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Henri LEFEBVRE.

A produção do espaço [La production de l’espace]


Remi HESS. Prefácio ? Prólogo ? à 4.ed francesa.
Henri Lefebvre e o pensamento do espaço. Paris, Anthropos, 2000. 1
[V]
Tradução Diego N. Reis, versão preliminar; revisão José Pessoa.

Há doze ou quinze anos, quando este livro foi escrito, os conceitos de espaço estavam
confusos, paradoxais, incompatíveis. Depois das atuações dos astronautas, após os foguetes
interplanetários, o espaço incontestavelmente era a moda: espaço disso, espaço daquilo -
espaço pictural, escultural e até mesmo musical; mas a imensa maioria das pessoas e do
público só compreendia esta palavra, o Espaço (maiúscula) carregada de conotações novas e
singulares, como distâncias cósmicas. Tradicionalmente o termo evocava apenas as
matemáticas, a geometria (euclidiana) e seus teoremas, portanto uma abstração: um continente
sem conteúdo. Em filosofia? O espaço era freqüentemente desprezado, tratado como uma
“categoria” entre outras (um “a priori”: diziam os kantianos: uma maneira de ordenar os
fenômenos sensíveis). Às vezes ele vinha carregado de todas as ilusões e de todos os erros:
desviando a interioridade do “em si”, o desejo e a ação, em direção ao exterior, portanto a
vida psicológica para o fora e o inerte, fragmentante e fragmentado (com e como a linguagem:
Bergson). Quanto às ciências que tratavam do espaço, elas o repartiam, o espaço sendo
fragmentado segundo postulados metodológicos simplificados: o geográfico, o sociológico,
o histórico, etc. No melhor dos casos, o espaço passava por um meio vazio, continente
indiferente ao conteúdo, mas definido segundo certos critérios [II] inexprimíveis: absoluto,
ótico-geométrico, euclidiano-cartesiano-newtoniano. E se se admitiam “espaços”, reunia-se-
os em um conceito cujo alcance permanecia mal determinado. A noção de relatividade, mal
assimilada, sendo estabelecida à margem do conceito, das representações e sobretudo do
cotidiano, estes dedicados à tradição (o tridimensional, a separação do espaço e do tempo, o
metro e o relógio, etc.).
Paradoxalmente, isto é, com uma contradição (diabólica) não exprimida, não
confessada, inexplicitada, a prática - na sociedade e no modo de produção existentes -, ia em
sentido diverso das representações e dos saberes fragmentários. Se (os políticos? Não; mais
precisamente seus colaboradores e auxiliares tecnocratas; dotados de um poder e de uma
autoridade considerável), se inventava a planificação /o planejamento/ espacial; e isto na

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Remi HESS, Avant-propos à la quatrième édition française. Henri Lefebvre et la pensée de l’espace. Henri LEFEBVRE, La production de
l’espace, 4e édition, Paris, Anthropos, 2000, p.V-XVI [1ère édition, Paris, Anthropos, 1974; 2ème éd., idem, 1981; 3ème éd., idem, 1986].
[nota de José Pessoa].
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França, principalmente; onde se propunha nada menos que fabricar, modelar racionalmente o
espaço francês, que se achava (não sem argumentos) que estava, se abandonando à “força das
coisas”, indo mal, assumindo feições deploráveis: aqui a desertificação, ali, o entulhamento
etc. Notadamente o eixo “espontâneo” que vai do Mediterrâneo aos mares do Norte, pelos
vales do Ródano, do Sona e do Sena, apresentava já alguns problemas. Projetava-se a
construção de “metrópoles de equilíbrio” em torno de Paris e em algumas regiões. A
delegação ao planejamento do território e das regiões 2, organização poderosa e centralizada,
não tinha problemas de falta de meios e ambições: produzir um espaço nacional harmonioso
- colocar um pouco de ordem na urbanização “selvagem” que obedecia apenas à procura dos
lucros.
