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SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL

REVISTA
TRIMESTRAL
DE
JWRISPRUDE- NCIA

Volume 108* * (Páginas 455 a 922) Maio de 1984


SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL
Ministro João Baptista CORDEIRO GUERRA (26-9-74),
Presidente
Ministro José Carlos MOREIRA ALVES (20-6-75), Vice-Presidente
Ministro DJACI Alves FALCÃO (22-2-67)
Ministro Pedro SOARES MUNOZ (8-8-77)
Ministro DECIO Meirelles de MIRANDA (27-6-78)
Ministro Luiz RAFAEL MAYER (15-12-78)
Ministro José NERI DA SILVEIRA (1-9-81)
Ministro ALFREDO BUZAID (30-3-82)
Ministro OSCAR Dias CORRÊA (26-4-82)
Ministro ALDIR Guimarães PASSARINHO (2-9-82)
Ministro José FRANCISCO REZEK (24-3-83)
COMISSÃO DE REGIMENTO

Ministro DJACI FALCÃO


Ministro SOARES MUNOZ
Ministro FRANCISCO REZEK
Ministro ALDIR PASSARINHO — Suplente
COMISSÃO DE JURISPRUDENCIA

Ministro MOREIRA ALVES


Ministro DECIO MIRANDA
Ministro RAFAEL MAYER
COMISSÃO DE DOCUMENTAÇÃO

Ministro MOREIRA ALVES


Ministro RAFAEL MAYER
Ministro NERI DA SILVEIRA
COMISSÃO DE COORDENAÇÃO

Ministro SOARES MUNOZ


Ministro DECIO MIRANDA
Ministro OSCAR CORREA
PROCURADOR-GERAL DA REPUBLICA

Doutor INOCENCIO Mártires COELHO


COMPOSIÇÃO DAS TURMAS
Primeira Turma
Ministro Pedro SOARES MUNOZ, Presidente
Ministro Luiz RAFAEL MAYER
Ministro José NERI DA SILVEIRA
Ministro ALFREDO BUZAID
Ministro OSCAR CORREA

Segunda Turma
Ministro DJACI Alves FALCÃO, Presidente
Ministro José Carlos MOREIRA ALVES, Vice-Presidente
Ministro DECIO Meirelles de MIRANDA
Ministro ALDIR Guimarães PASSARINHO
Ministro José FRANCISCO REZEK

CONSELHO NACIONAL DA MAGISTRATURA


Ministro João Baptista CORDEIRO GUERRA, Presidente
Ministro José Carlos MOREIRA ALVES, Vice-Presidente
Ministro DJACI Alves FALCÃO
Ministro DECIO Meirelles de MIRANDA
Ministro Luiz RAFAEL MAYER
Ministro José NERI DA SILVEIRA
Ministro ALFREDO BUZAID
REVISTA
TRIMESTRAL
DE
JURISPRUDENCIA
SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL
CONFLITO DE ATRIBUIÇOES N? 12 — BA
(Tribunal Pleno)
Relator: O Sr. Ministro Rafael Mayer.
Suscitante: Ministério Público Federal — Suscitado: Juiz Federal da 3?
Vara da Seção Judiciária do Estado da Bahia — Interessados: Luciano Men-
donça Diniz e Fernando Oliveira da Silva.
Conflito de atribuições. Juiz e MP Federal. Pedido de arquiva-
mento indireto (art. 28 do CPP). A recusa de oferecer denúncia por
considerar incompetente o Juiz, que no entanto se Julga competente,
não suscita um conflito de atribuições, mas um pedido de arquiva-
mento indireto que deve ser tratado à luz do art. 28 do CPP. Conflito
de atribuições não conhecido.
ACORDA() tes do Regimento Interno do STF,
considerando em choque ato de seu
Vistos, relatados e discutidos estes oficio com decisão do Meritíssimo
autos, acordam os Ministros do Su- Juiz Federal da 3? Vara da Secção
premo Tribunal Federal em Sessão Judiciária do mesmo Estado.
Plena, na conformidade da ata de
Julgamentos e notas taquigráficas, à Em inquérito resultante de pri-
unanimidade, em não conhecer do são em flagrante por infração dos
conflito, determinando a remessa arts. 12 e 14 da Lei n? 6.368/76 e arts.
dos autos ao Procurador-Geral da 330, 329 e'129 c/c art. 51 do CP, o Mi-
República. nistério Público requereu o relaxa-
Brasília, 1? de abril de 1982 — mento da prisão e o arquivamento
Xavler de Albuquerque, Presidente - por se tratar de flagrante preparado,
Rafael Mayer, Relator. sem prejuízo de apurada a responsa-
bilidade do agente policial.
RELATÓRIO O Juiz deferiu o pedido de arquiva-
mento. Suprido o inquérito de peças
O Sr. Ministro Rafael Mayer: Ilus- complementares, mandou os autos
tre Procurador da República, no Es- com vista ao Órgão do Ministério
tado da Bahia, suscita conflito de Público que se manifestou no sentido
atribuições, com fulcro no art. 119, I, de que o arquivamento decretado fo-
f da Constituição e arts. 168 e seguin- ra abrangente “de todo o fato que re-
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sultou no flagrante preparado». Res- «Examina-se no incidente em


tava, apenas, diz o pronunciamento apreço, manifestação do ilustre
do Ministério Público, apurar a ação membro do Ministério Público Fe-
do policial que causou, com arma de deral na Bahia que, considerando
fogo, as lesões descritas no laudo, incompetente a Justiça Federal ao
mas, para isso era competente a processamento criminal de agente
Justiça Estadual a quem os autos de polícia federal, que no exercício
deveriam ser remetidos (fls. 78). de seu mister causou lesão corpo-
Entretanto, o Juiz entendeu Ser ral gravíssima em pessoa presa
competente pois a infração cometida em flagrante preparado, suscitou
por policial federal seria daquelas o conflito de atribuições — vide:
praticadas em detrimento do próprio fls. 97/98 — pois o MM. Juiz Fede-
serviço policial, que é federal. Por ral no Estado-membro declarou-se
isso retornou os autos do Ministério competente ao exame do evento
Público a fim de que este exercesse (vide: fls 79).
as suas atribuições, «ou seja, ofere- Em dias recentes, enunciando
cer denúncia, requerer diligências parecer no Conflito de Jurisdição n?
ou pedir o arquivamento, em relação 6.317, afloramos incidentemente es-
ao fato imputado ao Agente de ta questão, embora não fosse ela o
Policia Federal» (fls. 79v). ponto da controvérsia, então em
Após requerer diversas diligências estudo, e dissemos, verbis:
complementares do inquérito e, com
vista dos autos, o Representante do «O fato do magistrado dizer-se
Ministério Público suscitou o presen- competente, não acatando, por
te conflito de atribuições sob essa hipótese, a manifestação do Mi-
fundamentação: nistério Público por sua incompe-
tência não se constituiria em «a-
«6. Há, portanto, de um lado a to de dizer o que é de direito,
declaração de V. Exa., como órgão obrigando a observãncia do que
judiciário, afirmando a sua compe- enunciou», porque ele, magistra-
tência, e, de outro lado, a manifes- do, não poderia impor ao Promo-
tação do órgão do Ministério Públi- tor Público o ajuizamento da
co Federal que implica em negar a acusação — na procedat iudex ex
própria atribuição para oferecer officio — mas, no máximo,
denúncia em crime que data venia, considerando-se a afirmação da
estaria adstrito à esfera estadual. incompetência como pedido de
7. A divergência entre os ór- arquivamento indireto, no Juízo
gãos conflitantes não comporta a em que se perfaz, o magistrado
solução do art. 28 do Código de tão-somente poderia valer-se do
Processo Penal, uma vez que não é disposto no artigo 28, do CPP, a
caso de conflito entre órgãos do provocar a decisão definitiva do
Ministério Público ou pedido de ar- Procurador-Geral da Justiça que,
quivamento rejeitado, a ser resol- se ratificasse a manifestação de
vido pelo Procurador-Geral». incompetência determinaria o
envio dos autos do inquérito a ou-
O Juiz encaminhou os autos a esta tro Promotor que, se lhe fosse su-
Corte, onde a Procuradoria Geral da bordinado, haveria de propor a
República, em parecer do ilustre ação (não há qualquer conflito),
Doutor Claudio Lemos Fontelles, caso não o fosse, e o Promotor da
aprovado pelo eminente titular, outra unidade federativa, para
Prof. Inocêncio Mártires Coelho, as- onde foram remetidos os autos
sim se manifestou: também se pronunciasse pela in-

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competência do respectivo Juizo, anexaste conflito de atribuições, de


suscitaria o conflito de resto Impossível, até mesmo no
atribuições». plano lógico, de se reconhecer na
Por isso, não podemos aquiescer híbrida figura sugerida de conflito
com a conclusão do ilustre colega, «positivo-negativo». (vide: fls.98).
que menciona o artigo 28, do CPP Ou o conflito é positivo; ou é ne-
aos casos de «conflito entre órgãos gativo. Nunca «positivo-negativo».
do Ministério Público, ou pedido de Somos, então, porque não se co-
arquivamento rejeitado» (fls. 98). nheça do conflito, com a remessa
O conflito entre órgãos do Minis- dos autos à Procuradoria Geral da
tério Público é, efetivamente, de República, por força do disposto no
atribuições. Isto desenvolvemos no artigo 28, do CPP».
parecer em anexo. Lugar assim É o relatório.
não há a mencionar-se o artigo 28.
E o pedido de arquivamento rejei- VOTO
tado é, efetivamente, o sentido lite-
ral da prefalada norma processual. O Sr. Ministro Rafael Mayer (Re-
Mas há que se entendê-la lator): Estou de acordo com o douto
compreensivamente, para que não parecer em que inocorre conflito de
se desnature a sistemática proces- atribuições, resultante das posições
sual. assumidas pelo Juiz e pelo Orgão do
Assim, se, como no caso, o acu- Ministério Público, a ser dirimido
sador federal admite o ilícito cri- por esta Corte.
minal, mas di-lo da esfera de com- Cuido correto o entendimento aí
petência de outra jurisdição, o que exarado de que a manifestação do
não é acatado pelo magistrado, Representante do Ministério Público,
que afirma a intenção de examinar dominus litis, eximindo-se de ofere-
a proposta acusatória, há, sem dú- cer denúncia por considerar incom-
vida, pedido de arquivamento petente o Juízo Federal, face a natu-
indireto, quando então, e por ine- reza do crime passível de prossecu-
xistir a pretensão deduzida em ção penal, está perfeitamente carac-
Juizo, e por não poder constituí-ia, terizada como um indireto pedido de
ex offlclo, o Julgador, confere-lhe a arquivamento, face ao Juiz que se
lei processual unicamente manifes- dá por competente.
tação fiscalizadora, no sentido de
provocar a decisão final da Chefia- A providência cabível, no caso, é a
Maior do Ministério Público. que vem indicada no art. 28 do CPP,
conforme cuida o parecer, tendo nes-
Assim, preserva-se o sistema sa opinião o beneplácito do ilustre
acusatório, em sua inteireza, pois processualista-penal Tourinho Filho
que a instituição do Estado, que («Processo Penal», 5? ed., 11/524).
não o Poder Judiciário, atribui-se,
exclusivamente, a tarefa de acu- De outro modo, se quebrantaria a
sar, ou não. Por isso, diz-se que no titularidade da ação penal pública, e
momento pré-processual o Ministé- estaria o Judiciário «invadindo seara
rio Público é o dominus litis. alheia, pois exerceria, de maneira
oblíqua, o poder de ação» (Ob. cit.
Se neste instante não tem o ma- 1/398).
gistrado atribuições conclusivas,
mas a possibilidade de invocar a Sem configurar-se, portanto, con-
•tittilaçâo maior de quem tem a es- flito de atribuições, de acordo com o
pecifica atribuição de acusar o — douto parecer e tendo em vista a
Procurador-Geral —, é óbvio que analogia com o precedente do CJ
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6.317, Relator o eminente Ministro Decisão: Não se conheceu do con-


Firmino Paz, dele não conheço e re- flito, determinando-se a remessa dos
meto os autos ao Senhor Procurador- autos ao Procurador-Geral da Repú-
Geral da República, para o efeito do blica, unanimemente.
art. 28 do CPP. Presidência do Senhor Ministro
Xavier de Albuquerque. Presentes à
Sessão os Senhores Ministros Djaci
EXTRATO DA ATA Falcão, Cordeiro Guerra, Moreira
Alves, Soares Mufioz, Decio Miran-
da, Rafael Mayer, Firmino Paz, Ne-
CA 12-BA — Rel.: Min. Rafael Ma- ri da Silveira e Alfredo Buzaid.
yer. Suste.: Ministério Público Fede- Procurador-Geral da República,
ral. Susdo.: Juiz Federal da 3? Vara Professor Inocêncio Mártires Coe-
da Seção Judiciária do Estado da lho.
Bahia. Interessados.: Luciano Men- Brasília, 1? de abril de 1982 —
donça Diniz e Fernando Oliveira da Jonas Célio Monteiro Coelho, Secre-
Silva. tário.

AÇÃO PENAL N? 276 — DF


(Tribunal Pleno)
Relator: O Sr. Ministro Moreira Alv es.
Autor: Ministério Público Federal — Réu: Domingos de Freitas Diniz
Neto.
ACORDÃO dorico de Assis Ferraço, da pre-
sente Legislatura, e Domingos An-
Vistos e discutidos estes autos, tonio Freitas Diniz e Gérson Cama-
quanto à questão de ordem levanta- ta, da Legislatura anterior.
da pelo relator da presente ação, Art. 2? Esta resolução entra
acordam os Ministros do Supremo em vigor na data de sua publica-
Tribunal Federal, em Sessão Plená- ção, revogadas as disposições em
ria, por unanimidade, em declarar contrário.»
inconstitucional a Resolução n? 13/83 A propósito, foram ouvidos o Mi-
da Cãmara dos Deputados, na parte nistério
atinente ao ex-deputado Domingos primeiroPúblico Federal e o réu: o
de Freitas Diniz, e em determi- de do § 3? sustentoudo artigo
a inaplicabilida-
32 da Constituição
nar, em conseqüência, o prossegui- a ex-deputado, fazendo, em seguida,
mento da ação penal movida contra considerações sobre o conceito de
ele. crime comum, para, afinal concluir
1. Trata-se de questão de ordem, no sentido do prosseguimento da
que diz respeito à aplicação da Reso- ação penal; o segundo defendeu a
lução n? 13/83 da Cãmara dos Depu- aplicação do referido dispositivo a
tados, a qual dispõe: ex-deputados, bem como a abran-
«Art. 1? Ficam sustados, nos gência do crime por que está sendo
processado na expressão crime co-
termos do art. 32, § 3?, da Consti- mum empregada no parágrafo em
tuição Federal, os processos em causa.
curso perante o Supremo Tribunal
Federal contra os Deputados João 2. Examinada essa questão de
Orlando Duarte da Cunha e Theo- ordem, o Tribunal, por unanimidade

R.T.J. — 108 959

de votos, decidiu que a Resolução co Federal. Réu.: Domingos de Frei-


n? 13/83 da Câmara dos Deputados, tas Diniz Neto (Advs.: Luis Eduardo
no que diz respeito ao réu, é incons- Greenhalgh e Mário Honório Teixei-
titucional, devendo prosseguir a ra Filho e outros).
ação penal contra ele movida.
Para assim decidir, entendeu a Decisão: Por unanimidade foi de-
Corte que a faculdade a que alude o clarada a inconstitucionalidade do
§ n? 3? do artigo 32 da Constituição art. 1? da Resolução n? 13, de 4 de
Federal não se aplica a ex- maio de 1983, da Câmara dos Depu-
deputados, porquanto, dizendo ela tados, na parte em que deliberou
respeito a imunidade de natureza sustar o processo Criminal em curso
processual, é — por sua própria no STF, contra o ex-deputado Do-
índole — provisória, e se destina a mingos Antonio de Freitas Diniz, de-
defender o regular funcionamento do signado nos autos da ação penal n?
Poder Legislativo, razão por que só 276-O-DF, como Domingos de Freitas
protege o parlamentar em exercício Diniz Neto.
de seu mandato como, aliás deflui do
disposto no § 1? do mesmo dispositi- Presidência do Senhor Ministro
vo constitucional — Cordeiro Cordeiro Guerra. Presentes á Sessão
Guerra, Presidente — Djaci Falcão, os Senhores Ministros Djaci Falcão,
Moreira Alves, Soares Mufloz, Decio Moreira Alves, Soares Mufloz, Dedo
Miranda, Rafael Mayer, Néri da Miranda, Rafael Mayer, Néri da Sil-
Silveira, Alfredo Buzaid, Oscar veira, Alfredo Buzaid, Oscar Corrêa,
Corrêa, Aldir Passarinho, Francisco Aldir Passarinho e Francisco Rezek.
Rezek. Procurador-Geral da República,
Professor Inocêncio Mártires Coelho.
EXTRATO DA ATA
APn. 276-DF — Rel.: Ministro Mo- Brasília, 08 de setembro de 1983 —
reira Alves. Autor.: Ministério Públi- Alberto Veronese Aguiar, Secretário.

AÇÃO MEL ORIGINARIA N? 319 — MT


(Tribunal Pleno)
Relator: O Sr. Ministro Francisco Rezek.
Autor: José Silva Filho — Litisdenunciado: Estado do Mato Grosso —
Réus: Fundação Nacional do Indio — FUNAI e União Federal.

Ação cível originária. Particular contra a União Federal e a FU-


NAI. Denunciação à lide, pela segunda ré, do Estado de Mato Grosso,
como denunciado do autor (impossibilidade). Incompetência do STF.
O Estado de Mato Grosso não pode figurar na lide como denuncia-
do porque:
1 — não houve pedido do autor nesse sentido (CPC, art. 71);
II — não é licito ao réu denunciar à lide terceiro, para figurar co-
mo denunciado do autor;
III — a denunciação à lide não se faz per saltem e, no caso, não
foi o Estado de Mato Grosso que alienou ao autor a área em litígio
(CPC, art. 73). Precedente: ACOr 299-MT (RTJ 104/932).
Incompetência do Supremo Tribunal, diante da exclusão do Esta-
do de Mato Grosso da relação Jurídica processual.

460 R.T.J. — 108

ACÓRDÃO nação desta última ao pagamento


de uma justa indenização, com os
Vistos, relatados e discutidos estes consectários legais expressamente
autos, acordam os Ministros do Su- arrolados ao final do pedido inau-
premo Tribunal Federal, em Sessão gural (fls. 3/7).
Plenária, de conformidade com a Citada, requereu a FUNAI, em
ata de julgamentos e as notas taqui- preliminar, a citação do Estado de
gráficas, à unanimidade de votos, Mato Grosso como litisconsorte ati-
excluir-se da relação jurídica pro- vo, tendo ainda, com arrimo no
cessual o Estado de Mato Grosso, art. 5? do CPC, pedido a nulidade,
dar-se por incompetente o Supremo em ação declaratória incidental,
Tribunal Federal para julgar a cau- do titulo de domínio do autor. No
sa e ordenar-se a remessa dos autos mérito, sustentou a improcedência
para a Seção Judiciária da Justiça da demanda (fls. 27/35).
Federal de Mato Grosso.
Brasília, 13 de outubro de 1983 — Entre as preliminares suscitadas
Cordeiro Guerra, Presidente — pela União, lembrou ela sua ilegiti-
Francisco Rezek, Relator. midade passiva ad causam, por-
quanto teriam sido delegados pode-
RELATÓRIO res à FUNAI para, em seu nome,
efetuar as desapropriações neces-
O Sr. Ministro Francisco Reza: O sárias à consecução dos seus obje-
parecer da Procuradoria Geral da tivos (fls. 43).
República, proferido pelo Dr. Walter O MM. Juiz Federal da Seção Ju-
Medeiros, resume a controvérsia e diciária do Distrito Federal, Dr.
sobre ela opina nestes termos (fls. José Alves de Lima, deu-se por in-
108/113): competente, ao fundamento de
«José Silva Filho, devidamente que, tratando-se de ação real co-
qualificado na inicial, propôs, con- mo tal considerada a desapropria-
tra a União Federal e a Fundação tória indireta, a demanda deveria
Nacional do índio, ação ordinária ter sido proposta no foro da situa-
de desapropriação indireta, peran- ção da coisa (fls. 84 v.).
te o foro da Justiça Federal em Remetidos os autos à Justiça Fe-
Brasília alegando que adquirira deral de Mato Grosso, determinou
uma gleba de terras rurais no Mu- o MM. Juiz a citação do Estado de
nicípio de Barra do Garças, Estado Mato Grosso (fls. 88), que compa-
de Mato Grosso, no lugar denomi- receu aos autos para dizer que não
nado Lago Grande, como área cor- poderia figurar na relação proces-
respondente a 3.993,00 hectares, cu- sual como denunciado à lide, por-
ras características e confrontações quanto não era ele o alienante do
constam do título de domínio regu- imóvel objeto da ação (fls. 93).
larmente transcrito no competente
registro de imóveis. Ocorre que o O MM. Juiz Federal de Mato
Governo Federal, por decretos su- Grosso, considerando que o título
cessivamente baixados, declarou dominai havia sido originariamen-
toda a região do Lago Grande, em te emitido pelo Estado e que a
que está encravada a propriedade União afirmara seu domínio sobre
do autor, área de reserva indígena, as terras em litígio à luz do art.
o que constituiria, segundo alega, 198 da Constituição Federal, entre-
autêntica expropriação do seu bem viu conflito de interesses entre as
imóvel. Pediu por isso a citação da duas referidas entidades políticas,
União e da FUNAI, com a conde- ordenando, em conseqüência, a re-
— 108 461

massa dos autos a esta Suprema so na lide do assistente qualificado


Corte, a competente, a seu ver, pa- não reveste maior dificuldade, ex-
ra decidir a causa (fls. 97). plicitando o eminente Professor:
A nós, entretanto, do Ministério «Basta a demonstração de que
Público Federal, não nos parece terceiro é co-titular do direito
seja o Supremo Tribunal Federal em litígio, para que ele fique evi-
competente para, originariamente, denciado, realmente, se o tercei-
processar e julgar a presente de- ro poderia reclamar sozinho o di-
manda (CF, art. 119, d). reito em litígio, nada mais natu-
ral do que poder ingressar no
Foi a ação proposta, em litiscon- processo em que outro titular o
sórcio passivo, contra a União e a está discutindo» (Comentários ao
FUNAI, pouco importando haja o Código de Processo Civil, Foren-
autor pedido a condenação apenas se, Vol: I, Tomo I, 19 Ed., 1975,
da última, consoante os termos da pág. 293).
inicial e lembrado em petição pos- Ora, no caso em comento, como
terior, onde se afirma que a União a União figura como mandante, e a
integra a lide apenas na qualidade FUNAI como mera mandatária,
de assistente (fls. 76 In tine). tem a primeira, mais do que a se-
O argumento não tem maior va- gunda, legitimação para, em nome
lia, por isso que a FUNAI age co- próprio, responder à imputação
mo simples mandatária da União, feita na demanda.
que implica dizer que a condena- Composto por essa forma o pólo
ção daquela trará reflexos diretos passivo da relação jurídica proces-
no patrimônio da mandante. Tem sual, cumpre verificar se, no ativo,
esta, portanto, titularidade para fi- deve ingressar o Estado de Mato
gurar na ação, não na qualidade de Grosso, de modo que, colocado em
mera assistente adesiva, mas co- contraposição à União, se justifi-
mo litisconsorte da parte principal. que o processamento da ação no
foro originário do Supremo Tribu-
Segundo a conhecida dicotomia nal Federal
adotada entre nós e por diversas
legislações estrangeiras, como a Na inicial da ação, ajuizada por
italiana, a alemã e a austríaca, pessoa física, não se requereu, em
distinguem-se dois tipos de assis- momento algum o ingresso de Ma-
tência: a simples ou adesiva (Nebe- to Grosso, quer como litisconsorte
nintervention; intervento adesivo) ativo, quer como litisdenunciado. A
a qualificada, também denomi- citação do Estado foi requerida pe-
nada litisconsorcial, a primeira re- la FUNAI, como lembrou em seu
gulada no art. 50 e a segunda ao despacho o MM. Juiz Federal (fls.
art. 54, ambos do Código de Pro- 88) ).
cesso Civil. A nosso ver, em nenhuma de tais
Dá-se a assistência litisconsor- posições, pode a referida Unidade
cial quando o direito objeto da con- Federativa figurar na ação.
trovérsia é não apenas do assisti- Não pode, evidentemente, o réu
do, como também do assistente, de uma demanda eleger terceiro
tendo este último legitimação pa- para figurar como litisconsorte do
ra, em nome próprio discuti-lo em autor, obrigando-o a litigar contra
ação autônoma. Dai afirmar Celso sua vontade. Poderia o Juiz fazê-
Agrícola Barbi que a conceituação lo, se se cuidasse de litisconsórcio
do interesse jurídico para o Ingres- necessário, o que em absoluto não

962 R.T.J. - 108

é o caso dos autos, onde sequer se mesmo a nós para a formação es-
poderia falar em assistência litis- trutural do processo. E essa não é,
consorciai, porque aqui o Estado com efeito, a ratio legis, pois o art.
jamais teria legitimação para, em 71 do CPC, quando se refere ao de-
nome próprio, sustentar a mesma nunciado, fala em citação, isto é,
pretensão deduzida pelo autor. passa ele a compor a relação
Cumpre então indagar se Mato jurídica processual e material. Ao
Grosso poderia ser admitido na li- passo que, no art. 73, quando men-
de como denunciado. Entendemos ciona os demais interessados, fala
que não. o Código em intimação deles, o que
Primeiramente, não houve pedi- dá bem a idéia da diferença de tra-
do do autor nesse sentido. Reza, a tamento entre o alienante e os seus
a propósito, o art. 71 do CPC, que a antecessores.
citação do denunciado será reque- Pelas razões expostas, não deve,
rida, juntamente com a do réu, se a nosso ver, figurar o Estado de
o denunciante for o autor. Na espé- Mato Grosso na lide, ficando , em
cie, não se fez tal requerimento. conseqüência, afastada a compe-
Matéria, por conseguinte, preclu- tência originaria do Supremo Tri-
sa. bunal para processar e julgar a
Em segundo lugar, não seria líci- causa».
to ao réu denunciar a lide a tercei- E o relatório preliminar, para exa-
ro para figurar como denunciado me da competência do Tribunal, cu-
do autor. A este, evidentemente, jas cópias se farão presentes a todos
cabe dizê-lo de tal interesse. Se os integrantes do Plenário, na forma
não o fez em tempo oportuno, falta regimental.
legitimação ao réu para fazê-lo em Brasília, 4 de outubro de 1983.
nome do autor. E de resto o que se
deduz da parte final do art. 71 do VOTO
CPC, quando diz que, no prazo da
contestação, o réu requererá a ci- O Sr. Ministro Francisco Rezek
tação do seu denunciado. (Relator): A Procuradoria Geral da
Ainda por uma terceira razão República opina no sentido de que se
não poderia Mato Grosso figurar exclua do feito o Estado de Mato
Grosso, julgando-se incompetente o
na lide como denunciado. E que o Supremo Tribunal Federal, com a
art. 70, I, do CPC, dispõe que a de- conseqüente remessa dos autos à
nunciação à lide é obrigatória ao Justiça Federal.
alienante. Ocorre, no entanto, que
aqui o Estado não alienou a área Adoto suas razões, acrescentando
objeto do litígio ao autor. Este, que este Tribunal, ao julgar o Agra-
conforme ele próprio o diz na ini- vo Regimental na Ação Civel Origi-
cial, a obteve de outrem, a quem, nária n? 299-MT, orientou-se no senti-
este sim, deveria ter sido denun- do de que a denunciação à lide não
ciada a lide. se faz per saltum. Ao contrário, obe-
Como reforço ao argumento de dece a uma sucessão nos títulos, de
que a denunciação só cabe ao alie- acordo com o que preceitua o artigo
nante, traz o Estado de Mato Gros- 73 do Código de Processo Civil.
so a lição de Arruda Alvim, que Ante o exposto, excluo da relação
quem a solução mais correta é cir- jurídica processual o Estado de Ma-
cunscrever a denunciação a uma to Grosso, dando por incompetente o
primeira geração, pois, a não se Supremo Tribunal para julgar a cau-
entender assim, levar-se-iam até sa — por não configurado o pressu-
R.T.J. —108 463

posto do art. 119-1 d da Constituição to Grosso, deu-se por incompetente o


— e ordenando a remessa dos autos Supremo Tribunal Federal para Jul-
à Seção Judiciária da Justiça Fede- gar a causa e ordenou-se a remessa
ral em Mato Grosso. dos autos à Seção Judiciária da Jus-
tiça Federal em Mato Grosso. Deci-
EXTRATO DA ATA são unânime. Votou o Presidente.
Presidência do Senhor Ministro
ACOr 319-MT — Rel.: Ministro Cordeiro Guerra. Presentes á Sessão
Francisco Rezek. Autor: José Silva os Senhores Ministros Moreira Al-
Filho (Adv.: Leodito Luiz de Faria). ves, Soares Mufloz, Dedo Miranda,
Litisdenunciado: Estado de Mato Néri da Silveira, Alfredo Buzaid, Os-
Grosso (Adva.: Maria do Carmo Ar- car Corrêa, Aldir Passarinho e Fran-
ruda). Réus: Fundação Nacional do cisco Rezek. Ausentes, Justificada-
Indio — FUNAI (Advs.: Gerardo Wi- mente, os Srs. Ministros DJaci Fal-
lames Fonseca e Silva e Júlio Augus- cão e Rafael Mayer. Procurador-
to Sousa Camacho Crespo) e União Geral da República, Professor Ino-
Federal. cêncio Mártires Coelho.
Decisão: Excluiu-se da relação Brasília, 13 de outubro de 1983 —
Jurídica processual o Estado de Ma- Alberto Veronese Aguiar, Secretário.

AÇÃO RESCISORIA N? 948 (AgRg) —


(Tribunal Pleno)
Relator: O Sr. Ministro Cordeiro Guerra.
Agravante: União Federal — Agravados: Gilda Miranda Santos Neves e
outros.
É licita a atualização complementar do cálculo da condenação,
quando há demora no pagamento devido.
A Constituição da República no art. 117, 1? e 2?, estabelece o
modo por que devem ser processados os precatórios a fim de assegu-
rar a igualdade entre os credores e a inatastabilidade da obrigação do
Estado pelos seus débitos Judicialmente reconhecidos.
Não o beneficia com a desvalorização da moeda.
4. AgRg irnprovido.
ACÓRDÃO RELATÓRIO
Vistos, relatados e discutidos estes O Sr. Ministro Cordeiro Guerra:
autos, acordam os Ministros do Su- Em execução de Julgado em ação
premo Tribunal Federal, em sessão rescisória que restabeleceu a senten-
Plenária, na conformidade da ata de ça de primeiro grau, foi a União Fe-
Julgamentos e das notas taquigráfi- deral condenada a pagar aos autores
cas, à unanimidade de votos, em ne- a importância de Cr$ 1.794.773,51
gar provimento ao agravo regimen- (um milhão, setecentos e noventa e
tal. quatro mil, setecentos e setenta e
Brasília, 23 de novembro de 1983 — três cruzeiros e cinqüenta e um cen-
Cordeiro Guerra, Presidente e Rela- tavos) de acordo com a conta homo-
tor. logada e que incluíra a correção mo-

464 R.T.J. — 108

netária do débito a partir da vigên- setenta e três cruzeiros e cinqüenta


cia da Lei n? 6.899, de 8 de abril de e um centavos) conforme recibo de
1981. 1? de agosto de 1983, fls. 440.
O cálculo foi homologado por sen- Em 1? de agosto de 1983, requere-
tença de fls. 408, em 26 de abril de ram os exeqüentes a elaboração de
1982. novo cálculo para requisição do pa-
gamento da diferença entre o recebi-
Em 30 de junho de 1982, os autores do e o seu valor atualizado, de acor-
pediram reconsideração do despacho do com a variação dos índices das
que ordenou a citação da União, fls. Obrigações Reajustáveis do Tesouro
411, sem êxito, fls. 412. Nacional, fls. 442.
A União citada concordou com a Deferi o requerimento, a 2 de se-
conta, fls. 420. tembro de 1983, fls. 443, como se vê
do cálculo de fls. 446.
Em 9 de setembro de 1982, foi re- Inconformada a União Federal, to-
quisitado o pagamento por meu ilus- mando conhecimento do cálculo,
tre antecessor, fls. 421. apresentou a seguinte petição, ler
fls. 448/452.
A 17 de setembro de 1982, foi expe-
dida mensagem requisitando o paga- Mantive o despacho e trago a ple-
mento ao Exmo. Senhor Presidente nário o agravo interposto.
da República, fls. 423. E o relatório.
A 22 de setembro de 1982, o
Ministro-Chefe do Gabinete Civil en- VOTO
caminhou ao Ministro-Chefe da Se-
cretaria de Planejamento a requisi-
ção do pagamento, fls. 427.
O Sr. Ministro Cordeiro Guerra
A 5 de novembro de 1982, o Exmo. (Relator): O cálculo da condenação
Sr. Ministro do Planejamento enca- foi homologado em 26 de abril de
minhou o seguinte oficio ao Ministro- 1982, fls. 408.
Chefe do Gabinete Civil, ler fls.
430/431. A 9 de setembro de 1982, foi requi-
sitado o pagamento, que se efetuou
em 1? de agosto de 1983.
Dele teve ciência o meu ilustre an-
tecessor, que mandou dissessem as Houve, pois, um lapso de tempo,
partes, em 23 de novembro de 1982, de 9 de setembro de 1982 a 1? de
fls. 433. agosto de 1983, de quase 10 meses.
Nesse interregno a inflação corroeu
Os exeqüentes assim se manifesta- o valor da condenação.
ram, ler fls. 435, em 6-12-1982.
E evidente que os exeqüentes não
De conformidade com a Nota Or- podem sofrer com a demora no pa-
çamentária n? Destaque 212, de 8 de gamento.
junho de 1983, receberam os autores
exeqüentes a importância de Cr$ A Constituição da República no
1.794.773,51 (um milhão, setecentos e art. 117, §§ 1? e 2?, estabelece o modo
noventa e quatro mil, setecentos e Por que devem ser processados os

R.T.J. — 108 465

precatórios a fim de assegurar a 8 de abril de 1981, que foi considera-


igualdade entre os credores e a ina- da pelo julgado exeqüendo que man-
fastabilidade da obrigação do Estado dou aplicá-la a partir de sua vigên-
pelos seus débitos judicialmente re- cia, que é expressa:
conhecidos.
«Art. 1? A correção monetária
Não o beneficia com a desvaloriza- incide sobre qualquer débito resul-
ção da moeda. tante de decisão judicial, inclusive
Assim tem esta Corte decidido nos sobre custas e honorários advo-
casos de desapropriação: c aticlos.»
«Súmula 561 — Em desapropria- Não excluiu, portanto, as condena-
ção, é devida a correção monetária ções judiciais do Estado.
até a data do efetivo pagamento da Em conseqüência, não encontro no
indenização, devendo proceder-se a art. 117, §§ 1? e 2?, da Constituição
atualização do cálculo ainda que Federal, obstáculo ao pagamento da
por mais uma vez.» correção monetária devida pela de-
No RE n? 86.970 — SP, de que fui mora no pagamento da condenação,
relator, decidiu a egrégia 29 Turma, pois, como salientei, o que a Consti-
RTJ 83/609: tuição visa é tão-somente tornar efe-
tivo o pagamento das condenações
«Desapropriação. E lícita a atua- do Estado e assegurar a par condido
lização complementar do cálculo, creditorum.
quando há demora no pagamento Nessa conformidade, nego provi-
da diferença resultante de anterior mento ao agravo.
atualização.»
No Agravo n? 82.122 — ES, DJ 24-3-
81, pág. 2.346, assim me manifestei: EXTRATO DA ATA
«Ao condenar o Estado ao paga-
mento de pensão com base no salá- AR 948 (AgRg) — RJ — Rel.: Mi-
rio mínimo, em ação de indeniza- nistro Cordeiro Guerra. Agte.: União
ção, pressupôs o julgado o pronto Federal Agda.: Gilda Miranda San-
pagamento do determinado, o que tos Neves e outros (Advs.: Cláudio
não ocorreu por longos anos. Não Lacombe e outros).
houvesse a atualização do valor
monetário, e, assim, haveria des- Decisão: Negou-se provimento,
cumprimento do julgado. A corre- unanimemente.
ção monetária nada mais é do que Presidência do Senhor Ministro
a Identidade da moeda no tempo. Cordeiro Guerra. Presentes á Sessão
Não tivesse sido deferida na exe- os Senhores Ministros Djaci Falcão,
cução, o agravante, por ato seu, Moreira Alves, Soares Mufioz, Decio
nulificaria os efeitos da condena- Miranda, Rafael Mayer, Néri da Sil-
ção.» veira, Oscar Corrêa, Aldir Passari-
Esse despacho foi comentado favo- nho e Francisco Rezek. Ausente, li-
ravelmente pelo ilustre juiz Lauro cenciado, o Senhor Ministro Alfredo
Paiva Restiffe, em sua Monografia Buzaid. Procurador-Geral da Repú-
Tratado da Correção Monetária blica, Professor Inocêncio Mártires
Processual RT 1983, págs. 152/153. Coelho.
De fato o legislador sentiu essa ne- Brasília, 23 de novembro de 1983 —
cessidade ao editar a Lei n? 6.899, de Alberto Veronese Aguiar, Secretário
466 R.T.J. — 108

REPRESENTAÇÃO N? 1.114 — RS
(Tribunal Pleno)
Relator: O Sr. Ministro Oscar Corrêa.
Representante: Procurador-Geral da República — Assistente: Estado do
Rio Grande do Sul — Representada: Assembléia Legislativa do Estado do
Rio Grande do Sul.
Representação.
Emenda Constitucional n? 17, de 27 de novembro de 1980, à Consti-
tuição do Estado do Rio Grande do Sul, de iniciativa legislativa, esta-
belecendo normas quanto a limite de idade para inscrição em concurso
público, ou readmissão, e para seu deferimento.
Inconstitucionalidade, em face dos artigos 13, I, III e V; 10, VII, c;
57, V; 97, 11 1?; 108 e 200 da Constituição Federal, por invadir órbita de
competência exclusiva de iniciativa do Chefe do Poder Executivo,
além de dispor sobre matéria reservada, na Constituição Federal, à
fixação em parâmetros federais obrigatórios.
Representação procedente, declarada a inconstitucionalidade da
Emenda Constitucional 17/80 à Constituição do Estado do Rio Grande
do Sul.
ACÓRDÃO tados dois parágrafos ao artigo 89 da
Constituição Estadual, que passou a
Vistos, relatados e discutidos estes ter a seguinte redação: (fls. 3/4):
autos, acordam os Ministros do Su- «Art. 89. A primeira investidu-
premo Tribunal Federal, em Sessão ra em cargo público dependerá de
Plenária, na conformidade da ata do aprovação prévia em concurso pú-
julgamento e das notas taquigráfi- blico de provas, ou de provas e
cas, por unanimidade de votos, em títulos, salvo os casos indicados em
julgar procedente a Representação e
declarar a inconstitucionalidade da lei.
Emenda Constitucional n? 17, de 27 Para efeito de inscrição
de novembro de 1980, do Estado do em concurso público ou readmis-
Rio Grande do Sul. são, serão observados os limites de
Brasília, 13 de outubro de 1983 — idade vigentes para cargos de atri-
Cordeiro Guerra, Presidente — buições iguais ou semelhantes ao
Oscar Corrêa, Relator. Serviço Público Federal salvo se a
lei estadual for menos restritiva.
Atendidos os requisitos exi-
RELATÓRIO gidos para a participação em con-
curso, nenhum candidato poderá
ter sua inscrição indeferida, salvo
O Sr. Ministro Oscar Corrêa: 1. O conduta comprovadamente preju-
Exmo. Procurador-Geral da Repú- dicial ao exercício da atividade
blica, Professor Inocênclo Mártires correspondente ao cargo, caso em
Coelho argúi a inconstitucionalidade que terá prazo para recurse.»
da Emenda Constitucional n? 17, de
27-11-1980, promulgada pela Assem- 2. Segundo assinala o então Go-
bléia Legislativa do Rio Grande do vernador do Estado, com a Emenda
Sul e a teor da qual foram acrescen- 17 ofenderam-se «os artigos 13, I

R.T.J. —108 467

(combinado com o artigo 97) e V re dentro do denominado processo


(combinado com o art. 57, inciso V, e legislativo que a Constituição Fe-
artigo 108) e 200 da Constituição da deral determinou fosse respeitado
República» (fls. 4). pelos Estados em sua organização
O Ilustre Procurador Walter José política, pelo que é do Chefe do
de Medeiros assim resume os funda- Executivo estadual a competência
mentos da argüição, em seu douto privativa para a iniciativa de leis
parecer de fls. 101/109: que disponham sobre provimento
«Argumenta-se em resumo que, de cargos públicos, matéria de que
estabelecido por disposição hetero- tratam os dois parágrafos cuja in-
nômica, contida na Constituição constitucionalidade é arguida.
Federal, que tal ou qual matéria só Invoca-se, em seguida, o art. 108
poderá ser regrada por lei ordiná- da Carta Magna, que manda apli-
ria, outro não deverá ser o proces- car o disposto na seção relativa
so legislativo, sendo indevida a aos funcionários públicos aos servi-
substituição da lei ordinária pela dores dos 3 Poderes da União e aos
Emenda Constitucional. Assim, ao funcionários em geral dos Estados,
dispor o art. 97 da Lei Fundamen- do Distrito Federal, dos Territórios
tal que os cargos públicos serão e dos Municípios. Afirma-se então
acessíveis a todos os brasileiros que, relativamente a essa matéria,
que preencham os requisitos esta- não pode o legislador estadual re-
belecidos em lei», esta lei a que se correr à Emenda à Constituição,
refere a cláusula constitucional é a «porque isso importaria em frau-
ordinária federal, para os cargos dar o processo legislativo estabele-
públicos federais; lei estadual, pa- cido para a lei ordinária» (fls. 15).
ra os cargos públicos estaduais; e Por outro lado — acrescenta-se
a lei municipal, para os cargos pú- — a disciplina dada ao assunto nas
blicos municipais. normas estaduais impugnadas im-
Trata-se, ademais, de regra de portou em devolver à União com-
cumprimento obrigatório pelos Es- petência que a Constituição da Re-
tados, a teor do art. 13, V, da Cons- pública deferira ao Estado-
tituição Federal, cujo I 1? reserva membro, subtraindo a este, em úl-
àqueles apenas os chamados pode- tima análise, o poder de legislar
res remanescentes, a saber, todos sobre questões relativas aos fun-
os que o Estado-membro poderá cionários públicos estaduais, jungi-
exercer sem ofensa explicita ou dos assim ao que dispuser a lel fe-
implícita à Lei Fundamental. dera l.
Diz-se também que as disposi- Teria, por conseguinte, o Cons-
ções impugnadas infringiram a le- tituinte estadual, usurpando com-
tra expressa do art. 57, V, da Cons- petência do Executivo para a ini-
tituição, que confere ao Chefe do ciativa de lei relativa a funcionário
Executivo competência exclusiva estadual e provimento de cargo pú-
para a iniciativa das leis que dis- blico, malferido também o
ponham sobre servidores públicos princípio constitucional da harmo-
e provimento de cargos públicos, nia e independência dos Poderes,
dentre outras matérias, norma por inscrito no art. 10, inciso, VII, letra
sua vez incorporadora ás Constitui- c, do Estatuto Político.
ções dos Estados-membros por for- Passa-se em seguida à colação
ça da Emenda n? 1, de 1969. de vasta jurisprudência oriunda do
Supremo Tribunal, abonadora da
A iniciativa para o desencadea- tese sustentada na representação
mento da elaboração da lei se inse- em exame.»
468 R.T.J. — 108

3. Solicitadas informações à Au- e a expressão «no que couber,» ins-


gusta Assembléia Legislativa (fls. crita no artigo 200, é disso cabal
60), prestou-as seu Presidente, sa- reconhecimento.»
lientanto, em síntese, que (fls. 66/67) 4. Após diligência da douta
«A Constituição Federal, com Procuradoria Geral da República,
efeito, estabeleceu, na Seção VIII, requerendo o inteiro teor oficial da
apenas as normas que considerou Emenda, opinou ela, como visto, as-
fundamentais e que desejou ver ob- severando, em favor da procedência
servadas pelos Estados-membros, da Representação (fls. 105/109):
no que concerne aos funcionários «Reza, com efeito, o § 1? do
públicos, embora desça a detalhes art. 89 da Constituição sul-rio-
que melhor seria ficassem fora do grandense que, para efeito de ins-
texto constitucional, porque maté- crição em concurso público, serão
ria de caráter nitidamente estatu- observados os limites de idade vi-
tária. gentes para os cargos de atribui-
Mas, assim procedendo, por cer- ções iguais ou assemelhadas ao
to ensejou aos Estados a oportuni- serviço público federal, salvo se a
dade de lhe seguirem os passos.» lei estadual for menos restritiva.
Essa última ressalva é desinfluen-
Lembra que, na Representação te para o julgamento da represen-
749, a Corte validou o artigo 77, I, le- tação, porque estará sempre em
tra a, que tratava da licença-prêmio causa — seja mais ou seja menos
e da sua conversão em tempo de ser- restritiva a lei estadual — o parã-
viço dobrado; e ao apreciar o RE metro federal, cuja constitucionali-
20.305 decidiu que «os Estados po- dade deve ser examinada, quando
dem ampliar, em favor de seus ser- estabelecido, como no caso, por
vidores, as garantias constitucionais; Emenda à Constituição do Estado-
o que estão impedidos de fazer é membro.
restringi-las, ou dispensar requisitos O § 2? do artigo 89 acima mencio-
de investidura» (RDA 42/123/125) nado contém, por sua vez, norma
(fls. 67). consequente do parágrafo anterior,
Sustenta que a Assembléia exer- pelo que deve, a nosso ver, ter a
ceu «competência recebida pela uni- sorte que ao primeiro for reserva-
dade federada, não configurando da.
qualquer devolução dessa competên- Como o § 1? é, para nós, inconsti-
cia»; e que se a estrutura da Consti- tucional, não há como subsistir o §
tuição Federal «tem que ser respei- 2?, estando ambos fulminados pela
tada e ela o é no caso da Emenda n? mesma mácula.
17, que não fere essa estrutura», a Limite de idade para inscrição
Constituição Estadual não deve ser em concurso público é, sem dúvi-
dela adaptação» meramente mecâni- da, matéria pertinente a provimen-
ca» (fls. 69/70), concluindo: to de cargos públicos e que a Cons-
«O artigo 200 não manda copiar tituição Federal, para a iniciativa
servilmente, não determina a das leis, reservou ao Sr. Presiden-
adaptação rigorosa, ao texto das te da República (CF, art. 57, V).
Cartas Estaduais, de tudo o que se A iniciativa das leis, por sua vez,
contém na Constituição Federal.
diz com o processo legislativo,
Não o fez porque a autonomia principio de observância obrigató-
dos Estados está vigente. A carta ria para os Estados Federados, em
de 1969 proclama essa autonomia, cujo âmbito a competência para

R.T.J. — 108 469

leis de tal natureza é exclusiva do Constituição Federal. Não afasta


respectivo Governador (CF, arti- o vicio de iniciativa, na ordem
gos 13, III, e 200). estadual, o fato da criação da
De outro lado, a regra constitu- norma por via de emenda consti-
cional que diz serem os cargos pú- tucional e não de lei ordinária. A
blicos acessíveis a todos os brasi- vedação posta na Emenda Cons-
leiros que preencham os requisitos titucional impugnada importa em
estabelecidos em lei, só pode subtrair a matéria à disciplina
referir-se à lei ordinária emanada de lei ordinária, retirando, em
de cada qual das três esferas de decorrência, o poder de iniciativa
pessoas jurídicas de direito público atribuído com exclusividade, na
que compõem a organização políti- espécie, ao Chefe do Poder Exe-
ca do País (CF, art. 97). cutivo. Representação proceden-
Ora, se o Legislativo estadual te para declarar inconstitucional
a Emenda Constitucional n? 15,
usurpa, por emenda à Constituição de 25-4-1980, do Estado de São
do Estado, competência que a Paulo» (RTJ 102/474).
Constituição Federal reservou ao
Chefe do Executivo para a iniciati- Na sessão de julgamento, o rela-
va de leis sobre matérias especifi- tor originário, Sr. Ministro Clóvis
camente arroladas no próprio texto Ramalhete, assinalou, a propósito
constitucional, parece lógico que da inconstitucionalidade da Emen-
houve também clara infringência da n? 15 à Constituição de São Pau-
do princípio da independência e lo, que vedava a estipulação de li-
harmonia dos poderes, de obser- mite máximo de idade para ingres-
vância obrigatória pelas Unidades so no serviço público, que, além de
Federais (CF, art. 10, VII, c, e art. inibir a competência privativa do
13, I). Chefe do Executivo Estadual para
Sobre a quaestlo 'uris tem a Su- a iniciativa da lel, mencionada
prema Corte precedente específico, emenda era infringente do preceito
recentemente Julgado, a Represen- constitucional que, ao referir-se à
tação n? 1.061, de São Paulo, de lel, remete à legislação ordinária o
que se tornou relator para o acór- estabelecimento de condições para
dão o Sr. Ministro Néri da Silveira, acesso a cargos públicos. Disse S.
que o resumiu nestes preciosos ter- Exa.:
mos: «Inconstitucional porque inibe
a competência, que é privativa
«Representação. Emenda do Chefe do Poder Executivo, pa-
Constitucional estadual, de ini- ra a iniciativa de lei que dispo-
ciativa legislativa, que veda a es- nha sobre servidores públicos,
tipulação de limite máximo de seu regime jurídico e provimento
idade, para o ingresso no serviço de cargos públicos (CF art. 57,
público estadual, respeitando-se, V); privativa do Chefe do Execu-
apenas, o limite máximo de ida- tivo estadual porque tal disposi-
de para a aposentadoria compul- ção constando da Constituição
sória e os requisitos estabeleci- Federal encontra-se incorporada
dos em lel para a forma e as con- ao direito constitucional a ser le-
dições de provimento de cargos. gislado pelos Estados (CF art.
Emenda Constitucional n? 15, de 200).
25-4-1980, à Constituição do Esta-
do de São Paulo. Sua inconstitu- Ademais é claramente referên-
cionalidade, em face dos arts. 57, cia à legislação ordinária, mas
V; 97; 13, I e 10 VII, alínea c, da não a Constituição, a norma que

470 R.T.J. — 108

remete à lei o estabelecimento de As deformações da nossa estrutura


condições para acesso a cargos organizacional levaram a um federa-
públicos (CF art. 97)» (RTJ lismo no qual, desconfiando da capa-
102/479). cidade dos Estados de bem adminis-
Do mesmo teor foi a observação trarem sua autonomia, impõe-lhes a
do Sr. Ministro Néri da Silveira, na União normas rígidas, em todas as
seguinte passagem do seu voto, em órbitas de atuação, vedando-lhes,
que lembrou a jurisprudência da quase sempre, transpô-las, ou mes-
Corte: mo divergir, ainda que em parte me-
nor.
«O Tribunal já tem firme sua
jurisprudência, no sentido de não Não renovaremos as críticas com
poder a Assembléia utilizar a que temos objurgado essa tendência,
Emenda Constitucional, em subs- que, de tal modo, se consubstanciou
tituição à Lei, em todos aqueles nas constituições com que, periodi-
casos em que a Constituição re- camente, se tem fixado os lineamen-
serva iniciativa do processo le- tos da organização nacional, que
gislativo ao Poder Executivo» acabaram por transformar-nos em
(RTJ 102/480). federalismo centralizado e unitário
se é possível assim o classificar,
Nessas condições, quer sob o as- sem contradição nos próprios termos
pecto formal, quer sob o ponto de e que pouco deixa à pseudo-
vista material a Emenda n? 17, de autonomia estadual.
27 de novembro de 1980, que acres-
centou os ¢§ 1? e 2? ao art. 89 da 2. A Emenda Constitucional n? 17,
Constituição, deve, a nosso ver, ser aprovada pela Assembléia Legislati-
declarada inconstitucional, por in- va do Rio Grande do Sul, por isso,
fringente dos artigos 13, I e III; 10, padece dos mesmos vícios pelos
VII, c; 57, V; 108 e 200, todos da quais iniciativas semelhantes têm si-
Constituição Federal.» do fulminadas de inconstitucionali-
dade.
5. O Estado do Rio Grande do
Sul, não lhe tendo sido deferida a É verdade que os termos em que
medida cautelar pleiteada, em vista se equacionou a proposta não lhe fa-
de não ratificada pelo Exmo. vorecem a pretensão; a começar da
Procurador-Geral da República na vinculação de dependência, em que
linha da inteligência da Corte — re- se colocou, das normas federais, ex-
quereu, «dentro das possibilidades plicável, talvez, pelo temor reveren-
da pauta» da Corte, o seu julgamen- ciai que a todos inspira a legislação
to (fls. 112/114); e, logo depois, ad- com que a União cobre todas as
missão como assistente (fls. 143), áreas, as que lhes são próprias e as
que deferi. que, inapelavelmente, invade.
o Relatório, a ser distribuído aos Aqui, por estranho e paradoxal
Exmos. Senhores Ministros. que pareça, as razões do Senhor Go-
vernador do Rio Grande do Sul afir-
VOTO mam a inconstitucionalidade do 1?
da Emenda Constitucional 17, «por
Sr. Ministro Oscar Corrêa: (Re-
devolver à União Federal a compe-
lator): 1. A matéria suscitada na Re- tência para legislar sobre a matéria
presentação tem sido, nos seus as- relativa aos funcionários públicos es-
pectos gerais, examinada, em outras taduais, retirando-a do Estado-
oportunidades, pela Corte, como as- membro» (fls. 8).
sinalado no douto parecer da Ora, a Constituição Federal impôs
Procuradoria Geral da República. aos Estados os princípios que, a res-
R.T.J. — 108 471

peito, traçou para os seus servido- Desta forma, regulando por


res, nos artigos 13, V e 108, Emenda Constitucional, a matéria,
reservando-lhes apenas os poderes subtraiu o Legislativo sul riogran-
que, implícita ou explicitamente, não dense, da esfera do Executivo, com-
lhes tenham vedado pela Constitui- petência que era sua, por determina-
ção — poderes remanescentes que, ção da Constituição Federal, não es-
na realidade, não remanescem. tando dentro dos limites de sua auto-
Assim entendido o texto constitu- nomia, para adaptar-se aos ditames
cional, é induvidoso que dele diverge federais (conferido pelo artigo 200 —
o texto impugnado da Emenda Cons- no que couber), afastar-se daqueles
titucional 17. E, como salientado no parãmetros.
douto parecer da Procuradoria Isto salientou o douto parecer da
Geral da República, a ressalva é de Procuradoria Geral da República,
ter-se como «desinfluente para o jul- lembrando não apenas a infringência
gamento da representação, porque do principio da independência e har-
estará sempre em causa — seja monia dos poderes, obrigatoriamen-
mais ou menos restritiva a lel esta- te posto aos Estados (artigo 10, VII,
dual — o parámetro federal, cuja c, e art. 13, I), como também o pre-
constitucionalidade deve ser exami- cedente especifico da Corte, no jul-
nada, quando estabelecido, como no gamento da Representação 1.061 —
caso, por Emenda à Constituição do São Paulo, do qual transcreve tre-
Estado-membro» (fls. 105). chos expressivos, que se aplicam à
3. Da mesma forma a fixação de hipótese.
limite de idade para inscrição em Nestes termos, não há porque nos
concurso público, ou readmissão, estendermos mais, em observações
matéria pertinente a provimento de conhecidas, e que o douto parecer,
cargos públicos e reservada, pela lembrando a jurisprudência do Tri-
Constituição Federal, à iniciativa do bunal, sumaria.
Presidente da República (Constitui- Pelo que julgo procedente a Repre-
ção Federal, artigo 57, IV) e, pois, sentação, declarada a inconstitucio-
insuscetível de estabelecimento pela nalidade da Emenda Constitucional
Emenda, de iniciativa legislativa. n? 17, de 27 de novembro de 1980, do
E aqui o vicio mais grave de que Estado do Rio Grande do Sul, que,
se acusa a Emenda Constitucional acrescentando ao artigo 89 da Cons-
17: o de invasão das atribuições do tituição Estadual, os fell 1? e 2?,
Chefe do Poder Executivo, quando, contrapôs-se aos artigos 13, I, III e
por emenda constitucional, regula V; 10, VII, c; 57, V; 97, 1?; 108 e 200
matéria que a Constituição Federal, da Constituição Federal.
expressamente, defere à sua iniciati- o voto.
va, em lei.
Com efeito, assim dispõe o artigo EXTRATO DA ATA
97, 1?, da Constituição Federal,
combinado com o artigo 57, V, in- Rp 1.114-RS — Rel.: Ministro Os-
cluindo este, na competência exclusi- car Corrêa. Repte.: Procurador-
va do Chefe do Executivo, a iniciati- Geral da República. Assistente: Es-
va de leis que disponham sobre ser- tado do Rio Grande do Sul (Advs.:
vidores públicos, seu regime Jurídi- Ney Sá e outros). Repda.: Assem-
co, etc., normas que repetimos, por bléia Legislativa do Estado do Rio
força dos artigos 13, V e 108, regem Grande do Sul.
a organização dos Estados, à qual se Decisão: Julgou-se procedente a
aplicam. Representação e declarou-se a in-
472 — 108

constitucionalidade da Emenda Néri da Silveira, Alfredo Buzaid, Os-


Constitucional n? 17, de 27 de novem- car Corrêa, Aldir Passarinho e Fran-
bro de 1980, do Estado do Rio Gran- cisco Rezek. Ausentes, justificada-
de do Sul. Decisão unânime. Votou o mente, os Srs. Ministros Djaci Fal-
Presidente. cão e Rafael Mayer. Procurador-
Presidência do Senhor Ministro Geral da República, Professor Ino-
Cordeiro Guerra. Presentes à Sessão cêncio Mártires Coelho.
os Senhores Ministros Moreira Al- Brasília, 13 de outubro de 1983 —
ves, Soares Mufioz, Decio Miranda, Alberto Veronese Aguiar, Secretário.

REPRESENTAÇÃO N? 1.132 — SP
(Tribunal Pleno)
Relator: O Sr. Ministro Djaci Falcão.
Representante: Procurador-Geral da República — Representada: As-
sembléia Legislativa do Estado de São Paulo.
Representação. Argüição de inconstitucionalidade da Lei n? 3.067,
de 9.11.81, de iniciativa da Assembléia Legislativa e promulgada pelo
seu Presidente, elevando valores de gratificações pro labore, concedi-
das a militares postos à sua disposição.
Afronta ao princípio da iniciativa do processo legislativo consubs-
tanciado no art. 57, inc. II, da Constituição da República, aplicável à
espécie em combinação com o art. 13, Inc. III, do referido diploma.
Procedência.
ACORDA() art. 119, inc. I, letra 1, da Constitui-
ção Federal, submete à considera-
Vistos, relatados e discutidos estes ção do Supremo Tribunal Federal a
autos, acordam os Ministros do Su- argüição de inconstitucionalidade da
premo Tribunal Federal, em sessão Lei n? 3.067, de 9-11-81, de iniciativa
plenária, à unanimidade de votos e da Assembléia Legislativa do Estado
na conformidade da ata do julga- de São Paulo, e promulgada pelo seu
mento e das notas taquigráficas, em Presidente.
julgar procedente a Representação,
e declarar a inconstitucionalidade da Segundo a solicitação formulada
Lei n? 3.067, de 9-11-81, de iniciativa pelo Senhor Governador do Estado, o
da Assembléia Legislativa do Estado referido diploma legal prevê a eleva-
de São Paulo, e promulgada pelo seu ção dos valores das gratificações pro
Presidente. labore concedidas a servidores da
Brasília, 28 de setembro de 1983 — Secretaria de Segurança Pública à
Cordeiro Guerra, Presidente — disposição da Assembléia Legislati-
Djaci Falcão, Relator. va, estabelecendo em seu art. 1? que
tais valores serão calculados, per-
RELATORIO centualmente, sobre o quantum do
padrão 1-A da Tabela da Escala de
O Sr. Ministro Djaci Falcão: O Vencimentos 4, da Lei Complemen-
Prof. Inocêncio Mártires Coelho, tar n? 247/81, na conformidade do
Procurador-Geral da República, no disposto nos incisos I a V do mesmo
uso das atribuições que lhe confere o art. 1?, a saber:

R.T.J. — 108 473

«I — em 23% as do Comandante que atende, fazem dela uma retri-


do Destacamento da Polícia Mili- buição que não pode ser apanhada
tar, do Comandante do Destaca- pelo principio da paridade. Não fo-
mento de Bombeiros e do Encarre- ra assim, desapareceria por com-
gado de Setor (Telecomunicações pleto a independência do Poder,
Policial) ou Encarregado de Setor que sequer poderia atender às suas
(Telecomunicações); necessidades e peculiaridades.
II — em 14% as do Subcoman- 4.1 Isso se torna tanto mais evi-
dante do Destacamento da Polícia dente, quando se atenta para o fato
Militar e do Operador de Teleco- de que a Lei n? 3.067/81 é perfeita-
municações Policial ou Operador mente genérica e abstrata. E apli-
de Telecomunicações; cável a todos quantos vierem a se
III — em 10% as dos Subtenen- colocar na situação fática do pres-
tes e Sargentos; suposto legal ( = estar à disposição
IV — em 8% as dos Cabos; da Assembléia Legislativa).
V — em 6% as dos Soldados». Assim, o princípio da parida-
(Fls. 4/5). de não está em causa, ao contrário
do que afirma o Poder Executivo.
Alega-se afronta aos arts. 98 e 108, Primeiro, porque não se trata de
combinados com o art. 13, Inc. V, da funcionários de Poderes diversos,
Constituição da República (fls. 3/12). mas, sim, de funcionários de um
Pelo Exmo. Sr. Presidente da As- Poder (Executivo) postos à dispo-
sembléia Legislativa foram presta- sição de outro (Legislativo), fal-
das informações que, na sua parte tando, pois, o pressuposto tático de
essencial, dizem o seguinte: aplicabilidade do próprio princípio.
Segundo, porque a gratificação é
«3. O princípio da paridade tem conferida st et In quantum estive-
como pressuposto inequívoco o rem à disposição e a serviço da As-
tratar-se de funcionários de dois sembléia Legislativa tais funcioná-
Poderes diversos: um deles, neces- rios do Executivo.
sariamente, o Executivo.
As demais argüições, quais
3.1 Ora, os componentes da sejam a de que a Lei Complemen-
Polícia Militar não deixam de ser tar n? 255/81 não prevê essa grati-
do Executivo pelo só fato de esta- ficação, pelo que lei ordinária não
rem destacados para servir no Po- a poderia estabelecer, e a de que
der Legislativo. Não há, pois, como essa gratificação, nos termos da
falar em princípio da paridade. Lei n? 10.168, de 10 de julho de
4. De outra parte, a Assembléia 1968, só é atribuível a funções de
Legislativa não legislou (ao elabo- chefia e direção sem cargo corres-
rar a Lei n? 3.067/81) própria e di- pondente, pelo que não poderia ser
retamente sobre os componentes conferida fora desses casos, pecam
da Policia Militar, para elevar-lhes pela base.
os vencimentos. Legislou, sim, so- 6.1 Como já se disse, com a de-
bre o valor da gratificação pro vida vênia, a Lei n? 3.067/81 não le-
labore que a Assembléia Legislati- gisla diretamente sobre integran-
va poderá atribuir a elementos da tes da Polícia Militar, para consti-
Corporação se e enquanto estive- tuir nova situação jurídica, perma-
rem prestando serviços na sede do nentemente, pelo fato de serem da
Legislativo paulista. A transitorie- Policia Militar. Se o tivesse feito,
dade, pois, da gratificação, assim teria invadido competência do
como a especialidade da situação a Executivo, o que evidentemente

474 R.T.J. — 108

não ocorreu. Aliás, nem mesmo o serviços e, pois, de configurar di-


Executivo alegou essa circunstân- versamente essa gratificação».
cia como fundamento da sua pre- (fls. 21 a 23).
tensão. A questionada lei dispõe, Manifestou-se, por último, a
sim, sobre o valor da gratificação Procuradoria-Geral da República,
pro labore a integrantes da Corpo- nos seguintes termos:
ração, se e enquanto estiverem à
disposição e a serviço da Assem- «Argúi-se, no caso, a inconstitu-
bléia Legislativa, fazendo-o no uso cionalidade da Lei n? 3.067, de 9 de
da competência constitucional, que novembro de 1981, decretada pela
lhe é assegurada, de organizar os Assembléia Legislativa do Estado
seus próprios serviços. Se assim é, de São Paulo e promulgada pelo
pouco importa que a Lei Comple- respectivo Presidente, em razão da
mentar n? 255/81 não contemple es- qual foram majoradas, em percen-
sa gratificação como forma de re- tuais variáveis, as gratificações
muneração, permanente ou transi- pro labore, pagas ao pessoal mili-
tória, porque a situação de fato tar posto a serviço daquela Casa
pressuposta para a aplicação da lei Legislativa, desde comandantes e
escapa à vida própria da Corpora- subcomandantes, até subtenentes,
ção. sargentos, cabos e soldados.
Sustenta o Sr. Governador, em
6.2 De outro lado, a Lei n? síntese, que o referido diploma le-
10.168, de 10 de junho de 1968, a gal' propiciou situação retribuitória
que se reporta o Executivo, ne- diversificada para seus beneficiá-
nhum efeito impeditivo pode pro- rios, em relação aos demais servi-
duzir sobre a competência da As- dores de igual hierarquia, ferindo
sembléia Legislativa. Mencionada em conseqüência o principio da pa-
lei diz respeito a situações do Exe- ridade de vencimentos, inscrito no
cutivo, dos Tribunais de Justiça, art. 98 da Constituição Federal,
de Alçada, da Justiça Militar e de complementado pela regra do art.
Contas (ex vl do seu art. 36), não 108 do mesmo texto constitucional.
se aplicando, pois, ao Legislativo.
Acrescenta, ainda, que lei com-
6.3 De se notar que outra lei, a plementar estadual dispondo sobre
Lei n? 10.261, de 28 de outubro de vencimentos e vantagens pecuniá-
1968, esta, sim, aplicável ao Legis- rias dos integrantes da Policia Mi-
lativo (por força do seu art. 1?, pa- litar paulista não prevê a aludida
rágrafo único, que, no entanto, res- gratificação pro labore entre aque-
salva a legislação especial), per- las a que fazem jus, o que torna in-
mite, no art. 135, V, que sejam viável sua concessão por via da lei
criadas, por leis, outras gratifica- ordinária.
ções, inclusive para atender, por- Prestadas as informações, sus-
tanto, a situações da Assembléia tentou a Assembléia que, ao editar
Legislativa. a lei impugnada, fê-lo no uso da
6.4 O fato de, pela Lei n? competência constitucional que lhe
10.168/68, apenas as funções de é assegurada, de organizar seus
chefia e direção sem cargo corres- próprios serviços.
pondente poderem perceber a gra- Repeliu, outrossim, a argüição
tificação pro labore ali prevista, não de ofensa ao principio da paridade,
tolhe, à evidência, ao Legislativo o ao argumento de que, embora à
exercício da sua competência cons- disposição da Assembléia, os mili-
titucional para organizar os seus tares contemplados pela lei malsi-
R.T.J. —108 475

nada não deixavam de pertencer Nem se pode, de outra forma,


ao Executivo, inexistindo assim compreender a liberalidade em
parâmetro a ser confrontado, em que incorreu a augusta Assembléia
relação a servidor de outro Poder. Legislativa do Estado de São Pau-
A nosso ver, procede esse útlimo lo, porquanto, a vingar a outorga
fundamento, quando repele a pre- de gratificação pro labore a poli-
tensa contrariedade à regra consti- ciais militares, no cumprimento de
tucional da paridade de vencimen- sua missão específica de policia-
tos, pois em verdade os referidos mento em dependências daquela
militares pelo só fato de estarem a Casa de Leis, não se saberia por
serviço de Assembléia não deixa- que não contemplar amanhã, tam-
ram de pertencer aos quadros do bém, policiais em serviço em ou-
Executivo. Por conseguinte, não há tras repartições públicas, ou mes-
falar em afronta à norma do art. mo fora delas.
98 da Constituição, cujo pressupos- O Chefe do Poder Executivo, a
to, inexistente no caso, é a retribui- que estão subordinados ditos servi-
ção de vencimentos de cargos do dores, é, a nosso ver, o único árbi-
Legislativo ou do Judiciário em tro da iniciativa de leis que impli-
níveis superiores aos pagos pelo quem aumento de seus vencimen-
Executivo. Na espécie, os servido- tos e da despesa pública em geral.
res são unicamente deste último Nessas condições, por ofensa ao
Poder, sem correlação com cargos art. 57, II, c/c o art. 13, III, da Car-
de qualquer dos dois outros Pode- ta Magna, o parecer é pela proce-
res. dência da representação.
Mas, desse mesmo fundamento, Brasília, 14 de março de 1983 —
quanto a continuarem tais milita- Walter José de Medeiros, Procura-
res subordinados aos quadros do dor da República». (Fls. 31/33).
Executivo, extrai-se, a nosso ver,
outra conclusão, esta sim suficien- Distribua-se cópia deste relatório
te à declaração de inconstituciona- aos Senhores Ministros.
lidade do diploma legal aqui ques- Brasília, 27 de abril de 1983 — Mi-
tionado. nistro Moei Falcão — Relator.
E que, como ao Poder Legislati-
vo, segundo dito nas próprias infor- VOTO
mações, só compete organizar os
próprios serviços, falecia-lhe com- O Sr. Ministro Eflui Falcão (Rela-
petência para, mediante lei, atri- tor): A Lel n? 3.067, de 9 de novem-
buir vantagem pecuniária a servi- bro de 1981, de iniciativa da Assem-
dores de outro Poder, reconhecido bléia Legislativa e promulgada pelo
como ficou que os Militàres postos seu Presidente, estabelece a eleva-
à sua disposição continuam a per- ção dos valores das gratificações pro
tencer aos quadros do Executivo. labore concedidas ao pessoal militar
posto à disposição daquela casa le-
E isso porque a iniciativa do pro- gislativa, nos seguintes termos:
cesso legislativo para aumento da
despesa pública está, no plano fe- «Art. 1? As grafificações pro la-
deral, afeta ao Presidente da Re- bore instituídas pelo artigo 26 da
pública e, no estadual, ao respecti- Resolução n? 210, de 13 de janeiro
vo Governador, de acordo com o de 1957, e pelo artigo 27 da Resolu-
disposto no art. 57, II, combinado ção n? 574, de 13 de agosto de 1968,
com o art. 13, III, ambos da Consti- modificadas pelo artigo 1? da Lei
tuição Federal. n? 1.637, de 10 de maio de 1978,

476 R.T.J. — 108

passam a ser as seguintes, calcula- ficou que os militares postos à sua


das percentualmente sobre o valor disposição continuam a pertencer
do padrão 1-A da Tabela I da Esca- aos quadros do Executivo.
la de Vencimentos 4: E isso porque a iniciativa do pro-
I — em 23% (vinte e três por Cesso legislativo para aumento da
cento) as do Comandante do Desta- despesa pública está, no plano fe-
camento da Polícia Militar, do Co- deral, afeta ao Presidente da Re-
mandante do Destacamento de pública e, no estadual, ao respecti-
Bombeiros e do Encarregado de vo Governador, de acordo com o
Setor (Telecomunicações Policial) disposto no art. 57, II, combinado
ou Encarregado de Setor (Teleco- com o art. 13, III, ambos da Consti-
municações); tuição Federal.
II — em 14% (quatorze por cen- Nem se pode, de outra forma,
to) as do Subcomandante do Desta- compreender a liberalidade em
camento da Polícia Militar e do que incorreu a augusta Assembléia
Operador de Telecomunicações Po- Legislativa do Estado de São Pau-
licial ou Operador de Telecomuni- lo, porquanto, a vingar a outorga
cações; de gratificação pro labore a poli-
ciais militares, no cumprimento de
III — em 10% (dez por cento) as sua missão específica de policia-
dos Subtenentes e Sargentos; mento em dependências daquela
Casa de Leis, não se saberia por
IV — em 8% (oito por cento) as que não contemplar amanhã, tam-
dos Cabos; bém, policiais em serviço em ou-
V — em 6% (seis por cento) as tras repartições públicas, ou mes-
dos Soldados». mo fora delas.
A meu ver não procede a alegação O Chefe do Poder Executivo, a
de que a lei em causa viola o que estão subordinados ditos servi-
princípio da paridade de vencimen- dores, é, a nosso ver, o único árbi-
tos, previsto no art. 98 da Constitui- tro da iniciativa de leis que impli-
ção da República. Com efeito, os mi- quem aumento de seus vencimen-
litares beneficiados pela lei em cau- tos e da despesa pública em geral.
sa postos à disposição da Assembléia Nessas condições, por ofensa ao
Legislativa, continuam a pertencer art. 57, II c/c o art. 13, III, da Car-
ao Poder Executivo, não podendo se ta Magna, o parecer é pela proce-
estabelecer um confrofito com servi- dência da representação» (fls. 33).
dor de outro Poder. Aqui não se trata de organização
Todavia, impõe-se a declaração da dos serviços administrativos do Po-
inconstitucionalidade da Lei n? 3.067, der Legislativo (art. 57, parágrafo
de 9-11-81, na linha das considera- único, letra b, da Constituição).
ções desenvolvidas no parecer do Acolhendo o parecer da douta
Dr. Walter José de Medeiros, is Procuradoria Geral da República
verbis: julgo procedente a representação.
«... como ao Poder Legislativo, EXTRATO DA ATA
segundo dito nas próprias informa-
ções, só compete organizar os pró- Rp. 1.132-SP — Rel.: Ministro
prios serviços, falecia-lhe compe- Djaci Falcão. Repte.: Procurador-
tência para, mediante lei, atribuir Geral da República. Repda.: Assem-
vantagem pecuniária a servidores bléia Legislativa do Estado de São
de outro Poder, reconhecido como Paulo.

