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BIBWOTECA DE CieNCIAS SOCIAIS

Sociologia e Aotropologia

. r

·.

· 1

CieNCIAS SOCIAIS Sociologia e Aotropologia . r ·. · 1 Edson de Oliveira Nunes (organizador) ----
CieNCIAS SOCIAIS Sociologia e Aotropologia . r ·. · 1 Edson de Oliveira Nunes (organizador) ----

Edson de Oliveira Nunes

(organizador)

---- - -- -

---)

A Aventura

Sociolõgica

Objetividade, Paixão, lmproviso e Método na Pesquisa Social

Sociolõgica Objetividade, Paixão, lmproviso e Método na Pesquisa Social I ZAHAR EDITORES RIO DB JANBJRO I

I

ZAHAR EDITORES

RIO DB JANBJRO

I

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.

.)

Sociolõgica Objetividade, Paixão, lmproviso e Método na Pesquisa Social I ZAHAR EDITORES RIO DB JANBJRO I
1 O Ofício de Etnólogo, ou como Ter "Anthropological Blues" * RoosaTo o• MATA lntroduçiio

1

O Ofício de Etnólogo, ou como Ter "Anthropological Blues" *

RoosaTo o•

MATA

lntroduçiio

Thls

tlory, the sw«t~st,

the

true.A

or rathu the only true glory, awcúu

you,

wi/1

t!a-y

to yof.lr country, welcomed

tunid our deUght, you will arrive in

our wcú/J,

looded with the most pre-

returning

tmcomfXISSt!l

knqw

ali

o!

trlumph

il1

you

and

olr~y; you

on

thot

which.

brillionce

joy

on

ciouJ

apoif1,

and

bearerJ

o/

happy

tldlnts of our brothers scattered in Ore uttermost con/int.t of the Universe.

Oegértmdo••

Em Etnologia, como nos

fases (ou planos) fundamentais quando

ritos

de

e"istem três

se trata de discorrer sobre

passagem,

Trabalho

aprt).,:ntado ""'

Univenithule

de

Orn"Jflia,

junto :10 Oepartc.~­

mcnlo de Ciências SociaiJ, no Simp&io sobre TrabalhCH!e-ChmpO, ali

re.:~li"Ull.lo. E"CprC'IotO meus

Aaradccimcntos

aos

P.-ors. Roberto Cardoso de

Oli~eira c Kcnncth Taylor, que na época eram, ropcctivamt:nte. Ou~re

do Departamento de Cilncias SociatJ e Coordenador do Curso de M~ Irado de Anuopolosia Soci1l. pelo corwite. Posteriormertte, o te--.to foi publicado no Museu Nacional como Comunicaçlo n.o t. Setembro, 1974,

em

CaJtro

da preparoçlo das duu

Moore, Bcrkeley e Los Angeles: Uni·

traduzido do rranc& por F . C .T

cdiçio

mimcoararada.

Desejo

aaradcccr

a

Gilbeno

Velho.

Luiz Ue

Farl.it c. Anthony Seeacr pelas suaestõc:s c cncora,amento. quandn

'ftn6es desce uabalho.

Ob•""'Ji""

of S4W>t< Peop/e•

(1800) .

••

Jooq>h·Marie Dc~rando, Th•

>enity or C

lifom~

Pras,

1969

,.

'

24

A

BUS<'A OA RPALIDADf OBJETIVA

pesquisa, visto ~lo prismo do seu eotitliano. A

pnmeao, é aquela caracterizada ptlo uao e

humono.s

que. vâ\.eodo em grupo•, conJtituem-se 001 nOSSO$ objetos de tra- balho. a Cose ou plano que denomino de teórico-intelectual, ma.r· cada pelo dh:órcio entro o ruturo petqui.Jodor e n trii.M>. a classe &OCjaJ. o mito. o grupo. o c:~~tt-goria cognitivo. o ritunt. o bairro, o sistema de rcloçõea 80Ciais e de porenttteo, o mOOo dl" produçito. o

quando ainda

abuso da cabeça,

as etapas de urna

não

até

tr.moe nenhum contato eom os seres

sistema político e todos o. outroe domínios, em sua Ji'\ta infinc.Jã · ,·el, que certamente fazem parte daquilo que se busca ''er, enca-

rar, enxergar, ~r«.ber, estudar, elassifiear,

interpretar. explicar.

etc

à185 esse dh·órcio - e é bom que se diga i.550 clantmentt'

-

nõo dU rapeito tomente à ignorância do estudante. Ao contrá·

rio, ele fala prKÍ.aarnente de um exceuo de conhecimento, mas de

um conhecer que é ttórico, universal e mediatizado não pelo con· ereto e sobretudo pelo es(>e<:Ífico, mas pelo abstrato e pelo não vivenciado. Pel01 livros, eruaios c artigos: pelos outrot.

Na

fase

teóricO·Ítatelec&ual,

as aldeiu são diagramas, os ma·

trimônioJ se raolvem em de.senh01 geométricos perfeitamente si-

pnlronagem

métricos e

retem

]eis e os índiOJ JÕo de papel. Nunca ou muito raramente se peusu em coisu espccí(icaa, que dizem respeito à minha experiên·

cio, quondo o conhecimento 6 1.ermeabilizodo por cheiros, cores,

dores e amores. Pcrclus, nnsiedudcs c medos, todos esses intrusos que os Hvros, sobretudo OI romigerndo.s "monunis'' dn.s Ciências Socinis teimam por ignoror.

Uma segundo Cose, quo vem depois dcsso que ucobo de opre· sentnr. pode ser tlcnominodo do período prático. Elo diz respeito,

fato, trata-se

daquela semana que todos cujo peli<(UUa implicou uma mudança drástica experimentorum, quando o nosso preoeupnçõo muda subi- tamente da.! ltoriu mai.s univrns.ois poro os problemas mnis banalmente concretos. A pergunta, eotiio, não é moi.s se o grupo X

esscuciolmente,

o seguir

equilibrndos, a

e

a

clientela

política apa·

em

rel(rll ordcnndM, a

própria

espoliação

passa

u uossn

ontovéspcra do peS<Iuisa.

De

tem ou niio linhagens segmentadas, i modo dos Nuer, Tallensi ou Tiv, ou se a tribo Y tem corridu de tora e metades cerimoniais, como os Krahô ou Apinoyé, mos de planejar a quanfodode de arroz

e remédios que de,:erei levar para o campo comigo.

Observo que a O<Cilaçõo do pêndulo do cxi<têneio parn tais

questões - onde vou donnir, romt:r, viver - nõo é nodtt agro· dóvel. Üpec:ialmente quando o 00:510 treinamento tende a ser ex·

quando somos socialiuldos numa

cultura que noe tn~ioa sisttmt•\camente o conformismo, esse rilbo

ce:ssivo.mente verbal e teórico,

,u

A

VFRSÃO QUAl !TATIVA

25

da. autoridade com o gentrnlidodr, o lei e o regra. No plano prÓ· tico, portanto, não se lratn de citar n experiência de a}trum he- rôi-<:ivilizador do disc:ipHna, mos de colocar o problema fu;',damcn· tal no Antropologia, qual ~ejo: o do especilieidadc e relatividade de

sua ppria ex~riência.

A

(a.se (innl, a terctiro, é a ()Ut" chamo de ~ssoul ou e:r:iMe11

ciat

n&.SA

Aqui,

uão

temo.

maia

formaçoio c:icntifira ou

divi.sõc:-t

nrodrmic:

nítitla.s

ma

entre

as

cta1-

a."

tto.

pur urna espécie de

prvlougamcnto Uc tudo i~, unta certA vio;.ão tle• eonjunto que etr· lamente de>c roroor todo o nowo esforço e trabalho. Deste modo,

enquanto

acodêmiea e o plano pritiro pelo perturbação de uma realidade que

vai se tornando e~~cJa '\'e& maia imediata, o plano existencial da pesquiJo em Etnologio fAla moi• das lições que de•o extrair do meu próprio CU(). t por tiUA disso que eu a considero como es· sencialmenle globalir.adoro e integradora: ela dc'e sinleti:t:~r a bio· grafia com a teoria, c a prática tio mundo com a do ofício. Nesta elapa ou, antes, nesto dimtn!liio da Pesquisa, eu não me

diagramas

encontro mais dialogando com indiot de papel. ou com

simétricos, mas com peuoa.t. Encontro-me numo nldeia concreta:

calorento e distante de tudo que conheci. Acho-me fazendo face a

competência

o

plano

ttôrico-intelec-!ual é

medido

pela

lamparinas e doença. Vejo-me diante de gente de carne e 05!0. Gente boa e untipôtico, gtmte 8nbido e estúpida, gente feia e bonita. Estou, assim, submerso num mundo qu~ M' situava, e depois dn pes quisn voha o se situar, e ntre u rcnlidnde e o livro. ll viveneiondo esta rose <( UC me dou con ta (c não sem sus to)

que estou entre dojs fogos:

mundo c um outro. De foto, tendo me preparado c me colocado como tradutor ele um outro aistcmo parn a rninhn própria lingua- gem, eis que tenho que inicinr minha tnrefo. E cotao verifico, in t i- mamente satisfeito, que o meu oficio voltado para o estudo dos homens - é onólogo õ próprio eominhadn das sociedndes humanas:

sempre na tênue Unha divisória que separa os animais na determi-

nação do oatunza c os dcult"l quet f.littm os crentes. forjam o seu

próprio destino.

trabalho, procuro dcsenvolvtr esta última dimensão da

pesquisa em Etnologia. Fase foi tio import1nte.

o minho eulturo e uma outra, o meu

Neste

que, para mim c talvez para out

,.,

I

Durante anOt. a

est1belece:r tom pr«is5o tade H'Z maior 'uas

Aotropo1o~ia ScK-iel ("~t("\t'" preocupada em

rotin•~ de ~ui

-.

tade H'Z maior 'uas Aotropo1o~ia ScK-iel ("~t("\t'" preocupada em rotin•~ de ~ui -.

