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Academia Estadual de Segurança Pública do Ceará – AESP|CE

Curso de Formação Profissional Para Ingresso no Cargo de Médico Perito Legista 1ª Classe da
Perícia Forense do Estado do Ceará - PEFOCE
TRAUMATOLOGIA FORENSE

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Academia Estadual de Segurança Pública do Ceará – AESP|CE
Curso de Formação Profissional Para Ingresso no Cargo de Médico Perito Legista 1ª Classe da
Perícia Forense do Estado do Ceará - PEFOCE
TRAUMATOLOGIA FORENSE

SECRETARIA DA SEGURANÇA PÚBLICA E DEFESA SOCIAL - SSPDS

DELCI Carlos TEIXEIRA


SECRETÁRIO DA SSPDS

PERÍCIA FORENSE DO CEARÁ

MAXIMIANO Leite Barbosa Chaves


PERITO GERAL DA PERÍCIA FORENSE DO ESTADO DO CEARÁ

ACADEMIA ESTADUAL DE SEGURANÇA PÚBLICA DO CEARÁ – AESP|CE

José Herlínio DUTRA – Cel PM


DIRETOR-GERAL DA AESP|CE

ELIANA Maria Torres Gondim - DPC


SECRETÁRIA EXECUTIVA DA AESP|CE

DOUGLAS Afonso Rodrigues da Silva – Ten Cel PM


COORDENADOR GERAL DE ENSINO DA AESP|CE

Amarílio LOPES Rebouças – TC BM


COORDENADOR PEDAGÓGICO

NEYLA Adriano de Santana


ORIENTADORA DA CÉLULA DE EDUCAÇÃO À DISTÂNCIA DA AESP|CE

CURSO DE FORMAÇÃO PROFISSIONAL PARA INGRESSO NO CARGO O LEGISTA DE 1ª CLASSE


DA PERÍCIA FORENSE DO ESTADO DO CEARÁ - PEFOCE

DISCIPLINA
TRAUMATOLOGIA FORENSE

CONTEUDISTA
Victor Hugo Medeiros Alencar

REVISÃO DE COERÊNCIA DIDÁTICA


Erika Maria da Silva Pereira
Francisco José Amaral Lima
Jorgeana Reis da Silva
Luciana Canito Austregésilo de Amorim
Luciana Moreira da Silva
Renata Teixeira de Azevedo

FORMATAÇÃO
JOELSON Pimentel da Silva – Sd PM

• 2015 •

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TRAUMATOLOGIA FORENSE

SUMÁRIO

1. TRAUMATOLOGIA FORENSE................................................................................................................................ 4
2. ENERGIA MECÂNICA........................................................................................................................................... 4
2.1 Instrumentos perfurantes............................................................................................................................. 4
2.2 Instrumentos contundentes ......................................................................................................................... 5
2.3 Instrumentos Perfuro cortantes.................................................................................................................... 6
2.4 Instrumentos Perfuro contundentes............................................................................................................. 6
2.5 Instrumentos Corto contundentes................................................................................................................ 7
3. ENERGIA FÍSICA.................................................................................................................................................. 7
3.1 Temperatura ................................................................................................................................................ 7
3.2 Pressão Atmosférica..................................................................................................................................... 8
3.3 Eletricidade.................................................................................................................................................. 8
3.4 Radioatividade ............................................................................................................................................. 9
3.5 Som ............................................................................................................................................................. 9
3.6 Luz............................................................................................................................................................... 9
4. ENERGIA QUÍMICA ............................................................................................................................................. 9
4.1 Cáusticos...................................................................................................................................................... 9
4.2 Venenos....................................................................................................................................................... 9
5. ENERGIA FÍSICO-QUÍMICA................................................................................................................................ 10
5.1 Enforcamento ............................................................................................................................................ 10
5.2 Estrangulamento........................................................................................................................................ 10
5.3 Esganadura ................................................................................................................................................ 10
5.4 Sufocação................................................................................................................................................... 11
5.5 Afogamento ............................................................................................................................................... 11
5.6 Soterramento............................................................................................................................................. 11
5.7 Asfixias por Gases Irrespiráveis................................................................................................................... 11
6. ENERGIA BIOQUÍMICA...................................................................................................................................... 11
6.1 Auto-intoxicações....................................................................................................................................... 11
6.2 Infecções.................................................................................................................................................... 12
7. ENERGIA BIODINÂMICA.................................................................................................................................... 12
7.1 Choque ...................................................................................................................................................... 12
7.2 Coma ......................................................................................................................................................... 12
8. ENERGIAMISTA................................................................................................................................................. 12
8.1 Fadiga ........................................................................................................................................................ 12
8.2 Doenças parasitárias .................................................................................................................................. 12
8.3 Sevícias ...................................................................................................................................................... 12
9. PERÍCIA MÉDICA............................................................................................................................................... 12
10. LEGISLAÇÃO DAS LESÕES CORPORAIS ............................................................................................................. 13
11. O CRIME DE TORTURA E A PERÍCIA FORENSE NO BRASIL................................................................................. 15
12. PRINCÍPIOS E RECOMENDAÇÕS QUE DEVEM NORTEAR EXAME MÉDICOFORENSE (E OUTROS
CORRELATOS) NOS CASOS DE TORTURA ............................................................................................................... 17
13. RECOMENDAÇÕES ESPECÍFICAS PARA O PERITO MÉDICO-LEGISTA SOBRE COMO REALIZAR EXAMES DE
LESÕES CORPORAIS NOS CASOS DE TORTURA ...................................................................................................... 18
14. RECOMENDAÇÕES ESPECÍFICAS EM CASO DE NECROPSIA DE ICIANDO MORTO POR TORTURA (OU
TRATAMENTO CRUEL, DESUMANO OU DEGRADANTE).......................................................................................... 18
15. RECOMENDAÇÕES GERAIS PARA A PERÍCIA OFICIAL NOS CASOS DE TORTURA ................................................ 19
15.1 Recomendações em perícias de casos de tortura...................................................................................... 19

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TRAUMATOLOGIA FORENSE

1. TRAUMATOLOGIA FORENSE

A traumatologia médico-legal estuda as diversas causas produtoras de lesões corporais.


Estas causas provocam danos através das seguintes formas de energia: energia mecânica, energia física,
energia química, energia físico-química, energia bioquímica, energia biodinâmica e energia mista.

2. ENERGIA MECÂNICA

Energia mecânica é aquela capaz de modificar o estado repouso ou de movimento de um corpo, em


parte ou no todo. Os meios que agem sob esta forma de podem ser ativo, passivo e misto. O meio ativo é
o que ocorre pelo impacto de um objeto em movimento sobre o corpo humano imobilizado. meio passivo
ocorre quando o corpo humano em movimento vai de encontro ao objeto imóvel. O meio misto (bi-ativo ou bi-
convergente) ocorre pelo impacto entre um objeto e o corpo humano, ambos em movimento.
Os instrumentos mecânicos são classificados em: perfurantes, cortantes, contundentes, pérfuro-
cortante, pérfuro-contundentes e corto-contundentes.

2.1 Instrumentos perfurantes

As lesões produzidas denominam-se feridas puntiformes. Os instrumentos são punctórios, longos, de


