando admite o dualismo de modo subjacente ao dizer Reconhecer no Estado o caráter de realidade significa, segundo Kelsen,
que "do ser não se pode passar ao dever ser, mas a recíproca não é colocá-lo entre os fenômenos naturais, onde reina o princípio causal.
verdadeira: se os valores jamais se realizassem, pelo menos relativa- Entretanto, isso é inadmissível, se se parte do axioma de que o Estado
mente, nada significariam para o homem" .2 5 "Há possibilidade de é o reino do espírito. Kelsen combate as chamadas teorias 'sociológicas'
valores porque quem diz homem diz liberdade espiritual, possibilidade do Estado, adotando como argumento principal a tese de que, o ser,
de escolha constitutiva de bens, poder nomotético de síntese com isto é, a realidade com a qual operam estas teorias, se identifica com
liberdade e autoconsciência." 26 "O homem, cujo ser é o seu dever-ser, o 'ser natural', e que, portanto, é impossível classificar, dentro da
construiu o mundo da cultura à sua imagem e semelhança, razão pela mesma categoria dos fenômenos sociais, aqueles em que predomina
qual todo bem cultural só é enquanto deve ser, e a "intencionalidade a consciência e aqueles em que predomina a matéria inconsciente". 29
da consciência" se projeta e se revela comq intencionalidade trans- Com efeito, Kelsen não consegue captar o sentido dialético da unidade
cendental na história das civilizações." 27 Em alguns momentos, entre- sujeito-objeto, porque seu sistema identifica a realidade a uma massa
tanto, parece haver indicação de uma referência dialética mais acen-
passiva e amorfa em contraposição ao espírito que se revela como
tuada, especialmente quando Reale assevera que "os objetos culturais
ativo e criador. Nesse sentido, a atividade humana enquanto prática
são objetos derivados e complexos, representando uma forma de inte-
social não é tratada como ser consciente. "Sem embargo, se na explica-
gração de ser e dever-ser. Isto significa que a cultura não é por nós
ção desta importante questão não se adota semelhante metafísica
concebida - continua Reale - à maneira de Windelband, de Rickert,
ou de Radbruch, como 'valor': a cultura é antes elemento integrante, como ponto de partida, se se adota a dinâmica das noções dialéticas,
inconcebível sem a correlação dialética entre ser e dever-ser. Se ela se se toma em seu conjunto a relação da idéia com a realidade, será
marca uma referibilidade perene do que é natural ao mundo dos mais fácil compreender, neste caso, que a sociedade burguesa, com
valores, não é menos certo que, sem ela, a natureza não teria signifi- sua propriedade privada, é o substrato material, o lugar de nascimento
cado e os valores mesmos não seriam possíveis". 28 da 'superestrutura política e jurídica', isto é, das formas de consciência
Em nosso entender, tal plano de abordagem encontra suas limi- que medram sobre esse solo e que se manifestam como 'ideológicas'.
tações precisamente porque não consegue se desvencilhar dos prejuízos Neste caso, o Estado e o direito não podem ser explicados ideologi-
da posição dualista que separa, em última instância, o sujeito do objeto camente, como faz Kelsen, enquanto conteúdos particulares a autô-

24 Ver, nesse sentido, Miguel Reale, Filosofia do Direito, 10.• ed., São Paulo, 29 Cf. Ljubomir Tadic, Kelsen y Marx, "Contribución ai Problema de Ia Ideolo-
Saraiva, 1983, pp . 195-214. Ver também, do mesmo autor, Experiência e Cultura, gía en la Teoría Pura dei Derecho y en e! Marxismo", in Marx el Derecho y
São Paulo, Grijalbo EDUSP, 1977, pp. 171-211. el Estado, adapt. de Juan-Ramón Capella, Barcelona, Oikos-tau, 1969, pp. 120-121.
2~ Cf. Miguel Reale, Filosofia do Direito, op. cit., p. 192. Ver também Hans Kelsen, Teoria Pura do Direito, 3.• ed., Coimbra, Armênio
2~ Cf. Miguel Reale, op. cit., p. 212. Amado, 1974, pp. 10-162 377-425. No mesmo sentido, H. Kelsen, Teoría Gene-
27 Cf. Miguel Reale, op. cit., p. 213. ral de! Derecho y de! Estado, México, Universidad Nacional Autónoma de
28 Cf. Miguel Reale, op. cit., pp. 188-9. México, 1969, pp. 192-196, 215-229.
72 ALAOR CAF'Ft ALVES ESTADO E IDEOLOGIA 73

nomos 'de si mesmos', mas só através das relações históricas concretas raízes na concepção dualista, propicia o fetichismo do Estado e do
com o conjunto em que se manifesta a sociedade burguesa." 13 0 Direito como produt,os da Razão e da Vontade, cmde "tudo parece
Tal como Kant, Kelsen aceita uma causalidade externa referida passar-se entre pessoas: as que mandam e as que obedecem, as que
ao mundo natural; porém, ainda propugna pela extensão do reino da possuem, as que trocam, as que dão, etc. Tudo parece ser objeto
necessidade causal (determinismo) ao mundo dos homens em suas de decisão, de vontade, numa palavra, de Razão. Jamais aparece a
relações fáticas sociais e econômicas, onde, sob esse aspecto relaciona!, densidade de relações que não são queridas, de coisas às quais os
não haveria lugar para o mundo ideológico (no sentido de Kelsen), homens estariam ligados, de estruturas constrangedoras, porém invisí-
para o mundo dos fins espirituais, para o plano do dever-ser. Se o veis" .'3 2
mundo inteligível, para usar a linguagem de Kant, pode contrapor-se Dessa forma, retornando ao plano mais geral das relações onto-
como reino da liberdade ao mundo sensível (reino da necessidade), lógicas, o discurso sobre o Estado implica imanência e transcendência
isso se deve exatamente porque se desconhece - em Kant - ou se ao mesmo tempo. Existimos no interior de uma vivência política, sem
elimina conscientemente por motivos "metodológicos" - em Kelsen distância e freqüentemente sem consciência clara das relações envol-
- a presença do mundo social experimentado precisamente como prá- vidas. Entretanto, essas relações, em suas conexões ontológicas, trans-
1
xis social.a :É evidente que neste mundo sobressaem muito mais fato- cendem nossa experiência imediata e sua verdade ultrapassa o nível
res determinantes da vontade do que aqueles que se podem identificar do dado . A percepção de um fato originado da ação do Estado - a
na "natureza". Numa análise mais aguda, pode-se observar, inclusive, repressão policial, a publicação de um ato legislativo, a condução de
que a própria natureza não Se manifesta senão de forma humanizada, um condenado pela justiça ao cárcere, por exemplo - não constitui
dentro de um mundo histórico-social que condiciona seus próprios por si só verdadeiro saber a seu respeito. O conhecimento supõe mane-
limites. jo de relações e, por conseguinte, a integração da experiência em
As considerações feitas acima, a respeito da posição dualista, unidades que excedem seu conteúdo atual e concreto. O autêntico
mostram o solo onde vicejam as mistificações ideológicas que perfa- conhecimento sobre o Estado se apóia na experiência imediata, porém,
zem obstáculos epistemológicos à compreensão integrada da realidade exatamente para superá-la e alcançar aquilo que se mostra incomple-
social. :É por isso que, ao tratarmos do Estado, nos encontramos a tamente nela. 3a Como os fatos sociais e políticos se integram historica-
todo instante com a tendência para considerá-lo como algo isolado e mente, a série temporal desses fatos exprime uma organicidade própria,
como produto do Espírito, da pura Razão. Nesse sentido, o homem vinculando dialeticamente fatores necessários e contigentes, e cuja
projeta para o Estado e para seus produtos (o Direito, por exemplo) plena compreensão e determinação histórica se realizam mediante a
as suas próprias qualidades: a razão e todas as suas potencialidades, atividade teórico-prática dos agentes sociais. Isso quer dizer que cada
além de sua vontade enquanto expressão viva e deliberativa de relações fato aponta tanto para o passado, do qual é produto regido por certas
conscientes entre meios e fins. Nessa linha predomina o voluntarismo leis, quanto para o futuro, a respeito do qual se põe como condição
estatal (e jurídico), vinculado estreitamente ao subjetivismo humanista, aberta a múltiplas possibilidades.
traduzindo suas bases idealistas como se fosse possível compreender Entretanto, cumpre-nos salientar que o real como totalidade jamais
o Estado (e o Direito) independentemente de outras dimensões do todo nos é dado em termos de experiência direta. Esta nos oferece o acesso
social, desvinculado da estrutura global que realiza a formação social ao real, mas não o próprio real. O Estado, portanto, como totalidade
capitalista. Com efeito, tal abordagem subjetivista, escamoteando suas
32 Cf. Michel Miaille, Une lntroduction Critique au Droit, Paris, François Mas-
ao Cf. Ljubornir Tadic, op. cit., pp. 123-124. pero, 1976, p. 107.
31 Ver, nesse sentido, Carlos Pereyra, El Sujeto de la Historia, Madri, Alianza 33 Ver, nesse sentido, Jorge Millas, /dea de la Filosojía, el Conocimiento, I,
Editorial, 1984, pp. 123-134.
Santiago de Chile, Universitaria, 1969, pp. 19-20.
74 ALAOR CAFFÉ ALVES
ESTADO E IDEOLOGIA 75

real não se oferece como presença imediata, e sim através de suas modo no princípio e no final do processo histórico-social em que
múltiplas e variadas formas históricas de aparecer. Pode-se notar, ele se realiza, e é exatamente esse fato que confere a tal processo sua
contudo, que a totalidade das relações estatais não se apresenta senão unidade e necessidade ontológicas; em outras palavras, não se trata
dentro de um processo histórico em que se desenvolve a essência de unidade e necessidade introduzidas tão só pelo pensamento humano,
estrutural objetiva do Estado, figurando uma existência substancial visto que é a própria estrutura da essência real em processo que as
dialética. Mas por que as experiências pontuais a respeito do Estado, exige:H
fundadas na presença imediata deste, apontam para aquela realidade A realidade do Estado é, pois, um produto teórico-prático que
ontológica substancial sem cuja suposição as experiências mesmas tem seu fundamento na experiência desenrolada historicamente e con-
não teriam sustentação no plano existencial? A nosso ver, isso ocorre forme determinadas condições objetivas. Essa experiência se perfaz
exatamente porque o Estado não se pode explicar apenas mediante igualmente em função da representação ideal ou do processo teórico
as determinações que realizam o processo histórico de sua objetiva- pelo qual a pensamos e a construímos: ela nos permite construir a
ção; mas, além disso, coincide com a explicação final dessas deter- realidade da sociedade política mediante uma práxis social traduzida
minações, de modo que a essência dialética do Estado se encontra de por sondagens teóricas sucessivas ou imersões descontínuas e contin-
certa forma no princípio e no final daquele processo. Se, de um lado, o gentes ao longo de sua própria história. A experiência do Estado,
real como totalidade plena não pode ser experimentado exatamente como ser real, é o sentido prático-objetivo que unifica uma série de
nessa condição, de outro lado, seu ponto de apoio não se esgota na experiências, em que cada uma delas é apqnas um ponto de contato
simples série das determinações particularizadas que caracterizam o com um corpo objetivo extremamente amplo da realidade social não
modo de aparecer do Estado na experiência histórica. Evidentemente, acessível imediatamente, aqui e agora. A direta experiência do político
para superar o substancialismo aristotélico, de caráter estático e meta- é sempre esta determinada experiência, ou seja, a do instante e do
físico, propugnamos por uma linha de pensamento que concebe a so- espaço singulares de nossa situação. Entretanto, essa experiência impli-
ciedade política como uma unidade que se vai formando através de ca uma co-presença ou horizonte do mundo político-social que a
múltiplos momentos. cada um dos quais, incluindo o homem como mergulha no contínuo de todas as experiências possíveis. Assim, por
sujeito ativo da ação política, é parte integrante da unidade essencial exemplo, a repressão a uma greve de trabalhadores aponta para o siste-
objetiva. Assim, não se pode compreender a unidade do Estado disso- ma social como um todo, subjacente aos fatos e confinado à zona
ciada da série dos momentos histórico-empíricos em que ele mesmo marginal de nossa própria consciência. A repressão à greve leva-nos a
se produz. Isso significa que o Estado não representa jamais uma considerar a ordem jurídica positivada; as autoridades repressoras; o
unidade perfeita em si, sobre a qual se sobreponham qualidades ou aparelho administrativo-policial; o sistema econômico-social existente;
determinações como entidades distintas ainda que dependentes; o liame a política salarial; a estrutura das relações de propriedade dos meios
entre a unidade substancial do Estado e suas determinações históricas de produção; o estado crítico dos conflitos de classes; a distribuição
é internamente dialético e ativo, sendo que essas determinações reali- social das riquezas; a conjuntura política, etc. Mas tudo isso, que é
zam aquela unidade e explicam-lhe a estrutura. Entretanto, para esse pressuposto ontológico da percepção da violência que agora presencio,
efeito é preciso considerar o nexo necessário entre a unidade do Estado não está em contato atual comigo, como uma presença real compre-
e as determinações históricas que a realizam, e isso precisamente dentro endida imediatamente em sua totalidade. Desse modo, a visão real
de bases reais e segundo suas próprias leis internas, a fim de que como totalidade presente, a experiência imediata de seu conjunto pleno,
evitemos confundir tal vinculação com o movimento artificial da não a temos em sentido estrito.
" Idéia", como ocorre na dialética abstrata hegeliana. Nesse sentido,
M Ver, nesse sentido, Mario Dal Pra, La Dialettica in Marx, Bari (Itália), La-
a essência real - e não abstrata - do Estado encontra-se de certo terza, 1965, pp . 98-113.
76 ALAOR CAFFÉ ALVES ESTADO E IDEOLOGIA 77

A experiência puntual e fragmentada ·do momento, com a exclusão deve se encaminhar a sociedade, como algo que a integra e a polariza
do passado e do possível, não vicejada pelas relações integradoras da para constituí-la, a .partir de "fora", como ordem racional de liberdade.
práxis social, condena-nos a permanecer na superfície dos fatos, a não A expressão mais viva dessa doutrina formula-se no âmbito do idealis-
penetrar e ultrapassar a opacidade fática das coisas. Assim, a expe- mo alemão dó início do século XIX, com Hegel à frente; nele, o Estado
riência imediata do político é apenas um ponto de contato que exige, se destaca como idéia hipostasiada em relação à sociedade onde os
para a apreensão de sua efetiv11 realidade, a superação da presença interesses estão em conflito. O Estado é proposto, assim, como uma
atual pela construção de exepriências possíveis orientadas para a trans- ordem racional na qual os conflitos de interesse encontram sua harmo-
formação do real e integradas pela reconstrução de experiências pas- nização e síntese, tornando possível a liberdade que transcende de
sadas, sempre a nível da ação social contínua e da representação modo dialético a mera necessidade.36 Assim, para Hegel, "o Estado é
teórico-prática correspondente. Toda experiência sobre questões polí- a realidade em ato da Idéia moral objetiva, o espírito como vontade
ticas, exatamente por ser função da realidade do Estado, é também substancial revelada, clara para si mesma, que se conhece e se pensa,
momento de um processo que aponta essencialmente para um hori- e realiza o que sabe e porque sabe".137 "O Estado, como realidade em
zonte de totalidade que lhe confere plenitude de sentido. Isso significa ato da vontade substancial, realidade que esta vontade adquire na
que toda experiência imediata reclama sua integração nesse contexto consciência particular de si enquanto universalizada, é o racional em
de experiência passada reconstruÍda - não arbitrariamente, mas se- si e para si: esta unidade substancial é um fim próprio absoluto, imó-
gundo as leis que lhe são imanentes - e de experiência futura possí- vel; nele a liberdade obtém o seu valor supremo, e assim este último
vel, fundada naquela experiência passada, perfazendo, desse modo, a fim possui um direito soberano perante os indivíduos que, por serem
membros do Estado, têm o seu mais elevado dever."~
8
totalidade do real.135
Prosseguindo nessa ordem de idéias, convém frfsar novamente Para escapar dessa linha mistificadora do Estado, cumpre consi-
que a totalidade do real político não se consubstancia a partir da derar o verdadeiro lugar onde se consubstancia o fundamento político
idéia abstrata que temos dele. Vertendo nossa atenção para o campo da sociedade. Referimo-nos ao homem. Os homens são os verdadeiros
da experiência imediata, não vemós o Estado como tal; isso está fautores da vida política e da História; eles é que fazem a História.
claro. Entretanto, podemos nos encontrar, pelo lado oposto, com a Entretanto, se atendermos apenas a essa fórmula, não elidimos o risco
posição idealista pela qual o Estado é uma idéia ética a ser realizada, de interpretar o processo político como decorrente de manifestação
em função da qual o mundo fático dos homens concretos, caracterizados da natureza humana ou da mera vontade dos indivíduos. Se, de um
pelas relações sociais, passa a ter realidade efetiva apenas enquanto lado, afastamos a idéia de que o processo histórico-político é o resultado
. sejam, esses homens, agentes perpetradores daquela idéia astuciosa. da intervenção de alguma entidade transcendente, de caráter supra-
Tendo ou não consciência disso, os homens concretos, nessa concepção, humano, de outro, podemos recair numa abstração do indivíduo, con-
realizam, através de suas ações individuais, os objetivos impostos pela signando nele a origem absoluta daquele processo. Colocar no lugar
totalidade abstrata do Estado. O real concreto, então, fica subordinado do homem individual concreto a idéia ou o espírito objetivo, cuja
ao ideal mistificado, a uma abstração que toma a si a tarefa de compor
e realizar o mundo tal como o vemos e experimentamos na sua com- 36 Ver Torcuato Fernández-Miranda, Estado y Constitución, Madri, Espasa-
plexidade e singularidade viva. Neste passo, o Estado não aparece como Calpe, 1975, pp. 209-232.
algo subordinado à sociedade, como produto de relações sociais; ele 37 Cf. G. W. F. Hegel, Princípios da Filosofia do Direito, Lisboa, Guimarães

é, ao contrário, uma .finalidade, um horizonte pata onde caminha e Editores, § .257, p. 246.
as Cf. G. W. F. Hegel, op. cit., § 258, p. 247. Para uma crítica do idealismo
objetivo de Hegel a respeito do Estado, ver K. Marx, Crítica de la Filosojía del
35 Ver Jorge Millas, op. cit .. pp. 30-32. Estado de Hegel , 2." ed., Buenos Aires, Claridad, 1973.
78 ALAOR CAF'Flll ALVES ESTADO E IDEOLOGIA 79

evolução demarca o ~róprio sentido do processo histórico-político, é o sujeito motor da História, à margem da intervenção ativa dos homens,
pressupor de maneira idealista que tal processo se explicaria sem o por outro, não se pode levar a sério que os homens a realizam inde-
homem real, isto é, como movimento autônomo da consciência, das pendentemente de quais sejam as condições existentes. Nem mesmo
idéias, prescindindo de sua base histórica e social. "A concepção de é admissível que haja recíproca influência entre circunstâncias dadas
história de Hegel pressupõe um espírito absoluto ou abstrato, a se e atividade humana; isso seria admitir uma relação de exterioridade
desenvolver de maneira tal que a humanidade não é mais do que uma entre tais elementos. A grande questão se coloca, portanto, na perspec-
massa que lhe serve de suporte mais ou menos conscientemente. Dentro tiva dialética pela qual se deve entender que as circunstâncias condi-
do quadro da história empírica (objetiva), compreensível por todos, cionantes da ação histórica não são algo dado "por fora" dos próprios
Hegel introduz a operação de uma História especulativa, reservada aos agentes sociais; elas não perfazem coisas ou entidades alheias aos
iniciados. A história da humanidade passa a ser a história do espírito homens; compreendem, por isso mesmo, as formas existentes da cons-
abstrato da humanidade, um espírito acima e além do homem real." 139 ciência social, a organização das forças sociais, a ordem jurídica, as
Porém, ao apontar para o indivíduo concreto, dentro de uma perspecti- condições técnicas de manipulação dos meios de produção, etc. Isto
va humanista, considerando-o como ponto de partida para o exame quer dizer que as condições subjetivas também fazem parte, e necessa-
da realidade do Estado, não indicamos senão outra possível vertente riamente, das circunstâncias histórico-objetivas. 42
do idealismo que reduza a explicação das iniciativas políticas tão só Neste ponto, cumpre-nos ainda enfatizar o resgate que procura-
às intenções, propósitos, espectativas, motivos, objetivos ou idéias de mos fazer a respeito de como se deve entender, para nossa análise
tais indivíduos, como se neles fosse possível encontrar o fundamento do Estado, o complexo das relações subjacentes às suas manifestações
último do processo histórico-político. Na realidade, esses fatores sub- exteriores. 43 Já apontamos para os prejuízos da consideração mecani-
jetivos também precisam ser explicados; fazem parte, precisamente, cista das relações que se interpõem de forma abstrata entre termos
daquilo que deve ser explicado .40 pré-existentes. Se atentarmos para a perspectiva do humanismo indi-
Este ponto merece ainda maior elucidação, especialmente no to- vidualista, onde, em nome da irredutibilidade da práxis, se entende
cante ao processo histórico em que se concretiza a sociedade política. que vontade, consciência e intenção dos homens não estão inteira-
Em O 18 Brumário, Karl Marx diz que "os homens fazem sua própria mente determinadas pelas circunstâncias dadas, então o prejuízo antes
história, porém não a fazem por seu livre arbítrio, sob circunstâncias apontado se faz gravemente presente, visto que passamos a considerar
escolhidas por eles mesmos, senão sob aquelas circunstâncias com que novamente uma relação de exterioridade entre sujeito e objeto, como
se encontram diretamente, que existem e lhes são legadas pelo passa- se estes fossem termos pré-existentes conectados por uma relação que
do".41 Desse modo, os homens não se propõem em cada situação
(
histórica a um fim indeterminado qualquer; escolhem os objetivos que
42 Ver Carlos Pereyra, op. cit. , p. 14. Sobre a relação entre indivíduo e História,
a própria situação lhes possibilita e condiciona, em razão do contexto consulte-se a obra organizada por Massimo Canevacci, Dialética do Indivíduo,
econômico-social, político e ideológico em que estão imersos. Entre- O Indivíduo na Natureza, História e Cultura, 2.• ed., São Paulo, Brasiliense,
tanto, se por um lado não se pode sustentar que as circunstâncias sejam 1984. Idem, com relação às questões políticas, C. B. Macpherson, A Teoria
Política do Individualismo Possessivo, de Hobbes a Locke, Rio de Janeiro, Paz e
Terra, 1979. No plano filosófico, consulte-se Karl Lowith, De Hegel a Nietzsche,
an Cf. K. Marx e F. Engels, A Sagrada Família, Lisboa, Presença, 1974, p. 128. Buenos Aires, Sudamericana, 1974, especialmente pp. 293-325. Idem, Adam
4° Ver, nesse sentido, Carlos Pereyra, El Sujeto de la Historia, Madri, Alianza Schaff, O Marxismo e o Indivíduo, Rio de Janeiro, Civ. Brasileira, 1967, pp.
Editorial, 1984, 11-12. Ver também Jean-Paul Sartre, Critique de la Raison 53-112, 153-182. Idem, Henri Lefebvre, La Fin dell'Histoire, Paris, Minuit, 1967.
Dialectique, I, "Théorie des Ensembles Practiques", Paris, Gallimard, 1960, 4 3 Para o aprofundamento do conceito de práxis histórica, ver o excelente tra-
PP- 81-156. balho de Adolfo Sánchez Vázquez, Filosofia da Práxis, Rio de Janeiro, Paz e
4! Cf. Karl Marx , O 18 Brumário. op. cit., p . 17. Terra, 1968, pp. 317-372.
80 ;-ALAOR CAFFÉ ALVES ESTADO E IDEOLOGIA 81

lhes é estranha e contingente. Por outro lado, ao admitir que a atuação destruir, através de uma aplicação metodológica puramente analítica,
dos homens está inteiramente determinada pelas circunstâncias ante- de caráter lógico-formal, a própria realidade unitária pela qual tais
riores, somos conduzidos a negar sua participação consciente no movi- momentos ganham sua especificidade. Por isso é que os homens fazem
mento da História segundo fins propostos pela vontade autônoma dos parte da situação dada, não por ato de sua consciência e vontade, e,
agentes sociais, equivalendo de certo modo a afirmar que estes estão no âmago dessa situação, a transformam continuamente mediante a
plenamente determinados pelas condições objetivas do processo histó- práxis criadora. 4 5 As circunstâncias não existem sem os homens, nem
rico. Neste caso, vemo-nos envolvidos pela perspectiva do determinismo estes existem sem aquelas. Tais circunstâncias são a condição e o
mecanicista, resultante igualmente da linha metodológica que aponta pressuposto do agir; entretanto, o agir, por seu turno, confere àquelas
para a exterioridade dos termos considerados com-;> existentes inde- circunstâncias um sentido determinado. Karel Kosik exprime essa dialé-
pendentemente das relações que os unem. tica afirmando que "o homem supera (transcende) originariamente a
Se não há consciência, vontade ou intenção possível à margem situação não com a sua consciência, as intenções e os projetos ideais,
das circunstâncias determinantes, o que concorre para bloquear toda mas com a práxis. A realidade não é um sistema dos meus significados,
tendência a explicar o processo histórico a partir de uma consciência nem se transforma em função dos significàdos que atribuo aos meus
abstrata, uma vontade indeterminada ou uma intenção pura, não há planos. Mas ·com o seu agir, o homem inscreve significado no mundo
igualmente uma determinação direta daquelas formas subjetivas por e cria a estrutura significativa do próprio mundo". Prosseguindo na
parte de fatores "externos" que possam exprimir circunstâncias objeti- linha ~o exemplo, Kosik agrega: "para um servo da gleba a 'situação
vas independentes da ação dos próprios homens. O conteúdo da cons- dada' é imediatamente condição natural de vida; mediatamente, através
ciência e a intencionalidade da vontade, por não terem em si mesmos da sua atividade, na revolta ou na insurreição camponesa, ele lhe
sua razão de ser, apontam para análise das circunstâncias econômicas, atribui o significado de prisão; a situação dada é 'mais' do que uma
políticas e ideológicas determinantes que de certo modo explicam sua situação dada e um servo da gleba é 'mais' que mera parte da situação.
origem. Porém, essas circunstâncias implicam necessariamente as con- A situação dada e o homem são os elementos constitutivos da práxis,
dições subjetivas que envolvem as formas de consciência; isso quer que é a condição fundamental de qualquer transcendência da situação.
dizer que tais circunstâncias não se personalizam " por fora " da própria Os homens agem dentro da situação dada e na ação prática conferem
práxis, sob pena de se considerar o processo histórico dirigido por um significado à situação".46
forças estranhas aos agentes sociais. 44
Por essa ponderação se pode verificar que o acontecimen_to his-
45 Na caracterização da objetividade como processo, na qual se inclui a práxis
tórico integra-se mediante dois momentos orgânica e dialeticamente
transformadora, Gramsci destaca a unidade daquele proces~o, pondo em relevo
interdependentes: o da situação histórico-social e o da intervenção dos o momento subjetivo: "Sem o homem, que significaria a realidade do universo?
que nela atuam. Nem mesmo se pode afirmar que são complementares, Toda ciência está ligada às necessidades da vida, à atividade do homem. Sem
visto que isso demandaria compreendê-los ainda na perspectiva do a atividade humana, criadora de todos os valores, e também dos valores cientí-
dualismo em que os termos se põem de forma autônoma. Na verdade, ficos, que significaria a objetividade? Não outra coisa que o caos, o vazio, se
assim se pode dizer. Porque, realmente, se se imagina que não existe o homem,
esses momentos integram uma realidade unitária, onde cada aspecto
não se .pode imaginar a língua e o pensamento. Para a filosofia da práxis, o
mantém sua identidade em razão da oposição mesma, e esta, ao mesmo ser não pode separar-se do pensar; o homem, da natureza; a atividade, da
tempo, se apresenta como tal pela identidade de cada aspecto. A tenta- matéria; o sujeito, do objeto; se se faz esta separação, mergulha-se em outras
tiva de compreender esses momentos fora da relação dialética implica tantas formas de religião ou de abstração sem sentido" ; Cf. A. Gramsci, El
Materialismo Histórico y la Filosofía de Benedetto Croce, Buenos Aires, Nueva
44 Ver, nesse sentido, Adolfo Sánchez Vázquez, op. cit., pp. 185-202. Ver Visión, 1973, p. 63.
também Carlos Pereyra, op. cit. , pp. 16-17. 46 Cf. Karel Kosik, Dialéctica de lo Concreto, México, Grijalbo, 1967, p. 259.
82 ALAOR Cl\FFÉ ALVES ESTADO E IDEOLOGIA 83

Neste ponto acreditamos estar em condições de retomar a questão não se configura em uma instância meramente subjetiva e singular,
a respeito de se indivíduos concretos são ou não os elementos fun- alheia e oposta ao conjunto das relações sociais. Daí porque os motivos
dantes da realidade política. É bom recordar que essa questão se da ação social, não se inscrevendo em uma pura vontade incondicio-
coloca apara o efeito imediato de elidir a concepção de caráter idealis- nada, somente se tornam inteligíveis mediante a análise das relações
ta, segundo a qual o processo histórico-político deflui de uina idéia sociais. É preciso, contudo, notar que tal consideração não deve levar
hipostasiada, supra-individual, que emprestaria sentido e realidade à à tendência de substituir o indivíduo no plano das práticas sociais. 47
ação concreta dos homens~ Para uma correta abordagem desse ponto, Os que agem são os indivíduos concretos, não as relações sociais. Se
é . preciso considerar a maneira pela qual se deve enfocar o conceito as ocorrências sociais têm seu início necessariamente nas atividades
de indivíduo enquanto sujeito da ação social. Ao nos afastarmos da humanas, seu fundamento, entretanto, não se encontra apenas nestas
idéia metafísica de uma entidade supra-individual como base da rea- últimas. Isso porque essas atividades, conquanto sejam humanas e
lidade política, a tendência é buscar essa base no sujeito individual, concretas, encarnam, elas próprias, as relações sociais existentes em
sujeito este que se manifesta igualmente ao nível de nossa experiência determinada situação histórica. É preciso muita cautela neste terreno
imediata, Essa concepção parte da idéia de que o único concreto .é o para não resvalar nas falácias quer do objetivismo absoluto das rela-
indivíduo, sendo os "conjuntos supra-individuais" meras abstrações. A ções sociais, demarcando-lhes forma entificada independente dos agen-
questão que se coloca, então, é a seguinte: é possível compreender os tes sociais, transformando os indivíduos em meros instrumentos de
indivíduos à margem das relações sociais, isto é, fora das relações em entidades abstratas, quer do subjetivismo do indivíduo concreto pos-
razão das quais transcorre sua existência? suidor de uma vontade incondicionada e transcendente, misteriosa e
Se a organização social não se reduz a uma simples soma de ininteligível, indutora dos acontecimentos históricos "por fora" das
práticas interindividuais, o indivíduo enquanto tal, por paradoxal que próprias relações sociais. Isso seria novamente produto do dualismo
pareça, só . pode ser considerado como uma instância abstrata, exata- metafísico já denunciado.
mente porque sua caracterização não decorre de uma singular "nature- Se os indivíduos não podem se reduzir às relações sociais, também
za" que por si só o especifique como indivíduo personalizado e autô- não podem deixar de ser uma síntese de múltiplas determinações
nomo. Assim, não existem sujeitos individuais concretos antes das provenientes delas. A questão se coloca em torno da identificação do
relações sociais pelas quais ganham sua própria determinação; tais ponto de partida em razão do qual se pode buscar uma interpretação
relações, entretanto, se perfazem "em" e "através" dos indivíduos. inteligível dos fatos histórico-sociais e, por conseqüência, das relações
Novamente se apresenta aqui nossa rejeição ao dualismo metafísico no plano da sociedade política. Parece-nos que, ao nível da explicação
que con'sidera os termos independentemente da existência da relação do processo histórico-político, o indivíduo abstratamente considerado
que os integra e caracteriza. Assim, indivíduos e relações sociais não não se presta como ponto de partida, visto ser inadequado, à explícita-
constituem duas realidades separadas, não podendo aqueles serem
abstraídos das relações sociais que lhes dão realidade e significado. 47 Um posicionamento tendencial para essa substituição podemos encontrar na
Por essa razão não é indiferente, ao indivíduo, a situação histórica e defesa da teoria do papel, no âmbito da Sociologia funcionalista: ·A sociedade
as relações sociais que o configuram; isso induz à consideração de determina não só o que fazemos, como também o que somos. Em outras
que não existe uma essência da individualidade que permaneça idên- palavras, a localização social não afeta apenas nossa conduta; ela afeta também
nosso ser ( ... ). O significado da teoria do papel poderá ser sint_etizado dizendo-
tica a si mesma, com independência das condições histórico-sociais
se que, numa perspectiva sociológica, a identidade é atribuída socialmente,
onde os sujeitos individuais concretamente se conformam. Vale dizer sustentada socialmente e transformada socialmente". Cf. Peter Berger, Perspec-
que a caracterização da individualidade, através das manifestações tivas Sociológicas, uma visão humanística, 6." ed., Petrópolis, Vozes, 1983, pp.
específicas de consciência, vontade, intenções, expectativas e ações, 107 e 112.
84 ALAOR CAFFÉ ALVES ESTADO E IDEOLOGIA 85

ção plena desse processo, o equacionamento com base na teoria das nas diversas etapas da evolução da sociedade, conforme pertença a
motivações e propósitos da ação, exatamente porque tal processo não uma ou outra das classes e camadas da mesma sociedade. Um homem,
se funda na mera soma de ações individuais, mas, em conexões sociais constituído só à. base de propriedades biológicas gerais, e à base de
econômico-políticas e ideológico-culturais. 4 8 Em outras palavras, a propriedades que cabem a todos os homens - em contraste, por
consciência, a vontade, as espectativas e as intenções dos agentes sociais exemplo, com outros mamíferos - , fica reduzido a um 'homem
por si sós não explicam, mesmo numa conexão intersubjetiva, a tecitura abstrato', um homem 'em geral', em oposição à concepção concreta
das relações sociais; estas relações é que dão o fundamento inteligível do homem em sua relação social - como membro de uma determinada
para a compreensão das iniciativas subjetivas que dinamizam o proces- sociedade, numa determinada etapa da evolução histórica, como per-
so histórico-político no interior da práxis social. ~ por essa razão que tencente a uma determinada classe e com um lugar determinado na
49
do indivíduo isolado não cabe extrair uma essência humana; esta não divisão social do trabalho, em relação ao grupo social, à cultura etc." .
é algo abstrato imanente a cada indivíduo isoladamente considerado; Essa concepção, por conseguinte, refoge tanto da perspectiva
a essência do homem se exprime como conjunto das relações sociais, generalista, pela qual se compreende o homem como um ser incluído
compreendidas, por conseqüência, não como vínculos externos e con- em um estatuto indiferenciado, abstrato e universal, igual para todos
tingentes relativamente aos sujeitos individuais, mas . como conexões os tempos, quanto da visão empirista que busca em cada indivíduo, em
indispensáveis para a determinação da própria individualidade. Isso suas intenções e aspirações, a representação do fundamento último
significa que é tarefa inútil procurar propriedades humanas à margem do processo histórico-social.
do curso do processo histórico e das relações sociais; neste plano não Finalmente, para completar essa ordem de idéias, convém apontar
se pode descobrir o indivíduo em geral, em qualquer momento histó- para a assimetria entre os fins propostos pelos indivíduos no processo
rico, como se fosse um exemplar da essência humana, indiferente às histórico-político e o que realmente ocorre. Há, de certo modo; uma
condições e circunstâncias concretas que especificam cada momento contradição entre a intenção de realizar determinados objetivos por
ou período histórico. Por essa razão, em cada sociedade encontraremos parte dos sujeitos históricos, manifestada por seus esforços e ação
somente indivíduos determinados, modelados em função das condições prática, e o fato de que no processo se observam resultados não
singulares da formação econômico-social em que estão integrados, desejados por ninguém. Hegel já havia consignado que mediante as
incluindo suas condições de vida, de classe social, de trabalho, de ações dos indivíduos, na história universal, algo diferente daquilo
exploração e de Juta. Assim, os indivíduos se caracterizam pelas relações que eles projetaram se produz; realizam seus interesses; entretanto,
· sociais concretas que eles mesmos integram com sua práxis social; por com isso produzem outra coisa que estava implícita nesses interesses,
isso, eles não são simples entes "naturais"; são seres sociais, cons- mas que não estava na consciência nem na intenção daqueles indiví-
tituídos por e ao mesmo tempo constituintes da posição que ocupam duos. 50 ~ nessa linha que Hegel concebe um "sentido" que se torna
no processo histórico-social em que transcorre sua vida real. A distinção racional em virtude de um fim último que transcende a ação dos
entre o indivíduo "natural" e o indivíduo "social" deve ser aqui homens concretos. Esse fim é que permite a ordenação racional e
destacada para se evitar os prejuítos do reducionismo metafísico. Nesse necessária da prática histórica, conferindo sentido ao caos aparente
: sentido, "o homem, além de ser um produto da evolução biológica das das ações individuais isoladas. Nessa perspectiva, os indivíduos não
espécies, é um produto histórico, um produto de certa forma mutável passam de meros instrumentos de uma razão astuciosa, de um fim

48Ver Carlos Pereyra, op, cit., pp. 28-32. Para maior compreensão da relação 49 Cf. Adam Schaff, op. cit., p. 65.
indivíduo e sociedade sob o enfoque do fetiche e do culto do indivíduo, ver 50 Ver G . W. F. Hegel, Leçons sur la Philosophie de l'Histoire, Paris, Vrin,
István Meszáros, Marx: A Teoria da Alienação, Rio de .Janeiro, Zahar, 1981, 1946, p. 55. Ver também Jacques D'Hondt, Hegel , Filósofo de la Historia
pp. 229-259. Viviente, Buenos Aires, Amorrortu, 1971, pp. 150-171.
86 ALAOR CAF'Fll: ALVES

último para o qual não contribuíram conscientemente.61 Por certo


esta concepção providencialista colide diretamente, e nisto está a sua
virtude, com a concepção heróica da História, a qual postula serem
a intenção consciente e o fim desejado por certos homens privilegiados
as determinantes da direção do processo histórico.
Em ambos os casos há prejuízo para a compreensão do processo
real. A nosso ver, a dinâmica que preside o processo é decorrente de
seu caráter unitário e dialético, cujos elementos constituintes são
mutuamente determinantes e excludentes. Não há História sem a ação
dos indivíduos concretos e determinados; mas esta ação se realiza
em função do processo e de sua lei interna; o caminho da História
Segunda parte
não é arbitrário nem caótico; ele guarda um certo sentido, uma certa
direção . Entretanto, esse sentido é ele mesmo outorgado pelas ações
Questões substanciais
vivas e reais dos indivíduos; não ações no vazio, mas confluentes no
âmbito das relações sociais que elas mesmas integram e concretizam.
Isso significa que a ação do sujeito histórico é determinante e, ao
mesmo tempo, determinada em relação ao processo. A cada passo,
ele precisa tomar iniciativas em razão do peso das iniciativas passadas
já cristalizadas pela sua própria ação histórica. Suas intenções e ações
sofrem sempre o corretivo das múltiplas formas econômico-políticas e
ideológico-culturais, de certo modo regulares, que perfazem o real
humano, e das quais ele mesmo é fautor e mantenedor. Nesse sentido,
concluímos que o sujeito é formado como tal pela ação que pratica
e em razão da qual tenta realizar, num plano histórico-social definido,
suas intenções e projetos; ele não é exterior a essa ação e, num só ato,
compreende as circunstâncias presentes, passadas e, de certo modo, as
futuras; por isso, ele não age senão dentro de um contexto histórico
concreto, formado por relações sociais determinadas e dotadas de certa
regularidade, para cuja constituição e dinâmica ele mesmo contribui
essencialmente com o, próprio ser, isto é, com a própria ação circuns-
tanciada.

~ .1 Ver Karel Kosik, op. cit., pp. 249-250. Para maior compreensão da temática,
ver Adolfo Sánchez Vázquez, op. cit., pp. 317-372. Ver também Adam Schaff,
Histoire et Verité , Paris, Anthropos, 1971.
Estrutura social e
relações intersubjetivas

Para o adequado encaminhamento da questão da realidade do


Estado, especialmente no que respeita às relaçõe~ entre a comunidade
política e a comunidade civil, cumpre-nos apontar, em seguimento
das abordagens até agora realizadas quanto ao problema do sujeito
histórico, a diferença no plano sociológico entre a concepção funcio-
nalista e a concepção crítico-dialética a respeito da estrutura social,
ou seja, dos elementos que constituem a base da existência coletiva.
De conformidade com a perspectiva funcionalista , os fenômenos
estruturais da sociedade, isto é, aqueles que compreendem a recíproca
movimentação, cooperação, contrastação, oposição e conflitos entre
agentes sociais coletivos (classes sociais), são em última instância
reduzidos a fenômenos interpessoais ou intersubjetivos, resultando no
ocultamento ou na subestimação das classes sociais em favor da ilusória
imagem do indivíduo como base última da sociedade. 1 Segundo essa

1 Para uma análise aprofundada do funcionalismo sociológico, ver Wilbert E.


Moore, "O Funcionalismo" , {n Tom Bottomore e Robert Nisbet (org.), História
da Analise Sociológica, Rio de Janeiro, Zahar, 1980, pp. 421-474. Na linha do
funcionalismo relativo, ver Robert K. Merton, Sociologia, Teoria e Estrutura,
São Paulo, Mestre Jou, 1970, pp. 85-152. Para uma análise da relação entre o
90 ALAOR CAFFI1: ALVES ESTADO E IDEOLOGIA 91

concepção, a sociedade é considerada como um organismo social, cujas define as funções que se exprimem em papéis, cuja finalidade é asse-
unidades celulares são representadas pelos seres humanos individuais gurar, em seu desempenho, a permanência, continuidade e estabilidade
(stibstituíveis) e cuja estrutura (estável) corresponde às relações (regu- daquelas relações sociais, ou seja, da estrutura sociaU
lares e padronizadas) entre esses indivíduos, as quais se manifestam Mesmo as inter-relações de grupos sociais são convertidas, em
através do seu comportaqtento, observado diretamente entre eles ou última análise, a relações interpessoais: os grupos e instituições cons-
entre eles e seus grupos ou instituições, ou mesmo entre -esses grupo_s tam de indivíduos em relações determinadas, regulares e estáveis;
ou instituições. 2 "Os seres humanos individuais, as unidades essenciais esses grupos e instituições se caracterizam exatamente pelo tipo e
neste caso, estão ligados por um conjunto definido de relações sociais natureza das relações interpessoais que mantêm em conexão." Em
num todo integrado. A continuidade da estrutura social, como a da resumo, para a concepção funcionalista, o exame das estruturas so-
estrutura orgânica, não é destruída pelas mudanças na unidade. Os ciais focaliza substancialmente os papéis individuais e seu sistema no
indivíduos podem deixar a sociedade por morte ou em outras circi.ms- âmbito dos grupos ou instituições que integram a sociedade em seu
tâncias; outros podem ingressar nela. A continuidade é mantida pelo conjunto. Portanto, a questão fundamental para a identificação e aná-
processo de vida social que consiste das atividades e interações dos
seres humanos individuais e dos grupos organizados em que eles se
4 Numa síntese bastante esclarecedora sobre as características do funcionalismo
reúnem. A vida social de uma comunidade é definida aqui como o
sociológico, Swingewood escreve • (1) As sociedades são todos, são sistemas de
funcionamento da · estrutura sociaL A função de qualquer atividade partes inter-relacionadas. Cada parte só tem sentido em relação com o todo; a
repetitiva, como o castigo por um crime ou uma cerimônia fúnebre, é sociedade é um 'sistema' de elementos interdependentes que contribuem para a
o papel que ela desempenha na vida social como um todo e, portanto, integração do sistema. A causação social é, por conseguinte, múltipla e recíproca.
a contribuição que faz para a continuidade estrutural." 3 Assim, o (2) A integração de todas as partes - ou 'subsistemas' - embora nunca
'perfeita', não obstante produz um estado de equilíbrio. Os ajustamentos são
caráter determinado, repetitivo e estável das relações interpessoais
feitos tanto para as influências internas quanto para as externas, e a tendência
geral é na direção da estabilidade e inércia. O papel crucial dos mecanismos
de controle social é, por conseguinte, óbvio. (3) Desvio, tensão, estafa, existem
funcionalismo e o conceito de "sistema", ver Alvin W. Gouldner, La Sociologia
como elementos disfuncionais que tendem a institucionalizar-se e resolver-se
Actual: renovación y crítica, Madri, Alianza, 1979, pp. 182-213. Ver também
de tal maneira que a integração perfeita, embora permaneça um ideal irrealizável,
Henri Mendras, Princípios de Sociologia, Uma Iniciação à Análise Sociológica ,
é não obstante a tendência dominante dentro do sistema social. (4) A mudança
S.* ed., Rio de Janeiro, 1978, pp. 121-139. Para uma distinção entre a análise
social não é revolucionária, mas adaptativa e gradual; se há mudança rápida,
funcional e . o funcionalismo sociológico, ver Guy Rocher, Sociologia Geral, 3,
ela ocorre na 'superestrutura' da sociedade, deixando assim a estrutura institu-
Lisboa, Presença, pp. 137-166. Um ensaio penetrante e crítico do método de
cional básica inalterada. A mudança se origina grandemente dos fatores exter-
interpretação funckmalista na Sociologia é realizado por Fforestan Fernandes,
nos, através da diferenciação estrutural e funcional e através de invenções e
in Fundamentos Empíricos da Explicação Sociológica , 4.• ed., São Paulo, T. A.
inovações pelos indivíduos e grupos. (5) A integração social é conseguida através
Queiroz, 1980, pp. 175-313. Numa linha crítica, vér Margaret A. Coulson e
de consenso de valor, 'orientações cognitivas comuns', isto é, um conjunto de
David S. Riddell, Introdução Crítica à Sociologia, 5.* ed., Rio de Janeiro, Zahar,
princípios amplamente difundidos que legitimam a estrutura sócio-econômica
1979, pp. 55-79; Alan Swingewood, Marx e a Teoria Social Moderna, Rio de
e política existente". Cf. Alan Swingewood, op. cit., p. 222.
Janeiro, Civ. Brasileira, 1978, pp. 218-245; John Rex, Problemas Fundaméntales
5 "O funcionalismo apenas aparentemente exclui a referência a motivos sub-
de la Teoría Sociológica, Buenos Aires, Amorrortu, 1968, pp. 81-101; Ralf
Dahrendorf1 Sociedad y Sociologia, Madri, Tecnos, 1966, pp. 147-178; Percy S. jetivos; como vimos nos exemplos de 'funções latentes' dados por Merton, o
Cohen, Teo;ia Social Moderna, Rio de Janeiro, Zahar, 1970, pp. 50-84; Alain funcionalista, na prática, realmente relaciona as instituições e atividades com
Touraine, Em Defesa da Sociologia, Rio de Janeiro, Zahàr, 1976, pp. 79-153. os objetivos dos indivíduos e grupos. Por conseguinte, seria muito melhor
2 Ver, nesse sentido, John Rex, op. cit., pp. 82-85.
reconhecer isto e procurar mostrar claramente, através de provas empíricas,
a Cf. Radcliffe-Brown, Structure and Function in Primitive Society, Chicago, quais os objetivos, fins ou propósitos aceitos pelos participantes da situação."
Free Press, 1952, p. 178. Cf. John Rex, op. cit., p. 100.
ESTADO E IDEOLOGIA
92 ALAOR CAFFJ!l ALVES 93

nentes engrenam-se com um grau de harmonia e consistência para


lise das funções relacionadas · com as estruturas sociais se prende, em
última instância, ao estudo de sistemas de pàpéis normativamente cons- evitar que surja um sério conflito; e que tal conflito possa ser con-
tituídos que organizam e orientam os modos de agir dos indivíduos siderado como disfuncional para a manutenção do todo. A tendência
em suas relações recíprocas. 6 Assim, se a estrutura social é um sistema para reputar a teoria funcionalista como conservadora se origina gran-
funcional de relações constituído por um complexo de papéis, as ins- demente de sua ênfase sobre a integração e ordem social e da analogia
tituições são integradas por constelações de papéis, formando d~sse da sociedade como um organismo humano no qual a 'saúde' social é
modo a conexão orgânica entre estrutura e instituições. 7 identificada com ordem, e 'doença', com conflito". 9 Assim, o funcio-
Vê-se, por essa abordagem, que o marco de referência fundamen- nalismo, pautado na referência de uma integração social relativamente
tal da concepção funcionalista são os atores sociais, as situações e as harmônica e com tendência a permanecer, representa um obstáculo
orientações padronizadas nos papéis. O núcleo teórico dessa linha de epistemológico à real compreensão dos fatores coletivos de caráter
pensamento sociológico é sempre, em última análise, a dimensão in- antagôQico, como base dos movimentos socil;lis orientados para a trans-
dividual, desprezando sistematicamente, clara ou veladamente, o re- lormação da sociedade como um todo .. <:;om efeito, essa corrente so-
ferencial das práticas dos agentes coletivos, representados pelas classes ciológica não leva em conta o jogo dos interesses vitais das classes
sociais. Por essa via, o conceito de papel social ocupa lugar proemi-
compreendidas como agentes coletivos, isto é, enquanto forças sociais
nente nas análises de matriz funcionalista (ou estrutural-funcionalista),
e históricas em confronto objetivo para a apropriação e acumulação
visto que reduzem a noção de grupo social ao complexo de inter-rela-
do sobreproduto de bens e serviços. Preocupado mais com a estabi-
ções de papéis desempenhados por agentes individuais. Desse modo,
lidade e continuidade da ordem social e com os respectivos mecanis-
estes agentes têm suas atividades pautadas por normas interiorizadas
(processo de socialização) e em valores sociais dominantes e que re- mos de articulação ou recorrência padronizada da ação social, do que
presentam meios institucionalizados da ação social.s com as formas de transformação estrutural, o funcionalismo ques-
Diferentemente do modo de apreensão crítico-dialético da estru- tiona reiterádamente sobre os elementos ou aspectos que contribuam
tura social, a tese funcionalista desconhece, desvaloriza ou despreza ou possam contribuir para a sobrevivência, reprodução, persistência
referências que não contribuam a favor de uma análise da permanên- e integração da sociedade. Dessa forma, enfocando as conseqüências
cia, harmonia e continuidade das formas sociais básicas, {iempre assi- que consolidam a solidariedade e coesão social, mantendo os limites
miladas a um sistema complexo de papéis diferenciados, reciproca- fundamentais do sistema, o funcionalismo, ao contrário da matriz
mente referidos e integrados. Nesse sentido, fica explícito um "modelo teórica da perspectiva dialética do conflito, não qualifica a prática
de sociedade como uma unidade funciónal, onde as partes compo- social no sentido de apurar efetivamente o beneficiário social da re-
produção material da sociedade e as conseqüências conflitivas decor-
n Ver, nesse sentido, Hermann Strasser, A Estrutura Normativa da Sociologia, rentes das forças sociais em jogo nesse processo. Não questiona a
Temas Conservadores e Emancipacionistas no Pensamento Social , Rio de Janei- respeito de quem se aproveita de quem; quem produz e quem acumula
ro, Zahar, 1978, 167-215.
7 Ver, nesse sentido, Robert Henry Srour, Modos de Produção: Elementos da
o excedente; quem domina e explora e quem é subjugado e explo-
Problemática, Rio de Janeiro, Graal, 1978, pp. 75-77. rado; quem são os detentores dos meios de produção e quem são os
" Ver, nesse sentido, Peter Berger, Perspectivas sociológicas, uma visão huma- fornecedores da força de trabalho. 10 E, note-se, não estamos nos refe-
nística, Petrópolis, Vozes, 1983, pp . 106-136. Para uma relação entre a teoria
dos papéis e a teoria das instituições sociais, ver Peter Berger e Brigitt Berger,
··O que é uma instituição social?" , in Marialice Mencarini Forachi e José de 9 Cf. Alan Swingewood, op. cit., p. 220.
Souza Martins (compil.), Sociologia e Sociedade, Rio de Janeiro, LTC-Livros 1o Ver, nesse sentido, Margaret A. Coulson e David S. Riddell, op. cit., pp. 55-79.
Técnicos e Científicos, 1983, pp. 193-199.
ALAóR CAFFÉ ALVES ESTADO E IDEOLOGIA 95
94

rindo a questões secundárias ou adjetivas, mas às condições funda- meios econômicos. 13 Assim, o todo social, no âmbito da sociedade de
mentais de reprodução e ampliação do patrimônio social produtivo e classes não se mostra como essencialmente harmonioso ou apenas in-
da vida material de toda a sociedade, bem como de sua essencial ope- tegrado por ações complementares; ele se apresenta como algo dila-
ração transformadora da natureza, sem as quais ela mesma, com todos cerado, fraturado, cheio de fissuras, conflitivo e rompido assimetrica-
os seus membros integrantes, seguramente não poderá sobreviver. mente entre agentes coletivos dominantes e subalternos. É preciso,
Por não enfrentar diretamente essas questões substantivas, o funcio- entretanto, sublinhar que tais relações de oposição se dão no âmbito
nalismo sociológico acaba negligenciando os conflitos e ocultando as de uma unidade, visto que essas partes internas do todo social se
contradições da estrutura social, em benefício da entronização da supõem e se excluem mutuamente, numa relação dialética que tende
ordem social e da estabilidade institucional.U ao confronto e à transformação da estrutura social.
Sob a perspectiva crítico-dialética da teoria do conflito e da mu- É preciso, neste ponto, chamar atenção para uma questão funda-
dança social, há a preocupação central de captar as relações entre as mental. É a da relação entre o interesse privado e o interesse de
forças sociais em confronto - e não as relações meramente interpes- classe. Os interesses dos atores individualmente considerados não exis-
soais - , cujos efeitos podem resultar em conseqüências desestrutu- tem senão enquanto atravessados de alguma forma pelos interesses
radoras da formação social como um todo. Dentro desta visão, as das respectivas classes; o interesse singular daqueles atores já é um
relações sociais de produção da vida material da sociedade, caracte- interesse socialmente determinado, visto que só pode ser satisfeito no
rizadas num determinado período de desenvolvimento histórico - âmbito das condições estabelecidas pelas respectivas classes e com os
relações entre patrícios e plebeus, senhores e escravos, nobres feudais meios que estas oferecem. 14 É por essa razão que tal satisfação cor-
e servos da gleba, capitalistas e proletários - e segundo um certo responde também à reprodução daquelas condições e meios sociais.
grau de avanço das forças produtivas correspondentes - produção A particularidade do interesse dos agentes individuais é expressa e
rural primária, artesanal, manufatureira, industrial, automatizada, ci- determinada; entretanto, seu conteúdo, sua forma e os meios de sua
bernética - , constituem o núcleo estrutural básico do sistema geral realização estão dados pela clivagem das condições sociais das res-
de relações sociaisP Com efeito, esse núcleo é concebido como ex- pectivas ciasses. Isso quer dizer que o conteúdo da manifestação de
pressão de interesses objetivos, diferenciados ou antagônicos, encar- um interesse específico, de um determinado indivíduo, é ao mesmo
nados nas relações cooperativas ou conflitivas das classes sociais de
tempo e de certo modo a expressão das condições específicas de seu
uma determinada formação social; tais interesses se determinam, por-
grupo social, embora quase sempre não tenha consciência disso. É con-
tanto, em razão das posições básicas ocupadas pelas classes no pro-
veniente notar também, num breve parêntese, para que dúvidas não
cesso coletivo de produção, como detentoras e não-detentoras dos
pairem, que a eventual expressão de um interesse que na sua forma
aparente não coincide com a situação objetiva da posição do agente
11 Ver Hermann Strasser, op. cit., pp. 174-180. Ver também T.B. Bottomore,
A Sociologia Como Crítica Social, Rio de Janeiro, Zahar, 1976, pp. 49-61. Ver
Barry Smart, Sociologia, Fenomenologia e Análise Marxista: Uma Discussão 13 "O conjunto destas relações de produção constitui a estrutura econom1ca
Crítica da Teoria e da Prática de uma Ciência da Sociedade, Rio de Janeiro, da sociedade, a base concreta sobre a qual se eleva uma superestrutura jurídica
Zahar, 1978, pp. 15-6~. e política e a qual correspondem determinadas formas de consciência social."
12 "Na produção social da sua existência, os homens estabelecem relações
Cf. Karl Marx, op. cit., p. 24.
determinadas, necessárias, independentes da sua vontade, rt::lações de produç5o 14 "O modo de produção da vida material condiciona o desenvolvimento da

que correspondem a um determinado grau de desenvolvimento das forças pro- vida social, política e intelectual em geral. Não é a consciência dos homens
dutivas !Jlateriais." Cf. Karl Marx, Contribuição à Crítica da Economia Política, que determina.o seu ser; é o seu ser que, inversamente, determina a sua cons-
2.• ed., São Paulo, Martins Fontes, 1983, p. 24. ciência." Cf. Karl Mar;x, op. cit., p. 24.
ALAóR CAFFÉ ALVES ESTADO E IDEOLOGIA
96 97

que o manifesta - por exemplo, o desejo de ascender na escala soCial revolucionárias tendentes à modificação qualitativa das formações
ou a defesa . de valores não-correspondentes a sua posição social - 5ociais. 16
não significa a eliminação daquela situação objetiva e sim a forma Entretanto, no sentido de melhor caracterizar a natureza da es-
alienada que o indivíduo encontra para ultrapassar, a nível ideológico, trutura social e tirar do paralelo acima traçado o melhor partido para
sua condição de classe, revelando e ao mesmo tempo ocultando o a compreensão do problema, cumpre-nos apontar e Clarificar o núcleo
interesse objetivamente determinado por essa condição. específico diferenciador do conceito "relação social" sob o ângulo
Nesse desdobramento .percebe-se claramen~e o contra~te com o estrutural, no âmbito de análise da teoria dialética dos conflitos, sem,
quadro de referência funcionalista. Enquanto neste os sujeitos sociais contudo, deixar de abordar alguns aspectos da teoria da ação.
(agentes individuais) dividem .entre si funções necessárias e comple- Além da perspectiva funcionalista, já examinada, podemos e de-
mentares (papéis), tendo por base interesses da mesma natureza cal- vemos fazer, ainda que sumária, uma consideração a respeito do
cados e!m valores comuns por eles interiorizados, suscitando um sen- assunto no quadro de referência da teoria da ação, propugnada por
timento de solidariedade, na teoria do conflito, os agentes individuais, Max WeberP Para este sociólogo, a análise da relação social implica
integrantes de classes sociais diferenciadas ou antagônicas, são quali- necessariamente o exame do elemento compreensivo da "ação_" e da
ficados e têm seus interesses potenciados pelas posições que ocupam " interação". O estudo da ação leva-nos a destacar sua característica
no processo produtivo social, em face dos meios de produção. Segundo fundamental que é a significabilidade. Segundo Weber, a ação somen-
a teoria crítico-dialética, as classes disputam continuamente a apro- te se determina como comportamento humano à medida que o ator
priação dos produtos econômicos, do poder político e da expressão lhe atribui um significado subjetivo. Portanto, Weber baseia o con-
ideológica, visto que são atravessadas por interesses mutuamente irre- ceito de interação, implícito em todas as relações sociais, em critérios
dutíveis, a despeito da imposição hegemônica de valores, crenças e referidos a aspectos subjetivos, ou seja, internos aos atores sociais.
normas da classe dominante. 15 Por essa razão, enquanto na perspec- A ação se torna social em função da significação subjetiva que os
tiva dos funcionalistas a totalidade so~ial se unifica por homogenei- atores sociais lhe atribuem em e pelas suas relações recíprocas. Com
zação e solidariedade dos elementos constituintes, apontando éomo efeito, social é a ação que se orienta pelas ações de outros atores,
desfuncional, patológico ou anômico todo momento de crise ou desvio apresentando-se como pólo de uma interação social. Por relação social,
contestador, na matriz da teoria dialética do conflito, o todo se torna Weber entende como "uma conduta plural - de várias pessoas -
coeso pela unidade dos contrários, figurando a crise como elemento
constitutivo da estrutura social e determinante de sua própria trans-
16 Ver, nesse sentido, Robert Henry Srour, op: cit., pp . . 80-85. Ver, ainda, sob
formação. Naquela, suólinham-se os processos de controle social que
o ângulo da ideologia e da práxis crítica, Henri Lefebvre, Sociologia de Marx,
assegurem~ mediante práticas recorrentes, socialização e sanções, a
São Paulo, Forense, 1968, pp. 42-63.
conformidade dos atores sociais para a garantia do funcionamento e t7 Para uma compreensão da teoria da ação de Weber, consulte-se Max Weber,
operacionalidade do sistema, admitindo-se a mudança desde que rea- Economía y Sociedad, Esbozo de Sociología Comprensiva, I, México, Fondo de
firme a estrutura; nesta, ao contrário, o destaque é dado aos processos Cultura Económica, 1977, pp. 5-45. Ver, também, Raymond Aron, As Etapas do
e práticas que exprimem o movimento dos agentes coletivos para a Pensamento Sociológico, São Paulo, Martins Fontes, Brasília, Editora da Uni-
versidade de Brasília, 1982, pp. 461-540. Ver, nesse sentido, Jorge Sanchez
transformação política da estrutura social, atendendo-se menos à re-
Azcona, Introducción a la Sociologia de Max Weber, México, Porrua, 1976,
produção de suas relações do que às ações históricas ou práticas pp. 29-85; Humberto Quiroga Lavié, lntroducción a ld Teoría Social de Max
Weber, Buenos Aires, Pannedille, 1970; Julien Freund, Sociologie de Max
lõ Ver Henri Lefebvre, "Estrutu-r a Social: a reprodução das relações sociais", Weber , Paris, PUF, 1966; Anthony Giddens, Capitalismo e Moderna Teoria
in Sociologia e Sociedade, op. cit., pp. 219-252. Ver, também, Dan~el de Souza, Social, Lisboa, Presença, 1976, pp. 203-393; Gabriel Cohn, Crítica e Resignação,
Introdução à Sociologia, Lisboa, Horizonte,.
1977, pp. 99-151.
)
Fundamentos da Sociologia de Max Weber, São Paulo, T. A. Queiroz, 1979.
98 ALAOR CAFFÉ ALVES ESTAOO E IDEOLOGIA 99

que, pelo sentido que ence!ra, se apresente como reciprocamente re- dos e por papéis cujo desempenho em contextos mais complexos podem
ferida, e se oriente por essa reciprocidade. A relação social consiste, dar origem a instituições sociais. As estruturas sociais, portanto, são
portanto, plena e exclusivamente, na probabilidade de que se atuará pluralizadas e se definem basicamente em função de recorrências cal-
socialmente de uma forma (com sentido) indicável". 18 Por conseqüên- cadas em valores e símbolos compartilhados pelos membros de uma
cia, na relação social é preciso que o sujeito oriente sua conduta (ação) comunidade, sem se destacar a importância constitutiva dos meios
com base nas expectativas que outro ou outros têm a seu respeito, materiais ou dos objetos específicos por intermédio dos_ quais certas
melhor dito, com base na expectativa sobre aquelas expectativas de relações sociais podem ou devem se estabelecer. Neste caso, as estru-
outro ou outros atores sociais. .Evidentemente, isso só será possível Luras sociais transparecem ou podem estar referidas diretamente a
quando todos os atores sociais partilham de um mesmo universo de quaisquer sistemas de relações interpessoais, sejam ou não mediados
significações, de modo a possibilitar a compreensão mútua das expec- por "coisas" . Isto quer dizer em última análise que os meios ou os
tativas e a correspondência ativa (ou não-correspondência}. 19 instrumentos de intervenção na natureza ou na própria sociedade, dos
É preciso ainda notar que para W eber a orientação e recipro- quais seus membros obtêm a própria sobrevivência, não são conside-
cidade da referência entre os atores aponta para a regularidade que rados como fundamentais para a caracterização da estrutura social. 21
qualifica a relação social como uma trama de ações sociais recipro- Sob o ângulo da teoria dialética do conflito, essa forma de abordar o
camente referidas e padronizadas. Vê-se por essa forma que, em para- problema da estrutura social leva à indiferenciação das práticas so-
lelo com a postura funcionalista, na teoria da ação o foco é também ciais em favor do ocultamento das verdadeiras relações estruturais e
e principalmente o enquadramento do comportamento de um sujeito do conflito entre os agentes coletivos.
da ação, ou seja, da ação de um ator individual ou de uma coletividade Há, de certo modo, uma explicação para esse grande desvio teó-
de atores. Mesmo na formulação oposta do objetivismo de Durkheim, rico. É que os instrumentos de trabalho, as matérias-primas e os
esse foco se mantém, visto que, para ele, os fatos sociais se expressam meios de subsistência para a reprodução da força de trabalho são
como constrangimentos exercidos, de fora, sobre a ação dos atores; considerados como "coisas externas" ao processo social, como se fos-
esta ação é social na medida em que corresponde ou reproduz as sem "objetos naturais" existentes em si e por si mesmos; é o fetiche
maneiras coletivas de agir, pensar e sentir, exteriores aos indivíduos das relações sociais, representado por produtos "externos" e indepen-
e dotados de um poder de coerção sobre eles. Neste caso, as relações dentes da ação dos homens; figuram, esses meios e objytos, como algo
sociais refletiriam maneiras institucionalizadas ·e recíprocas de con- alheio às próprias relações sociais.2 2 Por isso são tratados de maneira
duta dos atores sociais.20
Feitas estas considerações, resta-nos destacar o caráter específico
21 Contrapõe-se substancialmente a essa linha o pensamento de Marx: "Os
da relação social sob o ângulo estrutural, propugnado pela teoria dia-
homens podem distinguir-se dos animais pela consciência, pela religião, ou por
lética do conflito. Já verificamos que, do ponto de vista das outras qualquer coisa que se prefira. Porém, o homem mesmo se diferencia dos animais
correntes sociológicas, respeitados os diferentes matizes que a questão a partir do momento em que começa a produzir seus meios de subsistência
comporta, a estrutura social deflui, em última instância, dos padrões (vida) , passo este que se acha condicionado por sua constituição física. Ao
de conduta dos atores individuais em suas relações recíprocas, ou -. produzir seus meios de subsistência, o homem indiretamente produz de fato
a sua vida material ( ... ). Conforme os indivíduos se manifestam na vida,
seja, das relações interindividuais demarcadas por valores internaliza-
assim é que são. O que eles são, portanto, coincide com a sua produção, tanto
com o que produzem quanto com o modo como produzem. O que os indivíduos
18 Cf. Max Weber, op. cit., p. 21. são, por isso, depende das respectivas condições materiais de produção· . Cf.
19 Ver, nesse sentido, Guy Rocher, Sociologia Geral, 1, 3." ed., Lisboa, Pre- Karl Marx, La ldeología Alemana, Buenos Aires, Pueblos Unidos, 1973, pp. 19-20.
sença, 1977, pp. 19-67. 22 Para o exame desse fetiche, sob o ângulo da consciência, consulte-se Georg