26

A

BuSCA D• Rf

\UD\De

OBJETIVA

ou· como é ttmbe:m cbamado o e.J.trcício do ofício na sua prática mais imediata, do trabalho de campo. Nos cuf'I05 de Antropologia os prore.s!()fltl mencionavam sempro a nec~~iúadc ah30lutu da co--

permiti:y

as teorias co--

segundo

leta de um

sem

bom material, isto é, dodos etnográficOfJ que

intenso e mai.s profícuo com

um diálogo mais

nhecidA3, poi.s daí, certamente. ooscerio.m novas teoriu -

a velha e. porque não dizer, batida dialética do Prol. Ro.bert l\lerton.

~sse esrorço nasceram óllgun• livros -

na América

e

fora

dela - ensinando a realizar melhor tais rotinas. Os dois mais [a.

mosos são o notório Note> and Qucries in Anrhropolosr, produzido pelos ingleses c, di.ga·se do pa~~Mgem, britanicamente produzido

com

zelo tnission:írio, colonia l e vitoriano. e o nõo roemos famoso

Cuia de lnve!li6ação de Dado• Culrurail, livro inspirado pelo Jiu.

man Relatioos Area Files, sob a ég-ide dos estudos "cross--cuhurais

do Pro!. George Peter Murdock.

Sdo !UU

Pf'ta.s impressionantu. como são

impres.ionantes as

monografias dos etnólogos, livroe quo atualizam de modo correto

e impecável essas rotinas de "'como comecei [azendo um mapa da aldeia, coU1endo duramente as gcoealogia.s dos nativos, assistindo

cada

roça" e " termínei deseobrlndo um !Jistema de parentesco do tipo

fazer

aos

ritos

funerários,

procurando

delimitar

o

tamanho

de

Crow·Omnha. etc, pesquisa sôo · clho

". Na realidode, livros que ensinnm 8

no nos.:> di'< iplona, e pode-se meamo dizer -

sem medo de incorrer em exo~gtru -

que eles nasceram com a sua

!undaçio, já que foi

cobrir a

Henry Morgon, ele próprio, o primeiro 8 des-

utilidade de tais rotinas, quando preparou uma oério de

questionários de campo que Eorom enviados aos distantes missioná-

rios e

seu

ngcutes diplomáticos

norte·americanos paro

escrever o

supcreló,

Family

meu proi>Mito aqui tentar denegri-la.

nheço muito

ico

Sy•rems of Cof1$(1118uiniry and Afliníry ofrlw Human

Tal

tradição é obviamente

necessária

e

não

é

os fmt""

que delo

Nõo sou D. Quixote e n<»-

o poderão ainda

bom

n

,.,rom

que

o

um

( 187I ) 1 •

E

bem

nascer.

senso me ttermitiria acrescentar é que es.~ rotinas sõo como um

mal necessário.

"ouLró

o[icinl

reconhecida

mesmo se estiv~ contra ela~ o múimo

I)Orém,

mesma

ne$te

trtlhalho, trnzcr

à

luz

todo

tracliç.ão

e

explicitamente

Desejo,

dt

-sta

lado"

pelos antropólogos, qual seja:

oo

aspectos que aparecem

nas ane·

dotas e nas reuniões de antropologia, nos coquetéis e

n~ momen·

1

Rcpubhc:M.h> em

1970.

Anthropt,.Q&k.:nl

Publi.:.alk»ru.

~lerhoot N.B.

-

Holanda.

Vt)l·~. tm

relaçio ao que f<M mendonado acima, pp. vüi e

ix

do PrefAcio e o A~ndtcc A Pan:::

111, pp.

5U c

ss.

A Vus•o QUALITATIVA

~"

,

~

~ ,}.~~-~­

~·~

tos meoos íormaiJ . NM estória~ c1uc eloLôr.Jm de modo

tragicômico

r/tt 't

um mal-entendido entre o pe.squi.JOdor e o seu melhor io(ormante,

de como foi t.luro chcg,ur uté u oldcia, das diarréias, doa difieuldn-

de como

des de co118cguir comida c -

muito mais importante -

íoi

difícil

comer naquela aldeia do

Esses aio 01

chamados aspectos

Brasil

CentraL

românticos"

da

disciplina.

quando o pesquisador se vê obrigado a atuar como médico, cozi

nheiro, cont•dor de

histórias,

mediador entre índios

e

funcioná-

rios do FUNAI, viajante solitário o até palhaço, lonçando mão destes várioo e insuspeitodos papéis paro poder bem realizar as rotinas que infalivelmente aprendeu na escola graduada. t curioso

e signiClcativo que tais upeeto.s sojnm cunhados de "nncrlóticos"' e, como diue, de uromânticos'\ desde que se CJUi consciente

- e não é preciso ser filósofo para ltlnto - que a Antropologia

Social é uma disciplina da comutação e da mediação. E com iS90

quero aimplesmente d.izer que talvn

mais do que qualquer outra

matéria devotoda ao estudo do Homem, a Antropologia é aquela

onde necessariamente se estabr.Jece uma eonte entre

(ou subuniversoo) de significação, e tal pente ou medioçiio é reali·

dois universos

zada com

um

mínimo de ap&Into

institucional

ou

de

instrumen·

tos de mediaçüo. Vale dizer, de modo artesanal e pucientc, dcpen· dendo essencialmente de bumoree, temperament~, !obio.s e todos os outros ingredientes das poi!005 e do contato humano. Se é poaível e permitido uma interpretação, não há dúvida

um

de que todo o anedotário referente às pesquisas de campc é

' modo muito pcuco imaginativo de depositar num lado obscuro do

ofício os seus pontos talv~ mais importantes e mais significativos.

~ uma maneiro e- quem sabe? - um modo muito envergonhado de não assumir o Jndo humano c Crnomenológico dn disciplina, com um temor in{ftntif de revelar o <1uanto vai de subjetivo nas pe•qui·

aas de campo, temor esse que é tanto maior quanto mais voltado

está o etnólogo para uma idealização do rigor nas disciplinas so- ciais. Numa palavra, é um modo de não assumir o oficio de etnt> logo integrolmentc, é o medo de sentir o que a Dro. Jean Carter

o

Lnve

denominou,

com

rara

felicidnde,

numa

carta

do

campo,

anlhropolo&icol b/ue•.

I

I

Por

anlllropolosico/

bluos

,

c1uer

cobrir

e

descobrir.

do

um

modo ma.i.s edtemático, os aspectot interpretativos do oficio de etnó- logo. Trat•« de incorpotâr oo campo me!mo das ro!inas oriciais,

já legitimada• como parte do t~inomrnto do antropologo, aqueles

,, •
,,

28 A BUSCA DA REALIDADE ÜBJ ETtYA

a.spectoa utraordi114irios, sempre prontos a emergir em todo o rela· cionomento humano. De fato, se tem Antropologia Social quan· do se tem de algum modo o exótico, e o exólico depende invariavel-

mc.nte da distÃncio social, e a distância social tem como componen-

te a marginalidade (relativa ou absoluto), e a marginalidade se ali·

ancntn

<'!'lltlt ,

;

<·utlcio -

de

um ~ tudo dcS('mbocn -

~ntirn~nto ·de

scgrcgnc;iio

r

n ~CAr~goção implica

para comutnr rnpitlomrnlc essa longa

nn Jiminaridade c no estronhorncnto.

