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O AUTOCONHECIMENTO DA CRIANÇA EM PSICOTERAPIA INFANTIL NA

OTICA FENOMENOLÓGICO-EXISTENCIAL
Vânia Midori Bruneli

Disponível em: www.psicoexistencial.com.br

1 - CONSIDERAÇÕES INICIAIS

Quando pensei sobre o que escrever no meu trabalho de conclusão de curso de


Psicoterapia fenomenológico-existencial, logo me veio a idéia de escrever sobre meu
trabalho com crianças. Assim que me formei e comecei a atuar na clínica, um dos meus
primeiros grandes desafios foi atender “crianças-problema”, segundo seus pais. O
atendimento psicoterápico infantil foi se tornando inevitável, sendo a maior demanda
que eu tinha na época (março de 2006) e, embora eu considerasse muita
responsabilidade atendê-las, resolvi encarar e aceitar esse desafio pessoal e profissional.
No momento em que meus primeiros pacientes crianças apareceram, senti
insegurança, pois, na maioria dos casos elas vinham acompanhadas de pedidos de
avaliação psicológica solicitadas por parte da escola ou de médicos (o que me deixou
ainda mais apreensiva, pois seria a primeira vez que assinaria um documento
psicológico com meu nome e registro profissional) e também com uma grande cobrança
dos pais, que sempre demonstravam querer efeitos mágicos e rápidos para ajudar seu
filho.
Assim, como todo profissional recém-formado tem que começar de alguma
forma atuar, comecei. Aceitei esse desafio e comecei a dar meus primeiros passos como
psicóloga clínica e também na psicoterapia infantil. Logo de início, dediquei-me muito
ao meu trabalho (e os poucos pacientes que tinha me propiciaram isso). Comecei a
atender e, ao mesmo tempo, estudar as possibilidades do meu existir enquanto psicóloga
de crianças. Algo que me ajudou de maneira importantíssima neste início foi a leitura de
alguns textos da área de psicoterapia infantil, em especial textos escritos por Vanessa
Maichin, Débora Azevedo e o livro de Violet Oaklander (meu livro de cabeceira durante
alguns meses).
Com a leitura dos textos citados e com os conhecimentos adquiridos nos cinco
anos de faculdade, fui dando forma a minha maneira de trabalhar na clínica. Comecei a
atender meus “pacientinhos”, desenvolvi muitas atividades com eles, atendi seus pais,
desenhamos, brincamos, realizei o psicodiagnóstico, a entrevista devolutiva aos pais e
percebi que, aos poucos, tanto as crianças como eu, crescíamos. Feitos esses primeiros
trabalhos, algo me intrigou: passava a maior parte do tempo com as crianças e, na hora
da devolutiva do processo terapêutico, eram os pais que recebiam um relatório (verbal
ou escrito) com linguagem própria para eles (o qual dificilmente a criança entende).
Questionei-me: “Onde fica a criança nesse processo de devolutiva?” Também realizo
devolutivas parciais no decorrer do processo para as crianças, repassando percepções e
observações, visando torná-las participantes, mas ainda assim não me parecia suficiente.
Queria ajudar mais aquela pessoa pequena, que se tornou tão especial para mim, a
entender melhor o sentido do estar em terapia; o sentido de ficar todo aquele tempo
comigo e depois deixar de me encontrar. Queria ajudá-la entender o que aconteceu com
ela durante esse tempo que caminhamos juntas. Foi a partir de então que decidi escrever
um livro sobre a criança: sobre sua vida, sobre a queixa inicial, sobre o processo
psicoterapêutico, sobre a avaliação feita e sobre os resultados. Tudo isso junto com ela e
falando dela. Para que, assim, ela realmente pudesse entender a si mesmo e o seu
existir, e também me ajudar a desvendar ainda mais o seu modo de ser-no-mundo. Aqui
está o objetivo deste trabalho: mostrar a minha maneira de cuidar e olhar a criança no
processo devolutivo (e, muitas vezes, final) da psicoterapia.
Vale lembrar que a primeira vez que entrei em contato com este tipo de trabalho
de devolutiva para criança foi no texto de Débora Azevedo (2002), no qual ela cita
Elizabeth Becker e Mary Santiago. Segundo Azevedo (2002),
“Trata-se de realizar a devolutiva final com a criança
através de livros infantis, os quais são
confeccionados pelo próprio psicólogo. É um livro
com a história da criança. Escolhe-se um
personagem principal, que pode representá-la, pode
ser humano, animal ou inanimado, um personagem
já conhecido ou até inventado. A história da criança
é reescrita e ilustrada desde o seu nascimento. Dá-se
um enfoque ao modo de ser dela e dos que a
rodeiam. A trama gira em torno dos acontecimentos
presentes, revelando as dificuldades que a trouxeram
ao psicólogo e propondo alternativas” (p. 119)

A partir da idéia que as autoras trouxeram, tentei visualizar um trabalho


pensando nas crianças que atendia. Foi então que comecei a desenvolver e a criar o livro
de devolutiva para a criança sobre ela própria, sendo ela a personagem principal e
autora colaboradora do livro.
Considerando o exposto, realizarei uma fundamentação teórica dos assuntos
abordados no decorrer do trabalho, para depois relatar um caso atendido por mim,
utilizando-o como base para o desenrolar do meu trabalho. A partir dele, relatarei a
minha maneira de atender e realizar a devolutiva para a criança envolvida no processo
terapêutico, como também os êxitos alcançados com esse método de trabalho.
Buscarei neste trabalho apenas mostrar uma maneira de ajudar a criança a se
conhecer melhor após o processo de psicodiagnóstico ou mesmo depois de algum tempo
de psicoterapia. Não tenho a pretensão de trazer algo conclusivo nem algo estanque
sobre a devolutiva nos processos de avaliação psicológica. O que pretendo é ampliar as
possibilidades na hora da devolutiva para as crianças, dividindo com os leitores a minha
maneira de atuar e a pequena experiência na clínica com meus “pacientinhos”.

