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44 ¿

O autor procurou, neste livro,


apresentar uma clara, breve e
compreensível introdução à éti­
ca que possa levar o principian­
te, o mais diretamente possível, a
lidar com os problemas funda­
mentais do tema.
R. M. Hare mostra como novos
métodos filosóficos permitem
compreender antigas controvér­
sias. Qual a natureza e a função
do discurso moral? Em que esse
discurso se assemelha ou difere
dos outros tipos de discurso?
Que importância ele pode ter
para as decisões que temos de
enfrentar continuamente? O que
significa tomar uma decisão mo­
ral e como ela pode ser justifica­
da? Essas e outras questões cen­
trais são discutidas com lucidez
neste livro que mereceu o reco­
nhecimento de juristas e outros
especialistas e que passou a ser
considerado um clássico na área.

CAPA
Projeto gráfico Katia Harumi Térasaka
Imagens Andrea Mantegna, Retrato de um homem (detalhe)
Antonello da Messina, Retrato de um jovem (detalhe)
Domenico Ghirlandaio, Retrato de G iovanna
Tom abuoni (detalhe)
A LINGUAGEM
DA MORAL
Esta obra fo i publicada originalmente
em inglês com o título TH E LANGUAGE OF M ORALS
por Clarendon Press. Oxford, em 1952. Reedições corrigidas em 1961 e 1972.
Copyright © Oxford University Press
Copyright © Livraria M artins Fontes E ditora L td a .,
São Paulo, 1996, para a presente edição

1- edição
dezembro de 1996

Esta tradução de "The Language o f M orais" {3- edição 1972, 7- tiragem )


f o i publicada com acordo do editor original Oxford University Press

Coordenação da tradução e texto final


Luís Carlos Borges
Tradução
Eduardo Pereira e Ferreira
Revisão gráfica
Solange M artins
Eliane Rodrigues de Abreu
Produção gráfica
G eraldo Alves
Paginação/Fotolitos
Stitdio 3 D esenvolvimento Editorial
Capa
Katia H arum i Teramka

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Hare, R. M.
A linguagem da moral / R. M. Hare ; tradução Eduardo Pe-
Teira e Ferreira. - São Paulo : Martins Fontes, 1996.

Título original: The language of morais.


ISBN 85-336-0567-6

1. Ética I. Título.

96-5015 CDD-170

Índices para catálogo sistemático:


1. Ética : Filosofia 170
2. Moral : Filosofia 170

Todos os direitos para o Brasil


reservados à Livraria M artins Fontes Editora Ltda.
Rua Conselheiro Ram alho, 330/340 01325-000
São Paulo SP Brasil Telefone 239-3677
índice

Prefácio................................................................................... VII

PRIMEIRA PARTE
O MODO IMPERATIVO
1. Linguagem prescritiva.................................................... 3
2. Imperativos e lógica........................................................ 19
3. Inferência.......................................................................... 33
4. Decisões de princípio..................................................... 59

SEGUNDA PARTE
“BOM”
5. “Naturalismo”................................................................. 85
6. Significado e critérios.................................................... 101
7. Descrição e avaliação..................................................... 119
8. Aprovar e escolher........................................................... 135
9. “Bom” em contextos morais......................................... 145

TERCEIRA PARTE
“DEVER”
10. “Dever” e “correto” 161
11. “Dever” e imperativos.................................................... 175
12. Um modelo analítico...................................................... ! 93

Notas........................................................................................ 211
Índice rem issivo...................................................................... 217
Prefácio

Planejei neste livro escrever uma introdução à ética clara,


breve e de fácil leitura, que possa levar o iniciante a lidar com
os problemas fundamentais do assunto tão diretamente quanto
possível. Portanto, ao reduzir o material que tinha preparado a
cerca da metade do volume original, deixei de fora a maioria
das qualificações, respostas a objeções menores e outras defe­
sas das quais tende a cercar-se o filósofo precavido. Embora
entenda que o enfoque da ética esboçado nestas páginas é de
modo geral produtivo, ficarei menos incomodado se meus lei­
tores discordarem de mim do que se nâo conseguirem me en­
tender. Quase todo parágrafo neste livro, assim como em outros
trabalhos de filosofia, requer alguma qualificação, mas forne-
cê-la a cada ocasião seria tornar minhas principais asserções
mais difíceis de apreender. Tentei, portanto, adotar em todo o
trabalho um ponto de vista o mais definido possível, na crença
de que é mais importante que haja discussão dos pontos aqui
levantados do que eu sobreviver incólume a eles.
A ética, tal como a entendo, é o:estudo lógico da lingua­
gem da moral. De modo geral, é mais fácil compreender a lógi­
ca muito complexa dos termos morais quando se tem algum
conhecimento dos tipos mais simples de lógica; porém, como
muitos estudantes de filosofia, por alguma razão, são obriga­
dos a estudar ética sem tal conhecimento, tentei não considerá-
VIH A LINGUAGEM DA MORAL

lo como pressuposto. Se alguém tomar este livro sem nenhuma


leitura prévia sobre filosofia, irá, espero, considerá-lo inteligí­
vel desde que siga esta regra simples; omitir quaisquer trechos
que considerar difíceis, prosseguir a leitura e voltar a eles mais
tarde. Incluí, em benefício dos que possam estar interessados,
certas referências bem rápidas a alguns dos “tipos de teoria éti­
ca” familiares e também aos trabalhos de alguns dos mais
conhecidos autores sobre ética; mas essas referências podem
ser ignoradas sem que se perca qualquer ponto essencial de mi­
nha argumentação. Coloquei no início a seção sobre “O Modo
Imperativo” porque me parece a mais fundamental; mas, como
talvez seja também a mais difícil, nao considerei pressuposto,
na Segunda Parte, o argumento da Primeira Parte; qualquer lei­
tor, por conseguinte, que queira ler essas duas partes na ordem
inversa é livre para fazê-lo.
Evitei deliberadamente referências aos problemas da psi­
cologia moral. Em particular, o problema conhecido como “A
Liberdade da Vontade”, que tem seu lugar na maioria das intro­
duções à ética, não é mencionado, e o problema geralmente
conhecido pelo título aristotélico de Akrasia, que deveria ser
discutido mais freqüentemente, é mencionado apenas de passa­
gem. Não porque considere desprezíveis esses problemas ou
porque não tenha nada a dizer sobre eles, mas porque são antes
problemas da linguagem da psicologia da moral do que da lin­
guagem da moral propriamente dita.
Meus agradecimentos, em primeiro lugar, ao diretor e aos
catedráticos do Balliol College, pela generosidade de liberar­
me, durante o ano 1950-51, dos meus deveres de professor, sem
o que a tarefa jam ais poderia ter sido realizada. Em segundo
lugar, tenho de agradecer aos examinadores do Prêmio de
Filosofia da Moral T. H. Green, aos Professores H. J. Patón e G.
Ryle e ao Sr. P, H. Nowell-Smith, por seus muitos comentários
proveitosos sobre minha dissertação para o prêmio, da qual a
Primeira Parte deste livro é uma condensação. Em terceiro lu­
gar, devo reconhecimento aos muitos, em Oxford e alhures,
PREFACIO IX

com os quais aprendi no curso da discussão a maior parte do que


é apresentado aqui; meu débito para com o Sr. J. O. Urmson, por
exemplo, ficará evidente. Tenho especial motivo para ser grato
ao Sr. D. Mitchell e aos Professores H. L. A. Hart, A. J. Ayer e A.
E. Duncan-Jones, que levaram parte ou todo o original datilo­
grafado e livraram-me de erros graves - pelos que possam ter
restado, peço perdão. O ensaio deste último para a Aristotelian
Society sobre “Asserções e Comandos” surgiu tarde demais
para permitir qualquer comentário no texto; o mesmo aplica-se
ao livro What is Vahie? do Professor Everett Hall, no qual o
assunto do presente livro é examinado numa escala mais ambi­
ciosa. Para uma discussão dos pontos de vista do Professor Hall
devo remeter o leitor a uma resenha a ser publicada em Mind.
Devo ainda agradecer ao Sr. B. F. McGuinness pelo auxílio na
compilação do índice Remissivo. Finalmente, caso a brevidade
pareça ter acarretado dogmatismo ao lidar com os escritos de
filósofos vivos ou mortos e injustiça para com suas doutrinas,
devo confessar que aprendi tanto com os autores com os quais
talvez pareça discordar como com aqueles que aplaudo.
Dedico este estudo da linguagem moral àqueles homens e
mulheres bons sem cujas vidas o moralista estaria desperdiçan­
do seu fôlego, e especialmente a minha mulher.

R. M. H.

BALLIOL COLLEGE
1952

Na segunda impressão fiz algumas correções de pouca


importância que nao envolvem alteração radical do texto, Se
estivesse reescrevendo o livro, eu o escreveria de forma dife­
rente, já que agora tenho a vantagem de saber o que foi mal
compreendido e o que induziu a erro. Embora meus pontos de
vista tenham mudado em algumas particularidades, não se alte-
X A LINGUAGEM DA MORAL

raram em qualquer aspecto que me pareça fundamental. Sou


muito grato aos que me ajudaram a esclarecer essas questões
tecendo comentários sobre meus argumentos. Quanto às minhas
presentes opiniões, devo remeter o leitor a um novo livro, conti­
nuação deste, que espero publicar em breve*.

R. M. H.

BALLIOL COLLEGE
1960

* Freedom and Reason (Clarendon Press, 1963).


PRIMEIRA PARTE
O modo imperativo

“A virtude, então, é uma disposição que governa nossas


escolhas.”

ARISTÓTELES, Ètic. Mc. 110ób36


Capítulo 1
Linguagem prescritiva

1 .1 . Se perguntássemos a uma pessoa “Quais são seus


princípios morais?” a maneira pela qual poderíamos ter mais
certeza de uma resposta verdadeira seria estudando o que ela
faz. Ela pode, logicamente, professar em seu discurso toda
sorte de princípios que desconsidera completamente em suas
ações; mas, quando estivesse frente a escolhas ou decisões
entre cursos de ação alternativos, entre respostas alternativas à
questão “Que devo fazer?”, conhecendo todos os fatos relevan­
tes de uma situação, ela revelaria em quais princípios de condu­
ta realmente acredita. A razão pela qual as ações; de uma
maneira peculiar, são reveladoras de princípios morais-é que á
Iungão dos princípios morais é orientar a conduta.-A linguagem
da moral é uma espécie de linguagem prescritiva. E é isso que
luz da ética algo que vale a pena estudar pois a pergunta “O que
devo fazer?” é uma a que não podemos nos esquivar por muito
tempo; os problemas da conduta, embora às vezes menos diver-
tidos que palavras cruzadas, têm de ser resolvidos de forma
di ¡crente das palavras cruzadas. Não podemos esperar para ver
a solução no próximo número porque da solução dos problemas
depende o que acontecerá no próximo número. Assim, num
mundo em que os problemas da conduta tornam-se mais com­
plexos e atormentadores a cada dia, há uma grande necessidade
de compreensão da linguagem na qual esses problemas são
4 A LINGUAGEM DÁ MORAL

colocados e respondidos. Pois a confusão quanto a nossa lin­


guagem moral leva não meramente a confusões teóricas, mas a
perplexidades práticas desnecessárias.
Uma maneira antiquada, mas ainda útil, de estudar qual­
quer coisa é p e r genus et differentiam; se a linguagem moral
pertence ao gênero “linguagem prescritiva”, compreenderemos
muito facilmente sua natureza se compararmos e contrastarmos,
antes de tudo, a linguagem prescritiva com outros tipos de lin­
guagem e, depois, a linguagem moral com outros tipos de lingua­
gem prescritiva. Esse, em poucas palavras, é o plano deste livro.
Partirei do simples para o mais complexo. Tratarei primeira­
mente da forma mais simples da linguagem prescritiva, a sen­
tença imperativa comum. O comportamento lógico desse tipo
de sentença é de grande interesse para o estudante da linguagem
moral porque, apesar de sua comparativa simplicidade, suscita,
em forma facilmente discemível, muitos dos problemas que têm
assolado a teoria ética. Portanto, embora não seja parte de meu
propósito “reduzir” a linguagem moral a imperativos, o estudo
dos imperativos é de longe a melhor introdução ao estudo da
ética, e se o leitor não percebe imediatamente a relevância para a
ética da parte inicial da discussão, devo pedir-lhe paciência. O
desprezo aos princípios enunciados na primeira parte deste livro
é a fonte de muitas das mais insidiosas confusões na ética.
Dos imperativos singulares partirei para os imperativos ou
princípios universais. A discussão destes, e de como os adota­
mos ou rejeitamos, dar-me-á oportunidade de descrever os pro­
cessos de ensino e aprendizado e a lógica da linguagem que
usamos para esses propósitos. Já que um dos usos mais impor­
tantes da linguagem moral é o ensino moral, a relevância dessa
discussão para a ética será evidente.
Discutirei em seguida um tipo de linguagem prescritiva
que está mais intimamente relacionado com a linguagem da
moral do que o imperativo simples. É a linguagem dos juízos de
valor não-morais - todas as sentenças que contêm palavras
como “dever”, “certo” e “bom” que não são juízos morais.
Procurarei demonstrar que müitás das características que têm
O MODO IMPERATIVO 5

causado problemas a estudantes de ética também são exibidas


por esses tipos de sentenças - tanto assim que uma compreen­
são adequada destes contribui muito para a elucidação dos pro­
blemas da própria ética. Tomarei separadamente as duas pala­
vras morais mais típicas, “dever” (verbo) e “bom”, e discutirei
primeiramente seus usos não-morais, e depois seus usos
morais; em cada caso espero mostrar que esses usos têm muitas
características em comum. Como conclusão relacionarei a lógi­
ca de “dever” e “bom”, em contextos morais e não-morais, à
lógica dos imperativos* elaborando um modelo lógieo/.emíque
conceitos artificiais, que poderiam até certo ponto servir eomo
palavras de valor da linguagem comum, sao definidos nos ter­
mos de um modo imperativo Codificado. Esse modelo não
deve ser tomado muito seriamente; pretende-se com ele somen­
te uma esquematização bastante aproximada da discussão pre­
cedente, a qual contém a substância daquilo que tenho a dizer.
Assim, a classificação da linguagem prescritiva que propo­
nho pode ser representada da seguinte forma:
Linguagem Prescritiva

Imperativos Juízos de Valor.

Singulares Universais N8o~Morais Morais


Esta é apenas uma classificação grosseira; ficará mais pre­
cisa no decorrer do livro; por exemplo, será visto que os chama­
dos “imperativos universais” da linguagem comum não são
universais propriamente ditos. Tampouco quero sugerir que a
classificação é exaustiva; há, por exemplo, muitos tipos dife­
rentes de imperativos singulares e de juízos de valor não-
morais; e há outros tipos de imperativos além dos singulares e
universais. Porém, a classificação é boa o bastante para come­
çar e explica o plano deste livro.
6 A LINGUAGEM DA MORAL

1.2. Os autores de livros de gramática elementar por vezes


classificam as sentenças segundo o que exprimem: afirmações,
comandos ou perguntas. Essa classificação não é exaustiva ou
rigorosa o bastante para o lógico. Por exemplo, os lógicos devo­
taram muito trabalho à demonstração 4e que sentenças no
modo indicativo podem ter caracteres lógicos diversos, e que a
classificação de todas sob o nome único de “afirmações” pode
levar a erro grave se nos fizer ignorar as importantes diferenças
entre elas. Veremos na parte final deste livro como um tipo de
sentença indicativa, a que expressa juízos de valor, tem um
comportamento lógico inteiramente diverso da sentença indica­
tiva comum.
Os imperativos, da mesma forma, são um agrupamento
heterogêneo. Mesmo que excluamos sentenças como “ Would I
were in Grantchester!” [“Quem dera eu estivesse em Grantches-
ter!”], que são discutidas por alguns gramáticos em seus livros
na mesma seção dedicada aos imperativos, temos ainda, em
meio a sentenças que estão no modo imperativo propriamente
dito, muitos tipos diferentes de enunciado. Temos ordens milita­
res (de desfiles e outras), especificações arquitetônicas, instru­
ções para preparar omeletes ou operar aspiradores de pó, conse­
lhos, pedidos, súplicas, e outros incontáveis tipos de sentenças,
com muitas funções que se sobrepõem umas às outras. A distin­
ção entre esses vários tipos de sentenças proporcionaria material
a um bom lógico para muitos artigos nos periódicos de filoso­
fia; mas num trabalho desta natureza é necessário ser ousado.
Seguirei, portanto, os gramáticos e empregarei o termo único
“comando” para cobrir todas essas coisas que as sentenças no
modo imperativo expressam e, dentro da classe dos comandos,
farei somente algumas distinções bastante amplas. A justificati­
va para esse procedimento é que espero interessar o leitor em
características que são comuns a todos, ou praticamente todos,
esses tipos de sentença; com suas diferenças ele sem dúvida está
familiarizado o bastante. Pela mesma razão empregarei a pala­
vra “afirmação” para abrigar tudo o que é expresso por senten-
mifijiATivo. 7

•v Mttlu ativ-aS típicas, se é que tais existem. Estarei delineando


,.(n . . miraste, por assim dizer, entre sentenças como “Feche a
f>'/i.i v sentenças como “Você vai fechar a porta”.
I- difícil negar que há uma diferença entre afirmações e
i »»mandos; mas é muito mais difícil dizer precisamente qual é a
ihiavnça. Não é meramente de forma gramatical, pois se tivés­
semos de estudar uma língua recentemente descoberta seria­
mos capazes de identificar as formas gramaticais usadas para
exprimir afirmações e comandos, respectivamente, e denomi­
naríamos essas formas “indicativo” e “imperativo” (se a língua
Iosse construída de tal forma que essa distinção fosse útil)..A
distinção encontra-se entre os significados que as diferentes
¡orinas gramaticais expressam. Ambas são empregadas para
falar sobre um assunto, mas são empregadas para falar dele de
maneiras diferentes. A s duas sentenças, “Você vai fechar a
porta” e “Feche a porta”, falam-sobre<você fechar a porta no fu­
turo imediato, mas o que elas dizem sobre isso é bem diferente.
Uma sentença indicativa é utilizada para contar a alguém que
algo acontece; um imperativo não - é usado para dizer a
alguém que faça algo acontecer.
1.3. Vale bem a pena para o filósofo da moral gastar tempo
e esforço examinando algumas das teorias que têm sido, ou que
podem ser, sustentadas quanto à maneira como os imperativos
têm significado. Elas oferecem um paralelo muito interessante
a teorias similares sobre os juízos morais, e esse paralelo indica
que pode haver alguma similaridade lógica importante entre as
duas. Consideremos primeiramente duas teorias, similares ao
tipo de teoria ética ao qual darei posteriormente o nome “natu­
ralista” (5.3). Ambas são tentativas de “reduzir” imperativos a
indicativos..A primeira faz isso representando-os como expri­
mindo afirmações sobre a mente do falante. Assim como se
sustentou que “A está correto” significa “Aprovo A”, também
seria possível sustentar que “Feche a porta” significa “Quero
que você feche a porta”. Não há, no plano coloquial, nenhum
problema em dizer isso; mas filosoficamente pode ser bastante
8 A LINGUAGEM DA MORAL

enganoso. Tem como conseqüência que, se digo “Feche a por­


ta” e você diz (para a m esma pessoa) “Não feche a porta”, não
estamos nos contradizendo, e isso é esquisito. O defensor da
teoria pode replicar que, embora não haja contradição, há um
desacordo de vontades, e que isso é suficiente para explicar o
sentimento que temos de que as duas sentenças são, de alguma
forma, incompatíveis (que “não” tem a mesma função que na
sentença “Você não vai fechar a porta”). Mas permanece a difi­
culdade de que a sentença “Feche a porta” parece ser sobre fe­
char a porta e não sobre o estado mental do falante, da mesma
form a que instruções para preparar omeletes (“Tome quatro
ovos, etc.”) são instruções sobre ovos, e não análises introspec­
tivas da psique da Sra. Beeton. Dizer que “Feche a porta” signi­
fica o m esmo que “Quero que você feche a porta” é como dizer
que “Você vai fechar a porta” significa o mesmo que “Creio
que você vai fechar a porta” . Em ambos os casos parece estra­
nho descrever um comentário sobre fechar a porta como um co­
m entário sobre o que está acontecendo na minha mente. Mas,
na realidade, nem a palavra “creio” nem a palavra “quero” ad­
m itirão tal interpretação. “ Creio que você vai fechar a porta”
não é (exceto numa forma altamente figurativa) uma afirmação
sobre a m inha mente; é uma afirm ação sobre você fechar a
porta, um a versão mais hesitante de “Você vai fechar a porta”;
e, sim ilarm ente, “ Quero que você feche a porta” não é uma
afirm ação sobre m inha mente mas um a maneira educada de
dizer o imperativo “Feche a porta”. A menos que compreenda­
mos a lógica de “Você vai fechar a porta”, não podemos com­
preender a lógica de “Creio que você vai fechar a porta”; e, de
maneira similar, a não ser que compreendamos “Feche a porta” ,
é improvável que compreendamos “Quero que você feche a
porta” . A teoria, portanto, não explica nada, e a teoria ética
paralela está no mesmo caso pois “Aprovo A ” é meramente
uma forma m ais complicada e perifrástica de dizer “A está cor­
reto”. Não é uma afirmação, verificável por observação, de que
tenho um sentimento reconhecível ou um estado mental recor-
M im o IMPERATIVO 9

i ente; é um juízo de valor; se pergunto “Aprovo A?”, minha res-


1'nsTa é uma decisão moral, não uma observação de fato intros-
(icciível. “Aprovo A” seria ininteligível para alguém que não
entendesse “A está correto”, e a explicação é um caso de obscu-
iim per obscurius.
1.4. A segunda tentativa de reduzir imperativos a indicati­
vos que quero considerar é a do Dr. H. G. Bohnert1. Esta inte­
ressante sugestão pode ser resumida (espero que sem injustiça)
pela afirmação de que “Feche a porta” significa o mesmo que
Você vai fechar a porta, ou X acontecerá”, onde se entende ser
X algo ruim para a pessoa a que se dirige. Uma teoria sim ilar
seria a de que significaria o mesmo que “Se você não fechar a
porta, X acontecerá” . Essa teoria é análoga a teorias éticas do
tipo que igualam “A está correto” a “A conduz a Y”, onde Y é
algo considerado bom pela generalidade, como, por exemplo, o
prazer ou a prevenção da dor. Veremos mais tarde que as
expressões de valor por vezes adquirem - em razão da constân­
cia dos padrões pelos quais são aplicadas - uma certa força des­
critiva; assim, se, numa sociedade cujos padrões são m arcada­
mente utilitários, dizemos “O Serviço de Saúde fez m uita coisa
boa”, todos sabem que estamos sugerindo que o Serviço de
Saúde evitou muito sofrimento, angústia, etc. Similarmente, no
caso de imperativos que são em alto grau “hipotéticos” (3.2)
porque percebemos rapidamente à conquista de que fim ou à
prevenção de que resultado desfavorável são dirigidos, a análi­
se de Bohnert é plausível. Para tomar seu próprio exemplo, “Cor­
ra”, dito numa casa em chamas, é algo similar em intenção a
“Você corre ou morre queimado”. Porém em casos onde o fim
almejado não é reconhecido tão faci lmente (o imperativo sendo
“hipotético” somente em pequeno grau, ou nem isso), o ouvinte
pode ter dificuldades para compreender, nessa análise, o que
deve colocar depois da palavra “ou”. É muito difícil perceber
de que forma uma sentença como “Por favor diga a seu pai que
liguei” seria analisada na teoria de Bohnert. Está claro, sempre
é possível concluir a análise com “ou algo ruim acontecerá” ;
10 A LINGUAGEM DA MORAL

mas esse expediente é bem-sucedido somente através da rein-


trodução na análise de um a palavra prescritiva, pois “ruim ” é
um a palavra de valor, e portanto prescritiva. E, similarmente,
teorias teleológicas da ética que interpretam “correto” como
“conducente a Z ”, onde “Z” é um a palavra de valor, tal como
“satisfação” ou “felicidade”, apenas armazenam para si a difi­
culdade de analisar tais palavras.
A tentação de reduzir imperativos a indicativos é muito
forte, e tem a mesma origem que a tentação de analisar palavras
de valor da maneira denominada “naturalista”. É o sentimento
de que a sentença indicativa propriamente dita, da qual se pensa
que existe apenas um tipo, está, de algum modo, acima de sus­
peita de um a forma que outras espécies de sentenças não estão
e que, portanto, para colocar acim a de suspeita essas outras
espécies de sentenças, é necessário m ostrar que são realmente
indicativas. Esse sentimento foi intensificado quando a chama­
da teoria “verificacionista” do significado tornou-se popular.
Essa teoria, que, de muitas maneiras, é bastante fecunda em sua
esfera própria, sustenta, grosseiramente falando, que uma sen­
tença não tem significado a menos que haja algo que venha a
ser se for verdadeira. Ora, essa é uma explicação muito promis­
sora de um a das formas em que um a determinada classe de sen­
tenças (as indicativas típicas) tem significado. Obviamente,
caso se alegue que uma sentença expressa uma afirmação de
fato e, não obstante, não temos nenhuma idéia do que acontece­
ria se fosse verdadeira, então essa sentença (para nós) não tem
significado. Porém se esse critério de significação, que é útil no
caso de afirmações de fato, for aplicado indiscriminadamente a
tipos de elocução que não pretendem expressar afirmações de
fato, surgirão problemas. As sentenças imperativas não satisfa­
zem esse critério, e pode ser que sentenças que expressam ju í­
zos morais também não; mas isso mostra apenas que elas não
expressam afirmações no sentido definido pelo critério, e esse
sentido pode ser mais restrito do que o do uso normal. Isso não
significa que não têm significado ou mesmo que seu significa-
<> MODO IMPERATIVO 11

>!>> c de um caráter tal que não se pode fornecer nenhuma regra


lógica para seu emprego2.
I3 .T T s e n tim é n to d e que somente “indicativos propria­
mente ditos” estão acima de suspeita pode sobreviver (surpre­
endentemente) à descoberta de que há sentenças com significa­
dos perfeitamente satisfatórios no nosso discurso comum que
não são redutíveis a indicativos. Sobrevive na assunção de que
qualquer significado descoberto para essas sentenças deve ser
necessariamente de condição logicamente inferior à dos indica­
tivos. Essa assunção levou filósofos como o Professor A. J.
Aver, no decorrer da exposição de suas pesquisas mais valiosas
quanto à natureza lógica dos juízos morais, a fazer comentários
incidentais que originaram desnecessárias torrentes de protes­
to3. A substância da teoria de Ayer é que os juízos morais não
funcionam comumente da mesma maneira que a classe de sen­
tenças indicativas destacadas por seu critério de verificação.
Mas, pela forma de apresentar sua opinião e por sua assim i­
lação dos juízos morais a outros tipos (bem distintos) de sen­
tença que são também diferenciados de indicativos típicos pelo
seu critério, ele levantou poeira que ainda não abaixou. Tudo
isso poderia encontrar um paralelo próximo em um tratamento
similar dos imperativos - e parece que autores da mesma linha
geral de pensamento de Ayer teriam dito sobre os imperativos a
m esma espécie de coisa que disseram sobre os juízos morais.
Suponha-se que reconhecemos o fato óbvio de que os imperati­
vos não são como os indicativos típicos. Suponha-se, ainda,
que consideramos acima de suspeita somente os indicativos
típicos. Será natural, então, dizer “Os imperativos não afirm am
nada, apenas expressam desejos”. Então, dizer que os imperatiT
vos expressam desejos é, como a prim eira teoria que considera­
mos, incontestável no plano coloquial; na verdade, se alguém
dissesse “Deixe meu nome fora disso”, diríamos que expressou
um desejo de ter seu nome mantido fora disso. Mas, não obs­
tante, a extrema ambigüidade da palavra “expressar” pode ge­
rar confusão filosófica. Falamos de expressar afirmações, opi­
12 A LINGUAGEM DA MORAL

niões, crenças, relações matemáticas, e assim por diante, e, se é


em um desses sentidos que a palavra é empregada, a teoria, em­
bora nos diga pouco, é inofensiva. Mas, infelizmente, é empre­
gada também de formas que são diferentes dessas, e o emprego
de Ayer (quando fala de juízos morais) da palavra “evidenciar”
como seu sinônimo aproximado foi perigoso. Dizem que artis­
tas, compositores e poetas expressam seus próprios sentimen­
tos e os nossos; dizem que imprecações expressam raiva e que
dançar em cima da m esa pode expressar alegria. Assim, dizer
que os imperativos expressam desejos pode levar os incautos a
supor que o que ocorre quando empregamos um deles é isto:
temos fervilhando dentro de nós uma espécie de ânsia, à qual,
quando a pressão íorna-se forte demais para a suportarmos,
damos vazão dizendo uma sentença imperativa. Tal interpreta­
ção, quando aplicada a sentenças como “Fornecer e ajustar à
m ortagem da porta tranqueta dormida e maçaneta plástica” , é
implausível. E parece que os juízos de valor também podem
deixar de satisfazer o critério de verificação e ser, em certo sen­
tido, como os imperativos, prescritivos sem que se diga tal
coisa a seu respeito. É perfeitamente inatacável, no plano colo­
quial, dizer que a sentença “A é bom” é usada para expressar
aprovação de A ( The Shorter Oxford English Dictionary diz:
“Aprovar: ... declarar bom ”), mas é filosoficam ente enganoso
se pensamos que a aprovação expressa é um sentimento tem o e
esquisito»'dentro de nós. Se o ministro do interior expressa apro­
vação do plano de m inha cidade mandando seus subalternos
escrever-me dizendo “O ministro aprova seu plano” ou “O
ministro considera seu plano o melhor”, não vou, em nenhuma
circunstância, confirmar a carta mandando um detetive particu­
lar espreitar o ministro atrás de sinais de emoção. Nesse caso,
enviar tal carta é aprovar.
1.6. Não poderia haver nenhuma analogia, no caso dos im­
perativos singulares, da variedade “postura” da teoria da apro­
vação de juízos de valor4, mas é possível construir tal teoria
para as sentenças imperativas universais. Se alguém dissesse
- 1MODO IMPERATIVO 13

"Nunca bata num homem quando ele estiver caído”, seria natu­
ra! dizer que expressou um a determinada postura para com ta!
conduta. É extremamente difícil definir exatamente essa postu­
ra ou fornecer critérios para seu reconhecimento, assim como é
difícil dizer exatamente o que é a aprovação moral em oposição
a outros tipos de aprovação. A única maneira segura de caracte­
rizar a postura expressa por um imperativo universal é dizer “A
postura de que não se deve (ou se deve) fazer isso e aquilo”, e a
única maneira segura de caracterizar a postura expressa por um
juízo moral é dizer “A postura de que é errado (ou certo) fazer
isso e aquilo”. Manter uma postura de “aprovação moral” para
com determinada prática é ter uma disposição para pensar, nas
ocasiões apropriadas, que ela é certa; ou, se mesmo “pensar” é
uma palavra disposicional, é simplesmente pensar que é certa;
e nosso pensar que é certa pode ser traído ou exibido - os beha-
vioristas diriam constituído - quando atuamos de determinadas
formas (acima de tudo, realizando atos do tipo em questão
quando surge o momento; depois, dizendo que estão certos,
aplaudindo-os de outras maneiras, e assim por diante). Mas não
há nada em tudo isso que explique precisamente o que se pensa
quando se pensa que um a determinada espécie de ato é certa. E,
similarmente, se disséssemos que “Nunca bata num hom em
quando ele estiver caído” expressa um a postura de que não se
deve bater, etc. (ou uma atitude de aversão ao ato de bater, ou
uma “contrapostura” ao ato de bater), não teríamos dito nada
inteligível para alguém que não entendeu a sentença que está-
vamos tentando explicar.
Quero enfatizar que não estou buscando refutar nenhuma
dessas teorias. Todas elas têm a característica de, quando colo­
cadas em termos do cotidiano, não dizer nada contestável no
que diz respeito a suas asserções principais; mas, quando bus­
camos entender como elas explicam as perplexidades filosófi­
cas que as geraram, somos forçados a interpretá-las de maneira
a torná-las implausíveis ou então descobrir que elas meramente
expõem os mesmos problemas de forma mais complicada. Sen­
14 A LINGUAGEM DA MORAL

tenças que contêm a palavra “aprovar” são de análise tão difícil


que não parece razoável usar essa noção para explicar o signifi­
cado de juízos morais que aprendemos a fazer anos antes de
aprender a palavra “aprovar”; e, de modo similar, não seria
razoável explicar o significado do modo imperativo em termos
de desejo ou qualquer outro sentimento ou postura; pois apren­
demos a reagir e a usar comandos bem antes de aprendermos as
noções comparativamente complexas de “vontade”, “desejo”,
“aversão”, etc.
1.7, Devemos agora considerar outro grupo de teorias,
muitas vezes sustentado simultaneamente com o grupo recém-
considerado. Essas sustentam que, na linguagem, a função dos
juízos m orais ou dos imperativos (que as teorias muitas vezes
equiparam) é afetar causalmente o comportamento ou as emo­
ções do ouvinte. O Professor R. Carnap escreve:

M as, na verdade, um a afirm ação de valor nada mais é do


que um comando num a form a gram atical enganosa. Pode ter
efeitos sobre as ações dos homens, e esses efeitos podem estar
em concordância com nossos desejos ou não; mas não é verda­
deira nem falsa5.

e o Professor Ayer escreve:

Os termos éticos não servem apenas para expressar o senti­


mento. São calculados tam bém para despertar o sentimento e,
assim, para estim ular a ação. Na verdade, alguns deles são em­
pregados de forma a dar às sentenças em que ocorrem o efeito de
com andos6.

Mais recentemente esse tipo de ponto de vista foi elabora­


do pelo Professor Stevenson7. Aqui, novamente, temos um tipo
de teoria que pode ser inofensiva no plano coloquial, mas que
sugere erros filosóficos por parecer assimilar os processos de
utilização de um comando ou juízo m oral a outros processos
que, na verdade, são marcadamente dissimilares.
O MODO IMPERATIVO 15

É realmente verdadeiro no que diz respeito a sentenças im­


perativas que se alguém, ao empregá-las, está sendo sincero ou
honesto, pretende que a pessoa a que se dirige deva fa ze r algo
(a saber, aquilo que está ordenando). Isso é realmente um teste
de sinceridade no caso de comandos, assim como se crê que
uma afirmação é sincera apenas se o falante acredita nela. E há
critérios similares, como veremos mais tarde, para assentir sin­
ceramente a comandos e afirmações dados ou feitos por ou­
trem. Mas não é exatamente isso o que as teorias sugerem. Elas
sugerem, antes, que a função de um comando é afetar o ouvinte
causalmente ou conseguir que faça algo; e dizer isso pode ser
enganoso. No linguajar comum não há nenhum mal em dizer
que, ao usar um comando, nossa intenção é conseguir que
alguém faça alguma coisa, mas, para propósitos filosóficos,
deve-se fazer uma distinção importante. Os processos de dizer
a alguém que faça alguma coisa e conseguir que ele a faça são,
logicamente, bem distintos um do outro8. A distinção pode ser
elucidada considerando-se uma distinção paralela no caso das
afirmações. Dizer a alguém que alguma coisa é logicamente é
distinto de conseguir (ou tentar conseguir) que ele acredite
nela. Tendo dito a alguém que algo é, podemos, se ele não está
disposto a acreditar no que dizemos, iniciar o processo bem
diferente de tentar fazê-lo acreditar (tentar persuadi-lo ou con­
vencê-lo de que o que dissemos é verdadeiro). Ao buscar expli­
car a função das sentenças indicativas, ninguém diria que elas
são tentativas de persuadir alguém de que algo é. E não há mais
motivos para dizer que os comandos são tentativas de persuadir
alguém ou conseguir que alguém faça algo; aqui, também, pri­
meiramente dizemos a alguém o que deve fazer e, então, se ele
não está disposto a fazer o que dizemos, podemos iniciar o pro­
cesso completamente diferente de tentar conseguir que o faça.
Assim, a instrução já mencionada “Fornecer e ajustar à morta-
gem da porta tranqueta dormida e maçaneta plástica” não pre­
tende estimular carpinteiros a entrar em atividade; para tal pro­
pósito empregam-se outros meios.
16 A LINGUAGEM DA MORAL

Essa distinção é importante para a filosofia moral pois, na


verdade, a sugestão de que a função dos juízos morais era per­
suadir levava a uma dificuldade em distinguir sua função da
função da propaganda9. Como vou chamar a atenção para algu­
mas similaridades entre comandos e juízos morais e classificar
ambos como prescrições, exijo enfaticamente dissociar-me da
confusão de qualquer um a dessas duas coisas com a propagan­
da. Temos aqui, como muitas vezes em filosofia, uma mistura
de duas distinções. A primeira é entre a linguagem das afirm a­
ções e a da linguagem prescritiva. A segunda é entre dizer algo
a alguém e conseguir que creia ou que faça o que lhe disseram.
Que essas duas distinções são bem diferentes e sobrepõem-se
um a à outra deve ficar claro após uma breve consideração. Pois
podemos dizer a alguém que algo é ou que faça algo; não há
tentativa de persuasão (ou de influenciar, induzir ou conseguir).
Se a pessoa não está disposta a assentir ao que lhe dizemos, po­
demos então recorrer à retórica, à propaganda, a fatos adicio­
nais, ardis psicológicos, ameaças, suborno, tortura, zombaria,
promessas de proteção e uma variedade de outros expedientes.
Todas essas são maneiras de induzi-lo a fazer ou a conseguir
que faça algo; as quatro prim eiras são tam bém maneiras de
fazê-lo acreditar em algo; nenhuma delas é um a maneira de di­
zer-lhe algo, embora as que envolvem o emprego da linguagem
possam incluir dizer-lhe toda sorte de coisas. Consideradas
como induzimentos ou expedientes de persuasão, seu sucesso é
julgado unicamente por seus efeitos - se a pessoa crê no que
tentamos fazê-la crer ou faz o que tentamos conseguir que faça.
Não importa se os meios usados para persuadi-la são válidos ou
inválidos, contanto que a persuadam. E, portanto, a reação
natural quando nos damos conta de que alguém está tentando
nos persuadir é “Ele está tentando me influenciar; preciso ficar
alerta; não posso perm itir que ele influa na m inha decisão de
form a desleal; devo ter cuidado para tom ar m inha decisão
sobre o assunto e permanecer um agente responsável livre”. Tal
reação a juízos morais não deve ser encorajada por filósofos.
O MODO IMPERATIVO 17

Por outro lado, essas não são reações naturais ao fato de alguém
nos dizer que algo é ou ao fato de nos ordenar que façamos algo
(por exemplo, encaixar um a tranqueta na porta). Dizer a al­
guém que faça algo, ou dizer que algo é, é responder à pergunta
“O que farei?” ou “Quais são os fatos?”. Quando respondemos
essas perguntas o ouvinte sabe o que fazer ou quais são os fatos
- se o que lhe dissemos estiver certo. Com isso, ele não é neces­
sariamente influenciado de um a forma ou de outra nem fracas­
samos se deixa de sê-lo pois ele pode decidir descrer ou deso-
bedecer-nos, e o mero fato de dizer a ele não faz nada - e não
procura fazer nada ~ para impedir que faça isso. Mas a persua­
são não é dirigida a uma pessoa como agente racional que está
perguntando a si (ou a nós) “O que farei?”; não é uma resposta
a esta ou a qualquer outra pergunta; é uma tentativa de fa ze r
com que a responda de m aneira particular.
É fácil perceber, portanto, por que a chamada “teoria impe­
rativa” dos juízos morais suscitou protestos. Por basear-se nu­
ma concepção errônea da função, não apenas dos juízos m o­
rais, mas também dos comandos aos quais estavam sendo assi­
milados, ela parecia impugnar a racionalidade do discurso mo­
ral. M as se percerbemos que os comandos, por mais que pos­
sam diferir das afirmações, são semelhantes a eles no seguinte,
no fato de que consistem em dizer algo a alguém, não em bus­
car influenciá-lo, não há problema em chamar a atenção para as
similaridades entre os comandos e os juízos morais. Pois, como
demonstrarei, os comandos, porque se destinam, assim como as
afirmações, essencialmente a responder questões colocadas por
agentes racionais, são regidos por regras lógicas, como as afir­
mações. E isso significa que os juízos morais também podem
ser regidos dessa forma. Lembramos que o maior de todos os
racionalistas, Kant, referia-se aos juízos morais como imperati­
vos, embora também devamos lembrar que estava empregando
esse termo num sentido ampliado e que os juízos morais, em ­
bora sejam semelhantes aos imperativos em alguns aspectos,
são diferentes em outros (11.5).
« .ifiiiulo 2
Imperativos e lógica

2.1. Para caracterizar claramente a diferença entre impera­


tivos e indicativos será útil analisar os dois tipos de sentença, de
forma a tornar evidente que elementos de significado eles têm
cm comum e, assim, isolar a diferença essencial. Como já ten­
tei fazer isso num artigo a que me referi acima (1.4), serei o
mais breve possível.
Notamos que as duas sentenças “Você vai fechar a porta” e
“Feche a porta” são ambas sobre a mesma coisa, a saber, você
lechar a porta no futuro imediato, mas que são utilizadas para
dizer coisas diferentes sobre isso. É puramente um acidente
gramatical que as partes da sentença falada ou escrita, que, em
cada um dos casos, referem-se a essa coisa sobre a qual falam,
não sejam idênticas. Remodelemos as sentenças mais clara­
mente, escrevendo nos dois casos uma expressão idêntica para
nos referirmos a essa coisa sobre a qual falam. A expressão
pode ser:

Você fechar a porta no futuro imediato.

Teremos então de adicionar algo, diferente em cada caso,


que forneça o restante do que cada sentença comunica. O que
temos até aqui diz-nos bastante claramente do que tratam as
sentenças. Não nos diz, porém, o que o falante está dizendo
20 A LINGUAGEM DA MORAL

sobre isso. Não sabemos se ele está afirmando que você fechar
a porta no futuro imediato é o que vai acontecer ou será, ou se
ele está nos dizendo que façamos isso acontecer ou alguma
outra coisa. Para completar as sentenças, portanto, algo tem de
ser acrescentado para que nos digam isso. Poderíamos comple­
tar as sentenças como um comando ou como uma afirmação,
respectivamente, escrevendo:

Você fechar a porta no íuturo imediato, por favor.


Você fechar a porta no futuro imediato, sim.

Essas duas sentenças corresponderiam às sentenças


normais:

Feche a porta.
Você vai fechar a porta.

Necessitaremos de termos técnicos para nos referirmos a


essas diferentes partes das sentenças. Os termos adotados em
meu artigo não são totalmente satisfatórios e, portanto, cunharei
palavras inteiramente novas. Denominarei frástica a gacEé^ia
sentença que é comum a ambos os modos (“Você fechar a porta
no futuro imediato”); e nêustica a parte que é diferente no caso
de comandos e afirmações (“sim” ou “por favor”). Leitores do
Greek Lexicón de Liddell e Scott reconhecerão a adequação des­
ses termos. “Frástica” deriva de uma palavra grega que significa
“apontar ou indicar” e “nêustica” de uma palavra que quer dizer
“consentir inclinando a cabeça”. Ambas as palavras são empre­
gadas indiferentemente para o discurso imperativo e o indicativo
A elocução de uma sentença que contém frástica e nêustica pode
ser dramatizada da seguinte maneira: (1) O falante aponta ou
índica o que vai afirmar que é ou ordenar que se faça ser; (2) Ele
assente com a cabeça, como para dizer ou “Faça-o”. Ele,
porém, terá de assentir movendo a cabeça de formas diferentes,
conforme queira dizer uma ou outra dessas coisas.
MODO IMPERATIVO 21

2.2. Agora, claramente, sé estamos procurando pela dife-


u-nga essencial entre afirmações e comandos, temos de procu­
rar na nêustíca, não na frástica. Porém* como o emprego da
palavra “nêustíca” indica, há ainda algo em comum entre nêus-
licas indicativas e imperativas. É a idéia comum, por assim
tlizcr, de assentir a uma sentença “inclinando a cabeça”. É algo
que é feito por alguém que usa a sentença com sinceridade e
não que meramente a menciona ou cita entre aspas, algo essen-
c ial ao ato de dizer (e querer dizer) algo. A ausência de aspas na
luiguagem escrita simboliza o elemento de significado de que
estou falando; escrever uma sentença sem aspas é como assinar
um cheque; escrevê-la entre aspas é como preencher um che­
que sem assiná-lo, e. g., para mostrar a alguém como preencher
cheques. Poderíamos ter uma convenção segundo a qual, em
vez de colocar entre aspas sentenças que estivéssemos mencio­
nando e não usando, inclinaríamos a cabeça ou faríamos algum
sinal especial na escrita quando estivéssemos usando a sentença
a sério. O “símbolo de asserção” no sistema lógico de Frege e
no de Russell e Whitehead tem, entre outras funções, esta, de
significar o uso ou afirmação de uma sentença1. Ele poderia,
nessa função, ser aplicado a comandos bem como a afirma­
ções. Podemos talvez forçar levemente a linguagem e empregar
a palavra “afirmar” para ambos.
Estreitamente aparentado com tal sinal de afirmação esta­
ria um sinal de concordância ou assentimento para uso de um
ouvinte. Empregar tal sinal de assentimento seria equivalente a
repetir a sentença com os pronomes, etc., alterados onde neces­
sário. Assim, se eu dissesse “Você vai fechar a porta” e você
respondesse “Sim”, este seria um sinal de assentimento e seria
equivalente a “Vou fechar a porta”. E se eu dissesse “Feche a
porta” e você respondesse “Sim, sim, senhor”, isto seria, da
mesma forma, um sinal de assentimento; se desejássemos ex­
pressar a que isso eqüivale, poderíamos dizer “Deixe-me fechar
a porta” ou “Fecharei a porta” (onde “ei” não é uma predição,
mas a expressão de uma resolução ou uma promessa). Ora, isso
22 A LINGUAGEM DA MORAL

deve nos dar urna pista para a diferença essencial entre afirm a­
ções e comandos; ela está no que implica assentir a eles; e o que
implica assentir a eles está, como já disse, estreitamente ligado
ao que implica afirm á-lo2.
Se assentimos a um a afirmação, somos considerados since­
ros em nosso assentimento se - e apenas se - acreditamos que
ela é verdadeira (acreditamos no que disse o falante). Se, por
outro lado, assentimos a um comando de segunda pessoa dirigi­
do a nós, somos considerados sinceros em nosso assentimento
se - e apenas se - fazemos ou decidimos fazer o que o falante
ordenou que fizéssemos; se não o fazemos, mas apenas decidi­
mos fazê-lo mais tarde, e, então, quando chega a ocasião de
fazê-lo, não o fazemos, considera-se que mudamos de idéia; não
estamos mais sendo fiéis ao assentimento que expressamos pre­
viamente. E uma tautología dizer que não podemos assentir sin­
ceramente a um comando de segunda pessoa dirigido a nós e ao
mesmo tempo não realizá-lo, se agora é a ocasião de realizá-lo e
está ao nosso alcance (físico e psicológico) fazê-lo. Similar­
mente, é uma tautología dizer que não podemos assentir sincera­
mente a uma afirmação e ao mesmo tempo não crer nela. Assim,
podem os caracterizar provisoriamente a diferença entre afir­
mações e comandos dizendo que, embora o assentimento since-
rofao primeiro envolva acreditar em algo, o assentimento sincero
ao segundo implica (na ocasião adequada e se estiver ao nosso
alcance) fa ze r algos Mas essa formulação é excessivamente sim­
plificada e exigirá qualificação mais tarde (11.2).
No caso de comandos de terceira pessoa, assentir é aderir à
afirmação. No caso de comandos de primeira pessoa (“Deixe-
me fazer assim e assim”) e decisões (“Farei assim e assim”),
que são estreitamente similares, afirmação e assentimento são
idênticos. É logicamente impossível para um homem dissentir
do que ele mesmo está afirmando (embora, claro, ele possa não
ser sincero ao afirmá-lo).
2.3. Deve-se explicar que, já que estou empregando a pala­
vra “afirm ar”, ela não é o oposto de “negar” . É possível afirmar
I UOfiO IMPERATIVO 23

uma sentença afirmativa ou uma negativa, O sinal de negação


"não” é normalmente parte da frástica tanto de indicativos
quanto de imperativos; portanto, em vez de “Você não vai
lechar a porta” deveríamos escrever “Você não fechar a porta
no futuro imediato, sim”, e, em vez de “Não feche a porta”, de­
veríamos escrever “Você não fechar a porta no futuro imediato,
por favor”. Sentenças modais contendo a palavra “poder” pode­
riam, parece, ser representadas pela negação da nêustica;
assim, “Você pode fechar a porta” (permissiva) poderia ser
escrita “Não digo a você que não feche a porta” e esta, por sua
vez, poderia ser transformada em “Você não fechar a porta no
futuro imediato, não-por favor”; e, similarmente, a sentença
“Pode ser que você vá fechar a porta” poderia ser traduzida
como “Não digo que você não vai fechar a porta” ou “Você não
fechar a porta no futuro imediato, não-sim”. Porém essas são
complicações em que não precisamos nos aprofundar.
Indiquei no artigo já mencionado que, em seus usos
comuns, os conectivos lógicos comuns “se”, “e” e “ou”, como
o sinal de negação, são tratados da melhor forma como parte
das frásticas das sentenças. I-sso significa que eles são comuns
aos indicativos e imperativos. O mesmo é verdadeiro, com
certa qualificação a ser mencionada mais adiante (11.5), dos
quantificadores “todo(s)” e “algum(ns)”. Agora não tenho tanta
certeza de que na linguagem comum essas palavras compor­
tam-se logicamente da mesma maneira nos imperativos e nos
indicativos, mas, seja como for, as diferenças são puramente
um acidente gramatical. Utilizando os conectivos lógicos
comuns, tal como são usados no modo indicativo, nas frásticas
de nossas sentenças imperativas remodeladas, poderíamos
fazer com o modo imperativo revisado tudo o que agora faze­
mos com o natural. Isso é claro em vista do fato de que, por
meio de um circunloquio, sempre podemos, em vez de um
comando simples (e.g., “Feche a porta ou ponha o calço na
porta”, dito a Jones), colocar em seu lugar o comando para tor­
nar verdadeira uma sentença indicativa ( e.g., “Torne verdadei­
ra a sentença ‘Jones vai fechar a porta ou colocar o calço na
24 A LINGUAGEM DA MORAL

porta’ Isso, porém, nao deve ser interpretado como uma ad­
missão da “primazia” lógica do modo indicativo (seja lá o que
isso possa significar); pois poderíamos fazer o mesmo no senti­
do contrario - e.g., dizendo, em vez de “Jones fechou a porta às
5 da tarde” , “O comando [real ou imaginário] ‘Que Jones feche
a porta às 5 da tarde’ foi obedecido” . A única restrição a esse
procedimento deve-se ao fato, mencionado mais tarde (12.4),
de que o modo imperativo é muito menos rico do que o indica­
tivo, especialmente no que se refere a tempos.
Os modos imperativo e indicativo também têm em comum,
por conta de seu elemento frástico comum, tudo o que se refere
a estados de coisas efetivos ou possíveis. Há um estado de coi­
sas possível a que se refere a frástica “Você fechar a porta no
futuro imediato” . Essa referência não é afetada pelo que vem
depois. Tanto imperativos como indicativos têm de se referir ao
estado de coisas a que dizem respeito. Isso significa que os
imperativos, como os indicativos, podem sofrer da enfermidade
para a qual chama a atenção a denominada teoria da verificação
do significado; pois essa enfermidade, sendo uma enfermidade
da frástica, nada tem que ver com as afirmações como tais; os
que pensavam assim enganaram-se. Uma das maneiras em que
uma sentença pode deixar de significar é não se referir a
nenhum estado de coisas identificável. Assim, as sentenças “O
Absoluto é verde” e “Que o Absoluto seja tom ado verde” não
têm significado pela mesma razão, isto é, não sabermos a que
se refere “O Absoluto ser verde”. As sentenças, por essa razão,
também podem deixar de ser compreendidas por uma pessoa,
embora sejam perfeitamente significantes para outra; assim, o
comando “Ponha de ló” não tem significado para os que não
sabem no que consiste pôr de ló. Seria lamentável considerar
que o critério de verificação impugna a significância de todas
as sentenças menos das indicativas - como se “Feche a porta”
fosse tão sem sentido quanto “Frumpe o bumpe” .
Há uma outra enfermidade à qual os imperativos, como os
indicativos, estão sujeitos em virtude da presença de conectivos
<>MODO IMPERATIVO 25

lógicos nas frásticas de ambos. Isso se chama, no caso dos indi­


cativos, autocontradição, e o termo é igualmente aplicável aos
¡mperativos. Os comandos, bem como as afirmações, podem
contradizer-se. Mesmo que essa não fosse uma maneira normal
de falar, poderíamos muito bem adotá-la pois a característica
para a qual chama a atenção nos comandos é idêntica à que nor­
malmente se denomina contradição. Considere-se o seguinte
exemplo, tomado da autobiografia do Lorde C unningham íO
almirante e o capitão de um cruzador que é sua nau capitânia,
para evitar uma colisão, gritam quase simultaneamente ao ti­
moneiro “Tudo a bombordo” e “Tudo a estibordo” . Lorde
Cunningham refere-se a essas duas ordens como “contrárias”, e
elas o são, no sentido aristotélico próprio® Segue-se que as
duas ordens contradizem uma à outra, no sentido de que sua
conjunção é autocontraditória; a relação entre elas é a mesma
que entre as duas previsões “Você vai virar tudo a bombordo” e
“Você vai virar tudo a estibordo”. Algumas ordens podem, é
claro, ser contraditórias sem ser contrárias; a^contraditória sim­
ples de “Feche a porta” é “Não feche a porta” .
Poderia sustentar que a lei do terceiro excluído não se apli­
ca a comandos. Isso, contudo, se implica que os comandos são
peculiares nesse aspecto, é um erro. É evidente que se não digo
“Feche a porta” isso não me compele logicamente a dizer “Não fe­
che a porta” . Posso dizer “Você pode fechar a porta ou não
fechar a porta” ou posso simplesmente não dizer nada. Mas, si­
milarmente, se não digo “Você vai fechar aporta”, isso não me
compele logicamente a dizer “Você não vai fechar a porta” .
Posso dizer “Pode ser que você vá fechar a porta e pode ser que
você não vá fechar a porta” ou posso simplesmente não dizer
nada. Mas se perguntassem “Vou ou não fechar a porta?” tenho
de responder, por causa dos term os da pergunta, “Você vai
fechar a porta” ou “Você não vai fechar a porta”, a menos que
me recuse a responder. “Pode ser que você vá” não é uma res­
posta a essa pergunta. E, de maneira semelhante, se me pergun­
tam “Devo ou não fechar a porta?” tenho de responder, se res-
26 A LINGUAGEM DA MORAL

ponder, “Feche” ou “Não feche”. A verdade é que nossa língua


possui maneiras de falar de forma trivalente e maneiras de falar
de forma bivalente; e essas duas formas são possíveis tanto no
modo indicativo quanto no imperativo.
Um a outra maneira de mostrar que os imperativos simples
são normalmente bivalentes é salientar que o conselho (a um
jogador de xadrez) “N o próximo lance, mova a rainha ou não
mova a rainha” é analítico (defino este termo abaixo (3.3)). Ele
não dá ao jogador quaisquer instruções positivas sobre o que
deve fazer, assim como a sentença “Está ou chovendo ou não
chovendo” não me diz nada sobre o tem po5. Se a lógica dos
imperativos simples fosse trivalente, a sentença citada não seria
analítica; excluiria positivamente uma terceira possibilidade, a
de não mover a rainha nem deixar de movê-la. Disjunções im­
perativas dessa espécie não são sempre analíticas; por exemplo,
seria natural considerar que “Entre ou não entre” implica “Não
fique bloqueando a porta”, mas isso nada tem a ver com o
imperativo como tal; é um a característica da frástica da senten­
ça, como se demonstra por meio da comparação com a sentença
indicativa análoga “Você vai entrar ou não entrar” (entenda-se
você não vai ficar hesitando aí na porta).
2.4. Do fato de que os comandos podem contradizer um ao
outro resulta que, para evitar a autocontradição, um comando,
como um a afirmação, deve observar determinadas regras lógi­
cas. Essas regras são as regras para o uso de todas as expressões
contidas nele. N o caso de algumas expressões - as chamadas
palavras lógicas - essas regras são aquilo que dá às expressões
todo o significado que elas têm. Assim, saber o significado da
palavra “todos” é saber que não se pode, sem autocontradição,
dizer certas coisas, como, por exemplo, “Todos os homens são
m ortais e Sócrates é um homem, mas Sócrates não é m ortal” .
Se o leitor refletir sobre como saberia se um a pessoa conhece o
significado da palavra “todos”, perceberá que a única maneira
seria descobrindo quais sentenças mais simples a pessoa pensa
que sentenças com a palavra “todos” “implicam”. “Implicar” é
ATIVO 27

¡¡li | í.i lavra forte, eos lógicos hoje não são propensos a empre-
t ii palavras fortes; uma discussão completa de seu significado,
¡h\ i,ilmente em contextos matemáticos, ocuparia muitas
;mi-mas, mas, para meus propósitos presentes, ela pode ser
.¡r¡ niida com exatidão satisfatória da seguinte forma: Uma sen-
tctiv,a P implica uma sentença Q se e somente se o fato de uma
|u sM>a asseníir a P mas dissentir de Q ser critério suficiente
paia dizer que ela compreendeu mal uma ou outra das senten­
ças “Sentença”, aqui, é uma abreviação de “sentença tal como
■-mpregada por um falante particular numa ocasião particular”
¡uns os falantes podem, em ocasiões diferentes, usar palavras
mm significados diferentes, e isso significa que aquilo que é
implicado pelo que dizem diferirá também. Extraímos seu sig­
nificado perguntando a eles o que consideram que seus comen-
iarios implicam7.
Ora, a palavra “todos” e outras palavras lógicas são utiliza­
das em comandos, assim como em afirmações. Segue-se que
deve haver também relações de implicação entre comandos,
pois, do contrário, seria impossível dar algum significado a
essas palavras tal como utilizadas neles. Se tivéssemos de des­
cobrir se uma pessoa sabe o significado da palavra “todas” em
“Leve todas as caixas para a estação”, teríamos de descobrir se
ela compreende que uma pessoa que assentiu a esse comando e
também à afirmação “Esta é uma das caixas” e, não obstante,
se negou a assentir ao comando “Leve esta à estação”, somente
poderia fazê-lo se tivesse interpretado mal uma dessas três sen­
tenças. Se essa espécie de teste fosse inaplicável, a palavra
“todos” (tanto em imperativos como em indicativos) seria intei­
ramente destituída de significado. Podemos, portanto, dizer
que a existência em nossa linguagem de sentenças universais
no modo imperativo é em si mesma prova suficiente de que
nossa linguagem admite implicações das quais pelo menos um
termo é um comando. Se a palavra “implicar” deve ser utilizada
para essas relações é somente uma questão de conveniência ter­
minológica. Proponho empregá-la desse modo8.
28 A LINGUAGEM DA MORAL

Dei, no artigo citado, muitos exemplos de implicações cujas


conclusões são comandos. Parece possível, em princípio, já que
as palavras lógicas comuns ocorrem nas frásticas dos imperati­
vos, reconstruir o cálculo sentenciai comum em termos de frás­
ticas apenas, e então aplicá-lo igualmente a indicativos e impe­
rativos, simplesmente adicionando as nêusticas apropriadas5.
Ficaria por determinar até que ponto o cálculo, reconstruído
dessa forma, corresponderia a nossa linguagem comum; esse é
um problema familiar no caso da lógica indicativa e sua solução
depende de investigar pacientemente se os sinais lógicos no cál­
culo são ligados pelas mesmas regras que determinam os signi­
ficados das palavras lógicas que usamos em nossa fala normal.
Poderíamos descobrir que a fala comum tem muitas regras dife­
rentes para o emprego das palavras “se”, “ou”, etc., em contex­
tos diferentes, e, em particular, seu uso em contextos indicativos
poderia diferir de seu uso em contextos imperativos. Tudo isso é
uma questão de investigação, mas não afeta de forma alguma o
princípio de que, desde que descubramos quais são as regras ou
estabeleçamos quais devam ser, podemos estudar a lógica das
sentenças imperativas com tanta segurança quanto a das indica­
tivas. Não pode haver, aqui como em outro lugar, nenhuma
questão de “lógicas rivais”, mas somente de regras alternativas
determinando o emprego (¿.e., as relações de implicação) de
nossos sinais lógicos; é um a tautologia dizer que, contanto que
continuemos a usar nossas palavras no mesmo sentido, suas
relações de implicação permanecerão as mesmas10.
2.5. Aqui não precisamos entrar nessas complicações. Ne­
cessitaremos, nesta investigação, de considerar somente a infe­
rência a partir de sentenças imperativas universais, juntamente
com premissas menores indicativas, para conclusões imperativas
singulares. Já dei um exemplo de uma tal inferência e sustentei
que, se fosse impossível fazer inferências desse tipo, a palavra
“todos” não teria significado em comandos. Mas esse tipo de
inferência faz surgir uma dificuldade adicional, porque uma das
premissas está no indicativo e uma no imperativo. A inferência é:
IMPERATIVO

Leve todas as caixas para a estação.