diâmetro desprezível em relação ao seu comprimento (estilete, compasso, alfinete, agulha, prego). Agem
afastando as fibras sem seccioná-las. As características da ferida puntiforme são: abertura estreita, pouco
sangramento, de pouca nocividade na superfície, grande gravidade na profundidade, de menor diâmetro que o do
instrumento pela elasticidade e retração dos tecidos cutâneos. As lesões produzidas em órgãos profundos
adquirem sua forma de acordo com a consistência do órgão. Nos órgãos constituídos de várias camadas como o
estômago, as lesões tomam aspectos diversos.
Quanto ao trajeto, essas lesões podem terminar em fundo de saco, numa cavidade ou transfixar um
segmento, apresentando dois orifícios (de entrada e de saída). A gravidade dessas lesões depende do órgão
atingido e das repercussões vitais.
Quando o instrumento perfurante é de médio calibre, a das lesões assume aspecto obedecendo
às seguintes leis: Primeira Lei de Filhos, Segunda Lei de Filhos e Lei de Langer.
A Primeira Lei de Filhos se refere à forma da ferida. A solução de continuidade dessas feridas se
assemelha às produzidas por instrumentos de dois gumes, tomando a forma de "casa de botão", dita em
"botoeira".
A Segunda Lei de Filhos se refere à disposição das feridas. Quando essas feridas se encontram numa
mesma região, seu maior eixo tem sempre a mesma direção.
A Lei de Langer se refere às feridas efetuadas sobre a confluência de linhas de força diferentes. As
extremidades das feridas tomam o aspecto de ponta de seta, de triângulo ou mesmo de quadrilátero.
As lesões produzidas são denominadas feridas cortantes ou incisas. Os instrumentos agem por um gume
afiado que desliza sobre os tecidos. São exemplos os seguintes instrumentos: navalha, lâmina de barbear, bisturi,
faca, caco de vidro.
As características de uma ferida cortante são: regularidade das bordas, regularidade do fundo da lesão,
ausência de vestígios traumáticos em torno da ferida, emorragia em geral abundante, predominância do
comprimento sobre a profundidade, afastamento das bordas da ferida, presença cauda de escoriação voltada
para o lado onde terminou a ação do instrumento, vertentes cortadas obliquamente e centro da ferida mais
profundo que as extremidades.
É de grande importância a determinação das lesões que se cruzam, feita pela verificação do sinal de
Chavigny que consiste em aproximar as margens de uma das feridas; sendo ela a primeira produzida, a outra não
seguirá uma trajetória em linha reta, visto que a segunda ferida foi efetuada sobre a primeira de bordas já
afastadas. Este sinal pode esclarecer várias questões, como afastar suspeita de suicídio quando concluir que a
primeira lesão foi mortal.

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2.2 Instrumentos contundentes

As lesões produzidas são diversas, podendo ser encontradas isoladamente ou em associação. Os


instrumentos possuem uma superfície que atua sobre o corpo humano (cassetete, martelo, para-choque, chão,
parede, pés, unhas, etc.). Entre as diferentes modalidades de lesões, destacam-se a rubefação, a escoriação, a
equimose, o hematoma, bossa sanguínea, edema traumático, eridas contusas, fraturas, luxações, roturas de
vísceras internas.

A rubefação caracteriza-se por uma mancha eritematosa, efêmera e fugaz em determinada região do
corpo (bofetada). Involui totalmente sem deixar vestígios e constitui a mais leve e transitória de todas as lesões
decorrentes de ação contundente.

Escoriação é o arrancamento da epiderme, deixando a derme exposta. Reconstitui-se sem deixar


cicatrizes. O exame de uma escoriação deve verificar aspecto, idade, forma, sede e número.
O aspecto pode evidenciar uma escoriação produzida "post-mortem", a qual não apresenta formação de
crosta, o derma é branco sem serosidade ou sangue, o leito é seco e apergaminhado.
A idade de uma escoriação é presumida pelo aspecto da lesão, da crosta e da coloração concernente ao
tempo de reepitelização. A forma da lesão pode revelar o instrumento causador (palmatória, saltos de sapato,
unhas).

A sede e o número das lesões têm importância para a conclusão da natureza jurídica da ofensa.

Equimose é uma lesão decorrente da infiltração sanguínea nas malhas dos tecidos. Sua forma pode
revelar o objeto causador (fivelas de cinturão, saltos de sapato, cordas, lábios, bastões, bengalas, etc.). Podem ser
superficiais ou mais profundas (nas massas musculares, nas vísceras e no periósteo). A equimose, quanto à forma,
pode ser classificada em sugilação, víbices, equimonas e petéquias.

Sugilação é aquela que se apresenta em forma de pequenos grãos de areia. Víbices são as que se
apresentam em forma de estrias. Equimona é uma equimose de grandes proporções.

Petéquias são equimoses profundas, pequeninas e arredondadas, subpleurais ou subepicárdicas, ou


ainda, encontradas sob as serosas viscerais, em casos de asfixias mecânicas (sinal de Tardieu).

A equimose sofre com o tempo mudanças sucessivas de coloração, constituindo o "espectro equimótico
de Legran de Saulle": vermelha (1º dia) , violácea (2º e 3º dias), azul (4º e 5º dias), esverdeada (6º ao 8º dia),
amarelada (em volta do 10º dia), desaparecendo entre o décimo segundo e o d into dia.
Este processo decorre da transformação da hemoglobina ada das hemácias em hematina e
globina; posteriormente, a hematina se reduz aos produtos finais de decomposição (hematoidina e
hemossiderina), absorvidos por fagocitose. Essa gradação de cores ocorre da periferia para o centro, até seu
desaparecimento total.
O estudo das equimoses é baseado na sua cor, na forma sede. A cor permite concluir sobre a idade, a
forma revela o instrumento produtor e a sede esclarece a natureza jurídica do crime (homicídio, crime sexual,
etc.).

O hematoma decorre do maior extravasamento de sangue d um vaso calibroso lesado, formando, no


interior dos tecidos, cavidades contendo coleções sanguíneas.

Bossa sanguínea é uma coleção de sangue sobre uma superfície óssea. É comum nos traumatismos
cranianos.

O edema traumático se manifesta por distensão e elevação cutânea decorrente da alteração circulatória
provocada por um traumatismo.

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A ferida contusa apresenta as seguintes características: bordas irregulares, escoriadas e equimosadas,


fundo irregular, hemorragia escassa, vertentes irregulares, presença de pontes de tecido íntegro constituídas de
vasos, nervos e tendões, ângulo tendendo à obtusidade.

As fraturas são soluções de continuidade dos ossos provocadas, na maioria das vezes, por um trauma.
Podem ser diretas (no próprio local do traumatismo) ou indiretas (produzidas à distância do local do
traumatismo). Podem se apresentar por um traço, vários traços ou por inúmeros fragmentos (fratura cominutiva).
Podem ser fechadas (subcutâneas) ou abertas (expostas). E, ainda, classificam-se quanto à extensão (completas e
incompletas) e orientação (transversais, longitudinais, oblíquas, espiraladas, em hélice, em passo de parafuso, em
vara verde, em T e em Y).

A luxação é a perda do contato entre as superfícies articulares, causada pelo deslocamento de dois
ossos. Pode ser completa (perda de contato total) ou incompleta (perda de contato parcial).

As roturas de vísceras internas são lesões profundas de caráter grave. Todas as vísceras estão sujeitas a
essa modalidade de lesão, sendo mais comumente atingidos: fígado, baço, rins, pulmões, intestino, pâncreas e
suprarrenais.

2.3 Instrumentos Perfuro cortantes

As lesões produzidas são denominadas feridas perfuro cortantes. Os instrumentos possuem ponta e
gume e atuam por um mecanismo misto perfurando com a ponta e cortando com seu gume os planos superficiais
e profundos do corpo.
Os instrumentos podem conter um só gume (faca, peixeira, canivete, espada), dois gumes (punhal e três
gumes (lima). A ferida produzida por instrumentos de u só gume apresenta: forma em botoeira, com fenda
regular e linear, um ângulo agudo e outro arredondado; largura maior que a espessura da arma; comprimento
menor que a largura se o trajeto da arma for perpendicular ao plano corporal e maior comprimento se atuar
obliquamente.
As feridas produzidas por instrumentos de dois gumes produzem fenda de bordos iguais e ângulos
agudos. As feridas produzidas por instrumento de três gumes apresentam forma triangular ou estrelada. O trajeto
na profundidade do corpo tem as mesmas características daquele resultante da ação dos instrumentos
perfurantes.

2.4 Instrumentos Perfuro contundentes

Determinam as feridas pérfuro-contusas. São aquelas provocadas por projéteis de arma de fogo. No
estudo dessas feridas, são considerados o orifício de e o trajeto.
O orifício de entrada pode ser resultante de tiro encostado, à queima roupa ou a distância. Nos tiros
encostados, o orifício de entrada tem forma irregular, ido à ação dos gases que dilaceram os tecidos
(câmara de mina de Hoffmann). (Fig. 4 e Fig. 5)
Nas adjacências da lesão, é verificada crepitação gasosa do tecido celular subcutâneo, por infiltração dos
gases. Pode ficar impresso o desenho da boca e da alça de mira na pele, através de um halo de tatuagem e
esfumaçamento (sinal de Wergaetner).