De tal modo que ve.Stir a capá de etnólogo é uprcnder o reali·

zor umo dupla tarefa que p.ocle' ser grossciromente contido nas se-

guintes fórmu las: (a) transformar

tran&formnr o familiar em exótico. E, em ombos os COSO!\, é ncces·

(b)

o exótico no familiar e/ou

&ária

o presença dos ~ois termos (que representam

dois universos

de signiricoçiio) e, mais basicaméD.te, uma vivência dos dois domÍ· nios por um mesmo sujeito disposto a situá-los e apanhá-los. Numã certa penpeeliva, essas duas transformações parecem seguir de per· -

to os momentos críticos da história da própria disciplina. Assim é

que a primeira transformação - do exótico em familiar - torres- pondo ao movimento original da Antropologia quando os etnólogos conjugaram o seu esforço na busca deliberada dos enigmas soeiais situados em universos de significação sa.bidomente incompreendi·

dos pelos meios sociais do seu tempo. E {oi 851Ím que se nduz.iu e trtlndormou - para citar apenas um caso clássico - o ku.la ring. dos melnnésios num sistema compreensível de trocos, alimentadas•

por práticas rituais, tl cseobt'r to q ue veio,

Mouss, dn noçõo basilar d e f oto sociol totul , tlcsc u volvidn Jogo opôs

ns pes<1uisa.s c.lo B. ~1alinowski."'l

A segunda transformação parece corruponder ao momento preKnle, quando a disciplina se volta paro a nosso própria socieda·

de, num movimento semelhante a um auto-exorcismo, pois não se trata mais de depositar no selv&&em africano ou melanésico o mundo de práticas primitivas que se deseja objetificar e inventariar,

mas de de!CObri·lu em nós, nu nossas imtitu.ições, na nossa pniti~

ea política e religiosa. O problema é, então, o de .tirar a capa de membro de uma classe e de um grupo social específico'~ poder

- como etnólogo - estranhar alguma regra social familiar e a_s

sim descobrir (ou recolocar, como fazem a.1 crinnço.s quondo per·

políticas, j urídicos, econômicas e religiosas; entre ou tras , permitir o cr ioçõo, por M aree)

2

J)ermito-me

temhto.r

:.o leitor

auts O/ rire Wl"Jttrn

Paci/lc em

E1toi "" le

Dou

6

de

1925.

que

Malinowski

publicou

o

seu

A r gtJn.

1922 e que a prlmeirD ediçAo franctsB do

j

A

VERSÃO QUAWATIIA

29

guntam oo "porquês") o exótico no que

nós pela ni!ieação e pelos mee:tnümoo de legitimação.• Essas duas transformações fundamentai$ do oficio de etnólogo parecem guardar entre si uma estreita relação de homologia. Como

tó petri!ieado dentro de

o desenrolar de uma sonata, onde um

mente no seu início, desenvolvido rebuscadamente no seu curso e

finalmente, retomado no seu epílogo. No c.oso dns transformaçõe~

:antropológicas, os movjmentos sempre com.luam n um encontro. Deste modo, a primeira transformaçüo levo uo cuconlro Onqui1o que-

pesquisador reveste jnkialmcn tc no envelope c.lo bi-

tema é

apreaentado clara·

a

cultu rn

do

wrr~, d~ t~l manei~a qu e a ~iage m do etnó l ogo é como o viage m do her01 clossiCo, parhda em lres momentos tlistintos c intcrdcponc.len·

tea:

do

coloca Degérando) ao seu próprio grupo com os seus troféus. De

fato. o etnólogo é, na maioria dos casos, o último agente da soeie·

dado colonial já que após a rapina dos bens, da força de trabalho e

~o.terra aegue o pesquisador para completar o in\'Cntário eaniba·

numa

lúetco: ele. portanto, busca as regras, os valores. as idéias - palavra, os imponderóveis da vida social que foi colonitada.

a anida de sua sociedade, o encontro com o oulro nos conflns

seu

mundo social e, finalutente,

o

••retorno

triun[al"

(corno

. Na

segun~a. transformação, a viagem é como a do xamã: um

movunento ~ashoo onde, p~rado~m~nte, não se ui do lugar. E,

de fato, ~ v1agens .xaman~licas sao vtagcos verlieais (para dentro o~ para c•_m~) mutto m8JS do que horizontais, como acontece na

\'Jagem classica dos

heróis

homéricos. • }:; nõo é

por outra

razão

q~e tod~ nqueles que realiz.nm tais viagens pura dentro e para cima so.o xamus, c u radores, profetas, santos e loucos; ou scj o, os que de

~ c ~1egar no f u ndo do poço de s u a pró ·

pr'n cultura. Corno eonseq ue ncJn, a segunda trnndormaçõo condu1;

a l~um modll se d is p use ram

Jgunlmcotc a um encontro com o outro c ao cstranhomento.

As duns

transformações estãot pois, intimamente relacionadas

e a.rxba.s sujeitas a uma série de resíduos. nunca sendo realmente

perf~i.tas. De fato,. o exótico nunca pode p:war a ser familior: c o famalaar nunca deu:a de ser exótico.

preporados.

essas transCorma~ indicam, num caso, wn ponlo de chegada (de f~to, quando o etnologo consegue "" {amiliarizar com uma cultura diferente da sua, ele adquire ~mpetência nf!.tll cuhura) e, no ou.

Mas,

deixando

os

paradoxos

para

oo

moi$

bem

3 Elt~

~

us.1ndo

mann

no

as

Luc

seu

Pctcr Rivjhe

ozes. 1973).

4 Foi

xomnnrstiea .

noçÕê'l de

reificaçio c

de

ltliuma~·!io como Bergcr

A

Cons1rução

SocuJ

da

(Pclrópoli'>:

de

Oxford quem

me ~useriu esta icléil' da viao~em

1:0

1

30

A

BuSCA

OA R EAUOAD6

OBJETIVA

tro. o ponto de partida., que o único modo de eatudar um ritual

: bro.s.ileiro é o de tomar tal rito como exótico. Isso significa que a aprffnsio no primeiro processo é_ reali.ud~. prir:nordi~_ent~ por uma via iotel«tual (a transformaçao do uohco em Camtl1ar e rea· hudft- fundamentalmente por meio de apreenaõee cognitivas)~ ao

rauo que, no segundo caso, é neoeuário um desligamento erooei~

na_l, que a familiaridade do costume não fof obtida via intelecto, m~.s via coerção socializadora e, assim, veio do estômago para a

c·ciJ<:~o. Em ombos os casos, porém, a mediação é rea.lizada por um

t--orpo de princípios guias (as ehamadu teorias antropológicas) e condu~ido num labirinto de conflitos dramáticos que servem como

fitlD O de fundo para as anedotas outropolôgicas e para ncen~u~r o tn<1uc romúntico dn nossa disciplina. Des te modo, se o meu 1n.nght n·IÜ correto, é no processo de transformação mesmo que devemos

vez mais precisa d()S cmlhrupolo-

c•uidnr de buscar a defini~o caJa

Bical blues.

Seria~ tntüo, possível inicinr a demarcação d.a área básica do

antlaropolosiCtJI blues como aquela do elemento que se insinua na

prática etnológiea, mas que não estav• tendo esper•do. Como um

blues. cuja melodia ganha forva pela repetiçio das ruas !rases de modo a cada vez mais se tornar pen:epti•el. Da mesma maneira que

a tri!t

quando ele

e a saudade (também bluu) ae insinuam no processo do

a

trabalho de campo, causando surpresa ao etnólogo. t

se pergunla, eomo fez Claude Lévi

Strausa,

14 que viemos fazer aqui?

Chm que esperança? Com que flm?"' e, o partir desse momento,

põJe ouvir c.laramer.re as intromirsões do um rot-ineiro estudo de

descoberta

: d e (I\IC 11 viagem apenas despertava sua próprio. sub jetividade: uPor

Chopin,

ficnr

por

ele

obsecado

e

se

abrir

à

1errível

um singular paradoxo, diz Lévi·Straues, em lugar de me abrir a um

· novo universo. minha vida aventurosa antes me restituía o antigo, enquanto aquele que eu pretendera se dissolvia entre os meus dedos. Quanto moi.s os homens e as paisagens o cuja conqui.!ta eu partira perdiam. ao possuí-los, a si~ificaçio que eu deles esperava, ~a~ f.~sa~ imagc n.s deee:pcionantes ajnda que pre!entes eram subshtul· das por outras, postas em reserva por meu pauedo e às quais eu não dtra nenhum valor quando ainda pertenciam à realidade que me

rode•••·" (Tristes Trópicos, Sio Paulo: Anh=hi, 1956, 402 ss.). S.no JlOS'Í•el diur que o elemento que oe insinua no trabalho

dt eampo é o sentimento e a emoção. Ettt-5 eeriam, para parafrasear

Lêvi.Straui!S, õii lióspédes não convidados da situação elno~f\ca· E tudo indica que tal intrusão da subjetividode e da carga afeuva que vem com ela, dentro da rotina inteleetuallzada da pesquisa antropo-

lógica, é um dado sistemático da &.ituaçio. Sua maoi(eetação asm-

me

\'U'I'IC.S

A VERSÃO QUAl n'AllVA

forma~. indo da

anedota

iofamc

contada

31

pelo falecido

Evan•P ritchard, quando disse que estudando os Nucr podo-se {a·

eilmente adquirir &intoma.s de

Nueroeia'"

6 , até as .re8ÇÕCS mais vis-

ccrois, como aquelas de Lévi·StraUIOI, Chagnon e M aybury·Lewis"

à solidão, à falta de privacidade e à sujeira dos

. Tais relatos parecem sugerir, dentre oa muitos temas 'I"'( ela· boram, a fantástica surpreaa do antropólogo diante de um verda·

deiro aosalto pelas emoções. Aasim é

quando ae re{e indios.

,m

que Cbagoon descreve sua

perplexidade diante da suje.ira doa Yanomooo e, por isso mesmo,

do terrível

l!entido de que foi acometido nos seus primeiros tempos de traba·

lho de compo. E Maybury·Lewis guarda poro o último panígrafo

sem

sentimento de penetração

num

mundo

caótico

e

do seu livro a surpresa de se 8aber de algum modo envolvido.!!

J1U. de envol-ver

.!leU informante.