Esta é urna das caixas.
Leve esta para a estação.

I'ode-se perguntar como vamos saber, dadas duas premis­


sas em modos diferentes, em que modo deve estar a condu­
mio. O problema do efeito dos modos das premissas e da con­
clusão sobre as inferências tem sido ignorado por lógicos que
não examinaram além do modo indicativo, embora não haja
i a/.ão para que o ignorassem - pois como demonstraríamos que
a conclusão de um conjunto de premissas indicativas deve tam-
hcm estar no indicativo? Mas se consideramos, como faço, as
relações de implicação da lógica comum como relações entre
as frásticas de sentenças, o problema toma-se premente. Adml-
sindo que a razão da validade do silogismo acima é que as frás-
ucas “Você levar todas as caixas para a estação e ser esta urna
das caixas” e “Você não levar esta para a estação” são logica­
mente incoerentes entre si, por causa das regras lógicas que re­
gem o uso da palavra “todas”, como saber que não podemos
adicionar nêusticas de uma forma diferente daquela acima?
Poderíamos escrever, por exemplo:

Leve todas as caixas para a estação.


Esta é uma das caixas.
Você vai levar esta para a estação.

e dizer que isso é um silogismo válido, o que evidentemente ele


não é.
Permitam-me primeiramente expor duas das regras que
parecem reger essa questão; podemos deixar para mais tarde o
problema da sua justificação. As regras são:

(1) Nenhuma conclusão indicativa pode ser extraída valida­


mente de um conjunto de premissas que não possa ser ex­
traído validamente apenas dos indicativos dentre elas.
30 A LINGUAGEM DA MORAL

(2) Nenhuma conclusão imperativa pode ser extraída valida­


mente de um conjunto de premissas que não contenha pelo
menos um imperativo.

É somente a segunda regra que nos irá ocupar nesta pes­


quisa. H á uma exceção muito importante a essa regra, o chama­
do “imperativo hipotético”, do qual tratarei no próximo capítu­
lo. Para o momento, porém, tomemos a regra na forma em que
se encontra. É da mais profunda importancia para a ética. Isso
ficará claro se eu fornecer um a lista de alguns argumentos
fam osos da ética que me parecem ter sido consciente ou in­
conscientemente baseados nela. Se admitimos, como mais tar­
de sustentarei, que deve ser parte da função de um juízo moral
prescrever ou orientar escolhas, isto é, implicar uma resposta a
alguma questão da forma “Que devo fazer?”, então fica claro, a
partir da segunda das regras apresentadas há pouco, que
nenhum juízo moral pode ser uma pura afirmação de fato.
Nesse fundamento baseia-se, indiretamente, a refutação socrá­
tica da definição de justiça de Céfalo, “falar a verdade e devol­
ver qualquer coisa que se tenha recebido de alguém”, e de todas
as subseqüentes modificações realizadas por Polemarco nessa
definição11. Aristóteles estava apelando indiretamente a essa
regra em seu mais decisivo rompimento com o platonismo, sua
rejeição da Idéia do Bem; deu como razão, entre outras, que se
houvesse tal Idéia, sentenças sobre esta não seriam guias da
ação (“não seria um bem que você pudesse, por meio de sua
ação, trazer à existência”)12. No lugar de um bem factual, exis­
tente, cognoscível por meio de um tipo de observação supra-
sensível, Aristóteles coloca um “bem a ser alcançado pela
ação” ou, como geralmente o chama, um “fim ”, isto é, ele reco­
nhece im plicitam ente que, se dizer que algo é bom é guiar a
ação, então isso não pode ser meramente afirmar um fato sobre
o mundo. A maioria de suas diferenças éticas em relação a
Platão pode remontar a essa origem.
É nessa regra lógica, novamente, que se deve encontrar a
base da celebrada observação de Hume sobre a impossibilidade
31

iU- deduzir uma proposição de “dever ser” a partir de um a série


d r proposições de “ser” - uma observação que, como ele corre-
i.mu-tite diz, “subverteria todos os sistemas de modalidade
i'im m s” e não somente aqueles que já tinham aparecido no seu
u mpo". Kant também apoiou-se nessa regra em sua polêmica
i miira “A heteronomia da vontade como origem de todos os
(Hmcípios espúrios da moralidade”. Nela diz que “Se a vontade
i ) extrapolando a si mesma, busca essa lei no caráter de quais­
quer de seus o b je to s-o resultado é sempre a heteronomia”“. Os
princípios heteronômicos de moralidade são espúrios porque, de
uma série de sentenças indicativas sobre “o caráter de quaisquer
de seus objetos”, não se pode derivar nenhuma sentença impera­
tiva sobre o que deve ser feito e, conseqüentemente, também
não se pode derivar dela nenhum juízo moral.
Em tempos mais recentes essa regra foi o ponto essencial
por trás da celebrada “refutação do naturalismo” do Professor
(i. E. Moore, como veremos m ais tarde (11-3). Foi tam bém o
ponto por trás do ataque de Prichard a Rashdall15, Prichard na
verdade, argumenta que a bondade de uma situação (a qual
tanto ele quanto os que ataca consideram como um fato sobre a
situação) não constitui sozinha um a razão para que devamos
tentar ocasionar essa situação; precisamos também do que ele
(algo enganosamente) denomina “o sentimento da imperativi-
dade ou obrigação que deve ser despertado pelo pensamento da
ação que irá originá-la”. E, na verdade, se a palavra “bom ” é
tratada da maneira como muitos intuicionistas a trataram, esse
argumento é perfeitamente válido pois sentenças que contêm a
palavra entendida dessa forma não serão juízos avaliatórios
genuínos porque nenhum imperativo pode ser delas derivado1''.
M as essa objeção aplica-se não somente à teoria intuicionista
do “bom”, mas a todos que insistem no caráter exclusivamente
factual dos juízos morais; aplica-se ao próprio Prichard. O Pro­
fessor Ayer17usa um argumento contra os intuicionistas como
um todo baseado nessa regra fundamental. Mas, em todos esses
casos, o apelo à regra é apenas implícito. Conheço somente
duas obras onde a regra é exposta explicitamente; a primeira é
32 A LINGUAGEM DA MORAL

de Poincaré18, que, contudo, faz o que me parece um uso ilegíti­


mo dela, como ficará visível a partir do argumento precedente;
a segunda é do Professor Popper15, que se refere corretamente à
regra como “talvez o ponto mais simples e o mais importante
sobre a ética” . Um juízo não é moral se não proporciona, sem
premissas imperativas adicionais, uma razão para fazer alguma
coisa.
Capítulo 3
Inferência

3.1. A regra de que um imperativo não pode aparecer na


conclusão de urna inferencia válida, a não ser que haja ao me­
nos um imperativo nas premissas, pode ser confirmada recor-,
rendo a considerações lógicas gerais.. Pois hoje é geralmente
considerado verdadeiro por definição que (falando grosseira­
mente em princípio) nada pode aparecer na conclusão de uma
inferência dedutiva válida que não esteja, a partir de seu pró­
prio significado, implícito na conjunção das premissas. Resulta
que, se há um imperativo na conclusão, não somente deve apa­
recer algum imperativo nas premissas, mas o próprio imperati­
vo deve estar implícito nelas.
Já que essas considerações têm amplo alcance na filosofia
moral, será conveniente explicá-las em maior detalhe. Poucas
pessoas pensam, como Descartes parece ter pensado, que pode­
mos chegar a conclusões científicas sobre questões de fato
empírico, como a circulação do sangue, por meio do raciocínio
dedutivo a partir de primeiros princípios auto-evidentes1. A obra
de W ittgenstein e outros tornou claras, em grande parte, as
razões da impossibilidade de fazer isso. Argumentou-se, con­
vincentemente em minha opinião, que toda inferência dsduf iva
é de caráter analítico, isto é, que a função de uma inferência de­
dutiva não é obter das premissas “algo adicional” não implícito
nelas (mesmo se for isso o que Aristóteles queria dizer (2.4)),
34 A LINGUAGEM DA MORAL

mas tom ar explícito o que estava implícito na conjunção das


premissas. Demonstrou-se que isso decorre da própria natureza
da linguagem, pois para dizer qualquer coisa temos de, como já
observamos, obedecer a determinadas regras, e essas regras -
especialmente, mas não apenas, as regras para o emprego das
chamadas palavras lógicas - significam, primeiramente, que
dizer o que está nas premissas de uma inferência válida é dizer,
pelo menos, o que está na conclusão, e, em segundo lugar, que
se algo é dito na conclusão que não foi dito, implícita ou expli­
citamente, nas premissas, a inferência é inválida. Não se pode
dizer que compreendemos completamente o significado das
premissas e da conclusão a menos que admitamos a validade da
inferência. Assim, se alguém professasse admitir que todos os
homens são mortais e que Sócrates é um homem, mas se recu­
sasse a admitir que Sócrates é mortal, o correto não seria, como
se sugere às vezes, acusá-lo de algum tipo de obtusidade lógica,
mas dizer “Você evidentemente não conhece o significado da
palavra ‘todos’ pois se conhecesse saberia eo ipso como fazer
inferências dessa espécie” .
3.2. O princípio explicado há pouco, contudo, não. é exata­
mente geral o bastante para abranger todos os casos / Por exem­
plo, “x = 2” implica “x2= 4”, mas não é natural dizer que nesta
segunda expressão não se diz nada que não seja dito implicita­
mente na primeira pois a segunda contém o símbolo “ao qua­
drado” e para compreender “x = 2”, não temos de saber nada
sobre o significado desse símbolo. Temos de dizer, portanto,
que não se deve dizer nada na conclusão que não seja dito im­
plícita ou explicitamente nas premissas, exceto o que pocle ser
adicionado com base unicamente em definições de termos. Es­
sa qualificação é importante para a lógica dos imperativos pois,
como já adverti o leitor, há um tipo de conclusão imperativa
que pode ser implicado por um coniun to d ^ r e m is s a s pura­
mente indicativas. Ê o chamado imperativo “hipotético”. Deve-
se salientar que nem todos osjm perativos que contêm uma ora-
ção hipotética são “hipotéticos” nesse sentido. Por exemplo, a
sentença “Se uma afirmação qualquer for tnverídica, nao a
O MODO IMPERATIVO 35

faça” não é “hipotética” no sentido em que a expressão “impe­


rativo hipotético” é empregada tradicionalmente. Torna-se mais
claro o que é üminweraíiya ^hipotéticos por meio de exem-
plos. A matéria e tão difícil que não posso abordá-la de forma
muito abrangente; mas algumas explicações são necessárias.
Considere a sentença seguinte:

Se você quer ir à maior mercearia de Oxford, vá à Grimbly


Hughes.

Isso parece resultar de, e dizer nada mais que:

A Grimbly Hughes é a maior mercearia de Oxford.

O primeiro ponto que requer elucidação é a condição da


palavra “querer”. Ela não significa o mesmo que “ser afetado
por um estado reconhecível dos sentimentos conhecidos como
desejo”. Se eu fosse o superior de uma ordem religiosa cujas
regras determinassem a completa abnegação de todos os dese­
jos, não poderia dizer a um noviço “Se você tem um desejo de ir
à maior mercearia de Oxford, vá à Grimbly Hughes” pois isso
seria contrário à regra. Mas eu poderia muito bem dizer “Se
você quer ir à maior mercearia de Oxford, vá à Grimbly
Hughes” pois pretenderia com isso simplesmente comunicar
iima informação, que a maior mercearia é a Grimbly Hughes.
“Querer” é aqui um termo lógico e representa, como veremos,
um imperativo dentro de uma oração subordinada. Esse é ape­
nas um dos muitos enigmas gerados quando se tratam senten-
ças compostas com a palavra “querer” como se fossem sempre
descritas de estados mentais (1.3).
Agora compare a sentençaseguinte:

Se todas as mulas são estéreis, então este animal é estéril.

Isso é implicado pela sentença “Este animal é uma mula”.


Temos apenas de conhecer os significados de “todas” e das
36 A LINGUAGEM DA MORAL

outras palavras usadas para fazer a inferência. Devemos obser­


var que essa inferência é válida porque uma outra mais simples
é válida, a saber:

Todas as mulas são estéreis.


Este animal é uma mula.
Este animal é estéril.

Atinge-se a forma mais complexa da inferência retirando a


premissa maior de seu lugar próprio e adicionando-a à conclu­
são dentro de uma oração hipotética.
A inferência a seguir também pode ser tratada da mesma
forma:

Vá à maior mercearia de Oxford.


A Grimbly Hughes é a maior mercearia de Oxford.
.'.Vá à Grimbly Hughes.

Transforma-se então em:

A Grimbly Hughes é a m aior mercearia de Oxford.


Se for à maior mercearia de Oxford, vá à Grimbly Hughes.

Em nossa língua, escrevemos essa conclusão na forma:

Se você quer ir à m aior mercearia de Oxford, vá à Grimbly Hughes.

Temos apenas de conhecer os significados de “querer” e


das outras palavras usadas na conclusão (incluindo a forma ver­
bal imperativa) para fazer essa inferência.
Outro exemplo seria “Se você quer quebrar as molas, con­
tinue a dirigir como agora”. Aqui a inferência completa seria:

Faça o que for que contribua para quebrar as molas.


Continuar a dirigir como agora contribuirá, etc.
.’.Continue a dirigir como agora.
0 MODO IMPERATIVO 37

O falante de nosso exemplo, para atrair a atenção do ouvin­


te de forma enfática para a verdade da premissa menor, salienta
que sua presente maneira de dirigir seria uma conclusão válida
a partir dessa premissa menor e de uma premissa maior que o
ouvinte obviamente não aceita. Introduz-se nesse exemplo a
noção de “meios que contribuem para um fim”; mas o primeiro
exemplo mostra que ela não precisa estar presente.
Outras formas de expressão relacionadas são:

Para. parar o trem puxe a corrente para baixo.


Dirija devagar ou você sofrerá uma colisão.
Dispense a lubrificação regular e reduza à metade a vida de seu carro.

Há um contraste entre estas três; a primeira é neutra sobre


a questão de saber se a corrente deve realmente ser puxada ou
não; é por isso que é preciso acrescentar “Multa em caso de uso
indevido: £ 5”. A segunda não é neutra; tem um forte sabor do
imperativo simples, não-hipotético, “Dirija devagar”, e “ou”
poderia ser substituído por “porque se você não fizer assim”. A
terceira é uma singularidade; da mesma forma que “Se você
quer quebrar as molas, continue a dirigir como agora”, é irônica
e tem o propósito de dissentir da oração “Dispense a lubrifica­
ção regular”. É adaptada, com a omissão de uma marca comer­
cial, de um anúncio publicitário real.
Na medida em que é hipotético, um imperativo tem força
descritiva praticamente da mesma maneira que um juízo de
valor pode tê-la (7.1). Compreender ou fornecer a oração hipo-
tética é como conhecer o padrão de valores que está sendo apli­
cado. Não é íàcil dizer, em qualquer caso individual em que
uma oração condicional não seja efetivamente incluída, até que
ponto o imperativo deve ser tratado como hipotético. Não deve--
mos supor que todos os imperativos não-morais sao hipotéti-
cos, pois isso está longe de ser verdadeiro. As instruções para a
operacão_de máquinas constituem um interessante caso fron-
teiriço. Devemos dizer que “Ligue numa tomada com a vol-
38 A LINGUAGEM DA MORAL

tagem indicada na etiqueta” é hipotética e que temos de enten­


der “se você quer que seu aspirador de pó limpe seus tapetes
sem necessitar de consertos dispendiosos?”. É difícil responder
a essa pergunta; poderíamos certamente entender as instruções
e obedecer a elas sem saber qual era seu propósito. Es se caso
mostra, não que não exista diferença entre imperativos hipotéti­
cos e não-hipotéticos, mas que é difícil delimitar a fronteira.
Seria provavelmente enganoso dizer que os imperativos
hipotéticos são “realmente indicativos”. Eles realmente têm
força descritiva e são implicados por indicativos, mas “x2= 4” é
implicado por “x = 2” e, não obstante, nao diríamos que a pri­
meira não é realmente uma equação quadrática. Em primeiro
lugar, ela não seria inteligível para alguém que não conhecesse
o significado do símbolo “ao quadrado”. Esse símbolo, além
disso, não tem aqui um significado especial, diferente de seus
outros usos. Aproximadamente da mesma forma, “Se você quer
ir à maior mercearia de Oxford, vá à Grímbly Hughes” não é
um indicativo; não seria inteligível para alguém que tivesse
aprendido o significado das formas verbais indicativas, mas
não o das formas verbais imperativas, e estas nâo têm nele um
significado especial. A melhor maneira de descrever a questão
foi sugerida por Kant: o demento imperativo num imperativo
hipotético é analítico (“Quem deseja o fim ... deseja também os
meios”), porque os imperativos nas duas partes, por assim
dizer, cancelam-se mutuamente. É um imperativo, mas, qua
imperativo, não tem conteúdo; o conteúdo que tem é o da pre­
missa menor indicativa da qual é derivado2.
Podem ser feitas duas sugestões para pesquisas adicionais,
que nâo podem ser levadas a cabo aqui, sobre o tema dos impe­
rativos hipotéticos. A primeira é que o “se” neles tem uma con­
dição lógica algo diferente da que tem em sentenças como “Se
algum afirmação for inverídica, não a faça”. Se esta última sen­
tença fosse analisada em frástica e neustica, parece-me que o
“se” ficaria na frástica; a sentença completa poderia ser tradu­
zida como:
O MODO IMPERATIVO 39

No caso de alguma afirmação ser inverídica, você não fazê-


la, por favor,

ou como:

Você não fazer afirmações inverídicas, por favor.

Mas, num imperativo hipotético propriamente dito, a pró­


pria oração condicional contém uma nêustica imperativa, ocul­
ta na palavra “querer”. Ainda não tenho certeza de como seria
melhor analisar essas sentenças, e estou inclinado a pensar que
sentenças diferentes devem ser analisadas de formas diferentes,
dependendo de quão plenamente hipotéticas são elas. Se o ele­
mento categórico está completamente oculto, como em “Se
você quer quebrar as molas, continue a dirigir como agora”,
uma analise metalingüística é tentadora:

O comando “Continue a dirigir como agora” poderia ser


inferido de uma premissa factual menor, a qual é verdadeira, e da
premissa maior (5 c. à qual você obviamente não assente) “Faça 0
que for que contribua para quebrar as molas” .

Mas esse problema é parte do problema mais amplo, ainda


muito obscuro, da análise das sentenças hipotéticas em geral.
A segunda sugestão é que a relação entre imperativos hipo­
téticos e o elemento descritivo no significado dos juízos de valor
compensaria estudos adicionais. A sugestão feita há pouco, de
que alguns imperativos hipotéticos poderiam ser analisados <
metalingüisticamente) tem claramente uma conexão com aquilo
que denominarei mais adiante uso “entre aspas” de juízos de
valor; (7.5). Pode-se prever com segurança que se verificará que
os imperativos hipotéticos são tão sutis, flexíveis e variados em
sua lógica quanto os usos descritivos das palavras de valor.
3.3. Mas deixemos essa difícil questão e retornemos a Des­
cartes. As considerações sobre a inferência que resumi no iní­
cio deste capítulo significam que um procedimento cartesiano,
40 A LINGUAGEM DA MORAL

quer na ciência quer na moral, está fadado ao fracasso desde o


início, Se alguma ciência tem como objetivo dar-nos conclu­
sões substanciais sobre questões de fato, então, se seu método ê
dedutivo, essas conclusões devem estar implícitas nas premis­
sas. Isso significa que, antes de compreendermos plenamente
os significados de nossos primeiros princípios cartesianos,
temos de saber que eles (com o acréscimo apenas de definições
de termos) implicam proposições tão diversas como: todas as
mulas são estéreis, o coração do homem está no lado esquerdo
do corpo, ou o sol está a tantas milhas da terra. Mas se todos
esses fatos estão implícitos nos primeiros princípios, estes difi­
cilmente podem ser denominados auto-evidentes. Aprendemos
sobre fatos como esses, pelo menos em parte, através da obser­
vação; nenhuma quantidade de raciocínio a partir de axiomas
irá substituí-la. A posição da matemática pura tem sido muito
discutida e ainda é obscura; parece melhor considerar os axio­
mas da matemática pura e da lógica como definidores dos ter­
mos usados nelas. Mas isto, ao menos, pode ser dito: se uma
ciência pretende relatar-nos fatos como os acima, ela não pode,
como a matemática pura, ser baseada no raciocínio dedutivo e
nada mais. Foi o erro de Descartes assimilar à matemática pura
estudos que são de caráter completamente diferente.
O fato de que a dedução, quer na forma da matemática pura
quer da lógica, não pode tomar o lugar da observação não quer
dizer que a dedução, portanto, seja completamente inútil como
adjunto da observação. A ciência faz uso de expressões que
seriam completamente sem significado a menos que pudésse­
mos deduzir. A sentença “Há três pesos de um grama na balança
e nada mais” não teria significado para qualquer um que não
pudesse deduzir a partir dela que “Há um peso de um grama na
balança, e um outro, e um outro, e nada mais”, e vice-versa.
As mesmas considerações são aplicáveis à ética. Muitas
das teorias éticas propostas no passado podem ser denomina­
das, sem injustiça, “cartesianas” em caráter; isto é, tentam
deduzir deveres particulares de algum primeiro principio evi­
O MODO IMPERATIVO 41

dente por si mesmo. Freqüentemente admitem-se observações


factuais entre as premissas, mais isso, embora torne as teorias
que os admitem incompletamente “cartesianas”, não afeta meu
argumento. Um procedimento cartesiano na morai é tão ilusó­
rio quanto na ciência. Se podemos aceitar que, como mostrarei
mais adiante, um raciocínio moral genuinamente avaliatório
deve ter como produto final um imperativo da forma “Faça
isto”, segue-se que seus princípios devem ser de um tipo que
nos permita deduzir deles tais imperativos particulares em con-
junção com premissas menores factuais. Por exemplo, para que
um sistema moral me ordene que não diga esta coisa particular
que é falsa, seus princípios devem conter, implícita ou explici­
tamente, um imperativo no sentido de que o falso não deve ser
dito em circunstâncias como aquela em que estou agora. E,
similarmente, devem conter outros imperativos tais que regu­
lem minha conduta em todo tipo de circunstâncias, tanto pre­
vistas como imprevistas. Mas é óbvio que tal conjunto de prin­
cípios não poderia ser evidente por si mesmo. Não é mais fácil,
é antes mais difícil, assentir a um comando muito geral como
“Nunca diga o que é falso” do que assentir ao comando particu­
lar “Não diga esta coisa particular que é falsa”, assim como é
mais difícil e perigoso adotar a hipótese de que todas as mulas
são estéreis do que reconhecer a realidade indubitável de que
esta mula que acaba de morrer não teve prole. Uma decisão de
nunca dizer o que é falso envolve uma decisão de antemão
sobre um número muito grande de casos individuais, tendo
como única informação a seu respeito serem todos eles casos
de dizer o que é falso. Não é. seguramente, casuísmo de uma
espécie reprovável não querermos nos comprometer dessa
forma. É bem verdade que, quando tivermos experiência em
tomar tais decisões, talvez possamos ser capazes de aceitar o
princípio geral. Mas suponha que deparássemos, pela primeira
vez, a questão “Devo dizer agora o que é falso?” e não tivésse­
mos nenhuma decisão anterior, nossa ou de outras pessoas, para
guiar-nos. Como deveríamos decidir a questão? Certamente
42 A LINGUAGEM DA MORAL

não através de inferência a partir de um princípio geral evidente


por si mesmo, “Nunca diga o que é falso”, pois, se não pode­
mos decidir sequer se vamos dizer o que é falso nessas circuns­
tâncias particulares, como poderemos decidir se vamos dizer o
que é falso em circunstâncias inumeráveis cujos detalhes são
totalmente desconhecidos para nós, salvo neste aspecto: são
todos casos de dizer o que é falso?
A mesma questão pode ser colocada de outra forma. É um
princípio estabelecido da lógica que se uma proposição implica
outra, então a negação da segunda implica a negação da primei­
ra, Um princípio análogo, algo mais forte, é também válido: se
sei que uma proposição implica outra, estar em dúvida quanto a
assentir à segunda é eo ipso estar em dúvida quanto a assentir à
primeira. Por exemplo, se sei que a uma proposição “Todas as
mulas são estéreis e isto é uma mula” implica a proposição
“Esta (mula) é estéril”, segue-se que se estou em dúvida quanto
a assentir à proposição “Esta (mula) é estéril”, devo estar em
dúvida quanto a assentir à proposição “Todas as mulas são esté­
reis e isto é uma mula”; e isso significa que devo estar em dúvi­
da quanto a “Todas as mulas são estéreis” ou quanto a “Isto é
uma mula”*Então, se aplicamos um raciocínio exatamente ana­
logo a nosso caso sobre dizer o que é falso, obtemos o seguinte
resultado. Já que estou em dúvida, ex hypothesi, quanto a fazey
ou não esta falsa afirmação^devo estar em dúvida quanto a#
assentir do comando “Não faça esta afirmação,'’. Mias se estou
em dúvida sobre esse comando^devo eo ipso estar em dúvida
sobre a premissa factual “Esta afirmação é falsa” (e esta alter­
nativa é descartada ex hypothesi), ou então, como deve ser o
caso, sobre a premissa imperativa f Nunca diga o que é falso5’.
Segue-se que nenhum princípio geral que deva ser útil na deci­
são de questões particulares sobre as quais estamos em dúvida
pode ser evidente por si mesmo.*,
A impossibilidade de um sistema moral “cartesiano” pode
ser demonstrada de outra forma, estreitamente aparentada
àquela explicada há pouco. Não está claro de modo algum o
O MODO IMPERATIVO 43

que se poderia pretender ao denominar alguma proposição, es­


pecialmente um princípio geral de conduta, “auto-evidente”. Sé
tal-princípio deve ser, em algum sentido, impossível de rejeitar;
isso, parece-me, pode acontecer somente etn virtude de urna de
duas razoés.primeiro, pode-se dizer que utn princípio de con­
duta é impossível de rejeitar se for autocontraditório rejeitá-lo.
Mas se é autocontraditório rejeitar um princípio, isso pode ser
apenas porque o principio é analítico. Mas se é analítico, não;
pode ter nenhum conteúdo, não pode dizer-me que faça* uma *
coisa e não outra.fO termo “analítico”, o qual teremos ocasião
para usar bastante, pode ser definido com suficiente precisão
da seguinte forma: Uma sentença é analítica se, e somente se,;
( l ) o fato de uma pessoa dissentir dela é critério suficiente para
dizer-que interpretou mal o significado do falante ou (2) ela é
ímpÍIcãHã^p o i^ g u ija sentença que é analítica no sentido (1).
Uma sentença que não é analítica ou autocontradítória é deno-
minada sintética. Essas definições não são, é claro, exatas; uma
discussão completa dos significados de “analítico” e “sintéti­
co” está fora do escopo deste livro.
Em segundo lugaf, seria possível sugerir que é impossível
rejeitaram de conduta no sentido de que sua rejeiçãt».
é urni~impossibilidadepsicologicapMas o que é ou não uma
impossibilidade psicológica é uma questão contingente; para
mim pode ser uma impossibilidade psicológica rejeitar um
princípio que os mais empedernidos ou sofisticados não têm
dificuldade em descartar. Nunca poderíamos ter justificativas
para afirmar que ninguém podêlijeitar um princípio, a não ser
que esse princípio sei a analítico. Além disso, a impossibilidade
psicológica de rejeitar um princípio seria um fato sobre a cons­
tituição da psique das pessoas, e não se pode derivar nenhum
imperativo a partir de um fato ou de uma sentença indicativa
que o registre.
Discute-se às vezes um terceiro tipo de interpretação, que
se baseia na introdução de uma palavra de valor. Pode-se suge-?
rir que, embora seja possível rejeitar um princípio lógica e psi­
cologicamente, pode não ser racional rejeitá-lo (rejeitá-lo pode
44 A LINGUAGEM DA MORAL

ser impossível para uma pessoa racional). Às vezes, no lugar de


“racional”, temos outras expressões, como “uma pessoa moral­
mente evoluída ou moralmente educada” ou “um juiz compe­
tente e imparcial” . Sãó todas expressões de valor: Portanto,
temos de perguntar “Qual poderia ser o critério para decidir se
uma pessoa enquadra-se numa ou noutra dessas classes?”. Ob­
viamente não podemos dizer que a rejeição do princípio seja,
ela mesma, evidência de que a pessoa que o rejeita não é quali­
ficada dessas maneiras pois, nesse caso, nosso critério de auto-
evidência seria circular. Deve haver, portanto, alguma outra
forma de descobrir se uma pessoa é racional. Mas a questão de
se saber se uma pessoa é racional tem de ser uma questão fac­
tual ou uma questão de valor (ou uma combinação das duas).
Se é uma questão puramente factual, então não podemos obter
conclusões imperativas de premissas factuais como “Fulano é
racional” e “Fulano acha impossível rejeitar o princípio de
que...” . Mas se é total ou parcialmente uma questão de valor,
então a resposta a ela é auto-evidente em algum sentido (e
nesse caso, novamente, nosso critério de auto-evidência seria
circular) ou então temos ao menos um constituinte em nosso
raciocínio que não é nem auto-evidente. Esta terceira possibili­
dade, portanto, deve ser descartada.
Dessas considerações resulta que se é a função dos princí­
pios morais gerais regular nossa conduta, implicar, junta­
mente com premissas menores indicativas, respostas a pergun­
tas da forma “Devo ou não devo fazer esta coisa particular?”,
eníão esses jfíffirfpros1morai« gerais não podem ser auto-evidem-
tes. Se essa visão da função dos princípios morais fosse aceita (e>
darei mais adiante razões para que assim se faça), ofereceria
uma refutação conclusiva de um grande número de teorias éti­
cas Suponha, por exemplo, que encontremos um filósofo dizen­
do-nos que é evidente por si mesmo que devemos sempre fazer
o que nossa consciência nos diz; devemos responder que, já que
muitas vezes ficamos em dúvida quanto a fazer ou não algo que
nossa consciência nos diz para fazer, esse princípio geral não
O MODO IMPERATIVO 45

pode ser evidente por si mesmo. E, mesmo se fosse o caso nunca


estarmos em dúvida quanto a esse ponto, isso seria meramente
um fato sobre nossas psiques, e nenhuma conclusão imperativa
resultaria dele. No exemplo escolhido, a “consciência”, é claro,
deve ser considerada como o nome de uma ocorrência psicoló­
gica identificável. Se é feita uma questão de valor sobre se
determinada ocorrência psicológica é realmente a consciência
ou o Diabo assumindo a voz da consciência, o princípio clara­
mente faz parte do escopo do próximo parágrafo.
Teorias éticas desse tipo geral normalmente escondem seu
caráter falacioso por meio de um artifício, que podemos men­
cionar brevemente aqui, embora não possa ser compreendido
completamente antes de termos discutido a lógica das palavras
de valor. Se o princípio geral advogado contém uma palavra de
valor^pode-se fazê-lo parecer evidente por si mesmo, tratando-
o como analítico, e então, quando a mesma palavra de valor
aparece na premissa menor factual, pode ser tratado como se
fosse descritivo. Por exemplo, poderíamos afirmar a auto-evi-
dência (porque analítica) do princípio de que devemos cumprir
nosso dever, e então poderíamos averiguar qual é nosso dever
por meio de algum processo de descoberta de fatos ( e.g., con­
sultando uma faculdade chamada senso de dever ou então ven­
do a que tipos de ato a palavra “dever” é aplicada em^nossa
sociedade e depois denominando “deveres” esses atos).|í)esse’
.árgümMtOf aparentemente, poderíamos chegar a uma conclu­
são, “Devo desempenhar um ato particular A”, e daí ao impera­
tivo “Faça A ”, simplesmente com base em duas premissas,
“Uma pessoa deve cumprir seu dever” e “A é meu dever”, a pri­
meira das quais é auto-evidente e a segunda factual. Mas isso é
um equívoco. Se “dever” é uma palavra de valor, então não
podemos decidir o que é nosso dever meramente consultando o
uso das palavras ou vendo se temos ou não determinada reação
psicológica, mas apenas tomando uma decisão morãrPÕroutro
ladoTs^dever^não fosse tratada como uma palavra de valor,
mas considerada como significando “aquilo ao qual apresento
46 A LINGUAGEM DA MORAL

uma reação psicológica reconhecível” ou “aquilo a que o nome


‘dever’ é comumente aplicado em minha sociedade”, então o
princípio “Uma pessoa deve sempre cumprir seu dever” não
seria auto-evidente.
3.4. A conclusão de tudo isso é um tanto alarmante. Forne­
ci razões no capítulo precedente para sustentar que nenhum sis­
tema moral cujos princípios fossem considerados puramente
factuais poderia cumprir sua função de regular nossa conduta.
Neste capítulo demonstrei que um sistema moral que alega
basear-se em princípios auto-evidentes também não pode cum­
prir sua funçao. "Essas duas controvérsias entre eles, se aceitas,
eliminam praticamente tudo o que Hume denomina “os siste­
mas comuns de moralidade”. Pode-se demonstrar que a maior
parte dos autores que pareceram plausíveis aos que os estuda­
ram superficialmente sofrem de um ou outro desses defeitos.
Em alguns grandes autores, como Aristóteles, Hume e Kant,
embora não seja difícil encontrar aqui e ali em suas obras traços
desses defeitos, é possível perceber, se forem estudados corre­
tamente, que eles os evitam em suas doutrinas principais. Mas
não é surpresa que o primeiro efeito das investigações lógicas
modernas foi fazer alguns filósofos perder a esperança na
moral como atividade racional.
É o propósito deste livro mostrar que sua desesperança foi
prematura. Mas os efeitos do argumento acima são tão catastró­
ficos que se pode muito bem perguntar: “Vocês não proclama­
ram desde o início que o problema é impossível de resolver?
Não há alguma falha em seu argumento, alguma dicotomía
muito rigidamente forçada, algum critério interpretado com mui­
to rigor; não podemos salvar algo da destruição sendo um
pouco menos rigorosos?”. Em particular, haverá certamente
objeções ao meu emprego da palavra “implicar”. Pode-se sus­
tentar que embora no senso estrito da palavra eu realmente
tenha demonstrado que juízos morais e imperativos não podem
ser implicados por premissas factuais, há entre eles. não obs­
tante, alguma relação mais imprecisa que a implicação. O Sr. S.
E. Toulmm, por exemplo, fala de:
O MODO IMPERATIVO 47

um argumento ético, constituido em parte de inferências lógicas


(demonstrativas), em parte de inferencias científicas?(indutivas),
e em parte daquela forma de inferencia peculiar aos argumentos
éticos, pela qual passamos de razões factuais a um a conclusão
ética - aquilo que naturalmente podemos denominar inferencia
“avaliatória”3.

Como discuti alhures, numa crítica do livro de Toulmin4,


sua versão particular dessa doutrina, que evita o mais grosseiro
dos erros para os quais chamarei a atenção, contentar-me-ei
aqui com algumas observações gerais sobre esse tipo de enfo­
que do problema.
Vamos primeiro dar uma olhada na historia desse tipo de
teoría. Está claro, pensó eu, que suas origens imediatas devem
ser encontradas no ataque de autores da escola verificacionista
contra a ética como ramo da filosofia. A teoría pretende salvar
a ética desse ataque demonstrando que os jtiízos moráis sao,';
afinal de contas, proposições empíricas boas, apenas seu méto­
do de verificação é diferente e, de certo modo, mais impreciso
que o de sentenças comuns de afirmação de fatos. Portanto, são
realmente inferíveis a partir de observações de fato, mas de
uma forma mais imprecisa.
Ora, esse programa é mal concebido desde o início. Uma
afirmação, por mais imprecisamente ligada aos fatos que seja,
não pode responder a uma pergunta da forma “Que devo fa­
zer?”; somente um comando pode fazer isso. Portanto, se insis­
timos que os juízos morais são apenas afirmações de fato
imprecisas, impedimos que cumpram sua função principal pois
sua função principal é regular a conduta, e eles podem fazer
isso somente se forem interpretados de forma a terem força
imperativa ou prescritiva. Já que não estou me ocupando aqui
dos juízos morais como tais, deixarei para mais tarde a pergun­
ta. “De que forma a força prescritiva dos juízos morais está rela­
cionada com a função descritiva que eles normalmente também
têm?”. Estou interessado aqui no problema mais fundamental
de quais espécies de raciocínio podem ter como produto final
48 A LINGUAGEM DA MORAL

respostas a perguntas da forma “Que devo fazer?”. É evidente


que até termos esclarecido esse problema mais fundamental
não seremos capazes de dizer muito sobre a força prescritiva
dos juizos morais. Aqui será suficiente mostrar por que, embo­
ra prescrição e descrição possam ser combinadas no mesmo
juízo, a descrição não é e nunca pode ser prescrição. Em outras
palavras, fornecerei razões para sustentar que, por nenhuma
forma de inferência, por mais imprecisa que seja, podemos
obter resposta à pergunta “Que devo fazer?” a partir de um con­
junto de premissas que não contenha, ao menos implicitamente,
um imperativo?
3.5. Minhas razões para sustentar isso são três. Primeiro,
sustentar que uma conclusão imperativa pode ser derivada de <
premissas puramente indicativas leva a representar questões de
substância como se fossem questões verbais. Nesse contexto, é
interessante recordar o equívoco análogo do Professor Carnap a
respeito das leis físicas. Carnap certa vez sustentou que, pela
inclusão de regras adequadas de inferência no que denominou
Linguagem-P (i.e., a linguagem de uma ciência), seria possível
demonstrar que as afirmações da ciência são verdadeiras ape­
nas em virtude de sua forma; e dizer isso é assimilar essas afir­
mações ao que normalmente chamamos afirmações analíticas/
- embora o próprio Carnap as chame sintéticas, empregando a
palavra num sentido especial5. Essa pode parecer uma maneira
concisa de demonstrar como é possível dizer que as verdades
científicas são necessárias e, assim, resolver o espinhoso “pro­
blema da indução”. Mas se perguntarmos “Quais são essas
regras especiais de inferência?” com certeza revelar-se-á que
são apenas as leis da ciência em outra roupagem. Portanto, se
temos uma regra de inferência no sentido de que podemos par­
tir de “Isto é uma mula” para “Esta (mula) é estéril”, então,
obviamente, nossa regra de inferência apenas afirma de outra
maneira a velha lei, “Todas as mulas são estéreis”. Surge,
então, a pergunta: “É adequado tratar uma lei da ciência como
se fosse uma regra de inferência?”. É natural dizer que não,
O MODO IMPERATIVO 49

pois, como deixou claro o trabalho já mencionado do Professor


Popper, pode-se demonstrar que as regras de inferência da lógi­
ca comum dependem das definições das palavras lógicas (2.4,
nota). Assim, por exemplo, faz parte do significado da palavra
“todas” podermos inferir, a partir de “Todas as mulas são esté­
reis e isto é uma mula”, a sentença “Esta (mula) é estéril” . Se¿
portanto,, queremos assimilar as leis da ciência às regras de
inferência, teremos de mostrar que elas, igualmente, resultam:
dos significados das palayras empregada^; por exemplo, tere­
mos de mostrar que a razão por que podemos passar de “Isto é
uma mula” para “Esta (mula) é estéril” tem algo a ver com o
significado das palavras “mula” e “estéril”. Porém dizer isso é
ser culpado de convencionalismo, cujos defeitos foram mostra­
dos pelo trabalho (entre outros) do ProfessorV onW right6. A
sentença “Todas as mulas são estéreis” diz-nos algo, não sobre
as palavras, mas sobre o mundo, e, por conseguinte, não pode
ser tratada como uma definição nem como algo análogo a uma
regra lógica de inferência. O único tipo de definição ao qual é
minimamente similar é uma definição “real” aristotélica, ou
parte de uma, no sentido de que é - na realidade - uma proprie­
dade das mulas ser estéreis; por mais improvável que seja os
convencionalistas admitirem isso, suas definições e regras de
inferência têm de ser tratadas como “reais” nesse sentido se se
espera que cumpram a tarefa que delas se exige.
A posição quanto à conduta é similar. O ponto de vista que
estou atacando sustenta que, tendo regras de inferência espe­
ciais, podemos dizer que podem existir inferências a partir de
um conjunto de premissas indicativas para uma conclusão im­
perativa. Se perguntamos “Que são essas regras especiais de
inferência?” fica evidente que nada mais são que as velhas
regras de conduta em nova roupagem. O que na disposição anti­
ga aparece como uma premissa maior imperativa reaparece na
nova como uma regra de inferência. O critério que sugiro para
decidir sobre os méritos dessas duas formas de colocar a maté­
ria é o mesmo de antes. Tomemos um exemplo. Suponha que eu
50 A LINGUAGEM DA MORAI

diga “Não diga isso porque é falso”. Devemos representar esse


argumento da seguinte forma:

S é falso.
Não diga S,

ou devemos acrescentar a premissa maior imperativa “Nunca


diga o que é falso”? Se for esta última, a inferência é válida
pelas regras comuns da lógica, mas se for a primeira, temos de
ter «ma regra especial de inferência,, que será justamente essa
premissa maior imperativa em outra função. Importa qual des­
sas alternativas escolhemos? Certamente que sim, se estamos
preocupados em distinguir, por um lado, princípios gerais sobre-
nossa conduta, que têm conteúdo e nos mandam fazer ou deixar
de fazer determinados atos positivos em nossa conduta externa,
e, por outro, regras lógicas, que não são regras para o compor­
tar-se corretamente, mas para o falar e pensar corretamente, e
dizem respeito, se se deve crer em Popper, não a nossas ações,
mas aos significados das palavras empregadas.
Esse argumento pesaria igualmente contra uma teoria que
reduzisse as regras de conduta a definições de palavras de valor,
pois, nesse caso, também argumentos sobre como uma pessoa
deve comportar-se seriam transformados em disputas meramen­
te verbais. Suponha que um comunista e eu estamos discutindo
se devo fazer determinada ação A e que, segundo seus princípios,
não devo fazê-la, enquanto segundo os meus, devo. Um defen­
sor da espécie de teoria que estou atacando poderia tratar essa
disputa da seguinte maneira: cada um dos disputantes tem sua
própria maneira de verificar a sentença “Devo, nestas circuns­
tâncias, fazer A”, e essas formas diferem. Portanto, a fim de evi­
tar tais disputas, seria melhor para nós substituir o único termo
ambíguo por dois termos não ambíguos; por exemplo, o comu­
nista deveria usar o termo “dever!” para o conceito regido por
suas regras de verificação, e eu deveria usar “dever2” para o meu
conceito. Mas o ponto é que há uma disputa, e não meramente
0 MODO IMPERATIVO 51

um mal-entendido verbal entre mim e o comunista; estamos di­


vergindo sobre o que eu devo fazer (não dizer) e, se ele me con­
vencer, minha conduta será substancialmente diferente do que
seria se eu não me convencesse.
3.6. Minha segunda razão para objetar a esse tipo de enfo­
que é que, se vamos introduzir imprecisão em nosso debate
sobre conduta, é melhor deixar claro em que consiste exata­
mente essa imprecisão; e mesmo eu estou bem pouco seguro do
que está sendo proposto. Admitamos, à guisa de argumento,
que temos liberdade, se assim desejarmos, para íratar princí­
pios como “Nunca diga o que é falso” como regras de inferên­
cia; temos então de perguntar em que aspecto essas regras de
inferência diferem das regras comuns da lógica. Já dei minha
própria resposta: diferem da mesma maneira que as leis cientí­
ficas diferem^ das regras da lógica, porque dizem respeito á
questões de substância, não a palavras - embora, neste caso,
as questões de substância não sejam questões de fato, mas do
que deveríamos fazer. A resposta dada pelo tipo de teoria que
estou criticando é que essas regras de inferência são mais
imprecisas do que as regras da lógica. Assim, se digo “Isto é
falso, mas diga-o”, não estou me contradizendo, mas apenas
burlando a regra mais imprecisa, no sentido de que

S é falso.
,*. Não diga S.