R.T.J. — 108 477

Decisão: Julgou-se procedente a os Senhores Ministros Djaci Falcão,


Representação, e declarou-se a in- Moreira Alves, Soares Muzioz, Decio
constitucionalidade da Lel n? 3.067, Miranda, Rafael Mayer, Néri da Sil-
de 9-11-81, de iniciativa da Assem- veira, Alfredo Buzald, Oscar Corrêa,
bléia Legislativa do Estado de São Aldir Passarinho e Francisco Rezek.
Paulo, e promulgada pelo seu Presi- Procurador-Geral da República,
dente. Decisão unânime. Votou o Mi- Professor Inocêncio Mártires Coelho.
nistro Presidente.
Presidência do Senhor Ministro Brasília, 28 de setembro de 1983 —
Cordeiro Guerra. Presentes à Sessão Alberto Veronese Aguiar, Secretário.
REPRESENTAÇÃO N? 1.155 — DF
(Tribunal Pleno)
(Questão de Ordem)
Relator: O Sr. Ministro Soares Mufioz.
Representante: Procurador-Geral da República — Representado: Presi-
dente da República.
Interpretação de lei em tese. Assistência.
— Não cabe a intervenção de terceiro, como assistente, em repre-
sentação para interpretação de lei em tese, pois a legitimidade para
propõ-la é privativa e exclusiva do Dr. Procurador-Geral da Repúbli-
ca. Ninguém tem o direito subjetivo à prestação jurisdiclonal para
obter a interpretação abstrata da lei. A Interpretação do Supremo
Tribunal Federal expressa a própria lei e, por isso, tem força vincu-
lente (art. 187 do R.I.-S.T.F.). Sobreleva notar que, no caso «sub judi-
ce», os terceiros, embora requeiram sua intervenção como assisten-
tes, não pretendem assistir o Dr. Procurador-Geral da República;
mas a ele se opor, pugnando por outra Interpretação da lei em tese,
que equivale, em verdade, a uma se gunda representação, oferecida
por quem não tem legitimidade para provia-ia. Pedido de assistência
Indeferido.
ACÓRDÃO no usq das atribuições que lhe confe-
rem o art. 119, item I, alínea 1, da
Vistos, relatados e discutidos estes Constituição Federal e o arfa 179 do
autos, acordam os Ministros do Su- Regimento Interno do Supremo Tri-
premo Tribunal Federal, em sessão bunal Federal, submete ao exame da
Plenária, na conformidade da ata do Corte, mediante Representação, o
julgamento e das notas taquigráfi- texto do Decreto-Lei n? 2.019, de 28
cas, por unanimidade de votos. inde- de março de 1983, expedido pelo Sr.
ferir o pedido de assistência. Presidente da República, para que
Brasília, 13 de outubro de 1983 — se lhe fixe a exata interpretação no
Cordeiro Guerra, Presidente — sentido de que o diploma legal em
Soares Mudos, Relator. tela tem como destinatários específi-
cos os magistrados remunerados pe-
la União, a quem compete arcar
RELATORIO com as despesas correspondentes.
Assim, ao referir-se a «magistrados
O Sr. Ministro Soares Mudos: O de qualquer instância», somente po-
Dr.' Procurador-Geral da República, derá ter em vista os magistrados de
478 R.T.J. — 108

qualquer instância federal, desde a lei, como na espécie, só é possível


primeira até a Suprema Instância, para servidores federais ou para
como tais relacionados no Anexo a magistrados pagos pela União; com
que se refere o art. 1?, 2?, do respeito às finanças públicas, a isen-
Decreto-Lei n? 1.985, de 28 de dezem- ção do imposto de renda relativa à
bro de 1982. verba de representação dos magis-
Em prol da interpretação que pro- trados, por ser matéria de finanças
pugna, expende o Chefe do Ministé- públicas, concernente a tributo fede-
rio Público vários argumentos, entre ral, nada impede a sua extensão aos
os quais o de que nem poderia ser di- magistrados estaduais; muito ao
ferente, porquanto a competência do contrário, tudo recomenda sua
Sr. Presidente da República, para a abrangência, ainda que por respeito
criação de cargos públicos e fixação ao princípio da isonomia.
de vencimentos, está restrita ao âm- Requereram sua intervenção no
bito federal, em face do rígido es- processo, como assistentes, a
quema constitucional de repartição Associação dos Magistrados do Anti-
de competências, decorrência do go Estado da Guanabara e seu Pre-
próprio regime federativo por nós sidente, Desembargador Vivalde
adotado. Nos Estados, essa compe- Brandão Couto (fls. 37/99); a
tência para a iniciativa da lei que Associação dos Magistrados
aumente vencimentos é exclusiva do Fluminenses, através de seu Presi-
respectivo Chefe do Poder Executi- dente em exercido, Juiz Emílio Car-
vo, consoante a regra do art. 57, II, mo (fls. 108/112); o Juiz de Direito
da Carta Magna, de aplicação obri- Gusmar Alberto Visconti de Araujo e
gatória pelas Unidades Federadas, outros do Estado do Rio de Janeiro
como manda o art. 13, III, da mes- (fls. 140/160); os magistrados Paulo
ma Constituição. De outra parte, se- Cesar Dias Panza e outros, também
ria impensável que a União viesse a do Estado do Rio de Janeiro (fls.
arcar com as despesas de pagamen- 160/169); a Associação dos Magistra-
to da gratificação por tempo de ser- dos Acreanos e seu Presidente, De-
viço a magistrados estaduais, por- sembargador Lourival Marques de
quanto estas não são despesas que Oliveira; a Associação dos Magistra-
possam ser contabilizadas no orça- dos de Alagoas e seu Presidente,
mento federal, restrita que se acha a magistrado Danilo Antônio Barreto
competência constitucional do Sr. Accioly; a Associação dos Magistra-
Presidente da República à iniciativa dos do Amazonas e seu Presidente,
do processo legislativo para aumento Desembargador Manuel Neuzimar
de vencimentos dos servidores fede- Pinheiro; a Associação dos Magistra-
rais. dos do Estado do Ceará e seu Presi-
Solicitadas informações ao Sr. dente, Desembargador Julio Carlos
Presidente da República, encami- de Miranda Bezerra; a Associação
nhou S. Exa: as prestadas pelo Sr. dos Magistrados do Estado do
Ministro de Estado Chefe da Secre- Espirito Santo e seu Presidente, De-
taria de Planejamento, inteiramente sembargador José Eduardo Grand!
concordantes com a interpretação do de Oliveira; a Associação dos Magis-
Decreto-Lei n? 2.019/83, como a pre- trados do Estado de Goiás, a
tende o Dr. Procurador-Geral da Re- Associação dos Magistrados do Esta-
pública, visto que tem a sustentá-la do do Maranhão e seu Presidente,
a compreensão do texto constitucio- Desembargador José Joaquim Ra-
nal. A fixação de vencimentos ou o mos Fllgueiras; a Associação Mato-
aumento da gratificação adicional grossense de Magistrados e seu Pre-
por tempo de serviço, via de decreto- sidente, Juiz de Direito Manoel Ri-

R.T.J. — 108 479

beiro Filho; a Associação dos Magis- cance do mencionado decreto-lei.


trados do Estado de Minas Gerais e Basta o inegável interesse jurídico
seu Presidente, Desembargador Lin- em que o Supremo Tribunal Federal
coln Rocha; a Associação dos M agis interprete aquele ato.
a-tradosE Pá, Não concordam os requerentes
Associação dos Magistrados do com o entendimento propugnado na
Paraná e seu Presidente, Desembar- representação, conforme o qual a lo-
gador Lauro Lima Lopes; a cução «em relação aos magistrados
Associação Paulista de Magistrados de qualquer instância» só abrange os
e seu Presidente, Desembargador juizes remunerados pelos cofres da
Francis Selwin Davis; a Associação União, porque, data venta, essa in-
dos Magistrados do Piauí e seu Pre- terpretação consubstancia afronta
sidente, Desembargador Paulo de ao dispositivo da Constituição que,
Tarso Mello e Freitas; a Associação na esteira de vetusta doutrina e da
dos Magistrados do Rio Grande do própria evolução do Direito Constitu-
Norte e seu Presidente, magistrado cional brasileiro, adotou o sistema
Carlos Roberto Coelho Mala; a da Unidade do Poder Judiciário, ao •
Associação dos Magistrados do Rio estatuir, no art. 112, que o Poder Ju-
Grande do Sul e seu Presidente, De- diciário é exercido pelo Supremo
sembargador Milton dos Santos Mar- Tribunal Federal, pelo Tribunal Fe-
tins; a Associação dos Magistrados deral de Recursos e juizes federais,
de Sergipe e seu Presidente, Juiz Jo- pelos Tribunais e juizes militares,
sé António de Andrade Goes. eleitorais e do trabalho, e pelos
Alegam os requerentes que não po- juizes e Tribunais estaduais.
de haver dúvida de que eles têm in- A interpretação proposta pelo Dr.
teresse Jurídico em ingressar no pro- Procurador-Geral da República na
cesso, porque tanto as associações, representação é, segundo os candi-
como entidades de classe, quanto os datos à habilitação como assistentes,
magistrados ficarão sujeitos á inter- manifestamente errônea, pois, con-
pretação que o Supremo Tribunal forme salientam os pareceres que
Federal vier a dar ao Decreto-Lei n? anexaram à sua petição, de autoria
2.019, de 28 de março de 1983, pois, dos juristas Calo Tácito, Calo Mário
como explicita o art. 187 do seu Re- da Silva Pereira, Hely Lopes Melrel-
gimento Interno, «a partir da publi- les e Victor Nunes Leal, o Decreto-
cação do acórdão, por suas conclu- Lei n? 2.019/83 limitou-se a eviden-
sões e ementa, no Diário da Justiça ciar, com maior clareza e objetivida-
da União, a interpretação nele fixa- de, o teor do art. 65 da Lei Orgânica
da terá força vinculante para todos da Magistratura, norma complemen-
os efeitos.» tar da qual deriva para seus destina-
tários o beneficio a ser auferido em
O interesse dos requerentes é o de razão do tempo de serviço, e cuidou
que o Supremo Tribunal Federal in- de promover a técnica executória do
terprete o Decreto-Lei n? 2.019/83. cálculo da gratificação.
Por isso, há coincidência entre esse
interesse e o interesse manifestado Depois de outras considerações,
pelo ilustre Procurador-Geral da Re- tendentes a demonstrar o desacerto
pública. Ë irrelevante, para o efeito da interpretação pleiteada pelo Dr.
de aferir o interesse assistencial, a Procurador-Geral da República, os
parcial distonia, quanto ao conteúdo intervenientes concluem que o
da interpretação. Não importa que decreto-lei em causa é norma inter-
assistentes e assistido não se harmo- pretativa do art. 65 da Lei Comple-
nizem por inteiro, no tocante ao al- mentar n? 35, não comportando ou-

480 R.T.J. — 108

tra interpretação do que aquela com- gularmente constituída, e seu res-


patível com a Constituição, no senti- pectivo Presidente, Desembarga-
do de que vincula tanto a União Fe- dor Vivalde Brandão Couto, como
deral quanto os Estados, vale dizer, pessoa física, com pedido de inter-
a gratificação em tela é devida aos venção nos autos, na qualidade de
juízes de qualquer instância, inclusi- assistentes, alegando para tanto a
ve os que exercerem a jurisdição nos existência de interesse jurídico de
Estados, devendo o eventual aumen- ambos, em face da sujeição a que
to das despesas recair sobre a pes- ficarão em decorrência da inter-
soa jurídica de direito público que ti- pretação a ser dada ao diploma le-
ver o ónus de pagar os vencimentos gal em referência, exegese da qual
aos magistrados. sobrevirá força vinculante para to-
Como pedido substitutivo do for- dos os efeitos (fls. 37).
mulado na representação, a petição Afirmam haver identidade de in-
dos candidatos à assistência requer teresses entre a pretensão mani-
que a Corte: festada pelo Procurador-Geral e a
se digne fixar a interpretação por eles agora veiculada, sendo ir-
do Decreto-Lei n? 2.019, de 18 de relevante, segundo eles, a parcial
março de 1983; distonia quanto ao conteúdo da in-
decida, interpretando o seu art. terpretação (fls. 39).
1?, que o modo de computar a grati-
ficação a que se refere o mencionado O pedido, contudo, não merece
dispositivo deve ser observado, ao se acolhido, por falta de legitimidade
efetuar o cálculo dos adicionais devi- ativa de qualquer dos requerentes.
dos, indistintamente, os integrantes A iniciativa da representação pa-
do Poder Judiciário, sem considerar ra interpretação de lei ou ato nor-
a pessoa jurídica de direito público mativo federal ou estadual está as-
que os remunera; segurada, constitucionalmente, em
decida que as eventuais despe- caráter privativo, ao Sr. Pro-
sas, decorrentes do pagamento de curador-Geral da República, (CF,
gratificação adicional por tempo de art. 119, I, 1), acrescentando
serviço, correrão à conta da pessoa o Regimento Interno desta Supre-
jurídica de direito público à qual ma Corte (art. 180) que a S. Exa.
couber o pagamento dos vencimen- cabe dizer os motivos que justifi-
tos do magistrado, e cam a propositura da ação, bem
decida que o art. 2? daquele assim adiantar seu entendimento a
decreto-lei é de aplicação irrestrita, respeito da matéria sujeita ao exa-
alcançando, indistintamente, todos me do Tribunal.
os integrantes do Poder Judiciário. A orientação pela qual propug-
Com vista o Dr. Procurador-Geral nam os peticionários, consoante
da República para pronunciar-se so- eles próprios o afirmam, está em
bre os pedidos de intervenção no parcial distonia com aquela defen-
processo como assistentes, S. Exa. dida pelo Representante em sua
aprovou o parecer emitido pelo ilus- peça inaugural, por isso que, en-
tre Procurador Dr. Walter José de quanto o último sustenta deva o ar-
Medeiros, contrário à aludida pre- tigo 1? do Decreto-Lei n'? 2.019, de
tensão, verbis: 28-3-83, ser entendido restritiva-
mente aos magistrados remunera-
_ «Ingressam, agora, a Associação dos pelos cofres da União, postu-
dos Magistrados do Antigo Estado lam os primeiros seja ao mesmo
da Guanabara, sociedade civil re- dispositivo dada compreensão am-
R.T.J. — 108 981

pliativa, para sob seu pálio tam- O que também ensina Celso
bém ser englobada a magistratura Agrícola Barbi:
estadual. «Quando existe uma causa em
Esta antinomia interpretativa andamento entre duas ou mais
pretendida para o mesmo preceito pessoas, pode acontecer que um
legal não pode abrigar, no mesmo terceiro tenha interesse em que a
pólo da relação jurídica proces- sentença seja favorável a uma
sual, partes visceralmente antagô- das partes, de modo que lhe será
nicas, sob pena de grave subversão conveniente ingressar no proces-
do conceito doutrinário da assistên- so para auxiliá-la na obtenção
cia, instituto entre nós regulado pe- dessa vitória» (Comentários ao
lo art. 50 do Código de Processo Ci- Código de Processo Civil, Foren-
vil. se, vol. I, tomo I, pág. 289).
Diz-se ali que, pendente a ação, o Os peticionários, por pretende-
terceiro que tiver interesse jurídi- rem orientação diversa da postula-
co em que a sentença seja favorá- da pelo Procurador-Geral, não po-
vel a urna das partes poderá inter- dem evidentemente ser tidos na
vir no processo para assisti-la. qualidade de seus assistentes, por-
quanto em posição contrária àque-
Segundo Moacyr Amaral Santos, la defendida pelo Representante.
o assistente intervém em auxilio Não lhe querem emprestar auxílio;
de uma das partes contra a outra, Impugnam simplesmente a exege-
em razão do interesse que tem na se por ele sustentada.
vitória daquela e na derrota desta»
(Direito Processual Civil, 4t ed., A não se entender assim, qual-
Max Limonad, 2? vol.. pág. 48). E quer do povo se legitimaria para,
acrescenta o festejado processua- como assistente, pretender dar ao
lista: texto legal em exame a interpreta-
ção que melhor lhe conviesse.
«O interesse, que legitima o Cair-se-la então naquela situação
terceiro a agir como assistente descrita por Carnelutti e lembrada
de tuna das partes, conquanto em voto ainda recente do eminente
não seja um simples interesse de Ministro Rafael Mayer, ao refutar
tato, mas um interesse jurídico, a existência de interesse jurídico
não se confunde com direito seu, para admissão de litisconsorte na
que não está em lide. O assisten- Representação n? 1.088, por incons-
te Intervém fundado no interesse, titucionalidade de lei. Escreveu S.
que tem, de que a sentença não .Exa. com a elegãncia de sempre:
seja proferida contra o assistido,
Porque proferida contra este po- «Sendo esse interesse do terceiro
deria influir desfavoravelmente o pressuposto para a intervenção
na sua situação jurídica» (Id., na causa, lembrava Carnelutti,
_ lb., pág. 48). diante dos termos genéricos do an-
tigo código de processo civil italia-
Ora, o interesse antagônico ma- no, que não é qualquer interesse
nifestado pelos peticionários não se que a justifica, pedindo uma inter-
compadece com a índole do institu- pretação restritiva, sem a qual, diz
to da assistência, pois nesta o as- com certa ironia, se «abriria, por
sistente só Intervém para ajudar, exemplo, as portas do processo a
auxiliar o assistido, aderindo à todos os parentes e amigos de cada
pretensão deste. Dai a conhecida uma das partes, assim como a to-
qualificação da assistência como dos aqueles a quem convenha que
ad adjuvandum. sobre as questões a resolver se
482 R.T.J. — 108

constitua um precedente judicial» Noutras representações admitiu-se


(Sistema, trad. esp. II/47)» (RTJ a assistência. Assim, na Representa-
102/922). ção n?627, Relator o saudoso Minis-
Na espécie, inexiste também in- tro Hanemann Guimarães, em que
teresse singularizado dos peticio- se discutia a constitucionalidade de
nários, senão o interesse comum a dispositivos legais que asseguravam
todo cidadão de ver fixada a inter- aos serventuários com mais de vinte
pretação da lei, o que não basta e cinco anos de serviço o direito à
entretanto para sua admissão co- efetivação, vários daqueles servido-
mo assistentes do representante. res pediram admissão como assis-
tentes equiparados a litisconsortes e
Nestas condições, por falta de le- foram admitidos (RTJ 33/ 46).
gitimação ativa dos suplicantes,
opina a Procuradoria-Geral pelo Como Relator da Representação
indeferimento do pedido de assis- 727, o eminente Ministro Prado Kelly
tência» (fls. 102/106). deferiu, com a anuência do Plená-
Resolvi, dada a relevância das ale- rio, a intervenção, no processo, de
gações produzidas sobre a admissão, desembargadores do Rio Grande do
ou não, de assistência em represen- Sul, sob a consideração de que «não
tação de interpretação de lei em te- a impugnou o Ministério Público e,
se, submetê-la ao Plenário, em ques- estando em causa, entre as normas
tão de ordem que, como Relator, criticadas, o art. 470 da Lei n? 5.276,
suscito, antes de pedir dia para o jul- que favorece os intervenientes, mili-
gamento do mérito. tam as mesmas razões que já deter-
minaram a extensão ao mandato de
R o relatório. segurança das regras disciplinado-
VOTO ras do litisconsórcio» (RTJ 42/632).
O Sr. Ministro Soares Mufioz (Re- Essa orientação foi mantida, entre
lator): O Supremo Tribunal Federal outras, nas Representações n?s 670,
tem admitido, na representação pa- 700, 890, 891, 931 933 e 961, sendo que
ra declaração de inconstitucionalida- numa delas, insta dizer, na Repre-
de de lei em tese, que terceiros in- sentação n? 700, o saudoso Ministro
gressem no processo e assumam po- Aliomar Baleeiro manifestou o pro-
sição ao lado do Procurador-Geral pósito de sugerir a inclusão no Regi-
ou da autoridade representada (Cf. mento Interno da figura do amicus
Reclamação n? 136, voto do Ministro curlae, como existe na Corte Supre-
Néri da Silveira). ma dos Estados Unidos, para funcio-
nar nos casos em que não é possível
Na Representação n? 976 fui configurar-se a intervenção de um
explicito, em meu voto, no sentido de interessado remoto, como assistente,
que, em processós anteriores, a Cor- opoente ou litisconsorte (RTJ 37/646,
te admitira que o argüente da in- 41/573, 42/632, 33/ 45 e 97/29).
constitucionalidade junto ao
Procurador-Geral da República tem A jurisprudência atual do Supremo
legitimidade para participar da rela- Tribunal Federal mantém-se favorá-
ção processual como assistente. E vel à admissão de assistente em Re-
nesse precedente, a assistência foi presentação de Inconstitucionalida-
admitida por unanimidade, apesar de, quer do Dr. Procurador-Geral da
de o eminente Ministro Moreira Al- República, quer da autoridade res-
ves ter lembrado, sem divergir, que, ponsável pela edição da norma im-
quando era Procurador-Geral da Re- pugnada. Entretanto, na Representa-
pública, houve dúvida se cabia a as- ção n? 1.050-3, em que o argüente da
sistência (RTJ 97/29 e 30). inconstitucionalidade, junto ao Dr.

R.T.J. — 108 483

Procurador-Geral da República, re- Civil, Tomo II, pág. 66, 2? ed.). «A


quereu sua admissão como litiscon- função de assistente não é a de ser
sorte ativo, indeferi o pedido, na parte, mas apenas a de assistir (ad
qualidade de relator, em despacho sidere)». Dai o artigo 50 estabelecer
no qual assinalei a inexistência, en- que o terceiro, que tiver interesse
tre o requerente e o Chefe do Minis- jurídico em que a sentença seja fa-
tério Público, de litisconsórcio, nos vorável a uma das partes, poderá in-
termos em que esse instituto é con- tervir no processo para assisti-la.
ceituado no art. 46 do Código de Pro- Exige-se, ainda, em relação ao assis-
cesso Civil, visto que o Procurador- tente qualificado ou litisconsorcial, a
Geral da República é o titular único capacidade de ser parte (ob. cit.
da representação por inconstitucio- pág. 81).
nalidade; não há que falar em Mis- Transplantada essa doutrina para
consorte ativo necessário (art. 47). o pedido de assistência em exame,
Esse despacho é de 07-05-81 e contra verifica-se, sem dificuldade, que ne-
ele não foi interposto agravo. nhum desses pressupostos se acha
Por igual, o Ministro Rafael Ma- configurado. Os candidatos à assis-
yer não admitiu, como assistente, o tência não pretendem assistir o
Deputado de cuja Iniciativa nascera Procurador-Geral da República,
a lei impugnada de inconstitucionall- nem mesmo ao Chefe do Governo
dade. O despacho em referência foi Federal, como autoridade que expe-
mantido em agravo regimental, me- diu o Decreto-Lei n9 2.019/83. Ao con-
diando acórdão unânime do Plená- trário, os intervenientes se opõem ao
rio, encimado por esta ementa: pedido formulado na representação,
pleiteando prevaleça interpretação,
«Representação de inconstitucio- frontalmente, colidente com a pro-
nalidade. Assistência. Interesse pugnada na petição inicial. Com esse
jurídico ( art. 50 do CPC). escopo, formularam pedidos autôno-
O interesse político ou moral do mos, assumindo a posição, quiçá, de
parlamentar pela sorte da lel, de opoentes em processo que não permi-
cujo projeto teve a iniciativa, sub- te essa forma de intervenção, visto
metida ao exame direto de sua que a ação direta de interpretação
constitucionalidade, não equivale da lei em tese é privativa do
ao interesse jurídico exigível para Procurador-Geral da República. So-
que figure como assistente no pro- mente ele, e mais ninguém, pode pe-
cedimento respectivo, eis que a sen- dir a interpretação da lei em tese. O
tença não reflete em sua esfera pedido formulado pelos intervenien-
jurídica individual. Agravo Regi- tes, no sentido de que prevaleça ou-
mental improvido.» tra interpretação da lei que não a
propugnada na representação equi-
O Código de Processo Civil disci- vale a representação paralela e em
plina, no art. 50, a figura do assis- oposição à ajuizada pelo Dr.
tente simples ou adesivo e, no art. Procurador-Geral da República.
54, o assistente qualificado ou li-
tisconsorcial. Ambos se arrimam na A interpretação que for dada ao
perfeita identidade entre o interesse Decreto-lei n? 2.019/83 terá sobre os
do assistente e do assistido. Se há di- intervenientes e sobre todos os ma-
reito do terceiro, observa Pontes de gistrados a mesma incidência da lei
Miranda, «que não é comum ao de em tese. A interpretação do Supre-
uma parte, ou que o Interesse sus- mo Tribunal Federal expressa a pró-
tenta em ser, e não de qualquer das pria lei e é, por isso, que ela tem for-
partes, o caso não é de assistência» ça vinculante (art. 187 do RI - STF).
(Comentários ao Código de Processo Assim como ninguém tem direito
R.T.J. — 108
484

subjetivo à promulgação da lei, as- da lei pode ingressar, no processo,


sim também ninguém tem direito ao lado desse titular; é tão rigorosa
subjetivo a esta ou àquela interpre- a regra que nem mesmo o interes-
tação In abstrato da lei. A propósito, sado que suscitou ao Procurador-
a Procuradoria Geral do Estado de Geral a representação pode ingres-
São Paulo, em parecer emitido em sar com ele no processo. Por outro
representação de inconstitucionali- lado, o processo especial estabele-
dade de lei municipal que tramitou cido na Lei n? 4.337/64 e nos arti-
no Tribunal de Justiça paulista, adu- gos 174 e seguintes do RI do Supre-
ziu considerações que me permito mo Tribunal Federal não pre-
reproduzir, verbis: viu a possibilidade de assistência,
«7. n que, em verdade, ninguém interveniência ou litisconsórcio de
tem direito subjetivo à existência qualquer espécie, no feito. O artigo
ou inexistência da lei, à validade 3? daquela lei declara:
ou invalidade da lei in abstracto. «O relator que for designado
Por isso é que ninguém tem direito ouvirá, em 30 (trinta) dias, os
subjetivo à formação da lei, tanto órgãos que hajam elaborado ou
que ninguém pode invocar a ativi- praticado o ato argüido, e, findo
dade jurisdicional visando a obter esse termo, terá prazo igual para
a promulgação da lei, como pode apresentar o relatório».
usar o direito de ação para obter O artigo 175 do Regimento Inter-
uma declaração de constitucionali- no do Supremo Tribunal Federal,
dade abstrata de uma lei ou de por seu lado, estabelece:
qualquer ato do poder público. Por
isso não é admissivel que alguém «O relator, sem prejuízo do dis-
ingresse em juizo, como parte posto no artigo 22, IV, pedirá in-
principal ou acessória ou assisten- formações à autoridade, da qual
cial ou como litisconsorte, para tiver emanado o ato, bem como
sustentar a constitucionalidade de ao Congresso Nacional ou à As-
lei, a não ser apenas os órgãos que sembléia Legislativa, se for o ca-
participaram da formação de lei so.» (Ação Direta de Inconstitu-
impugnada, mediante requisição cionalidade de Leis Municipais
de informações em representação em Tese, págs. 212-213).
promovida pelo Procurador-Geral. Do mesmo modo, o art. 184 do Re-
8. Por essas razões todas é que, gimento Interno do Supremo Tribu-
data venta, se manifesta absurda a nal Federal, tratando da representa-
pretensão dos requerentes de in- ção para a interpretação de lei em
gressar no processo como tese, dispõe que «recebidas as infor-
assistentes litisconsorciais, e pior mações, o Relator, lançado o relató-
ainda como litisconsortes rio do qual a Secretaria remeterá có-
necessários, Ora, admitir assisten- pia a todos os Ministros, pedirá dia
te ou litisconsorte passivos, como para julgamento». O dispositivo em
seria o como seria o caso, ter-se-ia referência não abre espaço nem
que admitir também o ativo. Quer oportunidade para participação de
dizer, então, que seria admissivel terceiro.
coadjuvantes também do autor. A intervenção pleiteada pelos re-
Mas a Constituição Federal como a querentes não é assistência simples
do Estado indicaram titulares da nem litisconsorcial, uma vez que
ação direta de inconstitucionalida- eles se opõem à interpretação pro-
de, que são os Procuradores-Ge- pugnada na representação e plei-
rais. Vale dizer que nenhum inte- teiam que outra exegese seja dada
ressado na inconstitucionalidade ao Decreto-Lei n? 2.019/83. Admitir

R.T.J. — 108 485

essa forma de intervenção seria pedimento subjetivo na representa-


abrigar, ao lado da representação e ção em geral, exceto para o Ministro
em colisão com ela, outra represen- desta Corte que tenha, a outro titulo,
tação de quem não tem legitimidade oficiado nos autos.
para propô-la. Assim, como o relator, inadmito a
Ante o exposto e pelos fundamen- assistência postulada.
tos do parecer transcrito no relató-,
rio, indefiro o pedido dos requeren- VOTO SOBRE QUESTÃO
tes de intervir no processo. DE ORDEM
Sr. Ministro Moreira Alves: Sr.
VOTO SOBRE QUESTÃO Presidente, já há tempos, venho sus-
DE ORDEM tentando, nesta Corte, que tanto a
representação de inconstitucionali-
O Sr. Ministro Francisco Reza: dade quanto a representação de in-
Sr. Presidente, houve um momento, terpretação dizem respeito a ato
no passado, em que este Tribunal, político que o Tribunal pratica me-
vestido, sem dúvida, das melhores diante o emprego da ação como ins-
intenções, pela primeira vez admitiu trumento.
a assistência na representação por Tribunal, quer ao julgar a in-
inconstitucionalidade. Desse momen- constitucionalidade de uma lei em
to - não muito preciso - a esta parte, tese, quer ao interpretar autentica-
que se tem visto, com freqüência, mente uma lei em tese, na realida-
a perplexidade do próprio Tribu- de, não está prestando jurisdição,
nal, em razão de que, por se admitir mas, sim, no primeiro caso, fiscali-
a assistência, as regras a ela perti- zando os dois outros Poderes, e, no
nentes nas leis do processo vêm to- segundo caso, integrando-se no pro-
das à baila; e isso a cada dia se re- cesso legislativo, dando interpreta-
vela menos condizentes com a singu- ção autêntica, à semelhança, aliás,
laridade, com o caráter absoluta- do que o nosso direito anterior co-
mente original desta ação direta. nhecia com relação aos assentos da
Hoje, pela primeira vez, coloca-se Casa de Suplicação. Teixeira de
ante o Tribunal a questão de saber Freitas, no seu Vocabulário Jurídico,
se é admissivel a assistência na re- salientava: «assentos são interpreta-
presentação interpretativa. E por ções autênticas das nossas leis que
obra do acaso, em virtude da posi- tomavam outrora a extinta Casa de
ção que, segundo a norma regimen- Suplicação». Portanto, a meu ver,
tal o Procurador-Geral da República hão há como se aplicarem a proces-
assumiu na exegese do dispositivo sos dessa natureza normas proces-
interpretando, percebe-se uma curio- suais relativas a ações em que o Tri-
sidade a mais na pretensão dos soli- bunal, realmente, atua prestando ju-
citantes da assistência: desejam risdição a partes, em casos concre-
eles, na realidade, desassistir o tos.
Procurador-Geral da República na Dai a razão pela qual acompanho,
proposição que formulou sobre o en- integralmente, o voto do eminente
tendimento do dispositivo, Relator.
Acompanho na Integra o voto do VOTO SOBRE QUESTÃO
eminente relator, e chamo ainda, em DE ORDEM
favor subsidiário dessa tese, aqueles
mesmos princípios que, não faz mui- Sr. Ministro Cordeiro Guerra
to tempo, levaram o Tribunal, em (Presidente): Sintonizo com o Plená-
Conselho, a entender que não há im- rio, pelo fundamentos do voto do

496 R.T.J. — 108

eminente Ministro Relator, já agora da República. Repdo.: Presidente da


suplementados pelo voto do eminen- República.
te Ministro Moreira Alves. Entendo, Decisão: Indeferiu-se o pedido da
realmente, que na representação de assistência, unanimemente. Votou o
inconstitucionalidade e, mais ainda, Presidente.
na representação interpretativa não
tem cabimento a assistência, por- Presidência do Senhor Ministro
que, na realidade, todos os cidadãos Cordeiro Guerra. Presentes à Sessão
têm interesse na manutenção da or- os Senhores Ministros Moreira Al-
dem jurídica. Não é este o caso de ves, Soares Mufioz, Decio Miranda,
assistência. Néri da Silveira, Alfredo Buzaid,
Por esses motivos, integro-me nos Oscar Corrêa, Aldir Passarinho e
votos que acompanharam o Ministro Francisco Rezek. Ausentes, justifica-
Relator, indeferindo o pedido. damente, os Srs. Ministros Djaci
Falcão e Rafael Mayer. —
EXTRATO DA ATA Procurador-Geral da República,
Professor Inocêncio Mártires Coelho.
Rp 1.155-DF — Rel.: Ministro Soa- Brasília, 13 de outubro de 1983 —
res Mufioz. Rpte.: Procurador-Geral Alberto Veronese Aguiar, Secretário.

REPRESENTAÇÃO N? 1.155 — DF
(Tribunal Pleno)
Relator: O Sr. Ministro Soares Mulloz.
Representante: Procurador-Geral da República — Representado: Presi-
dente da República.
Representação. Interpretação de lel em tese.
— Representação conhecida para adotar-se o entendimento de que
o art. 1? do Decreto-lei n? 2.019, de 28.3.83, se aplica tão-somente aos
magistrados remunerados pelos cofres da União, enquanto que o art.
2? do mesmo Decreto-lei incide sobre todos os magistrados, federais
ou estaduais, de qualquer instância.
ACÓRDÃO Brasília, 9 de novembro de 1983 —
Cordeiro Guerra, Presidente —
Vistos, relatados e discutidos estes Soares Mufioz, Relator.
autos, acordam os Ministros do Su-
premo Tribunal Federal, em sessão RELATÓRIO
Plenária, na conformidade da ata do
julgamento e das notas taquigráfi- O Sr. Ministro Soares Miem O
cas, por unanimidade de votos, co- Dr Procurador-Geral da República,
nhecer da representação para no uso das atribuições que lhe confe-
adotar-se o entendimento de que o rem o art. 119, item I, alínea «1», da
artigo 1? do Decreto-lei n? 2.019, de Constituição Federal e o art. 179 do
28-3-83, se aplica tão-somente aos Regimento Interno do Supremo Tri-
magistrados remunerados pelos co- bunal Federal, submete ao exame da
fres da União, enquanto que o artigo Corte, mediante representação, o
2? do mesmo Decreto-lei incide sobre texto do Decreto-lei n? 2.019, de 28 de
todos os magistrados, federais ou es- março de 1983, expedido pelo Sr.
taduais, de qualquer instância. Presidente da República, para que

R.T.J. — 108 487

se lhe fixe a exata interpretação no taria de Planejamento, inteiramente


sentido de que o diploma legal em concordantes com a interpretação do
tela tem como destinatários específi- Decreto-Lei n? 2.019/83, como a pre-
cos os magistrados remunerados pe- tende o Dr. Procurador-Geral da Re-
la União, a quem compete arcar pública, visto que tem a sustentá-la
com as despesas correspondentes. a compreensão do texto constitucio-
Assim, ao referir-se a «magistrados nal. A fixação de vencimentos ou o
de qualquer instância», somente pode- aumento da gratificação adicional
rá ter em vista os magistrados de por tempo de serviço, via de decreto-
qualquer instância federal, desde a lei, como na espécie, só é possível
primeira até a Suprema Instância, para servidores federais ou para
como tais relacionados no Anexo a magistrados pagos pela União; com
que se refere o art. 1?, i 2?, do respeito às finanças públicas, a isen-
Decreto-lei n? 1.985, de 28 de dezem- ção do imposto de renda relativa à
bro de 1982. verba de representação dos magis-
Em prol da interpretação que pro- trados, por ser matéria de finanças
pugna, expende o Chefe do Ministé- públicas, concernente a tributo fede-
rio Público vários argumentos, entre ral, nada impede a sua extensão aos
os quais o de que nem poderia ser di- magistrados estaduais; muito ao
ferente, porquanto a competência do contrário, tudo recomenda sua a-
Sr. Presidente da República, para a brangência, ainda que por respeito ao
criação de cargos públicos e fixação principio da isonomia.
de vencimentos, está restrita ao âm- Requereram sua intervenção no
bito federal, em face do rígido es- processo, como assistentes, a As-
quema constitucional de repartição sociação dos Magistrados no Anti-
de competências, decorrência do go Estado da Guanabara e seu Pre-
próprio regime federativo por nós sidente, Desembargador Vivalde
adotado. Nos Estados, essa compe- Brandão Couto (fls. 37/99); a As-
tência para a iniciativa de lei que au- sociação dos Magistrados flu-
mente vencimentos é exclusiva do minenses, através do seu Presi-
respectivo Chefe do Poder Executi- dente em exercício, Juiz Emílio Car-
vo, consoante a regra do art. 57, II, mo (fls. 108/112); o Juiz de Direito
da Carta Magna, de aplicação obri- Gusmar Alberto Visconti de Araujo e
gatoria pelas Unidades Federadas, outros do Estado do Rio de Janeiro
como manda o art. 13, III, da mes- (fls. 140/160); os magistrados Paulo
ma Constituição. De outra parte, se- Casar Dias Panza e outros, também
ria impensável que a União viesse a do Estado do Rio de Janeiro (fls.
arcar com as despesas de pagamen- 160/169); a Associação dos Magistra-
to da gratificação por tempo de ser- dos Acreanos e seu Presidente, De-
viço a magistrados estaduais, por- sembargador Lourival Marques de
quanto estas não são despesas que Oliveira; a Associação dos Magistra-
possam ser contabilizadas no orça- dos de Magoas e seu Presidente,
mento federal, restrita que se acha a magistrado Danilo Antônio Barreto
competência constitucional do Sr. Accioly; a Associação dos Magistra-
Presidente da República á iniciativa dos do Amazonas e seu Presidente,
do processo legislativo para aumen- Desembargador Manuel Neuzimar
to de vencimentos dos servidores fe- Pinheiro; a Associação dos Magis-
derais. trados do Estado do Ceará e seu
Solicitadas informações ao Sr. Presidente, Desembargador Julio
Presidente da República, encami- Carlos de Miranda Bezerra; a As-
nhou S. Exa. as prestadas pelo Sr. sociação dos Magistrados do Es-
Ministro de Estado Chefe da Secre- tado do Espírfto Santo e seu Presi-
488 R.T.J. — 108

dente, Desembargador José Eduardo Por isso, há coincidência entre esse


Grandi de Oliveira; a Associação dos interesse e o interesse manifestado
Magistrados do Estado de Goiás, a pelo ilustre Procurador-Geral da Re-
Associação dos Magistrados do Esta- pública. É irrelevante, para o efeito
do do Maranhão e seu Presidente, de aferir o interesse assistencial, a
Desembargador José Joaquim Ra- parcial distonia, quanto ao conteúdo
mos Filgueiras; a Associação Mato- da interpretação. Não importa que
grossense de Magistrados e seu Pre- assistentes e assistido não se harmo-
sidente, Juiz de Direito Manoel Ri- nizem por inteiro, no tocante ao al-
beiro Filho; a Associação dos Magis- cance do mencionado decreto-lei.
trados do Estado de Minas Gerais e Basta o inegável interesse jurídico
seu Presidente, Desembargador Lin- em que o Supremo Tribunal Federal
coln Rocha; a Associação dos Ma- interprete aquele ato.
gistrados do Estado do Pará, Não concordam os requerentes
a Associação dos Magistrados do com o entendimento propugnado na
Paraná e seu Presidente, Desembar- representação, conforme o qual a lo-
gador Lauro Lima Lopes; a cução «em relação aos magistrados
Associação Paulista de Magistrados de qualquer instância» só abrange os
e seu Presidente, Desembargador juízes remunerados pelos cofres da
Francis Selwin Davis; a Associação União, porque, data venta, essa in-
dos Magistrados do Piauí e seu Pre- terpretação consubstancia afronta
sidente, Desembargador Paulo de ao dispositivo da Constituição que,
Tarso Mello e Freitas; a Associação na esteira de vetusta doutrina e da
dos Magistrados do Rio Grande do própria evolução do Direito Constitu-
Norte e seu Presidente, magistrado cional brasileiro, adotou o sistema
Carlos Roberto Coelho Maia; a da Unidade do Poder Judiciário, ao
Associação dos Magistrados do Rio estatuir, no art. 112, que o Poder Ju-
Grande do Sul e seu Presidente, De- diciário é exercido pelo Supremo
sembargador Milton dos Santos Mar- Tribunal Federal e pelo Tribunal Fe-
tins; a Associação dos Magistrados deral de Recursos e juizes federais
de Sergipe e seu Presidente, Juiz Jo- pelos tribunais e juizes militares,
sé Antônio de Andrade Goes. eleitorais e do trabalho, e pelos
juizes e Tribunais estaduais.
Alegam os requerentes que não po-
de haver dúvida de que eles têm in- A interpretação proposta pelo' Dr.
teresse jurídico em ingressar no pro- Procurador-Geral da República na
cesso, porque tanto as associações, representação é, segundo os candi-
como entidades de classe, quanto os datos à habilitação como assistentes,
magistrados ficarão sujeitos à inter- manifestamente errônea, pois, con-
pretação que o Supremo Tribunal forme salientam os pareceres que
Federal vier a dar ao Decreto-Lei n? anexaram à sua petição, de autoria
2.019, de 28 de março de 1983, pois, dos juristas Caio Tácito, Caio Mário
como explicita o art. 187 do seu Re- da Silva Pereira, Hely Lopes Meirel-
gimento Interno, «a partir da publi- les e Victor Nunes Leal, o Decreto-
cação do acórdão, por suas conclu- lei n? 2.019/83 limitou-se a eviden-
sões e ementa, no Diário da Justiça ciar, com maior clareza e objetivi-
da União, a interpetação nele fixada dade, o teor do art. 65 da Lei orgâni-
terá força vinculante para todos os ca da Magistratura, norma comple-
efeitos». mentar da qual deriva para seus
destinados o beneficio a ser auferido
O interesse dos requerentes é o de em razão do tempo de serviço, e cui-
que o Supremo Tribunal Federal in- dou de promover a técnica executó-
terprete o Decreto-Lei n? 2.019/83. ria do cálculo da gratificação.

R.T.J. — 108 489

Depois de outras considerações, processo como assistentes, S. Exa.


tendentes a demonstrar o desacerto aprovou o parecer emitido pelo ilus-
da interpretação pleiteada pelo Dr. tre Procurador Dr. Walter José de
Procurador-Geral da República, os Medeiros, contrário á aludida pre-
intervenientes concluem que o de- tensão, verbis:
creto-lei em causa é norma inter- «Ingressam, agora, a Associação
pretativa do art. 65 da Lei Comple- dos Magistrados do Antigo Estado
mentar n? 35, não comportando ou- da Guanabara, sociedade civil re-
tra interpretação do que aquela com- gularmente constituída, e seu res-
patível com a Constituição, no senti- pectivo Presidente, Desembarga-
do de que vincula tanto a União Fe- dor Vivalde Brandão Couto, como
deral quanto os Estados, vale dizer, pessoa física, com pedido de inter-
a gratificação em tela é devida aos venção nos autos, na qualidade de
juizes de qualquer instância, inclusi- assistentes, alegando para tanto a
ve os que exercerem a jurisdição nos existência de interesse jurídico de
Estados, devendo o eventual aumen- ambos, em face da sujeição a que
to das despesas recair sobre a pes- ficarão em decorrência da inter-
soa jurídica de direito público que ti- pretação a ser dada ao diploma le-
ver o Ônus de pagar os vencimentos gal em referência, exegese da qual
aos magistrados. sobrevirá força vinculante para to-
Como pedido substitutivo do for- dos os efeitos (fl. 37).
mulado na representação, a petição
dos candidatos á assistência requer Afirmam haver identidade de in-
que a Corte: teresses entre a pretensão mani-
festada pelo Procurador-Geral e a
se digne fixar a interpretação por eles agora veiculada, sendo Ir-
do Decreto-lei n? 2.019, de 18 de mar- relevante, segundo eles, a parcial
ço de 1983; distonia quanto ao conteúdo da in-
decida, interpretando o seu art. terpretação (fls. 39).
1?, que o modo de computar a grati- O pedido, contudo, não merece
ficação a que se refere o mencionado acolhido, por falta de legitimidade
dispositivo deve ser observado, ao se ativa de qualquer dos requerentes.
efetuar o cálculo dos adicionais devi-
dos, indistintamente, aos integrantes A iniciativa da representação pa-
do Poder Judiciário, sem considerar ra interpretação de lei ou ato nor-
a pessoa jurídica de direito público mativo federal ou estadual está as-
que os remunera; segurada, constitucionalmente, em
caráter privativo, ao Sr. Pro-
decida que as eventuais despe- curador-Geral da República (CF,
sas, decorrentes do pagamento de art. 119, I, 1), acrescentando o
gratificação adicional por tempo de Regimento Interno desta Supre-
serviço, correrão á conta da pessoa ma Corte (art. 180) que a S. Exa.
jurídica de direito público á qual cabe dizer os motivos que justifi-
couber o pagamento dos vencimen- cam a propositura da ação, bem
tos do magisrado, e assim adiantar seu entendimento a
decida que o art. 2? daquele respeito da matéria sujeita ao exa-
decreto-lei é de aplicação irrestrita, me do Tribunal.
alcançando, indistintamente, todos A orientação pela qual propug-
os integrantes do Poder Judiciário. nam os peticionários, consoante
Com vista o Dr. Procurador-Geral eles próprios o afirmam, está em
da República para pronunciar-se so- parcial distonia com aquela defen-
bre os pedidos de intervenção no dida pelo Representante em sua
490 R.T.J. — 108

Pe ça inaugural, por isso que, en- compadece com a índole do institu-


quanto o último sustenta deva o ar- to da assistência, pois nesta o as-
tigo 1? do Decreto-lei n? 2.019, de sistente só intervém para ajudar,
28-3-83, ser entendido restritiva- auxiliar o assistido, aderindo à pre-
mente aos magistrados remunera- tensão deste. Dai a conhecida qua-
dos pelos cofres da União, postu- lificação da assistência como ad
lam os primeiros seja ao mesmo adjuvandum.
dispositivo dada compreensão am- E o que também ensina Celso
Silva, para sob seu pálio tam- Agrícola Barbi:
bém ser englobada a magistratura «quando existe uma causa em
estadual.
andamento entre duas ou mais
Esta antinomia interpretativa pessoas, pode acontecer que um
pretendida para o mesmo preceito terceiro tenha interesse em que a
legal não pode abrigar, no mesmo sentença seja favorável a uma
pólo da relação jurídica proces- das partes, de modo que lhe será
sual, partes visceralmente antagô- conveniente ingressar no proces-
nicas, sob pena de grave subversão so para auxllitt-la na obtenção
do conceito doutrinário da assistên- dessa vitória» (Comentários ao
cia, instituto entre nós regulado pe- Código de Processo Civil, Foren-
lo art. 50 do Código de Processo Ci- se, vol. I, tomo I, pág. 289).
vil.
Os peticionários, por pretende-
Diz-se ali que, pendente a ação, o rem orientação diversa da postula-
terceiro que tiver interesse jurídi- da pêlo Procurador-Geral, não po-
co em que a sentença seja favorá- dem evidentemente ser tidos na
vel a uma das partes poderá inter- qualidade de seus assistentes, por-
vir no processo para assisti-la. quanto em posição contrária àque-
Segundo Moacyr Amaral Santos, la defendida pelo Representante.
o assistente intervém «em auxilio Não lhe querem emprestar auxilie
de uma das partes contra a outra, impugnam simplesmente a exegese
em razão do interesse que tem na por ele sustentada.
vitória daquela e na derrota desta» A não se entender assim, qual-
(Direito Processual Civil, 4? ed., quer do povo se legitimaria para,
Max Limonad, 2? vol., pág. 48). E como assistente, pretender dar ao
acrescenta o festejado processua- texto legal em exame a interpreta-
lista: ção que melhor lhe conviesse.
«O interesse, que legitima o Cair-se-ia então naquela situação
terceiro a agir como assistente descrita por Carnelutti e lembrada
de uma das partes, conquanto em voto ainda recente do eminente
não seja um simples interesse de Ministro Rafael Mayer, ao refutar
fato, mas um interesse jurídico, a existência de interesse jurídico
não se confunde com direito seu, para admissão de litisconsorte na
que não está em lide. O assisten- Representação n? 1.088, por incons-
te Intervém fundado no interesse, titucionalidade de lei. Escreveu S.
que tem, de que a sentença não Exa. com a elegância de sempre:
seja proferida contra o assistido, «Sendo esse interesse do tercei-
porque proferida contra este po- ro o pressuposto para a interven-
deria influir desfavoravelmente ção na causa, lembrava Carnelut-
na sua situação jurídica». (id., ti, diante dos termos genéricos
ib., pág. 48). do antigo Código de Processo Ci-
Ora, o interesse antagônico ma- vil Italiano, que não é qualquer
nifestado pelos peticionários não se interesse que a justifica, pedindo
R.T.J. — 108 491

uma interpretação restritiva, sistentes, não pretendem assistir o


sem a qual, diz com certa ironia, Dr. Procurador-Geral da Repúbli-
se «abriria, por exemplo, as por- ca, mas a ele se opor; pugnando
tas do processo a todos os paren- por outra interpretação da lel em
tes e amigos de cada uma das tese, que equivale, em verdade, a
partes, assim como a todos aque- uma segunda representação, ofere-
les a quem convenha que sobre cida por quem não tem legitimida-
as questões a resolver se consti- de para propô-la. Pedido de assis-
tua um precedente judicial» (sis- tência indeferido» (fls. 260).
tema, trad. Esp. 11/47)» (RTJ Deste relatório a Secretaria deve-
102/922). rá enviar cópias aos Senhores Minis-
Na espécie, inexiste também in- tros.
teresse singularizado dos peticio- Brasília, 24 de outubro de 1983 —
nários, senão o interesse comum a Ministro Soares Muiloz, Relator.
todo cidadão de ver fixada a inter-
pretação da lei, o que não basta en- VOTO
tretanto para sua admissão como
assistentes do representante.
O Sr. Ministro Soares Mufloz (Re-
Nestas condições, por falta de le- lator): Os Drs. Procuradores-Gerais
gitimação ativa dos suplicantes, dos Estados do Piauí e de Sergipe se
opina a Procuradoria-Geral pelo dirigiram ao Dr. Procurador-Geral
indeferimento do pedido de assis- da República, sugerindo que seria de
tência» (fls. 102/106). bom alvitre e no resguardo dos inte-
Resolvi, dada a relevância das ale- resses, tanto da União como daque-
gações produzidas sobre a admissão, les Estados, que fosse ajuizada re-
ou não, de assistência em represen- presentação, perante o Supremo Tri-
tação de interpretação de lel em te- bunal Federal, a fim de obter-se a
se, submetê-la ao Plenário, em ques- interpretação em tese do Decreto-
tão de ordem. Lei n? 2.019, de 28 de março de 1983,
O pedido de assistência foi indefe- que «dispõe sobre o cálculo de parce-
rido por unanimidade de votos, em las da remuneração devida aos ma-
acórdão encimado por esta ementa: gistrados e dá outras providências».
«Ementa: — Interpretação de lei Os proponentes assinalaram a dis-
em tese. Assistência. crepância de interpretações sobre a
auto-aplicação, ou não, do referido
— Não cabe a intervenção de Decreto-lei n? 2.019 aos Estados-
terceiro, como assistente, em re- membros e salientaram as conse-
presentação para interpretação de qüências que a aplicação dessas nor-
lei em tese pois a legitimidade pa- mas acarretaria para os menciona-
ra propi3-la é privativa e exclusiva dos Estados do Piauí e Sergipe, por-
do Dr. Procurador-Geral da Repú- quanto elevaria os dispêndios de pes-
blica. Ninguém tem o direito subje- soal em proporções tão alentadas,
tivo á prestação jurisdicional para que os respectivos Tesouros Esta-
obter a interpretação abstrata da duais não poderiam suportar.
lel. A interpretação do Supremo De seu turno, o Dr. Procurador-
Tribunal Federal expressa a pró- Geral da República, em sua repre-
pria lei e, por isso, tem força vin- sentação, salientou que
culante (art. 187 do RJ — STF).
Sobreleva notar que, no caso sub «Pelo disposto no art. 1? do aludi-
judie" os terceiros, embora re- do diploma legal, a gratificação
queiram sua intervenção como as- adicional de que trata o art. 65,
492 — 108

item VIII, da Lei Complementar n? Geral do Estado de Sergipe novo


35, de 14 de março de 1979, seria subsidio, para dizer que, aplicado o
calculada, «em relação aos magis- dispositivo da lei federal com essa
trados de qualquer instância», so- extensão, haveria quebra do
bre o vencimento percebido, mais princípio fundamental em que se
a representação, obedecidos os assenta a federação brasileira, ex-
percentuais ali indicados (Doc. 1). plicitando:
Estabeleceu, por sua vez, o art.
4? que a despesa decorrente da «Não se pode, data venta, me-
aplicação daquele decreto-lei cor- diante Decreto-lei, dispor sobre
reria à conta das dotações orça- vencimentos e vantagens da ma-
mentárias próprias da União. gistratura estadual. Estas só po-
dem ser concedidas por lei do
Da conjugação desses dois dispo- próprio Estado, observadas as
sitivos, extraiu o ilustre Pro- modalidades e os limites fixados
curador-Geral do Estado do Pi- pela Lei Orgânica da Magistratu-
auí, no expediente endereçado ao ra Nacional» (Doc. 3).
Representante (Doc. 2), a possibili-
dade de três diferentes interpreta- A admitir-se a interpretação sub
ções: alínea a, a União ficaria evidente-
gratificação qüinqüenal em mente obrigada, a partir de agora,
tela seria devida aos magistrados a custear despesas com pagamento
de qualquer instância, inclusive es- de gratificação adicional a seus
taduais, devendo as despesas cor- magistrados e aos dos Estados. E,
respondentes correrem à conta da de outra parte, prevalecendo a
União; exegese sub alínea c, haveria que-
a ela somente fariam jus os bra manifesta do princípio federa-
magistrados de qualquer Instância tivo, inscrito logo no art. 1? da
da Justiça da União, hipótese em Constituição da República.
que a esta última competiria arcar
com o ônus respectivo; Mas não apenas isto. Como sa-
c) à União caberia cobrir as des- lientou o ilustre Procurador-Geral
pesas relativas a seus magistra- do Estado do Piauí, não têm os co-
dos, enquanto os Estados arcariam fres estaduais condições de supor-
com os ônus de pagar os seus. tar o elevado dispêndio acarretado
pela aplicação do questionado
A primeira interpretação se jus- decreto-lei, sem que haja qualquer
tificaria em face da alusão, no art. perspectiva de retorno das despe-
1?, aos magistrados «de qualquer sas efetuadas a esse titulo, reco-
Instância», acrescentando, depois, nhecida afinal por sentença sua
o art. 4? que a despesa correspon- inaplicabilidade à magistratura
dente correria à conta das dota- dos Estados.
ções orçamentárias da União.
Esses são, ao que parece, moti-
A segunda explica-se mais facil- vos mais que suficientes para justi-
mente pela circunstância de que, ficar a necessidade de interpreta-
em razão da origem federal do ção prévia do Decreto-lei n? 2.019,
decreto-lei e das despesas advin- de março do corrente ano, tendo o
das à União, somente aos magis- Representante como atendidos, no
trados por esta mantidos teria particular, os pressupostos a que
aquela aplicação. se refere o art. 180 do Regimento
Em relação à última interpreta- Interno dessa ExcelSa Corte» (fls.
ção, trouxe o ilustre Procurador- 2/5).


R.T.J. — 108 493

E, passando a adiantar seu enten- Veja-se sobre o tema a lição


dimento a respeito da exegese do sempre precisa de José Souto
Decreto-lei n? 2.019, o Dr. Maior Borges, em estudo sobre o
Procurador-Geral da República op- conteúdo e o sentido do principio
tou pela alvitrada na alínea b, que de isonomia das pessoas jurídicas
anteriormente referira, verbis: de direito público:
«O diploma legal em tela tem co- «E um principio que informa
mo destinatários específicos os toda a estrutura da Constituição
magistrados remunerados pela brasileira, a isonomia das pes-
União, a quem compete arcar com soas constitucionais. Não há
as despesas correspondentes. As- desníveis hierárquicos entre as
sim, ao referir-se a «magistrados pessoas constitucionais, que juri-
de qualquer instância», somente dicamente são iguais entre si,
Poderia ter em vista os magistra- posto sociológica, econômica e
dos de qualquer instância federal, politicamente não o sejam.
desde a primeira até a Suprema A diversidade das atribuições,
Instância, como tais relacionados a sua maior ou menor complexi-
no Anexo a que se refere o art. 1?, dade, não interferem com a radi-
2?, do Decreto-lei n? 1.985, de 28 cal igualdade no regime jurídico
de dezembro de 1982 (Doc. 4). das pessoas constitucionais e so-
Nem poderia ser diferente, por- bretudo no seu mútuo relaciona-
quanto a competência do Sr. Presi- mento» (Eficácia e Hierarquia
dente da República, para criação da Lei Complementar, Rev. Dir.
de cargos públicos e fixação de Púb. n? 25, jul/set 73, pág. 93).
vencimentos, está restrita ao âm- Repele o Mestre, em seguida, a
bito federal, em face-do rígido es- objeção de que a ordem jurídica da
quema constitucional de repartição União seja abrangente e a dos
de competências, decorrência do Estados-membros e municípios,
próprio regime federativo por nós parcial e limitada aos respectivos
adotado. territórios, com o argumento de
Nos Estados, essa competência que «todas as atribuições, legislati-
para a iniciativa da lei que aumen- vas ou não, da União, Estados-
te vencimentos é exclusiva do res- membros e Municípios são discipli-
pectivo Chefe do Poder Executivo, nadas na Constituição Federal».
consoante a regra do art. 57, II, da E, a respeito da inexistência de
Carta, de aplicação obrigatória pe- hierarquia entre as leis oriundas
las Unidades Federadas, consoante das diversas pessoas constitucio-
manda o art. 13, III. nais, adverte:
De outra parte, seria impensável «Ao contrário, a afirmação de
que a União viesse a arcar com as que não há hierarquia entre leis
despesas de pagamento da gratifi- federais, estaduais e municipais
cação por tempo de serviço a ma- representa, em todo rigor, um
gistrados estaduais, porquanto es- corolário, desdobramento ou infe-
tas não são despesas que possam rência do princípio de isonomia
ser contabilizadas no Orçamento das pessoas constitucionais. Me-
federal, restrita que se acha a ro aspecto particular da expan-
competência constitucional do Sr. são desse principio constitucional
Presidente da República à iniciati- basilar.
va do processo legislativo para au-
mento de vencimentos dos servido- A conclusão decorre do modo
res federais. de atuação do mecanismo consti-

494 R.T.J. — 108

tucional de repartição das com- grou no Poder Judiciário da União.


petências legislativas. A técnica A Constituição (art. 144) e a Lel Or-
constitucional brasileira adotou o gânica da Magistratura (arts. 15 e
expediente de repartir, por cam- 16) são expressas a respeito da dis-
pos privativos, a competência le- tinção entre o Poder Judiciário da
gislativa das pessoas constitucio- União e o Poder Judiciário dos Esta-
nais» (ob. cit., pág. 95). dos. Nacional é a função jurisdiclo-
nal no sentido de que os juizes e tri-
Razões de ordem prática dita- bunais estaduais aplicam, predomi-
ram a expedição do diploma legal nantemente, leis da União.
em comento, com vistas à majora- Objeta-se, ainda, que o Decreto-
ção dos vencimentos dos magistra- Lei n? 2.019 é norma interpretativa
dos federais, dado o evidente de- do art. 65 da Lei Orgânica da Magis-
cesso em que se encontravam, pro- tratura. Ocorre que o art. 65 é regra
porcionalmente a seus congêneres programática dirigida tanto ao legis-
estaduais. Seria, portanto, incon- lador ordinário federal quanto ao es-
cebível — até por esse argumento tadual. O Decreto-Lei n? 2.019 é lei
de cunho pragmático — fossem os ordinária da União que consoa com
últimos aquinhoados com as mes- aquela norma programática, de
mas vantagens deferidas aos pri- índole aliás facultativa, de sorte que
meiros, estabelecendo-se a partir poderão os Estados-membros outor-
dai nova defasagem entre ambos, gar aos seus magistrados, mediante
o que evidentemente não poderia lei da iniciativa dos respectivos Go-
ser objetivo do diploma examina- vernadores, as vantagens previstas
do. no sobredito art. 1?, observadas as
Por outro lado, parece ao Repre- disposições contidas nos arts. 65, §
sentante que, ao não incluir, o art. 2?, e 145, e seu parágrafo único, da
2? do Decreto-Lei n? 2.019/83, entre Lei Complementar n? 35, de 14-03-79.
os vencimentos tributáveis pelo Não é possível outorgar vantagens
Imposto de Renda a vantagem pa- pecuniárias a juizes estaduais atra-
ga aos magistrados nos termos do vés de decreto-lei do Presidente da
§ 1? do art. 65, da Lei Complemen- República. A interpretação que con-
tar n? 35, de 14 de março de 1979, duzisse a esse entendimento afronta-
poderia fazê-lo o Sr. Presidente da ria o art. 57, item II, c.c. o art. 13,
República em relação a todos os item III, da Constituição e vulnera-
magistrados do Pais, federais ou ria a própria Federação.
estaduais, já que o art. 55, II, da
Constituição, lhe atribui competên- Ante o exposto, conheço da repre-
cia para expedir decreto-lei sobre sentação para adotar a seguinte in-
«finanças públicas, inclusive nor- terpretação do Decreto-lei n? 2.019,
mas tributárias», estando na com- de 28-03-83, tal como sugere a peti-
petência constitucional da União a ção inicial:
instituição do imposto sobre a ren- a expressão «em relação aos
da (CF, art. 21, IV)» (fls. 5/8). magistrados de qualquer instância»,
Objeta-se que a interpretação pro- do art. 1?, refere-se aos magistrados
pugnada pelo Dr. Procurador-Geral relacionados no Anexo a que alude o
da República afronta o sistema da art. 1?, § 2?, do Decreto-lei n? 1.985,
unidade do Poder Judiciário estabe- de 28-12-82, ou seja, tão-somente
lecido no art. 112 da Constituição Fe- aqueles remunerados pelos cofres da
deral. Todavia improcede a obje- União;
ção O art. 112 não extinguiu o Poder referentemente ao art. 2?, a não
Judiciário dos Estados, nem o inte- tributação pelo imposto de renda da

R.T.J. — 108 495

vantagem paga aos magistrados nos Não me compete formular juízo


termos do art. 1? da Lei Complemen- político sobre os desígnios do legisla-
tar n? 35, de 1979, abrange todos os dor, mas confesso que tenho sérias
magistrados, federais ou estaduais, dúvidas sobre a exemplaridade da fi-
de qualquer instância. losofia e da expressão formal do
Não há contradição entre essas Decreto-lei n? 2.019, à vista do peso
duas proposições porque a segunda que confere ao tempo de serviço, no
versa sobre matéria tributária con- traçado da hierarquia retributiva da
cernente ao imposto de renda, da magistratura federal. O que, aliás,
privativa competência da União. não é seu único defeito.
Com esta observação, acompanho
eminente Ministro relator, e adoto
PROPOSTA DE SESSÃO ponto de vista de. S. Exa. sobre o
EM CONSELHO exato alcance do decreto-lei.
Sr. Ministro Francisco Reza: VOTO
Sr. Presidente, à vista dos arts. 151 e
seguinte do Regimento Interno, que- O Sr. Ministro Aidir Passarinho:
ro propor que o Plenário se reúna Sr. Presidente.
em Conselho, prosseguindo o julga-
mento em sessão pública, logo em A Emenda Constitucional n? 7 de
seguida. terminou, no parágrafo único do seu
art. 112, segundo alteração trazida
VOTO pela mesma emenda, que lei comple-
mentar, denominada Lei Orgânica
Sr. Ministro Francisco Reza: da Magistratura Nacional, estabele-
Sr. Presidente, cuida-se de determi- ceria normas relativas à organiza-
nar o alcance do Decreto-lei 2.019. ção, ao funcionamento, à disciplina,
Tal como o eminente ministro às vantagens, aos direitos e aos de-
relator, estou em que procede o juízo veres da Magistratura, com a ressal-
prévio do Procurador-Geral da Re- va de que seriam respeitadas as ga-
pública sobre esse diploma. As con- rantias e proibições previstas no pró-
clusões de S. Exa. me parecem dis- prio Estatuto fundamental ou dele
pensar complemento. decorrentes.
Se, contudo, uma única observação A ressalva, para o exame da ques-
me fosse facultada, teria ela por ob- tão posta em debate, assume relevo,
jeto o tópico em que o relator recor- pois é indeclinável que a interpreta-
da que os Estados federados pode- ção da Lel Orgânica sempre caberá
riam adotar critério idêntico ao do fazer-se levando-se em consideràção
Decreto-lei em exame. os demais preceitos inseridos no pró-
Tenho perfeita consciência da ne- prio texto constitucional ou que dele
cessidade, em todos os planos, de re- decorram. Assim, se é certo que a
tribuição condigna para o Poder Ju- Emenda Constitucional n? 7, pelo seu
diciário. Mas devo observar que, se art. 112, parágrafo único, velo a pos-
concordo de todo com as conclusões sibilitar que lei complementar esta-
do eminente Ministro relator, é por- belecesse normas relativas à organi-
que entendo que a assertiva de que zação, ao funcionamento, à discipli-
os Estados federados poderiam ado- na, às vantagens, ao direito e aos de-
tar critério idêntico ao do Decreto- veres da Magistratura, não é menos
lei n? 2.019, não mais pretende que verdade que fora do previsto na Lei
lembrar a autonomia legislativa dos Maior, os princípios basilares, que
componentes da Federação. imprimem as cacacteristicas pri-

496 R.T.J. — 108

mordiais do regime federativo, hão jurídicas (como disse M. Mouskheli


de ser resguardados, mantendo-se a em «Teoria Jurídica do Estado Fe-
autonomia dos Estados, nos seus ele- deral») e, assim, lhes cabem os po-
mentos fundamentais, entre os quais deres que não lhes sejam vedados
se incluem o de auto-administração pelas normas da Constituição Fede-
e, portanto, o de possuir o seu pró- ral, ou que possam exercer nos espa-
prio orçamento, dispor de sua recei- ços abertos em tais normas, como
ta e remunerar seus servidores e resultado do disposto no § 1? do art.
magistrados. 13 da Constituição.
A lei fundamental — em vários dos Deste modo, se é certo que procu-
seus dispositivos, inclusive em rela- rou a Lei Complementar n? 35, no
ção àqueles que dizem com a autono- seu art. 65, por expressa determina-
mia dos Estados — demonstrou a ção constitucional, possibilitar a ou-
preocupação do legislador constituin- torga de certas vantagens ao magis-
te quanto à elaboração e preserva- trado (e daí dizer ela que, além
ção do orçamento, estabelecendo dos vencimentos poderão ser ou-
mesmo regras limitativas ao poder torgadas), deixou expresso quais
de legislar do Congresso Nacional e as que poderiam ser outorgadas, e
das Assembléias Legislativas, quan- nos termos da lei, do que se tem que
do se trate, entre outras, de matéria esta há de ser estadual, se deferidas
financeira ou orçamentária, aumen- estas vantagens aos magistrados dos
to de vencimentos e despesa pública Estados, exatamente em respeito à
(art. 157, incisos I, II e IV). Essas autonomia destes. Assim, ficaram
restrições se estendem ás Assem- estabelecidos determinados parâme-
bléias Legislativas, por força do art. troo, a propósito, conforme previsto
200 da Carta Maior. A elaboração do no parágrafo único do art. 112 da
orçamento se alça, também, em pos- Constituição e, como ficou dito, com
tulado constitucional inerente à auto- óbvio respeito as garantias e proibi-
nomia dos Estados (art. 13, inciso ções do próprio Estatuto Fundamen-
IV). tal. Ficou clara, em conseqüência, a
já mencionada ressalva consignada
L1, com real interesse, os excelen- na parte final daquele mesmo dispo-
tes pareceres que me foram envia- sitivo, no pertinente à autonomia dos
dos, todos de juristas ilustres. Neles Estados; e, no referente aos venci-
não logrei encontrar argumentos que mentos dos magistrados estaduais,
afastassem a dificuldade de se poder expressamente fixado o critério
considerar abrangendo a magistra- constante do § 4? do art. 144, com a
tura estadual o disposto no art. 1? da rígida limitação inserida na parte fi-
Lei 2.019/83, ainda mais quando se nal do mesmo dispositivo constitu-
vê o reforço expresso — como que cional. Ainda pela autorização cons-
posto a espancar dúvidas, sob pena titucional, a Lei Orgânica da Magis-
de ter-se como expletivo — que fina- tratura Nacional fixou as limitações,
lizou o texto do parágrafo único do nos parágrafos únicos dos arts. 65 e
art. 112 da Constituição, ao ressalvar 145. Não vejo, assim, como dizer ser
o respeito não só ás garantias, mas, extensivo, abrangendo os magistra-
igualmente, às proibições constantes dos estaduais, a vantagem prevista
do Estatuto fundamental. De fato, os no art. 1? do Decreto-lei n? 2.019, de
Estados-membros — embora não so- 1983. Ademais, não fossem as dificul-
beranos, pois são Estados imperfei- dades de ordem constitucional, que
tos — são autônomos, o que implica Impedem a interpretação pretendi-
na faculdade de regular seus pró- da, tem-se dos termos da própria lei
prios assuntos, por meio de normas que ela se dirige apenas aos magis-

R.T.J. — 108 497

trados federais, salvo naqueles pon- unidade da Federação, respeitadas


tos em que é da competência da as condições e as peculiaridades de
União legislar, como ocorre no refe- cada uma. Desta forma, pode o Es-
rente ao art. 2?, ao dispor que o Im- tado deferir, ou não, uma ou algu-
posto de Renda não incide sobre a mas daquelas vantagens previstas
parte correspondente á parcela de no artigo 65 da LOMAN. Não está
representação dos magistrados, pois obrigado a concedê-las — poderão
ai se trata de norma tributária ma- ser outorgadas, diz o artigo 65 —
terial que, como adequadamente res- precisamente em garantia de nossa
saltou o ilustre Professor Caio Táci- debilitada Federação, dando ao Es-
to, no magnifico parecer encampado tado o poder de deferi-las, ou não.
por excelente memorial que recebi Impõe-se, contudo, seja respeitado
do Professor Sérgio Bermudes, se o limite estabelecido no artigo 149, §
endereça a todos os contribuintes al- 4?, da Constituição Federal, explici-
cançados por sua especificidade, ou tado no artigo 65, § 2?, e no artigo
seja, aos Magistrados de todas as 145, parágrafo único, da LOMAN.
classes.
Deste modo, não me parece mes- Nestes termos, estou de pleno
mo que se possa dizer que, em ha- acordos com o voto dos eminentes
vendo a concessão de adicionais, es- Ministros Relator e os que o segui-
ram.
tes tenham de ser obrigatoriamente É o Voto.
fixados nos limites máximos previs-
tos no art. 65, inciso VIII da Lei VOTO
Complementar n? 35, e que o De-
creto-lei 2.019 considerou que po- O Sr. Ministro Néri da Silveira:
deriam ser calculados na forma esti- Sr. Presidente. Com o advento da
pulada no seu § 1?, eis que não só o § Emenda Constitucional n? 7, de 1977,
2? do aludido artigo estabelece um li- que modificou a Emenda Constitu-
mite máximo como, a par disso, o cional n? 1, de 1969, bem assim da
próprio inciso VIII do mesmo precei- Lei Complementar n? 35, de 14-3-
to prevê que o número de qüinqüê- 1979, introduziram-se alterações sig-
nios será até o máximo de sete. nificativas, no sistema jurídico pá-
Pelo exposto, Sr. Presidente, trio, quanto á magistratura, não de
acompanho o Sr. Ministro Relator. referência às garantias e proibições,
mas no que respeita a seu regime de
direitos, vantagens e disciplina em
VOTO geral.
Com efeito, antes da Emenda
O Sr. Ministro Oscar Corrêa: Se- Constitucional n? 7, de 1977, não exis-
nhor Presidente, acompanho 'o emi- tia um sistema unificado, relativa-
nente Relator, bem como as conside- mente à disciplina de direitos, venci-
rações que acabam de ser feitas pe- mentos e vantagens das magistratu-
los eminentes Ministros Francisco ras, da União e dos Estados; apenas,
Rezek e Aldir Passarinho. no art. 144, § 4?, da Emenda Consti-
Considero que, se o Poder Judiciá- tucional
que
n? 1, de 1969, se estipulava
nenhum membro da Justiça es-
rio é nacional e as normas gerais a tadual poderia perceber, mensal-
ele relativas são nacionalmente fixa- mente, importância total superior ao
das pela Constituição e, por determi- limite máximo estabelecido em lei
nação constitucional ( artigo 112, pa- federal.
rágrafo único), pela LOMAN, as ba-
ses de remuneração, contudo, sem- Iniciando a pretendida reforma do
pre foram estabelecidas, em cada Poder Judiciário, definiram-se, na

498 R.T.J. — 108

Emenda Constitucional n? 7, de 1977, juízes, desde aí, tiveram restringida


algumas de suas essa competência. Normas expres-
diretrizes,
acrescentando-se, nesse sentido, ao sas da Lei Complementar n? 35, de
art. 112, da Constituição, um pará- 1979, enumeraram as vantagens, que
grafo único, assim concebido: poderiam ser atribuídas aos magis-
«Art. 112. trados, além dos vencimentos, pre-
ceituando, inclusive, ficarem supri-
Parágrafo único. Lei comple- midas quaisquer outras, eventual-
mentar, denominada Lei Orgânica mente, pagas pelos Estados, com
da Magistratura Nacional, estabe- ressalva apenas dos quantitativos,
lecerá normas relativas à organi- que estivessem sendo percebidos pe-
zação, ao funcionamento, à disci- los juizes, a esse título, a se absor-
plina, às vantagens, aos direitos e verem nos futuros aumentos.
aos deveres da magistratura, res- Tal o que decorre das regras dos
peitadas as garantias e proibições arts. 65 e 145, da Lei Complementar
previstas nesta Constituição ou de- n? 35, in verbis:
la decorrentes».
Previu, dessa maneira, a Emenda «Art. 65. Além dos vencimen-
n? 7, de 1977, que as vantagens e os tos, poderão ser outorgados aos
direitos da magistratura, tanto fede- magistrados, nos termos da lei, as
ral quanto estadual, haveriam de se seguintes vantagens:
inserir em uma Lei, de natureza I — ajuda de custo, para despe-
complementar à Constituição e a- sas de transportes e mudança;
brangente de todos os magistrados II — ajuda de custo, para mora-
brasileiros. dia, nas comarcas em que não hou-
A função jurisdicional, enquanto ver residência oficial para juiz, ex-
expressão da soberania nacional, é ceto nas Capitais;
exercida pelos magistrados federais III — salário-familia;
e estaduais. Pretendeu-se, dessarte, IV — diárias;
disciplina geral, para todo o Pais, no
que respeita aos aspectos fundamen- X — gratificação pelo efetivo
tais da magistratura e seu regime exercício em Comarca de difícil
jurídico. provimento, assim definida e indi-
cada em lei.
A partir da edição da Lei Comple-
mentar n? 35, de 14 de março de A verba de representação,
1979, cumpre entender que a compe- salvo quando concedida em razão
tência dos Estados-membros, relati- do exercício de cargo em função
vamente à outorga de vantagens e temporária, integra os vencimen-
direitos a seus magistrados, deveria tos para todos os efeitos legais.
exercitar-se, segundo o estabelecido E vedada a concessão de
na Lei Orgânica da Magistratura adicionais ou vantagens pecuniá-
Nacional. Esse foi um dos pontos, do rias não previstas na presente Lei,
mencionado diploma, que merece- bem como em bases e limites supe-
ram amplos debates e restrições de riores aos nela fixados.
não poucos analistas do novo siste-
ma, em face de limitações novas à Art. 145. As gratificações e adi-
autonomia dos Estados, atingindo-os, cionais atualmente atribuídos a
precisamente, em matéria sensível, magistrados, não previstos no art.
quanto à sua magistratura. Assim, 65, ou excedentes das percentagens
os Estados, que podiam, antes, defi- e limites nele fixados, ficam extin-
nir, com plena autonomia, o elenco tos e seus valores atuais passam a
de vantagens a atribuírem a seus ser percebidos como vantagem

R.T.J. — 108 499

pessoal inalterável no seu a seu art. 1?, entender a norma ex-


quantum, a ser absorvida em futu- tensiva à magistratura estadual. In-
ros aumentos ou reajustes de ven- terpretação nesse sentido estaria em
cimentos. conflito com os preceitos da Consti-
Parágrafo (mico. A absorção a tuição Federal, insertos em seu art.
que se refere esse artigo não se 13, combinado com os arts. 57, II, e
aplica ao excesso decorrente do 65, e no art. 144, que dispõem sobre
número de qüinqüênios e não exce- competência dos Estados, para a fi-
derá de vinte por cento em cada xação de estipêndios a seus servido-
aumento ou reajuste de vencimen- res, compreendidos estes, aqui, no
to». sentido lato, resguardada a compe-
Dessa sorte, desde a vigência da tência exclusiva do Governador para
Lei Orgânica da Magistratura Nacio- a iniciativa das leis respectivas, bem
nal, os Estados não mais podem assim para organizar a sua justiça,
criar outras vantagens, além das observados os artigos 113 a 117, da
previstas no art. 65 suso transcrito, Lei Maior da República, a Lei Orgâ-
nem reajustar gratificações, ai não nica da Magistratura Nacional e os
consignadas, cumprindo-lhes, em ca- dispositivos enumerados nos incisos
so de existência, na legislação local, do art. 144, da Constituição. Não po-
de gratificações e adicionais diver- deria, dessa maneira, a União, sob
sos das previsões do art. 65 referido, pena de infringir o princípio consti-
proceder, segundo o disposto no art. tucional da autonomia dos Estados,
145 e seu parágrafo único, da Lei nos limites definidos no Estatuto Su-
Complementar n? 35, de 1979. premo, fixar vencimentos ou vanta-
gens para os magistrados estaduais.
Pois bem, dentre as vantagens es- Compreendo que o art. 1?, do
tabelecidas como possíveis de se ou- Decreto-lei n? 2.019/1983, somente,
torgarem às magistraturas, federal cabe ser entendido como norma apli-
e estadual, está a do inciso VIII, do cável à magistratura federal. Não
art. 65, in verbis: dispõe o Presidente da República, no
«VIII — Gratificação adicional particular, de competência, sequer,
de cinco por cento por qüinqüênio para a iniciativa de lei, fixando van-
de serviço, até/o máximo de sete tagens a serem percebidas pelos ma-
qüinqüênios. gistrados estaduais.
Isso significa que os Estados po- A gratificação, prevista no art. 65,
dem disciplinar a outorga dessa gra- VIII, da Lei Orgânica da Magistratu-
tificação, respeitado o disposto no in- ra Nacional, poderá, evidentemente,
ciso VIII, do art. 65, e atentos, ainda, ser concedida aos magistrados dos
à norma do art. 145, ambos da Lei Estados, por via legislativa estadual.
Orgânica em exame. Cumpre, nessa linha, anotar que, na
Ora, o Decreto-Lei n? 2.019/1983, concessão pelos Estados, dessa van-
editado pelo Governo Federal, regu- tagem, há de ser respeitada a norma
lou a concessão da gratificação adi- do art. 65, § 2?, da Lei Complemen-
cional, prevista no inciso VIII, do tar n? 35, vedando-se-lhes, dessa ma-
art. 65 mencionado, que já existia na neira, apenas, fazê-lo, «em bases e
sistemática das vantagens dos ma- limites superiores» aos fixados no
gistrados federais, estipulando, da Decreto-Lei n? 2.019/1983. De outro
forma explicita, no art. 1?, o modo lado e em conseqüência de tais
de seu cálculo. princípios, não será possível, na dis-
ciplina dessa gratificação, os Esta-
Não é viável, entretanto, na exege- dos estipularem regime, segundo o
se desse Decreto-lei, no que respeita qual, acrescidos os valores, a ela

500 R.T.J. — 108

concernentes, aos vencimentos dos nesse particular, a fundamentação


magistrados estaduais, formados es- do voto do eminente Ministro Re-
tes pela parcela básica mais a repre- lator.
sentação (LOMAN, art. 65, § 1?), ul- Do exposto, dou aos arts. 1? e 2?,
trapasse a soma dos vencimentos e do Decreto-lei n? 2.019/1983, a inter-
gratificação adicional por quinqüê- pretação, acima deduzida, pondo-
fios (art. 65, VIII) o teto previsto no me, dessa maneira, em conformida-
art. 144, § 4? in fine, da Constituição de com o voto do ilustre Ministro
Federal. Nesse sentido, exemplifico: Relator.
não será cabível, no plano estadual,
que a lei local, ao disciplinar essa VOTO
vantagem, estabeleça, para magis-
trado com sete qüinqüênios de tempo Sr. Ministro Rafael Mayer: Sr.
de serviço, a possibilidade de, soma- Presidente, também acompanho o
do o valor desses qüinqüênios aos eminente Relator. Os módulos inter-
vencimentos também fixados em lei pretativos do Decreto-lei n? 2.019,
do Estado, perceber quantitativo su- considerados por S. Excelência,
perior ao que corresponde ao total atendem a pressupostos irre-
de vencimentos e gratificação adi- movíveis. O art. 2? do decreto-lei,
cional conferidos a um Ministro do que emerge de uma competência tri-
Supremo Tribunal Federal, no gozo butária federal, tem, necessariamen-
da gratificação relativa a sete qüin- te, um alcance irrestrito. Entretan-
qüênios de tempo de serviço. Esse, to, quanto ao art. 1?, no qual a União
em realidade, a meu ver, o espírito utiliza uma faculdade concedida pela
do sistema definido no art. 144, § 4?, lei complementar para instituir tais
In fine, da Constituição, conjugado ou quais gratificações aos seus ma-
com o art. 65 e seu § 2?, da Lei Orgâ- gistrados, essa instituição, pela
nica da Magistratura Nacional. União, não pode ter a abrangência
em relação aos Estados, que podem
Do sucintamente exposto, diante ou não deixar de institui-las dentre
da sistemática resultante da Emen- as várias dessas que estão relaciona-
da Constitucional ri? 7/77 e da Lei das.
Complementar n? 35/1979, penso, Nesse ponto, esse dispositivo não
também, como o ilustre Ministro tem o caráter do que se denomina lei
Relator, que, no âmbito do art. 1?, do nacional, com destinação aos vários
Decreto-lei n? 2.019/1983, somente se planos político-administrativos. E
compreendem os magistrados fede- uma lei que, pela competência de
rais, inobstante a disciplina consig- sua edição como pela sua destina-
nada nesse dispositivo possa ser es- ção, é reservada, realmente, à área
tendida às magistraturas estaduais, federal e à magistratura federal.
por lei dos Estados, guardados os li- Por isso, acompanho, pelos seus
mites e bases de cálculo previstos fundamentos, o voto do eminente Re-
nessa regra legal da União e no art. lator, como, também, acompanho as
144, § 4?, in fine, da Constituição. explicitações que foram feitas pelos
doutos votos que me precederam.
Quanto ao art. 2?, do Decreto-lei Conheço da representação, e dou a
n? 2.019/1983, referente ao imposto interpretação preconizada.
de renda, a disposição é compreensi-
va de todos os magistrados, federais VOTO
e estaduais, cuidando-se de norma
relativa a tributo federal, de exclusi- Sr. Ministfo Decio Miranda: Sr.
va disciplina da União. Acompanho, Presidente, o sistema constitucional
R.T.J. 108 501

em vigor, na parte relativa ao Poder racteristica diversa da dos demais


Judiciário, estabelece certa subordi- Poderes do Estado: tinha caráter na-
nação, mas não vinculação total, das cional.
normas estaduais sobre vencimentos Esta concepção — o Poder Judi-
e vantagens, às da União Federal ciário emana da soberania nacional
No ponto ora cogitado, a Lel Orgâ- — foi inequivocamente acolhida pela
nica da Magistratura, no tocante às Emenda Constitucional n? 1/69, onde
vantagens paralelas ou superpostas se declara, no titulo concernente à
aos vencimentos básicos, prevê Organização Nacional, que o Poder
quais as que facultativamente po- Judiciário, ao contrário do que ocor-
dem a União e os Estados, cada um re com relação ao Poder Executivo e
de per si, instituir (art. 112, parágra-
ao Poder Legislativo, é constituldo
fo único, da Constituição, c/c art. 65,
não só pelos Tribunais e juizes fede-
caput, e § 2?, da Lei Complementar rais, mas também pelos Tribunais
n? 35, de 1979). e juizes Estaduais.
Donde a límpida conclusão de que, A Constituição Federal dispõe so-
porventura utilizada a faculdade pe- bre o Poder Judiciário Estadual no
la União, os Estados não estão obri- capítulo do Poder Judiciário, logo
gados à mesma concessão. após a disciplina do Poder Judiciário
Congente aos Estados-membros, da União.
nesse sistema, é apenas a determi- E a Emenda Constitucional n? 7/77
nação de, quando estabelecerem tais estabelece a esfera de competência
estipêndios paralelos, não excedam da Lei Orgânica da Magistratura
os que a União tenha estatuído. Nacional.
E o que resulta da expressão do ci- Com isso, Sr. Presidente, quis a
tado parágrafo 2? do art. 65 da Lei Constituição acentuar que o Poder
Orgânica, a dizer que «é vedada a Judiciário é nacional por emanar da
concessão de adicionais ou vanta- soberania nacional, mas não excluiu,
gens pecuniárias não previstas na porque a pressupõe nas normas so-
presente Lei, bem como em bases e bre esse Poder, a separação, nos
limites superiores aos nela fixados», âmbitos funcional no administrativo,
o que também decorre do art. 144, § entre o Poder Judiciário da União e
4?, da Constituição Federal. os Poderes Judiciários dos Estados-
Proibida é a concessão excedente Membros.
do modelo federal, não a que apenas A única quebra que o nosso siste-
lhe seja. inferior, solução, de resto, ma constitucional trouxe a essa dis-
curial, ante a capacidade, financeira tinção, mesmo no âmbito funcional,
mais ou menos restrita, de cada Uni- foi a admissão, graças á Emenda
dade da Federação. Constitucional n? 7, de um órgão — o
Acompanho os doutos votos do Re- Conselho Nacional de Magistratura
lator e dos Senhores Ministros que —que tem poder disciplinar sobre
igual solução acabam de adotar. membros da Justiça dos Estados.
Ora, Sr. Presidente, essa coloca-
VOTO ção, a meu ver, dilucida, perfeita-
mente, o problema que se nos apre-
O Sr. Ministro Moreira Alves: Sr. senta. A Lei Orgânica da Magistra-
Presidente, João Mendes Junior, tura é, realmente, nacional, porque
após a Constituição de 1891, já obser- ela estabelece os parâmetros deste
vava, apesar de nossa federação es- Poder que representa emanação da
tar no nascedouro, que o Poder Judi- soberania nacional, mas ela não vai
ciário, mesmo nela, apresentava ca- a ponto — e nem poderia fazê-lo, sob

502 R.T.J. — 108

pena de ser inconstitucional — de ig- tem a União Federal competência pa-


norar a Federação, e, conseqüente- ra fazê-la em favor de membros de
mente, de extinguir a dicotomia fun- Poderes Estaduais.
cional e administrativa que há com
relação à Justiça Federal e à Justiça A União Federal e os Estados —
Estadual. repito —, dentro dos limites máxi-
mos estabelecidos pela Lei Orgâni-
Daí, Sr. Presidente, observar-se a ca, podem conceder cada um no seu
preocupação que teve o legislador, âmbito de competência, essas vanta-
ao elaborar a Lei Orgânica da Ma- gens. Não poderão fazê-lo, no entan-
gistratura Nacional, de estabelecer, to, sob pena de inconstitucionalidade
com relação a problemas desta natu- das vantagens que outorgarem, além
reza, apenas normas proibitivas da daquilo que está previsto na Consti-
ultrapassagem de limites máximos. tuição Federal e na Lei Orgânica da
Magistratura Nacional.
A Lei Orgânica da Magistratura
Nacional, ao lado dos vencimentos, Por isso, Sr. Presidente, não tenho
catologa o máximo de vantagens que dúvida alguma em concordar com as
os magistrados podem ter. Não obri- conclusões do voto do eminente Mi-
ga a União Federal ou aos Estados- nistro Soares Muiloz. O artigo 1? do
membros a atribuir todas essas van-
tagens aos magistrados, mas lhes Decreto-lei n? 2.019 só concede a
veda que as ultrapassem. Ora, Sr. vantagem,
à
nos termos que explicita,
Magistratura Federal. Já o art. 2?,
Presidente, se a Lei Orgânica da que não diz respeito
Magistratura estabelece apenas li- natureza funcional ou aadministrativa,
problema de
mites máximos, está a indicar que, e, sim, a problema de natureza tri-
dentro da órbita federal, com rela- butária, na estrita esfera de compe-
ção à Justiça Federal, e dentro da
órbita estadual, com relação à Justi- tência da União, uma vez que con-
ça Estadual, os Poderes constituídos todos osimposto
cerne a federal, se aplica a
magistrados, sejam fede-
da União e os Poderes constituídos rais, sejam estaduais.
do Estado, no campo da sua compe-
tência legislativa, poderão optar Sr. Presidente, essas considera-
pela concessão de todas as vanta- ções, nesta altura do julgamento, se-
gens, ou somente de algumas, que riam dispensáveis, mas as faço para
entenderem devam atribuir aos seus explicitar o meu pensamento. No
magistrados. Não poderão ir além, Brasil, infelizmente, a Constituicão
mas poderão ficar aquém daquelas Federal e a Lei Orgânica da Magis-
estabelecidas na Lei Orgânica da tratura Nacional não vêm sendo
Magistratura Nacional. cumpridas. Há Estados que ultra-
O Decreto-lei n? 2.019, interpretan- passaram
144, IV, da
de muito os limites do art.
Carta Magna. Há Estados
do uma dessas vantagens que a Lei que não observam o art. 145 da Lei
Orgânica da Magistratura permite Orgãnica da Magistratura Nacional,
que se conceda aos magistrados em
geral, deu-lhe o sentido que se en- mantendo vantagens que hoje estão
contra no seu artigo 1?, e a concedeu proibidas pela Lei Orgânica da Ma-
aos magistrados. gistratura. Há Estados, enfim, que
não observam sequer preceitos sobre
Mas, evidentemente, essa conces- a composição de seus Tribunais de
são, já que estamos em terreno estri- Justiça, quanto ao preenchimento
tamente financeiro-administrativo, das vagas do quinto constitucional,
só se dirige aos magistrados fede- com relação ao acesso por parte dos
rais, pela singela razão de que não membros dos Tribunais de Alçada.
R.T.J. 108 503

Esse desrespeito, grave por si mes- será calculada sobre o vencimento


mo, poderá gerar graves conseqüên- percebido mais a representação,
cias. nos percentuais de cinco, dez, quin-
O Supremo Tribunal Federal não ze, vinte, vinte e cinco, trinta e
desconhece essas violações, e só não trinta e cinco, respectivamente,
age, porque não pode fazê-lo por qüinqüênio de serviço, neste
ex-officio, dependente que está da compreendido o tempo de exercício
provocação do Ministério Público da advocacia, até o máximo de 15
Federal. anos, e observada a garantia cons-
Com essas considerações, Sr. Pre- titucional da irredutibilidade.»
sidente, acompanho o voto do emi- A dúvida suscitada gira em torno
nente Relator. da sua extensão a todos os integran-
tes da magistratura nacional, in-
vocando-se inclusive, para uma exe-
VOTO gese mais ampla, a locução «em re-
O Sr. Ministro Djaci Falcão: Sr. lação aos magistrados de qualquer
instância». Como é sabido, na orga-
Presidente, afigura-se de elevado al- nização da justiça brasileira existem
cance a inovação trazida pela Emen- órgãos judiciários integrados no or-
da Constitucional n? 7, de 13-4-77, ins- denamento federal e órgãos judiciá-
crevendo na competência do Supre-
mo Tribunal a interpretação de lei rios situados no plano do Estado-
membro. A instância, em sentido es-
ou ato normativo federal ou estadual trito, compreende o grau de jurisdi-
(letra 1, do inc. 1, do art. 119).
Confere-se a esta Corte o poder de ção no plano dos órgãos indicantes,
emitir um juizo interpretativo, em situados
tadual e
uns na órbita da Justiça Es-
outros, da Justiça Federal.
tese, com eficácia erga omnes, vi-
sando a afastar dúvidas e incertezas Tenho para mim que citada locu-
em torno da compreensão e do al- ção tem em mira os magistrados da
cance de certas normas jurídicas. Justiça Federal, remunerados pela
Exercita-o o Tribunal, pela primeira, União, porquanto se cuida de de-
vez, tendo por objeto o Decreto-lei creto-lei federal, que prevê a des-
n? 2.019, de 28 de março deste ano, pesa correspondente à conta das do-
expedido pelo Sr. Presidente da Re- tações orçamentárias da União, se-
pública, com base no art. 55, incisos gundo dispõe o seu art. 4?.
II e III da Constituição, que, real- O texto objeto de interpretação
mente, pede uma interpretação pré- quis referir-se aos magistrados de
via, na linha da previsão constitucio- qualquer instância na esfera da jus-
nal e de acordo com os pressupostos tiça federal, mesmo porque a com-
do nosso Regimento Interno (art. 179 petência do Presidente da República
a 187). para criar cargos e funções públicas
e fixar vencimentos está adstrita à
Acompanho o eminente Ministro mencionada área, diante do sistema
Relator, no juizo hermenêutico que constitucional no atinente à reparti-
confere aos arts. 1? e 2? do decreto- ção de competências. Aos Estados
lei em exame, esclarecendo o seu cabe, não resta dúvida, a sua auto-
significado e alcance. Dispõe o art. organização, porém nos limite traça-
1?: dos pela Constituição da República.
«Art. 1? A gratificação adicio- o que decorre das regras inscrita no
nal de que trata o art. 65, VIII, da art. 57, Inc. II e no art. 13 do citado
Lei Complementar n? 35, de 14 de Diploma.
março de 1979, em relação aos ma- Claro é que aos Estados compete
gistrados de qualquer instância, legislar sobre a matéria, reservada
504 R.T.J. — 108

aos Governadores a iniciativa da O eminente Ministro Néri da


respectiva lei, e obedecidas as nor- Silveira mostrou, com segurança, a
mas previstas no § 4?, do art. 144, da importância do limite do art. 144, §
Constituição, e no § 2? do art. 65 da 4?, da Constituição Federal.
Lei Orgânica da Magistratura Nacio-
nal. Claro que ninguém me nega a in-
Em conclusão, a regra do art. 1? tenção de propugnar por vencimen-
do Decreto-lei n? 2.019/83 não tem tos condignos para a magistratura-
aplicação aos magistrados esta- nacional, assegurar-lhe a indepen-
duais. dência e prover-lhe o recrutamento
de nomes do mais elevado nivel.
Quanto ao art. 2? do Decreto-lei Mas, por mais que eu esteja compro-
em exame, parece-me fora de dúvi- metido com os meus pensamentos
da que tem aplicação a todos os inte- sobre a organização judiciária do
grantes do Poder Judiciário, por- Pais, isto não me pode levar a con-
quanto decorre de uma competência cluir de modo diverso dos eminentes
federal abrangente. Ministros Relator e demais Colegas
Com estas considerações, acompa- que já se manifestaram. A União
nho o voto do eminente Relator. compete sustentar a sua magistratu-
ra, e aos Estados, também, a que
VOTO lhes pertence. Ficou bem claro que
os Estados podem legislar a matéria
O Sr. Ministro Cordeiro Guerra como bem entenderem, respeitados
(Presidente): A questão já foi larga- os parâmetros constitucionais e da
mente debatida, e todos os eminen- Lei Orgânica.
tes Juizes que me precederam che-
garam à mesma conclusão. Dela não Com estas considerações, acompa-
manifesto dissentir, porque tenho pa- nho o eminente Relator.
ra mim como fundamental que a
União legisla sobre matéria de sua
competência, e aos Estados cumpre, EXTRATO DA ATA
por força do art. 13 da Constituição,
organizarem-se e regerem-se pelas
Constituições e leis que adotarem,
respeitados os princípios estabeleci- Rp. 1.155-DF — Rel.: Ministro Soa-
dos nessa Constituição e, especial- res Mufloz. Repte.: Procurador-
mente, definidos em particular. Geral da República. Repdo.: Presi-
dente da República.
Ora, meditei longamente sobre os
pareceres que foram postos à dispo- Decisão: Conheceu-se da Repre-
sição da Corte e considerei invencí- sentação para adotar-se o entendi-
vel o argumento de que a União in- mento de que o art. 1? do Decreto-
terviesse nos Estados para aumen- lei n? 2.019, de 28-3-83, se aplica tão
tar vencimentos que não ia pagar e somente aos magistrados remunera-
que muitos Estados não poderiam dos pelos cofres da União, enquanto
suportar. A autonomia do Estado lhe que o art. 2? do mesmo Decreto-lei
assegura o direito de prover às des- incide sobre todos os magistrados,
pesas do funcionamento dos seus federais ou estaduais, de qualquer
serviços públicos e à manutenção do instância. Decisão unânime. Votou o
seu Poder Judiciário. Presidente.
O eminente Ministro Moreira Alves
demonstrou o verdadeiro conceito de Presidência do Senhor Ministro
magistratura nacional. Cordeiro Guerra. Presentes à Sessão

R.T.J. — 108 505

os Senhores Ministros Djaci Falcão, Buzaid. Procurador-Geral da Repú-


Moreira Alves, e Soares Muiloz, De- blica, Professor Inocênclo Mártires
cio Miranda, Rafael Mayer, Néri da Coelho.
Silveira, Oscar Corrêa, Aldir Passa-
rinho, e Francisco Rezek. Ausente, Brasília, 9 de novembro de 1983 —
licenciado, o Senhor Ministro Alfredo Alberto Veronese Aguiar, Secretário.

