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O “intolerante” movimento negro e o branco “tolerante”

Um vídeo gravado nas dependências da Faculdade de Administração, Economia e


Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA-USP) tem ganhado bastante
repercussão na internet. O vídeo foi produzido por um aluno de administração, Branco,
Ex-aluno do Colégio Vértice cuja mensalidade em 2013 era a mais cara da cidade de São
Paulo girando em torno de R$4000,00.

O aluno acredita que os negros que interromperam a aula são iguais a ele, e talvez por
isso acredita que existem espaços de discussão facilmente abertos a qualquer grupo,
inclusive ao movimento negro. Para tanto basta marcar um horário, pois existe lugar e
hora para essas discussões, além de que a vida não para e semana que vem tem prova.

Uma posição confortável é considerar a todos como a si mesmo, difícil é o processo


inverso. Se todos são como "a mim" então todos tem "minha" visão, fazem o "meu"
mesmo jogo, talvez não estabeleçam desigualdade de poder e o mais importante "eu"
tensiono "meu" poder de maneira favorável.

Porém, por que não o produtor do vídeo não disse que ELE era igual aos negros na sala?
Talvez porque saiba que não são iguais [no limite ninguém é igual a ninguém, mas deve
haver alguma vantagem em agrupar e inventar identidades, vantagem de poder sobre
indivíduos ou mesmo grupos em desvantagem], talvez para manter o poder de si sobre o
discurso alheio.

O que fica a nosso ver é algo como A=B e B=A é retórica, mas B≠A=A≠B.

É necessário (re)aprender a viver na diferença e minar as categorias de raça que fazem


uma se sobrepor à outra, ou ao menos tensionar as relações de modo a construir novas
relações que estabeleçam alguma isonomia.

Se a universidade não é o espaço por excelência desse debate, sem hora para acontecer
porque a vida não tem hora e a todo momento sabe-se a vida negra é aprisionada, apagada
e esquecida. Se a universidade não é o espaço por excelência desse debate, então não
tenho dúvidas de que, apesar das paixões envolvidas, os movimentos negros estão
corretos no enfrentamento.

Por fim o aluno deixa claro: "A USP já tem cotas e isso vai acabar baixando a qualidade
do ensino". Seu "Fora Dilma" - ironicamente ao discutir a situação de uma universidade
de um estado governado pelos tucanos - diz muito sobre a elite e a ideologia dos que
saíram às ruas no domingo último (15/03/2015). Aos negros, a faculdade particular sem
qualidade e sem prestígio, aos que podem pagar R$ 4.000,00 por mês a universidade
pública e de prestígio. O popular não merece nada mais do que o "seu lugar", já que eles
não escreveram cinco redações por semana.

Os negros saíram da senzala, mas a Casa Grande não saiu da elite.

https://www.youtube.com/watch?v=ijIlJimCQkw

Douglas Romão Feitosa é bacharel em filosofia pela FFLCH-USP. Atualmente


desenvolve pesquisa de mestrado em comunicação na UFF.
Ricardo Neves Streich é bacharel em história pela FFLCH-USP e desenvolve pesquisa de
mestrado em história social na mesma instituição.