é, “em geral”, válida, Seria possível argumentar em favor


dessa maneira de tratar a questão o fato de que muitas vezes
dizemos “Não diga S porque é falso” , o que, presumivelmente,
se baseia numa inferência como aquela apresentada há pouco,
mas que isso não pode ser uma implicação estrita porque nor­
malmente não diriam que me contradigo se dissesse “S é falso,
mas diga-o”,
Temos, portanto, de investigar o que se pretende ao dizer
que uma regra é válida “em geral”, mas nâo universalmente.
52 A LINGUAGEM DA MORAL

Parece razoável dizer que a regra “Nunca diga o que é falso” é


urna regra dessa espécie, pois, na verdade, realmente achamos
certo observá-la na maioria dos casos, mas também achamos cer­
to violá-las em casos excepcionais, no interesse, por exemplo,
do tato, da vitória em guerras ou da proteção de inocentes con­
tra maníacos homicidas. Ora, posso pensar em pelo menos duas
maneiras em que uma regra ou princípio ló g ico "^d e ser in­
completamente rigoroso. A primeira maneira é quando a regra
estipula que um determinado tipo de ação deve ser realizado
sob determ ma^Fsr cireunstâncias. mas entende-se que é sufi­
ciente fazer isso na grande maioria dos casos; permitem-se
exceções se estas não forem inulto numerosas em proporção ao
n ^ e r o T o M de casos. Um exemplo de tal princípio seria o
princípio de que estudantes não devem tirar uma semana de fol­
ga durante o período letivo; evidentemente, se unia ou duas
vezes durante o curso, um estudante cuja aplicação é normal­
mente exemplar, tira algum tempo de folga, mesmo uma sema­
na, não vemos nenhum mal nisso; mas se tira folga todas as
semanas, ou mesmo a maioria, ele provavelmente terá sérios
problemas. É óbvio que o princípio de não dizer o que é falso
não é dessa natureza, porque não dizemos “Não tem importân­
cia você dizer ocasionalmente o que é falso, contanto que você
não o faça com muita freqüência”.
Q caráter distintivo desse primeiro tipo de princípio impre­
ciso é que as exceções a ele são limitadas apenas em numero e
não determinadas de outra forma. Desde que o estudante não
tire folga constantemente, não importa se ele escolhe uma se­
mana em vez de outra qualquer. Assim, cabe a ele próprio deci-
dir^uando devem ser feitas, se é que devem, as exceções ao
princípio, contanto que não sejam numerosas. Além disso, sua
decisão de tirar esta semana de íoíga em vez daquela não causa
nenhuma modificação no princípio, não estabelece um novo
precedente iõsiífadFque não estivesse làa n tej. Por­
tanto, podemos dizer que o princípio é, v is - w ís suas exceções,
estático.
0 MODO IMPERATIVO 53

Bem diferente é o caso do outro tipo de princípio “impreci­


so”, ao qual pertence “Nunca diga o que é falso”. Aqui, as exce­
ções não são limitadas por uma restrição numérica, mas pelas
peculiaridades de classes particulares de casos, Não dizemos
“Fale a verdade em geral, mas não tem importância se você dis­
ser o que é falso ocasionalmente”; dizemos antes “Fale a verda­
de em geral, mas há determinadas classes de casos a que este
princípio não se aplica; por exemplo, você pode dizer o que é
falso para salvar a vida, e há outras exceções que deve aprender
a reconhecer”. Esse tipo de princípio é um tanto diferente do
primeiro, É verdade que, aqui também, a1decisão?cabe ao agen­
te do caso individual; ele tem de decidir fazer ou não uma exce­
ção, mas o que está decidindo é bastante diferente. O estudante,
ao decidir se tira algum tempo de folga, não tem de perguntar a
si mesmo se esse é um caso de uma classe que deva ser tratada
como excepcional. No primeiro tipo de princípio não existem
classes de casos excepcionais, existem apenas exceções que
não diferem em nenhuma particularidade significante dos
casos em que o princípio é obsem do./M a^n ^ eas(réõ ^riffcipio
uma exceção,
não,,temos de cogitar “Tenho burlado este princípio muitas
veze s recentemente?”, mas “Há algo neste caso que o torna di­
ferente do tipo geral de casos, de tal forma que eu deva coloçar
casos compieste numa classe especial e tratá -los como exce­
ções?”. Assim, no caso de regras desse tipo, mesmo as exce-
ções são o que chamarei decisões de princípio porque, ao fazê-
las, estamos na verdade modificando o princípio. Há uma rela­
ção dinâmica entre as exceções e o princípio~
Isso toma evidente que, se falamos do segundo tipo de prin­
cípio como impreciso, estamos sendo gravemente enganosos.
A imprecisão na conduta é geralmente considerada uma coisa
ruim e seria perigoso se os filósofos difundissem a idéia de que
os princípios de conduta são imprecisos; pois não se pode espe­
rar que a pessoa comum distinga prontamente em que sentido
estão sendo denominados imprecisos. Ela naturalmente consi­
54 A LINGUAGEM DA MORAL

derará que são como o primeiro tipo de princípio e que, porque


são frouxos, não precisa preocupar-se em observá-los sempre,
contanto que o faça com freqüência suficiente para manter as
aparências. Mas, nesse sentido, nossos princípios de conduta,
como na verdade também a maioria dos princípios de capacida-
de, não são imprecisos de modo algum. O fato de que se fazem
exceções a eles não é sinal de alguma imprecisão essencial,
mas de nosso desejo de torná-los tão rigorosos quanto possível.
Pois o que estamos fazendo ao permitir classes de exceções é
tornar o princípio não mais impreciso, mas mais rigoroso. Su­
ponha-se que partimos do princípio de nunca dizer o que é
falso, mas que consideramos esse princípio como provisório e
reconhecemos que pode haver exceções. Suponha-rse, então,
que decidimos fazer uma exceção no caso de mentiras contadas
em tempos de guerra para enganar o inimigo. A regra tornou-se
agora “Nunca diga o que é falso, exceto em tempo de guerra
para enganar o inimigo”. Egse princípio, desde que a excecão
torne-se explícita e seja incluída na formulação do princípio,
não é mais impreciso do que era antes, mas mais estrito. Numa
grande classe de casos, onde previamente se deixava aberta^
possibilidade de exceções e tínhamos de decidir p o fn ó s m es­
mos, a posição agora está regulamentada; o princípio determina
queTuessãs circunstâncias, podemo"s dizer o que é falso.
Essa expressão simplificada da maneira como m odifica­
mos princípios através da admissão de classes de exceções
abrange somente os casos em que o próprio princípio é expresso
em palavras que não deixam dúvida quanto a como reconhecer
os casos que se enquadram nele. “Nunca diga o que é falso” é
um exemplo de tal princípio. Muitas vezes, porém, os princípios
são formulados de uma forma que tom a impossível tratar a
questão, saber se um caso enquadra-se neles ou não, como uma
mera questão de fato. Freqüentemente, embora nem sempre,
isso ocorre porque o próprio princípio contém, além dos verbos
imperativos ou palavras de valor necessários para a formulação
de um princípio de ação, outras palavras de valor ocupando o
O MODO IMPERATIVO 55

lugar que, num caso normal, seria ocupado por termos pura­
mente descritivos. Por exemplo, poderíamos colocar nosso prin­
cípio sobre falsidade mima forma diferente: “Não conte menti­
ras” , Poderíamos subseqüentemente admitir uma exceção no
caso de falsidades ditas, não com a intenção de enganar, mas
para outros propósitos, para divertir, por exemplo. Depois pode­
ríamos dizer que contar sobre alguém uma história que todo
mundo sabe que é ben trovam não é mentir. Podemos dizer isso
porque “mentir” não significa simplesmente dizer falsidades,
mas dizer falsidades que são repreensíveis. Assim poderíamos
fazer, e às vezes fazemos, uma distinção entre mentiras propria­
mente ditas e mentiras inofensivas; mentiras propriamente ditas
são todas repreensíveis; uma mentira inofensiva, por outro lado,
é, nas palavras do Oxford English Dictionaty, “uma afirmação
conscientemente inverídica que não é considerada criminosa:
uma falsidade tornada venial ou elogiável por seu motivo”. Em
todos esses casos, a modificação do princípio assume a forma
de uma alteraçao, náo de sua rormulaçaoefetiva, mas das condi­
ções sob as quais se sustenta que o principio é válido, isto é, uma
alteração dólim STúTda palavra crucial ou, como vamos denomT
ná-la mais adiante, de seu sigmticádo descritivofcom a retenção
de seu significado avaliatório. E assim, como salientou o Pro­
fessor H. L. A. Hart, que os princípios jurídicos são muitas ve-
zes m odificados por meio de decisões judiciais, como, por
exemplo, pela decisão de determinar se a queda ocasional de
uma bola de críquete numa rua pública deve ou não ser adequa-
damente denominada uma “infração”. A palavra em questão não
precisa (como aqui) ser uma palavra de valor; pode ser uma
palavra descritiva cujo significado é impreciso o bastante para
admitir tal tratamento. Tais decisões, é claro, tomam a lei mais
precisa, não menos. O âmbito da palavra pode ser efetivamente
alterado ou pode meramente tomar-se mais preciso. E não seria
necessário salientar que decisões desse tipo são decisões e não,
como Aristóteles parece pensar às vezes, exercícios de um tipo
peculiar de percepção7. Percebemos, na verdade, uma diferença
56 A LINGUAGEM DA MORAL

na classe do caso; mas decidimos se essa diferença justifica que


a tratemos como excepcional.
Assim, longe de querer dizer que princípios como “Nunca
diga o que é falso” são, por natureza, irremediavelmente impre­
cisos, é parte de nosso desenvolvimento moral transformã-los
de princípios provisórios em princípios precisos, com suas
exceções claramente determinadas; esse processo, está claro,
nunca é completado, mas está sempre acontecendo em qual­
quer existência individual. Se aceitamos e continuamos a acei­
tar tal princípio, não podemos, como no caso da regra sobre
tirar folga, violá-lo e deixar o princípio intacto; temos de deci­
dir se devemos observar o princípio e recusarmo-nos a modifi-
cá-lo, ou violá-lo e modificá-lo admitindo uma classe de exce­
ções; ao passo que se o princípio fosse realmente impreciso por
natureza, poderíamos violá-lo sem modificá-lo. No próximo
capítulo analisarei com mais detalhes como desenvolvemos e
modificamos nossos princípios.
3.7. O erro mais grave, contudo, do tipo de teoria que
estou criticando é que ^ a ^ e ^ f e i ^ e ^ o sso^a-^iocínio sobre a
conduta um fator que é da própria essência da moral. Esse
fator é a decisão. Em ambos os tipos de princípio que venho
discutindo, o princípio, em certo sentido, não é universal ape­
nas porque em casos particulares cabe à decisão do agente agir
segundo o princípio ou não. Ora, usar a palavra “inferência” 5
para if f ^ õ i^ e iim e n tq como esse é seriamente enganoso,.
Quando alguém diz “Isto é falso, portanto não vou dizê-lo” ou
“Isto é falso, mas vou dizê-lo mesmo assim e abrir uma exce­
ção ao meu princípio”, está fazendo muito mais que in fe rir'
Ü m ^cJc^go^F^inferência, sozinho, não lhe diria qual dessas
duas coisas ele deve dizer em qualquer caso individual que se
enquadre no princípio. Ele tem de decidir qual delas dizer.
Inferir consiste em dizer que se ele conta uma falsidade, estará
violando o princípio, ao passo que se conta a verdade, estará ob­
servando-o. Essa é um a inferência dedutiva perfeitamente sa?
tisfatória, e não é preciso dizer mais nada sobre ela. O restante
O MODO IMPERATIVO 57

do que ele faz não é inferência, mas algo bem diferente, a


saber, decidir alterar ou não o princípio.
Assim, não vejo razão para retirar o que disse sobre a
maneira como os princípios de conduta implicam comandos
particulares. A implicação é rigorosa, O que temos de investi­
gar é, não alguma imprecisão na implicação, mas a maneira
como formamos e m odificamos nossos princípios e a relação
entre esse processo e as decisões particulares que tomamos no
curso dela.
Capítulo 4
Decisões de princípio

4.1. Há dois fatores que podem estar envolvidos em qual­


quer decisão de fazer algo. Destes, o primeiro, ao menos teori­
camente, pode estar ausente; o segundo está sempre presente
em certo grau. Correspondem às premissas maior e menor do
silogismo prático aristotélico. A premissa maior é um princípio
de conduta, a premissa menor é um enunciado, mais ou menos
completo, do que deveríamos de fato estar fazendo se adotásse­
mos uma ou outra das alternativas abertas a nós. Assim, se deci­
do não dizer algo porque é falso, estou agindo segundo um
princípio, “Nunca (ou nunca sob determinadas condições) diga
o que é falso”, e devo saber que isso que estou cogitando dizer
ou não é falso, f — —— — - —
Tomemos primeiramente a premissa menor, já que apre­
senta menos dificuldade. Não podemos, evidentemente, decidir
o que fazer a não ser que saibamos ao menos alguma coisa so­
bre o que deveríamos estar fazendo se fizéssemos isto ou aqui­
lo. Por exemplo, suponha que eu seja um empregador e esteja
pensando se demito ou não um funcionário que habitualmente
chega ao escritório depois da hora em que se comprometera
a chegar. Se o demitir estarei privando sua família do dinheiro
eom que vive talvez dando à minha firm a uma reputação que
levará funcionários a evitá-la quando houver outros empregos
disponíveis, e assim por diante; se o mantiver, estarei fazendo
60 A LINGUAGEM DA MORAL

com que outros funcionários realizem o trabalho que, do con­


trário, seria realizado por esse funcionário; e os negócios do es­
critório não serão realizados tão rapidamente quanto o seriam
se todos os funcionários fossem pontuais. Essa seria a espécie
de considerações que levaria em conta ao tomar minha decisão.
Elas seriam os efeitos sobre a situação total das ações alternati­
vas, demiti-lo ou não demiti-lo. São os efeitos que determinam
o que eu deveria estar fazendo; é entre os dois conjuntos de
efeitos que estou decidindo, O ponto essencial de uma decisão
é que ela faz uma diferença no que acontece, e essa diferença é
a diferença entre os efeitos de decidir de uma forma e os efeitos
de decidir da outra forma.
Às vezes parece estar implícito em autores de ética que é
imoral, em determinados tipos de ocasião, considerar os efeitos
de fazer alguma coisa. Devemos, dizem, fazer nosso dever,
sejam quais forem os seus efeitos. Como estou usando a pala­
vra “efeitos”, isso não pode ser sustentado. Não estou defen­
dendo a “conveniência” (no sentido negativo) em oposição ao
“dever”. Mesmo fazer nosso dever - na medida em que se trata
de fa zer algo - é efetuar certas mudanças na situação total. E
bem verdade que, das mudanças que é possível efetuar na situa­
ção total, a m aior parte das pessoas concordaria que devemos
considerar determinados tipos mais relevantes que outros
(quais mais que quais, é o propósito dos princípios morais
dizer-nos). Não acho que a proximidade ou distância dos efei­
tos façam qualquer diferença, embora sua certeza ou incerteza
façam. Considera-se imoral deixar de corrigir uma injustiça
cujos efeitos irão maximizar o prazer não porque em tal escolha
os efeitos sejam considerados quando não deveriam sê-lo; é
porque se dá a alguns dos efeitos - a saber, a maximização do
prazer - uma relevância que não deveriam ter, em vista da rei­
vindicação anterior dos outros efeitos, que consistiriam na cor­
reção da injustiça.
Por razoes que se tomarão evidentes quando tivermos exa­
minado a lógica das palavras de valor, é muitíssimo importante,
O MODO IMPERATIVO 61

numa exposição verbal de um argumento sobre o que fazer, não


permitir palavras de valor na premissa menor. Ao formular os
fatos do caso, devemos ser o mais factuais que pudermos. Os
versados na lógica dessas palavras e, portanto, prevenidos con­
tra suas armadilhas, podem, no interesse da brevidade, descon­
siderar essa precaução; mas para os inexperientes é muito
melhor manter as expressões de valor no lugar que lhes é pró­
prio, na premissa maior. Isso evitará a admissão inadvertida de
um termo médio ambíguo, como no exemplo em 3.3 sub fin e.
Não quero dizer que ao discutir os fatos do caso não devería­
mos admitir quaisquer palavras que pudessem ter um significa­
do avaliatório, pois isso, em vista da forma como os significa­
dos avaliatórios permeiam nossa linguagem, seria praticamente
impossível. Quero dizer apenas que devemos ter certeza de
que, como estamos usando as palavras na premissa menor, há
testes definidos (que não envolvam avaliação) para demonstrar
sua verdade ou falsidade. No último parágrafo estava empre­
gando a palavra “fazer” em tal sentido, embora nem sempre seja
empregada dessa forma.
4.2. A relação entre as duas premissas talvez possa tomar­
se mais clara considerando um exemplo artificial. Suponhamos
que um homem tenha um gênero peculiar de clarividência que
lhe permita saber tudo sobre os efeitos de todas as ações alter­
nativas apresentadas a ele. Mas suponhamos que, até então, não
tenha formado, ou não lhe tenham ensinado, nenhum princípio
de conduta. Ao decidir entre cursos alternativos de ação, tal
homem saberia, total e exatamente, entre o que estava decidin­
do. Temos de perguntar até que ponto tal homem estaria em
desvantagem, se é que estaria, ao ter de tomar uma decisão, por
não ter quaisquer princípios formados. Parece indubitável que
poderia escolher entre dois cursos; seria até estranho chamar tal
escolha necessariamente arbitrária ou infundada, pois se um
homem sabe nos mínimos detalhes exatamente o que está
fazendo, e o que poderia ter feito sob outras condições, sua es­
colha não é arbitrária no sentido em que seria arbitrária uma
escolha feita por cara ou coroa, sem qualquer consideração dos
62 A LINGUAGEM DA MORAL

efeitos. Mas suponha que devêssemos perguntar a tal homem


“Por que você escolheu este conjunto de efeitos em vez daque­
le? Quais dos muitos efeitos foram os que o levaram a decidir
da forma que decidiu?”. Ele poderia dizer “Não posso dar
quaisquer razões; simplesmente quis decidir desta forma; numa
outra oportunidade, defrontado com a mesma escolha, posso
decidir de forma diferente”. Por outro lado, ele poderia dizer
“Foi isto e isto que me fez decidir; estava evitando deliberada­
mente tais e tais efeitos, e buscando tais e tais efeitos”. Se des­
se a primeira dessas duas respostas, poderíamos, num determi­
nado sentido dessa palavra, chamar sua decisão de arbitrária
(embora mesmo naquele caso tivesse alguma razão para sua es­
colha, a saber, que ele quis daquela forma); mas se desse a se­
gunda, não poderíamos.
Vejamos o que está envolvido no segundo tipo de resposta.
Embora tenhamos suposto que o homem não tem princípios for­
mados, ele mostra, se dá a segunda resposta, que começou a
formar princípios, pois escolher efeitos porque estes são tais e
tais é começar a agir segundo um princípio de que tais e tais
efeitos devem ser escolhidos. Vemos nesse exemplo que, para
agir segundo um princípio, não é necessário, em certo sentido, já
ter um princípio antes de agir; pode ser que a decisão de agir de
certa forma, por causa de algo a respeito dos efeitos de agir
desta forma, seja assentir a um princípio de ação - embora não
seja necessariamente adotá-lo em algum sentido permanente.
Os homens comuns não são tão afortunados quanto o
homem de nosso exemplo artificial. Eles começam, na verda­
de, absolutamente sem qualquer conhecimento do futuro, e
quando adquirem o conhecimento, não é desse tipo intuitivo. O
tipo de conhecimento que temos do fiituro - a menos que seja­
mos clarividentes - baseia-se em princípios de previsão que
nos são ensinados, ou que formamos para nós mesmos. Prin­
cípios de previsão são um tipo de princípio de ação; pois prever
é agir de uma determinada forma. Assim, embora não exista
nada que possa impedir logicamente uma pessoa de ignorar
0 MODO IMPERATIVO

princípios e de fazer todas as suas escolhas da maneira arbitrá­


ria exibida no primeiro tipo de resposta, isso, na verdade, nunca
ocorre. Além disso, nosso conhecimento do futuro é fragmentá­
rio e apenas provável, e, portanto, em muitos casos os princí­
pios que nos são ensinados ou que formamos para nós mesmos
não dizem “Escolha este tipo de efeito em vez daquele”, mas
“Você não sabe com certeza quais serão os efeitos, mas faça
isto em vez daquilo, e é muito provável que os efeitos sejam
como os que você teria escolhido, se os conhecesse” . É impor­
tante lembrar neste contexto que “verossímil” e “provável” são
palavras de valor; em muitos contextos “É provável (ou veros­
símil) que P” é adequadamente traduzido por “Há uma boa
razão (ou evidência) para sustentar que P”.
4.3. Podemos distinguir, até aqui, duas razões por que te­
mos princípios. A primeira razão aplica-se a qualquer um, mes-
mo um homem com to taf intuição do futuro^ que decide esco-
lheralgum a coisa porque eia tem umTHeTermmado caráter. A
segunda razão aplica-se a nós porque, na verdade, não temos
conhecimento completo do futuro e porque o conhecimentd
que temos envolve princípios. Deve-se agora acrescentar a
essas razões uma terceira. Sem princípios, a maior parte dos
tipos de ensino é impossível, pois o que se ensina, na maioria
dos casos, é um princípio. Em particular, quando aprendemos a
fazer algo, o que aprendemos é sempre um princípio’. Até
mesmo aprender um fato (como os nomes dos cinco rios do
Punjab) é aprender a responder a uma pergunta, é aprender o
princípio “Quando perguntarem a você ‘Quais são os nomes
dos cinco rios do Punjab?’ responda ‘O Jhelum, o Chenab,
etc.’ ”, Mas, é claro, não quero dizer que aprender a fazer algo é
aprender a recitar mecanicamente alguma sentença imperativa
universal.%|Isso nos envolveria numa regressão viciosa, pois
aprender a recitar é um tipo de aprendizado e deve ter seus prin­
cípios, mas, nesse caso, teríamos de aprender a recitar os princí­
pios da recitação. Em vez disso, o ponto é que aprender a fazer
algo nunca é aprender a realizar um. ato individual, é sempre
64 A LINGUAGEM DA MORAL

aprender a realizar atos de iim determinado tipo num determi-


nado tipo de situação, e isso é aprender um princípio. Assim, ao
aprender a dirigir, aprendo, nao a mudar a marcha agora, mas a
mudar a marcha quando o m otor faz um determinado tipo de
ruido. Se não fosse assim, a instrução não teria utilidade nenhu­
ma, pois se tudo o que um instrutor pudesse fazer fosse nos
dizer para mudar a marcha agora, teria de ficar sentado ao
nosso lado pelo resto de nossas vidas para nos dizer precisa­
mente quando, em cada ocasião, mudar a marcha,
Assim, sem princípios não poderíamos aprender absoluta­
mente nada de nossos predecessores. Isso significaria que cada
geração teria de começar do zero e ensinar a si mesma. Mas
mesmo que cada geração fosse capaz de ensinar a si mesma,
não poderia fazer isso sem princípios; pois o autodidatismo,
como qualquer outro ensino, é o ensino de princípios. Isso pode
ser percebido recorrendo a nosso exemplo artificial. Suponha­
mos que nosso clarividente fizesse todas as suas escolhas se­
gundo algum princípio, mas sempre esquecesse, logo depois de
fazer a escolha, qual era o princípio. Conseqüentemente, cada
vez que tomasse uma decisão, teria de examinar todos os efei­
tos das ações alternativas. Isso consumiria tanto tempo que ele
não teria tempo para tomar muitas decisões no curso de sua
vida. Gastaria todo o seu tempo decidindo questões como dar
um passo com o pé direito ou com o esquerdo, e não chegaria
nunca ao que chamaríamos as decisões mais importantes. Po­
rém, se pudesse recordar os princípios segundo os quais agiu,
estaria numa posição muito melhor; poderia aprender a agir em
determinados tipos de circunstâncias; poderia aprender a desta-
car rapidamente os aspectos relevantes de uma situação, inclu-
sive os efeitos das várias ações possíveis, e, assim, escolher
rapidamente e, em muitos casos, de forma h a b itu a ljAssim.
seus poderes de decisão ponderada ficariam livres para deci­
sões mais importantes. Quando o marceneiro aprende a fazer
um ensamblamento sem refletir muito sobre isso, terá tempo
para pensar em coisas como as proporções e a aparência estéti­
O MODO IMPERATIVO 65

ca do produto acabado. E acontece o mesmo com nossa condu­


ta na esfera moral; quando o cumprimento dos deveres menores
torna-se uma questão de hábito, temos tempo para pensar nos

há um limite do quanto uma pessoa pode ensi­


nar a outra. Além desse ponto, é necessário o autodidatismo. O
limite é estabelecido pela variedade de condições que pode ser
encontrada quando se faz o que está sendo ensinado, seja o que
for, e essa variedade é maior em alguns casos do que em outros.
Um sargento pode ensinar a um recruta quase tudo o que há
para saber sobre calar baionetas num desfile, porque uma oca­
sião de calar baionetas num desfile é muito parecida com outra;
mas um instrutor de direção não pode fazer mais do que come­
çar a ensinar a seu aluno a arte de dirigir, porque as condições a
serem encontradas no ato de dirigir são muito diversas. Na
maioria dos casos, ensinar não pode consistir em fazer com que
o aprendiz desempenhe sem falha um exercício determinado.
Uma das coisas que têm de ser incluidas em qualquer tipo de
instrução, com exceção dos mais elementares, é a oportunidade
de o aprendiz tomar decisões por si mesmo, e, ao fazê-lo, exa­
minar e mesmo modificar os principios que estão sendo ensina-
dos para adaptá-los a tipos particulares de c a sa Os principios
que nos são ensinados inicialmente são de um tipo provisorio
(muito parecidos com o principio “Nunca diga o que é falso”,
que discuti no capítulo anterior). Nosso treinamento, depois
dos estágios iniciais, consiste em apreender esses princípios e
torná-los menos provisórios; fazemos isso usando-os continua-
mente em nossas próprias decisões e, algumas vezes, abrindo
exceções a eles; algumas das exceções são feitas porque nosso
instrutor nos mostra que determinados casos são exemplos de
classes de exceções ao princípio, e algumas das exceções elega­
mos por nós m esm os. Isso não apresenta mais dificuldade do
que teve nosso clarividente para decidir entre dois conjuntos de
efeitos. Se aprendemos através da experimentação que seguir
determinado princípio acarretaria determinados efeitos, ao pas-
66 A LINGUAGEM DA MORAL

so que modificá-lo de urna determinada forma acarretaria ou­


tros determinados efeitos, adotamos qualquer forma do princi­
pio que leve ao efeitos que escolhemos perseguir.
Podemos ilustrar esse processo de modificação de princi­
pios a partir do exemplo já utilizado, o de aprender a dirigir.
Dizem-me, por exemplo, que sempre vá para o acostamento da
estrada quando parar o carro; porém, mais tarde, dizem-me que
isso não se aplica quando paro, antes de virar num a estrada
secundária, tendo de atravessar a pista - pois, então, devo parar
perto do meio da pista até que seja possível virar. Ainda mais
tarde, aprendo que, nessa manobra, não é sequer necessário
parar quando se trata de um cruzamento não controlado e posso
ver que nao há tráfego que eu possa obstruir ao virar. Quando
aprendo todas essas modificações da regra e as modificações
similares de todas as outras regras e pratico habitualmente as
regras assim modificadas, então sou considerado um bom mo­
torista, porque meu carro está sempre no lugar certo na estrada,
trafegando na velocidade correta, e assim por diante. O bom
motorista é, entre outras coisas, aquele cujas ações são tão exa­
tamente regidas por princípios que se tornaram um hábito para
ele, que normalmente não tem de pensar no que fazer. Mas as
condições das estradas são muito diversas e, portanto, é impru­
dente deixar que dirigir transforme-se totalmente numa questão
de hábito. Uma pessoa nunca pode estar segura de que seus
princípios ao dirigir são perfeitos - na verdade, pode estar bem
segura de que não são, e, portanto, o bom motorista não apenas
dirige bem por hábito, mas está constantemente atento a seus
hábitos de direção, para ver se não podem ser melhorados; ele
nunca pára de aprender1.
É desnecessário salientar que os princípios para dirigir,
como outros princípios, normalmente não são inculcados pela
repetição verbal, mas por exemplo, demonstração e outros
meios práticos. Aprendemos a dirigir, não por preceito, mas
porque nos demonstram como executar seções particulares do
ato de dirigir; os preceitos geralmente são apenas versões ex-
planatórias ou mnemónicas do que está sendo demonstrado.
O MODO IMPERATIVO 67

Daí para frente, tentamos executar nós mesmos as manobras


particulares, somos criticados por nossas falhas, elogiados
quando as executamos bem e, assim, gradualmente, nos fami­
liarizamos com os varios principios do bem dirigir. Pois embo­
ra nossa instrução esteja longe de ser puramente verbal, o que
nos estão ensinando, contudo, são princípios, Q fato de que a
derivação de atos particulares (ou comandos para executá-los) a
partir de princípios normalmente é feita de forma não-verbal
não demonstra que ela n ão é um processo lógico, assim como
não se demonstra que a inferência:

O relógio acaba de bater sete vezes,


O relógio bate sete vezes somente às sete horas.
,\ São pouco mais de sete horas.

é não-lógica por nunca ser feita explicitamente em palavras.


Os motoristas muitas vezes sabem exatamente o que fazer
numa determinada situação sem serem capazes de enunciar em
palavras o princípio segundo o qual agem. Esse é um estado de
coisas muito comum para todos os tipos de princípio. Prepara­
dores de armadilha sabem exatamente onde armá-las, mas mui­
tas vezes não conseguem explicar precisamente por que coloca­
ram uma armadilha num local particular. Todos sabemos como
empregar palavras para comunicar o que queremos dizer, mas
se um lógico reclama a definição exata de uma palavra que uti­
lizamos ou as regras exatas para o seu emprego, muitas vezes
não conseguimos. Isso não significa que a preparação de arma­
dilhas, o emprego de palavras ou a condução de automóveis
não se processem de acordo com princípios. Uma pessoa pode
saber como, sem ser capaz de dizer como - embora quando
uma habilidade deve ser ensinada, fique mais fácil se pudermos
dizer c o m a l
Não devemos pensar que, se podemos decidir entre um cur­
so e outro sem reflexão mais demorada (parece-nos evidente por
si mesmo qual deles devemos tomar), isso necessariamente im-
68 A LINGUAGEM DA MORAL

plique que temos alguma faculdade intuitiva misteriosa que nos


diz o que fazer. Um motorista não sabe quando mudar a marcha
por intuição; sabe porque aprendeu e não esqueceu; o que ele
sabe é um princípio, embora não possa formular o princípio em
palavras, O mesmo é verdadeiro no caso das decisões morais que
são às vezes chamadas ‘‘intuitivas”. Temos “intuições” morais
porque aprendemos a nos comportar, e as tem os diferentes, de
acordo com a forma em que aprendemos a nos comportar.
Seria um erro dizer que tudo o que precisa ser feito para
transformar um homem em um bom motorista seria dizer-lhe
ou, de outro modo, inculcar-lhe muitos princípios gerais. Isso
seria excluir o fator da decisão. Logo após começar a aprender,
ele deparará com situações em face das quais os princípios pro­
visórios até então ensinados exigirão modificação; e ele terá
então de decidir o que fazer. Descobrirá bem cedo quais deci­
sões estavam certas e quais erradas, em parte porque o instrutor
lhe diz e, em parte, porque, tendo visto os efeitos das decisões,
resolve não provocar tais efeitos no futuro. Em nenhuma hipó­
tese devemos cometer o erro de supor que decisões e princípios
ocupam duas esferas separadas e não se tocam em nenhum
pontp. Todas as decisões, exceto as que são completamente ar­
bitrárias, se é que existem, são, em certa medida, decisões de
princípio. Estamos sempre estabelecendo precedentes para nós
mesmos. Não é o caso de o princípio resolver tudo até determi­
nado ponto e a decisão lidar com tudo que esteja abaixo daque­
le ponto. Em vez disso, decisão e princípios interagem em toda
a extensão do campo. Suponha que temos um princípio para
agir de certa forma em determinadas circunstâncias. Suponha
depois que nos encontramos em circunstâncias que se enqua­
dram no princípio, mas que têm determinadas características
peculiares, não encontradas antes, que nos fazem perguntar
“Pretende-se realmente que o princípio abranja casos como
este ou ele está especificado incompletamente - temos um caso
pertencente a uma classe que deve ser tratada como excepcio­
nal?”. Nossa resposta a essa pergunta será uma decisão, mas
0 MODO IMPERATIVO M

uma decisão de princípio, como demonstra o emprego da pala­


vra de valor "dever”. Se decidimos que deve ser uma exceção,
modificamos o princípio estabelecendo uma exceção a ele.
Suponha, por exemplo, que, ao aprender a dirigir, me ensi­
naram a sempre sinalizar antes de reduzir a velocidade ou parar,
mas que ainda não me ensinaram o que fazer quando parar
numa emergência; se uma criança pula na frente do meu carro,
não sinalizo, mas mantenho as duas mãos no volante e, daí em
diante, aceito o princípio anterior com esta exceção, que, em
casos de emergência, é m elhor manobrar d o oue sinalizar.
Tomei, mesmo sem premeditação, uma decisão de principio.
Entender o que acontece em casos como esse é entender muito
sobre informação de juízos de valor ]
4.4. Não quero dar a impressão de estar levando longe de­
mais minha comparação, no que diz respeito à forma como são
aprendidos, entre os princípios do dirigir e os princípios da
conduta. É necessário também ter em mente algumas distin­
ções. Em primeiro lugar, a expressão “bom motorista” é ambí­
gua porque não fica imediatamente claro que padrão está sendo
aplicado. Pode ser simplesmente um padrão de perícia; pode­
mos dizer que alguém é bom motorista se for capaz de fazer
exatamente o que quer com seu carro; podemos dizer: “Embora
muito bom motorista, ele tem pouquíssima consideração para
com outros usuários da estrada.” Por outro lado, às vezes espe­
ramos que um bom motorista também tenha qualidades morais;
não dizemos, segundo esse critério, que um homem é bom mo­
torista se dirige com perícia, mas sem a menor consideração
pela comodidade ou pela segurança de outras pessoas. Não é
fácil estabelecer na prática o limite entre esses dois padrões de
bem dirigir. Há também um terceiro padrão, segundo o qual se
diz que um motorista é bom se se conforma aos princípios reco­
nhecidos de bem dirigir tal como estabelecidos, por exemplo,
no Código de Trânsito. Já que o Código de Trânsito é compila­
do com um propósito definido, este padrão coincide em grande
parte com o segundo.
70 A LINGUAGEM DA MORAL

Em segundo lugar, há dois modos de encarar o ensino de


direção:

(1) Estabelecemos de inicio determinados ñns, por exemplo,


evitar colisões, e a instrução consiste em ensinar quais prá­
ticas contribuem para esses fins. De acordo com este modo
de encará-los, os princípios do bem dirigir são imperativos
hipotéticos. ¡
(2) Ensinamos primeiramente regras práticas simples, e o aluno
apenas gradualmente começa a perceber quais são os fins a
que visa a instrução.

Não se deve pensar que somente (1) ou somente (2) forne­


çam uma descrição completa de nosso procedimento, Qual
método adotar depende em grande parte da maturidade e da
inteligência do aluno. Ao ensinar soldados simplórios a dirigir,
poderíamos nos inclinar mais para o segundo método; se eu
tivesse de ensinar meu filho de dois anos a dirigir, teria de ado­
tar os mesmos métodos que adoto hoje para ensiná-lo a não
mexer nos controles quando estou dirigindo. Para um aluno
muito inteligente, por outro lado, podemos adotar um método
que tenha nele mais de (1) do que de (2).
Não se deve pensar, contudo, que o método (2) seja sempre
inteiramente descabido, mesmo no caso do mais racional dos
aprendizes. Pode ser que a conveniência de evitar colisões seja
imediatamente compreendida e aceita mesmo por alunos com­
parativamente obtusos, mas há muito mais fins, além deste, a
que deve almejar um bom motorista. Ele tem de evitar causar
muitos tipos de inconvenientes evitáveis, para si e para outros;
tem de aprender a não fazer coisas que resultem em dano a seu
veículo, e assim por diante. É inútil estabelecer de início um
fim geral, “evitar inconvenientes evitáveis”; pois “inconvenien­
te” é uma palavra de valor e, até que tenha experiência de dire­
ção, o aluno não saberá que tipo de situação deve ser considera­
da inconveniente evitável. O fim ou princípio geral é vazio até
O MODO IMPERATIVO 71

que, por meio de nossa instrução detalhada, tenhamos dado


conteúdo a ele. Portanto, é sempre necessário começar, em
certa medida, ensinando a nosso aprendiz o que fazerj deixan­
do-o descobrir mais tarde por quê. Podemos, portanto, dizer
que, embora os princípios morais, normalmente ensinados a
nós quando somos imaturos, sejam ensinados em larga medida
pelo método (2 ), e os princípios de direção, preponderantemen­
te pelo método (1), não há uma divisão absoluta entre os dois
tipos de princípio nesse aspecto. O que acabo de dizer sobre
primeiro aprender o que fazer, e sobre a vacuidade inicial do
fim geral, é tomado de Aristóteles2. A única distinção funda­
mental entre princípios de direção e princípios de conduta é que
estes sãOj no termo de Aristóteles, “arquitetônicos” daqueles;
pois os fins do bem dirigir (segurança, evitar inconvenientes
para os outros, preservação da propriedade, etc.) são justifica­
dos, em última análise, se se busca justificação, recorrendo a
considerações morais3.
Seria tolice, porém, dizer que há somente uma maneira de
aprender uma habilidade ou qualquer outro corpo de princípios
ou de justificar uma decisão particular tomada durante a prática
deste. Há muitas maneiras, e tentei tornar a explicação acima
suficientemente geral para abranger todas elas. Autores de
moral dizem por vezes que temos de justificar um ato por refe­
rência a seus efeitos, e que dizemos quais efeitos devem ser
buscados, quais evitados, por referência a algum princípio. É a
teoria dos utilitaristas, que nos ordenam que olhemos para os
efeitos e os examinemos à luz do princípio de utilidade, para
ver quais efeitos maximizariam o prazer. Às vezes, por outro
lado, diz-se (como o Sr. Toulmin)4 que um ato é justificado di­
retamente por referência aos princípios que ele observa, e esses
princípios, por sua vez, por referência aos efeitos de sempre
observá-los. Diz às vezes que devemos observar os princípios e
ignorar os efeitos - embora, pelas razões dadas acima, não se
possa entender “efeitos”, neste caso, com o sentido em que o
tenho empregado. O que está errado nessas teorias não é o que
72 A LINGUAGEM DA MORAL

dizem, mas a assunção de que nos estão reportando à única


maneira de justificar ações ou de decidir que ações realizar. Na
verdade, justificam os e elegemos ações de todas essas manei­
ras; por exemplo, às vezes, se nos perguntam por que fizemos
A, dizemos “Porque era um caso que se enquadrava no princí­
pio P”, e se instados a justificar R recorremos aos efeitos de
observá-lo e de nâo observá-lo. Mas, às vezes, quando nos
fazem a mesma pergunta, “Por que você fez A?”, dizemos
“Porque se não tivesse feito, teria acontecido E ”, e se nos per­
guntam o que havia de errado com E, apelamos para algum
princípio,
A verdade é que, se nos pedem que justifiquemos qualquer
decisão da forma mais completa possível, temos de mencionar
os efeitos - para dar conteúdo à decisão - e os princípios, e os
efeitos, em geral, de observar aqueles princípios, e assim por
diante, até que tenhamos satisfeito nosso inquiridor. Assim, jus­
tificação completa de uma decisão consistiria em uma descri­
ção completa de seus efeitos,- juntamente com uma descrição
completa dos princípios observados e dos efeitos de observar
aqueles princípios - pois, é claro, são também os efeitos (aqui­
lo em que efetivamente consiste obedecer a eles) que dão con­
teúdo aos princípios. Assim, se nos pedem que justifiquem os
uma decisão completamente, temos de dar uma especificação
completa do modo de vida do qual ela é parte. Na prática, é
impossível dar essa especificação completa; as tentativas que
chegam mais perto são as dadas pelas grandes religiões, espe­
cialmente que podem apontar personagens históricas que prati­
caram tal modo de vida. Suponha, entretanto, que possamos
fornecê-la. Se o inquiridor ainda continua a perguntar “Mas por
que eu deveria viver dessa forma?”, então não há mais respos­
tas para dar a ele, porque já dissemos, ex hypothesi, tudo o que
podia ser incluído nessa nova resposta. Podemos somente pedir
que decida por si mesmo de que maneira deve viver pois, no
final, tudo se fundamenta em tal decisão de princípio. Ele tem
de decidir se aceita aquele modo de vida ou não; se o aceita,
O MODO IMPERATIVO 73

então podemos prosseguir e justificar as decisões que se ba­


seiam nele; se não o aceita, então que aceite algum outro e tente
viver segundo ele. O tormento está na última oração. Descrever
tais decisões últimas como arbitrárias, porque, ex hypothesi,
tudo que podia ser utilizado para justificá-las já foi incluído na
decisão, seria como dizer que uma descrição completa do uni­
verso é totalmente infundada, porque não se pode recorrer a
nenhum fato adicional para corroborá-la. Não é assim que
empregamos as palavras “arbitrário” e “infundado”. Longe de
ser arbitrária, tal decisão seria a mais bem-fundada das deci­
sões, porque se basearia na consideração de tudo em que se
pudesse fundamentar.
Observar-se-á que, ao falar de decisões de princípio, co­
mecei inevitavelmente a falar em linguagem de valor; Assim,
decidimos que o princípio deve ser modificado, ou que é
melhor manobrar do que sinalizar. Isso ilustra a estrita relevân­
cia do que venho dizendo, na primeira parte deste livro, para os
problemas da segunda parte; pois fazer um juízo de valor é
tomar uma decisão de princípio. Perguntar se devo fazer A nes­
tas circunstâncias é (tomando emprestada a linguagem kantiana
com uma pequena mas importante modificação) perguntar se
desejo ou não que fazer A em tais circunstâncias tome-se uma
lei universal5. A distância de Kant ao Professor Stevenson pode
parecer grande, mas a mesma questão poderia ser colocada em
outras palavras, perguntando “Que postura devo adotar e reco­
mendar em relação a fazer A em tais circunstâncias?”, pois
“postura”, se significa alguma coisa, significa um princípio de
ação. Infelizmente, Stevenson, ao contrário de Kant, dedica
muito pouco espaço ao exame dessa pergunta de primeira pes­
soa; tivesse lhe dado a devida atenção, e evitado os perigos da
palavra “persuasivo”, poderia ter atingido uma posição não
diferente da de Kant.
4.5. Como salienta Kant na importante passagem sobre a
Autonomia da Vontade, ao qual me referi anteriormente, temos
de tomar nossas próprias decisões de princípio6. Outras pessoas
74 A LINGUAGEM DA MORAL

não podem tomá-las por nós, a menos que tenhamos primeiro


decidido aceitar seu conselho ou obedecer a suas ordens. Há
uma analogia interessante aqui com a posição do cientista, que
também tem de contar com suas próprias observações. Pode-se
dizer que há um a diferença aqui entre decisões e observações,
em detrimento daquelas, porque uma observação, uma vez feita,
é propriedade pública, enquanto as decisões têm de ser tomadas
pelo próprio agente em cada ocasião. Mas a diferença é apenas
aparente. Um cientista não se teria tomado cientista a não ser
que tivesse se convencido de que as observações de outros cien­
tistas são em geral confiáveis. Fez isso fazendo algumas obser­
vações por si mesmo. Quando aprendemos química elementar
na escola, tínhamos algumas aulas teóricas e outras práticas.
Nas aulas teóricas estudávamos livros; nas aulas práticas fazía­
mos experimentos e descobríamos, se tínhamos sorte, que os
resultados correspondiam ao que diziam os livros. Isso nos mos­
trava que o que os livros diziam não era tudo bobagem, de modo
que, mesmo quando os experimentos davam errado, em razão de
fatores de perturbação que ignorávamos, tendíamos a confiar
nos livros e a reconhecer que tínhamos cometido um erro. A
assunção era confirmada pelo fato de que, muitas vezes, desco­
bríamos mais tarde qual fora o erro. Se nossas observações, por
mais cuidadosamente que as tivéssemos feito, estivessem sem­
pre em discrepância com os livros didáticos, não nos sentiría­
mos tentados a fazer da ciência a nossa profissão. Portanto, em
última análise, a confiança do cientista nas observações de
outras pessoas baseia-se, entre outras coisas, em suas próprias
observações e seus próprios julgamentos sobre o que é confiá­
vel. Ele tem, afinal, de contar consigo mesmo.
O caso do agente moral não é dissimilar. Em nossa infân­
cia, quando nos dão instrução moral elementar, há algumas coi­
sas que nos dizem e algumas coisas que fazemos. Se, quando
fizéssemos o que nos diziam, os efeitos totais de fazê-lo, quan­
do acontecessem, fossem sempre tais que não os teríamos esco­
lhido se os conhecêssemos de antemão, então deveríamos bus­
O MODO IMPERATIVO 75

car conselho melhor, ou, se impedidos de fazê-lo, trabalhar por


nossa própria salvação ou tomarmo-nos deficientes morais. Se,
em geral, nos dão o que, subseqüentemente, percebemos ter
sido um bom conselho, decidimos, em geral, seguir o conselho
e adotar os princípios dos que nos deram esse bom conselho no
passado. É o que acontece a qualquer criança bem criada.
Assim como o cientista não tenta reescrever tudo o que está nos
livros, mas admite-o como verdade e dedica-se a suas próprias
investigações particulares, essa criança afortunada irá assumir
os princípios de seus responsáveis e adaptá-los detalhadamen­
te, de tempos em tempos, por meio de suas próprias decisões,
para que se ajustem a suas próprias circunstâncias. É assim que,
numa sociedade bem ordenada, a moralidade mantém-se está­
vel e, ao mesmo tempo, adapta-se a circunstâncias mutáveis.
4.6. Este feliz estado de coisas pode, porém, deteriorar-se
de várias maneiras. Consideremos um processo que parece
ocorrer com bastante freqüência na história; ocorreu na Grécia
durante os séculos V e IV, e tem ocorrido em nossa própria
época. Suponha que as pessoas de uma determinada geração -
que chamarei primeira geração - tenham princípios bem esta­
belecidos, herdados de seus pais. Suponha que estejam tão es­
tabelecidos que se tornaram uma segunda natureza, de forma
que, falando de modo geral, as pessoas ajam segundo os princí­
pios sem pensar, e sua capacidade de tomar decisões pondera­
das tome-se atrofiada. Eles agem sempre de acordo com as
regras e não sofrem nenhum mal porque o estado do mundo em
seu tempo é praticamente o mesmo para o qual os princípios
foram ideados. Mas seus filhos, a segunda geração, à medida
que crescem, descobrem que as condições mudaram (e . g por
uma guerra prolongada ou uma revolução industrial) e que os
princípios em que foram criados não são mais adequados.
Como se deu muita ênfase em sua educação à observação dos
princípios e muito pouca às decisões em que, em última análi­
se, esses princípios se baseiam, sua moralidade não tem raízes e
torna-se completamente instável. Já não se escrevem ou lêem
76 A LINGUAGEM DA MORAL

livros sobre “O Dever Integral do Homem”. Muitas vezes,


quando fazem o que se diz em tais livros, subseqüentemente
encontram motivo para lamentar suas decisões; e há casos
demais desse tipo para que reste qualquer confiança nos velhos
princípios como um corpo. Sem dúvida, há no meio desses
velhos princípios alguns bastante gerais, que permanecerão
aceitáveis a menos que a natureza humana e o estado do mundo
experimentem uma mudança muitíssimo fundamental; mas a
maioria da segunda geração, não tendo sido criada para tomar
decisões de princípio, mas para fazer o que diz o livro, não será
capaz de tomar as decisões cruciais que determinariam quais
princípios manter, quais modificar e quais abandonar. Algumas
pessoas, as crianças virtuosas da segunda geração, estarão tão
impregnadas dos velhos princípios que simplesmente os segui­
rão, aconteça o que acontecer; e serão, como um todo, mais
afortunadas do que as outras, pois é melhor ter alguns princí­
pios, mesmo que algumas vezes levem a decisões que lamente­
mos, do que estar moralmente à deriva. O grosso da segunda
geração, talvez, mais ainda da terceira, não saberá quais princí­
pios manter e quais rejeitar, e, portanto, passarão mais e mais a
viver somente o agora - o que não é ruim, porque treina sua
capacidade de decisão, mas é um estado desagradável e perigo­
so. Alguns deles, os rebeldes, gritarão aos quatro ventos que
alguns ou todos os velhos princípios morais são inúteis; alguns
desses rebeldes advogarão novos princípios próprios; al­
guns nada terão a oferecer, Embora intensifiquem a confusão,
esses rebeldes desempenham a útil função de fazer as pessoas
decidirem entre os princípios rivais, e se não apenas advogam
novos princípios, mas tentam sinceramente viver segundo es­
tes, estão conduzindo um experimento moral que poderá ser do
mais alto valor para o homem (caso em que passarão para a his­
tória como grandes mestres da moral) ou, por outro lado, pode­
rão mostrar-se desastrosos para eles e para seus discípulos,
Pode levar muitas gerações para que essa moléstia seja eli­
minada. A moralidade recupera seu vigor quando as pessoas
O MODO IMPERATIVO 77

comuns aprendem novamente a decidir por si mesmas sob que


princípios viver e, mais especialmente, que princípios ensinar a
seus filhos. Já que o mundo, embora sujeito a vastas mudanças
materiais, muda somente muito devagar em questões que são
fundamentais do ponto de vista moral, os princípios que con­
quistam a aceitação da massa provavelmente não devem diferir
enormemente daqueles de que seus pais vieram a duvidar. Os
princípios morais de Aristóteles lembram os de Ésquilo mais do
que diferem deles, e nós mesmos talvez nos voltemos para algo
reconhecivelmente semelhante à moralidade de nossos avós.
Mas haverá algumas mudanças; alguns dos princípios defendi­
dos pelos rebeldes terão sido adotados. É assim que a moralida­
de progride - ou regride. O processo, como veremos, reflete-se
em alterações bastante sutis no emprego de palavras de valor; a
impossibilidade de tradução do catálogo de virtudes de Aris­
tóteles para o inglês moderno pode servir como um exemplo, e
o desaparecimento sem vestígios da palavra “earnest” [diligen­
te, sincero], como outro.
4.7. A pergunta que mencionamos, “Como devo criar meus
filhos?”, é uma questão a cuja lógica, desde os tempos antigos,
poucos filósofos deram muita atenção. A educação moral de
uma criança tem um efeito sobre ela que permanecerá em boa
parte inalterado por qualquer coisa que lhe aconteça no futuro.
Se teve uma criação estável, segundo bons ou maus princípios, se­
rá extremamente difícil para ela abandonar esses princípios
mais tarde - difícil mas nâo impossível. Terão para ela a força
de uma lei moral objetiva, e seu comportamento oferecerá mui­
tos indícios em favor de teorias éticas intuicionistas, contanto
que não seja comparado com o comportamento dos que adotam
com igual firmeza princípios bem diferentes. Mas, não obstan­
te, a menos que nossa educação tenha sido tão meticulosa a
ponto de transformar-nos em autômatos, podemos vir a duvidar
desses princípios ou mesmo rejeitá-los; é isso o que torna os
seres humanos, cujos sistemas morais modificam-se, diferentes
das formigas, cujo “sistema moral” não muda. Portanto, ainda
78 A LINGUAGEM DA MORAL

que para mim a pergunta “Que devo fazer em tal e tal situa­
ção?” seja quase invariavelmente respondida sem ambigüidade
pela intuição moral que minha criação me deu, se perguntar a
mim mesmo “Como devo criar meus filhos?”, posso hesitar
antes de dar uma resposta. É aqui que surgem as decisões
morais mais fundamentais, e é aqui, se os filósofos morais ao
menos lhes dessem atenção, que os usos mais característicos
das palavras morais devem ser encontrados. Devo criar meus
filhos exatamente como fui criado, para que tenham as mesmas
intuições sobre a moral que eu tenho? Ou será que as circuns­
tâncias alteraram-se, de forma que o caráter moral do pai não
proporcionará um equipamento adequado para os filhos?
Talvez eu tente criá-los como seu pai, e falhe; talvez seu novo
ambiente seja forte demais para mim e eles venham a repudiar
meus princípios. Ou posso ter ficado tão aturdido com o estra­
nho mundo novo que, embora ainda aja pela força do hábito,
segundo os princípios que aprendi, simplesmente não saiba que
princípios conferir a meus filhos, se é que, na verdade, alguém
em minhas condições possa efetivamente conferir quaisquer
princípios estabelecidos. Tenho de tomar uma decisão em rela­
ção a todas essas questões; somente o pai mais tacanho tentará
criar seus filhos, sem ponderar, exatamente da mesma forma
como foi criado, e mesmo ele, em geral, fracassará desastrosa­
mente.
Muitos dos cantos escuros da ética tornam-se mais claros
quando consideramos esse dilema no qual os pais estão propen­
sos a se envolver. Já observamos que, embora, no final, os prin­
cípios tenham de se fundamentar em decisões de princípio,
decisões como tais não podem ser ensinadas, somente princí­
pios podem ser ensinados. É a impotência do pai para tomar em
lugar do filho as muitas decisões de princípio que ele tomará
em sua futura carreira que dá à linguagem moral seu formato
característico. O único instrumento que o pai possui é a educa­
ção moral - o ensino de princípios por meio de exemplos e pre­
ceitos, reforçados por castigos e outros métodos psicológicos
O MODO IMPERATIVO 79

mais modernos. Ele deve usar esses meios, e até que ponto?
Certas gerações de pais não tiveram dúvidas a esse respeito.
Usaram-nos na totalidade, e o resultado foi transformar seus
filhos em bons intuicionistas, capazes de se manter nos trilhos,
mas fracos para fazer manobras. Outras vezes, os pais - e quem
os condenaria? - sofrem de falta de confiança; não têm ao
menos certeza suficiente do que eles mesmos pensam, para
estar prontos a conferir a seus filhos um modo de vida estável.
Às crianças de tal geração provavelmente crescerão oportunis­
tas, perfeitamente capazes de tomar decisões individuais, mas
sem o conjunto estabelecido de princípios que é a mais valiosa
herança que qualquer geração pode legai* a seus sucessores.
Pois, embora os princípios sejam construídos sobre decisões de
princípio, a construção é o trabalho de muitas gerações, e deve-
se ter pena do homem que tem de começar do início; é imprová­
vel, a não ser que ele seja um gênio, que consiga muitas conclu­
sões de importância, não mais provável do que seria um meni­
no comum, solto sem instrução numa ilha deserta, ou mesmo
num laboratório, fazer qualquer uma das principais descobertas
científicas.
O dilema entre dois caminhos extremos na educação é cla­
ramente falso. Por que é falso fica evidente se recordamos o
que foi dito anteriormente sobre a relação dinâmica entre deci­
sões e princípios. É bastante semelhante a aprender a dirigir.
Seria tolo, ao ensinar alguém a dirigir, tentar inculcar-lhe prin­
cípios tão fixos e abrangentes que ele nunca tivesse de tomar
uma decisão independente. Seria igualmente tolo ir para o
outro extremo e deixar-lhe a tarefa de encontrar sua própria ma­
neira de dirigir. O que fazemos, se somos sensatos, é dar-lhe
uma base de princípios sólida mas, ao mesmo tempo, ampla
oportunidade de tomar as decisões em que se baseiam esses
princípios e pelas quais são modificados,, melhorados, adapta­
dos a circunstâncias modificadas, ou mesmo abandonados
quando se tornam inteiramente inadequados a um novo am­
biente. Ensinar somente os princípios, sem conceder a oportu­
80 A LINGUAGEM DA MORAL

nidade de sujeitá-los às decisões de princípio do próprio aluno,


é como ensinar ciência exclusivamente com livros didáticos,
sem entrar num laboratório. Por outro lado, abandonar um filho
ou um aluno de direção à auto-expressão é como colocar um
menino num laboratório e dizer “Vire-se”. O menino pode se
divertir ou se matar, mas provavelmente não aprenderá muito
sobre ciência.
As palavras morais, das quais podemos tomar “dever”
como exemplo, refletem em seu comportamento lógico essa
natureza dupla da instrução moral - como seria de esperar, pois
é na instrução moral que são mais tipicamente empregadas. As
sentenças em que aparecem normalmente são a expressão de
decisões de princípio - e é fácil, em nossa discussão da matéria,
permitir que as decisões se separem dos princípios. Essa é a
fonte da controvérsia entre os “objetivistas”, como os intuicio­
nistas às vezes chamam a si mesmos, e os “subjetivistas”, como
muitas vezes chamam seus oponentes. Os primeiros enfatizam
os princípios fixos que são passados pelo pai, os segundos nas
novas decisões que têm de ser tomadas pelo filho. O objetivista
diz “E claro que você sabe o que deve fazer, veja o que sua
consciência lhe diz e, em caso de dúvida, guie-se pela cons­
ciência da ampla maioria dos homens”. Ele pode dizer isso por­
que nossas consciências são o produto dos princípios que nosso
treinamento primeiro gravou indelevelmente em nós e, numa
sociedade, esses princípios não diferem muito de uma pessoa
para outra. O subjetivista, por outro lado, diz “Mas, com certe­
za, no momento crucial - depois de ouvir o que outras pessoas
dizem e de dar o devido peso a minhas próprias intuições, o
legado de minha criação - tenho, afinal, de decidir por mim
mesmo o que devo fazer. Negar isso é ser um convencionalista;
pois tanto as noções morais comuns quanto as minhas próprias
intuições são o legado de um a tradição e - além do fato de
haver tantas tradições diferentes no mundo - as tradições não
podem ter início sem que alguém faça o que agora me sinto ins­
tado a fazer, decidir. Se me recuso a tomar minhas próprias
O MODO IMPERATIVO 81

decisões, estou, ao meramente copiar meus pais, mostrando-me


um homem menor do que eles; pois, enquanto eles devem ter
iniciado, estarei meramente aceitando”. Essa alegação do sub­
jetivista é inteiramente justificada. É a alegação do adolescente
que quer ser adulto. Tornar-se moralmente adulto é conciliar
essas duas posições aparentemente conflitantes aprendendo a
tomar decisões de princípio, é aprender a usar sentenças de
“dever” na compreensão de que estas somente podem ser veri­
ficadas pela referência a um padrão ou conjunto de princípios
que tenhamos, por nossa própria decisão, aceitado e tornado
nosso. É isso que a presente geração está tão dolorosamente
tentando fazer.
SEGUNDA PARTE
“Bom”

“Bom.... O adjetivo de aprovação mais geral, implican­


do a existência em grau elevado, ou pelo menos satisfatório,
de qualidades características que são admiráveis em si mes­
mas ou úteis para algum propósito...”