2 - DESCRIÇÃO DO CASO
2.1 - O CASO GUSTAVÃO
A mãe de Gustavo, Márcia, me procurou “desesperada” pedindo ajuda para seu
filho. Ela relatou que certo dia foi levar seu filho mais novo, Guilherme, a uma consulta,
e o médico reparou que Gustavo, que estava apenas acompanhando a mãe e o irmão,
demonstrava grande agitação e ansiedade. Com isso, sugeriu que a mãe o levasse a um
neuropediatra para uma avaliação. No dia da consulta com o esse médico foi solicitada
uma avaliação psicológica de Gustavo, de nove anos. O garoto foi diagnosticado como
hiperativo.
Por conta deste fato, Márcia me procurou. A percepção do neuropediatra foi
valiosa, pois, além da agitação constatada, Gustavo ainda apresentava outros
comportamentos inadequados, com os quais a mãe não sabia lidar. A queixa trazida era
que Gustavo sempre foi um menino muito agressivo com ela, que só a obedecia quando
ela o ameaçava. A mãe disse ser muito punitiva, pois nunca soube controlar esses
comportamentos de Gustavo. Além disso, Gustavo tinha enurese noturna. Mencionou
também que o menino não tinha limites, não se comportava bem na escola e estava
muito mal nas atividades escolares. Outra queixa era que Gustavo comia muito e era
preguiçoso.
Com isso, dei início ao trabalho. A avaliação psicológica foi solicitada em boa
hora, Gustavo realmente estava precisando de ajuda. O que também ajudou foi que, na
ótica fenomenológico-existencial, não apenas avaliamos mas também intervimos ao
longo do processo, buscando desta forma, tornar esta primeira fase da terapia, não
apenas avaliativa, mas também terapêutica.
Assim, o trabalho com Gustavo começou a dar seus primeiros passos. Ainda
estava aprendendo quando comecei a atendê-lo, e na verdade, tudo era novidade para
mim. Comprei os brinquedos para a caixa lúdica e fui me estruturando enquanto
psicóloga. Mesmo com todos os brinquedos da caixa, ele adorava brincar com um
porquinho de cerâmica que fazia parte da decoração da clínica onde eu atendia.
As primeiras sessões com a mãe e a criança já foram reveladoras. A mãe se
mostrou muito atarefada e ansiosa, sem ter controle algum sobre seu filho. Para ela, era
mais fácil bater ou ameaçar do que orientar, educar, conversar com a criança. Observa-
se que este comportamento é considerado “comum” hoje em dia não apenas na família
de Gustavo. Os pais trabalham tanto que filhos ficam no plano secundário, e se “der
tempo” eles orientam e conversam. Assim, conseqüentemente, o bater, que realmente
possui efeito imediato, resolve o conflito na hora, o que não quer dizer que aquele
mesmo conflito não vai retornar (e talvez retorne de uma forma mais forte). Foi possível
perceber que na família de Gustavo o xingar, o bater e os gritos eram constantes.
Percebi também que essa mãe também estava precisando de ajuda (embora ela não
percebesse isso).
Além dessa dificuldade com o filho mais velho, a mãe revelou conflitos
conjugais com seu esposo. Este, por sua vez, deixava toda a responsabilidade de “ser
pai” nas mãos de Márcia. Ele era caminhoneiro e pouco tempo passava em casa. Assim,
quando estava em casa, queria agradar os filhos, sem perceber os conflitos familiares
existentes. Era mais fácil criticar a mãe por não saber educar seus filhos. Na verdade,
nem tempo para as crianças ele tinha. O tempo em que ficavam juntos era na hora de
trabalho, no qual os filhos ficavam “ajudando” o pai com as cargas e descargas do
caminhão.
Nessas primeiras sessões, alguns aspectos importantes já foram notados.
Comecei então, a atender Gustavo sozinho. Que garoto “doce” ele se apresentou a mim,
respeitava as regras e os limites impostos, embora, em alguns momentos, eu precisasse
repetir a orientação. Ele não conseguia se aquietar, as mãos “falavam” o tempo todo,
balançavam o tempo todo, os seus pés também. Brincava com algo, logo se cansava e
buscava outra diversão. Ele gostava muito de brincar com as peças de uma fazendinha
que tinha na caixa lúdica e com os animais. Em muitos momentos, ele se mostrava
meigo, carinhoso e caprichoso. Essas características não foram relatadas pela mãe,
sendo que ela focou-se apenas as características negativas.
As sessões foram se passando e Gustavo passou a ter confiança em mim e vice-
versa. Eu respeitava suas vontades algumas vezes (deixando-o brincar do que quisesse),
e ele respeitava as imposições de limites dados. Acredito que o procedimento ou técnica
aplicada depende da criança e da situação, cada sessão é sempre imprevisível. O
importante era que em cada encontro Gustavo e eu estávamos juntos. Ele aprendeu a me
conhecer como alguém que o aceitava, que era sincera com ele. “Pode ser que dessas
atividades não surja nada que pareça terapeuticamente significativo, mas eu sei que
alguma coisa está acontecendo o tempo todo”(Oaklander, 1980, p.219).
Após algumas sessões e do bom vínculo estabelecido entre mim e Gustavo,
considerei importante conhecer a sua escola, principalmente por que a mãe mencionava
que havia muitas reclamações de Gustavo naquele contexto. Assim, após autorização da
criança e de sua mãe, fui conhecer sua escola, buscando uma maior compreensão de
Gustavo no ambiente escolar, assim como entender o olhar da escola em relação a ele
(Maichin, 2004). Para minha surpresa, a professora de Gustavo, me passou uma
descrição que poderia ser considerada de outra criança. Segundo ela, Gustavo tinha
momentos de “falta de vontade”, de bagunça, mas não era tão significativo que o
diferenciasse totalmente dos outros garotos da turma. Na verdade, ele fazia o que os
outros garotos também faziam.