REPRESENTAÇÃO N? 1.160 — SP
(Tribunal Pleno)
Relator: O Sr. Ministro Decio Miranda.
Representante: Procurador-Geral da República — Representado: As-
sembléia Legislativa do Estado de São Paulo.
Constitucional. Prefeito da Capital do Estado. Nomeação pelo Go-
vernador, com prévia aprovação da Assembléia Legislativa. Contro-
vérsia sobre se o ato de aprovação podia integrar-se por voto du plica-
do do Deputado-Presidente do Órgão legislativo, da segunda vez utili-
zado por motivo de empate na votação. Ato concreto, despido de qual-
quer atributo de abstração, generalidade ou normatividade. Descabi-
mento da representação.
AcORDAo lo voto, por duas vezes enunciado, do
Senhor Néfi Tales, uma vez como
Vistos, relatados e discutidos estes Deputado e outra, para desempate,
autos, acordam os Ministros do Su- como Presidente da Casa.
premo Tribunal Federal, em sessão
plenária, na conformidade da ata do Lê-se na exposição do Deputado
julgamento e das notas taquigráfi- Ostro Silveira, que suscitou a provi-
cas, por unanimidade de votos, em dência do Procurador-Geral da Re-
não conhecer da Representação. pública:
Brasília, 5 de outubro de 1983 — «20. Tendo em vista que partici-
Cordeiro Guerra, Presidente — param do processo de votação to-
Dedo Miranda, Relator. dos os 84 membros do Colegiado,
para a aprovação do mencionado
Projeto de Decreto Legislativo n? 1
RELATORIO de 1983, deveria, ser obtida a
maioria dOs votos dos Deputados
O Sr. Ministro Dedo Miranda — presentes, ou seja o voto favorável
Submete o Procurador-Geral da Re- de 43 (quarenta e três) Deputados
pública representação ao Supremo e, via de conseqüência, 41 (quaren-
Tribunal Federal, argüindo inconsti- ta e um) votos contrários. No en-
tucionalidade do Decreto Legislativo tanto, o resultado final apontou 43
n? 171, de 5-5-1983, pelo qual a As- votos favoráveis e 42 votos contrá-
sembléia Legislativa do Estado de rios, isto porque o Presidente da
São Paulo aprovou a indicação do Assembléia Votou Duas Vezes
nome do Deputado Federal Mário «SIM», a primeira como deputado
Covas para Prefeito ,do Município da concorrendo para o empate, e a se-
Capital. gunda como Presidente para o de-
A aprovação em causa, resultante sempate e a aprovação da maté-
de votação nominal, foi composta pe- ria.

506 R.T.J. 108

tive constitui ato coletivo das Ca-


22. O voto cumulativo do Presi- sas do Congresso. E geralmente
dente feriu, como se vê, concomi- precedida de estudos e pareceres
tantemente, as normas das Consti- de comissões técnicas (perma-
tuições Federal e Estadual. Aliás, nentes ou especiais) e de debates
assim relaciona Car los Maximili- em plenário. E ato de decisão
ano em seus Comentários á Cons- que se toma por maioria de vo-
tituição Brasileira 4? edição — to- tos: maioria simples, isto é, dos
mo II, pág. 36 e 37, ed. 1948. membros presentes (art. 31), pa-
ra aprovação dos projetos de lei
«Nos Estados Unidos da Amé- ordinária; maioria absoluta dos
rica o Presidente do Congresso membros das Câmaras, para
vota, e se não exerceu este direi- aprovação dos projetos de Lei
to, intervém como desempata- complementar (artigo 50)» (sic
dor». — os grifos são nossos).
«Verificava-se no Brasil uma
originalidade: o Vice-Presidente 23. De outra parte, as disposi-
da República, embora não fosse ções constitucionais relativas ao
propriamente membro do Senado processo de deliberação são, por
tinha ali o voto de qualidade; ao natureza hierárquica, subtraídas
passo que o presidente da Câma- ao arbítrio interpretativo do Presi-
ra, que era deputado, tomava dente.
apenas parte em escrutínio se-
creto, e depunha na urna a sua Ensina-nos com a habitual clare-
cédula; nos demais casos apura- za, o ilustre jurisconsulto Francis-
va somente o resultado; havendo co Campos em sua obra Direito
empate, não decidia, punha de Constitucional, volume I, edição
novo o projeto em debate e vota- 1956, página 390, que:
ção no dia imediato, e declarava-
o rejeitado, se outra vez a sua vi- «E de evidência que, quando a
tória não se inclinava para ne- Constituição preceitua certas re-
nhum dos lados. (12)» Regimento gras ao trabalho legislativo, o
Interno da Câmara, art. 213. Congresso encontra nessas cláu-
Oswaldo Trigueiro, em sua sulas limitações à liberdade, que
obra clássica Direito Constitucio- lhe é outorgada, de determinar e
nal Estadual, pág. 150 — ensina: dispor, como bem entender, à or-
«Os atos emanados do Congresso dem dos seus trabalhos. Tais pre-
dependem primordialmente da ceitos, embora de natureza regi-
votação que os aprova, de acordo mental por sua matéria, são, evi-
com as normas constitucionais, dentemente, pela sua forma ou
complementadas pelas regimen- pelo caráter do instrumento a
tais. Essa aprovação pode ser ex- que aderem, cláusulas manifes-
pressa ou tácita. A aprovação ex- tamente constitucionais. Como
pressa dá-se pela manifestação tais, não podem ser dispensadas
da Câmara ou Assembléia, pela ou violadas sem que resulte para
maioria exigida, respeitado o os atos legislativos praticados
preceito do artigo 31 antes em desconformidade com elas e
citado». o vício de inconstitucionalidade
que, conforme seja o regime, de-
José Afonso da Silva, em seu termina para os tribunais a fa-
Curso de Direito Constitucional culdade e o dever de lhes recusar
Positivo, vol. 1, pág. 100, pontifi- autoridade ou de formalmente os
ca: «Votação da matéria legisla- descumprir».
— 108 507

24. A prevalecer o procedimen- terno da Assembléia Legislativa de


to irregular do Presidente do Le- São Paulo, cujo art. 18, 2?, combi-
gislativo paulista de Votar duas nado com o art. 203, impõe ao Pre-
Vezes sempre que a totalidade dos sidente da Casa votar, como Depu-
Deputados participe da votação e o tado nas votações nominais, e para
resultado se traduza em empate. desempate, em qualquer hipótese
trará, imperativamente, como con- em que o empate ocorrer. Ora, não
seqüência direta do Segundo Voto: se argüi a inconstitucionalidade
resultado da votação supe- desses dispositivos regimentais,
rior ao dos membros que com- que fundamentaram a criação do
põem a Assembléia Legislativa ato impugnado. Se tais dispositivos
do Estado de São Paulo exceden- não mereceram a censura do ar-
do, portanto, o quorum máximo gffinte, então o ato emanado, com
de 84 (oitenta e quatro) Deputa- base neles por mais esta razão,
dos fixado com base na Constitui- também não a merece Se tais dis-
ção e na Lei positivos são válidos, e o são sem
aprovação de projeto de Lei sombra de dúvida, também o ato
Complementar sem maioria ab- neles fundado. O que se verifica é
soluta conforme determina a que, na verdade, os dispositivos re-
Constituição Federal. gimentais não contrariam qual-
quer norma, preceito ou principio
c) a violação do processo de da Constituição Federal (e tam-
escrutínio secreto uma vez que bém da Estadual). Ao contrário,
tal voto será público». (fls. encontram nela integral embasa-
10/13). mento, já que formados com base
Nas informações, a Assembléia no principio da independência de
Legislativa suscita preliminares: a) poderes. Salvo em situações ex-
descabimento da representação, por pressamente especificadas na
não se tratar de regra jurídica sujei- Constituição, as Casas Legislativas
ta a controle de constitucionalidade têm autonomia para as respectivas
pelo Supremo Tribunal Federal, mas organizações internas, o que se in-
de simples ato administrativo, indi- serem as regras sobre os modos de
vidualizado; de efeito concreto, não- votação nas matérias sujeitas á
normativo, insuscetível de enquadra- sua deliberação». (fls. 64/5).
mento na norma do art. 119, I, letra
1 da Constituição Federal; b) neces- A Procuradoria-Geral da Repúbli-
sidade de ouvir-se o Governador do ca, em parecer do Dr. João Paulo
Estado, autor da indicação do nome Alexandre de Barros, aprovado pelo
para Prefeito da Capital. Procurador-Geral, Prof. Inocêncio
No mérito, assevera que, consoan- Mártires Coelho, oficiando pela im-
te as regras regimentais aplicáveis, procedência da representação, es-
o voto nominal do Deputado era, no creve:
caso, um dever de quem o proferiu,
e igualmente o era o voto de desem- «De examinar-se, preliminar-
pate, que enunciou como Presidente mente, a natureza jurídica do ato
da Casa Legislativa. legislativo impugnado: se é lei ou
se é ato normativo o decreto legis-
A propósito, assim discorre: lativo que — sem editar regra
«40. A votação e, portanto, a jurídica — aprova, tão-somente, a
aprovação do Decreto Legislativo indicação de determinada pessoa
impugnado fizeram-se em integral para determinado cargo público,
consonância com o Regimento In- consoante previsão constitucional.
508 R.T.J. — 108

controle da constitucionalidade de um poder, que lhe é delegado


das leis impõe-se em razão da exis- pela soberania popular, que nela
tência de «uma distinção teórica reside a suprema força do Esta-
entre actividade constituinte e a do.
actividade legislativa ordinária. As E, neste sentido, diz-se o
leis, quando consideradas em rela- commune praeceptum ou norma
ção a cada uma destas activida- geral obrigatória, instituída e im-
des, podem também classificar-se posta coercitivamente à obediên-
em constitucionais e ordinárias. cia geral.
São as primeiras as que determi-
nam a estrutura dos órgãos funda- Corresponde a esse sentido a
mentais do Estado e as liberdades perfeita definição do insigne
fundamentais dos cidadãos. Todas Clovis Beviláqua: «A ordem geral
as restantes leis cujos requisitos a obrigatória que, emanando de
Constituição enumera, represen- uma autoridade competente, re-
tam algo de consecutivo e, por con- conhecida, é imposta coativa-
seguinte, de logicamente subordi- mente à obediência de todos».
nado, tendo precisamente por base com este sentido ético, de esta-
a organização constitucional do Es- belecer, erga omnes, norma de
tado» (Giorgio Del Vecchlo,« Li- conduta de todas as ações, que a
ções de Filosofia do Direito», trad., Constituição Federal estabelece,
de Antonio José Brandão, 4? ed. se- no art. 119, inciso I, letra 1 a com-
gundo a 10? ed. italiana, Colecção petência do Supremo Tribunal Fe-
Studium, Coimbra, 1972, pág. 155). deral para julgar «a representação
que é lei? do Procurador-Geral da República,
por inconstitucionalidade ou para
De Plácido e Silva, em seu con- interpretação de lei ou ato norma-
sagrado «Vocabulário Jurídico», tivo federal ou estadual».
assim a define:
«No conceito jurídico, dentro de Del Vecchio, ainda a lição
de seu sentido originário, é a sobre o sentido ético da lei verbis:
regra jurídica escrita, instituída «A lei é o pensamento jurídico
pelo legislador, no cumprimento deliberado e consciente, formula-
de um mandato, que lhe é outor- do por órgãos especiais, que re-
gado pelo povo. presentam a vontade predomi-
Considerando-a neste aspecto, nante numa sociedade. A lei é,
que Galus a definiu: Lex est pois, a manifestação solene do
quod populus jubet et constituit Direito, a sua expressão racio-
( ... aquilo que o povo ordena e nal. Só nesta forma a elaboração
constitui) técnica do Direito atinge maior
Está aí revelada a natureza de perfeição.
jus scriptum, que é a própria lei. A lei é, simultaneamente, pen-
Não é outro o sentido que nos samento e vontade, pois com-
dá Justiniano, nas Institutas de prende uma determinação lógi-
seu Corpus Juris Civllis: quod po- ca e um acto de império. Na defi-
pulus Romana Sematore magls- nição de Crisipo, o estóico, con-
traiu interrogante, veluti consule servada pelas fontes romanas, a
constituebat. lei — dando-se à palavra o senti-
do mais elevado e geral — «é a
A lei, pois, é o preceito escrito, rainha de todas as coisas, assim
formulado solenemente pela au- divinas como humanas, critério
toridade constituída, em função do justo e do injusto; e, para

R.T.J. — 108 509

aqueles que da natureza são cha- ordenado de regras. Para que,


mados para a vida civil, precep- porém, se possa empregar, com
tora do que se deve fazer, proibi- rigor, o termo lei não basta que
dora do que se não deve fazer» haja normas ou um sistema de
(Dig. I. 3,2). normas escritas, pois escritas
(Giorgio Del Vecchio, op cit.). são também normas dos regula-
A lei a que se refere o constituin- mentos, decretos, resoluções,
te é a norma jurídica, o regramen- portarias, avisos etc...
to jurídko. Lei em sentido mate- Lei, no sentido técnico desta
rial. Se assim não fosse, o texto palavra, só existe quando a nor-
constitucional não admitiria, como ma escrita é constitutiva de
alternativa explicitante, a repre- direito, ou, esclarecendo melhor,
sentação contra o ato normativo. quando ela introduz algo de novo
Se quisesse generalizar a lei, ge- com caráter obrigatório no siste-
neralizaria — também — o ato. ma jurídico em vigor, discipli-
nando comportamentos indivi-
Miguel Reale é enfático ao fixar duais ou atividades públicas. O
a compreensão do termo lel como nosso ordenamento jurídico se
fonte do direito: subordina, com efeito, a uma
gradação decrescente e prioritá-
«São mais freqüentes do que se ria de expressões de competên-
pensa os equívocos que rondam a cia, a partir da lel constitucional,
palavra «lei». Já tivemos ocasião a qual fixa a estrutura e os feixes
de salientar que, em sua acepção de competência de todo o sistema
genérica, lei é toda relação ne- normativo. Nesse quadro, somen-
cessária de ordem causal ou fun- te a lei, em seu sentido próprio, é
cional, estabelecida entre dois ou capaz de inovar no Direito já
mais fatos, segundo a natureza existente, isto é, de conferir, de
que lhes é própria. E nesse senti- maneira originária, pelo simples
do amplo que nos referimos tanto fato de sua publicação e vigên-
às leis éticas como às sociais, ou cia, direitos e deveres a que to-
às físico-matemáticas. dos devemos respeito.
As leis éticas, todavia, quando A essa luz, não são leis os regu-
implicam diretivas de comporta- lamentos ou decretos, porque es-
mento, pautando objetivamente tes não podem ultrapassar os li-
as formas de conduta, consoante mites postos pela norma legal
também já foi exposto, se deno- que especificam ou a cuja execu-
minam propriamente normas, ção se destinam...» (Miguel Rea-
abrangendo as normas morais, le, «Lições Preliminares de
as jurídicas e as de trato social, Direito», Saraiva, 4? ed. 1977,
também chamadas de costume págs. 162/163).
social.
A interpretação e a compreen-
Pois bem, dentre as espécies são da regra jurídica.
de normas ou regras se destaca a
norma legal, que, por natural va- A pretensão do suplicante, qual
riação semãntica, se denomina seja a de ver submetida ao exame
pura e simplesmente, «lei». do Supremo Tribunal Federal a
constitucionalidade de um decreto
Quando, por conseguinte, nos legislativo que aprovou a indicação
domínios do Direito, se emprega do Deputado Mário Covas Júnior
o termo lei o que se quer signifi- para ocupar o cargo de Prefeito de
car é uma regra ou um conjunto São Paulo, com o que se deu cum-
510 R.T.J. — 108

primento a uma regra jurídica (ar- tra Reale: o referido decreto-


tigo 15, § 1?, letra «a», da Constitui- legislativo «não pode ultrapassar
ção Federal), nos leva á herme- os limites postos pela norma legal
nêutica jurídica (Carlos Maxi- (constitucional, artigo 15, § 1?, le-
mlliano) porque, assim entende- tra «a», da CF), a cuja execução
mos, se o Procurador-Geral da Re- se destina» (cf. Miguel Reale, tre-
pública, usando da prerrogativa cho citado).
constitucional de dominus Mis na
representação de constitucionalida- A essa conclusão se chega ao
de, já reconhecida pela Excelsa adotar-se a metodologia da inter-
Corte (Reclamação n? 849-DF, no pretação e da compreensão de que
caso «MDB», RTJ 59/333) e reafir- fala Karl Engisch: por «diferentes
mada nos acórdãos da Petição n? métodos e pontos de vista interpre-
66-8-DF (RTJ 100/1) e da Reclama- tativos, a saber: a interpretação
ção n? 152-1-SP (DJ de 11 de maio segundo o teor verbal (a interpre-
de 1983, p. 6.292), entende de não tação «gramatical»), a interpreta-
encampar a súplica, determinando ção com base na coerência (cone-
o seu arquivamento, pratica ai ato xidade) lógica (a interpretação
de jurisdição. E a jurisditio aqui «lógica» ou «sistemática», que se
não é a mesma dos antigos, inspi- apoia na localização de um precei-
rada nas divindades e nas crenças to no texto da lei e na sua conexão
da Religião (Fustel de Coulanges). com outros preceitos), a interpre-
2 ato do Estado-jurisdição, separa- tação a partir da conexidade histó-
do da Religião como o está tam- rica, particularmente a baseada na
bém o Direito. Assim, indispensá- «história da gênese do preceito», e
vel são os fundamentos jurídicos a finalmente a interpretação basea-
embasar a decisão do dominus da na ratio, no fim, no «fundamen-
to» do preceito (a interpretação
«teleológica»). Sob esta forma ou
A prerrogativa constitucional do semelhante, as quatro espécies de
Procurador-Geral deriva-se do es- interpretação pertencem em certa
tabelecido no artigo 119, inciso I, medida, deste Savigny, ao patri-
letra 1 da Constituição Federal: ao mónio adquirido da hermenêutica
Supremo Tribunal Federal compe- jurídica» (Karl Engisch, «In-
te processar e julgar originaria- trodução do Pensamento Ju-
mente a representação do Pro- rídico, Fundação Calouste Gul-
curador-Geral da República, por benkian, Lisboa, trad. de J. Bap-
inconstitucionalidade (melhor se- tista Machado, 3? edição).
ria: de constitucionalidade) ou pa-
ra interpretação de lei ou ato nor- O texto constitucional admite a
mativo federal ou estadual. Eis representação contra lei ou ato
ai, grifado o pressuposto básico pa- normativo. Gramaticalmente, lei é
ra a provocação do «processamen- lel e, decreto-legislativo, lei não é
to»: que se trate — o diploma legal É assente na hermenêutica do di-
malsinado — de lei ou ato normati- reito constitucional que a Constitui-
vo federal ou estadual. O outro ção não contém palavras supér-
pressuposto é o que decorre do fluas; assim não é hábito interpre-
confronto da lel ordinária com a lei tativo entender-se como lei todos
constitucional. O ato em exame é aqueles atos cujo processo legis-
um decreto-legislativo; não é lei lativo a Constituição disciplina.
em sentido formal; não o é, tam- Quando a constituinte se refere à
bém em sentido material, no seu lei, esta há de ser entendida como
sentido mais puro, como o demons- norma, preceito, regra, principio,

R.T.J. — 108 511

do latim lege: «regra de direito di- possível, o que estabelece a Consti-


tada pela autoridade estatal e tor- tuição: lei + ato normativo = ato.
nada obrigatória para manter, nu- Não podia o legislador generalizar
ma comunidade, a ordem e o de- o que o constituinte especificou, is-
senvolvimento» (Aurélio). Nesse to é, tratar como ato (genérico,
sentido, compreende-se o decre- normativo ou não) a lel e o ato
to-lei. Parece não ser, entretan- (que não lel); mas podia, sim (e o
to, suficiente a interpretação gra- fez), generalizar no campo das es-
matical, porque o decreto-legis- pecialidades: lei (regra, norma de
lativo bem como as resoluções conduta) + ato normativo = ato
da(s) Casa(s) Legislativa(s) po- (art. 170 do RISTF) Essa conexi-
dem destinar-se a regrar, compon- dade dos preceitos (Constituição:
do o ordenamento jurídico. lei ou ato normativo; Constituição
+ Regimento Interno e, exclusiva-
mente regimental, art. 169 c/c art.
A uma definição se chega ao 170), conduz à conclusão de que o
adotar-se o segundo método de in- decreto-legislativo em exame não é
terpretação: o da coerência lógica, controlável por ação direta de
interpretação lógica ou sistemáti- constitucionalidade.
ca. Se quisesse o constituinte gene-
ralizar os atos a serem submetidos
ao controle de constitucionalidade No terceiro método de interpre-
por ação direta, não teria acres- tação (conexidade histórica, histó-
centado a segunda espécie (ato ria da gênese do preceito), o exa-
normativo) com o que transformou me fica delimitado ao direito brasi-
a primeira (lei) de género em leiro: o controle de constitucionali-
espécie. Se o ato é normativo, tam- dade por ação direta. Segundo li-
bém a lei será a norma, a regra ção do eminente Mestre Alfredo
jurídica de conduta, com todos os Buzaid, hoje ocupando uma curul
caracteres informados por Paulo na Excelsa Corte, o controle de
Dourado de Gusmão: bilaterall- contitucionalidade, herdado do
dade, generalidade (estabelece direito constitucional norte-ame-
um padrão de conduta social, um ricano, paradigma dos regi-
standar jurídico), imperatividade mes democráticos representativos,
e coercibilidade. Por outro la- passou a ser feito no Brasil, por
do, a norma jurídica constitucio- ação direta com a promulgação da
nal em exame, tem seu desdobra- Lei n? 2.271, em 22 de julho de 1954,
mento, é regulamentada no Ti- que «conferiu ao Procurador-Geral
tulo VI, Capitulo I, artigos 169 a da República legitimidade para ar-
187 do Regimento Interno do Su- güir a inconstitucionalidade de ato
premo Tribunal Federal Nesse (grifamos), que infrinja algum dos
codex, é estabelecido que «o Pro- preceitos assegurados no artigo 7?,
curador-Geral da República po- VII, da Constituição Federal (art.
derá submeter ao Tribunal, me- 1?)» Buzaid, «Da Ação Direta de
diante representação, o exame de Declaração de Inconstitucionalida-
lei ou ato normativo federal ou es- de no Direito Brasileiro», Saraiva,
tadual, para que seja declarada a São Paulo, 1958, p. 101). Pois bem.
sua inconstitucionalidade». Logo a Até aqui, o ordenamento jurídico
seguir, no art. 170, estabelece o le- pátrio instituíra a ação direta (a
gislador: «o Relator pedira in- representação, expressão condena-
formações à autoridade da qual da por Buzaid) em caráter
tiver emanado o ato...» Que interventivo. No trecho citado, o
ato? Generalizou-se aqui, até onde insigne processualista cita comen-

512 R.T.J. — 108

tário de Pontes de Miranda sobre damente decidindo o Supremo Tri-


esse então novo instituto, nestes bunal Federal, ( v.g. RE 97.078-9-
termos: SP, relator o Min. Soares Muiloz,
«O Procurador-Geral da Repú- julg. em 30-11-82 — DJ de 18-3-83,
blica provoca em representação, p. 2.979); a outra — representação
o pronunciamento do Supremo de inconstitucionalidade de lei em
Tribunal Federal sobre a lei tese — pela sua própria natureza,
(Constituição Estadual, lei orgâ- dirige-se à norma jurídica, regra
nica estadual ou lei estadual de «conduta em interferência inter-
ordinária), ou ato que seja, por subjetiva» (Carlos Cossio), e é
si, inobservância dos princípios prerrogativa exclusiva do
constitucionais especificados no Procurador-Geral da República o
art. 7?, VII, a a g da Constitui- encaminhamento da representação
ção. ...» (grifamos lei orgânica do Supremo Tribunal Federal, pro-
estadual ou lei ordinária) vocando a ação direta.
Foi a Emenda Constitucional n? Quanto ao último método de in-
16, de 1965, que instituiu a terpretação (teleológica), há de se
representação contra inconstitucio- considerar que a finalidade é a hi-
nalidade de lei em tese e o fez nes- gidez do ordenamento jurídico pá-
tes termos: trio, enquanto espectro de regras
«Art. 101. Ao Supremo Tribunal de conduta, de normas jurídicas
Federal compete: com todos os seus caracteres a que
se refere Paulo Dourado de
I — processar e julgar origina- Gusmão. E o confronto da lei
riamente: ordinária com a lel constitucional,
para que seja preservada a legiti-
midade da lei per se e, ultima
K) a representação contra in- ratio, do próprio ordenamento.
constitucionalidade de lei ou ato Válida, nesse passo, a lição de
de natureza normativa, federal Gustav Radbruch:
ou estadual, encaminhada pelo
Procurador-Geral da República».
A representação interventiva No ponto de vista da «teoria
prevista no artigo 7?, inciso VII, da jurídica da obrigatoriedade do di-
Constituição recebeu nova regula- reito», de que acima nos ocupa-
mentação através da Lei n? 4.337, mos, não é só o problema das re-
de 1? de junho de 1964. E a repre- lações entre dois preceitos jurí-
sentação para declaração de in- dicos dentro duma determinada
constitucionalidade de lei em tese «ordem jurídica» — como, por
continua regulamentada pelo Regi- exemplo, entre uma lei e a res-
mento Interno do Supremo Tribu- pectiva constituição — que pode
nal Federal. A coexistência das ser objeto de investigação. Pode-
duas no ordenamento jurídico bem o também ser o das relações en-
demonstra que uma — a inter- tre as diversas «ordens jurídi-
ventiva — ataca o ato (que po- cas» ou sistemas jurídicos objec-
de ou não ser lei); para esta é tam- tivos que na história se sucedem
bém competente o Chefe do Minis- uns aos outros. Aplicada à histó-
tério Público Estadual, por sime- ria, a «teoria jurídica da obriga-
tria, para propõ-la quando inconsti- toriedade do direito» dá origem à
tucional lei municipal em face do chamada «teoria da legitimida-
princípio indicado na Constituição de», ou seja, uma doutrina nine
Estadual, consoante vem reitera- sustenta não ser qualquer
R.T.J. — 108 513

dem jurídica», que de novo sur- impugna o ato do Poder Legislati-


ge, senão um desenvolvimento vo bandeirante, apenas sob o as-
regular daquela que a precedeu; pecto do quorum de votação, maté-
só sob esta condição ela pode ria disciplinada no Regimento In-
conservar a sua obrigatoriedade. terno da Casa Legislativa.
Pelo contrário, esta obrigatorie- Del Vecchio condena o aprofun-
dade e -validade devem ser nega- damento do controle da constitu-
das a toda a «ordem jurídica» cionalidade das leis, quando o juiz,
que não puder justificar-se em ultrapassando os lindes da averi-
face da antecedente. O «direito guação extrínseca e formal, aden-
deve sempre continuar a ser di- tra no aspecto intrínseco, na gêne-
reito. «(Gustav Radbruch», Filo- se do ato. E preleciona:
sofia do Direito, Trad. do Prof.
L. Cabral de Moncada. Colecção
Studium, Arménio Amado, Edi- Ele (o juiz) não é competente,
tor, Coimbra, 1979). por exemplo, para examinar a
O que pede o suplicante? validade dos procedimentos in-
ternos da Câmara e do Senado, a
Analisada toda a súplica nela regularidade das votações, etc.
não se encontra uma fundamenta- (interna corporis).
ção jurídica que indique o que pre-
tende o signatário, se a representa- Para as irregularidades in-
ção para declaração de inconstitu- trínsecas, funcionamento dos ór-
cionalidade de lei em tese, autori- gãos legislativos falta ainda o
zada pelo artigo 119, inciso I, letra remédio judicial. O único meio
1, ou se a representação interventi- que nos resta é fiarmo-nos na
va prevista no artigo 11, § 1?, letra correção dos próprios órgãos e,
c, da Constituição Federal. como ultima ratio, no tribunal
Presente, porém, o princípio de de história, isto é, nas sanções da
direito judiciário da mini factum, consciência jurídica popular». (o-
dabo tibi Jus. bra citada).
A conclusão do Exmo. Sr. Pro- Se assim é no direito peninsular,
curador-Geral da República foi não é diferente no direito brasilei-
no sentido de que a súplica objeti- ro. Francisco Campos, apud Hely
va a representação para declara- Lopes Meirelles («Direito Adminis-
ção de inconstitucionalidade de lei trativo Brasileiro», Ed. Revista
em tese visto não haver possibili- dos Tribunais, 6? ed., 1978), tam-
dade Jurídica, de plano evidente, bém sustenta a intangibilidade dos
para o pedido de intervenção; as- lura interna corporis:
sim acolheu-a, para posterior exa- «Tal é a doutrina que prevale-
me de mérito. Mas também não ce para todas as corporações le-
cabe, à luz de um exame enrique- gislativas, como bem informa
eido com as informações da Repre- Francisco Campos, ao cuidar dos
sentada, a ação direta de inconsti- interna corporis do Congresso
tucionalidade prevista no artigo Nacional, em erudido parecer:
119 da Constituição. «Contesto, com efeito, assim ao
Mesmo que ultrapassada fosse a Poder Judiciário, como a qual-
preliminar de admissibilidade, en- quer outro Poder, a faculdade de
redar-se-ia, no exame da ação, entrar na indagação do processo
no tormentoso tema do controle interna corporis de formação da
jurisdicional dos lura interna lei. Esta faculdade não se con-
corporis, posto que o suplicante funde com a outra, desde sempre

514 R.T.J. — 108

pacífica do Direito americano, cia concorrente dos poderes» no


que cabe ao Poder Judiciário de capitulo da Presunção da Constitu-
contrasteando os atos do Con- cionalidade (p. 91):
gresso com as disposições consti- «E princípio assente entre os
tucionais, verificar se tais atos se autores, reproduzindo a orienta-
encontram na esfera de ção pacifica da jurisprudência,
competência (grifamos), traçada que milita sempre em favor dos
pela Constituição aos Poderes atos do Congresso a presunção de
por ela instituídos e no próprio constitucionalidade. E que ao
ato da instituição definidos e li- Parlamento, tanto quanto ao Ju-
mitados». diciário, cabe a interpretação do
«Esta faculdade — prossegue o texto constitucional, de sorte,
saudoso publicista — reconhecida que, quando uma lei é posta em
ao Poder Judiciário decorre, in- vigor, já o problema de sua con-
questionavelmente, da natureza formidade com o Estatuto Políti-
do nosso governo, que é um go- co foi objeto de exame e aprecia-
verno de poderes limitados, cada ção, devendo-se presumir boa e
um dos Poderes, de que se com- válida a resolução adotada».
põe o governo, tem a sua compe-
tência demarcada no instrumen- Sem perder o norte de que é re-
to constitucional e, assim, os servada ao Poder Judiciário a
seus atos só se terão por válidos competência para o controle da
se compreendidos na esfera de- constitucionalidade das leis, o cer-
marcada pela Constituição. São to é que a estabilidade do Estado
duas questões distintas, como se repousa na presunção da legitimi-
vê: uma que se refere à compe- dade dos seus Poderes Políticos e
tência do órgão isto é, à legitimi- dos atos deles emanados. Assim é
dade dos seus poderes; outra que, que, somente por exceção, atua o
liquidada a questão da competên- controle jurisdicional sobre a legi-
cia, se refere à observância das Umidade da norma jurídica. E é
formalidades, ritos ou processos corolário desse principio geral o
prescritos ao órgão no exercício especial de que toda lei é presumi-
de suas funções». velmente constitucional; a constitu-
cionalidade da lei é presumível, a
(Francisco Campos, «Parece- inconstitucionalidade, porém, não
res», 1937, 1? série, pág. 19 e segs., se presume; exige-se-lhe evidên-
citado in Hely op. cit.). cias para que seja declarada: deve
ser clara, completa e inequívoca.
A propósito, é sempre oportuno o
Certo que Luci() Bittencourt ad- ensinamento de Thomas Cooley
mite o controle jurisdicional na hi- («A Treatise on the Constitucional
pótese de critérios de votação (n? limitations», 1890):
de votantes, tipo de votação, se se- «every reasonable doubt must
creta ou nominal) (A. C. Lucio be resolved in favor of the statu-
Bittencourt, «O Controle Jurisdi- te, not agaist it».
cional da Constitucionalidade das
Leis» Forense, 2? ed., 1968, p. 81). Sob esse prisma, a malsinada
Também Hely, discordando de elaboração legislativa do ato que
Francisco Campos (obra citada). aprovou a indicação do novo Pre-
Entretanto, Lucio Bittencourt, em feito também não evidencia incons-
outro tópico de sua magistral mo- titucionalidade. Único suporte da
nografia, assim se pronuncia quan- súplica, o fato do Presidente da As-
to ao que designa por «competên- sembléia ter votado duas vezes,

R.T.J. — 108 515

uma como parlamentar e outra co- O parecer é pela improcedência


mo Presidente, não chega a violar da Representação». (fls. 72/88).
qualquer mandamento constitucio- E o relatório.
nal, mesmo o especifico de quo-
rum (artigo 31 da Constituição) que
estabelece, verbis: VOTO
«Salvo disposição constitucio-
nal em contrário, as deliberações O Sr. Ministro Decio Miranda (Re-
de cada Câmara serão tomadas lator) — Desnecessário ouvir-se o
por maioria de votos, presente a Governador do Estado, cujo ato, de
maioria dos seus membros». indicação do nome para Prefeito,
A cópia da folha de verificação não é, em si mesmo, objeto de con-
da votação e as notas taquigráficas testação ou dúvida, sob o aspecto da
demonstram que a maioria dos de- constitucionalidade.
putados dela participou resultando Passo ao exame da argüição de In-
o empate, com o voto do Deputado constitucionalidade.
Néfi Tales; invocando o artigo 18,
2?, da III Consolidação do Regi- A matéria dos autos, que mereceu
mento Interno o Presidente da As- as eruditas manifestações de que dá
sembléia, que é o mesmo Deputado conta o relatório, é de solução óbvia,
Néfi Tales, votou sim, desempatan- ante a natureza e o escopo do institu-
do favoravelmente a indicação do to da representação por inconstitu-
novo Prefeito da cidade de São cionalidade, de que cuida o art. 119,
Paulo, Deputado Mário Covas I, letra 1, da Constituição Federal.
Júnior Numa interpretação autên-
tica com a maioria (quase totali- Ai se prevê a «representação do
dade) dos deputados presentes, Procurador-Geral da República, por
entendeu-se, naquela sessão, admi- inconstitucionalidade ou para inter-
tir o Regimento que o Presidente pretação de lei ou ato normativo fe-
poderá, excepcionalmente, votar deral ou estadual».
nos casos de empate, de escrutínio
secreto ou de votação nominal; Para exigir-se atuação do Supre-
concorriam duas dessas três hipó- mo Tribunal Federal nessa especial
teses, exatamente aquelas onde o modalidade do elenco de sua compe-
Presidente interviria duas vezes na tência constitucional, há de achar-se
votação: a primeira porque, sendo presente norma em tese e não a
votação nominal, votou na ordem providência especifica que com sua
de chamada, dando cumprimento invocação se tenha tomado.
ao Regimento; a segunda verificar- No caso, trata-se de provisão de
se-la depois, e só depois, isto é, em cunho concreto, boa ou má aplica-
havendo empate na votação. Ocor- ção, mas não criadora de comando
reu o empate e o mesmo dispositi- em tese, despida de qualquer atribu-
vo regimental autorizava-lhe desem- to de abstração, generalidade ou uni-
patar, como voto de Minerva. versalidade.
Não se entremostra, a esta análi- Se fez a Assembléia Legislativa
se, qualquer descumprimento do acertado ou errôneo uso da norma, o
Regimento. Este a seu turno não decidir a respeito não cabe no âmbi-
foi posto à confrontação com a to da representação por inconstitu-
Constituição pelo suplicante. Não cionalidade, segundo o previsto no
vemos, pois, nenhuma eiva de in- inciso, da Lei Maior, concernente à
constitucionalidade. ação direta de inconstitucionalidade.
516 R.T.J. — 108

Isto posto, não conheço da repre- EXTRATO DA ATA


sentação.
E o meu voto. Rp 1.160-SP — Rel.: Ministro Decio
Miranda. Repte.: Procurador-Geral
VOTO (PRELIMINAR) da República. Repdo.: Assembléia
Legislativa do Estado de São Paulo.
O Sr. Ministro Francisco Rezek — Decisão: Não se conheceu da Re-
Sr. Presidente, examinando o art. 44 presentação, unanimemente. Votou o
da Constituição que fala daquelas Presidente.
competências que o Congresso Na-
cional exerce mediante decreto- Presidência do Senhor Ministro
legislativo, verifico que dois incisos Cordeiro Guerra. Presentes à Sessão
dão ensejo, talvez, à edição de algo os Senhores Ministros Djaci Falcão,
que se poderia ver como ato norma- Moreira Alves, Soares Mufloz, Decio
tivo atacável em representação. Via Miranda, Rafael Mayer, Néri da Sil-
de regra, o decreto-legislativo traduz veira, Alfredo Buzaid, Oscar Corrêa,
ato congressional singular, sem índo- Aldir Passarinho e Francisco Rezek.
le normativa. Tal o que sucede com Procurador-Geral da República,
este cuja inconstitucionalidatib ora Substituto, o Dr. Mauro Leite Soa-
se argúi. res.
Com o eminente Ministro-Relator, Brasília, 5 de outubro de 1983 —
não conheço da representação. Alberto Veronese Aguiar, Secretário.

SENTENÇA ESTRANGEIRA N? 3.368 — ESTADOS UNIDOS MEXICANOS


Relator: O Sr. Ministro Cordeiro Guerra, Presidente.
Reqtes.: Roberto de Almeida Dultra e Elaine Marie Dultra, em solteira
Elaine M. Finlay (Advs.: José Alberto Marinho Soares e outros) — Reqdos.:
os mesmos.
Sentença Estrangeira. Divórcio. Cônjuge brasileiro. Eleição do fo-
ro — Após a adoção do divórcio no Brasil, está superada a jurispru-
dência anterior que não admitia a competência da justiça alienígena,
pelo princípio da eleição do foro.

Vistos. Brasil no México, D.F. ( fls. 14), bem


assim a respectiva tradução feita
Roberto de Almeida Dultra e Elai- por tradutor oficial no Rio de Janei-
ne Marie Dultra, ele, brasileiro e ela ro (fls. 10/13). Comprovaram, ainda,
norte-americana, residentes e domi- o trânsito em julgado da decisão.
ciliados no Rio de Janeiro e em São
Paulo, respectivamente, requereram Ouvida, a Procuradoria Geral da
a homologação de sentença de 9 de República, solicitou, inicialmente, a
julho de 1981, pela qual a Justiça do comprovação da competência da
México dissolveu por divórcio abso- Justiça mexicana, para o processo
luto, o casamento que os unira, nos do divórcio.
Estados Unidos, a 25 de março de Solicitada a pronunciar-se, nova-
1972. mente, em face da jurisprudência ci-
Os requerentes juntaram certidão tada no despacho de fls. 19, assim se
da sentença homologanda, autentica- manifestou, em parecer do
da pelo representante consular do Subprocurador-Geral, Dr. Mauro_
R.T.J. — 108 517

Leite Soares, aprovado pelo ilustre vê a submissão expressa de am-


Dr. Procurador-Geral (fls. 21/23): bas as partes ao foro dominicano
«Esta Procuradoria-Geral da Re- como fundamento legitimo de
pública, atendendo ao v. despacho sua competência, e opina, atenta
presidencial de fls. 19, que alude à nova redação do art. 7?, § 6?,
aos julgados proferidos nas Senten- da Lei de Introdução ao Código
ças Estrangeiras de n?s 2.4% e Civil, pela homologação irrestri-
2.497, vem, respeitosamente, dizer ta.»
que, realmente, existe semelhança
entre os invocados paradigmas e o O precedente em questão, como
caso ora em exame. outros que se lhe seguiram de ma-
Na SE n? 2.496, RTJ 88/46, a neira idêntica, foi originário da Re-
Egrégia Presidência Thompson pública Dominicana, constando da
Flores adotou os fundamentos do sentença homologanda que os di-
parecer do então Procurador da vorciandos submetiam-se expres-
República, Eminente Ministro samente ao foro dominicano. Por
Francisco Rezek, nos seguintes isso, declarou-se na ementa da SE
termos conclusivos: 2.496: «Após a adoção do divórcio
no Brasil, está superada a juris-
«Antes do advento da Emenda prudência anterior que não admi-
Constitucional n? 9, semelhante tia a competência da Justiça
alienígena, pelo principio da elei-
sentença enfrentaria o óbice ção do foro.»
fluente da incompetência do
juízo, vez que, em exceção à re-
gra válida para as demais sen- E certo que na sentença ora em
tenças de caráter civil, as de di- exame, originária da República do
vórcio se haviam por refratárias México, não se declara expressa-
à eleição do foro. Impunha-se, mente que os interessados se sub-
com efeito, que o domicílio ou a metem ao foro mexicano. Parece-
nacionalidade previnculassem as nos, porém, que tal diferença é
partes, ou quando menos uma de- apenas de forma e não de conteú-
las, ao foro processante. do, ou de fundamento, pois se os
divorciandos, ora requerentes, in-
Tal restrição, de origem estri- gressaram na Justiça mexicana
tamente pretoriana, fundava-se com o pedido de divórcio é porque,
no ânimo de coibir a fraude à lei, realmente, elegeram e submete-
sob a forma de evasão ao foro ram-se ao foro escolhido. A seme-
natural, acaso inábil para a de- lhança dos fundamentos jurídicos
cretação do divórcio absoluto. permite a mesma conclusão judi-
Não porque fosse expressivo o cial.
número de nações adotantes do As demais formalidades legais e
matrimónio indissolúvel, mas regimentais foram obedecidas, isto
precisamente por ser o Brasil, é, a sentença é irrecorrível, fls. 10
uma das poucas que guardavam verso, traz a chancela consular
semelhante postura. brasileira, fls. 14, e foi objeto de
Não encontra a Procuradoria- tradução autêntica.
Geral, ante nossa ordem jurídica
presente, razão lógica para pug- Em face dessas considerações e
nar pela sobrevivência da aludi- tendo em vista os precedentes indi-
da exceção. Por isso, na espécie, cados, que se assemelham ao caso

518 R.T.J. — 108

presente, permitimo-nos modificar tos do parecer transcrito, homologo


nosso pronunciamento anterior e a sentença de que se trata, sem res-
opinamos pela homologação reque- trições para ambos os cônjuges a
rida, restrito, porém, o direito das partir de 9 de julho de 1984, e, até
partes a novo casamento a que an- então, com efeitos equivalentes aos
tes decorra o prazo marcado no § da separação judicial do direito bra-
6? do art. 7? da LICC, na redação sileiro.
que lhe deu o art. 49 da Lei o? Brasília, 19 de março de 1984 —
6.515/77.» Ministro Cordeiro Guerra, Presiden-
Isto posto, adotando os fundamen- te.

SENTENÇA ESTRANGEIRA N? 3.373 — JAPÃO


Relator: O Sr. Ministro Cordeiro Guerra, Presidente.
Reqtes: Tokio Hirakawa e Kameyo Hirakawa, em solteira Kameyo To-
kuda. (Advs.: Tuyoci Ohara e outros). — Reqdos.: Os mesmos.
Divórcio por mútuo consentimento, registrado perante autoridade
administrativa. Sistema Jurídico japonês. Homologação concedida.
Vistos. O documento comprobatório do
Tokio Hirakawa e Kameyo Hiraka- registro definitivo, passado em Ta-
wa, ambos japoneses, ele comercian- kahashi, Japão, em 1983, equivale
te e ela do lar, residentes e domici- à sentença irrecorrivel para efeito
liados em São Paulo, requereram a de homologação, na conformidade
homologação do seu divórcio por da jurisprudência do Egrégio Su-
mútuo consentimento, realizado em primo Tribunal Federal, consubs-
22 de novembro de 1983, data da tanciada nas SSEE n?s 2.251, 2.891,
aceitação e registro, perante o Pre- 3.298 e 3.213.
feito da cidade de Takahashi, no Ja- Assim, respeitada a peculiarida-
pão, da declaração apresentada pelo de do procedimento, dúvida não há
casal, conforme as leis locais. quanto à competência da autorida-
Os requerentes juntaram certidão de distrital para acolher o registro,
do registro do divórcio, autenticada quanto ao seu caráter definitivo ou
pelo representante consular do Bra- quanto à presença e à livre mani-
sil em Tóquio (fls. 6), bem assim a festação de vontade dos divorcian-
respectiva tradução feita por tradu- dos na realização do ato.
tor oficial em São Paulo (fls. 9/10).
Dispensada qualquer citaçao, as- O documento comprobatório traz
sim se manifestou a douta a chancela consular brasileira, fls.
Procuradoria Geral (fls. 15/16): 6, e foi objeto de tradução autênti-
«Tokio Hirakawa e Kameyo Hi- ca.
rakawa, japoneses, trazem à ho- Pela homologação requerida.»
mologação decreto municipal de Isto posto, nos termos do parecer
concessão de divórcio por mútuo transcrito, homologo o divórcio de
consentimento que, no sistema q ue se trata.
jurídico japonês, registrou-se pe- Brasília, 19 de março de 1984 —
rante autoridade administrativa, Ministro Cordeiro Guerra, Presiden-
independendo de manifestação ju- te.
dicial.
R.T.J. — 108 519

CONFLITO DE JURISDIÇÃO N? 6.358 — PR


(Tribunal Pleno)
Relator: O Sr. Ministro Aldir Passarinho.
Suscitante: Tribunal Regional do Trabalho da 9? Região — Suscitado:
Juiz Federal da 3! Vara da Capital — Interessados: Zuleide de Souza Caldas,
Fundação Legião Brasileira de Assistência — LBA e Instituto Nacional de
Assistência Médica da Previdência Social — INAMPS, representados pelo
IAPAS.
?trabalhista. Competência. Empregado da LBA lotado em Mater-
nidade que passou ao INAMPS. Lei n? 6.439/77, que instituiu o SIN-
PAS. Competência da Justiça Federal.
Tendo em vista o disposto no f 1? do art. 21 da Lei 6.439, de 1977,
embora sem alteração do regime jurídico que possuíam e sem pre-
juízo de seus direitos e vantagens, os empregados da LBA integrantes
da lotação de órgãos cujas competências foram transferidas para
qualquer das entidades do SINPAS, passaram, automaticamente, a
ter exercício nas novas entidades, nas mesmas localidades, mas não
lhes foi assegurado que continuariam sendo empregados da LBA, eis
que os órgãos em que eles serviam deixaram de pertencer àquela Le-
gião.
De qualquer sorte, ante o preceituado no art. 32 da mesma Lel
6.439/77, as obrigações trabalhistas decorrentes das alterações por ela
trazidas ficaram afetas ao INAMPS e, assim, a competência para o
processamento e julgamento do litígio de tais empregados passou à
área da Justiça Federal, em face do art. 110 da Constituição Federal.
ACÓRDÃO A espécie dos autos assim pode ser
exposta, em resumido:
Vistos, relatados e discutidos estes
autos, acordam os Ministros do Su- Zuleide de Souza Caldas, alegando
premo Tribunal Federal, em sessão ser empregada da Fundação Legião
plenária, na conformidade da ata do Brasileira de Assistência, ajuizou re-
julgamento e das notas taquigráfi- clamação trabalhista contra esta,
cas, por unanimidade de votos, co- reivindicando direitos trabalhistas,
nhecer do conflito e declarar compe- que lhe estariam sendo negados.
tente o MM. Juiz da 3? Vara Federal Ingressou, então, nos autos o Insti-
da Capital. tuto Nacional de Assistência Médica
Brasília, 15 de junho de 1983 — da Previdência Social-INAMPS, sus-
Cordeiro Guerra, Presidente — Aldir tentando que ele é que era parte
Passarinho, Relator. legítima, no feito, para oferecer con-
RELATÓRIO testação, e não a Fundação LBA. É
que, pela Lei n? 6.439, de 1? de se-
O Sr. Ministro Aldir Passarinho tembro de 1977, que instituíra o Sis-
(Relator): Trata-se de conflito de tema Nacional de Previdência e As-
competência, sendo suscitante o C. sistência Médica da Previdência So-
Tribunal Regional do Trabalho da 9! cial (SINPAS), fora criado, através
Região e suscitado o MM. Juiz Fede- do art. 3?, o Instituto Nacional de As-
ral da 3? Vara da Seção Judiciária sistência Médica da Previdência So-
do Estado do Paraná. cial (INAMPS), cujo patrimônio fi-
520 R.T.J. — 108

cou constituído pelos bens que o sistência, no tocante ao contrato de


INPS, FUNRURAL, LBA e IPASE trabalho da reclamante, pelo que
utilizavam na prestação de assistên- sendo aquele Instituto uma autar-
cia médica. Em face disso, e consi- quia, a competência era da Justiça
derando que a reclamante prestava Federal. Em face disso, suscitou
serviços na Maternidade de Parana- conflito de competência perante esta
guá, antigamente vinculada à LBA e Corte.
atualmente ao INAMPS, este é que Subindo os autos, veio a ma-
havia de responder à reclamatória. nifestar-se a douta Procuradoria-
Em face disso, o INAMPS suscitou Geral da República pela competên-
exceção de incompetência do Juizo cia da Justiça do Trabalho.
trabalhista, afirmando ser compe- o relatório.
tente a Justiça Federal.
A Junta de Conciliação e Julga-
mento à qual fora distribuído o feito, VOTO
acolheu a exceção de incompetência
e remeteu os autos à Justiça Fede-
ral, mas o MM. Juiz, ora suscitado, O Sr. Ministro Aldir Passarinho
igualmente entendeu que não lhe ca- (Relator): Conflito que se identifica
bia processar e julgar a reclamató- com o dos autos, posto que, tanto co-
ria, posto que fora ela movida contra mo no presente caso, tratava de re-
a Fundação LBA, e não haver razão clamação trabalhista ajuizada con-
para a intervenção do INAMPS, que tra a Fundação LBA, por empregado
rejeitou. Entretanto, ao invés de sus- que prestava serviços em Materni-
citar conflito negativo de competên- dade que passou ao INAMPS, foi jul-
cia, devolveu os autos à Junta de gado nesta Corte, Relator o Sr. Mi-
Conciliação e Julgamento, que veio, nistro Xavier de Albuquerque, sendo
então, a julgar o litígio, em desfa- o seu voto, acolhido em discrepân-
vor, parcialmente, da Fundação cia pelo Plenário, do seguinte teor:
LBA. Ocorre, porém, que o «Temos decidido que a Lei n?
INAMPS, inconformado, recorreu 6.439/77 não transformou em autar-
para o C. Tribunal Regional do Tra- quia a Legião Brasileira de Assis-
balho da 9! Região, voltando a sus- tência, pelo que continua a compe-
tentar não ser a LBA parte passiva tir à Justiça do Trabalho o conhe-
na reclamatória, porquanto o patri- cimento de reclamações trabalhis-
mônio desta, que se destinava à tas oferecidas contra ela.
prestação de assistência médica, fo- Essa jurisprudência, todavia, co-
ra incorporado ao INAMPS, em face mo bem observa o parecer, não
do que, pelo princípio da sucessão de tem aplicação ao caso dos autos,
empresas (art. 488 da CLT), ficara pois aqui se trata de empregado
sub-rogada em todos os direitos e que, conquanto admitido pela LBA,
obrigações decorrentes dos contratos prestava serviços em maternidade
de trabalho mantidos com a LBA, transferida ao patrimônio do
tendo por objeto a prestação de ser- INAMPS e por este administrada.
viços na área de assistência médica,
e esse era o caso dos autos. As decisões invocadas pelo digno
Juiz Federal suscitante prevale-
O C. Tribunal Regional do Traba- cem apenas para os demais casos,
lho da 9, Região, apreciando a maté- quando envolvam empregados da
ria em debate, veio a entender que, LBA não vinculados aos órgãos de
realmente, o INAMPS ficara como assistência médica transferidos pa-
sucessor da Legião Brasileira de As- ra o INAMPS.

R.T.J. — 108 521

Isto posto, conheço do conflito e direitos e vantagens que os empre-


dou pela competência do Juizo Fe- gados já possuíam. Não poderiam
deral suscitante. (RTJ 97/107). eles, portanto, ser suprimidos ou mo-
Naquele caso diferentemente do dificados para pior, pela nova situa-
que ocorre no ora em exame, a dou- ção advinda da lel, mas não dispôs
ta Procuradoria-Geral da República esta que continuaria a ser mantido o
manifestou-se pela competência da vínculo laborai, quer com a Funda-
Justiça Federal, e tal entendimento ção LBA, quer com alguma das ou-
veio a prevalecer, como ficou dito. tras entidades que foram extintas ou
De minha parte não tenho dúvidas cuias atividades, juntamente com o
sobre ser competente a Justiça Fe- patrimônio a elas pertinentes, foram
deral. Diz a douta Procuradoria- transferidas para outras.
Geral da República, no parecer emi- Na conformidade do disposto no
tido no presente conflito que o art. art. 32 da Lei n? 6.439, de 1977,
21, § 1? leva à conclusão de que os «Ressalvadas as exceções esta-
empregados, mesmo os que passa- belecidas nesta lei, os direitos e
ram a servir nos órgãos transferidos obrigações das entidades do SIN-
para o INAMPS, continuavam vincu- PAS, qualquer que seja sua nature-
lados àquelas entidades com as za, serão exercidos ou cumpridos,
quais mantinham relação de empre- conforme o caso, pelas entidades a
go, pois aquele preceito se limitara a que são redistribuídas as respecti-
determinar que os servidores passa- vas competências»,
riam a ter exercício nas novas enti- tendo havido apenas a exceção pre-
dades sem modificação do respecti- vista no § 2? daquele mesmo artigo
vo regime jurídico e sem prejuízo de 31, e que diz respeito àquelas exce-
direitos e vantagens, não tendo havi- ções ajuizadas até a data de sua en-
do qualquer alteração das lotações e trada em vigor.
dos quadros de pessoal preexisten-
tes. Assim, de qualquer sorte, ainda
que se entendesse que o INAMPS
Entretanto, não é assim. não tivesse sucedido à LBA no tocan-
Diz o § 1? do art. 21 da Lei n? 6.439, te à vinculação empregaticia da re-
de 1977, que criou o SINPAS, in clamante, tendo passado àquele Ins-
verbis: tituto a obrigação decorrente do con-
trato de trabalho sem dúvida que te-
«Os servidores das entidades vin- ria ele que figurar, como parte, no
culadas ao MPAS, inclusive os das pólo passivo da relação processual,
extintas, que, na data em que en- e, assim sendo, em face do disposto
trar em vigor esta lei, ocuparem no art. 110 da Constituição Federal
cargos ou empregos integrantes da a competência se fixaria induvidosa-
lotação de órgãos cujas competên- mente, na Justiça Federal.
cias forem transferidas para qual- Pelo exposto, conheço do conflito e
quer das entidades do SINPAS, declaro competente o MM. Juiz da 3?
passarão, automaticamente, a ter Vara Federal da Seção Judiciária do
exercício nas novas entidades, nas Paraná.
mesmas localidades, sem altera-
ção do respectivo regime jurídico e 2 o meu voto.
sem prejuízos de direitos e vanta-
gens.» EXTRATO DA ATA
Ora, •;n que assegurou a lei é que fi- CJ 6.358-PR — Rel.: Ministro Aldir
cavam garantidos o regime jurídico, Passarinho. Suste.: Tribunal Regio-
ou seja, no caso, o trabalhista, e os nal do Trabalho da 9? Região. Sus-

522 R.T.J. — 108

do.: Juiz Federal da 3? Vara da Capi- Presidência do Senhor Ministro


tal. Interessados.: Zuleide de Souza Cordeiro Guerra. Presentes à Sessão
Caldas (Advs.: Dora Maria Schüller os Senhores Ministros Djaci Falcão,
e outro). e Fundação Legião Brasi- Moreira Alves, Soares Murioz, Decio
leira de Assistência — LBA e Institu- Miranda, Rafael Mayer, Néri da Sil-
to Nacional de Assistência Médica veira, Alfredo Buzaid, Oscar Corrêa,
da Previdência Social — INAMPS, Aldir Passarinho e Francisco Rezek.
representados pelo IAPAS (Advs.: Procurador-Geral da República,
Paulo César Bastos e outros). Professor Inocêncio Mártires Coelho.
Decisão: Conheceu-se do conflito e
julgou-se competente o Juiz Federal
da 3? Vara da Capital. Decisão unâ- Brasília, 15 de junho de 1983 —
nime. Alberto Veronese Aguiar, Secretário.

CONFLITO DE JURISDIÇÃO N? 6.405 — RJ


(Tribunal Pleno)
Relator: O Sr. Ministro Decio Miranda.
Suscitante: Clube Atlético Bragantino — Suscitados: Juiz da 5? Vara Fe-
deral — Seção Judiciária do Rio de Janeiro e Tribunal de Justiça do Estado
de São Paulo — Interessados: Clube Atlético Bragantino, Grêmio Esportivo
Sancarlense e outro, Federação Paulista de Futebol e Conselho Nacional de
Desportos.
Competência. Controvérsias, no plano regional, entre associações
desportivas, relacionadas com o seu posicionamento na primeira divi-
são de clubes. Suposta colisão entre medida liminar de Juiz Federal
contra ato do Conselho Nacional de Desportos, e medidas de órgãos
judiciários estaduais, atinentes ao inicio do campeonato regional. Ine-
xistência de conflito de jurisdição no sentido constitucional, els que as
atuações tidas como conflitantes derivam de competência absoluta
dos respectivos órgãos judiciários, a da Justiça Federal para a con-
cessão de mandado de segurança contra órgão da administração fede-
ral; a da Justiça Estadual para as causas em que só estão presentes
associações civis dedicadas ao futebol. Competências não modificáveis
pela conexão ou continência, segundo decorre do art. 102 do Código de
Processo Civil.
ACORDA° RELATORIO
Vistos, relatados e discutidos estes O Sr. Ministro Decio Miranda:
autos, acordam os Ministros do Su- Trata-se de conflito positivo de juris-
premo Tribunal Federal, em sessão dição suscitado pelo Clube Atlético
plenária, na conformidade da ata do Bragantino, sociedade com sede na
julgamento e das notas taquigráfi- cidade de Bragança Paulista, que
cas, por maioria de votos, em não obtivera, do Juiz da 5? Vara Federal
conhecer do Conflito. do Estado do Rio de Janeiro, medida
Brasília 13 de outubro de 1983 — liminar em mandado de segurança
Cordeiro Guerra, Presidente — contra o Presidente do Conselho Na-
Decio Miranda, Relator. cional de Desportos, em virtude da

R.T.J. — 108 523

qual, no seu entendimento, ter-se-la lo, que, aceitando sua própria com-
obviamente determinado a suspen- petência, julgou 0 MS n? 58.852-2».
são do início do Campeonato da 2? (fls. 351).
Divisão de Futebol Profissional no Afinal, assim se manifesta a douta
Estado de São Paulo, no ano de 1983. Procuradoria Geral da República,
(Fls. 4 medio). em parecer do Procurador Moacir
Essa medida entraria em conflito Antonio Machado da Silva, devida-
com outras, que o referido Clube mente aprovado:
menciona na petição de fls. 2/6, to-
madas pela Justiça do Estado de São «O Clube Atlético Bragantino,
Paulo, especialmente a medida limi- ora suscitante, que conquistou o se-
nar concedida pelo Juizo de Direito gundo lugar na classificação do
da 10? Vara Civel de São Paulo ao Campeonato Paulista da Segunda
Grêmio Esportivo São Carlense, Divisão em 1982, requereu ao Supe-
assegurando-lhe o inicio do indigita- rior Tribunal de Justiça Desporti-
do campeonato. (Fls. 4 medio). va mandado de garantia contra a
Federação Paulista de Futebol, ob-
Solicitadas, na conformidade de jetivando a suspensão do Campeo-
meu despacho de fls. 356, informa- nato da mesma Divisão em 1983,
ções às autoridades judiciárias ditas até decisão final da oposição que
em conflito, vieram às fls. 365 e apresentara a ação proposta pelo
segs. as do Juiz Federal que passara Clube Atlético Taquaritinga contra
ao exercício da 58 Vara Federal do a mesma Federação, perante a 11?
Estado do Rio de Janeiro e as do Vara Civel da Capital, tendente a
Tribunal de Justiça do Estado de resguardar seu direito de acesso à
São Paulo a fls. 376/380. Primeira Divisão.
Ressaltam, estas últimas informa- Contra a decisão do STJD con-
ções, que o Supremo Tribunal Fede- cessiva da liminar, a Federação
ral, ao apreciar em sessão plenária Paulista ofereceu representação ao
o Conflito de Jurisdição n? 6.345, em Conselho Nacional de Desportos,
3 de fevereiro de 1982, decidiu, una- que, por sua vez, também através
nimemente, pela competência da de liminar, garantiu o inicio do
Justiça Estadual Comum em caso de Campeonato da Segunda Divisão.
medidas cautelares com «partes par-
ticulares e associação civil (as fede- Impetrou, por isso, o Bragantino
rações desportivas o são, e seus diri- mandado de segurança contra a
gentes não exercem função delegada decisão do CND, perante o MM.
pelo Poder Público)» ( fls. 379). Juiz da 5? Vara Federal do Rio de
Refiro, para eventual consulta, Janeiro, que deferiu liminar para
que o oficio do Supremo Tribunal, a sustar os efeitos do ato. Em decor-
propósito da solução dada ao referi- rência dessa decisão, o Campeona-
do precedente, acha-se, nestes autos, to da Segunda Divisão não poderia
por cópia à fl. 664. ser iniciado.
E acrescento que estes autos de Ocorre, porém, que o Grêmio Es-
conflito foram originariamente enca- portivo Sancarlense, um dos inte-
minhados ao Colendo Tribunal Fede- grantes da Segunda Divisão, re-
ral de Recursos, de onde vieram re- quereu medida cautelar, distri-
metidos ao Supremo Tribunal Fede- buída ao MM. Juiz da 10? Vara
ral por força do despacho copiado a Cível de São Paulo, precisamente
fls. 351, a dizer que a controvérsia já para garantir o inicio do Campeo-
fora objeto de decisão phlo E. Tribu- nato, tendo obtido liminar para es-
nal de Justiça do Estado de São Pau- se fim.
524 R.T.J. — 108

Instado pelo suscitante, o MM. Justiça, após esclarecer a respeito


Juiz da 5? Vara Federal oficiou ao das ações em curso na Justiça do
MM. Juiz da 10? Vara Cível, para Estado, relacionadas com a maté-
afirmar a prevalência ce sua deci- ria do conflito, fez referência à de-
são. Este, porém, despachando pe- cisão proferida pelo Supremo Tri-
tição do mesmo Bragantino, man- bunal Federal no Conflito de Juris-
teve a liminar. dição n? 6.345, na qual se concluiu
Por tais razões, o Clube Atlético pela competência da Justiça Esta-
Bragantino suscitou conflito positi- dual Comum para processar e jul-
vo de jurisdição, inicialmente pe- gar as medidas cautelares entre
rante o Egrégio Tribunal Federal particulares e a associação civil
de Recursos, cujo Relator deferiu ( fls. 377-380).
pedido de sobrestamento dos pro- A competência para processar e
cessos e designou o mesmo MM. julgar o mandado de segurança
Juiz Federal da 5? Vara para resol- impetrado pelo Clube Atlético Bra-
ver, em caráter provisório, as me- gantino, é, sem dúvida, da Justiça
didas urgentes que viessem a ocor- Federal, pois o Conselho Nacional
rer (fls. 254). de Desportos é Orgão do Ministério
Entretanto, cinco dias antes de da Educação e Cultura (Lei n?
suscitado o conflito, a Associação 6.251, de 1975, art. 41).
Esportiva de Guaratinguetá havia Por outro lado, a medida caute-
impetrado mandado de segurança lar requerida pelo Grêmio Esporti-
contra a decisão do MM. Juiz da vo Sancarlense contra a Federação
10? Vara Cível, que determinara o Paulista de Futebol, é da compe-
prosseguimento do campeonato. E tência da Justiça Comum do Esta-
o Relator designado pelo Tribunal do, não se vislumbrando qualquer
de Justiça denegou o pedido de li- das hipóteses do art. 125, I, da
minar, mas mandou processar o Constituição Federal.
pedido, de forma que, a partir des- Pretende o suscitante que se de-
se momento, o conflito se estabele- fina a competência da Justiça Fe-
ceu entre o próprio Tribunal e o deral, afirmando a existência de
Juiz da 5? Vara Federal (fls. 259 e conexão e invocando art. 105 do Có-
segs.). digo de Processo Civil. Ocorre, no
Diante disso, o Egrégio Tribunal entanto, como decidiu o Supremo
Federal de Recursos, por despacho Tribunal Federal no julgamento do
do Ministro-Relator, deferiu os pe- CJ n? 6.345-SP, que a conexão, ain-
didos de remessa dos autos do con- da quando existente, não bastaria
flito ao Supremo Tribunal Federal para acarretar a modificação da
(fls. 351), competente para dirimi- denominada «competência de ju-
lo (Constituição, art. 119, 1, letra risdição», que é competência abso-
e).
luta. E, como efeito, nos termos do
art. 102 do Código de Processo Ci-
Solicitadas as informações, o vil, a conexão ou continência só é
MM. Juiz da 5? Vara Federal con- suscetível de modificar a compe-
firmou o relato do suscitante e es- tência em razão do valor ou do ter-
clareceu que determinou a intima- ritório, isto é, a competência rela-
ção do Presidente da Federação tiva.
Paulista de Futebol, mediante pre- Em face do exposto, o parecer é
catória, para que se manifestasse pelo não-conhecimento do confli-
a respeito do alegado descumpri- to». (fls. 690-3).
mento da liminar ( fls. 365/366).
Por sua vez, o egrégio Tribunal de E o relatório.
R.T.J. — 108 525

VOTO pelo Conselho Nacional de Despor-


tos, embora aquela lide se trave ape-
O Sr. Ministro Dedo Miranda (Re- nas, no momento, entre entidades
lator): As controvérsias, que se sus- particulares, a mim parece que deve
citam nos presentes autos, têm em aquele órgão colegiado — e repre-
conta meras relações entre socieda- sentado pelo seu Presidente — ser
des de direito privado dedicadas à chamado a integrar o feito, como li-
prática e à exibição do futebol, uni- tisconsorte necessário e, deste modo,
das, entre si, por liames voluntários a competência se fixa na Justiça Fe-
de integração nos planos regional e deral.
nacional. O que não me parece possível é
Nenhuma razão ocorre, no caso, a que possa decidir o Juiz Federal so-
indicar a competência da Justiça Fe- bre o tema e o Juiz estadual possa
deral para o deslinde de diferenças oferecer solução diversa.
entre elas, a não ser naquele caso Assim, Senhor Presidente, deve
específico em que um órgão da Ad- fixar-se a competência no Juiz Fede-
ministração Federal, o Conselho Na- ral até porque com a reunião dos
cional de Desportos, foi chamado à processos, poderá ele chamar o men-
lide judiciária, em razão de certo ato cionado Conselho, como litisconsorte
que praticara. necessário; pelo envolvimento deste
Somente este episódio, que se isola em ambos os feitos.
no conjunto das medidas judiciais
requeridas, suscita a competência
da Justiça Federal. EXTRATO DA ATA
Num e noutro caso, a competên-
cia, insuscetível de modificação nos CJ 6.405-RJ — Rel.: Min. Decio Mi-
termos do art. 102 do Cód. Proc. Ci- randa. Suste.: Clube Atlético Bra-
vil, mantém-se com o caráter abso- gantino (Adv.: Elcio Roberto Sarti).
luto que originariamente ostentava, Susdos.: Juiz da R Vara Federal —
para ser atendida, quando ausente Seção Judiciária do Rio de Janeiro e
órgão federal na relação processual, Tribunal de Justiça do Estado de
pela Justiça estadual, e, em ocorren- São Paulo. Interessados.: Clube Atlé-
do a presença de tal interesse fede- tico Bragantino, Grêmio Esportivo
ral, como sucede no episódio que en- Sancarlense e outro (Advs.: Wadih
volve o Conselho Nacional de Des- Helú e outro). Federação Paulista de
portos, pela Justiça federal Futebol (Adv.: Henrique Fonseca de
Assim isoladas as competências Araújo). Conselho Nacional de Des-
absolutas, não ocorre defeito de portos.
competência a ser corrigido, pelo Decisão: Pediu vista o Ministro 'Os-
que não conheço do conflito. car Corrêa, depois dos votos dos Mi-
E o meu voto. nistros Relator e Francisco Rezek
não conhecendo do conflito, e do voto
VOTO do Ministro Aldir Passarinho dele
conhecendo e dando pela competên-
O Sr. Ministro Aldir Passarinho: cia do Juiz Federal
Sr. Presidente, conheço do conflito e Presidência do Senhor Ministro
dou pela competência do Juiz Fede- Cordeiro Guerra. Presentes à Sessão
ral. Se, como entendi, o feito que se os Senhores Ministros Djaci Falcão,
encontra na Justiça local vem a im- Moreira Alves, Soares Mufloz, Decio
plicar a a pretensão, em Miranda, Rafael Mayer, Néri da Sil-
estrato a ato executório baixado veira, Alfredo Buzaid, Oscar Corrêa,
526 R.T.J. — 108

Aldir Passarinho e Francisco Rezek. De S. Exa. discordou o Exmo.


Procurador-Geral da República, Ministro Aldir Passarinho dando pe-
Professor Inocêncio Mártires Coelho. la competência do Juiz Federal, «em
Brasília, 31 de agosto de 1983 — virtude da conexão das questões sus-
Alberto Veronese Aguiar, Secretário. citadas, devendo figurar o Conselho
Nacional de Desportos como litiscon-
VOTO (VISTA) sorte, na ação movida perante a Jus-
tiça estadual».
O Sr. Ministro Oscar Corrêa: O Em face da divergência, a vista
Exmo. Ministro Relator, Decio Mi- impunha-se para melhor exame.
randa, não conhecendo do conflito, Nos termos do artigo 115 do
afirmou: CPC há conflito de competência —
«As controvérsias, que se susci- «I — quando dois ou mais juizes se
tam nos presentes autos, têm em declaram competentes».
conta meras relações entre socie- Na hipótese, o conflito estabelecer-
dades de direito privado dedicadas se-ia entre o Juiz Federal da 5? Vara
prática e à exibição do futebol, do RJ — por ter sido deferida limi-
unidas, entre si, por liames volun- nar contra ato do Conselho Nacional
tários de integração nos planos re- de Desportos (fls. 152/153); e o C.
gional e nacional. Tribunal de Justiça de São Paulo,
Nenhuma razão ocorre, no caso, que deferiu liminares em mandados
a indicar a competência da Justiça de segurança requeridos pela Fede-
Federal para o deslinde de diferen- ração Paulista de Futebol e pelo Clu-
ças entre elas, a não ser naquele be Atlético Taquaritinga (fls.
caso especifico em que um órgão 378/379).
da Administração Federal, o Con- 4. Na verdade, como bem salien-
selho Nacional de Desportos, foi tou o Ilustre Relator, o episódio da
chamado à lide judiciária, em ra- intervenção do Conselho Nacional de
zão de certo ato que praticara. Desportos «se isola no conjunto das
Somente este episódio, que se medidas judiciais requeridas» e não
isola no conjunto das medidas judi- é de molde a alterar o caráter abso-
ciais requeridas, suscita a compe- luto da competência, originariamen-
tência da Justiça Federal. te estabelecida, da Justiça Estadual.
A intervenção do CND objetivou,
Num e noutro caso, a competên- apenas, manter a decisão da Federa-
cia, insuscetível de modificação ção Paulista de Futebol, esgotando-
nos termos do artigo 102 do Código se com o próprio ato da intervenção,
de Processo Civil, mantém-se com voltando a decisão da matéria à enti-
caráter absoluto que originaria- dade estadual.
mente ostentava, para ser atendi-
da, quando ausente órgão federal Nestes termos, acompanho o voto
na relação processual, pela Justiça do Eminente Ministro Decio Miran-
estadual, e, em ocorrendo a pre- da, data venta do Eminente Ministro
sença de tal interesse federal, co- Aldir Passarinho.
mo sucede no episódio que envolve E o voto.
Conselho Nacional de Desportos,
pela Justiça federal. EXTRATO DA ATA
Assim isoladas as competências
absolutas, não ocorre defeito de CJ 6.405-RJ — Rel.: Ministro Decio
competência a ser corrigido, pelo Miranda. Suste.: Clube Atlético Bra-
que não conheço do conflito». gantino (Adv.: Elcio Roberto Sarti).
R.T.J. — 106 527

Susdos.: Juiz da 5? Vara Federal — Presidência do Senhor Ministro


Seção Judiciária do Rio de Janeiro e Cordeiro Guerra. Presentes à Sessão
Tribunal de Justiça do Estado de os Senhores Ministros Moreira Al-
São Paulo. Interessados.: Clube Atlé- ves, Soares Mufloz, Dedo Miranda,
tico Bragantino, Grêmio Esportivo Néri da Silveira, Alfredo Buzaid, Os-
Sancarlense e outro (Advs.: Wadih car Corrêa, Aldir Passarinho e Fran-
Helú e outro). Federação Paulista de cisco Rezek. Ausentes, justificada-
Futebol (Adv.: Henrique Fonseca de mente, os Srs. Ministros Djaci Fal-
Araújo). Conselho Nacional de Des- cão e Rafael Mayer. Procurador-
portos. Geral da República, Professor Ino-
cênclo Mártires Coelho.
Decisão: Não conhecido o conflito, Brasília, 13 de outubro de 1983 —
vencido o Ministro Aldir Passarinho. Alberto Veronese Aguiar, Secretário.

CONFLITO DE JURISDIÇÃO N? 6.418 — SP


(Tribunal Pleno)
Relator: O Sr. Ministro Decio Miranda.
Suscitante: Juiz de Direito da 3? Vara de Itu, em exercido na Comarca
de Indaiatuba — Suscitado: Tribunal Regional do Trabalho da 2? Região —
Interessados: Wilma Ims Pires da Cunha — Prefeitura Municipal de Indaia-
tuba.
Competência. Professora municipal em regime trabalhista, e não
no regime definido no art. 106 da Constituição Federal. Competência
da Justiça do Trabalho.
ACÓRDÃO ajuizada inicialmente na Junta de
Conciliação e Julgamento pela pro-
Vistos, relatados e discutidos estes fessora do ensino primário Wilma
autos, acordam os Ministros do Su- Ims Pires da Cunha.
premo Tribunal Federal, em sessão
plenária, na conformidade da ata do O parecer da douta Procuradoria
julgamento e das notas taquigráfi- Geral da República, da lavra do Dr.
cas, por unanimidade de votos, em Moacir Antônio Machado da Silva e
conhecer do Conflito e julgar compe- aprovação do Procurador-Geral,
tente o Tribunal suscitado. Prof. Inocáncio Mártires Coelho, ofi-
Brasília, 19 de outubro de 1983 — cia pela competência da Corte Tra-
Cordeiro Guerra, Presidente — balhista, verbis:
Decio Miranda, Relator. «Em março de 1980, Wilma Ims
Pires da Cunha, professora primá-
RELATÓRIO ria, propôs reclamação trabalhista
contra a Prefeitura Municipal de
O Sr. Ministro Decio Miranda: Indaiatuba, alegando que, após um
Trata-se de conflito negativo de ju- período de afastamento, passou a
risdição entre o Dr. Juiz de Direito perceber salário inferior ao dos de-
em exercício na Comarca de Indaia- mais professores até sua dispensa,
tuba e o Tribunal Regional do Traba- em 1-12-79, quando estava na imi-
lho da 2? Região, a propósito da re- nência de completar a estabilidade
clamação de salários e indenização no emprego. Pleiteou, em conse-
528 R.T.J. — 108

quência, diferenças salariais 13° de natureza trabalhista entre as


salário, indenização dobrada, re- partes a defesa da Municipalidade,
muneração de férias e outras par- resumida na sentença da MM. Jun-
celas acessórias. ta, que reconhece a existência de
A reclamação foi julgada relação de emprego submetida à
parcialmente procedente pela MM. legislação do trabalho.
Junta de Conciliação e Julgamento Se, consoante decorre dos au-
de Itu (fls. 17/19). Em grau de re- tos, o vinculo entre as partes é de
curso, o egrégio Tribunal Regional natureza trabalhista, inexistindo
do Trabalho da 2? Região declarou, lei especial fundada no art. 106 da
de oficio, a incompetência da Justi- Lei Maior, como certifica o MM.
ça do Trabalho, julgando aplicável Juiz suscitante, a competência pa-
ao caso a jurisprudência compen- ra o processo e julgamento da re-
diada na Súmula 123 do Tribunal clamação é da Justiça do Traba-
Superior do Trabalho, que apresen- lho.
ta o seguinte teor: Em caso rigorosamente idên-
Em se tratando de Estado ou tico, o Supremo Tribunal Federal
Município, a lei que estabelece o declarou a competência da Justiça
regime jurídico (art. 106 da Cons- do Trabalho, porque o reclamante
tituição) do servidor temporário celebrara contrato de trabalho
ou contratado é a estadual ou com a Prefeitura e esta não adota-
municipal, a qual, uma vez edita- ra regime de lei especial, admitido
da, apanha as situações preeexis- pela Constituição (CJ n? 6.403, Re-
tentes, fazendo cessar sua vigên- lator Ministro Alfredo Buzaid, DJ,
cia pelo regime trabalhista. In- de 17-6-83).
competente é a Justiça do Traba- 8. Em conclusão, opina esta
lho para julgar as reclamações Procuradoria Geral pelo conheci-
ajuizadas posteriormente à vi- mento do conflito, declarada a
gência da lei especial. competência do egrégio Tribunal
Remetidos os autos à Justiça Regional do Trabalho da 2? Re-
Comum do Estado, o MM. Juiz de gião, para o julgamento dos recur-
Direito da comarca de Indaiatuba sos da decisão da MM. Junta de
deu-se também por incompetente Conciliação e Julgamento de Itu».
para o feito o suscitou conflito pe- (Fls. 27/9).
rante o Supremo Tribunal Federal, E o relatório.
tendo em vista a inexistência de lei
municipal que estabeleça regime
especial para os servidores munici-
pais admitidos ou contratados nas VOTO
condições previstas no art. 106 da
Lei Fundamental. O Sr. Ministro Dedo Miranda (Re-
O egrégio Tribunal suscitado lator): O parecer faz exata aplicação
limitou-se a invocar a Súmula 123 da jurisprudência do Supremo Tribu-
do Tribunal Superior do Trabalho, nal Federal sobre o tema.
mas não fez referência explícita a No caso, não se mostra possuir o
nenhuma lei municipal que even- Município lei especial de regência do
tualmente tivesse estabelecido re- regime jurídico dos servidores admi-
gime jurídico próprio para os pro- tidos em serviços de caráter tempo-
fessores primários. rário ou contratados para funções de
Denota ainda a inequívoca natureza técnica especializada, se-
subsistência do vínculo originário gundo o art. 106 da Constituição.
R.T.J. — 108 529

Logo, a ação da professora primá- pião. Interessados.: Mima Ims Pires


ria contratada, dirigida ao Mu- da Cunha e Prefeitura Municipal de
nicípio, havia de reger-se, como, de Indaiatuba.
resto, foi postulado na petição ini- Decisão: Conheceu-se do conflito e
cial, pela Consolidação das Leis do julgou-se competente o Tribunal sus-
Trabalho. citado. Decisão unânime. Ausente,
Conhecendo do conflito nos termos ocasionalmente, o Sr. Ministro Cor-
do art. 119, I, e, da Constituição, jul- deiro Guerra. Presidência do Sr. Mi-
go competente o Tribunal Regional nistro Moreira Alves.
do Trabalho da 29 Região, suscitado. Presidência do Senhor Ministro
E o meu voto. Cordeiro Guerra. Presentes à Sessão
os Senhores Ministros Djaci Falcão,
Moreira Alves, Soares Mufloz Decio
EXTRATO DA ATA Miranda, Rafael Mayer, Néri da Sil-
veira, Alfredo Buzaid, Oscar Corrêa,
CJ 6.418-SP — Rel.: Ministro Decio Aldir Passarinho e Francisco Rezek.
Miranda. Suste.: Juiz de Direito da Procurador-Geral da República,
31.. Vara de Itu, em exercido na Co- Professor Inocêncio Mártires Coelho.
marca de Indaiatuba. Susdo.: Tribu- Brasília, 19 de outubro de 1983 —
nal Regional do Trabalho da 2f Re- Alberto Veronese Aguiar, Secretário.