Oxford English Dictionary


Capítulo 5
“Naturalismo”

5.1. A primeira parte deste livro serviu a dois propósitos.


Primeiro, examinando com certo detalhe a linguagem usada
para expressar comandos - a forma mais simples de prescrição
- estamos agora em posição melhor para compreender o com­
portamento lógico mais complexo das palavras de valor, o
outro instrumento essencial para prescrever que nos provê
nossa língua. Em segundo lugar, tivemos, no curso deste
exame, ocasião de observar alguns dos tipos de situação em que
estamos acostumados a empregar a linguagem prescritiva e vi­
mos como aprendemos a responder a perguntas da forma “Que
devo fazer?”, cuja resposta é uma prescrição.
No restante do livro estarei lidando com algumas palavras
de valor típicas e, especialmente, com “bom”, “correto” e “de­
ver”. Embora minha seleção seja convencional, três explana­
ções precisam ser feitas aqui. Primeiramente, não desejo suge­
rir que as características das palavras de valor para as quais cha­
marei a atenção limitam-se às poucas palavras típicas examina­
das aqui; na verdade - e isto tem sido causa de confusão lógica
- quase toda palavra de nossa língua pode ser usada ocasional­
mente como palavra de válor (isto é, aprovar ou o contrário); e,
geralmente, apenas interrogando minuciosamente um falante
podemos dizer se está usando a palavra dessa forma. A palavra
“brilhante” é um bom exemplo. Ao restringir minha atenção às
Hfi A LINGUAGEM DA MORAL

mais simples, típicas e gerais das palavras de valor, meu único


objetivo é a simplicidade de exposição. Em segundo lugar, os
termos “palavras de valor” e “avaliatório’' são excessivamente
difíceis de definir. Contentar-me-ei, por enquanto, em dar
alguns exemplos e ilustrações; só mais adíante (11.2) poderei
arriscar uma definição e, mesmo então, sem muita confiança.
Em terceiro lugar, seguirei um procedimento similar ao empre­
gado anteriormente em conexão com o aprendizado de princí?
pios; ilustrarei as peculiaridades das palavras de valor com
exemplos extraídos de seus usos não-morais, e somente mais
tarde questionarei se essas mesmas peculiaridades são encon­
tradas em contextos morais. Esse procedimento, embora possa
parecer inadequado, tem uma grande vantagem; permitirá que
eu demonstre, espero, que as peculiaridades dessas palavras
não têm nada a ver com a moral como tal e que, portanto, teo­
rias que pretendam explicá-las têm de ser aplicáveis não apenas
a expressões como “bom homem”, mas também a expressões
como “bom cronômetro”, e perceber isso é preservar-se de
muitos erros.
5.2. Permitam-me ilustrar um dos aspectos mais caracterís­
ticos das palavras de valor em termos de um exemplo particu­
lar. É um aspecto que se descreve algumas vezes dizendo que
“bom” e outras palavras de tal tipo são os nomes de proprieda­
des “supervenientes” ou “conseqüentes”. Suponha que um qua­
dro esteja pendurado na parede e estejamos discutindo se é um
bom quadro, isto é, estamos debatendo se assentimos ou dis-
sentimos do juízo “P é um bom quadro”. Deve-se compreender
que o contexto torna claro que com “bom quadro” não quere­
mos dizer “boa cópia”, mas “boa obra de arte” - ambos os usos,
porém, seriam expressões de valor.
Primeiramente observemos uma peculiaridade muito im ­
portante da palavra “bom” tal como empregada nessa sentença.
Suponha que haja outro quadro ao lado de P na galeria (vou
denominá-lo Q). Suponha que P seja uma réplica de Q ou Q de
P e que não sabemos qual é qual, mas sabemos que ambos
“BOM” 87

foram pintados pelo mesmo artista, mais ou menos na mesma


época. Ora, há uma coisa que não podemos dizer; não podemos
dizer “P é exatamente igual a Q em todos os aspectos, salvo
este, que P é um bom quadro e Q não é’\ Se disséssemos isso,
provocaríamos o comentário: “Mas como um pode ser bom e o
outro não, se são exatamente iguais?” . Deve haver alguma dife­
rença adicional entre eles para fazer com que um seja bom e o
outro não. A nâo ser que admitamos ao menos a relevância da
pergunta “O que torna um bom e o outro não?” certamente dei­
xaremos perplexos nossos ouvintes, eles pensarão que há algo
errado com nosso uso da palavra “bom” . Às vezes não pode­
mos especificar precisamente o que torna um bom e o outro
não, mas sempre deve haver algo. Suponha que, na tentativa de
explicar o que queremos dizer, disséssemos: 4iEu não disse que
havia qualquer outra diferença entre eles; há apenas esta única
diferença, de que um é bom e o outro não. Seguramente você
me entenderia se eu dissesse que um está assinado e o outro
não, mas que, fora isso, nâo há nenhuma diferença? Então, por
que eu não diria que um é bom e o outro não, mas que, fora isso,
nâo há nenhuma diferença?”. A resposta a essa objeção é que a
palavra “bom” não é como a palavra “assinado”; há uma dife­
rença em sua lógica.
5.3. Pode-se sugerir a seguinte razão para essa peculiarida­
de lógica: há alguma característica ou grupo de características
dos dois quadros de que depende logicamente a característica
“bom/’, de tal forma que, é claro, um não pode ser bom e o
outro não, a menos que essas características também variem.
Para citar um caso paralelo, um quadro não poderia ser retan­
gular e o outro não, a menos que certas características também
variassem, por exemplo, a medida de pelo menos um dos ângu­
los. E, portanto, uma reação natural à descoberta de que “bom”
comporta-se da m aneira como se comporta é suspeitar que
existe um conjunto de características que, juntas, implicam
uma coisa ser boa e dispor-se a descobrir quais são essas carac­
terísticas. Essa é a gênese do grupo de teorias éticas que o Pro-
88 A LINGUAGEM DA MORAL

fessor Moore denominou “naturalistas” - um termo infeliz,


pois, como o próprio Moore diz, pode-se cometer substancial­
mente a mesma falácia escolhendo características metafísicas
ou supra-sensíveis para este propósito1. Falar sobre o sobrena­
tural não é urna profilaxia contra o “naturalismo”. O termo,
infelizmente, tem sido usado muito imprecisamente desde que
Moore o introduziu. O melhor é restringi-lo às teorias contra as
quais a refutação de Moore (ou uma versão reeenhe cível dela) é
valida. Nesse sentido, a maioria das teorias “emotivas” não é
naturalista, embora sejam muitas vezes assim denominadas.
Seu erro é bastante diferente. Argumentarei abaixo (11.3) que o
que está errado com as teorias naturalistas é que elas f a s a m de
fora o elemento prescritivo ©b aprobatorio dos juízos de valor,
buscando torná-lòs deriváveis de afirmações de fato. Se estou
certo nessa opinião, minha própria teoria, que preserva esse
elemento, nlo é naturalista.
Temos de inquirir, então, se existe alguma característica ou
grupo de características que esteja relacionado com a caracte­
rística de ser bom da mesma maneira que as medidas dos ângu­
los das figuras estão relacionadas com sua retangulaxidade. De
que maneira elas se relacionam? Isso implica responder à per­
gunta: Por que não pode ocorrer que um quadro seja retangular
e o outro não, a menos que as medidas dos ângulos dos dois
quadros também sejam diferentes? A resposta, evidentemente,
é que “retangular” significa “retilíneo e com todos os ângulos
de determinada medida, a saber, 90 graus”, e que, portanto,
quando dissemos que um quadro é retangular e o outro não, dis­
semos que as medidas de seus ângulos diferem; e se, então, di­
zemos que não diferem, contradizemos a nós mesmos. Por­
tanto, dizer “P é exatamente igual a Q em todos os aspectos,
salvo um, que P é um quadro retangular e Q não é” pode ser au~
tocontraditório; se é ou não autocontraditório depende do que
pretendemos incluir em “todos os aspectos”. Se pretendemos
incluir as medidas dos ângulos, então a sentença é autocontra-
ditória, pois é autocontraditório dizer “P é exatamente igual a Q
“BOM” 89

em todos os aspectos, inclusive as medidas de seus ângulos,


salvo este, que P é um quadro retangular e Q não é”; isso con­
tém a asserção de que os ângulos de P diferem e não diferem
dos de Q.
Assim, a impossibilidade de que estamos falando é uma
impossibilidade lógica, que depende do significado da palavra
‘‘retangular”. Esse é um exemplo muito elementar de impossibi­
lidade lógica; há outros exemplos mais complexos. Aqueles que
em tempos recentes negaram que possa existir verdade sintética
a priori têm afirmado que é possível demonstrar que toda impos­
sibilidade a priori é deste caráter, i.e., depende dos significados
atribuídos às palavras empregadas. Se estão certos ou não é ainda
uma questão em debate, mas para os propósitos de meu argu­
mento assumirei que estão. O debate atingiu a etapa em que não
pode ser discutido em bases abstratas somente, mas apenas por
meio da análise minuciosa de sentenças particulares que se alega
serem verdadeiras a priori e, não obstante, sintéticas2.
5.4. Perguntemos então se “bom” comporta-se da forma
como observamos que se comporta, pela mesma razão, “retan­
gular”; em outras palavras, se há determinadas características
de quadros que sejam características definidoras de um bom
quadro, da mesma forma que “ter todos os ângulos com 90
graus e ser uma figura plana retilínea” são características defi­
nidoras de um retângulo. Moore pensava que poderia provar
que não havia tais características definidoras para a palavra
“bom” tal como empregada na moral. Seu argumento tem sido
atacado desde quando ele o propôs, e é verdade, com certeza,
que sua formulação estava errada. Mas parece-me que o argu­
mento de Moore não era meramente plausível; baseia-se, em­
bora inseguramente, num fundamento seguro; realmente existe
algo a respeito do modo e dos propósitos corft que usamos a
palavra “bom” que íojãna impossível sustentar o tipo de px>:s%ã»
que Moore; estava atacando, embora Moore não. percebesse cla­
ramente o que era esse algo. Tentemos, portanto, reformular o
argumento de Moore de uma forma que torne claro por que o
90 A LINGUAGEM DA MORAL

“naturalismo” é insustentável, não apenas para o emprego mo­


ral de “bom”, como pensava ele, mas também para muitos ou­
tros empregos.
Suponhamos, para bem do argumento, que existam algu­
mas “características definidoras” de um bom quadro. Não
importa de que espécie são; pode ser uma única característica,
uma conjunção de características ou uma disjunção de caracte­
rísticas alternativas. Denominemos C o grupo dessas caracterís­
ticas. “P é um bom quadro” significará, então, o mesmo que “P
é um quadro e P é C”. Por exemplo, que C signifique “Ter uma
tendência para despertar nas pessoas que, naquele momento,
são membros da Academia Real (ou de qualquer outro grupo de
pessoas claramente especificado) um sentimento claramente
reconhecível chamado ‘admiração’ As palavras “claramente es­
pecificado” e “claramente reconhecível” têm de ser inseridas,
pois, do contrário, podemos descobrir que as palavras no âefi*
niem estavam sendo usadas avaliatoriamente, e isso faria com
que a definição deixasse de ser “naturalista”. Agora suponha
que desejamos dizer que os membros da Academia Real têm
bom gosto para quadros. Ter bom gosto para quadros significa
ter esse sentimento claramente reconhecível de admiração por
aqueles quadros, e somente por aqueles quadros, que são bons
quadros. Se, portanto, desejamos dizer que os membros da
Academia Real têm bom gosto para quadros, temos, de acordo
com a definição, de dizer algo que signifique o mesmo que
dizer que eles têm esse sentimento de admiração por quadros
que têm uma tendência de despertar neles esse sentimento.
Ora, isso não é o que queríamos dizer. Queríamos dizer que
eles admiravam os quadros; conseguimos somente dizer que eles
admiravam os quadros que admiravam. Assim, se aceitamos a
definição privamo-nos de dizer algo que às vezes realmente
queremos dizer. O que é esse algo tornar-se-á evidente mais
adiante; no momento, digamos que o que queríamos fazer era
aprovar os quadros que os membros da Academia Reaí admira­
vam. Algo em nossa definição impediu-nos de fazer isso. Não
••BOM” 91

poderíamos mais aprovar os quadros que eles admiravam, po­


deríamos apenas dizer que eles admiravam os quadros que
admiravam. Assim, nossa definição impediu-nos, em um caso
crucial, de aprovar algo que queremos aprovar. É isso que há de
errado com ela.
Generalizemos. Se se sustenta que “P é um bom quadro”
significa o mesmo que “P é um quadro e P é C”\ então será
impossível aprovar quadros por serem C; será possível apenas
dizer que são C. É importante perceber que essa dificuldade
não tem nada a ver com o exemplo particular que escolhi. Não é
porque escolhemos as características definidoras erradas; é
porque, quaisquer que sejam as características definidoras que
escolhamos, surge esta objeção, que não podemos mais elogiar
um objeto por ele possuir essas características.
Ilustremos isso por meio de outro exemplo. Por enquanto,
estou deliberadamente excluindo exemplos morais porque que­
ro deixar claro que as dificuldades lógicas que estamos encon­
trando não têm nada a ver com a moral em particular, mas
devem-se às características gerais das palavras de valor. Con­
sideremos a sentença “S é um bom morango”. Poderíamos na­
turalmente supor que isso significa apenas que “S é um moran­
go e S é doce, suculento, consistente, vermelho e grande”. Mas
então torna-se impossível para nós dizer determinadas coisas
que efetivamente dizemos em nossa conversação comum. Às
vezes queremos dizer que um morango é um bom morango
porque é doce, etc. isso - como podemos perceber imediata­
mente se nos imaginarmos dizendo isso - não significa o mesr-
mo que dizer que um morango é um morango doce, etc., porque
é doce, etc. Mas, segundo a defeiiçào proposta, é isso que sig­
nificaría. Assim, nesse caso, novamente, a definição proposta
impediria que disséssemos algo que conseguimos dizer signifi­
cativamente em nossa conversação comum.
5.5. Tem-se alegado algumas vezes contra a refutação de
Moore do naturalismo que ela prova coisas demais - que se
fosse válida para “bom” seria válida paia absolutamente qual­
92 A LINGUAGEM DA MORAL

quer palavra que se alegasse ser definível em termos de outras


palavras. Certas frases de Moore deixam-no vulnerável a essa
objeção, especialmente sua citação do lema de Butler, “Tudo é
o que é, e não outra coisa”3. Evidentemente o que os naturalis­
tas estão alegando é que “bondade” não é “outra coisa” que nao
as características que eles alegam ser suas características defi­
nidoras. Se o naturalismo fosse verdadeiro e fosse sustentado
coerentemente, o naturalista poderia argumentar da seguinte
forma: “Quando digo que x é um bom A e quando digo que ele
é um A que é C, estou dizendo uma mesma coisa, exatamente
como ao dizer que y é um potro e dizer que y é um cavalo jovem
estou dizendo uma mesma coisa. Seria possível produzir,
seguindo suas diretrizes, uma refutação da teoria de que ‘potro’
significa ‘cavalo jovem ’. Seria produzida do seguinte modo; Se
você aceita essa definição, então a sentença ‘Um potro é um ca­
valo jovem ’ torna-se equivalente a ‘Um cavalo jovem é um
cavalo jovem’, e isso é algo que jamais desejaríamos dizer; mas
realmente dizemos algumas vezes ‘Um potro é um cavalo
jovem ’; portanto, a definição proposta impede que digamos
algo que, em nossa conversação ordinária, dizemos significati­
vamente, etc.”.
Para responder a essa objeção, perguntemos em que oca­
siões e para que propósito empregamos a sentença “Um potro é
um cavalo jovem”. É evidente, creio eu, que devemos usar nor­
malmente essa sentença como definição; devemos utilizá-la
quando estivermos explicando o que é um potro ou o que a
palavra “potro” significa. Não é uma sentença normalmente
empregada para dizer alguma coisa de substância sobre potros,
embora, adiante, seja considerada uma possibilidade de tal
emprego. Assim, essa sentença tem pouca diferença de signifi­
cado, se é que tem alguma, em relação à definição original “ ‘Po­
tro’ significa ‘cavalo jovem ’ ”, Isso não implica que uma ou
outra forma da definição tenha algo de errado como definição.
Uma definição, se correta, é sempre analítica em um sentido e
sintética em outro. Tomada como uma sentença sobre potros é
“BOM" 93

analítica, tomada eomo M a sentença sobre a palavra “potro” é


sintética. Nunca é uma sentença sintética sobre potros, se fosse,
não seria ama defiróção, mas cu&a coisa,
Isso pode se tom ar claro por meio de uma consideração de
nosso exemplo. A sentença “Um potro é um cavalo jovem ”,
embora seja normalmente usada como uma definição da pala­
vra “potro”, é, não obstante, enganosa em sua forma, pois tem a
mesma forma que algumas sentenças que não são definições -
e.g., “Um potro é uma coisa que é esquisito encontrar num bar­
ril de cerveja”. É enganosa porque é elíptica, e isso obscurece o
fato de que é uma definição. Poderíamos corrigir ambas as fa­
lhas à custa de uma certa artificialidade, dizendo então “A sen­
tença ‘Se algo é um potro^ é um cavalo jovem (e vice-versa)’ é
analítica” . Isso tem o mérito de desvencilhar o sintético dos ele­
mentos analíticos da definição original. A parte entre aspas é
analítica se a definição for correta pois a função da definição é
dizer que é analítica. Por outro lado, a sentença toda não é ana­
lítica, é uma afirmação sintética sobre a parte entre aspas; des­
cobrimos se a afirmação está correta ou não estudando o uso da
língua. Assim, a sentença toda é uma afirmação sintética sobre
palavras; a parte entre aspas tem a forma de uma afirmação
sobre potros, mas não afirma nada sobre eles porque é analíti­
ca. Não há, em nenhum lugar da sentença, uma afirmação sin­
tética sobre potros.
5.6. Há um caso concebível em que “Um potro é um cava­
lo jovem” poderia ser usado para fazer uma afirmação sintética
sobre potros. Poderia ser análogo a “Um girino é uma rã (ou
outro batráquio) j ovem”, que poderia ser usado para informar a
uma pessoa que a classe de animais que ele tinha aprendido a
distinguir pelo nome “girino”, na verdade, transformam-se em
rãs quando crescem. Porém, esse caso não pode ser utilizado
para apoiar a objeção. Suponha que se objetasse “Você não
pode refutar o naturalismo da forma em que busca fazê-lo,
pois, nesse caso, teria de abandonar também a definição de
94 A LINGUAGEM DA MORAL

‘girino’ como ‘rã nova’; poder-se-ia argumentar que a sentença


‘Um girino é uma rã jovem ’, que, todos concordamos, pode ser
usada para fazer tuna afirmação sintética sobre girinos (a saber,
que eles viram rãs), é, de acordo com esta definição, uma mera
tautologia”. Não é difícil perceber que essa objeção baseia-se
num equívoco. Não podemos, ao mesmo tempo, sustentar que
“girino” significa o mesmo que “rã jovem” e que “Um girino é
uma rã jovem” é uma asserção sintética. Temos de definir “giri­
no” independentemente de “rã jovem” (por exemplo, por meio
de definição ostensiva, apontando uma porção de girinos na­
dando no lago), caso em que “Um girino é uma rã jovem” será
realmente uma asserção sintética, mas em que “girino” não sig­
nificará “rã jovem”, mas “o tipo de animal que você pode ver
nadando lá no lago”; ou então temos de definir “girino” como
“rã jovem” e, nesse caso, “Um girino é uma rã jovem” torna-se
analítico e “Aqueles são girinos nadando no lago” torna-se, não
uma definição ostensiva, mas uma afirmação de fato com o
sentido de que aqueles animais nadando na água vão transfor­
mar-se em rãs quando crescerem. Na verdade, é claro, aprende­
mos o significado de “girino” de ambas as formas, e, nesse
âmbito, isso é um equivoco. Isso não nos preocupa porque não
surgem casos em que animais exatamente como esses transfor­
mam-se, não em rãs, mas em, digamos, serpentes; mas se en­
contrássemos uma espécie de serpente que tivesse filhotes exa­
tamente como girinos, teríamos de fazer a distinção, dizendo
“Antes que você possa dizer se um animal como este é realmen­
te um girino, você tem de esperar e ver se ele se transforma
numa rã ou numa serpente”; ou poderíamos adotar outros expe­
dientes. Este é um quebra-cabeça comum na lógica; teremos
oportunidade de voltar a ele mais adiante (7.5; 11.2). É possível
argumentar que há um “equívoco” similar quanto à palavra
“bom ” pois, como veremos, ela tem força descritiva e avaliató­
rio, e estas têm de ser aprendidas por meios diferentes e inde­
pendentemente uma da outra. Porém não estamos ainda em
condições de explicar isso.
"BOM" 95

Aqui será suficiente salientar que se é interpretada dessa


forma a objeção desvia-se do ponto principal. Pois meu argu­
mento é que não podemos dizer que “x é ura bom A” significa o
mesmo que “x é um A que é C” porque, então, toma-se impos­
sível aprovar AA que são C dizendo “AA que são C são bons
AA”. No caso do “ girino” o argumento análogo seria “Você não
pode dizer que ‘x é um girino’ significa o mesmo que ‘x é uma
rã jovem ’ porque, então, torna-se impossível dizer que girinos
transformam-se em rãs dizendo ‘Um girino é uma rã jovem ’
Mas, é claro, se mantemos a definição de “girino” como equi*
valente a “rã jovem”, então é realmente impossível dizer disso;
é somente porque “girino” às vezes é empregado de outro modo
que não segundo essa definição, que às vezes podemos usar
“Um girino é uma rã jovem ” como asserção sintética. E, de
forma similar, é porque “bom” às vezes (na verdade em quase
todos os casos) é usado de outro modo que não segundo defini­
ções “naturalistas”, que podemos usá-lo para aprovar.
5.7. Mas retornemos à sentença “Um potro é um cavalo
jovem ”, e, negligenciando o possível emprego sintético que
estivemos considerando, limitemos nossa atenção a seu empre­
go como definição de “potro”. A objeção que estamos conside­
rando sustenta que algumas vezes realmente dizemos significa- *
tivamente “Um potro é um cavalo jovem”, e que com isso não f
pretendemos dizer o mesmo que pretenderíamos se dissésse-
mos “Um cavalo jovem é um cavalo jovem” . Portanto amplie­
mos amtíãs as sentenças da forma sugerida previamente. Trans­
formam-se, respectivamente, em “A sentença ‘Se algo é um
potro, é um cavalo jovem ’ é analítica” e “A sentença ‘Se algo é
um cavalo jovem, é um cavalo jovem ’, é analítica”. Ambas as
sentenças são verdadeiras, mas não significam a mesma coisa,
e é interessante notar que aqui temos um caso em que, embora
“potro” signifique o mesmo que “cavalo jovem”, eles não po­
dem ser substituídos um pelo outro sem mudança de significa­
do. isso, porém, não é nem um pouco paradoxal. Sabe-se bem
que, se uma sentença contém uma outra sentença entre aspas,
A LINGUAGEM DA MORAL

nem sempre é possível, sem mudar o significado de toda a sen­


tença, colocar expressões sinônimas no lugar das expressões
entre aspas. Assim, a sentença “Ele disse: ‘E um potro’ ” não
significa o mesmo que a sentença “Ele disse: ‘E um cavalo
jovem ’ pois suas verdadeiras palavras estão sendo reporta­
das, e faz diferença quais são elas. Similarmente, a sentença “O
dicionário diz ‘Potro: cavalo jovem ’ ” não é a mesma em signi­
ficado que a sentença “O dicionário diz ‘Cavalo jovem: cavalo
jovem ’ ”, Similarmente, outra vez, a sentença “Quando falantes
de nossa língua dizem ‘potro’ querem dizer o mesmo que
‘cavalo jovem ’ ” não tem o mesmo significado que a sentença
“Quando falantes de nossa língua dizem ‘cavalo jovem’ querem
dizer o mesmo que ‘cavalo jovem’ E assim, também, “A sen­
tença de nossa língua ‘Se algo é um potro, é um cavalo novo’ é
analítica” não significa o mesmo que “A sentença de nossa lín­
gua ‘Se algo é um cavalo jovem, é um cavalo jovem ’ é analíti­
ca”. E, portanto, as abreviações destas sentenças, “Um potro é
um cavalo jovem” e “Um cavalo jovem é um cavalo jovem” não
significam a mesma coisa.
M as tudo isso é completamente irrelevante no caso da
palavra “bom” . A força da objeção era que nosso ataque con­
tra definições naturalistas da palavra “bom” poderia ser lan­
çado igualmente contra definições da palavra “potro”, e que,
já que estas estão obviamente em ordem, deve haver algo de
errado com o ataque. Ora, nosso ataque contra definições
naturalistas de “bom ” foi baseado no fato de que, se fosse ver­
dadeiro que “um bom A ” significa o mesmo que “um A que é
C”, então seria impossível usar a sentença “Um A que é C é
bom ” para aprovar AA” que são C, pois esta sentença seria
analítica e equivalente a “Um A que é C ê C”. Ora, parece evi­
dente que empregamos sentenças da forma “Um A que é C é
bom ” para aprovar AA que são C, e que, quando o fazemos,
não estamos fazendo a mesma espécie de coisa que fazemos
ao dizer “Um potro é um cavalo jovem ”, isto é, aprovar não é a?
mesma espécie de atividade lingüística que definir.O signifi-
"BOM” 97

cado de expressões como “Um potro é um cavalo jovem ” é


preservado expandindo-as em definições explícitas como “A
sentença de nossa língua ‘Se algo é um potro, é um cavalo
jovem ’ é analítica”. Esta última sentença é verdadeira e é veri­
ficável por meio da consulta ao uso de falantes instruídos de
nossa língua. Quais falantes devem ser considerados instruí­
dos, é claro, é uma questão de valor sobre o uso adequado das
palavras, mas isso não é relevante aqui. Por outro lado, a sen­
tença da forma “Um A que é C é bom” não pode, sem m udan­
ça de significado, ser reescrita como “A sentença de nossa lín­
gua ‘Um A que é C é bom ’ é analítica”. Pois uma sentença
deste último tipo certamente não poderia ser usada para apro­
var, enquanto sentenças do primeiro tipo podem e são; apro­
vamos morangos que são doces, etc., dizendo “Um morango
que é doce, etc., é bom”, mas nunca fazemos isso dizendo “A
sentença de nossa língua ‘Um morango que é doce, etc., é
bom ’ é analítica”. Esta últim a sentença, se fosse usada, não
seria uma aprovação de morangos doces; seria uma observa­
ção - e falsa - sobre a nossa língua.
5.8. Assim, não é verdadeiro dizer que os meios utilizados
para desqualificar definições naturalistas de termos de valor
poderiam ser utilizados igualmente-para desqualificar qualquer
definição. Os termos de vaior têm uma função especial na lín­
gua, a áe aprovar, e, assim, eles evidentemente não podem ser
definidos em termos dê palavras que não desempenhem essa
ílinçâo elas mesmas pois, se isso for feito, seremos privados de
um meio de desempenhar a função, Mas a palavras como
“potro” isso não se aplica; alguém pode definir “potro” em ter­
mos de quaisquer outras palavras que façam o mesmo trabalho.
Se duas expressões farão ou não o mesmo trabalho é decidido
por referência ao uso. E já que o que estamos tentando fazer é
fornecer uma descrição da palavra “bom” tal como é usada -
não como poderia ser usada se seu significado e uso fossem
alterados - essa referência é definitiva. Portanto, não é resposta
A LINGUAGEM DA MORAL

ao argumento acima alegar que um “naturalista” poderia, se lhe


aprouvesse, definir “bom” em termos de algumas característi­
cas de sua escolha. Tal definição arbitrária é inteiramente des­
cabida aqui; o lógico, é verdade, é livre para definir seus termos
técnicos próprios como quiser, desde que deixe claro como vai
empregá-los. Mas “bom”, neste contexto, não é um termo téc­
nico usado para discorrer sobre aquilo de que o lógico está
falando; ele mesmo é aquilo de que o lógico está falando, é o
objeto de seu estudo, não o instrumento. Ele está estudando a
função da palavra “bom ” na língua e, enquanto quiser estudar
isso, deve continuar a conceder à palavra a função que tem na
linguagem, a de aprovar. Se, por uma definição arbitrária, ele
dá à palavra uma função diferente da que ela tem agora, então,
ele não está mais estudando a mesma coisa; está estudando uma
fantasia de sua própria invenção.
O naturalismo na ética, assim como as tentativas de qua­
drar o círculo e de “justificar a indução”, reaparecerá constan­
temente enquanto houver pessoas que não compreendam a
falácia envolvida. Portanto, pode ser útil fornecer um procedi­
mento simples para desmascarar qualquer nova variedade que
possa ser proposta. Suponhamos que aèguém alegue que pode
deduzir um juízo moral cm outro juízo ava#atório a partir de um
conjunto de premissas puramente factuais ou descritivas,
baseando-se em alguma definição no sentido de que V (uma
palavra de valor) significa o mesmo que C (uma conjunção de
predicados descritivos). Primeiramente, temos de pedir a ele
que se assegure de que C não contém nenhuma expressão que
seja veladamente avaliatória (por exemplo, “necessidades
humanas naturais”, “normais”, “satisfatórias” ou “fundamen­
tais”). Praticamente todas as pretensas “definições naturalis­
tas” desmoronam sob este teste - pois, para ser genuinamente
naturalista, ama definição hão deve conter nenhuma .expressão
cuja aplicabilidade não tenha um critério definido que não
envolva a formação de um juízo de valoL Se a definição satis-
faz esse teste, temos de perguntar em seguida se seu defensor
nunca deseja aprovar algo por ser C. Se ele diz que sim, temos
apenas de indicar que sua definição toma isso impossível, pelas
razoes dadas. E, evidentemente, ele não pode dizer que nunca
deseja aprovar algo por ser C pois aprovar coisas por serem C é
todo o objetivo de sua teoria.
Capítulo 6
Significado e critérios

6.1. 0 argumento do capítulo precedente estabelece que


“born”, sendo uma palavra usada para aprovar, não deve ser
definida em termos de um conjunto de características cujos
nomes não sejam usados para aprovar. Isto não quer dizer que
não haja nenhuma relação entre o que foi denominado caracte­
rísticas “que tornam bom” e “bom”; quer dizer apenas que essa
relação não é uma relação de implicação. Qual é a relação, dis­
cutirei mais adiante. Mas, antes disso, é necessário prevenir-se
contra um erro no qual é fácil incorrer, quando se demonstra
que “bom” não é analisável da forma que sugere o naturalismo.
É o erro de supor que, como “bom” não é o nome de uma pro­
priedade complexa (“bom morango”, por exemplo, significan­
do “morango que é doce, suculento, consistente, vermelho e
grande”), deve, portanto, ser o nome de uma propriedade sim­
ples. E claro que, se tudo o que se pretende designar por “pro­
priedade” é “seja o que for que um adjetivo represente”, então é
inofensivo dizer que “bom” é o nome de uma propriedade sim­
ples, exceto na medida em que sugere que há, para cada adjeti­
vo, algo que ele representa nesta relação superficialmente sim­
ples, mas filosoficamente desconcertante. Mas como “proprie­
dade” normalmente não é utilizada num sentido amplo como
esse, o emprego da palavra nesse contexto tem causado grave
102 A LINGUAGEM DA MORAL

confusão; tem levado a comparações entre “bom” e palavras de


propriedade simples típicas, como “vermelho”. É esta compa­
ração que agora deve ser examinada. Na verdade, como é muito
difícil estabelecer um critério lógico para distinguir proprieda­
des simples de propriedades complexas, não restringirei o argu­
mento tão estreitamente quanto essa comparação sugeriria; os
argumentos que utilizarei depõem igualmente contra a teoria de
que “bom” é o nome de uma propriedade complexa, no sentido
comumente aceito. São complementares a uma outra série de
argumentos dispostos com grande habilidade pelo Sr. Toulmin
contra uma teoria sim ilar1.
É característico da palavra “vermelho” podermos explicar
seu significado de determinada forma. A sugestão de que o
caráter lógico das palavras pode ser investigado perguntando
como explicaríamos seu significado procede de Wittgenstein.
O ponto principal do método é que ele revela como o aprendiz
poderia compreender erradamente o significado e, assim, ajuda
a mostrar o que é necessário para compreendê-lo corretamente.
Suponha-se que estamos tentando ensinar inglês a um filósofo
estrangeiro que, deliberada ou inadvertidamente, comete todos
os erros que pode cometer logicamente (pois é irrelevante que
erros uma pessoa efetivamente comete ou evita). Devemos
assumir que, quando iniciamos, ele não sabe nada de inglês e
não sabemos nada de sua língua. Num determinado estágio,
chegaremos às palavras de propriedade simples. Se tivéssemos
de explicar o significado da palavra “verm elho” para tal pes­
soa, poderíamos proceder do seguinte modo: poderíamos levá-
lo para ver caixas de correio, tomates, trens do metrô, etc., e
dizer, enquanto mostrássemos a ele cada objeto, “Isso é verme­
lho”. E então poderíamos levá-lo para ver alguns pares de coi­
sas que fossem iguais na maioria dos aspectos, mas de cores
diferentes (por exemplo, caixas de correio na Inglaterra e na
Irlanda, tomates maduros e verdes, trens de transporte urbano
de Londres e trens elétricos das linhas principais) e, em cada
ocasião, dizer “ Isto é vermelho; aquilo não é vermelho, mas
"BOM" 103

verde”. Dessa forma ele aprenderia o uso da palavra “verme­


lho”; ficaria versado em seu significado.
É tentadorxassumir que o signifeado^de.todas ;ás palavras'
que são aplicadas a coisas*, etnqualquer sentido; .poderia ,ser?
comunicatlo: (|direta ou indiretamente) da mesma forma; mas
não é assim, como bem se sabe. A palavra “isto” não pode ser
tratada desse modo nem, talvez, a palavra “Quaxo” - se é que
podemos dizer que o nome de um gato é uma palavra. É instru­
tivo perguntar se o significado de “bom” poderia ser explicado
desse modo, e, se não, por que não.
6.2, É uma característica de “bom” poder ser aplicado a
qualquer número de diferentes classes de objetos. Temos bons
tacos de ctfque|ef bons cronômetros, bons extintores de incên­
dio, bons quadros, bons pores-do-sol, bons homens. O mesmo
é verdadeiro com a palavra “vermelho”; todos os objetos que
acabei de listar podem ser vermelhos. Temos de perguntar pri­
meiro se, ao explicar o significado da palavra “bom”, seria pos­
sível explicar seu significado em todas essas expressões de
uma só vez, ou se seria necessário explicar “bom taco de crí­
quete” em primeiro lugar, e depois continuar, explicando “bom
cronômetro” na segunda lição, “bom extintor de incêndio” na
terceira, e assim por diante; e, se fosse este o caso, se, a cada li­
ção, estallamos ensinando algo inteiramente novo - como ensi­
nar o significado de “lista negra” depois de termos ensinado
numa lição anterior o significado de “automóvel negro” - ou se
seria apenas a mesma lição novamente, com um exemplo dife­
rente - como ensinar “tinta vermelha” depois de termos ensina­
do “automóvel vermelho”. Ou poderia haver alguma terceira
possibilidade.
O ponto de vista de que “bom cronômetro” seria uma lição
completamente nova, mesmo que no dia anterior tivéssemos
ensinado “bom taco de críquete”, leva imediatamente a dificul-
dades^Fois significaria que a eada vez nosso aprendiz poderia
üsaF^palavra “bom” apenas ao falar de classes de objetos que
tivesse aprendido até então}. Nunca poderia ir diretamente a
104 A LINGUAGEM DA MORAL

unia nova classe de objetos e usar a palavra “bom ” com um


deles. Quando tivesse aprendido “bom taco de críquete” e “bom
cronômetro”, não seria capaz de usar “bom extintor de incên­
dio”, e, quando tivesse aprendido este, ainda seria incapaz de
usar “bom automóvel”. Mas, na realidade, uma das coisas mais
notáveis sobre a forma como usamos “bom” é que podemos
usá-lo com classes inteiramente novas de objetos que nunca
denominamos “bons” antes. Suponha que alguém comece a
colecionar cactos pela primeira vez e ponha um sobre o consolo
da lareira - o único cacto no país. Suponha então que um amigo
o veja e diga “Tenho de ter um desses”; assim, ele manda bus­
car um, onde quer que cresçam, coloca-o sobre o consolo de
sua lareira, e quando o amigo vai visitá-lo, ele diz “Tenho um
cacto melhor que o seu”. Mas como ele sabe aplicar a palavra
dessa forma? Ele nunca aprendeu a apMear “bom” a cactos; não
conhece .sequer critérios para distinguir um cacto bo;m de. um
ruim (pais, àté então, não havia nenhum}; mas ele aprendeu à
usar a palavra “bom’ entendo aprendido isso, pode apli.eá~la a
qualquer classe de objetos que tenha de pôr. em ordem de méri­
to. Ele e o amigo podem debater os critérios de bons cactos;
podem tentar estabelecer critérios rivais, mas não poderiam
fazer sequer isso, a menos que não tivessem, desde o início,
nenhuma dificuldade para utilizar a palavra “bom”. Já que, por­
tanto, é possível usar a palavra “bom” para uma nova classe de
objetos sem instrução adicional, aprender o emprego da palavra
para uma classe de objetos não pode ser uma lição diferente de
aprendê-la para uma outra classe de objetos - embora aprender
os critérios de bondade numa nova classe de objetos possa ser
uma nova lição a cada vez.
É estranho que o uso de “bons cactos” não deva ser uma
nova lição, pois bons cactos parecem ter pouco em comum com
bons cronômetros, e bons cronômetros, com bons tacos de crí­
quete. Não obstante, de alguma forma, parece que somos capa­
zes de aprender o uso da palavra sem que nos tenham ensinado
o que numa classe particular de objetos nos autoriza a aplicá-la
"BOM” 105

a um membro desta classe. Suponha que, ao ensinar o signifi­


cado de “bom”, estejamos decididos a não nos deixar desviar
pelas aparentes dissimilaridades de bons cronômetros, cactos e
tacos de críquete; suponha que continuemos tentando a todo
custo encontrar algo que possamos apontar em absolutamente
qualquer classe de objetos, e dizer “Aí está, é o que torna boa
uma coisa; quando tiver aprendido a identificar essa qualidade
fugidia, você saberá o significado da palavra”. Issprpareceyià ?
primerea,\ds^únXpraeedíment<5‘M^
vra^bom ” é comum a todas as classesgie'obj,etos, d e v e S ;íüm
significado comum, e. é natural

Tais esforços estão fadados ao fracasso. Mas, mesmo se


não conseguirmos encontrar uma propriedade comum para
todas as classes de objetos cujos membros são chamados bons,
podemos tentar executar o programa de forma menos ambicio­
sa; podemos abandonar o esforço de encontrar uma proprieda­
de comum e contentar-nos com a divisão dos usos da palavra
em alguns grupos, dentro dos quais a palavra refira-se a uma
propriedade comum. Assim, podemos imaginar que, na primei­
ra lição, seremos capazes de ensinar o significado da palavra
em seu uso “intrínseco”, e, na segunda lição, a ensinar o uso
“instrumental”, e assim por diante.
Esse procedimento também leva a dificuldades. Pessoas
que o sugeriram geralmente estavam mais interessadas
“intrínseco” e, portanto, separaram o bom “instrumental” ape­
nas para ignorá-lo. Isso significa que ignoraram também as
imensas dificuldades de lidar com o bom “instrumental” dessa
maneira. Proponho adotar o programa oposto; colocarei o bom
“intrínseco” de lado por um momento e perguntarei se é possí­
vel tratar a bondade “instrumental” como uma propriedade
ostensiva comum.
6.3. Há duas variantes possíveis do procedimento sugeri­
do. Uma busca explicar o significado de “bom ”, tal como
106 A LINGUAGEM DA MORAL

empregado “instrumentalmente”, com base na assunção de que


a propriedade comum que estamos procurando é contribuir
para o bem no sentido “intrínseco”. Não dará certo, pois dize­
mos “bom isso e bom aquilo”, de modo instrumental, a respeito
de coisas que não contribuem para o bem “intrínseco”; por
exemplo, boas pistolas (que são boas pistolas tanto nas mãos do
assassino quanto nas mãos da polícia); aqui, admitida a assun­
ção de que há um uso “instrumental” da palavra, parece que a
palavra “bom” está sendo usada precisamente da mesma
maneira que em “bom cronômetro” . Bons cronômetros, tam ­
bém, nem sempre contribuem para o bem intrínseco - não se
são usados para conduzir aeronaves que vão jogar bombas atô­
micas sobre o povo escolhido (seja qual for).
A outra variante busca explicar o significado da palavra
“bom”, tal como usada “instrumentalmente”, com base na
assunção de que significa o mesmo que “eficiente”, isto é, “que #
contribui-para o fim para ojqual é empregado”. Ora, é possível
que “bom ” às vezes realmente signifique isso; no momento,
não estou discutindo se significa isso ou não, mas se, caso sig­
nifique “contribuir para o fim para o qual é empregado”, é o
tipo de propriedade que poderíamos ensinar nosso estrangeiro a
identificar em uma lição. Suponha-se que tentemos. Nós o
levamos a uma porção de pessoas que estão fazendo coisas com
coisas, e dizemos a ele “Isto é um bom X”, “Isto não é um bom
Y”, e assim por diante. Mas suponha que ele seja, ou finja ser,
um tanto obtuso. Levamo-lo para ver tacos de críquete, cronô­
metros e extintores de incêndio, e indicamos, em cada caso,
quais são bons e quais não são. Mas ele ainda se recusa a admi­
tir que pode reconhecer uma propriedade comum aos membros
bons de todas essas três classes. Sua dificuldade é óbvia. Bons
extintores de incêndio diferem de maus extintores de incêndio
porque apagam chamas rapidamente, sem fumaça, etc.; bons
cronômetros diferem de maus cronômetros porque dão a hora
de Greenwich, são facilmente legíveis, etc.; bons tacos de crí­
quete diferem de maus tacos de críquete porque rebatem bolas
“BOM" 107

a grande distância, com velocidade, não machucam, etc.; mas


parece haver pouco em comum entre esses três desempenhos
que ele possa aprender a reconhecer. Chamamos todos eles “os
fins para os quais os objetos são empregados”; mas essa desig­
nação comum apresenta a mesma dificuldade que está vamos
tendo com a própria palavra “bom” . Pois, a menos que possa­
mos ensiná-lo, no caso de qualquer nova classe de objetos, a
reconhecer sem auxílio para que fim estão sendo empregados,
teremos ainda de continuar a dar-lhe uma nova lição a cada vez,
embora não sobre a palavra “bom”, mas sobre a palavra “fim” .
E o fato de que a palavra “fim ” apresenta os mesmos problemas
que a palavra “bom” sugere que os problemas têm a mesma ori­
gem em ambos os casos. Lembramos que Aristóteles, que fez
da palavra “fim?” um termo técnico em filosofia, definiu-a
como “um :bemra servatingido, pelaação’/ 2.
uma determinada classe de palavras que podemos
denominar, num sentido amplo, “palavras funcionais”. Uma
palavra é uma palavra funcional se, para explicar seu significa­
do de forma completa, temos de dizer para que serve o objeto a
que se refere, ou o que se espera que ele faça. As palavras fun­
cionais incluem não somente os nomes de instrumentos no sen­
tido estrito, mas também os nomes de técnicos e técnicas. Não
sabemos o que é um carpinteiro até que saibamos o que se
espera que um carpinteiro faça. O mesmo acontece com uma
broca; não sabemos o que é uma broca até que saibamos, nas
palavras do Shorter Oxford English Dictionary, não apenas que
tem “uma haste longa e pontiaguda, etc.”, mas também que é
“uma ferramenta de carpinteiro para abrir furos na madeira,
etc.” Nâo poderíamos explicar ao nosso estrangeiro o significa­
do de “broca”, nesse sentido, mostrando a ele uma porção de
brocas e ensinando-o a reconhecer uma broca quando visse
uma, Ele poderia ser capaz de fazer isso infalivelmente e, ainda
assim, não saber para que servem brocas e, portanto, não
conhecer totalmente o significado da palavra da forma como o
dicionário o fornece.
108 A LINGUAGEM DA MORAL

Contribui mais para a clareza considerar as peculiaridades


de sentenças como “esta não é uma boa broca”, que iremos con­
siderar, como resultantes desta característica da palavra “bro­
ca” (o fato de que é uma palavra funcional), do que dizer que a
palavra “boa” tem um significado especial nessa sentença. Nes­
sa sentença, recebemos de mão beijada, em virtude do signifi­
cado das palavras empregadas, um dos critérios necessários
para uma boa broca, mas recebemos isso da palavra “broca” ,
não da palavra “boa”. Vimos acima que é possível construir
sentenças imperativas “hipotéticas” deriváveis somente de
prem issas m enores indicativas, e que isso é feito incluindo
a premissa maior imperativa exigida como parte da conclusão
dentro de uma oração condicional. Temos aqui uma operação,
de certo modo, similar. Saber o que é uma broca é conhecer o
fim que se espera que as brocas satisfaçam, é saber que ser
capaz de abrir buracos é uma condição necessária para ser uma
boa broca, ou que, se uma broca não abrir buracos, não é uma boa
broca. Mas se definimos “broca” de tal forma que essa premis­
sa maior seja analítica, incluindo então a palavra “broca” na
conclusão “Esta não é uma boa broca”, tornamos esta conclu­
são derivável apenas da premissa menor indicativa, “Esta broca
não abre buracos” .
Mas saber para que serve uma broca é ter não mais do que
um conhecimento bastante rudimentar dos critérios de uma boa
broca; é conhecer somente uma condição necessária. Pode-se
abrir buracos com brocas muito ruins. Podemos até dizer que,
se uma broca não abre buracos, então, certamente é uma broca
ruim; mas é só até aí que a definição de “broca” nos conduz.
Por essa razão, “boa broca” significa muito mais do que “broca
que contribui para o fim para o qual as brocas são empregadas,
se., abrir buracos”; significa, pelo menos, “broca que contribui
para satisfazer bem o fim para o qual as brocas são empregadas,
se., abrir buracos bem”, E, portanto, mesmo se nosso estrangei­
ro soubesse o que é uma broca, haveria ainda muito a ensinar a
ele sobre os critérios de uma boa broca. Teríamos de ensinar-
"BOM” 109

lhe, por exemplo, que uma boa broca não provoca bolhas nas
mãos, não está enferrujada e abre buracos com bordas lisas.
Perguntemos, porém, o que envolveria ensinar a nosso
estrangeiro esse mínimo, que uma broca serve para abrir bura­
cos. Teríamos de levá-lo para ver pessoas abrindo buracos com
brocas. Ele teria de saber o que estavam tentando fazer. Se pen­
sasse que estavam simplesmente tentando exercitar os punhos,
não seriamos capazes, por meio dessa demonstração, de expli­
car a ele para que serve uma broca. Ora, tentar produzir ura
resultado é escolher, segundo as limitações de nosso conheci­
mento e poder, fazer as coisas que contribuem para esse resul­
tado. Assim, tentar fazer um buraco é escolher fazer as coisas
(incluindo selecionar aqueles instrumentos) que contribuem
para a abertura de um buraco.
Essa mesma palavra, “escolher”, interpõe-se quando bus­
camos explicar, não para que se utiliza uma broca, mas para
que é projetada. Projetar um instrumento para abrir buracos é
escolher que seja feito de tal forma que contribua para abrir
buracos. O fato de a palavra “escolher” interpor-se dessa forma
é de grande interesse. Escolher é responder a uma pergunta da
forma “Que devo fazer?'’. O homem que está projetando uma
ferramenta para abrir buracos pergunta a si mesmo “Com que
formato devo produzir este instrumento?” e responde “Com
um formato tal que contribua para abrir buracos”; o homem
que está tentando abrir buracos pergunta a si mesmo “Que tipo
de instrumento devo usar?” e responde “O tipo de instrumento
que contribua para abrir buracos”. Portanto, temos aqui uma
importante conexão entre a presente discussão e a da primeira
parte deste livro. Mas retornemos ao nosso estrangeiro. Já está
estabelecido que, se podemos explicar a ele o que é escolher -
ou se ele já sabe - então seremos capazes de explicar como des­
cobrir, no caso de qualquer instrumento, para que serve ele, e
que, se podemos explicar isto, podemos também dar a ele algu­
ma explicação rudimentar de como distinguir um bom membro
e um membro ruim de uma classe de instrumentos. Se, por
A LINGUAGEM DA MORAI

outro lado, ele não entende o que é escolher, não entenderá


nenhuma de nossas explicações.
E evidente, portanto, que temos aqui uma situação seme­
lhante à que observamos anteriormente. Ensinar o que torna
um membro de uma classe um bom membro da classe é, na ver­
dade, uma nova lição para cada classe de objetos; mas, apesar
disso, a palavra “bom” tem um significado constante que, uma
vez aprendido, pode ser compreendido, não importa que classe
de objetos esteja sendo discutida, Temos, como já disse, de
fazer uma distinção entre o significado da palavra “bom” e os
critérios para sua aplicação. Mesmo no caso da bondade instru­
mental, não há um critério comum para todas as classes de
objetos. Ainda temos de ensinar a nosso aprendiz algo novo a
cada vez. E verdade que as palavras “contribuir para” ocorrerão
em todas as nossas explicações, mas após essas palavras ocor­
rerá alguma outra expressão, tal como “abrir buracos” ou “mar­
car o tempo exato”, que será diferente em cada caso. Se, em vez
de todas essas expressões diferentes, escrevemos a expressão
comum “...aquilo para que serve o instrumento”, reintroduzi-
mos uma expressão cujo significado não é explicável pela téc­
nica do “verm elho”. Ela requer uma compreensão do que é
escolher, e essa compreensão é necessária, quer façamos a refe­
rência a ela ao explicar o significado de “broca” ou “cronôme­
tro”, quer expliquemos os significados dessas palavras (inade­
quadamente) simplesmente apresentando exemplos e deixemos
a referência à escolha para quando tivermos de explicar “boa
broca” ou “bom cronômetro” .
Assim, a noção de “bom instrumental”, que foi introduzida
a fim de mitigar a dificuldade de “uma nova lição para cada
classe de objetos”, falha nesse propósito. Resumindo: não há
nenhuma propriedade comum reconhecível em todos os casos
em que se diz que um membro de uma classe - não importa que
classe - é “instrumentalmente bom”. Mesmo que, portanto,
dividamos os empregos da palavra “bom” em determinadas
classes amplas, “bom instrumental”, “bom intrínseco”, e assim
“BOM" 111

por diante, ainda assim não podemos aplicar a técnica de expli­


cação nas classes em que aplicamos com a palavra “vermelho”.
Podemos ensinar os critérios para a aplicação da palavra “bom”
em uma classe particular; mas isso não ensina o significado da
palavra. Um homem poderia até mesmo aprender a distinguir
brocas boas de brocas ruins sem ter a menor idéia do que signi­
fica “bom”; poderia, por assim dizer, aprender a separar brocas
em pilhas, boas e ruins, e fazê-lo corretamente, mas, ainda
assim, não se dar conta de que essa classificação tem por obje­
tivo selecionar algumas brocas de preferencia a outras. Supo­
nha, por exemplo, que ele fosse conosco numa longa viagem de
exploração, que disséssemos a ele “Não se esqueça de levar
uma broca” e ele levasse um a das ruins; pensaríamos que ele
não conhece o significado de “boa broca”, embora seja perfei­
tamente capaz de distinguir uma broca boa de uma ruim.
6.5, Descreverei agora uma maneira pela qual, contanto
que nosso estrangeiro soubesse o significado da palavra “esco­
lher”, eu poderia realmente explicar-lhe o significado de
“bom” em uma lição cujo caráter paradoxal enfatizará o ponto
de vista que venho propondo. Suponha que eu peça a ele que
me ensine um dos jogos de seu próprio país e que ele diga que
me ensinará o jogo de smashmak. Esse jogo, explica ele, é joga­
do com uma coisa chamada shmakum. Antes de pedir-lhe que
descreva um shmakum ou que prossiga com a descrição do
jogo, pergunto “Onde você obtém esse shmakum?'’ e ele res­
ponde “Dos fabricantes de shmakum; em nosso país toda cida­
de tem uma rua de fabricantes de s h m a k u m Pergunto então
“ Suponha que você vai comprar um novo shmakum, vai a essa
rua, e lhe oferecem todos os tipos de shmakums, todos mais ou
menos do mesmo preço; que tipo de shmakum você escolhe­
ria?”, e ele responde “Sendo todas as outras coisas iguais, esco­
lheria aquele com o qual pudesse fazer o maior número de
s m a s h e s Arrisco então uma afirmação ousada e digo “Ah!
Entendo, então você acha que o melhor shmakum é aquele com
o qual você pode fazer o maior número de smashes
112 A LINGUAGEM DA MORAL

Ora, pode muito bem surpreender meu aprendiz o fato de


eu poder dizer isso. Temos de assumir que ele aprendeu, da ana-
logia com outros adjetivos, que “o melhor” é o superlativo de
“bom”. Mas o estranho é que, embora eu não saiba como o jogo
de smashmak é jogado, ou como é um shmakum, ou o que é
fazer smashes, sugeri, com base simplesmente no fato de ele ter
me dito que iria escolher, todas as outras coisas sendo iguais, o
shmakum com o qual poderia fazer o maior número de smashes,
que ele acha que esse tipo de shmakum é o melhor tipo de shma­
kum. Como, ele pode muito bem perguntar, posso dizer quais
propriedades ele acha que têm os shmakums com os quais
poderia fazer o maior número de smashes, exceto que poderia
fazer o maior número de smashes com eles - eu, que não sei
nada sobre o jogo?
Agora devemos examinar essa opinião que atribuí a ele,
para perceber algumas de suas características lógicas. A opi­
nião é:

O melhor shmakum é aquele com o qual eu poderia fazer o


maior número de smashes.

