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As políticas antipobreza no Brasil, como o Bolsa Família, devem continuar?

Pekelman Halo1

SUMÁRIO: 1. Introdução; 2. Raízes do problema; 3. Propostas


para resolver o problema: dados de pesquisas e de
pesquisadores; 4. Conclusão; 5. Referências bibliográficas.

1. Introdução

Nas palavras de Josué de Castro “os grandes descobrimentos do século XX foram


a fome e a bomba atômica” (CASTRO, 1946, p.14).

O que “certamente nem todos sabem é que este recorde de fome é simultâneo às
maiores colheitas e estoques jamais antes alcançados2”. Nas duas últimas décadas, ao
mesmo tempo em que houve um expressivo aumento da pobreza e da fome no mundo,
houve também a ampliação da consciência cidadã em expressivos setores da sociedade
civil, órgãos governamentais e organismos internacionais, dentre os quais se destacam a
Organização das Nações Unidas3 e múltiplas organizações de direitos humanos, que
buscam, em meio às dificuldades e contradições, suscitar iniciativas localizadas e
planetárias de políticas que visem alterar o mapa da fome4 no mundo a partir de ações
sociais emancipadoras.

É inegável a constatação de Malaquias Batista Filho onde mostra “a contradição


entre o potencial de recursos naturais e a persistência da fome e suas seqüelas biológicas

1
Acadêmico de Direito do 5º Período na UNDB. Graduado em História pela UFMA. Professor da Rede
Pública Municipal (SEMED/PMSL). Membro do GP Direito e Democracia (UNDB e UFF Rio de
Janeiro). Membro do GP O Direito Penal no século XX (UNDB); Membro do Núcleo de Estudos da
Corrupção (UNDB-MA).
2
ABRAMOVAY, Ricardo. Apresentação. In: SOUZA MINAYO, Maria Cecília de (org.). Raízes da
fome. Petrópolis: FASE/Vozes, 1987.
3
O Comitê de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais vem desenvolvendo importante trabalho através
de seus relatores que realizam missões de investigação em países com alta incidência de fome. O Brasil
recebeu a visita do relator Jean Ziegler em 2003, cuja visita e o relatório causaram ampla repercussão.
Iluminada no modelo da ONU a Plataforma DhESC Brasil vem implementando o Projeto Relatores no
Brasil desde 2003, com expressivos resultados no campo dos direitos humanos, dentre os quais o direito à
alimentação.
4
Josué de Castro, no livro Geografia da Fome, traça um mapa da fome no Brasil. Esta publicação faz
parte de diversos volumes organizados por um grupo de pesquisadores localizados em diferentes
continentes, que mostram mapas da fome no mundo.
e sociais constitui o problema crucial do Brasil de hoje. E resgatar este quadro constitui
um imperativo de nossa consciência ética5”.

Alguém poderia defender a política governamental atual com o argumento de que


pelo menos ela quebra um silêncio secular: falar sobre a fome no Brasil. Quando Josué
de Castro escreveu a Geografia da Fome 6, ele chamou a atenção para o fato de que era
bastante delicado e perigoso falar sobre o assunto da fome, de tal forma que se
constituía num tema proibido permanecendo um dos grandes tabus da civilização
contemporânea, sobre os quais se costumava silenciar.

Hoje, porém, uma política governamental não poderá se limitar apenas à quebra
do silêncio e do tabu, deve ir muito mais além. As propostas atuais são demasiadamente
acanhadas diante do que se deveria promover para o desenvolvimento social do país.
Caso contrário só servirá aos interesses elitistas e eleitoreiros, reproduzindo uma nova
versão do paternalismo e patrimonialismo estatais, mantendo também a cultura do
clientelismo nas relações públicas locais (municípios e comunidades) onde o poder de
mando, dado aos novos “coronéis”, sempre confundirá o público com o privado.