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Nos tiros à queima-roupa, o orifício de entrada apresenta ferida circular, ovalar ou labiada, dependendo
da incidência do tiro (perpendicular, oblíqua ou tangencial). Contêm os seguintes elementos: bordas invertidas,
contusão e enxugo, zona equimótica, zona de esfumaçamento, halo de tatuagem e zona de queimadura.
Contusão e enxugo são caracterizados por uma aréola apergaminhada na borda do orifício, resultante da
pressão exercida pelo projétil que vence a resistência da pele, rompendo-a. A zona equimótica é representada por
micro-equimose produzida pela contusão e rotura dos vasos situados na vizinhança do orifício.
A zona de esfumaçamento (zona de falsa tatuagem) resulta do depósito de fuligem ao redor da ferida; a
presença de vestes evita sua formação na pele e a lavagem com água remove-a completamente.
O halo de tatuagem é o elemento balístico utilizado para determinar a distância do tiro e resulta da
penetração de resíduos de pólvora na pele. A zona de queimadura ou chamuscamento é decorrente da ação do
calor dos gases da detonação sobre o pelo e a pele (Fig. 6).

Nos tiros à distância, o orifício de entrada apresenta as bordas invertidas, aréola equimótica e orla de
enxugo estando ausentes as zonas de tatuagem, de esfumaçamento e de queimadura. O orifício de saída tem
forma irregular, bordas evertidas, sangramentos e não apresenta orla de escoriação, nem de enxugo.
O trajeto do projétil é o caminho percorrido, no interior do corpo, desde sua entrada até sua saída. No
entanto, pode inexistir o orifício de saída e o trajeto termina em fundo de saco.
Vários poderão ser os trajetos seguidos (único ou múltiplo para cada entrada, penetração numa
cavidade, transfixante), formando linhas retas ou curvas, criando ângulos imprevisíveis e desvios geralmente
provocados pelas barreiras ósseas.

2.5 Instrumentos Corto contundentes

As lesões produzidas são denominadas feridas corto contusas. Exemplos destes instrumentos são: foice,
facão, machado, enxada, guilhotina, serra elétrica, os dentes e as unhas.
Têm a forma variável, dependendo da região atingida, da inclinação, do peso, do gume, e da força viva
que atua, podendo predominar as características das feridas cortantes ou das contusas. São lesões graves e
profundas, determinando variadas modalidades de ferimento, inclusive fraturas e luxações.

3. ENERGIA FÍSICA

As energias físicas mais comuns são: temperatura, pressão atmosférica, eletricidade, radioatividade, som
e luz.

3.1 Temperatura

A temperatura pode atuar pelas seguintes modalidades: ição, aumento e oscilações de


temperatura.

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A diminuição produz lesões locais e sistêmicas, denominadas geladuras. As locais decorrem da


vasoconstrição inicial e da vasodilatação paralítica posterior, manifestando-se por palidez, aspecto anserino da
pele, podendo evoluir para a isquemia, necrose e até gangrena.
As sistêmicas são consequentes à isquemia e congestão, compensadoras da alteração vascular periférica,
manifestando-se por alterações do sistema nervoso, sonolência, convulsões, delírios, perturbações do movimento,
congestão ou isquemia visceral, podendo levar à morte. O diagnóstico de morte por geladuras é feito pelos
seguintes elementos: hipóstase vermelho-clara, sangue de tonalidade menos escura, isquemia cerebral e
congestão polivisceral.
O aumento da temperatura pode atuar de forma difusa ou direta. A ação difusa resulta em lesões
denominadas termonoses que compreendem duas modalidades: a insolação e a intermação.
A insolação provém do calor ambiental em locais fechados ou abertos, onde atuar a temperatura
elevada, os raios solares, a ausência de renovação de ar, o excesso de vapor d'água e a fadiga.
A intermação decorre do excesso de calor artificial em lugares mal arejados, como aquecedores, a
fornalha, um fogão, um aparelho médico e a caldeira.
O diagnóstico de morte pelas termonoses é feito pelas eguintes características: secreção espumosa e
sanguinolenta das vias respiratórias, precocidade da rigidez cadavérica, putrefação antecipada, congestão e
hemorragia visceral.
A ação direta do calor sobre o corpo, provocada por irradiação, pelo calor das chamas, de sólidos, de
líquidos ou gases superaquecidos, resulta em queimaduras. Hoffmann e Lussena classificou-as em quatro graus: 1º
grau (eritema), 2º grau (flictena), 3º grau (escarificação) e 4º grau (carbonização).
O eritema manifesta-se por hiperemia, edema e dor cutânea, atinge apenas a epiderme que se
reconstitui sem deixar vestígios.
A flictena é a vesiculação ou bolha formada pelo acúmulo de líquido seroso, rico em cloretos e albumina,
localizada sob a epiderme eritematosa, deixando a derme exposta pelo rompimento. As flictenas não devem ser
confundidas com as bolhas de putrefação cadavérica.
A escarificação é a coagulação necrótica dos tecidos moles, podendo atingir o plano muscular.
A carbonização é a destruição, local ou generalizada, tecidos, podendo atingir o plano ósseo, leva à
morte, com o cadáver na posição característica de lutador ou boxer.
Em casos de incêndio, a perícia deve concluir se o indivíduo morreu pelo calor das chamas ou antes do
fato. Esta questão é esclarecida pela pesquisa de lesões corporais distintas daquelas provocadas pela queimadura
e pela verificação dos fatores indicativos de que a vítima respirou durante o incêndio (presença de óxido de
carbono no sangue e de fuligem ao longo das vias respiratórias, denominada sinal de Montalti).
A oscilação de temperatura causa danos à integridade corporal e saúde, porque expõe o indivíduo a
determinadas doenças, decorrentes do aumento da virulência dos germes ou por diminuição da resistência
imunológica.

3.2 Pressão Atmosférica

A pressão atmosférica pode atuar pelo aumento ou diminuição. O aumento da pressão atmosférica,
existente nas submersões, provoca o "mal dos caixões" se manifesta por sintomas de intoxicação pelo
oxigênio (depressão do centro respiratório, tetania, espasmos, coma), pelo nitrogênio (embriaguez) e pelo gás
carbônico (dores nos seios paranasais e ouvidos), ocorrendo ainda nas descompressões súbitas, produzindo
fenômenos embólicos que acarretam dores articulares, equimoses generalizadas, surdez, paraplegia, afasia,
paralisia dos nervos cranianos e até a morte.
A diminuição da pressão atmosférica ocorre nas grandes altitudes e produz o "mal das montanhas",
decorrente do baixo teor de oxigênio e de gás carbônico que leva a alterações da hematose, provocando
taquicardia, epistaxes, hemorragias cerebrais e distúrbios gastrintestinais (vômitos e diarréia).

3.3 Eletricidade

A eletricidade pode ser natural ou artificial. A eletricidade natural ou cósmica pode agir de forma
sistêmica e letal, sendo denominada fulminação, ou de local, constituindo a fulguração. A eletricidade
artificial produz a eletroplessão (marcas elétricas localizadas) e a eletrocussão (ação sistêmica e letal). A lesão mais
leve é a marca elétrica de Jellinek, que apresenta forma circular, elíptica ou estrelada, de consistência endurecida,

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mumificadas, bordas altas, leito deprimido, tonalidade esbranquiçada, fixa, indolor, podendo adotar a forma do
condutor (fio, placa, etc.). Outros tipos de lesões provocadas pela eletroplessão são metalização elétrica
(destacamento da pele com o fundo da lesão impregnado de partículas da fusão do condutor), salpicos metálicos,
lesões de saída (nos pés).
A ação mortal da eletricidade é explicada por três teorias, conforme a intensidade da corrente elétrica:
morte pulmonar (tensões entre 120 e 1.200 volts), morte cerebral (acima de 1.200 volts) e morte cardíaca (abaixo
de 120 volts). A morte pulmonar se baseia nos achados compatíveis com asfixia (edema pulmonar,
enfisema sub-pleural, congestão visceral) e pela apneia anterior à assistolia, resultados decorrentes da tetanização
dos músculos respiratórios e de fenômenos vasomotores. A morte cardíaca é explicada pela alteração da
condução elétrica normal do coração, provocando fibrilação ventricular e parada cardíaca. A morte cerebral é
decorrente da hemorragia das meninges, hiperemia dos centros nervosos, hemorragia das paredes ventriculares
do cérebro, do bulbo, dos cornos anteriores, da medula e do edema da substância branca e cinzenta do cérebro.