Chamemos A essa sentença. E reparemos, antes de tu do,


que A não significa o mesmo que a sentença seguinte, que
denominarei B:

A expressão “o melhor shmakum” significa “o shmakum


com o qual eu poderia fazer o maior número de smashes”.

Pois se eu dissesse que ele pensava B, estaría atribuindo a


ele uma opinião que, em suas circunstancias, sería muito estra­
nho sustentar, pois é uma opinião sobre a equivalência de signi­
ficado de um a expressão (“o melhor”) e um a oração (“com o
qual eu poderia fazer o maior número de smashes”), e, já que
ele nao conhece (nem sequer pensa que conhece) o significado
da expressão “o melhor”, como pode ter opiniões sobre que
orações são equivalentes a ela?
“BOM" 113

Detalhemos a posição novamente; eu conheço o significa­


do da expressão “o melhor”, mas não conheço os significados
de “shmakum” ou “smash” ; ele conhece o significado dessas
expressões, mas não o de “o melhor”. E, portanto, nenhum de
nós está realmente na posição de dizer B. Mas eu disse que ele
pensa A, isto é, atribuí a ele uma opinião, não a respeito do sig­
nificado de palavras, mas sobre qual é o melhor shmakum -
uma opinião que, se algum de nós tivesse o conhecimento
necessário do significado das palavras a serem empregadas,
poderia ser expressada em palavras por A.
Além disso, por meio dessa manobra, estou na posição de
poder explicar a ele, em uma lição, o significado de “o melhor”
e, portanto, de “bom”. Pois surpreendi-o, por assim dizer, tendo
o pensamento sobre shmakums para o qual a expressão lingüís­
tica apropriada é A. É um pensamento que tem algo a ver com
escolher ou estar inclinado a escolher. A earâctetística parado­
xal dessa expjaieaeã^ é que ela I conduzida com referência a
uma classe de objetos (shmakums) cufos critérios de bondade
na© corÉeçQ. Isso mostra que explicar © significado de “bom” é
bastante diferente de explicar qualquer dos vários critérios para
sua aplicação. A explicação^ é claro, não é uma análise lógica,
pois não estamos preocupados neste capítulo com análises lógi­
cas; mas é pelo menos um esboço da maneira como uma pessoa
que não conhecesse o significado de “bom” poderia ser ajudada
a assimilá-lo.
6,6. Neste ponto, um observador superficial pode interpre­
tar erradamente o processo que empreguei para explicar o sig­
nificado da palavra “bom”. Pois pode-se dizer “Seguramente
pode-se perceber agora que a palavra ‘bom ’, afinal de contas, é
como a palavra ‘verm elho’. Refere-se a uma propriedade co-*
m m » só que essa propriedade comum tem a característica de"
ser, ao contrário da vermelhidão, inacessível numa forma pecu­
liar. É. na verdade, a propriedade de produzir, ou de estar de
alguma forma associado a determinadas experiências internas
que não podem ser experimentadas exceto pela pessoa que as
A LINGUAGEM DA MORAL

está tendo; essas experiências podem ser denominadas proposi­


tadas ou preferenciais, e exemplos delas são aquilo a que nos
referimos como ‘tentar’, ‘almejar’, ‘preferir’, ‘escolher’, etc. É
claro”, prossegue a objeção, “que se uma palavra refere-se a um
determinado tipo de experiência, você não pode defini-la os­
tensivamente para alguém que nunca teve essa experiência, mas
isso é igualmente verdadeiro com relação a ‘verm elho’. Você
não pode definir ‘verm elho’ ostensivamente para alguém que
nunca teve a experiência de ver um objeto vermelho”. O resul­
tado dessa objeção seria desmontar todo meu argumento, pois
venho sustentando que “bom” é diferente de “vermelho” por­
que seu significado é independente dos critérios para sua apli­
cação; mas se o critério para a aplicação de “bom ” é ter deter­
minadas experiências propositadas ou preferenciais, não é mais
possível distinguir significado e critérios da forma como vinha
tentando fazer. Pois talvez fosse possível explicar o significado
de “bom” para o meu estrangeiro fazendo com que passasse por
essas experiências e, então, dizendo-lhe que a palavra “bom” é
adequadamente aplicada aos seus objetos; e isso tornaria
“bom” exatamente igual a “vermelho” - pois você também
explica o significado de “vermelho” fazendo com que o apren­
diz tenha determinadas experiências e dizendo a ele que a pala­
vra “vermelho” é adequadamente aplicada aos seus objetos.
Necessito, portanto, destruir a hipótese de que o significado da
palavra “bom” é totalmente explicado quando se diz que é ade­
quadamente aplicado aos objetos de determinadas experiências
reconhecíveis. Vale a pena notar aqui que essa é uma teoria
familiar no que diz respeito a “bom” em contextos morais, pois
diz-se às vezes que, nesses contextos, dizemos se se deve ou
não aplicar a palavra “bom” a um objeto unicamente observan­
do se temos ou não determinadas experiências em relação a
esse objeto - experiências, por exemplo, de “aprovação moral”
ou de um “senso de adequação”.
Precisamos notar que, no ponto crucial do último estágio
de minha explicação da palavra “bom ” ao estrangeiro, o que
"BOM” 115

aconteceu foi isto: aprendi com ele que, sendo todas as outras
coisas iguais, ele escolheria um shmakum com o qual pudesse
fazer o maior número de smashes, e, com base nisso, disse-lhe
que ele pensava que o melhor shmakum era aquele com o qual
poderia fazer o maior número de smashes, Não lhe disse, com
base nisso, que o melhor shmakum em aquele com o qual ele
poderia fazer o maior número de smashes, e este ponto é de im­
portância fundamental. Pois, embora fosse possível, se eu sou­
besse que X escolheria, sendo todas as outras coisas iguais, o
shmakum com o qual ele poderia, etc., estar mais ou menos se­
guro ao dizer “X pensa que o melhor shmakum é aquele com o
qual poderia, etc.”, não é possível, de modo nenhum, eu estar
seguro ao dizer “o melhor shmakum é aquele com o qual X
poderia, etc.” Pois suponha que meu aprendiz interpretasse
erroneamente minha observação e pensasse que poderia aplicar
corretamente a expressão “o melhor” a qualquer membro de
uma classe que ele escolheria, sendo todas as outras coisas
iguais. Então, suponha que eu lhe peça que diga qual é o melhor
dentre vários tacos de hóquei; ele, como principiante no jogo,
pode escolher aquele com o qual pudesse perder a bola com
menos freqüência, e dizer “Este é o melhor; sei que isso está
correto com base no que você me disse sobre a expressão ‘o
m elhor’; pois este é o que eu escolheria”. Mas então tenho de
lhe explicar que cometeu um erro, pois o fato de ele escolher
aquele bastão mostra, não que é o melhor, mas que ele pensa
que é o melhor.
O que fez o aprendiz pode ser esclarecido do seguinte
modo. Ele continuou, apesar de experiências adversas, assu­
mindo que critérios e significado são a mesma coisa. Portanto,
tendo aprendido de forma inteiramente correta, a partir de
minha observação prévia, que o pensamento que teve quando
escolheu ou esteve inclinado a escolher um determinado tipo de
shmakum foi exprimido corretamente quando se disse que o
melhor shmakum era, etc., e que, tendo aprendido isso, apren-
116 A LINGUAGEM DA MORAL

dera o significado da palavra “bom”, não apenas tal como apli­


cada a shmakums, mas tal como aplicada a qualquer outra coi­
sa, ele naturalmente pensou que também aprendera algo sobre
os critérios para aplicar a palavra. Mas, na verdade, ele não
tinha aprendido absolutamente nada sobre os critérios para
aplicar a palavra. Pois ele já sabia dos critérios para shmakums,
e não sabia nada sobre os critérios para outras coisas, já que são
todos diferentes dos critérios para shmakums, O que aprendeu
foi o significado da palavra, e nada sobre seus criterios. E, já
que critérios são diferentes do significado, seria perfeitamente
possível para ele usar a palavra com pleno conhecimento de seu
significado, mas, por causa da ignorância dos critérios corre­
tos, aplicá-la aos objetos errados. Assim, aínda que não tivesse
interpretado erradamente minha observação, da maneira des­
crita no último parágrafo, e, ainda que tivesse aprendido corre­
tamente o significado de “bom”, ele ainda poderia dizer “O
melhor taco de hóquei é aquele com o qual posso perder a bola
com menos freqüência”, e, fazendo assim, poderia estar usando
a palavra “bom” corretamente para expressar o pensamento que
te ve sobre tacos de hóquei - isto é, escolher ou inclinar-se a
escolher tal taco de hóquei; mas, é claro, estaria escolhendo um
tipo de taco que nós, que conhecemos os critérios para escolher
tacos de hóquei, sabemos ser um tipo ruim de taco de hóquei
para escolher.
A lérntlissd, áão é neCessári'o acreditar em “experiência^
m tóoresf .0 .0
mesmo erro poderia ser cometido por alguém que. interpretasse a
anpakyra' “escolher’' inteiramente em termos é e “comporta-
m entopreferericiaF’. 6 fato de uma pessoa, ou grupo de pes?
soas;- comportar-se preferencialmente para com determinad*?
membro; de um a classe não é em si uma condição necessária ouj
suficiente para dizer que ele é um bom membro da classe; éj
apenas a mais importante das muitas coisas que poderiam nos
fazer querer dizer que pensam que é um bom membro. Supo­
nha que estejamos investigando o significado de “boa bebida”.
"BOM’’ 117

Descobrimos que os americanos comportam-se preferencial­


mente em relação à coca-cola, e os russos em relação à vodca, e
que eles aplicam a essas bebidas, respectivamente, as palavras
inglesa e russa correspondentes a “bom ”. Mas isso não é indi­
cação de uma distinção de significado entre a palavra inglesa e
a russa. Mostra meramente que espécie de bebida americanos e
russos consideram boas; é um auxílio no sentido de descobria
os critérios de boa bebida correntes nos Estados. Unidosrenatf
Rússia, respectivamente?. É dispensável dizer que essa confusão
não está restrita à questão da boa bebida - todos os que pensam
que podem descobrir o que “bom” significa estudando o com­
portamento preferencial estão destinados a descobrir esta infa­
lível linha de conduta: que devem continuar fazendo exatamen­
te como estão fazendo ou como a maioria das pessoas que eles
estudam faz3.
Deve-se explicar que ignorei até aqui um sentido comum
da palavra “significar” no qual é obviamente falso dizer que o
significado é diferente dos critérios. Suponha que eu finalmen­
te tivesse conseguido ensinar a meu estrangeiro o que “bom”
significa, no sentido da palavra que estive usando até aqui, e
que, para celebrar o feito, fizéssemos uma excursão a seu país e
acabássemos assistindo a um jogo de smashmak. Depois supo­
nha que ele me dissesse “Aquele sujeito que está entrando em
campo é o melhor jogador de smashmak em nosso país” ; eu
poderia perguntar “Como assim, o que significa o melhor joga­
dor?” e ele podia responder “Quero dizer que ele sempre marca
o maior número de s m a s h e s Aqui é óbvio que o que eu estava
pedindo, e me foi dado, eram os critérios para chamá-lo o
melhor jogador; eu poderia muito bem ter dito “O que o faz
chamá-lo o melhor jogador?” E é também óbvio que eu não
poderia perguntar “O que você pretende que signifique o
melhor jogador?” (neste segundo sentido de “significar”, em
que este tem a ver com critérios), a não ser que já soubesse o
que significa a expressão “o melhor jogador” (no primeiro sen­
tido de “significar”, em que este nada tem a ver com critérios).
A LINGUAGEM DA MORAL

Não desejo, de forma alguma, negar a existência desse signifi­


cado da palavra “significar” em tais contextos; por ser confun­
dido com o outro sentido da palavra no qual tenho me concen­
trado, ele tem sido responsável pela maior parte dos problemas
que venho tentando esclarecer.
Capítulo 7
Descrição e avaliação

7.1. De todos os problemas levantados pela argumentação


precedente, o problema-chave é o seguinte: há dois tipos de coi­
sas que podemos dizer, por exemplo, sobre morangos; o pri­
meiro tipo é geralmente chamado descritivo, o segundo tipo
avaliatório. Exemplos do primeiro tipo de comentário são “Es­
te morango é doce” e “Este morango é grande, vermelho e
suculento”. Exemplos do segundo tipo de comentário são “Este
é um bom morango” e “Este morango é justamente como os
morangos devem ser”. O primeiro tipo de comentário é muitas
vezes dado como uma razão para fazer o segundo tipo de
comentário; mas o primeiro tipo não implica, sozinho, o segun­
do tipo, nem vice-versa. Não obstante, parece haver alguma
estreita conexão lógica entre eles. Nosso problema é: “O que é
essa conexão?” ; pois nada é esclarecido quando se diz que há
uma conexão, a menos que possamos dizer o que ela é.
O problema também pode ser colocado desta forma: se
conhecêssemos todas as propriedades descritivas que tinha um
morango particular (se soubéssemos, de cada sentença descriti­
va relacionada ao morango, se são verdadeiras ou falsas), e se
soubéssemos também o significado da palavra “bom”, então, o
que mais precisaríamos saber para sermos capazes de dizer se
um morango é bom ou não? Uma vez colocada a questão dessa
forma, a resposta deveria ser evidente. ^ecjsaTÍamosi-sàfeer
120 A LINGUAGEM DA MORAL

quais sãt os critérios, em virtude -'¡os^quais,.um morango, d é w


ser. chamado bom, quais sã o ^ c m c te n s jtic a s que tornaimboigy
um ím orango-rou-quat é o padxão.jdé bondade em morangos?
Precisaríamos que nos dessem a premissa maior. Já vimos que
podemos conhecer o significado de “bom m orango” sem co­
nhecer quaisquer dessas coisas - embora também exista um
sentido da sentença “O que significa denominar bom um
morango?” em que não saberíamos a resposta, a não ser que
também soubéssemos a resposta a essas outras questões. Agora
é o momento de elucidar e distinguir essas duas formas em que
se pode dizer que sabemos o que significa denominar um obje­
to um bom membro de sua classe. Isso nos ajudará a perceber
mais claramente as diferenças e as similaridades entre “bom” e
palavras como “vermelho” e “doce” .
Já que nos detivemos por algum tempo nas diferenças,
não fará mal mencionar agora algumas das similaridades. Para
esse propósito, consideremos as duas sentenças, “A é um auto­
móvel vermelho” e “A é um bom automóvel”. Observar-se-á
que “automóvel” , ao contrário de “m orango”, é uma palavra
funcional, tal como definida no capítulo precedente. A refe­
rencia -a© Skorte.K O x^rd.E jtrgU sli^ictíonary mostra que uiji
automóvel é um veículo^e um vefcuío um m eio/de transporte?
Portanto, se um automóvel não transporta nada, sabemos, a
partir da definição de automóvel, que ele não é bom. Mas
quando sabemos isso, sabemos tão pouco, em comparação
com o que se exige para conhecer os critérios completos de um
bom automóvel, que proponho no que se segue ignorar, com
vista à simplicidade, este fator complicador. Tratarei “automó­
vel” como se não tivesse de ser definido funcionalmente: isto
é, assumirei que podemos aprender o significado de “automó­
vel” (como, em certo sentido, podemos) simplesmente pela
apresentação de exemplos de automóveis. Nem sempre, é
claro, é fácil dizer se uma palavra é ou não uma palavra funcio­
nal; depende, com o todas as questões de significado, de como^
a/palavra é considerada-por um falante particular/)
“BOM" 121

A primeira similaridade entre “A é um automóvel verme­


lho” e “A é um bom automóvel” é que ambas podem ser, e mui­
tas vezes são, usadas para comunicar informações de caráter
puramente factual ou descritivo. Se digo a alguém “A é um bom
automóvel”, e ele mesmo não viu e não sabe nada de A, mas,
por outro lado, sabe efetivamente que tipos de automóvel esta­
mos acostumados a denominar “bons” (sabe qual é o padrão de
bondade aceito para automóveis), ele indubitavelmente recebe
de minha observação informações sobre que tipo de automóvel
é esse. Ele reclamará que eu o enganei se, subseqüentemente,
descobrir que A não faz mais de 30 milhas por hora, consome
óleo e gasolina na mesma proporção, está coberto de ferrugem
ou tem grandes buracos no teto. Seu motivo para reclamar será
o mesmo que teria sido se eu tivesse dito que o carro era verme­
lho e ele descobrisse subseqüentemente que era preto. Eu o
teria levado a esperar que o automóvel fosse de determinada
descrição quando, na verdade, era de uma descrição completa­
mente diferente.
A segunda similaridade entre as duas sentenças é a seguin­
te. Algumas vezes, nós as utilizamos, não para efetivamente
comunicar informações, mas para pôr nosso ouvinte em posi­
ção de usar subseqüentemente a palavra “bom” ou “vermelho”
para dar ou receber informação. Suponha, por exemplo, que ele
não esteja nem um pouco familiarizado com automóveis, da
mesma maneira como a maioria de nós não está familiarizada
com cavalos hoje, e não saiba mais sobre automóveis do que o
necessário para distinguir um automóvel de um cabriolé. Nesse
caso, eu dizer “A é um bom automóvel” não lhe dará qualquer
informação sobre A, além da informação de que é um automó­
vel. Porém, se ele puder, então ou subseqüentemente, examinar
A, terá aprendido algo. Terá aprendido que algumas das carac­
terísticas que A tem são características que fazem com que as
pessoas - ou, pelo menos, eu - o chamem um bom automóvel.
Isso pode não ser aprender muito. Mas suponha que eu faça juí­
zos dessa espécie a respeito de um grande número de automó-
122 A LINGUAGEM DA MORAL

veis, denominando alguns bons e outros não bons, e que ele


possa examinar todos ou a maioria dos automóveis sobre os
quais estou falando; no fim, ele aprenderá um bocado, sempre
presumindo que observo um padrão coerente ao chamá-los
bons ou não bons. Finalmente, se prestar atenção, ele estará na
posição de saber, depois de eu haver dito que um automóvel é
bom, que tipo de automóvel ele pode esperar que seja - por
exemplo, veloz, estável na estrada, etc.
Ora, se estivéssemos lidando, não com “bom ”, mas com
“vermelho”, denominaríamos esse processo “explicar o signifi­
cado da palavra” - e realmente poderíamos, em certo sentido,
dizer que o que eu tenho feito é explicar o que uma pessoa pre­
tende que signifique “um bom automóvel”. Ê esse um sentido
de “significar” em relação ao qual, como vimos, devemos nos
prevenir. Os processos, porém, são bastante similares. Eu pode­
ria explicar o significado de “vermelho” dizendo continuamen­
te de vários automóveis “A é um automóvel vermelho”, “B não
è um automóvel vermelho”, e assim por diante. Se ele fosse
atento o bastante, logo estaria em condições de poder usar a
palavra “vermelho” para dar ou obter informação, pelo menos
sobre automóveis. E, portanto, tanto com “bom” como com
“vermelho”, há esse processo que, no caso de “vermelho”,
podemos denominar “explicar o significado”, mas que, no caso
de “bom”, podemos assim denominá-lo apenas de forma im­
precisa e num sentido secundário; para sermos claros, devemos
chamá-lo “explicar, comunicar ou apresentar o padrão de bon­
dade para automóveis” ou coisa parecida.
O padrão de bondade, como o significado de “vermelho”,
normalmente é algo público e comumente aceito. Quando ex­
plico a alguém o significado de “automóvel vermelho”, ele
espera, a menos que eu seja considerado muito excêntrico, en­
contrar outras pessoas usando a expressão do mesmo modo. E,
similarmente, pelo menos com objetos como automóveis, em
que há um padrão comumente aceito, esperará, tendo aprendi­
do comigo qual é o padrão de bondade em automóveis, ser
BOM’’ 123

capaz, usando a expressão “bom automóvel”, de dar informa"


ção a outras pessoas e de obtê-la, sem confusão.
Um terceiro aspecto em que “bom automóvel” assemelha-
se a “automóvel vermelho” é o seguinte: tanto “bom” como
“vermelho” podem variar no que diz respeito à exatidão ou im­
precisão da informação que comunicam ou que podem comuni­
car. Normalmente empregamos a expressão “automóvel ver­
melho” muito imprecisamente. Qualquer automóvel que se
enquadre em algum lugar entre o inequivocamente purpúreo e
o inequivocamente alaranjado pode, sem abuso da língua, ser
denominado um automóvel vermelho. E, similarmente, o pa­
drão para denominar automóveis bons é comumente muito
impreciso. Há certas características, como a incapacidade para
exceder 30 milhas por hora que, para qualquer um, menos para
um excêntrico, seriam condições suficientes para que se recu­
sasse a chamá-lo um bom automóvel; mas não há um conjunto
preciso de critérios aceitos que nos permita dizer “Se um auto­
móvel satisfaz estas condições, é um bom automóvel; se não
satisfaz, não é”. E, em ambos os casos, poderíamos ser precisos
se quiséssemos. Poderíamos, para certos propósitos, concordar
em não dizer que um automóvel é “realmente vermelho”, a não
ser que a vermelhidão de sua pintura atingisse determinado
grau mensurável de pureza e saturação, e, similarmente, pode­
ríamos adotar um padrão exato de bondade para automóveis.
Poderíamos recusar o nome “bom automóvel” a qualquer carro
que não percorresse, sem percalços, determinado circuito de
corrida, dentro de um período limitado, que não se conformas­
se a outras especificações rígidas e determinadas, quanto a con­
forto, etc. Esse tipo de coisa não foi feita no caso da expressão
“bom automóvel”, mas, como o Sr. Urmson destacou, foi feita
pelo Ministro da Agricultura no caso da expressão “super-
maçâ” 1.
É importante notar que a exatidão ou imprecisão de seus
critérios nao contribui absolutamente nada para distinguir pala­
vras como “bom” de palavras como “vermelho”. As palavras,
124 A LINGUAGEM DA MORTAL

em ambos os casos, podem ser descritivamente imprecisas ou


exatas, segundo o grau de rigidez com que os critérios foram
fixados pelo costume ou convenção. Certamente não é: verdade
que ,as%palavras de valor- se-distingam das palavjasrdescritivas?
porque são; mais •imprecisas, déscritívamente, do que estas? Há
exemplos imprecisos e rígidos de ambos os tipos de palavra.
Palavras como “vermelho” podem ser extremamente impreci­
sas, sem que se tornem avaliatórias, e expressões como “bom
efluente^de esgoto” podem ser o objeto de critérios bastante
rígidos sem, de modo algum, deixar de ser avaliatórias.
É importante notar também como é fácil, em vista dessas
semelhanças entre “bom” e “vermelho”, pensar que nao há
diferenças - pensar que expor o padrão de bondade em automó­
veis é expor o significado, em todos os sentidos dessa palavra,
na expressão “bom automóvel” ; pensar que “A é um bom auto­
móvel” não significa mais nem menos que “A tem determina­
das características que tem o nome de ‘bom ’
7.2. Vale a pena notar aqui que as funções da palavra
“bom” relacionadas com a informação poderiam ser desempe­
nhadas igualmente bem se “bom” não tivesse nenhuma função
aprovatória. Isso pode ser esclarecido colocando em seu lugar
uma outra palavra, criada piara- esse propósito, que se deva
supor desprovida da força aprovatória de “bom”. Empreguemos
“m ob” como essa nova palavra. “Mob”, como “bom”, pode ser
usada para comunicar informação somente se os critérios para
sua aplicação forem conhecidos, mas isso a torna, ao contrário
de “bom”, completamente sem significado até que esses crité­
rios sejam tornados conhecidos. Torno os critérios conhecidos
apontando vários automóveis e dizendo “A é um automóvel
mob”, “B não é um automóvel mob”, e assim por diante. Deve­
mos imaginar que, embora “mob” não tenha força aprovatória,
os critérios de “mobilidade” em automóveis que estou utilizan­
do são os mesmos critérios que, no exemplo anterior, utilizei
para bondade em automóveis. E, portanto, como no exemplo
anterior, o aprendiz, se for suficientemente atento, torna-se
"BOM" 125

capaz de usar a palavra “m ob” para dar ou obter informação;


quando lhe digo “Z é um automóvel mob”, ele sabe quais
características esperar que o automóvel tenha, e se quiser
comunicar a outrem que o automóvel Y tem as mesmas caracte­
rísticas, pode fazer isso dizendo “Y é um automóvel mob”.
Assim a palavra “mob” faz (embora somente em relação a
automóveis) metade do trabalho que faz a palavra “bom” - a
saber, todas as tarefas relacionadas com os atos de fornecer ou
aprender a fornecer e a obter informação. Não faz as tarefas
relacionadas com a aprovação. Assim, poderíamos dizer que
“mob” funciona exatamente como uma palavra descritiva.
Primeiramente, meu aprendiz aprende a usá-la quando lhe dou
exemplos de sua aplicação e, então, a emprega aplicando-a a
novos exemplos. Seria perfeitamente natural dizer que o que eu
estava fazendo era ensinar a meu aprendiz o significado de
“mob”, e isso, novamente, mostra-nos como é natural dizer
que, quando estamos aprendendo uma lição similar para a
expressão “bom automóvel” (i.e., aprendendo os critérios de
sua aplicação), estamos aprendendo seu significado. Mas com
a palavra “bom” é enganoso dizer isso, pois o significado de
“bom automóvel” (num outro sentido de “significado”) é algo
que poderia ser conhecido por alguém que não conhecesse os
critérios de sua aplicação; ele saberia, se alguém dissesse que
um automóvel é bom, que ela o estaria aprovando, e saber isso
seria conhecer o significado da expressão. Além disso, como
vimos anteriormente (6.4), alguém pode saber sobre “bom”
todas as coisas que meu aprendiz aprendeu sobre a palavra
“mob” (a saber, como aplicar a palavra aos objetos certos e usá-
la para fornecer e obter informação) e, não obstante, é possível
dizer que não conhece seu significado, pois pode não saber que
denominar bom um automóvel é aprová-lo.
7.3. Alguns leitores podem objetar que dizer que o empre­
go descritivo ou informativo de “bom” é seu significado, em
qualquer sentido, é ilegítimo. Tais opositores podem sustentar
que o significado de “bom” é adequadamente caracterizado
126 A LINGUAGEM DA MORAL

quando se diz que é usado para aprovar e que qualquer informa­


ção que obtenhamos de seu uso não é uma questão de significa­
do. Quando digo “A é um bom automóvel”, o significado que
pretendo, segundo esse ponto de vista, é aprovar A; se, a partir
de minha observação, juntamente com seu conhecimento do
padrão habitualmente utilizado por mim para avaliar os méritos
de automóveis, um ouvinte obtém informação sobre que descri­
ção de automóvel é, isso não é parte do significado que preten­
do; tudo o que meu ouvinte fez foi uma inferência indutiva a
partir de “Haré, no passado, geralmente recomendou automó­
veis de determinada descrição” e “Hare aprovou A” para “A
tem a mesma descrição” . Suspeito que essa objeção seja em
grande parte verbal e não desejo tomar partido contra ela. Por
um lado, devemos insistir que conhecer os critérios para a apli­
cação da palavra “bom ” a automóveis não é conhecer - ao
menos no sentido completo ou primário - o significado da
expressão “bom automóvel”; nessa medida, deve-se concordar
com a objeção. Por outro lado, a relação da expressão “bom
automóvel” com os critérios para sua aplicação é muito seme­
lhante à relação de uma expressão descritiva com suas caracte­
rísticas definidoras, e essa semelhança encontra eco em nossa
linguagem quando perguntamos “O que você pretende que
‘bom ’ signifique?”, e obtemos a resposta “Pretendo que signi­
fique chegar a 80 por hora e nunca quebrar”. Em vista desse
fato indubitável do uso, julgo ser melhor adotar o termo “stggi-
ficacio:deseritivof’. Além disso, é natural dizer que uma sen­
tença ,tem significado descritivo se o falante pretende que ela,
primariamente, comunique, informação, e, quando um jornal
diz que X começou o jogo com uma bola boa, sua intenção não
é primariamente aprovir a 6ola, mas informar a seus leitores a
descrição da jogada.
7.4. ÉâpiaidepísíiÉicarp íatp de eudizer^ípe o significado
descritivo, de -‘bom” é secundário em relação- m significado^
avaliatório. Meus motivos para fazê-lo são dois. Primeiro, o
significado avaliatório é constante para toda classe de objeto
"BOM” 127

para a qual a palavra é usada. Quando denominamos bom um


automóvel, um cronômetro, um taco de críquete ou um quadro,
estamos aprovando todos eles. Mas como estamos recom en­
dando todos eles por razões diferentes, o significado descritivo
é diferente em todos os casos. Temos conhecimento do signifi­
cado avaliatório de “bom” desde os nossos primeiros anos, mas
estamos constantemente aprendendo a usá-lo com novos signi­
ficados descritivos, à medida que as classes de objetos cujas
virtudes aprendemos a distinguir tornam-se mais numerosas.
Às vezes aprendemos a empregar “bom” com um novo signifi­
cado descritivo, ensinado por um especialista num campo parti­
cular - por exemplo, um cavaleiro pode ensinar-me a reconhe­
cer um bom cavalo de caça. Às vezes, por outro lado, inventa­
mos um novo significado descritivo por nós mesmos. Isso
acontece quando começamos a fp m a r uni pádraó para uma
classe de objetos, quando começamos a sentir necessidade de
pôr em ordem de mérito determinados membros dessa classe,
para a qual não havia até então nenhum padrão, como no exem­
plo do “cacto” (6.2). Discutirei no próximo capítulo por que
aprovamos coisas.
A segunda razão para denominar primário o significado
avaliatório é que podemos usar a força avaliatória da palavra
para modificar o significado descritivo em qualquer classe de
objetos. É isso o que o reformador moral freqüentemente faz na
moral, mas o mesmo processo ocorre fora da moral. Pode acon­
tecer que automóveis mudem consideravelmente em termos de
projeto no futuro próximo (e.g., por meio de nossa busca de eco­
nomia à custa do tamanho). Pode ser que então deixemos de dar
o nome “um bom automóvel” a um carro ao qual, corretamente
e com a concordância de todos, concede-se hoje esse nome.
Como, lingüísticamente falando, isso aconteceria? No presente
estamos mais ou menos de acordo (embora apenas mais ou
menos) quanto aos critérios necessários e suficientes para cha­
mar bom um automóvel. Se acontecer o que descrevi, podemos
passar a dizer “Nenhum dos carros dos anos 50 era realmente
bom; não houve nenhum realmente bom antes de 1960”. Ora,
128 A LINGUAGEM DA MORAL

aqui não podemos estar usando “bom” com o mesmo significa­


do descritivo geralmente usado hoje, pois alguns dos carros de
1950 indubitavelmente têm características que lhes dão direito
ao nome “bom automóvel”, no sentido descritivo de 1950 dessa
palavra, O que está acontecendo é que o significado avaliatório
da palavra está sendo empregado para alterar o significado des­
critivo; se “bom ” fosse uma palavra puramente descritiva,
poderíamos dizer que o que estamos fazendo é redefini-la.
Porém não podemos dizer isso, pois o significado avaliatório
permanece constante; estamos antes alterando o padrão. Isso é
similar ao processo chamado pelo Professor Stevenson “defini­
ção persuasiva”2; o processo, porém, não tem necessariamente
grande influência da emoção.
Podemos reparar aqui que existem duas formas principais
em que uma mudança de padrão pode ser reflexo e, em parte,
efeito de uma mudança na língua. A primeira é a que acabei de
exemplificar, o significado avaliatório de “bom” é retido e utili­
zado para alterar o significado descritivo e, assim, estabelecer
um novo padrão. A segunda não )corre freqüentemente com a
palavra “bom”; pois essa palavra está tão firmemente estabele­
cida como palavra^de '/alor que o procedimento sena pratica-
üiente im possível Esse procedimento ép ara que i palavra seja
gradualmente esvaziada de seu significado avaliatório pelo
emprego cada vez mais freqüente numa forma que denominarei
convencional ou “entre aspas”; quando perdido todo seu signi­
ficado avaliatório, passa a ser usada como palavra puramente
descritiva para designar determinadas características do objetó,
e, quando é necessário aprovar ou condenar objetos nessa clas­
se, alguma palavra de valor bem diferente é tomada para esse
propósito. Os dois processos podem ser ilustrados e contrasta­
dos por meio de uma descrição muito esquematizada do que
aconteceu nos dois últimos séculos com a expressão “eíigible
bachelor■ ” *. Eíigible começou como palavra de valor, signifi­
cando “que deve ser escolhido” (j?c. para marido das filhas).

* I iternlmentc “solteiro elegível”, isto é, “bom partido”. (N. do T.)


“BOM" 129

Depois, como os critérios de elegibilidade vieram a tornar-se


um tanto rígidos, adquiriu um significado descritivo também;
no século XVIII, quando se dizia que alguém era eligible, po­
dia-se esperar que tivesse grandes propriedades e talvez um
título de nobreza. No século XIX, porém, os critérios de elegi­
bilidade mudaram; o que tom a um homem solteiro eligible não
é mais necessariamente a propriedade ou um título, mas rique­
za considerável de qualquer espécie, desde que bem sólida.
Podemos imaginar uma mãe do século XIX dizendo “Sei que
ele não é nobre de nascimento, mas, mesmo assim, é eligible
porque tem renda de £ 3.000 por ano e terá muito mais quando
o pai morrer”. Esse seria um exemplo do primeiro método. Por
outro lado, no século XX, em parte com reação aos padrões
excessivamente rígidos do século XIX, adotou-se o segundo
método, o que resultou no retorno do uso convencional da pala­
vra eligible, Se hoje alguém dissesse “Ele é um eligible", pode­
ríamos quase sentir as aspas na palavra, até a ironia; acharía­
mos que, se isso era tudo o que se podia dizer a seu respeito,
que devia haver algo errado com ele. Para aprovar homens sol­
teiros, por outro lado, empregamos hoje palavras bem diferen­
tes; dizemos “Ele provavelmente será um marido muito bom
para Jane”, ou “Ela foi muito sensata ao dizer ‘sim’ ”,
A relação estreita dos padrões de valores com a língua é
ilustrada pelos apuros da pessoa verdadeiramente bilíngüe. Um
escritor igualmente desenvolto em inglês e francês relata que
certa vez, quando passeava no parque num dia chuvoso, encon­
trou uma senhora vestida de um modo que os ingleses diriam
sensato, mas os franceses, ridicule: sua reação mental teve de
ser exprimida de forma bilíngüe porque os padrões que estava
aplicando eram de origens diversas; ele se viu dizendo a si
mesmo (escorregando do inglês para o francês) “Armadura
bem adequada. Mas tão desconfortável. Por que sair para uma
caminhada se você se sente assim? Elle estparfaitement ridicu­
le”, Diz-se às vezes que essa ctivageilT“de padrões produz neu­
roses em pessoas bilíngües, como se poderia esperar em vista
da influência dos padrões de valores sobre a ação3.
130 A LINGUAGEM DA MORAL

7.5. Embora em “bom” o significado avaliatório seja pri­


mário, há outras palavras nas quais o significado avaliatório é
secundário em relação ao descritivo. Palavras desse tipo são
“caprichoso” e “diligente”. Ambas sao normalmente usadas
para aprovar, mas podemos dizer, sem nenhuma insinuação de
ironia, “caprichoso demais” ou “diligente demais”. É o signifi­
cado descritivo dessas palavras que está mais firmemente liga­
do a elas e, portanto, embora devamos, para determinados pro­
pósitos, classificá-las como palavras de valor (pois se as trata­
mos como puramente descritivas, resultam erros lógicos), elas
o são num sentido menos pleno do que “bom”. Se © significado
avaliatório de uma palavra, que era primário, passa a ser seGun-
dáno, isso é um smaí de que^crpadrao ao qual recorre a palavra
tornou-se convencional É impossível, é: c te o .: dizer exMamen-
te quando isso aconteceu: é OKI p o eesso semelhante à ekegada
d@inverno.
Embora o significado avaliatório de “bom” seja primário,
o significado descritivo secundário nunca está de todo ausente.
Mesmo quan do estamos empregando a palavra “bom” avaliato-
riamente a fim de fixar um novo padrão, a palavra ainda tem
um significado descritivo, não no sentido de que é empregada
para comunicar informação, mas no sentido de que seu empre­
go na fixação do novo padrão é uma preliminar essencial -
como a definição, no caso de uma palavra puramente descritiva
- para seu emprego subseqüente com um novo significado des­
critivo. Deve-se notar também que a proeminência relativa dos
significados descritivo e avaliatório de “bom” varia de acordo
com a classe de^ objetos dentro da qual a aprovação está sendo
dada. Fodemos ilustrar isso tomando dois exemplos extremos*
Se falo. dc um “ovo bom”, sabe-se imediatamente a. que descri­
ção ée ovo estou me referindo - a saber, um que não esteja
podre. Nesse caso, o significado descritivo predomina porque
temos padrões bem estabelecidos para avaliar a bondade de
ovos, ¡Ropoutro lado, se digo que um poema é bom, pouca infor­
mação é fornecida sobre que descrição de poema é esta - pois
".BOM" 131

não há nenhum padrão аеейо de bondade para poemas! Mas


não se deve pensar que “ovo bom" é exclusivamente descritivo
ou “bom poema” exclusivamente avaliatório. Se, somo dizem
que os chineses fazem, escolhêssemos comer ovos podres,
denominaríamos bom esse üpo de ovo, da m esm a forma que,
por escolhermos comer саше de caça levemente apodrecida,
dizemos que ela é “weUrfeung” * (compare também a expiessão
“Ьощ queijo Stilton”), E se eu dissesse que um poema é bom, e
não fosse uma pessoa muito excêntrica, meu ouvinte teria razão
para supor que o poema não é “Parabéns a você!”
Em geral, quanto mais estabelecido e aceito o padrão, mai^
informação é transmitida. Mas não se deve pensar que a força
avaêatóm da palavra varie exatamente na proporção inversa da
descritiva. As duas variam independentemente: onde o, padrão
esta firmemente estabelecido e se crê nele com igual firmeza,
um juízo que contém ‘‘bom” pode ser altamente informativo,
sem se tornar menos appovatório. Considere a seguinte descri­
ção da Estação de Tratamento de Esgotos de Oxford.

O método empregado é primitivo mas eficiente. A estação é


feia, repugnante para pessoas que residem próximas a ela e não
muito lucrativa, mas o efluente resultante é, no sentido técnico,
bom4.

Ora, nesse caso, como se pode perceber consultando ma­


nuais da área, há testes perfeitamente bem reconhecidos para
determinar se o efluente é bom ou ruim. Um manual5 fornece
um teste de campo simples e outro6 uma série de testes mais
abrangentes que tomam dezessete páginas. Isso pode nos dei­
xar tentados a dizer que a palavra é empregada num sentido pu­
ramente descritivo e não tem nenhuma força avaliatória. Mas,
ao denominar bom um efluente nesse sentido técnico, embora
estejamos, admitidamente, aprovando-o como efluente e não

* Literalmente, “bem pendurada”. A carne de caça é pendurada para secar e ficar


levemente “passada” (N. do T.).
132 A LINGUAGEM DA MORAL

como perfume, estamos, não obstante, aprovando-o; não é um


fato químico ou biológico neutro sobre ele que é bom; dizer
que é ruim seria um motivo muito bom para demitir o encarre­
gado da estação ou tomar outras medidas para garantir que se
tornasse bom no futuro. O comentário apropriado sobre tal
lapso foi feito por um antigo arcebispo de York, falando no
Congresso do Instituto Real de Saneamento, em 1912:

Não há hoje, espero, necessidade da incisiva eloqüência


daquele nobre pioneiro da ciência sanitária, Charles Kingsley,
para insistir que não é religião, mas algo mais próximo da blasfê­
mia, dizer que um surto de doença é a vontade de Deus sendo
feita, quando ê patente que é o dever do homem que está deixan­
do de ser feito7.

É verdade que, se a palavra “bom” numa determinada sen­


tença fení|)Duc0 significado avaliatório, ê pfõvá^el que tenha?
uma carga considerável de significado descritivo è íc^-versatt
Isso porque, se tivesse muito pouco de ambos, teria pouquíssi­
mo significado e não valeria a pena pronunciá-la. Nessa medi­
da, os significados variam inversamente. Mas isso é somente
uma tendência; podemos fazer justiça aos fenômenos.*lógicos?
dizendo que “bom’' normalmente tem ao menos .certa carga d§
ambos os tipos de significado, que normalmente tem o sufi?
ciente de ambos os tipos para que valha a pena pronunciá-la£t
que, contanto que; as duas.prim eiras^ndiçoes ¡sejam satisfgã-
tas,,as cargas.dos dois tipos de significado variam independen­
temente.«
Existem, porém, casos em que usamos a palavra “bom ”
sem absolutamente nenhum significado aprovatório. Devemos
distinguir diversos tipos de tais empregos não-aprovatórios. O
primeiro foi denominado o emprego entre aspas. Se eu não
estivesse acostumado a aprovar nenhum estilo arquitetônico, a
não ser os mais modernos, ainda assim poderia dizer “O novo
plenário da Câmara dos Comuns é bom neogótico”. Eu poderia
dizer isso com sentidos diversos. O primeiro é aquele no qual
"BOM" 133

equivale a “um bom exemplo a escolher, se alguém está bus­


cando ilustrar as características típicas do estilo neogótico” ou
“um bom exemplar do estilo neogótico”. Esse é um sentido ava­
liatório especializado, com o qual não estamos preocupados
aqui. Eu poderia querer dizer, por outro lado, “genuinamente
preferível à maior parte dos outros exemplos de estilo neogóti­
co e, portanto, a ser aprovado dentro da classe dos edifícios
neogóticos, embora não dentro da classe dos edifícios em
geral”. Também não estamos preocupados agora com esse sen­
tido; é um uso aprovatório, com uma classe limitada de compa­
ração (8.2). O sentido que nos interessa é aquele em que signi­
fica, grosseiramente, “o tipo de edifício neogótico do qual
determinada espécie de pessoas - você sabe quais - diriam ‘é
um bom edifício’ ”. É característico deste emprego de “bom”
que, ao expandi-lo, muitas vezes desejamos colocar a palavra
“bom ” entre aspas; daí o nome. Não estamos.,;neste emprego,.
jnízo de valor, mas aludindo aos ju í -7
zos de valor de outras pessoasj Esse tipo de emprego é extrema­
mente importante para a lógica dos juízos morais, na qual tem
causado alguma confusão.
Deve-se observar que é mais fácil usar “bom” num sentido
entre aspas quando uma determinada classe de pessoas, que são
suficientemente numerosas e proeminentes para que seus ju í­
zos de valor sejam bem conhecidos (e.g., “as melhores” pes­
soas em qualquer campo), tem um padrão de aprovação rígido
para aquela classe de objeto. Em tais casos, o emprego entre
aspas pode aproximar-se de um emprego irônico, no qual não
somente não é aprovação, mas o oposto. Se eu tivesse uma opi­
nião ruim de Cario Dolci, poderia dizer “Se você quer ver real­
mente um “bom” Cario Dolci, vá dar uma olhada naquele que
está no...”.
Há um outro emprego no qual a ausência de conteúdo ava­
liatório não é suficientemente óbvia para o falante para que nós
o denominemos emprego entre aspas ou irônico. E o emprego?
convencional>no qual o falante meramente sustenta uma con-
134 A LINGUAGEM DA MORAL

venção da boca para fora, recomendando um objeto ou dizendo


coisas aprovatórias sobre ele simplesmente porque todas as
outras pessoas fazem o mesmo, Eu poderia ainda dizer, se não
tivesse nenhuma preferência quanto a estilos de mobília, “Este
móvel é de bom estilo”, não porque desejasse orientar a escolha
de mobília, minha ou a de outra pessoa, mas simplesmente por­
que me foram ensinadas as características que geralmente são
consideradas critérios de bom estilo e quis mostrar que tinha
“bom gosto” para móveis. Seria difícil dizer se em tal caso
estou ou não avaliando os móveis. Se não fosse um lógico, não
faria a mim mesmo as perguntas que determinariam se estou ou
não. Uma tal pergunta seria “Se alguém (não relacionado de
nenhuma forma com o comércio de móveis), coerentemente e
sem ligar para o preço, enchesse a casa de móveis em desacor­
do com os cânones pelos quais você julga bom o estilo desses
móveis, você consideraria isso como indício de que ele não
concorda com você?” Se eu respondesse “Não, pois uma ques­
tão é quais móveis têm bom estilo e outra quais móveis alguém
escolhe para si mesmo”, então poderíamos concluir que não
estava aprovando realmente o estilo ao denominá-lo bom, mas
somente sustentando uma convenção da boca para fora.
Recorreremos a essa espécie de investigação minuciosa mais
adiante (11.2).
Essas são apenas algumas das muitas maneiras como usa­
mos a palavra “bom”. Um lógico não pode fazer justiça à infi­
nita sutileza da língua; tudo o que pode fazer é salientar algu­
mas das principais características do uso de uma palavra e,
dessa forma, prevenir as pessoas dos principais perigos. Umá
compreensão plena da lógica dos termos de valor só pode sero
atingida por meio da atenção contínua e sensível à maneiig1
como os usamos.
Capítulo 8
Aprovar e escolher

8.1. É hora de investigar as razões das características lógi­


cas de “bom” que estivemos descrevendo e de perguntar por
que a-paiayra tempesta combinação peculiar'de significado ava-
lia tó ñ ^ e descritivo. *A razão será encontrada nos propósitos
para os quais ela, como outras palavras de valor, é usada em
nosso discurso. O exame desses propósitos revelará a relevan­
cia das questões discutidas na primeira parte deste livro para o
estudo da linguagem avaliatória.
I>rése que a função primária da palavra “bom ” é aprovár.
Temos, portanto, de investigar o que é aprovar. Quando aprova­
mos ou condenamos qualquer coisa, sempre o fazemos, ao me­
nos indiretamente, para orientar escolhas, nossas ou de outras
pessoas, agora ou no futuro. Suponha que eu diga “A Exposi­
ção do South Bank é muito boa”. Em que contexto eu diria isso
apropriadamente e qual seria meu propósito ao fazê-lo? Para
mim, seria natural dizê-lo a alguém que estivesse pensando se
devia ir a Londres para ver a Exposição ou, caso estivesse em
Londres, se devia visitá-la. Seria demais, porém, dizer que a
referência a escolhas é sempre tão direta assim. Um americano
retornando de Londres a Nova York e falando a algumas pes­
soas que não tem nenhuma intenção de ir a Londres no futuro
próximo, ainda assim pode fazer a mesma observação. Por­
tanto, para demonstrar que os juízos de valor críticos são todos.
I.Í4 A LINGUAGEM DA MORAL

vcnção da boca para fora, recomendando um objeto ou dizendo


coisas aprovatórias sobre ele simplesmente porque todas as
outras pessoas fazem o mesmo. Eu poderia ainda dizer, se não
tivesse nenhuma preferência quanto a estilos de mobília, “Este
móvel é de bom estilo”, não porque desejasse orientar a escolha
de mobília, minha ou a de outra pessoa, mas simplesmente por­
que me foram ensinadas as características que geralmente são
consideradas critérios de bom estilo e quis m ostrar que tinha
“bom gosto” para móveis. Seria difícil dizer se em tal caso
estou ou não avaliando os móveis. Se não fosse um lógico, não
faria a mim mesmo as perguntas que determinariam se estou ou
não. Um a tal pergunta seria “ Se alguém (não relacionado de
nenhuma forma com o comércio de móveis), coerentemente e
sem ligar para o preço, enchesse a casa de móveis em desacor­
do com os cânones pelos quais você julga bom o estilo desses
móveis, você consideraria isso como indício de que ele não
concorda com você?” Se eu respondesse “Não, pois uma ques­
tão é quais móveis têm bom estilo e outra quais móveis alguém
escolhe para si m esm o”, então poderíamos concluir que não
estava aprovando realmente o estilo ao denominá-lo bom, mas
somente sustentando uma convenção da boca para fora.
Recorreremos a essa espécie de investigação minuciosa mais
adiante (11.2).
Essas são apenas algumas das muitas maneiras como usa­
mos a palavra “bom”. Um lógico não pode fazer justiça à infi­
nita sutileza da língua; tudo o que pode fazer é salientar algu­
mas das principais características do uso de uma palavra e,
dessa forma, prevenir as pessoas dos principais perigos. Umá’
compreensão plena da lógica dos term os de valor só pode sero
atingida por meio da atenção contínua e sensível à maneir^'
como os usamos.
Capítulo 8
A provar e escolher

8. 1. É hora de investigar as razões das características lógi­


cas de “bom ” que estivemos descrevendo e de perguntar por
que a-palavra tern esta combinação peculiar de significado ava­
liatório é descritivo. A razão será encontrada nos propósitos
para os quais ela, como outras palavras de valor, é usada em
nosso discurso. O exame desses propósitos revelará a relevân­
cia das questões discutidas na primeira parte deste livro para o
estudo da linguagem avaliatória.
Disse que a função prim aria da palavra “bom" é aprovar.
Temos, portanto, de investigar o que é aprovar. Quando aprova­
mos ou condenamos qualquer coisa, sempre o fazemos, ao m e­
nos indiretamente, para orientar escolhas, nossas ou de outras
pessoas, agora ou no futuro. Suponha que eu diga “A Exposi­
ção do South Bank é muito boa”. Em que contexto eu diria isso
apropriadamente e qual seria m eu propósito ao fazê-lo? Para
mim, seria natural dizê-lo a alguém que estivesse pensando se
devia ir a Londres para ver a Exposição ou, caso estivesse em
Londres, se devia visitá-la. Seria demais, porém, dizer que a
referência a escolhas é sempre tão direta assim. Um americano
retornando de Londres a Nova York e falando a algumas pes­
soas que não tem nenhuma intenção de ir a Londres no futuro
próximo, ainda assim pode fazer a mesma observação. Por­
tanto, para demonstrar que os juízos de valor críticos são todos,
136 A LINGUAGEM DA MORAL

em última análise, relacionados a escolhas e que não seriam fei7


tos se não fossem assim relacionados, precisamos pergunta^
para que propósito temos padrões. *
O Sr. Urmson salientou que geralmente não falamos de lar­
vas de besouro “boas”. Isso porque nunca temos ocasião de es­
colher larvas de besouro e, dessa forma, não necessitamos de
nenhuma orientação para fazer isso. Portanto, não precisamos
ter padrões para larvas de besouro. Porém é fácil imaginar cir­
cunstâncias em que essa situação pode se alterar. Suponha que
larvas de besouro venham a ser usadas como um tipo especial de
isca para pescadores. Então poderíamos falar que cavamos uma
larva de besouro muito boa (uma, por exemplo, que seja excep­
cionalmente gorda e atraente para os peixes), da mesma forma
que hoje, sem dúvida, pescadores de mar podem falar que cava­
ram um biscalongo muito bom. Só temos padrões para umiji
classe de objetos, só falamos das virtudes de um espécime enj
oposição a outro, só usamos palavras de valor, a seu respeitgp
quando são conhecidas ou concebíveis ocasiões em que nós, òin
outras pessoas, teríamos de escolher entre espécimes? Não deno­
minaríamos quadros bons ou ruins se ninguém tivesse a escolha
de vê-los ou não vê-los (ou de estudá-los ou não estudá-los,
como estudantes de arte estudam quadros, ou de comprá-los ou
não comprá-los). A propósito, para não parecer que introduzi
certa vagueza ao especificar tantos tipos alternativos de esco­
lhas, deve-se salientar que a questão, se assim for desejado,
pode se tornar tão precisa quanto quisermos, pois podemos espe­
cificar, quando denominamos bom um quadro, dentro de qual
classe dizemos que é bom; por exemplo, podemos dizer “Quis
dizer um bom quadro para estudar, mas não para comprar”.
Alguns outros exemplos podem ser fornecidos. Não fala­
ríamos de bons pores-do-sol, a menos que às vezes tivéssemos
de tomar decisão de ir ou não à janela olhar o pôr-do-sol; não
falaríamos de bons tacos de bilhar, a menos que às vezes tivés­
semos de preferir um taco de bilhar a outro; não falaríamos de
homens bons a menos que tivéssemos de escolher que espécie
"BOM" 137

de homem tentar ser. Leibniz, quando falou de “o melhor de


todos os mundos possíveis”, tinha em mente um criador esco­
lhendo entre as possibilidades. A escolha considerada não pre­
cisa ocorrer nunca, nem mesmo é necessário esperar que ocorra
algum dia; é bastante que seja considerada como ocorrendo, ai
fim.de que, sejamos, capazes desfazer um juízo de valor em refç-,
rência a elai Deve-se admitir, porém, qug os juízos de valor/
mais úteis são os que se referem a e.scolhas que, muito prova­
velm ente,poderíamos terdefãzer. 7
8.2. Deve-se salientar que mesmo juízos sobre escolhas
passadas não se referem meramente ao passado. Como vere­
mos, todos os juízos de vaTõrTaõVeIadámente de caráter uni?
versal,'íò~queéigmesmo quê'diz~er~que serefèrein a, e exprimem^
álfceifãçâo de um padrão aplicável a outrãs ocasiões similares.
Se censuro alguém por ter feito algo, considero a possibilidade
de ele, outra pessoa ou mesmo eu, ter de fazer uma escolha
semelhante novamente; do contrário não faria sentido censurá-
lo. Assim, se digo a um homem que estou ensinando a dirigir
“Você fez mal aquela manobra”, essa é uma instrução de volan­
te bastante típica, e a instrução de volante consiste em ensinar,
um homem a dirigir não no passado, mas no futuro; para esse
fim censuramos ou aprovamos manobras feitas no passado,
para comunicar a ele o padrão que deve guiá-lo em sua conduta
subseqüente.
Quando aprovamos um objeto, nosso juízo não é unicamen­
te sobre aquele objeto particular, mas, inevitavelmente, sobre
objetos semelhantes a ele. Assim, se digo que determinado auto­
móvel é bom, não estou meramente dizendo algo sobre aquele
automóvel particular. Dizer algo sobre aquele carro particular,
meramente, não seria aprovar. Aprovar, como vimos, é orientar
escolhas. Ora, para orientar uma escolha particular temos um
instrumento lingüístico que não é o da aprovação, isto é, o impe­
rativo singular. Se desejo meramente dizer a alguém que escolha
um carro particular, sem pensar no tipo de carro ao qual ele per­
tence, posso dizer “Leve aquele”. Se, em vez disso, digo “Aquele
138 A LINGUAGEM DA MORAL

é bom”, estou di/cndo algo mais. Estou sugerindo que se algum


automóvel fosse exatamente como aquele, também seria bom, ao
passo que ao dizer “Leve aquele” não estou sugerindo que, se
meu ouvinte vir outro carro exatamente como aquele, deve levá-
lo também, Mas, além disso, a sugestão do juízo “Aquele é um
bom automóvel” não se estende meramente a automóveis exata-
menfe conxo aquele. Se fosse assim, a sugestão seria inútil para
propósitos práticos, pois nada é exatamente igual a qualquer
oüíra coisa. Ela se estende a todo automóvel que é igual àquele
nas particularidades relevantes; e as particularidades relevantes
são suas virtudes - as características pelas quais eu o aprovei ou
que denominei boas. Sempre que aprovamos, temos em mente
algo sobre o objeto aprovado que é a razão para nossa aprovação,^
Portanto, depois de alguém ter dito “Aquele é um bom automó­
vel”, sempre faz sentido perguntar “O que é bom nele?” ou “Por
que você diz que ele é bom?” ou “Que características dele você
está aprovando?” Pode não ser sempre fácil responder a essa
questão de forma precisa, mas é sempre uma questão legítima. Se,
não entendêssemos por que é sempre uma questão legitima, não
entenderíamos o modo como a palavra “bom” funciona.
Podemos ilustrar esse ponto comparando dois diálogos
(similares ao de 5.2):

(1) X. O automóvel de Jones é bom.


