You are on page 1of 1

DOENÇA DE POTT: RELATO DE CASO

BIONDO, C M P; LEITE, L; DA CUNHA, J P P


UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ

INTRODUÇÃO DISCUSSÃO

A espondilite tuberosa é uma forma de tuberculose extrapulmonar Embora possa acometer quaisquer ossos ou articulações, o local
caracterizada por focos de infecção na coluna vertebral.1-3 Também mais frequentemente acometido pela tuberculose esquelética é a
chamada de doença de Pott (DP), corresponde a até 2% do total de região inferior da coluna torácica e superior da coluna lombar.1-4
casos de tuberculose.4 O diagnóstico é frequentemente atrasado Geralmente é secundária à disseminação hematogênica do
devido ao curso subclínico da doença e costuma ser definido apenas Mycobacterium tuberculosis, com reativação do foco infeccioso
quando já existem sintomas de compressão medular.1 Este relato em paciente com supressão das defesas imunes locais.1,3
ressalta a importância da suspeição dessa patologia, visando ao Apesar de não haver história de tuberculose pulmonar, a
diagnóstico e tratamento precoces, com impacto nos desfechos. apresentação clínica da paciente é compatível com o descrito
pela literatura – início insidioso de dor local, com piora
RELATO DE CASO progressiva e, por vezes, rigidez em coluna. Sintomas de
compressão medular estão presentes ao diagnóstico em 40 a
Paciente do gênero feminino, 36 anos, admitida no Hospital de 70% dos casos, com paraplegia e alterações esfincterianas em
Clínicas da UFPR em abril de 2015 com quadro de lombalgia, fases mais tardias da doença.1-4 Em consonância com o caso,
paraplegia súbita e incontinência urinária, iniciado há um mês. sintomas constitucionais como febre e perda de peso são pouco
Referia presença de massa em dorso de crescimento progressivo, prevalentes, presentes em menos de 40% dos casos.1
há cerca de 1 ano, não associada a febre. Relatava diagnóstico de Exames de imagem demonstram lesões destrutivas do corpo
artrite idiopática juvenil (AIJ) há 16 anos em tratamento com vertebral e abscessos paravertebrais conforme observado neste
metotrexate 10 mg/semana. caso. A RNM é particularmente útil para precisar o acometimento
Ao exame físico, apresentava-se emagrecida, com presença de de partes moles e medula espinhal.1-3 Provas de atividade
tumoração paravertebral em nível de T8, sem sinais flogísticos. Ao inflamatória são pouco sensíveis e específicas, enquanto a prova
exame neurológico, havia força muscular grau 0 em membros tuberculínica é positiva em 84-95% dos pacientes.4
inferiores, acentuada hipotrofia muscular e sensibilidade Um dos desafios no diagnóstico da DP é a não concomitância de
preservada. Reflexos patelares ausentes e reflexo aquileu bilateral apresentação clínica inicial com a tuberculose pulmonar ativa em
com presença de clônus. Os exames laboratoriais demonstraram mais da metade dos casos.1 Deve-se ter elevado grau de
anemia (hemoglobina 11,4 g/dL), VHS 49 mm/1ª hora e PCR 2,4 suspeição em pacientes com anormalidades ósseas focais e
mg/dL. Ressonância magnética (RNM) demonstrou coleção radiografia de tórax ou história compatíveis com tuberculose.
perivertebral epidural de T7 a T12, com colapso de corpo vertebral e O diagnóstico é estabelecido por microscopia e cultura do
compressão medular em nível de T7 (figura 1). Após drenagem do material infectado, obtido por aspiração por agulha ou biópsia. A
abscesso, obteve-se biópsia positiva para BAAR e histopatológico presença de inflamação granulomatosa e necrose caseosa em
sugestivo de osteomielite granulomatosa tuberculoide, realizando-se exame histopatológico é fortemente sugestiva.1-3 O diagnóstico
o diagnóstico de DP. Então a paciente foi submetida a tratamento diferencial é realizado com metástases ósseas,
com rifampicina, isoniazida, pirazinamida e etambutol (RIPE). espondiloartropatias e osteomielites.1
A paciente recebeu alta para planejamento de nova intervenção O tratamento consiste em terapia medicamentosa e, em alguns
cirúrgica após melhora do quadro infeccioso, devido à manutenção casos, intervenção cirúrgica. No uso de terapias de primeira
do quadro de paraplegia e incontinência urinária. Submetida escolha e ausência de infecção por HIV, a maioria dos autores
novamente à cirurgia em dezembro de 2015, evoluiu com reversão indica duração de 6 a 9 meses. Em casos de doença avançada –
dos déficits neurológicos. Suspenso o esquema RIPE em maio de situação deste relato – uma duração mais prolongada é
2016 e metotrexate em fevereiro de 2017, a paciente mantém-se necessária.1
em boa evolução. A intervenção cirúrgica pode promover descompressão,
estabilização, drenagem e debridamento, sendo necessária em
alguns casos cirurgia reconstrutiva após a terapia
medicamentosa.1, 3

CONCLUSÃO

O diagnóstico da DP permanece sendo um desafio para o clínico,


especialmente nas fases precoces e em pacientes
imunossuprimidos. Nesse contexto, é crucial a suspeição de tal
diagnóstico em pacientes provenientes de áreas endêmicas, com
história sugestiva de infecção por tuberculose ou sintomas
característicos.
Figura 1: Imagem sagital (A) e axial (B) de RNM ponderada em T2.

Referências:
1. McDonald M, Sexton DJ. Skeletal tuberculosis. Uptodate. 2016.
2. Lopes AJ, Capone D, Mogami R et al. Tuberculose extrapulmonar: aspectos clínicos e de imagem. Pulmão RJ. 2016; 15(4):253-261.
3. Melo MCP et al. Mal de Pott: uma revisão bibliográfica dos últimos 5 anos. Com. Ciências Saúde. 2014; 25(2): 173-184.
4. H. Yanardag et al. Tuberculous Spondylitis: Clinical Features of 36 Patients. Case Reports in Clinical Medicine. 2016; 5(1): 411-417.