MANDADO DE SEGURANÇA N? 20.313 — DF


(Tribunal Pleno)
Relator: O Sr. Ministro Decio Miranda.
Impetrante: Ronaldo Ferreira Dias — A. Coatora: Mesa da Câmara dos
Deputados — Litisconsorte: Ulisses Bezerra Potiguar.
Constitucional. Suplência. Deputado Federal. Suplente de Deputa-
do, nomeado Juiz de Tribunal de Contas do Estado. E inerente à su-
plência uma atuação político-partidária, que não pode conviver com o
exercido do cargo de Juiz de Tribunal de Contas (Constituição, art.
119, III, c/c art. 13, IX). Suplente nomeado juiz renuncia tacitamente
ã suplência, e não volve a ela pela aposentadoria no cargo.

ACÓRDÃO RELATÓRIO
Vistos, relatados e discutidos estes O Sr. Ministro Decio Miranda: Ro-
autos, acordam os Ministros do Su- naldo Ferreira Dias requer mandado
premo Tribunal Federal, em Sessão de segurança contra a Mesa da Cã-
Plenária, na conformidade da ata de mara dos Deputados, alegando que
julgamentos e das notas taquigráfi- aquele respeitável órgão, depois de
cas, por maioria de votos, conceder haver omitido providência, por ele
a segurança. reclamada, de passá-lo do segundo
para o primeiro lugar da relação dos
Brasília, 14 de abril de 1982 — Suplentes de Deputados pelo Estado
Xavier de Albuquerque, Presidente do Rio Grande do Norte, recusa-se,
— Decio Miranda, Relator. agora, a convocá-lo para a vaga dei-
530 R.T.J. —108

xada na representação daquele mes- Câmara dos Deputados a dizer que


mo Estado, em virtude do falecimen- «até a presente data, a Câmara dos
to do saudoso Deputado Djalma Ma- Deputados não recebeu de quaisquer
rinho, ocorrido em 25 de dezembro dos órgãos da Justiça Eleitoral mo-
de 1981. dificação (deve-se ler noticia ou
Aquela primeira providência omi- notificação) de que a ordem de clas-
tida, a que se deveria ter seguido a sificação dos suplentes está altera-
última, decorreria da circunstância da, ou de que o primeiro suplente es-
de haver perdido a primeira suplên- tá impedido de assumir o mandato
cia, em que anteriormente se acha- de Deputado Federal» pelo que não
va, o Sr. Ulisses Bezerra Potiguar, caberia à Presidência da Casa alte-
desde quando, nomeado pelo Gover- rar a ordem existente, sem, com is-
nador do Estado em 4-7-79, tomara so, invadir competência da Justiça
posse no cargo de Conselheiro do Eleitoral, à qual, segundo o art. 137,
Tribunal de Contas, em 18-7-79. V, da Constituição, cabem «o proces-
Sustenta que, consoante o art. 114 samento e apuração das eleições e
da Constituição, «é vedado ao juiz, a expedição dos diplomas». (fls.
sob pena de perda do cargo judiciá- 35/36).
rio, (...) exercer, ainda que em dis- Ulisses Bezerra Potiguar, notifica-
ponibilidade, qualquer outra função do, ingressa nos autos como litiscon-
pública», e, bem assim, «exercer ati- sorte passivo (fls. 40 e segs.). Diz ter
vidade político-partidária». sido eleito primeiro suplente da ban-
Logo, desde quando tomou posse cada do antigo partido Aliança Reno-
no cargo de Juiz do Tribunal de Con- vadora Nacional (Arena). Em julho
tas do Estado, perdeu a primeira su- de 1979, foi nomeado Conselheiro do
plência do cargo de Deputado o Sr. Tribunal de Contas do Estado, tendo-
Ulisses Bezerra Potiguar, sendo ile- se aposentado em 13 de novembro de
gal o procedimento da Mesa da Ca- 1981.
mara dos Deputados, quer anterior-
mente, não modificando a relação E acrescenta:
dos Suplentes, quer por último, não «Durante o tempo em que exer-
cumprindo o art. 257 do Regimento ceu o cargo de Conselheiro, houve,
Interno daquela Casa e deixando de como é público e notório, a trans-
convocar o impetrante para prestar formação dos partidos, com a cria-
o compromisso constitucional como ção de novos, o que obrigou, face à
Deputado, na vaga decorrente do fa- legislação ingressada em vigor, a
lecimento do Deputado Djalma Ma- cada parlamentar, de acordo com
rinho. sua vontade, fazer novo registro de
Requereu o impetrante a notifica- filiação partidária. Este fato se nos
ção da Mesa da Câmara dos Deputa- afigura da máxima importância
dos, na pessoa de seu nobre Presi- para o deslinde da controvérsia.
dente, e bem assim a citação do Sr. Uma vez aposentado, o litisconsor-
Ulisses Bezerra Potiguar, para vir te passivo, nos termos da legisla-
Integrar a lide, na qualidade de litis- ção em vigor, ingressou com sua
consorte passivo. inscrição no Município de Parelhas,
em 13 de novembro de 1981, de re-
Pleiteou, inicialmente, a concessão gistro e filiação partidária, ou seja,
de medida liminar, o que, no período no Partido Democrático Social,
de férias do Tribunal, foi indeferido que foi o sucessor da Aliança Re-
pelo Exmo. Sr. Ministro Presidente. novadora Nacional (Arena), (doc.
Feita a notificação, vieram infor- 5). A vaga conforme é público e
mações do Exmo. Sr. Presidente da notório, na bancada federal da
R.T.J. — 108 531

Arena, com o falecimento do sau- No mérito, alega o litisconsorte,


doso Deputado Djalma Marinho, só em resumo:
ocorreu em 25 de dezembro, do ano a) seja a posse, seja a aposentado-
passado, ou seja, mais de quarenta ria, no cargo de Juiz do Tribunal de
dias do registro de nova filiação Contas, não ocorreram quando surgi-
partidária do litisconsorte passivo. da a vaga na representação federal
do Estado na Câmara dos Deputa-
Como o que realizaram os outros dos, assim tendo podido ele defen-
parlamentares, manifestou o seu dente passar a exercer novamente a
desejo de ser integrante do Partido política partidária, não perdendo os
Democrático Social (PDS), muito direitos inerentes à primeira suplên-
antes da existência de vaga, e po- cia; b) parecer do Senador Atillo Vi-
dia fazê-lo porque estava aposenta- vacqua, lido na Revista de Informa-
do do Cargo de Conselheiro dó Tri- ção Legislativa, edição de janeiro-
bunal de Contas, ou seja, em pleno março de 1969, indica precedentes no
exercício de todos os seus direitos mesmo sentido do que agora se pra=
políticos. Dessa maneira, não é in- ticou.
válido que se afirme, mais uma Em seguida, transcreve trechos do
vez, que a vacância, na bancada parecer com que o nobre Deputado
do PDS veio encontrar o litiscon- Ernani Satyro examinou, na Comis-
sorte passivo, em pleno uso e gozo são de Constituição e Justiça da Ca-
de todas as garantias e em ativida- mara dos Deputados, a controvérsia
de política, como também é públi- ora renovada.
co e notório.
Acentua, por fim, que ele litiscon-
Dessa maneira, o documento que sorte, até ser chamado para ocupar a
está junto ao writ não demonstra, vaga de Deputado, foi mero suplente
data venia, a verdade, porque ape- e, como tal, não se lhe antepunha
nas dá notícia da nomeação do pe- impedimento algum para aceitar o
ticionário e não de sua aposentado- cargo de Conselheiro do Tribunal de
ria. Essa é a situação de fato e de Contas, no qual se aposentou quaren-
Direito do Suplicante.» (fls. 40/91). ta dias antes de surgir a vaga na re-
presentação federal do Estado, que,
Em seguida, o litisconsorte passi- diga-se de passagem, não foi resulta-
vo levanta preliminares, a saber: 2 ) do de qualquer ato de composição
O impetrante reclama contra ato o- politica, mas, da morte do titular.
missivo da Mesa da Câmara, ao pas- Conclui pleiteando que ou não se
so que a situação já agora é outra, conheça do pedido de mandado de
porque o litisconsorte já foi empos- segurança, ou que se indefira a or-
sado no cargo de Deputado; 21 ) não dem. (fls. 40/56).
cabe mandado de segurança contra
ato passível de recurso administrati- O parecer da Procuradoria-Geral
vo com efeito suspensivo; 3?) não há da República, da lavra do
direito liquido e certo a pleitear, Subprocurador-Geral Mauro Leite
quando o chegar a uma conclusão Soares, com aprovação do
depende, como no caso, do exame de Procurador-Geral, Prof. Inocêncio
documentos, que, de resto, são insufi- Mártires Coelho, oficia pelo indeferi-
cientes nos autos, não havendo prova mento do mandado.
de que o impetrante é o segundo su- Eis seu inteiroleor:
plente; 42 ) o ato atacado é da econo-
mia interna do Poder Legislativo, «1. Impetra& inicialmente con-
não podendo ser levado ao exame do tra ato omissivo, temos que com a
Poder Judiciário. posse do litisconsorte passivo cons-

532 R.T.J. — 108

tante dos autos, fls. 62, a seguran- expressamente ao item III do


ça se dirige contra ato concreto. mesmo artigo, é aplicada ao con-
As preliminares argüidas pelo Li- gressista «que deixar de compa-
tisconsorte não procedem. A pri- recer, em sessão legislativa
meira, em face da concretização anual, à terça parte das sessões-
da posse e porque a impetração legislativas da Câmara a que
não perdeu seu objeto nos termos pertencer, salvo doença compro-
de sua fundamentação. A segun- vada, licença ou missão autoriza-
da, porque o Impetrante exerce di- da pela respectiva casa».
reito constitucional, art. 153; § 21, e 4. Em seguida, referindo-se aos
o seu recurso administrativo não arts. 34, I, a, 35, 72 e 114 da Consti-
teria efeito suspensivo. A terceira, tuição Federal, adianta que os mes-
porque a Autoridade coatora atesta mos não têm aplicação no caso,
em suas Informações, fl. 35, que o Porque, verbis:
Impetrante foi classificado como «Trata-se, ali, da perda de
segundo suplente da antiga Aliança mandato de Deputado ou Sena-
Renovadora Nacional nas eleições dor, por desobediência às normas-
gerais realizadas a 15 de novembro proibitivas previstas. Essas pro-
de 1978. A quarta, porque não se bições referem-se à aceitação de
trata de ato interna corporis. cargo, emprego ou função públi-
No mérito, não procede a im- ca, à celebração de determinados
pugnação, conforme bem esclare- contratos, nos termos ali prescri-
cido está no parecer da Comissão tos. Essas proibições, não podem
de Constituição e Justiça da Câma- atingir o suplente Ele tem ape-
ra dos Deputados, Relator Deputa- nas uma expectativa de direito.
do Erriani Satyro, fl. 124, elaborado Não é titular do mandato. Tanto
a respeito da matéria ora em dis- isso é verdade que as proibições,
cussão e da qual nos permitiremos em cada caso, começam da data
transcrever trechos. da «expedição do diploma, ou da
Assim, fls. 127: posse». E ninguém pode, em boa
lógica e com bom senso, susten-
«1? Não se nega ao suplente tar que um diploma de suplente
do Deputado ou Senador o direito seja uin diploma de Deputado ou
de postular a declaração de per- Senador. Nem muito menos,
da de mandato do titular que vier poder-se-á falar em posse. Posse
a incorrer em qualquer das proi- em que? Num diploma de suplen-
bições expressas na Constituição. te? Certamente, não.
Essa faculdade lhe está assegu- A invocação do art. 72 da Cons-
rada pela mesma Constituição, tituição é procedente. De fato, os
art. 35, § 3?, bem como pelo art. membros do Tribunal de Contas
253, § 2?, do Regimento Interno. da União têm os mesmos impedi-
Acontece, no entanto, que não mentos dos membros do Tribunal
se trata, no caso, de Deputado ou Federal de Recursos. Esses impe-
Senador. Não pode perder o man- dimentos estendem-se aos Tribu-
dato quem não o tem. O Sr. Ulis- nais de Contas dos Estados. Entre
ses Bezerra Potiguar, 'até agora, eles figura a proibição de exer-
é apenas o 1? suplente de Deputa- cer atividade político-partidária.
do Federal pela extinta Arena do Acontece, porém, que a condição
Rio Grande do Norte. Além do de suplente não implica no
mais, a perda de mandato, a que exercício de atividade político-
se refere o citado § 3? do art. 35 partidária. A situação de suplente
da Constituição, reportando-se é uma situação estática, e não di-

R.T.J. — 108 533

nâmica. Não existe uma ativida- sou pela cabeça de ninguém que
de de suplente. Uma simples ex- por isso qualquer deles pudesse
pectativa. perder o seu mandato. A filiação
Já o art. 114 da Lei Maior não partidária não é condição para o
se aplica ao debate, e muito me- exercício do mandato.
nos ampara o solicitante. Ali se No caso em debate, acrescente-
trata de perda do cargo judiciá- se até a circunstância de que o 1?
rio, se o seu titular passar a suplente Ulisses Bezerra Poti-
exercer atividade político- guar era filiado á Arena, e a Are-
partidária. Não se cogita de per- na foi extinta. Mesmo tendo ele
da do mandato legislativo nem perdido filiação partidária, mais
do diploma de suplente. São coi- perdido está o Partido, que não
sas inteiramente diferentes». existe mais. Quem pode estar fi-
5. Ao depois, tendo em vista as liado a um partido inexistente? O
alegações do então requerente e que ele não podia fazer, sendo
ora Impetrante quanto à Resolução membro de um tribunal, era
n? 8.688 do Tribunal Superior Elei- filiar-se a qualquer dos novos
toral, no sentido de que se extingue partidos em organização, porque,
a filiação partidária com a investi- ai sim, perderia o seu lugar no
dura em cargo a cujo ocupante se- Tribunal, nos termos do art. 114,
ia vedado exercer atividade item III, da Constituição Fede-
político-partidária, conforme arts. ral».
114, III e 72, jf 3?, da Constituição, 6. A brilhante petição inicial,
doutrinou o Eminente Relator, De- que impressiona à primeira leitu-
putado Ernani Satyro: ra, dirige-se a figuras abstratas
«Temos como válida a alega- que não estão em jogo no caso con-
ção. A aceitação de cargo judi- creto. No momento atual, isto é,
ciário ou equivalente importa na com a abertura de vaga na banca-
extinção da filiação partidária. O da federal Potiguar, não se tem
que não aceitamos é a conse- em vista a figura do Juiz Conse-
quência pretendida pelo solicitan- lheiro do Tribunal de Contas,que
te, Isto é, que a perda da filiação foi Juiz, nem a de suplente que foi
importa na perda do mandato. E Juiz, pouco interessado neste últi-
não aceitamos por duas razões mo ponto que fosse o primeiro su-
fundamentais: plente. E nem interessa também
Primeiro, porque, ainda aqui, argumentação à base do condicio-
não se pode cogitar de perda de
nal, do «se» , quer dizer, «se» o su-
mandato de suplente, e sim de plente fosse convocado, «se», o su-
Deputado ou Senador. O suplente plente devesse ter sua função de
não está investido no mandato de primeiro suplente perdida ou cas-
congressista. E apenas suplente, sada. Suplente parlamentar, seja o
preparado para eventual investi- primeiro ou os que lhe seguem na
dura. ordem de classificação, possui me-
ra expectativa de direito à convoca-
Segundo, porque nunca ouvi- ção, não possuindo direito ad quiri
mos falar em que a perda de fi- -douiretfancsá
liação partidária importe em mesma. No caso concreto, quando
perda de mandato de Deputado ocorreu a vaga e, em conseqüên-
ou Senador. Até há pouco tempo, cia, a prinieirà convocação de su-
antes do prazo fatal para as [ina- plente, o Litisconsorte passivo é
ções, inúmeros congressistas es- que era o primeiro suplente, sem
tavam sem filiação, e nunca pas- nenhum impedimento. Evidente-
539 R.T.J. — 108

mente, não tendo ocorrido a convo- O que lhe dá vida larvada, vida hi-
cação em causa quando o mesmo bernada, para que possa florir em
era Conselheiro do Tribunal de futura eclosão, é o liame de inerên-
Contas do Estado, não iremos exa- cia ao ato original de sua geração: a
minar as hipóteses daí emergen- comunhão de idéias e propósitos em
tes. torno de uma organização partidária
Os dispositivos constitucio- de que tomou emprestada a legenda,
nais invocados pelo Impetrante, depósito de um ideário político.
que foram analisados pelo parecer A suplência vive, permanece, de-
já referido e com o qual concorda- sabrocha em mandato completo, por
mos, dirigem-se às figuras de Juiz força dã carga de vontade politica
e de Deputado, não á do simples que contém e que nela permanece,
Suplente. Pretende o Impetrante a por todo o tempo de sua duração,
aplicação dos mesmos por via re- com as marcas do partido de que
flexa. Não vemos como, principal- nasceu.
mente mediante reconhecimento Não se pode negar, pois, um con-
de direito liquido e certo de ordem teúdo político-partidário nesse man-
constitucional. dato larvado, enquanto não se exer-
Somos pelo indeferimento do cita plenamente, mesmo quando ha-
mandado de segurança.» (fls. ja probabilidade de nunca se vir a
132/7) exercitar.
o relatório. Tanto assim que, desabrochando
em mandato pleno, carrega consigo
VOTO o dever de fidelidade partidária, es-
tabelecido, como linha de principio,
pelo sistema eleitoral brasileiro.
Sr. Ministro Decio Miranda (Re-
lator): Rejeito as preliminares ar- Enquanto é suplente de Senador,
güidas na impugnação do litisconsor- de Deputado, de Vereador, o brasi-
te. leiro está marcado pela filiação par-
o faço com a fundamentação do tidária
dato
que o poderá levar ao man-
completo.
douto parecer, transcrito no relató-
rio. Está na expectativa de vir a exer-
Passo ao mérito. cer mandato dos eleitores do partido
pelo qual concorreu. Tem íntimo in-
Cifra-se a questão sob exame em teresse em que o titular pleno do
verificar se a nomeação para cargo mandato, que está designado para
de Juiz, por afastar o nomeado do substituir, venha a investir-se na
exercicM de atividade politica- função de Ministro de Estado, Secre-
partidária (Constituição, art. 114, tário de Estado, Prefeito de Capital,
III), tem por efeito, entre outros, a não só para maior glória e eficácia
perda da condição de suplente de Se- da ação do Partido, como pelo natu-
nador ou Deputado. ral desejo de chegar, pela suplência,
Não chega a suplência a ser um à sua substituição.
mandato efetivo, pleno, mas configu- Assim, a suplência é, por si mes-
ra, sem sombra de dúvida, um man- ma, um natural e lógico exercício de
dato incompleto, diferido e condicio- expectativas de atividade político-
nal, para cuja compleição o eleitora- partidária.
do nada tem a acrescentar. São fatos
externos ao ato de sua original cons- Se, nessa condição de suplente, al-
tituição, que nele vêm inserir-se, e o guém é nomeado Juiz, e se aos ma-
tornar pleno e completo. gistrados é vedado «exercer ativida-

R.T.J. — 108 535

de politico-partidária» (Constituição, Outra, a aceitação de cargo de


art. 114, III), perde imediatamente a Juiz, como ocorreu com o primeiro
condição de suplente, por natural, ló- suplente, litisconsorte passivo nesta
gica e visceral incompatibilidade causa.
das duas situações. Isto posto, concedo o mandado de
O nobre Deputado Ernani Satyro, segurança requerido pelo impetran-
no parecer que proferiu na Comissão te, segundo suplente.
de Constituição e Justiça da Câmara E o meu voto.
dos Deputados e por esta unanime-
mente acolhido, examinando a pre-
tensãó do ora requerente perante VOTO
aquela Augusta Casa, entendeu que,
ao assumir o cargo de Conselheiro O Sr. Ministro Néri da Silveira: Sr.
do Tribunal de Contas, Ulisses Be- Presidente. Em verdade, penso que
zerra Potiguar perdeu a filiação par- a questão de direito, que se propõe,
tidária. com vistas à decisão deste mandado
Essa perda pareceu a S. Exa. não de segurança, concerne exclusiva-
importar na perda da condição de mente aos efeitos da investidura em
suplente, tal como não importar na cargo de magistratura ou em outro
perda do mandato de Deputado ou- que implique impedimento Idêntico
Senador, visto que, «até há pouco ao do magistrado, para o exercício
tempo, antes do prazo fatal para as de qualquer outra função, especial-
filiações, inúmeros congressistas es- mente, de funções com conteúdo
tavam sem filiação». político-partidário.
Data venta, não me convence o ra- Se, no dia 14 de julho de 1979,
ciocínio, tirado da fase transitória de quando se empossou no cargo de
reabertura de filiações, iniciada com Conselheiro do colendo Tribunal de
a Emenda Constitucional ri? 11, de Contas do Estado do Rio Grande do
1978. Prescindo de argumentar com Norte, o 1? Suplente de Deputado
as exceções transitórias ao regime perdeu esta condição, eis que se cui-
de filiação partidária obrigatória. da de cargo cujo titular a Constitui-
ção, desde logo, prevê fique impedi-
O que sustento é que a suplência, do do exercício de atividade político-
mesmo nessas fases trusitórias de partidária, compreendo que a cir-
transbordos entre partidos, sempre cunstância de, no instante da ocor-
permanece irremissivelmente ligada rência da vaga, de Deputado Fede-
à política partidária e, portanto, não ral, já se encontrar aposentado como
'iode coexistir com o cargo de Juiz. Conselheiro, ter readquirido a filia-
Não é possível admitir que a espe- ção partidária e, assim, estar em
rança de exercício, na mesma legis- condições de exercer atividade
latura, de um cargo de representa- político-partidária, é irrelevante pa-
ção política fiel a um Partido, com ra o desate da presente controvérsia.
todos os anelos inerentes a essa Importa saber é se, no momento do
eventualidade, possa coexistir com o provimento do cargo de Conselheiro
exercício da função judicial, exigen- do TCE, perdeu a condição de 1? Su-
te de absoluto alheiamento à politica plente de Deputado Federal.
partidária.
Da suplência pode haver renúncia Penso que, no sistema estabelecido
explicita ou renúncia tácita. na Constituição, não há como, efeti-
vamente, fugir a esta conclusão: o
Uma das formas de renúncia táci- suplente de deputado, no momento
ta é a mudança de partido, a adesão em que aceita cargo de magistrado,
a outra ideação político-partidária. ou equivalente, perde a situação

536 R.T.J. — 108

jurídica de detentor de título que lhe Dias (Advs.: Célio Silva e Fernando
daria vocação ao exercício de man- Neves da Silva). Autoridade coatora:
dato eletivo, durante a mesma legis- Mesa da Câmara dos Deputados. Li-
latura, para a qual adquiriu esse tisconsdrte: Ulisses Bezerra Poti-
título. A investidura no cargo de ma- guar (Adv.: Hugo Mósca).
gistrado, em razão dos impedimen- Decisão: Pediu vista o Ministro
tos que dai decorrem, opera, auto- Firmino Paz, depois dos votos dos
maticamente, no que concerne a não Ministros Relator, Alfredo Buzaid e
mais subsistir esse título, que viabi- Neli da Silveira, concedendo a segu-
lizaria o exercício do mandato políti- rança. Falou pelo Impte, o Dr. Célio
co, durante o período de sua dura- Silva. Falou pelo Litisconsorte, o Dr.
ção. O título adquirido, antes do pro- Hugo ~ca.
vimento em cargo de magistrado,
para exercício de mandato legislati- Presidência do Senhor Ministro
vo, por sua natureza, de conteúdo Xavier de Albuquerque. Presentes à
político, perde, sem dúvida, a sua Sessão os Senhores Ministros Djaci
eficácia, para o respectivo detentor, Falcão, Cordeiro Guerra, Moreira
por força do impedimento, insito à Alves, Soares Muiloz, Decio Miran-
investidura de magistrado, do da, Rafael Mayer, Firmino Paz, Né-
exercício, em qualquer momento, de ri da Silveira e Alfredo Buzaid.
atividade político-partidária, sendo Procurador-Geral da República,
incompossivel, ao magistrado, ser Professor Inocêncio Mártires Coelho.
Juiz e, ao mesmo tempo, titular de Brasília, 31 de março de 1982 —
situação de conteúdo político, tal co- Jonas Célio Monteiro Coelho, Secre-
mo deter a condição de 1? suplente tário.
de Deputado Federal. De outra par-
te, o fato subseqüente de aposentar- VOTO (VISTA)
se no cargo de magistrado não pode
ter o condão de fazer ressurgir a si-
O Sr. Ministro Firmino Paz: Ro-
tuação de suplente de Deputado, an-
naldo Ferreira Dias, por seu ilustre
tes desaparecida, no curso da mes-advogado, propôs a presente ação de
ma legislatura. Com a investidura pedir mandado de segurança à Mesa
em cargo de magistratura, ou equi-da Câmara dos Deputados, ao funda-
valente, dá-se, ope juras, a extinção
mento, em abreviado, de que, sendo
do título de suplente em causa, cum-
Suplente de Deputado Federal, pelo
prindo entender que houve inequívo-
Estado do Rio Grande do Norte; ten-
ca opção, com a posse, pelo statusdo o Primeiro Suplente Ulisses Be-
de magistrado, inconciliável com ozerra Potiguar, nomeado Conselhei-
de deputado ou suplente, pelo con-ro do Tribunal de Contas do Estado,
teúdo político deste. perdido (textualmente) «a função de
Assim sendo, com essas breves Primeiro Suplente de Deputado Fe-
considerações, ponho-me de inteiroderal», não fora ele, autor da impe-
tração, convocado para preencher a
acordo com o voto do eminente Rela-
vaga que se dera, por morte do De-
tor, para, também, afastando as pre-
putado Djalma Marinho.
liminares, nos termos do parecer da
douta Procuradoria Geral da Repú- 2. Após o brilhante voto do emi-
blica, conceder a segurança nente Ministro José Néri da Silveira,
pedi vista dos autos, para examinar,
EXTRATO DA ATA principalmente, se a argüida perda
da qualidade de Suplente de Deputa-
MS 20.313-DF — Rel.: Min. Decio do Federal, que é de ser, necessaria-
Miranda. Impte.: Ronaldo Ferreira mente, sanção, efeito jurídico negati-
R.T.J. — 108 537

vo, decorrente da prática do acto de Trata -se de matéria de facto, file-


posse no cargo de Conselheiro do xaminável, em ação de mandado de
Tribunal de Contas do Estado, fora segurança. Admito, para argumen-
ou está prevista em alguma regra tar, tenha ocorrido esse facto.
jurídica.
Pretende-se, na inicial, em síntese, Se ocorreu, teria ele perdido o
que o litisconsorte Ulisses Bezerra cargo de juiz; jamais, que é eviden-
Potiguar, pelo facto de haver te, a qualidade de Suplente de
assumido o cargo de Conselheiro do Deputado. Perda, essa, que não está
Tribunal de Contas, perdera a quali- prevista em regra jurídica alguma,
dade de Suplente de Deputado que eu saiba.
Federal, pois é incompatível o cargo
de Juiz com o ser Suplente de E bem lembrar, na hipótese,
Deputado, considerado o previsto no antes, acima, prefigurada, que a
artigo 114, III, da Lei Maior da Re- atividade é de ser do juiz; não, do
pública. facto de ser Suplente de Deputado
Federal. Quem é Suplente de
Essa, a tese fundamental da ação Deputado, pelo facto de o ser, não
de mandado de segurança. age, não exerce atividade.
Dispõe-se, com efeito, na Cons-
tituição Federal, verbis: Agir, de ago, agere, tem, na raiz
«Art. 114. E vedado ao juiz, sob ag, o sentido de conduzir, levar, algo
pena de perda do cargo judiciário: de um a outro lugar. Pressupõe
movimento, ação, acto, que não se
III — exercer atividade ,- políti- põe, exclusivamente, no plano da
co-partidária». imaginação. Exterioriza-se, no mun-
Cura-se, aí, sem dúvida, de do das realidades objetivas.
sanção, imposta a juiz (note-se: Ser é, simplesmente, existir.
juiz), que exerça atividade político- Existir não é agir. Ser Suplente de
partidária. Deputado, portanto, não é agir, não
São pressupostos fácticos, cau- é exercer atividade de qualquer na-
sais, da perda do cargo judicial, que tureza.
alguém seja a) juiz, b) exerça
atividade e c) político-partidária. Isso posto, se não há, dentro no
Não basta, para tanto, que o juiz sistema jurídico brasileiro, regra
exerça atividade política. E preciso jurídica, em que previsto esteja que
mais: que a atividade política seja a assunção do cargo de juiz importa
partidária. E o que se diz, na regra na perda da titularidade da Suplên-
jurídica constitucional. cia do cargo de Deputado Federal,
A míngua de qualquer desses ele- não me inclino a reconhecer essa
mentos — a), b) e c), não incide a perda, que é efeito jurídico negativo,
norma jurídica constitucional supre- sanção, só possível de existir, a po-
ma. O juiz não perde, pois, o cargo. der de previsão expressa e clara, em
Não há produção de efeito jurídico lei, segundo os princípios.
algum.
8. Diante do exposto, com a devi-
5. Dir-se-á, todavia, que, no caso da vênia dos meus eminentes cole-
sob julgamento, o juiz, Conselheiro gas, que votaram em sentido contrá-
do Tribunal de Contas do Estado, ao rio, julgo improcedente a ação de
assumir esse cargo, era e continuou mandado de segurança e, conseqüen-
a ser Suplente de Deputado Federal; temente, indefiro o pedido inicial.
logo, argUmenta - se, exerceu ativida-
de político-partidária, sendo juiz. Assim, voto.
538 R.T.J. — 108

VOTO um diploma de suplente no tempo


em que não havia impedimento ne-
O Sr. Ministro Rafael Mayer: Sr. nhum. Por exemplo, tenho um diplo-
Presidente, peço vênia ao eminente ma de bacharel em Direito, não pos-
Ministro Firmino Paz para acompa- so advogar, mas não deixei de ser
nhar o voto do eminente Relator, a bacharel em Direito. A sanção é que,
cuja fundamentação, quando da pro- se ele optar pelo exercício do man-
lação de seu voto, já havia dado a dato, perde a judicatura. Agora, o
minha anuência. fato é que já estava incorporado ao
Cuido que nenhuma situação em seu patrimônio cívico — e é patrimô-
contraste com a norma constitucio- nio sobre todos os aspectos — esse
nal é sustentável. Tanto condenada título de suplente. Ele foi magistra-
pela Norma Maior a acumulação do. Tem um título de bacharel em
dessas situações — que são, aliás, Direito. Fica proibido de advogar?
um desdobramento da proibição do Fica mas, se ele deixa de ser magis-
art. 6? da Constituição — que o in- trado, pode advogar.
divíduo que seja investido em função Sr. Ministro Moreira Alves: V.
de um dos Poderes não poderá exer- Exa. me permite? Ele terá de
cer a de um outro. Embora, no caso, inscrever-se, novamente, na Ordem
não se trate propriamente de um ou- dos Advogados. Não volta a ser ad-
tro Poder, mas de outras atividades, vogado automaticamente.
equiparadas às do Poder Judiciário, Sr. Ministro Cordeiro Guerra:
a verdade é que uma situação con- Mas não deixou de ser bacharel.
trária à norma constitucional impor-
ta, desde logo, seus efeitos, e ela não Sr. Ministro Moreira Alves: Não
pode persistir validamente. deixou de ser bacharel, mas deixou
de ser advogado. E o problema é ser
Se o suplente de Deputado assu- advogado.
miu, em determinado momento,
uma função que era incompatível, Sr. Ministro Cordeiro Guerra:
por equiparada á de Juiz — a ativi- No momento, ele não exerce o man-
dade político-partidária, compreensi- dato. Agora, que está aposentado, é
va também da situação de suplente, que querem dizer que ele perdeu o
porque suplente implica uma situa- mandato antes? Onde está a declara-
ção potencial de vir a exercer o car- ção disto? Qual a lei que prevê isso?
go de Deputado — a conseqüência é Eu deixei de ser bacharel? Eu estou
que houve perda desse mandato, incompatível com a advocacia, mas
porquanto é conseqüência da própria não deixei de ser bacharel.
função de Juiz, o não poder exercitá- Se eu me aposentar, e a Ordem
lo em face da norma constitucional. dos Advogados me aceitar, eu volto
Deste modo, peço vênia para a advogar.
acompanhar o voto do eminente Re- De modo que, com a devida vênia
lator, concedendo o Mandado de Se- de todos que pensam em contrário,
gurança. eu me solidarizo com o eminente Mi-
nistro Firmino Paz, indeferindo o pe-
VOTO dido.

O Sr. Ministro Cordeiro Guerra: VOTO


Sr. Presidente, a Constituição prevê
que o magistrado perca a magistra- Sr. Ministro Djacl Falcão: Sr.
tura se exerce função político- Presidente, também me situo na li-
partidária. Eu distingo: ele recebeu nha do voto do eminente Relator e
R.T.J. — 108 539

ressalto que, apreciando caso seme- go de magistratura, continuasse a


lhante perante o Tribunal Superior exercer o mandato de deputado e,
Eleitoral em 1970 — se não me falha consequentemente, e além disso, ati-
a memória — tive oportunidade de vidade político-partidária, estaria
dizer: não se cuida de mero impedi- sujeito a procedimento para perda
mento, mas de incompatibilidade en- do cargo de magistrado, regulado na
tre a função de magistrado e a ativi- Lei Orgânica da Magistratura Nacio-
dade político-partidária determinan- nal. Quer sob um aspecto, quer sob
te de uma proibição legal. Em con- outro, a simples ocorrência do fato
seqüência, não há lugar para uma caracterizador da incompatibilidade
suspensão da filiação partidária. Se não bastaria em si mesma, mas de-
desobedecida a vedação, o titular mandaria a instauração de procedi-
perde o cargo; se respeitada, óbvia é mento regular para a produção do
a perda da filiação político- efeito correspondente.
partidária. Foi exatamente o que Não entro nesse exame, mas posso
ocorreu no caso objeto deste manda- admitir que o litisconsorte se haja
do de segurança. investido irregularmente no cargo de
Acompanho o eminente Ministro- conselheiro do Tribunal de Contas.
Relator, concedendo a segurança. Posso admitir que essa investitura
seja questionável, e que a aposenta-
VOTO doria nela conquistada seja, even-
tualmente, desconstituível; mas não
O Sr. Ministro Xavier de me parece, data venta, que o fato de
Albuquerque (Presidente): Diante da exercer atividade politica, pela cir-
fundamentação estritamente consti- cunstância de deter uma suplência
tucional do pedido, não me posso exi- de mandato parlamentar federal,
mir de votar. E, com a vênia do Re- houvesse de fenecer pelo só fato, su-
lator e dos colegas que o seguem, perveniente, da aceitação de cargo
acompanho a corrente que denega a equiparado aos de magistratura.
segurança. Em suma, as conseqüências dos
Parece-me que os impedimentos e fatos previstos na Constituição ope-
incompatibilidades que a Constitui- ram, não de modo virtual, mas me-
ção enumera, seja para os detento- diante procedimento regular, que se
res de mandato parlamentar, seja havia de instaurar e não se instau-
para os magistrados e detentores de rou.
cargos equiparados, não operam de Também denego a segurança.
modo automático, ou virtual, senão
que mediante procedimento instau- VOTO
rado para o fim de fazer incidir, em
cada caso, a norma proibitiva. Sr. Ministro Moreira Alves: Sr.
Se o litisconsorte passivo não fosse Presidente, com a devida vênia do
suplente, mas deputado em nho o voto doFirmino
Sr. Ministro Paz, acompa-
eminente relator.
exercício, e se, por absurda figura-
ção, fosse nomeado conselheiro do
Tribunal de Contas e não renuncias- VOTO
se ao mandato, ele estaria sujeito,
como deputado em exercício, a pro- Sr. Ministro Soares Mtnloz: Sr.
cedimento específico, instaurado pe- Presidente, data venta do voto do
rante a Mesa da Câmara, para a eminente Ministro Firmino Paz,
perda do mandato de deputado. Se, acompanho o eminente Relator. Não
ainda por absurdo, investido em car- se pode conceber a pretendida cumu-

590 R.T.J. — 108

lação, sob pena de admitir-se que o Neves da Silva). Autoridade coatora:


Suplente, em assumindo o cargo de Mesa da Câmara dos Deputados. Li-
Conselheiro do Tribunal de Contas, otisconsorte: Ulisses Bezerra Poti-
fez para perder esse mesmo cargo, guar (Advs.: Hugo Mósca).
pois essa seria a conseqüência se ele Decisão: Concedeu-se a segurança,
conservasse a condição de Suplente vencidos os Ministros Firmino Paz,
de Deputado Federal, o que seria um Cordeiro Guerra, e o Presidente.
ilogismo. Se ele aceitou o cargo de
Conselheiro, incompatível com a fun- Presidência do Senhor Ministro
ção preexistente de Suplente de De- Xavier de Albuquerque. Presentes à
putado, é porque desta se desvincu- Sessão os Senhores Ministros Djaci
lara automaticamente. Falcão, Cordeiro Guerra, Moreira
Alves, Soares Mufloz, Decio Miran-
De sorte que acompanho o eminen- da, Rafael Mayer, Firmino Paz, Né-
te Relator. ri da Silveira e Alfredo Buzaid.
Procurador-Geral da República,
EXTRATO DA ATA Professor Inocêncio Mártires Coelho.
MS 20.313-DF — Rel.: Min. Decio Brasília, 14 de abril de 1982 —
Miranda. Impte.: Ronaldo Ferreira Jonas Célio Monteiro Coelho, Secre-
Dias (Advs.: Célio Silva e Fernando tário.

MANDADO DE SEGURANÇA N? 20.315 — DF


(Tribunal Pleno)
Relator: O Sr. Ministro Néri da Silveira.
Impetrante: Deuslet Barbosa — Autoridade coatora: Presidente da Re-
pública.
Militar. Tempo de serviço. Tiros de Guerra. Transferência para a
Inatividade. Não se considera, para os efeitos da Lei n? 1.156, de 1950,
o período de aluno de Tiro de Guerra, mesmo sediado em zona com-
preendida pelo Decreto n? 10.490-A, de 1942. Precedentes do STF, nos
Mandados de Segurança n?s 19.849-GB, a 10.6.1970, e 20.304-8/DF, a
1?.4.1982. Mandado de Segurança indeferido.
ACORDA° da Reserva Remunerada do Exérci-
Vistos, reatados e discutidos estes to, domiciliado nesta Capital, impe-
autos, acordam os Ministros do Su- trou mandado de segurança contra
premo Tr nal Federal, em Sessão ato do Excelentíssimo Senhor Presi-
Plenária, na conformidade da ata de dente da República, consubstanciado
julgamentos e notas taquigráficas, à no decreto de 24-9-1981, publicado no
unanimidade, indeferir o pedido. Diário Oficial de 27 seguinte, o qual,
ao lhe conceder transferência para a
Brasília 22 de abril de 1982 — Reserva Remunerada fê-lo sem o
Xavier de Albuquerque, Presidente beneficio do art. 1?, da Lei n? 1.156,
— Néri da Silveira, Relator. de 1950, o que lhe permitiria atingir
a inatividade militar, com os proven-
RELATORIO tos do posto de General de Divisão.
O Sr. Ministro Néri da Silveira Alega o impetrante, a tanto, que
(Relator): Deuslet Barbosa, militar serviu no Tiro de Guerra 140-RJ, na

R.T.J. — 106 541

Zona de Guerra abrangida pelo De- ça: a) «os efeitos do tempo passado
creto n? 10.490-A, de 1942, no período como aluno do Tiro de Guerra n? 140-
de 30-11-1943 a 12-10-1944, situação re- RJ» e b) «o alcance do vocábulo
conhecida pela Administração, ha- «militares» inserido no artigo 1? da
vendo o Boletim Interno n? 40 DGP Lei n? 1.156, de 1950» (item 7 — fls.
publicado, a 4-3-1966, a averbação de 60).
10 meses e 13 dias, correspondentes
ao tempo de serviço militar prestado As questões assinaladas, responde
pelo impetrante, «como de efetivo a autoridade indicada coatora, nos
serviço e para todos os efeitos le- itens 8 a 39 das informações, nos se-
gais, de acordo com o Aviso n? 425- guintes termos (fls. 60/69):
D/5E, de 3 de novembro de 1964».
Acrescenta que, a 15-12-1966, «o Bole- «8. A resposta à primeira inda-
tim Interno n? 234 do DGP publicou gação deve ser buscada no
a averbação dos benefícios da Lei n? Decreto-Lei n? 3.940, de 1941, que
1.156, em favor do impetrante, que fornecia, à época, os conceitos bá-
passou a figurar nos seus assenta-1 sicos sobre tempo de serviço do
mentos» (sic). Entretanto, o Aviso Militar, ao estatuir:
n? 2, de 26-1-1972, tornou insubsisten- «Art. 83
te o anterior Aviso n? 425/1965, com
base no qual se dera a averbação. 3? Definem-se, como se se-
Destaca o impetrante, na inicial guem, as expressões: anos de
(fls. 4), que poderia ter alcançado a efetivo serviço, de praça, de ser-
inatividade, com apoio no art. 60, da viço, de serviço completo, de ser-
Lei n? 4.902, de 1965, aos 25 anos de viço público e tempo computável
serviçõ, sem qualquer prejuízo, sus- para fins de inatividade.
tentando que «esta lide não existiria
se, ao invés de continuar trabalhan- Anos de efetivo serviço ou
do, houvesse requerido transferência tempo de efetivo serviço é o lap-
para a reserva desde 18 de maio de so de tempo contado dia a dia,
1968». entre a data inicial de praça e a
do licenciamento, transferência
Discute a seguir, o requerente a para a reserva ou reforma do ofi-
condição do atirador dos Tiros de cial ou da praça,com dedução
Guerra, sustentando o status de mili- dos períodos não computáveis
tar (fls. 6/10). por lei e desprezadas as suple-
Requer, afinal, o impetrante o de- mentações provenientes de guar-
ferimento do wrlt no sentido de que nições especiais, decênios sem li-
seja reconhecido o direito de se cença, etc. O tempo dobrado de
transferir para a Reserva Remune- serviço em campanha é conside-
rada com os proventos de General rado como efetivo serviço.
de Divisão, com efeito retroativo a Anos de serviço ou de pra-
24-9-1981, data do decreto que o ça, ou tempo de serviço, de pra-
transferiu para a inatividade, como ça, ou computável para fins de
Coronel. inatividade, é o período de tempo
Vieram as informações solicitadas contado como no caso anterior
(fls. 58/69), onde o Chefe do Poder porém acrescido de outros perío-
Executivo, adotando o pronuncia- dos de tempo de caráter ou natu-
mento do Ministério do Exército, reza militar, que forem por lei
constante do Parecer n? 02/82, res- também concedidos: tempo do-
salta serem dois os aspectos básicos brado, guarnições especiais,
emergentes do mandado de seguran- períodos de curso de Colégio Mi-

542 R.T.J. — 108

litar, decênios sem licença, etc. pode ele servir de suporte fático
Não pode ter início antes da Ida- para a concessão do benefício que
de de 15 anos». ora se pretende.
Observe-se que o diploma Já ficou esclarecido que a
jurídico em foco admitia como Lei n? 1.156, de 1950, dirige-se aos
Efetivo Serviço exclusivamente o militares que prestaram serviço na
espaço de tempo contado dia a dia zona de guerra definida pelo De-
a partir da data de praça — que, creto n? 10.490-A, de 1942. Vejamos
no caso, ocorreu em 1 de abril de se o impetrante, à época, detinha o
1996 — e o tempo dobrado de servi- status de militar.
ço em campanha. Quaisquer ou- O Decreto-Lei n? 3.084, de
tras modalidades de tempo de ser- 1941 — Estatuto dos Militares cita-
viços eram consideradas como «a- do no pedido, dando a conceituação
créscimo» e incluídas na rubrica de militares da ativa, assim pre-
Anos de Serviço, para fins de inati- ceituava:
vidade. Art. 42. São militares da ati-
Sistemática idêntica foi ado- va os cidadãos que, a serviço das
tada pelo Estatuto dos Militares armas no Exército e na Armada,
promulgado em 1946 (Decreto-Lei delas fazem profissão êxclusiva,
n? 9.698), art. 97, §§ 1? e 2?, alíneas permanente ou em caráter
a e b, bem como pelos Estatutos transitório.
subseqüentes, a saber: Parágrafo único. São conside-
Decreto-Lei n? 1.029, de 1969 rados em serviço das armas em
— art. 80, §§ 1? e 2?, e 81, suas caráter transitório os militares
alíneas e parágrafos; da reserva, quando convocados
ao serviço ativo, .e os cidadãos
Lei n? 5.774, de 1971 — arts. incorporados ao Exército e à Ar-
140 e 141, itens I a VI; e mada para a prestação do servi-
Lei n? 6.880, de 1980, sob cu- ço militar.
ja égide se efetivou a inativação E quanto à função militar, es-
em causa. tabelecia:
Com efeito, referido diplo- Art. 45. A função militar
ma, ao dispor sobre tempo de efeti- caracteriza-se pelo exercício,
vo serviço, também não inclui o transitório ou permanente, da
tempo passado como aluno de ór- atividade militar, como profissão
gão de formação da reserva naque- exclusiva na tropa, na esquadra
la categoria (art. 136). ou nos serviços, em graduação,
posto ou comissão militar, cons-
Ao contrário, considera-o co- tante de leis e regulamentos do
mo acréscimo, relacionando-o na Exército ou da Armada».
rubrica Anos de Serviço computá- (Grifou-se).
vel somente no momento da passa-
gem do militará situação de inati- Preceituações idênticas foram
vidade e para esse fim — Art. 137, introduzidas no Decreto-Lei n?
III, g. 1?. 3.864, de 24 de novembro de 1941 —
artigos 42, parágrafo único, e 45.
13. Ora, estabelecendo a lei, ta-
xativamente, que tal período é con- 16. Convém ficar desde logo es-
siderado acréscimo e, como tal, só clarecido que o termo «incorpora-
tem eficácia para complementação ção», na terminologia militar, sig-
de tempo para a inatividade, não nificava, à época, e ainda signifi-

R.T.J. — 108 593

ca, o ato de inclusão do convocado Importa salientar, que os


no serviço ativo das Forças Arma- alunos de Tiros de Guerra não
das. eram, à época, considerados pra-
17. Não melhora a posição do ças especiais. Tanto isso é verda-
Impetrante a invocação que faz do de, que não foram, sequer, in-
artigo 20 do Decreto-Lei n? 3.084, cluídos no Quadro Hierárquico de
de 1941. Referido dispositivo legal, que trata o art. 85, § 2?, do
dispondo sobre a incorporação dos Decreto-Lei n? 3.084/41 e do
convocados para o serviço militar, Decreto-Lei n? 3.864/41. Ali, os úni-
estabelecia: cos contemplados são os alunos
das Escolas Preparatórias de Ca-
Art. 20. detes.
§ 1? Na incorporação dos con- Acresce, ainda, que os Tiros
tingentes anuais, levar-se-ão em de Guerra — como o impetrante
conta os seguintes princípios ge- admite na peça vestibular — eram
rais: considerados associações.
o Serviço Militar é pes- Funcionavam como escola de
soal, nacional e obrigatório; preparação militar, porém, sem
caráter de forças militares ou
o Serviço Militar é igual militarizadas, tal como estabelecia
para todos; o artigo 31 do Decreto n? 243, de 18
c) o Serviço Militar ativo é de julho de 1935 — Regulamento da
exclusivamente consagrado à Diretoria do Serviço Militar e da
instrução do contingente. Reserva.
(Grifou-se). Uma das regalias conferidas
18. Pelo que se infere do precei- aos seus associados era, precisa-
to supratranscrito, o principio de mente, a dispensa de incorporação
igualdade preconizado na letra b ao Exército ativo, nos moldes pre-
não tem o elastério que lhe preten- figurados na letra a do artigo 37,
de dar o impetrante. A igualdade do precitado ordenamento jurídico.
ali visualizada diz respeito à pes- Como se observa, não se
soa (para não haver privilégios, atribuindo aos Tiros de Guerra,
distinção de classe, de cor ou de por imposição regulamentar, ca-
religião), em obediência ao dispos- racterísticas de forças militares ou
to no artigo 164, da Constituição militarizadas, pacifica era a sua
Federal de 1937, que determinava: coexistência com o preceito inscul-
«Todos os brasileiros são obri- pido no § 3? do art. 3? do Decreto-
gados, na forma da lei, ao servi- Lei n? 3.084, de 1941.
ço militar e a outros encargos ne- 2 certo que o impetrante te-
cessários à defesa da pátria, ve averbado em seus Assentamen-
nos termos e sob as penas da tos o período questionado — de 30
lei». de novembro de 1943 a 12 de outu-
19. Fica, assim, evidenciado, bro de 1944, passado como aluno do
que o impetrante — então aluno Tiro de Guerra n? 140-RJ — como
sendo de efetivo serviço.
(associado) do Tiro de Guerra n?
140-RJ — não tinha, por lei, o sta- Essa averbação, no entanto,
tus de militar, nem estaria capaci- além de ter sido efetuada em 1966
tado a exercer a função militar nos — quase 22 (vinte e dois) anos
termos predefinidos no artigo 45, após a conclusão da instrução mili-
retrotranscrito. tar em destaque — não teve apoio

544 R.T.J. — 108

em lei, foi processada com fulcro direito dos de n?s 425-D-5-E, de 03


no Aviso Ministerial n? 425/D/5/E, de novembro de 1964, 145-D-3-C, de
de 3 de novembro de 1964. 1 de junho de 1966, e 171-D-3-C, de
Sobredito Aviso, oportuno 23 de junho de 1966, estabelecendo
salientar, teve por justificação que os tempos de serviço já aver-
duas decisões judiciais (Mandado bados com base nos referidos atos,
de Segurança n? 10.133 e Apelação teriam efeitos apenas para os fins
Cível n? 15.904) e a Lei n? 4.375, de da letra b do § 2? do artigo 97 do
1964. Decreto-Lei n? 9.698/46 — Estatuto
dos Militares então em vigor. Em
As decisões judiciais, é sabi- outras palavras, somente seriam
do, somente têm força de lei entre considerados como acréscimo e pa-
as partes no processo. E a Lei n? ra fins de inatividade.
4.375/64 — que somente entrou em
vigor em janeiro de 1966, após a Por fim, em 26 de janeiro de
sua regulamentação (art. 81) — 1972, foi expedido o Aviso n? 02
trata da matéria no parágrafo úni- que, com fulcro nos artigos 138, §§
co do artigo 63, nos seguintes ter- 2? e 3? e 141, item III, § 1? da Lei n?
mos: 5.774, de 1971, dispõe sobre o côm-
«Art. 63 puto do tempo de serviço prestado
Parágrafo único. Igualmente em OFR, e torna nulas as averba-
será computado para efeito de ções da Lei n? 1.156, de 1950, feitas
aposentadoria, o serviço prestado em decorrência de serviço militar
pelo convocado matriculado em prestado em Órgão de formação da
Orgão de Formação da Reserva Reserva.
na base de 1 (um) dia para perío-
do de 8 (oito) horas de instrução, Pelo que até aqui se expôs,
desde que concluam com apro- fica evidenciado que o impetrante,
veitamento a sua formação». época, não detinha a. situação
(Gritos não do original). jurídica de militar da ativa.
A averbação da vantagem Desse modo, inexistindo dis-
da Lei n? 1.156, de 1950, igualmen- positivo legal que autorize a exten-
te, não teve embasamento legal são do benefício da Lei n? 1.156 de
nem no prefalado Aviso n? 425/64 1950, aos alunos (ou sócios ?) de
que a ela não se refere. Ao que pa- Tiro de Guerra, não podia a Admi-
rece, a publicação correspondente nistração conceder tal vantagem
no BI n? 234-DGP, de 25 de dezem- ao impetrante por ocasião de sua
bro de 1966, foi efetuada, pura e transferência para a reserva re-
simplesmente, em conseqüência de munerada.
haver sido averbado, a favor do
impetrante, o tempo de aluno de Se nas leis mais recuadas, a
Tiro de Guerra como efetivo servi- definição do status do aluno de Ti-
ço. ro de Guerra, é nebulosa, como se
Por todas essas razões, e alega na inicial, a conceituação e
ainda apoiado em Pareceres da características de militar da ativa
douta Consultoria Geral da Repú- estão expressas nos artigos 42 e
blica, aprovados pelo Exmo. Sr. seu parágrafo único, 43, § 1?, 44 e
Presidente da República, o Minis- 45 do Decreto-Lei n? 3.084/41; arti-
tro do Exército de então, em Aviso gos 42, parágrafo único, 43, § 1?, 44
n? 234-D1-GB, de 31 de julho de e 45 do Decreto-Lei n? 3.864, de
1967, decretou a nulidade de pleno 1946, estes assim redigidos:

R.T.J. — 108 545

«Art. 2? São militares, todos gão de Formação da Reserva com-


os brasileiros incorporados às putado como de efetivo serviço.E
Forças Armadas, com situação evidente que, não sendo tal período
definida na hierarquia militar.» computado para todas as vanta-
«Art. 5? No decorrer de sua gens da lei geral, com maior ra-
carreira, o militar pode zão, não pode ser ele considerado
encontrar-se na ativa, na reserva para efeitos de vantagens criadas
ou na situação de reformado. por leis especiais, dirigidas aos
1? Militar da ativa é o que, militares que prestaram serviço
ingressando na carreira, faz dela nas condições que explicitam.
profissão, até ser transferido pa- Sem préstimo, para a hipó-
ra a reserva dos quadros da ati- tese em exame, os invocados arti-
va, licenciado ou reformado. gos 59 e 60 da Lei n? 4.902, de 1965.
(Grifou-se).» O primeiro dispositivo citado asse-
E o termo «incorporação» é defi- gura, aos militares beneficiados
nido pelo artigo 57 do Decreto-Lei por uma ou mais das leis que men-
n? 9.500, de 23 de julho de 1946, do ciona, o direito aos proventos rela-
seguinte modo: tivos ao posto ou graduação a que
seria promovido em decorrência
«Incorporação é o ato de inclu- da aplicação das leis referidas. E o
são do convocado ou do voluntá- artigo 60 assegura, simplesmente,
rio no serviço aUvo do Exército, ao militar, nas condições ali con-
da Marinha ou da Aeronáutica». templadas, o direito à transferên-
cia, a pedido, para a Reserva Re-
Desenganadamente, não se munerada a partir da data em que
trata, na espécie, de direito adqui- completar 25 (vinte e cinco) anos
rido, de vez que inexiste lei da épo- de efetivo serviço.
ca, que estabeleça seja o tempo
passado, como sócio de Tiro de Como se observa, a lei so-
Guerra, considerado de efetivo mente assegurou o direito aos pro-
serviço, do mesmo modo que se ventos de posto superior àqueles
constata a ausência de qualquer que eram titulares das vantagens
disposição legal que lhe atribuía a das leis ali especificadas, o que
condição jurídica de militar da ati- não é o caso do impetrante, cuja
va, para efeitos de vantagens averbação da Lei n? 1.156, de 1950,
oriundas de leis especiais, como é foi processada em 15 de dezembro
o caso das Leis Ws 616, de 1949, e de 1966 (portanto em data poste-
1.156, de 1950, que se destinam aos rior à vigência plena da Lei n?
Militares que prestam serviços de 4.902/65), e teve por fundamento o
guerra na campanha da Itália e na tempo passado como aluno do Tiro
zona de guerra definida pelo De- de Guerra n? 140-RJ, averbado
creto n? 10.490-A. com fulcro no Aviso n? 425-D-5-E,
de 1964.
O Aviso Ministerial n? 02, de
1972, que é criticado e mencionado 38. Precitado Aviso, não é de-
como desrespeitoso ao direito do mais repetir, foi entre outros, de-
Impetrante, como norma adminis- clarado nulo de pleno direito pelo
trativa que é, não se dissociou da de n? 234-D1-GB, de 31 de Julho de
letra da lei. Apenas se limitou a fa- 1967. Logo, não nos parece válido o
zer cumprir o estatuído no artigo argumento de que «se o impetran-
141, item III, 0 1?, da Lei n? te, ao invés de continuar traba-
5.774/71, que não permite seja o lhando, houvesse requerido trans-
tempo passado como aluno de Or- ferência para a reserva desde 18

546 R.T.J. 108

de maio de 1968 (com 25 anos de rém, haver sido anulada essa aver-
serviço), esta lide não existiria». bação, em decorrência do Aviso n? 2,
Anulado o ato que deu origem a de 26-1-1972.
averbação do tempo passado como Sustenta o Impetrante que, por
aluno de Órgão de Formação como força do art. 60, da Lei n? 4.902, de
de efetivo serviço, nulos ficaram 16-12-1965, em data anterior ao Aviso
todos os demais atos efetuados em n? 2/1972, adquiriu o direito à Reser-
função daquele. va Remunerada, não mais podendo,
39. Fica, portanto, demonstra- assim, operar o referido cancela-
do, nenhum ser o direito do impe- mento da averbação, quanto ao im-
trante, por inexistir disposição de petrante.
lei que autorize a concessão do be- Reza o art. 60 aludido:
nefício pleiteado aos então alunos
(sócios) de Tiro de Guerra. Se «Fica assegurado ao militar que,
constitui injustiça, como alega o na data de 10 de outubro de 1966,
requerente, a inaplicabilidade das contar 20 (vinte) ou mais anos de
Leis n°s 616/49 e 1.156/50 aos então efetivo serviço o direito ã transfe-
alunos de Tiros de Guerra, não me- rência, a pedido, para a Reserva
nos injusto é a sua não aplicação Remunerada a partir da data em
aos militares da ativa que, à épo- que completar 25 (vinte e cinco)
ca, prestavam serviço em Unida- anos de efetivo serviço.»
des Militares sediadas em localida- Possuindo, à data dessa lei, 20
des não abrangidas pelo Decreto n? anos, 6 meses e 10 dias de serviço,
10.490-A. Daí, a inarredavel conclu- completou 25 anos de serviço a 1-4-
são de que nem tudo que é justo, é 1971, ou, segundo alega, considerado
legal.» o período que então se averba de 10
Pronunciou-se no feito, às fls. meses e 13 dias, desde 18-5-1970, es-
72/75, a douta Procuradoria-Geral da taria intitulado a transferir-se para
República, no sentido do indeferi- a Reserva Remunerada.
mento da Impetração, reportando-se Sucede, entretanto, que o cancela-
ao parecer emitido no Mandado de mento
Segurança de n? 20.204, de que Rela- 2/1972,da averbação, pelo Aviso n?
fez-se, à evidência, segundo o
tor o eminente Ministro Decio Mi- entendimento de falta de fundamen-
randa. to legal para considerar como mili-
E o relatório. tares os alunos dos Órgãos de For-
mação da Reserva, qual observou o
VOTO Senhor General Chefe do Departa-
mento Geral do Pessoal, no Ofício n?
45, de 12-3-1979, em que propunha
O Sr. Ministro Néri da Silveira o restabelecimento das aludidas a-
(Relator): O impetrante assentou verbações. Nesse documento ( fls.
praça a 1-4-1946 ( fls. 17). No período 33/36), é certo, observou S. Exa. que
de 30-11-1943 a 12-10-1944, foi aluno do esse «reconhecimento jà vinha sendo
Tiro de Guerra, n? 140, no Rio de Ja- negado desde 1967, através dos Avi-
neiro. Esse período foi mandado sos n? 315/D1/GB, de 20-10-67 e
averbar em seus assentamentos, co- 102/D1/GB, de 22-3-68, tornados in-
mo tempo de serviço militar, com subsistentes pelo Aviso n? 2/72.»
base no Aviso n? 425/1964 ( fls. 30)
(Boletim Interno n? 234, de 15-12- Não parece, assim, desde logo,
1966), considerando-se, outrossim, Possível, no âmbito do mandado de
essa averbação para os efeitos da segurança, quanto a esse aspecto,
Lei n? 1.156/1950 (fls. 31). Ocorre, po- reconhecer estivesse o impetrante
R.T.J. — 108 547

com direito adquirido, por força do saudoso Ministro Adaucto Cardoso,


citado art. 60, da Lei n? 4.902, a onde o Supremo Tribunal Federal
transferir-se à inatividade, com a quanto ao serviço militar, afirmou
subsistência dos efeitos da averba- que, como tal não se conceitua, para
ção de tempo de serviço, relativo ao os efeitos da Lei n? 1.156/50, o ades-
Tiro de Guerra, em ordem a não se tramento ministrado pelos Cursos de
poder operar o cancelamento da re- Instrução Pré-Militar e Tiros de
ferida averbação, certo que perma- Guerra.
neceu na atividade até 1981, somente Em seu pronunciamento, analisou
quando requereu transferência á Re- a quaestio Puis o Senhor Ministro
serva. O entendimento firmado na Decio Miranda, nestes termos:
Súmula n? 359, segundo o qual os
proventos da inatividade regulam-se
pela lei vigente ao tempo em que o «Sobre o cômputo, ou não, de
militar ou o servidor civil reúne os tempo de serviço dessa natureza,
requisitos necessários à inatividade para os fins do estabelecido na Lei
voluntária, não o tenho aqui, assim, n? 1.156 de 12-7-50, houve certa va-
como invocável, porque não existia cilação na Administração Militar,
lei, explicitamente, garantindo tal. como se vê do expediente, constan-
Na espécie, ademais, cumpre en- te destes autos, fls. 28/31, em que o
tender que a averbação de tempo de saudoso General Antonio Carlos de
serviço, por si só, não dá nem tira Andrada Serpa, então Chefe do De-
qualquer direito, salvo se a lel, de partamento Geral do Pessoal, pro-
explícito, a ordenar ou lhe conferir punha revisão do contido no item 2
essa eficácia. do Aviso n? 2, de 26 de Janeiro de
1972, do Ministro do Exército, que
Afastado, dessarte, dito aspecto da havia estabelecido «a nulidade das
impetração, quanto ao mais, a maté- averbações, Já procedidas, nos as-
ria Já logrou apreciada por esta Cor- sentamentos dos militares da ati-
te, em mais de uma oportunidade, va, conseqüentes de serviços pres-
em termos que não favorecem ao tados em Orgãos de Formação da
impetrante. Reserva nos locais considerados
Assim, pedido semelhante foi jul- como Zona de Guerra, definida e
gado, no Mandado de Segurança n? delimitada pelo art. 1? do Decreto
20.304-8-DF, em Sessão Plenária de n? 10.490-A, de 25 de setembro de
1-4-1982, Relator o eminente Ministro 1942, para os efeitos do estabeleci-
Decio Miranda, restando o acórdão do na Lel n? 1.156, de 12 de Julho de
com a seguinte ementa: 1950, que estendeu os benefícios da
Lei n? 616, de 2 de fevereiro de
«Militar. Transferência para a 1949, modificadora da Lei n? 288,
inatividade. de 8 de Junho de 1948, a todos os
militares que prestaram serviços
Não se leva em conta, para os na Zona de Guerra definida e deli-
efeitos da Lei n? 1.156, de 1950, o mitada pelo Já citado Decreto».
tempo decorrido na condição de
aluno de Tiro de Guerra sediado
em zona compreendida pelo Decre- Todavia, prevaleceu, afinal, o
to n? 10.490-A, de 1942.» entendimento de que esse tempo de
serviço não era de contar-se como
Em seu douto voto, acompanhado «tempo de serviço militar.» Não foi
pela unanimidade do Tribunal, refe- acolhida, ao que tudo indica, a su-
riu, Inclusive, o ilustre Relator o pre- gestão, acima referida, de março
cedente do Mandado de Segurança de 1979, do então Chefe do Depar-
n? 19.849-GB, a 10-6-1970, Relator o tamento do Pessoal do Exército.

548 R.T.J. - 108

Essa orientação da superior Ad- Do exposto, indefiro o mandado de


ministração Militar encontra res- segurança.
paldo no precedente desta Corte ci-
tado no parecer da douta EXTRATO DA ATA
Procuradoria Geral da República.
Trata-se do Mandado de Segu- MS 20.315-DF — Rel.: Ministro Né-
rança n? 19.849, RTJ 58/164, relator ri da Silveira. Impte.: Deuslet Bar-
o saudoso Ministro Adauto Cardo- bosa (Advs.: Ronaldo Ribeiro Faria
so, em que se acolheu a manifesta- e Gustavo Lauro Korte Júnior). Au-
ção do Procurador-Geral da Repú- toridade coatora: Presidente da Re-
blica, Prof. Xavier de Albuquer- pública.
que, que hoje, com tanto regozijo
da Justiça, preside a esta Casa, a Decisão: Indeferiu-se o pedido,
dizer que o tempo da instrução mi- unanimemente. Falou pelo Impte. o
litar em Tiro de Guerra «não con- Dr. Gustavo Lauro Korte Júnior.
tém qualquer requisito que o possa
qualificar para efeito do discutido Presidência do Senhor Ministro
favor (refere-se ao da Lei n? Xavier de Albuquerque. Presentes á
1.156/50), que se prende, é certo, à Sessão os Senhores Ministros Djaci
presunção legal de que o servidor Falcão, Cordeiro Guerra, Moreira
militar, ao qual se endereça, tenha Alves, Soares Muiloz, Decio Miran-
enfrentado os riscos do profissiona- da, Rafael Mayer, Firmino Paz, Né-
lismo exercido em zona da guer- ri da Silveira e Alfredo Buzaid —
ra». Procurador-Geral da República,
Professor Inocência Mártires Coelho.
Fazendo remissão a esse prece-
dente da jurisprudência desta Cor- Brasília, 22 de abril de 1982 —
te, que adoto, indefiro o mandado Jonas Célio Monteiro Coelho, Secre-
de segurança.» tário.

MANDADO DE SEGURANÇA N? 20.351 — RJ


(Tribunal Pleno)
Relator: O Sr. Ministro Djaci Falcão
Impetrante: Hélio Ferreira Martins — Autoridade Coatora: Excelentíssi-
mo Senhor Presidente do Tribunal de Contas da União.
Contribuição previdenciária prevista no art. 2? do Decreto-lei n?
1.910, de 29.12.81. Servidor aposentado que vinha contribuindo para o
antigo IPASE, até que ficou isento por força da Lei n? 6.439, de 1.9.77.
Revogada a isenção em virtude do Decreto-lei n? 1.910/81, não há que
falar em direito adquirido (;) 3? do art. 153, da Constituição Federal).
Mandado de segurança denegado.

ACÓRDÃO na conformidade da ata do julga-


mento e das notas taquigráficas, em
Vistos, relatados e discutidos estes indeferir o mandado de segurança.
autos, acordam os Ministros do Su- Brasília, 10 de novembro de 1983 —
premo Tribunal Federal, em sessão Cordeiro Guerra, Presidente —
Plenária, à unanimidade de votos e Djaci Falcão, Relatar.
— 108 549

RELATÓRIO esse fato novo, não pode operar re-


troativamente, visando alcançar
O Sr. Ministro Djaci Falcão: Hélio situações já definidas nos termos
Ferreira Martins impetra mandado da Legislação até então prevale-
de segurança contra ato do Senhor cente que deu situações estabiliza-
Presidente do Tribunal de Contas da doras, concretas, planejadas e com
União, expondo e requerendo tex- regras da Lei Previdenciária com
tualmente: suporte de forma real ao estado
«1. O impetrante é funcionário habitual de vida aos milhares de
civil aposentado, do Tribunal de Brasileiros aposentados, os be-
Contas da União, conforme declina nefícios decorrente e exposto, fo-
o ato n? 48, do Excelentíssimo Se- ram de forma irreversível e sem a
nhor Presidente do Tribunal de mínima condição de transforma-
Contas da União, publicado no Diá- ção social, Incorporado ao
rio Oficial do dia 9 de agosto de Patrimônio do Impetrante, fazendo
1966, fls. 126, (doc. anexo n? 4). parte consagradamente do seu Pla-
Pelo Memorandun-Circular nejamento orçamentário em todos
n? 189-DA/SAF, de 20 de maio de
os aspectos, caracterizando, dessa
1982 (doc. anexo n? 5), o Órgão aci- forma, um direito liquido e certo,
ma mencionado, determinou fosse adquirido e amparado pela Lei
aplicado ao Impetrante, o disposto maior, em seu artigo 153 § 3?
no artigo 2? do Decreto-lei n? 1910, (Constituição Federal).
de 29 de dezembro do ano. p. 'A lei não prejudicará o direito
pretérito, que dispõe sobre contri- adquirido, o ato jurídico perfeito
buições para o custeio da Previ- e a coisa julgada'. Art. 153 § 3?
dência Social e dá outras providên- da Constituição da República Fe-
cias. derativa do Brasil.
O Impetrante é data venta, 5. De forma mais racional,
amparado pela Lei n? 6.439 de 1? de Data Vênia, não há como admitir e
setembro de 1977, que em seu arti- aceitar as Leis feitas sem o míni-
go 31, isentou os servidores civis mo sentimento de respeito as ou-
aposentados da União e de suas au- tras Leis, como ditação, sempre
tarquias, de contribuírem para a contrárias as outras normas jurídi-
Previdência Social, assim determi- cas do Pais e desprezando violen-
nado: tamente as determinações Consti-
Os servidores públicos civis tucionais e não há também como
aposentados da União e de suas admitir que as regras do jogo, sejam
Autarquias, ficam isentos de con- transformadas e alteradas em pre-
tribuições para a Previdência So- juízos, daqueles que obtiveram
cial — art. 31 Lei n? 6.439 de 1-9- com tantos esforços, dedicação e
sacrifícios por longos e difíceis
77. anos de vivência como funcionário
4. Surpreendido pelo citado público, que lhe concedia por di-
memorandun-circular e de uma reito e merecimento o gesto da
forma geral todos os seus colegas Aposentadoria e, determinado as
aposentados, pela severidade da formas e regras reguladoras ao
sua aplicação e ilegalidade, insur- passar dos anos, sejam tirados de
ge o Impetrante contra o mesmo, forma mais brutal, desumana e
embora reconhecendo a revogação cruel, os direitos do Impetrante,
da Lei n? 6.439/77 em seu artigo n? prejudicando .o já seu escasso salá-
31, pelo Decreto-lei n? 1.910/81, no rio e desconhecendo os autores, as
entanto entende o suplicante que, dificuldades e situações difíceis
550 R.T.J. — 108

que atravessam economicamente parado pelo art. 31 da Lei n?


os aposentados, impossibilitados 6.439/77, que isentou os servidores
por condições de saúde, física e públicos civis aposentados da
idade, de melhores condições de União e suas autarquias de contri-
rendimentos familiar, somente vi- buições previdenciárias e, embora
vendo com o atual provento, plane- tal dispositivo tenha sido expressa-
jado desde antes da citada aposen- mente revogado no art. 5? do De-
tadoria. creto-lei em questão, a isenção fi-
As leis em regra fundamental, cou incorporada ao seu patrimônio,
não retroagem, porque só assim os como direito adquirido.
direitos e situações gerados em vi- A Autoridade Coatora, pres-
gência delas gozam de estabilidade tando informações, esclarece que
e segurança: se limitou ao cumprimento do di-
Em face do que foi exposto e em ploma legal em apreço.
decorrência do que estabelece o Impetrado perante ao Egré-
art. 55 2? da Constituição da Re- gio Tribunal Federal de Recursos e
pública Federativa do Brasil, o im- pelo despacho de fls. 12 encami-
petrante temeroso de sofrer pre- nhado a este Egrégio Supremo Tri-
juízos financeiros irreversíveis, bunal, tendo em vista o art. 119, I,
Requer Liminarmente, a suspen- letra i, da Constituição, parece-nos
são do desconto anunciado pelo configurar-se a competência origi-
memorandun (doc. 5), até de que nária em questão.
forma final, proceda no mérito e
do Direito o julgamento definitivo, Não há porque se invocar di-
por ser esta a mais sábia e salu- reito adquirido ou, ainda, ato
tar maneira de fazer, Justiça» (fls. jurídico perfeito e amparo na Sú-
2/4). mula 359.
O pedido vem instruido com os do- A contribuição previdenciá-
cumentos de fls. 5 a 9. Ajuizado pe- ria dos aposentados em geral e dos
rante o egrégio Tribunal Federal de pensionistas foi estabelecida, con-
Recursos, o ilustre Ministro José forme o art. 2? do Decreto-Lei n?
Cândido, relator, proferiu o despa- 1.910/81, para fins de custeio da as-
cho de fls. 12, declinando a incompe- sistência médica.
tência daquela Corte, em face do 6. O fato de as pessoas em
art. 119, inc. I, letra i, da Constitui- questão não contribuírem anterior-
ção Federal. mente para a previdência social
Solicitadas as informações, foram constitui-se em simples política go-
prestadas regularmente conforme se vernamental de ordem econômico-
vê às fls. 19/28, que leio. social, em conjugação com o pró-
prio sistema previdenciário do
Por último, manifestou-se a Procu- País e suas diversas formas de
radoria Geral, nos seguintes termos: atendimento e preenchimento de fi-
nalidades, as quais possuem senti-
«1. O Impetrante, servidor apo- do evolutivo. De se anotar, tam-
sentado do Tribunal de Contas, por bém, que o fato de a contribuição
ato datado de 1966, alega ter direi- em causa ter sido criada antes e,
to liquido e certo ao não desconto após, revogada, não possui interfe-
em seus proventos da parcela para rência de direito com o dispositivo
fins de previdência social, ins- legal ora em discussão, tratando-
truída pelo Decreto-Lei n? 1.910/81, se, sim, repetimos, de matéria de
porque, anteriormente, estava am- ordem econômico-social.
R.T.J. — 108 551

7. Assim, a alegação de que os 'Na verdade, a admitir-se a ex-


aposentados anteriormente ao clusão do desconto da contribui-
Decreto-lei n? 1.910/81 estão imu- ção previdenciária no pagamento
nes à sua incidência porque prote- do beneficio aos aposentados, isto
gidos pelo ato Jurídico perfeito, di- terá como conseqüência natural
reito adquirido e ou Súmula 359, o reconhecimento e a proclama-
não possui substância à singela ção da gratuidade da assistência
consideração de que se tratam de médica, o que não está previsto
coisas diferentes, isto é, os proven- na legislação.
tos e as pensões em si, fixados per- Realmente, de acordo com o
centualmente ou não, nada pos- disposto no artigo 46 da Lei n?
suem em comum ou em contradi- 3.807/60, na redação da Lei n?
ção com a contribuição previden- 5.890/73, essa assistência é supor-
ciária para fins de assistência mé- tada pelos próprios segurados.
dica. Exemplificando, paralela- com sua contribuição que é
mente, apenas para fins de argu- possível formar os recursos fi-
mentação, temos que, acaso hou- nanceiros a que alude o texto'.
vesse direito adquirido à imutabili-
dade em causa, tais pessoas, apo- 2 evidente que a contribui-
sentadas e pensionistas, não pode- ção previdenciária para fins de as-
riam sofrer a incidência, posterior- sistência médica não enfrenta, no
mente aos atos de inativação, de particular, o entendimento uris-
novos percentuais do aumento do prudencial da Súmula 359, pois não
imposto de renda. Os proventos ou se trata de revisão dos proventos.
pensões continuam imutáveis em Estes, continuam imutáveis e o
seus percentuais e a incidência da desconto sofrido pelo servidor a-
nova regra legal não lhes retira tal posentado possui origem e desti-
qualificação. A redução, que ocor- nação diversas. A assistência mé-
re na prática, é em atenção a uma dica não é vantagem ou prerrogati-
contraprestação de serviços de as- va do servidor público em geral,
sistência médica que, se antes gra- mas sim, obrigação do Estado e se
tuita, pode ser modificada, mesmo este necessita de correspondente
porque a Constituição dispõe em contraprestação financeira da pes-
seu art. 153, 1?, que todos são soa assistida, a questão se resume
iguais perante a lei e a igualdade em simples política de governo.
de todos, no caso, é em relação à Assim como, anteriormente, foi
previdência social. A gratuidade instituída e após retirada, pode ser
da assistência médica não está novamente instituída, sem feri-
prevista na Constituição que, ao mento de qualquer direito em rela-
contrário, prevê a contribuição por ção a qualquer tipo de segurado.
parte de todos os interessados, se- Permitindo-nos anexar cópia
gurados, genericamente, conforme do nosso pronunciamento no MS
seu art. 165, XVI, e mesmo que es- 20.332, onde a matéria foi mais am-
tivesse inscrita na legislação ordi- plamente examinada, somos pelo
nária, de maneira expressa, não indeferimento do mandado de se-
consubstanciaria qualquer direito gurança.
adquirido. Aliás, o Eminente Presi- Brasília, 27 de setembro de 1982.
dente do Tribunal Federal de Re- Mauro Leite Soares,
cursos, Ministro Jarbas Nobre, em Subprocurador-Geral da República
seu despacho referido às fls. 25 pe- — Aprovo: Inocêncio Mártires Coê-
la Autoridade Coatora assinala a lho, Procurador-Geral da
respeito: República» e (fls. 52/55).

552 R.T.J. - 108

VOTO nefícios superior a 10 (dez) e infe-


rior ou igual a 15 (quinze) vezes o
O Sr. Ministro Djaci Falcão (Rela- salário mínimo regional;
tar): O impetrante, funcionário apo- II — Pensionistas:
sentado, do Tribunal de Contas da 3% (três por Cento) do valor dos
União, desde agosto de 1966, insurge- respectivos benefícios.»
se contra ato do mesmo Tribunal,
que determinou o desconto nos seus Diante desse novo diploma a admi-
proventos, da contribuição destinada nistração tomou providências para a
ao custeio de assistência médica, sua execução, abrangendo todos os
prevista pelo art. 2? do Decreto-lei aposentados (fls. 8).
n? 1.910, de 29-12-81. Alega que é ti- Improcede, a meu juízo, a alega
tular de direito adquirido, porquanto ção de que os aposentados anterior-
estava amparado pelo art. 31 da Lei mente ao Decreto-lei n? 1.910/81 não
n? 6.439, de 1-9-77, que isentou os ser- estão sujeitos á sua incidência à viã-
vidores públicos civis aposentados ta da existência de direito adquirido
da União e suas autarquias de con- (§ 3? do art. 153 da Lei Maior).
tribuições previdenciárias.
As informações esclarecem que Na espécie, a lei nova alcança
desde a sua aposentadoria o impe- uma situação em curso, relativa a
trante vinha contribuindo para o an- contribuição previdenciária para
tigo IPASE, até que, a partir de ou- fins de assistência médica. O que
tubro de 1977, com o advento da Lei não se confunde com proventos da
n? 6.439, de 1-9-77, ficou isento da inatividade, regulados pela lei vigen-
contribuição previdenciária. Toda- te ao tempo em que o servidor reu-
via, o Decreto-Lei n? 1.910/81 revo- niu os requisitos necessários à obten-
gou a isenção, ao dispor no seu art. ção da aposentadoria (Súmula 359).
2?: No caso da súmula resguarda-se no
momento da aposentadoria, o direito
«Art. 2? Ficam estabelecidas adquirido, subordinado a uma condi-
contribuições dos aposentados em ção inalterável. Ora, proventos nada
geral e dos pensionistas, para cus- têm em comum com a contribuição
teio da assistência médica, na for- previdenciária para fins de assistên-
ma seguinte: cia médica. A contribuição do apo-
sentado se justifica pela contrapres-
I — Aposentados: tação de serviço de assistência médi-
3% (três por cento) do valor ca.
dos respectivos benefícios até o Não se trata, no caso sub judice do
equivalente a 3 (três) vezes o exercício de um direito prefixado e
salário mínimo regional; imutável. Havia, sim, um direito vá-
3,5% (três e meio por cento) lido até o momento da sua revoga-
do valor dos respectivos benefícios ção pela lei nova, que opera ex tunc.
superior a 3 (três) e interior ou
igual a 5 (cinco) vezes o salário A circunstância do serviço de as-
mínimo regional; sistência médica ter sido gratuito
Para o aposentado, durante certo
4% (quatro por cento) do va- período, não impede que lei nova ve-
lor dos respectivos benefícios supe- nha a admitir (no caso, readmitir)
rior a 5 (cinco) e inferior ou igual contribuições a cargo dos aposenta-
a 10 (dez) vezes o salário mínimo dos em geral. Como é sabido, entre
regional; nós não há a gratuidade da assistên-
4,5% (quatro e meio por cen- cia médica. A Constituição, ao tratar
to) do valor dos respectivos be- da previdência social, deixou claro

R.T.J. — 108 553

obrigatoriedade da contribuição do do com o interesse público.


empregado, para tal fim (art. 165, Ressalva-se, é claro, a modificação
inc. XVI). que venha a afetar uma situação
As leis especiais cabe estabelecer jurídica definitivamente constituída,
as condições de organização e fun- incorporada ao patrimônio do seu ti-
cionamento dos serviços de assistên- tular, a configurar direito adquirido.
cia ao servidor público, em ativida- Isso, contudo, não ocorre no caso
de, ou inativo, estabelecendo descon- consoante já ficou demonstrado.
tos em seus vencimentos ou proven- Ex positis indefiro o mandado de
tos (arte. 157 e 163 do Estatuto dos segurança.
Funcionários Públicos Civis da
União). EXTRATO DA ATA
Pondera, com propriedade, o pare- MS 20.351-RJ — Rel.: Ministro Dia-
cer do Dr. Mauro Leite Soares: ci Falcão. finte.: Helio Ferreira
«A assistência médica não é van- Martins (Advs.: Alfredo Luiz Ferrei-
tagem ou prerrogativa do servidor ra e outro). Autoridade coatora.: Ex-
público em geral, mas, sim, obri- celentíssimo Senhor Presidente do
gação do Estado e se este necessi- Tribunal de Contas da União.
ta de correspondente contra pres- Decisão: Indeferiu-se o pedido,
tação financeira da pessoa assisti- unanimemente.
da, a questão se resume em sim- Presidência do Senhor Ministro
ples política de governo. Assim co- Cordeiro Guerra. Presentes à Sessão
mo, anteriormente, foi instituída e os Senhores Ministros Djaci Falcão,
após retirada, pode ser novamente Moreira Alves, Soares Mufloz, Decio
instituída, sem ferimento de qual- Miranda, Rafael Mayer, Néri da Sil-
quer direito em relação a qualquer veira, Oscar Corrêa, Aldir Passari-
tipo de segurado» (fls. 55). nho e Francisco Rezek. Ausente, li-
Ademais, não se pode perder de cendiado, o Senhor Ministro Alfredo
vista que a relação jurídica entre o Buzaid — Procurador-Geral da Re-
Poder Público e o funcionário, ativo pública, Substituto, o Dr. Mauro Lei-
ou inativo, é de natureza legal ou es- te Soares.
tatutária, tornando-se suscetível de Brasília, 10 de novembro de 1983 —
modificação pelo legislador, de acor- Albertb Veronese Aguiar, Secretário.
MANDADO DE SEGURANÇA N? 20.352 — PR
(Tribunal Pleno)
Relator para o acórdão: O Sr. Ministro Aldir Passarinho.
Impetrantes: Agropecuária Padrão Ltda. — Soloquimica — Fertilizantes
e Defensivos Ltda. — Empresa Agrícola e Floresta Ltda. — e Transolo
Transportes Ltda. — Autoridade Coatora: Excelentíssimo Senhor Presidente
da República.
Mandado de Segurança. Impetração em caráter preventivo. Im-
petração contra lel em tese: descabimento.
Inviável dar-se à impetração de mandado de segurança caráter
preventivo se o ato por ele atacado — no caso o Decreto-lei n? 1.940 —
já foi expedido.
É da tranqüila Jurisprudência dos. Tribunais não ser passível de
impugnar-se lei em tese através de mandado de segurança.
Recurso extraordinário não conhecido.