Percebi uma certa contradição: a fala da mãe não correspondia com aquilo que
eu observava na clínica e também não era a mesma percepção que a professora tinha da
criança. Tentei observar melhor aquele arranjo familiar e considerei importante marcar
uma visita domiciliar. Através da visita domiciliar busca-se, mais uma vez, ampliar a
visão e a compreensão da criança em atendimento, como também, tentar entender as
relações que se estabelecem na família e observar o espaço que a criança tem em sua
casa (Maichin, 2004).
Para tanto, marquei uma visita domiciliar, no dia da folga do pai de Gustavo.
Mas ao chegar à casa, percebi a sua ausência. Ele teve um “compromisso de trabalho
inadiável”. Chegando lá, eles quiseram me mostrar as fotos da família. Guilherme, o
irmão mais novo de Gustavo, também estava lá. Ele tinha seis anos e demonstrou ser
uma criança adorável, educada e responsável. Parecia um adulto em miniatura.
Enquanto Gustavo falava rápido e agitado, querendo me mostrar várias fotos ao
mesmo tempo, Guilherme mostrava os retratos calmamente e conseguia explicar cada
foto sem problema ou confusão. Os dois permaneceram ao meu lado e percebi que com
o tempo, Gustavo foi “murchando”, diminuindo, até se retirar do quarto onde estávamos
e ir para a sala assistir televisão. Considerei este movimento muito importante. Por que
ele se retirou? Estava ali para ele, por ele, por que não ficou comigo? Percebi ainda que
Guilherme corrigiu Gustavo por diversas vezes. Ficou claro que Gustavo não gostava
daquilo.
Feita a visita domiciliar, continuamos com os atendimentos na clínica. Certo dia,
Guilherme acompanhou Gustavo à clínica, pois queria conhecer os brinquedos que o
irmão sempre falava. Nesta sessão, através de atividades lúdicas, eu me questionava:
“Cadê Gustavo? Onde está aquele garoto que brincava, conversava e perguntava a toda
hora?” Tudo o que ele costumava fazer nas sessões anteriores desapareceu naquela
sessão em especial. Tudo o que ele conseguia fazer sozinho, deixou de fazer. Percebi
algo mais: quem fazia as atividades por Gustavo era Guilherme. Era ele quem tomava
frente e resolvia os problemas do irmão. Guilherme realmente parecia entender e fazer
melhor que o irmão mais velho. Gustavo mencionou: “– Vânia, ele pode responder por
mim, pois ele lembra mais do que eu”.
Ainda no período de psicodiagnóstico, chamei a mãe para uma sessão e apontei
minha percepção sobre a dinâmica familiar e sobre o comportamento de Gustavo frente
a Guilherme. Foi então que a mãe revelou mais aspectos importantes. Para ela,
Guilherme era “o filho responsável, faz de tudo, me ajuda a corrigir o Gustavo. Ele até
me corrige. É ele quem me diz o que o Gustavo fez de errado na escola, se não está indo
bem, se está fazendo bagunça”. A partir de então, comecei a entender um pouco do
modo de ser-no-mundo de Gustavo. Constantemente ele era comparado a um irmão
mais novo, que servia sempre de exemplo e tinha o poder e direito de corrigi-lo. Era o
mais novo que sempre estava certo, a mãe quase não escutava Gustavo.
Era nítido o sentimento de inferioridade que Gustavo tinha em relação aquele
irmão mais novo. Em uma sessão, através da elaboração de uma estória sobre animais, o
fenômeno que apareceu foi o seguinte: “Era uma vez um elefante e o rei leão. Eles se
conheceram e resolveram se casar. Eles tiveram dois filhos. Um era comilão e o outro
não comia muito. A mãe estava comendo uma maça. Um dia o rei leão foi passear.
Quando o rei leão foi pegar o seu filho, ele voltou batendo no filho, por que ele tinha
ido e não tinha voltado. Ai a mãe estava fora de casa e o filho foi buscá-la. Tinha um
homem que queria matar ela. O filho foi defender e morreu. Quem matou foi o rei leão
do mau. O rei leão bom não defendeu por que estava cuidando do filho mais novo”. Não
precisava de interpretações, questionamentos e nada mais.
Fui compreendendo a dinâmica daquela família: era Gustavo, o irmão mais
velho, quem fazia “xixi na cama”; era Gustavo o filho que chamou atenção do médico;
que foi levado a psicóloga; era sempre ele quem dava mais trabalho para a mãe; era
sempre ele quem arrumava confusão; era esquecido; mal educado, etc. Por que então,
ser um bom garoto se a família já tinha um exemplo de criança? Por que ser um bom
filho, se a mãe já havia elegido o melhor? Nestes questionamentos, não cito o pai, pois
ele sempre foi ausente no decorrer do processo psicodiagnóstico, tanto por conta do
trabalho, quanto por “medo” da psicóloga, devido provavelmente a uma imagem criada
culturalmente. Ele parecia fugir das sessões marcadas. Sempre surgiam imprevistos.
As dez sessões aproximadas combinadas com a mãe para entregar a avaliação
psicológica chegaram ao fim. Elaborei a avaliação, acreditando que aquela mãe não
gostaria daquilo que escreveria. Assim sendo, marquei a sessão de devolutiva, na qual
falaríamos sobre a avaliação. Li para ela e Gustavo. Gustavo não se atentou muito a
minha leitura, nem aos meus apontamentos, estava desligado. Parecia se distrair com
facilidade e pareceu não entender o valor daquela leitura. A mãe concordou comigo,
mas parecia muito mais preocupada em pegar aquela avaliação psicológica e entregar
para o neuropediatra que solicitou do que acompanhar de fato o processo terapêutico.
