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A CONSTITUIÇÃO DO SUJEITO E

FORMAÇÃO DO SINTOMA
Parte I
Conteudista
Prof.ª Esp. Susana Zaniolo Scotton
I - A constituição do sujeito
Nessa unidade, trataremos a questão do sujeito sob a perspectiva da
Psicanálise. Essa questão é altamente complexa e possui, para cada autor,
aspectos que predominam nesse percurso de formação do sujeito. Assim,
elegemos alguns autores importantes para tentar falar de forma resumida e
breve, elencando alguns conceitos principais, como se dá esse processo e dos
elementos que o influenciam.

II – O sujeito em Lacan e Freud


A clínica, ao interrogar a teoria, busca a singularidade de cada caso na
definição de um sujeito presente a partir do simbólico, a partir do corporal, a
partir das relações e de sua relação com os objetos de desejo e de interesse
ao longo dos primeiros anos de vida.
Cada ser humano é construído com possibilidades de se representar de
acordo com a realidade ou de acordo com as confusões e as fantasias que
carregaram a realidade dos cuidadores e determinam o ambiente em que a
criança irá se desenvolver. Pensemos, então, de forma breve e resumida,
como o sujeito é formulado nas principais teorias que fundamentam a
Psicanálise.
Lacan, por exemplo, pensou o sujeito a partir de duas categorias, Sujeito
(com S maiúsculo mesmo), que seria o Sujeito do inconsciente, e o sujeito
cartesiano (ou eu ou a, conforme a notação lacaniana). A relação entre esses
instituiria o sujeito barrado ($) tal como Lacan define o sujeito dividido entre o
cogito e desidero (querer). Expliquemos: o sujeito do cogito é o sujeito
cartesiano, relativo à máxima de Descartes (“penso, logo existo”), que
corresponderia ao nosso “lado racional”, “consciente”; entretanto, com a
descoberta do inconsciente, por meio de suas formações - atos falhos, sonhos,
lapsos, esquecimentos, etc. –, foi possível perceber que o homem não é tão
“consciente assim”, que nele moram desejos que nem sempre podem vir à
tona. Isto é, esse sujeito racional, sujeito do cogito, não é capaz de
acompanhar suas representações e se assegurar da continuidade de seu ser.
A partir dessa constatação, Lacan chegou a uma fórmula negativa
(fórmula do inconsciente) da máxima do filósofo, “ou não penso, ou não sou”,
que seria: “penso onde não sou, logo sou onde não penso”. De forma que não
há acesso total a essa parte “onde sou de fato”, que não corresponde ao que
acredito ser por meio do pensamento racional. Assim, o psicanalista pensou a
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formulação da distinção entre o sujeito do inconsciente e o eu: “O sujeito do
inconsciente é o sujeito por excelência, e se distingue do eu, função imaginária,
que pode ser consciente” (BRUDER; BAUER, 2007, p.517). É o sujeito do
inconsciente que faz o gerenciamento de seu psiquismo, sem que o eu - sujeito
da consciência - tenha acesso.
Nesse sentido, assim como eu não tenho acesso ao que sou em essência
(inconsciente) também não tenho acesso ao real. O real será sempre uma
interpretação, um modo de concepção por mim imaginado. A relação é binária
entre a realidade e a realidade que eu imagino.
O real de fato existe: ele me atinge e me afeta. O real, inclusive, existe
antes de qualquer formulação a seu respeito. Todas as formulações, os nomes,
as ideias... a linguagem que fala do real e através da qual temos acesso a “ele”
participam do mundo simbólico. Porém, aquilo que é simbólico (simbolizado)
não é o real, mas seu “espectro”. O simbólico é uma tentativa de distinguir o
real. Sem o simbólico não posso me remeter ao real. O calendário nos permite
esquadrinhar o giro da terra, a época de colheita, o natal, etc. assim como o
simbólico consegue esquadrinhar a realidade, “desenhando” para distinguir o
real; cria uma operação e mapeia sem que de fato exista na natureza.
Para Lacan, só temos acesso ao real de fato quando temos uma
experiência com a morte de alguém ou quando uma tragédia acontece, por
exemplo. Nesses casos, em princípio, “perdemos o chão”, ou seja, ficamos
sem conseguir dar sentido, significado ao acontecimento. E é aí que
“antevemos” ou “pressentimos” o real. O real teria a ver mais com uma
experiência que com um sentido. Ainda poderíamos “perceber” o real quando
temos contato com a arte. Para Lacan, diferente de Freud - para quem a arte é
uma produção do inconsciente -, a obra de arte é um processo de verdade. A
arte pensa, as obras de arte são o real.
Já o simbólico, por sua vez, funciona tal qual a ciência que tenta discernir,
enumerar, classificar, explicar o campo do real. O registro simbólico
compreende a noção de cultura, o ordenamento social, a denúncia de que não
somos semelhantes e que estamos incluídos em leis universais que nos regem.
Há, no entanto, nessa relação entre o real e o simbólico, o imaginário, que
também se faz fundamental na formação do sujeito.