20 Ver Robert Henry Srour, op. cit., pp. 114-117. Lukács, História e Consciência de Classe, Porto, Escorpião, 1974, pp. 97-126.
ALAOR CAFFEl ALVES
ESTADO E IDEOLOGIA 101
100

secundária pela sociologia ortodoxa. Entretanto, mediante uma análise de a introdução de meios tecnológicos sofisticados no trabalho agrí-
mais atenta e crítica, verifica-se que tais "coisas", instrumentos e cola (tratores, segadeiras, eletrificação, etc.) conduzir o deslocamento
meios de subsistência, são a expressão cristalizada de relações sociais, da força de trabalho para outros setores econômicos e, se incorporados
ou seja, são o próprio trabalho social congelado em produtos que de modo inorgânico, poder levar ao desempenho milhares de trabalha-
deverão ser apropriados, distribuídos, consumidos e acumulados para dores, provocando tensões sociais regionais ou até mesmo nacionais.
o reenvio de novas ações produtivas destinadas a manter e ampliar o Nessa esfera das relações técnicas de produção ainda se pode apontar
processo de reprodução sociaP3 Por esse motivo, as relações que os as grandes transformações que o caráter cooperativo no processo . de
indivíduos ou grupos de indivíduos guardam entre si, em face desses trabalho, decorrente de certo modo de produzir as coisas (com a in-
instrumentos e meios de subsistência social, vão se caracterizar como trodução da máquina industrial), pode imprimir nas relações entre os
essenciais para a determinação da estrutura social?- 4 sujeitos sociais. Com efeito, o processo baseado na cooperação com-
plexa em grande escala implica a perda, por parte do trabalhador
Não se trata aqui de sublinhar apenas as relações técnicas de
individual, do controle ou domínio do processo de trabalho, dando
produção, através das quais se exprimem as formas de controle ou
margem ao aparecimento do "trabalhador coletivo", que exige a fun-
domínio que os agentes de produção exercem sobre os meios de tra-
ção de um grupo de trabalhadores (indiretos) para cumprir as ope-
balho em particular e sobre o processo de trabalho em geral. Estas
rações de direção e controle do processo de produção? 15 Esse fato
relações estão vinculadas às características técnicas do procl!sso de
demarca a origem e necessidade da hierarquia e burocracia no pro-
trabalho, tais como a divisão técnica do trabalho, tipo de cooperação,
cesso produtivo de caráter capitalista?il
natureza dos meios de trabalho, etc. Sua dinâmica provoca profundas
Há necessidade t_ambém de se colocar em relevo, e de forma
alter~ções ·nas relações entre os homens, como, por exemplo, o fato
especial, as relações sociais de produção, visto que o processo técnico
de produção não existe nunca à margem das condições sociais que o -
23 Ver, nesse sentido, Henri Lefebvre, • A ' práxis': a relação social como tornam possível. Uma vez que toda produção social é historicamente
processo", in Sociologia e Sociedade, op. cit., pp. 175-190. determinada e ao nosso propósito interessa a abordagem do problema
24 Ê muito lúcida, a nosso ver, a concepção de estrutura social apresentada por no âmbito do modo capitalista de produção, consideramos especial-
Srour, na qual nos apoiamos para o desenvolvimento dessa temática: ·A mente as relações sociais neste contexto, onde objetivamente se cons-
estrutura social apreende relações sociais recorrentes (reproduzidas). Mas se
reproduzir é repetir, conservar, também é reinventar e renovar. A reprodução
tata a existência de indivíduos que são proprietários ou controladores
é fundamentalmente o conceito da continuidade histórica, mas é a um só tempo dos meios de produção e da atividade econômica em geral e indivíduos
a negação da fixidez: pois o processo de produção, que é apropriado cognitiva- que devem ou precisam trabalhar para aqueles, mediante o recebi-
mente na sua reiteração, é sempre um processo novo, com a marca da singu-
laridade. O conceito de estrutura é inseparável da conceptualização da contra-
25 Ver, nes.se sentido, Marta Har.necker, Los Conceptos Elementales dei Mate-
dição que anima os processos concretos. Enquanto não for resolvida, a contra-
rialismo ,Histórico, Buenos Aires, Siglo XXI, 1974, pp. 26-30. Ver, também, Jean
dição se reproduz, gira sobre si mesma, mas sua reprodução é também um
Lojkine, Le Marxisme, l'P.tat et la Puestion Urbaine, Paris, PUF, 1977, pp. 121-146.
amadurecimento, uma ampliação e agudização, aponta para a necessidad~
2·6 Ver Fernando C. Prestes Motta e Luiz C. Bresser Pereira, Introdução à
interna da dinâmica (exemplos das "formas de capitalismo" concorrencial, mo-
Organização Burocrática, 2.• ed., São Paulo, Brasiliense, 1981, pp. 9-55. Ver,
nopolista, monopolista de Estado) e da superação (exemplo de uma mudança
também, Manuel Garcia-Pelayo, Burocracia y Tecnocracia, Madri, Alianza Uni-
de modo de produção) ( ... ). A concepção dialética de estrutura social faz
versidad, 1974, 15-32. Ver Fernando C. Prestes Motta, O que é Burocracia, São
justiça aos aspectos de regularidade e reprodução da vida social, sem negligen-
Paulo, Brasiliense, 1981. Para um exame mais aprofundado do pensamento
ciar o fluxo dos eventos que resultam dos embates entre agentes coletivos que,
burocrático, especialmente relacionado com a burocracia estatal, consulte-se
ao inesmo tempo, sustentam e recriam, produzem e rompem a configur~ção tran-
Alejandro Nieto Garcia, La Burocracia, Madri, Instituto de Estudios Adminis-
sitória das relações sociais que os articula". Cf. Robert Henry Srour, op. cit.,
tr§tivos·, 1976.
pp. 100-102.
102 ALAóR CAFFÉ ALVES
ESTADO E IDEOLOGIA 103

mento de salários contratualmente estabelecidos. Assim, como os meios


aos homens nas suas conexões intersubjetivas, mas exatamente porque
de produção - que não deixam de ser relações sociais cristalizadas
relevam, em determinadas combinações, a unidade entre os agentes
e encarnadas em certos objetos - perfazem as condições materiais
do processo produtivo e as condições materiais desse mesmo processo.
imprescindíveis a todo processo social de produção, visto não ser pos-
Tais combinações dizem respeito à distribuição dos produtos, dos
sível produzir sem esses meios, os homens que não os possuem acabam
meios de produção e dos agentes sociais, segundo os diferentes tipos
por serem obrigados a vender sua força de trabalho para aqueles que
de produção. A respeito da distribuição, Marx esclarece que "na sua
os detém e os controlam? 7 Instaura-se aqui um tipo fundamental de
concepção mais banal, ela se apresenta como distribuição dos produ-
relação social entre os agentes coletivos: uma relação que pode ser
tos, e assim como que afastada da produção e a bem dizer indepen-
considerada estrutural, visto que, sendo de caráter coletivo, é mediada
dente dela. Contudo, antes de ser distribuição de produtos, ela é,
por instrumentos e meios indispensáveis à existência da sociedade.
primeiro, distribuição dos instrumentos de produção e, segundo, o
B preciso consignar, portanto, que as relações técnicas de produção
que é outra determinação da mesma relação, distribuição dos mem-
- ou relações dos homens com a natureza - e as relações sociais
bros da sociedade pelos diferentes tipos de produção (subordinação
de p~odução - relações dos homens entre si através dos meios de
dos indivíduos a relações de produção determinadas). A distribuição
produção - tornam-se uma unidade complexa de ação coletiva, onde
dos produtos é manifestamente o resultado desta distribuição que,
se destaca a importância da mediação das coisas para a formação de
incluída no próprio processo de produção, lhe determina a estrutura.
uma estrutura social. Por essa linha, observamos que, no intercâmbio
Considerar · a produção sem ter em conta esta distribuição, nela in-
permanente da sociedade com a natureza, as condições materiais do
cluída, é sem dúvida uma abstração vazia de sentido, visto que a
processo produtivo (homem-meios de produção-natureza) se entrela-
distribuição dos produtos é implicada por esta distribuição, que cons-
çam numa unidade dialética com as condições sociais desse ·mesmo
titui na origem um momento (fator) da produção ( ... ). A produção
processo, onde agora comparecem os vínculos sociais (propriedade,
tem necessariamente seu ponto de partida em uma certa distribuição
controle) com os meios de produção (homem-meios de produção-
dos instrumentos de produção". 29 B assim que se pode compreender
homem)/(Natureza). "Esta precisão é capital, já que as relações so-
que "nas relações de produção estão implicadas necessariamente as
ciais de produção não podem ser, sob nenhum conceito, redutíveis a
relações entre os homens e as coisas, de tal forma que as relações
simples relações entre os homens, a relações que poriam em discussão
entre os homens estão ali definidas por relações precisas existentes
só aos homens e que, por conseguinte, apenas tomariam em conta as
entre os homens e os elementos materiais do processo de produção". 30
variações de uma matriz universal, a intersubjetividade (reconheci-
Na exposição acima torna-se evidente que as relações sociais de
mento, prestígio, luta, dominação e servidão, etc.)." 28 As relações
produção não se reduzem - embora possam implicá-las - às rela-
de produção são relações sociais não enquanto consideram apenas
ções intersubjetivas dos agentes, uma vez que estes dependem subs-
tancialmente das funções e posições objetivas ocupadas no processo
n A despeito das restrições que se pode opor à perspectiva do marxismo estru-
de produção. Essas relações se configuram comO estruturas, segundo
turalista, muito também se pode aproveitar da leitura de ~tie,nne Balibar, "Sobre
los conceptos fundamentales dei materialismo histórico, I: De la periodización nosso enfoque, porque não são, de modo algum, relações entre atores
a los modos de producción; I!: Los elementos de la estructura y su historia", sociais apenas (homem-homem), ou entre homens e coisas, mas rela-
in Para leer • El Capital", México, Siglo XXI, 1978, pp. 228-276. No mesmo ções entre homens que possam necessariamente pela mediação das
sentido, ver Eduardo · Fioravante, "Modo de Produção, Formação Social e
Processo de Trabalho", in Philomena Gebran (coord.), Conceito de Modo de
29 Cf. Karl Marx, Introdução à Crítica da Economia Política, in Contribuição
Produção, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1978, pp. 31-45.
2 8 Cf. Louis Althusser, • El objeto de 'El Capital' ", in Para leer El Capital, à Crítica da Economia Política, 2.• ed., op. cit. , p. 214-215 (grifo nosso).
México, Siglo XXT, 1978, p. 188. ao Cf. Louis Althusser, op. cit., p. 189. Ver. nesse sentido. Etienne Balibar,
op. cit., p. 240.
ALAóR CAFFÉ ALVES · ESTADO E IDEOLOGIA 105
104

coisas, dos meios e recursos produtivos da sociedade.~n B por isso que B preciso, entretanto, deixar bem claro que a posição crítico-dialética
a forma de relação dos agentes coletivos com os meios e recursos não exclui, nem pode excluir de suas análises, as relações de caráter
produtivos determina o tipo de relação cooperativa ou conflitiva dos interindividual em que prevalecem os elementos subjetivos e que até
agentes sociais entre si.32 Com efeito, essas relações, nci plano econô- certo ponto prescindem ou ·podem prescindir da mediação daqueles
mico, se estruturam entre agentes da produção, entre homens que têm meios materiais. As . relações de companheirismo, de amizade, de so-
funções bem-determinadas e objetivas na produção dos bens materiais lidariedade, as relações amorosas, pedagógicas, religiosas, familiares,
(mercadorias), funções essas que dependem da forma como se relacio- etc. são a prova cabal da necessidade de: ~e incluir no universo das
nam com os meios de produção, isto é, se são ou não detentores ou cogitações sociológicas o indispensável tratamento das relações inter-
controladores desses meios. Tais relações entre os homens são estru- pessoais. Contudo, também se deve pôr em evidência que o mero
turais exatamente porque dão existência a classes sociais e as vinculam exame das relações não-coletivas, entre agentes individuais, com ou
com base em formas historicamente determinadas de propriedade e sem a interposição dos meios de produção, ou de quaisquer outros
controle dos recursos e atividade econômicas. Essas relações se esta- meios, não pode, por si só, oferecer os critérios para desvendar os
belecem independentemente da vontade singular dos homens e, por aspectos essenciais e estruturadores das formações sociais. Isto quer
serem sociais, configuram o modo de ser dos indivíduos nelas impli- dizer que se deve considerar a subjetividade dos agentes como elemen-
cados. Assim, ser escravo, senhor, nobre, vassalo, capitalista ou pro- to necessário ·da composição social, com a ressalva, entretanto, de
letário são características sociais, visto que decorrem das relações entre não se reduzir a realidade s~cial à subjetividade dos agentes~
os homens mediadas pelos meios de produção, em determinados perío- Essa posição teórica considera que as relações intersubjetivas são
dos históricos. 3'3 Nenhum ser humano como tal é escravo ou senhor, sempre atravessadas e determinadas em maior ou menor grau pelas
nobre ou vassalo, capitalista ou proletário; eles se caracterizam desta relações estruturais. As relações amorosas ou familiares, por exemplo,
ou daquela forma na sociedade historicamente determinada e através têm suas feições e características essenciais não raro profundamente
dela. 34 · afetadas pelas relações estruturais de classe; os membros de uma fa-
Deve-se ter em mente, portanto, que a realidade social, em sua mílià burguesa não têm os mesmos padrões de comportamento, valo-
corrente subterrânea, não se estrutura mediante relações interpessoais res e crenças que os de uma família proletária, ou camponesa ou pe-
singulares, as quais aparecem particularizadas somente ao nível da queno-burguesa; estas também se diferenciam enormemente entre si.35
superfície. No âmago da estrutura social descobrem-se práticas cole- No curso destas questões, é preciso não confundir as relações
tivas instrumentadas e mediadas pelos meios é recursos de produção. interpessoais mediadas por "coisas" com as relações estruturais que,
fundadas na mediação material, ocorrem somente entre agentes cole-
31 Ver, nesse sentido, Robert Henry Srour, op. cit. , p . .118. tivos (classes sociais). B o caso, por exemplo, da relação singular e
32 Ver Marta Harnecker, op. cit., pp. 33-37. interpessoal entre o detentor do capital financeiro e o empresário
·3 3 Ver Ralph Miliband, Marxismo e Política, Rio de Janeiro, Zahar, 1979, industrial para uma operação de crédito; se não houver o objeto ma-
pp. 22-23. terial da relação (dinheiro), a própria relação . desaparece; contudo,
~H "A sociedade não é um mero agregado de indivíduos: é a soma das relações
em que esses indivíduos se colocam uns perante os outros. É como se alguém esta relação ainda não se configura como estrutural para alicerçar
viesse a dizer que, do ponto de vista da sociedade, não existem cidadãos e uma formação social, embora dela faça parte, exatamente por não
escravos; todos são homens. Na verdade, isso é o que eles são fora da sociedade. vincular agentes coletivos segundo a lógica específica da totalidade.
Ser escravo ou cidadão consiste numa relação, socialmente determinada, entre
um indivíduo 'A' e um indivíduo 'B'. O indivíduo 'A', como tal, não é um
escravo: só é escravo na sociedade e através dela." Cf. K. Marx, Grundrisse, t:5 Ver Marilena Chaui, O que é Ideologia, São P~ulo, Brasiliense, 1980, pp.
Londres, Pelican, 1973, pp. 265-266. 86-90.
106 ALAôR CAFFÉ ALVES ESTADO E IDEOLOGIA 107

Ser capitalista, por exemplo, "é ter na produção um status social e e reprodução da v\da social. Aí está, portanto, a necessidade de se
não apenas meramente pessoal. O capital é um produto coletivo, e só distinguir analiticamente as relações sociais de estrutura, fundadas na
pela ação coesa de muitas parcelas da sociedade ou, em última aná- mediação de bens materiais (meios e recursos de produção), das rela-
lise, só pelos esforços conjugados de todos os membros da sociedade, ções intersubjetivas recorrentes, regidas por padrões normativos in-
pode existir e ser movimentado. O capital é uma força social, por- ternalizados e resultantes da ação direta e recíproca do homem sobre
tanto, e não pessoa1". 36 Por outro lado, há ainda certas relações entre o homem.38
grupos que, embora não sejatn de ordem especificamente econômica Continuando nossas considerações, devemos aportar a uma ques-
e não sejam mediadas materialmente, são em maior ou menor grau tão de importância extremamente significativa para a compreensão
afetadas pelas relações estruturais de base. Por isso os conflitos reli- das relações entre a sociedade civil e o Estado, buscando delinear as
giosos, raciais, nacionais, etc. não se reduzem, nem podem se reduzir, bases da realidade deste em face de sua manifestação aparente, isto
aos conflitos de classes, mas destes também não podem ser dissocia- é, enquanto objetivação explícita de suas conexões estruturais subja-
dos sob pena de se perderem os critérios de compreensão estrutural centes à sociedade capitalista da qual é expressão e garantia. Quere-
dos movimentos coletivos e da formação social em que estão inseridos. mos nos referir não apenas ao processo produtivo das condições
É importante notar, assim, que os elementos básicos enunciados, materiais da sociedade, mas também e principalmente ao processo
caracterizadores da estruturalidade de uma relação, ou seja, os (a) reprodutivo das condições sociais dentro das quais a produção é pos-
agrupamentos sociais (involuntários) que se formam com fundamento ~ível. Já salientamos que no âmbito do modo capitalista de produção
na (b) mediação de recursos materiais devem estar sempre conjugados, as relações sociais estruturadoras figuram no marco de um sistema de
sendo que a ausência de qualquer deles dilui a referida estrutura- contradições, onde os processos conflitivos ou antagônicos resultam
lidade. Com efeito, numa relação autenticamente estrutural, a elimi- de permanentes relações assimétricas no que respeita à posição ocupa-
nação da mediação material faz desaparecer a relação mesma; a da pelos agentes coletivos em face dos meios de produção. Essas re-
relação mediada por coisas, da qual não resulte a formação de classes lações são essencialmente assimétricas e contraditórias, visto que deri-
sociais, não pode ser qualificada como estrutural por ser insuficiente vam da inequação entre possuidores e não-possuidores dos meios de
à constituição da organização básica da sociedade. Por essa razão é produção. Isso gera, com efeito, privilégios para um dos pólos da
que também os regimes de exploração do homem pelo homem não relação, por possibilitar um processo de apropriação e acumulação
podem ser suprimidos apenas mediante o exercício de funções inter- crescente do excedente econômico em detrimento do outro pólo, que
subjetivas, calcadas apenas em movimentos solidaristas, ou de caráter se vê obrigado a fornecer a energia de trabalho, destinada à consoli-
ético, sem a transformação efetiva das relações estruturais que com- dação e ampliação daqueles meios. Por isso, tais relações revelam
põem as bases sociais. 37 Isso porque a sociedade não é composta por inequivocamente um caráter de dominação, exigindo, portanto, instru-
indivíduos discretos e isoláveis pela abstração, mas exprime o con- mentos, mecanismos e expedientes indispensáveis ao prosseguimento
junto das relações e condições materiais nas quais se encontram esses do processo de reprodução dessas mesmas relações. Vemo-nos de fren-
indivíduos, uns em relação aos outros e em função das situações es-
te a um processo de produção marcado por relações sociais não-
pecíficas e objetivas em que es acham perante os meios de produção
cooperativas. Desse modo, a continuidade da produção material da
sociedade e prosseguimento da exploração apontada dependem da re-
a6 Cf. K. Marx e F. Engels, Manifesto do Partido Comunista, 3: ed., São Paulo, produção das condições sociais dentro das quais opera o processo de
Global, 1983, p. 30.
37 Para um exame a respeito da práxis revolucionária, ver Karl Korsch, "~1
Punto de Vista de la Concepción Materialista de la Historia", in Marxismo y 38 Ver, nesse sentido, Oskar Lange, Moderna Economia Política, Problemas
Filosofía, Barcelona, Ariel, 1978, pp. 145-171. Gerais, Rio de Janeiro, Fundo de Cultura, 1963, pp. 20, 34, 3,5 e 41.
108 ALAOR CAF'FJ!j ALVES ESTADO E IDEOLOGIA 109

produção capitalista. Nesse sentido, ao mesmo tempo que este processo traduzem relações de poder que serão analisadas com maior atenção
produz mercadorias, reproduz as relações capitaliltas de produção, ou mais adiante. \
seja, reproduz o capital e sua valorização cre~cente (acumulação) e Aqui, entretanto,1.abre-se uma questão importante para a com-
a força de trabalho indispensável a essa reprodução e valorização. preensão do assunto em pauta. Quando identificamos as relações es-
Entretanto, se esta reprodução, sob o · ângulo do desenvolvimento truturais com aquelas constituintes de agrupamentos sociais e media-
capitalista, está sujeita a leis internas e específicas da estrutura eco- das por objetos materiais, destacamos de modo especial as que se
nômica - extração de mais valia, acumulação, concentração e cen- abrigam no âmbito da vida econômica, uma vez que elas são consig-
tralização do capital, reprodução ampliada, desenvolvimento desigual, nadas como práticas sociais produtivas transformadoras do mundo
queda tendencial da taxa de lucro, crises periódicas, etc. - , a condi- natural, mediante as quais este mundo transparece plasmado na vida
ção social dessa reprodução não pode de modo algum prescindir de social e se tonstitui como condição fundamental da existência cole-
elementos extra-econômicos para garantir sua continuidade e amplia- tiva. Entretanto, em razão do fato de · que essas relações de produção
ção, mormente por se tratar de uma relação assimétrica e contraditória. são necessariamente atravessadas pelas condições sociais que dessa
Isto quer dizer que se este processo se dá dentro de relações sociais forma as tornam possíveis e reproduzíveis - especialmente porque
historicamente determinadas, a constituição dessas relações compreen- são forjadas continuamente no âmago de uma dinâmica contraditória
de também elementos ou fatores não especificamente econômicos, e conflitiva ·- , é preciso ressaltar a existência de relações estruturais
visto que elas não poderiam se manter sem o consentimento, explícito e ordem extra-econômica que, a par das relações de produção, das
ou implícito, dos membros da formação social, no âmbito das práti- quais são analiticamente distinguíveis, também exercem um papel . es-
cas ideológicas, e n.a ausência de suas específicas instituições, no truturador para a manutenção, garantia e ampliação do sistema capi-
âmbito das práticas jurídico-políticas.39 Obviamente, esses elementos talista. Essas relações, que,; ·na linguagem marxista assumem caráter
e fatores intervenientes naquele processo são na sua essência apenas superestrutura!, não ·são relações sociais iritersubjetivas, ou seja, di-
distinguíveis analiticamente; são possuidores de uma autonomia rela- retas e recíprocas entre indivíduos e não-mediadas por objetos mate-
tiva e só se apresentam aparentemente separados quando examinados riais. Para expressar seu caráter estrutural, tais relações devem ser
na sua expressão objetivada e fenomênica, no contexto de uma razão intermediadas por elementos não apenas subjetivos ou simbólicos (sen-
meramente instrumental. Por exemplo, são indispensáveis à reprodu- tido da ação), mas também expressos por formas específicas de
ção do .sistema capitalista os fatores .e elementos relacionados com a sustentação material, seja no plano político, seja no plano ideológico.
Isso significa que as próprias relações estruturais econômicas têm,
nação, a cidadania, a ordem social, as formas jurídicas da proprie-
como condição de sua existência, o amparo de relações jurídico-polí-
dade , as liberdades garantidas, o contrato de trabalho, a presença das
ticas e cultural-ideológicas relativamente autônomas, cuja abordagem
Forças Armadas, os tribunais, os partidos políticos, etc. 40 Esses ele-
mais profunda e ampla realizaremos depois. Estas relações não são
mentos e fatores, que à primeira vista parecem atomizados na sua interpessoais e as práticas correspondentes exigem condições materiais
expressão singular e manifesta, passam a ter profunda unidade de específicas para serem exercidas; eis porque são estruturais. 41
conexão significativa no interior de uma totalidade estrutural. Eles

41 A esse respeito, é esclarecedor o pensamento de Ansart quando afirma que


a!J Para uma análise da dimensão política, ver Nicos Poulantzas, Poder Político "o papel, ou influência, de uma mensagem numa situação histórica não pode
e Classes Sociais, São Paulo, Martins Fontes, 1977, pp. 35-54. Para uma análise ser repensado isoladamente, abstração feita dos agentes que o expressam, dos
da dimensão ideológica, na mesma linha de abordagem, ver, do mesmo autor, meios simbólicos e técnicos que o utilizam, da freqüência das emissões, da
O Estado, o Poder, o Socialismo, Rio de Janeiro, Graal, 1980, pp. 13-54. organização da propaganda, do contexto cultural, social e econômico, das
40 Ver Marta Harnecker, op. cit., 143-148. atitudes e da receptividade dos ouvintes. O erro intelectualista, que consiste
110 ALAóR CAFFÉ ALVES ESTADO E IDEOLOGIA 111

Assim, a questão fundamental é posta no sep'tido de não assina- espactats para fins militares, forças policiais, Forças Armadas, siste-
lar o caráter de mera inters.ubjetividade nas relaj ões entre os agentes mas de informação e contra-informação, burocracia militar, sistemas
coletivos empenhados no processo produtivo; rpelhor dizendo, as re- de segurança, etc.), e na mediação dos aparelhos de inculcação, di-
lações entre classe dominante e classes subalternas não são simples fusão e domínio ideológico (meios materiais e procedimentais de
reações recíprocas entre indivíduos, recorrentes e guiadas por padrões comunicação de massa, tais como televisão, rádio, cinemas, teatros;
normativos previamente internalizados. 42 Elas pressupõem estrutura- propaganda e publicações, como livros, revistas, jornais, cartazes;
lidade a nível econômico e extra-econômico, a um só tempo, compreen- centros de socialização e formação cultural e científica, como as es-
dida no interior da processualidade histórica. Isso significa que, a colas, bibliotecas, museus, galerias de arte, centros de instrução pro-
par da mediação dos meios de produção (máquinas, fábricas, matérias- fissional, universidades, laboratórios, centros de pesquisas; aparatos
primas, instrumentos, aparelhos, veículos, edifícios, terras, produtos para lazer e diversão pública, como clubes, associações recreativas,
energéticos, força de trabalho, divisão técnica e social do trabalho, estádios, áreas livres de lazer, etc.). Essas relações também são media-
procedimentos, rotinas, etc.), as relações sociais de caráter estrutural das, a nível jurídico, por meios procedimentais específicos e instru-
são igualmente fundadas na mediação dos aparatos de violência legi- mentos eficazes representados por aparelhos de criação normativa
timada, caracterizados pelos instrumentos e instituições especializados básica (Assembléias e Câmaras Legislativas), de fiscalização, controle
para o exercício legal da coação (material bélico, fortificações e ins- e segurança da ação legal (Ministério Público, cartórios, registros pú-
talações militares, aviões e vasos de guerra, naves e instrumentos blicos, etc.), de interpretação, aplicação e execução oficial do Direito
(aparelhos do Judiciário e organizações auxiliares, como tribunais,
aqui em isolar a linguagem de todas as suas condições de produção e de delegacias, cárceres, Força Pública, etc.), e de suporte dos símbolos
recepção, surpreenderia ainda mais se fosse cometido em outras ciências: seria e significações jurídicas (códigos, diários oficiais, aparatos solenes,
o erro do economista que buscasse teorizar a atividade econômica limitando-se emblemas, publicações jurisprudenciais, peças processuais, placas pú-
a considerar as mercadorias produzidas sem levar em conta as condições de blicas, anúncios oficiais, etc.). 43
produção, os meios de circulação, ou o consumo e, em caso algum, a unidade
B preciso igualmente consignar um tipo de relação estrutural
de todo esse processo" . Cf . Pierre Ansart, Ideologias, Conflitos e Poder, Rio
de Janeiro, Zahar, 1978, p. 15. Essa mesma crítica feita por Ansart pode-se que vem assumindo um significado cada vez mais destacado na me-
aplicar ao campo do Direito, em relação ao intelectualismo de Kelsen, o qual dida em que fortalece, diversifica e amplia a intervenção institucio-
não considera como fazendo parte do âmbito das preocupações do jurista nalizada do Estado na esfera da economia e da sociedade em geral.
enquanto tal as condições reais da produção e aplicação das normas jurídicas. As relações desse tipo constituem o condicionamento do contexto
42 Nesse sentido e relevando o caráter histórico dos movimentos de classes
social e econômico global da vida coletiva, propiciando as bases ge-
sociais, sem olvidar as clivagens dos planos organizacionais e institucionais da
sociedade, se pronuncia Touraine: "As condutas de classe são aquelas que,
rais que permitem a reprodução do sistema de classes, a apropriação
atravessando os níveis de organização social e das instituições, colocam os e acumulação do excedente econômico e o encaminhamento e solução
problemas da historicidade. As condutas de classe são os movimentos sociais;
a formação de um movimento social impõe uma análise em termos de classes 4 3 Nesse s.e ntido esclarece Srour, a nosso ver com propriedade, as relações
( . .. ). Um movimento social é uma disposição a uma ação coletiva orientada sociais definidas como estruturais: " . . . podemos pensar num dispositivo que
para o controle ou transformação do sistema de ação histórica. Domina a não se resume às relações econômicas, mas abrange também as relações
historicidade. Não compromete o lugar de um indivíduo ou de uma categoria políticas e as relações culturais, todas mediadas por meios materiais precisos,
na organização social, nem mesmo sua influência na elaboração das decisões e fazendo parte de processos autônomos e específicos. Este dispositivo, além
que o afetam ; ataca diretamente o modelo de desenvolvimento da sociedade do mais, pode perfeitamente dar conta das relações que definimos como
e do poder". Cf. Alain Touraine, "As Classes Sociais" , in Raúl Benítez Zenteno interindividuais, entendendo-as como subordinadas e formando uma combinação
(coord.), As Classes Sociais na América Latina, Rio de Janeiro, Paz e Terra, peculiar na unidade complexa, ou sistema articulado de relações, que é uma
1977, p. 27. formação social concreta." Cf. Robert H . Srour, op. cit., p . 120-121.
ESTADO E IDEOLOGIA 113
112 ALAOR CAFFÉ ALVES

de certas necessidades gerais da sociedade (eduéação, saúde, sanea- exatamente no sentido de potenciar, por sua vez, o modo burocrático
mento básico, habitação, transporte, comunicação, defesa ambiental, da ação administrativa, que, por paradoxal que pareça, é realmente
preservação dos recursos naturais, etc.). Essas relações estruturais têm menos imparcial e mais oculto. 47
por fundamento a mf!diação administrativa do Estado, através de ór- Por todo esse complexo estrutural sumariamente enunciado aci-
gãos, entidades, organizações burocráticas, instituições, instrumentos ma, verifica-se claramente que as relações básicas entre os agentes
e. obras específicas (estrutura e procedimentos burocráticos, reparti- coletivos no âmbito da produção e reprodução da vida material, da
ções públicas, empresas governamentais, fundações, edifícios para sociedade, não se conformam dentro de um simples contexto inter- ·
ação institucional, equipamentos e instalações, postos de saúde, ma- subjetivo (embora possam e devam compreender relações interpes-
niCômios, hospitais, parques públicos, obras viárias, ferrovias, portos, soais); tais relações, enquanto se qualificam como estruturais, não
aeroportos, fazendas e estações experimentais, obras de infra-estrutura prescindem das relações jurídico-políticas, ideológico-culturais e pú-
física de saneamento básico, telefonia, represas, barragens, aparatos blico-administrativas, todas mediadas por recursos materiais precisos
para a produção energética, etc.).44 Assim, a administração do Estado e processos específicos dotados de relativa autonomia. Isso nos leva a
adquire um-a relativa autonomia funcional. Sua missão "não é tanto sintetizar a questão, apontando para alguns pontos básicos. O pri-
executar a lei, como desempenhar um determinado papel no seio da meiro é a rejeição da explicação reducionista do complexo pelo sim-
coletividade organizada; que é o de garantir a ordem pública e pres- ples, do coletivo pelo individual; isso quer dizer que a totalidade
tar determinados serviços públicos. É aqui que se encontra a justifi- complexa tem uma lógica própria e uma especificidade regida por
cação última, institucional, de sua existência e de seus poderes. A condições que não podem resultar da simples somatória ou agregação
administração pública se autolegitima na medida em que, 'por força dos elementos; por isso, não é possível explicar os movimentos cole-
das coisas', converte-se ern um elemento ·necessário à sociedade atual, tivos das classes sociais em confronto por relações e conflitos inter-
sem o qual esta não poderia subsistir". 45 Nesse sentido, a adminis- pessoais. O segundo ponto para o rigor de nossa abordagem refere-se
tração estatal é uma organização complexa, uma estrutura vivente no à ocorrência necessária da mobilização de agentes coletivos nos pro-
seio de uma sociedade com a qual se relaciona organicamente. Atual- cessos estruturais; vale dizer, as práticas sociais constituintes das re-
mente, "à medida que aumenta sua relevância social, o volume e a lações estruturais supõem a indispensável articulação de instrumentos
pluralidade qualitativa de suas atividades, sua magnitude organizativa, de produção, de aparatos de violência institucionalizada, de aparelhos
ela alcança, por conseqüência, um maior grau de autonomia estru- da adminis.tração pública e de meios de criação e difusão ideológico-
tural" .4il Essa relativa autonomia estrutural presta-se a gerar a ilusão cultural, desde que sejam sempre referidos a coletividades compreen-
de que a administração se constitui como organização independente, didás como fenômenos sociais globais e não a simples reações interin-
separada da vida política, orientada à perseguição de fins institucio- dividuais. Outra precisão a ser feita é a que se vincula à destinação
nais de caráter universal, e dotada de um corpo burocrático apolítico dos produtos derivados das relações estruturais: eles estão sempre
em si mesmo, caracterizado por uma racionalidade neutra. Na verdade, voltados para a coletividade. Assim, no plano econômico, aplicam-se
o interesse geral, abstrato e puro, que a administração realiza como os instrumentos sobre matérias-primas pará gerarem mercadorias (pro-
uma organização compacta, é uma ficção jurídica, servindo como base dutos finais); no plano político, os aparatos são utilizados sobre as
para limitar o alcance do modo de mediação democrático-partidista, forças sociais em jogo para engendrarem efeitos compulsivos (sobre

41 Idem, Ibidem, pas. ampl., pp. 31-32. Para um exame mais aprofundado do
44 Ver, nesse sentido, Jean Lojkine, op. cit., pp. 122-152.
45 Cf. Miguel Sánchez Morón, La Participación del Ciudadano en la Adminis-
papel da administração pública na sociedade burguesa, ver Ornar Guerrero,
tración Pública, Madri, Centro de Estudios Constitucionales, 1980, p. 28. La Administración Ptíblica del Estado Capitalista, Barcelona, Fontamara, 1981,
pp. 35-112.
46 Idem, ibidem, p. 31.
114 ALAOR CAFF't ALVES

as classes subalternas); no plano administrativo, as entidades e órgãos


públicos partem das necessidades sociais e das apropriações fiscais
para criarem serviços e bens de uso social; no plano cultural-ideoló-
gico, os meios de criação e difusão são manipulados sobre as formas
ideativas (dados e representações) para produzirem bens simbólicos
de consumo coletivo.48 Finalmente, o último ponto a ser sublinhado
corresponde ao problema do acesso ao controle dos instrumentos e
recursos que fundamentam as relações estruturais. Fica claro, neste
caso, que o pólo coletivo que assegurar para si o acesso ao e controle
sobre tais meios deterá inequivocamente a dominância na relação.
Esse processo gera, a par de uma assimetria nas práticas correspon-
dentes, as quais poderão variar desde uma oposição velada ou dis-
creta até as formas mais violentas de antagonismo social, uma "com- O indivíduo e
pensação ideológica" para o simultâneo ocultamento daquela mesma
assimetria, perfazendo a relação de hegemonia pela qual o pólo domi-
a prática social
nante se esforça para manter as relações de exploração nos limites
do consentimento legitimador do pólo dominado. Essa dinâmica ex-
prime uma dialética interna às relações estruturais da sociedade, cuja
Dentro do quadro traçado, convém avançar e ponderar a respeito
análise de poder e de suas simplicações ideológicas faremos mais
da relação entre a prática individual e a_ prática social ou coletiva.
adiante.
A questão é pertinente, pois na superfície fenomênica verificamos que
os agentes sociais são indivíduos, ou se;a, não "vemos" diretamente
a ação de um agente coletivo como tal, de uma classe social, só apreen-
demos a ação de cada indivíduo. 1 Como é possível, então, fazermos
afirmações a respeito de uma "realidade" não observada diretamente?
Aqui somos obrigados a invocar o sentido dialético a respeito da re-
lação entre fenômeno e essência, já abordado no início de nosso tra-
balho. Com efeito, a realidade não se prende apenas à descrição do
fenômeno tal como se apresenta à nossa observação direta; já dissemos
que é preciso, para capturar a realidade, ultrapassar a visão do fenô-
meno dado na sua contingência espaço-temporal imediata, não de

1 Para uma melhor compreensão a respeito das questões epistemológicas


originadas da relação entre a observação e a construção cognitiva, ver Marx
W. Wartofsky, lntroducción a la Filosofía de la Ciencia, Madri, Alianza, 1973,
vol. 1, pp. 133-163. Ver, também, John Hospers, Introducción al Análisis Filo-
sófico, Madri, Alianza, 1976, pp. 287-348. Ver, no mesmo sentido, Abraham
Kaplan, A Conduta na Pesquisa, Metodologia para as Ciências do Comporta ·
48 Ver, nesse sentido, Robert H. Srour, op. cit., p. 146. mento, São Paulo, EPU/EDUSP, 1975, pp. 57-66.
116 ALAOR CAFFÉ ALVES ESTADO E . IDEOLOGIA 117

forma meramente generalizante, porém de modo construtivo, precisa- atividade.' Exatamente por se desenvolverem sob essas formas, as
mente para surpreender suas relações essenciais ocultas, negadoras do práxis individuais integram-se numa práxis comum cujos . resultados
fenômeno ma~, no mesmo instante, expressão da própria possibilidade transcendem os fins e produtos da ação individual". 6 Aprofundando,
deste fenômeno. O fenômeno, ao mesmo tempo que escamoteia a aquele pensador ainda esclarece que "a práxis intencional do indiví-
essência, a revela, visto que dela é a expressão existencial. 2 Se ficar-' duo funde-se com as de outros numa práxis inintencional- que cada
mos, entretanto, apenas no plano empírico, teremos a descrição deta- um deles isoladamente não buscou nem desejou - para produzir
lhada da aparência fenomênica, mas dela perderemos a própria rea- resultados que também não foram buscados ou deséjados. Resulta daí
lidade. Assim, no contexto de nossa apreensão dos movimentos sociais que os indivíduos, enquanto seres sociais, dotados de consciência e
e instituições básicas da sociedade capitalista, onde nos deparamos
vontade, produzem resultados dos quais não são conscientes; ou seja,
com a necessidade de identificar as respectivas estruturas, verificamos
que não correspondem aos objetivos que guiavam seus atos indivi-
que estas não são possíveis senão como confronto dos agentes coleti-
duais nem tampouco a um propósito ou projeto comum. E, não obstan-
vos (classes sociais), mediados pelos objetos e recursos materiais pro-
dutivos resultantes da cristalização e acumulação das práticas sociais te, tais resultados não podem ser senão o fruto de sua atividade. Sua
passadas. 3 Isso quer dizer que existe uma prática (práxis) social ou práxis tem, portanto, uma dupla face: é intencional na medida em
coletiva que não se confunde com a prática (práxis) individual das que o indivíduo persegue com ela determinado objetivo; e ininten-
relações intetsubjetivas. Mas a confusão que precisa ser evitada não cional na medida em que sua atividade como ser consciente adota
significa que devamos separar a prática individual da prática social, uma forma social e se integra numa práxis coletiva - a produção
pondo uma ao lado da outra; apenas podemos distingui-las analitica- como atividade social - que leva a resultados globais - produção e
mente, visto que a prática social somente se realiza em e através da conservação de determinadas relações sociais - que escapam· a sua
prática individual.4 A relação dialética entre a práxis comum e práxis consciênda e a sua vontade".~ E preciso, entretanto, consignar com
individual é destacada com muita clareza pelo pensador mexicano muita clareza que as relações sociais, que encarnam as práticas inin-
Sánchez Vázquez quando escreve que "a sociedade não existe à mar- tencionais, são precisamente regidas por certas leis tendenciais corres-
gem dos indivíduos concretos, mas tampouco estes existem à margem pondentes a determinado nível de desenvolvimento histórico da socie-
da sociedade e, portanto, de suas relações sociais. Quem age prática, dade. Assim, o fato de só podermos observar diretamente as práticas
real ou materialmente são os indivíduos concretos, não passando as individuais não significa á inexistência de vínculos sociais específicos,
relações sociais das formas necessárias sob as quais se desenvolve sua
de certo modo subjacentes e reguladores daquelas práticas. Tais vín-
culos são reguladores não porque possam pressupor um sujeito mani-
2 Ver W. G. F. Hegel, Ciencia de la Lógica, 11, Buenos Aires, Hachette, 1956, pulador consciente que esteja acima das ações individuais, numa fun-
pp. 17-21. ção teleológica e mística, mas sim porque obedecem a uma lógica ou
a Na mesma linha, Costa Pinto conceitua a estrutura social como "uma socie-
dade encarada do ângulo das . relações dos homens entre si e dos homens com racionalidade intrínseca não-intencional, que forma, em última análise,
as coisas materiais que os cercam; relações interdependentes e geradas histo- a lei interna daquelas ações - lei que não existe independentemente
ricamente na atividade social de produzir e reproduzir as condições essenciais de das próprias ações - , tornando-as, em conjunto ou isoladamente,
sobrevivência do grupo". Cf. L. A. Costa Pinto, Sociologia e Desenvolvimento, compreensíveis a nossa razão.
Rio de Janeiro, Civ. Brasileira, 1963, pp. 86-87.
4 As discriminações analíticas permitem-nos identificar feições ou aspectos
abstraídos intelectualmenete (por exemplo, a forma de uma letra), mas que não 5 Cf. Adolfo Sánchez Vázquez, Filosofia da Práxis, Rio de Janeiro, Paz e
são passíveis de desagregação real ou imaginária a partir de um conjunto con- Terra, 1968, p. 332.
creto (por exemplo, as janelas de uma casa). 6 Idem, ibidem, p. 333.
ESTADO E IDEOLOGIA 119
118 ALAOR CAFFÉ ALVES

Exemplo modelar desse tipo de abordagem é o fenômeno con- oportuna, não temos consciência das regras, nem podemos tê-la, posto
creto da fala expressiva, como ocorrência singular e contingente (fala- que, se construíssemos cada frase em atendimento simultâneo e cons-
se aqui e depois se cala, outra vez setorna a falar e assim por diante); ciente a cada regra gramatical ou semântica, deixaríamos de falar. 10
em contraposição às regras da língua (gramática), que são subjacentes Aliás, o bom corredor continuará a sê-lo perfeitamenté, ainda que
ao fato de falar. o falar é sempre um ato individual, e mesmo que desconheça as leis da fisiol0gia humana. Por outro lado, é preciso
muitos possam falar ao mesmo tempo, é cada um que fala. Contudo, notar a profunda vinculação . dialética da racionalidade interna e não-
esse ato contingente não é possível sem a regulação interna subjacente intencional de um determinado fenômeno com a sua expressão exis-
que o torna socialmente compreensível, isto é, que lhe outorga uma tencial e contingente. Isso quer. dizer, para ficarmos em nosso exemplo
estrutura de sentido a qual não depende apenas da ação individual de modelar, que se uma ou outra fala pode deixar de ocorrer sem pre-
cada locutor. "A enunciação individual (a parole), contrariamente à juízo da existência da estrutura interna de uma língua, todas as falas
teoria do objetivismo abstrato, não é de maneira alguma um fato possíveis não podem deixar de ser sem se destruir igualmente a pró-
individual que, pela sua singularidade, não se presta à análise socio- pria estrutura regulativa da língua correspondente. Não há fala espe-
lógica. Com efeito, se assim fosse, nem a soma desses atos individuais, cífica e contingente sem as regras de sua racionalidade interna, mas
nem as características abstratas comuns a todos esses atos individuais também não há essa racionalidade interna (essência) sem que sua
(as 'formas normativamente idênticas') poderiam gerar um produto expressão fenomênica seja efetivamente manifestada em algum mo-
social." 7 "Este produto social é uin sistema de signos, um sistema mento e em algum lugar.
gramatical, que existe virtualmente em cada cérebro, ou, mais exa- Guardadas suas limitações, esta expressão material de modelo
tamente, nos cérebros de um conjunto de indivíduos, pois a língua poderá lançar algumas luzes sobre nossa questão. Inicialmente pode-
não -está completamente em nenhum, não existe perfeitamente senão mos afastar certos pr~juízos que o liberalismo ortodoxo nos impinge,
no conjunto. Diferentemente da língua, a fala (parole) está constituída através dos conceitos "mobilidade social" e "igualdade de oportuni-
pelo conjunto das atuações lingüísticas individuais nas quais se atua- dades", fundados' na manipulação ideológica das formas contingentes
lizam essas convenções (regras) que constituem a própria língua." 8 da realidade social imediata. Não é porque um certo fato tem sua
Tais regras, portanto, perfazem a estrutura de sentido da língua e possibjlidade assegurada ao nfvel da contingência e da singularidade
essa estrutura de sentido é lei que não somente existe através do fenô- existencial que ele se torna universalizável, independentemente da
meno da fala, mas também o regula, tornando-o possível. limitação estrutural que rege, em última instância, sua manifestação.
Assim, é preciso notar que a racionalidade intrínseca não foi Assim, a mobilidade social, entendida como fenômeno da passagem
definida por "ninguém", embora se possa dela tomar consciência me- de indivíduos de uma categoria social à outra, existe efetivamente no
diante a reflexão do lingüista ou especialistas do campo.9 A fala, plano dos fatos da ação individual - sempre podemos citar aquele
portanto, é a expressão fenomênica de algo oculto que a delimita e caso de um filho de operário que se tornou grande industrial ou
orienta regulativamente. Enquanto falamos, no plano da contingência