A partir de então, percebendo a falta de concentração de Gustavo da hora
devolutiva, comecei novamente a me questionar sobre este momento de feedback para
os pais e para a própria criança. Queria que Gustavo escutasse tudo aquilo para que
tentasse ao menos compreender que não era só ele quem precisava de ajuda, mas
também toda a sua família. Ele já foi tão apontado como “filho problema”, por que não
ajudá-lo a não se sentir assim sempre? Foi neste momento que, após leituras
concentradas e muita vontade de fazer um trabalho que fizesse sentido para Gustavo,
pensei na possibilidade de escrever um livro sobre sua vida.

3 – O TRABALHO DESENVOLVIDO
3.1 – ELABORAÇÃO DO LIVRO DE HISTÓRIAS DA CRIANÇA
Assim, utilizando a avaliação psicológica elaborada, fiz um texto de fácil
compreensão para a criança. Estruturei em uma folha sulfite, deixando espaço para que
a criança pudesse ilustrar aquela passagem da sua vida com desenhos que
representassem aquilo que ela tinha entendido e sentido. Como também, possibilitava
que a criança olhasse para a história e mudasse caso encontrasse alguma informação
desconforme. E assim fomos caminhando lado a lado: Gustavo se encarregou da arte, eu
da escrita (embora ele me corrigisse em alguns momentos). No caso de Gustavo, tive a
oportunidade de elaborar o livro após a entrega do psicodiagnóstico escrito, pois a mãe
continuou o tratamento psicológico por mais algum período.
Neste momento de confecção do livro, Gustavo foi se revelando ainda mais. Ele
começou com todo o capricho possível, desenhando muito bem e colorindo
adequadamente, com cores vivas e bonitas. Mas, depois da metade do livro, por estar
cansado de fazer a mesma coisa (uma das queixas trazidas pela mãe e percebidas na
terapia como um dado verdadeiro), ele relaxou e não deixou que o final do livro ficasse
tão bom quanto o começo. Naquele momento, Gustavo compartilhou comigo a
experiência de desenhar seus sentimentos em relação a executar um trabalho, como ele
começa e termina, todo processo. Gustavo estava compartilhando a sua forma de ser.
Mesmo com o cansaço apresentado por Gustavo, essa atividade foi se revelando
um ótimo material de trabalho com crianças, pois, à medida que foi sendo realizado
outros fenômenos surgiram ou reapareceram.
O meu objetivo naquele momento era mostrar para Gustavo como era sua vida,
qual foi a queixa trazida, o que estava acontecendo naquele momento com sua família.
Tentar mostrar para Gustavo quem era o psicólogo, o que era hiperatividade, para que
assim, ele pudesse entrar em contato com a sua própria experiência de vida,
compreendê-la e ressignificá-la, caso fosse preciso. Pensava no quanto era possível
ajudá-lo, com aquele livro explicativo sobre sua vida. Além do mais, depois de pronta a
“Historia do Gustavão”, o livro poderia auxiliar outras crianças que precisassem receber
acompanhamento psicológico ou quisessem entender o que era a “tal ”hiperatividade”
que tanto falam e o que é psicólogo.
Busquei utilizar aquele espaço de acesso a criança para trabalhar o significado
destas palavras que para podem ser comuns para muitos, mas que para as crianças são
complicadas de serem entendidas e até mesmo lidas. Por isso, no livro de Gustavo há
uma breve descrição sobre a Hiperatividade com o intuito que a criança realmente
entenda o que o médico disse para sua mãe. A descrição foi elaborada de forma
acessível para a criança, para que assim, aquele nome hiperatividade não tivesse tanto
peso e representasse mais um ponto de estigmatização daquela criança, como é muito
comum hoje em dia.
No psicodiagnóstico realizado e entregue para a mãe de Gustavo, descrevi de
forma breve o que era a hiperatividade de acordo com Topczewki (1999): é um desvio
comportamental, caracterizado pela mudança de atitudes e de atividades, acarretando
pouca consistência em cada tarefa realizada. Este comportamento incapacita o indivíduo
de se manter quieto por um período de tempo necessário pra que se possa desenvolver
as atividades comuns do dia-a-dia, e, além disso, se mostra incompatível com a
organização do seu ambiente e com determinadas circunstâncias.
Já para Gustavo, através do seu livro, escrevi de forma mais fácil de se entender,
mencionando da seguinte forma: “Hiperatividade é um falta de atenção, que pode afetar
crianças, adolescentes e até mesmo alguns adultos. As pessoas hiperativas têm
dificuldade em prestar atenção e aprender; são distraídas, falam alto e em momentos que
não podem; estão sempre em movimento, sempre fazendo algo e são incapazes de ficar
quietas; são impulsivas, não param para olhar ou ouvir; se machucam com mais
facilidade; discutem com os pais, professores, adultos e amigos”.
Além deste termo, foi explicado o que é uma psicóloga. De forma clara, suscinta
e esclarecedora, era possível fazer com que a criança entendesse o papel do profissional
da psicologia, e conseguisse compreender o motivo de receber atendimento semanal.
Considerei importante este esclarecimento, para que o estar em terapia ganhasse
sentido, não só para os pais das crianças e para o médico, mas para ela própria, uma vez
que a criança saberá o que realmente significa a palavra psicólogo.
Desta forma, no livro de Gustavão, introduzi esta explicação da seguinte
maneira: “Psicóloga é uma pessoa preparada para ouvir o outro, para entender o que
está acontecendo com uma outra pessoa. A psicóloga vai ajudar a pessoa a se conhecer
melhor, conhecer o que ela realmente mais gosta e o que ela realmente quer para sua
vida. Ela pode ajudar a descobrir o que está acontecendo com a pessoa, o porque que a
pessoa tem um problema”.