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II. 1. Entre o simbólico e o Imaginário
De acordo com Helio Pellegrino (2009), a criança, ao nascer, tem seu
corpo transpassado por excitações poderosas, angustiantes, deparando-se
com uma realidade que não a acolhe e, diante disso, busca abrigo no passado,
isto é, na vida intrauterina. Há, então, uma negação da realidade com essa
fusão imaginária ao corpo materno. Mas esse sonho de retorno ao útero–
“nascemos aos poucos do sonho imaginário” – é perturbado por interferências
externas, que colocam à prova essa proteção fantasmática e, dessa forma, aos
poucos, ela passa do sonho imaginário para o sonho simbólico. O imaginário,
assim, está atrelado ao narcisismo primário e, por isso, atrelado às primeiras
formações do indivíduo1.
Freud utilizou pela primeira vez o termo narcisismo em 1905, nos “Três
ensaios sobre a teoria da sexualidade”, em que fala dos ‘invertidos’ que
“tomam a si mesmos como objetos sexuais, o semelhante será amado tal como
sua mãe o amou”. Já, em 1910, no ensaio “Leonardo da Vinci e uma lembrança
de sua infância” assim como em 1911, no estudo do caso Schreber, Freud
formulou o narcisismo com um estágio da evolução da libido - energia sexual
que parte do corpo e tem seu investimento nos objetos externos. Em 1914,
com o texto “Sobre o narcisismo: uma introdução” e, com a descrição da
segunda tópica, “O Id e o Ego”, Freud traçou uma distinção entre narcisismo
primário e secundário.
Nos “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade”, Freud descreveu um
estado anterior ao narcisismo chamado de autoerotismo. O autoerotismo é o
estrato sexual mais primitivo, estado inicial da libido, em que o corpo é sentido
como fragmentado, pois não há ainda uma unidade, ou seja, um ‘eu’
constituído. Assim, o eu primeiro é corporal. De acordo com Garcia-Roza
(2002, p, 99) “Anteriormente à fase auto-erótica, na qual a pulsão2 perde seu
objeto, há uma fase na qual a pulsão se satisfaz por ‘apoio’ na pulsão de

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O narcisismo, na tradição grega, é o amor que um indivíduo sente por si mesmo.
2
A pulsão, de forma resumida, seria o resultado de um processo somático que ocorre num órgão e do
qual se origina um estímulo representado pela pulsão, e cujo objetivo é suprimir um estado de tensão.
Freud fala sobre pulsão, pela primeira vez, em Três ensaios da Sexualidade de 1905 e reformula o
conceito em 1915, no texto A pulsão e suas vicissitudes2. No texto de 1915, Freud pontua que a pulsão é
diferente de estímulo fisiológico que atua no psiquismo. A pulsão é uma força constante, inevitável e
irremovível e não momentânea como seria o caso do estímulo e provém do interior do organismo. A
pulsão possui como características: a pressão (a soma da força), a meta (satisfação), objeto (aquilo em
que, ou por meio de que, a pulsão pode alcançar sua meta) e fonte (processo somático que ocorre em um
órgão e do qual se origina um estímulo representado na vida psíquica pela pulsão).