2. Raízes do problema

Nos últimos tempos o problema da fome se agravou e se espalhou para áreas do


Brasil antes não atingidas, de modo que “já não se pode dizer que o Sul seja uma área
poupada da desnutrição e da fome”7. O crescimento da fome é diametralmente oposto às
soluções apontadas ao longo do tempo pelos governos. Uma campanha contra a fome
que seja coerente com o déficit histórico do país não pode ser obsoleta como é o
Programa Bolsa Família. Uma campanha consistente contra a fome no país deve ter
uma perspectiva macro em todas as áreas de intervenção estatal, direita e indireta.

O assistencialismo paternalista é uma prática política muito antiga no Brasil (nasce


na Colônia) e consiste em conservar uma massa de carentes e necessitados para ter a
quem “assistir” minimamente obtendo com isso retorno eleitoreiro e poder de mando
local. Um grande exemplo de paternalismo no Brasil foram as políticas trabalhistas de
Getúlio Vargas, cujos benefícios trabalhistas não representaram propriamente uma
5
BATISTA FILHO, Malaquias. Panorama da situação alimentar no Brasil. In: Raízes da fome.
Petrópolis: FASE/Vozes, 1987.
6
A Geografia da Fome foi escrito em 1946, no contexto do final da II Guerra Mundial e foi considerado
um marco histórico e político para a análise da realidade da fome no Brasil.
7
SOUZA MINAYO, Maria Cecília de (org.). Raízes da fome. Petrópolis: FASE/Vozes, 1987.
conquista imposta pela classe trabalhadora, mas apenas um gesto caridoso do “pai dos
pobres”, que quis, por livre e espontânea vontade conceder aos seus “filhos” aquelas
graças, como se fossem um presente.

As concessões governamentais no Brasil, ao longo de sua história, nunca foram,


apenas atos administrativos de governo por dever, ordenados por seus súditos 8. As
conquistas nunca foram propriamente ‘conquistas’ do povo, resultado de luta atuante e
consciente da classe trabalhadora, mas sempre foram simples atos de vontade dos
governantes – fazer uma doação, uma concessão a seus filhos.

A grande maioria das conquistas político-sociais no Brasil, desde a Colônia até


hoje, sempre tiveram esse cunho assistencialista e paternalista, pois a classe dominante
do país, ora ou outra elege um “pai”, um “salvador”, qual terá a função representativa de
“presentear” os pobres com alguma migalha, para refrescar seus lábios sequiosos em
tempos de profunda agonia e situação não mais suportável. Porém a salvação nunca é
completa. Os miseráveis da nação deverão continuar miseráveis e, além disso, são
obrigados a serem gratos pelas esporádicas ‘esmolas’ pois assim continuarão servindo
de “apoio popular”.

3. Propostas para resolver o problema: dados de pesquisas e de pesquisadores

Pois é, o apoio popular é a maneira que os miseráveis têm de agradecer ao


governo caridoso, porque senão a esmola termina. Cabem aqui perfeitamente as
palavras de Carlos Jara:

É preciso transformar esta situação e a imagem decorrente dela. É


urgente desafiar os esquemas caducos e estéreis de desenvolvimento
local [e nacional] decorrentes dos paradigmas mecanicistas tradicionais.
O processo de construção da equidade social não pode ficar atrelado
apenas ao crescimento econômico, nem pode ser interpretado como
subproduto da globalização. A busca do sentido sustentável para a vida
social deve ser considerada como imperativo ético, deve ser a principal
finalidade da gestão pública e da prática política, o objetivo central de
toda comunidade. A mudança no padrão e rumo do desenvolvimento,
não é porém questão de novos empréstimos, ou de grandes
investimentos em projetos estruturadores, nem de programas
compensatórios de combate à pobreza rural e urbana. É principalmente
uma questão de visão de futuro e mudança na consciência da classe
política e dos cidadãos [...] Enfoques alternativos de desenvolvimento
propõem a idéia de um desenvolvimento mais justo, realista e
sustentável, organizado e planejado a nível do espaço local, seja
microrregional, municipal ou comunitário, acompanhando a tendência
8
A palavra “súdito” é no sentido empregado por Jacques Rousseau quando este explica a existência do Estado
substituindo o Rei, e os súditos não seriam mais subservientes mas sim a razão de ser daquele Estado.
global que impulsiona os processos de descentralização político-
administrativa [...] Sem dispositivos que promovam o empoderamento
(empowerment) das organizações comunitárias, sem mecanismos que
democratizem a informação e permitam a integração dos atores
subalternos numa perspectiva de transformação mais ampla, as
estratégias localizadas de apoio comunitário, conhecidas como
programas antipobreza, realmente não mudam os relacionamentos de
subalternidade, nem permitem o resgate da cidadania. Ao contrário, do
ponto de vista sócio-político, estes programas geralmente levam à
reprodução da dependência, fortalecendo relações clientelistas
particulares entre as associações comunitárias e os aparelhos
burocráticos [...] O que realmente acontece na estratégia de apoio
comunitário é um processo de desintegração fragmentada e
verticalizada das comunidades locais, que ficam articuladas ao esquema
antipobreza de forma individual. Quando os políticos atuam como
intermediários, a vantagem de acesso a recursos técnicos e financeiros
tem como contrapartida a possibilidade de cobrar favores eleitorais e
de ampliar a freguesia partidarista. As classes políticas tradicionais
reinventaram o conceito de projeto de desenvolvimento para legitimar
seu poder, fortalecendo assim sua imagem de benevolentes. Graças aos
favores e esmolas, a bondade e a virtude ficam depositadas nas mãos
das classes de “cima”, fazendo com que os pobres fiquem culturalmente
programados para expressar respeito e obediência. Sem trabalhar
adequadamente a dimensão cultural, estamos obrigando as comunidades
a desconfiar de seus valores e desenvolver os aspectos negativos da sua
identidade. (JARA, Carlos Júlio. Construindo o poder local.
CADERNO CRH, Salvador, n. 26/27, p. 211-233, jan./dez. 1997).

Todo esse quadro social tende a acirrar os conflitos de interesses, aumentando uma
tensão social que é negativa, onde aparecem dois tipos de gente: “aqueles que não
comem e aqueles que não dormem com medo dos que têm fome” 9. É escandaloso saber
que o Brasil ainda possua tão elevado número de pessoas que vivem em situação de
insegurança alimentar.

Conforme o relatório do IPEA 2003 o Brasil tem 40 milhões de pobres e 13,8


milhões de famintos. Essas pessoas, além necessitarem de condições para obter
uma cesta básica alimentar, carecem também de condições para despesas com
moradia, transporte, saúde, lazer e educação para a família.

Esse dado, se tomado de forma isolada, ou seja, a sensibilidade emocional que ele
provoca por si só, justificaria a existência do Bolsa Família, porém não justifica que ele
seja esse programa seja visto como “a salvação” e muito menos que ele seja sustentado
para sempre, ou ao longo de vários governos conforme tem sido a tendência atual.

Só a comida não é suficiente. O investimento público nas outras coisas é precário


e predominantemente de má qualidade. No setor privado, nenhum acesso há para essa
grande massa, dado à extrema disparidade na distribuição de renda.

9
CASTRO, Josué de. Geografia da fome. São Paulo: Civilização Brasileira, 1946.
Num estudo realizado pela FIAN Brasil intitulado Informe sobre o Direito à
Alimentação no Brasil (Cuiabá, 2002) aparecem dados colhidos pelos pesquisadores
Hoffmann, Takagi, Silva e Grossi onde se vê que “no caso brasileiro, não há dúvida que
a grande causa da falta de acesso aos alimentos, bem como da desnutrição infantil, é o
baixo nível de renda”.

A Pesquisa Nacional de Saúde e Nutrição – PNSN de 1989 constatou que ligeiros


acréscimos na renda domiciliar traduzem-se em melhor desempenho no crescimento da
população até 25 anos de idade. Na realidade, as causas da fome no Brasil estão
relacionadas à má distribuição dos alimentos e não à falta deles. Assim, as causas da
pobreza e da fome no Brasil não devem ser buscadas nas flutuações de curto prazo da
economia, mas, ao contrário, nas desigualdades estruturais da distribuição de riquezas.