Descrever a queixa inicial trazida pela mãe na primeira entrevista foi algo
significativo para que usássemos como contra-ponto, para tornar mais fácil a percepção
dos avanços e dos retrocessos tanto de Gustavo, quanto da família.
A descrição das etapas vividas por Gustavo no decorrer da psicoterapia foi muito
importante. A cada página lida, ele relembrava os encontros que tivemos e corrigia se eu
tivesse esquecido algum detalhe. Percebia que aquilo representava muito mais que um
livro. Representava sua vida, representava o próprio “Gustavão”. Foi descrita a visita
escolar que teve grande importância durante o processo psicodiagnóstico. Foi muito
significativo mencioná-la, pois neste contexto, foi possível perceber que Gustavo não
era apenas aquele garoto agitado, sem limites e que vai mal nas atividades escolares.
Com a visita escolar, Gustavo pôde se enxergar de uma nova maneira: ele era um
garoto bom! Fazia as mesmas bagunças que as outras crianças de sua idade fazia. Ele
não era tão sem limites assim (Ufa, que alívio para Gustavo!). “O meu dever, então,
como terapeuta, é ajudar a criança a separar-se destas avaliações externas e
autoconceitos, auxiliando-a a redescobrir o seu próprio ser. Ao aprender e aceitar quem
ela é, na sua individualidade” (Oaklander, p.75)
Era importante mostrar para os pais de Gustavo e para a própria criança que ele
não era sempre tudo aquilo que a mãe dizia que ele era. Por mais que tudo o que a mãe
dele reclamasse fosse verdade, ele ainda poderia ser diferente e não sempre daquela
forma. O fenômeno apareceu quando foi possível perceber que havia reclamações da
escola em relação ao comportamento de Gustavo sim, mas não era só isso. Ele também
apresentava seu lado “bom aluno”, mas a mãe era incapaz de enxergar.
De uma forma amena tentei mostrar alguns detalhes importantes da dinâmica
familiar. Percebia que Gustavo tinha necessidade de chamar atenção de sua mãe, não
importando se era através do mau comportamento ou do “xixi na cama”. O
comportamento daquela criança se aproximava do hiperativo, mas a “hiperatividade”
não era o essencial naquele momento. O que tinha por detrás daquele comportamento?
“Algumas crianças se protegem querendo aparecer; estas são as que recebem mais
atenção, o que freqüentemente tende a reforçar o comportamento mais detestado pelos
adultos” (Oaklander, p.74). Era desta forma que Gustavo se sentia notado e era atendido
por sua mãe.
De alguma forma, Gustavo era incapaz de expressar verdadeiramente seus
sentimentos para sua mãe. Talvez até tentasse mostrar, mas como era uma tarefa difícil.
Alguma coisa estava errada, mas como demonstrar isso para a família? Gustavo
demonstrava a sua insatisfação de outras maneiras: urinando na cama e apresentando
um comportamento perturbador em casa e algumas vezes na escola.
Percebia-se um certo descaso destes pais, o que ocasionava o desenvolvimento
de comportamentos “inadequados” em Gustavo. Relatar no livro de Gustavo algumas
faltas perceptíveis destes pais, talvez incomodasse ou até alterasse a dinâmica familiar
presente. Era importante deixar explicito que “aquele filho” também apresentava coisas
boas que, infelizmente, os pais não estavam conseguindo enxergar. Era uma tarefa
difícil, pois sempre tudo era culpa de Gustavo, mas era preciso tentar.
Ao final do livro foram ressaltados os aspectos bons de sua trajetória de vida.
Era importante a criança entender que ela pode ser boa e, na verdade, é boa. Mas que
Gustavo deveria se esforçar um pouco mais, tentando respeitar mais a mãe, estudar
mais, cuidar mais de si e gostar mais de si. É imprescindível tentar elaborar um
desfecho positivo que estimule a criança a buscar sempre mais seus objetivos e a
perceber o quanto é capaz. Ela precisa entender que está sendo assim naquele momento
de sua vida, o que lhe permite ser diferente em outros momentos. Esse desfecho positivo
também é significativo para os pais, para que eles também aprendam a confiar mais em
seus filhos. Torna-se essencial revelar o estar sendo do individuo, a inconstância do ser,
mostrando que nós não somos definitivamente um ser fechado e/ou totalizado.
Após a correção e pintura de Gustavo, tentei transformar aquelas folhas de
sulfites avulsas em algo que realmente parecesse um livro. Para tanto, digitalizei todas
as folhas, o que me permitiu corrigir alguns erros e melhorar a qualidade da imagem ou
da escrita. Escanear o trabalho ajudou a dar mais caráter de livro confeccionado do que
apenas encadernar as folhas com os desenhos da criança. Assim, digitalizadas e
imprimidas, encadernei as folhas como um livro é montado. Elaborei uma capa com o
título do livro: “A história de Gustavão” e assim, o livro com a história de vida daquela
criança estava pronto. Agora ela precisava conferir o resultado do nosso trabalho.
Há outras possibilidades para trabalhar com estes livros de histórias com
crianças. Em outro caso, devido a pouca idade da criança e dos poucos desenhos, sugeri
que a mãe trouxesse fotos com datas variadas da criança, para que eu e ela
escolhêssemos aquelas que ela mais gostava para relatar sua vida através de suas
fotografias. Este trabalho também foi muito interessante e motivou ainda mais as
crianças a prosseguirem no tratamento psicoterápico. Também é possível intercalar
fotos, desenhos e imagens (retiradas da internet) para dar mais sentido ao que estiver
escrito no texto.