7 Cf. Mikhail Bakhtin (V. N. Volochinov), Marxismo e Filosofia da Linguagem, mais amplo que constitui o conjunto das condições de vida de uma determinada
Problemas Fundamentais do Método Sociológico na Ciênci" da Linguagem, comunidade lingüística". Cf. Mikhail Bakhtin, op. cit., p. 107 .
São Paulo, Hucitel, 1979, p. 107. lO Numa perspectiva estruturalista, ver Noel Mouloud, Linguagem e Estruturas,

s Cf. José Hierro S. Pescador, Principias de Filosofía del Lengua;e, I, Teoría de Coimbra, Almedina, 1974, pp. 19-82. Ver, sobre o tema, Chaim Samuel Katz
los Signos, Tegría de la Dramática, Epistemología del Lenguaie, Madri, Alianza, et alii, Dicionário Básico de Comunicação, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1975,
1984, p. 52. verbete "Língua e Fala"; no mesmo sentido, consulte-se Oswald Ducrot, Tzvetan
o "A enunciação enquanto tal é um puro produto da interação social, quer se Todorov, Dictionnaire Encyclopédique des Sciences du Langage, Paris, Seuil.
trate de um ato de fala determinado pela situação imediata ou ·pelo contexto 1972.
120 ALAOR CAFFJ!: ALVES ESTADO E IDEOLOGIA 121

aquele outro caso do filho da empregada doméstica que se tornou Neste ponto, situamo-nos no centro da questão do relacionamen-
médico ou ministro de Estado - , porém, não se pode compreender to do indivíduo com a estrutura social. Já verificamos ser inócua a
o conjunto dos fenômenos de distribuição dos "indivíduos" na estru- noção de indivíduo isolado para efeito da análise estrutural, não só
tura social apenas com base nesse conceito; exatamente porque, em porque não nos dá a chave da explicação das transformações sociais
nossa sociedade (hierarquizada), a ação é diretamente limitada pela e de suas manifestações institucionais de base (o Estado, por exemplo),
estrutura social em vários aspectos. Muitos, senã~ a maioria, ficarão como também porque nos induz perigosamente à tendência de consi-
desapontados, uma vez que, por mais capazes que sejam os indivíduos, derar os homens em sentido abstrato, fora do seu elo social específico
somente uma pequena porção deles é que pode galgar posições no e histórico. Partimos, então, dos indivíduos reais, no co~texto de suas
topo social.U Vê-se, portanto, que a oportunidade de ascensão social atividades e condições materiais em que vivem, mesmo porque, para
pode ser válida para cada um isoladamente, mas 'não para a totalidade fazer História, eles devem estar em condição de satisfazer suas neces-
dos indivíduos. Desse modo, quando refletimos sob o ângulo do con- sidades naturais e culturais. Na satisfação dessas necessidades, os in-
junto social da sociedade capitalista, deparamo-nos com a estrutura divíduos se encontram em relações definidàs de produção, indispen-
sáveis e independentes de sua vontade, caracterizando uma ligação
de classe que sempre demarca as posições, níveis e lugares dos seres
material entre eles. Porém, é preciso frisar que estas relações não
humanos nessa sociedadeP Por conseguinte, a compreensão dos fato-
subsistem independentemente dos indivíduos na sua totalidade, en-
res estruturais que não estão presentes imediatamente na observação
quanto coletividade, mas permanecem de forma autônoma em relação
direta dos fatos e que atuam através da socialização e da cultura - a cada indivíduo singularmente considerado. Por conseqüência, cada
conforme a posição do indivíduo na estrutura social - permite-nos indivíduo pode, em sua particularidade, ser substituído do ponto de
explicar até certo ponto por que ele se comporta de um modo e não vista da estrutura social, sem que esta se altere na substância. Entre-
de outroY tanto, não há indivíduo a não ser dentro de relações sociais determi-
nadas; os indivíduos não se relacionam entre si como indivíduos
11 A concentração de riqueza e as forças sociais tendentes a mantê-lá e agravá- "puros", eles estão sempre basicamente qualificados pelas suas posi-
la, dentro das relações de produção capitalista, propiciam de forma inevitável · ções de classe: como trabalhador frente ao capitalista ou como cam-
a ausência de oportunidades reais para a efetiva movimentação de todos em ponês frente ao proprietário de terras.
direção ao • topó" social. Nesse sentido, Giddens retrata a ·existência perma-
nente de desigualdades muito acentuadas na distribuição da riqueza, nas socie- O necessário e originário relacionamento dos indivíduos dentro
dades capitalistas. Embora haja certas variações entre diferentes países, em de um contexto de convivência exclui o conceito do indivíduo como
todos eles uma pequena minoria da população possui uma quantidade despro- expressão da unidade social fundamental, visto que o homem se põe
porcional da riqueza total (. .. ). Ainda que haja mobilidade nos níveis mais
como um dos semelhantes numa relação com os outros antes mesmo
baixo~ do sistema de classes, as chances daqueles que pertencem às classes mais
baixas alcançarem um status mais elevado são realmente pequenas". Cf. Anthony de se referir explicitamente ao "eu", como indivíduo autodeterminado.
Giddens, Sociologia, Rio de Janeiro, Zahar, 1984, pp. 51-52. O relacionamento entre os indivíduos é sempre determinado em fun-
12 A cristalização relativa da estrutura de classe é caracterizada por Bertaux, ção do lugar que ocupam na estrutura social de classe. Er_n razão desse
mediante a crítica ao conceito de mobilidade social: "O primeiro passo, por- fato, o intercâmbio entre os indivíduos se realiza segundo o desem-
tanto, é substituir o conceito estreito de 'mobilidade social' pelo de 'distribuição':
penho de determinados papéis que eles personalizam. Neste particular,
distribuição dos indivíduos, ou melhor, dos seres humanos, nos níveis e
lugares definidos pela estrutura de classe". Cf. Daniel Bertaux, Destinos Pes- a clareza do texto organizado por Horkheimer e Adorno (Escola de
soais e Estrutura de Classe, Rio de Janeiro, Zahar, 1979, pp. 49-50. Frankfurt) não pode deixar de ser apresentada com toda a sua força
lo3 Ver, nesse sentido, Margaret A. Coulson e David S. Riddell, Introdução meridiana: "A definição do homem como pessoa implica que, no
Crítica à Sociologia, 5.' ed., Rio de Janeiro, Zahar, 1979, pp. 66-67. âmbito das condições sociais em que vive e antes de ter consciência
122 ALAóR CAFFÉ ALVES ESTADO E IDEOLOGIA 123

de si, o homem deve sempre representar determinados papéis como subjetividade específica dos agentes individuais envolvidos. Entretan-
semelhante de outros. Em conseqüência desses papéis e em relação to , é preciso notar que, sob o ângulo rigorosamente estrutural e em
com os seus semelhantes, ele é o que é: filho de uma mãe, aluno de razão das atividades que lhe correspondem, as particularidades dos
um professor, membro de uma tribo, praticante de uma profissão. indivíduos engajados nessa relação de confronto são reciprocamente
Assim, essas _relações não são, para ele, algo extrínseco, mas relações indiferentes. 15 Eis porque a condição específica de cada sujeito en-
que se determinam, a seu próprio respeito, como filho, aluno ou o que volvido nas relações estruturais pode ser até certo ponto desconside-
for. Quem quisesse prescindir desse caráter funcional da pessoa, para rada para efeito de análise da conformação social básica, num deter-
procurar em cada um o seu significado único e absoluto, não conse- minado período histórico. Com efeito, nesse nível de análise podemos
guiria chegar ao indivíduo puro, em SUfl singularidade indefinível, trabalhar e conceituar sobre relações e não sobre os sujeitos singula-
mas apenas a um ponto de referência sumamente abstrato que, por res presentes nestas relações; mais uma vez se determina como falsa
seu turno, adquiriria significado em relação ao contexto social, enten- a concepção que apresenta o indivíduo humano como anterior à so-
dido como princípio abstrato da unidade da sociedade (o cidadão). ciedade ou como seu ponto de partida. Obviamente, tal consideração
Inclusivamente, a pessoa é, como entidade biográfica, uma categoria não nos autoriza, sob pena de personalizarmos falsamente as relações
social. Ela só se define em sua correlação vital com outras pessoas, sociais como existentes em si e por si, a considerar o ser humano como
o que constitui, precisamente, o seu caráter social. A sua vida só " ponto de chegada " , mas precisamente como qualificação que se vai
adquire sentido nessa correlação, em condições sociais específicas; e construindo progressivamente na e pela processualidade das relações
só em relação ao contexto é que a máscara social do personagem sociais das quais faz parte integrante. Queremos apenas pôr em relevo
também é um indivíduo". 14 Nesse sentido, os papéis que os indivíduos que, a p·artir do elemento natural representado pelo indivíduo consi-
representam, inclusive como "indivíduos livres e iguais", não são algo derado na sua singularidade biológica, não se pode deduzir caracte-
que possa ser abstraído com o objetivo de se obter uma autêntica rísticas sociais que necessariamente o sobredeterminam enquanto ele-
realidade (residual) representada pela unidade singular indizível do mento integrante de relações sociais determinadas historicamente. Não
indivíduo "puro". Aliás, essa unidade seria tão abstrata que a singu~ sendo determinações naturais dos indivíduos, as '~características so-
laridade individual se tornaria absolutamente universal, perdendo, por ciais" resultantes das relações de estrutura só podem ser destacadas
conseguinte, o caráter de personalidade que exatamente particulariza na análise da realidade social, ou seja, de uma realidade não composta
e concretiza cada indivíduo como pessoa. Por outro lado, da mesma de indivíduos "puros", mas na qual eles se situam de forma determi-
form~ que o indivíduo, enquanto ser social, não pode deixar de ser nada em face das condições de produção material da· vida sociaJ.l 6
pessoa, também não pode deixar de transparecer sua específica con- Por conseqüência, o exercício, por parte de um indivíduo, de uma
dição de ser membro de uma classe social. função definida no processo de produção, como capitalista ou como
Como já salientamos, o capitalista ou o operário não nascem trabalhador, não é uma determinação interna de sua condição como
"naturalmente" sob essa condição; eles estão nessa condição em razão indivíduo e sim uma decorrência da personificação assumida e cons-
das relações sociais emergidas e ao mesmo tempo determinantes da
respectiva situação de classe. Por isso, tais qualificações (determina- Ji;Ver, nesse sentido, Victor Molina, "Notas sobre Marx e o Problema da
ções) só existem através da própria relação social; a çleterminação do Individualidade" , · in Da Ideologia, org. pelo Centre for Contemporary Cultural
indivíduo como capitalista ou proletário se destaca ao nível das rela- Studies da Universidade de Birmingham, Rio de Janeiro, Zahar, 1980, pp.
ções de produção, as quais são relações objetivas não-excludentes da 296-302.
1 6 Para uma análise mais aprofundada da questão indivíduo-sociedade, consulte-

14 Cf. Max Horkheimer e Theodor W. Adorno, Temas Básicos da Sociologia, se Adam Schaff, "O Marxismo e a Filosofia do Homem", in Erich Fromm (org.);
São Paulo, Cultrix, 1978, p. 48 . Humanismo Socialista , Lisboa, Edições 70, s.d., pp. 151-162.
ESTADO E IDEOLOGIA 125
124 ALAOR CAFFÉ ALVES

lariado). Com efeito, o capital pode ser separado de um determinado


tituída pelas relações estruturais das quais faz parte. 17 Assim, o ser
indivíduo, mas não pode subsistir separado de todo e qualquer indi-
humano como tal não é trabalhador nem capitalista; ele é um ou
víduo de uma formação econômico-social, sob pena de se eliminar
outro na sociedade e -através dela.
essa formação como estrutura capit~lista de produção.
Essas questões ·nos permitem realizar o retorno para a concre- Em função de sua possível desconexão com um determinado
tização dialética do conceito a respeito da vinculação entre a ação indivíduo, o capital é habitualmente confundido, no mundo fenomê-
do indivíduo e a prática social resultante das relações básicas das niço do senso comum, com as coisas que perfazem a materialidade da
formações econômico-sociais capitalistas. Numa primeira ordem de relação; esta visão "coisificada" ou condensada do capital é decursiva
reflexão, surge a aparente exterioridade das relações de produção no de uma perspectiva alienada e originada do ponto de vista do indiví-
que diz respeito aos indivíduos. Sob o ponto de vista do indivíduo, duo na sua expressão singular e contingente. Entretanto, sob o ângulo
enquanto personifica existencialmente categorias econômicas - indus- do conjunto social e de suas classes, o capital já não aparece como
trial, banqueiro, comerciante, proletário urbano, latifundiário, campo- algo material que se possa perder; ele não pode manter-se como
nês, bóia-fria, etc. - , a relação se apresenta como contingente . ou "coisa" indiferente, separado das condições sociais que precisamente
acidental, podendo o indivíduo perder circunstancialmente essa qua- lhe emprestam sentido e realidade; o capital, sob tal ângulo, apresenta-
lidade (de ser um capitalista ou um trabalhador a~salariado). Nesse se exatamente como o que realmente é; ou seja, como relação social
sentido, por exemplo, o capital é realmente separável de um indivíduo mediada por coisas produtivas: os meios de produção. Essa relação
capitalista, podendo este ser substituído na ·relação por1 diversos mo- social é cara~terizada com muita propriedade por Marx, quando afir-
tivos. " Isto implica indubitavelmente que a determinação de 'capita" ma que "um negro é um negro; apenas dentro l:!e determinadas condi-
lista', por exemplo, é atribuída a um indivíduo apenas quando ele ções ele se torna um escravo. Uma máquina de fiar algodão é uma
está representando uma função definida nos processos de produção. máquina de fiar algodão; ela se transforma em capital apenas em
Ser um capitalista não é uma definição de um indivíduo como tal, condições determinadas. Fora dessas condições, a máquina tampouco
não é uma determinação 'interna' carregada pelo indivíduo, mas uma é capital quanto o ouro é, por si próprio, moeda, ou o açúcar é o
categoria que corresponde a uma função que ele está desempenhando, preço do açúcar. Na produção, os homens não agem apenas sobre
apenas isso. O fato de a sua individualidade ser afetada por isso é a natureza, mas também uns sobre os outros. Eles somente produzem
outro problema." 18 Entretanto, e este é o aspecto nuclear da questão, colaborando de uma determinada forma e trocando entre si suas ati-
sob o ponto de vista da sociedade capitalista como um todo, não há vidades. Para produzirem, contraem determinados vínculos e relações
possibilidade de se manter uma relação estrutural regida pela lógica mútuas, e somente dentro dos limites desses vínculos e relações sociais
do capital sem que certos indivíduos efetivamente suportem a perso- é que se opera sua ação · sobre a natureza, isto é, se realiza a produ-
nificação de capitalista (assim como outros, a de trabalhador assa- ção".19 Na forma burguesa de produção, essas relações sociais tradu-
zem determinados vínculos de oposição e desigualdade entre os homens,
17 Essa personificação é deduzida com muita clareza pór Marx: "Mas aqui entre os produtores e os detentores dos meios de produção. Os meios
só se trata de pessoas à medida que são personificações de categorias econô- de produção, portanto, embora indispensáveis, não são suficientes
micas, portadoras de determinadas relações de classe e interesses. Menos do para a definição do capital, visto que a· especificidade essencial de~te
que qualquer outro, o meu ponto de vista, que enfoca o desenvolvimento da
formação econômica da sociedade como um processo histórico-natural, pode
encontra-se no tipo de relação social assimétrica em face daqueles
tornar o indivíduo responsável por relações das quais ele é, socialmente, uma
criatura, por mais que ele queira colocar-se subjetivamente acima delas". Cf. 19 Cf. Karl Marx, Trabalho Assalariado e Capital, 2: ed., Rio de -Janeiro,
Karl Marx, O Capital, I, Prefácio, São Paulo, Abril Cultural, 1983, p. 13.
Editorial Vitória, 1963, p. 32.
18 Cf. Victor Molina, op. cit., p. 304.
126 ALAóR CAFFÉ ALVES
ESTADO E IDEOLOGIA 127

meios de produção - com vistas a sua manutenção e acumulação de uma · forma ou de outra, o mundo da objetividade social regido
ampliada - e que, por conseqüência, envolve· necessariamente relações por uma racionalidade própria, com suas leis específicas determinadas
de poder. Como resultado, verificamos que o capitalista existe em em função das forças sociais em confronto e do grau de desenvolvi-
oposição ao trabalhador assalariado, numa relação objetiva e determi- mento histórico do potencial humano para modificação da natureza.
nada, sendo acidental, para essa relação, todo e qualquer indivíduo
f preciso reter de modo destacado esse aspecto da relação sujeito-
específico; assim a individualidade singular, enquanto individualidade
objeto, especialmente tendo em vista a importância da estruturação
particularizada e contingente, é irrelevante para a relação estrutural
ideológica do Estado para configurar sua própria existência. Por esse
básica, embora não seja possível, sqb o ângulo da totalidade, o movi-
encaminhamento geral, verifica-se a necessidade da rejeição do suposto
mento social capitalista sem "qualquer" individualidade singular. Esta
ontológico de que existe um "mundo exterior" subsistente em si e
conclusão é de extrema significação para a caracterização do Estado
por si mesmo, constituído à margem da intervenção da atividade
em suas relações com os atores individuais representantes das classes
prática subjetiva. Disso decorre também a rejeição de um outro su-
ou frações de classe dominantes. Mais adiante a retomaremos para os
posto, agora de caráter epistemológico, de que as idéias são cópias ou
desdobramentos conseqüentes.
reflexo dos objetos. 21 Na realidade, não se pode considerar o mundo
Numa segunda ordem de ponderação, a concretização dialética
objetivo por um lado e o pensamento subjetivo por outro. O pensamento
do relacionamento da prática individual com a prática social depende
encontra-se na própria objetividade, fazendo parte de sua contextura
a reflexão sobre a relação sujeito-objeto, já iniciada neste trabalho.
material; ele não é apenas "reflexão", é também um modo constitutivo
A práxis que define essa relação compreende uma unidade dialética
da práxis social. Portanto, a objetividade não pode ser entendida
entre consciência e realidade; não há identidade entre esses aspectos,
como "exterioridade", como algo exterior à atividade do homem, como
visto que os vínculos internos não cancelam as diferenças; mas também
algo que deve ser contemplado de fora.
não há separação, uma vez que não são "coisas" ou fenômenos mutua-
mente externos que viessem a entrar em contato recíproco nuina rela- Desse modo, existe uma materialidade na práxis subjetiva huma-
ção mecânica. Por essa razão, as modificações operadas ao nível da na, que oferece resistência objetiva e que, portanto, exige não ser
prática teórica repercutem necessariamente no mundo do ser; sem considerada como meros fenômenos psíquicos, visto que. também não
embargo, o pensamento não é algo autônomo com respeito à realidade. pode prescindir de múltiplos e complexos instrumentos extramentais
Assim, as idéias não podem ser consideradas como algo não-real em face - produtos da práxis histórico-social - para sua reprodução e amplia-
da realidade, como algo externo ou alheio a respeito do mundo do ção. As formas espirituais são, por conseguinte, parte substancial da
qual são a representação e, ao mesmo tempo, a constituição como sociedade, são formas de consciência constitutivas da própria estrutura
práxis teórica e social. Elas são parte da realidade e é por isso que uma social. Os processos ideais, ao se integrarem como parcela efetiva da
transformação no plano da consciência é, por conseguinte, uma trans- realidade social, não podem deixar de influir nas condições de sua
formação da realidade social, do mundo da práxis humana. 20 Já disse- manutenção ou transformação. As idéias se projetam e ganham corpo
mos que, nesse mundo, o objeto não se mantém indiferente diante da e materialidade através da práxis coletiva, assumindo o tamanho da
transformação da consciência a seu respeito. Nesse sentido, a ação do realidade social que inspiram; formam a estrutura espiritual da socie-
sujeito com a consciência que lhe é inerente realiza simultaneamente, dade, não. como mera aparência reflexa do mundo social, mas exata-
mente como um de seus elementos constitutivos e essenciais. 22 f por
20 Ver Carlos Pereyra, El Sujeto de la Historia, Madri, Alianza Editorial, 1984,
pp. 72-74. Ver, também, Auguste Cornu, "A Idéia de Práxis e a Elaboração da 21 Ver Carlos Pereyra, op. cit., pp. 75-78.
Concepção Materialista do Mundo" , in Praxis , A Categoria Materialista da 2:2Ver, nesse sentido, Antonio Gramsci, El Materialismo Histórico y la Filosofía
Prática Social , vol. J, Lisboa. Horizonte, 1980, pp . 41-84.
de Benedetto Croce, Buenos Aires, Nueva Visión, 1973, pp. 32-42.
ALAOR CAFFJ!: AL~ ESTADO E IDEOLOGIA 129

essa razão que os produ!g_s..--idéológicos resultantes da prática teórica, formações econômico-sociais no curso da História como produtos
dei trabalho conceitual científico, até as formas mais simples do senso diretos da intenção ou projeto de nenhum sujeito individual ou supra-
conium, da opinião pública ou do folclore, são tão reais como os individual.
derivados de outras formas da prática coletiva. Por-esse efeito, com- Fica-nos, contudo, o problema· de equacionar a relação entre a
preende-se porque a ideologia é parte 'integrante do processo social prática individual e as leis da estrutura social, especialmente quando
caracterizado por relações de dominação, dando-lhe substância legiti" se tem em vista que a "História" não utiliza o homem para trabalhar
madora e viabilidade. por seus objetivos - o que seria cometer o erro de personificar a
Finalmente, numa ·terceira ordem de reflexão a respeito da cone- História de maneira mística - e sim que ela não passa das atividades
xão orgânica da prática social com a individual, cumpre-nos abordar . dos homens que perseguem seus objetivos, realizando-se a si mesmos
o problema da relação entre a vontade pessoal exercida intencional- nesse processo.2 5 Com efeito, quem realiza a práxis a nível da ·expe-
mente e a racionalidade objetiva não-intencional dos processos estru- riência imediata são os indivíduos reais, c<;mscientes de seus fins
turais da sociedade. A questão toma particular relevo na medida em específicos; essa práxis, entretanto, constitui e corporifica, simulta-
que se verifica· que os agentes da História são homens reais e vivos, neamente, a práxis comum ou coletiva cujos resultados, como já foi
manifestando-se individualmente, não podendo ser observada nenhuma dito, superam· os motivos e os fins das atividades singulares. Como
entidade coletiva, existente em si e por si, independentemente da ação os agentes particulares integram as relações estruturais da sociedade,
particular de cada sujeito. Neste ponto, não se pode deixar de conside- transcendendo o âmbito puramente interpessoal, suas ações individuais

rar, por estarem intimamente ligadas, as ponderações já feitas a respeito constituem, inevitavelmente e ao mesmo tempo, essas relações de caráter
da aparência de exte.rioridade atinente às relações estruturais da socie- objetivo, independente de como eles as vivam ou conheçam.
dade e a respeito da unidade dialética sujeito"Übjeto.23 As ações A práxis individual, portanto, assume uma forma social que lhe
individuais são concretas e conscientes; entretanto, elas perfazem impõe a estrutura e se integra e materializa numa práxis coletiva que
também, e de modo inconsciente, o curso simultâneo da práxis (coleti- resulta, em última análise, na reprodução e ampliação de. determinadas •
va) não-intencional, mas dotada de racionalidade ~ não~teleológica - , relações sociais, as quais, submetidas às leis qtie presidem seu fun·
que se exprime na lei de reprodução de um determinado sistema cionamento, escapam à imediata manipulação da vontade síngular.26
econômico-soCial. Essa racionalidade estrutural objetíva não depende Por exemplo, quando o campo,nês, nª tentativa de buscar um melhor
direta"!ente da consciência nem da vontade dos homens, mas também nível de vida para si e sua família, abandona as terras que vinha
não é manifestação de nenhuma força espiritual supra-individual dota- cultivando em regime de quase servidão, à procura de trabalho como
da de direção finalística. Z-4 De~se QlOdo, não se pode apontar as trans- operário assalariado no meio urbano, certamente não se propõe a
contribuir para a reprodução do sistema capitalista de produção, em-
23 Ver Michael Lowy, Método Dialético e. Teoria Política, Rio de Janeiro, Paz bora, em última instância, sua prática individual conduza, sem que
e Terra, 1975, pp. 50-63. disso tenha consciência, à manutenção das condições bás~cas dessa
24 Para uma crí.tica ao atomismo individualista e à abstração. da sociedade
formação e~onômico-social. Da mesma forma, o trabalhador assa~ariado
hipostasi~. ver, respectivamente, K. Marx e F. Engels, A Sagrada Família,
Crítica da Crítica, Lisboa, Editorial Presença, 1974, pp; 178-187; La Ideologia
A/emana, 4.' ed., ·Buenos Aires, Pueblos Unidos, 1973, pp. 28-55. Nesse mesmo que a abstração, considerada como tal, é abstrata; admirável tautologia!" Cf.
sentido, Marx lança uma crítica ao sr. Proudhon, visto que a juízo deste Karl Marx, Miséria da Filosofia, Rio de Janeiro, Leitura, 1965, p.' 179.
último são as abstrações; as categorias, e nãá os . homens, que fazem a História. :.!1\ Ver, nesse sentido, K. Marx e F. Engels, A Sagrada Família, op. cit.,
"A abstração, a categoria, considerada como tal - isto é, separada dos homens pp. 117-130.
e de sua ação material - , é, naturalmente, imortal, inalterável, impassível; 26 Ver Emilio Lamo de Espinosa, La Teoría de la Cosificación: De Marx a la
não é mais que uma modalidade da razão pura, o que vale dizer, simplesmente, Escuela de Frçuicfort, Madri , Alianza, 1981 , pp. 50-59.
130 ALAOR CAF:FÊ ALVES ESTADO E IDEOLOGIA
131

não tem, ao entrar na relação de produção,. a intenção de gerar mais- não se assenta apenas na vontade dos sujeitos singulares, mas na
valia para o seu empregador capitalista; no entanto, sua prática indi- conjugação dialeticamente estruturada de suas ações conforme deter-
vidual contribui para esse efeito. Por seu turno, o capitalista pode minadas leis do sistema e cujo funcionamento lhes impõe limites obje-
crer estar pagando sob a forma de salário, não a força de trabalho, tivos. A relação sujeito-objeto nesse processo, já notamos, deve ser en-
mas sim o· trabalho mesmo, ou seja, seu valor de uso no processo tendida não como identidade dos respectivos termos, nem como sua
produtivo; entrementes, sua crença não elimina o fato real de remu- separação em fatores reciprocamente externos, mas como unidade dia-
nerar apenas a força de trabalho, ao nível de seu valor de troca no lética dos opostos, de tal sorte que jamais pode haver absoluta objeti-
mercado. Mesmo que o capitalista por motivos éticos ou religiosos, vação do sujeito, nem absoluta subjetivação do objeto. Isso significa,
tomando consciência da penúria por que passam seus empregados no âmbito de nosso tema, que a racionalidade objetiva reguladora da
assalariados, quisesse assumir atitudes benevolentes e remunerar ge- estrutura social capitalista não deixará nunca, enquanto perdurar o
nerosamente o trabalho sem atender aos limites do mercado, não sistema, de ser objetiva em algum aspecto e de algum modo, a des-
poderia fazê-lo, sob pena de se autodestruir como empresário capita- peito da necessária ação subjetiva ,que constitui essa estrutura e da
lista dentro do sistema. ~ dessa forma que os sujeitos econômicos possível tomada de consciência das leis de seu funcionamento pelos
agem de conformidade com a lei fundamental da produção capitalista, agentes individuais que a integram. Note-se que a objetividade social
no que respeita à criação e acumulação da mais-valia; e que atua não tem sentido sem a ação subjetiva dos indivíduos, e isso nos leva
objetivamente no plano da estrutura básica dessa formação social. a não poder imaginar essa objetividade com independência da vontade
Essa lei econômica, que exprime um aspecto da racionalidade objetiva e consciência desses indivíduos; entretanto, não a podemos imaginar
regente da estrutura social burguesa, só pode ter existência através totalmente identificada com a vontade e consciência deles, sob pena
da concreta singularidade dos atos e condutas dos agentes individuais. de perdê-la como lei interna. do processo social. Assim, as leis que
É nesse sentido, e de modo geral, que o comportamento dos sujeitos regem a estrutura social não passam a ser objetivás só pelo fato de
particulares deve corresponder às exigências de uma determinada es- se tornarem racionalmente conhecidas pelos suje~tos implicados, o
1 I
trutura social; vale dizer, deve estar determinado socialmente. Desse que as faria depender plenamente da consciência e vontade de tais
modo, eles produzem, com a práxis individual, algo que não estava sujeitos; a racionalidade objetiva ou lógica interna do sistema não
em suas consciências, visto que ultrapassa o âmbito de suas próprias pode ser confundida com seu conhecimento.2 8 Essa limitação ocorre
intenções, e, com isso, tal práxis assume inevitavelmente a forma porque os agentes sociais se encontram historicamente determinados
social, correspondendo às leis fundamentais do sistema.n por certas condições das quais não podem fugir, por mais que delas
A prática comum dos agentes coletivos, das classes sociais, não tomem consciência; tais condições objetivas não são independentes
pode derivar, portanto, da mera soma das práxis individuais, pois ela da práxis humana; elas são determinadas historicamente. ~ o caso
das forças produtivas cuja natureza, dimensão e sofistificação tecno-
27 No discurso de Hegel, entretanto, é a razão que rege a História universal;
lógica se perfazem igualmente em função das realizações das formações
a razão, com "astúcia", faz as paixões trabalharem para ela. "Os homens - sociais anteriores à dos indivíduos de um determinado período histó-
diz Hegel --; satisfa~em seu interesse; _mas ao fazê-lo, produz~m .algo mais, rico, isto é, como produto de gerações passadas . Esta concepção "mos-
algo que esta no qué fazem, mas que nao estava em sua consctencta nem em tra que a História não termina por ser resolvida em 'autoconsciência',
sua intenção." Cf. W. G. F. Hegel, "Lecciones sobre la Filosofía de la Historia",
como 'espírito do espírito', mas que se encontra, em cada .. estágio,
Madri, Revista de Occidente, 1974, p. 59. Em nosso contexto, o discurso tem
outra direção e outro sentido, visto que para nós não é a ·História" que
utiliza o homem como meio para atingir seus fins; quem faz a História é o 2 8 Ver, nesse sentido, a lúcida exposição de Adolfo Sánchez Vázquez, op cit.,
homem real e vivo. pp. 366-370.
132 ALAOR CAFFJ!; ALVES
ESTADO E IDEOLOGIA 133

um resultado jilaterial, uma soma 9e forças produtivas, uma relação houver condições estruturais para isso e se · envolver a práxis social
dos indivíduos entre si e para com a natureza, criados ·historicamente
ou coletiva indispensável a esse processo.
e transmitidos a cada geração pelas que a precederam; mostra um
Vê-se, por essas considerações, que o determinismo social é total-
conjunto de forças produtivas, de capitais e circunstâncias que são,
mente diferente do determinismo natural, já que este exprime, no
por um lado, modificados pela nova geração, mas que, por outro, lhe
interior do contexto da práxis social - visto não haver "mundo exter-
prescrevem suas . próprias condições de existência e lhe imprimem um
no" a essa práxis - , uma linha de necessidades cujos vínculos são
desenvolvimento determinado, um caráter especial. Isso demonstra,
apercebidos ou exptyrimentados como independentes da consciência e
por conseqüência, que as circunstâncias fazem os homens na mesma
do comportamento dos sujeitos a eles submetidos, Por conseguinte, a
proporção em que os homens fazem as circunstâncias" .29 · Imaginaria-
"lei natural", assim entendida, não precisa do sujeito social para
mente, por mais agudamente inteligentes e operosos que pudessem
existir; da mesma forma, essa lei não pode ser "violada". O ser huma-
ser os agentes sociais da antigüidade, supondo que tomassem plena
no, para cumprir seus desígnios no plano do mundo natural, terá que
consciência das leis históricas da ~armação social escravista, jamais
observá-la inequivocamente. Isso não ocorre na ordem do determinis-
poderiam conduzir à superação daquele tipo de sociedade, inaugurando,
mo social, visto que as leis sociais, as leis que regem a estrutura social,
por exemplo, um modo capitalista de produção. No curso da História,
embora não possam ser violadas pelos sujeitos isolados, não podem
cada formaÇão econômico-social tem suas leis de estrutura específicas,
também ser compreendidas ou experimentadas como existentes à mar-
não podendo ser tal formação ultrapassada enquanto não se reunirem
gem da própria sociedade; nesse sentido, elas dependem, para existir,
as condições objetivas que lhe permitam a transformação básica.
da ação dos agentes sociais. 31 O sujeito individual jamais pode violá-las
Por outro lado, é preciso que se destaque um aspecto de extrema solitariamente, e quando é possível fazê-lo em conjunto com outros
importância para a perfeita compreensão dessa racionalidade. Esta indivíduos, numa ação coletiva de caráter político, só terá que ser
confere aos processos históricos uma linha de tendência · que não dentro de condições objetivas que propiciem a transformação social.
implica nenhum fatalismo, já que isso compreenderia transformar os
Aliás, neste caso, a ação política para essa transformação passa, com
I I homens reais em joguetes de forças· ocultas que teriam a mística incum- toda sua carga subjetivo-intencional, a fazer parte integrante das·
bência de orientar a história. Isso significa que se houver condições
próprias condições objetivas do processo. Assim, criar condições obje-
objetivas dentro de uma determinada formação econômico-social, para tivas para a transformação da estrutura' social abrange também a
sua transformação básica, esta transformação não ocorrerá automati-
progressiva conscientização de sua necessidade, acompanhada da prá~is
camente tão-só por força da lei social inerente a tal formação.'3° Deverá
política correspondente.
sempre haver o concurso da práxis política nesse processo, a qual não
Ademais, e para finalizar esta ordem de análise, não se pode
se tem caracterizado por uma ação harmoniosa em direção aos objetivos
confundir também o determinismo social com a normatividade social,
de transformação, mas sim por atividades extremamente conflitivas
já que neste caso é requisito imprescindível a possibilidade de compor-
em razão do confronto das classes sociais em jogo. Assim, a trans-
. tar-se de outro modo. Nesse sentido, a norma social (os costumes, as
formação social só pode ocorrer, mas não é necessário que ocorra, se
regras de trato social, as normas jurídicas) pode, ao contrário da lei
social, ser violada por ação dos indivíduos isolados. Portanto, dep~m­
29 Cf. K. Marx e F. Engels, La Ideologia Alemana, op. cit., pp. 40-41. de da ação humana para existir e só se caracteriza como tal desde
ao Ver Helmut Fleischer, Concepção Marxista da História, Lisboa, Edições 70, que .seja contrastável por uma possível ação individual que a não
1978, pp. 139-165. Ver, também, Henri Lefebvre, O Fim da História, Lisboa,
observe.
Dom Quixote, 1971; Jürgen Habermas, Para a Reconstrução do Materialismo
Histórico, São Paulo, Brasiliense, 1983, pp. 111-162; Adam Schaff, História e .
Verdade, São Paulo, Martins Fontes, 1978.
aJ Ver, nesse sentido, Emílio Lamo de Espinosa, op. cit., pp. 53-59.
As classes sociais

Pelo avanço que realizamos nas questões relativas à estrutura
social e sua repercussão no planos das relações intersubjetivas e da
prática social, estamos em condições de abordar, ainda que sintetica-
mente, o tema referente às classes sociais, não só porque decorre da
I I
linha de abordagem dos problemas sociais que encetamos, como tam-
bém porque o equacionamento explicativo da sociedade política -
representada pelo Estado - se torna, a nosso ver, impossível sem
essa consideração de base. Examinar os fundamentos da existência e
justificação do Estado, sem relevar a questão das classes sociais e de
seus conflitos e antagonismos, é incorrer na mera descrição formal
externa de sua manifestação aparente, sem outro resultado senão o de
apagar ou escamotear os verdadeiros delineamentos da origem do
poder estatal e a natureza da respectiva função no seio do modo
capitalista de produção. Por outro lado, "o estudo das classes é, por
excelência, o estudo da dinâmica social. Conhecer o sistema de classes
de uma sociedade é conhecer não somente como ela é, mas, também,
como ela se transforma'?

1 Cf. L. A. Costa Pinto, Sociologia e Desenvolvimento, Rio de faneiro, Civ .


Brasileira, 1963, p. 170.
136 ALAõR CAFFÉ ALVES
ESTADO E IDEOLOGIA 137

Partindo de nossa análise referente à estrutura da sociedade,


processo,- no modo capitalista de produção, por exemplo, determina
consideramos que as relações estruturais, para se caracterizarem como
objetivamente as condições de _apropriação privada de grande parte
tal, não prescindem das relações coletivas entre agentes sociais me-
do excedente econômico (bens econômicos) com vistas à reprodução
diadas pelos meios de produção da vida material e espiritual da
sociedade. Os agentes sociais coletivos, configurados no que se denomi- ampliada do capital e configura, ao mesmo tempo, a articulação ou o
na classes sociais - obviamente não se pode desconhecer a existência conflito dos interesses das classes ou frações de classes desse sistema
e importância de outros grupos que permeiam as classes sociais, bem social. Em sentido mais amplo, a quantidade de bens susceptíveis de
como seus valores e relevância na sobredeterminação cultural-ideológica distribuir-se entre os membros de uma sociedade sempre é limitada;
das manifestações características das classes sociais concretas, no em outras palavras, os bens não bastam para todos os que teriam
âmbito de cada povo, cultura ou civilização - , se definem diferen- necessidade deles. Por esta razão, os bens são, sobretudo, um conflito
ciadamente em razão de suas respectivas posições (objetivas) em face de interesses. Se há um conflito de interesses entre grupos sociais,
dos meios de produção, num sistema '- 11:istorii:amente determi~do de estes devem ter necessidade dos mesmos bens, que são, entretanto,
organização econômica, estabelecendo, por essa relação com as condi- insuficientes para satisfazê-la. Assim, "a satisfação plena das necessi-
ções básicas da vida material da sociedade, formas definidas de orga- dades de um grupo diminui as probabilidades de satisfação de outro
nização social do trabalho e distribuição da riqueza entre seus membros grupo, ou vice-versa. Por conseguinte, assim como o próprio interesse,
integrantes. Por essa razão, "as classes sociais são grupos de agentes o conflito de interesses também é na sociedade, um fenômeno objetivo,
~

sociais, homens, definidos principalmente, embora não exclusivamente, independente da consciência dos homens".4 Quando as rel~ções recí-
por seu lugar no processo de produção, isto é, na esfera econômica". 2 procas entre os grupos são tais que, quanto mais plena é a satisfação
Com grande precisão, Costa Pinto considera que "as classes sociais das necessidades de um grupo, tanto mais sofrem as necessidades do
são grandes grupos ou . camadas de indivíduos que se- diferenciam, outro, ou seja, quando um grupo satisfaz sistematicamente suas neces-
basicamente, pela posição orgânica e objetiva que ocupam na organi- sidades a expensas das de outro, os conflitos de interesses podem
zação social da produção. Essas classes se relacionam e se superpõem dominar-se conflitos de estrutura, visto serem resultado da estrutura
formando um sistema de classes que é parte integrante da estrutura social e durarem enquanto não se transforma a própria estrutura. "Essa
social e que, historicamente, se transforma com a transformação da
sociedade. A posição das diferentes classes na estrutura social é fun- próprio Marx não deixou o conceito de classe social fixado explicitamente.
damentalmente determinada por suas relações com os meios de produ- No último capítulo de O Capital, começava ele a tratar do assunto quarido o
ção e com o mercado. Elas se identificam pelo papel que têm na manuscrito se interrompe; isso não significa, porém, que não tenha usado um
organização do trabalho, e daí, pelo volume, pelo modo de ganhar e conceito de classe social, ou melhor, um esquema çonceitual que ele forneceu
como ponto de partida para sobre ele fundar-se hoje uma conceituação cientí-
pelo modo de empregar a porção da riqueza de que dispõem" .3 Esse
fia do problema. Ao dizer isso, desejamos enfaticamente destacar que uma
citação de Marx, para nós, não constitui um meio de encerrar a discussão, nem
Nicos Poulantzas, ·As Classes Sociais"; in As Classes Sociais na América
2 . Cf. de considerar como inútil ou impossível qualquer complementação ou revisão
Lati~ã. comp. Raúl Benítez Zenteno, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1977, p. 91. de suas teorias. Pelo contrário, partindo da clara noção de que a estrutura
3 Cf. L. A. Costa Pinto, op. cit., p. 176 (grifo nosso) . O conceito apresentado social estudada por Marx sofreu profundas transformações não-~Z_revistas -p or
segue, em seu fundamento, a perspectiva marxista; isto porque, a nosso ver, e ele, é possível aproveitar, tanto dos seus acertos quanto das suas insuficiências,
fazendo nossas as palavras de Costa Pinto, "sem apelo à bibliografia de Marx, para alcançarmos uma sociologia mais científica, oportunidade totalmente ina-
parece-nos impossível desenvolver qualquer estudo sobre as classes sociais. Ela proveitada pelos sectários do marxismo e do antimarxismo". Idem, ·ibidem,
há que ser utilizada, por sua vez, não como bíblia nem com a costumeira des- p. 172.
lealdade. Há que se selecionar, também, as edições e depurar as traduções. O 4 Cf. Zygmunt Bauman, Fundamentos de Sociología Marxista, Madri, Alberto
Corazón, Comunicación 27, série A, 1975, p. 41 (grifo nosso).
ALAOR CAFFÉ ALVES ESTADO E IDEOLOGIA 139
138

particular relação social que provoca o conflito de estrutura é a econômico gerado em circunstân~ias sociais e políticas determinadas. 7
relação de propriedade ou, mais precisamente, a relação de propriedade Na linha do mascaramento ideológico das relações estruturais, encon-
dos meios de produção. Isso se verifica quando uma parte da população tramos, por exemplo, aquelas concepções ingênuas e naturalistas que
possui os instrumentos e matérias indispensáveis à produção de bens, fundamentam as diferenças sociais no plano das qualificações subje-
e a outra, pelo contrário, está deles privada. Para sobreviver, para tivas, tais como inteligência, habilidade, inic'iativa, destemor, etc.,
satisfazer ao menos suas necessidades elementares, esta parte da popu- destacando a originalidade e a força de vontade do indivíduo como
lação deve oferecer o único bem que possui, sua mão-de-obra, e pô-la fatores básicos das inequações sociais. 8 Num plano mais avançado,
à disposição da outra parte para receber em troca certa quantidade de encontramos as concepções gradualistas e funcionalistas que projetam
bens de consumo. Aproveitando essa situação, o primeiro grupo se explicações aparentes a partir de abordagens externas e descritivas
apropria de todo o produto do trabalho obtido com a mão-de-obra do dos processos sociais, sem penetrar no âmago das diferenciações estru-
outro e, depois, retém para si o sobreproduto, aquela parte do produto turais. Assim, por exemplo, na concepção gradualista, as relações entre
global que resta depois de haver distribuído a fração necessária para as classes "alta", "média'' e "baixa"; diferenciadas segundo o critério
de rendimento econômico, são de simples ordenação escalonada e
satisfazer as necessidades elementares dos proprietários da mão-de-
não de dependência e oposição. No modelo estrutural-funcionalista, a
obra." 5 Evidentemente, tal forma de apropriação do sobreproduto
desigualdade social é explicada em razão da divisão do trabalho, res-
social vai rebater no plano do poder político para viabilizá-la e, assim,
ponsável pela diferenciação e integração dos grupos funcionais no
vai determinar formas específicas de organização política que não interior da sociedade; esses grupos encontram-se numa relação fun-
podem prescindir da análise das relações entre as classes sociais básicas cional e complementar, formando uma grande pluralidade de classes
do modo de produção correspondente. Assim, o Estado, como forma caracterizadas pela interdependência e cooperação mútua. Neste caso,
de organização política específica do sistema capitalista, tem sua carac- distinguem-se as "classes" dos operadores industriais, dos burocratas,
terização própria exatamente calcada na maneira como os homens, dos executivos, dos trabalhadores de escritório, dos agricultores, dos
divididos em classes sociais diferenciadas e antagônicas, produzem, dis- operários especializados, dos não-especializados, dos políticos, dos
tribuem e consomem seus produtos econômicos, no âmbito de relações intelectuais, etc. 9
ideológicas, jurídicas e de poder, definidas historicamente. 6 Numa análise sistemática a respeito desse tema, Max Weber, em
Por que os homens se diferenciam no plano social? Qual ou quais seu estudo "Classe, Status e Partido", apresenta-nos uma versão mais
os fatores objetivos e subjetivos que determinam essa diferenciação?
Sendo poucos os privilegiados e muitos os despossuídos, de que modo 7 Para uma análise aprofundada do problema da legitimação política no

é possível essa diferenciação? As respostas a estas questões têm sido âmbito da sociedade capitalista avançada, ver Claus Offe, Problemas Estruturais
do Estado Capitalista, Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro, 1984, pp. 262-289.
inumeráveis, variando desde as que promovem a mistificadora oculta- s Ver, nesse sentido, Georg.es Gurvitch, As Classes Sociais, São Paulo, Global,
ção das reais determinantes das desigualdades sociais, naturalmente 1982, pp. 92-115. Ver, também, Vilfredo Pareto, As Elites e o Uso da Força
em favor das classes privilegiadas, até as que explicitam claramente as na Sociedade, in Sociologia Política, comp. Amaury de Souza, Rio de Janeiro,
formas de exploração do homem pelo homem, revelando as concretas Zahar, 1966, pp. 70-88.
9 Ver Georges Gurvitch, op. cit., pp. 117-167. Ver, também, Theotonio dos
condições em que se realizam a apropriação e acumulação do excedente Santos, Conceito de Classes Sociais, Petrópolis, Vozes, 1982, pp. 10-14. Ver,
também, Pitirim A. Sorokin, "O que é uma Classe Social?", in Estrutura de
iíIbidem, p. 42, (grifo nosso). Classes e Estratificação Social, comp. A. Roberto Bertelli et alii, Rio de Janeiro,
6 Ver, nesse sentido, Javier Pérez Royo, Introducción a la Teoría del Estado, Zahar, 1966, pp. 77-84. Idem, na mesma coletânea, Georges Gurvitch, "Defi-
13<trcelona, Blume, 1980, pp. 35-38. nição do Conceito de Classes Sociais", pp. 85-100.
ALAOR CAFFÉ ALVES ESTADO E IDEOLOGIA 141
140

crítica, embora ainda não consiga se desprender da perspec!iva des- por ele procedida em relação à estratificação social, pela qual os indi-
critiva que enlaça uma visão conservadora do mundo social e de suas víduos, as famílias e os grupos sociais estão hierarquizados, uns nos
diferenças. 10 Não concebendo as classes sociais, como o faz · Marx, escalões superiotes e outros nos inferiores. Para Max Weber, as
a partir do critério da propriedade ou não-propri~dade dos meios de classes sociais estão apenas referenciadas à dimensão da ordem econô-
produção, com a inevitável repercussão quanto à oposição entre explo- mica - não ao nível específico da produção, mas ao nível do mercado,
radores e expl9rados, Weber encara esse conceito como expressão de da distribuição da renda e da circulação e troca de bens e serviços-,
"grupos de renda" que se configuram pela sua situação no mercado restando outras dimensões da sociedade - a ordem social e ·a ordem
de bens e serviços, caracterizados por uma pluralidade de interesses política - que perfazem o .quadro geral da estratificação social por
comuns, o que enseja admitir também e por conseqüência a pluralidade ele analisada. Nesse sentido, comenta Rodolfo Stavenhagen, num pre-
de classes sociais. 11 Partindo de uma referência dicotômica --'- que cioso estudo sobre classes sociais e estratificação social, "Max Weber
não se confunde com aquela entre classes dominantes e classes domi- fez a já famosa distinção entre as três dimensões da sociedade: a
nadas da análise marxista- na qual distingue "classes proprietárias", ord~m econômica, representada pela classe; a ordem social, reprt!sen-
diferenciadas pelo tipo de propriedade de que extraem suas respectivas tada pelo status ou estamento (stand); e a ordem política, representada
rendas - afuguel, renda fundiária, lucro empresarial, renda comercial, pelo partido. Cada uma destas dimensões tem uma estratificação pró-
juro, etc. - , e " classes de aquisição", diferenciadas pelo tipo de . pria: a econômica, representada pelos rendimentos e pelos bens e
serviÇos dfertados no mercado pelos seus membros integrantes - serviços de que dispõe o indivíduo; a social, representada pelo prestígio
serviços profissionais diversos-, Weber concebe as diferenças sociais e pela honra que desfruta; e a política, representada pelo poder que
no âmbito de um pluralismo acentuadamente complexo, uma vez que ostenta. A classe, portanto, baseada na ordem econômica, não seria
tanto as classes proprietárias como as de aquisição se dividem num mais que um aspecto da estrutura social, aspecto que •. segundo T. H .
grande número de agrupamentos coin interesses extremamente dife- Marshall, está perdendo sua importânCia na sociedade moderna, diante
renciados em função da natureza econômica dos bens apropriados e da importância do status como elemento primordial da estratificação
dos serviços prestadosP Weber não escapa também à ordenação social" .14
escalonada das classes na medida que entende haver entre as classes Na ordem social, Weber distingue claramente a classe do status,
. " positivamente privilegiadas", como as classes proprietárias, e as "ne- visto que traduzem agrupamentos de natureza diversa, identificáveis
gativamente privilegiadas", como as que só podem oferecer serviços por critérios diferentes. "Em contraste com as classes, diz Weber,
não-especializados, vários agrupamentos intermediários consignados os grupos de status constituem normalmente comunidades. Com fre-
sob a quàlificação de "classe média".13 qüência, porém, são do tipo amorfo. Em contraste com a 'situação de
Entretanto, as questões relativas a identificação, qualificação e classe' determinada · apenas por motivos econômicos, desejamos desig-
dimensionamento das classes .sociais em Weber não esgotam a análise nar como 'situação de status' todo componente típico do destino dos
homens, determinaqo por uma estimativa social específica, positiva
10 Ver Max We!;J.er, "Classe, Estamento e Partido", in Hans Gerth e C. Wright ou negativa, da honraria . .Essa honraria pode estar relacionada com
Mills (compil.), Ensaios de Sociologia, 2.• ed., Rio de Janeiro, Zahar, 1971, qualquer qualidade compartilhada por uma pluralidade de indivíduos
pp. 211-228. e, decerto, . pode estar relacionada com uma situação de classe: as
11 "De acordo com nossa terminologia - diz Weber - , o fator que· cria uma
distinções de classe estão ligadas, das formas mais variadas, com as
'classe' é, inequivocamente, o interesse econômico, e, na verdade, apenas aque-
les interesses ligados à existência do mercado •. Idem, ibidem, p . . 214.
14 Cf. Rodolfo Sfavenhagen, ·Classes Sociais e Estratificação Social ", in Ma-
12 Idem, ibidem, pp. 213-14.
13 Ver Max Weber, Economía y Sociedad, I, 2." ed., Bogotá, Fondo de Culttira rialice M. Foracchi e J. de Souza Martins (orgs.), Sociologia e Sociedade, Rio
Económica, 1977, pp. 242-246. de J aneiro, LTC, 1983, p. 284.
142 ALAóR CAFFÉ ALVES ESTADO E IDEOLOGIA 143

distinções de status. A propriedade como tal nem sempre é reconhecida Neste plano, podemos assinalar as dificuldades para a consecução
como qualificação estamental, mas a longo prazo o é, e com extraordi- de uma verdadeira explicação da dinâmica estrutural da sociedade,
nária regularidade." 15 Desse modo, como já apontamos, as classes se apenas com fundamento nos esquemas de estratificação que mostram
definem por interesses comuns resultantes dos tipos de renda e serviços estamentos ou classes "superiores", "médias" e "baixas", ou seja, sem
que os diversos grupos percebem ou oferecem no mercado. Os grupos levar em conta outros fatores subjacentes às manifestações empíricas
de status, entretanto, se configuram pelos modos e estilos de vida em das desigualdades sociais. É curioso notar que a análise do processo
função dos hábitos de consumo e dos valores que os presidem, podendo dinâmico relacionado com a estratificação geralmente se prende ao
os indivíduos da mesma classe pertencer a grupos de status diferentes estudo do grau de mobilidade dos indivíduos entre os estratos sociais;
e vice-versa. Assim, por exemplo, no âmbito do status importa mais por essa linha sói afirmar-se que o antagonismo de classe na sociedade
como o indivíduo gasta seus recursos do que como os ganha, tendo ir.dustrial moderna tem sua realidade esmaecida, chegando até mesmo
sempre em vista a expressão exterior de sua maneira de ser para a ao desaparecimento em razão do alto grau de mobilidade alcançado. 17
captação d~ simpatia, admiração, respeito, etc. Está claro, como foi Esse argumento encontra objeções muito sérias em relação às limitações
dito, que existe uma certa correlação entre a situação de classe e o estruturais já por nós analisadas. Por outro lado, ao deixar de lado
status, visto que normalmente a posição que o indivíduo desfruta no as reais condições sociais e econômicas do fenômeno da mobilidade,
plano econômico reflete-se também na forma e possibilidade de parti- grande parte dos estudos sobre esse tema tende a enfocá-lo sob o
cipar de um determinado estilo de vida. prisma estritamente psicológico, com ênfase nos fatores subjetivos, tais
Na ordem política, Weber destaca o partido como uma outra forma como as aspirações pessoais, as motivações, o desejo de poder e de
específica de distribuição do poder. Com efeito, classe e status para prestígio, as atitudes de aparência e ostentação, etc. Nesse sentido,
ele são, como no caso dos partidos políticos, formas de distribuição de esses estudos têm pouco contribuído para o esclarecimento e real
poder na sociedade. A ação do partido, num concepção mais ampla, explicação das estruturas sociais e de sua dinâmica. 18 Com efeito, os
é orientada para a aquisição e manutenção de "poder" social, com o estudos da estratificação social geralmente não ultrapassam o nível da
1
objetivo de influenciar uma comunidade, que, em princípio, pode ser experiência imediata, com tendência a · permanecerem no âmbito de
um clube social tanto quanto um Estado. Tais ações comunais de simples descrições estáticas que não conduzem à compreensão das
partido "sempre se dirigem para um objetivo pelo qual se luta de estruturas. Esses estudos, portanto, requerem uma análise sob a pers-
uma forma planejada ( ... ) . Em qualquer caso isolado, os partidos pectiva histórica (não historicista) dos fatores de processo e de mu-
podem representar interesses determinados através de uma situação de dança social, com a finalidade de revelar o aspecto dinâmico e estru-
classe ou de uma situação de status e podem recrutar seus adeptos de tural dÓ fenômeno da estratificação; essa abordagem liga-se necessa-
uma ou de outra ( ... ). Na maioria dos casos, são, em parte, partidos riamente, a nosso ver, à análise da estrutura de classes sociais.
de classe e, em parte, partidos de status, mas às vezes não são nem Dentro de um modelo abstrato, porém significativo para a
uma coisa nem outra". 16 Vê-se, por essas linhas de Weber, que o compreensão das relações de classes, podemos assinalar a estruturação
partido, característico do Estado racional moderno, deve ser considera- dicotômica cujo eixo são as relações de propriedade e controle dos
do uma dimensão da hierarquia social tão importante quanto a classe meios de produção, segundo as quais grupos de indivíduos estão divi-
ou o grupo de status, e a distribuição do poder, por conseqüência, não didos em uma minoria de "não-produtores", controladora desses meios,
deve estar necessariamente ligada à dominação econômica.
17 Ver, nessa linha, a análise de . Alan Swingewood, Marx e a Teoria Social
Moderna, Rio de Janeiro, Civ. Brasileira, 1978, pp. 141-152.
1 i\ Cf. Max Weber, Classe, Estamento e Partido, op. cit., pp. 218·219. 18 Ver, nesse sentido, Rodolfo Stavenhagen, op. cit, pp. 284-286. Ver, também,
16 Jçlem, ibidem, passim, melh., p. 227. L. A. Costa Pinto, op. cit., pp . 177-199.
144 -ALAOR CAFFJ1: ALVES
ESTADO E IDEOLOGIA 145

e uma matona de "produtores" (diretos e 'indiretos), da qual 'se trabalho, do qual decorre o crescente sobreproduto social, está inequi-
excluem o manejo e acumulação do produto social excedente.19 Vemos vocamente ligado à divisão do trabalho (técnica e social), permitindo
que essa relação estrutural pressupõe não apenas o caráter reiterativo a especialização, a dependência recíproca _dos produtores, o aperfei-
de sua vigência, cuja recorrência permite a reprodução do sistema, çoamento dos meios de produção, a maior produtividade do esforço
como também a existência de agentes coletivos (grupos sociais) qua- humano e, finalmente, a instituição da propriedade familiar e particular
lificados como dominantes e dominados, exploradores e explorados, · dos instrumentos e recursos produtivos, com o conseqüente apareci-
em função da posição que guardam em face do controle dos meios mento de classes sociais antagônicas.
de produção, e de cuja dinâmica resulta a acumulação (ampliada ou No plano dessa concepção dicotômica, consignada ao nível de
não) do excedente econômico por parte da minoria privilegiada em uma análise teórica, entreabre-se a oportunidade de ver que as classes
detrimento da maioria produtora. As classes são, assim, grupos de sociais não se identificam com grupos de renda, de vez que seus
conflito que se integram num sistema de reciprocidade social de tal _ ·modos de consumo, suas aspirações, consciência política e estilo de
modo que "nenhuma classe pode livrar-se da relação sem, com isso, vida estão determinados, ·em última instância, pelas relações de pro-
perder a sua identidade como cla~se distinta". 20 Por isso, as classes dução e não apenas pelas relações de distribuição. Isso significa, por
são produto da totalidade das relações sociais, e principalmente de um
exemplo, que dois indivíduos podem ter rendas iguais, mas, ainda
modo dominante de produção e do conflito social nele contido. Assim, assim, pertencerem a classes diferentes, como ilustra o caso de dois
uma classe só se diferencia e se mantém como tal enquanto permanece
eletricistas, um com o seu próprio estabelecimento de serviço e o outro
em oposição e conflito objetivo com outra classe; falar de classe,
empregado em uma grande corporação industriaP3
portanto, só tem sentido quando se considera a classe como parte
Neste ponto é preciso apontar para uma importante distinção no
integrante do sistema de classes no interior de uma determinada for-
que respeita ao direito de propriedade: a propriedade jurídico-formal,
mação econômico-sociai.2 1 O sistema de classes compõe-se de confor-
a propriedade real ou econômica e a posse efetiva dos instrumentos
midade com uma dinâmica processual, onde as classes se constituem ·
de produção. Essa distinção servirá para caracterizar com maior pre-
reciprocamente no seio de relações .9_.ue englobam organicamente as
cisão a questão da propriedade, da posse material e do efetivo con-
vinculações dos homens com a natureza e entre si mediante os · instru-
trole desses instrumentos. Sob o ângulo jurídico-formal, o direito de
mentos e meios de produção.22 Nesse processo, verifica-se, por um lado,
propriedade se configura como o daquele que detém um bem com a
a necessidade de haver excedente econômico, visto que sua inexistência
faculdade (direito subjetivo) de usar, gozar e dele dispor. Entrêtanto,
implicaria um estágio econômico de nível extremamente baixo, cuja
no que diz respeito aos bens de p_rodução e sob o ângulo econômico-
produtividade não levaria senão à subsistência do próprio produtor,
social; esse direito de propriedade só se torna propriedade real· ou
não justificando a apropriação dos meios de produção por parte de um
econômica quando seu detentor possui um poder efetivo de colocá-los
segmento social, exatamente por não haver e~cedente para acumular.
em ação, em termos de organização do processo produtivo ou de
Então, a ocorrência de excedente econômico é condição necessária,
manipulação desses bens, ou seja, quando pode combinar um deter-
embora não suficiente, para a existência de classes sociais. Por outro
minado tipo de posse com um determinado tipo de domínio ou con- ·
lado, o desenvolvimento histórico da produção e .da produtividade do
trole organizacional do processo produtivo. Exist~ posse efetiva (ma-
terial) - que não se confunde com a posse jurídica - quando há
19 Ver, nesse sentido, Anthony Giddens, A Estrutura de Classes das Sociedades
apenas a relação (técnica) dos produtores diretos - os trabalhadores
Avançadas, Rio de Janeiro, Zahar, 1975, pp. 28-36.
20 Cf. Anthony Giddens, op. cit., p. 32.
- com o objeto e com os meios de trabalho, sem o poder de dispor
21 Ver, nesse sentido, Zygmunt Bauman, op. cit., pp. 62-69·.
22 Ver Nicos Poulantzas, As Classes Sociais, op. cit., PP-. 91-99.
2'3 Ver, nesse sentido, Anthony Giddens, op. cit., p. 31.
146 ALAOR CAFFÉ ALVES ESTADO E IDEOLOGIA 147

do produto derivado da produção, ou seja, sem o controle ou o poder que estão sujeitos no sentido de venderem sua força de trabalho no
de organizaÇão do processo produtivo .e de apropriação direta de seus mercado, aos detentores dos meios de produção, demarca com grande
resultada,s. ,Assim, a propriedade real ou econômica, "o controle real significação e destaque a identidade entre a propriedade jurídic~ e a
dos meios .de produção, distingue-se da propriedade jurídica - tal propriedade real ou econômica de tais meios por parte destes últi-
como está consagrada pelo Direito - , que é uma superestrutura. mos. Neste modo de produção, extremamente dinâmico, torna-se
O Direito, em geral, diz Poulantzas, confirma a propriedade econô- curiosa a relação de controle representada pela sociedade por ações,
mica; mas as formàs de propriedade jurídica podem não coincidir onde existe uma multidão de proprietários no sentido jurídico-formal
com a propriedade econômica real. Nesse caso, é esta última que con- do termo, porém apenas um grupo reduzido deles é que tem a pro-
tinua sendo determinante para a definição das classes sociais".2 4 Essas priedade econômica real dos meios de produção e o poder de induzir
distinções são importantes porque explicam, por exemplo, certas re- à acumulação ampliada do capital. Esse marco de consideração a
lações em que o "proprietário", isto é, o titular jurídico dos bens de respeito da propriedade e do controle dos bens produtivos é expres-
o
produção, não é simultaneamente "controlador técnico" desses mes- sivo e relevante para afastar a concepção ingênua a respeito da "so-
mos bens, como no caso das relações feudais de produção, onde o cialização" da propriedade desses bens, dentro das condições de pro-
senhor tem a propriedade jurídica da terra, mas cabe ao produtor dução onde a lógica do capital é imperante. Algo distinto, porém no
servil a posse efetiva dela, já que a faz produzir com seus próprios mesmo sentido, se pode encontrar no que respeita à divisão das classes
meios de trabalho. Neste caso, o direito do senhor de dispor dos pro- sociais no campo, quanto ao caso dos grandes arrendatários. Estes
dutos resultantes do trabalho só se torna um efetivo poder de dispor " pertencem ao campesinato rico, não tendo a propriedade jurídica
quando respaldado pela intervenção de fatores extra-econômicos po- formal da terra, que pertence ao capitalista rentista. Embora esses
líticos ou ideológicos, acarretando a subtração, pelo senhor, do exce- grandes arrendatários pertençam ao campesinato rico, isso não quer
dente da produção, mediante o rigor das relações políticas de domi- dizer que tenham altos rendimentos, mas que têm o controle real da
nação, que obrigam o servo a entregá-lo, sob a forma de serviços terra e dos meios de trabalho, isto é, que são seus proprietários eco-
pessoais (corvéia) ou de produtos (foro em espécie) ou ainda de nômicos ' efetivos'?6 O direito positivo t~m normalmente uma forma
pecunia (censo). 25 Neste caso, distinguindo-se radicalmente do modo para recobrir parcialmente essa situação de controle econômico dos
capitalista de produção, as relações entre os indivíduos são jurídica bens de produção, que é o instituto da posse jurídica; entretanto, essa
e faticamente diferenciadas no âmbito de uma hierarquia social aris- forma não exprime a totalidade das relações implicadas na proprie-
tocrática, tutelada sob formas ideológicas determinadas, encimada pela dade real ou econômica, como é o caso já mencionado da sociedade
realeza, seguindo-se o clero, a alta nobreza (duques, marqueses, con- por ações. Nessa mesma linha de considerações, não é possível e.lvidar
des), a pequena nobreza (viscondes, barões, cavaleiros), uma inexptes- o exemplo, muito discutido, concernente à URSS e aos países do
siva burguesia e, enfim, a massa constituída pelos servos da gleba socialismo real. "A propriedade jurídica formal dos meios de produ-
(presos à terra) e os vilões (livres). De forma oposta, no sistema ção, diz Poulantzas, pertence ao Estado, considerado como o Estado
capitalista, como mais adiante veremos, o pressuposto da ~'liberdade" do "povo". Mas- dado o debilitamento dos sovietes e dos conselhos
e "igualdade" formais dos indivíduos produtores e da necessidade a operários - o controle real, a propriedade econômica, certamente
não pertence aos próprios trabalhadores, mas aos "diretores de em-
24 Cf. Nicos Poulantzas, ibidem, p. 92. presa" e aos membros do aparelho estatal. Assim, é legítimo perguntar
25 Ver, nesse sentido, Rubin Santos Leão de Aquino, Denize de Azevedo se, sob a forma de propriedade jurídica coletiva, não se oculta uma
Franco e Oscar Guilherme Pahl Campos Lopes, História das Sociedades: Das
Comunidades Primitivas ~s Sociedades Medievais, Rio de Janéiro, Ao .Livro
nova forma de propriedade econômica privada e, desse modo, se não
Técnico, 1980, pp. 388-394, se deveria falar de uma nova burguesia na URSS. De fato , abolição
ALAOR CAFFÉ ALVES ESTADO E IDEOLOGIA 149
148