554 R.T.J. — 108

ACÓRDÃO menta o ato abusivo, determina às


Procuradorias da Fazenda Nacio-
Vistos, relatados e discutidos estes nal para que apurem e inscrevam
autos, acordam os Ministros do Su- em dívida ativa da União os débi-
premo Tribunal Federal, em sessão tos verificados.
plenária, na conformidade da ata do
julgamento e das notas taquigrãfi- Como a inscrição dos débitos em
cas, por maioria de votos, acolher a divida ativa trará às impetrantes
preliminar de descabimento, não se graves prejuízos, especialmente
conhecendo do mandado de seguran- pelo trancamento das operações
ça. bancárias — que habitualmente
realizam nos Estados do Paraná e
Brasília 1° de agosto de 1983 — Mato Grosso do Sul — onde são
Cordeiro Guerra, Presidente — Aldir exigidas Certidões Negativas de
Passarinho, Relator p/o Acórdão. débitos para com a Fazenda Nacio-
nal — é este mais um forte motivo
RELATÓRIO para justificar a concessão do
«mandamus».
O Sr. Ministro Oscar Corrêa: As
impetrantes propõem mandado de Imponderável seria o prejuízo de
segurança contra ato do Exce- ordem moral, ao serem as Impe-
lentíssimo Senhor Presidente da Re- trantes compelidas ao pagamento
pública, consubstanciado no Decreto- pela via judicial, através de Exe-
lei n? 1.940, de 25-5-1982 — afirmam cutivos fiscais. Sabem Vossas Ex-
— «editado por S. Exa. em desacor- celências que no ramo comercial
do flagrante com os princípios cons- das Impetrantes, de grande con-
titucionais que regem a estrutura e a corrência — especialmente de em-
vida tributária do País». presas de capital não nacional — o
Dizem, na inicial de fls. 1/16, que simples ajuizamento de uma ação
para a cobrança de divida fiscal
«As empresas impetrantes, que gera efeitos danosos para o concei-
se dedicam ao ramo da produção e to e a reputação empresariais do
comercialização de sementes, com- suposto devedor» ( fls. 2/3).
pra e venda de adubos, fertilizan-
tes, defensivos, implementos 2. Alegam «ilegalidade e abuso
agrícolas, etc. e de transporte de de poder na criação do tributo», com
cargas, estão sujeitas — por impo- violação do artigo 153, § 29, da Cons-
sição da autoridade coatora e caso tituição Federal, já que não poderia
prospere o ato abusivo — ao reco- o Presidente da República criar
lhimento do tributo inconstitucio- tributo, ou majorá-lo, pois, tal não se
nalmente instituído pelo menciona- permite por decreto-lei, nos termos
do Decreto-lei n? 1.940. do art. 55, se não se trata de norma
Estão, assim, na iminência de tributária, pelo que só pode ser insti-
sofrer violação de direito líquido e tuído por lei, invocando ainda o arti-
certo, qual seja a de recolher aos go 19, I, da Constituição Federal.
cofres públicos tributo manifesta- Em se tratando de tributo — afir-
mente inconstitucional, instituído mam — não é autorizada a criação
de forma arbitrária e portanto com pelo artigo 21, § 2?, em que se baseou
abuso de poder por parte da autori- a autoridade coatora para baixar o
dade coatora. Decreto-lei n? 1.940. E alegam:
A Portaria n? 119, baixada pelo «Este dispositivo diz que a União
Sr. Ministro de Estado da Fazenda poderá criar contribuições para in-
e que apenas e meramente regula- tervir no domínio econômico, no in-

R.T.J. — 108 555

teresse de categorias profissionais mento de Aliomar Baleeiro e o deci-


e para o custeio da previdência so- dido na Rp n? 981/5, Relator o Exmo.
cial. Ministro Djaci Falcão (fls. 11/12).
Sob este aspecto cabe observar: Por fim, afirma-se que ao adotar
a) O art. 21, § 2?, não diz que o base de cálculo idêntica à de outros
Presidente da República poderá tributos, fere os artigos 18, § 5? e 21,
baixar decretos-leis criando contri- § 1?, da Constituição. E ao vinculá-lo
buições! ao Fundo de Investimento Social,
A União, sim, é que pode, atra- criado pelo mesmo Decreto-lei, ofen-
vés de lei federal, instituir tal en- de o art. 62, § 2?.
cargo, em casos excepcionais. Requereram a concessão de
E o que é União? É o Estado Fe- «liminar, determinando-se à Procu-
deral, representado pelos Poderes radoria da Fazenda Nacional para
que o constituem — Legislativo, que se abstenha de cobrar e de ins-
Executivo e Judiciário. crever em divida ativa da União os
débitos das impetrantes, apurados
Tanto é que a Constituição da pelo não recolhimento do tributo ins-
República admite que a iniciativa tituído pelo Decreto-lei n? 1.940, de
das leis cabe a qualquer dos pode- 25-5-82», bem como a tramitação e a
res, inclusive dos Tribunais fede- condenação, afinal, nas cominações
rais (artigo 56 da CF). legais.
I)) O art. 1? do Decreto-lei n? Indeferida a liminar, por não
1.940 diz a que se destina a contri- configurados os pressupostos de sua
buição social por ele mesmo insti- concessão, e regularizada a repre-
tuída: a investimentos de caráter sentação das Impetrantes (despacho
assistencial em alimentação, habi- de fls. 33), a fls. 56/114, prestou a au-
tação popular, saúde, educação e toridade impetrada informações, pe-
amparo ao pequeno agricultor. lo Ministério da Fazenda.
Ora, isto não é intervenção no Após largamente examinar a ques-
domínio econômico. tão, as informações assim concluem,
A intervenção no domínio econô- resumindo os fundamentos do pedido
mico é definida no art. 160-V da e a resposta da autoridade impetra-
Constituição e tem como objetivo da (fls. 111/114):
«a repressão ao abuso do poder
econômico, caracterizado pelo
domínio dos mercados, a elimina- 203. De todo o exposto verifica-
ção da concorrência e o aumento se que, no presente Mandado de
arbitrário dos lucros». Segurança:
Nestes casos é que poderá a postula-se a declaração de
União, mediante lei, instituir con- inconstitucionalidade do Decreto-
tribuição, observando o que dispõe lei n? 1.940, de 25 de maio de
o art. 21, § 2?, combinado com o 1982, através do qual foi criada a
art. 163, parágrafo único, da CF» contribuição do FINSOCIAL;
(fls. 8/10).
postula-se, ainda, que de-
3. Demais disso, levantam «a in- clarada sua inconstitucionalidade
constitucionalidade do tributo pela seja remetida cópia da decisão
violação ao principio da anualidade ao Senado Federal, para os fins
e da anterioridade da lei», invocando previstos no art. 42, inciso VII,
o artigo 153, § 29, da CF e o ensina- da Constituição;

556 R.T.J. — 108

3. as alegações contrárias à se incluir na discricionariedade


contribuição do FINSOCIAL, em do Legislativo e do Executivo,
síntese, subsumem-se • em in- que participam do processo legis-
fringência: a) ao princípio da lativo peculiar ao decreto-lei;
legalidade, pois decreto-lei não
poderia criar ou majorar tribu- tanto a doutrina, como o
tos, visto a natureza tributária sistema constitucional e legal de
da referida contribuição; h) ao diversos países ocidentais — Itá-
principio da anterioridade — lia (Const., art. 23), Espanha
pois, sendo imposto como afir- (Const., arts. 31-3), México
mam —, não poderia ser cobrado (Const., art. 73, § 5?, incs. VII e
no mesmo exercício financeiro. XXIX; Cód. Fiscal da Federação,
art. 1?), prevêem genericamente
204. Essas alegações, como so- a competência para instituição
bejamente demonstrado, são total- de prestações pessoais e patrimo-
mente improcedentes, eis que: niais, contribuições e impostos
preliminarmente, as impe- em geral;
trantes insurgem-se contra a lei
em tese, o que é inadmitido na no Sistema Constitucional e
lei e na jurisprudência; Legal brasileiro, paralelamente
aos tributos (impostos, taxas e
outrossim, formulam contribuição de melhoria), coe-
representação de inconstitucio- xistem inúmeras imposições pe-
lidade ao Supremo Tribunal Fe- cuniárias obrigatórias, entre as
deral, quando o titular para sua quais as contribuições sociais e
promoção é o Procurador-Geral dentre estas a contribuição do
da República; FINSOCIAL;
as Constituições de diversos a contribuição do FINSO-
países civilizados e democráticos CIAL, na sua essência, nada tem
adotam a figura do decreto-lei — de tributo, pois constitui, insofis-
Itália, Espanha, Portugal — ou mavelmente, uma contribuição
instrumento similar — França, social, na acepção da Constitui-
Alemanha; ção e do Código Tributário Nacio-
no Sistema Constituçional nal, inserido no conceito mais
brasileiro, o decreto-lei é instru- amplo de seguridade Social, exi-
mento legislativo adequado, nos gida das empresas públicas e pri-
casos de urgência e relevante in- vadas (Decreto-lei n? 1.940, de
teresse público, não só para dis- 1982), para custear investimentos
por sobre finanças públicas em de caráter assistencial em ali-
geral, inclusive criação ou majo- mentação, habitação popular,
ração de contribuições e outras saúde, educação e amparo ao pe-
prestações pecuniárias ou patri- queno agricultor;
moniais, como também sobre
matéria tributária, inclusive tal contribuição, por não
criação ou majoração de tribu- ser tributo, mas imposição pecu-
tos; niária obrigatória, amparada pe-
lo Sistema Constitucional e Legal
5. os pressupostos de urgência brasileiro, não se submete ao
e relevante interesse público, por chamado principio da anteriori-
envolverem decisão política, es- dade, nem tampouco, ao preceito
capam à apreciação do Poder Ju- constitucional que veda a vincu-
diciário, conforme reiteradas de- lação do produto da arrecadação
cisões do Pretório Excelso, para de qualquer tributo;

R.T.J. — 108 557

admitida, apenas ad contra o Exmo. Sr. Presidente da


argumentandum, que a contribui- República é o artigo 7? do
ção do FINSOCIAL de tributo se Decreto-lei n? 1.940, de 25-5-82,
tratasse, ainda assim não estaria que institui contribuição social,
adstrita ao princípio da anteriori- cria o Fundo de Investimento So-
dade, uma vez que, por força da cial — Finsocial, e dá outras pro-
ressalva do inciso I, 2?, artigo vidências.»
21 da Constituição, aplica-se-lhe o
mesmo tratamento deferido ao Aplicável, assim, a Súmula 266,
Imposto sobre importação de pro- que declara não caber mandado
dutos estrangeiros; de segurança contra a lei em te-
demais disso, os preceitos se.
do art. 55 da Constituição, que Casso a liminar e indefiro a ini-
dispõem sobre a figura do cial.
decreto-lei, em face de seus pres-
supostos de urgência e relevante Publicado este despacho, e de-
interesse público, excepcionam corrido o prazo legal, remetam-
não só o processo legislativo ordi- se os autos ao Juizo de origem,
nário, clássico, como também o para providências atinentes ao
princípio da anterioridade. depósito efetuado pelas impe-
12. Assim sendo, resta uma trantes.»
última conclusão, qual seja: a
perfeita adequação da contribui- Realmente, o caso presente é
ção do FINSOCIAL ao figurino idêntico e, aliás, as próprias Impe-
constitucional pátrio, inexistindo, trantes esclarecem às fls. 3: «A
portanto, direito, muito menos Portaria n? 119, baixada pelo Sr.
liquido e certo, amparável pela Ministro de Estado da Fazenda e
via angústia do mandado de se- que apenas e meramente regula-
gurança, à abstenção do respecti- menta o ato abusivo, determina às
vo recolhimento» ( fls. 111 a 114). Procuradorias da Fazenda Nacio-
nal para que apurem e inscrevam
6. A douta Procuradoria-Geral da em dívida ativa da União os débi-
República, pelo Ilustre Subprocura- tos verificados».
dor-Geral Mauro Leite Soares, com o Portanto, trata-se de impe-
aprovo do Eminente Procurador- tração contra a lei em tese e a Au-
Geral Inocência Mártires Coelho opi- toridade Coatora é outra , que não
nou pelo não conhecimento do man- esta contra a qual foi requerido
dado, ou, acaso conhecido, pelo seu mandado de segurança, pois o Se-
indeferimétito ( fls. 118/120), afir- nhor Presidente da República, no
mando (fls. 118): uso de suas atribuições constitucio-
nais, limitou-se à edição do ato im-
pugnado.
3. Parece-nos flagrante a im-
possibilidade jurídica de conheci- 6. No mérito, acaso ultrapassa-
mento do pedido, a exemplo do su- da a preliminar, temos que o pare-
cedido ao MS 20.348, Relator Minis- cer da Ilustrada Procuradoria-
tro Décio Miranda, com o seguinte Geral da Fazenda Nacional bem
despacho publicado no DJ de 18-8- demonstra a incensurabilidade do
82: ato impugnado e, assim, ao mesmo
nos permitimos remissão.»
«O ato que se ataca neste man-
dado de segurança requerido E o relatório.

558 R.T.J. — 108

VOTO preventivo, por considerarem os im-


petrantes iminente o perigo que pre-
O Sr. Ministro Oscar Corrêa: (Re- tendem com ele conjurar.
lator): A matéria suscitada na impe- Aparentemente, dissemos, porque,
tração tem sido objeto de larga con- na verdade, o mandado de seguran-
trovérsia, na qual se debatem teses ça preventivo sempre, ou quase sem-
de inegável importância: de um la- pre, se avizinhará da impetração
do, o Governo, que considera essen- contra lei em tese — se tenta conju-
cial à efetivação de sua política de rar o justo receio de sofrer o abuso
desenvolvimento social a prestação ou a violação por parte de autorida-
que exige, em virtude do Decreto-lei de.
n? 1.940/82; de outro, os contribuin- 4. Principalmente, em casos co-
tes, que não só lhe impugnam a for- mo o que se enfrenta, no qual a
ma e a oportunidade legais — que ameaça é de imposição fiscal, que
consideram abusivas e inconstitucio- parece aos impetrantes inconstitu-
nais — como duvidam dos objetivos cional, e, que, sem sombra de dúvi-
a que diz visar da, os atingirá, se se enquadram nas
2. Na hipótese, são, sobretudo, os hipóteses previstas no dispositivo do
aspectos constitucionais os que vêm decreto-lei que impugnam, e a esta
postos na impetração e consubstan- altura, já os atingiu.
ciados nas afirmações: Se, aparentemente, pois, se insur-
da ilegalidade e abuso de poder gem contra lei em tese, na verdade
na criação do tributo por decreto-lei; é contra lei que os vai, inexoravel-
na inconstitucionalidade do tri- mente, atingir que se rebelam, antes
buto pela violação ao principio da que isso aconteça e certos de que vai
anualidade e anterioridade da lei. acontecer, já que a lei é impositiva e
na ofensa aos artigos 18, § 5? e ao seu império não podem fugir.
21, § 1? — base de cálculo idêntica à Apenas, os efeitos que defluirão
de outros tributos; desse atingimento já são conhecidos
vinculação ao Fundo de Investi- e estão previstos no texto legal inqui-
mento Social — vedada pelo art. 62, nado; e as conseqüências ás quais se
*2? submeterão se lhe não atenderem ao
Aquela primeira fere mortalmente comando, serão de suma gravidade:
a criação do FINSOCIAL, já que não fiscal, comnão
taxados, e atendida a imposição
o pagamento — assina-
se teria submetido à forma legal e lam «imponderável seria o prejuízo
constitucional da criação — por lei, de ordem moral, compelidas as im-
mas por decreto-lei; a segunda, tor- petrantes ao pagamento, pela via ju-
naria incablvel, em 1982, a contribui- dicial, através de executivos fis-
ção mas não a prejudica na sua vi- cais;» «a Inscrição dos débitos em
gência posterior a esse exercício. dívida ativa trará às Impetrantes
3. Há, porém, que examinar a graves prejuízos, especialmente pelo
preliminar, levantada nas informa- trancamento das operações bancá-
ções: a de que a impetração se faz rias que habitualmente realizam nos
contra lei em tese e se pleiteia, na Estados do Paraná e Mato Grosso do
verdade, pela via oblíqua, do manda- Sul — onde são exigidas Certidões
do de segurança, a representação de Negativas de débitos para com a Fa-
inconstitucionalidade. zenda Nacional» (fls. 4).
Não resta dúvida de que, aparente- Aliás, este tem sido grande argu-
mente, tal se verifica, em face de se mento às vezes, irrespondível, usado
tratar de mandado de segurança pela Fazenda Nacional, para forçar

R.T.J. — 108 559

os contribuintes a prestações nem (v.g. RE 81.847 — Relator o Exmo.


sempre corretamente devidas: o não Ministro Leitão de Abreu — RTJ
pagamento acarreta mal maior, da- 90/518; MS 15.006 — Pleno - RTJ
nos maiores, quando não irrepará- 36/644; MS 18.428 — RTJ 54/71).
veis. Desta forma, rejeito a preliminar
5. Em tais casos, a jurisprudência de descabimento do pedido por se
desta E. Corte tem admitido que a tratar de mandado de segurança
medida especial é cabível, e tem-lhe contra lei em tese: o mal a que visa
examinado o mérito. obviar é imediato, iminente ou pre-
E em Castro Nunes (Do Mandado sente, e não há remédio processual
de Segurança 8? ed. atualizada por no qual possam os impetrantes re-
J. A. Dias — Forense 1980 — pág. 81, correr.
nota 19) se lê: E o voto.
«Também nos casos de seguran-
ça preventiva em que se receia a
prática de ato ou proibição VOTO (PRELIMINAR)
inconstitucional fundada na lei. O
ataque se dirige, já então, a um O Sr. Ministro Aldir Passarinho:
ato ainda inexistente, mas Sr. Presidente, data venia, discordo
presumido, a ser evitado ou exigi- do eminente Relator. S. Exa. falou
do. São hipóteses que envolvem em mandado de segurança preventi-
temperamentos na aplicação da re- vo. Não se pode considerar, no caso,
gra da inadmissibilidade da segu- mandado de segurança preventivo,
rança contra a lei em tese» ( grifos porque ele é dirigido contra o Sr.
do orginal). Presidente da República, e o ato ata-
Ou, como se disse na «Declaração cado, do Chefe do Executivo Fede-
do Congresso Internacional de Direi- ral, já foi expedido, sendo ele o
to Comparado, em Bruxelas, em Decreto-lei n? 1.940, de 25-5-82. As-
1958, lembrada por Celso Agrícola sim, não se poderia considerar man-
Barbi («Do Mandado de Segurança» dado de segurança preventivo senão
— 2? ed. — Forense — 1966, pág, 69) se fosse ele dirigido contra as autori-
«ameaça objetiva e atual». dades de execução do ato, prevendo
Em recente trabalho, concisamen- a possibilidade de vir a exigir-se dos
te, resume a doutrina a respeito, contribuintes o previsto no decreto-
Milton Flaks — «Mandado de Segu- lei aludido.
rança — Pressupostos da Impetra- No tocante ao segundo aspecto,
ção» — Forense — 1980 — págs. 151 parece-me que está sendo atacada a
e segs. lei em tese através do mandado de
E verdade que pedem, afinal, de- segurança. As leis, de modo geral,
clare este Pretório a inconstituciona- estabelecem ordenamento de caráter
lidade do Decreto-lei n? 1.940, de 25- impositivo a ser executado pelas au-
5-82 (fls. 16), mas esta seria a conse- toridades administrativas. São leis
qüência do acolhimento do pedido, que estabelecem aliquotas, majoram
que, como salientado na petição, é determinados tributos ou contribui-
excluir-se da obrigação de pagamen- ções, impõem aos particulares cer-
to da contribuição. tas obrigações. E tranqüilo neste
Tribunal, de fato, o entendimento so-
E quando a lei, por si mesma, bre a inviabilidade de mandado de
constitua, por seu enunciado, lesão a segurança contra as leis em tese,
direito subjetivo, não há recusar porque elas apenas fixam a discipli-
wrlt, como tem decidido a Corte na geral a ser adotada.

560 R.T.J. — 108

Por esses fundamentos, acolho a vênia do eminente Relator, acompa-


preliminar de descabimento do man- nho o eminente Ministro Aldir Pas-
dado de segurança. sarinho.
Lembro que esta Corte tem admi-
VOTO (PRELIMINAR) tido, excepcionalmente, mandado de
segurança contra lei, quando se tra-
O Sr. Ministro Néri da Silveira: Sr. ta de lei em sentido meramente for-
Presidente. Também discordo, data mal, sendo, materialmente, ato ad-
vertia do eminente Relator, para aco- ministrativo. Não é esta a hipótese
lher a preliminar, entendendo que, em julgamento.
em verdade, o mandado de seguran-
ça, como posto, se dirige contra a lei
em tese. Não há ver, ai, pedido de VOTO
segurança, de natureza preventiva,
dirigido que foi contra o Senhor Pre-
sidente da República, autor do de- O Sr. Ministro Djaci Falcão: Sr.
creto impugnado. O gravame, que o Presidente, também peço vênia ao
impetrante pretende não lhe seja im- eminente Relator para indeferir o
posto, decorreria do decreto. Não faz mandado de segurança, à vista de
o impetrante alusão a nenhum ato vários precedentes recentes. Por
de execução desse decreto. exemplo, os MS 20.210, de que foi Re-
lator o Ministro Moreira Alves, e
Assim sendo, de acordo com a ju- 20.381, por mim relatado.
risprudência deste Tribunal, con-
substanciada na Súmula 266, na es-
pécie, não cabe mandado de segu- EXTRATO DA ATA
rança. No caso, por via do mandado
de segurança, pretende-se a declara- MS 20.352-PR — Rel.: Ministro Os-
ção, em tese, de inconstitucionalida- car Corrêa. Imptes.: Agropecuária
de do Decreto em foco, para o que Padrão Ltda. Soloquímica — Fertili-
existe, em nosso sistema, instrumen- zantes e Defensivos Ltda., Empresa
to próprio, que é a representação por Agrícola Floresta Ltda. e Transolo
inconstitucionalidade de lei ou ato Transportes Ltda. (Advs.: Juarez A.
normativo federal ou estadual (CF Dietrich e outro). Coator.: Exce-
art. 119, I, letra 1). lentíssimo Senhor Presidente da Re-
VOTO (PRELIMINAR) pública.
Decisão: Acolhida a preliminar de
O Sr. Ministro Dedo Miranda: Sr. descabimento, não se conheceu do
Presidente, também peço vênia ao mandado, vencido o Ministro Rela-
eminente Relator, para indeferir o tor. Votou o Presidente. Impedido o
mandado de segurança, por se tratar Ministro Francisco Rezek.
de pretensão contra lei em tese. De Presidência do Senhor Ministro
resto, eu próprio, por despacho, in- Cordeiro Guerra. Presentes à Sessão
deferi um pedido no mesmo sentido, os Senhores Ministros Djaci Falcão,
por essa razão. E encaminhei ao Moreira Alves, Soares Mutioz, Decio
Juiz da Comarca a impetração, para Miranda, Rafael Mayer, Néri da Sil-
providências atinentes ao depósito veira, Alfredo Buzaid, Oscar Corrêa,
efetuado pelas impetrantes. Aldir Passarinho e Francisco Rezek.
Procurador-Geral da República,
VOTO (PRELIMINAR) Professor Inocêncio Mártires Coelho.
O Sr. Ministro Moreira Alves: Sr. Brasília, I? de agosto de 1983 —
Presidente, também, com a devida Alberto Veronese Aguiar, Secretário.
R.T.J. — 108 561

HABEAS CORPUS N? 60.543 — MG


(Primeira Turma)
Relator. O Sr. Ministro Alfredo Buzaid.
Paciente: Geraldo Rodrigues Filho — Impetrante: José Maria Mayring
Chaves — Coator: Tribunal de Justiça Militar do Estado de 'Minas Gerais.
Pena acessória.
O Tribunal de Justiça Militar, em grau de apelação, pode aplicar
a pena acessória de perda da função militar na forma do art. 102 do
Código Penal Militar a quem foi condenado a pena de dois anos de re-
clusão, embora não imposta na sentença de primeiro grau.
Inexistência de violação ao principio da reformatio In peias.
Habeas corpus indeferido.
ACORDÃO pena acessória de exclusão da
Policia Militar decorre da simples
Vistos, relatados e discutidos estes imposição da pena privativa de li-
autos, acordam os Ministros da Pri- berdade por tempo superior a dois
mtira Turma do Supremo Tribunal anos, ou pela natureza do delito, não
Federal, na conformidade da ata do se exigindo julgamento especial no
julgamento e das notas taquigráfi- caso de condenação da praça». (fls.
cas, por unanimidade de votos, em 26).
indeferir a ordem de habeas corpus.
Em face da decisão, impetrou a
Brasília, 13 de junho de 1983 — presente ordem de habeas corpus,
Soares Mtuloz, Presidente — Alfredo onde pretende a anulação do julga-
Buzaid, Relator. mento de 2? grau, porque contém
uma reformatio In peius, contrária
RELATORIO ao direito, já que daquela decisão so-
mente ele havia apelado.
O Sr. Ministro Alfredo Buzaid: Ge-
raldo Rodrigues Filho está condena- Ocorre que o impetrante foi agra-
do pela 2? Auditoria da Justiça Mili- ciado com o indulto natalino. Em ra-
tar do Estado de Minas Gerais, co- zão disso foi declarada extinta a pu-
mo incurso no art. 303, § 2?, combi- nibilidade quanto ao restante da pe-
nado com os arts. 80 e 70, letras g e na. (fls. 32 ).
1, inciso II, do Código Penal Militar. As informações pedidas foram
Da decisão adversa apelou, tendo prestadas às fls. 39. Ouvida a douta
o Tribunal de Justiça Militar local Procuradoria-Geral da República,
negado provimento ao seu recurso, em parecer da lavra da il. Procura-
aplicando-lhe, no entanto, a pena dora Haydevalda Aparecida Sam-
acessória da perda das funções mili- paio, aprovado pelo eminente Prof.
tares. «como estabelece o art. 102 do Francisco de Assis Toledo. DD.
CPM, cuja imposição devia constar Subprocurador-Geral da República,
expressamente da sentença, como assim se manifestou, verbis:
determina o art. 107 do mesmo Códi- el. Insurge-se o impetrante con-
go». (fls. 10). tra decisão do Tribunal de Justiça
Interpôs, por isso, embargos In- Militar do Estado de Minas Gerais
fringentes, que não foram acolhidos, que, Improvendo recurso exclusivo
acentuando o Tribunal a quo que «a da defesa, determinou que fosse

562 R.T.J. — 108

aplicada, ainda, ao acusado a pena mente, da sentença condenatória,


acessória de exclusão da Corpora- que condenou o réu a três anos de
ção, como estabelece o art. 102 do reclusão, st apelou o réu. Mas o E.
CPM, visto ter sido condenado à Tribunal, interpretando os arts. 102 e
pena superior a dois anos de reclu- 107 do Código Penal Militar, concluiu
são. que, quando a condenação for supe-
A tese central da impetração rior a dois anos de privação da liber-
consiste em saber se a pena aces- dade, é obrigatória a imposição da
sória de perda da função pública pena acessória.
pode, ou não, ser aplicada em 2?
grau, quando houver recurso ape- Com efeito, no direito penal
nas da defesa. militar, a pena ou é principal ou é
acessória. Ora, segundo os melhores
A questão já foi decidida pela sufrágios da doutrina, a proibição da
Suprema Corte, em acórdão assim reformatio in peius entende com a
ementado: pena principal e não com a pena
«Pena acessória. Perda da fun- acessória (Manzlni, Diritto proces-
ção pública. Caso em que ela re- suale penale, IV, pág. 555; Carlo
sulta da simples imposição da Umberto Del Pozzo, L'appello nel
pena de reclusão por mais de processo penale, pág. 225). O juízo
dois anos, independentemente de de apelação pode aplicar a pena
declaração da sentença. Aplica- acessória, não só porque não é pena
ção do art. 102 do Código Penal em sentido próprio, como principal-
Militar em combinação com os mente porque o seu efeito decorre ex
arts. 68, II, e 70, I e parágrafo lege. A proibição de reformatio in
único do Código Penal. Habeas peius concerne à espécie da pena e á
corpus indeferido». (HC n.? sua quantidade. Sob este aspecto, o
57.080-RS — Rel.: Sr. Ministro E. Tribunal, negando provimento à
Soares Mufloz RTJ 96/1.020). apelação do réu, manteve a pena
4. Dessa forma, entende-se que principal da decisão de primeiro
a pena acessória, na hipótese de grau. E impôs a pena acessória co-
perda da função pública, no caso mo conseqüência ex lege da pena
de condenação judicial superior a principal.
dois anos, constitui condição inar-
redavel de sentença. Este é também o entendimento
Somos, em face do exposto, pe- do Supremo Tribunal Federal, como
lo indeferimento do writ». (fls. se vê do v. acórdão desta Turma, em
56/57). 26-6-79, habeas corpus n? 57.080, de
E o relatório. que foi Relator o eminente Ministro
Soares Mufioz, cuja ementa diz:
VOTO «p ena acessória. Perda da fun-
ção pública. Caso em que ela resul-
O Sr. Ministro Alfredo Buzaid (Re- ta da simples imposição da pena
lator): 1. Cuida-se de saber, na pre- de reclusão por mais de dois anos,
sente ação de habeas corpus, se o independentemente de declaração
Egrégio Tribunal de Justiça Militar da sentença. Aplicação do art. 102
do Estado de Minas Gerais, ao apli- do Código Penal Militar em combi-
car, em grau de apelação, a pena nação com os arts. 68, II, e 70, I e
acessória de exclusão do impetrante parágrafo único do Código Penal.
da Corporação policial, proferiu de- Habeas corpus indeferido». (RTJ
cisão com reformatio in peitas. Real- 96/1.020).
R.T.J. — 108 563

Ante o exposto, indefiro o pedido negando provimento à apelação do


de habeas corpus. réu, manteve a pena principal da
E o meu voto. decisão de primeiro grau. E impôs
a pena acessória como conseqüên-
EXTRATO DA ATA cia ex lege da pena principal».
HC 60.543-MG — Rel • Min. Alfredo E concluiu:
Buzaid. Pacte.: Geraldo Rodrigues Este é também o entendimento
Filho. Impte.: José Maria Mayrink do Supremo Tribunal Federal, co-
Chaves. Coator.: Tribunal de Justiça mo se vê do v. acórdão desta Tur-
Militar do Estado de Minas Gerais. ma, em 26-6-79, habeas corpus n?
Decisão: O julgamento foi adiado a 57.080, de que foi Relator o Emi-
pedido do Ministro Oscar Corrêa, nente Ministro Soares Mufloz, cuja
após o voto do Ministro Relator que ementa diz:
indeferia o pedido de habeas corpos.
Presidência do Senhor Ministro «Pena acessória. Perda da fun-
Soares Mufloz. Presentes á Sessão os ção pública. Caso em que ela re-
Senhores Ministros, Rafael Mayer, sulta da simples imposição da
Néri da Silveira, Alfredo Buzaid e pena de reclusão por mais de
Oscar Corrêa. Subprocurador-Geral dois anos, independentemente de
da República, Dr. Francisco de As- declaração da sentença. Aplica-
sis Toledo. ção do artigo 102 do Código Penal
Militar em combinação com os
Brasília, 8 de março de 1983 — arts. 68, II, e 70, 1 e parágrafo
António Carlos de Azevedo Braga, único do Código Penal. Habeas
Secretário. comias indeferido». (RTJ
96/1.020)».
VOTO( VISTA)
2. O problema, não circunscrito à
O Sr. Ministro Oscar Corrêa: 1. área penal militar — como no caso
Suscitou-me dúvida, no voto do Emi- —, pareceu-nos de superior impor-
nente Relator, a caracterização da tância. E recordamo-nos da lição de
reformatio in pelus, que S. Exa. ex- Baslleu Garcia (Instituições de Di-
pjicitou, ao afirmar (voto pág. 5): reito Penal, Max Limonad — 4? ed.
tomo II — 1959, pág. 454) ao referir o
«Com efeito, no direito penal mi- equivoco — quanto ás penas acessó-
litar, a pena ou é principal ou é rias do artigo 70 do Código Penal —
acessória. Ora, segundo os melho- de inferir-se « da determinação da
res sufrágios da doutrina, a proibi- lei um suposto caráter especial de
ção da reformatio in peitas entende obrigatoriedade das penas acessó-
com a pena principal e não com a rias indicadas nos n?s I e II desse
pena acessória Manzini, Diritto dispositivo, com a seguinte e estra-
processuale penale, IV, pág. 555;I nha conseqüência: não tendo sido
Carlos Umberto Del Pozzo, L'ap- aplicada na sentença de primeira
pello nel processo penale, pág. instância a providência penal com-
225). O juizo de apelação pode apli- plementar caberia ao Tribunal ad
car a pena acessória, não só por- quem impô-la —, pois que seria obri-
que não é pena em sentido próprio, gatória mesmo sem apelação da par-
como principalmente porque o seu te acusadora».
efeito decorre ex lege. A proibição
de reformatio in peitas concerne á A isso considerou «inaceitável vio-
espécie da pena e à sua quantida- lação ao principio proibitivo de
de. Sob este aspecto, o E. Tribunal, reformatio in peitas».

564 R.T.J. — 108

E, no mesmo sentido, J. Frederico fluem automaticamente da pena


Marques (Elementos de Direito Pro- principal, é que poderão, sem re-
cessual Penal, Forense — 1965, IV, forma para pior, ser aplicadas em
pág. 275) ao afirmar: recurso do acusado. Quanto às ou-
«A norma contida no artigo 617 tras não. O silêncio do juiz induz a
não fala em medida de segurança que achou não ser de aplicá-las no
e tampouco em pena acessória. caso concreto» (obra citada, págs.
Mas, se a imposição de uma ou de XXVII/XXVIII).
outra violar os princípios do con- Fica ele, acentua, nel mezzo del
traditório (retro, n? 784), inad- camin...
missível será o aumento de grava- Examinando o problema, no
mes ao réu; quer para submetê-lo verbete Reformatio in Pejus —
à medida de segurança, quer para Diritto Processuale Penale — no
acrescer pena acessória à conde- Novissimo Digesto Italiano, Giusep-
nação». pe Sabatini, a respeito, resume a
3. A questão é especificamente controvérsia:
enfrentada por Magalhães Noronha «Essendo indubbia la riferibllitá
(Da Reformatio in Pejus — in Julga- alie pene principali, dubbio pud
dos dos Tribunais de Alçada de São sorgere, ed é sorto, circa la riferi-
Paulo — Lex — SP — 3? Trimestre bilitá dell'art. 515, 3? comma, alie
de 1969 — vol. IX, págs. XXVII e se- pene acessorie. Ma é chiaro che,
guintes). Depois de assinalar que de- non distinguendo la legge, tl divieto
veria prevalecer a regra, no tocante opera in via generale anche in or-
às penas acessórias, lembra a opi- dine alie pena acessorie, con esclu-
nião de Bento de Faria e Espínola sione, tuttavia, delle pene accesso-
Filho, que, fundando-se em Manzini, ria dl applicazione automatica,
salientam que a proibição da re- quando tale applicazione pub esse-
formatio in peius não se refere às re dichiarata in sede di esecuzione
penas acessórias. non essendo necessaria una pro-
Argumenta, contudo, que «a opi- nunzia del gludice.»
nião de Manzini não pode ser adota- A matéria vem largamente ex-
da integralmente por nós, pois há di- posta, aliás, em Mario pisam (II Di-
ferenças nos textos legais» brasileiro %/teto della «Reformatio in Pelus»)
e italiano, distinguindo, então: nel processo penale italiano» — Giuf-
fré — Milano — 1967), que assinala a
«Domina a espécie o artigo 70 do existência das «duas posições nitida-
Código Penal, que considera duas mente contrastantes:
classes de penas acessórias: obri- «Mentre ce chi rileva che II di-
gatórias e facultativas. Estas são vieto non piá) riguardare le pene
alinhadas nos n?s I e II do aludido accessorle, perche queste non ven-
artigo ao passo que as primeiras gone «inflitte» del giudice con la
constituem objeto do parágrafo sentenza di condanna, in quanto ne
único do mesmo: «Nos demais ca- conseguono dl diritto comme effetti
sos, a perda da função pública e as Penale (art. 20 c.p.), da altri si op-
interdições resultam da simples pone che nonostante un tale auto-
imposição da pena principal». Sig- matismo, esse sono purtuttavla da
nifica decorrerem ope legis da pe- cOnsiderarsi pene, in quanto tale
na principal; resultam da simples comprese nell'ambito di incidenza
fixação da pena privativa de liber- del divieto» (pág. 68).
dade, e, conseqüentemente, se apli-
cam ainda que haja silenciado a Aprofundando a indagação, Pisani
sentença. Somente estas, que de- refere-se às penas acessórias que po-
R.T.J. — 108 565

dem ser chamadas fixas, determina- Veja-se, por exemplo, no HC n?


das precisamente ex lege e que, diz 42.083-GB — Relator o Exmo. Minis-
ele, pode dizer-se, determinadas pelo tro Evandro Lins, a Corte em Sessão
legislador, para concluir que Plenária, decidiu, na linha do voto
«solo cozi riguardo a tale tipo dl pe condutor, que
ne accessorie, appunto perchè fis- «aplicando mais uma pena —
se, appare significativa la diffe- acessória — em apelação interpos-
renziazione, a termine contrappos- ta apenas pelo réu, a decisão da 1?
U, delineata nel art. 20 c.p. («Le Câmara Criminal infringiu a proi-
pene principal! sono infilte dal bição constitucional do artigo 617
gludice con sentenza di condanna; do CPP. Houve reformatlo in pejus
quelle accessorie conseguono dl dl- vedada por essa norma processual,
ritto alia condanna, come effetti exacerbando-se a pena em recurso
penali di essa»), e al contempo rl- que era só do condenado.
sulta accettablle l'opinlone corren- Pelo que se concedeu a ordem,
te che esclude le pene accessorie «para excluir da condenação a pe-
dall'ambito operativo dei divieto na acessória aplicada em segunda
delia reformatlo in pelusn (pág. Instância» (RTJ 32/613).
69/70).
Na mesma linha, quanto a sursls
Com efeito, diríamos que, na que se completara, quando, proferi-
hipótese em exame (para não nos es- da nova condenação, já havia expi-
tendermos mais), a pena acessória é rado o prazo do beneficio. O acórdão
imposta ex lege resulta, de direito, considerou «uma nova fixação do
aa condenação, fixa, e não é aplica- período de prova, quando este já se
da pelo juiz, senão que pelo próprio esgotara», «uma afronta ao princípio
legislador, que o determina. Não se que proíbe a reforma para pior»
trata, na verdade, de nova imposi- (RTJ 84/689 — In RECr. n? 87.444-SP
ção, nem de agravamento, senão de — Relator Exmo. Ministro Bilac Pin-
explicitar e declarar o que, na lei, se to).
impõe.
Igualmente, no HC n? 54.555 — Re-
Com esses limites, admito-o. Co- lator o Exmo. Ministro Antonio Ne-
mo, aliás, no v. acórdão indicado no der (RTJ 80/42), o Plenário da Corte
voto do Eminente Relator — o HC n? decidiu, em acórdão com esta Emen-
57.080, relator o Exmo. Ministro. ta:
Soares Mtuloz (RTJ 96/1.020). E co-
mo, implicitamente, o aceita o artigo «O artigo 617 do CPP expressa
107 do Código Penal Militar, ao dis- que o Tribunal, ao julgar apelação
por que «salvo os casos dos artigos interposta somente pelo réu, não
99, 103, II e 106, a imposição da pena lhe pode agravar a pena, ou me-
acessória deve constar expressa- lhor dizendo, não tem como lhe
mente da sentença». Com o que se in- piorar a situação jurídico-penal.
terpreta, a contrario sensu, que, nos o princípio que proíbe ao Tribunal
casos indicados, não precisa dela do apelo a reformatlo In pejus.
constar a imposição da pena acessó- Sem que haja o apelamento do Mi-
ria. nistério Público, ou quando se de-
clare inadmissível tal recurso (co-
Em outras hipóteses — salien- mo no caso de ser ajuizado extem-
te-se — a jurisprudência da Corte poraneamente), não pode o Tribu-
tem recusado, em apelação, com nal , aplicar ao réu pena mais gra-
recurso apenas do réu, a imposi- ve do que a cominada na sentença
ção de pena acessória, sob o funda- recorrida, quer seja pela espécie,
mento da reformato In pelus. quer seja pela quantidade, nem re-

566 R.T.J. — 108

vogar qualquer benefício concedido Filho. Impte.: José Maria Mayrink


pelo julgado inicial, exceto a facul- Chaves. Coator. Tribunal de Justiça
dade, nos limites fixados pelos fun- Militar do Estado de Minas Gerais.
damentos do sobredito recurso, de
conferir definição, inclusive mais Decisão: Indeferiu-se a ordem de
grave, ao crime, sem, todavia, au- habeas corpus. Decisão unãnime.
mentar a pena».
8. Desta forma, resultando, in Presidência do Senhor Ministro
casu, a pena acessória de imposição Soares Mufloz. Presentes à Sessão os
fixa da lei, que expressamente, a de- Senhores Ministros, Rafael Mayer,
termina acolho-a, como no voto do Néri da Silveira, Alfredo Buzaid e
Eminente Relator, indeferindo o pe- Oscar Corrêa. Subprocurador-Geral
dido. da República, Dr. Francisco de As-
E o voto. sis Toledo.
EXTRATO DA ATA
Brasília, 13 de junho de 1983 —
HC 60.543-MG — Rel.: Min. Alfredo António Carlos de Azevedo Braga,
Buzaid. Pacte.: Geraldo Rodrigues Secretário.

HABEAS CORPUS N? 60.863 — SC


(Primeira Turma)
Relator: O Sr. Ministro Alfredo Buzaid.
Pacientes: Adelar Antonio Lemos e outro — Impetrante: Iran Wosgrau
— Coator: Tribunal de Justiça do Estado de Santa Catarina.
Habeas corpus. O Código Penal, no art. 25, adotou a teoria da
equivalência da causa.
2. Havendo convergência de vontades para a realização de um
fim, aderindo uni dos agentes à ação do outro, a não identificação do
resultado não importa autoria incerta. Todos respondem pelo resulta-
do.
3. Habeas corpus indeferido.
ACÓRDÃO de habeas corpus em favor de Ade-
lar Antonio Lemos e Gasparino Gon-
Vistos, relatados e discutidos estes çalves dos Reis, condenados em Vi-
autos, acordam os Ministros da Pri- defira, no Estado de Santa Catarina,
meira Turma do Supremo Tribunal por co-autoria em crime de ho-
Federal, na conformidade da ata do micidio qualificado.
julgamento e das notas taquigráfi- Da longa petição inicial, o impe-
cas, por unanimidade de votos, em trante alega, em síntese, como está
indeferir o pedido de habeas corpus. no parecer da Procuradoria-Geral, o
Brasília, 26 de abril de 1983 — seguinte:
Soares Mufioz, Presidente — Alfredo a) a contradição na resposta aos
Buzaid, Relator. quesitos pelo fato de ter o Júri nega-
RELATÓRIO do a autoria direta em relação a to-
dos os acusados, afirmando apenas a
Sr. Ministro Alfredo Buzaid: Iran co-autoria, concebendo, assim, uma
Wosgrau impetra a presente ordem co-autoridade sem autoria;

R.T.J. — 108 567

contradição na resposta ao que- Micta objetiva, comunicável a to-


sito da qualificadora da paga ou pro- dos os partícipes, não poderia ser
messa de recompensa, pois ao nega- afirmada em relação aos pacientes
la em relação ao co-autor Sebastião Gasparino e Adelar e, ao mesmo
José de Oliveira e reconhecê-la tempo, negada em relação aos dois
quanto ao paciente Gasparino, o Júri outros co-autores, Sebastião e Ma-
teria afirmado a existência de um noel;
mandatário sem o mandante; d) desconformidade dos quesitos
contradição na resposta ao que- em relação ao libelo.
sito da qualificadora da emboscada, Dão noticia estes autos de
que, por se tratar de circunstância um crime misterioso, ocorrido no
objetiva, comunicável a todos os município de Fraiburgo, em Santa
partícipes, não poderia ser afirmada Catarina, em dezembro de 1977. Os
em relação aos pacientes Gasparino fatos, segundo a denúncia, só fo-
e Adelar e, ao mesmo tempo, negada ram desvendados em 19 de abril de
em relação aos dois outros co- 1979, com o depoimento de uma
autores, Sebastião e Manoel; testemunha ocular da trama crimi-
d) desconformidade dos quesitos nosa — a empregada doméstica
em relação ao libelo» (fls. 76). que trabalhava na residência de
Ouvida a douta Procuradoria Ge- um dos co-autores, onde se reu-
ral da República, em parecer da la- niam todos os participes do crime
vra do eminente Professor Fran- para acertar os detalhes do plano
cisco de Assis Toledo, assim se ma- criminoso e realizar os atos prepa-
nifestou, verbis: ratórios da execução.
d. Em favor de Adelar Antônio Provas materiais, confirmató-
Lemos e Gasparino Gonçalves dos rias da autoria, foram apreendi-
Reis, condenados pelo Júri, em das, tais como o bilhete que atraiu
sentença confirmada pelo Tribu- a vítima para a emboscada, elabo-
nal, impetra-se ordem de habeas rado por Gasparino, e, oculto sob a
corpus sob fundamento de nulidade cama da esposa do co-réu Sebas-
do julgamento, alegando-se em tião, o relógio pertencente á infeliz
síntese o seguinte: vitima (fls. 32).
a contradição na resposta aos A leitura das peças que instruem
quesitos pelo fato de ter o Júri ne- o pedido dão-nos, pois, a convicção
gado a autoria direta em relação a de que os acusados engendraram e
todos os acusados, afirmando ape- executaram a morte da vitima,
nas a co-autoria, concebendo, as- mas, pelas circunstâncias miste-
sim, uma co-autoria sem autoria; riosas do crime, não se sabe quem
desferiu o tiro fatal, se Sebastião,
contradição na resposta ao se Gasparino, se Adelar, ou se Ma-
quesito da qualificadora da paga noel.
ou promessa de recompensa, pois
ao negá-la em relação ao co-autor E foi isso, precisamente, o
Sebastião José de Oliveira e re- que decidiu o Júri: na total impôs-
conhecê-la quanto ao paciente Gas- sibilidade de, nas circunstâncias,
parino, o Júri teria afirmado a exis- dizer da exata participação de ca-
tência de um mandatário sem o da um (quem forneceu o dinheiro,
mandante; quein deu o tiro, quem emboscou a
vítima), mas diante de provas con-
c) contradição na resposta ao cretas da participação de todos os
quesito da qualificadora da embos- acusados, concluiu pela condena-
cada, que, por se tratar de circuns- ção de todos em co-autoria, o que,

568 R.T.J. — 108

a nosso ver, não significa contradi- Não se trata, pois, de conceber


ção alguma. Vejo, por exemplo, uma co-autoria sem autoria, con-
quatro pessoas agarrando um in- forme se alega, mas, ao contrário,
divíduo e conduzindo-o para local de conceber-se uma «autoria plu-
ermo. Ouço um tiro. Depois, vejo o ral» em que todos executam o cri-
indivíduo seqüestrado morto no lo- me e cada um apresenta-se como
cal para onde fora violentamente co-autor não como autor único ou
conduzido. Diante desse quadro hi- exclusivo.
potético, sei que as quatro pessoas 5. Os fundamentos das letras b
por mim vistas cometeram o cri- c estão, a nosso ver, prejudica-
me de homicídio, mas, se os pró- dos pela anulação do julgamento
prios agentes não confessaram os em relação aos co-réus Sebastião e
detalhes finais da execução crimi- Manoel, onde busca o impetrante
nosa, ficarei irremediavelmente os paradigmas da contradição que
sem saber quem deu o tiro fatal e pretende estabelecer com o julga-
quais os que apenas seguraram a mento dos pacientes Gasparino e
vitima, nos momentos derradeiros Adelar. Se o julgamento daqueles
da consumação. primeiros foi anulado e se ainda
Não é possível, que, diante de não se sabe qual será o resultado
um exemplo como esse que muito. do novo julgamento, é óbvio que
se aproxima da hipótese dos autos não se pode, por enquanto, afirmar
— a justiça, por não poder apontar a existência de contradição entre o
autor direto, fique impedida de julgamento válido dos pacientes e
condenar os induvidosos co-autores julgamento invalidado ou o que
do fato, dentre os quais estará, ne- ainda está para acontecer.
cessariamente, o autor do disparo. 6. A alegado contradição entre
os quesitos e os libelos (último fun-
4. Teria sentido o primeiro fun- damento da impetração), a nosso
damento da impetração (item 1, le- ver, não existe. Os libelos dos pa-
tra a, supra), em um sistema que cientes, que podem ser lidos a fls.
não acolhesse, como o nosso, a 37/ 41, atribuem aos libeiados o em-
teoria da equivalência das causas, prego de arma de fogo e a co-
a respeito da qual assim se expres- autoria no crime, in verbis:
sa a Exposição de Motivos do Códi-
go vigente: fazendo uso de arma de
fogo, de emboscada e prestando
«22. O projeto aboliu a distin- decisivo auxílio e cooperação aos
ção entre autores e cúmplices: co-rétis»...etc. (fls. 37).
todos os que tomam parte no cri-
me são autores. Já não haverá «... fazendo uso de arma de
mais diferença entre participa- fogo, e em co-autoria com Sebos-
ção principal e participação aces- tião»... etc. (fls. 41).
sória, entre auxílio necessário e Diante de tais libelos, estava o
auxilio secundário, entre a juiz autorizado a indagar o Júri,
societas criminis e a societas como de fato fez, sobre a autoria
incrimine Quem emprega qual- do disparo e, negada esta, sobre a
quer atividade para a realização co-autoria no crime (fls. 45/ 47).
do evento criminoso é considera-
do responsável pela totalidade 7. O parecer, em conclusão, é
dele, no pressuposto de que tam- pela denegação da ordem »(fls.
bém as outras concorrentes en- 75/80).
traram no âmbito da sua con-
ciência e vontade». E o relatório.
R.T.J. — 108 569

VOTO sua vez, forma um todo: o crime.


Quem, de qualquer modo, contribuiu
O Sr. Ministro Alfredo Buzaid (Re- para o resultado, é por ele responsá-
lator): Os pacientes e mais dois ou- vel. Não importa saber quem deu o
tros conluíram-se, mediante paga tiro mortal. A unidade de querer de
ou promessa de recompensa, para todos os envolvidos é o que caracte-
matar a vítima. O móvel do crime riza a co-autoria. Não se diga que,
não ficou perfeitamente estabeleci- no caso, sendo diversos os co-autores
do, pois os implicados negaram a au- do crime não se sabe a qual deles
toria, embora esta tivesse sido des- atribuir o resultado.
coberta pelas inconfidências de uma
serviçal de Sebastião José de Olivei- A hipótese não é de autoria incer-
ra, vulgo «Bastos», que ouviu a con- ta. Bem o esclareceu Magalhães
versa dos quatro, concertando a eli- Noronha, ao escrever:
minação da vitima Juvenal Rosa. «Desde que haja convergência de
O primeiro item da impetração vontades, para um fim comum,
refere-se à co-autoria. Alega o impe- aderindo um dos 'agentes à ação do
trante que, em não sendo determina- outro, a não-identificação do resul-
do quem atirou na vitima, tornou-se tado não importa autoria incerta,
impossível estabelecer uma «co- pois ambos responderão por ele»
autoria sem autoria». (Magalhães Noronha, Direito pe-
nal, Saraiva, 1982, 20! ed., vol. I,
A premissa não é verdadeira. O vi- pág. 225).
gente Código Penal esposou a teoria
da equivalência das causas, assim Os dois pacientes e os comparsas
expressa no art. 25: «quem, de qual- engendraram a morte da vítima,
quer modo, concorre para o crime, conseguindo alcançar o resultado.
incide nas penas a este cominadas» Assim, a responsabilidade pelo even-
(Cf. Heleno Cláudio Fragoso, Lições to é a todos eles atribuída.
de direito penal, Forense, 1980, 418 Nos dois seguintes itens aponta-se
ed., parte geral, pág. 256; José Fre- contradição na resposta dos jurados
derico Marques, Tratado de direito aos quesitos formulados, em série,
penal, Saraiva, 1965, 2! ed., vol. II, para cada um dos réus. Isso porque,
pág. 306 e segs ; Damásio E. de Je- para os pacientes, o Júri reconheceu
sus, Direito penal, Saraiva, 1982, 7? as qualificadoras da recompensa e
ed., vol. I, pág. 363: Maggiore, Dirit- da emboscada, ao passo que, para os
to penale, 38 ed., vol. II, pág. 563). outros dois, não. Mas a contradição
Não fez, portanto, o legislador dife- não pode ser apurada nesta altura,
rença entre uma maior ou menor uma vez que o Tribunal de Justiça a
participação do agente ativo do cri- quo anulou o julgamento, pelo Júri,
me na ação de outrem. Equiparou os dos co-réus, afastando, assim, a pos-
participes, desde que tenham, de sibilidade de confrontos. Mesmo que
qualquer modo, contribuído para o assim não fora, as decisões dos jura-
resultado antijuridico e culpável. So- dos são soberanas. Eles decidem em
mente a prova vai dizer do maior ou face da prova e dos elementos dos
menor empenho do co-autor, mas is- autos, tendo por isso perfeita autono-
so refoge ao âmbito do habeas mia, salvo quando a decisão for ma-
corpus. Na espécie, a co-autoria fica nifestamente contrária à evidência
determinada e é incindivel. Todos dos autos.
aqueles que buscaram o resultado
respondem pelo mesmo crime e re- Por último, não há contradição en-
cebem idêntica apenação. A co- tre os quesitos e os libelos. Naqueles,
autoria é parte de uma ação que, por foi indagado aos jurados sobre uso

570 R.T.J. — 108

de arma de fogo e co-autoria, tendo mos e outro. Impte.: Iran Wosgrau.


os mesmos respondido afirmativa- Coator.: Tribunal de Justiça do Esta-
mente. do de Santa Catarina '
Como o verdadeiro autor do dispa- Decisão: Indeferiu-se o pedido de
ro mortal não ficou individuado, líci- habeas corpus. Decisão unânime.
to era questionar o Júri, negada a
autoria, sobre a co-autoria. Presidência do Senhor Ministro
Soares
Por tais fundamentos, com apoio, Senhores Mufioz. Presentes à Sessão os
Ministros Rafael Mayer,
ainda, no parecer retrotranscrito, Néri da Silveira,
indefiro o pedido. Alfredo Buzaid e
Oscar Corrêa. Subprocurador-Geral
E o meu voto. da República, Dr. Francisco de As-
sis Toledo.
EXTRATO DA ATA
Brasília, 26 de abril de 1983 —
HC 60.863-SC — Rel.: Min. Alfredo Antônio Carlos de Azevedo Braga,
Buzaid. Pactes.: Adelar Antonio Les- Secretário.

RECURSO DE HABEAS CORPUS N? 60.985 — RS


(Primeira Turma)
Relator: O Sr. Ministro Soares Muiloz.
Recorrente: Maria Elusa Alves Fernandes — Recorrido: Tribunal de
Justiça do Estado do Rio Grande do Sul.
Co-autoria. Homicídio. Tribunal do Júri.
Não é admissivel reconhecer, em «habeas corpus», que, tendo o
Tribunal do Júri julgado que o co-réu praticou o crime de homicídio
sob o domínio de violenta emoção, logo depois de injusta provocação
da vitima, a outra co-ré não necessite submeter-se a julgamento em
sessão subseqüente do mesmo Tribunal, porque, em face daquele ve-
redicto, fica excluída a participação que o libelo lhe imputa no cri-
me. Recurso desprovido.
ACÓRDÃO Queiroz requereu ordem de habeas
corpus a favor de Maria Elusa Alves
Vistos, relatados e discutidos estes Fernandes, denunciada e pronuncia-
autos, acordam os Ministros do Su- da, com outrem, como incursa no
premo Tribunal Federal, em Primei- art. 121, 2?, itens I e IV, combina-
ra Turma, na conformidade da ata dos com o art. 25, ambos do Código
do julgamento e das notas taquigrá- Penal.
ficas, por unanimidade de votos, ne- o writ visa a evitar que a paciente
g ar provimento ào recurso de seja submetida a julgamento pelo
habeas corpus. Tribunal do Júri.
Brasília, 3 de Junho de 1983 — Fundamenta-se o pedido na cir-
Soares Mulloz, Presidente e Relator. cunstância de o có-reu, autor mate-
rial do homicídio, ter sido condenado
RELATORIO pelo Tribunal do Júri por homicídio
privilegiado, praticado sob o domínio
O Senhor Ministro Soares Mufioz: de violenta emoção logo depois de in-
A advogada Lúcia Helena de Brito justa provocação da vítima.

R.T.J. —108 571

Essa decisão, segundo alega a-im- Pronunciada como co-autora do


petrante, fez coisa julgada em rela- crime, de homicídio, só o Tribunal
ção à paciente, pois que esta não po- do Júri é que poderá decidir se a
deria 'ter induzido ou instigado o co- paciente concorreu, de qualquer
réu à prática de crime, uma vez que modo, para a prática do crime.»
ele agiu, consoante a decisão do Tri- (fls. 53/54).
bunal Popular sob o domínio de vio- o relatório.
lenta emoção, logo depois de injusta
provocação da vítima. VOTO
O pedido foi indeferido pela 3? Câ- O Sr. Ministro Soares Muãoz (Re-
mara Criminal do Tribunal de Justi- lator): O precedente da Corte lem-
ça do Rio Grande do Sul, sob o fun- brado no parecer condiz com a dou-
damento de que «o privilégio dispen- trina e a jurisprudência sobre as de-
sado ao co-réu é pessoal, não se co- - cisões do Tribunal do Júri, segundo
municando à paciente, que, na divi- as quais não hã julgamento por infe-
são do labor criminoso, já havia exe-
cutado sua parte, volitiva, através rência nos veredictos do Tribunal do
do consentimento e estruturação do Júri nem
de um réu em relação ao outro,
multo menos coisa julgada.
plano, e a parte material pelo forne-
cimento da chave para que o com- Para que tal não ocorra, os quesi-
parsa esperasse a vitima no interior tos são formulados em séries distin-
da garagem para aí abatê-la, como o tas e autônomas (art. 484, V, do
fez. Não há motivo suficiente para CPP), cabendo ao juiz advertir os
que os jurados deixem de apreciar a jurados de eventuais contradições,
imputação relativamente à paciente, reformulando, se necessário, a inda-
que deverá ser julgada» ( fls. 29). gação respondida de maneira que
possa
Inconformada, a impetrante inter- do CPP). ensejar contradição (art. 489
pós recurso extraordinário, reeditan-
do suas alegações iniciais. Não se aplica, ademais a tais de-
Pelo improvimento do recurso or-. -cisões
do
a solução prevista no art. 580
Código de Processo Penal, por is-
(Unário manifestou-se a Procurado- so que os jurados julgam imotivada-
ria Geral da República, in verbis: mente.
«A Suprema Corte já decidiu que Ante o exposto e pelos fundamen-
tos
«E inadmissível extensão dos recurso.do parecer, nego provimento ao
efeitos de absolvição do co-réu,
pelo reconhecimento de legitima EXTRATO DA ATA
defesa, pelo Tribunal do Júri, pa-
ra supressão, relativamente a ou- RHC 60.985-RS — Rel.: Min. Soares
tro réu, do julgamento desse Tri- Mtdioz. Recte.: Maria Elusa Alves
bunal, determinado pela senten- Fernandes. (Adva.: Lúcia Helena de
ça de pronúncia.» (RECr. n? Brito Queruz). Recdo.: Tribunal de
72.956-SE, Rel.: Min. Eloy da Ro- Justiça do Estado do Rio Grande do
cha, RTJ 62/719). Sul.
Dessa forma, se a absolvição de Decisão: Negou-se provimento ao
um co-réu não impede que o outro recurso de habeas corpus. Decisão
seja submetido a julgamento pelo unânime.
Tribunal do Júri, o mesmo aconte- Presidência do Senhor Ministro
ce, com igual razão, quando se re- Soares Mufloz. Presentes à Sessão os
conhece a ocorrência do homicídio Senhores Ministros, Rafael Mayer,
privilegiado. Néri da Silveira, Alfredo Buzaid e
572 R.T.J. — 108

Oscar Corrêa. Subprocurador-Geral Brasília, 3 de junho de 1983 —


da República, Dr. Francisco de Assis Antônio Carlos de Azevedo Braga,
Toledo. Secretário.

HABEAS CORPUS N? 61.025 —PR


(Segunda Turma)
Relator: O Sr. Ministro Moreira Alves.
Paciente: Fernando Antonio Porto Soares — Coator: Superior Tribunal
Militar.
Habeas corpos. Unificação de penas. Crime que anteriormente era
contra a segurança nacional e voltou a ser considerado delito comum.
Competência.
— Cabe ao Juízo da Vara de Execuções Criminais decidir sobre o
pedido de unificação das penas, uma vez que o crime pelo qual foi
condenado o réu, na Justiça Militar, voltou a ser considerado delito
comum.
Habeas corpus deferido.
ACÓRDÃO 2. Sustenta a incompetência da
área militar ao exame do solicita-
Vistos, relatados e discutidos estes do, que em caso análogo ao seu, Is-
autos, acordam os Ministros da Se- to firmara-o o MM. Juiz Auditor da
gunda Turma do Supremo Tribunal 5? CJM, o que veio a gerar Conflito
Federal, na conformidade da ata do Negativo de Jurisdição afinal deci-
julgamento e das notas taquigráfi- dido pelo E. Tribunal Federal de
cas, por unanimidade de votos, defe- Recursos em favor da Justiça Co-
rir o pedido de habeaS corpus mum (vide: fls. 6/7 e 9).
Brasília, 9 de agosto de 1983 — Efetivamente, traz o postu-
Djaci Falcão, Presidente — Moreira lante julgado recente da lavra do
Alves, Relator. douto Min. Aldir G. Passarinho,
quando ainda judicava na instân-
cia recursai federal, reconhecendo
RELATÓRIO que se o crime, pelo qual o acusa-
do julgado foi na Justiça Militar,
O Sr. Ministro Moreira Alves: As- passou a ser considerado crime co-
sim expõe e aprecia o presente mum, o foro competente aos inci-
habeas corpus o parecer da Procu- dentes da execução é o foro
radoria Geral da República, da la- comum — fia 9. julgado este que
vra do Dr. Cláudio Lemos Fonteles temos por acertado.
(fls. 76/78): No caso, está claro, Fernan-
«1. Fernando Antonio Porto do Antônio é larápio comum pois
Soares ajuíza pedido de habeas que roubara um posto de gasolina;
corpus, inconformado com as deci- uma associação religiosa e dois es-
sões assumidas na jurisdição cas- tabelecimentos bancários (vide•
trense que, apreciando pedido de fls. 24).
unificação de penas requerido à luz 5. Quando decidido na instância
da continuidade delitiva, indeferiu- militar de conhecimento o pedido
o (fls. 38/74). de unificação — isso aos 18-12-198Õ

R.T.J. — 108 573

(vide: fls. 19) já vigorava a nova Passarinho, hoje nosso colega, o Tri-
Lei de Segurança Nacional que, bunal Federal de Recursos assim se
sem motivação político-partidária, manifestou:
não considerava mais como contra «Competência.
a Segurança Nacional o assaltar
banco. Crime contra a segurança nacio-
O processo de execução não é nal.
prolongamento do processo de co- Unificação de Penas.
nhecimento. outra realidade pro- Tendo o crime pelo qual foi con-
cessual, autônoma. denado o réu, na Justiça Militar,
Constitui-se em postulações passado a ser considerado crime
— incidentes — maioria das vezes comum, cabe ao Juiz da Vara de
tituladas pelo sentenciado e sem- Execuções Criminais decidir sobre
pre discutindo o cumprimento da a requerida unificação das penas».
sanção seja para não se efetivar; E é essa a solução que se me afi-
seja para diminui-lo no quantum; gura correta, pela circunstância de
seja para observá-lo em tal ou qual que a Justiça Militar, no caso, dei-
regime penitenciário. xou de ter competência — e se trata
Porque se constitui em rela- de competência absoluta — para pro-
ção processual diversa é que o pró- cessar e julgar crimes dessa nature-
prio Código de Processo Penal in- za, inclusive no tocante à execução
siste nos artigos 668 e 671 em esta- das penas impostas.
belecer regra de competência fun- Em face do exposto, e acolhendo o
cional pelo tipo de processo em parecer da Procuradoria-Geral da
tais situações que, assim, dedu- República, defiro o presente habeas
zidas hão de ser perante apropria- corpus, para que, anuladas as deci-
do Juizo, verbis: sões da Justiça Militar quanto ao pe-
Artigo 668: A execução, onde dido de unificação das penas em
não houver juiz especial, incum- causa, seja ele apreciado e decidido
birá ao juiz da sentença»... pelo Juizo das Execuções Criminais
de São Paulo.
Artigo 671: Os incidentes da
execução serão resolvidos pelo EXTRATO DA ATA
respectivo Juiz. ( grifamos).
Somos, então, pelo deferi- HC 61.025-PR — Rel.: Min. Morei-
mento do pedido para que, anula- ra Alves. Pacte.: Fernando Antonio
das as decisões assentadas na ju- Porto Soares (Imptes.: O mesmo e
risdição castrense, seja a postula- Luiz Sergio Fernandés de Souza).
ção de Fernando Antonio Porto Coator: Superior Tribunal Militar.
Soares, pela unificação de suas pe- Decisão: Deferido o pedido nos ter-
nas, examinada e decidida no MM. mos do voto do Relator. Unânime.
Juizo das execuções Criminais de
S. Paulo, onde cumpre pena (fls. Presidência do Senhor Ministro
1U». Djaci Falcão. Presentes à Sessão os
Senhores Ministros Moreira Alves,
o relatório. Dedo Miranda, Aldir Passarinho e
VOTO Francisco Rezek. Subprocurador-
Geral da República, Dr. Mauro Leite
O Sr. Ministro Moreira Alves (Re- Soares.
lator): Ao decidir, em 29 de abril de Brasília, 9 de agosto de 1983 —
1981, o conflito de competência 4.274, Hélio Francisco Marques, Secretá-
de que foi relator o Ministro Aldir rio.
574 R.T.J. — 108

RECURSO DE HABEAS CORPUS N? 61.081 — SP


(Primeira Turma)
Relator: O Sr. Ministro Alfredo Buzaid.
Recorrente: Nilson Henrique Minervino Linck — Recorrido: Tribunal de
Alçada Criminal do Estado de São Paulo.
Habeas carpim. Advogado inscrito na seção da Ordem de São
Paulo, mas, suspenso sob o fundamento de haver incidido em erros
reiterados que evidenciam inépcia profissional. A pena perdura até
que preste novas provas de habilitação (Lei n? 4.215, art. 109, IV).
A pena de suspensão acarreta para o infrator a interdição do
exercício profissional em todo o território nacional (Lei 4.215, art.
113).
Instauração de processo por violação do art. 47 da Lei de Con-
travenções. Inexistência de coação ilegal.
4. Recurso de habeas corpus a que se nega provimento.
ACÓRDÃO alegando, em resumo, que a segunda
portaria, em que se funda a ação pe-
Vistos, relatados e discutidos estes nal, se encontra eivada de vícios in-
autos, acordam os Ministros da Pri- sanáveis; que é inconstitucional a
meira Turma do Supremo Tribunal perseguição que lhe move a Ordem
Federal, na conformidade da ata do dos Advogados, Seção de São Pau-
julgamento e das notas taquigráfi- lo; que recorre do terceiro habeas
cas, por unanimidade de votos, em corpus; e que a Lei n? 6.838, de 29 de
negar provimento ao recurso de outubro de 1980, demonstra que ocor-
habeas corpus. reu a prescrição da sanção discipli-
Brasília, 2 de agosto de 1983 — nar pelo decurso de cinco anos (fls.
Rafael Mayer, Presidente — Alfredo 174/181).
Buzaid, Relator. Ouvida a doutra Procuradoria Ge-
ral da República, em parecer da
RELATÓRIO ilustre Doutora Haydevalda Apareci-
da Sampaio, aprovado pelo eminente
O Sr. Ministro Alfredo Buzaid: Nil- Professor Francisco Assis Toledo,
son Henrique Minervino Linck, pos- assim se pronunciou:
tulando em causa própria, impetrou
ordem de habeas corpus, perante a «1. O Bacharel Nilson Henrique
Egrégia Primeira Câmara do Tribu- Minervino Linck, em benefício pró-
nal de Alçada de São Paulo, com o prio, impetrou ordem de habeas
objetivo de trancar a ação penal em corpus, objetivando trancar a ação
curso pela Primeira Vara Criminal contravencional por infração ao ar-
da comarca da Capital do Estado, tigo 47 da Lei das Contravenções
em que é processado como incurso penais, por falta de justa causa,
no art. 47 da Lei das Contraven- uma vez que estando inscrito na
ções. A ordem foi denegada por deci- Ordem dos Advogados do Brasil,
são da Egrégia Primeira Câmara Seção de Mato Grosso, poderia ad-
(fls. 169/173). vogar em todo o território nacio-
Não se conformando com essa r nal.
decisão, interpôs recurso ordinário 2. Denegada a ordem pela Pri-
para o Supremo Tribunal Federal, meira Câmara do Tribunal de Al-

R.T.J. — 108 575

çada Criminal do Estado de São dispõe o artigo 110, IV, da Lei n?


Paulo, adveio o competente recur- 4.215/63 por incidir o advogado
so, onde se retomam os argumen- suspenso em erros reiterados que
tos inicialmente deduzidos. evidenciam inépcia profissional,
3. A nosso ver, não assiste ra- decisão que perdura até prova de
zão ao recorrente, tendo a questão habilitação que, segundo se con-
sido abordada corretamente no clui dos autos, ainda não pres-
aresto recorrido, in verbis: tou» ( fls. 170/171).
«A certidão acostada a fls. 118 4. Na verdade, o que pretende o
comprova que o impetrante esta- recorrente é que se examine a de-
ria mesmo inscrito naquela Sec- cisão do Conselho Federal da Or-
ção da Ordem dos Advogados, dem dos Advogados do Brasil, que
desde 28-2-1980. lhe aplicou a pena de suspensão do
exercício profissional. Todavia, o
Na verdade, essa inscrição per- meio empregado é inidõneo.
mitiria ao impetrante e paciente Somos, em face do exposto, pelo
advogar também neste Estado. não provimento do recurso» (fls.
Contudo, como bem pondera o es- 209/212).
correito parecer, tal não ocorre
por estar o impetrante suspenso E o relatório.
pela Seccional de São Paulo da
Ordem dos Advogados do Brasil. VOTO
A pena de suspensão mesmo im-
posta por Conselho Estadual im- O Sr. Ministro Alfredo Buzaid (Re-
porta ao infrator a interdição do lator): 1. Pela segunda vez esta Tur-
exercício profissional em todo ma vai ter oportunidade de exami-
território nacional como dispõe o nar recurso de habeas corpus, em
artigo 113, caput da Lei n? que é interessado o Bacharel Nilson
4.215/63. Henrique Linck. O primeiro foi im-
petrado em seu favor pelo advogado
Assim, em que pese a inscrição Antonio Francisco Furtado. Na ses-
na Ordem dos Advogados do Bra- são de julgamento de 25 de março de
sil Secção de Mato Grosso, impe- 1983, proferi, como relator, o seguin-
dido está o paciente de advogar te voto:
pela suspensão imposta pelo Con-
selho da Ordem dos Advoga- «O primeiro fundamento do re-
dos deste Estado da Federação. curso, ou seja, aquele de que es-
Observe-se, ainda, que o tando suspenso do exercício da ad-
impetrante-paciente está inscrito vocacia pela seccional da OAB-SP
no Quadro da Ordem dos Advo- não lhe impediria de advogar em
gados do Brasil, Secção de São Mato Grosso, pois também inscrito
Paulo e estando suspenso no na seccional local da OAB, fica de
exercício profissional não pode pronto afastada por se tratar de
mesmo advogar neste Estado ou reiteração, já considerada em
em qualquer outra parcela do habeas corpus anterior, cuja or-
território nacional. dem- foi denegada e da decisão não
houve recurso.
Acresce, por último, que con-
soante se observa do documento O segundo fundamento é despi-
de fls. 89, está o paciente suspen- ciendo. A decisão, que anula porta-
so do exercício profissional por ria inaugural de processo contra-
R. Decisão do Colendo Conselho vencional por inepta, não faz coisa
Federal da Ordem dos Advoga- julgada, pois não tranca a ação pe-
dos do Brasil por infração ao que nal, mas sim reabre oportunidade
576 R.T.J. — loa

para que a autoridade competente disciplinar (art. 1?), cuja prescrição


ofereça outra, com os requisitos le- ocorre em cinco anos (art. 4?). O re-
gais exigidos — o que aliás fez. corrente responde, todavia, a proces-
Por outro lado, vale ressaltar so criminal como incurso no art. 47
que a imposição de pena discipli- da Lei das Contravenções, que reza:
nar não inibe a ação penal por con- «Exercer profissão, ou atividade
travenção, no caso, a do art. 47 da econômica ou anunciar que a exer-
lei respectiva. E ainda que cance- ce, sem preencher as condições a
lada aquela punição, cumpriria à que por lei está subordinada o seu
recorrente fazer prova cabal disso, exercício».
para os fins pretendidos. A imposição da pena disciplinar é
Ante o exposto, nego provimento bem distinta da infração de contra-
ao recurso» (fls. 205). venção penal.
Neste novo habeas corpus, im- A segunda portaria (fls. 123) não
petrado por Nilson Henrique Miner- tem a eiva alegada pelo recorrente,
vino Linck, são reiteradas quase to- pois observou as exigências do Códi-
das as alegações, já julgadas no go de Processo Penal, descrevendo o
habeas corpus precedente. Para o fato, a autoria, o tempo e o lugar. A
melhor exame da matéria, cumpre argüição de inconstitucionalidade da
recapitular os fatos. O recorrente foi perseguição da Ordem dos Advoga-
suspenso da Ordem dos Advogados dos é destituída de qualquer fomento
por decisão do Conselho Seccional, de seriedade, pois o recorrente não
sob o fundamento de haver incidido aponta nenhuma norma violada.
em erros reiterados que evidenciam Assim sendo e não vislumbrando
inépcia profissional; a pena perdura qualquer constrangimento ou coação
até que preste novas provas de habi- ilegal no processo a que responde,
litação (Lei n? 4.215, art. 109, IV). nego provimento ao recurso.
Esta suspensão teve lugar em 1977.
Posteriormente, em 1980, o recorren- 2 o meu voto.
te obteve a sua inscrição na Seção
de Mato Grosso da Ordem dos Advo- EXTRATO DA ATA
gados e passou a advogar em São
Paulo. RHC 61.081-SP — Rel.: Min. Alfre-
do Buzaid. Recte.: Nilson Henrique
Como a pena de suspensão acarre- Minervino Linck (Adv. em causa pró-
ta para o infrator a interdição do pria). Recdo.: Tribunal de Alçada
exercido profissional em todo terri- Criminal do Estado de São Paulo.
tório nacional (Lei n? 4.215, art. 113), Decisão: Negou-se provimento ao
a Seção da Ordem pediu a instaura-
ção do processo criminal por estar recurso de habeas corpus. Decisão
incurso o recorrente no art. 47 da Lei unânime.
das Contravenções. Anulada a pri- Presidência do Senhor Ministro
meira portaria, sobreveio a segunda Rafael Mayer, na ausência ocasional
(fls. 123), com base na qual se pro- do Ministro Soares Mulloz (Presiden-
cessa o recorrente por exercido ile- te). Presentes à Sessão os Senhores
gal da profissão de advogado. Ministros, Néri da Silveira, Alfredo
Ora, os fundamentos, em que Buzaid e OscardaCorrêa. Subpro-
se anima o recorrente, improcedem curador-Geral República, Dr.
de todo em todo. A alegação de pres- Francisco de Assis Toledo.
crição, fundada na Lei n? 6.838/1980, Brasília, 2 de agosto de 1983 —
refere-se à punibilidade de profissio- Antônio Carlos de Azevedo Braga,
nal liberal por falta sujeita à pena Secretário.
R.T.J. — 108 577

RABEAS CORPUS N? 61.150 — RJ


(Segunda Turma)
Relator: O Sr. Ministro Francisco Rezek,
Paciente: Augusto Cesar Ramos Borges — Coator: Tribunal de Justiça
do Estado do Rio de Janeiro.
Habeas Corpos. Alienação fiduciária em garantia. Prisão civil.
Se o bem adquirido por alienação fiduciária em garantia é com-
provadamente furtado, não pode o devedor ser considerado depositá-
rio infiel.
Ilegítimo é o decreto de prisão civil expedido em tais circunstân-
cias.
Ordem de habeas corpus que se concede.
ACÓRDÃO formou a decisão do juiz singular,
estatuindo que, enquanto não fosse
Vistos, relatados e discutidos estes pago todo o preço devido o decreto
autos, acordam os Ministros da Se- de prisão não se podia revogar, já
gunda Turma do Supremo Tribunal que a sentença proferida na ação de
Federal de conformidade com a ata depósito fizera coisa julgada.
de julgamentos e as notas taquigráfi- Ante a iminência da prisão do pa-
cas, á unanimidade de votos, conce- ciente, impetrou-se este habeas cor-
der a ordem, nos termos do voto do pus, com pedido de liminar, que de-
Ministro Relator. feri nestes termos (fl. 25):
Brasília, 4 de novembro de 1983 — «A vista do art. 191-IV do Regi-
Mac! Falcão, Presidente — Francis- mento Interno, defiro o pedido de
co Rezek, Relator. liminar. Expeça-se salvo-conduto a
fim de resguardar o paciente con-
RELATÓRIO tra a prisão, até que o Tribunal de-
cida sobre o pedido de habeas
O Sr. Ministro Francisco Rezek: A corpus.
empresa financeira Vistacredi S.A. Com a comunicação ao Tribunal
ajuizou ação de busca e apreensão de origem, peçam-se as informa-
de veículo adquirido pelo paciente ções, e dê-se vista, ern seguida, ao
mediante alienação fiduciária em Ministério Público Federal — 20-7-
garantia. Comprovado, porém, o fur- 83».
to do automóvel, converteu-se o pri- Falou depois o Procurador Alvaro
mitivo feito em ação de depósito
que, julgada procedente, resultou na Ribeiro
co,
Costa, pelo Ministério Públi-
nestes termos (fls. 65/66):
alternativa imposta ao réu de entre-
gar o bem — ou seu correspondente «Não se mostra ile gal, todavia, o
valor — ou ver decretada a sua pri- constrangimento em causa.
são civil, o que, afinal, aconteceu. O Com efeito, a coação infligida ao
paciente, mais tarde, ofereceu parte paciente resulta de processo váli-
da quantia que lhe era exigida, e, do, em que sua condição de deposi-
em decorrência disso, o juiz de pri- tário infiel foi reconhecida, fican-
meiro grau revogou, em definitivo, o do, em conseqüência, autorizada a
decreto de prisão. A financeira agra- custódia prevista no parágrafo (mi-
vou de instrumento para o Tribunal co do art. 904 do Código de Proces-
de Justiça do Rio de Janeiro, que Te- so Civil.
578 R.T.J. — 108

No entanto, revela-se abusiva a No caso da alienação fiduciária


coação impugnada, de vez que o em garantia, a prisão do comprador
paciente comprovou a impossibili- pressupõe seja ele havido por deposi-
dade efetiva da devolução do tário infiel na competente ação de
veículo objeto do contrato de alie- depósito. Nada obsta, porém, a que
nação fiduciária, bem como a en- prove as excusas da lei civil, hábeis
trega de importância equivalente. para eximi-lo da pecha de infiel —
Sendo assim, e estando ressalva- qual o caso fortuito que se deu na es-
do o prosseguimento da execução pécie. Interpretando o art. 1.277 do
da dívida pelas vias ordinárias, ne- Código Civil, explica Orlando Gomes
nhuma utilidade teria a prisão que a regra do risco que corre o bem
questionada, nem mesmo para o dado em depósito é a regra comum
credor, traduzindo apenas medida aos demais contratos:
vexatória e desnecessária. «No depósito — diz ele — «é o de-
Somos, em face do exposto, pelo positante quem suporta os riscos.
deferimento do pedido.» Aplica-se a regra res perit cre-
ditori. Não responde o depositá-
E o relatório. rio, por conseguinte, pelo caso for-
tuito, mas, para se eximir da res-
VOTO ponsabilidade, terá de provar, ob-
viamente, que a coisa depositada
pereceu ou se deteriorou sem culpa
O Sr. Ministro Francisco Rezek sua» (op. cit. pág. 408).
(Relator): No recurso de Habeas Estes autos evidenciam que a pro-
Corpus n? 59.644 (RTJ 104/1.032) o va cabal do furto do automóvel se fi-
Presidente Dl aci Falcão, relator do zera antes mesmo de convertida a
feito, teve ocasião de ensinar o se- busca e apreensão em ação de depó-
guinte: sito. Não se cogitou ademais, em
«Parece-me fora de dúvida que, momento algum, de malícia por par-
comprovado o furto de coisa alie- te do paciente. Além disso, não es-
nada fiduciariamente, não cabe tando segurado o automóvel em cau-
considerar o seu adquirente deposi- sa, impertinente era o artigo 1.271 do
tário infiel, eis que se trata de fatoCódigo Civil.
alheio à sua vontade. Aí, desde que Ante a ilegitimidade do decreto de
o depositário perdeu a posse em prisão civil, que teve por base a des-
decorrência de feito de terceiro, e cabida qualificação do paciente co-
não há procedimento malicioso de mo depositário infiel, concedo a or-
sua parte, descabe incidência da dem de habeas corpus, invalidando o
prisão.» acórdão aqui impugnado e a ordem
Na espécie, é de toda pertinência que, em obediência àquele, o juiz
essa mesma tese, da qual não há co- singular se viu na contingência de
mo dissentir. Orlando Gomes não faz expedir.
segredo de seus sentimentos a res-
peito da prisão do depositário infiel,
para ele um «resquício da práti- EXTRATO DA ATA
ca odiosa da prisão por dividas»
(Contratos, Rio, Forense, 1977, pág.
411). Seu entender e o de outros au- HC 61.150-RJ — Rel.: Min. Fran-
tores de igual eminência, conduzem cisco Rezek. Pacte.: Augusto Cesar
á Interpretação restritiva das hipóte- Ramos Borges. Impte.: Anatole Ar-
ses de cabimento dessa forma de raes. Coator: Tribunal de Justiça do
custódia civil. Estado do Rio de Janeiro.
R.T.J. — 108 579

Decisão: Concedida a ordem nos Francisco Rezek. Subprocurador-


termos do voto do Relator. Unânime. Geral da República, Dr. Mauro Leite
Presidência do Senhor Ministro Soares.
Djaci Falcão. Presentes à Sessão os Brasília, 4 de novembro de 1983 —
Senhores Ministros Moreira Alves, Hélio Francisco Marques, Secretá-
Dedo Miranda, Aldir Passarinho e rio.