3.2 – OS FENÔMENOS QUE APARECERAM APÓS A ENTREGA DO LIVRO PARA
A CRIANCA E A FAMÍLIA
Entreguei o livro para Gustavo em uma das nossas últimas sessões. Observamos
junto o resultado do nosso trabalho em conjunto. Falamos sobre aquele livro e fizemos a
leitura de modo leve e tranqüilo. Sentia que o meu trabalho enquanto psicoterapeuta
havia concluído, eu estava realizada. A impressão que tive, naquele momento, era que
Gustavo ganhava uma nova vida quando lia, observava e contemplava aquele livro com
seus desenhos.
“Minha meta é ajudar a criança a tomar consciência
de si mesma e da sua existência em seu mundo.
Cada terapeuta encontrará o seu próprio estilo para
conseguir esse delicado equilíbrio entre dirigir e
orientar a sessão, de um lado, e acompanhar e seguir
a direção da criança, de outro” (Oaklander, 1980, p.
69).
Era um livro sobre sua vida, sua existência; sobre suas dificuldades, seus
conflitos, mas também sobre suas características boas, sobre suas conquistas e seus
progressos; era um livro que retratava um momento de ajuda e de aprendizado; retratava
sua família, um pouco da sua historicidade. Era, na verdade, um livro “de Gustavo” e
“sobre Gustavo”, que mostrava que ele era capaz de crescer e se desenvolver, ou seja,
um livro que acreditava naquela criança.
Após a entrega do livro, a mãe de Gustavo me procurou. Falou sobre o
pagamento, sobre o médico, sobre o psicodiagnóstico. Ao final, contou-me que a família
já tinha lido por algumas vezes o livro, e que o pai de Gustavo, o qual pouco apareceu
durante todo o processo psicoterápico, disse: “ – Nossa, não sabia que meu filho tinha
estas qualidades. A gente acaba não notando aquilo que Gustavo tem de bom, são tantas
broncas”.
Para mim, quando ela relatou este episódio, entendi o que realmente significava
a palavra fenômeno na minha pratica clínica: “aquilo que se manifesta”. Não importa se
este pai demorou a participar do processo terapêutico. Naquele momento, algo havia
tocado aquele pai. Mesmo sendo um pai ausente, receoso em relação ao encontrar a
psicóloga, percebi que o processo psicoterápico também envolveu aquele pai. Um dos
fenômenos mais significativos que apareceram neste caso foi certamente o espanto do
pai de Gustavo ao perceber que o filho tem qualidades que muitas vezes não são
observadas pelo falto de só se focarem nas broncas, castigos e mau criações do filho.
Além de tocar esses pais com o livro de histórias, o que ocorreu através de todo
o processo terapêutico e através do livro foi que a própria criança se redescobriu e
passou a ser mais confiante e acreditar mais em si mesma. Pode-se dizer que à medida
que seus sentimentos começaram a se despertar, Gustavo começou a se re-descobrir, ele
pôde se reconhecer, aceitar e expressar os seus sentimentos perdidos. Provavelmente
aprendeu que pode fazer escolhas e verbalizar seus desejos, necessidades, pensamentos
e idéias. Ao aprender e aceitar quem ele é, na sua individualidade, diferente de seu
irmão, com o qual era constantemente comparado, ele entrou em contato com o Gustavo
que ele queria e poderia ser.
Além disso, através do livro foi possível entender o que era psicólogo, o que
tornou o processo mais aceitável e menos estigmatizante; entender o que era a
hiperatividade, pois foi descrita de forma acessível para crianças; foi possível fazer uma
retrospectiva do que Gustavo passou, desde os avanços e conquistas até os retrocessos;
foi possível mencionar que Gustavo precisava acreditar mais nele mesmo, assim como
sua família também precisava acreditar mais naquela criança; foi possível também
aceitar Gustavo na sua individualidade, com suas qualidades e dificuldades. Ainda era
possível explorar outros assuntos no livro de Gustavo, mas me foquei naqueles que mais
fizeram sentido para minha vivência enquanto psicóloga de Gustavo.
Torna-se importante mencionar que além da experiência com Gustavo, elaborei
outros livros com outros pacientinhos. Em um outro caso especial, o de Sofia, elaborei e
entreguei o livrinho. Depois de um período de férias, quando a criança retornou, pedi
que trouxesse o livro para relembrarmos. Ela trouxe e percebeu que alguns daqueles
medos que ela tinha (e estavam relatados no livro), não existiam mais. Sofia parecia
compreender que ela era muito capaz de melhorar em outros aspectos, já que tinha
superado estes. Disse surpreendida: “Vânia, eu não tenho mais medo de cobra! Nem
fico mais atrasada na sala de aula!”.
Durante a psicoterapia com Sofia, trabalhamos muito a questão dos seus medos e
sua insegurança sem seus pais ao lado, principalmente sua mãe. Uma pena que ela parou
assim que estava conseguindo se libertar de outros medos. Mas sem aqueles medos, a
mãe de Sofia não saberia como lidar com uma filha que não precisa dela para tudo.
Percebi que a insegurança de Sofia era a própria insegurança de sua mãe, que lhe tratava
como um bebê que sempre precisava de atenção. Como Sofia foi se desvencilhando
deste laço forte que unia mãe e filha, a mãe não se sentiu preparada para se “perder” da
filha. Acredito que a mãe de Sofia ainda me procure no futuro.
Recentemente entrei em contato com Márcia, mãe de Gustavo, para saber se eu
poderia utilizar o livro elaborado no meu trabalho de conclusão de curso. Ela
demonstrou-se bastante solicita e respondeu que sim, sem pensar. Além disso, agradeceu
mais uma vez minha ajuda e disse que Gustavo estava muito bem e que melhorou
muito. Que hoje ele treina futebol em dois lugares e que tem melhorado a cada dia.
Ao receber aquela noticia, fiquei muito feliz e contente pelo avanço de Gustavo.