Assim, é no últiino instanl_c

:a-

do

iieu relato que ficamos sabendo que Apawen - ao se despedir do

como oe na escola gro·

antropólogo -

tinha lágrimas nos olhos. t

duada tivessem nos ensinado tudo: espere um sistema matrimonial prHC:ritivo, um sistema político eegmenhldo, um sistema dualiFta, etc., e jamais nos tivessem prevenido que a situação etnográfica não é realizada nu.m vazio e que tanto lá-t quanto aqui, se pode ouvir os

onlhropolosiool blue3!

Mas junto a esses momeolOO> eruciaiJ (a chegada e o último

dia}, há - dentre as inúmeras situações destacáveis - um outro inatante que ao menos para mim se configurou como critico: o mo·

mento da descoberta etnográ{iea. Qua.ndo o etnólogo consegue des·

cobrir o funcionamento de uma instituição, compreende íinalmente

o operação de- uma regra antes obscura. No easo da minha pesquisa,

no dia em que d escobri como operava o regra do. amizade formali·

r.adl'l entre os Apinoyé, escrevi

no .meu diário em 18 de setembro

I de 1970:

\ "Então ali estava o segyedo de uma relaçiio social mui· to importante (a relação entre amigos formais), duda

por acaso, enquaoto descobria outras coi!as. Ele

mCJrS

trava de modo iniludivel a fragilidade do meu traba· lho e da minha capacidade de uereer o meu ofício cor·

'/

a

1~

t

Cl.

:

Eunt-Pritehard.

13.

Press,

U\i·Strauss. "'t.ja o jA citado Tristes Trópico~; para 0\aanoo. c

The

Ox!ord.

at

\hc

Clarcndon

Pura

Maybury·l

rwis

confira,

rcspcctivamc:ntc 1

Yanom41'to:

Tlle Fi~r« P~ople.

Novo York: Holl, Rinehart e Winston, 1968, e Tht S••••• tsnd Tht lnno-

"'~"'· D01tcm : Bcacon Press.

1965.

~

l

'

f .

I

J2

A

BuSCA DA

REALIDADE OBJETIVA

retamente. Por outro lado, ela revelava a cont.ingêocia do ofício de etnólogo, pois os dados, por ~Mim dizer, caem do céu como pingos de chuva. Cobe ao etnólogo n4o apará-los, como conduzi-los em enxurrada para o oceano das teorias correntes. De modo muito nítido verifiquei que uma cultura e um informante são como

cartol

que (az sentido num dia; no outro, conseguimos fi.

tas color idas de baixo valor Do mesmo modo que estava preocupndo, pois havia mondado dois artigos errados para publicação e tinha

que corrigi-los imediatamente, fiquei tnmbém eufórico.

~1o~ minba euforia teria que ser guordndn parn o meu diário, pois não havia ninguém na alclcio que comigo pudesse compartilhar de minha de!ICoberta. Foi assim

que escrevi uma carta para um amigo e visitei o encar-

regado do Posto no auge da eu!oria. M

tua absolutamente interessado no meu trabalho. E,

mesmo se estivesse, não o entenderia. Num dia. à noite quando ele perguntou por que. a!inal, estava eu ali estu· dando índios, eu mesmo duvidei da minha resposta~ poi.s procurava dar sentido prático a uma atividade que, ao menos para mim, tem muito de artesanato. de confuúo e é, assim. totalmente desligada de uma rea- lidade instrumental.

minha

descoberta. E, à noite, depois d o jootor nn casa do en-

CDI'regodo, q uan do retorne i õ m inho CO!Ul, ltl pude di-

zer do meu feito a dois meninos Apiuo.yé que vjeram para comer comigo algumas bolochos. Foi com eles e com uma lua amarela. que subiu muito tarde naquela

noite que eu compartilhei a minha aolidõo e o segredo da

de mágico: tira·sc alguma coisa (uma regra)

ele não es·

E

foi

assim

que

tive

que

guardar !ICgredo do

minha minúscula

-itória.-

Esta passa.gem me parece instrutiva porque ela revela que, no momento mesmo que o intelecto avança - na ocasião da deseober- ta - as emoções estão igualmente j>resentes, que é. preciso com- partilhar o gosto da vitória e legitimar com os outros uma desco- berta. ltfas o etnólogo, nesse momento está e. dt!lte modo, terâ

que guardar

E aqui se coloca no'(awente o parado.xo da situação etnográ· para descobrir é preciso relacionar-se c, oo momento mesmo

da dcaeoberlo, o etnólogo é reoiêtido pura o aeu mundo e, deste

para si próprio o que (oi capa& de desvendar.

lica:

para si próprio o que (oi capa& de desvendar. lica: A VERSÃO QUALITATIVA 3 3 modo,

A

VERSÃO QUALITATIVA

33

modo, i10la-se novamente. O oposto ocorre com muita freqüência:

envolvido por um chefe político que deseja seus favores e sua opi-

niio numa disputa, o etnólogo tem que calar e isolar«. Emocionado

pelo pedJdo de apoio e temeroso por sua particiJ>Ição num conflito, ele ee vê obrigado a chamar a razão para neutralizar os seus senti· meutoe e, assim, eontinuar de fora. Da minha experiência. guardo com muito cuidado a lembrança de uma destas situ11.ções e d~ oulrct. muilo moia emocionante, quando um indi.oz.inho qun crn um misto de secretário, guia e filho adotivo, o!ereceu-me um colar. Trau crevo novamente um longo trecho do meu diário de 1970:

" 1 1 engi entrou na minha casa com

a uma linha de tucwn. Estava nn minha. mesa remoen·

do dados e coisas. Olhei para ele com o dc.~êm """ can. ·

&odos e explo.rad?S, pois que diariamente. c n t01l1• o mu· mento minha casa se enche de índios com colores paro

trocas pelas minhas m.issangas. Cada uma dessM trocas é um pesadelo para mim. Socializado numa cultura onde a troca sempre implica uma tentativa de tirar o melhor partido do pa.rceiro, cu Kmpre tenho uma rP

troca.s propostas pelos Api·

nayé: um colar velho e mal feito por um punhado sem. pre cresoente de missangas. àla.s o meu ofício tem des-

ses logros, pois missanga.s nndn valem para mim e. no

umo cabacinha presa

beldia contra o abuso d

entanto,

aqui

estou

zelando

pcJa.s

minhas

)'CfJII<'nns

bola.s colo.ridas com o se fosse um guorda dr ' ' rn lm11c:o.

Tenho ciúme delas, e$lOu apegado no seu ''olor ·- <p.:e

Os índios cltcgom. ofen.lm~ra ,,s

e u mesmo

co lare::~, snbcm <{UC eles süo mal frilu:i, rnns sabem que

eu vou trocar. E assim fazemos as trocas. S:io c.'•·:c- oos de colares por milhares de mill:inngos. Att' ·I"" dus acabem e a noticia corro por toda n aldeia. E, então, fi. carei livre desse incômodo papel de comerciante. Te· rei os colares e o trabalho cristaliudo de quase todas

u mulhf'res Apinayé. E eles terio :nÍ't414n;r;a'j !•;;.ra fJU·

tros colares.

Pois bem, a chegada de Penv ero sinal d• mais uma troca. Mas ele estendeu a mão rapidamente: Esse é

para o

E. ato continuo, saiu de çasa sem olhar l)Or\1 lrús. O objeto esta,•a nas minhas mãos e a saída rúpida do in·

dioünho não me dava tempo paro propor uma recom.

pensa

teu i.bá (filho), para ele brincar .

pude pensar oo gesto cowo tunn gcntilcz.-

tempo paro propor uma recom. pensa teu i.bá (filho), para ele brincar . Só pude pensar

3-1

A

BuSCA DA REALIDADL OeJETtVA

mas ainda duvidei de tanta bondade. Pois tla não e xi_s

tt

lor. "" 1

nesta

sociedade onde os homtnJ aão de mesmo ~·a­

Que o leitor não deixe de observar o meu último parágrafo.

Duvidei Ue tanta bondade porque tive que racionalizar imediata-

mente 11quela dádiva, caso contrório não estoda mui• solitário. 'Mas

será

que o etnólogo eslá realmente sor.inho?

01

mnnunis de

pesquisa social qu••• •cmpre colocom

o pro-

hlemn de modo n !nzer crer que é precisamente ~se o cuso. Deste modo, é o pcsquisodor aquele que deve se orientar pnra o grupo

eatudodo e tentnr iderltifiear-se eom ele. Niio se coloca o contrapar- tida deatr me5mo processo: a identificação doa nativos com o siste-

ma que o pesquisador carrega com ele, um sistema formado entre

o etnólogo e aqueles nativos que eoruegue aliciar -

amiu1<le, dinheiro, presentes e Deus sabe mais eomol -

lhe digam Rgredos, rompam com lealdades, forneçam-lhe lampejos oov01 tobrc a cultura e a sociedade em utudo. Afinal, tudo é fundado na alteril dado om Antropologia: pois ~xiste antropólogo quando um nativo transformado em in- formante. E há dados quando há um proeesao de empatia COr· "'"do dt lado a lado. is.o que permite ao informanteconta;-mais um nlítot elaborar -êõm novos dados uma relação sociu.l e discutir

motivos de um lider politjco de sua aldeia. São justamente esses

M

em inlormontes e em e tnólogos) que sal·

do nascer e fossos sanitá·

pelo simpatia,

para que

nn1ivos

(tronsformudos

' 'om o i)esquisndor do marasmo do tlilHH.lin do nldeio:

J>Ôr·ÔO·.sol,

do

godot

da mandioca,

do

milho

e

das

riu.