da "propriedade privada" como base de classe não quer dizer mera de pesquisas empíricas. 27 Na verdade, a sociedade não tem sido algo
abolição da "propriedade jurídica privada", mas abolição da proprie- que contém classes sociais; ela mesma tem se revelado através das
dade econômica -real: isto é, controle dos meios de produção pelos próprias classes em conflito permanente, potencial ou explícito, e que
próprios trabalhadores. Só a "autogestão" operária pode modificar representam as forças motrizes de sua transformação estrutural. Pcr
fundamentalmente a propriedade econômica e, assim, levar a uma isso, pode-se considerar, pelo menos até o presente histórico, que as
abolição das classes".26 Naturalmente, esta posição coloca o acento classes, surgidas de determinadas condições estruturais da sociedade,
não apenas na expropriação do -excedente econômico de uma classe constituem também seu núcleo estrutural e, ao mesmo tempo, fator
por outra - caso em que sempre haverá o controle da organização de sua dinâmica interna. Essa dinâmica abrange o reconhecimento de
produtiva e distribuição de seus resultados por parte das classes pro- que uma "sociedade não se define, unicamente, pelo que é, mas sim
prietárias - , mas também na forma como a organização e o controle pela superação que a leva para além de si mesma e que, portanto, a
da produção se realiza, isto é, se com ou sem a participação dos pro- opõe a si mesma. Esta tensão fundamentalmente não é senão a opo-
dutores diretos. Segundo essa postura, a acumulação social não é su- sição da criação do trabalho e sua reprodução. Esta não-coincidência
ficiente para caracterizar uma sociedade sem classes. Esta é uma da ·sociedade consigo mesma implica, necessariamente, uma cisão entre
os membros da sociedade". 28
questão aberta; entretanto, pode-se considerar seguramente que nesse
tipo de sociedade o problema das classes sociais - se é que é possível Vê-se, por esse enfoque, que a forma de superar o subjetivismo
considerar a estratificação social nesse tipo de sociedade segundo o na escolha do critério para definir as classes sociais reside justamente
enfoque de classes _~ certamente assume características fundamental- na análise da integração estrutural objetiva da sociedade, ou seja, no
exame da relação de grupos sociais com os meios de produção. A
mente diferenciadas, exigindo tratamento teórico diverso daquele rea-
análise estrutural da sociedade revela que as classes sociais ocorrem
lizado em razão das sociedades onde prevalece o modo de produção
no interior de um sistema sócio-econômico determinado, no qual as
mercantil.
classes estão ligadas dialeticamente, onde as relações implicadas são de
A abordagem que encetamos, conforme se depreende das linhas oposição e conflito e de complementaridade e dependência. 29 Desen-
anteriores, pressupõe uma teoria de classes onde o conceito de classe volvendo melhor esse conceito, podemos destacar inicialmente um
adquire valor analítico no sentido. de ultrapassar a perspectiva sim- aspecto funcional a par da face estrutural já apontada com respeito à
plesmente descritiva e estática, alcançando uma instância explicativa relação de propriedade e de não-propriedade que os agentes coletivos
das forças dinâmicas reais da sociedade. Sendo categorias históricas, estabelecem com os meios de produção. Esse aspecto funcional (que
as classes sociais ganham características estruturais e significações não se identifica com o princípie do funcionalismo sociológico) se
diferenciadas nos diversos estágios de desenvolvimento da sociedade. caracteriza pela divisão de gr1,1pos sociais em relação à propriedade
Daí porque não e pode, como fazem as escolas sociológicas que tra- da mesma massa de bens de produção, em uma determinada sociedade
balham com o conceito de estratificação, identificar a sedimentação e num certo momento histórico. Com efeito, se não houver divisão
das classes altas, médias e baixas em todas as sociedades e em todos
os tempos. As classes têm sua formação, desenvolvimento, modifica- 2 7 Para uma investigação empírica aprofundada sobr.e as estruturas SOCiaiS e
ção e extinção determinado no seio da dinâmica histórica das trans- as conseqüências colocadas pelo imperialismo e pelos conflitos de classes nos
formações sociais, e segundo as contradições específicas cujas parti- países do terceiro mundo; ver James Petras, Imperialismo e Classes Sociais no
Terceiro Mundo, Rio de Janeiro, Zahar, 1980.
cularidades e movimento dialético só podem ser destacados em função
2 8 Cf. Alain Touraine, "As Classes Sociais •, in As Classes Sociais na América
Latina, op. cit., p. 11.
26 Cf. Nicos Poulantzas, ibidem, p. 93 (grifo nosso). 29 Ver, nesse sentido, Anthony Giddens, op. cit., p. 32-33.
150 ALAOR CAFFÉ ALVES
ESTADO E IDEOLOGIA 151

social a respeito da propriedade desses bens, diremos que eles "per- especialmente quando só se pode conseguir a realização dos objetivos
tencem" a todos; nesta hipótese, as relações entre os homens se equa- de uma classe mediante a anulação da possibilidade de realização dos
lizam economicamente. Caso contrário, estarão tais bens vinculados objetivos de outra classe - por exemplo, o conflito entre a burguesia
a um grupo que não podendo sozinho manipulá-los produtivamente, e os senhores feudais - até os processos conflitivos concernentes à
em sua plenitude, deverá "contar" com o esforço de outro grupo distribuição dos bens nos limites do próprio sistema produtivo exis-
social "disposto" a fazê-lo sob pena de não sobreviver, quer porque tente, quando a satisfação dos interesses de uma classe ou de suas
a negação de cada indivíduo ou do grupo social subalterno na pres- fràções diminui as possibilidades de satisfação dos interesses de outra,
tação ,de seu esforço suscitaria o revide político direto da outra parte ou de suas frações, como ocorre nos conflitos de interesse entre fra-
pela violência (na sociedade escravista ou feudal), quer porque os ções da mesma ·classe ou nos conflitos "econômicos" entre classes
indivíduos dele integrantes não poderiam, isoladamente, subsistir sem antagônicas levados a efeito através das lutas sindicais.313 Observa-se,
ofertar sua força de trabalho no mercado (na sociedade capitalista). portanto, que as situações de conflito entre classes sociais - e que,
Esse aspecto funcional leva-nos à conclusão de que não existem classes é bom que se diga, não são as únicas em uma sociedade complexa,
isoladas; não há classes entificadas, existentes em si e por si, para mas são de caráter estrutural - definem-se objetivamente em razão
depois entrarem em relações recíprocas e externas. Elas só existem do controle dos meios de produção, por uma parte da sociedade, pelas
numa relação dialética de dependência mútua, sendo distinguíveis exa- classes dominantes, e o conseqüente controle da distribuição dos bens
tamente pelas relações específicas que se estabelecem entre elas; só socialmente produzidos, em detrimento da satisfação dos interesses da
existem em relação uma com a outra, uma em função da outra. 30 outra parte, das classes subalternas ou dominadas. E não se diga que
Dentre as múltiplas e possíveis relações entre as diferentes classes, a maior produtividade do trabalho, pela introdução de meios de pro-
algumas se destacam por serem estruturais e determinantes de inte- dução mais aperfeiçoados, elimina essa lei da oposição e contradição
resses objetivos, decorrentes das respectivas posições específicas em dos interesses das classes antagônicas, já que essa iniciativa, promo-
face dos meios de produção, no processo econômico.31 Esses interesses vida em razão da própria luta de classes., dá-se exatamente para incre-
! 1:
não somente se distinguem pela posição diferenciada etp relação aos mentar a produção no sentido de possibilitar o aumento e a aceleração
bens e recursos produtivos, mas também são contrários e opostos por- da acumulação em favor da classe dominante.
que mutuamente excludentes, visto que a acumulação de riqueza em
As relações que se estabelecem entre as classes sociais perfazem,
um dos pólos só pode ser realizada em detrimento de sua distribuição
portanto, uma unidade de contrários; são relações especificadas his-
em outro. Contudo, é preciso levar em conta que se as classes anta-
toricamente em função de um deterwinado modo de realizar o pro-
gônicas, "além de terem interesses contrastantes, têm também interesses
duto social. Se este produto, por exemplo, demanda vínculos especí-
que podem ser satisfeitos ao mesmo tempo mediante uma idêntica
ficos com a terra, para seu cultivo, dentro de condições tecnológicas
aplicação de meios, isso não anula a existência de seus conflitos; só
definidas em termos de qualidade e nível de desenvolvimento dos
demonstra- que os conflitos adquirem o aspecto de uma relação muito
instrumentos de produção, poderemos ter, conforme o grau desse pro-
mais complexa".32 Na verdade, as situações de conflito entre classes
cesso, um relacionamento feudal ou capitalista entre os homens. Evi-
e frações de classes podem variar desde os processos mais profundos
dentemente as relações feudais, hierarquizadas por laços de depen-
de transformação radical da formação econômico-social da sociedade,
dência pessoais e demarcadas por autarquias econômicas territoriais,
com baixa produtividade e esmaecidas relações de troca, jamais se
ao Nessa linha, ver Rodolfo Stavenhagen, op. cit., p. 289.
at Ver, nesse sentido, Ralf Dahrendorf, As Classes e Seus Co11/litos na Socie-
dade Industrial, Brasília, Ed. Universidade de Brasília, 1982, pp. 24-46. 33 Ver, idem, ibidem, p. 57. Ver também, nesse sentido, Ralf Dahrendorf, op.
a2 Çf. Zygmunt Bauman, op. cit., p. 56. cit., pp . 199-213.
,- ESTADO E IDEOLOGIA 153
152 ALAóR CAFFÉ ALVES

compatibilizariam ou poderiam ser mantidas com ou num modo de posições diferenciais que as classes ocupam na estrutura sócio-econô-
produção cujo processo econômico no campo se efetuasse ·mediante a mica permitem que umas tenham maior riqueza, maior poder. econô-
mecanização, a eletrificação, o uso de defensivos agrícolas, o crédito, mico, maior domínio político que outras, e este poder e este domínio
a ampliação dos meios de transporte, etc. Vê-se por aí que, numa são exercidos em detrimento dos interesses das classes que deles care-
análise estrutural, as classes sociais e os vínculos específicos que elas cem".35 Essa relação de oposição, contradição e dependência será,
guardam entre si, caracterizam-se também pelo tipo ou modo de re- portanto, qualificada como relação de "dominação-subordinação".
lação mediadora e dialética que os homens mantêm com a natureza Dessa relação surgem as contradições e antagonismos gerados funda-
para a preservação e ampliação do seu domínio sobre ela." 4 mentalmente pela concorrência no processo produtivo, em virtude de
O sistema de classes, por conseguinte, não pode ser concebido a propriedade real dos meios de produção permitir que a mais-valia
senão no interior de uma unidade dialética de oposição, contradição produzida por uma classe seja apropriada pela outra.
e dependência, historicamente determinada, onde suas relações não Obviamente, esse processo objetivo reflete-se, quanto aos inte-
vinculam elementos coisificados a elas preexistentes, como se fossem resses em conflito, no plano dos vários graus de consciência que os
reciprocamente externos um ao outro. As classes, portanto, ganham membros das classes sociais podem ter de si mesmos no que respeita
realidade no processo de seu próprio relacionamento dinâmico e con- a sua posição ou situação de classe, exatamente em relação ao con-
traditório, contribuindo essencialmente para a transformação das es- fronto social apontado, em diferentes níveis de intensidade, que per-
truturas sociais. E mais, elas não se podem igualar materialmente mite ao mesmo tempo a identidade e a diferenciação das respectivas
entre si nesse processo, caso em que haveria identidade entre as clas- classes ou frações de classe entre si. Por isso, "a percepção da unidade
ses , cujos membros integrantes passariam todos por não-possuidores de classe está ligada ao reconhecimento da oposição de interesses com
dos meios de produção ou por possuidores coletivos dos mesmos, vale outra classe ououtras classes".3 6 Nesse sentido, a agudização das con-
dizer, haveria a cabal extinção delas. Isso significa que as classes so- tradições entre as classes sociais e de seus interesses em função da
ciais recipr-ocamente dependentes, opostas e contraditórias não se po- própria lógica da acumulação ampliada do capital e de seus momentos
dem homogeneizar entre si sob pena de desaparecerem como Classes. de crise cria as condições objetivas que possibilitam o despertar e o
Por iss~ , a desigualdade das classes reciprocamente referenciadas, aprofundamento da consciência de classe. Esta será tanto mais expres-
como dominantes e dominadas, exploradoras e exploradas, é essencial siva e revolucionária - tendente à transformação das relações sociais
à própria configuração das mesmas. Com efeito, as relações de opo- de produção - quanto menos potente for a ação das classes domi-
sição de classes são fundamentalmente assimétricas, induzindo, por nantes e das elites dirigentes para a absorção dos conflitos nos quadros
conseqüência, aos inevitáveis conflitos de interesses, visto que elas da ideologia hegemônica, com vistas a manter e assegurar o processo
nunca se enfrentam em plano de igualdade material. Eis porque "as de reprodução das relações sociais de que são beneficiárias.
É preciso, porém, considerar que a situação objetiva de classe e
H Aqui é preciso muita cautela para evitar-se o "desvio· economicista que
o antagonismo entre as classes não são suficientes por si sós para con-
propugna pela idéia de que o desenvolvimento das forças produtivas, na sua figurarem uma plena consciência de classe por parte de seus membros,
"automaticidade inexorável" , é o fator responsável da evolução e transforma- embora· constituam condições que possibilitam, quanto às classes su-
ção históricas, atribuindo-se às relações de produção apenas o papel de estra- balternas, o despertar da consciência reflexiva de seus elementos inte-
tificador do sistema social. A propósito, Granou afirma com certo exagero que
"as forças produtivas não ditam a sua ·finalidade do exterior através das rela-
35 Cf. Rodolfo Stavenhagen, op. cit., p. 289.
ções de produção, entraves de que a 'revolução' as haveria de libertar, mas
são o produto imediato do desenvolvimento das relações de produção capita- 3·6Cf. Anthony Giddens, op. cit., p. 135 (grifo nosso). Para uma análise mais
lista que preexistem às mesmas". Cf. Andre Granou, Capitalisme et Mode de aprofundada, ver Georg Lukács, História e Consciência de Classe, Porto, Publi-
Vie, Paris , Lcs Eqitions du Cerf, 1972, p. 28. cações Escorpião, 1974, pp. 59-96.
154 ALAóR CAFFÉ ALVES ESTADO E IDEOLOGIA 155

grantes, sob a ação mais ou menos organizada da práxis política ·Estas questões estão estreitamente relacionadas com o poder hegemô-
tendente a transformar as relações sociais dominantes. Assim, a cons- nico, cuja análise mais detalhada faremos no capítulo seguinte.
ciência transformadora surge na luta de classes, mas não dela. A classe Como a unidade do sistema de classes, no modelo teórico dico-
dominante, na sociedade mercantil, já tem sua expressão hegemônica tômico examinado, é de caráter dialético, os pólos relacionados são a
em razão do fundamento objetivo que se traduz nas próprias relações um só tempo contraditórios, excludentes entre si, e dependentes, ou
sociais assimétricas existentes sob o regime capitalista, onde as con- melhor, interdependentes. Essa interdependência das classes leva-nos
tradições e os conflitos sociais são escamoteados exatamente para fa- a considerar que, mesmo havendo uma assimetria em suas relações
vorecer a continuidade da reprodução daquelas relações desiguais. específicas, origem de seus conflitos permanentes, latentes ou mani-
Dentro desse processo, os agrupamentos dominantes se "esforçam" festos , ou mesmo explosivos, elas "se necessitam" mutuamente, isto é,
por manter a " consciência espontânea" para si e para as classes su- não há uma classe dominante senão em função de uma classe domi-
balternas, com vistas a propiciar a prevalência da ideologia dominante nada e vice-versa. Isso quer dizer, por exemplo, que no sistema capi-
e, assim, garantir aquela reprodução. Tal "esforço" já é a expressão talista de produção, o detentor do capital, de um lado, necessita con-
mesma do conteúdo da própria ideologia dominante, esposada, de tratar a mão-de-obra indispensável para acionar os meios de produção
modo geral de forma inconsciente, por todos os segmentos sociais, e, de outro, o detentor da força de trabalho precisa ofertá-la e vendê-la
grupos e classes. Eis porque essa ideologia também é uma tradução ao capitalista, para poder sobreviver. Sob o ângulo interno do sistema,
da consciência espontânea que, no interior de seu próprio jogo, se portanto, existe também uma interseção de interess9, onde a vontade
envolve na ilusão de que possui ~'toda verdade" do mundo social. de contratar deve ser mantida e garantida no âmbito de relações for-
f: por essa razão que " se o desenvolvimento espontâneo do movimen- malmente "iguais" e "livres" entre indivíduos social e economicamente
to operário não leva a uma consciência de classe nem à práxis revo- desiguais e não-livres do ponto de vista da totalidade do referido sis-
lucionária, todo fortalecimento da espontaneidade só serve para debi- tema e do determinismo . social a que ele está sujeito. Essa questão
litar essa práxis. O peso do espontâneo se traduz precisamente na alcança grande relevância quando se tem em conta a necessária rejei-
inexistência da consciência de classe por parte dos agrupamentos do- ção do caráter puramente instrumental do Estado, como meio "utili-
'·' minados";37 mas essa inexistência não representa propriamente um zado" pelas classes dominantes para perpetuar a dominação. Veremos
vazio ideológico: ele é ocupado pela ideologia dominante, pela ideo- isso na ocasião oportuna. Neste momento, interessa-nos apenas subli-
I logia burguesa. Por isso, na expressão de Lenin, "o desenvolvimento
cl nhar o aspecto de ambigüidade que os interesses de classe assumem,
espontâneo do movimento operário caminha exatamente em direção no ·processo dialético de seu relacionamento contraditório e interde-
il a sua subordinação à ideologia burguesa";.a 8 ou seja, "uma práxis es- pendente.
pontânea do proletariado acaba por entrar em contradição com seu
O caráter ambíguo que os interesses de ~lasse muitas vezes tomam
' ser' de classe, em virtude de sua sujeição à consciência burguesa" ..a 9
reflete a contradição interna na unidade do sistema . de classes, espe-
cialmente no modo de produção capitalistà. Com efeito, se os interes-
37 Cf. Adolfo Sánchez Vázquez, Filosofia da Práxis, Rio de Janeiro, Paz e ses de classe fossem apenas repulsivos entre si, não havendo nenhuma
Terra, 1968, ampl. e melh. p. 296 (grifo nosso). Para um exame da consciência conexão ou parcial identidade entre eles, o sistema econômico não
de classe nos quadros matriciais da consciência real e da consciência possível,
sobreviveria para além de um momento, não sendo possível,sua repro-
ver Lucien Goldmann, Lisboa, Presença, 1972, pp. 99-110.
dução por largos períodos históricos. Nessa ambigüidade apontada,
38 Cf. V. I. Lenin, "Que hacer?", in Obras Completas, Buenos Aires, Cartago,
1959, p. 382. porém, entreabre-se uma certa linha funcional que permite ao sistema
39 Cf. Adolfo Sánchez Vázquez, op. cit., p . 296. Ver, também, Alan Swingewood, dominante pôr em maior destaque o caráter "cooperativo" das classes
op. cit., pp . 152-162. sociais, como se elas fossem entre si puramente complementares. Neste
156 ALMIR CAFFI1: ALVES ESTADO E . IDEOLOGIA .. 157

jogo ideológico, o conflito e as contradições são tidos como episódicos, pela divisão técnica do trabalho dentro de um mesmo processo de
insuflados "de fora", revelando uma certa anomia ou mesmo "pato- produção. 40 Isso significa que, na sociedade onde predomina o modo
logia" do processo social. Esse fato enseja, portanto, considerar que de produção capitalista, há uma progressiva e cada vez mais profunda
o processo dialético do relacionamento entre as classes, implicando interdependência de todas . as atividades econômicas, de tal sorte que
uma unidade de contrários, propicia pôr em relevo também, pelas for- não há produto mercantil algum que possa alcançar o mercado sem
ças dominantes e conservadoras do statu quo, o aspecto parcial da que antes não se tenha comprometido a quase totalidade das forças
possível compatibilização aparente - sempre transitória - dos inte- produtivas da humanidade na sua produção.
resses de .classes .opostas, com a conseqüente depressão ou ocultação,
Vemos, por conseguinte, que a primeira feição é de certo modo
nas abordagens prático-teóricas desse tema, de seus antagonismos. Por
responsável pela forma "universal" com que se apresentam aparen-
que isso ocorre? Não basta fazer referência, em abstrato, à questão
temente os interesses dos membros das classes sociais antagônicas.
dialética envolvida no processo dinâmico das relações entre as classes;
O aspecto da "identidade" aparente dos interesses em conflito, neste
é preciso buscar o fundamento desse movimento interno. I! o que
caso, tem seu fundamento ·no caráter ~ocializado da produção e refere-
veremos a seguir.
se ao marco da sobrevivência de toda a sociedade em seu conjunto.
A ambigüidade dos interesses de classes, baseada na realidade
Interessa a todos os seus membros, independentemente desta ou da-
do processo produtivo, é que permite estabelecer os obstáculos ao pro-
quela classe, a preservação do caráter socializado do processo produ-
cesso de tomada de consciência crítica ou reflexiva por parte dos
tivo e a conseqüente ampliação dinâmica dos bens de produção e
indivíduos a respeito de sua real situação de classe na dinâmica social.
demais recursos produtivos. Esta feição social, portanto, é a condição
Essa ambigüidade, manifestada por interesses contraditórios e ao mes-
do modo indiferente como de certa maneira aparecem as classes sociais
mo tempo .não-excludentes entre si, ou seja, interdependentes, repousa
entre si. Isso quer dizer que o aspecto da comunhão dos interesses,
~ na realidade de suas feições sociais ' dialeticamente vinculadas: a que
e sob o ângulo ideológico, aparece como não sendo diretamente respon-
~
se refere ao (a) processo de produção que já se encontra profunda-
sável pela manutenção da desigualdade social e, por conseqüência,
mente socializado e, por conseqüência, ao aspecto da comunhão dos
'· interesses sociais em face da preservação e ampliação da mesma massa
pela existência das classes sociais diferenciadas e antagônicas. No
"
G
I
de bens de · produção, de cujo funcionamento e acumulação depende
entanto, é uma feição que, na sociedade capitalista, está necessaria-
mente presente nas relações entre as classes inconciliáveis e transpa-
j a sobrevivência de todos os membros da sociedade, sem distinção de
rece com toda sua força - que não deixa de expressar o esforço do
i classes; e a que se refere ao (b) processo da apropriação do produto
social que ainda se mantém em caráter privado, com a particularização
homem para transformar a natureza em seu proveito - mediante a
referência a uma "identidade" de propósitos de todos os membros da
ou fragmentação dos interesses sociais, diferenciados assimetricamente
sociedade para, no âmbito da "solidariedad~ humana", enfrentarem
em razão da posição, pelos membros da sociedade, como proprietários
os percalços comuns da sobrevivência social, como um. todo. Tal soli-
o~ não (propriedade real) daqueles mesmos bens de produção, permi-
dariedade, entretanto, é ideologicamente formulada, como ainda vere-
tindo sua acumulação ampliada apenas por parte e no interesse de
mos, exatamente pàra o exercício do poder hegemônico da classe au
um pólo da relação, isto é, da classe dominante. Para melhor com7
fração de classe dominante. Essa feição; geralmente identificada como
preensão, consideramos que a progressiva soci::tlização do processo
produtivo ocorre exatamen}e .em razão do desenvolvimento das forças
40 Ver, nesse sentido, Marta Harnecker, Los Conceptos Elementales del Mate-
produtivas da sociedade capitalista, incrementando e sendo incremen-
rialismo Histórico, Buenos Aires, Siglo XXI, 1974, pp. 26-30. Ver, também,
tadas, tais forças, pela divisão da produção social em diferentes ramos,
K. Marx e F. Engels, La Ideología A/emana, Buenos Aires,. Pueblos Unidos,
esferas ou setores da economia, intermediados pelo mercado, e ain~a 1973, pp. 32-38.
ALAOR CAF'Fll! ALVES ESTADO E IDEOLOGIA 159
158

o "bem comum", é a responsável pelo aspecto da dinâmica funcional Essa feição social, entretanto, está permeada pela fragmentação
entre as classes opostas e antagônicas e pelas formulações ideológicas social decorrente da posição diferenciada dos agentes sociais coletivos
que permitem a continuidade histórica e a reprodução do sistema eco- em face dos meios de produção. Aqui é preciso sublinhar o necessário
nômico com relativo êxito operacional. A indiferença e generalidade cuidado para não considerar como separa~as as duas feições mencio-
do "bem comum" servem precisamente para dissimular o que não nadas, visto que somente se pode distingui-las analiticamente, o gue
pode claramente aparecer: as diferenças sociais que dilaceram profun- veicula, por isso mesmo, aquele caráter ambíguo já assinalado em
damente o corpo da sociedade dividida em classes. relação aos interesses de classe. Segundo a afeição referente aos inte-
resses sociais diferenciados, a oposição antagônica resulta objetiva-
e.aliás graças a este momento do relacionamento classista que
mente das diferentes posições dos grupos sociais frente aos bens de
observàmos os "cuidados" destinados a preservar as condições mate-
produção, demarcando aquela desigualdade, já apontàda, indispensá-
riais e espirituais -pgra manter a continuidade da . relação assimétrica
de exploração e domínio. 41 Assim, a tomada das providências desti- vel à caracterização de um sistema de classes. Isso significa que a
nadas a impe.dir que haja exagero na exploração da mais-valia, bem oposição contraditória dos interesses decorre do quadro estrutural es-
como destinadas a incrementar as condições de contexto social para pecífico da sociedade, ou seja, do modo como fundamentalmente está
a persistência e continuidade da reprodução .do sistema (saúde, edu- ela organizada, num determinado período histórico. Portanto, sob o
cação pública, saneamento básico, previdência social, etc.), soa como ângulo da feição social das diferenciações assimétricas e contraditórias,
proteção à coletividade trabalhadora, como de fato é, identificando-se, . podemos identificar os elementos mais importantes e decisivos para a
por conseqüência, e apenas neste ponto, com os interesses sociais glo- definição e caracterização da sociedade de classes e de seu dinamismo
interno dialético. Por esse processo, torna-se essencial a apreciação dos
bais. Se, por um lado, ao capitalista interessa, em termos de pura
mediação para emprestar dinamismo, eficiência e segurança ao pro- movimentos e transformações sociais e a partir da consideração das
cesso de acumulação ampliada, que se garantam os meios e condições classes em conflito. Ela se integra com a primeira feição social para
formar um todo simultaneamente solidário e contraditório, uma uni-
sociais à reprodução da força de trabalho,., de que necessita para pôr
dade de contrários.
em movimento os recursos produtivos, por outro lado, ao produtor,
direto ou indireto, interessa ter melhores condições materiais de vida, Em razão desse processo da dialética social, não se pode deixar
de aperfeiçoamento pessoal e cultural, para si e sua família, com vis- de destacar com grande relevo a caracterização específica e real dos
tas a viver com dignidade e libertar-se da insegurança e das necessi- grupos sociais diferenciados de forma oposta ou antagônica. e. bem
dades prementes de caráter primário. 42 É em razão desse processo que real a existência, por uma lado, de trabalhadores industriais, campo-
as classes dominantes conseguem tornar hegemônica a expressão "de- neses, bóias-frias, assalariados do setor terciário, de grandes parcelas
vemos todos trabalhar parei o desenvolvimento nacional", a despeito sociais de baixa renda e, por outro, de empresários, comerciantes,
de a acumulação do excedente econômico somente se realizar em seu latifundiários, banqueiros, etc. Isso quer dizer que, se sob a primeira
nome e interesse. Como a massa de bens de produção é basicamente feição, a da comunhão de)nteresses, todos são considerados "homens"
uma só, sob a forma de capital, sua destruição ou não-ampliação não de modo geral, com necessidades iguais de, sobrevivência, sob a se-
prejudica apenas ao capitalista, mas também ao produtor explorado. gunda, a da particularidade das posições em face dos meios de pro-
dução, todos são diferentes, com aspirações, finalidades, objetivos,
interesses distintos, opostos e essencialmente inconciliáveis. Nem é
41 Ver, nessa linha, Yves Leclerq, Teorias do Estado, Lisboa, Edições 70, 1981,
preciso dizer que esta última feição, numa sociedade de classes, é a
pp. 18-23.
determinante primordial, visto que os homens se enfrentam, no plano
42 Ver Jürgen Habermas, A Crise de LegitimaçãÔ no Capitalismo Tardio, Rio
de Janeiro, Tempo Brasileiro, 1980, pp . 47-56. diJ.,s relações econômicas, não como entes gerais e abstratamente indi-
160 ALAóR CAFFÉ ALVES
ESTADO E IDEOLOGIA
161
ferentes, mas como seres reais específicos na qualidade de trabalhador
talista de produção, como exatamente ocorre (ser dominante) com o
ou de detentor do capital. 4'3 Entretanto, o discurso deste último é
valor de troca e com a feição dos interesses diferenciados e antagô-
realizado sempre no sentido de empanar as condições emergentes da
nicos. É preciso desde já notar que esse aspecto é de extrema impor-
exploração econômica e da dominação política para fazer sobressair
tância para configurar a natureza do Estado frente à sociedade civil,
e prevalecer, a nível ideológico, o caráter universal subjacente nas re-
como faremos mais adiante.
lações de classe quanto à expressão da comun~ão geral dos interesses,
em razão da sobrevivência da sociedade em seu conjunto. Vê-se, neste Como exemplo expressivo dessa dialética das feições dos interes-
caso, que a feição relacionada com as aspirações gerais ligadas à pre- ses de classe, ainda no âmbito da referência teórica dicotômica, pode-
servação e ampliação dos instrumentos e demais recursos produtivos mos consignar aquele relacionado com a apropriação ·e acumulação
tem, numa sociedade capitalista, um fundamento objetivo, condicio- ampliada do excedente econômico produzido pelo trabalho social, no
nando, no plano ideológico, a dominância da idéia da comunhão uni- interior do modo capitalista de produção. Neste modo social de pro-
versal e abstrata dos homens exatamente para ocultar as contradições dução, há inequívoco interesse de todos no processo de produção do
reais originadas da apropriação privada do produto social. É o que excedente econômico, de sua acumulação e ampliação, com vistas a
ocorre, conservadas as proporções analógicas, na relação dialética criar melhores condições materiais e espirituais para o desenvolvimen-
entre o valor de uso e o valor de troca no processo produtivo capita- to social e libertação das necessidades prementes da vida humana.
lista . .Ao capital, na sua lógica interna de reprodução e acumulação, Mas há também, e aqui está o fato dominante, o interesse concomi-
interessa a produção do valor de troca, da mercadoria, sem atender tante e transfundido naquele de se realizar a referida acumulação do
direta e especificamente à natureza daquilo que se produz, isto é, ao excedente não em função da sociedade em seu conjunto, mas em fun-
valor de uso, ao aspecto do produto enquanto possa satisfazer neces- ção daquela parcela social que detém historicamente os meios de
sidades humanas. Entn,'anto, apesar de esse aspecto (valor de uso) produção sob a forma de capital. Com efeito, a acumulação e amplia-
não ser o objetivo imediato do capital, este não pode prescindir de ção econômica é de fato realizada, porém não em nome e interesse da
maneira alguma desse suporte natural para realizar o valor de troca, coletividade, mas em nome e no interesse de grupos particulares (clas-
visto que só se pode realizar e incrementar o capital mediante a pro- ses) que para isso detêm a hegemonia econômico-social, política e
dução e venda de mercadorias que satisfaçam as necessidades huma- ideológica da sociedade. Não há dúvida que a coletividade também é
nas. Assim, ao capitalista pouco importa produzir sapatos, bicicletas, de certo modo beneficiada, mesmo que de forma indireta; entretanto,
ventiladores ou refrigerantes, o que importa é produzir mercadorias ao preço e um imenso desperdício de recursos produtivos e extravio
que possam realizar e ampliar seu capital. Seu objetivo primordial irracional de finalidades realmente sociais e autenticamente humanas,
não é a satisfação das necessidades humanas , mas a acumulação am- gerando as profundas desigualdades que impedem uma real libertação
pliada do capital, coisa, aliás, que só pode fazer com base na produção do homem com respeito as suas necessidades vitais e espirituais. 4 5
de utilidades. 44 Pois bem, o valor de uso, tal como a feição da comu- Com essa análise a respeito da ambigüidade dos interesses das
. nhão dos interesses, é objetivo mas não dominante no processo capi- classes inconciliáveis não pretendemos caracterizar nenhuma neutra-
lidade das suas instituições expressivas, tais como o Estado, o Direito,
o movimento sindical, etc., visto que a existência mesma das classes
.ta Ver Victor Molina, "Notas sobre Marx e o Problema da Individualidade",
in Da Ideologia, org. pelo Centre for Contemporary Cultural Studies, da Uni- pressupõe, como já foi dito, a dominância da assimetria e, também,
versidade de Birmingham, Rio de Janeiro, Zahar, 1980, pp. 296-302. Ver, tam- da oposição e de conflito. Nesse sentido, a consciência de classe, como
bém, K. Marx, Miséria da Filosofia, Rio de Janeiro, Leitura, 1965, pp. 99-137.
44 Ver, nesse sentido, K. Marx, O Capital, I, São Paulo, Abril Cultural, 1983,
45 Ver Shlomo Avineri, El Pensamiento Social y Político de Carlos Marx,
seção I, cap. I, pp. 45-49, seção 111, cap. V, 1 e 2, pp. 149-163.
Madri, Centro de Estudios Constitucionales , 1983, pp . 228-242.
162 ALAC>R CAFFÉ . ALVES ESTADO E IDEOLOGIA 163

auto-conhecimento dos agentes sociais a respeito de sua posição dife- uma classe num regime determinado de economia social e sua ação
renciada e objetiva frente aos meios de produção e da conseqüente política consciente, cujo propósito pode ser a transformação radical
consciência relativa à apropriação privada do excedente econômico das estruturas sociais ou a manutenção das estruturas existentes, va-
produzido socialmente, só se torna possível no âmbito e processo das riam segundo as circunstâncias históricas particulares e têm que ser,
relações antagônicas, dos conflitos políticos e ideológicos decorrentes em cada caso, o objeto de investigações empíricas concretas." 46
exatamente da disparidade e desigualdade das situações de classe. Finalmente, é indispensável considerar que a análise teórica do
Isso quer dizer, em última instância, que, enquanto a consciênCÍa da modelo dicotômico a respeito àas classes sociais, efetuada dentro de
classe dominante consiste em sobrelevar hegemonicamente o fator re- um elevado nível de abstração, tem por fim chegar a categorias bási-
cessivo dos interesses comuns da sociedade, tentando identificar com cas explicativas da realidade social e política, sem a pretensão de ca-
eles os próprios interesses para ilidir as contradições inerentes ao sis- racterizá-las como estruturas meramente formais, uma vez que não
tema de classes, a consciência da classe subalterna, em seu movimento representam relações possíveis aplicáveis universalmente fora de qua~­
crítico-reflexivo, consiste em desnudar essas contradições reveladoras quer contexto historicamente determinado. Isso significa que tal forma
da divisão social e da exploração econômica dela resultante, com de exploração abstrata rtão pode esgotar o plano da realidade histórico-
vistas -a superar tal situação com o predomínio de seus interesses (nas social, visto que esta é infinitamente mais rica do que qualquer for-
lutas econômicas) ou com a supressão dos fatores estruturais da desi- mulação teórica que a respeito dela se possa fazer. Assim, um mo-
gualdade (nas lutas políticas). Vale assinalar, portanto, que a cons- mento histórico determinado de uma sociedade concreta não pode
ciência de classe está necessariamente referida não diretamente à feição corresponder de forma direta a categorias abstratas; estas não podem
social da comunhão dos interesses, embora · esta feição fundamente a ser utilizadas de maneira formal, permanecendo abstratamente imó-
~ "consciência espontânea" no processo de alienação ideológica, mas à veis e enrijecidas diante do processo social. Elaborados os conceitos

'!
L
dos interesses antagônicos, com objetivo quer de manter a reprodução
do sistema e preservação dos privilégios, quer de fazer prevalecer
novos valores emergentes de classes em ascensão, quer ainda de eli-
abstratos, estes devem ser negados ao receber os insumos da realidade
histórica que pretendem explicar, com o fim de pôr à mostra as limi-
tações desse nível do conceito, buscando planos mais concretos de
L abstração para a efetiva apreensão do real. Isso significa que não po-
minar os fatores estruturais determinantes da assimetria com a trans-
demos reduzir a realidade histórico-social, tal como se apresenta, ao
'
I
4
formação radical do sistema de classes. Assim, a situação de classe
define-se conforme um fato objetivo onde pode ter lugar, em circuns- tamanho da teoria explicativa, posto que também desta teoria aquela
l tâncias históricas específicas, o posicionamento subjetivo consciente
dessa situação, com a intenção de mantê-la ou de superá-la. Por esse
realidade não pode ser cabalmente deduzida. Por essa razão, a apli-
cação do modelo dicotômico enseja múltiplas aproximações do real,
motivo, as classes sociais tendem a organizar-se para a· ação política num processo dialético de enriquecimento progressivo das categorias
e prática ideológica com o objetivo de, superando interesses espontâ- básicas, com o que se pode alcançar explicações extremamente signi-
neos imediatos, manter ou conquistar o poder do Estado. "A cons- ficativas para a práxis transformadora da sociedade. 47
ciência de classe é o elo que permite a passagem da classe 'em si',
agrupamento com interesses objetivos 'latentes', à . classe 'para si', 46 Cf. Rodolfo Stavenhagen, op. cit., p. 289.
grupo de poder qtie tende a organizar-se para o conflito ou a luta 47 Não deve haver, portanto, uma mera superposição de enfoques diferentes
política, e cujos interesses tornaram-se, portanto, 'manifestos'. Mas a do fenômeno de classes, "mas um sistema ~elacionado de planos de abstração
(modo de produção, estrutura social, formação econômico-social, situação so·
consciência de classe não surge automaticamente da 'situação de cial, conjuntura, etc.), que vão desde o mais concreto ao mais abstrato e desde
classe', nem todo agrupamento organizado para o conflito político tem o mais abstrato ao mais concreto". Quanto mais nos aproximamos do concreto,
por base a classe social. As relações específicas entre a posição de mais as leis gerais se vão redefinindo em relações cada vez mais complexas. A
164 ALACR CAFFÉ ALVES
ESTADO E IDEOLOGIA 165

Quando ultrapassamos a análise abstrata de um modo de produ- ampliação da "aristocracia operária", das "novas classes médias",
ção determinado, para trabalhar sobre um universo social histórica e com a conseqüente alteração no regime de distribuição da mais-valia
geograficamente situado, enfrentamos a expressão de uma formação e das formas de sua realização. As relações entre cidade e campo,
social específica dominante, com um certo nível de desenvolvimento especialmente com a concentração da classe trabalhadora nas áreas
e entrelaçada com os traços de outras formações sociais passadas ou urbanas e a criação de unidades produtivas de grande escala e de
ainda em gestação no seio dessa formação prevalecente. Nessa linha sofisticados meios de comunicação, possibilitam novas formas de cons-
de análise, torna-se imprescindível operar com dados empíricos de ciência e de união e organização política capazes de fomentar ou de
caráter histórico, político, demográfico, econômico, sociológico, etc., amortecer as reivindicações econômicas e revolucionárias das classes
com vistas a caracterizar e explicar a situação histórica de uma deter- trabalhadoras.
minada coletividade, seu quadro concreto de relações estruturais e de
Esse processo, no plano da análise histórico-concreta e na medida
sua dinâmica específica. 4 8 Por esse processo de aproximação do real,
.em que esta se aprofunda com relação a formações sociais determi-
as relações gerais, como por exemplo as relações dicotômicas entre
nadas, enriquece sobremaneira a abordagem do nível teórico mais
classes opostas, antagônicas e interdependentes, vão se redefinindo e
abstrato que, no entanto, ao ser superado na sua expressão abstrata,
se desenvolvendo em relações cada vez mais complexas, desde o nível
mantém-se como eixo fundamental para a explicação da totalidade do
de análise do modo de produção, perpassando pelos níveis de exame
dinamismo social. Contudo, à medida que avançamos para o concreto,
das estruturas sociais, da formação sócio-econômica, da situação his-
os conceitos categoriais apontam para uma complexidade onde o plu-
tórica e social específica de uma determinada sociedade, até o estudo
ralismo das classes começa a se manifestar, colocando em risco a
de suas relações conjunturais. 49 Nesse sentido, por exemplo, se pode
perspectiva essencial explicativa da unidade estrutural da sociedade.
destacar as grandes modificações da formação social capitalista, ao
Com efeito, não se adotando a forma dialética de abordar e pensar a
passar do século XIX para o século XX, do capitalismo liberal para
realidade social, a tendência é recair no procedimento pseudo-expli-
a forma imperialista e, posteriormente, para integração mundial do
cativo de índole empirista, através do qual se pretende dar valor abso-
sistema, fazendo desaparecer em grande medida as barreiras nacionais.
luto ao imediato descrito, a partir dos fatos coletados. Entretanto, se
O aparecimento da produção em massa, a divisão internacional do
a análise não se perder na linha desse empirismo de caráter positivista
trabalho, a mecanização generalizada, a automação em alto grau de
e se houver a vigilância metodológica onde se resguarde permanen-
desenvolvimento, a informática, a concentração do processo produtivo,
temente a unidade dos contrários, a referida pluralidade poderá ser
etc. condicionam o fortalecimento dos sindicatos, o surgimento e
pensada e explorada sem se perder o caráter explicativo que dá uni-
dade de sentido aos processos dinâmicos da transformação social.
ciência começa quando a descrição se torna determinação, se torna • concreto-
Assim, partindo do complexo social mais simples e abstrato, con-
determinado" ou , ao contrário, "universal-concreto·. Certas conjunturas deter-
minadas tendem a ace.n tuar as contradições entre a aparência dos fenômenos
tudo fundamental, caracterizado pelo contexto das relações de "domi-
e seus modos de ser, isto é, sua "essência"; outras conjunturas, contudo, par- nação-subordinação", podemos identificar, em razão da expansão e
ticularmente as revolucionárias, fazem "aparecer" os aspectos essenciais da da intensificação da divisão técnica e social do trabalho, produto da
realidade na experiência imediata. A ciência total empirista absolutiza o ime- sociedade capitalista industrial, o aparecimento, ampliação e diversi-
diato, pois .não pode mostrar suas relações com os modos de ser ou as condi- ficação da chamada classe média, interposta organicamente entre as
ções que o determinam e, portanto, não é ·ciência". Cf. Theotonio dos Santos,
classes fundamentais. Mesmo estas classes fundamentais não são homo-
Conceito de Classes Sociais, Petrópolis, Vozes, 1982, p. 29.
4!! Ver Nicos Poulantzas, As Classes Sociais no Capitalismo de Hoje, 2.' ed., gêneas no que diz respeito às relações sociais a que dão origem,
Rio de Janeiro, Zahar, 1978, pp. 23-26. havendo diferenciação no seu interior, configurando-se em setores,
4!1 Ver, nesse sentido, Theotonio dos Santos, op. cit., pp. 15-29. subdivisões ou frações de classe, como os industriais, comerciantes,
166 ALAOR CAFFÉ ALVES

banqueiros, latifundiários, burguesia rural, trabalhadores da indústria,


do campo; do comércio, funcionários burocratas, etc. A classe ~édia
consiste em grupos diversificados, tais como pequenos produtores in-
dependentes, consignados como pequena-burguesia (artesãos, campo-
neses arrendatários, pequenos comerciantes, lojistas, especuladores,
etc.); trabalhadores indiretos que organizam e coordenam o processo
produtivo em nome do capital (capatazes, gerentes, assistentes, super-
visores, funcionários de escritório, etc.) ; os grupos profissionais rela-
tivamente autônomos, com funções de produção e reprodução ideoló-
gicas (professores, artistas, juristas, jornalistas, clero, etc.); os grupos
da burocracia estatal (funcionários públicos da administração civil, Terceira parte
militares, juízes, técnicos, etc.). 50 Entretanto, apesar dessa diversidade,
não se pode perder a visão de conjunto propiciada por uma teoria das
Questões nucleares
classes sociais. No modo de produção capitalista, a classe dominante
exerce hegemonia sobre a formação social, fazendo prevalecer seus
interesses sobre os das demais classes. Se ao nível abstrato da análise
do modo de produção podemos identificar seus interesses básicos,
estes, contudo, sofrem novas determinações ao nível mais concreto da
análise de uma certa formação social. Neste nível, por exemplo, as
classes ou frações de classes dominantes, para assegurarem e perpe-
tuarem sua dominação, deverão manter relações de exploração, de
colaboração, de luta política, fazer coalizões e realizar certas alianças,
transigir, etc., não só com o proletariado e suas frações, mas também
com as demais classes da formação social. 51 Vê-se, por essa conside-
ração, que as bases categoriais do procedimento de análise estrutural
j~ se mantêm; contudo, são ao mesmo tempo alteradas (superadas) pela
I ~
apropriação de elementos trazidos por um nível de análise menos
abstrato, sem perder, entretanto, seu alto poder explicativo e doador
de unidade de sentido para a compreensão efetiva do processo social
e político.

50 Ver ' Alan Swingewood, op. cit., p. 138. Ver, também, Bottomore, As Classes
na Sociedade Moderna, 2.• ed., Rio de Janeiro, Zahar, 1978, pp. 13-32 .
51.Ver Marta Harnecker, op. cit., pp. 175-182.
Poder,
ideologia e legitimidade

Uma determinada formação histórico-social caracterizada por rela-


ções estruturais conflitivas, isto é, onde não haja igualdade nas relações
distributivas dos bens produzidos socialmente. exige uma referência
unificadora cuja energia impede, por um lado, a mortal desagregação
do todo social e, por outro, a perda das condições de reprodução básica
do próprio sistema. Essa referência unificadora social, que a um só
tempo compreende a diversidade dos interesses contrários e antagôni-
cos e a unidade da correlação entre eles, é uma força que impõe como
poder ou domínio em sentido lato, isto é, enquanto pressupõe tam-
bém a possível referência às formas de sua própria legitimação. E mais,
na medida em que se trata de relações estruturais, compreendendo as
classes sociais, e não de relações interpessoais, o problema dos confli-
tos está vinculado especialmente ao poder p'olítico e não apenas ao
poder entendido de modo geral. A questão do poder é complexa e exige
uma análise configurada no contexto de um sistema social onde se
possam destacar com clareza as bases de sua realidade e justificação.1

1 Para uma visão oposta a nossa abordagem sobre o poder, ver Bertrand de
Jouvenel, El Poder, 2.• ed., Madri, Nacional, 1974, especialmente o livro IJI,
caps. 6, 7 e 8, pp . 121-192.

1111..:... - ~ ...
170 ALAÓR CAF'Ft: ALVES ESTADO E IDEOLOGIA 171
\
A simples indicação das classes sociais em conflito não é suficiente escassa a quantidade dos bens a distribuir entre os agentes sociais em
para explicar esse fenômeno complexo. f: preciso avançar no plano face de suas necessidades, torna-se indispensável, à ordem e manuten-
das questões que possam identificar os reais fatores determinantes da ção da convivência humana, a submissão das partes a determinadas
instância do poder ou domínio político. A questão substancial não é, regras de distribuição, mesmo contra suas vontades, visto que podem
a nosso ver, a referência a sua legitimidade ou não, embora essa seja não corresponder plenamente àquelas necessidades. Entretanto, em
uma questão extremamente importante do ponto de vista do "quanto razão da própria escassez de bens e da divisão do trabalho, é comum
somos governados". A questão básica suscita as perguntas: poder criar-se um contexto social em que uma das partes assegura, de um
para quê? Que faz o detentor do .poder com o seu poder? Como modo ou de outro, uma participação privilegiada na distribuição desses
governam os governantes e para onde dirigem os governados? 2 Estas bens, gerando situações compreensíveis de antagonismo e conflito. Esse
perguntas não apontam apenas para o estudo das possíveis qualifica- fato concretiza a necessidade de institucionalizar a forma de decidir a
ções do poder político, ou seja, se este é mais ou menos democrático respeito da distribuição dos bens, entre partes desiguais, caracterizando
ou consensual, se está em mãos de muitos ou de . poucos, se está carac- o poder social sob a forma de organização política. Por isso, numa
terizado no plano do pluralismo ou do elitismo, etc; 3 tais perguntas situação de conflito estruturalmente delineada, o poder funciona, só
estão consignadas à idéia operacional básica que se expressa na seguin- por sua existência, como revelador desse conflito e, ao mesmo tempo,
te questão: para que serve o poder político? Entretanto, a fim de não como forma de seu ocultamento, Condicionando um mecanismo de esta-
gerar possível confusão em torno das premissas das quais partimos, bilidade do sistema social para garantir sua reprodução dentro de
cumpre ressaltar que a questão colocada não tem outra significação determinados parâmetros. 4 Isso significa que, até certo ponto, a esta-
senão a de orientar metodologicamente a investigação preliminar acer- bilidade da rede de relações sociais é assegurada pelo poder que garan-
ca do poder político, não devendo induzir a uma postura teleológica te a continuidade da distribuiçiio desigual dos bens produzidos social-
mente, dentro de uma forma hegemônica onde uma classe predomina
'I
i~
ou à caracterização instrumentalista ou mesmo funcionalista a seu
respeito. sobre a outra. 5
O poder político, enquanto fenômeno social, funda-se na relação No sentido de aprofundarmos essa abordagem do poder, convém
de conflito derivada da distribuição desigual dos bens sociais realiza- desenvolver uma análise, ainda que não extensa, das principais cate-
da com base na forma estrutural assumida por determinado modo de ·gorias que perfazem esse fenômeno da vida social. Para a real com-
produção. Os bens são assinalados como bens econômiCos conforme preensão do processo pelo qual o poder se manifesta, é preciso ter
aparecem como resultado do esforço humano e se encontram de forma em primeira linha de consideração a situação de conflito de classes em
limitada. Com a provisão restringida desses bens surge o conflito e, razão do modo pelo qual a sociedade está estruturada para a produção
por conseqüência, aparece o problema do poder. Com efeito, sendo e reprodução da sua vida material e espiritual. Numa sociedade de
classes, a estrutura social se manifesta, como já vimos, pela posição que
1
Ver, nesse sentido, Goran Therborn, Cómo Domina la Classe Dominante? os indivíduos ocupam em face dos meios de produção, formando agru-
Aparatvs de Estado y Poder Estatal en el Feudalismo, el Capitalismo y el pamentos expressivos com interesses adversos entre si, a despeito de
Socialismo, 2: ed., México, Siglo XXI, 1982, pp. 151-163. Ver, também, do
esses interesses também traduzirem paradoxalmente uma certa comu-
mesmo autor, Ciencia, Clase y Sociedad: Sobre la Formación de la Sociología
y dei Materialismo Histórico, Madri, Siglo XXI, 1980. Ver José Eduardo Faria, nhão fundamentada na exigência de ordem e manutenção da vida
Sociologia Jurídica, Crise do Direito e Práxis Política, Rio de Janeiro, Forense,
1984, pp. 45-55. ' 4 Ver Marilena Chaui, Cultura e Democracia, O Discurso Competente e Outras
~ Para uma análise mais aprofundada sob esse ângulo (o de quem exerce o Falas, São Paulo, Moderna, 1981, pp. 111-116. ·•
poder), ver Karl Loewenstein, Teoría de la Constitución, 2.• ed., Barcelona, 5 Ver, nesse sentido, Zygmunt Bauman, Fundamentos de Sociología Marxista,
Ariel, 1976, pp. 23-145 . Madri, Alberto Corazón Editor, 1975, Comunicación 27, pp. 69-70.
172 ALAOR CAFFÉ ALVES ESTADO E IDEOLOGIA 173

social como um todo, com base na socialização do processo produtivo . fora do pensamento e, ao mesmo tempo, através dele, passando esse
A dominância continuada das relações conflitivas, ao nível do proces- pensamento a estar sempre numa relação de co-nascimento com o real
so econômico, conduz à indispensável produção e conservação de uma social. 8 Essa linha de trabalho teórico vai nos dar o caminho para a
força contrária - o poder político - que tem por fim reacender, ao compreensão do fenômeno da legitimidade do poder e de suas cone-
nível da produção e reprodução ideológicas e mediante formas e estru- xões com as formas de exploração econômica pautadas nas relações
turas jurídico-políticas e outros expedientes, o aspecto da universali- assimétricas e conflitivas do modo capitalista de produção.
dade e solidariedade das relações humano.s, neste plano, porém, de As relações de produção, na sociedade dominada pelo capital,
modo abstrato e formal , buscando uma ordem e uma paz social a pressupõem a trama ideológica não como mero momento imaginário
despeito dos processos reais conflitivos subjacentes no plano estrutu~al , que pudesse aparecer após sua instauração, mas com'O elemento cons-
e chegando, se preciso for , para a mantença dessa ordem, a lançar mão titutivo de sua própria estrutura objetiva. Por outro lado, essa estru-
de meios de violência viva ou aberta (coação física ou moral). Por tura condiciona também a maneira de pensá-la e de operá-la, a ela
isso se pode chegar à conclusão de que a desigualdade estrutural, no mesma, no âmbito da práxis cotidiana, a ponto de tornar o engano a
plano das relações econômicas, não pode subsistir como tal e repro- respeito de suas aparências funcionais não como produto imaginário
duzir-se, sem o respaldo imprescindível das formas de induçao subje- do sujeito apenas, mas exatamente como resultado da ação objetiva
tivas e objetivas originadas nos níveis ideológico e jurídico-político.6 dessa forma de organização social. 9 Assim, exemplificando, por não
Áliás, para ser coerente dentro de uma perspectiva dialética na colo- se poder ver direta e imediatamente a extração da mais-valia no pro-
cação dessa questã<;>, é preciso que se assinale a importância dos fatores cesso produtivo, o lucro do capitalista não aparece como uma parte
ideológicos na formação e reprodução das relações produtivas, espe- do valor não-pago gerado pelo uso da força de trabalho, mas como
cialmente daqueles de caráter antagônico vinculadas às relações de produto efetivo do capital, contrastando, em contrapartida e igual-
classes . Nessa questão, a ideologia torna-se um componente interno mente, pela aparência de que mediante os salários se paga "realmente"
das próprias relações de produção. 7 Isso significa que tais relações não todo o trabalho do produtor. Neste caso, observa-se que a relação real
existem objetivamente "antes" das formas pelas quais as representa- ou o núcleo essencial da questão se torna invisível pela ação ideoló-
mos subjetivamente, como se aquelas relações pudessem nascer ou ter
~ gica que mostra o oposto dessa relação, mas ação essa que faz parte
continuidade sem essas representações. Por essa razão, e também para da própria relação objetiva e que toma corpo e concreção nas diversas
'I
I I
não se perder o caráter objetivo da determinação histórico-social, se formas das relações jurídicas que regulam o processo. 1Q B por essa
'! ••..•• pode considerar que as relações sociais produtivas sã'o sempre geradas razão que os modos de rendimento econômico, no plano de sua expres-
são aparente, tomam as formas de salário, lucro, juro, aluguel, etc. ,
« "As classes dominantes e o Estado político, estruturados em classes hegemô-
com grande valor pragmático nas relações visíveis dos negócios coti-
nicas e em Estado hegemônico, devem elaborar um conjunto ideológico político
particular que tem uma função objetiva específica ( . .. ) : a de "resolver" pre- s Ver, nesse sentido, Maurice Godelier, ·A Parte Ideal do Real", in Antropo-
cisamente a contradição fundamental entre dois níveis de realidade, entre a logia, op. cit., p. 203.
relação real dos homens com suas condições de existência no Estado e sua re- n Ver Norman Geras, "Marx e a Crítica da Economia Política", in Robin
lação real com suas condições de existência na sociedade civil". Cf. Nicos Blackburn (org.), Ideologia na Ciência Social, Ensaios Críticos sobre a Teoria
Poulantzas, Hegemonía y Dominación en el Estado Moderno, 2.• ed., Córdoba, Social, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1982, pp. 262-274.
Cuadernos de Pasado y Presente, 1973, p. 71. Ver, nesse mesmo sentido, H ) Idem, ibidem, p. 274-277. "O imaginário dos produtores e o sistema dos