Y. O que o faz chamá-lo bom?
X. Ah, ele simplesmente é bom.
Y. Mas deve haver alguma razão para que você o chame
bom, quero dizer, alguma propriedade que ele tenha em
virtude da qual você o chama bom.
X. Não; a propriedade em virtude da qual o chamo bom é
simplesmente sua bondade e nada mais.
Y Então você quer dizer que sua forma, velocidade, peso,
dirigibilidade, etc., são irrelevantes para o fato de você
chamá-lo bom ou não?
X. Sim, perfeitamente irrelevantes; a única propriedade
“BOM” 139

relevante é a bondade, da mesma forma que, se eu o cha­


masse amarelo, a única propriedade relevante seria sua
“amarelidade” .
(2) O mesmo diálogo, mas com “amarelo” em lugar de “bom”
e “amarelidade” em lugar de “bondade”, e com a omissão
da última oração (“da mesma forma que... cor amarela”).

A posição de X no primeiro diálogo é excêntrica porque,


como observamos anteriormente, já que “bom” é um epíteto
“superveniente” ou “conseqüente”, sempre é legítimo pergun­
tar a uma pessoa que disse ser boa alguma coisa: “O que há de
bom nela?” Ora, responder a essa pergunta é fornecer as pro­
priedades em virtude das quais a denominamos boa. Assim, se
eu disser “Aquele é um bom automóvel”, alguém perguntar
“Por quê? O que há de bom nele?”, e eu responder “Alta veloci­
dade combinada com estabilidade na estrada”, indico que o
denomino bom por ter essas propriedades ou virtudes. Então
fazer isso é, eo ipso, dizer algo sobre outros automóveis que
tenham essas propriedades. Se qualquer outro automóvel tives­
se essas propriedades, eu, para não ser incoerente, teria de con­
cordar que ele pro tanto, é um bom automóvel; embora, é claro,
mesmo tendo essas propriedades a seu favor, pudesse ter des­
vantagens compensatórias e, assim, feitas todas as considera­
ções, não ser um bom automóvel.
Esta última dificuldade sempre pode ser superada especi­
ficando detalhadamente a razão por que denominei bom o pri­
m eiro automóvel. Suponha que um segundo automóvel fosse
igual ao primeiro, em velocidade e estabilidade, mas não desse
aos seus passageiros nenhuma proteção contra a chuva e permi­
tisse a entrada e saída de passageiros com dificuldade. Eu não
diria que é um bom automóvel, apesar de ter as características
que me levaram a denominar bom o primeiro. Isso mostra que
também não teria chamado bom o primeiro se este também,
tivesse as características ruins do segundo e, portanto, ao espe­
cificar o que era bom no primeiro, deveria ter acrescentado
140 A LINGUAGEM DA MORAL

“...e a proteção que ele dá aos passageiros e a facilidade para


entrar e sair”. Esse processo poderia ser repetido indefinida­
mente até que eu tivesse dado urna lista completa das caracte­
rísticas do primeiro automóvel que foram necessárias para que
eu concordasse que era um bom carro. Isso, em si, não seria
dizer tudo o que havia para ser dito sobre meus padrões para
julgar automóveis - pois poderiam existir outros automóveis
que, embora carecendo em certa medida dessas características,
tivessem outras características boas compensatórias, por exem­
plo, estofamento macio, espaço amplo ou baixo consumo de
gasolina. Mas seria ao menos de alguma ajuda para que o ou­
vinte formasse uma idéia de meus padrões para automóveis;
nisso reside a importância de tais perguntas e respostas e de
reconhecéiTsua "relevância sempre que for feito um juízo He
váíor. Pois um dos propósitos de fazer tais juízos é tornar co­
nhecido o padrão.
Quando aprovo um automóvel estou orientando as esco­
lhas de meu ouvinte não meramente em relação àquele automó­
vel particular, m as em relação a automóveis em geral. O que
disse a ele irá ajudá-lo sempre que, no futuro, tiver de escolher
um automóvel ou aconselhar alguém na escolha de um automó­
vel, ou mesmo de projetar um automóvel (escolher que espécie
de automóvel m andar produzir) ou escrever um tratado geral
sobre o projeto de automóveis (que envolve escolher que tipo
de automóveis aconselhar outras pessoas a mandar produzir). O
método por meio do qual lhe dou essa assistência é fazê-lo
conhecer um padrão para o julgamento de automóveis.
Esse processo, como observamos, tem determinadas
características em comum com o processo de definir (tornar
conhecido o significado ou aplicação de) uma palavra descriti­
va, embora existam diferenças importantes. Temos agora de
observar outra semelhança entre demonstrar o uso de uma pala­
vra e como escolher entre automóveis. Em nenhum dos casos a
instrução pode ser feita com sucesso a menos que o instrutor
seja coerente ao ensinar. Se usamos “vermelho” para objetos de
"BOM'' 141

um a ampla variedade de cores, meu ouvinte nunca aprenderá


comigo um padrão de uso consistente para a palavra. De manei­
ra semelhante, se aprovo automóveis de características muito
diferentes ou mesmo contrárias, o que lhe digo não será útil
subseqüentemente na escolha de automóveis porque não lhe
estou ensinando nenhum padrão coerente - ou mesmo algum
padrão, pois um padrão, por definição, é coerente. Ele dirá
“Não vejo por que padrões você está julgando esses autom ó­
veis; por favor, me explique por que você denomina todos bons,
embora sejam tão diferentes”. É claro, eu talvez pudesse lhe dar
uma explicação satisfatória. Poderia dizer “Existem diferentes
tipos de automóveis, cada um bom à sua maneira; existe o carro
esporte, cujos principais requisitos são velocidade e dirigibili-
dade, o carro de passeio, que deve antes ser espaçoso e econô­
mico, o táxi, e assim por diante. Portanto, quando digo que é
bom um carro veloz e de boa dirigibilidade, embora não seja
espaçoso nem econômico, você deve entender que o estou
aprovando como carro esporte, não como carro de passeio”.
Mas suponha que eu não reconhecesse a relevância de sua per­
gunta; suponha que eu estivesse simplesmente distribuindo o
predicado “bom” totalm ente a esmo. É evidente que, neste
caso, eu não lhe ensinaria absolutamente nenhum padrão.
Temos, portanto, de distinguir duas questões que sempre
podem ser feitas para elucidar um juízo que contenha a palavra
“bom ” . Suponha que alguém diga “Aquele é bom” . Podemos
sempre perguntar (1) “Bom o quê - carro esporte, de passeio,
táxi ou exemplo para citar num livro de lógica?” Ou podemos
perguntar (2) “O que o faz chamá-lo bom?” Fazer a primeira per­
gunta é pedir a classe dentro da qual as comparações avaliató­
rias estão sendo feitas. Vamos chamá-la a classe cie compara­
ção. Fazer a segunda pergunta é perguntar pelas virtudes ou
‘'características que tom am bom”. Estas duas perguntas,
porém, não são independentes, pois o que distingue a classe de
comparação “carro esporte” da classe “carro de passeio” é o
conjunto de virtudes que deve ser procurado nas classes respec­
142 A LINGUAGEM DA MORAL

tivas. Isso é assim em todos os casos em que a classe de compa­


ração é definida por meio de. um a palavra funcional - pois,
obviamente, “carro esporte”, “carro de passeio”, e “táxi” são
funcionais num grau muitíssimo mais alto que o simples “auto­
m óvel”. Algumas vezes, contudo, uma classe de comparação
pode receber especificações adicionais sem que isso a torne
mais funcional; por exemplo, ao explicar a expressão “bom
vinho” poderíamos dizer “Quero dizer bom vinho para esta
região, não bom vinho em comparação com todos os vinhos
que existem”.
8.3. Ora, já que ser usada para ensinar padrões é o propósito
da palavra “bom”, e de outras palavras de valor, sua lógica está de
acordo com esse propósito. Estamos, portanto, em condições
de finalmente explicar a característica da palavra “bom” que des­
taquei no início desta investigação. À razão por que não posso
aplicar a palavra “bom” a um quadro se me recuso a aplicá-la a
um outro quadro que concordo ser em todos os aspectos exata­
mente similar é que, ao fazê-lo, estaria anulando o propósito para
o qual a palavra existe. Estaria aprovando um objeto e, assim,
parecendo ensinar a meus ouvintes um padrão enquanto, ao
mesmo tempo, estaria recusando-me a aprovar um objeto similar
e, assim, anulando a lição que acabara de dar. Buscando transmi­
tir dois padrões incoerentes, não estaria transmitindo absoluta­
mente nenhum padrão. O efeito de uma tal declaração é similar
ao de uma contradição, pois, numa contradição, digo duas coisas
incoerentes e, portanto, o efeito é que o ouvinte não sabe o que
estou tentando dizer. H
O que disse até aqui também pode ser colocado em outra
terminologia, a_dos princípios, que estivemos usando na Pri­
meira Parte. Ensinar a uma pessoa - ou eleger para si mesmo -
um padrão para julgar os méritos de objetos de um a determina­
da classe é ensinar ou eleger princípios para escolher entre'
objetos dessa classe. Conhecer os princípios para escolher
automóveis é ser capaz de decidir entre automóveis ou de dis­
cernir um bom automóvel de um ruim. Se digo “Aquele não é
"BOM ” 143

um bom automóvel” e perguntam-me qual é a virtude cuja falta


me faz dizer isso, e respondo em seguida “Ele não é estável na
estrada”, estou recorrendo a um princípio. J
Em vista da estreita similaridade de propósito entre juízos
de valor e princípios de escolha, é interessante notar que a
característica dos juízos de valor que estamos discutindo (sua
necessidade de coerência mútua) é compartilhada pelas senten­
ças imperativas universais, como, na verdade, por todas as sen­
tenças universais. Vimos que não posso dizer “Este é um bom
automóvel, mas aquele a seu lado, embora exatamente igual em
todos os outros aspectos, não é bom ” . Pela mesma razão, não
podemos dizer “Se puder, sempre escolha um automóvel igual
a este, mas não escolha sempre um automóvel igual àquele ao
lado, que é exatamente igual a este”. Esta sentença é autocon-
traditória, porque recom enda ao ouvinte escolher sempre um
automóvel igual a este e não escolher sempre um automóvel
igual a este. Uma contradição similar no modo indicativo seria
“Animais iguais a este são sempre estéreis, mas animais iguais
àquele ao lado, que é exatamente igual a este, nem sempre são
estéreis” .
Essa conexão entre juízos de valor e princípios auxilia-nos
a responder à pergunta proposta no início deste capítulo. O que
disse no capítulo precedente sobre a relação do significado ava­
liatório e do significado descritivo de “bom ” e sobre a forma
como os padrões são adotados e m odificados é prontamente
esclarecido quando nos damos conta de que o contexto no qual
usamos essas palavras é o contexto das decisões de princípio „
tais como discutidas em 4.2. Um juízo de valor pode encontrar-
se numa variedade de relações com o padrão, ao qual se refere.
Em virtude de seu significado descritivo, ele informa ao ouvin­
te que o objeto conforma-se ao padrão. Isso é verdadeiro
mesmo se o juízo for um juízo “entre aspas” ou convencional.
A maior parte da complexidade da relação deve-se, porém, ao
significado avaliatório. Se o padrão é bem conhecido e geral­
mente aceito, o juízo de valor não pode fazer mais do que
144 A LINGUAGEM DA MORAL

expressar a aceitação do falante ou sua adesão a ele (embora


nunca afirme que ele aceita ou adere a ele; para isto temos
outras expressões,6tais como “ Sou de opinião que, para ser
bom, um morango deve ter consistência firme”). Se o ouvinte é
uma pessoa não familiarizada com o padrão (e.g., uma criança)
a função do juízo de valor também pode ser familiarizá-la com
ele ou ensiná-lo a ela. Se fazemos isso, não estamos meramente
informando-lhe que o padrão é de vim tipo tal e tal; estamos
ensinando-a a fazer suas escolhas futuras segundo um determi­
nado princípio. Fazemos isso apontando-lhe exemplos de obje­
tos que se conformam e não se conformam ao padrão, e dizen­
do “Aquele é um bom X ”, “Aquele é um mau X ”, etc. Se o
padrão ao qual nos referimos é um padrão para objetos de uma
classe que não tenham sido previamente colocados em ordem
de m érito (tais como cactos) ou se estamos advogando cons­
cientemente ura padrão que diverge do recebido, então, nosso
propósito é quase inteiramente prescritivo; estamos na realida­
de estabelecendo um novo padrão ou modificando um padrão
aceito. Suponha, por exemplo, que eu dissesse “O Código de
Trânsito diz que é dirigir bem dar uma multiplicidade de sinais;
mas, na verdade, é melhor dar menos sinais, prestar atenção
para estar Certo de que não está obstruindo outros veículos e
sempre dirigir de tal forma que suas intenções de manobra se­
jam evidentes sem sinais”; eu estaria prescrevendo, não infor­
m ando1. Posso, além disso, dizer esse tipo de coisa para mim
mesmo enquanto estiver aprendendo a dirigir; é semelhante a
autodidatismo. Vemos assim que a linguagem dos valores é
admiravelmente adequada para a expressão de tudo o que ne­
cessitamos dizer enquanto elegemos, ensinamos ou m odifica­
mos princípios; assim, todo o Capítulo 4 poderia ter sido ex­
pressado, não em termos de princípios imperativos universais,
mas de juízos de valor. É por isso que a lógica dos juízos de
valor não pode ser compreendida a hão ser que nos tenhamos
familiarizado com tais contextos.
Capítulo 9
“Bom” em contextos morais

9.1. É hora de perguntar se “bom”, tal como usado em con­


textos morais, tem alguma das características para as quais cha­
mei a atenção em contextos não-morais. Sem dúvida alguns lei­
tores pensarão que tudo o que disse até aqui é inteiramente irre­
levante para a ética. Pensar isso é deixar escapar o esclareci­
mento de alguns paralelos muito interessantes; porém, de
minha parte, não tenho direito de assumir que “bom” compor­
ta-se da m aneira que descrevi quando é empregado na moral.
Devemos agora nos dedicar a esse problema; mas antes algo
mais deve ser dito sobre outra distinção, da qual pode parecer
que fiz pouco caso, a distinção entre os chamados usos “intrín­
seco” e “instrumental” de “bom” .
Tem havido uma disposição entre filósofos para fazer uma
de duas coisas opostas. A primeira é supor que todo e qualquer
juízo de valor relaciona-se com o desempenho, por um objeto,
de uma função distinta do objeto em si. A segunda é supor que,
como existem alguns objetos que são aprovados por si mesmos
e não têm uma função óbvia além de sua mera existência, apro­
var tal objeto é fazer algo bem diferente de aprovar um objeto
que efetivamente tem uma função. Para que evitemos qualquer
dessas duas coisas, será útil lançar mão das noções gerais de
“virtude” e “padrão”, que estive empregando nos capítulos pre­
cedentes.
146 A LINGUAGEM DA MORAL

Quando estamos lidando com objetos que são avaliados


exclusivamente em virtude do desempenho de uma função, as
virtudes de tais objetos consistirão nas características que pro­
movem ou que constituem o bom desempenho da função. A
questão pode ser esclarecida supondo que o que estamos julgan­
do é o desempenho do objeto, não o objeto. Imagine que esteja­
mos julgando um extintor de incêndio. Para fazer isso nós o
observamos sendo empregado para apagar um incêndio e então
julgamos seu desempenho. Determinadas características do
desempenho contam como virtudes (e.g., apagar o fogo rapida­
mente, causar poucos danos ao patrimônio, não emitir gases
perigosos, baixo consumo de substâncias químicas caras, etc.).
Note que algumas das expressões empregadas para especificar o
padrão {e.g., “danos” e “perigosos”) são elas mesmas expres­
sões de valor; indicam que a especificação do padrão não está
completa em si mesma, mas inclui “remissões” a padrões para a
avaliação, respectivamente, do estado de conservação do patri­
mônio e do efeito de gases sobre o corpo humano. Seria impos­
sível especificar completamente o padrão sem ter, para propósi­
tos de referência, uma especificação de todos os outros padrões
aos quais é necessário fazer referência. Aristóteles1dá exemplos
de tais remissões em que os padrões são dispostos hierarquica­
mente, sendo as remissões todas na mesma direção. Não parece
evidente que necessitem ser dispostos dessa forma, mas seria se
o fossem.
Agora, o que devemos observar, para nossos presentes ob­
jetivos, sobre a lista acima, de virtudes no desempenho do ex­
tintor de incêndio, é que se trata simplesmente de uma lista de
virtudes, não diferindo logicamente da lista de virtudes de uma
classe de objetos que não têm uma função. Compare-a, por
exemplo, com a lista de virtudes de um bom banho. Um bom
banho é bom instrumentalmente (porque contribui para a lim­
peza) e intrinsecamente (pois não tomaríamos tantos banhos se
nosso único propósito ao tomá-los fosse ficarm os limpos).
Ignoremos no momento a bondade instrumental do banho e
"BOM ” 147

concentremo-nos em sua bondade intrínseca. Para ser intrinse-


camente bom, um banho tem de estar dentro de uma determina­
da faixa de temperatura, que tem de ser mantida por toda a sua
duração, a banheira deve estar acima de certo tamanho mínimo,
que varia de acordo com o da pessoa, deve ter determinado for­
mato e deve estar cheia de água pura e limpa; deve haver sabo­
nete de suavidade acima de um determinado grau (e.g., não
conter abrasivos ou cáusticos livres) - e o leitor pode aumentar
a lista conforme seu gosto. Nessa especificação tentei evitar
referências a outros padrões, mas não fui inteiramente bem
sucedido, e.g., “água lim pa” significa “água em que não há
sujeira”, e o que deve contar como sujeira é uma questão de
avaliação. Assim, mesmo quando estamos lidando com a bon­
dade intrínseca não podemos evitar referências cruzadas e, por­
tanto, não é a necessidade destas que torna a bondade instru­
mental.
Percebemos que em ambos os casos - o extintor de incên­
dio e o banho - temos um padrão ou lista de virtudes e aprova­
mos objetos que possuem essas virtudes. No caso do extintor de
incêndio, aprovamos diretamente seu desempenho e apenas
indiretamente o objeto; no caso do banho pode-se dizer que
aprovamos o objeto diretamente. Mas, na verdade, trata-se de
uma distinção sem diferença; devemos dizer que “induzir calor
em minha pele” é um desempenho do banho ou devemos dizer
que “ser quente” é uma qualidade do banho? Similarmente, uma
das virtudes exigidas de um bom abacaxi é que seja doce; a
doçura é uma qualidade intrínseca do abacaxi ou é a disposição
para produzir certas sensações desejáveis em mim? Quando
pudermos responder tais questões, seremos capazes de traçar
uma distinção precisa entre bondade intrínseca e instrumental
Seria um erro, porém, dizer que não há diferença entre o
que fazemos ao aprovar um extintor de incêndio e o que faze­
mos ao aprovar um pôr-do-sol. Nós os aprovamos por razões
totalmente diferentes e, no caso do extintor de incêndio, todas
estas razões referem-se ao que se espera que ele faça. Vimos
148 A LINGUAGEM DA MORAL

acima que se “bom ” é seguido por uma palavra funcional (e.g.,


o nome de um instrumento), essa própria palavra nos dá urna
especificação parcial das virtudes exigidas; ao passo que, em
outros casos, essa especificação está ausente. Tudo o que estou
defendendo é que o aparato lógico das virtudes e padrões que
estivemos elaborando é suficientemente geral para abranger a
bondade instrumental e a intrínseca. E perceber isso é o primei­
ro passo para perceber que pode ser geral o bastante também
para abranger a bondade moral. Devemos nos voltar agora para
esta questão.
9.2. Recapitulemos algumas das razões que levaram as pes­
soas a sustentar que o emprego da palavra “bom” em contextos
morais é totalmente diferente de seu emprego em contextos não-
morais. A prim eira razão está ligada à diferença entre bom
intrínseco e instrumental, e já tratamos disso. A segunda razão é
que as propriedades que tornam um homem moralmente bom
são obviamente diferentes das que tomam bom um cronómetro.
Portanto, é fácil pensar que o significado da palavra “bom ” é
diferente nos dois casos. Mas pode-se ver agora que essa é urna
conclusão errônea. O significado descritivo com certeza é dife­
rente, como o significado descritivo de “bom” em “boa maçã” é
diferente de seu significado em “bom cacto”; mas o significado
avaliatório é o mesmo - em ambos os casos estamos aprovando.
Estamos aprovando como um homem, não como um cronóme­
tro. Se insistíssemos em dizer que o significado de “bom” é
diferente porque as virtudes exigidas em objetos de classes dife­
rentes são diferentes, terminaríamos com o que o Sr. Urmson
denomina “um homónimo com tantos significados ambiguos
quanto situações a que se aplicasse” 2.
A terceira razão é esta: tem-se a impressão de que, de al­
gum modo, a “bondade moral” é mais digna, mais importante
e, portanto, merece ter urna lógica toda própria. Essa alegação
raramente é explícita, mas encontra-se por trás de boa parte do
argumento e, em si, tem algo que a recomenda. Realmente atri­
buimos maior importância ao fato de um homem ser um bom
“BOM" 149

homem do que ao fato de um cronômetro ser um bom cronôme­


tro. Não culpamos cronômetros por serem ruins (embora culpe­
mos seus fabricantes). Ficamos comovidos com a bondade
moral de uma forma que poucas pessoas experimentam diante
da bondade técnica ou de outros tipos. É por isso que muitos
leitores terão se irritado por eu supor que o comportamento de
“bom ” em “bom efluente de esgoto” pode ter algum interesse
para o filósofo moral. Temos de perguntar, portanto, por que
sentimos isso e se o fato de assim sentirmos torna necessária
uma explicação inteiramente diferente da lógica de “bom” nos
dois casos.
Comovemo-nos com a bondade dos homens porque somos
homens. Isso significa que a aceitação de um juízo, de que tais e
tais atos de um homem são bons em certos tipos de circunstân­
cias, envolve a aceitação do juízo de que seria bom, se estivésse­
mos em circunstâncias semelhantes, agir da mesma forma. E já
que poderíamos ser colocados em circunstâncias semelhantes,
somos tocados profundamente pela questão. Somos tocados
menos profundamente, deve-se admitir, pela questão de se foi
um ato mau de Agamenon sacrificar Ifigênia, do que pela ques­
tão de se foi um ato mau da Sra. Smith viajar de trem sem pagar
sua passagem, pois não é provável que fiquemos na posição de
Agamenon, mas a maioria de nós viaja de trem. É provável que
a aceitação de um juízo moral sobre o ato da Sra. Smith tenha
uma influência mais estreita sobre nossa conduta futura do que a
aceitação de um juízo sobre o ato de Agamenon. Mas nunca nos
imaginamos transformados em cronômetros.
Essas observações são confirmadas, até certo ponto, pelo
comportamento de técnicos e artista§. Como Hesíodo assina­
lou, essas pessoas efetivamente se comovem com suas respecti­
vas bondades não-morais da maneira como as pessoas comuns
se comovem com questões morais: “Oleiros ficam zangados
com oleiros, carpinteiros com carpinteiros, mendigos com
mendigos e poetas com poetas”3. A competição comercial não é
a única razão - pois é possível competir sem maldade. Quando
150 A LINGUAGEM DA MORAL

um arquiteto, por exemplo, diz da casa de outro arquiteto, com


sentimento, “É uma casa projetada de forma totalmente erra­
da”, a razão para o sentimento é que se admitisse que a casa era
bem projetada, estaria admitindo que, ao evitar em seu próprio
trabalho características como as do projeto em questão, ele
estava errado; e isso poderia significar alterar toda a sua manei­
ra de projetar casas, o que seria trabalhoso.
Além disso, não podemos deixar de ser homens, como
podemos deixar de ser arquitetos ou deixar de fazer ou de usar
cronômetros. Já que é assim, não há como evitar as conseqüên­
cias (muitas vezes dolorosas) de conformarmo-nos aos juízos
morais que fazemos. O arquiteto que foi forçado a admitir que a
casa de um rival era melhor do que qualquer coisa que ele tinha
feito ou poderia fazer talvez ficasse abalado, mas, como último
recurso, poderia tornar-se um barman. Porém, se admito que a
vida de São Francisco foi moralmente melhor que a m inha e
com isso queira realmente exprimir uma avaliação, não há nada
a fazer a não ser tentar ser como São Francisco, o que é penoso.
É por isso que a maior parte de nossos juízos morais sobre os
santos são meramente convencionais - nunca temos a intenção
de que sejam guias na determinação de nossa conduta.
Além disso, no caso de diferenças sobre moral é muito
difícil - e, em casos em que o efeito sobre nossa própria vida é
profundo, impossível - , dizer “É tudo uma questão de gosto;
admitamos a divergência”; pois admitir a divergência só é pos­
sível quando podemos estar seguros de que não seremos força­
dos a fazer escolhas que afetarão radicalmente as escolhas de
outras pessoas. Isso é especialmente verdadeiro quando se tem
de fazer escolhas cooperativamente; deve-se salientar, contudo,
que, embora a m aior parte das escolhas morais sejam dessa
espécie, esse tipo de situação não é peculiar à moral. Os mem­
bros da expedição Kon-tiki não poderiam ter admitido diver­
gência sobre como construir sua jangada, e famílias que com­
partilham uma cozinha não podem admitir divergência sobre
sua organização. Mas, embora geralmente possamos deixar de
"BOM" 151

construir jangadas ou de compartilhar cozinhas, não podemos


deixar de viver em sociedades com outras pessoas facilmente.
Homens que vivem em completo isolamento talvez possam
admitir divergência sobre moral. De qualquer forma, parece
que comunidades sem contato estreito podem admitir divergên­
cia sobre algumas questões morais sem inconveniente efetivo.
Dizer isso, é claro, não é necessariamente sustentar algum tipo
de relativismo moral, pois as comunidades podem admitir
divergência sobre ser a terra redonda ou não. Admitir a diver­
gência é dizer, na prática, “Divergiremos sobre esta questão,
mas não nos zanguemos e nem briguemos por causa disto”, não
é dizer “Divergiremos, mas tratemos de não divergir”, pois isto
constituiria um a impossibilidade lógica. E, portanto, se duas
comunidades admitissem divergência sobre, digamos, a conve­
niência moral da legalização do jogo em seus territórios respec­
tivos, aconteceria o seguinte: eles diriam “Continuaremos a
sustentar, um de nós que é errado legalizar o jogo, e o outro que
não é errado; mas não nos zangaremos com as leis do outro,
nem buscaremos interferir na sua administração dessas leis” . E
a mesm a coisa poderia ser feita no tocante a outras questões
que não o jogo, contanto que o que cada comunidade fizesse
tivesse pouco efeito fora de suas próprias fronteiras. Tais acor­
dos não funcionarão, porém, se uma comunidade sustentar que
é um dever moral evitar determinadas práticas onde quer que
ocorram.
Vale a pena considerar tal caso a fim de contrastá-lo com o
estado de coisas mais usual; normalmente, os juízos morais que
fazemos e aos quais nos mantemos fiéis afetam profundamente
a vida de nossos vizinhos; e isso, em si, basta para explicar a
posição peculiar em que os situamos. Se acrescentamos a isso a
questão lógica, já mencionada, de que os juízos morais sempre
têm uma possível influência sobre nossa conduta, já que não
podemos aceitá-los, no sentido mais pleno do termo, sem nos
conformarmos a eles (que isso é uma tautologia ficará patente
em 11.2), então não é necessária nenhuma explanação adicional
152 A LINGUAGEM DA MORAL

da condição especial da moral. Essa condição especial não


requer uma lógica especial que a sustente; ela resulta do fato de
que estamos empregando o aparato comum da linguagem do
valor para aprovar ou condenar as ações mais íntimas de nós
mesmos e de nossos semelhantes. Podemos acrescentar que a
“emotividade” de boa parte dos enunciados morais, que alguns
pensam ser a essência da linguagem avaliatória, é somente um
sintoma - e muito pouco confiável - de um uso avaliatório das
palavras. A linguagem moral é freqüentemente emotiva, sim­
plesmente porque as situações nas quais é tipicamente usada são
situações que muitas vezes nos afetam profundamente. Um dos
usos principais da comparação que venho traçando entre lingua­
gem de valor moral e não-moral é esclarecer que as característi­
cas lógicas essenciais das palavras de valor podem estar presen­
tes onde as emoções não estão marcadamente envolvidas.
Pode-se objetar que minha explicação da matéria não ofere­
ce meios para distinguir juízos prudenciáis como “Nunca é uma
boa idéia apresentar-se como voluntário para qualquer coisa no
Exército” de juízos morais propriamente ditos como “Não é
bom quebrar um a promessa”. Porém as considerações forneci­
das anteriormente (8.2) permitem-nos distinguir satisfatoria­
mente essas duas classes de juízos. Pelo contexto, é evidente
que, no segundo caso, estamos aprovando dentro de uma classe
de comparação diferente, e exigindo um conjunto de virtudes
diferente. Algumas vezes aprovamos um ato dentro da classe de
atos que tem um efeito sobre a felicidade futura do agente; às
vezes aprovamos um ato dentro da classe de atos indicativa do
caráter moral do agente, isto é, aqueles atos que mostram se ele
é ou não um bom homem - e a classe de comparação “homem”
neste contexto é a classe “homem que se deve tentar imitar”
(12.3). Qual desses estamos fazendo é sempre claro a partir do
contexto e, quase sempre, existe também uma diferença verbal
adicional, como no exemplo citado. Deve-se admitir, porém,
que ainda há muita pesquisa a ser feita sobre as diferentes clas­
ses de comparação em que aprovamos pessoas e atos.
"BOM" 153

Quando empregamos a palavra “bom” para aprovar moral­


mente, estamos sempre direta ou indiretamente aprovando pes­
soas. Até mesmo quando usamos a expressão “bom ato” ou ou­
tras como ela, a referência é indiretamente a personagens hu­
manas, Isso, como foi assinalado várias vezes, constitui uma
diferença entre as palavras “bom ” e “correto” . Portanto, ao
falar de bondade moral, falarei somente da expressão “homem
bom ” e de expressões similares. Temos de considerar se esta
expressão tem as mesmas características lógicas que os usos
não-morais de “bom” que estivemos discutindo, lembrando
que, evidentemente, “homem” em “homem bom” normalmente
não é uma palavra funcional e nunca o é quando se dá uma
aprovação moral.
9.3. Primeiramente, tomemos a característica de “bom ”
que foi denominada superveniência. Suponha que digamos
“São Francisco foi um homem bom”. É logicamente impossível
dizer isso e sustentar ao mesmo tempo que pode ter existido
outro homem, colocado precisamente nas mesmas circunstân­
cias de São Francisco, que se comportou exatamente da mesma
maneira, mas que diferia de São Francisco somente neste as­
pecto: não era um homem bom. Estou supondo, é claro, que o
juízo é feito, em ambos os casos, sobre toda a vida do sujeito,
“interior” e pública. Este exemplo é similar nos particulares
relevantes ao de 5.2.
Em seguida, a explicação dessa impossibilidade lógica não
reside em nenhuma forma de naturalismo; não se trata da exis­
tência de alguma conjunção C de características descritivas, de
tal modo que dizer que um homem tem C implique que ele seja
moralmente bom. Pois, se fosse assim, não poderíamos aprovar
nenhum homem por ter essas características; poderíamos aoe-
nas dizer que ele as tinha. Não obstante, o juízo de que um
homem é moralmente bom não é logicamente independente do
juízo de que ele tem outras características que podemos deno­
minar virtudes ou características que tornam bom; há uma rela­
154 A LINGUAGEM DA MORAL

ção entre eles, embora não seja uma relação de implicação ou


de identidade de significado.
Nossa discussão prévia de bondade não-moral ajuda-nos a
entender qual é a relação. É que um enunciado das característi­
cas do homem (a premissa menor ou factual) juntam ente com
uma especificação de um padrão para julgar homens m oral­
mente (a prem issa maior), implica um juízo moral a respeito
dele. E os padrões morais têm muitas das características que
encontramos em outros padrões de valor. “Bom ”, tal como
usado em moral, tem um significado descritivo e um avaliató­
rio, e este último é primário. Conhecer o significado descritivo
é saber por que padrões o falante está julgando. Tomemos um
caso em que o padrão é bem conhecido. Se um pastor diz de
uma menina que ela é uma boa menina, podemos formar uma
idéia perspicaz de qual é sua descrição; podemos esperar que
ela vá à igreja, por exemplo. Portanto, é fácil cair no erro de
supor que, ao dizer que é uma boa menina, o pastor queira dizer
simplesmente que ela tem essas características descritivas.
É bem verdade que parte do que o pastor quer dizer é que a
m enina tem essas características; mas espera-se que isso não
seja tudo o que quer dizer. Ele também pretende aprová-la por
ter essas características, e essa parte do significado é primária.
A razão por que sabemos, quando um pastor diz que uma meni­
na é boa, que tipo de menina é ela, como se comporta normal­
mente, etc., é que pastores geralmente são coerentes na forma
de conferir aprovação. É por ser usada coerentemente por pas­
tores para aprovar determinadas espécies de comportamento
em meninas que a palavra vem a ter uma força descritiva.
A essa paródia maldosa pode se acrescentar outra. Se dois
majores do Exército Indiano da velha escola estivessem con­
versando sobre um recém-chegado no Rancho, e um deles dis­
sesse “Ele é um homem tremendamente bom”, poderíamos
imaginar que o subalterno a que se fez referência jogava pólo,
sangrava porcos com élan e não era íntimo de indianos cultos.
A observação, portanto, teria comunicado informação a al­
"BOM" 155

guém versado na cultura da índia Britânica. Teria sido informa­


tiva porque oficiais do Exército Indiano estavam acostumados
a conferir aprovação, ou o contrário, segundo padrões coeren­
tes. Porém não pode ter sido informativa no início. O padrão
deve ter se firmado por m eio de alguns avaliadores pioneiros;
quando o Exército Indiano era jovem não havia nenhum padrão
estabelecido para o comportamento de subalternos. O padrão foi
estabelecido por oficiais fazendo juízos aprovatórios que não
eram, de modo nenhum, afirmações de fato ou informativos, no
sentido de que era a m arca de um homem bom, por exemplo,
jogar pólo. Para esses pioneiros, a sentença “Plunkett é um
homem bom” não implicava de maneira nenhuma a sentença
“Plunkett joga pólo” ou vice-versa. A primeira era uma expres­
são de aprovação, a outra uma afirmação de fato. Mas podemos
supor que, depois de gerações de oficiais terem sempre aprova­
do pessoas que jogavam pólo, passou-se a pressupor que se um
oficial dissesse que outro oficial era um homem bom, devia
querer dizer, entre outras coisas, que ele jogava pólo; e, assim, a
palavra “bom ”, tal como empregada por oficiais do Exército
Indiano, veio a ser, nesse âmbito, descritiva, sem perder seu
significado avaliatório primário.
O significado avaliatório, é claro, pode perder-se ou, pelo
menos, perder a força. É da essência de um padrão ser estável,
mas o perigo constante é que a estabilidade pode transformar-se
em super-rigidez e ossificação. É possível dar muita ênfase à
força descritiva e pouca à avaliatória; os padrões só perm ane­
cem correntes quando os que fazem juízos de acordo com eles
têm inteira certeza de que, seja o que for que possam estar fa­
zendo além disso, estão avaliando (i.e., realmente buscando
orientar a conduta). Suponha que o Exército Indiano tome-se
incapaz de usar as palavras “homem bom” de qualquer outro
modo que não o descritivo para designar “homem que joga pólo,
etc.”; terão caído então num tipo de naturalismo ingênuo e serão
incapazes de aprovar subalternos por jogar pólo; e isso significa
que não serão capazes de transmitir a novas gerações de oficiais
156 A LINGUAGEM DA MORAL

seus padrões estabelecidos. Se um novo subalterno teve, antes


de sua promoção, os padrões de um bancário com um interesse
tímido pelo socialismo, esses são os padrões que continuará a
ter, pois seus oficiais superiores terão perdido os meios lingüís­
ticos de ensinar-lhe quaisquer outros. E, ainda que os oficiais
mais antigos estejam usando a palavra “bom” avaliatoriamente,
a extrema rigidez descritiva de seus padrões pode levar o novo
subalterno a entender a palavra, como eles a utilizam, descritiva­
mente. E assim que palavras de valor adquirem aspas.
9.4. Que o significado descritivo da palavra “bom” na
moral, como alhures, é secundário em relação ao avaliatório,
pode ser percebido no exemplo seguinte. Suponhamos que um
missionário, armado com um livro de gramática, desembarque
numa ilha de canibais. O vocabulário de seu livro de gramática
dá-lhe o equivalente, na língua dos canibais, da palavra “bom”.
Suponhamos que, por uma coincidência extraordinária, a pala­
vra seja “bom ” . E suponhamos também que seja realmente o
equivalente - que seja, como diz o Oxford English Dictionary,
“o adjetivo mais geral de aprovação” em sua língua. Se o m is­
sionário tiver dominado seu vocabulário, ele pode, contanto
que use a palavra avaliatoriamente e não descritivamente,
comunicar-se com eles sobre moral bastante satisfatoriamente.
Eles sabem que, quando o missionário usa a palavra, está apro­
vando a pessoa ou objeto ao qual a aplica. A única coisa que
eles acharão estranha é que ele a aplica a pessoas inesperadas,
pessoas que são dóceis e gentis e que não colecionam grandes
quantidades de escalpos, ao passo que eles estão acostumados a
aprovar pessoas ousadas e belicosas, e que colecionam mais
escalpos que a média. Mas os canibais e o missionário não
enfrentam nenhum mal-entendido sobre o significado, no sen­
tido avaliatório, da palavra “bom”; é a palavra que se usa para
aprovar. Se enfrentassem tal mal-entendido, a comunicação
moral entre eles seria impossível.
Temos portanto uma situação que pareceria paradoxal para
alguém que pensasse que “bom” (quer em nossa língua, quer na
"BOM" 157

língua dos canibais) fosse uma palavra de qualidade como “ver­


m elho”. Mesmo que as qualidades das pessoas aprovadas pelo
missionário nada tivessem em comum com as qualidades apro­
vadas pelos canibais, ainda assim ambos saberiam o que a pala­
vra “bom ” significa. Se “bom ” fosse como “vermelho”, isso
seria impossível, pois, então, a palavra dos canibais e a palavra
de nossa língua não seriam sinônimas. Se fosse assim, então,
quando o missionário dissesse que pessoas que não coleciona­
vam escalpos eram boas (em nossa língua), e os canibais disses­
sem que pessoas que colecionavam muitos escalpos eram boas
(na língua canibal), eles não estariam discordando, porque em
nossa língua (pelo menos tal como falada pelo missionário)
“bom” significaria, entre outras coisas, “não cometer assassina­
to”, ao passo que, na língua dos canibais, “bom” significaria
algo bem diferente, entre outras coisas, “produtor do maior
número de escalpos”. Como, em seu significado avaliatório pri­
mário, “bom” não significa nenhuma dessas duas coisas, mas é,
em ambas as línguas, o adjetivo de aprovação mais geral, o mis­
sionário pode usá-lo para ensinar a moral cristã aos canibais.
Suponha, porém, que a missão do missionário seja bem
sucedida. Então, os antigos canibais passarão a aprovar nas pes­
soas as mesmas qualidades que o missionário, e as palavras
“homem bom” passarão a ter um significado descritivo mais ou
menos comum. O perigo, então, é que os canibais podem,
depois de um a ou duas gerações, pensar que aquele é o único
tipo de significado que elas têm. “Bom”, nesse caso, significa­
rá para eles simplesmente “fazer o que diz o Sermão da
M ontanha” ; e podem chegar a esquecer que é uma palavra de
aprovação; não se darão conta de que opiniões sobre a bondade
moral têm um a influência sobre o que eles mesmos devem
fazer. Seus padrões estarão então em perigo mortal. Um comu­
nista, ao desembarcar na ilha para converter as pessoas ao
modo de vida dele, pode até tirar proveito da ossificação de
seus padrões. Ele pode dizer: “Todos esses ‘bons’ cristãos -
missionários, funcionários coloniais e os outros - estão sim-
158 A LINGUAGEM DA MORAL

plesmente enganando vocês em benefício próprio.” Isso seria


empregar a palavra descritivamente com um toque de ironia; e
ele não poderia fazer isso de forma plausível a menos que os
padrões dos cristãos tivessem se tornado consideravelmente
ossificados. Algumas das manobras de Trasimaco no primeiro
livro de A República de Platão são muito semelhantes a essa.
Se o leitor voltar a 4.6, verá que tais vicissitudes da palavra
“bom ” refletem acuradamente a espécie de desenvolvimento
moral lá descrito. Os princípios ou padrões morais são primei­
ramente fixados, depois tornam-se exageradamente rígidos e as
palavras usadas para referência a eles tornam-se preponderan­
temente descritivas; sua força avaliatória tem de ser dolorosa­
mente recuperada até que os padrões estejam fora de perigo. No
curso da recuperação, os padrões adaptam-se a circunstâncias
modificadas; realiza-se a reforma moral, e seu instrumento é o
uso avaliatório da linguagem de valor. O remédio, na verdade,
contra a estagnação e a deterioração moral é aprender a usar
nossa linguagem de valor para o propósito para o qual foi idea­
lizada; e isso envolve não meramente um a lição sobre falar,
mas uma lição sobre fazer o que aprovamos, pois, a menos que
estejamos preparados para fazer isso, não estaremos fazendo
mais do que repetir um padrão convencional sem crer nele.
TERCEIRA PARTE
“Dever”

“Não estamos discutindo nenhum assunto trivial, mas


como devemos viver.”

PLATÃO, A República, 352 d


Capítulo 10
“Dever” e correto”

10.1. Até aquí, ao discutir as palavras empregadas no dis­


curso moral, restringi-me, em grande parte, à palavra “bom” ,
porque as características para as quais desejava chamai' a aten­
ção são mais facilmente ilustradas pelo comportamento dessa
palavra. Ê necessário, porém, explicar alguma coisa sobre
outras palavras usadas no discurso moral ou, pelo menos, sobre as
mais gerais delas; e isto toma-se mais urgente pelo fato de
alguns filósofos morais terem traçado uma distinção muito
rígida entre “bom” e outras palavras morais como “correto”,
“dever” [verbo] e “dever” [subst]. Veremos que é importante
traçar essa distinção, mas que isso não nos impede de oferecer
uma descrição da relação lógica que indubitavelmente existe
entre “bom” e outras palavras morais; e, nesta parte de nossa
investigação, como em outras, o paralelismo entre empregos
morais e não-morais dessas palavras será útil.
Ninguém minimamente familiarizado com seus empregos
poderia sustentar que “correto” e “bom”, por exemplo, signifi­
cam a mesma coisa em qualquer de seus contextos. Para come­
çar, há diferenças importantes em seu comportamento gramati­
cal. Falamos de “um bom X ”, mas de “o X correto”; e, geral­
mente, consideramos bastante natural falar da existência de um
grande número de bons XX, mas esquisito (na maioria dos con­
textos) falar da existência de um grande número de X X corre­
U>2 A LINGUAGEM DA MORAL

tos - embora, é claro, possamos falar que a existência de um


grande número de XX é “all right”*. Não é surpreendente, por­
tanto, que ■‘correto” (“r i g h t não tenha comparativo nem
superlativo no inglês moderno, mas que “bom ” (“good”) os
tenha. Há também muitos substantivos que “bom” pode quali­
ficar e “correto” não, e vice-versa. Assim, podemos falar de
“boa arte”, mas não de “arte correta”, e de “bom drible”, mas
não de “drible correto”; por outro lado, podemos dizer “Você
não tocou a nota correta”, mas “boa” não poderia substituir
“correta”. Como a obra do Professor J. L. Austin?ensinou a
todos que tiveram o privilégio de ser instruídos em seus méto­
dos, tais peculiaridades podem ser - embora nem sempre sejam
- indicativas de diferenças lógicas subjacentes.
Por outro lado, também é verdade que existem muitos tipos
de contexto nos quais podemos usar expressões contendo qual­
quer dessas palavras, praticamente com a mesma espécie de
propósito. Assim, ao ensinar alguém a dirigir, se ele não execu­
tar uma manobra que me satisfaça, posso dizer “Você não fez a
manobra muito bem” ou “Você não a fez de maneira inteira­
mente correta”, sem muita distinção de significado, Mesmo
nesse contexto, porém, há diferenças; eu poderia dizer “Você
fez aquilo bem, mas ainda não está inteiramente correto”. A
ocorrência de ambas as palavras nessa espécie de contexto de­
veria nos predispor a pensar que pelo menos algumas das coi­
sas que eu disse sobre a fenção prescritiva de 'bornf podem ser
aplicáveis também a “correto”, embora devamos esperar tam ­
bém encontrar diferenças. .
A mesma espécie de distinções pode ser traçada entre
“bom” e “dever”. Esses também podem ser empregados em
contextos muito semelhantes, embora também existam diferen­
ças. Podemos dizer “Você devia ter puxado a embreagem mais de­
vagar” ou “Seria melhor se você tivesse puxado a embreagem
devagar”; e podemos dizer “Você não fez aquilo nada bem feito”

* Ver N .tlo T . C ap itu lo 12.


“DEVER” 163

ou “Você não fez aqiiilo como devia”. Por outro lado, podemos
dizer “Você fez aquilo bem, mas ainda não inteiramente como
devia ter feito”. Em geral, “dever” comporta-se mais como “cor­
reto” do que como “bom”, e, quando formularmos mais precisa­
mente as relações lógicas entre as três palavras, descobriremos
que, enquanto as relações entre “correto” e “dever” podem ser
caracterizadas de forma comparativamente simples, as relações
entre “bom” e “dever” são muito mais indiretas.
10.2. Apesar dessas diferenças, há similaridades suficien­
tes entre “bom ”, “correto” e “dever” para que as classifique­
mos todas como palavras de valor. Para ilustrar essas similari­
dades será suficiente chamar a atenção para a maneira como as
características principais de “bom”, que já observamos, estão
também presentes em “correto” e “dever”. Antes de tudo, per­
mitam-me demonstrar que “correto” e “dever” compartilham o
que denominei o caráter “superveniente” de “bom”. Tomarei
um exemplo moral e um não-moral de cada palavra. Se eu dis­
sesse “Smith agiu corretamente ao dar o dinheiro a ela, mas
podia ter dado o dinheiro a ela e, em todos os outros aspectos,
agido similarmente, exceto por seu ato não ser correto”, provo­
caria o comentário “Mas como a correção do ato de Smith
poderia desaparecer assim?” Se o ato, motivos, circunstâncias,
etc., fossem todos os mesmos, então você seria obrigado, logi­
camente, a julgá-lo correto no caso hipotético como o fez no
caso real. A ação real não poderia ter sido correta e a ação hipo­
tética incorreta, a menos que houvesse alguma outra diferença
entre as ações, suas circunstâncias, seus motivos ou alguma
outra coisa. Ações não podem diferir somente quanto à sua cor­
reção, assim como quadros ou qualquer outra coisa não podem
diferir apenas quanto à sua bondade; e essa impossibilidade é
uma impossibilidade lógica, que se origina da forma e dos pro­
pósitos com que empregamos essas palavras.
De forma semelhante, não podemos dizer: “Você mudou a
marcha daquela vez no momento absolutamente correto, mas
podia tê-la mudado no mesmo momento, todas as outras cir­
164 A LINGUAGEM DA MORAL

cunstâncias podiam ter sido as mesmas, só que não teria sido o


momento correto”. Isso mostra que essa característica não é
peculiar aos usos morais da palavra. E, similarmente, com “de­
ver” ; não posso dizer “Smith devia ter dado o dinheiro a ela,
mas podia não ter sido assim, embora todo o resto fosse igual”;
e não posso dizer “Você devia ter mudado a marcha antes, mas
podia não ter sido assim, embora tudo o mais fosse igual”.
Já sugeri por que não podemos dizer esse tipo de coisa; tem
a ver com a universalidade velada das sentenças que contêm
essas palavras. Observemos brevemente, porém, que a razão
não é, como se poderia pensar, que as sentenças que contêm as
palavras “correto”, “dever” ou seus opostos sejam implicadas
por algum conjunto de sentenças que exponham em termos des­
critivos os fatos ou circunstâncias aos quais estamos nos referin­
do. No caso de “dever” seria por demais inadmissível defender
isso. Se fosse assim, então, para tomar um exemplo particular,
“Você deve diminuir a marcha quando diminuir a marcha permi­
tir que o motor funcione mais suavemente” pode ser implicada
pela sentença analítica “Diminuir a marcha permitiria que o
motor funcionasse mais suavemente quando permitisse que o mo­
tor funcionasse mais suavemente” e, portanto, poderia ser ela
mesma analítica, o que, no uso comum, ela não é. É uma razão
para diminuir a marcha o fato de que isso permitiria que o motor
funcionasse mais suavemente, mas o fato de que permitiria que
o motor funcionasse mais suavemente não implica (ie., não nos
permite inferir em virtude unicamente de seu significado) que
devemos diminuir a marcha. E o mesmo é verdadeiro para qual­
quer outra sentença factual que possamos escolher e para todos
os usos prescritivos da palavra “dever” . Assim, se um autor
sobre a maternidade nos informa que dizer que um bebê deve ter
um determinado peso significa o mesmo que dizer que essa é a
média dos pesos verificados numa amostra aleatória de bebês de
mesma idade, ficaremos em alerta.
Com “correto”, o risco de naturalismo é talvez mais insi-
dioso; mas, agora, já devemos estar imunes a ele. Se “Agora é o
"DEVER" 165

momento correto para mudar a marcha” fosse implicado por


uma sentença descritiva da forma “Agora ocorre C”, então dizer
“Quando C ocorre é o momento correto para mudar a marcha”
seria enunciar uma tautologia, o que nunca é, qualquer que seja
a expressão descritiva que coloquemos no lugar de C. E isso é
ainda mais óbvio no caso de empregos morais. Suponha que al­
guém sustentasse que “Não é correto fazer A” é implicado por
“A foi proibido pelo soberano de nosso Estado”, teríamos ape­
nas de assinalar que, nesse caso, “Não é correto fazer o que foi
proibido pelo soberano de nosso Estado” seria implicação da
sentença analítica “O que foi proibido pelo soberano de nosso
Estado foi proibido pelo soberano de nosso Estado” e, portanto,
seria ela mesma analítica, o que, no uso comum, ela não é. Mas
é desnecessário elaborar mais esse argumento familiar.
A razão, então, para o caráter “superveniente” das palavras
“correto” e “dever” não é da espécie que sugere o naturalismo.
Temos, portanto, de inquirir o que mais poderia ser a razão. A
fim de conduzir essa investigação, temos de colocar as palavras
em seu cenário lingüístico próprio. Elas são usadas primaria­
mente para dar conselhos ou instruções ou, em geral, para orien­
tar escolhas. No que se segue, falarei principalmente do verbo
“dever” , mas, mais adiante, perceberem os que um a análise
de “dever” pode ser prontamente expandida de forma a abranger
a palavra “correto”. Assim como ocorre com a palavra “bom”,
não distinguiré! de início entre usos morais e não-morais, mas
lidarei com as características que são comuns aos dois.
10.3. A palavra “dever” é usada para prescrever, mas já que
a prescrição pode ser de mais de um tipo, é necessário fazer
diversas distinções. Suponha que alguém esteja perguntando a
si mesmo, ou nos perguntando, “Que devo fazer?” ou alguma
outra questão dessa forma geral. Para ajudar tal pessoa a tomar
uma decisão, podemos dizer pelo menos três tipos diferentes de
coisas. Distingui-las-ei pelos termos “prescrições do tipo A”,
“prescrições do tipo B” e “prescrições do tipo C’\ Os seguintes
são exemplos do tipo A, que são imperativos singulares:
166 A LINGUAGEM DA MORAL

A ,, Use a manivela de partida.


A2. Arrume almofadas de urna cor diferente.
A3. Devolva o dinheiro a ele.

E característico de tais prescrições aplicarem-se direta­


mente apenas à ocasião em que são oferecidas. Isso não é ver­
dadeiro para as prescrições do tipo B, das quais as seguintes são
exemplos:

Bj. Se o motor não der partida imediatamente na ignição


automática, deve-se sempre usar a manivela de parti­
da.
B2. Não se deve nunca colocar almofadas carmim sobre
um estofamento escarlate.
B3. Deve-se sempre devolver o dinheiro que se prometeu
devolver.

As prescrições do tipo B aplicam-se mais a um tipo de oca­


sião que diretamente a uma ocasião individual. O terceiro tipo
de prescrição é o tipo C:

C ,. Você deve usar a manivela de partida.


C2. Você deve arrumar almofadas de uma cor diferente.
C3. Você deve devolver o dinheiro a ele.