Ninguém ignora hoje que esta tentativa original de planificação (que não coincidia
nem com os planos por orçamentos nem com o controle estatal do emprego de capital, isto é
com a planificação pela via financeira) foi destruída, reduzida a quase nada pelo liberalismo, e
mal reconstituída depois.
Daí uma contradição notável e, entretanto pouco notada entre as teorias do espaço e a
prática [III] espacial. Contradição encoberta - abafada, pode-se dizer - pelas ideologias que
confundiam as discussões sobre o espaço, saltando do cosmológico ao humano, do macro ao
micro, das funções às estruturas, sem precauções conceituais, nem metodológicas. A ideologia
da espacialidade, muito confusa, incorporava /telescopava/ o saber racional, a planificação
efetiva, mas autoritária, as representações triviais e correntes.
Daí o esforço para sair da confusão considerando o espaço (social) assim como o
tempo (social) não mais como fatos da “natureza” mais ou menos modificada, e não mais
como simples fatos da “cultura” - mas como produtos. O que levava a uma modificação no
emprego e no sentido deste termo. A produção do espaço (e do tempo) não os considerava
como “objetos” e “coisas” quaisquer, saindo das mãos e das máquinas, mas como aspectos
principais da natureza segunda, efeito da ação das sociedades sobre a “natureza primeira”;
sobre os dados sensíveis, a matéria e as energias. Produtos? Sim, mas num sentido específico,
notadamente por um caráter de globalidade (não de “totalidade”) que os “produtos” não têm,
na acepção ordinária e trivial, objetos e coisas, mercadorias (ainda que justamente o espaço e
o tempo produzidos, mas “loteados”, se trocam, se vendem, se compram, como “coisas” e
como objetos!).
De passagem, sublinhe-se, naquela época já (por volta de 1970) se colocavam como
uma evidência (ofuscante para muitos, que preferiam olhar para outros lados) as questões
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A DATAR, Delégation à l’Aménagement du Territoire et des Régions [nota de José Pessoa].
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urbanas. Os textos oficiais não eram suficientes nem para tratar nem para mascarar a nova
barbárie. Maciço e “selvagem”, apenas com a estratégia da maximização dos benefícios, sem
racionalidade nem originalidade criativa, a urbanização como se dizia, e as construções
engendravam efeitos desastrosos, observáveis, já constatáveis de todos os lados. Sobre
o manto da “modernidade”. Naquela época!
Como manter sem novos argumentos a tese (greco-latina, a nossa, a de nossa
civilização) de que a “Cité” 3, a Cidade, o Urbano, são os centros, os lugares privilegiados, os
berços do pensamento, da invenção? A [IV] relação “cidade - campo” se modificava em escala
mundial, com interpretações “extremistas” (o campo mundial contra a cidade mundial!).
Como pensar a Cidade (sua explosão - implosão generalizada, o Urbano moderno) sem
conceber claramente o espaço que ela ocupa, que ela apropria (ou desapropria)? Impossível
pensar a cidade e o urbano modernos, enquanto obras (no sentido amplo e forte de obra de
arte que transforma seus materiais) sem primeiro concebê-los como produtos. Isto num modo
de produção definido, que ao mesmo tempo desfalece, mostra as suas conseqüências
extremas, deixa entrever às vezes, outra coisa ao menos como espera, exigência, apelo.
Certamente, os ecologistas já haviam chamado a atenção e comovido a opinião pública:
território, ambiente, ar e água poluídos, a natureza, esta “matéria-prima”, matéria da Cidade,
devastada sem escrúpulos. Faltava à tendência ecológica uma teoria geral da relação entre o
espaço e a sociedade - entre o territorial, o urbanístico, o arquitetural...
A concepção de espaço como produto social não se colocava sem dificuldades, dito de
outro modo, sem uma problemática em parte nova e imprevista.