Zygmunt Bauman, op. cit., pp . 193-201. signos não refletem uma atividade material; participam dessa atividade como
7 Ver, nesse sentido, Maurice Godelier, " Infra-Estrutura e História" , in Antro- parte constituinte e a definem como prática, isto é, como ação significante
pologia: Godelier, org. Edgard de Assis Carvalho, coord . Florestan Fernandes, para os sujeitos" . Cf. Pierre Ansart, Ideologias, Conflitos e Poder, Rio de Ja-
São Paulo , Ática , 1981 , pp. 174-184. neiro, Zahar, 1978, p. 56.
174 ALAOR CA,FFJ;: ALVES ESTADO E IDEOLOGIA 175

dianos, mas de pouca valia científica para a explicação do real processo nômicas dominantes. Por essa linha se pode analisar o caráter de certo
interno do qual se originam os valores econômicos.U Vê-se, po~tanto, modo funcional que a sociedade assume na aparência . de suas manifes-
que as desigualdades, os privilégios e as contradições inerentes a esse tações, permitindo o processo de exploração do homem pelo homem,
modo de produção são necessariamente escamoteados, para possibilitar .numa relação assimétrica em que uma das partes, a minoritária, possui
sua reprodução contínua e ampliada, mediante formas e estruturas privilégios materiais assegurados em detrimento da outra parte, a
jurídico-políticas e ideológicas apropriadas e específicas desse mesmo majoritária.13 Como é possível que a minoria privilegiada domine a
modo historicamente determinado. Assim, a inequação, as contradições maioria despossuída e tire dessa relação as condições de continuidade
e os conflitos emergentes da instância econômica da sociedade capita- desse privilégio, mediante a apropriação da mais-valia e a conseqüente
lista são, de certo modo, compensados e "neutralizados" pelos quadros acumulação ampliada de bens produtivos? Como é possível fazê-lo de
de representação ideológica e pela dimensão coativa quando essa se forma " legítima"? A resposta a estas indagações só pode ser encon-
faz necessária, constituindo parte indispensável do processo reprodu- trada na análise do fenômeno do poder e de sua íntima conexão com
tivo dessa sociedade. Não há, portanto, uma simples auto-ilusão do os processos econômicos e ideológicos emergentes de uma situação
sujeito social a respeito de sua situação e das reiações cotidianas que estrutural determinada.14 Como primeira aproximação do problema,
enceta; a realidade social é determinante de seu engano, visto que ela é preciso sublinhar que a própria exploração ou a situação de restrição
abrange também e necessariamente as formas aparentes que, ao indica- econômica ou a miséria devem ser acolhidas pelos explorados de modo
a
rem estrutura conflitiva do sistema, ao mesmo tempo a ocultam de natural, isto é, como não sendo um produto de relações sociais deter-
sorte a torná-lo operacional ao nível da vida pragmática cotidiana. minadas e a respeito das quais os homens têm ação muito limitada o'u
O plano da aparência, portanto, não pode ser eliminado senão com a não têm qualquer laço de responsabilidade. Obviamente, essa questão
destruição da própria estrutura interna e objetiva do sistema, a respeito não comporta uma calibragem absoluta, visto que existem inúmeras
da qual aquela aparência é aparência. Isso significa, em última análi- circunstâncias em que os explorados conseguem, de uma maneira ou
se, que a simples compreensão crítica ou científica da essência estrutu- de outra, levantar o véu de oculta:mento das relações estruturais assi-
ral do modo capitalista de produção não pode eliminar seu fundamento
ideológico, nem elidir a respectiva consciência espontânea originada 1>3 De forma divergente, partindo do pressuposto de que o poder político vem
da práxis cotidiana, embora possa exercer um papel significativo em para corrigir as desigualdades naturais, e não para manter exatamente as desi-
relação aos seus efeitos. Por conseqüência, para que haja eliminação gualdades sociais sob o manto da igualdade aparente, J. Blanco Ande considera
da instância ideológica naquele sentido, torna-se imprescindível a ação que ·o poder político é, antes que poder social, poder estatal deferido ao go-
vernante para garantir a paz da sociedade e impor uma ordem. O poder social
da práxis social transformadora, de caráter nitidamente políticoY
respeita as desigualdades que a natureza gera; o mais forte se impõe sobre o
O fenômeno do poder político pressupõe o conflito de interesses mais débil, o pai se impõe sobre seus filhos, etc. O poder político - justo
no eixo das relações ·estruturais, onde os agentes coletivos se defrontam ~ respeita essas .diferenças, porém tende a igualar os indivíduos, trata de cor-
rigir as desigualdades com o fim de obter-se a máxima harmonização de inte-
em função de suas respectivas posições em face dos recursos e meios
resses particulares". Cf. J. Blanco Ande, Teoría del Poder, Madri, Pirami.de,
produtivos da vida material e espiritual da sociedade. Esse fenômeno
1977, p. 177.
não prescinde, como já foi dito, das instâncias ideológicas e jurídico- 14 10. preciso não olvidar a questão relacionada com a viabilidade da produção
políticas para manter e dar continuidade ao quadro das relações eco- ideológica, mediante a estruturação institucional adequada, visto que • a limi-
tação da análise às classes .e às ideologias de classe faz renascer a ilusão de
um diálogo direto entre a classe, a consciência de classe e sua expressão ideo-
11 Ver, nesse sentido, Maurice Godelier, "Estrutura e Contradição no Capital", lógica, como se uma entidade real, a classe espontânea, encontrasse na lingua-
in Ideologia na Ciência Social, op. cit., pp. 309-310. gem de seus representantes uma simples emanação de si própria". Cf. Pierre
12 Idem, ibidem, pp. 315-21. Ansart, op. cit., p. 89.
176 ALAÓR CAF'FÉ ALVES ESTADO E IDEOLOGIA 177

métricas e contraditórias. De qualquer forma, a condição para a repro- cantil de produção, o poder político se destaca sob a forma de uma
dução do sistema de classes compreende a posição acrítica das coleti- aparência que revela e ao mesmo tempo oculta o conteúdo estrutural
vidades opostas em face da inequação econômica. Com efeito, a práxis antagônico da sociedade . Evidentemente, essa aparência não é uma
do cotidiano não pode aparecer como uma forma de claro acoberta- mera ficção e sim uma forma enigmática que acoberta o elemento
mento da exploração; vale dizer que quanto mais a consciência espon- estrutural dissimulado. "Os motivos pelos quais as relações sociais
tânea e ingênua aparece C'omo a verdadeira e única consciência possí- devem assumir essas formas, e não outras, não são evidentes. B neces-
vel, mais contribui para fazer os explorados aceitarem a exploração. rio um trabalho de análise para descobri-los, para revelar o segredo
Por isso, as idéias dominantes devem ser consideradas, pela maioria e, com isso, revelar o conteúdo dessas formas e a essência dessas
dos agentes sociais, como fundamentalmente "verdadeiras". Contudo, aparências. Ao mesmo tempo, o conteúdo explica as formas , e a
resta-nos saber de que maneira a grande maioria dominada pode acei- essência explica a aparência, que deixam então de ser enigmáticas.
tá-las como "verdadeiras", se contradizem objetivamente seus inte- Porém, não se trata de uma caminhada da ilusão para a realidade.
resses.15_ Isso nos leva à análise exploratória mais aprofundada para B um processo de elucidação de uma realidade, revelando a sua fun-
discriminar os elementos constitutivos das relações do poder político, damentação em sua determinação, por outra realidade." 16 Assim, por
pondo a descoberto a dialética da hegemonia e da opressão inerente exemplo, a análise crítica da passagem do sistema feudal de produção
ao processo de seu exercício pelos setores dominantes da sociedade. para o sistema capitalista, e da evolução deste último, revela a pro-
No processo de aproximação da realidade do poder, cumpre-nos gressiva tendência para a centralização do comando político da socie-
destacar a curiosa hipostasia desse fenômeno, como se ele existisse dade em níveis cada vez mais elevados e abstratos, caracterizando
em forma de uma única realidade, com um estatuto ontológico próprio, instituições políticas universalizantes e formalizadas, que a um só
valendo independentemente de suas manifestações no seio das relações tempo tornam funcional o exercício do poder e resguardam a aparên-
sociais conflitivas das quais se originam e, ao mesmo tempo, são a cia de uma relativa harmonia e uniformidade contra o destaque dos
expressão. Assim, por não ser uma entidade metafísica, o poder mani- antagonismos e das contradições estruturais subjacentes. Historicamen-
festa uma relação e não uma "coisa" que se possa tomar ou perder. Por te, a projeção lógica do poder no plano da realidade se manifestou já
isso, não existe propriamente um único poder, a não ser no plano da com bastante nitidez no processo da concentração e monopolização
idéia ou da ideologia. São múltiplas as relações reais de poder e, em do mesmo na pessoa do monarca absoluto, após a derrocada do siste-
que pese a análise possível do conceito correspondente, não nos é ma feudal. Entretanto, dada a comp!é'xidade cada vez mais crescente
autorizado confundir o produto dessa análise, enquanto ela for crítica, da sociedade mercantil, e depois industrial, torna-se igualmente indis-
com a própria realidade, ou melhor, não nos é lícito projetar no plano pensável o progressivo avanço da idéia do poder para níveis mais
ontológico a estrutura e significação lógica que o conceito nos oferece. abstratos, atingindo graus de despersonalização extremamente refinados.
Esta observação é importante, de vez que no plano ideológico tal Com efeito, os ideólogos da burguesia contraem a idéia mais abstrata
projeção é levada a efeito não só para eliminar a possibilidade de do poder soberano da Nação, fazendo parecer que o sujeito-suporte do
realce dos processos . reais de dominação e violência que ocorrem no poder é toda a população, comparecendo esta como uma comunidade
seio da sociedade, mas também para tornar viáveis e operacionais, t'otal substancializada, imaginária e sem consideração alguma a respeito
no âmbito jurídico-político, os esquemas de aparelhagem institucional das profundas diferenças econômicas e sociais de seus membros reais
destinados à articulação contr'Olada do poder. Isso significa que, em e de seus distintos graus de efetiva participação política. Contudo, é
determinadas condições econômico-sociais, éomo as do sistema mer- preciso não esquecer que essa ascendência histórica não elimina o

15 Ver, nesse sentido, Maurice Godelier, A Parte Ideal do Real, op. cit., p. 192. 16 CL Norman Geras, op. cit., p. 271.
ALAóR CAFFÉ ALVES ESTADO E IDEOLOGIA 179
178

tratamento sincrônico da nação como sólido fator referencial do poder O processo de abstração se exacerba mais ainda pela maior con-
político nos dias de hoje, visando a sustentação legitimada do próprio centração do poder e o pleno deslocamento de seu monopólio para o
Estado, o qual, em sua abstração formalizada, não encontra em si Estado - forma singular de organização política do sistema capitalista
mesmo o fundamento e a referência para sua continuidade. Nesse sen- - especialmente em face da necessidade de formalização dos c•oman-
tido, em um precioso ensaio, Gullermo O'Donnell indaga "a que inte- dos legais e da exigência, mediante a função legislativa, de mutação
resses, de que grau de generalidade, abrangente da população do terri- acelerada, artificial e consciente das decisões normativas, que não
18
tório que delimita, aparecem servindo as instituições estatais?" Aos · podem mais ficar à deriva dos usos e costumes lentos e difusos.
da nação - responde O'Donnell - , "o Estado demarca uma nação Assim, o termo "Estado" que não evoca diretamente a individualidade
frente a outras no cenário internacional. Esta demarcação tende a de seus agentes, passa a substituir o termo "nação" - embora a ela
engendrar um 'nós', definido por contraposição e diferença em relação continue e precise referir-se - , que é mais concreto visto ainda suge-
aos 'eles' de tal cenário. Em outras palavras, o Estado tende a ser rir um certo e determinado conjunto populacional. Nesse sentido, o
co-extensivo com uma nação. Este é, normalmente, um fator de coesão poder se despersonaliza e se institucionaliza, tornando-se, na medida de
baseado no reconhecimento deste "nós" com pretensão aceitável de sua maior abstração, mais operacional e eficaz, presente em "toda
vigência real. Por sua parte - continua aquele autor - , o Estado, parte" e, por isso mesmo, no interior do próprio espírito. com maior
19
refeito .em suas instituições, aparece como um Estado-para-a-nação. força de coerção psíquica sobre todos os membros da coletividade.
E isso tem um significado duplo. Primeiro, como delimitação da nação O nível mais elevado de formalização e abstração é alcançado no
frente a outros Estados nacionais. Segundo, para o interior do terri- Estado contemporâneo, onde as relações sociais chegaram a um grau
tório, como pretensão, respaldada em última análise por sua supre- de universalidade formal tão amplo, que nenhum homem, no plano
macia coercitiva de ser o agente privilegiado de custódia, interpreta- social, deve se sentir obrigado ou mandado pela pura e simples vonta-
ção e conqu;_,<>ta dos interesses gerais da nação. O referencial - fina- de singular de outro a não ser que este a isto esteja autorizado pela lei.
Não há, pois, governantes nem governados senão sob tJ poder ou o
liza O'Donnell com feliz clareza - das instituições estatais, a coleti-
império da lei, devendo o próprio Estado formar-se como Estado de
vidade a cujos interesses serviriam, não é a sociedade mas a nação.
direito. Aqui o poder se identifica com a lei, ou melhor, com a ordem
A invocação dos interesses desta última é o que justifica impor deci- 20
jurídica, cuja formalização abstrata tem hoje inequívoca expressão.
sões contra a vontade dos sujeitos, inclusive contra segmentos das
classes dominantes, em benefício da preservação do significado honto-
geneizador da nação. Portanto, a imposição do Estado à frente e 18 Para uma análise desse fenômeno e de seu reflexo sobre a evolução da

acima da sociedade completa-se quando se transpõe ao plano da dogmática jurídica, ver Tércio Sampaio Ferraz Jr., Função Social da Dogmá-
tica Jurídica , São Paulo, Revista dos Tribunais, 1980, pp. 59, 62-75, 83-84,
nação." 17
87-88, 95-99 e 195-202.
19 Uma interessante abordagem do poder político na sua evolução do chefe à
17 Cf. Guillermo O'Dónnell, "Anotações Para Uma Teoria do Estado (li)", instituição, sob o ângulo do idealismo, é realizada por Georges Burdeau, op. cit.,
in Revista de Cultura e Política, n. 4, Rio de Janeiro, ·Paz e Terra, 1981,
0
pp. 28-35.
pp. 75-76 (grifamos). Para o exame de uma concepção substancialista de nação, 20 Nenhum autor expressou com tanta propriedade essa concepção como

ver Georges Burdeau, O Estado, Lisboa, Publicações Europa-América, 1970, Kelsen: "A idenitdade do Estado e ordem jurídica resulta patente pelo fato
pp . 39-44. Dentro de uma perspectiva clássica, e no âmbito das relações entre de que inclusive os sociólogos caracterizam o Estado como sociedade 'politi-
• nação e povo , tendo em vista a representação política, ver Manoel Gonçalves camente organizada'. Como a sociedade - enquanto unidade - está consti-
Ferreira Filho, O Poder Constituinte, 2.• ed., São Paulo,. Saraiva, 1985, pp. tuída por uma organização, é mais correto definir o Estado como 'organização
19-29. Ver, também, Dalmo de Abreu Dallari, Elementos de Teoria Geral do política'. Toda organização é uma ordem. Porém, onde reside o caráter 'polí-
Estado, São Paulo, Saraiva, 1976, pp. 84-89 e 115-120. tico' dessa ordem? No fato de que é uma ordem coercitiva. O Estado é uma


180 ALAóR CAFFÉ ALVES ESTADO E IDEOLOGIA 181

Com essa abstração e despersonalização, as relações sociais reais anta- de produção". 22 Nesse sentido, o poder político assegura sua legitimi-
gônicas e conflitivas se esfumaçam na esfera formal das aparências insti- dade pela integração social que promove mediante as garantias nas
tucionais, ocultando a verdadeira estrutura social e ~ conjunto dos relações mercantis formalmente igualitárias, a respeito da parcialidade
poderes reais dos agrupamentos dominantes . É, portanto, através dos de sua função geral na medida em que., por esse mesmo mecanismo,
conceitos progressivamente mais abstratos do Monarca Absoluto, da avaliza as relações de produção estruturalmente desiguais. Mais uma
Nação, do Estado e do Direito, que poderes muito concretos se tomam vez é possível afirmar que o àomínio hegemônico, como poder politico
efetivos e dinâmicos em ordem, a manter e reproduzir o sistema social assumido de modo justificado, não deve deixar de apa'recer como
de classes .21 forma unificada abstrata e racional, como manifestação de toda a
sociedade considerada homogeneamente, sem referência direta aos
Vê-se pelas considerações feitas que a tolerância ou consenso ativo
processos estruturais conflitivos .
legitimador, dos dominados, no sistema capitalista, aparecem exata-
mente porque as verdadeiras relações assimétricas, e contrapostas de Nessa mesma linha de progressiva abstração e racionalidade
modo antagônico, estão toldadas por formas ideológicas e jurídico-po- instrumental dos procedimentos ideológicos destinados à dissimulação
líticas que não se acrescem àquelas relações, por fora, mas fazem parte das contradições emergentes da estrutura social e à consecução da
interna de sua própria natureza. Por exemplo, as .relações abstratas da legitimidade do domínio político, ganha relevo expressivo, no capi-
esfera jurídica são efeitos e ao mesmo tempo condicionantes da liber- talismo avançado, a ideologia tecnocrática decorrente do estádio em
dade e igualdade formais das partes contratantes no jogo das relações que o movimento do capital passou de sua forma "capital · privado"
entre o trabalho e o capital, sem o que as próprias relações de pro- para a de "capital social" (sociedade por ações), em razão do que a
dução nesse sistema seriam impossíveis. Esse processo, em sua versão produção privada tende a fugir ao controle da propriedade imediata
e exige a intervenção cada vez mais acentuada do Estado no processo
liberal, leva a considerar que "a concepção da harmonia dos interes-
produtivo. "A ideologia tecnocrática concentra pois os seus ataques
ses particulares e do equilíbrio social (através do mercado, do cálculo
(eventuais) nos capitalistas proprietários e não no capital enquanto
econômico de cada agente e de cada unidade econômica) representa
relação social. O trabalho produtivo do simples trabalhador e a pro-
a mais completa antítese de toda a lógica da contradição e da lut~ de
priedade privada imediata aparecem como uma base estreita de cria-
classes. As diferenças de função e de classe longe de surgirem aí como
ção de riqueza em face do desenv~lvimento da ciência e da tecnologia
antagônicas , antes se harmonizam. São componentes diferenciadas de
no capital concentrado. Nasce daí a ilusão da ultrapassagem da 'anti-
um sistema equilibrado sobre o qual vela o Estado. A diferença não
ga' contradição capital-trabalho, de um pagamento da exploração e,
constitui uma contradição porque está situada num sistema de troca pelo simples jogo do movimento econômico, de uma ;;aida pacífica do
(mercado) onde estão ausentes as relações econômicas de exploração. capitalismo (clássico)." 23 Extamente porque o pensamento tecnocrá-
O capital não é uma relação social de sujeição, mas um simples fator tico desloca sua atenção para o lado das forças produtivas e do seu
progresso, como base do desenvolvimento econômico e social, ocultan-
organização política, porque é uma ordem que regula, monopolizando-o, o uso do os antagonismos emergentes das relações sociais de produção, a
da força . Este é, segundo temos visto, um dos caracteres essenciais do direito. racionalização na sociedade industrial avançada ultrapassa os limites
O Estado é uma sociedade politicamente organizada, porque é uma comuni- da lei abstrata do Estado neutro e impessoal para se apoiar também
dade constituída por uma ordem coercitiva, e esta ordem é o direito". Cf.
Hans Kelsen, Teoría General de/ Derecho y del Estada, 3." ed., México, Textos
Universitários, 1969, p. 226. 22 Cf. Yves Leclercq, Teorias do Estado, Lisboa , Edições 70, 1981, p. 56-57
21Ver, nesse sentido, J. A. González Casanova, Teoría del Estado y Derecho (grifo nosso).
Constitucional , Barcelona, Editorial Vicens-Vives , 1980, pp. 17-18. 2" Idem, ibidem, p. 59 (grifo nosso).
182 ALAOR CAFFÉ ALVES ESTADO E IDEOLOGIA 183

nos procedimentos tecnológicos e científicos que. permitem o progresso sobre coisas naturais. 2 7 Sob o ângulo que nos interessa, o social, o
acelerado daquelas forças produtivas; esse progresso racionalizado poder deve ser considerado de modo mais restrito, firmando-se nas
passa a ser um importante fator na legitimação do poder. A ciência relações entre os homens. Entretanto, essa consideração mais restrita
e a tecnologia, nos dias de hoje, tornam-se forças ideológicas e produ- não é apenas uma atualização concreta daquela noção mais abrangente.
tivas por excelência.2 4 "A. ciência é ideológica no sentido de que, com O poder social, exatamente porque tem por objeto a discrepânciá de
a aparência de neutra, porque objetiva e destituída de valor (tendo vontades e interesses humanos, compreende elementos novos que não
vida própria, coisa dada), produz-se a partir de um projeto universa- permitem identificá-lo com a mera especificação do conceito geral.
lizado que pressupõe uma sociedade dada, com a conseqüente domi - Assim, o poder social não pode ser uma simples capacidade de se
nação que lhe é imanente, visto que a lógica da ciência não é a lógica obter resultados possíveis, por meio de processo decisório acrescido
revolucionária ... 25 Tal racionalização tecnocrática repercute direta- de energia ou força disponível - o poder não é só força, pois com-
mente no modo de construir a legitimação do poder estatal no caminho preende também a decisão consciente para aplicação dessa força 2 8 - ,
da redução funcional de todos os elementos e forças sociais no senti- mas deve conter além disso elementos que permitam o consentimento,
do do "progresso econômico" e da satisfação de todas as necessidades a obediência espontânea ou quase esP'ontânea, daqueles a ele subme-
dos homens indistintamente (sociedade de consumo). Assim, "os com- tidos. Além da força ou coerção que plasma a relação segundo a
ponentes da atividade econômica, ou seja, os trabalhadores, os meios forma desejada, com ou sem a rebeldia do objeto submetido a essa
de produzir, a ciência e a técnica, ou o 'fator organizacional', deixam energia - e neste caso o objeto pode ser indiferentemente coisas ou
de ser simultaneamente forças e relações de produção, tendendo a
pessoas - , o poder social contém nele co-implicado dialeticamente o
consenso, que será maior ou menor conforme a conjuntura da relação
reduzir-se simplesmente às forças produtivas que será necessárlo oti-
de c'onflito e os meios ideológicos abrangidos - e neste caso o objeto
mizar no quadro de uma organização racional. B o próprio Estado a
só pode ser sujeitos humanos .
. desligar-se (aparentemente) das relações sociais de produção e de
Sob o ângulo estrutural, enquanto se leva em conta agrupamentos
classes, deixando de ter que preocupar-se com mais do que as forças
diferenciados e antagônicos em função da posição de propriedade e
produtivas e sua qinâmica". 26 de controle dos recursos de reprodução material da sociedade, o poder
Continuando nossa preocupação nuclear e penetrando mais pro- assume a configuração política e se coQcentra, no modo de produção
fundamente na questão do poder sob o ângulo conceitual, verifica~se capitalista, no Estado? 9 Esse poder político compõe-se de dois mo-
que este, em sentido lato, se revela como capacidade de converter pos- mentos indissoluvelmente vinculados e dinâmicos entre si: a violência,
sibilidades em realidad.es, mediante a aplicação de energia, vencendo
inclusive resistências. Assim, se por um lado o poder não pode render 27 Ver, ne.sse sentido, Manuel Garcia Pelayo, Idea de la Política y Otros Escri-
resultados maiores do que possa o objeto do mesmo dar, por outro, tos, Madri, Centro de Estudios Constitucionales, 1983, pp. 183-184.
~ssa energia pode assumir múltiplas formas, incluindo a ação física 28 "A força bruta é incapaz por si só de forçar alguém a fazer algo com
sentido e direção." Cf. J. A. González Casanova, op. cit., p. 12.
29 Nem toda decisão do Estado é política. De modo mais preciso, só será
24 Ver, nesse sentido; Jürgen Habermas, Técnica e Ciência Enquanto "Ideo- política aquela decisão que diz respeito ao exercício da coerção com vistas à
logia", São Paulo, Abril Cultural, 1975, pp. 303-309. distribuição de bens objeto da luta de classes. Assim, por exemplo, não tem
25 Cf. Cl.emerson Merlin Cleve, O Direita em Relação, Curitiba, ed. pessoal, caráter de classe o código de trânsito, ou as normas que fixam exigências téc-
1983, p. 35. Ver, também, Herhert Marcuse, Ideologia da Sociedade Industrial, nicas mínimas para a fabricação de determinados produtos, ou as que limitam
Rio de Janeiro, Zahar, 1967, pp. 142-162. Ver Marilena Chaui, op. cit., pp. 30-35. a venda de bebidas alcoólicas, etc. Entretanto, a razão da existência do Estado
encontra-se exatamente nas decisões políticas, porque de outro modo não pas-
26 Cf. Yves Leclercq, op. cit., pp. 60-61 (grifo nosso).
sará de ser mera administração geral dos assuntos públicos,
184 ALAóR CAF'FÉ ALVES ESTADO E IDEOLOGIA 185

como momento não-justificado, e o consenso, como m'Omento de legi- surgido da força bruta, da guerra, não prescinde, para sua permanên-
timidade.(i0"Cada um de nós tem um certo poder sobre os demais para cia, dessa condição dialética do movimento contraditório de seus
mandá-los, ou seja, para que façam o que nós queremos ou lhe dita- momentos internos. f um erro considerar aqueles momentos como
mos. Porém, também temos um certo poder para conduzi-los ou guiá- elementos indepedentes, isoláveis, que viessem a entrar em conexão
los. No primeiro caso, mandar significa exercitar um poder impera- a partir de impulsos externos. 31 Não há uma " pura" violência ou um
tivo e coercitivo, dominador e dominante. Sua expressão extrema seria " puro" consentimento, externos entre si, que se entrelaçam, numa com-
o tirano, o ditador ou o tecnocrata que impõe o oráculo inexorável da binação mista, com pred'ominância deste ou daquele elemento, con-
necessidade técnica ou científica. No segundo caso, conduzir ou guiar forme a conjuntura histórica. Na realidade, numa sociedade de classes,
(hegemonia) significa levar outros a alguma parte, orientá-los para mesmo havendo adesão ativa, convicção ou crença na legitimidade do
alguma meta ou fim que, em princípio, lhes interessa.'" 31 Este último poder dominante, a violência está presente, e isto se faz precisamente
é alimentado por fatores de justificação ideológica que tornam o poder através do próprio consentimento; e tanto mais a violência é perversa
político legitimado, obedecido e passível de ser operacional por longos e mais eficaz, quanto mais se faz transparecer como não-violência,
períodos históricos. Com efeito, a força do poder político é tanto mais como adesão ativa dos dominados aos comandos do dominad'Or. Esse
robusta e estável quanto menos a violência viva dos dominadores se paradoxo não pode ser verificado senão no contexto de relações estru-
manifesta. Isso significa que a fortaleza do poder encontra-se muito turais determinadas e objetiva.>, uma vez que o consenso aparece
mais no consentimento daqueles a ele submetidos do que na violência exatamente para ocultar ou mascarar a distribuição desigual dos resul-
expressa dos opressores; importa menos a repressão coativa dos domi- tados da produção social. A violência não está no plano do consenti-
nadores que a adesão da vontade dos dominados no sentido da obediên- mento em si mesmo, na esfera imediata das aparências, mas sim na
cia espontânea e da aceitação do domínio assimétrico e da cooperação função real desse consentimento que é precisamente a de tornar 'opaca
no processo produtivo.'32 Assim, afora os "consentimentos forçados" ou dissimular a relação desigual subjacente e objetiva, em virtude da
que são formas ainda instáveis entre desiguais, há os compromissos qual os bens materiais e espirituais produzidos socialmente são efeti-
espontâneos calcados em crenças compartilhadas e valores comuns vamente distribuídos de modo desproporcionado . Quando, por qual-
(dominantes) que permitem desde a adesão passiva até a aceitação ativa, quer motivo, o consenso sob formas ideológicas determinadas deixa de
embora nunca absoluta e sem reservas, dos membros das classes exercer aquela função, desnudando o caráter assimétrico e conflitivo
subalternas. da relação estrutural e permitindo, por conseqüência, o aparecimento
Entretanto, devemos assinalar, com muito empenho, que a rela- de resistências mais ou menos conscientes, a violência implícita, ou
ção entre esses dois momentos é de caráter dialético, sendo distintos melhor, oculta sob a máscara da própria ideologia, deixa de ser amea-
mas não mutuamente excludentes. O poder político, _mesmo quando ça virtual para ser atual e viva no sentido de neutralizar ou eliminar,
diretamente pelo exercício da coação física ou psíquica, a recusa de
ao Na perspectiva de Weber, o que especifica o poder político é a violência , obediência dos membros das classes subalternas . Por isso, não se pode
a coação física . Isso, naturalmente, se configura em última instância. Weber
afirma: "Só se pode, por isso, definir o caráter político de uma associação
pelo meio - elevado em certas circunstâncias a fim em si - que, sem lhe ser H Nesta linha se pode aclarar a dialética que envolve o termo "hegemonia",
exclusivo, é certamente específico e indispensável para sua essência: a coação segundo o desnvolvimento desse conceito no pensamento político de Gramsci.
física ." Cf. Max Weber, Economía y Sociedad, 11, 2.• ed., Bogotá, Pondo de Perry Anderson afirma que em certos textos "Gramsci fala de hegemonia não
Cultura Económica, 1977, p. 1056. como de um pólo de 'consentimento' em contraposição a outro de 'coerção',
31 Cf. T- A. González Casanova, op. cit., p. 21. "''' senão como uma síntese em si mesma de consentimento e coerção". Cf. Perry
32 Ver, nesse sentido, Maurice Godelier, "A Parte Ideal do Real", in Antro- Anderson, Las Antinomias de Antonio Gramsci, Barcelona, Fontamara, 1978,
.,ologia, op. cit., p. 192-194. p. 42.
186 ALAOR CAFFÉ ALVES
ESTADO E IDEOLOGIA 187

conceber um real poder político senão com fundamento na unidade significa que a vida política, nesse nível, se realiza por um processo
dialética desses dois momentos contrários, variáveis historicamente em constante de barganha e acomodação entre agentes sociais, com base
proporções diversas de mútua transparência, já que, como observamos, em relações intersubjetivas ou de agrupamentos dentro de funções
não há pura violência nem consentimento absoluto. A violência, por- não-estruturais. O controle dessa forma de conflito é manifestamente
tanto, não é a mera alternativa do consenso, pois ela se manifesta até assegurado pelo ordenamento jurídico que deduz esquemas normativos
mesmo com maior eficácia através e por meio dele. Por isso, a obediên- destinados a garantir sua solução de modo pragmático e pacífico, sem
cia civil, embora possa ser um indicador operacional do "exercício rupturas substanciais ou intervenções radicais no sistema dominante.136
legítimo" do poder, não significa necessariamente a vigência da pleni- Observa-se, portanto, que o fenômeno do poder analisado pela ótica
tude das condições de justiça social em sentido concreto. Por esse consagrada neste trabalho não deixa de abranger essa forma conflitiva
exercício não se tem, na verdade, o questionamento radical do próprio e também a gestão social através do· dissenso controlado; entretanto
poder, isto é, de sua origem e função; pelo contrário, a legitimidade por não atingir os fundamentos da vida social, política e econômica
do exercício do poder acaba exatamente por oferecer ·obstáculos à da coletividade, o conflito funcional não pode ser objeto específico de
compreensão de sua própria realidade, favorecendo aús que dele se nossa atenção no curso dessas considerações sobre os antagonismos
utilizam enquanto meio para assegurar a reprodução das relações de sociais de caráter estrutural e do poder político correspondente.
produção dominantes. Retomando a perspectiva dialética dos momentos que compõem
Neste ponto, é preciso chamar atenção para os chamados confli- a unidade do poder político, cumpre-nos discriminá-los com maior
tos funcionais, que exercem uma forma mais estabilizadora que desa- precisão, especialmente fazendo a distinção entre o elemento de coer-
gregadora. · Esses conflitos se manifestam pelo disenso perfeitamente ção e o elemento de consenso, representado este último pela~oções
controlável dentro dos limites do sistema, sem atingir as instâncias de auctoritas e influência. Como forma de direção da conduta alheia
estruturais econômicas, ideológicas ou jurídico-políticas. Eles existem em um determinado sentido, o poder enquanto domínio político abarca
como "problemas" que precisam ser "resolvidos" e cuja resolução a coerção na medida em que seu detentor consegue a conduta que
não limina as bases determinantes de sua existência, apenas põe fim deseja mediante um comqndo dirigido a alguém, independentemente
ao conflito mediante decisão cujos parâmetros estão previstos dogma-' da vontade deste. Esse poder implica a heteronomia, sendo exercido
ticamente pelo sistema, tendo em vista justamente a sua conservação mesmo contra a resistência da vontade daquele a quem se dirige ..a 7
e reprodução:34 O dissenso refere-se, portanto, a uma situação de
conflito que não vai muito fundo e cuja gestão se dá pelo exercício
eles são· projetados numa harmoniosa dimensão de relações e esquemas ideais
da conciliação racional nos quadros de possibilidade do sistema ..a 5 Isso práticos •. Cf. J. Eduardo Campos de Oliveira Faria, op. cit., p. 264.
a6 Num plano analítico, Tércio Sampaio Ferraz Jr. aborda a questão da deci-

34 Nesse sentido reconhece Eduardo Faria que "se o direito positivo traduz dibilidade nos limites do sistema, esclarecendo que a norma jurídica "não
um poder de classe(s), no seu funcionamento acaba incorporando as próprias termina o conflito através de uma solução, mas o soluciona, pondo-lhe um fim.
contradições do sistema social por ele tutelado". Cf. José Eduardo Campos de Pôr-lhe um fim não quer dizer eliminar o dubium primitivo que ocorre na
Oliveira Faria, Retórica Política e Ideologia Democrática: A legitimação do situação diádica, mas trazê-lo para a situação triádica, onde eles se tornam
discurso jurídico liberal, Rio de Janeiro, Graal, 1984, p. 50. Ver, também, na 'decidíveis'". Cf. Tércio Sampaio Ferraz Jr., Direito, Retórica e Comunicação,
mesma obra, pp. 160-172; ibidem, pp. 259-267. São Paulo1 :sílraiva, 1973, p. 70. Consulte-se, na mesma obra, pp. 43-51 e 66-77.
35 Ver Ralph Miliband, Marxismo e Política, Rio de Janeiro, Zahar, 1979, 37 Weber'· ,{~: uma distinção entre poder (gênero) e domin~ção (espécie):

p. 22. "Eis a razão pela qual, através do sentido comum teórico dos juristas, "poder significa a probabilidade .de impor a própria vontade, dentro de uma
consegue-se uma aparente conciliação das tensões e dos conflitos, uma vez que relação social, ainda que contra qualquer resistência, e qualquer que seja o
fundamento dessa probabilidade. Por dominação deve-se entender a probabi-
188 ALAOR CAFF.É ALVES ESTADO E IDEOLOGIA 189

A auc,toritas, de forma diferente, ocorre quando se segue a uma pes- ri tas como a influência, aquela mais ligada à personalidade e esta aos
soa ou instituição pelo crédito que aquela ou esta oferece em virtude argumentos e razões de quem exerce o poder, são formas de controle
de ser depositária de qualidades excepcionais de ordem espiritual, mo- da conduta alheia que induzem à legitimidade desse mesmo exercício,
ral, técnica ou intelectual. Neste caso, o reconhecimento dessas quali- vale dizer, são formas que não substituem a vontade alheia pela do
dades pelo dirigido determina sua livre adesão à diretiva estabelecida exercente do poder, com o emprego atual ou potencial da coerção.
pela autoridade, não havendo o concurso da coerção ou qualquer Convém ainda notar, no caso do domínio político, que os meios coer-
forma de pressão sobre a vontade. Não eliminando a liberdade daque- citivos não consistem apenas na ameaça ou emprego efetivo de violên-
le a quem se dirige, o poder da auctoritas respeita a autonomia da cia física, mas também na possibilidade do controle da concessão ou
vontade. 38 privação de bens materiais ou espirituais que possam, por alguma
No primeiro sentido, o da coerção ou domínio, mandar significa razão, inibir a resistência do domínio. 40
exercitar um poder imperativo ou dominante, no segundo, o dà aucto- Com essa breve caracterização analítica dos momentos do poder
ritas, não há senão uma orientação, realizada pelo condutor a quem político, ao identificar por um lado o aspecto da violência, da coerção,
se dá crédito, para que alguém se dirija a um fim que é, em princípio, do domínio, e por outro, o do consenso, da influência, da auctoritas,
de seu próprio interesse. A auctoritas aumenta as bases do poder, estamos em condições de continuar a proceder ao exame de sua dinâ-
jazendo-se-lhe acrescentar a liberdade implícita no consenso. Ela con- mica interna. Tais momentos normalmente aparecem 'integrados diale-
diciona as adesões dos dirigidos, proporcionando a diminuição da ticamente nos atos de poder político, devendo a análise empírica deter-
necessidade do uso da força coativa, com economia de energia e minar o grau ou 'o peso específico de cada um deles na composição
desgaste em razão da ampliação da esfera da liberdade. 8 9 Entretanto, de certos atos de hegemonia. Se nessa composição há o predomínio
enquanto a auctoritas refere-se ao crédito moral ou intelectual dado dos fatores de consenso, o poder será consignado como legítimo, em
a alguém, outra forma distinta de controle da conduta alheia, a caso contrário, como opressor ou não-justificado. Na verdade, a legi-
influência, refere-se ao plano de persuasão, ao manipular de modo timidade é dada pela capacidade, no exercício político, de mobilizar
explícito ou latente razões e processos afetivos, com vistas a justificar fatores consensuais de tal sorte a fazer acreditar, por parte daqueles
determinada conduta como a mais natural ou conveniente, justa ou a quem são endereçados os atos de comando, que os detentores do
ajustada, legítima ou autêntica. A influência exerce uma certa pressão poder têm efetivo direito a exercê-lo. Ao se engendrar nos dominados
sem contudo utilizar a coerção que anula a vontade contrária, como a crença de que os dominadores têm direito a dominar, cria-se tam-
no caso do domínio, e sem deixar a vontade em completa liberdade de bém a idéia correlata do dever de obediência, um dever quase moral,
seguimento, como ocorre com a auctoritas. Desse modo, tanto a aucto- não-sentido como uma obrigação heterogênea. A força, em princípio,
é quase nula, porque os submetidos ao poder não se sentem forçados a
obedecer, visto estarem de acordo em seguir o dirigente; parece que o
lidade de encontrar "obediência a um mandato de determinadas pessoas". C f. condutor e os conduzidos querem o mesmo objetivo, havendo, portan-
Max Weber, op. cit., I, 2.• ed., p. 43 .
to, interesses compartilhadosY Esse aspecto, note-se, é de extrema
as Ver J. A. González Casanova, op. cit., pp. 21-22. Ver, também, no mesmo
sentido, o excelente estudo de Manuel Garcia Pelayo, op. cit., pp. 137-180.
Ver Hannah Arendt, Entre o Passado e o Futuro, São Paulo, Perspectiva, 1972, 411 Ver, nesse sentido, Manuel Garcia Pelayo, op. cit., pp. 184-187.
pp. 162-171. ll A base desse processo ideológico não se constitui pelo interesse direto ou
39 Ver Manuel Garcia Pelayo, op. cit., pp . 150-152. Ver, também, Celso Lafer, imediato das classes dominantes, mas pela razão ger~l que emerge da estrutura
Hannah Arendt, Pensamento, Persuasão e Poder, Rio de Janeiro, Paz e Terra, mesma do sistema de produção considerado. Nesse sentido, Poulantzas consi-
1979, pp. 74-76. Ver Tércio Sampaio Ferraz Jr., Função Social da Dogmática dera que ·o Estado político moderno não traduz, ao nível político, os 'inte-
Jurídica, op. cit., pp. 28-31. resses' das classe~ dominantes, mas a relação desses interesses com os das
190 ALAClR CAFFÉ ALVES
ESTADO E IDEOLOGIA 191

importância para a compreensão dos mecanismos ideológicos que ope- sistema. " 4 2 Assim, a adesão espontânea ao poder se funda na crença
ram nas relações de poder numa socied~de de classes; examinaremos de que este é exercido na forma em que se crê deva exercer-se e
isso mais adiante. segundo os fins compartilhados por todos os membros da sociedade,
O poder legítimo, segundo o enfoque dialético por nós adotado, sem referênCia imediata ao sistema subjacente de violência legítima,
não pode ser descolado da possibilidade de se fazer efetivo, em algum de tal modo que eles normalmente não se sentem forçados a obedecer
momento, mediante o emprego manifesto de meios de violência; isso e estão de acordo em seguir · a quem os conduz. Certamente ainda
equivale à · existência de um potencial coercitivo, pronto a ser atuali- pode ocorrer que a credibilidade não passe de uma credulidade, onde
zado no momento oportuno, como resposta à eveiitual contestação. a crença nas razões dos tiranos permite que os crédulos os suportem
Por outro lado, pode haver virtual domínio e violência no próprio ou mesmo os aclamem. Podemos admitir que todo poder não está
exercício do poder legítimo, o que nos leva a considerar a perversa livre dessa ambigüidade, visto que não há poderes puramente consen-
ambigüidade desse poder, mesmo quando se revela na aparência ime- suais, como também não os há exclusivamente coercitivos .. De certo
diata como pl(maf[zente consensual. ·Essa dialética da ausência e pre- modo, essa ambigüidade reflete aquela já examinada rto que respeita
sença simultaneamente da violência do espaço do poder político legi- aos interesses das classes antagônicas, caracterizados como dominante-
timado se pode ilustrar analogicamente, como o faz Perry Anderson, mente conflitivos e, ao mesmo tempo, relacionados com uma paradoxal
com um sistema' monetário onde haja correspondência entre o papel- identidade ou comunhão expressa nas formas ideológicas de suas mani-
moeda e o ouro que lhe serve de lastrú. "Só o papel, não o ouro, está festações aparentes. A comunhão aparente dos interesses de agrupa-
em circulação; porém, o papel está, em última instância, determinado mentos sociais economiCamente opostos e antagônicos não é meramen-
pelo ouro, sem o qual deixaria de ser moeda corrente. Em condições te imaginária, pois tem fundamento na realidade das exigências comuns
de crise, desencadeiam necessariamente uma reversão repentina de de sobrevivência da sociedade global e na socialização da produção;
todo o sistema para o metal que se encontra de forma invisível atrás entretanto, ela se manifesta de forma alienada, em virtude da apro-
dele: um colapso no crédito produz infalivelmente a corrida para o priação privada do produto social, e de certo modo objetiva acobertar
ouro. No sistema político · também prevalece Uma relação estrutural ou mascarar justamente . as contradições estruturais e os privilégios
similar (não-aditiva e não-transitiva) . entre ideologia e repressão, con- das classes econômica e politicamente dominantes. Por esse motivo,
senso e coerção~ As condições normais de subordinação ideológica das na esfera das relações de poder, o maior ou menor consentimento
massas - as rotinas .diárias da democracia parlamentar - estão consti- só é possível se o esquema de dominação imperativa aparece mais ou
tuídas por uma força silenciosa e ausente que lhes çonfere seu valor menos vinculado ou submetido a outro propósito superior, projetado
corrente: o monopólio do Estado sobre a violência legítima. Desprovido ao nível ideológico, a respeito do qual todos os membros da sociedade,
deste, o sistéma de controle cultural . se tomaria frágil instantanea- sejam . dt:Jminantes ou dominados, dirigentes oa dirigidos, aparecem
mente, posto que os limites das possíveis ações contra tal sistema como vitalinente interessados. 43 Com efeito, grande parte dos coman-
desapareceriam. Com aquele monopólio, esse sistema é imensamente dos normativos da ordem jurídica, positivada na sociedade capitalis-
"' ta, normalmente encontra sua justificativa ou legitimidade na idéia
poderoso; tão poderoso que pode, paradoxalmente, 'passar sem ele':
com efeito, a violência raramente aparece deritro dos limites desse expressa ou virtual do bem eomum a ser realizado; a despeito do que
venha efetivamente encaminhar e concretizar interesses exclusivamente
parciais . dessa sociedade. Por essa razão, a ideologia não se reduz a
classes dominadas". Cf. Nicos Poularttzas, Hegemonía y Dominaci6n en el
Estado Moderno, Córdoba, Cuadernos de Pasado y Presente, 48, 1973, p. 50
(grifo nosso). Ver Celso Lafer, O Sistema Político Brasileiro, São Paulo, Pers- 42 Cf. Perry Anderson, op. cit., pp . 72-73 (grifo nosso) .
pectiva, 1975, pp. 32-44.
43 Ver, nesse sentido, J. A. González Casanova, op. cit., p. 23-24.
192 ALAOR CAFFÉ ALVES ESTADO E IDEOLÓGIA 193

uma simples aparência ou ficção imaginária e enganadora; ela repre- cobrimento ideológico destinado a ocultar sua origem e função. 4 5 Mais
senta um expediente da práxis comum e cotidiana que permite o adiante, veremos isso com detalhes . O que importa agora é registrar
exercício efetivo do poder político déstinado a manter e reproduzir que a classe dominante no sistema capitalista não exerce diretamente
a organização social capitalista, onde se fundem dialeticamente o poder a violência coercitiva no processo de apropriação da mais-valia, pare-
de dominação e o poder de direção. O poder de dominação realizado cendo que a função política é adicionada "por fora", intet~viii.do apenas
e expresso sob a forma predominante de poder de direção da socie- na falha do sistema, especialmente no que respeita aos aspectos ideo-
dade é o que, no discurso de Gramsci, se denomina "hegemonia"; lógicos da hegemonia.
assim, o poder hegemônico é exatamente o poder dominador capaz de Essa linha de reflexão leva-nos a abordar de modo mais analítico
manifestar-se e legitimar-se como poder consensual ou de direção .44 a questão do momento ideológico que permite o exercício da hegemo-
Dentro desse quadro e no plano da análise dialética da estrutura nia econômica e política, ou seja, que permite a prática da violência
/
social, observamos que, ao nível das relações econômicas do sistema pela apropriação privada do sobreproduto social (exploração do homem
capitalista, a distribuição desigual do produto cole,tivo entre grupa- pelo homem) e pela virtual utilização da força impositiva do Estado
(dominação do homem sobre o homem), mediante a expressão ~ p a­
mentos sociais diferenciados decorre da aproximação privada dos meios
rente, porém real, do consenso ou da direção consentida que empresta
de produção e do produto do trabalho. Essa distribuição desigual trans-
caráter de legitimidade ao exercício do poder. Volta-nos a questão de
corre em contradição com a socialização do processo produtivo resul-
como os oprimidos podem aceitar como "verdadeiras" as idéias domi-
tante do alto desenvolvimento das forças econômicas no interior da
nantes que ocultam as contradições sociais e impedem ou dificultam
sociedade capitalista. Entretanto, o momento econômico nesse sistema a plena consciência de seus reais interesses. Em outras palavras: como
de produção não pode prescindir, para garantir o privilégio da acumu- é possível que eles consintam espontaneamente na própria dominação?
lação ampliada por parte dos segmentos sociais proprietários ou con- Nesta questão desponta a relação dialética entre a aparência e a essên-
troladores dos bens produtivos - classe minoritária e economicamente cia. A aparência do consenso não é aparência de si mesma; é na verda-
dominante - do momento político relativamente destacado e repre- de aparência que revela o seu contrário, a essência da dominação,
sentado pela concentração e monopólio dos meios de coerção no âmbito nessa manifestação, a realidade mesma do poder hegemônico se des-
de um terceiro sujeito, o Estado, cuja ação também não prescinde do taca com clareza. A dominação, que exprime a desigualdade injustifi-
cada (a violência), se expressa e se divulga pelo seu contrário, pela
44 Gramsci sabe muito bem que na ditadura do proletariado há o elemento
aparente simetria de interesses em jogo.
da dominação e do consenso, o da coerção e o da persuasão. Mas por que a Para melhor compreensão desse fenômeno, o da relação contra-
chama de hegemonia? Gramsci chama a ditadura do proletariado de hegemonia ditória entre violência e consentimento da unidade do poder hegemô-
porque quer salientar a função dirigente, a conquista do consenso, a ação de nico, cumpre-nos ressaltar a relação entre a diversidade específica das
., tipo cultural e ideal que a hegemonia deve desempenhar. Cf. Luciano Gruppi, múltiplas atividades do homem, decorrentes da divisão social do traba-
Tudo Começou com Maquiavel, 4." ed., Porto Alegre, L&PM, 1983, p. 78. Ver,
também, Hugues Portelli, Gramsci e o Bloco Histórico, Rio de Janeiro, Paz e
lho, e a · unidade de suas recíprocas exigências de complementação
Terra, 1977, pp. 61-81. Ver Mario Innocentini, O Conceito de Hegemonia em para atender às necessidades humanas. A divisão do trabalho funda-
Grainsci, São Paulo, Tecnos, 1979; Luciano Gruppi, O Conceito de Hegemonia
em Gramsci, 2.• ed., Rio de Janeiro, Graal, 1980; Maria-Antonietta Macciocchi, Para uma análise mais aprofundada da integração desses momentos, exami-
,1, 5
A .Favor de Gramsci, 2." ed., Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1980, pp .. 146-85, nar a singular visão de Nicos Poulantzas, Hegemonía y Dominación en el Estado
Perry Anderson, Las Antinomias de Antonio Gramsci, Bárcelona, Fontamara , Moderno, op. cit., pp. 43-66. Ver, do mesmo autor, "As Transformações Atuais ·
1978; Christine Buci-Glucksmann, Gramsci e o Estado, Rio de Janeiro, Paz e do Estado , a Crise Política e a Crise do Estado, in N. Poulantzas (org.) , O Es-
Terr-a, 1980, pp. 157-254.
tado em Crise, Rio de Janeiro, Graal, 1977, pp. 14-21.
194 ALAOR CAFFÉ ALVES ESTADO E IDEOLOGIA 195

menta, de modo geral e na medida em que se estende e se diversifica, das recíprocas. Assim, os homens sempre esperam ou almejam resul-
a especialização das atividades humanas, de sorte que, a partir de um tados iguais ou maiores que os esforços dispendidos no processo de
determinado nível de desenvolvimento histórico-social, cada homem produção de sua vida material e espiritual. O dispêndio de maior
ou grupo de homens não pode num dado mómento realizar isolada- energia para um menor produto ou resultado sempre soa como um
mente todas as tarefas cujos prfdutos possam a um só tempo satisfazer desequilíbrio, um desperdício, como uma "injustiça". A divisão social
a todas as suas respectivas tfecessidades. Aliás, em tempo algum ao do trabalho induz à necessária troca de esforços, entre os homens,
homem foi possível realizar-se como tal de forma solitária, visto que mediante o intercâmbio de diferentes produtos; pois bem, em prin-
mesmo antes do aparecimento da divisão do trabalho já havia uma cípio, a "reciprocidade real" deveria presidir essa relação de troca,
conjugação social dos esforços dos membros das comunidades primi- visto que normalmente não se dá mais do que se recebe. Entretanto,
tivas, no período da coleta ou apropriação direta dos frutos naturais, ·a realidade histórica diz mais do que o princípio, de vez que, por
com vistas exatamente a superar a baixa produtividade de cada indi- circunstâncias múltiplas, exatamente em razão da divisão do traba-
víduo isoladamente considerado, e que era inferior aos níveis de sua lho, se criaram condições para o aparecimento das desigualdades sociais
subsistência: o indivíduo não sobreviveria se confiasse apenas em de caráter estrutural e dos antagoni~mos de classes. Esse fato enseja
suas próprias forças. Com a divisão social do trabalho, entretanto, a o aparecimento da "reciprocidade ilusória ou imaginária", conforme
sociabilidade se p_erfaz segundo outras exigências, vinculadas não só à mais adiante abordaremos, mediante a manipulação de processos ideo-
conjugação dos esforços dos homens, mas também, e ao mesmo tempo, lógicos. De qualquer modo, há entre os homens uma exigência de
à necessidade de seu relacionamento recíproco e integrado para a reciprocidade e de compensação em suas relações de troca, tanto a
complementação mútua das atividades que cada membro do grupo ou nível econômico quanto a nível social: o intercâmbio das tarefas, a
o grupo todo desenvolve de forma especializada: enquanto uns guar- troca de bens e serviços, deve expressar uma recipr'Ocidade de certo
davam o rebanho, outros cultivavam a terra; enquanto uns defendiam modo simétrica ou equivalente _quanto os esforços exigidos para sua
o grupo, outros fiavam ou teciam; enquanto uns caçavam ou pesca- respectiva prestação ou produção e segundo a natureza e o grau de
vam, outros praticavam ritos religiosos; enquanto uns se entregavam especialização envolvidos.
às tarefas domésticas, outros fabricavam utensílios, etc. Assim, a maior Nesse sentido, no que respeita à questão do poder, a dominação,
produtividade, gerando o excedente econômico, decorre exatamente para se apresentar como legítima, precisa aparecer como um serviço
dessa divisão do trabalho, da especialização das atividades e da con- prestado necessariamente pelos dominadores aos dominados, deverzdo
seqüente necessidade de haver trocas recíprocas entre os homens ou estes devolver àqueles, de igual forma e de modo espontâneo, esforço
grupos sociais para a satisfação de suas necessidades engendradas num equivalente. 47 No processo do exercício do poder consentido, este se
determinado nível do desenvolvimento histórico-sociaJ.4 6 Esse pro-
cesso leva à exigência de uma certa reciprocidade econômica e social H Em formulação mais recente, Peter Blau concebeu a relação de poder como

J
entre 'OS homens e os grupos humanos, caracterizando, de um modo uma troca. De acordo com essa formulação, o poder é exercido quando um
ou de outro, uma relação dinâmica de compensações mútuas ou dívi- indivíduo ou grupo social exige alguma coisa de outro indivíduo ou grupo
social, mas não tem nada equivalente para oferecer em troca: as mercadorias
ou serviços exigidos só podem então ser obtidos por meio da submissão do
46 Ver K. Marx e F. Engels, La ldeología Alemana, 4.• ed., Buenos Aires, indivíduo ou grupo social ao poder daqueles que controlam tais mercadorias
Pueblos Unidos, 1973, pp. 28-70. G. Plekhanov, Os Princípios Fundamentais e serviços. Apud David Berry, Idéias Centrais em Sociologia, Rio de Janeiro,
do Marxismo, São Paulo, HUCITEC, 1978, pp. 31-55. F. Engels, A Origem da Zahar, 1976, pp. 137-138. Em que pese a similitude dessa posição com a nossa,
Família, da Propriedade Privada e do Estado, Rio de Janeiro, Vitória, 1960, a colocação de Peter Blau não fundamenta a nosso ver o essencial da relação
pp. 149-168. Ver, também, Modos de Produção na Antiguidade, org. Jaime de poder: a reciprocidade calcada no processo ideológico, exatamente para
Pinsky, São Paulo, Global, 1982. ocultar a desigualdade real que justamente exige aquela relação de domínio.
196 ALAOR CAFFÉ ALVES ESTADO E IDEOLOGIA 197

manifesta como uma constelação de interesses sociais reciprocamente cia da obediência social em função do imaginário compartilhado pelos
pactuados. 48 O poder legítimo, na sociedade de classes, se funda na membros · das respectivas sociedades, especialmente quando se torna
crença de que os dirigidos devem servir aos dirigentes, exatamente possível- a ligaçãó de certos fenômenos naturais, adversos ou favoráveis
pelo serviço de direção que estes prestam, e pelo qual dissimulam a ao processo social produtivo. aos desígnios dos deuses somente evocá·
dominação oculta. Os dominados , tendo o dever de servir àqueles que veis por aqueles pen:onagens do pode;. A proteção dos deuses para
os servem, precisam manter, com os dominadores, representações ideo- uma boa colheita se obtém através de cerimônias e serviços religiosos
lógicas partilhadas que permitam o reconhecimento dos "benefícios" monopolizados por uma minoria privilegiada, não por imposição coer-
mútuos e, conseqüentemente, o da legitimidade do poder. Há, de certo citiva, mas por reconhecimento, no plano ideblógico, no lugar "natu-
modo, uma divisão do trabalho social de direção, configurada no mo- ral" que ocupa para essa missão, e isto como crença compartilhada por
nopólio de tarefas que devem ser necessariamente tt'ocadas entre domi- todos os membros da sociedade, inclusive pelos próprios dominadores.
nantes e dominados, transparecendo, na reciprocidade do intercâmbio, Em contrapartida, a obrigação de prestar serviços por parte da
o traço do consenso legitimador do poder hegemônico . Existe entre classe dominada é geradora do direito desta à proteção vital econô-
eles, portanto, uma referência mútua de obrigações e direitos. O direito mica, social e militar, caracterizada pelo "controle natural" que as
à obediência atribuído aos dirigentes decorre de sua obrigação de classes dominantes mantêm sobre as condições de realização dessa
prover as bases materiais e espirituais destinadas à reprodução da vida proteção. Nas sociedades pré-capitalistas, por exemplo, o trabalho
social, assegurando a justiça e a paz, pela manipulação das condições real das grandes populações subalternas, na construção de diques,
somente por eles monop'olizadas. Essas condições, entretanto, e aqui estradas, templos, cidades, obras de irrigação, celeiros coletivos, etc.,
está o núcleo da questão, não se referem apenas às bases materiais correspondia à função recíproca dos serviços de proteção e segurança
disponíveis nas mãos dos dominadores, mas principalmente aos qua- prestados pelos dominadores, embora grande parte desses serviços fosse
dros ideológicos que criam ilusões a respeito do potencial que estes de ordem imaginária ou ideológica. Nesse sentido, para a mantença
têm para a solução dos problemas da reprodução da vida social. O do domínio e da exploração, dentro de um quadro hegemônico onde
acesso privilegiado do Inca ou do Faraó, por exemplo, às forças sagra- os dirigidos dão seu consentimento legitimador, ativo ou passivo, é
das do sobrenatural, aos ancestrais e às divindades, determina a eficá- necessário que a dominação se apresente como uma troca de serviços,
ainda que tais serviços sejam de naturezas diversas: de um lado, a
prestação dos serviços de proteção e de caráter ideológico, manipula-
Ver, também, Percy S. Cohen, Teoria Social Moderna, Rio de Janeiro, Zahar, 49
1970, pp . 139-143. Peter M. Blau, Exchange and Power in Social Lífe, Nova dos pelos dirigentes em comunhão de crenças com os dirigidos; de
Iorque, Wiley, 1964. Henri Mendras, Princípios de Sociologia, s.• ed., Rio de
Janeiro, Zahar, 1978, pp . 182-194. William Skidmore, Pensamento Teórico em 4!•Aqui é indispensável pôr em relevo o caráter dinâmico e dialético da con-
Sociologia, Rio de Janeiro, Zahar, 1976, pp . 107-171. formação ideológica, quanto ao seu conteúdo variável, em razão do estado das
48 Max Weber trabalha com dois conceitos (tipos) opostos de dominação e , forças sociais em jogo num determinado momento histórico. Assim, Miriam
., dentre estes, faz referência à constelação de interesses. Distingue , "por um Limoeiro Cardoso, considera, com muita propriedade, que "uma determinada
lado, a dominação mediante uma constelação de interesses (especialmente me- ideologia dominante não se define em função da classe dominante, mas nas
diante situações de monopólio); por outro lado, mediante a autoridade (poder relações entre as classes. A ideologia dominante é uma expressão da relação
de mando e dever de obediência). O tipo mais puro da primeira forma é o das classes. ( ... ) Nas ('roposições da ideologia pela qual o Estado é controlado
domínio monopolizador de um mercado. O tipo mais puro da última forma é podemos encontrar, portanto, o projeto de classe da fração dominante - não
o poder exercido pelo pai de família, pelo funcionário ou pelo príncipe ( . .. ). um projeto 'puro' ou 'ideal', mas o seu projeto possível num determinado mo-
Cada um dos dois tipos pode facilmente converter-se em seu contrário". Max mento, considerando o estado das relações de classes". C f. Miriam Limoeiro
Weber, Economía y Sociedad; Il, 2." ed., Bogotá, Fondo de Cultura Económica, Cardoso, Ideologia do Desenvolvimento, Brasil: JK, JQ, Rio de Janeiro, Paz e
1977, p. 696. Terra, 1978, p. 89 .