Tudo i'l~ pnrece indicar que o etnólogo nunca está só. Real- mente. no meio de um sistema de .rt:gras ainda exótico e que é seu

objelivo

tornar

familiar, ele está

relacionado -

e

mais

do

que

nunca ligado - a sua própria cultura. E quando o familiar come· ça a se desenhar na sua oonsciêoda, quondo o trabalho termina, o antropólogo retoma com aqueles pedaços do imagens e de pessoas que cooheeeu melhor do que ninguém. Mu aítuadu forn do ai- cante imediato do seu próprio mundo, elas ape-nas instigam e tra- z.om il lu• uma ligação nostálgica, aquela dos anlhropologieol blues.

'7

to

Para

~tudo da

organizaçlo social data tOCiedado

Dividido:

A

Ellruturo

S«lol

D•• t-.11\ua. Um

um

Mundo

l'cuóoolis:

Votes. 1!176.

vcj•·tc

Rober-

doJ

Apino)V.

A

VERSÃO QUAliTATIVA

35

11 I

Mas o

das

~

que

,.

pode

impressões

,s

dedu•ir de

todas essa• ob.eruções

e

de

que

formam

o

proce

o

que denominei

to-

4n-

thropological blues?

Uma

dedução

possível, entre

muitos outras. é a

de

que. em

~

.••

'

( Antro1>0logia, é preciso .!ecuperar esoe lado e•traordinário das reJa.

çõe:s pc.squis.otlorfnativo. Se este é o Indo menos rotineiro e o moia difícil de ser opnnhndo dn situoçõo ontropológicn, é certamen- te pOT(JUC ele se constitui no aspecto •nnis humnno dn nosso rotina.

~r. o que realmente permite _ escrever n bon etnogrofio. PoNpte scrn

exemplo tio

ele, como coloca Geertz, manipulando habilmente um

filósofo inglês Ryle, não se distingue um pisco r de olhos de umn pis-

c.odda

marota. E é

isso, precisamente, que distingue a

d~erição

I ·aensa" -

tipicamente antropológica -

da

descrição ir.versa.

fo-

tot:rórica ou meeãnica, do viajante ou do mi'itionário. 1 l\las para distinguir o piscar mecânico e [i.siolól!ico de uma pi.seadela sutil e comunicativa, é preciso sentir a mqinalidade, a aolidão c a sau· dade. preciso eruur os caminhao da empatia e do humildade.

dt&COberta da Antropologia Social como matéria interpre-

tati va ~egue, por outro lado, uma tendência da disciplina. Tendên·

Ea

cia que modernamente parece marcar sua passagem de u

na

ciêo·

eia natural da aociedade, como queriam os empiricistas ingleses c

amcricanGa,

tudo a con frontar subjetividades c delos trotar. De Cnto, neste pla-

de

para

uma

ciência

interpretativa,

destinada

antes

no nõo 8cria exagero e(irmar que o

d os mais irn1>ortantcs para desloc11r

o problemo, corno assume f.ouis Oumont, en tre outros, niio pare·

ce proprinmente ser o de estudar os castas do fndin

las integralmente, tareía

que o intelecto, mas - isso sim - permitir dialogar com ru; ror·

ma.s hierárquicas que convivem conosco. lt a adrniMão - roman· tismo e anthropologú:Gl bl~te• aporte - de que o homem não se en· xerga acninho. E que ele precisa do outro eomo RU espelho e seu guia.

parn conhece- muito mais do

Antropologio é um ~meca nismo

no51n próprio s ubj etividade. E

impossível e que exigiria

8 ct. Clirford GtertL, Tfle lt~trrpr~ID/iQ, o/ Cultur~l, Nova York~ Basie

Bookl,

1973.

IA

ser

publicado

brc\'emcntc

por

Zahar

Edi1orc:s.]

.,

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----- ";"'

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,

Nu WJ)

J ~~o""c\.t O~vW.<>

(~~-J.

A

A'llu:Ji.w o

Sot.~.o~c.o- , ~o 1

~e>-~cu.,

2

Observando o Familiar '

CtLUERTO VBLtiO

I - Uma da.s majs tradicionai5 pnmlssa.s da.~ ci~nciu IOCta.t.S é a neceaidade de uma distânCÜJ mínima que garanta ao inH~:Stiga­ dor condições de objetividade em seu trabalho. Alirma-se scr pre- ci.to que o pesqui$ador veja com olhos imporcum a rulidadc, ~vi· Lando en110lviment<n que possam obec:Urt~C<tr ou deformar seus JW· gameotoa o conel~. Uma d;" possíveis ~~rrênciu des!e rac:ocí-

por

naturtzo" mais neulros c eientiü.cos. Sem dúvida essas premissas ou dogmas niio siio partilhados por toda o comunidade acadêmica. A noção de que existe um envolvi- mento incvitJ\vel com o objeto de estudo c do quo isso não constitui um defeito ou imperfeição já foi cloru. e precisurnento enunciada., Não vou deter-me especüicamcote, na discussiio malJ geral sobro neutralidade e irnJ,orcialidack. Creio ser mais proveitoso discutir ai· :gumaa e~riênciu pessoais que me levaram a reCletir de forma

rüo aeria a valonzaçao de metodos quaohtJLhvoa que senam

mais tiJtt:mútico 10bre esses problemas.

11 A Antropologia, e~ra sem exclusi~idad~, tradiei~n~·

, ,.01. À obeervação participante, a ealrevisto. aberta, o contato dire- to, peseoal, com o universo investigado constitutO? sua m~

qualitati-

mente Identificou

com os metodoa do peoqu•sa dttos

re-

_ou

dimeniÕes de uma aoeiedade é necesaârio um eontato, uma v•ven- eia durante um período de tempo razoavelmtnte longo poi.! cxis-

gistrada. I osiste-se na idéia de

que para cooh

,r

cortas ~

Eduardo

Viveiros de Castro. com quem tive oportunidade de dl~~ulir este trabalho.

De que lado Esta-

2

1 Aaradcço os comentário e sugestões do Roberto Da Matt.o c

V<r por exemplo o trabalho de Howard S. Beckcr,

' mos••, em

Uma Ttoria da Ação Coleti!Ja, Zahar Edhores, 1977.

A

VERSÃO QUALITATIVA

37

tem aspectos de uma cultura e

de uma sociedade que nõo Mo C't·

plicitad01, que não aparecem à &upcrficie c que exigem um es- forço maior, mais detJLJhado e aprofundado de obaorvação e eLDJ>3· tia. No entanto, a idéia de tentar por-u M lugar do outro e de eap- -tÜ vivências c experiências particulares exige um mergulho em

profundidade

tempo. Trata-se do problema complexo pois envolve •• questões de

situou com propriedade a trajetória antropológico do transformar o nexótico em familiar c o familiar em exótico'''· Evidcnternente, em oJgum nível, está se falando em dütáncia. ~ preciso, no entanto, renetir mais sobre o que se entende por isto. Sem dúvida existe uma distância fisica clara entro a sociedade inglesa tio déeodo de trinta

difícil do ser precisado c

e

dütáncia

p•icológica.

delimitJLdo em

Sobre

i'IIO

Da

termos de

Matta

di$tá11cia 10<ial

e uma

tribo do Sudão. Há que haver urn c.leslocarnt:nto no c:~paço

que requer a utilização de um determinado tempo, maior em prin· eipio do que ir de Londres a Oxford ou de Cartum ao Cairo. t poeoível que um ou outro individuo na tribo Cole inp;lês, mas a grande

d01l dialetos locais, o

znajoria

comunica·.se exclusivamente através

que evidentemente representa, em princípio, uma desc:ontinuidade

maior m~ termoa de comurücaçio do que entro um se/to/ar inglês e um operário seu conterrâneo, apesar de lkrnard Shaw. Tra· te·&e, no ~ntanto, de um tipo de comunicação, a verbal, que não ~

, inglêa desenvolva um interesse e cultive uma empatia por chefes tribnia, atribuindo a estes, real ou íant.a.siosnolente, problemas seme·

lha_otes 001 seus na área da manipulação do conhecimento e no exer- cício do certas prerrogativas, podendo estabelecer pontos do contato

e de uproximnçõo, ern determinados níveis. moiores do que os exis-

tente~ entre o mesmo scholar e seus fellourcounlry ,um de origem proletário. SlrnrneJ ao analisar a nobreza européio mMtrn o seu cnr:ltcr cosmopolita e internacional, passando AObre os rronttirn.s dos Es· Lados, enfatizando seus laços comuns de grupo de Jtatu•J marcando vigoro.amente a di.Jtâneia em relaçio aos conterrôueo. campone~,

pro1t:târioa ou mesmo burgueses 4 Se.m dúvida o patrimônio ou a (Ultura comum de uma nobreza européia são muito mais óbvios do

quo experiências particulares de ebe(eo tribaiJ arricanos c de um ICholor inglês que poosam apresentar algumas ~mrlhonçu. Num

gota todo o poteneiol simbólico humano. Pode

imaginar que o

• l!m "'O Oficio do Etnólogo ou como Ter •Anthropoloaic:~l Olues'

PubliCAçOcs

Museu

do

Programa

Nacion111, 1974, e

de

Pós-Graduação

em

inctuldo

nesta colctlne:t.