O especialista em Direitos Humanos do IPEJ/Rio Grande do Sul, Irio Luiz Conti,


numa pesquisa realizada pela SESUSC, constatou que:

O crescimento econômico, por mais importante que seja, por si


só, é insuficiente para se constituir em mola propulsora do
desenvolvimento e da superação da fome e da pobreza no país. Ao
contrário, não raro, mostra-se como um fator de acumulação ainda
maior para alguns em detrimento da maioria da população. Da mesma
forma, o equilíbrio macroeconômico e a estabilização da moeda,
importantes para a estabilidade da nação, se não vierem acompanhados
de medidas estruturais que alterem as bases das relações econômicas da
sociedade brasileira, produzem, no máximo, efeitos mitigadores e
temporários, que pouco incidem na alteração da situação de
desigualdade social.
A superação dos problemas da pobreza, da desnutrição e da fome
e a conseqüente implementação de uma política de segurança alimentar
e nutricional remete, necessariamente, à consideração destas causas
mais profundas, especialmente da exacerbada concentração de riquezas
no país, e aponta para a urgência da redistribuição destas riquezas. Esta
não é uma tarefa que se pode atribuir ao mercado, mas deve ser
enfrentada com a ação firme e planejada do Estado, com ampla
participação da sociedade civil organizada, e compreendida na
perspectiva da instauração de um modelo de desenvolvimento
sustentável e distributivo. Este modelo requer, entre outras medidas,
um amplo processo de geração e distribuição de renda, reforma agrária,
fortalecimento da agricultura familiar e acesso aos recursos produtivos a
todos os interessados (CONTI, 2005, p. 10).
Esse autor provocou polêmica qual aparece já no próprio título da sua pesquisa
“Direito humano a se alimentar”. Ele explica que “A FIAN Brasil utiliza o termo
direito humano a se alimentar ao invés de direito humano à alimentação por entender
que aquele expressa melhor o sentido dinâmico do conceito”. Assim sendo, o uso do
pronome reflexivo ‘se’ (just self do it) diz respeito a que “o ser humano tem direito às
condições para ser sujeito da produção ou da compra de seu próprio alimento”.
Por outro lado, o segundo conceito (direito à alimentação) “pode permitir
interpretações e práticas passivas: se alguém tem fome outro alguém deve providenciar
a alimentação” diz o autor. O melhor sentido, portanto, é o primeiro.

4. Conclusão

Defende-se aqui, portanto, a continuidade dos programas, porém com previsão de


término certo. Os argumentos elencados falam contra o uso desses programas – com o
que concordo plenamente. Entretanto, a situação da fome no país estava e ainda está,
verdadeiramente, clamando por um remédio paleativo e emergencial mas que não é o
melhor caminho, deve ser apenas temporário e emergencial mesmo.

5. Referências bibliográficas

ALBUQUERQUE, Roberto Cavalcanti de. Estratégia de desenvolvimento e combate


à pobreza. Estud. av. [online]. 1995, vol.9, n.24, pp. 75-116. ISSN 0103-4014.

ABRAMOVAY, Ricardo. Apresentação. In: SOUZA MINAYO, Maria Cecília de


(org.). Raízes da fome. Petrópolis: FASE/Vozes, 1987.

BATISTA FILHO, Malaquias. Panorama da situação alimentar no Brasil. In: Raízes da


fome. Petrópolis: FASE/Vozes, 1987.

CASTRO, Josué de. Geografia da fome. São Paulo: Civilização Brasileira, 1946.

CONTI. Irio Luiz. Direito humano a se alimentar e emancipação. Pós-Graduação


CESUSC/FCSF/IPEJ: Passo Fundo-RS, 2005.

JARA, Carlos Júlio. Construindo o poder local. CADERNO CRH, Salvador, n. 26/27,
p. 211-233, jan./dez. 1997.

SOUZA MINAYO, Maria Cecília de (org.). Raízes da fome. Petrópolis: FASE/Vozes,


1987.