198 ALAóR CAFFÉ ALVES ESTADO E IDEOLOGIA 199

outro, a prestação de serviços reais destes últimos, de obrigações efeti- Essa práxis do poder, pprtanto, leva-nos a considerar que o mo-
vas realizadas no âmbito das relações econômicas. É preciso registrar mento ideológico é fator intrínseco e orgânico de seu exercício durável
que esse intercâmbio entre dominantes e dominados corresponde a e legítimo. A reprodução da dominação sob a forma de hegemonia
tarefas imprescindíveis à reprodução, segurança e desenvolvimento da política, indispensável à reprodução da vida material numa sociedade
vida material de toda sociedade. e
necessário, entretanto, sublinhar de classes, consagra-se como prática de um compromisso mútuo entre
com muita ênfase que essa relativa correlação de interesses, que à dominadores e dominados, numa espécie de pacto organizador do
primeira vista parece apenas de caráter funcional , é precisamente a poder legítimo, onde a violência e o consenso se manifestam numa uni-
expressão dialética da unidade de forças coletivas essencialmente anta- dade de contrários, contribuindo para manter o confronto dentro de
gônicas, que não podem normalmente transparecer ao vivo exatamente certos limites e formas, em proporções compatíveis com a reprodução
como são, sob pena da desagregação da sociedade como um todo, no segura e permanente do domínio das classes privilegiadas.
confronto das classes sociais .
Na S'ociedade capitalista, a questão do poder legítimo se coloca
Esse fenômeno, portanto, diz respeito à própria existência dos
num plano mais complexo, exigindo uma forma de organização polí-
membros da sociedade, ensejando as idéias de contraposição de inte-
tica singular que é o Estado, caracterizado em última instância pela
resses vitais e de dívida fundamental a ser paga conscientemente
centralização e monopólio da violência legal, numa esfera personali-
(embora seu fundamentos e sua origem não sejam conscientes). Daí
surge Ó consenso e este é tanto mais forte e legítimo quanto mais as zada de forma abstrata e geral, condicionada e condicionante da ordem
classes subalternas se sintam reconhecidas em face dos serviços pres- jurídica que consagra os princípios da liberdade e igualdade formais.
tados através da manipulação de forças "invisíveis" pelos dominado- Assim, o Estado apresenta-se como "a esfera do universal e do geral,
res e creiam que os serviços que podem prestar a estes - e que são onde se liberam os indivíduos, enquanio pessoas políticas, das 'hierar-
reais e bem visíveis - são menos importantes ou significativos que quias naturais' que impedem sua integração em uma comunidade
5
aqueles. Q e natural que as representações ideológicas devam ter um 'universal', e isto na medida em que tem como função objetiva esta-
certo respaldo no mundb dos fatos, sob pena de se tornarem frágeis belecer uma ordem de unificação na sociedade mercantil moleculari-
e perderem sua eficácia para a garantia do poder hegemônico. Como' zada. A dissociação atomística da sociedade civil constitui precisamen-
essas representações são de caráter simbólico, o compromisso dos do- te sua condição de possibilidade: separa-se da sociedade civil já que,
minadores para manterem suas promessas pode fundar-se na possibi- fundado sobre esta molecularização, só pode ascender à esfera do
lidade de se "provar" o êxito de seus serviços pela conexão igualmente universal mediante uma abstração e formalidade que permite captar
simbólica de certos fatos. e assim, por exemplo, que o Faraó "fazia politicamente aos governados, enquanto indivíduos políticos (pessoas),
retornar", periodicamente, as águas férteis do Nilo, mediante a prá- separados de suas determinações econômico-sociais concretas". 5 2 O
tica de ritos sagrados. É também o caso do escravo que consente e Estado, portanto, sobressairá como uma terceira força impessoal e
coopera para sua própria opressão na contínua esperança do cumpri- abstrata, cujo modo de aparecer recobre e oculta ideologicamente seu
~

mento, pelo senhor, da promessa de proteção e de libertação ; se a real fundamento, representado pela contradição entre o geral e o par-
proteção e a alforria nunca ocorressem, a promessa perderia sentido ticular, entre a produção socializada e a apropriação privada dos
e o escravo não poderia jamais identificar seu interesse com o de recursos produtivos e do excedente econômico. Ao contrário do que
seu senhor. 5 1 ocorreu nas sociedades pré-capitalistas, onde as relações de poder se
identificavam diretamente com as relações econômicas, onde o sobre-
50 Ver, nesse sentido, Maurice Godelier, "A Parte Ideal do Real". in Antropo-
logia, op. cit., pp. 199-200.
51 Idem, ibidem, pp . 202·3. ~ 2 Cf. Nicos Poulantzas, Hegemonía y Dominaci6n en el Estado Moderno,
op. cit. , p . 59 .

t · Hti · ~ I . u ___ _
200 ALAóR CAFFÉ ALVES ESTADO E IDEOLOGIA 201

produto do trabalho escravo ou servil era perfeitamente identificável explícita a assimetria de exploração econômica dos trabalhadores, per-
no tempo e no espaço e ápropriado de modo direto pelos senhores, mitindo ao sistema a construção ideológica legitimadora a partir das
decorrendo daí a necessidade de mascarar a desigualdade manifesta. aparências, com a ocultação da dominação efetiva sob o manto da
por formas ideológicas imaginárias, na sociedade capitalista ocorre a descrição das fontes autônomas de rendimento, onde capital, trabalho
clara distinção entre o poder político e as relações econômicas, fican- e natureza têm, cada um por si, indeprmdência, valor próprio e igual-
do aquele poder adscrito, entretanto, nos planos ideológicos e jurídico- dade de condições. Por isso, ao nível da relação de mercado, o traba-
político, aos limites da formulação abstrata da lei geral, que permite lhador se vê em "pé de igualdade" com o capitalista, pactuando à
a todos sem discriminações, igual oportunidade de acesso à riqueza luz da ordem jurídica a venda de sua força de trabalho, nas "mesmas"
social.5 3 Se este é um anseio que não pode ser concretizado por todos condições estabelecidas para o capital , o qual fica obrigado a dar
os membros da sociedade, fica contudo a forma ideológica que permite remuneração justa através do salário e a oferecer condições de segu-
legitimar a dominação econômica oculta no processo produtivo, tanto rança no processo produtivo. 5 r; Não se percebe, portanto, que o incre-
mais que vez por outra ocorre a efetiva e excepcional realização desse mento ou valorização do capital se dá exatamente às custas do trabalho
anseio. Essa legitimação, no âmbito do Estado intervencionista ou do não-pago, cujo resultado é apropriado pelo capitalista a partir dtJ
Estado social do bem-estar, se torna mais efetiva e mais concreta na processo produtivo, não sendo o capital mais que trabalho social cris-
medida em que a hegemonia encontra respaldo nos grandes investi- talizado e acumulado reprodutivamente ao longo do período histórico
mentos da administração pública para prover, de modo amplo e cres- em que esse sistema passou a ter predominância. A determinante da
cente, as necessidades das massas populares e, ao mesmo tempo, con- relação de desigualdade na repartição do produto social, originada da
dicionar o contexto social para a reprodução do capital privado. 114 exploração do homem pelo homem, não aparece explicitamente porque
A hegemonia política na sociedade capitalista não está referida ela é objetivamente mascarada em razão da simetria dominante no
diretamente à instância econômica, motivo pelo qual não se percebe âmbito da circulação mercantil, onde os resultados do trabalho social
claramente as relações do momento político com as bases da dominação tomam a j'orma de mercadorias cujos valores de troca são equivalentes,
no processo produtivo. A extração e apropriação privada do sobrepro- incluindo a própria força de trabalho. Vê-se, por esse mecanismo, que
duto do trabalho explorado são encobertas pelos mecanismos da pro- a dinâmica do próprio sistema capitalista oferece as condições objetivas
dução e do mercado capitalista, com o afastamento da ingerência para a construção ilusória das representações ideológicas essenciais ao
política ou coativa direta e manifesta para dar lugar a formas de rela- seu funcionamento. Esse processo não dispensa - ao contrário, o
cionamento contratual entre dominadores e dominados, nas quais está exige - , no âmbito da organização jurídico-política, a consagração de
pressuposta a garantia jurídica de liberdade e igualdade abstrata e instituições , formas e procedimentos asseguradores da legitimidade
formal das partes. Nesse processo, não fica claramente exposta ou do poder, configurados de modo destacado, impessoal e burocrático na
expressa presença do Estado. 5 6
53 Para um aprofundamento do tema, ver Paul M. Sweezy e outros, Do Feu- A hegemonia política no sistema capitalista, enquanto assinala
dalismo ao Capitalismo, São Paulo, Martins Fontes, 1977; Giuliano Conte, Da
a dialética da violência e do consenso, só pode alcançar legitimidade
Crise do Feudalismo ao Nascimento do Capitalismo, 2: ed., Lisboa, Presença,
1984; Hunt e Sherman, História do Pensamento Econômico, 4." ed., Petrópolis,
na medida em que a adesão dos dominados se funda na convicção do
Vozes, 1985.
54 Ver a esse respeito, Jürgen Habermas, Técnica e Ciência Enquanto "Ideo- õ5 Ver Nicos Poulantzas, O Estado, o Poder, o Socialismo, Rio de Janeiro,
logia", São Paulo, Abril Cultural, 1975, pp. 317-320. Idem, A Crise de Legiti- Graal, 1981, pp. 70-78 .
mação no Capitalismo Tardio, Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro, 1980. Yves i\6 Para uma análise aprofundada da essência, suposto e desenvolvimento da
Leclercq, Teorias do Estado, op. cit., pp. 59-80. Claus Offe, Problemas Estru- dominação burocrática , ver Max Weber, Economía y Sociedad, 11, op. cit.,
turais do Estado Capitalista, Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro, 1984, pp . 262-289 . pp . 716-752 .
202 ALAOR CAFF'É ALVES ESTADO E IDEOLOGIA 203

autogoverno pela qual todos os cidadãos individuais se sentem parti- ligados ao jogo das forças econômicas em conflito. Nesse sentido,
cipantes da direção social mediante as formas de representação demo- pode-se observar que se remarcam com clareza ou explicitamente
crática. Isso significa que o processo democrático da sociedade bur- o conteúdo específico e a particular direção efetiva da ordem e da
guesa engendra nas pessoas a crença de que exercem efetivamente a segurança ptotegidas e garantidas pelo Estado, induzindo a uma con-
autodeterminação política e que, por conseqüência, controlam os resul- sideração meramente formal, abstrata e geral com respeito a esses
tados obtidos nesse âmbito, independentemente de relações injustifi- conceitos, fundando, por conseqüência, as bases ideológicas indispen-
cadas de dominação e violência. Se estas existem, são admitidas como sáveis à ocultação da real dominação existente. O Estado, ao realizar
esporádicas, presentes em algumas poucas áreas onde a vigilância está a idéia do bem comum, põe-se acima da sociedade como se exprimisse,
ausente, ou como resultantes de procedimentos arbitrários ou autori- na linguagem hegeliana, a concretização da marcha racional da história,
tários em que vez por outra mergulha determinada sociedade. Neste na consecução do Espírito Objetivo em que a Idéia ou Razão se encar-
caso, não há reconhecimento de que existem, no plano econômico, naram progressivamnete. 5 8 Por essa linha, hoje dominante, o Estado
dominadores e dominados, exploradores e explorados; nem se trata se distingue da sociedade civil, embora dela seja um momento supe-
do reconhecimento de uma classe dominante "legítima"; o que existe rior, na qual imperam os indivíduos com seus interesses privados em
é a crença de que não há classe dominante, ou melhor, de que não conflito, expressão das necessidades e carências humanas cuja satis-
existem classes sociais. Assim, a indicação dos interesses gerais da fação relativa depende do trabalho e da inter-relação permanente
sociedade é remetida diretamente ao Estado, o qual representa politi- entre os homens, dificultando ou impedindo, nesse nível, a plena rea-
camente todos os cidadãos, individual e coletivamente considerados, lização da liberdade. Ao ser o Estado, nessa concepção, o instrumento
na medida em que admite a participação formal e uniforme deles no da racionalidade social, nele se reconciliam, em termos de moralidade
estabelecimento das políticas govemamentais.57 objetiva, os interesses privados e os da coletividade, perfazendo esque-
Esse processo reflete-se na concepção do Estado, não só no âmbito mas de ação onde o universal racional se sobrepõe aos anseios parti-
da práxis cotidiana, onde impera o senso comum, como também nos culares dos cidadãos e, ao mesmo tempo e de certo modo, os inclui
meios acadêmicos reprodutores ideológicos do sistema, especialmente de forma a compatibilizá-los de alguma maneira. O Estado, portanto,
quando seus esforços analíticos não ultrapassam os limites da mera se manifesta através do ordenamento .jurídico e de suas instituições e
descrição positivista da realidade estatal. Com efeito, o Estado nesta procedimentos racionais figurados na legalidade geral e abstrata, no
concepção é figurado , no plano da representação comum ou teórica, serviço público, no interesse geral, na força pública, na busca da paz
como a instituição voltada inequivocamente para o bem comum, pro- social, etc. A ideologia dominante, neste caso, esforça-se para resguar-
motor e guardião da dignidade humana. Ele se apresenta de forma dar a idéia de superioridade e neutralidade do Estado e do Direito em
perfeitamente justificada e, portanto, legítima, na medida em que é face das contradições emergentes da vida social, ao propugnar pela
a expressão da unidade superior da sociedade, representando o interesse dissociação e simultânea harmonização das esferas pública e privada,
, social inafastável da ordem e segurança, que devem ser preservadas com o objetivo de apagar os verdadeiros vínculos da sociedade política
a todo custo, inclusive, se necessário pela força. Por isso, a ordem, a com a sociedade civil. 59 Essa forma de empreender a representação
segurança e, para garanti-las, a força utilizada pelo Estado são. legiti-
madas em nome do bem comum existente acima dos interesses parti- :; x Ver Renato Cirell Czerna, O Direito e o Estado no Idealismo Germânico:
culares, com validade própria superior e destacada dos processos sociais Posições de Schelling e Hegel, tese apresentada no concurso para o cargo de
professor titular do Departamento de Filosofia e Teoria Geral do Direito da
FADUSP, São Paulo, 1981, pp. 128-146.
57Ver, nesse sentido, John Urry, Anatomia das Sociedades Capitalistas: A eco· i">H ~ A cisão da sociedade e Estado cria a divisão entre vida privada e vida
nomia, a sociedade civil e o Estado, Rio de Janeiro, Zahar, 1982, pp . 29-31. pública. A sociedade contém o indivíduo egoísta, o indivíduo privado; o Estado
ESTADO E IDEOLOGIA 205
204 ALAõR CAFFÉ ALVES

ideológica do poder serve para escamotear as bases reais do edifício instrumento da racionalidade formal. Isso significa que o Estado
jurídico-político do Estado, calcado nas estruturas assimétricas e con- tvireito caracterizam formas de manipulação técnica, cujos esque-
traditórias do sistema econômico capitalista, no set:ztido de eliminar, mas podem encerrar conteúdos diferentes; consagra-se, portanto, a
ú'o nível da imagem, da noção comum ou do conceito teórico, as con-
separação entre a forma indiferente, racional e abstrata e o conteúdo
tradições que não podem ser efetivamente elididas no campo da práxis variável, específico e concreto. 61 Verifica-se, então, o predomínio da
forma manipulável sobre o conteúdo por vezes rebelde, tornando-se o
real. É por essa razão que não é possível explicar o Estado, sua origem,
estrutura e funções, apenas no âmbito das normas e conceitos jurídicos, Estado a expressão ideológica de uma pura idéia, abstrata e indife-
visto que ele não é simples resultado de ordenação constitucional ou rente aos agentes reais que o controlam. Não se identificando direta-
de técnicas administrativas; na verdade, o Estado figura sempre como mente com os detentores do poder, o Estado não pode em princípio
pender par11. esta ou aquela classe social; elo contrário, parece situar-se
manifestação concreta da organização política de uma determinada
acima de interesses parciais, como se todos os indivíduos tivessem ou
formação social, cuja ordem e estrutura não podem ser explicadas
pudessem ter igual oportunidade de exercer o efetivo controle político
somente a partir da produçã'o normativa que, em função dos interesses
nela prevalentes, prescreve tão só as ações possíveis dentro do siste- da sociedade. 62 Esse fenômeno leva à crença de que a democracia na
ma, com o inevitável sacrifício daquelas que possam contestar ou pôr
sociedade burguesa permite o real antagonismo dos cidadãos, que se
em perigo o sistema como um todo. 60 sentem participantes por · si ou por seus representantes no processo
de decisão política diretora dos rumos da coletividade. Neste caso, o
No contexto econômico-social da sociedade capitalista, o Estado
mecanismo do intercâmbio de serviços entre dominadores e domina-
não pode ser realmente compreendido como um poder imposto de
dos, destinado a conferir a necessária legitimidade para a manutenção
fora, nem como uma expressão racional da idéia do bem comum; seu
e reprodução das relações econômicas assimétricas e antagônicas, tor-
aparente destaque em relação à sociedade civil, encarnando ao nível
na-se, em comparação com os das sociedades pré-capitalistas, bem
de sua manifestação fenomênica o interesse geral dessa sociedade, é
mais complexo, pela necessária introdução da figura do Estado, carac-
produto de inversão ideológica indispensável destinada a compor uma
terizado como uma forma hegemônica de organização política, aparen-
imagem de harmonia, cooperação e liberdade entre os agentes sociais,
temente destacada das condições reais da dominação econômica e
com aparente indiferença às condições reais de exploração econômica
mascaradora da efetiva exploração e apropriação privada do produto
das classes subalternas. O circuito ideológico destinado a construir o
s'ocial excedente.
instável equilíbrio das forças sociais em jogo, realizando a troca de
serviços equivalentes entre dominadores e dominados, transparece por É preciso, entretanto, pôr em grande destaque a estruturação
mediação do próprio Estado, que se manifesta através de um ordena- relativamente autônoma e objetiva dessa organização enquanto serve
mento jurídico igual para todos, através de um Direito geral e impes- também como fundamento do desenvolvimento social e econômico,
soal, organizador racional de instituições neutras que servem indife- visto que por essa face estatal intervencionista ou dirigente não só
~ rentemente a tod'Os os membros da sociedade. Essa representação é se atenta ao preparo e realização das condições indispensáveis à repro-
essencial, embora não suficiente, para a legitimação do poder no siste- dução das relações econômicas dominantes, perpetuando a exploração
ma capitalista, cuja organização política não pode justificar-se senão e apropriação privada da mais-valia, como também se oferecem as
bases materiais para incrementar a força de legitimidade do poder
supõe o ser coletivo, o cidadão, porém como ser abstrato e formal". Cf. Ornar
Guerrero, Administración Pública del Estàdo Capitalista, Barcelona, Fonta- HJ Ver Franz Neumann, Estado Democrático e Estado Autoritário, org. Her-
mara, 1981 , p. 108. bert Marcuse, Rio de Janeiro, Zahar, 1969, pp. 37-52.
60 Ver, nesse sentido, Michel Miaille, Une Introduction Critique au Droit, G2 Ver Michel Miaille, op. cit., pp . 149-154.
Paris, François Maspero, 1976, pp. 139-149.
206 ALAOR CAFFÉ ALVES ESTADO E IDEOLOGIA 207

político, exatamente no sentido de ocultar de modo ainda mais perPer- por 'fle mesmo avalizada. Por essa razão, a formação econômica capi-
so aquela exploração e violência. Esse processo se torna expressivo na talista não prescinde da organização política estatal, pois esta vincula
medida em que as relações entre o Estado e a sociedade civil são profundamente as condições de existência dessa formação, permitin-
profundamente alteradas - embora ainda nos limites do modo de do afirmar que o Estado não é exatamente um instrumento a serviço
produção capitalista - em razão do movimento geral do capital em desse sistema social, mas é esse mesmo sistema em sua mais alta
seu processo de acumulação ampliada, através da progressiva concen- expressão jurídico-política.
tração e centralização dos capitais individuais privados, com a forma- Cumpre ressaltar, neste momento, para que não se tenha uma
ção de monopólios nacionais e internacionais, até a fase do capitalismo compreensão distorcida a respeito, a necessidade da distinção entre
monopolista de Estado que se manifesta claramente a partir da Pri- poder e governo, entre quem detém a hegemonia política da sociedade
meira Grande Guerra e se acentua após a última conflagração mundial. e quem toma as decisões políticas do Estado, ou, na linguagem de
"A socialização da produção conduz a formas inéditas de organização Gramsci, quem predomina no bloco histórico (as classes dominantes)
do Estado e a uma modificação radical do caráter da atividade do e quem caracteriza o bloco no poder (elite do poder). "Desta dife-
Estado em geral na medida em que os capitais individuais privados renciação resulta que a classe dominante e a elite do poder não têm
acham-se, cada vez mais pronunciadamente, numa situação tal que a iguais esferas de influência: uma detém o poder e a outra governa.
mais-valia por eles amealhada (de forma segregada) não é mais sufi- Em qualquer caso, certos membros da classe dominante não tiveram
ciente para realizar a reorganização das condições tecnológicas de nunca em sua vida a ocasião de tomar decisões de alcance estatal e,
produção, necessária à manutenção do processo de acumulação." 6 ~ ao contrário, muitos membros da elite que governa não têm título
O que é preciso ressaltar com muita ênfase, entretanto, é que a cen- algum de propriedade para formar parte (objetiva) da classe domi-
tralização do capital, levando ao maior controle da propriedade real nante."05 Essa distinção é fundamental para se compreender a disso-
(econômica) pelo EstadQ, não é, corrto à primeira vista pode parecer, ciação entre o Estado e a sociedade civil e se destaca com maior
uma exigência deste último imposta ao capital, "mas justamente ao precisão e propriedade quando observamos exatamente o oposto no
contrário; é o capital que, precisamente para poder levar adiante sua período pré-capitalista, em que a classe dominante e a elite do poder
estratégia de centralização, coloca para o Estado a necessidade de eram idênticas em sua esfera de influência: os senhores feudais forma-
assumir, em graus variados, determinados poderes vinculados à rela- vam em conjunto a classe dominante e cada um, em seu domínio
ção de apropriação real". 64 No entanto, enquanto não se analisa as próprio, constituía o centro efetivo de onde emanavam as decisões
bases reais do sistema político, aquela configuração aparente de que políticas concretas, respaldadas por forças armadas próprias, com as
é exclusivamente o Estado o pólo ativo do controle social suscita a quais resguardava o poder supremo em sua região. Porém, com o
inevitável impressão de sua exterioridade e neutralidade em face do advento do capitalismo e a conseqüente ampliação extraordinária das
processo de acumulação capitalista, engendrando a ilusão de sua rela- condições de produção econômica, com o desenvolvimento da econo-
J
tiva independência, mascaradora da exploração econômica de classe mia monetária e expansão insólita dos mercados, com o avanço da
divisão social do trabalho e o alto índice de concentração de capitais
63 Cf. J. Hirsch, "Elementos para uma Teoria Materialista do Estado", in J.
e das populações nos centros urbanos, e, mais tarde, com o apareci-
Vincent (ed.), O Estado Contemporâneo e o Marxismo, Paris, Maspero, 1975,
p. 79. Ver, também, a questão do Estado do Bem-Estar e sua crítica abordadas 6i5 Cf. Zygmunt Bauman, op. cit., p. 209. Ver Nicos Poulantzas, Poder Político
por Dalmo de Abreu Dallari, em O Futuro do Estado, São Paulo, ed. do autor, e Classes Sociais, São Paulo, Martins Fontes, 1977, pp. 227-247, 293-300. Para
1972, pp. 175-191. uma análise da questão no contexto de uma formação econômico-social deter-
64 Cf. Carlos Estevam Martins, Capitalismo de Estado e Modelo Político no minada, ver Karl Marx, O 18 Brumário, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1978,
Brasil, Rio de Janeiro, Graal, 1977, p. 34. pp . 7-143 .


ALAOR CAFFÉ ALVES ESTAOO E IDEOLOGIA 20q
208

mento dos sindicatos e dos partidos políticos de massa, com as gran- caso a relação de dominação que suportam 'falhe' por alguma razão;
des reivindicações populares e as resultantes demandas sociais a serem terceiro, como um dos ancoradouros para a ideologia da sociedade
atendidas pelos aparelhos governamentais, a estrutura da organizaçã•o capitalista, que se apaga da consciência comum enquanto dominação
política da sociedade sofre profundas alterações, sendo a principal e exploração; e,_ quarto, como cisão veross~ do Estado enquanto
de,las a separação entre o Estado e a sociedade civil. Com esse proces- instituição face à sociedade capitalista, com o mascaramento da refe-
so, as funções políticas e administrativas estatais são incrementadas rida cumplicidade estrutur·al, ocultando-se a si mesmo como domina-
e se especializam, exigindo experts na arte de governar e administrar: ção" .67 Nesse sentido, as crises dentro desse sistema configuram-se por
surgem os políticos de profissão e o pessoal da burocracia estatal; referência a sua própria "ordem", a qual representa, de certó modo,
forma-se a elite do poder, o bloco no poder. Diante dessa diversidade, a neutralidade da sociedade enquanto capitalista, cuja normalidade é
68
a questão é saber como o interesse da classe dominante na reprodução restaurada dinamicamente me~iante a· "solução" de cada problema.
das relações burguesas de produção pode ser traduzido mediante as Pelas razões expandidas, verifica-se que o enfoque dialético da
decisões concretas tomadas pelo bloco no poder. "Se o Estado se vê hegemonia política leva a não compreender o Estado cbmo um mero
confrontado com uma multidão de articulações de interesses e de exi- instrumento para servir aos privilégios de classe em detrimento dos
gências, tanto por parte de capitais individuais e de grupos de capitais fracos, como um simples meio utilizado pelos dominadores com o
quanto das classes dominadas, como estas exigências podem ser sinte- objetivo de manter a exploração econômica capitalista. Como já
tizadas, filtradas, canalizadas, suprimidas e desviadas de modo tal analisamos, a configuração estrutural da sociedade capitalista com-
que, no fim das contas, o interesse de classe (a longo prazo) da bur- preende a profunda dissonância dos interesses sociais, cuja base é a
guesia se torne efetivo?". 66 A resposta a essa questão funda-se, a divisão da sociedade em classes antagônicas, revelando uma assime-
nosso ver, naquilo que Claus Offe e Guillermo O'Donnell denominam tria conflitiva na distribuição dos bens produzidos. Entretanto, a vio-
de "cumplicidade estrutural". Este conceito revela a unidade dialética lência da exploração ao nível das relações de . produção, que espelha
entre o Estado e a sociedade, sendo as contradições existentes no seio vivamente as contradições sociais, encontra sua ocultação e "solução"
desta última a condição de possibilidade da organização estatal, de a nível jurídico-político_(que não exclui o ideológico) na figura da
tal modo articulada que esta organização se integra também C'omo estrutura política estatal, cuja função essencial nesse nível é garantir
forma política sem a qual as relações capitalistas de priJdução seriam a reprodução daquelas relações e harmonizar os interesses sociais,
igualmente impossíveis. Isso significa que o Estado é uma organização através da promoção da concórdia coletiva, da reconciliaÇão dos con-
política própria do sistema capitalista, como ainda veremos, de tal flitos individuais e do bem-estar social, mesmo que para isso utilize
sorte que ele não depende, para ser Estado capitalista, da decisão ou possível coerção. Por essa razão, o Estado se apresenta como a instân-
vontade de seus agentes políticos. Assim, o Estado, como forma polí- cia onde os homens aparecem como indivíduos iguais entre si, não
tica da sociedade capitalista, se reproduz dentro da "normalidade" na sua qualificação concreta econômica ou social, pelas quais são
desse sistema, "primeiro, como Direito, enquanto cristalização codi- profundamente desiguais, mas na sua forma política, como cidadãos;
ficada da igualdade formal e da propriedade privada; segundo, como nesse sentido, o · Estado é fator de coesão social e engendra a repre-
presença tácita de recursos de poder, prontos para entrar em ação sentação da sociedade como uma organização unificada, firmando-se

66 Cf. Joachim Hirsch, "Observações Teóricas sobre o Estado Burguês e sua 67 Cf. Guillermo O'Donnell, "Anotações para uma Teoria do Estado", I, in

Crise, in Nicos Poulantzas (org.), O Estado em Crise, Rio de Janeiro, Graal, 1977, Revista de Cultura e Política, n. 3, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1980, p. 86.
0

pp. 99-100. Para uma perspectiva abrangente a respeito dessa questão, ver AntO·· Ver, também, Claus Offe, Problemas Estruturais do Estado Capitalista, op. cit.,
nio Gramsci, Maquiavel, A Política e o Estado Moderno, Rio de Janeiro, Civ. pp. 140-177; Joachim Hirsch, op. cit., pp. 100-109.
Brasileira, 1980. 68 Ver, nesse sentido, Guillermo O'Donnell; op. cit. pp. 87-91.


210 ALAOR CAFFÉ ALVES

a si mesmo como idéia de uma forma social que concretiza o ·bem-


comum, a unidade e solidariedade entre os homens. Essa idéia não
cria o Estado, mas é condição para a própria existência e o funcio-
namento das instituições estatais; sem ela, sem a crença que a reveste
de realidade universal para cada um de nós, não seria possível a
práxis do "interesse geral", dos "direitos dos cidadãos", da "legali-
dade democrática", da "vontade legítima" da administração pública,
etc. Sem estas e outras formas da prática e do discurso jurídiCo-polí-
tico, dificilmente as instituições estatais sobrevivem.~ 9 Isso quer dizer
que a par das condições objetivas nas quais se enraíza o Estado, além
das contradições estruturais da sociedade que exigem os laços de uma
forte organização polltica para promover a coesão social, existe a
indispensável dimensão ideológica, que desempenha um papel essen-
cial da constituição e reprodução dessa organização. Assim, é· possível
assinalar, mais uma vez, o mecanismo da gênese e manutenção das
Sociedade civil e Estado
representações ideológicas como fundamento das relações de poder
legítimo, onde o equilíbrio consensual das partes antagônicas é alcan-
çado pelo complexo jogo entre o real e o imaginário.
Com base nas questões substanciais e nas relações de poder abor.
dadas anteriormente, pretendemos tocar nos pontos essenciais que,
segundo nossa tese, constituem a estrutura da organização político-
estatal da sociedade capitalista, sem perder de vista que se trata de
identificar categorias de referência teórica para instrumentar a real
compreensão do fenômeno do Estado, ocorrente apenas nas formações
econômico-sociais desse tipo de sociedade.1 A nosso ver, o Estado é
apenas uma forma de organização política e não pode, por conse-
qüência, ser identificado com toda organização política possível. A
organização política do sistema de produção escravista dà soCiedade
romana antiga · não se configura como Estado, bem como, do mesmo
modo, o sistema_feudal não se organiza politicamente sob a forma de
~
Estado. 2 Isso quer dizer que o Estado não é um fenômeno universal

1 O termo "Estado" foi utilizado, pela primeira vez, em seu sentido moderno
e contemporâneo, por Maquiavel, rias primeiras linhas de O Príncipe, ao dis-
tinguir os Estados entre repúblicas e monarquias. Ver Niccolõ Machiavelli,
O Príncipe, Brasília, Ed. Universidade de Brasília, 1979, p. 47. Ver Salvador Gi-
ner, Historia dei Pensamiento Social, 3.• ed., Barcelona, Ariel, 1982, pp. 198-209.
2 Heller é dessa opinião: "As origens propriamente ditas do Estado moderno
69 . Ver, nesse sentido, Michel Miaille, op. cit., pp. 52-56.
e das idéias que a ele correspondem devem procurar-se, não obstante, nas


ESTADO E IDEOLOGIA 213
212 ALAOR CAF'n ALVES

e, se fosse, nada explicaria, pela sua generalidade, a respeito de como sistema econômico de mercado, cuja predominância se deu a partir
os homens, em cada período histórico e segundo cada sistema econô- do século XV.
mico, se governam e se organizam como estrutura de poder. O Estado, Se não houver uma abordagem dialética da questão do Estado,
portanto, tem características peculiar:es que só cabem ser consideradas certamente incidiremos ou nas operações intelectivas generalizantes
no âmbito de um modo específico de realização material da vida que tudo pretendem explicar sob a forma de conceitos gerais e abstra-
social, ou seja, do modo capitalista de produção. Por esse motivo, a tos, válidos para todos os períodos históricos, ensejando a ocultação
ciência política que objetiva o estudo das relações políticas corres- do que é específico e das reais contradições sociais, ou incorreremos na
singularidade dos fatos apreendidos empiricamente como dados válidos
pondentes a esse modo de produção é exatamente a teoria do Estado. 3
por si mesmos, sem uma referência teórica verdadeiramente explicativa
Não há, portanto, uma teoria do Estado como ciência universal de
da realidade política de cada povo e de cada época. 4 Ultrapassando a
todas as organizações possíveis de poder, incluindo todas as formas
unilateral perspectiva dessas concepções, o enfoque que propomos
de estruturação política dos homens, sem levar em conta as condições
induz a considerar o Estado como um conceito histórico, ao fazê-lo
históricas específicas de cada época e de cada modo ou sistema de
corresponder exclusivamente a uma forma concreta de organização
produção social. O conceito de Estado só pode ser referido à instân-
política. 5 Esse modo de analisá-lo dissolve a pretensão de subsumi-lo
cia política do modo de produção capitalista e, por isso, seu trata-
a categorias a-históricas, abstratas e universalmente válidas para todos
mento teórico tem de levar em conta não esquemas formais de poder
os tempos e todos os lugares. A ciência política, para não cair na
válidos para todas as épocas, mas características inconfundíveis e vala da ilusão ideológica, carece de manter solerte a atenção sobre o
identificáveis precisamente em razão do singular funcionamento do método de análise dessa realidade; deve elidir, a nosso ver, qualquer
tentativa de explicar totalidades em função de categorias universais,
cidades-Repúblicas da Itália setentrional na época da Renascença". " . . . inte- abstratas e formais, pois, a pretexto de tudo explicarem, na realidade
ressa ao nosso objetivo a consciência histórica de que o Estado, como nome e nada explicam. Por essa razão, se nos afigura falsa a tentativa de
como realidade, é algo, do ponto de vista histórico, absolu tamente peculiar e compreender, sob o signo de um único conceito, a realidade política
que, nesta sua moderna individualidade, não pode ser trasladado aos tempos
dos tempos do Faraó, da organização incaica, da Macedônia de Ale-
passados;,. " . . . o Estado da Idade Moderna tem tão pouco que ver com o
medi>eval - se é que se pode falar de um Estado na Idade Média - tanto no xandre, das tribos africanas, do Condado Portucalense ou das atuais
concernente à· sua estrutura como à sua f'!nção, que. neste caso, só se pode estruturas políticas européias. 6 Assim, a utilidade do conceito de
falar de mudança e não de evolução. O mesmo se pode dizer a respeito das
relações entre a estrutura do Estado antigo e a do medieval" . Cf. Hermann
Heller, Teoria do Estado, São Paulo, Mestre Jou, 1968, respectivamente pp. 161,
4 Ver Pietro Rossi, "La Dialéctica Hegeliana ", in La Evolución de la Dialéctica,
157 e 47. Dessa corrente não participa Jellinek, que se empenhou em estender Barcelona, Martinez Roca, 1971, pp. 197-252. Ver, na mesma coletânea, Nor-
o termo "Estado" à polis grega e à civitas romana; ver Georg Jellinek, Teoría berto Bobbio, La Dialéctica en Marx, pp. 253-275. Henri Lefebvre, Lógica For-
General del Estado, Buenos Aires, Albatros, 1970, pp. 95-99. Idem, ibidem, mal e Lógica Dialética, Rio de Janeiro, Civ. Brasil.eira, 1975, pp. 103-130.
" pp. 22-30. No mesmo sentido, ver Dalmo de Abreu Dallari, Elementos da Teo- ~ Por isso, afirma Pallieri, "o Estado nada tem de mítico ou ... de racional:
é um conceito histórico, e nada mais que um conceito histórico". Cf. Giorgio
ria Geral do Estado, São Paulo, Saraiva, 1972, pp. 45-47. Na _mesma linha,
Reinhold Zippelíus, Teoria Geral do Estado, Lisboa, Fundação Calouste Gul- Balladore Pallieri, A Doutrina do Estado, vol. I, Coimbra, Coimbra Editora,
1969, p. 14.
benkian, 1971; Darcy Azambuja, Teoria Geral do Estado, Porto Alegre, Globo,
~ "A palavra 'Estado' pode ser entendida num sentido vago e genérico, de
s.d., 137-150. Numa posição crítica a essa linha ver Mario de la Cueva, La
Idea del Estado, México, Universidad Nacional Autónoma de México, 1980, modo a compreender qualquer forma de convivência política dos homens,
pp. 10-44. Ver, também, Javier Pérez Royo, Tntroducción a la Teoría del Estado, desde as hordas barbáricas à polis grega, ao império romano e às atuais co-
Barcelona, Blume, 1980. munidades estatais. Mas em tal hipótese perde-se toda a determinação do con-
3 Ver. nesse sentido . Javier Pére7 Ooyo. op.· cit., p. 13.
ceito: cai-se no abstrato e no impreciso; cobrem-se com a mesma denominação
214 ALAóR CAFFÉ ALVES
ESTADO E IDEOLOGIA 21 5

Estado se caracteriza exatamente pelo poder de explicar, de forma


etc.) e a lhe render juramento de fidelidade num vínculo pessoal recí-
exclusiva, a específica organizaçã'O política do modo capitalista de
proco de honra e proteção. 9 Esse laço era de caráter relativo, visto que
produção. Por outro lado, é preciso cautela no exame analítico dessa
o senhor ou suserano podia ser vassalo de outro senhor ou suserano
categoria, com vistas a não reduzi-la a uma estrutura puramente
situado mais acima na escala hierárquica feudal, até o último senhor:
formal, isto é, a uma forma jurídico-política desprovida de conteúdo
7 o rei. Quanto mais terras possuía o senhor, mais vassalos lhe presta-
social e econômico. Desse modo, a verdadeira organização política
riam serviços e honrasY' É preciso, entretanto, notar qtie o vínculo
estatal não pode ser extraída tão só do texto constitucional, sob pena
de dependência era pessoal, não podendo os suseranos de hierarquia
de perdermos o principal: suas reais vinculações com a comunidade
superior exercer diretamente poder sobre vassalos não-vinculados ime-
enquanto expressão de relações estruturais políticas, sociais e eco-
nômicas. ditamente a ele; vale dizer, o senhor feudal ficava de certo modo na
dependência dos suseranos (vassalos) intermediários, que detinham,
Com o objetivo de lançar alguma luz sobre essa questão, não por isso, parcela do poder assim fragmentado.U N base da pirâmide
podemos prescindir de uma análise comparativa, ainda que sumária, feudal encontravam-se os servos da gleba, presos à terra, e os vilões
entre as organizações políticas do feudalismo europeu e das socieda- que podiam trocar de feudo . Portanto, essa estrutura social hierárquica
des onde há o predomínio hegemônico da burguesia. 8 Em síntese, a e de caráter estamental fundava-se na opressão política e econômica
sociedade feudal era essencialmente agrária e aristocrática; nela pre- exercida pelos senhores feudais sobre os camponeses ou trabalhadores
dominavam os laços de dependência pessoal em função dos privilégios diretos, dominados sob laços de servidão que os ligavam àqueles se-
e direitos sobre o feudo. A terra representava a base da produção nhores e entremeados da convicção de que era a única forma possível
feudal e os direitos sobre ela determinavam a posição do indivíduo de sobrevivência. Em razão do baixo grau de desenvolvimento das
na hierarquia social. O senhor feudal, eclesiástico ou leigo, tinha seu forças produtivas e da divisão social do trabalho, a economia feudal
poder e autoridade política dimensionados em razão da · quantidade se caracterizava pela baixa produtividade e procedimentos econômi-
de terras qfle podia distribuir, sob a forma de benefício, a outros cos, que se revelavam pela concentração da produção na senhoria
indivíduos - os vassalos - , que, ao recebê-lo (investidura), se com- l'ural, onde se procurava a auto-suficiência agrícola e pastoril, muitas
. prometiam a lhe prestar serviços (militares, econômicos, utilitários, vezes combinada com uma incipiente manufatura doméstica e com um
comércio local em que era bastante restrita a circulação monetáriaP
formas de convivência tão diferentes, orientadas por princípios tão diversos e Essa unidade econômica auto-controlada caracterizava também o feudo
às vezes até antitéticos, com finalidades e com meios para atingir os seus esco-
pos tão diferentes, que se tornaria totalmente impossível qualquer profícua
investigação científica a tal respeito." C f. G . Balladore Pallieri. op, cit., pp . 13-14. H Ver Giuliano Conte, Da Crise do Feudalismo ao Nascimento do Capitalismç ,
7 Para um exame aprofundado da unidade do Estado e direito, do Estado como
2.' ed., Lisboa , Presença, 1984, pp . 7-40.
1 " Ver Rubim Santos Leão de Aquino, Denize de A. Franco e Oscar G . P
ordem jurídica, com exclusão de seu conteúdo sócio-econômico, histórico e po-
lítico, ver Hans Kelsen, Teoría General dei Estado, México, Nacional, 1973, Campos Lopes, História das Sociedades, Das Comunidades Primitivas às Socie-
pp. 3-27. Para uma visão oposta, ver Hermann Heller, op. cit., 51-90. Ver, dades Medievais, Rio de Janeiro, Ao Livro Técnico, 1980, pp. 385-394.
I 1 Assim se manifesta Heller: "Como a organização feudal consistia em uma
também, nesse sentido, Georg Jellinek, op. cit., pp . 3-17, 53-92.
hierarquia de privilégios, com numerosos graus, e o senhor feudal só podia
s Ver H. Heller, op. cit., pp. 139-172. Ver, também, Max Weber, Economia y
mandar sobre os vassalos e subordinados de classe inferior através do feuda-
Sociedad, Il , 2.• ed., Bogotá, Fondo de Cultura Económica, 1977, pp. 810-847.
tário imediato, veio assim a depender aquele da lealdade deste, lealdade que,
Com grande profundidade o t·ema é tratado por Perry Anderson, Passagens da
com bastante freqüência lhe faltava". Cf. H. Heller, op. cit., p. 163.
Antiguidade ao Feudalismo, Porto, Afrontamento, 1982, pp. 163-234; idem,
12 Para uma visão mais analítica dessa fase histórica e de sua transição para
Linhagens do Estado Absolutista, Porto, Afrontamento, 1984 (ed. bras .: São
Paulo. Brasiliense. 1985). o mercantilismo, consulte-se o trabalho de E. K. Hunt e Howard J. Sherman ,
4." ed. , História do Pensamento Econômico, Petrópolis, Vozes, 1985, pp. 9-40.
ESTADO E IDEOLOGIA 217
216 ALAóR C~ ALVES

ocidental para o aprofundamento teórico e para a prática do liberalismo


como uma unidade territorial e jurídico-política, onde o senhor se
e do individualismo. Essa nova realidade condiciona uma forma dife-
apropriava do parco excedente econômico produzido pelos servos que,
rente de organizaçã'o do poder político, o que suscita o aparecimento
conforme o costume do feudo, pagavam-lhe tributos em espécie ou
de um conceito, o do Estado, para dar conta dessa nova expressão de
em dinheiro; em C'ontrapartida, e também de conformidade com aque-
poderY' Tal conc~ito representa um modo de organização política em
le costume, o senhor os protegia, supervisionava seu trabalho e admi-
que, ao contrário das formações políticas pré-estatais, o poder político
nistrava a justiça. 13 Como a base econômica do poder senhorial con-
- possibilidade de exercer de maneira incondicional a coação física
sistia na propriedade feudal da terra, e esta ligou-se a formas de des-
legítima - se caracteriza por estar segregado da instância econômica
centralização política, pois tal propriedade incluía os poderes militar,
e, ainda, monopolizado e concentrado na unidade do Estado, onde
judicial, tributário, fiscal, monetário e outros, o senhor feudal, pela
não há divisão desse poder, a despeito da existência de múltiplos
concentração desses poderes em suas mãos, exercia uma dominação
órgãos dele integrantes, desempenhando funções diferentes. Essa con-
econômica e política em razão da qual o servo era explorado ao
centração e monopolização das relações políticas - separando-se da
máximo, a despeito das obrigações recíprocas que, pelos costumes,
mantinham entre si. 14 instância econômica - é que constituem a diferença específica da
sociedade estatai.l 6 Isso significa que o centro de imputação política
Nessa organização social hierarquizada, em que os homens se
absolve as diferentes esferas públicas antes fragmentadas pelas múlti-
diferenciavam em razão de privilégios que constituíam seu status na
plas unidades feudais que caracterizavam a sociedade medieval, redu-
pirâmide social, nã'O podia ser compreensível a distinção entre a socie-
zindo ou suprimindo as instâncias do poder político dos senhores
dade civil ou burguesa e a sociedade política ou Estado. Somente com
feudais, especialmente as relacionadas com o controle econômico, com
o aparecimento da sociedade mercantil, já de índole burguesa, com o
incremento das artes e das técnicas produtivas, da ciência, do comér-
L> Ver Harold f. Laski, O Liberalismo Europeu, São Paulo, Mestre Jou , 1973,
cio e das formas ideológicas correspondentes do nominalismo, do pp. 9-62. Gianfranco Poggi, A Evolução do Estado Moderno, Rio de Janeiro,
Renascimento e da Reforma, é que se abrem as vias do pensamento Zahar, 1981, pp. 71-95. A. D. Lindsay, O Estado Democrático Moderno, Rio
de faneiro, Zahar, 1964, pp. 40-58. Sob o ângulo teórico, ver Gérard Lebrun,
O Que é Poder, São Paulo, Brasiliense, 1981, pp. 28-73. Paulo Bonavides, Do
13 Ver, com mais amplitude, Edward Mcnall Burns, História da Civilização
Estado Liberal ao Estado Social, Rio de Janeiro, Forens.e, 1980, pp. 1-33. C. B.
Ocidental, Porto Alegre, Globo, 1948, pp. 334-345.
Macpherson, A Teoria Política do Individualismo Possessivo, de Hobbes a
14 "Além de criar o produto necessário à própria subsistência e à de suas
Locke, Rio de fan eiro, Paz e Terra, 1979.
famílias, os camponeses eram obrigados a tarefas suplementares para o senhor: 1 r. A organização política do período escravista, apesar de à primeira vista se
assim como a concessão de terras entre nobres criava a vassalagem - ou seja, caracterizar, em muitos casos, mediante unidades de comando altamente cen-
a obrigação de serviços militares e outros mais - , a concessão de terras aos tralizadas, não pode ser identificada com o Estado, visto que ela se configurava
camponeses implicava a obrigação de prestar serviços e de dar ao senhor parte basicamente como uma empresa militar com objetivos econômicos imediatos,
da produção. No primeiro caso, verificava-se a 'corvéia': o camponês traba- isto é, com a finalidade de agregar extensos domínios territoriais e de captar
lhava três dias por semana para o senhor, seja lavrando, colhendo ou semeando mão-de-obra escrava, além de não apresentar características institucionais que
as terras do senhor; seja pescando ou caçando; seja construindo uma estrada permitissem diferenciar de forma abstrata e impessoal os centros de poder em
ou reparando uma ponte; seja trabalhando como ferreiro, carpinteiro ou ven- relação à sociedade. Por outro lado, no âmbito da produção, o trabalhador
dedor para o senhor. No segundo caso, o produto excedente era tomado pelo direto, não sendo livre, estava vinculado segundo uma relação escravo-senhor
senhor sob a forma de renda do solo (renda em espécie e renda em dinheiro): dentro da qual só se podia obter o trabalho excedente mediante uma coação
ao camponês cabia pagar determinada importância em dinheiro (o censo) pela extra-econômica (política) , qualquer q1,1e fosse sua forma . Daí porque, mesmo
utilização da terra (prática difundida a partir das Cruzadas), ou entregar regu- com a aparência, em alguns casos, de uma grande concentração de poder, tais
larmente uma parte da produção (foro pago em produtos: eram as 'banali- sociedades experimentaram sempre uma real e efetiva descentralização política
dades'; taxas pagas pelo uso obrigatório do forno, do moinho e do lagar do traduzida nos incontáveis centros de produção escrava.
senhor)". Cf. Rubim Santos Leão de Aquino et alii, op. cit., p .. 390.
218 ALAóR CAFFÉ ALVES ESTADO E IDEOLOGIA 219

a atividade judicial e, principalmente, com o monopólio da força coer- nal, não se tolerando, por conseqüência, a existência de outro poder
citiva. Esse processo não decorre apenas de uma nova forma concei- junto a ele.19 Com efeito, as condições estruturais do sistema capita-
tual de "ver" o mundo, mas também e principalmente da grande lista exigem relações sociais nas quais os indivíduos intervêm apenas
expansão do intercâmbio econômico entre os homens, emergente de como "pessoas" livres e iguais, com vistas a viabilizar os contratos
procedimentos produtivos inovadores, originados de uma mais intensa entre o capital e a força de trabalho, visto que os agentes dominantes
e orgânica divisão técnica e social do trabalho, com a introdução pro- desse sistema não "forçam" jamais a entrega da mais-valia produzida
gressiva de novos métodos e técnicas de produção. Isso levou a bur- pelo trabalhador - que dela não tem clara consciência em virtude
guesia ascendente, ao retratar nesse processo seus interesses comer- dos mecanismos de ocultação do próprio sistema. Por conseguinte,
ciais e produtivos, a entrar em conflito aberto com as formas tradi- essas relações não admitem vínculos primordiais çle dependência pes-
cionais de organizações econômica e política medieval, especialmente soal entre os indivíduos, isto é, laços de dependência anteriores a quais-
quanto às esferas da gênese normativa reguladora da sociedade, da qder manifestações de vontade dos sujeitos econômicos, caracteriza-
ação política e da gestão econômica a nível supralocal e nacional. dores de relações políticas de um contexto econômico-social de privi-
A socialização e ampliação do proces~·o produtivo e o alargamento légios, onde os indivíduos, tomo nas sociedades escravistas e feudal,
extremamente significativo do intercâmbio comercial, para muito além já se encontram previamente em pé de desigualdade por virtude mesmo
das fronteiras senhoriais, rompem com os quadros rígidos das autono- de sua condição social e dos estatutos jurídicos que os regem.20 Neste
mias feudais, abolindo-se também a faculdade regulamentar das asso- caso das sociedades pré-estatais, o modo de produção capitalista seria
ciações e corporações medievais, com a absorção das tradições e costu-
mes jurídico-normativos independentes ou autônomos no seio do corpo Jll De'ntre as doze razões para justificar a soberania absoluta, Hobbes en~ia
jurídico-legal nacionalP No plano ideológico, esse movimento é acom- a terceira assim: "Se a maioria, por voto de consentimento, escolher um sobe-
panhado de representações correspondentes, relacionadas especialmente rano, os que tiverem discordado devem passar a consentir juntamente com os
com os direitos naturais, a separação dos poderes, o racionalismo, o restantes. Ou seja, devem aceitar reconhecer todos os atos que ele venha a
analfabetismo, o liberalismo e individualismo burguês, o estatismo e praticar, ou então serem justamente destruídos pelos restantes". Cf. Thomas
Hobbes, Leviatã ou Matéria, Forma e Poder de um Estado Eclesiástico e Civil;
o nacionalismo. 18 São Paulo, Abril Cultural, 1974, pp. 112-113. Nesse sentido, o poder soberano,
' O aparecimento das condições objetivas que determinaram a para Hobbes. ou é absoluto ou simplesmente não é; ele não expressa propria-
organização de um novo processo produtivo e de formas correspon- mente a supremacia de um poder sobre outro: a soberania estatal constitui
dentes de intercâmbio entre os homens, fundadas numa específica um poder que exclui, por princípio, a existência simultânea de outros centros de
dinâmica com leis próprias que delinearam a estrutura do modo poder.
2 0 Sob esse aspecto Marx considera que "a ordem econômica capitalista saiu
capitalista de produção, levou, ao mesmo tempo, à profunda reorga-
das entranhas da ordem econômica feudal. A dissolução de uma produziu os
nização jurídico-política das relações de poder, como o destaque da elementos constitutivos da outra. Quanto ao trabalhador, ao produtor imediato,
soberania estatal como único centro absoluto de poder político nacio- para poder dispor de sua própria pessoa, era-lhe preciso, primeiramente, deixar
de continuar ligado à gleba ou enfeudado a outra pessoa; ele jamais poderia
tornar-se um livre .vendedor de sua força de trabalho, levando sua mercadoria
17 Ver Michael E. Tigar e Madeleine R. Levy, O Direito e a Ascensão do
a toda parte onde ela pudesse ser comprada, sem ter antes escapado ao regime
Capitalismo, Rio de Janeiro, Zahar, 1978, pp. 197-210.
das corporações,. com seus mestres, seus jurados, suas leis de aprendizagem, etc.
18 Ver John Henry Merryman, La Tradición Jurídica Romano-Canónica, Mé-
O movimento hisl.Úrico que converteu os produtores em assalariados se apre-
xico, Fondo de Cultura Económica, 1971, pp. 35-42. Ver Enrique Ricardo
senta, pois, como sua libertação da servidão e da hierarquia industrial" . Cf.
Lewandowski, Proteção aos Direitos Humanos na Ordem Interna e Interna- .
Karl Marx, A Origem do Capital, A Acumulação Primitiva, São Paulo, Ed.
cional, Rio de Janeiro, Forense, 1984, pp. 13-52. Ver, também, E. K. Hunt e
Fulgar, 1964, p. 15. Ver, também, Maurice Dobb, A Evolução do Capitalismo,
H. J. Sherman , op. cit., pp. 23-69.
Rio de Janeiro, Zahar, 1965, pp. 49-108.
220 ALAOR CAFFÉ ALVES ESTADO E IDEOLOGIA 221

impossível, assim como a existência do próprio Estado, visto que se parte expressiva do produto de seu trabalho? 2 Além da desigualdade
um indivíduo dependesse politicamente de outro, nos termos acima jurídica a par da desconcentração das relações políticas, distribuídas
expostos, sua relação com o Estado estaria mediada e condicionada por todos os núcleos do processo produtivo como formas de garantir
por sua relação de dependência com aquele outro indivíduo, impe- a extração e a apropriação do excedente econômico. Entretanto, nas
dindo ao Estado concentrar em si todas as relações poÚticas. Neste sociedades onde predomina o modo de produção capitalista, a domina-
quadro, a organização política, ao regular as relações · contratuais, que ção política não se identifica com a relação de produção, havendo,
exigem liberdade e igualdade formais das partes, essenciais para a por c•onseqüência, uma distinção clara entre a sociedade civil e a
acumulação e reprodução capitalista, encontraria obstáculos insuperá- sociedade política. A organização política, sob a forma de Estado,
veis nas relações políticas não-estatais, as quais impediriam a realiza- se destaca do processo produtivo. 23 No plano da aparência imediata,
ção_ das condições indispensáveis à reprodução do próprio sistema; este processo se localiza, portanto, "fora" da esfera política, sendo
isso seria uma contradição intolerável e, na verdade, dissolveria a resultado de relações econômicas em que os indivíduos, através do
própria noçii'o de Estado. Eis porque os princípios básicos da teoria mercado, se encontram como pessoas iguais, sem vínculos de subor-
do Estado, em contraposição às teorias políticas anteriores, são os dinação, com a mesma situação jurídica, contraindo relações consen-
princípios da liberdade e da igualdade, com denúncia aberta contra a suais na troca de mercadorias. B óbvio, entretanto, que no âmbito da
desigualdade dos homens por natureza. 2 1 Assim, não pode haver, no realidade econômica está implícita sob certa forma a relação política,
sistema de produção mercantil, nenhuma instância de poder político e portanto o próprio Estado, só que de modo dissimulado, como mais
entre o Estado e os indivíduos livres e iguais, devendo esse poder estar adiante veremos. Tanto é assim que o intercâmbio entre p~soas, nesse
concentrado e monopolizado por aquela forma de organização política. sistema, pressupõe a garantia jurídico-política (estatal) da liberdade
Levando essa análise a um grau mais avançado, podemos consi-
derar que nos modos de produção pré-capitalistas a dominação polí- ~2 A respeito dessa implicação direta, nos modos de produção pré-capitalistas,
entre o político e o econômico, entre a coerção legítima e as relações produ-
tica é em si mesma uma relação de produção , ou seja, essa domina-
tivas, escreve Poulantzas: "o exercício da violência legítima está organicamente
ção é um pressuposto para o desenvolvimento das condições produ- implícito nas relações de produção para que haja extorsão do excesso de tra-
tivas onde o agente direto da produção não comparece como um balho aos produtores-detentores da posse do objeto e dos meios de trabalho".
indivíduo livre pronto a ofertar sua força de trabalho, mas sim como Cf. Nicos Poulantzas, O Estado, o Poder, o Socialismo, Rio de Janeiro, Graal,
indivíduo que se encontra desde o início uma particular situação de 1980, p. 22 . "O summun da identidade de Hegel era, como ele próprio o
declara, a Idade Média. Nela, as classes da sociedade civil em geral e as classes
dependência pessoal, em razão da qual é obrigado a entregar ao senhor
consideradas de um ponto de vista político eram idênticas. ( ... ) A identidade
das classes civis e políticas era a expressão da identidade da sociedade política".
21 Hobbes exprime, com sua habitual elegância, que "a natureza fez os homens Cf Karl Marx, Crítica de la Fi/osofía de/ Derecho de Hegel, Buenos Aires,
tão iguais, quanto às faculdades do corpo e do espírito, que, embora por vezes Claridad, 1973, p. 129.
se encontre um homem manifestamente mais forte de corpo, ou de espírito 2H O modo de produção capitalista apresenta então, no que diz respeito às
" mais vivo do que outro, mesmo assim, quando se considera tudo isso em con- r.e]ações do Estado e da economia, uma especificidade característica com re-
junto, a diferença entre um e outro homem não é suficientemente considerável lação aos modos de produção pré-capitalistas: a de uma separação relativa entre
para que qualquer um possa com base nela reclamar qualquer benefício a que o Estado e a economia no sentido capitalista destes dois termos, ligada, enfim,
outro não possa também aspirar, tal como ele". Cf. Thomas Hobbes, op. cit., à especificidade das relações de produção capitalista, a saber à desapropriação
p. 78 . De forma radical, assim se expressa Locke: "Sendo os homens, conforme (à separação na relação de posse) dos trabalhadores diretos de seus objetos e
acima dissemos, por natureza, todos livres, iguais e independentes , ninguém meios de trabalho, e ligada, assim, à 'especificidade da constituição das classes,
pode ser expulso de sua propriedade e submetido ao poder político de outrem e da luta de classes, sob o capitalismo". Cf. Nicos Poulantzas, "As transfor-
sem dar consentimento". Cf. John Locke, Segundo Tratado Sobre o Governo, mações atuais do Estado, a crise política e a crise do Estado", in N. Poulantzas
São Paulo, Abril Cultural, 1973, p. 77. (org.) , O Estado em Crise, Rio de Janeiro, Graal, 1977, p. 16.
222 ALAóR CAFFÉ ALVES ESTADO E IDEOLOGIA 223

e igualdade sem a qual não se poderia contratar e, ainda, da proprie- seu permanente movimento para superar a irresistível lei tendencial
dade de mercadorias, sem o que não haveria nada para transacionar. de queda da taxa de lucro.
Sob a forma da igualdade e da liberdade juridicamente garantidas, Por esse enfoque, já se pode perceber a distinção, que vai tornar-
ocultam-se as relações desiguais de dominação econômica, somente se evidente a partir do século XVI, entre Estado e sociedade civil;
possível pelo exercício do poder hegemônico. Por essa razão, a socie- o Estado se apresenta como algo distinto da sociedade civil, em que
dade capitalista tem por condição de sua existência a necessária dis- pese ser, ao mesmo tempo, a exata expressão 'desta. Como forma estru-
solução de todas as relações de prévia dependência pessoal, não tural de organização política de um modo específico de produção, o
podendo haver entre os sujeitos que realizam o processo produtivo da sociedade onde predomina o sistema de mercado, a referência ao
nenhum laço de supra ou subordinação política, ficando adscritos ao conteúdo pol_ítico dessa forma de poder não pode ser outra senão a
Estado, " fora" dessa relação específica de produção, a organização relação entre capital e trabalho assalariado. Isso significa que o Estado,
e o monopólio do poder político concentrado, exatamente para asse- cujo conteúdo de poder não se determina arbitrária e caprichosamente,
gurar as condições de igualdade e liberdade formais que o sistema seja por sua expressão institucional ou por seu brdenamento jurídico,
requer para sua reprodução ampliada. 24 Contudo, é preciso sublinhar não se justifica por si mesmo, visto que tem seu fundamento no modo
com ênfase que o ângulo especificamente político sob o qual enfoca- como os indivíduos se relacionam na produção de suas condições
mos esta temática não exclui o aspecto essencial da orgânica e indis- materiais de existência. A verdade do Estado não está nele mesnto,
pensável cooperação entre o capital e o Estado, no plano das medidas é preciso buscá-la nas · relações socklis que lhe dão o fundamento ,
e ações econômico-sociais, que se realizam exatamente para suprir as especialmente nas relações estruturais, onde o conflito das classes
condições contextuais objetivas no sentido de propiciar a aut•odesva- antagônicas emerge da distribuição desigual do produto social. Assim,
lorização do capital.25 O vínculo de aparente exterioridade que aqui o conteúdo do poder estatal está determinado pela contradição básica
se manifesta é expressão da universalidade das condições sociais e da sociedade capitalista, contradição entre o capital e o, trabalho assa-
econômicas exigidas pelo próprio capital, em seu momento de auto- lariado . Entretanto, o Estado não aparece diretamente como expressão
reprodução, o qual não dispensa, nem pode dispensar, a orgânica dessa qontradição, mas, ao contrário, aparece como forma política
relação com o seu centro de referência política, o Estado, não só para promotora da coesão social, como forma que busca o interesse cole-
a efetiva garantia das relações sociais de produção correspondentes, tivo, a harmonia e a ordem, conceitos estes expressos nb singular gra-
como também para propiciar as bases contextuais requeridas pelo matical cujo objetivo é disfarçar ideologicamente, sob o manto do
processo de extração e reinvestimento da mais-valia. Nesse sentido, abstrato indiferente ou da neutralidade universal, exatamente uma
também no plano econômico existem, a par daqueles vínculos de exte- determinada harmonia, uma específica ordem, a ordem capitalista de
rioridade aparente, relações de inferioridade entre o capital e o Estado, produção. 26
e essas relações tanto mais serão explícitas quanto mais caminhamos Nas relações sociais pré-capitalistas, o poder político transparece
.J historicamente do Estado liberal do capitalismo competitivo para o em cada momento do processo produtivo; a violência da expropriação
Estado intervencionista ou condutor, para o capitalismo monopolista se manifesta de forma descentralizada ao nível do próprio fenômen'o
de Estado, não por demanda direta da esfera política, mas principal- produtivo, não havendo outro disfarce senão o de referência ideoló-
mente por exigência, como já dissemos antes, do próprio capital em gica destinada a fazer suportar a exploração em termos de troca de