Não designando um produto qualquer, coisa ou objeto, mas um conjunto de relações,
este conceito exigia um aprofundamento das noções de produção, de produto, de suas
relações. Como dizia Hegel, um conceito só aparece quando o que ele designa, ameaçado,
aproxima-se de seu fim, de sua transformação. O espaço não pode mais ser concebido como
passivo, vazio, nem como tendo apenas o sentido, como os outros “produtos”, da troca, do ser
consumido, do desaparecer. Enquanto produto, por interação ou retroação, o espaço intervém
na própria produção: organização do trabalho produtivo, transportes, fluxo das matérias-
primas e das energias, rede de repartição dos produtos. À sua maneira produtivo e produtor, o
espaço entra nas relações de produção e nas forças produtivas (mal ou bem organizado). Seu
conceito não pode no entanto se isolar e permanecer estático. Ele dialetiza-se: produto -
produtor, suporte das relações [V] econômicas e sociais. Não entraria também na reprodução,
do aparelho produtivo, da reprodução ampliada das relações que ele realiza praticamente “in
3
a “Cité” ???? [nota de José Pessoa].
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loco”/“sur le terrain”/?
Essa noção não se esclarece, e ao mesmo tempo esclarece muito os fatos, a partir de
sua formulação? Não teria atingido a evidência: a realização “in loco”/“sur le terrain”/,
portanto, num espaço social produzido, de relações sociais de produção e reprodução?
Poderiam estas permanecer “no ar”, abstrações para e pelo saber? Além disso, essa teorização
permite compreender a originalidade do projeto (permanecendo no quadro restrito do modo
de produção existente) da planificação espacial. De compreendê-lo, mas também de modificá-
lo, de completá-lo, em função de outras demandas e de outros projetos; mas levando em conta
a sua qualidade, e notadamente o fato de que este se pré-ocupava com a urbanização.
Portanto, questão a ser retomada.
Segundo, e não uma dificuldade menor: na estrita tradição marxista, o espaço social
poderia ser considerado como uma superestrutura. Como resultado tanto das forças produtivas
como das estruturas, das relações de propriedade, entre outras. Ora, o espaço entra nas forças
produtivas, na divisão do trabalho; ele mantém relações com a propriedade, isto é claro. Com
as trocas, com as instituições, a cultura, o saber. Ele se vende, se compra; ele tem valor de
troca e valor de uso. Portanto ele não se situa neste ou naquele “nível”, “plano” classicamente
distinto e hierarquizado. O conceito de espaço (social) e o próprio espaço escapam portanto à
classificação “base - estrutura - superestrutura”. Como o tempo? Talvez. Como a linguagem?
A se verificar. Era necessário entretanto abandonar a análise e a orientação marxistas? De
todos lados aparecia este convite, esta sugestão. E não somente em relação ao espaço. Mas,
não poderíamos, ao contrário, voltar às fontes, aprofundar a análise trazendo novos conceitos,
afinando e tentando renovar os procedimentos/démarches/? É o que se tenta neste trabalho.
Ele supõe que o espaço aparece, se forma, intervém ora num dos “níveis”, ora em outro. Ora
no trabalho e nas [VI] relações de dominação (de propriedade), ora no funcionamento das
superestruturas (instituições). Portanto, desigualmente, mas por toda parte. A produção do
espaço não seria “dominante” no modo de produção, mas religaria os aspectos da prática,
coordenando-os - reunido-os em uma “prática”, precisamente.
E isto não é tudo. Nem de longe. Se o espaço (social) intervém no modo de produção,
ao mesmo tempo efeito, causa e razão, ele se transforma com este modo de produção! Fácil de
compreender: ele se transforma com as “sociedades”, se quisermos falar assim. Portanto há
uma história do espaço. (Como do tempo, como do corpo, como da sexualidade, etc.).
História que está ainda por ser escrita.
O conceito de espaço religa o mental e o cultural, o social e o histórico.
Reconstituindo um processo complexo: descoberta (de espaços novos, desconhecidos, dos
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continentes ou do cosmos) - produção (da organização espacial própria a cada sociedade) -
criação (de obras: a paisagem, a cidade com a monumentalidade e o cenário). Isto
evolutivamente, geneticamente (com uma gênese), mas segundo uma lógica: a forma geral da
simultaneidade; porque todo dispositivo espacial repousa sobre a justaposição na inteligência
e sobre a reunião material de elementos cuja simultaneidade se produz.