3.4 Radioatividade

Produz lesões através dos raios X, do rádio e da desintegração atômica. As lesões locais são denominadas
radiodermites e as de ação geral incidem sobre órgãos profundos.
A energia atômica tem efeitos de ordem mecânica (produzidos pelas explosões), térmica (produzindo
queimaduras) e radioativa (produzindo efeitos tardios como câncer e alterações genéticas).
As radiodermites podem ser agudas (úlcera dolorosa coberta por crosta, de difícil cicatrização) ou
crônicas (alterações digestivas, circulatórias, cancerígenas, esterilizantes, etc.)

3.5 Som

Com mais de 20.000 ciclos/seg. e 90 decibéis produz alterações psíquicas e lesões auditivas. É de
interesse para a Infortunística em virtude dos acidentes de trabalho em quem se expõe por muito tempo a áreas
de poluição sonora sem a devida proteção.

3.6 Luz

Causa danos principalmente aos órgãos da visão, podendo variar de lesões simples até a cegueira.

4. ENERGIA QUÍMICA

A energia química pode agir pelos efeitos dos cáusticos e dos venenos.

4.1 Cáusticos

São substâncias químicas que produzem lesões denominadas vitriolagem, termo derivado do uso antigo
do óleo de vitríolo (ácido sulfúrico) em ações criminais. A lesão se caracteriza por úlcera coberta de crosta, de
coloração variável (negra, cinzenta, amarela ou esbranquiçada), endurecida. Os cáusticos podem ter propriedades
variáveis: desidratante (cal, soda, potassa, ácido sulfúrico), oxidante (ácido nítrico, ácido crômico, nitrato de
prata), liquefacente (ácido acético, amoníaco, soda cáustica, potassa) e coagulante (mercúrio, chumbo, zinco e
cobre).

4.2 Venenos

São substâncias que causam danos à saúde, mesmo em doses homeopáticas, quando introduzidas pelas
diversas vias do organismo (oral, gástrica, inalatória, cutânea, subcutânea, intramuscular, intraperitoneal,
intravenosa, intra-arterial e intratecal).
Classificam-se quanto ao estado físico (líquidos, sólidos e gasosos), à origem (animal, vegetal, mineral e
sintéticos), às funções químicas (óxidos, ácidos, bases, sais) e ao uso (doméstico, agrícola, industrial, medicinal e
venenos propriamente ditos).

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Envenenamento é a morte ou dano grave à saúde ocasionados por determinadas substâncias de forma
acidental, criminosa ou violenta sendo estudados pela Toxicologia

5. ENERGIA FÍSICO-QUÍMICA

A energia físico-química produz asfixia (termo de origem grega que significa "s pulso, ausência de
pulso"), síndrome produzida pelos efeitos da hipoxemia e hipercapnia consequentes a dificuldades ou supressão
da função respiratória. Para a Medicina Legal, interessam as asfixias mecânicas, resultantes do impedimento
mecânico, fortuito ou intencional, dos movimentos respiratórios indispensáveis para a troca gasosa.

As asfixias didaticamente podem ser divididas em:

1. Asfixias devido à permanência em espaço fechado: - Confinamento.


2. Asfixias mecânicas por constricção do pescoço: - Enforcamento; - Estrangulamento; e Esganadura.
3. Asfixias mecânicas por oclusão dos orifícios respiratórios externos: - Sufocação direta; - Sufocação
por corpo estranho.
4. Asfixias mecânicas por obstáculo aos movimentos respiratórios: - Sufocação indireta.
5. Asfixias mecânicas por respiração num meio líquido, ou num meio sólido pulverulento: -
Afogamento; - Soterramento.
6. Asfixias por gases irrespiráveis.

O confinamento resulta da permanência em ambientes fechados, sem renovação do ar, sendo o oxigênio
consumido gradativamente e o gás carbônico acumulado. ser de origem criminosa ou acidental, sendo esta
última mais frequente.

5.1 Enforcamento

É a morte produzida pela constrição do pescoço por um laço fixo sobre o qual age o próprio corpo como
força ativa. A morte pode ter as seguintes causas: asfixia propriamente dita (oclusão da luz traqueal impedindo a
passagem de ar), ligadura dos vasos cervicais; e mecanismo nervoso (estimulação do pneumogástrico, inibição
reflexa e herniamento bulbar).
Os sinais cadavéricos encontrados, em caso de enforcamento são: sulco no pescoço (único ou múltiplo),
cabeça caída lateralmente, face cianótica, protrusão da língua, cianose dos leitos ungueais, livores mais
acentuados nos membros inferiores, linha brilhante no do sulco (linha argentina), equimose retro-faringea
(de Brouardel), rotura dos esternocleidomastóideos, luxações e fraturas dos ossos cervicais (vértebras cervicais,
osso hioide) e das cartilagens (laríngeas e tiroide), lesões da coluna cervical (luxações e fraturas), congestão
visceral generalizada.

5.2 Estrangulamento

É a morte causada por um instrumento em volta da região cervical, acionado por força estranha,
provocando constrição do pescoço. Os meios utilizados são os mesmos usados no enforcamento. É excepcional o
suicídio por estrangulamento, sendo mais comum o homicídio e o acidente.
O sulco é o elemento mais importante no diagnóstico diferencial com enforcamento. Possui direção
horizontal, único, contínuo ao redor do pescoço e de profundidade uniforme.

5.3 Esganadura

É a constrição cervical com emprego das mãos. Podem estar presentes no pescoço equimoses
arredondadas, de número variável, produzidas pela ação contundente dos dedos do agressor - equimoses digitais -
que podem permitir determinar a mão empregada e a posição do esganador.

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5.4 Sufocação

É a asfixia produzida pelo impedimento da passagem do nas vias respiratórias por meio direto ou
indireto. A sufocação direta ocorre por oclusão da boca e das fossas nasais ou por obstrução das vias aéreas
principalmente por corpos estranhos. A sufocação indireta é decorrente da compressão do tórax ou do abdome
por agente mecânico externo, resultando em impedimento da expansão torácica.

5.5 Afogamento

É a morte produzida pela penetração de líquido nas vias respiratórias. Existem duas fases distintas no
afogamento: fase de defesa e fase de não defesa. Na fase de defesa há o período de parada respiratória e o
período de dispneia. Na fase de não defesa ou de impotência surgem a parada respiratória, perda da consciência,
insensibilidade e morte. Os sinais cadavéricos do afogado são: temperatura cutânea baixa, pele anserina, retração
do mamilo, do escroto e do pênis; descolamento da epiderme palmar e plantar, cogumelo de espuma sobre a
boca e os orifícios nasais; livores cadavéricos de tonalidade rósea, equimoses faciais e conjuntivais; líquidos e
corpos estranhos nas vias respiratórias; enfisema aquoso subpleural (hiperaeria de Casper); equimoses
subpleurais (manchas de Paltauf); sangue diluído pela de líquido na circulação ao nível do tecido
pulmonar; presença de líquido no aparelho digestivo e congestão de vísceras torácicas e abdominais.

5.6 Soterramento

É a asfixia por obstrução das vias aéreas por terra ou substância pulverulenta. O diagnóstico é feito pela
presença de substâncias estranhas, sólidas ou semissól pulverulentas, no interior das vias respiratórias, na
boca, no esôfago e no estômago, além dos sinais gerais de asfixia.

5.7 Asfixias por Gases Irrespiráveis

Podem ser classificadas, de acordo com a natureza do gás, em asfixias por gases de combate, por gases
industriais, por gases anestésicos, por gases das habitações. A vítima pode apresentar alterações psíquicas (torpor,
insônia), motora (astenia), sensitiva (dores articulares, nevralgias), sintomas inespecíficos (náusea, vômito,
diarréia, anemia) ou até mesmo morte. Na necropsia a colheita de sangue e exame das vísceras é de fundamental
importância. Já no vivo o diagnóstico é feito pelos sintomas apresentados e exame do sangue. Os sinais
anatomopatológicos encontrados nas diversas formas de são os seguintes: cianose (labial e dos pavilhões
auriculares); equimoses subconjuntivais; petéquias facial, dorsal e cervical (manchas de Tardieu); otorragias;
escoriações ungueais e em volta do pescoço (nos casos esganadura e como defesa nos casos de enforcamento
ou estrangulamento); protrusão da língua; cogumelo de ma nos orifícios oral e nasal; livores arroxeados ou
azulados; sangue muito escuro; pulmões congestos com petéquias sub-pleurais e estase venosa.