Uma prescrição do tipo C tem algumas das características


dos tipos A e B: aplica-se diretamente a uma ocasião indivi­
dual, mas também invoca ou recorre a alguma prescrição mais
geral do tipo B. Assim, se digo C b estou invocando algum prin*
cípio geral como Bj. Evidentemente, poderia não ser o próprio
B, que eu estaria invocando; poderia ser B u - “Quando a bate­
ria estiver fraca, deve-se sempre usar a manivela de partida”, ou
B 12 - “Para dar partida no motor frio de manhã, deve-se sempre
usar a manivela de partida”. Qual desses princípios que estou
invocando poderia ser inferido pela pergunta “Por que devo
■‘DEVER" 167

usar a manivela de partida?” Portanto, ao enunciar uma prescri­


ção do tipo C, parecemos sugerir (num sentido vago) que esta­
mos invocando algum princípio do tipo B - embora possa não
ficar claro imediatamente, mesmo para nós, qual é exatamente
esse princípio. Não é o que ocorre com as prescrições do tipo
A; se digo A 1; posso estar meramente prescrevendo para esta
ocasião particular (talvez porque eu tenha pensado “Vamos ver
se ele sabe como dar a partida com a manivela”), sem pensar na
existência de um princípio geral para todas as ocasiões desse
tipo. E verdade que se me pedem que justifique A h ou dê razões
para ela, posso recorrer a um princípio, mas, mesmo assim, as
prescrições do tipo A implicam princípios do tipo B somente no
sentido mínimo de que, se alguém nos dá um tal conselho,
geralmente podemos assumir que pode nos dar alguma razão
geral para ele, ao passo que o tipo C implica o tipo B no sentido
mais forte de que seria logicamente ilegítimo dar uma prescri­
ção do tipo C negando ao mesmo tempo que houvesse qualquer
princípio de que dependesse. Com “logicamente ilegítimo”
quero dizer que meu uso da palavra “dever” seria tão excêntrico
que as pessoas ficariam se perguntando o que pretendo dizer
com isso.
E hora de considerar os juízos de “dever” post eventum.
São juízos da forma:

Você devia ter usado a manivela de partida.


D2. Você devia ter arrumado almofadas de uma cor dife­
rente.
D v Você devia ter devolvido o dinheiro a ele.

É evidente que estes têm a mesma espécie de relação com


os princípios do tipo B que têm as prescrições do tipo C. “Você
devia ter usado (então)...” é o pretérito de “Você deve usar
(agora)...”. Ambos dependem da mesma forma d e “ D c v u - n c
sempre usar...” . Ambos, além do mais, têm uma outra funçíUi;
podem ser usados para instruir sobre a regra geral. Aprende*-
I№ A LINGUAGEM DA MORAL

mos pelo processo de generalização a partir de exemplos; o ins­


trutor dá um exemplo de urna coisa particular que devíamos ter
feito ou devemos fazer e, depois de apontados vários exemplos
desse tipo, aprendemos o que devemos fazer em todas as cir­
cunstâncias de um dado tipo. Os exemplos podem ser aponta­
dos quer ante eventum, como em “Você deve usar...” , quer post
eventum, como em “Você devia ter usado...” .
Quando reconhecemos que um ato que fizemos entra em
conflito com um princípio que nos determinamos a observar,
dizemos “Eu não devia ter feito isso”. Quando reconhecemos
que um ato que cogitávamos fazer seria uma violação de tal
princípio, dizemos “Não devo fazer isso”. Em ambos os casos,
pode ser a primeira vez que pensamos sobre o princípio - pode
até ser a primeira vez que alguém pensa no princípio; a decisão
de princípio exprimida por essa sentença de “dever” pode ser
inteiramente nova. É muitíssimo importante que possamos
aprender sem que nos ensinem.
A palavra “instruir”, usada acima, é evidentemente algo
estreita. Acabamos de ver que o autodidatismo está incluído,
mas, mesmo assim, a palavra “dever” não é empregada somen­
te no que podemos denominar situações “instrucionais”. Supo­
nha que eu diga “Eles não devem fazer mais desvios ao redor
de Oxford” . Isso depende de algum princípio geral, tal como
“Quando os números do movimento de tráfego mostram que
todo o tráfego de uma cidade, exceto por uma pequena propor­
ção, é interno e que não poderia valer-se de um desvio, não se
deve gastar grandes somas de dinheiro construindo um”. Não
podemos, no sentido comum da palavra, falar aqui de “instruir
sobre o princípio geral”, pois não é provável que a pessoa a que
me dirijo seja meu aluno. Mas poderia ser - eu poderia estar
dando uma aula sobre a localização de estradas - e as outras
ocasiões nas quais eu empregaria tal sentença são suficiente­
mente similares ao tipo instrucional de situação para tornar a
analogia bastante evidente. Em todos esses casos o objetivo é
orientar as ações das pessoas no futuro.
"DEVER" 169

10.4, As razões por que temos princípios de “dever” gerais


para atividades como direção, escolha de cores, planejamento
rodoviário e comportamento moral são estas; em primeiro
lugar, essas são atividades em que reaparecem continuamente
circunstancias que nos forçam a responder - em ato se não em
palavra - à pergunta “Que devo fazer?”; em segundo lugar,
essas circunstâncias são classificáveis em tipos, cujos mem­
bros são suficientemente semelhantes para que uma resposta
similar seja apropriada em todas as circunstâncias do mesmo
tipo; e, em terceiro lugar, a menos que nos resignemos a ter um
professor ao nosso lado, por toda a vida, para nos dizer exata­
mente o que fazer em cada ocasião, temos de aprender (com
outros ou por nós mesmos) princípios para responder a essas
questões. Tudo o que nos ensinam a fazer tem, como vimos, de
ser redutível a princípios, embora esses possam ser “know-
hows” difíceis de formular verbalmente e mais facilmente ensi­
nados através de exemplos do que de preceitos (4.3).
Vimos, em conexão com a palavra “bom”, que a razão para
sua superveniência é que ela é usada para ensinar ou afirmar
ou, de outro modo, para chamar a atenção para um padrão de
escolha entre objetos de uma determinada classe, e que o que
eu disse sobre padrões poderia ter sido colocado também em
termos de regras ou princípios de escolha, Não é surpreenden­
te, portanto, descobrir que “dever”, que é usado para um propó­
sito bastante semelhante, está sujeito à mesma restrição. A
razão por que não podemos dizer as coisas que exemplifiquei é
que fazê-lo seria tentar ensinar ou advogar ao mesmo tempo
dois princípios mutuamente incoerentes.
“Dever” também compartilha, como poderíamos esperar,
as características de “bom ” que dizem respeito às relações entre
suas forças descritiva e avaliatória ou prescritiva. É evidente
que algumas sentenças que contêm o verbo “dever” têm força
descritiva. Suponha que eu diga “Bem na hora em que devia
estar chegando à peça, ele estava enfiado embaixo de seu carro
a cinco milhas de distância”. Aqui, contanto que saibamos a
170 A LINGUAGEM DA MORAL

que horas a peça começava, estamos tão acuradamente infor­


mados a respeito da hora quanto a respeito do lugar em que ele
estava enfiado, Isso porque todos aceitamos o principio de que
a hora em que devemos chegar a uma peça (a hora correta de
chegar) é pouco antes de ela começar. Aqui também, portanto, a
função descritiva ou informativa de sentenças de “dever” cres­
ce na proporção direta do grau em que o princípio é geralmente
aceito ou do grau em que se sabe que é aceito. Porém sua fun­
ção primária não é dar informação, é prescrever, aconselhar ou
instruir, e esta função pode ser desempenhada quando nenhuma
informação está sendo transmitida. Assim, se estou ensinando
um homem a dirigir e, em particular, a executar a manobra de
fazer o carro andar quando está parado na subida de uma ladei­
ra, posso dizer “No momento em que você deve soltar o freio
de mão, você pode ouvir o ruído do motor reduzir-se”. Isso nao
lhe dá, como no caso anterior, nenhuma informação sobre
quando ouvirá o ruído do motor reduzir-se; antes, diz a ele quan­
do deve soltar o freio de mao; é usado para ensinar-lhe uma das
regras de direção, ao passo que, no caso anterior, teria sido
esquisito se minha intenção fosse dizer ou ensinar a alguém
uma regra sobre quando se deve chegar ao teatro.
Essa mesma característica é encontrada em contextos mo­
rais. Suponha que eu pergunte “Em que m edida X está se
empenhando neste semestre?” e obtenha a resposta “Não tanto
quanto devia” ; essa resposta fornece-m e inform ação sobre
o quanto X tem se empenhado porque sei o quanto se espera
que uma pessoa nas circunstâncias de X se empenhe. Se, por
outro lado, eu não estivesse familiarizado com os padrões de
empenho correntes (e. g., por ser um estudante estrangeiro, che­
gado recentemente no país), alguém poderia procurar infor­
mar-me esses padrões dizendo “Se você quer saber o quanto
um aluno deve se empenhar, observe X; X não está se empe­
nhando tanto quanto devia; portanto, você deve se empenhar
mais do que ele, pelo menos” . Esse seria um uso predominan­
temente prescritivo.
"DEVER 171

10.5. Temos a seguir de investigar se o que eu disse sobre


os usos alegadamente “instrumental” e “intrínseco” da palavra
“bom” e sobre imperativos simples “hipotéticos” pode ser es­
tendido a fim de lançar alguma luz sobre o problema análogo e
igualmente controvertido dos chamados usos “hipotéticos” e
“categóricos” de “dever”. Sem nos embrenharmos demais na
terminologia tradicional, consideremos as seguintes sentenças,
adaptadas de Kant por Prichard1:

(1 )“Você deve ministrar uma segunda dose” (dito a um


aspirante a envenenador).
(2) “Você deve dizer a verdade”.

É evidente que a segunda sentença, na maioria das oca­


siões de seu emprego, expressa um juízo moral, e igualmente
evidente que a primeira não. Não é, porém, igualmente eviden­
te, como diz Prichard e como Kant talvez sugira, que devemos
concluir a partir disso que há “uma completa diferença de sig­
nificado” entre os dois usos da palavra “dever”, pois, nas sen­
tenças “Ele é um bom envenenador” e “Ele é um homem bom”,
podemos distinguir entre as virtudes (no sentido em que venho
usando o termo) indispensáveis num bom envenenador e as
indispensáveis num homem bom, sem necessariamente distin­
guir dois significados da palavra “bom ”, exceto no sentido
secundário de “significado”, em que perguntar o que “bom ”
significa é simplesmente solicitar uma lista das virtudes. Pode
ser que “dever” também tenha o mesmo significado, no sentido
primário, nas duas sentenças acima, embora num caso seja
exprimido um juízo moral, e no outro não. Pois na primeira
sentença o contexto mostra-nos que os padrões que estão sendo
aplicados (os princípios a que se refere) sao aqueles para enve­
nenar pessoas e, na segunda, assumimos que os princípios a
que se refere são morais; mas, em cada um dos casos, a função
do verbo “dever” é somente fazer referência a esses princípios e
cumprir, em relação a eles, as outras funções delineadas acima.
172 A LINGUAGEM DA MORAL

No caso do “envenenador”, saber que os princípios a que se


refere são os do envenenamento é saber também algo - mas não
tudo - sobre o que são eles: têm, pelo menos, de impor a execu­
ção de coisas tais que resultem em morte por envenenamento.
Já que “envenenador” é uma palavra funcional no sentido defi­
nido acima (6.4), conhecer a classe de comparação é saber algo
sobre as virtudes; por outro lado, tal não é o caso no tocante a
(2). Porém isso não constitui uma diferença entre dois signifi­
cados da palavra “dever”; é uma diferença entre dois conjuntos
de princípios. Temos de deduzir do contexto a que conjunto se
faz referência, pois, já que “dever” não é um adjetivo como
“bom”, não temos um substantivo ligado a ele (como “envene­
nador” ou “homem” nas sentenças citadas) que nos informe
isso. Portanto, podemos estar equivocados em assumir que (2) é
um juízo moral; a intenção pode ser apenas enunciar um juízo
prudencial. Mesmo o juízo “Ele é um homem bom” pode nao
ser um juízo moral, pois “homem” pode ser uma abreviação
para “homem para ter ao seu lado numa luta” ou “homem numa
festa” ou “homem que deve escalar para rebater primeiro”. Ao
adivinhar qual desses padrões ou conjuntos de princípios está
sendo invocado, não estamos ao mesmo tempo adivinhando o
que “bom” ou “dever” significam (exceto no sentido secundá­
rio); sabemos muito bem o que significam.
Tudo isso não significa que não exista nenhuma diferença
importante entre princípios morais e princípios de envenena­
mento bem sucedido. Como vimos (9.2), não podemos deixar
de ser homens e, portanto, os princípios morais, que são princí­
pios para a conduta de homens em condição de homens - e não
de envenenadores, arquitetos ou rebatedores - não podem ser
aceitos se não tiverem uma influência potencial sobre a manei­
ra de nos conduzirmos. Se digo a uma determinada pessoa
“Você deve dizer a verdade”, evidencio a minha aceitação de
um princípio de dizer a verdade no tipo de circunstâncias em
que ela está, e posso encontrar-me, inevitavelmente, em meio a
circunstâncias similares. Mas posso sempre escolher entre ado-
“DE VER " 173

tar ou não o envenenamento ou o críquete como profissão. Isso


certamente torna o espirito em que consideramos as questões
morais muito diferente daquele em que consideramos como
devemos envenenar Jones ou construir uma casa para ele; mas a
lógica da palavra “dever” não é marcadamente diferente nos
dois casos.
É verdade que em ( 2 ) acima, podemos substituir “você
deve” por “é seu dever”, ao passo que em (1) não podemos. Isso
porque o substantivo “dever” é restrito quanto às classes de
comparação em que é utilizado para aprovar, é empregado
quase exclusivamente para deveres morais, deveres jurídicos,
deveres militares e outros deveres pertencentes a uma esfera
particular. Similarmente, em inglês a palavra “brace” [par],
embora sua lógica seja a mesma da palavra “pair” [p ar], é, em
boa parte, restrita a aves de caça. Mas isso não afeta o que eu
disse.
Capítulo 11
“Dever” e imperativos

11.1. Já que uma grande parte de minha argumentação


depende da assunção, até aqui não inteiramente justificada, de
que os;juí os de valor, se são orientadores da ação,' implicam'
imperativos.? e já que essa assunção pode muito bem ser ques­
tionada, é tempo de examiná-la. Pode-se sustentar, por exem­
plo, que posso, sem contradição, dizer “Você deve fazer A, mas
não faça” e que, portanto, não pode haver hipótese de implica­
ção; implicação, de qualquer modo, é uma palavra muito forte
e, embora seja possível encontrar muitos que concordam que os
juízos de valor são orientadores da ação em algum sen ti dp,
pode-se sustentar que são orientadores de ação apenas no senti­
do em que mesmo simples juízos de fato podem ser orientado­
res de ação. Por exemplo, se digo “O trem está para sair”, isso
pode orientar uma pessoa que queira embarcar para pegar seu
lugar; ou, tomando um caso moral, se digo a uma pessoa que
está pensando em dar algum dinheiro para um amigo suposta­
mente necessitado “A história que ele acabou de lhe contar é
completamente falsa”, isso pode orientá-lo a tomar uma deci­
são moral diferente da que teria tomado se eu não dissesse
nada. E, similarmente, pode-se sustentar que os juízos de valor,
são orientadores da ação-num sentido não mais forte que essas?
afirmações de fato. Pode-se insistir que, assim como a afirma­
ção de que o trem vai partir não tem nenhuma influência sobre
176 A LINGUAGEM DA MORAL

os problemas práticos de alguém que não queira pegar o trem,


e que o homem que está pensando em dar dinheiro a um ami­
go, se não reconhecer que a verdade ou falsidade da historia de
seu amigo tem alguma influência sobre a questão, pode não ter
sua decisão afetada, então, se um homem não tem intenção de
fazer o que deve, dizer-lhe que deve fazer alguma coisa pode
não ser aceito por ele como uma razão para fazê-la. Formulei
essa objeção, que atinge a raiz de toda minha argumentação,
da forma mais convincente possível. A objeção alega, resu­
mindo, que as sentenças de “dever” não são imperativos nem
implicam im perativos sem o acféscimo de uma premissa impe­
rativas Em resposta a isso, tenho de demonstrar que as senten­
ças de “dever”, pelo menos em alguns de seus usos, realmente
implicam imperativos.
E necessário primeiramente recordar algo que disse ante­
riormente (7.5) ao #sctitir' as forças avaliatórias e descritivas
d(^iMzos¿de valor/Observamos que é possível que pessoas p iç
:|dq#iÉram^fa ^ e % ^ i % e # ^ e i s .d e ii # ^ s ^ ^ s e f f l ; a traiír;o§.
j iízos de alor mais e mais como puramente descritivos e a dei­
xar que sua força avaliatória torne-se.mais fraca'. O limite desse
processo é atingido quando, tal como o descrevemos, o ju ízo d e
valor “adquire aspas” e o padrão torna-se completamente “ossi,-
f icado”! Portanto, é possível dizer “Você devia ir visitar os fula­
nos” sem pretender com isso absolutamente nenhum juízo de
valor, mas simplesmente o juízo descritivo de que tal ação é
necessária para a conformidade a um padrão que as pessoas em
geral, ou uma determinada classe de pessoas não especificada,
mas subentendida, aceitam. E, seguramente, se é essa a forma
em que uma sentença de “dever” está sendo empregada, ela não
implica um imperativo; podemos certamente dizer sem contra­
dição “Você devia ir visitar os fulanos, mas não vá”. Mão^dese]-
jo alegar que todas as sentenças de “dever’' implicam imperati­
vo s j mas apenas que o fazem quando estão sendousadas avaliai-
toriamente. Mais tarde, tornar-se-á evidente que estou tornando
isso verdadeiro por definição, pois não diria que uma sentença
“DEVER 177

de “dever” estava sendo usada avaliatoriamente, a menos que


dela decorressem imperativos; mas falaremos sobre isso mais
adiante.
Assim, nma resposta que podemos dar à objeção é que os
casos que parecem sustentá-la não são juízos de valor genuínos.
No exemplo citado, se um homem não tem intenção de fazer o
que deve e se, portanto, não considera que o fato de alguém lhe
dizer o que deve fazer implica um imperativo, isso meramente
mostra que, na medida em que aceita que deve fazer tais e tais
coisas (e, claro, nenhuma premissa permite uma conclusão a
menos que seja aceita), ele o aceita somente num sentido não2-
avaliatório., entre, aspas,, como significando que tais e tais coisas *
enquadram-se numa, classe de ações geralmente considerada?
(mas não/por èle^obrigatórias uo sentido avaliatório, queimph--
c,a; imperativas. Essa é uma resposta que elimina alguns casos
difíceis, mas que não será aceita como resposta completa a
menos que ampliemos a sua abrangência consideravelmente.
Pois pode-se sustentar que existem alguns juízos de valor
genuínos que não implicam imperativos.
11.2. Recordemos outra coisa que eu disse anteriormente
(4.7). Princípios práticos, se aceitos por tempo suficientemente
longo e incondicionalmente, passam a ter a força de intuição.
Portanto, nossos princípios morais máximos podem tornar-se
tão completamente aceitos por nós que os tratamos, não como
imperativos universais, mas como questõesTfè^ato'; eles têm a
mesma obstinada mdubitabilidade. E há realmente uma ques­
tão de fato à qual, com muita facilidade, podemos achar se refe­
rem, a saber, o que denominamos nosso “senso de obrigação”.
Este é um conceito que requer investigação agora.
É fácil perceber como, se fomos criados desde tenra idade
em obediência a um princípio, a idéia de não obedecê-lo tom a­
se abominável para nós. Se deixamos de obedecê-lo, experi­
mentamos remorso; quando o obedecemos, sentimo-nos em
paz conosco. Esses sentimentos são reforçados por todos os
fatores relacionados pelos psicólogos1, e o resultado total é que
178 A LINGUAGEM DA MORAL

geralmente se denomina um sentimento de obrigação. É f'ato


que temos esse sentimento de obrigação ~ pessoas diversas em
graus diversos, e com conteúdos diversos. Juízos de que tenho
um sentimento de obrigação de fazer X ouY sao afirmações de
fato empírico. Este não é o lugar para argumentar sobre sua
interpretação; é sem dúvida possível discutir se sentenças como
“A está sentindo remorso” ou “B acha que é seu dever fazer Y”
são relatos de eventos mentais privados ou se devem ser inter­
pretados comportamentaímente, mas tais controvérsias não nos
preocupam aqui. Aqui é importante assinalar um fato que é sin­
gularmente ignorado por alguns moralistas: que dizer que
alguém tem um sentimento de obrigação não é o mesmo que
dizer que tem uma obrigação. 0 izer;*im é fazer urna afirm ação
de fato psicológico; dizer o outro é fazerum juizode valor. Um
homem que foi criado numa família militar, mas que foi
influenciado pelo pacifismo, pode muito bem dizer “Tenho um
forte sentimento de que devo lutar pelo meu país, mas pergun­
to-me se realmente devo”. Similarmente, um japonês criado de
acordo com o Bushido pode dizer “Tenho um forte sentimento
de que devo torturar este prisioneiro a fim de arrancar informa­
ções que serão do proveito para meu Imperador; mas devo real­
mente fazer isso?”
A confusão entre afirmações psicológicas sobre um senti­
mento ou senso de obrigação e juízos de valor sobre a própria
obrigação não é restrita a filósofos profissionais. O homem
comum questiona tão raramente os princípios sob os quais foi
criado, que, em geral, sempre que tem um sentimento de que
deve fazer X, está pronto a dizer, com base apenas nisso, que deve
fazer X; e, portanto, muitas vezes expressa esse sentimento
dizendo “Devo fazer X ”. Essa sentença não é uma afirmação de?
que ele tem o sentimento ;íé um juízo de valor feito como resul­
tado de ter o sentimento» Contudo, para os que não estudaram o
comportamento lógico dos juízos de valoree não refletiram
sobre exemplos como os do pacifista e do japonês dados acima,
é fácil encarar essa observação como uma afirmação de fato no
“DEVER' 179

sentido de que ele tem o sentimento ou confundi-la, em signifi­


cado, com essa afirmação. Mas qualquer um, exceto um filóso­
fo profissional sustentando a todo custo uma teoria do senso
moral, poderia ser levado a perceber que o significado não é o
mesmo se lhe perguntassem “Não seria possível sentir-se do mes­
mo jeito, embora não devesse fazer X?” ou “Você não poderia
sentir-se assim e estar errado?”
A confusão, porém, é ainda mais profunda. Vimos que há
um emprego entre aspas consciente de palavras de valor em
que, por exemplo, “Devo fazer X” torna-se aproximadamente
equivalente a “X é necessário para a conformidade a um padrão
que as pessoas geralmente aceitam” . Mas também é possível
empregar a palavra “dever” e outras palavras de valor entre
aspas inconscientemente, por assim dizer, pois o padrão que as
pessoas em geral aceitam pode também ser o padrão que uma pes­
soa foi educada para aceitar e, portanto, não somente esta pes­
soa se refere a esse padrão dizendo “Devo fazer X”, mas tem
sentimentos de obrigação para conformar-se ao padrão.
É então possível tratar “Devo fazer X” como uma mistura
confusa de três juízos.

(1) “X é necessário para a conformidade ao padrão que as


pessoas geralmente aceitam (afirmação de fato socio­
lógico);
(2) “Tenho um sentimento de que devo fazer X”(afirm a­
ção de fato psicológico);
(3) “Devo fazer X” (juízo de valor).

Mesmo essa divisão tripartite esconde a complexidade do


significado de tais sentenças, pois cada um dos três elementos é
complexo e pode ser tomado em sentidos diferentes. Mas
mesmo que nos restrinjamos aos três elementos dados há
pouco, geralmente é impossível para uma pessoa comum, não
treinada em sutilezas lógicas, fazer a pergunta “Qual dentre três
juízos você está fazendo, somente ( 1), ( 1) e ( 2 ), todos os três ou
180 A LINGUAGEM DA MORAL

alguma outra combinação?”, ou responder a ela. A situação é


muito similar à do cientista que é questionado pelo lógico: “Sua
afirmação de que o fósforo funde-se a 44°C é analítica ou sinté­
tica; se você encontrasse uma substância que fosse, em outros
aspectos, exatamente como o fósforo, mas que se fundisse a
outra temperatura, você diria ‘Não é realmente fósforo’ ou
‘Então, apesar de tudo, determinados tipos de fósforo fundem-
se a outras tem peraturas’?”2. O cientista poderia muito bem,
como o Sr. A. G. N. Flew apontou, responder “Não sei; ainda
não deparei com o caso que me faria resolver essa questão; te­
nho coisas melhores com que me preocupar” . Similarmente, a
pessoa comum, ao tomar decisões morais com base em seus
princípios aceitos, muito raramente tem de fazer a si mesma a
pergunta que acabamos de fazer. Contanto que seus juízos de
valor correspondam aos padrões aceitos e aos seus sentimentos,
ele não tem de decidir qual deles está dizendo porque, como
poderíamos dizer, todos os três ainda são materialmente equi­
valentes para ele, isto é, não surge a ocasião para dizer um que
não seja também uma ocasião para dizer os outros dois, Ele,
portanto, não pergunta a si mesmo “Como estou empregando a
palavra ‘dever5, as sentenças ‘Devo fazer o que sinto que devo’
e ‘Devo fazer o que todos diriam que devo’ são analíticas ou
sintéticas?”.
E o caso crucial que o faz responder a tal pergunta e, na
moral, o caso crucial surge quando estamos pensando se toma­
mos ou não uma decisão de valor em desacordo com os padrões
aceitos ou com nossos próprios sentimentos morais - casos
como os que citei. São esses casos que realmente revelam a
diferença de significado entre os três juízos que relacionei.
Minha resposta à objeção, então, é que sempre se descobri­
rá, após investigação, que casos que se alega serem juízos de
valor que não implicam imperativos são casos em que o signifi­
cado que se pretende não é do tipo (3) acima, mas dos tipos (1)
ou (2 ) ou uma mistura de ambos. É impossível, é claro, provar
ou mesmo tornar plausível essa asserção, a menos que saiba­
"DEVER' 181

mos quando devemos considerar um juízo como do tipo (3);


mas proponho superar essa dificuldade da única maneira possí­
vel, transformando-a numa questão de definição. Proponho
dizer que o teste para verificar se alguém está ou não usando o
juízo “Devo fazer X” como juízo de valor é: “Ele reconhece ou
não reconhece que se assentir ao juízo também tem de assentir
ao comando ‘Que eu faça X ’?”. Portanto, neste caso, não estou
pretendendo provar nada substancial a respeito da forma como
usamos a linguagem; estou meramente sugerindo uma termino­
logia que, se aplicada ao estudo da linguagem moral, estou con­
vencido, revelar-se-á esclarecedora. A parte substancial do que
estou tentando demonstrar é esta, que, no sentido de “juízo de
valor” definido agora, fazemos juízos de valor e que eles são a
classe de sentenças contendo palavras de valor que é de interes­
se primário para o lógico que estuda a linguagem moral. Já que
o que estamos discutindo é a lógica da linguagem moral e não a
intricada matéria conhecida como psicologia moral, não inves­
tigarei profundamente aqui o problema fascinante, discutido
por Aristóteles, da abxisia ou “fraqueza da vontade ”3 - o pro­
blema apresentado pela pessoa que pensa, ou professa pensar,
que deve fazer algo, mas não o faz. As distinções lógicas que
venho fazendo esclarecem consideravelmente essa questão:
mas muito mais precisa ser dito, principalmente no sentido de
uma análise mais meticulosa da expressão “pensa que deve”.
Pois se interpretamos minha definição de forma estrita e toma-
mo-la em conjunção com o que foi dito anteriormente (2 .2 )
sobre os critérios para “assentir sinceramente a um comando”,
surge o conhecido “paradoxo socrático” porque se tom a analíti­
co dizer que todos sempre" fazem o que pensam que devem
fazer (no sentido avaliatório). E essa, para colocar a objeção
aristotélica em roupagem moderna, não é a forma como empre­
gamos o verbo “pensar”. O problem a surge porque nossos cri­
térios, no discurso comum, para d-izef “Ele pensa que deve” são
muitíssimo elásticos. Se uma pessoa não faz algo, mas a omis­
são é acompanhada de sentimentos de culpa, etc., normalmente
¡82 A LINGUAGEM DA MORAL

dizemos que ele não fez o que pensa que deve. É, portanto,
necessário qualificar o critério dado acima para “assentir since­
ramente a um comando” e admitir que há graus de assentimen­
to sincero, sendo que nem todos eles envolvem efetivamente
obedecer ao comando. Porém a análise detalhada desse proble­
ma requer muito mais espaço do que posso dar-lhe aqui, e tem
de aguardar uma outra ocasião.
11.3. A melhor forma de estabelecer o interesse lógico pri­
mário,do sentido avaliatório de k4dever” é demonstrar que, não;
fosse a existência desse sentido, nenhum dos conhecidos pro­
blemas gerados pela palavra surgiriam Pois, das três paráfrases
possíveis de “Devo fazer X” dadas na p. 179, as duas primeiras
são afirmações de fato. Isso porque, se forem expandidas, des-
cobrir-se-á que nelas a palavra “dever” sempre ocorre entre
aspa£ ou dentrode uma oração subordinada que começa com
“que” ;/ Assim (1) poderia ser parafraseada ainda por “Há um
princípio de conduta que as pessoas geralmente aceitam, que
diz ‘Deve-se fazer X em circunstâncias de uma determinada
espécie’, e agora estou em circunstâncias dessa espécie” .
Similarmente, (2 ) poderia ser parafraseada ainda como “O
juízo ‘Devo fazer X" evoca em mim um sentimento de convic­
ção” ou “Considero-me incapaz de duvidar do juízo ‘Devo
fazer X ’ ” (embora a última paráfrase seja demasiado forte,
pois nem todos os sentimentos são irresistíveis; na verdade, há
uma gradação infinita, de vagas inquietações da consciência ao
que muitas vezes se denominam “intuições morais”), Agora, o
fato de que, quando ( 1) e (2 ) são expandidas, o juízo original
que parafraseiam ocorre nelas entre aspas mostra que deve exis­
tir algum sentido daquele juízo original que não é esgotado por
( 1) e (2 ), pois, se não existisse, a sentença entre aspas teria, por
sua vez, de ser parafraseada por ( 1) e (2), e estaríamos envolvi­
dos numa regressão infinita. No caso de (1), não conheço nenhu­
ma maneira de superar essa dificuldade; no caso de (2 ), ela pode
ser superada temporariamente substituindo (2 ) por alguma pará­
frase como “Tenho certo sentimento reconhecível”. Mas o arti-
"DEVER" 183

fício é apenas temporário pois se nos perguntam que sentimen­


to é esse ou como o reconhecemos, a resposta só pode ser “É o
sentimento chamado ‘um sentimento de obrigação’; é o senti­
mento que você geralmente tem quando diz e diz com intenção,
‘Devo fazer isto e aquilo’ ”.
Isto significa que nem (1) nem (2) pode fornecer o sentido
primário de “Devo fazer X”. Agora suponhamos (como não é o
caso) que (3) não gerasse nenhum dos enigmas lógicos do tipo
que estivemos discutindo; isto é, suponhamos que (3) pudesse
ser analisado de forma naturalista. Se assim fosse, então, esses
enigmas também não surgiriam nos casos de ( 1) ou (2 ), pois já
que, além da expressão entre aspas, não há nada mais nas
expansões de ( 1) e ( 2 ) que não possa ser analisado de forma
naturalista, seria possível levar a cabo uma análise completa­
mente naturalista de todos os usos de “dever” e, portanto, de
“bom” ( 12 .3 ). O fato de isso não ser possível deve-se ao caráter
íntratavelmente avaliatório de (3). Deve-se, em última análise,
à impossibilidade, mencionada anteriormente (2.5), de derivar
imperativos a partir de indicativos, pois (3), por definição,
implica pelo menos um imperativo, mas se (3) fosse analisável
de forma naturalista, isso significaria que é equivalente a uma
série de sentenças indicativas, e isso constituiria uma quebra do
princípio estabelecido. Portanto é este fato, o de que a palavra
“dever”, em alguns de seus empregos, é usada avaliatoriamente
(i.e., implicando pelo menos um imperativo) que tom a impos­
sível uma análise naturalista e, por conseguinte, gera todas as
dificuldades que estivemos considerando. Um lógico que*
negligencia esses empregos tornará fácil sua tarefa à custa do?
não compreender o propósito essencial da linguagem m ora!
É isso, acima de tudo, que toma a primeira parte deste livro
relevante para o que é discutido no restante. Pois todas as pala­
vras discutidas na Primeira e Segunda Partes têm como função
distintiva aprovar ou, de alguma outra forma, orientar escolhas
ou ações; e é es'sFcáfáctensticá essencial que desafia quaiquSr
análise em termos puramente factuais. Mas, para orientar esco-
184 A LINGUAGEM DA MORAL

lhas ou ações, um juízo moral tem de ser tal que se uma pessoa
assente a ele, tem de assentir a alguma sentença imperativa de-
rivável dele; em outras palavras, se uma pessoa não assente a
alguma sentença imperativa de tal tipo, isso é evidência cabal
de que não assente ao juízo moral num sentido avaliatório -
embora, é claro, possa assentir a ele em algum outro sentido (e. g.,
um dos que mencionei). Isso é verdadeiro em face de minha
definição da palavra “avaliatório”. Mas dizer isso é dizer que se
ela professa assentir ao juízo moral, mas não assente ao impera­
tivo, deve ter compreendido erroneamente o juízo moral (con­
siderando-o não-avaliatório, embora o falante pretendesse que
fosse avaliatório). Estamos, portanto, claramente autorizados a
dizer que o juízo moral implica o imperativo, pois dizer que um
juízo implica outro é simplesmente dizer que você não pode
assentir ao primeiro e dissentir do segundo, a menos que tenha
compreendido erradamente um ou outro; e esse “não pode” é
um “não pode” lógico - se alguém assente ao primeiro e não ao
segundo, isso é, em si, critério suficiente para dizer que com­
preendeu erradamente o significado de um ou de outro. Assim,
dizer que os juízos morais orientam as ações e dizer que eles
implicam imperativos vem a ser quase a mesma coisa.
Não quero, de maneira nenhuma, negar que os juízos
morais às vezes são usados não-avaliatoriamente, no sentido
que proponho. Tudo o que desejo afirm ar é que às vezes são
usados avaliatoriamente e que é esse uso que lhes dá as caracte­
rísticas especiais para as quais tenho chamado a atenção; e que,
não fosse esse uso, seria impossível dar um significado para os
outros usos; e também que, não fossem as dificuldades lógicas
ligadas ao uso avaliatório, os outros usos poderiam ser analisa­
dos de forma naturalista. A ética, como ramo especial da lógi­
ca, deve sua existência à função dos juízos morais como guias
para responder a perguntas da forma “Que devo fazer?”
11.4. Estou agora em posição de responder a uma objeção
que pode ter ocorrido a alguns leitores. Autores sobre ética
muita * vezes condenam em outros o “naturalismo” ou alguma
falácia relacionada somente para cometê-la eles mesmos numa
“DEVER " 185

forma mais sutil. Pode-se alegar que fiz isso. Sugeri anterior­
mente (5.3) que o termo “naturalista” deveria ser reservado
para teorias éticas abertas à refutação em linhas similares às
delineadas pelo Professor M oore. Devemos, portanto, pergun­
tar se é possível elaborar alguma refutação análoga de minha
teoria. Ora, é vèrdade que não estou sugerindo que os juízos
morais podem ser deduzidos de quaisquer afirmações de fafo.
Em particular, não estou sugerindo a adoção de definições de
termos de valor da espécie que Moore equivocadamente atri­
buiu a Kant. Moore acusou Kant de dizer que “Isto deve ser”
significa “Isto é comandado”5. Essa definição seria naturalista,
pois “A é comandado” é um a afirmação de fato, pode ser
expandida como “Alguém (não se revela quem) disse T aça
A’ O fato de que o imperativo está entre aspas evita que afete
o modo da sentença inteira. É desnecessário dizer que não
estou sugerindo qualquer equivalência deste tipo para “bom”,
para “dever” ou para qualquer outra palavra de valor, exceto,
talvez, quando são usadas no que denominei sentido “entre
aspas” ou em alguma outra forma puramente descritiva. Mas
pode-se dizer, não obstante, que, de acordo com meu trata­
mento dos juízos morais, determinadas sentenças, que no uso
comum não são analíticas, tornar-se-iam analíticas - e isso
seria muito semelhante à refutação de Moore. Por exemplo,
considere sentenças como a do Salmista

Aparta-te do mal e faze o bem6,

ou o verso do hino de John Wesley

Persevera na trilha do dever7.

Em minha teoria essas sentenças, pode-se alegar, tornar-


se-iam analíticas, pois de “A é mau” pode-se deduzir a sentença
imperativa “Aparta-te de A”, e de “A trilha T é a trilha do dever”
pode-se deduzir a sentença imperativa “Persevera na trilha T”.
186 A LINGUAGEM DA MORAL

Ora, é preciso observar que sentenças como as citadas po­


dem ser expandidas em sentenças nas quais um juízo de valor
ocorre numa oração subordinada. Assim, se em vez da arcaica
“Aparta-te do m al”, escrevemos “Não faça o que é mau”, esta
pode ser expandida em “Para todo X, se X é mau, não faça X ”.
Para que essa instrução seja aplicada, é necessário conjugá-la
com a premissa menor “A é mau” e das duas premissas concluir
“Não faça A”. Para que esse raciocínio seja proveitoso, é neces­
sário que a premissa menor “A é mau” seja uma afirmação de
fato; tem de haver um critério para dizer inequivocamente se é
verdadeira ou falsa. Isso significa que, nessa premissa, a pala­
vra “mau” deve ter um significado descritivo (qualquer que
seja o significado adicional que possa ter). Mas para que o
raciocínio seja válido, a palavra “m au” na premissa maior deve
ter o mesmo significado que na menor; lá também, portanto, ela
deve ter um significado descritivo. Ora, é esse conteúdo descri­
tivo que impede a premissa maior de ser analítica. Sentenças do
tipo que estamos discutindo são normalmente utilizadas por
pessoas que têm padrões de valor firmemente estabelecidos e
cujas palavras de valor têm, portanto, um componente conside­
rável de significado descritivo. Na sentença “Não faça o que é
mau”, o conteúdo avaliatório de “mau” é temporariamente ne­
gligenciado; o falante, por assim dizer, deixa de apoiar o padrão
por um momento, apenas para colocá-lo novamente no lugar
com o verbo imperativo. Esse é um exercício excelente na
manutençãç de nossos padrões e é por isso que se encaixa tão
bem em hinos e salmos. Mas só pode ser executado pelos que
não têm nenhuma dúvida quanto ao padrão.
Contraste com esses casos outros que são superficialmente
semelhantes. Suponha que me perguntem “Que devo fazer?” e
eu responda “Faça o que for melhor” ou “Faça o que deve fazer”.
Na maioria dos contextos tais respostas seriam consideradas
¡mil ei s. Seria o mesmo que perguntar a um policial “Onde devo
ONlíieionm meu carro?”, e ele responder “Em qualquer lugar em
i|iu* wjn k^ílimo estacioná-lo”. O falante pede-me um conselho
"DEVER " 187

preciso quanto ao que deve fazer; ele pergunta a mim justamen­


te porque não sabe que padrão aplicar em seu caso. Se, portanto,
respondo dizendo-lhe que se conforme a algum padrão cujas
condições ele ignora, não lhe forneço nenhum conselho útil.
Assim, em tal contexto, a sentença “Faça o que for melhor” real­
mente é analítica; pois, já que se assume que o padrão é desco­
nhecido, “o melhor” não tem nenhum significado descritivo.
Assim, minha descrição do significado das palavras de
valor não é naturalista; não resulta em tomar analíticas senten­
ças que não o são no uso comum. Antes, fazendo completa jus­
tiça aos elementos descritivos e avaliatórios do significado das
palavras de valor, demonstra como elas desempenham o papel
que efetivamente desempenham no uso comum. Uma dificul­
dade até certo ponto similar é apresentada pelo famoso parado­
xo de Satã: “Mal, sê o meu bem ” Este presta-se ao mesmo tipo
de análise, mas por motivos de espaço sou forçado a deixar ao
leitor a tarefa de deslindar ele mesmo o problema.
11.5. Pode -se perguntar neste ponto: “Você não está assi­
milando demasiadamente os juízos morais aos imperativos uni­
versais comuns que existem na maioria das línguas?” Realmen­
te objetou-se a todas as análises imperativas dos juízos morais
que elas tornariam um juízo moral como “Você não deve íumar
(nesta cabine)” o equivalente do imperativo universal “Não
fumar”. E eles claramente não são equivalentes, embora ambos,
segundo a teoria que venho advogando, impliquem “Não fu­
m e”. É, portanto, necessário formular o que distingue “Você
não deve fumar” de “Não fumar”. Já aludi a esse problema, mas
ele requer mais discussão.
A primeira coisa a observar em “Não fumar” é que não é
um universal propriamente dito porque se refere implicitamen­
te a um indivíduo; é a forma abreviada de “Nunca fume nesta
cabine” . O juízo moral “Você não deve fumar nesta cabine”
também contém referências a indivíduos, pois os pronomes
“você” e “esta” aparecem nele. Porém, em vista do que disse
acima (10.3), esse não é o fim da questão. O juízo moral “Você
188 A LINGUAGEM DA MORAL

não deve fumar nesta cabine” téiiÈÉÊSèr alg u m p r%


cípio moral geral em mente, e seu propósito tem de sei invocar/
esse princípio.^ geral ou indkar ttm exemplr^ de sua aplicação. CX,
princípio poderia ser “Nunca sé' deve fumar cm cabines onde há
crianças” ou '"Nunca se deve fumar emrc.abines onde há um,
aviso d&vNão fum ar1’' . Nem* sempre é fácil concluir exatamen-^
te qual" &o princípio, mas sempre áaz sentido „perguntar qual é
ele>j0 ifalante não pode negar que. existe tal princípio.
A mesma questão poderia ser exprimida de outra maneira,
dizendo que se fazemos um juízo moral particular, sempre po­
dem pedir que o sustentemos com razões; as razões consistem
nos pfincípiosi g^raif aos quais o juízo moral deve ser subordi­
nado. Assim, o juízo moral particular “Você não deve fumar
nesta cabine” depende de um universal propriamente dito, ain­
da que ele mesmo não seja um. Porém isso não é verdadeiro no
caso do imperativo “Nunca fume nesta cabine”. Este não invo­
ca nenhum princípio mais geral; ele mesmo é tão geral quanto
tem de ser, e isso não é geral o bastante para fazer dele um uni­
versal propriamente dito.
A diferença de universalidade entre “Nunca fume nesta
cabine” e “Você não deve fumar nesta cabine” pode ser revela­
da da seguinte forma. Suponha que eu diga a alguém “Você não
deve fumar nesta cabine”, e que haja crianças na cabine. Ê pro­
vável que a pessoa a que me dirijo, se perguntar por que eu
disse que ela não devia fumar, olhe em volta, repare nas crian­
ças e, assim, compreenda a razão. Mas suponha que, tendo apu­
rado tudo o que há para apurar sobre a cabine, ela diga então
“Tudo bem; vou ali ao lado; há outra cabine tão boa quanto
esta; na verdade, é exatamente igual a esta, e há crianças nela
também”. Se ele dissesse isto, eu pensaria que ele não entendeu
a função da palavra “dever”, pois/“ dever” sempre se refere af
algíim prineípio geral e|je_í .cabine ao lado é realmente iguala
esta> todo princípi‘o-que:é-’àplicáve} a esta tem de ser aplicável
à q a e ta ^ § |$ Portanto, eu poderia dizer “Mas veja bem, se você
não deve fumar nesta cabine e se a outra cabine é exatamente
“DEVER" 189

igual a esta, tem a mesma espécie de ocupantes, os mesmos avi­


sos nas janelas, etc., então obviamente você também não deve
fumar nela”. Por outro lado, quando o diretor da Ferrovia está
tomando a importante decisão de escolher em quais cabines
colocar avisos dizendo “Não fumar”, ninguém diz “Veja! Você
pôs um aviso nesta cabine, portanto, tem de pôr outro na cabine
ao lado porque ela é exatamente igual a esta”.
fumar” não se refere a um prmcápio universal do quai està cabk
ne é um exemplo. ?
Na verdade, é quase impossível construir um universal pro­
priamente dito no modo imperativo. Suponha que tentemos
fazer isso generalizando a sentença “Nunca fume nesta cabine”.
Primeiramente, eliminamos o “você” implícito escrevendo
“Ninguém pode, jamais, fumar nesta cabine”. Depois temos de
eliminar o “esta”. Dá-se um passo nessa direção escrevendo
“Ninguém pode, jam ais, fumar em qualquer cabine da Rede
Ferroviária Britânica”. Porém ainda deixamos o nome próprio
“Rede Ferroviária Britânica”. Só podemos conseguir um univer­
sal propriamente dito excluindo todos os nomes próprios, por
exemplo, escrevendo “Ninguém pode jamais fumar em qualquer
cabine ferroviária de qualquer lugar”. Este é um universal pro­
priamente dito, mas é uma sentença que nunca alguém teria
oportunidade de dizer. Comandos são sempre dirigidos a alguém
ou a algum conjunto (não classe) individual de pessoasí Não
está claro o que se poderia querer dizer com a sentença citada há
pouco, a não ser que fosse uma injunçao moral ou outro juízo .de*
valor. Suponha que imaginemos Deus emitindo tal comando.
Então, ele se toma imediatamente como os Dez Mandamentos
na forma. Historicamente falando, supõe-se que “Honra teu pai
e tua mãe” foi dito, não para todos em geral, mas somente para
membros do povo eleito, exatamente como “Não pagues o mal
com o mal” foi dirigido aos discípulos de Cristo, não ao mundo
como um todo - embora fosse Sua intenção que todos os
homens se tomassem Seus discípulos. Mas suponha que não
fosse assim; suponha que “Não pagues o mal com o mal ' fosse
190 A LINGUAGEM DA MORAL

dirigido literalmente à classe ilimitada “todo homem”. Não diría­


mos que se tornou equivalente em significado ao juízo de valor
“Não se deve pagar a ninguém o mal com o m al”? De modo
semelhante, uma expressão proverbial como “Não mexa em
casa de marimbondo” pode, sem muito estrago, ser parafraseada
pelo juízo de valòr^prudencial) “Não se deve mexer em casa de
marimbondo”.
Por outro lado, os chamados imp:er,ativos universais^
comuns como “Não fumar” distinguem -sedosjuízos^devalof
por não:,serem propriamente ümver sTais!. Estamos aptos, portan­
to, a discrim inaf entre esses dois tipos de sentença sem abando­
nar absolutamente nada do^que^òclísse sS S S .aíâa^ãoentre os/
juízos de valor e os imperat-ivos^Pois tanto o universal comple­
to quanto olncompleto^írríplicam o singular: “Nunca fume
nesta cabine” implica “Não fume (agora) nesta cabine”, e o
mesmo faz “Você não deve fumar nesta cabine”, se for usado
avaliatoriamente. Mas esta última também implica, o que não
faz a primeira, “Ninguém deve fumar em nenhuma cabine exa­
tamente igual a esta”, e esta, por sua vez, implica “Não fume
em nenhuma cabine exatamente igual a esta”.
Essas considerações apenas, porém, não seriam suficientes
para explicar inteiramente a completa diferença de “impressão”
entre “Você não deve” e “Nunca faça”. Isso é reforçado por
dois outros fatores. Ao primeiro já se fez referência; a universa­
lidade completa do juízo moral significa que não podemos
“nos livrar dele” e, portanto, sua aceitação é uma questão muito
mais séria do que a aceitação de um imperativo de cuja esfera
de aplicação podemos escapar. Isso explicaria por que impera­
tivos como as leis de um Estado, que são de aplicação bastante,
geral e, portanto, de cujo âmbito é muito difícil escapar, xfeíxam,
uma “impressão” muito mais próxim a à dos juízosjtnorais £ 0
que os regulamentos de diretor da ferrovia?. Mas um fator adi­
cionai mais importante é que, em parte por causa de sua univer­
salidade completa, os princípios morais tornaram-se tão arrai­
gados em nossas mentes - nas formas já descritas - que adqui-
"DEVER” 191

riram um caráter quase factual e às vezes são realmente empre­


gados não-avaliatoriamente, na condição de afirmações de fato
e nada mais, como vimos. Nada disso é verdadeiro no caso de
imperativos como “Não fumar”, e somente isso já seria o bas­
tante para explicar a diferença de “ impressão” entre os dois
tipos de sentença. Contudo, já que não desejo negar que exis­
tem empregos não-avaliatórios de juízos morais, mas apenas
afirm ar que existem empregos avaliatórios, essa diferença de
“impressão” não destrói de forma nenhuma meu argumento.
Seria realmente absurdo pretender que “Não fumar” seja em
todos os aspectos igual a “Você não deve fumar”; venho sus­
tentando apenas que é igual a este em um aspecto, que ambos
implicam imperativos singulares como “Não fume (agora)”.
Capítulo 12
Um modelo analítico

12 . 1 . O seguinte experimento pode ajudar a esclarecer as


relações entre a linguagem dos valores e o modo imperativo:
imaginemos que nossa língua não contém nenhuma palavra de
valor e perguntemos, então, até que ponto uma nova terminolo­
gia artificial, definida em termos do modo imperativo e das
palavras lógicas comuns, poderia preencher a lacuna. Em
outras palavras, poderíamos, usando somente o modo imperati­
vo e palavras definidas em termos deste, executar toda e qual­
quer das tarefas desempenhadas na linguagem comum por
meio de palavras de valor como “bom”, “correto” e “dever”? A
fim de tornar tão claro quanto possível o paralelo entre nossa
nova linguagem artificial e a linguagem de valor comum, usa­
rei as mesmas palavras em ambas, mas colocarei as artificiais
em itálico. Desejo deixar bem claro que não estou sugerindo
uma análise definitiva das palavras de valor da linguagem
comum. Na verdade, elas são tão variadas em seus empregos e
tão sutilmente flexíveis que qualquer construção artificial está
fadada a ser uma caricatura delas. Tampouco estou cometendo
o pecado do “reducionismo”, que, por causa de sua excessiva
prevalência, tornou-se um alvo da moda para caçadores de
heresias filosóficas. Isto é, não estou tentando analisar um tipo
de linguagem em termos de outra; estou tentando, antes, exibir
as diferenças e similaridades entre dois tipos de linguagem
194 A LINGUAGEM DA MORAL

verificando quais modificações teriam de ser feitas em uma


antes que ela pudesse fazer o trabalho da outra e o quão adequa­
damente poderia fazê-lo assim modificada.
Meu procedimento será o seguinte: primeiramente simpli­
ficarei o problema demonstrando que, se podemos executar a
tarefa de “dever”, podemos também executar a tarefa de “corre­
to” e “bom ”, pois mostrarei que (na forma simplificada que é
tudo o que tais métodos sempre oferecem) sentenças formadas
com “dever” podem tomar o lugar de sentenças contendo as
outras duas palavras. Depois tratarei da palavra “dever”. Para
esse fim investigarei o que tem de ser feito ao modo imperativo
comum para transformá-lo num instrumento adequado para
nosso propósito. M ostrarei como o modo imperativo poderia
ser modificado de forma a tornar possível construir nele sen­
tenças universais propriamente ditas. Definirei, então, em ter­
mos desse modo imperativo modificado, um conceito, “dever”,
que funcionará como a mais simples e mais básica de minhas
palavras de valor artificiais. Se pretendesse com isso uma aná­
lise das palavras “dever”, “correto” e “bom” tal como ocorrem
na linguagem comum, o procedimento seria realmente temerá­
rio; porém, o itálico funcionará como uma advertência constan­
te ao leitor de que não é isso que estou tentando. Nos capítulos
precedentes já disse tudo o que o espaço permite dizer sobre o
comportamento lógico dessas palavras na linguagem comum;
meu presente propósito é bem diferente, e muito mais incerto.
12.2. Primeiramente, então, temos de ver até que ponto
uma palavra artificial, “correio” [ou “certo”], definida em ter­
mos da palavra comum “dever”, poderia substituir “correto”
[ou “certo”] na linguagem comum. Não considerarei todos os
empregos de “correto”, mas somente os que parecem mais im­
portantes. O primeiro é quando dizemos “Não é (ou, num caso
particular, nao seria ou não foi) correto fazer tais e tais coisas”.
Existem juízos morais e não-morais dessa forma; assim, pode­
mos dizer “Não foi correto contar piadas sobre Jones tão pouco
tempo após sua morte, com sua viúva presente” ou “Não foi
-DEVER 195

correto escalar Smith para rebater primeiro depois de ele passar


por uma longa rodada de arremessos”. Esse emprego ocorre
sempre no negativo; existe, porém, um uso análogo no afirma­
tivo, como: “Foi bastante correto mudar de assunto” e “Foi cor­
reto dar um descanso a Smith”. Novamente, existe o emprego
em que “correto" é sempre precedido pelo artigo definido e não
é predicativo, mas aparece acompanhado de um substantivo;
aqui, também, existem exemplos morais e não-morais; pode­
mos dizer “A coisa correta a fazer teria sido mudar de assunto”
ou “Robinson era o homem correto para a situação”.
Agora, se, como vamos assumir, nossa língua não possuís­
se a palavra “correto”, mas contivesse a palavra “dever”, pode­
ríamos nos contentar em definir em termos de “dever” uma
palavra artificial, “correto”, para a tarefa hoje desempenhada
por “correto”. Teríamos de ter definições diferentes para os
diferentes empregos; e se eu estivesse sendo bastante preciso,
teria de distinguir esses empregos com subscritos diferentes,
escrevendo “correto ”, “correto2”, etc. Isso, porém, não é ne­
cessário num esboço dessa natureza. As definições que propo­
nho são as seguintes: “Não é correto fazer A” deve significar o
mesmo que “Não se deve fazer A”. “Não seria correto X fazer
A” deve significar o mesmo que “X não deve fazer A”. “Não
foi correto X fazer A” deve significar o mesmo que “X não
devia ter feito A ”. “Não teria sido correto X fazer A” deve sig­
nificar o mesmo que “Se X tivesse feito A, teria feito o que não
devia fazer”. Esses exemplos são suficientes para dar uma idéia
de como lidaríamos com o primeiro emprego de “correto”.
O segundo emprego é tratado de forma similar. “Foi corre­
to X fazer A” deve significar o mesmo que “X, ao fazer A, fez o
que devia fazer”. Repare que há um emprego diferente de “cor­
reto”, não incluído entre os considerados acima, no qual tem
quase o significado de “all right”*. “Foi ‘all right’ X fazer A”