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autoconservação e essa satisfação se dá graças a um objeto: o seio materno”.
Se o objeto do instinto é o alimento, o objeto da pulsão é o seio materno, que é
um objeto externo ao corpo do bebê. Quando este objeto externo é
abandonado, quando há alguma “autonomia” com respeito à alimentação,
constitui-se, então, o protótipo da sexualidade oral para Freud, “o chupar o
dedo”. E é nesse momento em que há o autoerotismo.
O autoerotismo, anterior ao narcisismo, relaciona-se a um estado original
da sexualidade infantil, no qual a pulsão sexual encontra satisfação parcial,
sem que haja a busca por um objeto externo. Assim o que a criança procura
não é a satisfação de uma necessidade, mas um “prazer” experimentado
anteriormente e que quer repetir e rememorar. Ao autoerotismo acrescenta-se
o “eu”, para dar início ao narcisismo. Para Garcia-Roza (1995, p. 42) “O
narcisismo é condição de formação do eu, chegando mesmo a se confundir
com o próprio eu”.
O narcisismo primário mencionado por Freud é um estado que não pode
ser observado diretamente, mas que podemos formular a partir de um
raciocínio recorrente. O narcisismo equivale ao nascimento do “eu”. A
transformação dos investimentos de objeto em identificações contribui para a
formação do ‘eu’. O narcisismo do bebê é construído a partir do narcisismo dos
pais.
Garcia-Roza (1995) enumera as características do narcisismo primário
como: o eu ideal, as idealizações, a onipotência, a imagem corpora e o
imaginário. Já o narcisismo secundário compreende o ideal do eu, a
identificação com o outro, a lei e o simbólico. Nasio (1997) fala que o elemento
mais importante e que vem perturbar o narcisismo primário é o “complexo de
castração”. Com a castração, é que o infante percebe a incompletude com
qual, depois, desejará recuperar a perfeição narcísica.
Lacan fala do imaginário no estádio do espelho. O estádio do espelho é
quando a criança se surpreende com sua imagem refletida no espelho – “ou
nos olhos da mãe” – tem a ver com o modo como ela é vista pela pessoa que
fará a função materna. O estádio do espelho, não se refere, necessariamente,
a uma experiência diante de um espelho concreto, mas assinala uma relação
do bebê com seu semelhante que possibilita uma demarcação da totalidade do
seu corpo. Esta relação, que faz parte do imaginário, é caracterizada como
uma relação dual.