Pude compreender, como ensina Erthal (1989), que desde o nascimento somos
influenciados pelas relações sociais. Primeiro, em relação aos pais, a família e
posteriormente pela sociedade de forma geral. Num primeiro momento, a criança acaba
por atender as expectativas do Outro, mas com o passar do tempo, ao adquirir uma
consciência reflexiva, o indivíduo pode decidir, escolher se quer ou não atender as
expectativas que existem em relação a sua pessoa.
Talvez Gustavo tenha repensado na sua vida, talvez os próprios pais daquela
criança tenham repensando no papel que eles estavam desempenhando enquanto pais.
Pude compreender que construímos nossa historicidade desde o momento em que
nascemos, mas que somos capazes de re-significar, re-conhecer e estabelecer uma outra
rede de significados em nossa vida se isso se fizer necessário. “A pessoa não deixa de
recordar o passado, mas dá a esse passado uma relação significativa” (Van Den Berg,
2000).
4 - REFERÊNCIAS
ANGERAMI, V. A. Psicoterapia Existencial. São Paulo: Pioneira, 1993.
AZEVEDO, D. C. Análise situacional ou psicodiagnóstico infantil: uma abordagem
humanista-existencial. Em: ANGERAMI, V. A. (Org.). Psicoterapia fenomenológico-
existencial. São Paulo: Pioneira Thomson Learning, 2002, p. 93-121.
ERTHAL. T. C. S. Terapia Vivencial. Uma abordagem existencial em psicoterapia. 2
ed., Petrópolis/RJ: Vozes, 1991.
MAICHIN, V. Os diversos caminhos em psicoterapia infantil. Em: ANGERAMI, V.
A. (Org.). Atendimento infantil na ótica fenomenológico-existencial. São Paulo:
Pioneira Thomson Learning, 2004, p. 1-50.
OAKLANDER, V. Descobrindo crianças: a abordagem gestáltica em crianças e
adolescentes. São Paulo: Summus, 1980.
PENHA, J. O que é existencialismo. São Paulo: Brasiliense, 2004.
VAN DEN BERG, J. H. O paciente psiquiatrico: Esboço de uma psicopatologia
fenomenológica. São Paulo: Livro Pleno, 2000.
ANEXOS
RELATÓRIO DE AVALIAÇÃO PSICOLÓGICA
Relatório de Avaliação Psicológica

DADOS DE IDENTIFICAÇÃO
Nome: Gustavo Francisco de Oliveira
Idade: 08 anos
Período de atendimento: 03 de Abril a 15 de Maio de 2006
O presente relatório tem como objetivo auxiliar no diagnóstico e avaliação de
Gustavo, um garoto de 08 anos que foi encaminhado para avaliação pelo neuropediatra
Dr. Esmeraldo Ribeiro da Costa Filho. A mãe, Márcia, levou seu filho Gustavo para
entrevista psicológica, explicando que o mesmo era muito agitado e tinha sido
diagnosticado como hiperativo pelo médico, o qual receitou Ritalina para seu filho.
Inicialmente, faz-se importante frisar que Gustavo iniciou o tratamento com
Ritalina no dia 05 de março de 2006 e a avaliação psicológica iniciou-se apenas no
início do mês de abril. Desta forma, a avaliação presente fez-se mediante a medicação,
ou seja, Gustavo foi avaliado sob o efeito da Ritalina. Considerando, de acordo com a
fundamentação teórica utilizada (fenomenológica-existencial), que o indivíduo não é um
ser estático, mas sim um ser em constante movimento, o garoto foi avaliado como um
ser sob o efeito da medicação.
A queixa trazida pela mãe foi que Gustavo sempre foi um menino muito
agressivo com ela, sendo que só a obedece quando ela o ameaça. Ela disse ser uma mãe
muito punitiva, pois nunca soube como controlar estes comportamentos de Gustavo.
Outro dado revelado pela mãe é que Gustavo ainda faz xixi na cama (enurese noturna).
Além disso, mencionou que o menino não tem limites, não se comporta bem na escola e
vai muito mal nas atividades escolares. Outra queixa é que Gustavo come muito e é
também muito preguiçoso. Por fim, a mãe disse que ele tem um “jeito afeminado”, fala
fino e só anda com meninas. Em decorrência desses comportamentos, Márcia vive
corrigindo-o.
O pai de Gustavo é caminhoneiro, por isso fica poucos dias em casa. Márcia
disse que o pai representa a “liberdade” para seus filhos, pois sempre que ele chega, o
mesmo permite que os meninos façam o que quiserem. O irmão de Gustavo chama-se
Guilherme e é 1 ano e 8 meses mais novo que ele. Este irmão juntamente com a mãe,
vive corrigindo as coisas erradas que Gustavo faz. A mãe demonstrou durante a
entrevista que considera seu filho mais novo muito mais responsável que o mais velho,
sendo que o primeiro quase não lhe dá trabalho. Com esta fala, a mãe pareceu revelar
certa dificuldade em lidar com as diferenças de seus filhos.
Alguns dos dados coletados na primeira entrevista puderam ser percebidos nos
encontros que se seguiram. Pôde-se perceber que Gustavo realmente é um garoto
agitado, que fala depressa, o que dificulta o entendimento da sua fala. A agitação de
Gustavo foi percebida, pois o mesmo, na maioria das sessões, não conseguiu ficar com
as mãos quietas, elas sempre estavam em busca de algum objeto para manusear;
levantava-se diversas vezes, sem solicitação da psicóloga; e se distraia com facilidade
com qualquer movimentação ou barulho externo.
Durante as sessões, Gustavo demonstrou também ser um menino ansioso,
questionando sempre quanto tempo faltava para acabar a sessão, pois queria brincar
logo com os todos os brinquedos de sua caixa lúdica. Desta forma, assim que acabava
de se organizar com determinado tipo de brinquedo, logo guardava e pegava outro para
brincar.