HABEAS CORPUS N? 61.181 — PA


(Primeira Turma)
Relator: O Sr. Ministro Oscar Corrêa.
Paciente: Charles dos Santos Pereira — Impetrante: Walmir Santana
Bandeira de Souza e Guaraci da Silva Freitas — Coator: Conselho da Justiça
Federal.
Habeas Corpus contra o Conselho da Justiça Federal. Incompe-
tência do Supremo Tribunal Federal. Competência do Tribunal Fede-
ral de Recursos.
Habeas Corpus não conhecido, remetidos os autos ao Tribunal Fe-
deral de Recursos.
ACORDA0 são pelo Juiz Federal, confirmou-a o
Colendo Tribunal Federal de Recur
Vistos, relatados e discutidos es- sos.
tes autos, acordam os Ministros da Em face disso, o Ministério Pú-
Primeira Turma do Supremo Tribu- blico peticionou
nal Federal, na conformidade da ata brada a primeirafosse declarada que-
do julgamento e das notas taquigrá- do o pedido pelo fiança, e indeferi-
ficas, por unanimidade de votos, em apelado o Ministério Público, teria
Juiz Federal,
que,
não conhecer do recurso e determi- demais disso, requereu correição
nar a remessa dos autos ao Tribunal parcial.
Federal de Recursos
Brasília, 11 de novembro de 1983 so prazo Denegada a apelação e em cur-
— Soares Multoz, Presidente — so para interposição de recur-
Oscar Corrêa, Relator. em sentido estrito (artigo 581, XV,
do Código de Processo Penal), o
RELATORIO Conselho da Justiça Federal deferiu
a correição parcial e declarou a que-
O Sr. Ministro Oscar Corrêa: 1. bra da fiança; expedindo-se, em con-
Impetrou o paciente, por advogado, seqüência,
tra o
mandado de prisão con-
paciente.
habeas corpus, alegando que tendo
prestado fiança em crime de desca- Dal o pedido de habeas corpus,
minho, formalizada, três anos de- requerendo a restauração da fiança
pois, outra prisão em flagrante con- e o processamento do recurso em
tra o paciente, deferiu-lhe o Juiz se- sentido estrito (fls. 2/7).
gunda fiança, por se encontrar o pri- Nas informações, o Exm?
meiro processo ainda em fase de ins- Ministro-Presidente do Colendo Tri-
trução. bunal Federal de Recursos, prelimi-
2. Da concessão da nova fiança narmente, suscita a incompetência
interpôs o Ministério Público recurso deste Egrégio Supremo Tribunal Fe-
em sentido estrito e, mantida a deci- deral para o feito.
580 R.T.J. — 108

No mérito junta cópia da decisão rida ao Supremo Tribunal Federal


do Conselho, Relator o Exm? Minis- no artigo 119, I, h, da Constitui-
tro Washington Bolívar de Brito (fls. ção».
61/66).
7. A douta Procuradoria Geral da 2. O parecer da .douta Pro-
República, em parecer do ilustre curadoria Geral da República opina,
Procurador Alvaro Augusto Ribeiro entretanto, pela competência desta
Costa, aprovado pelo Eminente Corte, argumentando (fls. 70/71):
Subprocurador-Geral, Professor
Francisco de Assis Toledo, opinou Afigura-se-nos irrecusável, to-
pelo conhecimento do pedido e seu davia, a competência do Excelso
indeferimento (fls. 69/73). Pretório para conhecer do pedido.
2 o Relatório. Com efeito, segundo o art. 119, I,
h, da vigente Lei Maior, cabe ao
Supremo Tribunal Federal proces-
VOTO sar e julgar originariamente o
habeas corpus, quando o coator ou
O Sr. MinistrO Oscar Corrêa: (Re- o paciente for Tribunal ou autori-
lator) 1. A questão preliminar que se dade cujos atos estejam sujeitos
impõe examinar é da competência diretamente à sua jurisdição.
deste Supremo Tribunal Federal pa- No caso, trata-se de coação atri-
ra o conhecimento do habeas corpus, buída ao Conselho da Justiça Fede-
impetrado contra decisão do Conse- ral — órgão do Tribunal Federal
lho da Justiça Federal que estaria de Recursos — integrado por seu
criando constrangimento ilegal ao Presidente e seu Vice-Presidente,
paciente. além de três outros Ministros da
Nas informações, suscitou a in- mesma Corte (v. Lei n? 5.010/66,
competência o Ilustre Presidente do arts. 4? a 9?, bem como o art. 7? do
Cólendo Tribunal Federal de Recur- RI do TFR).
sos assinalando que: Os componentes do Conselho,
«... em face da autonomia do Con- ademais, acham-se diretamente
selho da Justiça Federal, os atos submetidos à jurisdição da Supre-
desse órgão, ainda que da natureza ma Corte, como se vê do art. 119, I
parajurisdicional própria ao pro- b da Carta Federal.
cesso de correição — como no caso Por outro lado, deve-se observar
se trata — não perdem o cunho de que enquanto o art. 122, I, c, da Lei
ordem administrativamente que os Magna prevê a competência do
subordina ao controle judicial do Tribunal Federal de Recursos para
Tribunal Federal de Recursos A processar e julgar os mandados de
exemplo, lembre-se a regra positi- segurança contra ato do Presiden-
va do artigo 11, III, do Regimento te do próprio Tribunal ou de suas
Interno, sobre dar por competente câmaras, turmas, grupos ou seções
o Tribunal para os mandados de — vale dizer, de seus órgãos — a
segurança contra ato do dito Con- alínea d do mesmo dispositivo inse-
selho. re na esfera da competência da
Dai que, antes desse controle, mesma Corte, no que tange aos
não cabe apontar-se o Tribunal co- habeas corpus, apenas aqueles em
mo coator, em sucessão do Conse- que a autoridade coatora for Minis-
lho, mormente para o efeito de de- tro de Estado, o responsável pela
finir, pela qualificação do impetra- direção geral da policia federal ou
do, a competência originária defe- juiz federal.
R.T.J. — 108 581

Não é, pois, sem razão, que o Re- tiça Federal é a que confere ao Ple-
gimento Interno do aludido Pretó- nário do Tribunal Federal de Recur-
rio, ao definir a competência de sos competência para apreciar man-
seu Plenário, cogita dos mandados dado de segurança contra ele impe-
de segurança contra atos do Conse- trado, no artigo 11, III, do Regimen-
lho da Justiça Federal, mas não to Interno do Tribunal Federal de
prevê igual competência para os Recursos.
habeas corpus em que esse órgão
figurar como coator.» Dai, aliás, como visto, infere o
A questão não é de fácil deslin- douto parecer da Procuradoria
de, em vista da omissão constitucio- Geral da República argumento con-
nal e mesmo da legislação comple- trário à competência daquele Plená-
mentar (a admitir-se pudesse suprir rio para os habeas corpus. Não nos
a lacuna da Lei Maior), não fixando parece assim: é que ao legislador —
a competência para a decisão sobre incapaz de prever todas as hipóte-
o pedido de habeas corpus contra de- ses, por mais experimentado e douto
cisão do Conselho da Justiça Federal — terá passado despercebida a pos-
em correição parcial — hipótese dos sibilidade de impetração do writ con-
autos. tra o Conselho. Tanto que previu o
mesmo artigo 11, IV, o processo e
Data venta contudo, do douto pare- julgamento de habeas corpus contra
cer, inclinamo-nos pela competência ato não só de Ministro de Estado, de
do Colendo Tribunal Federal de Re- Diretor-Geral da Policia Federal —
cursos, na linha do proposto nas in- previstos na Constituição, artigo 122,
formações do Ilustre Presidente da- I, d — como, ampliando-o, a ato do
quele Tribunal, pelos argumentos Presidente do Tribunal, de suas Se-
que, a seguir, aduziremos. ções ou Turmasrem face do estabe-
O Conselho da Justiça Federal lecido na LOMAN (artigo 89, ji 1?, d).
é, por definição legal, e o repete o Ora, se o Plenário tem essa compe-
douto parecer, «órgão do Tribunal tência, não se explica que não a te-
incumbido de presidir a administra- nha para apreciar o que se impetre
ção da Justiça Federal de primeira contra o Conselho da Justiça Fede-
instância» (artigo 45 c/c artigo 7? do ral.
Regimento Interno do Tribunal Fe-
deral de Recursos), por ele escolhi- Nem se há de alargar o enten-
do, junto a ele funcionando e a ele - dimento do artigo 119, I, h da Consti-
submetendo o seu próprio Regimento tuição para abranger nele o Conse-
(artigo 6?, XVII da Lei n? 5.010/66 lho de Justiça Federal: antes que à
com as modificações posteriores). jurisdição do Supremo Tribunal Fe-
Vincula-se, pois, umbelicalmente, deral, os atos do Conselho devem es-
ao Tribunal, ao qual pertencem to- tar sujeitos à jurisdição do próprio
dos os seus membros. Tribunal Federal de Recursos, não
Se, de seus atos e decisões não ca- colhendo inclui-lo como autoridade
be recurso administrativo (Lei n? ou funcionário, como previsto no re-
5.010/66, artigo 7? e Regimento Inter-
ferido dispositivo, para subordinar-
lhe a apreciação a esta Corte.
no do Tribunal Federal de Recursos,
artigo 46), não prevê a Constituição Também não nos parece acolhivel
a competência para decidir os recur- o argumento que «os componentes
sos contra suas decisões de outra na- do Conselho, ademais, acham-se sub-
tureza. metidos à jurisdição da Suprema
A única referência expressa a re- Corte, como se vê do artigo 119, I, b,
curso contra ato do Conselho da Jus- da Carta Federal».
582 R.T.J. — 108

Isto porque a competência que Nestes termos, não conhecendo do


neste se firma é a para processar e pedido, sou por que se remetam os
julgar originariamente, nos crimes autos ao Colendo Tribunal Federal
comuns e de responsabilidade, os de Recursos, para que o aprecie, co-
Ministros do Tribunal Federal de mo de Direito.
Recursos, além de inúmeras outras E o Voto.
autoridades; não habeas corpus.
A prevalecer a tese, este Supremo VOTO (PRELIMINAR)
Tribunal Federal deveria julgar
também os habeas corpus contra O Sr. Ministro Néri da Silveira: Sr.
atos, por exemplo, dos Ministros de Presidente. A Lei n? 5.010, no seu
Estado — incluídos no mesmo dispo- art. 71, estabelece:
sitivo — e que, entretanto, são da ex- «Caberá ao Tribunal Federal de
pressa competência do próprio Tri- Recursos, em sessão plenária, jul-
bunal Federal de Recursos (artigo gar os mandados de segurança
122, I, d). Podendo, assim, o argu- contra ato ou decisão do Conselho
mento ser invocado exatamente no da Justiça Federal »
sentido da competência desse Tribu-
nal. Como também, nessa mesma li- O Regimento Interno do Tribunal
nha, o fato de ser sua a competência Federal de Recursos, de junho de
para Julgar os habeas corpus contra 1980, recolheu esta norma e arrolou,
o Presidente do próprio Tribunal, Se- entre as hipóteses de competência do
ções ou Turmas, não havendo porque Plenário do Tribunal, o julgamento
distinguir o Conselho da Justiça Fe- de mandado de segurança contra ato
deral com outra competência. ou decisão do Conselho da Justiça
7. Aliás, nesse sentido, embora Federal. E omisso, todavia, no que
não muito explicitada — porque des- concerne a habeas corpus contra ato
necessário, na hipótese — a decisão ou decisão do Conselho da Justiça
da Colenda Segunda Turma no HC n? Federal.
60.705, Relator o Exm? Ministro A Segunda Turma, recentemente,
Francisco Rezek, espelhada nesta entendeu que habeas corpus, contra
Ementa: ato do Presidente do Conselho da
«Habeas Cospus. Não é da com- Justiça Federal, a que incumbe exe-
petência constitucional desta Casa cutar as decisões, as deliberações
a apreciação do habeas corpus em desse colendo Conselho, há de ser
que se atribui coação ao Presiden- processado e Julgado no Tribunal Fe-
te do Conselho de Justiça Federal. deral de Recursos.
Autos remetidos ao Tribunal Penso como o ilustre Ministro-
Federal de Recursos.» (DJ de Relator, que se há de construir a so-
6-5-1983). lução para essa hipótese omisso o
In casu, o Eminente Relator — texto constitucional, eis que não pre-
embora o pedido não propiciasse vista, nem no elenco das atribuições
exata compreensão da controvérsia do Supremo Tribunal Federal, nem
— afirmou, em seu conciso voto: naquele relativo às atribuições do
Tribunal Federal de Recursos. A
«... não há como situar no construção, no meu entender, cum-
domínio constitucional da compe- pre dar-se, no sentido da competên-
tência desta Casa o habeas corpus cia do Tribunal Federal de Recur-
em que se atribui coação ao Pre- sos. Em primeiro lugar, porque, re-
sidente do Conselho da Justiça Fe- lativamente ao mandado de seguran-
deral,» remetendo os autos ao Tri- ça, a Lei n? 5.010/1966, explicitamen-
bunal Federal de Recursos. te, prevê a competência do Tribunal
R.T.J. — 108 583

Federal de Recursos. Dir-se-á que, sar e julgar habeas corpus contra


em matéria de habeas corpus, a ju- decisão do Conselho da Justiça Fede-
risprudência do Supremo Tribunal ral, tal qual lhe incumbe julgar
Federal tem se orientado na linha de habeas corpus contra ato do Presi-
atribuição a esta Corte da competên- dente do mesmo Conselho, e, ainda,
cia para o processo e julgamento de mandado de segurança contra deli-
habeas corpus, contra ato de au- beração do aludido órgão.
toridade, que está originariamente Meu voto é, com essas breves con-
sujeita ao Supremo Tribunal Fede- siderações, acompanhando o ilustre
ral, no processo e julgamento de Ministro-Relator. Não conheço do pe-
crimes comuns e de responsabilida- dido e determino a remessa dos au-
de. Acontece que, no caso concre- tos ao Tribunal Federal de Recursos
to, não se pode falar, de explícito,
em constrangimento que esteja sen- EXTRATO DA ATA
do imputado, individualmente, a HC 61.181-PA — Rel.: Min. Oscar
qualquer dos Ministros do Tribunal Corrêa. Pacte.: Charles dos Santos
Federal de Recursos, integrantes do
Conselho da Justiça Federal, mas, Pereira. Imptes.: Walmir Santana
sim, resulta o ato impugnado, na via Bandeira de Sousa e Guaraci da Sil-
eleita, de decisão do referido Cole- va Freitas. Coator.: Conselho da Jus-
giado, órgão da superior administra- tiça Federal.
ção da Justiça Federal de primeira Decisão: Não se conheceu do re-
instância, que funciona junto ao curso e determinou-se a remessa dos
TFR. autos ao Tribunal Federal de Recur-
Releva, ademais, notar outro as- sos. Falou como Impte.: Dr. Guaraci
pecto, explicitado pelo ilustre advo- da Silva Freitas. Decisão unânime.
gado: da mesma decisão do Juiz Fe- Presidência do Senhor Ministro
deral, atacada em correição parcial, Soares Mufloz. Presentes à Sessão os
interpôs-se recurso em sentido estri- Senhores Ministros Rafael Mayer,
to, a ser julgado por Turma do Tri- Néri da Silveira e Oscar Corrêa. Au-
bunal Federal de Recursos. sente, licenciado, o Senhor Ministro
Parece-me, assim, inclusive, sob o Alfredo Buzaid. Subprocurador-
ponto de vista de conveniência, que Geral da República, Dr. Francisco
a construção de uma solução, para a de Assis Toledo.
hipótese, há de fazer-se, mantendo, Brasília, 11 de novembro de 1983 —
na alçada do Tribunal Federal de Antônio Carlos de Azevedo Braga,
Recursos, por seu Plenário, proces- Secretário.
RECURSO DE HABEAS CORPUS N? 61.302 — SP
(Segunda Turma)
Relator: O Sr. Ministro Moreira Alves.
Recorrentes: José Roberto Retti ou José Roberto Betti e outro — Recor-
rido: Tribunal de Alçada Criminal do Estado de São Paulo.
Habeas Coipus. Alegação de inexistência de avaliação de Jóias
furtadas que deram margem a denúncia por crime de receptação.
— Inexistência de presunção da denúncia, uma vez que o va-
lor atribuído às Jóias em causa decorre de afirmação uníssona dos só-
cios da firma furtada. Aplicação do princípio do artigo 167 do CPP.
Recurso ordinário a que se nega provimento.
584 R.T.J. — 108

ACÓRDÃO digo Penal, afirmando que eles,


em seu escritório, na Avenida Ran-
Vistos, relatados e discutidos estes gel Pestana n? 261, 6? andar, nesta
autos, acordam os Ministros da Se- Capital, em 22 de setembro de
gunda Turma do Supremo Tribunal 1982, durante o horário comercial,
Federal, na conformidade da ata do adquiriram de José Carlos da Silva
julgamento e das notas taquigráfi- vinte e nove brincos de ouro e bri-
cas, por unanimidade de votos, ne- lhantes, que este havia furtado de
gar provimento ao recurso ordinário. «Daniele Indústria .e Comércio de
Brasília, 30 de setembro de 1983 — Jóias Ltda.», avaliados em Cr$
Djaci Falcão, Presidente — Moreira 400.000,00, pela aviltante quantia
Alves, Relator. de Cr$ 60.000,00, sendo que eles, co-
merciantes de ouro e pedras pre-
RELATORIO ciosas, que são, deviam presumir a
origem criminosa da coisa, pela
O Sr. Ministro Moreira Alves: E flagrante desproporção entre o va-
este o teor do acórdão recorrido (fls. lor da mesma e o preço ofertado.
62/64): De inépcia da denúncia não há
«Acordam, em Câmara de Fé- que se falar, uma vez que contém
rias do Tribunal de Alçada Crimi- exposição de fato típico com todas
nal, por votação unânime, denegar as circunstâncias relevantes, de
a ordem. conformidade com a exigência do
artigo 41 do Código de Processo
Em favor de José Roberto Retti Penal.
e Fábio Retti, ambos denunciados
como infratores do artigo 180, § 1? A denúncia está, ademais, apoia-
do Código Penal, foi impetrada or- da em provas contidas no inquérito
dem de Habeas Corpus para tran- policial, que a justificam.
camento do processo por falta de Ao contrário do que afirmam os
justa causa. Argumentam os d. im- d. impetrantes, as jóias foram ava-
petrantes que a denúncia imputa liadas. Com as informações que
aos pacientes o delito de recepta- prestou, o ilustre Magistrado enca-
ção culposa, afirmando que adqui- minhou «xerox» do auto de avalia-
riram jóias por preço inferior ao ção (fls. 50). Quanto ao preço que
seu real valor, apesar da inexistên- por elas pagaram os pacientes, Ro-
cia de laudo de avaliação dos bens berto Retti, em seu interrogatório
por eles adquiridos. Assim, se a no inquérito policial, não contra-
acusação está fundada exclusiva- riou o afirmado na denúncia, de
mente na desproporção entre o va- conformidade, aliás, com as decla-
lor real das jóias e o preço que por rações do furtador.
elas pagaram os pacientes, o laudo
de avaliação é peça essencial e sua Não cabe, no processo de habeas
inexistência invalida todo o proces- corpus, a valoração das provas.
so e justifica seu trancamento. Dest'arte, tendo a denúncia des-
Processado com regularidade o crito fato típico, circunstanciada-
pedido, com as informações do d. mente, de acordo com a exigência
Magistrado, opinou a ilustrada legal, amparada por informações
Procuradoria Geral da Justiça no contidas no inquérito policial, não
sentido da denegação da ordem há como agasalhar o pedido de
trancamento do processo por falta
A denúncia imputou aos pacien- de justa causa.
tes o delito de receptação culposa,
definido no artigo 180, § 1?, do Có- Fica, pois, denegada a ordem.»

R.T.J. — 108 585

Interposto recurso ordinário, em Retti 29 brincos por Cri 60.000,00


que se alega que a avaliação aludida (vide declarações de José Carlos a
no acórdão recorrido não diz respei- fls. 12-v) é manifesta a despropor-
to às jóias em causa, pois estas não ção no preço.
foram localizadas, sobre ele assim Pelo improvimento do recurso.»
se manifesta a Procuradoria Geral
da República, em parecer do Dr. E o relatório.
Cláudio Lemos Fonteles (fls. 79/80):
«Mencionando a menoridade dos VOTO
acusados e a inexistência de laudo
pericial de avaliação da res
furtiva, indispensável à positiva- O Sr. Ministro Moreira Alves (Re-
ção da receptação culposa de que lator): 1. O recurso ordinário se in-
são acusados Fábio e José Roberto* surge, apenas, contra a afirmação
Retti, pois só assim ter-se-ia dado do acórdão recorrido no sentido de
seguro à demonstração da despro- que os 29 brincos em causa foram
porção de valores da coisa adquiri- avaliados por Cri 400.000,00 (quatro-
da vilmente, em relação ao preço centos mil cruzeiros). Alegam os re-
de mercado, o Dr. Bension Cos- correntes que essa assertiva é infun-
lovskl formulou pedido de habeas dada, tendo decorrido de equivoco.
corpos. Sucede, porém, que — e esse é o
Indeferido, apresenta recurso principio consagrado no artigo 167 do
sustentando que o laudo elaborado CPP —, não tendo sido possível, co-
não o foi sobre as mercadorias ad- mo ocorreu no caso, a apreensão das
quiridas. jóias furtadas, a prova testemunhal
sobre seu valor suprirá a avaliação
Não procede a argumentação. direta, impossível de ser feita. E, no
Não são menores os acusados, e caso, como se vê a fls. 15 e 16 dos
a isto, simplesmente coteje-se os autos, os sócios da firma furtada —
documentos a fls. 35/31 com a data João Ferreira Gomes e Paulo Fer-
do evento, como fixada na denún- reira Gomes, este na qualidade de
cia a fls. 6. testemunha — foram uníssonos em
declarar que os 29 pares de brincos
Quanto à inexistência de avalia- de ouro e de brilhantes em causa va-
ção nas jóias — brincos de ouro, liam Cri 400.000,00 (quatrocentos mil
efetivamente adquiridas pelos re- cruzeiros), o que, evidentemente,
correntes que de logo as venderam afasta a alegação de que, a propósi-
a terceiros (suas Declarações a fls. to, houve mera presunção da denún-
13 e v e 14 e v), a prova testemu- cia.
nhal e outros elementos de convic- Em face do exposto, nego provi-
ção, a teor do disposto no artigo mento ao presente recurso.
167, do CPP, perfeitamente suprem
o que é impossível de se estabele-
cer pericialmente. EXTRATO DA ATA
E, se o Laudo Pericial feito nos
objetos apreendidos em poder de RHC 61.302 — SP — Rel.: Min. Mo-
José Carlos da Silva, o ladrão de reira Alves. Rectes.: José Roberto
jóias e fornecedor dos irmãos Ret- Retti ou José Roberto Betti e outro
ti, fixou em Cr$ 5.000,00 o brinco de (Advs.: Bension Coslovlsky). Recdo.:
ouro (vide: fls. 10), à época do fa- Tribunal de Alçada Criminal do Es-
to, tendo José Carlos vendido aos tado de São Paulo.
H.T.J. — 108

Decisão: Negado provimento. Unâ- Francisco Rezek. Subprocurador-


nime. Geral da República, Dr. Mauro Leite
Presidência do Senhor Ministro Soares.
Djaci Falcão. Presentes à Sessão os Brasília, 30 de setembro de 1983 —
Senhores Ministros Moreira Alves, Hélio Francisco Marques, Secretá-
Decio Miranda, Aldir Passarinho e rio.

RECURSO DE HABEAS CORPUS N? 61.303 — SP


(Primeira Turma)
Relator: O Sr. Ministro Rafael Mayer.
Recorrente: Gabriel Bassili — Recorrido: Tribunal de Alçada Criminal
do Estado de São Paulo.
Crime contra a honra. Ofensa irrogada em Juízo. Imunidade Judi-
ciária. Ofensas contra o Juiz. Injúria. Retratação (art. 142, 1 e 143 do
CP).
A imunidade Judiciária, nos termos do art. 142, I, do Código
Penal, que exime de criminalidade as ofensas irrogadas em Juizo, não
é abrangente do crime de calúnia, e em qualquer caso ela não 6 inten-
siva às ofensas à honra do Juiz da causa.
A retratação, de que são passíveis os crimes de calúnia e difa-
mação, para Isentar de pena, como disposto no art. 143 do Código Pe-
nal, não se aplica à hipótese de injúria, tanto mais quanto a pretensão
punitiva de tal ofensa, que ultrapassa as lindes privadas, é veiculada
mediante ação pública para preservar a integridade dos órgãos esta-
tais no exercício de suas funções. Recurso de Habeas Corpus
improvido.
ACORDA° «Gabriel Bassili foi denunciado
como incurso nas sanções dos arti-
Vistos, relatados e discutidos estes gos 138 e 140, combinado com o ar-
autos, acordam os Ministros da Pri- tigo 141, inciso II, 145, § único, 51,
meira Turma do Supremo Tribunal caput e 25, todos do Código Penal,
Federal, em conformidade com a porque, em petição que assinou
ata de julgamentos e notas taquigrá- conjuntamente com o advogado
ficas à unanimidade, em negar pro- Geraldo Panico, teria ofendido a
vimento ao recurso. honra do Dr. Péricles de Toledo Pi-
Brasília, 25 de outubro de 1983 — za Júnior, Juiz Titular da 6? Vara
Soares Mtuloz, Presidente — Rafael eivai da Comarca de Santos.
Mayer, Relator. Pleitea o recorrente o tranca-
mento da ação penal, sob alegação
RELATORIO de falta de justa causa, visto haver
se retratado cabalmente, não se-
O Sr. Ministro Rafael Mayer: O rem ofensivas as expressões em-
parecer emitido pela ilustre Procu- pregadas e estar obrigado pelo dis-
radora, Haydevalda Aparecida Sam- posto no artigo 142, I, o Código Pe-
paio, aprovado pelo eminente nal.
Subprocurador-Geral, Prof. Assis Não assiste razão ao impetrante,
Toledo expõe e opina, nesses termos: uma vez que se trata de crime de

R.T.J. — 108 587

ação pública, a retratação não se penho de função pública. Acima


aplica á injúria, as expressões em- do interesse da indefinida ampli-
pregadas são ofensivas (v. fls. tude de defesa de direitos em
05/06) e a imunidade judiciária do juízo está o respeito devido á fun-
advogado não abrange a ofensa ir- ção pública, pois, de outro modo,
rogada contra o juiz, como bem estaria implantada a Indisciplina
acentuado no aresto recorrido, cu- no foro e subvertido o próprio de-
jas considerações endossamos: coro da Justiça. A licentia
convinciandi não pode ser conce-
«Após proferida a sentença na dida em detrimento da adminis-
ação, de desoneração de pensão tração pública» (Nelson Hungria,
alimentícia, que Geraldo Panico Comentários ao Código Penal,
promoveu contra sua ex-mulher, vol. VI, pág. 119/121).
paciente ingressou em embar-
gos de declaração e, a pretexto De outra parte, a retratação
de pedir a declaração da senten- oferecida não tem o pretendido
ça havida como omissa, obscura efeito de extinguir a punibllida-
contraditória, passou a ofender de. A retratação, que não se apli-
duramente o Magistrado, afir- ca à injúria, só é causa da extin-
mando que ele «para lavrar a ção da punibllidade quando se
imoral e injurídica sentença em- trata de ação penal privada.
bargada de fls. 594, agiu com do- Aqui, por ocorrer a hipótese do
lo e fraude» ... «atingindo as raias art. 145, parágrafo único, In fine,
do crime da prevaricação no do Código Penal, a ação é públi-
exercício de suas funções de or- ca, mediante a representação do
dem pública, ao não admitir que ofendido e a retratação não tem
fossem respondidas pela Ré as o efeito extintivo.» (fls. 42/43).
perguntas consignadas no termo Somos, em face do exposto, pe-
de seu depoimento pessoal...» lo não provimento do recurso.»
Impossível aceitar a afirmação o relatório.
de que tais expressões não são
ofensivas. Razão inexistiu para VOTO
que se irrogassem tão pesadas
ofensas, inteiramente desvincula- Sr. Ministro Rafael Mayer (Re-
das da questão posta em julga- lator): Estão despidos de significa-
mento. ção jurídica, na espécie, os dois fun-
damentos em que se arrima a pre-
A imunidade judiciária, que o tensão para deduzir a falta de justa
douto impetrante invoca em fa- causa para a ação penal, conforme
vor do paciente, discrimina as bem salientado pelo douto parecer.
ofensas irrogadas contra a outra
parte e até mesmo contra tercei- Tem-se entendido que a imunidade
ros, quando evidente a conexão judiciária, que exime de criminali-
com o interesse em litígio, mas dade as ofensas irrogadas, em juizo,
não abrange as contumélias con- na discussão da causa, é tão-só
tra o Juiz, que não é parte, nem abrangente das injuriosas ou difa-
participa da discussão da causa. matórias, e não das constitutivas de
Neste sentido é a lição de Hun- calúnia, que é também espécie in-
gria: «...as partes ou respectivos cluída na denúncia, em questão, ten-
patronos não podem ofender im- do em vista o teor das declarações
punemente a autoridade judiciá- incriminadas. De qualquer modo, no
ria ou aqueles que intervêm na caso, as ofensas são assacadas con-
atividade processual em desem- tra o Juiz processante do feito onde
588 R.T.J. — 108

elas foram emitidas, até esse ponto Sãos estatais, no exercício de suas
não se estende a dita imunidade, funções. Assim, o suposto do art. 143,
pois o Juiz nem é parte, nem tem in- do Código Penal é o de sua aplicabi-
teresse particular na causa, nem es- lidade restrita à querela privada, co-
tá em contenda com as partes. A vi- mo bem destacado pelo venerável
vacidade de linguagem ou a crítica acórdão recorrido.
forte e altiva têm larga margem pa- Assim, pelos fundamentos do douto
ra exercitar-se, não se Justificando, parecer, nego provimento ao recur-
em nenhum momento, venha decair so.
para o plano da ofensa à honra indi-
vidual do magistrado. Esse é enten- EXTRATO DA ATA
dimento que se deve ter não só como
pacifico, como equilibrado e Justo, RHC 61.303-SP — Rel.: Min. Rafael
insuscetível de censura válida. Mayer. Recta: Gabriel Basslli.
Por outro lado, a retratação, na hi- (Adv.: José Gomes da Silva). Rec-
pótese, não pode ser causa de extin- do.: Tribunal de Alçada Criminal do
ção da ação penal, nos termos do Estado de São Paulo.
art. 108, VII, do Código Penal. Como Decisão: Negou-se provimento ao
dentre os fatos delitivos imputados recurso de habeas corpus. Decisão
ao paciente, se inclui a injúria, a es- unânime.
ta não se estenderia o manto da re- Presidência do Senhor Ministro
tratação, pois esta somente diz, para Soares Mutioz. Presentes à Sessão os
isentar de pena, com a calúnia e a Senhores Ministros Rafael Mayer,
difamação (art. 143 do CP). Todavia, Néri da Silveira, Alfredo Buzaid e
razão mais abrangente para que não Oscar Corrêa. Subprocurador-Geral
se tenha por viável a retratação é da República, Dr. Francisco de As-
que a pretensão punitiva é veiculada sis Toledo.
mediante ação pública, e o é porque
as ofensas atingem um agente públi- Brasília, 25 de outubro de 1983 —
co, ultrapassando a esfera privada António Carlos de Azevedo Braga,
para interessar à integridade dos ór- Secretário.

HABEAS CORPUS N? 61.374 — DF


(Tribunal Pleno)
Relator: O Sr. Ministro Decio Miranda.
Paciente: Norberto Manoel Ale — Impetrante: Alfredo José Miranda —
Coator: Presidente da República.
Estrangeiro. Expulsão. Ato Já exaurido em seus efeitos. Habeas
corpus. Indeferimento liminar pelo relator, que se confirma.
ACORDAO Brasília, 9 de novembro de 1983 —
Cordeiro Guerra, Presidente —
Vistos, relatados e discutidos estes Dedo Miranda, Relator.
autos acordam os Ministros do Su-
premo Tribunal Federal, em sessão RELATORIO
plenária, na conformidade da ata do
Julgamento e das notas taquigráfi- O Sr. Ministro Dedo Miranda:
cas, por unanimidade de votos, em Dizendo-se para esse efeito «nomea-
negar provimento ao pedido. do pela Procuradoria de Assistência

R.T.J. — 108 589

Judiciária da Procuradoria Geral do não são do Regimento Interno atual-


Estado de São Paulo», o Procurador mente em vigor no Supremo Tribu-
do Estado Dr. Alfredo José Miranda nal Federal, mas do Regimento In-
requereu ao Supremo Tribunal Fede- terno de 18-6-70, em que os arts. 289,
ral habeas corpus a favor do cidadão 290 e 291 cuidavam do «recurso de
argentino Norberto Manoel Me, ex- habeas corpus».
pulso do território nacional em virtu- Por outro lado, a disposição consti-
de de decreto emanado do Vice- tucional invocada, art. 119, II, c, da
Presidente da República, então no Constituição, diz respeito a habeas
exercício da Presidência. corpus decidido em única ou última
Nesse pedido, proferi o seguinte instância pelos tribunais federais ou
despacho: tribunais de justiça dos Estados. Ne-
«O ato indicado como de coação nhuma dessas disposições autoriza o
ilegal já se exauriu em seus efei- «recurso ordinário» ao Tribunal Ple-
tos, não remanescendo constrangi- no, ora formulado pelo requerente,
mento à liberdade de locomoção do contra o despacho do relator.
paciente, a não ser a eventual ve- Isto posto, não conheço do recurso
dação de sua entrada no Pais, tal como interposto, mas o acolho co-
sempre legitima contra estrangei- mo agravo regimental, autorizado,
ros aqui não residentes. de modo genérico, contra decisão do
Indefiro liminarmente o pedido relator (Regimento Interno, art.
(Regimento Interno, art. 21, 1? ).» 317).
(Fls. 32). Todavia, nego-lhe provimento, vis-
Publicado o despacho no DJ de 20- to merecer confirmação o despacho
10-83, quinta-feira, vem o mesmo im- atacado.
petrante com o telegrama de fls. 34, Com efeito, não é possível cogitar-
recebido na mesma data, ainda invo- se de impedir coação cujos efeitos já
cando a qualidade de Procurador do se haviam exaurido no momento em
Estado, no qual interpõe «recurso or- que impetrado o siirit.
dinário ao Colendo Supremo Tribu- Com relação ao pedido final da pe-
nal Federal contra o venerando des- tição ora apreciada, relativo à con-
pacho de Sua Excelência, o Sr. cessão de habeas corpus preventivo
Ministro-Relator, denegatório do para que o requerente possa, res-
habeas corpus em causa». (Fls. 34). guardado de quaisquer sanções, re-
E o faz «com base nos arts. 289, gressar ao Brasil, é matéria que de-
290 e 291 do Regimento Interno do penderia do exame de provas quanto
Supremo Tribunal Federal e no art. aos fatos, ou de concessão nova da
119, inciso II, letra c, da Constituição autoridade administrativa, ambos
Federal». esses aspectos de inviável considera-
Trago o feito à mesa do Tribunal ção no habeas corpus.
Pleno. o meu voto.
É o relatório. EXTRATO DA ATA
VOTO HC 61.374-DF — Rel.: Ministro De-
cio Miranda. Pacte.: Norberto Ma-
O Sr. Ministro Dedo Miranda (Re- noel Me. Impte.: Alfredo José Mi-
lator): No interpor o presente recur- randa. Coator.: Presidente da Repú-
so inominado, o recorrente invoca blica.
disposições que, identificadas pela Decisão: Negou-se provimento,
afinidade com a matéria dos autos, unanimemente.
590 R.T.J. — 108

Presidência do Senhor Ministro cenciado, o Senhor Ministro Alfredo


Cordeiro Guerra. Presentes á Sessão Buzaid. Procurador-Geral da Repú-
os Senhores Ministros Djaci Falcão, blica, Professor Inocêncio Mártires
Moreira Alves, Soares Mtuloz, Decio Coelho.
Miranda, Rafael Mayer, Néri da Sil-
veira, Oscar Corrêa, Aldir Passari- Brasília, 9 de novembro de 1983 —
nho e Francisco Reza. Ausente, 11- Alberto Veronese Aguiar, Secretário.

RECURSO DE HABEAS CORPUS N? 61.506 — ES


(Primeira Turma)
Relator: O Sr. Ministro Oscar Corrêa.
Recorrente: Otávio João Bragé — Recorrido: Tribunal de Justiça do Es-
tado do Espirito Santo.
Recurso de Habeas Corpus. Pedido não conhecido pelo Tribunal
de Justiça a quo, em vista de pendente recurso de apelação.
Por si só, não o impede a pendência da apelação, se presente o
constrangimento ilegal e o exame da matéria se comporta no âmbito
do wrlt. Recurso de Habeas Corpus provido.
ACÓRDÃO Dai o recurso ordinário inter-
posto (fls. 47/51), invocando juris-
Vistos, relatados e discutidos estes prudência na qual se decidiu que «a
autos, acordam os Ministros da Pri- existência de recurso de apelação,
meira Turma do Supremo Tribunal em processo criminal, não impede o
Federal, na conformidade da ata do conhecimento do writ pela justiça
julgamento e das notas taquigráfi- competente» (fls. 49); e requerendo
cas, por unanimidade de votos, em assim proceda a Corte espirito-
dar provimento ao recurso. santense.
Brasília, 9 de dezembro de 1983 — A Procuradoria-Geral da Re-
Soares Mtuloz, Presidente — Oscar pública, em parecer da ilustre Pro-
Corrêa, Relator. curadora Haydevalda Aparecida
Sampaio, aprovado pelo eminen-
te Subprocurador-Geral, Professor
RELATÓRIO Francisco de Assis Toledo opinou pe-
lo provimento do pedido, para que o
O Sr. Ministro Oscar Corrêa: Im- C. Tribunal a quo conheça do recur-
petrado habeas corpus em favor do so e o julgue (fls. 63/68).
paciente, por advogado, alegando E o relatório.
que está ele sofrendo coação ilegal,
em vitude de denúncia inepta e nuli-
dade da sentença condenatória por VOTO
falta de fundamentação e de fixação
de pena-base, dele não conheceu o C. O Sr. Ministro Oscar Corrêa: (Re-
Tribunal de Justiça, em vista de ha- lator): Como salientado na Petição
ver «apelação em curso neste mes- de recurso e reafirmado no douto
mo Tribunal, com idêntico objetivo, parecer da Procuradoria Geral da
onde o processo será, naturalmente República, na linha da jurisprudên-
analisado em toda sua amplitude» cia da Corte, em principio, o pedido
(fls. 38). de habeas corpus é cabível, pendente

R.T.J. — 108 591

recurso de apelação, se presente o E o voto.


constrangimento ilegal e se a maté-
ria alegada comporta exame no âm- EXTRATO DA ATA
bito do writ.
Obviamente que na apelação essa RHC 61.506-ES — Rel.: Min. Oscar
análise poderá fazer-se muito mais Corrêa. Recte.: Otávio José Bragé.
amplamente, o que, contudo, não ex- (Adv.: Emanoel Antonio Santos Câ-
clui se faça no habeas corpus se den- mara). Recdo.: Tribunal de Justiça
tro dele se comporta. do Estado do Espírito Santo.
In casu, salienta o parecer, Decisão: Deu-se provimento ao re-
«não há dúvida de que o exame curso da habeas corpus. Decisão
das nulidades alegadas pode ser fei- unânime.
to através de habeas corpus, por de-
pender da análise apenas da denún- Presidência do Senhor Ministro
cia e da sentença condenatória»; tan- Soares Mufioz. Presentes à Sessão os
to mais quanto o «paciente deve es- Senhores Ministros Rafael Mayer,
tar preso, visto ter sido expedido Néri da Silveira, Alfredo Buzaid e
mandado de prisão (v. fls. 17) ». Oscar Corrêa. Subprocurador-Geral
Não há, pois, impedimento a da República, Dr. Francisco de As-
que o C. Tribunal de Justiça conheça sis Toledo.
do pedido e o julgue, como de direi- Brasília, 9 de dezembro de 1963 —
to. Pelo que, com esse objetivo, dou António Carlos de Azevedo Braga,
provimento ao recurso. Secretário.

RECURSO EXTRAORDINÁRIO N? 75.152 — SP


(Segunda Turma)
Relator: O Sr. Ministro Aldir Passarinho.
Recorrente: União Federal — Recorrido: Produtora, Importadora, Dis-
tribuidora Famafilmes Ltda.
Tributário. Imposto de renda. Exibição de filmes estrangeiros: di-
reito adquirido a preço fixo. Decreto-lei n? 43/66, art. 29, c/c o art. 45
da Lei 4.131/62. Art. 294 c/c o art. 205 do então vigente Regulamento
do Imposto de Renda (Decreto n? 58.400, de 1966).
Na hipótese de aquisição dos direitos de exibição de filmes estran-
geiros, a preço fixo, o imposto de renda deve ser calculado pelo valor
global dos pagamentos no exterior, segundo resulta do disposto no
art. 29, do Decreto-lei n? 43/66, c/c o art. 45, da Lei 4.131/62. Hipótese
que difere daquela em que a exploração da película é feita por conta
dos produtores, distribuidores ou intermediários, que obtêm o ganho
sob a forma de participação nas receitas brutas auferidas, incidindo
um percentual de 40% sobre os 30% do art. 294 do Regulamento do
Imposto de Renda (Decreto n? 58.400), c/c o seu art. 205.
Recurso conhecido e provido.
ACORDA° premo Tribunal Federal por sua Se-
gunda Turma, na conformidade da
Vistos, relatados e discutidos estes ata de julgamentos e das notas taqui-
autos, acordam os Ministros do Su- gráficas, por unanimidade de votos,
592 R.T.J. — 108

conhecer do recurso para lhe dar as importâncias remetidas ao vende-


provimento. dor, domiciliado no exterior», negou
vigência ao art. 29 do Decreto-lei n?
Brasília, 26 de agosto de 1983 — 43, de 18 de novembro de 1966, de da-
Mui Falcão, Presidente — Aldir ta posterior ao Decreto n? 58.400, que
Passarinho, Relator. é de 10 de maio de 1966.
Admitido o recurso, subiram os
RELATORIO autos a esta Corte.
Ouvida, manifestou-se a Procura-
O Sr. Ministro Aldir Passarinho doria-Geral
cimento e
da República pelo conhe-
provimento do apelo últi-
(Relator): Produtora, Importadora,
Distribuidora, Famafilmes Ltda. im- mo.
petrou mandado de segurança con- E este o relatório.
tra atos do Delegado Regional do
Imposto de Renda, em São Paulo, e
do Encarregado do Registro e Con- VOTO
trole Cambial do Banco do Brasil,
que lhe estavam exigindo uma O Sr. Ministro Aldir Passarinho
aliquota de 40% sobre a remessa de (Relator):
numerário para o exterior, por ter Com a UniãoTenho que a razão está
Federal.
adquirido a preço fixo os direitos de
exibição de filmes estrangeiros no No caso, trata-se de aquisição, no
Brasil. estrangeiro, de direitos de exibição
de filmes.
O MM. Juiz Federal da Seção Ju-
diciária do Estado de São Paulo con- Estou em que bem situou a espécie
cedeu a segurança impetrada e o o Sr. Ministro Armando Rolemberg,
Tribunal Federal de Recursos confir- do Eg. Tribunal Federal de Recur-
mou a decisão monocrática, em sos, onde é uma das suas mais ex-
acórdão sintetizado nesta ementa: pressivas figuras, e então seu ilustre
Presidente, ao dizer, com inegável
«Imposto de Renda. Aquisição de propriedade:
Filmes no Exterior. Decreto n?
58.400/66, arts. 292, 2? e 294. Na hi- 01. Firma que adquiriu, a preço
pótese de filme simplesmente ad- fixo, os direitos de exibição de fil-
quirido por preço fixo, a alíquota a mes estrangeiros no Brasil, preten-
ser retida na fonte pelo comprador deu remeter as importâncias con-
é a de 30%, sobre as importâncias, seqüentes de tal contrato fazendo a
remetidas ao vendedor, domicilia- retenção do imposto de renda so-
do no exterior». (fls. 122). bre 30% das mesmas importân-
cias, de acordo com o disposto no
Inconformada, recorreu extraordi- art. 294 do Decreto n? 58.400/66, e,
nariamente a União Federal, dizen- como lhe houvesse sido exigido que
do-se abrigada na letra a da per- o fizesse de acordo com o prescrito
missão constitucional, argumentan- no art. 45 da Lei n? 4.131/62, isto é,
do que, estabelecido o v. acórdão na base de 40% sobre os rendimen-
Impugnado que «na hipótese de fil- tos da exploração de películas, re-
me simplesmente adquirido por pre- quereu mandado de segurança que
ço fixo, a aliquota a ser retida na lhe foi deferido em ambas as ins-
fonte pelo comprador é de 30% sobre tâncias.
R.T.J. — 108 593

Do julgado proferido neste Tribu- Defiro». (fls. 129/130).


nal recorreu a União Federal, in-
vocando a letra a da permissão
constitucional e sustentando haver A matéria em lide já foi por mim
sido negada vigência aos arts. 29 longamente examinada quando Mi-
do Decreto-Lei n? 43/66 e 45 da Lei nistro também do C. Tribunal Fede-
n? 4.131/62. ral de Recursos, ao ensejo do julga-
mento do Recurso de Revista n?
1.447-SP, do qual fui relator (sessão
2. A própria impetrante, na ini- de 28-9-76), e que mereceu acolhida
cial, esclareceu que adquirira os no Plenário daquela Corte, sendo es-
filmes a preço fixo, isto é, corren- sas as razões que então expendi e
do por conta do adquirente as des- que ora reitero, em fundamentação
pesas, direitos e impostos, com o deste voto:
que as regras legais pertinentes
eram de fato as do art. 29 do
Decreto-lei n? 43/66 e do art. 45 da «Preliminarmente. Com a peti-
Lei n? 4.131/62, que dispõem: ção de sua interposição vieram có-
pias autenticadas pela Secretária
deste Tribunal dos acórdãos diver-
«Art. 29 — Os pagamentos no gentes dos AMS n? 65.286, 65.285 e
exterior de filmes adquiridos, a 64.626, estes últimos da 3? Turma,
preço fixo, para exploração no e aquele da 1? Turma. Outrossim,
pais, ficarão igualmente sujeitos a divergência entre o acórdão re-
ao desconto do imposto, nos ter- vistando e os trazidos a confronto é
mos do art. 45, da Lei n? 4.131/62 patente, como se pode ver pela
e do art. 28 da presente lei». simples leitura dos mesmos, a qual
fiz, para conhecimento do Tribu-
«Art. 45 — Os rendimentos o- nal, no momento do relatório.
riundos da exploração de pelí-
culas cinematográficas, excetua- Assim, conheço do recurso.
dos os exibidores não importado-
res ficarão sujeitos ao desconto
do imposto à razão de 40% (qua- Mérito.
renta por cento), mas o contri-
buinte terá direito a optar pelo Quanto ao mérito, entendo que o
depósito no Banco do Brasil, em v. acórdão recorrido deve ser con-
conta especial, de 40% (quarenta firmado.
por cento) do imposto devido, po-
dendo aplicar esta importância,
mediante autorização do Grupo A decisão, na C. 1? Turma desta
Executivo da Indústria Cinema- Corte, tomada por unanimidade, se
tográfica (CEICINE), criado pe- alicerçou nos bens lançados argu-
lo Decreto n? 50.278, de 17 de fe- mentos do Relator, Sr. Ministro
vereiro de 1961, na produção de Jorge Lafayette Guimarães (AMS
filmes no Pais, nos termos do De- n? 64.443), e que foram os seguin-
creto n? 51.106, de 1? de agosto de tes:
1961».
«A matéria é perfeitamente co-
A decisão recorrida deixou de nhecida da Turma, que sobre ela
aplicar tais disposições, o que jus- tem-se pronunciado diversas ve-
tifica a admissão do recurso. zes, consistindo na tributabilida-
594 R.T.J. — 108

de, pretendida pela impetrante, GB, e que espelha o ponto-de-vista


de apenas 30% das quantias pa- contrário ao adotado pelo acórdão
gas aos produtores, no exterior, revistando, assinala, como razões
pela exibição de filmes estrangei- precípuas do seu entendimento, as
ros. que abaixo reproduzo, e que se se-
guiram à enunciação do art. 205,
No caso dos autos, como decor- letras a e b, e incisos I e II; e arts.
re dos contratos de fls. 8/13 e 292 e 294 do mesmo Regulamento
14/38, e reconhece a sentença e, ainda, do Decreto-lei n? 6.340/44:
(fls. 67), houve aquisição de fil- (lê).
mes a «preço fixo» — o que
abrange não somente a compra
dos filmes, como dos direitos à A matéria é suficientemente co-
exibição pelo que incide o art. 29 nhecida do Tribunal, que já a exa-
do Decreto-Lei n? 43, de 1966, que minou, inclusive, pelo seu Pleno,
se reporta à tributação do rendi- na oportunidade do julgamento do
mento nos termos do art. 45 da RR n? 1.278-SP, ficando o acórdão
Lei n? 4.131, de 1962, embora a assim ementado:
decisão recorrida, no seu final,
afirme que «não houve propria- «Recurso de Revista — Conhe-
mente uma aquisição de filmes, cimento — Preponderância da
mas, sim, foi concedida à impe- Tese Recorrida.
trante a possibilidade de explorá-
la por aquele prazo» (fls. 69), de
certa forma contraditoriamente. Comprovada a divergência, a
revista merece ser conhecida. No
entanto, examinado o mérito, não
Não cabe, em conseqüência, a há como deixar de prevalecer,
aplicação do art. 294 do Decreto por mais acertada a tese recorri-
n? 58.400/66, que considera rendi- da:
mento tributável 30% das quan-
tias pagas ou remetidas, aten-
dendo assim, em Ultima análise, «Imposto de renda — Explora-
a deduções de despesas do produ- ção de películas cinematográfi-
tor, intermediário, ou distribui- cas estrangeiras no País, cujos
dor, no exterior. direitos de exibição foram adqui-
ridos por preço fixo.
É o que tem sido decidido por Art. 29, do Decreto-Lei n? 43/66 e
esta Turma, e assim igualmente art. 45, da Lei n? 4.131/62.
reconheceu a 3? Turma, no AMS
ri? 63.854 (Rel.: Min. Néri da Sil-
veira, DJ 22-12-70 pág. 6.401). Para os efeitos da tributação,
considera-se quantum tributável
o valor global dos pagamentos no
Assim sendo, dou provimento exterior e não apenas 30% desse
aos recursos, para cassar a segu- montante.
rança».
Inaplicabilidade do art. 294, do
O Sr. Ministro Godoy Ilha, na Regulamento do Imposto de Ren-
oportunidade do julgamento do da.
AMS n? 65.286-SP, com invocação a
voto anterior, no AMS n? 63.222- Segurança cassada».

R.T.J. — 108 595

Ficaram, então, vencidos os Srs. Pelo exposto, conheço da revista,


Ministros Godoy Ilha, relator, Es- mas a indefiro».
dras Gueiros Decio Miranda, e A decisão, no Eg. Tribunal Fede-
Jarbas Nobre, tendo prevalecido o ral de Recursos foi tomada por una-
voto do Sr. Ministro Revisor, nimidade, embora com ressalva do
Amarílio Benjamin, o qual foi voto do ilustre Ministro Jarbas No-
acompanhado pelos Srs. Ministros bre.
Moacir Catunda, Henoch Reis, Né-
ri da Silveira e Jorge Lafayette. O A titulo de esclarecimento, obser-
julgamento foi presidido pelo Sr. vo que no RE n? 92.952, a C. 1! Tur-
Ministro Márcio Ribeiro. ma deste Tribunal julgou questão re-
ferente à alíquota do imposto de ren-
O meu ponto-de-vista se harmo- da sobre aquisição, no estrangeiro,
niza com o adotado pela C. 1? Tur- dos direitos de exibição de filmes, e
ma e cujo acórdão se procura re- a solução foi favorável ao contribui-
formar. te, mas ali se observa que, diferente-
mente da hipótese em exame, se tra-
tava de aquisição de direitos efetua-
No caso, como ficou suficiente- da não sob a forma de pagamento a
mente esclarecido no voto do Sr. preço fixo, mas sim sob a forma de
Ministro Jorge Lafayette, a empre- lucro obtido em tal exibição, e mos-
sa adquiriu os direitos de exibição trei exatamente que no caso de ser o
de filmes a preço fixo. pagamento desta última forma, a
tributação seria diversa.
Na verdade, duas são hipóteses a Pelo exposto, conheço do recurso e
considerar: na primeira — que é a lhe dou provimento, para cassar a
de que se trata -L a empresa ad- segurança, condenando o impetrante
quire os direitos de exibição do fil- nas custas.
me a preço fixo. Na segunda, a ex- E o meu voto.
ploração da película é feita por
conta dos produtores, distribuido- EXTRATO DA ATA
res ou intermediários, que obtêm o
ganho sob a forma de participação RE 75 152-SP — Rel.: Min. Aldir
nas receitas brutas auferidas. Passarinho. Recte.: União Federal.
Recda.: Produtora, Importadora,
Para aquela primeira hipótese, o Distribuidora Famafilmes Ltda.
imposto de renda deve ser calcula- (Advs.: Heloisa Mendonça e outros).
do pelo valor global dos pagamen- Decisão: Conhecido e provido nos
tos no exterior, na conformidade termos do voto do Ministro Relator.
do disposto no art. 29 do Decreto- Unânime.
Lei n? 43/66, c/c o art. 45 da Lei n?
4.131/62. Presidência do Senhor Ministro
Djaci Falcão. Presentes à Sessão os
Para a segunda, é que o percen- Senhores Ministros Decio Miranda e
tual de 40% incide sobre os 30% do Aldir Passarinho. Ausentes, justifi-
art. 294 do Regulamento do Impos- cadamente, os Senhores Ministros
to de Renda, combinado com o seu Moreira Alves e Francisco Rezek.
art. 205, sendo presumido que ape- Subprocurador-Geral da República,
nas de 30% seria o lucro tributável Dr. Mauro Leite Soares.
e participam os empresários es- Brasília, 26 de agosto de 1983 —
trangeiros da receita produzida pe- Hélio Francisco Marques Secretá-
los filmes, no nosso Pais. rio.
596 R.T.J. — 108

RECURSO EXTRAORDINÁRIO N? 80.834 — RJ


(Segunda Turma)
Relator: O Sr. Ministro Aldir Passarinho.
Recorrente: Estado do Rio de Janeiro — Recorrido: Persiana Decorama
Ltda.
Executivo fiscal (anterior ao vigente CPC). Embargos de tercei-
ros. Penhora.
Não é de prevalecer penhora sob imóvel de terceiro, se resulta
dos autos que este se tornara promitente comprador, por escritura
pública, e esta foi devidamente registrada, no Registro Geral de Imó-
veis, bem antes da primeira autuação fiscal, e por ocasião da escritu-
ra definitiva as certidões negativas obrigatórias foram apresentadas.
A aquisição ainda se deu antes da entrada em vigor do Código Tribu-
tário Nacional, sendo ainda certo que sequer foram prequestionados
no aresto impugnado disposições do CTN., agora invocadas no ex-
traordinário.
E posta a questão à luz do art. 1.137 e seu parágrafo único do Có-
digo Civil, único presquestionado, a par, como já ficou dito, de terem
as certidões negativas sido apresentadas, não é possível anular-se es-
critura de compra e venda, salvo em casos verdadeiramente excep-
cionais, em decisão em embargos de terceiros, cabendo a anulação,
se for o caso, através de ação paullana.
ACORDÃO Em contestação, alegou a Fazenda
do Estado que ocorrera fraude a si-
Vistos, relatados e discutidos estes mulação entre a executada e a em-
autos, acordam os Ministros do Su- bargante, devendo, por isso, ser de-
premo Tribunal Federal, por sua Se- clarada nula a escritura definitiva
gunda Turma, na conformidade da de compra e venda do imóvel em
ata do julgamento e das notas taqui- questão, lavrada em 6-9-68, sem obe-
gráficas, por unanimidade de votos, decer ao disposto no art. 1.137 do Có-
não conhecer do recurso. digo Civil, já que as dívidas fiscais
Brasília, 24 de junho de 1983 — estavam
(fls.
anteriormente inscritas
20/22).
Djaci Falcão, Presidente — Aldir
Passarinho, Relator. As instâncias ordinárias julgaram
procedentes os embargos, determi-
RELATÓRIO nando o levantamento da penhora,
estando assim enunciada a ementa
do v. acórdão recorrido:
O Sr. Ministro Aldir Passarinho
(Relator): Persiana Decorama Ltda. «Embargos de terceiro. Sendo a
ofereceu embargos de terceiro à penhora posterior até a transcrição
ação executiva fiscal movida pela da escritura definitiva do imóvel,
Fazenda do então Estado da Guana- procedentes são os embargos, co-
bara, hoje Rio de Janeiro, contra Pi- mo decidiu a sentença. Não aplica-
nheiro Braga, Refrigeração e Impor- ção na hipótese do art. 1.137 do Có-
tação Ltda., insurgindo-se contra a digo Civil se os executivos fiscais
penhora recaída indevidamente em não dizem respeito a impostos de-
imóvel de sua propriedade. vidos pelo imóvel, tanto mais que
R.T.J. — 108 597

as certidões negativas foram apre- Não se trata de atribuição


sentadas, como declara expressa- mas de exclusão da responsabilida-
mente a escritura definitiva». de tributária. A responsabilidade
Irresignado, manifestou o Estado pessoal do adquirente pelo crédito
da Guanabara recurso extraordiná- tributário relativo ao bem adquiri-
rio, fundado na alínea a do permissi- do é prevista no art. 131, I, do
vo constitucional, sustentando nega- CTN. Dessa forma, se não ocorre
tiva de vigência à norma insculpida exclusão de responsabilidade (art.
no art. 185, c/c o art. 201, ambos do 1.137 do Código Civil), nem por isso
Código Tributário Nacional, e ainda se deve concluir que o adquirente é
ao previsto no art. 1.137 e seu pará- responsável pelo tributo.
grafo único, do Código Civil (fls. O crédito exigido pela Fazen-
82/84). da estadual é de ICM, não de tribu-
O recurso foi indeferido pelo des- to relacionado com o imóvel. Além
pacho presidencial (fls. 90), subindo, disso, como concluiu a decisão re-
todavia, a esta Corte, em virtude do corrida, as certidões negativas fo-
provimento do Ag. n? 60.281 (autos ram apresentadas, como indica a
em apenso) pelo eminente Ministro escritura
Antonio Neder. Por outro lado, também não
Nesta instância, a douta Pro- se configurou a presunção de alie-
curadoria-Geral da República, em nação fraudulenta de bens, de que
parecer da lavra do Dr. Moacir An- trata o art. 185 do CTN. O débito
tonio Machado da Silva, assim se fiscal não estava em fase de execu-
pronunciou pelo não conhecimento ção, tendo sido a penhora posterior
do recurso, nestes termos: à transcrição definitiva de venda
d. O v. acórdão de fls. 79/80, do imóvel.
confirmando decisão que acolhera A inscrição da divida ativa,
embargos de terceiro em executivo requisito de regularidade formal
fiscal, concluiu que não tinha apli- do título executivo, é mera exigên-
cação o art. 1.137 do Código Civil, cia de registro para efeitos es-
porque não se tratava de tributo tatísticos, que, por sua natureza,
devido pelo imóvel, não se verifi- nenhuma interferência poderia ter,
cando fraude na alienação, visto evidentemente, no poder de dispo-
que a penhora foi posterior à trans- sição de bens do sujeito passivo da
crição da escritura definitiva do obrigação tributária. Só a cobran-
imóvel. ça judicial tem essa força, como
Recorre o Estado da Guana- está expresso no art. 185 do CTN.
bara, pela letra a, do preceito 8. Pelo não conhecimento». (fls.
constitucional, sustentando viola- 110/111).
ção dos arts. 185 e 201 do CTN e E o relatório
1.137 e seu parágrafo único do Có-
digo Civil. VOTO
O art. 1.137 do Código Civil
exige que, em toda escritura de O Sr. Ministro Aldir Passarinho
transferência de imóveis, seja feita (Relator): No seu recurso nas vias
a transcrição das certidões de qui- ordinárias, o antigo Estado da Gua-
tação de tributos, o que exonera o nabara, hoje Estado do Rio de Janei-
imóvel, isentando o adquirente de ro, fundamentou-se unicamente no
toda responsabilidade. A disposi- disposto no art. 1.137 do Código Civil,
ção só se aplica aos tributos relati- para procurar a prevalência da pe-
vos ao bem adquirido. nhora, embora o imóvel tivesse sido
598 R.T.J. — 108

alienado anteriormente, adiantando De qualquer sorte é de ver-se que


que as peças do processo o levavam a promessa de compra e venda do
à certeza de que a venda fora feita imóvel penhorado, sendo a embar-
em fraude ao credor. A compradora gante a promitente compradora, é
não havia exigido, na forma daquele de 10 de agosto de 1966 e foi registra-
dispositivo da lei civil a apresenta- da no Registro de Imóveis em 13 de
ção das quitações fiscais, pois se o dezembro de 1966, antes, portanto,
tivesse feito teria encontrado emba- da entrada em vigor do Código Tri-
raço no 10? Oficio de Distribuição, butário Nacional que, sendo de 25 de
porquanto, já em 9-8-67 se encontra- outubro de 1966, somente entrou em
va distribuído ao Juízo da 4? Vara da vigor em 1? de janeiro de 1967, con-
Fazenda um executivo fiscal do Es- forme dispôs o seu art. 126. E é ain-
tado. da de ver que a primeira autuação
O v. acórdão impugnado negou fiscal contra a firma devedora ocor-
provimento aos recursos «ex officio» reu em 23-9-66, em data posterior,
(eis que a sentença, como aliás assim, àquele contrato de promessa
igualmente o acórdão são anteriores de compra e venda, lavrado em es-
ao vigente Código de Processo Ci- critura pública.
vil), pelas razões sintetizadas na res- Resta, assim, examinar-se se seria
pectiva ementa: possível a penhora ante a regra do
«Embargos de terceiro. Sendo a art. 1.137 e seu parágrafo único do
penhora posterior até a transcrição Código Civil, tão-somente.
da escritura definitiva do imóvel, No caso, não creio que pague a pe-
procedentes são os embargos, co- na adentrarmo-nos no exame mais
mo decidiu a sentença. Não aplica- tormentoso, e que já foi objeto de vá-
ção na hipótese do art. 1.137 do Có- rias decisões desta Corte, sobre ser
digo Civil se os executivos fiscais possível dispensar-se a ação paulia-
não dizem respeito a impostos de- na, exatamente ante a invocação vá-
vidos pelo imóvel, tanto mais que lida tão-somente do art. 1.137 do Có-
as certidões negativas foram apre- digo Civil, único dispositivo legal, co-
sentadas, como declara expressa- mo se viu, invocado na apelação e
mente a escritura definitiva». (fls. ventilado no acórdão.
79). Diz o parágrafo único do art. 1.137
Somente veio a ser discutido no do Código Civil, in verbis:
aresto ( fls. 79) o aludido art. 1.137 do
Código Civil, não tendo sido preques- «A certidão negativa exonera o
tionados e, por isso mesmo, não fo- imóvel e isenta o adquirente de to-
ram ventilados no v. acórdão, quais- da a responsabilidade».
quer dispositivos do Código Tributá- Ora, na escritura definitiva de
rio Nacional, o que é anotado por- compra e venda se encontra expres-
quanto, no extraordinário, que ape- samente declarado «que foram apre-
nas se fundamenta na letra a, do sentadas as certidões negativas dos
permissivo constitucional, é dado co- 9?, 10? e 11? Ofícios de Distribuidores
mo violado, a par do mencionado da Justiça, provando não haver dis-
art. 1.137 e seu parágrafo único do tribuição que impeça a lavratura
Código Civil, também o art. 185 com- deste ato».
binado com o art. 201 do mesmo di-
ploma legal. A discussão, deste mo- Este Tribunal em reiterados acór-
do, em torno dos preceitos do CTN, dãos tem somente admitido a possi-
cai no vazio, em face do entendimen- bilidade de anulação da escritura de
to jurisprudencial fixado no enuncia- compra e venda devidamente regis-
do nas Súmulas 282 e 356-STF. trada à. base de alegação de fraude

R.T.J. — 108 599

através de ação pauliana, e não em sa de venda do imóvel, por escritura


embargos de terceiros, como, por pública e se na escritura definitiva
exemplo, se vê dos acórdãos nos as certidões negativas foram apre-
ERE n? 86.173-PA (Plenário — In sentadas, de outra parte não se preo-
RTJ 99/1191) e no 86.746 (1? Turma cupou sequer o Estado em trazer
— in RTJ 87/972), embora nos ERE certidão de que havia anterior distri-
n? 90.934 — RJ tenha sido entendido, buição de execução fiscal.
excepcionalmente, ser desnecessária Pelo exposto, não conheço do re-
a ação pauliana, mas pelas especiais curso.
razões assinaladas no acórdão e re-
fletidas na ementa do respectivo E o meu voto.
acórdão, a saber:
EXTRATO DA ATA
«Civil. Fraude contra credores.
Possibilidade de seu reconheci- RE 80.834-RJ — Rel.: Min. Aldir
mento em embargos de terceiro. Passarinho. Recte.: Estado do Rio
Notoriedade da insolvência do de- de Janeiro (Adv.:
vedor, capaz de dispensar ação Figueira). Recdo.: Danton Andrade
Persiana Decora-
pauliana. Protestos cambiais em ma Ltda. (Adv.: José Maria Basílio
grande número, que o adquirente da Motta).
não podia ignorar. Embargos co-
nhecidos por unanimidade e rejei- Decisão: Não conhecido. Unânime.
tados por voto de desempate». Presidência do Senhor Ministro
Na hipótese em exame, e encaran- Djacl Falcão. Presentes á Sessão os
do a matéria apenas á luz do pará- Senhores Ministros Moreira Alves,
grafo único do art. 1.137 do Código Dedo Miranda, Aldir Passarinho e
Civil, não vejo como possa prosperar Francisco Rezek. Subprocurador-
a irresignação derradeira, anulando- Geral da República, Dr Mauro Leite
se a escritura de venda do imóvel, Soares.
ante as circunstâncias apontadas, Brasília, 24 de junho de 1983 —
pois se é certo que antes da primeira Hélio Francisco Marques, Secretá-
autuação fiscal já se dera a promes- rio.
RECURSO EXTRAORDINÁRIO N? 81.493 — BA
(Segunda Turma)
Relator: O Sr. Ministro Aldir Passarinho
Recorrente: Departamento Nacional de Portos e Vias Navegáveis — Re-
corridos: Cosme de Paulo.
Competência trabalhista. Empresa sob intervenção da União: re-
clamação de empregado da empresa. Art. 110 da Constituição Fede-
ral.
Em face do disposto no art. 110 da Constituição Federal é de com-
petência da Justiça Federal o processamento e julgamento dos litígios
trabalhistas em que forem partes a União, autarquias ou empresas
públicas federais, pelo que não se incluem em tal competência as de-
mandas de empregados contra empresas, embora sob intervenção fe-
deral.
Incabível recurso interposto pelo DNPVN contra acórdão em
questão em que é parte a Cia. Docas da Bahia, sob intervenção da
União.
600 R.T.J. — 108

ACÓRDÃO A Companhia Docas da Ba-


hia encontra-se, ainda, sob inter-
Vistos, relatados e discutidos estes venção federal e não se sabe ou
autos, acordam os Ministros do Su- não se prevê, a curto prazo, o tér-
premo Tribunal Federal, por sua Se- mino de tal controle da empresa
gunda Turma, na conformidade da pelo Governo Federal, do mesmo
ata de julgamentos e das notas ta- modo que não se pode garantir o
quigráficas, por unanimidade de vo- seu retorno à concessionária, após
tos, não conhecer do recurso. o cumprimento das obrigações pró-
Brasília, 5 de agosto de 1983 — prias à intervenção.
Djaci Falcão, Presidente — Aldir Assim sendo, o interesse é
Passarinho, Relator. flagrante, não só por parte da au-
tarquia recorrente, como também
por parte da própria União Fede-
RELATÓRIO ral, que, afinal, assumiu as obriga-
ções de gerência e administração
O Sr. Ministro Aldir Passarinho da empresa sendo responsável pe-
(Relator): Como relatório adoto o los pagamentos dos empregados,
parecer da douta Procuradoria- até o término da intervenção.
Geral da República, verbis: Como alegou a recorrente às
«1 Egrégio Tribunal Superior fls. 60/1, o seu interesse é evidente,
do Trabalho, fls. 254, dando provi- porque a intervenção se fez nos
mento ao recurso de revista, decla- serviços concedidos e nas instala-
rou a competência da Justiça do ções do porto, cuja receita é depo-
Trabalho, para o exame de recla- sitada à disposição do Governo Fe-
mação proposta contra a Compa- deral que não perdeu o domínio pú-
nhia Docas da Bahia, porque em- blico das áreas e serviços concedi-
bora esta esteja sob intervenção, dos, ao lado de ter sido praticado
do Governo Federal, os Atos Com- pelo Sr. Interventor o ato de dis-
plementares n?s 98 e 99 não se apli- pensa do empregado reclamante.
cam ao caso, por não se tratar de Portanto, parece-nos correto
empresa com bens confiscados e o pretendido interesse da autar-
inexistir a designação do Procura- quia recorrente, porque enquanto
dor da República prevista aos Atos não solucionado em definitivo o
referidos. destino dos serviços e instalações
Dai o recurso extraordinário, do Porto de Salvador, é a Interven-
alegando-se contrariedade do art. toria Federal a responsável pela
125, I, da Constituição Federal. dispensa de pessoal e sua correlata
Somos pelo conhecimento do atuação em juízo, que é o da Justi-
recurso. ça Federal, como determina o art.
125, I, da Constituição Federal.
4. Embora a decisão a quo seja
incensurável quanto ao ponto da 9. Assim, enquanto não tomada
não aplicação ou incidência dos a decisão definitiva, encampação
Atos Complementares de n?s 98 e 99, da Companhia, rescisão do contra-
por não se tratar, no caso, de em- to de concessão ou simplesmente
presa que tivesse seus bens confis- revogação, a Justiça Federal deve-
cados, o certo é que a autarquia fe- rá ser a competente para exami-
deral recorrente demonstrou seu nar as causas entre os empregados
interesse na causa, o que possibili- e a Interventoria da Companhia
ta a aplicação do art. 125, I, da Docas da Bahia, como no caso pre-
Constituição Federal. sente.

R.T.J. — 108 601

10. Somos pelo provimento do cidido por esta Corte no RE 93.8/2,


recurso extraordinário» (fls. com invocação do precedente no CJ
295/297). 6.157-SP, Relator o Ministro Soares
o relatório. Muiloz (DJ de 6-3-81, pág. 1448),
acórdão assim ementado:
VOTO «Competência. Reclamação tra-
balhista contra Empresa sob inter-
Sr. Ministro Aldir Passarinho venção federal.
(Relator): Tem sido assente nesta
Corte o entendimento de que as re- — Em se tratando de reclama-
clamatórias movidas por emprega- ção trabalhista ajuizada contra
dos de empresas sob intervenção da empresa sob o regime de interven-
União devem ser julgadas perante a ção federal, a simples assistência
Justiça do Trabalho. ad adjuvandum da União não des-
loca a competência da Justiça do
Tendo havido vários julgados nes- Trabalho para a Justiça Federal
se sentido referentemente a empre- Precedente: CJ 6.157-SP. Recurso
gados de seguradoras em regime de extraordinário conhecido e despro-
liquidação extrajudicial com liqui- vido».
dante nomeado pelo antigo Departa- Pelo exposto, não vejo ferimento a
mente Nacional de Seguros Privados preceito constitucional na decisão do
e Capitalização e, depois, pela Supe- Colendo Tribunal Superior do Traba-
rintendência Nacional de Seguros lho, ao entender que a competência,
Privados. no caso, era da Justiça do Trabalho.
que, de fato, segundo a regra do Não conheço do recurso.
art. 110 da Constituição cabe à Justi- E o meu voto.
ça Federal o processo e julgamento
dos litígios trabalhistas em que fo-
rem partes a União, autarquias e EXTRATO DA ATA
empresas públicas federais. Ora, no
caso, nenhuma dessas entidades é
parte no processo, pelo que o só fato
de ter havido a intervenção na Cia. RE 81.493-BA — Rel.: Min. Aldir
Docas da Bahia não desloca a com- Passarinho. Recte.: Departamento
petência do feito para a Justiça Fe- Nacional de Portos e Vias Navegá-
deral. veis (Adv.: Ismar Alves Rodrigues).
Recdo.: Cosme de Paulo (Adv.: Ru-
De qualquer sorte, não caberia bem José da Silva).
conhecer-se do recurso. Encon- Decisão: Não conhecido. Unânime.
trando-se a Reclamada sob interven-
ção federal, a União então é que te- Presidência do Senhor Ministro
ria interesse em recorrer e não o Djaci Falcão. Presentes à Sessão os
DNPVN, embora esse possa, através Senhores Ministros Moreira Alves,
do interventor, exercer alguma espé- Decio Miranda, Aldir Passarinho e
cie de interferência na administra- Francisco Rezek. Subprocurador-
ção. Geral da República, Dr. Mauro Leite
Soares.
As empresas sob intervenção não
estão, só por esse motivo, sujeitas à Brasília, 5 de agosto de 1983 —
competência da Justiça Federal. Hélio Francisco Marques, Secretá-
Nesse sentido, e como exemplo, o de- rio.
602 R.T.J. — 108

RECURSO EXTRAORDINÁRIO N? 82.105 — PR


(Segunda Turma)
Relator: O Sr. Ministro Aldir Passarinho
Recorrente: Indústrias Theophilo Cunha S.A. — Recorridos: Evaldo Es-
chembach e sua mulher
Processual Civil. Pauta de Julgamento.
Não há necessidade que a pauta de julgamento indique o dia do
calendário em que o processo será julgado, tendo-se como suficiente
para dar-se como satisfeitas as exigências dos ff 3? e 4? do art. 874,
do anterior Código de Processo Civil, e que correspondem ao caput do
art. 552, e seu f 1? do Código atual que a pauta, para intimação, seja
publicada com as indicações e identificação necessária, dai se tendo
que o processo poderá ser julgado na primeira sessão a partir do
transcurso de quarenta e oito horas da publicação.
Recurso extraordinário não conhecido.
ACORDA() Inconformada, recorreu extraordi-
nariamente a Indústria Theóphilo
Vistos, relatados e discutidos estes Cunha S.A., com apoio na letra a da
autos, acordam os Ministros do Su- permissão constitucional, alegando
premo Tribunal Federal, por sua Se- que o v. acórdão impugnado padece
gunda Turma, na conformidade da de vício irremediável de nulidade,
ata do julgamento e das notas taqui- por não ter sido publicada, no Diário
gráficas, por unanimidade de votos, da Justiça, na forma estabelecida
não conhecer do recurso. pelo parágrafo 3? do art. 874 do Códi-
Brasília, 19 de agosto de 1983 — go de Processo Civil de 1939, a pauta
Djaci Falcão, Presidente — Aldir mencionando o dia em que o feito se-
Passarinho, Relator. ria levado a julgamento, pois o aviso
a que se refere a certidão de fls. 278
RELATORIO menciona apenas, contrariamente ao
que determina a lei, que o feito esta-
Sr. Ministro Aldir Passarinho (Re- ria com dia, sem especificar, contu-
lator): Trata-se de ação possessória do, a data em que estaria em pauta
ajuizada por Evaldo Eschembach e de julgamento.
sua mulher Luíza Eschembach, para Inadmitido o recurso, subiram os
a manutenção da posse que tinham autos a esta Superior Instância, em
de uma área de terras e seus acessó- razão de ter sido provido o agravo
rios, localizada no lugar denominado interposto pela recorrente.
Lageado São Feliz pois estavam so- E o relatório.
frendo turbação por parte de Arnal-
do Ventz e da firma Indústria Theó-
philo Cunha S.A. VOTO
A ação foi julgada procedente, ten-
do sido a sentença mantida pelo Tri- O Sr. Ministro Aldir Passarinho
bunal de Justiça local, em acórdão (Relator): Não tem razão o recor-
sintetizado nesta ementa: rente. Com inteira razão o ilustre
«Na ação possessória, a exceção Presidente do C. Tribunal de Justiça
de domínio não pode fundar-se em do Paraná ao impedir que prospe-
titulo não hábil à transferência da rasse o extraordinário, sob este fun-
propriedade» (fls. 279). damento basilar:

R.T.J. — 108 603

«Com efeito, quando muito teria lendário em que o processo será jul-
ocorrido mera irregularidade que gado. E suficiente que haja a publi-
na forma prescrita pelo art. 273, I cação da pauta, tal como ocorreu,
do anterior Código de Processo Ci- declarando «Autos com dia para jul-
vil e art. 244 do atual, não importa gamento», pois significa isso, obvia-
em nulidade, pois era de pleno co- mente, que o processo já poderá ser
nhecimento do ilustre patrono da chamado na sessão, após o prazo de
recorrente, segundo norma que era 48 horas.
adotada neste egrégio Tribunal de
Justiça, que, publicado no órgão De fato, o pretexto é de absoluta
oficial o aviso de «autos com dia esterilidade e, por isso mesmo, não
para julgamento», estes seriam co- poderá vingar.
locados em pauta e levados a jul-
gamento na primeira sessão da E mesmo de observar que a pauta
respectiva Câmara Julgadora, ob- desta Corte é também publicada
servando o previsto no § 4? do art. sem que haja menção expressa ao
874, acima citado, fato que, na rea- dia do calendário em que vai ser
lidade ocorreu, segundo certidão chamado o feito, sendo feita apenas
trazida aos autos pelos recorridos a indicação de que os feitos serão
com as razões de impugnação.» chamados para julgamento «a partir
da próxima sessão», o que tem sido
Apenas cabe fazer uma ressalva sempre entendido, por ser o óbvio,
no despacho aludido quando mencio- que essa mencionada « próxima ses-
na que, quando muito, teria ocorrido são» será aquela após o decurso do
mera irregularidade que, entretanto, prazo legal de 48 horas.
não implicava nulidade. E que não
houve irregularidade nenhuma. Na Pelo exposto, não conheço do re-
conformidade do disposto no § 3? do curso.
artito 874 do anterior Código de Pro- E o meu voto.
cesso Civil, à época vigente, os au-
tos com o recurso, "já ultimado seu
processamento, e prontos para julga- EXTRATO DA ATA
mento, «serão apresentados ao Pre-
sidente, que designará dia para jul-
gamento, mandando publicar anún- RE 82.105-PR — Rel.: Min. Aldir
cio no órgão oficial». Passarinho. Recte.: Indústria Theó-
philo Cunha S/A. (Adv.: George Bue-
E diz o § 4? do mesmo artigo 874, no G omm ). Recdos.: Evaldo Es-
in verbis: chembach e sua mulher (Adv.: José
Elias Küster).
Entre a data da publicação do
edital no órgão oficial e a sessão Decisão: Não conhecido. Unânime.
de julgamento, mediará, pelo me- Presidência do Senhor Ministro
nos, o espaço de quarenta e oito Djaci Falcão. Presentes à Sessão os
horas.» Senhores Ministros Moreira Alves,
Dedo Miranda, Aldir Passarinho e
As regras acima são exatamente Francisco Rezek. Subprocurador-
as mesmas existentes no atual Códi- Geral da República, Dr. Mauro Leite
go de Processo Civil, conforme o art. Soares.
552, caput, e seu § 1?.
Brasília, 19 de agosto de 1983 —
Na verdade, não há obrigação de Hélio Francisco Marques, Secretá-
na pauta haver menção ao dia do ca- rio.
604 R.T.J. — 108

EMBARGOS NO AGRAVO DE INSTRUMENTO N? 84.121 (AgRg) — DF


(Tribunal Pleno)
Relator: O Sr. Ministro Néri da Silveira.
Agravante: Juber Vieira Rezende — Agravado: Distrito Federal.
Embargos de divergência. Não são cabíveis de decisão de Turma,
em agravo regimental. Súmula 599. O agravo regimental é recurso
distinto do agravo de instrumento.
RISTF, art. 330. O incidente de Uniformização de Jurisprudência,
ut art. 476, do CPC, não é procedimento disciplinado no Regimento In-
terno do STF, não cabendo invocá-lo nesta Corte. Agravo regimental
desprovido.
ACÓRDÃO «não terá direito à correção monetá-
ria do ínfimo valor da indenização
Vistos, relatados e discutidos estes que lhe foi atribuído», em demanda
autos, acordam os Ministros do Su- ajuizada em 1968 e cujo precatório
premo Tribunal Federal em sessão só será pago em 1984 ou 1985. Con-
Plenária, na conformidade da ata de tradita o fundamento do despacho
julgamentos e notas taquigráficas, agravado, ao inadmitir os embargos,
unanimidade, negar provimento ao invocando a Súmula 599. Sustenta,
agravo regimental. no caso, a necessidade de se prece-
Brasília, 2 de setembro de 1982 — der à uniformização da jurisprudên-
Xavier de Albuquerque, Presidente cia, eis que o Tribunal tem concedi-
— Néri da Silveira, Relator. do a correção monetária «a qualquer
tempo, inclusive nos embargos de di-
RELATORIO vergência.» Aduz que não há falar
em coisa julgada a impedir a con-
O Sr. Ministro Néri da Silveira cessão da correção monetária, pois
(Relator): Do despacho (fls. 1.002), reconhecido aacessório,
esta é «mero
qualquer
que pode ser
tempo ou em
que inadmitiu embargos de diver-
gência, interpostos do acórdão em qualquer estado da causa, máxime
agravo regimental no Agravo de Ins- quandora este
a nova Lei (6.899/81) assegu-
direito em todos os casos
trumento n? 84.121-1, opõe Juber pendentes de julgamento, sem distin-
Vieira Rezende agravo regimental ção de exclusão.»
(fls. 1.004/1.019), vindicando reforma
do despacho ou de ofício suscite o re- E o relatório.
lator incidente de uniformização de
jurisprudência, ut art. 476, I e II, do VOTO
CPC.
O Sr. Ministro Néri da Silveira
Alega o agravante que a tese su- (Relator):
fragada no acórdão da Segunda Tur- gos, fi-lo noAo inadmitir os embar-
sucinto despacho, de fls.
ma, no julgamento do Agravo Regi- 1.002, verbis:
mental, consoante a qual, transitado
em julgado o acórdão que expressa- «1. Trata-se de embargos de di-
mente negou a correção monetária, vergência interpostos de acórdão
não se pode admiti-la em execução da Segunda Turma, no julgamento
(fls. 955), contraria, integralmente a do Agravo Regimental no Agravo
a jurisprudência deste Tribunal. de Instrumento n? 84.121-1-DF ( fls.
Aduz que, assim, só o agravante 955).
R.T.J. — 108 605