Entretanto, a coisa se complexifica. Haveria uma relação direta, imediata e
imediatamente apreendida, entre o modo de produção (a sociedade considerada) e seu espaço?
Não. Há descompassos: as ideologias se intercalam, as ilusões se interpõem. O que esse
trabalho começou a elucidar. Assim a invenção da perspectiva na Toscana, nos séculos XIII e
XIV. Não somente na pintura (escola de Siena), mas antes na prática, na produção. O campo
se transforma: passa do domínio feudal às meações; alamedas de ciprestes conduzem as terras
dos meeiros ao casarão do senhor, onde fica um capataz; porque o proprietário mora na
cidade, onde ele é banqueiro ou grande comerciante. A cidade se transforma, com as
implicações arquiteturais; a fachada, o alinhamento, o horizonte. Esta produção de um espaço
novo, o perspectivo, [VII] não se separa de uma transformação econômica: crescimento da
produção econômica e das trocas, ascensão de um classe nova, importância das cidades, etc.
Mas o que efetivamente se passou não tem a simplicidade de um encadeamento causal. O
espaço novo foi concebido, engendrado, produzido para e pelos príncipes? Para ricos
mercadores? Em nome de um compromisso? Ou pela cidade enquanto tal? Mais de um ponto
permanece obscuro. A história do espaço (como a do tempo social) está longe de ser esgotada.
Outro caso, ainda mais surpreendente, evocado igualmente e mal elucidado neste
trabalho: a Bauhaus; e ainda Le Corbusier. Os membros da Bauhaus, Gropius e seus amigos,
foram tomados por revolucionários, na Alemanha, entre 1920 e 1930, por bolcheviques!
Perseguidos, eles foram aos EUA. Eles aí se revelaram práticos (arquitetos e urbanistas) e
mesmo teóricos do espaço dito moderno, aquele do capitalismo “avançado”. Eles
contribuíram para a sua construção: para sua realização “in loco”/“sur le terrain”/, por suas
obras, por seu ensinamento. Desventura e destino trágico para Le Corbusier! E depois, de
novo, para aqueles que consideraram os grandes conjuntos/ensembles/ e os blocos /“barres”/
como o habitat específico da classe operária. Eles negligenciaram o conceito de modo de
produção, produzindo também o seu espaço e assim se acabando. Sob as cores da
modernidade. O espaço da “modernidade” tem características precisas: homogeneidade -
fragmentação - hierarquização. Ele tende ao homogêneo por diversas razões: fabricação dos
elementos e materiais, - exigências análogas intervenientes - métodos de gestão e de controle,
de fiscalização e comunicação. Homogeneidade, mas ausência de planos e de projetos. Falsos
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“conjuntos”/“ensembles”/, na verdade isolados/isolats/. Porque paradoxalmente (ainda) o
espaço homogêneo se fragmenta: lotes, parcelas. Em migalhas! O que produz guetos, isolados
/isolats/, grupos de casas suburbanas e pseudo-conjuntos mal conectados aos entornos e aos
centros. Com uma hierarquização estrita: espaços residenciais, espaços comerciais, espaços de
lazer, espaços para marginais, etc. Reina uma curiosa lógica desse espaço, que nós
relacionamos ilusoriamente à informatização. [VIII] E que esconde sob sua homogeneização as
relações “reais” e os conflitos. Aliás, parece que essa lei ou esquema do espaço com sua
lógica (homogeneidade - fragmentação - hierarquização) teria tido um alcance maior e
atingido uma espécie de generalidade, com efeitos análogos, no saber e na cultura, no
funcionamento da sociedade inteira.
Esta obra/livro/ tentava portanto não somente caracterizar o espaço onde vivemos e
sua gênese, mas reencontrar a gênese, através e pelo espaço produzido, da sociedade atual.