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De acordo com Lacan, nesse momento de autorreconhecimento, a
criança terá uma “azáfama jubilatória” (muita alegria), pois consegue ter, pela
primeira vez, uma antecipação de sua completude corporal de forma imaginária
e a partir daí uma distinção de si mesmo do outro. O bebê, ao reconhecer sua
imagem, manifesta uma mímica “intuitiva”, uma série de gestos
experimentados ludicamente através da reflexão da imagem, seguida por um
momento de júbilo.
Mas, o júbilo provocado pelo reconhecimento de sua imagem especular
ainda é acompanhado pela impotência motora e pela dependência da
amamentação. Neste sentido, a imagem antecipa a unidade e o controle da
motricidade do corpo, sentido até então como despedaçado, atribuindo-lhe uma
Gestalt (forma, unidade ideal).
O estádio do espelho é um mecanismo cujo impulso interno vai da
insuficiência à antecipação, fabricando para o sujeito, que se identifica
espacialmente, as fantasias que se formam desde uma imagem despedaçada
do corpo até uma imagem total ou ortopédica. E, finalmente, para uma
armadura assumida de uma identidade alienante, que “marcará com sua
estrutura rígida todo o seu desenvolvimento mental” (LACAN, 1998, p.100).
Para Lacan, essa experiência do espelho é fundamental para o bebê que
poderá identificar a matriz a partir da qual se formará um primeiro esboço do
eu. Essa fase é ainda dominada pelo imaginário e o que aí se produz é apenas
um eu especular. O sujeito como tal somente será produzido quando ocorrer a
passagem do imaginário ao simbólico, isto é, por meio da linguagem.
Para romper o tipo de relação dual, são necessários a linguagem, o
ingresso na cultura e, principalmente, a entrada do terceiro nomeado pela mãe,
ou seja, a entrada do pai, que corresponde ao momento edípico. E é o Édipo
que marcará a passagem do imaginário para o simbólico, pois é o pai que
introduz o filho na cadeia do simbólico, na esfera do social, das leis...
Essa passagem do imaginário ao simbólico, em termos antropológicos,
corresponde à passagem da natureza ou da barbárie à cultura, que é marcada
pelo interdito e representa à regra, a norma, a lei (o simbólico).
O que possibilita esse trânsito do imaginário, fálico e onipotente para o
mundo da realidade externa é a castração simbólica, a interdição do pai. Há,
nesse momento, uma perda da completude fálica. A castração simbólica marca
o segundo nascimento do homem, isto é, introduz a criança no mundo do
simbólico, possibilitando simbolizar o mundo externo e interno. A perda desse
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primeiro mundo fálico e onipotente provoca uma terna nostalgia no homem,
mas é sua perda que possibilita a linguagem.
O símbolo, por sua vez, é o atestado da perda, afinal, só é possível
simbolizar aquilo que se perde. Por princípio das leis da linguagem, o signo
linguístico nunca é a coisa significada; a palavra é sempre a ausência de algo,
embora a represente, invoque e convoque.
O símbolo implica a morte da coisa simbolizada e, ao mesmo tempo,
resgata por meio daquilo que representa o que foi simbolizado: “O símbolo
comemora – e rememora – a coisa simbolizada, ao representá-la no objeto,
material ou semiótico, que a substitui” (PELLEGRINO, 2009, p.370).
Não é diferente no caso da relação entre mãe e criança. Para poder
simbolizar a mãe, é preciso perdê-la. Isso representa o corte da castração
simbólica. No inconsciente infantil, anterior à resolução do Édipo, o infante tem
a mãe para si, numa relação imaginária (casamento esse expresso como
representação na fantasmática inconsciente), que antecede e repele a Lei da
Cultura. A mãe e a criança se dissolvem numa relação que abole o nascimento.
O desejo da mãe, no inconsciente, aponta também para o desejo de retorno ao
útero. Mas essa mãe tem de ser perdida; é preciso aí barrar o desejo do
incesto, pois o incesto é a própria abolição do desejo. Só há desejo se há
fenda, vazio; só há desejo se a falta se instala. A partir dessa falta, dessa
incompletude “ontológica”, que acontece a simbolização e o movimento do
desejo. Assim, perder a mãe imaginária significa simbolizá-la na realidade,
adequando às leis da Cultura. A mãe da realidade é interdita de acordo com as
leis da proibição do incesto. O coito com a mãe, em verdade, representa a
negação do nascimento, e, portanto, a própria morte: “Negar a negação do
nascimento é ter que abrir mão da mãe, como objeto sexual genital. Fomos
expulsos do paraíso, e esta exclusão, que nos trespassa de angústia, torna-se
depois o estandarte onde se inscreve a honra da condição humana”
(PELLEGRINO, 2009, p.372).
***
Esses são três registros da realidade psíquica: real, simbólico e
imaginário. Todo sujeito terá suas experiências a partir das articulações feitas
entre esses três registros, que correspondem, por sua vez, à forma ou modo
como ele fez seu percurso no campo do imaginário e simbólico e,
consequentemente, no real. Para representar tal articulação entre as três
instâncias no sujeito, Lacan se baseou na banda de Moebius:
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III - A constituição do sujeito para Melanie Klein
Melanie Klein, a partir de 1934, formula o conceito de posição. Inspirada
ao perceber o desenvolvimento psicossexual tinha a ideia de estruturas fixas, e
ela percebeu que essas fases se intercambiavam e podiam flutuar entre fases.
Abandona assim o termo fases e usa o termo posição. Uma posição é uma
constelação de ansiedades e com funções evolutivas. Essas posições se
repetem por toda a vida e não apenas na formação do indivíduo.
O conceito de introdução projetiva é responsável pelo eixo central da
psicanálise kleineana e promoveu verdadeira revolução na abordagem clínica;
tem a ver com uma espécie de capacidade da mente em eliminar conteúdos
que se tornaram intoleráveis. A introdução projetiva tem aspectos patológicos e
normais; faz com que o bebê tenha a capacidade de “empurrar a mente para
dentro do outro”, uma capacidade de evacuar partes da mente para dentro de
outro objeto. Bion foi capaz de observar que a identificação projetiva é uma
forma de comunicação. Se a mãe for capaz de identificação com o bebê, ela
pode ler toda essa projeção de maneira fabulosa.
O bebê não tem condição de lutar contra essas duas forças de
desintegração e de integração. A mãe boa elabora esses conteúdos e os
devolve de maneira criativa, delegando, assim, a capacidade ao próprio bebê
de elaborá-los. Dessa forma, ele poderá reverter a função que transformou os
aspectos brutos em conhecimento. O indivíduo cria a fantasia que pode
eliminar os conteúdos de sua própria mente.
O mundo da criança é a mãe, um mundo espacial. A criança se vê e toma
aquilo que ela sente. Sensações corporais ocorrendo no interior dela e essas
sensações precisam encontrar representações. Todas as sensações que a