2. De acordo com a Súmula n? Ademais disso, não teria cabimento,


599, são incabíveis os embargos de mesmo a teor do art. 476, do diploma
divergência, razão por que não os processual civil, a pedido do recor-
admito.» rente, em agravo regimental inter-
O disposto no art. 330 do RI, segun- posto de despacho que inadmitiu em-
do o qual cabem embargos de diver- bargos de divergência, incabíveis na
gência à decisão de Turma que, em espécie, em face do Regimento In-
recurso extraordinário ou em agravo terno.
de instrumento, divergir de julgado Do exposto, nego provimento ao
de outra Turma ou do Plenário, na agravo regimental.
interpretação do direito federal, não
favorece ao agravante, certo que o EXTRATO DA ATA
agravo regimental é recurso distinto
do agravo de instrumento, inobstan- Ministro Néri da84.121-DF
EAG (AgRg.) — Rel.:
Silveira. Embte.:
te possa ser interposto de decisão Juber Vieira Rezende (Adv.: Jeffer-
nos autos de agravo de instrumento son de Aguiar). Embdo.: Distrito Fe-
ou de qualquer outro recurso, a teor deral (Adv.: José de Campos Ama-
do art. 317 do diploma regimental. ral).
O enunciado da Súmula 599 preva-
lece, não se tendo alterado ou cance- Decisão: Negou-se provimento ao
lado após o advento do atual Regi- agravo regimental, unanimemente.
mento Interno, em vigor desde 1-12- Presidência do Senhor Ministro
1980. Nesse sentido tem o Plenário Xavier de Albuquerque. Presentes à
decidido, como, dentre outros, no Sessão os Senhores Ministros Djaci
Agravo Regimental nos Embargos Falcão, Cordeiro Guerra, Soares Mu-
de Divergência interpostos de acór- foz, Dedo Miranda, Rafael Mayer,
dão em agravo regimental no Agra- Néri da Silveira, Alfredo Buzaid e
vo de Instrumento n? 86.828-3-RJ. Oscar Corrêa. Ausente, justificada-
Quanto ao incidente de uniformiza- mente, o Sr. MM. Moreira Alves.
ção de jurisprudência, ut art. 476 do Procurador-Geral da República,
CPC, não é procedimento disciplina- Professor Inocência Mártires Coelho.
do no Regimento Interno do STF, Brasília, 2 de setembro de 1982 —
não cabendo invocá-lo nesta Corte. Alberto Veronese Aguiar, Secretário.
RECURSO EXTRAORDINÁRIO N? 88.707 — SP
(Primeira Turma)
Relator: O Sr. Ministro Néri da Silveira.
Recorrente: União Federal — Recorrida: Sylvia Pereira Alves.
Pensão. Aumento em virtude de reclassificação. Leis n?s
e 5.291/1967. Herdeira de Oficial Administrativo
3.780/1960, 5.057/1966
da Alfãndega de Santos, falecido anteriormente à data da reclassifi-
cação prevista na Lel n? 3.780/1960. Inexistência de direito ao reajus-
tamento da pensão segundo os vencimentos de Agente Fiscal Adua-
neiro. Somente fazem jus ao reajuste da pensão, calculado com base
nos vencimentos de Agente Fiscal Aduaneiro, os herdeiros de funcio-
nários que chegaram a se reclassificar como Agente Fiscal Aduanei-
ro, ou que, sendo aposentados, perceberam os benefícios da Lei n?
5.291/1967. Esta Lei não é invocável, em favor de pensionista, herdei-
ra de Oficial Administrativo, aposentado, já falecido quando da sua
edição. Recurso conhecido e provido, para cassar a segurança.
606 R.T.J. — 108

ACÓRDAo vil,calculada de conformidade


com o disposto no art. 4? da Lei
Vistos, relatados e discutidos estes n? 3.373. de 12 de março de 1958,
autos, acordam os Ministros da Pri- Será Reajustada, a partir de 1?
meira Turma do Supremo Tribunal de janeiro de 1966, de acordo com
Federal, na conformidade da ata de os Níveis dos Atuais Vencimentos
julgamentos e notas taquigráficas, à dos Funcionários Civis da
unanimidade, conhecer do recurso e União.»
lhe dar provimento. § 1? A pensão reajustada na
Brasília, 6 de outubro de 1981 — forma deste artigo, será Sempre
Cunha Peixoto, Presidente — Néri atualizada de acordo com os va-
da Silveira, Relator. lores dos vencimentos que forem
fixados para aqueles funcioná-
RELATÓRIO rios»,
O Sr. Ministro Néri da Silveira verificando-se ainda que a Lei n?
(Relator): Trata-se de mandado de 5.291, de 3-3-967, determinara a
segurança requerido por pensionista aplicação também da melhoria aos
do Montepio Civil, na condição de antigos «oficiais administrativos»,
herdeira de oficial administrativo da «escriturários», «polícias fiscais» e
então Alfândega de Santos, contra «fiscais aduaneiros», aposentados
ato do Delegado Fiscal do Tesouro antes da Lei n? 3.780/60.
Nacional em São Paulo, que deixara Nada mais justo e legal, portan-
de atualizar, a partir de 1-11-69, o va- to, do que o reajustamento a ser
lor mensal de sua pensão, que esta- procedido pelo próprio Impetrado,
va orçado, na data da impetração, ao amparo da Lei n? 5.057, que
em Cr$ 91,00. Invocando julgados do mandou calcular as pensões pagas
Tribunal Federal de Recursos, apli- pelo Tesouro Nacional «a partir de
cáveis, a seu ver, ao caso dos autos, 1? de janeiro de 1966», observando-
a impetrante assim expôs a questão: se sempre a atualização de acordo
«A Impetrante na qualidade de com os valores dos vencimentos
herdeira do oficial administrativo que forem fixados para aqueles
da então Alfândega de Santos, Joa- funcionários, isto é, Agentes Fis-
quim Antonio Pereira Alves, faleci- cais do Imposto Aduaneiro.),
do em 18-4-946, integrara o quadro O Dr. Juiz Federal concedeu a se-
de pensionista do Montepio Civil do gurança e a antiga 2, Turma do Tri-
Ministério da Fazenda, percebendo bunal Federal de Recursos, contra o
valor correspondente aos venci- voto do relator, desproveu os recur-
mentos do respectivo cargo. sos, voluntário e oficial.
Posteriormente, de acordo com a No julgamento, prevaleceu o voto
Lei n? 3.780/60 o cargo a que per- do saudoso Ministro Amanho Benja-
tencera o «de cujus» teve a sua de- min, nestes termos:
nominação modificada para o de «Com a devida vênia do Sr. Mi-
Agente Fiscal do Imposto nistro Relator, o meu voto é no
Aduaneiro, com vencimentos majo- sentido de negar provimento, man-
rados pelo Decreto n? 57.877/66. tendo a concessão da segurança.
Logo depois estabelecia a Lei n? Reporto-me ao pronunciamento
5.057, de 29-6-966 que: Justificado que emiti no Agravo em
Mandado de Segurança n? 68.090 e
«Art. 1? A pensão paga pelo q ue recebeu a chancela deste
Tesouro Nacional a herdeiros de Tribunal no Recurso de Revista n?
contribuintes do Montepio Ci- 1.399. Não deixo, entretanto, de

R.T.J. — 108 607

abordar certos aspectos do proble- Devo dizer finalmente que, a


ma provocado pelo pronunciamen- propósito do tema, o Tribunal de
to do Sr. Ministro Relator. Acho Contas reformou opinião anterior e
que, no caso a Lei n? 5.057 é ex- mandou registrar todas as pensões
pressa no sentido de mandar atua- das beneficiárias do Montepio Ci-
lizar sempre as pensões, tendo por vil, com atualização, ressaltando
base os vencimentos dos funcioná- diretamente que a Lei n? 5.057 não
rios em atividade. Não impede es- estava revogada — Súmula 25.
sa compreensão a existência de Segue anexo o voto no AMS n?
leis de aumento, que tenham dis- 68.090, que foi mencionado.»
posto especialmente sobre o assun-
to. Quando as leis do aumento dis- Assim motivou o seu voto o ilustre
puserem a respeito, cumpra-se o Ministro Decio Miranda, que então
que a lei do aumento estabelecer. compunha aquela egrégia Corte:
Na hipótese, porém, cuida-se de «Sr. Presidente, a minha orienta-
vantagens que foram estabelecidas ção tem sido a de reconhecer o di-
para os Agentes dos Tributos Fede- reito aos beneficiários, quando se
rais. Ora, se essas vantagens fo- trata de pensão paga pelo Tesouro
ram mandadas aplicar, inclusive (Agravos em Mandado de Seguran-
aos funcionários aposentados, se a ça n?s 66.954 e 68.307 e outros).
lei, que dispôs especialmente a res- Tenho negado o direito — porque
peito das pensões, toma como base a legislação é diferente, ai ligada a
os vencimentos dos funcionários pensão à contribuição do servidor
em atividade, é evidente que a — quando se trata de pensão do
pensão deva ajustar-se ao venci- IPASE, verbi grana, AMS n?
mento que o funcionário falecido 67.615.
estaria percebendo, se vivo esti- E de acentuar que, no Tribunal
vesse. A lei, quando se refere aos Pleno, na sessão de 29-5-73, preva-
funcionários em atividade, como leceu, por maioria, solução favorá-
ponto de referencia, não exclui os vel às pensionistas do Tesouro, no
funcionários que faleceram. Por Recurso de Revista n? 1.399, rela-
outro lado, sendo intimas as pen- tor o Sr. Ministro Márcio Ribeiro,
sões, manda a compreensão da boa recurso esse oposto ao acórdão
justiça e o sentido humano das coi- proferido no AMS n? 68.090, de que
sas que se marche para a sua fora relator o Sr. Ministro Amari-
atualização. Não impede também lio Benjamin.
essa atualização o fato de não exis- No caso dos autos, tratando-se de
tir verba especifica, porque há pensãO paga pelo Tesouro, acom-
sempre verba geral no Orçamento, panho o douto voto do Sr. Ministro
para atender às eventualidades no Amarai() Itenj amln.»
correr do exercício. Existe tam- Para o acórdão foi escrita a se-
bém dentro do nosso Direito o guinte ementa:
principio geral de que a concessão
de pensões. quando for além da «Pensão. Reajuste por força de
contribuição paga, ou dos encargos lei. Deve ser sempre reajustada a
normais, corra por conta do pensão aos vencimentos dos funcio-
Tesouro. Não há, portanto, como nários em atividade e correspon-
alterar-se o que o Tribunal Pleno dente á situação do servidor faleci-
vem decidindo. O Sr. Ministro De- do, desde que lei expressa determi-
cio Miranda, inicialmente, votou na permanente atualização em tal
contra o reajuste de pensões. De- base.»
pois, S. Exa. reconsiderou-se e as- Interpôs recurso extraordinário a
sim vem votando. União, sustentando que o caso destes
606 R.T.J. — 108

autos foi resolvido corri. abstração sua vigência, estivesse o ocupante


das, ,normas inscritas" na Lei yi? do cargo a transformar-se, lotado
5.291/671., Invocou; ainda, a recorren- em repartição aduaneira. Lei pos-
te, o RE n? 713,204 e a Súmula 38. x' terior — a 5.291, de 1967 — esten-
Inadmitido, o recurso stririn pelo deu os benefícios dessa reclassifi-
provir/tente ao agraVe etn apenso; cação a todos os antigos Oficiais
• Administrativos que «lotados em
A rrOcoradoria-Qgral, 'da
"RePúbli-
repartições aduaneiras, foram apo-
ca é favoráVel ao conhecimento e sentados com mais de 30 (trinta)
provi/tient do recurao. •- anos de serviço, anteriormente à
E o relaMit. Lei n? 3.780, de 12 de julho de 1960»
(art. 2?, II, a). O falecimento do
VOTO servidor ocorreu, porém, em data
anterior (18-4-1946) à vigência des-
sas leis».
fY Si'. MinhItro,Seri, 4da ,Silveira
(Relatei"! NouRE ti? 42:5481SP (RTJ Sustenta o recurso da União que a
80y ,pág! 174)-, aicelelide 89 Turma, a pensão paga à impetrante, beneficiá-
1441 41975; préCisathente, no julga- ria de Joaquim Antonio Pereira Al-
mentd- da' mestria :sinete-ria, decidiu, ves, que faleceu na condição de apo-
em- Entesto assith , ementado, de que sentado em cargo de Oficial Admi-
Relatei/ ío eminente Ministro Thomp- nistrativo, do Ministério da Fazenda,
sun? Flores:!, . em 1946, e com as vantagens de tal
«)Periaão. ` Herdelida de Oficiais cargo, terá de ser calculada
de Atlininistrácâo 'e " Escriturários «tomando-se por base o vencimento
da Alfândega de Santos. desse cargo, devendo ser reajustada
' i andado deSegitrança visando o sempre que tal vencimento for majo-
Seu reajuste, segundo os vencimen- rado». E aduz: «E isto, precisamen-
de Agente Fiscal Aduaneiro. te, que determina a Lei n? 5.057/66,
invocada pela recorrida».
IÍ — A ele (reajustamento) não
têm direito, eis que ao entrar em
vigor a lei que admitiu a reclassif i- Observou, com inteira proprieda-
cação, em forma excepcional, já de, o parecer da ilustrada Procura-
havia ocorrido o óbito Aos servido- doria-Geral da República, em se re-
res em questão e já aposentados. ferindo aos precedentes desta Corte,
III --- , Exegese,: das Leis n?s acerca da espécie (fls. 109/110):
5.291/67, r 3.780/60, (,5,057/66 e das
correspondentes às pensões. «Premissas iguais, conclusões
IV — Recurso'' •extraordinário iguais. Naqueles precedentes como
provido para cassar a segurança» no caso deste recurso extraordiná-
rio, o ex-servidor não poderia mes-
No parecer, às fls. 108, bern situa- mo ser atingido por um direito que
da ficou a controvérsia, verbis: a Lei n? 5.291, de 1967, ao estender
«O tema destes autos é de rea- os benefícios da reclassificação
juste de pensão correspondente a (decorrente da Lei n? 3.780/60) e
cargo de Oficial de Adráinistração da atualização permanente das
que, por lei posterior ao funções (estabelecida na Lei n?
falecimento do Mc-senrld6r, veio a 5.057, de 1966), fê-lo apenas aos
ser reclaásificado corrid'ile "Agente aposentados e não aos pensibnistas
Fiscal do Imposto Aduaneiro. A destes. O ex-servidor faleceu em
condição — estabelecida na Lei n? 1946, muito antes da vigência dos
3.780, de 1960 — era que, á data de diplomas legais em que se arrimou

R.T.J. — 108 609

a decisão recorrida para reconhe- público falecido intitulam-se a perce-


cer direito, data venia, inexisten- ber pensão, não por via de jus
te». hereditatis, ou por efeito de estipula-
No RE n? 87.181/SP, precisamente, ção contratual. O direito à pensão,
acerca de reajustamento de pensão segundo o nosso sistema, é de natu-
de herdeiro de Oficiais Administrati- reza previdencial, de disciplina obje-
vos e Escriturários de Alfândega de tiva, de assento legal. Só fazem jus à
Santos, pretendido com base nos pensão calculada sobre a remunera-
vencimentos do cargo de Agente Fis- ção dos Agentes Fiscais do Imposto
cal Aduaneiro, esta Turma, relator o de Renda e Aduaneiro, bem como
ilustre Ministro Cunha Peixoto, deci- dos Fiéis do Tesouro e Exatores, os
diu, em aresto, com a seguinte herdeiros dos contribuintes que che-
ementa: garam, a perceber, ou a lhes ter, co-
mo devida, aquela remuneração.
«Pensão. Herdeiros de Oficiais de Não é invocável a Lei n? 5.291/1967,
Administração e Esériturários da em favor da pensionista, herdeira de
Alfândega de Santos, falecidos an- Comandante Aduaneiro, já falecido
teriormente à data da reclassifica- quando da edição da Lei em apreço.
ção excepcional ditada pelas Leis Apelação desprovida» (DJ de 9-9-
n?s 3.780/60, 5.057 de 1966 e 1977) .
5.291/67. Inexistência de direito ao
reajustamento da pensão segundo O acórdão, dessa maneira, em es-
os vencimentos de Agente Fiscal tendendo as disposições da Lei n?
Aduaneiro. 5.291/1967 às pensionistas de aposen-
tados, que faleceram antes, inclusi-
Recurso extraordinário conheci- ve, da Lei n? 3.780/1960, como suce-
do e provido.» (in DJ, de 29-12- deu, na espécie dos autos, negou vi-
1977) . gência à Lei n? 5.291/1967, divergin-
Também a Segunda Turma, no RE do, outrossim, do aresto indicado, às
n? 86.643/SP, relator o Ministro Mo- fls. 77/78, no RE n? 76.204, estando,
reira Alves, a 19-8-1977, decidiu, na ainda, em contrariedade à Súmula
mesma linha, possuindo o acórdão 38.
esta ementa: Do exposto, conheço do recurso e
«Pensão. Aumento em decorrên- lhe dou provimento, para cassar a
cia de reclassificação. Leis n?s segurança.
3.780/60, 5.057/66 e 5.291/67. O rea-
juste resultante da Lei n? 5.291/67 EXTRATO DA ATA
não se aplica a pensionistas de ser-
vidores de repartições aduaneiras
aposentados, que já haviam faleci- RE 88.707-SP — Rel.: Min. Néri da
do quando da entrada em vigor da Silveira. Recte.: União Federal Rec-
referida Lei. Recurso extraordiná- do.: Sylvia Pereira Alves (Adv.: Joa-
rio conhecido e provido.» (DJ, de kim Manoel Carneiro da Cunha Paes
21-10-1977). Barreto).
Já no colendo Tribunal Federal de Decisão: Conheceram e deram
Recursos, a 26-11-1976, como relator provimento ao recurso. Decisão unâ-
da Apelação Cível n? 35.544, acompa- nime.
nhado pela antiga 3? Turma, assim Presidência do Senhor Ministro
decidi, estando o acórdão, com a se- Cunha Peixoto. Presentes à Sessão
guinte ementa: «Pensão Herdeira de os Senhores Ministros Rafael Mayer,
Comandante Aduaneiro, falecido em Clóvis Ramalhete e Néri da Silveira.
1930. A viúva e filhos do funcionário Ausente, justificadamente o Sr. Mi-
610 R.T.J. — 108

nistro Soares Muftoz. Subprocurador- Brasília, 6 de outubro de 1981 —


Geral da República o Dr. Mauro Lei- Antônio Carlos de Azevedo Braga,
te Soares. Secretário.

AGRAVO DE INSTRUMENTO N? 91.744 (AgRg) — MG


(Primeira Turma)
Relator: O Sr. Ministro Alfredo Buzaid.
Agravante: Selim Sales de Oliveira — Agravada: Maná Sales de Olivei-
ra.
Investigação de paternidade. Ação julgada procedente em face da
- prova dos autos.
No recurso extraordinário é defeso proceder-se ao reexame da
prova, bem como das questões de fato.
Agravo regimental a que se nega provimento.
ACÓRDÃO «Há prova documental, inqueS-
tionável, a definir como de reco-
Vistos, relatados e discutidos estes nhecimento expresso da paterni-
autos, acordam os Ministros da Pri- dade, nos termos do artigo 363,
meira Turma do Supremo Tribunal inciso III, do Código Civil. A pro-
Federal, na conformidade da ata do cedência da ação, em face da
julgamento e das notas taquigráfi- prova quantum satis da paterni-
cas, por unanimidade de votos, em dade, era o caminho legitimo, co-
negar provimento ao agravo regi- mo opinou a douta Procuradoria
mental. da Justiça» (fls. 55).
Brasília, 27 de maio de 1983 — Isto posto, nego seguimento ao
Soares Mufioz, Presidente — Alfredo agravo» (fls. 75).
Buzaid; Relator. Irresignado, o agravante interpõe
o presente recurso regimental, ale-
RELATÓRIO gando que:
O Sr. Ministro Alfredo Buzaid: «a) comprovado está nos autos
Com o despacho, que abaixo trans- que a denegatória do processamen-
crevo, neguei seguimento ao agravo: to do recurso extraordinário, veio
ferir o texto Constitucional permis-
«Não há como reformar o r. des- sivo, com má interpretação da le-
pacho agravado, que negou o pro- gislação federal diferente a que es-
cessamento do recurso extraordi- se Colendo Pretórlo tem dado, in-
nário com base nos enunciados das clusive em seus recentes julgados,
Súmulas 279 e 400. atacando a jurisprudência prepon-
Com efeito, dos votos condutores derante e atual, firmada pelo pró-
da v. decisão recorrida extraio os prio Supremo Tribunal Federal
seguintes trechos: quanto a reconhecimento de pater-
«A sentença contém fundamen- nidade, como no da espécie (RTJ
tação irrepreensível, tendo feito 99/1.357/59) e outros julgados» (fls.
acurado exame da prova produzi- 78/79).
da nos autos, robusta o bastante b) não podia o Egrégio Tribunal
para forrar a convicção do julga- de Justiça do Estadb de Minas Ge-
dor» (fls. 55). rais, através de seu Ilustre Presi-
R.T.J. — 106 611

dente, basear-se nas Súmulas 400 e ta posteriormente e no prazo do


279/STF, que não devem ser em- exercido deste direito.
pregadas no caso em tela; dado a IV — Recurso Extraordinário
admissibilidade. do Recurso Ex- que se conhece e a que se nega
traordinário prevista na Carta provimento». (RTJ 99/1.357).
Magna e no próprio Regimento In-
terno dessa Suprema Corte, não Ocorre que o v. Acórdão recor-
havendo portanto, a necessidade rido não divergiu do entendimento
de reexame de provas, pois que as do aresto desta Corte. Resolveu ação
mesmas já estão contidas nos au- de investigação de paternidade, em
tos evidentemente» (fls. 79). que
É o relatório. «Há prova documental, inques-
tionável, a definir como de reco-
nhecimento expresso da paternida-
VOTO de, nos termos do artigo 363, inciso
III, do Código Civil. A procedência
da ação, em face da prova
O Sr. Ministro Alfredo SIEM (Re- quantum sacis da paternidade, era
lator): 1. Alega o recorrente que, o caminho legitimo, como opinou a
nesta ação de investigação de pater- douta Procuradoria da 'Justiça»
nidade, a decisão recorrida, que ne- (fls. 55).
gou seguimento ao agravo de instru- No recurso extraordinário é defeso
mento, sobre divorciar-se da Juris- proceder-se ao reexame da prova
prudência do Supremo Tribunal Fe- porque esta é quaestlo Meti.
deral, deixou de considerar os arts.
357 e 363, III, do Código Civil. Invoca Também não foram vulnerados
um único julgado desta Corte, profe- os arts. 357 e 363, III, do Código Ci-
rido no Recurso Extraordinário n? vil, sobre' cuja aplicação não se
93.493, em 14 de agosto de 1981, de questionou. A controvérsia foi decidi-
que foi Relator o eminente Ministro da pela Segunda Turma do Egrégio
Clóvis Ramalhete, cuja ementa dis- Tribunal de Justiça de Minas Gerais,
põe: levando em conta a prova produzida
«Dá direito de ação, para a in-
nos autos. O voto do ilustre Des. Cos-
vestigação de paternidade, a exibi- ta Loures, Relator do feito, sublinha:
ção em Juizo do escrito particular, «Ao que parece, a atitude de Eu-
que a reconheça, produzido por elides em face do filho de sua com-
aquele a quem se atribui a paterni- borça não representaria apenas
dade (Código Civil, art. 363, III); urna atitude caridosa ou de favor,
mas não constitui ainda o reconhe- mas uma intenção. firme de ampa-
cimento voluntário da paternidade rar o filho que reconhecia como
ilegítima, cuja eficácia depende de seu, o que se advinha não só nas
escritura pública, registro civil ou próprias escrituras de fls. 10/13,
testamento (Código Civil, art. 357). como se presume da declaração
II — Imprescritível o direito à de fls. 9, do médico que assistiu Al-
investigação de paternidade, ação da no parto de Mauá; paternidade
de estado, no entanto prescreve a que não foi expressamente reco-
de petição de herança. nhecida, mas assumida em tais do-
cumentos; ou indesmentida na pro-
III — Prescrito, que esteja, o di- va fotográfica que se vê às fls.
reito à petição de herança do pai 14/16, onde os traços paternos se
investigado, no entanto esta pres- denunciam na fisionomia dos dois
crição não extingue direito de peti- filhos Mauá e Salim e do pai co-
ção de herança bm sucessão aber- -ml1M.
612 R.T.J. — 108

A sentença contém fundamenta- EXTRATO DA ATA


ção ir.repreehsivel, tendo feito acu-
rado exame da prova produzida Ag. 91.744 (AgRg)-MG — Rel.:
nos autos, robusta o bastante para Min. Alfredo Buzaid. Agte.: Salim
forrar a convicção do Julgador». Sales de Oliveira (Advs.: Luiz Fer-
(fls. 55) nando Melo de Lemos, Ly Freitas e
Por seu turno, o voto do ilustre outros). Agdo.: Mauá Sales de Oli-
Des. Danilo Furtado acentuou: veira (Adv.: João Baptista Mar-
ques).
«Há prova documental, inques-
tionável, a definir como de reco- Decisão: Negou-se provimento ao
nhecimento expresso da paternida- agravo regimental. Decisão unâni-
de, nos termos do artigo 363, inciso me.
III, do Código Civil. A procedência
da ação, em face da prova Presidência do Senhor Ministro
quantum satis da paternidade, era Soares Mufloz. Presentes à Sessão os
o caminho legitimo, como opinou a Senhores Ministros Rafael Mayer,
douta Procuradoria da Justiça». Néri da Silveira, Alfredo Buzaid e
(fls. 55) Oscar Corrêa. Subprocurador-Geral
A decisão recorrida julgou a causa da República, Dr. Francisco de As-
à luz da prova dos autos. sis Toledo.
Ante o exposto, nego provimento Brasília, 27 de maio de 1983 —
ao agravo regimental. António Carlos de Azevedo Braga,
E o meu voto. Secretário.

AGRAVO DE INSTRUMENTO N? 92.855 (Agftg) — SP


(Primeira Turma)
Relator: O Sr. Ministro Soares Mutioz.
Agravante: Franz ou Francisco Will (espólio de), representado por seu
inventariante Antonio Stanoga Will — Agravada: FEPASA — Ferrovia Pau-
lista S/A.
Desapropriação. Vetos regimentais. Falta de prequestionamento
do fenômeno da desindexação.
— Os vetos regimentais decorrentes de tratar-se de ação de desa-
propriação e de alçada (art. 325, V, c, e VIII, do R.I. — STF.), aliados
à falta de prequestionamento, no acórdão impugnado (Súmula 282 e
356), da alegada corrutela no uso do bodiernamente denominado pro-
cesso de desindexação, impedem seja examinado se essa questão en-
volve matéria constitucional, de modo que possibilite a interposição
de recurso extraordinário. Agravo desprovido.

ACORDÃO do julgamento e das notas taquig,rá-


ficas, por unanimidade de votos, ne-
Vistos, relatados e discutidos estes gar provimento ao agravo regimen-
autos, acordam os Ministros do Su- tal.
premo Tribunal Federal, em Primei- Brasília, 6 de setembro de 1983 —
ra Turma, na conformidade da ata Soares Muftoz, Presidente e Relator.
R.T.J. — 108 613

RELATORIO propriacdtat par utilidade pública.


Naquele caso,'?realmente, não
O Sr. Ministro Soares Mudoz: Eis o envolvia-se a matéria constitucio-
teor do despacho, ora agravado, que nal, posto que os índices em dis-
proferi no agravo de instrumento: cussão eram os mesmos. Ambos
«Trata-se de ação de desapro- editados pela Seplan. Com uma
priação cujo valor não alcança a única diferença, os das ORTN edi-
alçada recursal. Incidem sobre ela tados mensalmente, os das desa-
os vetos estabelecidos no art. 325, propriações por utilidade pública,
V, c, e VIII, do RISTF. Das ressal- editados trimestralmente. Porém,
vas previstas no caput do mencio- são os mesmos índices, com os
nado art. 325, o recorrente alegou mesmos coeficientes. No caso dos
ofensa ao art. 153, § 22, da Consti- autos, a tese é diversa, os índices
tuição em conseqüência da aplica- das ORTN frente aos índices reais
ção da Lei n? 6.423, de 17-6-77. Po- do custo de vida, não espelham a
rém, a jurisprudência do Supremo realidade inflacionária, daí porque
Tribunal Federal é no sentido de aplicados os das ORTN, o expro-
que «a fixação, segundo critérios priado terá um prejuízo, que refle-
legais sucessivos no tempo dos cor- tirá no comando Constitucional que
retivos da indenização exproprlató- determina que a indenização deve
ria, não envolve, por si mesma, ser justa» (fls. 80/81).
questão constitucional, senão, Salientam ainda as razões que os
quando multo, mero problema de índices das ORTN nada têm em co-
definição da lei aplicável» (RTJ mum com a realidade inflacionária,
92/141-143). (fls. 16). Argüiu-se, pois deles, por efeito do fenômeno
também, a relevância da questão denominado hodiernamente como de
federal mas a argüição foi rejeita- desindexação, são retirados determi-
da pela Corte em sessão de Conse- nados produtos que os técnicos en-
lho. Ante o exposto, nego segui- tendem como não sendo importantes
mento ao agravo de instrumento para a apuração da taxa inflacioná-
para manter, por seus fundamen- ria, como, por exemplo, trigo, gasoli-
tos, o despacho denegatório do re- na, chuchu, hortaliças e outros pro-
curso extraordinário. Publique-se. dutos, que têm peso na inflação, pois
Brasília, 15 de agosto de 1983» (fls. eles influem no custo de vida. Ora, o
78). valor da desapropriação tem que ser
Nas razões do agravo regimental, justo, por exigência constitucional;
o agravante sustenta, em resumo. dai se segue que os índices de corre-
ção monetária, a ela aplicáveis, são
Data maxima venha, o v. despa- os reais, e os coeficientes devem ser
cho denegatório decorreu de mani- os do custo de vida, sem desindexa-
festo equívoco. ção.
De fato, não se teve presente que E o relatório.
no julgamento pelo Supremo, in.
serto na «Revista Trimestral de VOTO
Jurisprudência», vol. 92/141-143,
onde se decidiu que a discussão so- O Sr. Ministro Soares Mutioz (Re-
bre índices não envolve matéria lator): A hipótese sub judiee não se
constitucional, não prevalece no distingue, como retende o agravan-
casa dos autos. lato porque, naque- te, do caso decidido no paradigma
le caso; discutiane sobre a aplicatÁ que transcrevi no -despacho agrava-
cão dos índices das 'ORTN frente da. Em ambos se -discute a validade
aos índices trimestrais das' dem- dos índices (ditais de correção mo-
614 R.T.J. 106

netária, matéria relacionada com o cisco Will. (espólio de), representado


princípio do curso forçado da moeda por seu inventariante Antonio Stano-
nacional e que não se vincula, direta ga Will. (Advs.: Joaquim de Almeida
e frontalmente, com o quantum da Baptista e outra). Agda.: Fepasa
indenização do bem expropriado, Ferrovia Paulista S/A. (Advs.: Alzi-
mas com a atualização do respectivo ro Mendes Herdade e outros).
numerário fixado em juízo, após de-
corrido prazo superior a um ano a Decisão: Negou-se provimento ao
partir da avaliação. agravo regimental. Decisão unâni-
Ademais, o problema da desinde- me.
xação, ou mais precisamente da cor- Presidência do Senhor Ministro
rutela do seu uso, mediante a retira- Soares Muãoz. Presentes à Sessão os
da dentre os índices inflacionários Senhores Ministros, Rafael Mayer e
(ORTN) de produtos de influência Francisco Rezek. Ausentes, justifica-
decisiva no custo de vida, não se damente, os Senhores Ministros, Né-
acha prequestionado no Acórdão pro- ri da Silveira, Alfredo Buzaid e Os-
ferido na apelação (fls. 55/58), nem car Corrêa. Compareceu o Senhor
no que recebeu, em parte, os embar- Ministro Francisco Rezek, para
g os de declaração (fls. 19/20) (Sú- compor o «quorum» regimental, nos
mulas 282 e 356). termos do artigo 41 do Regimento In-
Ante o exposto, nego provimento terno. Subprocurador-Geral da Re-
ao agravo regimental. pública, Dr. Francisco de Assis Tole-
do.
EXTRATO DA ATA
Brasília, 6 de setembro de 1983 —
Ag. 92.855 (AgRg)-SP — Rel.: Min. António Carlos de Azevedo Braga,
Soares Mufioz. Agte.: Franz ou Fran- Secretário.
AGRAVO DE INSTRUMENTO N? 92.946 (AgRg) - RJ
(Primeira Turma)
Relator: O Sr. Ministro Alfredo Buzaid.
Agravante: Ruy Bayma Archer da Silva — Agravado: Instituto Nacional
de Previdência Social — INPS — Representado pelo IAPAS.
Direito do trabalho. Decisão de última instância da Justiça do
Trabalho. Contra ele não cabe recurso extraordinário por divergência
hnisprudencial, mas tão só por contrariedade a preceito da Constitui-
ção da República.
E ilegal a acumulação de três cargos, a saber: médico do Es-
tado, médico do Banco do Brasil S/A e médico do INPS.
O prequestionamento é condição para o conhecimento do re-
curso extraordinário. Aplicação das Súmulas tes. 282 e 356 do Supre-
mo Tribunal Federal.
4. Nega-se provimento ao agravo regimental.
ACORDÃO nal Federal, na conformidade da ata
do julgamento e das notas taquigrá-
Vistos, relatados, e discutidos es- ficas, por unanimidade de votos, em
tes autos, acordam os Ministros da negar provimento ao agravo regi-
Primeira Turma do Supremo Tribu- mental.

R.T.J. — 108 615

Brasília, 2 de setembro de 1983 — ERE n? 96.802-4: «O direito brasi-


Soares Mtifloz, Presidente — Alfredo leiro resolveu este problema, de-
Buzald, Relator. terminando que a parte, antes de
interpor o recurso extraordinário,
RELATÓRIO ofereça embargos de declaração
consoante o Verbete n? 356 da Sú-
O Sr. Ministro Alfredo Buzaid: Ne- mula: «O ponto omisso da decisão,
guei seguimento ao presente agravo, sobre o qual não foram opostos
com o seguinte despacho: embargos declaratórios, não pode
«Incide, na espécie, o veto do ser objeto de recurso extraordiná-
art. 325, IV, b (relação de trabalho rio, por faltar o requisito do pre-
mencionada no art. 110 da Consti- questionamento». Através dos em-
tuição), do Regimento Interno do bargos declaratórios se prequestio-
Supremo Tribunal Federal. na no tribunal de origem a questão
Assim sendo, somente por ofensa federal, a qual fica, portanto, ven-
à Constituição, manifesta diver- tilada, independente da solução da-
gência com a Súmula, ou relevân- da, atendendo assim à exigência
cia da questão federal, poderia do Verbete n? 282 da Súmula».
prosperar o recurso extraordiná- Ante o exposto, nego seguimento
rio. ao agravo» (fls. 61).
No entanto, das excludentes aci- Inconformado, Ruy Bayma Archer
ma alegadas, foram argüidas a re- da Silva, interpõe agravo regimental
levância da questão federal que alegando que o agravante argüiu,
foi rejeitada pelo Eg. Conselho também, a divergência com a Súmu-
(autos em apenso) e ofensa a dis- la 291 do Col. Supremo Tribunal, co-
positivo da Constituição Federal mo se vê do item 12 da petição de re-
que não foi prequestionado. curso extraordinário:
E certo que o agravante alegou, «12. Na verdade o v. acórdão
em sua petição de fls. 2/7, que o ofendeu essa norma, como tam-
«v. acórdão recorrido foi que, ao bém ofendeu o espirito da Súmula
impedir, sem razão, a completa 291 do Supremo Tribunal que so-
entrega da prestação jurisdicional, mente exige, para a comprovação
negou vigência ao artigo 153, § 4? da divergência, a transcrição do
da Constituição Federal. trecho que configure a divergên-
Vale também salientar que foi cia, com a indicação da fonte e a
ainda o acórdão recorrido que, referência às circunstâncias que
quando exigiu a anexação do com- identifiquem os casos confronta-
provante oficial da ementa do dos» (fls. 44).
aresto paradigma, mesmo quando Assim merecia ter sido considera-
já transcrito o trecho caracteriza- do esse ponto, suficiente a justificar
dor da divergência e já indicada a a admissão do recurso denegado.
fonte da publicação, criou, para o Realmente o v. acórdão recorrido,
reclamante, obrigação sem causa, ao criar exigência não prevista em
em flagrante desrespeito à norma lei, divergiu do entendimento da Sú-
do artigo 153, § 2? da Constituição mula 291.
Federal» (fls. 51). Mas, não lhe
aproveita o argumento, porque não Em segundo lugar, desnecessário
opôs à decisão impugnada os com- o prequestionamento dos dispositivos
petentes embargos declaratórios, constitucionais dados como violados,
conforme afirmei no julgamento do eis que a discussão era inexistente
agravo regimental interposto no até então, sendo o próprio acórdão
616 R.T.J. 108

recorrido que, ao examinar a ques- gentes, contrariou as disposições


tão do conhecimento dos embargos constitucionais invocadas. E lembra
de divergência opostos pelo ora re- a este respeito o v acórdão proferi-
querente, contrariou os dispositivos do no Recurso Extraordinário n?
constitucionais invocados. 74.347, com voto vencedor do emi-
nente Ministro Xavier de Albuquer-
Desse modo, é de se aplicar, aqui, que (RTJ 87/490).
o entendimento do Supremo Tribunal
(fls. 63/64) no julgamçnto do RE n? Este v. acórdão não beneficia o
74.347, in RTJ 87/490-1. agravante, porque o prequestiona-
mento é condição para o conheci-
E o relatório. mento de recurso extraordinário. Ca-
beria ao agravante obviar a falta de
prequestionamento, oferecendo em-
VOTO bargos de declaração, consoante' de-
terminam os Verbetes n?s 282 e 356.
Não o tendo feito, o recurso extraor-
O Sr. Ministro Alfredo Buzaid (Re- dinário não podia ser deferido pelo
lator): 1. O primeiro fundamento do ilustre Presidente do Tribunal Fede-
agravo regimental é que o recorren- ral de Recursos.
te argüiu divergência com a Súmula
291 desta Colenda Corte. Mas tal ale- aoAnte o exposto, nego provimento
agravo regimental.
gação é, de todo em todo, imperti-
nente, porque esta Súmula dispõe so- E o meu voto.
bre a prova de dissídio jurispruden-
cial, quando o recurso extraordiná-
rio é interposto com fundamento no EXTRATO DA ATA
art. 101, III, d da Constituição, que
corresponde ao art. 119, III, d da
Constituição vigente. Ag 92.946 (AgRg)-RJ — Rel.: Min.
Alfredo Buzaid. Agte.: Ruy Bayma
O Recurso Ordinário n? 3.338, de Archer da Silva. (Advs.: Fernando
que foi Relator o eminente Ministro Neves da Silva e outros). Agdo.: Ins-
Néri da Silveira no Tribunal Federal tituto Nacional de Previdência Social
de Recursos, declarou a ilegalidade — INPS representado pelo IAPAS.
da acumulação do reclamante como (Advs.: José Torres das Neves e ou-
médico do Estado, do Banco do Bra- tro).
sil e do INPS. Inconformado, ofere-
ceu embargos (fl. 21), que não foram Decisão: Negou-se provimento ao
conhecidos por não ter feito citação agravo regimental. Decisão unâni-
válida do aresto paradigma. Aplicou- me. Impedido o Ministro Néri da Sil-
se o art. 275, caput e g 1? do Regi- veira.
mento Interno do Tribunal Federal Presidência do Senhor Ministro
de Recursos. Ora, não se pode invo- Soares Mufloz. Presentes á Sessão os
car o Regimento Interno desta Corte Senhores Ministros Rafael Mayer,
para o julgamento dos feitos no Tri- Néri da Silveira, Alfredo Buzaid e
bunal Federal de Recursos. Oscar Corrêa. Subprocurador-Geral
2. O segundo fundamento é que a da sis
República, Dr. Francisco de As-
Toledo.
matéria não foi prequestionada, mas
não era necessário o prequestiona- Brasília, 2 de setembro de 1983 —
mento, porque foi o próprio acórdão Antônio Carlos de Azevedo. Braga,
que, ao decidir os embargos infrin- Secretário.
R.T.J. — 108 617

RECURSO EXTRAORDINÁRIO N? 93.896 — RJ


(Segunda Turma)
Relator: O Sr. Ministro Aldir Passarinho.
Recorrente: Sônia Rocha Teixeira de Freitas — Recorrido: Banco Brasi-
leiro de Descontos S/A.
Processual civil.
Ação de execução.
Mulher desquitada. Embargos de terceiro.
A mulher que se desquitou antes da realização da penhora, em
ação de execução movida contra o seu marido, há de opor embargos
de terceiro contra a penhora de bem que lhe coube em razão da parti-
lha de bens. Exegese dos ff 2? e 3? do artigo 1.046 do Cód. Proc. Civil.
Precedente.
ACÓRDÃO 6-77, e lhe coube, na partilha, o imó-
vel objeto da constrição judicial. O
Vistos, relatados e discutidos estes desquite fora anterior à distribuição
autos, acordam os Ministros do Su- da execução. Acrescenta que da divi-
premo Tribunal Federal por sua Se- da decorrente de um aval do 3? exe-
gunda Turma, na conformidade da cutado não resultou nenhum proveito
ata do julgamento e das notas taqui- para sua família, razão pela qual es-
gráficas, por unanimidade de votos, perava excluir da execução o aludi-
conhecer do recurso para lhe dar do bem penhorado.
provimento.
Brasília, 6 de setembro de 1983 — O MM. Juiz a quo julgou proceden-
Djaci Falcão, Presidente — Aldir te, em parte, os embargos de tercei-
Passarinho, Relator. ro, tão somente para limitar a pe-
nhora à metade do produto, em di-
RELATÓRIO nheiro, do bem penhorado, no mo-
mento da expropriação judicial, res-
O Sr. Ministro Aldir Passarinho salvado à esposa, cuja partilha, em
(Relator): Sônia Rocha Teixeira de desquite, foi considerada ineficaz
Freitas opôs embargos de terceiro, frente à apensa execução, usar as
nos autos da ação de execução por demais preferências ligadas à comu-
titulo extrajudicial que o Banco Bra- nhão sobre o imóvel. Custas e hono-
sileiro de Descontos promove contra rários de dez por cento do valor da
CONSEX-Organização e Vendas So- ação pela vencida.
ciedade Civil, Cid Teixeira de Frei- Apelaram ambas as partes: o Ban-
tas e Moacir Teixeira de Freitas, a co Brasileiro de Descontos S/A plei-
fim excluir da penhora o imóvel de teando a improcedência dos embar-
sua propriedade, situado na rua Ita- gos, à consideração de que, para ex-
curussá n? 57, pág. 302. clusão da meação da mulher, cabe a
Diz a embargante, em resumido, ela provar que a divida do marido
ter sido casada com o terceiro exe- não foi contraída em beneficio da
cutado pelo regime de comunhão de família. No caso, ficou provado que
bens, tendo o casal adquirido o imó- a apelada é sócia quotista da firma
vel aludido, em 6-11-73. Afirma que executada, tendo, por conseguinte,
se desquitou amigavelmente, em 29- interesse direto no desenvolvimento
618 R.T.J. — 108

dos seus negócios, pouco importando 1.046, § 3?, do CPC, mas o v. acórdão
a maior ou menor participação so- recorrido não julgou o mérito de seu
cietária, pois, de qualquer forma, os recurso, vulnerando o principio pro-
lucros da empresa seriam distri- cessual de revisão de julgados.
buídos a todos os sócios, inclusive à Foi o recurso admitido. Aqui,
apelada, na proporção de suas quo- manifestou-se a Procuradoria-Geral
tas. da República pelo conhecimento e
A embargante postulando a proce- provimento do recurso.
dência integral dos embargos ao ar- E este o relatório.
gumento de que o imóvel fora adqui-
rido com o fruto do seu trabalho, no VOTO
desempenho do cargo de Diretora de
uma empresa, sendo tal bem reser-
vado na forma estabelecida pelo ar- O Sr. Ministro Aldir Passarinho
tigo 1? da Lei n? 4.121/62. (Relator): O despacho do ilustre
Em grau de recurso, o 1? Tribunal Presidente do C. Tribunal de Alçada
de Alçada do Estado do Rio de Ja- Civel do Rio de Janeiro admitiu o re-
neiro, por unanimidade de votos, deu curso pela letra cl, por considerar
configurado o dissídio pretoriano, e
provimento à primeira apelação, e
julgou extinto o processo dos embar- assim também entendo.
gos de terceiro, condenada a apelada A questão posta em debate neste
em custas e honorários de 20% sobre ensejo do extraordinário se prende a
o valor da causa e negou provimento um só e único ponto: saber-se se os
à segunda apelação. embargos opostos pela embargante
O acórdão ficou ementado nestes devem ser considerados como do de-
termos: vedor, ou de terceiros. E que o v.
«Embargos de terceiro contra acórdão
situavam
impugnado entendeu que se
na primeira hipótese e, por
penhora. isso, haviam sido postos intempesti-
Impossibilidade jurídica do pedi- vamente. E justamente porque a
do formulado por quem é parte na embargante era devedora e não ter-
execução, fora das hipóteses do ceira, o pedido formulado nos em-
art. 1.046, pars. 2 e 3 do CPC e com bargos era juridicamente im-
invocação de matéria que teria de possível. Em conseqüência, o MM.
ser deduzida através de embargos Juiz declarou extinto o processo,
de devedor, dentro do prazo destes. com base no art. 287, VI, do Cód. de
Extinção do processo.» Processo Civil.
Dessa decisão, recorreu extraordi- A meu ver, a controvérsia não ofe-
nariamente a embargante, com am- rece maior dificuldade para seu des-
paro nas letras a e d da permissão linde, principalmente em face de vá-
constitucional, alegando que o v. rios julgados em torno da matéria,
acórdão impugnado negara vigência mesmo levando-se em conta a pecu-
aos arts. 128 e 1046 e seus parágra- liaridade que a espécie dos autos
fos, ambos do Cód. de Processo Ci- oferece.
vil, e divergira de julgados que trou- No caso, como se viu do relatório,
xe à colação. foi movida ação de execução contra
No seu recurso, sustenta a recor- a firma CONSEX — Organização
rente que não era parte no processo, de Vendas S/C e outros; aquela emi-
sofreu turbação na posse de um bem tente de uma nota promissória, e, os de-
seu, pela penhora. Afirma que a hi- mais, avalistas do mesmo título cam-
pótese em discussão é a do artigo bial. Entre estes, Moacyr Tei-

R.T.J. — 106 619

xeira de Freitas, então casado com considerar esta sua situação para se
Sônia Rocha Teixeira de Freitas, ora lhe negar a possibilidade de oferecer
recorrente, vindo a ser penhorado embargos de terceiros, na conformi-
imóvel que figurava como perten- dade do disposto no antes transcrito
cente ao casal. § 2? do art. 1.046 do Código de Pro-
Sônia Rocha Teixeira de Freitas, cesso Civil.
porém, insurgiu-se contra a penhora, E ainda que se admitisse possível
alegando que se havia desquitado de — o que, então, seria verdadeira in-
Moacyr antes da realização da pe- versão de natureza processual —
nhora, e o imóvel objeto da constri- deixar-se de considerar, pelo menos
ção judicial fora, na partilha, in- para os fins da execução e dos em-
cluído entre os seus bens. Pedia, bargos, a existência do desquite,
pois, fosse o bem liberado da penho- tendo-o como instrumento utilizado
ra que sobre ele recaíra. A par dis- para a defesa dos bens do casal —
so, sustentou que a divida contraída haveria, de qualquer sorte, incidên-
pela CONSEX não a beneficiaria, cia na hipótese, da regra do § 3?
não só porque ela e o seu ex-marido do art. 1.046, do Cód. de Proc. Civil,
tinham cada um apenas 5% das co- pois a defesa por ela, embargante,
tas daquela firma, como porque pos- oferecida foi a de que os bens objeto
suía ela rendimentos próprios, indus- da constrição eram seus, como côn-
trial que era, como diretora e acio- juge, e ela os estava defendendo, co-
nista da Studart S.A. — Indústria e mo proprietária. Nesta Corte, no jul-
Comércio, sendo os seus ganhos até gamento do RE n? 88.339-SP, pela
superiores aos do seu ex-marido, sua 2? Turma, Relator o Sr. Ministro
mesmo quando ainda casados. Moreira Alves, bem explícito ficou o
O v acórdão entendeu que os em- entendimento a respeito, conforme
bargos que deveriam ser opostos por se vê da ementa do respectivo acór-
Sônia Rocha Teixeira de Freitas dão, ao dizer:
eram embargos de devedor, e não de «O art. 1.096, § 3?, do Código de
terceiros.
Processo Civil, considerando o côn-
Não parece que seja assim, contu- juge como terceiro «quando defen-
do, na espécie em exame. de a posse de bens dotais, próprios,
Dizem os ff 2? e 3? do art. 1.096 do reservados ou de sua meação», e
CPC, in verbis: não tendo sido a mulher citada co-
«§ 2? Equipara-se a terceiro a mo devedora — hipótese em que
parte que, posto figure no proces- seria parte, na execução, para to-
so, defende bens que, pelo título de dos os efeitos — não admite que
sua aquisição ou pela qualidade ela, simplesmente intimada da pe-
em que os possuir, não podem ser nhora em execução em que o exe-
atingidos pela apreensão judicial. cutado é seu marido na qualidade
de avalista, defenda a posse de sua
§ 3? Considera-se também ter- meação por meio de embargos do
ceiro o cônjuge quando defende a devedor » (RTJ 88/656).
posse de bens dotais, próprios, re-
servados ou de sua meação.» Não possibilita a oportunidade o
exame dos alegados direitos da em-
Ora, no caso, está a embargante bargante quanto a serem seus os
defendendo bens que entende serem bens penhorados ou, pelo menos, que
próprios, eis que quando da penhora — inadmitida a partilha, pelo desqui-
já se encontrava desquitada, e não é te — fique resguardada a sua mea-
possível, de pronto, apresentada que ção, pelas ponderáveis razões que
foi a prova do desquite, deixar-se de oferece — mas não subsistem dúvi-
620 R.T.J. — 108

das, seja qual for a posição da em- xeira de Freitas. (Advs.: Eduardo
bargante o que a decisão sobre o mé- Pinto Martins e outros). Recdo.:
rito dirá, que os embargos que lhe Banco Brasileiro de Descontos S/A
caberia opor eram — tal como for- (Advs.: Pedro Henrique Ribeiro Plá-
mulados — embargos de terceiro, já cido e outros).
que não foi ela citada para a ação. Decisão: Conhecido e provido nos
Pelo exposto, conheço do recurso e termos do voto do Ministro Relator.
lhe dou provimento, a fim de que o Unânime.
C. Tribunal de Alçada, afastada a in-
tempestividade dos embargos e tor- Presidência do Senhor Ministro
nada sem efeito a extinção do pro- Djaci Falcão Presentes à Sessão os
cesso julgue o mérito, como enten- Senhores Ministros Moreira Alves,
der de direito. Decio Miranda, Aldir Passarinho e
E o meu voto. Francisco Rezek — Subprocurador-
Geral da República, Dr. Mauro Leite
EXTRATO DA ATA Soares.
Brasília, 6 de dezembro de 1983 —
RE 93.896-RJ — Rel.: Min. Aldir Hélio Francisco Marques, Secretá-
Passarinho. Recte.: Sônia Rocha Tei- rio.

RECURSO EXTRAORDINÁRIO N? 94.073 — RS


(Primeira Turma)
Relator: O Sr. Ministro Rafael Mayer.
Recorrente: União Federal — Recorridos: Ernesto José Annoni e outros.
Ação de desapropriação. Interesse social. Reforma agrária. Ação
direta. Nulidade do decreto expropriatório. Decreto-lei 554.
— Os expropriados têm o poder jurídico de exercitar ação direta
visando à nulidade do decreto expropriatório, sem que a sua viabiliza-
ção no despacho saneador, importe em negar vigência ao art. 14 do
Decreto-lei n? 554, que antes a prevê com efeitos limitados. Recurso
Extraordinário não conhecido.
ACÓRDÃO social e para fins de reforma agrá-
ria, que lhes move o INCRA, tendo
Vistos, relatados e discutidos estes por objeto a Fazenda Sarandi, mo-
autos, acordam os Ministros da Pri- vem ação ordinária contra a União e
meira Turma do Supremo Tribunal a citada autarquia, visando á decla-
Federal, em conformidade com a ração de nulidade do decreto expro-
ata de julgamentos e notas taquigrá- priatório, por atingir empresa rural,
ficas, à unanimidade, em não conhe- com o conseqüente anulamento do
cer do recurso. registro imobiliário feito em nome
Brasília, 22 de novembro de 1983 — do INCRA, plena reintegração em
Soares Mufioz, Presidente — Rafael seus direitos sobre o imóvel e o
Mayer, Relator. ressarcimento de perdas e danos e lu-
cros cessantes que se apurarem na
RELATÓRIO liquidação de sentença.
O Sr. Ministro Rafael Mayer: Réus Em sua contestação, o Poder Pú-
na ação expropriatória, por interesse blico requereu, como preliminar, a

R.T.J. — 108 621

extinção do processo, sem julgamen- gou, ademais, provimento ao agra-


to do mérito, conforme o previsto no vo de instrumento aludido, porque
art. 267, VI, do Código de Processo não cabia nos autos da ação de de-
Civil, por impossibilidade jurídica do sapropriação decidir essa relevan-
pedido. te questão, devendo compreender-
A preliminar foi rejeitada ao ense- se a ação direta, ut art. 20, da Lei
jo do despacho saneador, afirmando das Desapropriações, como proce-
o douto Juiz que a matéria pertinen- dimento diverso e autônomo, em
te a constituir, ou não, o imóvel ex- relação ao próprio processo em
propriado uma empresa rural, insus- que promovida a desapropriação.
cetível de expropriação para fins de A decisão de primeiro grau,
reforma agrária e a conseqüente nu- que reconheceu a legitimidade dos
lidade do ato, seria examinada na autores a moverem a ação direta,
mesma ação, a correr paralelamen- deve, pois, ser mantida, para
te à ação expropriatória. prosseguir-se no feito até final,
Dai o agravo de instrumento inter- produzindo-se as provas requeri-
posto pela União. daa pelas partes.
A Egrégia Terceira Turma do Tri- «Não constitui obstáculo, no ca-
bunal Federal de Recursos impro- so, a propositura da ação direta, o
veu o agravo, assim ementado o disposto no art. 14 do Decreto-lei
acórdão respectivo: n? 554/1969.
« — Desapropriação. Não se configura, pois, hipóte-
se de extinção do processo, ut art.
Fazenda Sarandi-RS 267, do CPC.
Ação direta movida pelos ex- — Agravo desprovido».
propriados contra o INCRA e Após discorrer sobre os preceden-
União Federal, para ver reconheci- tes do litígio, naquela Corte, o voto
da a condição do imóvel de «em- condutor do eminente Relator, Mi-
presa rural» e não de «latifúndio
por exploração», à data do ato ex- nistro Néri da Silveira, deduz a sua
propriatório, estando, assim, imu- razão de decidir, In verbis:
ne à desapropriação por interesse «Do que se verificou, rememo-
social aos fins da Reforma Agrá- rando os julgamentos anteriores,
ria, nos termos do art. 19, 3?, parece inequívoco que o Tribunal
alínea b, da Lei n? 4.504/64, e do adotou o entendimento segundo o
art. 2? do Decreto-lei n? 554/1969. qual aos expropriados assegurado
Matéria já deduzida, perante estava deduzirem, perante o Poder
o TFR, no Mandado de Segurança Judiciário, as argüições de ilegali-
n? 70.897, a 14-9-1972, e no Agravo dade da desapropriação contra
de Instrumento n? 38.070, a 17-3- eles movida. No mandado de segu-
1975. rança, por maioria de votos, ape-
nas, entendeu o Tribunal não ser a
Não são os expropriados carece- via escolhida adequada para o de-
dores da ação direta. O Tribunal sate da controvérsia, que se instau-
nas decisões anteriores referidas rara nos autos respectivos, de um
ressalvou-lhes discutir a legalidade lado, afirmando os impetrantes
da expropriação em ação direta. que o imóvel era insuscetível de
Indeferiu-lhes o mandado de segu- desapropriação por interesse social
rança, por não considerá-lo via para fins de reforma agrária, eis
adequada ao desate da controvér- que empresa rural, e, de outro, o
sia, em face da complexa matéria INCRA, defendendo entendimento
de fato deduzida pelas partes. Ne- segundo o qual a Fazenda Sarandi
622 R.T.J. — 108

é latifúndio por exploração, não en- priação, com vistas à declaração


quadrável, assim, na proibição de de nulidade do Decreto n? 70.232,
desapropriar. Conforme referi, o de 13-3-1972, e do processo expro-
ilustre Ministro Jarbas Nobre e ou- prlatório, à base do reconhecimen-
tros eminentes membros do Tribu- to do imóvel dos autores como em-
nal, desde logo, deferiam o manda- presa rural. Tão-só essa considera-
do de segurança por reconhecer ção e essa parte do objeto do pedi-
comprovada a condição de empre- do vestibular, na ação direta, sufi-
sa rural. cientes se fazem, para que não
No julgamento do Agravo de Ins- possa prosperar o apelo da União
trumento n? 38.070, a 17-3-1975, Federal, no sentido da decretação
mais uma vez, este Tribunal, atra- de extinção do processo ora inten-
vés desta colenda Turma, afirmou tado pelos expropriados, em ordem
a viabilidade de os ora agravados, a verem imune de expropriação a
como expropriados, poderem ter Fazenda Sarandi.
conhecidas pelo Poder Judiciário No que concerne aos outros as-
as alegações de nulidade do decre- pectos do pedido dos autores, quais
to declaratório de interesse social sejam, a anulação do registro imo-
para fins de expropriação, «bem biliário feito em nome do INCRA
assim de inviabilidade de processo bem como de quaisquer outros que
desapropriatório, à vista do dispos- se lhe «tenham seguido, ou vierem
to no art. 2? do Decreto-lei n? a seguir, a reintegração dos auto-
554/69 e do art. 19, § 3?, alínea b, res na plenitude do seu direito so-
da Lei n? 4.504/64. Apenas o que a bre o imóvel, ressarcidos das per-
Turma, no último julgamento, en- das e danos e lucros cessantes que
tendeu foi não serem os próprios se apurarem em liquidação de sen-
autos da ação expropriatória o lu- tença, e ainda as demais comina-
gar apropriado para o debate da ções pedidas na vestibular da men-
referida argüição dos desapropria- cionada ação direta, constituem,
dos por sua natureza, aspectos meritó-
Como sinalei no voto que proferi, rios da demanda, que o Dr. Juiz
no Agravo de Instrumento n? Federal há de examinar, no mo-
38.070, entendo que ação direta, no mento próprio do deslinde da con-
caso concreto, se deve entender ou- trovérsia. Se o Dr. Juiz der pela
tra ação que não a demanda expro- procedência da ação, por reconhe-
priatória, não cabendo, no bojo cer a nulidade da expropriação, di-
desta, a formulação da defesa ba- rá S. Exa. dos diferentes aspectos
seada nas razões de nulidade da do pedido formulado pelos expro-
expropriação, como vem sendo priados. O que não parece possível,
sustentado pelos recorridos, desde em síntese, é interditar aos expro-
o Mandado de Segurança n? 70.897. priados a via da ação direta que o
Parece, dessa sorte, que, haven- Tribunal, por duas vezes, apontou
do os desapropriados seguido o ca- como o meio hábil, em ordem de
minho que o próprio Tribunal Fe- poderem ver discutida a defesa
deral de Recursos lhes indicou, no fundamental que oferecem contra
julgamento do dito Mandado de Se- a expropriação do imóvel de sua
gurança n? 70.897 e no Agravo de propriedade.
Instrumento n? 38.070, não podem Cumpre destacar que, se a Lei n?
ser considerados carecedores da 4.504/1964 no art. 19, § 3?, letra b, e
ação direta intentada contra a o Decreto-lei n? 554/1969, no art.
União Federal, ora recorrente, e o 2?, consideram a empresa pública
INCRA, autor da ação de desapro- imune à desapropriação por inte-

R.T.J. — 108 623

resse social para fins de reforma que tolhe a União Federal e ao seu
Agrária, não é possível, de logo, co- órgão executor a desapropriação
mo prefaciai da expropriante, in- do imóvel que a Constituição e a
vocar argumentos com base no lei lhe asseguram.
art. 14 do Decreto-lei n? 554. A Negativa de vigência do arti-
questão da viabilidade da expro- go 267, § 3?, do Código de Processo
priação é um prius, relativamente Civil, por exclusão do efeito pro-
a tudo o que já se realizou o dito cessual da coisa julgada material e
processo expropriatório, para que outras preliminares na espécie
este prospere ou não. Obstáculo, é (itens I, IV, V e VI do próprio arti-
certo, não se apresenta ao Poder go 267) .
Judiciário para verificar se o imó-
vel está excluído, ou não, da expro- A relevância das questões fe-
priação cogitada. Isso, aliás, vêm derais suscitadas, em capítulo es-
pedindo os agravados, como pro- pecífico».
prietários, contra o ato expropria- Processado o recurso extraordiná-
tório desde a primeira impetração rio, nesta instância o eminente
formulada ao Tribunal no Manda- Subprocurador-Geral, Mauro Leite
do de Segurança n? 70.897-RS. Soares, opina pelo conhecimento e
Do exposto, meu voto é negando provimento para ser declarada a ca-
provimento ao agravo, para que a rência da ação nesses termos:
ação ordinária, ação direta, movi- «Inicialmente é de se salientar
da pelos expropriados, possa ter que o caso versado nos autos, desa-
curso até final, na forma de direi- propriação por interesse social de
to». imóvel rural para fins de reforma
Pela letra a, vem interposto pela agrária, possui seus princípios fun-
União recurso extraordinário assim damentais no capítulo constitucio-
sintetizando as suas argüições: nal da ordem econômica e social,
«a) Negativa de vigência do arti- art. 161, §§, bem como é especial-
go 14 do Decreto-lei n? 554/69 (Im- mente disciplinada pelo Decreto-
possibilidade jurídica de ação e de lei 554/69, não tendo, portanto, na-
cumulação dos pedidos veiculados da em comum com os outros tipos
na inicial) e do seu artigo 9?. de desapropriações por utilidade
ou interesse social, como, por
Negativa de vigência do art. exemplo, o Decreto-lei n? 3.365/41,
46, § 5?, da Lei n? 4.504/64; art. 52 o qual é expressamente referido
do Decreto n? 55.891/65; art. 37 do pelo Decreto-lei n? 554/69 em seu
Decreto n? 72.106/73 (o reconheci- artigo 12 apenas para os fins de
mento do imóvel como empresa ru- aplicação do seu art. 9?, isto é, pa-
ral é da competência exclusiva do ra declarar que ao Poder Judiciá-
INCRA, vedado o exame de mérito rio é vedado decidir se se configu-
do ato Administrativo); do art. 6? e ram ou não os pressupostos do in-
seu § único da Constituição Fede- teresse social para o ato desapro-
ral do artigo 12 do Decreto-lei n? priatório, não se lhe aplicando, por
554/69, combinado com o art. 9? do conseguinte e peremptoriamente, o
Decreto-lei n? 3.365/41 e art. 5? da art. 20 do Decreto-lei n? 3.365/41,
Lei n? 4.132/62. Lei das Desapropriações.
Negativa de vigência do arti- A diferença em questão, além de
go 161 e seu parágrafo da Consti- fundamental, é perfeitamente ex-
tuição Federal e da própria Lei plicável pelas próprias origens e fi-
de Desapropriação (Decreto-lei n? nalidades dos atos desapropriató-
554/69, artigos 1? a 14), uma vez rios respectivos, mesmo porque a
624 R.T.J. — 108

desapropriação em geral se enqua- desapropriatório, somente o pode-


dra no capitulo constitucional dos ria ser nesta ação ordinária, em
direitos e garantias individuais, en- todos os seus aspectos, inclusive, é
quanto que a desapropriação da lógico, o da carência da ação.
propriedade rural para fins de re- Resolveu-se, então, o menos, o
forma agrária está inscrita no mínimo, mesmo porque à ora re-
capítulo constitucional da ordem corrente União Federal faleceria
econômica e social, traduzindo-se, interesse legítimo para a discussão
ainda, em matéria de segurança da questão em tese, já que vence-
nacional em face das repercussões dora no principal. Somente na ação
sociais produzidas. Aliás, tamanha ordinária ou direta, realmente pro-
a importância do tema, quanto a posta, poderia a ora recorrente dis-
sua prioridade, que ensejou a edi- cutir todos os seus pressupostos,
ção do Ato Institucional n? 9/69. como de direito. Parece-nos que tal
Por isso a sua disciplinação é espe- ponto, acaso suscitado, não merece
cial e especialmente é de ser trata- maiores comentários, pois a re-
da, no campo da política do Gover- messa às vias ordinárias, em casos
no e em atenção à independência tais é para discussão de todo e não
dos Poderes, em consonância com de parte da causa, conforme, em
o parág. 2? do art. 161 da Constitui- caso idêntico, decidiu o Egrégio
ção, que reza: Tribunal Pleno no MS n? 20.302,
«A desapropriação de que trata Relator: Ministro Djaci Falcão,
este artigo é da competência ex- ressalvando ao impetrante o uso
clusiva da União e limitar-se-á às das vias ordinárias.
áreas incluídas nas zonas priori- Alegam os recorridos que a pro-
tárias, fixadas em decreto do Po- priedade desapropriada é empresa
der Executivo, só recaindo sobre rural e, não, imóvel rural, daí a
propriedades rurais cuja forma nulidade do ato do Senhor Presi-
de exploração contrarie o acima dente da República.
disposto, conforme for estabeleci- Assim, liga-se a matéria direta-
do em lei». mente ao art. 14 e seu único do
«O Ato desapropriatório impug- Decreto-lei n? 554/69, que decla-
nado, cópia anexada, declara que o ram:
INCRA fica incumbido da sua exe- «Art. 14. Os bens expropria-
cução, nos termos do Decreto-lei dos, uma vez transcritos em no-
n? 554/69. me do expropriante, não poderão
certo que o acórdão recorrido ser objeto de reivindicação, ain-
declarou que o Egrégio Tribunal a da que fundada na nulidade da
quo, em decisões anteriores, res- desapropriação.
salvara aos ora recorridos a ação Parágrafo único. Qualquer
direta, ut art. 20 da Lei das Desa- ação, julgada procedente,
propriações, para discussão da le- resolver-se-á em perdas e da-
galidade da expropriação. Ora, nos».
tais decisões anteriores, para fins Os recorridos, na ação ordinária
de argumentação, não fizeram e fls. 25, pediram justamente isso,
nem produziram coisa julgada a fls. 49:
respeito da causa versada nestes
autos ã simples consideração de «Pedem e esperam seja esta
que a matéria é complexa no seu ação julgada procedente,
todo e, se não poderia ser exami- declarando-se a nulidade do De-
nada em mandado de segurança e creto n? 70.232, de 3 de março de
nem no próprio bojo do processo 1972, e do processo expropriató-
— 108 625

rio, face ao reconhecimento do agrária, encontra-se ainda em fase


imóvel dos AA. como empresa de discussão quanto ao mérito em
rural, anulando-se conseqüente- si mesma. Certamente, o legisla-
mente, o registro imobiliário em dor foi sábio na previsão do art. 14
nome do INCRA bem como e seu parágrafo único do Decreto-
quaisquer outros, que lhe tenham lei n? 554/69 e os autos não deixam
seguido ou vierem a seguir, e se margem a qualquer dúvida quanto
reintegrando os AA. na plenitude a que o imóvel desapropriado esta-
de seus direitos sobre o mesmo va inscrito, anteriormente ao ato
imóvel, ressarcidos das perdas e presidencial, no órgão competente,
danos e lucros cessantes, que se INCRA, como latifúndio por explo-
apurarem em liquidação de sen- ração e, não, como pretendem os
tença, e condenados, ainda, os recorridos, como empresa rural,
RR. ao pagamento de custas e classificação esta perseguida após
honorários advocaticios, na base a edição do ato de desapropriação.
de 20% sobre o valor da causa». Nestes termos, e em consonância
Inequívoca, assim, a carência da com o nosso pronunciamento no re-
ação, nos termos propostos na peti- ferido RE n? 93.826, somos pelo co-
ção inicial, dirigida exclusivamen- nhecimento e provimento do recur-
te á nulidade da desapropriação. so extraordinário a fim de declara-
Os recorridos, querendo e se for o da ser a carência da ação ordiná-
caso, deverão propor ação de per- ria».
das e danos, como declaramos no É o relatório.
RE n? 93.826 e ao qual nos permiti-
mos reportar para integrá-lo no
presente pronunciamento. VOTO
De vício ou defeito de inconstitu-
cionalidade não sofrem o art. 14 e § O Sr. Ministro Rafael Mayer (Re-
único do Decreto-lei n? 554/69, por- lator): Á controvérsia se resume na
que atentos ao regulamentado art. viabilidade da ação direta proposta
161 e §* da Constituição, ao lado pelos expropriados em busca da in-
das correspondentes verbas de in- validação do decreto expropriatório,
denização, perdas e danos fixadas e seus consectários, o qual, sob a de-
na própria Carta Magna e na legis- claração de interesse social para
lação ordinária Tal questão, po- fins de reforma agrária, atingiu o
rém, não foi colocada nos autos, imóvel rural de que os Recorridos
cingindo-se à simples aplicação da são proprietarios.
lei. Todas as impugnações da Recor-
«Finalmente, embora nos pareça rente se centram no ataque à possi-
desnecessário sob o ponto de vista bilidade jurídica da ação proposta,
estritamente legal, não é demais em face da expropriação em curso,
salientar que a ação de desapro- sob os diversos ângulos propostos pe-
priação em exame, para fins so- la Recorrente.
ciais de reforma agrária, iniciada Como se vê, a decisão recorrida
há mais de dez anos, com inevitá- tem natureza de despacho saneador,
veis conseqüências de ordem práti- proferido na mesma ação, deixando-
ca e jurídica em relação aos ocu- se claro, no essencial do venerável
pantes da gleba desapropriada, aos acórdão, que a ação direta para a
quais ela foi dirigida precisamente declaração de nulidade do decreto e
em face da conturbação sócio- de inviabilidade do processo expro-
econômica, que se constitui em priatório fora assegurada aos Recor-
principio fundamental da reforma ridos pelos anteriores julgados do
626 R.T.J. — 108

Tribunal Federal de Recursos, que a nando à sua própria autoridade a do


ela remeteu para a discussão da ma- processualista Galeno Lacerda, a di-
téria incabível na ação de expro- zer que «se o juiz conserva a jurisdi-
priação, não podendo, pois, serem ção, para ele não preclui a faculdade
considerados, quando a intentam, de reexaminar a questão julgada,
carecedores de ação. De acréscimo, desde que ela escape à disposição da
cuida o acórdão que os demais as- parte, por emanar de norma proces-
pectos do pedido, quais a anulação sual imperativa» (loc. cit.). Se não
do registro imobiliário e reintegra- preclui, segundo esse entendimento,
ção dos autores no domínio do imó- a decisão que deixa de declarar ex-
vel, estão deferidos ao final julga- tinto o processo, nos casos dos n?s
mento do mérito da causa. IV, V, e VI, do art. 267, é de ver o
Por aí se vê a falência do argu- desacerto da invocação, pela Recor-
mento da Recorrente ao pretender, rente, do seu § 3?, que antes o benefi-
sob color de impossibilidade jurídica cia que o constrange.
do pedido, tenham sido violados os Feito esse equacionamento da ma-
artigos 14 e 9? do Decreto-lei n? téria realmente controvertida, nos
554/69, como invocados no primeiro autos, ficam prejudicadas as demais
bloco de suas impugnações. argüições da Recorrente, resultantes
Na verdade, o art. 9? se reporta de uma falta de distinção entre a
aos limites da contestação na ação ação no sentido processual e no sen-
expropriatória, que obviamente não tido material, e de inadequada a-
está sob exame, e o art. 14 dispõe preensão da natureza e alcance da
que os bens expropriados, uma vez decisão que está em causa. Por isso
transcritos em nome do exproprian- é que os incisos legais outros não fo-
te, não poderão ser objeto de reivin- ram, nem poderiam ser prequestio-
dicação, matéria que, decidida e ex- nados, porque têm sua sede, quando
plicitamente, não foi colocada pelo tenham, no próprio mérito da deci-
acórdão recorrido, senão para são final. Assim, também não foram
transferi-la ao julgamento final. Lo- ventilados no acórdão recorrido, por-
go não há dizer que, no tocante à que não se referem à ação direta
questão suscitada pelo art. 14, tenha que está em curso, dispositivos tais
o acórdão estabelecido a possibilida- como o art. 9? do Decreto-lei n?
de jurídica, ou não, do pedido, estan- 3.365/41, o art. 5? da Lei n? 4.132/62,
do, portanto, desenfocada a mácula e o art. 12 do Decreto-lei n? 554/69,
que lhe é atribuída de lhe ter negado que são pertinentes às regras do pro-
vigência. cedimento expropriatório. Nem o
Independente disso, se o reconheci- art. 46, § 5?, do Estatuto da Terra e
mento da impossibilidade jurídica do seus dispositivos de regulamentação,
pedido importa na extinção do pro- quando disciplinam as normas admi-
cesso sem julgamento do mérito, nistrativas do cadastramento das
corre entendimento autorizado de propriedades rurais.
que admitir a sua possibilidade, no Não foi prequestionado o art. 161 e
despacho saneador, não implica pre- parágrafos da Constituição e o art
clusão, como registram as preciosas 1? do Decreto-lei n? 554, mas é de
anotações de Theotonio Negrão, no ver que a invocação deles para dar
tocante ao art. 267, § 3?, do CPC, in- suporte à alegação de que o acórdão
vocando, nessa orientação, dois jul- recorrido envolve a negativa do po-
gados desta Turma, publicados na der expropriatório da União ou do
RTJ 94/445, e RTJ 99/778, este refe- INCRA, em casos de interesse social
rente a acórdão relatado pelo emi- e para fins de reforma agrária, não
nente Ministro Soares Muiloz, adu- tem razão de ser. Ao Judiciário não

R.T.J. — 108 627

se pode subtrair a apreciação do que EXTRATO DA ATA


se postule como lesão do direito, e o
próprio Decreto-lei n? 554, em seu RE 94.073-RS — Rel.: Min. Rafael
art. 14, prevê a ação impugnativa do Mayer. Recte.: União Federal Rec-
ato expropriatório, com os efeitos dos.: Ernesto Annoni e outro. ( Adv.:
que estabelece. Justino Vasconcelos).
Decisão: Não se conheceu do re-
Aliás, o venerável acórdão recorri- curso extraordinário. Decisão unâni-
do, em seu final, considera prematu- me. Impedido o Ministro Néri da Sil-
ra a invocação do art. 14 do Decreto- veira. Falou pelos Recdos.: Dr, Jus-
Lei n? 554, pois o art. 19, § 3?, do Es- tino Vasconcelos.
tatuto da Terra, e o art. 2? da mes- Presidência do Senhor Ministro
ma lei de desapropriação, conside- Soares Muiloz. Presentes à sessão os
ram a empresa rural imune à desa- Senhores Ministros, Rafael Mayer,
propriação, aspecto que não se pode Néri da Silveira, e Oscar Corrêa. Au-
afastar, em principio, da apreciação sente, licenciado, o Senhor Ministro
do Judiciário, dizendo, porém, com o Alfredo Buzaid. Subprocurador-Ge-
mérito da pretensão deduzida em ral da República, Dr. Mauro Leite
juizo. Soares.
Brasília, 22 de novembro de 1983 —
Pelo exposto, não conheço do re- António Carlos de Azevedo Braga,
curso. Secretário.