Ambição que o título não anuncia abertamente. Resumamos este desígnio /plano/ inerente ao
método perseguido: um estudo “retro”/retrospectivo/ do espaço social em sua história e sua
gênese, a partir do presente, remontando em direção a essa gênese - depois retorno sobre o
atual, o que permite entrever senão prever o possível e o futuro. Esse método deixa espaço
para estudos locais, em diversas escalas, inserindo-os na análise geral, na teoria geral. As
implicações e imbricações lógicas se compreendem como tais, mas sabendo que essa
compreensão não exclui (ao contrário) os conflitos, as lutas, as contradições. Nem
inversamente os acordos, as alianças, os entendimentos. Se o local, o regional, o nacional, o
mundial se implicam e imbricam, o que se incorpora no espaço, os conflitos atuais ou virtuais,
não estão nem ausentes nem são eliminados do espaço. Implicações e contradições no espaço
e em outros domínios, têm mais amplitude hoje do que quando este livro foi escrito. As
relações de implicação não proíbem as estratégias adversas, nem sobre o mercado, nem sobre
os armamentos. Portanto no espaço.
O territorial, o urbanístico, o arquitetural têm entre eles relações análogas:
implicações - conflitos. O que só pode ser apreendido se nós tivermos compreendido as
relações: “lógica - dialética”, “estrutura - conjuntura”; expostas e supostas aqui através de um
certo ponto de vista, explicitado em outro livro (cf. Logique formelle, Logique dialectique,
3éme éd. Messidor, 1981 [1969, 1947] [ed. bras. Lógica formal, lógica dialética, trad. Carlos
Nelson Coutinho, 5.ed., Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1991 [1973?]). Estas relações,
ao mesmo tempo abstratas e concretas, surpreendem uma “cultura” filosófica e polí- [IX]tica
que deixa de lado essa “complexidade” para procurá-la em outro lugar.
A pesquisa sobre o espaço social trata de uma globalidade. Ela não exclui, repitamos,
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as pesquisas “in loco”/“sur le terrain”/, precisas e determinadas. Entretanto o perigo do
“pontual”, valorizado por isso mesmo porque controlável, às vezes, mensurável, é que ele
separa aquilo que se implica, desune aquilo que “se articula”. Ele aceita portanto ou
interioriza a fragmentação. O que leva a práticas excessivas de desconcentração, de
descentralização, que deslocam as redes, as coesões e relações no espaço, portanto o próprio
espaço social, fazendo desaparecer a produção! O que ilude muitas questões pedagógicas,
lógicas, políticas...
Tese central sobre a qual é preciso voltar antes de concluir. O modo de produção
organiza - produz - ao mesmo tempo que certas relações sociais -, seu espaço (e seu tempo).
É assim que ele se realiza. Diga-se de passagem, o “socialismo” engendrou um espaço? Se
não, é que o modo de produção socialista não teve ainda existência concreta. O modo de
produção projeta no solo/in loco/sur le terrain/ estas relações, o que reage sobre elas. Sem que
haja correspondência exata, pressuposta, entre as relações espaciais e sociais (ou espaço-
temporais). Não se pode dizer que o modo de produção capitalista desde o seu princípio tenha
ordenado, por inspiração ou inteligência, sua extensão espacial, que deveria se estender
atualmente a todo o planeta! Houve primeiro a utilização do espaço existente, por exemplo
das rotas aquáticas (canais, rios, mares), depois das estradas; depois construção das estradas
de ferro, para continuar pelas auto-estradas e aeroportos. Nenhum meio de transporte no
espaço desapareceu inteiramente, nem andar a pé, nem a cavalo, nem de bicicleta, etc.
Todavia foi um espaço novo que se constituiu, no século XX, em escala mundial; sua
produção, não terminada, continua. O novo modo de produção (a sociedade nova) se apropria,
isto é planeja/arruma/aménage/ segundo suas finalidades o espaço preexistente, modelado
anteriormente. Modificações lentas, penetrando uma espa-[X]cialidade já consolidada, mas
subvertendo-a às vezes com brutalidade (o caso do campo e das paisagens rurais no século XX).