6. ENERGIA BIOQUÍMICA

A energia bioquímica causa danos pelas perturbações alimentares, pelas autointoxicações e pelas
infecções. As perturbações alimentares mais importantes são a inanição, as doenças carenciais e as intoxicações
alimentares. Inanição é o depauperamento orgânico produzido pela redução ou pela privação de elementos
imprescindíveis ao metabolismo do homem. As doenças carenciais são alterações decorrentes da insuficiência
alimentar ou pela carência de vitaminas (avitaminoses), podendo ter causas acidentais, culposas ou dolosas. As
intoxicações alimentares são provocadas pela ingestão contendo substâncias ou micro-organismos
nocivos à saúde; distingue-se do envenenamento, porque este é provocado por substância química de composição
definida.

6.1 Auto-intoxicações

São perturbações orgânicas causadas pela elaboração de substâncias tóxicas pelo próprio organismo a
partir da ingestão de certos elementos. Por exemplo, a uremia como consequência da ingestão de certos
medicamentos por pessoas com a função renal deficitária.

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6.2 Infecções

São patologias causadas por micro-organismos patogênicos que penetram no organismo através das
portas de entrada acessíveis (feridas, resistência imunológica diminuída). Aspecto relevante é a relação de
infecção grave com um traumatismo de ação criminosa, constituindo uma concausa.

7. ENERGIA BIODINÂMICA

A energia biodinâmica é representada pelo choque e pelo coma.

7.1 Choque

É a perfusão tissular inadequada, devido à diminuição volume sanguíneo circulante, causada por
hemorragia ou lesão traumática, neurogênica ou tóxica micro e da macrocirculação. Classificam-se em choque
cardiogênico (deficiência do bombeamento do coração); obstrutivo (por bloqueio ao retorno venoso ao coração);
hipovolêmico (por redução aguda do volume sanguíneo circulante); periférico (resultante da alteração na
distribuição do fluxo sanguíneo).

7.2 Coma

É uma síndrome em que o paciente não responde a qualquer estímulo, retendo apenas os reflexos
primitivos. Os comas de interesse médico-legal são aqueles produzidos por traumatismos cerebrais (hematomas,
edemas e contusões), hepáticos (alcoolismo) e renais (insuficiência renal aguda pelo uso de drogas).

8. ENERGIAMISTA

A energia mista compreende as ações produtoras de lesões corporais ou morte que envolvem diversas
modalidades de energia, incluindo a fadiga, as doenças parasitárias e sevícias.

8.1 Fadiga

É o excesso de atividade corporal que produz alterações físicas ou mentais, podendo ser aguda ou
crônica. A perícia deve procurar esclarecer a causa jurídica, principalmente quando consequente ao trabalho.

8.2 Doenças parasitárias

São patologias provocadas por helmintos, protozoários e bactérias, podendo ser muitas ve es
verdadeiras doenças profissionais.

8.3 Sevícias

Caracterizam-se por lesões corporais de naturezas diversas (mecânica, física, bioquímica, biodinâmica,
etc.) encontradas concomitantemente em um indivíduo traduzindo maus tratos

9. PERÍCIA MÉDICA

A perícia médica tem a finalidade de diagnosticar as lesões corporais, concluir a forma de energia
causadora, o instrumento utilizado e a causa jurídica da lesão (acidente, suicídio, homicídio, etc).
O diagnóstico da lesão é feito a partir das verificações periciais como as características particulares de
cada lesão, forma, repercussões orgânicas e os sinais encontrados numa necropsia, em caso
de morte, esclarecendo concomitantemente a modalidade de energia que produziu a lesão.
O instrumento utilizado pode ser revelado pela própria forma da lesão, como nos casos das feridas
cortantes, perfuro cortante, das escoriações, equimoses, dos sinais cervicais de estrangulamento, enforcamento e
esganadura.

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A causa jurídica das lesões corporais é concluída pelos caracteres observados, como número (são em
geral numerosas em caso de sevícia), sede (as lesões de defesa se localizam na borda cubital do braço, na face
palmar da mão ou dos dedos e no dorso do pé) e a energia que produziu a lesão (muito comum o suicídio por
envenenamento e enforcamento). A sevícia geralmente tem aspecto doloso, as avitaminoses podem decorrer de
um ato culposo.
Realizado o exame pericial da lesão, o perito deverá responder aos quesitos oficialmente elaborados
para poder classificar a lesão em leve, grave ou gravíssima, conforme a legislação penal.

10. LEGISLAÇÃO DAS LESÕES CORPORAIS

Lesão corporal, sob o ponto de vista médico-legal, é a consequência de um ato violento capaz de
produzir, direta ou indiretamente, qualquer dano à integridade corporal ou à saúde de alguém, ou ainda,
responsável pelo agravamento de uma perturbação já existente.
Ato violento é qualquer injúria produzida pelos diversos meios causadores do dano quais sejam:
mecânico, físico, químico, físico-químico, bioquímico, biodinâmico, psíquico ou misto.
As lesões corporais constituem elementos objetivos de m crime. São portanto consideradas corpo de
delito, que por sua vez, é o conjunto dos vestígios deixados pelo ato criminoso, constituindo-se no elemento
material resultante do delito, a partir do qual os per podem dizer sua natureza, estabelecer o nexo de
causalidade e deduzir a infração penal prevista pela legislação. Faltando estes vestígios, como nos casos das
injúrias verbais, existe o delito, mas não há o corpo delito, sendo o elemento de estudo subjetivo, como a
prova testemunhal.
O elemento subjetivo de um crime é a voluntariedade, classificada em dolo e culpa.
O crime doloso é aquele realizado com intenção e seu resultado é desejado de modo direto,
premeditado e repentino.
O dolo direto se divide em determinado e indeterminado. É determinado quando o criminoso visa ao
objetivo a ser atingido. O indeterminado ocorre quando o criminoso não visa a um alvo específico, sendo este um
fim alternativo (indivíduo que aciona uma arma de fogo em direção a um grupo, podendo atingir qualquer um dos
participantes).
O dolo indireto ou eventual é o que resulta em consequências previsíveis e premeditadas, mas nem
todas desejadas intencionalmente. É o caso de um indiv que quer matar uma mulher que traz em seu braço
uma criança, e esta é atingida pela arma utilizada na do agressor atingir a mãe, ocorrendo a morte das
duas.
O dolo premeditado é o que leva certo espaço de tempo entre o propósito e a efetivação.
O dolo repentino é a ação criminosa prontamente executada.
O crime culposo é aquele em que as consequências, embora prováveis, não são previstas pelo agente,
nem desejadas. A culpa decorre de imprudência, negligência ou imperícia.
As consequências nocivas decorrentes de uma ação praticada sem intenção, durante o exercício de uma
prática lícita, realizada com devida atenção, caracterizam um acidente. Este é isento de qualquer penalidade.
O Código Penal (Art. 23) enumera as situações em que o ato é praticado com intenção, mas não
caracterizam o crime por ter sido o autor forçado a fazê-lo (exclusão de ilicitude). São os casos de estado de
necessidade, legítima defesa, e estrito cumprimento de dever legal ou no exercício regular de direito. A Lei 7.209,
de 11 de julho de 1984 criou a figura do excesso punív no seu parágrafo único. O agente, em qualquer das
hipóteses deste artigo, responderá pelo excesso doloso ou culposo.
As causas e consequências constituem aspectos importantes relacionados às lesões corporais.
Causa é o meio que provoca resultados imediatos e responsáveis por determinadas lesões, levando a
uma relação de causa e efeito.
Concausa é o conjunto de fatores capaz de modificar o curso natural do resultado, independente do fato
inicial e da sua evolução, decorrente de condições patológicas que já existiam ou que podem vir a existir,
agravando o processo, podendo ser preexistentes e supervenientes. As preexistentes são classificadas em
anatômicas (resistência craniana diminuída, heterotaxia visceral, má-formação congênita de um órgão);
fisiológicas (fadiga, convalescença, estado gravídico puerperal, repleção do estômago ou da bexiga); e
patológicas (diabetes, aneurisma da aorta, tuberculose, hemofilia, etc). As supervenientes são as causas
posteriores que, adicionadas à causa traumática, contribuem para o agravamento do resultado, como uma
septicemia ou um tétano.