RECURSO EXTRAORDINÁRIO N? 94.390 — MG


(Segunda Turma)
Relator: O Sr. Ministro Djaci Falcão.
Recorrente: José de Paula Leite — Recorrido: Instituto Nacional de Pre-
vidência Social — INPS, pelo Instituto de Administração Financeira da Pre-
vidência e Assistência Social — IAPAS.
Revisão de proventos de aposentadoria de ex-combatente. Direito
a aposentadoria com proventos integrais (Lel n? 4.297/63). Inexistên-
cia de direito adquirido ao critério estabelecido para o cálculo, nos fu-
turos reajustamentos (Lei n? 5.698/71).
Não havendo ofensa à Constituição (art. 153, 11 3?), nem divergên-
cia com a Súmula 359, incidem os óbices do art. 308, incs. IV, letra c e
VIII, do Regimento Interno.
Recurso extraordinário não conhecido.
ACÓRDÃO RELATÓRIO.
Vistos, relatados e discutidos estes O Sr. Ministro Djaci Falcão: O
autos, acordam os Ministros compo- acórdão objeto do presente recurso
nentes da Segunda Turma do Supre- extraordinário acha-se lançado nos
mo Tribunal Federal, à unanimidade seguintes termos:
de votos e na conformidade da ata
do julgamento e das notas taquigrá- «Ementa: Reajustamento de pro-
ficas, em não conhecer do recurso. ventos de aposentadoria previden-
Brasília, 13 de setembro de 1983 — ciária de ex-combatente. Não inci-
Djaci Falcão, Presidente e Relator. de sobre a parcela excedente de
628 R.T.J. — 108

dez vezes o maior salário mínimo de proventos de aposentadoria,


mensal vigente no país. Constitu- ele segurado e contribuinte da
cionalidade da regra do artigo 6? previdência social, na condição
da Lei n? 5.698, de 31 de agosto de de bancário, sendo, igualmente,
1971 (Tribunal Federal de Recur- ex-combatente nos termos da lei.
sos, Agravo em Mandado de Segu-
rança n? 74.017, in Diário da Justi- Expõe que, em 1-9-70, com
ça de 11 de novembro de 1974, pá- mais de trinta (30.) anos de servi-
gina 8413). Inexistência de direito ço e três (3) anos da carência le-
adquirido à aposentadoria especial gal da contribuição à base do sa-
prevista na Lei n? 4.297, de 23 de lário efetivamente percebido, fez
dezembro de 1963. Reforma da sen- jus à aposentadoria especial, de
tença, em decisão unânime, com que trata a Lei n? 4.297, de 23-12-
ressalva do entendimento pessoal 63, aposentadoria essa, entretan-
de um dos três julgadores. Impro- to, que só veio a ser efetivada em
cedência da ação. Honorários de 15-3-72, já na vigência da Lei n?
advogado, fixados em 10% do valor 5.698, de 31-8-71, que alterou, des-
da causa. favoravelmente, situações como
a sua, perante a previdência,
Acórdão pois pela lei anterior tinha direito
Vistos, relatados e discutidos es- à aposentadoria especial, por
tes autos em que são partes as aci- tempo de serviço, aos 25 anos de
ma indicadas: trabalho, cujos proventos seriam
Decide a Primeira Turma do reajustados, na base dos salários
Tribunal Federal de Recursos, à atuais e futuros de idêntico car-
unanimidade, dar provimento à go, classe, função ou categoria
apelação para reformar a decisão de atividade a que pertencia e,
recorrida, e condenar o autor nas na impossibilidade de tal atuali-
custas e honorários advocaticios zação, far-se-ia a mesma à base
em 10%, na forma do relatório e dos aumentos que seu salário in-
notas taquigráficas precedentes, tegral teria, se permanecesse em
que ficam fazendo parte integrante atividade, em conseqüência de
do presente julgado. dissídios coletivos ou acordo en-
tre empregados e empregadores
Custas, como de lei. posteriores à sua aposentadoria.
Brasília, 21 de junho de 1976 — Mostra que a Lei n? 5.698, cita-
Márcio Ribeiro, Presidente — da, trouxe restrições aos direitos
Oscar Corrêa Pina, Relator» ( fls.
74/75). já adquiridos por ele, autor, pois,
por essa lel só fariam jus à apo-
«Relatório sentadoria móvel, para o futuro,
O Sr. Ministro Oscar Corrêa exclusivamente os ex-comba-
Pina: 1. O Dr. Juiz Federal, Substi- tentes já aposentados à sua da-
tuto da P Vara, em sentença de 13 ta, de acordo com o regime da
de setembro de 1974, fls. 29/40, as- previdência social, a pensão mó-
sim decidiu, verbis: vel sendo aplicada aos dependen-
tes dessa classe de ex-combaten-
José de Paula Leite, brasileiro, tes.
casado, bancário, domiciliado
nesta Capital, por procurador re- Alega que, para os segurados
gularmente constituído (fls. 11), ex-combatentes que, na data des-
propõe contra o Instituto Nacio- sa lei, já houverem preenchido os
nal de Previdência Social a pre- requisitos da legislação por ela
sente ação ordinária de revisão revogada, sua aposentadona se-
R.T.J. — 108 629

rá à base dos salários efetiva- móvel os ex-combatentes já apo-


mente percebidos, mas a revisão sentados de acordo com a legisla-
desse benefício só incidirá sobre ção de previdência social.
o limite de 10 (dez) salários míni- Assinala estar apenas cumprin-
mos. do a lei, assinalando contestar a
Assinala que, se é licito ao Po- ação por negação geral e, protes-
der Legislativo legislar para o fu- tado por todo gênero de provas,
turo, tal não se lhe permite no pede seja a ação julgada impro-
que concerne aos casos pretéri- cedente, condenando o autor nas
tos, que virá ofender direitos ad- cominações de direito.
quiridos, o que enfrenta garantia autor falou sobre a contesta-
constitucional expressamente ou- ção (fls. 17/18), tendo sido ouvida
torgada ao cidadão. a União Federal (fls. 19v.) e sa-
Após eruditas considerações neado o processo, sem recurso
sobre a conceituação do direito das partes (tis. 20).
adquirido, e de invocar julgado A especificação de provas de-
do Colendo Supremo Tribunal Fe- terminadas naquele r. despacho,
deral que lhe dá amparo total à acentuando restrita a lide à ma-
tese, conclui por pedir a citação téria de direito, foi requisitado o
do réu para os termos da ação, a processo administrativo, de que
ser procedente para se determi- tiveram vista as partes sem pe-
nar revisão de sua aposentadoria dir traslado.
para a sua concessão segundo o Designada a audiência, rea-
preceito da Lei n? 4.297, em cau- lizou-se, presentes as partes, por
sa, com a garantia do reajusta- seus procuradores, e, não propos-
mento periódico, nos termos do ta de conciliação, aqui inaplicá-
art. 2?, e que pague o réu as par- vel, feito o debate, vieram os au-
celas dos reajustamentos não fei- tos conclusos.
tos, como se apurar em execu-
ção, além das custas e honorá- A douta Procuradoria da Repú-
rios advocaticios de 20% sobre o blica foi presente.
valor da condenação e mais co- relatório.
minações de direito. que pretende o autor, bancá-
Protesta por todo gênero de rio, ex-combatente, é ver manti-
provas, dando à ação o valor de do o critério do art. 2? da Lei n?
Cr$ 10.000,00 e oferece com a ini- 4.297, de 1963, na sua aposentado-
cial os documentos de fls. 9/10. ria, concedida com início a partir
de 15-9-72 (fls. 9), à qual pretende
Citado, ofereceu o réu contesta- ver assegurado o direito de rea-
ção (fls. 14/15), alegando que, justamento dos proventos á base
embora o autor pretenda ter tido, do salário integral, atual e futu-
em 1969, os requisitos exigidos ro, de idêntico cargo, classe, fun-
para a aposentadoria, na condi- ção ou categoria da atividade a
ção de ex-combatente, não fez que pertencia ou, na impossibili-
disso prova, além de confessar, dade dessa atualização, á base
expressamente, que somente em dos aumentos que o salário inte-
15 de março de 1972 veio a reque- gral teria se permanecesse em
rer a aposentadoria a que com atividade, em conseqüência de
direito, quando já vigente a Lei todos os dissidios coletivos, acor-
n? 5.698, de 1971, dispondo que só dos entre empregados e empre-
teriam direito à aposentadoria gadores posteriores à sua apo-
630 R.T.J. — 108

sentadoria ou, ainda, à base de Depois de mostrar em que lhe


aumentos salariais conseqüentes é desfavorável a Lei n? 5.698, ci-
a dissidios coletivos ou acordos tada, assinala que, havendo sa-
entre empregados e empregado- tisfeitos os requisitos á aposenta-
res, que poderiam beneficiar ao doria tem direito adquirido á
segurado se em atividade. mesma, como os demais ex-
A aposentadoria de que em go- combatentes, não havendo lei
zo o autor, é a de que trata o art. posterior que possa atingir esse
1? daquela mesma lei, concedida direito, nos termos do art. 153, §
aos ex-combatentes, segurados e 3?, da Constituição Federal.
de qualquer Instituto ou Caixa de Provou o autor o cumprimento
Aposentadoria e Pensôes, sem li- dos requisitos legais para obten-
mite de idade, aos 25 anos de ser- ção da aposentadoria estatuída
viço, em forma de renda mensal na Lei n? 4.297, de 1963 não só
vitalícia, igual a média do salá- quanto à sua condição de ex-
rio integral realmente percebido, combatente, nas condições por
durante os 12 meses anteriores á ela exigidas (fls. 10). Documento
respectiva concessão, desde que, esse que vem repetido às fls. 4,
na forma do § 1? desse mesmo 23 e 24 do Processo Administrati-
artigo, hajam os segurados, por vo n? 48.157.773.660/71, apensado,
ela beneficiados, requerido para inclusive no original, como pro-
contribuir até o limite do salário vou, ainda, que cumpriu a carên-
que perceberem ou vieram a per- cia exigida, de três anos de con-
ceber e só concedida após decor- tribuições sobre o salário inte-
ridos 36 meses de contribuições gral realmente percebido, adqui-
sobre o salário integral. rindo assim o direito de apo-
Em amparo da postulação ini- sentar-se com proventos igua-
cial, alega o autor que, «no dia is á média desses salários nos
27-8-1969, o suplicante possuía 30 12 meses anteriores à concessão
anos de serviço, fazendo jus à do benefício, como pode ver no
aposentadoria especial de que processo administrativo citado,
tratava os arts. 1? e 2? da Lei Fe- às fls. 6, havendo mesmo com-
deral n? 4.297, de 23 de dezembro pletado a carência exigida em
de 1963, no dia 1-9-1970, quando 1970.
completou o prazo de carência de Além do direito à aposentado-
3 anos de recolhimentos ao INPS ria nessas condições adquiriu
sobre a remuneração realmente ainda o autor, nos termos do art.
Percebida». da Lei n? 4.297, referida, o di-
Entretanto, o peticionário so- reito de ter seus proventos «rea-
mente veio a requerer a aposen- justados ao salário integral, na
tadoria no dia 15-3-1972, isto é, 18 base dos salários atuais e futuros
meses após haver preenchido os de idêntico cargo, classe, função
requisitos necessários à aposen- ou categoria da atividade a que
tadoria. pertencia ou, na impossibilidade
Entre a data do preenchimento dessa atualização, na base dos
dos requisitos necessários à apo- aumentos que seu salário inte-
sentadoria e a data do requeri- gral teria, se permanecesse em
mento, sobreveio a Lei Federal atividade, em conseqüência de
n? 5.698, de 31 de agosto de 1971, todos os dissídios coletivos ou
que alterou substancialmente e acordos entre empregados e em-
de forma desfavorável a situação: pregadores, posteriores a sua
do requerente». aposentadoria», reajuste esse

R.T.J. — 108 631

que também lhe garantiu a lei Pois ao autor foi concedido o


todas as vezes que ocorrerem au- benefício, tal como previsto na
mentos salariais conseqüentes a Lei n? 5.698, de 1971, porque, ape-
dissídios coletivos ou acordos en- sar de haver cumprido, desde
tre empregados e empregadores, 1970, 30 anos de serviço, tendo
que poderiam beneficiar ao segu- obtido o abono de permanência,
ro se em atividade». só em março de 1972 veio a re-
Tal aposentadoria e tais rea- querer a aposentadoria, segundo
justamentos foram outorgados a consta dos termos da contestação
um pequeno grupo de brasileiros do réu, às fls. 14/15, item 1 a 4,
segurados da previdência social, negando-lhe, assim, o réu os di-
à parte dos moldes gerais desta, reitos estatuídos na Lei n? 4.297,
em reconhecimento à sua contri- em causa.
buição pessoal, com risco da pró- Embora o documento de fls. 9
pria vida, aos Ideais democráti- não dê notícias da lei em que fun-
cos que informam a formação dado, esclarece-o a manifestação
politica do povo brasileiro, quan- do réu, na defesa oferecida, ense-
do desafiados pela loucura ger- jando oportunidade ao exame da
mânica que deflagrou a Segunda tese da inicial, que conclui:
Grande Guerra Mundial, o que «tendo em vista a denegação
era, afinal, um mínimo que lhes da aposentadoria móvel ao re-
poderia o Pais propiciar. querente ... constitui uma ofensa
Pois, a lei própria, que já bene- a direito líquido e certo, adquiri-
ficiou nos seus moldes a outros do pelo suplicante, acrescendo
combatentes dessa guerra, em também que o ato da autoridade
todos os seus termos, depois de competente ofende, clamorosa-
já haver o autor adquirido iguais mente, normas básicas e rígidas
direitos e — porque optasse por estatuídas nos parágrafos 1? e 3?
permanecer na atividade, perce- do art. 153 da Constituição, como
bendo abono de permanência em no art. 6? do Decreto-lei n? 4.657,
serviço — veio a ser revogado e de 4 de setembro de 1942 (Lei
profundamente alterados nela ou- de Introdução ao Código Civil),
torgados, limitados o benefício vem o «requerente propor esta
da aposentadoria e os reajusta- ação ordinária ao Instituto Na-
mentos ao teto de 10 salários cional de Previdência Social, su-
mínimos que é o regime geral da plicando a Vossa Excelência que
previdência social, dado ao be- faça a revisão de sua aposenta-
neficio o valor igual a 100% do doria para conceder segundo os
salário-de-benefício, só sobre es- preceitos da Lei n? 4.297, de 23 de
se teto fazendo incidir o reajusta- dezembro de 1963, isto é, garan-
mento que se venha a verificar. tindo o reajustamento periódico,
Ressalva aos segurados que já nos termos do seu art. 2?. Re-
houverem cumprido os requisitos quer, também, que o INPS seja
para essa aposentadoria na data condenado ao pagamento das
da vigência, a concessão do be- parcelas vencidas provenientes
nefício segundo a legislação en- dos reajustamentos não feitos,
tão vigente, observado, porém, conforme se apurar».
nos futuros reajustamentos, o O pedido do autor, tal como
disposto no art. 5?, ou seja, não posto, tem razão de ser, pois a
incidirão eles sobre a parcela ex- Lei n? 5.698, ora em exame, sub-
cedente de 10 vezes o maior salá- metendo os ex-combatentes ao
rio mínimo vigente no País. regime geral da previdência so-
632 R.T.J. — 108

ciai, só lhes concedendo a apo- os ex-combatentes já aposenta-


sentadoria aos 25 anos de servi- dos e os que venham a ser apo-
ço, com um salário-de-beneficio sentados ainda, o que será uma
igual a 100%, no auxílio-doença desigualdade no tempo, como se
ou em qualquer espécie de apo- os nossos heróis se desgastas-
sentadoria, aos ex-combatentes sem, mas sem interferência com
já aposentados, «de acordo com o o § 1? do art. 153 da Constituição
regime comum da legislação or- Federal.
gânica da previdência social» ou Mas, no seu art. 6?, a Lei n?
aos seus dependentes, a revisão 5.698, em causa, ressalva o direi-
dos benefícios respectivos, para to dos ex-combatentes que, na
ajustá-los ao teto de 100% do data de sua vigência, já tiverem
salário-de-beneficio, como do seu preenchido os requisitos da legis-
art. 1?, n? II, mas limitados os lação agora revogada, «para con-
seus reajustamentos só sobre o cessão da aposentadoria por tem-
valor de 10 vezes o maior salário po de serviço nas condições então
mínimo vigente no Pais, despre- vigentes, observado, porém, nos
zada a parcela excedente desse futuros reajustamentos, o dispos-
limite, sem qualquer dúvida to no art. 5?», ou seja, que tais
criou um direito novo, em rela- reajustamentos não incidirão so-
ção aos da Lei n? 4.297, de 1963, bre a parcela excedente de 10 ve-
que revogou. zes o maior salário mínimo men-
E que esta última lei citada, sal vigente no País, que é a quan-
agora revogada, criou para o ex- to se opõe aqui o autor, pois, com
combatente uma aposentadoria isso, ficou alterado critério da
móvel, integral sobre o rendi- aposentadoria móvel, da legisla-
mento efetivamente percebido, ção anterior, sob cujo império
reaj ustável, periodicamente, cumpriu os requisitos nela exigi-
sempre que os salários de idênti- dos, adquirindo, assim, direito á
ca função que haja exercido o ex- aposentação, tal como nela pre-
combatente aposentado venham vista.
a ser melhorados por qualquer E tem razão o autor, face o
das formas nela previstas, res- art. 153, § 3? da Constituição Fe-
peitado o valor integral dessa deral, que veda à lei prejudicar
melhoria como nela estatuído, «o direito adquirido, o ato jurídi-
dando a esses segurados um tra- co perfeito e a coisa julgada».
tamento previdenciário especial, Disposição idêntica vem con-
que lhes é devido pela Pátria fa- signada no art. 6? da Lei de In-
ce aos seus méritos de cidadãos trodução ao Código Civil, em que
soldados. se estabelece ter a lei em vigor
Jungindo os ex-combatentes ao efeito imediato e geral, não atin-
regime geral da Previdência So- gindo, entretanto, salvo disposi-
cial, com' as minguadas vanta- ção expressa em contrário, a si-
gens oferecidas, apouca-lhes a lei tuações jurídicas definitivamente
nova o valor moral e cívico já re- constituídas e a execução do ato
conhecido e, embora tecnicamen- jurídico perfeito.
te perfeita quanto aos que não. De ver-se, de logo, que a res-
hajam ainda, ex-combatentes, salva constante do texto da lei
cumprido os requisitos da legisla- não se contém no texto constitu-
ção anterior à sua data, não dei- cional que, taxativamente, veda
xa de significar uma impatrióti- possa a lei prejudicar o direito
ca diferença de tratamento entre adquirido.
R.T.J. — 108 633

Ora, o autor, para fazer jus á mas não pode, definitivamente,


aposentadoria móvel que, como restringir o direito já adquirido a
ex-combatente, lhe outorga a Lei essa aposentadoria móvel, antes
n? 4.297, de 1963, requereu o pri- de sua vigência, mediante contri-
vilégio e cumpriu a carência exi- buições previdenciárias inciden-
gida, como já acima demonstra- tes sobre o rendimento efetiva-
do e consta dos autos e dos pro- mente percebido pelo segurado,
cessos administrativos apensa- de qualquer modo, nem mesmo
dos. Para tanto recolheu suas quanto aos seus reajustamentos,
contribuições sobre o rendimento que quer não incidentes sobre o
mensal efetivamente percebido excesso do teto de 10 salários
durante três anos, vindo a fazer mínimos, pois, tal atinge o direi-
jus àquela aposentadoria móvel to adquirido do segurado, o que é
em setembro de 1970, mas só vin- vedado pela Constituição, como
do a aposentar-se em setembro representaria, ainda, em locuple-
de 1972, pois, feita a prova de ter mento ilícito da fazenda alheia.
condições para assim aposentar-
se, preferiu permanecer no em- Tem, assim, este Juízo por in-
prego, passando aperceber abo- constitucional a parte final do
no de permanência. art. 6? da Lei n? 4.698, de 1971,
Ora, se o direito por ele adqui- quando manda observar, no rea-
rido, antes da Lel n? 5.698, de justamento futuro da aposentado-
1971, exigiu-lhe contribuição es- ria concedida ao autor pela pre-
pecífica para aquela aposentado- vidência social, que não incide
ria móvel pela previdência so- ele sobre a parcela excedente de
cial, ou seja, alterável sempre 10 vezes o maior salário mínimo
que o salário da função que exer- vigente, desde que o direito por
cera fosse melhorado, sobre o ele adquirido, como contrapres-
seu valor integral, devendo tação a contribuições especiais, o
reajustar-se a aposentadoria, ou, foi a urna aposentadoria móvel,
nas outras hipóteses de melhoria nos termos da Lei n? 4.297, de
previstas na Lei n? 4.297, citada, 1963.
não há como, face ao texto cla- Assim, ante o exposto e pelo
ro da disposição constitucional, que dos autos consta, julga este
admitir-se a limitação que a no- Juízo procedente a ação para,
va lei quer impor às revisões de tendo por inconstitucional e as-
seu beneficio, submetendo-o ao sim inaplicável a restrição da lei
regime geral da previdência so- mencionada aos direitos do au-
cial que, evidentemente, não foi tor, condenar o réu a lhe reajus-
nesse regime que veio a adquirir tar o benefício da aposentadoria
seu direito, pelas contribuições de que em gozo, nos exatos ter-
também especiais que fez, duran- mos da Lei n? 4.297, de 1963, e a
te três anos. lhe pagar as parcelas vencidas,
A lei nova pode, como fez, no provenientes de reajustamentos
seu art. 7?, determinar que ao ex- não feitos ainda, com os juros le-
combatente que não haja, ainda, gais da mora e os honorários ad-
adquirido direito à aposentadoria vocaticios de 20% sobre o valor
móvel, à sua data, na previdên- liquidado, tudo como se apurar
cia social, seja devolvida a con- em execução.
tribuição incidente sobre o valor
excedente de 10 vezes o maior Registre-se, publique-se e
salário mínimo vigente no Pais, intime-se.
634 R.T.J. — 108

Decorrido o prazo de recurso, provimento do recurso voluntário


subam estes ao Egrégio Tribunal de fls. 42/43, para que a ação se-
Federal de Recursos. ja julgada improcedente.
O Instituto Nacional de Pre- 2 o relatório» (fls. 54/65).
vidência Social apelou da sentença, «Voto
oportunamente, fls. 42/43, postu-
lando a sua reforma, a fim de ser O Sr. Ministro Oscar Corrêa
julgada improcedente a ação, fa- Pina (Relator): A sentença julgou
zendo remissão às informações e procedente a ação nos termos do
aos documentos que instruem o pedido, tendo por inconstitucional o
processo. art. 6?, in fine, da Lei n? 5.698, de
Recebida a apelação, fls. 44, 31 de agosto de 1971, ao determinar
o autor ofereceu contra-razões, fls. que, no reajustamento futuro de
45/46, tendo subido os autos a este proventos de aposentadoria previ-
Egrégio Tribunal, em outubro de denciária de ex-combatente, não
1974. incide ele sobre a parcela 'exceden-
te de 10 vezes o maior salário míni-
04. A douta Subprocuradoria- mo vigente no pais, porquanto, co-
Geral da República manifestou-se mo contraprestação a contribui-
a fls. 51, em parecer do 5? ções especiais, tinha o autor direito
Subprocurador-Geral, Dr. Gildo adquirido a uma aposentadoria
Corrêa Ferraz, nos seguintes ter- móvel, nos termos da Lei n? 4.297,
mos: de 23 de dezembro de 1963.
`A sentença de 1? grau partiu de Acentuou, todavia, o parecer da
um pressuposto falso para che- douta Subprocuradoria-Geral da
g ar à conclusão a que chegou. República, fls. 51, que este Egrégio
Para concluir pela procedência Tribunal, em reunião plenária,
da ação teve antes que julgar in- realizada em 31 de outubro de 1974,
constitucional a Lei n? 5.698, de rejeitara a argüição de inconstitu-
31-8-71. No entanto, na assentada cionalidade da Lei n? 5.698/71, na
do julgamento realizada em 31- parte em que a sentença a decre-
10-74, o plenário desse Egrégio tou.
Tribunal afirmou a constituciona- Entendo, igualmente, que a men-
lidade do mencionado diploma le- cionada regra (Lei n? 5.698/71, art.
gislativo, ao julgar o AMS n? 6?, In fine), que dispôs sobre o rea-
74.017 (in DJ de 11-11-74, pág. justamento futuro dos proventos
8.413). de aposentadoria previdenciária
Ora, sendo compatível com o de ex-combatente, não é manifes-
sistema constitucional vigente, tamente Incompatível com o
não teve dúvida o INPS em apli- princípio constitucional do respeito
car a referida lei no cálculo do ao direito adquirido. A lei incidiu,
benefício a que faz jus o apelado, desde logo, aplicando-se, assim, a
por ser esta a lei de regência, situações como a em exame nestes
visto que a aposentadoria é regu- autos.
lada pela lei do tempo de sua Dou, pois, provimento ao recur-
concessão. so, para reconhecer a legalidade
Em face do exposto, a União dos proventos a cujo cálculo proce-
Federal, na qualidade de assis- deu o INPS, com observância do
tente da autarquia previdenciá- art. 6?, parte final, da Lei n?
ria, espera confiante o recebi- 5.698/71, julgando, assim, improce-
mento da remessa ex officio e o dente a ação, condenando o autor

R.T.J. —108 635

em honorários de advogado, que fi- mento do Agravo n? 81.306-3 (proces-


xo em 10% (dez por cento) do va- so em apenso), tramitando regular-
lor da causa. mente (fls. 113 e 115/116).
Voto VOTO
O Sr. Ministro Márcio Ribeiro O Sr. Ministro Djaci Falcão (Re-
(Revisor): Não é inconstitucional o lator): Conforme se viu do rela-
art. 6? da Lei n? 5.698/71 — que su- tório, trata-se de ação ordinária tno-
jeita as aposentadorias, concedidas vida por ex-combatente contra o
de acordo com a legislação ante- INPS, objetivando a revisão de pro-
rior, em seus futuros reajustamen- ventos de aposentadoria segundo a
tos ao teto do art. 52. Assim con- Lei n? 4.297/63, que assegura no seu
cluiu este Tribunal em decisão ple- art. 2? reajustamento periódico, sem
nária. que incidam as limitações previstas
Dou, pois, provimento para re- na Lei n? 5.698/71, em respeito ao
formar a decisão recorrida. Conde- principio do direito adquirido.
no o autor apelado nas custas e ho- Apesar de se cuidar de matéria
norários de advogado de 10%. atinente à previdência social e não
obstante o valor dado à causa (Cr$
Voto 10.000,00), que constituem óbices ao
O Sr. Ministro Jorge Lafayette recurso (art. 308, incs. IV, letra c e
Guimarães: Sr. Presidente, meu VIII, do Regimento Interno), debate-
entendimento seria pela inconstitu- se no caso a tese da existência ou
não de direito adquirido (art. 153, §
cionalidade, do dispositivo legal 3?, da CF). Por isso, dei provimento
impugnado, mas o Tribunal Pleno
já a rejeitou. ao Agravo n? 83.306, para melhor
exame do apelo derradeiro.
Em conseqüência, a não ser que
a Turma resolva_ insistir na maté- O autor da ação, ora recorrente,
ria, formulando nova Argüição de contava a 1-9-70 vinte e cinco anos de
Inconstitucionalidade, já repelida serviço e satisfazia a exigência legal
pelo Pleno a anterior, não vejo co- de três anos de contribuição para o
mo deixar de aplicar o art. 6? da INPS, pelo que fazia jus à aposenta-
Lei n? 5.698, de 1971. doria especial prevista na Lei n?
Acompanho, pois, o voto do emi- 4.297, de 23-12-63 (art. 1?), apesar de
concedida a partir de 15-9-72 (fls. 9),
nente Relator, e o por V. Exa. pro- já na vigência da Lei n? 5.698, de 31-
ferido, apenas com esta ressalva 8-71, que veio a limitar os futuros
do meu entendimento pessoal» (fls. reajustamentos (arts. 5? e 6?).
68/71).
Irresignado, o vencido interpôs re- O art. 2? da referida Lei n? 4.297/63
curso extraordinário com base nas estabelecia:
letras a e d, do inc. III, do art. 119, «Art. 2? — O ex-combatente, a-
da Constituição, sob alegação de posentado de Instituto de Aposenta-
afronta ao art. 153, § 3?, do mencio- doria e Pensões ou Caixa de Apo-
nado diploma, a dissídio interpreta- sentadoria e Pensões, terá seus
tivo com a decisão tomada no FRE' proventos reajustados ao salário
n? 72.509 (fls. 78/85). integral, na base dos salários
Após a impugnação de fls. 101/104, atuais e futuros, de idêntico cargo,
o recurso foi indeferido pelo despa- classe, função ou categoria da ati-
cho de fls. 106/107. Contudo, veio a vidade a que pertencia ou, na im-
ser processado por força do Provi- possibilidade dessa atualização, na
636 R.T.J. — 108

base dos aumentos que seu salário No caso, a Lei n? 5.698/71, vigente
integral teria se permanecesse em ao tempo da aposentadoria do recor-
atividade, em conseqüência de to- rente, dispõe:
dos os dissídios coletivos ou acor- «Art. 6? Fica ressalvado o di-
dos entre empregados e emprega- reito ao ex-combatente que, na da-
dores posteriores à st a aposenta- ta em que entrar em vigor esta
doria. Tal reajuste também se da- Lei, já tiver preenchido os requisi-
rá todas as vezes que ocorrerem tos na legislação ora revogada, pa-
aumentos salariais, conseqüentes a ra a concessão da aposentadoria
dissídios coletivos ou a acordos en- por tempo de serviço nas condições
tre empregados e empregadores, então vigentes, observado, porém,
que poderiam beneficiar ao segu- nos futuros reajustamentos, o dis-
rado em atividade». posto no artigo 5?».
Sem dúvida havia uma situação «Art. 5? Os futuros reajusta-
consolidada para a obtenção da apo- mentos do benefício do segurado
sentadoria, nos termos do art. 1? da ex-combatente não incidirão sobre
Lei n? 4.297/63. Havia direito adqui- a parcela excedente de 10 (dez) ve-
rido à concessão da aposentadoria, zes o valor do maior salário míni-
com proventos integrais, uma vez mo mensal vigente no País».
que o recorrente preenchia os requi- Aliás, o citado art. 6? foi conside-
sitos da legislação anterior, embora rado constitucional, em decisão do
requerendo-a na vigência da lei nova Egrégio Tribunal Federal de Recur-
(Lei n? 5.698/71). Esclareço que isso sos, conforme lembra o acórdão re-
foi observado, bem assim os proven- corrido. Trata-se
tos não sofreram redução em virtude cujo acórdão foidomantido AMS n° 74 017,
por esta
da aplicação da lei nova. Corte ao julgar o RE n? 84.088, rela-
No entanto, impõe-se ponderar que tor o eminente Ministro Saores Mu-
não há direito ao critério estabeleci- foz (RTJ 95/1153).
do para o cálculo, nos futuros reajus- Naquele caso, ex-integrante da
tamentos estabelecidos por lei. A FEB, que preenchia os requisitos do
nossa jurisprudência é no sentido de art. 197, letra c, da Constituição, se-
que não há direito adquirido ao regi- gurado da previdência social, impe-
me jurídico observado para o cálculo trou mandado de segurança contra o
dos proventos, no momento da apo- INPS para que a sua aposentadoria
sentadoria (RE n? 88.305, Rel.: o Sr. fosse calculada sem o limite de 10
Min. Moreira Alves, RTJ 88/651). vezes o maior salário mínimo vigen-
Assim sendo, desde que mantido o te no país, fixado na mencionada Lei
montante dos proventos, sem pre- n? 5.698/71, e sim com base no salá-
juízo efetivo para o aposentado, a lei rio integral. O impetrante não teve
nova pode modificar o sistema de êxito. Corte
Afirmando o acórdão desta
que o salário integral signifi-
reajustamentos futuros. Parece-me
válido o princípio em relação aos cava a integridade do salário, «se-
gundo a legislação própria da Previ-
inativos da Previdência Social. A dência Social», não se impondo a
Constituição estabelece proventos in- aposentadoria com base no salário
tegrais aos vinte e cinco anos de ser- real.
viço efetivo, tanto para o ex-
combatente funcionário público, co- Não vejo ofensa ao art. 153, § 3?,
mo para o contribuinte da previdên- da Lei Maior. Por outro lado, tam-
cia social (art. 197, letra c). Proven- bém não tem pertinência a alegada
tos segundo a lei especifica, e não divergência com a Súmula 359 ( re-
remuneração integral formulada por força da decisão pro-

R.T.J. —108 637

ferida nos ERE n? 72.509), e segundo INPS, pelo Instituto de Administra-


a qual «ressalvada a revisão previs- ção Financeira da Previdência e As-
ta em lei, os proventos da inativida- sistência Social — IAPAS (Adv.:
de regulam-se pela lei vigente ao Maurício Corrêa).
tempo em que o militar, ou o servi- Decisão: Indicado adiamento pelo
dor civil, reuniu os requisitos neces-Relator. Unanime. Falou pelo Recte.
sádos». o Dr. José Paulo Sepúlveda Perten-
Subsistem os óbices inicialmente ce.
mencionados. Decisão: Não conhecido. Unânime.
Ante o exposto não conheço do re- Presidência do Senhor Ministro
curso. Djaci Falcão. Presentes á Sessão os
Senhores Ministros Moreira Alves,
EXTRATO DA ATA Decio Miranda, Aldir Passarinho e
Francisco Rezek. Subprocurador-
RE 94.390-MG — Rel.: Min. Djaci Geral da República, Dr. Mauro Leite
Falcão. Recte.: José de Paula Leite Soares.
(Advs.: José Paulo Sepúlveda Per- Brasília, 13 de setembro de 1983 —
tence e outros) Recdo.: Instituto Na- Hélio Francisco Marques, Secretá-
cional de Previdência Social — rio.
EMBARGOS NO RECURSO EXTRAORDINARIO Nt 94.583 — SP
(Tribunal Pleno)
(RE na RTJ 103/332)
Relator para o acórdão: O Sr. Ministro Oscar Corrêa.
Embargante: Instituto de Administração Financeira da Previdência e
Assistência Social — IAPAS, pelo Instituto Nacional de Previdência Social —
INPS — Embargado: Jacy Ribeiro.
Embargos de divergência. Não caracterização da divergência:
acórdão embargado, em aposentadoria por invalidez; acórdão-padrão,
em abono de permanência.
ERE não conhecidos.
ACÓRDÃO segurado, foi condenado a conceder-
lhe aposentadoria por invalidez a
Vistos, relatados e discutidos estes partir de 12-10-78, e a satisfazer com
autos, acordam os Ministros do Su- juros e correção monetária as pres-
premo Tribunal Federal, em sessão tações vencidas a partir daquela da-
plenária, na conformidade da ata do ta (fls. 35 fine), sentença que veio a
julgamento e das notas taqulgráfi- ser confirmada pelo Colendo Tribu-
cas, por maioria de votos, em não nal Federal de Recursos.
conhecer dos embargos.
Brasília, 29 de setembro de 1983 — Alçado recurso extraordinário ao
Cordeiro Guerra, Presidente — Supremo Tribunal Federal sobre o
Oscar Corrêa, Relator p/o Acórdão. ponto alusivo à correção monetária,
não foi conhecido pela Colenda 1?
RELATÓRIO Turma, em acórdão unânime, que
teve como relator o eminente Minis-
O Sr. Ministro Decio Miranda: tro Oscar Corrêa, com o seguinte vo-
Vencido o INPS na ação movida pelo to:
638 R.T.J. — 108

«O Sr. Ministro Oscar Corrêa aquisição da moeda, o valor real,


(Relator): A tese discutida, na hi- expresso nos bens que permite
pótese, é a da possibilidade de inci- comprar.
dência da correção monetária so- Como tal, impor-se-ia a todas as
bre prestações previtenciárias. obrigações e equivaleria ao amplo
Afirma o recorrente que, ao reconhecimento de valor móvel a
concedê-la, o v. acórdão recorrido que se sujeitariam.
«extrapolou-se dos limites assina- Não se olvide, contudo, o
lados no art. 1?, do Decreto-lei n? estímulo inflacionário que a corre-
75/66, a cujo teor a atualização de ção monetária representa e, ainda
valores somente incide nos casos mais, estendida a todas as obriga-
nela enumerados, neles não estan- ções, o que corresponderia a autên-
do incluídos ou contemplados ques- tica impossibilidade de previsão de
tões de natureza previdenciária, todos os deveres, sobretudo, e à
como as obrigações resultantes de subversão dos orçamentos públicos
aposentadoria por invalidez» (fls. e particulares.
89).
Esta seria, contudo, em termos
Demais disso, considerou o lógicos a solução.
recorrente, e o acolheu a douta
Procuradoria-Geral da República, Mas, por isso mesmo que nem
que desta forma, o v. aresto recor- sempre, na vida real, são os ter-
rido divergiu da orientação da Cor- mos lógicos os que prevalecem, ou
te, expressa no RE n? 90.888 que devem prevalecer, e conhecidas
decidiu pela «inexistência de nega- essas conseqüências inevitáveis,
tiva de vigência do art. 1?, do que conduziriam a resultados im-
Decreto-lei n? 75/66, que diz res- previsíveis, o legislador tem esta-
peito a débitos trabalhistas, e não belecido restrições à norma geral,
a beneficio devido pela previdência ainda que admitindo sua extensão
social» (fls. 90). Acentuou, ainda a hipóteses novas.
que a «incidência só ocorre nas hi- A maior restrição atua, ob-
póteses previstas na lei, e que, em viamente, ao campo das presta-
conseqüência, não pode ser am- ções públicas, ou seja, as que de-
pliada, resulta da natureza das vem ser cumpridas pelo poder pú-
obrigações, inadmitindo-se a am- blico, notando-se evidente desigual-
pliação de sua área de incidência, dade de tratamento com as presta-
quando desassemelhadas ou diver- ções privadas, sobre as quais, com
sas» (fls. 90/91). maior amplitude, tem incidido.
O debate da tese levar-nos-la Ainda assim, tem-se aceito, co-
longe demais se pretendêssemos mo imposição de justiça, a corre-
analisá-la em todos os fundamen- ção de certas obrigações — presta-
tos e consectários. ções públicas, objetivando, de um
lado, diminuir os ônus do credor
Surgindo como conseqüência — delas, e, de outro, penalizar o po-
diga-se «grosso modo» — da infla- . der público (ou seus órgãos e dele-
ção, que atinge a moeda e desesta- gados), pelo seu descumprimento.
biliza as obrigações, a correção 6. Desse debate dá sucinta
monetária deveria impor-se em to- noticia o v. acórdão invocado, co-
dos os débitos em dinheiro, para mo dissidiável, no qual duas cor-
usar a linguagem corrente, fugindo rentes se debatem:
ao jargão dos especialistas. Com
efeito, nada mais significa do que a) a representada no voto do Ex-
a tentativa de manter o poder de mo. Min. Thompson Flores que
R.T.J. — 108 639

tendo-a como exatamente amplia- fiais, mas sujeita o segurado ina-


da à restituição de débitos fiscais dimplente à correção monetária,
— assentada pela jurisprudência — juros de mora e multa; carac-
(entre outras prestações) como as terizando-se desigualdade que,
alimentícias, as de danos pessoais, em tese deveria levar à obrigato-
multa fiscal, etc. — também, na riedade de correção das prestações
mesma linha de raciocínio como do Instituto.
correlação da imposta às contri- b) que, contudo, no caso que en-
buições não pagas a tempo pelo tão se debatia, o pleiteante «não ti-
empregado (por força do art. 7? da nha contrato liquido e •certo de tra-
Lei n? 4.387/64) — admitia a corre- balho, de modo que fosse claro o
ção do abono de permanência não inadimplemento do Instituto». «O
pago e reconhecido em prol do Instituto não pagou, asseverou o
pleiteante; argumentando, por fim, Exmo. Ministro Cordeiro Guerra,
que «as razões que levam o empre- porque entendeu que ele não tinha
gador faltoso a sujeitar-se ao ônus um dos pressupostos da relação
da correção, quando atrasa o paga- previdenciária». E disse mais: «se
mento do salário, são as mesmas realmente fosse estreme de dúvi-
para o Instituto que incorre na das a relação previdenciária, ou
mesma falta» (fls. 103). seja, que ele era contribuinte do
b) A que se expressou no voto Instituto, que estava em dia com
vencedor no acórdão do Exmo. Sr. suas obrigações, e se, sem justa
Min. Moreira Alves, distinguindo a causa ou sem uma ponderável dú-
hipótese dos autos, naquele caso — vida, ele deixasse de cumprir, nes-
abono de permanência — das de- se caso, eu ligaria isso ao inadim-
mais invocadas (restituição de in- plemento, de uma obrigação, a um
débito fiscal, alimentos, etc.) e sa- ato ilícito» (fls. 116/117).
lientando que «o abono de perma-
nência é beneficio previdenciário, E concluiu:
sem qualquer natureza fiscal», não «Sempre que o Instituto deixar
podendo, assim, se lhe aplicar o de cumprir sua obrigação legal
principio; tanto mais quanto, na- intencionalmente ou por culpa
quele caso, há restituição de paga- grave, nesses casos, acho que ele
mento indevido e aqui pagamento deve ser responsabilizado, na for-
de contribuição, mas não restitui- ma da Súmula 562, mas quando
ção de valor da contribuição. forem ponderáveis os motivos e
7. A discussão ampliou-se, ten- não estremes de dúvidas os direi-
do o Exmo. Ministro Soares Muhoz tos do segurado» (fls. 117).
considerado que, in casu, também 8. Como se verifica, não é paci-
se configurava a retenção de parte fico, nem claro, o entendimento da
da remuneração devida ao empre- questão, de modo a não suscitar
gado, apoiando a primeira corren- controvérsias. A nós nos parece
te; bem como o Exmo. Ministro que, repetimos, a orientação lógica
Cunha Peixoto; e filiando os de- levaria à adoção pura, ampla e
mais Eminentes Ministros à segun- simples da correção monetária, a
da corrente, tendo o Exmo. Minis- todas as hipóteses, eis que, de um
tro Cordeiro Guerra acentuado, en- modo ou de outro, a não correção
tre outras coisas: opera sempre em favor do devedor
a) que a legislação previdenciá- e contra o credor; e provado o di-
ria não dispõe sobre as conseqüên- reito deste — ainda que não prova-
cias do inadimplemento do Institu- do o dolo, ou a culpa grave daquele
to, no caso de suas obrigações le- — ter-se-ia de admitir que a consti-
640 R.T.J. — 108

tuição do débito de um e do crédito pois sempre entendi que o INPS


de outro retrotrai ao momento em deve corrigir as prestações que te-
que a sentença o declara. Deveria, nha deixado de pagar no tempo e
pois, operar o reconhecimento, em forma devidos. (RTJ 96/296), por
toda a extensão. considerar aplicáveis os princípios
9. Na hipótese dos autos, não há do ato licito e a Súmula 562.
porque recusar o comprovado nas Nessa conformidade, conheço do
instâncias ordinárias, reconhecida recurso, porém lhe dou parcial
a procedência do pedido pelo MM. provimento, para limitar a corre-
Juiz (fls. 34/36), confirmada pelo ção monetária a partir da data da
v. acórdão recorrido. vigência da Lei n? 6.899, de 8 de
Esta a linha de ampliação da abril de 1981» (fls. 152/3).
correção monetária, como forma Sustenta o embargante, no mérito,
de manter, aproximadamente que que «a decisão sob análise não nega
seja, o valor das prestações, tanto a inexistência de mandamento legal,
mais quanto de caráter nitidamen- impondo a obrigação de pagamento
te de subsistência. A jurisprudên- da correção monetária, pelo inadim-
cia da Corte afirma-se nesta orien- plemento na satisfação das presta-
tação. ções previdenciárias» e que, «para
Pelo que não conheço do recur- impor a obrigação partiu de pressu-
so» (fls. 142/7). postos não vislumbrados por manda-
mento legal, mas de ordem isonômi-
Embargos do INPS, por mim ad- ca» (fls. 154).
mitidos, alegam que o decidido di-
verge de acórdão da Colenda 2? Tur- 5 o relatório.
ma no RE n? 95.682, DJ de 14-5-82,
relator o eminente Ministro Cordeiro VOTO
Guerra, que, em seu voto, assim se
exprime: O Sr. Ministro Decio Miranda (Re-
lator): Conheço dos embargos, visto
Realmente, por duas vezes, o que manifesta a divergência entre as
STF inadmitiu a correção monetá- decisões em cotejo.
ria nas condenações do INPS, por
mora no pagamento de benefícios Passo ao mérito.
devidos e não pagos. No RE n? O eminente relator do acórdão di-
90.888-MG, RTJ 96/287 e AgRg no vergente, Ministro Cordeiro Guerra,
Ag. 56.967, DJ 13-2-74, assim emen- não deixou de ressalvar sua posição
tado: pessoal contrária á tese que adota-
«Aposentadoria. Proventos. Cor- va, lembrando que, no RE n? 90.888,
reção monetária. Proventos de julgado no Pleno, votara a favor da
aposentadoria em atraso. Não inci- correção monetária dos estipêndios
dência da correção monetária. previdenciários, quando pagos com
Agr. a que se negou provimen- atraso aos segurados ou beneficiá-
to». rios.
O v. acórdão recorrido desaten- No citado RE n? 90.888, acórdão
deu essa orientação, e, assim inob- visto por cópia a fls. 93 e segs. des-
servou o princípio da legalidade, tes autos, e encontrado em RTJ
art. 153, § 2?, da Constituição Fede- 96/296, o julgamento proferido no
ral. Tribunal Pleno (de que, impedido,
não participei) não chegou a apre-
Devo lembrar que a orientação ciar no mérito o problema da corre-
desta Corte se estabelece contra o ção monetária sobre estipêndios pre-
meu voto no RE n? 90.888, MG, videnciários pagos com atraso,
— 108 641

limitando-se a discussão aos pressu- Como admitir que o atraso, por


postos de conhecimento do recurso motivo de defeito no serviço, e não
extraordinário interposto pelo titular por culpa do beneficiário venha a
do benefício, o que bem se vê da res- resultar num detrimento desse
pectiva ementa, lida a fls. 93 destes mínimo vital?
autos, e bem assim do próprio con-
texto do acórdão. Todas essas prestações são con-
Já no outro acórdão referido no vo- traprestação de pagamentos que,
to do eminente Ministro Cordeiro se efetuados com atraso, mesmo
Guerra, o do Ag. Regimental no Ag. na parcela atribuída aos beneficiá-
n? 56.967, relator o eminente Minis- rios, são exigidos com correção
tro Bilac Pinto na Turma em 3-1- monetária. O mesmo ocorre com a
1973, confirmou-se decisão denegató- prestação totalmente devida pelo
ria de recurso extraordinário do cre- segurado: o contribuinte autônomo,
dor do benefício, à consideração de às vezes um pequeno artífice, o ad-
que não incidiria correção monetária vogado, o médico, o contribuinte
sobre proventos de aposentadoria em dobro, que é aquele que ficou
previdenciária em atraso. desempregado e que, no entanto,
pretende manter viva a sua inscri-
O exame de tais precedentes, so- ção previdenciária. Todos os seus
mente um dos quais, o do agravo de pagamentos, efetuados fora do pra-
instrumento, tem considerações so- zo, são recolhidos com correção
bre o mérito, mostra que é ainda ex- monetária, juros e multa.
tremamente tênue a manifestação
do Tribunal sobre o problema, e que Assim, mesmo aplicada a corre-
sobre ele conviria fixar-se orienta- ção monetária às prestações a car-
ção. go do INPS, ainda não haveria per-
Inclino-me pelo reconhecimento de feita correspondência, pois, na si-
que a correção monetária sobre esti- tuação inversa, além da correção
pêndios previdenciários pagos com monetária e dos juros, há multa
atraso, e notadamente quando resul- contra os atrasos dos contribuin-
tante de condenação judicial o paga- tes».
mento, é de ser reconhecido.
De resto, impende considerar que
Nesse sentido o voto vencido por se trata, no caso dos presentes au-
mim proferido no acórdão indicado tos, de provento de aposentadoria
como divergente (RE n? 95.682) a di- previdenciária, prestação substituti-
zer: va do salário anteriormente pago pe-
«Senhor Presidente, com a vênia lo empregador, cuja satisfação a
devida ao eminente Relator, per- destempo acarretaria seu comple-
maneço na posição, que já vem do mento por meio de correção monetá-
tempo de minha judicatura no Tri- ria.
bunal Federal de Recursos, segun-
do a qual as prestações devidas pe- Isto posto, conheço dos embargos
lo INPS a segurados e beneficiá- do IAPAS, mas os rejeito, por enten-
rios, satisfeitas com atraso, devem der que o beneficio previdenciário
ser satisfeitas com correção mone- resultante de condenação judicial de-
tária. ve ser satisfeito com correção, mone-
tária, calculada a partir do ajuiza-
Sabe-se, por via da experiência mento da ação, e não apenas a par-
comum, que essas prestações são tir da vigência da Lei n? 6.899, de 8-
um mínimo vital para as pessoas 4-1981.
que a elas fazem jus. São parcas,
como é da natureza dos sistema. E o meu voto.
642 R.T.J. — 108

VOTO EXTRATO DA ATA


O Sr. Ministro Aldir Passarinho: ERE 94.583-SP — Rel.: Ministro
Sr. Presidente, admitindo que esteja Decio Miranda. Embte.: Instituto de
comprovada a divergência, acompa- Administração Financeira da Previ-
nho o eminente Relator, conhecendo dência e Assistência Social — IA-
dos embargos e os rejeitando. PAS, pelo Instituto Nacional de Pre-
vidência Social — INPS (Adv.: José
No caso de atualização das presta- Torres das Neves). Embdo.: Jacy
ções previdenciárias, o Tribunal Fe- Ribeiro (Adv.: Flamino Silveira
deral de Recursos vem fixando en- Amaral).
tendimento no sentido do ponto de Decisão: Pediu vista o Ministro Os-
vista esposado pelo ilustre Relator. car Corrêa, depois dos votos dos Mi-
Eu me fixei, basicamente, no seguin- nistros Relator e Aldir Passarinho,
te aspecto: no Supremo Tribunal Fe- conhecendo e rejeitando os embar-
deral, quando se verifica a repetição gos.
de indébito, admite-se a correção Presidência do Senhor Ministro
monetária pelo principio de analogia Cordeiro Guerra. Presentes à Sessão
e reciprocidade. A lei apenas fala os Senhores Ministros Djaci Falcão,
em correção monetária, quando feito Moreira Alves, Soares Mufloz, Decio
o depósito. Então, entendeu o Supre- Miranda, Rafael Mayer, Néri da Sil-
mo Tribunal Federal que, no caso de veira, Alfredo Buzaid, Oscar Corrêa
ser pago o débito, maior razão have- e Aldir Passarinho. Procurador-
ria para que a restituição dessa im- Geral da República, Professor Ino-
portância se fizesse por valores cêncio Mártires Coelho.
atualizados.
Brasília, 10 de março de 1983 —
No caso das contribuições previ- Alberto Veronese Aguiar, Secretário.
denciárias, quando o pagamento é
feito com atraso, há o acréscimo da VOTO PRELIMINAR
correção monetária, além de outros (CONHECIMENTO)
ónus daí decorrentes; quando efetua-
do o depósito, pela legislação perti- O Sr. Ministro Oscar Corrêa: O
nente que veio a conferir essa atri- exame da espécie nos leva ao não
buição á Caixa Econômica Federal, conhecimento dos embargos, data
a restituição é feita com a atualiza- venia do Eminente Relator.
ção monetária. O princípio, a meu
ver, é o mesmo: com relação ao pa- Com efeito, o acórdão embargado
gamento das pensões, que corres- tem a seguinte Ementa:
ponde àquela contraprestação das «Aposentadoria por invalidez.
contribuições, se o Instituto não o faz Prestações previdenciárias.
a tempo, deve arcar com o ônus, não Atualização pela correção mo-
como uma penalidade, mas para que netária. Extensão progressiva que
a moeda reflita o valor do momento. lhe tem reconhecido a jurisprudên-
A pensão é uma conseqüência da cia da Corte. Correção concedida.
contribuição, e assim, da mesma
maneira que a contribuição se paga Recurso Extraordinário não co-
com atualização, a contraprestação nhecido» (fls. 149).
deve ser paga com correção da moe- Cuida-se, na hipótese, de apo-
da. sentadoria por invalidez, comprova-
da a incapacidade laborativa do ora
Acompanho o eminente Ministro Recorrido, como diz o v. acórdão
Relator, conhecendo dos embargos. do C. Tribunal Federal de Recursos,

R.T.J. — 108 643

trabalhador braçal, praticamente ce- que, afinal, apenas a deferisse a par-


go de ambos os olhos, nos termos do tir da data de vigência da Lei n?
Decreto n? 83.080/79 (artigos 42 a 45) 6.899/81.
(fls. 71/76).
Por esses motivos, não conheço
2. Ora, o acórdão paradigma diz dos embargos.
respeito a abono de permanência, hi-
pótese diversa da decidida no v. 2 o voto.
acórdão embargado, e prevista em
normas diferentes, pelo que não há VOTO
identificar uma à outra. Talvez, por
isso mesmo, não se tenha citado a
Ementa do paradigma, verbis: O Sr. Ministro Néri da Silveira: Se-
«Previdência Social. Abono de nhor Presidente. Cuida-se de corre-
permanência. A incidência da cor- ção monetária, em caso de condena-
reção monetária, de conformidade ção do INPS, a conceder benefício
com os julgados do STF, só é ad- previdenciário.
missivel a partir da Lei n? 6.899, de Parece-me que, em ambos os acór-
8-4-81». dãos essa mesma tese foi considera-
E. saliente-se que o Eminente Rela- da: se seria possível a concessão de
tor, Ministro Cordeiro Guerra, não correção monetária, em se tratando
se omitiu em declarar em seu enten- de beneficio previdenciário. O acór-
dimento favorável «à correção das dão recorrido teve em conta o be-
prestações que o INPS tenha deixado nefício previdenciário da aposenta-
de pagar no tempo e forma devidos, doria; o acórdão paradigma, o be-
por considerar aplicáveis os prin- nefício previdenciário do abono de
cípios do ato ilícito e a Súmula 562» permanência. A circunstância de se
(fls. 153). tratar de dois institutos do direito
Demais disso, aposentadoria por previdenciário não altera a natureza
invalidez e abono de permanência, da prestação: em ambos os casos, a
embora ambos de caráter previden- quantia devida pelo INPS é presta-
ciário, têm condições e regimes di- ção de natureza previdenciária. O
versos: enquanto aquela se concede que se discute é se seria possível
ao segurado incapacitado para o tra- atualizar o quantum referente a
balho; esta é devida ao segurado prestações previdenciárias, em am-
que, contando, embora, tempo para bas as hipóteses. O acórdão recorri-
a aposentadoria, permanece em ati- do compreendeu que a correção mo-
vidade. netária se deveria dar de forma am-
pla, considerando que se tratava, na
Aquele necessita da prestação pa- espécie, de ato ilícito da administra-
ra a subsistência; este acumula a, ção; o acórdão padrão concluiu que,
prestação da aposentadoria com a nessas hipóteses, a correção monetá-
que percebe na atividade, o que as ria não seria devida, antes da Lei n?
situa em níveis diferentes. 6.899, de 1981, daí por que a conce-
deu, tão-só, a partir da vigência do
Aliás, não se deu o embargante ao mencionado diploma.
cuidado de assemelhar ou identificar
as hipóteses: apenas transcreveu tre- Assim sendo, entendendo que a te-
cho do voto do eminente Relator do se posta em confronto é a mesma:
acórdão. correção monetária de prestações
previdenciárias, acompanho o voto
Que argumentou no sentido da do eminente Ministro Relator, conhe-
concessão ampla da correção, ainda cendo dos embargos.
644 R.T.J. — 108

RETIFICAÇÃO DE Relator, acolho a distinção feita pelo


VOTO PRELIMINAR eminente Ministro Oscar Corrêa: são
pressupostos diversos.
O Sr. Ministro Aldir Passarinho. Poderia o Tribunal, perfeitamente,
Sr. Presidente, como V. Exa. consul- em um caso conceder a correção
tou o eminente Ministro Decio Mi- monetária e, em outro, não conce-
randa, em virtude da nova posição, der, por que emergem de normas
ante o exame dos fatos feito pelo jurídicas diferentes e de prestações
eminente Ministro Oscar Corrêa, que têm outra natureza.
também queria voltar a pronunciar- O abono de permanência, pelo que
me. E o faço para reconsiderar-me, me recordo, no INPS, visa a conce-
porque, como observado, há diferen- der uma gratificação àqueles que,
ça entre a natureza das prestações. podendo aposentar-se, no entanto
Em se tratando de embargos de permanecem em atividade; não tem
divergência, é necessário que os te- caráter alimentar. Ai, no caso, o ca-
mas jurídicos sobre os quais incide o ráter alimentar seria o salário. Bem
dissídio sejam os mesmos, e, no ca- diversa é a situação de quem é apo-
so, isso não ocorre. As prestações, sentado por invalidez e recebe os
embora possam ser todas previstas seus proventos com caráter alimen-
na legislação previdenciária, não são tar. Então, teses distintas em rela-
da mesma natureza. Há, por exem- ção á correção monetária poderiam
plo, o auxilio-doença que assumiu perfeitamente conviver em razão de
mais um caráter indenizatório; o pressupostos diversos!
auxilio permanência que se constitui Por isso, data venta, acompanho o
em complementação salarial a titulo eminente Ministro Oscar Corrêa, não
de estimulo para os que, podendo conhecendo dos embargos.
aposentar-se continuam trabalhando,
e as aposentadorias e pensões, que
já têm outras finalidades, e bastante VOTO (PRELIMINAR)
diversas. Deste modo, as razões que
poderão justificar a correção mone- O Sr. Ministro Moreira Alves: Sr.
tária em relação a um beneficio pre- Presidente, as prestações, para que
videnciário já poderão inexistir para se caracterizasse a divergência, de-
que ela incida sobre outras presta- veriam ter natureza jurídica idênti-
ções e, para que se possa admitir co- ca, o que, no caso, não ocorre.
mo havendo divergência de julgados, Data venta do eminente Relator,
se torna necessário que as presta- acompanho o eminente Ministro Os-
ções então discutidas nos acórdãos car Corrêa, não conhecendo dos em-
tidos como divergentes sejam não bargos.
apenas previdenciárias mas tenham
o mesmo caráter. E, no caso, tal não EXTRATO DA ATA
ocorre.
Assim, data venta do ilustre Rela- ERE 94.583-SP — Rel.: Ministro
tor, despertada a atenção para a Decio Miranda. Embte.: Instituto de
particularidade concernente à natu- Administração Financeira da Previ-
reza das prestações em discussão, dência e Assistência Social — IAPAS
não conheço dos embargos. pelo Instituto Nacional de Previdên-
cia Social — INPS (Adv.: José Tor-
VOTO (PRELIMINAR) res das Neves). Embdo.: Jacy Ribei-
ro (Adv.: Flamino Silveira Amaral).
O Sr. Ministro Rafael Mayer: Sr. Decisão: Não se conheceu dos em-
Presidente, data venta do eminente bargos, vencidos os Ministros Rela-

R.T.J. — 108 645

tor e Néri da Silveira. Não tomou veira, Oscar Corrêa, Aldir Passari-
parte no julgamento o Sr. Ministro nho e Francisco Rezek. Ausente, jus-
Francisco Rezek, por não ter assisti- tificadamente, o Senhor Ministro Al-
do ao Relatório. fredo Buzaid. Procurador-Geral da
Presidência do Senhor Ministro República, Professor Inocêncio Már-
Cordeiro Guerra. Presentes à Sessão tires Coelho.
os Senhores Ministros Djaci Falcão,
Moreira Alves, Soares Mufioz, Dedo Brasilia, 29 de setembro de 1983 —
Miranda, Rafael Mayer, Néri da Sil- Alberto Veronese Aguiar, Secretário.

RECURSO EXTRAORDINÁRIO N? 95.071 — RJ


(Segunda Turma)
Relator: -O Sr. Ministro Decio Miranda.
Recorrentes: João Torres da Silva e outros — Recorrida . União Federal.
Administrativo. Funcionalismo. Plano de Classificação de Cargos
da Lei 5.645, de 1970. Súmula 41 do Tribunal Federal de Recursos.
Proventos da aposentadoria.
Pedido de aplicação da Lel n? 2.622, de 1955. Óbice regimental do
art. 325, IV, d.
ACÓRDÃO Vitoriosos na sentença de primeiro
grau, reformou-a o Tribunal Federal
Vistos, relatados e discutidos estes de Recursos, à consideração do ver-
autos, acordam os Ministros do Su- bete 41 de sua Súmula, segundo o
premo Tribunal Federal, em Segun- qual «o direito do servidor inativo à
da Turma, na conformidade da ata revisão de proventos prevista no art.
do julgamento e das notas taquigrá- 10 e seus parágrafos do Decreto-Lei
ficas, por unanimidade de votos, em n? 1.256, de 1973, só se integrou com
não conhecer do recurso. a publicação do Decreto de implan-
Brasília, 11 de outubro de 1983 — tação do plano de classificação de
Djaci Falcão, Presidente — Decio cargos instituído pela Lei n? 5.645, de
Miranda, Relator. 1970, no órgão respectivo, e desde
que tenha sido efetivada essa condi-
cionante antes da revogação daque-
RELATÓRIO les dispositivos pelo Decreto-Lei n?
1.325, de 1974».
O Sr. Ministro Decio Miranda: Na A essa decisão opõem os autores
ação movida à União Federal por recurso extraordinário, fundado nas
seus funcionários aposentados João letras a e d da previsão constitucio-
Torres da Silva e outros, reivindica- nal. Asseveram que a Constituição,
ram os autores elevação de seus pro- no art. 153, 3?, protege o direito ad-
ventos, levado em conta o nível a quirido e este, no seu caso, se esta-
que seriam alçados se estivessem beleceu pela Lei n? 2.622, de 18-10-55,
em atividade, de acordo com a Lei a dizer que «o cálculo dos proventos
n? 2.622, de 18-10-55, e com o art. 10 dos servidores civis da União será
e parágrafos do Decreto-Lei n? 1.256, feito à base do que perceberem os
de 26-1-73, situação não desconsti- servidores em atividade, a fim de
tuida pelo Decreto-Lei n? 1.325, de que seus proventos sejam sempre
26-4-74. atualizados». (Fls. 377).
646 R.T.J. — 108

Mesmo principio é afirmado em cional, nem opostos embargos de de-


decisões do Supremo Tribunal Fede- claração tendentes a provocar seu
ral, v g, acórdão de que foi relator o explicito exame e incidência sobre
saudoso Ministro Rodrigues Alckmin os fatos da causa. (Súmulas 282 e
no RE n? 72.383 e o de que foi relator 356).
o eminente Ministro Bilac Pinto no Isto posto, não conheço do recurso.
RE n? 71.072. (Fls. 377/8).
E o meu voto.
É o relatório.
EXTRATO DA ATA
VOTO
RE 95.071-114I — Rel.: Min. Decio
O Sr. Ministro Dedo Miranda, Miranda. Rectes.: João Torres da
(Relator): Proferida a decisão recor- Silva e outros (Adv.: Joaquim Passi-
rida em data de 2-12-80, incide o re- domo). Recda.: União Federal.
curso, a ela oposto, no óbice do art.
325, IV, d, do Regimento Interno, Decisão: Não conhecido. Unânime.
concernente aos litígios em que não Falou pelos Rectes.: o Dr. Joaquim
se chegue à discussão do direito à Passidomo.
constituição ou subsistência da rela- Presidência do Senhor Ministro
ção jurídica fundamental, no empre- Djaci Falcão. Presentes à Sessão os
go público. Senhores Ministros Moreira Alves,
Não exclui o óbice a menção ao Decio Miranda, Aldir Passarinho e
art. 153, 3?, da Constituição, seja Francisco Rezek. Subprocurador-
porque apenas referido para fortifi- Geral da República, Dr. Mauro Leite
car a inovação básica da Lei n? Soares.
2.622, de 18-10-1955, seja porque não Brasília, 11 de outubro de 1983 —
ventilada, no acórdão recorrido, a Hélio Francisco Marques, Secretá-
aplicação da referida regra constitu- rio.

RECURSO EXTRAORDINÁRIO N? 95.103 — RJ


(Primeira Turma)
Relator: Q Sr. Ministro Néri da Silveira.
Recorrente: Rede Ferroviária Federal S/A (Superintendência Regional
Rio de Janeiro) — Recorrido: Sebastião Luiz da Silva.
Responsabilidade civil. Acidente de trem. O dano moral causado
por conduta ilícita é indenizável, como direito subjetivo da própria
pessoa ofendida, qual sucede no caso de lesão corpórea deformante,
que resulte do acidente, a teor do art. 21, da Lei n? 2.681/1981. Prece-
dentes do STF. Hipótese em que o autor é a própria vítima e a recor-
rente não demonstrou o dissídio pretoriano a fundamentar o recurso.
Súmula 291; Regimento Interno, art. 322. Recurso não conhecido.
ACORDA° julgamentos e notas taquigráficas, à
unanimidade, não conhecer do recur-
so extraordinário.
Vistos, relatados e discutidos estes
autos, acordam os Ministros da Pri- Brasília, 7 de maio de 1982 —
meira Turma do Supremo Tribunal Soares Mufloz, Presidente — Néri da
Federal, na conformidade da ata de Silveira, Relator.
R.T.J. — 108 647

RELATORIO permissivo constitucional, argüindo,


ainda, a relevância da questão fede-
O Sr. Ministro Néri da Silveira ral (fls. 85/92).
(Relator): Sebastião Luiz da Silva, Indeferido o processamento do
brasileiro, biscateiro, propôs ação de apelo derradeiro (fls. 98/99), subi-
indenização contra a Rede Ferroviá- ram os autos a este Tribunal, por
ria Federal S.A., visando a receber força do acolhimento parcial da ar-
pensões vencidas e vincendas, 13? güição de relevância, quanto ao dano
salário, FGTS, indenização por dano moral sofrido pelo ora recorrido, nos
moral e correção monetária, custas termos da decisão prolatada pelo
e honorários advocatícios, argumen- Conselho, em sessão realizada a 8-4-
tando que, a 6-2-1963, quando viajava 1981 (fls. 48, do apenso).
em composição da referida Empre-
Manifestando-se no feito, a douta
sa, «foi fortemente atingido, por um Procuradoria-Geral da República
objeto que não pôde ser identificado, opina pelo não conhecimento
vindo, em conseqüência, a sofrer sé- curso, em seu parecer de do re-
rias lesões» (fls. 2/5). fls.
121/123
Julgada procedente, em parte, a E o relatório.
ação (fls. 39/43), apelaram Autor e
Ré para o Tribunal de Alçada do Es-
tado do Rio de Janeiro, que, por in- VOTO
termédio da Segunda Câmara eivai,
deu provimento parcial á apelação
do Autor, em acórdão, que traz esta O Sr. Ministro Néri da Silveira
ementa (fls. 80/82). (Relator): Subiram os autos do re-
curso, por haver o Conselho acolhi-
«Responsabilidade civil de Es- do, parcialmente, a argüição de rele-
trada de, Ferro. Não exclui a res- vância, no que concerne ao dano mo-
ponsabilidade da transportadora se ral mandado incluir pelo acórdão, a
o passageiro, à falta de grade ou par da condenação da recorrente a
barras protetoras na janela do pagar lucros cessantes.
trem, põe a cabeça, inadvertida- Trata-se de hipótese em que a con-
mente, para o lado de fora, denação da Rede recorrente ao pa-
acidentando-se. Inexistência de gamento de dano moral se dá, não
prescrição qüinqüenal relativa- em favor de dependentes da vitima,
mente ás prestações vencidas. mas desta mesma. Ao fazê-lo, o
Concessão de verba autônoma pelo acórdão recorrido assim se funda-
«dano moral», negando-se a relati- mentou (fls. 81):
va ao «dano estético». Juros de
mora a partir da citação, por se «No que tange á verba destacada
tratar de culpa contratual. Verba pelo «dano moral», deve ele ser pa-
correspondente ao 13? salário. Ho- go. A sua indenização decorre do
norários fixados de acordo com a fato de que todo e qualquer dano
jurisprudência unânime do Egré- causado a alguém ou ao seu patri-
gio STF, correspondendo á Soma mônio, deve ser Indenizado, sendo
das prestações vencidas com uma o dano moral um dos mais impor-
anuidade das vincendas (art. 20, tantes. Não se trata de estabele-
3?, c/c o art. 260, ambos do CPC).» cer, aqui, o pretium, já que a dor
não tem preço, não pode ser ava-
Dai o presente recurso extraordi- liada em dinheiro, mas de se dar
nário, manifestado pela Rede Ferro- àquele que sofreu um dano físico
viária Federal S.A., com apoio no uma compensação, em contrapar-
art. 119, item III, letras a e d, do tida ao desgosto sofrido, atendendo
648 R.T.J. — 108

a uma profunda inclinação da na- E, pode-se dizer, uma forma


tureza humana, como realça Von obliqua de se atingir a reparação
Thur.». do dano moral, dadas as reações
Segundo a jurisprudência deste que suscita o pleno reconheci-
Tribunal, cumpre distinguir, em ma- mento do instituto. O que não é,
téria de indenização por dano moral, entretanto, possível é que se
quando esta é pleiteada pelos depen- acrescente à reparação, que, por
dentes ou parentes da vítima, ou por meios indiretos, compensa aque-
esta, quando sobrevivente do ato le dano, nova verba, a título de
ilícito indenizável. reparação do dano moral» (RTJ
No primeiro caso, assente é o en- 82/546 a 549).»
tendimento, segundo o qual não se A sua vez, no RE n? 84.748-RJ, o
acumulam a indenização por dano mesmo eminente Ministro Soares
patrimonial e indenização por dano Muiloz anotou:
moral. Assim, nos Recursos Ex- «No tocante à reparação do da-
traordinários n?s 84.748, a 10-4-1979, e no moral, a jurisprudência do Su-
85.127, a 3-4-1979, de ambos Relator; premo Tribunal Federal está unifi-
nesta Primeira Turma, o eminente cado no sentido de que não com-
Ministro Soares Mufioz, restou afir- provado, como no caso, que o filho
mada tal orientação. Consta da falecido percebesse salário e con-
ementa do último julgado referido: tribuísse para o sustento da mãe,
«Morte de menor que caiu do na indenização, a ela concedida,
trem onde viajava. Na indenização está compreendido o direito poten-
concedida aos pais, pelo prejuízo cial a alimentos, com o que já se
presumível decorrente da morte está a ressarcir o próprio dano mo-
de filho menor, está incluido o res- ral (RE n? 83.168).»
sarcimento do dano moral resul-
tante do mesmo fato.» Nesse mesmo sentido, as decisões,
dentre outras, nos Recursos Extraor-
Em seu douto voto, no RE n? dinários n?s 83.168, 91.165 e 95.906-8-
85.127, o ilustre Ministro Soares Mu- RJ.
foz sinalou:
«No que concerne à indenização Cuidando-se, todavia, de postula-
por dano moral, embora exista a ção da própria vítima de acidente de
divergência jurisprudencial indica- estrada de ferro, tem a jurisprudên-
da, a orientação reiterada do Su- cia admitido a cumulação com lu-
premo Tribunal Federal foi multo cros cessantes da indenização por
bem exposta em voto do eminente dano moral.
ministro Bllac Pinto, adotado por Nessa linha, no RE n? 83.766, a Se-
esta Turma, no RE n? 83.873, rela- gunda Turma, a 17-5-1976, Relator o
tado pelo eminente Ministro Eloy ilustre Ministro Moreira Alves, em-
da Rocha: bora reiterado o entendimento, no
«A construção jurisprudencial que concerne aos parentes da viti-
do Supremo Tribunal Federal no ma, qual está na ementa:
sentido da indenização pela mor- «Dano moral. Responsabilidade
te de filhos menores, em decor- civil de estrada de ferro.
rência de ato ilícito, inspirou-se
no princípio da reparação do da- Em caso de morte, não é acumu-
no moral (RE n? 50.940, in RTJ lável com lucros cessantes. Exege-
39/3; RE n? 59.111, in RTJ 41/844; se do art. 1.537 do C. Civil combi-
RE n? 65.281, in RTJ 47/279; RE nado com o art. 21 da Lei n? 2.681,
n? 64.771, in RTJ 56/783). de 7-12-1912».

R.T.J. — 108 699

in RTJ, vol. 79, pág. 298, restou es- do juiz, a todos aqueles aos quais
tabelecida a distinção acima propos- a morte do viajante privar de ali-
ta. Afirmou o eminente Ministro Mo- mento, auxílio ou educação.» (in
reira Alves: RTJ, vol. 79/301)
«E certo, por outro lado, que a No RE n? 83.978-RJ, esta Turma, a
Lei n? 2.681, de 7-12-1912, que disci- 3-6-1981, Relator o Senhor Ministro
plina a responsabilidade civil das Antonio Neder, decidiu em acórdão,
estradas de ferro, admite a repara- de cuja ementa consta:
ção de danos morais cumulados
com danos patrimoniais, em seu «2. Os artigos 1.538, 1539 e 1.548,
art. 21, cujo teor é este: todos do Código Civil, não confe-
rem aos pais, ou mesmo aos fami-
«No caso de lesão corpórea ou liares de quem haja sido vitimado
deformante, à vista da natureza por conduta ilícita de outrem, o di-
da mesma e de outras circuns- reito subjetivo à indenização pelo
tâncias, especialmente a invali- dano moral, ou pela dor que sofre-
dade para o trabalho ou profissão ram com o falecimento do filho, ou
habitual, além das despesas com do familiar, visto que tais regras
o tratamento, e os lucros cessan- concedem esse direito somente à
tes, deverá pelo juiz ser arbitra- pessoa ofendida, e isto no caso de
da uma indenização convenien- lesão corpórea deformante, como
te.» decorre do art. 21 da Lei n? 2.681
A hipótese nela tratada, porém, de 7-12-1912, que dispõe sobre a
é a de dano moral em favor da responsabilidade civil das empre-
própria vitima, tanto que diz res- sas ferroviárias.
peito o dispositivo apenas no caso Precedente do STF sobre a
de lesão corpórea ou deformante. matéria.
Visou esse artigo, sem dúvida, a Discussão a respeito de ser
reparar, também, o pretluxn indenizável o dano moral sofrido
doloris da vitima, a carregar con- pelo pai de quem foi vitimado em
sigo pelo resto de sua vida, as con- acidente ferroviário».
seqüências maléficas da lesão so-
frida. Essa circunstância já afasta- Em seu voto, observou o ilustre Mi-
ria a analogia com a situação do nistro Antonio Neder
beneficiário no caso de morte, hipó- «Estou em que o dano moral
tese em que a dor dos que ficam se causado por conduta ilícita é inde-
esmaece com o tempo. Ademais, nizável como direito subjetivo da
as próprias razões, que moveram o pessoa ofendida, isto é, no caso de
legislador a adotar o principio rígi- lesão corpórea deformante sofrida
do do art. 1.537 do Código Civil, em pela pessoa ofendida, como decor-
casos mais graves do que o de re do artigo 21 da Lei n? 2.681, de 7-
morte decorrente de acidente, es- 12-1912, que dispõe sobre a respon-
tão a afastar qualquer tentativa de sabilidade civil das empresas fer-
aplicação analógica de preceito roviárias.»
que visa atender a outras cir-
cunstâncias'. E tanto é isso verdade Noutro passo de seu pronuncia-
que, em hipótese de morte, a pró- mento, afirmou:
pria Lei n? 2.681, no artigo 22, se «Parece contraditório que se ad-
adstringe a danos patrimoniais: mita indenizar-se o dano moral no
«No caso de morte, a estrada caso de lesão deformante e não se
de ferro responderá por todas as permita solução idêntica para o ca-
despesas e indenizará, a arbítrio so de homicídio.
650 R.T.J. — 108

Todavia, não há contradição no crânio, das quais resultaram abalo


caso. psíquico e incapacidade para o tra-
É que o dano moral sofrido pelos baho, embora não se tivesse podido
familiares ou parentes da pessoa determinar a extensão desses ma-
vitimada tem duração limitada. les, porquanto o MM. Juiz relegou
para a execução a realização da
As pessoas que conviviam com a perícia médica (fls. 41).
vítima (pais, irmãos, etc), sofrem
a dor produzida por seu falecimen- Ora, segundo jurisprudência des-
to, não porém uma dor constante, ta Excelsa Corte, «o direito positi-
permanente, visto que ela desapa- vo brasileiro só permite a indeniza-
rece ao fim de alguns meses, ao ção pelo dano moral à pessoa mes-
passo que a pessoa que sofreu le- ma que haja sofrido lesão corpórea
são deformante, como seja o am- deformante e não a seus pais ou a
putar as pernas, ou os braços, ou seus familiares» (RE n? 83.978, In
que perdeu a visão, essa pessoa, é DJ de 1-7-80, pág. 4.945, relator o
claro, sofre permanentemente as Exmo. Sr. Ministro Antonio Ne-
conseqüências de tais lesões defor- der).
mantes. Para justificar, na espécie, a im-
Estas devem ser indenizadas posição da verba a título de dano
quanto ao dano material e também moral, o v. acórdão recorrido con-
quanto ao dano moral, porque os siderou a necessidade de «dar
dois prejuízos coexistem e perdu- àquele que sofreu um dano físico
ram, ao passo que a outra nem uma compensação, em contrapar-
sempre se configura (pois há os tida ao desgosto sofrido», para
que não choram seus mortos) e com isso atender «a uma profunda
nunca perdura (porque ao fim de inclinação da natureza humana»,
alguns meses ela desparece).» consoante a lição de Von Thur que
Pois bem, no caso concreto, o re- invoca (fls. 81).
curso extraordinário invoca, no par- Por conseguinte, não está em
ticular, dissídio pretoriano, havendo causa a indenização do dano moral
a recorrente, entretanto, referido por solicitação dos beneficiários da
arestos, que tem por divergentes, vítima a título de pretium doloris,
apenas, por suas ementas, inclusive, porque, como se sabe, incomensu-
dois deste Tribunal, nos RREE n?s rável monetariamente o preço da
90.646-1-RJ e 83.244 (fls. 91/92 e 93), dor. Cuida-se, antes, de verba con-
sendo que, no último, consoante se cedida a pedido da própria vítima,
vê da enunciação das partes, cogita- como indenização pelos defeitos
se da primeira hipótese. físicos e alterações psíquicas que
Dessa maneira, não atende o re- lhe acarretou o acidente.
curso à Súmula 291, como bem sus- E ao fundamentar seu recurso
tentou o parecer da ilustrada extraordinário, na parte alusiva ao
Procuradoria-Geral da República, às dano moral, a recorrente trouxe a
fls. 122/123, verbis: confronto arestos transcritos ape-
«Não nos parece, todavia, esteja nas por ementas sucintas, a dize-
o apelo, no ponto questionado, a rem simplesmente ser inindenizá-
merecer acolhimento. vel o dano moral.
É que, na hipótese em comento, Tal, entretanto, não basta, a nos-
indenização pelo dano moral foi re- so ver, à caracterização do dissídio
querida pela própria vitima em que, segundo os ditames regimen-
conseqüência de lesões sofridas no tais há de ser demonstrado com a

R.T.J. — 108 651

menção das circunstâncias capa- Federal S/A. (Superintendência Re-


zes de assemelhar ou identificar os gional — Rio de Janeiro). (Advs.:
casos cotejados (Súmula 291). Everardo de Andrade Corrêa e ou-
Dos arestos trazidos à balha não tros). Recdo.: Sebastião Luiz da Sil-
é possível identificar um que fosse, va. (Advs.: Marco Aurélio Monteiro
onde a verba referida a titulo de de Barros e outros).
dano moral tivesse sido requerida
pela própria vitima de lesões de- Decisão: Não conheceram do re-
formantes, hipótese em que a ju- curso. Decisão unânime.
risprudência maior entende
possível a indenização. Presidência do Senhor Ministro
Nestas condições, à mingua da Soares Mufioz. Presentes à Sessão os
divergência apontada, o parecer é Senhores Ministros Rafael Mayer,
pelo não conhecimento da irresig- Néri da Silveira, Alfredo Buzaid e
nação derradeira.» Oscar Corrêa. Subprocurador-Geral
Do exposto, não conheço do recur- da República, Dr. Francisco de As-
SO. sis Toledo.
EXTRATO DA ATA Brasília, 7 de maio de 1982 —
RE 95.103-RJ — Rel.: Min. Néri da António Carlos de Azevedo Braga,
Silveira. Recte.: Rede Ferroviária Secretário.

RECURSO EXTRAORDINÁRIO N? 95.230 — MS


(Segunda Turiúa)
Relator: O Sr. Ministro Moreira Alves.
Recorrente: REMAT — Comércio e Representações Ltda. — Recorridos:
Daniel Inácio de Souza e sua mulher.
Qualificação Jurídica de contrato. Caracterização da sociedade
em conta de participação de natureza civil.
Inexistência de negativa de vigência do artigo 85 do Código Ci-
vil, porque, no caso, não se discute interpretação de cláusulas contra-
tuais, mas, sim, se o contrato em causa se enquadra, objetivamente,
no tipo legal da sociedade em conta de participação.
No caso, tendo em vista a não-ocorrência de elementos essen-
ciais à configuração da sociedade em conta de participação (a não-
transferência da propriedade do imóvel à parte contratante incumbi-
da da venda, e a responsabilidade perante terceiros, não desta, mas
de outra), não se negou vigência, também os artigos 325 do Código
Comercial, 1.364 do Código Civil e 267, VI, do Código de Processo Civil.
Dissídio de jurisprudência não demonstrado.
Recurso extraordinário não conhecido.
ACÓRDÃO Federal, na conformidade da ata do
Vistos, relatados e discutidos estes julgamento e das notas taquigráfi-
autos, acordam os Ministros da Se- cas, por unanimidade .de votos, não
Bunda Turma do Supremo Tribunal conhecer do recurso.
652 R.T.J. — 108

Brasília, 24 de novembro de 1981 — da ação proposta, porque o contra-


Djaci Falcão, Presidente — Moreira to refere-se a uma sociedade co--
Alves, Relator. mercial e assim caberia somente a
ação de dissolução e liquidação da
RELATÓRIO sociedade; que não têm interesse
de agir por que o mandato já foi
O Sr. Ministro Moreira Alves: extinto pela notificação judicial,
este o teor da sentença de primeiro admitindo-se — com os AA — que
grau (fls. 265/272): o contrato refere-se a prestação de
serviços de administração median-
«Daniel Inácio de Souza e sua es- te mandato. No mérito sustenta
posa Odete Roriz de Souza, brasi- que nunca deixou de remeter os
leiros, casados, residentes no Rio numerários aos AA, via ordem
de Janeiro, à rua Aires Saldanha, bancária, e que a auditoria realiza-
76, apartamento 1.106, via de advo- da não tem efeito jurídico algum;
gado, propõem a presente ação or- que a Ré nunca lhes deu cheque
dinária de rescisão de contrato sem fundos; que os lotes foram
contra a Remat — Comércio e Re- vendidos a prazo, mas com a pré-
presentações Ltda. — empresa co- via e expressa combinação dos só-
mercial com sede nesta cidade, à cios, ocorrendo que os AA, sempre
rua Maracaju, 892, aduzindo os se- estavam em C. Grande para tais
guintes argumentos de fato e de di- acertos; que a Ré investiu cerca de
reito: que em 12-8-74 os AA. cele- Cr$ 3.500.000,00 na sociedade e que
braram com a Ré contrato impro- não é verdade tenha a Ré recebido
priamente denominado de socieda- corretagem às escondidas dos AA.
de em conta de participação, tendo Juntaram à resposta os docs. de
por objeto o loteamento e venda à fls. 131. As fls. 133 manifestaram-
prestação de uma gleba de terras se os AA. dizendo que se trata de
na «Fazenda Serradinho», nesta ci- um contrato de empreitada e que a
dade, de propriedade dos AA, ten- resposta foi apresentada fora do
do estes entregues de imediato a prazo trazendo ainda os docs. de
administração da gleba à Ré, cum- fls. 140/161. As fls. 166 a Ré trepli-
prindo a sua prestação, cou. Vários documentos foram sen-
outorgando-lhe um mandato para do juntados pelas partes, inclusive
tal finalidade; que os AA. foram o de fls. 221 sobre o qual disseram
obrigados a revogar o mandato em os AA às fls. 248. As fls. 263 o des-
face da Ré inobservar o contrato, pacho acolhendo como tempestiva
praticando abuso de direito e até a contestação. Relato. Decido.
apropriando-se indebitamente das
importâncias recebidas dos presta- 1. Trava-se nos autos intensa
mistas; que em auditoria realizada pugna com a finalidade de se ca-
nos assentamentos das vendas e racterizar o contrato celebrado en-
recebimentos foram verificadas tre as partes: de empreitada ou de
várias falhas da Ré, tais como as sociedade.
relacionadas nas letras a, b, c, d e Antes de mais nada entendo que
e do item 7? da inicial; que os AA. as vontades das partes há de fun-
cumpriram a sua parte, podendo cionar nessa luta como um rumo,
exigir o cumprimento da obrigação uma direção a ser seguida. A con-
da Ré e mais as perdas e danos dai venção das partes seria, assim, a
decorrentes. Acostou ao pedido os primeira lei que os contratantes a
documentos de fls. 6/112. A Ré con- si próprios impuseram como nor-
testou às fls. 118 argüindo duas ma a observar. Quiseram as par-
preliminares que os AA. carecem tes, desenganadamente, celebrar

R.T.J. — los 653

um contrato de sociedade em conta forma que elas se defrontam e sim


de participação: mandaram f aze.- pela índole das operações que se
lo, buscaram a prévia assistência propõem a realizar.» O Objeto é o
jurídica e, finalmente, assinaram- critério dominante. Se esse objeto
no. Portanto, quando firmaram o é a prática de atos de comércio a
contrato, queriam e desejavam as- sociedade é comercial.» A essência
sinar ou firmar exatamente aquilo da sociedade é repartir lucros; a
que haviam encomendado, ou seja, da associação é reunir e congraçar
uma sociedade. Tanto assim que o esforços». Não basta porém, em
rotularam como sociedade em con- absoluto, que o contrato dê o nome
ta de participação, uma sociedade de sócio para que como tal seja
comercial. Assim, pelas partes e considerado todo aquele que iter-
com as partes temos uma socieda- vém no contrato. É essencial para
de comercial. Não seria correto — isso que haja uma participação nos
para nenhum dos contratantes — lucros e perdas e entrada de capi-
posteriormente à assinatura do tal, em dinheiro ou em indústria,
contrato, consciente e livre, vir a como veremos dentro em. Pouco».
juizo para «desdizer» — contra a
outra — o que foi celebrado em Assim, quem encarrega a ou-
conjunto, de modo expresso e enco- trem de vender quaisquer efeitos
mendado. Se os AA. desejavam por um preço prefixado, convencio-
empreitada, não deviam assinar nando que o vencedor faça seu o
um contrato de sociedade em conta excesso que obtiver na venda,
de participação. constitui um mandatário e não um
sócio, ainda que como tal o deno-
Poder-se-ia recordar aqui o mine. Grifo nosso. O que caracteri-
principio Nemo auditor propriam za essencialmente as sociedades
turbitudinem allegans. comerciais, tanto quanto as civis, é:
2. Abstraindo-nos, entretanto, a) a intenção de lucro: to) a parti-
desse prisma, podemos adentrar lha das perdas e ganhos.
na análise das cláusulas contra-
tuais firmadas para, então, che- O que se falar quanto á cláusula
garmos a uma conclusão. Antes, XV do contrato sub judice?
porém, cabe um intróito a respeito
da sociedade comercial e mais pre- J. X. Carvalho Mendonça em seu
cisamente sobre a sociedade em Tratado de Direito Comercial
conta de participação e sua disso- Brasileiro, Vol. III, pág. 14, ao es-
lução. tudar as noções gerais sobre o con-
trato de sociedade comercial, lem-
Manuel Inácio Carvalho Mendon- bra a todos que: «A sociedade co--
ça em seu Contratos no Direito mercial surge do contrato median-
Civil Brasileiro, Tomo II, pág. te o qual duas ou mais pessoas se
186, ao estudar a sociedade nos obrigam a prestar certa contribui-
deixa inúmeros elementos doutri- ção para um fundo, o capital so-
nários. Diz-nos: «a cogitação do cial, destinado ao exercício do co-
lucro e dos interesses materiais mércio, com a intenção de parti-
constitui o fim principal da maior lhar os lucros entre si». Da noção
parte da sociedade.» A diferença que ai fica, apura-se desde logo es-
única da sociedade civil e comer- ta singularidade: os sócios coope-
cial repousa no fim definitivo, no ram para o escopo comum, e, em
intuito de comércio da última, isto lugar dos interesses antagônicos ou
é, no exercício de ato de mediação opostos, que se observam nos ou-
com intuito de lucro». Não é pela tros contratos, no de sociedade, to-
654 R.T.J. —108

dos os sócios se esforçam para o pessoas, das quais uma pelo


mesmo resultado, no qual estão menos deve ser comerciante (a
empenhados». Remat), para a prática de uma ou
Na espécie qual seria o fim co- mais operações de comércio deter-
mum: venda dos lotes em forma de minadas (vendas dos lotes), traba-
loteamento, cláusula II. Tanto os lhando um, alguns ou todos os as-
AA. quanto a Ré empenharam-se sociados em seu nome individual
para esse resultado. Partilhariam para lucro comum (partilha de
o quê: o dinheiro apurado das ven- 50%). Grifos nossos. Temos aí a
das à vista ou a prazo, cláusula noção muito clara dessa socieda-
XV, em partes ideais. Quanto mais de». Há nessa sociedade duas cate-
vendessem lotes, mais poderiam gorias de sócios. Os sócios que se
partilhar. comunicam com terceiros, adqui-
rindo direitos e assumindo obriga-
Qual seria, in casu, o interesse ções em nome próprio, conquanto
antagônico ou oposto entre os AA. no interesse de todos, são chama-
e a Ré? Ckaincle? dos sócios-gerentes ou ostensivos.
3. O festejado Mestre, no volu- Os outros se denominam sócios
me IV do mesmo tratado, pág. 223, ocultos ou participantes. «A socie-
disseca para nós todos a sociedade dade não existe externamente.
em conta de participação. Leciona, Quem exerce o ato de comércio é o
verbl gratia, que: «O fato econômi- sócio ostensivo em seu nome indi-
co da participação é um dos mais vidual e por conta própria. Não po-
conhecidos e valiosos no círculo do de, conseguintemente, deixar de
comércio. O interesse de amparar ser comerciante».
os riscos que oferecem certas em- Adiante, o Mestre indaga-se: «Se-
presas, o desejo ou a necessidade rá realmente essa figura uma so-
de ocultar o próprio nome em tran- ciedade comercial? Tal questão há
sações ou operações mercantis, a sido muito discutida na doutrina
conveniência de poupar despesas negando-se-lhe o qualificativo de
com a organização de uma das for- sociedade pelo fato de não ter ela
mas de sociedades dotada com um fundo próprio autônomo».
personalidade, a urgência da ope-
ração que não permite o cumpri- E o próprio J. X. Carvalho
mento de múltiplas, de demoradas Mendonça nos responde:
formalidades, a natureza do negó- «Responde-se, porém, que sendo
cio que exige absoluta reserva, a sociedade o emprego de forças,
etc., tudo isso justifica a combina- de capitais para um fim comum, a
ção, denominada sociedade ou, se- sociedade em conta de participa-
gundo outros, associação em conta ção satisfaz essa exigência, pouco
de participação, a qual, não obs- importando a situação jurídica dos
tante conter reunidos os recursos capitais».
pecuniários de mais de uma pes- E sobre a dissolução dessas so-
soa, não aparece, ao menos juridi- ciedades, mostra-nos um caminho:
camente, nas relações para com «As sociedades em conta de parti-
terceiro ao contrário, as transa- cipação dissolvem-se pelos mes-
ções e operações, objeto dessa mos motivos que as outras socieda-
combinação, realizam-se sob o no- des e especialmente quando se ter-
me e responsabilidade de uma só mina o negócio para que foi ela
pessoa, física ou jurídica.» instituída. A dissolução, porém,
«A sociedade em conta de parti- não é sujeita a registro e publicida-
cipação é a que se forma entre de, em virtude do caráter da socie-
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