Incontestavelmente, as estradas de ferro tiveram um papel primordial no capitalismo
industrial, na organização do seu espaço nacional (e internacional). Mas, ao mesmo tempo, na
escala urbana: os bondes, metrôs, ônibus. Depois na escala mundial, os transporte aéreos. A
organização anterior se desintegra e o modo de produção integra os resultados. Processo
duplo, visível nos nossos campos e cidades a partir de algumas dezenas de anos, com a ajuda
de técnicas recentes - mas se estendendo dos centros às periferias longínquas.
A organização do espaço centralizado e concentrado serve tanto ao poder político
como à produção material, otimizando os benefícios. As classes sociais aí se investem e aí se
disfarçam, na hierarquia dos espaços ocupados.
Entretanto um espaço novo tende a se formar, em escala mundial, integrando e
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desintegrando o nacional, o local. Processo cheio de contradições, ligado ao conflito entre
uma divisão do trabalho em escala planetária, no modo de produção capitalista - e o esforço
em direção a uma outra ordem mundial mais racional. Esta penetração do e no espaço teve
historicamente tanta importância quanto a conquista da hegemonia pela penetração no
institucional. Ponto capital senão final desta penetração: a militarização do espaço, ausente
(por isso mesmo) deste trabalho, mas que conclui a demonstração, em escala ao mesmo tempo
planetária e cósmica.
Essa tese, como aquela de um espaço ao mesmo tempo homogêneo e fragmentado
(como o tempo!) despertou muitas objeções, há dez anos atrás. Como o espaço poderia
obedecer ao mesmo tempo a regras de conjunto, constituir um “objeto” social, e se esfacelar?
Não se trata de argumentar que a recente e já célebre teoria do objeto fractal (B.
Mandelbrot) teria uma relação com a tese do espaço fragmentado, aqui defendida. [XI]

Entretanto pode-se indicar a quase-simultaneidade das teorias, e o fato de que a teoria psico-
matemática torna mais acessível e mais aceitável a teoria socio-econômica. O espaço psico-
matemático comporta vazios e cheios, buracos e saliências, ele guarda uma coerência ainda
que “trabalhada” pelo fracionamento. Há portanto analogia entre estas tentativas teóricas
(cf. La Recherche, nº. de novembro 1985, p. 1313 e seguintes. Assim como a obra de Paul
Virilio, L’espace éclaté).
Resta elucidar a relação entre este espaço fragmentado e as múltiplas redes que
combatem a fragmentação e restabelecem senão uma unidade racional pelo menos a
homogeneidade. Através e contra a hierarquização, não poderíamos descobrir, aqui e ali,
arquitetônica e urbanisticamente, “alguma coisa” que sai do modo de produção existente, que
nasce das contradições revelando-as e não as encobrindo com um véu?
Indicação autocrítica: faltou neste livro descrever de modo direto, incisivo, até mesmo
panfletário, o modo de produção das periferias, guetos, isolados/isolats/, dos falsos
“conjuntos”/“ensembles”/. O projeto de um novo espaço permanece incerto; mais de um traço
pode hoje se ajustar ao esboço. O papel da arquitetura como uso do espaço não aparece
sempre claramente.
Entretanto este livro conserva muitos centros, pode hoje ser re-lido com um método
que o utilize com proveitos (para o conhecimento).
Primeiro tempo ou momento: os elementos e a análise que os isola, os “atores” da
produção, os lucros obtidos, etc.
Segundo tempo: as oposições paradigmáticas colocadas à luz: público e privado -
troca e uso - estatista e íntimo - frontal e espontâneo - espaço e tempo...
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Terceiro tempo: dialetização desse quadro estático: as relações de força, de aliança, -
os conflitos, os ritmos sociais e os tempos produzidos no e por este espaço...
[XII] Esta leitura deveria evitar a esse trabalho a dupla crítica de u-topia (construção
fictícia, no vazio verbal) e também de a-topia (eliminação de espaço concreto, para deixar
apenas o vazio social).

Remi RESS
Professor na Université de Paris VIII

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