Antropologia

Social

·-

do

E.m "The Nobility"'

em o,

\'Cr1Íiy or ChiCASO Press,

1971.

Judi,·iduolity tmd Sot iol

forms. 1 he Uni·

Nobility"' em o, \'Cr1Íiy or ChiCASO Press, 1971. Judi,·iduolity tmd Sot iol forms. 1 he Uni·

38

A

BUSCA DA REALIDADE OaJrnVA

ca50 c~tá·se Calando em uma causoria social e no outro tln inter;~.

A

VERSÃO QUALITATTVA

~-

39

por tr•diçóea nacionais de caráter ma~ geral mu por expeneocias

, uma eategorla. Mu aurgo com nitidu o queetlo do relação entre

indivúluos que não chegam01 a perceber ou definir como

çio ent

e

o

vivênciu de daue, definidas em termot eociológicot, econômicos

hl•tórl-, quo originam lnclutlvo a noçio do cultura de cl011o

di•tãncia eoclal o peicológica. O fato de dois indivldu., pertence·

quo pode ultra~r u

fronteiru dos Eetadoe Noeionais. Sem dú.

rem à mesma sociedade não significa que estejam maiJ próximos

 

vida •

noçio de Estado Nacional e a valorlução de um

patTimé>-

, porém GJ>roximados por

prelerêncitl, gostos, idiossincruias. Até que ponto pode·se. OC$SCJ

do que ae fos.em de !'Oeiedad., diferent

caoot, distiogt~ir o 1ÓCic>-cultural do p•icológico? No mundo acad<'·

mico

ou

intclcctuol

em

geral

esta experiência

6 Lcm

con hecida.

Qunolos vetes em encontros, seminários. conferêncitlS, etc. de carÓ· ter internocionol nõo nos encontramos intcrngindo O vontade. de ma·

ncira fácil c descontraída, com colegas vindos de soeiedudCJ e cuhu· ras as mnis dispn.re;:? Lembr~me bem de uma vez, chugoudo u uma universidade americana na hora do almoço, ter oportunidade de sentar À mesma mesa com colegas americanos, um francês. um argentino e um holandês. Quase todot ettávamot nos conhecendo.

No entanto a conversação correu fácil

nio quanto ao tom, com

pequenu ironias e

piadas implícitas, meiat

palavras, re(erêociu,

ete. Tínhamos lido Alexandre Dumu e Walter Scott na adolescêo·

eia e gostávamos de Beetboven e

do autor italiano, que seria exibido na univtnidade durante a se- mana e discutiu-se a 7.• Sinfonia, programada para aquela noite. Eonobismo intelectual? Cultura ornamental cultivada pela intelec· tualidadc acadêmica? 11; possível. mas constituem·M: em temas de conversa assim como discutir um jogo de futebol ou n tiltima atuação de Rívclino ou Paulo César com o chofer de táxi ou com o porteiro do edifício. Quo tipo de conversa é mois real, verdndeiro? O faLo é quo se estó di&eutindo o problema de experiêncioJ moi:! ou menoi comuns, pnrtilhúvei.s que permitem um nível de interação espcc;q. co. Fnlor-se n mesmo Jingua não não exclui (1ue exi~tam grandes

Rosoelini. Comeotou·se o filme

di.fcrcnçns no vocobu1ário mas que significodo!l c

inlerpretaçÜf:s di-

fe

reotemeote idêntica•. Voltamos a Beroard Sbaw e a Pigmalião. Por outro lado, toda a traditão marxista valoriza a rocpcriência comum de cl05~ c acentua~ tm certas inlerprelatõt-s. o tarátrr t:'\tra e su- pranacional da luta política, desenfatiza os laços comuM, patrimônio cultural de que poderiam participar ela~ eociai• diJtinl85. para enfatiZAr, por exemplo, a experiência básica comum de exploração a que estaria submetido o proletariado. Exprct"tÕe! ou termOJ como bur&uPsÍa iralernacional. unidade internacional proletária tendem

,otes

podem ser dados a palavras, categoriu ou expre

ões

apa·

a

sublinhar

a

importância

de

e.xperiências

e

intere:s~s ~ociolôgi­

ros c históric~ comuns em detrimento das notõe! tlc idc::nth.lad

rultun

e nacional. A unidade, no caso, niio scrin dado pclu lín~u;.~,

nio comum dentro de suas lronteiru em opoeição a patrimônios de

out:roa Estados está ligada a uma conjuntura aócic>-histórico p~isa. Normalmente o opa~imento do Estado Moderno ó asl!OCiado ao desenvolvimento do. burguesia, ao fortalecimento do nocionalismo. ~ Enquanto movimento intelectual surgo o Romonlismo, preocupado

esecociois de um

povo, DOCiOnolidode, e COobeeida 8 monÍpulaÇÍÍO do ideologias OU· cionalis101, de oposição simbólica e material ao que vem de fora. como estranho, iotru5o, fora de contexto, alienado. Pode parecer e&tranho que um antropólogo esteja chamando atenção pora o "arti~ licialismo" de certas separações e limit~ ent-re 10eiedadea o cultu- ru. ltfat creio que, contemporaneamente, cabo justamente aos antro- pólogos relativi.r.ar essas noçõe.s, nio negando.u ou invalidando-

ideologicamente mu apontando a sua dimcneão de algo fabricado.

produzido cultural e historicamente. Nio se trata de aer nacionali.<.

ta ou internacionallita, mas sim de chamar atenção par• a complexi·

em J>C$<1Ulenr (ou até criar) raízes, fundameotoe 1

.I ~ade da catesoria dútÔ!_Icia_ e disso extrair conseqüências para o noao trabalho cientifico. A1111ím, votlo ao pn,blema de Da Malta, para 1ugerir certas com·

familiar

I mu nõo é neceSMriamente conhecido e o q·ue nõo vemo.t e encon· eramoJ pode ser exótico mas, até certo ponto, conhecido. No eotonto

estornos eempre pressupondo familiaridodes e cxotismos como íon· tes de conhecimento ou desconhecimento, rt!pcctivameute. Do janela de meu apartamento vejo na ruo um grupo de nor·

de construção civil 1 enquanto o alguns me·

tros adiante conversam alguns surfistas. Na padaria há uma fila de

"mpregadae dométtices, três senhoru de cl média conversam na porta do prédio em frente; doi• militares atravessam a rua. Não

parte d•

paiJagcm, do ceoório da rua, de modo geral e-tou loabituado con •

aua p

conhee.imtnto a respeito de suas vidas, hábitos, e~oça.'J. ,·atores é 11hamente diferf'neiado. Não só o meu grau de !omilio,ridctde. nos ttrmos de Do \Jatto, está longe de ser homog~nf'o como o de conbe-- ci.mento .; muito desigual. No entanto, todo. não (a.xm parte de minhn ~oorir-tl:ulr. rnos são meus conlemporônro" r vi.:tinh<>:!. Encoo- trnmo--noe no ruo, falo com algun.J, cumprimt"nlo outros. hj •P que

há uma familiaridade. Mu, por outro lado. o meu

destinot, trahalhadoreo

1 plieoçõea. O que sempre

vemos e encontramo•

pode "'"

,

h' dúvida de que todos estes indivíduos e srupoe for

-nça,

rm

sempre vemos e encontramo• pode "'" , h' dúvida de que todos estes indivíduos e srupoe

/

40 A Busc.• DA

REALIDADE OBJETIVA

reconheço e, evidentemente, há d eacoohecidos tnmbém. Tratn·se

de aituação d.ilerente de umn eoeiedade de pequena escala, com di·

visão social do trabalho menos complexa, com maior concentração

ou

menor número do papéis, etc. discuti, em outra ocasião, o

problema do anonimato relativo na grande metrópole, chamando

nlenção para a existência do áreas o domínios até certo ponto autô-

nomos que permitem um jogo de papéis e de construrão de idcoti· dade bastante rico e comploxo•. O fato é que dentro da grande me· trópol ~. sej a Nova York, Paris ou Rio de Janeiro , há deoeontinui· dadeo vigorosas entre o ~mund o~ do pesquisador e outros mundoe,

C.undo com que ele, meJj.mO tt-ndo nova-iorquino, parisiense ou carioca, possa ter experiência de estranheza. não reconhecimento ou