24 Ver Javier Pérez Royo, op. cit., pp. 31-34.


21lVer W. G. F. Hegel, Princípios da Filosofia do Direito, Lisboa Guimarães
25 Ver, nesse sentido, Carlos Estevam Martins, Capitalismo de Estado e Mo-
Editores, s.d., §§ 260 a 271. Ver também a crítica a esses parágrafos realizada
delo Político no Brasil, Rio de Janeiro, Graal , 1977, pp . 11-17.
por K. Marx em Crítica de la Filosofía del Derecho de Hegel, op. cit., pp. 53-68.
224 ALAOR CAFFÉ ALVES
ESTADO E IDEOLOGIA 225

&erviços, como já analisamos. Assim, o poder político, pressuposto


tência. Em outras palavras, como esse trabalhador escravo ou servil
indispensável ao desenvolvimento do processo produtivo e diretamen-
não recebe "salário" para a consecução, no mercado, dos produtos
te colado a ele, se apresenta como realidade evidente que se impõe
necessários a sua subsistência, os instrumentos e meios de produção
por si mesma, inquestionável, não-passível de dúvidas quanto à neces-
permanecem em suas mãos para utilizá-los com o objetivo de obter
sidade de sua existências só objeto de exame descritivo das formas
o seu sustento e de sua família e, assim, manter-se vivo para conti-
de seu exercício. Neste caso, tem-se como base a tese da natural
nuar a produzir, além dos produtos indispensáveis a sua vida, os que
sociabilidade do homem, visto que necessariamente vive no grupo
formám o excedente apropriado pelo senhor. 2 8 Nessa 1 condição, o
social, sendo a comunidade algo evidente que se explica por si mesma.
trabalho realizado para o próprio sustento e o realizado para a pro-
Por conseqüência, a teoria [J'Olítica pré-estatal não coloca o problema dução do excedente aptopriado pelos senhores proprietários se tornam
do "porquê" do poder político, e sim do "como" se organiza esse
visivelmente separados no tempo e no espaço, ficando de certo modo
poder, ou seja, de suas formas e recíprocas transições. Em nenhum
momento se questiona o caráter evidente e natural da comunidade
transparentes o trabalho não-pago e a relação de senhorio e servidão.
Por conseqüência, revela-se a necessidade de se obter trabalho exce-
política. Já na sociedade de mercado, onde predomina o modo de
dente mediante uma coação extra-econômica, segundo formas de impo-
produção capitalista, o poder polípco niío é identificado com as rela-
sição as mais variadas. No que respeita ao modo de produção feudal,
ções de produção e delas aparece descolado, niío se apresentando ime-
por exemplo, as relações econômicas "se estruturam com base na
diatamente, no plano da aparência, como necessário ao desenvolvi-
existência das seguintes condições: a) um tipo particular de proprie-
mento dessas relações. Por esse lado, tal poder se manifesta não como
dade fundiária que permite à classe dominante dos senhores feudais
pressuposto do processo produtivo, mas exatamente como um resulta-
manter os produtores diretos em Estado de subordinação estabelecida
do das relações que o encarnam, sendo passível de questionamentos e
político-juridicamente; h) um tipo particular de produtores diretos -
caracterizado como uma realidade problemática, cuja existência não
os servos da gleba - juridicamente carentes de liberdade, que têm
é de evidente necessidade. Entretanto, alerta-nos Poulantzas, "esta
a posse efetiva (material) dos meios de produção e que, para poderem
separação não nos deve levar a crer em real exterioridade do Estado
reproduzir a sua força de trabalho, devem transferir o produto exce-
e da economia, como se o Estado só do exterior interviesse na econo-
dente ao senhor feudal respectivo, segundo uma das formas conven-
mia. Esta separação é forma precisa que encobre, sob o capitalismo,
cionais. Posto que a família camponesa tem a posse efetiva dos meios
a presença constitutiva do político nas relações de produção e, dessa
de produção, o produtor direto não tem necessidade de alienar a sua
maneira, em sua reprodução".27
força de trabalho para poder viver; isso significa que os serJJos devem
Verticalizando um pouco inais essa análise, observamos que, em
entregar o produto excedente coagidos por meios extra-econômicos" ?- 9
todos os modos de produção anteriores ao da sociedade capitalista,
Por isso, o poder político apareceria, nas sociedades pré-capitalistas,
a relaçiio entre o trabalhador direto e os meios de produção se realiza
como instrumento identificado com as próprias relações de produção,
segundo um vínculo solidário, em que se associam de modo orgânico
·' a destreza, a habilidade e a força desse trabalhador e os instrumentos
e condições objetivas de seu Jrabalho. Nesse sentido, se o trabalhador 28 Ver Max Weber, Economía y Sociedad, I, 2.• ed., Bogotá, Fondo de Cul-
tura Económiéa, 1977, pp. 204-213. Ver também K. Marx, Formações Econô-
direto não tem a propriedade real ou econômica desses recursos, é
micas Pré-capitalistas, 3.• ed., Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1981, pp. 65-112.
contudo deles possuidor ou detentor, na medida em que se faz neces- Idem, La ldeología Alemana, 4: ed., Buenos Aires, Pueblos Unidos, 1973,
sária tal vinculação para a produção de seus próprios meios de subsis- pp. 23-27.
29 Cf. Otto Alcides Ohlweiler, Materialismo Hist6rico e Crise Contemporânea,
27 Cf. Nicos Poulantzas, O Estado, o Poder, o Socialismo, op. cit., p. 23. Porto Alegre, Mercado Aberto, 1984, pp. 94-95 (grifo nosso). Ver, também,
Karl Marx, Salário, Preço e Lucro, São Paulo, Abril Cultural, 1974, pp. 89-90.
226 ALAOR CAF'Flt ALVES
ESTADO E IDEOLOGIA 227

pressupondo a dominação direta e a desigualdade " natural" e jurídica o trabalhador exerça qualquer controle.8 1 A mais-valia é extraída sem
dos indivíduos, assim como sua descentralização pelos inúmeros que disso o trabalhador tenha clara consciência, visto que está de cert•o
núcleos onde se desenrolava o processo produtivo. modo convicto de que seu trabalho é remunerado pelo salário, não lhe
Com o desenvolvimento dos recursos produtivos e o aparecimento cabendo a renda "produzida" pelo capital. Só em momentos de crise
de novas forças sociais em conflito, o processo econômico-social se maior na relação entre capital e trabalho é que a contradição se mani-
transfigura profundamente, rebatendo com grande vigor no plano polí- festa com toda sua força, permitindo a emergência de fatores que
tico. -As marcantes inovações tecnológicas, a reformulação dos métodos induzem à tomada de consciência a respeito do real mecanismo desse
produtivos, o desenvolvimento das ciências, a secularização e popula- processo produtivo e das leis de acumulação correspondentes. Assim,
rização da cultura, a ampliação dos mercados, etc. são ocorrências desaparecem as relações básicas de dependência pessoal, não mais
históricas profundatp.ente vinculadas com movimentos sociais e polí- havendo, ao nível das relações econômicas, vinculação de supra e subor-
ticos extremamente significativos e que marcam a transição do siste- dinação política, enfrentando-se os sujeitos desse processo como indi-
ma feudal para o sistema capitalista de produção. Nesse processo, víduos com o mesmo status jurídico formal, livres para transacionar
desaparece a associação imediata do trabalhador direto com as condi- e contratar dentro dos limites do potencial de troca que cada agente
ções . objetivas de seu trabalho; o desenlace se dá exatamente pelo econômico é profundamente diferenciado, dependendo de suas respec-
fato de que a organização da produção é alterada pela introdução de tivas forças econômicas. Tal aspecto é, como veremos mais adiante,
novas formas operacionais e ampliação da divisão técnica e social do responsável pelo clima difuso em que predomina a coerção econômica
trabalho, com grande repercussão na produtividade, acompanhadas q'tle engendra as condições de poss~bilidade de dominação econômica
do aperfeiçoamento e sofisticação dos instrumentos de produção, os de uma classe sobre outra.
quais, por isso mesmo, não mais podem ser "possuídos" pelo traba- Nesse sistema de produção, que se caracteriza por um novo
lhador direto.3 () Há, portanto, uma nítida separação entre o trabalhador modo de homens se relacionarem entre si e com a natureza, o traba-
e os meios de ptodução, ficando aquele apenas com a possibilidade, lho necessário à subsistência do trabalhador e o trabalho gerador do
para poder subsistir, de vender sua força de trabalho ao detentor do sobreproduto apropriado pelo detentor do capital não aparecem dife-
capital, mediante recebimento de salário que expressa, num determi- renciados espacial e temporalmente, como ocorria nos modos de
nado nível de produtividade econômico-social, o "justo" valor de re- produção anteriores. Não se vê claramente como trabaJho não-pago
produção dessa mesma força. Isso significa que o excedente econômico e, por conseqüência, não há necessidade de nenhum vínculo prévio de
resultante do sobretrabalho não é apropriado pelo capitalista mediante coerção jurídica sobre o trabalhador, que aparece como indivíduo livre
a entrega, pelo trabalhador, do produto de seu trabalho, depois de e proprietário de sua força de trabalho, com a qual negocia no mer-
cado em troca de salário. Nesse sentido, é perfeitamente dispensável a
este ter sido realizado. Na verdade, esse produto é obtido durante o
coação extra-econômica para se •obter a mais-valia, não se exigindo de
processo produtivo, no recesso da unidade fabril , sem que sobre ele
modo direto a ação do poder político para tal objetivo. "Numa forma-
ção social capitalista, afirma Hirsch, é preciso que a exploração ·e a
so "A essência do sistema capitalista está, pois, na separação radical entre o reprodução das classes não se efetuem, e não possam se efetuar, dire-
produtor e os meios de produção. Esta separação torna-se cada vez mais acen- tamente pela utilização física da violência, mas através da ·própria
tuada e numa escala progressiva, desde que o sistema capitalista se estabele-
ceu; mas, como esta séparação constituía a sua base, ele não se poderia esta-
reprodução das relações de produção, regida pela lei do valor. A troca
belecer sem ela.· Cf. K. Marx, A Origem do Capital, op. cit., p. 14. Ver, tam- entre proprietários de mercadorias (inclusive da 'mercadoria' força _de
bém, K. Marx, Conseqüências Sociais do Avanço Tecnológico, São Paulo,
Edições Populares, 1980, pp. 34-63.
a1 Ver Karl Marx, Salário, Preço e Lucro, op. cit., pp. 79-90 .
228 ALAOR CAF'FÉ ALVES EST.ADO E IDEOLOGIA 229

trabalho) formalmente iguais e livres, produzindo uma aparência de política, a partir de Hobbes, incide sobre as condições de sua justi-
equivalência, mediatiza a exploração do trabalho vivo pelo capital. ficativa-; figurando o Estado não como mero dado a ser descrito em
A lei do valor, regendo a reprodução social, se opera pela ocorrência suas formas de manifestações e exercício, mas como termo final da
entre os proprietários de mercadorias. Ora'; a livre circulação das mer- investigação. Isso é precisamente o que ocorre nas obras subseqüentes
cadorias e a concorrência pressupõem a igúaldade formal dos proprie- dos grande sautores. que trataram de matéria política, tais como Locke,
tários de mercadorias e a ausência de relações de violência física entre Rousseau, Kant, Hegel e Marx. 34
32
eles." Assim, o excedente econômico é· apropriado à margem do Esse enfoque nos pennite compreender a razão da separação e
Estado, através do "livre jogo" das forças do mercado, onde traba- autonomização relativa das relações sociais de produção e das relações
lhadores e capitalistas se encontram tomo sujeitos jurídicos para o políticas, da comunidade civil e da comunidade est~!~l. Entretanto,
exercício contratual, em que as vontades se qualificam como livres essa questão merece maior aprofundamento. No sistema de produção
e iguais. O capitalismo se caracteriza pelo fato de que a violência burguesa, como já vimos, o Estado aparece como uma forma política
coercitiva, concentrada nos meios de repressão física, "tem, necessa- não imediatamente idêntica ao poder econômico, isto é, as relações
e
riamente, em função do modo social de exploração de reprodução políticas não coincidem, como ocorre nas sociedades pré-estatais, com
de classe, uma institucionalização separada dos burgueses individuais. as relações de produção. Estas relações sociais de produção são rela-
Ela toma uma 'forma' que a separa formalmente da classe dominante: ções essencialmente antagônicas e, por conseqüência, exigem de alguma
esta separação do aparelho de coerção física com relação ao proleta- forma a determinação de um poder político para conformá-las dentro
riado e à burguesia é o elemento fundamental da forma de dominação de uma eerta ordem, evitando-se com isso o exacerbamento do conflito
de classe burguesa".33 Aqui já se observa a origem da separação entre entre as classes sociais que possa comprometer a reprodução desse
a sociedade civil, palco dos conflitos de interesses econômicos, sociais sistema social. Contudo, tal poder político não é, nesse modo de pro-
e ideológico-culturais, e o Estado ou sociedade política, responsável dução, o resultado direto da reprodução das relações econômicas, ou
pela coesão social e monopolizador da violência legítima. Como essa seja, o desenvolvimento do processo produtivo, em razão da lei · do
dissociação entre o civil e o político, entre o privado e. o públicô, valor, não leva consigo direta e imediatamente à reprodução das rela-
ocorre dentro de uma perspectiva · de "exterioridade" e de forma ções polítiCas. Esse ponto nos leva a uma questão extremamente sig-
relativamente não-difusa (distinção e separação entre as instituições nificativa para a teoria política do Estado; é a questão da represen-
estatais e as privadas), não se percebe bem porque se torna necessário tatividade, que o caracteriza essencialmente. Aliás, essa questão foi
o poder político, não ficando evidente a relação estatal como condição em parte abordada no capítulo anterior quando tratamos da elite gover-
ou com'O resultado do processo produtivo, exigindo-se, portanto, uma nante, do bloco no poder. Não coincidindo com a sociedade civil, o
justificação paraa existência do Estado. Como se pode ver, todo esse Estado, entretanto, representa alguns interesses sociais, embora não se
enfoque vai se rebater inevitavelmente nas metodologias de pesquisa identifique com eles. O Estado se apresenta exatamente como o que
e de análise e nas concepções teóricas a respeito das organizações ele não é, como uma forma política "neutra"; e essa forma de aparecer
polÍticas das sociedades, diferenciando-se os modelos de ciência polí- é essencial para sua existência como poder político, para que se repro-
tica exatamente a partir do aparecimento das formas estatais. Com duza e se perpetue. Com efeito, se no modo de produção capitalista
efeito, antes de enfrentar diretamente a questão do Estado, a ciência o poder econômico não supõe um poder político imediato e prévio de
sujeição direta e pessoal do trabalhador ao detentor do capital -
embora o poder econômico capitalista, como ·veremos mais adiante,
a2 Cf. Joachim Hirsch, "Observações Teóricas Sobre o Estado Burguês e Sua
Crise" , in O Estado em Crise, op. cit., p. 88.
33 Idem, ibidem, p. 88. 34 Ver Javier Pérez Royo, op. cit., pp. 44-45.

.
230 ALAóR CAFFÉ ALVES ESTAOO E IDEOLOGIA 231

tenha como pressuposto contextual o poder político, que com aquele zação das relações de troca entre produtores privados, de tal modo
mantém uma relação dialética de exterioridade e interioridade, tal dominante, que quanto mais o valor de troca se põe como base da
como a "figura" que se destaca do "fundo" de um quadro e que, sem coesão social, pela exigência de solidariedade orgânica resultante do
este, não teria condição de existir - , as vinculações políticas apare- intenso intercâmbio das atividades humanas e da divisão do trabalho,
cem como algo externo ao processo produtivo, caracterizando-se pela tanto mais se torna impossível instaurar a coesão da sociedade através
ausência aparente de poder e pelo confronto, na esfera da circulação de formas de relação de dependência pessoal, elidindo-se, portanto, as
econômica, de indivíduos livres e formalmente iguais. Ora, se o Esta- formas de servidão e de sujeição direta que não se conformam C'om
do não coincide diretamente com essas relações sociais de produção, as leis da produção industrial e do mercado capitalista. 36 Tal generali-
antagônicas pela lei interna de seu funcionamento e desenvolvimento, zação da mercadoria se torna expressão de um modo de produção
mas é a forma política indispensável para mantê-las, em razão de dominantemente capitalista, quando a mercantilizaçã•o se estende à
certos interesses dominantes que devem ser impostos como interesses força de trabalho, tornando-a objeto de negociação contratual entre
gerais, ele é a real expressão representativa daqueles interesses, sem o trabalhador e o empresário capitalista.37 Ao ultrapassar o modo de
se identificar, contudo, de forma imediata com eles. B preciso não olvi- produção autárquico e paroquial das formas pré-capitalistas, os pro-
dar por outro lado, que os interesses dominantes, exatamente porque dutores se separam uns dos outros, como produtores, e de si mesmos,
são dominantes e pretendem manter-se como tais, não excluem, nem como consumidores.38 Assim, a divisão do trabalho sob o comando
podem excluir, a satisfação dos interesses subalternos, nos limites e econômico da burguesia, com intensidade sem paralelo na História,
nas condições do próprio sistema. O Estado, portanto, se separa da determinou o aparecimento de um circuito básico de produção e de
sociedaQ.e civil ao mesmo tempo que nela tem seu fundamento e razão circulação extraordinariamente desenvolvido, exigindo organizaç:ões
de ser. Por causa dessa relativa autonomia do poder político, existe institucionais correspondentes para garantir a reprodução do sistema
sempre a possibilidade de que se produza, em razão de múltiplos fato- como um todo, não só a nível nacional, mas também a nível interna-
res e principalmente em razão da luta de classes, uma discordância cional. Com esse processo, o mercado passa a ser um mecanismo extre-
entre a comunidade política e a comunidade civil, ou seja, a não-fiel mamente complexo e relativamente autônomo, através do qual se
repre~entação do poder econômico das classes ou frações de classes opera o circuito da reprodução social, ao abranger essenciais aspectos
dominantes pela elite gOvernante, pelo bloco no poder, ensejando
crises de articulação entre ambas as esferas e permitindo até mesmo
.ao Nesse sentido afirma Weber que "de todos os modos não se pode falar de
a existência de vazio de poder.35 , uma competição do mercado realmente livre no sentido atual do termo, quando
Melhor compreensão da relação entre a sociedade civil e o Estado as organizações estamentais estão tão difundidas em uma comunidade como
será obtida através da análise da estrutura funcional das relações ocorria em todas as comunidades políticas da Antiguidade e da Idade Média".
sociais econômicas, que abrange, no modo capitalista, a produção, Cf. Max Weber, op. cit., li, p. 692.
,, como esfera onde se extrai a mais-valia, e a circulação, como esfera da 37 Esse fenômeno permite considerar a força de trabalho de forma abstrata e

distribuição, da troca e do consumo, onde a mais-valia é realizada geral, possibilitando o cálculo econômico imprescindível à instauração e expan-
são do sistema de produção capitalista. Por isso Marx constata que "aí o tra-
ao nível do mercado. Cumpte considerar que a base do mercado, da balho tornou-se não só no plano das categorias, mas na própria realidade, um
troca do excedente econômico, é a divisão técnica e social do trabalho meio de criar a riqueza em geral e deixou, enquanto determinação, de cons-
que na sociedade burguesa atingiu uma amplitude e diversificação tituir um todo com os indivíduos, em qualquer aspecto particular". Karl Marx,
nunca antes alcançadas. Esse processo induz a uma extensa generali- "Introdução à Crítica da Economia Política", in Contribuição à Crítica de Eco-
nomia Política, São Paulo, Martins Fontes, 1983, p. 222.
38Ver, nesse sentido, Geoffrey Kay, Desenvolvimento e Subdesenvolvimento,
35 Idem, ibidem, pp. 183-188. Uma Análise Marxista, Rio de Janeiro, Civ. Brasileira, 1977, pp. 29-34,

... .
ESTADO E IDEOLOGIA 233
232 ALAOR C~ ALVES

{estam através de intercâmbios culturais e ideológicos dos grupos


da vida econômica e comunitária e ao formar a ruidosa esfera da
raciais, religiosos, culturais, etários, familiares, regionais, nacionais,
circulação onde as formas tradicionais de troca são definitivamente
etc. Vê-se, por esta linha, em nosso entender, que não se pode consi-
eliminadas. 39
derar pura e simplesmente a dicotomia entre Estado e sociedade civil,
O capitalismo, como um sistema de troca generalizada de mer-
compreendendo-se esta como um bloco uniforme, sem a necessária
cadorias, supõe a existência destacada da esfera da circulação, a qual
discriminação entre a esfera da produção, representativa de núcleo
se pode considerar como função mediadora entre a instância da pro-
estrutural econômico, e a esfera da circulação, em que se realiza a
dução e as relações sociais da comunidade civil, fazendo parte inte-
maior parte das relações sociais de caráter coletivo, comunitário ou
grante de ambas e tendo, ao mesmo tempo, caráter relativamente
intersubjetivo e que vincula organicamente as esferas da produção e
autôttomo. 40 Se uma teoria de classe baseada apenas nas relações de
do poder político. 4 1
mercado, como concebe Weber, não pode ser correta, visto que expri-
.me somente as formas fenomenológicas das reais relações subjacentes
da produção capitalista, várias questões substanciais, entretanto, rela- 41 Nesse sentido, o conceito de sociedade civil, a nosso ver, não compreende
a totalidade do momento econômico, embora faça conexão dialética com esse
cionadas com a existência e autonomia da sociedade civil, com a luta
momento mediante a incorporação da esfera da circulação. A sociedade civil,
de classes e com a separação aparente do poder político em relação porém, ultrapassa as determinações econômicas no que respeita às relações de
ao processo produtivo, não podem ser adequadamente explicadas sem troca, distribuição e consumo, para abranger outras determinações que também
apontar para a esfera da circulação mercantil, onde ocorrem a distri- não se identificam com as relações de produção ou com as relações políticas.
buição, a troca e o consumo da riqueza social (bens e serviços) . Nessa Aqui observamos a relativa autonomia da sociedade civil em face do econô-
mico e do político. Nessa formulação, cumpre notar a distinção entre essa
esfera, os grupos ou setores proletários, capitalistas ou . de classe média
concepção e a de Marx para o qual a sociedade civil abarca o conjunto das
entram em confronto para a manutenção ou expansào de seus respec- relações materiais dos indivíduos no interior de um determinadÕ estádio de
tivos interesses, utilizando todas as formas e condições permitidas pelos desenvolvimento das forças produtivas, encerrando o conjunto da vida comer-
mecanismos do mercado, inclusive a pressão, negociai ou de força, cial e industrial existente numa dada fase e transcendendo, por isso mesmo, o
consentida nos limites do sistema, a partir de bases associativas ou Estado e a nação, embora, por outro lado, tenha novamente de se afirmar em
relação ao exterior como nacionalidade e de se organizar em relação ao inte-
sindicais, com vistas a obterem vantagens setoriais, melhores salários
rior como Estado (La Ideologia A/emana, op. cit., p. 70). Assim, a sociedade
ou maiores lucros. Na esfera da circulação inclui-se também a face da civil, ·para Marx , se identifica com a estrutura, excluindo as expressões ideo-
sociedade civil que exprime, para além do mundo das necessidades lógicas superestruturais. A anatomia da sociedade civil deve ser procurada na
individuais, o conjunto de práticas sociais estruturadas e instituciona- economia política, ou seja, no conjunto .das relações de produção (Contribuição
lizadas, reveladas pelas relações não imediatamente redutíveis às f'orças à Crítica da Economia Política, Prefácio, op. ci., p. 24). A concepção que ado-
tamos se aproxima da de Gramsci. no sentido em que a sociedade civil abrange
de produção dominante ou às forças políticas, relações que se mani-
o momento superestrutura!, com a ampliação de seu significado incluindo as
relações ideológico-culturais, mas não perde seus vínculos com o momento es-
39 Ver, nesse sentido, Gilberto Mathias e Pierre Salama, O Estado Superde- trutural através da esfera da circulação, parte em que se aproxima da de
senvolvido, São Paulo, Brasiliense, 1983, pp. 19-23. Marx. De qualquer forma, vale aqui a mesma observação feita por Bobbio, ·
40 Para uma compreensão aprofundada das relações dialéticas entre as esferas ao comentar a relação entre Marx e Gramsci, de que não cabe ao Estado re-
da produção e da circulação, compreendendo, esta última, o consumo, a dis- presentar o momento ativo e positivo do desenvolvimento histórico - como
tribuição e a troca, ver Karl Marx, "Introdução à Crítica da Economia Polí- em Hegel - , mas dela nos distanciamos na medida em que consignamos a
tica", op. cit., pp. 201-217. A concepção pela qual se coloca a esfera da cir- dinâmica histórica a partir de uma relação de "interioridade" entre estrutura e
culação como base da relativa autonomia tanto da sociedade civil quanto do superestrutura, entre sujeito e objeto. Para uma análise da questão, ver o texto
Estado, refugindo ao esquema da ortodoxia marxista, é desenvolvida por John de Norberto Bobbio, O Conceito de Sociedade Civil, Rio de Janeiro, Graal,
Urry, in Anatomia das Sociedades Capitalistas, Rio de Janeiro, Zahar, 1982, na 1982. Ver, também, N. Bobbio e M. Bovero, Società e Stato Nella Filosofia
qual nos fundamentamos em grande parte nos argumentos a seguir.

.. .
..____ ___
234 ALAOR CAFFÉ ALVES ESTADO E IDEOLOGIA 235

Na sociedade de produção industrial, o produto do trabalho ex- da mesma forma que não é aceitável a redução das inúmeras práticas
cedente assume a forma de mercadoria, de valor de troca fundado na das formações sociais às relações de produção e cto Estado. Fora das
relação de igualdade formal entre os sujeitos proprietários - do relações produtivas e das relações políticas, há também o espaço aberto
capital ou da força de trabalho - , que deverá ser concretizada no aos processos nos quais os indivíduos se constituem como sujeitos
âmbito da circulação econômicà, onde se realiza a mais-valia. O campo configurados em razão dos apelos do sexo, da religião, da faixa etária,
da circulação, nesse sistema, d_eve ser separado do da produção, e dos costumes, do grupo étnico, da comuna, da nacionalidade, etc. Esse
isto é um carolário da exclusão do produtor direto da posse ou éontrole espaço forma a sociedade civil, permeada pela esfera da circulação,
dos instrumentos e outros meios de produção. Sem a esfera da circula- vinculada esta, por sua vez, de modo dialético, ao processo produtivo.
ção, o detentor do capital não pode realizar o produto do trabalho A análise· da dinâmica social capitalista nos leva a considerar
· excedente sob a forma de valor. Eis porque, em sentido amplo, a a importância da circulação na formação da sociedade civil e de sua
estrutura das relações sociais compreende a produção e a circulação, relativa autonomia em face da sociedade política estatal. O exame da
cujos processos se perfazem numa unidade de contrários, onde os criação do excedente econômico e de sua realização sob a forma de
elementos se implicam e se excluem mutuamente. Assim, na sociedade valor nos ajudará na compreensão desse processo. A mais-valia não
capitalista, as relações de produção não podem subsistir e se repro- pode ser gerada na esfera da circulação; é apenas realizada através
duzir .sem uma esfera separada de troca, relativamente autônoma, dela e na qual encontra também as formas indispensáveis ao seu ocul-
onde se compra a força de trabalho e se realiza a mais-valia mediante tamento. Assim, ao mesmo tempo que torna a exploração invisível, a
o intercâmbio do produto excedente.
circulação é necessária à reprodução do capital, visto que a mais-valia
A nosso ver, a relativa autonomia da esfera da circulação con- não se pode realizar separadamente dela. O paradoxo do incremento
diciona também ·a relativa autonomia da sociedade civil e da comu- do. capital através da troca de equivalentes no mercado resolve-se
nidade política estatal. O Estado atua na esfera da circulação - não pela análise da circulação, onde se descobre uma mercadoria singular
deixando também de fazê-lo na esfera da produção - num movimento - a força de trabalho-, que, ao ser utilizada no processo produtivo,
dialético, para manter as C'Ondições gerais da reprodução e acumulação gera valor. Com efeito, apesar de a compra e a venda de mercadorias,
ampliada do capital, garantindo a proporção adequada das relações de inclusive da força de trabalho, serem feitas de acordo com seu valor,
distribuição, de troca e de consumo nos termos e limites da produção colhe-se mais valor da circulação do que o que se colocou no início
capitalista, com intervenções moderadoras, restritivas, estimuladoras do processo. Isso ocorre exatamente porque o trabalh'O cria excedente,
ou reformadoras. Entretanto, não se pode reduzir essas relações ao ou seja, produz mais do que consume; é fonte de val0r. 42 Porém, o
conjunto de práticas sociais que formam a comunidade civil, visto que o proprietário do dinheiro compra, na esfera da circulação, não é
que tais práticas abrangem muitos outros valores, instituições e pro- o trabalho em si mesmo, na sua forma específica, concreta e viva, só
cedimentos sociai:s, além de se distinguirem das relações e forças de manipulável hierarquicamente no âmbito da produção; ele compra
produção (estrutura) e da sociedade política (superestrutura), a des- apenas a força de trabalho cuja disposição no mercado se . faz sob
peito do transpasse existente entre elas. Por esse enfoque se pode determinadas condições fundamentais: a primeira é que o trabalhador
concluir que a produção e o Estado, ou seja, o processo econômico deve ser um livre proprietário de sua força de trabalho, podendo dispor
produtivo e as relações políticas, não podem ser reduzidos, como o
faz a Sociologia acadêmica, a simples elementos da sociedade civil,
42 Isso ocorre exatament.e porque ·o valor da força de trabalho se determina
pela quantidade de trabalho necessário para sua conservação, ou reprodução,
Política Moderna, Mode/lo Giusnaturalistico e Modello Hegel-Marxiano, Miião, mas o uso desta força só é limitado pela energia vital e pela força física do
11 Saggiatore, 1979. operário" . Cf. K. Marx, Salário, Preço e Lucro, op. cit., p. 88.

..
236 ALAOR CAFm ALVES
ESTADO E IDEOLOGIA 237

dela, ao menos aparentemente, como quiser, quando e onde achar


micas' são vividas como competição individual entre trabalhadores e
conveniente e sob condições de igualdade perante a léi, mediante capitalistas". 44 Surge, então, o interesse privado de cada um contra-
contrato livremente pactuado; a segunda é que esse trabalhador não posto ao interesse público de todos. No plano das relações mercantis,
deve possTJir meios de produção que lhe permitam produzir e trocar cada pessoa, definida em sua singularidade e tendo o mesmo status
suas próprias mercadorias; essa separação entre o trabalhador e os jurídico de todas as demais, se coloca como proprietária que vende o
meios de produção obriga-o; para poder subsistir, a vender ao proprie- que possui (força de trabalho ou outras mercadorias), agindo em seu
tário do dinheiro sua única mercadoria: a força de trabalho. 43 Nesse interesse próprio, ou seja, no interesse privado que cada uma tem
quadro, pode-se observar, a par do éOnstrangimento econômico real, para, na troca, obter o que outra pessoa possui. Assim, n~ mercado,
a existência da "liberdade econômica" juridicamente protegida na cada indivíduo dá importância ao outro pelo que este tem para trocar,
medida em que vendedores _e compradores possuem, como sujeitos objetivando a satisfação de seu próprio interesse; em última instân-
formalmente iguais, a capacidade de vender e comprar livremente, sem cia, serve ao outro somente para servir-se a si mesmo. Vê-se, por esse
que para isso sejam politicamente constrangidos a entrar num mer- procedimento generalizado, que as práticas mercantis acabam por se
cado determinado, para vender ou comprar determinadas mercadorias. difundir e passam a condicionar os fundamentos materiais da igual-
As relações de intercâmbio estabelecidas entre esses sujeitos econô- dade e da liberdade individuais. Isso significa que através das transa-
micos são também simétricas, visto que a troca se realiza entre merca- ções voluntárias na e"sfera da circulação, cada indivíduo separadamente
dorias equivalentes; de um lado, a força de trabalho e, de outro, o procura realizar seus próprios interesses, sem que para isso seja
salário, que é -a expressão do equivalente em dinheiro do valor das constrangido politicamente - o que não exclui o constrangimento
mercadorias necessárias a sua permanente reposição. - econômico difuso - , apenas contando com a proteção da lei que
Neste plano e avançando também para o lado da sociedade assegura sua liberdade e igualdade como sujeito jurídico para pactuar
política, verificamos que os agentes sociais se enfrentam numa relação nas trocas e exigir, mediante procedimentos judiciais adequados, o
formal de liberdade e igualdade,. onde a individualidade é de funda- equilíbrio formal eventualmente rompido por abuso ou coerção ilegal.
mental significação, tanto para configurar os sujeitos jurídicos da Cada indivíduo, portanto, é considerado como um sujeito pleno e
relação contratual e da relação política, com seus papéis definidos, completamente responsável por sua conduta, devendo ser punido se
como para concretizar a atomização social indispensável para fazer violar a lei. A norma legal constrói o sujeito plenamente responsável,
sobressair o caráter voluntário da conduta de cada homem nesse pro- como uma totalidade autônoma, existente por si mesmo, projetando-o
cesso. Desse modo, "embora haja dentro do nível econômico uma imaginariamente como autor absoluto de suas próprias ações. Por esse
concentração do capital e a socialização do processo produtivo, no modo, o ordenamento jurídico regula a forma das intenções entre os
nível jurídico-político-ideológico (sociedade civil e sociedade política), indivíduos e entre estes e outros sujeitos legalmente constituídos. O
os agentes de produção são constituídos como 'indivíduos-sujeitos' poder, sob o império da lei despersonalizada, aparece igualmente des-
políticos (cidadãos) e jurídicos (pessoas naturais de direito), destituí- _ personalizado, induzindo os indivíduos à -crença de que são cidadãos
dos de sua determinação econômica e de sua condição de membros isolados, submetidos a formas racionais e simbólicas mais do que a
de uma classe. Em conseqüência, as_relações de classe, neste_nível, indivíduos concretos, grupos ou classes. Isso significa que um dos
não são vividas como tal, mas como lutas fragmentadas e atomizadas efeitos do ordenamento jurídico positivado é exatamente o de frag-
entre os indivíduos. Como efeito do nível jurídico-político-ideológicó mentar, ao nível da aparência fenomênica, as relações de classe, ao
sobre o econômico, as relações que de fato são 'relações sócio-econô- constituir e reconhecer somente sujeitos jurídicos individuais ou grupos

43 Idem, ibidem, p. 86-7. H Cf. John Urry, op. cit., ampl. e melh., p. 23 (grifo nosso) .

..
238 ALAOR CAFF:J!j ALVES ESTADO E IDEOLOGIA 239

associativos cujos membros integrantes sejam perfeitamente identifica- Nesse sentido, o âmbito da atomização individualista, caracte-
dos individualmente. Desse modo, as instituições da sociedade burgue- rizado pela igualdade e liberdade formais dos sujeitos no plano da
sa passam a se organizar em torno dos princípios da liberdade e da circulação, pela reprodução da força de trabalho, pela livre associação,
igualdade dos "indivíduos" ou "pessoas políticas" (cidadãos). A legi- pelos agrupamentos voluntariamente institucionalizados, pelo jogo dos
timidade da organização política dessa sociedade, na forma do Estado, grupos sociais em conflito, pelo comércio de produtos e serviços entre
funda-se na garantia da troca de atividades ou bens, com a aparente os homens, pelo pluralismo e diversidade das formas culturais, etc.,
reciprocidade equilibrada ou . proporcional entre os indivíduos. Ela é demarca precisamente o lugar onde as relações interpessoais têm pre-
obtida mediante o funcionamento das instituições básicas do sistema, dominância e conforma a sociedade civil revelada na riqueza e varie-
as quais na verdade preservam a forma jurídica das relações entre os dade de suas manifestações. 46 Entretanto, ao transpassarmos essa es-
indivíduos em sua expressão singular e abstrata, assegurando, ao fera, ao nos introduzirmos nos subterrâneos da produção, deixamos
mesmo tempo e por conseqüência, a real liberdade geradora das- desi- as relações formalmente livres e iguais da troca individual para o re-
gualdades substantivas, ou seja, das relações concretas estabelecidas encontro das relações estruturais, •onde o consumo da força de trabalho
"voluntariamente" entre eles, segundo, é óbvio, as forças econômicas se realiza sob 'condições de controle e domínio do capital. Estando a
de que efetivamente disponham. A legitimidade do Estado, portanto, esfera da circulação, com seus momentos de distribuição, troca e
está baseada, conforme aduz Poulantzas, "no conjunto dos indivíduos- consumo, vinculada à esfera da produção num circuito dialético em
cidadãos formalmente livres e iguais, na soberania popular e na res- que a unidade se perfaz numa dinâmica contraditória dessas esferas
ponsabilidade laica (ação pública) do Estado para com o povo. O e momentos, observamos que há uma reação recíproca entre eles, de
próprio povo é erigido em princípio de determinação do Estado, não tal sorte que a· expansão de um momento ou esfera determina a
47
enquanto composto por agentes da produção distribuídos em classes alteração quantitativa e qualitativa dos outros e vice-versa. Esse
sociais, mas enquanto massa de indivíduos-cidadãos, cujo modo de
participação em uma comunidade política nacional se manifesta no 4n Consulte, a respeito das relações interpessoais, o capítulo 3 deste trabalho.
sufrágio universal, expressão da "vontade geral". O sistema jurídico 47 A dialética desse processo é analisada por Marx, que chega à seguinte con-
moderno, continua o referido autor, distinto da regulamentação feudal clusão: "O resultado a que chegamos não é que a produção, a distribuição, o
baseada nos privilégios, reveste um caráter "normativo', expresso em intercâmbio e o consumo são idênticos, mas que todos eles são elementos de
um conjunto de leis sistematizadas a partir dos princípios de liberdade uma totalidade, diferenciações no interior de uma unidade. A produção ultra-
passa também o seu próprio quadro na determinação antitética de si mesma,
e igualdade: é o reino da "lei". A igualdade e a liberdade dos indiví-
tal como os outros momentos. O processp começa sempre de novo a partir
duos-cidadãos residem na sua relação com as leis abstratas e formais, dela. Que a troca e o consumo não possam ser o elemento predominante, com-
as quais são tidas como enunciando essa vontade geral no interior de preende-se por si mesmo. O mesmo acontece com a distribuição enquanto
um "Estado de direito". 45 distribuição dos produtos. Porém, enquanto distribuição dos agentes de produ-
ção, ela constitui um momento da produção. Uma forma determinada da pro-
dução determina, pois, formas determinadas do consumo, da distribuição, da
45 Cf. Nicos Poulantzas, Poder Político e Classes Sociais, São Paulo, Martins troca, assim como relações determinadas destes diferentes fatores entre si. A
Fontes, 1977, p. 119 (grifo nosso). O Estado, especialmente na fase atual do produção, sem dúvida, em sua forma unilateral, é também determinada por
capitalismo tardio, fundamenta sua legitimação nos postulados da participação outros momentos; por exemplo, quando o mercado, isto é, a esfera da troca,
universal no prooesso de formação da vontade política e na neutralidade social se estende, a produção ganha em extensão e volume, operando-se nela uma
das intervenções regulativas e das chances de utilizaç~o dos resultados de sua divisão mais profunda. Se a distribuição sofre uma modificação, modifica-se
ação. Cf. Claus Offe, "Dominação Política e Estruturas de Classes: Contribuição também a produção; com a concentração do capital, ocorre uma distribuição
à Análise dos Sistemas Sociais do Capitalismo Tardio", in Estado e Capitalismo, diferente da população na cidade e no campo, etc. Enfim, as necessidades ine-
Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro, 1980, p. 115. r•entes ao consumo determinam a produção. Uma reciprocidade de ação ocorre

.. ..
ESTADO E IDEOLOGIA 241
240 ALAOR CAFF'l!: ALVES

processo não pode, portanto, deixar de influir na configuração da obrigado a contrapor-se às pretensões espoliadoras do capitalista sin-
totalidade social, ficando a sociedade civil caracterizada como um gular em seu movimento imediatista de usurpação egoística e sem
momento dessa totalidade, especialmente localizado na esfera da cir- limites. Nesse sentido, o Estado fixa e toma medidas de controle de
culação onde os vínculos inter-subjetivos, entre indivíduos atomizados, mercado, de condicionamento, fiscalização e segurança do trabalho,
se realizam nos quadros jurídico-políticos garantidores da igualdade e de higiene e saúde, de previdência, educação e assistência social, de
liberdade formais da sociedade burguesa. proteção ambiental, habitação e saneamento básico, de garantias do
Pela abordagem efetuada acima, pode-se observar que a socie- abastecimento e de eficiência dos transportes, etc. E isso ocorre não
dade civil não deve ser especificada e diversificada apenas ao nível exatamente para atender de forma desinteressada e neutra a uma de-
do momento da troca, embora esta possa predominar em certas épocas manda social - como é sua forma costumeira de aparecer ao senso
e em certos lugares. No plano da circulação, encontramos também comum - , mas fundamentalmente para salvaguardar os interesses
os momentos da distribuição e do consumo, momentos estes particu- gerais (e não singulares) do capital coletivamente considerado.
larmente importantes quando se tem em conta especialmente a pro- O que se pode observar, no âmbito de nossa tese, é que o Estado
dução e reprodução da mercadoria força de trabalho, que apresenta é uma forma de organização política não direta e imediatamente origi-
uma curiosa especificidade: a de ser reproduzida no âmbito da socie- nada do processo produtivo, mas que com ele mantém relações internas
dade civil, fora das relações de produção capitalista. Esse fato é singu- essencialmente vinculantes na medida em que promove, no marco de
lar; visto que parte da ação estatal está consignada a garantir a repro- sua própria natureza, as condições apropriadas para a reprodução
dução da força de trabalho, neutralizando de certo modo a tend~cia ampliada da acumulação capitalista. Para garantir essa acumulação, o
de explorá-la até a exaustão, por parte de cada capitalista singular. 48 Estado legisla, organiza e interfere nas esferas da produção e da cir-
Nesse sentido, o Estado passa a representar a "moderação" destinada culação, empenhando-se também, e por conseqüência, no seio das rela-
a manter as condições permanentes de reprodução ampliada do capi- ções heterogêneas da sociedade civil. Entretanto/ é preciso sublinhar
tal, não porque tenha que atender funcionalmente aos requisitos de com ênfase que ele não é uma realidade independente, absolutamente
desenvolvimento de uma economia mais complexa, numa espécie de autônoma, fora das relações econômicas e sociais e a elas sobreposta,
auto-limitação orgânica, nem porque tenha de exercer, dentro de uma mas é precisamente a expressão das contradições inerentes a essas
perspectiva instrumentalista, controle mais eficiente sobre a classe dos relações, figurando como uma estrutura ao mesmo tempo indutora e
trabalhadores, mas exatamente porque se vê obrigado a dar respostas induzida, sempre, porém, dentto dos quadros de hegemonia da classe
às exigências dessa classe, cuja amplitude e conteúdo (dessas respostas) dominante, que lhé emprestam, em última instância, o caráter de orga-
depende do grau de resistência organizada alcançado na luta por nização política para garantir a acumulação capitalista, a valorização
melhores condições de distribuição e de consumo. Por esse processo, do capital.49 Essa acumulação se realiza no plano econômico, pela
obseÍva-se que o Estado é essencialmente a expressão das contradições injunção dialética entre as esferas da produção e da . circulação. Nesta
inerentes ao movimento interno do modo capitalista de produção, visto última, onde se realiz'! com maior intensidade a jnterface entre as
que, sob a pressão organizada da classe operária, contrapõe-se ou é
49 O ponto de referência a respeito do qual se interpreta a autonomia relativa

do Estado é o âmbito dos conflitos de classes. Nesta linha, Poulantzas também


entre os diferentes momentos. Este é o caso para qualquer totalidade orgânica·.
entende por autonomia relativa do Estado moderno "não diretamente a relação
Cf. Karl Marx, Contribuição à Crítica da Economia Política, op. cit., p. 217.
das suas estruturas com as relações de produção, mas a relação do Estado com
Ver, no mesmo sentido, John Urry, op. cit., pp. 42-43.
o campo da luta de classes, em particular a sua autonomia relativa em relação
48 Ver, nesse sentido, um interessante estudo relacionado com o tema, visto
às classes ou frações de bloco no poder e, por extensão, aos seus aliados ou
sob o ângulo aplicado, vinculado à política social no Brasil, da autoria de
suportes". Cf. Nicos Poulantzas, Poder Político e Classes Sociais, op. cit., p. 252.
Alberto Cignolli, Estado e Força de trabalho, São Paulo, Btasiliense, 1985:

.
ESTADO E IDEOLOGIA 243
242 ALAOR CAFF:I!i ALVES

bases econômicas, a sociedade civil e a sociedade política, encontramos Exa'tamente porque a força de trabalho tem características pró-
o momento da troca, em que se enquadram as práticas mercantis prias, inconfundíveis com as das demais mercadorias, . é que podemos
realizadoras (mas não produtoras) da mais-valia, e os momentos da assinalar a singularidade de sua reprodução, visto que as condições
distribuição e do consumo externo à própria produção direta - isso desta reprodução não se identificam com as de outras mercadorias,
porque em sentido estrito existe o consumo produtivo - , que estão e se dão em grande parte na esfera da sociedade civil. Como o vende-
referidos respectivamente à proporção dos ingressos (salários, lucros, dor da força de trabalho é ele próprio portador natural da mesma,
juros, etc.) de cada classe ou fração de classe e às condições gerais não podendo dela se desprender, seu específico interesse na relação de
e específicas de ·reprodução da força de trabalho e do contexto físico- troca que a envolva não é o mesmo do vendedor das outras merca-
estrutural do sistema. Conforme o predomínio das relações de troca dorias. Seu preço está condicionado por circunstâncias diversas e
ou de reprodução , da força de trabalho, calibrado em função da luta específicas relacionadas com a produtividade, com a mão-de-obra de
de classes, teremos implicações diferenciadas nas determinações políti- reserva, com o nível cultural e de instrução das classes trabalhadoras,
cas e programáticas do Estado. Se há a preponderância das relações com a escala dos programas sociais do governo, com o grau de de-
de troca - predominantes na fase do capitalismo concorrencial - , senvolvimento ecoaômico da formação social, com as relações de
as lutas dos diferentes grupos sociais objetivam o estabelecimento de dependência dessa formação em face de outras sociedades estatais
·condições formais de igualdade e liberdade nas trocas (liberalismo capitalistas e, especialmente, com o grau de organização política da
econômico); as relações de intercâmbio predominam sobre as relações classe obreira e •o estado da luta de classes correspondente. ·Por outro
de distribuição e consumo. Evidentemente tais relações de troca jamais lado, como a força de trabalho possui a peculiaridade . de produzir
poderão ser elididas, visto que a transformação do capital-mercadoria mais-valia, seu comprador singular tentará adquiri-la pelo preço mí-
em capital-dinheiro é essencial para a reprodução e acumulação capi- nimo, embora não possa, enquanto membro da classe burguesa) des-
talista. Porém, sob esse ângulo, o reforço à política de intercâmbio se truí~Ia, sob pena de eliminar a real base da acumulação capitalista.51
realiza através da manipulação e fortalecimento pelo Estado de meca- Essa vigilância, entretanto, é feita através dó Estado, sob a pressão mais
nismos destinados a assegurar a forma de "pagamento" em dinheiro, ·ou menos organizada da classe operária. Com efeito, os trabalhadores
e em termos de favorecimento mercantil, de todos os benefícios vin- têm de lutar para manter as condições de reprodução da sua força de
culados às relações (predominantemente voluntárias) entre indivíduos trabalho em níveis compatíveis com as possibilidades oferecidas pelo
e gtuPPS e entre estes e o próprio Estado - sob a forma de tarifas, sistema e pelo grau de desenvolvimento das forças produtivas. Vê-se,
seguros-desemprego, benefícios de saúde, auxílio-educação, empréstimos assim, que tanto a esfera do capital quanto a do trabalho têm inte-
ofiicais, crédito-assistência, serviços públicos sob contratos de conces- resse na reprodução da força de trabalho, numa relação dialética onde
são, subsídios regionais, locais, setoriais, etc. 5{) A tendência é, por- o antagonismo entre o trabalhador e o capitalista dá ao mesrrto tempo
tanto, robustecer tod'os os meios e instrumentos orientados para a linha ensejo, em um movimento de unidade dos contrários, à identidade
do liberalismo econômico, consignando a predominância do valor de de interesses na manutenção e reprodução daquela força; um, com
troca, com fracas restrições ou reduzido controle sobre os procedi- vistas à sobrevivência digna; o outro, com o objetivo de garantir a
mentos mercantis de qualquer espécie e, particularmente, com escassa acumulação ampliada do capital.
intervenção no âmbito da reprodução da força de trabalho. Aqui , A luta em prol da valorização da força de trabalho pode fazer
portanto, há prevalência das políticas estatais vinculadas à mercadoria, deslocar o eixo da política do Estado no sentido de comprimir a in-
ao valor de troca. fluência da relação entre vendedores e compradores, em que há pre-

nO Ver, nesse sentido, John Urry, op. cit., p. 132-133. ;;1 Idem, ibidem, p. 119-120.