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criança vai tendo diziam respeito a interiores, cavernas, corpos, objetos, seres
fantásticos como frutos de sensações e dessas colocações de sua angústia, de
suas violências que habitam seu interior.
O objeto bom é introjetado para que, quando a mãe não estiver presente,
ele poderá superar a pulsão de morte. Isto é, ele introjetará os aspectos
positivos da mãe (cuidados, conforto, etc) de forma que se constitua nele um
núcleo saudável para que possa ser protegido das ansiedades paranoides
sempre que necessário. Um processo de identificação, a capacidade que o
bebê tem de ter sucesso na capacidade de projeções, a memória dela dentro
dele, a memória de que é amado, de que é querido, de que é amado por ela
são elementos capazes de acalmar a ansiedade paranoide.
Melanie Klein, baseada na pulsão de morte, diz que o bebê tenta eliminar
aquilo que é mal, persecutório. Independente se o objeto (mãe) é bom ou mal,
haverá forças destrutivas, como na inveja que ataca aquilo que é bom e seus
objetos. A depreciação daquilo que é bom ocorre em função da inveja que é
um representante da pulsão de morte.
A criança ou está com o objeto ideal e se sente bem ou está com o objeto
mal e se sente horrorosa. Para fugir de uma sensação ruim, a criança procura
viver num mundo irreal, em que busca o ideal a partir da onipotência. Conforme
a criança vai crescendo, ela consegue perceber que algumas coisas são
criações dela. De qualquer forma, esse mundo irreal é uma forma encontrada
para sobreviver a algo considerado hostil. A sobrevivência é educativa, é um
mapeamento das qualidades do mundo. Conforme a criança vai distinguindo o
que é maldade, inclusive a maldade dela, consegue construir as noções de
bem e mal.
A criança realiza, na posição depressiva, que aquilo que via separado, em
partes, é, na verdade, o mesmo, percebe que vai ter que lidar com a mãe que é
boa e má ao mesmo tempo. Ela não poderá mais atacar a mãe que a deixa,
porque percebe agora que ela é a mesma que cuida, dá carinho, conforto. Essa
é a situação fundante da condição humana.
Depois a criança perceberá que os pais são um casal, e que os aspectos
cuidadores dos vínculos e rejeitadores do vínculo são os mesmos. Isso
constituirá o elemento básico da fundação edipiana.
Na integração das duas partes, boas e más, a criança está saindo da
posição esquizo-paranoide para entrar na posição maníaco–depressiva. A

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referência a esses dois termos está ligada à ação das pulsões que agem no
ser humano (pulsão de morte, sexual e autoconservativa).
Vários autores usam noções de Melanie Klein, porque é passível de
integrar as outras teorias.