~té ~l~oq~e cuhur~.~mparávei.sà de _viage~s a sociedades e regiões

exoticos

. Na opm1ao de Dn l\o1ouat1 1sso nao

acontece co m n maio

ria dos pessoas dentro da oociednde complexo nn medida em <tue a

realidodc e ns categorias socinis ô sua volta estão hicrnrquizodns. A hicrorquin organiu, mapeia e, portanto, cada categoria eociol tem 0 seu lugnr ntrovés de estereóliJ)C).A como, por exemplo: o trabalhador

subnutrido; o turfista é

maconheiro, •}ien!do~etc. Eu aeracentaria que a dimtn~io do ~

der e da donunaçao e fundamental para a construção dessa híerat· quia e d~ mapa. A etiqueta, a maneira, de dirigir-se u pessou, as expeetatJvu de respostas, a noção de adequação etc., relacionam· à distribuição aociol de pod~r que é essencialmente desigual em umo eociedade de classes. Auim, em princípio, dispomos de um

se

nordrttino. 14 paraíha:_, é ignorante, infantil,

-

mnpn q-ue nos familiariza com 01 cenários e situações socini.s do nos- lO cotidiano, dando nome, lugar e posiçiío aos individuO!. hto, no entanto, não significa que conhecemos o ponto de vi§ta e n visão de

mundo dos diferentes atores em uma situação social nem u

regras

que estão por detrás dessas interações, dando continuidade ao sis--

tema. Logo, sendo o pesquisador membro da sociedade. eotoca inevitavelmente, a questiio de seu lugar e de suas possibilidades d;

ftlativiuí-Io ou transcendê-lo e podtT "por-se no lugar do outro.,.

prtti so

df'.s mais hierarquiud&.s

que permitem a critica, a relativizaçãQ ou até o romplmcnlo com a

hierorquia. Na sociedocle complexo contemporãnen rxiNcm trndêon-

chamar atençüo pora o fato de que mc-5mO nos AOCitdo-

hft momentO&, situações ou

papéis aoci~is

Social cJo Meio Urba-

• Comunicação Pessoal. '7 V~r o trabalho clássico de Louis Dumonl Homo 1/ttrcrrt'hicus. G31li- mud, _1966. ~nde: o autor mocHa que mesmo na l ndtt. moddo de soc.tt- ~Je lutrárqutca. marcem para a s.akla ou estra.nhamtnto da h~l'"llrqui8.

' Com L . A . Machado da Sihft "A 0r&ani7

aÇÜO

no"

in~dilo.

A

VERSÃO QUALITAnVA

41

cios, áreas e domíniO$ onde 1t evidencia a procura tlr t"Ontrstnr t"

redefinir hierarquias e a d istribuição de poder. Ao contrário de 50-

tradicionais mnis estáveis ou integradas, está longe tlc hn·

cic

"C ades

ver um consenso em torno dos lugares e posições ocupndos c de seu valor relativo. Exis te o disscnso e1n vários níveis, n possibilidade do conflito é permanente e a rulidado está sempre sendo negocindn ~ntre atores que apresentam interesses divergentes. Embora existam

01 mecanismos de acomodação ou de apaziguamento, sua eficácia é

muito ' 'ariá,·el e. até certo ponto, imprevisível. dife~ntes ti- pos de desvio e contestação que põem em cheque a escala de valores dominante. A ciência aocial surge e se desenvolve nesta conjuntura. tendo toda uma dimensão inconcclasta voltada para o eu me cri ti. eo e deasacralizador da 110eiedade. Os cientistas 110eiais, ontropólo·

gos, aociólogos, cienti.sta.s politicoe, etc. estão eonstontemcnte: entran-

do em áreas an tes

sos, queationando. ~ claro <[Ue islo varia em função de ,

dade1 -

invioláveis, levantando dúvidu, rev e ndo prcmi.s·

po55ihili·

origem social, tipo de formação, orientação lcúricu. po~i·

ção ideológica entre outras. ?t-tas mesmo em se trotando de indivi·

duos e correntes mais ligados ou identificados com lendências con-

ttrvadora.s~ ou até ruciooáriu , o próprio trabalho d~ in,-~ligaç.óo

e refleúo oobre a aociedade e a cultura possibilitam uma dimen·

o

aio no•a da investigaçio cieotílica, de conseqüências radicais -

questionamento e exame aist~mático de seu próprio ombionte. As

lloalogiu com a psicanálise, embora um tanto pe:r"igosas, úo óbvias. Trnta·se, afinal de contas, de uma tentativa de identirict~r rnccaois- 0104 conscientes e ineonS<'ieotes que sustenltlm e diio continuidade 4 determinadas relações o situações. Assim voha·sc u um ponlo cri· tico. Não o grau de familiaridade varia, não é igual o conheci· meuto, mas pode constitulr-se em impedimenlo se nõo for relativizn-

do e objeto de refiCJ<ão oi.otomática. Posso estar acostumado, como já di.Me, com uma certa paisagem 110eial onde a disposição dos ato· res me é familiar, a hierarquia e a dL<tribuição de poder p<'rmitem·

me fixar, grO»> modo,

os indh•iduos em categorias mais amplas.

No entanto, isto não significa que eu ~mpreenda n lógica de suas

rd ações. O meu conhecimento pode esta.:r scriumcnu.• comprometido

pele rotina, hábitos, estereótipo&. Logo. posso ter um mapa ma! não

compreendo oecessarinmcnte O! princípios c mec.-oni.smos que o

organizam. O processo de tl~•coberto e análise do que é fami liar

pode, sem dúvida, envolver dificuldades diferente~ do c1ue em reln· ção ao que é exótico. Em principio dispomos de mapa~ mnis com-

plexos e cristalizados para a nossa vida cotidiana do que em relação

a grupõs ou sociedades díatant

ou afostados. Isso oio aigniíica que,

mesmo ao nos de&ootermM~ C!Omo indh,iduos e pesquiqdores, com

42

A

BuscA DA REALIDADE OBJEllVo\

grupos e situações aparentemente mais exótico~ ou distonte.s, não e~ lejamos sempre !:!_asst!icando e rotulando de acordo com princípios IJásicos ab'avés dos quais fomos o somos socializados. ~ provável que existo maior número de dúvidas e hesitâções como~as de um turis- ta em um pnís desconhecido mns os mecanismos classificadores es· tão sempre operando. Dentro ou fora de nossa sociedade nós pes<JUÍ- s.ndores ocidentais eslamos sempre, por exemplo, trabalhando e nos referindo à categoria indivíduo como unidade básica de mapeamen- to. No entanto, através da obra de Louis Dumont, sabemos que exi.s- tem sociedades em que essn categoria niio é dominantes. 1\fesmo denlro da sociedade brasileira há grupos e áreas que apresenlam fortes dife-renças e descontinuidade8 em relação à noção dominao· le de indivíduo.' Levando mais longe o exame da.!l categorias familiar e exótico,

sem

querer

entrar

em

di.scu!lsóes

de

natureza

filosófica.

não

como deixar de mencionar os impasses sugeridos pelo exJstenciali!· mo em relação ao conhecimento do outro. Não vejo isto como um impedimento ao trabalho científico mas como uma lembranç3 de humildade e controle de onipotência tão comum em nosso meio. O conhecimento de situações ou indivíduos é construído a partir de

um sistema de interações cultural e historicamente definido. Embo.- ra aceite a idéia de que ~ repertórios humanos são limitados, suaa

e

abrir abismos, por mais familiares que indivíduos e situações pos· sam pateeer. Neste sentido um certo ceticismo pode ser saudável. Pareee·me que Clifford G(!eru, ao enfatizar a natureza de interpre· tação do trobaiJ!o ontropológico chama atenção de que o processo de conhecimento do vida social sempre i.mplica em um grau de ~objetividade e que, portanlo, tem um ~arátc.r aproximativo e não definitivo••. O que signiCica a velha eslorinha de que antropólogos sofjstjcados escolhem sociedades sofisticadas para estudar, os mais ansiados trabalham com culturas onde a ansiedade é dominante? Isto mostra não a feliz coincidência ou a mágica do encontro entre pesquisador e objeto com que tenha afinidade, mas sim o Cb• ráter de interpretação e a dimensão de subjetividade envolvidos nes· te lipo de trabalho. A "realidade" (familior ou exótica) sempre é filtrada por um determinado ponto de vista elo observador. eln ~

_combinaçÕt>-.s !lão

suficientemente .variadas

para

criar

surpresas

8

Op. cit.

9

Retiro-me

u esta quesllio em

Rela~cs enlr~ a

AntrOpOlogia e

a

P"si·

quialria" em

RttPista da

As.rocinção de Psiquiatria e

Psicologia da

lnfdn·

cia

JO

~

da Adolcsc:t?ncla - - Rio,

V.

2.

1976 -

N.u

I.

Ocenz., Clifford -

1'he /llfupr~lalion of CultureJ, Nov~ Y o tk, U.a-.ic

Books, 1973.

A

VERSÃO QUA(.ITATIVA

~

percebida de maneira diferenciada. l\•fais uma vez não estou proela· mando a falência do rigor científico no estudo da sociedade, mas a necessidade de percebê·lo enquanto objetividade relativo. mais ou menos ideológica c sempre interpretativa. Este movimento de relativizar as noções de distância e objeti- vidade, se de tJm Indo nos tornn mais modestos quanto à construção do nosso conhecimento em gernl, por outro ]ado permite-nos ob- :Servor o familiar c estudá-lo sem paranóias sobre o impossibilidade de resultados imparciais, neutro.s.