'·}I
244 ALAOR CAF'Fll: ALVES
ESTADO E IDEOLOGIA 245

dominância da relação formal de igualdade e liberdade no âmbito do


e grupos de pressão de toda sorte. 53 Esse quadro leva a mudanças
mercado, em favor da maior ênfase colocada na distribuição dos salá-
nas formas de ação e nas políticas do Estado, especialmente dirigidas
rios e da mais-valia e no consumo seletivo de bens e serviços. Natu-
ao maior· controle sobre o que é produzido e sobre a distribuição e
ralmente, esse processo deve se dar nos limites da lei interna do sis-
consumo da riqueza social. Isso significa que não há mais o predo-
tema, que, em estágios mais avançados do capitalismo, a tendência
mínio das relações de troca, havendo em paralelo o estabelecimento
à queda da taxa de lucro surge no bojo de uma série de crises de
de políticas que implicam o suprimento, pelo Estado, de valores de
realização da maiscvalia, determinando um progressivo e orgânico en-
uso coletivo, com vistas a manutenção, em última instância, do sistema
volvimento estatal nas esferas da produção e da circulação mercantil
de reprodução e acumulação ampliada do capitaJ.5 4 Essa é a explica-
e propiciando maior ênfase na distribuição so,,ial das rendas e na
ção das diversas formas de ação econômica ·e política estatais, . no que
manutenção e aumento seletivo do cons1.'11l0. NJ.· medida em que o
respeita à manipulação do sistema financeiro para favorecer áreas
capital se socializa, com o auménto de sua concentração e centraliza-
especiais da produção; à adoção seletiva de políticas tributárias e
ção, com a monepolização crescente, as unidades individuais de capi-
parafiscais; ao controle das condições de trabalho e do sistema pre-
tal não são suficientes para assegurar a reprodução do sistema apenas
videnciário; à criação de mecanismos especiais de crédito, de estí-
através de processos de intercâmbio. Nesse momento, o Estado é indu-
mulos às inovações tecnológicas e de subsídios para múltiplas funções
zido ao controle cada vez mais amplo e intenso sobre a vida econô-
econômicas e sociais; à intervenção direta em determinadas áreas
mica, propiciando as condiçõ~s para o aparecimento do capitalismu
econômicas estratégicas para garantir a continuidade da acumulação
monopolista de Estado, que é o indício claro da Impotência do capital
do capital, além de outras políticas ligadas à ação social do Estado,
para, só com · suas próprias forças, cuidar da autovalorização. Assim
não só no âmbito da infra-estrutura urbana - ordenamento do solo,
sendo, esclarece Estevam Martins, "dizer que o processo de monopoli-
equipamentos urbanos, habitação, saneamento básico, etc. -.como
zação p'rogressiva, ao incluir a intervenção motora e direcionadora do
também no âmbito dos serviços e atividades públicas e de utilidade
Estado, deixa de ser uma obra exclusivamente realizada pela luta
pública, tais como saúde, higiene, educação, instrução técnica, assis-
entre os capitais individuais em concorrência, é o mesmo que dizer
tência social, abastecimento, transportes e segurança pública. 5 5
que, no capitalismo de Estado, ó capital não se basta para se repor
Por tudo o que foi exposto, é possível assinalar que as relações
a si mesmo. E isso na exata medida em que co-divide com o Estado
capitalistas de dependência, alienação e antagonismo somente podem
a funçãp de recriar as condições monopolistas, particulares .e internas
ser preservadas e reproduzidas em razão da hegemonia que as classes
do prosseguimento da acumulação capitalista". 52 Todo o sistema passa ou frações de classes dominantes exercem através do aparelho estatal
a exigir, desse modo, a mobilização permanente de fatores externos e da sociedade civil. Isso não quer dizer, entretanto, que o Estado
que n_ão se enquadram especificamente na lógica do capital singular. esteja impedido de exprimir, além dos interesses predominantes da
Assim, o contexto econômico-social se amplia de forma tão significa-
tiva que, para manter o processo de reprodução e acumulação capita-
c.a Para uma análise sobre as técnicas de atuação do Estado no e sobre o
lista, tornam-se indispensáveis a intervenção, a direção, o controle e domínio econômico, ver Eros Roberto Grau, "Elementos de Direito Econômi-
a participação econômica do Estado, cujas diretrizes e políticas se co", São Paulo, Revista dos Tribunais, 1981, pp. 58·81. Ver, também, Alberto
movimentam e se especificam também e principalmente em função v .enâncio Filho, A Intervenção do Estado no Domínio Econômico, Rio de
Janeiro, Fundação Getúlio Vargas, 1968, pp. 5-19.
das formas coletivas de luta,. através de sindicatos, partidos políticos
?\4 Ver John Urry, op. cit., pp. 129-132 .. Ver, também, Jean Lojkine, O Estado
Capitalista e a Questão Urbana, São Paulo, Martins Fontes, 1981, pp. 124-136.
52 Cf. Carlos Estevam Margins, op. cit., p. 36. nn Ver Jürgen Habermas, A Crise de Legitimação no Capitalismo Tardio, ·Rio
de Janeiro, Tempo Brasileiro, 1980, pp. 47-52.
J
246 ALAOR CAFFÉ ALVES ESTADO E IDEOLOGIA 247

burguesia, alguns interesses de outras classes; ao contrário, isso ocorre Estado enquanto permanente garantidor da reprodução das relações
exatamente porque os interesses refletem um processo dialético num capitalistas de produção e a contínua emergência de um regime polí-
quadro de relativa ambigüidade, de sorte que a luta por e a satisfação tico, que, pela ação das classes sociais em conflito, pode aproximar-se,
de certos interesses das classes subordinadas não deixam de repre- identificar-se ou afastar-se das condições mais apropriadas à repro-
sentar simultaneamente e de. certo modo a satisfação de interesses da dução das relações de exploração num determinado período histórico e
classe hegemônica. Se uma classe não pode ganhar sem prejuízo de dentro de uma certa conjuntura econômica (empiricamente verificável)
outra, não pode também pretender ganhar tudo sob pena de tudo e,. ainda, segundo a lógica interna do sistema. Assim, observa-se uma
perder, com à possível aniquilação da classe usurpada e, por conse- contradição entre as formas mais democráticas que assume o Estado,
qüência, com a destruição de si mesma. No plano empírico, esses em razão da luta de classes no interior da sociedade civil, e a necessi-
interesses de classe refletem-se nas diversas formas sob as quais a dade de reproduzir o capital nas melhores condições possíveis, com o
estrutura estatal se manifesta, mediante regimes políticos diferencia- objetivo da autovalorização máxima. Por isso se compreende que "a
dos. Aqui é preciso ter o cuidado de não se interpretar a existência emergência de um regime político do tipo 'Frente Popular', 'Unidade
do Estado como uma região formal destacada do mundo fenomênico Popular', etc. possa tornar difícil a reprodução da relação de explo-
através do qual ele se manifestaria. Não existe um Estado em si, como ração, caso se desenvolva um movimento de massa de grande ampli-
um universal abstrato, sempre igual a si mesmo, para depois vir a tude. Constata-se aqui a contradição entre a necessidade objetiva de
lume no plano dos embates políticos e da luta de classes na sociedade reprodução do capital e da relação social subjacente, por um lado, e,
civil. A ordem lógica contém uma dimensão ontológica, visto que é por outro, a dificuldade concreta de materializá-la. Essa contradição
objetivamente produzida e continuamente reproduzida, negada e trans- é, assim, o produto das formas que a luta de classes assume e de
formada pelas relações entre os homens. Nesse sentido, o Estado deve sua intensidade". 57 Desse modo, o regime político, exprimindo a forma
ser compreendido como um universal concreto, onde as determinações fenomênica pela qual o Estado transparece, varia de conformidade
de sua existência e de sua forma política, através dos regimes políticos com a situação histórica e o caráter e intensidade da luta de classes,
que assume, são parte inerente de sua própria compreensão como segundo a conjuntura das forças econômicas e políticas em jogo em
categoria histórica mais aprofundada e mais expressiva do real con- um certo período histórico de determinada formação social. Em razão
creto.00 O regime político, como forma pela qual o Estado existe, faz dessa conjuntura, a burguesia, apoiada ou não pelo bloco no poder,
parte de sua dinâmica interna, como resultado das lutas sociais indu- se vê em muitas ocasiões, por suas frações e setores, obrigada a transi-
toras da divisão da sociedade em classes antagônicas. Por essa razão, gir exatamente para persistir e dar continuidade ao processo de acumu-
a natureza de classe do Estado inclui, de modo inevitável, a expressão lação capitalista. Dentro de circunstâncias específicas, ao fazer con-
que o;; segmentos sociais antagônicos tomam no processo de suas cessões ao proletariado, ao trabt.llhador rural ou à classe média, a
próprias lutas na sociedade civil, configurando a diversidade de regi- burguesia demonstra precisamente, ao sabor de uma aparente debili-
mes políticos emergentes de conjunturas históricas diferenciadas. Há, dade, o poder hegemônico que exerce sobre toda a sociedade. Natural-
naturalmente, no interior desse processo uma tensão dialética entre o mente, isso não acontece de forma harmônica ou tranqüila, assumindo
muitas vezes o caráter de "crise' do sistema político, com descom-
n6 Para uma compreensão mais aprofundada desse modo dialético de aborda- passos acentuados entre as forças políticas das diferentes frações e
gem, ver o conhecido texto de Marx, sob o título "O Método da Economia setore~ da burguesia e das demais classes ou frações de classes,
Política", in Introdução à Crítica da Economia Política, op. cit., pp. 218-226. repercutindo · nas relações entre os diversos grupos e segmentos da
Ver, também, a crítica ao althusserianismo, a propósito do conceito de classes
em Poulantzas, feita por Fernando Henrique Cardoso, O Modelo Político Bra-
sileiro, São Paulo, Difusão Européia do Livro, 1972, pp . 104-122. ã7 Cf. Gilberto M~tthias e Pierre Salama, op. cit., passim, p. 16.
. 248 ALAóR CAFFÉ ALVES
ESTADO E IDEOLOGIA 249

sociedade civil, entre a cidade e o campo e, inclusive, nas relações tica e ideológica para viabilizar a exploração econômica, reproduzida
internacionais. em níveis de tolerância ou aceitação espontânea pelo proletariado,
Para que esse fenômeno se dê com relativa autonomia, -é indis- quanto a luta deste último, na sociedade civil ou no interior do próprio
pensável que o Estado não se apresente como algo externo ao capital, aparelho estatal, para a preservação e ·valorização da força de trabalho
ao mesmo tempo que a ele não pode ser reduzido. Isso significa que em razão de seus interesses vitais. Desse modo, como reflexo da
o Estado, exatamente para representar o garante da continuidade das própria hegemonia burguesa e como condição de sua sobrevivência, o
relações de produção capitalista, não pode se confundir com nenhum Estado aparece destacado da sociedade civil e exprime a parcial e apa-
capital individual, ou seja, ele deve garantir, sob pressão também das rente conciliação dos interesses das classes antagônicas, como fautor
classes subalternas, que não haja uma sujeição total dos trabalhadores da "coesão" social. É precisamente por essa prática de conciliação -
aos capitalistas individuais, sob pena de se eliminarem as relações realizada de forma ativa e tensa em virtude da luta de classes -
de mercado que são a condição de possibilidade da reprodução do que os interesses das classes subalternas são subjugados aos da bur-
próprio sistema. O Estado assegura, nesse sentido, a tensão contradi- guesia, permitindo a reprodução ampli'ada do capital ao mesmo tempo
tória entre as condições gerais de sobrevivência qualificada e liberdade que evita o aguçamento das contradições para além dos limites supor-
formal do trabalhador, com b objetivo de mantê-lo vivo, preparado e táveis pelo sistema.
"livre" para vender sua força de trabalho na esfera da circulação, As questões que foram postas em relevo apontam para a contra-
mediante troca de equivalentes, e a sua não-liberdade real, que, por dição cada vez mais profunda entre a exigência da sociabilidade es-
efeito do constrangimento econômico difuso, obriga-o a sujeitar-se à sencial decursiva do processo produtivo, onde os homens não são
esfera hierárquica da produçãb, onde ocorre a "t~oca desigual" em "operacionais" senão enquanto estejam organicamente associados em
virtude da apropriação da mais-valia pelo capital. 58 A dominação suas ações geradoras das condições materiais da vida social (no capi-
política e a apropriação econômica formam uma unidade dialética cujo talismo é progressiva e intensa a socii:llização das forças produtivas) ,
processo hegemônico revela a exigência de preservação e exploração e a atomização individualista de seus interesses na esfera da circula-
, continuada da força de trabalho e não, é óbvio, de sua extinção. Nesse ção, da sociedade civil, onde. os homens não são "operacionais" senão
processo funcionam tanto a estrutura estatal que mantém, como sua enquanto fragmentam suas ações em unidades voluntárias e subjetivas
função primordial e em nome do capital em geral, a dominação polí- para possibilitar o intercâmbio aberto entre o capital e o trabalho, em
termos de liberdade e igualdade formais (com a prevalência do
58 Margareth Wirth aponta com muita propriedade essa relação: "A contra- instituto do contrato). Entretanto, o individualismo (a liberdade pes-
dição entre liberdade formal do trabalhador enquanto proprietário da merca- soal) na esfera da sociedade civil não pode ser tão desagregador, com
doria e sua não-liberdade real enquanto produtor de mais-valia em benefício o aprofundamento dos interesses egoísticos, a ponto de comprometer
do capital tende a se resolver por si mesma: a) seja enquanto expropriação dos
á indispensável sociabilidade exigida na esfera da produção, tendo
expropriadores, na supressão da relação capitalista, mediante a eliminação da
separação .entre produtores e meios de produção; b) seja, ao contrário, mediante ern vista não só a manutenção das condições de reprodução da vida
a sujeição· totiil do trabalhador, ou seja, do não-proprietário dos meios de material da sociedade, como também a preservação das relações
produção (livre e assalariado), ao possuidor de dinheiro. Se os capitalistas in- específicas que permitem a exploração do trabalhador e a acumulação
dividuais podem sujeitar totalmente uma parte dos trabalhadores, o mercado
privada do produto. social. Isso implica a organização da esfera polí-
tende a desaparecer, mas - com isso - também a condição de reprodução do
capital como tal'". O Estado ·obstaculiza o desenvolvimento desse duplo pro- tica de forma aparentemente destacada para resgatar com legitimidade,
cesso. É o garante da perenidade das relações de produção." Cf. M. Wirth, no plano ~a ordem pública, com expedientes jurídicos e ideológicos
apud Gilberto Mathias e Pierre Salama, op. cit~, pp. 25-26. apropriados, a unidade perdida em favor do intercâmbio social indi-
ALAOR C.AFFJ!j ALVES
ESTADO E IDEOLOGIA 251
250

vidualista, no âmbito da sociedade civit.6 9 Porém, nesse nível político, de um lado, como membro imaginário de uma irreal universalidade,
o resgate da socialidade não se dá de forma real, tal como ela ocorre, como cidadão ou homem público do mundo do "dever ser", e, de
de certo modo, no âmbito material da produção, visto que deve outro lado, como ser integrante das relações da vida civil, da vida
absorver a individualidade na forma da cidadania voluntariamente privada como verdadeira vida que aparece impulsionando seus reais
exercitada (através do voto popular), qualificada ainda como massa interesses e que lhe permite viver como homem particular no mundo
de indivíduos atomizados e abstratamente considerados, ou seja, inde- do "ser".
pendentemente das respectivas condições econômicas e da conseqüente O homem da vida privada é o homem egoísta, objeto de certeza
situação de classe. Com esse processo, o Estado passa a ter, como imediata, que se vê a si mesmo como objeto natural. Assim, ele "se
fundamento de sua própria legitimidade, um caráter de representação conduz, em relação à sociedade burguesa, ao mundo das necessidades,
social aparentemente dissociado dos antagonismos de classe, refletindo, do trabalho, dos interesses particulares, do direito privado, como se
de forma ideológica, o lugar público ideal que orienta e limita a ação estivesse frente à base de sua existência, diante de uma premissa que
dos indivíduos para permitir a conciliação entre os interesses coletivos, já não é possível fundamentar e, portanto, como frente à sua base
necessários à continuidade da produção material da vida social, e os natural. O homem, enquanto membro da sociedade burguesa (sociedade
interesses particulares de caráter estrutural, indispensáveis à perma- civil), é considerado como o verdadeiro homem, distinto do cidadão,
nência das relações de exploração do homem pelo homem. Entretanto, por se tratar do homem em sua existência sensível e individual ime-
como o Estado não pode revelar com clareza a sociabilidade real diata, ao passo que o homem político é apenas o homem abstrato,
existente no plano da produção ou das forças produtivas, sob pena artificial, alegórico, moral. O homem real só é reconhecido sob a forma
de revelar igualmente as contradições emergentes das relações de de indivíduo egoísta; e o homem 'verdadeito', somente ~ob a forma de
produção inerentes àquelas mesmas forças produtivas, e como também cidadão abstrato".~() Por isso, a sociedade civil e o Estado, ao se
não pode, o Estado, proteger plenamente a socialidade com exclusão dissociarem, desdobram o homem como ser social e como ser político,
dos fatores que a negam estruturalmente, sob pena de destruir as divorciando, no seio da mesma pessoa, a vida individual, porém
bases da sociedade burguesa e também a si próprio, ele se apresenta empírica e mundana, e a vida universal, genérica, porém ideal e
exatamente com'O uma instância que resgata o público ao nível do abstrata. A sociedade burguesa transformou os homens, enquant'O liga-
imaginário. Por isso, no giro das práticas· sociais, permanecem a dos à produção material e à vida civil, em indivíduos egoístas, atomi-
sociedade civil e o contexto produtivo, que de certo modo ela também zados e articulados entre si de modo. externo, porém enquanto entes
resguarda e mascara, como o verdadeiro mundo onde os homens se vinculados à vida pública comt> cidadãos, em seres universais e abstra-
relacionam de forma mais imediata, atendendo aos seus autênticos tos, relacionados numa comunidade interna de valores compartilhados.
intere·sses individuais. O · Estado é uma instância política que resulta Desse modo, no âmbito estatal, no plano da sociedade política, o
da prática dos indivíduos-cidadãos, os quais por sua parte não podem homem se caracteriza como um ser abstrato e formal, como um
igualmente deixar de ser, ao mesmo tempo, indivíduos produtores e homem imaginário ou ideal; no âmbito das necessidades vitais, da
vendedores no plano das relações de produção e das relações mer- práxis cotidiana, isto é, no plano da sociedade civil, em contraste,
cantis. Orientados segundo os reais interesses egoísticos que prevale- o homem aparece como um ente real, porém com uma existência
cem n~ esfera civil, observa-se, então, nas práticas sociais e políticas, egoísta e fragmentada. Nessa linha se pode, então, compreender a
uma verdadeira cisão do homem consigo mesmo, uma ruptura dele, ruptur.a do homem consigo mesmo de tal sorte que, no capitalismo,
o interesse comum representado nas funções públicas aparece também ·

59 Ver Marilena Chaui , Cultura e Democracia, O Discurso Competente e Ou-


tras Falas, São Paulo, Moderna, 1980, pp. 20-21 , 111-116. uu CL Karl Marx, A. Questão Judaica, São P~ulo, Moraes, s.d., pp. 50-51.
252 ALAOR CAFPÉ ALVFS

como um poder alheio e hostil que se impõe aos indivíduos e os


submete de modo heterônomo, em vez de ser produto de suas vontades
associadas e submetido a eles no plano de suas práticas sociais autô-
nomas. Isso significa, enfim, que o Estado aparece, frente à sociedade
civil, como uma comunidade distinta e opressiva, originada das rela-
ções do modo capitalista de produção e da realidade dos interesses
comuns das classes e frações tf.e classes dominantes, configurando um
poder material alheio, estranho · e divorciado não só do interesse
singular de cada indivíduo, como também do próprio interesse comum
real, convertido, então, em uma ilusão.61 Coercibilidade jurídica
e constrangimento
econômico difuso

Ao examinar as questões relacionadas com o poder, verificamos


a complexidade desta categoria, especialmente quando toma a forma
explícita de um domínio legitimado pelo consenso ideologicamente
estruturado. 1 O poder, antes de mais nada, significa a· possibilidade
de decidir e de levar a decisão a seu termo, mediante o emprego de
energia. No plano social, esta energia é a força que pode referir-se
tanto ao reconhecimento espontâneo, pelo sujeito dominado, da auto-
ridade do sujeito dominador, pela qual o comando transparece legiti-
mado, quanto à submissão heterônoma daquele sujeito dominado por
decisões ou comandos do dominador, mediante o emprego efetivo ou
ameaça, virtual ou explícita, de emprego da coerção física ou de
qualquer .outro meio de violência. Nesse sentido, o poder dentro de
uma relação social corresponde à capacidade, atual e potencial, de
impor regularmente a própria vontade sobre a de outros, com ou sem
o reconhecimento espontâneo destes, isto é, até mesmo contra as pos-
síveis resistências daqueles aos quais essa vontade armada com su-
·Somente quando o homem individual real recupera em si o cidadão abstra-
. 61
to e se converte, como homem individual, em ser' genérico, em seu trabalho premacia se dirige. 2 Entretanto, coino já o ·dissemos, se o poder
individual e em suas relações individuais; somente quando o homem tenha
reconhecido e organizado suas próprias forças como forças sociais e quando, 1 Ver, a esse respeito, a análise desenvolvida no capítulo VI deste trabalho.
portanto, já não separa de si a força social sob a forma de força política, so- 2 Ver Max Weber, Economía y Sociedad, I, 2.• ed., Bogotá, Fondo de Cultura
mente então se processa a emancipação humana.· Cf. Karl Marx, ibidem, p. 52.

. ... .
254 ALAOR CAFFÉ ALVES
ESTADO E . IDEOLOGIA 255

enquanto hegemonia não prescinde, para sua legitimação, da autonomia


o fenômeno da dominação legítima sob o ângulo político, que é uma
da vontade dos sujeitos aos quais é endereçado, enquanto dominação,
especificação do fenômeno mais abrangente da dominação, é o mono-
também não pode desprezar a possibilidade do exercício dos meios
pólio concentrado do controle dos meios de coerção física sobre os
de violência, em especial quando explicitamente trata de retificar,
membros de uma sociedade assentada em um território específico,
dentro dos parâmetros exiológicos dominantes, os desvios das vontades
excludente de qualquer outro poder com pretensão de supremacia. 5
rebeldes e, por isso mesmo, consideradas ilegítimas (e não apenas
Assim, o elemento específico gue caracteriza o polític~, tal como aqui
ilegais) e até "pecaminosas" .3 Dizemos "explicitamente" porque essa
o estamos enfocando, é a primazia no controle dos meios de violência
dimensão de violência do poder legítimo é perfeitamente aceitável pelos
em um território delimitado de forma excludente, sem eliminar a per-
agentes sociais e até justificada; contudo, já tivemos ocasião de de-
manente possibilidade do exercício da direção social modelada pela
monstrar, a perversão não se revela nesse poder fundado no consenso
adesão espontânea dos dirigidos. Isto significa que, numa sociedade
enquanto respaldado pela violência legitimada, operando paralela-
de classes, mesmo a hegemonia política caracterizada por uma forma
mente, mas sim enquanto se considera analiticamente o próprio con-
legitimada de poder, conforme já demonstramos, não pode pr,escindir,
sentimento como uma forma disfarçada de dominação, mediante a
em nenhuma hipótese, da possibilidade do exercício monopolizado da
operação ideológica indispensável ao engendramento da ilusão de
violência num determinado espaço territorial, para conter os conflitos
reciprocidade de serviços equivalentes entre dominadores e dominados,
estruturais ou não nos limites permitidos pelo sistema. Pelo exposto,
no plano da direção sociaU De qualquer forma, porém, o poder,
devemos configurar duas situações que convém extremar analiticamente.
legitimado ou não, se caracteriza pela imposição da vontade sobre
A primeira consigna uma relação de dominação que não se caracteriza
um sujeito ou grupo social, inclusive contra a sua resistência, mas não
como política, por faltar o suporte específico da territorialidade; isto
necessariamente.
quer dizer que a supremacia coercitiva não é por si só suficiente para
Enquanto retrata dominação e direção a um só tempo, o poder
qualificar a relação de dominação como política; por isso a dominação
se qualifica como hegemônico. Porém, o que singularmente caracteriza
de um malfeitor, de um pai de família ou de um dirigente privado,
exercida coativamente sobre pessoas sujeitas ao seu âmbito de influ-
Económica, · 1977, pp. 43-44. Ver Gérard Lebrun, O Que é Poder, São Paulo, ência, não se pode configurar como política precisamente pela ausência
Brasiliense, 1981 , pp. 10-27. do elemento de soberania territorial, que rejeita de modo absoluto a
3 Numa concepção ampliada de Estado, Gramsci diz que "na noção geral de
possibilidade de interferência de qualquer outro poder nos limites de
Estado entram elementos que também são comuns ·à noção de sociedade civil
(neste sentido, poder-se-ia dizer que Estado = sociedade política + sociedade um espaço territorial delimitado. 6 A segunda situação refere-se ao
civil, isto é, hegemonia revestida de coerção)". Cf. Antonio Gramsci, Maquiavel,
a Política e o Estado Moderno, Rio de Janeiro, Civ. Brasileira, 1980, p. 149.
" -Ver, nesse sentido, Guillermo O'Donnell, "Anotações para uma teoria · do
Ver, também, Perry Anderson, Las Antinomias de Antonio Gramsci, Barcelona,
Estado", I, in Revista de Cultura e Política, n.• 3, Rio de Janeiro, Paz e Terra,
Fontamara, 1978, pp. 39-44.
1980, pp. 71-73.
4 Considerando uma dramática experiência histórica, Bodei afirma que começa
n Nesse sentido Jellinek ensina que "a terra sobre a qual se levanta a comu-
um período histórico em que o Estado, para funcionar, tem cada vez mais
nidade Estado, considerada sob o aspecto jurídico, significa o espaço em que
necessidade da colaboração ativa ou passiva dos cidadãos, de obter ou extor-
o poder do Estado pode desenvolver sua atividade específica, ou seja, a do
quir deles o consenso. Sob este aspecto, tal tendência culmina no fascismo e
poder público. Neste sentido jurídico, a terra se denomina "território". A sig-
no nazismo, na militarização completa da sociedade civil, na extorsão do con-
nificação jurídica deste se exterioriza de uma dupla maneira: negativa uma,
senso mediante a força, no cancelamento, ao limite extremo, da diferença entre
na medida em que se proíbe a qualquer outro poder não submetido ao do
ditadura e hegemonia. Cf. Remo Bodei, "Gramsci, Vontade, Hege~onia, Racio-
Estado exercer funções de autoridade no território sem autorização expressa
nalização", in Política e História em Gramsci, vol. I, Instituto Gramsci, Rio de
por parte do mesmo; positiva a outra, relativa às pessoas que se acham no
Janeiro, Civ. Brasileira, 1978, p. 89.
território e ficam submetidas ao poder do Estado. ( ... f Este poder falta àque-

... .
.
256 ALAOR CAFFJ!l ALVES ESTADO E IDEOLOGIA
257

fenômeno ,da legitimidade do poder. Para que este exista e se configure apenas teórica para o fim de caracterizar o conteúdo do conceito de
como político, não é preciso que se qualifique como plenamente autên- Estado, não eliminando as dificuldades oferecidas no plano histórico,
tico em sua legitimidade, visto que não prescinde nunca da possível a respeito da identificação das realidades correspondentes, especial-
manipulação concentrada da violência, ainda que sob o pretexto de mente quando ocorrem situações onde o embate revolucionário de
viabilizar a defesa de sua pretensa legitimidade. IssÕ significa apenas forças políticas antagônicas não nos permite muitas vezes discernir com
que o poder político tem a sua especificidade calcada tanto na supre- clareza os titulares do poder estatal, isto quimdo, em situação extrema,
macia da coação como na delimitação territorial excludente, não deven- não há ausência do próprio Estado por falta de sobetania territorial ·
do este poder, entretanto, ser reduzido tão somente a estes componentes das forças políticas concorrentes.
que apenas lhe são a especificidade e não a totalidade de sua mani- Se a relação de dominação geral vincula assimetricamente sujeitos
festação fenomênica. 7 sociais, certamente a desigualdade decorre do controle discriminado
Nessa linha, o Estado aparece como dominação equivalente ao dos meios políticos, econômicos, sociais e ideológicos, que permite
plano do especificamente político, ho sentido acima examinado, sem obter a subordinação da vontade . dos dominados à dos dominantes.
que isso de modo algum implique limitá-lo, em sua existência real, à No plano estrutural das relações sociais do modo capitalista de pro-
pura determinação do exercício da violência num território sobera- dução, a dominação não se circunscreve apenas ao âmbito político,
namente delimitado. A coatividade e a territorialidade são apenas seus ao Estado, visto que o contexto eco.nômico-social perfaz· uma complexa
componentes específicos, sem qualquer dos quais não haverá a orga- totalidade dialética onde a realidade política, que não se move em
nização política estatal, embora no plano fenomênico tal organização função de si mesma, é apenas um momento da necessidade de preservar
· não se revele senão de forma muito mais complexa e diversificada. as condições básicas de reprodução desse sistema de exploração eco-
Vale dizer, em última instância pode faltar o consenso da maioria, a nômica. Isso significa que a dominação estrutural implica, 1;1lém da
"legitimidade do poder, a despeito de isso provavelmente não ser pos- relação política em sentido estrito, isto é, além da supremacia coativa
sível por longos períodos históricos, m~s não poderá desaparecer, sob territorialmente delimitada, o controle diferenciado dos recursos econô-
pena de não mais existir o próprio Estado, a capacidade do controle micos, sociais e ideológicos, mediante os quais as relações assimétricas
monopolizado dos meios de coação física sobre a população de um do domínio se transformam em hegemonia de uma classe. Para captar
determinado territário. 8 Naturalmente, essa consideração é de referênc;a plenamente essa dominação estrutural que possui um caráter relacio-
n:al básico e global, torna-se irresistível a exibição . de um texto de
las associações (ou pessoas) que de um modo excepcional têm autoridade sobre
Poulantzas nos seguintes termos: "<2_ poder referido às classes sociais
terceiros, porém sempre com um caráte.r independente de todo fundamento é um conceito que designa o campo de sua luta, o das relações de
territorial". Cf. Georg Jellinek, Teoría General del Estado, Buenos Aires, Alba- forças e das relações de uma classe com uma outra: os interesses de
tros, · 1970, pp. 295-296. Ver Hermann Heller, Teoria do Estado, São Paulo, ;classe designam o horizonte de ação de cada classe em relação às
Mestre Jbu, 1968, 173-182. Ver Hans Kelsen, Teoría General del Estado, Mé- outras. A capacidade de uma classe de realizar seus interesses está em
xico, Nacional, 1973, pp. 180-194.
7 Weber, a respeito, se manifesta dizendo que "uma associação de dominação
deve chamar-se associação política quando e na medida em que· sua existência do Estado, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1974, 37-70; Giorgio Balladore
e a validez de suas ordenaÇões, dentro de um âmbito geográfico (territorial)• Pallieri, A Doutrina do Estado, II, Coimbra, Coimbra Editora, 1969, pp. 67-109;
determinado, estejam garantidos de um niodo contínuo pela ameaça e aplicação Dalmo de Abreu Dallari, Elementos de Teoria Geral do Estado, São Paulo,
da força física por parte de seu quadro administrativo·. Cf. Max Weber, op. Saraiva, 1972, pp. 62-104; Sahid Maluf, Teoria Geral do Estado, 11.• ed., São
cit., p. 43. . Paulo, Sugestões Literárias, 1980, pp. 39-43; Cabral de Moncada, Filosofia do
s Ver Georg Jellinek, op. cit., pp. 295-325; Alexandre Groppali, Doutrina do Direito e do Estado, Il, Doutrina e Crítica, Coimbra, Coimbra Editora, 1966,
Estado, São Paulo, Sara,iva, 1968, pp. 109-146; Reinhold Zippelius, Teoria Geral p~ . 168-86 .

..
ALAóR CAFFÉ ALVES ESTADO E IDEOLOGIA 259
258

opos1çao à capacidade (e interesses) de outras classes: o campo do com uma coisa ou uma entidade com essência instrumental intrínseca
poder é portanto estritamente relaciona!. O poder de uma classe (da que deteria, por si só, um poder "natural" e imanente. Por isso só é
classe dominante por exemplo) não significa uma substância que ela possível caracterizar o poder estatal como o poder político hegemônico
tenha em mãos: o poder não é uma grandeza quantificável que as de algumas classes ou frações de classes dominantes, isto é, como o
diversas classes partilhariam ou trocariam entre si segundo a velha "lugar" e posição estratégica dessas classe ou frações de classes na
concepção de poder-soma-zero. O poder de uma classe significa de relação de dominação em face de outras classes (dominadas). Nesse
início seu lugar objetivo nas relações econômicas, políticas e ideoló- sentido, "o Estado não é nem o depositário instrumental (objeto) de
gicas, lugar que recobre as práticas das classes em luta, ou seja, as um poder-essência que a classe dominante deteria, nem um sujeito que
relações desiguais de dominação-subordinação das classes estabelecidas possua tanta quantidade de poder que, num confronto face a face,
na divisão social do trabalho, e que consiste desde então em relações o tomaria das classes: o Estado é lugar de organização estratégica da
de poder. O lugar de cada classe, portanto seu poder, é delimitado, classe dominante em sua relação com as classes dominadas. É um
ou seja, ao mesmo tempo designado e delimitado, pelo lugar das " lugar" e um "centro" de exercício do poder, mas que não possui
outras classes. O poder não é, desse modo, qualidade imanente a uma poder próprio". 10 A posição ou o lugar estratégico do Estado com-
classe em si no sentido de uma rew;zião de agentes, mas depende e preende, assim, não só o exercício do poder hegemônico, recoberto
provém de um sistema relaciona! de lugares materiais ocupados por ideologicamente para a manutenção e reprodução continuada das rela-
tais ou qu~is agentes". 9 O texto exposto é longo, mas esclarecedor no ções de dominação estrutural, mas também a possibilidade de se exer-
que respeita às relações de dominação estrutural com as dimensões cer, em última instância e de modo formalmente legítimo, . a ação
ideológicas, econômicas e sociais de uma comunidade dividida em coercitiva aberta e viva indispensável à rejeição de rupturas do sistema.
classes. Percebe-se, portanto, que as referências da dominação geral, Essa hegemonia compreende, portanto, o momento ideológico que
numa sociedade de classes, não podem ficar consignadas apenas às induz os sujeitos sociais à convicção do caráter justo e natural da
relações políticas, visto que compreendem a totalidade de suas deter- desigualdade social, representando nesse sentido um bloqueio à com-
minações existenciais, precisamente porque são o produto histórico da preensão e ao questionamento da dominação como violência. Entre-
luta de classes, implicando não só a presença e dinâmica do aparelho tanto, o momento ideológico, de grande efeito para obter o consenti-
estatal, mas também de todas as demais instâncias organizacionais e mento do dominado na relação de domínio, pode falhar no seu papel
institucionais emergentes da sociedade civil e do processo econômico de disfarce da inequação social, dando lugar, em razão da luta de
da produção. Está claro, entretanto, que se o Estado aparece de modo classes e da práxis crítica, ao desvelamento explícito da violência
imediato como base imparcial da coesão social, isso não ocorre como estrutw:al; isso torna inevitável a utilização, pelos dominadores, dos
um fator de ação externa ou ética sobre os conflitos estruturais, mas recursos políticos de coerção física, que representam, em última instân-
é precisamente a maneira de recobrir de forma "neutra" ou "impessoal" cia, o es~encial suporte fático e eficaz da dominação de classe num
a dominação existente, onde a hegemonia tem um papel singular na determinado espaço territorial. 1 1
conformação das sanções oficiais (coação) como violência aparente-
10 Idem, ibidem, p . 169. .
mente exercida em razão do bem de todos. Mais uma vez se vê aqui ll "Como o Estado nasceu da necessidade de conter o antagonismo das classes,
que o Estado não é senão o produto de relações de classes e forças e como, ao mesmo tempo, nasceu em meio ao conflito delas, é, por regra geral,
sociais em conflito, devendo rejeitar-se qualquer idéia que o identifique o Estado da classe mais poderosa, da classe economicamente dominante, classe
que, por intermédio dele, se converte também em classe politicamente dominante
e adquire novos meios para a repressão e exploração da classe oprimida".
9 Cf. Nicos Poulantzas, O Estado, o Poder, o Socialismo, Rio de Janeiro, Graal, Cf. F. Engels, A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado,
1981 , pp. 168-9. Rio de Janeiro, Editorial Vitória , 1960, p. 161 .

...
ALAOR CAFFÉ ALVES ESTAOO E IDEOLOGIA
260 261

Desse modo, é preciso sublinhar que as relações de dominação põem necessariamente. Isso quer dizer que, dentre outras dimensões,
na sociedade burguesa perfazem uma totalidade integral, onde analiti- também o Estado é elemento interno e o garante constitutivo essencial
camente se pode distinguir várias dimensões a ela inerentes-, de tal dessa relação social, ainda que assim não apareça imediatamente como
sorte que uma dimensão só encontra sentido em"razão de sua oonexão um relação caracterizada pelo direito público. 13
dialética com as demais. A apropriação econômica da mais-valia só é Existem relações cujo teor público desvela diretamente o caráter
pacificamente possível, e não há outra maneira de sê-lo, . se houver o impositivo de seu conteúdo, como ocorre, por exemplo, nas medidas
elemento constitutivo da dimensão ideológica integrado na relação de fiscalização administrativa da ação privada, nas disposições que
produtiva que permita o mascaramento mistificador da exploração ma-
regulam o serviço militar ou nas ordens judiciárias em cumprimento
terial, encobrindo desse modo a assimetria contraditória da relação das decisões dos tribunais, onde a primazia da coerção em âmbito
econômica. Em outras palavras, o momento ideológico constitui origi- . territorial determinado é ostensivamente manifesta. Porém, há relações
nariamente as relações sociais de dominação, como sua· dimensão inte- cujo caráter "privado" vincula sujeitos sociais, no plano da sociedade
gradora e não como elemento eventualmente adicionado que vem de civil, a partir da iniciativa voluntária de cada um e dentro de um
fora para reforçá-las. 12 De qualquer forma, a desigualdade é escamo- - quadro de igualdade formal. Para esse efeito, é necessário que, ao
teada exatamente para manter as condições de sua poss!bilidade, res- menos aparentemente, tais relações privadas, de caráter contratual,
tando a questão do controle dos recursos de dominação. Esse controle não sejam assumidas diretamente pela organização política estatal.
ou o acesso desigual aos meios de dominação caracteriza exatamente Isso faz parte da dinâmica essencial do ·mercado capitalista, confi-
a condição de possibilidade de se reproduzir o sistema assimétrico de gurado na esfera da circulação, especialmente em seu momento de
produ~ão social, o qual, por sua vez, num circuito de natureza dialética, intercâmbio de mercadorias, incluindo a força de trabalho. f: claro
torna-se base daquele controle ou acesso diferenciado. A estrutura que tal intercâmbio pressupõe necessariamente a garantia jurídico-
social tem sua dimensão· objetiva própria, porém dela também fazem política da propriedade privada dos bens e recursos produtivos. Neste
parte integrante os fatores subjetivos de sua conformação ideológica. caso, em razão da práxis do capital e da hegemonia ideológica corres-
As classes sociais são de certo modo o produto dinâmico do sistema ponde, inclui-se dentre aqueles bens e recursos produtivos a própria
como um todo, mas também são, num retorno de caráter dialético, força de trabalho, que, tida como uma "mercadoria", pode ser "livre-
determinantes desse mesmo sistema na medida em que elas representam mente vendida" pelo trabalhador direto, mediante pacto com o deten-
por si e pelos seus efeitos o principal diferenciador no acesso desigual tor dos bens de produção (generalização das relações mercantis), Com
aos recursos de dominação. Naturalmente, esse processo não é apenas efeito, para consagrar a relação contratual privada e o indispensável
realizado voluntariamente, pois pertence também e simultane~nte individualismo correlato, transforma-se também, de acordo com a
a uma dinâmica estrutural regida por leis próprias, onde as relações lógica do sistema, o trabalhador em "proprietário privado" exatamente
ideológicas representam um componente imprescindível à concretização para poder participar do escambo mercantil generalizado. Entretanto,
objetiva da dominação, incluindo igualmente, e de forma também aquela relação contratual é privada somente na aparência, de vez que
originária, as relações jurfdico-políticas. Mais uina vez é colocada a sua vigência regular não pode jamais prescindir, sob pena de se
quéstão da constituição pluridimensional da relação social de domina- descaracterizar como relação jurídica, da permanente possibilidade de
ção, visto que esta não pode ser entendida antes e fora das próprias invocação do Estado para garanti-la contra eventual descumprimento.
determinações econômicas, sociais, ideológicas e políticás que a com- Esse possível descumprimento da relação jurídica releva-se especial-
mente em razão da tensão contraditória entre a esfera da circulação,
12 Ver, nesse sentido, as. análises desenvolvidas nos capítulos I, li e VI deste
trabalho. 13 Ver, nesse sentido, Guillermo O'Donnell, op. cit., I, pp. 73-74 .

..
ESTADO E IDEOLOGIA 263
ALAóR CAFFÉ ALVES
262
mercado e onde se realiza o valor de uso da força de trabalho, pois
onde as relações mercantis definem um quadro de igualdade e liber-
é ali que surge a identidade social da classe dos produtores onde a
dade entre os indivíduos separados, singularizados, no mundo dos
igualdade entre seus membros nasce precisamente da exigência do
acordos e conflitos individuais (não estruturais), como proprietários
trabalho organizado sob a forma de "cooperação" do trabalhador
vendedores e compradores (inclusive da força de trabalho), e a esfera
coletivo. 11 Como nesses múltiplos conflitos o direito não pode fundar-
da produção, onde imperam, a um só tempo, a relação de predomínio
se apenas em seu conteúdo ético, ele não dispensa, para sua validade
hierárquico do capital sobre o trabalho, com o fim de extrair a mais-
e realização efetiva, o poder subjacente às relações jurídicas, que
valia, e a relação de cooperação desse mesmo trabalho indispensável
assim se qualificam exatamente por agasalharem a possibilidade de
à produção do excedente econ6mico. 14 Na esfera da circulação (socie-
se exigir de forma legitimada o cumprimento das obrigações corres-
dade civil) os conflitos não são de caráter estrutural, enquanto se
pondentes mediante o exercício, se necessário for , da coação invocada
enquadrem precisamente no âmbito da estrita relação de igualdade dos
1 ao Estado. Portanto, a garantia da eficácia das relações contratuais
direitos, como sói acontecer nos períodos de "normalidade"; n entre-
privadas assenta-se na virtualidade dessa invocação, a despeito de esta
tanto, tais conflitos podem assumir características estruturais, como
ser poucas vezes atualizada,, se considerarmos a totalidade dos "negó-
freqüentemente ocorre, quando a .luta social transcende o nível da
cios jurídicos" emergentes num determinado período de tempo. Como
igualdade meramente iurídica, fazendo pender as forças sociais para
a coerção oficial é a força legitimada pelo próprio Direito destinada
este ou aquele lado, especialmente sob os embates mais profundos da
a dobrar a possível resistência da vontade rebelde ao cumprimento
luta sindical ou partidária.16 Está claro que esses conflitos estruturais
do pactuado, seu monopólio concentrado em mãos do Estado define
no plano da sociedade civil, e que na maioria das vezes são absorvidos
um complexo cautelar que permite destacar com segurança e certeza
de uma forma ou de outra pelas decisões políticas e mediante o ordena-
esse agente político afiançador do sistema social como um todo. Nesse
mento jurídico e sua "flexibilização" através da dogmática jurídica,
sentido, a relação contratual privada encontra sua condição de possi-
têm suas raízes deitadas exatamente no âmbito da produção, fora do
bilidade não apenas no acordo ético de vontades livres e na igualdade
formal das partes, mas também, e principalmente, na garantia implícita
14 "O consumo da força de trabalho, da mesma forma que o de qualquer outra
mercadoria, ocorre fora do mercadó ou da esfera de circulação" . ( . .. ) no "local
17 "Uma cada vez mais perfeita divisão do trabalho reduz objetivamente a
oculto da produção em cujo limiar se pode ler: .. '.No admittance except on
business' ". Cf. K. Marx, O Capital, vol. I , tomo 1, seção li, cap. IV, n. 3, posiçãp do trabalhador na fábrica a movimentos de detalhe cada vez mais
' analíticos', de man~ira que foge ao indivíduo a complexidade da obra comum .. .
São Paulo, Abril Cultural, p. 144.
15 "A esféra da circulação ou do intercâmbio de mercadorias, dentro de cujos
( . • . ) ao mesmo tempo que o trabalho concertado e bem ordenado dá uma
limites se movimentam compra e venda de força de trabalho, era de fato um maior produtividade 'social' e que o conjunto da mão-de-obra de uma fábrica
verdadeiro éden dos direitos naturais do homem. O que aqui reina é unicamente se deve conceber como um 'trabalhador coletivo', são os pressupostos do movi-
Liberdade, Igualdade, Propriedade e Bentham. Liberdade! Pois comprador e mento de fábrica que tendem a fazer tornar 'subjetivo' o que é dado objetiva-
vendedor de uma mercadoria, por exemplo, da força de trabalho, são determi- mente." Depois, o que é que quer dizer neste caso objetivo? Para cada traba-
nados apenas por sua livre-vontade. Contratam como pessoas livres, juridica- lhador "objetivo" é que as exigências do desenvolvimento técnico estão de
mente iguais. O contrato é o resultado final, no qual suas vontades se dão acordo com os interesses da classe dominante. Mas este encontro, esta unidade
uma expressão jurídica em comum. Igualdade! Pois eles se relacionam um entre desenvolvimento técnico e os interesses da classe dominante é apenas
com o outro apenas como possuidores de mercadorias e trocam equivalente um~ fase histórica do desenvolvimento industrial, deve ser concebido como
por equivalente. Propriedade! Pois cada um dispõe apenas sobre o seu. Bentham! transitório. O nexo pode desligar-se: a existência técnica pode ser pensada
Pois cada um dos dois só cuida de si mesmo." Cf. K. Marx, ibidem, P- 145. concretamente não só separada dos interesses da classe dominante, mas também
unida com os interesses da classe ainda subalterna." Cf. Antonio Gramsci, "O
16 "Ocorre aqui, portanto, uma antinomia: direito contra direito, ambos apoiados
Trabalhador Coletivo", in Obras Escolhidas, São Paulo, Martins Fontes, 1978,
na lei do intercâmbio de mercadorias. Entre direitos iguais, decide a força."
p. 256-257.
Cf. K. Marx, op. cit., ibidem , seção III, cap . VIII, n. 1, p . 190.
264 ALAOR CAFF~ll ALVES ESTADP E IDEOLOGIA 265

pela capacidade de invocação do Estado p~ra, no caso de inadimple- do Estado, com subliminar presença nas relações contratuais privadas,
mento, determinar sua efetivação forçada, especialmente quando, no especialmente no que se refere à fiança da articulação contraditória
caso da contratação da força de trabalho pelo capital, se trata de das relações de produção no marco dos limites toleráveis do sistema
relação social materialmente desigual e conflitiva. Assim, a coatividade capitalista, não é acrescentada de fora, posteriormente ou de modo
ou possibilidade de exercer a coação, mediante a mobilização de recur- circunstancial, àquelas relações, visto que, como iá foi dito, faz parte
sos estatais, torna-se· essencial à configuração da relação contratual. 18 intrínseca, originária e constitutiva delas mesmas. 20
O contrato entre partes iguais e livres (formalmente) pressupõe Se no plano das relações jurídico-privadas a invocação efetiva
a necessária, permanente e implícita possibilidade de. evocação do do Estado, atrav~s de suas instituições, é circunstancial e até po.uco
Estado, o que result.a na sua presença submersa e constante para freqüente, a possibilidade dessa invocação, entretanto, é constante e
assegurar a vigência e execução da relação contratuaP9 A presença essencial pàra a vigência daquelas relações. 21 A possibilidade de
tácita e subiacente do Estado é, nessa relação, componente essencial invocação do Estado, exatamente porque é "possibilidade", consigna-se
da própria relação, visto que sem esse elemento constitutivo, a relação ao nível da compreensão lógica, não podendo como tal ser verificada
não seria dotada de recursos de poder territorialmente excludente para direta e empiricamente. Ela, contudo, é tão real quanto a efetividade
sustentá-la, se preciso for, sob a ameaça de sanções. Essa virtualidade da invocação verificável no mundo dos fatos.2 2 Precisamente por esse
pública do pacto aparentemente privado é elemento interno da relação
aspecto é que se tem a impressão, na práxis cotidiana, de que o Estado
que aparece desde o seu início e marca objetivamente os limites do
comparece na sociedade civil como algo passageiro ou acidental, como
pactuado pelas partes, isto é; do que podem decidir ou descumprir,
se a sua intervenção viesse somente a dar-se por fora e posteriormente
orientando seus objetivos e expectativas com relação à validade,· eficácia
e formas de exécução do contrato. Nesse sentido, a patente garantia ao estabelecimento das relações sociais, apenas quando nelas fosse
constatado que algo não deu certo. :f: também por esse ponto que
passa a questão da distinção entre Estado e sociedade civil, especial-
18 Dentro de uma perspectiva liberal, Goffredo Telles Junior esclarece que
"a coatividade, ou seja, a possibilidade de coagir, não pertence à norma. mente porque, no plano do senso comum, ele é confundido e identi-
Pertence ao lesado. E tanto pertence ao lesado que, se este não se quiser ficado inteiramente com as instituições concretas que o encarnam no
utilizar de sua faculdade de coagir, dela não se utilizará, e não haverá coação. mundo dos fatos empíricos, dificultando ou bloqueando exatamente
( ... ) todo ser humano tem a faculdade dç exercer coação sobre outro ser
a captação dos nexos indicadores de sua permanente presença subja-
humano. Essa faculdade é inerente no homem, e não depende de norma jurídica.
Mas o uso dessa faculdade pode ser lícito (jurídico) ou ilícito (injurídico). Tal
uso só será lícito se o agente estiver autorizado, por norma jurídica, a usá-la. A ~o Idem, ibidem, p. 75.
coatividade pertence ao ser humano. Mas a autorização, para o uso lícito ~1 "O mais comum, o normal, é a eficácia pacífica do direito, sem necessidade
da coatividade, pertence à norma jurídica". Cf. Goffredo Telles Junior, O do recurso à intimidação ou à violência, para obrigar os homens a se sujeitarem
Direito Quântico, Ensaio sobre o Fundamento da Ó~dem Jurídica, São Paulo, às normas jurídicas". Cf. Goffredo Telles Junior, op. cit., pp. 266-267.
Max Lirnonad, s.d., p. 270. Mas ... quem permite? Quem autoriza? Obviamen- 22 "O domínio da ciência não pode limitar-se ao campo da existência real ou
te, o poder (da comunidade como um todo? da classe social hegemônica?) que,. histórica. Nl! realidade, a existência determinada sem nenhuma referência à
ao permitir urna ação lícita, proíbe (não autoriza) outra, a ilícita: isso não possibilidade careceria de sentido, mesmo nos assuntos mundanos. A . ciência
será urna forma da coação ou uma possibilidade de a exercer? Para salvar a estuda o caráter ou determina as propriedades das coisas, sejam elas reais ou
plena e substancial eticidade do jurídico, Goffredo Telles Junior esvazia o possíveis. Nesse sentido, a ciência, corno a arte e a atividade prática, nos
conteúdo de ,poder inerente ao próprio direito. libera da prisão do real e nos permite penetrar até a região do possível." Cf.
19 "A esta igualdade costuma-se dizer "formal", porque não obsta que a relação Morris R. Cohen, Jntroducción a la Lógica, México, Pondo de Cultura Econó-
real que vincula os sujeitos chegue a ser extremamente desigual." Cf. Guillerrno mica, 1957, p. 32. Ver D. P. Gorski e P. V. Tavants, Lógica, México, Grijalbo,
O'Donnell, op. cit., I, p. 75. 1968, pp. 118-121.
266 ALAóR CAFFÉ ALVES ESTADO E IDEOLOGIA 267

cente e virtual, invisíveis à verificação empírica imediata. 23 Vê-se por força de trabalho, para qualquer que seja o capitalista. 25 Isso acontece
aí que o isolamento da sociedade política em relação às esferas civil precisamente porque tal constrangimento econômico difuso decorre
e da produção econômica é mais aparente do que real. A circunstancial de dois fatores fundamentais e intimamente interligados que estruturam
efetividade da coerção, eventual e singular, desprende-se de sua matriz e organizam o funcionamento básico do sistema capitalista como um
essencial de potencialidade permanente, fragmentando ilusoriamente todo: (a) a propriedade econômica dos meios de produção por uma
o todo social. A separação fenomênica entre a vida econômica e a vida pequena parcela da sociedade, pela chamada classe dominante, e,
política, entre a produção e a coerção, torna-se indispensável para por via de conseqüência, (b) a total separação daqueles meios de pro-
manter e reproduzir, paradoxalmente, a unidade social e para orientar dução em relação aos trabalhadores diretos, que, premidos pelas ne-
o foco da dominação em direção ao plano da hegemonia política e cessidades vitais, são obrigados a "vender", mediante salários, sua
econômica, que disfarça ideologicamente as forças antagônicas emer- força de trabalho aos proprietários dos recursos produtivos da socie-
dade.20 Naturalmente, esse processo é também capaz de induzir, simul-
gentes da sociedade capitalista. Por um lado, a coerção física (ou extra-
taneamente, à convicção ideológica do fenômeno aparentemente .im-
econômica) não é exercida pelo capitalista no processo de reprodução
pessoal e natural daquela imposição, não-percebida claramente, e que
da vida material da sociedade burguesa; e isso é fundamental para
possibilita ao agente social ter a ilusão de que é livre parà dispor
que haja uma esfera de circulação mercantil de bens, serviços e utili-
daquela força de trabalho da forma que bem entender.
dades pautada pelos critérios básicos da liberdade e igualdade. 24 Por
outro, o constrangimento econômico (coerção econômica), indetermi- As questões acima referidas são de grande relevo para a com-
preensão da realidade do Estado, ou seja, da relação entre essência e
nado e difuso por toda a sociedade, não exercido especificamente pelos
aparência, entre o possível e o concreto expresso empiricamente nas
agentes capitalistas individuais ou pelo Estado, passa a ser a "força"
manifestações estatais. O conhecimento do real, já dissemos, supõe a
social decorrente do funcionamento da própria estrutura capitalista,
articulação consciente de representações e relações, a integração da
capaz de impor a necessidade de o trabalhador assalariado vender sua experiência em complexos relacionais que · excedem seu conteúdo atual
concreto.· O saber real se apóia na experiência, porém exatamente para
23 "De certo modo a cotidianidade desvenda a verdade da realidade, pois a
realidade à margem da vida de cada dia seria uma irrealidade transcendente,
isto é, uma configuração sem poder nem eficácia; do mesmo modo, porém, ~ r; A dominação não se exerce apenas no plano sócio-econômico geral, mas
também a esconde: a realidade não está contida na cotidianidade imediatamente , também, de forma mais concentrada, no interior das p·róprias unidades produ-
e na sua totalidade; está contida por certos aspectos determinados e imediata- tivas. Mais uma vez Hirsch comparece com sua clareza: "A relação entre 'a
mente." Cf. Karel Kosik, Dialéctica de lo Concreto, México, Grijalbo, 1967, p. 96. economia' e 'a política' na sociedade burguesa adquire então seu caráter
24 Nesse sentido é clara a síntese de Hirsch quando acentua também a origem particular pelo fato de que, por um lado, o aparelho de coerção física se
do destaque e relativa autonomia do poder político estatal em face da concor- reveste desta forma específica, e de que, por outro lado, a violência 'muda'
rência e conflito dos capitais individuais: "Também o capitalismo se caracteriza se exerce a todo momento na relação direta entre capitalistas e assalariados no
pelo fato de que a violência coercitiva da burguesia, concentrada nos meios de seio do processo de produção. Os aparelhos econômicos (empresas, unidades
repressão física, tem necessariamente, em função do modo social de exploração de produção) são também aparelhos de dominação ... " Cf. Joachim Hirsch,
e de reprodução de classe, uma institucionalização separada dos burgueses indi- ibidem, p. 88.
viduais. Ela toma uma 'forma' que a separa formalmente da classe dominante: ~H "A relação-capital pressupõe a separação entre os trabalhadores e a proprie-
esta separação do aparelho de coerção física com relação ao proletariado e à dade das condições da realização do trabalho. ( . . . ) O processo que cria a
burguesia é o elemento fundamental da forma de dominação de classe burguesa". relação-capital. . . (é) um processo que transforma, por um lado, os meios
Cf.' :Joachim Hirsch, "Observações Teóricas sobre o Estado Burguês e sua sociais de subsistência e de produção em capital, por outro, os produtores diretos
Crise" , in Nicos Poulantzas (org.) , Estado em Crise, Rio de Janeiro, Graal , 1977. em trabalhadores assalariados.· Cf. K. Marx, O Capital, op. cit., vol. I, tomo 2,
p . 88 . seção VIl , cap. XXIV, n. 1, p. 262 .
ALAOR CAFFÉ ALVES ESTADO E IDEOLOGIA 269
268

superá-la em direção daquilo que nela se mostra de modo incompleto. 27 objetivas do processo produtivo, especialmente os meios de produção.
O real verdadeiramente compreendido corresponde à captação do O trabalhador não possui, portanto, sob pena de se eliminarem as
universal concreto pelo pensamento e à antecipação de possíveis expe- bases desse modo de produção, o controle dos recursos produtivos. Em
riências a seu respeito; isso quer dizer que consiste na capacidade segundo lugar, devemos frisar que esse sistema social também l'ressu-
para compreender as coisas como objeto de conhecimento precisamente põe a ausência do {mediato controle político dos meios de coerção
em função das relações que as projetam para além de si mesmas. 28 física (ou extra-econômica) por parte dos capitalistas, visto que em
O que "é" só tem sentido pleno em razão do que "pode ser"; a apre- tal sistema o processo produtivo implica relações econômicas não-
ensão do concreto apenas nos limites de sua própria contingência, de compulsórias, respaldadas pela esfera da circulação, onde predominam
sua face empírica, leva-nos quase inevitavelmente aos vazios preenchí- os valores da .liberdade e igualdade formais como condiçijo de possi-
veís pela ilusão ideológica. Por isso, o Estado compreendido em suas bilidade dos contratos privados. Esses pontos são de grande importân-
manifestações concretas, através de instituições jurídicas e organiza- cia, como vemos, para a captação da realidade da comunidade política
cionais, visíveis e objetivadas na experiência cotidiana, só pode ser e de suas relações orgâni<:as com a sociedade civil.
uma parte da realidade que aponta para além de si mesma, para a quanto à separação entre os capitalistas e os meios de coação
totalidade concreta, para as "conexões possíveis" que perfazem a ampli- física, cumpre considerar que a normalidade cetidiana das relações
tude de sua verdade. Se o Estado é tão somente identificado e igualado sociais no plano da sociedade civil conduz à ·idéia de uma total des-
às suas próprias instituições, ao seu aparelho governamental, já não vinculação entre esta sociedade e o Estado, devendo este apenas operar
temos um momento de sua verdade; o que temos é a estratificação do casualmente, na eventualidade de algo falhar. Como já foi visto, essa
conhecimento ao nível de um descritivismo empírico meramente ins- idéia é ilusória, posto que a coatividade não está ausente das ·relações
titucional que fornece a matriz para a elaboração ideológica mistifica- q!le vinculam juridicamente capitalistas e trabalhadores. ~ preciso,
dora. Assim, o modo de apropriação do real pressupõe a necessária ..; claro, não olvidar que as relações contratuais livres entre os diversos
conexão dialética entre o fenômeno e a essência, entre o concreto obje- agentes sociais, no sistema capitalista onde o intercâmbio mercantil
tivado na experiência e a trama das relações possíveis compreendida se tornou generalizado, pressupõem fundamentalmente a propriedade
pela práxis teórica. 29 e controle privado dos bens objeto dos ajustes pactuados, bem como
A partir desse apoio teórico fundamental, podemos assinalar com a contínua garantia de sua permanência nas mãos dos respectivos
maior clareza os pontos mais sensíveis para a compreensão da relação proprietários. Observe-se também que os bens que traduzem as mer-
dialética entre o Estado e a sociedade civil. Em primeiro lugar, convém cadorias a serem trocadas no mercado diferem basicamente por sua
repisar que o capitalismo se caracteriza, entre outros fatores, pela natureza, especialmente os bens de capital, que podem ser concreta-
nítida separação entre os trabalhadores assalariados e as condições mente dissociados de seu proprietário individual, e a força de tra-
balho, que não pode ser divorciada do sujeito que a suporta, a não
ser pela abstração operacional mercantil com o objetivo de possibilitar
27 Nesse sentido, Kosik afirma que "a faticidade dos fatos não equivale à sua
realidade, mas à sua fixada superficialidade, unilateralidade, imobilidade. A sua venda. Isso quer dizer que o uso dos bens de produção pode ser
realidade dos fatos se opõe à faticidade dos fatos não porque seja uma realidade feito sem a presença direta de seu proprietário controlador; tal fato já
de outra ordem e, portanto, neste sentido, uma realidade independente dos não ocorre com a utilização da força de trabalho, que exige inapela-
fatos, mas porque é a relação interior, a dinâmica e o contraste da totalidade velmente a imediata presença pessoal do trabalhador vivo e concreto
dos fatos". Cf. Karel Kosik, op. cit., p. 69.
nas atividades produtivas. Nesse sentido, a relação contratual que
28 Ver Jorge Millas, Jdea de la Filosofía: El Conocimiento, I, Santiago do Chile,
vincula .o capital ao trabalho vivo não pode ser entendida da mesma
Universitaria, 1969, pp. 19-20.
29 Ver, nesse sentido, Karel Kosik, op. cit., pp. 53-77.
forma de um lado e de outro. Encontramos, de um lado, um sujeito

..
ESTADO E IDEOLOGIA 271
270 ALAóR CAFFÉ ALVES

que dispõe livremente de seus bens e quer a garantia de que eles não nascimento e com limitadíssimas chances de superar. Isso quer dizer ·
lhe serão expropriados (garantia da propriedade) e, de outro, a exis- que as relações de produção já estão marcadas, desde o início, por
tência de um sueito, o produtor direto, que não dispõe da força de relações de dominação política; o escravo ou o servo são levados
trabalho senão com a disposição de seu próprio corpo, de sua carne e direta e compulsoriamente a produzir e entregar o excedente econô-
de seu espírito, e quer a garantia de que não será aviltado e exaurido mico ao senhor. Tal processo não ocorre no modo de produção burgue-
em suas próprias forças vitais: instaura-se, aqui, uma profunda contra- sa. Nesse modo de produção, o trabalhador é originariamente livre
dição entre os homens, entre os poucos que possuem bens materiais para vender sua força de trabalho; ele não é conduzido de forma
perdíveis e os demais, que não possuem outro bem senão o próprio coercitiva, sob o látego da violência física visível, seja pelo capitalista,
sangue, a própria vida. 3 ° Como as relações contratuais, nesses termos, seja pelo Estado, a estabelecer o vínculo contratual de trabalho. Por
compreendem interesses radicalmente diferentes -----: visto que a força que, então , o trabalhador assalariado se move a vender sua força de
de trabalho, sendo 'mercadoria' que pensa e tem vontade, organiza-se trabalho ao capitalista? Exatamente porque não mais controla as
e resiste ao capital 31 - , está claro que a possibilidade da ação coerci- condições objetivas da produção, ·visto que, como já foi por nós ana-
tiva estatal deve estar sempre presente para o caso de as estruturas lisado, ele se encontra separado dos meios de produção e demais
hegemônicas da sociedade não serem suficientes na contenção dos anta- recursos produtivos. Carente desses meios, e para poder sobreviver, o
gonismos sociais aflorados pelo movimento contraditório entre o capital trabalhador não tem outra forma de agir economicamente senão a de
e o trabalho. Assim, a possibilidade de se exercer a coação legítima, "ofertar" sua força de trabalho a quem pode comprá-la e utilizá-la, ou
através das instituições estatais, está sempre presente, mesmo nas seja, ao capitalista. Assim, ele vende sua força de trabalho não porque
relações privadas, como condição de sua garantia e vigência no âmbito para isso seja compelido violenta e coercitivamente, por este ou aquele
de um território determinado. sujeito social concreto, mas porque há um forte constrangimento
Entretanto, e para finalizar, convém aprofundarmos aqui uma econômico disseminado de forma difusa por toda a sociedade capitalista,
distinção para evitar equívoco. Nas sociedades pré-capitalistas, como já decorrente precisamente da separação entre o trabalhador e os meios
vimos, o produtor direto, servo ou escravo, encontra-se originaria- de produção, que o "obriga" a tornar-se um assalariado. Vê-se, por-
mente dentro de relações assimétricas de dominação política e de tanto, que a