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As consequências decorrentes das lesões corporais, enu pelo Código Penal (Art. 129, § 1º, 2º e
3º), são as seguintes: incapacidade para as ocupações por mais de trinta dias; perigo de vida; debilidade
permanente de membro, sentido ou função; aceleração de parto incapacidade permanente para o trabalho;
enfermidade incurável; perda ou inutilização de membro, sentido ou função; deformidade permanente; aborto e
morte.
Incapacidade para as ocupações habituais por mais de trinta dias e a inabilidade parcial ou total de
executar as atividades genéricas, profissionais ou não.
O período de trinta dias, estabelecido para a recuperação da capacidade, deve ser considerado quando a
vítima puder retomar suas ocupações em condições razoáveis, sem causar maior dano ou agravamento local ou
geral de sua lesão.
O perigo de vida é a iminência de êxito letal, demonstrado por sintomas e sinais, no decorrer de um
processo patológico gerado pela lesão. Uma vez existen será sempre considerado, independente do tempo de
duração. Existe perigo de vida nas seguintes circunstâncias: feridas penetrantes das cavidades abdominal e
torácica, hemorragias agudas, coma, asfixias, choques, queimaduras em mais da metade da superfície corporal,
infecções, etc. O perigo de vida não deve ser confundido com o risco de vida, o primeiro é uma situação real,
enquanto o segundo é uma situação provável. Um indivíduo que salta do décimo andar de um prédio e escapa
ileso sofreu risco de vida e não perigo de vida.
Debilidade permanente de membro, sentido ou função é a redução definitiva da capacidade funcional
que incide sobre membro (superior ou inferior), sentido sensoriais que captam informações do meio
ambiente: tato, visão, audição, olfação e gustação) ou função (mecanismo de atuação dos órgãos, sistemas e
aparelhos). Em caso de órgãos duplos (rins, testículos, ovários, etc.) a perda de um deles caracteriza uma
debilidade permanente, bem como nos casos de eliminação de órgãos ímpares (baço), em que suas funções
podem ser compensadas por outros órgãos. No entanto, a perda de um órgão duplo, com o remanescente
portador de alterações funcionais, caracteriza uma perda ou inutilização, desconfigurando a debilidade
permanente.
Incapacidade permanente para o trabalho é a invalidez para qualquer atividade profissional. A
readaptação decorrente de intervenções custosas e perigosas não modificará o conceito médico-legal, não
beneficiando o agressor. São exemplos: amputação ou perda funcional dos dois braços ou de uma perna e um
braço, a cegueira e a alienação mental.
Enfermidade incurável é todo estado mórbido, doença e perturbação, em evolução ou defin que
sem tratamento acessível incomoda o portador (epilepsia pós-traumatismo craniano, paraplegia pós-traumatismo
medular, etc.). Se a cura é possível, porém demandando anos de tratamento ou de custo bastante elevado, a
enfermidade deve ser considerada como sendo incurável.
A perda ou inutilização de membro, sentido ou função é o do dano de uma funcionalidade.
Ocorre por exemplo na mutilação ou amputação de perna braço, na perda da visão pelo comprometimento de
ambos os olhos, na perda dos dentes pela impossibilidade de mastigação. O membro ou órgão pode subsistir
anatomicamente e permanecer inútil. A reparação não modifica o previsto pela lei.
Deformidade permanente é aquela provocada por um traumatismo de origem criminosa, acarretando
em dano estético visível, aparente e definitivo, após sua evolução, que modifica o aspecto habitual.
Este conceito pode variar segundo o examinador, conforme a sede, a extensão, a idade (cicatriz no fundo de uma
ruga), sexo (regiões habitualmente cobertas no homem e expostas na mulher, por imposições da moda), raça
(certas cicatrizes se transformam em quelóides em pessoas da raça negra), condição social (bailarina, religiosa,
trabalhador rural).
Aceleração de parto é a expulsão do feto antes do período fisiológico, em consequência de trauma físico
ou psíquico que atinja a gestante. Se o feto nascer morto caracteriza a figura do aborto, independente da idade da
gestação.
Aborto é a expulsão do feto morto ou sua expulsão seguida de morte, ou ainda, retenção uterina de feto
morto, em decorrência de uma agressão à gestante, não a idade da gestação, a gravidade do dano
corpóreo da mulher ou se o agressor desconhecia o estado gravídico de sua vítima. Não há a qualificadora se o
agente desconhecia a gravidez da vítima ou se sua ignorância era escusável.
A partir destas consequências, as lesões podem ser doutrinariamente classificadas em leve, grave e
gravíssima.

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As lesões leves se caracterizam por apresentar um elemento positivo e um negativo. O positivo


(concreto) é a ofensa à integridade corporal ou à saúde do indivíduo. O elemento negativo (abstrato) é a ausência
de qualquer das consequências resultantes das lesões corporais já citadas e previstas em Lei.
As lesões graves ocorrem em quatro circunstâncias: incapacidade para as ocupações habituais por mais
de trinta dias, perigo de vida, debilidade permanente de membro, sentido ou função e aceleração de parto.
As lesões gravíssimas se caracterizam por qualquer uma das seguintes eventualidades: incapacidade
permanente para o trabalho, enfermidade incurável, perda ou inutilização de membro, sentido ou função,
deformidade permanente e aborto.
A morte é uma consequência das lesões mortais. Estas podem ser direta ou indiretamente mortais. As
primeiras constituem causas eficientes de morte que podem agir instantaneamente (imediatamente mortais) ou
levarem maior tempo para sua ação (mediatamente mortais). As indiretamente mortais ("per accidens")
constituem as concausas, podendo ocorrer por dois motivos: por incidirem em indivíduos portadores de
constituição especial, de estados anômalos preexistentes, de doenças diversas que lhes reduzem a resistência, a
ponto de levarem à morte (concausa preexistente); por motivos posteriores que, adicionados às causas
traumáticas, concorrem para a morte, quando estas não capazes de provocar tal resultado (concausa
superveniente).
Para que seja caracterizada a concausa, o fato deve ser acidental e desconhecido, enquadrando-se no
parágrafo terceiro do Art. 129 do Código Penal: "Se resulta a morte e as circunstâncias evidenciam que o agente
não quis o resultado, nem assumiu o risco de produzi-lo".
Este exposto caracteriza uma ação dolosa, de resultado culposo, diferente do homicídio, daí seu caráter
atenuante.

11. O CRIME DE TORTURA E A PERÍCIA FORENSE NO BRASIL

A tortura, forma violenta, equivocada, ultrapassada e de investigação e elucidação de crimes


vem sendo denunciada, por entidades nacionais e internacionais, como prática ainda comum e rotineira nas
corporações policiais e correlatas, apesar de ser proibida pela Constituição e pela legislação federal (Lei nº
9.455, de 7 de abril de 1997).
Para efeito de estabelecimento de um conceito comum sobre os atos de tortura e outros tratamentos ou
penas cruéis, desumanos e degradantes, a definição mais aceita é contemplada pelo Artigo 1º da Convenção
contra a Tortura (adotada pela Assembléia Geral das Nações Unidas em 10 de dezembro de 1984):

“Para fins da presente Convenção, o termo ‘tortura’ des qualquer ato pelo qual dores ou sofrimentos
agudos, físicos ou mentais, são infligidos intencionalmente a uma pessoa a fim de obter, dela ou de terceira
pessoa, informações ou confissões; de castigá-la por ato que ela ou terceira pessoa tenha cometido ou seja
suspeita de ter cometido; de intimidar ou coagir esta pessoa ou outras pessoas; ou por qualquer
motivo baseado em discriminação de qualquer natureza; quando tais dores ou sofrimentos são
infligidos por funcionário público ou por outra pessoa no exercício de funções públicas, ou por sua
instigação, ou com o seu consentimento ou aquiescência.
Não se considerará como tortura as dores ou sofrimentos que sejam conseqüência unicamente de
sanções legítimas, ou que sejam inerentes a tais sanções ou delas decorram”.

A República Federativa do Brasil ratificou os principais instrumentos internacionais de direitos


humanos que proíbem, direta ou indiretamente, a tortura. Deve ser mencionado que, conforme exposto no
“Protocolo Facultativo à Convenção das Nações Unidas contra a Tortura e outros Tratamentos ou Penas Cruéis,
Desumanos ou Degradantes – Um Manual para a Prevenção”, de 2004, a doutrina jurídica em todo o mundo
já considera a vedação à prática de tortura “uma norma do direito internacional consuetudinário: seja em
tempos de paz, seja durante a guerra, seja sob a alegação de perigo estrutural e iminente para o Estado”.
Ainda consoante esse Manual: fração crescente da “doutrina defende a tese de que a proibição da tortura
hoje o estatuto de jus cogens ou ‘norma imperativa’ do direito internacional, efinida no Artigo 53 da
Convenção de Viena sobre o Direito dos Tratados, ..., como norma aceita e reconhecida pela comunidade
internacional dos Estados como um todo (...) da qual nenhuma derrogação é permitida e que só ode ser
modificada por norma ulterior de Direito Internacional geral da mesma natureza”.