Em relação a enurese noturna, pôde-se perceber que Gustavo tinha muita
vergonha deste fato, tanto que algumas vezes mentiu para a psicóloga dizendo que não
havia feito xixi na cama, quando na verdade, fizera. A enurese acontecia quase todos os
dias, tanto que a mãe demonstrou muita irritação na primeira entrevista ao falar sobre
este assunto, mencionando que tinha que trocar freqüentemente o colchão de Gustavo.
Estas características puderam ser verificadas e observadas. No entanto, a
agressividade, a falta de limites e o fato de Gustavo demonstrar comportamentos
afeminados não puderam ser comprovados durante as sessões de psicoterapia. A
agressividade não apareceu em nenhum momento, apenas em algumas falas de Gustavo,
mas que também não são suficientes para dizer que o mesmo é agressivo. A falta de
limites também não pôde ser observada, pois dentro do setting terapêutico, Gustavo
sempre soube respeitar os limites impostos. Além disso, em visita feita ao colégio em
que Gustavo estuda, tanto a professora quanto à psicóloga mencionaram que Gustavo é
um menino de bom comportamento, o qual não apresenta comportamentos fora do
padrão, ou seja, os comportamentos emitidos por ele, também são realizados por outros
garotos da escola, os quais são passíveis de correção.
A professora mencionou ainda que ele não tem muita dificuldade de
aprendizagem, sendo que ele apresenta as mesmas dificuldades que as outras crianças
da sala, não sendo, portanto, uma dificuldade única e individual, podendo ser de toda
classe. Por fim, em relação aos comportamentos afeminados, estes não foram
presenciados, apenas quando Gustavo falava de maneira mais carinhosa ou dengosa
sobre algum assunto.
A partir destes apontamentos, pode-se dizer que tanto a agressividade de
Gustavo quanto a falta de limites, na maioria das vezes, aparecem na sua relação com a
mãe, o que sugere não um desvio de comportamento, mas sim um conflito existente na
relação mãe-filho.
Um aspecto interessante observado durante o acompanhamento é que Gustavo
demonstra muita consideração por seu irmão, tanto que o mesmo levou Guilherme para
a terapia duas vezes. Nas sessões que Guilherme compareceu, Gustavo demonstrou
muita vontade de mostrar para o irmão o quanto era gostoso fazer terapia, mostrando
entusiasmado sua caixa de brinquedos. Mas ao mesmo tempo, queria mostrar que aquele
era seu espaço e que era ele quem mandava. Além deste aspecto, pôde-se perceber que
Gustavo delegou muita de suas funções para Guilherme como se estivesse dizendo que
o seu irmão era sempre o melhor e o mais esperto. Este aspecto de Gustavo pode existir
devido ao fato de seu irmão e sua mãe sempre corrigirem e fazerem comparações entre
o irmão mais velho e o mais novo.
Os dados coletados no decorrer do tratamento foram obtidos através de
observações, entrevistas, técnicas de ludoterapia e atividades de desenho. O
psicodiagnóstico realizado é caracterizado como interventivo, pois ao mesmo tempo em
que se avalia, também há intervenção terapêutica, tanto com a criança quanto com os
pais, podendo assim ajudar na melhora do cliente. Desta forma, durante o atendimento
psicológico de Gustavo, também foram feitas sessões de orientação com sua mãe.
Ao final de dez sessões combinadas com a mãe do cliente, pôde-se dizer que o
mesmo apresentou algumas melhoras. De acordo com a mãe, Gustavo demonstrou-se
mais educado, calmo e estudioso; características estas também verificadas pela
psicóloga. Além disso, Gustavo diminuiu a freqüência de fazer xixi na cama,
conseguindo ficar duas semanas consecutivas sem ter tal comportamento. No entanto,
após este período, ele voltou a fazer xixi na cama, mas em quantidade e freqüência
muito inferior do que anteriormente (no máximo duas vezes por semana). Torna-se
importante lembrar que a melhora e Gustavo está relacionada, também, a melhora de
sua mãe, a qual relatou em uma das orientações que parou de bater e de fazer
comparações entre os irmãos.
Segundo Topczewki (1999), a hiperatividade é um desvio comportamental,
caracterizado pela mudança de atitudes e de atividades, acarretando pouca consistência
em cada tarefa realizada. Este comportamento incapacita o indivíduo de se manter
quieto por um período de tempo necessário pra que se possa desenvolver as atividades
comuns do dia-a-dia, e, além disso, se mostra incompatível com a organização do seu
ambiente e com determinadas circunstâncias.
Considerando estes dados sobre hiperatividade, pode-se dizer que Gustavo
apresenta sim alguns comportamentos típicos da hiperatividade (levantar-se várias vezes
durante a sessão, querer brincar com mais de um brinquedo por sessão, mexer
constantemente suas mãos e pernas, querer ir beber água e ir ao banheiro assim que
entra na sala de terapia, querer sempre ter em mão algum objeto); mas também
desempenha atividades caracteristicamente opostas a este desvio do comportamento,
como por exemplo: boa concentração nas atividades que mais lhe interessam, suas
atividades geralmente tem começo e fim, sempre guarda os brinquedos que não vai mais
utilizar.
Diante destes aspectos observados e avaliados no decorrer do atendimento
psicológico e tentando compreender o existir de Gustavo, pode-se dizer que embora ele
possua algumas características que comprovem a hiperatividade, o mesmo também
apresenta algumas questões emocionais que exigem mais atenção. Desta forma, faz-se
necessário um trabalho em conjunto com o médico e psicólogo, sendo que à medida que
o paciente for evoluindo na psicoterapia, o médico poderá diminuir a quantidade do
remédio. Além disso, torna-se necessário uma constante orientação para a mãe de
Gustavo, a qual tem muito a contribuir para a melhora do filho.
Atenciosamente,
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Vânia Midori Bruneli