* Não foi possível reproduzir em português a gradação de significado entre o


sentido absolutamente “aprovatório” de right, certo, correto, e ali right, “tudo bem”,
que indica um grau menor de “aprovação”, próximo da neutralidade ou indiferença. (N.
do X)
196 A LINGUAGEM DA MORAL

não pode ser expresso da forma sugerida acima; teríamos de


dizer que “Foi ‘all right’ X fazer A ” deve significar o mesmo
que “Ao fazer A, X não fez o que não devia fazer”,
O terceiro emprego requer um tratamento um pouco dife­
rente. “O A correto” deve significar “O A que deve ser (ou de­
via ter sido) escolhido”. Assim, “Ele é (ou teria sido) o homem
correto para a situação” deve significar o mesmo que “Ele é o
homem que deve ser (ou devia ter sido) escolhido para a tarefa”
e “A coisa correta a ser feita teria sido mudar de assunto” deve
significar o mesmo que “Ele devia ter mudado de assunto”.
Observe que há uma complicação aqui que ignorarei, já que
não tem nada a ver com a ética: a expressão “Ele devia ter feito
A” geralmente implica que ele não fez A, ou então é despropo­
sitada, a não ser que de fato ele nao tenha feito A. Uma análise
formal completa exigiria uma oração adicional para tratar dessa
peculiaridade, mas isso não precisa nos deter aqui.
Às vezes a palavra “escolhido” precisa do complemento da
classe de comparação, a fim de trazer à tona o significado inte­
gral. Assim, a fim de verter para nossa terminologia artificial
“Ele não foi à casa correta”, teremos de dizer que “Ele não foi à
casa correta” deve significar o mesmo que “Ele não foi à casa
que devia ter escolhido para visitar”, e não, por exemplo, “Ele
não foi à casa que devia ter escolhido para explodir com dina­
mite”. Pode-se predizer com segurança que, se tivéssemos de
nos contentar com minha palavra artificial “correto” , não
encontraríamos dificuldade para estabelecer, a partir do con­
texto, o que um falante queria dizer, assim como fazemos com
a palavra natural “correto” .
Não examinarei em detalhe até que ponto “correto” seria
um substituto adequado para “correto”. A impressão que tenho
é que poderíamos nos arranjar muito bem com ela. Seria absur­
do, porém, afirmar que qualquer palavra artificial poderia cum­
prir exatamente todas as tarefas, e não outras, que são desempe­
nhadas por uma palavra natural; nossa linguagem comum é
demasiado sutil, flexível e complicada para ser imitada dessa
forma descuidada.
‘'DE VER" 197

12.3. Sigamos agora o mesmo procedimento com “bom”.


A definição de nossa palavra artificial “bom" é bem mais com­
plicada que de “correto” pela seguinte razão: como foi observa­
do por mais de um autor sobre ética, o comparativo “melhor
que” é muito mais fácil de definir que o positivo. Nisso “bom”
é como “quente”. Podemos fornecer critérios bem simples e
adequados para decidir se o objeto X está mais quente que o
objeto Y; mas se nos pedirem critérios exatos para dizer se
um objeto está quente, não teremos como fazê-lo. Tudo o que
podemos fazer é explicar o significado de “mais quente que” e,
então, dizer que se diz que um objeto está quente, se este está
mais quente que o habitual para um objeto de sua classe. A
segunda metade dessa explicação é extremamente imprecisa, e
seria prudente da parte dos lógicos deixá-la assim, pois “quen­
te” é uma palavra imprecisa. “Bom” é uma palavra imprecisa
pela mesma razão - e é importante reparar que, como mostra a
analogia com “quente”, essa imprecisão nada tem a ver com o
fato de “bom” ser uma palavra de valor. Na verdade, há outras
características de “bom”, originárias de sua natureza como
palavra de valor, que também lhe valeram o nome de “impreci­
sa” - e . g., o fato de que seu significado descritivo pode variar
de acordo com o padrão que está sendo aplicado. Isso, porém,
não tem nada a ver com o presente problema, pois, neste último
sentido, “melhor que” é tão impreciso (se essa for a palavra cor­
reta) quanto “bom”, mas o tipo de imprecisão ao qual me refiro
agora associa-se somente ao positivo e não ao comparativo,
Tentemos então definir um conceito artificial “melhor
que” em termos de “dever” . Pode-se sugerir a definição seguin­
te: “A é um X melhor que B” deve significar o mesmo que “Se
alguém está escolhendo um X, então, se escolhe B, deve esco­
lher A”. Já que essa definição é complicada, o seu ponto central
pode passar despercebido à primeira vista. Devemos lembrar,
antes de tudo, que uma sentença condicional é falsa somente
quando o antecedente é verdadeiro e o conseqüente falso. Pode-
se dizer isso seja qual for a opinião que adotemos quanto à pos-
198 A LINGUAGEM DA MORAL

sibilidade de definir “se” em função da verdade. Agora, supo­


nha, por exemplo, que um aluno me peça para aconselhá-lo
sobre os méritos respectivos de diversos cursos sobre a Ética de
Aristóteles. Eu poderia dizer ‘A s aulas de A sobre a Ética são
melhores (para os seus propósitos) que as de B ”. Ora, temos de
perguntar: Sob que condições eu diria que meu aluno não se­
guiu meu conselho? Suponha que assumamos que ele sempre
faça o que pensa que deve fazer. Então, se ele vai às aulas de A
e não às de B, está seguindo meu conselho. Mesmo se for a
ambas, não poderei acusá-lo de desconsiderar meu conselho,
pois ele ainda pode pensar que as de A são melhores que as de
B. O mesmo é verdadeiro se não for a nenhuma delas. Somente
num caso posso acusá-lo de não aceitar meu conselho: se assis­
te às aulas de B, mas não às de A, pois isso demonstra que, num
caso em que está escolhendo entre aulas sobre a Ética, e esco­
lheu ir às de B, ele não pensa que deve ir também às de A; e
teria de pensar assim, segundo minha definição, se pensasse
que as de A são melhores que as de B.
Agora, penso que se admitirá que “melhor que” , assim
definido, poderia realizar adequadamente a tarefa que é execu­
tada na linguagem comum por “melhor que”. Mas, no caso de
empregos morais, há uma complicação que tem ocupado a
atenção de muitos escritores sobre ética e que é um dos funda­
mentos da muito enfatizada distinção entre as palavras “corre­
to” e “bom”, tal como usadas na moral1. É um lugar-comum que
dizer que um determinado ato foi correto não é dizer que foi um
bom ato, pois, para ser bom, tem de ser feito por um bom moti­
vo, ao passo que, para ser correto, tem meramente de se confor­
mar a um determinado princípio, seja qual for o seu motivo.
Assim, se pago a conta do meu alfaiate na esperança de que
gastará o dinheiro bebendo excessivamente, ainda assim ajo
corretamente ao pagá-lo, embora não seja um bom ato, porque
meu motivo é mau. Pode-se dizer também que dizer que uma
pessoa fez algo que não foi correto (não o que devia ter feito)
não é necessariamente condená-lo ou culpá-lo por isso, pois,
"DEVER ’ 199

embora tenha feito o que não era correto, pode ter agido pelo
melhor dos motivos ou pode não ter sido capaz de resistir a uma
tentação pela qual não pode ser culpado por não resistir. É pos­
sível, em termos de minha definição de “melhor que” e, portan­
to, de “bom”, tornar essa distinção muito mais clara do que tem
sido até aqui. Temos de m odificar ligeiramente a definição,
pois, em termos dessa, “A, nas circunstâncias, foi um ato me­
lhor que B” significaria simplesmente “Se alguém está esco­
lhendo que ato realizar em circunstâncias como aquelas, então,
se escolhe B, deve escolher A ”. Assim, se a definição fosse
aplicada diretamente, não conteria referência necessária aos
motivos pelos quais o ato foi realizado. É, portanto, necessário
proceder indiretamente e, adaptando a observação de Aristóte­
les, dizer que um ato bom é a espécie de ato que um homem
bom realizaria2. Então, em termos de nossa definição, defini­
mos um homem bom da seguinte forma: é um homem que é
melhor do que os homens habitualmente são, e dizer que A é
um homem melhor que B é dizer que se alguém está escolhen­
do que espécie de homem ser, então, se escolher ser a espécie
de homem que B é, deve escolher ser a espécie de homem que
A é; e já que, ex hypothesi, A não é a mesma espécie de homem
que é B, isso se resume a dizer que, se escolhemos ser como A
ou como B, deve ser como A que escolhemos ser.
Essa definição um tanto complicada de “bom ato” pode ser
explicada de modo mais simples e aproximado da seguinte ma­
neira: quando estamos falando de um bom ato, estamos falando
do ato como indicativo da bondade do homem, e, quando fala­
mos da bondade de um homem, as escolhas que estamos bus­
cando orientar não sao primariamente as de pessoas que estão
precisamente naquela espécie de situação em que ele realizou o
ato (e. g., a situação de receber a conta do alfaiate), mas as de
pessoas que estão perguntando a si mesmas “Que espécie de
homem devo tentar tornar-me?” Falamos de bons homens e
bons atos num contexto de educação e formação de caráter
morais, ao passo que falamos de atos corretos num contexto
200 A LINGUAGEM DA MORAL

diferente, aquele em que estamos falando de deveres, em tipos


particulares de ocasiões, que podem ser cumpridos, seja bom
ou mau o caráter ou o conjunto de motivos do agente. Se é real­
mente assim que usamos “bom ato”, então a palavra “bom”, da
forma como a tratei, expõe muito bem essa característica da
palavra natural “bom".
O conjunto de minha análise até aqui foi muito simplifica­
do e, mesmo assim, extremamente complicado e difícil de
acompanhar. Se eu a tivesse feito mais exata, seria ainda mais
difícil, e não conheço nenhuma forma de torná-la mais fácil.
Posso apenas esperar que tenha sido capaz de dar ao leitor uma
idéia de como poderíamos, se “bom” e “correto” desapareces­
sem de nossa linguagem, compensar a deficiência usando a
palavra “dever”, Minha impressão é que, embora as novas pala­
vras artificiais, à primeira vista, parecessem desajeitadas em
comparação com as antigas, poderíamos contentar-nos com
elas quando necessitássemos dizer o que hoje dizemos por
meio das palavras naturais “bom” e “correto”.
12.4. Até aqui temos utilizado em nossas definições a pala­
vra natural “dever”. Temos agora de investigar, se essa, por sua
vez, nos fosse negada, se poderíamos contentar-nos com um
conceito artificial “dever”, definido em termos de um modo
imperativo enriquecido. Esta é a parte de minha análise que
provavelmente despertará maior ceticismo. Temos prim eira­
mente de mostrar o que temos de fazer ao modo imperativo, a
fim de acomodar nele sentenças universais propriamente ditas
e, então, em termos desses imperativos universais propriamente
ditos, definir “dever” de tal forma que possa desempenhar as
diversas funções de “dever”.
A s razões p or que sentenças universais propriamente ditas
não podem ser acomodadas no modo imperativo são duas*. Em
primeiro lugar, esse modo limita-se, com umas poucas exce­
ções, que são apenas aparentes, ao tempo futuro, ao passo que
uma sentençajmjyer.sal propriamente dita tem de se aplicai a
todos os tempos, passado, presente e futuro (e.g., “Todas as
“DEVER" 201

mulas são estéreis” tem de se aplicar a todas as mulas em todos


os períodos da história do mundo para ser um universal propria­
mente dito; temos de ser capazes de derivar dele, em conjunção
com “Joe era uma mula”, a sentença “Joe era estéril”). Em
segundo lugar, o modo imperativo ocorre predominantemente
na segunda pessoa, na alguns imperativos de primeira pessoa
do plural e alguns imperativos de terceira pessoa do singular e
do plural; há também a forma “Que eu ...” que funciona como
um imperativo de primeira pessoa do singular. Mas essas pes­
soas são de forma diferente, em inglês, da segunda pessoa e
podem ser de um caráter lógico algo diferente. Mais séria é a
dificuldade de não haver meios de conceber uma sentença
imperativa que comece com “se,? [índice de indèterminação do
sujeito] ou com o uvocê” impessoal: não há nada no modo
imperativo análogo à sentença indicativa “Não se vêem muitos
cabriolés hoje em dia” ou ao j u í z o de valoi “Não se deve dizer
mentiras”. É óbvio que, para sermos capazes de conceber impe­
rativos universais propriamente ditos, eles precisam ser tais
que, com o auxílio das premissas menores apropriadas, possa­
mos derivar deles sentenças imperativas em todas as pessoas,
assim como em todos os tempos. O modo imperativo, portanto,
tem de ser enriquecido para nossos propósitos, a fim de tomar
possível construir sentenças em todas as pessoas e todos os
tempos.
A noção de enriquecer dessa forma o modo, produzindo
sentenças (como imperativos passados) que não poderiam ser
usadas em nossa língua, pode muito bem levantar suspeitas. É
evidente por que nunca ordenamos que coisas aconteçam no
passado e, portanto, pode-se dizer que um imperativo passado
não teria significado. Não estou preocupado em negá-lo - pois,
em certo sentido, uma expressão é sem sentido se não pode ter
•empego possível, mas, não obstante, será visto que essas sen­
tenças efetivamente têm uma função em minha análise e, por­
tanto, devo pedir ao leitor que as tolere. Há talvez uma analogia
com o uso de números imaginários na matemática. É nesse
202 A LINGUAGEM DA MORAL

ponto que a diferença essencial entre os imperativos da lingua­


gem comum e os juízos de valor é mais claramente revelada;
como, porém, minha análise tem como objetivo expor distin­
ções e não escondê-las, isso nao constitui defeito.
12.5. Para enriquecer o modo imperativo em tempo e pes­
soa, utilizarei um artifício derivado de minha discussão prévia
daxonstituição de sentenças imperativas em 2 i'. Vimos lá que
uma sentença imperativa, assim como uma indicativa, consis­
te em dois elementos, que denominei a frástica e a nêusticá, A
frástica é parte da sentença que é comum aos modos indicati­
vo e imperativo; assim, as sentenças “Você está prestes a
fechar a porta” e “Feche a porta” podem ser analisadas de
forma a terem a mesma frástica; seriam então escritas respec­
tivamente

Você fechar a porta no futuro imediato, sim.

Você fechar a porta no futuro imediato, por favor.

A"nêusticá é a parte da sentença que determina seu modo.


É representada por “sim” (indicativo) e “por favor” (imperati­
vo) nas duas sentenças citadas. Agora, f indicação do tempo de
Uma sentença fica na frástica. Mas como há sentenças indicati­
vas em todos os tempos, deve haver frásticas em todos os tem ­
pos e, portanto, é possível tomar 0 frástica de uma sentença
indicativa, adicionar a ela a nêusticá imperativa, e teremos
então uma sentença imperativa no passado. Assim, poderíamos
escrever

Você fechar a porta ontem à noite, por favor.

Poderíamos também ter imperativos sem tempo verbal, uti­


lizando uma escala de tempo em vez de tempos verbais; assim
poderíamos escrever
"DEVER" 203

Você fechar a porta às 11 horas da manhã do dia 4 de março, por


favor.

Assim, contanto que a aversão inicial a imperativos passa­


dos seja superada, não há dificuldade lógica para formá-los. O
mesmo é verdadeiro para os outros tempos.
Um artifício similar permite-nos construir sentenças impe­
rativas em qualquer pessoa. Tudo o que temos de fazer é tomar
a fràstica de uma sentença indicativa naquela pessoa e colocar
depois dela a .neustica imperativa, Como alternativa, podemos
abrir mão completamente dos pronomes pessoais e colocar em
seu lugar nomes próprios ou descrições definidas ou indefini­
das. Finalmente, podemos, como necessitamos fazer, tomar a
frastica de uma sentença indicativa universal propriamente dita
e, colocando uma nêustica imperativa depois dela, obter uma
sentença imperativa un i'versai propriamente dita. Assim, pode­
mos tomar a sentença indicativa “Todas as mulas são estéreis” e
escrevê-la assim:

Todas as mulas serem estéreis, sim.

A sentença imperativa universal propriamente dita será


então escrita:

Todas as mulas serem estéreis, por favor.

Isto difere em significado do imperativo da linguagem


comum “Sejam todas as mulas estéreis” porque esta pode refe-
rír-se somente a mulas futuras, enquanto a primeira | |j | g í
d ‘JigMoíà--íf)daS:as mulas; passadas e presentes, bem como futu­
ras. Assim, se uma mula em 23 a.C. gerasse prole, isso não seria
uma transgressão do comando “Sejam todas as mulas estéreis”
proferido em 1952 d.C., mas seria uma transgressão de um
comando universal propriamente dito enunciado em qualquer
tempo, e isso é importante para nosso propósito, pois ás^apês
204 A LINGUAGEM DA MORAL

podem ser violações deTprincipiosde “deverVyqnè ainda não fo­


ram enunciados; esse. é o ponto da expressão “devia ter*.
Então, se construímos nesse modo imperativo enriquecido
sentenças universais propriamente ditas adequadas, veremos
que se aproximam, em significado, dos juízos de valor. Jã exa­
minamos o imperativo universal da linguagem comum “Não pa­
gues o mal com o mal”, e vimos que, se fosse considerado como
um universal propriamente dito, seria mais ou menos equivalen­
te em significado a “Não se deve pagar a ninguém o mal com o
mal”. Da forma como aparece no Evangelho, nào pode ser
entendido assim porque é endereçado a um grupo definido de
pessoas, os discípulos de Cristo, e não se aplica a ninguém que
não seja um discípulo; e o mesmo é geralmente verdadeiro no
caso das sentenças imperativas; elas têm, como vimos, uma
aplicação restrita. Além disso, “Não pagues o mal com o mal” é
inegavelmente futuro em sua aplicação. Se alguém tivesse aca­
bado de vingar-se de um inimigo no momento em que este era
proferido, não teria desobedecido o comando. Porém, ermnosso
m fe^iniperativo modificado podemos conceber um principio
de universalidade completa tal que uma ação, em absolutamente
qua- ]üer mp \ realizada por absolutamente qualquer pessoa,
poderia ser uma violação delp. E isto é próprio de um princípio
moral ou de outro principio de “dever”.
Em lugar, portanto, da terminologia desajeitada de frá s i­
cas e nêusticas, adotemos a palavra artificial “dever”. Esta deve
ser definida da seguinte maneira: se tomamos uma sentença in­
dicativa universal propriamente dita, “Todos os PP são Q”, e a
dividimos em fràstica e nêustica, “Todos os PP serem Q, sim”,
e depois substituímos a nêustica indicativa por uma imperativa,
“JFodos os PP serem Q, por favor”,podemos,, em vez desta ùlti­
ma sentença, escrever “Todos os PP devem ser Q’\<
Até aqui, essa definição dá somente o significado de “de­
ver” tal como poderia ser usado para conceber sentenças que
desempenhassem a função dos princípios de “dever” gerais ou
das sentenças do tipo B referidas em 10.3. Isto é, oferece um
"DE VER " 205

substituto para sentenças como “Se o motor não der partida


imediatamente na ignição automática, de ve-se sempre usar a
manivela de partida” ou “Deve-se sempre falar a verdade”.
Estas têm apenas que ser remodeladas para se enquadrarem na
fórmula universal: “Todas as tentativas de dar partida em moto­
res de veículos automotores que não derem partida imediata­
mente na ignição automática devem consistir em usar a mani­
vela de partida”, e “Todas as coisas que são ditas devein ser ver­
dadeiras”. Se “dever” fosse um substituto apropriado para “de­
ver”, minha definição tornaria sentenças desse tipo possíveis.
Por outro lado, sentenças dos tipos C e D, que são sentenças de
“dever” singulares, futuras e passadas, não foram contempladas
até aqui. Sua análise é uma questão extremamente complexa,
mas podemos sugerir o seguinte substituto: em lugar de “Você
deve dizer-lhe a verdade”, escrevamos “Se você não lhe disser a
verdade, estará violando um princípio de “dever” geral que por
meio desta subscrevo”. E, similarmente, em vez de “Você devia
ter dito a verdade a ele”, escrevamos “Ao não lhe dizer a verda­
de, você violou um princípio de “dever” geral que por meio
desta subscrevo”. Mais formalmente, poderíamos escrever “Há
pelo menos um valor para P e um para Q de tal tipo que (1)
todos os PP devem ser Q e (2) você não lhe dizer a verdade seria
(ou foi) um caso de um P não ser Q”. Aqui, novamente, se “de­
ver” é substituto apropriado para “dever”, sentenças do tipo C e
D seriam abrangidas por minha definição.
Ao fazer essa comparação deve-se observar, antes de mais
nada, que “dever”, tal como o defini, tem uma importante carac­
terística que a palavra natural “dever” também tem e que distin­
gue ambas dos imperativos simples. Essa característica deve-se
ao fato de que as sentenças em que “dever” e “dever” ocorrem
são sempre (ou, pelo menos, sempre dependem de) universais
propriamente ditos. Sustentou-se às,vezes que a lógica das sen­
tenças de “dever” é, em certo sentic o,"Imprenté (isto é, que a lei
do terceiro excluído não se aplica a elas/); se nego qú£ X deve'
fazer A, naose segue que eu estejá logicamente obrigado a afir-'
206 A LINGUAGEM DA MORAL

mar que X nãp;;deve fazer A' Pode ser que, como dizemos, não
tenha importância X fazer ou não A e, portanto, pode ser impos­
sível afirmar que ele deve fazer A ou que ele não deve fazer A.
Ora, todas as sentenças universais têm esse caráter, como foi
reconhecido, bem antes que a lógica trivalente fosse cogitada, na
lógica aristotélica tradicional. “tôjdo 3-.tí$-SPF,são Q” e “Todos os
PP não. são. Q” (ou “Nenhum P é Q” ) não são contraditórias, mas
contrárias e, portanto, se negamos que todosfes PP são Q, não
nos obrigamos por isso a afirmar que nenhum P é Q, pois alguns
PP podem ser Q e alguns não. Não é necessário aqui discutir se
falar de uma lógica trivalente é a melhor maneira de descrever
essa característica das sentenças universais, mas a similaridade,
nesse aspecto, entre sentenças de “dever” e sentenças universais
empresta apoio a minha definição.
12.6. Temos agora de perguntar se “dever” é um substituto
completo para “dever” - sê^cx^sea^ajudl, p*!dlÈâ©&^<a#ar
todas ..as tarefas que na linguagem comum executamos cqm
èsta^Ora, essas tarefas podem ser divididas em duas classes:
em primeiro lugar, as que, são propriamente avaliatórias etí
^ p ;c ü ü à s ;é , em segundo, as/que são descritivas. Dessas, des-
cobrir-se-á que as primeiras são atendidas adequadamente por
^ dever \ enquanto as outras não o são sem definição adicional
e, então, não de forma tão conveniente. Vimos acima qu:e p;s
f|os;ayálfâtórios, de “dever” eram os que. implicavam imperati-
vos singulares. É evidente que “ dever”, tal como o defini, satis­
faz essa função. Issp significa que pode ser iiíiiizado para todas
as funções de “dever” que consistem no ensino ou no aconse­
lhamento moral ou de qualquer outro gênero. Assim, se empre­
gamos sentenças de “dever” ao ensinar alguém a dirigir, ele
será instruído tão clara e eficientemente quanto o seria se
empregássemos as sentenças de “dever” da linguagem comum.
Depois que tiver sido ensinado por este meio, saberá, em todos
os tipos de situação que foram abrangidos por nossas instru­
ções, exatamente o que fazer. E o mesmo é verdadeiro no caso
do ensino moral, seja do tipo proporcionado pelos pais aos
"DEVER " 207

filhos, seja do tipo proporcionado por grandes inovadores


morais como Buda ou Cristo. O fato de que tanto a primeira
como a segunda classe de mestres muitas vezes empregaram
imperativos e não sentenças de “dever” sustenta o que eu disse.
Já examinamos “Não pagues o mal com o mal”, e os pais mui­
tas vezes dizem coisas como “Se você quer brigar, brigue com
alguém do seu tamanho, não com sua irmã menor”. O objetivo
de tal observação é clpramente moral.
Por/outro lado. ^ dever"i tal: como o defini, não desempe­
nharia tão adequadamente as funções descritivas que tem a
palavra “dever” na linguagem comum: Consideremos um
exemplo de um capítulo anterior. Suponha que eu diga “Bem na
hora em que devia estar chegando à peça, ele estava enfiado
embaixo do carro a cinco milhas de distância”. Como vimos,
esta não é prim ariam ente uma maneira de dizer às pessoas a
que horas deve-se chegar a uma peça; é uma maneira de dar-
lhes informação sobre o que o homem a que se refere estava
fazendo ficará determinado momento-; que momento é esse fi­
cará imediatamente evidente para qualquer um que saiba a que
horas deve-se chegar a uma peça; e isso eles sabem-porque
todos concordam que deve (avaliatório) chegara uma.peça um
pouco antes de esta começar. Assim, porque todos concordam
com uma avaliação particular, surge .um uso secundário de
“dever”, em que ele pode ser utilizado para dar informação.
não é contemplado por “dever”, tal
como o defini até agora1. É verdade que, nos casos em que,
como aqui, não é antinatural tratar o imperativo contido em
“dever” como um imperativo hipotético, as considerações ex­
postas em 3.2 podem nos ajudar a superar a dificuldade, pois os
irrJ»eratiyos hipotéticos.,, em certo sentido, são descritivos,
sendo a premissa maior fornecida ou compreendida. Mas isso
não abrangerá todos os casos. Uma saída para o problema é
sugerida, porém, se fizermos uso da técnica “entre aspas” a que
já se fez menção (7.5). Poderíamos reescrever a sentença “Bem
no momento em que a maioria das pessoas (inclusive eu) con­
20H A LINGUAGEM DA MORAL

cordaria em dizer ‘Ele devia estar chegando à peça’, ele estava,


etc.” Esta, na superfície, é uma sentença indicativa porque o
“dever” que indica o imperativo está entre aspas; o imperativo
não é utilizado, mas apenas mencionado.
É interessante notar a diferença entre esta expressão, “a
maioria das pessoas (inclusive eu) concordaria”, e a expressão
usada em um exemplo prévio e integralmente avaliatório, “que
por meio desta subscrevo” (12.4). Se digo “Por meio disto
subscrevo um princípio tal e tal”, isto é tão bom quanto enun­
ciar efetivamente o princípio; as palavras “por meio disto subs­
crevo”, por assim dizer, eliminam as aspas, da mesma forma
que “por meio disto prometo que obedecerei, servirei, amarei,
etc ” teria a mesma força na celebração de um casamento que
“Obedecerei, servirei, amarei, etc.” . Assim, na sentença “Se
você não lhe disser a verdade, estará violando um princípio de
“dever” que por meio desta subscrevo” (na qual substituí “de­
ver” por “dever”) há um vivo elemento imperativo. Mas na sen­
tença “Bem no momento em que a maioria das pessoas (inclu­
sive eu) concordaria em dizer ‘Ele devia estar chegando à
peça’, ele estava, etc.” , esse elemento imperativo, embora não
morto, está moribundo.
Não está morto porque a diferença entre “por meio desta
subscrevo” e “eu concordaria” é somente de grau e, portanto,
ao dizer que eu concordaria que ele devia estar chegando,
estou, de certa forma, dizendo que ele devia estar chegando. Se
minha observação deve ser tomada como primariamente infor­
mativa ou primariamente avaliatória em intenção é uma ques­
tão de ênfase muito sutil. Assim, por meio desta definição adi­
cional, conseguimos dar a “dever” algo da flexibilidade entre
os usos avaliatório e descritivo que “dever” tem na linguagem
comum. Pode-se afirmar que sé, dê;repente; fôssemos privados
do uso das palavras de valor comuns, com o tempo, utilizando
minhas palavras de valor substitutas, poderíamos vir a usá-las
com a mesma sutileza com que usávamos as antigas; a ferra­
menta. da forma como a criei, ainda é tosca, mas pode tomar-se
mais fácil de manejar com o uso.
"DEVER ” 209

Pode-se fazer mais uma objeção a “dever” como substituto


para “dever”. Pode-se dizer que as sentenças de “dever”, de
algum modo, não teriam a “autoridade” que se associa a senten­
ças de “dever” na linguagem comum. Quando eu usasse “dever”,
estaria somente dizendo às pessoas que realizassem certo tipo de
ato, mas quando digo na linguagem comum que elas devem rea­
lizar certo tipo de ato não é apenas eu que estou dizendo isso,
estou apelando a um princípio que, em certo sentido, já está Щ
como os filósofos morais estão constantemente dizendo, é obje­
tivo' Este não é o lugar para reafirmar detalhadamente o que já
disse muitas vezes: que osjuizos morais não podem ser mera­
mente afirmações de fato, e que, se fossem, não desempenha­
riam as tarefas quê desempenham, nem teriam as características
lógicas que efetivamente têm. Em outras palavras, os filósofos
morais não podem manter as duas coisas: têm de reconhecer o
elemento irredutivelmente prescritivo nos juízos morais ou têm
de concordar que os juízos morais, tal como interpretados por
eles, não orientam as ações como obviamente orientam quando
comumente compreendidos. Aqui será suficiente indicar que S
que denominei a força descritiva que osjuizos morais .adquirem '
por meio da aceitação geral dos princípios em que se baseiam já
é suficiente para explicar a sensação que temos, quando recorre­
mos a iim principio moral, de que estamos recorrendo a algo q m
já está íá. Em certo sentido, realmente está lá se nossos pais e
avós durante inumeráveis gerações concordaram todos em subs­
crevê-lo, e ninguém pode violá-lo sem um sentimento de pesar
engendrado por anos de educação, Se todos concordassem -
com completa convicção - que um determinado tipo de ato não
deveria ser realizado, então, ao dizer que ele não deve ser reali­
zado, falo com uma autoridade que não é minha. E meu conhe­
cimento de que falo com autoridade - de que não necessito fazer
mais nada além de subscrever um princípio que já está bem esta­
belecido - é, em certo sentido, um conhecimento de fato.
Devemos, porém, distinguir cuidadosamente dois elementos no
juízo? Que o princípio é bem estabelecido (*.<?., que todos con-
210 A LINGUAGEM DA MORAL

cordariam com ele) e que tenho sentimentos de pesar se o violo


são fatos, mas, quando subscrevo o principio, não afirmo ura
fato, tomo uma decisão moralyMesmo que a tome negligente­
mente - mesmo que eu simplesmente aceite sem reflexão os
padrões em que fui criado - estou, num sentido importante, tor-
nando-me responsável pelo juízo. E isso significa que, se for
mesmo um juízo avaliatório, não posso meramente aceitá-lo
como dado. Como Kant percebeu, os ju ízo s propriamente
momis:devem,assentar-se Qa “propriedade que tem a vontade de
ser uma lei para si mesma^independentemente de todas as pro­
priedades dos objetos da volição')”’.
Concluindo, pediria ao leitor que recordasse o que foi dito
no final da Primeira Parte deste livro. Lá, depois de perguntar
por quais tipos de raciocínio e a partir de que premissas pode­
ríamos conseguir respostas à pergunta “Que devo fazer?”, ex­
pliquei como os1.princípios mórais^em que se deve assentar tal
raciocínio são estabelecidos, e, depois de dizer que as sentenças
de “dever” podiam exprimir tais princípios, finalizei com "Tor­
nar-se moralmente adulto é [. . .] aprender a usar sentenças de
‘dever’ na compreensão de que elas só podem ser verificadas
pela referência a um padrão ou conjunto de princípios que, por
nossa própria decisão, aceitamos e tornamos nosso”. Assim,
chegamos agora num ponto em que podemos perceber clara­
mente como a discussão da lógica das palavras de valo/na Se­
gunda e Terceira Partes deste livro está ligada à discussão do
modo imperativo na Primeira Parte. Se a análise de “dever” que
acabo de esboçar tem alguma relação estreita com o uso de
“dever” na linguagem comum, isso mostra como os juízos m i­
ráis proporcionam razões para agir de uma form a em vez de
oitra. E entendo que mostrar isso é um dos propósitos princi­
pais da investigação ética.
210 A LINGUAGEM DA MOFL4L

cordariam com ele) e que tenho sentimentos de pesar se o violo


são fatos, mas, quando subscrevo o princípio, não afirmo um
fato, tomo uma decisão morais Mesmo que a tome negligente­
mente - mesmo que eu simplesmente aceite sem reflexão os
padrões em que fui criado - estou, num sentido importante, tor­
nando-me responsável pelo juízo. E isso significa que, se for
mesmo um juízo avaliatório, não posso meramente aceitá-lo
como dado. Como Kant percebeu, os ju íz o s propriamente’
morais devem assentar-se na ‘‘propriedade que tem a vontade de
ser uma lei para si mesma4 independentemente de todas as pro­
priedades dos objetos da voliçãof”3.
Concluindo, pediria ao leitor que recordasse o que foi dito
no final da Primeira Parte deste livro. Lá, depois de perguntar
por quais tipos de raciocínio e a partir de que premissas pode­
ríamos conseguir respostas à pergunt# “Que devo fazer?”, ex­
pliquei como os princípios mórais^em que se deve assentar tal
raciocínio são estabelecidos, e, depois de dizer que as sentenças
de “dever” podiam exprimir tais princípios, finalizei com “Tor-
nar-se moralmente adulto é [ . . . ] aprender a usar sentenças de
‘dever’ na compreensão de que elas só podem ser verificadas
pela referência a um padrão ou conjunto de princípios que, por
nossa própria decisão, aceitamos e tornamos nosso” . Assim,
chegamos agora num ponto em que podemos perceber clara­
mente como a discussão da lógica das palavras de valo^na Se­
gunda e Terceira Partes deste livro está ligada à discussão do
modo imperativo na Primeira Parte. Se a análise de “dever" que
acabo de esboçar tem alguma relação estreita com o uso de
“dever” na linguagem comum, isso mostra como o$ juízos mo­
rais ¡-oporeionam razões para agir de uma forma em vez de
óutra. E entendo que mostrar isso é um dos propósitos princi­
pais da investigação ética.
Notas

PRIMEIRA PARTE

Capítulo 1

1.“The Semiotic Status of Commands”, Philosophy of Science, XII


(1945), 302.
2. Ver meu artigo “Imperative Sentences”, Mind, LVIII (1949), 21, do
qual se utiliza algum material aqui.
3. Ver especialmente Language, Truth and Logic, 29? ed., pp. 108-9.
Para uma apresentação posterior e mais equilibrada, ver “On the Analysis of
Moral Judgements”, Philosophical Essays, pp. 231 ss.
4. Ver, por exemplo, Ethics and Language, de C. L. Stevenson.
5. Philosophy and Logical Syntax, p. 24.
6. Language, Truth and Logic, 2? ed., p. 108.
7. Ethics and Language, especialmente p. 21.
8. Para um tratamento mais completo dessa questão, ver meu artigo
“Freedom of the Will”, Aristotelian Society, Vol. Suplementar XXV (1951),
201, do qual utilizei algum material aqui e em 10.3.
9. Cf. Stevenson, Ethics and Language, cap. X I.

Capítulo 2

1. Ver Principia Mathematica, i.9., de Russell e Whitehead.


2. Para alguns comentários interessantes sobre as noções afins de
“admitir” e “confirmar”, ver P. F. Strawson, “Truth”, Analysis IX (1948-9),
83, e Aristotelian Society, Vol. Suplementar XXIV (1950), 129.
3. Viscount Cunningham, A Sailor’s Odyssey, p. 162.
Notas

PRIMEIRA PARTE

Capítulo 1

1.“The Semiotic Status of Commands”, Philosophy of Science, XII


(1945), 302.
2. Ver meu artigo “Imperative Sentences”, Mind, LVIII (1949), 21, do
qual se utiliza algum material aqui.
3. Ver especialmente Language, Truth and Logic, 29a ed., pp. 108-9.
Para uma apresentação posterior e mais equilibrada, ver “On the Analysis of
Moral Judgements”, Philosophical Essays, pp. 231 ss.
4. Ver, por exemplo, Ethics and Language, de C. L. Stevenson.
5. Philosophy and Logical Syntax, p. 24.
6. Language, Truth and Logic, 2? ed., p. 108.
7. Ethics and Language, especialmente p. 21.
8. Para um tratamento mais completo dessa questão, ver meu artigo
“Freedom of the Will”, Aristotelian Society, Vol. Suplementar XXV (1951),
201, do qual utilizei algum material aqui e em 10.3.
9. Cf. Stevenson, Ethics and Language, cap. X I.

Capítulo 2

1. Ver Principia Mathematica, i.9., de Russell e Whitehead.


2. Para alguns comentários interessantes sobre as noções »fin« dt?
“admitir” e “confirmar”, ver P. F. Strawson, “Truth”, Analysis IX 1
83, e Aristotelian Society, Vol. Suplementar XXIV (1950), 129.
3. Viscount Cunningham, A Sailor’s Odyssey, p. 162.
212 A LINGUAGEM DA MORAL

4. Categorias, 6a 17.
5. Wittgenstein, Tractatus, 4.461.
6. Implicações mais complicadas, tais como da matemática, podem ser
abrangidas ampliando essa definição da seguinte maneira: a definição dada
seria tratada como definição de implicação direta, e a implicação indireta seria
definida como válida entre duas sentenças, PeR , quando houvesse uma série
de sentenças Qb Q2... Qn de tal modo que P implicasse diretamente Qh Q|
implicasse diretamente Q2, etc,, e Qr implicasse diretamente R. Mas mesmo
isso pode não ser suficientemente exato.
7. Para uma indicação de como os símbolos lógicos podem ser defini­
dos em termos das relações de implicação das sentenças que os contêm, ver
K, R. Popper, “New Foundations for Logic”, Mind, LVI (1947), 193, e “Logic
without Assumptions”, Aristotelian Society, XLVIII (1946-7), 251.
8. As razões por que muitas pessoas quiseram negar que os comandos
pudessem implicar ou ser implicados são principalmente históricas. Mas
Aristóteles fala de silogismos práticos além de teóricos (Movimentos dos
Animais, 701a 7 ss., / i 7 Nicômat 1144a 31). Ele tratou a premissa
maior do primeiro como um gerundivo ou uma sentença de “dever.. ”, ou de
outras formas, mas parece nunca ter se dado conta do quão diferentes dos
indicativos normais são essas formas. Além do mais, diz que a conclusão é
uma ação (nao um imperativo que impõe uma ação). Encontra a diferença
lógica principal entre raciocínio prático e teórico não no caráter prescritivo
daçflSèlè (o qüaí reconhece), mas no fàto de que, tendo de concluir em uma
ação, tem de se reterir a particularidades contingentes^ ó que, para ele, os silo­
gismos teóricos (por razões que deveríamos questionar) não podem fazer
(Ética a Nicômaco, 1129b 19 ss., 1140a31ss., 1147a2). Isso o levou a atri­
buir uma condição logicamente inferior às inferências práticas, embora sejam
fundamentais para toda a sua teoria ética; e seu trabalho sobre elas foi estra­
nhamente negligenciado. É interessante que sua definição geral de silogismo,
embora sempre dada num contexto indicativo, é por vezes (embora nem sem­
pre) colocada numa forma que poderia ser aplicada igualmente aos imperati­
vos: “©• silogismo consiste ém dizer, dadas determinadas coisas, algo mais
que se segue necessariamente delas” (Sophistical Refuíations, 165a 1; cf.
Tofies Í00ít25, Prior Analytics, 24b 18).
9. Uma tentativa nessas linhas já foi feita por A. Hofstadter e J. C. C.
McKinsey, “On the logic of lmperatives”, Philosophy of Science„VI (1939),
446 ss.; mas ver comentários de A. Ross, “lmperatives and Logic”, ibid. XI
(1944), 30 ss.
10. Para uma discussão de diferenças possíveis entre lógica imperativa e
indicativa, ver G. H. von Wright, “Deontic Logic”, Mind, LX (1951); é
importante perceber que a lógica imperativa moda} é tão distinta da lógica de?
imperativos simples como no caso do modo indicativo.
11. Platão, A República, 331c ss.
NOTAS 213

12. Ética a Nicómaco, 1096b 32,


13. Tratado, 1., L
14. Groundwork of the Metaphysic of Morals, tr. H. J. Paton, pp. 108 ss.
15. Moral Obligation, p. 4.
16. Para um ponto de vista semelhante, cf. W. K. Frankena, em The
Philosophy of G. E. Moore, ed. P. Schilpp, p. 100.
17. “On the Analysis of Moral Judgments”, Philosophical Essays, p. 240.
18. Dernières pensées, p. 225.
19. “What can Logic do for Philosophy?”, Aristotelian Society, Vol.
Suplementar XXII (1948), 154; cf. The Open Society, II. 51 ss.

Capítulo 3

1. Cf. Discurso do método, Parte V


2. Groundwork of the Metaphysic of Morals, tr. H. J. Paton, pp. 84-85.
3. Reason in Ethics, p. 38.
4. Philosophical Quarterly, I (1951), 372.
5. Logical Syntax of Language, pp. 184-5.
6. Logical Problem of Induction, cap. III.
7. Ética a Nicómaco, 1109b 23, cf. 1126b 4.

Capítulo 4

1. Cf. Romanos 221.


2. Ética a Nicômaco, I. 4.
3. Op. cit. I. 1,2.
4. Reason in Ethics, pp. 144 ss.
5. Cf. Groundwork of the Metaphysic of Morals, tr. H. J. Paton, p. 88.
6. Op. cit., pp. 108 ss.

SEGUNDA PARTE

Capítulo 5

1. Principia Ethica, p. 39.


2. Encontra-se um exemplo excelente de tal análise num artigo sobre
“The Incongruity of Counterparts”, de D. F. Pears, Mind, LXI ( 1452), 78.
3. Para uma crítica excelente deste lado da reíiilHçfio de Moore, ver A.
N. Prior, Logic and the Basis of Ethics, cap. 1.
214 A LINGUAGEM DA MORAL

Capítulo 6

1. Reason in Ethics, cap. II.


2. Ética a Nicômaco, 1097a 23,1141 b 12.
3. Ver, para discussão adicional deste ponto, minha crítica em Mind, LX
(1951), 430, de Value, a Co-operative Enquiry, ed. Ray Lepley.

Capítulo 7

1. Mind, LIX (1950), 152 (também em Logic and Language, II, ed.
Flew, 166).
2. Ethics and Language, cap. IX.
3. P. H. J. Lagarde-Quost, ‘The Bilingual Citizen”, Britain Today, dez.
1947, p. 13; jan. 1948, p. 13.
4. Social Sendees in the Oxford District, vol. 1, p. 322.
5. Kershaw, Sewage Purification and Disposal, pp. 213-14.
6. Thresh, Beale e Suckling, The Examination of Waters and Water
Supplies, 6“ed., cap. XX.
7. Kershaw, op. cit., p. 4.

Capítulo 8

1. Ver The Autocar, 17 agos. 1951, Editorial.

Capítulo 9

2. Mind, LIX (1950), 161 (também em Logic and Language, II, ed.
Fleru, 176).
3. Os trabalhos e os dias, 25.

TERCEIRA PARTE

Capítulo 10

1. Moral Obligation, p. 91
NOTAS 215

Capítulo 11

1. Cf. J. C. Flugel, Man, Morais and Society, especialmente o cap. III.


2. Ver G. H. von Wright, Logical Problem o f Induction, cap. III.
3. Ètica a Nicómaco, VII. 1 ss.
4. Estritamente, “sempre, se física e psicologicamente capaz”; cf. p. 20.
5. Principia Ethica, pp. 127-8.
6. SI 34,14.
7. Hymns Ancient and Modem (1950), n? 310.

Capítulo 12

1. Ver Sir David Ross, The Right and the Good, pp. 4 ss.
2. Ètica a Nicómaco, 1143b 23.
3. Groundwork, tr. H. J. Paton, p. 108.
índice remissivo

Ação, relevância dos juízos de valor Avaliatório, ver Descritivo(as); juí­


para, 3, 30-2, 135-8, 149-52, zos de valor
155, 158, 165, 172, 175, 183 s., Ayer, A. J„ 11,14,31.
208-10.
Admitir a divergência, 150 s. Bohnert, H. G., 9.
Afirmações e comandos, 6-11,19-25. Bom’*: modelo analítico de, 196-
Akrasia, VIII, 181. 200; aplicado a diferentes clas­
Analítico e sintético, 26, 38, 42 s., ses de objetos, 103-6, 141, 148,
89,92-7, 180 s., 185-7. 152; contrastado com “melhor
Aprender e ensinar, 4, 63-71, 74-81, que”, 196-9; contrastado com
142-4,155-8, 167-70,206. palavras descritivas, 87, 102-17,
Aprovação, teorias de, 7-9,11 s., 114; 119-24, 138-40; contrastado
ver também Emotivas, teorias. com “correto” e “dever”, 152 s.,
Aprovar, 85, 88, 90, 94-9, 124-7, 161-4,198; significado descriti­
137-42,147 s., 152-8,183. vo e avaliatório de, 117, 126-34,
“Arbitrário”, 61 s., 72. 154, 156-8; explicando o sig­
Aristóteles, 1, 25, 30, 33, 46, 49, 55, nificado de, 102-17; emprego
59,70 s., 77,107,146,191,199 s. intrínseco e instrumental de,
Aspas, 21, 39,132,176,179 s., 182, 105, 109 s., 145-8, 170-3; em­
185,207. prego moral e não-moral de,
Assentimento, 15, 20-3, 149-53, 145, 148-53, 171 s.; definições
180-4. naturalistas de, 88-99, 153; em­
Asserção, símbolo de, 21. pregos não-aprovatórios de
Atitudes, 13, 73. (“entre aspas”, irônico, conven­
Austin, J. L., 162. cional), 132-5, 143, 155-7; não
Autonomia da vontade, 30 s., 73 s., o nome de propriedade comum,
209. 104-6, 110, 113; usado para
A LINGUAGEM DA MORAL

aprovar, 85, 91, 94-9, 124, 135, 169 s., 182-4, 205-8; implica im­
148,154-8. perativos, 175-84, 187-91, 200-
10; uso hipotético e categórico de,
Caráter, 152 s., 198 s. 170-3; princípios, 166-9, 188 s.,
Carnap, R., 14,48. 204.
Coerência, necessidade de, em pa­ “Dever ter”, 167 s., 195 s., 204.
drões, 140, 142, 186 s. Discordancias: de vontade, 8; às ve­
Comandos, ver Imperativas, sen­ zes possíveis sem hostilidade,
tenças. 150 s.; morais, não verbais, 50.
Comparação, classe de, 103, 132,
141,148, 152, 171, 196. Efeitos de uma ação, 59 s., 71, 74.
Consciência, 44, 80, 182; ver tam­ “Eficiente”, 106.
bém Intuição. Emotivas, teorias 11-7, 82, 152.
Convencionalismo 47 s., 80,133,150, Ensinar, ver Aprender.
158,177, Escolher, 108-17,135-44, 165, 169,
“Correto”: 66,161-5,193-6; modelo 195 s., 197-9; ver também De­
analítico de, 194-7; e “bom”, cisões.
152 s., 161 s., 198 s. Ética definida, VII.
Critérios, 101-18; ver também Vir­ “Expressar”, 10-13.
tudes.
Fins, 9, 30, 37, 106,
Decisões, 3, 45, 52, 55 s., 59-81, Flew.A.G.N., 180,
209; de princípio, 53, 61 s., 68, Frankena, W. K., 213 n. 16.
72-81,143,168,209. Frástica, 19-30,38, 201-4.
Definições: 34, 48 s., 91-9, 140; de Frege, 21.
palavras de valor artificiais, Funcionais, palavras, 107 s., 120,
193-210; ostensivas, 93, 102, 141, 147,153,171.
113; persuasivas, 127; ver tam­
bém Naturalismo, Significado. Hall, E. W., IX.
Descartes, 33, 39 s. Hart, H.L.A.,55.
Descritivas e avaliatórias, palavras, Heteronomia da vontade, 30 s., 73 s. ,
101-6,110,113 s., 119-26,156 s. 209.
Descritivo e avaliatório de expres­ Hofstadter, A., 212 n. 9
sões de valor, significado 119, Hume, 30,46 s.
126-33, 143, 149, 154-8, 169 s.,
176, 186. Imperativas, sentenças: tentativas de
Dever, 64, 172, 177-82. redução a indicativas, 7-13; ten­
“Dever” (verbo): modelo analítico tativas de redução a expressões
de, 203-9; e “bom”, 162 s., 171, de desejo ou postura, 11-4; po­
196-200; e “correto”, 161-5, dem ser usadas em inferências,
194-9; significado descritivo de, 27-30; distinguidas de indicati­
secundário frente ao avaliatório, vas, 19-23; distinguidas de juí­
ÍNDICE REMISSIVO 219

zos morais, 4 s., 187-91, 200-3; Modais, sentenças 22 s., 212 n. 9


implicações por juízos morais, Moore, G. E., 31, 88-92, 185.
30 s., 175-84, 190, 205; função Morais e não-morais de palavras de
de, não causai, 13-7; regidas por valor, empregos 148-54,171 s.
regras lógicas, 26-30; hipotéti­ Morais, juízos: comparados com
cas, 9, 29, 34-40, 69, 107, 170, imperativos universais, 185-90;
206; podem ser analíticas ou au- veladamente universais, 137,
tocontraditórias, 24-6, 142 s., 164-7, 187; não propaganda,
186 s.; nunca completamente 15-7; nao puras afirmações de
universais, 5, 188-91,200 s.; não fato, 30, 208; às vezes avalia­
deriváveis a partir apenas de in­ tórios, 184; às vezes quase
dicativas, 29-32, 33,44,183; re­ factuais, 155, 157, 169 s., 190,
feri ndo-se a estados de coisas, 208; ver também Julgamentos
24; universais, 4 s., 12, 27, 29, de Valor.
142 s, 187-91; ver também Prin­ Moral, reforma, 76, 127, 158,206.
cípios. Moral, ensino, 4, 64, 67, 69 s., 74-
Imperativo enriquecido, modo, 200-6. 81, 155-8, 167 s., 206; ver tam­
Implicação, 26 s., 46, 87, 119,164. bém Aprender.
Imprecisão: alegada, de inferências Motivo, 198 s.
avaliatórias, 46; de princípios, Mudanças: em princípios, 52-6, 66-
50-6; de palavras de valor, 123, 8, 76-9, 144; em padrões, 127-
197, 30, 144,156-8.
Indicativas e imperativas, sentenças,
6-11,19-25. Naturalismo e refutação de Moore,
Induzir a e ordenar, 15-7 7,10,31,87-99,153,155,164 s.,
Inferência: dedutiva, 33, 39-44; de­ 183-7.
pendente do significado, 26 s., Negação, 22 s.
34,48; imprecisa, 46-56; não-ver­ Nêustica, 19-24, 28, 38,201 s.
bal, 66 s.; regras de, 26 s., 48-51.
Intuição, 31, 67,77-81, 177, 182. Objetivismo, 77, 80; ver também In-
Ironia, 129, 133, 157. tuieionismo.
Obrigação, senso de, 177-82; ver
Justificação de ações, 71 s. também “Dever” (verbo).
Ordenar e induzir a, 14-7.
Kant, 17,31,46,73, 171,185,210.
Padrões: 9, 37, 69, 119-48, 153-5; e
Leibniz, 137. princípios, 142 s., 169; como se
Lógicas alternativas, 25, 28,205. estabelecem, 104, 158; como se
Lógicas, palavras, 23,26-9, 33,49. modificam, 127-9, 144, 156-8;
Lógica trivalente, 25,205. ver também Descritivo, signifi­
cado,
McKinsey, J. C. C., 212 n. 8. Pears, D. F., 213 n. 2
Menção e uso, 20,132 s., 207 s. Persuasão, 14-7,127,
220 A LINGUAGEM DA MORAL

Platão, 30,158,159, Stevenson, C. L., 14, 73, 128, 211


Poincaré, 32, n. 4,211 n. 9.
Popper, K. R., 32, 49, 50, 212 n. 7. Strawson, P. F., 211 n. 2
Prazer, 61, 71 s. Subjetivismo, 80 s.
Prediçao, 62, Superveniencia, 86 s., 139, 142,153,
Prescrição, 3-17,47, 85, 88,165-8, 163 s., 169.
Prichard, 31,171 s.
Princípios: 3 s., 59, 61-81, 142-4, Terceiro excluído, lei do, 25 s., 204 s.
166-72; e padrões, 142 s., 169; Toulmin, S. E., 46,71,102.
fanção no aprendizado, 63 s.,
168; como se formam, 62; como Urmson, J. O., 114n. 1, 135, 148.
se modificam, 52-6, 66-8. 76-9; Uso e menção, 20,132 s., 207.
morais e não-morais, 69,172; não Utilitarismo, 9, 59 s., 71 s.
necessariamente enunciados, 63,
66 s.; não evidentes por si mes­ Valor, juízos de: e decisões de princí­
mos, 39-46; provisórios, 53, 65, pio, 73,143 s., 168,209; velada-
67 s.; vazios, 70; ver também Im­ mente universais, 137, 164-6,
perativas universais, sentenças. 187, 205; definidos, 180; distin­
Prior, A. N., 213 n. 3 guidos de imperativos, 137, 165-
8, 187-91, 193, 200-4; distingui­
Propaganda, 15-7.
dos de enunciados psicológicos e
Propriedades, 101.
sociológicos, 113-7,178-81,182
“Provável”, 62 s.
s.; implicando imperativos, 30 s.,
175 s., 183 s., 193-210; “aspas”,
“Querer”, 7 s., 35 s.
uso de, 39,132,176,179 s., 182;
morais b não-morais, 4 s., 148-
Racionalidade, 16,43.
54, 170-3; relevância de, para a
Rashdall, 31.
ação, 3, 30-2, 135-8, 149-53,
Reducionismo, 4, 7-14, 193. 155, 158, 165, 172, 175, 183 s.,
Relativismo moral, 151. 208-10.
Ross, A., 212 n. 9 Valor, palavras de: difusão ampla de,
Ross, Sir David, 215 n. 1 na linguagem, 61, 85; no silogis­
Russell, Earl, 21. mo prático, 45, 54, 60 s.; ver
também Descritivo.
Sentenças, classificação de, 6. Verificacionista, teoria; do signifi­
Significado: explicar, 102-17, 122, cado 10,24,47.
140; inferência dependente de, Virtudes, 139, 141, 145-8, 171; ver
26 s., 34, 48; dois sentidos de, também Critérios.
116, 122,125-7,172.
Silogismo prático e teórico, 59-62, Whitehead, 21.
212 n. 8. Wittgenstein, 33, 102, 212 n. 5.
Sinceridade, 15,21 s., 181, Wright, G. H. von, 49, 212 n. 10,
Sintético: ver Analítico; a priori, 88. 215 n. 2.
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