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A complexidade e a deficiência do sistema prisional brasileiro revelam uma fragilidade no controle e


monitoramento das atividades penitenciárias, contribuindo para a prática de tortura naquelas instalações penais.
(...)
A prova de tortura é difícil de ser colhida. E, em geral, há desrespeito aos artigos 15 da Convenção
Contra a Tortura e Outros Tratamentos ou Penas Cruéis, Desumanos ou Degradantes e 8º, § 3º, do Pacto de
San José da Costa Rica, que assim dispõem, respectivamente:
“Cada Estado-parte assegurará que nenhuma declaração que se tre ter sido prestada
como resultado de tortura possa ser invocada como prova em qualquer processo, salvo contra uma pessoa
acusada de tortura como prova de que a declaração foi prestada”.
“A confissão do acusado só é válida se feita sem coação de nenhuma natureza”.
Pela norma legal vigente no Brasil, a perícia atua mediante solicitação da autoridade competente.
Raras vezes é solicitado exame pericial para crimes tortura. Aliado a isso, não obstante a situação dos
órgãos periciais no Brasil seja distinta para cada ente federado, majoritariamente contam com aspectos
negativos comuns: a falta de recursos humanos, materiais e financeiros; ausência de padronização de
metodologia e de procedimentos; a permanência de uma cultura policialesca nos efetivos etc.
A autonomia política, administrativa e financeira dos periciais, associada a um protocolo
brasileiro como aqui considerado e à ação conjunta com os organismos de controle externo, pode motivar a
superação cultural e profissional-funcional da prática do crime de tortura no Brasil.
Vale lembrar que uma das conseqüências da falta de autonomia é a baixa eficiência e mesmo
confiabilidade/credibilidade do trabalho desenvolvido pelos órgãos periciais. Lembra bem Cecília Maria Bouças
Coimbra, em relação à perícia existente no período militar brasileiro e à perícia nos dias atuais: (...) “Alguns
médicos legistas legalizaram, em seus exames de necropsia, a morte sob tortura de vários militantes políticos. Não
descreveram as marcas deixadas em seus corpos pelos suplícios sofridos, confirmaram em seus laudos as
versões oficiais da repressão,como mortes ocorridas em tiroteios, atropelamentos ou por suicídios. O que,
ainda hoje, sabemos vem ocorrendo. Os médicos AMILCAR LOBO, JOSÉ LINO COUTINHO FRANÇA E RICARDO
AGNESE FAYAD tiveram seus registros médicos cassados, em 1988, 2000 e 1995, respectivamente, p erem
acompanhado, como “técnicos da tortura”, os suplícios perpetrados contra muitos presos políticos. O Grupo
de Tortura Nunca Mais do Rio de Janeiro - GTNM/RJ abriu processos, que correm ainda hoje, contra alguns
médicos legistas nos Conselhos Regionais de Medicina d dos do Rio de Janeiro e São Paulo. (...)
Segundo constatou o Relator Especial da ONU, Nigel Rodley, quando esteve em visita oficial no
Brasil, no ano de 2000, os delegados de polícia e agentes policiais que encaminham uma vítima de tortura ao
Instituto Médico-Legal - IML muitas vezes buscam induzir o perito médico-legista na realização do exame
pericial. Nas entrevistas de detentos concedidas ao Relator Especial, eles informaram que, por medo de
represálias, não se queixavam, quando examinados no IML, dos maus-tratos a que haviam sido submetidos;
e, muitas vezes, reclamavam de ter sido levados ao referido Instituto por seus próprios torturadores e de
serem intimidados e ameaçados durante os exames.
Esse relato, associado aos argumentos anteriores, demonstra que a ausência de independência e
autonomia dos Institutos de Criminalística (IC) e de Medicina Legal (IML) causa desconfiança dos exames e
eventualmente falhas nos laudos. Eis que é mister que tais órgãos forenses passem a ser autônomos.
Na maioria dos casos, a deficiência humana e material não permite aos peritos oficiais fazerem
exames mais específicos que, por exemplo, possam determinar sequelas psíquicas, atendo-se, muitas vezes,
somente nas lesões físicas externas e visíveis.
Os quesitos respondidos pelos peritos, nos exames de corpo de delito, são ultrapassados e
ineficazes, dificultando evidenciar com clareza o crime de tortura.
É fundamental que a realização das perícias nos crimes de tortura, desempenhada obrigatoriamente por
peritos médico-legistas e peritos criminais especializados, cumpra protocolos contendo orientações e
recomendações respectivas ao cumprimento de normas, regras e determinações legais.
É, outrossim, necessário investir na formação, capacitação e qualificação adequada dos peritos
criminais e médico-legistas. (...)

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12. PRINCÍPIOS E RECOMENDAÇÕS QUE DEVEM NORTEAR O EXAME MÉDICOFORENSE (E OUTROS


CORRELATOS) NOS CASOS DE TORTURA

Toda avaliação pericial nos casos de suspeita d crime de tortura deve ser realizada de forma
mais objetiva, impessoal e imparcial possível, com base nos fundamentos médico-legais e criminalísticos (e
nos correntes avanços da Odontologia e Psicologia Forense), e complementada pela experiência profissional-
funcional do perito oficial. O ideal seria que essas perícias fossem feitas apenas por peritos especializados, com
casuística e treinamento no Protocolo de Istambul, para precisar indubitavelmente a existência de tortura.
O exame deve ser realizado num clima de confiança, com paciência e cortesia. É preciso entender que as
vítimas de tortura, na maioria das vezes, mostram-se arredias, desconfiadas e abaladas, em face das situações
vergonhosas e humilhantes a que foram submetidas (freqüentemente por agentes públicos).
O perito (ou, em sua insuperável ausência, profissional correlato, conforme a legislação vigente)
deve sempre manter sigilo das confidências relatadas e somente divulgá-las com o expresso e esclarecido
consentimento da vítima. Examiná-la em ambiente de privacidade e amparo (jamais na presença de outras
pessoas, principalmente de indivíduos que possam ser responsáveis ou coniventes com os maustratos ocorridos).
A vítima, quando as condições objetivas favorecerem, tem o direito de escolher se deseja ser examinada
por um profissional forense do sexo masculino ou feminino. Se a vítima for estrangeira, também tem o direito
de escolher livremente um intérprete para acompanhá-la e orientá-la durante o exame pericial.
As alterações ou perturbações psicossomáticas podem ser evidência de provas determinantes
significativas de que uma pessoa foi torturada. Porém, o contrário (a ausência de tais manifestações na
vítima) não deve ser uma confirmação de que não tenha existido a tortura. Há muitas formas sutis de
violência, principalmente a psíquica, que não deixam seqüelas aparentes.
Na avaliação realizada pelo perito médico-legista ou correlato, a parte correspondente ao
“Histórico” deve ser completa e detalhada, incluindo informações de doenças pregressas e traumas
anteriores à detenção ou maus-tratos. Todas as informações sobre traumas atuais e antigos são
importantes e precisam constar no histórico.
Em relação ao exame físico, esse perito médico-legista (às vezes, em parceria com o perito criminal)
deve procurar analisar minuciosamente as vestes acessórios correspondentes da vítima, utilizando, como
meio de ilustração e documentação, fotografias e esquemas em diagramas do corpo humano (ou das peças de
vestuário).

Para tais situações de suspeita da prática de tortura, a presente proposta de estrutura de quesitos
é:
1º - Há achados médico-legais que caracterizem a prática de tortura física?
2º - Há indícios clínicos que caracterizem a prática de tortura psíquica?
3º - Há achados médico-legais que caracterizem execução sumária?
4º - Há evidências médico-legais que sejam característicos, indicadores ou de
ocorrência de tortura contra o(a) examinando(a), que, no entanto, poderiam excepcionalmente ser produzidos
por outra causa?