IV - O sujeito para Wilhelm Reich


Reich se afasta um pouco da concepção tradicional do sujeito da
psicanálise. Em verdade, ele, a partir das noções de desenvolvimento
psicossexual infantil em Freud, propõe uma perspectiva da constituição do
sujeito por meio do corpo. Para ele, o psiquismo está também encarnado no
corpo. Dessa forma, o sujeito pode ser compreendido a partir de sua
constituição psicorporal, mente/corpo, que abrange uma constituição paralela
no corpo e no comportamento. O corpo visto como lugar da inscrição do
psíquico e do somático, presente na constituição do sujeito.
A partir da história vivida na relação com o corpo da mãe, Reich fala em
expansão e contração, tensão e relaxamento, do organismo. A estrutura é algo
fundamentado na memória biológica, causadora de sensações desenhadas
nos tecidos, na musculatura, na estrutura óssea, em toda estrutura física e
psíquica.
Após o nascimento, toda trama relacional no ambiente familiar e cultural
de uma sociedade se tornam responsáveis pelo resultado da constituição do
sujeito que irá surgir, ou melhor, emergir da natureza que o recebeu:
[...] O recém-nascido passa do campo energético
materno ou da família e responde neuromuscularmente aos
estresses emocionais provocados pelo ambiente.
É nesse período que se completa a mielinização das vias
nervosas oculares e com isso se torna madura a função visual,
realizando o ser humano como animal óptico. No período pós-
natal, acontece a estruturação da caracterialidade. (REICH,
1998, p.130).

Na formação do sujeito, o indivíduo forma defesas que são deformações


decorrentes da dor e transfiguradas pela forma com que a realidade foi
experimentada por cada indivíduo. Esses mecanismos de defesa definem a
forma de agir e reagir aos acontecimentos ao longo da vida, até que o sujeito

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tenha a oportunidade de resignificar seus valores e formas mais funcionais de
relacionamentos.
Nesse sentido, para Reich, a mudança na estrutura física, muscular, nas
formas de respirar podem alterar alguns processos psíquicos. O relaxamento
de determinadas couraças musculares presentes na defesa poderia alterar o
modo de perceber e viver o mundo.

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REFERÊNCIAS

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Zahar, 2002.

GARCIA-ROZA, L. A. Introdução à metapsicologia freudiana. Rio de


Janeiro: Jorge Zahar, 1995, v. 3.

FREUD, S. Sobre o narcisismo: uma introdução. Rio de Janeiro: Imago,


1996.

LACAN, J. Escritos. Tradução: Vera Ribeiro. Jorge Zahar: Rio de Janeiro,


1998.

MARTY, P. La Psicosomática del adulto. 1a ed. Buenos Aires: Amorrortu,


2003.

NASIO, J.D. O prazer de ler Freud. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1999.

NASIO, J.D. Lições sobre os sete conceitos cruciais da psicanálise. Rio


de Janeiro: Jorge Zahar, 1997.

PELLEGRINO, H. Édipo e a paixão. In: NOVAES, A. (Org). Os sentidos


da paixão. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

PORGE, E. Jacques Lacan, um psicanalista – percurso de um ensino.


Tradução: Nina Leite. Editora UNB, Brasília, 2006.

REICH. Análise do caráter. São Paulo: Martins Fontes, 1998.

ROUDINESCO, E. Jacques Lacan, esboço de uma vida, história de um


sistema de pensamento. Tradução: Paulo Neves. Companhia das Letras, São
Paulo, 1994.

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