III - Tive oportunidode de pesquisor um universo de peque· na classe média whitte.colcrr que me era familiar através do mapa hierárquico e político de minha sociedade e de meu bairro. 11 Atrav6s de estereótipos localizava os moradores de grandes prédios

, am "balouça", que havia desconforto, falta de higiene c que seu• moradores eram de condição social inferior, sujeitavam-se a condi- ções de vida mais ou menos degradantes por estarem alienado.!, su- gestionáveis. Certamente tinha dúvidas, questionava alguns desses estereótipos. conhecera pessoas que moravam em ''balanças" e que não !IC ajustavam a essas pré-noções. De qualquer forma, se um dCMes prédio5. particularmentet tornou-se mais fomHior oi.ndtt, quando paro me mudei, o meu conhecimento de sua população era precário. O esforço de entender e registrar o discurso do uni- verso, eeu eistema de classificação e de captar sua visão de mundo nem sempre (oi bem sucedido. Percebia como a minha inserção no sistema hierárquico da sociedade brasileira levava-me constante- mente a julgamentos apressados e preconceituosos. as vezes até por querer drásticamente repelir as noções anteriores. caindo em arma· dilhns jnversas. Depois de ano e meio de ~idência no prédio, creio que consegui perceber algum .!leeanismos. que sustentavam aJógica das relações sociais internas e externas e também ~~ar algo do es-

de conjugados. Ao passar por um desses edifícios, "sabia

que era

tilo de vida e visão elo mundo loc.cis. Estou consciente de que se tra· ta, no entanto, de uma interpretação e que por mais que tenho pro-

t

curado reunir dados ~verdadeiros" e "objetivo.s'' sobre a vida

da·

,

quele universo, a minha _subjetivida<!~ está presente em

todo o tra·

balho. Isso está claro para mim na 01edida em que volto constante- mente a reexaminar a pesquisa. e mesmo a revi.sar o local da investi· gação. PÕr outro lado, sendo um grupo qUe vive na minha cidade, ~ooheço outras pessoas, inclusive cientistas sociais que o encontram.

11

Ver A

Utopia

Urba11u -

Editores. 1973, 2.• cd ., 197.S.

·- ·--

Um

Estudo de

Amropologia Social.

Zahar

·

I I

.f

,.

44 A

BuscA DA ReALIDADe OoJEnvA

que também têm &lgumo familiaridade ou alé fizeram pesquisas em contextos semelhantu. Oesta forma a minbn interpretação ~lá sendo constonternente testada, revista e confrontada. O mesn1o não se dá com muitot estudos de sociedades exóticas c distantes, pesqui· sodas por opena.s um iovesligador, em que não houve oportunidade

de maio~ di!';(:u55Óel ou po1êmjcas. Assim, o interpretação de um in,~esHgodor faca sendo a versão existe.ote sobre dclcrmina.d.a cul- tura, não sendo exposto ~ ccrt01 questionamentos. Ao contrário, na

soci

cabana, carnaval, fulebol, etc., colocando os pesqui!õadores no cen·

tro de acirradas polêmicas. Embora familiaridade não seja igual a conheeimenlo cientifico, é fora de dúvida que representa também um eerlo tipo de apre- ensão da realidade, raundo com que os opiniões, vivências, percep-- ções de pessoas sem (ormaçiío acadêmica ou aem pretensões cientí· ficas possam dor valiosas contribWç:ões para o conhecimento da vida social, tle uma época, de um grupQI Além disso, há indivíduos

brasileira há muilas ~iniõeo e interpreloçócs sobre Copa-

Jode

ou grupos que talvez por um movimento de !5.!.-! _como

certos artistas, ca.Ptam c descreve~ significativQJ:nente aspectos de uma sociedade êle maneira mo~s rica e reveladora do que trabalhos mais orientados (real ou pretcosamentc) de acordo com os padrões científicos. Os exemplos na literatura são óbvios como Balz.ae, Proust,

Thomos Mnnn e, no Brasil, Machado de Assis, Graciliano Ramos,

Oswold de Andrade, etc. Tombém no teatro, cinema, música, artes

plásticos poderiam l!Cr citados exemplos. Isto l!COl falar em gêneros menos "nobres" como o jornoli.8mo em suas várias mani(estações, a história em quodrinhos c n Uteroturn de cordel entre outros.

a

brasileiro, o antropólogo nprese.nta aua interpretação, que, por mai!\

que possa Ler

artísticas, políticas, em termos

de oceiloçlio

helerogõneo. Há ou-

tras pessons, profissionaiS de Ciênciu Sociais ou não, observando e

rdlelindo sobre o familiar - a nossa aooi

aspeelos, com esquemas e _preocupações diferent

em f;CUS múltiplos Se o inle!C$SC

por grupos tribail, por cx.emplo, é relativamente rc~t~ito, o mesmo não se pode diur aobre umbande, escola de sambo, uso de tóxicos, homossexuali~mo e outros temas que têm sido ~uisados por an-

!!'harnen!et.

Ou sejo, numa

sociedade

complexo

con temporânea

como

uma certa reapeitabilidadc acadêmica, é _!!ll'Ís um~

versão que concorrerá com outras -

peranle um _eúblic~ relotivamcnlc

Jadc

1ropólogos.

Assim, ao r.studor o que está próximo, a sua prc;pria sociedadt. o antropólogo expõe-se, com maior ou meuor inttn'-itloule, a. um con - frontos com outros_espcc:ialittas, com leisos e até. em certos casos, com repr~ntantes dos universo que foram inve!tigadores, que po-

A

VERSÃO QUALITATIVA

45

dem discordar du interpretações do investigador. Vi~i essa experi- ência em minha pesquiaa tobre u.so de tóxicos em camadas médias

altas,'' quando pelo menos duas pe~ que cu t~lha entrevistado não concordaram com algumu das nunhu conclusocs, apresentando críticas que me levaram a rever pon!o! impo~tantes. Em~ra isso possa aconteeer no Ht~dode outr~.sISOCI~ad~,e menos provavel por- que, normalmente. Ít1ta a pesqua.sa, ~ ID\CSt1gador ,·olta para o seu país ou cidade e tem menos oportumd1tles de confrontou-~ com as opiniões daqueles a quem estudou. Paracc-me que, ness.; ~vcl, o es- ludo do familiar orerec:e vantagens em ler~os de poss~biltdades ~e rever e enriquecer oe resuhadoe das pesqu158S. Acredito ~u~ seJa possível transcender, em determinados moment~, as_ lürulaçoes

chegar a ver o. familiar nao ?eeessa·

de origem do antropólogo e

riamente como exótico mas como uma re.ahdade bcro ma.1s co~· plen do que aquela repre;oentada pe_los mapas e. códigos básicos nacionais e de clasae atraves dos quau fomos soc:tafuados. O pro· cesso de eslronhar o familiar torna·se possível quando ~mos capa· zes de confrontar intelectualmente. e mesmo emoc10nalmeote, diferentes versões e interpretações exi.stenles a respeito de fatos,

situações. O estudo

de conflitos, d.isputos, acusações, otomenlos. de

descontinuidade em geral é pnrtieulnrmen~e Ülil, pois, tto se focal~a­ rem !ituações de dromo $C)(.Íol, pode-se rctp strnr os contornos d~ ~tfe· rentes grupos, ideologias, interesses, subcuhuras,_ etc., perm~tJ.n~o remopeamentos dn aoeiedode. O estud~ d? ~rowpunen!o e rcJ~IoÇaO do colidinno por parte do gru(lOS ou mdiVlduos desv•ant~s •Juda· nos a ilumioor, como casos limites, o rotina e os mccamsmos de conservação e dominoçiio cxiiJtentes. Vale a peno insistir no enrúter re~ativo da noção d~ fa~iliar e exót.ico, especialmente no nossa soc1edode. A _comuweaçao de l]lA~S~- jornal, revist.n, rádio, televisão, traz fatO$, notícias de re· giões e grupos espacialmenlo di!tantes mas que podem se tornar fa- miliares pela freqüência c inlensidade eoro que aparecem. Basla pensar, por exemplo, no je~&et internacional e nos artistas de

Hcllywood como grupos com que um gigantesco número de ind!- víduos desenvolve uma certa lamilioridadc, sabendo detalhes roa•s

(amíHa.s, roupas,

prele.rêocias, etc.

imagens de lugares tradicionalmente de[ini·

Há, sem dú,•ida. cená·

rios e grupos dentro do própr·io país ou até dentro da própria ci-

dos como exólieos -

freqü~ncia notícias e

ou menos verdadeiros a

Por outro lado recebemos com maior ou menor

respeito de suas vidas,

Á(rica. ele

fntlia,

dade de que muitas vezes nem ouvimos falar. que não s5o te!Tlas

12 Vu Nobr~1 e An}o1, Um Estu4o 4~ T6xicos ~ Hi~rt:rquio. - Tese de doutorado apresentada ao Oepartamtnlo de Ciências Sociais da USP. 1975.

46

A

BUSCA DA

R EA IIOAO H OBJETIVA

dos órgãos d e eomunieoçõo de mossDs, ils vezes por censun•, muiLas vezes por simple:s desconhecimento. Desla forma, há imlivíduO$. situações, grupos tle outras sociedndcs e culturas que nos são rnais familiares do que mujtas lacctu e aspcclos de nosso próprio meio, sociedade. Evidentemente coloca-se o problema de criticar es.sa.c.

nos cbegatn