Recomenda-se que as respostas aos quesitos sejam “SIM”, houver suficiente e


fundamentada convicção. Não ocorrendo tal condição de teza, responder “SEM ELEMENTOS” (uma vez que,
consoante literatura forense corrente, nem sempre a prática de tortura contra pessoa deixa provas materialmente
determináveis).
É fundamental e indispensável buscar, sempre que exigido pelo conjunto e natureza dos achados
anátomo- e psicopatológicos, o competente exame realizado por profissionais formalmente especializados em
Psicopatologia (Psiquiatria, Psicologia e Psicanálise) Forense e em Odontologia Forense. Assim como deve
se valer o perito médico-legista do auxílio próprio de outros peritos forenses habilitados nas diversas áreas da
Criminalística (balística, papiloscopia, microevidências — pêlos, fibras têxteis etc —, exame de local, entre outras
atividades específicas).

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13. RECOMENDAÇÕES ESPECÍFICAS PARA O PERITO MÉDICO-LEGISTA SOBRE COMO REALIZAR EXAMES DE
LESÕES CORPORAIS NOS CASOS DE TORTURA

1º - Valorizar, de maneira incisiva e técnico-científica, o exame esqueléticotegumentar da vítima.


2º - Descrever, detalhadamente, as localizações e as características de cada lesão (qualquer que seja o
seu tipo e extensão), localizando-a precisamente na sua respectiva região anatômica.
3º - Registrar em esquemas corporais todas as lesões eventualmente encontradas.
4º - Detalhar, em todas as lesões, independentemente de seu vulto, a forma, idade, dimensões,
localização e outras particularidades (como, por exemplo, o sentido de produção da lesão).
5º - Fotografar todas as lesões e alterações encontradas no exame externo ou interno, dando ênfase
àquelas que se mostram de origem violenta.
6º - Radiografar, quando possível, todas as regiões e segmentos anatômicos agredidos ou suspeitos de
ter sofrido violência.
7º - Conferir permanente atenção e cuidados para o exame das vestes e outras peças acessórias do
vestuário da vítima, com ênfase para identificação, colheita, acondicionamento e preservação de evidências
(manchas, marcas, pêlos, fibras têxteis etc) encontradas junto à estrutura dos tecidos componentes dessas vestes
e peças. Deve haver rotina prevista para o encaminhamento dessas amostras para os exames periciais
complementares, que se constituirão parte importante do laudo de lesões corporais.
8º - Examinar a vítima de tortura sem a presença dos agentes de custódia.
9º - Trabalhar, quando possível e necessário, sempre em equipe multidisciplinar.
10º - Usar os meios subsidiários de diagnóstico disponíveis indispensáveis, com destaque para os
exames psiquiátricos e psicológicos, odontológicos, histopatológicos e toxicológicos.

14. RECOMENDAÇÕES ESPECÍFICAS EM CASO DE NECROPSIA DE PERICIANDO MORTO POR TORTURA (OU
TRATAMENTO CRUEL, DESUMANO OU DEGRADANTE).

Todas as mortes ocorridas em presídios ou centros de detenção onde a vítima tenha falecido sem
assistência médica devem ser examinadas conforme esse protocolo.
A primeira recomendação aos peritos médico-legistas é excluir a possibilidade da morte ser “súbita”, ou
seja, a morte causada por lesões orgânicas significativas que levaram à incompatibilidade com a continuidade da
vida e que tenham ausência de lesões ou alterações produzidas por ação externa. Nesses casos, não há o que
duvidar de morte natural, melhor chamada de “morte com antecedentes patológicos” ou de “morte orgânica
natural”. Daí o óbito dever ser diagnosticado e explicado de forma segura pela presença de antecedentes
patológicos. Segundo o Professor Genival Veloso França, as causas de morte mais comuns ou naturais: cárdio-
circulatórias (cardiopatias isquêmicas, alterações valvulares, cardiomiopatias, miocardites, endocardites,
alterações congênitas, anomalias no sistema de condução, ruturas de aneurismas etc.), respiratórias
(broncopneumonias, tuberculose, pneumoconioses etc.), (processos hemorrágicos, enfarte intestinal,
pancreatite, cirrose etc.), urogenitais (afecções renais, lesões decorrentes da gravidez e do parto);
encefalomeníngeas (processos hemorrágicos, tromboembólicos e infecciosos), endócrinas (diabetes), obstétricas
(aborto, gravidez ectópica, infecção puerperal etc.), outras. No entanto, se forem diagnosticadas lesões
orgânicas e, contudo, essas alterações morfopatológicas não se mostraram suficientes para explicar a morte,
então, muito provavelmente, trata-se de uma situação complexa onde a perícia médico-legal terá que ser
completada a fim de investigar a verdadeira causa do óbito.
A grande tarefa passa a ser, nesse caso, buscar afastar a condição de morte natural, por meio de exames
toxicológicos e anátomo-patológicos. Passa-se a investigar lesões e alterações típicas que justifiquem a morte
violenta (causada por meios externos).
Ainda pode ocorrer uma morte súbita sem registro de antecedentes patológicos, com alterações
orgânicas de menor importância e ausência de manifestações violentas. Nesse caso, a situação é ainda mais
complexa e pode ser explicada como “morte súbita funcional com base patológica” Exemplo: arritmia cardíaca.
Quando isso ocorrer, é importante que se examine cuidadosamente o local dos fatos, analisando-se as
informações do serviço médico, do estabelecimento policial ou penal, ou do médico assistente, e empregando-se
os meios subsidiários mais adequados a cada caso, com destaque para os exames histopatológicos e toxicológicos.
Vale mencionar ainda que deve ser despendida atenção para as recomendações específicas contidas nos
procedimentos anteriormente mencionados para o exame de lesões corporais, com ênfase para o artigo 7º.

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15. RECOMENDAÇÕES GERAIS PARA A PERÍCIA OFICIAL NOS CASOS DE TORTURA

1) Os órgãos periciais devem possuir autonomia administrativa e gerencial, e ter dotação orçamentária
que garanta a satisfatória realização dos exames forenses. 2) Todos os ambientes periciais devem criar uma
unidade especializada de direitos humanos, que garanta a agilidade na realização de perícias nos casos de tortura
e outros crimes conexos. 3) O histórico e exames materiais dos locais e houve vítimas (fatais ou não) com
suspeita de ocorrência de tortura (e dos objetos relacionados a esses casos) devem ser realizados de forma a
seguir os protocolos internacionais e nacionais nesse desiderato. 4) A vítima (ou testemunha, por exemplo) deve
ser entrevistada pelo perito criminal logo após a ocorrência de tortura ou maus-tratos, ainda quando as evidências
(manchas, marcas etc) não tiverem desaparecido ou degradado. 5) A interlocução com as vítimas (ou
testemunhas) deve sempre ser feita em local reservado, sem acompanhamento policial ou de familiares. 6)
Quando o histórico relatar caso de tortura, solicitar Institutos próprios: a) Exame de local por equipe
aparelhada na busca, identificação, colheita, acondicionamento e preservação de fluidos, tecidos e anexos
corporais, entre outros; b) Exame de objetos, visando , por exemplo: natureza, eficiência/eficácia e
compatibilidade com as lesões verificadas; c) Exame de vestes e acessórios correlatos; e d) Exames diversos
visando comprovar a relação entre a(s) pessoa(s) envolvidas e o local/objeto examinado (DNA, sangue, pêlos,
marcas e impressões etc.). (...)

15.1 Recomendações em perícias de casos de tortura

Os que trabalham com perícia em casos de tortura, sevícia ou maus tratos, principalmente
quando as vítimas estão sob a tutela judicial, sabem que as evidências desse crime são difíceis pela
sofisticação dos meios utilizados e pela convivência dos agentes do poder em omitir tais ocorrências não
enviando as vítimas aos órgãos especializados da perícia oficial. Some-se a isso o temor que as vítimas têm de
denunciar seus agressores. (...)

Seguem as recomendações:

1 – valorizar no exame físico o estudo esquelético-tegumentar.


2 – descrever detalhadamente a sede e as características dos ferimentos.
3 – registrar em esquemas corporais todas as lesões encontradas.
4 – fotografar as lesões e alterações existentes nos exames interno e externo.
5 – detalhar em todas as lesões, independente do seu vulto, a forma, idade, dimensões,
localização e particularidades.
6 – radiografar, quando possível, todos os segmentos e regiões agredidos ou suspeitos de violência.
7 – trabalhar sempre em equipe.
8 – examinar à luz do dia.
9 – usar os meios subsidiários disponíveis
10 - Ter o consentimento livre e esclarecido do examinado.
11. Examinar a vítima de tortura sem a presença dos agentes do poder.
12 - Examinar com paciência e cortesia.
13 - Respeitar as confidências.
14 -Examinar com privacidade.
15 - Aceitar a recusa ou o limite do exame.

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